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RANKO STEFANOVIC PREGAÇÃO DISCIPULADO

O Apocalipse é o evangelho Um sermão sem apelo eficaz O equilíbrio da igreja


de Jesus Cristo em seu é semelhante a uma viagem apostólica no livro de Atos e
verdadeiro sentido que não alcança seu destino sua aplicação nos dias atuais

Uma revista para pastores e líderes de igreja


Exemplar avulso: R$ 15,50

O centro da
pregação apocalíptica
JAN-FEV • 2019
MKT CPB | Fotolia

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EDITORIAL Wellington Barbosa

Mensagem transformadora
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E
u estava passando pelo corredor da Redação quan- mudaram drasticamente. Compreendi que, ao longo da


do me deparei com um grupo de amigos pastores história, o Senhor sempre manteve um remanescente fiel
que tinham nas mãos, pela primeira vez, a nova e que, no tempo do fim, Seu povo seria reconhecido por
­Bíblia Missionária. Com um smartphone, um deles mos- duas características fundamentais: guardar os mandamen-
trava como funciona o recurso de realidade aumenta- tos de Deus e ter o testemunho de Jesus. A exatidão e coe-
da, muito útil para facilitar o ensino das profecias do rência dos cálculos proféticos que apontavam para o tempo
Apocalipse. em que o Senhor levantaria um povo para anunciar uma
Confesso que, enquanto observava a novidade, mi- mensagem tríplice de salvação e juízo se destacaram dian-
nha mente se voltava para a época em que eu tinha 14 te dos meus olhos, e eu sabia que não haveria desculpas
anos. Não nasci em um lar adventista e conheci o evan- Ao abrir a para contradizê-los.
gelho enquanto estudava num colégio confessional, no Bíblia, mais Finalmente, estudar o Apocalipse me ajudou a enten-
interior de São Paulo. Quando estava na então chama- importante do der que não seriam as ideologias humanas que me fas-
da 8ª série, o professor de Religião propôs à classe que que símbolos cinavam nem os “heróis” que eu nutria em minha mente
estudássemos juntos o livro do Apocalipse. Lembro-me ou cenas que transformariam o mundo num lugar melhor. Somen-
de que houve certa empolgação na turma, e todos nós fortes, deve te Cristo e Seu reino eterno poderiam suprir meu anseio
aceitamos o desafio de tentar descobrir alguns dos mis- prevalecer uma por justiça, paz e verdadeira liberdade.
térios contidos no último livro da Bíblia. Particularmente, apresentação É bem verdade que, entre o momento em que fiz essas
eu não tinha ideia de que essas descobertas mudariam correta descobertas e meu novo nascimento em Cristo, se passa-
completamente o rumo da minha vida! do caráter ram quase três anos. Ao mesmo tempo que as verdades
Minha primeira grande descoberta foi a respeito de de Deus, da Palavra me levavam a concluir que eu havia encontrado
Deus. Nas páginas do Apocalipse, conheci melhor meu Cria- do grande o Caminho, a imaturidade e a pressão de grupo me cons-
dor, Redentor, Mantenedor, Senhor e Rei. Embora tivesse conflito, do trangiam a postergar minha decisão. Contudo, quando me
alguma noção sobre Deus, percebi que ainda não havia ex- remanescente apropriei completamente da promessa: “Sê fiel até à mor-
perimentado um encontro real com Ele. Aprendi que o Pai, final e do te, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2:10), abandonei todos
o Filho e o Espírito Santo estão empenhados no resgate da reino eterno, os planos e sonhos para ser um ministro do evangelho.
raça humana e que a salvação poderia ser uma realidade preparado para Como pastor, tive a oportunidade de elaborar alguns
para mim. Além disso, vi que a história do mundo está lite- aqueles que estudos bíblicos sobre o Apocalipse e prego muito sobre o
ralmente em Suas mãos e que nada foge de Seu controle. amam Jesus e assunto. Por detrás de meus textos ou sermões, está uma
Redação Ao ter essa perspectiva, compreendi também que vive- aguardam Sua experiência de transformação profunda, com base nas
mos em um conflito cósmico entre o bem e o mal. O Apo- vinda.” descobertas que fiz aos 14 anos. Hoje, quando assumo o
calipse me ajudou a perceber a ação do inimigo contra os púlpito e observo as pessoas na congregação, ­lembro-me
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planos de Deus. As descrições vívidas de quem é Satanás de que, ao abrir a Bíblia, mais importante do que símbo-
me ajudaram a compreender por que pessoas boas sofrem los ou cenas fortes do Apocalipse, deve prevalecer uma
CQ e qual será o fim dos opressores que, aparentemente, vivem apresentação correta do caráter de Deus, do grande con-
impunes, apesar de suas muitas injustiças. Então, pela pri- flito, do remanescente final e do reino eterno, preparado
Marketing
meira vez eu passei a enxergar os eventos do mundo sob para aqueles que amam Jesus e aguardam Sua vinda.
uma ótica mais ampla, como peças de um quebra-cabeça,
cujo ponto central é a segunda vinda de Cristo. Wellington Barbosa,
Outra descoberta revolucionária para mim foi en- doutorando em Ministério,
é editor da revista Ministério
William de Moraes

tender que Deus tem um povo na Terra. Minha per-


cepção anterior era de que todos os caminhos levavam
até Ele, mas, ao estudar o Apocalipse, meus conceitos

JAN-FEV • 2019 | 3
Contribua para a • Liturgia e temas relacionados, como mú-
A revista Ministério é um periódico internacional editado e publi- sica, liderança do culto e planejamento.
cado bimestralmente pela Casa Publicadora Brasileira, sob supervisão • A ssuntos atuais relevantes para a igreja.
da Associação Ministerial da Divisão Sul-Americana da Igreja Adventis-
ta do Sétimo Dia. A publicação é dirigida a pastores e líderes cristãos. Tamanho
• Seções de uma página: até 4 mil caracteres com
Orientações aos escritores espaço.
Procuramos contribuições que representem a diversidade mi- • Artigos de duas páginas: até 7,5 mil caracteres com espaço.
nisterial da América do Sul. Diante da variedade de nosso público, • Artigos de três páginas: até 11,5 mil caracteres com espaço.
utilize palavras, ilustrações e conceitos que possam ser com- • Artigos solicitados pela revista poderão ter mais páginas, de
preendidos de maneira ampla. acordo com a orientação dos editores.
A Ministério é uma revista peer-review. Isso significa que os
manuscritos, além de serem avaliados pelos editores, poderão ser en- Estilo e apresentação
caminhados a outros especialistas sobre o tema que seu artigo aborda. • Certifique-se de que seu artigo se concentra no assunto. Escreva de
maneira que o texto possa ser facilmente lido e entendido, à medi-
Áreas de interesse da que avança para a conclusão.
•C
 rescimento espiritual do ministro. • Identifique a versão da Bíblia que você usa e inclua essa informação
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 ecessidades pessoais do ministro. no texto. De forma geral, recomendamos a versão Almeida Revista
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 inistério em equipe (pastor-esposa) e relacionamentos. e Atualizada, 2ª edição.
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 ecessidades da família pastoral. • Ao fazer citações bibliográficas, insira notas de fim de texto (não notas
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 abilidades e necessidades pastorais, como administração do tem- de rodapé) com referência completa. Use algarismos arábicos (1, 2, 3).
po, pregação, evangelismo, crescimento de igreja, treinamento de • Utilize a fonte Arial, tamanho 12, espaço 1,5, justificado.
voluntários, aconselhamento, resolução de conflitos, educação • Informe no cabeçalho: Área do conhecimento teológico (Teologia,
contínua, administração da igreja, cuidado dos membros e assun- Ética, Exegese, etc.), título do artigo, nome completo, graduação e
tos relacionados. atividade atual.
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 studos teológicos que exploram temas sob uma perspectiva bí- • Envie seu texto para: ministerio@cpb.com.br. Não se esqueça de man-
blica, histórica ou sistemática. dar uma foto de perfil em alta resolução para identificação na matéria.
SUMÁRIO

10 Paralelismo intencional
Efraín Choque
Conheça as principais conexões temático-literárias
entre o prólogo e o epílogo do Apocalipse

13 Revelador e Revelado
 Clacir Virmes Junior
O papel central de Jesus Cristo no livro do Apocalipse

16

16 O contexto bíblico do 666


 Vanderlei Dorneles

Uma interpretação do código a partir das
3 Editorial
evidências bíblicas 6 Entrelinhas
7 Entrevista

20
27 Frases
Jornada completa
 Willie E. Hucks II 32 Pastor com paixão
 A importância do apelo para a apresentação
de um sermão eficaz
33 Em família
34 Recursos
35 Palavra final

24 Ministério de poder 10
 Ron Clouzet
 O segredo para um pastorado bem-sucedido
está mais próximo do que você imagina

28 Discipulado centrado
 Lucas Alves e Wellington Barbosa
O exemplo da comunidade cristã apresentado em
Atos e sua aplicação na igreja contemporânea
20

Conselho Editorial Lucas Alves; Daniel Montalvan; SERVIÇO DE ATENDIMENTO AO CLIENTE


Adolfo Suarez, Marcos Blanco;
Uma publicação da Igreja Adventista do Sétimo Dia Walter Steger; Pavel Goia; Jeffrey Brown Ligue Grátis: 0800 979 06 06
Ano 91 – Número 541 – Jan/Fev 2019 Segunda a quinta, das 8h às 20h
Colaboradores Alberto Peña; André Dantas; Arildo Souza; Sexta, das 7h30 às 15h45
Periódico Bimestral – ISSN 2236-7071 Cornelio Chinchay; Edilson Valiante; Efrain Domingo, das 8h30 às 14h
Choque; Geraldo M. Tostes; Henry Mainhard; Site: www.cpb.com.br
Editor Wellington Barbosa Ivan Samojluk; Jadson Rocha; Luis Velásquez; E-mail: sac@cpb.com.br
Editor Associado Márcio Nastrini Raildes Nascimento; Rubén Montero; Sidnei
Revisoras Josiéli Nóbrega; Rose Santos Mendes; Tito Valenzuela Assinatura: R$ 75,40
Exemplar Avulso: R$ 15,50
Projeto Gráfico Levi Gruber e Alexandre Rocha CASA PUBLICADORA BRASILEIRA
Capa Levi Gruber Editora da Igreja Adventista do Sétimo Dia
Rodovia SP 127 – km 106 Todos os direitos reservados. Proibida a
Ministério na Internet Caixa Postal 34 – 18270-970 – Tatuí, SP reprodução total ou parcial, por qualquer
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Redação: ministerio@cpb.com.br Redator-Chefe Marcos De Benedicto Tiragem: 6 mil
Chefe de Arte Marcelo de Souza 5499 / 39178

JAN-FEV • 2019 | 5
ENTRELINHAS Lucas Alves

Tempo de reavivamento

L
eonard Ravenhill, em seu livro Por que tarda o Ellen White escreveu: “Servos de Deus, dotados de
­pleno avivamento, cita Charles Finney ao afirmar poder do alto, com o rosto iluminado e resplandecen-


que “a maior necessidade de nossos dias é o poder do com santa consagração, saíram para proclamar a
do Alto” (p. 39). Há alguns anos temos falado de reavi- mensagem provinda do Céu” (História da Redenção,­
vamento e, sem dúvida, o tema não deve ser visto como p. 401). As pessoas estão procurando ­desesperadamente
simples questão de ênfase temporária, mas de neces- preencher o vazio que a vida moderna lhes impõe. Para
sidade permanente. Caso contrário, o assunto corre o isso, muitas vezes elas recorrem a drogas, dinheiro,
risco de ser esquecido. fama, entretenimento e sexo. Em contrapartida, como
Também acredito que, ao tratar de reavivamento, mensageiros de Cristo devemos oferecer o evangelho
não podemos separá-lo de discipulado, evangelismo, vivo e vibrante como a melhor resposta para suprir as
crescimento de igreja, família e liderança, entre outras O verdadeiro necessidades mais profundas das pessoas. Não conse-
coisas. Por quê? Porque o verdadeiro reavivamento re- reavivamento guiremos fazer isso, a menos que experimentemos um
vela o que a igreja é e o que ela faz. Contudo, o tema revela o que a reavivamento sincero e verdadeiro.
evoca algumas perguntas: “Reavivamento para quem?” igreja é e o que
“Para que?” e “Para quando?” ela faz.” Para quando? “A nós hoje, tão certamente como aos
primeiros discípulos, pertence a promessa do Espírito”
Para quem? A resposta pode ser simples e ao pon- (Ellen White, Testemunhos Seletos, v. 3, p. 210). Note a
to: para todos! Não importa a posição que assumimos frase “a nós hoje”. Temos acesso hoje a essa promes-
no corpo de Cristo, todos precisam ter com Deus uma sa e devemos nos apegar a ela com fervor e convicção.
real experiência de entrega, dependência e crescimen- Lembre-se: métodos, programas e eventos têm seu lu-
to em Cristo. Como pais, precisamos de reavivamento gar e valor, mas somente experimentaremos a real vida
no lar, cada vez mais atacado pelo inimigo. Como pas- cristã naquilo que fazemos e no que nos tornamos pelo
tores, cabe a nós conduzir nossas igrejas, e nós mes- poder e pela direção do Espírito Santo. Essa foi a priori-
mos, a uma experiência crescente de fervor, em meio a dade da igreja apostólica no passado (At 1:8), e também
este mundo cada vez mais confuso, artificial e carente. deve ser nossa prioridade hoje! (Jl 2:28).
Como membros, devemos refletir Cristo para uma so-
ciedade cada vez mais egocêntrica e mostrar quem di- Lucas Alves, doutorando em Ministério,
rige a vida do cristão, e em que reside nossa esperança. é secretário ministerial para a Igreja
Adventista na América do Sul
Divulgação DSA

Para que? O propósito de tal reavivamento é du-


plo: refletir Cristo e concluir a obra que Ele nos confiou.­

6 | JAN-FEV • 2019
ENTREVISTA RANKO STEFANOVIC

O quinto
evangelho
Para mim, o Apocalipse é o evangelho de
Jesus Cristo em seu verdadeiro sentido.

por Wellington Barbosa

Divulgação
O livro do Apocalipse tem chamado atenção ao longo da história e despertado di- o professor. Ele disse: “Vocês podem falar o
ferentes reações. Alguns se sentem fascinados com seus símbolos, outros têm medo que quiserem, mas ele tem um ponto de
das manifestações de juízo divino e há aqueles que ficam curiosos a respeito de sua vista válido.” Aquelas palavras ficaram na
mensagem principal. Diante desse quadro, cabe aos pastores que se dedicam a pre- minha mente, levando-me a mudar o foco
gar sobre o último livro da Bíblia adotar uma atitude responsável no púlpito, a fim de minha tese, que seria em estudos judai-
de desmistificar as profecias apocalípticas e despertar nos ouvintes a resposta in- cos, para a interpretação do livro selado de
tencionada por Deus ao revelar seu conteúdo: preparo e esperança. Apocalipse 5.
Nesta entrevista, Ranko Stefanovic, professor de Novo Testamento no Seminá- Além disso, um desafio que sempre
rio Teológico da Universidade Andrews, Estados Unidos, compartilha algumas di- me acompanhava era tentar entender
cas para quem deseja apresentar a mensagem do Apocalipse de maneira profunda por que muitos estudantes do livro do
e eficaz. Nascido na antiga Iugoslávia, ele pastoreou igrejas durante 18 anos, antes de ­Apocalipse eram tão desagradáveis e crí-
ingressar na carreira acadêmica. Logo após obter seu doutorado pela ­Universidade ticos. Não conseguia compreender como
Andrews, em 1995, foi chamado para lecionar na Universidade Burman, Canadá, o livro da revelação de Jesus Cristo podia
onde permaneceu entre 1996 e 1999. Desde 1999 trabalha na Universidade Andrews. torná-los assim. Então, encontrei muitas
O doutor Stefanovic é autor de vários artigos acadêmicos e seu principal livro, citações de Ellen White que dizem que, ao
Revelation of Jesus Christ, tem sido publicado em diversas línguas ao redor do mun- estudar o Apocalipse, o efeito é exatamente
do. Inclusive, neste ano também será lançado pela Casa Publicadora Brasileira. Ele o contrário disso, levando a uma verdadeira
e a esposa, Estera, têm dois filhos. mudança positiva de vida! Foi nesse contex-
to que li a seguinte declaração: “Deixemos
O que o levou a se especializar no estudo do Apocalipse? que Daniel fale, que fale o Apocalipse e digam
Trabalhei como pastor de igreja por 18 anos e realizei muitas séries evangelísticas a verdade. Mas seja qual for o aspecto do as-
sobre o Apocalipse. Quando comecei meu doutorado, em uma matéria com Jon Paulien, sunto apresentado, exaltem Jesus como o
recebi a tarefa de escrever e apresentar à classe uma monografia sobre o livro selado de centro de toda a esperança” (Testemunhos
Apocalipse 5. Ao compartilhar minhas conclusões, a classe toda discordou de mim, exceto para Ministros e Obreiros Evangélicos, p. 118).

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Isso me transformou completamente, e o e eventos na história cristã desde o primei- ele deve ser estudado com humildade, ora-
resultado foi meu livro Revelation of Jesus ro século até o tempo do fim. Além disso, ção e disposição para deixá-lo falar.
Christ. Essa obra reflete minha caminhada ele também reconhece a relevância espi- Quanto ao estudo propriamente dito,
e reconversão a Cristo. Para mim, o Apoca- ritual do livro para todos os cristãos, in- ele ocorre em três estágios: exposição do
lipse é o evangelho de Jesus Cristo em seu dependentemente de tempo ou lugar. Ao texto, interpretação do texto profético
verdadeiro sentido. usar esse método, o pregador apresenta- e aplicação da profecia. A preparação de
rá ao público todo o espectro do significa- um sermão com base no Apocalipse co-
Por que o senhor acredita que o his- do das profecias do Apocalipse, conforme meça com uma exposição do texto, com
toricismo é a melhor escola de inter- pretendido por seu divino Autor. o propósito de conhecer seu significado.
pretação para estudar o Apocalipse? Um detalhe, porém, deve ser observa- Isso consiste em tirar do texto o que está
As profecias do Apocalipse geralmen- do. O historicismo tem sido frequentemen- nele. Não impomos significado ao texto,
te foram obscurecidas por abordagens te utilizado de maneira incorreta em várias mas deixamos que o texto e o contexto
interpretativas enviesadas e subjetivas, tentativas de encaixar todos os detalhes definam seu significado. A pregação ex-
mas uma pregação responsável foge des- do texto em um cumprimento histórico. positiva nos protegerá de estabelecer uma
ses tipos de tratamento. Devemos evitar a Muitos sermões de pregadores historicis- interpretação que não seja garantida pelo
armadilha do preterismo que, com o idea- tas são fundamentados na interpretação texto.
lismo, priva o Apocalipse de seu caráter alegórica dos símbolos, com base em man- Para isso, o primeiro passo envolve uma
profético e limita a relevância de suas men- chetes e artigos de jornal. Uma pregação análise exegética do texto. Isso requer a
sagens aos cristãos do tempo de João. Da responsável sobre as profecias do Apoca- compreensão do significado etimológico
e sintático das palavras-chave e fra-
ses. Aqueles que não têm formação
em grego do Novo Testamento de-
vem manejar diversas traduções bí-
A interpretação do texto profético não deve ser blicas, para comparar as diferenças
e semelhanças entre elas.
controlada por manchetes jornalísticas, explicações Além disso, é preciso compreen-
der o significado gramatical e léxi-
populares ou eventos passados e atuais. co das palavras, bem como a relação
delas entre si. Uma vez estabeleci-
do o significado das p­ alavras-chave
e frases, é necessário considerar o
mesma forma, devemos evitar o futuris- lipse deve ser fiel ao texto, em vez de ao texto dentro de seu contexto imediato e
mo, que delimita as profecias do Apoca- que o pregador quer que o texto diga, no que mais amplo. Finalmente, é preciso com-
lipse à última geração de cristãos. Esses se refere aos eventos atuais. preender como o texto se encaixa na es-
métodos parecem ser deficientes porque trutura geral do livro, assim como em toda
pressupõem que esse livro não tenha nada Como um pregador deve lidar com o a Bíblia.
a oferecer às gerações entre o tempo de texto do Apocalipse? Uma vez estabelecido o significado do
João e o tempo do fim. Em primeiro lugar, deve estudar por texto, nos voltamos à sua interpretação.
O Apocalipse afirma ser um livro pro- si mesmo! Não há nada de errado em O pregador deve estar atento para não im-
fético, com o propósito declarado de nos ­consultar a interpretação e a análise tex- por ao texto uma interpretação só por-
mostrar o que acontecerá no futuro. Qual- tual dos especialistas sobre o assunto. Seus que lhe parece atraente. A interpretação
quer método interpretativo que negue a livros são para o pregador o que as ferra- do texto profético não deve ser contro-
natureza preditiva de suas profecias não mentas são para qualquer profissão. No lada por manchetes jornalísticas, expli-
faz jus à sua alegada intenção. Isso define o entanto, seria um “pecado” negligenciar cações populares ou eventos passados e
historicismo como a abordagem adequada o estudo pessoal. A pregação é um mis- atuais – uma prática comum para muitos
para a interpretação profética. Como mé- to de ciência e arte. O Apocalipse deve pregadores. Qualquer interpretação que
todo interpretativo, o historicismo reco- ser estudado com toda solidez acadêmi- pretenda incentivar a euforia das pessoas é
nhece que o Apocalipse contém profecias ca, usando as ferramentas hermenêuticas ­especulativa e fictícia. Isso nunca resulta no
preditivas, que descrevem os movimentos disponíveis. Como os demais livros bíblicos, fortalecimento da fé na profecia. De fato,

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causa o enfraquecimento da confiança na e do lugar do autor inspirado, a fim de que frase mostra que o Apocalipse vem de
palavra profética. Ao lidar com as profecias fossem compreensíveis ao autor inspirado e J­esus Cristo (genitivo subjetivo), mas
do Apocalipse, devemos permanecer com a seus leitores originais. Ao interpretar es- também indica que o livro é sobre Jesus
o que está claramente indicado no texto ses símbolos hoje, os pregadores devem Cristo (genitivo objetivo). Ele é o perso-
e deixar a Bíblia interpretar a si mesma. estar atentos para não impor ao texto o nagem principal. Ele é a chave que abre o
Finalmente, o pregador desejará sugerir significado atual do símbolo ou um signi- verdadeiro significado do conteúdo do li-
como o texto profético se aplica historica- ficado derivado da interpretação alegóri- vro. Qualquer exposição das profecias do
mente. Ao lidar com profecias já cumpridas, ca. Nossa compreensão dos símbolos do Apocalipse que se concentre em even-
podemos tentar localizar seu cumprimento Apocalipse deve ser guiada pela intenção tos ou pessoas (passadas ou futuras) às
em certos períodos históricos. No entanto, de João e pelo significado que esses sím- custas de Cristo e do Seu relacionamen-
ao lidar com profecias ainda a ser cumpri- bolos transmitiram aos leitores do primei- to com Seu povo foge totalmente de seu
das, é preciso ter cautela. Nessas profe- ro século. Portanto, é importante saber de foco central.
cias, Deus nos revela o que acontecerá no onde esses símbolos foram tirados. Contudo, a sentença seguinte afirma
tempo do fim, para que não nos surpreen- Muitos estudos mostram que a que o propósito do livro é “mostrar aos
damos. Contudo, elas não nos dizem exa- maior parte da linguagem simbólica do Seus servos” o que ocorrerá no futuro (ver-
tamente quando ou como isso ocorrerá. ­Apocalipse é derivada da história e expe- so 1b). Nesse ponto, surge uma pergunta:
O pregador deve ter em mente que riência do povo de Deus nos tempos do Como um livro iniciado com a afirmação
o tempo e a maneira do desenrolar dos Antigo Testamento. Assim, ao descrever “revelação de Jesus Cristo” pode ser escri-
eventos finais são segredos que Deus re- os eventos futuros, o Espírito Santo usou to com o propósito de desvendar eventos
servou para Si. O pleno entendi-
mento das profecias do tempo do
fim será possível somente quando
elas se cumprirem, não antes. Por- O propósito das profecias do Apocalipse não
tanto, devemos ter cuidado para
não especular sobre o que a pro- é satisfazer nossa curiosidade sobre o futuro,
fecia significa ou como e quando
ela será cumprida. O propósito das mas nos levar à prontidão, à medida que a
profecias do Apocalipse não é satis-
fazer nossa curiosidade sobre o fu-
história do mundo se aproxima do fim.
turo, mas nos levar à prontidão, à
medida que a história do mundo se
aproxima do fim. a linguagem do passado. É quase impos- que ocorrerão no futuro? O Apocalipse não
sível entender a simbologia do Apocalipse se destina a ser uma coleção de profecias
Especificamente, como interpretar os sem o Antigo Testamento. para satisfazer nossa curiosidade sobre o
símbolos do Apocalipse? Além disso, o Apocalipse também refle- futuro. O propósito principal dos eventos
O Apocalipse pertence ao gênero da li- te a linguagem da literatura apocalíptica ju- preditos que estão registrados – sejam
teratura apocalíptica, caracterizado pela daica, o mundo do primeiro século na Ásia aqueles já cumpridos ou que ainda vão se
linguagem simbólica complexa. Sua decla- Menor e muitos ditos de Jesus e dos apósto- cumprir – é nos assegurar da presença de
ração inicial nos diz que as visões apresen- los, como registrados no Novo Testamento. Cristo com Seu povo ao longo da história
tadas foram “significadas” para João (Ap 1:1). Para decodificar o significado desses sím- e dos eventos finais.
A palavra grega semainō significa “mostrar bolos, o pregador deve e ­ quipar-se com Portanto, a pregação eficaz do Apoca-
por signos simbólicos”. Ao usar essa pala- boas ferramentas de referência. lipse deve ser centrada em Cristo, não em
vra, o apóstolo nos diz que as cenas e os eventos. Lembre-se: “Deixemos que Daniel
eventos descritos lhe foram mostrados por Que conselho o senhor gostaria de dei- fale, que fale o Apocalipse e digam a verda-
meio de apresentações simbólicas. xar aos pregadores da América do Sul? de. Mas seja qual for o aspecto do assunto
Frequentemente, as profecias bíblicas As palavras iniciais do Apocalipse são: apresentado, exaltem Jesus como o centro
eram comunicadas na linguagem da época “Revelação de Jesus Cristo” (Ap 1:1). Essa de toda a esperança.”

Diga-nos o que achou desta entrevista: Escreva para ministerio@cpb.com.br ou visite www.facebook.com/revistaministerio

JAN-FEV • 2019 | 9
CAPA

Paralelismo
intencional
A importância das ligações
entre a introdução e a
conclusão do Apocalipse

Efraín Choque

O
livro do Apocalipse está escrito sob (Ap 15–22) apresenta os juízos escatológi- ligados entre si e termos conectores que fi-
uma estrutura e forma literária que cos que culminam com o segundo adven- xam a importância da mensagem bíblica.
alguns intérpretes têm passado por to de Cristo.2 Dentro dessas duas divisões Este artigo tem o propósito de avaliar as
alto. Seu autor, propondo-se a destacar os existem entre cinco e oito séries de corres- sete principais conexões t­ emático-literárias
temas predominantes da revelação divina, pondências mútuas, que constituem sua entre as duas seções, sua importância teo-
utiliza uma estrutura de paralelismos si- estrutura literária e temática. lógica e a relevância da mensagem desta-
métricos denominada quiasmo.1 De acordo A primeira indicação dessa estrutura li- cada por João.
com Kenneth Strand, o livro tem duas gran- terária é o paralelo visível entre o prólo-
des divisões: a primeira (Ap 1–14) mostra vi- go (Ap 1:1-8) e o epílogo (Ap 22:6-21). Essa O anjo
sões referentes à era histórica. A segunda correspondência deliberada destaca temas Na introdução, a revelação de Jesus
Cristo que Deus Lhe deu se dá a conhecer
PRÓLOGO PARALELO EPÍLOGO “por intermédio do Seu anjo”, enviado a
1:1 O anjo enviado por Jesus. 22:6 João (1:1). Na conclusão, “O Senhor, o Deus
dos espíritos dos profetas, enviou Seu
1:2 Testemunho da Palavra de Deus; testemunho de Jesus. 22:16
anjo para mostrar aos Seus servos as coi-
1:3 Bem-aventurado o que lê, os que ouvem e guardam 22:7, 14
sas que em breve devem acontecer” (22:6).
as palavras da profecia. Bem-aventurados os que lavam
Os anjos (gr. ággelos, mensageiro) fre-
suas vestes.
quentemente cumprem a função de porta-
1:3 O tempo está próximo. 22:10 dores das revelações divinas (por exemplo,
1:4, 5 Os sete espíritos; o Deus dos espíritos dos profetas; 22:6, 17 Dn 8:16; 9:21; Lc 1:19, 26).
o Espírito e a noiva dizem: Vem. Nos dois versículos paralelos, a de-
claração “Seu anjo” denota a função dos
1:7 Eis que vem com as nuvens; eis que venho sem demora; 22:7, 12, 20
anjos mensageiros que frequentemente
Ilustração: Thiago Lobo

vem Senhor Jesus!


são mencionados ao longo do livro. Por
1:8 Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim; o Primeiro 22:13 exemplo, em Apocalipse 19:9 e 10 um anjo
e o Último. ­repreende João por prostrar-se a seus pés

10 | JAN-FEV • 2019
para adorá-lo. Já Apocalipse 22:16 declara No epílogo, o autor confirma e recapi- harmonia e no contexto da mensagem às
que o próprio Jesus enviou Seu anjo para tula o tema do testemunho que havia sido sete igrejas, conforme evidencia o término
dar testemunho de todas as coisas. mencionado no prólogo, com a diferença de cada carta: “Quem tem ouvidos, ouça o
Em Apocalipse 22:8 e 9, o anjo que fala é de que, agora, o testemunho é dado pelo que o Espírito diz às igrejas.” Assim, o pró-
aquele que foi enviado por Deus (22:6) para anjo, que recebe a autenticação da parte logo introduz o tema da ação conjunta da
mostrar a João a santa cidade e a árvore do próprio Cristo. Desse modo, o propósi- Divindade, na qual participa ativamente o
da vida. Então, esse anjo dá autenticidade to do epílogo é confirmar a autenticidade Espírito Santo.
a toda revelação. À semelhança do prólo- das revelações registradas na introdução. Tal ação é reiterada categoricamente no
go, ele é enviado para mostrar aos servos A sentença “Eu, Jesus, enviei o Meu anjo encerramento do livro. A expressão “o Deus
de Deus “as coisas que em breve devem para vos testificar estas coisas às igrejas” dos espíritos dos profetas” (22:6) é uma alu-
acontecer”, “porque o tempo está próxi- é uma clara confirmação da obra do anjo são direta a Apocalipse 19:10, afirmando
mo” (22:10). O propósito, portanto, des- mencionado no prólogo (1:2). que o Espírito Santo é quem inspira a men-
sa primeira conexão temática é mostrar te dos profetas. João assume que todo o
que os anjos têm a função de ser portado- As bem-aventuranças livro do Apocalipse é um testemunho do
res da revelação divina. Além disso, mostra “Bem-aventurados aqueles que leem domínio exercido pelo Espírito Santo so-
que a multidão de anjos está à disposição e aqueles que ouvem as palavras da pro- bre ele mesmo, quando estava em visão.
para ministrar aos servos do Senhor, assim fecia” (1:3). Essa referência denota a lei- No epílogo, o apóstolo focaliza a atenção
como ocorreu com João. tura pública do livro na igreja. O termo ao testemunho do Espírito Santo por meio
­“bem-aventurado” (gr. makarios) ­significa da igreja. Ambos, “o Espírito e a noiva dizem:
O duplo testemunho feliz, contente, afortunado e aprovado. Vem!” (22:17). Na continuação, a­ presenta-se
Em Apocalipse 1:2, o verbo testemunhar Ranko Stefanovic entende que o termo, uma cadeia de apelos, em que fica evidente
(gr. martureo [atestar, ARA]) está no aoris- no Novo Testamento, “significa mais do que o testemunho pessoal é uma iniciativa
to epistolar, o que sugere que João estava que uma felicidade secular (passageira), divina, ­particularmente do Espírito Santo.
escrevendo a introdução de seu livro tendo significa a alegria interior dos que espe- Desse modo, a ação do Espírito proposta no
em mente a percepção temporal de seus ram a salvação prometida por Deus e agora prólogo encontra seu ápice no epílogo, com
leitores, para quem os eventos descritos experimentam seu cumprimento”.5 Desse grande destaque à Sua divindade.
no Apocalipse estariam no passado no mo- modo, no Apocalipse, a palavra expressa a
mento em que os estivessem lendo.3 É im- felicidade suprema. A proximidade do tempo
portante destacar que o termo martureo No prólogo se encontra a primei- A bem-aventurança de Apocalipse 1:3
volta a ser empregado no livro somente no ra das sete bem-aventuranças apre- termina com uma nota de destaque, “pois o
epílogo (22:16, 18, 20), e está relacionado à sentadas no livro (1:3; 14:13; 16:15; 19:9; tempo está próximo”. A palavra usada para
comunicação da revelação divina. 20:6; 22:7, 14). Enquanto há na introdu- tempo (gr. kairós) tem um sentido escato-
No prólogo, o apóstolo declara que ção somente uma ocorrência, na con- lógico e indica um período de crise ou um
“atestou a Palavra de Deus e o testemu- clusão o termo se repete duas vezes momento decisivo. Para Robert Mounce,
nho de Jesus Cristo”. Essa é a primeira das (22:7, 14), recapitulando algo fundamental: “essa declaração parece ter sua origem nas
três vezes em que essa frase é encontra- Felizes são aqueles que leem (o pregador), expectativas messiânicas judaicas daquele
da no Apocalipse (1:2, 9; 20:4). Para Ranko os que ouvem (a igreja), mas, sobretudo, os momento”.6 Em Marcos 13:35, Jesus advertiu
Stefanovic, a expressão “deve ser enten- que guardam a mensagem, tendo suas os discípulos sobre o tempo de Seu regresso
dida à luz do contexto veterotestamentá- vestes lavadas no sangue do Cordeiro. e lhes pediu que vigiassem, pois não sabiam
rio”,4 pois os profetas do Antigo Testamento o kairós assinalado da segunda vinda. As-
utilizaram a frase semelhante “Palavra do A divindade do Espírito Santo sim, diante da crise iminente, a mensagem
­Senhor” frequentemente (Jr 1:2; Os 1:1; Jl 1:1; João, após se referir a Deus Pai como de juízo e esperança deve ser proclamada
Jn 1:1; Is 2:1; Mq 1:1). Assim, João parece ter in- aquele “que é, que era e que há de vir” entre as igrejas como algo urgente, pois o
dicado que testemunhou tudo o que Deus (1:4), indica a Pessoa do Espírito Santo fim de todas as coisas já foi determinado na
revelou por meio do logos, a Palavra, que da seguinte maneira: “da parte dos sete morte e ressurreição de Cristo.
se origina Nele. Ainda é possível que o au- ­Espíritos que Se acham diante do Seu tro- No epílogo, em contraste com a instru-
tor estivesse agregando à expressão geral no”. O número sete simboliza o cumpri- ção dada a Daniel para selar a visão refe-
“Palavra de Deus” uma frase mais específica, mento universal da obra do Espírito Santo. rente ao tempo do fim (Dn 8:26; 12:4), o
aclaratória: “o testemunho de Jesus Cristo”. Além disso, os “sete Espíritos” estão em anjo diz para João não selar “as palavras

JAN-FEV • 2019 | 11
da profecia deste livro”, e a razão da proi- (22:20b). Assim, no Apocalipse não existe prólogo e epílogo, permite indicar alguns
bição é clara, “porque o tempo está próxi- um tema mais importante do que a espe- pontos importantes. Em primeiro lugar, a
mo” (22:10). Esse é um “tempo particular”, rança da segunda vinda de Cristo. construção simétrica e o paralelismo inver-
designado de antemão para o cumprimen- so entre o prólogo e o epílogo na estrutura
to das “coisas que em breve devem aconte- O Alfa e o Ômega literária redigida pelo autor indicam que o
cer” (1:1). Em suma, para os filhos de Deus, o “Alfa” é a primeira e, “ômega”, a última livro foi integralmente escrito por uma só
kairós necessário chegará em breve. letra do alfabeto grego. Elas são utilizadas pessoa, nesse caso, o apóstolo João.
para descrever o Senhor como Criador de Na sequência, a redação do prólogo e
A vinda de Cristo todas as coisas. Além disso, expressa tam- do epílogo, com suas correspondências
O tema do segundo advento de Cristo é bém a revelação primária e final de Deus temáticas, foi deliberadamente pensada
fundamental na estrutura do Apocalipse. A aos homens. Os exegetas concluem que a e escrita para abrir, desenvolver e con-
tabela abaixo mostra as três menções do expressão indica integridade e plenitude, o cluir assuntos que o autor considerava
prólogo a respeito do assunto, indicando eterno, o que sempre existiu desde o prin- importantes.
a intencionalidade que João tem ao desta- cípio e sempre existirá, o Todo-poderoso. Finalmente, o prólogo e o epílogo do
car a parousia do Senhor Jesus. Conforme Gerhard Kittel, essa expressão livro do Apocalipse revelam ao mundo o
que foi, o que é e o que há de vir. Isso foi
PRÓLOGO EPÍLOGO escrito para nossa instrução, para quem
1:4 “Daquele [...] que há de vir” 22:7 “Eis que venho sem demora” alcançou o fim dos tempos. Deus Pai,
Cristo, o Espírito Santo e as hostes ce-
1:7 “Eis que vem com as nuvens” 22:12 “E eis que venho sem demora”
lestiais foram companheiros de João na
1:8 “O Senhor Deus [...] que há de vir” 22:17 “O Espírito e a noiva dizem: Vem!” ilha de Patmos. Eles acompanharão Seu
22:20 “Certamente, venho sem demora” povo na crise final, garantindo-lhe a vi-
tória completa!
22:20 “Amém! Vem, Senhor Jesus!”

Referências
Um detalhe que chama atenção é o fato é peculiar do Apocalipse, e Deus a usou
1
 er Enzo Bianchi, El Apocalipsis: Comentario
V
de que a linguagem da introdução enfatiza com respeito a Si mesmo.8 No prólogo (1:8),
exegético-espiritual (Salamanca: Gráficas Varona,
o regresso de Jesus na terceira pessoa. Já quem fala é “o Senhor Deus, Aquele que é, 2009); C. Mervyn Maxwell, Uma Nova Era
na conclusão, se repete na primeira pessoa. que era e que há de vir”, identificado como Segundo as Profecias do Apocalipse (Tatuí, SP: Casa
Publicadora Brasileira, 2008), p. 56.
Conforme afirma Jacques Doukhan, esse Deus Pai em Apocalipse 1:4.
2
 enneth A. Strand, “The eight basic visions in the
K
“contraste gramatical sugere que a segun- Se em Apocalipse 1:8 e 21:6 Deus Pai Se book of Revelation”, Andrews University Seminary
da vinda de Jesus deixa de ser um teste- apresenta como “o Alfa e o Ômega”, no epí- Studies, v. 25, n. 1, p. 107-121.
munho dos filhos de Deus e passa a ser logo quem atribui a Si esse título é o pró- 3
Robert H. Mounce, Comentario al Libro de
Apocalipsis (Barcelona: CLIE, 2007), p. 86.
algo pessoal e direto. Não é mais um sim- prio Cristo ressurreto (22:13). Desse modo,
4
 anko Stefanovic, Revelation of Jesus Christ (Berrien
R
ples testemunho externo acerca do even- Pai e Filho compartilham os mesmos atribu-
Springs, MI: Andrews University Press, 2002), p. 54.
to, agora, quem fala da vinda é o Sujeito do tos eternos de integridade e plenitude. Além 5
Ibid, p. 55.
evento”,7 Jesus, o Vencedor. disso, a frase “o Primeiro e o Último” (1:17) fir- 6
Mounce, p. 87.
Outro ponto interessante do epílogo é o ma o sentido de Theós: Ele dá início e põe fim 7
Jacques Doukhan, Secretos del Apocalipsis (Buenos
evidente movimento pendular entre as es- a todas as coisas. Tudo na criação deve sua Aires: Aces, 2007), p. 219.
feras divina e humana, que sugere uma re- existência a ­Cristo; todas as coisas encontram 8
Gerhard Kittel, “ ”, em Gerhard Kittel (org.),
lação recíproca de liturgia no Apocalipse. Ao seu fim em relação a Ele. O desenvolvimento Theological Dictionary of The New Testament
(Grand Rapids, MI: Wm. B Eerdmans, 2006), v. 1, p. 1-3.
grito do Céu que inicia a série de “venho” e do plano da salvação, do começo ao fim, está
que ressoa duas vezes como uma promessa ligado a Jesus – o Alfa e o Ômega, o Princípio
(22:7, 12), da Terra o povo de Deus responde e o Fim; o Primeiro e o Último.
Efraín Choque, doutor
duas vezes “vem” (22:17). Nessa dinâmica, o em Teologia, é secretário
Céu tranquiliza a Terra: “Certamente, venho Conclusão ministerial da União Boliviana
Gentileza do autor

sem demora” (22:20a); e a oração huma- Uma breve análise estrutural e literá-
na responde: “Amém! Vem, Senhor Jesus!” ria do Apocalipse, especialmente de seu

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12 | JAN-FEV • 2019
CAPA

Revelador e Revelado
O protagonismo essencial
de Cristo no livro do
Apocalipse

Clacir Virmes Júnior

Q
uando tomamos algum livro para Neste artigo quero analisar apenas Jesus Cristo foi um “apocalipse”, uma re-
ler é natural começarmos pelo co- Apocalipse 1:1 a 3. Esses versículos mos- velação de Deus (Rm 16:25-27).
meço. A maior parte dos livros es- tram o conteúdo da revelação dada por De quem vem essa revelação? Qual é
critos, além da seção de agradecimentos, ­Jesus, como essa revelação chegou até nós seu tema? A expressão “revelação de ­Jesus
dedicatória e, talvez, um prefácio, apresen- e com que propósito Cristo Se apresen- Cristo” pode significar duas coisas: que a
ta uma introdução. Essa parte da obra tem tou a João em Patmos, no fim do primeiro revelação é dada por Jesus ou que o as-
como objetivo mostrar o tema geral do li- ­século da era cristã. sunto da revelação é Sua pessoa.3 Em seu
vro, sua importância e, eventualmente, um contexto imediato, o primeiro significado
esboço de como a argumentação se dará O que Jesus revela parece ser o mais correto. O texto corres-
nas páginas seguintes. O último livro da Bíblia inicia com três pondente,4 em Apocalipse 22:16, diz: “Eu,
Em relação ao Apocalipse, a seção que palavras gregas, traduzidas nas versões Jesus, enviei o Meu anjo para vos testifi-
se estende entre os versículos 1 e 8 do capí- em língua portuguesa como “revelação car estas coisas às igrejas. Eu sou a Raiz e
tulo 1 pode ser considerada sua introdução.1 de Jesus Cristo”. No Novo Testamen- a Geração de Davi, a brilhante Estrela da
Conhecer esses versículos é de importân- to, o verbo apocalipto, de onde vem manhã”.
cia fundamental para a correta interpre- a palavra “apocalipse”, sempre deno- Ao mesmo tempo, João disse que essa
tação do último livro da Bíblia. De acordo ta uma revelação divina, algo que es- revelação vem de Deus. De acordo com
Photographee.eu / Adobe Stock

com Jon Paulien, “os primeiros oito versos tava encoberto aos nossos olhos, mas Apocalipse 1:1, quem deu a revelação a
do livro do Apocalipse servem como sua que Deus, em Sua bondade, resolveu ­Jesus foi o próprio Pai. Isso é confirmado
introdução. Neles o autor, o apóstolo João, nos mostrar. Encerrando a epístola aos em Apocalipse 22:6: “Disse-me ainda: Estas
nos diz como devemos interpretar esse li- Romanos, P ­ aulo disse que sua prega- palavras são fiéis e verdadeiras. O Senhor,
vro profético.”2 ção sobre a graça divina e a salvação em o Deus dos espíritos dos profetas, enviou

JAN-FEV • 2019 | 13
Seu anjo para mostrar aos Seus servos as e seus equivalentes (“Palavra do ­Senhor”, Hoje poderíamos aplicar essa bênção
coisas que em breve devem acontecer.” “dito do Senhor”, “sentença do Senhor”, ao ambiente das reuniões da igreja. Onde
Portanto, Jesus é o Mediador da re- etc.) é uma expressão técnica para auten- quer que ela se reúna, esse deve ser um
velação. Ele é tanto o Revelador quanto ticar a origem divina das profecias bíbli- ambiente para crescer no conhecimento
o Revelado. Além disso, a partir de Apo- cas do Antigo Testamento. Além disso, os de Deus. Há bênçãos especiais tanto para
calipse 1:1, tudo gira ao redor da mara- profetas ligavam a expressão “Palavra do os pregadores da Palavra quanto aos que
vilhosa pessoa de Cristo: Ele anda entre ­Senhor” à uma experiência de visão profé- tiram tempo para ouvir os mensageiros.
os candeeiros (Ap 1:12-20); envia mensa- tica, como João fez (cf. Zc 1:1; Mq 1:1). ­Contudo, a principal bênção está na última
gens às igrejas (Ap 2–3); é entronizado em Portanto, a mensagem do ­Apocalipse é parte do versículo: o mais importante é co-
meio a aclamações (Ap 4–5); abre os selos­ divina. Para compreendê-la, é preciso re- locar em prática a revelação de Jesus Cristo.
(Ap 6–8:1); luta contra o dragão (Ap 12:7-12); conhecer que o Apocalipse, assim como Ler e ouvir a Bíblia é apenas um passo pre-
vem como um cavaleiro vitorioso (Ap 19:11- todos os outros livros da Bíblia, não é liminar para a grande bênção que só vem
20); destrói Satanás (Ap 20:1-10) e traz a meramente um amontoado de palavras com a obediência. Felizes são aqueles que
Nova Jerusalém (Ap 21–22). Portanto, na humanas (2Pe 1:21). Sua mensagem tem “guardam as coisas nela escritas” (Ap 1:3).
frase “revelação de Jesus Cristo” temos os origem em Deus e, para entendê-la, pre- O propósito da revelação de Jesus é cla-
dois significados: Ele é o Revelador e a re- cisamos do auxílio divino. Devemos orar ro: “mostrar aos Seus servos as coisas que
velação, o que traz as boas-novas e seu para que o Senhor abra nossa mente para em breve devem acontecer” (Ap 1:1), por-
próprio conteúdo.5 que possamos compreender Sua vontade. que “o tempo está próximo” (Ap 1:3). Essa
As três primeiras palavras do livro mos- Isso deveria nos fazer pensar em como frase é o primeiro sinal da íntima ligação
tram muito mais do que os perigos dos temos visto não só o Apocalipse, mas entre os livros de Apocalipse e Daniel.8 Da-
últimos dias. O foco da última profecia é toda a revelação divina. Como temos nos niel 2:28 afirma: “Há um Deus no Céu, o
Cristo – Seu amor, Sua graça, Seu cons- aproximado da “Palavra de Deus” e do qual revela os mistérios, pois fez saber ao
tante cuidado. Isso deveria ser um nortea- “­testemunho de Jesus” (Ap 1:2)? Reconhe- rei Nabucodonosor o que há de ser nos úl-
dor hermenêutico ao estudarmos todas as cemos que ele é, de fato, a “revelação de timos dias.” Jesus mesmo havia ligado essa
profecias do Apocalipse. Se não descobrir- Jesus Cristo”? Ter uma atitude de oração sentença aos Seus discursos sobre a se-
mos qual é o papel central de Jesus em cada antes de nos aproximarmos da Bíblia para gunda vinda nos evangelhos (cf. Mt 24:6;
uma delas, estaremos estudando o livro de a estudarmos reforça em nós a ideia de Mc 13:7; Lc 21:9).
maneira equivocada. que o texto que temos em mãos não é algo A grande revelação de Jesus no Apo-
comum e que precisamos da ajuda divina calipse, além de Si mesmo, é de Seu breve
Como Jesus Se revela para absorver suas mensagens. advento. E esse momento está próximo
Como Jesus Se revelou no ­Apocalipse? (­Ap 1:3; 22:10). Nesse ponto, uma das per-
Há certa complexidade na maneira Por quê Jesus Se revela guntas mais comuns é: “Ora, João escre-
com que o livro chegou às nossas mãos No versículo 3 está a primeira ­bem- veu isso há 2 mil anos e Cristo ainda não
(Ap 1:1). Em primeiro lugar, Deus é o ori- aventurança de sete6 encontradas ao longo veio… Como o tempo pode estar próximo?”
ginador da profecia. Ele, então, entregou do Apocalipse: ­“Bem-aventurados aqueles A segunda vinda estava próxima no
essa revelação para Cristo. Por sua vez, que leem e aqueles que ouvem as pala- tempo de João e, hoje, mais do que nunca,
­Jesus enviou Suas mensagens por meio vras da profecia e guardam as coisas nela sob três aspectos: (a) Jesus desejava retor-
do Seu anjo, que entregou os oráculos di- escritas, pois o tempo está próximo.” João nar para Seus filhos naquele tempo; (b) os
vinos para João, o profeta. Na sequência, se referiu ao ambiente da igreja no primei- cristãos aguardavam Sua vinda naquele
o apóstolo comunicou a revelação às igre- ro século.7 Naquela época, poucas pessoas tempo; e (c) a volta de Jesus sempre deve
jas da Ásia Menor e, por fim, temos aces- eram alfabetizadas. Para que as mensa- ser vista da perspectiva do tempo que te-
so à mensagem do último livro da Bíblia. gens apostólicas, e mesmo as dos profetas mos para nos relacionar com Ele, pois, para
O que essa aparentemente intrincada do Antigo Testamento, chegassem ao co- aquele que morre, o advento será como
hierarquia pode significar para nós? Em pri- nhecimento dos irmãos, havia muita leitura um “abrir e fechar de olhos” (1Co 15:52).
meiro lugar, João não é a mente por trás do em voz alta da Palavra de Deus. A primeira Por isso, a grande pergunta não é acer-
Apocalipse. Deus é seu Autor. Apocalipse parte da bem-aventurança se refere a essa ca da brevidade ou demora da vinda de
1:2 indica que o apóstolo considerava seu prática. O Senhor prometeu bênçãos aos Cristo. Em Sua infinita sabedoria, Deus nos
livro como a “Palavra de Deus e o testemu- encarregados de ler as Escrituras e àqueles deu avisos sobre a proximidade do adven-
nho de Jesus”. A locução “Palavra de Deus” que se reuniam para ouvi-las. to. Essa é uma das funções do Apocalipse.

14 | JAN-FEV • 2019
Acima de tudo, porém, esse livro foi dado mostrar aos Seus servos as coisas que em 3
Em grego, a construção Apokalypsis Iēsou Christou
pode ser tanto um genitivo objetivo quanto um
para nos preparar para Sua vinda. A grande breve devem acontecer” demonstra quan-
genitivo subjetivo. Em outras palavras, a expressão
pergunta é: minha vida pertence a Jesus? to o Senhor os ama. Iēsou Christou é a origem do termo Apokalypsis
Tenho procurado a revelação de Sua Pes- Por fim, uma interpretação do Apoca- (genitivo objetivo) ou pode ser o assunto da primeira
palavra (genitivo subjetivo).
soa em minha vida? Estou obedecendo às lipse que não mostre a esperança nele re-
4
 ários autores têm demonstrado o inter-
V
ordens que Deus me deu em Sua Palavra? tratada não faz jus ao seu propósito. Ele relacionamento entre a primeira e a segunda
não foi escrito para amedrontar ninguém, metade do Apocalipse: Elisabeth Schüssler

Conclusão mas para dar alegria e encorajamento. Ele


Fiorenza, “Composition and Structure of the Book
of Revelation,” CBQ 39.3 (1977): 344-66; Kenneth A.
A partir deste breve estudo, podemos apresenta a vitória final de Deus sobre o Strand. “As Oito Visões Básicas,” em Estudos sobre
Apocalipse: Temas introdutórios (Engenheiro Coelho,
destacar as seguintes implicações de Apo- mal e o pecado. O Revelador, revelado nele,
SP: Unaspress, 2017), p. 45-61; C. Mervyn Maxwell,
calipse 1:1 a 3. Em primeiro lugar, o centro salvará Seus filhos e os levará para um lu- Uma Nova Era Segundo as Profecias do Apocalipse
e o principal assunto do último livro pro- gar, uma vida e um futuro melhores. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2002), p.
55-64.
fético da Bíblia é Cristo. Ele é a lente pela
Referências
5
Stefanovic, Revelation of Jesus Christ , p. 54.
qual todos os símbolos da profecia preci-
1
Ranko Stefanovic (Revelation of Jesus Christ:
6
Ap 1:3; 14:13; 16:15; 19:9; 20:6; 22:7; 22:14.
sam ser vistos. Qualquer interpretação que
Commentary on the book of Revelation, 2ª ed. 7
Simon Kistemaker, Apocalipse (São Paulo, SP:
deixe de fora o papel de Jesus na história e, [Berrien Springs, MI: Andrews University Press, Cultura Cristã, 2014), p. 109.
especialmente, nos últimos eventos, é in- 2009], p. 51-77) considera Apocalipse 1:1 a 8 o prólogo
do livro, e os versículos 1 a 3 a introdução. G. K.
8
Beale, The Book of Revelation, p. 181.
digna de consideração. Beale (The Book of Revelation: A commentary on
Além disso, o Apocalipse é um livro ins- the greek text, NIGTC [Grand Rapids, MI: Eerdmans:
Carlisle, UK: Paternoster Press, 1999], p. 108)
pirado, como toda a revelação bíblica. Sua
reconhece que esse é o consenso, mas designa toda Clacir Virmes Junior, mestre
mensagem aborda o relacionamento de a seção de Apocalipse 1:1 a 20 como prólogo. Mesmo em Ciências das Religiões,
Deus com Seu povo, de maneira especial assim, ele considera Apocalipse 1:1 a 3 a introdução é professor de Novo

Gentileza do autor
do livro também. Testamento na Faculdade de
durante os últimos eventos da história ter- 2
Jon Paulien, Seven Keys: Unlocking the secrets of Teologia da Fadba
restre. O fato de ele ter sido enviado “para Revelation (Nampa, ID: Pacific Press, 2009), p. 11.

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MKT CPB

O relógio do mundo está próximo a marcar meia-noite. O tique-taque intenso e


progressivo dos sinais evidencia que algo grande e diferente está para ocorrer. O
planeta está como uma grávida sentindo as dores do parto. A natureza está clamando,
a sociedade gritando e a igreja confirmando: Jesus em breve voltará!

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CAPA

O contexto bíblico do

As atitudes e entidades
por trás do código
Vanderlei Dorneles

É
bem antiga a interpretação do sig- dos tempos, como o pretenso “substitu- 666 por meio da gematria. Soma-se ain-
nificado do número 666 pelo mé- to do Filho de Deus”.2 da o fato de que não há nada parecido em
todo chamado gematria.1 Muitos No entanto, muitas questões sur- toda a Bíblia, nem em Daniel nem nos ou-
cristãos têm convicção da coerência des- gem diante dessa interpretação. Primei- tros profetas. As metáforas ou símbolos
sa “exegese”. Além disso, protestantes ro, a palavra traduzida por “calcular” é o deles não dependem de um cálculo numé-
históricos, desde os primeiros reforma- verbo grego psephizo, que tem o senti- rico a partir de um nome ou título. Quan-
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dores, relacionaram a entidade revelada do de “contar” e “calcular”, mas também do relatam visões, os profetas não usam
por meio da metáfora do anticristo e da de “descobrir”, “interpretar” e “vir a co- códigos secretos, mas símbolos e metá-
besta ao papado em sua trajetória perse- nhecer”.3 Ademais, outros nomes e títulos foras, todos extraídos do contexto bíbli-
guidora durante a Idade Média e no fim têm sido apontados como resultando em co. Por fim, a aplicação do número a uma

16 | JAN-FEV • 2019
única entidade na história ignora que o significados possíveis. É preciso enfatizar Descanso e plenitude
666 é mencionado em relação à besta em que esse é um método impreciso. Os sím- O relato de que Deus descansa no ápi-
sua fase posterior à cura da ferida mor- bolos bíblicos só encontram sua correta ce de Sua criação (Gn 2) vem logo após a
tal, sendo algo ainda futuro. É importante interpretação dentro do contexto bíblico. informação de que Ele criou o homem “à
destacar também que o número é da bes- A proposta então é estender a períco- Sua imagem” (1:26). Isso indica que o autor
ta como um todo e não de uma de suas pe de estudo até Apocalipse 14:12. O mo- de Gênesis considera o descanso de Deus
cabeças, aquela ferida em 1798. tivo são as conexões claras entre os dois no sétimo dia à luz do tema da criação do
Diante dessas considerações, diferen- capítulos. O capítulo 13 diz que a “mar- homem à “imagem de Deus” no sexto dia.
tes autores têm se debatido em busca do ca” da besta é colocada sobre a “mão” e a O objetivo é ensinar que o homem cultiva
verdadeiro significado do 666.4 O objetivo “fronte” das pessoas (13:16); o 14 começa sua semelhança com Deus ao entrar com
deste artigo é discutir o tema com mais com a visão dos 144 mil, que têm o nome o Criador no descanso do sétimo dia. Gre-
atenção ao contexto bíblico. A proposta de ­Cristo e de “seu Pai” sobre sua “fron- gory Beale afirma: “A humanidade foi cria-
é ver o relato acerca da imagem da besta te” (14:1). No capítulo 13, a segunda bes- da no sexto dia, mas sem o sétimo dia de
e do número 666 (Ap 13:11-18) como parte ta impõe a “marca da besta”; a terceira descanso Adão e Eva estariam incomple-
de um contexto maior em que o capítu- mensagem no capítulo 14 adverte contra tos e imperfeitos.”6
lo 14 deve ser considerado, tanto quanto a “marca da besta”, numa clara continua- De fato, ao imaginarmos o sétimo dia
a primeira parte do 13. Ao mesmo tem- ção do tema. Além disso, é preciso notar da semana da criação, podemos atestar a
po, também se busca no contexto bíblico a conexão entre Apocalipse 13 e o Penta- imagem e semelhança entre Deus e o ho-
as referências dessa visão de João. Nesse teuco. O capítulo 13 diz que a terra e seus mem à luz do tema do descanso. Toda a na-
sentido, a pergunta é: Quais textos das habitantes “adoram” a besta e o dragão tureza seguia seu curso normal ao entrar
Escrituras se refletem nessa visão e como (v. 4, 8, 12, 15); já o 14 traz o apelo do pri- no sétimo dia. Contudo, Deus e o homem
nos ajudam a entender o que o apósto- meiro anjo para adorar o Criador que fez pararam a fim de descansar e contemplar.
lo tinha em mente com o número 666? o “céu, e a terra, e o mar”, numa alusão a A natureza é incapaz de parar e descansar
Gênesis 1 e 2 e Êxodo 20. Por fim, o ca- por que não foi criada à imagem de Deus.
Contexto no Apocalipse pítulo 13 usa as palavras “fôlego” (pneu- No entanto, com o pecado, as pessoas
O mais natural na interpretação da ima- ma) e “imagem” (eikon) para descrever a resistem a entrar no descanso divino, por
gem da besta é vê-la como uma aliada da ressurreição da besta, e nisso também faz causa de incredulidade e desobediência
primeira besta e do dragão, formando a alusão ao relato da criação, quando pneu- (Sl 95:11; Hb 3:11, 18, 19). Nesse caso, aque-
trindade do mal. Esses símbolos represen- ma (fôlego de vida) é assoprado para fazer les que se recusam a entrar no sétimo dia
tam inimigos do povo da aliança, os quais o Adão à “imagem” e “semelhança” de Deus do descanso de Deus indicam, com isso,
perseguem em diferentes fases da histó- (Gn 2:7; 1:27, 31). Assim, as visões de Apo- que não se consideram parte da imagem
ria. No tempo de Cristo, o império romano calipse 13 e 14 estão interligadas e fazem divina, mas parte da natureza, que não al-
era o poder opressor dos judeus, e foi pela referência ao relato da criação em Gêne- tera seu ritmo ao entrar no sábado. O au-
mão de soldados romanos que C ­ risto foi sis 1 e 2 e a Êxodo 20. tor de Hebreus usa o tema do descanso
crucificado (cf. Ap 12:4; 2:9-10, 13). Durante Com essa intertextualidade entre ­sabático em referência ao santuário. Mas
a Idade Média, os cristãos foram persegui- Apocalipse 13 e 14 e Gênesis 1 e 2 encon- o que é o s­ ábado senão um santuário, em
dos por 1.260 anos por uma entidade re- tramos uma importante pista para a in- que se entra ou se deixa de entrar? Que
presentada nesses mesmos símbolos (12:6, terpretação do significado do número da a entrada no descanso divino aproxima
14; 13:5, 7). E no tempo do fim são previstas besta, que é dito ser “número de homem” o homem do Criador é bem atestado pelo
intolerância e perseguição por parte des- (Ap 13:18). O contraste entre o “número autor de Hebreus: “Porque aquele que
ses poderes e seus aliados (12:17; 13:11-18). de homem” (13:18) e o “selo de Deus” (7:2; entrou no descanso de Deus, também
No entanto, se nos detivermos em 14:1) também retoma a criação, quando ele mesmo descansou de suas obras, como
Apocalipse 12 e 13 para tratar dos símbo- o Deus criador e o homem criatura es- Deus das Suas” (Hb 4:10).
los ali descritos, poderemos ter apenas um tão juntos no dia de sábado (Gn 2:1-3; Seguindo esse raciocínio, podemos di-
contexto parcial das visões e enfrentare- Êx 20:8-11). Jacques Doukhan diz que a zer que, na semana da criação, avançar do
mos dificuldades ao lidar com o núme- tradição bíblica associa o número seis ao sexto dia (o dia do homem) para o descan-
ro 666. Diante dos desafios, a tendência homem desde sua criação, no sexto dia, so do sétimo dia (o dia de Deus) é aceitar
é isolar o símbolo de seu contexto e ir e que isso está implicado na frase “núme- que fomos criados à imagem divina e que
para fora do texto bíblico em busca de ro de homem” (Ap 13:18).5 não viemos à existência por nós mesmos.

JAN-FEV • 2019 | 17
A incredulidade referida em Hebreus con- A marca e o selo (Ap 13:17, NVI). Essa tradução se ajusta me-
siste em não aceitar nossa origem divina João afirma que o selo divino é colo- lhor ao contexto, ao indicar que a “marca” é
por não entrar no descanso, referido com a cado sobre os “servos do nosso Deus” uma forma de identificar aqueles que têm
linguagem do sábado. No entanto, quando (Ap 7:3; 14:1). A palavra “selo” nesses ver- desenvolvido em si mesmos o “nome” ou
o homem entra no descanso de Deus, ele sículos traduz o termo grego sphragis, o o “número” da besta. “Nome” e “número”
se identifica com o Criador e deixa de ser qual indica um meio ou instrumento de são indicativos do caráter dessas pessoas
parte da natureza para ser parte do ­círculo “autenticação”, “certificação”, “confirma- em sua associação com o dragão e a bes-
da divindade, como criatura que reflete a ção” e “reconhecimento”.8 Nesse caso, o ta, inimigos de Deus, os quais não aceitam
“imagem” e “semelhança” de Deus, atin- selo não é algo imposto, mas apenas uma sua origem como criação divina.
gindo a plenitude. forma de confirmar e certificar algo que é A palavra grega usada para “marca” é
Nessa linha de pensamento, João pode intrínseco, próprio do caráter e da escolha káragma, que indica “marca ou carimbo
ter empregado o número seis no Apoca- individual. Os servos de Deus já são servos feito por gravura, impressão, marcação”,
lipse como uma referência ao dia da cria- antes do selo (Ap 7:3). Eles têm feito sua em geral para marcar animais e escra-
ção do homem, mas fazendo menção opção de servir ao Senhor e de ­adorá-Lo vos.10 Enquanto o selo é uma autenticação
ao homem que resiste a entrar no des- como Criador. Por isso têm o “selo” ou o de algo voluntariamente aceito, a marca
canso de Deus, permanecendo assim na “nome” divino em sua fronte (7:3; 14:1). é algo imposto como resultado de con-
incompletude. O selo é algo que pode ser visto; é eviden- formidade ou submissão. Assim, no con-
texto de Apocalipse 13 e 14, os
“selados” são aqueles que as-
sumem sua origem como “ima-
gem” de Deus porque entram
O 666 aponta não a uma entidade única, em Seu descanso e, assim fa-
zendo, O adoram como Cria-
mas a uma atitude de incredulidade e rebeldia dor (Ap 14:7). Os “marcados”
são aqueles que não assumem
compartilhada pelo dragão, a besta, o falso nem cultivam sua semelhança
com Deus e, assim fazendo, não

profeta e por todos aqueles que não recebem O reconhecem nem O adoram
como Criador.

o selo de Deus. O espírito do


anticristo
A resistência em adorar o
Criador corresponde, portan-
A ideia de incompletude referida pelo ciado na atitude dos servos de Deus em to, a resistir em avançar da condição hu-
número seis no Apocalipse é bem clara. No entrar no descanso divino no sétimo dia. mana de número seis e ascender para o
sexto selo, sexta trombeta e sexta praga, Por outro lado, o restante da humanida- sete da perfeição. No entanto, a resistência
o plano da salvação não está completado, de, que não adora o Criador nem proclama a ser criatura divina e a entrar no descan-
e só se consuma quando se avança para a si mesmo como parte da criação à ima- so de Deus não é uma atitude final. Aque-
o sétimo elemento. O “silêncio” do sexto gem e semelhança divina, recebe a “marca les que não admitem sua filiação com Deus
selo (Ap 8:1), as “grandes vozes” celestiais da besta” (Ap 13:17). A maioria das versões vão necessariamente tentar ocupar o lu-
da sétima trombeta (11:15) e o “está fei- bíblicas traduz esse texto indicando que gar de Deus, no sentido de substituí-Lo.
to” da sétima praga (16:17) indicam o esta- as pessoas recebem “a marca, o nome da Com isso, assumem o espírito do anticris-
do de plenitude a que chega a obra divina besta ou o número do seu nome” como se to, desejando colocar-se em lugar de Deus.
quando se avança do sexto para o sétimo fossem três coisas semelhantes. No entan- Sendo uma Trindade perfeita, Deus
elemento. “O sétimo em cada série no Apo- to, o chamado Códex Alexandrino traz ou- pode ser designado com a repetição trípli-
calipse retrata a consumação do reino de tra leitura.9 Literalmente, essa versão diz ce do sete. Por outro lado, a trindade satâ-
Cristo. Cada série é incompleta sem o sé- que as pessoas recebem “a marca, que é o nica (dragão, besta e falso profeta), sendo
timo elemento.”7 nome da besta ou o número do seu nome” uma imperfeita contrafação da D ­ ivindade,

18 | JAN-FEV • 2019
seria designada com a repetição ­tríplice do a Deus, no sentido de estar no lugar Dele, a plenitude do sete (o número divino). En-
seis, o que indica uma intensificação da daí o pretenso título de “substituto do trar no descanso de Deus é assumir nossa
incompletude.11 ­Filho de Deus”. Por isso, a respeito dela identidade como filhos criados à imagem
Nesse caso, o número 666 pode indicar se indaga: “Quem é semelhante à besta?” e semelhança divina. Todos aqueles que
a tentativa repetida e frustrada por parte (Ap 13:4), como se ela fosse superior a to- ­cultivam essa identidade recebem o selo
do diabo, da besta e do falso profeta em ser dos, incluindo Deus. Quando João diz que do Deus vivo, preparando-se para estar
como o Deus perfeito, associado no Apo- os ímpios têm a “marca” da besta, está di- com o Cordeiro sobre o monte Sião.
calipse ao número sete. Essa mesma ten- zendo que eles têm o mesmo caráter dela,
tativa é seguida por todos aqueles que não ou seja, compartilham com ela e com o dra- Referências

admitem sua origem divina. Por isso, eles gão o desejo de querer ocupar o lugar de
1
 anko Stefanovic, Revelation of Jesus Christ:
R
Commentary on the book of Revelation (Berrien
têm o “nome” ou o “número” da besta. As- Deus, tentando ser “semelhantes” a Ele, Springs, MI: Andrews University Press, 2009), p. 425.
sim, o número 666 pode ser visto como a no sentido de concorrência e substituição. A aplicação do número 666 ao alegado título papal
“Vicarius Filii Dei” foi originalmente proposta por
“acumulação ou repetição tríplice do nú- Nessa linha, Beatrice S. Neall afirma que Andreas Helwig (1572-1643), em sua obra Antichristus
mero seis”, da recusa insistente em assumir “o número 666 representa a recusa huma- Romanus, publicada em 1602.
a própria identidade como imagem divina.12 na de ascender para o sete, de dar glória a 2
 er Robert O. Smith, More Desired than Our Owne
V
O dragão, a antiga serpente, foi o pri- Deus como Criador e Redentor”. Ele “re- Salvation: The roots of Christian zionism (Nova
York: Oxford University Press, 2013), p. xxxv;
meiro a fazer essa investida. Ele recusou presenta o homem exercendo a soberania Carl P. E. Springer, Luther’s Aesop (Kirksville, MO:
a se submeter a Deus como parte de Sua em lugar de Deus, o homem conformado Truman State University Press, 2011), p. 168. Antony
C. Thiselton, 1 and 2 Thessalonians Through the
criação e não O glorificou como Senhor. Em à imagem da besta em lugar da imagem Centuries (Malden, MA: Wiley-Blackwell, 2011),
seguida, desejou ocupar o lugar de Deus: de Deus.”13 e-book.
“Eu subirei ao Céu; acima das estrelas de 3
Timothy Friberg, Barbara Friberg e Neva F. Miller,
Deus exaltarei o meu trono e no monte Conclusão Analytical Lexicon of the Greek New Testament
(Victoria, British Columbia: Trafford Publishing,
da congregação me assentarei, nas ex- O nome e o número da besta, portanto, 2005).
tremidades do Norte; subirei acima das não são exclusivos dela. Ela os obteve ao se 4
Ver Beatrice S. Neall, The Concept of Character in
mais altas nuvens e serei semelhante ao identificar com o próprio Satanás em sua the Apocalypse with Implications for Character
Education (Washington, DC: University Press of
Altíssimo” (Is 14:13, 14). “Semelhança” aqui campanha de tentar ser semelhante a Deus. America, 1983); G. K. Beale, The Book of Revelation
não indica afinidade, mas concorrência A finalidade da besta é impor esse “nome” e (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2013); e Craig R.
Koester, Revelation (New Haven: Yale University
e substituição. Lúcifer queria assentar-se “número” a toda humanidade. O dragão le-
Press, 2014).
no santuário celestial, em lugar de Deus. vou Eva a desejar ser “semelhante” a Deus, 5
Jacques Doukhan, Secrets of Revelation: The
Na sequência, ele disse a Eva: “Você será no sentido de concorrência e substituição. Apocalypse through Hebrew eyes (Hagerstown, MD:
como Deus” (Gn 3:5), levando-a a imitá-lo Ao partilhar da investida do dragão, a pri- Review and Herald, 2002), p. 118.

em sua ofensiva fracassada. meira mulher perdeu sua identidade com o


6
Beale, The Book of Revelation, p. 724.

Quando ergueu a estátua de ouro Criador e se tornou a primeira pessoa a de-


7
Ibid., p. 722.

com 60 côvados de altura e seis de largura monstrar um caráter associado ao nome e


8
Friberg, Analytical Lexicon of the Greek New
Testament.
(­Dn 3:1), Nabucodonosor estava empreen- ao número da besta. Contudo, depois teve
9
Cf. Stefanovic, Revelation of Jesus Christ, p. 425.
dendo a mesma tentativa de ocupar o lu- a oportunidade de se arrepender.
10
 riberg, Analytical Lexicon of the Greek New
F
gar de Deus. O Senhor havia revelado que O 666, nessa perspectiva, aponta não Testament.
a cabeça de ouro da estátua do sonho re- a uma entidade única, mas a uma atitude 11
Beale, The Book of Revelation, p. 722.
presentava Babilônia em sua fase na histó- de incredulidade e rebeldia compartilhada 12
 lan F. Johnson, Revelation (Grand Rapids, MI:
A
ria (Dn 2:38, 39), e que por fim viria o reino de pelo dragão, a besta, o falso profeta e por Zondervan, 1981), p. 535.
Deus (Dn 2:44). Entretanto, com uma está- todos aqueles que não recebem o selo de 13
Neall, The Concept of Character in the Apocalypse,
tua toda de ouro, o rei quis indicar que seu Deus, por não entrarem em seu descanso,
reino cobriria toda a história e não permitiria com todas as implicações nisso envolvidas.
Vanderlei Dorneles,
a chegada do reino de Deus. Nisso, ele exibia A suprema realização do ser humano doutor em Comunicação,
o mesmo espírito ou “nome” do anticristo. não consiste em negar o Criador e tentar é coordenador de pós-
Gentileza do autor

graduação na Faculdade de
A besta, ao imitar o dragão, faz a mes- substituí-Lo, mas em avançar da condição Teologia do Unasp, EC
ma investida. Ela pretende ser semelhante do número seis (número de homem) para

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JAN-FEV • 2019 | 19
PREGAÇÃO

Jornada completa

Um sermão sem apelo eficaz é


semelhante a uma viagem que
não alcança seu destino

Willie E. Hucks II

denisismagilov / Adobe Stock

20 | JAN-FEV • 2019
“E speramos fazer um voo rápido, de
apenas vinte e três minutos,
de Chicago a South Bend. Estare-
o check-in. Essa informação abriu o cami-
nho para que eu pudesse dar os primeiros
passos em minha jornada de volta. Para
A conclusão de um sermão se asseme-
lha à descida gradual e aterrissagem de um
avião. A maior parte da jornada fica para
mos lá em breve.” O copiloto disse as pala- alguns, o título do sermão tem a mesma trás, e chega a hora de tocar terra firme no-
vras que eu esperava ouvir. Acomodei-me função.1 Ele indica a direção inicial que o vamente. Assim como foi na decolagem, o
no assento, apertei o cinto de segurança pregador, iluminado pelo Espírito Santo, pouso deve ser seguro e suave. Qualquer
e mandei uma mensagem para minha es- deseja que os ouvintes percorram. imprevisto nesse momento causa inquie-
posa, dizendo que estava tudo bem e que Depois do check-in, os passageiros em- tação. Os passageiros costumam guardar
eu a encontraria na esteira de bagagens. barcam e se preparam para partir. Então seus maiores elogios para os pilotos que
Logo depois, o pequeno jato rugiu pela a aeronave taxia na pista, decola e gra- executam aterrissagens tranquilas.
pista antes de subir rapidamente, alcançando dualmente atinge a altitude de cruzeiro, a Aqueles que nos ouvem não esperam
sua altitude de cruzeiro sobre o Lago Michi- parte principal do voo, que leva os passa- que o sermão experimente um “pouso for-
gan, descendo sobre sua costa leste e pou- geiros do ponto A ao ponto B. De modo çado”. Eles querem sentir que nós, como
sando em uma das duas pistas do pequeno similar, a introdução do sermão atua da pregadores, sabemos quando chegou o
aeroporto de South Bend. Eu estava eufó- mesma forma. Assim como nenhum avião momento de diminuir gradualmente a “al-
rico porque, embora tivesse sido uma curta se afasta do portão e instantaneamente titude” e aterrissar com sucesso. Mesmo
viagem ao Texas para visitar meus pais, logo alcança a altitude de cruzeiro, a introdu- que o sermão tenha estado à beira do de-
encontraria minha esposa e iria para casa. ção deve ser bem planejada e executada, sastre, ninguém almeja um pouso forçado.
Sentado próximo à saída, rapidamen- a fim de levar os ouvintes para aquela que Os ouvintes ainda desejam alguma forma
te soltei o cinto de segurança, peguei mi- é considerada a parte principal do sermão, de notificação de que seu “voo” sermôni-
nha mochila e esperei que a aeromoça nos o corpo. co terminará em breve.
desse permissão para desembarcar. E foi aí O corpo do sermão pode ser comparado
que veio a frustração. Cansado de ficar em à porção do voo que ocorre na ­altitude de Chegada ao destino
pé, sentei-me e esperei – e muito! A ponte cruzeiro, o momento da jornada que re- De fato, uma viagem só é bem-sucedida
de embarque teve um problema e foi pre- cebe mais atenção. Nas viagens de longa quando todos os passageiros podem
ciso chamar um mecânico para descobrir distância, os passageiros gastam muito de desembarcar com segurança. A entrega de
o que estava causando seu mau funcio- suas energias durante essa fase, comen- um sermão funciona da mesma forma. Ele
namento e consertá-la. do, lendo, dormindo ou se distraindo. Simi- não termina até que os “passageiros” possam
Imagine a cena: eu estava próximo à saí- larmente, os pregadores tradicionalmente chegar ao seu destino. Se a congregação não
da, tão perto do desembarque, vendo mi- dedicam grande quantidade de tempo es- tiver a oportunidade de tomar uma decisão
nha esposa, ansioso para chegar em casa. tudando e se preparando para essa parte como resultado do sermão, o pregador fa-
Mas eu não podia fazer nada… do sermão. A lógica que impulsiona esses lhou em sua tarefa. Ninguém deveria encer-
esforços está na ideia de que a dissemina- rar um sermão sem fazer um apelo, assim
Sobre sermões e viagens ção de informação equivale à h ­ omilética como um piloto jamais deveria terminar um
Pregar um sermão se ­assemelha a uma capaz. No entanto, o corpo do sermão voo sem conduzir seus passageiros ao portão
viagem aérea de várias maneiras. Os ele- deve ser visto como uma das várias peças de desembarque no aeroporto de destino.
mentos da experiência de voo podem ser do quebra-cabeça homilético. Um dos maiores desafios para os prega-
comparados aos elementos de um ser- dores é fazer apelos eficazes. Existem mui-
mão: desde a chegada ao aeroporto para Hora de descer tas razões pelas quais eles lutam com essa
o embarque até a saída do aeroporto no Muito antes de um membro da tripu- parte do sermão. Alguns desconfiam de
desembarque. lação anunciar a descida da aeronave, os sua capacidade de persuasão ou até mes-
Após o término de uma disciplina que mi- viajantes frequentes reconhecem intui- mo de sua preparação.2 Outros temem a
nistrei no exterior, meu anfitrião me deixou tivamente que estão se aproximando da indiferença do público e o constrangimen-
no aeroporto a fim de retornar para casa. aterrissagem. Especialmente se for um voo to, considerando a rejeição uma afronta
A partir daquele momento, eu estava sozi- longo, eles sabem quanto tempo têm an- pessoal. Há também aqueles que acredi-
nho para me localizar naqueles movimen- tes de precisar guardar o laptop ou usar o tam ser uma atitude invasiva pedir às pes-
tados corredores. Então parei em frente banheiro pela última vez. Nessa fase, os soas que tomem uma decisão.
a um enorme painel eletrônico, tentan- passageiros têm alguns minutos para se Pregadores, no entanto, têm permissão
do descobrir aonde precisava ir para fazer prepararem para um pouso bem-sucedido. para invadir o espaço pessoal do ouvinte.

JAN-FEV • 2019 | 21
Essa autorização é inerente ao chamado Por exemplo, se o sermão for sobre traba- ao lado dos portões e saí da área de segu-
para ocupar o púlpito e à escolha do ou- lho missionário, a pessoa pode refletir sobre rança. Tudo que eu precisava era do acesso
vinte em estar na igreja. Nossa abordagem sua falta de contato com os outros e então ao terminal do aeroporto, para que pudes-
para o coração das pessoas deve ser direta, decidir: “Eu me comprometerei a ser usado se finalmente me encontrar com minha
objetiva e incontestável. Haddon Robinson por Deus para compartilhar minha fé.” Se for amada esposa.
afirmou: “Como um advogado capaz, um a respeito de servir a comunidade, o ouvin- Pregadores do evangelho devem ter a
ministro pede um veredito. Sua congrega- te pode refletir sobre sua vida acomodada mesma abordagem quando fazem apelos.
ção deveria ver sua ideia inteira, completa, e então decidir: “Vou aprender mais sobre Nós nos colocamos entre Deus e o povo,
e conhecer e sentir o que a verdade divina as necessidades da minha comunidade.” Se falando com intencionalidade e determi-
demanda de cada um.”3 Essa abordagem a mensagem for acerca de estreitar a co- nação, desejando que os ouvintes deixem
pede três componentes em cada apelo: re- munhão com Deus, a pessoa pode decidir Jesus entrar, porque Ele está à porta do
flexão, decisão e ação. dar ao Senhor permissão para renová-la e coração e bate (Ap 3:20). Cristo não quer
Reflexão. A reflexão envolve a escuta restaurá-la. Cada ouvinte toma sua deci- nada menos do que Se encontrar com Sua
crítica que, por sua vez, leva à interpreta- são dependendo de onde se encontra em amada noiva!
ção da mensagem, julgando seus pon- sua jornada. Você hesita em fazer apelos? Tem medo
tos fortes e fracos e lhe atribuindo valor.4 Ação. Refletir e decidir são passos im- de que as pessoas ignorem o que você tem
Atribuir valor durante o processo de ape- portantes. No entanto, se um plano de ação a lhes dizer? E se você e eu, em vez disso,
lo exige que os ouvintes perguntem a si não for estabelecido, o pathos do momento confiarmos na obra que o Espírito Santo
mesmos: “O que esse sermão disse?” “Por é perdido assim que a bênção é pronuncia- faz no coração de nossos ouvintes? Seja
que isso é importante?” “O que devo fa- da e a congregação começa a se encon- corajoso, apele no espírito e poder de Elias
zer como resultado dessa mensagem?” A trar à saída do templo. O pregador deve (Lc 1:17) e veja o que Deus fará por meio de
reflexão exige que os ouvintes interajam criar um clima durante o apelo de tal modo Seus humildes vasos de barro!
com o pregador e suas perguntas, bem que motive os ouvintes a fazer algo de
Referências
como com o Espírito Santo que, durante concreto sobre o que refletiram e decidi-
o sermão, falou de maneira diferente para ram. Uma abordagem é limitada quando se 1
 uitos especialistas em homilética têm
M
tradicionalmente definido as partes do sermão como
cada pessoa da congregação. concentra no aspecto informacional sem
introdução, corpo, conclusão e apelo. Eu incorporo
A abordagem do pregador é crítica nes- gerar um resultado transformacional, que um quinto elemento, o título, logo no começo. Ele
se processo. Muitos oradores querem usar se revela em um estilo de vida renovado e provê um elemento crítico que liga os ouvintes aos
outros componentes vitais do sermão.
seus apelos para instruir os ouvintes sobre cheio do Espírito.
2
 o usar a palavra persuasão, utilizo-a no contexto de
A
o que devem pensar e como devem res- Em outras palavras, um pregador que empregar o pathos. Quando utilizo o termo pathos,
ponder. Essa abordagem inibe a capaci- omite um dos três elementos do apelo se refiro-me ao reconhecimento de que os seres
humanos foram criados como entes emocionais.
dade das pessoas de refletir sobre como o assemelha a um comandante que pousa
Nesse caso, não falo de apelar para ou com o
Espírito Santo deseja que elas respondam. uma aeronave e taxia até o portão, mas emocionalismo.
Uma abordagem preferível seria envol- deixa de abrir a porta para a ponte de 3
 addon W. Robinson, Biblical Preaching: The
H
ver os ouvintes em uma série de perguntas embarque, impedindo que os passageiros development and delivery of expository messages
(Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2001), p. 176.
que os levem a olhar introspectivamen- saiam e se encaminhem a seus destinos. 4
 ara mais explicações, ver Bruce E. Gronbeck et
P
te para onde estão e para onde precisam Assim como cada viajante determina como al., Principles and Types of Speech Communication
ir. Tal procedimento cria o ambiente para continuará sua jornada, as pessoas na igre- (Nova York: Addison-Wesley Educacional Publishers,
1997), p. 35; Willie Edward Hucks II, “A preaching
que cada pessoa chegue ao destino que o ja devem criar um plano que indique como program to instill social consciousness in African-
­Espírito Santo lhe designa individualmente. elas chegarão ao lugar em que o Espírito American churches in Dallas/Fort Worth, Texas” (tese
de doutorado, Seminário Teológico Adventista do
Decisão. Quando os ouvintes refletem Santo deseja que elas estejam.
Sétimo Dia, Universidade Andrews, 2005), p. 105-107.
e se perguntam o que devem fazer como
resultado dos questionamentos coloca- Conclusão Willie E. Hucks II, doutor
dos diante deles durante a parte inicial do Após algum tempo, a comissária de ­bordo em Ministério, é diretor do
apelo, são obrigados a dar o próximo pas- do avião que nos levou de Chicago a South departamento de Ministério
Gentileza do autor

Cristão no Seminário
so. Esse passo é fundamentado na natu- Bend nos deu permissão para desembar- Teológico da Universidade
reza do sermão. car. Resoluto, atravessei o longo corredor Andrews

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22 | JAN-FEV • 2019
MKT CPB | Fotolia

Dois livros indispensáveis na biblioteca de pastores


e líderes cristãos. Como Preparar e Apresentar
Sermões trata dos aspectos espirituais da
pregação, e também da forma e das técnicas que
devem ser empregadas em seu preparo e exposição.
O Poder da Pregação Bíblica revela dicas de
renomados pregadores contemporâneos acerca de
como expor a Palavra de Deus com autoridade.

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ESPIRITUALIDADE

Ministério de poder
Os elementos fundamentais para vivenciar um pastorado com propósito

Ron Clouzet

S
er pastor significa amar os outros Ainda assim, eu achava que Deus esti- O propósito do ministério
mais do que a si mesmo. Mas esse vesse operando fielmente quando eu vi- Percebi que o ministério pastoral deve
era meu problema: eu não amava os sitava pessoas, dava estudos bíblicos e ter como prioridade levar a salvação aos
outros mais do que a mim mesmo. Dois dos pregava. perdidos, e não somente cuidar dos “san-
meus tios eram pastores. Um deles era eru- Quando eu estava na faculdade de tos”. A tarefa principal do ministro deve ser
dito e abnegado, o outro era um líder ama- Teologia, tive dúvidas se iria me qualificar a de ensinar os membros a enxergar o que
do na igreja por seu espírito cristão. Quanto como pastor. Durante o curso, fiz estágio Deus vê quando olha para o mundo perdi-
a mim, não era como nenhum deles. Pre- em uma igreja local. Eu não conseguia en- do. Meu foco no ministério mudou da ma-
feria impor minhas opiniões e defendê-las tender por que as pessoas se sentiam be- nutenção dos membros para a salvação
de maneira egocêntrica. Detestava a ideia de neficiadas com meu ministério, mas admito das pessoas. Afinal, cada cristão deve se
concordar com as pessoas apenas para ser que fui o mais abençoado ao praticar o pas- tornar um discípulo do Mestre para a sal-
bem visto por elas. Eu queria servir, mas torado entre elas. Semanas antes de minha vação dos pecadores.
preferia servir a meu modo. formatura, recebi dois chamados para tra- Minha vida espiritual começou a ter mais
Mesmo assim, eu não conseguia afas- balhar como pastor. sede de Cristo. Minhas igrejas começaram a
tar o pensamento de que deveria consi- Depois de dois anos trabalhando crescer. Pude entender por que no final do
derar seriamente a possibilidade de me como pastor distrital, algumas dúvidas Seu ministério, o foco de Jesus foi a Grande
tornar pastor. Alguns dos meus amigos ainda persistiam. Eu estava progredindo, Comissão (Mt 28:18-20). Ele queria que Seus
haviam abraçado o ministério. Eles o mas sentia que já devia estar mais convic- seguidores vissem a necessidade que o
realizavam de modo gentil e paciente, to da minha vocação. Após passar quatro mundo tem de um Salvador.
mesmo quando enfrentavam situações meses em um treinamento evangelístico
desanimadoras. Eu era um franco atira- em Chicago, as cortinas da minha men- O poder da oração
dor. Valorizava eficiência e justiça aci- te se abriram, e a luz da sabedoria divi- Separei grande parte do meu tempo para
ma da misericórdia e correção com amor. na entrou. estudar a Palavra de Deus c­ om interessados.

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Alegrava-me cada vez que via o brilho em dos perdidos, oprimidos e desesperançados pode usar. Davi cometeu sérios erros, mas
seus olhos quando percebiam alguma ver- deste mundo. Vidas importavam, e isso nos Deus nunca Se cansou de “exaltar” Seu
dade maravilhosa na Bíblia que se aplicava motivou, a cada manhã, a entrar na presen- servo, “um homem segundo o Seu cora-
à vida deles. Na igreja, organizamos minis- ça do ­Senhor e de Seu trono de graça para ção” (At 13:22).
térios para alcançar mais eficientemente as pedir em favor delas (Hb 4:16). Como George Müller, descobri que o se-
pessoas. Fazíamos visitas de porta em por- A igreja cresceu a exemplo de como ­Paulo gredo da oração de poder é a comunhão
ta para orar pelos moradores. Nossos jo- ouviu falar dos efésios: espiritual e numeri- íntima com a Palavra de Deus. Ele escre-
vens ficaram animados com um Deus que camente (Ef 4:11-16). Os fins de semana de veu: “O principal negócio a que devo prestar
havia Se tornado real para eles. jejum e oração eram realizados duas vezes atenção todos os dias é ter comunhão com o
Certa manhã, percebi que não sabia por ano, e tínhamos até 800 participantes, Senhor. A primeira preocupação não é quan-
orar. Minhas orações eram imaturas, au- quando a igreja tinha apenas 400 membros. to eu posso servir ao Senhor, mas como meu
tocentradas, superficiais e distantes de A transformação da vida se tornou o desejo homem interior pode ser nutrido. […]
um diálogo íntimo com o T ­ odo-Poderoso. objetivo de cada um. Vários ministérios fo- “A coisa mais importante que tive que
Então, anunciei para a igreja que teríamos ram estabelecidos para beneficiar a comu- fazer foi ler a Palavra e meditar nela. As-
uma série de sermões sobre a oração. nidade. A maioria dos membros ajudava em sim, meu coração pôde ser consolado, en-
Aprendi que os dois maiores problemas algum deles. Deus nos concedeu o privilégio corajado, advertido, reprovado e instruído.
na oração são a negligência e a falta de fé. No de batizar 194 pessoas! “Antigamente, quando eu me levanta-
fim da série, a igreja acordou, e eu também. va, orava o mais breve possível. Muitas ve-
Convidei os anciãos para juntos orarmos na O poder do ministério zes, eu passava de quinze minutos a uma
igreja, às segundas-feiras, das cinco às sete O que aconteceu com o jovem pastor hora ajoelhado, lutando para orar enquan-
da manhã. Os diáconos e as diaconisas qui- cheio de dúvidas sobre o ministério? Ele to minha mente vagava. Agora raramente
seram juntar-se ao grupo. Depois, adicio- desapareceu! Após vários anos trabalhan- tenho esse problema. Quando meu coração
namos a essa jornada as manhãs de sexta, do como pastor distrital, fui convidado a é nutrido pela verdade da Palavra, sou le-
sábado e domingo. Os membros que dese- ensinar pastores. Fiz isso durante 23 anos vado à verdadeira comunhão com Deus. […]
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javam também se uniram ao grupo. Então, maravilhosos. O pastor que Deus pode “Como o homem exterior não está
incluímos os três dias restantes da semana. usar não é aquele que sobressai em tudo preparado para o trabalho por qualquer
E foi assim que uma igreja “laodiceana” se nem aquele que acha que consegue man- ­período de tempo a menos que ele coma,
tornou uma igreja de oração. Não fizemos ter todos ao seu redor. O pastor que con- assim é com o homem interior. Qual é a
isso em favor de nós mesmos, mas pelo bem tinua crescendo é aquele a quem o S­ enhor comida do homem interior? Não a oração,

JAN-FEV • 2019 | 25
mas a Palavra de Deus, não a simples leitura existe a respeito Dele que não somos capa- rosto Dele. Sei que Ele continua me aman-
da Palavra de Deus. […] Devemos considerar zes de perceber. Parafraseando o salmista: do, porque Ele é amor (1Jo 4:8). O Senhor
o que lemos, refletir sobre isso. […] Quando considero Seu caráter e Sua natu- irá terminar a obra que Ele começou em
“Por meio de Sua Palavra, nosso Pai reza misericordiosa, as maravilhas que Ele mim (Fp 1:6), não conforme o que eu me-
fala conosco. […] Quanto mais fracos so- coloca à nossa disposição, “que é o homem, reço, mas porque Ele prometeu.
mos, mais estudo da Bíblia e meditação para que Te lembres dele? E o filho do ho- O livro de Hebreus foi escrito por ­Paulo,
precisamos.”1 mem, para que o visites?” (Sl 8:4). um pastor, teólogo e missionário bem ins-
Reivindicando Isaías 50:4 e 5, tenho Deus é tudo de que precisamos. Sem truído. No capítulo 11, encontramos o tão
acordado todas as manhãs quando Deus Ele não somos nem podemos fazer nada conhecido hall da fama dos heróis da fé.
me chama para me encontrar com Ele. (Jo 15:5). Há pouco tempo, visitei uma se- Pela fé, Abel obedeceu a Deus; pela fé, Eno-
Isso tem acontecido na maioria dos dias nhora em grande angústia. Com a ajuda que andou com Deus; pela fé, Noé prepa-
nos últimos 30 anos. Lembro-me de cer- de um tradutor, durante duas horas, eu rou a arca, e assim por diante. Pela fé, a
ta madrugada, sentado perto de um lago a ouvi contar sobre seus problemas e me prostituta Raabe, por ter acolhido os es-
em Nevada, em que o resplendor da Lua compadeci de seu sofrimento. O ambiente piões, não foi morta. O capítulo termina
cheia era tão forte que eu podia ler a B
­ íblia era sombrio, parecia que uma nuvem es- com essas palavras: “Portanto, também
sem o auxílio de outra luz. Lembro-me cura havia parado sobre a casa dela. Mas, nós, uma vez que estamos rodeados
da alegria e emoção de estar com o Senhor, ao abrir a Palavra de Deus e falar de Suas por tão grande nuvem de testemunhas,
de caminhar com o Criador como se nada promessas, o ambiente se transformou. ­livremo-nos de tudo o que nos atrapalha
mais no Universo realmente importasse. Aquela senhora atribulada e sem esperan- e do pecado que nos envolve, e corramos
Também me lembro de quando li o ­livro ça entendeu que acima das nuvens escuras com perseverança a corrida que nos é pro-
mais inspirador sobre a vida de Cristo fora há um lindo céu azul onde o sol continua posta, tendo os olhos fitos em Jesus, Autor
dos evangelhos, O Desejado de Todas as brilhando. “Fale de fé e você terá fé.”4 Quin- e Consumador da nossa fé” (Hb 12:1, 2, NVI).
Nações. Ao lê-lo, eu literalmente fui toca- ze minutos refletindo nas Escrituras muda- Entre os heróis da fé, encontramos al-
do pelo imenso amor e pela imerecida gra- ram duas horas de tristeza e escuridão. O guns que também experimentaram dú-
ça de um Salvador que por mim Se dispôs tradutor ficou impressionado com a trans- vidas em sua caminhada com o Senhor.
a ser pregado na cruz.2 Anos mais tarde, formação que viu. Contudo, eles continuaram olhando com
relacionei esse fato com a experiência de Ser egoísta ou cometer pecados recor- esperança para cima. Eles escolheram con-
conversão de Charles Finney, quando li so- rentes é uma grande fraqueza. Contudo, fiar no que Deus pode fazer por Seus filhos.
bre as “ondas e ondas de amor líquido” que como cristãos, nosso maior defeito é a fal- Eu tenho feito a mesma escolha e desfru-
foram derramadas sobre sua alma por um ta de fé. Nos relatos dos evangelhos, des- tado do verdadeiro propósito e poder do
Deus que não desistiu dele.3 cobrimos que isso acontece com a maioria ministério.
Recentemente, enquanto caminhava das pessoas. No entanto, tudo o que C ­ risto
Referências
por ruas estreitas em Tóquio, supliquei ao quer de mim sou eu por inteiro. Tudo de
1
 eorge Müller, The Autobiography of George Müller
G
Senhor que atendesse meu pedido em fa- que Ele realmente gosta sou eu. Quando
(New Kensington, PA: Whitaker House, 1984), p. 139,
vor das pessoas com quem eu estava com- sou inteiramente Dele, sou transforma- 140.
partilhando o evangelho nas conferências do em um pescador de pessoas. Mas se 2
Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações
públicas. Para minha surpresa, a resposta vivo somente para mim, minha rede e meu (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), p. 755,
756.
veio na noite seguinte, quando fiz o apelo barco permanecem cheios de buracos.
3
Charles G. Finney, The Autobiography of Charles G.
e um grande número delas aceitou a Cristo. Finney (Mineápolis, MN: Bethany House, 1977), p. 10.
Deus é bom. Deus é real. Ele é mais do Olhe para cima 4
 llen G. White, “The Light of the World”, The Signs of
E
que real. Quando vislumbramos Sua gran- Faz mais de 37 anos que iniciei meu mi- the Times, 20 de outubro de 1887.
deza e Seu amor feito sob medida para nistério. Ao longo desses anos trabalhei
cada um de nós, ficamos admirados. Silen- em diversas áreas. Ainda tenho dúvidas,
Ron Clouzet, doutor em
ciosamente, rasgamos nosso coração cheio mas elas são apenas sobre mim mesmo. Ministério, é secretário
de profunda gratidão por um Deus que Se Não mais tenho dúvidas sobre Deus nem ministerial para a Igreja
Adventista na região do
importa muito com cada um de Seus filhos. o que Ele é capaz de fazer. No entanto,
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Pacífico Norte-Asiático
Poderíamos nos perguntar quanto mais estranhamente, alguns dias escondo meu

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26 | JAN-FEV • 2019
FRASES

“Fé é dar o
“Enquanto Roma
primeiro passo, queimava, Nero
mesmo quando tocava música.
você não vê toda Assim são alguns
a escada.” pregadores que,
enquanto as pessoas
Martin Luther King
se perdem, continuam
“Sem o Calvário não haveria o falando coisas
Pentecostes, mas, sem o Pentecostes,
secundárias.”
o Calvário seria de pouco valor.”
LeRoy E. Froom
C. H. Spurgeon

“A vontade de
Deus não nos
levará aonde a
graça de Deus
não possa nos
sustentar.”
Billy Graham
“O padrão de sucesso

não é o aplauso ensurdecedor

da multidão, mas a fidelidade


“A Bíblia
Jordon Conner / Unsplash; Wikimedia Commons; Divulgação

nos foi dada


não para em cumprir a vontade de Deus.”
aumentar nosso
conhecimento, mas para
Clinton A. Valley
mudar nossa vida.”
Dwight L. Moody

JAN-FEV • 2019 | 27
IGREJA

Discipulado centrado
O equilíbrio da igreja apostólica no livro de Atos e sua aplicacão nos dias atuais

Lucas Alves e Wellington Barbosa

U
m olhar sobre o mundo e a postu- discipulado. Longe de opinar sobre todos Jesus ou doutrina?
ra das pessoas nos leva a constatar os aspectos dessa discussão, este texto Ao longo do tempo, algumas pessoas
um alto índice de polarização no ar. aborda alguns extremos observados nas têm situado a ênfase da pregação cristã
Questões políticas, sociais, econômicas ou áreas da pregação, do crescimento de igreja, em dois extremos. Por um lado, existem
ideológicas estão marcadas por um desta- evangelismo, foco de trabalho e ministério à aqueles que defendem a ideia de que se
cado espírito de ruptura, evidenciado pelo luz da experiência da comunidade apostóli- deve pregar somente sobre o relaciona-
discurso do nós contra eles. ca, conforme Lucas retrata no livro de Atos. mento com a pessoa de Jesus, tornando a
Essa característica de nosso tempo Acreditamos que a prática ­bem-sucedida experiência religiosa bastante subjetiva e
também tem influenciado a percepção da da igreja do primeiro século, que em pouco fluída. Por outro lado, alguns afirmam que
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vivência na igreja. De modo específico, este tempo transtornou o mundo (At 17:6), deve a pregação deve ser essencialmente dou-
artigo toca em algumas polarizações que nos inspirar a ser o que Deus deseja que se- trinária e apologética, a fim de fortalecer
surgiram no que diz respeito à prática do jamos como Seu povo escolhido. os crentes nos fundamentos da fé cristã.

28 | JAN-FEV • 2019
Ao observar a igreja apostólica, é no- Os primeiros enxergam o discipulado ape- Evangelismo pessoal
tório que ela mantinha o equilíbrio en- nas em termos de resultados numéricos e ou público?
tre esses dois pontos. No Pentecostes reduzem a avaliação do trabalho pasto- Nem mesmo a metodologia evangelís-
(At 2:14-36), o primeiro grande sermão ral à quantidade de pessoas batizadas em tica escapou dos debates que envolvem
de Pedro teve como argumento princi- determinado período. Os últimos afirmam o discipulado. Para alguns, o evangelismo
pal a pessoa de Jesus. Ele iniciou (v. 14) e que a qualidade está acima da quantidade pessoal é a melhor forma de compartilhar
concluiu (v. 36) sua mensagem destacan- e que mais importante do que o número a mensagem, abrindo mão de qualquer es-
do a messianidade de Cristo. Entretanto, de batizados é quantos membros perma- tratégia vinculada ao evangelismo público.
logo a seguir, ao descrever o modo de vida necem na igreja ao longo do tempo. Para outros, o evangelismo público está
dos primeiros cristãos, Lucas afirma que No livro de Atos essa disputa não se acima de todas as iniciativas pessoais.
eles “perseveravam na doutrina dos sustenta, pois quantidade e qualidade an- De fato, a polarização entre evangelis-
­apóstolos e na comunhão, no partir do pão davam lado a lado na igreja apostólica. Por mo público e pessoal é inexistente no Novo
e nas orações” (At 2:42). John Stott obser- diversas vezes Lucas menciona, em tom de Testamento. Em Atos, os cristãos procla-
va que “os novos convertidos não estavam alegria, como o número de discípulos se mavam a mensagem a grandes multidões
desfrutando de uma experiência mística expandia, à medida que a mensagem cris- (At 2:6; 14:1), mas também pessoalmente
que os levou a desprezar sua mente ou a tã alcançava novos territórios (por exem- (At 8:26-40) e nas casas (At 5:42; 20:20),
teologia. O anti-intelectualismo e a plenitu- plo, At 2:41; 4:4; 6:1, 7; 9:31; 11:24; 12:24; 16:5; ampliando as possibilidades de alcance do
de do Espírito são mutuamente incompatí- 17:12; 21:20). Esse crescimento numérico, evangelho.
veis, porque o Espírito Santo é o Espírito da contudo, não estava dissociado do cres- Russell Burrill destaca a importância de
verdade. Nem os primeiros discípulos ima- cimento espiritual dos novos convertidos. a igreja ser sensível à variedade de públi-
ginaram que, por terem recebido o E ­ spírito, Tanto o retrato de Atos 2:42 a 44 quanto cos e aberta à diversidade de métodos de
Ele seria o único Professor de que precisa- o de Atos 4:32 apontam para uma igreja alcance. Como especialista em crescimen-
vam, e podiam dispensar os mestres huma- sólida em seu relacionamento com Deus e to de igreja, ele sugere que as “igrejas ad-
nos. Ao contrário, sentavam-se aos pés dos com o próximo. ventistas que crescem reúnem uma mescla
apóstolos, famintos por receber instrução, Jay Gallimore, refletindo sobre o papel de estratégias bem-sucedidas que se ade-
e perseveravam nela”.1 dos números no trabalho pastoral, faz uma quam às suas congregações e aos seus es-
O discipulado cristão não deve alimen- afirmação relevante: “Ao avaliar o que está tilos de ministério”.5
tar o movimento pendular que ora enfatiza acontecendo em meu ministério, o núme- Esse conceito não é recente no adven-
o relacionamento com Cristo ora desta- ro de pessoas que frequentam a igreja e tismo. Em 1895, Ellen White foi enfática
ca a doutrina, mas apresentar Jesus por de batismos é muito importante. A ques- ao dizer: “Vocês devem fazer visitas de
meio da doutrina e a doutrina por meio tão nunca deve ser se devemos usar os nú- casa em casa, como fiéis administradores
de ­Jesus. Nesse sentido, Alberto R. Timm meros, mas como os usamos. Se eles forem da graça de Cristo. Enquanto trabalham,
alerta que “jamais deveríamos transformar dissociados do objetivo final, que é desen- delineiam e planejam, novos métodos se
o relacionamento com Cristo num substi- volver pessoas que sejam semelhantes a lhes apresentarão à mente a todo momen-
tuto às verdades bíblicas, nem enaltecer as Cristo, então distorcerão a visão.”3 to, e pelo uso aumentarão as capacidades
verdades bíblicas em detrimento do rela- Não podemos ignorar o fato de que, na de seu intelecto. […] Alguns podem traba-
cionamento com Ele”.2 Assim, uma postu- Bíblia, não existe qualidade estéril. ­Jesus lhar silenciosamente, despertando interes-
ra equilibrada, que apresenta Jesus e Sua afirmou na parábola do semeador que a ses, enquanto outros falam em público.”6
doutrina, é a salvaguarda contra a espi- semente que cai “em boa terra é o que O desafio que temos é muito grande, e
ritualidade abstrata que gera cristãos in- ouve a Palavra e a compreende; este fru- ­grande deve ser nossa capacidade de ar-
frutíferos e o legalismo doutrinário que tifica e produz a cem, a sessenta e a trin- ticular metodologias que, fundamentadas
produz cristãos insuportáveis. ta por um” (Mt 13:23). Ellen White lembra biblicamente, auxiliem no cumprimento da
ainda que “o ministro que ora, que pos- missão.
Quantidade ou qualidade? sui uma fé viva, apresenta as respectivas
Outro ponto debatido quando o assun- obras, e grandes resultados acompanham Social ou missionário?
to é o discipulado está relacionado com a seu trabalho, apesar dos obstáculos com- Além das questões sobre pregação,
qualidade e a quantidade dos novos dis- binados da Terra e do inferno.”4 Inevitavel- crescimento de igreja e evangelismo, ou-
cípulos. Nas extremidades dessa discus- mente, o discipulado saudável gera muitos tra discussão que também acompanha o
são estão numerólatras e numerófobos. frutos para o reino! tema do discipulado está relacionada ao

JAN-FEV • 2019 | 29
foco do trabalho. De um lado se encontram Em realidade, alguns desafios são co- Conclusão
aqueles que defendem uma abordagem muns a todos os pastores. Não há um úni- A posição equilibrada que encontramos
puramente social, relevante para a comu- co ministro que não tenha que lidar com o no livro de Atos acerca dos temas polariza-
nidade, sem intencionalidade evangelísti- peso das expectativas pessoais, congre- dos com os quais nos deparamos atualmente
ca. Do outro estão os defensores de uma gacionais, sociais e institucionais. Enquan- deve ser o alvo pelo qual devemos trabalhar.
estratégia missionária agressiva, que não to alguns sucumbem diante das pressões, Tanto membros quanto pastores são desa-
se ocupa com as condições sociais e está outros as sublimam com base na paixão fiados a superar esse espírito de ruptura que
preocupada em compartilhar a mensagem pelo ministério. paira sobre a sociedade, para fazer da igreja
da salvação com vistas ao reino vindouro. Pressão e paixão sempre caminharam um ambiente diferenciado, em que a graça
Novamente, o livro de Atos apresenta a juntas na experiência dos cristãos apos- de Deus reine de modo soberano.
igreja apostólica num caminho intermediá- tólicos. A tarefa de fazer discípulos é uma Sem querer ser reducionistas quanto à
rio. As necessidades sociais eram atendidas afronta ao reino das trevas e jamais será complexidade dos pontos apresentados,
pela comunidade (At 2:44, 46; 4:32-35; 6:1-3), realizada sem oposição. Em Atos 4:1 a 22, cremos que as experiências mencionadas a
enquanto o evangelho era proclamado Lucas narra o interrogatório a que Pedro e partir do relato neotestamentário sejam su-
com poder a todo povo (At 4:33; 6:4). João foram submetidos perante o Sinédrio. ficientes para abrir um caminho moderado
Nesse sentido, uma das mais conhe- Após tentar constrangê-los, a ordem dos pelo qual o discipulado possa ocorrer, alcan-
cidas declarações de Ellen White equili- líderes religiosos foi “que absolutamente çando seu propósito principal: a formação
bra esses dois polos, ajudando a igreja a não falassem, nem ensinassem em o nome de crentes maduros em J­ esus Cristo, prepa-
moderar seu discurso: “Unicamente os de Jesus” (v. 18). E qual foi a reação da igre- rados para compartilhar as b ­ oas-novas do
métodos de ­Cristo trarão verdadeiro êxi- ja? Os irmãos, unanimemente, oraram a reino e herdar a salvação eterna.
to no ­aproximar-se do povo. O Salvador Deus e pediram que os apóstolos fossem
Referências
­misturava-Se com os homens como Al- capacitados a proclamar a Palavra “com
1
John R. W. Stott, The Message of Acts: The Spirit, the
guém que lhes desejava o bem. Manifes- toda intrepidez” (v. 29).
church & the world (Leicester, Inglaterra; Downers
tava simpatia por eles, ministrava-lhes às Talvez o exemplo apostólico de sofri- Grove, IL: InterVarsity Press), p. 82.
necessidades e granjeava-lhes a confian- mento mais destacado seja o de Paulo. Por 2
 lberto R. Timm, “Podemos ainda ser considerados
A
ça. Ordenava então: ‘Segue-Me’.” 7 Des- exemplo, em 2 Coríntios 11:16 a 30, ele lis- o ‘Povo da Bíblia’?”, Revista Adventista, junho de
2001, p. 16.
sa maneira, o discipulado não se reduz à tou algumas das situações desafiadores
3
Jay Gallimore, “Measuring the pastor’s success”,
promoção de um evangelho social, mas pelas quais passou em seu ministério. En- Ministry, maio de 1990, p. 14.
também não se limita à proclamação das tretanto, apesar das pressões, o apóstolo 4
Ellen G. White, Ministério Pastoral (Tatuí, SP: Casa
­boas-novas desconectada da realidade dos gentios foi capaz de dizer: “Eu de boa Publicadora Brasileira, 2015), p. 18.
social. Por meio do serviço abnegado, a vontade me gastarei e ainda me deixarei 5
Russell Burrill, How to Grow an Adventist Church
(Fallbrook, CA: Hart Books, 2009), p. 31.
igreja deve ser as mãos reconhecidas de gastar em prol da vossa alma. Se mais vos
Cristo para o mundo. amo, serei menos amado?” (2Co 12:15). Em
6
Ellen G. White, Ministério para as Cidades (Tatuí, SP:
Casa Publicadora Brasileira, 2012), p. 79.
Atos 20:24, perante os efésios, ele afirmou: 7
 llen G. White, A Ciência do Bom Viver (Tatuí, SP:
E
Pressão ou paixão? “Porém em nada considero a vida preciosa Casa Publicadora Brasileira, 2015), p. 49.
Por fim, uma preocupação mais es- para mim mesmo, contanto que comple-
pecífica do contexto pastoral está rela- te a minha carreira e o ministério que re-
cionada com as lutas que um ministro cebi do Senhor Jesus para testemunhar o Lucas Alves, doutorando
em Ministério, é secretário
enfrenta ao se empenhar no discipula- evangelho da graça de Deus.” ministerial para a Igreja
do. Uma cena comum em qualquer con- Portanto, a solução para lidar com Adventista na América do Sul
Divulgação DSA

cílio é a formação de rodas de pastores essa condição inerente de nossa vocação


que compartilham suas experiências mi- não consiste em sucumbir diante das pres-
nisteriais com amigos que não se veem sões nem sublimá-las com base na paixão,
Wellington Barbosa,
há certo tempo. Alguns vivem uma fase mas em encontrar o equilíbrio em Cristo, doutorando em Ministério, é
muito agradável no pastorado, enquanto que “não nos tem dado espírito de covar- editor da revista Ministério
William de Moraes

outros enfrentam várias pressões à fren- dia, mas de poder, de amor e de modera-
te de suas igrejas. ção” (2Tm 1:7).

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30 | JAN-FEV • 2019
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PASTOR COM PAIXÃO Néstor Oleynick

O milagre da conversão
U
ma das coisas que marcam a vida Envolver-se em um estudo
do pastor é acompanhar a conver- bíblico normal era algo mui-
são de pessoas a Cristo. É algo tão to difícil para ela. Durante vá-
ímpar que se pode sentir claramente a mão rias semanas, o instrutor e eu
de Deus e a atuação do Seu Espírito. passávamos pelo menos duas
No meu quarto ano de ministério, horas reunidos com Carolina.
fui designado para assumir o distrito da A primeira hora ouvindo seus
­cidade de Durazno, Uruguai. Alguns anos problemas, esperando que ela
antes, um colega havia planejado abrir desabafasse, para que, então,
ali uma congregação no bairro La Figue- pudéssemos estudar a Bíblia,
ra. Lembro-me de que, ao chegar, fiz de falar sobre Deus e deixar algo
tudo para contratar um instrutor bíblico, para preencher seu vazio.
a fim de realizar pesquisas de interesse em Carolina fumava, bebia,
estudos bíblicos com a população. Entre- era viciada em jogos de azar e
tanto, isso não foi possível durante meu gostava de ir a bailes. Para
primeiro ano de trabalho. Com o apoio dos ela, isso era uma vida nor-
irmãos, continuamos orando e, no ano se- mal, até começar a estudar as Escrituras. Pouco tempo depois, alguns missioná-
guinte, conseguimos dois instrutores bíbli- Foi maravilhoso ver como o Espírito Santo rios da Argentina foram nos auxiliar. Eles
cos para nos ajudar. A população do bairro realizou nela a transformação. Cada sema- nos ajudaram a reformar e pintar o salão.
era constituída por pessoas de poucos re- na, após estudarmos a Bíblia e orarmos por Instalamos no local uma lareira, para ame-
cursos e que haviam recebido casas cons- ela, suas lutas internas aumentavam; con- nizar a temperatura no inverno. Assim o
truídas pelo governo em um local livre de tudo, sua fé era fortalecida pelo poder di- ambiente ficou pronto para que começás-
inundações. vino. Seu vocabulário, repleto de palavras semos as reuniões da igreja naquele lugar.
Quando começamos a visitar os inte- grosseiras, começou a mudar. Ela deixou No fim do ano, sete pessoas entregaram a
ressados, conhecemos Carolina, cuja vida de jogar, porque entendeu que devia con- vida a Cristo e foram batizadas. Depois dis-
era muito complicada. Ela cuidava de dois fiar na direção de Deus em sua vida mais do so, outros interessados tomaram a mes-
filhos e de vários sobrinhos, vivendo em que nos jogos e na sorte. Parou de fumar ma decisão.
uma casa de apenas dois cômodos aperta- e beber. Tudo como resultado de seu pro- Dessa experiência, o que mais me im-
dos. O alimento era escasso, e toda comida fundo relacionamento com Jesus, por meio pressionou foi a transformação da vida
que conseguia vinha dos restaurantes po- da oração e do estudo da Palavra de Deus. de Carolina, algo sobrenatural, somente
pulares do município. Eduardo, o instrutor, O fim das conferências evangelísticas e possível por meio do Espírito Santo! Tudo
começou a estudar a Bíblia com Carolina; dos estudos se aproximava, e vários inte- nela se tornou diferente, sua fisionomia,
no entanto, ela se encontrava sobrecarre- ressados estavam preparados para o ba- seu vestuário e seus hábitos. Eu tinha cer-
gada e tinha dúvidas a respeito de Deus. tismo, inclusive Carolina. Contudo, havia teza de que, com Jesus, apesar dos pro-
um problema: o grupo que blemas, a vida seria melhor para ela e sua
se formaria ainda não tinha família. Aprendi que os esforços humanos
lugar para se reunir. Foi en- têm seu valor quando nos dispomos a com-
tão que Carolina propôs o partilhar a Palavra de Deus, mas que o mais
seguinte: “Podemos usar o importante, o milagre do novo nascimen-
salão que tenho nos fundos to, só pode ser realizado pelo Espírito do
de casa. Vamos reformá-lo Senhor.
Fotos: Néstor Oleynick

e realizaremos as reuniões e
os cultos ali.” Foi a resposta
às nossas orações! Néstor Oleynick é pastor no Uruguai

32 | JAN-FEV • 2019
EM FAMÍLIA Alacy Barbosa

O sábado
e a família
pastoral

A
rotina do pastor no sábado é, fre- a família pastoral esteja envolvida nessas será, perfeita. No entanto, sua influência é
quentemente, muito intensa e re- atividades para que o pastor, a esposa e inegável em apontar caminhos para a prá-
pleta de atividades. A família vai se os filhos estejam unidos, próximos, crian- tica das demais famílias na fé. “Deve haver
adaptando a essa rotina, mas, às vezes, a do laços entre si e com a igreja. na família do pastor uma unidade que pre-
esposa e os filhos se sentem privados da Cuidado com a nova geração. Os filhos gue um sermão eficaz sobre a piedade prá-
presença do esposo e pai. Se o sábado é um são a próxima geração de líderes da igreja tica” (Ibid., p. 359).
presente de Deus, como podemos desfru- e devem, desde cedo, desenvolver a corre- O sábado e nosso testemunho. Vizi-
tar dele conciliando as atividades ministe- ta observância do sábado a partir do nos- nhos, amigos, comunidade e igreja estão
riais com o cuidado e a atenção à família? so convívio com eles. “Coisa alguma pode sempre observando nossa maneira de
Quando Deus separou o sábado no fim desculpar o pastor de negligenciar o círculo agir, inclusive nossa forma de guardar o
da semana da Criação, Seu objetivo era interno, pelo mais amplo círculo externo. O sábado. “Há os que estão observando este
permitir que Seus filhos pudessem des- bem-estar de sua família vem em primei- povo para ver qual é a influência da verda-
frutar da mais profunda comunhão com ro lugar” (Ellen White, O Lar Adventista, de sobre eles [...]. Examinam a vida e o ca-
Ele. “Certamente guardareis os Meus sá- p. 353). Por isso, é importante começar o ráter de seus defensores, para verificar se
bados; pois é sinal entre Mim e vós nas vos- sábado em família. Na sexta-feira, todos estão em harmonia com sua profissão de
sas gerações; para que saibais que Eu sou devem estar envolvidos nos preparativos fé, e, com base nas opiniões assim forma-
o Senhor, que vos santifica” (Êx 31:12, 13). É e, ao pôr do sol, o pastor deve se esforçar das, muitos são grandemente influencia-
importante relembrar alguns pontos refe- para estar junto da sua família, desfrutan- dos na aceitação ou rejeição da verdade”
rentes à observância do sábado, para que do momentos especiais. (Ellen White, Mensagens Escolhidas,
esse dia continue sendo uma bênção para Reserve sábados para a família. Em seu v. 3, p. 260).
a igreja e a família pastoral. planejamento anual, separe com sua espo- A importância e a glória do sábado.
O sábado é para todos. A Bíblia não in- sa e seus filhos alguns sábados para ser ­Trata-se de um dia de adoração, louvor,
dica princípios orientadores específicos compartilhados em família, a fim de des- gratidão, deleite, comunhão, relaciona-
para pastores e outros para os não pas- frutar juntos das bênçãos desse dia. mento, missão, ajuda ao próximo, conví-
tores. É um dia de muitas atividades para Reuniões não precisam ser realizadas vio familiar e felicidade. O sábado é um
todos e, acima de tudo, um dia de adora- somente no sábado. Algumas vezes, por antegozo do Céu!
ção ao Criador. praticidade e para deixar o tempo livre Que o Senhor ilumine com Seu Espírito
Natureza das atividades. A diferença para as atividades gerais dos outros dias cada família pastoral, para que possamos
está na natureza das atividades. “Os sa- da semana, pastores e líderes sobrecar- desfrutar das horas sabáticas conforme a
cerdotes no templo realizavam maior tra- regam a agenda do sábado. Isso i­mpede vontade do Criador!
balho no sábado que em outros dias. O de dar às nossas famílias o privilégio de
mesmo trabalho, feito em negócios secula- desfrutar as bênçãos sabáticas. Sejamos
Sergey Nivens / Adobe Stock

Alacy Barbosa é diretor do


res, seria pecado, mas a obra dos sacerdo- equilibrados em cuidar bem da igreja, sem ministério de Lar e Família
para a Igreja Adventista na
tes era realizada no serviço de Deus” (Ellen descuidar da família. América do Sul
Divulgação DSA

White, O Desejado de Todas as Nações, A família pastoral indica caminhos para


p. 285). Quando possível, é importante que as outras. A família pastoral não é, e nunca

JAN-FEV • 2019 | 33
RECURSOS

Revelation of Jesus Christ: Commentary on the book of Revelation


Ranko Stefanovic, Andrews University Press, 2ª ed., 2014, 668 p.
Ranko Stefanovic, professor de Novo Testamento do Seminário Adventista do Sétimo Dia da
Universidade Andrews, apresenta em Revelation of Jesus Christ um comentário versículo por ver-
sículo de um dos livros mais desafiadores da Bíblia, o Apocalipse.
A obra extrai o que há de melhor e atual entre os eruditos na área da escatologia e segue o
legado deixado por estudiosos como Kenneth A. Strand, Hans LaRondelle e Jon Paulien. Acadê-
micos, estudantes, pastores e membros da igreja poderão se beneficiar desse comentário para
aplicar a mensagem apocalíptica às situações da vida cotidiana e fortalecer a apresentação do
evangelho a este mundo sofredor.
Uma boa notícia para aqueles que leem em português é que Revelation of Jesus Christ será
lançado neste ano em português, pela CPB.

Apocalipsis: Revelaciones para hoy


C. M. Maxwell, Asociación Casa Editora Sudamericana, 2017, 544 p.
Essa é uma reedição e atualização da obra clássica do célebre doutor C. Mervyn Maxwell, Apo-
calipsis: Sus revelaciones, publicado pela Aces. O Apocalipse é comentado de maneira agradável,
profunda e fundamentada, o que permite compreender com maior clareza os acontecimentos
mundiais ao longo da história.
Embora esse livro seja destinado ao público em geral, não faltam abordagens e comentários
eruditos e teológicos. O autor pesquisou exaustivamente cada aspecto referente às profecias, o
que se evidencia pelo número significativo de notas bibliográficas que insere em sua obra.
Essa edição leva em conta as problemáticas atuais em relação à interpretação das profecias
apocalípticas, fornecendo respostas para as questões cruciais que surgem quando se estuda o
Apocalipse. É a ferramenta ideal para pastores, professores, estudantes e aqueles que desejam
ter material sólido e profundo para a preparação de sermões, aulas e seminários sobre as fasci-
nantes profecias do último livro da Bíblia.

Princípios Elementares da Teologia Cristã


Fernando Canale, Unaspress, 2018, 236 p.
Se todas as religiões falam sobre o mesmo Deus, por que temos tantas religiões descrevendo a
Deus e nossa relação com Ele de formas contraditórias? Diferentes denominações cristãs repousam
sobre diferentes projetos teológicos. Diferentes projetos teológicos resultam da aplicação de diferentes
metodologias teológicas. Diferentes metodologias teológicas derivam do contorno no qual teólogos
cristãos decidiram sobre as fontes da teologia por meio das quais Deus Se revela a eles. Finalmen-
te, os projetos teológicos diferem por causa dos princípios de interpretação teológica que os teólo-
gos escolhem como guias em sua interpretação das Escrituras e na construção das doutrinas cristãs.
O projeto teológico delineado brevemente em Princípios Elementares da Teologia Cristã é construí-
do substituindo-se a tradicional multiplicidade de fontes da teologia pelo princípio da s­ ola-tota-prima
Scriptura. Por causa dessa decisão metodológica, seremos compelidos a nos afastar radicalmente
dos projetos teológicos católico romano, protestante e conservador. As razões e conteúdos des-
se afastamento se tornarão autoevidentes à medida que desenvolvemos os elementos básicos
da teologia cristã.

34 | JAN-FEV • 2019
PALAVRA FINAL Marcos Blanco

Mensagem para este tempo

É
provável que nenhuma outra denominação cristã te- conseguiram chegar a uma interpretação não apenas
nha escrito e ensinado tanto sobre o livro do Apo- historicamente correta, mas também exegeticamente
calipse quanto a Igreja Adventista do Sétimo Dia. sólida. Com a ênfase contemporânea na teologia bíbli-
Isso não é de surpreender, para um movimento que sur- ca e na exegese, os eruditos bíblicos têm-se inclinado a
giu como resultado de uma visão apocalíptica e que fez uma interpretação intratextual, negligenciando de al-
do estudo das profecias uma questão rotineira. gum modo a aplicação histórica dessas profecias. O de-
Segundo Alberto R. Timm, o santuário celestial, en- safio é continuar aprofundando nossa interpretação
contrado nos livros de Daniel e Apocalipse, tornou-se o exegética do texto, sem descuidar da aplicação histórica.
centro da teologia adventista, enquanto a tríplice men- Alarmismo versus indiferença profética. O alarmis-


sagem angélica de Apocalipse 14 proveu o calendário di- mo que se propagou no passado, que usava as notí-
vino para a proclamação do juízo iminente. Esses dois cias diárias para interpretar o Apocalipse resultando em
elementos, extraídos principalmente do livro de Apo- sensacionalismo, deixou como consequência às novas
calipse, fundamentaram a teologia e a missão do movi- gerações certa indiferença em relação à mensagem pro-
mento que se tornou a Igreja Adventista do Sétimo Dia. fética. Devemos tornar as profecias relevantes às novas
O legado que o estudo do Apocalipse nos deixou é gerações, sem cair no alarmismo que promove euforia
indiscutível. No entanto, o desafio está no que devemos por alguns momentos e, finalmente, resulta em frus-
fazer com ele como pastores do século 21. A seguir es- Deus nos tração e desânimo.
tão algumas das tensões entre as quais temos que na- confiou um Perfeccionismo versus graça barata. Chegamos aos
vegar ao pregar e ensinar a mensagem do último livro tesouro nossos dias com uma herança teológica que tem colo-
das Escrituras. profético cado a mochila pesada do perfeccionismo cristão sobre
Iminência versus tardança. Depois de esperar pela no livro do os ombros das últimas gerações. Isso tem gerado fana-
vinda iminente de Jesus por mais de 150 anos, aumen- Apocalipse. tismo religioso e rejeição total às profecias. Por outro
taram as dúvidas sobre as razões para essa aparente Sua mensagem lado, a graça barata difundida, que rejeita não apenas a
“demora”. Alguns enfatizam o papel da igreja para apres- é para lei de Deus, mas também a santificação bíblica, faz com
sar o segundo advento, enquanto outros negam que se nossos dias.” que muitos parem de lutar contra o pecado para se ade-
possa fazer isso. De fato, Jesus indicou a existência de quar laodiceanamente a ele.
uma demora, e Ellen White não somente mencionou um Deus nos confiou um tesouro profético no livro do
atraso causado pelo estado da igreja, mas também afir- Apocalipse. Sua mensagem é para nossos dias. Preci-
mou que “dando o evangelho ao mundo, está em nosso samos estudar e nos aprofundar nesse livro, à luz das
poder apressar a volta de nosso Senhor. Não nos cabe Escrituras, para encontrar a mensagem relevante que
apenas aguardar, mas apressar o dia de Deus” (O Dese- devemos pregar nestes últimos tempos.
jado de Todas as Nações, p. 633, 634).
Aplicação exegética universal versus historicis- Marcos Blanco, doutorando em Teologia,
mo. O foco do estudo das profecias do Apocalipse pe- é editor da revista Ministério, edição em
espanhol
los pioneiros adventistas estava fundamentado em
Gentileza do autor

uma abordagem historicista. Embora não tivessem


todas as ferramentas modernas para a exegese, eles

JAN-FEV • 2019 | 35
o tempo do fim
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