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Além do Nascer do Sol

Mary Balogh
Sinopse
“Eu te amarei por toda a minha vida e até mesmo além disso.”

Mesmo aos quinze anos, Jeanne, a filha privilegiada de um imigrante francês


monarquista, sabia de quem gostava: do inglês Robert Blake, filho bastardo de um
Marquês. No entanto, o seu nascimento questionável o tornava proibido.

Forçados a se separar, ainda eram jovens o suficiente para acreditar no amanhã.


Mas com o passar do tempo, esse breve e efêmero flerte em Haddington Hall, se
desvaneceu na memória.

Onze anos mais tarde, em Portugal, durante as Guerras Peninsulares, eles se


reencontram, como dois espiões trabalhando em lados opostos. Ele agora é um capitão
do exército britânico. Ela é a viúva Marquesa das Minas, às vezes usando o nome de
Joana da Fonte. No entanto, para apenas um deles se mantém o lampejo do
reconhecimento...
Caro leitor,

Além do Nascer do Sol, publicado pela primeira vez em 1992, é muito especial
para mim. Eu já havia escrito quase trinta romances da época regencial, comédias
baseadas em personagens de costumes, tudo se passando na Inglaterra. Estava
confortável no gênero. Mas, então, tive uma ideia para algo um pouco diferente, algo que
envolveria as guerras napoleônicas. Vinha fazendo investigação sobre a Guerra Peninsular
na Espanha e Portugal, e estava viciada.
A história se passa na mesma época em que acontecem a maioria das minhas
outras, começa na Inglaterra, quando o herói e a heroína se encontram pela primeira vez
como jovens adolescentes e desfrutam de um doce romance, antes de serem forçados a se
separar, ela é a filha de um Conde francês exilado, ele é o filho ilegítimo de um Marquês.
Mas, a história, em seguida, se move para Portugal, um número de anos depois. Robert
Blake é agora um capitão duro e experiente de um regimento de infantaria, e um espião
ocasional sob as ordens diretas do futuro duque de Wellington. Joana da Fonte (ex-
Jeanne Morisette) é a viúva de um nobre português e também uma espiã, algo para o qual
sua origem francesa faz dela uma excelente candidata.
A história envolve espionagem, intriga, vingança e traição, e é a mais repleta de
ação de todos os meus livros. Simplesmente a amei escrever, mesmo me levando bem
fora da minha zona de conforto. É direcionada ao personagem e conta uma história de
amor apaixonado, assim como todos os meus livros fazem, mas é muito mais do que
apenas isso, e estou muito contente de o ver publicado novamente, muitos anos mais
tarde.
Espero que goste de o ler nesta linda nova edição, seja pela primeira vez, ou como
uma releitura de muitos anos atrás.

Mary Balogh
Inglaterra, 1799
Capítulo 1
O entretenimento estava em andamento em Haddington Hall, em Sussex, moradia
do Marquês de Quesnay, que não poderia exatamente ser chamado de festa, já que não
havia dança, e os sons de música e alegria flutuavam das janelas abertas da sala de estar
principal. Era um entretenimento, e os convidados não eram muitos, havendo apenas
dois hóspedes na casa, naquele momento em particular, para engrossar as fileiras da
pequena nobreza local.
Não era uma festa, mas o rapaz sentado fora da vista da casa, no banco em torno
da grande fonte de mármore abaixo do terraço, desejou estar lá dentro participando de
tudo. Ele queria que a realidade pudesse ser suspensa e que ele pudesse estar lá dançando
com ela, a jovem filha dos hóspedes de seu pai, de cabelos e olhos escuros. Ou, pelo
menos, olhando para ela e talvez lhe falando, quem sabe lhe buscando um copo de
limonada. Ele desejou… oh, ele desejava a lua, como sempre fazia. Um sonhador, isto foi
do que sua mãe o chamava frequentemente.
Mas havia duas razões intransponíveis para sua exclusão ao entretenimento: ele
tinha apenas dezessete anos de idade, e era filho ilegítimo do Marquês. Esse último fato
teve um significado especial para ele, apenas durante o último ano e meio, desde a morte
repentina de sua mãe. Através de sua infância e em grande parte dela, parecia uma forma
normal de vida ter um pai, que ele e sua mãe visitavam com frequência, mas não vivia
com eles, e um pai que tinha uma esposa, na casa grande, onde não havia outras crianças.
Foi apenas no ano e meio desde a morte de sua mãe, que a realidade de sua
situação se tornou totalmente evidente para ele. Ele era um rapaz de quinze anos de
idade, sem casa, e com um pai que tinha financiado a casa de sua mãe, mas nunca tinha
sido uma parte permanente da mesma. Seu pai o levou a viver na casa grande. Mas, ele
entendeu sua situação desde que se mudou para lá. Não era um membro da família e a
mulher de seu pai, a Marquesa, o odiava e ignorava sua presença, sempre que era forçada
a estar com ele. Mas ele não era um dos servos também, é claro.
Foi só no último ano e meio que seu pai começara a falar sobre o seu futuro, e que
o menino tinha percebido que a sua ilegitimidade o tornava um negócio complicado. O
Marquês lhe iria comprar um posto no exército, quando ele fizesse dezoito anos, ele havia
decidido, mas teria que ser com um regimento de linha e não com a cavalaria, certamente
não com os guardas. Isso nunca faria, pois as fileiras dos guardas eram preenchidas com
os filhos da nobreza e aristocracia superior. Os filhos legítimos.
Ele era o único filho de seu pai, mas ilegítimo.
― Você não está no baile? ― Uma voz pouco suave lhe perguntou de repente, e ele
olhou para cima, para ver Jeanne Morisette a razão pela qual tanto desejava estar na sala
de baile, filha do Conde de Levisse, um imigrante monarquista que tinha fugido da França
durante o reinado do terror e vivia na Inglaterra desde então.
Ele sentiu seu coração bater. Nunca tinha estado perto dela antes, nunca tinha
trocado uma palavra com ela. Encolheu os ombros. ― Eu não quero estar ― disse ele. ―
Não é uma opção, de qualquer maneira.
Ela se sentou ao lado dele, esbelta; em uma luz frágil, não podia ver a cor exata do
vestido, os cabelos em uma miríade de cachos sobre a cabeça, seus olhos grandes e
luminosos ao luar. ― Mas desejava poder estar lá, mesmo assim, ― disse ela. ― Eu achei
que poderia ser autorizada a participar, uma vez que é apenas um entretenimento. Mas
Papa disse que não. Ele disse que, quinze anos é muito jovem para estar dançando com
os senhores. É cansativo ser jovem, não é?
Ah. Então ela não tinha sido autorizada também, depois de tudo. Ele havia se
torturado para nada. Deu de ombros novamente. ― Eu não sou tão jovem ― disse ele. ―
Tenho dezessete anos.
Ela suspirou. ― Quando tiver dezessete anos ― ela disse, ― eu vou dançar todas as
noites e ir ao teatro e a piqueniques. Vou fazer exatamente o que quiser, quando estiver
crescida.
Seu rosto era brilhante e ansioso, e ela era mais bonita do que qualquer outra
garota que tinha visto. Ele tinha aproveitado todas as oportunidades durante a semana
passada para a vislumbrar. Ela era como uma pequena jóia brilhante, muito além de seu
alcance, é claro, mas agradável de se olhar e sonhar.
― Papa vai me levar de volta para a França assim que seja seguro, ― disse ela com
um suspiro. ― Tudo parece estar se acalmando, sob a liderança de Napoleão Bonaparte.
Se continuar assim, talvez sejamos capazes de voltar, diz Papa. Ele diz que não há sentido
em continuar a sonhar com o regresso de um rei.
― Então, você poderá dançar em Paris ― disse ele.
― Sim. ― Seus olhos se tornaram brilhantes. ― Mas eu queria apenas, o mais
rapidamente, estar em Londres. Conheço a Inglaterra melhor do que a França. Eu falo
inglês melhor do que falo francês. Preferiria ficar aqui.
Mas havia um traço de sotaque francês em sua voz. Era mais uma característica
atraente sobre ela. Ele gostava de ouvir sua conversa.
― Você é o filho do Marquês, não é? ― Perguntou ela. ― Mas você não tem o seu
nome?
― Eu tenho o nome da minha mãe ― disse ele. ― Ela morreu no último inverno.
― Ah ― ela falou, ― isso é triste. Minha mãe está morta também, mas eu não me
lembro dela. Eu sempre vivi com papai durante o tempo que me lembro. Qual é o seu
nome?
― Robert, ― disse ele.
― Robert. ― Ela deu sua entonação de francês a seu nome e, em seguida, sorriu e
disse de novo com a sua pronúncia do inglês. ― Robert, dance comigo. Você dança?
― Minha mãe me ensinou ― disse ele. ― Fora? Como podemos dançar aqui fora?
― Facilmente ― respondeu ela, saltando levemente sobre os pés e estendendo a
mão magra para ele. ― A música está alta o suficiente.
― Mas você vai machucar os pés nas pedras ― disse ele, olhando para suas
sapatilhas de seda fina, quando ela abriu caminho para o terraço.
Ela riu. ― Eu acho, Robert, que você está à procura de desculpas ― disse ela. ―
Acho que sua mãe não o ensinou de verdade, ou que, se o fez, você não aprendeu. Eu
acho que talvez você tenha dois pés esquerdos. ― Ela riu novamente.
― Isso não é verdade, ― disse ele, indignado. ― Se você quiser dançar, então
dançar nós iremos.
― Isso é uma aceitação muito relutante ― ela disse. ― Você supostamente deveria
estar excitado de dançar comigo, deveria me fazer sentir que não há nada que deseje mais
na vida do que dançar comigo. Mas não importa. Vamos dançar.
Ele sabia muito pouco sobre a provocação das mulheres. Era verdade que Mollie
Lumsden, uma das criadas de seu pai, muitas vezes se colocava em seu caminho e fazia
poses provocantes, mais frequentemente sobre a cama, enquanto ela trabalhava no
período da manhã. Era verdade, também, que em certa ocasião, quando ele tentou lhe
roubar um beijo, ela mostrou que seus favores não vêm de graça. Mas havia um mundo
de diferença entre a Mollie rechonchuda e Jeanne Morisette.
Eles dançaram um minuete, a lua banhando as pedras do terraço com uma luz
suave, ambos em silêncio, e se concentrando na música distante e em seus passos, embora
sua atenção não estivesse totalmente em apenas essas duas coisas também. Os olhos,
estavam em forma de lua delgada, na menina com quem dançava. Sua mão era quente,
fina e macia. Ele pensou que a vida nunca poderia ter um momento mais feliz para lhe
oferecer.
― Você é muito alto, ― disse ela, quando a música chegou ao fim.
Ele estava com quase um metro e oitenta e três de altura. Infelizmente, o seu
crescimento tinha sido para cima. Dizer que ele era magro seria subestimar o caso.
Odiava se olhar no espelho, queria ser um homem bonito, musculoso, e se perguntava se
nunca seria nada mais do que desengonçado e feio.
― E tem um cabelo loiro lindo ― disse ela. ― Tenho notado você durante toda a
semana e gostaria que o meu cabelo fosse como o seu. ― Ela riu levemente. ― Estou feliz
de que não o use curto. Seria um desperdício.
Ele estava deslumbrado. Ainda estava segurando a mão dela levemente na sua.
― Eu devo ir para o meu quarto ― disse ela. ― Papa teria um ataque se soubesse
que eu estava aqui fora.
― Você está bastante segura ― disse ele. ― Vou providenciar para que nenhum mal
lhe aconteça.
― Pode me beijar se você quiser ― disse ela. Olhou para ele por debaixo de seus
cílios, um quê de malícia em seus olhos que se arregalaram. O que Mollie tinha negado,
Jeanne Morisette daria? Mas como ele a poderia beijar? Ele não sabia nada sobre o beijo.
― É claro ― disse ela, ― se você não quiser, vou voltar para casa. Talvez você
esteja com medo. ― Ele estava. Medo mortal. ― Claro que não tenho medo ― disse ele
com desdém. E pondo as mãos em sua cintura, baixou a cabeça e a beijou. Beijou como
sempre tinha beijado sua mãe na bochecha, embora beijasse Jeanne nos lábios,
brevemente e com um som.
Ela era toda suavidade e com um aroma sutil. Suas mãos estavam em seus ombros,
seus polegares contra a pele do seu pescoço. Seus olhos escuros o olharam
interrogativamente. Ele engoliu em seco, sabendo que seu pomo de Adão revelaria seu
nervosismo.
― E é claro que desejo ― disse ele, abaixou a cabeça e colou seus lábios nos dela
novamente, os mantendo lá por alguns momentos de auto-indulgência, e observando
com choque, os efeitos desconhecidos do abraço em seu corpo, a falta de ar, a onda de
calor, o aperto na virilha. Ele levantou a cabeça.
― Oh, Robert ― disse ela suspirando ― você pode fazer ideia de como é cansativo
ter quinze anos? Você se lembra de como era? Embora seja completamente diferente para
um menino, é claro. Ainda é esperado que me comporte como uma criança, quando eu
não sou mais uma. Devo ficar quieta, e acolher a companhia de seu pai e sua mãe... não, a
Marquesa não é sua mãe, é? E do meu próprio papa. E ver negada a companhia dos
jovens que estão atualmente dançando e que se apreciam na sala de estar. Como vou
suportar isso, toda uma semana?
Ele desejou que pudesse arrancar algumas estrelas do céu e as colocar a seus pés,
desejou que a música continuasse por uma semana, para que pudesse dançar com ela, a
beijar a e ajudar a pôr fim ao tédio de uma estada indesejável.
― Eu estarei aqui também ― ele disse com um encolher de ombros,
Ela olhou para ele ansiosamente, o topo de sua cabeça atingindo quase seu ombro.
― Sim ― disse ela. ― Vou roubar tempo para passar com você, Robert. Vai ser
divertido, e minha empregada é muito fácil de enganar. Ela é preguiçosa, mas eu nunca
me queixo ao papa, porque, às vezes, é uma vantagem ter uma empregada preguiçosa. ―
Ela riu, com sua risada contagiante. ― Você é muito bonito. Vai me levar para as ruínas
amanhã? Nós fomos lá há dois dias, mas a Marquesa não me deixou explorar, para que eu
não me machucasse. Tudo o que eu podia fazer era olhar e ouvir o seu pai contar a
história do antigo castelo.
― Vou levar ― disse ele. Mas observou o fato de que ela tinha falado de roubar o
tempo para estar com ele. E, claro, ela estava certa. Não era a coisa certa para os dois
fazerem. Eles, certamente, nunca deveriam ter se falado ou dançado. Ou beijado. Haveria
todo o inferno que enfrentar, se fosse pego a levando para as ruínas. Ele deveria explicar
isso a ela de forma mais clara. Mas tinha dezessete anos de idade, e as realidades da vida
eram novas para ele. Ainda achava possível lutar contra tudo isso, ou pelo menos ignorar.
― E você? ― Ela perguntou ansiosamente, apertando as mãos em seu jovem seio.
― Depois do almoço? Eu irei para o meu quarto para um descanso, como a Marquesa
está sempre me pedindo para fazer. Onde o devo encontrar?
― Do outro lado dos estábulos ― disse ele, apontando. ― É quase um quilômetro
para as ruínas. Você será capaz de andar tão longe?
― É claro que posso caminhar até lá ― disse ela com desdém. ― E subir. Quero
subir à torre.
― É perigoso ― disse ele. ― Algumas das escadas desmoronaram.
― Mas você a escalou, não é mesmo? ― Disse ela.
― Claro.
― Então a vou escalar também ― disse ela. ― Se tem uma boa vista do topo?
― Você pode ver a aldeia e além ― disse ele.
A música estava tocando uma quadrilha na sala de estar.
― Amanhã ― ela resolveu. ― Depois do almoço. Por fim, haverá um dia para se
esperar. Boa noite, Robert.
Ela estendeu uma mão magra para ele. Ele pegou e percebeu, com alguma
confusão, que ela queria lhe dizer para que a beijasse. Ele a levou aos lábios e se sentiu
tolo, e lisonjeado, e maravilhoso.
― Boa noite, senhorita Morisette ― disse ele.
Ela riu para ele. ― Você é um adulador, depois de tudo ― disse ela. ― Acabou de
me fazer sentir com pelo menos dezoito anos de idade. É Jeanne, Robert. Jeanne à
maneira francesa e Robert o caminho inglês.
― Boa noite, Jeanne ― disse ele, que estava feliz da escuridão esconder sua face
corada.
Ela se virou e tropeçou levemente sobre as pedras do terraço e andou para o lado
da casa. Ela tinha, ele percebeu, saído pela entrada de serviço e estava voltando da mesma
maneira. Ele se perguntou se ela tinha saído apenas para o ar fresco ou se o tinha visto de
alguma janela do segundo andar. A janela de seu quarto, com vista para o terraço e para a
fonte.
Ele gostaria de acreditar que era sua presença lá fora, que a tinha atraído. Ela o
havia chamado de alto, não tinha comentado sobre a sua magreza, apenas sobre sua
altura; tinha achado o loiro de seu cabelo lindo e aprovado o fato de que ele gostava de o
usar mais longo; o tinha considerado muito bonito e pediu que a beijasse; lhe pediu para a
levar às ruínas no dia seguinte e havia dito que, finalmente, haveria um dia a esperar.
Ele já não estava apenas atraído por sua beleza morena e esbelta, percebeu, os sons
da música e alegria do salão de baile esquecidos. Estava profundamente,
irrevogavelmente, apaixonado por Jeanne Morisette.

***

Ela o viu várias vezes desde sua chegada em Haddington Hall, embora não tivesse
sido formalmente apresentada a ele, claro. Seu pai tinha explicado a ela que ele era o filho
bastardo do marquês e que realmente não era de todo respeitável estar vivendo na casa.
“Deve ser muito angustiante para a marquesa,” o pai dela tinha dito, especialmente
porque a pobre mulher era aparentemente estéril e tinha sido incapaz de presentear o
marquês com quaisquer herdeiros legítimos ou mesmo filhas.
Jeanne não se preocupava com o fato de que ele não deveria estar lá na casa. Ela
estava feliz que ele estivesse, e só lamentou que não fosse possível ser abertamente
simpática com ele. Não encontrara muitos meninos ou homens jovens durante a sua vida,
com uma infância protegida com seu pai, e tendo sido enviada para uma escola onde ela e
suas colegas eram mantidas estritamente afastadas do mundo masculino.
Em seu tédio e solidão em Haddington Hall, ela o observava secretamente sempre
que tinha uma chance, com mais intensidade da janela de seu quarto. Estava muito
apaixonada por sua figura magra e juvenil, e seu cabelo loiro comprido.
Na noite da baile, embora seu pai e a marquesa a tentassem consolar, assegurando
que não era realmente um baile, ela ficara mal-humorada na janela de seu quarto e o viu,
pela primeira vez no terraço e, em seguida, desapareceu para o outro lado da fonte e não
voltou mais. Ele deveria estar sentado no banco de lá. Ela já havia dispensado sua
empregada para a noite. Sua respiração ficara rápida e emoção borbulhara nela, conforme
sentiu a tentação de se esgueirar pelo piso térreo ao exterior invisível para falar com ele.
Tinha cedido à tentação.
E ficara deslumbrada... não percebera muito bem como era alto ou o quão bonito
era seu rosto com o nariz aquilino e queixo firme, e olhos muito sinceros. Ele tinha
dezessete anos, um jovem, não o menino que ela tinha imaginado primeiro.
Foi o primeiro homem com quem dançou, com exceção do seu professor de dança
na escola, e foi o primeiro homem que a beijou, da primeira vez, da forma que seu pai
poderia tê-la beijado, mas da segunda, quando seus lábios permaneceram nos dela, ela
sentira algo deliciosamente perverso, diretamente para baixo, até os dedos dos pés.
Estava apaixonada por ele antes que tivesse acabado de correr para o quarto, antes
que tivesse fechado a porta atrás dela e se recostado, com os olhos fechados, tentando se
lembrar exatamente, o que sua boca tinha sentido. E então abriu os olhos e correu para a
janela, se escondendo por trás das pesadas cortinas de veludo, para o ver caminhar para
cima e para baixo do terraço. Mas não precisava ter se preocupado, ele não olhara para
cima.
Ela estava apaixonada por ele, um deus loiro, alto e esguio, que era tudo aos
dezessete anos de idade. E que era a maior atração por ser fruto proibido.
Eles tiveram quatro dias juntos e quatro tardes, quando ela estava devidamente
descansando em seu quarto, o que era o que seu pai e o marquês e marquesa sabiam.
Foram para o castelo em ruínas no primeiro dia e ele subiu as sinuosas escadas de pedra
da torre à sua frente, virando com frequência para lhe apontar um degrau lascado ou
desintegrado, onde ela teria que colocar cuidadosamente seus pés. Ela estava mais
assustada do que admitiria e quase gritou de terror quando saíram à luz do dia, no andar
superior e descobriu que o parapeito estava bastante afastado, de modo que não havia
nada para protegê-los contra a queda, aparentemente interminável, para a grama e as
ruínas abaixo. Mas ela apenas balançou os cabelos, porque tinha desprezado usar um
gorro, e olhou corajosamente para tudo.
― É magnífico ― disse ela, estendendo os braços para os lados. ― Como
maravilhoso deve ter sido, Robert, ser a dama de tal castelo e ter visto das muralhas seu
cavaleiro vir andando para casa.
― Depois de uma ausência de sete anos ou mais, sem dúvida ― disse ele.
Ela riu. ― Que coisa menos romântica para se dizer ― disse ela. ― De qualquer
forma, eu não teria que o deixar ir sozinho. Eu teria ido com ele e compartilhado de
todos os desconfortos e perigos da vida militar.
― Você não teria sido capaz de fazer isso ― disse ele. ― Você é uma mulher.
― Porque não teria sido autorizada? ― Ela falou ― Ou porque eu não seria capaz
de suportar as dificuldades? Não me importaria de ter que dormir no chão duro e tudo
isso. E, como não seria permitido, eu cortaria meu cabelo e montaria como um escudeiro
de meu cavaleiro. Ninguém sequer saberia que eu era uma mulher. Eu não reclamaria,
você vê.
Ele riu, e ela descobriu que os dentes brancos e olhos azuis alegres o tornavam
ainda mais bonito na luz do dia, do que tinha parecido sob o luar na noite anterior.
O convidou para a beijar novamente quando eles chegaram ao chão. Na verdade,
ela tinha achado a descida uma provação muito maior do que a subida, ficara feliz por
achar uma desculpa para se inclinar para trás contra uma parede sólida, e descansar os
braços ao longo de seus ombros tranquilizadoramente resistentes. Ele era forte, apesar de
sua magreza.
Seus braços deslizaram sobre sua cintura enquanto seus lábios descansaram contra
os dela, seus braços se enrolando no pescoço dele. Ela tentou fazer beicinho, seus lábios
contra os dele, e sentiu o seu aumento de pressão. Ela estava sendo beijada por um
homem, pensou, por um jovem alto e bonito. E estava apaixonada por ele. Era
maravilhoso sentir amor.
― Vou ter de voltar ― ela falou, ― ou eles irão ao meu quarto para ver porque
estou dormindo tanto tempo.
― Sim ― disse ele, sem nenhuma tentativa de a atrasar. ― A levarei de volta aos
estábulos.
Nas três tardes seguintes, eles caminharam através dos campos, entre os bosques,
ao lado do lago que ficava a um quilômetro de distância da casa, na direção oposta do
antigo castelo. O tempo era seu amigo. O sol brilhou todos os dias em um céu azul, e se
houve algumas nuvens, eram muito pequenas e brancas, e fofas, que apenas trouxeram
breves momentos de sombra bem-vinda. Eles caminharam com os dedos entrelaçados e
falaram um com o outro, compartilhando pensamentos e sonhos jamais confiados a
alguém antes.
Seu pai lhe queria comprar uma comissão no exército quando tivesse dezoito anos,
ele disse a ela. Mas não era uma vida que ele quisesse. Foi enquanto viveu com sua mãe
que assumiu que queria viver tranquilamente no campo. Era o tipo de vida que amava.
Mas devia fazer alguma coisa. Ele percebeu isso. Não podia continuar vivendo em
Haddington Hall indefinidamente, e não era, é claro, o herdeiro de seu pai.
― Mas eu não tenho nenhum desejo de ser um oficial ― ele disse a ela. ― Eu não
acho que teria estômago para matar alguém. ― Ela disse a ele que sua mãe era inglesa, que
seus avós, o visconde e viscondessa Kingsley, ainda viviam em Yorkshire. Mas o pai dela
os tinha permitido visitar apenas duas vezes em todos os anos que estava na Inglaterra.
Seu pai queria que ela fosse francesa e viver na França. Mas ela queria ser inglesa e viver
na Inglaterra, disse a Robert com um suspiro, não pertencer a dois países, o que tornava a
vida complicada.
Ela novamente contara seu sonho de ser velha o suficiente para assistir a bailes e
festas, peças de teatro e reuniões e se misturar com outros jovens. Só que o sonho não
pareceu tão importante durante esses dias. Estava vivendo um sonho mais maravilhoso
do que qualquer outro que tinha tido.
Eles estavam lado a lado em um banco à sombra do lago, no quarto dia à tarde,
seus braços um no outro, beijando, sorrindo, se olhando nos olhos. Ele tocou os seios
pequenos levemente, e ela sentiu seu rosto em chamas, embora não deixasse de o olhar
nos olhos ou fazer qualquer protesto. Sua mão se sentia bem lá. E então ela descansou a
mão contra a sua cintura. Ele estava quente através do algodão xadrez.
― Robert ― disse ela, ― eu te amo.
E ela amava o jeito que ele tinha de sorrir com os olhos antes que chegasse a seus
lábios. ― Você me ama? ― Perguntou a ele. ― Me diga o que você sente.
― Eu te amo ― disse ele.
― Eu vou me casar com você ― disse ela. ― Papa não vai gostar, eu sei, mas se ele
não der o seu consentimento, eu vou fugir com você.
Ele sorriu lentamente. ― Isso nunca acontecerá, Jeanne. Você sabe disso ― ele
disse gentilmente. ― Não vamos estragar esses poucos dias sonhando com o impossível.
Vamos os apreciar.
― Pode ser ― ela respondeu, envolvendo seu braço em sua cintura magra, se
aproximando mais dele. ― Oh, ainda não, é claro. Eu sou muito jovem. Mas quando tiver
dezessete ou dezoito anos, e não tiver mudado de opinião, Papa vai ver que eu só posso
ser feliz com você e ele vai dar o seu consentimento. E se não o fizer, então eu sigo o
tambor com você. Vou cavalgar para a guerra com o meu cavaleiro.
― Jeanne ― disse ele, beijando sua boca e os olhos, um por um. ― Jeanne.
― Digamos que você vai se casar comigo ― disse ela. ― Digamos que você queira.
Você quer se casar comigo, Robert?
― Eu te amarei toda a minha vida e mesmo além disso ― disse ele. ― Você sempre
será meu único amor.
― Mas isso não é o que eu estou pedindo ― disse ela.
― Sh. ― Ele a beijou novamente. ― Temos de voltar para casa. Estamos afastados
por mais tempo do que o habitual. Eu não quero você para ser desperdiçada.
― Amanhã ― ela disse, sorrindo para ele, que se levantou e estendeu a mão para a
ajudar. ― Amanhã o vou levar a admitir isso, Robert. Eu sempre consigo o que quero,
você sabe.
― Sempre? ― Ele perguntou.
― Sempre. ― Ela tirou a grama de seu vestido e olhou para ele por debaixo de seus
cílios. Estava adoravelmente bonito, com o cabelo despenteado.
― Eu virei para você em um cavalo branco no seu aniversário de dezoito anos,
então, ― ele falou ― e iremos montar no por do sol, não, ao nascer do sol; o nascer do
sol seria melhor, e casar e ter uma dúzia de filhos e viver felizes para sempre. Você está
satisfeita agora?
Ela ficou na ponta dos pés, beijou sua bochecha, e sorriu deslumbrantemente para
ele. ― Totalmente ― disse ela. ― Eu ouvi o que queria ouvir. Eu lhe disse que sempre
consigo o que quero, você vê. ― Ela riu alegremente. Pensou que nunca havia sido tão
feliz em sua vida, embora soubesse que era uma felicidade apenas para o presente. Ela
sabia tão bem quanto ele que nunca se casariam, que depois de terminada, a semana seria
passado, eles provavelmente nunca iriam se encontrar novamente.
Mas ela sempre o amaria, acreditava com toda a paixão de seus quinze anos. Ele foi
seu primeiro amor, e seria o seu último. Nunca amaria outro homem como amava
Robert.
Capítulo 2
A felicidade de Jeanne durou um tempo ainda mais curto do que esperava.
Esperava por mais três dias. Três breves dias mais fora da eternidade. Mas só lhe foi
concedida apenas meia hora a mais. Seu pai estava esperando em seu quarto, quando ela
voltou.
― Jeanne? Onde você estava? ― Perguntou em francês, que sempre falava quando
estavam sozinhos. Ela trocou a sua linguagem. ― Andando lá fora ― disse ela, sorrindo
para ele. ― Faz uma bela tarde.
― Sozinha? ― Ele perguntou.
Seu sorriso se alargou. ― Madge não gosta de caminhar ― disse ela. ― Eu não
insisti para ela me acompanhar.
― Três teria sido uma multidão ― disse ele, não retornando seu sorriso. Ela olhou
para ele com cautela.
― Ele é um bastardo, Jeanne ― seu pai disse severamente. ― Ele não deveria
sequer ser alojados sob o mesmo teto que pessoas decentes. Eu teria pensado duas vezes
antes de aceitar o convite do marquês, se soubesse que você iria ser submetida a tal
indignidade. Acredito que ele mantém o menino aqui apenas para insultar sua esposa com
sua esterilidade. Você o foi encontrar todas as tardes, enquanto deveria estar
'descansando'?
― Sim ― , admitiu ela, desafiadora. ― Ele é divertido para estar, Papa, e não há
outros jovens aqui para mim. Você não me permitiria participar da assembléia embora eu
esteja com quinze anos de idade.
― Será que ele tocou em você? ― O pai perguntou, sua voz fria e apertada.
Jeanne podia sentir drenar a cor de suas bochechas, enquanto ela se lembrava dos
beijos que tinha compartilhado com Robert em várias ocasiões, e seus toques em seus
peitos de tarde.
― Ele já tocou em você? ― Seu pai repetiu severamente. ― Ele me beijou ― ela
admitiu.
― Beijou você? Isso é tudo? Diga! ― O pai a pegou não muito gentilmente pelo
braço.
― Sim ― ela disse, se sentindo culpada com a mentira. ― Isso é tudo. ― Como ela
poderia dizer ao pai que Robert havia tocado onde ninguém havia, desde que ela
florescera em uma mulher?
Ele lhe chacoalhou pelo braço. ― Tola! Madge deve ir embora, eu vejo. Devo
encontrar alguém para olhar por sua virtude, já que você mesma não o consegue. Você
não percebe como ele deve estar exultante, menina? Você não percebe como ele deve
estar rindo com os servos por sua conquista?
Ela balançou a cabeça. ― Não, papai ― respondeu ela. ― Ele me ama. Ele não é
assim.
― E eu suponho que você o ama muito e lhe disse ― falou ele.
― Sim. ― Seu queixo se levantou teimosamente. ― E eu disse que vou casar com
ele quando fizer dezoito anos. ― Seu pai riu asperamente. ― Então eu terei que estar em
minha sepultura primeiro ― disse ele. ― Você não se casará com o bastardo de ninguém,
Jeanne. Ou qualquer inglês, se eu puder impedir. E se você quer saber a verdade, então eu
vou te dizer, que soube de seus movimentos durante as últimas tardes de alguém a quem
o bastardo foi se gabar, de suas conquistas e de seus planos para lhe arruinar antes de
você sair daqui.
― Não ― disse ela. ― Você está inventando isso, papai. Isso não é verdade. Robert
não faria isso.
― Você me chama de mentiroso, então? ― Ele disse friamente. ― Ele levaria a sua
honra e depois riria na cara da cadela francesa que se achava muito melhor do que ele,
foram suas próprias palavras, Jeanne, faladas aos empregados e sem dúvida, a todos os
outros também. Suas próprias palavras, a cadela francesa.
― Não. ― Ela balançou a cabeça.
― Quem primeiro mencionou o casamento? ― O pai perguntou. ― Qual de vocês?
― Eu fiz ― disse ela. ― Eu queria que ele soubesse que eu estava disposta a me
casar com ele, não importa o que aconteça.
― E ele concordou? ― Perguntou o pai.
― Sim ― disse ela. ― Eventualmente.
― Ah ― disse ele. ― Eventualmente. E ele disse que a amava antes de você disse a
ele?
― Não ― ela disse ― mas ele disse imediatamente após mim.
― Jeanne, ― disse ele asperamente, ― você é uma menina inocente. Amor e
casamento não fazem parte dos planos de um homem assim. Apenas vingança contra
aqueles mais respeitáveis que ele. Você é ― ‘a cadela francesa' para ele. Acha que eu
nunca irei esquecer ou perdoar essas palavras? Ele não faria parte de sua vida se eu não
fosse um convidado na casa de seu pai. Eu vou ter uma palavra com o marquês, porque
pessoas respeitáveis não estão seguras em torno de um tal rapaz.
― Não, disse ela. ― Por favor, papai, não diga nada. Eu não gostaria de o deixar
em apuros.
― Você vai ficar neste quarto ― disse o pai. ― Eu vou dizer que está indisposta.
Não deve sair em nenhuma circunstância, sem a minha permissão. Você me entende?
― Sim, papai ― disse ela.
Mas não iria acreditar em qualquer uma dessas coisas que ele tinha dito, ela pensou
depois que ele havia saído. Ele havia dito tudo isso para a indispor contra Robert, a quem
ele, naturalmente, considerava inelegível. Ela não acreditaria em nada disso. Robert a
amava. Robert desejava se casar com ela, mesmo que ele tivesse percebido o tempo todo,
como ela, que nunca poderiam se casar. Não iria acreditar no pai.
Mas no silêncio de seu quarto, durante as horas que se seguiram, não podia deixar
de lembrar que ele não dissera que a amava, até que ela tinha dito as palavras em primeiro
lugar e lhe pediu que dissesse também, e que ele tinha evitado várias vezes dizer que
queria se casar com ela, do fato de que seus beijos se tornaram mais prolongados e mais
ardentes a cada dia, e que ele havia tocado seus seios naquela tarde.
Até onde ele tinha planejado ir nos três dias restantes antes que ela e seu pai
deixassem Haddington Hall? Se tivesse planejado com antecedência, é claro. Ou todas as
suas palavras e ações tinham sido espontâneas, como ela acreditara o tempo todo? Mas
recordou sua conversa de não pensar em impossibilidades, e aproveitar os dias que
restavam para eles. Apreciar? Como?
E essas palavras ficaram presas em sua mente, as palavras pelas quais supostamente
a descreveu a um empregado do estábulo. A cadela francesa. Seria possível? Mas teria
Papa inventado essas palavras? Ou o empregado o fez, mas diria a seu pai se não fosse
verdade?
Dúvida e angústia de jovens surgiram para ela com o sem fim do dia e da noite sem
dormir que se seguiu. Principalmente foi juventude. Ela tinha quinze anos, se recordou.
Não sabia nada sobre os homens, exceto o que os professores de sua escola tinham
sempre enfatizado, sua maldade e sua ânsia de usar a inocência de uma jovem. Papa, por
outro lado, tinha vivido em vários países diferentes e tinha sido um diplomata durante
anos, antes de fugir para a Inglaterra durante o Terror. Papa sabia muito mais sobre a vida
do que ela. E ele a amava. Ele sempre disse a ela, e não tinha nenhuma razão para duvidar
dele.
Ela tinha sido feita de boba, porque tinha quinze anos e estava ansiosa para ser
uma mulher, ser amada e apreciada.
Robert tinha dezessete anos, um homem já. Como ele deve ter rido dela. Como
deve ter desfrutado dos favores gratuitos que ela havia lhe dado. Como ele deve ter
estado ansioso para chegar os restantes três dias, quando com a angústia sobre sua
separação iminente teria dado mais livremente seus favores. Oh, sim, ele teria querido
aqueles dias.
E como ela o odiava!
Talvez tivesse apenas quinze anos, pensou ela, finalmente. Mas tinha decidido
crescer em algumas horas e de nunca se apaixonar novamente. Nunca permitiria que
qualquer homem tivesse qualquer poder sobre ela novamente. Iria aprender a ter esse
poder ela mesma, e como o usar também. Se houvesse mais alguém a ser feito de tolo
seriam os homens em sua vida.

***

Robert amava o início da manhã. A maioria dos dias, a menos que estivesse
chovendo muito, ele cavalgava por milhas, apreciando a sensação de liberdade e solidão.
Não gostava de estar na casa, onde havia sempre a chance de ficar cara-a-cara com a
mulher de seu pai. Mesmo seu pai o deixava desconfortável, agora que não mais estavam
no ambiente familiar da casa de campo de sua mãe, um pouco além dos limites da
Haddington Hall. Seu pai já não se parecia com o mesmo papai alegre e indulgente que
trazia presentes e brincava com ele, e sentava, por vezes, a falar com ele, enquanto mamãe
sentava em seu colo.
Robert estava retornando de sua cavalgada matinal, o dia depois que ele havia
beijado Jeanne no lago, e prometido chegar em um cavalo branco no seu décimo oitavo
aniversário. Sorriu com a lembrança, embora o sorriso fosse um pouco triste. Haveria
apenas três tardes e, em seguida, ele não a veria nunca mais. A iria amar toda a sua vida,
mas jamais a veria novamente, uma vez que deixasse Haddington. Seu pai estava falando
de voltar para a França quando pudessem, ela tinha dito. E mesmo que não fosse assim,
não havia nenhuma possibilidade de um futuro para eles. Absolutamente nenhuma.
Mais uma vez, a realidade de sua situação como um filho ilegítimo pesou. E ainda
assim, ele estava crescendo. A realidade tinha que ser enfrentada e aceita. Ele não se
revoltava contra o fato.
Havia uma carruagem puxada no terraço em frente da casa, a viu quando se
aproximou dos estábulos. Era a carruagem do conde de Levisse. Franziu o cenho quando
desceu da sela e chamou um lacaio que passava.
― Os convidados vão a algum lugar? ― Perguntou.
― Partindo ― disse o lacaio. ― O cocheiro estava resmungando sobre isso, Master
Robert. Ele gostou da taberna na vila. Mas as ordens foram dadas ontem à noite.
Partindo! Receber a notícia foi como se tivesse levado um chute no estômago, e
Robert entregou as rédeas de seu cavalo distraidamente para o lacaio como normalmente,
e olhando para além, caminhou na direção do terraço.
Mas parou na esquina da casa. Seu pai e a marquesa estavam fora se despedindo do
conde e Jeanne. Ela, vestida com um traje de viagem verde escuro e chapéu, parecia
pequena e muito jovem na companhia dos três adultos. E muito bonita. Ele sabia agora
que seu cabelo escuro era mais marrom do que preto, que seus olhos escuros eram de cor
cinza, e não marrom. Ele sabia muito mais sobre ela do que tinha sabido na noite do
baile.
Jeanne!
Mas, embora ficasse imóvel e a alguma distância, viu quando ela se virou em
direção à porta aberta da carruagem. Ela hesitou por um momento e, em seguida, correu
em direção a ele. Seu pai estendeu a mão para ela, mas depois deixou-a cair para o lado e
observou.
Robert não disse nada. Por que perguntar se ela estava saindo? Obviamente, ela
estava indo. Ele olhou para ela, angustiado. Até mesmo um adeus privado devia lhes ser
negado.
― Robert. ― Ela abriu um grande sorriso. ― Como estou feliz porque vi você
antes de sair. Gostaria de dizer adeus.
Ele engoliu em seco. Ao contrário dela, ele não tinha as costas para os três adultos
assistindo e os servos. Se sentia muito exposto à opinião pública.
― Eu quero lhe agradecer por quatro tardes encantadoras e pela dança no terraço
― ela disse, sua voz leve e provocante. Olhava para ele por debaixo de suas pestanas.
― Não é necessário, obrigado ― disse ele, com dificuldade de soltar as palavras. ―
Jeanne. ― Ele sussurrou seu nome.
― Ah, mas você o fez. ― Ela sorriu ofuscante. ― Os dias teriam sido muito
aborrecidos se eu não tivesse me divertido com você.
Ela estava fora do alcance da voz das pessoas no terraço e de costas para eles. Ela
não precisava desempenhar um papel.
― Jeanne ― disse ele novamente.
― Por que você está tão triste? ― Perguntou ela. ― Estamos indo mais cedo, é
isso? Mas eu pedi a Papa para me levar de volta a Londres, porque a vida é tão monótona
aqui. Oh, Robert, você não está se sentindo triste, não é? Você não levou aqueles beijos
sério, e toda aquela conversa tola sobre amor e casamento, não é?
Ele olhou para ela e engoliu em seco novamente.
― Oh, pobre Robert. ― Seus olhos caíram para seu pomo de Adão, e ele se sentiu
grande e desengonçado novamente. Ela riu alegremente. ― Você fez isso, não foi? Quão
tolo e caipira é você. Não acha que eu iria levar a sério o amor e considerar o casamento
com um bastardo, não é? Não é, Robert?
Ele apenas olhou para ela enquanto seus olhos varriam os dela novamente.
― Oh, pobre Robert ― disse ela novamente, e seu riso tilintou sobre ele como
vidro quebrado. ― Como é divertido. O bastardo e a filha de um conde francês. Daria
uma farsa maravilhosa, você não acha? Papa está esperando. Adeus. ― Ela estendeu a
mão enluvada para ele.
Ele ignorou. Nem sequer viu. Não viu, embora olhasse diretamente nos olhos dela.
Só sentiu a dor cegante de uma realidade a que se acreditava crescer acostumado.
Ela deu de ombros e se desviou dele. E dois minutos depois, a carruagem de seu
pai a estava levando para longe de Haddington Hall. Robert não se moveu. Ele nem
notou a aproximação de um dos servos de seu pai.
― Sua senhoria o espera na biblioteca imediatamente, Master Robert ― disse o
servo.
Robert olhou para o homem e não respondeu. Mas começou a se mover ao longo
do terraço, agora deserto.

***

― E então você vê por que eles decidiram encurtar a sua curta visita em três dias ―
o marquês estava dizendo a seu filho. Ele estava sentado em uma cadeira de couro atrás
da mesa de carvalho na biblioteca, um cotovelo sobre o outro braço, os dedos juntos sob
o queixo. Seu filho estava em pé diante da mesa. ― É uma vergonha para mim e uma
decepção para sua senhoria.
Robert não disse nada. Ele olhou fixamente para trás.
― Ela é uma coisinha linda e sedutora ― disse o marquês com uma risada. ― Eu
mal o posso culpar por ter olhos para ela, menino. E ela deve ser uma peça um pouco
danada para sair secretamente com você, como fez por várias tardes. Francês, você sabe.
Eles são geralmente quentes para segurar. Mas ela não é para gente como você, Robert.
Não, obviamente não. Ele não precisava que lhe dissessem aquilo.
― Você tem dezessete anos ― disse o marquês com uma risada. ― Está pronto
para uma mulher, não é, rapaz? Seria estranho se não estivesse. Não teve uma ainda? Não
rola no feno com uma moça disposta? Tenho negligenciado sua educação, ao que parece.
Nomeie a garota que quer e eu a vou comprar para você. Mas há limites, Robert. ― Ele
riu muito. ― Não pode aspirar a uma mulher respeitável, você sabe. Não acima de uma
certa classe, de qualquer maneira. Você é meu bastardo, depois de tudo, o que não deve
ser esquecido, rapaz, apesar de quem eu sou.
Não, ele não iria esquecer.
― Sua mãe era minha amante, não minha esposa ― disse o marquês. ― Entende a
diferença, menino?
― Sim. ― Foi uma das poucas palavras que ele tinha falado durante a entrevista.
― Eu a amava ― disse o marquês, sua jovialidade o abandonou por um momento.
― Ela era uma boa mulher, menino, e você não se esqueça disso, mesmo sendo uma
mulher caída.
Ela era sua mãe. Ele a amava também. E nunca duvidou de sua bondade. Ou
pensou sobre o fato de que ela não era respeitável.
― Mas eu tinha que casar dentro de minha própria classe ― disse o marquês com
um encolher de ombros. ― E foi assim que você nasceu um bastardo. Meu único filho. O
destino pode lhe pregar peças estranhas, não é? Agora, qual é a mulher que você gosta?
― Nenhuma ― disse Robert. ― Eu não quero uma mulher.
Seu pai jogou a cabeça para trás e riu. ― Então você não deve ser meu filho ―
disse ele. ― Sua mãe me mentiu, afinal? Vamos, rapaz, você não está deprimido por um
pouco de saia francesa, não é?
― Não ― disse Robert.
― Bem. ― Seu pai deu de ombros. ― Quando estiver precisando de uma mulher,
rapaz, venha e me diga. Embora seja um rapaz bastante bonito, talvez precise de um
pouco de carne em seus ossos antes. Quem sabe possa seduzir sua própria meretriz no
feno. Você é um menino inquieto, não é? Fora a equitação você anda por todas as horas
do dia.
― Eu gosto do ar livre ― disse Robert.
― Talvez você precise de mais para o ocupar ― disse o marquês. ― Ou, quem
sabe, eu devesse comprar essa comissão para você antes de seu aniversário de dezoito
anos. O que me diz? Sua senhoria ficaria feliz o suficiente de se livrar de você. ― Ele riu
novamente. ― Lhe ver, é uma censura constante para ela. E ninguém seria capaz de dizer
que eu não tenha sido generoso com meu bastardo, não é?
― Não senhor.
― Nunca me esquivei da responsabilidade para com você, rapaz ― disse o pai, de
coração. ― Mesmo que seja tão diferente de mim como poderia. É uma boa coisa que sua
mãe lhe desse seus cabelos loiros ondulados e olhos azuis, não é? Mas eu nunca o neguei,
Robert, e não vou fazer isso agora. Você pode se gabar para todo o seu regimento que o
marquês de Quesnay é seu pai. Eu não vou tentar lhe impor o silêncio.
Robert não disse nada.
― Corra, então ― disse o marquês. ― É melhor ficar em seu quarto, ah, o resto de
hoje e os próximos três dias. Prometi a sua senhoria que o iria punir severamente por sua
presunção em levantar os olhos para uma senhorita. As esposas devem ser aduladas,
Robert. Parece uma questão pequena para mim, embora você deva aprender para o seu
próprio bem a manter a sua estação em sua meretriz. Acho que eu tinha que lhe deixar a
pão e água também. Sim, isso vai agradar a sua senhoria. Vou dizer a ela que golpeei você
também. Ela não vai saber a verdade, já que é pouco provável que vá ao seu quarto para
verificar as provas por si mesma. ― Ele riu muito. ― Pode ir, então. Vou fazer algo sobre
essa comissão o mais rápido possível.
― Sim, senhor ― disse Robert, e se afastou.

***

Naquela mesma noite, Robert embalou alguns pertences, não mais do que poderia
levar em um pequeno pacote, e deixou tanto o seu quarto quanto sua casa, para buscar
seu próprio caminho no mundo.
Dois dias depois, em uma cidade a menos de vinte milhas de distância de
Haddington Hall, ele ouviu as convicções de um sargento de recrutamento e se alistou
como soldado raso no regimento de infantaria Nonagésimo Quinto, os Rifles.
Três meses se passaram antes que seu pai o descobrisse. Foi menos de uma semana
antes de que os novos recrutas do regimento, soldado raso Robert Blake entre eles,
estivessem embarcando para o serviço na Índia.
Robert recusou os apelos do marquês para que fosse autorizado a comprar uma
comissão para seu filho. Ele se despediu de seu pai com um rosto endurecido, nenhuma
emoção visível.
Se era um ninguém, e claramente era, então preferia entrar na vida adulta sem uma
etiqueta. Não filho do Marquês de Quesnay. Não era bastardo. Ele era o soldado raso
Robert Blake do Nonagésimo Quinto. Isso era tudo. Iria fazer o seu próprio caminho no
mundo, se houvesse uma maneira de ser feito por seus próprios esforços ou não.
E conhecia seu lugar no mundo para o resto de sua vida. Seu lugar era na parte
inferior da linha de um regimento de infantaria como um soldado raso.
A partir de agora, ele decidiu, não precisava de nenhum homem ou mulher, apenas
de si mesmo. Seria um sucesso ou um fracasso na vida sozinho, sem ajuda e sem vínculos
emocionais.
Nunca iria amar de novo, decidiu. O amor tinha morrido com sua mãe e com sua
inocência.
Portugal e Espanha, 1810
Capítulo 3
Ninguém no salão de baile da casa de Lisboa do Conde de Angeja teria imaginado
que havia uma guerra em andamento. Ninguém teria sabido que as tropas britânicas
enviadas a Portugal sob o comando de Sir Arthur Wellesleyi, para defender o país da
ocupação pelas forças de Napoleão Bonaparte, e para ajudar a libertar a Espanha da sua
dominação, fossem empurradas numa retirada ignominiosa no verão anterior, apesar da
sua magnífica vitória sobre os franceses em Talavera, na estrada para Madrid.
Ninguém, também, teria imaginado que se acreditava em Portugal e Inglaterra, que,
uma vez que a campanha de verão de 1810 começasse e os exércitos franceses
estacionados além da fronteira com a Espanha, finalmente fizessem o avanço esperado, o
exército do Visconde Wellington, Sir Arthur, tinha adquirido o novo título como
recompensa por Talavera, seria empurrado para o mar, deixando Lisboa à mercê do
inimigo.
Ninguém teria imaginado isso, apesar do fato de que os vestidos de seda
alegremente coloridos das senhoras estarem bastante ofuscados pelo esplendor dos
deslumbrantes uniformes militares da maioria dos senhores. Por um lado, a maior parte
das divisões inglesas e exércitos portugueses não estavam estacionados em Lisboa ou em
qualquer lugar perto dela. Estavam nas colinas do centro de Portugal, aguardando o
ataque esperado ao longo da estrada norte de Lisboa, depois do forte espanhol de Ciudad
Rodrigoii e o forte português de Almeidaiii. Apenas uma parte relativamente pequena do
destacamento tinha sido alocado mais perto de Lisboa, com a possibilidade de que os
franceses escolhessem a estrada sul, passando o formidável forte espanhol de Badajoz e o
português de Elvas.
Por outro lado, o clima geral dos dançarinos e foliões, senhores e senhoras, da
mesma forma era feliz e despreocupado. Guerra e a possibilidade de um desastre
pareciam tópicos longínquos na mente de alguém. Talvez muitos dos senhores se
regozijassem no fato de estarem vivos. Embora alguns dos funcionários e todos os
militares que tinham recebido convites para o baile fossem oficiais e estarem em Lisboa
em negócios legítimos, muitos deles eram convalescentes dos hospitais militares de lá.
Alguns eram bastante espertos para permanecer convalescendo durante o tempo que
pudessem. Outros se irritavam por estar de volta aos seus regimentos, ao mundo onde o
dever não era para leigos.
Esse homem era o único que estava em um canto sombreado do salão de baile, um
copo de vinho na mão, um olhar em seu rosto que poderia parecer moroso para um
observador desinformado, mas era na verdade apenas desconfortável. Ele odiava esses
entretenimentos e tinha sido arrastado protestando a este, por companheiros que se
recusaram a aceitar rindo um não como resposta. Sentia-se totalmente fora de sua
profundidade, fora do seu meio. Embora o salão estivesse lotado para além do conforto
e, seu canto fosse relativamente isolado, sentia-se bem visível. Ele olhava determinado e
desafiadoramente de vez em quando, como que para confrontar aqueles que estavam
olhando para ele, apenas para descobrir que não havia ninguém.
Eram os homens a quem olhava. Tivesse ele olhado para as senhoras, poderia ter
achado várias que de fato estavam lhe estendendo olhares secretos, mesmo que a boa
criação o proibisse de olhar. Ele era o tipo de homem a quem as mulheres olhavam duas
vezes, apesar de que seria difícil, talvez, explicar por quê.
Seu uniforme era sem dúvida o menos bonito no baile. Não tinha nenhum dos
complementos brilhantes de ouro ou laço de prata, que abundavam nos uniformes dos
outros. Nem sequer tinha a vantagem de ser escarlate. Era verde escuro e sem adornos.
Embora impecável e cuidadosamente escovado, tinha visto melhores dias. A maioria dos
homens não se dignaria a ser enterrado nele, o Major John Campion lhe havia dito mais
cedo, com uma gargalhada e um tapa amigável nas costas.
― Mas todos nós sabemos que cavalos selvagens não o iriam separar dele, Bob ―
ele acrescentou. ― Vocês atiradores são todos iguais, tão sangrentamente orgulhosos de
seu regimento que ainda preferem o rebaixamento em vez de pedir transferência para
outro.
Era o homem dentro do casaco verde, o que parecia, então, a atração. Era alto, de
ombros largos, musculoso, nem uma gama de gordura extra no corpo. E ainda assim não
era um homem obviamente bonito. Seu cabelo ondulado loiro, talvez a sua melhor
característica, estava cortado rente. Seu rosto era duro e parecia que raramente sorria, a
linha da mandíbula pronunciada e teimosa. Seu nariz aquilino tinha sido quebrado em
algum momento de sua vida e já não era bastante simples. Uma cicatriz antiga de batalha
começava no meio de uma bochecha, subia sobre a ponte do nariz, e terminava apenas
onde a outra face começava. Seu rosto era bronzeado, os olhos azuis eram
espantosamente pálidos em contraste.
Não era um homem bonito, talvez. Era algo melhor do que isso, a mulher com
quem partilhou os meses tediosos em Lisboa lhe havia dito, várias semanas antes, apoiada
em um cotovelo na cama ao lado dele, enquanto traçava a linha de sua mandíbula com
um dedo longo. Ele era irresistivelmente atraente.
Capitão Robert Blake tinha rido e estendido a mão e um braço poderoso para
trazer sua cabeça para baixo da dele.
― Se é mais disso que quer, Beatriz ― ele dissera a ela em sua própria língua ―
você só tem que pedir. A bajulação é desnecessária.
A dança tinha terminado, e o capitão deu um passo mais para trás para as sombras.
Mas não foi deixado com seus próprios pensamentos. Três dos oficiais do hospital, que
tinham insistido para que assistisse a este e vários outros entretenimentos ao longo das
últimas semanas, quando ele já não estava acamado por seus ferimentos, foram cair em
cima dele, o tenente João Freire dos atiradores portugueses, os Caçadores, com uma jovem
de cabelos encaracolados em seu braço.
― Bob ― disse ele, ― por que você não dança? Nem me diga que você não pode.
― Capitão Blake deu de ombros.
― Sophia quer dançar com você ― disse o tenente. ― Não é, meu amor?
Ele sorriu para a menina, que olhava fixamente para ele e para o capitão Blake.
― Seria bom se você falasse português para a pobre moça ― disse o major
Campion. ― Eu suponho que ela não fale uma palavra de inglês, João.
O tenente continuou a sorrir para ela. ― Ela é quente para mim ― , disse ele, ainda
com forte sotaque inglês. ― Agora, se eu a pudesse separar de sua acompanhante e de sua
mãe e seu pai, talvez… ― Ele levantou a mão da menina em seus lábios. ― Você quer
dançar com ela, Bob? Eu ouso dizer que não será permitida a próxima.
― Não ― disse o capitão brevemente.
― Bob, Bob ― Capitão Lorde Ravenhill disse com um suspiro, chegando com o
dedo polegar para suavizar as bordas externas do seu bigode, ― o que é que vamos fazer
com você? Você não tem nenhuma das graças sociais.
― E nunca almejei qualquer uma delas ― Capitão Blake disse, irritado, apesar do
fato de que sabia que a provocação de seus amigos era para ser bem-humorada.
― Se você pudesse dançar, assim como luta ― disse o major, ― o resto de nós
poderia ir de volta para nossas camas enquanto as senhoras se reuniriam com você, Bob.
De soldado raso a capitão foram quantos anos?
― Um pouco mais de dez ― disse o capitão, se deslocando desconfortavelmente
em seus pés. Ele, particularmente, não gostava de ser lembrado de que tinha dado o passo
quase intransponível das fileiras a uma comissão, sem o auxílio de qualquer influência ou
compra. Era mais fácil, tinha achado, desde que foi promovido de sargento a tenente na
Índia por bravura excepcional, o que tornou possível a promoção, do que viver com o
fato de que seu lugar estava agora com os oficiais em vez dos homens alistados.
Socialmente ele não pertencia. ― Tive a sorte. Aconteceu de eu estar no lugar certo na
hora certa.
Lorde Ravenhill lhe deu um tapa nas costas e gritou com risos. ― Você tem estado
em mais lugares certos, às vezes mais certos do que qualquer outra pessoa no exército, se
ouvi os fatos corretamente ― disse ele. ― Sai da esquina, Bob. Há pessoas aqui que, sem
dúvida, ficariam fascinadas de conversar com um verdadeiro herói. Deixe que o apresente
a alguns deles.
― Eu estou indo para casa ― disse o capitão Blake.
― Casa sendo o hospital ou os braços da deliciosa Beatriz? ― Perguntou o Lorde.
― Não, realmente, Bob, não vai fazer isso, meu velho. A marquesa é esperada hoje à
noite. Ela tem estado em Lisboa já há alguns dias. Se você acha sua Beatriz linda, deve
ficar e contemplar a beleza verdadeira.
― A marquesa? ― Capitão Blake franziu o cenho. ― Quem no inferno ela é?
― No céu, meu rapaz, no céu ― Lorde Ravenhill disse, beijando dois dedos. ― A
Marquesa das Minas, o brinde de Lisboa. As ruas estão espalhadas com seus admiradores,
mortos por um de seus olhares escuros. E você pergunta: ― Quem no inferno é ela?
Fique e você vai ver por si mesmo.
― Eu estou saindo ― o capitão disse com firmeza. ― Concordei com uma hora e já
estou aqui há uma hora e dez minutos. ― Ele bebeu o vinho que permanecia em seu
copo.
― Tarde demais, Bob ― o major disse com uma risada. ― Esse zumbido extra e a
comoção na porta é o sinal de que ela chegou. Um olhar o vai enraizar no local por mais
uma hora e dez minutos, no mínimo, tem a minha palavra sobre isso.
― E como ― Tenente Freire disse em inglês, sorrindo agradavelmente para a
garota em seu braço ― eu que terei que me desfazer desta carga para que possa cair aos
pés da marquesa e render minha homenagem?
― Você a pode devolver a sua acompanhante e suspirar com o decoro que não
permite que dance o próximo conjunto de danças com ela ― disse o major.
― Ah ― disse o tenente, ― é claro. Venha minha querida, ― ele disse para a
menina em português ― Eu a vou devolver a sua acompanhante. Não seria, infelizmente,
eu a manchar a reputação de tão delicada flor por se manter comigo um momento mais.
Mas a memória desta meia hora vai me sustentar durante uma noite solitária.
Lorde Ravenhill bufou. ― Seria um bom castigo se a menina fosse uma estudante
secreta de línguas, ― disse. ― Suponho que ele estava se despedindo da menina com
protestos de amor eterno. Foi, Bob?
― Algo assim ― disse o capitão.
Mas sua atenção tinha sido distraída. Ravenhill não tinha exagerado muito, de
qualquer maneira. Era como se as multidões se separassem e a Rainha de Portugal ou da
Inglaterra tivesse entrado na sala. Não que todo o barulho ou atividade houvesse cessado.
Conversas continuaram e os homens escolhiam suas parceiras para o próximo conjunto
de danças. Mas de alguma forma o foco de atenção geral de repente se centrou na recém-
chegada.
Ela vestia simplesmente um vestido branco. E seu cabelo, escuro e brilhante, e
ainda assim um tom mais claro do que a maioria das mulheres portuguesas, não estava
elaborado. Foi penteado para trás de seu rosto suavemente, com cachos na parte de trás
de sua cabeça e orelhas. As luvas, leque e sandálias eram todos brancos. Foi difícil, à
primeira vista entender por que sua presença levantou tanta atenção. Mas havia várias
razões, ele percebeu, conforme a continuou a observar em quase toda a extensão do
grande salão de baile.
Ela estava toda de branco. Em meio às cores ricas e gloriosos dos uniformes dos
cavalheiros e menor brilho dos vestidos das damas, ela era tão surpreendentemente
notável como o primeiro floco de neve do inverno. E o contraste de seu cabelo escuro e a
cremosidade de sua pele não era muito visível nos ombros e peito perfeito, o que deixava
a brancura de sua roupa ainda mais deslumbrante.
Ele não poderia dizer se seu rosto era bonito, estava muito longe. Mas ela tinha
uma figura requintada, magra, curvada ricamente em todos os lugares certos; era o tipo de
figura que poderia fazer escravo a um homem, sem sequer um olhar para o rosto acima
dela.
Mas não era apenas sua aparência ou sua figura que representavam a quantidade
desproporcional de atenção masculina que ela estava atraindo. Havia outras mulheres na
sala que eram, talvez, quase tão bonitas, quase, se não completamente. O capitão Blake a
olhou com os olhos apertados. Havia uma presença nela, um sentimento de orgulho no
queixo erguido e a curva de sua coluna vertebral, uma expectativa de homenagem.
E homenagem era o que lhe estavam fazendo. Havia grandes quantidades de
regimentos escarlate e rendas de ouro sobre ela, prestando atendimento, tomando seu
xale, lhe buscando um copo de vinho ou champanhe, pegando sua mão e a beijando,
recebendo uma batida no braço de seu leque branco.
― Uma boa coisa passar a eternidade no inferno, em troca de uma noite, apenas
uma noite, hein? ― Disse Lorde Ravenhill, lembrando ao capitão Blake que ele estava
olhando para a mulher e que não tinha ido embora, depois de tudo.
― Eu ouso dizer que o corpo entre os lençóis na escuridão, daria mais prazer do
que o de uma prostituta disposta ― disse ele, observando o sorriso de uma mulher como
ela e a pequena corte que se reuniu à sua volta, ignorando o fato de que a dança começava
novamente.
Tanto o major como o lorde Ravenhill riram. ― Eu não acho que você acredite ser
melhor do que qualquer um de nós, Bob ― o major Campion disse. ― Apenas o
pensamento de minha mão nessa pequena é suficiente para me enviar em busca de um
balde de água fria. Alguém viu um em qualquer lugar?
A marquesa estava olhando sobre ela enquanto sua corte esperava sua participação.
Blake sentiu um ressentimento irracional crescendo nele. Ela era tudo o que era
requintado e caro, e fora do seu alcance. Não que ele ansiasse muito mais do que podia
ter. Poderia ter tido muito mais do que queria. Poderia ter começado sua carreira militar
nas fileiras dos oficiais, em vez de ter que abrir seu caminho da maneira mais difícil e
quase impossível. Ele poderia ser um tenente-coronel agora. E poderia ter sido conhecido
como o filho do Marquês de Quesnay. O filho ilegítimo, era verdade, mas ainda assim o
filho. O único filho.
Nunca lamentara o que fizera, ter provado a vida de um soldado e descoberto que
afinal lhe convinha admiravelmente, porque não tinha nenhum desejo de viver a vida
suave de um aristocrata. Não ansiava por dinheiro, mas seria bom, dado que o governo
inglês era notoriamente lento em enviar os recursos para pagar seus soldados. Se sentia
incômodo que não pudesse pagar os uniformes elegantes que viu no salão de baile. Nem
sequer se preocupava que não pudesse comprar botas melhores que as que estava
calçando.
Estava satisfeito com sua posição na vida, e com os incidentes dela. Exceto às
vezes. Oh, só às vezes, quando via algo além de seu alcance, algo como a Marquesa das
Minas, então sentia o despertar de inveja e ciúme, e até mesmo ódio. Odiava a mulher,
quando seu olhar o varreu do outro lado do salão e se voltou novamente, como se ela
tivesse notado no mesmo momento a estranheza de sua aparência pobre.
Ele odiava porque ela era bonita e privilegiada, e cara. Porque ela era a Marquesa
das Minas, um grande título para uma pequena senhora. E porque ele a queria.
Se virou bruscamente para seu superior, que ao contrário de Lorde Ravenhill não
tinha ido escolher outra parceira de dança.
― Eu estou saindo, senhor ― disse ele. ― Cumpri minha hora e muito mais.
O superior sorriu. ― E verá o cirurgião novamente amanhã, sem dúvida ― disse ele
― o ameaçando com tortura e morte, e pior, se ele não fosse mandado de volta para o seu
regimento. Quando é que você irá aprender a relaxar, Bob, e aproveitar o momento?
― Vou aproveitar o momento quando vir a cara feia do meu sargento e ouvir as
saudações profanas dos homens de meu regimento ― disse o capitão Blake. ― Sinto falta
deles. Boa noite.
O superior sacudiu a cabeça e riu novamente. ― Só não se esqueça de agradecer a
ele antes de partir ― disse ele. ― Ao cirurgião, quero dizer. Você ficou por um fio da
morte por um longo tempo.
― Isso me foi dito ― disse o capitão. ― Me lembro do velho cirurgião me dizendo
que era uma vergonha que peito e ombro não pudessem ser amputados. Se a bala tivesse
entrado no meu braço em vez de acima do meu coração, ele disse, a poderia tirar num
piscar de olhos e toda a inflamação e o resto teria sido evitado. Eu acredito que estava
ainda muito fraco no momento para cuspir em seu olho. ― Ele se virou para contornar a
ponta do salão com passos decididos. Não olhou para a marquesa ou os soldados em
torno dela enquanto se aproximava.
Mas um dos últimos, o major Hanbridge, um oficial de engenharia com quem o
capitão tinha se encontrado algumas vezes, se afastou do grupo e colocou uma mão
coberta de renda em seu braço.
― Você não está se esgueirando, está Bob? ― Perguntou. ― A pergunta é tola, é
claro. Certamente está escapando. A única maravilha é que você veio. Foi arrastado pelos
calcanhares? ― Ele sorriu.
― Fui convidado, senhor ― disse o capitão Blake. ― Mas tenho outro
compromisso.
O major Hanbridge ergueu as sobrancelhas. ― Um bom, eu não tenho nenhuma
dúvida ― disse ele. ― A marquesa deseja ser apresentada a você.
― A mim? ― Respondeu estupidamente. ― Eu acho que deve haver algum engano.
Mas os oficiais em volta da marquesa se retiraram para um lado e ela se virou para
olhar para ele. ― Ela está cansada de atender apenas homens fingindo ser soldados ― o
major Hanbridge disse com outro sorriso. ― Quer conhecer um real. Capitão Robert
Blake, Joana. Um herói de boa-fé, eu lhe garanto. A cicatriz é real, assim como as outras
que você não pode ver, todas elas cortesia de vários soldados franceses. Bob, posso lhe
apresentar Joana da Fonte, a Marquesa das Minas?
Ele se sentiu como um menino desajeitado e desejou, mais do que qualquer coisa,
ter ficado em seu canto seguro; mas inclinou a cabeça bruscamente e então percebeu que
deveria ter sido mais cortês, mesmo que com tantos espectadores interessados, sem
dúvida, fizesse um completo idiota de si mesmo. Ele pegou a mão enluvada que ela
ofereceu e a apertou uma vez, contente por ter passado da idade de corar. Obviamente,
deveria ter levado a mão aos lábios.
― Senhora? ― Ele disse, olhando para seu rosto pela primeira vez. Era tão linda e
tão perfeita quanto o resto de sua pessoa. Seus olhos eram grandes e escuros, mas cinzas,
e não marrons como ele esperava, e grosso cílios.
― Capitão Blake. ― Sua voz era baixa e doce. ― Você foi ferido em Talavera? ―
Seu inglês era impecável e apenas ligeiramente acentuado.
― Não, senhora ― disse ele. ― Meu regimento chegou lá um dia mais tarde, depois
de uma marcha forçada. Receio não ter sido herói daquela batalha; fui ferido em uma
ação de retaguarda, durante a retirada que se seguiu.
― Ah ― disse ela.
― Ele faz parecer bastante ignóbil, não é? ― Disse o major Hanbridge. ― Tiro nas
costas enquanto ele estava fugindo? Isso aconteceu quando tentava atrasar um ataque
surpresa em uma ponte quase sozinho, até que seus colegas soldados e superiores
pudessem, de qualquer forma, trazer todo o seu regimento e outros mais em auxílio.
Vários batalhões poderiam ter sido aniquilados se tivesse corrido de susto, como qualquer
mortal normal teria feito.
― Ah ― disse ela, ― você é um verdadeiro herói depois de tudo, então, capitão.
Como se poderia responder a esse comentário? Ele mudou seu peso de um pé para
o outro.
― Você estava de saída ― disse ela. ― Não o quero deter. Convidei alguns amigos
para uma recepção na minha casa, duas noites a partir de hoje. Você vai participar?
― Obrigado, minha senhora ― disse ele ― mas estou esperando para ser
autorizado a voltar para a frente dentro de uma semana. Estou bem recuperado dos
ferimentos.
― Fico feliz em ouvir isso ― disse ela. ― Mas não estará nos deixando dentro de
dois dias, não é? Vou esperar você.
Ele se curvou um pouco mais profundamente do que tinha feito antes, e ela se
virou para fazer algum comentário a um coronel dos dragões, que tinha pairado ao seu
lado desde a sua chegada. Ele foi demitido, o capitão Blake assumiu. Ele deixou o salão e
a casa, sem mais delongas.
Ele a tinha visto do outro lado da sala há certamente quinze minutos, pensou.
Claro, a distância tinha sido grande e a multidão amontoada. Mas, mesmo depois de ter
estado perto dela e de a ter olhado no rosto, não a reconheceu imediatamente. Estava tão
mudada, uma mulher madura e segura. Só reconheceu gradualmente algo em seus gestos
e expressões faciais, talvez.
Ela não o tinha reconhecido. Falou com ele como a um estranho, um que ela
assumiu ter vindo prestar homenagem a sua beleza. Um estranho a quem ela havia
convidado para um entretenimento e que não tinha intenção de participar, sob a
suposição de que ele ficaria muito ansioso para se juntar a sua corte de admiradores
devotados.
Joana da Fonte, Major Hanbridge a tinha chamado. Jeanne Morisette quando ele
tinha conhecido ela.
Jesus, pensou enquanto caminhava para uma parte menos nobre de Lisboa, onde
Beatriz o aguardava. Doce Jesus, ela era francesa!

***

Joana da Fonte, a Marquesa das Minas, bateu no braço do coronel Wyman com seu
leque. ― Outra taça de champanhe, por favor, Duncan ― disse ela. E se virou para outro
de seus admiradores e o convidou ― Você pode dançar o próximo conjunto comigo,
Michael. ― Houve um coro de protestos de uma meia dúzia de vozes masculinas.
― Injusto, Joana ― disse um jovem. ― Eu fiz questão de estar na porta, a fim de
ser o primeiro a lhe pedir.
― Você deve esperar a sua vez, William ― disse ela. ― Michael teve a prudência de
me chamar esta tarde.
Os protestos recuaram em lamentação e olhares de reprovação para o tenente
astuto que se tinha dado uma vantagem desleal, de uma forma que todos eles gostariam
de ter pensado.
Ele viria, pensou Joana. Tinha parecido inesperadamente relutante, era verdade, e
ela seria capaz de apostar que, naquele momento particular, ele estava convencido de que
não viria. Mas ele o faria. Ela sabia o suficiente sobre os homens para reconhecer aquele
olhar especial em seus olhos.
Ele não era nada como ela esperava; apesar de ter sido avisada de que era um
soldado, em vez de um oficial, por vezes havia uma distinção entre os dois termos, ela
sabia. Mas mesmo assim esperava um soldado cavalheiro, não um homem duro numa
guerra dura, com o tempo refletido no rosto e olhos espantosamente azuis. Parecia
totalmente despreocupado com o quase desalinho de sua jaqueta verde.
E, no entanto, ela pensou, batendo com o pé o tempo da música, e permitindo que
sua mente vagasse como fazia com frequência, para longe da conversa superficial e um
tanto tola fluindo em volta dela, senhores e soldados à parte, o capitão Robert Blake
parecia todo um homem.
Ela não tinha encontrado muitos homens em sua vida, pensou, embora estivesse
cercada agora, como normalmente ficava quando estava em sociedade, por machos.
Claro, havia Duarte e seu bando, mas eles eram uma questão diferente.
Ela tinha tido a sensação em seu primeiro olhar mais atento sobre o capitão Robert
Blake, de que já o tinha visto antes. Não seria surpreendente. Encontrara um grande
número de oficiais britânicos antes. Mas não teria esquecido tal homem, pensou. Não
teria esquecido tanto o desalinho de sua aparência como a dureza do seu rosto e figura.
Ou a atratividade exaltada do rosto. Não, ela não o tinha encontrado antes.
Ela flutuava uma mão descuidada para o coronel, quando ele voltou com o
champanhe. ― Você pode segurá-la para mim, por favor, Duncan ― disse ela, ―
enquanto eu danço com Michael?
― O que ele disse? ― O jovem Bristow solicitou sua mão quando eu não estava
aqui a discutir, Joana? Eu o vou chamar amanhã ao amanhecer.
― Duelistas são banidos para sempre da minha presença ― disse ela
descuidadamente, colocando uma mão enluvada levemente sobre a longa manga escarlate
do tenente. ― Tome cuidado, Duncan.
― Vai ser um prazer e um privilégio segurar sua taça até que retorne ― disse o
coronel Wyman, se curvando elegantemente sem derramar uma gota do líquido.
Ele havia subido das fileiras, ela tinha ouvido desde que chegou a Lisboa. Isso lhe
tinha sido dito antes. Deveria realmente ser um homem corajoso. Não muitos homens
alistados se tornavam oficiais. Foi uma sorte que ela o tivesse encontrado com tanta
facilidade, sem ter que fazer qualquer movimento para isso. Procurava jaquetas verdes há
três dias. Não eram muitos em Lisboa, a maioria dos atiradores estava sendo posicionada
com o resto da divisão de infantaria na foz do rio, perto da fronteira entre Espanha e
Portugal central, protegendo o exército de ataque repentino, e impedindo os franceses de
obter alguma informação sobre o que estava acontecendo em Portugal.
Foi uma sorte que ele tivesse estado no baile. Sua atenção tinha sido atraída
inicialmente para a jaqueta verde, e só depois para o homem dentro dela. Ele parecia um
candidato improvável à primeira vista. Mas talvez não. Um homem com facilidade para
línguas não era, necessariamente, um erudito fino, místico, certamente não, pois era um
capitão do famoso do Nonagésimo Quinto Rifles. E esse homem, ela sabia, tinha feito
um trabalho de reconhecimento antes. Ele deveria ser um homem de alguma ousadia.
Sim, ela tinha pensado, ele poderia possivelmente ser o seu homem. E
investigações discretas tinham delineado as informações que ela esperava de Jack
Hanbridge.
Ele viria, pensou novamente, sorrindo para Michael Bristow quando começaram a
dançar. Lembrou do jeito áspero de suas maneiras, a hostilidade franca em sua voz, a
esmagadora masculinidade de sua pessoa.
E lembrou de seus olhos, olhos azuis num olhar de consciência. Uma consciência
sem vontade, ela tinha certeza. Ele não tinha olhado para ela com apreciação aberta. Não
fez nenhuma tentativa de flertar com ela, e nunca o faria, suspeitava. Mas a consciência
tinha estado lá mesmo assim. E ela tinha ficado mais intrigada do que tinha estado com
toda a bajulação e adulação de seus pares mais elegantes.
Sim, ele viria.
Capítulo 4
Joana da Fonte, a Marquesa das Minas, não tinha nenhum negócio particular em
Lisboa, além da oportunidade de estar lá para se familiarizar com o capitão Robert Blake
em seu ambiente, mais até do que teria sido o caso se tivesse ficado em Viseuiv, até que ele
viesse. E quando ela tinha sugerido seu plano a Arthur Wellesley, Visconde Wellington,
ele achara uma boa ideia.
― Você vai, naturalmente o encontrar aqui, eventualmente, Joana ― ele disse
quando falara com ele em Viseu. ― Vou tratar disso. Mas será importante que você o
comece a conhecer muito bem.
― Mas o conhecer aqui levaria tempo, Arthur ― ela disse. ― E o tempo é uma
mercadoria que não há em abundância?
Ela tinha formulado suas palavras como uma pergunta. Mas poderia muito bem se
ter poupado o fôlego, pensara filosoficamente. O Visconde Wellington era sempre
charmosamente atento e galante para com as senhoras, como ele não era aparentemente
para os homens sob seu comando, mas manteve seu próprio conselho mais do que
qualquer outro homem que ela tinha conhecido. Ele podia, por necessidade, ter de
divulgar informações secretas para os numerosos espiões e oficiais de reconhecimento
que eram essenciais para o sucesso de suas campanhas em Portugal e Espanha, mas não
contava um segredo se não o tinha que fazer, ou antes que o tivesse de fazer.
Assim, embora Joana soubesse que logo estaria trabalhando com o capitão Blake,
sem que ele soubesse, em Salamanca, Espanha, atrás das linhas inimigas, na atual sede do
exército francês, não tinha a menor ideia do que exatamente era sua tarefa, ou a dela
também. Era mais irritante que intrigante.
― Você vê, Joana ― o Visconde Wellington tinha dito, sorrindo para ela e se
desculpando ― talvez, depois de tudo, o capitão Blake vá achar inadequada ou não querer
a tarefa que tenho em mente para ele. Ou talvez seu ferimento ainda não tenha
cicatrizado bem o suficiente, embora tenha passado um inverno inteiro e primavera no
hospital em Lisboa. E talvez você mude de ideia sobre voltar para o perigo de Salamanca.
Ela abriu a boca para protestar, mas ele levantou a mão, impaciente.
― Deixe-me colocar isso de uma maneira diferente ― ele disse com outro sorriso.
― Talvez, desta vez eu tenha sucesso a persuadindo a não voltar.
― Você sabe que eu iria mesmo que você não tivesse nenhuma utilidade para mim
― ela disse. ― Sinto que Wyman me está cortejando a sério. ― Ele olhou para ela
atentamente.
Ela tinha acenado com a mão descuidadamente. ― E meia dúzia de outros homens
também, se lhes dei o menor incentivo ― ela disse. ― As condições em tempo de guerra
são muito lisonjeiras para a estima de uma mulher, Arthur. Assim, muitos homens e
poucas mulheres elegíveis são um chamariz.
― Você está sendo muito modesta, Joana ― ele tinha dito. ― Muito modesta.
E assim, ela veio todo o caminho até Lisboa para conhecer o capitão Blake, a quem
tinha encontrado uma vez, muito brevemente, na saída do baile de Angeja. E sabia que
ele a tinha achado atraente mas que não tinha gostado da sensação, e tinha resolvido não
a ver novamente. Ela conhecia o bastante sobre os homens para saber exatamente o que
passou por sua mente, durante esse curto encontro.
E o homem pareceu ficar fora das ruas de Lisboa, pensou com um suspiro de
frustração, enquanto passeava ao lado do rio na tarde seguinte ao baile, girando um
guarda-sol branco acima de sua cabeça, e com luvas brancas nas mãos, esperando a poeira
não sujar muito visivelmente a bainha de seu vestido branco. Sua mão livre descansou
levemente no braço do coronel Wyman, e depois ela riu alegremente de alguma
observação que um tenente tinha feito. Cinco oficiais a acompanhavam na caminhada.
Mas não viu o capitão Blake por toda a tarde. Foi muito cansativo, pensou Joana.
Ela poderia muito bem ter ficado em Viseu. Mas ele viria para a sua recepção na noite
seguinte. Ela tinha certeza.
― Devo lhes transmitir uma advertência, Joana? ― O coronel Wyman perguntou a
ela, a voz um murmúrio contra sua orelha. ― Devo ter você para mim por um tempo?
Ela sorriu para ele. ― Mas eu não poderia suportar ser rude, Duncan ― disse ela. ―
Ou ter alguém sendo rude em meu nome. E é uma tarde tão agradável para um passeio
com companhia. ― Ela girou a sombrinha novamente. O coronel tinha proposto
casamento para ela pela segunda vez, na noite anterior. E ela estava inclinada a aceitar.
Oh, sim, ela queria aceitar, tudo bem. O pensamento de estar na Inglaterra, onde sua mãe
tinha crescido e onde ela passara muitos anos felizes, apesar do amparo de seu pai, era
como o pensamento do céu. Seria o auge da alegria se casar com um lorde inglês e passar
o resto de sua vida onde ela pertencia.
Joana sorriu e inadvertidamente atraiu um rubor às faces de um jovem tenente, que
tinha pisado fora do caminho para permitir que ela e sua comitiva passassem, olhando
para ela todo o tempo e só agora se lembrando de saudar seus oficiais superiores. Ela era
uma estranha para falar sobre pertencer, pois não pertencia a lugar algum.
Sua mãe era inglesa e se casara com um nobre português, antes de ficar viúva e se
casar novamente. Joana tinha dois meios-irmãos e uma meia-irmã em Portugal. Teve, ela
se corrigiu. Apenas Duarte foi deixado com vida. Seu pai era francês e atualmente estava
de volta à França, um diplomata novamente, em Viena, naquele momento em particular.
Ela tinha sido enviada de volta a Portugal, após o retorno da Inglaterra. Tinha sido uma
breve estadia, durante a qual Joana se casara com Luís, o Marquês das Minas. Fora um
casamento político, ele tinha quarenta e oito contra os seus dezenove anos, e eles nunca
tinham particularmente gostado um do outro. Mas ele achou prudente se aliar a um dos
cidadãos poderosos da França, e seu pai achara se ela tivesse laços com outro país que
não a França, esta se mostraria magnânima aos seus amigos. Ele jamais incentivara seus
laços com a Inglaterra e seus avós de lá. Joana suspeitava que seus pais não se haviam
separado no melhores termos.
Ela e seu marquês tinham seguido mais ou menos caminhos separados, até que
realizaram às claras em 1807, quando ele tinha fugido de Portugal com a família real, com
a aproximação de um exército invasor francês, liderado pelo Marechal Junotv. Ele tinha
morrido de febre durante a viagem para o Brasil, deixando Joana livre. Ela poderia ter ido
com ele, se não tivesse se afastado de Lisboa no momento, como tantas vezes fazia,
visitando amigos em Coimbravi.
E assim, aonde ela pertencia? Joana perguntou a si mesma, enquanto falava e
flertava com quatro oficiais britânicos e um português, tudo de uma vez, e ainda dava
alguns olhares preferenciais e sorria para o coronel, com quem ela poderia se casar um
dia, se o destino sorrisse para ela. À França? Mas o pai dela não estava lá, e não fora
muito feliz, mesmo quando ele estava, sendo agora um país que mal reconhecia e um dos
quais ela secretamente reprovava. À Inglaterra? Mas ambos os avós estavam mortos e ela
nunca tinha visto sua tia e tio, irmã e irmão de sua mãe. A Portugal? Mas seu marido
estava morto, bem como o mais velho de seus meios-irmãos e Maria, sua meia-irmã.
Apenas Duarte fora embora e ela apenas o conseguiu ver algumas vezes, não tão
frequentemente como desejava.
Além disso, Portugal era um país perigoso para se estar naquele momento em
particular. Os franceses tinham estado lá e os britânicos os haviam expulsado. Mas os
franceses conseguiriam voltar, e em breve. Apesar da grande vitória em Talavera no verão
anterior, ninguém tinha grande esperança de que os ingleses seriam capazes de enfrentar
uma outra batalha naquele ano. Era apenas uma questão de tempo, antes que os franceses
invadissem e os pusessem em retirada, até que o resto de seu exército fosse conduzido
direto para o mar, para a Inglaterra. O destino dos portugueses não pesaria quando isso
acontecesse.
Sua escolha mais sábia, apesar de sua identidade francesa, Joana pensava, seria a de
aceitar a proposta de Duncan, o que a mandaria para a segurança da Inglaterra, sem
demora.
Só que ela não poderia ir para a Inglaterra ainda. Ela pertencia a Portugal até que
certas questões tivessem sido resolvidas. Muito pouca gente sabia que ela era metade
inglesa. Achavam que fosse portuguesa. E ela fomentara a crença. Até mesmo seu nome,
o nome que sua mãe tinha dado a ela, e que seu pai tinha mudado mais tarde para o
francês, era português. E, felizmente, ela parecia quase portuguesa, embora seu cabelo
pudesse ser mais escuro e os olhos de uma cor diferente.
Sim, ela pertencia a Portugal. Porque foi em Portugal, durante a invasão francesa,
quando ela tinha ficado com seu irmão e irmã, e esposa e filho de seu irmão, que ela tinha
sido testemunha horrorizada e aterrorizada da chegada do exército francês na aldeia e na
sede de sua família. Ficara no sótão, à procura de um par de sapatos mais adequados para
caminhar pelo campo, do que os que tinha trazido com ela. E olhou para baixo, através
de uma fenda no alçapão mal ajustado, como soldados esmagavam e destruíam com suas
baionetas tudo o que não era comestível, ou com que não valesse a pena encher suas
sacolas. Enquanto quatro deles se revezavam violentando Maria, antes que um deles a
trespassasse completamente com sua baioneta, a um sinal de um oficial. E como outro
tiro matou Miguel à queima-roupa, enquanto corria para dentro de casa para defender sua
família. Ela não tinha testemunhado o abate, em outra sala, da esposa e filho de Miguel.
Duarte estava longe da aldeia no momento. Ele tinha encontrado Joana ainda
encolhida no sótão, seis horas depois de os franceses terem partido.
Sim, ela pertencia a Portugal. Porque ela tinha visto os soldados franceses e, em
particular, o oficial que tinha tomado o primeiro turno com Maria, e depois ficado na
porta observando tudo o que acontecia, com um meio-sorriso nos lábios. Joana o tinha
visto. Seu rosto ficaria marcado em alguma parte do seu cérebro, logo atrás de seus olhos.
Ela o iria reconhecer em qualquer lugar, a qualquer hora e em qualquer disfarce.
Não podia sair de Portugal ou da Espanha, até que tivesse visto aquele rosto
novamente; até que tivessem matado o homem a quem o rosto pertencia. Ela o faria,
Duarte sempre lhe assegurara. Poderia fazer a identificação, e ele iria fazer a matança.
Eles eram, afinal, seu irmão e irmã, e a família de seu irmão. E Duarte era agora o líder de
um grupo de homens com poder jurídico, uma organização semi-militar de combatentes,
partidários de perseguir os franceses em todas as colinas, e ao longo de cada estrada
solitária, matar onde e sempre que podiam.
Duarte iria matar o oficial francês, e talvez fosse justo que ela lho permitisse fazer.
Mas não queria, porque isso era algo que ela faria por si mesma, algo que ela tinha que
fazer. Só esperava que o homem não tivesse morrido em batalha, antes que o pudesse
encontrar. Mas se recusou a pensar nessa possibilidade tão deprimente. O iria rever
novamente, um dia.
E tinha uma vantagem que Duarte não tinha. Uma vantagem que quase ninguém
em Portugal tinha. Ela era meio francesa. Tinha feito um casamento político com um
nobre português, agora, infelizmente, falecido. Tanto quanto qualquer francês sabia, ela
era uma filha fiel da Revolução, uma súdita leal ao imperador Napoleão.
Por isso não raras vezes visitava a Espanha, onde quer que o francês passasse a ser
recebido. Ultimamente, as visitas tinham sido a Salamanca. E, portanto, aí residia sua
utilidade para o Visconde Wellington e sua vontade de confiar nela, apesar do fato de que
ela era meio francesa. E, portanto, sua recusa a deixar que a convencesse a não fazer nada
tão perigoso quanto ir atrás das linhas inimigas, a fim de espionar para ele.
E, consequentemente, a sua vontade de ir para lá novamente e agir, não só neste
momento, como normalmente faria, mas com a união misteriosa com o capitão Robert
Blake, que não sabia nada sobre ela, exceto que era a muito frágil, paqueradora e
impotente Marquesa das Minas. Um de seus disfarces.
Não só não estava claro onde ela pertencia, Joana pensava com tristeza. Não estava
ainda claro o que ela era. Às vezes, não tinha certeza de si mesma.
― Você está estranhamente quieta e séria, Joana ― disse o coronel, olhando para
seu rosto.
Ela sorriu para ele e bateu em seu braço com a mão enluvada. ― Eu estava apenas
pensando ― ela disse ― como é triste que a tarde deva chegar a um fim. Esse tempo
bonito e uma companhia deliciosa. Sim, obrigada ― disse a um jovem tenente satisfeito e
surpreso, lhe entregando a sombrinha e o vendo a fechar com dedos desajeitados. ― O
sol já não está tão forte como antes. Eu o quero sentir contra o meu rosto.
Em vez de se sentir um tolo por estar carregando uma coisa tão feminina como
uma sombrinha de senhora em um passeio público, o tenente olhou em volta com alguma
pena dos companheiros, cujas mãos estavam vazias de tal sinal do favor da senhora.

***

Durante a manhã do mesmo dia, o cirurgião disse ao capitão Blake que ele poderia
voltar para seu regimento em uma semana, se absolutamente insistisse. Seria melhor, é
claro, ele aconselhou seu paciente, convalescer durante o verão e esquecer sobre a
campanha desse ano. Afinal, tinha sido gravemente ferido e tinha pairado à beira da
morte por vários meses, o que era efeito do ferimento e da febre que tinha tido depois.
― É claro ― acrescentou ele, olhando para o rosto endurecido pela guerra do alto
veterano que estava à sua frente ― eu poderia muito bem guardar meu fôlego para esfriar
o meu chá, não?
O capitão sorriu inesperadamente. ― Sim, senhor ― disse ele.
― Bem, mais uma semana ― o cirurgião disse abruptamente. ― Venha me ver em
seguida, e eu o liberarei, desde que não haja recaída.
Mas o capitão Blake foi liberado mais cedo do que isso, para seu alívio. No dia
seguinte, um oficial da equipe de Viseu, no centro de Portugal, lhe trouxe uma mensagem
verbal da sede.
― Capitão Blake? ― Ele respondeu, quando o outro se juntou a ele na sala de
recepção do hospital. ― Sim, claro. Eu vi você antes, não? Espero que se tenha
recuperado de seus ferimentos?
― Bem o suficiente para estar subindo paredes e marchar sobre os tetos para fazer
exercício ― disse o capitão. ― Existe alguma ação na frente?
O oficial ignorou a pergunta. ― Você deve se apresentar na sede dentro de uma
semana para obter mais instruções ― disse ele. ― Desde que esteja bem o suficiente, é
claro.
― Bem o suficiente! ― O capitão fez das palavras uma exclamação. ― Eu poderia
lutar dois duelos antes do café da manhã, e me perguntar o que teria para comer em uma
manhã tão maçante. Quem quer me ver na sede?
O oficial olhou para ele sem entender. ― Quem quer ver alguém na sede? ― Disse.
O capitão levantou as sobrancelhas. ― O Beau? ― Perguntou. ― Wellington?
― Dentro de uma semana ― disse o oficial. ― Você deve saber muito bem,
capitão, que quando o comandante-em-chefe expressa um desejo de falar com uma
pessoa, logo que possível, ele quer dizer ontem ou de preferência no dia anterior.
― Vou estar lá na primeira luz da amanhã. ― O oficial sorriu.
― Provavelmente não tão cedo. ― O oficial fez uma careta. ― Irá escoltar a
Marquesa das Minas. Você a conhece? Isso o obrigará a atrasar porque tem uma dama
para escoltar, e sua senhoria quer que você vá a Viseu sem demora. Mas ambas as ordens
vêm dele, assim faça a sua própria interpretação.
Capitão Blake olhou fixamente para o outro homem. ― Eu devo escoltar a
marquesa para Viseu? ― Perguntou. ― Para o perigo e não para fora? Mas por que eu?
Por que o Beau pediu uma coisa dessas? Será que os portugueses colocaram alguma
pressão para que aja de babá para todas as suas damas maiores e mais indefesas?
O oficial deu de ombros. ― Não é para mim que deve perguntar por que ― disse
ele. ― Apenas se certifique de mostrar o seu rosto dentro de uma semana, capitão, e que a
senhora seja entregue em segurança em Viseu. Eu tenho outras coisas para fazer.
Blake ficou sozinho na sala, carrancudo, depois de ter sido deixado sozinho. Que
diabo! Ele era solicitado na sede? Não na frente, onde a Divisão Ligeira estava vigiando
ao longo da linha do Côavii? Havia algum trabalho especial para ele fazer? Seu humor
acelerou a possibilidade. Ele tinha sido usado para reconhecimento ocasional ou trabalho
especial de missão ao longo dos anos, tanto na Índia como em Portugal. Seu talento com
as línguas foi o grande responsável. Sempre fora capaz de pegar uma linguagem
facilmente, mesmo em menino, quando sua mãe lhe ensinara o francês e o italiano. Ele
odiava estar em um país e não saber o idioma. E assim, depois de dez anos de viagens
com os exércitos britânicos, ele era poliglota.
Mais de uma vez lhe tinham oferecido uma posição permanente com a agora
equipe de reconhecimento de Wellesley, agora Lorde Wellington, com os homens que
penetravam os territórios inimigos, levando ou trazendo de volta informações sobre
posicionamentos e movimentos de tropas. Ele se sentira tentado. A pura emoção e perigo
envolvido o atraíam. Mas ele pertencia a seu regimento. Nunca se sentira tanto em casa
como quando estava conduzindo seu próprio regimento de rifles, na linha de combate à
frente da infantaria.
Mas, ocasionalmente, ele gostava de uma missão especial. E seria especialmente
bem-vinda uma agora, depois de meses de dor e fraqueza, e puro tédio em um hospital de
Lisboa, longe dos homens que tinha chegado a pensar que eram quase como sua própria
família. Talvez seu retorno à ativa fosse mais emocionante até mesmo do que previra.
Mas seu cenho se aprofundou quando se lembrou da sua outra ordem. A pedido
do Visconde Wellington, devia escoltar a Marquesa das Minas até Viseu. Apenas um
momento antes ele havia se convencido a resistir à tentação de assistir sua recepção
naquela noite. E quando tivera a esperança de que poderia ir embora e nunca mais ter que
ver ou pensar nela novamente.
Jeanne Morisette. Ele não conseguia mais sentir o sofrimento e a dor do menino
que tinha sido quase onze anos antes. Seria tolice a odiar por causa das palavras cruéis e
sem coração, que ela tinha dito quando era uma menina de quinze anos. Ele não a odiava.
Mas a tinha visto novamente durante seu breve encontro no baile, a beleza e o encanto, e
essa outra coisa a que não iria colocar um nome, que atraía homens como abelhas pelas
flores. E ele tinha percebido a provocação nela, o que lhe permitia manter todos os
homens pendurados, ansiando por apenas um sorriso ou algum favor.
E ele sabia que poderia facilmente se tornar um desses homens, se não prestasse
atenção a si mesmo. Que destino mais humilhante poderia haver na vida, do que se tornar
o cãozinho de uma provocadora bonita e sem coração?
Ele não faria isso. Não a iria ver novamente, tinha decidido.
E, claro, havia o fato de que ela era francesa. Ele se perguntou se alguém sabia.
Lorde Ravenhill tinha sido capaz de lhe dizer apenas que ela havia sido casada com o
Marquês das Minas, um homem altamente favorecido pela família real portuguesa e que
tinha fugido com eles.
O fato de que ela era francesa tinha algum significado? Ele se perguntou. Seu pai tinha
afinal sido um imigrante monarquista na Inglaterra. Talvez nunca tivesse voltado para a
França. O capitão Blake não sabia. Além disso, sua mãe tinha sido uma inglesa, se ele se
lembrava corretamente. Sua nacionalidade podia não ser de qualquer importância. Mas ela
tinha mudado de nome. Agora era Joana, não Jeanne. Queria disfarçar uma verdade que
preferia esconder?
E ainda o Beau tinha decretado que o capitão Blake a escoltasse para Viseu, uma
viagem de vários dias para uma mulher viajando de carro, de qualquer maneira.
Inferno e danação! Capitão Blake pensou com raiva súbita. Ele encheu a sala vazia
com alguns outros juramentos mais satisfatórios. Mas isso não mudava nada. Devia
passar os próximos dias dançando, em atenção a uma mulher que preferia nunca mais
voltar a ver. Por vários dias estaria sendo submetido a sua beleza e seu charme, e a algo
mais de que ele tinha muito medo a que pudesse não ser capaz de resistir, se ela decidisse
lançar sobre ele.
Seria melhor aparecer em sua recepção, afinal de contas, ele supôs, a fim de fazer
alguns arranjos para o dia seguinte. Se perguntou se ela já tinha sido informado das boas
novas, e como se sentiria sobre ter que aceitar a sua escolta.
Provavelmente nada. Ela o iria tratar, como tratava a qualquer homem, como seu
servo, que lhe devia serviço e homenagem, porque era seu direito. Ele se irritou porque
essa escolta provavelmente não significaria nada mais do que isso para ela.
E isso o irritou ainda mais, porque importava para ele, diabos!

***

Sim, ele certamente viria para a sua recepção agora, Joana pensou com alguma
satisfação. Embora haja um pouco de aborrecimento, muito, após o mensageiro de Lorde
Wellington o tenha deixado. Ela teria gostado de descobrir se ele teria vindo de qualquer
maneira, o que estava quase convencida de que faria. E ela o tentaria persuadir para que a
acompanhasse de volta para Viseu. Teria sido um desafio de que poderia ter desfrutado.
Mas Arthur não tinha deixado nada ao acaso, ou às artimanhas de uma mulher. Ele
simplesmente tinha enviado uma ordem ao capitão Blake.
Bem, pelo menos, pensou Joana, ele viria. E ela fez uma pausa no ato de colocar
perfume atrás de uma orelha. Tinha um propósito em travar esse conhecimento, o
convidando para a sua recepção, quando na verdade, ele era a razão para a recepção e
para que desejasse passar alguns dias em sua companhia na estrada para Viseu.
Certamente não se importaria pelo modo como foi convencido a ajudar com seus planos.
Se importaria?
Ele não era, afinal, um de seus inúmeros admiradores. Que nada! O homem, ela se
lembrava de sua altura, do uniforme quase gasto, inábil em suas maneiras, seu rosto
marcado por cicatrizes de batalha, seus olhos azuis e diretos quase hostis, seu cabelo loiro
cortado rente à cabeça, não era o tipo de homem com quem ela iria pensar em flertar.
E ainda assim, sendo muito diferente de seu tipo usual de pretendente, sua total
diferença de Luís, era em si um desafio. Deu de ombros e se levantou. Isso não era um
pensamento a ser perseguido.
Mas, aguardava com expectativa a noite, olhou para si mesma com olhos críticos,
mais uma vez. Não gostava especialmente da Marquesa das Minas. Se achava insípida, em
vez de graciosa. Um pouco como suas roupas, todas eram brancas, sempre brancas. Ela
não tinha certeza se decidiu vestir a marquesa de branco, aliviada que o ano de luto
tivesse chegado ao fim. Talvez o contraste com o preto? Talvez a imagem de frágil
indefesa que desejava que a marquesa projetasse?
No entanto, sempre usava branco como a marquesa. Foi talvez uma bênção,
pensou com um sorriso particularmente compartilhado apenas com o espelho, que não
fosse apenas ou sempre a Marquesa das Minas.
Mas talvez o tédio de sua vida não fosse inteiramente culpa dela também, pensou
Joana. Talvez todos os homens que a adoravam fossem mais culpados. O desafio estava
na adoração? Que prazer havia nos elogios sempre tão constantes e generosos? Que tipo
de orgulho tinha para aceitar homenagem, sempre homenagem?
Às vezes, ela ansiava por mais. Seus olhos vidrados, e olhou para o espelho sem ver
a si mesma. O que é que ela ansiava? Amor? O amor era para os jovens, para jovens que
não sabiam nada da vida. O amor era para a memória e nostalgia agridoce. O amor não
podia viver na idade adulta, assim como jovens amantes, às vezes, também não. E por
isso deveria fazer com que permanecessem as homenagens, mas que frequentemente a
entediavam.
Olhou com culpa para sua imagem. Certamente deveria haver milhares de
mulheres que achariam que o céu lhes tinha vindo, se tivessem apenas uma pequena
fração do culto que a marquesa achava tedioso. Mas, às vezes, ansiava por um homem
que não a iria tratar como uma boneca frágil, como um anjo escapado do céu.
Talvez o capitão Robert Blake fosse se revelar esse homem, então, pensou
esperançosamente. Talvez ele não sucumbisse aos seus encantos. Talvez a olhasse com
desagrado, e até mesmo desprezo. Talvez fosse totalmente indiferente a ela, apesar de que
seu olhar não tinha parecido assim, no baile do conde.
Talvez houvesse algum desafio nos dias, ou até semanas adiante, enquanto ela
estava presa ao disfarce da Marquesa das Minas.
Joana se afastou do espelho e desceu as escadas, para encarar a recepção como
uma mola renovadora nessa etapa.
Capítulo 5
Ele veio tarde. Ela riu e falou, e bebeu e comeu com seus convidados,
exteriormente muito feliz, como estava acostumada. O nível e a qualidade do ruído em
volta dela lhe assegurava que a recepção era um grande sucesso, que seria comentado nos
próximos dias. Mas, por dentro ela fervia. Como ele ousava chegar tarde! E talvez, depois
de tudo, era o que ele queria desde o começo, apenas chegar em algum momento na
manhã seguinte, esperando que ela estivesse de pé na porta de seu pátio cercada por sua
bagagem, humildemente aguardando a sua chegada e escolta.
Como ele ousava! Ela estava furiosa com ele, e bateu no braço de um capitão de
artilharia com seu leque branco, sorrindo para ele, o olhando por baixo dos cílios,
pedindo para não ser impertinente. O homem corou e ficou satisfeito. Era tão fácil
agradar os homens...
E então ele estava lá, de pé, na porta do salão, alto e desconfortável, como se
estivesse participando de seu próprio funeral. Mesmo do outro lado da sala, ela podia ver
o casaco gasto, o cabelo ainda mais curto do que se lembrava, o nariz torto, a cicatriz
cortando através dele até a outra bochecha. E se perguntou por que tinha pensado tanto
nele nos últimos dois dias. Não era um homem bonito. Talvez antes que a guerra tivesse
deixado sua marca em seu rosto, tivesse sido, mas não mais. Mas então, é claro, ele
provavelmente não seria tal homem, esmagadoramente atraente, antes de seus anos como
um soldado, também.
A marquesa virou a cabeça para que seus olhos pudessem se encontrar e informou
ao capitão de artilharia surpreso e encantado, que a poderia acompanhar às mesas e fazer
um prato para ela. Sorriu para ele, e enlaçou uma mão de luva branca em seu braço. O
capitão Robert Blake, pensou, que a procurasse. Ela não o iria procurar.
E, no entanto, quando uma hora se tinha passado e ele ainda estava perto da porta,
tendo falado apenas brevemente com alguns dos outros oficiais, Joana foi forçada a
encontrar uma desculpa para passar por ele no braço do coronel Wyman e o perceber
com um levantamento das sobrancelhas.
― Ah, capitão Blake ― disse ela, puxando o coronel a um impasse. ― Você veio.
Estou satisfeita.
Baixou a cabeça para ela bruscamente, enquanto ela se perguntava se ele sabia
alguma coisa sobre maneiras corteses. Provavelmente não. Tinha subido das fileiras.
Talvez fosse o filho de um comerciante na Inglaterra, ou um vagabundo, ou um
prisioneiro. Talvez viesse das favelas de alguma cidade, e tivesse se alistado apenas por
uma questão de sobrevivência, pessoal ou da espécie. Se alistar como soldado raso quase
não lhe trouxera uma garantia de segurança. Em todo o caso, ele não poderia ser um
cavalheiro.
E ela sorriu para si por seu desconforto, e desejou que o pudesse acrescentar.
Queria que estivessem dançando, para que ela o pudesse atrair para a pista, para revelar o
seu constrangimento e sua ignorância dos passos. E, ao mesmo tempo, ficou maravilhada
com a maldade de seus próprios pensamentos. O que o homem fez com ela para que o
quisesse humilhar?
Talvez fosse porque a olhou de forma muito direta, com aqueles olhos azuis, que
não eram muito hostis, mas que também não eram muito amigáveis. Ou talvez fosse
porque tinha vergonha do fato de ele mexer com seus sentidos como nenhum homem,
certamente não Luís, nunca tinha feito antes.
Ela tinha vergonha do fato de ter encontrado um homem que tinha vindo das
fileiras, um ninguém, sexualmente atraente.
― Duncan. ― Ela soltou o braço do coronel e lhe bateu com o leque. ― Eu o vou
deixar por um tempo. Tenho negócios a discutir com o capitão Blake.
― Negócios, Joana? ― O coronel olhou para ela e para o atirador com alguma
surpresa.
― Capitão Blake foi designado para me escoltar até Viseu, ― disse ela. ―
Estaremos deixando a cidade amanhã. Eu esqueci de dizer?
― Amanhã? ― Disse. ― Mas você está aqui há menos de uma semana, Joana.
― Minha tia está doente de novo ― disse ela com um suspiro ― e tem me
chamado. É cansativo, mas ela é minha tia, você sabe, e foi muito boa para mim no
passado.
O coronel a olhou como se fosse, alegremente, afogar sua tia no meio do Oceano
Atlântico, se pudesse.
― Mas por que o capitão Blake? ― Ele perguntou. ― Você sabe que só tinha que
dizer uma palavra, Joana, e eu teria arranjado para a levar eu mesmo.
― Eu sei. ― Ela tocou seu braço novamente. E se sentia culpada por saber que
estava feliz por ser o capitão, e não Duncan, que a acompanharia até Viseu. Duncan era,
afinal, o seu bilhete para o céu, seu passaporte para uma vida na Inglaterra. E ela gostava
dele. ― Mas você tem seus deveres aqui e o capitão Blake vai para Viseu, de qualquer
maneira. Além disso, Arthur arranjou tudo.
― Wellington? ― O coronel franziu a testa.
― E quem vai contrariar suas ordens? ― Ela disse com um encolher de ombros. ―
É tudo muito cansativo; mas vou voltar logo que puder para Lisboa e para esta sala. Terei
um pouco de champanhe esperando por mim?
Ele se curvou e olhou com alguma hostilidade ao capitão Blake, que tinha ficado
em silêncio os observando o tempo todo.
― Capitão? Devemos ir a algum lugar mais silencioso? ― Ela passou por ele e abriu
o caminho para o escritório. Ele, é claro, a seguiu, e talvez estivesse mais confortável ao
ser tratado quase como um servo. Mas ela não podia resistir a o envergonhar. Olhou para
ele com as sobrancelhas ligeiramente levantadas, esperou o tempo suficiente para vê-lo
endurecer com a incerteza, e, em seguida, levantou a mão. ― Seu braço?
Ele o levantou bruscamente, para que ela pudesse colocar sua mão levemente ao
longo dele. Ela se surpreendeu com a dureza de rocha de seus músculos, que podia sentir,
mesmo colocando pouca pressão em sua manga. Havia esperado que eles tivessem sido
atenuados pela lesão e longa convalescença, e estariam mais macios. A manga, ela notou,
não estava muito gasta no pulso.
O levou para o escritório e fechou a porta atrás dela. E não tocou para chamar sua
acompanhante. Matilda ficaria brava com ela, mas saberia o suficiente, para não ralhar
demais. O quarto abria para um pequeno pátio privativo, iluminado por uma lua quase
cheia. Mas as portas de vidro estavam fechadas, sendo uma noite fria para o final de
junho.
― Eu vim para perguntar quando você estará pronta para sair na parte da manhã,
minha senhora ― disse ele. Nada sobre a sua conveniência ou a honra de a acompanhar.
Sem reverência cortês ou sorrisos agradecidos. Apenas essa expressão em seus olhos, que
ela vira há duas noites no baile.
Novamente, quando olhou para ele, teve a sensação de o ter conhecido antes. Só
que não era isso, ela percebeu com um sobressalto. Era que ele lembrava... Não, deveria
ser o cabelo loiro, olhos azuis, outra coisa indefinível, porque realmente não era parecido
com ele em tudo. Mas, talvez, não teria havido uma verdadeira semelhança se o outro
tivesse vivido, se ele não tivesse morrido antes de seu décimo oitavo aniversário.
― Só por essa razão? ― Perguntou ela. ― Não porque eu o convidei para vir e
porque esta é a ocasião social para estar presente esta noite? Há muitos oficiais britânicos
e portugueses decepcionados porque não receberam convite.
Ele olhou para ela em silêncio, sua expressão insondável.
― O que eu posso lhe oferecer para beber, capitão? ― Ela perguntou, cruzando a
sala para um aparador. ― Nada, minha senhora ― disse ele. ― Obrigado ― acrescentou
quase como uma reflexão tardia. ― Limonada? ― Seus olhos zombavam dele.
― Não, obrigado, senhora.
Ela se afastou do aparador sem também preparar nada para si mesma. ― Tão cedo
quanto quiser, capitão ― disse ela. ― Ao alvorecer?
― Não será muito cedo para você? ― Ele perguntou.
Ela sorriu fugazmente. ― Provavelmente será tarde ― disse ela. ― Eu vou, sem
dúvida, deixar tudo arrumado para minha partida. Qualquer coisa depois disso, depois
que eu tenha tido um pouco de descanso, sem dúvida seria tarde demais. Ao amanhecer
será adequado, capitão.
Ele se curvou e pareceu como se fosse se despedir, se pudesse encontrar uma
maneira de o fazer graciosamente. Mas ela não estava pronta para o dispensar ainda.
― Você tem conhecimento de muitos idiomas, capitão? ― Disse ela.
Ele pareceu surpreso. ― Gosto de ser capaz de me comunicar com as pessoas,
quando estou em um país estrangeiro ― disse ele. ― Como você sabe disso?
― Eu tenho muita prática, capitão ― disse ela, ― de saber algo de meus servos... e
meus acompanhantes. Seu conhecimento das línguas indianas lhe permitiu fazer algum
trabalho de espionagem para o governo britânico na Índia, e você fez alguns também
aqui, há dois anos, quando Lorde Wellington chegou em Portugal. Deve ser uma vida
fascinante.
Ele parecia desconfortável. ― Meu lugar é com o meu regimento, do Nonagésimo
Quinto Rifles, senhora ― disse ele. ― Os conduzir contra a cavalaria e infantaria inimigas
é uma vida fascinante.
― Ah, sim ― ela disse ― você é um simples soldado no coração, ao que parece. E
você era um daqueles atiradores, capitão, antes de lhe ser dada uma espada. ― Ela olhou
para o sabre de cavalaria curvo, na lateral de sua cintura e, de alguma forma, não se
surpreendeu ao notar que ele brilhava e não exibia nenhum dos desalinhos de seu
uniforme.
― E ainda sou, minha senhora ― disse ele. ― Eu ainda levo um rifle para a batalha,
assim como a minha espada.
― Ah ― disse ela, ― assim, que você ainda gosta de favelados, capitão.
Ela observou seus lábios apertarem e seu queixo já firme e tenso.
― E você se sente capaz de me proteger durante a longa viagem daqui para Viseu?
― Perguntou ela.
― Não há perigo, senhora. ― Isso era desprezo em sua voz? Ela imaginou. ― Os
franceses estão ainda do outro lado da fronteira, na Espanha. Todas as forças da
Inglaterra e Portugal, que são as melhores tropas na Europa, estarão entre você e o
perigo.
― Sem mencionar os Ordenanza ― disse ela.
― A milícia portuguesa? ― Disse. ― Sim, eles fazem um bom trabalho, senhora, de
assediar os franceses e os mandar de volta, assim como os guerrilheiros espanhóis. Vai
estar bastante segura. E eu a vou proteger de todos os perigos inerentes da estrada.
― Tenho certeza que você vai, capitão ― disse ela. Sorriu para si. É evidente que o
homem estava menos do que satisfeito por uma atribuição que uma dúzia ou mais
funcionários que conhecia teriam matado para conseguir. ― Como eu poderia não me
sentir segura sob os cuidados de um homem, que praticamente sozinho, conteve os
franceses que teriam destruído as forças britânicas durante a retirada para La Coruña, sob
o generalato de Sir John Moore, mais de um ano atrás, e que fez algo muito semelhante
apenas no ano passado, durante a retirada de Talavera?
Ele mudou seu peso de um pé para o outro e olhou cautelosamente para ela. ― Eu
faço o que for preciso para proteger a vida dos meus companheiros, minha senhora ―
disse ele, ― e para destruir o inimigo. É o meu trabalho.
― E que você faz muito bem, por tudo o que se conta ― disse ela. ― Você gosta
de matar, capitão Blake?
― Ninguém gosta de matar, minha senhora ― disse ele. ― É algo que, como
soldado, é preciso fazer. É gratificante matar o inimigo durante a batalha, nunca
agradável.
― Ah ― disse ela. ― Interessante. Então, se eu for ameaçada durante nossa viagem
para Viseu, capitão, você mataria por mim, se necessário, mas não gostaria de me fazer
um serviço como esse?
Ele não respondeu imediatamente, e seus olhos zombavam dele. Como ele poderia
responder a verdade, sem parecer deselegante?
― Eu faria isso, minha senhora, porque seria meu dever a proteger ― disse ele. ―
Farei o meu dever. Você não precisa ter medo.
― Dever ― disse ela com um suspiro. ― Não seria um prazer me proteger?
Aquele olhar estava lá em seus olhos novamente, por um momento, o que poderia
acelerar sua respiração, o que a desafiou para o quebrar, fazer dele apenas mais um
seguidor facilmente manipulado e abjeto, como muitos dos homens, e em seguida,
proceder como se estivesse embriagado e feliz em seu salão. O olhar que a deixou
esperando que ele não pudesse ser quebrado. Mas se foi em um flash.
― Eu gosto do meu trabalho, minha senhora ― disse ele. ― Para mim dever é
prazer.
Ela quase riu. O capitão Robert Blake poderia não ser um cavalheiro, mas ele daria
um político admirável ou diplomata. Foi uma resposta magistral.
― Você está me impedindo de socializar com meus convidados, capitão ― disse
ela, a fim de se vingar um pouco do único homem a vencer o seu jogo do flerte, mesmo,
é claro, que ele não estivesse flertando.
Ele a olhou imediatamente desconfortável, novamente. ― Vou me despedir então,
senhora ― ele disse, ― e voltar para cá amanhã de madrugada.
― Você não vai ficar mais tempo? ― Ela perguntou, passando por ele até a porta e
fazendo uma pausa, para perceber que ela esperava que a abrisse. ― Precisa do seu sono
de beleza, capitão?
Ele notou que estava esperando e caminhou em direção a ela. Para abrir a porta
chegou a passar por ela, que tinha deliberadamente se colocado em tal posição que ele
quase podia tocar seu peito com a mão. Ele não respondeu a pergunta dela, e ela,
mentalmente, marcou um ponto para si mesma.
― Mas é claro ― ela disse, ― se você vai para me proteger de todos os perigos da
estrada, deve estar alerta. Está dispensado, capitão.
Ela o assistiu sair, antes de entrar novamente no salão, de onde os sons de alegria
ruidosa sinalizavam que o estágio mais avançado da festa tinha começado, desde que a
deixaram. Ele se curvou bruscamente, e caminhou até a porta de entrada para o pátio
principal, mal parando tempo suficiente para um servo a abrir para ele. Não havia dito
nada mais para ela, além de um boa noite seca e não olhou para trás.
Joana sorriu da ironia de sua decepção. Mas então, ela o iria ver novamente ao
amanhecer, se lembrou. E suspeitava que estaria tão segura com ele nos próximos dias,
como estaria se todo um esquadrão da cavalaria pesada rodeasse sua carruagem. Como se
ela precisasse de sua proteção ou da de qualquer outra pessoa. Querido Arthur. Às vezes,
ele conseguia ser bastante divertido. Mas, é claro que o propósito de sua viagem em
companhia do capitão Blake não era apenas para a proteger, ela se lembrou.
A Marquesa das Minas voltou para a porta do salão e se preparou para ser sociável.

***

Ele chegou ao palácio da marquesa quando a madrugada era pouco mais que uma
sugestão no céu ao leste. Estava de mau-humor, tão somente porque ele sabia que apenas
um pequeno fato o separava da exultação. Tinha recebido alta do hospital e dos cuidados
do cirurgião, e estava se sentindo em forma, depois de meses de convalescença e semanas
de exercício privado e esgrima. Estava saindo de Lisboa e indo para as montanhas
selvagens mais ao norte, em direção a maior parte dos exércitos britânicos e portugueses.
Logo poderia se juntar ao seu regimento no Côa, com a certeza de que, em breve, a
campanha de verão francesa iria começar, e ele estaria nas linhas da frente, ou seria
enviado em uma missão desafiadora por Wellington, e sentir toda a alegria de estar em
perigo, apenas com sua força e sua inteligência para o manter vivo.
Poderia estar exultante. Mas não estava pelo simples fato de uma pequena senhora,
com quem ele iria passar a próxima semana. Teria certamente que levar toda uma semana
para chegar a Viseu, embora pudesse conseguir chegar muito mais cedo se estivesse
sozinho. E Wellington queria conversar com ele o mais depressa possível, o oficial
mensageiro havia dito no dia anterior. Mas Wellington também tinha ordenado que
escoltasse a Marquesa das Minas. Lorde Wellington, é claro, cuidava sempre dos
sentimentos de seus anfitriões portugueses, embora estivesse lá arriscando sua vida e as
vidas de milhares de ingleses a fim de salvar suas peles.
Ela provavelmente ainda estava na cama, pensou o capitão Blake, esperando que
assim fosse, na esperança de que tivesse um motivo definido para desculpar seu humor.
Sua recepção não durou toda a noite. A casa estava em silêncio. Ele teria, sem dúvida, que
esperar enquanto a senhora saía da cama e se vestia, e estivesse pronta para enfrentar o
mundo e o café da manhã. E depois, provavelmente seria bom almoçar antes de se porem
a caminho. Teriam sorte de estar bem longe de Lisboa antes do escurecer. Teria sorte se
chegasse a Viseu dentro de duas semanas.
Capitão Blake tinha reclamado até imperar o mau-humor, num ressentimento ativo
contra o destino que lhe tinha feito de babá. Bateu não muito gentilmente na porta
externa do pátio do palácio. Provavelmente seus criados teriam de ser despertados, antes
que, por sua vez, a pudessem despertar.
Mas a porta se abriu quase imediatamente, e tudo era agitação e atividade no pátio.
Uma carruagem com painéis brancos, parecendo mais com uma carruagem de coroação
de reis e não com uma que vai viajar pelas estradas e colinas de Portugal, estava com suas
portas abertas revelando estofamentos de um dourado luxuoso. Os quatro cavalos, que
estavam, obedientemente, em seus lugares, ainda assim bufavam e mexiam as oito patas
no chão, em sua impaciência para estar se movendo, eram todos brancos com plumas de
ouro puro e fitas douradas, entrançadas em suas crinas.
O capitão Blake fez uma careta, enquanto cavalgava seu cavalo para o pátio. Jesus,
pensou, ele iria parecer um mestre de cerimônias de um maldito circo. Acenou para os
servos e à mulher gorda vestida de preto, que estava organizando o carregamento de uma
pequena valise em cima de vários baús amarrados atrás do carro.
― Bom dia ― disse bruscamente na sua própria língua.
E então percebeu que tinha feito não só aos servos uma injustiça em sua mente,
mas à marquesa também. Ela estava em pé na soleira da porta, viu logo que tinha
conduzido seu cavalo para um lugar onde a carruagem não obstruía sua visão, parecendo
tão brilhante e fresca, como se fosse o meio da manhã e não tivesse nada que fazer toda a
noite, a não ser dormir. Ela virou a cabeça e sorriu para ele.
Ele sentiu uma crescente familiaridade produzida por alguma coisa na região do
estômago. E a hostilidade, igualmente familiar. Ela estava vestida como sempre, de
branco, do chapéu usado em um ângulo desenvolto, sua grande, ondulante pena macia
sobre sua orelha e tocando seu queixo, para as botas de couro branco flexíveis e
delicadas, espiando por baixo do traje de viagem. A única parte de seu vestuário que não
era branca era o bordado de ouro em sua jaqueta esverdeada e as franjas de ouro em suas
dragonas.
Ela parecia tão frágil como uma única pena de cisne, e tão bonita quanto... Bem,
ele tinha sido levado de volta à mente poética como uma outra vez. Mas não mais. Ela
não podia estar mais inadequadamente vestida para uma viagem acidentada, como se
tivesse deliberadamente estudado para isso. Cristo, levariam um mês.
Ela era tudo de requintado, caro e trivial. E uma vez ele a segurou e a beijou e
acreditou em seus protestos de amor. Pobre rapaz tolo, olhou para trás, com o antigo
sentimento de auto-piedade, como se tivesse sido alguém completamente diferente. Era
difícil acreditar que aquele menino tinha sido ele, e que aquela vida tinha sido sua. Que
vida de privilégio e degradação.
Ele desceu da sela e descobriu que seus rins estavam doendo por Jeanne Morisette,
como ela havia se tornado em quase onze anos. Apertou os dentes em auto-desprezo.
― Bom dia, capitão. ― Mesmo sua voz era sedutora em baixa frequência ainda que
clara. Ele não conseguia se lembrar da voz de Jeanne. ― Eu achei que talvez você tivesse
dormido demais.
E zombando. Ela o havia ridicularizado na noite anterior e ele se sentiu como um
menino torto e desajeitado, com medo de dizer ou fazer a coisa errada, se sentindo um
pouco como o touro enfurecido numa loja de porcelana.
― Bom dia, senhora ― disse ele, ainda mais cortante do que tinha sido com os seus
servos, alguns momentos antes. ― Você está pronta para sair?
― Como você vê. ― Ela estendeu as mãos enluvadas para os lados e sorriu para
ele. ― Eu tenho meu carro, meus cavalos e minha bagagem. E agora, deve me proteger de
todos os perigos da estrada. ― Ela lançou um sorriso para ele de cílios baixos. ― E
Matilda para me proteger de você. ― Ela indicou a senhora gorda de preto.
― Está bastante segura comigo, minha senhora ― disse ele, ― eu lhe garanto.
Por um momento, não teve certeza do por que ela estendeu a mão fina para ele.
Mas, antes que pudesse fazer um completo idiota de si mesmo por a segurar e beijar, se
sentiu quente e desconfortável ao perceber que estava prestes a fazer isso, entendeu
então, que a senhora queria ajuda para subir em sua carruagem.
Pegou sua mão e olhou para ela, quando a levou até a porta aberta da carruagem. A
mão estava quase perdida em sua própria, era pequena e esbelta. E quente. Ela o queimou
através da luva branca, de modo que a queria roubar. Mas Joana estava falando.
― Eu acho, capitão, ― ela disse, ― que me escoltar para Viseu é apenas uma
pequena parte do seu trabalho?
― Senhora? ― Perguntou.
― Eu não imagino que Arthur o tenha dirigido para me acompanhar apenas por
causa de sua saúde ― disse ela. ― Você é muito valioso para o exército, para ser
desperdiçado em um dever tão trivial, não é?
Inferno e condenação, ele pensou, por que Wellington não atribuiu essa tarefa para
um homem nascido e criado com galhardia? Ele estava ciente de que ela lhe dera uma
deixa, para com reverência e sorriso afetado, lhe desmontar com discursos bonitos. Ela
estava implorando para ser lisonjeada e adorada.
― Estou me reunindo ao meu regimento, senhora ― disse ele. ― Estou satisfeito
por poder ser de alguma utilidade para você.
― Por favor. ― Seus olhos riram dele quando ela parou no pé da escada da
carruagem. ― Mas o seu regimento não é de Viseu, capitão. Não estão a maioria dos
atiradores assistindo a fronteira?
― Eu acredito que sim, senhora ― disse ele.
― Talvez você vá para Viseu, porque Arthur está lá, então ― disse ela. ― O
Visconde Wellington, quero dizer. Talvez ele tenha alguma... missão especial para você?
― Era uma pergunta.
Foi de repente, que lembrou forçado que ela era francesa, e dragava sua mente por
algumas palavras bonitas. Ele não estava pronto para ser interrogado por uma linda e
ardilosa mulher, especialmente uma que era meio francesa.
― Talvez ele o faça, senhora ― respondeu, se inclinando sobre sua mão. ― E talvez
essa missão especial esteja finalizada quando eu a entregar sã e salva a seus amigos em
Viseu.
― Ah. ― Ela riu abertamente. ― Eu entendo, capitão. Mas disse muito bem. Até
onde nós vamos hoje?
― Eu pensei que talvez até Montachiqueviii ― respondeu.
― Montachique? ― Ela levantou as sobrancelhas. ― Nós poderíamos ir até lá para
um passeio à tarde, capitão. Eu estava apenas esperando que você não fosse mais longe
do que Torres Vedrasix. Tenho amigos lá.
Se sentiu um pouco realizada quando ele lhe entregou no carro e a observou se
sentar ao lado da acompanhante gorda. Uma pomba ao lado de um falcão. Um anjo ao
lado do diabo. E ele lhes via crescer penas nos cérebros. A menos que suas palavras
fossem mera bravata, talvez, depois de tudo, ela estava disposta a viajar, e não estaria
sempre pedindo paradas ao longo do caminho.
― Muito bem, minha senhora ― disse ele. ― Torres Vedras será, esta noite. Você
vai me informar se precisar parar antes disso, e eu tomarei outras providências.
Ela olhou para ele e riu, um som de pura diversão.
E ele ficou aliviado sobre uma outra coisa também, pensou enquanto fechava a
porta do carro, um passo à frente para conferir por um momento com o cocheiro, e
montou em seu cavalo novamente. Ela tinha amigos com quem poderia ficar em Torres
Vedras. Ele não iria, então, pelo menos para a primeira noite, ter que adquirir seus
quartos em uma pousada.
Sua carranca retornou, conforme seguia a carruagem branca de conto de fadas, em
seu lento progresso para fora, através da arcada do pátio e para as ruas de Lisboa.
Capítulo 6
― Ah ― Joana disse, se inclinando no estofamento, e olhando para fora através da
janela da carruagem ― uma real despedida, Matilda. Você acha que o capitão Blake está
irritado? Tive a nítida impressão de que ele estava menos do que satisfeito com a visão de
minha carruagem branca e os cavalos. Ele não espera nada menos que problemas e
atrasos, simplesmente porque são brancos. Você acha que ele me desaprova?
Mas a sua companheira não foi dada nenhuma chance de responder. A marquesa
estava baixando a janela sorrindo e estendendo a mão.
― Duncan ― disse ela. ― Você veio para me ver a caminho. E Jack. ― Ela tirou a
mão da do coronel Wyman e a esticou ao Major Hanbridge. ― Como é maravilhoso.
Capitão Blake, ela viu com alguma satisfação, fez cara feia para a necessidade de
diminuir a velocidade dos cavalos ao passo, antes mesmo de terem deixado Lisboa.
― Só tenho tempo para andar uma curta distância com você, Joana ― disse o
coronel. ― Mais tarde, talvez. Hanbridge, o cão de sorte, a acompanhará todo o caminho
para Torres Vedras.
― Será que vai? ― Disse ela. ― O que tem em Torres Vedras, Jack?
Ele encolheu os ombros. ― Negócios sem importância, Joana ― disse ele. ― Um
mero incômodo, exceto que me dá a oportunidade de andar ao lado de seu carro.
― Ah ― disse ela, ― assuntos militares. Eu entendo. Duncan, devo dar ao meu
cocheiro o sinal para seguir em frente. Capitão Blake está olhando severo e sem graça. ―
Ela virou seu sorriso mais encantador para sua escolta oficial. Ele não sorriu de volta.
― E assim, ― ela disse para Matilda, se sentando no sofá de novo, ― o tédio da
viagem será aliviado, pelo menos por um tempo.
E, normalmente, era uma viagem tediosa, ao longo de uma estrada sinuosa, de
colinas e montanhas. Mas ela não tinha intenção de fazer essa viagem tão sem graça a
Viseu, em mais do que uma semana. Já tinha planejado. Agora, seu plano era certamente
de sucesso.
E assim, quando eles pararam para o almoço, suspirou e pareceu melancólica. ―
Os homens são tão afortunados, ― disse ela, ― porque não são obrigados a viajar para
todos os lugares em carruagens abafadas. Como eu adoraria estar a cavalo, sentindo o ar
fresco contra o meu rosto, cheirando os laranjais e as vinhas. Que lindo seria andar sobre
a passagem de Montachique. ― Ela descansou seu cotovelo na mesa e segurou o queixo
na mão, olhando ao longe.
― Se eu tivesse tido a percepção de trazer sela feminina comigo ― Jack Hanbridge
disse galantemente, ― você poderia ter montado meu cavalo, Joana, enquanto eu ia em
sua carruagem.
Ela sorriu, deslumbrantemente, para ele.
― A levarei junto de mim, Joana, ― Lorde Wyman disse, ― de modo que você
possa andar sobre a passagem.
― Como você é doce, Duncan, ― disse ela, tocando os dedos rapidamente na parte
de trás da sua mão. ― Mas não tem tempo para andar sobre a passagem. Você tem que
voltar para Lisboa.
― Eu queria não precisar de o fazer ― disse ele. E então se virou para o membro
silencioso do grupo, como ela tinha imaginado que seria. ― A deve levar com você, Blake.
Ele não estava satisfeito. Ela podia ver isso. Não ia tornar fácil flertar, um
pensamento que ela achou estimulante. Olhou para ele e seus olhos riram dele. A
melancolia se foi.
― Você estaria mais confortável em sua carruagem, madame ― disse ele.
― Mas o conforto pode ser tedioso ― disse ela.
― Então está decidido. ― Lorde Wyman disse rapidamente. ― Eu devo estar no
meu caminho, Joana, embora odeie a deixar.
E assim, apenas dez minutos depois, Joana teve as coisas a sua maneira, como
sempre fazia, embora ninguém parecia particularmente satisfeito com isso, exceto ela.
Duncan estava abatido por ter que se despedir dela, Matilda estava sentada na carruagem,
numa desaprovação silenciosa, Jack estava se repreendendo como um bobo por não ter
pensado e sugerido que a levasse diante dele, e o capitão Blake estava apenas parecendo
descontente.
― Você me deseja o diabo ― ela disse a ele, ― de modo que poderia cavalgar sem
demora, para se juntar ao seu regimento precioso, capitão. Embora eu não acredite que
seja o seu destino, não é?
Mas ele não estava resolvido sobre este ponto, ela descobriu com aprovação.
Nenhum homem que era um espião experiente deveria cair no tipo de armadilha que ela
estava tentando definir para ele.
Ela gostava da sensação de andar juntos em sua sela, suas coxas poderosamente
musculosas a cada lado dela, seus braços circulando seu corpo vagamente, enquanto ele
segurava as rédeas. Mas a atenção não era toda sobre o homem com quem ela andava. Ela
sentiu tudo sobre ele, mas travava uma conversa brilhante com Jack Hanbridge, uma vez
que o capitão Blake não tinha nada de conversador.
― Oh ― disse ela, quando eles estavam entre os rochedos da passagem de
Montachique e ela podia ver abaixo, ― os laranjais estão todos negros. ― Ela tinha
chegado a Lisboa pela estrada de Mafra, na semana anterior.
― Um incêndio, acredito ― disse o major Hanbridge.
― Mas em mais de um pomar, Jack? ― Perguntou ela. ― Ah ― disse ele. ― Um
incendiário, suponho.
― Que estranho ― disse ela, e começou a olhar em volta com interesse renovado.
Os penhascos rochosos da passagem eram selvagens e atingiam o pico. E, no entanto
alguns deles tinham a aparência de uma suavidade quase artificial, particularmente aqueles
que desciam para a estrada. E alguns parecia quase como se tivessem sido estabilizados
no topo.
― Se pode ficar no topo e atirar pedras para baixo sobre os pobres viajantes, ― ela
disse rindo, ― sem qualquer medo de ser pego. As rochas ao lado da estrada são sólidas.
― Elas são, ― disse o Major Hanbridge. ― Peculiaridade da natureza, Joana. Mas
você não precisa temer. Eu não ouvi falar de bandidos nesta área. Talvez devamos
aumentar nosso ritmo, Bob. Tempestades têm o hábito de abater a passagem
inesperadamente.
Joana riu. ― Não há uma nuvem no céu, Jack.
Mas o capitão Blake, obedientemente, cutucou seu cavalo a um ritmo ligeiramente
mais rápido. Ele também havia dado uma boa olhada. E ela olhou para o rosto dele para
o encontrar sobre Jack Hanbridge, de olhos estreitos e astutos.
― Vamos parar no próximo ponto conveniente, senhor ― disse ele, ― para que a
marquesa possa retomar o seu lugar na carruagem.
Joana não disse nada. Ela tinha um pouco de habilidade em observar com cuidado.
Poderia reconhecer peculiaridades de relance. Mais importante, poderia detectar a
atmosfera com alguma facilidade. Jack queria que eles atravessassem a passagem, sem
mais demoras, e o capitão Blake tinha pego a mensagem exatamente como ela tinha, e se
fez imediatamente obediente a um oficial superior. Ela olhou mais uma vez para os
laranjais enegrecidos por cima do ombro, para os lados lisos, de pura rocha. E sentiu um
arrepio interior. De medo?
De excitação? Ela não tinha certeza de qual.
Joana viajou o resto do caminho para Torres Vedras, em sua carruagem. O major
Hanbridge se despediu dela, e o capitão Blake foi a uma estalagem, depois que ela ficou
segura na casa de seus amigos.
Passou uma noite agradável, embora eles tivessem, essencialmente, apenas
preocupações para falar. O velho castelo mouro e a capela de São Vicente, de pé sobre as
torres gêmeas das colinas que deram o nome à vila, estavam fortificadas por grupos de
camponeses, assim como outras cidades ao redor. Mas como poderiam fortalecer um
velho castelo e um mosteiro contra o poder dos exércitos franceses de Lisboa, se as
forças britânicas e portuguesas não o poderiam fazer? Tudo estaria terminado antes que o
Verão findasse. Os franceses estariam de volta a Lisboa, e os ingleses seriam empurrados
para o mar. Era piedade ajudar os portugueses que estavam no caminho dos exércitos
franceses, vindos de Salamanca a Lisboa.
Foi tudo muito deprimente. Joana tinha o hábito de confiar no Visconde
Wellington, como ela disse aos seus amigos. Mas havia, é claro, o máximo que um
homem poderia fazer.
E ela pensou no incendiário dos pomares de laranjais enegrecidos, e nas estranhas
rochas, normalmente escarpadas, com as laterais lisas ao lado da estrada, através da
passagem de Montachique, e então, no Major Hanbridge ter medo de uma tempestade em
um dia perfeitamente claro, e no estranho fato de que ele, um oficial de engenharia,
tivesse negócios em Torres Vedras. E ela pensou no olhar penetrante que o capitão Blake
tinha fixado nele.
Talvez houvesse alguma coisa, pensou. Talvez a situação não fosse afinal tão
desesperada como parecia. Mas ela manteve seu conselho. Como o capitão Blake, ela
também poderia se recusar a ser manipulada, quando parecia talvez mais sensato
permanecer em silêncio.

***

Eles chegaram a Óbidosx no dia seguinte; poderiam ter viajado mais, mas a
marquesa tinha uma casa lá. Além disso, pensou o capitão Blake, ela provavelmente
estava cansada, depois de dois dias de viagem, embora, sendo sincero, ela não tinha
reclamado e sempre tinha conseguido parecer tranquila e bonita, toda vez que ele a
ajudava a descer da carruagem, e mesmo após esse passeio empoeirado sobre a passagem.
Ela sempre tinha um sorriso para ele. E o branco de suas roupas tinha permanecido
imaculado de sujidade ou das manchas acidentais de viagens.
A vila medieval de Óbidos subia majestosamente acima das vinhas circundantes,
suas paredes cor de ferrugem encimadas por telhados multicoloridos de suas casas
brancas e pelo castelo quadrado. Blake não tinha visto a cidade antes. Era triste pensar o
que o destino reservava para acontecer ali, se os franceses, de fato, conseguissem
pressionar até aqui, em Portugal. E ainda os sinais de que o povo, e talvez mais do que
apenas as pessoas, também, se ele tivesse interpretado corretamente o aparecimento de
agitação da passagem de Montachique, e Hanbridge, enquanto cavalgavam através dela, se
preparavam para se defender, o que tinha sido tão evidente entre Lisboa e Torres Vedras
no dia anterior, estava ausente aqui. A cidade se aquecia sonolenta no sol de fim de tarde,
como se seus habitantes nunca tivessem ouvido falar da guerra, como se o seu castelo
tivesse sido construído apenas para ser pitoresco...
As ruas da cidade eram estreitas, íngremes e sinuosas. A carruagem da marquesa se
movia lentamente, até que virou bruscamente, para passar através da porta em arco do
pátio de uma casa branca alegre, que dava para a rua. O capitão Blake seguiu, claro,
abaixando a cabeça sob o arco, que não era, afinal, tão baixo quanto parecia. Ele
desmontou e esperou para ajudar a senhora a descer da carruagem.
― Capitão ― ela disse, colocando a branca mão enluvada na sua, enquanto a
ajudava a descer. Ela parecia tão fresca e alegre como estava quando tinham deixado
Torres Vedras naquela manhã. ― Bem-vindo a Óbidos. Você deve ficar aqui esta noite.
Ele se encolheu com o pensamento. Nunca estaria confortável naquele lugar,
obviamente, uma casa ricamente decorada, e ainda mais sob o mesmo teto que a
marquesa.
― Obrigado, minha senhora ― disse ele, se movendo para um lado para que o
cocheiro ajudasse sua companheira da carruagem, e ela andava para dentro da casa ― mas
não seria apropriado. Vou encontrar uma pousada.
― E passar metade da noite lutando contra pulgas e outros parasitas? ― Ela disse
com um encolher de ombros. ― Mas a escolha é sua. Venha para o jantar, pelo menos.
Você realmente deve. Eu só tenho Matilda para jantar como companhia, e nós já
dissemos tudo o que era para ser dito uma à outra, ao longo dos anos. Você deve vir e
nos entreter com sua conversa, capitão. ― Seus olhos zombavam dele, com uma
expressão que já estava se tornando familiar.
E ela lhe tinha em desvantagem novamente, ele percebeu. Qualquer cavalheiro de
seu conhecimento, sem dúvida, tinha todo um arsenal de desculpas que pudesse ser usado
em tal ocasião. Ele não tinha nenhum desejo de jantar com a marquesa e seu silêncio foi a
resposta de desaprovação. E é claro que ele não tinha histórias para partilhar com elas.
Ela sabia disso muito bem. E ele não tinha dúvidas de que essa era a razão pela qual o
havia convidado. Parecia ter prazer em lhe olhar como um grande boi mudo. Mas ele não
poderia pensar em uma única desculpa.
― Obrigado, minha senhora. ― Ele assentiu e se virou para seu cavalo. Mas um
pensamento lhe ocorreu, e ele se voltou novamente. ― Posso a acompanhar até a casa?
Ela sorriu lentamente. Gostava de observar o seu não saber o que era boa etiqueta.
― Acredito que eu posso andar sozinha entre aqui e a casa sem ser atacada por bandidos
ou pior, capitão ― disse ela. ― Até mais tarde, então. Venha cedo, em uma hora. Nenhum
momento depois. Eu odeio ficar esperando.
Blake se curvou desajeitadamente e se virou. E sentiu seus olhos sobre ele,
enquanto montava e guiava seu cavalo em frente pelo pátio, através da porta de saída para
a rua íngreme e estreita.
Joana o observou ir e sorriu para si mesma. Qualquer outro homem que ela
conhecia teria aproveitado todas as oportunidades possíveis que se apresentaram nos
últimos dois dias. Ele teria montado no carro e amarrado o cavalo atrás, ou, pelo menos,
montado ao lado da carruagem, a encorajando a dirigir com a janela abaixada. A teria
levado diante dele, em seu cavalo, mais vezes do que a que tinha sido forçado. Teria
tentado conseguir um convite de seus amigos em Torres Vedras. Teria pulado de alegria
pela chance de ficar aqui em sua casa, esta noite. Não a teria olhado como se estivesse se
afogando em areia movediça, quando ela o convidou para jantar.
Mas o capitão Blake não era qualquer outro homem, infelizmente. Oh, e felizmente
também, pensou ela, seu sorriso crescendo mais divertido. Ela poderia ter salvo a si
mesma do trabalho de vir todo o caminho até Viseu e de retornar com sua escolta, por
tudo o que tinha feito até agora. Haveria, uma mulher ou um homem, mais moroso, mais
silencioso, ou um mais atraente? Ela ia ter que fazer algo muito positivo, e muito rápido,
se o valor desta viagem tediosa era para ser aproveitado. Caminhou propositadamente
para a casa.
― Matilda ― chamou a sua acompanhante, que estava agitada sobre as suas malas
no hall, ― deixe isso para os servos. Você está afastada. Total e completamente. Eu não
me esqueci, você vê, que tem uma irmã em Óbidos e que a vê muito pouco. Está
dispensada para a visitar agora, sem demora, e não deve voltar antes de amanhã de
madrugada, momento em que, eu não tenho nenhuma dúvida, o capitão Blake vai entrar
no pátio pronto para sair.
Matilda argumentou. Sua senhoria precisaria ter água quente para um banho, e
refrescos. E seria impróprio para ela passar a noite sozinha em casa, com apenas os
funcionários. Além...
― Além de nada ― disse Joana, acenando com a mão e desconsiderado o que ia
dizer. ― Vou ter o meu banho e refrescos, se você estiver aqui ou não, Matilda. E eu seria
uma companhia muito aborrecida para você esta noite, já que estou cansada e pretendo
me recolher mais cedo, com um livro. Então vá. Pode ir. Agora. ― Ela sorriu seu mais
encantador sorriso, sentindo apenas uma pontada de culpa, quando Matilda a cobriu de
gratidão e foi. Afinal, ela não era uma menina precisando de acompanhantes onde quer
que fosse.
Mesmo assim, pensou enquanto se encaminhava para o quarto, ansiosa por um
banho, nunca tinha entretido um homem sozinha antes. Com exceção de Luís, é claro,
mas isso não contava. Sempre tinha considerado que não havia segurança demais. O
problema com o capitão Blake era que, se houvesse qualquer outra pessoa presente, além
dela e dele, ele seria susceptível de desaparecer no mobiliário. Ele não seria capaz de fazer
isso com ela sozinha. Ela não permitiria.
Sorriu com a perspectiva. E se sentiu um pouco sem fôlego de apreensão. Não
tinha certeza de que o capitão pudesse ser levado a se comportar de maneira previsível,
em uma determinada situação. Mas então, talvez ela não o desejasse fazer.

***

Não havia nenhum sinal de qualquer jantar ou sua acompanhante, quando voltou
para a vila um pouco mais de uma hora depois de se despedir dela. Somente a marquesa,
vestida inevitavelmente de branco, vestido macio fluindo, seu casaco bordado com fio de
prata, uma capa ao lado. Ela estava no salão baixo da casa, olhando para uma pintura.
Sorriu para ele.
― Ah, capitão ― disse ela, ― você está atrasado. Deliberadamente? É muito cedo
para jantar, e o clima é muito bom para ser desperdiçado. E Óbidos é uma bonita cidade
para não ser visitada. Poderia me levar para andar, por favor.
― Onde está a sua acompanhante? ― Perguntou.
― Provavelmente falando sem parar com sua irmã, uma sobrinha ou um sobrinho
em cada joelho ― disse ela. ― Eu não sei. Não sou sua guardiã. E não faça cara feia para
mim, capitão, como se eu fosse uma estudante impertinente a ponto de escapar de sua
acompanhante. Estou segura com você, não é? Arthur o recomendou.
Ele endureceu. ― Estará segura comigo, minha senhora ― disse ele.
― Oh, você se incomoda. ― Ela riu levemente. ― Devemos ir? Eu o vou levar para
cima das muralhas da cidade. Há um caminho de vigia, que se estende à direita em torno
delas. E os íngremes degraus de pedra, que conduzem a ele. Espero que se tenha
recuperado o suficiente de seus ferimentos para não ficar muito ofegante.
Ela tinha a intenção de o encantar. Isso ficou muito claro para ele. Sorriu para ele,
conversava, e se agarrou a seu braço enquanto caminhavam. Por razões próprias, ela
estava tentando fazer dele sua mais recente conquista. Talvez fosse necessário que essa
mulher fizesse de cada homem seu escravo. Olhou em volta e tentou ignorar a
consciência da pequena fêmea, delicadamente perfumada ao seu lado. E desejava ter
trazido Beatriz com ele. Ela queria vir, seguir o exército como tantas mulheres faziam. Ele
tinha dito que não, porque ele era o capitão Blake, e não o soldado Blake. Mas desejava
agora ter dito sim.
O caminho de vigia lhes deu uma vista magnífica, da cidade e para fora, através da
paisagem circundante.
Ela tirou o braço do dele e os colocou ao longo da parede exterior, olhando para
longe. Parecia tão delicada como uma menina, parecida com aquela que tinha jogado os
braços no topo do castelo em ruínas, na terra de seu pai, e virado o rosto para o vento.
Mas quando virou a cabeça para olhar para ele agora, se lembrou novamente, que ela era
agora uma mulher, com todo o fascínio de uma mulher.
― Você sabia ― , ela disse, ― que séculos e séculos atrás, quando Dom Dinis
estava passando por aqui com sua jovem esposa e ela admirava como essas muralhas
retorcem como fita sobre as casas brancas dentro delas, ele lhe deu a cidade de presente?
E a partir desse momento, Óbidos foi sempre o presente de casamento dado às rainhas
portuguesas? Você sabia? ― Ela riu. ― E você se sente enriquecido por este
conhecimento?
― A história é sempre interessante, ― disse ele, observando a brisa soprar as fitas
de sua touca.
― Não acha que é uma história maravilhosamente romântica? ― Perguntou ela. ―
Você daria esse presente para a mulher que ama, capitão?
― Com o pagamento de um capitão, ― respondeu ele, ― eu não poderia dar nada
tão generoso.
― Ah ― ela disse, ― mas você iria querer? O que você daria à mulher a quem você
ama?
Ela ainda estava olhando para ele por cima do ombro, os olhos o varrendo com a
intenção de o tornar desconfortável, e foi bem sucedida. Ele deu alguns passos para a
frente e estava ao lado dela na parede. Olhou para fora para o sol baixando.
― Um pedaço de fita real, talvez ― disse ele.
Ela riu suavemente. ― Só fita? ― Perguntou. ― Talvez você não a ame o suficiente.
― A fita estaria sob o queixo, quando ela usasse a touca, e amarrada em uma curva
debaixo da orelha ― disse ele. ― Uma parte de mim estaria bem perto dela. ― Ele não
pensava no amor há um longo tempo...
― Oh, muito bem dito, ― disse ela. ― Você se redimiu.
― Ou uma estrela talvez ― disse ele. ― Talvez todo um aglomerado de estrelas.
Elas são livres e luminosas, e estariam sempre lá para ela.
― Ela é uma mulher afortunada ― disse ela, olhando para de lado para seu rosto. ―
Ela é Beatriz? ― Ele olhou para ela, assustado.
― Eu lhe disse que gosto de saber algo sobre os homens que são meus servos ou
acompanhantes ― disse ela. ― Você a ama?
― Ela é, ou foi, minha amante ― disse ele, rigidamente.
― Ah. ― Ela riu suavemente e caíram em silêncio, observando a água da Lagoa de
Óbidos abaixo deles e o mar à distância. E a cada dia mais lindo, o pôr do sol mais além.
Era um cenário que a maioria dos homens mataria para ver a sós com ela, Joana
pensou com um sorriso irônico. E ainda assim, ela sentia que não o compartilharia com
outro homem, que o teria arruinado com discursos de corte e adoração abjeta. E,
certamente, o capitão Blake não poderia ser acusado de adoração abjeta por ela. Então,
virou a cabeça e olhou para ele. Suas feições eram afiadas pela luz do sol poente. Parecia
quase relaxado.
E ela sentiu uma súbita pontada de nostalgia, atingindo uma lembrança em sua
mente. Uma torre. Muralhas. Vento e sol. Um menino sonhador, gentil, bonito, a quem
ela tinha beijado quando desceu da torre.
Robert.
E, no entanto as paredes de Óbidos não eram nada como aquele velho castelo em
Haddington Hall, e o capitão Blake não era nada como Robert, exceto que eles
compartilhavam um determinado nome e, exceto que eles tinham o mesmo cabelo e
coloração dos olhos. E algo indefinível que escapou de sua mente consciente. Será que
aquele Robert e este Robert se pareceriam de qualquer outra forma, se tivesse vivido?
Será que Robert teria crescido tão amplamente e musculoso? E que seu rosto teria
crescido tão forte e disciplinado? Ele teria se tornar um herói militar? Tinha certeza de
que a resposta para todas essas perguntas é não. Robert temia que lhe fosse comprada
uma comissão. Ele pensava ser impossível matar alguém.
Talvez, pensou ela, fosse assim que ele tivesse morrido. E, ainda por um momento,
sentiu a afluência do antigo sofrimento pelo primeiro e único homem que havia amado,
pela menina que tinha sido, com sua crença no felizes para sempre depois. Por um sonho
antigo.
Ela estava olhando para o capitão Blake. Percebeu o fato somente quando ele virou
a cabeça e olhou firmemente de volta para ela. Seus cotovelos estavam quase tocando na
parede. Ela podia quase sentir o calor de seu corpo.
― Você não ama um pôr do sol, capitão? ― Perguntou. ― Talvez seja um outro
presente que você possa dar a sua senhora.
― Acho que não ― disse ele, sem tirar os olhos dela. ― A beleza de um pôr do sol
é enganosa. Ela é seguida pelo escuro. Um nascer do sol, talvez. Eu lhe daria o nascer do
sol e o que está além do nascer do sol. Luz e calor, e vida. E amor.
― Ah ― disse ela, e seu peito ainda doía com a tristeza inexplicável que sentiu,
quando ele a fez lembrar de Robert. ― Então temos de ver o sol nascer juntos em algum
momento, capitão.
Ela tinha aperfeiçoado a arte do flerte, longas eras antes. Mas ela percebeu a
sinceridade de suas palavras apenas quando ouviu seu eco. Estranhamente, ela não tinha a
intenção de as dizer dessa forma, embora o tivesse trazido para as muralhas com o único
propósito de flertar com ele.
― Talvez ― disse ele, ainda olhando para ela, o que a fez sentir falta de ar, quase
assustada. Ela não se sentia muito no controle, agora.
― Talvez? ― Ela disse, rindo. ― Perdeu sua chance, capitão, deveria declarar que
iria mover céus e terra para me trazer nesse dia. Você está com fome? Vamos voltar para
casa para o jantar.
Ela tomou-lhe o braço e começou a falar com ânimo leve e sem cessar, enquanto
eles faziam seu caminho para baixo, com passos lentos, para a cidade e de volta para sua
casa.
Capítulo 7
Ele deu um suspiro de alívio quando entraram na villa da marquesa. Pelo menos,
agora eles estariam com sua acompanhante, e, conquanto a conversa não seria fácil, pelo
menos a tensão não existiria mais. Ele se sentiu pronto para explodir com ela nas
muralhas da cidade. Robert havia se irritado com a consciência dela, o desejo por ela, e o
desprezo por suas próprias reações, porque, à sua própria maneira, Joana era tão
deliberadamente sedutora. E se sentiu um pouco fora de si novamente. Ele esperava que,
de repente, Lorde Wellington queimasse em algum canto particularmente quente do
inferno, por lhe dar esta tarefa particular.
― Chame Matilda ― ela disse a um servo, tomando o braço do capitão e o levando
na direção da sala de jantar.
Mas o servo tossiu delicadamente. Matilda, ao que parecia, não havia retornado
para a villa.
― Como provocação! ― A marquesa franziu a testa. ― Ela se esqueceu da
passagem do tempo, garanto. É sempre assim quando visita sua irmã. Eu ouso dizer que
não devemos fixar os olhos nela até amanhã. ― Ela suspirou. ― Uma acompanhante
pode ser muito irritante, capitão Blake. Ela não é completamente empregada e não gosta
que a repreenda. Teremos de jantar tête-à-têtexi.
Ele poderia ter suspeitado que ela maquinava algo assim, se não tivesse notado,
quando entrou na sala de jantar, que a mesa tinha sido posta para três.
― Vou voltar para a minha pousada, senhora ― disse ele.
Mas ela riu dele e lhe disse para não ser cansativo; e antes que percebesse, estavam
sentados à mesa e bebiam do vinho, enquanto ela o observava, com o queixo na mão. E
então, ele teve a dolorosa sensação de ter cometido uma violação da etiqueta, levantando
o copo antes que ela o fizesse. E abaixou o dele.
― Eu estou com fome ― ela disse, ― e me recuso a manter um monólogo durante
todo o jantar. Você deve participar da conversa, capitão Blake.
Não havia nada mais que a certeza de língua presa para ele. E pegou a taça
novamente.
Ela observou como seus empregados colocavam a comida na mesa. Se recusou a
dizer outra palavra por um tempo. Ela queria ver quanto tempo passaria antes que ele
pudesse pensar em algo para dizer. E Joana deixou que seus olhos vagueassem sobre o
rosto dele, se perguntando o que é que fazia dele um homem tão atraente. Seu cabelo
loiro cortado rente? Ela preferia os homens com cabelos longos demais. O nariz torto e a
cicatriz muito visível? Sem isso, poderia ser muito bonito. A pele bronzeada, talvez? Os
olhos azuis claros? O conhecimento de que ele tinha matado, que era um herói militar? A
consciência de que era de um mundo muito abaixo do dela?
Finalmente, ela sentiu a tensão de novo, como tinha acontecido nas muralhas da
cidade. Mas não deveria sentir esta tensão. Apenas os cavalheiros a quem abordava foram
feitos para sentir isso.
― Me fale sobre você ― disse ela. ― Onde nasceu? Quem era seu pai? Como foi a
sua infância? Por que você se alistou? Fale, capitão.
― Eu me alistei ― disse ele, ― porque parecia a coisa certa a fazer no momento em
que fiz isso. No geral, nunca me arrependi.
Ele não tinha respondido às suas três primeiras questões, ela pensou. Mas era o que
tinha aprendido a esperar do capitão Blake. Diferentemente da maioria dos homens que
conhecia, não gostava de falar sobre si mesmo. Ou sobre qualquer outra coisa, de
qualquer assunto, isso parecia.
E assim, apesar de tudo, ela fez mais do que falar enquanto comiam. Ou como
escolhia a comida, para ser mais exata. Seu apetite não era, em geral, afetado pela
companhia com quem ela comia. Mas esta noite o foi. Estava consciente de cada bocado
que levantou a sua boca, e de cada bocado que ele levou para a dele. E estava consciente
de cada gole.
Seus dedos eram longos e magros, dedos de um artista, ela pensou. Mas suas unhas
eram cortadas e mantidas limpas, unhas de um soldado. Ela se perguntou como essas
mãos e dedos se sentiriam sobre suas costas nuas, mas reprimiu o pensamento.
O ar estava bastante crepitante com a tensão.
E o capitão tentou comer como se estivesse jantando com seus companheiros ou
homens, mas descobriu que não podia se livrar da noção de que ela observava cada
movimento seu, enquanto ele observava os dela. E quando tentou pensar em algum
tópico com o qual sustentar a conversa, sua mente estava em branco e suas únicas
contribuições foram respostas a perguntas. Ela tinha o hábito, enquanto falava, de se
inclinar para a frente, para que seus seios quase roçassem a borda da mesa. Parecia que a
sua temperatura subia um grau cada vez que isso acontecia, e foi grande a frequência. E
ela tinha essa maneira de olhar para ele, que já tinha notado antes, seus olhos lhe varrendo
por debaixo de suas pestanas.
Se amaldiçoou por não ter sido firme ao se assegurar de voltar para sua pousada,
quando soube que sua acompanhante não tinha retornado. E se perguntou por quanto
tempo devia se manter à mesa, antes que pudesse decentemente se levantar e se
desculpar. Ele não tinha ideia de qual era a forma adequada em tais circunstâncias. Talvez
não houvesse forma adequada em um tête-à-tête desse tipo. Era tudo altamente impróprio.
A sala de jantar pulsava relativamente, com a tensão.
― Vamos nos mudar para a sala de estar ― disse ela finalmente, sorrindo para ele.
― Se tiver terminado de comer, é claro.
― Sim, obrigado, senhora ― ele disse, colocando, feliz, o guardanapo ao lado de
seu prato e ficando de pé. ― Mas devo ir. Devemos sair no início de amanhã cedo.
Ela permitiu lhe puxar a cadeira para trás, para se levantar. E o alívio de fazer isso,
de não ter de se sentar mais sozinha com ele à mesa, era enorme. Mas não o podia deixar
ir. Por alguma obstinação insensata, se recusava a deixar que fizesse o que sabia que devia
fazer, mas sim, o que ela queria fazer, não o deixar ir.
― Não é mesmo tarde, capitão Blake ― disse ela, lhe tomando o braço. ― E eu vou
ficar terrivelmente aborrecida, se for forçada a passar o resto da noite sozinha. Você não
vai me condenar à solidão e tédio, não é? ― Ela sorriu, e olhou para ele por debaixo de
seus cílios, de uma maneira que sabia dirigir a homens selvagem. E estava mais
consciente, do que nunca estivera antes, de quão grande ele era, e como seus ombros
eram largos e bem musculoso. E houve uma onda de medo de que estava brincando com
fogo. Ela ignorou o sentimento.
Ele não resistiu mais. Ela estava quase desapontada que ele não o fizesse. Tinha
esperado que ele insistisse para sair. Eles deviam conversar, pensou. Eles deviam
preencher o silêncio.
― Que idiomas você fala? ― Ela lhe perguntou, enquanto o levava para a sala de
estar. ― Eu sei que fala vários. Sei que foi enviado em muitas missões de reconhecimento,
por isto.
― Várias línguas indianas ― disse ele. ― E algumas européias também.
Ela deixou o braço dele e caminhou pela sala, afofando algumas almofadas e
reposicionando ornamentos. Ele ainda estava de pé, apenas para dentro da porta da sala,
com os pés ligeiramente afastados, as mãos cruzadas atrás.
― Por que não vem se sentar e me contar sobre algumas de suas missões de
espionagem ― disse ela. ― Diga-me algo sobre as que tem realizado na Península. ― Ela
deu um tapinha nas costas do um sofá e sentiu seu coração batendo contra as costelas.
― É melhor eu ir, senhora ― disse ele.
Ele tinha sentido mais do que ela tinha. Era impossível, ela pensou, que ele não
sentisse a tensão entre eles, como ela.
― Você não gosta do tema? ― Perguntou a ele. ― Então vamos escolher outra
coisa. Vou lhe falar sobre Luís, e da vida na corte antes da ida para o Brasil. Há muitas
histórias divertidas com as quais eu o posso entreter. Venha e se sente.
― Eu tenho que ir ― disse ele.
Uma voz interior lhe disse para o deixar ir. Ela estava indo muito mais fundo,
insistindo muito, mais do que nunca tinha feito antes. Flerte tinha sido sempre um jogo
divertido, um pouco chato, antes disso. E muito seguro. Deixe que vá, aquela voz interior
lhe disse novamente. Mas se ela o deixasse ir, seria como admitir a derrota. Ela não podia,
até que o mandasse embora. Atravessou a sala em direção a ele, com um sorriso nos
lábios.
Viu que ela vinha. E ficou lá, se sentindo como um menino bobo, querendo se
despedir, desejando desesperadamente ter ido embora, e não sabendo bem como realizar
uma tarefa tão aparentemente, simples. Ele cerrou os dentes, em vez de lhe dizer, mais
uma vez, que deveria ir. Qualquer outro homem que ela pudesse ter escolhido como
acompanhante, teria sabido como pedir sua licença, ele pensou.
Ela parou quando estavam se olhando quase de igual para igual, os delicados
sapatos brancos quase tocando as pesadas botas pretas polidas. O topo da cabeça dela
ficava apenas abaixo do nível do queixo dele, o cabelo escuro suave sobre o alto da
cabeça, com um conjunto de cachos atrás. Ela usava um perfume almiscarado macio, que
tinha notado enquanto estavam fora.
― Você não tem medo, não é, capitão? ― Perguntou a ele, os longos cílios se
elevando para permitir que os olhos viajassem para cima de seu queixo, para olhar em
seus olhos. Havia uma sugestão de riso e uma pitada de algo mais em seus olhos.
Ele engoliu em seco e desejava poder ter controlado a ação. Estava morrendo de
medo. Nunca tinha estado em tal situação, com qualquer mulher que não fosse uma
prostituta e sua para a compra. Não tinha experiência no controle de si mesmo, em tais
situações. Nunca houve a necessidade. E, em seguida, uma de suas mãos pequenas, por
uma vez sem luva, de pele branca e lisa, se levantou de modo que um dedo pudesse traçar
a linha da costura sob o ombro do casaco.
― Quase tênue ― disse ela.
― Ele tem visto muito serviço. ― O calor de seu dedo queimando ao longo de sua
clavícula.
― Uma mulher terá que consertá-lo para você em breve ― ela falou.
― Sim.
Seus olhos se moveram para cima novamente, passando pelo queixo, demorando
sobre a boca, fazendo uma pausa na cicatriz em seu nariz, olhando plenamente em seus
olhos. ― Você está com medo? ― Sua voz era baixa, quase um sussurro.
O estilo do seu vestido, caindo em pregas suaves por debaixo de seu seio para o
chão, o fazia parecer leve e fino. No entanto, ela estava ainda mais magra na realidade.
Suas mãos quase se uniam em torno da cintura dela, já que sua memória afiada tinha uma
impressão semelhante, da época em que ela tinha quinze anos.
Ele estendeu as mãos para baixo por trás de sua cintura e a trouxe contra ele,
enquanto ela se arqueava para trás a partir da cintura, e colocou as mãos em seus ombros,
o olhou nos olhos com uma expressão no rosto de quase uma carranca. Ela era toda luz,
quente feminilidade, macia. Ele deslizou as mãos para cima, até que os seus seios lhe
tocaram o casaco, achatada contra ele a observava, e sentia sua suavidade contra a dureza
de seus músculos do peito.
Jesus, ele pensou, e o sangue pulsou através dele como uma batida de martelo.
Senhor Deus no céu. Mas ela era muito pequena. Pelo jeito que eles estavam, ela era
muito pequena. Ele se inclinou na altura dos joelhos, levantando-a contra ele de modo
que seus pés quase deixaram o chão.
E ela sabia que tinha cometido um erro. Ela sabia que tinha levado o flerte longe
demais. O medo que teve no primeiro momento em que tinha posto os olhos sobre este
homem estava nela. Tinha perdido o controle. Ele a tinha levantado para que todo o seu
peso e todo o equilíbrio estivessem à sua mercê. Se ele a deixasse de repente, ela cairia. E
ele a ergueu o suficiente para que ela pudesse sentir contra seu ventre o inchaço duro de
seu desejo por ela.
Eles haviam se levado para além da área do próprio flerte, para conhecer o
domínio de sua paixão. E ela não tinha nenhuma experiência, absolutamente nenhuma,
nem mesmo em seu casamento sobre a paixão. Olhou em seus olhos azuis claros, agora
queimando com o fogo da paixão, e ela o sentia com cada parte de seu corpo e cada
nervo dele. Ele estava todo duro, em sua magnífica masculinidade.
E ela estava apavorada. Aterrorizada com ele: o abraço que ele tinha começado era
um abraço que levava apenas a um lugar e a um final. Era um abraço com toda a intenção
de ser levado até a conclusão. E com medo de si mesma: seu corpo foi se deliciando com
as sensações e na posse dele, e sua mente estava querendo se render.
Seria tão bom, ela pensou. Sabia que seria bom. Seria apagar talvez, as memórias
nauseantes de seu leito conjugal. Ela queria mais do que qualquer coisa se render. Seus
olhos se fecharam e os lábios entreabriram enquanto sua cabeça baixava até a dela. Queria
saber o que ele faria com ela. Queria saber o que um homem viril, apaixonado faria com a
mulher que ele desejava.
Sua boca desceu ampla sobre a dela, por um momento, ela abriu os olhos em
estado de choque. Sua língua delineou seus lábios até que ela sentiu uma dor lancinante
afiada e profunda em seu ventre, e então ele mergulhou quente, duro e profundo em sua
boca. Ela engasgou e o puxou ainda mais profundo.
E o terror estava de volta, passada a curiosidade e a tentação, empurrando seu
caminho. Ela não tinha nenhum controle sobre a situação. Sabia que era uma questão de
poucos minutos, talvez menos, antes que fosse rebaixada para o chão e as saias levantadas
e seu corpo penetrado. Teria se rendido ao controle de um homem, um homem que não
conseguia entender. Um enigma. Alguém com quem era apenas para trabalhar.
Mordeu a língua.
Quando ele puxou a cabeça para trás, ela sorriu para ele e lutou contra o terror, a
falta de ar e os joelhos trêmulos. ― Por quê, capitão ― disse ela, ― não foi um pouco
extravagante para um beijo de boa-noite?
― Por quê, você cadela! ― Ele a surpreendeu dizendo, dando um passo para trás e
franzindo o cenho ferozmente para ela. O terror se enrolou em um punho dentro dela.
Levantou as sobrancelhas. ― Eu não ouvi isso, capitão Blake ― disse ela.
― A surdez é temporária, ouso dizer. Você decidiu não ficar e ir para a porta?
― Sua cadela! ― Ele disse de novo, não tomando o exemplo dela para restaurar
uma medida de civilidade para seus negócios. Seus olhos se estreitaram sobre ela. ― Você
enviou a sua companheira, a afastando deliberadamente, não é? Você não tinha a intenção
de ter um trio para o jantar, não é? Você não precisa de uma acompanhante, senhora.
Você precisa de um domador de animais.
Ela sorriu para ele. ― Infelizmente, a surdez foi apenas temporária ― disse ela. ―
Mas eu vou te perdoar, capitão. Parece que você interpretou inteiramente mal a situação.
Eu fico grata por sua escolta. Pretendia mostrar minha gratidão. Me perdoe, mas eu não
quis dizer mais nada.
Seus calcanhares clicaram juntos e em seu rosto estavam novamente todas as linhas
duras, seus olhos de aço. Era o rosto de um soldado, um que devia levar apreensão para o
coração de qualquer soldado inimigo, infeliz o suficiente para olhar para ele no campo de
batalha.
― Boa noite, minha senhora ― disse ele. ― Voltarei ao amanhecer se estiver bem
para a senhora. ― Ao que ela respondeu sorrindo: ― Eu vou estar pronta, capitão. Boa
noite.
Ele se virou, e saiu sem dizer uma palavra. Um cavalheiro teria pedido desculpas,
tanto pelas liberdades que havia tomado, como pela linguagem vulgar que,
imperdoavelmente, havia dirigido a ela. Mas o capitão Blake não era, naturalmente, um
cavalheiro. E ela não podia dizer que sentia muito por ele não lhe ter pedido. Teria se
sentido ainda mais culpada do que já estava se ele tivesse.
E o capitão Blake, caminhando do pátio da villa até a colina para sua pousada,
amaldiçoou furiosamente, sob a respiração forte, e a condenou ao inferno. Sua língua
latejava e houve cortes na parte de trás, que estariam doloridos por dias.
A cadela! Ele não poderia pensar em nenhuma outra palavra que a descrevesse. Ela
o levou toda a noite, apenas para que pudesse lhe fazer de tolo e depois rir na cara dele
no final, quando, apesar de todos os seus esforços, ele não conseguiu resistir a ela. Mas
era um jogo perigoso, este que ela jogou. Ele teria sido a pessoa a rir se não tivesse sido
capaz de parar, apesar da língua mordida.
Se sentiu um tolo prêmio. Por ter tido sua língua mordida! Nunca mais seria capaz
de olhar nos olhos dela, sem se lembrar de como ela tinha criado sua humilhação.
Duas vezes. Por duas vezes ele tinha sido feito de bobo por uma mulher, e pela
mesma mulher duas vezes, Jeanne Morisette e Joana da Fonte, Marquesa das Minas. Em
qualquer língua, ela era um problema, e uma vez que tivesse sido entregue com segurança
em Viseu, uma tarefa que ele iria completar tão rápida e tão impessoalmente quanto fosse
possível, não teria nada mais que ver com ela.
Não que ele tivesse a oportunidade de fazer mais, é claro. Um capitão que tinha
sido um soldado raso e a viúva de um marquês português e filha de um conde francês.
Como ela uma vez se expressou? Ele parou do lado de fora de sua pousada e
franziu a testa para o chão a seus pés. O bastardo e a filha de um conde francês. Sim, ele
acreditava que tinham sido estas suas palavras exatas.
Bem, ele tinha acabado de aprender sua lição. A partir de agora iria limitar suas
atenções inteiramente às Beatrizes deste mundo. Beatriz podia tirar dinheiro por serviços
prestados, mas pelo menos ela era aberta e honesta sobre o que fazia. Não seduzia um
homem à loucura e, em seguida, afirmava, com os olhos largos e sorriso doce, que ela
apenas queria oferecer um beijo de boa-noite como gratidão. Beatriz sabia dar, bem como
receber. E o que ela dava era a si mesma, doce e ampla para seu prazer e seu conforto.
Ele estava arrependido, de coração, que não a tivesse trazido, depois de tudo. Teria
dado todo o pobre conteúdo da sua bolsa, naquele momento, para ser capaz de a levar até
seu quarto e se enterrar nela.
Maldição! Mas ela era bonita, pensou. E quente, esbelta e bem torneada. E
saborosa. Mas não foi em Beatriz que ele pensou por muito mais tempo.
Capítulo 8
A jornada durou mais três dias. Eles ficaram em Leiriaxii uma noite. Joana escolheu
dormir em um convento, em companhia de Matilda, e em Coimbra no outro dia, ela tinha
amigos, com quem ficou. Antes da terceira noite se fechar sobre eles, chegaram
finalmente na cidade de Viseu, no alto de um platô de tirar o fôlego, suas muralhas e as
suas igrejas e a catedral lhe dando uma beleza própria.
O capitão Blake nunca tinha estado tão feliz em sua vida por chegar a um destino.
Em três dias, ele mal havia trocado uma palavra com a marquesa. E ainda assim, ela
sorriu para ele, como de costume, os olhos talvez rindo dele, pois nunca soube se ela
zombava dele ou não. E continuou a ser sua tarefa a colocar dentro e fora da carruagem.
Mas durante esses três dias, ele estava mais consciente da magreza de sua mão e a leveza
de seu corpo, e do perfume sutil, que tinha notado pela primeira vez dentro de sua casa
em Óbidos.
Foram dias durante os quais desejava estar livre dela, de volta com o exército.
Lamentou a intimação para Viseu. Queria voltar com sua companhia novamente,
aliviando o tenente Reid do comando, que tinha sido dele durante o inverno. Queria ter
estado com mulheres, e com uma mulher em particular, por um tempo. Queria se
concentrar em seu trabalho. Era final de junho. Os franceses certamente iriam fazer seu
movimento em breve. Era incrível que tivessem esperado tanto tempo. Certamente
haveria uma grande batalha campal, antes que muitas mais semanas se passassem.
A tia de Joana vivia na praça da catedral da cidade, uma área considerável de casas
nobres, incluindo o Palácio Episcopal. Ele desmontou pela última vez para tirar a
marquesa da carruagem.
― Capitão Blake. ― Ela colocou a mão enluvada na dele e lhe sorriu
brilhantemente. ― Chegamos com segurança, depois de tudo. Eu com certeza vou
informar a Arthur, que me protegeu contra todos os perigos da estrada.
Havia zombaria definitivamente em sua voz. Não tinha havido perigos para além
do que ele próprio tinha colocado. E ela mesma se tinha protegido contra isso. Sua língua
ainda doía quando bebia qualquer coisa quente.
Ele se inclinou sobre a mão quando seus pés tocaram o chão. ― Espero que a
viagem não tenha sido muito desconfortável ou tediosa para você, minha senhora ― disse
ele.
― Como poderia ser ― disse ela, e riu em voz alta, ― quando eu tinha a sua
conversa para desfrutar, capitão Blake?
Ele foi dispensado? Ou será que ela esperava que a acompanhasse para dentro de
casa? Pela milésima vez, ele se ressentia terrivelmente da falta de conhecimento das
sutilezas do comportamento educado.
― Eu não vou mantê-lo ― disse ela. ― Você deve estar ansioso para voltar para a
sede e encontrar o seu passe. Temo que seja tarde demais para falar com o general hoje,
apesar de tudo. Bom dia, capitão. ― Ela tinha deixado a mão na dele.
― Adeus, senhora ― disse ele. E fez o que pensava e esperava que se esperava dele.
Levou a mão dela aos lábios. E olhou para seu rosto quando fez isso, para encontrar seus
olhos em suas mãos e seus lábios em despedida. Senhor, ele poderia provar de sua doçura
ainda e sentir a nitidez de seus dentes perfeitos. ― Sua tia terá o prazer de a ter segura.
Ela sorriu e levantou os olhos para ele. ― Nunca diga adeus, capitão ― disse ela. ―
Parece tão final. Eu o intimo para que nos encontremos de novo. ― E, finalmente, ela
retirou a mão da dele e sinalizou, dessa forma completamente imperceptível em que as
senhoras eram peritas, como dizendo que ele estava dispensado.
Virou para trás na sela, se voltou para a saudar, e sentiu todo o alívio que podia
sentir, como quando se está sendo libertado de uma cela de prisão e certo da execução.
Não esperava, pensou fervorosamente em reação a suas palavras finais. Deus, ele não
esperava.

***

O exército francês destinado à invasão de Portugal, Exército de Portugal, como


Napoleão Bonaparte gostava de chamar, ainda estava estacionado sobre Salamanca, o
capitão Blake tinha ouvido de colegas policiais em seu boletoxiii na noite anterior. Aos
cinquenta e dois anos de idade, o Marechal André Massenaxiv tinha acabado de assumir
seu comando. A maior parte dos exércitos britânicos e portugueses, sob o comando do
Visconde Wellington, ainda estavam amontoados no centro de Portugal aguardando a
esperada invasão do leste. A Divisão Ligeira ainda estava patrulhando o rio Côa,
protegendo contra qualquer surpresa o avanço francês, e impedindo qualquer inteligência
de sair à francesa.
Nada tinha mudado muito, embora já fosse o início do verão. O capitão Blake
estava passeado em uma ante-sala na sede, na manhã após sua chegada a Viseu e desejou
estar no Côa com o regimento. Não haveria perigo, a emoção, a sensação de estar em um
lugar importante, em um momento importante. Ele esperava ser enviado para lá, que este
desvio para Viseu fosse apenas com a finalidade de pegar papéis ou uma mensagem para
o general Crawford, encarregado da divisão.
Ele foi mantido esperando por duas horas antes de um oficial de pessoal o chamar
para a presença do comandante-em-chefe.
O capitão Blake sempre era atingido por duas impressões contraditórias
relativamente ao Visconde Wellington. Uma era quão comum e despretensioso ele
aparecia à primeira vista. Não usava uniforme militar, mas quase sempre estava vestido
com roupas simples, bastante monótono. A outra, era como comandando a presença que
ele tinha, uma vez passada a primeira impressão. Seu rosto era severo, com seu nariz
adunco, lábios finos e olhos atraentes. E ainda uma explicação por toda a atenção voltada
para ele sempre que estava presente, não era em seu rosto ou a sua altura, ele era uma
pessoa magra. Era mais no homem interior.
― Ah, capitão Blake ― disse ele, olhando para cima dos papéis espalhados sobre a
superfície da mesa e reconhecendo a saudação do outro com um aceno de cabeça. ―
Você veio, finalmente, não é?
― Tão rápido quanto eu podia, senhor ― disse o capitão Blake.
― E ainda assim o meu mensageiro voltou com o relatório ontem de manhã ―
disse o visconde, franzindo a testa.
O capitão Blake engoliu a sua indignação. ― Eu fui direcionado para escoltar a
Marquesa das Minas, senhor, ― lembrou ao general.
― Ah. Joana. ― Wellington posicionou a pena de escrita para baixo. ― Uma
senhora agradável, você não concorda? ― O capitão Blake inclinou a cabeça, assumindo
que a pergunta era retórica.
― Como está seu francês? ― Perguntou o visconde. ― O meu próprio é
indiferente.
― Eu tanto posso compreender como me fazer entender, creio eu, ― disse ao
comandante.
― E o seu espanhol? ― Mas o general acenou com a mão desconsiderando. ―
Não, esqueça essa pergunta. Eu sei que seu espanhol é para ser fluente. Eu preciso que
você vá a Salamanca, para mim.
O capitão Blake parou e se forçou a se abster de qualquer reação ou de repetir o
nome da cidade espanhola. Explicações sem dúvida seriam dadas.
― Direto para a cova do leão ou o ninho de vespas, por assim dizer ― disse Lorde
Wellington. ― Está para ser capturado, capitão Blake. Se certifique de usar seu uniforme.
Como você está, sem dúvida, ciente, os franceses tratam seus prisioneiros de guerra com
cortesia, como fazemos com os nossos. Eles tratam os prisioneiros sem uniforme com
uma barbárie, que nos deixam curiosos para, saber se eles podem ser uma nação
civilizada, depois de tudo.
Foi mais difícil desta vez evitar as sobrancelhas erguidas. Sua tarefa era entrar no
campo inimigo e se permitir ser capturado?
― Você não vai apenas andar até a cidade e entregar sua espada, é claro ― disse o
general, como se tivesse lido os pensamentos dele. ― Você vai estar se comunicando com
um bando de guerrilheiros espanhóis de Antonio Bécquer, você pode obter os detalhes
mais tarde com meu secretário. E você vai ser muito relutante em ser capturado. Vai ter
papéis cuidadosamente escondidos com a sua pessoa, mas não com cuidado suficiente, é
claro.
O capitão Blake olhou e escutou. Ele sabia que as perguntas e comentários eram
desnecessários neste momento.
― Sente, capitão ― disse o visconde, se levantando. ― Eu vou explicar a situação
para você. Basta dizer que eu não gosto de divulgar informações importantes para uma
única pessoa mais do que é necessário. Muito poucas pessoas, mesmo entre os meus
oficiais superiores, sabem o que estou prestes a lhe dizer. E antes de eu fazer isso, eu
preciso lhe perguntar. Você está disposto a realizar esta missão para mim? Não preciso
lhe recordar que há perigo envolvido e que todas essas missões são voluntárias.
― Estou disposto, senhor ― o capitão Blake disse, embora não tivesse certeza de
estar ansioso. Cativeiro? A humilhação de perder sua espada para os franceses? E o tédio,
talvez a degradação, de um encarceramento demorado?
― Isto é, então, para os seus ouvidos somente, capitão ― disse o general. ― Não
deve ser repetido, mesmo sob o stress da tortura, que eu não antecipo ser o seu destino,
desde que use o seu uniforme, é claro. Você notou alguma atividade incomum, quando
viajou para o norte?
O capitão Blake pensava. ― Muito pouco, senhor. ― Disse ele, pensando do mal-
estar da Passagem Montachique e no major Hanbridge lá. Mas isso não tinha sido
literalmente atividade. ― Grandes bandos de camponeses parecem ter se agitado em
algumas fortificações ao norte de Lisboa, perto de Torres Vedras, mas seus esforços
parecem ser inúteis e patéticos. Eu não vi nenhuma evidência de atividade militar.
― Ah, ― Lorde Wellington disse, ― suas palavras me agradam. Meus oficiais de
engenharia são inteligentes em mais de uma maneira, parece. No outono passado, capitão
Blake, dei ordens para uma cadeia e três correntes concêntricas de fortificações,
numerosas e bastante inexpugnáveis, a ser construídas ao norte de Lisboa, a mais central
deve passar por Torres Vedras, do oceano para o Rio Tejo. Antigos castelos, igrejas e
torres estão sendo utilizados, montanhas estão a ser reformuladas, eu não posso entrar
em detalhes. Essas defesas estão quase prontas. A principal, que com meus oficiais de
engenharia, será o que venho chamando de as Linhas de Torres Vedras. Quando
terminarem, e defendida por um exército de tamanho moderado, elas vão ser bastante
intransponíveis. Qualquer exército vindo do norte pode ser revidado a partir de Lisboa,
indefinidamente. Não tenho a intenção, você vê, que meu exército seja empurrado para
dentro do mar. Vamos manter o nosso único ponto de apoio no continente da Europa, e
eventualmente, teremos a força para mordiscar peça por peça, no império de Napoleão
Bonaparte. No momento nós simplesmente, não temos a força numérica para avançar.
Capitão Blake ouviu fascinado, mas não disse nada.
― Quando Massena trouxer seu exército para Portugal, ― disse o visconde ―
como ele certamente vai fazer em breve, uma vez que tem subjugado Ciudad Rodrigo e
Almeida, ele vai marchar uma longa distância através das colinas, muito longe de suas
linhas de abastecimento. E vai encontrar pouco conforto neste país. Os habitantes serão
incentivados a se retirar diante dele, queimando todos os alimentos e suprimentos que
não podem levar com eles. Ele não vai estar muito preocupado, acreditando firmemente
que em breve será capaz de abastecer suas tropas nas lojas do tesouro de Lisboa. Quando
atingir as Linhas de Torres Vedras, capitão, ele terá a escolha entre uma retirada difícil no
final do ano com um exército faminto pela metade, e uma perfuração sem sentido, na
esperança de rebentar o seu caminho através das linhas e chegar a Lisboa. A destruição de
uma grande parte de seu exército deve estar certa.
O Visconde Wellington, que tinha estado andando pela sala, voltou para sua mesa
e se sentou, olhando para o capitão Blake.
― Só uma coisa pode estragar o meu plano ― disse ele, ― e isso é Massena não
fazer o que eu espero que ele faça. Ele poderia, é claro, marchar sobre Lisboa a partir do
sul, e nós temos linhas de defesa ao sul do Tejo também, embora elas não sejam tão
formidáveis. Mas eu não espero que ele vá para o sul. Irá, creio eu, agir previsivelmente,
sob uma condição. Uma condição absolutamente essencial. A existência das Linhas de
Torres Vedras devem permanecer um segredo total. Mesmo os meus homens vão
acreditar que estão indo para a aniquilação quando eles recuarem em Lisboa. Vão me
amaldiçoar redondamente, capitão Blake.
― Sim, senhor, ― o capitão Blake disse, e viu seu comandante-em-chefe sorrindo
artificialmente. Graças a Deus, ele estava pensando, que o Major Hanbridge lhes tinha
apressado na passagem, antes que as perguntas da marquesa se tornassem mais aguçadas.
― Meu exército tem feito um excelente trabalho de vedar a fronteira para a
inteligência francesa ― disse Lorde Wellington. ― O próprio posicionamento do exército
francês mostra que eles não sabem o que terão de enfrentar. Mas as coisas vão vazar,
capitão. Três detalhes têm me perturbado um pouco nas últimas semanas. Minha própria
inteligência me informou que pequenos grupos de homens de Massena estão verificando
a rota do sul. E alguns dos nossos amigos espanhóis me informaram que os franceses têm
em suas mãos algum papel cuja descrição parece muito com um diagrama sem marcação
das Linhas de Torres Vedras. Eles estão começando a suspeitar da verdade? Essa é a
pergunta que eu tenho feito. E em terceiro lugar, eles ainda não se moveram, embora seja
quase julho. É evidente que algo está errado, algo os perturba. Mais uma vez, é que eles
suspeitam da verdade? Será que, afinal de contas, balançam para o sul?
Ele colocou os cotovelos nos braços da cadeira e juntou os dedos. Olhou
pensativo para o capitão Blake.
― Você tem que ser pego com um diagrama das linhas com você, capitão ― disse o
general. ― Um diagrama enganoso, é claro, para convencer os nossos amigos que os
estamos esperando do sul e temos defesas muito instáveis de fato no norte. Caberá a você
convencer os oficiais franceses que irão lhe interrogar, que o papel é autêntico. Caberá a
você os convencer de que é plausível ter um papel tão importante em sua pessoa, quando
estará viajando para a Espanha. Você vai discutir o assunto com a minha secretária e
relatar de volta para mim amanhã. Espero que esteja em seu caminho dentro de dois ou
três dias. Você entende a sua missão?
― É para me certificar a todo o custo que o exército francês venha por aqui,
senhor ― disse o capitão Blake.
― Que eles não permaneçam onde estão, nem sigam para o sul ― completou o
Visconde Wellington.
― Sim, senhor ― disse o capitão. ― Eu entendo.
― Você, naturalmente, vai ter dúvidas depois de ter pensado sobre tudo o que lhe
tenho dito, ― disse o general. ― Tem alguma agora, capitão?
O capitão Blake lambeu os lábios. ― Devo ser um prisioneiro hostil, senhor? ―
Perguntou. ― Ou tenho de dar a minha liberdade condicional, se me for oferecida a
chance?
― Oh, sua liberdade condicional, por todos os meios, ― disse Lorde Wellington. ―
Eu não gostaria que o seu cativeiro se torne de alguma forma desconfortável, capitão.
― O senhor não iria querer que eu tentasse escapar, então, senhor? ― Perguntou o
capitão Blake.
― Certamente não, se sua liberdade condicional lhe for dada e seus captores
fizerem sua parte o tratando com cortesia ― disse o visconde com as sobrancelhas
levantadas. ― Você vai ser trocado por um prisioneiro francês de igual categoria no
devido tempo, capitão Blake. Há mais alguma pergunta?
― Nenhuma no momento, senhor ― disse o capitão Blake. Seu coração se sentia
como se estivesse em suas botas. Depois de meses de encarceramento em um hospital em
Lisboa, ele estava para ter um breve vislumbre de liberdade, apenas para a perder
novamente e deliberadamente, e não sabia por quanto tempo. Enquanto sua companhia,
seu regimento e seu exército se preparava para a batalha, ele seria um prisioneiro de seu
inimigo. E uma vez que sua liberdade condicional fosse dada, a honra não teria sequer lhe
permitido tentar escapar.
― Se uma troca é feita em breve ― disse o general, ― ou se você se encontrar
libertado por qualquer outra razão, capitão, vou esperar que nos ajude em nossa causa a
persuadir os habitantes do campo para queimar tudo que ficar para trás deles, e recuar
com o nosso exército. Essa tarefa terá precedência sobre se reunir ao seu regimento.
― Sim, senhor, ― disse o capitão Blake, mas seu espírito não foi levantado. Era
improvável que houvesse qualquer troca de prisioneiros antes de a campanha do verão
acabar. Ele levantou e fez uma saudação elegante.
― E, capitão, ― o visconde disse antes que ele saísse da sala, ― você recebeu ou vai
receber um convite para um baile que está sendo dado pela Condessa de Soveral, amanhã
à noite. Ela é a tia da marquesa, você sabe. Eu acredito que a senhora deseja expressar sua
gratidão a você, por acompanhar a sobrinha com segurança desde de Lisboa. Assuntos
cansativas, estes. Mas temos de manter relações amigáveis com nosso país de
acolhimento. Eu espero que você vá participar.
― Sim, senhor, ― o capitão Blake disse, e saiu da sala, uma vez que parecia não
haver mais nada a ser dito. E se houvesse um lugar mais baixo do que as botas para o seu
coração estar, pensou, então era onde ele estava. Ele ia ter que ver a mulher sangrenta
novamente, e em seu território, um baile em que era inteiramente provável que o
comandante-em-chefe estivesse presente. E ele seria capaz de apostar que ela tinha ficado
pessoalmente conivente com o convite e apenas para que pudesse testemunhar seu
embaraço e desconforto total. Provavelmente jamais passou pela cabeça da tia lhe
agradecer.
Inferno, ele pensou. Inferno e danação! Ele deveria ter seguido o conselho do
cirurgião e pedido baixa por doença durante o verão.

***

― Eu peço desculpas por trazê-la para uma sala que oferece tão pouco conforto
para uma senhora, ― o Visconde Wellington disse mais tarde no mesmo dia. ― Mas
parecia mais seguro para falar sobre questões delicadas aqui em vez de na casa da
condessa.
Joana riu. ― Mas você esquece, Arthur, que eu nem sempre sou uma senhora ―
disse ela, ― e, ocasionalmente, tenho muito menos conforto do que esta sala proporciona.
Por isso, estou a fazer um inimigo mortal do capitão Blake, estou? Não vai ser difícil, eu
acho. Ele não gosta muito de mim, nem me aprova.
O visconde olhou para ela e franziu a testa. ― Ele a tratou com descortesia? ―
Perguntou. ― Eu o devia ter enforcado.
Ela riu novamente. ― Oh, não, não ― disse ela. ― Ele não se comportou mal. Mas
eu estava La Marquesa no meu melhor, você vê. Você me disse que eu o devia conhecer,
e assumi que isso significava que devia flertar com ele. Flertei. Mas temo que o seu
capitão é feito de material rígido. Ele não aprova flertes, não que dissesse isso. ― Joana
sorriu outra vez com tristeza ao lembrar de ser chamada de cadela.
― Este é um assunto muito delicado e perigoso, Joana ― disse Lorde Wellington.
― Eu já estive com ele agonizante. Mas parece que é a única ideia que poderia funcionar.
O capitão Blake deve estar carregando o plano real para as Linhas de Torres Vedras.
― Mas é para ser selado e não é para ele perceber a verdade ― disse ela.
― Ele é um bom homem ― disse o visconde. ― Provou isso em muitas ocasiões.
Mas não sei se ele acrescenta habilidades de atuação entre suas outras. Vai ser melhor, eu
decidi, se ele não estiver agindo. É claro que ele vai negar que os papéis são reais quando
forem descobertos e ele os vir. E os franceses vão suspeitar que ele blefou, mas vão ter
medo do blefe em si. Eles não vão saber muito bem o que acreditar. E será aí que você
entra, Joana.
― Eu vou convencê-los de que o capitão Blake é o espião mais altamente
qualificado ― disse ela, ― e que ele deliberadamente se deixou capturar, para os
confundir, a fim de os fazer acreditar por suas negativas, que as defesas reais estão no
norte. Eu entendo, Arthur. Assim, mesmo quando ele perceber que eu estou, sem querer,
ajudando sua causa, ele vai me odiar como ele odiaria veneno. Delicioso!
― Você não tem que fazer isso, Joana, ― Lorde Wellington disse com uma careta.
― Eu ainda posso ter uma chance em que quase acredito, que é a de que os franceses não
têm nenhuma ideia de uma possível armadilha esperando por eles. Odeio ver você se
colocar em perigo. É Wyman ainda especial em suas atenções? O lugar muito mais seguro
para você, neste momento, seria a Inglaterra.
― O lugar mais seguro para Maria e Miguel teria sido a Inglaterra também ― disse
ela, tanto sua expressão como sua voz mudados. ― Não, o trabalho será feito, Arthur. Os
franceses virão desta forma e vão acreditar que eles têm passagem livre para Lisboa.
Talvez, em algum momento no futuro, eu vou ter a chance de pedir desculpas a seu
pobre capitão. E que pedaços de informação útil e inútil eu posso levar comigo para
Salamanca?
― Oh. ― Lorde Wellington acenou com a mão no ar. ― Você pode lhes dizer que
estou aqui, Joana. Eles, sem dúvida, vão suspeitar, tanto mesmo se não sabem com
certeza. Você pode dizer que estou pronto para o voo com as forças estacionadas no
norte, para ajudar a repelir a invasão pela rota do sul, mas que não me atrevo a deixar
aqui, ainda por medo de que eles podem vir desta maneira. É esta informação suficiente?
― Oh, Arthur, posso lhes dizer sobre o camponês patético que tenta fortalecer a
Torres Vedras? ― Perguntou a ele, sorrindo. ― Eles pareciam patéticos, você sabe, um
pouco como uma pequena pessoa de pé no meio de um rio na cheia, tentando segurar as
águas. Os franceses vão se deliciar com a minha descrição. Eu o devo fazer muito bem. E
isso vai fazer que o blefe do capitão Blake parecesse muito mais ridículo.
― Por todos os meios ― disse ele. ― Você os vai entreter, Joana.
― E talvez, por este tempo, haverá novas tropas, os novos oficiais em Salamanca
― disse ela com um suspiro. ― Talvez ele vá estar lá neste momento. Eu vivo por este
dia.
O comandante-em-chefe olhou para ela pensativo. ― Se ele estiver, Joana ― , disse
ele, ― será um trabalho para o seu irmão. Você não deve tentar o enfrentar.
Ela sorriu brilhantemente para ele. ― Uma vez que eu tenha traído o pobre capitão
Blake, minha tarefa está feita? ― Perguntou ela.
― Só mais uma coisa se isso pode ser arranjado ― disse ele. ― A ele vai, sem
dúvida, ser oferecida a liberdade condicional, que foi instruído a lhe dar. Mas ele é um
jovem inquieto e será muito infeliz, se não puder passar, pelo menos, uma parte do verão
entre seus atiradores amados. Além disso, preciso de alguns homens em uniformes, com
um conhecimento da língua portuguesa, para persuadir essas pessoas pobres a deixar suas
casas e destruir tudo atrás deles. Se você puder encontrar qualquer caminho para a sua
liberdade condicional, para ser quebrada sem perda de honra para ele, Joana…
Ela levantou as sobrancelhas. ― Ah, um desafio ― disse ela. ― Realizando o
impossível. Vou ver o que posso fazer, Arthur. E então a marquesa pode desaparecer por
um tempo?
Ele franziu a testa. ― As colinas serão perigosas com os franceses vindo através
delas, Joana ― disse ele. ― Eles não são gentis com partidários capturados, você sabe. E
nós nunca seremos capazes de os persuadir de que o Ordenanza Português é um tipo de
organização militar, e que seus membros têm, portanto, direito a ser tratados como
soldados. Eu preferiria que você voltasse para Lisboa, com toda a velocidade, como a
marquesa.
Ela sorriu. ― Mas eu não pretendo ser capturada, ― disse ela. ― E eu vou explodir
em mil pedaços, se não puder ser livre por, ao menos, algumas semanas.
― Eu não tenho poder sobre você em tudo, é claro ― disse Lorde Wellington. ―
Mas não se esqueça de proclamar sua cidadania francesa em alto e bom som, se você for
pega, Joana. Não que seja provável que será acreditado, é claro, a menos que tenha a sorte
de ser tomada por alguém que você conheça.
Ela ficou de pé e estendeu a mão para ele. ― Você estará no baile amanhã à noite?
― Perguntou ela. ― A Madrinha de Duarte vai ficar desapontada se você não for. Minha
tia. ― Ela sorriu. ― Eu tenho tantas tias.
― Eu não perderia isso ― disse ele, pegando sua mão e se curvando sobre ela. ―
Eu instruí o capitão Blake a participar.
― Ah ― disse ela. ― Por isso, estou a trabalhar mesmo durante um baile, não
estou? Temo que ele vá temer a noite, mais do que ir para a batalha. Quem é ele, Arthur?
O que era ele antes de se alistar?
― Ele é um dos meus oficiais ― disse ele, com o rosto completamente impassível.
― O passado não tem significado para mim, Joana.
― Ah. ― Ela riu. ― Um tapa nos dedos. Eu merecia. Mas é claro, estou mais
intrigada do que nunca. Terei de provocar a informação no próprio capitão. Presumo que
o flerte seria o melhor tratamento amanhã à noite?
O visconde sorriu. ― Eu não acredito que precise lhe ensinar o seu trabalho, Joana
― disse ele. ― Até amanhã à noite, então.
― Vou olhar para a frente ― disse ela.
Mas quando o oficial lhe entregou em sua carruagem, poucos minutos depois, ela
não tinha certeza de que o faria. Ela iria vê-lo novamente e ter a chance de flertar com ele
de novo, o que em si representava um desafio interessante. O capitão Blake não era bom
para o flerte, talvez, mas ela suspeitava que ele fosse realmente muito bom, para o que ela
nunca tinha permitido seguir ao flerte. Embora o tivesse quase permitido com ele. Se
lembrou de forma intensa do abraço terrível em Óbidos, terrível, porque ela quase perdeu
o controle, tanto da situação quanto de si mesma. E ainda sentia um pesar vergonhoso,
por haver permitido os assuntos prosseguirem, pelo menos, um passo adiante. Embora
soubesse com o instinto de uma mulher, certamente, com nada que ela tinha aprendido
durante seu casamento que um passo adiante teria levado ao ponto de não retorno. E
então, talvez, ela tivesse estado perdida para sempre.
O iria ver novamente na noite seguinte. E iria flertar com ele. E então, em
Salamanca, o iria trair, rir dele, fazer dele um tolo, o alvo do humor francês. E teria que
lhe dar uma saída honrosa para sua liberdade condicional, a promessa dada de não tentar
escapar. Ela já tinha uma ideia. Seria a única viável. E seria mais uma coisa para lhe
desgostar dela, para ele a odiar.
Joana suspirou. Não queria que o capitão Robert Blake a odiasse. Mas esse era um
pensamento tolo. Havia uma guerra a ser travada, e a iria combater, de qualquer maneira
que ela pudesse contribuir. Iria lutar contra os franceses, embora ela própria fosse meio
francesa, embora seu pai fosse francês e vivesse em Viena, trabalhando para o governo
francês. Iria lutar contra os franceses, porque um francês merecia morrer em suas mãos.
Não importava que um oficial inglês viesse a lhe odiar, mesmo que ele não o fosse
fazer já. Ela o queria ajudar a cumprir sua missão, embora ele não a fosse realizar. E o
estaria ajudando a fugir, para que ele pudesse voltar ao seu regimento e se matar na
próxima batalha campestre.
Talvez em algum momento no futuro, ela seria capaz de explicar a ele. Mas se não
o fizesse, não importava. Ele era apenas um soldado e ela outro.
Capítulo 9
― Ah sim. Capitão Blake ― A Condessa de Soveral, pelo menos, parecia aliviada
que ele tinha falado com ela em sua própria língua. Mas ela sorriu vagamente para ele, o
acolheu em sua casa e sua festa, e se virou educadamente para cumprimentar os próximos
recém-chegados.
O capitão Blake teria sorrido se a coisa toda não o tivesse feito se sentir tão danado
e desconfortável. Longe de esbanjar gratidão, por ter trazido a sobrinha com segurança
todo o caminho de Lisboa, a condessa tinha parecido não saber quem diabos ele era.
Era um pouco como uma repetição da festa de Angeja, em Lisboa, exceto que
havia menos cantos escuros em que se derreter e, também, que ele se sentia menos livre
de se retirar depois de um tempo decente. Supôs que deveria esperar até o fim, ou, se
com sorte, até que tivesse sido notado suficientemente, tanto pela marquesa como por
Beau, e só então poderia fazer a sua fuga.
Ele preferia estar rastejando sobre Salamanca, à espera de ser capturado, pensou,
quando entrou no salão de baile tentando parecer casual e discreto. Preferia estar indo
para a batalha, à frente das linhas de infantaria com seus batedores, à espera de um
combatente inimigo para o pegar fora. Preferiria estar em qualquer outro lugar, menos
onde estava.
Não era difícil de detectar a Marquesa das Minas, ou pelo menos o lugar onde ela
estava. Era denso e repleto de oficiais, que ostentavam os uniformes mais lindos e as
posições mais luxuosas de prata, ouro e rendas.
― Bob! ― Uma voz alegre o saudou, quando se movia para o outro lado do salão.
― Aí está você. Soube que estava na cidade.
Ele se virou e sorriu com algum alívio ao capitão Rowlandson da Quadragésima
Terceira, cujo banguelo sorriso era bem-vindo em um mar de rostos geralmente
desconhecidos.
― Ned ― disse ele, ― o que você está fazendo aqui?
― Mensageiro menino ― o outro disse. ― Cheguei na noite passada. No meu
caminho na primeira luz da amanhã. Tive que vir esta noite, no entanto, para pagar os
meus respeitos à marquesa. Ou, provavelmente, não pagar meus respeitos, na verdade.
Culto de longe ― é mais parecido com isso. Você foi designado para a acompanhar para
cá, de Lisboa, eu ouvi. Cachorro sortudo! Me fale sobre isso.
― Viajamos rápido, ― Blake disse com uma risada. ― Eu estava apenas há um dia,
depois de chegar aqui, do que teria estado no meu próprio recorde. O que está
acontecendo no Côa?
― Johnny está tentando se esgueirar, querendo passar, e a divisão o segurando de
volta ― disse o capitão Rowlandson. ― Crawford está em seu elemento. Espera grande
heroísmo, quando o impulso vier realmente. Ele gosta de pensar que é mais eficaz do que
todo o sangrento exército junto. Faz uma vida interessante e provavelmente suma, apesar
de tudo. Você sobreviveu, então, Bob? Houve uma aposta sobre isto, mas ninguém seria
capaz de apostar que você não o faria. Teimoso demais, metade a morrer só porque uma
bala perdida não acertou seu coração por uma polegada, Reid disse, e ele não quer dever a
sua capitania só porque você morreu, de qualquer maneira. Você vai voltar comigo?
Capitão Blake fez uma careta. ― Eu tenho alguns negócios aqui primeiro ― disse
ele. ― Material tedioso. Poupar alguns de lutar por mim, embora, Ned. Não tome toda a
glória para si mesmo.
Capitão Rowlandson riu gostosamente. ― Eu quero dançar com a beleza de
cabelos escuros, pouca altura, olhos verdes ― disse ele. ― Do outro lado da sala, Bob.
Você a vê? Eu vi os olhos, pelo menos, três vezes na última meia hora e não acho que é
uma coincidência. Talvez ela goste de cabelo vermelho, hem? É uma desvantagem não ter
nenhum conhecimento de português, apesar de tudo. Venha falar com ela como
acompanhante para mim?
Capitão Blake teria realmente preferido não, uma vez que a beleza em questão
estava sentada bem perto de onde a marquesa estava de pé, rindo e flertando, com uma
corte que era certamente maior do que a de Lisboa. Às vezes, ele pensou, seguindo o
capitão Rowlandson, ele lamentava sua facilidade com as línguas.
O assunto foi logo resolvido, a garota alta e seu acompanhante parecendo apenas
ter muito prazer em aceitar a oferta de parceria de um oficial britânico, apesar do fato de
eles não falarem uma só palavra de inglês entre eles. Capitão Blake se afastou do
acompanhante com uma curva, quando o casal deu um passo para o centro, para a dança
que estava prestes a começar.
A marquesa estava de branco, ele descobriu sem surpresa, quando não pôde resistir
olhar seu caminho. O vestido brilhava com fio de prata. Seu cabelo escuro estava mais
severamente puxado, para trás de seu rosto do que o habitual. O estilo suave brilhava à
luz das velas. A cascata de cachos na parte de trás de sua cabeça era mais suave, mais
completa do que o habitual.
E então ele lamentou a tentação de olhar, e até mesmo olhar. Ele chamou sua
atenção e inclinou a cabeça com alguma confusão. Mas antes que pudesse desviar o olhar,
ela levantou seu leque de penas brancas em seus lábios e seus olhos riram dele por cima.
Seria grosseiro retirar seus olhos e ir embora. E, no entanto, mesmo sem ter que olhar
para baixo, ele sabia que o seu casaco verde cuidadosamente escovado e as botas
cuidadosamente polidas pareciam mais do que gastos, em contraste com os uniformes
lindos em torno dela. Respirou fundo e caminhou em direção a ela.
― Capitão Blake ― ela disse, e baixou seu leque sorrindo totalmente para ele ―
você está atrasado e cada um desses senhores está pronto e ansioso para dar um tapa com
uma luva na sua cara, e o chamar para fora por ter reservado a primeira dança comigo.
― Ninguém merece dançar com você, quando não se dignou a lhe buscar até que a
música quase tenha começando, Joana ― um capitão da Guarda disse, olhando para o
capitão Blake com desdém, misturado a diversão. ― Você deve enviar o companheiro
para o seu lugar, com algumas palavras afiadas.
― O que, Joana? ― Um tenente-coronel da Legião alemã do Rei disse com uma
bem-humorada risada. ― Todos nós fomos depostos por um mero capitão dos Rifles
malditos, implorando perdão para o meu alemão. Todos eles se acham a elite só porque
eles são os melhores atiradores no exército. Blake, não é? O herói do recuo do último
verão de Talavera? Bem, se você tem que dançar com um atirador, Joana, ele poderia
muito bem estar como um herói, eu suponho.
Ela colocou a mão no braço do capitão, sorrindo para o grupo decepcionado de
admiradores. ― Você chegou atrasado, capitão ― disse ela, rindo para ele, quando já
estavam na pista de dança. ― Você dança, pelo caminho?
― Eu o faço, minha senhora ― disse ele. Não sorriu de volta para ela. Nunca tinha
dançado em um grande baile, e não tinha vontade de dançar com ela, sabendo que a
metade dos olhos masculinos na sala estaria sobre eles. E ele não gostava de ser
manobrado e se sentir como um fantoche em uma corda novamente.
― Você vê como eu estou lhe agradecendo por ser o meu acompanhante? ― Disse
ela. ― Estou lhe concedendo a primeira dança da noite, capitão, antes mesmo que
pudesse pedir por ela. Você tem alguma ideia de quantos homens perdi?
― Eu provavelmente poderia dar um palpite, minha senhora ― disse ele. Mas a
música começou naquele momento e os salvou de mais conversa por um tempo quando
eles se movimentaram para uma quadrilha.
― Ah ― , disse ela depois de alguns minutos ― você sabe a dança, e muito bem
também. Você deve ter tido um bom professor.
― A minha mãe ― disse ele.
Ela sorriu. ― Ela gostava de dançar? ― Perguntou ela. ― Ela dançou muito?
― Comigo, sim ― respondeu. ― E, ocasionalmente, com o meu pai.
Ele deveria ser muito jovem. Podia se lembrar de assistir em delírio, quando eles
realizaram os passos de danças da corte e os mais rápidos, enquanto sua mãe cantarolava
a música e seu pai ria. Ele podia se lembrar de puxar a saia da mãe e calças de seu pai, até
que um ou outro o havia levantado e continuou a dança. Aqueles foram os dias em que
ele tinha considerado a sua vida familiar normal e feliz.
Tinha sido feliz.
― Capitão Blake ― a marquesa disse: ― você está me negligenciando. Você se
retirou para algum sonho. Será que eles dançavam em eventos da sociedade? E são ambos
passado? Você perdeu o seu pai, bem como a sua mãe?
Ele olhou para ela e se perguntou se ela não o tinha reconhecido. Será que ele tinha
mudado tão completamente em onze anos? Ou significara tão pouco para que ela, que o
havia esquecido assim que a carruagem de seu pai a levou para fora da vista de
Haddington Hall? Ela não tinha mudado muito, exceto que a menina brilhante com seus
sonhos de crescer e aproveitar a vida tinha amadurecido para a mulher coquete, que
talvez tenha demais na vida para pensar na felicidade. Ele se perguntou se dentre todos os
amantes que ela deveria ter tido, ela já amara. Ele se perguntou se ela tinha amado o
marido.
Não que o amor importava muito para ele também, é claro. ― Não que eu saiba ―
disse ele.
Ela suspirou. ― Eu deveria ter aprendido até agora ― ela disse, ― que você vai
responder apenas uma pergunta de cada vez, capitão. Eu deveria ter lembrado de
perguntar apenas uma de cada vez. Você ama sua mãe?
― Ela era a âncora da minha felicidade, e a segurança de como eu cresci ― disse
ele.
― E seu pai ficou tão profundamente aflito depois que ela morreu, que tudo
desmoronou? ― Disse ela. ― Foi por isso que você se alistou no exército?
― Eu me alistei ― disse ele, ― porque queria o desafio de fazer o meu próprio
caminho na vida.
Ela suspirou novamente e então riu. ― Eu fiz isso de novo ― disse ela. ― Fiz duas
perguntas e tive a menos importante respondida. Sou uma pessoa curiosa, capitão. E,
geralmente, é fácil descobrir tudo o que há para saber sobre os homens. Fazendo uma
única pergunta, eles irão discorrer ansiosamente, sua história de vida. Posso entender por
que você é um espião. Ah, e lá está Arthur. Estou tão feliz que ele veio. Minha tia teria se
considerado sempre um fracasso social se ele tivesse esquecido de dar uma aparição. Já
falou com ele desde a nossa chegada?
― Eu tenho trocado algumas cortesias com ele, minha senhora ― disse ele.
Ela o favoreceu com o mais brilhante sorriso encantador. ― Oh, capitão, ― disse
ela, ― Eu vou apostar que você trocou um pouco mais do que isso. É difícil falar e dançar
ao mesmo tempo, não é?
Isso foi. Ela era a luz em seus pés e de olhos brilhantes e bonito. E ela usava o
mesmo perfume que ele tinha notado em Óbidos. A noite que haviam passado, parecia
agora, um pouco como o sonho e o pesadelo, tudo em um. A sensação dela, pequena e
quente e bem torneada em seus braços, o cheiro dela, o gosto de sua boca, o desejo que
tinha queimado nele, a maravilha de sua resposta. E o final doloroso do abraço, e seu riso
e provocação, e o conhecimento de que ela deve ter olhado para ele, sabendo que era tão
vulnerável a seu charme como qualquer um de seus inúmeros admiradores.
― Você deve reservar um outro conjunto de danças comigo, capitão ― disse ela,
com os olhos rindo com o brilho da provocação familiar. ― Imediatamente depois do
jantar? Sim, isso ainda não me foi pedido. Eu não permito danças reservadas tão antes do
tempo, você sabe, porque eu nunca sei com quem vou querer dançar. Mas no seu caso,
vou abrir uma exceção. E nós não vamos dançar, mas sair em um dos pátios de minha tia,
que é mais privado do que o pátio principal? Muito bem, então, vou me arriscar sem
arrastar Matilda lá para fora também. Matilda odeia o ar livre à noite. Eu gosto de sua
sugestão, capitão. Por essa hora da noite eu vou estar cansada de dançar e pronta para
algum ar fresco. Obrigada. Eu aceito. ― Ela riu alegremente.
― Será que qualquer homem jamais disse não para você? ― Perguntou. Ele não
estava retornando seu sorriso.
Ela olhou para cima, como se estivesse pensando. ― Não ― disse ela. ― Nenhum
homem fez. Você está planejando ser o primeiro, capitão? Que cansativo. Você não vai
dançar comigo novamente ou sair ao pátio comigo? Vou ter de encontrar um canto em
que fazer beicinho. Ou melhor ainda, eu devo plantar os pés aqui, voar em uma paixão e
ter um ajuste dos vapores. Será?
― Tenho a sensação ― disse ele, ― que se eu decidir pagar para ver seu blefe, eu
deveria achar que não era blefe de todo. Estou certo?
Seus olhos dançaram com alegria. ― Ah, capitão, ― disse ela, ― onde estaria a
diversão da situação, se eu fosse responder a essa pergunta? Você deve jogar
covardemente e voltar para mim depois do jantar, ou você deve arriscar as consequências.
O que é que vai ser?
Por um momento de descuido, ele sorriu de volta para ela. ― Se fosse uma arma
que estava apontando para minha cabeça ― disse ele, ― que pode ou não pode estar
carregada, eu acho que vou pagar por seu blefe, senhora, e o risco de ter o meu cérebro
explodido. Mas os gritos de uma senhora, eu não acho que poderia enfrentar. Posso
reservar a dança após o jantar? E você talvez prefira passear lá fora do que dançar?
― Sim e sim, senhor, ― disse ela. ― Que tipo você é. É a música chegando ao fim?
Que triste. Eu queria fazer mais perguntas sobre sua mãe. ― Ela suspirou.
― Mas, infelizmente a música está chegando ao fim ― disse ele.
― Capitão Blake ― disse ela, ― quando você sorri, ou dá um sorriso, eu acho que
seria o termo mais apropriado, você é mais bonito do que qualquer outro homem na sala,
apesar do fato de que alguém não definiu seu nariz bastante simples, depois de ter sido
quebrado e apesar do fato de que alguém tentou esculpir um caminho através de suas
bochechas e nariz com algum instrumento afiado e teve um sucesso considerável
fazendo.
Ela riu alegremente para sua expressão. Como é que se responde a essas palavras?
― Eu tenho dezenas de perguntas sobre aquelas velhas feridas também, ― ela disse
quando a música terminou e ele a acompanhou de volta para o lado do salão onde sua
corte já estava se reunindo. ― Não nos faltará assunto para uma conversa, depois do
jantar.
Ele se inclinou sobre a mão dela, sentindo as costas endurecer ao se dar conta que,
pelo menos uma dúzia de pares de olhos o observava, e se retirou para o outro lado da
sala, onde amaldiçoou sua sorte. Tendo dançado com ela, e sentido os olhos do Visconde
Wellington sobre eles, enquanto dançavam, ele agora deveria ser capaz de se retirar com a
consciência limpa, e se concentrar nos dias difíceis pela frente, para limpar sua mente de
uma mulher que, apesar de seus esforços contra, tinha tentado o usar como um
brinquedo, desde o seu primeiro encontro em Lisboa.
Em vez disso, ele teve que esperar por pelo menos duas horas, até que chegasse o
momento de passear com ela no pátio interno de sua tia, sem sua acompanhante. O
próprio pensamento o fazia se maldizer e preparar seu corpo para a dor.

***

O Verão estava sobre eles. Era uma noite quente, e o pátio da condessa estava
tranquilo e protegido de qualquer brisa que pudesse haver. Havia árvores para oferecer
frescor para o calor de dia, e flores para adicionar sua fragrância, até mesmo à noite.
― Como foi inteligente de sua parte sugerir que passeássemos por aqui, ― disse
Joana, o braço apoiado no do capitão Blake. ― É abençoadamente fresco e silencioso. ―
Ela fechou os olhos e respirou fundo o ar fresco.
― Extremamente inteligente, ― ele disse, ― considerando o fato de que eu não
sabia de sua existência.
Ela riu. Estava se sentindo tanto alegre como triste. Exultante porque ia ficar
sozinha com ele por meia hora, com toda a sua seriedade e incomunicabilidade, o que o
tornava mais fascinante do que qualquer um dos inúmeros cavalheiros no salão de baile,
que teriam dado um braço direito para o privilégio de tomar o seu lugar. E triste, porque
o deveria enganar e porque ela não poderia estar o bastante com ele.
Sua tristeza e as razões para isso a incomodavam.
― Eu acho ― ela disse, ― que vamos passear em silêncio aqui, se eu não recitar
uma série de perguntas. Você conversou com Arthur, não é mesmo? Ele tem uma tarefa
para você?
― Eu irei voltar ao meu regimento amanhã, senhora ― disse ele, ― com mensagens
para o general Craufurdxv. ― Ela olhou para ele e riu.
― O herói da retirada de Talavera e ocasionalmente, oficial de reconhecimento
para o comandante-em-chefe ― ela disse, ― que fez seu caminho para Viseu meramente
para entregar uma senhora com segurança para o seio de sua tia, e levar as cartas de um
general para outro, como um garoto de recados? Sou eu boba para acreditar, capitão?
― Francamente, minha senhora ― disse ele um tanto rigidamente, ― não me
importa o que você acredita.
― Oh, não mesmo? ― Ela tirou o braço do dele e parou de andar, a fim de o olhar
no rosto. E lhe sorriu. ― Você realmente não se importa? Dezenas de homens sim. Deve
ser diferente em que mais, também? Será que é o único que não se importa se eu estou
viva ou morta?
― Você ampliou o significado das minhas palavras, ― disse ele. ― Eu não disse
isso.
― Então você se importa? ― Ela correu um dedo por seu braço, para baixo, da
manga do cotovelo ao pulso.
― Está jogando com as palavras ― falou ele. ― E eu não tenho nenhuma
habilidade. Suas perguntas pressupõem respostas, mas se eu as der, posso ser levado a
dizer o que eu não desejo.
― Ah ― disse ela, e suspirou. ― Você vai sair amanhã, capitão? Não vai se
arrepender de nunca me ver novamente?
Ele a olhou nos olhos e não disse nada. E ela sabia que ele tinha acabado de lhe dar
mais uma razão para sua fascinação para com ele. Ele não se permitiria ser levado na
conversa, como outros homens. Ela não o podia fazer dizer o que queria que dissesse.
― Nunca é muito tempo, ― disse ela, colocando a mão de leve em sua manga.
Ele olhou para a mão dela. ― Você não deve flertar comigo ― disse. ― Nós não
habitamos o mesmo mundo ou jogamos os mesmos jogos, senhora. Socialmente falando,
sou um ninguém, como eu já disse antes, e você é uma alguém. Eu sou perigoso para se
flertar, como você deve ter aprendido em uma ocasião anterior. Não sei nem as regras,
nem os limites do jogo.
Ele estava certo. Uma parte dela estava aterrorizada. Mas outra parte estava
animada, além da medida. Lembrou da sensação de desamparo, e da tentação de se render
quando ele a levantou contra si, até que apenas os dedos dos pés descansavam no chão.
Lembrou do sabor de sua língua profundamente afundada em sua boca. E ela sabia que
havia perigo, não o de que da próxima vez ele não fosse parar, mas o perigo de que, da
próxima vez, ela não o impediria.
― Quem falou em flertar? ― Respondeu. Suas próximas palavras a surpreenderam.
Elas não foram planejadas. ― Eu queria que você não estivesse indo. Eu não estou pronta
para dizer adeus.
A mão dela ainda estava descansando levemente em seu braço. Ela podia sentir os
músculos tensos. ― Robert ― ela disse suavemente. ― É um nome lindo. Eu conheci
outro Robert uma vez. ― Havia uma faísca de algo em seus olhos, quando olharam
fixamente de volta para o dela.
― Ele era um menino doce e gentil ― ela disse, ― bem diferente de você. Só que
ele tinha o cabelo loiro, que ele usava mais comprido, e os olhos azuis, que sonhavam e
sorriam. Ele morreu. ― Seu braço sob sua mão quase tremia com a tensão. Ah, Robert, ―
ela continuou, ― você não joga limpo. Você me avisa para não flertar, mas que escolha eu
tenho, quando você apenas fica lá e não vai fazer nenhum movimento? Nós temos que
voltar para o salão de baile e dizer um adeus civilizado, e nunca mais nos ver ou pensar
numa outra vez?
― Por que você deseja ver ou pensar em mim depois de hoje à noite? ― , Robert
perguntou.
― Por quê? ― Ela olhou em seus olhos e deu de ombros. ― Talvez porque você
seja diferente. Talvez porque você tem sido o único homem, por um longo tempo, que
não me quer. E ainda assim você me queria em Óbidos, não foi?
Ela o observou engolir na escuridão. E se sentia estranhamente, quase a ponto de
chorar. Ela o iria ver novamente. Ele não sabia disso, mas ela sim, e não queria que isso
acontecesse, não dessa forma. Droga, Arthur e seus esquemas tortuosos. Por que Robert
não podia ter tudo explicado a ele? Por que não poderiam suas próprias habilidades de
atuação ser postas à prova? Por que ela sempre tinha que jogar de namoradeira eterna? E
com o último homem na Terra com quem queria flertar?
Ela suspirou. ― Esta não foi uma boa ideia, não é? ― Disse. ― Será melhor que
retornemos para o salão de baile. Há senhores suficientes lá, esperando para dançar
comigo, me buscar bebidas ou para segurar meu leque, enquanto eu ajusto uma prega do
vestido. Não preciso estar aqui, tentando conversa com um homem silencioso ou
tentando persuadir uma estátua de mármore que me beije. Está frio. ― Ela estremeceu. ―
Não está frio?
― Não. ― Suas mãos estavam em seus braços nus, grandes e fortes, e quentes, se
movendo para cima e para baixo. ― Não, não está frio. ― E a puxou contra ele, passando
os braços calorosamente sobre ela. Ela virou a cabeça e descansou a bochecha contra seu
coração e fechou os olhos. E uma mão alisou suavemente o topo de sua cabeça. ― E não,
eu não quero sair amanhã, sabendo que nunca mais a irei ver. Mas é um pensamento tolo.
Somos de mundos diferentes, ma... senhora.
― Joana ― ela sussurrou. ― Joana. Robert ― disse ela, e seus olhos estavam cheios
de lágrimas e sua garganta apertada por elas. ― Me perdoe. ― Mas como poderia pedir
perdão antecipadamente sem lhe dizer tudo? Ela estava perdendo o controle novamente.
Ela nunca perdeu o controle. Isso foi o que a fez tão boa em seu trabalho auto-imposto, e
o que lhe deu o comando da sua própria vida e destino.
― Por quê? ― Ela sentiu seu rosto contra o topo de sua cabeça.
― Por Óbidos. ― Ela levantou a cabeça e sorriu para ele, esperando que, à luz da
noite, seus olhos parecessem apenas brilhantes. ― Eu tenho me comportado de maneira
abominável.
Ele sorriu lentamente para ela. ― Óbidos não deveria ter acontecido ― disse ele. ―
Isso, não deveria estar acontecendo.
― O quê? ― Ela olhou em seus olhos, suas mãos se espalhando em toda a vasta
extensão de seu peito. ― O que não deveria estar acontecendo?
― Isto ― disse ele, e então beijou sua testa, têmporas, os olhos e as bochechas. E
ele olhou profundamente em seus olhos, quando sua boca pairou perto da dela.
― Mas está ― disse ela, então.
― Mas está. ― Ele fechou o fosso entre a boca, beijando-a suavemente e de boca
aberta.
Ela moveu as mãos até seus ombros e pescoço, e depois, deixou que uma delas
brincasse com seu cabelo curto. E ela arqueou o corpo contra o dele, querendo sentir seu
comprimento musculoso com cada parte dela. E queria que ele chegasse mais e mais
perto ainda. Ela queria sentir a sua língua, mas ele não faria nada, além de lhe lamber os
lábios. Claro, ela o tinha magoado em Óbidos.
Ela experimentou, tocando seus lábios com sua própria língua, a empurrando para
além e acima, atrás de seu lábio superior. Ela empurrou a língua para seus dentes, e sentiu
seus braços se apertando sobre ela de repente, enquanto ele a sugava para dentro, e ela
gemia de medo misturado com desejo.
― Robert. ― Ela jogou a cabeça para trás, os olhos fechados, conforme sua boca se
moveu para baixo da sua garganta e sua mão empurrou seu vestido de um ombro e
depois por seu braço, expondo um seio. E, em seguida, a palma da mão foi contra seu
mamilo, o rodeando, e seus dedos se encontraram para lhe acariciar a carne macia. Sua
boca se abriu em um grito silencioso e, em seguida, os dedos dela entrelaçaram em seu
cabelo, enquanto ele tomou a ponta endurecida de seu peito em sua boca e chupou,
dançando sua língua através dele.
E ela percebeu naquele momento, que para todo o conhecimento e experiência que
teve de assuntos sensuais, ela ainda podia ser virgem, o que não era. E sabia por que
temeu e ficou fascinada por este homem, desde que o tinha fixado pela primeira vez.
E então seu rosto estava levantado novamente, seus olhos olhando de volta para os
dela, e ele estava ajeitando o vestido de volta sobre seu peito e ombro.
― Um beijo de despedida ― disse ele. ― Sem dúvida, que você teria mais de um
outro homem, mas você não se lembraria do prazer que deu a si mesma, em um
momento de paixão, com um homem que nem sequer é um cavalheiro.
E quando ele terminou de falar ela se sentia cega, pela mágoa das suposições sobre
sua moralidade, pressupostos que ela mesma tinha promovido pelo papel que
desempenhou. E sofria com a decepção, com a insatisfação não só puramente física, mas
sim, emocional também.
Ela sorriu. ― Um beijo? ― Disse ela. ― Você chama isso de beijo, Robert? Foi
bastante impertinente, não foi? Talvez eu o devesse denunciar à minha tia. Ou para
Arthur.
― E eles vão querer saber como eu descobri um lugar secreto e convenientemente
abandonado ― disse ele. ― Talvez seria mais sensato não dizer nada.
― Talvez seja o faça. ― Ela continuou a sorrir.
― Adeus, então, ― ele disse rapidamente, se endireitando e arrumando suas
mangas. ― Vou pedir licença agora.
― Você vai? ― Perguntou ela. ― Beijar e correr, Robert? Que falta de
cavalheirismo o seu. O mínimo que pode fazer é se lamentar em um canto pelo resto da
noite, olhando como um infeliz apaixonado.
― Isso não faz meu estilo ― disse ele, sorrindo para ela brevemente, o que fez com
que seus joelhos parecessem de geléia, mais uma vez. ― Eu posso ser silencioso e
taciturno, e bastante rude, mas definitivamente não posso parecer um infeliz apaixonado.
Sou incapaz de uma emoção também. Além disso, eu devo deixar a cidade amanhã e
preciso dormir um pouco.
― Ah. ― Ela colocou uma das mãos contra seu peito e, na ponta dos pés, acariciou
seu queixo com a outra mão. ― Cuide de si mesmo, Robert. Não vá se deixar matar.
― Me foi dito, nesta mesma noite, que eu sou teimoso demais para morrer ― disse
ele, capturando uma de suas mão na dele e trazendo a palma contra sua boca. ― Não se
preocupe comigo, Joana. E se esqueça de mim. Eu não valho um outro pensamento para
você.
― Você está certo. ― Ela suspirou. ― Tantos novos oficiais que chegam aqui todos
os dias, e cada um mais bonito do que o último. É o suficiente para fazer uma senhora
desejar que as guerras nunca cheguem a um fim. ― Ela riu levemente. ― Me acompanhe
de volta para o salão de baile, Robert, e então você pode empreender a sua fuga. ― Ela
colocou a mão em sua manga.
A multidão tinha se derramado para fora do salão e eles se viram cercados por
pessoas, muito antes de ele a deixar em suas portas abertas. Ela abriu um grande sorriso
para ele.
― Au revoir, então ― disse ela, retirando a mão de sua manga. ― Eu não vou dizer
adeus, Robert, porque realmente não acredito em despedidas. Nós vamos nos encontrar
de novo, creio eu, e talvez mais cedo do que você pensa. E há pelo menos meia dúzia de
oficiais a menos de cinquenta passos de distância, todos encarando você, todos com
espadas e mãos coçando. Eu acredito que você me manteve afastada por mais tempo do
que o certo, capitão. Que vergonha! ― Ela bateu no braço dele acentuadamente, com o
leque.
E ela foi andando para longe, sem lhe dar chance de responder. E não olhou para
trás para ver se ele estava lá na porta olhando para ela, ou se saiu correndo, sem olhar
para trás.
Ela sentiu, pensou, enquanto acenava para um dos admiradores, antes até de olhar
para sua face e se decidir dançar, que poderia se sentar no meio da pista de dança e uivar
com o desespero.
Assim mesmo, como se tivesse caído de amor pelo capitão Robert Blake, ou algo
igualmente tolo e ridículo.
Capítulo 10

Apesar de sua determinação para se concentrar em sua missão, para colocar tudo
para fora de sua mente, exceto Salamanca e o que ele enfrentaria, o capitão Blake
descobriu, enquanto viajava nas colinas de volta para o oeste, para conhecer o líder do
Ordenanza, Duarte Ribeiro, que o guiaria até à fronteira espanhola, que poderia fazer tal
coisa.
Havia duas razões, uma trivial em sua própria mente, a outra, um peso pesado.
A razão trivial era Joana da Fonte, a Marquesa das Minas; ele tentou pensar nela
por seu título completo, não apenas como Joana; tentou se distanciar dela; tentou não se
lembrar de como ela se parecia mover além do mero flerte naquela última noite, com um
carinho real; ele não tentou acreditar que ela, de qualquer forma, gostava dele.
Era uma namoradeira realizada, por sua própria admissão; ele foi um dos poucos
homens a não cair por seus encantos; ela talvez tivesse sido forçada por sua natureza a
usar os outros, para além das suas usuais táticas; ela tinha sido forçada a tentar o que era
muito parecido com sinceridade. Às vezes ele se sentia culpado por suspeitar dela, por
usar apenas uma outra forma de flerte; e, às vezes, ele se deixava enganar, para saber se
ela tinha sido sincera.
Ele pensou em todas as perguntas que ela tinha feito, na forma como havia tentado
descobrir mais sobre ele e sobre o motivo de sua convocação na sede. E nesses
momentos, ele se lembrava que ela era meio francesa, e se perguntava se o comandante-
em-chefe sabia desse fato, e se, de qualquer maneira, era significativo. Afinal de contas,
ela também era meio-inglesa e tinha sido casada com um nobre português.
Ele a queria tirar de sua mente, mas sempre que não estava conscientemente
pensando em outra coisa lá estava ela, em seus pensamentos e em seus sonhos e
emoções, em seu sangue. Houve momentos em que ele se arrependeu, ao lembrar do
abraço final, quando sentiu sua rendição, não a ter tentado possuir. E, talvez assim, se
livrar da lembrança dela de uma vez por todas.
Odiava ansiar pelo que não podia ser tido, odiava a si mesmo por querer algo fora
de seu alcance, por esquecer quem e o que era.
E depois havia o peso e o fardo em sua mente, que lhe permitiu que a esquecesse
por minutos e até mesmo horas, o caminho que ele pegava voluntariamente para o perigo
e, talvez, a morte, em que o esperava a humilhação da captura e a difícil tarefa de
convencer seus captores, de que o papel selado em seu calcanhar era um diagrama
autêntico das defesas britânicas de Lisboa. Que possivelmente muitos meses cansativos se
passariam antes que fosse trocado por um oficial francês prisioneiro.
Durante seus quase onze anos no exército ouvira falar de seu pai três vezes. Ele
havia escrito de volta apenas uma, com condolências pela morte da esposa de seu pai,
quase oito anos antes. Outra carta o tinha encontrado em Viseu, poucos minutos antes de
que planejasse sair, uma velha carta que tinha vindo para a sede, enviada para a Divisão
Ligeira no Côa, reenviada de volta para o redirecionamento, e finalmente para o hospital
em Lisboa. Mas alguém tinha tido a presença de espírito de saber que ele estava em Viseu.
Não era de seu pai. Era do advogado de seu pai, o informando que, segundo a
última vontade do pai de Will, a ele tinha sido deixada uma propriedade de tamanho
moderado em Berkshire e uma fortuna considerável. Parecia que outra carta o
informando da morte de seu pai deveria ter se extraviado. A maior parte das propriedade
e fortuna, é claro, tinham ido para o herdeiro de seu pai, um primo de segundo grau e o
novo Marquês de Quesnay.
Seu pai estava morto, e não havia porque lamentar agora a amargura e desilusão
que o levaram a romper todas as relações com ele. Tinha se mantido afastado, porque
quando tudo foi dito e feito, ele apenas era para o pai um filho bastardo, que se sentia
magnânimo.
Ele não lamentava a ruptura. Não teria seguido ao longo da vida com o fardo de
ser uma humilhação para ele, com o conhecimento de que devia tudo à generosidade do
homem que era o pai. Como se não tivesse o direito aos cuidados de seu pai. Como se
esses cuidados fossem um privilégio, quando se nasceu no lado errado.
E, no entanto, pensou enquanto se arrastava em seu caminho solitário pelas
colinas, seguindo a rota delineada na sede, havia as memórias que enchiam sua mente
agora, de que ele estava realmente sozinho no mundo. Memórias de felicidade de sua mãe
e de sua beleza, nos dias em que seu pai era esperado.
Memórias dos dois, suas mãos cruzadas ou os braços entrelaçados sobre a cintura
um do outro, brilhando na companhia um do outro e sorrindo, sempre sorrindo para ele.
Memórias de seu pai o levantando acima de sua cabeça e o jogando para o céu, enquanto
sua mãe gritava impotente e sua infância ria.
Memórias de amor. E de inocência. De uma época em que não parecera estranho
para ele que seu pai, o amante de sua mãe, não vivesse com eles, mas na casa grande com
sua esposa. De um momento em que não sabia que esse único fato faria toda a diferença
no mundo para ele. Quando não tinha percebido que iria se tornar algo como um caso de
caridade para seu pai.
E agora seu pai estava morto e ele próprio era, de algum modo, um cavalheiro.
Pelo menos tinha a propriedade e a riqueza o configurando como um cavalheiro. Ele
tinha a riqueza para comprar suas promoções, se assim o escolhesse, em vez de ter que
esperar pelas vagas causadas, mais frequentemente, com a morte em batalha.
Ele tinha a posição e a riqueza talvez...
Não! Ele tinha decidido anos atrás que a vida era para ser vivida em paz, se fosse
para lhe trazer qualquer sentimento de satisfação e contentamento. Não havia espaço em
sua vida para uma mulher. Nela não havia espaço para as correntes de amor.
Decididamente não lamentava por seu pai. Seria hipócrita o fazer. Mas lamentou a
perda de muito tempo atrás, da infância e da inocência e da felicidade sem nuvens. Sofria
pela criança que tinha sido e o homem que poderia ter sido.
Ele tinha sido um menino doce e gentil, ela dissera, descrevendo o outro Robert
que ela tinha conhecido. Um menino com olhos que sorriam e sonhavam. Sim, mesmo
quando a inocência já havia se desvanecido rapidamente. Ele sentiu pesar pelo menino
que tinha sido, o menino que ela parecia acreditar que tinha morrido.
E ele se lembrava de como ela tinha chamado uma vez o menino doce e gentil de
bastardo, e de como o zombou. E tentou novamente, e constantemente, a tirar de sua
mente e seu coração.

***

Duarte Ribeiro tinha deixado suas terras e sua casa, no sul devastado pelo exército
de Junot em seu avanço para Lisboa, três anos antes. Inquilinos e amigos camponeses
tinham restaurado a terra, ouvira e até mesmo o vira em visitas fugazes ocasionais. Mas
ele não iria para casa até que os franceses, que odiavam, tivessem sido finalmente
expulsos, e para sempre, de sua terra natal.
Ele não podia contar o número de franceses que tinha matado com suas próprias
mãos durante os últimos três anos. Não conseguia sequer estimar o número de mortos
por seu bando, de quase quarenta homens, e algumas mulheres. Mas isso nunca foi
suficiente; nunca seria o suficiente para o satisfazer pela morte de seu irmão e sua família,
e o estupro brutal e morte de sua irmã, não os sentia vingados; nunca seria o suficiente
para o fazer se perdoar por não ter estado em casa naquele dia; e nunca o suficiente para
satisfazer o povo de seu bando por queixas semelhantes.
Duarte Ribeiro vivia agora, quando estava em algum lugar por um período de
tempo, na aldeia de Mortágua, nas acidentadas colinas a leste do Bussaco xvi. Ele tinha
estado lá, com o exército britânico, durante a maior parte da primavera tendo feito um
trabalho eficaz de manter os retardatários franceses fora de Portugal. Seus homens
estavam inclinados a resmungar sobre a inatividade.
E, no entanto, a excitação e antecipação estavam crescendo. Os franceses viriam
em breve, todos sentiam, se pudessem passar os fortes de Ciudad Rodrigo e Almeida, e se
o Visconde Wellington não tivesse apoiado com sucesso as guarnições dos fortes. E
mesmo que eles conseguissem, os franceses estariam em solo português quando
atacassem Almeida. E uma vez em solo português, seria um jogo justo para o Ordenanza.
Duarte estava na porta da casa de pedra branca, a que atualmente chamava de casa,
de braços cruzados, assistindo Carlota Mendes, sua mulher, sentada em um banco no
exterior, no sol de fim de tarde, amamentando seu novo filho em um dos seios bem
torneados e amplo. Seu cabelo preto pendurado solto e apelativamente despenteado
sobre os ombros.
― Será que ele virá hoje, que você acha? ― Ela perguntou, olhando para ele por
alguns instantes.
― Hoje, amanhã ― disse ele. ― Em algum momento ele virá. Vai ser bom ter algo
para fazer. Estou ficando impaciente.
― Eu sei. ― Ela fez uma careta. ― E assim, eu vou ficar aqui com a maioria das
outras mulheres e crianças. Este pequeno deveria ter esperado até que as guerras
estivessem mais tranquilas ― Ela olhou com carinho para seu filho.
― Bem, ― Duarte falou, ― vêm os bebês, que passamos o último verão fazendo
com grande entusiasmo, quando não estávamos perturbando os nossos hóspedes não
convidados, Carlota. Saiba isso para o futuro.
Ela lançou-lhe um sorriso largo antes de tirar o bebê de seu peito e levantar sua
forma sonolenta contra o ombro. Ela bateu as costas dele, suavemente. ― Nós ― disse
ela. ― Nós dois. Mas eu é que devo ficar agora no tédio, sem combates, em casa, em vez
de vingar minha mãe e os assassinos do pai.
O pai de Carlota tinha sido um médico respeitado, morto com sua esposa, depois
de cuidar de um oficial francês ferido, que os tinha condenado a morrer, de qualquer
maneira. Carlota estava fora de casa, tinha ido ficar com seu irmão e cunhada na época.
― Eu não vou ficar fora por muito tempo, ― disse ele. ― Simplesmente tenho que
guiar esse soldado britânico até à fronteira e o colocar na guarda de Bécquer e seus
homens. Parece que o inglês tem alguma missão secreta na Espanha, cão de sorte.
― Você vê? ― Disse Carlota, guiando o mamilo de seu outro peito para a boca
desejosa de seu filho. ― Você teria ido para longe de mim pelo resto do verão, se tivesse
tido a chance.
Ele estendeu um dedo e acariciou atrás de sua cabeça, ao longo de seu cabelo. ―
Não é assim ― disse ele suavemente. ― Eu não ficaria separado de você por um único
dia, se não fosse necessário, Carlota. Mas a Miguel deve ser dado um lar acolhedor e
seguro. E eu não teria você no meio do perigo, agora que é a mãe do meu filho.
― Oh, ― ela disse, eriçada de indignação ― mas está tudo certo o pai do meu filho
estar lá?
― Sim ― ele disse calmamente. ― Nosso filho deve ter um país apropriado para
viver e crescer pacificamente, Carlota.
Ela levou a mão para tocar a cabecinha do filho no cabelo, e olhou para cima,
sorrindo para o marido.
Ele acenou com a cabeça para a rua estreita e levantou o ombro do batente da
porta. ― Eu acredito que Francisco e Teófilo tenham encontrado o nosso homem e o
estão trazendo ― disse ele. Um soldado britânico alto e loiro, vestindo verde, estava
caminhando ao longo da rua entre os dois amigos, a espada curvada ao seu lado e a faixa
vermelha o identificando como um oficial, o rifle pendurado no ombro sugerindo que
também era um homem de luta.
― Aqui está ele, ― disse Teófilo Costa, seu sorriso muito branco, em um rosto
bronzeado pelo sol. ― E não se perdeu entre as colinas uma vez sequer. Talvez seu nariz
torto seja responsável por seu sucesso.
― A maioria do ingleses se perde, se não podem andar em linha reta. ― Ele estava
falando em voz alta e alegre português. E se virou para o capitão Blake, migrando para o
inglês com forte sotaque. ― Duarte Ribeiro, senhor. O líder do nosso grupo.
― Obrigado, ― o capitão Blake disse em português. ― Acredito que tenha mais a
ver com cuidado, dadas as orientações, e a concentração para as seguir.
Francisco Braga, Duarte, e Carlota explodiram em gargalhadas à custa de seu amigo
desconfiado.
― Mas é um nariz muito bonito, no entanto, ― disse Teófilo, se juntando ao riso.
― Você conheceu estes dois ― disse Duarte. ― Esta é Carlota Mendes e nosso
filho, Miguel. ― Ele observou os olhos vacilantes do inglês ao peito exposto de Carlota e
se acalmou novamente. O inglês era prudente, lembrou. E se lembrou de sua mãe,
sempre uma senhora, mesmo com aquele bruto do segundo marido dela. ― Venha para
dentro, capitão Blake. Você deve estar pronto para algumas bebidas. Amanhã, vamos
partir para a fronteira e você pode relaxar. Poderá contar com guias nativos, em vez da
forma do seu nariz, para chegar lá com segurança.
Teófilo bateu no lado da cabeça com a palma da sua mão. ― Será que nunca vão
esquecer? ― Perguntou.
― Você tem um bloco de madeira como cérebro, Teófilo, ― Carlota disse, se
levantando e colocando o peito dentro do vestido novamente. ― Será que um inglês seria
enviados para a Espanha em uma missão especial, se não soubesse o português e
espanhol? Eu apostaria o comprimento do meu cabelo que ele também fala francês.
― Você está certa, senhora, ― o capitão Blake disse com uma risada, colocando
cuidadosamente seu rifle a salvo quando entrou na casa, checando em um bolso dentro
de seu casaco. ― Antes que eu esqueça, Ribeiro. Você tem uma carta; foram enviadas suas
instruções já, creio eu, mas também tenho uma carta selada para você.
Duarte pegou e olhou curiosamente para ela. Ele não reconheceu a caligrafia.
Abriu, enquanto Carlota deitava o bebê e se ocupou em cortar queijo, pão e encher copos
com vinho. Ele permaneceu em pé, enquanto os outros se sentaram, e leu a carta
rapidamente. Era de sua meia-irmã. Ela deveria ter pedido a alguém para escrever na
parte externa.
E pedia para dar ao capitão Blake toda a assistência, ele leu. Mas não deveria
revelar sua relação ao capitão. Ela estaria vindo para Mortágua, dentro de uma semana
após a recepção da presente carta. Será que ele já estaria de volta da fronteira até então?
Ele não deveria se preocupar com o envio de alguém ao seu encontro. Ela viria da forma
habitual. Precisava de sua ajuda em algum negócio delicado.
― Alguns negócios delicados ― era a maneira habitual de Joana se referir a suas
viagens para a Espanha, indo para os franceses, em busca do assassino de Maria e Miguel.
Ele odiava que se colocasse em tal perigo, mas não havia nada que pudesse fazer sobre
isso. Ela não era mesmo sua irmã completa para tomar as ordens dele, e mesmo se fosse,
suspeitou que Joana estaria além de seu controle, a menos que estivesse disposto a
amarrar suas mãos e pés.
E agora ela estava indo novamente, parecia. E vindo ali primeiro ― da maneira
usual. ― Isso significava que poderia chegar sozinha e vestida como uma camponêsa,
disposta e ansiosa para participar em todas as atividades do bando, por quanto tempo
pudesse ficar. E o mais condenável é que ela era boa nisso. A delicada Marquesa das
Minas tornava-se praticamente irreconhecível na imprudente e sem medo Joana Ribeiro.
Duarte cerrou os dentes. A mulher diabólica! Ela era tudo que lhe tinha sido
deixado no mundo. Não. Ele dobrou a carta nas dobras originais. A vida não era mais tão
simples. Assediar e matar os franceses já não era um simples jogo de vingança. Era um
negócio sério de sobrevivência, uma questão de um homem fazendo todo o necessário,
até mesmo matar, a fim de proteger sua mulher e seu filho e a pátria em que viviam.
Agora havia Carlota e Miguel, mais perto dele até do que Joana, e quanto mais cedo
pudessem encontrar um padre, melhor, é o que ele gostaria.
― Duarte? Más notícias? ― Carlota tocou em seu braço, enquanto os outros três
homens o olhavam da mesa.
― Não. Nem um pouco ― disse ele, colocando a carta no bolso. ― Então, capitão
Blake, quando é que os ingleses vão deixar passar os franceses para que possamos ter a
nossa parte deles também? ― Ele se sentou à mesa e pegou seu copo de vinho.

***

Foi tudo assustadoramente fácil. Até mesmo os planos mais cuidadosamente feitos
tinham o hábito de ir mal. Mas não este. Aconteceu exatamente como foi concebido para
acontecer.
Duarte Ribeiro, Francisco Braga, e Teófilo Costa eram companheiros alegres e o
levaram para a fronteira, diretamente para o acampamento temporário do líder
guerrilheiro espanhol, com uma segurança que sugeria uma longa familiaridade com as
colinas escarpadas e as fendas de ravinas profundas.
Todos os três guias apertaram a mão dele, depois de ter sido recebido pelos
espanhóis, e lhe desejando sorte em sua missão. Eles não sabiam qual era e não o tinham
questionado. Entendiam as regras da guerra melhor do que a Marquesa das Minas,
refletiu, achando impossível não pensar nela com frequência.
― Boa sorte ― disse Duarte para ele. ― Eu espero, por nossa boa sorte, que nos
encontremos novamente. Foram enviadas instruções sobre como o conduzir de volta? ―
Foi o mais próximo que mostrou a curiosidade que devia sentir.
― Não ― o capitão Blake sorriu, dessa vez com tristeza. ― Eu vou encontrar meu
próprio caminho. Talvez meu nariz vá ajudar.
― Se alguém não o quebrar na direção oposta ― disse Teófilo, e todos riram.
O capitão Blake os viu ir com pesar. Ele se sentiu muito sozinho, só com
estranhos, na fronteira de outro país, território inimigo.
Como os portugueses, os espanhóis sabiam apenas a parte de sua missão que
precisavam saber. A deles era uma tarefa perigosa. Eles o tinham que levar para baixo das
colinas escarpadas da fronteira, para as colinas perto de Salamanca. Lá estavam eles,
fazendo sua presença conhecida, para que os franceses viessem em busca deles. Todos,
exceto um deles, o capitão Blake, tinham que evitar a captura.
Se eles falhassem, teriam um terrível destino. Não teriam o cativeiro honroso
concedido aos soldados inimigos seriam executados, após um intervalo adequado de
tortura.
― Mas, señor, ― Antonio Bécquer, uma grande montanha de homem, com braços e
pernas como troncos de árvores, lhe disse com um sorriso e um encolher de ombros,
quando o capitão Blake expressou sua preocupação ― nós fazemos o mesmo aos nossos
prisioneiros franceses, você vê. E temos muitos mais deles para nos trazer prazer, do
qualquer um de nós. Guerra é guerra na Espanha. Não é o jogo que vocês soldados
jogam.
O capitão se encontrou desejando, pela primeira vez em sua carreira, que seu
uniforme fosse o vermelho inconfundivelmente britânico. Não que ele evitasse uma boa
luta. Na verdade, ele gostaria de ter uma para afastar as teias de aranha de um inverno de
inatividade. Era a ideia de não lutar que estava o enchendo de temores.
― Estaremos perto da cidade em vez de nas colinas, porque alguns dos homens
precisam ser atraídos para fora da cidade, para ouvir sobre mim. ― O capitão Blake disse,
muito antes de eles se aproximarem de Salamanca, quando estavam revendo seus planos.
― Isso irá explicar por que sou louco o suficiente, para me aventurar tão perto de
piquetes franceses. É possível? É provável que alguns de seus homens estivessem em
Salamanca, quando foi ocupada pelos franceses?
― Señor. ― Antonio olhou para seus homens, e todos riram com a pergunta. ―
Somos espanhóis. Este é o nosso país. Estamos em todos os lugares.
― Um pensamento incômodo para os franceses ― disse o capitão Blake.
― Pretendemos que o seja. ― O espanhol sorriu. ― Nós consideraríamos uma
vergonha pessoal, permitir que um único francês tenha uma boa noite de sono em solo
espanhol. Não que sejamos hostis, é claro.
― Por isso é possível ― disse o capitão Blake. ― E eles vão saber isso?
― Eles todos têm um amigo, ou um amigo de um amigo, que teve a garganta
cortada misteriosamente no meio da noite ― disse Antonio.
O capitão Blake estremeceu interiormente e se sentiu grato que os britânicos
fossem amigos dos espanhóis. E assim, aconteceu como o planejado. Tinha que
acontecer durante a noite perigosa, todos concordaram, quando o francês pode não ser
capaz de ver o uniforme do seu cativo imediatamente, mas não por muito tempo. Eles
não estariam ansiosos para matar um guerrilheiro com muita facilidade.
― Embora o que seus generais estavam pensando, enviando você aqui
simplesmente para ser capturado, eu não sei ― disse Antonio com um encolher de
ombros expressivo. ― Você é um assassino, señor? Mas até mesmo o seu uniforme não
vai te salvar da morte depois de ter matado. É Massena que você vai matar? Se ele estiver
em sua cama, se certifique de que é ele antes de matar, e não sua amante. Ela vai a toda
parte com ele, você sabia? E é oficialmente listada como sua ajudante de campo? Ah,
esses franceses. Tanta ajuda que precisam...
Seus homens todos riram gostosamente.
― Dizem que ele ainda está em Salamanca, mesmo que o ano já esteja avançado ―
um dos homens disse, ― porque está muito ocupado em sua cama e não pensando em se
ocupar com o resto.
Outra explosão de risos.
Eles estavam em pé na noite em questão, fazendo ruídos desajeitados perto de um
piquete, o que enojou Antonio com sua falta de sutileza.
― Vai ser um duro golpe para o meu orgulho, señor ― ele tinha dito no dia anterior,
― se os franceses acreditarem que eu iria trair minha presença para eles de uma forma tão
estúpida.
O capitão Blake sabia como ele se sentia. O tornozelo virou debaixo dele quando
fugiu com o resto, e então tropeçou em sua espada e caiu pesadamente, amaldiçoando
redondamente em inglês, a fim de que os piquetes passassem por ele e nem sequer o
notassem entre as árvores na margem sul do Rio Douro, a cem metros da velha ponte
romana que teria que atravessar para a cidade.
E então ele teve que cambalear de pé, com as mãos erguidas acima da cabeça,
quando um garoto francês amedrontado encostou uma baioneta em seu peito e outro
tomou seu rifle, o batendo, brusca e dolorosamente, contra o lado da sua cabeça, e o
chutando com força na canela da perna ferida.
― Ele é um soldado ― disse o garoto, seus olhos se abriram quando alguém veio
correndo com uma lanterna. ― Britânico. Um oficial.
O soldado que lhe tinha batido e chutado se tornou consideravelmente mais
respeitoso. ― Devemos levar sua espada? ― Perguntou o garoto em francês. ― Tenha
cuidado para que ele não pegue a sua baioneta e você se transforme nele. Os outros
também eram britânicos? Eles estão invadindo?
Se Blake dissesse, ― Boo! ― Pensou, o garoto teria virado e corrido.
― Vou entregar minha espada a um oficial do seu exército ― disse ele com altivez
― não a um soldado raso. Me leve até um.
Mas a comoção da busca dos espanhóis em fuga e de sua captura trouxe um oficial,
um capitão, da escuridão. Ele dirigiu a lanterna para fazer brilhar sua luz mais plenamente.
― Capitão? ― Perguntou. Seus olhos se desviaram para baixo no uniforme. ― Um
atirador? Sempre nossos maiores inimigos, e nossos alvos principais na batalha. Vou
aceitar a sua espada, senhor, e o levar através da ponte. Será uma honra ter um atirador
como nosso prisioneiro.
O capitão Blake viu o oficial francês soltar o cinto da espada, a ergueu com a
bainha do seu lado e a tirar para fora. Ele meio que esperava que o homem fosse pedir a
um dos soldados para o levasse, mas ele mesmo o fez.
― Obrigado, senhor ― disse ele. ― Capitão Antoine Dupuis ao seu serviço. E a
quem tenho a honra de acompanhar? ― Ele indicou a ponte com uma mão estendida, e o
capitão Blake se moveu em direção a ela.
― Capitão Robert Blake dos Nonagésimo Quinto Rifles ― disse ele, que não
acreditava que pudesse haver um sentimento de maior humilhação. Ele sentiu, ao ser
removida a espada, como se a estivesse tirando à vista dos soldados franceses. Ele se
sentia nu agora, sem o peso de sua espada ao seu lado.
Capítulo 11
Joana fez a parada de costume, no Convento de Bussacoxvii, no alto das colinas a
oeste de Mortágua. Ela e Matilda eram sempre bem-vindas para passar uma noite lá. Na
verdade, as freiras mantinham uma pequena mala dela, para que sua mudança de pessoa
pudesse ser feita com o mínimo de barulho.
E assim, a Marquesa das Minas chegou com alguma pompa de Viseu no início da
noite, sorrindo graciosamente para o cocheiro quando ela saiu do carro branco e dourado,
e mais deslumbrantemente à madre superiora, que a cumprimentou dentro de portas. Ela
comeu um jantar tranquilo com as freiras e se juntou a elas para a oração da noite, se
recolhendo tarde para o pequeno aposento que compartilhou com sua companheira.
Na manhã seguinte, uma Matilda lenta se sentou ao café da manhã, sem a
marquesa, e se retirou para o pequeno aposento onde arrumou as roupas brancas com
cuidado e preparou outras de cores diferentes. A marquesa em si mesma não estava à
vista. Mas a pequena mala estava vazia, e um dos lacaios que as tinha acompanhado
durante o transporte, estava faltando.
Longe, ao longo do caminho rochoso para Mortágua, o lacaio se arrastava atrás de
uma jovem camponesa, vestida com um vestido de algodão azul desbotado, sandálias nos
seus pés, cabelo escuro caído em uma nuvem ondulada sobre o rosto e abaixo dos
ombros. Seu único ornamento parecia ser uma faca em seu cinto e uma espingarda velha
pendurada no ombro.
Foi apenas a presença silenciosa de José por trás dela que impediu Matilda e
Duarte de declarar guerra aberta sobre ela, Joana pensou, enquanto andava a passos
largos, eufórica pela sensação de liberdade que a manhã trouxe, lhe exigindo exercer o
máximo de seu auto-controle para não pular de alegria, e gritar aos montes sua felicidade.
José poderia pensar que ela estava fora de si, se fizesse qualquer uma dessas coisas.
Realmente não precisava de José. Ela tinha seu mosquete, embora mosquetes
fossem notoriamente fracos para bater qualquer alvo definido. Pensou, com inveja, no
rifle do capitão Blake. E ela tinha a faca para se defender contra qualquer pessoa que
passasse pelo mosquete. Qualquer um que passasse, sem dúvida, passaria também por
José. Mas, muitos homens, e demasiadas mulheres, tinham a tendência cansativa de
acreditar que uma mulher estaria perfeitamente segura desde que tivesse algum macho
pairando sobre ela. E José era um homem grande o suficiente para satisfazer Matilda e
Duarte.
― Nós estamos lá, ― disse ela, se virando para o servo silencioso, quando eles se
aproximaram de Mortágua. ― Você pode ir visitar seus amigos, José.
Ela se aproximou da casa de seu irmão com passos acelerados. Ainda não tinha
visto o bebê. A última vez que tinha estado nas colinas, Carlota estava enorme pela
criança, e preocupada com o fato de Duarte haver invocado a lei do bando e a imposto, o
que a proibia de sair com os outros membros. Ela não era sua esposa, Carlota tinha
discutido. Ele não podia lhe dar ordens. Ela iria se quisesse. Morreria se tivesse que ficar
em casa com as mulheres e crianças.
Mas ele poderia lhe dar ordens, Duarte disse, parecendo muito bonito e muito
formidável, com os pés separados, encarando sua mulher grávida. Ele era o líder do
bando do qual ela era membro, e se ele dizia que era para ficar, então ela iria ficar, ou
enfrentar medidas disciplinares de todo o bando.
Além disso, ele tinha adicionado, com voz e expressão amolecidas, e Joana sentiu
um flash inesperado e inusitado de inveja da outra mulher, que estava para ser a mãe de
seu filho e iria fazer o que ele pedia, por ela própria e pela segurança do bebê.
Joana bateu de leve na porta aberta da casa do irmão e olhou para dentro,
imaginando se Duarte havia vencido sua guerra particular, ou se Carlota tinha sido demais
para ele. E se perguntou se Duarte não estava de volta da fronteira, ainda. O pensamento
fez seu estômago dar uma guinada desconfortável.
Ela tinha tentado, com muita dificuldade, não pensar em Robert desde que deixara
Viseu, ou pelo menos pensar nele apenas de forma puramente impessoal, como parte do
trabalho que estavam realizando em conjunto. Achou difícil pensar nele como capitão
Blake, não como Robert, e tentou, com dificuldade também, esquecer que queria que ele
fizesse amor com ela no baile em Viseu, e de como se sentira decepcionada durante toda
a noite depois de o haver deixado, porque ele tinha mostrado maior contenção, ou menos
vontade do que ela.
Ela então se esforçou para reprimir as imagens que vislumbrou, de restos
sangrentos e mutilados, em algum lugar fora de Salamanca.
― Carlota? ― Chamou vendo o movimento do outro lado da sala quando a porta
se abriu, embora um raio de sol momentaneamente a cegasse. ― Carlota? E o bebê? Oh,
ele é lindo! Tem o cabelo preto. Assim como Duarte. ― Ela riu. ― E você, é claro.
Talvez fosse melhor, que Duarte não retornasse de sua viagem para a fronteira até
duas horas mais tarde. Muito tempo tinha que ser dado, rindo, abraçando e admirando o
bebê, que dormia o tempo todo, enquanto era passado de uma mulher para a outra.
― E vocês dois vão se casar? ― Perguntou Joana.
Carlota fez uma careta. ― Ah, esse homem ― disse ela. ― Agora que meu corpo já
voltou ao normal, depois de produzir uma criança, estou sendo tratada como uma
mulher. Nada além de uma casa e crianças, segurança e tédio, Joana. Se eu pudesse voltar
ao verão passado faria as coisas um pouco diferentes, talvez, lhe negar algumas vezes, o
deixar ofegante outras tantas. Mas vai. ― Ela riu. ― Eu teria que me privar também, e
contido um pouco da minha própria respiração ofegante. E estaria sem Miguel. Eu não
posso imaginar a vida sem Miguel. Sim, Duarte está falando de sacerdotes e casamentos, e
batismos e tudo isso. Um homem típico.
Quando seu irmão chegou em casa, Joana descobriu que durante os primeiros
minutos ela parecia, e muito bem, ser invisível. Carlota correu para seus braços e o
abraçou sem dizer nada, enquanto ela o banhava com perguntas e repreensões, e notícias
do bebê.
― E Joana está aqui ― disse ela. ― Outra mulher para você intimidar. Não havia
soldados franceses perto da fronteira?
― Joana? ― Ele falou feliz, finalmente liberando Carlota para atravessar a sala. Se
curvou para beijar sua bochecha e alisar o cabelo do bebê, que dormia em seu colo. ―
Você está fazendo amizade com Miguel? Ah, é bom estar em casa novamente. Você
deveria estar em Viseu, ou Lisboa. Não é seguro estar aqui, agora. A campanha de verão
está prestes a começar.
― Ele está seguro? ― Perguntou ela rapidamente. ― Ele partiu sem nenhum dano?
― Ela mordeu o lábio. De onde essas palavras vieram? Não as tinha planejado de forma
alguma. ― O capitão Blake ― disse ela. ― Estamos trabalhando em conjunto. Ele ainda
não sabe disso, mas estamos.
Sentou-se à mesa devagar e olhou fixamente para ela. ― Por que eu tenho um
pressentimento terrível de perigo, Joana? ― Perguntou. ― O que quer dizer, ―
trabalhando juntos? ― Você está indo para Salamanca, suponho? É onde ele está indo?
Você está planejando fazer mais lá do que tentar detectar um rosto que procurou por três
anos, além de absorver todos os pedaços de informação que apareçam no seu caminho?
É um trabalho ativo desta vez?
― Sim ― ela disse, com a voz um pouco ofegante. ― Eu não posso lhe dar
detalhes, Duarte. Estou sob as ordens do Visconde Wellington, como também o capitão
Blake. Mas…
― Sob as ordens? ― As sobrancelhas de Duarte se juntaram e ele bateu na mesa
com o punho, com o que o bebê pulou, e abriu os olhos para franzir a testa a Joana. ― O
homem está usando mulheres inocentes agora, para fazer o seu trabalho? É assim que o
inglês faz as coisas, Joana?
― Somos meio-ingleses, ― ela lembrou. ― E você deve saber que Arthur é tão
disposto como você, para me envolver nessa guerra. Mas, quando ele soube que eu iria de
qualquer maneira, e não sou facilmente manipulada por homens, então ele concordou em
fazer uso dos meus talentos. ― Ela fez uma careta. ― Eles parecem ser, principalmente,
talentos para flertar. Eu sou uma namoradeira terrível, Duarte. Os oficiais em Lisboa e
Viseu parecem um rebanho sobre mim. Eu poderia me casar dez vezes, a cada semana.
― Virá um, eventualmente ― ele disse, ― que não vai ser manipulado por você,
Joana. Então vamos ver o fim de seu flerte e também este absurdo de se colocar em
perigo.
― Não é um absurdo, ― ela respondeu. ― Vou ver aquele rosto um dia, Duarte, eu
sei disso. E a longa espera vai valer a pena. Finalmente Miguel, sua esposa e filho, e Maria
serão capazes de descansar em paz.
Ele suspirou. ― Mas se você o vir, por algum milagre, Joana ― falou ele então, ―
não deve ir atrás dele sozinha. Você o deve enviar para mim. Promete?
― Vou ver, ― disse ela, vagamente. ― Será que ele chegou em segurança, Duarte?
― Ele sendo Blake, desta vez? ― Perguntou. ― Eu o conduzi a Bécquer na
fronteira, como combinado. Não sabia que o seu destino era Salamanca. Direto entre os
franceses. ― Ele franziu a testa. ― Está todo mundo louco?
― Eu preciso de você, Duarte, ― disse ela. ― Mas vai ser muito perigoso para
você.
Ele bufou, e Carlota ficou em silêncio aos pés dela e levou o bebê agitado dos
braços de Joana. ― O tempo virá, ― disse Joana, ― pelo menos eu espero, quando o
capitão Blake terá de ser resgatado de Salamanca. Quando isso acontecer, eu não acredito
que vai ser fácil para ele escapar sem ajuda. ― Duarte coçou atrás do pescoço e olhou
para Carlota.
― Os franceses lhe darão a liberdade condicional, você entende ― disse Joana. ―
Ele vai ter uma liberdade considerável, mas será honrado demais para fugir. Vou ter que
ver para ele, uma maneira de o liberar de sua palavra.
― De que forma? ― Perguntou Carlota. ― Homens definem tal coisa por honra,
Joana.
― Se for maltratado ― respondeu Joana, ― talvez, até preso de novo e, em seguida,
os franceses quebrarem a sua parte no negócio. Mas pode acontecer, também, dele não
estar livre, ou não ter a força necessária para fazer isso sozinho. E eu acho que devo ser
tomada como refém ao mesmo tempo, Duarte. Os franceses estarão um pouco mais
cautelosos atrás de você, se souberem que me tem como refém. E também devem
descobrir que dezenas deles estão suspirando de amor por mim. Além disso, vou precisar
fugir antes que descubram que os traí, ou que pensem que seja incrivelmente estúpida.
Meu orgulho espera que seja o primeiro.
― Você não gostaria de se explicar, não é? ― Perguntou o irmão. ― Não ― disse
ela. ― Não, eu não faria.
― Então, ele estava indo para Salamanca, sabendo que seria capturado? ―
Perguntou.
― Sim. ― Ela respirou fundo. ― Se eles não o matarem primeiro e fizerem
perguntas depois, o que é muito provável. Eu não saberei até que chegue lá. Você acha
que eles iriam atirar, em vez de tomar um prisioneiro, Duarte?
― Joana ― ele perguntou, ao invés de lhe responder, a olhando bem de perto, ―
este homem significa algo para você?
― Apenas como um colega ― ela respondeu. E franziu a testa. ― Embora ele não
saiba o que eu sou para ele. Ele vai me odiar terrivelmente, quando acreditar que eu estou
aliada aos franceses. Mas não o poderia avisar ou pedir desculpas antecipadamente. É
tudo parte do plano de Arthur, sabe?
― Ele é um homem muito bonito ― disse Carlota. ― O cabelo loiro, e aqueles
olhos azuis... E os ombros largos...
― Ei, ei! ― Disse Duarte.
Carlota lhe lançou um olhar atrevido. ― É claro ― disse ela, ― a guerra estragou o
que deve, ao mesmo tempo, ter sido um rosto lindo.
― E fez dele um homem maravilhosamente atraente, em vez disso, ― Joana disse
distraidamente, roendo no lado de um dedo.
Duarte e Carlota trocaram um olhar sobre sua cabeça.
― Você vai fazer isso? ― Perguntou Joana, os olhos focando novamente sua
cabeça também. ― Se eu enviar Matilda para casa, eu acho que uma irmã dela terá de
morrer de repente, ou algo parecido, se você vier. Eu não posso prever exatamente
quando será, portanto, não pode programar uma data definida. Mas vou enviar Matilda.
Você vai fazer isso?
― Para Salamanca, e realmente em Salamanca? ― Disse. ― Parece que é suicídio
para mim, Joana. Também, maravilhosamente desafiador. Vou ter que procurar Bécquer
novamente. Ele provavelmente gostará menos do que os franceses, que eu invada seu
território sem licença.
― Mas você vai fazer isso? ― Perguntou novamente.
― Ele vai fazer isso ― Carlota disse com raiva ― e eu vou ficar em casa para varrer
o chão, e brincar com o bebê, como a boa esposa que ele quer fazer de mim. Ele vai fazer
isso, Joana. Oh, o que eu não daria para ter a chance de ir também.
― Obrigada. ― Joana respirou fundo, em sinal de alívio. ― Eu tenho que sair
amanhã, cedo. Não vale a pena mudar de pessoa e sair daqui, não é? Mas como eu
poderia resistir, mesmo um só dia, de liberdade gloriosa? Estou começando quase a odiar
a Marquesa das Minas.
― Eu também, ― seu irmão disse fervorosamente. ― Ela me dá muitas noites sem
dormir. Mas, em seguida, Joana Ribeiro me dá muito também.
― Este será provavelmente o fim da marquesa, ― disse ela. ― Ela vai logo perder
sua utilidade. Vou ter que encontrar alguém para ser, para o resto da minha vida. ― Ela
suspirou. ― Mas apenas quero ver aquele rosto em primeiro lugar.
― Tenha cuidado, ― disse seu irmão, com o cenho franzido. ― Isso soa muito
perigoso, Joana. Suponho que não a posso persuadir a mudar de ideia?
Ela sorriu para ele.
― Eu não penso assim. ― Disse ela. ― Seja cuidadoso.
― Se divirta, Joana, ― disse Carlota. ― Se divirta enquanto pode.
― Oh, ― disse Joana, e seu sorriso se iluminou, ― eu pretendo. Sim, eu pretendo.

***

― Sente-se, por favor, capitão Blake, ― O coronel Marcel Leroux disse, depois de
se apresentar e aos outros ocupantes da sala, exceto os dois sargentos silenciosos, que
montavam guarda em cada lado da porta.
O general Charles Valéry, um homem alto, magro, um cavalheiro aristocrático, o
estava olhando, mas ficaria mais em casa em um salão de baile do que em um campo de
batalha, pensou o capitão Blake. Ele ficou na frente de uma janela, no lado oposto da sala,
permitindo que o coronel conduzisse o interrogatório. O capitão Henri Dionne era
pequeno, mas solidamente constituído. Parecia poder ser útil com sua espada. O capitão
Antoine Dupuis, que ele havia conhecido na noite anterior. O coronel Leroux era um
homem alto e bonito, com cabelos e olhos escuros e bigode, um homem das senhoras, o
capitão Blake pensava. Ele sentou.
― Eu confio que o resto da sua noite foi confortável? ― Perguntou o coronel. ―
Foi evidentemente necessário o colocar sob guarda.
― Muito confortável, obrigado, ― respondeu o capitão Blake.
― Você fala francês, monsieur? ― Perguntou o coronel. ― Se não o fizer, eu tenho
um intérprete à mão porque o general Valéry pode entender o que você diz.
― Falo francês, ― o capitão Blake disse, mudando para esse idioma. ― Mas temo
que tenha muito pouco a dizer.
― Mas você nos perdoará se nós o questionarmos de qualquer maneira ― disse o
coronel. ― Por que um oficial do famoso regimento dos Rifles ― o Nonagésimo Quinto,
não é? ― Estava dentro de Salamanca na noite passada?
O capitão Blake deu de ombros e tocou a contusão na têmpora direita, seu olho
direito estava um pouco vermelho. ― Me perdi no caminho, ― disse ele. ― Eu podia jurar
que estava me aproximando de Lisboa.
― Ah, capitão, ― disse o coronel, quando o general se virou para olhar para fora da
janela, as mãos batendo em uma tatuagem em suas costas. ― Essas palavras são indignas
de você. Os seus companheiros, que todos escaparam, lamento dizer, eram partidários
espanhóis?
― O são? ― Respondeu Blake. ― Então foi por isso que não entendi uma palavra
do que estavam tagarelando.
O coronel chegou a seus pés. ― Por que você veio aqui, capitão? ― Perguntou. ―
Você é um dos oficiais de aferição britânicos? Um espião, em linguagem mais simples?
― Bom Deus, ― respondeu o capitão Blake. ― Eu? Porque tomei um rumo errado
em algum lugar nas montanhas? Você já percebeu como elas parecem todas iguais? Não,
talvez não. Talvez você não conheça Portugal.
― Parece tolo, ― disse o coronel, ― para os britânicos, enviar um oficial de
reconhecimento tão perto de Salamanca, quando eles devem saber que a maior parte das
nossas forças e nossa sede está aqui. E muito imprudente para partidários chegar tão
perto.
― Eu não poderia estar mais de acordo, ― disse o capitão Blake. ― Eu não teria
chegado a bater à porta, se soubesse na de quem eu estava batendo, acredite. E ouso dizer
que esses guerrilheiros teriam ficado no seu, ah, próprio país, se tivessem sabido que o
poderio da França estava aqui.
― A menos que houvesse alguém aqui dentro com quem você precisasse se
comunicar, ― O capitão Dionne disse, falando pela primeira vez.
― Bem, ― explicou o capitão Blake ― Eu ouvi que há alguns bordéis excelentes
em Salamanca. Mas não pareço muito bonito para as prostitutas, no momento, não é? ―
Ele indicou seu olho.
― Nós estamos perdendo nosso tempo, coronel ― disse o general, sem se afastar
da janela. ― Você não esteve na Península desde a chegada dos soldados britânicos. Eles
não são tão facilmente intimidados como alguns dos nossos vizinhos europeus. É uma
pena que ele tenha vindo de uniforme. Teríamos informação em vez de imprudência, se
ele não estivesse fardado.
O coronel deu de ombros se desculpando pelo capitão Blake. ― Você é um oficial
e um cavalheiro, e deve ser tratado como tal, ― disse ele. ― Queremos lhe conceder toda
a honra e cortesia, capitão. Mas devemos, naturalmente, fazer perguntas. Tem papéis com
você?
― Não, ― disse o capitão. ― Eu deixei para trás todas as cartas de amor que tenho
recebido da Inglaterra. Seria embaraçoso as ter lidas por qualquer outra pessoa.
― Você não tem papéis de jeito nenhum? ― Perguntou o coronel rispidamente.
Capitão Blake pensou por um momento. ― Absolutamente nenhum, ― disse ele. ―
Eu sinto muitíssimo. Você precisa de algo para ler?
― Vamos, é claro, lhe oferecer a liberdade condicional ― disse o coronel Leroux.
― Nós o preferimos entreter, como um oficial respeitado, um inimigo respeitado, capitão,
do que prender você, como faria a um cão. Mas primeiro, receio que o devemos revistar.
É uma indignidade da qual poderia ser poupado, se entregasse quaisquer documentos que
tenha em sua pessoa.
― Senhor, ― o capitão Blake lhe respondeu, então, ― se eu tivesse antecipado sua
oferta, coronel, eu teria guardado algum pedaço de papel no bolso, para que o pudesse
mostrar agora, e manter minha dignidade. Ai de mim, que não tive a ideia.
― Eu o vou conduzir a uma ante-sala com um dos sargentos, para a pesquisa, se
quiser, senhor, ― o capitão Dupuis ofereceu.
― Aqui ― disse o general, ainda sem se virar da janela. ― Ele será revistado aqui. E
agora.
― Ah, lamentavelmente, monsieu, ― o coronel disse, ― Eu o devo revistar e você
vai cooperar e remover os artigos de sua roupa um de cada vez, por favor? Ou devo dar a
tarefa a um dos sargentos?
Capitão Blake se virou e olhou para as figuras silenciosas que ladeavam a porta. ―
Um deles não é o soldado desajeitado que me atingiu no olho, com o meu próprio rifle,
na noite passada, não é? ― Perguntou. ― Isso foi um pouco doloroso, como suponho
que era para ser. Não, não se incomode, coronel. Eu estou sem os cuidados de uma babá
há alguns anos, e sei bem como remover minhas roupas. As vestir de volta novamente, é
claro, é um pouco mais complicado, mas já que não há senhoras presentes, não sou
tímido.
Se levantou, tirou o casaco e o entregou a um sargento, que se adiantou a um
aceno do coronel.
Ele temia, meia hora mais tarde, enquanto estava nu no meio da sala, passando
uma toalha, que o capitão Dionne tinha fornecido, sobre sua cintura, que os oficiais da
equipe de Wellington, em Viseu, tivessem sido demasiado inteligentes, para seu próprio
bem.
― Nada ― disse o coronel.
― Ele teve tempo para se livrar deles, ― disse o general. ― Tenha a área onde ele
foi encontrado revistada.
― Ou um dos partidários os levou, senhor, ― o capitão Dionne sugeriu.
― Ou nunca houve qualquer ― disse o coronel. ― Tudo está embrenhado em sua
memória, com toda a probabilidade. E nós nem sequer sabemos se ele veio trazer
informações ou as recolher. Talvez ainda não haja nada em sua memória.
― Capitão Blake. ― O general finalmente se afastou da janela e seus olhos
cinzentos pálidos correram o seu adversário dos ombros nus para os pés descalços. ―
Você pode ser grato, neste dia, por ser um soldado britânico uniformizado, e não um
partidário espanhol. Nós sabemos como obter informações de nossos amigos espanhóis.
― Eu posso quase sentir minhas unhas dos pés sendo arrancadas, ― disse o capitão
Blake.
― É, creio eu, um pouco doloroso ― disse o general. ― A informação vem muito
antes de todas as vinte serem perdidas.
― Suas botas são muito novas, em comparação com o resto do seu uniforme, ―
um dos sargentos, o que o capitão Blake teria rotulado como o menos inteligente,
murmurou para seu companheiro. O capitão Blake poderia ter abraçado o homem, e lhe
dizer para falar. Mas suas palavras foram ouvidas.
― Suas botas são novas, capitão? ― Perguntou o coronel, franzindo a testa para
ele.
― As outras saíram de meus pés, um dia, quando eu não estava olhando ― disse o
capitão Blake.
― O mesmo que seu casaco parece prestes a fazer ― disse o general. ― Mas você
não teve um casaco novo, capitão. ― Capitão Blake deu de ombros. ― As botas novas
este ano, talvez uma nova roupa no próximo ― disse ele. ― Não se faz uma fortuna como
capitão no exército britânico, sir. Talvez os capitães franceses consigam? ― Ele olhou
educadamente para os capitães Dupuis e Dionne.
― Nada por trás do couro, senhor, ― disse o sargento não inteligente, passando as
mãos duras por toda a superfície das botas.
― Os dedos do pé ― disse o coronel. ― Os saltos.
Capitão Blake sorriu nervosamente. ― Como vou para casa a pé, sem minhas
botas? ― Perguntou. ― Será que isso não foi longe o suficiente? Estão tornando tudo
bastante ridículo? ― Ele deu de ombros, e tentou parecer indiferente, enquanto tanto o
general como o coronel o olharam atentamente. Mas permitiu que uma mão abrisse e
fechasse a seu lado.
O coronel fez um sinal para o sargento.
― Vamos substituir suas botas, capitão ― disse ele. ― Como um presente.
E assim, os papéis foram encontrados, em carta não selada, e espalhados sobre a
mesa, e só então o general saiu da janela e se aproximou. Se inclinando sobre o papel com
o coronel, o general observava atentamente, enquanto os dois capitães esticavam os
pescoços dos dois lados da mesa para ter uma ideia do diagrama.
― Ah, capitão, ― o coronel disse, olhando para cima, depois de um minuto em
silêncio ― você pode se vestir e tomar um assento de novo. Suas botas, receio, estão em
ruínas, mas não acredito que o piso seja muito frio. É?
― Droga seus olhos ― Capitão Blake disse por entre os dentes.
O coronel deu de ombros. ― Pardon, capitão ― disse ele, ― mas temos um trabalho
a fazer, assim como você. ― Capitão Blake estava no processo de desembrulhar a toalha
da cintura, quando o general finalmente falou.
― De modo que o outro papel estava correto, embora muito mais vago do que este
― disse ele. ― Nos esperam pelo norte, e nossa chance de chegar a Lisboa está
efetivamente trancada. ― Ele bateu um punho na mesa. ― Agora o tempo de indecisão já
passou. Agora o marechal vai saber qual caminho tomar. ― Ele olhou para o capitão
Blake, cuja mão segurava um canto da toalha como se estivesse congelado. ― Temos o
condenados do Wellesley, finalmente, mesmo onde o queremos. Ou Wellington, como é
chamado agora.
Capitão Blake deu um passo para a frente e olhou para o diagrama. Mesmo de
cabeça para baixo, ele podia ver de relance que não era o papel que lhe tinha sido
mostrado, o que ele tinha pensado que estaria em sua bota. O que ele estava olhando era
um diagrama perfeito das Linhas de Torres Vedras.
Oh, Cristo, pensou. Parecia que, de repente, o ar havia deixado a sala. Cristo! E ele
ficou perfeitamente imóvel e sem expressão, enviando orações frenéticas para um Deus,
que podia ouvir em silêncio.
Capítulo 12
A “tia” com quem Joana ficava quando estava em Salamanca era, na realidade, uma
ex-governanta que sua mãe tinha empregado para os filhos de seu primeiro casamento. Se
alguém tentava fazer uma contagem do número de tias que ela tinha na Península, Joana,
por vezes, pensava que ele iria começar a se perguntar sobre seus avós. Ela
provavelmente poderia descobrir uma tia em quase todas as cidades da Espanha e
Portugal, se o tivesse que fazer.
A Señora Sanchez, tia Teresa, morava em uma rua tranquila em Salamanca, perto da
Plaza Mayor. A carruagem branca e dourada da Marquesa das Minas chegou no final de
uma tarde, mas a marquesa que saiu foi uma diferente daquela que tinha pisado em Viseu.
Esta marquesa usava os cabelos em cachos mais suaves sobre seu rosto e ela usava um
vestido e casaco azul royal vivo.
Se ela devia ser basicamente a mesma, Joana havia decidido alguns anos antes, rica,
estragada e namoradeira, pelo menos iria mudar pormenores. Tinha que haver alguma
variedade para adicionar tempero à vida. Em Portugal ela era a marquesa portuguesa
pálida, na Espanha ela seria a marquesa francesa extravagante. Deveria haver diferenças
sutis.
Não demorou muito para que a notícia de sua chegada começasse a circular,
embora o muito adiantado da hora obrigasse vários oficiais impacientes, a esfriar seus
arroubos durante a noite, antes que eles a pudessem visitar, decentemente, na manhã
seguinte.
O coronel Guy Radisson e o Major Pierre Etienne foram os primeiros a chegar, e
apareceram na porta da Señora Sanchez quase simultaneamente.
― Caros Guy e Pierre! ― Exclamou ela, quando entrou no salão onde eles a
esperavam. E cruzou toda a sala, uma mão estendida a cada lado, sorrindo, enquanto cada
um levava uma de suas mãos aos lábios.
― Jeanne, ― coronel Radisson disse, ― o sol nasceu em Salamanca novamente esta
manhã. ― Madame ― o major Etienne disse, ― agora a nossa razão para querer invadir
Portugal não existe mais. ― Ela retirou a mão da dele e bateu em seu braço. ― Não deixe
que o imperador ouça você dizer isso, Pierre ― disse ela. ― Mas como é maravilhoso
estar em casa, entre o meu povo, mesmo que não esteja em casa, na minha própria terra.
Portugal parece um buraco.
― Então você deve me permitir a acompanhar para casa, para a França, Jeanne ―
disse o coronel. ― Eu vou voltar para lá em breve, imagino. Mas, se você ficar aqui, talvez
eu deva solicitar uma extensão maior do dever.
Ela riu e puxou a mão. ― Mas eu não posso sair de Portugal, ― disse ela. ― Todas
as propriedades que Luís me deixou estão lá e toda a minha riqueza. E como eu poderia
viver sem a minha riqueza? Este luxo, receio, é o sopro de vida, para mim.
Ela acenou aos senhores para as cadeiras, servidos os refrescos, e se resignou a
uma manhã de visitas e conversa; não estava errada. Teve sete visitantes, todos oficiais,
além de quatro convites e um buquê de flores.
― Que maravilhosa casa de boas-vindas ― ela murmurou para seus admiradores,
quando eles, finalmente, começaram a querer sair. ― Ah, não, Jacques, eu não vou ser
capaz de assistir ao coronel e Madame Savard no sarau desta noite. Como é triste para
mim. Mas já tinha um convite do general Valéry, você vê, me convidando para jantar.
Espere, Guy, por favor. Eu não preciso de um acompanhante.
Se o coronel Radisson tinha outros deveres para cumprir, não mostrou
impaciência, enquanto esperava que o último dos visitantes se despedisse
persistentemente da marquesa. Ela finalmente se virou para ele, com um sorriso brilhante.
― Todos são tão bons ― disse ela. ― Correndo aqui para apresentar seus respeitos,
quase antes de eu ter chegado.
― Bondade tem pouco a ver com isso, Jeanne ― disse ele. ― Você realmente está
mais bonita a cada dia, ou é que simplesmente parece dessa maneira?
Ela pensou por um momento. ― Acho que não ― disse ela. ― A cada segundo dia,
Guy. ― E ela riu alegremente, com os olhos brilhando para ele.
― Ah, Jeanne, ― ele disse, ― você já lamentou ter rejeitado minha proposta de
casamento? Gostaria de a renovar agora, se você fosse apenas dizer uma palavra.
― Eu me arrependo a cada momento, Guy ― disse ela, estendendo as duas mãos
para ele apertar. ― Mas não o faria. Sou muito inquieta para você, e também… oh,
mutável. Sim, e muito cara também. Sou terrivelmente cara, você sabe. E egoísta. Estou
curtindo minha liberdade. Podemos apenas ser amigos?
― Melhor amigos do que nada ― disse ele, suspirando. ― Como eu posso ser útil
para você?
― Me leve ao general Valéry ― disse ela. ― Ele quer me ver antes de hoje à noite.
― Ah, eu tenho um general por rival, então? ― Perguntou.
Ela tirou as mãos da dele e estalou a língua. ― Ele é velho o suficiente para ser meu
pai, ― disse ela. ― Na verdade, ele é um amigo do meu pai. Temos negócios a discutir.
― É como eu suspeitava, então? ― Perguntou. ― Você traz informações de
Portugal, Jeanne? É perigoso. Odeio pensar em uma senhora tão delicada se colocando
em perigo.
― Trazer informações? ― Ela riu. ― Que absurdo você diz, Guy. Quem poderia
me confiar qualquer informação que possa ser de utilidade para um inimigo? Eu a poderia
deixar escapar, sem pensar, para a próxima pessoa com quem falasse. Papa costumava me
chamar de cabeça oca. Temo, infelizmente, que haja alguma verdade no insulto. Você vai
me acompanhar?
― É claro ― disse ele, com uma reverência. ― Em qualquer lugar, a qualquer hora,
Jeanne. Você só tem que pedir.
― Eu vou buscar o meu chapéu, ― ela disse, ― e pedir o carro.
Menos de uma hora depois, ela estava sentada na elegante sala atribuída ao general
Valéry, na sede francesa. Ele lhe tinha oferecido uma taça de vinho, e estavam
educadamente relembrando seu pai.
― Então ― ele disse, ― você retornou, Jeanne. Teve alguma dificuldade para sair
de Portugal? Os ingleses estão patrulhando a fronteira tão diligentemente, que temos sido
capazes de ter uma vaga ideia do que está acontecendo em Portugal.
― Oh, ― ela disse acenando como se fosse nada, ― eu estou autorizada a entrar e
sair quando quiser. Que tipo de ameaça pode uma simples mulher ser, afinal? ― Ela
sorriu docemente para ele e bateu as pestanas.
― Você faz isso tão bem, Jeanne, ― disse ele. ― Qualquer um que não saiba quem
você é, poderia pensar que é bastante inofensiva e completamente, me perdoe, tonta.
― Às vezes, ― disse ela, ― eu me canso de sempre interpretar esse papel. É bom
estar em casa.
― E o que está acontecendo em Portugal? ― Ele perguntou, se sentando em frente
a ela e a olhando fixamente, para que Joana soubesse que, finalmente, a reunião tinha
começado.
― Oh, ― ela disse, ― o Visconde Wellington, ele me permite chamá-lo de Arthur,
general. Isso não é divertido? O Visconde Wellington está em Viseu, no norte, como
também o grosso do exército. Uma pequena parte dele ainda está no sul. Eles estão
esperando que vocês ataquem. Tenho certeza que você deve saber tudo isso. Eu receio,
que sempre me sinta inadequada, quando venho fazer um relatório a você. Sempre desejo
que pudesse ter trazido mais informações. Mas sou apenas uma mulher, você sabe. Tudo
o que posso fazer é observar, e manter meus ouvidos abertos. Nenhum documento
interessante já caiu em minhas mãos e ninguém nunca me confia uma informação secreta.
É triste.
― Mas você faz muito bem, Jeanne ― disse ele. ― Você é uma observadora atenta.
Às vezes, suas observações são mais importantes do que imagina. Por onde você viajou
recentemente?
― Antes de vir para cá? ― Ela perguntou. ― Para Lisboa e a Viseu, novamente. Eu
tive que usar uma desculpa para ir a Lisboa, porque estava entediada em Viseu, você sabe,
e tive que ir procurar algum entretenimento. Eu queria ir, sabendo que estaria vindo para
cá em breve, e esperando para pegar algumas informações para você. Mas, infelizmente,
não havia nada.
― Absolutamente nada? ― Perguntou.
― Somente bailes e flerte, e as viagens sem fim ― disse ela. ― Foi muito tedioso e
muito sem sentido. ― Ele falou, então. ― Temos um prisioneiro inglês ― disse ele. ― É
recente, um capitão, um companheiro imprudente, e um espião, é claro.
― E também não muito hábil, se se permitiu ser capturado ― ela respondeu. ― O
que estava fazendo aqui?
― Tentando se comunicar com alguns partidários dentro da cidade ― disse ele. ―
Outros que o acompanhavam escaparam, o que é uma vergonha, ou teríamos obtido mais
informações sobre todo o esquema antes que morressem. Não podemos torturar ou
executar um soldado britânico. E nós fomos obrigados a lhe dar a liberdade provisória, e
a espada e o rifle de volta.
― Rifle? ― Ela levantou as sobrancelhas.
― Eu teria gostado de o esmagar em mil pedaços ― ele contou, ― arma
condenadamente boa. Por que os nossos soldados de infantaria não podem ter armas
como essa, eu nunca vou saber. Elas são duas vezes mais precisas que os mosquetes.
― Um oficial dos Rifles? ― Perguntou, ela.
― Blake ― explicou ele. ― Um capitão. Ele não tinha nada, além da imprudência
de se jogar em nossos dentes, até que encontramos seus papéis e, em seguida, ele ter que
admitir que tinha que mostrar o papel para os partidários desta parte do mundo, para que
pudessem fazer tudo ao seu alcance, para nos fazer comportar como bonecos de
Wellington durante a campanha de verão, a fim de lhe dar a vantagem.
― Capitão Blake, ― Joana disse rindo. ― Eu o conheço. Ele foi designado para me
escoltar até Viseu. Ele veio até aqui e você o pegou? Oh, ele não vai gostar disso.
― Percebi que ele não estava muito satisfeito, ― disse o general Valéry.
― Eu percebi que é um dos espiões mais confiáveis e bem-sucedidos de Lorde
Wellington ― disse ela.
― Ele é, mas por um trovão! ― Disse o general. ― Agora, aí está o seu valor,
Jeanne, sem sequer perceber o fato. O homem se atrapalhou, horrorizado, gaguejando
quando viu a mensagem e, em um momento, nos dizendo que era um blefe e rindo de
nós, por pensarmos que Wellington iria enviar um diagrama preciso de suas defesas para
o leste, em território inimigo, e no instante seguinte, apertando os lábios fechados, muito
brancos, e se recusando a dizer outra palavra, exceto um ocasional insulto irrepetível.
― Oh, sim ― disse ela. ― Sem dúvida, ele é um bom ator. Ele teria que ser para ter
conseguido tal reputação, não é?
― Há esse problema, no entanto, Jeanne ― ele respondeu. ― O que devemos
acreditar? O diagrama mostra as defesas formidáveis e bastante inexpugnáveis sobre
Lisboa, o que torna inviável para nós começar o ataque às fortalezas do norte, que está
pronto para ser iniciado a qualquer momento. E o diagrama confirma o que tínhamos
razões anteriores para acreditar, que pode ser o caso. E ainda há o problema intrigante,
do por quê os ingleses permitiriam que esse diagrama chegasse tão perto de nossas mãos,
e contra eles, como se vê. Se os partidários estavam para ser alertados, não teria feito mais
sentido o capitão Blake simplesmente lhes dizer de memória? Nós descobrimos tudo e
nada desde a captura deste espião.
― Onde essas defesas formidáveis deveriam estar? ― Perguntou Joana.
― Norte de Lisboa ― disse ele. ― Três linhas separadas, que se estendem desde o
mar até o rio. Poderíamos tomar Portugal, Jeanne. O marechal e eu estamos convencidos
disso. Mas qual seria o ponto, se não podemos tomar Lisboa e jogar os ingleses para fora
da Europa, de uma vez por todas? Parece que temos de ir para o sul, e depois de tudo,
combater a fortaleza de Badajoz. Mas, o ano está adiantado, para tomarmos essa rota
mais lenta. O cerco pode durar meses. E talvez seja tudo desnecessário, se o diagrama
maldito for uma farsa.
Joana estava rindo. ― Norte de Lisboa? ― Disse ela. ― Três linhas de defesas
formidáveis e inexpugnáveis? Absurdo, general. Absolutamente absurdo. Eu viajei através
dessa área há apenas duas semanas, com o capitão Blake. Oh, eu gostaria apenas de ver a
cara dele, se ele me visse aqui. Será que suas habilidades de atuação continuariam, eu me
pergunto? ― Ela riu novamente, e tirou um lenço de renda da bolsa, para enxugar os
olhos.
O general olhou para ela fixamente. ― Pode funcionar, também, por um trovão! ―
Disse ele. ― Você estaria disposta, Jeanne?
Seu riso parou, quando ela olhou para ele novamente. ― Para enfrentar o capitão
Blake? ― Disse ela. E abriu um sorriso, lentamente. ― Por que não? Oh, eu acho que
seria um grande prazer, general. Sim, é verdade que seria. Oh, vamos fazer isso. ― Seus
olhos brilhavam com malícia.
― Isso pode significar que você nunca possa regressar a Portugal. ― Disse ele,
calmamente.
Ela ficou séria novamente. ― Ah, mas antes que o verão tenha acabado, Portugal
será uma parte do império, como ele sempre foi destinado a ser, não é? ― Disse ela. ― Eu
vou voltar, general. ― Ela sorriu lentamente. ― Entrarei em Lisboa no seu braço. Vou dar
uma baile em sua honra e na do Marechal Massena. Oh, vai ser maravilhoso estar em
Portugal e em casa, tudo ao mesmo tempo.
― Posso o chamar agora? ― Perguntou. ― O tempo é essencial, Jeanne. Temos
que saber a verdade.
― Sim, e, por todos os meios ― disse ela. ― Este, mal posso esperar.
― Pode demorar um pouco ― disse ele. ― Eu não sei exatamente onde ele está no
momento, porque a necessidade de o manter sob confinamento passou. E eu desejaria
que os capitães Dupuis e Dionne estivessem presentes, uma vez que estavam em seu
interrogatório há dois dias. E o coronel Leroux, que eu coloquei no comando de tudo.
Acho falar com prisioneiros cansativo e um pouco humilhante.
― O coronel Leroux? ― Disse Joana. ― Eu o conheço?
― Ele acaba de voltar de Paris ― respondeu o general. ― Você vai gostar dele,
Jeanne. Um companheiro considerável.
― Ah, ― ela disse, sorrindo, ― então você pode ter certeza de estar certo. Eu
sempre gosto de homens bonitos.
― Vou mandar servir refrescos para você, enquanto espera ―, disse o general,
ficando de pé. ― Terei todo mundo aqui, o mais rápido possível.
― Não há necessidade de pressa ― disse ela rindo. ― O prazer deste confronto
deve ser antecipado e saboreado, general.
Seu sorriso permaneceu até ele sair da sala. E então, ela descobriu que suas mãos
tremiam no colo e as pernas batiam, trêmulas, contra a cadeira em que estava sentada. E
sua respiração vinha em suspiros irregulares.
Ele estava bem então, e seguro. Oh, Deus, ele estava em segurança. Ela mal tinha
se atrevido a ter esperança de que ele ainda estivesse vivo. Todo o esquema parecia mais
louco do que ela tinha imaginado, quando mais perto de Salamanca. E mesmo agora
parecia louco. Mas, pelo menos ele estava seguro até agora. Assim como ela.
Ela temia encontrar seus olhos. Isso ia ser a pior parte. Uma vez que seus olhos se
encontrassem pela primeira vez e ele soubesse, ou achasse que sabia, então seria mais
fácil. Mas tinha que haver essa primeira reunião dos seus olhos.
E ela temia isso, mais do que temia qualquer outra coisa em sua vida.

***

O capitão Blake sentiu a segurança do cinto da espada lentamente, olhou para o


rifle, que estava apoiado, com cuidado, em um canto da sala confortável, que lhe tinha
sido atribuída na desprotegida mansão confiscada, onde vários oficiais franceses
estiveram acampados, e o decidiu deixar onde estava. Eles queriam falar com ele,
novamente.
Ele tinha vivido um pesadelo de um par de dias e noites, embora tivesse tido
convites em abundância e estivesse sendo tratado muito mais como um convidado de
honra, do que como um prisioneiro. Em todas as horas torturantes, ele não tinha sido
capaz de entender como isso tinha acontecido. Como tinham os papéis vindo a ser os
verdadeiros? Descuido de alguém? Como um absolutamente incrível e criminoso
descuido desses pôde acontecer? Ou tinha alguém feito isso deliberadamente? Será que o
comandante-em-chefe tem um traidor na sua equipe?
Incrivelmente, ele tinha se deixado aprisionar, e a esses papéis, em mãos dos
franceses, apenas para descobrir que tinha colocado lá a destruição dos exércitos britânico
e português, e de toda a causa europeia. Se os britânicos fossem expulsos de Portugal,
então toda a Europa estaria sob o controle de Napoleão Bonaparte, novamente.
E ele, inadvertidamente, tornou isso possível, praticamente sozinho.
E agora se preocupava em endireitar seu uniforme, apesar de que toda a agitação
no mundo não o poderia fazer parecer algo mais do que pobre, e isso porque um tenente
francês o esperava educadamente em sua porta aberta, para o acompanhar ao gabinete do
general Valéry.
Depois de dois dias pensando, o capitão Blake ainda não sabia muito bem como
lidar com a situação. Se partisse da premissa de que os franceses se deixariam enganar
pelos papéis, e se os tentasse persuadir de que os planos eram falsos, então eles
perceberiam que estava mentindo. Se eles fossem falsos, então seria do seu interesse fingir
que eram reais. E, mesmo que ele mantivesse sua boca fechada e os deixasse tirar suas
próprias conclusões, então certamente concluiriam que os planos eram autênticos.
Sem tempo para se preparar dois dias antes, ele havia zombado de sua crença no
início, até que percebeu o quanto seu desprezo seria mal interpretado, e, em seguida,
fechou a boca e a abriu apenas para proferir várias obscenidades, quando lhe fizeram
outras perguntas. Ele pensara, em um momento e com algum horror, que iria desmaiar.
Droga Wellington, pensou, enquanto caminhava até a porta e assentiu para o
tenente. E que se dane este negócio de espionagem. E maldito fosse ele para sempre
deixar ser do conhecimento de todos que tinha o dom de aprender línguas rapidamente.
Ele desejava estar com seus atiradores de novo, assumindo o controle de seu regimento,
que era para o que tinha sido treinado para fazer e no que tinha alguma habilidade. Um
ator, ele não era. E até mesmo um ator experiente podia se recusar a ter que andar pelo
palco sem ter decorado sua fala e sem roteiro a partir do qual as pudesse aprender, e seu
diretor estava a algumas centenas de quilômetros de distância.
Bem, ele estava prestes a entrar no palco de novo.

***

― Conhece o capitão Dupuis e o capitão Dionne, Jeanne? ― Perguntou o general


Valéry, retornando a sua sala com esses dois oficiais, quinze minutos depois de a deixar.
― Jeanne da Fonte, Marquesa das Minas, senhores. Filha do Conde de Levisse, com a
embaixada do imperador em Viena.
― Henri ―, Joana disse, sorrindo calorosamente para o capitão Dionne. ― Que
bom vê-lo novamente. Você já se recuperou do ferimento no seu cotovelo? ― Ela
estendeu a mão para ele se curvar. ― Capitão Dupuis? Eu não tive o prazer.
― É todo meu, minha senhora ― disse ele, com um clique dos saltos e se curvando
de forma inteligente.
― Blake já foi enviado ― disse o general. ― O coronel Leroux está envolvido num
negócio urgente, mas estará conosco em poucos minutos.
― Bom, então. ― Joana usou seu sorriso mais encantador sobre os três oficiais,
enquanto seu coração palpitava com o suspense. Parte dela quis abrir a porta, e o admitir
para que eles pudessem ter este encontro inicial sem mais. A outra parte quis alguém para
entrar pela porta para anunciar que ele estava longe de ser encontrado. ― Henri terá
tempo para me dizer como se recuperou de sua lesão. E capitão Dupuis… ― Ela olhou
para ele interrogativamente.
― Antoine Dupuis, minha senhora ― disse ele, rubro, e se curvando novamente.
― E Antoine pode me contar tudo sobre si mesmo. ― Ela observou o capitão
caindo em seus encantos. ― Mas, primeiro, me deixe dizer como é maravilhoso estar
entre meu próprio povo de novo, o de língua francesa.
A porta se abriu novamente e Joana, que tinha escolhido ficar perto de uma janela
em frente à porta, olhou fixamente para o general, seu sorriso firmemente no lugar, com
medo de virar a cabeça. Oh, Deus, o momento tinha chegado. E por que ela o desejava
evitar, não sabia. Estava, afinal de contas, apenas fazendo um trabalho, como ele. Não
importava o que ele pensasse dela, desde que o trabalho fosse feito com sucesso.
Mas isso pesava. Por alguma razão que ela estava com medo de entender, isso
pesava na balança.
Ela se voltou, para olhar com diversão verdadeira para o homem que tinha entrado
na sala e parou, ao cruzar a porta.
E esqueceu o capitão Robert Blake. E esqueceu o general Valéry e os outros
oficiais franceses. Esqueceu onde estava e por que estava lá. Esqueceu tudo, exceto uma
tarde, três anos antes, quando ela estava escondida em um sótão, com mais medo do que
ninguém jamais merecia estar nesta vida, assistindo a um oficial francês empurrar sua
meia-irmã para o chão e a estuprar, apreciando em altos brados o que fazia, enquanto três
outros soldados se levantaram e assistiram, esperando sua vez, aplaudindo e rindo, e
fazendo comentários obscenos. E, em seguida, o mesmo oficial francês, impaciente, se
divertiu mais, empurrando o polegar para um dos soldados, que levantou sua baioneta. . .
― Mas o meu negócio importante teria esperado, se você tivesse me dito que uma
beleza esperava em seu gabinete, general, ― o homem que tinha entrado disse, sorrindo.
― Você disse apenas que havia uma senhora aqui, que poderia ajudar a lançar luz sobre o
nosso dilema.
Um homem alto e bonito, com cabelos escuros e bigode, e um charme experiente.
Um homem que estava acostumado a conseguir o que queria, especialmente as mulheres
que ele queria. Um homem que esperava que as mulheres se apaixonassem por ele, e que
não foi muitas vezes decepcionado. Um homem que estuprou por esporte, e ordenou a
execução de inocentes com um movimento do polegar. Os olhos de Joana, um rasgo
apertado enquanto analisavam este homem, foram se abrindo de novo, lentamente. Seu
sorriso alcançou seus olhos e os fez brilhar.
― Coronel Marcel Leroux, Jeanne ― disse o general Valéry. ― Recentemente
voltou de Paris, embora fosse a Portugal com Junot em 1907. Jeanne da Fonte, Marquesa
das Minas, coronel. A filha de Levisse. Ela acaba de chegar de Portugal.
O coronel Leroux correu através do quarto. ― Você é a Marquesa, por Deus? ―
Disse. ― O general falou de você. Eu estou encantado, minha senhora. ― Ele estendeu a
mão para a dela.
― Oh, e o que ele disse? ― Ela perguntou, colocando a mão na do coronel e
sentindo a terrível vontade, quase irresistível, de tremer e arrebatar a mão, ― coisas
terríveis, sem dúvida, e nenhuma delas verdadeira. Vou precisar ter uma longa conversa
com você, Marcel? Como o devo chamar? E esclarecer alguns mal-entendidos. ― Seus
lábios se separaram, quando ele levou sua mão aos lábios.
― Eu estou impaciente para o esclarecimento desses mal-entendidos, minha
senhora ― disse ele. ― Muito impaciente.
― Jeanne ― disse ela suavemente, e seu sorriso apareceu na boca, antes de subir
para os olhos. E então a porta se abriu, mais uma vez, e ela se lembrou em um segundo, e
quase entrou em pânico. Ela não teve tempo para se preparar. Se sentia nua e exposta. O
coronel Leroux se moveu para um lado, para que ela pudesse enfrentar a porta.
Tolamente, ela virou a cabeça e o observou, para, em seguida, se tornar quase impossível
voltar a cabeça para trás, novamente.
Mas, ninguém falou. Se perguntou se minutos, ou meros segundos, se passaram.
Ela olhou para a porta. Com os lábios franzidos, seus olhos se iluminaram, divertidos,
lentamente.
― Ora, Robert, ― disse ela, ― é você. Como isso é divertido. Mas por que não me
disse que este era o lugar para onde estava sendo enviado? Eu poderia ter tido o prazer de
o olhar de frente, para o encontrar novamente. Talvez você pudesse até ter me
acompanhado até aqui, como me acompanhou até Viseu. Mas me diga, ― ela deu dois
passos para a frente e sorriu, deslumbrantemente, para ele, ― será que realmente veio
para cá como espião, como diz o general Valéry? Você foi muito travesso, jurou para mim
que estava voltando para o seu regimento.
Ele ficou no interior da porta, com os pés ligeiramente afastados, uma das mãos
paralisada a alguns centímetros acima do punho da espada, o rosto pálido e sem
expressão, olhando para ela. Havia uma contusão amarela e púrpura ao longo de sua
têmpora direita e se espalhando por sua pálpebra. Seus olhos estavam injetados.
― Olá, Joana ― disse ele, por fim, quando parecia que o silêncio deveria ter se
estendido por cinco minutos completos. Sua voz soava bastante descontraída. ― Acho
que a deveria esperar encontrar aqui, entre seu próprio povo. Tolo da minha parte ter
sido surpreendido, por um momento.
Ela tinha tentado adivinhar que mil coisas que ele poderia dizer em primeiro lugar.
Nenhuma delas chegou nem perto do que ele realmente havia dito.
Ela riu com diversão e luz.
Capítulo 13
Ele nunca a tinha visto vestindo nada mais que branco. Agora, ela estava usando
um vestido de um verde esmeralda vivo e parecendo mais bonita do que qualquer mulher
tinha o direito de parecer. Seu cabelo estava enrolado sobre o rosto, de modo que seus
olhos pareciam sombreados e ainda mais atraentes do que o habitual.
Aqueles foram os primeiros pensamentos tolos que correram em sua mente,
quando ele entrou na sala do general Valéry e a viu em pé, em uma janela, diretamente em
sua linha de visão.
O próximo pensamento, que veio quase simultaneamente, era que ela era uma
prisioneira também, que eles estavam tentando a usar para obter a verdade dele,
ameaçando lhe prejudicar, se ele não falasse. Sua mão se moveu inconscientemente para
sua espada.
O terceiro pensamento acalmou sua mão. Ela era francesa. Claro. Ela era francesa.
E então ela se virou para olhar para ele, e lhe falou com o escárnio costumeiro, e
ele soube que o jogo tinha acabado, que tinha perdido, que a Inglaterra tinha perdido, e
Portugal também. E sentiu um relaxamento curioso, agora que tudo estava acabado, e
uma admiração relutante pelo mais provável e o mais improvável espião, e, é claro, da
França.
Ele não a odiava ainda. Eles estavam, afinal, no mesmo negócio. Apenas passaram
a estar em lados opostos.
― Olá, Joana, ― ele disse ― Acho que a deveria esperar encontrar aqui, entre seu
próprio povo. Tolo da minha parte ter sido surpreendido, por um momento.
Ela riu. ― Meu próprio povo? ― Disse ela.
― Você era Jeanne Morisette, antes de adquirir o seu presente título ― respondeu
ele. ― A filha do Conde de Levisse, ex-monarquista.
Ela riu novamente. ― Eu o subestimei, Robert, ― disse ela. ― Não consegui
descobrir nada sobre você, apesar de ter tentado. Eu nem sequer percebi que você estava
tentando descobrir sobre mim. Não há muitas pessoas em Portugal sabendo o que sabe.
― Ela se virou para sorrir ao general Valéry. ― Você vê o que eu quero dizer sobre este
homem ser um dos espiões mais capazes de Lorde Wellington? ― Disse ela.
O capitão Blake manteve os olhos nela. Que coisa estranha de dizer, pensou, mas
ele manteve o rosto inexpressivo.
― Devemos todos nos sentar. ― O general sugeriu. ― Creio que há várias coisas a
serem ditas.
― Eu preferiria ficar em pé, ― o capitão Blake disse, não tirando os olhos de Joana.
Ela olhou para trás, nem um pouco envergonhada por sua duplicidade, que acabara de ser
revelada a ele. ― Então, eu também ficarei. ― Ela sorriu lentamente para ele.
E assim todos os cavalheiros foram forçados a permanecer em pé.
― Capitão Blake, ― o general Valéry disse, ― de acordo com o papel que estava
escondido em sua bota, as principais defesas britânicas estão centradas em três linhas ao
norte de Lisboa, que se estendem para o norte, até Torres Vedras.
Nenhuma pergunta tinha sido formulada, mas o general fez uma pausa.
― Sim ― o capitão Blake disse, ― é o que o trabalho mostra.
― E ainda assim você reivindicou, há dois dias, que o papel era falso, projetado
para nos enganar.
― Sim ― disse o capitão. ― Eu falei isso.
― E o que você diz agora? ― Perguntou o general Valéry. ― Agora que temos a
nossa própria fonte de informação, o que você diria?
― Eu digo que o papel é genuíno, ― o capitão Blake disse, ― como era um
anterior, menos detalhado que caiu em suas mãos. Eu digo que ele é genuíno, mas que
você está destinado a acreditar que ele deve ser falso. Ou é o contrário? Eu esqueci minha
fala, na presença de tal beleza deslumbrante. Sim. Eu creio que deveria dizer que é falso,
para que você acreditasse que ele deve ser autêntico. Diabo me leve, eu realmente não sei.
Talvez você deva perguntar novamente, general, quando a senhora não estiver presente.
Ela sorriu para ele.
― O que você sabe disso, Jeanne? ― Perguntou o coronel Leroux. ― Você sabe a
verdade? Na situação atual, o papel é pior do que inútil para nós.
Seu sorriso se transformou em risos. ― Robert, ― disse ela, ― você se lembra de
minha escolta de Lisboa para Viseu, menos de duas semanas atrás?
Ele não disse nada. Mas tudo acabou, ele sabia. Ela devia se lembrar claramente da
Passagem de Montachique.
― Você não se lembra dos dias longos e tediosos de viagem? ― Perguntou. ― Não
se lembra de nós, rindo das poucas tentativas patéticas que os camponeses estavam
fazendo para se proteger contra o ataque? Não se lembra da longa noite em Torres
Vedras, quando se certificou de que a minha acompanhante não estava presente e nós
conversamos, e conversamos e, em seguida, você tentou fazer amor comigo? Você está
corando, capitão? Não precisa. Todo mundo tenta fazer amor comigo. ― Ela encolheu os
ombros. ― Somente uns poucos favorecidos têm sucesso.
Ela olhou de lado sob seus cílios para o coronel.
Capitão Blake ficou imóvel e optou por não dizer nada. Sua versão do que tinha
acontecido fora um pouco distorcida, pensou ele, e ela parecia completamente esquecida
de que eles estavam em Óbidos, não em Torres Vedras, quando algo semelhante tinha
ocorrido. Mas esses detalhes não eram importantes. Era o resto do que ela estava
dizendo, ou não dizendo, o que importava. Seria possível que ela não estivesse juntando
os fatos, mesmo não tendo feito isso no momento? Ele começou a ver um vislumbre de
esperança.
― Lembro de nossa conversa sobre a tranquilidade da cena ao pôr do sol ― disse
ela. ― E estávamos, naquele momento mesmo, no centro da mais setentrional dessas
defesas formidáveis, não era? Nós já tínhamos passado pelas outras duas linhas?
O Capitão Blake deu de ombros.
― Oh, não venha agora. ― Ela riu de novo alegremente e deu vários passos em
direção a ele. ― Foi uma muito pobre tentativa, Robert. Não há nada lá em cima, há?
Uma vez que o Marechal Massena tome as fortalezas fronteiriças de Ciudad Rodrigo e
Almeida, apenas as forças inglesas do Visconde Wellington e as forças arrasadas de
Portugal vão ficar entre ele e Lisboa. Por que as forças inglesas estariam concentradas no
norte de Portugal? Por que Arthur estaria lá? Será que eles estão todos escondidos com
segurança por trás dessas defesas inexpugnáveis, ou então no sul, para defender a rota
fraca para Lisboa?
A esperança estava martelando com o sangue através de suas veias. Ele tinha um
papel a desempenhar. Ele ainda tinha uma parte. Mas tudo dependia de não exagerar.
― O que você acha, capitão? ― Perguntou o coronel.
― Eu não acho nada ― disse ele, secamente. ― A senhora, sem dúvida, está certa.
As senhoras estão sempre, eu acredito. ― Joana finalmente se sentou na cadeira mais
próxima. Ela cruzou uma perna sobre a outra e virou um pé, o sapato verde para
combinar com seu vestido. Ela pareceu ligeiramente entediada.
― Mas o seu tom implicaria que você sabe que ela está errada ― disse o coronel.
Capitão Blake deu de ombros.
― É uma pena ― disse Joana ― que decidisse viajar a Lisboa, e de regresso, quando
eu o fiz. Uma pena para os ingleses, é o que é. Eu me sinto quase com pena de você,
Robert. Alguma vez falhou antes? Isso vai prejudicar a sua reputação, se vai, e Arthur vai
pensar duas vezes antes de o enviar em outra missão. Pobre Robert. Você pode ser ainda
condenado a ter que lutar com o seu regimento. Mas talvez tudo fique bem. Nem você,
nem Arthur, poderiam ter sabido que eu o estaria seguindo até aqui, eu suponho.
― Você é o diabo! ― disse o capitão Blake, em ameaça tranquila. ― Lorde
Wellington a respeitou o suficiente para lhe fornecer uma escolta de Lisboa.
O general tossiu. ― Peço que se lembre que você está abordando uma senhora,
capitão ― disse ele.
― Uma senhora! ― O tom do capitão foi contundente. ― Uma mulher que trai seu
país adotado pode ser chamada de senhora? Eu poderia pensar em outras palavras que
melhor a descrevem.
― Você falhou ― o coronel Leroux disse secamente. ― Esta é uma guerra, capitão.
Todos nós falhamos algumas vezes. Os verdadeiros homens aprendem a tomar suas
perdas e os seus ganhos.
― Se eu pudesse colocar minhas mãos em você por um minuto, ― o capitão Blake
disse a Joana, e seus olhos se estreitaram.
― Realmente, Robert. ― Ela olhou em seus olhos e riu dele, o pé balançando
despreocupadamente. ― Você acha que eu alguma vez teria permitido que suas mãos me
tocassem, se não fosse porque havia a possibilidade de obter informação de você?
― Se eu pudesse ter apenas esse minuto ― disse ele, ― gostaria de ter certeza de
que nenhum outro homem jamais a iria querer tocar. Sem você eu teria tido êxito.
Percebe quanta destruição está causando? Um país inteiro a cair sob os franceses
novamente, e meu próprio exército destruído? Você percebe? Seu marido era português.
― Luís? ― ela questionou. ― Luís era um frouxo e um covarde.
― E talvez você não vá ganhar, apesar de tudo ― disse ele. ― Talvez esses homens
comecem a duvidar de seu testemunho. O que se esperaria, afinal, que uma mulher visse
durante uma viagem? E, talvez, eles concluam que o que estou fazendo agora é tudo uma
farsa.
― Há alguma defesa de Lisboa, Jeanne? ― Perguntou o coronel.
― Claro. ― Ela encolheu os ombros. ― Meu amigo, coronel Sir Wyman dos
Dragões me levou para ver as defesas ao sul da cidade. Até recentemente parecia aos
ingleses a única via sensata para que vocês chegarem. Só ultimamente é que se pensou
que vocês seriam loucos o suficiente, para vir através das colinas ao norte. Eles estão
desesperados para os desviar novamente. Ou isso é o que Duncan disse, de qualquer
maneira.
― E você me disse anteriormente, que nada de importante tinha acontecido
durante a sua visita a Lisboa ― disse o general, olhando com carinho para Joana e
balançando a cabeça.
― Sim ― ela disse, sorrindo tristemente. ― Eu suponho que o que Duncan disse e
me mostrou tem alguma importância em retrospecto, não é? E a minha muito tediosa
viagem de volta a Viseu. Devo ficar mais tempo, general? Estou para ir às compras com a
minha tia, mas toda a manhã havia cavalheiros gentis, tantos visitantes, você sabe, e agora
esta visita durou mais tempo do que eu esperava.
― Não, não, Jeanne ― disse o general. ― Você tem sido muito útil, minha querida.
Muito útil. Pode até ser exagero dizer que salvou o império com suas observações e por
sua coragem em estar disposta a enfrentar cara a cara o capitão Blake.
Joana corou de prazer com o louvor e chegou junto dele. O coronel Leroux correu
para lhe oferecer o braço.
― Vou a acompanhar até sua carruagem, Jeanne ― disse ele. ― Vou voltar dentro
de alguns minutos, general. ― o general Valéry inclinou a cabeça.
Capitão Blake teve que se mover, finalmente, para que Joana o pudesse passar, para
alcançar a porta. Ele deu um passo para o lado, seus olhos se estreitando sobre ela.
― Eu sinto muito, Robert ― disse ela, parando por um momento, enquanto
passava. ― Mas a guerra é a guerra, e eu tenho um imperador para servir da maneira que
eu puder.
Ele não disse nada. Mas sentiu uma aversão violenta por ela, por uma mulher sem
consciência, por aquela que podia flertar com toda a gente, apenas para servir os seus
próprios fins. E ele não gostava dela, pelo tolo que tinha feito dele. Ela sempre zombava
dele. Ele a havia conhecido antes, e mesmo assim, ainda tinha permitido que essa atração
por ela crescesse, se tornando quase uma obsessão. Ele se permitiu a tocar, ser despertado
por ela. Até se permitiu acreditar, naquela última noite em Viseu, que talvez ela sentisse
alguma afeição por ele. E todo o tempo seu único propósito tinha sido tentar tirar
informações, qualquer uma que fosse útil, dele.
Ele a odiava. Mesmo parecendo que, involuntariamente, ela houvesse ajudado a sua
causa naquela manhã, ele a odiava. Na verdade, ela não poderia ter feito melhor, se fosse
sua cúmplice. Ele sentiu que seus interrogadores agora acreditavam, para além de uma
dúvida razoável, que as Linhas de Torres Vedras eram imaginárias, e que, na realidade,
não havia defesas entre Almeida e Lisboa, exceto os exércitos de Lorde Wellington.
Ela o havia ajudado. Ela havia feito, sem querer, o que ele tinha a esperança de
conseguir, mas não sabia como. Como ela ficaria mortificada, quando eventualmente
descobrisse a verdade. E quão popular ela estaria entre os franceses!
Mas ela ainda não sabia que o havia ajudado. Ela queria trair, tanto a seu país de
adoção, Portugal, como o país de sua mãe. E as intenções eram mais importantes que seu
desempenho real.
Ele a odiava.
Ela saiu da sala no braço do coronel, e ele foi dispensado, imediatamente depois.
― Chamarei você de novo, se puder ser de mais ajuda para nós, capitão ― disse o
general Valéry. ― Enquanto isso, confio que seus aposentos são confortáveis, e que suas
necessidades estão sendo adequadamente atendidas.
O capitão Blake inclinou a cabeça, bruscamente.
― E confio que você ainda será meu convidado esta noite? ― Perguntou o general.
― Deve me permitir lhe mostrar hospitalidade. Cenas como esta são meramente o
negócio desagradável, mas necessário, na guerra, capitão.
― Eu vou estar lá, senhor ― o capitão Blake disse, antes de se virar de costas e sair
da sala, não tendo certeza se a sua euforia sobre o aparente sucesso da missão, apesar da
mudança dos papéis e o aparecimento inesperado da Marquesa, seria suficiente para
superar sua depressão, ao longo de um cativeiro por tempo indeterminado, e sobre a
descoberta sobre Joana.
A Marquesa das Minas. Jeanne Morisette. Ele não queria pensar nela como Joana.

***
Joana era uma espiã ocasional para os franceses. Ela não acreditava que fosse
considerada de especial importância para eles e não esperara ter a confiança de ninguém
de forma significativa. Mas o coronel Leroux, claramente satisfeito com o que tinha
acontecido no gabinete do general Valéry, se viu confidenciando uma coisa.
― Você foi magnífica, Jeanne ― ele disse a ela, enquanto a escoltava para sua
carruagem. ― Você o confundiu totalmente. Ele vai tentar nos confundir novamente e,
desacreditar o que nos disse. Mas a verdade veio à tona, quando ele perdeu a paciência
com você. Há um ditado que não há ira pior do que uma mulher desprezada. Creio que se
aplica, igualmente, aos homens. Suponho que ele estava apaixonado por você?
Ela encolheu os ombros. ― Os homens estão sempre sendo tolos e dizendo ser
apaixonados por mim ― disse ela. ― Eu não dou importância.
― Eu poderia ter golpeado uma luva no seu rosto mais de uma vez ― disse ele. ―
Mas ele deve ser considerado como nosso convidado, você vê, agora que nos deu sua
liberdade condicional. No entanto, não está sendo maltratado. ― Ele colocou uma mão
em cima da dela e lhe acariciou os dedos. ― Se ele mostrar qualquer outra descortesia,
Jeanne, você precisa me dizer e eu vou ver que seja devidamente tratado.
― Espero nunca mais o ver ― disse ela. ― Mas obrigada, coronel. Você é gentil.
― A campanha vai acabar em algum momento ― disse ele, ― agora que temos a
nossa deixa para começar. Antes do verão terminar estaremos todos em Lisboa. Eu gostei
da minha estadia lá, da última vez. Acredito que eu possa aproveitar mais desta vez. ―
seus olhos a estavam apreciando.
― Antes que o verão termine? ― Disse ela. ― Tão cedo?
― O Marechal estava esperando apenas uma certeza, ― disse ele, ― antes de
investir em Ciudad Rodrigo. A tarefa é para ser de Neyxviii. Ele está apenas esperando para
se mexer. Eu acredito que chegue dentro de um ou dois dias. Uma vez que Ciudad
Rodrigo caia, Almeida não vai resistir por muito tempo. E se Wellington trouxer suas
forças para a defesa de qualquer forte, então nós o esmagaremos. Este é um grande dia, o
começo do fim da ocupação inglesa no solo europeu.
― E eu tive uma parte nisso, ― disse ela, sorrindo deslumbrantemente para ele. ―
Que bem que me faz sentir.
― E você teve uma parte nisto. ― Eles fizeram uma parada na porta de sua
carruagem, e ele levou a mão dela aos lábios. ― Uma grande parte, Jeanne. Você estará no
jantar do general?
― Claro ― disse ela.
― Então, de repente, se torna uma ocasião para ser aguardada com grande prazer,
― disse ele, segurando sua mão perto de seus lábios e olhando para ela, com olhos
ardentes. ― Até mais tarde, Jeanne.
― Você vai estar lá também, Marcel? ― Seu sorriso se iluminou. ― Eu estou tão
feliz!
Ele sorriu, revelando dentes brancos. Era o tipo de sorriso garantido para fazer os
joelhos femininos virarem geléia.
― Sim ― ela disse sem fôlego. ― Até mais tarde.
Ela sentou contra as almofadas de sua carruagem e não olhou novamente para fora
da janela, embora soubesse que ele estaria lá, até que o carro se afastasse. Era uma regra
primária de flerte, ela tinha aprendido anos antes, para permitir que o cavalheiro ficasse
apenas um pouco mais ansioso do que ela.
Fechou os olhos, contente que a viagem para casa não fosse longa. Suspeitava que
seu estômago teria se rebelado em alguma grande distância. Ele a tocou e lhe beijou a
mão. Ela sentiu o bigode, bem como seus lábios contra sua carne. E sua respiração estava
quente. Estremeceu, profundamente revoltada.
Ela o iria matar. Sempre tinha planejado isso. Não ia conseguir a ajuda de Duarte,
embora ele ficasse desapontado de não o fazer sozinho. Ela o iria fazer. Estava indo para
o matar.
Mas não era uma coisa simples de realizar. Teria de ser planejada. Ela teria que
escolher o momento e o lugar, e também o método, com cuidado. Teria que pensar sobre
isso.
Nesse meio tempo, ia flertar com ele. Não conseguia pensar em nenhuma outra
maneira de o manter perto o suficiente, para que o pudesse matar, quando surgisse a
oportunidade. O pensamento de flertar com o homem que ela tinha visto estuprar Maria,
e ter dado a ordem para a morte dela, a transtornou de tal maneira, que lhe deu frio,
apertou a mão sobre a boca, para não vomitar. Ela se sentiu gelada. E então teve que
abaixar a cabeça bruscamente, a colocar entre as pernas, para se salvar de desmaiar.
E havia Robert. Ele a deveria odiar agora, a sério. Mesmo que ela tivesse ajudado a
sua causa, supostamente sem perceber, ele ainda a devia odiar. E era tudo tão sem
sentido, ela pensou. Parecia que o capitão Robert Blake era, afinal, um ator
suficientemente bom, para ter realizado a missão sem a sua ajuda. Ele certamente tinha
aproveitado sua aparente incompreensão da situação.
Se perguntou quem o teria socado no rosto e ferido seu olho.
Ele a devia odiar. E o conseguisse libertar a tempo de tomar parte na campanha do
verão, teria que o fazer a odiar muito mais. Mas ela poderia explicar tudo para ele mais
tarde, pensou. Talvez fosse fazer a diferença. Talvez fosse.
E estava, de repente, e sem querer, lembrando de outro Robert, e de como o fizera
a odiar também, embora por um motivo completamente diferente. E nunca tinha tido a
oportunidade de explicar a ele.
Mas no momento não podia se preocupar com os pensamentos sobre Robert.
Havia um jantar para assistir naquela noite, e algum tipo de relacionamento com o
coronel Marcel Leroux, para planejar. Deveria concentrar sua mente e suas energias nisso.

***

Ela estava usando um vestido de um dourado cintilante, escolhido para dar


coragem a si mesma. Encontrar a coragem de enfrentar uma sala cheia de pessoas, muitos
deles estrangeiros, não era geralmente um problema para Joana. Mas então, não era uma
tarefa comum a que ela havia estabelecido para si mesma. Ela tinha puxado o cabelo em
um coque alto, com cascatas de cachos atrás da cabeça e ao longo do pescoço.
E ainda assim, a primeira pessoa que viu quando entrou na sala do general, antes
do jantar, não foi o coronel Leroux, mas alguém a quem ela estava igualmente relutante
de rever novamente, que parecia tão pobre e tão desajeitadamente fora do lugar, e tão
completamente mais atraente do que qualquer outro homem presente, como ele tinha
estado naquele salão de baile em Lisboa. Ela não tinha imaginado que ele fosse estar
presente.
Não pôde ser evitado. Ele estava em pé, apenas no interior das portas da sala de
estar. Um oficial francês e sua esposa estavam se afastando dele.
― Ah, Robert ― disse ela, dando um passo até ele, antes que a visse e a
desprezasse, a tentando evitar ― você está aqui, não é? Os uniformes franceses são tão
brilhantes como os ingleses, não são?
― Eu ouso dizer que você não vê muita diferença ― disse ele, ― ou nos homens
dentro deles. Eu vejo.
― Ah ― disse ela, sorrindo para ele, ― marquei um ponto, não foi? Você está
muito zangado comigo?
― Mais comigo mesmo ― disse ele, ― por conhecer o seu segredo, e por ter
pensado que, talvez, não tivesse nenhum significado. Não importa a você que sua mãe
fosse inglesa?
― Você sabe disso, também? ― Ela disse, rindo. ― Por que você não comentou
tudo isso, Robert? Foi por que queria saber por quem estava apaixonado?
― Você gostaria de acreditar que sim, não é? ― Disse. ― Você gostaria de pensar
que os seus encantos nunca falharam. E você se esforçou. Mas confundiu desejo com
amor, Joana. Eu a cobicei. Eu queria deitar você. Eu queria ter prazer dentro do seu
corpo. É isso estar amando? Se for, então suponho que sou culpado.
Seus olhos azuis, um deles ainda injetado, a olhou friamente.
― Ah ― ela disse, colocando a mão enluvada sobre sua luva por um breve
momento, ― mas eu poderia fazer você me amar se eu quisesse, Robert. Mesmo agora. E
você não está dizendo toda a verdade. Se tivesse me desejado apenas para… o coloco
como você tão vulgarmente o colocou, então não me teria puxado para esse abraço no
baile da minha tia, em Viseu. Foi você, você sabe. Eu não o teria afastado. Pelo menos,
não tão cedo. Então, não acredito em você. Mas, os espiões não dizem a verdade, não é?
― Você deve saber ― disse ele.
― Na mosca. ― Ela sorriu para ele, e lembrou que devia flertar bastante com ele,
demasiado, com ele e o coronel Leroux, com ambos. Se queria que seu plano para efetuar
a sua libertação funcionasse, ela devia flertar com ele e forçar uma resposta dele, também.
Ele parecia, que jamais lhe iria responder novamente.
Mas ela sorriu, pela primeira vez naquela noite, com algo parecido com prazer real.
Havia um desafio em fazer Robert se apaixonar por ela. Flerte quase nunca foi um
desafio. Mas desta vez foi. Talvez, por uma vez, ela fosse desfrutar de seu trabalho.
― Eu vou fazer isso ― disse ela. ― Eu vou fazer você se apaixonar por mim. Não
deve ser difícil. Acredito que já esteja a mais do que a meio caminho.
― Joana ― disse ele, sua voz e seus olhos perfeitamente sérios, ― Suponho que o
fato de ser meio francesa evite que lhe pese o estigma de ser chamada de traidora. Mas,
não obstante, eu a vejo como tal. Estamos em lados diferentes da cerca. Nós somos
inimigos, e, tanto quanto eu estou preocupado, amargos inimigos. Você me traiu e ao país
hoje cedo, o meu país e o da sua mãe. Você faria bem não desperdiçando seu tempo,
tentando o impossível. Flerte com os oficiais franceses. Há, sem dúvida, alguns milhares
deles que estariam muito dispostos a cair no seu feitiço.
― Ah ― disse ela, ― mas é você que eu quero sob o meu encanto, Robert.
― Porque eu sou o único homem que já lhe resistiu? ― Perguntou.
Ela sorriu. ― Talvez ― disse ela. ― Você é, você sabe. Mas não por muito tempo.
Ela se perguntou por que estava se dando esse desafio e quebrando sua própria
regra, a que ela tinha resolvido apenas naquele dia. Estava mostrando a ele que estava
muito mais ferida do que ele. Tinha lhe dito abertamente que o estava perseguindo, em
vez de o deixar acreditar, como todos os homens que conhecera tinham acreditado, que
ele era o perseguidor.
Era um desafio formidável, que parecia que ela não poderia ganhar. Mas não havia
emoção nela. E de alguma forma, apesar de tudo, apesar dos perigos e desafios que já
tinha enfrentado e os que ainda estavam por vir, ela precisava deste tipo particular de
emoção.
― Eu acredito, Joana, ― ele disse, ― que está prestes a ter um namorado muito
mais reluzente do que eu. E você faria bem ficando longe de mim, enquanto estamos aqui
em Salamanca. Eu poderia lhe fazer mal, você sabe, e sua lealdade pode ser posta à prova,
se for vista pendurada em torno de mim.
Ela sorriu para ele, mas uma mão nas suas costas a fez virar a cabeça. Ela sorriu
para o coronel Leroux. ― Marcel ― disse ela.
― Espero que o capitão Blake esteja agindo como um cavalheiro, esta noite, e não
renove qualquer uma das ameaças que lhe fez, antes ― disse ele, segurando sua mão e se
curvando sobre ela.
― Oh, ― ela disse, rindo, ― o temperamento de Robert esfriou e estava sendo
bastante civilizado. Mas ele não é um cavalheiro, Marcel. Ele seria muito mais adequado
para o exército francês do que para o inglês. Ele subiu na hierarquia e se tornou um
oficial, inteiramente por seus próprios méritos. Capitão Blake é o que é conhecido como
um herói, você vê, mas ele não é um cavalheiro. Ele não vai me dizer que é. É mais
irritante. Ele era filho de um comerciante, ou um aprendiz fugitivo, ou um condenado?
Ela riu novamente, embora pudesse ver a mandíbula de Robert apertar. E quando
ela olhou para o coronel Leroux, foi para ver o desdém em seu rosto. Oh, sim, ela
pensou, de repente. Claro. Essa era a maneira que devia ser. Essa era a maneira que devia
ter planejado. Sim. Robert e o coronel devendo se odiar um ao outro. Ela os tinha que
colocar como oponentes.
Emoção e uma sensação de perigo gloriosa surgiu em sua mente, e ela sorriu
deslumbrante para os dois homens.
― Ele não vai responder, você vê, ― ela disse para o coronel. ― Ele nunca o faz. E
isso me leva a crer que a minha última hipótese é a mais próxima da verdade. ― Ela
passou o braço pelo do coronel. ― Vamos caminhar, Marcel? Você pode me apresentar
às pessoas que eu não conheço. Existem algumas. Faz um bom tempo, desde que estive
aqui pela última vez.
Ela lançou um último sorriso por cima do ombro para Robert, que estava prestes a
ser tomado sob a asa de dois oficiais. Ele olhou para ela com olhos firmes e frios.
Capítulo 14
Havia tanta liberdade, tanta condenada liberdade... ele podia ir e vir quando e como
queria em Salamanca, e podia ter uma vida social tão ativa lá, como poderia ter tido em
Lisboa, durante o inverno e a primavera. Ele foi tratado com respeito e cortesia, e até
mesmo gostara de muitos dos oficiais franceses que conheceu.
Às vezes, ele achava que teria sido melhor, mais real, se estivesse enjaulado numa
cela de prisão, porque lamentava ter dado sua palavra, para conseguir a liberdade
condicional. Se não tivesse feito isso e estivesse preso, poderia tentar escapar, planejar, e
executar. Haveria, então algum desafio, para tornar a vida válida para viver, como o era
no final da primavera passada com o calor sufocante, e a campanha do verão começava
de fato. Agora, só existia a satisfação de ver os franceses reagindo iludidos, quase
imediatamente, à farsa em que acreditaram. O Marechal Ney, que tinha investido contra
Ciudad Rodrigo, defendida pela força espanhola, liderada pelo governador Herrasti xix
desde Maio, de uma forma indiferente, agora atacou a sério, e o forte se rendeu em 10 de
julho.
Os oficiais franceses companheiros do capitão Blake gostavam de lhe contar tais
coisas, para o provocar, bem-humorados pela tentativa de desviar o ataque para o sul e
longe da rota fácil para Lisboa. E gostavam de desprezar Wellington e as forças inglesas,
por não terem socorrido a defesa do forte.
As notícias sobre Ciudad Rodrigo, ele poderia aceitar alegremente, já que Lorde
Wellington estava agindo sabiamente e bem, uma vez que não havia forças britânicas
envolvidas no engajamento. A notícia que a seguiu, de como os franceses avançaram
contra o forte português de Almeida, foi menos fácil de engolir. A Divisão Ligeira, sob o
comando do general Craufurd, estava segurando o avanço francês, os atiradores
preocupando o Marechal Ney e seus soldados, porque apareciam sempre, onde eram
menos esperados.
E entre os batedores estavam os Atiradores dos Rifles, os homens do Nonagésimo
Quinto, seus homens.
Em seguida, quase ao final de julho, a luta tornou-se mais feroz quando a Divisão
Ligeira ficou presa no lado espanhol do rio Côa, com apenas uma ponte em suas costas, e
os Rifles foram novamente os heróis, junto com os soldados de infantaria da Ligeira, da
Quarenta e Três e os da Cinquenta e Dois. Eles contiveram as forças massivas dos
franceses, enquanto os canhões e a cavalaria recuavam sobre a ponte e assumiam uma
posição de força para além dela.
― Você tem sorte, ― disse um tenente francês ao capitão Blake com uma risada. ―
Muitos de seus homens foram mortos na ação, monsieur. Talvez você tivesse sido também,
se estivesse lá. Em vez disso, está aqui, vivendo uma vida de facilidades.
Sim, a vida de facilidades. A mão direita do capitão abria e fechava em seu colo.
Ele estava preso há um mês, que parecia mais um ano, ou dez. Os franceses atacariam
Almeida e, provavelmente, a ocupariam em algumas semanas, e duvidava que Wellington
fosse em sua defesa. E então eles iriam avançar em Portugal, a oeste de Coimbra, e ao sul
de Lisboa. Provavelmente em algum momento ao longo do caminho, por uma questão de
orgulho, Wellington faria uma aparição, escolhendo a ocasião com cuidado, como sempre
fazia.
E se isso não os segurasse, não haveria o refúgio por trás das Linhas de Torres
Vedras, e a esperança de que o exército francês iria ficar e ser pego e dizimado pelo
inverno e pela fome, enquanto os britânicos passavam um inverno de relativo conforto;
ele rezou por reforços do mesquinho governo britânico, e com eles a esperança de travar
uma guerra mais agressiva no ano seguinte, que os levaria através de Portugal e da
Espanha, com os franceses sendo enviados à frente deles; e aí, é que começaria a ruína do
império de Napoleão Bonaparte.
E todo o tempo, pensou o capitão Blake, ele seria um cativo dos franceses, estaria
longe de seus próprios homens, longe da agitação. O mais rápido que ele poderia esperar
por uma troca, em sua própria estimativa, era a primavera seguinte.
Houve momentos em que a necessidade de estar com seu regimento, a necessidade
de ser livre, parecia mais poderosa do que a necessidade de manter a sua honra. Havia
horas em que ele pensava sobre a fuga. E seria tão fácil... Ele não era vigiado. Não havia
restrições sobre ele, exceto as impostas pela sua própria honra, e ainda estava na posse de
sua espada e rifle.
Mas é claro, que nunca tentou fugir, pois, quando tudo ficou dito e feito, a honra
era tudo. Honra era o que o tornava a pessoa em quem ela poderia ser e viver. Honra lhe
deu a sua auto-estima. E assim ele ficou e se irritou com o momento.
Não teria sido tão ruim, ele pensou muitas vezes, se não tivesse sido por Joana, a
Marquesa das Minas.
Eles estavam constantemente se encontrando em reuniões. Ele tinha convites
frequentes para jantares e peças de teatro, e foi difícil recusar a maioria deles, tanto
quanto viver a vida de um eremita. E sempre, onde quer que fosse, ela também estava lá.
Era compreensível, é claro. Como os ingleses, o exército francês estava longe de casa e
das suas próprias mulheres. Ao contrário dos britânicos, as mulheres locais eram, em
geral, hostis a eles. Era compreensível, então, que todas as mulheres francesas disponíveis
fossem convidadas a qualquer lugar.
Especialmente quando uma dessas mulheres era tão bela e fascinante como Joana.
O capitão Blake assistiu dezenas de seus compatriotas cair sob seu feitiço, e a
seguir com tanta devoção como os admiradores de Lisboa e Viseu. E às vezes, apertando
a mandíbula em linha dura, percebia o quão fácil seria para ele seguir o exemplo. Mesmo
sabendo que ela agora era inimiga, do seu país e pessoal, seus olhos a seguiam pelas salas,
vagavam sobre sua esbelta figura, bem torneada, e se deleitavam com as cores ricas que
ela escolhia para usar em Salamanca.
Às vezes, ele se continha, odiando o coronel Marcel Leroux, sonhando o reduzir a
pedaços, e não tanto porque tinha sido o chefe do interrogatório contra Blake, como
também porque Joana o favorecia abertamente, acima de todos os seus outros
pretendentes. E foi fácil perceber o porquê. O coronel era um diabo considerável, e um
charmoso também.
E ainda assim ela flertou também com ele, capitão Blake, quando se encontravam.
Sua afirmação estranha e imprudente, naquela primeira noite, de que poderia e o iria fazer
cair de amor por ela, não tinha sido esquecida, ao que parecia. Ela lhe dava atenção,
aonde quer que fosse.
― Jeanne ― o coronel Guy Radisson disse, durante uma reunião em que estavam
todos, mas ela parecia estar murcha pelo calor da sala abafada. Acabara de falar com o
inglês, enquanto passeava pela sala acompanhada dos dois, o braço no do coronel. Seu
tom era amigo. ― Se você persistir em mostrar amizade para o capitão Blake, vão surgir
rumores de que sua lealdade está dividida.
Ela riu alegremente. ― Ah, mas eu me sinto tão triste por ele, Guy ― disse ela. ―
Ele é um soldado, você vê, bem como um espião. E anseia por estar com seu próprio
regimento, agora que a luta está começando. Você não anseia, Robert?
― Como eu poderia desejar estar em qualquer lugar, que não onde estou neste
preciso momento? ― Disse ele em tom cortês, que só ela saberia o falso que era.
Ela riu novamente. ― Ele queria que o nosso exército estivesse avançando por uma
rota diferente, Guy ― disse ela. ― E é por minha causa que não estão. Me sinto culpada.
Eu sinto a necessidade de provar ao capitão Blake, cada vez que o vejo, que não sou um
monstro.
― Monstro! ― O coronel disse com carinho. ― Ninguém poderia olhar para você e
pensar seriamente que o é, Jeanne.
Ela olhou para ele com grandes olhos sorridentes. ― Está muito quente aqui? ―
Perguntou ela. ― Ou é a minha imaginação? Seja um anjo, Guy, por favor, e me traga
uma bebida. Algo longo e fresco.
O coronel Radisson bateu os calcanhares e partiu no meio da multidão, sem mais
delongas. Foi a maneira para ter Blake sozinho. Ela fazia isso com frequência.
― Pensando bem, ― disse ela, ― não sentiria mais calor num instante, se saíssemos,
não é? Me leve lá fora, Robert.
Ela nunca pediu favores. Ela sempre os exigiu. E colocou a mão enluvada de
branco em seu braço. Hoje, seu vestido era de uma cor de vinho profundo.
― O pobre coronel será deixado segurando uma bebida gelada, ― disse ele.
Ela encolheu os ombros. ― Então ele a pode beber, ― disse ela. ― Aqui dentro
está muito quente.
― Joana, ― falou ele, ― por que você faz isso? ― Blake a levou para um pátio
arborizado, onde várias pessoas estavam passeando. Ele não entrou em detalhes sobre
suas palavras.
Ela então olhou para ele e sorriu. ― Porque é um desafio, ― respondeu. ― Porque,
qualquer outro homem, posso ter num estalar de dedos. Você já viu isso. Preciso de mais
um desafio na vida.
― E alguns dos que já foram, agora que você está a salvo, de volta aos seus
conterrâneos novamente? ― Perguntou. ― Será que você aproveitou o perigo em
Portugal? Você gostou de saber que, a qualquer momento, o seu lado francês poderia ser
descoberto e exposto?
― Ah, mas eu tenho conexões portuguesas e inglesas também, ― ela disse, ― como
você sabe, Robert. E como poderia, uma mulher como eu, ser de qualquer perigo para
alguém? Minha vida é dedicada ao prazer. E o que eu fiz de tão perigoso? Apenas usei
meus olhos na estrada entre Lisboa e Viseu, e relatei honestamente o que vi. Isso me
torna perigosa?
― Você fez isso deliberadamente, ― disse ele. ― Você foi espionar ativamente para
os franceses, Joana. Só que desta vez é o fim. Eu posso expor o seu jogo, se você voltar a
Portugal.
Ela suspirou. ― Você faz parecer como se eu tivesse sido uma agente secreta
altamente qualificada, ― disse ela. ― e quase desejo que fosse assim, embora, talvez, não
houvesse emoção nisso. Há, Robert? É maravilhosamente excitante?
― Há postos de trabalho a ser preenchidos, ― disse ele, ― e pessoas que os
executam, porque precisam ser feitos.
Ela olhou para ele, incrédula. ― Oh, não, ― ela disse, ― isso é ridículo. Isso não é o
por quê de você fazer o que faz, Robert. Eu sei, só de olhar em seu rosto, que você exige
muito mais da vida do que isso. Eu sei isso. Eu sei que em muitas maneiras, você é como
eu, isso não é o suficiente, para deixar os dias passarem em segurança e conforto. Não o
suficiente. Tem de haver muito mais do que isso.
A mandíbula de Blake estava travada.
― Este mês tem sido terrível para você, não tem? ― ela perguntou. ― Eu sei. Sei
que para você isso é como uma morte em vida. E assim, eu faço o que posso por você,
Robert. ― Ela riu levemente. ― Eu lhe ofereço um tipo diferente de desafio, possa resistir
aos encantos de uma senhora a quem ninguém consegue, mesmo sabendo que ela é um
amargo inimigo, como você disse uma vez. Você pode?
De alguma forma, ele não sabia como tinha acontecido, haviam encontrado uma
parte isolada do pátio, além de algumas videiras, e ela estava se sentando num murete. O
ar estava frio, mas só agora, contrastando com o calor do dia e das salas fechadas.
Ele riu sem humor. ― Que patética você é, Joana, ― disse ele. ― Você sabe muito
bem, que se eu, alguma vez, caísse pelos seus encantos como todos os outros, ofegante
pelo privilégio de manter sua atenção ou de lhe ir buscar uma bebida, você iria perder o
interesse em mim, em um instante.
― Sim. ― Ela sorriu para ele. ― Como está certo! É por isso que você faz isso,
Robert? É este o seu modo de ganhar a minha atenção? Você é muito mais inteligente do
que qualquer outro homem do meu conhecimento?
Seu vestido parecia quase preto na escuridão, a pele parecia, em contraste,
translúcida. Seus dedos coçaram para a tocar, para descansar contra seu rosto, para
acariciar seu ombro. Seus olhos estavam escuros e misteriosos.
― Eu acho que devo ser o mais tolo de todos, ― disse ele.
Ela continuou a sorrir. ― Porque você não tinha pensado, até agora, em como
podia me desinteressar por você ao fingir o seu interesse? ― Perguntou ela. ― Talvez
desse certo, e talvez não. Vamos colocar à prova?
Ele cruzou as mãos atrás das costas sabendo que tinha se aprofundado no flerte, e
que poderia, muito facilmente, se perder no caminho. Ele nunca tinha aprendido a jogar
esse jogo com as mulheres, porque sempre tinha sido capaz de conseguir o que queria e
quando queria, com dinheiro, sua pessoa e seu uniforme. Mas então, ele só tinha querido
prostitutas, sempre e apenas a satisfação física para esperar uma boa cama. Fazia um
longo tempo, pensou de repente, quase dois meses desde Beatriz. Mas, claro, soldados
estavam acostumados a ficar sem mulheres, por longos períodos de tempo, especialmente
os soldados rasos, e para ele tinha sido um tempo suficiente. Tinha aprendido a conviver
com o celibato.
― Você está com medo? ― Ela lhe perguntou, quase num sussurro.
Ele manteve as mãos atrás das costas. ― Só desinteressado, Joana. ― respondeu.
― Oh, não. ― Ela levantou e se aproximou dele, estendeu as mãos sobre seu peito,
e o olhou. ― Não é isso, Robert. Nunca isso. Jamais, nunca. Talvez você me odeie ou me
despreze, ou, quem sabe, você me deseja. Mas não me é indiferente. Acha que eu não sei
o suficiente sobre os homens para saber isso? Você não é indiferente.
Seu perfume provocou suas narinas. E suas mãos, descansando levemente contra o
casaco, queimaram seu peito. Algo estalou nele.
― Muito bem, então ― disse ele, e estendeu as mãos em sua cintura e a puxou
contra ele. Sabia que ele a estava abraçando demasiado perto, e reforçou ainda mais o
abraço. Algo despertou em seus olhos, que poderia ser medo, enquanto ela continuava a
o olhar, constantemente. ― Deixe que lhe mostre qual é o meu interesse por você, Joana.
Ele ficou instantaneamente duro. O sangue pulsava através de seu corpo, através
de suas veias. Ele a queria machucar, humilhar, assustar. Ele a queria montar, se bater
dentro dela, a ter ofegante e chorando por misericórdia.
Ele a levantou se encostando nela, como tinha feito antes, mas mais forte, de modo
que seus pés deixaram o chão. E então a apoiou contra a parede e se esfregou nela, contra
seu ventre, entre suas coxas, que abriram com a pressão de seu peso. Ele empurrou
contra ela, bombeou contra ela, mesmo através da barreira das roupa.
Ele falou por entre os dentes. ― É isso que você quer de mim? ― Ele perguntou.
Ela ainda estava olhando em seus olhos, seu lábio inferior preso entre os dentes. ― E é
emoção e perigo que você quer, Joana? Vamos arriscar, sabendo que alguém possa estar
vindo ao redor destas árvores? Seria emocionante para você? Devemos ter você de volta
na parede e suas saias e as calças abertas? Tudo vai ser trabalho de um mero minuto.
Estou muito duro e pronto, como pode sentir. Você quer?
Ela continuou a olhar para ele por alguns momentos. E então ela lançou seu lábio
inferior e o surpreendeu sorrindo lentamente.
― Por Deus, você o faria, ― ele sussurrou para ela, a baixando, finalmente, ao
chão. ― Você não é melhor do que a prostituta mais barata que eu já tive, Joana. Pior.
Elas estão dispostas, mas não necessariamente, ansiosas.
― Mas, Robert ― disse ela, e havia risada em sua voz, quando deslizou os braços
até seu pescoço e seus dedos brincavam com seu cabelo, ― você é um cavalheiro, não
importa o que era antes de se alistar no exército. Gostaria que eu tivesse medo de você,
de que fosse me violentar, e ainda assim, você me pergunta? Não pode me fazer ter medo
de você, mesmo que esta seja, penso eu, a expressão que você deva usar quando tem seu
rifle no ombro e está prestes a atirar.
Sua raiva não tinha diminuído, mas, se voltado contra si mesmo. Ele estava apenas
fazendo o seu jogo, apesar de tudo? O jogo de Joana? A mulher que o havia traído, não
importa o que resultasse de sua traição?
Ele a segurou e mergulhou a cabeça para a beijar, abrindo a boca sobre a dela,
empurrando além de seus lábios e dentes, sem se importar com o que ela lhe tinha feito
em outra ocasião, provando, bebendo dela, movimentando a língua, simulando o que
tinha ameaçado fazer com ela, mas que sabia que não iria.
Ela o estava sugando, ele percebeu, suas mãos apertando sua cabeça como as suas
na dela, pressionando e empurrando para dentro rapidamente, quase doloroso. Os sons
que ouviu saíram de sua garganta. Não, da dele. De ambos.
E assim eles lutaram entre si, mesmo quando se abraçaram, troca de desejo e dor, e
da luta pelo domínio. Sua mão livre deslizou sobre um de seus ombros e para a frente e
para baixo, através da carne macia e quente, para baixo, dentro da seda de seu vestido,
para se enrolar em torno de seu peito. Seu polegar encontrou seu mamilo e esfregou,
rápido e duro, contra ele, até que ela ergueu os ombros e se arqueou para trás. E então,
sentiu o choque, enquanto a mão livre dela deslizou entre eles e se esfregou sobre o
inchaço duro de seu desejo por ela.
Ambos estavam ofegantes, quando ele levantou a cabeça.
― Esse é o meu interesse em você, Joana, ― ele disse, então. ― Não um flerte à luz
do dia, não com palavras bonitas de amor e adoração, apenas desejo por seu corpo, como
já senti por inúmeras prostitutas.
― Sim. ― Havia algo quase felino em seu sorriso. ― Mas não é a falta de interesse,
Robert. Nunca mais me diga isso. Diga que você me odeia e eu acredito, acho que você o
faz; diga que me deseja como teria desejado uma prostituta e eu acredito, porque posso
sentir que você faz. Mas não me diga que não tem nenhum interesse em mim, porque eu
o perseguirei sem piedade, se insistir nessa bobagem.
Sua raiva estava vazando, para ser substituído por desacato, embora se fora dirigida
mais contra ela ou a si mesmo, ele não sabia.
― Então, quer um homem que a odeia e que quer se lançar sobre você como se
fosse uma prostituta? ― Ele perguntou a ela. ― Você não deve gostar muito de si mesma.
Ela sorriu, seu velho sorriso encantador. Tinha dado um passo para longe dele. ―
Ah, mas quem disse que eu quero você, Robert? ― Perguntou ela. ― Tudo o que admiti,
se você se lembrar, é que o quero apaixonado por mim e me querendo. E você não está
muito longe. Você me odeia? Boa. O ódio é muito semelhante ao amor.
Ela riu, enquanto ele apertava os dentes, sem vontade ou incapaz, talvez, de
continuar a conversa, o que estava se tornando sua especialidade.
― Me leve de volta para dentro, ― disse ela, enlaçando seu braço. ― Guy virá
correndo, ou então Pierre ou Henri, e eu vou enviar um deles para buscar uma bebida, se
Guy já tiver acabado com a primeira. Agora realmente preciso de uma. Não vou lhe pedir,
como vê, Robert, embora, eu não acredite que você não fosse tão galante e se recusasse.
Você iria?
― Provavelmente não ― disse ele. ― Mas eu o deveria jogar em seu rosto, quando
o trouxesse. Essa seria a maneira mais rápida para refrescar você.
Ela riu alegremente. ― Você não faria isso, ― disse ela. ― Está em território
inimigo e iria bater no calabouço mais escuro, antes que pudesse apreciar o meu
desconforto.
― Pelo menos, então, ― ele disse, ― eu poderia honrosamente escapar.
Ela virou a cabeça para o olhar e sorriu lentamente. ― Pobre Robert, ― ela disse
suavemente.

***

As coisas estavam se movendo muito mais lentamente, do que ela tinha planejado
ou esperado. Ela imaginava que teria partido em uma semana, ou no máximo duas,
depois da sua chegada. Mas um mês se passara e ainda assim, não poderia colocar seus
planos finais em ação. E, claro, percebia agora que tudo não poderia ter acontecido tão
rápido, de qualquer maneira.
Ela tinha deixado duas cartas com Duarte. Não acreditava que ela e os empregados
estivessem sob vigilância dos franceses, mas queria ser minuciosa, não queria perder
nenhuma chance. As cartas eram para ser enviadas a Matilda, a primeira a informando de
que a saúde de sua irmã tinha piorado, a segunda para anunciar sua morte e implorar pelo
retorno de Matilda.
O momento talvez não fosse perfeito. Ela e Duarte tinham discutido isso. Toda a
ideia de enviar Matilda foi para que Duarte soubesse, exatamente, quando ir. Mas não
deveria haver um mês entre as duas cartas. Se possível, Matilda partiria antes da segunda
chegar. Afinal, a primeira mensagem traria um futuro sombrio para sua irmã. Se ela não
pudesse partir em seguida, quando a segunda chegasse, ela mesma deveria estar, de
alguma forma, presa. Mas as cartas acabariam por lhe dar uma razão para ir embora.
Mas as cartas, é claro, teriam que viajar de um país para outro, e em tempos de
guerra. A primeira não chegaria por quase um mês, e Joana não se atreveu a colocar os
planos finais em ação, antes que chegasse. A chegada de Duarte, ou a dos espanhóis
partidários, seria crucial para o seu sucesso.
Então, ela tinha flertado, tanto com o coronel Leroux, como com o capitão Blake,
embora tivesse colocado Robert em um estreito e indecoroso abraço, do modo que ela
sabia que poderia ser feito, e tinha dado a dica para o coronel, de que as atenções do
capitão Blake estavam se tornando um pouco entediantes, e tinha sido obrigada a se
conter e se segurar, até que sentiu que poderia gritar de frustração.
Pois esse mesmo abraço apertado e indecoroso foi um teste para seus nervos. Ele
era um teste para os nervos. Ela flertou com ele, e o levou, até o obrigar a confessar uma
poderosa atração física por ela. E então brincou com ele, e riu dele.
Ela queria lhe dizer a verdade, contar tudo. Joana não gostava de seu ódio, e de seu
desprezo, ainda menos. Mas devia lhe dizer a verdade, era fundamental. Agora que os
franceses tinham sido enganados, e que a cadeia de eventos que Lorde Wellington
esperava tinha sido posta em movimento, não havia necessidade de sigilo por mais
tempo. Ela poderia ter dito a ele.
Mas não o podia fazer ainda. É claro que não podia, porque, se ele soubesse a
verdade, então também saberia o que ela estava prestes a fazer, o ardil ousado para
conseguir sua fuga honrosa. Se ele soubesse que era um truque, então ainda se sentiria
obrigado por honra a ficar. Os homens eram tolos dessa forma.
E assim, ela ainda não lhe podia dizer. Tinha que sorrir para ele, e flertar e,
ocasionalmente, o levar para algum lugar onde pudessem estar sozinhos. E ainda mais,
porque tinha que suportar o ódio e o desprezo em seus olhos, e o desejo latente, por trás
deles.
E havia o coronel Leroux. O próprio pensamento dele era suficiente para a fazer
estremecer. Não podia olhar para seu rosto, ou as mãos, ou o corpo, sem se lembrar. E
ela se encontrou um dia, no início de agosto, ao longo da ponte romana, depois de um
passeio pelo campo, com Leroux e alguns outros oficiais, que a ajudou a descer do cavalo.
Ele não recuou quando seus pés tocaram o chão, mas sorriu para ela e roçou o polegar
em sua face, o dedo que havia sinalizado a morte de Maria.
Ela estremeceu convulsivamente, e se viu olhando para um rosto que passou de
sorridente a carrancudo, em segundos.
― Marcel ― ela disse rapidamente, sem fôlego, ― ele me tocou, como na última
noite. Estou com medo dele. ― Sua carranca se aprofundou. ― Blake? ― Ele perguntou.
― Blake de novo?
― Oh, ― ela disse, sorrindo, ― Eu sinto muito, estou sendo tola. É só que tive que
o enfrentar lá no escritório do general Valéry, quando cheguei, e agora tenho a sensação
de que ele me odeia, que me mataria se pudesse. E quem o poderia culpar? Afinal, teve
que me ouvir destruir seus planos naquele dia. Mas agora ele me procura, e me toca,
como se esse momento nunca tivesse acontecido entre nós. Na noite passada ele disse
que me queria para… Bem, isso não importa.
― Certamente que sim, ― disse ele. ― Importa, Jeanne. O que ele disse?
― Que ele queria… me beijar ― disse ela, a pausa sugerindo que as palavras reais
tinham sido bastante mais sugestivas. ― Eu acho que morreria se ele me tocasse.
― Não, ele seria o único a morrer. Às minhas mãos, ― disse ele, com os olhos
queimando, ferozmente, dentro dela. ― Eu o devo prender, Jeanne, sem mais demora.
Isto é insuportável.
― Não. ― Ela o pegou pela manga. ― Ele deu a sua palavra de honra, Marcel.
Você o deve tratar com cortesia, para lhe permitir a liberdade dentro dos limites da sua
própria promessa, obrigado pela honra. E ele ainda não fez realmente nada.
― Se ele tentar tocar um dedo em você… ― ele disse.
― Vou lhe dizer, ― ela falou, ― se ele se tornar incontrolável. Eu não acredito que
vá. Afinal, ele é um cavalh... Não, ele não é, é? ― Ela sorriu. ― Mas nada vai acontecer,
Marcel. Eu estava apenas sendo tola. Esqueça. ― Ela colocou a mão sobre a dele.
Tinha falado mais cedo do que o planejado, porque tivera que pensar rapidamente
numa explicação razoável para o estremecimento, porque não fora capaz de se controlar
quando ele a tocou. Matilda ainda estava resmungando, simplesmente se recusava a deixar
sua senhora para trás. Ela teria que ser forçada a ir embora no dia seguinte. E Joana teria,
apenas, a esperança de que fosse encontrar Duarte, sem qualquer dificuldade, e que ele
seria capaz de fazer a tarefa, quase impossível, que lhe tinha pedira.
Ela lhe daria três semanas, iria enviar essa mensagem com Matilda. Três semanas.
Era muito tempo. Gostaria de agir imediatamente, que tudo acontecesse dentro de alguns
dias. Mas, talvez ele tivesse que fazer todos os tipos de preparação. Não o deveria
apressar no que, provavelmente, seria uma operação muito difícil. Ela lhe daria três
semanas.
― Não fique tão preocupado, Marcel ― disse ela, se preparando e se inclinando em
direção a ele, até que quase o roçou. ― Eu tenho quem me proteja, eu sei, e também,
dezenas de outros oficiais, basta eu pedir. Mas, já me sinto muito melhor só por ter
aliviado minha mente para você.
― Jeanne, ― ele disse, e seus olhos se desviaram para seus lábios, ― você sabe que
eu faria qualquer coisa por você.
― Faria? ― Ela perguntou. E sorriu, enquanto passava sua língua lentamente, em
seus lábios. ― Será que você faria mesmo, Marcel?
Ela pensou que ele a iria beijar, e preparou cada nervo de seu corpo. Mas ele
simplesmente levou a mão a seus lábios.
― Às vezes ― disse ele, ― quando estivermos mais em privado, vou lhe mostrar. ―
Seus olhos sondaram os dele.
Capítulo 15
― Você. ― Antonio Bécquer apontou um dedo, para Duarte Ribeiro. ― Você
sozinho. Os outros esperam aqui.
Duarte olhou em volta, aos dez homens de seu bando que o acompanharam até a
fronteira, ao encontro com o guerrilheiro espanhol, um homem que, quase, parecia
desapontado. E eles o olharam fixamente, como que desejando que mudasse a mente do
outro.
― É nossa luta, ― disse Duarte, com um encolher de ombros. ― Estamos
dispostos a assumir os riscos. Tudo o que precisamos de você é a permissão para invadir
seu território, durante um par de dias ou algo assim.
― Você. ― Bécquer repetiu sua palavra e seu gesto. ― Você sozinho. E esqueça a
conversa estúpida sobre fazer o trabalho com seus homens, sem ajuda. Como você vai
entrar em Salamanca? Hem? E como é que vai encontrar as pessoas que está à procura,
uma vez lá? Como vai sair de novo? ― O espanhol parou para cuspir no chão. ― Você
daria aos porcos franceses uma orgia de tortura, pela frente? ― Ele olhou em volta para
os portugueses, com um sorriso, ― onze vítimas, para não mencionar sua irmã. Ela seria
um bônus especial.
Duarte lambeu os lábios. ― É um esquema perigoso, ― disse ele. ― Perigoso,
quase ao ponto da imprudência. Se houver quaisquer vítimas, serão torturadas, o que
parece justo. Eu não o desejo colocar em perigo, por algo que não é sua preocupação.
O partidário espanhol sorriu novamente. ― O esquema é resgatar um de seus
prisioneiros? ― Perguntou. ― E fazer dos franceses uns tolos por uma pechincha? Isso é
exatamente o nosso negócio, meu amigo. E o nosso prazer também. E o perigo? ― Ele
deu de ombros. ― O que é um pouco de perigo, quando as recompensas são tão
satisfatórias?
― Você acredita que pode entrar em Salamanca? ― Perguntou Duarte.
Houve um burburinho geral de risadas dos partidários espanhóis, que tinham
acompanhado Bécquer ao local da reunião.
― Me deixe colocar desta forma, ― disse o líder. ― Eu tenho uma mulher dentro
de Salamanca. Ela tem uma fome que precisa satisfazer frequentemente. Ela permanece
fiel a mim, ainda que não só pela fome. Eu já respondi sua pergunta?
Houve outra explosão de risos dos espanhóis. ― Assim, estou autorizado a ir? ―
Perguntou Duarte.
― Só você ― disse Bécquer. ― Estou certo de que sua irmã não vai ser difícil de
encontrar ou reconhecer, mas será mais conveniente para você, a identificar e a ela ver
você. As mulheres podem se tornar difíceis para bandidos mascarados, carregados com
armas e facas.
― Não Joana, ― explicou Duarte. ― Você vai descobrir que ela é feita de material
especial. Justo o suficiente, então. Quando partimos?
― Esta noite. ― Bécquer sorriu mais uma vez. ― A menção de minha mulher me
deu uma fome muito própria. ― Hoje à noite, então. ― Duarte descobriu que seu coração
batia acelerado. Ele nunca antes se aventurara fora do seu próprio país, em sua guerra
contra os franceses; e jamais tinha trabalhado com os guerrilheiros espanhóis, além de
seus próprios homens. Os perigos, também, eram muito reais para ele. Isso era algo que
tinha concordado em realizar por Joana, e algo que iria tentar fazer certo, apesar de não
estar confiante no sucesso.
Tudo o que esperava era que, se ele falhasse, Joana não fosse pessoalmente
implicada. E, egoisticamente, ele esperava que, se falhasse, ser morto instantaneamente e
não feito prisioneiro. O simples pensamento o fazia estremecer, suando frio.
Pensou em Carlota e Miguel, que havia deixado para trás, em Mortágua. Pelo
menos, eles estariam seguros. Quando os franceses avançassem sobre Portugal, como
certamente o fariam dentro de algumas semanas, o mais tardar, eles iriam pegar a estrada
para Coimbra. Mortágua estava bem ao norte dessa estrada, e segura contra seu avanço.
Pelo menos ele tinha essa consolação.
Duarte tentou não pensar em Carlota, que se despediu dele com os olhos secos e
uma expressão pétrea. Ela não o tentou impedir ou, mais surpreendentemente, implorar
para ir com ele. Ela apenas o abraçou forte, se colando nele, fechando os olhos.
E Miguel, supremamente indiferente ao fato de que seu pai estava saindo, talvez
para nunca mais voltar, sonolento e bocejando, o olhou com olhos solenes, ao mesmo
tempo em que ele olhava ávido para o filho, o beijando suavemente nos lábios.
Melhor não pensar neles.
― Sim. Esta noite. ― ele disse, resolutamente. E sinalizou para seus homens, para
que se juntassem num canto.

***

Mais semanas cansativas tinham passado. O marechal Ney estava cercando


Almeida, e os oficiais franceses ainda em Salamanca, educados como tinham que ser para
com o prisioneiro, não podiam deixar de zombar do comandante em chefe, que não
mostrou nenhum sinal de correr para a sua assistência.
― Parece, ― Capitão Dupuis disse no jantar, uma noite, ― que o Visconde
Wellington estava totalmente dependente de você nos persuadir, para que tomássemos a
outra rota, senhor. Ele agora parece estar paralisado pela indecisão e consternação.
― Sim ― disse o capitão Blake, ― parece mesmo.
― Mas é mal-educado de minha parte me referir a essas questões, ― o francês disse
arrependido. ― Peço que me perdoe, por favor. Você já descobriu as delícias que as
senhoras espanholas têm para oferecer? É popular entre elas, sendo inglês, e sendo alto e
bem favorecido, também. Nós, franceses temos que pagar caro por seus favores, eu
imagino. ― O capitão Blake não usou dos favores, que poderiam ter sido seus, se os
pedisse. Embora por quê, ele não conseguia explicar. Certamente, a necessidade de uma
mulher lhe era forte. Caso contrário, não estaria tão obcecado por Joana, uma mulher que
ele tanto odiava e desprezava.
Ele a queria. Era tão simples... Ele a quis desde a primeira visão dela, naquele salão
de baile, em Lisboa. Podia lembrar de seus sentimentos naquela ocasião, do seu desagrado
antes mesmo que a tivesse conhecido, e antes mesmo de perceber que ela era Jeanne
Morisette, de sua dolorosa memória. Ele não gostava dela, porque era linda, cara e
privilegiada, porque estava muito além de seu toque e porque a queria.
Ele ainda a queria, apesar de sua aversão estar dez vezes mais intensificada; assim
como o seu desejo. Tendo experimentado o poder dos encantos dela direcionados
totalmente para ele, depois de a ter tocado e desejado mais do que um abraço indecoroso,
ele a queria com uma paixão crua, que, temia, nenhuma outra mulher poderia sufocar.
Talvez fosse por isso, que não tinha, sequer, tentado provar os encantos das
mulheres espanholas de Salamanca. Ele riu de si mesmo, embora sem qualquer diversão,
por querer tal mulher. Tudo o que deveria querer fazer a tal mulher seria a matar.
Mas ele não a queria matar, não queria que ela morresse, queria que... Bem, ele a
queria.
Aquele abraço atrás das videiras parecia a ter satisfeito por um tempo, ou
assustado. Mas ele realmente não acreditava nisso. Começava a acreditar que a Marquesa
das Minas não se deixava assustar tão facilmente. Ou, quem sabe, ela tivesse adoecido.
Ou ainda, talvez, não desejasse uma repetição do episódio. Embora, lembrando da
participação feroz no abraço e da respiração ofegante acompanhando a dele própria, ele
duvidasse disso. No que se referia à sexualidade, não havia nada de senhora recatada em
Joana da Fonte.
Fosse qual fosse a razão, ela não o tinha perseguido tão ativamente desde então.
Mas, também, nunca o ignorou. Sempre que o via sorria para ele, ou lhe levantava as
sobrancelhas, ou simplesmente o olhava e inclinava a cabeça. Ocasionalmente ela se
aproximava, sempre no braço de um oficial francês, para trocar algumas palavras com ele.
Nunca mais ficou sozinha com ele.
Claro, ele não a viu tanto, como tinha acontecido nesse primeiro mês. Ele havia
recusado um grande número de convites. Sempre tinha odiado grandes ocasiões sociais,
de qualquer maneira, mas tinha sido obrigado, por cortesia, a aceitar esses convites por
um tempo. Agora, se via inclinado a aceitar apenas aqueles que viessem de pessoas que
tinham sido especialmente gentis com ele.
O tempo estava começando a pesar, mais forte e pesadamente, sobre ele.
Ele iria recusar o convite para o jantar e recepção do coronel Marcel Leroux. Claro
que o faria, não podia suportar o homem. Supunha que, em nenhuma circunstância, ele
gostaria do homem que chefiou o interrogatório contra ele, que o obrigou a remover toda
a roupa, uma peça de cada vez, que dois sargentos revistavam a passo de caracol. Foi
difícil manter sua dignidade, e até mesmo o senso de identidade, que ele havia
encontrado, quando em pé, nu, sob o olhar de vários oficiais inimigos vestindo seus
uniformes completos.
Mas não foi apenas isso. Afinal o coronel só tinha feito seu trabalho. Havia
também o fato de que onde quer que ele visse Joana nestes dias, o coronel Leroux não
estava longe, e, muito frequentemente, ela estava inclinada sobre seu braço e espumando
para ele, como se todo o universo descansasse em seus olhos. Não era apenas flerte, ele
sentiu, havia algo mais grave do que isso. Não conseguia imaginar o que era. Mas parecia
razoável supor que deveria ser amor. Ela deveria estar caindo de amor pelo homem.
E o capitão Blake se viu desejando o assassinar, se desprezando pela sensação e
odiando o coronel por expor seus sentimentos, os quais ele recebia tão mal.
E tinha havido uma ocasião em que ele e o coronel ficaram cara a cara, na recepção
de alguém, ambos com um copo na mão, e trocaram gentilezas. Mas o coronel decidiu
falar.
― Eu confio que tudo está ao seu gosto em Salamanca, capitão? ― Ele perguntou.
― Sim, obrigado. ― O capitão Blake tinha dito. ― Eu fui deixado perfeitamente
confortável.
― Sim. ― O coronel sorriu calculadamente. ― Nós tratamos nossos prisioneiros
com respeito, como vocês fazem com os seus. Esperamos que nossos prisioneiros
possam retornar o elogio, é claro, e estender essa cortesia às nossas senhoras.
Capitão Blake levantou as sobrancelhas.
― Eu odiaria que houvesse qualquer desconforto, porque você se esqueceu de
observar essa regra, ― o coronel Leroux tinha dito. ― Acredito que não preciso dizer
mais nada, capitão.
O capitão Blake franziu os lábios. ― Oh, não é isso, absolutamente, ― ele tinha
respondido. ― Vejo que você tem medo da concorrência, coronel. Por favor, se sinta livre
para relaxar e perder o medo.
O coronel Leroux inclinou a cabeça para ele e seguiu em frente.
Um pequeno ponto. Um pequeno incidente. Mas o aviso tinha sido dado. E eles
tinham dado a cada um outro aviso, sem uma palavra de incivilidade, de que se odiavam
com paixão.
Sim, certamente ele teria recusado o convite. E ainda, no mesmo dia em que
chegou, veio uma carta perfumada com letras bordadas de elegantes mãos femininas.
Uma carta de Joana, o instando a participar.
― Eu preciso falar com você, ― ela escreveu, ― e você vem me evitando, homem
impertinente. Acredito que tenha medo de mim. Tem, Robert? Mas eu preciso falar com
você. O assunto é muito urgente, e eu sei que a sua galanteria e, sim, e sua demasiada
curiosidade o trará. Até amanhã à noite, então. Você vai estar lá? Não vai me deixar, não
é? Não há necessidade de responder a essa carta. Claro que não vai me deixar.
Durante vários minutos, ele bateu a carta na palma da mão tentando encontrar a
vontade e a coragem para fazer o que ele sabia que deveria fazer. Como poderia fingir que
ela não o tinha amarrado a uma corda, assim como a inúmeros outros homens, a menos
que pudesse resistir a correr assim que ela estalasse os dedos?
Muito urgente? Ela precisava de mais beijos, não é? Ela precisava ter certeza de que
ele ainda a desejava? Mas muito urgente? E se ela queria dizer mais do que isso?
Ele não relutou durante muitos minutos, não precisou desperdiçar seu próprio
tempo. Ele havia sentido, a partir do momento em que leu sua carta pela primeira vez,
que iria. Claro que iria. Por que fingir para si mesmo que talvez ele conseguisse resistir a
suas exigências?
Claro que ele iria.

***

Foi desesperador, para dizer o mínimo. Ela tinha deixado passar quase três
semanas. Não era para ser três, que ela tinha planejado. A ocasião da recepção do coronel
Leroux parecia apenas muito adequada. Mas, como não tinha ouvido nada de Duarte,
seria como ela esperava? Não havia como saber se ele estava perto, ou mesmo, se estava a
caminho. Não sabia se ele conseguiria entrar em Salamanca, para não mencionar tudo o
resto.
O plano, que parecia tão lógico para ela, quando ainda estava em Portugal, agora
parecia perigoso e arriscado ao extremo. E o problema era que, se algo desse errado, se
Duarte nunca viesse, então Robert é que sofreria. Mas, e se Duarte tivesse vindo, mas
tivesse sido capturado... Não, ela não se atreveria a imaginar isso.
A guerra era um negócio perigoso, se lembrou, e era uma jogadora ativa nela, nesse
momento. Ela só podia seguir em frente agora, e esperar que tudo desse certo, como
tinha planejado.
E assim, enviou sua carta para Robert, supondo que ele estaria na lista de
convidados do coronel. Havia uma grande fome de prisioneiros britânicos em Salamanca.
Todos, ao que parecia, o disputavam para lhe demonstrar a maior cortesia. Ele foi
convidado a todos os lugares, embora, ela notasse, ele não tivesse aceito nem mesmo a
metade de seus convites durante as últimas semanas, desde que ela o tinha levado ao
jardim e que a beijara daquela forma...
Daí a carta. Ela não podia correr o risco de que ele não fosse. E ainda assim,
estivera agoniada de dúvida e ansiedade, durante todo o dia da recepção, mesmo tendo
pensado longamente na carta, a fim de se expressar da forma mais calculada, para tornar
sua ida inevitável. Ela sabia que ele iria. O conhecia tão bem, como se estivesse a par de
seus pensamentos. Sempre soube o que ele estava pensando, o que era uma ideia
estúpida, ela admitiu, quando colocada em palavras.
Mas sabia que ele iria. E ainda havia aquela pequena dúvida. E se ele não fosse? E
se, nesta ocasião, dentre todas, ele não fosse? Bem, então, disse a si mesma, teria que
organizar algo para o dia seguinte. Ou o próximo. Ela tinha dito a Duarte três semanas, e
não fazia três semanas ainda. Ela nunca tinha estado ansiosa, antes. Não iria ceder a isso,
agora.
E assim foi, relaxada e sorridente, e muito vivaz, num de seus vestidos de
Marquesa, surpreendentemente rosa, que Joana chegou à casa onde o coronel recebia e
lhe permitiu que tomasse suas duas mãos para as levar, uma de cada vez, aos lábios. Só foi
possível suportar o contato, porque o imaginou morto, como ele estaria, quando
terminasse com ele.
― Jeanne, ― ele murmurou. ― Mais bonita do que nunca. Eu digo isso a cada vez
que a vejo?
Ela olhou para o alto, como que pensando. ― Sim ― ela respondeu, sorrindo. ― É
sempre verdadeiro, Marcel? Ou é apenas bajulação?
― Como você pode dizer isso? ― Disse ele, e seus olhos assumiram um olhar
intenso, que a vinha alertando desde uma semanas atrás que a crise estava chegando, que
um breve flerte não o seguraria de se aproximar mais dela. Talvez, por isso ela tivesse
esperado apenas um pouco menos de três semanas. ― Se você só vai permitir isso,
Jeanne, eu vou lhe mostrar o quão pouco as minhas palavras são lisonjas. ― Ele apertou
suas mãos com força.
Ela riu levemente e retirou as mãos das dele. ― Marcel, ― disse ela maliciosamente,
― você tem convidados para entreter. ― E olhou casualmente aos outros, sorrindo para
os homens que se viravam quando passava, e localizou o capitão Blake onde o esperava
ver, no canto mais sombrio da sala. Ela não fez nenhum sinal, mas desviou os olhos dele.
Joana se sentou ao lado do coronel no jantar, e comeu pouco, cada bocado,
aparentemente, do sabor e consistência de papelão, conversando alegremente com o
coronel de um lado e o general Doublier do outro e com os senhores e uma senhora, do
outro lado da mesa dela.
Depois do jantar, ela se permitiu ser escoltada para as salas de recepção e passou
uma hora inteira lá, em primeiro lugar com o coronel e então sem ele, circulando entre os
convidados, que eram predominantemente, como sempre, oficiais do exército francês. Ela
conversou, riu e flertou, e ficou longe do capitão Blake, que não fez nenhuma tentativa
para se aproximar.
E então, ela respirou profundamente algumas vezes, seu sorriso firmemente no
lugar, e atravessou a sala para tocar a manga do coronel Leroux.
― Jeanne. ― Ele se virou para ela, sorrindo. ― Achei que tinha sido abandonado,
por um dos meus inúmeros rivais.
― Marcel ― disse ela, olhando para seus companheiros ― uma palavra com você,
por favor.
Ele pediu licença e se afastou a uma curta distância com ela. ― Há algo errado? ―
Perguntou. ― Não. ― Ela sorriu timidamente. ― Eu não acho. Parece que está extraviado
um anel, embora eu tenho certeza que está bastante seguro. É só que eu não consigo
parar de pensar nisso. Era um anel de noivado, e me foi dado por Luís. É muito valioso.
Ele a pegou pelo braço e olhou para ela, com alguma preocupação.
― Eu estava usando quando saí de casa minha tia, ― disse ela. ― Sei que estava.
Lembro de o ver em um dos movimentos que tenho o hábito de fazer. Me recordo de
colocar as mãos nos bolsos da minha capa, de forma que o deixei de ver. Depois disso
não me lembro mais de o ver. Estou certa de que o anel deve estar no bolso da minha
capa.
― Vou mandar um criado ao andar de cima, sem demora ― ele falou.
― Eu me sentiria tão tola se alguém soubesse que fui tão descuidada ― disse ela. ―
Ele não tem preço, Marcel. Você iria...? Quer dizer, seria muito trabalho para você...?
― Para procurar? ― Perguntou. ― E ele respondeu, ― Claro que não, Jeanne. Você
sabe que eu faria qualquer coisa, para garantir a sua paz de espírito. O manto é rosa para
combinar com seu vestido? Por que você não vem comigo?
Mas ela recuou. ― Isto seria notado, ― disse ela. ― Nós saindo juntos e, talvez,
ficarmos afastados por algum tempo. E, talvez, o anel não esteja no meu bolso da capa.
Talvez tenha caído na carruagem.
― Vou olhar lá também, ― ele disse, apertando a mão dela. ― Você fique aqui,
Jeanne, e se divirta. Vou encontrar, não tenha medo. Vou estar de volta, antes que você
perceba.
Mas não tão cedo, ela esperava, ele saiu correndo da sala. Ele iria encontrar o anel
entre duas almofadas no carro. Mas a porta da carruagem estava trancada. Teria que
encontrar o seu cocheiro.
Assim que ele estava fora de vista, ela correu para a porta, onde havia dois
sargentos de plantão, um de cada lado. Ela falou com o maior dos dois.
― Quando o coronel Leroux retornar ― disse ela, ― você vai lhe dizer, por favor,
para me encontrar imediatamente. É muito importante que ele o faça.
― Sim, senhora. ― O sargento disse, atento.
― E você vá com ele, ― disse ela. ― E o seu companheiro. Vocês dois. Você
entendeu?
― Sim, senhora ― disseram os dois homens, e seus olhos se encontraram.
― O soldado de plantão na porta principal ― disse ela, olhando rapidamente em
todo o corredor. ― Ele os deve acompanhar. Terei necessidade de vocês três.
Ela passou para a sala de recepção, sem esperar por uma resposta, e olhou em
volta. Seu coração parecia como se tivesse pulado em sua garganta. Sorriu vagamente para
um homem grande, com bigodes, que estava vindo em direção a ela, e correu pela sala até
o canto. Robert estava falando com outro capitão. Ela sorriu docemente.
― Robert ― disse ela, tocando seu braço, ― Eu preciso falar com você. Nos
desculpa, capitão?
Ele veio com ela sem uma palavra, e sem protestar. Isso foi um alívio, pelo menos.
Havia tão pouco tempo. Ela o levou da sala, pelo corredor até o que ela sabia ser um
escritório. Pegou uma vela de um aparador, quando passou, e a levou junto com ela.
― Feche a porta, ― ela o instruiu e ele obedeceu, os olhos sobre ela todo o tempo.
Ela o olhou rapidamente, enquanto colocava a vela em cima da lareira. Uma grande
mesa estava repleta de papéis. Uma mesa de carvalho, com cantos afiados. O centro do
escritório era muito espaçoso.
E ela olhou para ele, de pé ao lado da porta, com as pernas ligeiramente afastadas,
as mãos cruzadas atrás dele. Havia algo de muito familiar no seu casaco verde gasto, com
a espada brilhando na bainha ao seu lado. Somente as botas eram novas e brilhantes, o
mesmo cuidado que ele dava às suas armas. Seu rosto era severo, sem sorrir. Seu cabelo
tinha crescido mais uma vez no cativeiro e enrolava tentadoramente, sobre o colarinho.
Seu coração rodou, e ela soube, novamente, uma verdade que ainda não havia
colocado em palavras. Não podia se dar o luxo de o fazer. Ela tinha um trabalho a
realizar. E este foi o mais difícil, a parte mais comovente de todas. Ela não o podia fazer,
pensou por um segundo. Mas ele estava tão infeliz, tão ansioso para estar de volta com os
seus homens, ela pensou imediatamente, depois. E Arthur tinha pedido a ela para tentar
devolver a sua liberdade, se ela pudesse.
Oh, sim, ela podia.
Sorriu lentamente para ele. ― Robert ― ela disse suavemente, ― você está me
evitando.
― Você tinha algo, muito urgente, para me dizer ― ele falou, sem se mover. ― O
que é isso, Joana? Como posso ser útil a você? Ou é uma farsa? Ainda está tentando me
fazer apaixonar por você? Se torna tediosa. Se for só isso, então eu devo pedir para ser
dispensado, sem mais delongas.
Não, não é assim que funciona. Ou talvez fosse. Ela tinha grande confiança em
seus encantos, mesmo com o capitão Robert Blake. Mas levaria muito tempo. É evidente
que ele havia fechado seu coração para ela. Tentou, imediatamente, o seu segundo plano.
Seu sorriso desapareceu, ela olhou para ele com os olhos assombrados, e seu lábio
inferior tremeu. ― Robert ― disse ela, ― você tem que me ajudar. Oh, eu sei que me
odeia, e eu sei que mereço o seu ódio dez vezes, mas não há ninguém que me possa
ajudar. Não tenho ninguém mais a quem recorrer.
Seus olhos se tornaram mais hostis, e ela sentiu uma pequena pontada de medo em
seu estômago. O medo de ficar sem tempo.
― Eu não sou uma espiã, ― disse ela. ― E não tinha a intenção de arruinar seus
planos, Robert, e trair seu país. Eu simplesmente respondi às perguntas do general Valéry
sinceramente, não percebendo que eram uma armadilha, e então ele o trouxe para a sala e
eu percebi isso. E reagi, como sempre faço, quando confusa. Fingi que pensava que tudo
era divertido. Não me sinto assim, Robert. Eu sou meio-inglesa. E o meu marido era
Português. ― Sua voz vacilou. ― Você é inglês.
― Meu Deus. ― Ela podia ver seu rosto endurecer com raiva, mas ele deu vários
passos para a frente. Aquilo foi algo pelo menos. ― Você espera que eu acredite em tal...
idiotice? Você, realmente, acha que pode fazer de cada homem um ingênuo? Será que
espera que nossa inteligência voe para fora do cérebro como a paixão voa? Qual é o seu
jogo, Joana? Por que me trouxe aqui? Eu não gosto de estar tão visivelmente ausente da
recepção, com você.
― Por que não? ― Ela tocou o peito levemente, e senti seus músculos se
contraírem. ― Você não se importa comigo, Robert? Nem mesmo um pouco?
― Você sabe o interesse que tenho em você ― disse ele. ― Todos os meus outros
sentimentos são desprezo, Joana. E não gosto disso, porque não vou permitir que meu
corpo governe minha cabeça, só porque você é uma mulher bonita e tem o dom de
seduzir mais homens do que qualquer outra mulher que conheci. Há muitas outras
mulheres a quem eu possa cobiçar e de quem posso receber mais satisfação. Não havia
nenhum assunto urgente, então?
Ela engoliu em seco e olhou em seus olhos, com toda a sua alma real, sem máscara
alguma. Ele estava tão desesperado!
― Eu o amo ― ela sussurrou para ele, e as lágrimas se formaram em seus olhos. ―
Eu sei que você não vai acreditar em mim. Eu sei que estou apenas me abrindo e
aumentando o seu desprezo. Mas é verdade. Eu o amo.
Ele olhou para ela com uma incredulidade que feriu cruelmente, já que não havia
nenhuma máscara para tirar. ― Cristo! ― Disse. ― Eles queimam pessoas como você,
você sabe. Bruxas. E demônios.
Ela colocou sua testa contra o peito dele e inspirou seu calor, e seu cheiro. E ela
levantou a cabeça e olhou para ele, com os olhos desmascarados.
― Joana. ― Ele agarrou seus braços em um aperto doloroso. ― Pare com isso
imediatamente. Deus, mulher, pare com isso.
Ela deu um passo mais à frente, o tocando do joelhos aos ombros, e estendeu as
duas mãos sobre o peito dele. ― Me tire daqui, ― ela implorou. ― Quando você for, me
deixe ir também. Eu não quero viver aqui sem você. ― A porta se abria atrás das costas.
― Robert ― ela sussurrou.
― Deus ― disse ele, e ela podia ver que ele estava tão furioso que não tinha sequer
ouvido a abertura da porta, ― você é como uma febre em meu sangue, Joana.
― Devo ir, ― disse ela, com a voz tremendo novamente. ― Você me enganou para
vir aqui, não foi? Não há nenhuma senhora doente. Você quer me violentar? Vou gritar e
em seguida, haverá um escândalo terrível. Me deixe ir, Robert. ― E ela começou a lutar
violentamente contra as barras de ferro das mãos dele, observando ao mesmo tempo, o
olhar vazio de surpresa e incompreensão em seus olhos.
Mas nem o vazio nem a incompreensão duraram muito tempo. E viu que estava
certa ao estimar que seriam necessários quatro homens; não soube, depois, como ficou
em silêncio ao lado da mesa, morrendo um pouco a cada golpe. Ele facilmente teria dado
conta tanto do coronel Leroux, como do maior dos sargentos, e muito possivelmente
teria saído em cima de uma luta contra três deles. Mas depois de vários minutos de luta
silenciosa, desesperado, ele finalmente foi dominado e mantido por todos os três guardas,
cuja presença ela tinha exigido, enquanto o coronel lhe batia à vontade, com os punhos.
Capitão Blake não perdeu a consciência. Nem tirou os olhos dos de seu adversário,
mesmo quando ficaram inchados, quase cegos. Ele não fez nenhum som exceto
grunhidos, quando punhos batiam em seu estômago.
Joana se sentiu como se cada golpe houvesse sido sobre ela. Eles o iriam matar.
Eles não se conteriam até que o tivessem matado.
― Marcel ― disse ela. ― É o suficiente. Por favor.
O coronel Leroux interrompeu imediatamente, e se virou para ela. ― Jeanne, as
minhas desculpas ― disse ele. ― Você deveria ter deixado a sala. Isso não é vista para uma
senhora.
Ele com os dois olhos injetados de sangue, dificilmente visíveis entre as dobras
inchadas de carne. Ela fechou os olhos e voltou a cabeça para trás, rapidamente. Os três
soldados ainda o mantinham.
― Eu acreditava que ele ― disse ela. ― Ele disse que havia uma senhora aqui
desmaiada e que eu deveria vir. Eu fui muito tola.
O coronel assentiu para um dos sargentos, que foi desafivelando o cinto da espada
do capitão.
― Ele não vai lhe incomodar novamente, Jeanne ― disse o coronel Leroux. ― Eu
tenho um calabouço especial em mente, para o nosso camarada aqui, que eu
normalmente reservo para os nossos amigos espanhóis. Vamos ver se isso vai esfriar seu
ardor, capitão Blake.
Ele não disse nada, mas apenas continuou a olhar para Joana. Ela não teve
coragem de olhar para trás novamente, mas sentiu os olhos ardendo pela consciência
pesada.
― Sua liberdade condicional, Marcel ― disse ela.
― Ele quebrou a liberdade condicional ― o coronel disse duramente. Ele apontou
o polegar para os soldados, num gesto que era tão familiar nos pesadelos de Joana, que
ela sentiu todo o sangue se esvair de sua cabeça. ― Leve-o embora. Tente evitar perturbar
os meus convidados com a visão dele. Eu estarei com vocês em poucos minutos.
― Oh, céus ― disse Joana, sua mão alcançando a borda da mesa. ― Eu acredito
que vou desmaiar. ― Foi uma boa atuação, ela percebeu depois. Exceto que ele tinha um
ato todo.
Capítulo 16
Ele tinha estado lá por cinco dias, talvez mais. Foi difícil medir o tempo onde não
havia a luz do dia. Tudo o que poderia assumir era que durante os longos períodos de
tempo, quando ninguém vinha até ele, que deveria ser noite, e que, durante os tempos em
que homens brutos lhe levavam restos escassos de alimento e água com mau gosto,
deveria ser dia. Cinco dias, então. Talvez seis. Ele já não estava vinculado à liberdade
condicional. O pensamento lhe trouxe uma irônica diversão, ao pensar nos momentos em
que tinha desejado apenas uma solução para que pudesse empenhar sua mente e energia
para escapar. Escapar! Seria difícil, mesmo, escapar de um calabouço subterrâneo de
pedra, cuja porta sólida e única, nunca era aberta, exceto quando vinham os bandidos,
dois a agir de guardas e três para o trabalhar.
Deveria ser noite, agora, pensou o capitão Blake, ou o início da noite. Um pão
tinha sido empurrado entre as barras da grade da porta, e caiu no chão imundo, umas
duas horas antes, e sabia que longas horas se passariam antes que pudesse esperar mais.
Então, tentou relaxar sobre a placa nua, que era sua cama. Longos anos como soldado
haviam lhe ensinado a suportar quase qualquer desconforto, e dormir sob quase todas as
condições. Ele precisava de descanso. Em seguida, descansaria.
Esticou as pernas doloridas e pungentes, e percorreu com as mãos as costelas
machucadas e, talvez, estaladas, e colocou o braço sobre os olhos inchados e injetados.
Passou a língua nos lábios que estavam, também, inchados e cortados. Felizmente, muito
felizmente, nenhum dos seus dentes tinha sido quebrado... ainda. O resto se curaria,
talvez, a menos que o coronel Leroux o planejasse matar. O coronel tinha aparecido, em
pessoa, só naquela primeira noite, quando tinha sido levado de sua casa, depois de “surrar
o capitão insensível.”
Pelo menos, pensou o capitão Blake, ele não havia sido torturado. Além dos
espancamentos. Não considerava aquilo tortura. Ele havia sido espancado antes. Houve
lutas que ele tinha perdido, embora não muitas delas nos últimos anos, desde que o seu
peso tinha se equiparado à sua altura e desde que ele tinha sido comissionado para as
fileiras dos oficiais.
Tentou dormir, mas a placa tornou difícil. Ele tentou, então, o chão duro. Estava
frio, e estava acostumado ao frio. A dor estava por toda parte, mas estava acostumado à
dor. Ele tinha sido enganado por ela, feito de bobo para o final idiota. Cristo, ela o tinha
feito de bobo. Apesar de toda sua aparente incredulidade, ele se sentiu começando a se
afogar na sinceridade de seus olhos. Sinceridade!
Eu o amo.
Ele virou a cabeça para o lado e fez uma careta. Senhor Deus! Eu te amo. Ela tinha
feito isso com ele duas vezes, uma vez, quando ele tinha dezessete anos e poderia ser
desculpado por cair nessa história, e agora, quando ele já tinha vinte e oito anos e estava
mais sensato, mais mundano. Não que ele tivesse caído muito neste momento, mas
mesmo assim... Mesmo assim, tinha ansiando por ela, mesmo sabendo quem e o que ela
era.
Era uma mulher perigosa, aquela que usou seus encantos femininos com intenção
tão mortal quanto um homem pode usar sua espada.
Ele tentou, como tinha tentado, por cinco dias e noites, ou eram seis? A tirar de
sua mente, para que pudesse dormir. Mas ele poderia perdoar o coronel Leroux e seus
capangas, mais facilmente do que a poderia perdoar. Pelo menos o coronel achou que
tinha uma boa razão para o punir, mesmo que a punição fosse um pouco excessiva. Mas
ela? Que razão tinha ela para fazer o que fez? Ele já tinha estado em cativeiro. Não
poderia haver uma única razão. Embora tivesse admitido a atração física por ela, e tivesse
agido de acordo, mais de uma vez, ele não se deixou adular ou seguir, ou se tornar seu
escravo.
Parecia que ela precisava escravizar os homens, e ele se recusou a ser escravizado.
E então teve que ser punido. Ele se perguntou se ela sabia sobre este calabouço e sobre
todas as surras extras, desde a que ela tinha testemunhado naquela noite. Ele se
perguntou se ela estava satisfeita, se já havia deixado de pensar nele agora.
Ele desejou ter apenas quinze minutos, dez, para poder colocar suas mãos nela.
A chave foi chacoalhada na fechadura da porta de sua cela, e ele fez algumas
respirações profundas e firmes, sem se mover. A porta sempre era aberta por uma razão.
Inferno! E ele pensou que era de noite. Talvez fosse. Talvez eles estivessem indo para
começar durante as noites, agora.
― Você! ― Uma voz ordenou.
― Vá para o inferno, ― disse ele automaticamente. Uma coisa que eles ainda não
haviam quebrado era o seu espírito, e o pretendia manter assim.
― Você tem que vir ― disse a voz. ― Agora. Ordens do general. Não há tempo a
perder. ― Vamos? Para fora da cela. Jesus, pensou ele, e lutou para manter o controle de
sua respiração. Tortura.
Jesus, ele rezou em silêncio, me ajude a não lhes dar a satisfação de quebrar.
― Em seus pés, você. ― A voz de um soldado, o capitão Blake notou, de repente,
que parecia nervoso. Mas, então, o homem ficou de lado e a cela pareceu se encher com
eles. Era algo a que estava familiarizado, com a exceção de que todos eles estavam à volta
dele, e ele podia ver à luz de algumas tochas no corredor do lado de fora, que todos
usavam mosquetes apontados para ele.
Ele ficou lentamente em pé.
― Mãos na cabeça, ― um deles latiu para ele.
Ele obedeceu lentamente, franzindo os lábios e olhando para o Barker. E, em
seguida, um deles se adiantou e tomou seus braços e os amarrou firmemente em suas
costas. Então, os mosquetes lhe foram cutucando, pelo menos eles não tinham baionetas
atreladas, pensou ele, e estava sendo obrigado a sair no corredor.
Mesmo que fosse noite, à luz de tochas, enquanto ele ainda estava dentro da cela, a
luz vinda da lua e das estrelas, quando saiu ao ar livre, quase o cegou e feriu seus olhos
como mil demônios. Ele foi marchando ao longo de uma rua, em torno de uma esquina,
e ao longo de outra rua, para uma casa familiar, a do general Valéry. Ele foi empurrado
para dentro.
Bem, pensou, perguntando se havia um único ponto em seu corpo que não doía, o
general deve ter acabado o entretenimento para seus hóspedes. O prisioneiro iria, agora,
se tornar um artista. Encantador!
― Agora deixem aí mesmo, ― disse alguém falando francês com forte sotaque
espanhol, logo que ele entrou no corredor da casa com os guardas. ― Sim, em uma pilha
bem ali. ― Houve um barulho de mosquetes caindo atrás dele. ― Eles falaram com
alguém, Emílio? E não tiveram nenhuma chance para carregar suas armas? Boa. E este é
ele? ― O orador mudou para espanhol e apontou para o capitão Blake. ― Passo desta
forma, señor, por favor.
Capitão Blake olhou em volta e notou pela primeira vez que um dos cinco homens
que o tinham levado para ali não estava vestido com o uniforme de um soldado francês.
O homem sorriu.
― Só a minha arma estava carregada, señor ― disse ele, com um encolher de
ombros ― e foi treinada nos porcos franceses, não em você.
O capitão Blake olhou para trás para o primeiro homem que falara, que lhe estava
apontando a porta aberta da sala de estar, na qual ele havia sido entretido em mais de uma
ocasião.
O homem usava um lenço por cima da sua boca e nariz.

***

Quatro dias se passaram após o incidente na recepção do coronel Leroux antes de


Joana ouvir de Duarte. Ela estava quase ao ponto do pânico, mas passou seus dias como
antes, passeando na esplêndida Plaza Mayor, rodeada por sua corte de admiradores,
montando ao longo da ponte romana com eles, participando de entretenimento noturnos,
e sempre sorridentes e feliz, a flertar.
Ela canalizou seu charme com particular vigor no próprio coronel Leroux, e até
mesmo lhe permitiu um beijo nos lábios fechados, quando ele a levou para casa uma
noite. Ela pensou que morreria, mas passou uns poucos segundos antes de ela o empurrar
suavemente para longe, e sorriu com ar sonhador para ele, imaginando o rosto morto.
― Jeanne, ― ele disse a ela, segurando suas mãos, ― machuquei você? Peço
desculpas se eu tiver. Mas deve saber como me sinto sobre você.
― Devo? ― Ela olhou para ele com grandes olhos inocentes.
― Você deve saber que eu a amo ― disse ele, com seus olhos ardentes. ― Eu fiz
muito esforço para disfarçar o fato. Diga que você não é indiferente a mim.
― Marcel ― Seus lábios se separaram, quando ela olhou nos olhos dele. ― Eu não
sou indiferente a você. Oh, não, você sabe que eu não sou. Mas não me obrigue a dizer
mais nada. Isso está indo muito rápido, eu creio.
― Qualquer dia ― disse ele, pegando sua mão e a segurando perto de seus lábios,
― Almeida vai cair e o avanço em Portugal começará. Talvez eu não a veja por várias
semanas ou mesmo meses, depois disso. Me perdoe pela pressa, Jeanne. Os soldados não
são os mais pacientes dos homens, eu temo.
― Se você for forçado a sair com pressa ― ela disse, levando a mão livre sobre seu
pulso, ― então, talvez eu seja convencida a dizer mais, Marcel. Mas ainda não.
Ele beijou sua mão.
Um mensageiro de Duarte, um espanhol de mão fina e não muito limpa, que veio
para a cozinha para entregar os ovos, chegou no quarto dia. Duarte precisava saber que
tudo tinha corrido conforme o planejado, até agora. E ele precisava saber a hora e o lugar.
Por sorte, era para acontecer um jantar na casa do general Valéry na noite seguinte, a que
tanto Joana como o coronel Leroux tinham sido convidados. Também sorte foi o fato de
que era para ser um jantar íntimo, em vez de uma grande festa, com não mais de uma
dúzia de convidados.
Dez horas da noite do dia seguinte, disse o espanhol. Na casa do general Valéry.
Naquela noite, ela permitiu que o coronel Leroux a beijasse novamente, e sorriu
calorosamente para ele, quando disse a ela, mais uma vez, que a amava, e abriu a sua boca
como se para retornar as palavras, mas a fechou e sorriu, se desculpando.
O jantar na noite seguinte parecia interminável, e novamente, a comida parecia ser
feita de papelão. Joana ouviu a sua própria voz e sua risada como se estivesse observando
de longe. As outras duas senhoras presentes eram muito mais silenciosas. Estava sentada
ao lado do coronel Leroux, pareciam ter sido aceitos como um casal, embora os outros
oficiais, certamente, não tivessem diminuído as atenções para com ela.
Eram quase nove e meia, ela viu com um olhar nervoso para um grande relógio no
corredor, quando foram para a sala de estar. Seu coração batia tão rápido, que ela estava
se sentindo sem fôlego. Estava rindo muito, pensou. Mas estava sempre rindo, pareceria
estranho se parasse.
Não havia relógio na sala de estar, e a meia hora se arrastou. Certamente uma hora
inteira deve ter passado, ela pensou, e um pouco mais tarde estava certa de que deveria ter
sido assim. Madame Savard havia mesmo sugerido ao coronel, seu marido, que era hora
de sair.
E então Joana pensou ter ouvido barulhos, no corredor além da sala de estar, e
estava certa.
A porta da sala se abriu.
Devia haver pelo menos uma dúzia deles, porém, quando tentou contar, descobriu
que sua mente não estava funcionando racionalmente. Havia mais os que permaneceram
no corredor. Todos usavam lenços protegendo os rostos, e teria sido difícil os
reconhecer, de qualquer maneira. Mas ela se sentiu em pânico, quando percebeu que
todos eles eram estranhos. Ela não reconhecia um só membro do bando de Duarte entre
eles.
E então viu Duarte, e se sentiu aliviada, antes que a tensão e o perigo do momento
se fizesse sentir, novamente. Talvez cinco segundos se passaram, talvez não tantos, desde
que a porta se abriu.
Uma das outras senhoras, talvez ambas, estava gritando. Os homens tinham todos
se levantado. Joana sentiu seu braço ser agarrado e foi puxada firmemente, para trás do
coronel Leroux.
― Fique exatamente onde você está, ― disse uma voz que falava o francês com
forte sotaque, e Joana viu uma grande montanha de homem, seu selvagem cabelo preto
sobre os ombros, os olhos escuros, fanático. ― Move um músculo e você morre.
― E quero todas as armas que transportam.
― Faça o que lhe é dito ― disse o homem grande ― e ninguém vai se machucar. ―
o general Valéry deu um passo para a frente, e algo explodiu aos seus pés.
― Esse é o seu aviso de que somos sérios, señor ― disse o espanhol. ― Viemos por
um inglês. Capitão Robert Blake.
― Eu nunca ouvi falar dele ― disse o general. ― Os ingleses estão em Portugal.
― Você o vai buscar, por favor ― disse o guerrilheiro. Ele riu. ― Ou se não quiser.
Aqui está um sargento. ― Um entrou pela porta, os braços erguidos acima da cabeça, um
mosquete em suas costas. ― Mande que vá.
O general franziu os lábios. Uma das senhoras gritou novamente, e foi
imediatamente silenciada.
Duarte deu um passo adiante, e Joana sentiu sua respiração aumentar
irregularmente. Ele olhou diretamente para ela e apontou um dedo para ela. ― Você ―
disse ele. ― Venha aqui.
― Deixe a senhora quieta, seu bastardo covarde ― disse o coronel Leroux.
― Venha aqui. ― Duarte manteve os olhos em Joana e ignorou o coronel. ― Fique
onde está, Jeanne, ― o coronel ordenou.
― Venha aqui.
Joana jogou a cabeça para trás e saiu de trás do coronel. ― Eu não tenho medo
dele ― disse ela. ― Você vai descobrir, monsieur, que as francesas não recuam facilmente
antes a escória. ― Ela deu um passo para a frente, pouco antes que o braço do coronel
sair para a impedir.
No momento seguinte, ela havia sido puxada e virada, suas costas contra Duarte, o
braço apertado sobre seus ombros, uma faca em sua garganta. Ela podia sentir a borda
afiada contra sua carne nua, quando engoliu. Ele tinha matado com essa faca. Ela sabia
com nitidez.
― Eu sugiro, monsieur ― ele disse em voz baixa, se dirigindo ao general Valéry ―
que envie alguém para buscar o inglês, sem demora. Minha mão pode ficar instável,
depois de um tempo. E estou certo de que a sua digestão e a de seus convidados não seria
ajudada pela visão do sangue da senhora. ― Ele olhou de soslaio para baixo em Joana. ―
E uma linda senhora, também.
Joana fechou os olhos, a cabeça apoiada no ombro de Duarte, a lâmina da faca
raspando sua garganta. Muito pouco foi dito durante os intermináveis minutos que se
passaram, depois de que o sargento francês tivesse sido enviado para realizar sua missão,
presumivelmente sob guarda. Todos eles estavam como estátuas, os guerrilheiros
mascarados em um lado da sala, todos eles, exceto Duarte, com armas de fogo apontadas,
os franceses do outro lado. Ao coronel Savard foi concedida a permissão para que sua
senhora se sentasse.
― Você não vai conseguir se sair com isso, ― o general Valéry disse depois de
alguns minutos. ― Será que não, señor? ― A montanha de homem perguntou
educadamente.
― Eu vou matar você ― o coronel Leroux disse firmemente, alguns minutos
depois, olhando fixamente para Duarte. ― Será que vai, senhor? ― Duarte perguntou
educadamente.
Esse foi o ponto alto da conversa.
E então, ouviram vozes no corredor, e o barulho de armas caindo. Joana prendeu a
respiração. Ela voltou os olhos para o lado, não se atrevia a mover a cabeça, e em poucos
segundos ele apareceu.
Ela se traiu na respiração afiada. Ele estava quase irreconhecível, parecia magro,
certamente tinha perdido peso, mesmo em cinco dias, e sujo. Seu cabelo estava um loiro
mais escuro do que o habitual, e tinha barba nas bochechas e queixo. Seu rosto, cada
parte dele, estava inchado e ferido. Mas, certamente, em cinco dias, ele teria se recuperado
um pouco da surra, quando tinha estado em cruel desvantagem, graças a ela.
A verdade tomou conta de Joana, e ela fechou os olhos novamente.

***

A primeira coisa que ele viu, embora fosse instantaneamente cientes de todo o
quadro, era Joana, de costas com força contra o peito de um dos guerrilheiros
mascarados, a lâmina de uma faca encostada em sua garganta. Seu primeiro instinto tolo
foi correr para a frente em sua ajuda, embora seus braços ainda estivessem amarrados
atrás das costas. Mas no mesmo momento ele reconheceu Duarte Ribeiro, e além dele, a
forma montanhosa de Antonio Bécquer.
Que diabos? ele pensou. Joana tinha fechado os olhos, mas ele não acreditava que
tivesse desmaiado. Ele sentiu uma relutante admiração por ela, corajosa mesmo nessas
circunstâncias terríveis.
― Ah, señor ― disse Antonio Bécquer, olhando para seu rosto rapidamente, ― Eu
vejo que os porcos franceses têm utilizado o seu rosto como uma bola de perfuração.
Eles não fizeram nada para melhorar sua aparência. ― Ele riu. ― Livre suas mãos. ― Ele
acenou para alguém atrás do capitão, e poucos momentos depois, os braços de Robert
estavam livres e ele estava esfregando os pulsos e olhando com cautela para eles.
― Estaremos os deixando, señores e senhoras, ― Bécquer disse, também olhando a
todos na sala, ― agora que temos o que queremos. Ninguém foi ferido, vêem? E ninguém
vai se machucar se vocês não tentarem nos perseguir ou soarem o alarme contra nós.
Um coronel francês riu.
Duarte Ribeiro falou, e os olhos do capitão Blake se voltaram para Joana. ― Se
existir perseguição, ― Duarte disse, e ele sorriu desagradavelmente para Joana, ― algum
dano pode vir a acontecer com a senhora.
Capitão Blake a observou fechar os olhos novamente e engolir. E ele sentiu uma
afluência de exultação. Sim, claro, esses homens precisariam de um refém. E quem
melhor do que Joana? Ah sim. Talvez ele fosse receber seus quinze minutos com ela,
afinal. Talvez mais.
O coronel Leroux deu um passo para a frente, e imediatamente meia dúzia de
mosquetes foram colocados em seu peito. ― Deixe que ela fique ― disse ele, com a voz
tensa. ― Se você deve ter um refém, me leve em seu lugar. ― Antonio Bécquer riu
gostosamente. ― Mas quem iria pensar duas vezes em um coronel com um tiro de bala
entre os olhos, quando a alternativa seria a de capturar um bando de guerrilheiros
espanhóis e um oficial britânico que escaparam? ― disse. ― Se lembrem, señor, señores, que
a senhora morre, se alguém tenta evitar que nós deixemos Salamanca.
― Marcel ― disse Joana, e o capitão Blake sentiu uma pontada de admiração
novamente, quando não ouviu um tremor de medo em sua voz, ― eu não tenho medo
deles. Você vem depois, atrás de mim?
― Não tenha medo de outra forma, Jeanne ― disse o coronel, as mãos abrindo e
fechando em punhos aos seus lados. ― Esta é agora a minha guerra pessoal. O homem
que te prende vai morrer lentamente. Cada outro homem vai morrer, incluindo o capitão
Blake.
― Venha depois. ― disse ela, e olhou através da sala, não vendo ninguém, além do
coronel. Sua voz caiu quase num sussurro. ― Eu o amo.
― Muito afetado ― Duarte disse, quando os outros partidários se retiraram da sala.
Capitão Blake ficou onde estava até que Antonio Bécquer o pegou pela manga. ―
Vem, señor ― disse ele. ― Viemos por você. Não nos diga agora que está relutante em sair.
Duarte estava recuando lentamente da sala, o último a sair, a faca ainda na garganta
de Joana. Seus olhos estavam abertos, o capitão Blake viu, e eles se viram. Ele sorriu
lentamente para ela, embora duvidasse que seu rosto danificado registrasse sua expressão
como um sorriso.
― Então, Joana ― disse ele, ― voltamos a ser companheiros de viagem por um
tempo. Como será agradável para mim! ― E ele virou e foi para o corredor. O único
espanhol desmascarado, o único que o tinha acompanhado da prisão, estava segurando a
espada para ele em uma mão e seu rifle na outra. Ele estava sorrindo, como se os tivesse
conjurado do nada.
― Você não vai querer ficar nu em suas viagens, señor ― disse ele. O capitão sorriu
de volta.
― Você vai se arrepender ― Joana estava dizendo em voz clara atrás dele. ― Você
fez um poderoso inimigo esta noite, monsieur. Ele virá atrás de mim, você vê. Ele não vai
descansar até que me tenha encontrado e resgatado, e o matado.
O capitão Blake havia colocado a espada em seu cinto, com dedos frouxos, e
também, por Deus, inteiro; mas ele estava dolorido, e sobretudo, admirado da estranha
sorte que tinha trazido tanto Antonio Bécquer, assim como Duarte Ribeiro, a Salamanca,
para o resgatar. E pela primeira vez, ele abençoou a mulher que, inadvertidamente, o
tinha ajudado a se liberar de sua liberdade condicional. E ele exultou com a oportunidade
de que ela tivesse sido feita de refém.
Joana da Fonte, a Marquesa das Minas, iria lamentar o dia em que nasceu, antes
que tivesse terminado com ela, ele decidiu.
Em questão de segundos, eles estavam todos fora da casa e se tinham dividido.
Pelo menos metade dos partidários se desvaneceu na escuridão. A razão para as máscaras,
capitão Blake adivinhara, era que vários dos homens realmente viviam em Salamanca.
Eles foram os únicos que não tinha reconhecido. Os outros seguiam em um ritmo
acelerado, pelas ruas escuras da cidade. Não era fácil se manter assim, quando todos os
ossos do seu corpo doíam, mas foi o que ele fez. Ele estava, afinal, acostumado à dor.
A faca de Duarte Ribeiro tinha desaparecido. Ele tinha um braço em torno da
cintura de Joana, apressando-a junto com eles. O capitão Blake se manteve atrás deles.
Ele não quis arriscar que ela escapasse, e com Joana nada era impossível. Se ele tivesse
que a levar, a cada polegada do caminho, debaixo do braço ou pendurada no ombro, ele o
iria fazer. Não tinha a intenção de tirar os olhos de cima dela até que chegassem em
segurança, onde quer fosse, e ele pudesse lidar com ela depois.
Eles deixaram Salamanca a pé; encontraram os cavalos apenas quando chegaram a
um antigo mosteiro. E eles montaram toda a noite e na manhã seguinte, com frequência a
galope, sempre em um trote.
Joana ia atrás de Duarte, com os braços firmemente sobre sua cintura.
― Está tudo bem? ― Ele lhe perguntou, quando conduzia seu cavalo no pátio do
mosteiro. ― Eu estou bem ― disse ela. ― Por que você demorou tanto tempo, Duarte?
― Eu vim ― disse ele. ― Isso é o que importa.
― Eles virão atrás de nós ― disse ela. ― Ele vai, pelo menos. O coronel Leroux.
― Você realmente não o ama, não é, Joana? ― Perguntou. ― Senhor, era uma cena
muito comovente. Será que você tinha que dizer, sabendo que agora ele vai mover céus e
terra para a salvar?
― Eu tive que os convencer de que eu estava relutante em vir ― disse ela. Tinha
decidido que não contaria a Duarte, quem o coronel Leroux era. O prazer de o matar ia
ser todo dela. Não negaria a si mesma isso. Não depois de ter sofrido por esse privilégio.
Pensou nos beijos do coronel e estremeceu.
Não havia nenhuma possibilidade para mais conversa. Não havia nenhum sinal de
perseguição, mas eles tinham que alcançar as montanhas e Portugal, antes que pudessem
respirar com facilidade.
Foi uma noite longa. No início, ela estava fria. Mais tarde, ela estava fria, e dura, e
dolorida. Eventualmente, ela estava fria, e dura, e dolorida, e cansada. Muito, muito
cansada. Algumas vezes, ela até cochilou, até quase dormir.
― Morda seus lábios, ― seu irmão disse a ela, quando sentiu seus braços escaparem
de sua cintura, mas os acomodou de volta. ― Flexione os dedos dos pés. Abra a boca e
inspire ar. Cante. Fique acordada, Joana.
― Oh, eu irei, ― disse ela. ― Não tema.
E ela concentrou sua mente sobre o cavalo e seu cavaleiro logo atrás deles. Sempre
logo atrás. Amanhã, em apenas algumas horas, ela estaria livre para lhe contar tudo. E ela
iria ajudar a cuidar de suas feridas. Haveria ferimentos em seu corpo também? Ela
estremeceu com o pensamento, embora não com o frio, desta vez. Sim, obrigatoriamente
deveria haver. Eles não teriam trabalhado apenas seu rosto.
Ela iria banhar e enfaixar suas feridas, e pedir desculpas por ter sido a causa delas.
E ele a perdoaria. Uma vez que ele soubesse de tudo, ele a iria perdoar.
E depois... Joana tremeu novamente, com todas as possibilidades.
Ela havia dito algo a ele, pouco antes de ter causado aquela surra terrível e
selvagem. Ela havia dito por desespero, movida pela necessidade urgente de o atrair para
um abraço, antes que o coronel Leroux entrasse pela porta. Ela havia dito por desespero,
e ainda assim, ela se assustou com a verdade de suas palavras.
Talvez ela fosse capaz de as dizer de novo para ele. Talvez, ele fosse dizer as
mesmas palavras para ela.
Como seria agradável para mim, se ele dissesse. Ela estremeceu novamente. Mas é
claro que tudo seria diferente, uma vez que ela lhe contasse tudo. Ele saberia que ela tinha
feito tudo por ele, porque sua lealdade nunca tinha vacilado de estar com o país de seu
meio-irmão e o de sua mãe.
Ela podia sentir sua presença em suas costas, quase como uma mão grande e
ameaçadora.
Capítulo 17
Ainda era de manhã cedo, embora o sol tivesse aparecido há algum tempo, quando
eles chegaram em um desfiladeiro arborizado profundamente, entre colinas nuas e
escarpadas. Passaram dois homens de guarda, e o capitão Blake reconheceu um deles
como Teófilo Costa, e então, fizeram uma pausa, enquanto Duarte trocou algumas
palavras com eles, e depois, cavalgou para a visão bem-vinda de várias toscas cabanas,
construídas no abrigo das árvores. Ainda mais bem-vinda para o capitão era a visão de
um córrego borbulhando o seu caminho até sua garganta. Ele não tinha lavado, nem as
mãos, em quase uma semana.
― Portugal. Casa ― disse Duarte, uma nota de alívio e alegria em sua voz.
Mas os partidários espanhóis, que haviam cavalgado com eles recuaram. ―
Seguramente entregues, ― disse Antonio Bécquer. ― Agora temos de nos entregar com
segurança, pelas colinas do norte, señores, antes que os vingadores descubram os nossos
rastros. ― Ele saudou o capitão Blake e sorriu amplamente. ― Foi um prazer, capitão. Faz
um longo tempo desde que eu e os meus homens nos divertimos tanto.
O capitão estendeu a mão direita, e o espanhol a pegou num aperto forte.
― Eu não vou esquecer, ― disse o capitão. ― Obrigado, meu amigo. ― Ele
segurou o cavalo ainda, e viu os partidários cavalgarem para fora de sua vista, até uma
encosta. Eles não tinham, sequer, parado para um descanso ou para comer.
E então ele virou a cabeça para trás para ver uma multidão do bando de Duarte se
reunir em torno de seu líder, quando ele desmontou e alçou os braços para trazer Joana
para o chão. Ela colocou as mãos em seus ombros e deslizou ao longo de seu corpo até
que seus pés tocaram o chão. E, em seguida, ela abraçou seu pescoço e o beijou na
bochecha.
― Duarte, ― ela disse, ― você é maravilhoso. É tão bom sentir solo Português sob
os meus pés de novo. ― Ela olhou para os outros homens com um sorriso deslumbrante.
― Está tudo maravilhoso.
Duarte Ribeiro a pegou em um abraço apertado e a girou uma vez ao redor,
enquanto o capitão Blake observava, como se transformado em pedra. O diabo! Ela deve
ter estado sussurrando palavras doces em seu ouvido durante toda a noite, e ele tinha
caído sob seu fascínio, como todos os homens fizeram. Ele tinha caído, apesar de a
mulher mal-humorada e o bebê de cabelos escuros que ele tinha deixado para trás em
Mortágua. Todos os homens estavam caindo sob seu feitiço. Eles ficaram em volta
olhando e sorrindo.
― Não somos? ― Disse Duarte, olhando para ela com um sorriso e inclinando a
cabeça para a beijar firmemente nos lábios. ― Você me deve uma série de favores em
troca, Joana.
Ela sorriu para ele quase endiabrada, e se virou para enfrentar os outros homens. ―
Que cabana é a minha? ― Perguntou ela, ansiosa.
Capitão Blake sentiu sua mandíbula apertar. Ela provavelmente deveria esperar
uma cama de penas e um estojo cheio de perfumes e jóias dentro, também. Ela logo foi
correndo em direção à cabana mais próxima.
Ele desceu da sela, segurando-se para não estremecer, e não tendo certeza de que o
tinha conseguido. ― Ribeiro, ― disse ele bruscamente.
O líder do Ordenanza olhou em volta, com um sorriso. ― Você vai querer um
banho e fazer a barba, e uma refeição, e depois dormir um pouco, ― disse ele. ― Nessa
ordem? Há algum osso quebrado?
― Não, ― o capitão Blake disse, ― e nessa ordem, sim, por favor. Mantenha um
olho sobre a marquesa. Mais de um olho. Mantenha dez olhos nela. Ela não deve escapar.
O sorriso de Duarte virou um riso. ― Ela é um punhado, sim, ― disse ele. ― Você
percebeu isso também? Mas ela está mortalmente cansada e não vou a lugar nenhum
sozinho. Pelo menos, ela não vai tentar, se ela sabe o que é bom para ela.
Um dos outros homens Francisco Braga, tinha acabado de sair de uma outra
cabana e estava segurando sabão, uma toalha e uma navalha, para o capitão.
― Eu sinto, que não possamos fornecer água quente, ― disse ele com um sorriso.
― Mas essa água o vai acordar para o seu desjejum, pelo menos.
A necessidade de um banho e fazer a barba superou todas as outras necessidades,
que o capitão Blake tinha ansiado. Ele olhou inquieto a cabana em que Joana tinha
desaparecido, e em torno dele, na meia dúzia de homens que estavam lá para se prevenir
de sua fuga. Ela não seria capaz de o fazer. E se ela conseguisse de alguma forma fugir,
então ele iria atrás dela. Não havia nenhuma maneira na terra dela ficar longe dele, até que
a pudesse entregar na sede, para a prisão como uma agente inimiga.
― Obrigado ― disse ele, e pegou as coisas com gratidão, procurando um lugar
isolado, onde pudesse tirar suas roupas e tomar um banho tranquilo.
A água fria se mostrou na sua respiração, dez minutos mais tarde, quando ele
mergulhou em uma parte profunda do rio. Mas se sentia estranhamente bem apesar de
suas contusões, mais calmo, e depois, entorpecido. E o luxo de água e sabão na pele e seu
cabelo era mais delicioso do que ele poderia ter imaginado possível.
Ele raspou a barba com cuidado. Sua mandíbula estava ferida e machucada, seus
lábios ainda inchados. Mas ele se barbeou, com algum desconforto, claro, por causa de
não poder esfregar as mãos ao longo das mandíbulas e do queixo, para sentir a suavidade.
Depois, flexionou o ombro que tinha sido tão ferido no ano anterior. Ele não o sentia
mais endurecido do que o resto do seu corpo, o que, ele supôs, não queria dizer muita
coisa.
Ele flutuou de costas, se sentindo limpo e agradavelmente, todo frio, e se
maravilhou com a liberdade que manhã tinha trazido. Olhando em volta para as árvores,
os montes, e o céu azul, não teria pensado que a guerra não estava longe, de tudo ao
redor. Mas ele estava livre, pelo menos, livre para lutar contra o inimigo de novo, depois
de dormir algumas horas. Lhe ocorreu, de repente, que tinha o corpo cansado. E que
estava com fome, o suficiente para comer um urso. E Francisco Braga tinha dito algo
sobre o desjejum?
Ele nadou para fora da água, agitando os braços e as pernas antes de se secar,
esfregando seu cabelo, que tinha crescido mais do que ele tinha usado em anos. E, claro,
ele pensou, o inimigo estava na mão direita. Havia um inimigo a ser combatido nesse
mesmo dia. E ela estava ao seu alcance. O pensamento lhe trouxe uma energia renovada.
Ele caminhou de volta para o acampamento Ordenanza, assim que se vestiu.
E parou quando ainda estava a vários metros de distância. Ele não tinha percebido
que os homens tinham trazido uma mulher com eles. Ela estava usando um vestido azul
camponês desbotado, que chegava quase até os tornozelos, e sandálias de couro. Seu
cabelo escuro parecia uma nuvem ondulada sobre sua cabeça e ombros. Era pequena e
esbelta. O mosquete ia jogado sobre um dos ombros, parecendo ser pesado demais para
ela.
E então ela se virou e olhou para ele com olhos escuros num rosto bonito. Havia
uma faca enfiada em seu cinto.
Foi só quando ele olhou novamente para o rosto dela, espantado, que a
reconheceu. Cristo Todo-Poderoso! Ela estava olhando para ele, com cautela, mas
quando seus olhos se encontraram pela segunda vez, ela sorriu lentamente.
Joana! Que diabos?

***

Joana tinha saído da cabana, onde tinha deixado para trás a Marquesa das Minas,
para assumir, finalmente, o que ela esperava, fosse o seu lado definitivo, e jogou a cabeça
para trás, fechando os olhos.
― Ah ― disse ela para ninguém em particular, ― ar fresco e liberdade, liberdade
abençoada ―. E então, ela olhou em volta. ― Onde está Robert? ― Ela estava falando
para Duarte.
― Tomando um banho ― explicou. ― Imaginei que seria mais importante para ele
do que comer ou dormir.
― Ele vai me matar ― ela disse alegremente, ― a menos que eu possa explicar tudo
para ele, em primeiro lugar. Ele deve ter uma opinião terrivelmente baixa de mim, você
não acha? Eu o fiz ser preso, apenas para que ele pudesse ser liberado da palavra
empenhada. Eu não imaginava que ele seria tão severamente espancado.
― Ele não sabe nada da sua parte em tudo isso? ― Perguntou Duarte, fazendo uma
careta.
― Até onde ele sabe, sou uma refém, ― disse Joana. ― Ele não sabe que você é
meu meio-irmão. Não diga nada, Duarte. Quero lhe dizer, do meu próprio modo. ― Ela
riu levemente. ― A menos que ele me matar primeiro, claro.
― Eu não acho que a faca e arma são necessárias no momento, são? ― Duarte
apontou suas armas e sorriu.
Mas suas palavras apenas fizeram Joana proteger os olhos e os apertar olhando ao
longo do vale e admirando as encostas de onde tinham vindo.
― Ele quer vir me resgatar, você sabe, ― disse ela. ― E vai trazer os homens com
ele. Ele se imagina apaixonado por mim, estava prestes a me propor casamento. Eu sei,
posso sentir essas coisas. Ele virá, Duarte, e logo.
― Mas não em breve, ― disse ele. ― Ele não conhece este país como nós. E
Teófilo e Bernardino ainda estão de guarda. Haverá tempo para comer e para dormir por
algumas horas. Antes do anoitecer nós iremos embora daqui.
― Mas ele vai nos encontrar, ― disse ela, quase ansiosamente. Ele tinha que a
encontrar.
E então ela se virou ao ouvir pedras se deslocadas atrás dela. Robert estava parado
a alguma distância, parecendo bastante magnífico, pensou ela, com o rosto limpo e
barbeado, com o cabelo molhado e balançando ao vento. Seu rosto também parecia
como se tivesse saído do lado errado de uma luta, mas era um olhar que de alguma forma
reforçava a dura qualidade do soldado que era, exclusivamente sua, e a sua virilidade.
Ela sentiu-se consciente e nua com seu olhar. Ele nunca a tinha visto em suas
roupas de camponesa, com os cabelos soltos. E sabia que ele olhava incrédulo, para suas
armas. Ela estava com falta de ar, de repente, e particularmente incerta de si mesma.
Ela reagiu da única maneira que podia, em tais circunstâncias. Encontrou seus
olhos e sorriu. Foi totalmente contra sua natureza se sentir ansiosa.
Ele não sorriu de volta. Mas então, ela não esperava que ele o fizesse.
― O desjejum, Joana, ― disse Francisco Braga, segurando uma bandeja de madeira
para ela, sentado perto do fogo. ― E o seu, capitão. ― Ele segurava uma outra bandeja
para o capitão Blake. Duarte já estava comendo.
Ambos aceitaram as suas bandejas em silêncio e tomaram seus lugares, no chão ao
lado de Duarte. Joana estava entre os dois homens.
― Espero que a faca seja cega e o mosquete esteja descarregado, ― o capitão Blake
disse sobre sua cabeça para Duarte, como se ela fosse surda e muda, ou não entendesse o
português. ― Ela é uma refém, Ribeiro. Uma refém hostil. E se ela lhe contou um conto
sobre pertencer aqui e realmente ser fiel a sua causa, não acredite em uma palavra dela. A
mulher é incapaz de dizer a verdade.
Joana levou um pedaço de peixe à boca e o mordeu forte.
Duarte sorriu. ― Mas os pulsos das mulheres são fracos ― disse ele. ― E
mosquetes são notórios por nunca bater o que eles visam.
― No entanto, ― o Capitão Blake continuou ― Eu não gostaria de encontrar
qualquer um que aponta no meu estômago, a dois centímetros de distância. Mantenha
uma guarda sobre ela, Ribeiro. Eu o adverti que ela é perigosa.
Duarte deu de ombros e sorriu para sua meia-irmã. ― Talvez eu os leve antes de ir
dormir, Joana ― disse ele. ― Eu não iria, afinal, gostar de o ter rolando na ponta de sua
faca.
Não era o tempo para explicações. Ambos estavam muito cansados e tudo era
muito público. Ela iria sofrer a humilhação de entregar sua arma e faca, decidiu, e explicar
mais tarde. Estava muito cansada. Não acreditava já ter se sentido mais cansada em sua
vida. Havia um peito amplo e vestido de verde, com o ombro perto de seu rosto. Como
seria maravilhoso descansar a cabeça contra ele e fechar os olhos. Mas um olhar para
cima lhe mostrou a dureza de sua expressão e a hostilidade em seus olhos.
Ela colocou tanto sua faca, como seu mosquete, no chão à sua frente. Teria sido
apenas demasiado vergonhoso os colocar nas mãos de Duarte.
― Havia uma mensagem de Lorde Wellington, ― Duarte foi dizendo a Robert. ―
Um dos meus homens trouxe aqui, enquanto eu estava em Salamanca. Ele está esperando
que Almeida vá aguentar por mais um mês, depois que as chuvas de outono vierem. Elas
vão desacelerar os franceses e tornar as coisas muito piores para eles.
― Almeida ainda não caiu, então? ― Perguntou Blake. ― Boa. Eu estava com medo
de perder toda a diversão. De quem foi a ideia, aliás, de virem me salvar?
Duarte ignorou a pergunta. ― Nossa tarefa, para além do habitual, ― disse ele, ― é
visitar o maior número de fazendas e aldeias entre aqui e Coimbra, o quanto nos for
possível, e persuadir as pessoas a fugirem para o oeste com o maior volume de posses
possível, e para queimar todo o resto, incluindo suas casas. Não vai ser agradável ou uma
tarefa fácil, eu acho. ― Ele deu de ombros. ― Mas Wellington jura que não vai abandonar
o nosso país ou nos deixar à ocupação francesa. E contra todas as probabilidades, eu
acredito nele. Suponho que não há mais nada que eu possa fazer.
― É essencial que os exércitos franceses não sejam capaz de viver fora do campo,
em Portugal, como costumam fazer em seus avanços, ― disse o capitão Blake. ― Eles
devem ser presos longe de suprimentos. É o caminho mais seguro para os derrotar.
― Você tem a sua parte também ― disse Duarte. ― Lorde Wellington
especificamente menciona você, e que, se a sua fuga de Salamanca tiver sido feita a
tempo, você deve se juntar a nós em nossa tarefa, um uniforme de soldado pode fazer
muito para convencer os duvidosos, ele acha. E quem sabe? Talvez ele esteja certo.
― Eu não devo, simplesmente, me juntar ao meu regimento, então? ― Perguntou o
capitão. ― Parece que não. ― Duarte sorriu para ele, se desculpando.
Mas Joana não podia mais se concentrar. As palavras tinham ido para muito longe,
para que ela pudesse ouvir apenas som, mas sem significado. Sua cabeça era muito pesada
para o resto de seu corpo. O lado dele tocou algo quente e sólido e ela cedeu à tentação
de relaxar e dormir.
― Ela está muito cansada, ― disse Duarte, olhando para sua irmã dormindo no
ombro do capitão, que não tinha movido um músculo, exceto para endurecer sua
mandíbula. ― Como estamos também. Eu não sei por que estamos aqui sentados
conversando, quando o tempo é tão curto. Temos de estar bem longe daqui, antes de
escurecer. Enquanto isso, vamos dormir.
Ele ficou de pé e se inclinou para pegar Joana. Mas ela acordou logo que ele a
tocou, e olhou para cima, assustada pelo capitão Blake, que nem estava olhando para ela.
Ela estava feliz que ele não estivesse. Ela não deveria corar no curso normal dos
acontecimentos, mas sabia que estava corando agora. Era mortificante, tanto como
humilhante.
― Vá para a cama, Joana ― disse Duarte. ― E isso é uma ordem.
Normalmente, ela teria se recusado por mero princípio. Mas agora, ela correu para
sua cabana, mais como um coelho assustado, ela pensou, desgostosa. Mas ela não podia
pensar. Era quase doloroso pensar, muito esforço. Deitou sobre o cobertor no chão e
dormiu.

***

Era fim de tarde. Quase todos eles olhavam para o leste, mas se o coronel Leroux e
seus homens estavam vindo, ainda não estavam visíveis. Os dois sentinelas tinham
acabado de voltar da entrada do vale, tinham relatado que tudo ainda estava calmo.
Mesmo assim, o acampamento foi desarmado e eles deviam se pôr a caminho antes
do anoitecer. Eles seriam divididos em pequenos grupos, Duarte explicou, sendo muitos
os lugares para visitar, se fossem executar as ordens de Lorde Wellington com rigor. Além
disso, pequenos grupos seriam um alvo menor para os franceses descobrirem.
― E nós nunca devemos esquecer qual a nossa principal razão para existir. ― disse
Duarte, os olhos estreitos, numa expressão que o fez parecer cruel por um momento. ―
Nosso objetivo é manter os franceses fora do nosso país e matar os que tentam entrar
nele.
― Capitão Blake, Duarte determinou, deve se mover para o sul, em direção a
Almeida. Não havia pressa em convencer a população até que o forte caísse, ao que
parecia, mas pode haver muito pouco tempo depois. ― E não havia nenhuma dúvida real
de que eventualmente Almeida iria cair. Talvez fosse resistir por uma semana ou um mês,
mas nunca iria aguentar um cerco determinado pelos exércitos franceses.
― Ela vem comigo, ― Capitão Blake disse, sacudindo a cabeça na direção de Joana.
Joana ergueu o queixo como Duarte e todos os seus homens olharam para ela.
― É que sou eu quem os franceses vão estar à procura com mais determinação ―
disse o capitão Blake. ― É justo que eu tenha sua refém comigo. Além de… ― os olhos
inchados sobre Joana ― Eu tenho um ponto a liquidar com ela.
Joana meio sorriu para ele e não fez nenhum apelo ao irmão.
― Muito bem. ― Duarte deu de ombros. ― Joana vai com você. Acho que ela vai
estar tão segura com você, como com qualquer um de nós, mesmo que os dois estejam a
pé. ― A rota do sul era a mais íngreme. Seria impossível tomar cavalos para subir a
encosta.
E assim, as barracas foram destruídas e poeira jogada no fogo, e os homens tinham
decidido não perder tempo tentando camuflar o que tinha tão obviamente sido um
acampamento; despedidas foram feitas e boa sorte e saudações trocadas.
Duarte tomou Joana nos braços e a abraçou com força. ― Você não vai me deixar
a mandar de volta para a segurança? ― Ele perguntou a ela pela última vez.
― Quando a vida é tão cheia de significado? ― Perguntou ela, com o rosto
escondido em seu ombro. ― Nunca, Duarte.
― Então fique perto dele, ― ele murmurou em seu ouvido. ― Ele a irá proteger,
creio eu, depois de ter explicado a ele, e provavelmente até mesmo se você não fizer.
― E eu o vou proteger. ― Ela elevou o rosto e sorriu maliciosamente para ele. ―
Eu vou ver você, Carlota e Miguel em Mortágua, Duarte. Seja cuidadoso.
― Sim. E você. ― Ele olhou para o rosto dela como se para o memorizar, em
seguida, a beijou nos lábios. ― Não há meio relacionamento em meus sentimentos por
você, Joana. Você é tão querida para mim como Maria e Miguel foram. Tão cara como
nossa mãe era.
Ela sorriu e lhe tocou o rosto com a palma da mão, antes de se afastar e se virar
para o capitão Blake, que estava de pé, a uma certa distância, com o rosto impassível. Ela
sorriu para ele.
― Bem, Robert, ― ela disse, ― vamos?
Ele lhe apontou a encosta sul, íngreme, rochosa e nua através do córrego. O dia
ainda estava avassaladoramente quente, apesar da hora avançada. Logo eles estavam
lutando para subir, usando as mãos, bem como os pés, em alguns lugares. Suas armas, a
comida e cobertores amarrados a suas costas eram um estorvo, mas uma condição
necessária. Eles estavam viajando tão levemente como podiam.
Ele estendeu a mão para a ajudar em um lugar particularmente difícil. Mas ela
recusou com a cabeça e sorriu para ele.
― Eu posso controlar, Robert ― disse ela. ― Você não tem que bancar o
cavalheiro.
― Eu não sou um cavalheiro, como você sabe, ― ele disse a ela, sua voz e seus
olhos frios. ― O que eu estou bancando, Joana, é guarda. Você vai responder a Lorde
Wellington quando eu tiver você na sede, provavelmente com a sua liberdade privada, até
que as guerras se acabem. Você deve ser grata que os ingleses não tratam seus
prisioneiros sem uniforme como seus compatriotas tratam os deles. E, enquanto isso,
você tem que responder a mim. Você vai se arrepender, de não pedir a seu novo amante
que a levasse de volta com ele.
― Duarte? ― Ela disse rindo. ― Duarte é meu irmão.
― Isso não foi mesmo uma mentira inteligente, Joana ― disse ele. ― Nós dois
sabemos que o seu pai era francês e sua mãe inglesa. Lembra? Duarte Ribeiro é
português.
― Minha mãe foi casada com seu pai ― disse ela, ― antes de casar com o meu. Ele
é meu meio-irmão. ― Ele estalou a língua impaciente e lhe deu um tapa um pouco
doloroso nas nádegas.
― Se mova! ― Ele ordenou. ― Estamos perdendo tempo. Ou melhor, você, na sua
forma habitual, me obrigando a perder tempo. Ele tem uma mulher que o adora, Joana, e
um bebê pequeno e gordo. Será que isso não toca sua consciência, em tudo que você o
forçou a ser infiel hoje?
― Não! ― Ela apertou os dentes e subiu, fora do alcance de sua mão grande. ― Eu
não vou ficar satisfeita até que tenha escravizado cada homem que eu já encontrei,
Robert, e dormido com tantos quanto é possível para mim. Suas esposas e mulheres
devem ficar atentas. E, se alguém me resistir, bem, então, ele vai se arrepender, como
você estava arrependido em Salamanca. Eles o machucaram, não? Estou feliz. Muito feliz.
Só lamento que não durasse mais do que cinco dias.
― Ah ― , ele disse, movendo ao lado dela sem esforço, apesar de sua explosão de
velocidade, ― finalmente arrancamos camadas e chegamos à real Joana. Acho que eu a
prefiro para o que todos sabem. Pelo menos ela é honesta.
Subiram o resto do caminho em silêncio, precisando de cada respiração para
realizar a subida íngreme.
O capitão Blake parou no topo para olhar para trás para o vale, e para longe para as
colinas mais baixas a leste. Ele protegeu os olhos e estendeu a mão para tomar o pulso de
Joana em seu aperto. Então ele xingou e empurrou-a para deitar no chão ao lado dele. Ele
apontou.
― Chegou o amante ― disse ele, ― em conjunto com uma companhia inteira de
cavaleiros. Ofegando com a frustração, depois de uma noite inteira sem seus favores, sem
dúvida. E eu fui estúpido o suficiente para ficar contra a linha do horizonte. Bem, Joana,
seria realmente estranho, se eles não nos vissem. Mas não tenha a esperança de que
subam. Não tenho nenhuma intenção de abandonar tanto a minha liberdade, como a
minha vida ainda. Eu tenho ainda menos intenção de abrir mão de você.
― Devo me sentir lisonjeada? ― Ela perguntou docemente.
Ele abriu o caminho depois do topo da colina, a puxando com ele, antes de a
arrastar, meio que correndo, com sua mão ainda segurando o pulso dela, durante todo o
tempo, pelo terreno acidentado. Os cavaleiros estavam a quilômetros, ao largo, e talvez
não os tivessem descoberto. Mas ele pretendia arrumar um esconderijo seguro, antes do
anoitecer.
E encontrou o que estava procurando algumas milhas mais adiante, quando o jogo
de escalar um pico solitário valeu a pena, e ofereceu uma caverna inclinada que os iria
esconder completamente, de qualquer um abaixo. Ele empurrou Joana dentro, não muito
gentilmente.
― Eles não vão nos alcançar esta noite, ― disse ele, ― ou até mesmo amanhã, em
um palpite. E nós vamos tornar difícil que controlem este país. Mas nós dois devemos
estabelecer algumas regras básicas, desde o início. Você não vai tentar atrair a atenção de
qualquer francês, Joana. Se você fizer isso, eu posso ser forçado a cortar sua garganta. E
você não vai tentar escapar de mim. Se você fizer, vou usar o cinto para prender suas
mãos e o anexar ao meu próprio cinto. E terei suas armas, agora.
― Não seja cansativo, Robert ― disse ela, se virando para o encarar. ― Você não
percebe que eu estou do seu lado? Que Lorde Wellington me mandou, depois de ter
certeza que os franceses acreditariam que seus papéis eram falsos? Que eu arranjei para
que você pudesse ser liberado da palavra empenhada para sua liberdade condicional? Que
eu organizei para Duarte vir resgatar você e para me tomar como refém? Que eu sou tão
espiã britânica, como você é?
― Suas armas, ― disse ele, de pé na entrada da caverna, com os pés firmemente
plantados e distante, sua expressão implacável. ― E eu ainda poderia ser levado a
amordaçar a boca também, Joana. Você deve pensar que sou um tolo maior do que
provei ser, se acha que vou acreditar em mais mentiras, ultrajantes e estúpidas. Suas
armas!
― Muito bem. ― Sua voz era calma, doce. ― Se você acha que eu vou implorar e
rastejar, Robert, então você está redondamente enganado. Acredite no que quiser, e pode
ir para o inferno com a minha bênção. ― Ela tirou o mosquete do ombro e o deixou cair
com estrondo no chão de pedra da caverna. ― Mas não espere que eu seja uma
prisioneira dócil.
Ele quase não viu o movimento da mão, mas no momento seguinte a faca estava
apontada para o seu estômago, e ela estava agachada em uma posição defensiva.
― Você quer a minha faca, Robert? ― Ela lhe perguntou docemente. ― Então
venha e pegue.
Ele estava furioso com ela para tentar, depois de tudo o que ela tinha feito a ele,
para fazer um joguete dele mais uma vez, e com ele mesmo, por esperar mais dela, contra
todas as evidências de sua experiência, que agisse como qualquer mulher faria, mas baixou
seus braços mansamente.
― Por Deus, Joana, ― ele sussurrou para ela por entre os dentes, ― você está
pedindo para ter problemas. ― Ela sorriu para ele, um felino sorriso que ele tinha visto
antes. ― Você tem medo, Robert?
A parte idiota e tola era que ele estava com medo. Medo de machucar. Ele deveria
torcer seu pulso, e fazer que ela apunhalasse ela mesma. Isso era o que ele deveria fazer.
Mas, se amaldiçoou por ser incapaz. E assim ele a circulou nos confins da caverna, fintou
um lado e depois os outros, e as duas vezes a faca ainda pairava sobre o centro de seu
estômago, e foi finalmente forçado a lhe agarrar o pulso, no mesmo tempo que lhe
estendeu a mão com uma bota para pegar de forma inteligente, por trás de um tornozelo.
Ela desceu com ele em cima dela e eles lutaram silenciosamente, exceto pela
respiração ofegante, enquanto ele, lentamente, forçava sua mão sobre a cabeça e para o
chão, e depois cortava a circulação de seu pulso, até a mão aberta, e a faca caiu com um
barulho macio, para as pedras.
― Bastardo ― ela disse a ele. ― Vagabundo.
― Covarde e bruto.
― Traidor. ― Ela rosnou para ele. Ele rosnou de volta.
E então, de repente, e muito inesperadamente, ela sorriu para ele, com os olhos
brilhando, sua boca se curvando, apelativa. ― Oh, Deus, Robert, ― ela disse, ― Eu
preferiria lutar com você em qualquer dia do ano do que fazer amor com outro homem.
Eu não sei quando eu me diverti tanto.
Ele olhou para ela cautelosamente. Sempre que pensava a ter desarmado
finalmente, ela vinha se voltava contra ele de outro ângulo. ― Você poderia se ter matado
com sua própria faca ― disse ele.
― Nunca. ― Ela continuou a sorrir. ― Você não teria permitido. Realmente acha
que eu não sabia, a cada momento, que você estava totalmente no controle dessa luta?
Mas só fisicamente, Robert. Fisicamente você pode me dominar. Mas você nunca vai
poder dominar a minha vontade. Nunca. Você vai perder, se tentar. Portanto, não tente
estabelecer regras para mim. Eu nunca obedeceria as regras. Quando eu saí da escola com
a idade de dezesseis anos, jurei que nunca mais iria obedecer a uma regra que eu não
gostasse. E às vezes eu quebro as regras Eu gosto só porque elas estão lá. Você está
pesado.
― Eu estou? ― Disse. ― Mas você não tem um colchão em suas costas, Joana,
como costuma fazer, quando você tem um homem em cima de você.
― Você acha que eu me importaria? ― Ela perguntou, e seus olhos se acenderam
no seu. ― Se nós estivéssemos fazendo amor, Robert, você acha que eu me importaria
com uma cama de pedra nas minhas costas, ou o seu peso em cima? Mas nós não
estamos fazendo amor, estamos? E você é pesado.
Ele se afastou, lentamente, sem tirar os olhos dela. Estendeu a mão, pegou a faca, e
a enfiou em seu próprio cinto. E mudou o mosquete em um canto e ficou lá com seu
rifle.
― É melhor comer ― disse ele, ― enquanto nós temos uma réstia da luz do dia
para o fazer. E então, eu vou lhe dar cinco minutos para ir para fora para se sentir
confortável. Cinco minutos. Não mais. E eu aconselho que você não me desafie,
tentando escapar, mesmo que o desafio esteja na sua natureza. Tente escapar desta vez e
você nunca mais terá permissão de privacidade novamente. Entendido?
Ela apenas sorriu para ele, quando se sentou e alisou o vestido sobre os joelhos.
― Você vai ter o quarto à esquerda ou a da noite certo? ― Perguntou ela. ― Não
há tanta escolha.
― Ocupamos o quarto central, ― ele disse, ― juntos. Você não acha que eu me
permitiria dormir sem meus braços firmemente sobre você, não é?
Ela fez um gesto de beijar com a boca. ― Eu sou tão irresistível? ― Disse ela. ― Eu
disse que você iria se apaixonar por mim, Robert.
Ele desempacotou sua comida sem qualquer resposta ou olhando para ela. Houve
vantagens concretas para a cela de prisão, ele pensou. Apesar das agressões diárias, ele
tinha tido longas horas sozinho com a paz de seus próprios pensamentos.
Capítulo 18
Ela tinha cochilado e acordado novamente. Mas sabia que deveria dormir. Não
estava acostumada à vida de Joana Ribeiro, e sabia que os primeiros dias seriam
cansativos. Mais do que o habitual, não haveria tantos motivos para viajar, como nos
próximos dias. E a viagem deveria ser cheia de tensão, pois eles estariam viajando, não só
para vários lugares, mas também fugindo da busca do coronel Leroux e sua companhia.
O coronel Leroux, pensou. Ele devia vir. Ele devia encontrar suas trilhas e as
seguir. E ela devia estar pronta para ele, quando chegasse. Lhe ocorreu, de repente, como
seu plano era suicida, e como era perigoso para Robert. Ela poderia muito bem ter
matado o coronel em Salamanca, onde apenas a sua própria vida teria sido perdida como
resultado. Mas por alguma razão, o queria em seu próprio território. Ela o queria no país
onde Miguel e Maria tinham morrido.
Mas precisaria de suas armas. Elas estavam no canto de trás da caverna com a
espada, embora o rifle, ela sabia, estivesse com Robert, ao seu alcance. Não podia chegar
a elas, presa como estava. Um de seus braços estava abaixo de sua cabeça e enrolado
sobre seu ombro, um travesseiro confortável o suficiente, mas realmente apenas uma
algema de cativeiro. O outro estava firmemente em torno da cintura. Uma de suas pernas
fora jogado por cima dela. Ele acordaria, havia dito a ela antes, quando ela protestou, se
ela movesse um músculo durante a noite.
Era difícil tentar dormir em um chão de pedra, sem mover um músculo.
Não havia nenhuma maneira que ela pudesse chegar a sua arma ou à faca sem que
o acordasse. E mesmo se pudesse, nunca iria fugir sem ser pega por ele novamente. Ela
pensou indignada, no que ele havia dito sobre amarrar seus pulsos e os prender ao cinto,
e soube, sem sombra de dúvida, que aquele seria o seu destino se tentasse fugir. Se isso
acontecesse, ela nunca iria ter suas armas novamente,.
Não, teria que ter paciência e aguardar sua chance. Ela viria. Nunca quis nada que
não tivesse. E ele poderia se apaixonar por ela. Apesar de tudo, ela o poderia ter
envolvido em torno de seu dedo mindinho dentro de dias, se tentasse. Apertou os dentes
rígidos, quando ela recordou o desprezo com o qual ele tinha recebido sua tentativa de
lhe explicar a verdade. Não que ela tivesse tentado de verdade. Ia contra seu orgulho
mendigar e implorar. Se ele escolheu não acreditar nela, então que assim fosse.
Mas, ainda o podia fazer cair de amor por ela, se assim o quisesse. Eles eram almas
gêmeas, ela e Robert Blake. E se desejavam um ao outro, e ainda assim, sem que jamais
bajulassem o outro. Ela sabia que nunca poderia fazer dele seu escravo, e exultou com o
conhecimento, o que tornava mais difícil sua tarefa. Se ela nunca mais o chamasse de
bastardo de novo, então ele não a iria chamar de vagabunda novamente. Ele daria injúria
por injúria. Não era um cavalheiro, e não sabia que não se insulta uma senhora, não
importa o motivo. Ela estava feliz por ele não ser um cavalheiro.
E então descansou uma mão contra seu peito, e descobriu que o que ele lhe falou
antes, era a verdade, pura e simples. Ele estava dormindo, apenas um momento antes,
mas agora, estava olhando para ela. E sabia, mesmo sem olhar de volta.
― É impossível ficar parada, por uma noite inteira, sem mover um músculo,
Robert ― disse ela com um suspiro. ― Especialmente, quando você me tem em um
abraço tão apertado. Mas, claro, não é um abraço, é? É cativeiro. ― Ela inclinou a cabeça
para trás e olhou para ele. Havia luar entrando na caverna. Mesmo assim, ela o sentia mais
do que via.
― É cativeiro, ― disse ele. ― Você quer se virar para o outro lado?
― Não ― disse ela. ― Estou bastante confortável agora, assim mesmo. Tenho uma
imaginação poderosa. Um colchão de penas. Uma pilha de cobertores macio, travesseiros
de penas. Mmm... Você não os pode sentir?
Ele pegou seu pulso num aperto forte, e sua mão deslizou para baixo de seu peito,
até a cintura. ― Pare com isso, Joana ― disse ele. ― Durma.
― Você me quer fazer acreditar que é feito de pedra? ― Disse ela. ― Eu o vejo de
forma diferente, Robert. Você não me deseja nem mesmo um pouco?
― Você vai se arrepender ― disse ele, ― se continuar com isso. Eu a advirto Joana,
que não será capaz de controlar a situação, se continuar a me provocar. E eu não vou
nem o tentar fazer. Faz um tempo que estou sem uma mulher e estou com fome.
Ela podia ouvir seu coração batendo e o podia ver pulsando por trás dos olhos
fechados. Luís a teve na cama por seis vezes, ao todo, ela contava, cada uma mais horrível
e repugnante do que a anterior, até que ela, um dia, lhe disse que se isso era tudo o que
um casamento oferecia, então, que preferia ficar sem ele, muito obrigada. E ele não se
sentira ofendido. Aliviado, era mais a palavra. Ela descobriu o porquê, mais tarde.
E Robert falou de fome!
Mas ela nunca tinha pressionado deliberadamente um flerte além do ponto em que
o poderia controlar. E mesmo com Robert, nessas duas ocasiões, não tinha havido
nenhum grande perigo. Mas, desta vez, ela sabia que ele falava a verdade. Eles estavam
sozinhos juntos, muito sozinhos, no meio da noite, e muito próximos um do outro,
porque ele achava que havia a necessidade de a prender de novo. E talvez estivesse certo.
Ela o sentiu relaxar. Ele pensou que ela tivesse voltado a dormir. Mas, como
poderia dormir, agora que seu sangue tinha sido despertado? Mas, direto ao ponto, como
ela poderia recuar, quando ele tinha emitido um tal desafio? Ele não tinha a natureza de
resistir a um desafio, tanto quanto ela, temia.
― É comida que você precisa, então? ― Perguntou ela, com a voz baixa. ― Eu
estou com fome também, Robert. Você tem comida? Vamos compartilhar?
Ele pronunciou uma palavra, que ela ainda não tinha ouvido falada em inglês, mas
conhecia a sua equivalente em português, de ouvir entre os homens de Duarte. E pensou
que ele derramaria sua raiva sobre ela com palavras. Se preparou para o discurso, para
ficar tão bem como estava. Em vez disso, ele a puxou contra ele, com tanta força que ela
sentiu o choque da respiração de seu corpo, e encontrou sua boca com a dele, a forçando
com a sua própria, mergulhando sua língua dentro, de modo que ela teve certeza de que
iria sufocar.
E ela conhecia o terror da impotência, de ter desencadeado uma paixão que não
poderia controlar, de forma alguma, e que, talvez, a violaria e também a machucaria, antes
que fosse saciada. Mas, o terror poderia ser combatido, ela pensou enquanto ainda podia,
e uma luta poderia ser combatida, mesmo que fosse para ser inevitavelmente perdida.
Tinha lutado tal luta pela faca. Agora ela iria lutar por ela.
Ela chupou para dentro sua língua, pulsou os dentes contra ela, se apertou nele,
esfregou os seios, torceu seus quadris, envolveu seu braço livre sobre ele, o empurrando
debaixo do casaco, afastando sua camisa para que pudesse tocar a pele nua de suas costas.
E quando ele rolou de costas, o outro braço se juntou ao primeiro em sua tarefa.
Ele tinha puxado seu cinto e o atirou longe, e seu vestido veio com um puxão para
cima dos seios. A calçola desceu por suas pernas e pés e foi arremessada para se juntar ao
cinto.
Ela sentiu o ar fresco da noite contra a pele nua, por um momento, antes que o
peso do corpo dele se tornasse seu cobertor. Suas mãos estavam entre seu corpo e ela, em
seus seios, se movendo com força sobre eles, os apertando, seus polegares esfregando os
mamilos. Sua boca estava em sua garganta e descendo para baixo do vestido enrolado
acima dos seios, sua língua tomando o lugar de seu polegar em um mamilo, seus lábios
nele. Ele sugava o mamilo, e afastava seus joelhos para os lados de suas pernas, enquanto,
ele mesmo, ficava de joelhos.
A única coisa a fazer com as pernas foi as levantar e as colocar sobre as dele. O
tecido da calça era áspero contra a pele suave de suas coxas. Sua boca em seu peito a
estava levando à loucura. Mas suas mãos estavam dentro de sua camisa, se movendo das
costas para os lados do peito, as palmas das mãos empurrando as costelas quentes e os
músculos do peito, e os dedos procuraram seus próprios mamilos.
Ela podia ouvir a respiração rouca, quando ele levantou a cabeça de novo,
entrelaçou as mãos dolorosamente em seu cabelo, e trouxe a boca para a sua novamente.
Ele baixou seu peso mais uma vez e ela podia sentir entre suas pernas a dureza e a
imensidão de sua excitação através de suas calças. Seu gemido de medo e desejo a pegou
completamente de surpresa.
Suas mãos se moveram de seus cabelos, por suas curvas, até debaixo de suas
nádegas, para a levantar contra ele. E ele se esfregou contra ela. E ela abraçou sua cintura
com as pernas. As dores, o bombeamento de sangue através dela, eram partes iguais de
terror e desejo, ela sabia, as mãos desabotoando os botões de seu casaco. Mas ela não iria
ceder ao terror. Ela estava tomando. Nada poderia parar o ato agora. Mas ele não lhe iria
dar tudo isso. Ele nunca seria capaz de se gabar. Ela daria a si mesma, e então seria tanto
vencedora quanto ele.
Mas ele, de repente, rolou de cima dela para deitar de costas, um braço sobre os
olhos. Estava ofegante. ― Não! ― Disse. ― Não, eu não vou lhe dar a satisfação de
arrebatar você, Joana. Isso é o que você quer, não é? A alegria de saber que é irresistível,
até mesmo para um homem que a despreza?
Ela estava deitada, por um momento confusa, atordoada, humilhada, despida dos
seios para baixo, e se ergueu sobre um cotovelo.
― Bastardo! ― Ela sussurrou para ele. ― Bastardo impotente. Eunuco.
― Cadela no cio! ― Disse ele, sem retirar o braço. ― Você quer isso, Joana? Você
vai ter que tomar, então.
Ela olhou para ele, seus olhos brilhando, sua respiração ofegante, pesando as
implicações do que ele tinha dito.
― Oh ! ― Disse ela, em seguida, se aproximando de joelhos, se inclinando sobre
ele, seu cabelo caindo para a frente sobre os ombros, para tocar os ombros e peito dele.
― E você acha que eu não vou, Robert? Você acha que eu sou muito tímida, muito
refinada? Você acha que pode brincar comigo, com isto e me deixar machucada e
humilhada e… e…
― Insatisfeita? ― Disse.
― Seu filho da puta! ― Disse ela. ― Eu odeio você.
― Então, o sentimento é mútuo ― disse ele.
As mãos dela abriram os botões restantes do casaco. Ela desabotoou os botões de
sua camisa, a abriu e removeu, jogando por trás de sua cabeça. E se inclinou para deslizar
sua boca sobre o peito e a cintura dele. Ela apenas beijou e voltou a subir peito acima, até
que encontrou seu mamilo, e ela o lambeu e chupou em sua boca.
Ele estava deitado, imóvel, as mãos estendidas no chão de pedra de cada lado dele.
Mas ela podia ouvir seu coração batendo de forma irregular. E o odiava com uma paixão
que batia em seus ouvidos. Suas mãos foram até a cintura das calças, desatou a faixa
vermelha que o identificava como um oficial, e trabalhou nos botões de suas calças.
Ele não se moveu até que ela puxou as calças. Então ele ergueu os quadris
enquanto ela as descia até os joelhos, mas não se sentiu igual na luta contra suas botas.
Ele ainda a desejava, ela viu com satisfação. E passou a mão sobre o membro dele,
levemente e rapidamente, ofegante, o ar novamente preso em seus pulmões.
Seus olhos estavam bastante abertos, acostumados à escuridão. Ele estava olhando
para ela, percebeu, quando montou seu corpo e colocou as mãos em seus ombros, sob a
camisa aberta.
― Você não achou que eu ousaria, não é? ― Ela sussurrou para ele, baixando a
cabeça para que seu cabelo formasse uma cortina sobre seu rosto. ― Eu nunca ousei
nada, Robert. Até isso. Você não tem a coragem de me violentar? Muito bem, então, eu o
vou violentar.
E ela trouxe sua boca para a dele, ao mesmo tempo conduzindo seu corpo a se
empalar sobre o dele.
Ela não podia fazer mais, porque estava em choque. Estava profundamente
penetrada, e à espera de uma dor que não veio.
Quando caiu em si mesma, ele tinha uma das mãos atrás de sua cabeça, e outra,
atrás de sua cintura. E sua boca era suave e quente contra a dela, sua língua lambendo os
lábios e voltando para o começo.
Não entrou em pânico, pensou com alguma surpresa. Mas não sabia o que fazer
agora.
Ela levantou a cabeça. ― É a sua vez ― disse ela. ― A menos que tenha medo, é
claro. Ou não saiba o que fazer.
Podia ver o sorriso dele na escuridão. As mãos dele lhe agarraram os quadris, para
os levantar um pouco, e então, ele começou a se mover dentro dela, seus impulsos
rápidos e profundos, para o que ela se ergueu sobre os joelhos novamente, em pânico, as
pontas dos dedos em sua cintura, sua cabeça jogada para trás. Cada músculo em seu
corpo estava apertando. Mesmo o seu próprio corpo foi além de seu controle, ela pensou,
um dos poucos pensamentos racionais que lhe vieram.
E, em seguida, até mesmo a aparência de controle a deixou, sua cabeça caiu sobre o
queixo e descansou em seu peito, todo o ar saiu de seus pulmões, em um longo e sonoro
suspiro. Ele continuou a se mover, enquanto ela se sentiu começar a tremer, as ondas de
choque se espalhando para cima, e para fora do ponto de sua penetração mais profunda.
Havia um vazio de tempo em algum lugar depois de segundos ou minutos de
duração, ela não sabia. Mas na seguinte consciência de tempo que atingiu sua mente, ela
estava deitada de corpo inteiro em cima dele, suas pernas abertas em ambos os lados dele,
as mãos e uma das faces contra seu peito nu. Ambos os braços dele e um de seus
cobertores estavam sobre ela. Seus corpos ainda estavam unidos.
― Eu estou pesando muito em você ― ela disse, e se surpreendeu com a
sonolência de sua própria voz. ― Não fale bobagem, Joana ― disse ele. ― Durma. Esta é
uma maneira tão boa como qualquer outra, de a ter prisioneira.
― Guardas não devem ter relações sexuais com os seus prisioneiros ― disse ela,
movendo seu rosto até ficar bastante confortável. Podia ouvir seu coração batendo de
forma constante contra o ouvido.
― Nem são presos com seus guardas ― disse ele. ― Mas, os prisioneiros farão de
tudo para ser livres ― disse ela.
― Você não será livre. ― Uma de suas mãos lhe acariciava as costas. ― Nada
mudou. Nada mesmo. Depois de tudo, nós sempre admitimos uma atração física pelo
outro. Apenas agimos segundo essa atração, para nossa satisfação mútua, parece. Quem
quer que diga que você é uma senhora, Joana, obviamente, nunca a teve entre os lençóis.
Mas eu não sabia que havia um homem à espera.
― Vá para o diabo ― disse ela. ― Durma. ― Respondeu ele.

***

Ele sabia, com esse sentido extra que tinha desenvolvido durante os últimos dez
anos, que o amanhecer não estava muito longe. Eles deveriam estar, em breve, a caminho.
Se o coronel Leroux e seus homens tinham a intenção de levar seus cavalos na busca,
mesmo supondo que ele e Joana tinham sido vistos contra a linha do horizonte no dia
anterior, eles teriam que fazer um grande desvio. E depois, seguir seus rastros
cuidadosamente. Assim sendo, era improvável que fossem uma ameaça naquele dia. Mas
mesmo assim...
Ele olhou para o céu noturno, com uma mão apoiada sob sua cabeça, a outra,
acariciando, distraída, o cabelo de Joana. Devia ter dormido muito profundamente,
durante várias horas. E também ela devia, porque não se moveu desde que lhe tinha dito
para ir para o diabo, e ainda dormia profundamente.
Suas pernas estariam duras, ele pensou, as sentindo ao lado das dele. Mas, pelo
menos, tinha sido capaz de lhe dar uma cama mais macia do que o chão de pedra da
caverna. Ele sorriu severamente na escuridão. E era importante que ela fosse protegida?
Pensou na cela subterrânea em que recentemente havia passado cinco dias, cortesia da
Marquesa das Minas, e no exercício diário que vários soldados franceses tinham feito às
suas custas. Fazer amor com ela, na noite anterior, não tinha sido uma experiência
indolor.
Fazer amor com ela! Ele fechou os olhos novamente. Sua mão ainda acariciava seus
cabelos. E pensou em Jeanne Morisette, aquela jovem ansiosa, bonita, que tinha jurado
que sempre o amaria, que tinha jurado que um dia iria se casar com ele. E no gentil jovem
sonhador, que tinha ficado ao lado dela, lá no lago em Haddington, jurando cavalgar para
ela, em um cavalo branco, em seu aniversário de dezoito anos, depois para a terra de
felizes para sempre, apenas metade em tom de brincadeira.
E ele pensou na mesma menina rindo dele e o chamando de bastardo e o
desprezando, porque ele se atreveu a levantar os olhos para a filha de um conde, e tecer
sonhos com ela.
E então pensou na Marquesa das Minas, como a tinha visto pela primeira vez em
um salão de baile em Lisboa, e da sua primeira impressão dela, tão linda e cara, e muito
além de seu toque. E na mulher quente, desgrenhada, que se deitava sobre ele agora, não
mais com cheiro de perfumes caros, mas apenas de mulher. Toda mulher e nenhuma
mulher em tudo. Pensou na maneira como ela o tinha despido e acariciado na noite
anterior, depois de lutar com ele como uma coisa selvagem, quando ele tinha tido a
iniciativa. E no jeito que ela o tinha montado, enquanto ele ficara passivo, com medo de
que, e porque ela era sua prisioneira, qualquer violação da sua pessoa seria estupro.
Nenhuma senhora em tudo. Toda mulher ousada e voraz.
E tais pensamentos não estavam a ficar no fundo. Ele já estava ciente novamente
de cada centímetro macio, bem torneado, contra ele. Ainda estava dentro dela. Se não
fosse cuidadoso estaria crescendo novamente. Já era o suficiente. Ambos tinham atingido
seus pontos. Mas, depois que tudo foi dito e feito, eles continuavam inimigos, amargos,
inimigos implacáveis. Uma vez que seu amante francês os apanhasse, se o conseguisse, ela
estaria fazendo tudo em seu poder, para ter seu carcereiro morto ou devolvido a essa cela,
em Salamanca. E nesse meio tempo, ele estaria fazendo tudo em seu poder, para a
entregar ao Lorde Wellington e o encarceramento, para o que restava da guerra contra a
França.
Joana odiaria a prisão. Ela teria raiva, como um pássaro em uma gaiola. Mas, ele
não pensaria nisso.
― Hei, ― ele disse, ― hora de acordar.
Ela se mexeu. ― Bobagem! ― respondeu, sonolenta. ― Nem sequer ainda é dia, e
você está confortável, Robert. ― Ela suspirou.
Que se dane essa mulher. Ela sempre dizia a coisa errada. Estava pensando que
poderia estar na cama até meio-dia? Ela se contorceu contra ele e suspirou novamente.
Ele cerrou os dentes e desejou que seu corpo voltasse à calma.
― Você vai me dar minha arma e faca de volta? ― Perguntou ela. ― Se eu
prometer, fielmente, não as usar em você, Robert? Vou as usar contra os franceses. Eu
não desejo voltar com eles, de qualquer maneira, você sabe. Eu quero ficar com você.
― Eu vejo ― disse ele. ― Amor instantâneo de uma cama, Joana? Eu fui tão bom?
E agora você pretende me seguir como a mansa e pequena mulher fiel, para o resto da
minha vida?
Ela bufou. ― Você pode esquecer esse seu agradável sonho masculino, ― disse ela.
― Eu nunca vou ser mansa, Robert. Mas vou matar franceses com você. Posso ter minha
arma?
― Sim, certamente, ― disse ele, ― e meu rifle e espada também, Joana, quando o
inferno congelar, isso sim.
― Eu espero que você esteja lá quando isso acontecer, então, ― disse ela. ― Assim,
não poderá abrir caminho para cima, para o ar fresco e a liberdade. Eu pensei que você
fosse confiar em mim, depois da noite passada.
― Como eu faria, com uma cobra mortal ― disse ele.
― Você acreditaria em mim, se eu lhe disser que é o único amante que já tive, além
do meu marido? ― Ela perguntou.
― Nem por um só momento, ― disse ele.
― Eu não penso assim, ― disse ela. ― E ele foi terrível, Robert. Ele preferia
rapazes, você sabe. Isso não é irônico e um pouco de rebaixamento? Você foi
maravilhoso. Vamos ser amantes durante esta nossa jornada, até Marcel nos capturar e
nos cortar em mil pedaços?
Você foi maravilhoso. Vamos ser amantes...? As palavras de uma paqueradora
prática e mentirosa compulsiva. Mas, é claro que estavam fazendo efeito, como ela deve
ter sabido que fariam. Maldita a mulher! A mulher maldita foi ao inferno e voltou.
― Nós copulamos na noite passada ― disse ele. ― Nós não fomos amantes, Joana,
e nunca poderíamos ser. Nós copulamos. ― Ah ― disse ela, suspirou e se contorceu
contra seu peito novamente. ― Estamos a ser companheiros por um tempo, então? Um
casal? Você está ficando duro de novo, não é?
― Maldito seja, Joana, ― disse ele. ― Você sempre deixa escapar, qualquer que ela
seja, a observação embaraçosa que pula em sua mente?
Ela levantou a cabeça e olhou para o rosto dele. E sorriu, lentamente, dessa forma
que sempre lhe levantava a temperatura em um grau. ― Você tem vergonha? ― Ela
perguntou. ― Eu acho que ele se sente bastante agradável. Nós vamos copular
novamente?
Ele a tirou de cima dele e a colocou no chão, ao lado. Podia ver seu rosto
claramente, um sinal de que o amanhecer se aproximava. ― É isso que você quer? ― Ele
perguntou a ela, duramente. ― Ser usada como meu brinquedo, até que eu a possa
entregar para a prisão adequada? Isso é tudo o que seria, e é isso que eu vou fazer com
você, no final, Joana, não importa quantas vezes eu possa ter tomado o meu prazer de
você, no intervalo.
Seu sorriso era sonhador. ― E você será o meu brinquedo, ― disse ela. ― Vou
tomar o prazer de você, Robert, e lhe dar prazer infinito também, oh, sim, o prazer ao
infinito; é uma promessa, até que Marcel faça com que você experimente tudo o que ele
vem esperando. Faça isso.... Não, acasale comigo. Como um casal, comigo.
― Joana. ― Ele se inclinou e a beijou ferozmente. Ela parecia ter um apetite
insaciável e ele devia ter adivinhado, quando ela estava normalmente rodeada por
inúmeros homens, muito dispostos e ansiosos para a satisfazer; mas, agora só havia ele,
coitado, que estava lisonjeado com a necessidade dela por ele, animado por ela.
Estendeu as mãos sob suas nádegas quando ia para cima dela, com a intenção de
lhe amortecer contra o chão duro, enquanto dirigia o membro para ela, o que não lhe
parecia desconfortável. Ela o segurou nos ombros e fechou os olhos, os lábios
entreabertos, e se deitou.
― Oh, ― ela disse, quando estava chegando ao clímax, mordendo o lábio inferior e
o olhando, enquanto acontecia. ― Oh, ― disse depois, quando ele finalmente, ficou
imóvel sobre ela, e uma de suas mãos acariciava suavemente, seu cabelo. ― Eu não tinha
ideia do quanto poderia ser bonito isto, Robert. Eu não fazia ideia.
Era injusto, pensou, mas desde quando ele tinha esperado que Joana jogasse
limpo? Ela disse tudo isso em seu instante mais vulnerável, quando acabara de derramar
seu amor, não, não seu amor, sua semente dentro dela, e estava saciado e cansado
novamente. Ela falou no momento em que ele mais queria acreditar nela.
Era hora de estar pronto e em seu caminho, tempo para a luz do dia. Tempo de
sanidade. Tempo para a ver e a conhecer, pelo que ela era, de novo.
Mas Deus, ela era uma mulher bonita para se amar e acasalar. Ele usou uma palavra
mais obscena em sua mente, para pôr em perspectiva o que tinha acontecido entre eles
duas vezes, no meio da noite.
― Levante e se vista, ― disse ele, saindo dela e lhe batendo, bruscamente, na
nádega nua, como já tinha feito antes. ― É tempo para estarmos em nosso caminho.
Ela se sentou. ― Sabe, Robert, ― ela disse, ― um dia eu vou fazer isso para você.
Não é muito agradável.
― Eu não sou seu prisioneiro ― disse ele.
― Oh, eu acho que você é. ― Ela sorriu para ele. ― Ainda que nunca vá admitir
isso, eu acredito. ― Ela encolheu os ombros. ― E isso é o que eu mais gosto sobre você.
― Ela se levantou ignorando a mão que ele lhe estendia para a ajudar, e escovou seu
vestido. ― Ugh! Vincos. A Marquesa das Minas faria uso dos sais, se precisasse usar este
vestido.
Ela olhou para ele e riu. ― Mas, então, a Marquesa é uma tola cansativa, não é?
Nada a fazer durante todo o dia, além de flertar, parecer impotente, e inventar tarefas,
para cavalheiros obcecados em as executar. Acho que eu ficaria louca se não houvesse
Joana Ribeiro, em quem me tornar de vez em quando.
― Joana quem? ― Ele perguntou.
― Joana Ribeiro, ― disse ela. ― Minha fantasia, Robert. A outra mulher, que
acasalou com você alguns minutos atrás, e ontem à noite. Você não acredita que a
Marquesa teria feito isso, não é? Ela está em casa, vivendo apenas no mundo do flerte.
Além disso, você não é um cavalheiro e ela é uma senhora. E, além disso, novamente, ela
teria exigido uma cama com colchão de penas. Joana Ribeiro é uma fantasia maravilhosa.
Ela não podia ser mais encantadora, pensou, a observando à luz crescente, como
apertou o cinto em volta da cintura e franziu a testa para o profundo amassado do
vestido, que usara franzido acima dos seios, durante toda a noite. Seu cabelo era um
emaranhado selvagem sobre a cabeça e os ombros. E estava descalça. Ele não acreditava
que já tivesse visto seu olhar mais bonito.
Sim, tão encantador, se se sujeitasse a esquecer. E era tão fácil esquecer com Joana,
viver a alegria do momento com ela... Tão fácil de esquecer, mesmo que ele ainda tivesse
frescos no corpo, os hematomas que provavam o quão cruel e implacável ela era na
realidade.
Embainhou a espada, deslizou a faca para dentro de seu cinto, e colocou tanto seu
rifle, quanto o mosquete dela, pendurados no ombro direito. Havia apenas, um pouco de
comida, e era melhor que adiassem seu desjejum, no caso de não encontrarem, qualquer
outro lugar, onde pudessem reabastecer seus suprimentos durante o dia.
― Pronta? ― Perguntou.
― Para qualquer coisa ― disse ela, sorrindo deslumbrantemente, para ele. ― Mostre
o caminho, senhor.
Ele abriu o caminho, querendo saber se, quando a novidade se desgastasse, as
dores musculares e os pés cheios de bolhas iriam tirar o sorriso do seu rosto; e se, quando
o calor do dia aumentasse, imploraria para que parassem; e finalmente se, quando a fome
chegasse, se tornaria a sua cruz, irritável. Mas, no momento, tudo era uma aventura para
ela.
Ele olhou para trás, para ter a certeza de que o seguia de perto, descendo a encosta.
E, ela sorriu para ele, novamente. E Deus, era difícil não sorrir de volta. Era difícil não se
deleitar com a sensação de bem-estar relaxado que fazer amor, duas vezes na noite, tinha
trazido ao seu corpo.
Capítulo 19
No início daquela noite, eles chegaram a uma ravina mais rasa do que a outra, onde
o bando de Duarte estivera acampado, menos arborizada, com o fluxo mais estreito e
mais superficial. Mas, mesmo assim, ela lhes forneceu abrigo bem-vindo no dia de final de
agosto, quente e sufocante. Haviam passado por duas fazendas remotas, não parando em
nenhuma. Estavam perto de Almeida, o capitão Blake tinha dito. Ele queria dar uma
olhada no forte, antes de prosseguir com suas ordens.
― Não há nenhum ponto em forçar pessoas pobres a deixar suas casas e queimar
tudo o que deixam para trás, ― disse ele, ― até que seja realmente necessário o fazer.
Talvez Almeida aguente até que as chuvas de outono cheguem, e os franceses decidam
não avançar sobre Portugal este ano, apesar de tudo.
E assim, se arrastaram para diante, não parando nem mesmo para reabastecer os
suprimentos de alimentos. Com o calor do dia eles não estavam com fome. Só sede. E
assim, a visão da água foi, de fato, bem-vinda.
Joana se deixou cair de joelhos ao lado do rio, e bebeu profundamente agradecida,
antes de procurar pelo capitão, que fazia o mesmo.
― Pensei que não fosse parar, ― disse ela, ― que você ia me forçar a andar para
frente. Isso é, em parte, o que você fez, não é, Robert? Ver até onde posso aguentar, sem
lamentar a ausência da minha carruagem e dos meus servos?
Ela sabia. Não tinha havido nenhum sinal de perseguição dos franceses durante
todo o dia; eles realmente deveriam ter parado para cumprir seu dever, mesmo que
apenas para advertir os habitantes do que se esperava deles a qualquer momento. Quando
ele se sentou num banco, com as pernas cruzadas, e não a olhou ou sorriu, ela teve ainda
mais certeza. Ele a queria ter ouvido lamuriar, reclamar e implorar por misericórdia.
Ela tirou suas sandálias e baixou os pés na água, estremecendo com o frio e um
pouco de dor também, aproveitando para articular os dedos dos pés.
― O que você está planejando fazer em Almeida? ― Perguntou ela, ― Levantar o
cerco sozinho? ― Ela moveu seus pés na água e mexeu os dedos, novamente. Podia ver
que ele a observava.
― Ver se Cox e a guarnição estão se aguentando. ― disse ele. ― Se eles estiverem,
Joana, e nós formos para o oeste, eu vou estar seguro e você será condenada. Seu amante
não se atreveria a nos seguir para dentro de Portugal até que o forte caia.
― Então, terei que esperar que ele caia sem demora, ― disse ela.
― Eu não contaria com isso. ― Ele virou a cabeça para olhar para ela. ― Cox é um
diabo teimoso e Almeida não é uma fortaleza fácil de atacar.
Ela encolheu os ombros e olhou para ele. ― Marcel virá, ― disse ela. ― Eu sei que
ele vem. Não importa qual seja o perigo.
E ela acreditava em suas próprias palavras. Ele viria. Ele tinha que vir. Ela não iria
acreditar que o tinha finalmente encontrado, e enlaçado seu coração, apenas para o
perder, porque ela o queria matar em Portugal, em vez de em Salamanca. ― Nós vamos
ficar aqui esta noite?
Ele olhou em volta, como que analisando. ― Sim, ― ele respondeu finalmente. ―
Parece um lugar tão bom quanto qualquer outro. Não, eu acho. ― Ele apontou para um
grupo de árvores que era mais denso do que qualquer outro. ― Vamos estar bem
escondidos e bem abrigados. Nós vamos encontrar uma cama mais confortável lá do que
ontem à noite. ― Ela sorriu para ele. ― Minha cama estava muito confortável na noite
passada, ― disse ela.
Ele não ficou satisfeito com o novo rumo que sua relação tinha tomado. Ela
poderia dizer, pelo jeito que ele tinha andado todo o dia, um pouco à sua frente, sem falar
nada além de observações puramente mundanas e sobre a sua viagem. Nada pessoal. Mas
não parecia se mostrar consciente de que haviam se tornado amantes na noite anterior.
Ela tinha estado feliz durante todo o dia andando um pouco atrás dele, que, pelo
que pareceu, estivera consciente de tudo sobre ela. O observara, as pernas longas e
poderosas, quadris e cintura estreitos, suas largas costas e ombros, seu cabelo louro
ondulado sobre o colarinho, o transporte sem esforço de duas armas pesadas, bem como
sua espada. Ela, descaradamente, o despira com os olhos e gostara do que vira. E
deliberadamente, revivera seu ato de amor e soubera, inexperiente como era, que ele era
um amante especialista e competente, que sabia muito mais do que mostrara na noite
anterior.
E ela queria mais! Queria toda a sua perícia. E queria olhares melosos dele e
palavras suaves também. Mas, por enquanto, se contentaria com a experiência.
― Nós vamos fazer amor novamente, hoje à noite? ― Perguntou a ele, que pegou
uma pedra e a jogou enviesada, pulando e espirrando na superfície da água. ― Melhor nós
comermos o que resta da nossa comida ― disse ― e mover nossas coisas para as árvores.
― É sim ou não? ― Perguntou ela, sorrindo. ― Robert, pode me emprestar a
minha faca por um minuto?
― Não ― ele falou, se levantando.
― Você não vai perguntar por que a quero? ― Ela suspirou. ― Você acredita que a
quero para esculpir as minhas iniciais em seu peito?
― Se você tem uma necessidade legítima de uma faca ― disse ele, ― eu a uso para
você.
― E você? ― Ela olhou para ele. ― Você ficará satisfeito com isso, Robert, o que
confirma todas as suas suspeitas sobre mim e minha vida mansa. Eu tenho uma bolha que
precisa ser rompida. E dói como mil demônios.
― Mostre ― disse ele, e sentou sobre os pés a seu lado.
Ela levantou um pé para fora da água e mostrou a grande bolha no calcanhar, logo
abaixo do tornozelo, onde a correia da sandália se esfregou o dia todo.
― Joana. ― Ele parecia irritado em vez de simpático. ― Isso deve ter sido uma
agonia, por horas. Suponho que seja orgulhosa demais para reclamar.
― Teimosa demais, ― respondeu ela. ― É exatamente o que você esperava de
mim, não é? Deixei a alça para baixo, para que não friccionasse mais.
Ele pegou o pé em sua mão e tocou, suavemente, a pele macia ao redor da bolha.
― Você deveria me ter dito ― disse ele.
Sua mão estava quente contra a carne gelada de seu pé. Sua cabeça estava inclinada
perto dela, cheirava a poeira e suor, cheiro muito maravilhoso.
― O que você teria feito? ― Perguntou ela. ― Me carregado? ― Nós poderíamos
ter parado em uma das fazendas ― disse ele.
― E você poderia ter tido um carrancudo tempo maravilhoso e escarnecido de
mim, com um “eu não disse” assim que me olhasse no rosto. ― disse ela. ― Não,
obrigada. Um pouco de dor não chega a matar.
Ele pressionou o polegar na bolha, o que foi doloroso, e provava que,
definitivamente, precisava ser rompida.
― Me empreste a faca, ― ela falou de novo. ― Se você quiser, pode ficar afastado e
apontar seu rifle entre os meus olhos.
Ele tirou a faca do cinto e sentiu sua ponta. ― Você poderia fazer um dano real
com isso, ― disse ele.
― Essa é a ideia. ― Ela sorriu para ele, que continuou ― É melhor olhar para
longe.
Ela não deixou de lhe sorrir, enquanto ele franzia a testa concentrado e picou a
bolha, e baixou o pé na água novamente. Seu rosto estava ainda um pouco maltratado da
provação de sua semana atrás, mas as contusões só o conseguiram fazer parecer ainda
mais difícil e atraente.
― Vamos enfaixar seu calcanhar amanhã de manhã, antes de continuar o nosso
caminho ― estabeleceu ele.
― Com o quê? ― Ela riu levemente. ― Oh, mas eu sei a resposta. Você vai ser
indizivelmente galante e rasgar tiras de sua camisa, não é?
― Na verdade ― disse ele, e ela o conhecia bem o suficiente para saber que quase
sorriu, embora se contivesse a tempo, ― Eu estava pensando na bainha de seu vestido.
― Que estaria mais curto e você poderia iluminar seus dias, olhando fixamente
meus tornozelos ― ela falou. ― Que vergonha, Robert.
Ele pegou sua mochila e lhe entregou um pouco de pão e queijo, ambos bastante
secos. Mas depois de um dia de abstinência, a refeição provava ser maravilhosamente
gratificante.
― Um copo de vinho, senhor? ― Perguntou ela, quando tinham acabado de comer,
apontando para o córrego. Se ajoelhou novamente e baixou a boca para a água. Ele ficou
onde estava e ela sabia que a estava olhando. Depois, ela segurou a água nas mãos e lavou
o rosto, o pescoço e os braços acima dos cotovelos.
Ele movera suas coisas para o meio das árvores, quando ela finalmente chegou
perto, e usava um ramo de folhas para apagar os vestígios de presença no banco do
córrego.
Ele espalhou um cobertor debaixo das árvores, onde se sentaram, lado a lado,
olhando para o fluxo do rio e o banco inclinado ao lado.
― Por que você fez isso, Joana? ― Ele perguntou em voz baixa, depois de alguns
minutos de silêncio. ― Como você pôde trair o povo de sua mãe e do seu marido?
― O povo de meu pai são os franceses, ― disse ela. ― Meu pai é um embaixador,
em Viena. Parece que tenho que trair um lado ou o outro.
― Você poderia ter estado neutra, ― ele falou. ― Você poderia ter decidido ser
uma senhora típica.
― Típica? Eu? ― Ela sorriu rapidamente para ele. ― Eu nunca poderia ser isso,
Robert. E neutra? Não é da minha natureza ser neutra.
― E assim, ― ele lhe falou ― você estava disposta a ver o seu país de adoção
destruído e os compatriotas de sua mãe expulsos do continente.
― Ah, ― disse ela, ― mas eu continuo afirmando que sou um dos espiões de
Arthur, como você, que eu estava em Salamanca trabalhando pela mesma causa que você.
― Uma maneira estranha de o fazer ― disse ele. ― Se você estivesse do meu lado,
Joana, eu odiaria ter tido você contra mim.
― Eu não sabia que você iria ser surrado novamente ― disse ela. ― Não achei que
eles ousariam. Você teria acabado com Marcel e dois dos soldados, tenho certeza. Eu
estava feliz por ter tido a ideia de me certificar de que houvesse mais do que apenas os
três lá.
― Obrigado ― disse ele. ― E você estava do meu lado?
Ela sorriu. ― Você deixaria Salamanca com Duarte e os partidários espanhóis se
isso não tivesse acontecido? ― Perguntou ela.
― Claro que não ― disse ele. ― Eu tinha condicionado a minha liberdade à minha
palavra empenhada. ― Ela virou a palma das mãos para cima. ― Eu encerro o meu caso.
― Eu acredito que você poderia convencer a maioria das pessoas que o preto é
branco, se assim o quiser, Joana ― disse ele. ― E sobre as Linhas de Torres Vedras? ―
Ele olhou para ela com os olhos apertados. ― Elas são reais ou são um mito?
― Você sabe a resposta, assim como eu, ― disse ela. ― Eu não preciso responder à
sua pergunta, Robert.
― Não, você vê? ― Disse. ― Você não vai me dar uma resposta, porque tem medo
que seja a errada e que eu saiba, sem sombra de dúvida que você é uma mentirosa.
― Há uma sombra de dúvida, então? ― Perguntou ela. ― Você gostaria de
acreditar em mim, não é, Robert?
― Eu gostaria de acreditar que não é, como o diabo ― ele explicou. ― Mas eu sei
que não é assim.
― Você gostaria de acreditar, ― ela disse, ― porque você fez amor comigo e
porque me ama só um pouco, mesmo que não admita isso, nem para si mesmo. E porque
quer gostar de mim novamente esta noite. Você se sente desleal fazendo amor com o
inimigo, não é?
― Eu posso ver como você salvou sua consciência ao longo dos anos, ― disse ele.
― Se convenceu de que o sexo é amor, Joana, que todos os seus parceiros sexuais têm
sido amantes. Acha que eu sou um amante também. Suponho que você convenceu a si
mesma que me adora um pouco.
― Eu o disse uma vez, ― disse ela.
― Sim, me lembro bem. ― Ele olhou para ela, com sua pétrea expressão. ― E um
momento depois, seus bandidos estavam em cima de mim. Eles ainda estariam se
divertindo comigo todos os dias, se as coisas não tivessem saído como foram.
Ela estendeu a mão para tocar seu braço, sentindo o tecido áspero de sua manga.
Não podia resistir a trabalhar sua vulnerabilidade, ou ceder à dela própria. E sabia, de
repente, como talvez tivesse conhecido inconscientemente, já havia algum tempo, que
tinha encontrado em Robert Blake o que ela estava procurando por toda a sua vida
adulta.
Mas, não foi dada nenhuma chance de se deleitar com o pensamento. Ele se
afastou de sua mão e se voltou para ela, seu rosto feroz, os olhos azuis em chamas.
― Ouça, Joana ― disse ele, ― nós podemos estar juntos por dias, ou mesmo,
semanas. Eu não tenho nenhuma intenção de viver com esta tensão entre nós por todo
esse tempo. Não tenho nenhum desejo de passar todos os dias e todas as noites a debater
a questão, de saber se devemos ou se não, de saber se vamos, ou se não vamos.
Precisamos resolver de uma vez por todas. Devemos ser parceiros sexuais ou não? A
escolha é sua. Mas, me deixe a avisar. Se a resposta for sim, isso vai acontecer, dia ou
noite, será sem qualquer pretensão de sedução ou romance. E sem nenhuma pretensão de
amor, ou mesmo ternura. Isso vai acontecer porque somos um homem e uma mulher a
sós, e porque nós dois consentimos no prazer físico, que deve ser executado unindo
nossos corpos.
― E se a resposta é não? ― Ela sorriu para ele e tocou em seu braço novamente.
Ela não tinha medo da sua ira, que seria desencadeada em apenas um caminho, se ele
perdesse o controle. Ele nunca a iria machucar, ela sabia, com o conhecimento instintivo
que parecia ter dele. ― Você seria capaz de viver com a tensão diária, Robert?
― Não haveria nenhuma ― disse ele. ― Se a resposta é não, então não há nada para
causar tensão. Eu não vou tomar o que não me é dado livremente.
― Você acha que poderíamos estar juntos e celibatários, e não sentir a tensão? ―
Perguntou ela. ― Eu acho que você é um mentiroso, Robert. Ou então, você não tem
imaginação.
Sua mandíbula se apertou. ― Então, é melhor você me tentar ― disse ele.
Ela fez uma careta. ― Eu queria que você não tivesse dito isso, ― lhe responde ela.
― Sabe que não posso resistir a um desafio, Robert. Mas, neste preciso momento,
acredito que preciso. Minha resposta é sim, você vê. Acho que é melhor que sejamos
amantes, enquanto estamos juntos. Ou parceiros sexuais, se você preferir o termo. Sim,
essa é a minha escolha. Você está um pouco feliz ou muito?
Ele estava tirando o casaco. E então, desafivelando o cinto da espada, a olhando
nos olhos, o tempo todo. E ela sabia o que estava fazendo, o que ele ia fazer. Ele não ia
esperar até o anoitecer, até o momento certo para o amor. Isto tinha significado, quando
ele disse nenhum romance e nenhuma sedução. Ele estava, desapaixonadamente, lhe
provando que seriam amantes sem nenhuma pretensão, somente parceiros sexuais.
Bem. Ela sorriu lentamente. Dois podiam jogar esse jogo. E se ele não se
importava de jogar baixo, então ela o iria pegar, antes mesmo de tocar o solo. Ela soltou
o cinto e o deixou cair ao lado do cobertor, se levantou, tirou suas roupas de baixo,
puxou o vestido por cima da cabeça e, se deitou nua sobre o cobertor, olhando para ele.
Ele ficou com raiva. Ela sabia, embora ele não dissesse nada. Ela tinha roubado seu
fogo. Ele ficou como que espantado, desconcertado, embaraçado, qualquer número de
coisas negativas. Ele não esperava que ela se preparasse, como, de fato, da maneira como
ele estava fazendo. Ela quase lhe perguntou o por quê da demora, o que teria sido ir longe
demais. Ele saberia, se ela tivesse falado, que zombava dele. Ele teria sabido, que estava,
de fato, consternada, que não queria ser tomada assim, sem aparência de amor.
Mas iria ganhar, eventualmente, ela decidiu. Se ele pensava que podiam ter
intimidade por dias, ou mesmo semanas, sem que seus sentimentos estivessem de alguma
forma envolvidos, então é claro, não a conhecia nem a metade do quanto ela o conhecia.
Permitiria seus acoplamentos de dia e à noite, se lhe dessem uma sensação de poder, mas,
o tempo todo, ela estaria tecendo um feitiço dourado de amor sobre ele. Oh, sim, ela iria.
Ele tinha mudado de ideia, ela viu. Se tivesse a intenção de se despir
completamente, ele teria retirado as botas em primeiro lugar. Mas agora as estava
removendo, e sua camisa e as calças também. E oh, sim, pensou o olhando, que era tão
magnífico como havia visto em sua imaginação durante todo o dia. Só que ela não tinha
imaginado as cicatrizes, especialmente a grande e ainda roxa, abaixo do ombro esquerdo,
apenas ligeiramente acima do seu coração.
Como suas cicatrizes faciais, as de seu peito não prejudicavam em nada a sua
atratividade. Ele era lindo. Ela queria lhe dizer, mas este era para ser um encontro sexual
desapaixonado. Que assim fosse então. E assim seria.
Não deveria haver nenhum beijo, nem carícias, parecia. Ela sentiu pesar, mas abriu
as pernas para ele na primeira cutucada de joelhos e observou enquanto ele se posicionou
e entrou nela com um impulso rápido. Ela sorriu para os olhos dele.
― Se isto é para ser prazeroso, Robert, ― ela lhe disse, ― então eu espero ter
prazer.
― Oh, você vai. ― Sua voz e seus olhos estavam duros, quando ele trouxe seu
corpo para baixo no dela, que se lembrou do peso de todos os músculos caindo sobre ela,
o chão em suas costas. ― Você vai, Joana.
― E eu espero dar prazer ― ela disse, suas mãos deslizando sobre a pele quente, até
que seus braços estavam ao redor dele e suas pernas deslizaram para sua cintura, até que
ela esfregou seus pés entre os dois. ― Eu não vou dar prazer apenas para mentir e
assentir como um peixe, até que tenha terminado dentro de mim.
― Faça o que você quiser ― disse ele. ― Temos um acordo mútuo.
Despir na frente dele e o ver se despir excitava tanto como beijos e carícias teria
feito. Quando ele veio para dentro dela, entrara na umidade, e ela estava expectante, seus
seios estavam sensíveis e doloridos, e seu desejo por ele estava pulsando através dela.
Seu amor por ele.
Ela o segurou com os braços e pernas, toda a sua magnificência musculosa, e se
moveu contra ele, revirando seus quadris e os ombros, recorrendo a ele com músculos
internos, o sentindo bastante e profundamente, querendo aquilo e o querendo a ele, e
mantendo a boca firmemente fechada para não dizer nada. Ele não se moveu.
― Isto é bom para você? ― Ela perguntou em um sussurro. ― Será que isso,
Robert?
― Sim. ― Ele se apoiou nos cotovelos, e seu rosto estava acima dela, de repente, os
olhos azuis que a olhavam, não tinham expressão. Mas ela podia ver mais profundamente
do que seus olhos, e sabia que ele falava a verdade.
― Me dê prazer também ― disse ela. ― Eu quero ter prazer também, Robert.
― Assim? ― Ele se retirou muito lentamente e reentrou tão lentamente quanto
pôde. ― Isto lhe dá prazer?
― Sim ― ela disse, e ele fez isso de novo, seus olhos segurando os dela, e mais uma
vez.
Ela queria sua boca na dela. Não havia nada mais íntimo do que o que estavam
fazendo. Mas o encontro de bocas trazia a proximidade do amor. Ela queria sua boca na
dela, sua língua dentro. Mas é claro que esta era para ser uma experiência sem amor. Era
sobre intimidade e não proximidade, sobre sexo e não amor.
Ela moveu os quadris novamente para que juntos eles montassem um ritmo lento.
― É bom? ― Perguntou ele.
― Sim. É muito bom ― ela falou. ― Você é maior do que a maioria dos homens,
Robert?
― Você deve saber ― disse ele. ― O chão é duro? Você prefere vir em cima de
mim?
― Não. ― A dor de sua necessidade estava em sua garganta. Ela fechou os olhos.
Ele certamente saberia a verdade, se continuasse o olhando. Como não poderia saber?
Seria possível fazer isso, exatamente dessa forma, somente por prazer físico? Talvez assim
fosse para um homem. Talvez tenha sido para algumas mulheres. Mas, não para ela. Ela
não poderia fazer isso apenas por prazer. Ela o poderia fazer apenas por dever, embora,
quando foi dever, só conseguira aceitar por seis vezes. Mas, poderia fazer por amor.
Será que ele não sabia disso? E que ela lhe devia qualquer direito?
E foi assim, não fora para ele? Foi sempre assim com suas prostitutas? Com
Beatriz?
― É assim para você com Beatriz? ― Seus olhos se abriram e ela se viu olhando
para os dele, novamente. ― É tão agradável com ela?
― Faça, Joana ― disse ele. ― Silêncio. ― E baixou seu peso sobre ela novamente,
deslizando as mãos para suas nádegas, como fez de manhã cedo, para que ela não sentisse
a dureza do solo, e aumentou o ritmo da sua cópula para um mais rápido.
Ela pensou que iria, certamente, ficar louca. Levou uma eternidade para terminar.
Não que ela tivesse qualquer queixa sobre isso, já que desejava que pudessem ficar unidos
para sempre. Mas ele não permitia que sentisse prazer. Quando sentiu isso chegando,
reconhecendo os sinais da noite anterior, e sabendo que não teria a noite de glória, a paz
que esperava, ele deve ter percebido isso também e lhe acariciou, mais superficialmente,
de modo que, embora ela se movesse e empurrasse contra ele, não o podia trazer para o
núcleo de sua dor, para o centro do seu ser.
E assim, apesar de tudo, estava perdendo esta rodada particular de sua luta. Ela
teve que morder os lábios para não choramingar e implorar. E ele sabia disso. Ele estava
usando de uma perícia com a que ela não podia competir. Ele estava brincando com ela,
como jogaria com um adversário, que estava absolutamente certo de derrotar. Ela não
podia lutar com ele, nem mesmo a luta desesperada que tinha lutado antes. Ela não
poderia jogar jogos mentais com ele, quando seu corpo estava gritando seu amor e a
necessidade de ser amado.
― Agora, Joana! ― Ele ordenou contra sua orelha, mas poderia muito bem ter
falado grego, para o que compreendia das palavras. Mas ela entendeu a linguagem do seu
corpo. Ele tinha abrandado e aprofundado, e em seguida ele se dirigiu urgentemente, para
ela, com o que ela gritou e veio contra ele com uma força demolidora, que obliterou todo
o pensamento, e até mesmo a consciência dos momentos intermináveis.
Ela estava deitada de costas, olhando para troncos de árvores e galhos. O ar quente
da noite era bom contra sua pele nua. Seu rosto estava perto de um ombro que irradiava
calor, e que a atraia como um ímã. Ela esfregou sua bochecha contra ele, e os pedaços
quebrados de sua mente se reuniram novamente.
― Obrigada, Robert, ― disse ela. ― Isso foi realmente agradável.
― Que diabo você quis dizer, ― ele perguntou, ― mencionando Beatriz no meio de
tudo isso? Você não tem senso de decoro? E o que acontece com todos os seus amantes?
Eu sou medido por eles?
― Muito favoravelmente, ― disse ela, fechando os olhos. ― Muito favoravelmente,
de fato, Robert. Eu acho que você pode ter me estragado para todos eles.
― Bem, ― ele disse, ― Leroux e inúmera dezenas de outros pode lhe dar uma
fortuna e uma vida de luxo, bem como um maldito bom tempo na cama, Joana. Eu não
acredito que você vá pingar para mim por muito tempo.
― Eu nunca pinho, ― disse ela. ― Exceto uma vez. Isso foi antes de eu aprender a
lidar com a vida.
― Já houve tal hora? ― Perguntou ele.
― As pessoas riem do amor entre as crianças ― disse ela. ― Eles chamam isso de
amor de filhotes, como se isso não fosse amor de todo, mas algo meramente para causar
diversão. Eu acredito que é o melhor amor, o único amor. É puro e inocente e em tudo
consome. Eu nunca menosprezei esse amor.
Ele tinha virado a cabeça para olhar para ela. Ela estava olhando sobre o seu peito,
para as árvores além dele.
― Ele era lindo, ― disse ela. ― Ele tinha dezessete anos de idade, mas muito adulto
aos olhos dos meus quinze anos. Ele foi o primeiro homem com quem eu dancei, o
primeiro homem que eu beijei. Ele foi o primeiro a me tocar. ― Ela sorriu com ar
sonhador. ― Ele tocou meu peito e me senti pecaminosa e maravilhosa. Eu o amava total
e apaixonadamente, Robert, ele foi o outro Robert de que lhe falei. Jurei que o iria amar
sempre, que nunca iria me casar com ninguém, só ele.
― E ainda assim, ― disse ele depois de um breve silêncio, ― você amou inúmeros
outros e se casou com outra pessoa.
― Por razões políticas, ― disse ela. ― E não, eu nunca amei ninguém como eu o
amava. ― Se não, pensou ela, o pensamento longe, e virou a cabeça em seu ombro e
fechou os olhos. ― Durou apenas alguns dias antes de meu pai me pegar, ele era
inelegível, sabe, e me levar embora. Mas eu ansiei por ele, por meses. Tolo, não foi, com a
idade de quinze anos?
― Sim, ― disse ele. ― Insensato.
― Mas não era tolo ― disse ela. ― Ele era a única coisa bela em minha vida, meu
Robert. Mas ele morreu. Quando Papa quis me levar de volta para a França, eu não queria
ir. Mas ele adivinhou o motivo. Então, ele me disse o que de outra forma teria escondido
de mim, meu Robert morreu de varíola, apenas seis semanas depois que o deixei.
― Ele? ― Ele perguntou depois de uma pausa.
― Eu pensei que iria morrer também, ― disse ela. ― Isso não é tolo? Não são os
jovens tolos para acreditar que um coração partido pode matar? Em vez disso, voltei para
a França com meu pai e percebi que sou bonita e atraente, o que sou, não sou? E aprendi
a manter os homens na baía, de modo que não teria que experimentar essa dor
novamente. O amor é doloroso, Robert.
― Sim, ― disse ele.
― Eu só queria... ― ela disse.
― O quê?
― Eu só queria ― ela disse, ― que não tivesse acreditado nas mentiras que meu pai
falou sobre ele. Eu não o fiz por muito tempo, mas já era tarde demais, quando admiti
que o meu Robert nunca teria se vangloriado sobre mim para os criados e me chamado
de puta francesa. Você pode me chamar assim, Robert, mas ele não teria. Ele era um
cavalheiro, apesar de sua origem. E eu zombei do seu nascimento, porque os meus
próprios sentimentos tinham sido quebrados. Acho que o feri. Não estava ferido em seus
olhos quando o deixei.
Ela o ouviu engolir.
― Você vê? ― Ela sorriu contra seu braço. ― Eu fui humana uma vez também,
Robert. Eu amei. Você não pensaria que sou capaz de amar, não é? Mas então, é claro, eu
tinha apenas quinze anos de idade. Era só amor. Não é a coisa real de todo. Bastante
divertido realmente. Mas você me faz lembrar dele. Isso não é um absurdo? Era um rapaz
alto e magro, e gentil. Ele odiava o pensamento de ter que matar, uma vez que seu pai
comprasse sua comissão. Nada como você. E ainda assim, me faz lembrar dele. Talvez ele
tivesse amadurecido em um homem como você, se tivesse vivido. Talvez não. Acho que é
assim, que eu nunca vou saber.
― Temos de nos vestir, Joana, ― disse ele, ― e depois dormir. Eu não gostaria de
ter de me levantar, às pressas, vestido como estou agora.
Ela não queria se mover. Sentiu uma dor profunda, como se o tempo tivesse
acabado de voltar onze anos atrás. ― Não, ― ela disse, correndo a mão sobre os olhos
para enxugar uma lágrima derramada ― minhas memórias estão me tornando um regador.
Alguma vez você conheceu algo mais ridículo?
Sentou de repente e entrelaçou os braços sobre os joelhos. Se sentia desolada e
muito solitária, e assustada com seus sentimentos. Normalmente ela se armava
cuidadosamente contra qualquer vulnerabilidade. A mais negativa das emoções que se
permitia normalmente, era o tédio.
― Não há nada de ridículo nisso, ― disse ele. ― É muito natural, eu acho, às vezes
implorar a inocência e a alegria da infância e da juventude. E lamentar sua perda. Não há
nada tolo na sua história, Joana.
Ela se sentiu aquecer novamente, e se tranquilizou. E seu amor por ele se tornou
quase uma coisa tangível. Estendeu a mão e o teria tocado, mas não o fez. Ele teria
entendido mal. Teria pensado que ela estava pedindo prazer, novamente. Teria pensado
que era um gesto puramente físico.
― Se vista, ― ele disse a ela, e começou a recolher suas próprias roupas. ― Você
não gostaria de ser encontrada assim, Joana, até mesmo por seu amante francês. Ele tem
uma companhia inteira de homens com ele.
Poderia muito bem ter dito a ela para se vestir e lhe dar um tapa no rosto, para a
apressar ao mesmo tempo, Joana pensou com tristeza, enquanto pegava seu vestido. Suas
palavras eram mais dolorosas do que um tapa. Seu amante francês? Será que ele não tinha
esse sentido extra que ela tinha? Ele não sabia que ela não tinha outro amante além dele?
Que não poderia haver ninguém além dele, agora?
Aparentemente não. E parecia que o seu segundo amor estava destinado a trazer
tanto sofrimento quanto o primeiro.
― Na verdade, ― ela disse, ― isso não me incomoda, Robert. Estou bastante
acostumada a ser olhada nua por todos os homens que me desejam mas, geralmente, um
de cada vez, devo admitir. Mas eu odiaria ver você corar. Você vai me deixar ter minha
arma, se Marcel e sua companhia de homens vier para cima de nós? Você estará,
terrivelmente, em desvantagem. Talvez eu possa matar alguns para você.
― Esqueça, Joana ― falou. ― Vou lhe dar uma grande dose de prazer durante os
próximos dias e noites, de acordo com a sua decisão. Mas não vou lhe dar o prazer de me
matar, isso eu lhe garanto.
― Então, vou matar Marcel, de uma vez ― disse ela. ― Estou cansada dele, e não é
tão bom amante como você, Robert. Não. Eu o vou matar para você, e todos os seus
homens voltarão correndo para a segurança de Espanha e os braços de partidários.
― Se deite ― disse ele. ― Quero estar no nosso caminho de madrugada, e este tem
sido um longo dia. Como é o seu calcanhar?
― Desculpe ― disse ela. ― Você deve me dar uma bala para morder, durante a
marcha de amanhã, Robert. Você vai me segurar presa em seus braços com a perna
jogada em torno a minha, como você fez na noite passada?
― Sim ― disse ele. ― Deite.
― Você sabe, Robert ― disse ela, obedecendo e se acomodando em seu abraço,
que veio em seguida da perna, que prendeu firmemente a sua. Ele se aproximou dela, ―
eu poderia continuar bastante confortável sendo uma prisioneira. Você acha que Arthur
irá lhe nomear meu guarda? Mas você vai ter que me deixar de novo.
― Esqueça isso ― disse ele.
― Você não me permitiu meus cinco minutos de privacidade, ― lembrou ela. ― Eu
receio que precise deles. ― Ele xingou e lhe respondeu. ― Cinco! ― Disse. ― Nem um
segundo a mais.
― Robert. ― Ela riu levemente, quando se levantou. ― Você realmente não deveria
ter dito isso. Agora, deve perceber, vou ter que demorar seis minutos, oh, sim, e um
segundo a mais do que isso, também. ― Ela se virou e sumiu por entre as árvores. É uma
delícia o poder provocar, Joana pensou, e se sentiu quase culpada, considerando todas as
circunstâncias enumeradas em sua mente, por se sentir tão maravilhosamente feliz.
Capítulo 20
Ele não tinha certeza do que o havia acordado. Mas fosse o que fosse, tinha
acordado Joana também. Ela ficou rígida em seus braços, e ele colocou três dedos de
advertência sobre seus lábios.
― Sh ― ele murmurou contra seu ouvido.
Mas não tinham sido vozes, nem o som de passos ou cascos. Ele soube, logo que
ficou plenamente consciente.
― O que foi? ― Ela murmurou contra seus dedos. ― A terra tremeu.
― Uma explosão ― disse ele. ― Uma grande. Muito longe, eu acho. Deve ter sido
Almeida.
― Bombardeamentos? ― Perguntou ela.
Ele franziu a testa. ― Foi apenas um grande boom ― respondeu. ― Seria melhor se
fôssemos olhar. Vamos. É tempo de que estejamos a caminho.
Não era madrugada ainda, e ele tinha planejado, durante a hora ou mais em que
ficara acordado, depois da segunda amorosa, pensando sobre ela e sobre si mesmo, sobre
como eles haviam sido onze anos antes e como eles estavam agora, tinha planejado a ter
novamente, antes de partirem em seu caminho para encontrar Almeida e para encontrar
comida. A melhor maneira de acalmar seus pensamentos perturbadores, ele decidiu, era
levá-la de novo e de novo e de novo para o seu prazer, usá-la como a prostituta que era.
Uma prostituta de classe alta, que não recebia dinheiro, e mesmo assim uma puta.
Agora, não havia nenhum desejo de prazer para os atrasar. Deus, a terra tinha
abalado. Fosse o que fosse, tinha sido um inferno de uma explosão.
Joana estava enrolando o cobertor e deixando o outro para que ele enrolasse. Ela
podia ter concordado em ser a sua parceira sexual durante o tempo em que eles
estivessem juntos, pensou ele, com um sorriso triste dirigido a si mesmo, mas, não para
desempenhar o papel de sua mulher. Ele não poderia esperar nenhum favor mais de
Joana, do que o sexual. E assim mesmo, ela exigia tantos favores como os que dava.
Deus, mas foi maravilhoso fazer amor com ela, pensou ele, enrolando o cobertor e
acomodando suas armas em seu ombro. Ele teve que usar toda a sua força de vontade, ao
ter relações sexuais com ela, para não se perder na emoção, para não murmurar palavras
doces em seu ouvido, para não a cortejar com as mãos, sua boca e seu corpo, em vez de
apenas se concentrar no prazer dado e recebido.
Não seria isso simplesmente amor? Ele pensou, se endireitando e olhando para ver se
ela estava pronta. Ela não gostaria de saber o quão perto estava de ter poder total sobre
ele? Felizmente, ela nunca saberia. Ele morreria antes de dar qualquer parte do seu eu
interior para tal mulher, ou a qualquer mulher
Embora, ela o tivesse realmente amado aos quinze anos, ele pensou de repente, e o
pensamento quase o enfraqueceu, como tinha feito na noite anterior. Ela tinha falado
essas palavras a ele, todos esses anos foram de ferida, porque ela tinha pensado que ele a
tinha machucado. Mas ela reconhecera o fato de que seu pai tinha mentido para ela sobre
esse incidente, sem de modo algum suspeitar que ele lhe tinha mentido sobre o outro
também. Fora dito que Robert estava morto porque ela esperava por ele. Mas isso tudo
tinha acontecido há muito, muito tempo, durante uma outra vida. ― Pronta? ―
Perguntou. ― Como está o calcanhar?
― Está tudo bem, ― disse ela. ― Vou manter a correia para baixo. Não vou te
atrapalhar, Robert, ou pedir para descansar. E se eu sentir a necessidade de gritar, vou
morder meu lábio inferior até que sangre.
Ela sorriu com aquele brilho, provocando o sorriso que poderia dar uma
cambalhota no coração dele. E era verdade, ele sabia. Ela tinha coragem sem limites,
tinha que ter, para ser uma espiã francesa. Mas, agora ele sabia que ela tinha coragem
física também. Não tinha reclamado uma só vez no dia anterior sobre o calor ou a
poeira, ou ainda, sobre a fome ou o ritmo deliberadamente acelerado que ele havia
mantido. E nem uma vez ficou para trás. Ele sentiu uma admiração relutante por ela.
― Vamos, então, ― disse. Mas as palavras, mal saíam da boca quando virou Joana e
a abraçou de costas para ele, e segurou uma das mãos sobre sua boca. ― Silêncio! ― Ele
sussurrou asperamente.
Desta vez, o som era, definitivamente, de cascos de cavalos, e muitos. E vozes. Ele
empurrou Joana para o chão e deitou ao lado dela, enganchando uma perna sobre a dela e
mantendo a mão sobre sua boca. Tirou as armas de seu ombro até que ficaram a seu lado.
Ele não teria nenhuma chance, pensou, se foram vistos. Mas, pelo menos, levaria
dois franceses com ele, um com o rifle e o outro com o mosquete. E se tivesse sorte,
talvez um, ou mesmo dois, com a faca ou a espada, se pudesse.
Alguém praguejou em francês. ― Nós estávamos acampados apenas a um
quilômetro ou algo assim, sem perceber que ele estava aqui ― disse a mesma voz.
― Tudo bem ― disse o coronel Leroux. ― Dê a ordem para os homens beberem e
dar água a seus cavalos. Dez minutos. Essa explosão deve ter vindo de Almeida. Os
bastardos devem ter sido soprados para a glória.
― Ney estará dentro da fortaleza agora? ― Perguntou a primeira voz. ― Cachorro
sortudo. Saque e vinho...
― E as mulheres ― disse o coronel. ― Mulheres às dezenas, enquanto vivam. Dê
fim a isso. Nós devemos ir em frente. Eles vieram para cá, estou certo disso.
Provavelmente, se dirigindo para a segurança de Almeida. ― O primeiro homem riu e se
virou para dar a ordem de partir.
O capitão tirou um lenço do bolso, se deitou sobre Joana e sussurrou em sua
orelha.
― Não emita um som ou movimento, ou você pode ser a primeira a morrer. ―
Então, ele dobrou o lenço em uma tira grossa, lhe cobriu a boca e amarrou firmemente
atrás de sua cabeça. Depois, tirou o cinto dela da cintura e lhe atou as mãos, uma de cada
vez, às costas. E só, então, se afastou dela, que não tinha tentado lutar, nem uma só vez,
percebeu, com alguma surpresa.
O céu a leste estava começando a clarear, ele notou pela primeira vez, olhando
cautelosamente, por entre as árvores, e podia ver cavalos e homens à beira da água, e
Leroux, ainda montando seu cavalo, a uma curta distância. O capitão levantou o rifle,
silenciosamente, se apoiou nos cotovelos, olhando ao longo dele e mirando na têmpora
direita do coronel. Outro cavalo se aproximou pelo outro lado dele, no mesmo instante.
― Não faria mais sentido viajar sozinho, ou com apenas um ou dois dos outros, ―
disse o coronel Leroux. ― E nós não podemos os esperar surpreender com o barulho que
esta companhia faz, não é? Deus, eu odeio essa forma de guerra. Eles têm todas as
vantagens neste tipo de país, esses partidários condenados.
― Mas viajando em um grande grupo é a única maneira de nos proteger ― disse o
outro homem. ― Eles pensariam duas vezes antes de atacar uma companhia inteira,
coronel. Sua vida não valeria mais que o estalar de dedos, se você viajasse sozinho.
― Se eles tocaram um só cabelo da cabeça da Marquesa, ― disse o coronel ― todos
eles vão morrer muito lentamente. O inglês mais lentamente que todos. Eu lhe vou tirar
de seu uniforme, eu juro, se houver alguma dúvida, de que ele não estava usando um. E
então, lhe tirarei sua carne, um doloroso centímetro de cada vez. Vou fazer isso
pessoalmente.
Joana tinha virado a cabeça de lado e estava olhando para ele, o capitão Blake
sabia, mesmo sem tirar os olhos do coronel, nem por um momento. Sem dúvida, ela
estava exultante com o que estava ouvindo.
― Eles poderiam até mesmo estar escondidos aqui ― disse o outro homem. ―
Conhecem o país melhor que nós e saberiam sobre esta água.
― Não há cobertura suficiente ― disse o coronel, assim como o capitão Blake
tensou seu dedo firme no gatilho da espingarda. ― Há pelo menos uma dúzia deles.
― A menos que se tenham separado em grupos menores ― disse o outro homem.
― Com uma companhia inteira dos melhores soldados do mundo atrás deles? ― O
coronel disse com desdém. ― Eles teriam que ser tolos ao extremo.
― Ou inteligentes ― disse o outro homem.
― O tempo está correndo, ― o coronel disse, impaciente. ― Temos que seguir em
frente. Nós precisamos de comida e encontrámos apenas duas fazendas ontem. Além
disso, pretendo pegar a trilha deles ainda hoje. Tem sido um caminho muito longo. Ela é
uma coisinha tão delicada...
Ele moveu seu próprio cavalo para dentro da água, assim como o resto de seus
homens, conforme foram sendo recolhidos, formando a coluna para retomar a viagem. O
rifle do capitão Blake seguiu o coronel. Eles estavam loucos para arranjar uma desculpa
para não os procurar, pensou. Era um lugar apropriadamente óbvio para acampamento.
Mas havia muito pouco abrigo, realmente. Devia a isso sua sobrevivência, ele sabia, se é
que sobreviveria, e os franceses não estavam escondidos os esperando. Ainda havia o fato
de que o coronel Leroux assumiu que ele e Joana, e o bando de Duarte Ribeiro tinham
ficado juntos. Todos eles não poderiam se ter escondido naquele vale.
Ele não baixou o rifle até que o último homem desapareceu, e até o som dos
cascos ter morrido completamente. Então, virou Joana cuidadosamente de costas e
colocou sua testa contra a ela. Ele sabia, de sua longa experiência como soldado, que o
suor frio, o coração batendo, os joelhos enfraquecidos e as tonturas vinham somente
após o perigo haver passado. Ele também sabia que ficaria melhor por ceder a eles, por
um breve período. Fez inspirações profundas e lentas.
A escuridão estava levantando rapidamente. Era fácil ver o ódio e a fúria nos olhos
de Joana, quando levantou a cabeça para olhar para ela, e desatou seus pulsos do cinto de
couro em primeiro lugar e, em seguida, desfez o nó do lenço.
E ela estava em cima dele como uma louca, seus punhos batendo no peito e em
seu rosto, as pernas e os pés o chutando, seus dentes à mostra em um grunhido.
― Seu filho da puta! ― Ela sussurrou para ele. ― Você é maldito, imbecil maldito.
Eu te odeio. Eu gostaria que eles o tivessem cortado com uma centena de balas. Não, eu
gostaria que eles o tivessem levado vivo. Eu teria pedido a Marcel para me deixar os ver
arrancar sua pele. Eu teria escutado seus gritos e teria rido de você, enquanto ainda
estivesse consciente, o suficiente para saber que eu estava rindo.
As palavras vieram de forma fragmentada, enquanto eles lutavam, enquanto
tentava prender seus braços ao lado do corpo; mas ela o estava chutando dolorosamente
nas canelas, e ele se contorcia, procurando se distanciar apenas no momento em que ela
levantou o joelho, bruscamente.
― Bom trabalho, Joana ― falou ele. ― Você me tem em desvantagem. Eu não
posso lhe bater de volta.
― Mas você pode prender minhas mãos atrás de mim e me amordaçar ― disse ela,
tentando morder a mão que tinha prendido um de seus pulsos. ― Você não pode me
intimidar. Você é um sangrento covarde. Bata em mim! Lute comigo corretamente. Não
me segure. Não me segure! Me bata, se você ousa. Eu quero lutar com você. Covarde.
Lute. Desgraçado.
Ele soltou seu pulso e deu um tapa, com força, na perna que o estava chutando.
Sua raiva foi acalmando. Talvez ambos precisassem liberar a tensão da última meia hora.
Ele a agarrou com os braços com firmeza e a levantou. Então, soltou o cinto da espada e
tirou dele a faca.
― Se é uma luta que você quer ― ele disse a ela severamente ― então eu sou seu
homem, Joana. Se prepare para a luta. Vamos. ― Ela veio para o peito dele com os
punhos, e ele girou ao seu redor, para dar um tapa em uma nádega.
Ela recuou e deu um soco no queixo dele, com o punho fechado. Ele bateu uma de
suas bochechas, com inteligência. Ela chutou sua canela e ele pegou a perna antes que ela
a pudesse devolver ao chão, quase a desequilibrando, lhe bateu de mão aberta.
Ela estava diante dele ofegando em voz alta, peito arfante, os olhos piscando,
procurando uma abertura para o atacar.
― Eu desejo... ― Ela disse depois de alguns momentos. ― Oh, eu desejaria poder
ter a força de um homem, por apenas dez minutos. Eu não iria parar até que o tivesse
deixado inconsciente. ― Suas mãos estavam abrindo e fechando em punhos, aos seus
lados. ― Mas isso é humilhante. Você não está lutando contra mim. Você está brincando
comigo. E eu devo ter lhe dado uma mandíbula quebrada e dois olhos negros, até agora.
Bata em mim, maldito! Lute, covarde.
Ele olhou para o rosto avermelhado e a pegou, de repente, pelos ombros, a
puxando com força contra ele. ― Eu posso imaginar como deve se sentir, Joana, ― lhe
disse, ― ter estado tão perto da liberdade, de ter visto e ouvido a oportunidade se
afastando a galope. Se acalme agora. Não há nenhum ponto mais em sentir essa fúria.
― Oh, Deus, ― ela disse, com o rosto descansando em seu casaco, ― ele estava tão
perto. Eu quase poderia o ter tocado. E meu mosquete estava a não mais que dois
metros. Eu nunca o verei novamente. Eu posso ter perdido minha única chance.
― Silêncio ― disse ele, uma das mãos subindo para lhe acariciar atrás de sua
cabeça.
― Silêncio? ― Seus olhos ainda estavam em chamas. ― Como posso me calar? Eu
quero lutar com você, e você não vai lutar. Eu desejaria não ser uma mulher. Oh, eu já
desejei e continuo desejando ser um homem. Você iria se arrepender do dia em que
nasceu, se assim fosse.
― Sim, eu o faria. ― Tanto a sua tensão como sua raiva se dissiparam, ele percebeu
de repente, e não pôde resistir a sorrir para ela. ― Eu ficaria envergonhado e horrorizado
demais, por estar prendendo você assim, se fosse um homem, Joana, e me sentindo como
estou agora.
Ela ainda estava ofegante. Seus seios estavam levantados contra seu peito. ― Você
poderia ter sido morto ― ela disse, ― e eu estava amarrada tão fortemente, que não
poderia ter levantado um dedo para o ajudar, ou dizer uma palavra em sua defesa. E
agora, tudo no que você pensa é em fazer amor, seu tolo. Seu imbecil!
― Onde você aprendeu esse linguajar? ― ele lhe perguntou. ― Deve ter feito
algumas viagens pela sarjeta, Joana.
― Eu gostaria de saber mais ― ela falou. ― Meu repertório de palavrões é
lamentavelmente pequeno. Preciso de mais para atirar em sua cabeça. Se nós não
podemos lutar, vamos fazer amor, então. Mas não se atreva a tentar o fazer rápido ou
suavemente, Robert. Eu quero uma vida difícil. E não quero que você pergunte se o chão
está duro. Eu quero lutar com você, por prazer.
Foi uma loucura. Havia uma guerra a ser travada e ordens a serem cumpridas; e
uma explosão a investigar; e uma companhia inteira de soldados franceses não muito
longe, todos procurando por ele, de modo que seu coronel pudesse ter o prazer de o
despir primeiro de seu uniforme, e depois de sua pele e, finalmente, de sua vida.
Era uma loucura. E, no entanto, tudo no que podia pensar para os próximos
minutos, ele não tinha ideia de quantos se passaram, era em rolar ofegante, rosnar, dar e
receber prazer e dor em partes iguais, fazer amor com seu pior inimigo, pela quinta vez
em pouco mais de vinte e quatro horas, tentando se convencer de que era apenas uma
coisa física, que era apenas sexo, que não havia sentimento envolvido em tudo.
Ele se perguntou se a estava enganando tão mal como estava enganando a si
mesmo.
― Oh, Robert ― disse ela, deitada de costas no chão alguns minutos depois que
estava tudo acabado, virando a cabeça para olhar para ele, ― você é muito melhor que a
maioria, você sabe. Devo ser hematomas por toda parte, dentro e fora. Eu me sinto
maravilhosa.
― E melhor? ― Perguntou. ― A raiva sumiu?
― Ele vai-me encontrar ― disse ela. ― E, nesse meio tempo, eu tenho a quem me
dê prazer. Eu devo ir e me lavar. Tenho permissão para me ausentar por cinco minutos,
senhor?
― Eu vou com você ― disse ele, se sentando e desejando um banho ou, pelo
menos, algo parecido com um banho. Mas, infelizmente, não havia tempo suficiente. O
dia ia ser complicado agora, que eles estariam perseguindo seus perseguidores.
― Eu estava planejando tirar a roupa ― disse ela, sorrindo maliciosamente para ele.
― Você não vai se constranger, Robert?
Ele bufou e ela riu levemente, antes de voltar a correr para o rio, como um fauno,
como uma bela deusa ágil, sem se destacar no mundo, em perfeita sintonia com os seus
arredores.
Deus, ela era uma mulher estranha, pensou, indo atrás dela. Uma mulher estranha e
maravilhosa. Igualmente familiarizada com a refinada e requintada Marquesa das Minas e
com a terrena e selvagem Joana Ribeiro, como ela gostava de chamar a si mesma. A vida
não seria longa o suficiente, até mesmo para a começar a conhecer. E tudo o que ele tinha
eram poucos dias. Bem, ele iria aproveitar ao máximo esses dias. Iria embalar uma vida
inteira de experiência para eles.
Franziu a testa quando entendeu a direção de seus pensamentos.

***

Eles não tinham ido muito longe, antes que pudessem ouvir o troar constante de
armas. Almeida estava sendo bombardeada, um bombardeio constante. Apenas uma
colina tinha ficado entre eles e o som, fraco no início, sentindo mais do que ouvindo, em
seguida, bastante distinto.
― É assim numa batalha? ― Perguntou Joana, correndo ao lado do capitão Blake.
― Alguém me disse que o som das armas é a parte mais assustadora.
― Especialmente quando elas estão vindo diretamente para você ― disse ele, ― e
você não pode sair do caminho, porque se o fizer a linha vai quebrar, e a infantaria
inimiga entrará através desse buraco e ganhará o dia. Você tem que ficar como um pato
sentado.
― Mas, pelo menos, existe a linha ― disse ela. ― Outros homens para cada lado de
você formam um tipo de proteção. Mas você sai na frente da linha, não? Você e seus
atiradores formam a linha de frente? Isso deve ser muito mais assustador.
― Não ― disse ele. ― Pelo menos temos algo para fazer ao invés de apenas ficar
esperando a coluna inimiga vir para cima, de modo que as armas vão parar e a matança
verdadeira começar.
― É uma loucura, ― disse ela. ― A guerra é loucura.
― Mas uma condição necessária ― respondeu ele. ― Não há nenhum ponto em
dizer, como tantas outras pessoas, especialmente mulheres que passam os dias em salões
perfumados, que todos nós devemos amar uns aos outros, e aprender a conviver uns com
os outros. A vida não é assim.
― E não seria maçante, ― disse ela, ― se fosse? Nós não teríamos tido essa
deliciosa luta esta manhã, Robert. Eu aproveitei, apesar de não ter gostado do que a
causou. Eu gosto de ser amarrada e amordaçada. Alguma vez você já atingiu uma mulher
antes?
― Não ― disse ele. ― E não espere que eu me desculpe, Joana.
Ela riu e voltou alguns passos para trás novamente. Seu pé estava doendo como o
diabo, mas não iria se permitir o luxo de mancar, enquanto estava em sua vista.
Eles não viram nenhum sinal do coronel Leroux e sua companhia de cavaleiros,
embora se aproximassem da crista de cada colina cautelosamente. Os franceses deviam
ter galopado direto para Almeida, e se juntado às forças do Marechal Ney, ele disse a ela.
― Talvez, eles imaginem que estamos no interior da fortaleza, Joana ― disse ele. ―
Ele vai estar preparando para resgatar você.
― Aquelas pobres mulheres que estão lá dentro, ― disse ela, ― se a fortaleza for
tomada e não se render. Será saqueada e todas elas serão estupradas antes de serem
mortas. ― Ela estremeceu.
― Talvez Cox se renda ― disse ele, ― embora, eu duvido. Ele tem reputação de ser
teimoso.
― E Marcel vai estar lá com o resto, ― disse ela, ― para as estuprar e, em seguida,
lhes ordenar a morte. Você devia ter atirado nele esta manhã, Robert.
― E oferecer o meu corpo para o resto da companhia praticar tiro ao alvo? ―
Perguntou. ― Ele não vai prejudicar qualquer mulher, Joana. Ele é um oficial e obrigado a
tentar impor disciplina aos seus homens, e não liderar o caminho da selvageria. Além
disso, ele tem uma missão. Ele está procurando por você.
― Sim. ― Ela estremeceu novamente, e ficou, mais uma vez, feliz por estar atrás
dele.
Se aproximaram da crista de mais uma colina com cautela. O som das armas era
quase ensurdecedor. Joana sentiu um terror profundo e os joelhos enfraquecerem,
mesmo que não o tivesse admitido a ninguém. O capitão Blake chegou a mão e a puxou
para o chão, subindo lado a lado e se viram olhando para o inferno.
A planície em volta da fortaleza era um mar de uniformes azuis dos franceses, fora
do alcance das armas que estavam nas paredes, ou o que restou delas. Uma boa metade da
cidade estava em chamas ou enfumaçada, ruínas enegrecidas. Nenhum ataque simples
poderia ter feito tais danos, com certeza. Alguma coisa tinha acontecido, algo que os tinha
acordado naquela manhã, apesar de estarem fora do alcance do som das armas.
― Jesus! ― O capitão Blake disse a seu lado. ― O paiol principal deve ter
explodido. Os malditos tolos devem ter deixado a munição em um lugar onde um francês
poderia explodir tudo. Devem ter sido fogos de artifício grandiosos, exibidos para o
mundo testemunhar.
― Eles devem estar todos mortos ― disse ela, olhando para as ruínas e pelas
brechas abertas nas paredes, com horror misturado a fascínio. ― E ainda assim, alguns
estão vivos e lutando. Por que não se entregam?
― Em uma suposição, porque Cox é um dos sobreviventes ― disse ele. ― Tolo,
magnífico sangrento. Mas não pode resistir por muito tempo. Horas, provavelmente, um
dia talvez, não mais. Muito pouco para a expectativa de Beau, de que Almeida iria segurar
seus conterrâneos até que chegassem as chuvas de outono. Agosto está aí e nada das
chuvas, não para antes de um mês.
Ela estava se apoiando na grama. ― Você acha que havia crianças aí dentro? ―
Perguntou para ele. ― Ou foram todas retiradas? Há crianças mortas lá, Robert.
Ele virou a cabeça bruscamente para olhar para ela. ― Você está bem? ― Ele
perguntou. ― Coloque sua cabeça para baixo. Pare de olhar.
― E isso vai fazer tudo ficar bem? ― Disse ela. ― Não importa que existam
crianças mortas por lá enquanto eu não olhar? Eu vivo uma vida frívola e mimada,
Robert. Nunca estive tão perto da morte em larga escala antes.
Ela desceu de trás da colina, então, se arrastando, e vomitou. A humilhação tomou
o lugar de horror e tristeza. Ela não conseguia parar, o estômago arfante. ― Vá embora!
― Ela disse, bruscamente, quando o ouviu vindo atrás dela. ― Me deixe em paz.
― Joana ― Uma das mãos dele veio para a apoiar, nas suas costas. ― Está tudo
bem, vomitar. Não há nada de vergonhoso nisso. Eu não seria um soldado, se não tivesse
posto para fora minha última refeição, no meu primeiro encontro com a morte. Alguns
fazem isso, rotineiramente, em cada batalha. Não há nada de humilhante nisso.
― É simplesmente repugnante ― disse ela, com o rosto frio e pegajoso. ― Vá
embora.
Ele estava sentado logo abaixo do topo da subida, de costas para ela, enquanto ela
se limpou tão bem quanto pôde e sentiu que o momento da virada novamente não podia
mais ser evitado.
― Você foi estúpido em virar as costas, ― disse ela. ― Como poderia saber que eu
não sairia correndo, ladeira abaixo, em direção ao exército?
― Isso me passou pela cabeça ― disse ele, se virando para olhar para ela. ― Só que
não achei que você poderia correr, com as bolhas em seus calcanhares, Joana. Me deixe
ver o seu pé.
― Está tudo bem ― ela disse com um encolher de ombros. ― Não faça barulho,
Robert, como uma babá de idade.
― Eu acho que preferiria 'bastardo' e 'imbecil' ― ele disse ― e mesmo ― covarde.
E 'eunuco', eu creio que foi uma vez? Seu pé. ― Ele estendeu a mão para mostrar que não
aceitaria um não. Ela colocou o pé ao lado dele, que o levantou e estalou a língua. ―
Então você estava mancando. Pensei que estivesse, mas sabia que compraria uma luta se
comentasse o fato.
A alça da sandália deslizara, durante todo o dia, para o alto de seu calcanhar, do
tornozelo à sola, estava esfolado. Ele puxou o lenço do bolso.
― Está limpo ― disse ele ― a menos que você tenha cuspido nele esta manhã. ―
Ele o amarrou confortavelmente sobre seu pé, como se fosse usado para isso, o que
provavelmente também era, ela pensou. ― Isso não vai ajudar muito, mas vai evitar mais
fricção ou que qualquer poeira entre nele. Talvez a mulher na fazenda onde paramos para
a refeição mais cedo, uma pena que você não a possa ter mantido no estômago, Joana,
considerando o fato de que foi a nossa primeira e única hoje, talvez ela tenha alguma
pomada. E quem sabe, possamos ficar lá essa noite.
― Nós simplesmente vamos embora? ― Ela perguntou, olhando para o topo da
colina e se maravilhando com a rapidez com se tornou quase acostumada com a expansão
das armas.
― Não há nada que possamos fazer por aqueles coitados, lá embaixo ― disse ele. ―
Não há nenhum ponto em desperdiçar energia no que não se pode mudar, Joana. Nesse
meio tempo, temos trabalho a fazer, eu tenho trabalho a fazer. E não há mais tempo para
atrasos. Até amanhã, Almeida vai cair ou se render. Talvez ainda hoje, ou esta noite. Eu
tenho que ter certeza de que as pessoas entre aqui e Lisboa ficarão a uma distância segura
e destruam as linhas de abastecimento à frente dos franceses. Eles vão estar a caminho
brevemente, depois de terem comemorado adequadamente a queda de Almeida. Os
portões de Portugal estão abertos. Mal podemos esperar que eles venham chegando,
podemos?
― E Marcel também ― disse ela. ― Ele virá.
― Sem dúvida ― falou ele, então.
― Bom ― ela disse, por sua vez, e juntou, em seu tom afiado. ― O que você está
fazendo? Me ponha no chão de uma vez!
― Se eu fizer ― disse ele, quando ela chutou as pernas no ar, ― será para lhe dar
um tapa afiado onde mais dói, Joana. Agora que eu descobri como é bom, não vai ser tão
difícil na próxima vez.
― Oh, eu desejo que você o faça ― disse ela. ― Me sinto tão humilhada, com uma
coisa e outra, Robert, que não gostaria de nada mais do que a chance de esmagar o seu
nariz. Eu me sentiria muito melhor se o pudesse quebrar para você, novamente. Essa
fazenda deve estar a duas milhas de distância, no mínimo. Não é surpreendente que as
pessoas não tenham se arriscado para descobrir que explosão foi essa? Deve ter sido
ensurdecedor para eles, e estavam com medo, eu suponho. Me ponha no chão.
― Quando eu entrar em colapso com o seu peso ― disse ele, ― você pode se
levantar do chão, Joana, e andar o resto do caminho. Nesse meio tempo, poupe sua
respiração. E mantenha suas mãos longe dessas armas.
― Que se dane ― ela reclamou. ― Onde é que eu as vou colocar?
― Tente no meu pescoço ― ele falou.
― Oh ― ela pronunciou, depois de alguns minutos de silêncio ― isto é humilhante.
Eu nunca vivi um dia mais humilhante.
― É bom para você ― disse ele. ― Os prisioneiros devem supostamente se sentir
humilhados.
― Vá para o diabo ― ela lhe respondeu.
Capítulo 21
De alguma forma, Joana pensou depois, tudo aconteceu muito mais lentamente.
Ela esperava que eles fossem correr para o oeste, em direção a Coimbra, dentro de alguns
dias, avisando todas as pessoas que podiam para evacuar e queimar tudo atrás delas.
Esperava que os exércitos franceses se apressassem logo atrás deles; que, com toda a
pressa e confusão, o coronel Leroux a iria encontrar, e ela poderia completar a tarefa, pela
qual se tornara obsessiva há três anos.
As coisas não saíram desse jeito, em nada. O Governador Cox, em Almeida, se
rendeu no dia seguinte de perder quase toda sua munição e metade de sua fortaleza, e as
pessoas dentro dela no processo. Mas, os franceses não avançaram imediatamente,
através do portão aberto em Portugal. O Marechal Massena e as principais forças
francesas tiveram que voltar a Salamanca. Ele teve que consultar seus conselheiros e guias
sobre a melhor rota, pela qual avançar sobre Lisboa, mesmo que o caminho que usariam
fosse uma decisão precipitada. Havia apenas uma boa estrada a oeste de Coimbra, a que
seguia o rio Mondego em direção ao mar.
Sua própria retirada para o oeste, Joana encontrou, levou semanas em vez de dias,
semanas que ela, descaradamente, apreciou, apesar de tudo. No entanto, essas não foram
semanas fáceis. Todos os dias eles se arrastavam de fazenda em fazenda, de aldeia em
aldeia, Robert falando e convencendo, indefinidamente. Não foi fácil. Como é que iam
persuadir os homens e mulheres com casas e famílias para ir para uma parte desconhecida
do país, com apenas o que podiam carregar com eles, e queimar tudo o que fosse deixado
para trás, incluindo suas casas e as plantações que ainda estavam no campo?
Os camponeses foram heróicos. Eles aceitaram os argumentos apresentados com
calma estóica, e seguiram as ordens com determinação obstinada e sem reclamação. Em
mais de uma ocasião, Joana assistiu com um nó na garganta, as mochilas pesadas em suas
costas, seus filhos reunidos com eles, caminhando para longe da queima de restos de tudo
o que estava em casa com eles. Muitas vezes, o prédio em chamas foi aquele em que ela e
Robert tinham ficado e se amado na noite anterior. Era como se o amor deles não tivesse
raízes, sem passado, assim como era não ter nenhum futuro.
Não que eles chamassem isso de amor, é claro. Era prazer que eles tomavam
juntos. Mas mesmo o seu prazer estava se queimando atrás deles, e destinado a terminar
em breve, assim que surgisse a maior parte do exército britânico e Robert pudesse voltar
ao seu regimento.
Ela tentava não pensar no futuro.
As pessoas mais ricas das cidades, em especial os comerciantes, eram mais difíceis
de convencer. Eles estavam irritados com a incompetência do seu governo e dos
exércitos, que não poderiam proteger a sua propriedade, bem como as suas vidas. Eles
foram desafiantes. Às vezes, levavam mais que um dia para os convencer de que a fome
dos franceses avançando, que sempre viveram fora da terra sobre a qual marcharam, era o
caminho certo para a sua eventual derrota.
Capitão Blake e Joana não estavam sozinhos. Eles se encontraram com um número
surpreendente de oficiais britânicos durante suas viagens, alguns deles na mesma missão
de Robert, alguns outros na aferição oficial, cujo trabalho era estimar as forças inimigas e
observar seus movimentos, e constantemente, relatar de volta à sede.
Eles ouviram notícias destes oficiais, por vezes, confusas e ultrapassadas, mas
mesmo assim, recebidas ansiosamente, por duas pessoas morrendo de fome de notícias
há tempos. A sede não era mais em Viseu, Wellington a tinha movido, primeiro a
Celorico, mais perto da fronteira, e mais recentemente de volta para Gouveia.
Houve distúrbios em Lisboa, e ouviram resmungos altos na Inglaterra, os governos
dos dois países estavam sendo responsabilizados pelo desastre iminente de todas as suas
esperanças mais caras. O Visconde Wellington, em particular, estava sendo chamado de
incompetente. Havia clamores altos para o seu afastamento do comando. Como
resultado, eles foram informados, Wellington estava planejando silenciar seus críticos
com uma última batalha final, durante a retirada para Lisboa. Ele havia escolhido uma
posição forte na margem sul do Mondego, na Ponte Murcella, na estrada para Coimbra.
Robert ansiava se apressar para lá, para se juntar a seus amados atiradores, Joana
sabia. E o pensamento a entristeceu. O que ela faria quando chegasse a hora? Regressar a
Lisboa? Voltar a ser a Marquesa das Minas? Ela supôs que iria fazer as duas coisas. E,
enquanto isso, iria ver o coronel Leroux? Ela seria louca para supor que ele iria procurar
por ela e a encontrar? Parecia loucura durante essas semanas, porque a encontrar seria
como encontrar a proverbial ‘agulha no palheiro’, mas, tentou não ceder a tais
pensamentos depressivos.
Ocasionalmente, eles deparavam com pequenas grupos dos Ordenanza, e esses
homens e algumas mulheres, estavam animados com a perspectiva de ação, quase como
se eles se congratulassem com a abordagem dos franceses odiados, mesmo que isso
significasse a invasão de seu país. Uma vez, Joana e o capitão Blake, tinham se perdido ao
norte da estrada e chegado em uma vila nas colinas. Duarte os encontrou lá.
― Diziam que havia um atirador de rua vagando pelas colinas ― disse ele com um
sorriso, estendendo a mão direita para o capitão Blake, antes de dar um abraço sobre os
ombros de Joana e beijar seu rosto. ― Como vai a batalha?
Ele estava exultante porque o avanço francês tinha finalmente começado. ― Nós
não vamos atacar suas principais forças ― explicou. ― Vamos deixar que passem em paz
pelo campo queimado e estéril, e, em seguida, atacar seus comboios de abastecimento. Os
pegaremos em um quebra-nozes gigante. E seu avanço será mais lento, enquanto eles
liberam grandes destacamentos para tentar nos pegar. ― Ele sorriu. ― Como é, Joana?
Ainda no caminho do perigo? Você deve vir comigo, talvez, e deixar que a envie em
segurança. ― Ele ainda tinha um braço sobre seus ombros.
Robert, ela viu com alguma satisfação, estava carrancudo.
― Vamos falar sobre isso ― disse ela, e saiu a uma curta distância com Duarte,
enquanto dois de seus companheiros trocavam notícias com o capitão. ― Como estão
Carlota e Miguel? Você já ouviu falar deles?
― Eu mandei notícias para que soubessem que já tínhamos retornado em
segurança da Espanha ― disse ele. ― Carlota está, sem dúvida, rangendo os dentes
frustrada com a falta de ação, mas ela está segura e bem ao norte do conflito. Você está
parecendo tão o contrário da marquesa quanto poderia.
― Sim. ― Ela olhou com tristeza para o vestido, que estava ainda mais desbotado
depois de semanas de desgaste e várias lavagens.
― Eu não quis dizer apenas as roupas ― falou. Ele a analisou criticamente, durante
vários segundos, em silêncio e, em seguida, fez uma careta. ― Onde estão a sua faca e
arma?
― Eu sou uma prisioneira ― ela lhe respondeu. ― Elas foram confiscadas. Isto é o
mais distante dele que já me permitiu, desde que voltamos a Portugal.
Seu cenho franzido se aprofundou e então ele riu. ― Você está falando sério? ―
Disse.
― Ele não acreditou na minha história ― ela contou. ― Não que eu implorasse e
insistisse com ele para o fazer. Não iria me rebaixar tanto. Ele não acredita que você é
meu irmão, acha que nos tornamos amantes na manhã depois que nos resgatou de
Salamanca. Até me deu uma reprimenda sobre ficar entre você, Carlota e Miguel. Está me
levando para Arthur, para me ter presa como espiã francesa até o fim da guerra. ― Ele riu
novamente. ― Bem, isso é facilmente remediado ― disse ele. ― Vou ter uma conversa
com ele, Joana.
― Não, você não vai ― ela pediu com firmeza. ― Ou ele acredita em mim ou pode
acreditar o que desejar para o resto de sua vida. Eu não me importo.
― Joana. ― Ele a olhou bem de perto novamente. ― Sim, agora eu sei o que é. Não
é nem a roupa nem a ausência de armas. É você. Sua face, o que está nela e o que está por
trás dela. Você o ama?
Ela bufou. ― Oh, certamente, ― respondeu ― Eu vou amar um homem que me
acha mentirosa e uma puta.
― Será que ele acha? ― Disse. ― Ele não caiu no seu charme famoso, então?
― Na verdade, ele me amarrou e me amordaçou uma vez, quando o coronel
Leroux e seus homens chegaram perto de nós ― disse ela, indignada.
Ele riu. ― Ah, sim ― disse ele. ― Ele é apenas o homem por quem você iria se
apaixonar, Joana. Aprovo, por sinal.
― Que tolice ― disse ela. ― Não há futuro possível, Duarte. Eu sou a viúva de Luís
e filha do conde de... a filha de Levisse e ele é um ninguém que se alistou nas fileiras do
exército inglês. Sua vida é a vida de um soldado.
― Você gostaria que houvesse um futuro, então? ― Ele perguntou, apertando seu
ombro. ― Pobre Joana.
― Que absurdo você fala ― disse ela. ― Me beije. Nos lábios. Ele vai ficar
enraivecido.
Ele a beijou nos lábios e sorriu para ela. ― Você tem certeza de que não quer que
eu explique? ― Perguntou. ― O capitão Robert Blake pode ir para o inferno com a minha
bênção ― disse ela. ― Não se atreva a lhe dizer qualquer coisa, Duarte.
Eles caminhavam de volta para se juntar aos outros, o braço de Duarte ainda sobre
ela. Ele a beijou novamente, quando ele e seus companheiros se despediram, poucos
minutos depois.
Era noite já. Joana se retirou, quase imediatamente, com Robert, para o quarto da
pousada, pequeno e não muito limpo, que tinham tomado para a noite e tiveram uma
discussão plenamente satisfatória, embora tenha sido em voz baixa.
― Eu quero uma coisa compreendida, Joana ― disse ele, a segurando pelo braço e
a virando para o encarar, assim que a porta se fechou atrás deles. ― Por enquanto você é
minha mulher, você permanecerá fiel a mim. Não haverá flertes com outros homens ou
antigos amantes, e você não os irá beijar. Seu comportamento foi nojento.
Ela encolheu os ombros. ― Na Inglaterra, talvez, irmãos não beijem suas irmãs ―
disse ela. ― Em Portugal é comum.
Ele a chacoalhou pelo braço. ― Não é questão para brincadeira ― ele urrou. ―
Talvez não pareça muito desagradável para você, beijar outro homem, e lhe permitir que
mantenha um braço sobre seus ombros por todos os vinte minutos, enquanto o seu atual
amante observa. Mas é de mau gosto pensar na mulher e na criança, à espera do seu
retorno seguro nas montanhas.
― Você está com ciúmes ― disse ela, lhe jogando um beijo. ― Pobre Robert. Eu
acho que você me ama um pouco.
― Você me dá nojo ― disse ele. ― Não tem moral para nada.
― Mas eu fiquei com você ― ela disse, desafiando a sua ira, chegando a um dedo
de correr o braço por sua manga. ― Eu poderia ter ido com ele, Robert. Ele queria que eu
fosse.
― Eu gostaria de ter visto você tentar ― disse ele.
― Ele queria dizer a verdade ― ela contou. ― Ele queria dizer que é meu irmão e
que tudo o que eu lhe disse é a verdade.
― Você não saberia o que é a verdade, nem se fosse um punho e a socasse no nariz
― disse ele.
― Eu não acho que você faria também, ― disse ela, brincando, por fim. ― Você é,
como um jumento teimoso e pomposo, Robert. Desfruta da imagem de si mesmo, como
o homem injustiçado e o carcereiro. Isso lhe dá a sensação de poder caminhar
sobrecarregado com suas próprias armas e a minha. Está com medo de perder o poder, se
acreditar em mim.
― É fantasia, não é verdade ― disse ele com sua gélida voz, ― conhecer um homem,
e ele, o seu carcereiro como você tão justamente colocou, ir confiar em cada palavra sua e
acreditar em cada peça tola de absurdo que você falar? A irrita eu ser um homem que
pode resistir a você.
― Resistir a mim? ― Ela levantou as sobrancelhas e olhou para ele com altivez. ―
O que você tem feito para mim todas as noites e os dias por semanas, exceto os quatro
dias, ao todo, em que a natureza o obrigou a ficar longe de mim, não parecia muito com
resistência, Robert. Se essa é a resistência, eu me pergunto qual seria a sensação de
capitulação. Poderia ser interessante.
― Você confunde respeito com luxúria ― disse ele. ― Eu não tenho nenhum
respeito por você, Joana. Não confio em você, especialmente se minha vida dependesse
disso, ou acredito em uma só palavra que vem de sua boca. Tudo o que eu sinto por você
é luxúria. Nunca fiz segredo desse fato.
― E eu por você ― disse ela. ― Como eu poderia gostar ou respeitar alguém tão
inflexível e assim tão sem graça? Como eu poderia gostar de um inglês, e um que saiu da
sarjeta? Como eu poderia respeitar alguém que zomba de cada palavra que falo? Mas você
tem um corpo de morrer e sabe o que fazer com ele na cama, e então, eu o cobiço. Você
acha que eu sequer me dignaria a olhar para você, depois de voltar para a civilização?
Você já está de sobreaviso.
― Você vai ser prisioneira e abaixo de mim ― disse ele.
― Eu vou ser a Marquesa das Minas ― ela disse, ― e você será extremamente tolo.
E terá a todos, de Lisboa a todo o exército britânico, rindo de você.
― Se deite ― disse ele, com o rosto definido em linhas de raiva, quando soltou o
cinto da espada. ― Eu tive o suficiente de você por um dia.
― E você? ― Perguntou ela. ― Vai sair, para que eu possa dormir em paz durante
toda a noite, então? A noite de descanso? Isso vai ser uma mudança.
― Silêncio, Joana ― disse ele. ― Você tem resposta para tudo.
― Você gostaria que se eu não tivesse? ― Perguntou ela, tirando o vestido antes de
se deitar na cama irregular e estreita. ― Será que você não se aborreceria se eu fosse muda
e mansa? Sim, senhor, e não, senhor, e por favor, senhor, e se eu posso ser útil, senhor?
― Ela bateu as pálpebras para ele.
― Silêncio, Joana ― disse ele, tirando o casaco, a camisa e as botas antes de se
deitar ao lado dela. ― Eu estou mortalmente cansado de sua provocação.
― Por favor, senhor. ― Ela se virou para o lado e abriu a mão em seu peito. ― Será
que você pode colocar seus braços sobre mim, para eu não tentar escapar durante a noite?
E sua perna sobre a minha, para que eu possa resistir à tentação de o machucar onde dói
mais, e depois fugir?
― Deus, mulher, ― ele disse, ― você está me fazendo irritar.
― Fazer? ― Disse ela. ― Eu pensei que você já fosse feito. ― Ela se deitou sobre o
braço o olhando diretamente nos olhos. Sua raiva tinha passado há muito tempo. Estava
se divertindo. ― Por favor, senhor, você vai tirar suas calças e vir para dentro de mim?
Esse é o caminho mais seguro para evitar que eu escape.
Sua raiva não tinha diminuído. ― Não é bem assim. ― Você gosta de ser tomada
pela raiva, então? ― Perguntou ela, seus olhos firmemente fechados. ― Você gosta de ser
ferida, Joana? O sexo não é punição. É por prazer.
― Que seja por prazer, então, ― ela disse, colocando a cabeça em seu ombro e
olhando para o seu rosto, enquanto seus dedos abriam caminho sobre seu peito, o
queixo, para descansar sobre seus lábios. ― Você não está realmente mais irritado, está,
Robert? Como você é difícil. Acha que eu iria flertar seriamente com Duarte Ribeiro ou
qualquer outro homem, enquanto você e eu ainda estamos juntos? Talvez, em breve, eu
realmente seja uma prisioneira, ou talvez volte a ser a marquesa, e olhando para baixo do
meu nariz, para você. Mas ainda não. Agora estamos juntos. Hoje à noite nós estamos
juntos. Me leve ao prazer, então. O prazer nunca foi mais agradável do que com você.
― Deus! ― Ele virou a cabeça para olhar para ela. ― Às vezes, leva o diabo de um
esforço, para lembrar que nunca diz a verdade, Joana. Você me quer? Muito bem, então.
Eu quero você, também. Vamos ter um ao outro. Tomemos o que é o prazer de ser tido.
― Suas mãos estavam desfazendo os botões na cintura.
Às vezes, pensou Joana, ela ficava assustada com a força do seu amor e sua
necessidade dele. Mesmo após várias semanas de relações sexuais, frequentes e vigorosas,
ela não poderia obter o suficiente dele. E não era só o prazer, não era apenas o seu corpo,
ou o êxtase que ele pudesse criar sobre e em seu próprio país. Era ele. Ela não poderia ter
o suficiente dele, sua mente se esquivando novamente do futuro, quando ele se libertou
da última de suas roupas e se jogou na cama, quando ela abriu os braços para ele.
― É claro ― disse ela, sorrindo para ele ― se você ainda está com raiva, Robert,
pode ser um pouco áspero. Eu gosto quando você é duro.
Mas, ela desejava o ter lenta e suavemente. Ela ansiava por ternura. ― Você é uma
sem-vergonha ― lhe disse ele, o seu peso caindo em cima dela.
― E como você está feliz com isso, ― lhe falou ela. ― Ah, Robert, eu acredito que
ninguém nunca vá ser tão bom quanto você. Ah, sim. Você é tão bom.
E uma vez que não haveria amor e sem nenhuma ternura, ela se abandonou à
sensação, tão maravilhosamente absoluta, dada e recebida.

***

Eles estavam a um dia de se reunir ao exército, quando a chocante, quase


inacreditável, notícia os alcançou. Tinham feito tanto quanto eles poderiam fazer. Quase
todas as fazendas, vilas e cidades tinham obedecido à ordem, e os franceses avançavam ao
longo da estrada, sem alimentos e outros suprimentos, perseguidos em sua retaguarda
pela Ordenanza, e de frente para uma batalha em um lugar da escolha de Lorde
Wellington.
Ele tinha feito o suficiente, pensou o capitão Blake, estava afastado de seu
regimento por um cansativo ano inteiro, e por grande parte desse tempo definhava,
ocioso, preocupado e desejoso de regressar. No dia seguinte, estaria de volta, e dentro de
uma ou duas semanas, o mais tardar, estaria lutando na batalha mais grandiosa contra os
franceses. Estava animado com a perspectiva. Os dias não poderiam andar rápido o
suficiente para ele. Tinha sido um tempo tão longo.
E ainda assim, estava relutante também. Parte dele não queria que essas semanas
terminassem. No dia seguinte ele iria procurar Lorde Wellington e lhe levaria Joana. Seu
dever estaria cumprido, naquele momento. O que acontecesse com ela não seria sua
preocupação. Ele a poderia deixar e esquecer.
Esquecer dela! Isso era uma coisa que nunca faria, ele sabia. Ela o tinha advertido
de que não poderiam se tornar amantes sem os sentimentos envolvidos, e estava certa, é
claro. Seus sentimentos se tornaram muito envolvidos. Seus atrativos físicos deixados de
lado e eram muitos, não havia Joana sozinha, graciosa, provocadora, mentirosa,
enganadora, ocasionalmente, língua solta, charmosa, sorridente, e sempre estimulante. Ele
nunca tinha conhecido ninguém como ela, porque não havia ninguém como ela.
Era irritante além do normal, mais frequentemente do que não o era. Ele a atacou
com sua raiva quase todos os dias, e ela atacou de volta, tão cruelmente e mais ainda.
Quando Joana queria ferir, ia direto na veia jugular. E se mostrava encantadora, quase na
mesma medida.
Blake poderia, simplesmente, colocar tudo isso em uma palavra, embora ele
evitasse essa palavra em sua mente. A queria amar, e sabia que nunca poderia. Ele odiava
muito, desprezava demais.
E era assim que a amava, sem nunca colocar seus sentimentos em palavras, mesmo
em sua mente. Pela primeira vez os verbalizou, para então, ter que desprezar a si mesmo,
também. Ele não era melhor do que todos os outros homens que haviam caído sob seu
feitiço, era pior. Aqueles outros homens não sabiam o que ela era.
Ele temia o dia seguinte, quando deveria partir sem ela para sempre. Sem mais dias
de discussões e noites de amor. Apenas lembranças. E sabia que as memórias o iriam
perseguir por um longo, longo tempo, se ele vivesse uma longa vida. Não era para
acontecer uma grande batalha campal em menos de semanas.
E então veio a notícia com o retorno dos batedores, apenas um dia antes que
tivessem alcançado o exército. Massena e suas forças estavam se aproximando, e não pela
estrada principal ao longo do rio Mondego, com o combate à espera, mas pela trilha
estreita e extremamente difícil do norte, que conduzia por Viseu. Não poderia ter sido
planejado dessa forma, certamente, disse um antigo conhecido, um olheiro, com quem o
capitão Blake conversara. Eles teriam que ser loucos para vir por aí com seu enorme
exército, e todas as armas pesadas e as bagagens. Seu progresso seria consideravelmente
mais lento, e a suscetibilidade ao ataque dos Ordenanza aumentou dez vezes. Tinha que
ter sido um acidente.
Mas essa foi a maneira que escolheram para vir. Lorde Wellington deveria ser
informado, para que pudesse se mover e encontrar uma nova posição, de onde atacar os
franceses quando viessem para cima deles. E as pessoas mais ao norte, que não tinham
sido evacuadas de suas casas, deveriam ser alertadas para o fazer e convencidas a não
deixar nada para trás.
Foi uma grande notícia. Mas não havia ainda tempo para pensar no seu retorno ao
exército. O capitão tinha trabalho a fazer mais ao norte. E, como ele não poderia gastar
nem mais um dia para levar Joana até a sede, então ela deveria vir com ele. Ou, assim ele
se convenceu.
― Cristo ― , disse ele. ― Se eles seguirem adiante depois de Viseu, eles vão passar
por Mortágua.
Ela estava muito pálida, ele percebeu ao olhar para ela. Talvez a realidade da
situação estivesse voltando para casa com ela. Seus compatriotas estavam se
aproximando, e se Wellington fosse rápido o suficiente, eles o iriam encontrar em terreno
favorável ao lorde. Milhares deles iriam morrer.
― Mortágua? ― Disse ela.
― Muitos do bando de Duarte Ribeiro vivem lá ― disse ele. ― Suas mulheres e
crianças estão ali agora. Incluindo a dele.
― Eles devem ser avisados ― disse ela. ― Nós os iremos avisar, Robert?
― Nós vamos direto para o norte ― disse ele ― e fazer o nosso caminho,
gradualmente, para o oeste. Os iremos avisar, se Ribeiro e seus homens já não o tiverem
feito.
― O que estamos esperando, então? ― Disse ela.
Ele a olhou com admiração relutante. ― Você pensou que toda essa viagem estava
quase no fim ― disse ele. ― Sem dúvida, Wellington a enviará diretamente para Lisboa e,
talvez, para a Inglaterra, uma vez que eu a leve até ele. Pelo menos, você estará
confortável , Joana, e segura. Lamenta que isso tenha acontecido?
― Robert ― ela lhe respondeu, ― você não sabe como é terrivelmente tedioso estar
confortável. Não há nada a fazer a não ser dormir e comer, e ir a festas. E flertar. Eu não
lamento que nossa aventura se tenha estendido.
Ele não acreditava em grande parte do que ela dizia, mas, acreditou nessas palavras.
Surpreendentemente, ela parecia florescer com a vida difícil que tinham tido nas últimas
semanas. Nunca tinha reclamado do calor, a poeira, a sujeira, o suor, ou as bolhas. Ela
teve uma no outro pé, após a primeira estar quase curada, e o tinha ameaçava com um
longo e afiado galho, e o açoitado maliciosamente no braço, quando pensou que ele a
carregaria novamente.
― Além disso ― ela continuou agora, sorrindo deslumbrantemente para ele, ― eu
ainda não tive prazer suficiente do seu corpo, Robert. É um corpo maravilhoso.
Apesar de toda a educação de senhora, ela não parecia se sentir embaraçada com as
coisas ultrajantes que dizia com frequência para ele. Às vezes, ele agradecia que tivesse
passado da idade de corar. E, no entanto, suas palavras sempre atraiam uma resposta
poderosa e sigilosa, embora, muito dele também.
Não, ele não tinha tido o suficiente dela também. Nunca teria o suficiente dela. Ele
reprimiu o pensamento. ― Norte, vamos então, ― ele disse.
Norte, o maior perigo e a experiência emocional mais profunda que tinham tido
juntos.
Capítulo 22
O marechal Ney entrou em Viseu em 18 de setembro, depois de uma marcha
laboriosa sobre uma pedra, um estreito, uma trilha íngreme, que tinha transformado o
exército em uma linha perigosamente fina. Todas as armas, suprimentos e cavalos tinham
ficado para trás com a infantaria, e dois mil milicianos do Ordenanza quase conseguiram
capturar todas a artilharia pesada. Por pouco não conseguiram, mas tomaram uma
centena de prisioneiros, e assediaram um exército francês que já sofria quase além da
resistência.
Viseu estava abandonada quando os franceses entraram. Seus habitantes tinha
colocado pouca resistência às persuasões para sair. A vanguarda do exército francês
estava muito perto, e essas pessoas não esperavam a invasão. Eles estavam assustados
com a perspectiva.
Capitão Blake e Joana se colocaram em seus estômagos no topo de uma colina
arborizada a oeste de Viseu, observando a sua ocupação pelos franceses. Eles tinham
visto a ‘tia’ de Joana e Matilda a caminho de Coimbra, no início do dia. Matilda era a face
da desaprovação, mas de boca fechada, e a tia, de boca aberta, chocada com a visão de
Joana, que se recusou a as acompanhar. Não que lhe tivesse sido permitido, é claro. Mas,
enquanto as três discutiam, o capitão tinha estado perto e não disse nada.
Eles deviam ficar mais ao longe de Viseu. Mas, ambos sentiam uma estranha
relutância em fazer isso. ― Parte da minha vida está presa neste lugar, ― disse ela. ― E a
sua também, Robert. Se você não tivesse sido obrigado a me acompanhar até aqui, nós
nunca nos teríamos conhecido. Você gostaria de nunca me ter conhecido? ― Sim ― ele
respondeu.
Ela olhou para ele. ― Você? Por quê?
Ele virou seus olhos azuis para dela. ― Os motivos devem ser óbvios ― disse ele.
― Você quer que eu os enumere? Quer ouvir insultos até quando não estou com raiva?
Ela sorriu para ele. ― Eu acredito que é porque caiu de amor por mim, e sente que
é a coisa errada a se fazer ― disse ela. ― Eu não estou certa?
― Joana ― disse ele, ― você nunca vai desistir dessa ideia? Você se acha tão
irresistível, mesmo para alguém a quem conhece? E quanto a mim? Eu sou irresistível
também? Você caiu de amor por mim?
Ela sorriu lentamente. ― Uma senhora nunca conta ― disse ela.
Ele sorriu para ela, uma expressão que era tão rara nele, que sempre amolecia seus
joelhos. ― O que é uma das maiores mentiras que você já disse, Joana ― disse ele. ―
Você não é tímida para falar tudo o resto.
Ela riu. ― Mas eu não lamento ter feito essa viagem tediosa para Lisboa apenas
para o conhecer ― disse ela. ― E não lamento que tenhamos viajado juntos, novamente,
ou que concordei em deixar Arthur me enviar a Salamanca. E não lamento ter
manobrado sua fuga e a minha, ou que tenhamos tido estas semanas juntos. Não lamento,
Robert. Haverá muitas recordações agradáveis.
Seu sorriso aumentou. ― Você veio para Lisboa para me encontrar? ― Perguntou.
― Todo o caminho de Viseu... Estou lisonjeado, senhora. Eu não havia percebido que
minha fama se espalhara, até agora.
― E você não acredita em uma só palavra ― disse ela. ― Mas você irá. E então
você vai se sentir tolo, e achar que seus sentimentos por mim o irão afogar, quando
perceber que eu não sou o que você pensa. ― Seu sorriso se desvaneceu para uma risada.
― E Duarte Ribeiro ainda é seu irmão? ― Perguntou. ― Meio irmão ― disse ela. ― Sim,
ele ainda é e, sem dúvida, sempre será.
― E ainda, ― ele disse, ― você não sabia que sua esposa e filho estavam em
Mortágua? O nome do local não significava nada para você quando eu mencionei isso.
― Ela não é a mulher dele, ainda ― disse ela. ― E me encanta o ver atormentado
por dúvidas, Robert. Claro que eu sabia que eles estavam lá.
― Qual é o nome dela? ― Perguntou.
Ela tocou o nariz com um dedo. ― Você provavelmente o conhece ― disse ela. ―
Não precisa me dizer.
― O que significa que você não sabe? ― Perguntou. ― Ou será que ainda está me
provocando com dúvidas?
― Isso é você quem decide ― disse ela.
Ele balançou sua cabeça. ― Não tenho dúvidas, Joana, ― disse ele. ― Você perdeu.
― Talvez, ― ela falou, ― e talvez não. ― Ela rolou sobre o estômago novamente, e
olhou para os telhados distantes e as torres das igrejas. Os soldados vestidos de azul, aos
milhares, estavam acampados ao leste da cidade. ― Isto é terrivelmente real, não é? Os
franceses aqui e os britânicos não muitas milhas atrás de nós, esperando. Será que vai ser
em breve, Robert? Amanhã?
― Oh, não ― disse ele. ― Ney vai esperar aqui pelo resto do exército e as armas
para subir e, em seguida, eles vão ter que tentar ir em frente e fazer planos. Uma semana,
pelo menos. ― Ele olhou para ela. ― Será que a excita ver seus compatriotas tão perto?
― E a liberdade? ― Disse ela. ― Eu não acho que, particularmente, goste do
pensamento da gente do meu pai lutando contra os de minha mãe. Eu cresci com meu
pai e o amava. Eu ainda o amo. E voltei para a França com ele, depois do nosso exílio na
Inglaterra. Ele não gostou da nova ordem, mas teve a felicidade de ser mandado embora
em uma embaixada. Mas ama o seu país, no entanto. Não me lembro de minha mãe. Ela
me foi tirada em uma idade muito pequena. Eu acho que ela e meu pai tiveram uma briga
terrível, e ele não a levou de Portugal conosco, quando saímos. Mas sinto que a conheço,
no entanto. Miguel, Duarte e Maria me disseram muita coisa sobre ela.
Ele virou a cabeça bruscamente para olhar para ela. Seu queixo estava descansando
em suas mãos e ela olhava ao longe, na direção de Viseu, sem nada ver, com o exército
francês acampado diante deles.
― Miguel? ― Ele perguntou. ― Maria?
― Irmão e irmã de Duarte ― disse ela. ― Eles estão mortos.
― Como? ― Ele lhe perguntou, agora.
― Os homens de Junot ― disse ela. ― Em 1807. O filho e filha da minha mãe
foram mortos por compatriotas do meu pai. É de se admirar que eu nunca tenha sabido
muito bem quem sou ou aonde eu pertenço, Robert?
Ele olhou para ela, seus olhos perfurando os dela.
Ela sorriu de repente. ― Cuidado, Robert ― disse ela. ― Você está em grave perigo
de acreditar em mim, não é? E se acreditar, talvez tenha que acreditar em tudo. Talvez
Miguel e Maria sejam fruto da minha imaginação. Esses são nomes portugueses bastante
comuns, depois de tudo. E talvez não haja uma divisão na minha lealdade. Afinal, eu
nunca soube que minha mãe e eu odiávamos Luís.
― É melhor nos afastarmos daqui ― disse ele abruptamente. ― Estamos muito
perto. Temos que encontrar um lugar um pouco mais longe para passar a noite. Amanhã
vamos avisar tantas fazendas quanto possível no caminho para Mortágua. Os britânicos
estão se formando no Bussaco, não muito longe de lá.
― Eu conheço o Bussaco ― ela contou. ― Há um convento lá.
― Venha, então. ― Seu tom foi um comando, quando se levantou.
― Espero que Marcel esteja lá embaixo, ― disse ela. ― Você acha que ele está,
Robert?
― Muito possivelmente, ― ele disse. ― Mas eu não teria muita esperança, Joana.
Não a perderei, depois de a manter comigo por tanto tempo.
― Apenas uma vez ― disse ela ansiosamente. ― Se eu o pudesse ver só mais uma
vez. ― Seus olhos se desviaram para as duas armas ao ombro.
― E eu deveria saber se você está apaixonada por mim? ― Ele disse. ― Não
acredito que você alguma vez sentiu amor, Joana, nem nunca sentirá. Seu apetite pelos
homens é muito insaciável.
Ela sorriu para ele, enquanto desciam a colina juntos.
― E por você, especialmente ― disse ela. ― Vamos dormir ao ar livre?
― Temo que não tenhamos escolha. ― disse ele.
― Eu gosto de dormir ao ar livre ― ela lhe falou.
― Mesmo em setembro, quando as noites são frias? ― Perguntou ele.
― Especialmente depois ― disse ela. ― Nós temos que nos abraçar, para
compartilhar o calor do corpo. Mas eu tenho uma vantagem injusta. Você faz um
cobertor maior do que eu. ― E riu para ele.

***

Ele soube, logo que acordou, que tinha cometido um erro ao parar tão perto de
Viseu, para pernoitar. Ele continuava certo de que o grosso do exército iria esperar lá por
vários dias, até que todos fossem organizados para marchar para a batalha campal. Mas é
claro, que grupos de reconhecimento e de abastecimento seriam enviados. Dissera tanto a
Joana, apenas na noite anterior.
Eles deviam partido agora. Podia sentir com o sexto sentido que um soldado
possui, antes mesmo de ouvir, e muito antes de ver.
― Joana ― Ele a segurou, antes de falar em seu ouvido. Ela mexeu os ombros no
mesmo momento. ― Temos companhia, ou teremos em breve, se não nos movermos. ―
Ele olhou em seus olhos. ― Eu tenho que amordaçar você?
Ela balançou a cabeça lentamente e ele soltou a mão.
Tinham dormido em um vale, um bosque atrás do morro que os protegia de Viseu.
Agora, a escolha não parecia ter sido sábia, de maneira alguma. A colina à frente deles
estava quase nua. Havia apenas alguns grupos de árvores para dar cobertura. E, no
entanto, se eles continuassem ao longo do vale, o grupo de reconhecimento ou o que
quer que fosse que estava se aproximando estaria sobre eles antes mesmo que pudessem
alcançar o outro lado da colina.
― Vamos ter que correr para ele ― disse ele. ― Precisamos estar no topo da colina
e sobre eles, antes que tenham a chance de nos ver. Segure a minha mão, Joana. Vamos
correr de um grupo de arbustos para o próximo. E, pelo amor de Deus, não seja difícil.
Ele pegou as armas, que tinha guardado perto de sua mão durante toda a noite,
agarrou a mão de Joana, e começou a correr. Ela manteve o ritmo com ele, não fazendo
qualquer tentativa de impedir sua progressão. Não perdeu fôlego em falar.
Mas não tinha jeito. Ele sabia que estavam ainda no meio da encosta e podia sentir
os franceses mais próximos do topo da colina, atrás deles. Não estavam ainda dentro da
faixa do mosquete. As árvores eram mais espessas mais no alto, perto do topo da encosta,
mas eles nunca chegariam tão longe.
Se escondeu atrás de um pequeno grupo de árvores rapidamente, e afundou um
joelho, arrastando Joana atrás dele. Mas ele podia jurar, que tinham sido vistos. E devia
haver cinquenta cavaleiros vindo pela crista da colina.
― Danação! ― Ele murmurou. Sabia que não tinha chance. Pois mesmo que por
algum milagre conseguissem chegar ao topo da colina antes de ser mortos a tiros, seriam
apanhados depois dela. O que enfrentavam era ou a morte, ou o cativeiro, a poucos
quilômetros do exército britânico. Uma escolha boa. ― Nós não vamos conseguir, não é?
― Joana disse calmamente por trás do ombro.
Ele teve um momento de indecisão. Só um momento, e então, tirou o lenço do
bolso e o amarrou rapidamente na ponta de seu mosquete, antes de empurrar a arma para
ela.
― Aqui ― disse ele. ― Segure acima da sua cabeça e saia de trás destes arbustos
quando eles chegarem ao vale. Eles não vão atirar. Tenho certeza. Boa sorte, Joana. ― E
não perdeu tempo, correu para cima, ao abrigo dos arbustos, de costas para os franceses,
mais eriçado ainda do que antes. Por agora havia seu rifle ao alcance dele, que foi
carregado, também.
E, em seguida, os tiros foram sendo dados à sua frente, e para trás. E ouviu vozes,
em inglês, dirigidas a ele.
― Venha, senhor ― alguém gritou. ― Deste jeito. Nós o vamos cobrir.
― Mais rápido, Blake, seu bastardo! ― Alguém o estava chamando. ― Você não
quer morrer com uma bala nas costas. Seria algo ruim em seu registro.
Ele quase sorriu, porque não tinha essa intenção ainda, mas o medo lhe arranhava
as costas. Haveria o momento mais oportuno para correr, para literalmente correr, para o
grupo de seus próprios atiradores? Eram rifles que estavam sendo disparados de árvores
acima e à frente dele. Um rápido olhar por cima do ombro lhe mostrou os cavaleiros
franceses no vale, subindo aturdidos. O Visconde Wellington era famoso pelas
emboscadas mortais; então, ele se escondeu atrás da cristas das colinas.
A mesma olhada mostrou Joana em seus calcanhares, o mosquete sem o lenço,
pendurado no ombro.
― Que diabos? ― Ele disse, e voltou para pegar um de seus braços e a arrastar para
cima com ele, até que pudessem se esconder atrás de uma moita bem-vinda e espessa de
arbustos, logo abaixo dos atiradores britânicos.
― Eu me senti um pouco nervosa sobre ser apanhada entre dois fogos ― disse ela,
ofegante e se atirando para o chão, antes de olhar para baixo, entre os arbustos.
O capitão Blake, entretanto, se jogou ao lado dela e preparou o rifle com os dedos
agitados, apontando para baixo na colina, para os cavaleiros sendo aniquilados, ainda
indecisos de atacar. Eles pareciam assustadoramente perto.
― Confiança! O capitão Blake tem com ele a única mulher linda que restou neste
canto de Portugal, ― um dos soldados de jaqueta verde falou em voz alta. Sargento
Saunders. O capitão Blake sorriu. Ele sentiu-se subitamente muito em casa, apesar do
perigo mortal. Havia, talvez, uma dúzia deles contra cinquenta cavaleiros franceses. Ele
sabia, sem dúvida, que não havia emboscada esperando sobre a crista da colina.
― Apenas mantenha sua cabeça para baixo ― disse ele a Joana, ― e você vai estar
bastante segura. ― Mas ela estava olhando para baixo, tão intensamente quanto ele.
Ele supôs, depois que tudo acabou, que durara apenas alguns segundos. Tanto que
aconteceu. No momento parecia durar para sempre, como se o tempo tivesse sido
abrandado a um décimo de sua velocidade habitual.
Antes que ele soubesse o que estava prestes a acontecer, muito antes que ele
pudesse fazer algo para o impedir, Joana ficou em pé, à vista dos cavaleiros abaixo, e ela
estava acenando ambos os braços acima de sua cabeça.
Antes que ela abrisse a boca e gritasse, quase no mesmo momento em que se
levantou, ele sabia o que ela ia dizer e entendeu o que estava acontecendo.
― Marcel! ― Ela gritou. ― Eu estou aqui. É Jeanne. Marcel!
E ela estava de volta para o chão atrás dos arbustos, puxando febrilmente seu
mosquete, antes do capitão Blake reagir.
― Jesus Cristo! ― Ele exclamou, e se atirou sobre ela, tirando a arma de suas mãos,
pegando seus pulsos e os torcendo atrás das costas, sem qualquer outro pensamento. ―
Você é uma megera. Você é o diabo! ― Não! ― Ela gritou, sua voz frenética. ― Me dá a
minha arma. Quero a minha arma, Robert. Eu tenho que o matar. Oh, por favor, você
não entende. Eu tenho que o matar.
Tiros foram disparados de ambos os lados. Os cavaleiros deveriam estar subindo a
colina. Ele não olhou para ver. Ele a rolou sobre o estômago, arrastando o cinto de sua
cintura, e amarrou suas mãos, como fez antes. Não havia porquê numa mordaça desta
vez, mesmo se tivesse sido possível, com o lenço vibrando na metade da colina.
― E nem sequer pensou em usar suas pernas ― disse ele por entre os dentes,
rolando para o lado dela de novo e agarrando seu rifle. ― Eu gostaria que tivesse
quebrado uma delas. Você, provavelmente já matou todos nós.
Alguns deles, ele viu, haviam se aventurado até o morro, o coronel Marcel Leroux
na liderança. Mas os fuzileiros do exército britânico não tinham sua reputação mortal por
nada. Dois dos cavaleiros foram atingidos e seus cavalos corriam solto, e os outros
claramente hesitavam. Atacando um grupo de atiradores numa subida, era muito parecido
com cometer suicídio, mesmo que tivessem a certeza de que não havia centenas, ou
mesmo milhares, de soldados silenciosos, esperando ao longo do topo da colina.
Joana não parou de falar com ele, mesmo não lhe dando ouvidos.
― Por favor, Robert... Oh, por favor... você deve confiar em mim. Devo matá-lo...
Esperei três anos por este momento...
O coronel Leroux foi o último a se retirar para o vale, seus homens já se tinham
retirado por trás deles, parando seus cavalos no vale, incertos. Mas teria sido uma loucura
desnecessária o ataque. Mesmo o coronel Leroux deve ter percebido isso. Fora, sem
dúvida, apenas a presença de Joana no topo da colina que o mantinha imóvel, embora
estivesse bem ao alcance dos rifles, notoriamente, precisos.
Finalmente, ele virou seu cavalo e se juntou a seus homens no vale. Um minuto
depois, eles estavam voltando à formação como tinham vindo, levando seus dois feridos
com eles.
Joana lhe tinha dito uma vez, o capitão Blake refletia, que o seu conhecimento do
vocabulário profano era lamentavelmente pequeno. Ele não teria pensado assim, pelos
minutos seguintes. Ela jurou com bolhas de veneno em uma grande mistura do inglês,
francês e português.
― Você! ― Capitão Blake se voltou para ela, os olhos brilhando fogo, sua voz
cortante e gelada. ― Não poderia me ter dado um tiro nas costas, poderia? Você tinha
que pôr em perigo a todos estes homens inocentes. E, sim, os outros homens também.
Dois deles foram feridos, talvez mal. Notou isso? Apenas para que você pudesse fazer um
gesto teatral para o benefício de seu amante francês?
― Eu te odeio. ― Toda a raiva frenética tinha ido de sua voz, olhos e seu corpo.
Ela se deitou de bruços no chão, com a cabeça virada para baixo, no caminho, os olhos
sem vida. ― Eu nunca vou te perdoar por isso, Robert. Nunca.
E então outras figuras vestidas de verde, cada um segurando um rifle, seus
companheiros, vieram correndo e deslizando para baixo do morro, na direção deles.
― Passou muito tempo, eu não teria pensado o reconhecer, senhor.
― Quem poderia deixar de reconhecer esse nariz torto?
― Confiava em você para ter uma companhia inteira de cavalaria francesa em seus
calcanhares, seu bastardo, e sobreviver.
― Prazer em ver você novamente, senhor. Há apostas para saber se vai voltar para
a batalha ou não.
― Estou certamente feliz e aposto em você, senhor.
― Você tem toda a diversão, seu bastardo. Aposto que a história por trás disso
faria encher um livro. Onde ela está indo? Cristo Todo-Poderoso! ― O capitão
Rowlandson deu uma boa olhada em Joana. ― Ela é a marquesa, Bob. ― Seus olhos
estavam quase pulando para fora de sua cabeça.
Joana foi caminhando lentamente até o morro, as mãos ainda amarradas nas costas.
― Ela não vai chegar longe, ― o capitão Blake disse severamente. ― Ela é francesa.
Todos os fuzileiros estavam olhando para Joana fascinados. Capitão Rowlandson
assobiou. ― Francesa? ― Disse.
― Sua prisioneira, Bob? Bem, eu sempre soube que você tinha toda a sorte. Onde
diabos estava?
― Onde eu vou é mais importante ― disse o capitão Blake. ― O Exército está
fazendo uma parada à frente? ― O capitão Rowlandson sorriu para ele. ― Espere até ver,
Bob ― disse ele. ― É uma beleza. Johnny vai se render depois de nos olhar. Eles
pensaram que esta era uma batalha difícil! É uma coisa boa que estávamos em patrulha
neste sentido, a propósito. Você vai voltar com a gente?
― Eu tenho algumas coisas para fazer em primeiro lugar, Ned ― disse o capitão
Blake. ― Mas eu estarei lá. Não perderia esta batalha para os mundos. ― Ele estava
apertando os olhos até o topo da colina. Joana tinha desaparecido. ― Eu tenho que ir.
Vejo vocês companheiros, dentro dos próximos dias. E obrigado.
Comentários ruidosos e palavrões amigáveis o seguiram até o topo da colina.
Ela não tinha ido longe. Havia uma pilha de pedras grandes parcialmente para o
outro lado da colina. Ela estava sentada em uma das mais baixas, com os braços puxados
firmemente atrás dela, a cabeça inclinada para a frente de modo que sua testa descansava
quase de joelhos.
Por Deus, pensou o capitão Blake, caminhando em direção a ela, teria que ter
cuidado para não a matar. O que ele queria fazer era lhe dar uma boa surra.

***

Ela não estava fugindo, não sabia exatamente onde estava indo e sentou numa
rocha, mesmo sem escolher conscientemente o local. Tentou mover seus braços e se
lembrou de que eles foram amarrados. Não lutou. Deixou a cabeça cair para a frente até
que quase tocou os joelhos.
Era contra a sua natureza o desespero. Muito raramente ela ainda ficava deprimida.
Para Joana havia quase sempre uma esperança, quase sempre alguma coisa que podia
fazer. Ela não era pessoa de admitir a derrota, normalmente.
Mas admitiu agora, derrota total, desespero total. Houve todas essas viagens à
Espanha, entre os franceses, olhando sempre para uma face. E o tinha encontrado,
finalmente, e fez planos bastante inteligentes e muito improváveis de ter sucesso, podia
ver isso agora. Ela o deveria ter matado em Salamanca, tivera dezenas de chances lá.
Ela teve outra chance dez minutos antes, a chance perfeita. Era tudo o que tinha
sonhado. E tinha falhado novamente, por causa de sua própria inteligência. Ela tinha tido
várias semanas para conseguir que Robert acreditasse na sua história, poderia ter feito isso
com facilidade. Mesmo na noite anterior, ela poderia ter feito isso. Tinha percebido então,
que ele tinha estado à beira de acreditar nela. Mas não, ela jamais gostara do que era muito
fácil. Tinha desfrutado de o provocar, o manter em dúvida.
E assim, ela não o poderia culpar pelo que tinha acontecido, mesmo lhe tendo dito
que o odiava, e que nunca o perdoaria. Claro, a ouvir gritar assim, a ver pegar sua arma
como fez, o obrigou a se lançar sobre ela, lutar pela arma dela, e atar suas mãos. Ela não o
podia culpar.
E assim foi por água abaixo, sua chance de vingar as mortes de Maria e Miguel e os
da família de Miguel. E por sua própria culpa. Joana afundou ainda mais no desespero. E
ela assistiu, fascinada e intrigada, como grandes gotas de água caíam nos joelhos e
escureceram o vestido. Ela estava chorando! Miséria caiu sobre ela.
Não o ouviu subir. Viu suas botas, um pouco afastados uma da outra, a um lado
dela.
Ela sabia que logo teria vergonha de si mesma, e estava furiosa com ele, por ter
testemunhado a sua miséria. Mas no momento, estava muito infeliz para se importar.
Sentiu as mãos em suas costas, habilmente a libertando das amarras do seu próprio
cinto. Deixou as mãos cair molemente para os lados.
― Joana ― disse ele. Sua voz era suave como a mão que veio descansar no topo da
sua cabeça. ― Sinto muito.
Ela fungou, e sabia que seu nariz estava pingando, assim como seus olhos.
― Eu sou um espião ― disse ele, ― e, portanto, lido no negócio de engano. Mal a
posso culpar por fazer o mesmo. E eu mal a posso culpar por estar no lado oposto ao
meu. Seu pai é francês e ele trabalha para o governo francês. E você o ama. Lamento que
isso tivesse que acontecer com você. Mas esta é uma guerra e eu não a posso deixar ir.
Você estava tão perto, agora... Eu sinto, muito.
Ela fungou novamente.
― Talvez as guerras acabem logo ― disse ele. ― Você vai poder ir para casa e se
casar com seu coronel Leroux.
― Robert ― disse ela, ― você é tão cego. ― Mas sua voz soou abjeta e sentiu
vergonha de si mesma. ― É um maldito cego ― disse ela um pouco mais causticamente.
― Você quer que eu acredite que realmente o queria matar? ― Ele sentou sobre os
pés e a olhou no rosto. ― Mas isso não faz sentido. Por que você gostaria de fazer isso?
― Não importa, ― ela falou. ― Você não acreditaria em mim, de qualquer maneira.
― Tente ― disse ele.
― Eu não queria matar ― disse ela, irritada. ― Eu o queria matar para que ele me
admirasse e me amasse mais; ou talvez, eu o quisesse matar; pode ser que esteja ofendida
porque ele não impediu que eu fosse tomada como refém; ou talvez, ele me tenha
insultado em Salamanca; quem sabe, porque ele estava demorando a casar comigo,
quando já tem uma esposa e eu descobri. Ciúme pode criar assassinos, você sabe.
― Olhar para o seu rosto é como olhar para a superfície de um escudo, você sabe
― disse ele. ― Como eu sei quem é você, Joana? Eu sei tudo? Ou eu não sei nada?
Começo a suspeitar que é o último.
Ela esfregou o nariz com as costas da mão. ― Seu amigo chocado, abaixo da colina
deve estar me vendo agora ― disse ela. ― Eu pareço pior do que um susto, não?
― Um pouco ― lhe respondeu.
― Obrigada ― disse ela. ― Um cavalheiro estaria derramando elogios
tranquilizadores, Robert.
― Será que estaria? ― Disse. ― Mas você saberia que todos eles eram mentirosos.
Você perdeu meu lenço.
― Então, vou apenas fungar e usar a palma da minha mão ― disse ela.
Ele tirou um pano de aparência suja de sua mochila. ― Eu embrulho o canhão do
meu rifle com ele quando chove, ― explicou. ― Para o manter seco. Você está convidada
a usar isso.
Ela tomou dele. ― Eu me pergunto se há algum buraco mais profundo onde eu
possa afundar ― disse ela, enxugando os olhos e assoando seu nariz com firmeza. ― Eu
não me banho há quatro dias, ou lavei o cabelo e a roupa há uma semana. Eu devo...
feder.
― Se você estivesse no seu habitual auto perfumado, ― disse ele com um sorriso,
― não seria capaz de me tolerar a menos de vinte metros de você, Joana. Perfumes são
muito sobrestimados, você sabe.
― E sabão também? ― Ela disse, franzindo o nariz.
― Eu provavelmente iria vender o seu mosquete por uma barra de sabão, agora, ―
disse ele, e puxou uma risada dela. ― Isso é melhor. Pensei que a tinha perdido.
― Eu pensei que você teria sido feliz em me ver em lágrimas e derrotada ― disse
ela. ― É o que sempre quis, não é?
Seu sorriso desapareceu. ― Eu não quero ver seu espírito quebrado, Joana ― disse
ele. ― Estas últimas semanas teriam sido muito aborrecidas, se você não tivesse sido...
você.
― Bem ― disse ela, se levantando ― o que é quase uma declaração de amor, depois
de tudo, Robert. É o mais perto que você vai chegar?
― Foi uma declaração de respeito ― disse ele em voz baixa, se endireitando
também.
Ela suspirou. ― Isso está quase no fim, não é? ― Disse ela. ― Eu não. Mas, todas
as coisas boas chegam ao fim, assim como coisas ruins. E a vida continua. Para onde
vamos agora?
― Uma trilha em ziguezague para o Bussaco ― disse ele, ― para me certificar de
que não perdi ninguém.
― Mostre o caminho, então ― disse ela. ― Eu ainda sou sua prisioneira, ao que
parece, mas a mulher nunca teve um carcereiro mais desejável, eu acredito. Haverá ainda
mais uma noite, Robert? Talvez duas? Vou fazer você se lembrar dessas noites, mais do
que de todas as outras juntas. Eu prometo.
― Às vezes ― disse ele, ― eu espero que nem tudo o que você diz seja mentira,
Joana.
Ela riu. ― Você vai descobrir ― ela falou. ― Esta noite. E se eu lhe disse a verdade
sobre isso, então, talvez, eu tenha dito a verdade sobre tudo, Robert. Amanhã de manhã
você vai ser torturado por dúvidas de novo e pela culpa. Amanhã de manhã, você estará
por todo o caminho, apaixonado por mim.
Ela o desafiou com seu sorriso deslumbrante. Embora ele nunca lhe respondesse
abertamente, como todos os outros homens que conhecia sempre tinham feito, sabia
instintivamente que tinha tido efeito.
Capítulo 23
No final da tarde o capitão Blake percebeu que haviam caminhado mais ao norte
do que precisavam ir. Eles tinham avistado um aglomerado de casas, muito poucas em
número para ser dignificadas pelo nome de aldeia, e encontraram os habitantes, querendo
partir ou a ponto de partir. Parecia que seu próprio povo estivera lá antes dele, os
membros da Ordenanza. No entanto, ele decidiu continuar mais um par de quilômetros
ao norte, antes de fazerem a volta para o sul novamente, para o que deveria ser o
caminho do avanço francês. Um dos moradores tinha mencionado uma casa mais ao
norte da fazenda.
― Vamos descansar em breve ― ele disse a Joana ― e chegar a Mortágua amanhã.
Vamos passar mais uma noite ali, se ainda for seguro, e depois, finalmente, vamos ficar
atrás das linhas britânicas.
― E eu vou ficar lá, em segurança, até o final da grande batalha ― disse ela,
suspirando ― e você vai sair na frente dela, com os seus atiradores. Não é justo, Robert.
A vida não é justa para as mulheres.
― Ou para os homens ― disse ele. ― Dependendo da maneira que você olha para
ela.
― A maneira que os homens olham para a guerra, é a única maneira que conta, ―
disse ela. ― Os homens acreditam que as mulheres gostam de ser protegidas e mantidas a
salvo de todo o mal.
― Não. E eles fazem? ― Perguntou ele.
― Bah! ― Foi tudo o que ela disse.
E então, quase antes que eles pudessem se silenciar, ambos estavam alcançando o
céu, após o capitão Blake ter deixado cair suas armas, ruidosamente, ao chão, e serem
cercados por homens armados diversamente, a maioria deles, sorrindo.
― Capitão Robert Blake do exército, dos Rifles, Inglês, ― O capitão Blake disse em
voz alta e claramente em português, se amaldiçoando por cair como um novato, numa
emboscada.
― E a mulher? ― Um dos homens perguntou, sacudindo a cabeça na direção de
Joana. ― A mar... começou ele.
Mas ela o interrompeu. ― Joana Ribeiro, irmã de Duarte Ribeiro ― disse ela. ― E
desarmados, seus imbecis. Desde quando vocês começaram a emboscar seus próprios
aliados e camponesas?
― Jesus! ― Capitão Blake murmurou. Uma mão com uma faca curva surgiu
apontada para seu estômago, e uma mulher ao lado dessa mão, que estava convidando,
quase abertamente, seu dono, para fazer uso dela.
O homem pequeno, magro, que parecia ser o líder do grupo sorriu e olhou em
volta para os seus homens, que baixaram suas armas. Capitão Blake se atreveu a respirar
novamente.
― Os ingleses são todos loucos, ― disse o homem. ― Eles usam uniformes
escarlates e esperam se misturar na zona rural. Quase todo os ingleses, pelo menos.
Alguns são sensíveis o suficiente para vestir verde. Eu não tinha certeza, capitão. Me
desculpe.
Um de seus homens pegou tanto o rifle como o mosquete, e os entregou, sorrindo,
ao capitão Blake. Notícias e planos foram trocados durante a hora seguinte, enquanto os
dois recém-chegados partilharam o final da tarde e uma refeição com os portugueses.
― Os franceses vão ficar em Viseu por um dia ou dois ― o líder lhes disse ― e
depois marcharão para oeste, através do rio Mortágua, para o Bussaco, onde os ingleses e
o nosso próprio exército estarão esperando por eles. Vai ser um massacre, os nossos
homens estarão nas alturas.
Ao que parecia, estes homens se dirigiam para Viseu, naquela mesma noite, para
perseguir os franceses, da melhor forma que pudessem. Quando o exército marchasse da
cidade em seguida sairiam os Ordenanza, que estariam na sua retaguarda, como tinham
estado todo o caminho desde a fronteira, fazendo tanto dano quanto podiam, tentando
impedir seu inimigo de se organizar, adequadamente, para a batalha que tinham pela
frente.
― Não há porquê em ficar aqui ― um dos homens disse. ― Nós estamos muito ao
norte para bater palmas aos olhos de um único francês. Vamos perder toda a diversão.
Você deve vir com a gente, inglês.
O capitão Blake sorriu. ― Meu caminho está na direção do exército ― ele disse, ―
via Mortágua.
― Ah, sim ― o líder falou. ― Isso é onde Duarte Ribeiro e vários de seus homens
vivem. E suas mulheres. A senhora vai querer se juntar a seus parentes. ― Ele acenou
para Joana. ― E eu diria que Ribeiro vai perder a diversão do dia seguinte, ou do outro.
Ele vai estar ocupado movendo todos antes dos franceses chegarem. Esse é o seu
trabalho também, capitão?
O grupo do português foi para o sul, sem mais demora. Mas seu líder parou e
olhou pensativo para o capitão Blake e Joana, antes de sair.
― Eu tenho uma pequena fazenda e uma casa não muito longe, ― ele disse,
mostrando para o noroeste. ― Não a queimei, uma vez que não está na rota do exército
francês, apesar de ter enviado minha esposa, e mãe de meus filhos, para longe, com todos
os outros, apenas para estar no lado seguro. Você está convidado a ficar lá para a noite,
capitão. ― Ele sorriu. ― Eu não considero necessário trancar as portas.
― Obrigado. ― Capitão Blake se levantou para ver os homens a caminho. ― Nós
poderíamos fazer isso.
E os homens foram embora para a tarefa designada, depois desta pausa em sua
etapa, seus espíritos elevados, agora que estavam prestes a colocar as mãos em pelo
menos algum dos inimigos odiados, por fim.
― Bem. ― Capitão Blake olhou para Joana, que ainda estava sentada, as mãos
sobre os joelhos. ― Você quer um teto sobre sua cabeça esta noite, Joana? Vai ser uma
noite fria.
― É tão real, não é? ― Disse ela. ― O poder da França, não muito longe, à nossa
esquerda, e a força da Inglaterra e Portugal, em contrapartida, à direita. A batalha é
inevitável, dentro de alguns dias; não mais semanas, mas dias. E então, muitos homens
vão morrer, milhares. E, talvez, você também morra, Robert. Você tem medo de morrer?
― Sim ― ele lhe disse, quando ela o olhou. ― Eu ainda não encontrei a pessoa,
homem ou mulher, que não tenha. Mas é algo por que todos nós devemos passar, mais
cedo ou mais tarde. Seria tolice viver nossas vidas com medo da morte, porque ela virá,
quando for a hora certa.
― Ah ― disse ela, sorrindo ligeiramente. ― Um fatalista. Mas eu espero que você
não morra nesta batalha.
― Obrigado ― respondeu ele. ― Eu também.
― Sim. ― Ela se levantou e sorriu mais plenamente para o rosto dele. ― Um teto
sobre nossas cabeças, por favor, Robert. A casa inteira para nós mesmos com mais
ninguém lá. Podemos brincar de casinha. Devemos?
― Vamos passar a noite lá ― disse ele, ― e sair no início da manhã.
― Mas ainda é apenas o início da noite. ― Ela colocou as mãos em seu peito. ―
Robert, vamos brincar de casinha por algumas horas, encontrar essa casa e fingir que é
nossa, nos esquecer do mundo, e tudo o que importa somos nós dois. Apenas por
algumas horas, não é? Vamos fingir que somos um casal muito comum, muito
apaixonado. Você é bom em fingir? Mas é claro que é. Você é um bom espião. Vi isso em
Salamanca. Vai fingir isso comigo?
― Joana ― ele respondeu, olhando ansioso para o rosto bonito, ― estamos em um
lugar perigoso, em um momento perigoso. Estamos no meio de uma guerra. Estamos em
lados opostos.
― E eu sou sua prisioneira ― disse ela. ― Você esqueceu de adicionar esse detalhe.
Quero brincar de casinha por uma noite, Robert, por apenas uma noite, tratar um do
outro da mesma forma que faríamos se nada mais existisse ou importasse em todo o
mundo, só nós dois. Você poderia?
― Joana… ― disse ele, mas ela pôs três dedos sobre os lábios dele.
― Quando você diz meu nome assim, ― disse ela, ― eu sei que está a ponto de
falar algo sensato. Amanhã, ou no dia seguinte, estaremos separados. Talvez, para não
nos reunirmos, novamente. É provável que nunca mais nos encontremos. Nos está sendo
concedida a felicidade desta noite, longe do curso dos exércitos, numa casa vazia onde
ficar, que não precisamos deixar até o amanhecer. É um presente, Robert. Você está
disposto a jogar fora?
Não, ele não estava. Ele estava cansado de lutar com ela, a manter sempre à
distância, até mesmo de seu braço, embora, nessas últimas semanas houvesse dormido
com ela quase todas as noites. Estava cansado da barreira entre eles, cansado de sempre
pensar nela como sendo o inimigo. E estava muito consciente de que o tempo com ela
estava acabando, e que no dia seguinte ou no outro, ele teria a difícil e desagradável tarefa
de a levar para o Visconde Wellington como uma espiã francesa. Às vezes desejava ser
capaz de transformar sua vida em outra que lhe fosse mais agradável ― não
permanentemente, porque gostava da vida que tinha, que construíra sozinho e por puro
esforço, com a qual estava satisfeito ― apenas por um tempo curto, durante algumas
horas.
― Muito bem, então, ― ele disse, seu tom áspero em desacordo com suas palavras.
― Por esta noite, Joana, até o amanhecer, nós vamos brincar de casinha. Vamos ver se
podemos encontrar essa quinta, não é? ― Ele empurrou as duas armas quase como se
tivesse tido uma briga com elas.
Era só o que ele fazia, agora? Robert se perguntou enquanto caminhava na direção da
fazenda deserta, Joana ao seu lado. Teria ele finalmente sucumbido aos seus encantos,
assim como todos os outros pobres tolos perseguindo seus passos onde quer que fosse?
Estava ele realmente disposto a abrir seu coração para ela e correr o risco de se
machucar? E se arriscar a ser ridículo?
Mas seria por algumas horas apenas, pouco tempo, só um tempo longe do tempo.
Ao amanhecer, tudo estaria de volta ao normal, novamente.

***

Ela esfregou o cabelo com a toalha, até que estava quase seco; depois, o sentiu com
a mão, sua umidade e maciez, desembaraçando os emaranhados, o penteando com algum
estilo. Se sentia tão deliciosamente limpa, que fechou os olhos e aspirou o próprio cheiro.
E sorriu.
Assim que chegaram à casa, ela se voltou e envolveu os braços em volta do
pescoço de Robert, e beijou sua face. Ele, em contrapartida, não a tentara beijar ou fazer
mais do que a segurar pela cintura. Joana se sentira enganada, por um momento, ele não
iria fingir, depois de tudo. Mas, ela sabia, que os homens achavam mais difícil aceitar esses
jogos do que as mulheres. Ao menos, ele não a tinha afastado para longe.
Ela, torcendo o nariz, dissera: ― Robert, eu acho que você fede. E não estou muito
certa de porque sinto isso só agora. Deve haver água aqui, e uma banheira. Vamos tomar
um banho, não é? Com água morna? Você pode imaginar um luxo maior?
― Não, sem ter que pensar no muito difícil que é ― ele dissera, e ela sorrira da
forma mais brilhante. Isso fora o mais próximo que Robert tinha chegado a brincar com
ela. ― Então, você está querendo me obrigar a trabalhar carregando água?
Ela sorrira, deslumbrantemente. ― Mas, pense como será maravilhoso ir para a
cama, hoje à noite ― ela lhe disse. ― Nós dois limpos e com cheiro suave. ― Ela teve a
satisfação de ver seus olhos entrecerrados. ― E eu vou trabalhar muito. Farei o fogo. E
pensar que, geralmente, eu tomo banho todos os dias, e o tomo por certo.
Isso tinha sido mais de uma hora antes. Ela tinha se banhado em primeiro lugar, se
despiu e entrou na água da banheira, no meio da cozinha, sem se preocupar por ele estar
ali também. E ela suspirou com satisfação, olhando para ele por debaixo dos cílios; e
soube que, afinal, ele ia fingir. Ela nunca tinha visto um olhar tão despido de desejo no
rosto de Robert.
Agora ele estava se banhando e ela estava esperando por ele no principal quarto de
dormir, uma toalha enrolada nela. Suas roupas estavam penduradas acima do fogão,
secando. Experimentou o colchão enquanto estava sentada, e descobriu que era
realmente suave e bem arejado. Aqui seria um lugar maravilhoso para se fazer amor.
E então, a porta do quarto se abriu e ele entrou. Assim como ela, estava vestindo
apenas uma toalha enrolada na cintura. Ele parecia quase insuportavelmente, masculino e
viril. Seu cabelo, ainda molhado e encaracolado, como no dia em que o conheceu.
― Robert ― disse ela, balançando um pé, ― você está limpo novamente e
cheiroso? ― Ele parou no umbral da porta. ― É melhor vir aqui e descobrir por si mesma
― disse ele.
Ela sorriu e ficou em pé. Se isso não fosse um convite irresistível, vindo de Robert
como foi, então ela não sabia o que seria.
Ele estava indescritivelmente belo, pensou ela, seu cabelo úmido em ondas
incontroláveis sobre os ombros, que junto com os braços e as pernas estavam nus. A pele
dela estava bronzeada pelo sol das últimas semanas, de modo que muitas senhoras
inglesas teriam ficado horrorizadas com sua visão. Mas, para ele, ela parecia saudável, viva
e encantadora.
Parecia ainda mais bonita, quando chegou perto dele e se livrou da toalha, a
deixando cair descuidadamente ao chão. Os olhos dele a percorriam, pelas pernas finas,
quadris arredondados e cintura fina, ao longo dos seios altos e firmes, e os ombros
finamente magros. Seu rosto, estava aceso com malícia e outra coisa também.
Ela veio até ele, encostou o nariz em seu peito e cheirou. Depois, o segurou pelos
ombros, encostando nele os seios. Ele inalou seu perfume, lentamente.
― Mm ― disse ela. ― Você cheira bem, Robert. ― E enquanto dizia as palavras,
suas mãos se moveram, lhe tirando a toalha, a atirando para trás no chão. ― Esta é a
nossa própria casa, nosso quarto de dormir, e temos a noite toda pela frente. O que
devemos fazer?
― Isto, para começar. ― Ele lhe respondeu. E a olhou nos olhos escuros enquanto
entrelaçava os dedos em seu cabelo e baixava a boca para a dela, sua língua chegando à
frente. E ela abriu a boca antes de fechar os olhos.
Ele não a tinha beijado desde a noite em que se tornaram amantes. Tivera muita
vontade durante as semanas passadas, desde que se convencera e a ela, que o que faziam
era meramente para satisfazer uma necessidade física. Beijar implicava mais do que algo
físico, era muito pessoal e íntimo, curiosamente, mais íntimo até que a cópula.
Sua boca era suave, quente e muito convidativa. E ela gemeu.
Ele a tinha querido beijar, há muito tempo. Íntimos como tinham sido durante
semanas, sempre houve algo faltando, alguma proximidade e ternura. E agora, de repente,
tudo estava lá, porque ele a estava beijando profundamente, e porque eles estavam nus
em seu quarto de dormir, em sua própria casa, com uma noite inteira pela frente.
― Robert. ― Ela acariciou o cabelo dele, enquanto sua boca queimava o caminho
para o queixo dele, ao longo de sua garganta para encontrar o pulso em sua base. ―
Robert, isto é mais do que físico, não é? Me diga que é mais.
Ele levantou o rosto novamente, e a olhou nos olhos. Havia profundidade nos
olhos dele, de modo que ela já sabia sua resposta, com uma intensidade quase
assustadora. Ela nunca quis isso de qualquer homem, nunca esperou. Ela queria sempre
estar no controle, mas jamais o poderia com ele, se continuasse a lhe olhar assim; mesmo
sem dizer as palavras que Joana esperava ouvir, Robert lhe respondeu.
E, no entanto, sempre, sempre em seus sonhos, ela queria nada mais do que isso.
E, certamente, nos sonhos do passado ela também queria isso, era tudo o que poderia
querer da vida. Não havia mais nada, nada mais.
E ele a olhou e viu sua vulnerabilidade, ouviu as palavras que ela tinha dito e as que
ela ainda não dissera, mas que talvez dissesse, se ele lhe respondesse como desejava. E ele
estava apavorado. Se tais palavras fossem ditas, então eles não estariam brincando, na
verdade. Não haveria jogos envolvidos, apenas a verdade, a realidade.
E ele não queria essa realidade, queria uma noite de faz de conta. Isso era com o
que ele tinha concordado. Mas, Deus... oh, Deus, ela era linda. E não apenas seu corpo,
mais do que linda, e ele a mantinha nua em seus braços. Ela era muito bonita.
― Silêncio, Joana ― disse ele, com a boca contra seu ouvido. ― Não vamos falar.
Vamos fazer amor. Às vezes, o corpo pode falar mais eloquentemente do que as palavras.
― Fazer amor? ― Ela virou a cabeça e sorriu lentamente, com os olhos também. ―
Nós vamos fazer amor, Robert? Finalmente?
― Sim. ― Sua boca estava sobre a dela novamente. ― Vamos fazer amor, Joana.
Na cama, por favor. Nós somos muito diferentes na altura para estarmos confortáveis em
pé.
― É uma cama tão linda ― disse ela, se afastando e o levando pela mão. ― É
grande e macia. Poderemos criar nela recordações lindas, para lembrar depois...
― Depois disso? ― Disse. ― Quem falou em depois?
Ela nunca o tinha visto provocar. Se deitou na cama e sorriu para ele. Ela ainda
segurava sua mão. ― Eu pensei que, talvez, eu o pudesse esgotar antes do amanhecer ―
disse ela.
― Agora, isso ― , disse ele, deitado ao seu lado, apoiado num cotovelo, ― é um
desafio, simplesmente. Veremos quem esgota a quem.
Sua respiração estava mais rápida. Ela nunca o tinha visto assim, relaxado e
provocante, um sorriso espreitando seus olhos. Ah, ela nunca o tinha visto assim. Ele
estava maravilhoso, quase a ponto do insuportável. E então, o tocou no rosto com uma
das mãos.
― Robert ― ela falou, em seguida, ― você teve muita experiência com mulheres,
não é mesmo? Não, não responda. Era uma pergunta retórica. Use toda essa experiência
comigo, esta noite. Você poderia? Tudo isso? Eu quero tudo. Por favor?
― Com uma condição ― lhe respondeu. ― Que você use toda a sua experiência
comigo. Vamos ver quem tem mais a ensinar, não é?
Oh, meu Deus, se ele soubesse! Joana sorriu. ― E quem pode aprender mais
rapidamente, ― disse ela. ― Robert. ― Ela estava sussurrando. ― Faça amor comigo.
― Joana. ― Ele estava sorrindo para ela, enquanto sua cabeça baixava à dela. ―
Faça amor comigo.
Deus, ele nunca deveria ter concordado com essa sugestão insana, pensou. Sabia,
mesmo antes de sua boca a tocar, e dela se virar na cama para se ajustar ao corpo dele,
que o amanhecer viria muito, muito em breve. Uma vida mais cedo. Sua pretensão só
conseguira abrir a grande porta para a realidade. E a realidade assustadora pesou. Ele
deveria ter ficado nas colinas com ela, e a usado para seu prazer novamente, sob o calor
inadequada dos cobertores. Ele deveria ter continuado se dizendo que tudo isso era
puramente por prazer.
Ele a tocou, e suas mãos não a poderiam tocar o suficiente. E a tocou com a boca,
e mesmo assim, sua boca, a língua e seus dentes não poderiam ter o suficiente dela. E ela
o estava tocando, suas mãos e boca sobre ele, tão livremente quanto ele fazia com ela. Sua
excitação, sua necessidade de derramar sua semente dentro dela, era uma pulsação
dolorosa. E ainda assim, ele não queria parar de a tocar. Ele não queria deixar de
aproveitar a antecipação, não tão gloriosa, ainda. Uma de suas mãos separou as pernas
dela, o polegar empurrou um joelho, os dedos afastaram o outro. E ele a estava tocando,
onde ela não esperava que ele colocasse sua mão. No início, ela sentiu vergonha de o ter a
tocando assim, constrangida com o conhecimento de que estava molhada, pelo som de
umidade da vagina. Mas ele suspirou satisfeito e ela relaxou, sabendo que o som era
erótico e que a umidade era parte de sua resposta feminina, um convite para uma
penetração fácil de seu corpo. Ela afastou os pés ainda mais, e deixou que os joelhos
quase caíssem da cama.
E ela parou de tocar, maravilhada com o que estava acontecendo com seu próprio
corpo. Dedos deslizaram como penas sobre ela, para dentro dela, e depois o polegar, tão
leve que no início ela não o sentiu, esfregando seu montículo, despertando uma dor
instantânea e quase insuportável, que se espalhou para dentro dela e para cima na sua
garganta.
― Robert. ― Ela sussurrou seu nome. Seus olhos estavam fechados. ― Robert. ―
Suas mãos apertaram com força a cama.
Ele não esperava que ela se rendesse tão totalmente à carícia de sua mão. E, no
entanto, a viu se render, totalmente absorta no que ele fazia com ela, mais emocionada
ainda do que quando essas mesmas mãos tocavam seu corpo, alguns momentos antes.
Ele se ergueu sobre um cotovelo novamente e a observou. Ele assistiu quando ela,
gemendo com a boca aberta, deixou sua cabeça pender para trás.
― Ah ― disse ela, e prendeu a respiração de forma audível. Ele assistiu todo o seu
corpo tensionar.
― Robert ― disse ela novamente, e havia agonia no som.
E havia agonia nele também, quando a acariciou com o polegar e a trouxe ao
clímax. Ela era Joana, pensou. Ela não era qualquer mulher.. Ele sempre gostou de levar a
mulher ao prazer máximo, bem como a si mesmo. Mas não era assim com Joana. Ela era
Joana. E ele não estava apenas lhe dando prazer. Ele a estava amando.
Ela gritou de repente, agonia e êxtase no som. Ele colocou a mão aberta sobre ela,
durante o minuto ou mais que durou, enquanto ela estremecia, silenciosamente.
Os sentimentos de relaxamento e bem-estar eram quase demais. A vontade de
deslizar para um delicioso sono era irresistível. Só que a mão permaneceu sobre ela, que o
podia sentir olhando para ela. E, nada do que aconteceu, era o que ela normalmente
associava a fazer amor. Ele não tinha estado dentro dela.
Então virou a cabeça e abriu os olhos, e olhou para ele, sorrindo preguiçosamente.
― Você ganhou esta rodada, ― falou. ― Como isso aconteceu? Como é que você sabe
fazer isso? ― Seus olhos se desviaram para baixo. Ele ainda estava completamente
excitado, ela podia ver.
Ele abaixou a cabeça e a beijou calorosamente nos lábios. ― Você não vai ceder à
derrota tão facilmente, não é? ― Disse. ― Que decepção.
Mas ela não sabia o que fazer. Ela não sabia nada, exceto o que tinha aprendido
com ele. Mas, mesmo nas atuais circunstâncias, ela não estava pretendendo resistir ao
desafio. Ela sorriu com os olhos e estendeu a mão para tocar seu pênis. Em seguida, o
segurou com as duas mãos, o rolando, tocando a ponta sedosa com o polegar. Ela o
ouviu inspirar fundo.
― Venha dentro de mim ― disse ela. Ela devia permitir que ele também sentisse
esse prazer. E se deitou novamente de costas, se abrindo, levantando os quadris para ele,
assim que deslizou em sua umidade. E percebeu que desejava que soubesse mais, que
tivesse mais experiência para poder dar a ele mais prazer ainda.
Ela agiu por instinto, movimentando suas pernas de forma que ele abrisse mais as
dele. Depois, ela juntou bem as pernas e moveu os quadris ritmicamente, com ele, o
puxando intensamente, para dentro dela com os músculos internos.
― Deus, Joana ― disse ele com urgência, seus braços subindo para segurar seus
ombros, ― você quer que eu aja como um colegial?
Ela beijou a parte inferior de seu queixo. ― Como é que um estudante age? ―
Perguntou. ― Me mostre.
― Muito rápido ― respondeu a ela, suspirando, e foi para cima dela, num frenesi de
necessidade.
Deus, pensou ele. Deus, que bruxa! E ele que estava começado a acreditar, que,
talvez, ela não fosse tão experiente como ele tinha pensado antes, apesar de tudo.
Ele explodiu em um grito, e apagou por alguns minutos, ou horas, não tinha mais
certeza. Ela estava acariciando suas costas e seu cabelo, quando ele voltou a si. E ainda
estava dentro dela, as pernas o segurando ainda apertado.
― Eu devo ter esmagado todos os ossos do seu corpo ― disse ele.
― E você? ― Ela virou a cabeça para beijar seu ombro. ― Ele se sentia
maravilhoso, mesmo tendo quebrado todos os ossos. Será que vamos fazer igualmente
bem na próxima rodada, Robert? Será que nós vamos competir pelo resto da noite? Eu
preferiria simplesmente fazer amor.
Ele se moveu para o lado dela, a abraçando, em seguida. Ela se aconchegou contra
ele e suspirou. ― Joana ― disse ele, ― não deveríamos ter começado isso.
Mas ela levantou a cabeça bruscamente e o beijou na boca. ― Não existe tal coisa
como a realidade, antes do amanhecer ― lhe disse ela. ― Não há tal coisa, Robert. Você
não deve estragar esta noite. Oh, por favor, você não deve.
Mas foi estragada, no entanto. Em algum lugar não muito atrás do sonho, do faz
de conta, estava a realidade, que talvez não fosse dolorosa para ela, que vivia em um
mundo artificial, onde amontoava conquistas para sua própria diversão. Mas, para ele, a
realidade ia ser dolorosa, de fato.
― Realidade? ― Ele disse contra sua boca. ― O que é isso?
― Eu não sei, ― disse ela. ― Eu nunca ouvi falar disso. Robert?
― Mm? ― Disse.
― Você vai me dar o nascer do sol, amanhã de manhã? ― Ela levou uma de suas
mãos sobre a boca. ― Você se lembra de Óbidos? O que você disse sobre fitas, estrelas e
o nascer do sol?
Sim, ele se lembrava. Deus, ele se lembrava.
Não deveria ter feito essa pergunta. Ela fechou os olhos e enterrou seu rosto
contra seu peito. Não deveria ter perguntado. Porque as fitas, estrelas e nascer do sol
eram o que ele daria a seu amor, e sua resposta poderia lhe trazer dor. Oh, Robert, ela lhe
implorou em silêncio, por favor, me dê o nascer do sol. Por favor, me dê o nascer do
sol... Mas, sabia que não poderia. E, também sabia, que tinha estragado a noite para si
mesma.
― O nascer do sol vem depois do amanhecer ― ele disse calmamente, sua mão
alisando os cabelos dela. ― E assim vai acontecer. ― Ela levantou a cabeça e sorriu para
ele. ― Mas o que vem antes do amanhecer, Robert?
Algo mais? Ou será que já consegui esgotar você?

***

Uma grande parte veio antes do amanhecer. Eles se adoraram e cochilaram, se


amaram e cochilaram mais um pouco. E cada vez, a mais gloriosa intimidade em seu
amor, uma intimidade entristecida com a iminência do amanhecer. E, finalmente, eles
estavam deitados, a paixão passada, à espera do momento em que a luz do dia começaria
a acinzentar as janelas, e não haveria nada a fazer, senão levantar-se e se vestir, retomando
os papéis de carcereiro e prisioneira.
Ela poderia ter insistido com ele, o tentar convencer da verdade. Não teria sido
impossível conseguir, mas não o iria fazer. O amanhecer ainda não tinha chegado e ela já
estava enciumada de sua única noite de amor. Foi ele quem finalmente falou.
― Joana ― disse ele, um braço sob a cabeça, a mão brincando com seu cabelo. ―
Esse primeiro amor de vocês?
― Robert? ― Ela sorriu e virou a cabeça para ele. ― Não é uma coincidência que
você tenha o mesmo nome?
― Não é verdade ― disse ele. ― Joana, ele não se gabou aos criados sobre você.
Ele não a iria chamar de cadela francesa, naquele momento, de qualquer maneira.
Ela olhou para ele e franziu ligeiramente a testa. ― Você não acha? ― Disse ela. ―
Eu não penso assim também.
― Ele a amava totalmente, ― disse ele, ― como, talvez, apenas um rapaz de
dezessete anos de idade o faz. Ele não mentiu quando disse que te amava, mas não queria
dizer isso em voz alta. E não mentiu, quando disse que chegaria em um cavalo branco no
seu aniversário de dezoito anos, cavalgando antes do nascer do sol com você. Suponho
que ele sabia que nunca faria alguma coisa semelhante, mas falou a verdade do fundo do
coração. Isso é o que ele, apaixonadamente, desejava poder fazer.
Ela o estava olhando na semi-escuridão, com os olhos arregalados.
― Se ele lhe é precioso, ― ele disse, ― então sabemos que a memória pode ser
imaculada. Se você já abrigou dúvidas, mesmo que frágeis, as pode descartar. Ele não
faria essas coisas.
Ainda assim, ela não disse nada.
― Ele ficou profundamente magoado, ― continuou, ― por você ter dito que nunca
teria dado seriamente seu amor e sua atenção a um bastardo. Mesmo sabendo que suas
palavras não eram verdadeiras, ele ficou ferido. E ferido pela risada do pai dele, ao lhe
dizer que fora ousado ao levantar os olhos para a filha de um conde. E decidiu, naquele
dia, que jamais voltaria a estar sujeito ao desprezo das pessoas. Ele decidiu fazer o seu
próprio caminho na vida, começando por baixo, e terminando lá também, se não pudesse
subir por seus próprios esforços. Ele não fez mal. Você pode se consolar com esse
conhecimento, Joana, se é que ele ainda tem alguma importância para você. Seu Robert
está bem satisfeito com o que fez com sua vida. Não houve varíola, como você vê. Ele
não morreu, pelo menos, ainda não.
― Ele tinha o nome de sua mãe, ― ela disse, ― Não, o de seu pai ― Ela estava
sussurrando, como se temesse que pudesse ser ouvida. ― Qual era mesmo? Qual era o
nome de sua mãe?
― Blake ― disse ele. ― Seu nome era Blake. ― Ele fechou os olhos. E o silêncio
pareceu se estender, para sempre.
― Robert ― disse ela por fim, e ele quase não reconheceu a voz dela. Parecia
perdida, machucada. ― Ah, Robert.
― Foi há muito tempo, ― disse ele. ― Um tempo muito longo. Ele é uma pessoa
diferente, Joana, exceto no nome.
E você é uma pessoa diferente. Aconteceu tudo há tanto tempo... É um caminho
de volta para a idade da inocência. Mas ele está vivo. E ele te amava.
― Ah, Robert ― disse ela novamente. E havia tanta dor em sua voz, e ele não
conseguia pensar em nenhuma forma de a consolar.
Ficaram esperando pelo amanhecer, em silêncio.
Capítulo 24
― Joaquina deu para mim ― disse Carlota, colocando a arma grande, com cuidado,
em um canto. ― Ela disse que nunca teria a coragem de usar isso, e eu disse que o faria, e
então ela me deu Tomé. Não ria de mim, Duarte. Nada disso. Não ria de mim.
Mas Duarte riu, mesmo assim. ― Esta, certamente, deve ser uma das primeiras
armas de todos os tempos, ― ele falou. ― E você, provavelmente, iria se explodir em mil
pedaços com ela, Carlota, se alguma vez a disparasse. Então, você escolheu ficar e lutar,
em vez de correr para a segurança? Devo admitir que teria me surpreendido, por não a
encontrar aqui, quando eu vim.
― E agora você veio, ― disse ela com cautela, ― para tentar me mandar para o
oeste com Miguel, não é? Mas pode esquecer isso, Duarte, e se está planejando
argumentar, então eu sinto muito que tenha vindo para casa. Eu não senti nada além de
tédio e falta de ação, por semanas, embora pareça mais com meses e, agora, por sorte, os
franceses tropeçaram nesta rota, em seu caminho para o oeste. E você espera que eu
perca a oportunidade de uma vida? É isso, não é?
― Carlota ― começou ele.
― Você ― ela disse, as mãos nos quadris. ― Bem, eu não vou. Irei para as
montanhas com você, e ver o que posso fazer para o exército que passa. E Miguel virá
também. Este é o seu país, a sua primogenitura, bem como a nossa. E se você não gosta
disso, então eu irei sozinha. Eu acharei outro bando ao qual me juntar. E se você não vai
me fornecer uma arma decente, então eu vou levar este presente, e me fazer em um
milhão de pedaços com o meu primeiro tiro. Pare de rir de mim.
― Eu te amo, ― disse ele, a silenciando de forma eficaz. ― E não há nenhuma luta
em mim, não para você, de qualquer maneira. Para as colinas vamos juntos, então. Joana
não apareceu, você disse? Nem o capitão Blake? Eu pensei que eles a teriam vindo avisar.
― Duas dúzias de homens, no mínimo tem vindo para nos avisar ― disse ela. ―
Não tem havido nada além de avisos. E sempre, os franceses estão no encalço daqueles
que nos advertem. E eu não pus os olhos em um uniforme azul, ainda.
― A mulher tola não lhe disse a verdade ― disse Duarte. ― Ou, pelo menos, ela
não insistiu para que ouvisse a verdade. Ela o está provocando, com a impressão de que é
uma espiã para os franceses.
― Sim ― Carlota disse, ― Joana iria provocar. Bom para ela. Se esse homem não
acreditou da primeira vez que ela lhe contou, por que ela deveria lhe pedir e implorar?
― Ela é sua prisioneira ― disse Duarte, com um sorriso. ― Eu apostaria que um
carcereiro nunca foi tão atormentado.
― Oh! ― Carlota exclamou, ― e que carcereiro. Eu apostaria que Joana está
desfrutando de cada momento do cativeiro.
― Eu acho que ela está mesmo ― disse Duarte. ― Mas se eles aparecerem por aqui,
Carlota, devemos seguir o plano dela. Eu acredito que ele ainda não sabe. Ela foi acusada
de flertar comigo tentando me tirar de você.
― É isso, considerando que o capitão Blake está sentindo pena de mim, o que eu
não duvido ― Carlota disse, as mãos nos quadris novamente. ― Homens! Por que eles
sempre assumem que as mulheres são pobres criaturas indefesas, se encolhendo de
medo?
― Provavelmente, porque nem todos eles conhecem você ou Joana ― disse ele,
ainda sorrindo.
Os franceses ainda estavam em Viseu, e havia homens suficientes entre lá e
Mortágua para soar o alarme, se eles marchassem, inesperadamente cedo. Houve todo o
dia para embalar o que devia ser levado, e destruir o que fosse deixado para trás. Não
houve muita pressa, apesar de terem que ir embora em vinte e quatro horas. Mas, ambos,
Carlota e Duarte, tinham abandonado suas casas familiares, muito mais amargamente,
apenas alguns anos antes, e desde essa época, tinham aprendido a conviver com a
inconstância. Eles não sentiam grande infelicidade, agora.
― É tão bom estar de volta com você e nosso filho, ― disse Duarte, abraçando
Carlota um momento, durante a tarde. ― Você não pode imaginar, Carlota, como tem
sido sem você.
― Não posso? ― Ela disse, e sua voz tornou-se indignada. ― Oh, será que eu não
posso, de fato?
Mas, ele a abraçou e a beijou, se recusando a discutir. ― Nós temos um ao outro, e
a Miguel ― disse ele, quando ela finalmente devolveu seus beijos. ― Isso é tudo o que
realmente importa, não é?
― Sim ― ela disse ferozmente contra sua boca. ― E temos um país onde vivemos
livremente.
O capitão Blake e Joana chegaram no final da tarde, batendo na porta aberta e
perscrutando a escuridão da casa, de interior nu. Duarte foi até a porta e apertou sua mão.
― Você veio com segurança até aqui, então ― disse ele. ― Boa. Está apenas a uma
curta distância do Bussaco, onde o exército está reunido. Você sabia disso?
― Eu vou estar com eles amanhã ― respondeu o capitão. ― Imaginei que você
estaria aqui, mas nós viemos para advertir Carlota, apenas no caso de que ainda não
tivesse ouvido as notícias.
― Não tivesse ouvido falar? ― Disse Carlota, levantando os olhos para o teto, mas
atravessando a sala, no entanto, para cumprimentar seus hóspedes. ― Não ouvi outra
coisa na semana passada. Estou tão contente que os franceses provaram ser estúpidos, o
suficiente para vir desta forma, que eu mal sei como conter minha emoção. Estou feliz
que você esteja em segurança, longe da Espanha, capitão.
― Com a ajuda de Duarte ― disse ele, e ficou de lado para revelar uma Joana
sorridente. ― Você conhece a Marquesa das Minas?
Carlota sabia que ele estava olhando para ela, intensamente. ― Todo mundo
conhece a Marquesa ― disse ela. ― Bem-vinda.
― Carlota? ― Disse Joana, sorrindo mais amplamente. ― E onde está o bebê?
― Miguel? ― Disse Carlota. ― Dormindo, bastante perturbado pelo fato de que
sua primeira casa está sendo desmontada em volta dele. Venha o ver.
Joana deu um passo para seguir Carlota, mas antes, se virou para Duarte. ― Duarte
― disse ela, estendendo as duas mãos para ele. ― Como é bom o ver novamente.
Ele sorriu e apertou as mãos. ― Olá, Joana, ― respondeu.
― Ela é sua irmã? ― Capitão Blake perguntou abruptamente, quando as mulheres
desapareceram para ver o bebê.
― Será que ela disse que é minha irmã? ― Duarte sorriu.
― Sim. ― o capitão pareceu ficar sombrio. ― Meia-irmã. Ela diz que vocês têm a
mesma mãe. Não é assim?
― Se Joana diz, ― Duarte falou ― então deve ser verdade, não deve? Por que ela
mentiria? Ela deve ser minha irmã, se o disse, perdoe, minha meia-irmã.
O capitão Blake parecia um pouco exasperado. ― Muito bem ― disse ele. ― Me
desculpe por perguntar. Que notícias você teve hoje?
― Os franceses ainda estão em Viseu, ― Duarte contou. ― Mas, certamente, irão
se mover amanhã, a menos que sejam covardes, a ponto de virar as costas e fugir. Uma
vez que chegaram tão longe, através de um país impossível, eu acho isso improvável. E
Lorde Wellington passou todas as suas forças para o sul do Mondego, onde estão
esperando a batalha. Eles têm uma posição tão boa no Bussaco que quase sinto pena dos
franceses. Quase. ― Ele sorriu novamente. ― Mas, não é bem assim.
― Deus ― o capitão pensou alto, ― faz tanto tempo desde que eu estive em uma
batalha... Eu perdi Talavera, ano passado, por um dia. A marcha forçada de Lisboa, pela
qual ainda tem pessoas boquiabertas de admiração, e que também perdemos por um dia.
― E, assim, talvez você tenha perdido a sua morte por um dia também, ― disse
Duarte. As mulheres tinham voltado do quarto. ― Vai ficar aqui com a gente, hoje à
noite? Você pode ter o quarto de dentro, Joana. O capitão Blake pode dormir aqui,
conosco.
Joana sorriu, ofuscante. ― Mas eu sou prisioneira de Robert, está lembrado? ―
Disse ela. ― Ele não está disposto a me deixar longe de sua vista por mais que cinco
minutos, especialmente à noite. Você está, Robert? Vamos partilhar o quarto interior.
Você está indignado, Duarte? ― Ela voltou seu sorriso ao capitão. ― Irmãos, por vezes,
ficam, em tais situações.
― O quarto é seu, então ― disse Duarte. ― Carlota e eu dormiremos aqui fora com
o bebê. Amanhã vamos todos sair mais cedo. Com alguma sorte, alguma ação realmente
começará amanhã.
Eles se sentaram para comer, falando baixo, com os outros membros do bando e
suas mulheres, que ainda estavam na aldeia, até que a escuridão veio. Depois, todos se
retiraram para as duras camas no chão.
― Duarte, ― Carlota sussurrou, se curvando perto dele, depois de ter acalmado um
bebê agitado, ― você a viu? Você viu Joana?
― Eu não estive de olhos fechados durante todo o dia, ― lhe respondeu. ― Eu
diria que aqueles que adoram a Marquesa das Minas, simplesmente não a iriam
reconhecer agora, com o vestido mais desbotado e esfarrapado do que nunca, o cabelo
embaraçado e despenteado, pele bronzeada como uma camponesa, tudo isso, a um passo
de parecer refinada.
― Oh, sim, sim ― disse ela, impaciente. ― Mas eu queria dizer, ela, Duarte, seus
olhos. Finalmente aconteceu com ela, não é? Eu sempre disse que assim seria, um dia.
― Eu diria que eles são, certamente, amantes ― disse ele. ― Eles teriam que ser
feitos de pedra, para não o ser, uma vez que parece que são obrigados a passar suas noites
juntos.
― Oh, não apenas amantes, seu tolo ― ela lhe disse. ― Ela o ama, Duarte. Ela o
adora. Está lá, estampado no seu rosto, para todo o mundo ver. Joana nunca amou
ninguém, apesar de toda a horda de admiradores.
― Sim ― ele disse, ― Eu também vejo, Carlota. E vejo o mesmo olhar no rosto
dele, apesar de duro e disciplinado como é. Mas, ele não vai ceder, você sabe. Ela é uma
aristocrata, tanto pelo nascimento, como pelo casamento. Ele é, aparentemente, um
ninguém e fez no exército sua carreira. Eles são de dois mundos que nunca poderão se
encontrar, exceto por breves instantes e, em circunstâncias estranhas como esta.
― Oh, tolo ― disse Carlota. ― Idiota. Os homens podem ser tão estúpido. Como
se tais coisas importassem, quando o coração está envolvido. Você é um nobre e eu sou a
filha de um médico. Será que a diferença nos separa? Ou talvez, você não pretenda se
casar comigo, depois de tudo.
― Você tem que admitir ― disse ele, ― que a diferença entre nós é um pouco
menos radical, do que a deles. E eu pretendo casar, assim que encontrarmos um padre,
quer você goste ou não.
― Bem ― ela disse, ― Eu vou pensar nisso. Tem a intenção de passar a primeira
noite comigo, desde que, eu nem me lembro quando?
― Eu não ― disse ele, se virando para ela. ― Fale de você, se desejar, Carlota, mas
eu tenho coisas melhores para fazer.
― Eu também, ― disse ela. ― Eu senti sua falta.
― Mm ―, disse ele. ― Mostre o quanto.

***

A alta cumeeira do Bussaco corria dez quilômetros a norte do grande penhasco


perpendicular, subindo o rio Mondego. Seu topo estava vazio, além de algumas urzes,
aloés espetadas e um pinheiro ocasional, como também de alguns moinhos de pedra e o
Convento do Bussaco, a dois quilômetros da extremidade norte.
O Visconde Wellington tinha passado um trimestre no Convento, juntamente com
sua equipe. Os dois exércitos sob seu comando, o britânico e o português, foram
organizados em uma linha fina, ao longo dos dezesseis quilômetros do cume.
Mas a aparente fraqueza das linhas era enganosa. Eles estavam em cima, nas
alturas, ou, para ser mais preciso, além da vista de qualquer um que se aproximasse vindo
do leste. Não haveria meio de o exército francês avançando saber, com certeza, que eles
estavam lá, ou de estimar a sua posição exata, ou o seu tamanho. E os franceses, agora,
não tinham outra forma de avançar ao oeste e, finalmente, ao sul, para Lisboa. Seu
caminho estava sobre o cume do Bussaco.
E, finalmente, Massena e seu exército estavam em movimento. Em 25 de
setembro, eles passaram por Mortágua, a apenas doze quilômetros do Bussaco.
De alguma forma, pensou Joana, caminhando atrás do capitão Blake por todo o
país, a notícia lhes tinha chegado filtrada. Eles se encontraram com poucas pessoas entre
Mortágua e o Bussaco, mas todas elas sabiam que os franceses haviam deixado Viseu, que
a batalha iria acontecer muito em breve, talvez, até mesmo, no dia seguinte.
Ela estava se sentindo inexplicavelmente deprimida. Se aproximavam agora dos
ingleses e de relativa segurança. Logo, antes que o dia terminasse, ela estaria de volta para
onde esta jornada tinha se iniciado, relatando seu sucesso ao Visconde Wellington, a
Marquesa das Minas, novamente. Matilda estaria esperando por ela, seria capaz de
apostar, ou pelo menos teria feito alguns arranjos para o seu conforto. No dia seguinte,
enquanto a batalha estivesse sendo travada, ela poderia estar a caminho da segurança. E
seria a segurança das Linhas de Torres Vedras.
Ela não tinha por que se sentir deprimida. Mas, assim mesmo, estava. Queria se
enganar, alegando que estava inexplicavelmente deprimida? Claro que não.
O capitão se voltou para a olhar. ― Está tudo bem, Joana? ― Perguntou.
Ela abriu um grande sorriso para ele. ― Estarei eu propensa a me queixar de bolhas
ou fadiga, depois de tanto tempo? ― Perguntou ela.
Mas ele não continuou a andar, como tinha feito após várias paradas semelhantes
naquele dia. ― Joana ― disse ele, ― você sabe que é possível respeitar e até mesmo
admirar um inimigo. Eu a respeito e a admiro. Você tem um espírito indomável.
― Ah ― disse ela, ― mas eu não sou um inimigo, Robert.
― O seu suposto meio irmão não reconheceu você assim, ontem ― ele disse
calmamente.
― Talvez ele estivesse fazendo o meu jogo, ― lhe disse. ― Duarte tem um forte
senso de humor.
Ele olhou para ela e acenou com a cabeça ligeiramente, antes de voltar a caminhar.
Ela flexionou as pernas doloridas, e o seguiu. E ela se sentiu tão mortalmente deprimida,
que não sabia como conseguiria sorrir, se ele se voltasse novamente.
Ela estava apaixonada por ele, profundamente, irrevogavelmente apaixonada. E
não era apenas amor. Ela o amava. Ele era o homem que tinha procurado,
inconscientemente, toda a sua vida, o seu suave, poético Robert transformado pelo tempo
e as circunstâncias, em um homem duro, auto-suficiente, de princípio firme e paixão
escondida. Seu Robert, morto há muito tempo. E foi amargurada, que ela lamentou o
Robert ressuscitado. A estranha semelhança que sempre notara, afinal, não era tão
estranha. E sua atração por ele, não era mais um mistério. Ou seu amor. Ela sempre
soube que nunca iria deixar de amar esse Robert, o Robert Blake. E ela não tinha. E ao
corpo cheio de cicatrizes, e o danificado rosto atraente! Eram de Robert? O seu Robert?
Ela sentiu vontade de chorar pelo menino perdido, por seus sonhos despedaçados, pela
dor que ela e seu pai tinham causado a ele. E ainda assim, não podia chorar pelo homem
em que ele se tornara. Pois, embora difícil e duro, era orgulhoso e sensível, também. Não
era um homem amargo. E estava vivo. Seu pai tinha mentido para ela. Robert estava vivo!
Ela o amava. E mais tarde, naquele mesmo dia, ela teria que lhe dizer adeus de
novo. O pensamento era suficiente para a fazer sentir pânico. Ele iria descobrir seu erro,
é claro, e saberia que não eram inimigos. Mas ele seria mortificado, e ela não seria
inocente. Ela o tinha enganado vergonhosamente, porque tinha sido divertido o fazer.
Diversão! Seu estômago se sentia como se tivesse um peso de chumbo. Ele ficaria com
raiva. Ele não seria capaz de a deixar rápido o suficiente.
E mesmo que não ficasse, mesmo se ele estivesse disposto a lhe perdoar e se
despedir, ainda... Ela tinha a vida da Marquesa para retomar e ele teria uma batalha para
lutar. Talvez, uma batalha em que morrer. Tropeçou contra uma das pedras ásperas na
encosta, e caiu dolorosamente sobre um joelho, e ele estava ao seu lado em um instante, a
erguendo pelo cotovelo, com mão firme.
― Oh, Robert. ― Ela se virou para ele de forma bastante característica e, manteve
o braço de distância. ― Não faça isso. Vou sobreviver.
Ele ficou olhando para ela em silêncio, enquanto ela esfregou seu joelho. E ela
olhou para ele e engoliu seco.
― E você? ― Ela perguntou, sabendo que sua voz não estava muito firme. ― Você
vai sobreviver?
― Eu sempre sobrevivo ― disse ele.
― E “sempre”inclui amanhã? ― Perguntou a ele.
Ele não disse nada, mas olhou para ela pensativo. E então, ela estava em seus
braços, o rosto escondido em seu casaco.
― Oh, ― ela disse, ― Eu odeio situações sobre as quais não tenho controle. Não
me importa quão difícil ou perigoso algo está, desde que eu possa controlar, ou pelo
menos, ter uma boa chance de o fazer. Eu tenho sido capaz de controlar quase tudo na
minha vida. Exceto, o deixar na primeira vez. E, me casar com Luís. Eu poderia controlar
o que aconteceu em Lisboa. Eu poderia controlar o que aconteceu em Salamanca. Mas
isso eu não posso controlar. Eu queria estar indo para a batalha, também. Então eu me
sentiria melhor.
― Joana... ― ele murmurou.
― Eu iria ― ela disse a ele, apaixonadamente. ― Se eu pudesse lutar ao seu lado,
Robert, eu não estaria com medo. Eu riria com a emoção de tudo. Juro que o faria. Odeio
ser uma mulher!
― Eu amo o fato de você ser uma mulher ― disse ele, e seus braços estavam sobre
ela e ele a estava abraçando, bem apertado junto a ele.
― E eu odeio isso ― disse ela. ― Esta histeria feminina e apego. Eu me odeio.
Deixe que eu vá de uma vez. ― Ela empurrou seu peito e jogou o cabelo do rosto. ― Se
você não estivesse pairando sobre mim, como um anjo da guarda, cada vez que tusso ou
tropeço, Robert, eu me sairia muito bem, de fato. Gentilmente, ande e deixe que o siga à
minha maneira. Eu prometo a você que vou chegar lá como puder, ou morrer tentando!
Ele se foi, depois de olhar fixamente nos olhos dela por vários momentos
desconfortáveis. Ela desejava que seus olhos não fossem tão azuis, tão gloriosamente
azuis. Ela odiava os olhos. E chutou a pedra em que tinha tropeçado, fazendo uma careta,
e depois, continuou a andar.
E mesmo que ele a perdoasse, e mesmo se ele sobrevivesse, poderia não haver
nenhum futuro possível para eles. Nenhum. Eles eram quem eram e nada tinha mudado,
desde que ele tinha dezessete anos e ela quinze. Embora ele fosse o filho do Marquês de
Quesnay, era tanto um bastardo agora, como tinha sido então. E ela era a filha de seu pai.
E agora, era também a viúva de Luís e usava seu título ridículo, sobrecarregado com uma
enorme riqueza e consequência.
Mesmo que ele a perdoasse e até mesmo se sobrevivesse, havia uma realidade a ser
enfrentada. Eles iriam cumprir suas obrigações a partir de hoje, e no futuro seriam como
estranhos com uma ligação remota.
― Bem, ― disse ela, irritada, falando muito mais alto do que precisava, ― você não
tem que andar tão rápido, só para me provar que eu não sou sua igual e não posso me
manter neste ritmo. ― Eles estavam escalando um lado íngreme da colina.
Ele parou imediatamente, se virou para olhar para ela e esperar que chegasse até
ele. ― Joana ― ele falou, com um sorriso espreitando seus olhos, ― Eu nunca ouvi você
reclamar tanto.
― Eu não estou reclamando! ― Respondeu. ― Estou apenas sem ar.
Ele a pegou de surpresa, segurando seu rosto com as duas mãos e a beijando,
suavemente, nos lábios. ― Eu sei que isso é difícil para você, ― disse ele. ― Mais difícil,
eu diria, do que é para mim, embora não saiba como isso poderia ser. Eu sinto muito.
Acredite em mim, quando digo que sinto muito.
― Você está se esquecendo, ― disse ela, ― que eu lhe arranjei uma surra, em
Salamanca, e arrumei para que fossem quatro homens contra você? Será que se esqueceu
que eu lhe joguei em uma cela e que foi espancado todo dia?
― Não. ― Ele tirou as mãos do seu rosto. ― Isso tudo parece ter acontecido tanto
tempo atrás... Sua respiração já voltou ao normal, de novo?
― Robert ― disse ela, e o olhou com uma seriedade inusitada: ― Eu o enganei
terrível e deliberadamente. Mas não de forma maliciosa. Você se lembrará disso? É só que
eu sempre aceito um desafio. E não consigo me controlar, nunca pude resistir a
provocações, especialmente aquelas de que mais gosto. Você me perdoará, quando se
lembrar desta conversa?
― Esta é uma guerra, Joana ― disse ele. ― Não há porque guardar rancores.
Temos, ambos, feito o que devemos fazer neste conflito.
Ela suspirou. ― Mas eu, claro, tenho feito um pouco mais do que isso, ― disse ela.
― Continue seu caminho, Robert, e não se atreva a se mover como num cortejo fúnebre,
simplesmente porque eu o acusei de andar muito rápido. Você estava certo. Estou de
mau humor e eu nunca estou de mau humor, e não sei como lidar com isso. Estamos
quase no topo. Existe realmente um exército apenas do outro lado? Parece quase deserto.
― É desta forma como o Beau quer que pareça, ― ele lhe explicou. ― Eu acredito
que os franceses vão suspeitar de cada encosta nua, e em silêncio, desejar que essas
guerras estejam no fim. ― Havia alguns piquetes na encosta, mas nenhum sinal de um
exército inteiro.
Ele caminhou para a frente, um pouco mais devagar do que antes, apesar de sua
advertência, e ela manteve o ritmo com ele. E lá estava aquela outra coisa também, a
única coisa que havia dominado sua vida por três anos, e só recentemente empalideceu
em importância ao lado do amor crescente por Robert, e seu conhecimento, igualmente
crescente, de que somente uma despedida inevitável os aguardava.
Ela tinha falhado. Ela tinha perseverado, contra todas as probabilidades, até que o
tinha visto, o homem que tinha estuprado e matado Maria, e então ela não o tinha
conseguido matar. Ela teve sua chance, a chance perfeita. E ainda assim tinha falhado. E
agora parecia que nunca teria sucesso. Logo estaria por trás do conjunto dos exércitos
britânicos e portugueses, da sua posição aparentemente impenetrável, e não havia
nenhuma chance de que visse o coronel Leroux novamente.
A menos que voltasse para o lado francês. Ainda podia fazer isso, ela supôs. Eles
ainda a acreditavam leal. Eles ainda achavam que ela tinha sido levada contra sua vontade,
como refém. Era provável, porém, que não pensassem assim por muito mais tempo, uma
vez que eles viessem de encontro à barreira sólida das Linhas de Torres Vedras. E os
franceses, então, saberiam que ela os tinha enganado, que ela trabalhava para os
britânicos, e não para eles.
Ela tinha falhado. Joana odiava falhar. Nunca lidara com o fracasso. E, no entanto,
parecia que, nesta ocasião, ela devia. E ficou mortalmente deprimida.
E, de repente, eles estavam no topo da colina, seus olhos se arregalando em
choque, apesar do conhecimento anterior que a levou a esperar pela visão. Estava um
exército ali, um vasto e ocupado exército, se estendendo para tão longe quanto podia ver
para qualquer lado que olhasse, apenas fora da vista de qualquer um, até mesmo alguns
pés para baixo da encosta oriental.
― Jesus! ― Ela ouviu o capitão Blake pronunciar.
O Convento do Bussaco estava a cerca de um quilômetro para o norte deles.
Ninguém a reconheceu e ela não reconheceu ninguém. Não que olhasse para os
reconhecer, apesar dos comentários alegres, vaias e assobios, que foram jogados em seu
caminho, quando passou ao lado do capitão Blake. Todas as outras mulheres e esposas do
acampamento estavam bem longe da crista do cume, na parte de trás com a bagagem.
Era isso, ela não parava de pensar. O fim. E não poderia nem mesmo lhe dar um
bom adeus. Tudo seria feito em público, a partir deste momento.
O convento parecia familiar e ainda assim muito estranho, movimentado como
estava com os homens e suas atividades, em vez das freiras em sua habitual paz e
quietude rigorosas. Joana sorriu para um homem, um major, que a tinha favorecido com
um olhar abertamente apreciativo, enquanto passava, para, em seguida, voltar seu olhar,
assustado, para uma segunda olhada.
― Sim, sou eu, George ― ela disse alegremente. ― Um disfarce maravilhoso, você
não acha?
Mas o homem não disse nada, ou nada que ela pudesse ouvir, de qualquer maneira.
E continuou adiante, para acompanhar o passo alongado do capitão Blake. Ele parecia
sombrio e distante, e ela se lembrou de uma impressão anterior, de que não gostaria de
ser o inimigo à sua frente na batalha.
A Sede estava incrivelmente agitada. Ninguém andava, parecia que todos corriam.
À primeira vista, Joana pensou que ninguém iria perceber qualquer um deles, e sorriu, ao
pensar em como todo mundo teria parado, pelo menos, tomado conhecimento de sua
presença, se estivesse vestida como a Marquesa. Oh, sim, pensou, mesmo tudo indicando
que algo de grande significado estava prestes a acontecer.
Mas, finalmente, eles foram admitidos na presença de Lorde Fitzroy Somerset,
secretário-chefe de Lorde Wellington, que cumprimentou o capitão Blake, expressando
sua satisfação com seu retorno seguro, e depois sorriu para Joana, apesar de sua
aparência, e fez uma reverência cortês, lhe oferecendo uma cadeira.
― Sua senhoria terá o prazer de ver e ouvir sua história ― disse ele. ― Mas não
hoje, eu temo. Você vai entender, capitão, que existem milhares de demandas para cada
momento de seu tempo. Senhora, a sua acompanhante insistiu que um quarto lhe fosse
reservado aqui, para sua conveniência. Uma muda de roupa sua está lá, eu acredito. Terei
alguém que a escolte já, já.
― Isso não pode acontecer, temo eu, ― o capitão Blake disse rigidamente. ― A
Marquesa das Minas é minha prisioneira, senhor. Ela foi levada como refém de
Salamanca, e tem estado sob minha custódia, desde então. Ela é ou foi uma agente
francesa.
Os olhos de Lorde Somerset olharam para Joana com alguma surpresa, e ela sorriu,
deslumbrantemente, para ele. ― Eu acho que, talvez, meu senhor ― ela disse, ― nós
devamos nos tornar a demanda mil e uma no tempo de Arthur.
Capítulo 25
Ela não queria que fosse dessa forma, que soubesse a verdade na frente de outras
pessoas, muito menos, do Visconde Wellington. Arthur ficaria com aqueles olhos
penetrantes e explicaria a verdade em poucas e sucintas palavras, e Robert ficaria
humilhado, um espião britânico que tinha feito um erro tão tolo. Não queria que ele fosse
humilhado.
Deveria ter feito que acreditasse na verdade quando estavam a sós, ela pensou. Ela
poderia ter feito isso se tivesse se empenhado, e se não tivesse sido tão deliciosamente
divertido o induzir ao erro. Ela poderia ter feito isso em Mortágua, com Duarte e Carlota
por trás da sua história. Em vez disso, lhes permitiu jogar junto com ela. Quão terrível
que era.
Lorde Wellington realmente estava muito ocupado, parecia. Lorde Somerset os
levou para uma sala mais privada, e ela se sentou com toda a graça, que teria mostrado se
estivesse vestida com a elegância da Marquesa; era incrível como revertia ao hábito,
quando o ambiente mudou, enquanto Robert estava rígido, meio voltado para ela,
contando sua história ao secretário. Ela franziu a testa quando os olhos de Lorde
Somerset se desviaram para ela, e pediu que se silenciasse com o dedo sobre os lábios.
― Meu senhor ― disse ela, se levantando quando Robert terminou, consciente de
que seu porte real e maneira, deveriam parecer extremamente ridículos, combinados com
sua aparência bastante irregular e selvagem, ― acredito que o capitão Blake está ansioso
para voltar ao seu regimento. Ele tem dado o suficiente de seu tempo para me escoltar.
Talvez você tenha um momento para me levar ao meu quarto. Vai, naturalmente, destacar
um guarda, adequadamente forte, para que fique do lado de fora, até que Arthur possa
lidar, ele próprio, comigo.
Talvez ele não precisasse saber de tudo. Ainda não, pelo menos.
― Essa parece ser a melhor ideia, ― disse Lorde Somerset, franzindo a testa. ―
Espere aqui, capitão Blake, por favor.
Ela passeou o olhar pela sala do secretário. Robert ainda estava de pé no meio da
sala, como uma estátua de mármore, olhando para longe dela. Eles nem sequer trocaram
um adeus.
― Joana? ― Lorde Somerset falou, assim que a porta se fechou atrás dele. ― Por
sua decepção, devo crer que o capitão Blake ainda não sabe a verdade?
Ela se virou para sorrir brilhantemente, se desculpando para ele. ― Oh, eu disse a
ele, ― ela contou, ― mas ele não acreditou em mim e eu não insisti. Era muito divertido
fomentar suas dúvidas, eu receio. Ele não deve saber, Fitzroy. Seria terrivelmente
humilhante para ele. ― Mas, era tão difícil sorrir, quando sentia seu coração partido...
Mas uma porta distante abriu naquele momento, para revelar um turbilhão de
vozes, e o próprio Visconde Wellington entrou no longo corredor em que eles estavam,
três assessores correndo atrás dele. Ele parou.
― Ah, Joana, ― ele disse, seus olhos a observando intensamente, da cabeça aos pés
― você está a salvo e de volta, não é? Isso é um alívio. Eu tinha ouvido falar, é claro, que
estava em segurança, fora da Espanha. E os acontecimentos provaram que deve ter sido
bem sucedida lá. Capitão Blake está em segurança também?
― Sim ― ela disse, ― e ansioso para voltar ao seu regimento, Arthur.
― Você deve nos deixar, sem demora ― disse ele. ― Antes do anoitecer. Isto vai
ser um lugar muito perigoso para uma senhora, até amanhã.
― Eu prospero em locais perigosos ― disse ela com um sorriso.
― Mas não este, ― ele como que ordenou. ― Vou arranjar alguém para a
acompanhar para um local seguro. Fitzroy, você o viu, não é? Envie Blake. Ele merece
uma certa ruptura do serviço ativo.
― Capitão Blake acredita, ― Lorde Somerset começou, mas Joana pôs a mão de
leve na sua manga e sorriu seu sorriso mais deslumbrante.
― Oh, muito bem, ― disse ela. ― Eu não vou discutir, Arthur, quando posso ver
que está terrivelmente ocupado. Fitzroy terá Robert para me escoltar até Lisboa.
Lorde Wellington assentiu bruscamente e continuou seu caminho, seus assessores
atentos em seus calcanhares. Joana ficou olhando para ele por um momento, e soltou o ar
profundamente aliviada, se voltando para Lorde Somerset, seu sorriso ainda firme no
lugar.
― Você deve estar freneticamente agitado também, Fitzroy, ― ela disse, a mão
ainda em sua manga ― me desejando a mil quilômetros de distância. Voltemos ao Robert
e lhe digamos de sua nova missão. Mas vou fazer a falar. Será que você me suporta?
― Certamente ― disse ele, e voltou para a sala abrindo a porta para que ela o
precedesse.
Capitão Blake estava de pé onde o tinha deixado, olhando fixamente para o chão.
Então olhou para a porta, e os seus olhos encontraram os inexpressivos olhos de Joana.
Eles pareciam tão duros como pregos, pensou ela, como se fosse completamente incapaz
de qualquer sentimento. Ele se parecia com o soldado por excelência.
― Nós nos encontramos com Arthur no corredor ― disse ela, com um suspiro. ―
Literalmente correu para ele. Ele foi muito polêmico, Robert, mas é claro, que não tem
tempo para lidar comigo hoje, e não há soldados para me proteger. ― Ela sorriu. ―
Parece que sou uma prisioneiro a quem ninguém quer. O que é um destino terrível! Eu
pensei que iria ser saudada como a espiã mais perigosa da guerra, e colocada em
exposição pública, rodeada por um placar de guardas, todos armados até os dentes, ou
algo parecido. É bastante difícil, descobrir que não sou nada, só um incômodo. Você
deverá me manter firme e segura, ao que parece, até que esta batalha acabe. ― disse.
― Joana... ― Lorde Somerset começou. Mas ela se voltou para o encarar e
aumentou o sorriso.
― Oh, você não precisa ser apologético, Fitzroy ― disse ela. ― Foi um bom jogo
enquanto durou. E o capitão Blake vai cuidar de mim, assim como tem feito desde que
deixou Salamanca. Estou bastante certa de que ele não vai me deixar escapar,
infelizmente. Você pode ir cuidar de seus negócios. Eu sei que está ansioso para o fazer.
Ele olhou para ela carrancudo, por alguns momentos, hesitou, e depois assentiu
para os dois e saiu da sala, fechando a porta atrás de si.
Joana virou e sorriu para o capitão Blake. ― Eu sinto muito, Robert ― disse ela. ―
Você deve estar me amaldiçoando.
Ele ainda parecia granito, em pé no meio da sala, olhando para ela. ― Lorde
Wellington não tomou providências para a mandar de volta em segurança? ― Perguntou.
― Ele sabe que eu estarei segura com você ― disse ela. ― Mas eu não vou ser um
fardo para você, Robert, você vai ver. Eu sei que não quer nada mais do que voltar para
sua companhia agora, e os preparar e a si mesmo para a batalha de amanhã. E acredito
que ela realmente acontecerá amanhã, não é? Você deve fazer isso, e eu vou me sentar
calmamente na sua tenda, você tem uma tenda? Se não, então vou me sentar calmamente
no chão, e passarei amanhã com as outras mulheres na traseira. O que você diz? Está
muito polêmico?
Ele olhou para ela por alguns momentos, em silêncio. ― Maldição! ― Ele disse,
finalmente. E Joana sorriu.

***

Normalmente, ele não tinha problemas para dormir, mesmo sob as mais adversas
condições. Se havia treinado, ao longo dos anos, a dormir, mesmo que em terreno
lamacento, com a chuva caindo, ou o perigo sobre ele. Era uma simples questão de
sobrevivência, porque, um homem que não dormia assim, se tornava mais fraco do que
aquele que dormia, e força era tudo o que importava para um soldado.
Mas, ele encontrou dificuldade para dormir, na noite antes da Batalha do Bussaco.
Seu cérebro fervilhava com muitos pensamentos e sentimentos.
Sua Companhia o estivera esperando, lhe dando uma violenta boa acolhida, o que
o fez sentir a alegria de estar de volta com eles, quase como se tivesse voltado para casa,
para sua família. Os havia inspecionado e observado, com olhos críticos, se prepararem
metodicamente para a batalha e, fez o mesmo. Ele havia se reportado ao general
Craufurd, que o tinha chamado de bastardo complicado por se ausentar durante as
semanas de marcha, quase um evento, e se apresentar, apenas a tempo para o grande
show. Mas o general lhe deu um tapa carinhoso nas costas, enquanto dizia isso.
Todos os preparativos foram feitos o mais silenciosamente possível, e a ninguém
foi permitido mostrar, mesmo o topete do cabelo, sobre a crista da colina. Os franceses
não deveriam saber que todo o exército esperava por eles no dia seguinte. Com sorte, eles
acreditariam que os atiradores estavam cumprindo o dever, fazendo um piquete na
encosta leste, como parte da retaguarda de um pequeno número de soldados, que estavam
lá para retardar seu avanço.
Pela mesma razão, eles foram para o acampamento na escuridão naquela noite.
Nenhum fogo fora aceso. Não haveria nenhum alimento quente.
A notícia tão esperada chegou durante a noite, de que os franceses estavam quase
subindo, que estavam acampados a apenas cinco quilômetros de distância, e a emoção
agitou, de ponta a ponta, as linhas tranquilas. Aparentemente, as luzes de suas fogueiras
brilhavam e os homens tiveram que acreditar na palavra dos poucos privilegiados, a quem
haviam permitido ver por si mesmos.
Tudo iria começar no dia seguinte, provavelmente, ao amanhecer, talvez mais cedo.
Os piquetes estariam observando, com muito cuidado, prevenindo um ataque noturno, e
os homens iriam dormir perto de suas linhas, completamente vestidos, seus braços
carregados com suas armas e prontos.
O capitão Blake tinha lutado em muitas batalhas e vivido muitas vésperas. Não
havia nada diferente sobre esta. Ele sentiu toda a tensa excitação, em parte medo. E aqui,
não havia nada para acalmar esses sentimentos. A Divisão Ligeira estava estacionada
próximo da sede, à vista e ao som do Convento, a Quarta Divisão de Cole para a
esquerda, do outro lado da ravina que levava à estrada principal para Coimbra, e a
Primeira Divisão de Spencer à sua direita.
Não foi a iminência da batalha que tornou difícil dormir, e sua noite foi
relativamente confortável. Embora a maior parte de seus homens dormisse no chão em
campo aberto, e ele, normalmente, se juntasse a eles lá, alguém tinha lhe erguido uma
tenda, como as outras que foram erguidas para a maioria dos oficiais e para alguns dos
homens com esposas. E ele não a tinha desprezado, quando, normalmente, o teria feito,
com algumas palavras bem escolhidas de agradecimento ao soldado que o fizera, por
acreditar que ele crescera desfrutando de todas essas comodidades. Dormia na tenda,
agora, com Joana.
Robert havia destacado um guarda para ela, enquanto ele se ocupava com sua
Companhia, que conhecia o capitão apenas pela reputação e, que o olhava com adoração,
quase boquiaberto. Não que um guarda fosse necessário. Ela não deu sinal de querer
escapar, até ajudou a erguer a tenda. E conversava alegremente com vários oficiais
surpresos, e que conhecia, e com alguns que ela não conhecera antes.
― Sortudo! ― O capitão Rowlandson lhe tinha dito, quando percebeu que Joana
partilharia sua barraca.
Mas ele não se sentia com sorte; tinha se preparado para partir do Convento
sozinho, e não tinha enfraquecido. Contara tudo o que sabia sobre ela, de forma concisa e
desapaixonada, e depois tinha escapado dela, ou isso lhe pareceu. Ela saiu da sala sem
uma palavra de adeus, algo que ele temera por alguns dias.
Mas voltara. E ele teve a alegre surpresa de saber que a teria por, pelo menos, mais
um dia, e um igual ressentimento, porque tudo o que deveria ser passado, agora seria
presente, mais uma vez, que sua história ainda não havia terminado depois de tudo, que,
talvez, despedidas ainda fossem necessárias.
Ele queria estar livre para se concentrar na batalha, queria correr para ela, depois
que Lorde Somerset a havia deixado na sala, e a apertar em seus braços. Robert não
queria essa confusão de sentimentos, na véspera da batalha. Ele se ressentia dela e de
Lorde Wellington por o ter enviado como guarda-costas dela, porque não queria ter mais
nada com ela.
― Joana ― disse, quando se juntou a ela em sua barraca, para a noite curta, já que
ele deveria estar de pé muito antes do amanhecer, pronto para liderar seus homens na
linha de combate, no morro. Quando Robert deitou, ficou de frente para Joana, deslizou
o braço para que ela apoiasse o pescoço, uma de suas ações tão familiares, de tal forma,
que se perguntou como iria conseguir dormir durante a noite, uma vez que ela tivesse,
finalmente, partido. ― Eu não vou fazer amor com você, esta noite.
― Eu sei ― ela disse suavemente, se abraçando contra ele, um braço sobre sua
cintura, sem tentar qualquer um dos seus truques habituais.
― Vou precisar de toda a minha energia amanhã ― disse ele.
― Eu sei. ― Ela descansou sua face no peito dele. ― Eu sei, Robert. Você não tem
que explicar. Durma, agora. E não me poupe de nenhum pensamento amanhã. Eu não
vou tentar fugir, prometo, por minha honra. E minha honra me é cara.
Ele beijou o topo de sua cabeça e, se perguntou se estaria mesmo vivo depois da
batalha, saber se ela falou a verdade. Ele, normalmente, não queria saber dessas coisas.
Temer que alguém morra em batalha é um gasto inútil de energia.
E ainda assim, ele passou a meia hora seguinte, um tempo valioso em que deveria
estar dormindo, pensando sobre o dia de amanhã, se perguntando se iria morrer,
querendo sobreviver para a ver de novo, e a abraçar mais uma vez, mas, então, teria a dor
de dizer adeus a ela no final, de a ver levada ao cativeiro! E seu cérebro não parava de
funcionar, não importava o quão duramente o tentava acalmar.
Começou a desejar que eles tivessem feito amor, apesar de tudo. ― Robert. ― Ela
sussurrou seu nome. ― Você precisa dormir. ― Ele riu.
― Quando você era um menino ― ela disse em voz baixa, e ele podia sentir os
dedos dela afagando seu cabelo, ― o amei porque era alto e bonito, e eu não conhecia
outro homem jovem; e porque você tinha um jeito de sorrir, que chegava até seus olhos;
porque estava disposto a ouvir os sonhos e divagações de uma menina; porque você
podia dançar, subir, correr e beijar; e, porque... oh, porque era verão, eu era jovem e
estava pronta para o amor.
Seus dedos estavam se movendo levemente sobre a cabeça dele.
― Você foi um menino doce e gentil, ― disse ela. ― Mas, não era fraco. Era
incrivelmente forte. A maioria dos homens teria se conformado com uma grande
quantidade de degradação e insultos, com o conforto da vida privilegiada, que lhe foi
oferecida. Mas você desistiu de tudo, para poder manter sua integridade e dignidade. E
então, você construiu para si mesmo uma vida da qual pode se orgulhar.
Ela fez tudo isso soar quase como uma maldição, ele pensou, com preguiçosa
diversão.
― Fiquei chocada quando percebi que os dois Roberts da minha vida eram a
mesma pessoa ― disse ela. ― Eu mal pude acreditar. Por muito tempo pensei que você
estivesse morto. E você me olhou, e parecia muito diferente do garoto da minha
memória. Mas é apropriado que você seja uma e a mesma coisa. Fico feliz que seja, e eu
estou contente por se tornar no homem em que se tornou. Estou feliz que você viveu.
Sabia que você é um herói para seus homens e muito popular com eles? Allan, o jovem
privado que você escolheu para me guardar, o olha como uma espécie de deus. E você é
altamente respeitados na sede. Tem feito maravilhosamente bem, e tudo por conta
própria, sem a ajuda de ninguém.
Seus dedos continuaram a afagar o cabelo dele. ― Robert? ― Ela sussurrou, depois
de vários momentos de silêncio. Mas não houve resposta.
― E eu amo o homem, me é tão caro como eu amava o menino ― ela disse, sua
voz não mais alta que um murmúrio. ― Mais do que isso, porque agora, eu sei como o
amor é duro de encontrar, o quão difícil é encontrar um homem digno de ser amado. Eu
sempre o vou amar, não importa o que aconteça amanhã.
E o capitão Robert Blake dormiu.

***

Havia algo quase assustador sobre a cena de antes do amanhecer. Milhares de


homens foram acordando sem o auxílio das cornetas, ajeitaram suas roupas e verificaram
suas armas, tomaram e comeram um café da manhã simples e frio, e correram para seus
lugares designados, sem fazer quase nenhum som, além dos sussurros inevitáveis. Não
havia sinal de medo, só uma consciência maior de emoção reprimida.
As tendas tinham sido desmontadas e levadas de volta para trás. As mulheres que
tinham vindo passar a noite com seus homens os estavam beijando, num adeus sem
barulho algum ou histeria, e depois, retomando seus lugares, no campo atrás de onde a
batalha aconteceria.
Joana assistiu toda a atividade como se estivesse muito longe, como se ela não
fizesse parte, de modo algum. Mas, na verdade, não fazia parte, mesmo, e odiava sua falta
de envolvimento. Para ela, sentimentos doentios e morrer de medo, eram coisas que
desprezava em si mesma, e, geralmente, os procurava evitar. Se ao menos estivesse se
preparando para lutar ao lado dos homens achava que não sentiria medo.
Quem quer que tivesse decretado que as mulheres não deveriam lutar era estúpido
ao extremo, assim pensava.
O mesmo soldado raso estava ali para a proteger naquele dia, também, e o capitão
Blake estava lhe dando instruções, secamente, de forma impessoal, como se ela não
significasse nada para ele, como se não fosse nada mais do que sua prisioneira. Ela se
perguntou se o soldado se importava de perder a batalha, se ele se ressentiria dela. Parecia
orgulhoso o suficiente de si mesmo, como se seu capitão o houvesse escolhido para um
ato de coragem extraordinária.
Ela tentou memorizar esses detalhes e pensamentos, ignorar a bola de pânico que
foi nascendo no fundo de seu estômago.
E então, já era hora dele ir.
― Joana ― disse ele, olhando para ela, por fim. Ainda não tinha amanhecido
totalmente, não havia luz suficiente para ver uns aos outros de forma clara. E havia uma
névoa. Ele era a sua pedra de salvação, pensou ela, olhando para ele também pela última
vez. ― Vá com o Soldado Higgins. E se lembre da sua promessa de ontem, se você
puder. Eu a verei mais tarde. ― A bola no estômago explodiu, e ela se viu lutando com
suas pernas e sua respiração. Se perguntou se isso era o que as mulheres chamavam de
vapores. Ela ergueu o queixo e olhou fixamente para ele. ― Até mais tarde, ― lhe falou, e
depois lhe deu o sorriso mais deslumbrante, antes de se virar.
Ele estava colocando seu rifle no ombro, quando ela se virou para o encarar
novamente. ― Robert, ― disse ela, e não se importou que o jovem soldado estivesse ali ao
lado dela escutando, e também meia dúzia de outros homens ao alcance de sua voz. ― Eu
o amo e quero que você saiba disso, no caso de nunca mais voltar. Sua mão parou em seu
rifle. Todo o seu corpo mostrava tranquilidade, mas ficou tenso. E então e assentiu, sem
sorrir, se virou, e se foi.
― Bem. ― Ela riu levemente. ― Alguém tem que dizer essas coisas quando um
homem vai para a batalha, Allan. Agora, aonde é que você vai me levar? Espero que não
volte para os carrinhos de bagagem e as outras mulheres. Seria tedioso não ouvir
nenhuma notícia da batalha, uma vez que seja travada, não é?
― Sim, senhora ― ele respondeu.
Ela lhe sorriu. ― Você odiaria isso, não é? ― ela perguntou. ― Você veio aqui para
fazer parte de tudo isso, e estaria justificadamente chateado, porque uma simples mulher
o manteve tão além da ação, e ainda mais, se você nem soubesse o que estava
acontecendo. Alguns de seus amigos podem até o chamar de covarde. Isso seria bastante
injusto, não é?
― Sim, senhora, ― falou, hesitante. ― Mas estou seguindo ordens. Estou orgulhoso
de seguir as ordens do capitão Blake.
― Claro que você está, ― continuou ela. ― E esta noite ele vai ter orgulho de você,
por ter feito bem o seu trabalho. Vou até o tornar fácil para você, não tentando escapar.
Eu não faria isso, você sabe. Devo ficar aqui para ver o seu retorno seguro. Eu quis dizer
o que eu disse a ele agora, você vê. ― Ela sorriu de forma confidencial para ele.
― Sim, senhora, ― ele entendeu, e estava caindo sob o seu feitiço. Ela sabia que, se
em seguida tivesse dito que o preto é branco, ele teria respondido ― Sim, senhora. ― E
ela teria abusado, cruelmente, de sua vantagem. Ela morreria de tédio, frustração e medo,
se tivesse de passar o dia junto com os suprimentos, bagagem e as mulheres, sem saber
como ia a batalha, e não saberia como Robert estava. Estaria longe de ver o exército
francês. Estava, agora, começando a lhe renascer a esperança, com o exército francês tão
perto dela, durante todo o dia.
Talvez tivesse mais uma chance... Mas, não, não deveria esperar tanto, seria muito
bom para ser verdade. Além disso, não teria seu mosquete ou a faca. O primeiro
pendurado no ombro esquerdo do Soldado Higgins, que também equilibrava o rifle sobre
o seu direito. A faca, provavelmente ainda estava no cinto de Robert.
― Eu acho, ― disse ela, quando estavam na terra de ninguém, entre a frente e o
trem de bagagem ― que este seria um bom lugar para parar, Allan. Daqui, poderemos ver
a ação por nós mesmos, ou o que possa ser visto deste lado da colina, de qualquer
maneira.
Ela parou e olhou de volta para onde veio, para a frente da infantaria britânica e
portuguesa que formavam duas linhas, apenas por trás do topo da colina. Muito pouco
podia ser visto. A escuridão estava apenas começando a levantar, mas a névoa ainda não
tinha se decidido a seguir o exemplo. Quem seria favorecido pela névoa? Se perguntou, e
sentiu uma nova carga de medo, desconhecida para ela, vir novamente, quando imaginou
Robert, na frente das linhas com seus batedores, incapaz de ver exatamente quem ou o
que estava avançando sobre eles.
― Mas se os franceses tomarem o monte, senhora, ― o Soldado Higgins lhe disse,
― você estará em perigo. Estará mais segura mais para trás.
― Mas, Allan, ― ela voltou toda a força de seu charme para ele, ― tenho inteira
confiança na coragem e força de nossos valentes homens. Não acha? Claro que irão
segurar os homens do Marechal Massena. E, se por algum acaso não o fizerem, você me
protegerá. ― Ela colocou a mão levemente, em sua manga. ― Eu tenho total confiança
em você. Afinal, não foi escolhido pessoalmente pelo capitão Blake? Eu sei que você se
distinguiria em minha defesa.
Ele olhou para ela com a mesma adoração nos olhos, que tinha visto no dia
anterior, por Robert. Pobre menino, pensou. Ele, provavelmente, esquecera
completamente que a estava escoltando como uma prisioneira e não a defendendo como
a senhora do seu capitão.
― Nós vamos ficar aqui por um tempo, então, minha senhora ― disse ele, ― até
que a ação fique muito quente. Então, eu a levarei lá para trás. ― Houve a sugestão de
uma certa arrogância em sua voz, Joana notou.
Ela nunca tinha estado perto de uma batalha, mas imaginou que essa terra de
ninguém, atravessada de norte a sul por uma pista da largura de um carrinho, seria usada,
mais tarde, pelos mensageiros cumprindo sua missão entre Lorde Wellington e as várias
divisões. E, talvez, ela conseguisse saber alguma notícia do que estava acontecendo.
Mas sua ideia triunfante foi engolida pelo medo, ao ouvir os tambores distantes e
os pífaros soarem o avanço.
Tambores e pífaros franceses, soando ao avanço francês.
Capítulo 26
O Marechal Massena cometeu o erro de supor que, se as forças de Wellington
estavam no cume do Bussaco de verdade, eles estariam concentrados na metade norte das
colinas. Ele não acreditava que Wellington seria ousado o suficiente para os reunir para
além do comprimento de dezesseis quilômetros de todo o cume. Seu plano era lançar o
corpo de exército (divisões de infantaria, artilharia, engenharia, cavalaria e vários generais
sob seu comando) do general Reynier contra uma crista baixa no centro das colinas, de
modo que, quando levasse seus homens, eles poderiam circular por trás dos britânicos,
enquanto o Marechal Ney atacava a maior parte da frente norte do morro, acima da
estrada para Coimbra, em direção ao Convento. O Marechal Massena iria cercar o
inimigo.
O primeiro ataque esteve perigosamente perto do sucesso, quando os franceses
atacaram em densas colunas, atrás da escaramuça rápida, que limpou a colina de
batedores britânicos. A névoa no início da manhã estava a seu favor. Foi apenas a
obstinada determinação da infantaria britânica e a coragem constante dos portugueses,
em sua primeira batalha campal, além da chegada oportuna das forças do general Leith,
vindas pela direita ociosa, que evitou o desastre e enviou as colunas francesas de volta,
morro abaixo, desordenadamente, deixando seus mortos e feridos para trás.
Marechal Ney começou seu ataque logo depois das sete horas, enviando a divisão
do general Loison, que designou sua bateria de doze armas para tomar a aldeia de Sula e,
depois, empurrar para cima do moinho de Ross, de Sula, ao longo da estrada pavimentada
para o Convento, o posto de comando aliado comandado pelo general Craufurd, da
Divisão Ligeira. Foi uma tarefa difícil, e o levantamento da névoa da manhã deu alguma
vantagem aos britânicos.
Joana ficou com o soldado Higgins na faixa lateral que corria ao longo do cume,
por trás de sua crista. Tudo era movimento, barulho e confusão, uma vez que a luta havia
começado, e ela sentia toda a agonia de sua própria impotência. Em Salamanca tinha
havido perigo, que fora capaz de controlar e manipular, e, não teve medo. De fato,
admitindo a verdade, ela se divertiu lá. Mas aqui, se sentia impotente.
Não só não havia nada para ela fazer, como não parecia haver nenhuma maneira de
saber como a batalha estava se desenvolvendo, nenhuma maneira de saber se ele ainda
estava vivo. Havia toda a frustração da névoa na superfície do cume, o que escondia sua
visão da ação, e, os sons ensurdecedores e aterrorizantes dos tambores e armas, tudo
vindo do sul.
No início, ela não fez nenhuma tentativa para parar qualquer um dos mensageiros,
que galopavam para frente e para trás ao longo do caminho, obviamente, transportando
mensagens importantes de um posto de comando para outro. Mas se irritou quando um
gritou de passagem.
― Mulheres para a retaguarda! ― Ele gritou. ― Maldição, Soldado. Leve esta
mulher do caminho. ― E continuou sem pausa.
O soldado Higgins tossiu, nervoso. ― Para sua própria segurança, senhora… ― ele
começou.
Mas o insulto tinha sido tudo que Joana precisava para a acordar do estado de
quase paralisia, que o som das armas lhe tinha deixado. Ela entrou no caminho e gritou
injúrias, depois da partida do mensageiro, esquecida que tinha o pobre soldado a
encarando, espantado.
― Homens! ― Ela disse, finalmente. ― O Dom de Deus do reino animal. Ele
cometeu um erro tão grande os criando, que teve que criar as mulheres para deixar tudo
certo e em paz, novamente. E isso foi muito mais certo.
Outra pessoa vinha na direção deles, alguém que ela conhecia. Colocou as mãos
nos quadris e levantou o queixo, enquanto Higgins, ela podia ver pelo canto do olho,
parecia estar pulando de um pé para o outro.
― Jack! ― Ela chamou em voz alta e clara.
O major Jack Hanbridge freou tão rápido, que seu cavalo empinou e ele teve que
lutar, por um momento, para se manter na sela. Ele franziu a testa para a mulher que se
manteve firme no caminho, e depois olhou mais de perto.
― Joana? ― Ele disse por fim. ― Joana? É você mesmo? ― Seus olhos corriam
sobre ela. ― Bom Deus. Mas, o que, em nome de um trovão, você está fazendo aqui?
Permita-me…
Mas Joana levantou uma mão impaciente. ― Me diga logo o que está acontecendo,
― ela ordenou. ― Estamos vencendo?
― Oh, com certeza, ― disse ele. ― Você pode confiar no Beau, Joana. Ele os
enviou de volta, com o rabo entre as pernas. Eles tentavam chegar aqui no Convento,
mas o Bob Craufurd os vai segurar. E veja o que os espera se conseguirem chegar ao
topo? ― Seu braço varreu um amplo arco por cima do ombro.
Joana viu as linhas da infantaria, tranquila e disciplinada, que já tinham tomado
seus lugares atrás da linha do horizonte. Eles enviariam uma saraivada de balas mortal a
qualquer francês infeliz que fosse aparecer sobre o monte.
― Mas o que diabos você está fazendo aqui? ― Hanbridge perguntou novamente.
― Você deve voltar, Joana, deve ficar longe daqui. Deixe-me…
― Jack, não seja cansativo ― disse ela. ― Os franceses estão no caminho desta
colina, então? Quem os está segurando?
― Oh, eles vão ser interrompidos ― disse ele. ― Não tenha medo. Nós temos os
melhores dos nossos batedores lá embaixo.
― O Nonagésimo Quinto, ― ela mesma respondeu, seu estômago executou um
salto mortal, no mesmo instante.
― E os Caçadores ― disse ele. ― O melhor. Agora, deixe-me...
― E que forças francesas estão chegando? ― Perguntou ela. ― Você sabe, Jack?
― Corpo do exército de Ney ― disse ele. ― Mas nós dispostos...
― Ney? ― Disse ela. ― Quem, em particular, Jack?
― Divisão do general Loison, acredito ― disse ele. ― Joana, eu tenho que ir. É este
soldado o seu acompanhante? Soldado...
― Sim, sim ― disse Joana. ― Siga no seu caminho, Jack. Não serei eu que o vou
atrasar. Estou bastante segura aqui.
Ele olhou para ela com ar de dúvida e franziu a testa para o soldado Higgins. Mas
ele já tinha se atrasado mais de um minuto. Esporeando seu cavalo, galopou para o sul.
General Loison. O coronel Leroux estava em sua divisão. Talvez seu batalhão
estivesse entre aqueles que vinham até à colina. Talvez, oh, talvez... Joana olhou
rapidamente para ela. Tudo estava funcionando com uma organização profissional. E, no
entanto, parecia que todo o inferno surgiu além da colina. Talvez o coronel Leroux
estivesse um pouco além da colina. E Robert estava lá, no meio de todo o trovão das
armas e de toda a fumaça mortal. Talvez ele já estivesse morto. Talvez o coronel Leroux
o estivesse ainda querendo matar. Possivelmente...
Talvez, oh, ela ficaria louca se tivesse que ficar parada por mais um minuto. Não,
não houve, talvez, sobre isso.
― Allan ― disse ela, se virando para o jovem que era o seu guarda. Ela parecia
selvagem, com medo. ― Me dê a minha espingarda. Por favor, dê para mim.
― Eu não posso, minha senhora. ― Ele deu um passo para trás, mas ela avançou
sobre ele.
― Você pode e você o fará, ― disse ela. ― Gostaria de estar desarmado neste
momento? Os franceses podem rebentar sobre o monte, a qualquer minuto, e eu estou
indefesa. E não me diga que você vai me defender ou que você vai me levar de volta à
segurança. Estou a falar de agora, neste instante. Dê a minha arma, pelo menos. Você
acha que eu estou prestes a assumir a totalidade do nosso próprio exército com ela? ― o
soldado Higgins deu um meio passo para trás. ― Não, senhora, ― disse ele.
― Me dê, então, ― ela disse, com a voz trêmula. ― O capitão Blake não iria querer
que me matassem, eu lhe garanto.
― Mas, minha senhora ― disse ele, protestando quando ela estendeu a mão e
puxou a espingarda, a verificando, rapidamente, um pouco fora de prática, mas, no
entanto, acostumada com a arma. ― Mas, senhora...
Ela quase sentiu pena dele. Robert o iria crucificar, no mínimo. Mas não houve
tempo para obedecer à consciência. Ela nivelou o mosquete sobre o garoto, cujos olhos
se arregalaram em uma espécie de espanto magoado.
― Eu estou indo para a frente, ― disse ela. ― Preciso ver por mim mesma o que
está acontecendo. Você pode me seguir, se desejar, Allan, ou pode atirar em mim por trás.
Voltarei para cá em um momento, mas você não vai me impedir. Esta é a minha batalha
também, mais minha que de qualquer outra pessoa, eu diria.
― Mas, senhora... ― O soldado Higgins protestou, com sua voz aguda e frenética,
quando ela lhe voltou as costas e começou a correr. Ela estava de costas, tensa, embora
soubesse que ele não iria atirar. O barulho das armas era muito intenso, para saber se ele
lhe gritou algo mais, ou se estava correndo atrás dela. E ela não iria parar, não pararia por
nada, nem por ninguém. Alguns dos soldados de infantaria da Quadragésima Terceira e
da Quinquagésima Segunda, que estavam na linha abaixo da do horizonte, olharam para
trás e a viram. O general Craufurd a viu e gritou algo, enquanto ela passava o moinho. E
os artilheiros a viram quando circulou passando a bateria, e correu para baixo, no inferno.
Mas ninguém a tentou impedir. Ninguém ia parar uma batalha ou tomar qualquer
risco adicional para evitar uma camponesa louca de se atirar para a morte certa.
E, estranhamente, agora que estava sobre o cume da colina e tudo era ruído e
fumaça, e as armas disparavam de ambos os lados, atrás e na frente dela, e que podia ver
as escaramuças britânicas e portuguesas, abaixo na urze e nas pedras à sua frente, do
outro lado da colina, disparando para baixo sobre os atiradores franceses se aproximando,
as massas das colunas francesas vindo atrás deles, ela não sentia mais medo. Havia apenas
uma excitação que lhe tirava o fôlego e uma consciência aguda.
Era quase como se o tempo se desacelerasse, como se tivesse todo o tempo do
mundo para observar detalhes. Os britânicos e os portugueses estavam na encosta, muito
perto. Os franceses já os tinham empurrado de volta pela aldeia de Sula e prosseguiram.
Eles estavam se movendo, inexoravelmente, para cima. Sua mente se fixou no quadro
geral, quase imediatamente.
Ela deitou de bruços, atrás de uma pedra; poderia disparar apenas uma vez com a
espingarda, porque não tinha munição para recarregar. Devia escolher seu alvo com
grande cuidado, e não que tivesse algum interesse em matar franceses, só queria um deles.
E, certamente, oh, com certeza ela não teria a sorte de o ver.
Mas repentinamente ela viu Robert abaixo dela, e ficou feliz por estar de bruços.
Ele estava agachado, apontando seu rifle e atirando no inimigo. Seu rosto estava preto
com a fumaça de sua arma, e havia uma mancha de sangue descendo da uma têmpora.
Mas ainda estava vivo. Oh, Deus, estava vivo.
Ele atirou o rifle atrás dele para um sargento recarregar e pegou sua espada do
chão, ao lado dele. Como capitão, não se esperava que usasse uma arma como todos os
outros, apenas que comandasse e orientasse seus homens com a espada. Mas Robert
estava fazendo as duas coisas. Ele era ao mesmo tempo o líder e o guerreiro. O Sargento
recarregava a espingarda e a punha de volta no chão.
Capitão Blake e sua companhia estavam, teimosamente, segurando a ascensão dos
franceses, ela podia ver, se recusando a ceder terreno até que fossem forçados a o fazer,
apesar do fato de que as outras companhias em torno deles já terem se retirado de volta
até a colina. Mas as colunas francesas foram chegando cada vez mais perto, atrás de seus
próprios atiradores.
Logo os atiradores e caçadores não teriam outra escolha senão se retirar ou morrer
desnecessariamente.
Joana viu tudo em apenas alguns segundos. Ela viu o perigo de Robert e sua
teimosia. E olhou além dele, às colunas azuis avançando, pouco mais visíveis do que uma
massa densa através da fumaça. E, no entanto, um detalhe explodiu em seus olhos,
incrédula, convencida por um momento que tivesse visto apenas o que desejava ver.
O coronel Leroux estava à frente de uma das colunas, os instando para a frente,
sua espada levantada. Ela sentiu as mãos de repente, frias e pegajosas em sua espingarda,
e seus dedos a apertaram. Mas não iria se abalar, por Deus, ela não iria. Ele havia matado
Maria e pior, ele tinha feito essas coisas indizíveis à irmã, antes de comandar sua morte; e
ela, Joana, tinha visto tudo. Por isso ele iria morrer, e ela iria manter as mãos firmes ou
morrer na tentativa.
Mas ele estava muito longe. Ela sabia, mesmo quando o avistou na mira da arma.
Não fora do alcance do mosquete, mas para além de certo intervalo. O mosquete era
notoriamente pobre para abater qualquer alvo definido a alguma distância. E ainda assim,
não podia esperar. Seu coração estava batendo na garganta e tímpanos, mais poderoso até
do que o ruído dos tambores franceses. Ela teria ajuda. Algum poder acima a iria ajudar.
Não poderia falhar. Não agora, quando o destino lhe tinha dado esta última chance, uma
incrível coincidência. Não poderia falhar.
Ela disparou, e viu o coronel Leroux marchando, ainda incitando seus homens
adiante, ainda acenando com a espada no ar. Ele não soube que ela estava lá, e que tinha
acabado de lhe disparar. Ela deixou cair o rosto sobre a terra e deu lugar ao desespero
momentâneo, enquanto o inferno continuou.
E então, sua cabeça se levantou e seus olhos focaram e ampliaram no rifle
carregado, ainda no chão, atrás do capitão Blake, logo abaixo dela. A qualquer momento
ele o iria pegar; a qualquer momento, ele daria o sinal a seus homens para se retirarem; a
qualquer momento, sua última chance teria ido e Miguel e Maria não seriam vingados por
toda a eternidade.
A batalha estava se aproximando e se intensificando, mas tudo o que Joana viu foi
o rifle no chão, logo abaixo dela, e tudo no que conseguiu pensar foi em o alcançar, antes
que fosse tarde demais. Ela abandonou seu mosquete, e se arrastou ladeira abaixo.
Tudo aconteceu em segundos. E se um poder superior não a guiou alguns
momentos antes, certamente, um estava cuidando dela agora. Os únicos ferimentos que
podia contar, depois que tudo acabou, foram os arranhões e contusões que tinha adquiriu
se arrastando pelo chão.
Ela foi arremessada para baixo da encosta íngreme, de alguma forma, sem tropeçar,
e o rifle estava na sua mão antes que o capitão Blake se virasse e olhasse para ela
espantado, com olhos que pareciam incrivelmente azuis, no rosto ensanguentado e
enegrecido.
― Jesus Cristo! ― Ele conseguiu dizer.
Mas ela nem sequer ouviu a blasfêmia. Estava de pé, levantando o rifle
desconhecido no ombro, e observando, e depois, gritando contra o trovão do som ao seu
redor.
― Marcel! ― Ela gritou.
Se ele a ouviu, ou se a sua atenção foi atraída pela visão incomum de alguém, uma
mulher em pé na barreira, apesar de todas as balas zunindo, ela não sabia. Mas ele a viu. E
a reconheceu. E viu que ela estava com a arma apontada para ele, tudo em questão de
uma fração de segundo, mas ele tinha visto tudo, e sabia que, desta vez, ela não poderia
falhar.
Ela disparou o rifle.
E o assistiu parar no meio do caminho, com uma expressão de surpresa no rosto, e
cair para um lado antes de atingir o chão.
Ela riu em triunfo.
E então, a estranha sensação que tivera desde que chegou ao topo da colina, de que
o tempo tinha sido suspenso, a deixou, quando desabou no chão, dois poderosos braços
em sua cintura.
― Jesus, mulher! ― Disse. ― Jesus!
Ela jazia ofegando sob o peso de seu corpo. E sentiu um terror arrepiante ao ouvir
a batida constante dos tambores franceses, o pesado trovoar dos canhões britânicos e, as
armas dos atiradores disparando.
― Eu o matei ― disse ela, com a voz um suspiro de triunfo. ― Eu o matei.
Mas ele não a estava escutando. Ele estava em um joelho ao lado dela, sua espada
varrendo o ar, a voz, um grande rugido. ― Voltar ― ele gritou. ― para trás, bastardos.
Ele manteve o aperto no braço dela, conforme eles se retiravam até a encosta, seus
homens atirando. O Sargento tinha pego a arma e a recarregou, Joana viu. E se preparou
para morrer. Não havia nenhuma maneira de o evitar, ela entendeu, pega como estava
entre dois grandes exércitos em todo o caos de um inferno.
― Me dê a arma, ― disse ela, numa louca tentativa. ― Eu ajudo.
Mas Blake a empurrou, mais ou menos para trás dele, e ela tropeçou. Ele falou com
um grunhido. ― Você não vai escapar, ― disse ele. ― Você permanecerá minha
prisioneira, ou morrerá comigo. Desça e fique no chão.
Ela fez o que lhe foi ordenado. Suas próprias vidas dependiam de ela o acatar, pela
primeira vez na sua vida, ela sabia, mesmo que pudesse ter ajudado, se ele lhe tivesse
permitido usar seu rifle. Mas, não havia tempo para discutir.
Cada metro de solo era árduo, e em cada palmo de terreno Joana se preparou para
morrer. Ela não se importaria que isso acontecesse, pensou, agora que tinha vingado a
morte de seu meio-irmão e meia-irmã, se, ao menos, Duarte pudesse saber. E ela não se
importaria de morrer com Robert ao lado dela. Se sentia estranhamente calma, após o
primeiro terror lhe enfraquecer os ossos.
Mas se ela fosse morrer, não era para ser ainda, apesar de tudo. À medida que os
atiradores se aproximaram do topo da colina, as colunas francesas foram duro sobre eles,
as grandes armas foram retiradas para evitar a captura e o general Craufurd se sentou,
calmamente, em seu cavalo fora do moinho, para avaliar o momento. Joana teve um
vislumbre de como ele estava limpando o chapéu. E então, ela ouviu seu agudo abaixo,
bastante audível, acima de todo o ruído.
― Agora, o Quinquagésimo Segundo! Vingaremos a morte de Sir John Moore! ―
Ele gritou.
― Companhia ― O abaixo foi Robert, em seu ouvido. Ele tinha um aperto em seu
braço que cortava a circulação da mão dela. ― Se juntem à linha!
― Carregar! Fogo! ― O general rugiu. ― Huzza!
As linhas britânicas que estavam esperando por trás do horizonte deram um passo
à frente, para tornar a sua presença conhecida para os desavisados franceses, os
mosquetes nivelados, as baionetas fixas. Os atiradores foram para o fim da linha e se
juntaram à ação.
Capitão Blake atirou Joana para trás das linhas. ― Volte! ― Ele gritou com ela. ―
Se ponha em segurança. Eu a encontrarei mais tarde.
E ele se foi, para se juntar a seus homens na carga, de volta para baixo do morro.
Joana ouviu o som assassino de tiros de mosquete e soube que o avanço francês tinha
sido interrompido, que centenas morreram naquele primeiro momento. Ela ficou
cansada, em pé, e se retirou para o outro lado da pista lateral.
Se sentia mortalmente fraca e cansada. Se pudesse apenas cair no chão e fechar os
olhos, pensou, certamente dormiria durante uma semana. Mas ela não faria isso. Ainda
não. Não até saber que ele estava seguro. Não até que lhe tivesse dado a chance de a
vencer na luta. Havia um fio fino de diversão em seu sorriso.
Até que se lembrou, que tinha acabado de matar um homem.
E então, ela começou a tremer.

***

Estava tudo acabado. Os franceses tinham se retirado e não haveria mais luta
naquele dia. Como geralmente acontecia depois de uma batalha, ou às vezes até mesmo
no meio de uma batalha, quando uma trégua temporária tinha sido tocada e ouvida, os
franceses e ingleses se misturaram no morro, toda a hostilidade desaparecida, reunindo
seus mortos e feridos. Alguns homens ainda trocaram saudações e goles da água preciosa,
com outros em quem tinham atirado, apenas alguns minutos antes.
Era, talvez, a parte mais estranha da guerra para aqueles que não estavam
acostumados a isso.
O capitão Blake trabalhava ladeira acima com seus homens. Ele podia beber dois
riachos de água, se simplesmente, estivessem diante dele. Mas, sua principal tarefa era
encontrar seus próprios mortos, e os mandar para seu sepultamento, sempre a parte mais
dolorosa de um dia de luta, e ver se os feridos eram atendidos, se seus ferimentos eram
leves, ou os levar para as tendas hospitalares, se tivessem a necessidade de amputação.
E ainda assim, ele fez um desvio no caminho com a sua companhia, na hora de
voltar. Andou até onde um grupo de franceses, maior do que o habitual, estava reunido,
um sinal claro de que um oficial de alto escalão estava prestes a ser levado. E descobriu
que não se tinha enganado, e ainda se perguntou se não tinha uma certa dose de prazer na
descoberta. Mas isso era estranho, atemporal, como se o tempo tivesse parado de andar
por um instante, o fazendo duvidar de seus próprios sentidos.
Mas ele não tinha se enganado. O oficial francês, que tinha morrido com uma bala
pouco acima do coração, mais ou menos no mesmo lugar que a sua própria ferida do ano
anterior, era o coronel Marcel Leroux. E Joana o tinha matado.
Não tinha?
Se ele tivesse imaginado isso... Ela se levantou, muito imprudentemente, se
expondo a morrer, gritou seu nome, o objetivo deliberadamente tomado, e o matou.
O capitão Blake franziu a testa e refez o caminho para se juntar a seus homens
novamente, para dirigir os enterros e a remoção dos feridos.
Quase no topo da colina, se ajoelhou ao lado de um menino chorando, o acudindo
de forma tranquilizadora no ombro, antes de o reconhecer. O soldado raso Allan Higgins
virou o rosto para a mandíbula apertada do capitão Blake.
― Você vai viver, ― ele disse enquanto um corte na calça revelava o buraco de uma
bala. ― Teremos de ter essa bala removida, mas você vai manter a sua perna. Está doendo
muito?
O rapaz fez um esforço para controlar seus soluços. ― Não, senhor, ― disse ele,
obviamente mentindo. ― Mas, eu não a podia matar pelas costas, senhor. Ela correu, mas
eu não a poderia matar.
― Não ― Capitão Blake apertou seu ombro. ― Um homem não dispara numa
mulher pelas costas, mesmo se ela for o próprio diabo. Bem, rapaz, você teve seu
primeiro gosto de batalha, e de ser absolvido também. Você veio para a frente, quando
poderia ter ficado lá atrás.
― Mas eu o decepcionei, senhor. ― Os soluços retomados.
― Domine-se, soldado, ― o capitão Blake disse, se endireitando e acenando para
os dois soldados que tinham vindo para levar o menino até a colina. ― Vamos discutir
esse assunto mais tarde. Por agora, basta que você tenha sobrevivido.
O moço não parecia de forma alguma consolado.
Capitão Blake sentiu os ossos cansados. Foi uma sensação que reconheceu como
aquela que sempre seguia a excitação, e até mesmo a alegria da batalha. A bala tinha
arranhado sua têmpora. Ele sentiu a dor, de repente, e ergueu a mão para se tocar, sangue
com crosta do lado do rosto. Mas não havia mais lesões. Ele teve sorte. Centenas de
milhares de homens, se contasse os infelizes franceses, tinham morrido naquele dia em
uma batalha que estava, afinal, por decidir. Os franceses estariam prontos para o ataque,
novamente, amanhã, ou encontrariam uma maneira de passar pela colina, e então, os
britânicos teriam que retomar sua retirada em Lisboa.
Eles tinham jogado mais uma partida no jogo mortal da guerra. E isso era tudo.
E então, o capitão se perguntou onde Joana estava. Se ela fosse sábia, teria voltado
para o Convento e contado com a misericórdia de Lorde Wellington, ou de qualquer dos
altos funcionários oficiais, susceptíveis de a defender contra ele, e todo e qualquer
homem, ficaria muito feliz de o fazer. Mas, ele estava muito cansado para fazer com ela as
coisas que tinha planejado, quando a viu, da última vez, e, muito intrigado também. Ela
tinha matado o coronel Leroux.
Ela, agora, tinha vindo para a crista do morro sozinha. E em meio a todas as
massas de homens, armas e cavalos, a viu imediatamente. Ela estava em pé, do outro lado
da estrada, aparentemente conversando com um oficial, relutante em seu caminho de ir
para o Convento sem ela. Estava favorecendo o homem com seu habitual sorriso sedutor.
Ele se levantou e a observou com os olhos analíticos, até que ela olhou em volta de
novo e o viu. Ela sorriu enquanto ele se aproximava.
― Eu estava com medo de vir para o topo da colina ― disse ela. ― de olhar para
baixo, porque, talvez, você estivesse morto.
― Você não estava com medo no início, ― disse ele asperamente. ― Não, quando
havia uma chance de escapar para o seu próprio povo.
― Robert ― Ela não estava mais sorrindo e deixou a cabeça pender para um lado,
parecendo muito direta em seus olhos. ― Você sabe que não era o que eu estava fazendo.
Você me viu atirar nele. Eu o matei, não disse?
Ele olhou para ela. ― Sim, ― ele respondeu. ― Leroux está morto.
E então, ela fez o que menos se esperava dela, mordeu o lábio superior, e seus
olhos se encheram de lágrimas, com todo o seu rosto tremendo.
― Bem, eu quis dizer isso ― falou, a voz um sussurro. ― Eu o queria matar. Esse
tem sido o único propósito da minha vida nos últimos três anos. E estou contente de o
ter feito no último minuto. Só desejava que pudesse lhe ter dito a razão pela qual o fiz.
― Joana ― disse ele, quando as mãos dela subiram para cobrir as faces. ― Oh,
Joana.
E ela estava em seus braços, enquanto o barulho e confusão os rodeava, soluçando
em seu peito, lhe batendo com os punhos, de vez em quando.
― Lutar até o fim, ― disse ele. ― A batalha é longa, Joana. E a sua guerra particular
também, não importa qual tenha sido.
Capítulo 27
― O que foi isto tudo, Joana? ― Perguntou ele, quando ela parou de bater em seu
peito, parou o estúpido choro e olhou para ele. Seu rosto estava enegrecido pelo pó, o
sangue escuro com crosta, de um lado de seu rosto.
― Você foi atingido ― disse ela, levantando a mão, mas sem tocar no ferimento.
― Bastardos ― disse ele. ― Não é nada.
― Você o deve lavar ― disse ela. ― Eu vou fazer isso por você.
Ele a surpreendeu, sorrindo. Seus dentes pareciam muito brancos, contrastando
com o resto do seu rosto. ― Você, se comportando como uma mulher normal? ― Disse.
― Eu nunca pensei viver, para ver esse dia.
― Se tivessem acertado uns centímetros a mais, ― ela lhe falou, ― você certamente
não o teria. Está doendo?
― Dolorosamente, ― disse ele. ― O que estava acontecendo, Joana? Há muita
coisa sobre você que eu não sei, não é?
Ela abriu a boca para responder, mas um grupo de cavaleiros que passava ao longo
da pista freou, de repente, distraindo sua atenção, e ela se viu olhando para cima, em um
severo franzindo da testa.
― Joana? ― Disse o Visconde Wellington. ― O que você está fazendo aqui? ― Seu
olhar deslizou para o capitão Blake, que havia se virado para o saudar. ― Capitão? Você
não tem ordens para escoltar a Marquesa das Minas com toda pressa para Lisboa?
― Não, ele não o fez, Arthur ― Joana disse rapidamente. ― Eu passei suas ordens
a ele, você vê, mas eu as torci um pouco na hora de contar.
Os lábios de Lorde Wellington se contraíram. ― Eu posso imaginar ― disse ele. ―
Bem, parece que devo agradecer aos dois por um trabalho bem feito. O Marechal
Massena, certamente, foi enganado e veio para cá. Lamento que não lhe pudesse contar
mais, antes de partir para Salamanca, capitão Blake. Mas pensei que o seu comportamento
seria mais convincente se você, realmente, acreditasse que a Marquesa o estava traindo e a
nós.
― Funcionou maravilhosamente bem, ― disse Joana, olhando rapidamente para o
rosto pétreo do capitão. ― Não foi, Robert?
― Sim, senhor ― disse ele. ― Funcionou muito bem.
O Visconde assentiu. ― Esta vitória hoje é pouco mais do que um impulsionador
de moral ― disse ele. ― Posso pedir para partir, sem mais delongas, Joana, e para se
aninhar na segurança de Lisboa?
Ela abriu um grande sorriso para ele. ― Sim, Arthur, ― disse ela. ― Eu devo me
retirar com todos os outros.
― Com todos os outros, não na frente deles ― disse ele com um suspiro. ― Bem,
não vou perder mais fôlego, com alguém que não está diretamente sob as minhas ordens.
Mas cuide de si mesma. Você não teve mais sucesso do que o habitual com a outra
missão?
― Oh, sim ― disse ela. ― O sucesso completo, Arthur. Espero que você não vá
mais precisar de mim para fazer quaisquer futuras visitas às minhas tias, na Espanha. Eu
não tenho planos de ir para lá, novamente.
Ele a olhou intensamente e assentiu uma vez. ― Estou satisfeito por você, ― disse
ele. E então, a saudou, acenou para o capitão Blake, e continuou seu caminho para o
Convento, seus auxiliares em sua traseira.
― Você já viu o soldado Higgins? ― Perguntou Joana em seguida, se voltando para
o capitão. ― Eu o perdi, e estou com medo.
― Eu o pretendo desmembrar, membro a membro, uma vez que ele se recupere do
ferimento a bala, ― ele lhe respondeu. ― Ele vai querer a bala alojada em seu coração, em
vez da perna, antes que eu termine com ele.
Ele estava muito sério, o soldado de aço, do alto da cabeça até a sola dos pés. Ela
lhe sorriu e passou o braço pelo dele.
― Mas, Robert, ― ela disse, ― você sabe como é difícil, para qualquer homem,
obedecer ordens, quando eu estou envolvida. Eu sou um jogo para qualquer homem, não
sou? Seria injusto castigar um garoto inexperiente, por me permitir escapar. Ele é um
menino muito doce e, estava muito preocupado com a minha segurança.
― Ele tem uma maneira estranha de mostrar isso, ― disse ele secamente. ― E eu
não tenho lugar na minha companhia para meninos doces.
― E, no entanto, ― ela disse, sorrindo para o rosto dele, ― você mesmo era um
deles, não mais do que onze anos atrás, Robert. Levou tempo e experiência para o
amadurecer e endurecer. E o que dizer de suas ordens para me levar a Lisboa ontem?
Elas não foram obedecidas. Nós ainda estamos aqui.
― Pela simples razão de não ter recebido essas ordens, ― disse ele.
― E por que não? ― Perguntou ela. ― Por causa de mim, por isso. Mas elas eram
ordens, no entanto, Robert e, de ninguém menos do que o comandante-em-chefe. Se eu
não tivesse falado nada há pouco, Arthur teria sido muito mais polêmico com você.
Talvez, ele até o tivesse rasgado, membro a membro, e feito você desejar que estivesse em
pé um centímetro para a direita, no início desta manhã.
Ele olhou para ela, seu olhar de granito quebrado apenas por exasperação. ― Tudo
bem, Joana, ― disse ele, ― você marcou o seu ponto. Irei beijar o menino e o guardar em
sua cama, enquanto ele repousa a perna.
― Não o beijar, ― disse ela. ― Ele pode se constranger. ― Ela riu alegremente.
Mas ele não iria aceitar se distrair. ― E que tipo de idiota você fez de mim? ― Ele
perguntou. ― Você fez, não é, e curtiu cada minuto?
― Não é bem a cada minuto, ― disse ela. ― Houve momentos em que eu senti
remorso, Robert. Mas sim, no conjunto, tem sido divertido. Você vai me perdoar?
Ele tirou seu braço para longe sem sorrir. ― Você é uma mulher perigosa, Joana, ―
disse ele, ― e vai enfeitiçar qualquer homem de alguma forma, não vai? Se não for por
meios justos, será pelo engano. Bem, você me fez de seu tolo, assim como a todos os
outros homens a quem já olhou. Mas tenho sido sua diversão por mais tempo do que a
maioria, creio eu. Não mais, porém. Já é suficiente. É hora de você encontrar outro em
quem praticar suas artimanhas. Eu não suponho que já tenha falhado, não é? Bem, talvez
um dia você vá. Com licença. Tenho assuntos importantes para tratar.
E ele se afastou dela, a deixando parada olhando para ele, e se sentindo menos
confiante do que jamais pôde se lembrar. Se apenas Arthur não tivesse aparecido nesse
preciso momento. Robert já saberia, mas ela não tinha tido a oportunidade de explicar
tudo a ele. Estava prestes a fazer isso, mas agora, era tarde demais.
E assim que ele entendeu a verdade das palavras do Visconde Wellington, se sentiu
humilhado e traído. Droga, Arthur!
Eu não suponho que ê já falhou, não é? Ele acabara de dizer a ela. Bem, ela tinha, e
sentiu um arrepio num lugar de seu coração, com algo parecido com pânico. Tinha sido
muito grave. Talvez demasiado sério. Talvez, ele nunca mais a fosse perdoar. E mesmo
que o fizesse, não haveria um futuro para eles. Apenas o retiro para Torres Vedras e a
separação inevitável, depois de uma semana, talvez duas.
Joana encolheu os ombros e olhou em volta para os feridos gemendo, para o
resgate sendo realizado ao longo da colina aos que precisavam de cuidados. Ela ajudaria a
cuidar deles, embora nunca o tivesse feito antes. Mais tarde iria pensar sobre Robert e em
como poderia cair em suas boas graças, novamente. Mais tarde, ela iria pensar sobre o
futuro. Mas agora, não. Agora, havia muito para se manter ocupada.
Pensaria sobre essas coisas mais tarde, e faria alguma coisa sobre elas também. Ela
nunca fora capaz de resistir a um desafio, e não estava prestes a começar agora.

***
Ele estava deitado de costas na sua tenda, um braço sobre a testa, olhando para a
escuridão. E estava exausto. A batalha parecia ter sido dias atrás, e não apenas mais cedo,
no mesmo dia. Tinha havido tanta coisa para fazer, escrever relatórios, reunir seus
homens e ter a certeza que eles estavam preparados para novas ações, no caso improvável
de que os franceses atacarem novamente, escrevendo para os familiares das pessoas que
tinham sido mortas, visitar os homens cansados de sua companhia.
Visitara o soldado Higgins e chegara apenas no momento em que o assistente de um
cirurgião estava tirando a bala de sua perna. De pé, ele observou enquanto Joana segurava
o rosto do menino nas mãos, e sorriu para ele, e lhe falou suavemente, enquanto o suor
irrompeu por todo o seu rosto, e ele apertou os dentes, e se recusou a envergonhar a si
mesmo gritando.
Ela o deixou, quando a provação tinha acabado e o menino tinha desmaiado, sem
olhar para onde ia. Foi para outro menino, nem mesmo o mais jovem de seu regimento,
que gritava por sua mãe. Ela estava suja e desarrumada e incrivelmente bela.
O capitão tinha esperado ao lado do menino até que a consciência voltou, e falou
baixinho para ele, e viu esperança e orgulho voltar para os olhos cheios de dor. E então,
lhe apertara o ombro e seguiu em frente. Talvez, afinal de contas, o rapaz seria um bom
soldado. Ele tinha pensado em um tenente, morto há muito tempo, que tinha falado em
voz baixa com ele quando chorara de terror, depois de se ter visto sob fogo pela primeira
vez, o que lhe fez sentir que, talvez, seu comportamento não fosse muito vergonhoso,
afinal.
Ele tinha avistado Joana várias vezes durante dia. Mas não se aproximou, nem ela
dele. Ele se sentia ferido e magoado. Ela tinha estado rindo dele o tempo todo, brincado
com ele. Enquanto ele estava se apaixonando por ela e lutando contra seus sentimentos,
porque ela era o inimigo, ela tinha se divertido imensamente. Até admitiu.
Ele era tão tolo como qualquer um dos homens dos salões de baile em Lisboa, a
quem desprezava tanto. Mais que um tolo, porque ele se tinha permitido ser muito mais
seu brinquedo do que ela tinha feito a qualquer outro.
Fechou os olhos, mas, sabia que não iria dormir. Onde ela tinha ido? Ele se perguntou.
Para o Convento? Para a tenda de outro homem? Mas não se importou. Ele não iria
pensar nela por mais tempo. Sua missão estava no fim, e tudo o mais junto com ela.
Contra os olhos fechados em que a viu, de pé direita e imprudente no meio de uma
batalha, apontando seu rifle para o coronel Leroux, atirando e acertando, quase através do
coração, embora, provavelmente, nunca tivesse usado um antes. Ela nunca lhe tinha dito
o que era tudo isso. Mas ele não se importou.
A viu em silêncio, o observando naquela manhã, enquanto se preparava para sair e
se juntar a seus homens, lhe dizendo que o amava. E se sentiu mal. Mas agora, ele não se
importava mais. Não valia a pena se preocupar, ela não valia uma noite sem dormir, não
quando o dia seguinte prometia ser quase tão ocupado como o que acabava de passar.
Houve um ruído de repente na abertura da sua tenda, mas ele não abriu os olhos.
Apenas endureceu um pouco. Não se moveu quando ela se acomodou ao lado dele, seu
braço roçando o seu.
― Eu não tinha mais para onde ir, ― ela sussurrou para ele.
― O Convento ― disse ele asperamente. ― Os braços de qualquer outro homem
neste condenado exército.
― Tudo bem ― disse ela. ― Talvez eu não lhe tenha chegado a dizer a verdade. Eu
quis dizer que não havia outro lugar que eu quisesse ir. Não que desejasse vir aqui
também. Você é tão cruel como um urso.
― Joana, ― ele disse, ― vá embora, ou ao menos fique quieta. Não tenho nenhum
desejo de ser provocado para um clima mais agradável. Ou para ouvir a qualquer de suas
mentiras ou artifícios.
― Ajudaria ― ela perguntou, e ele podia sentir que se virara de frente para ele, ― se
eu prometesse nunca mentir para você de novo?
― Nem um pouco, ― disse ele. ― Você não seria capaz de manter a promessa por
cinco minutos.
Ela ficou em silêncio por um tempo, enquanto ele estava rígido de tensão. ― Você
pensou que eu estava mentindo, esta manhã? ― Perguntou ela.
Ele prendeu a respiração lentamente. E se amaldiçoou por não ter tido a coragem ou
o bom senso de a expulsar de sua tenda.
― Eu não estava ― disse ela. ― Eu nunca falei mais sério na minha vida.
― Não, Joana, ― disse ele. ― Isso simplesmente não vai funcionar, desta vez.
Ela tocou seu braço, mas tirou a mão imediatamente. ― Você não está relaxado, ―
disse ela. ― Eu teria um medo mortal se estivesse. Como você está, eu tenho apenas
medo. Robert, não há nada que eu possa dizer?
― Nada ― disse ele.
Ela suspirou e ele sentiu sua testa contra o ombro. Era impossível se afastar dela na
tenda. Mas ela não parecia ter mais nada a dizer. Houve um longo silêncio, um silêncio
durante o qual ele ouvia os sussurros do campo.
― Ele matou Miguel e Maria, ― ela disse baixinho no silêncio. Sua voz era
inexpressiva. ― Irmão e irmã de Duarte, meu meio-irmão e meia-irmã. Ou, pelo menos,
ele ordenou a sua morte, com o giro do polegar.
Ele podia sentir a rigidez do seu próprio corpo. Mal podia respirar.
― Ele estuprou Maria em primeiro lugar, ― disse ela. ― No chão, enquanto alguns
de seus homens observavam. E então eles tiveram a sua vez. E depois, o polegar.
A respiração se tornou um esforço consciente. ― Como você sabe? ― Perguntou
ele, finalmente.
― Eu vi ― disse ela. ― estava no sótão. Seu rosto vai estar para sempre gravado em
minha memória. Procurei por esse rosto durante três anos. Graças a Deus eu podia estar
entre os franceses, porque sou francesa. Mas ele voltou a Paris e só recentemente
regressou. Duarte queria que dissesse a ele quando visse aquele rosto novamente. Queria
ser ele a o matar. Mas era algo que eu tinha que fazer, eu mesma. Sempre soube que teria
que fazer isso sozinha, ou levar os pesadelos comigo para o túmulo.
Ele abriu a boca para sugar o ar.
― Eu tive que o fazer me seguir até aqui, ― disse ela. ― Pensei que seria fácil,
acreditei que ele iria nos apanhar mais cedo, e achei que teria a minha espingarda e minha
faca. Mas quando ele veio, eu não tinha nenhuma arma e você tinha amarrado minhas
mãos. Mas ele voltou e a justiça foi feita, uma parte da justiça. Havia aqueles outros
homens também, com quem não me importei mais. Só ele. Ele era seu líder, e a honra se
limita a defender a decência. Não lamento que o tenha matado, Robert, embora eu saiba
que o horror de ter morto alguém viverá comigo, por um longo tempo. Não lamento. Ele
merecia morrer pelas minhas mãos.
― Sim, ― , disse ele. ― Ele merecia morrer.
E a ouviu ao seu lado tentando controlar sua própria respiração. ― Você acredita em
mim? ― Perguntou ela.
― Sim ― ele disse, sua voz monótona. ― Eu acredito em você.
― Você vai me perdoar, então? ― Sua voz ainda era inexpressiva.
― Não. ― Ele tentou tirar a sua história da mente. ― Eu a poderia ter ajudado,
Joana. Mas você estava se divertindo muito, me fazendo de tolo. Os homens são apenas
idiotas para você, não pessoas. Eu não acredito que pudesse resistir a tentar escravizar um
homem. Não tenho nenhum interesse em ser escravo de qualquer mulher.
Sua testa pressionou com mais força contra seu ombro. ― Foi em parte culpa sua, ―
disse ela. ― Eu lhe disse a verdade, mas você não acreditou em mim. Nunca foi da minha
natureza mendigar e implorar. Se você não acredita em mim, então você não faria. Mas eu
não pude resistir a o manter sempre duvidando. Eu estava brincando com você, Robert,
não o escravizando.
― Bem, ― ele disse, ― temo que não consiga ver muita diferença, Joana. Sinto muito
por sua família. E eu estou feliz que você os tenha vingado finalmente, embora como não
perdeu sua vida na tentativa, eu nunca vá saber. Você não sabe que é puro suicídio se
levantar na linha de combate?
― Não ― disse ela. ― Não sei nada sobre linhas de combate, exceto que você lutou
em uma nesta manhã, e eu pensei que iria morrer, até que veio aquela colina e vi que
ainda estavam vivos. Mas eu não o vou manter acordado. Se você não vai me perdoar,
então que assim seja. Não vou implorar ou rastejar. Não espere isso de mim, Robert. Não
é da minha natureza o fazer.
Ela lhe virou as costas e se acomodou bem confortável, o deixando ainda rígido de
tensão e agora furioso.
― Oh, não, você não ― disse ele, a voltando para o a encarar, novamente. ― Você
não vai me colocar como o errado assim, Joana, e depois se afastar e dormir a noite toda
em minha tenda. Por que fez isso? Me diga. Para mostrar o seu desprezo por mim e por
todos os homens?
Ele a ouviu engolir seco na escuridão. ― Não, ― disse ela. ― Eu acho que foi para
manter uma barreira entre nós, Robert. Se você não me visse como sua inimiga, ou se não
tivesse bem a certeza, então, não haveria a barreira.
― Alguma barreira! ― Disse. ― Nós tínhamos um ao outro quase todas as noites e
alguns dias desde que deixou Salamanca. Deus me ajude, se você quisesse sem barreiras.
― Houve sempre uma barreira, ― disse ela. ― Com todos. Eu nunca quis o
contrário. Nunca quis ninguém perto. Exceto você. E quando se aproximou fisicamente
foi maravilhoso, e eu estava feliz e aterrorizada. Eu estava com medo do que aconteceria
se não houvesse barreiras entre nós. Estava com medo de me perder, de nunca mais ser
capaz de controlar minha vida, novamente. Então acho que era o que eu estava fazendo,
o mantendo longe, por assim dizer.
― E todos os outros? ― Disse ele asperamente. Ele desejava que a raiva não tivesse
cedido e se virou para ela, novamente. Ele desejava não ter perguntado isso, o que a faria
mentir para ele, de novo.
― Os outros? ― Disse ela. ― Você sempre me viu como promíscua, não, Robert?
Eu durmo com todos os homens para quem sorrio? Estive com Luís seis vezes. Eu
contei, e odiei cada encontro, que foi um pouco pior do que o anterior. E estive com
você, eu não sei quantas vezes. Eu não contei. E tem sido maravilhoso, cada encontro um
pouco mais maravilhoso do que o anterior, se isso é possível. Essa é a extensão da minha
experiência, Robert. E agora, eu queria não ter começado este discurso, pois é claro que
você não vai acreditar em mim. Você vai me desprezar, e depois, jogar todos os meus
outros amantes imaginários na cara. Vá dormir. Deve estar cansado.
Seu cabelo cheirava empoeirado. Sua pele cheirava a limpeza. Ela deve ter
encontrado um lugar para se lavar, como ele. Ele respirava o perfume quente dela.
― Joana, ― disse ele, desejando, mais do que nunca, não lhe acreditar, e querendo
mais do que qualquer outra coisa, acreditar nela. ― Por quê? Se a sua experiência foi tão
limitada, por quê eu? Por que você se deu a mim tão facilmente? Você fez amor comigo
aquela primeira vez, eu me lembro.
― Oh, ― ela disse, ― você vai me fazer dizer isso de novo, e me humilhar
totalmente? Eu não estou acostumada a humilhação. Muito bem, então. Acho que devo
isso a você. Foi porque eu o amei, Robert. Talvez me tenha apaixonado por você quando
o vi pela primeira vez, em Lisboa, decaído e moroso no meio de um baile reluzente, me
olhando hostil e determinado a resistir aos meus encantos e convites. Ou talvez, naquela
época eu tenha apenas me intrigado. Talvez eu me tenha apaixonado em Óbidos, quando
você me assustou, tirando meu controle e eu mordi sua língua. O machuquei muito?
Aposto que o fiz. Ou, talvez, então apenas estivesse fascinada por um homem que não
dançou na minha sintonia, como os outros homens fizeram. Possivelmente… Oh, eu não
sei. Seja o que for, me apaixonei por você, e eu queria você, e decidi quando a
oportunidade se apresentou. Mas, no entanto, eu queria uma barreira entre nós. Amor me
assusta.
Ele não disse nada por alguns momentos. ― Maldição, para o inferno, Joana ― disse
ele, por fim.
― Por amar você? ― Ela riu um riso triste. ― Eu nunca esperei amar. Nem uma vez,
depois dos quinze anos, e descobri que o mundo não era composto de cavaleiros de
armadura brilhante e donzelas esperando pelo “felizes para sempre,” para serem
carregadas em suas garupas. É irônico que isso tenha acontecido com o único homem
que preferia me ver no inferno do que na sua tenda. Ou talvez não seja irônico, depois de
tudo. Acho que eu nunca teria caído de amor com você, se não tivesse me encarado, em
Lisboa. Era algo muito novo para a minha experiência.
― Eu não me orgulho disso, ― disse ele. ― Eu só estava condenadamente
desconfortável.
― Você estava? ― Perguntou ela. ― Você não o mostrou. Parecia como se sentisse
por todos, e por mim, em particular, o maior desprezo.
― Você estava linda, encantadora e cara, ― disse ele. ― E eu queria que você me
odiasse, por querer alguém tão além da minha condição. Se eu sentia desprezo, era por
mim. Como tem sido desde então. Sempre me desprezei por amar você.
― Robert. ― Sua respiração era quente contra seu pescoço e o seu braço estava
abraçado sobre ele, e seu corpo veio todo contra o seu. ― Diga isso de uma outra
maneira. Oh, por favor. E se você pensa que eu estou implorando e rastejando, então
você está certo. Eu estou. Diga de outra forma.
Ele lambeu os lábios secos e fechou os olhos com força, e a apertou em seus braços,
como se pretendesse lhe quebrar todos os ossos do corpo. ― Eu a amo, ― disse ele. ―
Pronto. Você está satisfeita agora?
― Sim. ― A única palavra contra seu pescoço.
Ele não tinha feito amor com ela na noite anterior. Era difícil fazer amor em uma
tenda. Era pequena, facilmente derrubada. Além disso, havia pessoas em volta deles,
alguns também em barracas, muitos mais no chão aberto. Parecia quase como fazer amor
em público.
Ele puxou o vestido, cuidadosamente, para a cintura, livrou o membro de suas
calças, se levantou acima e se colocou dentro dela. E ela estava, estranhamente, calma e
quieta debaixo dele, enquanto ele se movia em seu corpo com um cuidado lento.
― Eu o amo ―, ela murmurou contra seu ouvido, enquanto ele se perguntou se
alguém podia lhes ouvir.
E Deus o ajudasse, pensou ele, enterrando seu rosto contra seu cabelo e sentindo a
liberação vindo, apesar da cautela com que se moveu nela, mas ele acreditou. Ele tinha
que acreditar nela. Foi lá em seu corpo, bem como em sua voz. Ela o segurou
silenciosamente, embalou nos braços e em seu corpo, se dando. Ele sabia que ela não
estava nem perto do clímax e não o iria alcançar. Mas ela estava dando no entanto, e lhe
dizendo com palavras o que ela deu com seu corpo.
Joana estava dando. Não recebendo, mas dando. Se dando. E ele não estava
imaginando. Ele juraria por Deus que não estava imaginando.
― Eu a amo, ― ele disse a ela em sua boca, enquanto se derramava dentro dela. Mas
ele disse mudo mais do que apenas as três palavras. E ele sabia, quando relaxou sobre ela,
e os braços dela o abraçaram e lhe beijou sua bochecha, que ela ouviu, que tinha ouvido
todas as outras palavras que nunca poderiam ser faladas.
Não havia barreiras. Nenhuma, mesmo.
Capítulo 28
Não era manhã. Tudo estava relativamente calmo para além da tenda. E ainda
assim, eles deviam ter dormido por várias horas. A noite era muito avançada. Mas, como
muitas vezes aconteceu, ambos acordaram juntos. Ela poderia dizer que ele estava
acordado, que, como ela, tinha apenas acordado. Ela se esticou contra ele, um pouco
como um gato.
― Eu disse que é mais maravilhosa a cada vez, ― ela falou. ― Esta noite não foi
excepção.
― E eu disse que você não poderia parar de mentir, se você tentasse ― disse ele. ―
Acha que eu estava tão concentrado no meu próprio prazer que não saberia que não era
bom para você?
― Porque o universo não me quebra em um milhão de pedaços? ― Disse ela. ―
Quão pouco você sabe sobre as mulheres, Robert, ou sobre mim, de qualquer maneira.
Às vezes é maravilhoso além das palavras, só sentir o que você faz para o meu corpo,
para simplesmente relaxar e desfrutar. E esta última vez foi especialmente bom, porque
você disse que me ama e seu corpo provou que as palavras eram verdadeiras. Diga de
novo. ― Ela estendeu a mão para lhe tocar a boca, e suspirou de contentamento.
― Era um sonho, Joana, ― disse ele. ― Um sonho irreal, assim como era daquela
outra vez, quando éramos crianças.
De repente ela o odiava. ― Mas os sonhos às vezes podem ser mais verdadeiros do
que a realidade, ― disse ela. ― Vamos sonhar por mais algum tempo. Eu o amo, e isso
será verdade, mesmo quando a realidade assumir o lugar dos sonhos novamente e nos
separa. Irá, não é?
― Sim ― disse ele. ― Mas, antes que aconteça, eu a amo.
Ela se aconchegou contra ele e fechou os olhos. Mas era impossível recuperar seu
estado de puro contentamento preguiçoso. ― Eu vou ficar com você, enquanto puder, ―
ela disse, mas já havia um sentimento de desespero. ― Você vai estar em todo o caminho
para Lisboa?
― Provavelmente não, ― disse ele. ― Eu não sei o que está planejado, mas imagino
que essas linhas de defesa, embora formidáveis, não irão reter os franceses sem um pouco
de ajuda humana. Tenho certeza de que terei de equipar essas defesas com os meus
homens.
― Ah, ― disse ela. Mas sua missão estava no fim. Tudo isso, o que ela tinha feito
por Arthur e o que tinha feito para si mesma. Este último havia ocupado sua mente por
três anos. E agora que acabou, em seu lugar ficou um vazio, uma certa sensação de
anticlímax e insatisfação. Ele tinha algo ainda a fazer. Ela não tinha nada.
Sua mão estava acariciando levemente pelos cabelos. Ele beijou o topo da cabeça
dela. ― E você? ― Perguntou. ― O que você vai fazer?
― Oh, eu vou para Lisboa, ― ela disse, ― e deslumbrar toda as pessoas,
novamente. Vou voltar para o meu branco puro. Você não acha que é um toque
magistral, Robert? Se torna tedioso, às vezes, mas eu sei que intriga os meus admiradores.
― Então você vai ficar em Lisboa, ― disse ele. ― Isso vai ser sábio.
Oh, sábio, sim, e sem brilho, sem brilho, sem brilho. ― Eu não posso ficar lá, ―
disse ela. ― Acho que vou para a Inglaterra. Sempre foi meu sonho ir para lá, para me
tornar inglesa. Você não pode saber como é cansativo, Robert, não pertencer a lugar
nenhum. ― Mas ela tinha uma memória súbita de um menino que tinha vivido na casa de
seu pai, sem nunca ter sido convidado a participar, ou mesmo para atender as visitas de
seu pai. ― Ah, sim, talvez você também possa. Eu quero ser inglesa. Eu quero viver na
Inglaterra e me casar com um cavalheiro inglês. Quero ter crianças inglesas.
― Você? ― Ele disse, beijando o topo de sua cabeça novamente.
― Lorde Wyman, o coronel Lorde Wyman me pediu mais de uma vez para casar
com ele, ― disse ela. ― E tenho a certeza de que perguntará de novo, quando eu voltar
para Lisboa. Acho que posso aceitar a sua oferta. Eu acho que posso.
― Você o ama? ― Perguntou.
― Tolo! ― Disse ela com desdém. ― Eu o amo, Robert. Como posso amar dois
homens? Ele é rico, bonito, amável, encantador, e um monte de outras coisas boas. Ele
pode me oferecer o que eu sempre quis.
Ele não disse nada, mas simplesmente virou a cabeça para descansar sua bochecha
contra o topo de sua cabeça.
― Eu não poderia seguir o tambor, ― disse ela. ― Há muitas incertezas, muito se
deslocam de um lugar para outro, muitos desconfortos, muito perigo e preocupação. Eu
não o poderia fazer, Robert.
― Não, ― disse ele. E muito calmamente: ― Eu não estou pedindo que você faça.
Suas palavras a picaram. Ela não tinha percebido o quanto esperava que ele fizesse
isso, até que falou. Estava sonhando com impossibilidades, como não tinha feito desde
que era uma menina.
― Sou muito, muito rica, ― ela contou, de repente, mesmo sabendo como era
inútil tentar lutar contra a realidade. ― Você não acreditaria o quão rica eu sou, Robert.
Eu poderia comprar o imóvel na Inglaterra. Poderíamos viver lá juntos e…
― Joana ― disse ele. ― Não. Eu fiz uma carreira para mim mesmo no exército e é
onde quero ficar, por tanto tempo quanto seja necessário. Isto é minha vida. Isto é o que
eu gosto de fazer.
Ela o odiava por ser tão inflexível e realista, por se recusar a entrar em seu mundo
de faz-de-conta, mesmo que por alguns momentos. ― É mais importante para você do
que eu sou? ― Ela perguntou, mas sua mão subiu para cobrir a boca novamente, antes
que ele pudesse responder. ― O que é uma coisa estúpida para se perguntar. Esqueça o
que eu disse isso. Claro que é aqui onde você pertence. Eu gostaria muito menos de você,
se pudesse dar mais valor à riqueza e conforto, que ao amor. Então é claro que devemos
nos separar quando chegarmos a Torres Vedras. Isso é um fato da vida. Quanto tempo
vai demorar? Uma semana? Duas? Vamos tornar essas as mais maravilhosas semanas de
nossas vidas, devemos, Robert?
― Sim, ― disse ele.
― Recuando com um exército, ― ela explicou, ― e dormir e fazer amor em uma
tenda a cada noite. Não soaria muito parecido com o céu a qualquer um que não você ou
eu, não é?
― Vamos as tornar o céu, ― disse ele. ― Por que você usa perfumes normalmente?
Você tem um cheiro maravilhoso e só seu.
Ela riu. ― Eu acredito que haveria um espaço vazio significativo à minha volta, se
eu aparecesse em um salão de baile de Lisboa cheirando assim ― disse ela. ― E odeio
isso. Podemos fazer amor novamente, Robert? Será que nós acordamos todos?
― Se tivermos apenas duas semanas pela frente, ou talvez, não muito tempo ― ele
disse, ― Eu acho que é melhor aperfeiçoar a arte de fazer amor sem despertar todo o
acampamento. Venha em cima de mim.
― Eu prometo não gritar, ― disse ela, se levantando, cuidadosamente, montando
nele, abraçando seus quadris com os joelhos, o segurando em seus ombros, enquanto ele
a preenchia e ela sentia o início do prazer, mesmo sem a excitação total.
E ela começou a memorizar a sensação de quadris quentes e esguios contra suas
coxas, a sensação de mãos fortes espalhadas em seus quadris, a segurando firme a cada
uma das suas investidas para cima, a sensação dele dentro dela, longo e duro, envolto em
sua própria umidade e maciez, a sensação de seus ombros musculosos sob suas mãos. Ela
trouxe o tronco para baixo sobre ele, sentindo sua camisa e peito musculoso sob os seios.
E ela procurou sua boca, abrindo a sua própria e se encaixando na dele, sentindo o
familiar pulso de sua língua.
Ela começou a o memorizar e sabia que estava destruindo assim algum outro
prazer. Amar não era algo que poderia ser calculado e acumulado. Era para ser apreciado
no aqui e agora. Não poderia ser guardado para o futuro prazer ou dor.
Ela queria morrer, de repente, pensou, e o absurdo do desejo a atingiu. Ela queria
morrer enquanto ainda estava com ele. Ela queria morrer agora, enquanto seus braços
estavam sobre ela e ele estava murmurando bobagens doces em sua boca e, enquanto
seus corpos ainda estavam unidos e eles estavam prestes a relaxar, saciados, um no outro.
― Robert ― ela sussurrou, ― Eu gostaria de poder morrer. Agora. Eu gostaria de
poder morrer agora.
― Nós ainda temos mais de uma semana ― disse ele. ― Talvez duas. Uma
eternidade, Joana. Agora é tudo o que tem, e talvez na próxima semana ou duas. Se
aprende isso muito rápido como soldado. Um dia, uma semana, é um precioso tempo de
vida inteira.
― Mas eu não sou um soldado, ― disse ela. ― Ah. ― Descansou a testa contra seu
ombro e fechou os olhos. ― Isso é maravilhoso. Oh, sim, Robert. Ah sim.
Ele levantou a cabeça e cobriu a boca com a sua para que ela não gritasse Mas não
o teria feito. Não foi êxtase que ela sentiu, quando ele a puxou com força para cima dele e
a segurou, enquanto ela percebeu o jorro quente de sua liberação. Foi apenas a força
silenciosa do amor e união, muito mais poderoso do que, até mesmo, a mais selvagem
paixão física.
Ela virou a cabeça no ombro dele e sabia que eles iriam dormir novamente, pelo
curto resto da noite. Mas estava memorizando de novo, e não havia tristeza misturada
com o relaxamento sonolento e a sensação de bem-estar físico.
― Robert ― disse ela, ― Eu sempre o vou amar. Quando você estiver com oitenta
e dois anos de idade, saberá que há uma mulher de oitenta anos, em algum lugar, que o
ama. Não é um pensamento agradável para se manter pelos próximos cinquenta anos ou
algo assim?
― Você, provavelmente, ainda terá uma corte de admiradores, ― disse ele, ― e não
vai estar interessada em saber que há também um homem de oitenta e dois anos de idade,
que a ama.
Ela suspirou. ― Eu poderia dormir por uma semana, ― disse ela. ― Estou tão
cansada.
― Durma, então, ― disse ele. ― Mas não por uma semana inteira, por favor, Joana.
Ela se viu perguntando, já que ambos caíam no sono de novo, por que o tempo
não poderia apenas ser interrompido. Se alguém estava aproveitando um momento único,
por que não o tornar para sempre, eterno? A vida era um negócio estúpido, pensou. Ela
poderia ter feito muito melhor se tivesse sido Deus.

***

O Marechal Massena aprendeu a lição rapidamente. Ele tinha subestimado o


tamanho e a força dos exércitos aliados e os tinha atacado de uma posição que lhes deu
todas as vantagens. Ele não iria atacar novamente. Em vez disso, procurou outra forma
de passar ao coração de Portugal. E ele achou nas montanhas da Serra do Caramulo para
o norte, onde uma trilha rústica levava à planície costeira alguns quilômetros ao norte de
Coimbra.
Lorde Wellington sabia da pista e tinha enviado ordens para a milícia portuguesa a
defender. Mas eles não estiveram à altura da tarefa de reter um exército inteiro em
movimento. Os franceses entraram, inexoravelmente, em Portugal.
E assim as forças aliadas começaram a retirada inevitável aos resmungos e queixas
de quem tinha achado sua vitória mais decisiva do que fora. O exército sentiu a derrota e
o desespero enquanto marchava ao sul, através do cume do Bussaco e para baixo, para a
estrada principal de Coimbra. Eles se sentiram traídos por um comandante que estava
arrebatando a derrota das garras da vitória.
A retirada começou na noite de vinte e oito de setembro, no dia seguinte à batalha.
A maioria do exército partiu, deixando para trás uma guarda e muitos fogos ardentes, para
que os franceses remanescentes não soubessem que eles tinham ido. Marcharam para o
oeste a Coimbra, e ao sul, finalmente, na estrada para Lisboa.
Milagrosamente, as chuvas de outono vieram. Ou talvez, não fosse um bom
milagre, porque as chuvas, sem dúvida, lhes abrandaram o coração, mas fizeram de sua
marcha um negócio aborrecido, muito pior para os franceses, que estavam seguindo por
uma rota mais dura e mais difícil.
Os atiradores faziam parte da retaguarda, criticando os poucos franceses que
seguiam em seus calcanhares, esperando sempre pelo corpo principal do exército para os
alcançar. Mas, as marchas forçadas não permitiram tal desastre.
Os habitantes de Coimbra, que tinham em grande parte ignorado as ordens de
seguir a política de terra arrasada de Wellington, perceberam tarde demais o perigo em
que estavam sendo colocados, e logo estavam fugindo ao longo da estrada para o sul à
frente do exército, carregados com os bens que poderiam salvar, enquanto suas posses
restantes tiveram que ser deixadas para trás e saqueadas, possivelmente queimadas. Era
essencial que os franceses continuassem a sentir o efeito completo de sua penetração em
um deserto virtual.
A Divisão Ligeira estava entre os últimos a deixar a antiga cidade universitária,
muito da qual estava queimando. E foi lá que Joana encontrou seu meio-irmão
novamente. Ele tinha vindo ali deliberadamente, disse ele, para a encontrar, para ver se
estava segura. Carlota estava com o bebê nas colinas, explicou, muito contra sua ideia.
― Mas ela viu a sabedoria de não trazer o bebê aqui, ― disse ele, com um sorriso.
― E onde Miguel está, Carlota tem que estar também, pelo menos nos próximos meses,
ela goste ou não.
Ele abraçou Joana e apertou a mão do capitão Blake, com tapinhas nas costas.
― Eu ouvi sobre a batalha, ― disse ele. ― demônios de sorte. O que eu não teria
dado para estar lá. Você tinha que ficar perto, Joana? Não poderia ser persuadida a voltar
em segurança?
― Voltar para a segurança? ― Capitão Blake disse com desdém. ― Joana? Ela
realmente veio para o grosso dos combates. As balas não a poderiam matar, mas quando
a vi acenando meu rifle, quase o fiz. ― E passou um braço sobre os ombros dela.
Duarte feriu a testa com a palma da sua mão. ― Minha irmã e minha mulher, ―
disse ele. ― São as duas de um só tipo.
― Duarte ― ela disse, ― Eu tinha que ir para a batalha. Eu tive que o matar.
― Ele? ― Ele olhou para ela, a princípio sem expressão e, em seguida, com os
olhos se arregalando, gradualmente.
― Eu o reconheci em Salamanca, ― disse ela. ― Foi o coronel Marcel Leroux,
aquele que disse que iria matar, o que eu implorei para vir atrás de mim. Eu tive que o
matar, Duarte, e o fiz, com o rifle de Robert. Nunca disparei um rifle antes, mas eu sabia
que não iria perder. Não podia perder. Ele era meu.
― Joana ― ele sussurrou, e toda a vitalidade despreocupada tinha ido de seu rosto.
― Oh, meu Deus, eu poderia ter perdido você, também. Por que não me disse, louca? Era
meu trabalho o fazer, não o seu.
E ele a puxou do braço do capitão Blake e a abraçou.
― Ele está morto, ― ela disse, e eles podem descansar em paz. Eles podem
finalmente, estar em paz. Eu o matei, Duarte.
Capitão Blake se virou, com tato, e viu um aceno do sargento, confirmando que
todos os edifícios nesta rua em particular, tinham sido verificados e encontrados vazios
de comida e outros suprimentos. Irmão e irmã choraram nos braços um do outro às suas
costas.
― Então, você está a caminho de Lisboa? ― Duarte perguntou a Joana, quando
finalmente se separaram.
― Sim. ― Ela sorriu para ele.
― Eu espero que você esteja segura, lá ― ele desejou. ― Espero que o Visconde
Wellington planeje fazer uma outra posição em algum lugar entre aqui e lá. E você,
capitão?
― Não é tão longe como Lisboa, ― disse o capitão Blake. ― Eu vou ser uma parte
do que você está falando.
― Ah. ― Duarte olhou do capitão para sua meia-irmã. ― Joana finalmente o
convenceu de toda a verdade sobre ela, suponho? Mas, o destino e as circunstâncias estão
a ponto de os levar em direções diferentes. Bem, essa é a maneira do mundo, ou deste
mundo particular em que estamos vivendo. É melhor eu ir. Só queria ver se Joana estava
segura.
Ele a abraçou de novo e cumprimentou o capitão Blake pela mão, olhou mais uma
vez de um para o outro, e encolheu os ombros.
― Vou ver ― disse ele. ― Vocês dois. Juntos, talvez. Talvez, separadamente. Eu
não vou estar feliz até que esta guerra sangrenta esteja no fim e os franceses de volta ao
país onde pertencem, e as nossas vidas de volta ao normal. Não gosto do que a guerra
está fazendo para nossas vidas. Mas chega disso. ― Ele sorriu. ― Vão embora, ou vocês
terão uma grande escolta francesa.
Eles continuaram, a caminho do sul com a Divisão Ligeira.
As chuvas caíram até 7 de Outubro, o último dia da marcha para o grosso do
exército, e depois, vieram abaixo furiosas, atacando a longa fila de refugiados e ainda
maior, a linha de soldados cansados, esfarrapados e miseráveis como eles, se arrastando
pela lama, que batia nos joelhos, em alguns lugares. E os franceses se aproximando, cada
vez mais perto, sua cavalaria, por vezes, dentro da vista da Divisão Ligeira, enquanto
cavalgavam para as colinas, para a esquerda e para a direita da estrada.
Os homens se arrastaram para a frente, esperando ignominiosa derrota.
E então o exército aliado atingiu Torres Vedras, e as linhas estavam lá nas
montanhas para os cumprimentar, um dos segredos mais bem guardados na história
militar, e um que não era, mesmo assim, imediatamente óbvio para o olho. Todo o
atravessar da montanha tinha sido barrado, todas as estradas feitas intransitáveis para um
inimigo. Armas escondidas atrás de terraplenagem, em lugares criados em torres antigas e
castelos, e em redutos, apontando para baixo, daquelas alturas. Trincheiras tinham sido
escavadas, córregos represados para formar pântanos, casas e florestas devastadas para
impedir esconderijos para um inimigo se aproximando, encostas suavizadas em escarpas,
ou explodidas em precipícios, e a história continuava.
As defesas se estendiam desde o mar, a oeste com o rio Tejo, no leste, três linhas
concêntricas sólidas. E a marinha britânica estava de guarda no mar e no rio.
Foi só quando os regimentos foram atendidos na estrada e direcionados para as
suas novas mensagens que começaram a perceber o que tinha estado esperando por eles,
e o que estaria à espera do inimigo, logo atrás, em seus calcanhares. Foi só então, que a
euforia começou a substituir a mais profunda depressão.
E foi daí, quando os franceses subiram, encharcados e miseráveis pelas chuvas;
pela fome, com a falta de alimentos e longe de suas próprias linhas de fornecimento, com
os cortes e retirada dos comboios de abastecimento pelos ferozes Ordenanza nas
montanhas; totalmente impedidos de um avanço para a frente, que Massena percebeu,
finalmente, como tinha estado enganado, como seus assessores tinham feito a suposição
errada e lhe dado o conselho errado. E, foi só então, que alguns homens perceberam de
que lado do conflito a Marquesa das Minas realmente estava.
Tudo o que Massena podia fazer era organizar seus homens para um longo cerco e,
esperar que algo mais acontecesse a seu favor.

***

A Divisão Ligeira chegou em Torres Vedras, encharcada, enlameada, miserável e


ainda não estava em um lugar onde pudesse descansar. Eles estavam em marcha para o
sul e leste, para sua posição na Arruda, não muito longe do rio Tejo. Podiam descansar
por apenas algumas horas, antes de retomar a sua marcha.
― Bem ― disse Joana, sorrindo para o capitão Blake, ― isso realmente não
importa, não é, Robert? Eu não acredito que nós possamos ficar mais molhados ou
lamacentos. Que diferença mais algumas milhas vão fazer?
Mas ele estava em uma depressão profunda. Apesar de ter sido o único de seus
homens a saber sobre as linhas, a saber que eles estavam marchando em segurança, ele
tinha sido incapaz de sentir a alegria que deveria estar sentindo. Estava molhado, sujo e
cansado. Não que essas condições significassem alguma coisa. Estava acostumado a
desconfortos físicos.
Não, seu humor não tinha nada a ver com as condições. Tinha tudo a ver com a
chegada em Torres Vedras, um destino que o soldado tinha ansiado e que o homem nele
tinha temido. Torres Vedras representava a extremidade do céu, o fim de tudo o que ele
tinha estado vivendo.
Ele não acreditava que teria coragem de o dizer, até que foi dito. Ela ainda estava
sorrindo para ele com tristeza, mas com sua habitual coragem indomável. ― Você não irá
mais longe, Joana, ― ele disse calmamente, a segurando pelo braço e a levando para longe
de sua companhia, após acenar para o tenente Reid, para que assumisse por ele, por um
tempo.
― O quê? ― Havia medo, compreensão e negação, em seu olhar. ― Eu estou indo
com você para Arruda, Robert.
― Não. ― Ele não olhou para ela deliberadamente, mas para a rua à frente deles, ao
longo da qual a estava guiando. ― Você tem amigos aqui. E na estrada para Lisboa. Você
deve ir, Joana. Este é o lugar onde nossos caminhos devem se separar.
― Não. ― Ela empurrou o braço dele e se virou para o encarar. ― Não gosto disso,
Robert. Eu irei com vocês, passaremos mais algumas noites juntos, e verei onde é que
vocês estarão estacionados para o inverno. Eu quero ser capaz de imaginar em minha
mente. Eu o vou deixar no meu próprio tempo. Em breve.
― A hora é agora, ― disse ele, lhe tomando o braço novamente, caminhando
resoluto com ela.
― Não. Pare com isso. ― Ela empurrou o braço dele novamente, mas ele manteve
o seu firme controle sobre ela. Ela chutou sua canela para que ele parasse. ― Como
podemos dizer adeus agora, sem qualquer preparação, qualquer privacidade? Você está
planejando se despedir na rua? ― Ela o olhou descontrolada, e ele soube que ela
percebeu, que ele a estava levando para a casa de seus amigos.
― Não vai ser mais fácil em outro momento, ou em outro lugar, ― disse ele. ― É
melhor agora, Joana. Uma ruptura limpa. Vá para seus amigos e me esqueça. Vá para
Lisboa e se case com seu coronel.
― Imbecil. Bárbaro. Bastardo! ― Ela sussurrou para ele, quando aumentou o ritmo
dos passos ao longo da rua. Ela tinha tido a metade do prazo para se manter com ele. ―
Robert, não faça isso. Oh, por favor, não faça isso. Eu não estou pronta. ― Finalmente
houve pânico na voz dela.
― Será que você alguma vez estará? ― Perguntou ele. ― Se tivéssemos uma noite
para passar juntos, sabendo que o final seria amanhã, você seria capaz de desfrutar a
noite? Você estaria pronta para dizer adeus amanhã?
― Não agora, ― disse ela. ― Hoje, não. Oh, não hoje, Robert.
― Hoje e agora, ― disse, e ele podia ouvir a aspereza de sua voz, mas não a
conseguiu amaciar sem ceder ao seu próprio pânico. Eles tinham virado uma esquina e ele
podia ver a parede caiada que cercava a casa de seus amigos no final da rua. ― É melhor
assim, Joana.
― Me deixe ir. ― Sua voz era fria, de repente, e ela parou de lutar. Ele lhe soltou o
braço e parou de andar quando ela parou.
― Muito bem, então, ― ela disse, seu rosto estava sem expressão e sua voz
inexpressiva. Seu cabelo estava grudado no rosto e seu vestido, no seu corpo, mas ela
ergueu o queixo e pareceu repentinamente régia. ― Se eu significo tão pouco para você,
Robert, não deve mesmo se incomodar de me acompanhar todo o caminho. Eu estarei
bastante segura, obrigada. Vou dizer adeus.
Ele pensava ter todo o comprimento da rua pela frente. Ele tinha imaginado que
iria se permitir a indulgência de a levar, mais uma vez, em seus braços, até a porta da casa
de seus amigos, e de a beijar mais uma vez.
Isto foi muito repentino, muito cruel.
― Adeus, Joana ― disse ele, e ainda foi a mesma voz áspera que ouviu.
Ela se virou e se afastou pela rua, sem pressa e sem olhar para trás. Ele a observou,
até que ela desapareceu no pátio, depois da parede branca.
E então, ele continuou a observar a rua vazia, alguns pingos da chuva escorrendo
pelo rosto quente e salgado.
Não poderia ser mais, pensou. Não é assim, de repente. Não sem algum final
definido e um clímax. Não dessa forma. Não poderia ser assim.
Mas era.
Capítulo 29
Joana não saiu de Torres Vedras para Lisboa, mesmo quando seus amigos, os
donos da casa em que ela ficou, o fizeram por razões de segurança. Ela ficou em casa
sozinha com os criados.
Não que estar sozinho significasse solidão. Ela não estava sozinha. Era a Marquesa
das Minas novamente. Matilda tinha tido a presença de espírito de deixar um baú cheio de
suas roupas e outros bens na casa, e ela estava participando de entretenimentos em
abundância. Sua corte de admiradores era tão grande como sempre tinha sido, e ela
brilhava entre eles como nunca antes.
E ainda assim, estava sozinha para tudo isso. Ele tinha ido embora, e com toda a
probabilidade, nunca mais o veria. Na verdade, ela esperava que não, porque não poderia
haver futuro para eles, e a dor de vê-lo seria muito grande. E ainda assim ansiava por um
vislumbre dele, esperava, contra toda a esperança, que ele fosse enviado para Torres
Vedras em alguma missão.
Ela não o tinha perdoado pela separação abrupta. Ela podia entender por que ele
tinha feito isso, poderia até mesmo admitir, que talvez, tivesse sido uma boa ideia. Mas ela
não o poderia perdoar. Uma relação como a deles, uma vez que tinha que acabar,
precisava de um fim definido, por mais doloroso que fosse. Teria sido uma agonia, se ele
tivesse apontado, de passar uma última noite com ele, sabendo que na parte da manhã ela
iria embora, para nunca mais voltar. Mas teria sido uma agonia necessária. Era algo que
ela precisava para se lembrar. E ainda assim, nunca tinha acontecido. O vazio era muito
mais difícil de suportar do que a agonia teria sido.
Mas Joana não iria ficar deprimida, mesmo que por um momento. Até o instante
em que chegara à casa de seus amigos, com pingos de chuva e suja de lama,
indescritivelmente esfarrapada e pobre, ela já estava novamente alegre e tinha recebido
seu choque com o riso.
Não parou de sorrir e rir nos dias seguintes, em público. A terrível depressão que
tocou o desespero, apenas foi dando rédea na privacidade de seus próprios quartos. Mas
mesmo lá, ela não permitiria lágrimas. Não deveria haver sinais indicadores, como os
olhos inchados ou avermelhados, que outros pudessem perceber.
Mas, oh, ela sentia falta dele. Deus, ela sentia falta dele.
E então, Lorde Wellington decidiu acolher um grande jantar com baile e ceia em
Mafra, em honra de Lorde Beresford, que estava recebendo A Honorabilissima Ordem do
Banhoxx. Vários oficiais de Torres Vedras, do conhecimento de Joana, iam participar, e
vários outros, que estavam vindo de Lisboa. Era totalmente possível, pensou, que o
coronel Lorde Wyman fosse um deles.
Seria bom o ver novamente. Seria ótimo tocar a realidade novamente, e colocar os
sonhos, permanentemente, para trás dela. E não era uma desagradável realidade. Ela
gostava de Duncan. O casamento com ele, a vida com ele, seria uma boa experiência.
Joana aceitou o convite. E sorriu um pouco triste, com o pensamento de Robert, a
muitos quilômetros de distância, em Arruda. Pensou em sua aversão a eventos reluzentes,
como a festa em Mafra era suscetível de ser. E ela não se permitiu, sequer, um vislumbre
de esperança.
Pelo menos, não o fez com sua mente. O coração não pode ser condenado por não
fazer o que a mente sabe ser sensato.

***
― Você não vai? ― O tenente Reid olhou para seu oficial superior com
incredulidade. ― Não está mais no caminho de uma ordem do que de um convite,
senhor?
― Não vai? ― Disse o capitão Rowlandson. ― Você é o único condenado oficial
em todo o regimento a ser convidado, Bob, exceto o próprio general, e você dá de
ombros casualmente, e diz que não está indo?
― Eu não vou ser desperdiçado ― disse o capitão Blake. ― Eu não acho que o
Beau vá notar pessoalmente minha ausência, e ser perturbado por ela. Eu só fui
convidado porque fui capaz de lhe fazer um pequeno favor .
― Um pequeno favor, como ter ido para Salamanca, se permitindo ser preso lá,
para que você pudesse atrair os franceses para essa armadilha com informações falsas, ―
disse o capitão Rowlandson. ― Não ache que os detalhes tenham permanecido em
segredo, Bob. Você é um herói maldito homem, mas tem medo de mostrar o nariz em
público.
― O medo não tem nada a ver com isso, ― o capitão Blake disse impacientemente.
― Vá, ― disse o capitão Rowlandson. ― Dê a seus homens uma pausa, Bob. Você
lhes está latindo e os perfurando com ordens, desde que chegamos atrás destas linhas
condenadas.
― Isso não é verdade. ― A cabeça do capitão Blake negou, mas seu amigo apenas
consentiu com a dele. Ele olhou para o tenente Reid. ― É, Peter?
― Os homens não se importam ― disse o tenente, ― porque sabem que você
sempre cuida deles quando há perigo. Além disso, todos eles entendem que está
perdendo a senhora, se não se importa que eu diga, senhor.
― Eu tenho muito o que fazer em minha mente. ― Capitão Blake estava de pé, sua
cadeira caiu atrás dele, seus punhos nos lados. ― Eu sou um maldito soldado, tenente,
não um mulherengo de sangue.
― Bob, ― O capitão Rowlandson disse com firmeza, ― vá para a baile. E quando
voltar, quebre os nossos corações com os detalhes. A vida vai ser aborrecida se ficarmos
aqui para o inverno. Se poderia pensar, que pelo menos Massena tentasse fazer um
ataque, não é, pelo amor puro ao orgulho? Mas para além do que uma corrida em Sobral
não houve nada. Absolutamente nada. Vá para o baile, homem.
Capitão Blake suspirou. ― Desculpe, Peter ― disse ele. ― Eu não sei o que deu em
mim, ultimamente. Esta chuva maldita, eu acho. Tudo bem, então. Eu vou escovar meu
casaco, lavar uma camisa, polir minhas botas, cortar meu cabelo e deslumbrar a elite com
o meu esplendor. E vou até dançar, droga. Estão satisfeitos agora, vocês dois?
Seus dois amigos trocaram sorrisos. ― Um diabo feliz, quando ele é o convidado
para uma festa, não é? ― Disse o capitão Rowlandson. ― Não é possível conter a
emoção.
Capitão Blake jurou e seus amigos riram abertamente.
Um baile e ceia. Era tudo o que precisava. Tais entretenimentos poderiam enviar
seus espíritos para uma queda livre, mesmo quando eles não estavam em suas botas, para
começar. Pensou nos dois últimos bailes que tinha assistido, um em Lisboa e outro em
Viseu. E tentou bloquear sua mente.
Não, ele não se lembraria. E, no entanto, como poderia não o fazer? Joana,
brilhando em um bonito vestido branco puro. Joana, a mesma mulher que tinha se
arrastado pelas colinas com ele, e suportou todas as dificuldades da viagem, sem queixa, e
com bom humor inabalável e alto astral. Joana, a mulher que tinha sido sua amante. Não,
ele não se lembraria.
Ele se perguntou se ela ainda estava em Lisboa ou se Wyman já a tinha enviado
para a Inglaterra. Eles estavam noivos? Eles tinha se casado rapidamente, talvez antes de
sua partida? Não pensaria nisso.
Ele iria para a baile em Mafra. Talvez fosse a melhor coisa para ele. E iria dançar
também. Sem dúvida haveria algumas belezas portuguesas lá. Ele iria dançar e talvez
flertar. E iria encontrar uma mulher em Mafra com quem dormir. Talvez algum de seus
demônios fosse banido, se ele pudesse apenas ter sua vida de volta ao normal novamente,
para a maneira como viveu nos onze anos do seu serviço no exército.
Ele tinha dito a Joana que a iria amar por toda a sua vida e acreditava que tinha
falado a pura verdade. Mas, não iria ansiar por ela. Não ia arruinar sua vida e tornar a vida
dos homens sob o seu comando infernal, por um amor impossível. Ela estava em seu
passado. Mas, ele tinha um presente para viver, e talvez um futuro também.

***

Foi uma maravilhosa, brilhante ocasião. Quase todo mundo que era alguém estava
no jantar e baile de Lorde Wellington. Todos os oficiais usavam seus mais esplêndidos
uniformes de gala, fazendo com que os nobres portugueses, que não estavam no exército,
parecessem, em contraste, bastante monótonos. As senhoras tinham usado suas cores
mais bonitas e suas jóias mais brilhantes, para não ser ofuscadas pelos oficiais. Apenas
Joana usava branco puro.
Ele a viu quando ela entrou no salão de baile após o jantar, para ver que outros
hóspedes tinham vindo, convidados apenas para o baile e a ceia. Estava determinada a se
divertir. Era difícil de acreditar que ela era a mesma pessoa que tinha recuado pelas
colinas de Portugal como Joana Ribeiro. Ela era irrevogavelmente a Marquesa das Minas
novamente.
― Você vai ter que esperar sua vez, Jack, ― ela disse, batendo no braço do major
Hanbridge com seu leque. ― Duncan reivindicou a primeira dança. E não, eu não vou
prometer a próxima. Você sabe que eu nunca prometo danças com antecedência.
― E assim, Joana ― , o major lhe disse com um suspiro: ― Devo participar de uma
corrida quando este conjunto terminar, e, sem dúvida ser superado por algum jovem
tenente, ainda molhado atrás das orelhas.
Joana sorriu deslumbrantemente para ele. E ela percebeu que o muito tímido
capitão Levens a estava olhando com adoração, como se tivesse medo de abrir a boca e
dela rir de tudo o que dissesse.
― Colin ― ela disse, sorrindo docemente para ele ― você seria tão bom e ter uma
limonada esperando por mim no final deste conjunto? Está tão quente no salão de baile.
Os olhos do jovem tenente se iluminaram quando ele fez sua reverência, cortês.
― Vem, Joana ― disse o coronel Lorde Wyman, estendendo o braço para sua mão
― os conjuntos estão se formando. ― Ela sorriu para ele. Ele tinha chegado a Mafra na
tarde anterior e a tinha chamado. Lhe iria pedir novamente, durante a noite. Ela sabia, tão
certo como soubera alguma coisa em sua vida. E ela o iria aceitar, em seguida, seu futuro
estaria assegurado e seu presente seria completo e o passado seria jogado fora de sua
consciência.
Ela iria para a Inglaterra e seria uma senhora inglesa. Era o que sempre quisera. ―
Arthur, não vai dançar? ― Perguntou ela. O anfitrião tinha entrado no salão com uma
grande sequência de oficiais superiores, britânicos e portugueses, e alguns importantes
civis portugueses. Eles estavam todos de pé, em um grande grupo, em uma extremidade
do salão, mas não mostravam nenhum sinal de se unir aos conjuntos formados.
― Joana, ― Lorde Wyman disse, ― quando eu a vi esta tarde, você foi muito
reservada sobre o que fez, desde que a vi pela última vez, em Lisboa. Mas tenho ouvido
coisas estranhas, desde que a visitei. Alguma delas é verdade?
Ela encolheu os ombros e sorriu para ele. ― Como eu poderia saber, se não sei o
que você está ouvindo? ― Disse ela. ― Mas eu diria que a maioria delas não são. Se ouve
coisas estranhas nestes tempos.
― Você esteve em perigo? ― Ele perguntou com uma careta. ― Lorde Wellington
ou alguém em posição de autoridade deveria ter insistido em ter você escoltada de volta a
Lisboa, logo que os franceses começaram a invadir. Eu deveria ter vindo para a buscar.
Me culpo por não o ter feito.
― Esse é o problema com os homens, ― disse ela. ― Eles sempre pensam em
proteger as mulheres, as proteger de toda a diversão que está acontecendo.
― A guerra não é divertida, Joana, ― disse ele. ― É um negócio de vida ou morte.
Você não deve mesmo estar mais próxima que isto.
Ela sorriu para ele. ― Mas eu tenho quem me proteja, Duncan, ― disse ela. ― Eu
sei que se uma companhia de franceses desesperados entrasse neste salão de baile esta
noite, você me protegeria com sua própria vida. Não é assim?
― É claro, ― disse ele. ― Mas, mesmo assim, pode não ser suficiente, Joana.
― Então eu deveria roubar uma de suas armas, espadas ou punhal, e me defender,
― disse ela.
― Joana ― ele falou, com os olhos intensos sobre os dela, ― você precisa de
proteção. Eu não posso suportar a ideia de que esteja em perigo. Quero você longe.
Permanentemente. A quero na Inglaterra, na minha própria casa, com minha mãe e
minhas irmãs. Eu quero saber que está segura lá. Você sabe do que estou falando, não é?
― A música estava começando. ― Como posso? ― Ela respondeu, se movendo com os
passos da dança. ― Você deve colocar em palavras o que quer dizer, Duncan, ou talvez
eu entenda mal.
Não era o tipo de dança para tal conversa, uma vez que os passos os separavam
com frequência. Mas Joana não estava irritada. Pelo contrário. A declaração certamente
viria, e, entretanto, ela podia saborear a certeza de que tudo o que tinha sonhado estava
prestes a acontecer. E se ver Duncan novamente, não trouxe a onda de alegria que ela
esperava, e se a perspectiva de viver na Inglaterra, em sua casa, com sua família, não
trouxe nenhuma grande elevação dos espíritos, ela teria paciência consigo mesma. A vida
não poderia ser sempre tão descontroladamente emocionante, como tinha sido apenas há
um curto tempo. Ela deveria ter paciência.
Lorde Wellington ainda estava com o seu grupo de dignitários e oficiais em um
lado do salão, ela viu, a olhando enquanto dançava, mas se voltaram para assistir a dança.
E ao fazer isso, tinham revelado a figura do homem com quem haviam, aparentemente,
estado falando.
Um oficial alto e musculoso, vestido com um uniforme verde liso e um pouco
gasto, mas cuidadosamente escovado, seu rosto bronzeado, o cabelo loiro cortado rente,
porque ele teve que o cortar novamente. A figura rígida e séria de um homem que parecia
desconfortável, talvez com o vislumbre do baile, talvez apenas com a atenção que a sua
presença tinha atraído. Ele estava em pé, onde normalmente era de conhecimento
público, o canto mais sombrio. Mas ele não tinha escapado à atenção. Longe disso.
Joana perdeu um passo na dança e olhou em volta, confusa por um momento, sem
saber mesmo qual dança estava sendo executada. Mas, se recuperou instantaneamente.
Seus olhos se tinham encontrado. Ela sabia, embora não o olhasse. Ele a tinha visto, e ela
não lhe daria a satisfação de ver que sua presença a tinha desconcertado. Nunca.
O capitão Blake tinha acabado de pensar que nunca se sentira mais desconfortável
em sua vida. Todo o dia, tinha estado lamentando sua decisão de vir a Mafra para assistir
ao baile. E quando chegou, agira por instinto e fora para o canto do salão onde era menos
provável ser notado. Ele tinha feito uma careta, para todos os outros convidados
esplendidamente vestidos, esperando que tal expressão escondesse seu desconforto.
Mas tinha sido pior do que ele esperava. Mil vezes pior. Mais cedo, Lorde
Wellington entrou no salão de baile, juntamente com o seu grande número de seguidores
da elite, e o procurou para atender ― o herói de Salamanca.
Robert se inclinou e respondeu às perguntas, e se curvou e respondeu às perguntas,
e sentiu seu próprio laço apertar seu estômago em nós. Ansiava por um campo de
batalha, uma espada na mão e um rifle no ombro, e todo o exército francês atrás dele. Ele
teria se sentido muito mais confortável.
Finalmente, graças a Deus, a música começou, e seus interlocutores se viraram para
assistir à dança. Ele esperava que, em breve, eles também fugissem para longe, o deixando
livre para derreter no esquecimento pelo que restava da noite. Ele tinha mudado de ideia
sobre a dança. Além disso, havia muito mais homens do que senhoras presentes. Não
haveria ninguém para dançar.
E então seus olhos foram atraídos, como por um ímã, para um ponto particular na
pista de dança, um ponto branco no meio das inumeráveis cores. E lá estava ela. Foi
como um retrocesso no tempo. Ela parecia tão bonita, e tão cara, e tão remota, como
parecia pela primeira vez, em Lisboa. Ela era a Marquesa das Minas de novo, não Joana.
E ele se viu a odiando novamente, mesmo quando seu estômago deu uma cambalhota
com o choque de a ver, quando ele tinha imaginado que ela já estava na Inglaterra.
Ele odiava porque ela era a Marquesa e ele era apenas o capitão Robert Blake, um
soldado que se tinha levantado através das fileiras para se tornar um oficial, embora nunca
fosse capaz de ser um cavalheiro. Porque enquanto vivesse seria um bastardo, filho de um
Marquês, mas não de uma Marquesa. Ele a odiava porque a queria em Lisboa, e porque
ela era tão inatingível como se estivesse lá. E ele a odiava por ter voltado de Lisboa, em
vez de ficar onde ele nunca a poderia ver novamente. E ele a odiava porque ela sorria e
parecia feliz, e porque seu companheiro era o coronel Lorde Wyman. E porque ela o
tinha visto, mas seus olhos tinham se desviado novamente, ainda quando apanhou os
seus a olhando.
Ele apertou as mãos firmemente em suas costas, apertou os dentes e soube que
não teria a força de vontade necessária para apenas se virar e deixar o salão de baile e o
edifício. Ele sabia que iria ficar, e a ver e se torturar.
E ele sabia que seu sofrimento tinha passado para uma nova fase, que agora estava
olhando para o terror do desespero. Por que ela não podia parecer tão bonita, tão bela e
tão feliz, e o amar. A ideia era absurda. Ele tinha caído preso por seus encantos, afinal, e
esquecera que Joana vivia para conquistar corações masculinos. Ele tinha acreditado que
ela o amava de verdade, até poucos momentos antes. Mas não podia ser. Como ela o
poderia amar? O desespero se tornou um endurecimento e uma dor no peito.

***

Duncan tinha lhe perguntado. Ele a tinha levado para passear no longo corredor
além do salão de baile, e tinha feito uma oferta formal.
― É o que eu sempre desejei, ― ela disse a ele. ― O casamento com um Lorde
inglês e uma casa na Inglaterra. Inglaterra é o lugar onde eu cresci, você sabe.
Ele apertou a mão dela que estava em seu braço. ― A resposta é sim, então? ―
Perguntou. ― Você vai me fazer o mais feliz dos homens, Joana?
Ela olhou para o rosto dele e franziu a testa. ― Eu vou? ― Disse ela. ― Eu estaria
me fazendo feliz se casasse com você, Duncan, pelo menos acho que estaria. Mas iria
fazer você feliz? É importante no casamento, não é, que cada um de nós faça o outro
feliz?
― Joana ― disse ele, ― só o seu consentimento já vai me deixar em êxtase.
― Oh, não, Duncan, ― disse ela. ― Há muito mais no casamento do que isso.
Anos e anos de estar juntos, e a novidade e o vislumbre já terão ido. Eu não sei como
posso te fazer feliz. ― Ela respirou fundo, e disse o que não tinha planejado ou esperado
dizer. ― Tem havido outra pessoa, você sabe.
― O seu marido ― disse ele, batendo na mão dela. ― Eu entendo, Joana.
― Luís? ― Ela fez uma careta. ― Eu odiava Luís. Não, alguém, Duncan. Alguém
mais recentemente.
Ele se retesou só um pouco. ― Você tem muitos admiradores, Joana, ― disse ele.
― Eu posso entender que, às vezes, um flerte leve a algo um pouco mais sério. Mas não
deve se preocupar com isso. Você tem um bom coração.
― Quer dizer que não se preocuparia com isso quando nos casarmos? ―
Perguntou ela. ― Você deve, Duncan. Eu certamente não vou tolerar, até mesmo um
pequeno flerte em você, em direção a outra senhora. ― Ela lambeu os lábios. ― Eu o
amava.
― E você? ― Ela poderia dizer que por alguma razão ele não queria discutir o
assunto.
― Não ― disse ela. ― Eu usei o tempo errado, Duncan. Eu o amo. Mas eu não
posso me casar com ele. Pensei em me casar com você e viver no tipo de felicidade que
sempre quis. Mas acho que não posso me casar com você, sem que você saiba.
― Você vai se casar comigo, então ― , ele perguntou: ― agora que me disse? O
passado será o passado, Joana. Eu não estou interessado nele.
Ela suspirou. ― Eu desejava que não estivesse. ― disse ela. ― Quanto tempo você
vai ficar aqui, Duncan?
― Alguns dias, pelo menos ― ele respondeu. ― E quando eu regressar a Lisboa,
espero que você me dê a honra de me permitir a escoltar até lá.
― Ah, ― disse ela. ― Me dê esses poucos dias, então, Duncan. Eu lhe darei a
minha resposta antes de partir.
― Eu tenho esperado tanto tempo... ― disse ele com um sorriso. ― Alguns dias
mais não vão me matar, eu suponho.
― A resposta não pode ser sim ― ela se surpreendeu dizendo. ― Mas pode ser, ―
disse ele. ― Vou viver na esperança.
Ela não sabia por que tinha atrasado a resposta, por que se sentia de repente tão
relutante em aceitar. Mas é claro que ela sabia. Que tolice fingir que não. Não era um
sonho que não podia deixar desaparecer.
― Vamos caminhar pelo salão de baile, ― disse ela. ― Há uniformes que eu ainda
não admirei, e vestidos que ainda não tive a chance de sentir inveja. Me leve em um
passeio, Duncan. ― Ela sorriu alegremente para ele brilhantemente, conforme cumpriu
com o seu desejo. Eles já teriam andado por três quartos do caminho ao redor da sala,
antes de o atravessar, pensou. Ele ficou parado no mesmo lugar, embora não na
obscuridade. Várias pessoas tinham ido lá para falar com ele.
Ela deliberadamente fizera o seu passeio muito lento. Ela parou para conversar
com todos que conhecia, mesmo remotamente, e a flertar um pouco com cada oficial que
tentou atrair sua atenção. Ela lhe daria todas as oportunidades para sair de seu caminho,
se quisesse. Parte dela esperava que ele saísse, antes que ela tivesse uma chance de falar
com ele. Mas, a outra parte dela sentiu o pânico só de pensar. E, ela iria deixar a escolha
para ele. Ela não o iria manobrar, de qualquer forma que ele realmente não desejasse.
― Ah, Robert ― disse ela, quando empatou com ele. Seus olhos muito azuis
olharam diretamente para ela. Ele não estava sorrindo, ela o conhecia bem para não
esperar que o fizesse. ― Você não está dançando? ― Era uma pergunta tola, já que a
dança era entre as séries.
― Não ― ele disse depois de uma pequena pausa.
― Você se lembra de Duncan? ― Perguntou ela. ― Mas sim, é claro, ele viajou com
a gente para fora de Lisboa. Robert se tornou um herói ainda maior, Duncan. Você já
ouviu?
― Os rumores, sim ― disse o coronel. ― Sobre sua visita ousada a Salamanca e
uma fuga ainda mais ousada. Parabéns, capitão.
― Obrigado, senhor, ― disse o capitão Blake.
― Ah ― disse Joana, girando e batendo o pé. ― A valsa. Vamos, Robert, você pode
ter o prazer de dançar comigo. ― Ela riu levemente. ― Você estava prestes a perguntar,
não é? Eu quero que você me conte sobre todas essas ações ousadas.
Ela pensou que ele ia recusar, e se perguntou se iria rir, corar de mortificação, ou o
vencer. Felizmente, talvez, ele não a colocou à prova.
― Seria meu prazer, minha senhora, ― disse ele, se curvando desajeitadamente e
tomando a mão que ela estendeu para ele.
Ah, uma mão muito cara e familiar, pensou, e desejou não ter vindo. Ou que ela
não houvesse chegado. Ela deveria ter ido a Lisboa e ficado lá. Ela sentiu dor no fundo
de sua garganta, quando sorriu pela primeira vez ao Duncan e, em seguida, para ele.
― Você dança, me lembro ― ela disse, enquanto ele a levou para a pista de dança.
― Sua mãe ensinou você.
― Sim ― disse ele, e uma mão forte veio sobre ela para descansar atrás de sua
cintura e a outra, estendeu para a dela. Ela colocou a própria nele e estendeu a outra em
seu largo, musculoso ombro. E ela sentiu o cheiro da colônia de alguns homens. Mas ela
preferia o cheiro masculino natural dele.
Oh, Robert. A dor em sua garganta tinha se tornado um caroço.
― Eu ainda não o perdoei, você sabe, ― ela disse, quando começaram a se mover
conforme a música, inclinando a cabeça para trás e sorrindo para ele. ― Eu nunca o vou,
Robert. Você vai para o seu túmulo imperdoável.
― Eu deveria ter levado você a Lisboa, ― disse ele sem sorrir ― e a levado a bordo
do primeiro navio com destino à Inglaterra, e a amarrado ao mastro principal. Eu deveria
ter feito isso, Joana. Eu deveria saber o louco que era para a deixar em Torres Vedras
com seus amigos, e esperar que você agisse como qualquer mulher sensata normal. Você
ao menos foi para Lisboa?
― Não, ― disse ela. ― Eu não gosto que me digam o que fazer, Robert. E eu teria
escapado daquele mastro, você sabe, mesmo se eu tivesse que o puxar para baixo e
destruir o navio na tentativa. Eu preferiria morrer tentando nadar para a terra, do meio do
oceano, que viver sob os cuidados bem-intencionados de um homem.
― Sim ― disse ele. ― Oh, sim, eu sei, Joana. Foi tolice de minha parte saber o que
deveria ter feito, não foi?
― Sim, ― ela respondeu, e sorriu lentamente. Ele parecia muito mais sombrio e
mais formidável do que quando eles se separaram, embora tivesse acontecido muito
recentemente. Talvez tenha sido o corte de cabelo. Ele a olhava como ela a ele, com
suavidade, como se o Robert poético estivesse de volta, depois de muito tempo ausente.
Oh, não muito, talvez, mas quase. Pelo menos ela tinha sido capaz de ver que eles eram
uma só pessoa. Agora, ele olhou cada polegada do soldado de temperamento duro,
alguém com uma vida tão diferente da sua, que eles poderiam muito bem ser de planetas
diferentes. ― Esta é uma dança tola, não é, Robert? Me leve andar no corredor e vou lhe
explicar por que não o posso perdoar, e você poderá me convencer a o fazer, de qualquer
maneira.
― Eu acho que devemos continuar a dançar, Joana, disse ele.
― Você é um covarde ― disse ela. ― Você está com medo de ficar sozinho, ou
quase sozinho comigo de novo.
― Sim ― disse ele. ― Morrendo de medo, Joana. Foi por isso que eu evitei uma
separação íntima. Não me obrigue a dizer adeus a você.
― Eu não gosto de histórias sem finais. ― disse ela. ― Na verdade, elas me deixam
furiosa. A nossa deve ter seu final, Robert. Deve. Oh, você não vê por que não poderia
deixar Torres Vedras e por que tive que deixar Duncan esperando pela minha resposta,
quando ele me perguntou, mais uma vez, se queria casar com ele? Deve haver um final
para nós.
― Deve haver dor? ― Perguntou ele.
― Você não sentia dor antes de vir para cá esta noite? ― Perguntou ela agora, ―
Será que isso ajuda, a forma como nos separamos? ― Ele dançou com ela por alguns
momentos, olhando em seus olhos, sua expressão ainda sombria. Quando se
aproximaram da porta, ele parou e lhe tomou o braço.
― Muito bem, então, ― disse ele. ― Vamos ter um final para esta história, Joana.
Você deve ter sempre o seu desejo realizado, ao que parece, até o fim. Que assim seja,
então.
Ela não se sentiu triunfante, quando o permitiu a conduzir para fora do salão.
Capítulo 30
Tudo o que podia sentir era raiva. Ele acreditou que estivesse tudo acabado, e
esperava que a crueza da dor diminuísse com o tempo. E algum tempo já tinha passado.
Ele havia se estabelecido em uma nova cidade e em novas funções, esperando,
pacientemente, pelo final da primeira fase, a mais dolorosa de sua derrota, para passar
para a segunda, fosse o que fosse. Tudo o que sabia, era que não poderia ser pior. Só
deveria ser um pouco melhor que a anterior, e assim por diante, até que fosse capaz de
lembrar com nada mais do que tristeza, até que se sentisse capaz de continuar novamente
com sua vida.
Ele não queria que isto estivesse acontecendo, não a queria ver novamente. Se
soubesse, ou mesmo suspeitasse, de que ela poderia estar no baile, ele teria ficado longe.
Nem sequer tentara ter um vislumbre dela. Não queria mais um vislumbre. Ele,
certamente, não queria estar falando, dançando, e agora, estar a sós com ela.
No entanto, teve que admitir para si mesmo que tinha sido egoísta. Não fora capaz
de suportar o pensamento de um longo adeus, e assim, encontrara uma maneira de o
tornar em um curto. Ele imaginou que ela também ficaria aliviada quando tudo estivesse
acabado. E, no entanto, parecia que ela precisava de um final mais definitivo para o seu
relacionamento.
E assim, ele estava com raiva, em parte, de si mesmo. Deveria lhe ter dado seu
final, quando ainda estavam juntos. Deveria ter permitido que ela fosse para Arruda com
ele, e o deixasse, após uma noite de despedidas íntimas e privativas. Deveria ter aceito
essa agonia, para que seu caso tivesse chegado a bom termo. Tudo teria sido mais fácil, e
ele, dificilmente, poderia ter sofrido mais do que tinha, de qualquer maneira.
Mas agora era hora de passar por tudo novamente. E ele estava com raiva, em
parte, dela, em parte dele mesmo. ― Você parece tão sombrio como estava na manhã da
Batalha do Bussaco, ― disse ela, sorrindo para ele.
― Eu? ― Ele olhou para a frente. ― Estranho. Eu me sinto muito mais sombrio.
― Oh, querido, ― ela disse, ― isso não augura nada de bom. É melhor sair deste
corredor, Robert. É muito público.
― É? ― Disse. ― O salão de baile era muito público, por isso viemos para cá.
Agora isto é muito público. O que vem depois, Joana? Você tem um quarto de dormir
acolhedor e útil? É esse o tipo de adeus que você quer?
― Vamos encontrar um lugar tranquilo, primeiro ― disse ela, ― e, em seguida, vou
lhe dizer que tipo de adeus eu quero. ― Ela tentou uma porta no corredor, mas estava
trancada.
A terceira porta estava destrancada. Ela abria para uma sala escura, que parecia um
escritório. Havia uma grande mesa no meio, e várias cadeiras à frente. Ele pegou um
castiçal com velas acesas de um aparador no corredor e o colocou sobre a lareira,
enquanto Joana fechou a porta. Ele se virou para ela.
― Bem? ― Disse.
Ela se encostou à porta e sorriu. ― Não poderia ser assim, Robert ― disse ela. ―
Havia tanta coisa que eu precisava dizer, tanta coisa que eu queria ouvir. Eu precisava de
seus braços sobre mim, para ter a coragem de o deixar.
E eu queria acabar com isso, ele queria dizer a ela. Eu não podia suportar
prolongar a agonia. Mas ele não disse as palavras em voz alta. Realmente, para os dois,
teria significado a mesma coisa. Eles só tinham diferentes maneiras de lidar com a dor. E,
no entanto, mesmo ele a entendendo e até simpatizando, não conseguia se livrar da raiva.
― Diga, então, ― ele disse secamente. ― E eu vou dizer que a amo, e que deixar
você dói como o inferno. E então eu a vou abraçar e beijar, e isso pode ser mais como a
última despedida. Vamos, Joana, fale a sua peça e depois venha aqui.
Ela continuou a se inclinar contra a porta, até que se virou e olhou para ele. ― Eu
tenho sido egoísta, não tenho? ― Disse ela. ― Você não queria isso de jeito nenhum. Mas
lhe dei tempo no salão de baile, Robert. Eu levei uma eternidade passeando pela sala com
Duncan, porque queria que você tivesse bastante tempo para escapar, se quisesse. Mas
você ficou. Você deve ter me visto chegando.
Ele a observou em silêncio. E era verdade. Ele poderia ter saído. Ele queria sair,
tinha estado a ponto de o fazer. Mas suas pernas não estavam dispostas a obedecer a sua
vontade.
― Sim ― ele disse, ― eu vi você vindo.
― E ficou. ― disse ela.
― Sim.
― Robert ― ela se calou, por tanto tempo, que ele pensou que tinha mudado de
ideia sobre continuar. ― Eu sou uma viúva e você está solteiro.
― Não, Joana ― disse ele. Ela sorriu.
― Eu sempre soube que havia certas coisas além do meu alcance ― disse ele. ―
Pelo menos, eu soube disso, logo após a morte de minha mãe. Há certas coisas, certas
pessoas, um certo modo de vida, a que o filho bastardo de um marquês não pode aspirar.
E eu aceitei isso. Construí a minha vida adulta em torno desse conhecimento. E tenho
sido feliz.
― Mas você não está feliz agora ― disse ela.
― Porque, por um tempo, eu esqueci, ― respondeu ele, ― ou, ao menos, ignorei. E
você, Joana, há uma certa vida para a qual você nasceu, de elevado nível, uma vida na que
você se casou e viveu, desde que ficou viúva.
― Exceto quando eu fugi para as colinas como a irmã de Duarte ― ela lhe
respondeu também.
― Mas esses dias acabaram, ― disse ele. ― Você não tem mais motivo para ser
Joana Ribeiro. ― Ela sorriu para ele novamente. ― Exceto, talvez, para um pouco de
diversão, ― disse ela.
― Não há nenhuma ponte longa o suficiente para conectar nossas vidas, Joana ―
falou ele. ― Não permanentemente. Nenhum de nós seria feliz no mundo do outro, uma
vez que o primeiro lustro tenha desgastado nossa paixão um pelo outro.
Ela estava olhando para o chão à sua frente, aparentemente imersa em
pensamentos. ― Eu não estou certo? ― Ele perguntou, depois de um longo silêncio.
Ela olhou para ele e havia um vislumbre de um sorriso escondido na sua expressão
séria. ― Você deve estar, ― disse ela. ― você é um homem. Os homens têm sempre
razão.
― Bem, então ― disse ele.
― Bem, então. ― Ela deu alguns passos em sua direção e parou, novamente. ― Eu
suponho que não há mais nada, Robert, exceto um abraço e um beijo. É, e é uma pena
que isto não seja um quarto, não é? Mas eu não acho que iria fantasiar de fazer amor no
topo de uma mesa, e sempre me pareceu algo um pouco sórdido fazer amor no chão,
mesmo que eu não saiba por que motivo, já que fizemos amor muitas vezes no chão e ao
ar livre. Nós tivemos alguns bons momentos.
― Sim. ― Ele esperava que ela fosse cair em lágrimas. Mas, quando ela se
aproximou dele e apoiou suas mãos em seu peito e ergueu o rosto para receber o beijo,
foi brilhante. Ela o olhava em seus olhos, que estavam cautelosos pela experiência, o
olhar que indicava problemas, o que era apenas sua maneira de se proteger de uma cena
emocional.
― Este é um adeus, então ― ela falou.
― Sim. ― Ele emoldurou seu rosto com as mãos, e deslizou os polegares
suavemente sobre suas faces e lábios. Sua raiva tinha evaporado, deixando em seu lugar
um aperto no peito, um nó na garganta e falta de ar. ― Este é um adeus. Eu a amo. ― E o
rosto dela borrou em sua visão.
― Oh, Robert. ― Ela jogou os braços em volta do pescoço dele e puxou seu rosto
para descansar contra o dela. ― Você, seu idiota e imbecil está enganado. Os homens são
criaturas tão tolas. Não chore. Eu não valho suas lágrimas, valho? Eu não tenho sido
nada, além de problemas para você. Você vai viver uma existência muito mais pacífica
sem mim.
― Sim, ― disse ele.
― Bem, então. ― Seus dedos estavam bagunçando o cabelo curto. ― Você fará
bem se livrando de mim.
― Sim.
― Você não tem que concordar com tudo o que digo, você sabe, ― disse ela. ― Me
beije, Robert. Vamos fazer isso direito.
― Sim. ― Ele não percebeu o quanto estava tremendo, até que tentou encontrar
sua boca com a dele. Seus olhos estavam bem fechados, as lágrimas quentes encontrando
seu caminho.
Ela lhe segurou a cabeça e o beijou, e ele gemeu e a envolveu nos braços, e a
apertou contra ele, tentando a dobrar para si mesmo. Foi um beijo desesperado, que não
trouxe nenhuma alegria, afinal.
― Cristo! ― Disse ele, muitos momentos depois. ― Que isto seja o suficiente. Me
deixe, Joana, ou me deixe sair. ― Ele engoliu em seco. ― Apenas me diga mais uma vez.
― Que eu o amo? ― Disse ela. ― Eu o amo, e o irei amar até que tenha oitenta
anos e você esteja com oitenta e dois. Não, altere isso. Eu pretendo viver muito tempo e
parece que você tem o dom de se esquivar das balas. Mude para os noventa e noventa e
dois. Cem e cento e dois.
― Vá! ― Disse ele, asperamente. ― Maldição, mulher, saia daqui. Eu não posso sair
com essa aparência. Saia daqui.
Ela tocou seu rosto com os dedos moles. ― Os homens são tão tolos ― disse ela.
― E eu amo este homem mais tolo de todos, mais do que posso encontrar palavras para
expressar. Eu o amo, Robert.
E ela se foi.
Ele sempre achou a noção de um coração partido bastante divertida. Mas ele não
vibrou, quando cruzou a distância até a mesa, se inclinou e apoiou as mãos sobre ela, com
os olhos fechados. Nem um pouco divertido.
***

Havia várias coisas a serem feitas, um fato irritante para alguém que gostava de agir
por impulso. Mas esta não era uma escolha impulsiva, embora a realização e as suas
consequências viessem para ela como um relâmpago. E porque não era um momento
impulsivo, então, tudo tinha de ser feito apenas assim.
Havia cartas para escrever, várias delas, uma em particular, para Matilda, com uma
quantidade em dinheiro equivalente a dois anos de salário. E havia roupas que obter,
porque os vestidos da Marquesa portuguesa seriam totalmente inadequados. Mas ela não
estava descontente, pensou, olhando para eles, uma fileira de desamparado branco no
guarda-roupa, por ter que os abandonar para sempre. E o vestido de Joana Ribeiro não
serviria mais. Estava acabado, parecendo ainda mais pobre. Na verdade, a governanta
parecia duvidosa, quando se ofereceu para o utilizar como pano de limpeza. Além disso,
havia apenas um. Uma mulher precisava de mais do que um vestido.
O problema não era particularmente difícil de resolver. A amiga em cuja casa ela
estava vivendo era apenas ligeiramente mais alta do que ela, e Sophia sempre usava
roupas bonitas, reparara. Joana, que escolheu um número deles e começou a fazer as
costuras e encurtar bainhas. Ela não usara uma agulha por um bom número de anos, e
logo contou com a ajuda de uma empregada qualificada. Enquanto isso, escreveu para
Sophia e fechou junto à carta, o que parecia um generoso pagamento pelas roupas.
E havia Duncan para conversar. Ela o chamou no dia seguinte ao baile e lhe
contou sua decisão, quase antes mesmo dele atravessar o umbral da porta. Ela não queria
lhe dar falsas esperanças.
― Eu sinto muito, Duncan ― disse a ele. ― Não posso me casar com você. Não
seria capaz de o fazer feliz, porque eu não o seria com o tipo de vida que estaria vivendo.
― Mas, Joana, ― ele disse, ― Eu pensei que você tivesse dito que sempre sonhou
com um marido inglês e uma casa na Inglaterra.
― Sim ― ela disse, ― eu fiz, e eu tive esses sonhos durante todo o tempo de que
me lembro. Às vezes, podemos ser muito cegos, não podemos? Eu não ficaria feliz com
essa vida, ou pelo menos, não apenas com isso.
E era verdade. É claro que era verdade. Ela tinha entendido como um raio no
baile, quando Robert expressou suas palavras tolas. Só que, para ele não eram tolas, e para
ela não teria parecido com isso também, se não tivesse havido esse lampejo de
entendimento.
Nenhum de nós seria feliz no mundo do outro, uma vez que o primeiro lustro
tivesse passado, e só restasse a nossa paixão pelo outro.
Ela podia ouvir as palavras tão claramente como quando ele as tinha falado,
palavras que, no início, tinha tomado como verdadeiras. Certamente, ele nunca seria feliz
em seu mundo. Ele ficava desconfortável, quase miserável quando tinha apenas que
desempenhar alguma função social. E ela nunca seria feliz no mundo dele. Ela era filha de
um conde francês e viúva de um marquês português. Ela sempre viveu uma vida de
riqueza e privilégio. Era uma senhora.
E então veio a compreensão. Ela estava feliz? Ela tinha sido sempre feliz? Ela
achava sua vida do dia-a-dia tediosa ao extremo, e inútil, sem sentido. Não havia nada
para adicionar desafio e emoção nessa vida, além do flerte. E ela, realmente, não
desfrutava disso. Viver em uma tranquila propriedade rural inglesa? Com a mãe e as irmãs
de Duncan, até que ele chegasse em casa? Ficaria louca!
Será que nunca tinha sido feliz, então? Oh, sim, tinha. Ela tinha conhecido a
felicidade, que lhe tinha vindo sempre que deixava de ser a Marquesa das Minas, e quando
viveu com Duarte e seu bando de Ordenanza por um tempo. E tinha vindo e continuou,
naquelas semanas com Robert entre Salamanca e Bussaco. Incrível, o total de felicidade,
não só porque ela tinha estado com ele, mas também, porque estava livre das armadilhas
de seu próprio mundo, livre para conhecer os perigos e os desafios, e as maravilhas da
vida em outro mundo.
E foi ela que escolheu a vida que viveu desde que tinha nascido? Ia desistir de
Robert por Duncan? A ideia era absurda, totalmente louca.
Ela tinha entendido tão logo que ele tinha falado. E quase lhe disse o que
percebera ali. Ela era quase sempre impulsiva, não era da sua natureza pensar antes de
agir. Mas, no entanto, estava fazendo isso agora. Era uma enorme decisão em sua vida,
para ser feita impulsivamente. E se, depois de uma análise mais cuidadosa, percebesse que
era apenas sua relutância em dizer adeus para ele que tinha suscitado seus pensamentos?
Ela sabia que tinha que se dar tempo para saber, além de qualquer dúvida, de que apenas
um tipo de vida poderia fazer sua felicidade.
E agora, realmente estava prestes a fazer isso. Ela não se tinha enganado. O
homem que amava vivia no único mundo que a poderia desafiar e, finalmente, a fazer
feliz. Havia apenas uma coisa sensata a ser feita.
Assim, por uma vez na vida, Joana pensou com um sorriso, que ela ia fazer a coisa
sensata.

***

Ele fora alojado em uma pequena casa na Arruda, e a compartilhou com o capitão
Davies por um curto tempo, porque este teve que partir para Lisboa, para cuidar de um
ferimento infeccionado, recebido na batalha do Bussaco. Agora ele estava lá sozinho,
muito solitário, desde que a casa fora abandonada por seu outro inquilino, tão só, que não
chegou a acreditar que o exército francês se retiraria.
Mas Blake não se incomodava de estar sozinho. Na verdade, ele agradeceu a
oportunidade de ter um lugar para o qual voltar, onde poderia descansar e ficar longe de
todos, um luxo que, muitas vezes, não se atinge no exército. E ele precisava ficar só por
um certo período de tempo, até que aprendesse a lidar com suas emoções, e não mais
descontasse sua própria infelicidade nos homens sob seu comando, à mercê de seus
humores.
Uma das mulheres do trem do exército, a viúva de um soldado raso morto no
início do ano, que ainda não se havia casado novamente, veio à noite para cozinhar para
ele. Ela se mostrara algumas vezes, sem o uso de palavras, disposta a ficar e oferecer
outros serviços também, mas ele sempre a mandou embora; assim, se sentava para a sua
refeição. Ela era uma boa cozinheira, mas ele não precisava dela para qualquer outra
coisa.
Ele estava cansado. Às vezes, a observação sobre seus homens, os vendo fazer a
sua parte para manter a guarda cuidadosa sobre as Linhas, era tão desgastante para o
tempo e energia, como se mover na batalha. Tinha sido um longo dia, e não parecia ter
muito tempo para relaxar. Era bom estar em casa. E, no entanto, seu nariz amassado
sentiu algum desgosto, quando inclinou a cabeça para passar pelo umbral baixo da porta
da casa. A Sra. Reilly tinha queimado seu jantar?
Ele atravessou a pequena sala de estar, para alcançar o arco que levava até a
cozinha e estancou, os pés afastados, mãos apertadas em punhos ao seu lado.
― Que diabos você está fazendo aqui? ― Ele perguntou, sua voz baixa.
― Queimando sua comida ― ela respondeu, lhe lançando um olhar por cima do
ombro, que revelava um rosto corado e brilhante. Seu cabelo estava preso frouxamente
num coque baixo no pescoço, e usava um vestido verde limpo e bonito. ― Eu coloquei
apenas mais um pedaço de madeira no fogão, mas agora, ele está queimando como uma
fornalha no inferno. E que tipo de boas-vindas são essas?
Ele andou até o fogão, ergueu a panela com a sua carga ofensiva de guisado
queimado, e o colocou de lado, longe do calor do fogo. Ele a pegou pelo braço e virou
seu rosto para ele.
― O que diabos você está fazendo aqui, Joana? ― Ele lhe perguntou novamente.
Se sentia furioso, o suficiente para cometer assassinato.
― Além de queimar o seu jantar? ― Perguntou ela, levantando as mãos para brincar
com um botão em seu casaco. ― Eu vim aqui para casar com você, Robert.
― Não me lembro de lhe pedir ― disse ele, asperamente. ― Eu vou encontrar
alguém que a acompanhe até Lisboa. E então, você vai ficar fora da minha vida.
― Como é lindo ― disse ela, sorrindo. ― Eu também o amo, Robert. É por isso
que eu vim para me casar com você. Mas se não quiser casar comigo, não importa. Vou
apenas viver em pecado com você, como fiz antes.
― Joana, ― disse ele, ― nós já falamos sobre isso. Você sabe que é loucura.
― E você sabe que eu sou louca. ― disse ela. ― Se não permitir que me case com
você, ou que vivamos em pecado, então vou me juntar aos seguidores do acampamento, e
me tornar uma cozinheira ou uma lavadeira. E quando você descobrir o quão mal eu
cozinho, você já adivinhou? E o quão mal eu lavo a roupa, você vai me colocar em sua
cama, onde eu posso fazer menos mal. ― Ela sorriu para ele por debaixo de suas
pestanas.
― Quando você construiu essa ideia louca? ― Ele lhe perguntou. Apesar de tudo,
ele podia sentir sua fúria desaparecendo, e um desejo desesperado de que isso fosse
verdade, tomando o seu lugar, além de uma certa suspeita de que estava perdendo tempo
discutindo com ela.
― No escritório de Lorde Wellington ― ela explicou. ― Você disse que nenhum de
nós poderia ser feliz no mundo do outro, e, claro, era a coisa mais sensata a dizer e
deveria ser verdade; mas não era, e eu percebi que não. Mas, eu queria ter a certeza. Não
queria racionalizar simplesmente porque eu não queria me separar de você. Eu nunca fui
feliz no mundo em que vivia, Robert. Você não pode saber quão tediosa minha vida tem
sido, quão vazia e sem sentido, quão estúpida. E seria um terrível desperdício de minha
vida passar o resto dela nesse mundo.
― E ainda assim, nela você tem tudo o que poderia desejar ― disse ele.
― Oh, não ― ela falou. ― Apenas coisas materiais e um título estúpido, Robert.
Qual o valor deles? Quero liberdade, desafio e excitação, e até mesmo um pouco de
perigo, agora e depois, coisas que eu nunca pude encontrar em meu próprio mundo, onde
poderia, muito bem, ser enrolada em algodão e estar segura. Às vezes eu acho que deveria
ter sido um homem, mas não sempre, porque eu gosto de ser uma mulher. Eu odiaria ser
um homem e não ser capaz de amar, sem criar o escândalo mais terrível. Mas deve haver
algo para tornar a vida significativa para as mulheres também, caso contrário, a vida é
ainda mais injusta do que eu sempre acreditei. Posso encontrar um significado no mundo
que eu vivi com você.
― Joana, ― disse ele. ― Você não tem ideia...
― Não? ― Ela se inclinou para a frente até os seios tocarem seu casaco, e olhou
para o rosto dele. ― Não, Robert? Eu acho que tenho. Eu nunca fui mais feliz do que
depois que saímos Salamanca, até que chegamos a Torres Vedras. Eu estava muito feliz
de estar com você, e não apenas porque éramos amantes, mas porque... oh, porque,
finalmente, estava vivendo a vida.
― E a vivemos à beira da morte, ― disse ele. ― Qualquer um de nós poderia ter
morrido em qualquer momento, Joana. Será que você não percebe o perigo que
corríamos? E como eu poderia deixar você ficar comigo agora e partilhar a minha vida?
Sou um soldado; o negócio de um soldado é lutar com armas reais. Eu poderei ser morto
a qualquer momento.
― E eu ― disse ela. ― O teto pode cair sobre minha cabeça. ― Ela olhou para
cima, e seus olhos seguiram os dela. ― A morte virá, Robert, seja no momento seguinte
ou sessenta anos mais tarde. Entretanto, há uma vida a ser vivida e gostamos de ser
amados.
Ele fechou os olhos e baixou a cabeça até que sua testa tocou a dela. ― Joana ―
disse ele, ― isto é uma loucura. Deve haver argumentos que eu possa usar. Deve haver
milhares deles. Não tenho nada para lhe oferecer.
― As palavras estúpidas, ― disse ela. ― Oh, imbecil. Você tem amor para oferecer
e você mesmo, também. Você me disse uma vez que daria à mulher que você ama um
aglomerado de estrelas e o nascer do sol. Me dê essas estrelas, e em seguida, me dê o
nascer do sol; e serei mais feliz do que tenho palavras para expressar. Me dê o nascer do
sol, Robert, todos eles, todos os dias de nossas vidas, até que haja apenas um pôr do sol à
frente. E, então, iremos lembrar que não perdemos um só momento da única vida que
cada um de nós tem, ou das duas vidas que nós compartilhamos.
― Joana ― disse ele, e havia desejo em sua voz, e agonia.
― Eu sei que você está tentando encontrar as palavras para me mandar embora, ―
disse ela. ― Mas não pode fazer isso, Robert. Você não tem a autoridade. Eu tomei a
minha decisão, e eu lhe contei qual é. Não é apenas a sua própria decisão que importa
agora. O que você quer de mim? Isso é tudo que tem que decidir, porque eu não estou
indo embora.
Ele respirou fundo e a puxou para seus braços. Ele segurou a cabeça contra o peito
dele e virou o rosto para descansar nela. ― Muito bem, então ― disse ele, e respirou
fundo, antes de continuar. ― Nós vamos nos casar. Vou vender minha patente. Eu não
sou tão pobre como você pensa. Meu pai morreu recentemente, e ele me deixou uma
propriedade e uma fortuna considerável. Você pode viver a vida de uma senhora inglesa,
mesmo que eu nunca vá ser um completo cavalheiro inglês. Você pode ter seu sonho e
eu, ambos, Joana, se tem certeza de que é o que você quer.
Ela empurrou a cabeça para trás e olhou para ele. ― Estúpido! ― Disse ela. ―
Idiota! Eu não o vou aceitar sob tais condições. Como você é estúpido. Eu quero você
como você é, como eu me apaixonei por você. Acha que eu ficaria feliz se você desistisse
de tudo o que o faz ser quem é, e tudo o que dá significado à sua vida e felicidade?
― Você me faz feliz ― disse ele.
― Oh, sim, ― disse ela com desdém. ― E estar comigo pode compensar tudo do
que você desistiria? Como vocês custam entender, Robert, porque nós somos muito
diferentes. Você teria que desistir de muita coisa, enquanto eu desistiria de nada, exceto
do título ridículo, dos vestidos brancos tediosos e todas as outras coisas que são nada
para mim. ― Ela abriu um grande sorriso para ele, de repente. ― Mas, como eu o amo
por estar disposto a fazer uma coisa tão tola! Existe um pregador para nos casar, então,
ou viveremos uma vida em pecado?
― Deus, ― ele respondeu, ― Eu a amo. Como você me tenta, Joana.
― Minha mãe deveria ter me chamado Eva ― disse ela. ― Existe um pregador?
― Sim ― disse ele.
― E será que podemos pagar uma empregada? ― Perguntou ela. ― Eu tenho medo
que você morra de fome, se não pudermos, Robert.
― Das esposas de oficiais não é esperado que façam as coisas sozinhas ―, ele
explicou. ― É claro que lhe é permitido uma empregada.
― Oh, bem, ― ela disse, sorrindo. ― Está tudo acertado, então?
Ele olhou para ela por um longo momento. ― Está me sendo dada uma escolha? ―
Perguntou ele.
― Só se você puder me dizer que, de fato, não me quer, e que realmente não me
ama ― disse ela. ― Mas, você não pode fazer qualquer uma, não é?
― Não ― disse ele.
― Então, você não tem escolha ― ela estabeleceu ― Vai me levar para a cama?
Como não tenho comida para lhe oferecer, teria que ter algo melhor em troca, uma
refeição, boa o bastante, para compensar o jantar perdido.
― Silêncio, Joana. ― Ele baixou a cabeça e a beijou demoradamente. ― Minha
mente está confusa. Ainda deve haver novecentos e noventa e nove argumentos, mas eu
não consigo pensar em um único. Acho que você está me manipulando, como sempre
faz.
― Sim. ― Ela sorriu para ele. ― Mas você é, sem dúvida, o homem mais difícil de
manip