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Método Psicanalítico de Observação de Bebês

Resenha

PEDROSO, Janari da Silva

Biografia: Esthera Lifsza Wander (conhecida pelos amigos como Nusia), judia, nasceu
em 1901 na Polônia e faleceu no dia 20 de julho de 1983 em Londres. Aos 7 anos
morou com uma tia que tivera um bebê, e permaneceu com ela por 3 anos. Esther
queria visitar Israel e, para que pudesse viabilizar o empreendimento, trabalhou
como professora de crianças. Aos 20 anos, com a morte de seu pai, foi impedida de
viajar a Israel, pois precisava ajudar a criar os irmãos mais novos. Mudou-se para
Viena e estudou Psicologia com Charlotte Buhler. Ainda, desenvolveu trabalhos na
linha behaviorista com observação experimental de gêmeos jovens. Foi durante este
período de sua formação que foram estabelecidas as bases para seu trabalho
posterior na psicanálise. A partir de uma metodologia de observação objetiva dos
lactentes (estudos de tempo, análise descritiva quantitativa), ela começou a formular
críticas e construir um novo método de observação que fosse capaz de compreender
o aspecto subjetivo e o ambiente emocional do bebê.

O trabalho experimental não agradou Esther, que seguiu pesquisando a vida normal
das crianças e o ambiente familiar. Durante o período de sua graduação, Esther
trabalhou informalmente em uma casa para crianças - antes de entrar na
Universidade, ela havia feito um treinamento para ser professora de crianças. Em
1936, casou-se com o estudante de medicina Philip Bick. No período da Guerra e da
perseguição a população judaica, Esther e o marido fugiram para a Suíça e ficaram
sob os cuidados de uma instituição para refugiados judeus.

Em Londres, trabalhou numa creche onde fez algumas descobertas sobre o


desenvolvimento e aprendizado de crianças. Em Leeds, Esther trabalhou em uma
clínica de orientação de crianças e ajudou na organização de creches em Manchester
onde começou a análise com Michael Balint. Iniciou seus estudos com Melaine Klein
e completou sua formação analítica em Londres trabalhando em clínicas de
atendimento infantil. Em 1949 ingressou na Clínica Tavistock, onde John Bowlby
pediu-lhe para fornecer um curso de formação de futuros analistas de crianças. Lá,
ela desenvolveu o seu método de observação de bebês, o que incentivou
observadores para ver e ouvir crianças durante seu desenvolvimento precoce em
uma análise profunda. Durante 12 anos dirigiu cursos e seminários ao lado de
Bowlby, mas afastaram-se por divergências teóricas. Trabalhou também na
Sociedade Britânica de Psicanálise e introduziu a observação de bebês como parte
integrante do curso de treinamento para psicanalistas. Foi também nesse período
que ela começou uma segunda análise com Melanie Klein.

Esther Bick foi reconhecida por seu pensamento original, capacidade de clareza,
vitalidade e até por ser extremamente rígida e pouco diplomática. Deixou poucos
trabalhos publicados, mas muitos estudos teóricos e práticos que promoveram seu
método de observação de bebês (AMORIM, 2004). Ela é reconhecida como parte do
movimento pós-kleiniana. Bick destacou a importância da pele durante as relações
infantis (isso abriu caminho para todo um campo de investigação sobre o
estabelecimento de envelopes psíquicos). Esther Bick mulher de duas paixões:
psicanálise infantil e Israel.

Método de Observação de Bebês:

A observação psicanalítica, ao contrário de outros métodos de observação,


“privilegia o aspecto qualitativo. Ele centra sua atenção no estudo do
desenvolvimento da mente simbólica e do pensamento, estudo este que pode ser
realizado acompanhando as seqüências de condutas interacionais observadas entre
mãe e a criança (...)” (ISAACS apud MÉLEGA, 2001, p. 71).

O método Bick é uma observação naturalista em que: “[A experiência de observação]


é importante por muitas razões, mas talvez mais ainda porque ajudaria os estudantes
a conceber claramente a experiência infantil de seus pacientes crianças (...). Deve
também aumentar a compreensão dos estudantes acerca do comportamento não-
verbal das crianças e do brincar, assim como o comportamento de crianças que não
falam nem brincam. Além disso, deve ajudar o estudante na entrevista com a mãe,
possibilitando a ele compreender melhor o relato da mãe e a história da criança.
Também daria a cada estudante a oportunidade única de observar o
desenvolvimento de um bebê mais ou menos do nascimento, na sua casa e na
relação com sua família imediata e, assim, descobrir por ele mesmo como estas
relações emergem e desenvolvem. Além disso, ele seria capaz de comparar e
contrastar suas observações com aquelas dos seus colegas de curso nos seminários
semanais” (BICK, p. 558). Para Caron (1995) o método inaugura uma possibilidade de
analisar profundamente a alma humana quando penetra nas primeiras experiências
e interações do bebê com sua mãe e, ainda, com as mais primitivas vivências em seu
ambiente natural – a família. A observação vai fazer com que nos desprendamos de
idéias preconcebidas sobre o pior ou melhor método de lidar com o bebê,
aproveitando para aprender a qualidade de cada relação, como cada mãe-bebê se
encontram e acham juntos uma solução.

O método de observação da relação mãe-bebê consiste em que o observador seja


capaz de captar em uma observação flutuante a dupla mãe-bebê e o ambiente, ou
seja, não há hipótese de trabalho ou fatos a serem observados. O importante é o
observador ter uma postura de que nada sabe, pois se estiver com tudo pronto
dentro da sua mente, nada observará. No entendimento de Caron, o observador
deve ser receptivo, atento, silencioso, respeitoso, não-crítico, delicado, realiza uma
efetiva participação não-verbalizada, não-agente, mas vivenciada, ou seja, ele inclui-
se no processo que está acontecendo. É um papel fundamental e necessário para
quem quer estudar o desenvolvimento humano: “ter alguém por “testemunha”,
cúmplice de angústias e vivências escondidas, desconhecidas, ou, até mesmo,
proibidas” (CARON, 1995, p. 285).

As observações são planejadas semanalmente com duração de uma hora, realizadas


na casa da criança e na presença do cuidador. As anotações ou transcrições feitas
após a observação direta são discutidas nas supervisões em grupo e que
proporcionam um aprimoramento da técnica. A supervisão das observações “é uma
oportunidade para que haja aprendizado psicanalítico da experiência de observação
(...).
E quando o observador relata o material, informa o que está acessível ao seu
consciente. No entanto, o inacessível está presente no observador e pode se tornar
acessível ao supervisor e/ou grupo pelos derivados conscientes (condutas) do
observador” (MÉLEGA, s/d, p. 280).

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LADDS - Laboratorio de Desenvolvimento e saúde

UFPA - Universidade Federal do Para