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Unidade 1

Introdução

1.2 - Os princípios do Ayurveda

1.2.1 - As origens do Ayurveda: história, filosofia e cosmologia

Vamos iniciar este curso de formação de terapeuta ayurvédico dedicando nossos estudos aos
grandes sábios, aos grandes seres que nos antecederam neste caminho, que nos legaram este
conhecimento e esta sabedoria, que conduz à saúde, à paz e à realização.

Antes de começar cada lição aconselha-se uma pequena meditação, devemos trazer nossa
consciência para o nosso próprio corpo, perceber o lugar que ocupamos no espaço, respirando
plenos de paz. Vamos prestar atenção no nosso fluxo respiratório, harmonizando nossa respiração,
soltando os músculos, relaxando.

Acompanhe o mantra dedicado a Dhanvantari, Aquele que personifica todos os métodos naturais de
cura e prevenção, por meio da vídeo-aula nº 1.

NAMAMI DHANVANTARIM ADI DEVAM

SURA SURAI VANDITA PADAPADMAM

LOKE JARARUK BHAYA MRUTYU NASHANAM

DHATARAMISHAM VIVID AUSHADHINAM

OM

1.2.2 - As origens do Ayurveda I

Para compreendermos o Ayurveda devemos, em primeiro lugar, examinar as origens, a filosofia e a


visão global do mundo a partir das quais ele surgiu. Este ponto de vista difere consideravelmente da
visão moderna científica do mundo, a partir do qual o Ayurveda não pode ser avaliado
convenientemente. O Ayurveda baseia-se em uma cosmologia especial, uma compreensão singular
da evolução cósmica e da evolução da vida que também encontramos no universo do Yoga. Ambas
as ciências, Yoga e Ayurveda, se originaram no mesmo contexto da Cultura Védica.

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Devemos examinar esta seção lenta e cuidadosamente, permitindo um tempo de assimilação. Não se
espera que o aluno compreenda logo desde o início, mas as linhas gerais devem estar presentes no
seu espírito para uma compreensão melhor do que se segue.

Antes de entrarmos no contexto cosmológico, examinaremos os antecedentes históricos e espirituais


do Ayurveda. Afinal de contas, trata-se de um sistema que analisa o corpo e o espírito ao mesmo
tempo, dando ao espírito um papel primordial.

1.2.3 - A origem histórica e espiritual da ciência védica e yoguica

O Ayurveda baseia-se na grande corrente do saber espiritual védico. Esta é a mais antiga tradição
espiritual, origem de todas as religiões da Índia, especialmente o Hinduismo, de onde toda a cultura
indiana deriva e se diversifica. O Ayurveda é o ramo médico dessa ciência espiritual que chamamos
Ciência Védica.

A palavra Ayurveda significa ciência da vida, já que veda pode ser traduzido como erudição, saber
sobre a ciência espiritual e ayur, vida e longevidade.

Ayur ou vida no Ayurveda é descrita como a harmonia do Eu Superior (atman), com a mente
(manas), prana (energia vital), sentidos e corpo. O conceito de vida não é meramente físico, mas
inclui todos os aspectos de nosso ser e nos demonstra o escopo amplo e integral da teoria e prática
ayurvedicas.

AYUR: vida VEDA: ciência

“A CIÊNCIA DA VIDA”

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O lado prático da Ciência Védica é o sistema do Yoga. O Yoga desenvolve as idéias da filosofia
védica como ferramentas para o desenvolvimento da consciência, não apenas em termos de ásanas
(as posturas), mas abrange toda a ciência da meditação. A Ciência Védica é igualmente chamada
também de Ciência Yoguica.

O Ayurveda é, portanto, o ramo médico ou terapêutico do sistema do Yoga. É dito que os sábios,
pessoas extremamente devotas à religiosidade, que viam a saúde como parte integral da vida
espiritual, receberam o conhecimento do Ayurveda por meio de revelação em meditação, ou seja, o
conhecimento dos vários métodos de cura, prevenção, longevidade e cirurgias vieram em revelação
divina.

Brahma, a força criadora do universo, Aquele que permeia todas as coisas, o absoluto,
originário de todo o conhecimento, outorgou os ensinamentos do Ayurveda a Prajapati, que
representa o início da diferenciação do universo e representa todos os seres.

Brahma

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Este, por sua vez, transmitiu os conhecimentos aos Ashwini Kumaras, gêmeos (ashwini)
considerados os grandes médicos celestiais, os seres divinos responsáveis pela arte da cura e da
prevenção. Os Kumaras ensinam Ayurveda a Indra, o Senhor do Céu, correspondente a Zeus na
mitologia grega.

Até aqui poderíamos dizer que o Ayurveda ainda se encontrava no céu, não havia chegado a terra.
Ao perceber o incremento das doenças no mundo, devido às mudanças climáticas e das condições
da natureza, além dos hábitos das pessoas, o Senhor Vishnu, a grande Consciência preservadora do
Universo, por compaixão, se manifestou no mundo na forma de Dhanvantari, o Rei de Kashi
(Benares) e ainda inspirou a dois outros grandes Sábios Vedicos, Bharadwaj e Kashyap.

Brahma

Prajapati

Ashwini Kumari
(médicos celestiais)

Indra
(Sat Yuga)

Dhanwantari Kashyap Bharadwaj

Considerado, portanto, o pai espiritual do Ayurveda, Dhanwantari é reverenciado na forma de


quatro braços. Em cada mão leva um símbolo: a concha, que representa o uso do som – mantra –
como método de cura; ao mesmo tempo representa o uso das ervas medicinais em forma de pó –
churna – guardado dentro da concha. Na outra mão, a ânfora cheia de amrita (néctar da
imortalidade), que representa os medicamentos na forma líquida; as folhas frescas, na outra mão,
enfatiza essa forma de utilização das ervas medicinais. Por último, o livro, na outra mão, representa
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a revelação do conhecimento ayurvedico ao mundo. Em outra representação de Dhanvantari, eu


diria mais cirurgião, em lugar das ervas frescas existe o chakra, o disco, como instrumento
cirúrgico, tal como o bisturi. E, em lugar do livro, se encontra jalouka – a sanguessuga – animal
utilizado no Ayurveda para realizar o rakta mokshana, procedimento ayurvedico para a purificação
do sangue.

A partir daí, o conhecimento foi transmitido para os sábios e yogis e foi utilizado para permitir a
máxima longevidade dedicada à busca da iluminação espiritual e aos outros objetivos legítimos e
fundamentais da vida: artha - prosperidade, kama - felicidade, dharma – realização dos talentos e
moksha – libertação.

Estas revelações foram transmitidas


aos discípulos de maneira oral e,
posteriormente, transcritas, gerando
o mais completo sistema natural de
cura e prevenção

O fato de o Ayurveda ter sido recebido por revelação divina faz com que seu conhecimento seja
incorruptível pelo tempo, gerando a sabedoria perene (sanátana dharma), a grande herança da
humanidade, de todos os povos, em todos os campos da vida humana e da natureza.

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1.2.4 - Base védica do Ayurveda

Os Vedas são as mais antigas e mais importantes escrituras da Índia, onde todos os hindus
ortodoxos reconhecem sua fé e seu texto escrito mais autorizado.

Os principais textos védicos são os mântricos Rig, Yajur, Sama e Atharva Vedas. Cada um deles
está dividido em quatro partes:

• Brahmanas
• Aranyakas
• Samhitas
• Upanishads

Para realizar o estudo dos Vedas, de acordo com longa tradição de passagem oral do conhecimento,
e de acordo com os próprios Vedas, é necessário a ajuda de um mestre ou guru, assim como lemos
no Rig: “Aproximai-vos de um mestre, com humildade e desejo de servir”. A função de um bom
mestre é ensinar as escrituras e, sobretudo, vivê-las em suas ações diárias, suas palavras mais
casuais e algumas vezes até mesmo em seu silêncio.

Aquele que se ocupa com o ensinamento dos Vedas alcança a concentração

E não é mais escravo de suas paixões;

Piedoso, autocontrolado, disciplinado no espírito,

Ergue-se para a celebridade e é uma benção para humanidade.

• O Rig Veda, ou ciência dos mantras, transmite-nos os mantras essenciais ou cantos sagrados dos
Sábios, base da língua sânscrita da qual surgem os mais recentes mantras hindus e budistas. Diz-
se serem a chave da estrutura vibratória do universo, o livro da lei cósmica. Este é considerado
pelos yoguis o livro mais antigo do mundo, com referência a datas anteriores a 6000 a.C.. Ele é
a base da Divina Palavra ou o Som Cósmico. Dentre os 10.572 hinos existentes no Rig Veda,
alguns deles fazem menção à constituição básica dos seres vivos, base da Ayurveda.

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• O Sama Veda ou ciência do som desenvolve estes mantras em forma musical, a fim de
transformar a mente e as emoções. Ele é a base do Prana Cósmico.

• O Yajur Veda, ou ciência das ações, desenvolve os mantras em rituais interiores e exteriores, ou
ações transformadoras, tal como a prática do Yoga.

• O Atharva Veda adiciona mantras suplementares, destinados a diversas situações incluindo


saúde e proteção psíquica. Encontramos no Atharva Veda mantras concretos para tratar
doenças, bem como nomes de plantas utilizadas para fins curativos e discussões sobre anatomia,
fisiologia e cirurgia. Grande parte dos textos ayurvédicos relaciona-se, primariamente, ao
Atharva Veda.

Existem também os Upavedas, ciências acessórias dos Vedas, originadas de suas escrituras:

• Ayur Veda, que é a ciência voltada para a saúde;


• Dhanur Veda, dedicada às artes marciais;
• Sthapatya Veda ou Vastu, arquitetura;
• Gandharva Veda, o estudo da música, da poesia e da dança.

E os Vedangas que são complementos:

• Jyotisha: a astrologia;
• Kalpa: as regras dos rituais;
• Shiksha: a pronuncia;
• Vyakarana, a gramática;
• Nirukta, a etmologia e
• Chandas, a métrica.

Estes diferentes aspectos do conhecimento védico estão resumidos nos textos do Vedanta,
Upanishads e Bhagavad Gita, que tratam primeiramente do conhecimento do Eu ou da Consciência
Pura. Todos os interessados em prosseguir os estudos védicos devem começar por estes textos. O
Ayurveda está também intimamente ligado ao sistema do Yoga, tendo referência a vários destes

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livros e ao Yoga Sutra de Patanjali (aproximadamente 150 a.C.). Existem muitas versões destes
textos disponíveis para estudo.

Recomendamos a versão do Bhagavad Gita da Suddha Dharma Mandalam com 745 versos e 26
capítulos, que pode ser solicitado pelo e-mail info@suddha.net.

1.2.5 - Base espiritual do Ayurveda

Embora não seja necessário estudar os Vedas para praticar o Ayurveda, é importante entender as
bases espirituais desta ciência. À medida que você se aprofundar, durante o curso, mais e mais nos
conceitos e prática do Ayurveda, verá que a origem de todas as doenças subjaz no bhava, o ponto de
vista, os condicionamentos que geram nosso modo de viver, sentir e pensar. A Ciência Védica nos
explica que nossa percepção da realidade é subjetiva, baseada em filtros produzidos pelos
samskaras ou condicionamentos. Estes filtros geram nossas motivações.

Portanto, purificar as motivações é fundamental para a saúde, a felicidade e a paz. E para


purificar as motivações devemos adquirir conhecimentos de Unidade, de síntese, como o
conceito do princípio único que é a base da Cultura Védica.

Os budistas têm utilizado o Ayurveda associado a seus próprios princípios espirituais, tal como
fizeram os Jainistas, Sikhs ou outros grupos na Índia. Até hoje, todas as formas de filosofia da Índia
partilham os mesmos princípios básicos, os quais estão em harmonia com as origens espirituais do
Ayurveda, como um todo. Esses princípios podem ser resumidos da seguinte forma:

1. Há uma verdade ou realidade fundamental, um estado de pura consciência que existe além da
palavra e do pensamento, no qual reside a paz, a felicidade, a compaixão e a libertação.
Alcançar esse estado é a meta de toda a vida.

2. Nós estamos aprisionados a um estado de sofrimento ou infelicidade na vida causados pelo ego
ou princípio de egoísmo. O ego coloca em movimento uma corrente de ação ou karma, que nos
vincula a um processo de renascimento ou transmigração no qual o sofrimento se mantém.

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3. Para erradicar este sofrimento é necessário posicionar adequadamente o ego e silenciar a mente,
porque o ego gera um estado perturbado da mente. Este processo envolve o ultrapassar os
medos, desejos e cólera, ou seja, as emoções que mantêm a mente perturbada.

4. Para atingir esta meta, alguns valores éticos devem ser realizados, tais como a veracidade, a
humildade e a não-violência. Para tal, a prática de Yoga e a meditação são primordiais. Esta
realização não é uma meta pessoal, mas sim, parte da libertação de todos os seres e deve ser
efetuado pelo bem e pela unidade de todos e não apenas para benefício próprio.

5. Um distúrbio ou desequilíbrio dos doshas no corpo contribui para o distúrbio da mente.


Conseqüentemente, harmonizar o corpo pode contribuir para este processo de libertação.

1.2.6 - Sinopse da evolução histórica do Ayurveda

a) Período Antigo - de tempos imemoriais até 500 a.C.

O desenvolvimento da pesquisa arqueológica tem indicado a existência de uma antiga civilização na


Índia anterior a 7000 a.C., chamada Merhgarh. Do período inicial dedicado à pecuária e à
agricultura, surgiram, gradualmente, grandes cidades da civilização Indus ou Sarasvati – de 3100 a
1900 a.C. - como Harappa, Mohenjodaro e Dholavira.

Ainda hoje, como consta em muitos livros sobre o assunto, existe a crença por parte de
historiadores antigos, da existência de uma invasão ariana que deu fim a esta grande cultura. Mas,
muitas comprovações arqueológicas e outros métodos têm refutado esta teoria da invasão ariana,
considerada uma invenção dos europeus.

A cultura Indus estava centrada às margens do rio Sarasvati, de grande fama nos Textos Védicos,
mas considerado mitológico por não ser encontrado mais hoje em dia. A maioria dos sítios
arqueológicos foram encontrados onde se localiza atualmente, o leito seco do rio Sarasvati.
Provavelmente grandes cataclismos ocorridos no Himalaia, em torno do ano 1900 a.C. direcionaram
a origem do Rio Sarasvati para o leito do Ganges, levando à secura progressiva do Sarasvati, tal
como as histórias védicas contam. Com isso, houve a migração daquela avançada civilização para a
região do Ganges.

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Rio Sarasvati

O Ayurveda tem sua origem nesta civilização Sarasvati, que continuou demonstrando grande
desenvolvimento. Assim, o Ayurveda se desenvolvendo através da civilização clássica da Índia até
o dia de hoje.

De acordo com muitos grandes yoguis, o Ayurveda deriva originalmente do Rig Veda, na alvorada
da história humana, após o fim da última Era Glacial, há dez mil anos. Faz parte da imemorável
sabedoria da humanidade, transmitida pelos rishis e sábios do Himalaia. Esses sábios eram
habitualmente médicos, sendo a medicina levada em grande consideração na cultura védica

Um dos sete sábios do Rig Veda, Bharadvaja, foi o responsável pela transmissão da ciência
ayurvédica proveniente do domínio dos deuses ou inteligências cósmicas superiores, especialmente
Indra e os Ashwins Kumaras, como citado anteriormente.

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Indra simboliza o prana cósmico e os Ashwins simbolizam as forças de polaridade, que devem
ser mantidas em harmonia em todos os níveis.

Nesse período o Ayurveda não estava claramente diferenciado dos métodos espirituais e psíquicos
de cura aos quais, necessariamente, deve estar conectado.

Kumaras entregando o texto de Ayurveda para Indra

O Rig Veda (aproximadamente 3000 a.C.) contém, em si mesmo, os três principais poderes como:

• Indra – prana ou vata


• Agni – pitta
• Soma – kapha

O Rig Veda fala sobre ervas medicinais e mantras. O ritual Vedico involve a oferenda de líquidos –
Soma - ao fogo – Agni – com o objetivo de gerar energia ou vitalidade – Indra.

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O Yajur Veda introduz rituais específicos, sendo um dos objetivos a cura e a harmonia do corpo e
da mente.

O Atharva Veda, um texto posterior, ou seja, mais recente – em torno de 2000 a.C. – adiciona
mantras específicos com várias ervas para curar doenças e dá as diretrizes para o uso de pedras
preciosas e amuletos.

Muitos Yoguis afirmam que esta forma inicial de Ayurveda se tornou a base de grande parte dos
outros sistemas antigos de medicina e se tornou a mãe de todas as ciências terapêuticas do mundo
antigo, desde a Grécia até a China e, talvez, até do Novo Mundo. Na realidade, todos estes sistemas
de medicina tradicional estão relacionados entre si pelo fato de serem formas de cura energética, ou
seja, reconhecem a existência de uma energia vital inteligente que governa os processos biológicos
e psicológicos. E, entre todos, o Ayurveda nos dá a chave do entendimento que conecta todos.

Dhanvantari

Na seção Mantras você poderá ouvir a recitação do primeiro verso do mantra dedicado a
Dhanvantari ou Dhanvantari Stotra feita pelo Dr. Ruguê.

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Mais adiante, numa época ainda largamente considerada como legendária, o trabalho de um Grande
Sábio, Dhanvantari de Varanasi - provavelmente 1500 a.C. - permitiu ao Ayurveda se estabelecer
como um sistema. Ainda hoje ele é considerado o grande sábio ou divindade do Ayurveda e sua
graça e inspiração devem ser buscados para compreender essa admirável ciência. É considerado
como uma encarnação de Vishnu, o poder Divino que protege e guia o universo e podemos
identificá-lo com Kakshivan, um dos mais famosos sábios do Rig Veda, o que o tornaria uma
figura ainda mais ancestral.

Sushruta

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Charak

O Ayurveda continuou a evoluir juntamente com a cultura da Índia e quando começaram a surgir os
sistemas de filosofia e as diferentes escolas de pensamento – em torno de 1000 a.C. – o Ayurveda
se estrutura como uma escola de pensamento e prática. Podemos verificar essa afirmação pelo
aparecimento dos textos clássicos como o Charaka Samhita e o Sushruta Samhita, assim
nomeados após os dois grandes médicos ayurvedicos – Charak e Sushruta. A maior parte do
conteúdo destes textos surgiu na era pré-budista. Eles são fundamentais para o Ayurveda até aos
dias de hoje e este curso constantemente faz referência a eles.

Desenvolveram-se duas escolas de Ayurveda, a escola de medicina interna, representada por


Charak e a escola de cirurgia, representada por Sushruta.

b) Período Clássico - 500 a.C. a 1000 d.C.

No período no qual viveu Siddharta Gautama, o Buda – 500 a.C. – Ayurveda já era um antigo
sistema de cura com uma longa história e muita sofisticação e já havia se espalhando por toda a
Índia como parte da cultura clássica. O Ayurveda influenciou sistemas até no longínquo ocidente,
como a Grécia. A medicina tradicional grega seguiu um modelo similar ao do Ayurveda de

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humores biológicos, como tendo sido originado por Hipócrates. Até o início do período de
industrialização de nossa sociedade ocidental, a medicina oficial seguia este mesmo sistema.

Durante este período, chamado clássico, a cultura da Índia se tornou diversificada e se espalhou
para diferentes áreas, particularmente no Sudeste asiático, Indochina e Indonésia. O Ayurveda se
adaptou a diferentes religiões, como Budismo e Jainismo, os quais acrescentaram suas próprias
descobertas a este sistema.

Pelo Caminho da Seda na Índia, uma rota de comércio estabelecido entre Ásia, Oriente Médio e
Europa, o conhecimento Ayurvedico foi difundido pelos continentes.

Os Budistas também seguiram o Ayurveda, exceto no aspecto da cirurgia. Eles vêem o Buda da
Medicina como o primeiro mestre desse sistema. Provavelmente a mais importante figura do
Ayurveda Budista seja o grande sábio e siddha Nagarjuna – em torno de 100 a.C. – que também é,
provavelmente, o mais importante mestre budista depois do próprio Buda.

Nagarjuna foi também um médico ayurvédico. Ele escreveu um comentário do Sushruta Samhita e
desenvolveu muitas preparações alquímicas ayurvédicas utilizadas ainda atualmente
chamadas rasa e bhashma.

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Há uma montanha na região centro-sul da Índia, chamada Nagarjuna Hill, onde, no cume, há um
templo dedicado a Nagarjuna. Acredita-se que o Sábio ainda vive aí.

A abordagem do Ayurveda foi renovada por Vagbhatta de Sindh, em seu texto clássico, o terceiro
livro da trilogia maior do Ayurveda, Ashtanga Hridaya - 500 d.C.

Vagbhatta tomou os ensinamentos de Charaka e Sushruta e os colocou em uma forma concisa e


mais fácil de ser aprendida. Seu texto é a base deste Curso, devido à maneira mais clara e didática
dos temas. Comentários do Ashtanga Hridaya são também a base da Medicina Tibetana, que tem
fundamentos intensamente ayurvedicos. O Ayurveda Tibetano se desenvolveu após o Budismo ter
ido para o Tibete, no século VIII.

Então, esses três livros: Ashtanga Hridaya, Charak Samhita e Sushrut Samhita são chamados a
trilogia maior do Ayurveda.

c) Período Medieval - 1000 a 1900

A prática do Ayurveda declinou após o ano 1000 d.C., quando os invasores do Oriente Médio
conquistaram a Índia e destruíram muitas bibliotecas e universidade, que eram grandes centros de
Ayurveda.

Por outro lado, ainda assim, muitos textos ayurvédicos clássicos foram escritos nesse período. Os
três considerados principais são: Madhava Nidana escrito pelo grande sábio Madhava;
Sharangadhara Samhita e Bhav Prakasha. Eles são considerados a trilogia menor do Ayurveda
porque estabeleceram bases para o estudo das patologias, das ervas medicinais e dos preparados
ayurvédicos.

O Ayurveda sofreu muito posteriormente, sob o domínio britânico, ocorrido à partir de 1750. Os
britânicos tentaram suprimir o Ayurveda, fechando as faculdades de medicina ayurvédica. Sua
prática foi proibida, mas o conhecimento foi preservado pela relação guru-discípulo e praticados
dentro das famílias e nas aldeias ou pequenas escolas.

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d) Período Moderno

Pouco a pouco, com a revalorização, pelos indianos, de sua própria cultura, ocorrida no final do
século XIX e início do século XX, o Ayurveda ressurgiu. Escolas de Medicina passaram a ensiná-
lo.

Após a independência pela Índia da invasão britânica, em 1947, o Ayurveda tem, em forma gradual,
mas segura, reconquistado sua influência. Existem mais de 100 escolas de medicina que ensinam
Ayurveda na Índia. Algumas são pequenas e rurais, mas muitas são grandes e sofisticadas
universidades. São oferecidos cursos chamados BAMS, com duração de cinco anos e meio, onde o
aluno é treinado no sistema moderno de medicina e em Ayurveda. Quando terminam o Curso,
podem fazer pós-graduação em Ayurveda e, em seguida, ou doutorado em alguma das 8 áreas do
Ayurveda.

Muitas empresas de produção de medicamentos e fazendas de cultivo de ervas têm surgido na Índia.
Há um departamento dentro do Ministério da Saúde, denominado AYUSH encarregado de
promover e regulamentar a prática dos sistemas tradicionais de medicina na Índia (Ayurveda,
Unani, Siddha e Homeopatia)

No Ocidente o Ayurveda tem se espalhado com maior ou menor nível de qualidade. Inicialmente
foi conectada a métodos de beleza e fechada em SPAs de luxo. Posteriormente passou a ser visto
como um método de medicina alternativa naturopática. Na verdade, nosso esforço tem sido para
demonstrar o Ayurveda como um sistema holístico completo. A medicina moderna, do nosso ponto
de vista, é que deve ser colocada como alternativa, para uso em certas condições específicas.

Tem sido possível, para muitos de nós, manter o Ayurveda como um método natural de cura e
prevenção, associado ao Yoga e a cultura Védica como suporte espiritual. Curiosamente, os
praticantes de Ayurveda no ocidente tem tido um esforço maior de manter essa abordagem holística
incluindo alimentação, estilo de vida, Yoga, meditação enquanto, muitos que praticam o Ayurveda
moderno, na Índia, têm tido uma abordagem mais alopática, reduzindo o Ayurveda ao “qual é o
medicamento bom para tratar essa ou aquela patologia”.

No momento, o Ayurveda tem se expandido intensamente no ocidente.

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1.2.7 - Ramos do Ayurveda

Tradicionalmente, o Ayurveda possui oito ramos (Ashtanga Ayurveda):

1. Medicina Interna (Kaya Chikitsa):

O foco principal é o equilíbrio dos doshas e do agni, com ênfase aos métodos de diagnóstico e
ao estudo dos mecanismos das doenças.

2. Doenças da cabeça e pescoço (Shalaka Tantra):

Enfoque voltado para os problemas de otorrinolaringologia e oftalmologia, proporcionando


grande avanço para a cura e prevenção de problemas dessas áreas.

3. Cirurgia (Shalya Tantra):

Sofisticados métodos de cirurgias criados há milhares de anos. Atualmente existem muitas


contribuições dos métodos ensinados por Sushruta para a cirurgia moderna.

4. Toxicologia (Vishagara-vairodh Tantra):

Inclui o estudo, a cura e a prevenção dos problemas de contaminação do ar e água, toxinas


animais, minerais, vegetais, envenenamentos e seus antídotos.

5. Pediatria e Ginecologia-Obstetricia (Kaumara Bhritya):

Cuidados desde a preparação para a fecundação, o pré e pós natais, tanto em relação à criança
quanto à mãe. Estudo dos problemas femininos. Este aspecto do Ayurveda foi desenvolvido
pelo grande sábio védico Kasyapa. Seus discípulos escreveram o texto Kasyapa Samhita, base
da ginecologia-obstetrica-pediatria ayurvédicos.

6. Rejuvenescimento (Rasayana):

Prevenção dos processos degenerativos e métodos de rejuvenescimento ao nível celular, tanto


no sentido de medicamentos, procedimentos, estilo de vida e comportamento.

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7. Afrodisíacos (Vajikarana):

Procedimentos e ervas que aumentam Ojas, a imunidade. Afrodisíaco se refere não só à libido
sexual, mas às libido pela vida, ou seja, felicidade.

8. Psiquiatria (Bhuta Vidya):

Extraordinária abordagem do Ayurveda voltada para o estudo da mente, da consciência e de


seus distúrbios. Totalmente baseada na ciência do Yoga tem uma imensa contribuição a dar ao
mundo moderno, tão assolado pelos desequilíbrios psicológicos.

Com uma origem tão ampla, o Ayurveda representa um componente importante, senão fulcral, das
medicinas holísticas hoje em desenvolvimento e imprescindível para preservar a saúde do nosso
planeta.

A maior parte do que iremos aprender nesse Curso abrange o ramo da Medicina Interna. No
entanto, iremos igualmente explorar as outras áreas, dando grande importância à visão ayurvédica
da mente. Rasayana e vajikarana são importantes ramos do Ayurveda para o futuro da medicina,
pois apresentam a ciência do rejuvenescimento e revitalização, necessárias ao tratamento de
doenças crônicas e degenerativas modernas, que surgem a partir do esgotamento do sistema
imunológico. O ramo da Pediatria poderá ajudar a mudar a sociedade, sacralizando o ato de gerar
filhos, o que significa maior possibilidade das almas expressarem suas qualidades superiores.

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