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ESTUDO DO FABRICO E DA

DEGRADAÇÃO DE AZULEJOS
PORTUGUESES HISTÓRICOS
Maria de Lurdes Moura Lopes Esteves Brito
Tese apresentada à Universidade de Évora
para obtenção do Grau de Doutor em História de Arte,
Programa Doutoral Rede HERITAS – Estudo de Património
ORIENTADORES: João Manuel Mimoso
António Estevão Candeias
Paulo Simões Rodrigues

ÉVORA, SETEMBRO, 2016


ANO

INSTITUTO DE INVESTIGAÇÃO E FORMAÇÃO AVANÇADA


ESTUDO DO FABRICO E DA DEGRADAÇÃO DE
AZULEJOS PORTUGUESES HISTÓRICOS

Maria de Lurdes Moura Lopes Esteves Brito

Orientador:
João Manuel Mimoso

Coorientadores:
António Estevão Candeias
Paulo Simões Rodrigues

Tese apresentada à Universidade de Évora


para obtenção do Grau de Doutor em História de Arte,
Programa Doutoral Rede HERITAS - Estudo de Património

Évora, Setembro, 2016


O mundo está cheio de respostas. O que demora é o tempo das perguntas.

José Saramago in Memorial do Convento


Este trabalho de doutoramento foi realizado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil e
apoiado pelo Laboratório HERCULES na realização de análises e pelo Museu Nacional do
Azulejo na cedência de amostras de ensaio.

Recebeu apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, no âmbito do protocolo IMC-


PROP/5170/2011.

i
ii
Agradecimentos

A origem da ideia de um trabalho sobre o azulejo português, integrando a historiografia da


arte na necessidade imperiosa de conservar os objetos de estudo, entendendo as causas da
sua degradação de maneira a contrariá-las, foi uma apresentação a que assisti em 2011, no
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC). Aí foram apresentados os trabalhos que se
iniciaram no campo da degradação de azulejos históricos portugueses e que colocavam as
questões partindo destes pressupostos.

Foi um desafio, já que a minha formação académica e profissional em conservação e restauro


de azulejo não se enquadra na área da investigação nas ciências do património. Foi necessário
um grande esforço de familiarização com técnicas de caracterização instrumental e ensaio,
preparação de provetes e interpretação de resultados o que implicou, também, estudar e
conhecer outras investigações. Foi muito gratificante e importante o conhecimento que
adquiri e que complementa a minha formação e foi também, a abertura de uma nova via que
pretendo aprofundar.

Ao longo destes cinco anos tive o apoio de instituições e de pessoas que me ajudaram a levar a
bom porto este projeto e às quais quero expressar os meus mais sinceros agradecimentos.

O primeiro agradecimento deve ser dirigido à minha diretora, Maria Antónia Aleixo Pinto de
Matos. O seu dinamismo em abraçar novas áreas de conhecimento na área do azulejo e da
cerâmica e a sua aposta e incentivo na qualificação da equipa que dirige no Museu Nacional do
Azulejo foram a razão para que este projeto pudesse ser concretizado. Estou muito grata pela
amizade, confiança, incentivo, apoio e flexibilidade que demonstrou durante o percurso do
trabalho.

Ao meu orientador, João Manuel Mimoso (LNEC), o promotor do tema de investigação,


expresso o meu sincero agradecimento pela confiança que sempre depositou em mim.
Agradeço tudo o que me ensinou, a sua inteira disponibilidade, interesse e acompanhamento
ao longo dos trabalhos. As suas conversas serviram de inspiração e o rigor profissional, um
modelo a seguir. Não esquecerei a sua generosidade, amizade e palavras de incentivo, mas
também as críticas, que foram muito importantes para o meu crescimento profissional e
pessoal. É com admiração e amizade que afirmo que foi um grande privilégio ter sido sua
orientanda.

Ao meu coorientador, António Candeias (UÉ), agradeço o acesso aos equipamentos para as
análises desenvolvidas durante a investigação no Laboratório HERCULES. Agradeço igualmente
todo o interesse, acompanhamento, amizade e boa disposição que sempre pautou o
desenvolvimento dos trabalhos.

Do mesmo modo, agradeço ao meu coorientador Paulo Simões Rodrigues (UÉ), por ter
aceitado sair da sua área de conforto para abraçar este tema de cariz mais científico, numa
perspetiva da multidisciplinaridade que se deseja para o património português, e neste caso,
do azulejo. Agradeço todo o interesse, a amizade e disponibilidade sempre demonstrados.

Ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), na pessoa do Presidente do seu Conselho


Diretivo, Engº Carlos Pina, estou grata pelo acolhimento, interesse e acompanhamento do

iii
meu estágio nesta instituição. Este agradecimento é extensível à equipa que me acolheu de
forma simpática e profissional e com quem tive o prazer de poder conviver, trabalhar,
aprender e trocar impressões. À Dória Costa pela sua postura sempre prestável e com quem
aprendi muito sobre sais. O seu interesse pelo trabalho desenvolvido, as suas observações e
sugestões serviram de reflexão; à Sílvia Pereira, pela sua inteira disponibilidade, apoio e
acompanhamento; ao Luis Nunes, no apoio em laboratório, que me acompanhou e ajudou nas
análises e preparação de superfícies polidas; ao António Santos Silva, pela disponibilidade
sempre manifestada e pelos ensinamentos de química, assim como à Paula Menezes no apoio
a outros trabalhos preparatórios e à simpatia com que ambos sempre me brindaram; à Luzia
Barracha pela preparação das soluções alcalinas usadas neste trabalho; ao Sr. Costa e ao Sr.
Ferreira pela ajuda no uso de maquinaria mais pesada; ao José Delgado Rodrigues pela boa
disposição e relativização de alguns problemas; à Marluci Menezes e à Teresa Diaz Gonçalves.
Não esquecerei a disponibilidade, apoio e amizade demostrada por toda esta equipa com
quem tive o privilégio de trabalhar.

Ao laboratório HERCULES, representado pelos Professores António Candeias e José Mirão, a


quem estou em dívida, os meus agradecimentos por toda a disponibilidade na realização das
análises, pois sem este apoio não teria sido possível alcançar os objetivos deste projeto. Ao
José Mirão, acrescento ainda o agradecimento pela sua inteira disponibilidade na realização e
interpretação de resultados das análises por XRD, acompanhamento e marcações para o SEM.
Ao Luís Dias pelas muitas horas de SEM/EDS dedicadas aos azulejos e aos sais e à Patrícia
Moita, pela realização das análises termogravimétricas.

Este doutoramento dependeu também do protocolo estabelecido entre o antigo Instituto dos
Museus e da Conservação (IMC), atualmente Direção Geral do Património Cultural (DGPC), e a
Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), através do financiamento das propinas por esta
última instituição. À FCT e à DGPC os meus agradecimentos, pois sem esse apoio este projeto
não teria sido possível.

Ao meu colega Alexandre Nobre Pais, que desde o início me incentivou em novos
empreendimentos, deixo os meus sinceros agradecimentos. A sua amizade, generosidade,
cuidados e palavras de motivação foram um apoio em momentos de maior cansaço. Aos
restantes colegas do Museu Nacional do Azulejo expresso também os meus agradecimentos
pela compreensão e apoio: João Pedro Monteiro, Dora Fernandes, Norberto Luis, Paulo
Catarino, Graça Silva, Constança Lima, Helena Montiél, Teresa Henriques e Angélica Cabral. À
minha colega, Porfiria Formiga, um agradecimento muito especial pelo cuidado na seleção de
azulejos com particularidades menos comuns e pelo seu interesse nas investigações
desenvolvidas. Agradeço a sua amizade e acompanhamento. Ainda do Museu, agradeço às
bolseiras em Conservação e Restauro, Joana Bragança, Teresa Silva e, em particular, à Sofia
Caldeira por todo o apoio, compreensão e amizade demonstrados durante este percurso.

À minha colega e companheira de percurso no doutoramento, Margarida Cavaco, pelas


palavras de incentivo e pela amizade.

À Maria João Revez, minha colega de gabinete do LNEC, e à minha colega Inês Cardoso que
embora tenha chegado mais tarde, ainda tive o prazer de ter como companheira no
laboratório, a ambas agradeço a amizade e apoio.

iv
Sem especificar nomes, agradeço também a todos os que me facilitaram o acesso e estudo aos
locais inspecionados.

Também quero deixar uma palavra de agradecimento aos amigos que, à sua maneira, me
acompanharam e deram o seu contributo. Ao Pedro Carichas, pela disponibilidade na
resolução dos muitos problemas informáticos que surgiram; ao Pedro Magalhães no apoio
com os programas de edição de imagem; à Sara, Carla, Marta e Mário Rui. Deixo também um
agradecimento muito especial à Carolina, ao Tiago, à Gabriela, ao Artur e à Maria João, pelo
apoio, amizade e acompanhamento durante todo o projeto. Muito contribuíram em dias mais
felizes para o meu filho Ramiro, especialmente nas minhas ausências. O tempo de lazer que
passámos juntos serviram também para recarregar energias.

Aos meus pais, a quem devo o que sou hoje, pelo seu apoio, carinho, amor e compreensão na
minha menor disponibilidade. Aos meus avós que não puderam acompanhar este percurso,
mas que estão sempre presentes na minha memória, sei que este momento os deixaria cheios
de orgulho. À minha sogra Anita por todo o apoio que nos deu e pela sua amizade. Ao meu
irmão Paulo, à Catarina e à restante família pelas palavras de incentivo e orgulho.

Ao meu adorado filho Ramiro, por não ter podido acompanhá-lo como devia, pela paciência e
compreensão.

Por fim, ao Miguel,… por Tudo! Sem o seu apoio, carinho e compreensão este projeto não teria
os alicerces necessários para a sua concretização.

v
vi
Resumo
O uso ininterrupto do azulejo em Portugal durante mais de cinco séculos estabeleceu um gosto
nacional e definiu um entendimento deste tipo de revestimento sem paralelo noutros países.
Esta herança cultural única é contudo frágil e sujeita a um decaimento contínuo. Muitos casos
de degradação estão associados a eflorescências que são comummente apontadas como
responsáveis. Mas a sua presença não é constante e pode ser circunstancial. Foram reflexões
deste tipo que conduziram à investigação cujos resultados agora se apresentam.
A compreensão das causas da degradação e do papel dos seus agentes requer um
conhecimento de base das matérias-primas e das técnicas da sua transformação, o que
conduziu a incluir no presente trabalho um levantamento dos antigos processos de fabricação
dos azulejos, desde finais do séc. XVI até ao século XIX.
Para a sistematização das formas de degradação in situ, correlacionando-as, quando possível,
com a ocorrência de eflorescências, foram inspecionados 31 imóveis azulejados, distribuídos
pelo território continental português.
As eflorescências resultam da secagem dos corpos cerâmicos dos azulejos molhados por
soluções provenientes dos suportes. A avaliação da perigosidade de diversas dessas possíveis
soluções foi feita através de ensaios de envelhecimento acelerado que pretenderam simular
em laboratório condições que podem ter ocorrido em obra, com o objetivo de tentar
reproduzir a degradação física encontrada, correlacionando-a com uma agressão que a possa
ter causado.
Para a parte experimental foram utilizados azulejos portugueses dos séculos XVII ao XIX,
alguns dos quais com fragilidades iniciais constituídas por defeitos de fabricação ou por
degradações anteriores. Conseguiu-se reproduzir, quer fases iniciais de degradação, quer o
aprofundamento de estados patológicos já existentes. Em particular obteve-se
experimentalmente, cremos que pela primeira vez, o destacamento do vidrado sem material
cerâmico aderente provando-se que, pelo menos nalguns casos, resulta de um ataque alcalino
à interface entre o vidrado e a chacota.

Palavras-chave: Azulejo histórico; degradação de azulejos.

vii
Study of the manufacture and decay of historic portuguese azulejos

Abstract
The uninterrupted use of azulejos in Portugal for over five centuries established a national
style and led to an understanding of this kind of lining unparalleled in other countries.
However, this unique cultural legacy is fragile and subject to continuous deterioration.
Efflorescence is often seen on decayed azulejos, leading to a cause-effect association. But its
presence may also be circumstantial. Considerations of this kind led to the research, the
results of which are now presented.
Understanding the causes of decay and the role of its agents calls for knowledge of the raw
materials and the techniques behind the production of azulejos, which led to a survey of how
they were produced.
To systematise the forms of deterioration in situ, correlating them with the occurrence of
efflorescence, a total of 31 properties decorated with azulejos were inspected throughout
mainland Portugal.
Efflorescence results from the drying of the ceramic bodies of azulejos moistened by solutions
that percolate through the walls. The danger posed by different solutions was assessed
through accelerated ageing tests that intended to simulate in the laboratory the conditions
that would be found on sites, so as to try and replicate under controlled conditions the
physical deterioration found, correlating it with its agents.
For the tests, 17th to 19th century Portuguese azulejos were used, some of them with initial
frailties owing to production defects or previous deterioration. It was possible to reproduce
both the onset of decay, and the worsening of pre-existing damage. In particular we obtained,
we believe for the first time, the detachment of the glazes with no ceramic material attached,
proving that, at least in some cases, that recurring form of decay is the result of an alkaline
attack to the interface between the glaze and the biscuit.

Key Words: Historical azulejo; Degradation of azulejos

viii
ÍNDICE

Parte I

Apresentação ................................................................................................................................ 1
1. O azulejo e a sua importância no contexto da herança cultural portuguesa. ............. 1
2. Degradação dos azulejos e suas consequências na perda do património .................. 5
3. Abordagem atual ao restauro de azulejos ................................................................... 6
4. Objetivos ...................................................................................................................... 7
5. Metodologia técnica .................................................................................................... 8
6. Estrutura da tese........................................................................................................ 13
1. Estado do conhecimento......................................................................................................... 15
1.1. O azulejo português como património cultural......................................................... 15
1.2. Caracterização física e química de azulejos ............................................................... 19
1.3. Degradação ................................................................................................................ 25
1.3.1. Intervenções...................................................................................................... 36
2. Fabricação de azulejos ............................................................................................................ 39
2.1. Os barros .................................................................................................................... 41
2.2. A manufatura de ladrilhos/azulejos........................................................................... 49
2.3. Fornos cerâmicos e seu enfornamento ..................................................................... 52
2.4. Vidrado e vidragem.................................................................................................... 64
2.5. Cores e decoração...................................................................................................... 70
3. Técnicas de caracterização e equipamentos........................................................................... 81
3.1. Observação por microscopia ótica (MO) ................................................................... 81
3.2. Observação e análise por microscopia eletrónica de varrimento com microanálise
(SEM/EDS). ................................................................................................................ 84
3.3. Difractometria de Raios X (XRD) ................................................................................ 85
3.4. Análise termogravimétrica (TGA) e térmica diferencial (DTA) .................................. 86
3.5. Porosimetria de intrusão de mercúrio (MIP) ............................................................. 87
3.6. Propriedades hídricas ................................................................................................ 88
3.6.1. Capacidade de imbibição e coeficiente de capilaridade ................................... 88
3.6.2. Determinação de massas volúmicas e porosidades ......................................... 89
4. Resultados das inspeções a obras ........................................................................................... 91
4.1. Casos de estudo ......................................................................................................... 91

ix
4.2. Resultados globais ..................................................................................................... 92
4.2.1. Cloreto de sódio (halite) ........................................................................................ 99
4.2.2. Carbonato de sódio (trona) ................................................................................. 102
4.2.3. Sulfato de cálcio .................................................................................................. 104
4.2.4. Sulfato de magnésio ............................................................................................ 106
4.2.5. Sulfato de sódio ................................................................................................... 108
4.2.6. Sulfato e nitrato de potássio ............................................................................... 109
4.2.7. Cloreto de magnésio............................................................................................ 110
4.2.8 A degradação de azulejos de Coimbra ................................................................ 110
4.2.9. Azulejos com danos sem sais associados ............................................................ 113
4.3. Considerações finais ................................................................................................ 115
5. Amostras estudadas e caracterização ................................................................................... 119
5.1. Amostras usadas no ensaio de envelhecimento salino ........................................... 119
5.1.1. Caracterização química-mineralógica ............................................................. 125
5.1.2. Caracterização física ............................................................................................ 133
5.1.3. Porosidade e propriedades hídricas .................................................................... 142
5.2. Amostras usadas nos ensaios de envelhecimento alcalino ..................................... 144
5.3. Amostras usadas nos ensaios com carbonato de sódio .......................................... 148
6. Campanha experimental ....................................................................................................... 151
6.1. Princípio e finalidade dos ensaios de envelhecimento acelerado ........................... 151
6.2. Técnicas de envelhecimento aplicadas ao azulejo .................................................. 152
6.3. Ensaios de envelhecimento salino com cloreto de sódio ........................................ 154
6.3.1. Preliminares ............................................................................................................ 155
6.3.2. Protocolo de ensaio ............................................................................................. 156
6.3.3. Duração do ensaio ............................................................................................... 160
6.3.4. Resultados ........................................................................................................... 160
6.3.5. Discussão dos resultados com cloreto de sódio .................................................. 167
6.4. Ensaios de envelhecimento alcalino com hidróxidos .............................................. 170
6.4.1. Preliminares......................................................................................................... 170
6.4.2. Princípio da simulação experimental .................................................................. 172
6.4.3. Soluções alcalinas e duração dos ensaios ........................................................... 172
6.4.4. Resultados ........................................................................................................... 173
6.4.5. Discussão dos resultados do envelhecimento alcalino com hidróxidos ............. 178
6.5. Ensaios de envelhecimento na presença de carbonato de sódio............................ 181

x
6.5.1. Princípio da simulação experimental .................................................................. 181
6.5.2. Resultados ........................................................................................................... 184
6.5.3. Discussão dos ensaios com carbonato de sódio ................................................. 187
7. Final ....................................................................................................................................... 189
7.1. Revisão dos objetivos .............................................................................................. 189
7.2. Conclusões do trabalho ........................................................................................... 191
7.2.1. Inspeções in situ .................................................................................................. 191
7.2.2. Simulação experimental da degradação ............................................................. 194
7.2.3. Recomendações para as intervenções ................................................................ 197
7.3. Novos conhecimentos gerados pelo projeto ........................................................... 200
7.4. Vias de investigação futura ...................................................................................... 201
Fontes e Referências Bibliográficas .......................................................................................... 205
Publicações realizadas neste período enquadradas na investigação realizada ........................ 221

Parte II

ANEXOS

Anexo 1: Fichas dos edifícios analisados

Anexo 2: A - Fichas de caracterização física e química-mineralógica dos azulejos

B- Ficha de evolução aos ensaios de envelhecimento

xi
Lista de Figuras

Figura 0.1: Revestimento decorativo com azulejos do séc. IX no mirabe da Grande Mesquita de
Kairouan 1
Figura 0.2: a) Painel da Igreja da Misericórdia de Viana do Castelo; b) O arcanjo e o
emolduramento estão delineados pela junta de recorte; c) As cabeças das figuras surgem
recortadas e reintegradas no fundo, para caberem na composição 4
Figura 0.3: Dois casos de trona in situ associados com a delaminação do vidrado sem vestígios
de chacota e as bolhas que geralmente antecedem um destacamento: a) Capela do Paço de
Massarelos, Data de inspeção: Julho/2013; b) Capela da Quinta d’Água, Montijo 11
Figura 0.4: Imagem de SEM e espectro EDS de géis de Si-K-Ca típicos das reações alcali-sílica sob
o vidrado destacado num azulejo do século XVII (LNEC / SEM JEOL-6400 e amostra com
recobrimento Au/Pd) 12
Figura 1.1: Pormenor de alguns recozimentos para disfarçar defeitos de fabricação: A –
preenchimento de uma área que terá ficado sem vidrado; B – preenchimento de uma área com
enrolamento, usando esmalte azul 24
Figura 1.2: Imagens de SEM representando três formas de propagação de craquelé do tipo 2: a)
Fissuração horizontal na interface vidrado/chacota (provete C6, século XVIII) com
destacamento tipo C; b) Fissuração vertical com propagação horizontal na chacota (provete
AZ03, Fábrica Roseira, século XIX); c) Fissuração vertical do vidrado com ponte estabelecida
entre craquelé, no interior da chacota a uma distância de grandeza da espessura do vidrado
(provete C3, “espiga”, século XVII). b) e c) correspondem ao destacamento de vidrado do tipo L 27
Figura 1.3: Pormenor da degradação encontrada com eflorescências e destacamentos de
vidrado, chacota e massas de preenchimento 37
Figura 2.1: Representação de uma olaria e do lugar onde se preparavam os barros 46
Figura 2.2: Tanque e pia de preparação do barro: A – pia onde se desfaz o barro; B – suporte
elevado para a passagem da água cheia de barro através da peneira; C – tanque que recebe o
barro depois de passado pela peneira 47
Figura 2.3: a) A pá e os dois tipos de enxada serviam para revolver o barro nos tanques, sendo a
primeira usada nos baldes; b) Barrilete; c) Peneira; d) Palheta 47
Figura 2.4: Interior de uma oficina onde se vê o barro a ser pisado e à direita as placas de barro
amontoadas depois de terem sido amassadas e batidas 49
Figura 2.5: Imagem ilustrativa de uma bancada e com o que é necessário à produção de
ladrilhos 50
Figura 2.6: Maço que serve para bater o barro 51
Figura 2.7: A marca impressa na superfície de um azulejo de cercadura parece concordar com a
ponta de um maço 51
Figura 2.8: Desenhos de Piccolpasso com a planta e partes que compõem um forno cerâmico do
século XVI 54

xii
Figura 2.9: Ilustração de um forno usado para a cozedura de ladrilhos e louça (vista em corte de
perfil e de topo) 55
Figura 2.10: Ilustração de um outro forno usado para cozer a louça nas fábricas de Coimbra
(vista de frente, em corte de perfil e de topo) 55
Figura 2.11: a) Os escorridos no azul mais escuro mostram que o azulejo foi cozido na vertical
ou, pelo menos, inclinados (Col. MNAz, azulejo do século XVII); b) tardozes de um painel de
padronagem polícromo do século XVII que mostram o reaproveitamento de azulejos não
comercializados na primeira produção (Inv. 9033Az); c) marca de colagem, possivelmente, de
um outro azulejo (Col. MNAz, azulejo século XVIII, refª e, b24) 57
Figura 2.12: Defeitos de cozedura causados pelo recozimento e efeito das cinzas. a) Refervido
(Col. MNAz, séc. XVII-XVIII); b) Crateras e pigmentação cinzenta resultante do contacto das
cinzas (Col. MNAz, azulejo da produção de Coimbra, século XVIII, refª G3 D); c) Perda da cor
amarela ou laranja por excesso de temperatura de cozedura (MNAz, séc. XVII, refª L18) 58
Figura 2.13: Vista de frente e em corte de perfil, de um forno vertical composto por três corpos:
fornalha e duas câmaras de cozedura 59
Figura 2.14: Forno do mesmo tipo usado na Fábrica da Fonte Nova em Aveiro com cozeduras de
28 horas. Em C é cozida a chacota; a louça vidrada em B; D corresponde à fornalha e E o
cinzeiro; F é a chaminé ou buzinote 59
Figura 2.15: Simulação da arrumação de azulejos: a) na vertical; b) em cunha 64
Figura 2.16: Moinhos que serviam para moer o vidrado: a) moinho de mão [Piccolpasso]; b)
moinho movido a cavalos ou bois 68
Figura 2.17: Retoques para disfarçar defeitos de fabricação no vidrado em azulejos de
diferentes séculos de produção: enrolamento (MNAz, séc. XVII-XVIII, refª. A 159; séc. XVIII, refª.
A15 D; séc. XIX, padrão atribuível à Fábrica Roseira, s/identificação) 70
Figura 2.18: Três tipos de pincéis usados na pintura cerâmica, desenhados por Piccolpasso 70
Figura 2.19: Alguns dos utensílios usados na preparação das cores: a) Placa de mármore com
moleta e almofariz que servem para moer os pigmentos; b) Crivo e peneira para as matérias
que compõem as cores 73
Figura 2.20: Dois casos de uma má composição a partir de gravuras: a) o focinho do javali tem o
formato de um bico de pato; b) as duas mãos são da direita e as perspetivas também estão
erradas (Prédio anexo à Igreja de S. José dos Carpinteiros, Lisboa) 76
Figura 2.21: a) o esboço foi feito livremente a pincel percetível nos traços azuis mais claros que
mostram por exemplo a mudança de posição do bastão, do panejamento ou no desenho do
rosto na figura que representa o diabo (Igreja de Santa Marta, Évora); b) alguns contornos (a
estilete?) ficam evidenciados no vidrado (MNAz, Jesus entre os doutores, Inv. Nº 1760); c) a
textura do papel ficou marcada por pressão no vidrado e foi acentuado pela cor. Neste caso o
papel foi encostado ao vidrado pulverulento pela face errada (MNAz, s/Inv, Coimbra) 77
Figura 2.22: Algumas técnicas decorativas usadas na pintura: a) folhagem a esponjado (Igreja da
78
Nª. Srª. da Conceição, Peniche); b) esgrafitado (MNAz, Apocalipse - Mulher da Babilónia); c)

xiii
pulverização a sopro (MNAz, Cortejo de Neptuno e Anfitrite, Inv. Nº. 141)
Figura 2.23: Vidrados com marcas “fantasma” dos azulejos que foram colocados por cima: a)
código em negativo do tardoz do azulejo “d24” (Igreja de S. Domingos, Montemor-o-Novo); b)
transferência da pintura (Convento da Graça, Lisboa) 78
Figura 3.1: Microscópio ótico Zeiss Axioplan MC100 (LNEC) 81
Figura 3.2: Análise de provete durante um ensaio de envelhecimento com lupa binocular Meiji
EMZ-TR e câmara Bresser (LNEC) 81
Figura 3.3: Lupa binocular Leica M80 com câmara incorporada (MNAz) 81
Figura 3.4: Colagem das amostras em lâminas de vidro previamente despolidas 82
Figura 3.5: Corte e desbaste das amostras no equipamento Petro-Thin (LNEC) 82
Figura 3.6: Desbaste manual com movimentos em “8” em pó abrasivo de 9 µm, com a lâmina
fixa num porta-amostras 83
Figura 3.7: Polimento manual com panos e pulverizadores de pó de diamante no equipamento
mecânico DAP-V, Struers (LNEC) 83
Figura 3.8: Corte fino em equipamento Logitech IsoMet 4000 (LNEC 83
Figura 3.9: Primeiro polimento em equipamento Logitech PM5 (LNEC) 83
Figura 3.10: Polimentos mecânicos no equipamento LaboPol-35, Struers (LNEC) 83
Figura 3.11: Equipamento HITACHI 3700N de análise MEV/EDX (HERCULES) 84
Figura 3.12: Moagem em moinho de pilão e almofariz Retsch (LNEC) 85
Figura 3.13: Pó montado em porta-amostra 85
Figura 3.14: Difratómetro de raios-X Bruker AXS-D8 Discover (HErcules) 86
Figura 3.15: Equipamento de análise TG-DTA Netzsch STA 449 F3 Jupiter (HÉRCULES) 86
Figura 3.16: Preparação de um exemplar de chacota para análise 87
Figura 3.17: Porosímetro de mercúrio Quantachrome Autoscan (LNEC) 87
Figura 3.18: Azulejos durante a imbibição 88
Figura 3.19: Durante o ensaio 88
Figura 4.1: Distribuição das espécies salinas de acordo com a área geográfica definida pela
proximidade costeira ou no interior 97
Figura 4.2: a) Destacamento de vidrado de localização indiferenciada na forma de pontos com
pequenas eflorescências de cloreto de sódio; b) Um estado mais avançado na perda de vidrado 97
Figura 4.3: Ocorrência e associações dos sais encontrados nos diferentes conjuntos 98
Figura 4.4: a) Cristalização de sais com arenização da chacota e película folhosa salina que
ultrapassa a periferia do vidrado. A película localiza-se na interface vidrado/chacota (o vidrado
está solto nesta zona) propagando-se paralelamente ao contorno da falha de vidrado 99
Figura 4.5: a) Crosta de sal em tubo que perfila o contorno duma lacuna. O vidrado mostra 100

xiv
linhas de rutura pela perda de ligação com o substrato. A chacota exposta é lisa evidenciando
laminação limpa do vidrado. b) Pústulas de sal
Figura 4.6: a) Degradação localizada, de formato circular, acompanhada de eflorescências. Estas
poderão ter origem em pequenos pontos de destacamento de vidrado 101
Figura 4.7: a) As eflorescências filamentosas ocorrem a delinear o contorno do vidrado.
Craquelé evidenciado e chacota com aparência pulverulenta 101
Figura 4.8: Duas imagens representativas da evolução na degradação dos azulejos que decoram
o interior da Capela de Nossa Senhora dos Remédios, em Peniche. Na imagem a), datada de
1960-1970 (autoria: JMSS. Col. Azulejaria portuguesa, FCG-Biblioteca de Arte), a boa
conservação dos azulejos da abóbada contrapõe-se ao estado de degradação patente em abril
de 2013 (b). Em c), um pormenor da degradação 102
Figura 4.9: a) A chacota de um fragmento destacado tem um aspeto consolidado amarelo
acastanhado com pequenas crostas salinas à superfície 102
Figura 4.10: A ocorrência da trona nas formas de eflorescência (a) e concreção (b). Em c),
imagem SEM de cristais de compostos de sódio com hábito em placas alongadas das
eflorescências apresentadas na figura 4.11 103
Figura 4.11: Perda de vidrado e eflorescências de trona, nos anos de 2007 (a) e 2013 (b) num
dos painéis da Capela do Paço de Massarelos, em Oeiras ; c) difractograma da eflorescência
(todos os picos presentes correspondem ao perfil difractométrico da trona) 104
Figura 4.12: Cristalizações de sulfato de cálcio num mesmo azulejo e colheita de amostra. a)
Perda de vidrado em círculo expondo cristalizações de sais na chacota e no centro núcleo
escurecido. À direita do dano, início do empolamento em círculo a partir de um outro poro; b)
O vidrado destacou-se ao toque e o acesso ao interior permitiu confirmar a presença de uma
substância salina na interface vidrado/chacota; c) Mapa da distribuição elementar por EDS
sobreposta à imagem SEM da concreção de sulfato de cálcio colhida em b) 105
Figura 4.13: a) Concreção em espiral na linha de fratura; b) imagem SEM da concreção com os
cristais em escama de CaSO4, compactados 105
Figura 4.14: a) Perda de vidrado a partir das arestas e vértices; b) a imagem de pormenor
mostra a exfoliação fina da chacota e fissuração do vidrado, criando nova frente de
destacamento 106
Figura 4.15: Concreções de sulfato de cálcio sobre a chacota com a respetiva imagem SEM
ilustrando o hábito em plaquetas 106
Figura 4.16: a) Extensa perda de vidrado. Na chacota, crostas salinas e desagregação do
material cerâmico à superfície; b) mapa de análise elementar EDS sobreposta a imagem SEM
onde o sal predominante é o sulfato de magnésio 107
Figura 4.17: Padrão de degradação na área inferior do revestimento: a partir dos vértices com
prolongamento para as arestas 108
Figura 4.18: Chacota com crostas que demarcam veios semicirculares e empolamentos. As
108
novas frentes de destacamento são evidenciadas pelas linhas de rotura do vidrado, de

xv
propagação paralela e sempre maior – área central do painel ↑≈3m
Figura 4.19: a) Eflorescências pulverulentas de sulfato de sódio circunscritas às juntas e arestas
dos azulejos; b) imagem SEM da amostra colhida em a) ilustrando uma morfologia do sal em
pequenas plumas 108
Figura 4.20: Resultados obtidos pela análise SEM/EDS das eflorescências de sais colhidas na
Igreja de Santiago, em Évora (I/13) 109
Figura 4.21: a) Pormenor da perda de vidrado e desagregação alveolar da chacota; b) mapa de
análise elementar EDS do cloreto de magnésio sobreposto a imagem SEM 110
Figura 4.22: a) Azulejos com perda de vidrado associável à proximidade da pia de água benta; b)
imagem SEM do verso de um fragmento colhido em a) onde se reconhecem cristais cúbicos de
NaCl 111
Figura 4.23: Perda de vidrado e chacota com incidência nos vértices e arestas 111
Figura 4.24: Perda de vidrado a partir do centro 111
Figura 4.25: Perda de vidrado em mosaico com chacota aderente. A superfície cerâmica
evidencia o entalhe deste destacamento 112
Figura 4.26: Perda limpa de vidrado ao centro. A chacota lisa evidencia o craquelé original do
tipo 1 que se propagava para o interior do cerâmico 112
Figura 4.27: Perda da decoração, empolamentos e vidrado com craquelé denso 112
Figura 4.28: a) Delaminação da chacota por subflorescências; b) mapa de análise elementar EDS
sobreposta à imagem de uma área onde o sal predominante é o sulfato de cálcio 113
Figura 4.29: a) Eflorescências filamentosas e macias de sulfato de magnésio; b) imagem SEM
com seleção para análise pontual por EDS 113
Figura 4.30: Perda de vidrado a partir das arestas e, à direita, pequena inclusão na chacota com
correspondência à perda de vidrado e onde também se nota a delaminação da chacota 114
Figura 4.31: a) Perda de vidrado circular e ao centro; b) empolamento em forma de vulcão a
partir de um poro; c) manchas castanhas (de origem biológica?) que delimitam poros e onde é
percetível a perda de ligação vidrado/chacota 114
Figura 4.32: Perda de vidrado em azulejos de interior sem sais associados. a) frontal de altar da
Capela das Albertas, MNAA; Claustrim, MNAz; Sacristia da Sé de Viseu 115
Figura 5.1: Espectro de XRF do vidrado branco com os picos de estanho nos azulejos C5
(vermelho), C6 (azul) e C7 (verde) 126
Figura 5.2: Imagem em SEM/EDS acompanhada da imagem do respetivo provete. Nas vistas de
secções a camada superior (cinzento claro) corresponde ao vidrado, onde num grande número
de casos é possível a identificação do tipo de craquelé. A camada inferior (cinzento médio) é a
chacota 136
Figura 6.1: Isolamento das faces laterais deixando livre uma aresta natural de evaporação 156
Figura 6.2: Contorno e abertura para encaixe do provete 156

xvi
Figura 6.3: Célula de envelhecimento 156
Figura 6.4: Contaminação inicial com NaCl 157
Figura 6.5: Células de envelhecimento durante o ciclo de secagem 158
Figura 6.6: Pesagem do provete após o ciclo de secagem. A caixa serviu de recetáculo da
matéria desprendida do tardoz 158
Figura 6.7: Processo de imbibição pelo tardoz 159
Figura 6.8: Sistema de proteção para evitar perda de água por evaporação 159
Figura 6.9: Um dos provetes: a) Cp1 no fim do ensaio com eflorescências; b) a dessalinização
removeu o sal resultando em novos destacamentos do vidrado 160
Figura 6.10: Progressão do envelhecimento do provete B7: a) condição inicial (ciclo 0); b)
pormenor da área onde surgiu o dano por rutura do vidrado na 2ª série; c) a fissuração à volta
do defeito é evidenciada pela eflorescências no fim da 5ª série dos ciclos 161
Figura 6.11: EMP2: a) antes dos ensaios; b) e c) destacamento total do vidrado 161
Figura 6.12: Progressão da degradação do C6: a) ciclo 0; b) 3ª série; c) fissuração, empolamento
da chacota e destacamento do vidrado (último ciclo da 5ª série) 162
Figura 6.13: Correspondência entre fragilidades pré-existentes reveladas no SEM das amostras
de caracterização e a perda de vidrado nos ensaios de envelhecimento dos azulejos C3 (a, b) e
C6 (c, d)1 162
Figura 6.14: Progressão do envelhecimento dos provetes C3, C4 e C2: a) 1ª série (0); b) 3ª série;
c) último ciclo da 5ª série 163
Figura 6.15: Progressão do envelhecimento do provete B2: a) ciclo 0; b) 3ª série; c) última série
após dessalinização final; d) pormenor da separação do vidrado; e) resultados obtidos com a
penetração de tinta vermelha 164
Figura 6.16: Progressão da degradação nos provetes Cp1 e Cp2: a) ciclo 0; b) e c) pormenor da
área danificada, respetivamente na 3ª e 5ª série mostrando empolamento e fissuração 165
Figura 6.17: Amostra F1: a) sem danos após o ensaio de envelhecimento; b) perda de vidrado
no ensaio pull-off; c) verso de uma lâmina de vidrado 165
Figura 6.18: Abertura das tampas para encaixe dos provetes 171
Figura 6.19: Frente e verso com os provetes montados 171
Figura 6.20: Aplicação de silicone para vedar a tampa no encaixe 171
Figura 6.21: Reposição dos níveis de solução 171
Figura 6.22: Célula de envelhecimento 171
Figura 6.23: Esquema de montagem das células de envelhecimento 171
Figura 6.24: Células de envelhecimento no interior da estufa Heraeus a 60 ᵒC (LNEC) 173
Figura 6.25: Exsudação a partir das linhas de craquelé no provete ASR2 174
Figura 6.26: Empolamento e destacamento do vidrado no provete ASR5 174

xvii
Figura 6.27: Desníveis das tesselas definidas pelo craquelé no provete ASR4 174
Figura 6.28: Pústulas fechadas na superfície do vidrado no provete ASR3 174
Figura 6.29: Diagrama XRD da eflorescência colhida depois do ensaio 176
Figura 6.30: Empolamento e destacamento do vidrado (NaCa2) 177
Figura 6.31: Novas fissuras circundando os poros, causadas pelo início do destacamento
(NaCa2). 177
Figura 6.32: Solubilidade em água do carbonato de sódio relativamente à temperatura
(baseado na tabela 6.6) 182
Figura 6.33: Azulejo AZ01 antes e durante o ensaio 1, verificando-se a acentuação de craquelé 185
Figura 6.34: Provete AZ01 antes e depois do ensaio 2: a) fissuração do provete (após a 1ª
semana a 9 ± 2 ᵒC); b) a mesma área com delaminação da chacota e destacamentos no fim do
ensaio; c) empolamento e fracturação do vidrado; d) danos ocorridos após o ensaio 185
Figura 6.35: Estado do provete AZ02 antes e após o ensaio 2: a) demarcação do craquelé no
final do ensaio; b) frente de destacamento a partir da aresta 185
Figura 6.36: Danos ocorridos no ensaio do provete AZ03 antes e após o ensaio 2: a) rutura e
empolamento de vidrado (às 10 semanas); b) após ensaio; c) detalhe do canto esquerdo. O
destacamento do vidrado ocorre com uma fina camada de chacota agarrada e é acompanhado
da delaminação do suporte cerâmico 186
Figura 6.37: Difractograma de raios X da amostra de eflorescência colhida depois do ensaio: K –
Kalicinite (bicarbonato de potássio); G – Gaylussite (carbonato de sódio cálcio hidratado
Na2Ca(CO3)2·5H2O); Th – Termonatrite (carbonato de sódio Na2CO3·H2O); T – Trona
Na3(CO3)(HCO3)·2H2O); F – Feldspatos; C – Calcite; Q – Sílica 187
Figura 7.1: Perda progressiva de vidrado a partir das arestas [Igreja de São Domingos, Viana do
Castelo].. 192
Figura 7.2: Destacamento de vidrado a partir dos vértices [Igreja da Misericórdia, Évora] 192
Figura 7.3: Inclusões no interior da chacota que levaram à fratura do azulejo 193
Figura 7.4: As inclusões (vermelhas) correspondem a áreas com perda de vidrado [Ermida de
Nossa Senhora da Paz, Montemor-o-Novo] 193
Figura 7.5: Delaminação da chacota a partir dos filamentos de barro vermelho 193
Figura 7.6: O mesmo padrão de degradação “em vulcão” a partir dos poros nos azulejos do
Convento da Graça e no Claustro do MNAz 194

xviii
Lista de Tabelas

Tabela 4.1: Listagem de imóveis e conjuntos inspecionados com a respetiva associação à


degradação e sais encontrados. Na coluna da esquerda “L” e “I” correspondem,
respetivamente, à localização geográfica no litoral ou no interior ............................................ 93
Tabela 5.1: Azulejos estudados sistematizados por época de produção1................................ 120
Tabela 5.2: Composição química do vidrado (análise semi-quantitativa) de 27 azulejos,
agrupados e distribuídos evolutivamente por períodos de produção dos séculos XVII, XVIII e XIX
(wt%., normalizado a 100%)...................................................................................................... 127
Tabela 5.3: Composição química da chacota por EDS com duas zonas de observação agrupados
e distribuídos evolutivamente por períodos de produção dos séculos XVII, XVIII e XVIII-XIX, em
wt.%. As colunas com o símbolo + e a cinzento correspondem às zonas mais próximas da
interface; os valores nas colunas com símbolo ++ são de áreas mais afastadas da interface.. 129
Tabela 5.4: Percentagem de carbonatos nas chacotas por TGA/DTA ...................................... 130
Tabela 5.5: Composição mineralógica das chacotas por XRD. A referência Mg que surge com
alguns valores corresponde à forma mineral magnesiana. Os valores semi-quantitativos
representam a % de cada fase em relação à totalidade das espécies cristalinas constantes da
Tabela: Quartzo SiO2; Anortite CaAl2Si2O8 ; Diópsido Ca(Mg,Al)(Si,Al)2O6 ; Gelenite
Ca2Al(AlSiO7); Calcite Ca(CO3); Andradite Ca3Fe2Si3O12 ; Wollastonite CaSiO3 ; Muscovite
KAl3Si3O10(OH,F)2 ; Leucite K(AlSi2O6); Sanidina K(Si3Al)O8 ; Microclina KAlSi3O8 ; Akermanite
Ca2Mg(Si2O7); Escapolite (Na,Ca)4(Al,Si)3Si6O24)(Cl,CO3,SO4); Analcite NaAlSi2O8 ; Perovskite
CaTiO3. ...................................................................................................................................... 132
Tabela 5.6: Espessuras dos vidrados obtidas no SEM ............................................................... 137
Tabela 5.7: Observação macroscópica de seções das superfícies de corte dos azulejos ......... 139
Tabela 5.8: Dados referentes à porosidade, capacidade de imbibição à pressão ambiente (CI),
coeficiente de capilaridade (CC) e modas ................................................................................. 143
Tabela 5.9: Azulejos usados nos ensaios de envelhecimento alcalino ..................................... 144
Tabela 5.10: Observação macroscópica dos azulejos usados nos ensaios de envelhecimento
alcalino ...................................................................................................................................... 146
Tabela 5.11: Azulejos usados no ensaio com carbonato de sódio ............................................ 148
Tabela 5.12: Observação macroscópica dos azulejos usados no ensaio de envelhecimento com
carbonato de sódio ................................................................................................................... 149
Tabela 6.1: Resumo dos resultados: “D”= degradação na dessalinização antes do ciclo inicial;
“AG”= degradação adicional durante os ciclos de envelhecimento acelerado (as linhas
cinzentas são referentes às amostras que não sofreram degradação macroscópica durante os
ciclos de envelhecimento); “DD” = degradação na dessalinização final ................................... 166
Tabela 6.2: Registo dos primeiros danos para cada provete em função do tempo de exposição
ao hidróxido de sódio ................................................................................................................ 173
Tabela 6.3: Imagens obtidas antes e após o ensaio de envelhecimento acelerado com hidróxido
de sódio ..................................................................................................................................... 175
Tabela 6.4: Registo dos danos para cada provete em função do tempo de exposição à solução
combinada dos hidróxidos de sódio e de cálcio........................................................................ 177

xix
Tabela 6.5: Imagens obtidas antes do início e após o fim do envelhecimento acelerado sob a
ação conjunta dos hidróxidos de sódio e de cálcio. Cada provete é acompanhado de fotografia
em SEM-EDS da ligação das duas camadas, antes e após o ensaio .......................................... 178
Tabela 6.6: Solubilidade do carbonato de sódio anidro em água em função da temperatura
[Apelblat e Manzurola 2003]..................................................................................................... 182
Tabela 6.7: Danos verificados no decorrer dos ensaios de envelhecimento ............................ 184
Tabela 6.8: Imagens em SEM/EDS de cada azulejo. Na primeira coluna, as imagens
representativas das condições iniciais antes dos ensaios e nas duas outras colunas, os
resultados obtidos nos dois ensaios de envelhecimento ......................................................... 186
Tabela 7.1: Alguns dos sais encontrados in situ com os respetivos valores de HR e temperatura
de equilíbrio [Watt e Colston, 2016] ......................................................................................... 199

xx
Lista de Siglas e Abreviaturas

AHMOPTC Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações


Al Alumínio
Al2O3 Óxido de alumínio
ANTT Arquivo Nacional Torre do Tombo
ASR Alkali-silica reaction (Reação alcali-sílica)
B Bom estado de conservação, embora apresente algum craquelé e pequenas falhas
C Vidrado com craquelé demarcado ou, em fórmulas químicas, o elemento carbono
Ca Cálcio
CaO Óxido de cálcio
Cap. Capítulo
CC Coeficiente de capilaridade
CI Capacidade de imbibição à pressão ambiente
Col. Coleção
Cp Falhas de vidrado no centro com progressão para as arestas
CuO Óxido de cobre
Doc. Documento
DTA Differential Thermal Analysis (Análise térmica diferencial)
El Elemento
EMP Vidrado com sinais de separação da chacota (empolamento)
F Vidrado pardo atribuível a uma formação deficiente da estrutura amorfa
FCG Fundação Calouste Gulbenkian
Fe Ferro
Fe2O3 Óxido de ferro
fl. Fólio
HR Humidade Relativa
K Potássio
K2O Óxido de potássio
L. Livro
LNEC Laboratório Nacional de Engenharia Civil
MgO Óxido de magnésio
MIP Mercury Intrusion Porometry (Porosimetria de intrusão de mercúrio)
m/m Massa de soluto por massa de solução
MNAA Museu Nacional de Arte Antiga
MNAz Museu Nacional do Azulejo
MVA Massa Volúmica Aparente
MVR Massa Volúmica Real
Na Sódio
Na2O Óxido de sódio
of. Ofício
-
OH Hidróxido
p. Partes
Pb Chumbo
PbO Óxido de chumbo
Pc Falhas de vidrado nas arestas com progressão para o centro
Refª Referência
RFR Real Fábrica do Rato
s/d Sem data
s/Inv Sem número de Inventário atribuído
Séc. Século

xxi
SEM/EDS Scanning Electron Microscopy with Energy-Dispersive Spectroscopy (Microscopia
eletrónica de varrimento com microanálise)
Si Silício
SiO2 Sílica
SnO2 Óxido de estanho
TGA Thermo-Gravimetric Analysis (Análise termogravimétrica)
TiO2 Óxido de titânio
TMA Teor Máximo de Água
UÉ Universidade de Évora
wt.% Percentagem ponderal
XRD X-Ray Diffraction (Difração de Raios X)
XRF X-Ray Fluorescence (Fluorescência de Raios X)
ZnO Óxido de zinco
↑≈ Altura aproximada

xxii
Apresentação

Este doutoramento em História da Arte está integrado no programa doutoral HERITAS em


Estudos do Património.

Partindo do campo científico da História da Arte, a abordagem aqui apresentada é


multidisciplinar na perspetiva mais abrangente do Património. É focada na problemática da
degradação do azulejo enquanto objeto artístico, condição que implica que a aplicação dos
procedimentos técnicos deva ter em consideração o significado cultural dos objetos. No
azulejo histórico, assim como noutros bens culturais, existe uma parte física que tem sido
pouco estudada e sem a qual o azulejo deixa de existir. Walter Benjamin [Benjamin, 1992: 79]
refere a importância da matéria na sua reflexão “A Obra de Arte na Era da sua
reprodutibilidade técnica” publicada em 1955 quando define que “A autenticidade de uma
coisa é a soma de tudo o que desde a origem nela é transmissível, desde a sua duração
material ao seu testemunho histórico”. A autenticidade do Azulejo incorpora o decurso da sua
existência, as características de fabricação, as suas propriedades físicas e química-
mineralógicas, a decoração com a sua pátina e a própria degradação que testemunha a sua
vivência mas que deve ser controlada sob pena de se perder tudo o resto. A possibilidade de
conservar sem consequências funestas depende do entendimento das causas da degradação e
dos mecanismos de atuação dos seus agentes.

1. O azulejo e a sua importância no contexto da herança cultural portuguesa.


Os revestimentos azulejares portugueses constituem uma das mais originais contribuições do
País para o legado artístico mundial. Grandes composições figurativas ou de padrão foram
usadas para revestir e decorar, por vezes totalmente, o interior de espaços religiosos ou de
habitação. A aplicação destes conjuntos extravasou também para o exterior, revestindo
claustros e jardins, chegando mesmo a preencher fachadas quando a produção do azulejo se
tornou mais industrial durante o século XIX.
O azulejo, uma placa em geral quadrada de faiança que recebe decoração vítrea numa das
faces, começou a ser utilizado como revestimento decorativo de paredes no mundo islâmico,

1
Apresentação

antes do ano 1000, como demonstram as aplicações de Kairouan, na Tunísia, com grande
efeito decorativo (Fig. 0.1).

Figura 0.1

Figura 0.1: Revestimento decorativo com azulejos do séc. IX no mirabe da Grande Mesquita de Kairouan.
[Fonte: Wikimedia Commons; autor: Citizen59; imagem trabalhada / Acesso: 16/06/2016]

Por influência da civilização islâmica esta expressão artística invadiu a Europa mediterrânica,
ganhando raízes no Sul da Península Ibérica e no nosso território a partir de cerca de 1500,
com a produção hispano-mourisca de Sevilha. Possivelmente devido à prática religiosa
islâmica, a tradição dos revestimentos azulejares em locais de culto privilegia decorações
inicialmente lisas ou geométricas.
É com o surgimento em Portugal da técnica da majólica, na segunda metade do século XVI,
que se vai iniciar uma evolução do azulejo português como um marcador identitário associado
à arquitetura e cronologicamente adaptado às mudanças de gosto e à sucessão de estilos.
A sua produção envolve um corpo técnico de artífices responsáveis pelos processos de
fabricação, pintores, e mestres azulejadores, que revestiam e emolduravam os espaços de
acordo com o seu sentido de graça e equilíbrio.
Artistas anónimos produziram composições de padrão de grande complexidade e efeitos
visuais utilizados no revestimento de grandes superfícies parietais, por vezes com
prolongamento para tetos abobadados. Estes tapetes, utilizando uma paleta onde
preponderavam o azul, o amarelo e o verde sobre um fundo banco, passaram a conter
pequenos painéis figurativos, geralmente com motivos alegóricos ou religiosos, mas ainda
subordinados aos revestimentos de padronagem. O traço muitas vezes ingénuo, característico
dos painéis portugueses até finais do século XVII, contrasta com as temáticas eruditas,

2
Apresentação

elaboradas a partir das narrativas bíblicas e mitológicas. Esta fase, que terá continuidade no
século seguinte, é também enriquecida pelos mestres azulejadores que revestiam e
emolduravam os espaços arquitetónicos, adaptando os azulejos com especial mestria em vãos
de janelas, óculos, arcos e escadarias. As peças eram meticulosamente cortadas, empregando
uma técnica arcaica de origem islâmica, aumentando a graciosidade da decoração e
engrandecendo os vãos da arquitetura.
No século XVIII, a produção incidiu com maior intensidade em painéis figurativos de cariz
religioso ou profano e o desenho aprimorou-se pela mão de artistas com experiência noutros
meios. O azulejo foi o suporte eleito para grandes e elaboradas composições assinadas ou de
pintores anónimos e o azul sobre fundo branco conheceu aqui o seu esplendor. Com
composição própria ou a partir de gravuras, os pintores portugueses representaram com
liberdade criativa grandes “quadros”, com mensagens religiosas ou profanas. Eram janelas de
encenação da vida e/ou ensinamentos da doutrina cristã. Esta liberdade de composição,
encenação e o relacionamento com a arquitetura tornou-se uma característica fulcral na
produção azulejar portuguesa. O azulejador continuava a ter um papel importante no
enquadramento do azulejo nos panos arquitetónicos. Um dos exemplos mais ilustrativos que
se conhecem é o da grande composição de cerca de 1719 que reveste a parede do arco da
Igreja da Misericórdia, em Viana do Castelo, da autoria de Policarpo de Oliveira Bernardes
(1695-1778)1 que evidencia a mestria do azulejador. Por um erro de medição, o painel
entregue era maior do que a superfície a revestir e a solução encontrada passou pelo recorte e
reintegração das figuras representadas, num cenário que foi recortado “em negativo” para as
receber na composição central e lateral, ultrapassando por vezes o próprio emolduramento
(Fig. 0.2). O azulejador, de nome Manuel Borges, terá recebido por este trabalho uma
compensação superior ao inicialmente acordado2 [Salema de Carvalho, 2012: 75-76]. Esta
solução confere ao conjunto, além da qualidade artística, uma riqueza técnica invulgar cuja
eficácia faz a correção passar desapercebida a um observador na nave da igreja.

1
Sobre este pintor consultar Salema de Carvalho, 2012.
2
(…) que foi obrigado a corrigir o painel do arco triunfal devido a um erro nas medidas enviadas pela
confraria para Lisboa (…) trabalho pelo qual a Mesa achou por bem gratificá-lo com nove mil e
seiscentos reais a mais do que inicialmente previsto [Salema de Carvalho, 2012: 75-76].

3
Apresentação

Figura 0.2

Figura 0.2: a) Painel da Igreja da Misericórdia de Viana do Castelo; b) O arcanjo e o emolduramento


estão delineados pela junta de recorte; c) As cabeças das figuras surgem recortadas e reintegradas no
fundo, para caberem na composição [Imagens: L. Esteves].

Na segunda metade do século XVIII, surge o gosto por molduras coloridas de concheados que
utilizam a cor vinosa de manganês, o verde e o amarelo. Estas contrastam com as cenas no seu
interior, em azul e, por vezes, a manganês sobre a faiança branca.
Azulejos de padrão policromos, vulgarmente denominados de pombalinos pela utilização nas
novas construções urbanas e em particular na reconstrução pós-terramoto, levada a cabo pelo
Marquês de Pombal, eram usados sobretudo em silhares para a decoração de espaços menos
nobres.
A partir da década de 1840, o azulejo de padrão de produção semi-industrial foi
maioritariamente usado no revestimento de fachadas ou no interior dos edifícios, na
decoração de escadarias e em silhares nas áreas privadas dos apartamentos. Nesta altura, a
estampilha foi o método usado para a aplicação da pintura tornando a produção mais rápida e
barata.
Na primeira metade do século XX, o azulejo vulgarizou-se como revestimento decorativo de
espaços públicos tais como os mercados e as estações ferroviárias. Após um período de

4
Apresentação

desinteresse, o azulejo foi o material escolhido por alguns artistas contemporâneos para a
decoração da arquitetura modernista, sendo utilizado em novos espaços urbanos, incluindo
painéis exteriores ou colocados em áreas de acesso público, como as estações do
Metropolitano, utilizando variadas técnicas de produção industrializada.
O testemunho representativo dos diferentes séculos e produções fez com que o azulejo se
afirmasse ganhando hoje um estatuto impar no contexto da arte portuguesa.
A importância da sua expressão e originalidade artística, a qualidade de fabrico e a sua
longevidade multisecular são motivos fundamentais que tornam os azulejos históricos um
tema de estudo apaixonante.
É hoje praticamente consensual que a vulgarização do azulejo como suporte de pintura e
revestimento da arquitetura está relacionada com o brilho e a intensidade das cores que lhe
são conferidos pelo vidrado, associado à sua resistência e durabilidade. No entanto, esta
relação próxima com a arquitetura e séculos de exposição conduziram a que muitos conjuntos
tenham chegado aos nossos dias em avançado estado de degradação e com sérios riscos de
desaparecimento num prazo que já se vislumbra próximo. Este reconhecimento de
perecibilidade e risco iminente constitui o eixo fulcral da nossa reflexão.

2. Degradação dos azulejos e suas consequências na perda do património


Ao longo de séculos, os portugueses privilegiaram o azulejo como material de decoração e
revestimento dos paramentos murais. Desse gosto resultou uma vasta aplicação em Portugal e
no Brasil, surgindo a decorar os interiores de espaços religiosos (igrejas e conventos), palácios,
casas e no exterior em jardins. O legado cultural recebido através destes revestimentos é
inestimável, sendo de capital importância a sua preservação.
Ao contrário da pedra, a degradação em azulejos tem sido pouco estudada. Esta tendência
passou a ser contrariada a partir de 2010 com os estudos iniciados no Laboratório Nacional de
Engenharia Civil (LNEC). Também a nível internacional só recentemente começaram a surgir
publicações dedicadas ao estudo da preservação azulejar, referenciando-se, como exemplo,
Ventolà et al. 2014; Silva et al., 2013; Madkoura e Khallafb, 2012. Porém, a forma como estes
materiais de revestimento e decoração se degradam e como respondem de forma diversa às
diferentes agressões ainda está por entender. Este é um dos objetivos do presente trabalho do
qual ficam excluídos aspetos como a identificação dos problemas dos edifícios, os materiais de
construção neles utilizados ou as condições ambientais que propiciam as agressões.
A forma última de degradação do azulejo é a perda de vidrado. É no vidrado que se encontra a
decoração que pode ser constituída por uma pintura de padrão, cenas figurativas ou,

5
Apresentação

simplesmente, uma área de cor uniforme de cuja combinação resultam arranjos geométricos
diferenciados. A perda da decoração, sempre irrecuperável, conduz à degradação do valor
artístico do conjunto. Este facto é particularmente relevante quando a perda de vidrado incide
em áreas figurativas ou ocorre com grande intensidade numa área limitada. Nestas
circunstâncias, o olhar do observador é direcionado para a cor da chacota exposta, em
detrimento da restante superfície. A chacota é apenas o suporte do vidrado que contém a
pintura e um painel que tenha perdido vidrado ao ponto da ilegibilidade decorativa perde a
sua importância artística e patrimonial.
Esta forma de degradação é também encontrada em azulejos de produção mais recente, como
sejam os revestimentos decorativos das fachadas. São elementos concebidos para assegurar a
impermeabilização e a decoração das paredes. A falta de manutenção e a exposição às
intempéries têm conduzido à perda de azulejos e à descaracterização das fachadas. Por vezes,
as intervenções têm consequências indesejadas pela substituição de elementos danificados,
eventualmente reaproveitáveis, por outros de manufatura recente e de qualidade inferior que
se degradam a um ritmo acelerado comparativamente com os antigos.
A técnica de fabricação que permitia obter um revestimento decorativo que é poroso e
absorvente num dos lados (a chacota) e impermeável na superfície exposta (vidrado) foi
desenvolvida e aperfeiçoada por tentativas, mas, tal como outros materiais laminados, a sua
conservação em condições adversas coloca sérios problemas uma vez que os materiais
respondem de forma diferente às solicitações ambientais [Mimoso, 2011]. A molhagem do
corpo cerâmico e outras agressões tendem a desencadear a degradação.

3. Abordagem atual ao restauro de azulejos


Pouco se sabe sobre o comportamento dos azulejos face aos diferentes fatores de degradação
e as intervenções com vista à sua conservação pautam-se frequentemente pela repetição das
mesmas metodologias, nem sempre acompanhadas por um correto diagnóstico das causas da
degradação. Apesar de não ser frequente a realização de análises laboratoriais preliminares às
intervenções de conservação e restauro de azulejos, os sais têm sido apontados como
responsáveis pela perda do vidrado [Malhoa, 2001; Farinha Antunes e Tavares, 2003]. As
análises, quando realizadas, baseiam-se na observação macroscópica da precipitação do sal
dissolvido em água, por reação pela adição de reagentes específicos, ou na leitura da
condutividade dos solutos durante a dessalinização, processos que não permitem a
identificação de todas as espécies salinas presentes. Quando são referidos “sais solúveis” pela
presença de eflorescências e/ou perda de vidrado, o cloreto de sódio é frequentemente tido

6
Apresentação

como responsável. Quando se percebe a presença de argamassas de cimento Portland®, então


referem-se “sulfatos”3.
A presença de eflorescências salinas tem conduzido ao levantamento integral de
revestimentos azulejares para dessalinização. Contudo, a ação mecânica exercida durante o
levantamento sobre os azulejos, acrescida das tensões internas resultantes da imersão por
tempos prolongados, podem conduzir à perda de material cerâmico e ao acréscimo de danos.
Por outro lado, o novo assentamento pode facilitar a eventual introdução de novas espécies
químicas nos suportes através das argamassas e produtos utilizados (que por vezes são
também introduzidos em intervenções realizadas em zonas muito distantes das áreas
azulejadas) que poderão influenciar e modificar as misturas salinas anteriores, resultando em
novos processos de alteração mais ou menos complexos [Giacomucci et al., 2011].
É desejável que os trabalhos de conservação e restauro de azulejos in situ possam basear-se
num conhecimento detalhado das causas da degradação e dos fatores que a facilitam, bem
como das características dos azulejos que implicam uma maior fragilidade aos agentes da
degradação. O muito que está ainda por estudar lança fundadas dúvidas quanto à adequação
das intervenções realizadas seguindo métodos estabelecidos e repetitivos, sem atender às
especificidades de cada caso.

4. Objetivos
Considerando o valor artístico e patrimonial do azulejo e que a sua degradação acabará por
levar ao decaimento desse valor até à sua perda total, o presente trabalho pretendeu. i)
apresentar uma súmula cronológica do entendimento do Azulejo no meio científico nacional;
ii) dar a conhecer as matérias-primas e a história dos processos de fabricação dos azulejos pré-
industriais; iii) identificar casos de degradação macroscópica em painéis azulejares in situ,
sistematizando as suas formas em tipos recorrentes e identificando os seus potenciais agentes;
e iv) estabelecer relações entre potenciais agentes agressivos e as suas consequências nos
azulejos, tendo em consideração fatores como os defeitos de fabricação, as características
físicas (porosidade, coesão da ligação vidrado/chacota) ou químicas-mineralógicas e a
degradação prévia dos próprios azulejos, num enquadramento que considere também as
matérias-primas e as práticas oficinais com que foram fabricados.
Através das conclusões deste estudo, são apresentadas recomendações de utilização imediata
na conservação em obra e no restauro de painéis azulejares.

3
Estas afirmações têm como base o contacto com conservadores-restauradores.

7
Apresentação

5. Metodologia técnica
Sob o ponto de vista material os objetivos foram cumpridos através de uma solução
metodológica segundo dois eixos de estudo: i) o levantamento da degradação dos azulejos em
obra e o reconhecimento in situ de potenciais agentes dos danos encontrados; e ii) a tentativa
de simulação laboratorial de agressões que pudessem causar as degradações encontradas,
tentando reproduzi-las através de ensaios de envelhecimento acelerado que permitissem uma
correlação entre as potenciais causas e as suas consequências.

5.1 Levantamentos in situ da degradação de azulejos


Nas edificações, os efeitos dos sais solúveis têm sido estudados nos materiais porosos, como a
pedra e o tijolo, onde circulam e cristalizam [Gupta, 2013; Baldoni et al., 2010; Ventolà et al.,
2014]. Contudo, o azulejo histórico é também parte integrante do edifício enquanto
revestimento de proteção e decoração. A degradação dos conjuntos azulejares implica sérios
riscos de perda deste património que justificam a realização de estudos específicos.
Uma característica relevante de alguns sais é a sua capacidade de absorção de humidade
(higroscopicidade) podendo dissolver-se apenas por absorção da humidade do ar
(deliquescência), recristalizando quando a humidade ambiente desce. Este fenómeno implica
que uma vez o sal transportado para uma área de risco (por exemplo, para as juntas entre os
azulejos onde tem acesso ao ambiente com o qual pode trocar humidade) pode ir sofrendo
sucessivos ciclos de dissolução e recristalização mesmo na ausência de transporte de água
pelas alvenarias, impondo dano contínuo.
A localização geográfica do imóvel, os aerossóis marítimos e a presença de água, vinda por
ascensão capilar, infiltrações ou condensação, e a ocorrência de variações acentuadas de
humidade ou temperatura, influenciam a contaminação e os efeitos dos sais nos azulejos.
Além dos aerossóis, a circulação de água líquida nas alvenarias implica que os solos e os
próprios materiais de construção possam também constituir fontes de sais solúveis,
frequentemente de difícil verificação pela sua inacessibilidade imediata. A porosidade da
chacota, características químicas decorrentes da fabricação ou da história dos materiais e as
eventuais fragilidades causadas pelo estado de conservação, são outros parâmetros que
poderão influenciar a resistência dos azulejos aos efeitos dos sais. São assim vários os fatores
que poderão estar associados ou relacionados com a degradação dos azulejos. Para o estudo
interessou-nos identificar os sais encontrados in situ particularmente em conjuntos que
evidenciassem perda de vidrado, com o objetivo de correlacioná-los.

8
Apresentação

Vários autores associam a perda de vidrado à pressão exercida pela cristalização de sais na
interface entre o vidrado e a chacota [Madkoura e Khallafb, 2012; Simón Cortés, 2012;
Figueiredo et al., 2009; Ventolà et al., 2014; Costa Pessoa et al., 1996; Bustorff Silva, 2000;
Borges et al., 1997]. Sendo a superfície exterior vidrada e em princípio impermeável à
evaporação, e havendo contaminação pelo tardoz ou pelas juntas, haverá ainda que
determinar o processo pelo qual o sal pode conduzir à perda de vidrado. Por outro lado, se
considerarmos quer o espaçamento de junta, quer a chacota exposta após perda de vidrado,
como fisicamente porosos, seria provável que a evaporação e cristalização de sais ocorressem
preferencialmente nessas zonas de evaporação. A observação em obra, contudo, nem sempre
o confirma. Importa contudo saber como é que os diferentes sais poderão estar relacionados
com a perda da decoração associada ao destacamento do vidrado.
Outra questão que se impunha perceber é a relação dos defeitos de fabrico com a maior ou
menor resistência do azulejo à deterioração. J. M. Mimoso e S. Pereira [Mimoso e Pereira,
2011], num estudo sobre azulejos de fachada, apontam a degradação física como o resultado
da “concorrência simultânea de uma agressão externa e de uma fragilidade do azulejo
decorrente da sua fabricação”.
Pretendeu-se com este estudo identificar os sais presentes nas zonas de painéis azulejares
com perda de vidrado e chacota, quer como eflorescências, quer como subflorescências,
relacionando-os tentativamente com especificidades dos danos observados. Inspecionaram-se
31 edifícios, de norte a sul de Portugal Continental, com revestimentos azulejares datados
entre os séculos XVII-XIX e colheram-se amostras de sal e pequenos fragmentos de azulejos,
quando possível.

5.2 Ensaios de envelhecimento acelerado


Foram realizados três tipos de ensaio de envelhecimento acelerado simulando três tipos
diferentes de agressões com espécies químicas identificadas em obra.
5.2.1 Ensaios de envelhecimento salino com cloreto de sódio
No levantamento in situ foi encontrado cloreto de sódio associado à degradação dos azulejos
em 25 % dos casos.
A água, oriunda de infiltrações nos suportes, ascensão capilar ou simples molhagem das
juntas, é um agente que pode conduzir, só por si, à fissuração dos vidrados ou à fratura
espontânea das chacotas [Mimoso e Pereira, 2011]. Sempre que haja fluídos contendo sais
solúveis, a sua cristalização é apontada como a principal causa para o destacamento de
vidrado [Simón Cortés, 2012; Figueiredo et al., 2009; Ventolá et al., 2014]. Num estudo recente

9
Apresentação

sobre os processos de degradação em azulejos egípcios, a água e a cristalização de sais solúveis


são apontados como responsáveis pelo destacamento de azulejos, craquelé e perda do vidrado
[Madkoura e Khallafb, 2012].
Contudo, nem sempre a perda ou a falha de vidrado é acompanhada de eflorescências salinas.
Por vezes, a chacota, após o destacamento do vidrado, apresenta-se lisa e limpa. E uma vez
que a cristalização necessita quase sempre de uma evaporação do solvente, é difícil conceber
o início de um processo quando ainda não existe uma área de evaporação franca. Noutros
casos, reconhecem-se eflorescências que não parecem causar qualquer dano, implicando uma
degradação estética mas não macroscopicamente estrutural, i.e., não estão associadas a uma
perda notória de vidrado.
Num estudo preliminar efetuado no LNEC e não publicado, verificou-se a possibilidade de
obter a degradação acelerada de azulejos em simulação laboratorial com cloreto de sódio
(NaCl), mas não se conseguiu obter degradação com sulfato de sódio (Na2SO4) nas mesmas
condições de ensaio4. Neste estudo partiu-se da hipótese de que a perda de vidrado em
azulejos portugueses poderia ser reproduzida através da ação do NaCl, em particular em
azulejos macroscopicamente sãos. A campanha experimental, em 26 azulejos com produção
entre os séculos XVII e XIX, foi desenvolvida para tentar comprovar essa hipótese.

5.2.2 Ensaios de envelhecimento alcalino com hidróxidos


A determinação das espécies salinas colhidas nas inspeções in situ mostrou que a trona
(hidrogenocarbonato de sódio hidratado) era o terceiro sal mais comum (logo após sulfato de
cálcio e o cloreto de sódio), tendo particular representatividade no litoral de Portugal
Continental [Esteves et al., 2015/2016]. A trona surge referenciada [Zezza e Macrì, 1995],
juntamente com o cloreto de sódio e o sulfato de cálcio, como um dos minerais de
neoformação predominantes nos edifícios na costa marítima, não existindo contudo estudos
científicos que mostrem os seus efeitos. Aparece associado a argamassas de cimento
Portland®, como produto de reação de sais solúveis alcalinos (pH>12) com minerais no estado
amorfo [von Konow, 2002]. Von Konow [op. cit.] no seu estudo sobre os mecanismos de
deterioração provocados pelo sal em paredes de tijolo, verificou que sais alcalinos como o
carbonato de sódio afetam a fase amorfa pela dissolução da sílica amorfa e minerais alcalinos.
A trona é particularmente associada com a delaminação do vidrado que se destaca limpo da
chacota (Fig. 0.3). Este destacamento, que ocorre precisamente na ligação dos dois substratos,

4
Comunicação pessoal de Sílvia R. Pereira no LNEC.

10
Apresentação

é surpreendente, dado que a ligação entre o vidrado e a chacota é consideravelmente maior


do que a coesão do material cerâmico da chacota [Mimoso et al., 2012a].

Figura 0.3

Figura 0.3: Dois casos de trona in situ associados com a delaminação do vidrado sem vestígios de
chacota e as bolhas que geralmente antecedem um destacamento: a) Capela do Paço de Massarelos,
Data de inspeção: Julho/2013; b) Capela da Quinta d’Água, Montijo, Data de inspeção: Julho/2014.
[Imagens: L. Esteves].

É conhecida a alcalinidade dalgumas soluções que percolam através das paredes dos edifícios
[Gale e Sliva, 1995]. A trona poderá resultar da carbonatação do hidróxido de sódio, o que
levanta a hipótese de uma outra causa possível para o enfraquecimento da ligação
vidrado/chacota ser a alcalinidade das soluções que circulam no interior das estruturas
arquitetónicas, já que é bem conhecida a suscetibilidade da sílica amorfa às soluções de pH
elevado [Cannillo et al., 2009] [Gale e Sliva, 1995].
No enquadramento de um projeto de investigação do LNEC, Mimoso et al. [Mimoso et al.,
2012a] mostraram que a aderência do vidrado à chacota se degrada com o tempo, tendo
proposto uma técnica simples, embora destrutiva, que permite a sua medição para fins de
investigação. O mesmo grupo encontrou geles de sílica, cálcio e potássio associados ao
destacamento do vidrado (Fig.0.4) [Mimoso, 2014]. Esta descoberta apontou de forma decisiva
para a ocorrência de reações do tipo alcalis-sílica, claramente identificadas no ataque alcalino
aos inertes vítreos dos betões [Santos Silva, 2006] e que poderiam explicar algumas formas de
destacamento que podem ser em parte causadas pela expansibilidade do gel na presença de
água.

11
Apresentação

Figura 0.4

Figura 0.4: Imagem de SEM e espectro EDS de géis de Si-K-Ca típicos das reações alcali-sílica sob o
vidrado destacado num azulejo do século XVII (LNEC / SEM JEOL-6400 e amostra com recobrimento
Au/Pd) [J. M. Mimoso].

As reações alcali-sílica (ASR) têm sido largamente estudadas como uma das causas mais
gravosas de degradação do betão estrutural. São reações químicas que ocorrem entre
soluções de hidróxidos alcalinos de sódio ou potássio e certas formas de sílica reativa em
particular a sílica amorfa. O produto final da reação é um gel muito higroscópico, cuja
expansão por integração de moléculas de água pode levar à fissuração das estruturas
[Fernandes et al., 2004; Thomas et al., 2011]. A sílica amorfa que constitui o vidrado torna-o
suscetível a um tal ataque químico na presença de soluções alcalinas oriundas das estruturas
arquitetónicas.
Uma das campanhas experimentais realizada no enquadramento do presente estudo
pretendeu verificar se as soluções alcalinas, contatando diretamente a interface entre o
vidrado e a chacota, podiam conduzir à degradação da ligação e ao eventual destacamento do
vidrado sem chacota aderente.

5.2.3 Ensaios de envelhecimento com carbonato de sódio


A trona encontrada em obra poderá também ser consequência da circulação de soluções de
carbonato de sódio nas paredes. Desta possibilidade decorre, além do eventual dano físico
causado por cristalizações com evaporação do solvente, dois outros potenciais fatores de risco
que nunca vimos individualizados: a alcalinidade das soluções de carbonato de sódio e a
grande variação da sua solubilidade com a temperatura [Soda Ash]. Se uma solução de
carbonato de sódio percolar através da chacota, a sua alcalinidade poderá conduzir ao ataque
à sílica amorfa que constitui o vidrado, potenciando o seu empolamento e destacamento
[Mimoso, 2014]; enquanto que a solubilidade variável poderá conduzir à precipitação de trona

12
Apresentação

no interior das estruturas porosas, sem necessidade de evaporação, em soluções tornadas


meta-estáveis por variação da temperatura.
Os ensaios de envelhecimento com carbonato de sódio testaram, através da simulação em
laboratório, a perigosidade de situações que poderão ocorrer em obra.

6. Estrutura da tese
A importância do património azulejar português, a sua degradação, a abordagem atual ao
restauro e a introdução aos principais eixos de estudo deste projeto são expostas na presente
Apresentação.
O capítulo 1 debruça-se sobre a bibliografia conhecida referente a estudos relacionados com o
azulejo e a sua degradação. Inicia-se com estudos históricos sobre o azulejo enquanto
património cultural, avançando depois para a sua caracterização química e física. No campo da
degradação procurou-se privilegiar uma seleção de textos acerca de sais, mas dada a escassez
de estudos na área do azulejo histórico o âmbito foi alargado para integrar as áreas da pedra,
doutros produtos cerâmicos e a pintura mural.
A pesquisa histórica sobre as técnicas de fabricação usadas na produção de azulejos históricos
é desenvolvida e comentada no capítulo 2.
O capítulo 3 elenca as técnicas de caracterização empregues ao longo do trabalho, bem como
os ensaios e métodos laboratoriais.
Os resultados obtidos nas inspeções realizadas in situ e as análises subsequentes, bem como a
sistematização das formas de degradação encontradas são apresentados no capítulo 4.
No capítulo 5 lista-se os azulejos utilizados nos diferentes ensaios de envelhecimento
acelerado e as suas características mais relevantes. Os azulejos foram selecionados de acordo
com o seu estado de conservação: alguns apresentavam fragilidades iniciais constituídas por
defeitos de fabricação ou por degradações de diversos tipos e níveis decorrentes da sua
anterior utilização em obra. A caracterização física e química-mineralógica, incidiu de forma
mais exaustiva, nos azulejos usados no ensaio de envelhecimento salino, datáveis desde o
século XVII ao início do XIX.
No capítulo 6 são descritos os princípios, as finalidades e as técnicas dos ensaios de
envelhecimento. Os resultados e as conclusões das campanhas experimentais são divididos em
três secções, com o objetivo comum de estudar os efeitos físicos na perda de vidrado sob a
ação das soluções usadas, designadamente: 6.1: cloreto de sódio; 6.2: soluções alcalinas de
hidróxido de sódio (pH 14,0), hidróxido de sódio + hidróxido de cálcio (pH 13,9), hidróxido de

13
Apresentação

cálcio (pH 13,3) e hidróxido de potássio (pH 10,8); e, por fim, 6.3: carbonato de sódio (pH
11,05/28 ᵒC).
A síntese conclusiva dos resultados e as vias propostas para investigação futura são enunciadas
no capítulo 7.

Este trabalho compreende ainda dois anexos. O primeiro inclui o inventário dos edifícios que
foram inspecionados. Este inventário é composto por fichas cuja estrutura inclui o
levantamento de danos e os resultados das análises por microscopia eletrónica de varrimento
e que, em alguns casos, são complementadas pela difractometria de raios X.

O segundo anexo inclui dois níveis, sendo o primeiro formado pelas fichas de caracterização
física e química-mineralógica dos azulejos usados nos ensaios de envelhecimento e o segundo
composto por registos da evolução do seu estado durante os ensaios a que foram sujeitos.

14
Capítulo 1
Estado do conhecimento

1.1. O azulejo português como património cultural


É numerosa a bibliografia acerca dos azulejos portugueses, tendo aumentado
consideravelmente neste século, mas as reflexões de fundo acerca do papel que esta
expressão ocupa no panorama artístico português podem ser sintetizadas na obra de alguns
estudiosos que marcaram de forma indelével a sua afirmação.
A mais antiga reflexão conhecida acerca dos azulejos em Portugal deve-se ao Conde
Athanasius Rackzinsky. Na 24ª carta da sua coletânea, datada de 18 de Janeiro de 1845,
debruça-se sobre a presença do azulejo em Portugal, referindo que São poucas as igrejas e as
casas onde não estejam presentes. Tanto enquadram as portas de edifícios como ornamentam
vestíbulos e escadarias. Na maioria das casas, mesmo nas mais humildes, estes revestem as
paredes interiores até três pés de altura, ou mais até. Existem casas cujo exterior se encontra
revestido por azulejos desde a base até ao teto. (…) Estes temas são geralmente tratados com
talento, sempre de forma ampla e com grande facilidade. Independentemente do seu mérito
artístico, estas pinturas produzem sempre um efeito agradável enquanto ornamento e
consideradas no seu todo. [Rackzinsky: 427-428]. A ele se deve a primeira afirmação de
identidade, ao referir que Os azulejos fazem parte da fisionomia de Portugal.
Entretanto diversos investigadores nacionais foram publicando notícias acerca de azulejos
antigos que referem, por vezes, conjuntos entretanto desaparecidos [Ribeiro Guimarães, 1873;
Assis Rodrigues, 1876: 67; Pereira, 1881; 1884]. Ainda que considerando, por vezes, a criação
portuguesa pouco original face à espanhola e à holandesa, Viterbo publica em 1903 as Notícias
de Alguns Pintores onde refere artistas associados ao azulejo [Viterbo, 1903].
Em 1882, o investigador belga Adolph de Ceuleneer [Ceuleneer, 1882], apresenta um pequeno
trabalho no Congresso de Arqueologia Pré-Histórica de Lisboa, onde aborda o modo como os
artífices portugueses interpretaram a influência da faiança holandesa na pintura de azulejos,
com características sem paralelo noutros países europeus: Os melhores azulejos, no género
holandês, datam em Portugal dos séculos XVII e XVIII. (…). A princípio estes azulejos vinham de
Delft, até que se começaram a fabricar em Portugal. Foram mais longe que os holandeses. Não

15
Capítulo 1: Estado do conhecimento

se contentaram em fazer ornados de alguns pequenos desenhos, mas quiseram produzir


verdadeiros quadros de faiança.
No mesmo ano, Charles Yriarte, crítico de arte e historiador, destaca o papel do azulejo no
contexto decorativo nacional, equiparando-o ao fresco em Itália [Yriarte, 1882: 652]. No
entanto, o fresco foi perdendo a importância que tivera durante a Renascença, enquanto o
azulejo a foi ganhando através de sucessivas mutações ao longo dos tempos.
Em Portugal, são do maior relevo iconográfico as primeiras publicações sobre espaços
arquitetónicos incluindo os espólios azulejares: a obra de Joaquim Rasteiro sobre o Palácio e
Quinta da Bacalhoa [Rasteiro, 1895, 1898] e a do Conde de Sabugosa sobre o Paço de Sintra,
ilustrada com desenhos da rainha D. Amélia e com fotografias [Sabugosa, 1903]. Este
tratamento conjunto faz todo o sentido porque o azulejo não pode ser totalmente entendido
sem o espaço arquitetónico em que se integra.
Também o arquiteto e historiador alemão Albrecht Haupt deixou as suas impressões sobre a
arquitetura portuguesa entre 1890-1895, aquando da sua viagem de conhecimento acerca da
cultura do Renascimento. No entanto, é no cuidado colocado no desenho de azulejos hispano-
mouriscos que sobressai o seu interesse, preenchendo diversas páginas da sua obra com estes
trabalhos [Haupt: 38-41]. Na sua reflexão sobre o azulejo, que condensada não ultrapassa uma
página, menciona que “esta decoração, que oferecia ao artista grande liberdade no manejo do
seu pincel, alcançou em Portugal, a partir do séc. XVII, uma perfeição nunca vista” [Haupt: 37].
Após Rackzinsky, este seu trabalho constituiu um dos primeiros veículos internacionais a focar
o uso do azulejo em Portugal.
Embora os estrangeiros elevassem a arte do azulejo português ao que de melhor era feito na
Europa, em Portugal era um tema pouco referido. O trabalho publicado por Liberato Teles em
1896 foi fundamental na elaboração de uma cronologia acerca da produção de azulejos,
baseando-se em obras parcelares de autores anteriores e no conhecimento da coleção de José
Maria Nepomuceno que o antecedeu nas obras de adaptação do Convento da Madre de Deus
[Teles, 1896]. Aí, alerta para o estado de degradação e abandono dos azulejos históricos
focando o desconhecimento e desinteresse nacionais por esta arte, e reforçando a importância
deste património para o País: Em Portugal há pouco quem se ocupe do assunto azulejos e
causa verdadeira mágoa ver os preciosíssimos exemplares que por todo o país se encontram
ignorados, (…) objetos esses duplamente preciosos quer pelo seu valor artístico, quer pelo
arqueológico [Teles: 209]. Realçando a qualidade artística menciona que Portugal, (…) teve,
pois bons artistas, de primeira ordem, que aplicaram o seu talento à pintura dos azulejos
[Teles: 212] e refere a atenção dada ao azulejo pelos estudiosos estrangeiros, em contraste
com a atitude desinteressada dos nacionais [Teles: 223]. No entanto, o maior contributo de

16
Capítulo 1: Estado do conhecimento

Liberato Teles, em articulação com Pedro Romano Folque, foi o de ter reunido e concentrado
azulejos provenientes de edifícios demolidos no extinto convento da Madre de Deus, com o
propósito de criarem um espaço museológico [Teles: 234]. Esta atitude foi a origem remota da
futura criação do Museu Nacional do Azulejo, naquele mesmo local onde ainda hoje se
encontra. Também, no mesmo ano, Ramalho Ortigão redige um texto que pretende ser uma
denúncia face ao estado de abandono da maior parte da arte portuguesa, nele mencionando a
originalidade da azulejaria nacional e a inexistência de uma coleção pública que apresentasse
uma cronologia completa desta expressão artística [Ortigão: 102].
No início do século XX surge aquele que pode ser considerado o primeiro especialista em
azulejo português, José Queirós. Queirós iniciou o primeiro inventário de azulejos aplicados in
situ [Queirós, 1907], que teria muito mais tarde continuidade em Santos Simões. Ainda em
1907, Joaquim de Vasconcelos publica a melhor síntese sobre o tema escrita até então
[Vasconcellos e Prostes, 1907]. Joaquim de Vasconcellos, etnógrafo, historiador e crítico de
arte, terá sido o primeiro a ter a perceção de que muitos painéis de azulejos portugueses
tiveram como base gravuras flamengas e alemãs, reconhecendo a superioridade decorativa
dos conjuntos nacionais dos séculos XVII e XVIII sobre a produção holandesa, mais perfeita e
com excelentes desenhos mas sem a vivacidade, muitas vezes ingénua, da produção nacional.
Entre 1916 e 1918, surgem os trabalhos de Vergílio Correia sobre azulejos datados [Correia,
1914] e sobre pintores de azulejos [Correia, s/d: 574; 1918a: 540-551; 1918b: 16-178; 1917:
196-208].
Reynaldo dos Santos publica em 1957 “O azulejo em Portugal”, aquela que podemos
considerar a primeira grande síntese acerca da história do azulejo antes da publicação das
obras de Santos Simões que constituem, hoje, a base de qualquer investigação sobre o tema
[Santos, 1957]. Ele foi o primeiro a elencar os principais aspetos que tornam o azulejo um
elemento identitário da arte portuguesa [Santos, op. cit.: 7].
Neste mesmo ano, Santos Simões fica responsável pela “Brigada de Estudos de Azulejaria”,
criada pela Fundação Calouste Gulbenkian e que tinha como principal objetivo a elaboração do
inventário de azulejos em Portugal Continental e Ilhas, para além do Brasil. É no contexto
deste trabalho que dará início ao que ficaria conhecido como o Corpus da Azulejaria
Portuguesa, surgindo o primeiro volume em 1963. Também, Santos Simões questiona, os
motivos relacionados com o pouco interesse dos investigadores portugueses sobre o azulejo,
quando internacionalmente é reconhecido o contributo desta forma de expressão na criação
de uma arte original portuguesa [Santos Simões: 20].
Em 1947 decorreu, no Museu Nacional de Arte Antiga, a exposição “Azulejos” comissariada
por Santos Simões. O investigador ficou responsável pelo estudo da coleção que se encontrava

17
Capítulo 1: Estado do conhecimento

nesse museu, proveniente em grande parte do espólio recolhido há mais de 60 anos por
Liberato Teles e que não fora aplicado no edifício da Madre de Deus. Quase vinte anos depois,
em 1965, é criado pelo Decreto-lei n.º 46 758 de 18 de Dezembro, o Museu do Azulejo nas
dependências do Convento da Madre de Deus e como anexo do MNAA. Reconhecendo-se a
necessidade de se permitir o usufruto da notável coleção de azulejos pertencente ao Estado
era objetivo do novo museu preservar e tornar públicos importantes conjuntos de azulejaria
dos séculos XVI, XVII e XVIII retirados de edifícios entretanto desafetados das suas funções e
reunidos no Museu Nacional de Arte Antiga. Santos Simões fica encarregue da sua Direção e
em 1971, organiza o I Simpósio Internacional sobre Azulejaria, que permitiu aos participantes
uma visita ao Museu do Azulejo, ainda não aberto de forma regular ao público. Esta iniciativa
constituiu a primeira grande promoção internacional de estudo e divulgação da azulejaria
portuguesa e pretendia ser um fórum de reflexão acerca do papel desta no contexto das artes
decorativas. Com a morte de Santos Simões, em 1972, os seus vários projetos ficaram
interrompidos. A dependência da Madre de Deus montada por Santos Simões ficou a ser
coordenada por Rafael Salinas Calado que empreendeu uma vasta campanha para levar uma
exposição itinerante, “Azulejos – Cinco séculos de azulejos em Portugal”, a todo o mundo.
Em 1980 é decidida a criação do Museu Nacional do Azulejo o que marca o momento da
consolidação do Azulejo a estatuto identitário. Esta instituição, cujo papel tem vindo a
desenvolver-se devido a novas exigências e realidades, tem por missão recolher, conservar,
estudar e divulgar exemplares representativos da evolução da Cerâmica e do Azulejo em
Portugal, não só como bens móveis mas sobretudo como patrimónios integrados em edifícios
públicos e privados, promovendo as boas práticas de Inventariação, Documentação,
Investigação, Classificação, Divulgação, Conservação e Restauro da Cerâmica e muito em
especial do Azulejo, prestigiando este património nacional e internacionalmente.
Em 1986 José Meco apresenta uma importante reflexão acerca do azulejo em Portugal,
acentuando a originalidade portuguesa de integrar uma arte estrangeira criando-lhe uma
identidade própria [Meco: 11-12]. Meco opõe-se à crítica de que o azulejo é uma “arte pobre”,
reflexo de um país com recursos escassos. Reforçando o carácter patrimonial do azulejo, o
investigador acentua, pelo contrário, a diferença e a personalidade de “uma das marcas
estéticas e culturais mais fecundas e marcantes dos vários espaços de tradição portuguesa.”
[Meco: 27].
É a partir de 1990 que começam a surgir no meio universitário estudos sobre a azulejaria,
através de teses de mestrado ou de doutoramento, destacando-se por exemplo o de Luísa
Arruda, que se debruçou sobre a questão das “figuras de convite”, Ana Paula Rebelo Correia,
discorrendo acerca da utilização de gravuras na inspiração para a produção azulejar, ou

18
Capítulo 1: Estado do conhecimento

Alexandra Gago da Câmara com uma reflexão acerca da azulejaria no espaço profano e, mais
recentemente, a importante tese de doutoramento de Rosário Salema de Carvalho sobre a
produção de azulejos no contexto do chamado “Ciclo dos Mestres” [Salema de Carvalho,
2012].
O azulejo foi também tema de estudo no estrangeiro, destacando-se Dora Alcântara que no
Brasil se debruça sobre a presença dos azulejos portugueses ou Luís de Moura Sobral que, na
Universidade de Montreal, promove uma reflexão acerca das narrativas plásticas e das fontes
iconográficas presentes nos revestimentos cerâmicos nacionais.
Paralelamente, as exposições desenvolvidas pelo Museu Nacional do Azulejo e a publicação de
importantes catálogos, têm sido outro fator que incentiva o interesse no desenvolvimento do
conhecimento nesta área.
A compreensão da azulejaria tem vindo a ultrapassar o espaço das ciências humanas e tem
sido objeto de diversos trabalhos com recurso a métodos laboratoriais de exame e análise,
abrindo novas e enriquecedoras perspetivas.
A aproximação do trabalho de investigação desenvolvido em espaços museológicos e
universitários levou à criação da Rede em Estudos de Azulejaria João Miguel dos Santos
Simões, sediada na Faculdade de Letras de Lisboa e coordenada por Rosário Salema de
Carvalho. O seu estabelecimento demonstra a importância que o estudo da azulejaria ganhou
e que parece firmar a constatação do seu valor no contexto da expressão artística nacional.
Em 2012, J. M. Mimoso e A. Nobre Pais publicaram um pequeno artigo sobre o valor do azulejo
enquanto património e polo de atração do turismo cultural [Mimoso e Nobre Pais, 2012]. O
reconhecimento deste património único foi materializado a 13 de maio de 2015, com o
anúncio da intenção de se candidatar o Azulejo Português à Lista da UNESCO, a ser proposta
através de um conjunto de monumentos que têm em comum a integração azulejar. Resta-nos
esperar para ver que caminhos se vão abrir num futuro que nunca esteve tão promissor para o
conhecimento e valorização deste património que é o azulejo português.

1.2. Caracterização física e química de azulejos


A documentação sobre as técnicas de fabricação antigas é quase inexistente. O mais
importante e antigo tratado sobre cerâmica é o manuscrito Li Tre Libri dell’Arte del Vasaio de
Cipriano Piccolpasso, escrito pelo autor na segunda metade do século XVI e publicado
compilado, em facsimile, com tradução inglesa em 1980 [Piccolpasso, 1980]. Neste documento
para além da descrição das técnicas de fabricação, materiais, equipamentos e utensílios, são
também dadas receitas da preparação de vidrados e tintas cerâmicas usadas na época. Em

19
Capítulo 1: Estado do conhecimento

Portugal, só em 1804 e 1805 é que surgem as primeiras enciclopédias técnicas traduzidas do


francês, designadamente a Arte do Louceiro de Jose Ferreira da Silva e a Arte da Louça Vidrada
de Antonio Velloso Xavier, sendo esta última, mais direcionada para a faiança [Ferreira da
Silva, 1804; Xavier, 1805]. Um outro tratado importante sobre a fabricação da faiança foi
publicado em França por F. Bastenaire-Daudenart em 1828 [Bastenaire-Daudenart, 1828]. No
entanto, a produção cerâmica em Portugal continuou, aparentemente, numa base sobretudo
empírica, que Charles Lepierre tentou contrariar em 1899 publicando os resultados do seu
trabalho na análise química aos barros usados na indústria cerâmica. Apesar de ser já do
século XX, existe uma fonte adicional que cremos valer a pena referir: trata-se do livro
"Indústria de Cerâmica" de 1907, com o texto assinado por Pedro Prostes e uma introdução
por Joaquim de Vasconcellos abordando a cerâmica portuguesa e realçando os azulejos que foi
já referida [Vasconcellos e Prostes, 1907]. É possível que a generalidade do texto, tal como as
figuras, venha de uma publicação estrangeira e por isso não trata especificamente da
fabricação de azulejos. No entanto aborda as faianças vidradas em geral, tratando das pastas,
vidrados, tintas, técnicas de decoração e cozedura e indicando receitas e práticas oficinais.
Hoje vão-se reunindo algumas informações dispersas sobre a produção e aquisição de
matérias-primas de fábricas ou oficinas estabelecidas em Portugal nas fontes manuscritas dos
arquivos históricos nacionais, mas ainda permanece um grande desconhecimento sobre a
produção portuguesa.
A caracterização física e química-mineralógica pode fornecer informações sobre a tecnologia
de produção, matérias-primas usadas e, por vezes, pode permitir identificar centros
geográficos de produção. Esta caracterização é essencial para a compreensão das formas e
mecanismos de deterioração sendo o seu estudo um suporte para corretas metodologias de
conservação e restauro, no sentido da preservação deste património.
O azulejo português é um material compósito constituído por uma placa quadrada de barro
poroso com um revestimento vítreo, geralmente decorado numa das faces. É caracterizado
por duas cozeduras, uma para a chacota e outra para o vidrado, embora também possam ser
feitas três cozeduras, de acordo com a complexidade na técnica de fabricação.
Tradicionalmente, a face nobre é formada por um vidrado branco de estanho sobre o qual é
aplicada a pintura empregando diferentes óxidos. As matérias-primas usadas, a manufatura e
os processos de cozedura resultam em características particulares de cada azulejo e podem
influenciar a resposta do material aos agentes de degradação.
Como é normal em materiais compósitos, a interface de ligação entre camadas é uma zona
particularmente sujeita a alterações que conduzem à delaminação e destacamento do vidrado.
O único estudo encontrado sobre as características da interface, sua espessura e aderência é

20
Capítulo 1: Estado do conhecimento

de Molera et al [2001a]. Segundo este autor, a interação que ocorre entre a chacota e o
vidrado na cozedura (designado por processo digestivo da chacota) consiste na migração
química dos elementos K, Al, Ca, Fe e Si a partir do corpo cerâmico e do Pb do vidrado para a
chacota. A difusão para o vidrado favorece o crescimento de fases cristalinas na zona de
interface, determinadas por feldspatos ricos em Pb que incorporam Al e K da chacota. De
forma geral, a estrutura final desta camada depende das composições do vidrado e chacota,
tempo e temperatura de cozedura. Os autores verificaram que a espessura da interface não
sofre alteração com o aumento de temperatura a partir dos 750 ᵒC. Porém, ocorre um
aumento na difusão de elementos à medida que a temperatura aumenta e ultrapassa os 900
ᵒC. Quanto mais lento for o arrefecimento, maior é a digestão da chacota na formação de
novas fases cristalinas ricas em feldspatos de K com Pb e mais espessa é a camada de
interface. A constituição desta camada depende também da composição da chacota. Os
autores verificaram que das pastas de caulinite e calcário resultaram interfaces pequenas (≈10
µm) com pequenos cristais de Pb com K; ao contrário, as pastas ilíticas geraram camadas de
interface espessas (40-50 µm) com grandes cristais de feldspatos potássicos com Pb e mais rica
em K. Em ambos os casos o Ca, proveniente das pastas, surge no vidrado e não aumenta a
camada de interface. Em todos os casos o teor de Si no vidrado aumentou. Os elementos
responsáveis pela formação da camada de interface são o Al e o K e a quantidade e tamanho
dos cristais dependem da velocidade de arrefecimento. Ao contrário do que seria expetável, os
autores não encontraram correspondência do Al com o teor em feldspatos potássicos com Pb.
Verificaram também que a reação de difusão é menor em chacotas já cozidas do que em
cerâmicas de monocozedura, sendo esta última apontada como uma opção com vista à
estabilidade dos vidrados. Outro aspeto importante relaciona-se com o facto de terem obtido
sempre vidrados homogéneos com cozeduras longas e arrefecimentos lentos,
independentemente da composição do vidrado. Os autores terminam referindo que a
preservação de vidrados antigos ricos em Pb ao longo dos séculos, é determinada pela
presença de Al dentro do vidrado e pela boa ligação vidrado/chacota, a qual depende da
reação de difusão da chacota para o vidrado.
A camada intermédia é referida noutras publicações no âmbito do estudo composicional de
cerâmicas. Por exemplo, Viti et al. [2003] caracterizaram a zona de interface de cerâmicas
italianas, como irregular e com cerca de 10-20 µm de espessura. Composicionalmente contém
silício e potássio, é menos rica em chumbo e o teor elevado em alumínio é atribuído à chacota.
Num outro estudo em azulejos e cerâmica dos séculos XVII-XVIII de dois centros de produção,
Guilherme et al. [2011] determinaram espessuras de interfaces de 50 µm e 30 µm, para
Coimbra e Lisboa, respetivamente.

21
Capítulo 1: Estado do conhecimento

Outros investigadores relacionaram a camada de interface com a resistência dos azulejos à


degradação. Num estudo de azulejos portugueses dos séculos XVII e XVIII, Coentro et al.
[2010], indicam a camada de composição química intermédia aos dois substratos como uma
fragilidade propícia à degradação, já que se trata de uma zona de gradiente entre as
propriedades dos dois substratos. Os autores salientam que a delaminação, bem como o
craquelé, são patologias com origem na interface e podem ocorrer logo na fase do
arrefecimento. Também para El-Defrawi [1995] e Perez-Monserrat et al. [2013], a resistência à
formação de craquelé está associada a esta camada e Pereira et al. [2011] reforçam que a boa
formação é determinante para o melhor desempenho do azulejo quando sujeito a fatores de
degradação. Kopar e Ducman [2007] constataram que os azulejos submetidos a condições de
cozedura insuficientes apresentavam uma camada fina de interface e um acréscimo de bolhas
nesse local, conferindo fragilidade ao azulejo. Também estes autores concluíram que quanto
maior for a camada de interface maior será a resistência do azulejo. Por último, Sanjad e Costa
[2009b] verificaram que os azulejos portugueses, relativamente aos de fabrico alemão, têm
uma interface mais fina e são, concomitantemente, mais suscetíveis à perda de vidrado.

Quanto à caracterização química-mineralógica, a bibliografia estrangeira tem-se debruçado


com maior destaque sobre as majólicas italianas e a produção hispano-mourisca. Molera et al.
[2001b] faz a caracterização mineralógica de vidrados e chacotas de cerâmicas islâmicas
produzidas em Espanha. A inexistência de vidrados alcalinos é associada por estes autores à
abundância do chumbo (galena) na Península Ibérica. Os aspetos decorativos relativos às cores
(como o tom vinoso, castanho ou preto obtidos a partir do óxido de manganês) são estudados
por Molera et al. [2013] na cerâmica dos séculos X-XIV e XVII, definindo técnicas de decoração
e temperaturas de cozedura.

Os estudos em Portugal incidem preferencialmente na caracterização química da faiança e


azulejos, associada às técnicas de fabricação.
A composição de vidrado e pasta cerâmica de azulejos portugueses do século XVII é estudada
por Coroado e Gomes [2003]. Os resultados mostraram uma pasta típica da faiança calcítica
sendo a composição do vidrado caracterizada pelos diferentes teores em sílica, alumina,
chumbo, potássio, sódio e estanho. A descoberta de chumbo no tardoz é apontada pelos
autores como consequência da elevada porosidade da pasta cerâmica, que favorece a
percolação do óxido de chumbo em suspensão, aquando da aplicação do vidrado. Esta
verificação tinha sido explicada por Molera et al. [2001a] como o resultado da interação entre
vidrado e chacota no processo de cozedura. Coroado e Gomes [2003] relacionam ainda a

22
Capítulo 1: Estado do conhecimento

concentração de cassiterite junto à interface vidrado/chacota como resultado da utilização de


matérias-primas que não foram previamente calcinadas o que, na sua opinião, é indiciado pela
presença de bolhas no vidrado 5. Coentro et al. [2010] caracterizaram a composição do vidrado
de azulejos dos séculos XVII e XVIII e utilizaram os teores de chumbo, silício e potássio como
indicadores da zona de transição entre os dois substratos.
Vieira Ferreira et al. [2013a] diferenciam as produções, portuguesa e espanhola, do século XVI
pela composição das pastas cerâmicas, vidrados, pigmentos e temperaturas de cozedura. A
pasta calcária é comum aos dois países, diferindo na composição de vidrados e pigmentos
usados na decoração. Neste artigo, os autores remetem para a primeira metade do século XVI
a produção de vidrado branco em Portugal.
A análise dos azulejos hispano-mouriscos provenientes de escavações no Mosteiro de Santa
Clara-a-Velha, em Coimbra foi objeto de um estudo recente da autoria de Coentro et al.
[2014]. Através da composição e distribuição dos elementos na matriz vítrea, os autores
pensam ser possível separar diferentes centros de produção. Vieira Ferreira et al. [2015b]
apresenta um estudo sobre a composição mineralógica de vidrados e pastas cerâmicas de
Lisboa para a distinção das cerâmicas produzidas nos séculos XVI/XVII em Portugal. O mesmo
autor debruçou-se sobre a caracterização de vidrados e pigmentos de cerâmicas do século XVII
por análise Raman [Vieira Ferreira et al. 2013b]. Em 2009, Sanjad e Costa [2009a] publicaram a
caracterização física, química e química-mineralógica de 19 azulejos semi-industriais (séculos
XIX-XX) de fabricação portuguesa, alemã e francesa, utilizados em Belém do Pará.

Outras investigações são mais abrangentes por relacionarem a caracterização química-


mineralógica e física com a degradação de azulejos históricos. Em 2013 foi publicado um
estudo de azulejos atribuídos à produção flamenga do século XVI, provenientes do Paço Ducal
de Vila Viçosa. Mimoso et al. [2013] analisaram chacotas, vidrados e pigmentos de dois
azulejos com gramática decorativa idêntica mas pintados sobre fundos em tons de amarelo
muito diferentes, sugerindo proveniências eventualmente diferentes. Os resultados obtidos
não confirmaram diferenças de proveniência, tendo também sido possível reconhecer a
técnica de fabricação, equacionar hipóteses de decoração, identificar pigmentos e explicar os
diferentes estados de conservação através de hipotéticas diferenças nos locais de aplicação
em obra. No mesmo ano, Costa et al. [2013] relacionaram as composições química-
mineralógica de azulejos de fachada portugueses e alemães do século XIX, com as diferentes
respostas à degradação. Os autores concluíram que a maior resistência do azulejo alemão à

5
Em conversa pessoal J. Mimoso apontou o fato de o vidrado dos azulejos hispano-mouriscos não ter
bolhas e disse pensar que estas são provocadas pela adição voluntária de pasta pulverizada à frita.

23
Capítulo 1: Estado do conhecimento

degradação estava especialmente relacionada com as temperaturas altas de cozedura (acima


dos 1200 ᵒC) e menor porosidade.
Pensamos que o estudo mais completo na caracterização de azulejos históricos portugueses
terá sido o realizado em 2011 por Pereira et al. Os autores analisaram sete amostras com
períodos de produção entre os séculos XVII e XIX em relação às suas propriedades físicas e
química-mineralógicas sugerindo a possibilidade de correlações entre algumas características e
a resposta às ações degradativas.

As diferenças tecnológica e decorativa que separam os centros de produção de Lisboa e


Coimbra no século XVIII suscitaram também interesse por parte dos investigadores.
Macroscopicamente, o azulejo de Coimbra diferencia-se do de Lisboa pelas dimensões mais
pequenas, vidrado branco leitoso muito brilhante e um tom de azul acinzentado da pintura a
cobalto que lhe é peculiar. Do ponto de vista tecnológico apresenta diversas deficiências no
processo de fabricação com muitos defeitos de fabrico, ocorrência frequente de recozimentos
efetuados pelos fabricantes para os corrigir, bem como no desenvolvimento de um craquelé
denso que lhe é característico (Fig. 1.1). Em obra, mostram menor resistência aos agentes de
degradação, sendo de realçar a perda de vidrado em mosaico.

a) Figura 1.5
b)

Figura 1.1: Pormenor de alguns recozimentos para disfarçar defeitos de fabricação: A –


preenchimento de uma área que terá ficado sem vidrado; B – preenchimento de uma área com
enrolamento, usando esmalte azul. (Coleção do MNAz com as referências: f3/h; f49/ɤ; u?/4)
[Imagens: L. Esteves].

Num estudo sobre cerâmicas de Coimbra, Nobre Pais et al. [2007] assinalaram o uso de pastas
calcárias e temperaturas de cozedura próximas dos 1000 ᵒC nos azulejos analisados. Já
Guilherme et al. [2011; 2012], numa tentativa de diferenciar os processos de fabricação de
Lisboa e de Coimbra, estudaram as interfaces cor/vidrado e vidrado/chacota. Componentes de
menor qualidade do vidrado, bem como o uso de manganês no azul de cobalto, ficaram
associados à produção de Coimbra. Enquanto a produção de Lisboa apresenta teores elevados
de sódio e chumbo, em Coimbra são o potássio e o cálcio que predominam sendo por isso

24
Capítulo 1: Estado do conhecimento

considerados como menos fusíveis. A espessura do vidrado também mostrou diferenças,


sendo o de Coimbra geralmente mais fino (150-350 µm) do que o de Lisboa (300-400 µm). Os
autores distinguiram as cores e apontam as temperaturas prováveis de cozedura nos dois
centros. Vieira Ferreira et al. [2015a] caracterizam pastas, pigmentos e vidrados de faianças
portuguesas do século XVII dos três principais centros de produção na época: Lisboa, Coimbra
e Vila Nova de Gaia. Embora existam diferenças mineralógicas, é na decoração que é baseada a
maior distinção entre os centros. Lisboa é famosa pela sua qualidade e especialização operária.
Composicionalmente, Vila Nova de Gaia é muito semelhante mas, tal como Coimbra, é a fraca
qualidade decorativa que os distingue. Segundo os autores, a cor mais avermelhada nas pastas
cerâmicas de Coimbra, embora com menor teor de óxido de ferro que os restantes, poderá
estar mais relacionada com temperaturas de cozedura abaixo dos 1000 ᵒC. Também poderá
estar relacionada com a mistura de argilas de diferentes proveniências, sendo apontado o uso
de até cinco pastas para Coimbra. Por outro lado, as pastas de Lisboa caracterizam-se pela
presença de quartzo, gelenite e andradite e por vezes calcite e anortite, enquanto as pastas de
Coimbra evidenciam o quartzo, o diópsido e a anortite como os maiores componentes. Para os
autores, a distinção entre os dois centros poderá ser feita pelos teores mais altos em diópsido
e anortite na produção coimbrã.
Os teores de diópsido devem resultar do uso de dolomia ou margas dolomíticas, em vez de
calcário.

1.3. Degradação
Um primeiro estudo relacionando tentativamente características físicas e químicas com as
formas e mecanismos de degradação foi o já anteriormente mencionado, realizado no LNEC
em 2011. Pereira et al. [2011] caracterizaram sete azulejos com épocas de produção entre os
séculos XVII-XIX. Os autores destacam que a instabilidade do óxido de cálcio na composição da
chacota poderá causar danos físicos ao dilatar por reidratação. Concluem que as características
físicas dos azulejos, como a porosidade e a capacidade de absorção de água, estão
diretamente relacionadas com as matérias-primas usadas, as transformações morfológicas
ocorridas na cozedura e os mecanismos tardios de degradação. Segundo os mesmos autores a
porosidade é uma característica física importante para os azulejos aplicados nas estruturas
arquitetónicas, uma vez que determina a circulação de fluidos e a capacidade de
armazenamento na chacota. Relativamente aos revestimentos azulejares de interior, a
humidade nas estruturas pode provir da infiltração das coberturas, rutura de canalizações,
juntas abertas ou por ascensão capilar, através do solo. A água introduzida no sistema poroso

25
Capítulo 1: Estado do conhecimento

do azulejo conduz à expansão da chacota, influenciando a degradação. Como o vidrado não


acompanha esta dilatação, nem é elasticamente resistente às forças de tração, tende a
fissurar.
Verduch [1965] verificou que a expansibilidade da cerâmica continua a ocorrer na fase de
secagem e as expansões totais aumentam à medida que aumenta o número de ciclos de
molhagem/secagem. Do mesmo modo, Mimoso e Pereira [2011] apontam para expansões
cumulativas acima dos 0,3 mm por metro linear que levam ao crescimento irreversível do
corpo cerâmico e à fissuração (craquelé) do vidrado. Este craquelé foi encontrado pelos
autores com maior incidência nos azulejos de revestimento a cotas baixas devido à humidade
ascendente. Os autores concluem que as expansões, sucessivamente maiores, conduzem à
compressão com os azulejos adjacentes, podendo levar ao destacamento de placas formadas
por vários azulejos. Acerca desta expansibilidade, Wetzel et al. [2012] ressaltam a importância
das juntas na atenuação das forças de compressão exercidas pela alteração dimensional dos
azulejos. Mais recentemente, Hamilton e Hall [2013] associaram a expansão da chacota
também à re-hidroxilação dos componentes na presença de água e apontam a progressiva
expansibilidade hídrica da chacota como explicação para o aumento da rede fissural.
A investigação recente levada a cabo no LNEC tem permitido sistematizar as questões relativas
à degradação dos azulejos portugueses. Em 2009, Mimoso et al. [2009], utilizaram a
modelação matemática para mostrar graficamente como as diferenças entre os coeficientes
de expansão entre vidrado e chacota podem conduzir à delaminação do vidrado durante o
arrefecimento. No seguimento deste estudo Mimoso e Pereira [2011] postulam que a
degradação física dos azulejos resulta da combinação de uma fragilidade do azulejo decorrente
do seu fabrico com uma agressão externa que explora essa fragilidade. Não havendo agressão,
por exemplo, se a chacota se mantiver seca, então o azulejo não sofre degradação apesar da
fragilidade estar presente. É aqui que surge a primeira classificação do craquelé em dois tipos,
sendo a ligação vidrado/chacota o fator que define o tipo de propagação: Tipo 1- as fissuras do
vidrado propagam-se na vertical apenas para o interior da chacota e não conduzem à perda da
camada vítrea; Tipo 2- as fissuras resultam na perda de vidrado pela propagação horizontal
(Fig. 1.2). Em 2015, Mimoso e Esteves, sistematizaram o tipo II em três subtipos: i) a fissura
atravessa verticalmente o vidrado e propaga-se na interface vidrado/chacota, resultando no
destacamento do vidrado limpo de matéria cerâmica; ii) a fissura vertical atinge a chacota
pouco abaixo da interface e propaga-se horizontalmente, resultando na perda de vidrado com
uma pequena camada de chacota aderente; iii) a fissura vertical afunda-se na chacota a uma
distância de grandeza próxima da espessura do vidrado e vai estabelecendo pontes de ligação
horizontais com outras linhas verticais. O resultado é a perda do conjunto vidrado/chacota

26
Capítulo 1: Estado do conhecimento

com significativa espessura. Incluem-se neste tipo os casos intermédios com os dois tipos de
propagação (1 e 2). No mesmo texto Mimoso e Esteves [2015] sistematizaram o destacamento
de vidrado em dois tipos: um em que este ocorre sem matéria cerâmica aderente (Tipo C); e
outro quando o vidrado se destaca acompanhado de chacota (Tipo L). Esta separação é
importante no contexto da investigação realizada no presente trabalho.

a) b) c)
Figura 1.6

Figura 1.2: Imagens de SEM representando três formas de propagação de craquelé do tipo 2: a) Fissuração
horizontal na interface vidrado/chacota (provete C6, século XVIII) com destacamento tipo C; b) Fissuração
vertical com propagação horizontal na chacota (provete AZ03, Fábrica Roseira, século XIX); c) Fissuração
vertical do vidrado com ponte estabelecida entre craquelé, no interior da chacota a uma distância de
grandeza da espessura do vidrado (provete C3, “espiga”, século XVII). b) e c) correspondem ao
destacamento de vidrado do tipo L [Imagens: L. Esteves, obtidas no Laboratório HERCULES].

Lahlil et al. [2015] quiseram entender o padrão de formação de craquelé no vidrado em


cerâmicas antigas chinesas. As fissuras são hierarquizadas devido às sucessivas modificações
das propriedades mecânicas. Os autores verificaram que a heterogeneidade do vidrado,
conferida pela presença de bolhas e cristais na matriz, pode afetar o desenvolvimento
direcional das fissuras. Para além do craquelé tardio adquirido na presença de água, a
fissuração é mais propensa nos vidrados: de espessura mais fina; ricos em alcalis; e na
presença de cristais de anortite que favorecem a nucleação das fendas.

A degradação salina tem sido estudada em materiais porosos usados na construção de


edifícios, especialmente na pedra, argamassa e tijolo. Arnold e Kueng [1985a, b], autores de
referência no estudo dos sais, destacam que todos podem produzir degradação em materiais
porosos.
Os azulejos foram utilizados para o revestimento de paramentos de todo o tipo e estão
também sujeitos à ação dos sais, mas ainda pouco se sabe experimentalmente sobre os seus
efeitos. A degradação dos azulejos é um tema pouco tratado na literatura sobre a conservação
do património mas os sais têm sido apontados como responsáveis pela perda de vidrado
[Simón Cortés, 2012; Figueiredo et al., 2009]. Regra geral a identificação dos sais nas

27
Capítulo 1: Estado do conhecimento

publicações referentes a intervenções em azulejo surgem referenciados como cloretos,


nitratos e sulfatos, sendo o cloreto de sódio o mais referenciado [Borges et al., 1997; Bustorff
Silva, 2000; Madkoura e Khallafb, 2012].
Têm sido publicados estudos comparativos dos efeitos do sulfato de sódio e do cloreto de
sódio na pedra, sendo o primeiro identificado como o mais nefasto. Todavia, Scherer [2000]
alerta para o facto de o cloreto de sódio ter sido apontado como o maior agente de
degradação de edifícios no Mediterrâneo.
O sulfato de sódio é caracterizado por um sistema de fases (mirabilite/tenardite) resultante
dos ciclos de hidratação/desidratação, determinado pelas condições ambientais. Camuffo et
al. [2010] identificaram casos em diversos países (Itália, Polónia, Suécia) que evidenciavam a
perigosidade dos ambientes provocando uma sucessão de transições entre fases que
demonstraram de forma gráfica sobrepondo medições das condições termo-higrométricas nas
edificações a um diagrama de fases do sulfato de sódio. Rodriguez-Navarro e Doehne [1999]
distinguiram o sulfato e o cloreto de sódio nos hábitos cristalinos e na localização dos
precipitados. Os ensaios mostraram que a mirabilite e a tenardite precipitam dentro da
solução em monocristais prismáticos, formando subflorescências que se distribuem nos poros
de forma heterogénea, gerando por isso danos mais significativos. Já a precipitação do cloreto
de sódio ocorre em cristais cúbicos perfeitos que formam eflorescências semelhantes a
agregados dendríticos na interface solução/ar. Sobre este último, acrescentam a possibilidade
de subflorescências em condições de rápida evaporação reforçada pelo baixo teor de HR,
aumento de temperatura e fluxo de vento. Do mesmo modo, Diaz Gonçalves et al. [2014]
acrescentam que o bloqueio dos poros pelas eflorescências pode conduzir à formação de
subflorescências. Já Coussy [2006] explica que o fluxo capilar lento do sulfato de sódio permite
uma evaporação significativa no interior do material levando à subflorescência. Angeli [2007]
reforça o papel da temperatura como parâmetro decisivo na deterioração provocada pelo
sulfato de sódio. Ainda sobre este sal, Angeli et al. [2008a] verificaram que a cristalização
ocorre durante a molhagem, quando a água dissolve a tenardite e precipita em mirabilite. Os
autores apontam que este comportamento poderá estar associado à formação de cristais em
poros de qualquer tamanho, que crescem rapidamente, não conseguindo estabelecer o
equilíbrio. Concluem que a presença de fissuras não é absolutamente necessária para que haja
danos com os sais, mas que aceleram o processo. Grossi et al. [2011] fizeram notar que as
transições de tenardite-mirabilite tendem a predominar no verão em climas temperados
húmidos. Os autores preveem um comportamento idêntico para os sistemas termonatrite-
natrão (carbonato de sódio) e hexahidrato-epsomite (sulfato de magnésio). Em condições
favoráveis, manifestam-se sob a forma de eflorescências à superfície. Mas é sob a forma de

28
Capítulo 1: Estado do conhecimento

subflorescência que surgem danos, já que o processo de dissolução/cristalização ocorre no


interior do material.
Sobre o cloreto de sódio, Lubelli et al. [2006] verificaram que este sal influencia as dilatações
dos materiais por absorção de água. Explicam que os materiais porosos contaminados com
cloreto de sódio retraem durante a dissolução e dilatam de forma irreversível com a
cristalização. Este comportamento também foi encontrado associado a outros sais
higroscópicos, como o nitrato de sódio (NaNO3) e o cloreto de potássio (KCl). Os autores
confirmaram ainda que as dilatações ocorrem de forma diferencial durante a secagem e que
os cristais se concentram nas paredes dos poros mais largos. Sobre a cristalização em tijolos,
Gupta [2013] verificou que se a velocidade de evaporação à superfície for menor ou igual à
velocidade de suplemento da solução, a interface líquido/vapor permanecerá na superfície
exterior e o sal cristaliza em eflorescência.
Embora menos frequentes, outros sais são referenciados no estudo da degradação da pedra e
que importa aqui registar por terem sido encontrados nas inspeções em obra efetuadas
durante este programa doutoral.
Yu e Oguchi [2009] reconhecem os efeitos nocivos do carbonato de sódio e do sulfato de
magnésio na degradação da pedra. O sulfato de magnésio, considerado o mais perigoso no
sistema salino, está associado à fissuração e fracturação da pedra. Em relação a este sal
Balboni et al. [2010] apontam a precipitação de duas fases únicas, a epsomite e hexahydrite,
como a causa da deterioração da pedra. Para os autores, é a elevada viscosidade da solução
que retarda o fluxo capilar, fazendo com que a evaporação ocorra no interior da pedra.
Diferenciam ainda a precipitação do sulfato de sódio (em poros largos), da do sulfato de
magnésio que ocorre em poros de diferentes tamanhos. El-Gohary [2011] acrescenta que a
transformação da kieserite (MgSO4-.H2O) para a fase hidratada de epsomite (MgSO4-.7H2O)
corresponde a um aumento de volume de cerca de 173%. O autor refere ainda que as formas
de ocorrência do sulfato de sódio e do sulfato de magnésio podem ser por eflorescência e por
subflorescência.
Além do artigo de Yu e Oguchi já mencionado [2009], os carbonatos raramente são
mencionados como responsáveis pela deterioração da pedra. Comparativamente com os
cloretos e nitratos, von Konow [2002] concluiu que os danos em paredes de tijolo são menores
com carbonato de sódio. El-Gohary [2011] distingue duas formas de carbonato de sódio: a
natrite (Na2CO3) e termonatrite (Na2CO3-H2O). Para o autor, a cristalização destes sais nos
poros pode traduzir-se num mecanismo de deterioração significativo de fissuração e
fracturação, pela pressão por hidratação.

29
Capítulo 1: Estado do conhecimento

A premissa de que os sais são grandes responsáveis pelo destacamento de vidrado em azulejos
tem sido largamente seguida, mas muito pouco abordada como objeto de estudo. O azulejo
surge como parte integrante das estruturas arquitetónicas. Havendo água e sal num sistema
poroso (estrutura, argamassa e chacota) e uma barreira vítrea à superfície que supostamente
impede a evaporação, leva a que a compreensão do processo de deterioração em azulejos seja
complexa, aceitando-se, no entanto, que seja muito diferente do que ocorre em materiais
porosos homogéneos como a pedra e o tijolo. O fluxo de evaporação numa parede revestida a
azulejos será muito reduzido, só sendo possível pelos defeitos de fabrico, pelo craquelé, pelas
falhas de vidrado já existentes, e pelas juntas. Acerca desta relação azulejo/arquitetura
Mimoso [2011] e Ferreira [2011] evidenciam que as propriedades impermeáveis do vidrado
conduzem ao aumento do nível ascensional da água no interior da parede.
No estudo de um revestimento azulejar do século XVII na Igreja de S. Salvador em Coimbra,
Borges et al. [1997] verificaram que o tipo de sal e sua concentração estavam relacionados
com a posição do azulejo na parede e que a altura atingida por ascensão capilar dependia da
espessura e materiais constituintes da parede e sua orientação. Freedland [1999], focando o
modelo de Arnold e Kueng [1995a], divide a parede em quatro zonas por ascensão capilar:
zona 1, junto ao pavimento - local de menor deterioração e onde se concentram os sais de
menor solubilidade (carbonato de cálcio, carbonato de magnésio, sulfato de cálcio); zona 2,
entre os 0,50 a 1 m – danos mais severos e com significativas eflorescências (desintegração
granular, alveolar e destacamentos) e onde se concentram os sais moderadamente solúveis
(sulfato de magnésio, nitrato de potássio, sulfato de sódio e, em ambiente alcalino, o
carbonato de sódio); zona 3, entre 1 a 3 m - sem danos, caracterizada pela localização dos sais
mais solúveis (cloreto de sódio, cloreto de potássio, nitrato de sódio e nitrato de magnésio) e a
parede é visualmente mais escura; zona 4 – define a altura da ascensão capilar. No entanto
este estudo refere-se a superfícies homogeneamente evaporativas. No caso dos azulejos
verificar-se-á um fluxo ascensional até ser ultrapassada a barreira constituída pelo próprio
painel pelo que se pode admitir a presença também dos sais menos solúveis a cotas mais altas.
Ravaglioli [2003] aponta que os sais mais daninhos para os azulejos são o sulfato de cálcio e
sulfato de sódio, dada a particularidade de se hidratarem durante o processo de cristalização,
aumentando de volume. Seguindo as orientações até agora estabelecidas, Fernández Ibáñez
[2003] refere que é a pressão exercida pela cristalização dos sais sob o vidrado a grande
responsável pelo seu destacamento. Referindo-se à degradação de azulejos históricos
holandeses Durbin [2005] relaciona a maior porosidade à maior tendência para as
cristalizações de sais. A porosidade é definida por Benavente et al. [2006] como o parâmetro
regulador da durabilidade da cerâmica. Os autores verificaram que as cerâmicas cozidas a

30
Capítulo 1: Estado do conhecimento

temperaturas mais altas adquirem maior resistência aos danos. Angeli et al. [2008b] explicam
que a penetração da água é feita por capilaridade através dos poros da cerâmica e quanto
mais fácil for a evaporação, mais rápida e acentuada será a degradação.
Lupión e Arjonilla [2012] chamam a atenção para a dificuldade na identificação das causas de
deterioração pela sobreposição de patologias quer do imóvel, quer dos azulejos. A humidade
oriunda do terreno ascende por capilaridade em direção à frente de evaporação que
corresponde à face onde estão aplicados os azulejos. Se a temperatura for baixa e a
evaporação lenta ocorrerão eflorescências de sais nas juntas dos azulejos. De modo contrário,
vento e temperaturas altas favorecem a evaporação rápida, formando-se subflorescências por
detrás do azulejo. A presença de água e a cristalização de sais solúveis são fatores de
degradação apontados por Madkour et al. [2012]. Segundo os autores, a pressão exercida pela
cristalização do cloreto de sódio, nos poros ou na interface vidrado/chacota, leva à perda de
material cerâmico. Simón Cortés [2012] estabelece a relação entre o tipo de degradação e o
sal que a provocou. Os danos decorrentes da presença de cloretos são a arenização ou
pulverulência da chacota. Já a perda por laminação em espessuras variáveis é apontada aos
sulfatos. O autor verificou a diminuição da resistência mecânica dos azulejos na presença de
sais, tornando-os mais suscetíveis à fratura. A perda de ligação entre vidrado e chacota pela
pressão exercida pela cristalização de sais é reforçada recentemente por Ventolà et al. [2014],
num estudo realizado em azulejos do séc. XIX-XX aplicados na arquitetura. Verificaram que os
danos maiores estão localizados em áreas de maior evaporação, dando como exemplo as
extremidades superiores dos painéis. Baseando-se nos tipos de craquelé já apontados por
Mimoso et al. [2011a], Ventolà et al. referem que esta descontinuidade do vidrado permite a
migração de água e sais para o interior da cerâmica.
Num mesmo revestimento é comum observar degradação seletiva onde coexistem azulejos
degradados ao lado de outros sãos, podendo a explicação residir na fragilidade de alguns
elementos. No seu estudo de 1992, Farinha Antunes relaciona as diferenças de qualidade dos
azulejos históricos com as diferenças de composição mineralógica resultantes da manufatura
assimétrica e as diferenças de temperatura no interior do forno. Explica que na mesma
fornada, haverá azulejos mais bem cozidos que outros e se os piores forem colocados numa
zona de parede com más condições ambientais, degradar-se-ão mais depressa. Em 2011,
Mimoso [2011] reitera a ideia de que a degradação não decorre apenas da agressividade do
meio, mas também das características químicas, físicas e mineralógicas dos próprios azulejos.
Von Konow [2002] chegou à mesma conclusão pelas diferenças de comportamento de tijolos
numa mesma parede na presença de sais, apontando para a heterogeneidade na qualidade do

31
Capítulo 1: Estado do conhecimento

tijolo causada na cozedura. Por fim, López-Arce et al. [2013] revalidam que a composição e
temperatura de cozedura são a chave na explicação sobre os danos pela cristalização de sais.

Foi nos últimos seis anos que se registou um aumento da produção de estudos no LNEC sobre
a degradação de azulejos históricos. Mimoso et al. [2009] propuseram que algumas das formas
de degradação mais preocupantes seriam propiciadas pelos defeitos de fabrico. Em 2011, este
mesmo autor publicou um levantamento de patologias de azulejos históricos em obra
realizado em 2009-2010 [Mimoso, 2011] a que se seguiu um outro estudo sobre a degradação
dos azulejos de fachada do século XIX em Lisboa [Mimoso e Pereira, 2011]. Em relação à
degradação salina, Pereira e Mimoso publicaram também em 2011 um trabalho sobre a
simulação acelerada da ação do cloreto de sódio em azulejos históricos. Os resultados
mostraram que os danos são mais severos na presença de defeitos de fabricação. J. M.
Mimoso et al. [2011a] publicaram uma sistematização de defeitos de fabrico em azulejos
históricos, relacionando-os com formas específicas de degradação. Em 2012, Mimoso et al.
[2012b] unificaram o estudo dos azulejos históricos e dos semi-industriais, mostrando que
apesar da distância tecnológica, as patologias são muito semelhantes quando as condições de
aplicação são as mesmas. Para apoio a estudos neste domínio, Mimoso e Esteves [2011]
publicaram um glossário ilustrado de defeitos de fabrico e formas de degradação em azulejos
históricos.
Finalmente, numa investigação realizada no LNEC em 2015 foi possível mostrar que pelo
menos parte da calcite que se encontra nas chacotas se encontra alojada nos poros e portanto
resulta da carbonatação da cal depositada pelos fluidos que circulam nas paredes sendo,
assim, um marcador da exposição dos azulejos a fatores degradativos sem relação com a
composição original [Chaban et al. 2015]. Estes trabalhos podem, no seu conjunto, ser
considerados os mais abrangentes publicados até à data sobre um dos temas a tratar nesta
dissertação.

As degradações de natureza biológica não são abrangidas pelo âmbito da presente dissertação,
encontrando-se contudo associadas à degradação do azulejo.
A bio colonização é encontrada comummente sob a forma de líquenes e de musgo, embora
também existam registos de algas e bactérias. Normalmente, aparece nos revestimentos
azulejares aplicados no exterior em áreas particularmente húmidas. No interior dos imóveis só
é encontrada em espaços com humidade muito elevada. Costa et al. [2013] diferenciam a
resposta à degradação dos azulejos alemães e portugueses usados nas fachadas no Brasil: os
micro-organismos estabelecem-se na interface vidrado/chacota nos azulejos com vidrado

32
Capítulo 1: Estado do conhecimento

transparente (fabrico alemão) e restringem-se às fissuras e outras irregularidades em vidrados


opacos (fabrico português). Também Mimoso e Pereira [2011], acerca da degradação de
azulejos nas fachadas em Lisboa, acharam manchas negras e castanhas sob a camada vítrea de
azulejos de pó de pedra com vidrado transparente. Esta bio colonização é estabelecida a partir
do craquelé típico dos vidrados transparentes, aproveitando-se da luz e da humidade retida na
interface vidrado/chacota. Oliveira et al. [2001] identificaram algas nos vidrados dos azulejos
de fachada do século XIX, no Brasil.
Na caracterização das comunidades biológicas num revestimento azulejar de fachada Arte
Nova Giacomucci et al. [2011], relacionaram as diferentes espécies com a degradação de
azulejos e diferenciaram três mecanismos envolvidos nos danos: i) solubilização do material
cerâmico por reação química com os ácidos das excreções biológicas; ii) rutura física pela
produção de substâncias extra celulares que causam tensões mecânicas na estrutura do
material; iii) alterações estéticas através de pigmentação. Garofano et al. [2015] explicam que
o ácido fórmico produzido pelas bactérias reage com o chumbo do vidrado produzindo
formiatos (sal). Estes, juntamente com o ácido carbónico presente nas soluções transformam o
Pb em cerusite.
Na coleção do MNAz e em painéis in situ, especialmente nos do século XVIII onde a pintura é a
azul sobre fundo branco, são por vezes encontradas manchas verdes que surgem disseminadas
ou concentradas na matriz vítrea. Um dos casos mais preocupantes, dada a importância
patrimonial, é o painel Grande Panorama de Lisboa em que se reconhece um espalhamento de
manchas de coloração esverdeada e rosada. Só em 2013 é que houve interesse neste estudo e
incidindo num outro painel da coleção do MNAz (A Cura do Cego), Silva et al. [2013]
associaram as manchas verdes à presença de micro-organismos. Nestes locais, encontraram
correspondência no decréscimo da concentração de potássio e cálcio. A fragilidade e o
envelhecimento do vidrado por desvitrificação surgem associados à forma da sílica de baixa
temperatura e à precipitação de fases cristalinas sob a forma de grãos no interior da matriz
vítrea ou em agregados no interior dos vacúolos. No ano seguinte, incidindo no Grande
Panorama de Lisboa, Silva et al. [2014], associaram a maior concentração de chumbo e arsénio
nessas zonas à propensão dos micro-organismos pelos metais tóxicos. Embora concluam que
os azulejos não são afetados significativamente pela presença biológica, apontam este fator
como uma característica de degradação dos azulejos de produção compreendida entre os
séculos XVI e XVIII. Num outro estudo dedicado a este painel Cabo Verde et al. [2015],
encontraram fungos filamentosos, aspergillus fumigatus (só conhecidos da pedra) e um
pigmento verde de crómio (escolaíte) cuja presença não foi possível explicar. Os autores

33
Capítulo 1: Estado do conhecimento

atribuem as manchas rosadas como o resultado da reação por combinação entre crómio e
estanho.
Nos azulejos aplicados no exterior é comum verificar-se bio colonização nas falhas de vidrado.
Esta ocorrência, explicada por Gazulla et al. [2011], deve-se tanto à porosidade que favorece a
retenção de água como à rugosidade que aumenta a bio recetividade, ao facilitar a fixação de
micro-organismos. Para os autores, a composição química do vidrado não interage com a bio
colonização, desde que não haja solubilização de componentes. Assim, a porosidade e a
heterogeneidade da superfície são os parâmetros mais importantes no crescimento
microbiológico [Coutinho et al. 2015].

Uma outra forma de degradação poderá estar relacionada com a alcalinidade das soluções que
circulam nas alvenarias. Recentemente e no enquadramento de um projeto de investigação do
LNEC, Mimoso et al. [2012a] mostraram que a aderência do vidrado à chacota se degrada com
o tempo. O mesmo grupo encontrou geles de sílica, cálcio e potássio ou sódio sob o vidrado de
um azulejo do século XVII, associados às várias formas de destacamento do vidrado. A
descoberta apontou de maneira decisiva para a ocorrência de reações alcalis-sílica, bem
conhecidas na degradação do betão, e que afetariam a aderência do vidrado. Algumas formas
de destacamento, onde se inclui o empolamento, podem ser devidas ao ataque químico da
sílica amorfa, associado ao comportamento expansivo dos geles na presença de água. Estes
resultados foram publicados pela primeira vez em 2014 por J. M. Mimoso.
As reações alcali-sílica (RAS) têm sido largamente estudadas como mecanismo de degradação
de estruturas em betão. A RAS é um ataque químico que ocorre na sílica reativa (amorfa, mal
cristalizada ou muito deformada) em contacto com soluções de hidróxidos alcalinos de sódio e
potássio. O produto da reação é um gel alcali-sílica, higroscópico, que expande na presença de
água, podendo levar à fissuração e potencial colapso de estruturas maciças como barragens ou
pilares de pontes. A velocidade do ataque depende da concentração dos hidróxidos (OH-)
alcalinos (Na+ e K+) na solução intersticial e na estrutura da sílica [Santos Silva, 2006]. Os três
requisitos clássicos para que ocorra a RAS são: 1- uma fonte de sílica reativa; 2- concentração
suficiente de hidróxidos alcalinos a que corresponda um pH superior a 9; e 3- existência de um
meio aquoso [Fernandes et al., 2004; Thomas et al., 2011]. Em 2015, Rajabipour et al.
acrescentaram um quarto requisito para a formação de geles expansivos: a existência de uma
fonte de cálcio solúvel (ex. portlandite). Os autores justificam que na ausência de cálcio as
espécies dissolvidas mantêm-se em solução, mesmo nos sistemas com hidróxidos alcalinos
abundantes. O cálcio, na forma de portlandite, aumenta a viscosidade e é responsável pela
gelificação das soluções sílico-alcalinas e pela expansibilidade. A influência do cálcio na

34
Capítulo 1: Estado do conhecimento

dissolução da sílica já tinha sido estudada por Leemann et al. [2011]. Os autores relacionam o
pH elevado das soluções alcalinas do betão (pH 13,0-13,5) com as reações com a sílica
existente nos agregados. Nos ensaios usaram portlandite como fonte de cálcio e verificaram
que é o teor deste elemento que determina a quantidade de sílica a ser dissolvida.
Shomglina et al. [2003] estudaram os efeitos dos hidróxidos de potássio e sódio nas reações
alcali-sílica. Os autores verificaram que os efeitos com o hidróxido de sódio são mais
significativos comparativamente aos do potássio, devido ao maior raio iónico hidratado dos
iões sódio que levam à maior expansão dos geles alcali-sílica.
A alcalinidade é apontada por Gale e Sliva [1995] como um fator de degradação de estruturas
arquitetónicas com calcário e destacam o pH alcalino decorrente da circulação de águas por
agregados cimentícios. Esta é a causa indicada pelos autores como responsável pelo
destacamento entre camadas na pintura mural.
Alguns autores relacionam a presença de alcalis aos sais. Von Konow [2002] no seu estudo em
paredes de tijolo sobre os mecanismos de deterioração pelo sal verificou que sais alcalinos
como o carbonato de sódio e hidróxido de cálcio afetam a fase amorfa do tijolo, pela
dissolução da sílica amorfa e minerais alcalinos. Viles [2012] refere que a alta alcalinidade das
soluções salinas é capaz de modificações químicas nos minerais. Dá como exemplo a
dissolução parcial dos arenitos em condições saturadas e ricas em sal, pela mobilização da
sílica a um pH acima de 9.
Importa aqui indicar alguns estudos referentes à degradação dos vidrados na presença de
soluções alcalinas. O aumento da concentração de iões OH- danifica a rede vítrea pela
destruição de ligações Si-O-Si sendo esta reação responsável pelo ataque do vidrado na
presença de soluções alcalinas (pH˃9) [Doménech-Carbó e Doménech-Carbó, 2005]. Fröberg et
al. [2007; 2009] correlacionaram a durabilidade do vidrado em meios aquosos com as fases
cristalinas da composição. O trabalho permitiu verificar que o diópsido e a anortite não são
afetadas pela variação do pH, enquanto a wollastonite é facilmente dissolvida em soluções
alcalinas.
Em 2009, Farid et al. [2009] determinaram a resistência química de azulejos ao ataque alcalino.
Os autores pretenderam verificar quais os efeitos da agressão à fase amorfa da sílica de que é
composto o vidrado. Era expectável que a solução alcalina conduzisse à destruição da sílica,
facilitando a falha do material. O ensaio consistiu na imersão da amostra numa solução a 10%
de NaOH durante duas semanas. O resultado não mostrou deterioração à superfície para além
do aparecimento de manchas, que foram associadas à solução. Os autores concluíram que a
uma maior resistência mecânica corresponde também uma melhor resistência ao meio
alcalino. No mesmo ano, Cannillo et al. [2009] investigaram o efeito do envelhecimento

35
Capítulo 1: Estado do conhecimento

químico por ataque alcalino no vidrado de azulejos, simulando a ação dos produtos de
limpeza. As superfícies foram expostas à ação de uma solução alcalina de hidróxido de potássio
(KOH). Os autores concluíram que a presença de elevados teores de fases cristalinas limita o

ataque químico. Para Madkour et al. [2012], a água é responsável pelo aparecimento de
fissuras, destacamento e perda de vidrado. Os autores explicam que os iões alcalinos (Na+ e K+)
são substituídos por iões de hidrogénio (H+) que levam à quebra de ligação da rede vítrea,
sendo a sílica substituída por uma camada amorfa designada por sílica gel. Nesta reação,
também a cor pode ser alterada pela lixiviação de elementos na presença de água.
A confirmação da perda de vidrado pelo ataque da sílica amorfa na presença de soluções
alcalinas, enquadrada neste doutoramento, passou pela reprodução em laboratório do ataque
alcalino em azulejos históricos. Notou-se que, ao contrário do betão estrutural, a rotura das
ligações da sílica na zona da interface deverá ser o fator que importa primariamente à
degradação dos azulejos; enquanto, que o betão, só é afetado pela formação e posterior
ativação de geles expansivos, o que corresponde a uma fase mais tardia.
O facto de a trona (um hidrogenocarbonato de sódio) ocorrer associada à degradação de
azulejos requer especial consideração. Uma primeira referência a este sal como agente de
degradação foi feita por Figg et al. em 1976. O estudo incidiu numa estrutura em betão de
uma fortificação costeira com descamação da superfície, acompanhada de eflorescências
exuberantes. Os autores concluíram que a trona terá sido formada pela reação dos iões de
sódio com o dióxido de carbono da atmosfera. Acrescentam ainda que o betão, ou o sal
transportado pelo vento, são as fontes prováveis dos iões de sódio. Em 2000, Brown e Doerr
estudaram os mecanismos químicos envolvidos na deterioração do betão em contacto com
fluidos oriundos de terrenos que eram antigos leitos marinhos. Para os autores, o cloreto de
sódio do solo, juntamente com o carbonato da atmosfera, reagem com os constituintes do
betão para formar frentes de deposição de carbonato de sódio. Na presença destes
carbonatos verificaram um decréscimo do pH.

1.3.1. Intervenções
A degradação de azulejos históricos pode decorrer também das intervenções de conservação e
restauro. Na década de 1980-1990, era prática comum em Portugal, exportada depois para o
Brasil, o levantamento integral de conjuntos azulejares para dessalinização, descurando-se
eventualmente o saneamento das fontes de degradação. As intervenções de conservação e
restauro eram feitas basicamente só ao nível do azulejo, sem o apoio de outros profissionais
que trabalhassem o imóvel. Exemplo disto são os casos da Igreja de São Salvador em Coimbra

36
Capítulo 1: Estado do conhecimento

[Borges et al., 1997] ou da Igreja da Glória do Outeiro no Rio de Janeiro6. Após a dessalinização
os azulejos eram novamente recolocados na parede. Os danos e fragilidades resultantes destes
procedimentos levaram a que alguns conjuntos evidenciassem, passado pouco tempo, novos
estados de degradação.
Já na transição para o século XXI, a intervenção voltou-se preferencialmente para a
dessalinização in situ, feita por aplicação de compressas (algodão, celulose, minerais argilosos)
embebidas em água destilada, sendo também experimentado um método electrocinético
[Ottosen et al., 2015]. Porém, a introdução de água no sistema azulejo/parede também
conduziu a degradações renovadas, acompanhadas de intensas cristalizações de sais. Como
exemplo indica-se o conjunto azulejar da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência em
Salvador da Bahia, onde foram usadas compressas de algodão embebidas em água destilada,
na intervenção que decorreu entre 1999 e 2000 (Fig. 1.3).

Figura 1.7

Figura 1.3: Pormenor da degradação encontrada com eflorescências e destacamentos de vidrado,


chacota e massas de preenchimento (novembro de 2008) [Imagem: L. Esteves].

A prática de dessalinização foi também seguida em contexto museológico, colocando todos os


azulejos em banhos estáticos que duravam largas semanas ou meses até se atingirem valores
constantes da condutividade da água. Esta foi uma prática seguida numa determinada altura
no Museu Nacional do Azulejo. Ainda no caso de coleções museológicas, Linnow et al. [2007]
referiram que este método pode ser a causa de danos e é ao conservador-restaurador que
compete decidir qual dos dois riscos deve considerar: os danos decorrentes dos ciclos de
cristalização/dissolução dos sais ou os danos resultantes da dessalinização.

6
http://www.rjnet.com.br/rjouteirodagloria.php (24/02/2015)

37
Capítulo 1: Estado do conhecimento

Em geral, a dessalinização tem sido seguida, ainda que de forma mais contida, até aos nossos
dias.
A degradação do azulejo associada à presença de sais e a noção da necessidade de os remover
em meio húmido levou ao aparecimento de algumas publicações relativas à dessalinização.
A dificuldade no acesso aos sais acumulados sob o vidrado, juntamente com a preocupação na
sua cristalização e expansão, foram o ponto de partida para o estudo apresentado por Costa
Pessoa et al. [1996]. Os autores apontaram os sais como a maior causa de degradação dos
azulejos e testaram a dessalinização por imersão estática e por agitação contínua. Como este
último método conduz à desintegração do corpo cerâmico, concluíram que deve ser excluído
das opções de tratamento. A presença de carbonatos na água de dessalinização também foi
apontada como o resultado provável da erosão do corpo cerâmico por Borges et al. [1997] e
Simón Cortés [2012] observou a fratura de amostras pela simples permanência em água.
Freedland [1999] considera que imersões prolongadas elevam o risco de danos no material
cerâmico, acrescentando que a dessalinização com ciclos de lavagem/secagem revelou maior
eficácia na remoção de sais. Sugere a remoção a seco das eflorescências, advertindo no
entanto para que os sais ainda permanecerão no interior, subsistindo um risco da sua ulterior
precipitação. A remoção mecânica das eflorescências volta a ser aconselhada em 2008 por
Sawdy [2008] em detrimento da utilização de métodos aquosos, mas desta vez em pintura
mural. Recentemente foi testado um novo processo de dessalinização sobre azulejos
contaminados com sais. Ottosen et al. [2015] submeteram dois azulejos do século XVIII do
Palácio Centeno, à dessalinização eletroquímica. Os autores desejam desenvolver no futuro,
uma técnica para a aplicabilidade in situ a todo o sistema parede/argamassa/azulejo.

Espera-se que o presente estudo constitua uma contribuição para o enriquecimento do


conhecimento sobre a degradação de azulejos históricos. Considerou-se, como hipótese
provável, haver relações entre os parâmetros de fabricação dos azulejos e o seu
comportamento face aos agentes degradativos. Por isso o estudo incluiu uma revisão de
aspetos relevantes da manufatura dos azulejos pela técnica da faiança, tema que tem sido
pouco explorado, mas nos parece importante neste contexto. Assim, o capítulo seguinte é
dedicado aos processos antigos de fabricação dos azulejos.

38
Capítulo 2
Fabricação de azulejos

O conhecimento dos processos de fabricação do azulejo enquanto objeto artístico é


fundamental para melhor compreensão da composição e do comportamento aos agentes de
degradação. O levantamento das técnicas apoia-se em diversas fontes, cronologicamente
datadas desde Li Tre Libri dell’Arte del Vasaio7, escrito por Cipriano Piccolpasso na segunda
metade do séc. XVI (o manuscrito ainda não tinha sido publicado à data da sua morte em
novembro de 1579) até à Ceramica Portugueza Moderna de Charles Lepierre, publicado em
1899.
A referência à obra de Piccolpasso é relevante porque a técnica aperfeiçoada da majólica é
originária de Itália donde se propagou por toda a Europa, incluindo Portugal onde terá
chegado durante o terceiro quartel do século XVI através de Antuérpia [Vergilio Correia; Nobre
Pais et al, 2015a]. É de supor que a técnica originalmente introduzida tenha sido conforme
com a utilizada em Itália na mesma época, ocorrendo depois desenvolvimentos e adaptações,
tanto a nível internacional, como local.
Outras importantes fontes foram as primeiras enciclopédias técnicas em circulação cerca de
1800 [Ferreira da Silva, 1804] [Xavier, 1805], a documentação da Real Fábrica do Rato (RFR)
em relação à qual, mais do que abordar em detalhe cada um dos períodos de laboração da
Fábrica, analisaremos neste capítulo as informações dispersas sobre os materiais utilizados e
as memórias sobre a fabricação de cerâmica.
Utilizou-se, também, o tratado L’Art de Fabriquer la Faïence Recouverte d’un Émail Opaque
Blanc et Coloré de F. Bastenaire-Daudenart publicado em Paris em 1828, mas referente a uma
época anterior, quando o autor tinha sido proprietário da fábrica cerâmica de Saint-Amand-
Les-Eaux, fundada em 1705.
Os tipos de mistura de barro e a composição dos vidrados eram as maiores preocupações das
oficinas para obterem peças de boa qualidade. A cerâmica era uma arte dispendiosa e
complexa em procedimentos, na seleção e obtenção de matérias-primas, no labor de gentes e
na experiência necessária em diferentes áreas de competência sujeitas à toxicidade das
matérias-primas e completamente dependente do resultado da ação do fogo.

7
Utilizou-se a tradução inglesa de 1980 de R. Lightbown e A. Caiger-Smith.

39
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

As propriedades dos barros variavam de acordo com a região e as zonas de exploração e


estavam dependentes da escolha e extração feitas com menor ou maior conhecimento e
experiência [ANTT, L. 462, 05/04/1814]. A escolha de matérias-primas, as proporções e sua
preparação são referenciadas como fatores essenciais para a boa qualidade cerâmica, mas em
muitas oficinas a regra parece ter sido a improvisação. Os conhecimentos químicos com base
científica eram, em Portugal como noutros países8, frequentemente inexistentes e os defeitos
que surgiam eram tentativamente resolvidos na produção seguinte. Outros atribuíam os maus
resultados à qualidade das matérias-primas adquiridas.
Os procedimentos descritos com base na documentação de 1800 são representativos de uma
laboração mais antiga, pela passagem dos saberes por diferentes gerações, já que a produção
manual do azulejo, enquanto suporte, não sofreu alteração significativa até ao início da
produção fabril do azulejo estampilhado, tal como é referido por Ferreira da Silva: Por falta de
escritores tem jazido tempos esquecidos no berço muitas Artes, sem se aperfeiçoarem;
passando como por tradição de pais a filhos, sem procurarem nunca o melhoramento (…)
seguem escrupulosamente o caminho já trilhado, e desta sorte vem a deixar seus ofícios, senão
em pior figura, quando muito no mesmo estado [Ferreira da Silva, 1804]. Naturalmente nota-
se, ao longo do decorrer dos séculos, um aperfeiçoamento de procedimentos e técnicas na
preparação e mistura de argilas, na qualidade dos vidrados, cores e redução dos defeitos de
fabricação.
É possível concluir-se da leitura da documentação da RFR que os barros eram adquiridos no
país, importando-se grande parte das restantes matérias-primas. Só com a produção de pó de
pedra é que há uma procura externa de argila branca, mas continuando a manter a tendência
no uso de barros nacionais. A compra externa de matérias-primas poderá ser explicada pelo
desconhecimento ou pela dificuldade em obtê-las com a qualidade exigida, sobretudo no que
diz respeito aos óxidos constituintes dos vidrados e cores, tal como é referido num ofício da
RFR datado de 1833: Sendo pois evidente, que não é possível aperfeiçoar as manufaturas de
Louça, sem primeiro instruir os artistas deste importante ramo da nossa indústria nos
princípios da química, que lhe são aplicáveis, faz-se indispensável a conservação da Fábrica do
Rato por alguns anos, para criar ali quanto antes um laboratório químico, em que se analisem
os diversos barros que temos em tanta abundancia nos arredores desta Capital, e bem assim as
areias fusíveis de Coina, o quartzo de Sintra, o feldspato fusível da Serra da Estrela, as argilas
de Leiria, e de Loures, o manganês de Coimbra, a pederneira que temos pela borda-mar, e no
cabo de S. Vicente; para fabricar as escamas de cobre e as cinzas para a pintura e esmalte,

8
Em França F.Bastenaire-Daudenart aponta repetidamente esta ignorância (ver por exemplo L’Art de
Fabriquer la Faïence recouverte d’un émail opaque blanc et coloré, 1ª edição, Paris 1828, pp. 31).

40
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

para ensinar a fazer a (?) de estanho e de chumbo com toda a perfeição, e da mesma forma a
preparar o colcothar, o precipitado de Cassius,9 a prata e ouro de concha para aplicar sobre os
vidrados, etc. [AHMOPTC, MR3, L. 406, of. 18/10/1833].

2.1. Os barros
O objetivo de todo o oleiro era encontrar uma boa argila, entendendo-se como tal, uma
matéria-prima capaz de se dividir completamente em água; de precipitar-se deixando a água
transparente, devendo o precipitado conservar união suficiente para ser trabalhado à mão e
ao torno; capaz de não perder a forma adquirida uma vez seca; de endurecer com o fogo sem
fissurar ou fundir, e finalmente, ser capaz, depois de cozida, de suportar os gradientes de
temperatura no caso da louça.
Se a documentação existente nem sempre permite compreender com segurança todos os
processos de trabalho seguidos em fábrica, não deixa de ser interessante para se conhecer
quais as práticas que à época se consideravam desejáveis.
Piccolpasso (Libro Primo) menciona a utilização de dois tipos de barro: um a que chama genga,
rico em cálcio, adequado para a produção de majólica, apresentando uma cor creme depois de
cozido; o outro, sem carbonatos, com uma cor vermelha depois de cozido, próprio para a
produção de louça de cozinha. O teor em cálcio assegurava que a faiança tivesse uma retração
apropriada no arrefecimento, mantendo o vidrado em compressão e evitando o craquelé
[tradução do Piccolpasso: 27-28].
Parece seguro dizer que durante muitos séculos os fabricantes não sabiam ser possível obter
uma matéria-prima adequada juntando argila e calcário moído e, por isso, dependiam do
empirismo: localização de depósitos de margas10 com características aparentemente
convenientes e teste da sua adequação através de tentativas de vidragem e cozedura. K. van
Lokeren-Campagne investigou fontes holandesas e mostrou que uma vez encontradas margas
adequadas, elas podiam ser melhoradas por mistura. Mas os produtores recorriam sempre às
mesmas origens, incluindo à importação do estrangeiro, e que, apesar dos progressos técnicos,
esta situação ainda se mantinha na Holanda em finais do séc. XVIII [Lookeren-Campagne,
2015]. Bastenaire-Daudenart escreve numa época em que já é possível conseguir
cientificamente a composição desejável dos barros [op. cit.: 27-32], no entanto afirma que

9
Também chamado “púrpura de Cassius”. É um óxido de ouro com o qual se obtém um rosa velho de
alto fogo.
10
Argilas que contêm uma parte argilosa e outra calcária (carbonato de cálcio) [Lepierre: 13].

41
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

muitos fabricantes foram conduzidos à ruína pelo desconhecimento dos meios modernos de
análise [op. cit.: 11-13].
Da consulta à documentação da Real Fábrica do Rato multiplicam-se as referências a locais de
extração de barro, ao sabor de novas experiências e tentativas de melhorar, ou simplesmente
alterar, a louça que se produzia. Ora esta multiplicidade de proveniências dos barros usados
pela RFR recomenda prudência na atribuição de fabricos com base na análise das pastas, pois
não só se verifica a utilização de barros com diversas origens pela mesma unidade fabril, como
as mesmas barreiras forneceriam diferentes fábricas e oficinas do país. No entanto, há com
certeza diferenças de composição na mistura de barros e tendencialmente uma maior
predominância num tipo específico, possivelmente o mais próximo da unidade fabril. É certo
que quanto menor fossem os recursos financeiros para suportar as despesas com o carrego e
transporte, mais próximo teriam de ficar.
Foram contabilizados 17 barros utilizados pela RFR, escolhidos de acordo com as suas
propriedades e aplicação, tal como fazem referência alguns dos diferentes ofícios:
a) De Leiria: Extração do barro no Cazal dos Ovos [L. 867]: tendo encarregado a Joaquim
José da Rocha da cidade de Leiria a diligência da extração dos barros necessários para
a laboração da Real Fabrica da louça nesta cidade [L. 404, 1818: 62].
A Direção da Real Fábrica das Sedas e Obras de Águas Livres, tendo ajustado com João
Francisco da Luz, a compra de mil arrobas de barro de Leiria, por ser o mais próprio
para empregar na loiça de pó de pedra, que se manufatura na Real Fabrica da Loiça [L.
396, 1826: 65].
É quase todo composto de argila pura, resistente ao ácido nítrico, tem pouca matéria
siliciosa, e não recebe o vidrado por causa de ser muito untuoso e saponáceo [L. 406,
of. 18/10/1833: 11-16].
b) Campo Pequeno: sendo-me incumbido de fazer as necessárias averiguações a respeito
do embaraço que se encontra na extração do Barro do Campo Pequeno que serve para
barrar as caldeiras e Fornos da dita Real Fábrica [L. 411, 1818: 66].
c) Campo Grande: Existe referência nas notas de despesa no período de Tomás Brunetto
(1767) à aquisição de barro desta zona.
d) Prazeres: Semelhante ao barro vermelho do Colégio dos Nobres mas com menos
carbonato calcário [L. 406, of. 18/10/1833: 11-16].
e) Colégio dos Nobres: O barro vermelho, necessário para a laboração, era retirado do
terreno pertencente ao Colégio dos Nobres [ANTT, L. 384: 175]. Era um barro chamado
vermelho; é um composto natural de argila, óxido de ferro no estado de protoxido, que
lhe dá uma cor azulada, carbonato calcário em abundância, e muito pouca sílex. Por

42
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

conseguinte um tal barro não resiste ao calor da temperatura rubra, e nela se funde
em vidro grosseiro [L. 406, of. 18/10/1833: 11-16].
f) Cascais: sendo preciso aproveitar o barro vindo de Cascais, e tendo Salvador Luiz, feito
bom uso dele, pelas combinações que fez com outros: este encarregado seja
encarregado de fazer as misturas dos barros, a fim de que a louça saia com a maior
perfeição possível [L. 404, 1822: 89].
g) Figueira da Foz: transporte de barro do Porto de Lavos [L. 396, 1813: 37].
h) Portela: A Direção da Real Fábrica das Sedas e Obras de Águas Livres me ordena dirija
a Vossa Senhoria o presente Oficio expondo-lhe que tendo noticia que na Quinta que
Vossa Senhoria possui no Sitio da Portela pouco distante desta cidade existe veio de
Barro ou Argila donde se tem extraído o de que se tem precisado no Arsenal do
Exército e sabendo a mesma Direção que na Real Fábrica da Loiça desta cidade que
está debaixo da Sua Administração se precisa para a laboração dela quantidade do
mesmo Barro, Rogasse a Vossa Senhoria que para bem da Real Fazenda e poder
promover a dita laboração da Real Fábrica houvesse de permitir e de consentir se
extraia o dito barro na quantidade que for do seu consentimento [L. 396, 1819: 39].
i) Barro da Serra [da Estrela]: Existe referência nas notas de despesa no período sem
administração (1827) [ANTT, L. 808]. Era um barro branco usado para a louça em pó de
pedra mas de pior qualidade que o das minas no Rio de Janeiro.
j) Sesimbra: queira mandar escavar nas Barreiras do distrito dessa Vila de Sesimbra (a
onde já se tirou barro para certas obras de Louça que aí se fabricavam) uma carrada
dele pouco mais ou menos do que melhor nota tiver e pela pessoa que achar ter mais
conhecimento de semelhante operação fazendo-o remeter a entregar nesta Cidade
bem acondicionado na Real Fábrica da Louça no Sítio do Rato [ANTT, L. 462,
05/04/1814]. Como só existe este registo de aquisição de barro, é possível que não
tenha sido mais utilizado.
k) Barro de Rena [?]: É quase todo composto de carbonato calcário, incapaz por si só de
se amassar e servir para a louça: ferve com o ácido nítrico, desfaz-se em espumas, e
não tem quase nada de argila [Livro 406, of. 18/10/1833: 11-16].
l) Monsanto: Marne do Baltazar para ser empregado no uso das manufaturas da Louça,
porque a experiência tem mostrado ser este o melhor que tem aparecido para o seu
efeito [L. 404, 1823: 92]. Marne, ou argila calcária da serra de Monsanto, foi empregue
na produção da louça de pó de pedra, misturado em partes iguais com argila de Leiria
[L. 319, 23/04/1819: 130-149].

43
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

m) Rio de Janeiro: argila branca dita “petuntse”11 e caulino, ambos extraídos do monte de
Santa Teresa [AHMOPTC, JC15, 31/12/1767].
n) Ribeira das Naus: Existe referência nas notas de despesa no período de Tomás
Brunetto (1767) à aquisição de barro branco desta zona [ANTT, L. 753]. Em 1771 por
frete de 11 Barris de Tabatinga, que vieram da Ribeira das Naus [ANTT, L. 753, 1771:
69].
o) Terras de Vale Pereiro (Bragança): Pelo que pagou ao beneficiado Rodrigo Luiz Pinhão
por dar consentimento para se tirar barro das suas terras de Vale Pereiro, desde Julho,
até setembro do presente ano [ANTT, L. 753, 1771: 82].
p) Barro do lugar de Soure (Coimbra): barro de bolo branco (…) ensacado de forma que
lhe não possa chegar humidade alguma, advertindo a Vossa Merce que o dito Barro ao
tirar-se da terra sai mais escuro, que o da amostra, que depois de seco fica com a
mesma brancura, e que esta seja igual [ANTT, L. 444, 1767: 76].
q) Barro das Lages [Coimbra?] [ANTT, L. 753, 1776: 172]: adquirido em grande
quantidade juntamente com o do Colégio dos Nobres.

A partir de 1828, as designações de “barro coado para pó de pedra” e “barro dito para faiança”
[ANTT, L. 551] parecem indicar a compra de barro já preparado. Esta alteração verifica-se
igualmente no vidrado para a louça de pó de pedra e a de faiança.
A teoria do químico francês Vauquelin relativa à mistura de barros era conhecida na RFR:
Segundo as experiencias, e análise do cellebre Vauquelin para que os barros naturais depois de
preparados, ou a boa mistura artificial, deem boa Louça, deve a terra silicia fazer pelo menos
os dois terços da pasta, a terra argilosa, ou alumina um quinto até um terço: a cal não é
prejudicial quando forma cinco centésimos, ou pouco mais; o ferro é sempre danoso, por que
destrói a brancura da pasta, e passando a mais de doze centésimos a torna muito fusível (…)
Nesta parte está muito mal servida a Real Fabrica da Louça, por que o seu barro, segundo as
minhas experiências contém pouca terra siliciosa, que é a que dá às Louças, a dureza, a
infusibilidade, e inalterabilidade, e tem mais cal, e ferro que devia ter [AHMOPTC, JC10,
09/06/1813: 10].
Em 1833, é descrita uma experiência de mistura de quatro qualidades de barros que a RFR se
podia servir: do Colégio dos Nobres, dos Prazeres, barro de Rena e de Leiria ora com estes
barros não era possível fazer nunca um biscoito bom, nem mesmo tolerável, sem lhe corrigir os
defeitos naturais. Procurei portanto lavar bem os barros denominados – vermelho, e dos

11
Pe-tun-tse é um barro muito branco, fino e macio ao tato [Ferreira da Silva, 1804: 21]

44
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

Prazeres, para lhe tirar a maior parte do carbonato calcário, o qual se calcina na primeira
cozedura, e soltando o gaz ácido carbónico, faz a massa do biscoito muito porosa, além de ser
um fundente das argilas quando entra nas misturas em abundância. Supri a falta de sílex com a
adição de uns restos de coadura de pederneira que havia no fundo de um tanque, e para ligar
tudo juntei-lhe o Barro de Leiria. As tríplices ligas metálicas, e as misturas dos seus óxidos têm
muita analogia, dão um composto em que as moléculas componentes se não ajustam nem
tocam por todos os lados, e daqui vem o poderem sofrer as rápidas transições do calor para o
frio sem racharem as peças delas formadas; porque nem se contraem, nem se dilatam com
rapidez, e vão lentamente passando de um a outro estado, e por isso resistem. Por conclusão
de tudo isto cheguei a poder formar uma excelente louça, que acreditará muito a Real Fábrica
[L. 406, of. 18/10/1833: 11-16].
A mistura de dois a três tipos de barro deveria dar resposta às dificuldades encontradas na
produção cerâmica, tais como: tempo de secagem; empenos; retração; fratura, resistência ao
fogo, craquelé e cor do vidrado branco [Xavier: 66].
Os barros escolhidos eram extraídos dos barreiros12 entre julho e setembro, pelos carreiros, e
transportados para as oficinas, onde permaneciam no interior de covas ou tanques com água
para invernar ou apodrecer (Fig. 2.1). A escolha decorria nesta época do ano para que o gelo
do inverno penetrasse nos barros para os separar, sendo a primavera a época de preparação.
De um modo geral, os tanques localizavam-se próximos de um poço ou nascente. Tinham de
profundidade perto de 1,5 m e a dimensão estava relacionada com o volume de produção da
oficina. As paredes eram revestidas com tábuas e o fundo com ladrilhos, tijolos ou pedras
lavradas [Xavier: 7].
Um dos processos mais antigos para elevar a plasticidade das argilas consistia em armazenar,
durante bastante tempo, massas húmidas deste material, conseguindo-se uma desagregação
lenta e contínua subdivisão das pastas, pela ação da água e das mudanças de temperatura. Os
que deixassem ao ar teriam de o mover todo o inverno, com pás de ferro, enxadas e com paus
(Fig. 2.3a) [Ferreira da Silva: 22].

12
O azeite servia para retirar o barro das minas (RFR).

45
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

Figura 2.8

Figura 2.1: Representação de uma olaria e do lugar onde se preparavam os barros [Xavier: Est. I].

Estes procedimentos também foram aplicados na RFR e as qualidades do barro dependiam da


boa preparação: Esta preparação consta de algumas operações que apontarei em breve: 1º da
escolha, e separação dos pedaços de barro bom do mau, o que se faz primeiramente quando se
cava a terra e depois com mais miudeza, e exatidão dentro da Fábrica. Por esta escolha se
separarão os veios de pirites, as areias grossas, os pedregulhos; 2º a lavagem em diversos
tanques, e cubas, pela qual se separa a areia que se precipita no fundo, e parte da terra
calcária, que vem à superfície. Esta operação se facilita, deixando em primeiro lugar o barro
cavado, exposto aos frios, e geadas do Inverno, para que o repassem, abram, e dividam, e só
na Primavera é que se pisam, ou moem, e depois de serem lavados devidamente, e depositada
a matéria das águas lodosas nos tanques, ou cubas próprias, separa-se, e junta-se em montes
o barro fino, deixando-se enxugar, e curtir ao ar para que fermente o barro, se destruam os
princípios vegetais, se decomponham as pirites, dando-se a massa de tempos em tempos sem
repiso de humedecida com água limpa, e pura. Estas operações são na fábrica muito
compendiosas, e imperfeitas, e daqui vem a má qualidade de sua louça (…) Como já disse, que
nem sempre os barros, ainda os melhores contêm os ingredientes necessários, para que a
pasta tenha toda a dureza, e infuzibilidade necessária, é portanto preciso que além da
preparação apontada, se junte ao barro que o precisa as partes que lhe faltam, como por
exemplo, o quartzo, ou pederneira queimada, pisada, peneirada e lavada, às vezes alguma
terra tal coza, ou ainda o feldspato preparado nas devidas dozes, pois é de facto que quanto

46
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

mais perfeita for a mistura, e a massa mais bem trabalhada, e velha, muito melhor Louça dá
[AHMOPTC, JC 10, 13/02/1813].

C B
A

Figura 2.9

Figura 2.2: Tanque e pia de preparação do barro: A – pia onde se desfaz o barro; B – suporte elevado
para a passagem da água cheia de barro através da peneira; C – tanque que recebe o barro depois de
passado pela peneira [Xavier: Est. III].

A água barrenta, retirada com um barrilete, era coada por uma peneira de crinas, palha ou de
seda escolhida de acordo com a qualidade desejada para o barro, para passar a tanques de
grande dimensão (Fig. 2.3 b, c). Após a deposição do barro, a água era retirada por aberturas
laterais nas paredes dos tanques ou deixava-se evaporar. O barro, depois de retirado com uma
palheta era levado para o interior das oficinas para ser trabalhado, após alguns dias de
secagem.

a) b) c) d)

Palheta
Meia
Peneira
enxada

Figura 2.10

Enxada

Barrilete
Figura 2.3: a) A pá e os dois tipos de enxada serviam para revolver o barro nos tanques, sendo a
primeira usada nos baldes; b) Barrilete; c) Peneira; d) Palheta [Xavier: Est. III].

O barro era misturado com areia na proporção de duas partes de barro novo para cinco de
areia, com o objetivo de diminuir a retração, sendo a mistura amassada com os pés, o
amassador descalço se chega ao monte de barro; a sua postura é, com a mão esquerda
firmada sobre o joelho esquerdo, e porque o barro escorrega, para não cair, tem na mão

47
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

direita um pau, em que se firma. Separando então das bordas um pouco de barro com o pé
esquerdo o despega, e lança fora do monte, dá um pequeno paço adiante, e faz o mesmo
[Ferreira da Silva: 26]. A esta mistura, também era adicionada uma parte de aparas pois este
barro das aparas, que já tem a liga da areia, e já foi posto em camada amassado, e
trabalhado, ajuda a trabalhar melhor o barro novo [Ferreira da Silva: 24]. O método consistia
em espalhar areia no pavimento onde se estendiam camadas de barro novo e do barro húmido
das aparas (Fig. 2.4). A amassadura nunca era inferior a quatro horas e o processo permitia a
extração de pedras ou pirites que aí se encontravam. Nas notas de despesa da RFR existe
referência às areias do Campo de Santa Clara (1767) e de Coina (1771), sabendo-se que a
última fazia parte da composição do vidrado.
Sobre a limpeza do barro num documento datado de 1813 da RFR é referido que A Fábrica não
usa, nem nunca usou ingredientes no barro, mas tem muito cuidado em fazer escavar com
asseio e bem escolhido na Mina ou barreiro onde se corta se lhe separam quando se
encontrão, todas as partículas estranhas que prejudicam como são asa de cântaro, pé de
galinha, conchinha, buzio, salitre, cré, ocra, ferrugem, pedrinhas, areias, cascão, e musgos que
de tudo isto costuma aparecer nos cernis, veios, e cabos dos barros; porém nunca pedregulhos
como diz o informante que se encontram; separam-se todas estas partículas, e se deixam no
Campo, e na Fábrica quando se coa e passa para os tanques pela peneira aparece o que
escapou da primeira separação”13. Mas dez anos depois num outro ofício é pedida a
construção de um “tabuleiro para pisar o barro” (…) acontece que se continua a pisar o barro
de forma antiga, estando exposto a receber a terra, as pedras que vão pegadas aos pés dos
trabalhadores empregados naquele laboratório; e sendo isto muito prejudicial à manufatura
[ANTT, L. 404, 03/02/1823: 91]. As pirites e fragmentos de mina de ferro são dois dos
elementos mais referenciados como responsáveis pelos defeitos.
As produções de azulejos dos séculos XVII e XVIII diferenciam-se na caracterização das
chacotas resultantes desta fase de preparação. Na grande maioria dos azulejos do século XVII:
a) a lavagem dos barros terá, eventualmente, sido feita separadamente de acordo com os seus
tipos e a limpeza era deficiente pelas inclusões que são encontradas; b) a mistura dos barros
parece ter sido feita à mão ou a amassadura com os pés era insuficiente, resultando num
marmoreado de argilas vermelhas e beges que são evidentes em toda a espessura; c) a
espessura média dos azulejos é de 15 mm e o tamanho é quase sempre de 14 x 14 cm. Nos
séculos XVIII-XIX: a) a lavagem dos barros pode, eventualmente, ter sido feita já misturada de
acordo com as proporções da receita pelo que as chacotas mostram uma cor uniforme; b) a

13
AHMOPTC, JC10, 09/06/1813: 10.

48
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

amassadura com os pés não era perfeita já que surgem por vezes inclusões; c) a espessura é
mais reduzida mas o tamanho manteve-se idêntico ao do período anterior.
É possível que a despesa com a lavagem e peneiração dos barros só fosse tida com a louça, já
que os azulejos eram produtos para venda mais barata. Deste modo, para o fabrico da louça
era importante que a mistura ficasse uniforme e para isso os oleiros cortam o barro com um
arame de latão, e examinam se a cor está uniforme em toda a extensão do golpe, e se há
lugares mais brilhantes, que outros. [Ferreira da Silva: 27].

Figura 2.11

Figura 2.4: Interior de uma oficina onde se vê o barro a ser pisado e à direita as placas de barro
amontoadas depois de terem sido amassadas e batidas [Xavier: Est. II].

Lepierre dedica um capítulo às argilas e análise das pastas [op. cit.: 12-18] indicando, na sua
obra, os resultados analíticos das matérias-primas utilizadas pelas fábricas nacionais para as
diversas produções, incluindo as de azulejos, que separa da faiança fina, classificando-a como
“faiança esmaltada”.

2.2. A manufatura de ladrilhos/azulejos


Nas descrições da produção cerâmica nas enciclopédias técnicas não existe referência à
produção de azulejos, tal como hoje os definimos, porque era um produto de pequena monta
comparativamente a outras peças mais importantes de faiança. Na época, este material de
revestimento estava incluído na produção de ladrilhos de louça e é sobre estes, juntamente
com o conhecimento das técnicas tradicionais de fabricação de azulejos, que é construído este
texto. Em Portugal, a primeira instrução para a fabricação de azulejos que conhecemos data de

49
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

1882, num livro académico sobre materiais de construção onde são chamados “ladrilhos” e
classificado no grupo das ”pedras artificiais” [Rebello Pedrosa, 1882-1883].
As peças eram produzidas a partir de um grande molde quadrado em madeira que faz os
ladrilhos mais grossos do que devem ser; não só porque diminuem, quando secam, mas
também, porque ficam mais delgados quando os batem, depois do barro ter sido amassado à
mão [Ferreira da Silva: 28]. Assente sobre uma pedra, com areia espalhada sobre a superfície
para que o barro não agarrasse, o molde era enchido com pequenas porções de argila e
comprimido com as mãos porque este barro deve ser mais duro (…) Depois de estar o molde
bem cheio por todas as partes, o moldador toma a plaina, molha-a na água, e pegando nela
com ambas as mãos, a passa fortemente por cima do molde, para tirar todo o barro, que
excede à grossura, que deve ter [Ferreira da Silva: 31] (Fig. 2.5).

Água Plaina

Bloco de barro Molde comprido de


enchimento

Areia Cutelo curvo


Faca de dois cabos para o corte
para o corte do bloco dos azulejos
de barro
Pedra

Figura 2.12

Figura 2.5: Imagem ilustrativa de uma bancada e com o que é necessário à produção de ladrilhos
[Ferreira da Silva: Est. I].

Depois de manufaturados, eram sobrepostos uns nos outros sem correrem o risco de se
colarem, graças, quer à dureza do barro, quer à presença da areia. Após secagem, eram
colocados em prateleiras feitas com varas que permitiam a circulação de ar em todas as áreas
da peça, sendo virados regularmente para atingirem o mesmo grau de secagem. Sobrepostos
uns nos outros sobre um banco e ainda com alguma maleabilidade (possivelmente em estado
de couro) eram batidos com um maço ou um rolo14 para os comprimir e reduzir as bolhas de

14
Existe referência nas notas de despesa a “pedra para bater o azulejo”.

50
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

ar, voltando novamente para a secagem nas prateleiras (Fig. 2.6). Esta operação conduzia à
perda da forma e o corte do excedente era feito com recurso a um calibre de ferro.
Para evitar o aparecimento de fendas, e porque a secagem no interior da peça não é igual à da
superfície, os modeladores voltavam a colocar os azulejos em pilha num espaço húmido
durante cerca de seis dias. Ainda num estado maleável, eram novamente batidos e Tudo isto
se faz para que o barro fique bem unido, igual em toda a parte com a devida consistência, e
sem ar intermédio [AHMOPTC, JC10, cap. 3º, 4º, 1813]. Este procedimento é percetível, por
vezes, pela ondulação ou marcas nas superfícies de alguns azulejos do século XVII (Fig. 2.7).
Formavam-se pilhas de 20 unidades junto a uma parede e com o barro um pouco mais seco
procedia-se ao corte, com um cutelo curvo, a partir de uma matriz em ferro, com a dimensão
final com que se pretendiam os azulejos. A documentação refere que um bom obreiro pode
aparar 1800 ladrilhos por dia [Ferreira da Silva: 34]. A secagem dos azulejos aqui descrita era
feita no exterior, nunca ao sol e em zonas arejadas, o que torna assim possível tão numerosos
procedimentos com o barro.

Figura 2.13

Figura 2.6: Maço que serve para bater o barro Figura 2.7: A marca impressa na superfície de um
[Xavier: Est. V]. azulejo de cercadura parece concordar com a ponta
de um maço [Imagem: L. Esteves].

Em carta escrita ao Rei por Diogo Augusto de Castro Constancio e Joze Raymundo Antonio de
Saâ, a 4 de Fevereiro de 1830 é mencionado que o ladrilho era guarnecido de gáveas em roda,
a fim de que nestas possa penetrar o cimento em que for assente, ficando por isso muito mais
seguro e durável [ANTT, L. 17: 191]. Tratava-se do escacilhado que era produzido quebrando as
arestas do tardoz com uma picadeira para aumentar a área de aderência do azulejo à
argamassa de assentamento. Este processo tanto podia ser realizado com o azulejo ainda cru
e, nesse caso, os entalhes mostram escorrências de vidrado, ou depois da cozedura do vidrado
com as superfícies limpas e provavelmente executado em obra. O primeiro caso parece
predominar, justificado talvez pelos riscos de fratura que este modo de atuação poderia

51
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

provocar em peças já decoradas, o que obrigava a que esse trabalho tivesse que ser executado
por um azulejador experiente. O escacilhado realizado com o azulejo cru ou em obra poderá
ser uma característica diferenciadora entre oficinas.
Depois da manufatura e secagem, os azulejos são submetidos à primeira cozedura, cuja
operação é designada por enchacotar [Rebello Pedrosa: 106].

2.3. Fornos cerâmicos e seu enfornamento


Piccolpasso descreve e ilustra com grande detalhe um forno de faiança utilizado em Itália no
séc. XVI [op. cit. Libro II, pontos 92-100]. A Figura 2.8 reproduz algumas das ilustrações
originais, vendo-se que se trata de um forno alongado onde a queima é feita numa câmara
inferior, possuindo um sistema de ventilação para controlar o fogo. O autor informa que os
mestres consideram o desenho dos fornos um segredo oficinal que lhes foi ensinado e que o
combustível utilizado era tojo e ramos de árvore.

52
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

53
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

Figura 2.14

Figura 2.8: Desenhos de Piccolpasso com a planta e partes que compõem um forno cerâmico do século
XVI.

54
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

Em 1828, Bastenaire-Daudenart descreve fornos semelhantes, de planta retangular com cerca


de 2,70 m de largura e até 4 m de profundidade, dizendo que eram os únicos utilizados trinta
ou quarenta anos antes, mas que tinham diversos inconvenientes, incluindo o fato de a
alimentação em combustível ser feita apenas pelo eixo e de a temperatura no interior ser
muito desigual, mais baixa no centro do que nos cantos. Afirma que os fornos ovais ou, pelo
menos, de cantos arredondados têm substituído os antigos fornos angulosos.
Um forno deste último tipo, usado em Paris cerca de 1800, é ilustrado por Ferreira da Silva
(Fig. 2.9) e um forno semelhante, embora de construção diversa, é ilustrado por Lepierre como
característico das fábricas de Coimbra (Fig. 2.10).

Figura 2.15

Figura 2.9: Ilustração de um forno usado para a cozedura de ladrilhos e louça (vista em corte de perfil
e de topo) [Ferreira da Silva: Est. I].

Figura 2.16

Figura 2.10: Ilustração de um outro forno usado para cozer a louça nas fábricas de Coimbra (vista de
frente, em corte de perfil e de topo) [Lepierre: Fig. 7].

55
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

O forno representado na figura 2.9, usado na cozedura de ladrilhos e louça, era composto por
uma fornalha onde era colocada lenha, da câmara interior do forno e de uma chaminé para a
saída dos fumos.
Basicamente, o ar quente circulava a partir da fornalha, subindo para a abóbada até atingir o
fundo do forno onde descia para sair pelas aberturas que ligavam à chaminé. Como a chaminé
era construída abaixo do pavimento, é preciso, que a corrente de ar, que entra pela boca A,
passe ao tubo D, pelos buracos C. Deste modo, tendo seguido a curvatura da abóbada, até
perto de M, o ar quente desce ao longo das paredes do tubo da chaminé, que se chama
lingueta, para ganhar os buracos que estão em C e tornar ao tubo C, D [Ferreira da Silva: 36].
Como a entrada de calor era mais pequena (fornalha) do que o fundo do forno e como os lados
não recebiam tanto calor como ao centro, era necessária a colocação de lenha nas zonas
laterais.
A entrada para o forno era feita lateralmente a partir de F (Fig. 2.9, vista de topo) que era
tapada por um murete de tijolos após o enfornamento e desmanchada após a cozedura. A
seguir à fornalha era construída uma parede de tijolos dispostos com intervalos entre si para
que o calor comunicasse com o interior da câmara. Esta parede não era desmanchada e
quando necessário procedia-se a reparações.
Os ladrilhos eram colocados sobre tijolos que se põem deitados, (…) de modo, que hajam dois
dedos de distância de um ao outro ladrilho, e que o meio do ladrilho da ordem superior
corresponda ao vácuo dos ladrilhos da ordem inferior [Ferreira da Silva: 38]. Este procedimento
só seria possível para ladrilhos sem vidrado. Continuando a descrição no enchimento do forno,
depois de se terem levantado até à abóbada quatro pilhas de tijolos ordinários, se põe achas
de lenha entre as paredes do forno, e as pilhas de tijolos; depois se arranjam sobre o
pavimento do forno, os tijolos de fornalha, e por cima as pilhas de ladrilhos de Sala. Percebe-se
que os ladrilhos de melhor qualidade (azulejos?), eram colocados a meio do forno por ser este
o local de maior e mais regular calor. A cada duas ou três pilhas colocavam-se achas de
madeira entre os tijolos e as paredes do forno; no fundo (lingueta); e, por fim, outras, com o
comprimento do maior pé-direito que se punham na vertical. O trabalho de enfornamento
terminava em F, com tijolos, azulejos ditos ordinários e achas [Ferreira da Silva: 35-39]. Entre
peças vidradas não era colocada lenha e nas laterais do forno, onde ela era necessária,
dispunham-se peças cruas para a primeira cozedura.
Embora a descrição seja bastante exaustiva, não se explica como se processava a separação
dos ladrilhos ou azulejos vidrados. Poderão as caixas e prateleiras usadas para a louça, ter sido
utilizadas para os azulejos vidrados? É uma questão para a qual que ainda não foi encontrada
resposta. Mas, como as cozeduras eram muito dispendiosas, e no sentido de ocupar o máximo

56
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

da capacidade das câmaras, até hoje pensa-se que muitos azulejos terão sido cozidos na
vertical, possivelmente, nos espaços vazios entre peças tridimensionais, tal como alguns
exemplares o demonstram (Fig. 2.11). Embora, menos comum, o reaproveitamento de
azulejos já decorados para pintura de um novo painel comprova, também pela decoração nas
duas faces e sem marcas de mobiliário de enfornamento, que só podiam ter sido cozidos na
vertical (Fig. 2.11b). Neste caso, o escacilhado das arestas só foi realizado no assentamento.
Entre peças vidradas devia-se manter uma distância de segurança para que não ficassem
coladas durante a cozedura. Nos azulejos é frequente encontrarem-se marcas de colagem de
outras peças (Fig. 2.11 c).

a) b) c)
Figura 2.17

Figura 2.11: a) Os escorridos no azul mais escuro mostram que o azulejo foi cozido na vertical ou, pelo
menos, inclinados (Col. MNAz, azulejo do século XVII); b) tardozes de um painel de padronagem
polícromo do século XVII que mostram o reaproveitamento de azulejos não comercializados na primeira
produção (Inv. 9033Az); c) marca de colagem, possivelmente, de um outro azulejo (Col. MNAz, azulejo
século XVIII, refª e, b24) [Imagens: L. Esteves].

A cozedura tinha um primeiro momento de aquecimento, com um pequeno fogo de paus


grossos, que façam mais fumo, do que chama, que os oleiros designavam por humedecer, pois
servia para retirar a humidade do barro e do interior da câmara, evitando a quebra das peças.
Em seguida começava a cozedura propriamente dita, designada por têmpera, com a duração
de 36 horas, sendo as últimas 12 horas destinadas ao aumento do fogo. A cozedura terminava
com o grande fogo de chama ou labareda que se faz no fim do cozimento com feixes de lenha,
ou madeira rachada em grande quantidade e seca, por mais sete ou oito horas. É nesta fase
que os paus que se meteram no interior do fogo ardem, sendo considerada a etapa mais
perigosa no processo com louça vidrada, já que a queima pode levantar muita cinza [Ferreira
da Silva: 96]. Alguns azulejos são representativos da falta de controlo nesta última fase de
cozimento, apresentando, no vidrado, defeitos de fabricação, tais como crateras, refervido,
pigmentação cinzenta do vidrado e o desaparecimento da cor, em especial do amarelo (Fig.
2.12) [Mimoso e Esteves, 2011]. Terminado o processo de cozedura, a boca do forno era

57
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

tapada com uma chapa de ferro e o arrefecimento processava-se por sete ou oito dias
[Ferreira da Silva: 39-41].

a) b) c)
Figura 2.18

Figura 2.12: Defeitos de cozedura causados pelo recozimento e efeito das cinzas. a) Refervido (Col.
MNAz, séc. XVII-XVIII); b) Crateras e pigmentação cinzenta resultante do contacto das cinzas (Col. MNAz,
azulejo da produção de Coimbra, século XVIII, refª G3 D); c) Perda da cor amarela ou laranja por excesso
de temperatura de cozedura (MNAz, séc. XVII, refª L18 [Imagens: L. Esteves].

Sobre a cozedura diz Bastenaire-Daudenart que as peças são enchacotadas e cozidas em


vidrado no mesmo forno e simultaneamente, sendo as peças em primeira cozedura colocadas
no topo do forno e as que vão cozer o vidrado no andar mais baixo e mais quente [op. cit.:
275]. Um outro modelo de forno, que permitia separar fisicamente as duas operações, é
apresentado na Arte do Louceiro e tem configuração vertical, em que a fornalha, numa
cavidade escavada no solo, ocupava todo o perímetro do forno e tinha a vantagem de não
expor as peças às cinzas. O que conduz o fogo [atiçador], desce dentro desta cova, e forra de
lenha pela boca da fornalha, debaixo do corpo do forno, onde se metem as obras, que se
querem cozer (Fig. 2.13) [Ferreira da Silva: 87]. Há registo de cozedura de quatro dias e três
noites em contínuo, em que as primeiras doze horas correspondiam ao aquecimento em fogo
moderado. Neste caso, o arrefecimento tinha a duração de três dias e três noites [Ferreira da
Silva: 120].

58
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

Chaminé

Porta do
Corpo 2 Corpo I Porta do
Corpo 2

Corpo G
Porta do
Corpo 1

Fornalha
Fornalha

Figura 2.19

Figura 2.13: Vista de frente e em corte de perfil, de um forno vertical composto por três corpos: fornalha
e duas câmaras de cozedura [Ferreira da Silva: Est. III].

Figura 2.20

Figura 2.14: Forno do mesmo tipo usado na Fábrica da Fonte Nova em Aveiro com cozeduras de 28
horas. Em C é cozida a chacota; a louça vidrada em B; D corresponde à fornalha e E o cinzeiro; F é a
chaminé ou buzinote [Lepierre: 113, Fig.6].

A fornalha era fechada por uma abóbada com aberturas que correspondia ao pavimento do
corpo 1 onde eram colocadas as obras vidradas. Esta câmara era fechada em cima da mesma
maneira, ligando ao segundo corpo do forno, onde se colocam as peças a enchacotar. Acerca
da distribuição do calor, é referido que como o ar quente sempre sobe, logo que o forno se

59
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

esquente, no corpo I [corpo 2, fig. 2.13], é maior o calor do que no corpo G [corpo 1, fig. 2.13],
que ao princípio tinha mais calor, do que o outro, que fica mais alto [Ferreira da Silva: 89]. A
parte mais alta da abóbada que cobria o corpo superior tinha uma abertura, ao qual se
juntavam mais quatro laterais, que serviam de saída ao ar que entrava na boca da fornalha,
obrigando o calor a subir. Era ainda composto por uma chaminé e duas aberturas no cimo das
portas para o corpo 1 e 2, para que o fumo pudesse sair.
O fogo era ateado à entrada da fornalha para ser depois empurrado e distribuído no interior.
Na porta da fornalha era colocada a lenha, na vertical, para reduzir a corrente de ar,
permitindo uma melhor distribuição do calor no interior do forno. O processo de cozedura era
idêntico ao descrito no forno anterior. Lepierre ilustra, na Fig. 6 do desdobrável, um forno
deste tipo, com duas câmaras sobrepostas, permitindo separar fisicamente o enchacotamento
e a cozedura do vidrado. Era usado na Fábrica da Fonte Nova em Aveiro, no último quartel do
séc. XIX (Fig. 2.14).
A prática de cozer conjuntamente peças cruas com peças vidradas era frequente dada a
preocupação em atingir o máximo da capacidade no interior do forno. O enfornamento, num
forno com uma só câmara, processava-se de acordo com o tipo de chacota após cozedura:
“acontecendo ser o barro muito duro ao cozer, põem-se o cru em baixo sobre o lastro do forno,
e o cozido esmaltado em cima; ao contrário, não sendo o barro duro” [Xavier: 26].
Pelo que ficou escrito é clara a importância da localização das peças no interior do forno,
realizada de acordo com a temperatura. Como as chacotas muito cozidas não recebiam bem o
vidrado branco, porque a porosidade diminuía, as peças em cru eram geralmente arrumadas
no alto. Piccolpasso também aconselhava a colocação de peças de qualidade nos melhores
locais do forno e as outras distribuídas pelos restantes espaços.
Note-se que no tempo de Piccolpasso, o vidrado era cozido a uma temperatura superior à de
cozedura da chacota, calculando-se que a temperatura máxima atingida variasse entre 950 e
1000 ᵒC [Piccolpasso: 27-28]. Esta metodologia é também confirmada nos finais do séc. XVIII,
em França por Bastenaire-Daudenart [Bastenaire-Daudenart: 275] e em Portugal, em 1899 por
Charles Lepierre [Lepierre: 82]. Lepierre refere que enquanto em Espanha o sal marinho era
adicionado à pasta para aumentar a porosidade, em Portugal, o processo distinguia-se pela
cozedura de mais baixa temperatura, com ou sem adição de areia. No entanto a temperatura
tinha de ser suficientemente alta para que ocorresse a decomposição dos carbonatos de cálcio
e não afetasse a qualidade do vidrado pelo surgimento de poros.
Os tempos de cozedura referidos por Xavier [Xavier: 19] para a louça vidrada são menores que
os referidos na Arte do Louceiro. Porventura, a fragilidade das peças com o barro cru e ainda
com água na sua constituição, justificavam tempos de cozedura mais longos pela fase inicial de

60
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

aquecimento. São referidas 6 a 10 horas em aquecimento gradualmente moderado, seguindo-


se um aumento, que deveria ser mantido por três horas. A entrada era depois tapada para o
grande fogo, que se desejava regular e sem labareda para não atravessar os crivos da abóbada,
o que afetaria o vidrado. Era por isso necessário não deixar consumir a madeira antes de ter
perdido a sua maior chama. O desenfornamento sucedia, geralmente, ao fim de 36 horas de
arrefecimento [Xavier: 20] e na RFR era feito às segundas-feiras [AHMOPTC, JC7, Doc.
01/07/1816: 1].
Os tempos relacionados com o enfornamento, cozedura e arrefecimento eram longos tal como
atesta a documentação da RFR: Deve-se notar que a laboração desta Fábrica tem sido muito
diminuta, porque ela não tem excedido de uma fornada em cada vinte dias [L. 399; crédito,
1813].
A verificação do estado de cozedura era feito nas peças de “prova”, que se retiravam de tempo
a tempo para serem analisadas [Baptista Lúcio: 324]. Por exemplo, as provas do
enchacotamento que se agarrassem fortemente à língua eram sinal que o biscoito estava bem
cozido.
Não é consensual qual a matéria que deve receber o alto fogo, se a chacota ou se o vidrado,
uns dizem que só basta cozer medianamente a obra, antes de meter o verniz, para que o verniz
se possa introduzir pelos poros do barro, e que ao depois é preciso dar um grande fogo para
cozer as obras cobertas de verniz. Outros, dizem que da primeira vez, que se cozem, é preciso
fazer um grande fogo, e da segunda quanto baste para derreter o verniz [Ferreira da Silva: 98-
99]. Porém, este problema não se coloca do mesmo modo numa cozedura conjunta.
Das diferenças de temperatura e da maior ou menor exposição ao fogo, no interior do forno,
resultam peças diferentemente cozidas o que poderá ser uma explicação para que num
mesmo revestimento azulejar sejam encontrados azulejos sãos ao lado de outros com danos.
É referido também que as diferentes espessuras numa mesma peça contribuem para
diferentes desempenhos durante a cozedura, podendo levar ao aparecimento de fendas ou
até mesmo de fraturas [Xavier: 113]. Mas se existiam prejuízos na cozedura, era no
arrefecimento que as fraturas, fendas e craquelé podiam ganhar importância com o choque
térmico, valendo-se por isso de tempos bastante longos até o desenfornamento, como ainda
hoje se faz. O craquelé, resultado da falta de compatibilidade entre a chacota e o vidrado ou
de repentinas mudanças de temperatura, foi um dos exemplos mencionados na
documentação consultada. Um dos efeitos posteriores apontados, resultantes desta rede
fissural, foi o destacamento em mosaico do vidrado com chacota agarrada, como
consequência da dilatação da chacota pela absorção de água [Xavier: 115].

61
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

Em 1770, a RFR tem quatro fornos prontos para aumento da produção [AHMOPTC, JC7, Doc.
05/09/1770: 1]. Quando, em 1813, José Bonifácio de Andrada e Silva15 foi chamado a
pronunciar-se sobre a produção da RFR - nomeadamente sobre a que era da responsabilidade
do Doutor Joaquim Rodrigues Milagres16, na “longa memória” [AHMOPTC, JC 10, Doc.
13/02/1813: 1- 8], dividida em quatro capítulos, que então redigiu, não pôde deixar de se
pronunciar sobre os fornos: a maior parte das peças saem defumadas, ou amareladas, o que
assento provir de não ter o fumo respiradouro na parte superior da abóbada do forno como é
já costume antigo, e muito mais pela grande quantidade de fumo que se forma ainda com
mato bem seco pela sua má aplicação deitando-se de cada vez porção maior da que convém, e
é necessário. (…) Pelo que é necessário que se deite de cada vez o mato no forno em menor
porção, no que talvez se poupe uma quarta, ou quinta parte, aumentando-se assim muito o
grau de força de calor, ou dar ao forno uma corrente de ar, por meio de uma porta, oposta à
do combustível que deve estar fechada, e a do ar abrir-se mais, ou menos segundo se quiser
mais ou menos forte o calor (…) A figura, e dimensões próprias de um bom forno de Louça são
subordinadas à natureza do combustível de que podemos usar, e requerem grandes
conhecimentos de física, e química, da teórica, e técnica do fogo. O fogo para dizer assim é a
alma de qualquer Fábrica de Louça, e um bom forno o requisito mais essencial da mesma, para
que se cozam bem as peças, e se economize o combustível. Para que corresponda a estes fins,
deve a sua construção ser tal, da sua natureza que possa aquecer com igualdade por toda
parte que se possa aumentar, ou diminuir, segundo as circunstâncias o grau de calor, pois que
do regime do fogo depende muito o bom cozimento, e pouco refugo; que contenha muita
Louça de uma vez, e que finalmente sirva para biscoitos, e cozer afinal. Hoje em dia são
conhecidos de diversa figura, e contração, como quadrados, quadrilongos, ovais, e redondos,
de uma, ou mais Câmaras, com uma, ou mais foganhas, ou bocas do fogo. Fazem-se de tijolo,
ou de pedra de areia, mas o interior deve ser sempre revestido de bom tijolo refratário, e unido
com boa argamassa da própria, para que quando candentes possam projetar sobre as caixas
todo o calor que recebem demorando-o, e concentrando-o em muito maior quantidade que dá
a chama do carvão de pedra [Minas de Buarcos], e se escapa pelos respiradouros, ou chaminé.

15
José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) foi um naturalista, estadista e poeta brasileiro,
conhecido como o "Patriarca da Independência" pelo papel desempenhado na Independência do Brasil.
Descobriu o elemento químico lítio. Veio para Portugal em 1783 e estudou em Coimbra, tendo mais
tarde ocupado a cátedra de Metalurgia, criada especialmente para ele. Regressou ao Brasil em 1819.
16
Filho de pais brasileiros com fazenda na região de Minas Gerais, bacharel pela Universidade de
Coimbra, obteve licença para fazer cozeduras de cerâmica na Real Fábrica de Louça, ao Rato, (1812-
1817) sob o pretexto de conhecer o segredo do “pó de pedra”, matéria empregue pelas fábricas inglesas
que faziam forte concorrência aos produtos nacionais. Veio a provar-se que esta pretensão era falsa
tendo sido demitido do cargo de administrador que então ocupava.

62
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

Mas para a superfície interna do Forno possa fazer este grande benefício, é preciso que seja
consistente, lisa e branca, e não de barro grosso, negro e fusível, como é a dos Fornos da
Fábrica cujas dimensões e construção, são defeituosíssimas, e merecem pronto remédio. E na
análise às matérias que servem para arder, continua: O combustível de que ali se usa é mato,
ordinariamente mau, e às vezes verde, e molhado, que para pouco presta; quando o
combustível deve dar muita chama, e pouco fumo. É lástima que tendo nós tão bom carvão de
pedra em Buarcos para este fim, que pode estar à disposição da Direcção da Real Fábrica das
Sedas, ainda se continue com o método caro, e defeituosíssimo de usar de mato, que para
pouco, ou nada serve, e que não tenham construído um forno à maneira Inglesa, ou
Dinamarquesa, para cozer a faiança, ou carvão de pedra.
Em 1822, Tomás Rodrigues Sobral17 Tem emendado defeitos que havia nos fornos de
cozimento da louça, fazendo usar lenha em fratura grossa, fogo sempre certo e mais forte do
que o mato miúdo que se achava em desuso [L. 395, 21/01/1822: 84]. Nas notas de despesa da
RFR, há referência em 1771 à lenha de Samora, Alcácer do Sal e de Alcântara e, em 1788, o
tojo e pinho tinham proveniência de matos e pinhais da Vila de Alcochete e da Amora
[AHMOPTC, JC8, Doc. 07/10/1788: 1]. Em 1821 os molhos de pinho e tojo provinham de
Setúbal (Coutada do Pinheiro) [ANTT, L. 426, 1821: 62] e em 1828 eram adquiridos às
Companhias do Tojo dos Portos da Boa-Vista, Esperança e Bica do Sapato [AHMOPTC, MR3, L.
404: 79].
Eram reais os sérios riscos de incêndio com o armazenamento da lenha e tojo no interior das
oficinas. Esta situação levou quase sempre à compra apenas da quantidade necessária para o
uso imediato, mas ficavam dependentes das Companhias que os forneciam: Que das demoras
em carregar pode resultar o chegarem os combustíveis à Fábrica quando o fogo do forno
estiver apagado, e então perde-se a fornada, não há quem pague este prejuízo [AHMOPTC,
JC7, Doc. 25/08/1828: 2]. O carvão de pedra, que era proveniente de Londres, passou a ser
integrado como combustível porque diminuía riscos de incêndio e permitia o seu
armazenamento.
Como refere também Andrada e Silva, elucidando-nos sobre esta fase final do processo de
produção da louça: Este cozimento ordinariamente se faz por duas vezes: a 1ª para biscoutar
as peças, isto é pô-las em estado de receber o vidro; a 2ª para cozê-las devidamente, e o
mesmo vidro. O fim do cozimento é expelir a humidade e aglutinar as partículas, sem contudo

17
Deputado das Cortes, foi Lente do Laboratório de Química da Universidade de Coimbra onde, em
1808, foi responsável pelo fabrico de pólvora para o combate às invasões francesas. Em 1821 foi
nomeado Diretor da Real Fábrica de Louça, ao Rato.

63
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

vitrificar a pasta; porque então se tornaria a Louça quebradiça, e pouco suscetível das
alternativas do frio, e do quente [AHMOPTC, JC 10, Doc. 13/02/1813: 1- 8].
Estando certo que o objetivo principal de um enfornamento era o de encher o forno, e de lhe
meter a mais louça, que lhe é possível, para tirar melhor partido da lenha, que gastam [Ferreira
da Silva: 85], é curioso que não existam descrições que incluam o azulejo, sabendo que terá
sido fabricado em grande quantidade, como demonstram as existências atuais. Mas o
cozimento na vertical, como até hoje é suposto, levanta a hipótese do enfornamento ser feito
em harmónica com os azulejos, eventualmente, separados por pequenos prismas ou cilindros
cerâmicos (Fig. 2.15a). No entanto esta técnica resulta num grande desperdício de espaço, ao
contrário da sobreposição dos azulejos hispano-mouriscos, separados entre si por trempes,
mas que deixavam marcas da sua utilização no vidrado. Todavia, Piccolpasso [Piccolpasso: 71]
quando refere o enfornamento em cunha sobre telhas ou tijolos, fez-nos levantar a hipótese
que consideramos a mais provável para a arrumação dos azulejos vidrados no interior do
forno. A inclinação dada pela telha, ou outro material de enforna, ao assentar um dos lados do
tardoz do azulejo (em cunha) permitirá os escorridos apresentados na figura 2.11 a) e combina
com a marca de colagem do azulejo na figura 2.11 c) (Fig. 2.15b).

a) b)
Figura 2.21

Figura 2.15: Simulação da arrumação de azulejos: a) na vertical; b) em cunha [Imagens: L. Esteves].

2.4. Vidrado e vidragem


Piccolpasso descreve a preparação do vidrado em dois passos de que o primeiro é a
preparação do marzacotto (massico ou massicote em português) [Fernandes, 2008] - mistura
de areia fina com cinzas vegetais (fonte de óxido de potássio) na proporção de cerca de 3:1 em
peso, que é depois calcinada e moída. O segundo passo consiste na mistura de estanho e
chumbo (e eventualmente mais areia) e preparação de uma calcina. O vidrado obtém-se da
mistura destes dois componentes que são posteriormente moídos conjuntamente em meio
húmido [Piccolpasso, op. cit. Libri II & III, pontos 62-64; 72-76; 182-183].

64
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

Para vidrarem as suas peças os oleiros se servem da mina do chumbo; e a isto é que se chama
pedra de chumbo no comércio, e os oleiros chamam verniz; ou se servem do zarcão, ou chumbo
vermelho, que impropriamente chamam mina de chumbo; que é uma cal de chumbo com uma
cor vermelha bem viva (…) também se servem ainda do litargírio, isto é, do chumbo calcinado,
que perdeu uma parte do seu phlogistico pela ação do fogo, e que está em um estado de
vitrificação imperfeita [Ferreira da Silva: 91-92]. Algumas oficinas compravam o chumbo em
barra reduzindo-o, seguidamente, a óxido. O chumbo e o estanho, utilizados na preparação do
vidrado estanífero, foram sempre adquiridos a Londres. Aliás, pela generalidade da
documentação da RFR, conclui-se que as aquisições de matérias-primas para o vidrado e cores
eram feitas ao estrangeiro. De Londres a Fábrica adquiria, chumbo em barra; estanho em
barrinhas do melhor e mais fino, bem claro, e rijo, e que finalmente se quebre nas mãos
[blocktin] [ANTT, L. 502, 25/02/1772: 49], esmalte azul próprio para as Fábricas de Louça
[ANTT, L. 459, 1771: 48], Pedra-ume, carvão de pedra, caparrosa (sulfatos), chumbo de capote
(chumbo em pasta enrolada), cristal tártaro, arame de latão, cobre e ferro em barra e
manufaturado, garrafas de vidro preto, antimónio purificado e sal amoníaco; da Alemanha,
safra18; de Turim, o manganês; ferramentas do forno; peneira de palha e pincéis; de
Amesterdão vinha também safra da mais subida cor e bondade, e da mais fina qualidade [L.
502, 1973], esmalte azul, ruiva (planta que dá um pó amarelo, que era tratado com ácido
sulfúrico ou pedra-ume para eliminar a matéria orgânica ficando um depósito de carvão em
que se encontrava a matéria corante (talvez tenha sido usada no tingimento das sedas), o
esmaltilho (e não de esmalte) do mais fino, mais subido e puro que se puder achar e comprar
[ANTT, L. 502, 30/03/1773: 82], água forte, ferro e cobre; de Nápoles, o jaldelino de Nápoles; e,
por fim, de Génova provinham o manganês, o verdete de Montpellier, asafroa (açafrão) de
Levante [L. 502, 1771], cobalto de Génova e Zafra ou seja Cobole, do Piemonte que é para a
têmpera do vidro da Louça [ANTT, L. 446, 09/08/1774: 21]. Safra, safre, zafre ou zafra são a
mesma designação para o óxido de cobalto que provinha de locais diferentes, como a
Alemanha, Amesterdão e Génova.
A preparação básica do vidrado consistia na mistura de cinco partes estanho com 20 partes de
chumbo para calcinação. Após algumas horas com a fornalha em aquecimento, o chumbo era
lançado e movido com uma espátula de ferro até converter-se em cinzas. Depois lança o
estanho, e se move do mesmo modo, até que este também se converta em cinzas. Aumenta-se
o fogo até que as cinzas estejam abrazadas [Ferreira da Silva: 94]. O fogo é diminuído e a

18
Pó com um alto teor de óxido de cobalto.

65
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

mistura é mexida até ao arrefecimento. Estas cinzas eram depois misturadas com igual porção
de sal, e de areia (…) o sal só se junta para facilitar a fusão e voltava tudo à calcinação.
Um dos maiores problemas na importação era o prejuízo por desperdício das matérias-primas
que vinham no estado líquido ou em pó (ex. esmalte, safra), tal como descrito nas notas de
encomenda: recomendamos a Vossas mercês que para se não perder grande quantidade como
tem sucedido, pelas aberturas que fazem as aduelas dos Barris, o mandem meter em um saco
forte, ou sacos, antes que o acomodem nos Barris [ANTT, L. 459, 12/03/1796: 118].
A listagem de matérias-primas adquiridas a Londres era grande e a produção da RFR era
dependente dos tempos desta exportação: nos remeterão Vossas mercês 30 quintais de
estanho de barrinhas em barris costumada debaixo da Marca R.F., e nesta expedição
desejamos a maior brevidade pela grande carência em que ficamos deste género, por isso nós
não podemos dispensar de lhe recomendar a maior brevidade possível [ANTT, L. 502,
10/12/1771: 41]. Ou de Amesterdão sendo incluída na 1ª fatura de 2 barris com esmalte, que
em conformidade de nossas ordens tem comprado, e carregado em o Navio de Beurs Cappitam
Simon Hansen, o qual esperamos chegue breve, e felizmente, visto estarem já as suas águas
livres de gelo [ANTT, L. 458, 28/02/1786: 1].
A adição de areia ao chumbo estava relacionada com a poupança nos gastos do chumbo
devido ao seu preço elevado, servindo também para evitar escorrências. Como fundentes
utilizavam-se a soda d’Alicante, outros, a de Carthagena, outros, a do Funcho Marinho, outros,
a de Verech; [sargaço] estes preferem a potassa, aqueles o sal de vidro, em fim alguns só usam
do sal marinho e, embora o sal de vidro e sal marinho não pudessem ser considerados como
fundentes, eram importantes porque os sais produzem no esmalte um efeito diferente, e muito
útil, que é o desfazer o princípio crasso colorante. Sem este socorro o esmalte seria de um
amarelo mais, ou menos escuro, mais, ou menos desagradável [Xavier: 72]. As proporções
eram tidas em conta já que o excesso de sais alcalinos, de sódio e potássio, podiam tornar os
vidrados pouco cristalinos, amarelados e com craquelé.
Xavier refere que para a produção de um vidrado branco, bastavam cem libras de calcinado
composto por cal de chumbo, e pouco mais, ou menos de uma sétima parte de estanho fino
para a louça comum, e de uma quarta parte para a louça fina, são bastantes para fundir cem
libras de areia boa; assim a composição do esmalte só precisa para fundente da cal de chumbo
[Xavier: 72]. Mas a melhor composição base para o vidrado da louça fina que se queria de um
belo branco, que tiraria algum para azul e o mais procurado na indústria cerâmica era formado
por vinte e cinco libras de estanho fino e cem libras de chumbo [Xavier: 80].
Para a faiança fina na RFR, o vidrado era composto por óxido de estanho (que só entra para o
tornar opaco e encobrir a cor do enchacote, ou biscoito) de zarcão ou litargírio, sal de cozinha e

66
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

areia mas propunha-se a alteração que Chaptal diz que obtivera o melhor vidro empregando o
carbonato de potassa extraído pela purificação do sarro de pipa, eu o experimentaria para o
empregar com preferência ao sal de cozinha, como igualmente os outros vidros sem óxidos
metálicos, que geralmente falando são prejudiciais [AHMOPTC, JC 10, Doc. 13/02/1813: 1-8]. A
areia usada no vidrado provinha de Coina que é composta de cinco partes de sílica, e de uma
de alumina pura, ou Kaolim [AHMOPTC, MR3, L. 399: 130-149].
Rebello Pedrosa [Rebello Pedrosa: 106] apresenta uma receita de vidrado branco usada para o
azulejo composta por: 44 p. de calcina (23 p. de óxido de estanho + 77 p. de óxido de chumbo)
+ 2 p. de mínio + 44 p. de areia siliciosa bem lavada + 8 p. de sal marinho + 2 p. de soda ou
potassa.
O elevado teor de chumbo na produção de vidrados foi prática comum na Europa até meados
do século XIX e a composição não variou muito ao longo dos séculos. No capítulo introdutório
do livro de Piccolpasso, são apresentadas duas receitas para o vidrado branco usado em 1760
semelhantes às apresentadas por Piccolpasso em 1548: 70 p de calcina (50 p. de chumbo + 14
p. de estanho) + 60 p. areia branca (sem ser da praia) + 12 p. sal branco; ou 100 p. chumbo +
25 p. de estanho + 60 p. areia da praia + 18 p. sal + 2 p. pedra branca do rio.
Um documento da RFR acerca dos procedimentos seguidos na produção de vidrado mostra
que os outros constituintes sofrem preparação prévia de calcinação quem lotou areia com sal?
Quem depois de calcinada a levou para a Casa do Pisão? Quem a pisou, e peneirou? Quem
depois a lotou com o fundente? Quem deu o bordo de Areia em calda nos Vazos, que se
encherão com este lote de Vidro? Quem depois de cheios carregou com eles para o forno para
se calcinarem? [AHMOPTC, JC10, 1813: 10].
A frita do vidrado era feita por calcinação colocando o cadinho debaixo do forno num buraco
feito de areia, para ser calcinado, e reduzido em esmalte [Xavier: 18]. Depois da cozedura a
massa de vidrado branco era retirada dos cadinhos de barro com uma picadeira e partida em
grão miúdo com um martelo de ferro, para de seguida ser moída num moinho com água o
moinho se põem em movimento, lançando-se o branco pouco a pouco, até que tenha bastante;
continuando-se o movimento do moinho, que deve ser muito vigoroso (Fig. 2.16 a). Num
moinho grande o movimento iniciava-se com cinco ou seis homens, reduzindo este número na
ordem de uma pessoa por hora, ou por um ou dois bois para trabalharem nos engenhos de
moer o vidro [ANTT, L. 412, 1785: 37] (Fig. 2.16 b). O trabalho terminava quando se obtinha um
pó tão fino como farinha e para conhecer-se a sua finura, toma-se uma pequena quantidade,
(enquanto mói o moinho), pondo-se sobre a unha do polegar esquerdo, se esfrega com o
polegar direito, não se percebendo aspereza alguma, é sinal de bem moído [Xavier: 22].
Também esta operação obedecia a preceitos. Uma interrupção podia levar à presa da mó,
67
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

obrigando a retirar parte da matéria, para que voltasse ao seu funcionamento normal. O
moinho surge, assim, como um instrumento de trabalho fundamental na preparação de
vidrados e tintas numa oficina de cerâmica.
O moinho de vidro usado na RFR tinha por cima do Poço uma roda horizontal de 10 palmos de
diâmetro endentrada na circunferência com 120 dentes. Tem 3 pias no lado de 2 palmos e ½ de
diâmetro com as suas pedras proporcionais, e um carrete perpendicular em cada uma com 9
fuizelos em que pegam os dentes da roda grande de modo a que enquanto ela dá uma volta
movida por um boi serve de alavanca para mover as pedras de moer vidro. Tem 16 palmos de
comprido, 12 de um lado e 4 do outro. Do eixo perpendicular não tem almanjarra, e a roda
grande está levantada um palmo acima da borda do poço [AHMOPTC, MR3, 1825, L. 402: 24],
e cuja descrição se aproxima ao apresentado na figura 2.16 b. Na listagem de produtos
adquiridos pela Fábrica constam de Sintra, as pedras de moer o vidrado.

a) b)
Figura 2.22

Figura 2.16: Moinhos que serviam para moer o vidrado: a) moinho de mão [Piccolpasso]; b) moinho
movido a cavalos ou bois [Xavier: Est. IX].

A frita era depois misturada com água, formando uma suspensão tipo leite, para se proceder à
vidragem das peças. A densidade do vidrado era feita pela maior ou menor adição de água,
sendo a mais densa indicada para peças mais vermelhas. A avaliação da densidade era feita
com a unha após vidragem que podia ser feita por mergulho, derrame ou com broxa.
As peças em chacota definidas por mais duras (menos porosas), recebiam previamente um
leite de barro (lambuja ou engobe) aplicado com uma broxa ou por imersão (designado por
assento), para que o vidrado aderisse bem [Xavier: 24]. Este procedimento era também usado
para aclarar a superfície e poupar no vidrado estanífero. Alguns azulejos da produção coimbrã
evidenciam uma coloração mais clara à superfície, que, nalguns casos, é evidente após a perda
da camada de vidrado e que poderá ser justificada pela aplicação desta técnica. Assim sendo,
esta poderá ser responsável pela menor resistência dalguns azulejos de Coimbra que

68
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

apresentam um padrão de degradação que lhes é característico, com ocorrência de um


craquelé pronunciado e perda de vidrado em mosaico com uma camada de chacota aderente,
que será referido posteriormente.
A qualidade das obras dependia dos componentes, preparação e aplicação do vidrado.
Pretendia-se um vidrado de boa brancura, homogéneo e sem defeitos, mas era na cozedura
que os parâmetros se revelavam. São mencionados alguns defeitos, como por exemplo, os
enrolamentos do vidrado que podiam surgir pela presença das manchas negras provocadas
pela queima das pirites na cozedura. Os fragmentos de mina de ferro eram outros dos defeitos
encontrados na chacota [Xavier: 164].
Quando se tratava de peças que conviria aproveitar por terem sido pintadas por um artista,
(talvez, externo), os oleiros reparavam estas imperfeições aplicando localmente mais vidrado,
podendo ou não reconstruir a pintura, e as peças voltavam ao forno. Estas marcas são hoje
encontradas em muitos azulejos, especialmente nos do século XVIII, talvez porque do ponto de
vista estético era mais acertado o retoque por questão da homogeneidade da imagem, do que
a pintura de um novo azulejo que poderia resultar bastante diferente do conjunto, pela
complexidade decorativa dos painéis (Fig. 2.17). O terceiro recozimento decorrente da
aplicação localizada de vidrado e pintura, foi também a opção encontrada para colmatar
fendas.
A “escamação” é referida como defeito de fabricação do vidrado, provocada pela
incompatibilidade com a chacota. É explicada na época pela dilatação do vidrado associada ao
ar libertado pela chacota que ficava retido na sua alta viscosidade [Xavier: 81]. O termo
“escamação” é o que hoje em dia definimos por enrolamento [Mimoso e Esteves, 2011] já que
as descrições esclarecem que é causada por um fumo gordo, que a louça cozida apanhou, ou
pela falta de cuidado dos obreiros, que a tocaram com os dedos gordos, ou suados e,
continuando: De semelhante casta de homens não se deve esperar, que hajam de ter cuidado,
e limpeza necessária? É mais prudente acautelar as consequências dos seus descuidos [Xavier:
82] Para evitar este defeito aconselhava-se aos obreiros a esfregar somente as suas obras com
a barbotina (…) ou a não esfregá-las inteiramente, para não desengordurar o barro [Xavier:
80]. O enrolamento é de facto um dos defeitos mais encontrados nos azulejos e são muito
frequentes os restauros subsequentes para o disfarçar.
Por fim, também são mencionados os pequenos pontos negros encontrados no vidrado
associados às pequenas partículas de chumbo resultantes da pouca limpeza do esmalte.

69
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

Figura 2.23

Figura 2.17: Retoques para disfarçar defeitos de fabricação no vidrado em azulejos de diferentes séculos
de produção: enrolamento (MNAz, séc. XVII-XVIII, refª. A 159; séc. XVIII, refª. A15 D; séc. XIX, padrão
atribuível à Fábrica Roseira, s/identificação) [Imagens: L. Esteves].

2.5. Cores e decoração


A pintura sobre faiança é tratada por Piccolpasso numa época em que a majólica era
considerada arte mas deixa de ser referida posteriormente, exceto como técnica de decoração
da faiança utilitária. A informação apresentada por este autor é aplicável ao azulejo português,
cuja técnica descende do desenvolvimento da majólica em Itália.
O modo de fabrico dos pincéis para a pintura é explicado por Piccolpasso [Piccolpasso: 87]. A
cerda tinha de provir, ou da crina do burro, ou do pescoço e flancos da cabra desde que os
pelos fossem brilhantes, lineares e suaves. Para verificar a qualidade, a cerda era molhada e
dobrada com o dedo num só movimento. Eram rejeitadas as que permanecessem dobradas e
as de melhor qualidade eram as que recuperavam rapidamente a linearidade. Algumas oficinas
misturavam também pelo de rato. Depois de escolhida a cerda, os pelos eram ligados com um
fio encerado a um cabo de madeira e a ligação podia ser protegida da água por aplicação de
uma camada de cera. As pontas eram cortadas, deixando uns pincéis mais finos ou mais
grossos, de acordo com as necessidades (Fig. 2.18).

Figura 2.24

Figura 2.18: Três tipos de pincéis usados na pintura cerâmica, desenhados por Piccolpasso.

70
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

O autor também explica processos envolvidos na fase da decoração. A peça, uma vez pintada,
recebia uma fina camada de vidrado transparente designado por coperta, que tornava a
superfície mais brilhante e as cores mais luminosas. A grande dificuldade desta técnica
consistia na aplicação de um vidrado transparente sobre um vidrado branco ainda cru, sem
levar ao seu destacamento por empolamento, especialmente quando aplicado por imersão.
Piccolpasso [Piccolpasso: 90] sugere como procedimento mais seguro a aspersão com uma
brocha, nas peças já pintadas e secas (mas ainda em cru).
A decoração era pintada sobre a superfície de vidrado em pó cru. As cores usadas em cru
podem ser diferentes das obtidas após a cozedura como é o caso do azul de cobalto que,
quando usado na forma de óxido, é um pó cinzento-escuro. No entanto é provável que no
azulejo português o cobalto fosse aplicado como um esmalte azul [Mimoso, 2015]. Em alguns
azuis-escuros este uso parece ser mais evidente pela volumetria dada à superfície pela cor e,
nos tons claros, o seu uso é particularmente reconhecível na pintura de alguns painéis da
produção de Coimbra do século XVIII, onde a cor surge opaca e com espessura sobre uma
camada muito fina de vidrado branco. Piccolpasso também refere a adição de branco às cores
muito densas.
Nos painéis figurativos pintados a azul sobre a faiança branca, as diferentes tonalidades
podiam ser dadas pela maior ou menor quantidade de água adicionada. O pintor teria de
pressupor quais seriam os tons finais para obter a harmonia do conjunto, em claros, escuros e
meios-tons, sendo a luz materializada cromaticamente pelo branco estanífero. Como o vidrado
é um pó consolidado, o pigmento (aplicado como uma suspensão) é fixado por absorção da
água da tinta a cada passagem do pincel ficando claramente marcada cada pincelada, mesmo
as erradas. Por tudo isto, era essencial um pintor com experiência e aptidão para se obter bons
resultados.
Tal como surge referenciado nas memórias da RFR, a pintura de painéis era geralmente
executada por pintores com conhecimentos de desenho. Na carta já referida, escrita a D.
Pedro IV por Diogo Augusto de Castro Constancio e Joze Raymundo Antonio de Saâ, a 4 de
Fevereiro de 1830, é mencionada a distinção da pintura de azulejo em duas qualidades, um a
que se chama ordinário, e outro de brutesco (...) as instruções de que depende a pintura do
brutesco: primeiramente é necessário o estudo do desenho, em todas as suas regras, e
preceitos: segundo a noção da historia Sagrada e profana, fábulas, história natural tanto do
mundo vegetal como animal dos três hemisférios para com verdadeiros conhecimentos
satisfazer a delineação dos diferentes caprichos particulares dos Emblemas, que ditam, ou
mesmo reformando-os com o acrescentamento ou diminuições, para constituindo de partes
agradáveis conforme o gosto de quem as dita, ou nos casos de nada disto acontecer, sempre é

71
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

infalível a tradução de desenho para maior ponto no limite do quadro, que deve ocupar, e o
ponto de vista que deve ter, segundo se lhes destina, o apresentamento dos quadros: estas são
as mãos de obra, e inteligência, que depende a pintura de brutesco, ainda que em azulejos
estes só igualam aos outros na parte do material, mas com muita diferença nas Artes
concorrentes [manuscrito]. Mas as fábricas tinham dificuldade em conseguir bons pintores,
como ficou registado mais tarde: A Real Fabrica só tem pintores rotineiros, que nunca
aprenderam desenhos de figura, nem de Paisagem, e por isso não sabem ornar de vinhetas
engraçadas, nem de boas pinturas as louças finas, razão porque não temos igualado os
estrangeiros. A mesma manufatura do azulejo, que novamente tornou a reviver, terá muito
maior consumo, assim que as paisagens de seu adorno forem desenhadas com arte [L. 406, of.
17/03/1834: 38].
Piccolpasso dá, no seu Libro II [op. cit.], receitas para a produção das cores utilizadas na
majólica italiana por considerá-las importantes. Refere que os pintores alteravam as receitas
de acordo com as suas necessidades, não havendo, por isso, regras fixas para as misturas. Por
esta razão e por só terem sido encontradas algumas receitas para a produção de cores em
fontes estrangeiras, optou-se por as não mencionar, embora possam ter sido também
aplicadas em Portugal.
Numa síntese recente sobre o uso do azul de cobalto, J. M. Mimoso mostrou que o azul
utilizado em Portugal desde, pelo menos, o séc. XVI até à segunda metade do séc. XVIII era
proveniente da Saxónia e da Boémia e explicou a tecnologia de preparação do esmalte azul
utilizado na pintura dos azulejos [Mimoso, 2015]. O Tratado del secreto de pintar á fuego las
Vidrieras de colores de esta Sta. Igla. primada de Toledo, de 1718, faz referência à excelente

qualidade do azul zafre proveniente de Inglaterra e também usado na cerâmica [Martínez:


232].
O princípio da preparação das cores é o referido na Arte Da Louça Vidrada para a cor azul:
Toma-se o melhor safre, ou azul de esmalte;19 e se põe num cadinho coberto de telha, que
resista ao fogo, o qual será posto debaixo do forno, para ser calcinado: estando frio o fogo, se
tira para fora, ajuntando-se outro tanto de esmalte, moa-se tudo junto, até que a mesma
mistura seja tão fina, como o branco, que se guardará para o uso [Xavier: 31]. A cor azul era a
mais usada porque esta cor perfeitamente resiste ao fogo, e tem muito boa saída.
Acerca da preparação dos pigmentos, Piccolpasso [op. cit.] recomenda calcinações repetidas
para algumas cores, pois quanto mais misturadas e moídas forem, mais estável e fusível a

19
“Esmalte” neste caso quer dizer “vidro”.

72
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

mistura se tornará. Por fim, o pó obtido após calcinação e moagem era misturado com água ou
urina para a pintura (Fig. 2.19).

a) b)
Figura 2.25

Figura 2.19: Alguns dos utensílios usados na preparação das cores: a) Placa de mármore com moleta e
almofariz que servem para moer os pigmentos; b) Crivo e peneira para as matérias que compõem as
cores [Xavier: Est. X].

Um azul, mais arroxeado, tinha na sua composição potassa, areia branca, vidrado branco, safre
e manganês, sendo o safre a matéria-prima predominante. Encontraram-se mais receitas para
o azul, em que se adicionavam outras matérias-primas: pedra negra, cobre queimado ou
oxidado, cinzas de chumbo (chumbo calcinado, também designado por litargírio ou zarcão
[Ferreira da Silva: 92], tártaro calcinado, calhau em pó, sal comum e, em muitos, o vidrado
entra na composição, o que quer dizer que o pigmento era aplicado sobre a forma de esmalte.
Para o amarelo, surge o barro de Nápoles bem moído [Xavier: 22]. Uma outra receita é
composta por mínio ou chumbo vermelho, cinzas de chumbo, areia branca, ocre vermelho
(ocre amarelo calcinado) e, após a calcinação da mistura, eram adicionados o antimónio e o
vidrado. A pedra-ume (sulfato de alumina e potássio), o sal tártaro, resultante da combustão
das borras de vinho (sub-carbonato de potássio), a limalha ou ferrugem de ferro (açafrão de
marte), o pó de ladrilhos encarnados e o sal comum moído (fundente), eram outras das
matérias-primas que podiam ser empregues. Acerca do amarelo de antimónio e o antimoniato
de chumbo Piccolpasso previne para um especial cuidado na preparação da cor que por serem
muito refratários podem formar bolhas. A combinação com óxido de chumbo ou sal torna a
cor mais fusível, mas uma quantidade maior destes constituintes fará desvanecer a cor.
O verde podia ser, simplesmente, obtido pela mistura do amarelo com o azul, variando-se o
teor do pigmento amarelo para obter as diferentes tonalidades. Para além do cobre, podia-se
misturar ainda ardósia, limalha de latão, vidro de garrafas, sargaço, zarcão, vidrado, e outras
substâncias. O verde-esmeralda, transparente, era obtido por oxidação do cobre. A utilização
do cobre nos verdes também requeria cuidados especiais [Piccolpasso]. É uma cor que
facilmente penetra no vidrado difundindo-se e tornando difícil o seu controlo. Uma pequena
variação na quantidade depositada do pigmento sobre o vidrado podia alterar o tom. Por isso,
Piccolpasso aconselhava a prévia calcinação.

73
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

A cor vinosa, ou púrpura, podia ser obtida pela mistura do manganês ao vidrado branco. Com
estas duas matérias-primas sempre presentes, podiam ainda ser acrescentados: litargírio,
calhau em pó, óxido de cobre e limalha pura de ferro.
A cor negra era obtida juntando azul denso com vinoso de manganês. Uma das receitas
acrescentava pedras pretas e escamas de ferro. Mas também podem surgir recomendadas:
cinzas de chumbo, cinzas de cobre, cal, limalhas de ferro, zarcão, litargírio e tártaro vermelho.
O vermelho não era possível com os óxidos utilizados até ao séc. XIX, mas uma tonalidade mais
ferruginosa podia ser obtido pela dupla ou tripla calcinação do “mais belo ocre amarelo”
[Xavier:32]. Mas Piccolpasso encontrou um belo vermelho nas oficinas de Vergiliotto em
Faença, feito da mistura de bolo de Arménia20 com vinagre vermelho, pintado sobre amarelo
claro e cozido em caixas de enforna sem orifícios para a cor não desvanecer com o fogo
[Piccolpasso: 89].
O crómio (verdes), vanádio (vermelhos) e níquel (azuis) não são referenciados por Piccolpasso
porque não eram conhecidos ou individualizados naquele tempo.
Como já foi referido, muitas das matérias-primas eram adquiridas pela RFR no estrangeiro, o
que não é facilmente compreensível, já que algumas podiam ser exploradas em território
nacional. Por exemplo, o manganês provinha de Turim, mas só está registada uma encomenda
em 1769 para o manganês de Coimbra, o que demonstra falta de interesse pelo material desta
origem: Serve esta de recomendarmos a Vossa Mercê a remessa de um barril de Morado, que é
uma pedra que faz tinta roxa, e se acha no Mondego junto dessa cidade [ANTT, L. 444, 11
/04/1769: 125]. Algumas hipóteses poderão ser levantadas, mas é provável que saísse
economicamente mais interessante a aquisição de um produto de qualidade constante. No
caso das muitas oficinas de pequena dimensão e com menores recursos financeiros, a
aquisição das matérias-primas poderá ter privilegiado a eventual oferta nacional e esse é
também um fator que pode contribuir para distinguir as diferentes zonas de produção.
As matérias-primas que provinham de Londres, Alemanha, Turim, Amesterdão e Génova, eram
transportadas em navios, que por vezes sofriam atrasos, saques e perda de materiais por mau
acondicionamento. As fragatas e carroças eram os meios de transporte nacionais dos barros,
lenha e tojo e sobre os quais recaíram muitas queixas, pelo atraso e perda de material pelo
caminho. Em ambos os casos era percetível o problema dos transportes.
A qualidade das matérias-primas dependia da escolha e preparação por profissionais
experientes, o que nem sempre acontecia em Portugal. Porém, as notas de encomenda para o
estrangeiro incluíam sempre um agradecimento pela qualidade das matérias-primas que

20
Argila da região da Arménia com óxido de ferro na sua composição e de cor avermelhada.

74
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

chegavam ao Reino, o que sugere que tenha realmente sido esta a principal razão para a
importação, em detrimento do que poderia ser adquirido ou produzido em Portugal.
Na preparação dos componentes a partir das matérias-primas era importante recorrer a
conhecimentos de química, como foi frequentemente destacado, na documentação da RFR: A
química diz (…) que os compostos do ácido carbónico, a cobre não se reduzem ao estado
metálico pela simples aplicação do calor; mas necessitam para se reduzirem da mistura de
substâncias inflamáveis, logo misturando uma substância inflamável como a terebintina ao
verdete (deutocarbonato de cobre) há-de se metalizar, ou reduzir a cobre, que é o que queria, e
pretendia para fazer a louça fingindo cobre como a que vem de Inglaterra [AHMOPTC, JC9,
1817].
Sobre a utilização de matérias-primas locais para a produção de tintas é interessante citar
documentos constantes do trabalho de J. Pereira de Sampaio, A Faiança da Real Fábrica do
Juncal [Pereira de Sampaio, 2000]. Um documento de 1802 refere os materiais utilizados como
“barro, areia, chumbo, estanho, safra, esmalte, gesso, antimónio e lenha” [op. cit. pp. 32] e em
1814 mencionava-se “tinta roxa ou morado, tinta verde e amarela” [ibid]. Em 1824, no
inventário subsequente ao falecimento do proprietário, são arroladas “tintas azuis, verdes e
roxas” [op. cit. pp. 33], o que sugere tratar-se de materiais adquiridos. Por esta época, a
fábrica era dada como decadente e é curioso notar que nos mapas de 1837 a 1841 é referida
não tinta, mas “pedra para tinta roxa” e ainda “safra e esmalte para tinta azul e borraça de
cobre para tinta verde” [ibid], sugerindo que as tintas roxa e verde já seriam preparadas na
fábrica, no primeiro caso talvez até com minério de manganês local.
Foi referido anteriormente que as grandes composições requeriam o trabalho de um pintor
profissional. Esta questão não se colocava para a pintura de azulejos de padrão já que o
desenho e cores eram repetitivos, podendo ser feito por aprendizes. O mestre pintor não fazia
parte da equipa de trabalhadores das oficinas e era contratado especificamente para a pintura
de peças historiadas ou de desenho mais complexo podendo levar dias até terminar a obra
[Piccolpasso].
Francisco Pacheco [Pacheco, 1649], sobre arte da pintura, divide os pintores em três
categorias: 1º. Os que contrafazem os bons ou maus originais, sejam esboços, desenhos ou
pinturas (Fig. 2.20); 2º. Os que valem-se destes documentos e no fim juntam partes de várias
gravuras num só desenho (ex: cabeças, panejamentos, braços, pernas, mãos, edifícios,
paisagens, etc.) para uma composição mais forte. No MNAz, por exemplo, encontra-se exposto
um painel do século XVII que é o resultado da junção de seis gravuras (Painel com emblemas
morais, Inv. Nº. 4191); 3º. Onde se enquadram os mestres que produziam composições e

75
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

pinturas ao seu gosto. A este último grupo competia a elaboração de desenhos e ampliações
para cartão, com o tamanho que a obra deveria ter na parede [Pacheco: 333].

a) b)
Figura 2.26

Figura 2.20: Dois casos de uma má composição a partir de gravuras: a) o focinho do javali tem o formato
de um bico de pato; b) as duas mãos são da direita e as perspetivas também estão erradas (Prédio
anexo à Igreja de S. José dos Carpinteiros, Lisboa) [Imagens: L. Esteves].

Por vezes, num mesmo painel é possível reconhecer a intervenção de mais do que um pintor.
As cenas de fundo e, por vezes, o emolduramento eram concebidos por pintores de menor
qualidade do que o que executava a figuração principal.
A grande maioria das representações em painéis de azulejo baseou-se em gravuras antigas
estrangeiras. O desenho era ampliado para papel através de quadrícula e o método mais
utilizado de transferência dos contornos era com pó de carvão através do picotado (estresido)
[Cantelli: 136-137]. Esta foi a técnica aplicada durante séculos em Itália. No entanto, por
observação de diferentes produções é possível adiantar três métodos de transferência: a) o
contorno é transferido por estresido (Fig. 2.21 c) [Pacheco: 54]; b) o esboço é feito livremente
a pincel, num azul muito aguado, que evidencia as alterações no desenho, muito comum na
produção do séc. XVII mas também encontrado no século XVIII (Fig. 2.21 a); c) o contorno é
realizado com lápis ficando em depressão essa passagem e muito raramente terá sido aplicada
(Fig. 2.21 b).
O contorno evidenciado no vidrado branco pela deposição do carvão deve ser marcado pela
passagem do pincel antes de se proceder à pintura. Levanta-se como hipóteses o uso de uma
tonalidade clara da cor a usar ou com zarcão. A forte cor laranja deste óxido de chumbo
permite a liberdade de pinceladas sem perder as linhas orientadoras do desenho e sem
interferir nas cores, porque ficará transparente depois de cozido. É possível que tenha sido
este o método mais usado no século XVIII. Também poder-se-ia proceder ao contorno com a

76
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

cor na tonalidade escura e neste caso nota-se o arrastamento da linha à passagem do pincel
nos tons médios ou claros.

a) a) b)

Figura 2.21: a) o esboço foi feito livremente a pincel percetível


nos traços azuis mais claros que mostram por exemplo a
mudança de posição do bastão, do panejamento ou no
desenho do rosto na figura que representa o diabo (Igreja de
Santa Marta, Évora); b) alguns contornos (a estilete?) ficam
evidenciados no vidrado (MNAz, Jesus entre os doutores, Inv.
Nº 1760); c) a textura do papel ficou marcada por pressão no
vidrado e foi acentuado pela cor. Neste caso o papel foi
encostado ao vidrado pulverulento pela face errada (MNAz,
c) s/Inv, Coimbra) [Imagens: L. Esteves].
Figura 2.27

A pintura no azulejo é definida pela variação de diferentes tonalidades de uma cor que
simulam a volumetria da representação. Mas o efeito da pintura não provém só do claro e
escuro, mas também da natureza das cores e por isso, a preocupação na qualidade das
matérias-primas, como anteriormente referido.
Na decoração era necessária uma especial atenção à passagem do pincel de um pigmento para
outro, para não sujar as cores, especialmente na pintura polícroma. Os pincéis deviam estar
destinados para uma só cor ou então serem bem lavados [Piccolpasso: 88]. A exceção era para
o verde em que o pincel sujo de amarelo poderia conferir uma boa cor, mas o inverso já não é
possível. No entanto, e de acordo com o gosto do pintor, podia ser usada a técnica da
justaposição de cores.
A pintura a pincel é a que geralmente caracteriza a decoração do azulejo histórico, mas
também são encontradas outras técnicas decorativas. Por exemplo, o esponjado é muito
usado para a vegetação e arvoredo (Fig. 2.22 a); o esgrafitado para a acentuação de pontos de
luz ou para definição de desenhos quando a mancha é já muito escura (Fig. 2.22 b);
pulverização de tintas a sopro com uma caninha para diferenciar texturas (Fig. 2.22 c).

77
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

a) b) c)
Figura 2.28

Figura 2.22: Algumas técnicas decorativas usadas na pintura: a) folhagem a esponjado (Igreja da Nª. Srª. da
Conceição, Peniche); b) esgrafitado (MNAz, Apocalipse - Mulher da Babilónia); c) pulverização a sopro (MNAz,
Cortejo de Neptuno e Anfitrite, Inv. Nº. 141) [Imagens: L. Esteves].

Depois da pintura, o tardoz recebia uma marcação alfanumérica correspondente à posição do


azulejo no painel e, também, um código que individualizaria os diferentes painéis [Nobre Pais
et al., 2015b]. Os azulejos eram amontoados à medida que o tardoz era marcado,
possivelmente para facilitar o transporte para o forno e deste procedimento resultam alguns
defeitos encontrados na decoração: imagens “fantasma”; dedadas; e contornos esfumados. No
primeiro caso, é possível identificar a marcação alfanumérica do azulejo que o encimou ou,
quando os azulejos são amontoados com as faces vidradas juntas, a transferência de desenho
(Fig. 2.23). Esta diferença de metodologia poderá ser mais um elemento a considerar na
separação de conjuntos da mesma época de produção. As marcas de dedos e os esfumados
parecem estabelecer maior relação com a fase do manuseamento na arrumação do interior do
forno feita pelos forneiros, do que com a do empilhamento. O manuseamento com mãos sujas
de pigmento refletem uma fase de produção menos cuidada.

a) b)
Figura 2.29

Figura 2.23: Vidrados com marcas “fantasma” dos azulejos que foram colocados por cima: a) código em
negativo do tardoz do azulejo “d24” (Igreja de S. Domingos, Montemor-o-Novo); b) transferência da
pintura (Convento da Graça, Lisboa) [Imagens: L. Esteves].

A pincelada do pintor, a forma como trabalha a figuração e a composição e mesmo os


pequenos defeitos impressos no vidrado poderão também contribuir nas autorias ou
atribuição de conjuntos a centros de produção.

78
Capítulo 2: Fabricação de azulejos

Após decoração os azulejos eram submetidos à segunda cozedura para vitrificação da


superfície decorada, ficando assim prontos para a sua integração arquitetónica.
Como se verá as técnicas de produção irão influenciar física e mineralogicamente os azulejos e,
pelo menos parcialmente, ditar a sua maior ou menor resistência enquanto património
integrado aos agentes de degradação.

79
80
Capítulo 3
Técnicas de caracterização e equipamentos

3.1. Observação por microscopia ótica (MO)


A microscopia ótica foi utilizada no exame morfológico e na documentação de danos. Os
equipamentos utilizados foram: microscópio ótico Zeiss Axioplan MC100 com polarização da
luz; lupa binocular Meiji EMZ-TR com aquisição digital por câmara Bresser; e lupa binocular
Leica M80 com aquisição digital e processamento de imagens (Fig. 3.1 - 3.3).

Figura 3.30 Figura 3.31 Figura 3.32

Figura 3.1: Figura 3.2: Análise de provete durante um Figura 3.3: Lupa binocular
Microscópio ótico ensaio de envelhecimento com lupa binocular Leica M80 com câmara
Zeiss Axioplan MC100 Meiji EMZ-TR e câmara Bresser (LNEC) [Imagem: incorporada (MNAz)
(LNEC) [Imagem: L. L. Esteves]. [Imagem: L. Esteves].
Esteves].

Preparação de superfícies polidas


Foram preparadas seções polidas de todos os azulejos, antes e após os ensaios de
envelhecimento acelerado.
A preparação das superfícies polidas seguiu o procedimento interno do LNEC, Proc.
0205/11/17684 [Nunes, 2011].
No corte dos azulejos foi empregue uma máquina de disco diamantado Petrotrim da Buehler
sendo as amostras obtidas consolidadas com resina epóxida SpeciFix 40 Kit Resin da Struers,
em molde de silicone. A impregnação da resina foi feita em vácuo à pressão de cerca de 20
mbar e à temperatura ambiente, durante cerca de 1 hora.
Na preparação de seções polidas utilizaram-se lâminas de vidro para microscópio, com 27 x 46
x 1,5 mm. Despoliu-se uma das faces com abrasivo de carboneto de silício de 9 µm da

81
Capítulo 3: Técnicas e equipamentos

Logitech; seguidamente as amostras foram coladas sobre as lâminas utilizando cola de dois
componentes UHU Plus (Fig. 3.4) e posteriormente cortadas por meio de um equipamento
Petro-Thin da Buehler. Os vidros foram acoplados ao equipamento por vácuo e as amostras
seccionadas paralelamente à superfície do vidro sendo desbastadas na mó do mesmo
equipamento para melhoria do acabamento com vista aos polimentos seguintes (Fig. 3.5).

Figura 3.33 Figura 3.34

Figura 3.4: Colagem das amostras em Figura 3.5: Corte e desbaste das amostras no equipamento
lâminas de vidro previamente Petro-Thin (LNEC) [Imagem: L. Esteves].
despolidas [Imagem: L. Esteves].

O objetivo da preparação foi a obtenção de superfícies paralelas à platina dos instrumentos


óticos e polidas para melhor visualização e aquisição de imagens.
O polimento iniciou-se pelo desbaste manual com água e pó abrasivo de carboneto de silício
de 9 µm da Logitech, sobre uma placa de vidro e com o auxílio de um porta-amostras metálico
(Fig. 3.6). O polimento destinava-se a uniformizar a superfície e foi prolongado até se obter o
resultado pretendido. O controlo foi feito pela observação das superfícies no microscópio ótico
Zeiss.
Na transição entre polimentos, as superfícies foram lavadas e limpas numa tina de ultrassons
Brason 1200.
Os polimentos mais finos foram efetuados manualmente com os equipamentos mecânicos
DAP-V Struers e LaboPol-35 Struers, ambos a 320 rpm. Usaram-se panos Buehler pulverizados
com suspensões de pó de diamante de 6 µm e 3 µm em óleo fornecidas pela Buehler Metadi,
durando cada ciclo de polimento cerca de 12 minutos (Fig. 3.7).

82
Capítulo 3: Técnicas e equipamentos

Figura 3.35 Figura 3.36

Figura 3.6: Desbaste manual com movimentos Figura 3.7: Polimento manual com panos e
em “8” em pó abrasivo de 9 µm, com a lâmina pulverizadores de pó de diamante no
fixa num porta-amostras [Imagem: L. Esteves]. equipamento mecânico DAP-V, Struers
(LNEC) [Imagem: L. Esteves].

Nos casos em que a heterogeneidade das superfícies dificultou a análise no MEV-EDS foi
seguido um outro procedimento para polimento fino. Iniciou-se com a impregnação das
superfícies com resina epóxida de dois componentes da Logitech, na proporção de 3p. (resina)
: 1p. (endurecedor). Sobre a superfície com a resina colocou-se uma folha de papel de acetato
e o conjunto foi posicionado numa prensa de prato quente durante 24 horas. Depois da
polimerização e após remoção do papel, o conjunto foi submetido a novo corte com
equipamento da Logitech IsoMet 4000 (Fig. 3.8) e submetido à secagem em estufa a 40 ᵒC. O
primeiro polimento foi feito após nova impregnação e polimerização, com uma suspensão em
etileno glicol de pó abrasivo de óxido de alumínio calcinado, de 9 µm, num prato de aço em
equipamento Logitech PM5 a 70 rpm (Fig. 3.9). Para os polimentos finos de 3 µm, 1 µm e ¼
µm, utilizou-se o equipamento mecânico LaboPol-35 da Struers (Fig. 3.10).

Figura 3.37 Figura 3.38 Figura 3.39

Figura 3.8: Corte fino em Figura 3.9: Primeiro polimento Figura 3.10: Polimentos
equipamento Logitech em equipamento Logitech PM5 mecânicos no equipamento
IsoMet 4000 (LNEC) (LNEC) [Imagem: L. Esteves]. LaboPol-35, Struers (LNEC)
[Imagem: L. Esteves]. [Imagem: L. Esteves].

83
Capítulo 3: Técnicas e equipamentos

3.2. Observação e análise por microscopia eletrónica de varrimento


com microanálise (SEM/EDS).
A microscopia eletrónica de varrimento foi empregue nos diferentes eixos de estudo deste
trabalho:

a) Ensaios de envelhecimento salino


Observação e aquisição de imagens por SEM a partir das superfícies polidas das frações de
caraterização. Pretendeu-se fazer um levantamento de fragilidades pré-existentes nos azulejos
antes do ensaio de envelhecimento para as tentar relacionar com os resultados dos ensaios de
envelhecimento.

b) Ensaios de envelhecimento alcalino


Observação e aquisição de imagens MEV das superfícies polidas para registo de alterações
físicas das amostras ensaiadas por comparação com as de caraterização.

c) Inspeções in situ
Análise elementar EDS, com mapas de composição e aquisição de imagens dos sais e
fragmentos de azulejos colhidos em obra.

As observações no SEM e as análises por EDS foram efetuadas com um microscópio eletrónico
de varrimento HITACHI 3700N acoplado a um espectrómetro de energia dispersiva de raios-X
Bruker Xflash 5010 (Fig. 3.11). A aquisição de imagens e as análises foram realizadas a 20 kV,
em retrodispersão e em modo de pressão variável, a 40 Pa, sem revestimento com camada
condutora. A quantificação elementar foi realizada com recurso ao software QUANTAX com
aplicação do método PB-ZAF para a correção.

Figura 3.40

Figura 3.11: Equipamento HITACHI 3700N de análise MEV/EDX (HERCULES) [Imagem: L. Esteves].

84
Capítulo 3: Técnicas e equipamentos

3.3. Difractometria de Raios X (XRD)


A difractometria de raios X foi empregue nas seguintes análises:

a) Ensaios de envelhecimento salino


Foi utilizada para a análise da chacota de 19 azulejos (fração de caraterização) previamente
selecionados. Pretendeu-se que o conjunto fosse representativo da totalidade das amostras
ensaiadas tendo a seleção sido feita de acordo com a época de produção e o comportamento
dos azulejos durante os ensaios, com o fim de obter dados representativos dos diversos
desempenhos. A preparação das amostras consistiu na remoção de cerca de 6 g do interior da
chacota, sem vidrado e sem incluir zonas do tardoz próximas da área que tinha estado em
contato com a argamassa. Após secagem a 60 ᵒC procedeu-se à moagem de cada amostra num
moinho Retsch durante 10 minutos (Fig. 3.12). O pó obtido foi colocado num porta-amostras e
analisado (Fig. 3.13).

Figura 3.41

Figura 3.12: Moagem em moinho de pilão e almofariz Retsch (LNEC) [Imagens: L. Esteves].

b) Inspeções in situ
Analisaram-se as eflorescências cujo resultado nas análises no EDS não tinha sido conclusivo.
Não foi necessária qualquer preparação prévia.

Os difratogramas foram obtidos utilizando um difratómetro de raios-X, Bruker AXS-D8 Discover


(Bruker AXS Inc, Madison, USA), equipado com um detetor linear LYNXEYE, utilizando radiação
Cu-Kα (λ= 0.15406 nm), operando com uma tensão de aceleração de 40 kV e corrente de
filamento de 40 mA. Os difratogramas do pó foram obtidos por varrimento entre 2θ = 3 ᵒ e 2θ
= 75ᵒ em intervalos de 0,05 ᵒ e com um tempo de medição de 2 s por passo (Fig. 3.14).

85
Capítulo 3: Técnicas e equipamentos

Figura 4.42

Figura 4.43

Figura 3.13: Pó montado em porta-amostra Figura 3.14: Difratómetro de raios-X Bruker AXS-D8
[Imagem: L. Esteves]. Discover (HERCULES) [Imagem: L. Esteves].

3.4. Análise termogravimétrica (TGA) e térmica diferencial (DTA)


A análise TGA/DTA foi empregue na caracterização e determinação do teor de calcite em doze
azulejos selecionados, do conjunto dos 16 escolhidos para a análise por XRD.

Os provetes para ensaio tinham uma massa entre 27 e 30 mg e foram colocados num cadinho
de Pt-Ir e analisados no equipamento Netzsch STA 449 F3 Jupiter (HERCULES) em atmosfera de
azoto, nas seguintes condições: isotérmica a 40 ᵒC durante 5 minutos; rampa de aquecimento
dos 40 a 990 ᵒC com 10 ᵒC / min até à temperatura final de 1000 ᵒC (Fig. 3.15).

Figura 3.44

Figura 3.15: Equipamento de análise TG-DTA Netzsch STA 449 F3 Jupiter (HÉRCULES) [Imagem: L.
Esteves].

86
Capítulo 3: Técnicas e equipamentos

3.5. Porosimetria de intrusão de mercúrio (MIP)


A MIP é a técnica usada para a medição da porosidade total e distribuição do tamanho dos
poros. Estas características influenciam a resistência e a permeabilidade dos materiais aos
fluidos.

A técnica foi usada para a caracterização de 19 dos 26 azulejos usados no ensaio de


envelhecimento acelerado salino. A seleção incidiu particularmente nos que apresentavam
maior resistência aos ensaios de envelhecimento. Nos casos de azulejos que possuíssem
características que pudessem ser integradas num grupo (ex: os três azulejos da “espiga”) foi
apenas selecionado um deles.

Foi utilizado um porosímetro Quantachrome Autoscan (LNEC) numa pressão entre 0,17 e 343
MPa e ângulo de contacto de 140ᵒ, a que corresponde o enchimento de poros na gama entre
0,002 µm e cerca de 4 µm, seguindo o procedimento interno do LNEC LERO PE-15 baseado na
norma ASTM D4404-84.

Preparação das amostras

Secagem dos exemplares (pequenas porções de chacota sem vidrado e sem a camada do
tardoz que esteve em contacto com a argamassa) em estufa de ventilação natural, Heraeus®
modelo T6420, durante 72 h a 100 ᵒC e arrefecidos depois num exsicador. Depois de um
fraccionamento grosseiro, um provete com 2 a 3 g foi colocado em vácuo no vaso da célula de
vidro num período entre duas a três horas, seguindo-se o processo de intrusão do mercúrio
até 343 MPa (Fig. 3.16, 3.17).

Figura 3.45
Figura 3.46

Figura 3.16: Preparação de um exemplar Figura 3.17: Porosímetro de mercúrio Quantachrome


de chacota para análise [Imagem: L. Autoscan (LNEC) [Imagem: L. Esteves].
Esteves].

87
Capítulo 3: Técnicas e equipamentos

3.6. Propriedades hídricas

3.6.1. Capacidade de imbibição e coeficiente de capilaridade


A massa de referência (Md) para cada provete é obtida após secagem na estufa a 75 ᵒC por um
período mínimo de 72 h e arrefecimento num exsicador por cerca de duas horas.

A capacidade de imbibição de um azulejo corresponde ao preenchimento à pressão ambiente


da porosidade acessível à água. A determinação foi efetuada para os 26 azulejos utilizados no
ensaio de envelhecimento salino. O ensaio seguiu o procedimento interno do LNEC LERO PE-03
baseado na norma europeia NP EN-13755. O método permitiu determinar os valores da
absorção dos azulejos por imersão em água à pressão atmosférica. O princípio consistiu na
pesagem dos provetes em água por períodos de tempo determinados, até à obtenção de um
valor de massa constante ou até às 268 horas. Depois é calculada a percentagem da massa de
água absorvida por cada provete, sendo que a diferença entre a massa do provete saturado e a
massa inicial Md corresponde à água absorvida que determina diretamente o volume de poros
acessíveis (Vp).

Para a determinação do coeficiente de porosidade, as amostras foram colocadas numa tina


com fundo alteado com uma malha plástica e com água destilada até cerca de metade da
espessura do azulejo (Fig. 3.18, 3.19). A monitorização da absorção através do registo de
massas sucessivas durante o ensaio foi feita com balança analítica PG2002 (LNEC). Iniciada
com ciclos de dois minutos, aumentou-se progressivamente os intervalos de registo. O
intervalo de tempo inicial foi reduzido para um minuto nos exemplares que atingiram absorção
máxima por capilaridade logo no início do ensaio (B2 e B4). O nível de água foi mantido por
reposição sempre que necessário. A água que molhava o tardoz do provete foi eliminada
colocando-o sobre um pano húmido antes de cada pesagem.

Figura 3.47 Figura 3.48

Figura 3.18: Azulejos durante a imbibição Figura 3.19: Durante o ensaio [Imagem: L. Esteves].
[Imagem: L. Esteves].

88
Capítulo 3: Técnicas e equipamentos

O resultado da determinação é visualizável através de um gráfico em que a percentagem m/m


de água absorvida é representada em função da raiz quadrada do tempo decorrido desde o
início.

3.6.2. Determinação de massas volúmicas e porosidades


A massa volúmica real e aparente, assim como a porosidade aberta e o teor máximo de água
contida em cada amostra foram obtidos através das massas das amostras secas, saturadas e
imersas saturadas. Estas determinações seguiram o procedimento interno do LNEC LERO PE-01
baseado na norma europeia NP EN-1936 tendo sido efetuadas nos 26 azulejos posteriormente
sujeitos ao envelhecimento salino.
A massa volúmica aparente e a porosidade aberta foram determinadas através da absorção de
água sob vácuo e da pesagem hidrostática de acordo com os procedimentos internos do LNEC
[Nunes, 2005].
Os provetes são secos em estufa ventilada a 60 ᵒC durante quatro dias, até massa constante
(M1) após o que se deixa arrefecer durante 24 h. As amostras são então sujeitas a um vácuo à
pressão absoluta de 20 mmHg durante outras 24 h, seguido de período idêntico nas mesmas
condições mas com introdução de água até ficarem submersas. Segue-se novo período de 24 h
à pressão atmosférica. O procedimento termina com a pesagem em balança hidrostática
Mettler PM2000 (LNEC).
O provete é pesado imerso num cesto acoplado à balança e a massa é registada (M2). O peso
saturado (M3) é adquirido quando os provetes são retirados da água. Os valores para a
porosidade aberta (P), teor máximo de água contida (Tmax), massas volúmicas real (MVR) e
aparente (MVA) são obtidos a partir das seguintes equações:
Massa volúmica real MVR= (kgm-3) Eq.1

Massa volúmica aparente MVA= (kgm-3) Eq.2

Porosidade acessível à água P= (%) Eq.3

Teor máximo de água Tmax= (%) Eq.4

89
90
Capítulo 4
Resultados das inspeções a obras

A perda de vidrado tem sido relacionada com a pressão exercida pela cristalização de sais na
interface com a chacota, o que levaria a esperar encontrar morfologias sempre semelhantes
nos vidrados destacados. Mas isso não é confirmado pela observação de azulejos degradados.
Importava por isso fazer um levantamento in situ das morfologias de degradação, associando-
as aos sais presentes, com vista a posteriores estudos em laboratório com o objetivo de tentar
reproduzir, em condições controladas, as situações encontradas.

4.1. Casos de estudo


Foram inspecionados 31 edifícios dos quais 16 junto ao litoral e 15 no interior, desde Viana do
Castelo na costa norte de Portugal até Beja, no interior sul (Tabela 4.1). A generalidade destes
resultou de uma pré-seleção com base geográfica a que se juntaram outros de modo
circunstancial, por neles serem encontrados painéis com áreas degradadas. Houve casos em
que em virtude da grande dimensão do edifício, ou pelas diferentes épocas de produção de
azulejos, o processo de trabalho ditou um tratamento de dados individualizado para cada
espaço do imóvel onde existem azulejos. Este critério deu origem a 40 conjuntos com
revestimentos azulejares entre os séculos XVII-XIX. Destes, dois não apresentavam
degradação, embora com eflorescências de sais (Igreja de Santa Iria/Santarém e Sala de D.
Manuel/Museu Nacional do Azulejo); um outro (Igreja de S. Lourenço/Portalegre) mostrava
problemas relacionados com a ascensão de água e sais nas estruturas arquitetónicas, mas os
azulejos estavam praticamente sãos; os restantes com danos evidentes pela perda de vidrado.
Foram também identificados cinco casos (três de interior: MNAA/frontal de altar;
MNAz/Claustrim; Sé de Viseu/Sacristia; e dois de exterior: Convento da Graça; Palácio Real de
Caxias) com perda de vidrado que apresentavam chacota lisa e em cujas análises não foi
detetada a presença de sais solúveis.
Incluíram-se exemplares de produção coimbrã em três imóveis localizados em Viseu.
Pretendeu-se verificar eventuais diferenças no comportamento in situ, conforme o centro de
produção (Lisboa ou Coimbra), já que os azulejos produzidos em Coimbra apresentam
características próprias e, crê-se, maior suscetibilidade à perda de vidrado em obra.
Os resultados das inspeções individuais encontram-se sistematizados em fichas no Anexo 1.

91
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

4.2. Resultados globais


A tabela 4.1 corresponde à listagem de imóveis e conjuntos inspecionados com os respetivos
resultados. É também feita a sistematização dos danos de acordo com as formas mais
frequentes na perda de vidrado, para cada caso particular.
As inspeções e análises mostraram que quando os azulejos estão em perda de material
cerâmico, ocorrem quase sempre sais solúveis, mesmo quando não são evidentes
eflorescências. Houve no entanto dois casos com presença de eflorescências nas linhas de
fratura e juntas (L/5, Sala D. Manuel no MNAz) ou no reboco degradado (I/6 – Igreja de Santa
Iria), que não apresentavam danos resultantes das cristalizações. Registou-se, por outro lado,
cinco casos de azulejos com perda de vidrado mas em que não foi encontrado qualquer sal.
Em diversos casos, a análise SEM/EDS só identificou a presença de sódio, sem outros
elementos associados que permitissem deduzir a espécie química presente. Foram, por isso,
realizadas análises difractométricas das amostras colhidas, tendo-se concluído tratar-se de
trona (um hidrogenocarbonato de sódio di-hidratado).
Também, noutros casos o SEM/EDS detetou a presença de potássio associado com sais
identificáveis. As análises difractométricas permitiram identificar o sulfato de potássio, exceto
no caso da Igreja de Santiago em Évora (I/13). Os resultados analíticos não foram conclusivos,
pelo que se presume tratar-se de nitrato de potássio, razão pela qual surge neste texto
interrogado com “(?)”.

92
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

Tabela 4.1: Listagem de imóveis e conjuntos inspecionados com a respetiva associação à degradação e sais encontrados. Na coluna da esquerda “L” e “I” correspondem,
respetivamente, à localização geográfica no litoral ou no interior.
Padrão de
Localização Refª Imóveis Séc. Danos Eflorescências Sal identificado (por SEM/EDS e XRD) Local
degradação
Viana do L/1 Igreja de S. Bento XVII Vidrado Aresta/Centro - Sulfato de cálcio Interior
Castelo L/2 Igreja de S. Sacristia XVII Vidrado Arestas/Centro Eflorescências e concreções Sulfato de cálcio Interior
Domingos na chacota
Nave XIX Vidrado Arestas/Centro Eflorescências Trona Interior
Sulfato de cálcio
Braga I/1 Igreja dos Terceiros XVIII Vidrado Centro Pulverulência Sulfato de sódio - séc. XIX Interior
XIX Sulfatos de (sódio + potássio + cálcio) +
trona - séc. XIX
Sulfatos (sódio + cálcio) – séc. XVIII
I/2 Palácio do Raio XVIII Vidrado Vértices/Arestas/ Crosta folhosa salina (sob o Cloreto de sódio Interior
Desagregação da chacota Centro vidrado); Arenização Sulfato de cálcio
(exfoliação) (chacota); pústulas (centro) Sulfato de cálcio + cloreto de sódio
Concreções pulverulentas
(juntas e reboco – sulfato de
cálcio ↑12 cm)
Viseu I/3 Capela Nossa Senhora dos XVIII Vidrado em mosaico Arestas - Cloreto de sódio Interior
(produção Remédios Desagregação da chacota
de (exfoliação)
Coimbra) I/4 Igreja da Ordem Terceira de XVIII Vidrado em mosaico Arestas/Centro Eflorescências Cloreto de sódio Interior
São Francisco Desagregação da chacota
(exfoliação)
I/5 Sé de Viseu Sacristia XVII Vidrado em mosaico Centro Arenização Cloreto de sódio Interior
Desagregação da chacota
(exfoliação)
XVII Vidrado Centro - Sem sais associados Interior
Capelas XVIII Vidrado Arestas/Vértices Filamentosas nas juntas Sulfatos [magnésio (filamentosas) + Interior
Desagregação da chacota Subflorescências cálcio (crostas)]
(exfoliação)
Batistério XVIII Vidrado em mosaico ou sem Arestas (c/ chacota) Eflorescências filamentosas Sulfatos [magnésio (filamentosas) + Interior
padrão Centro (vidrado) Crostas cálcio (crostas)]
Desagregação da chacota Subflorescências
(exfoliação)

93
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

Padrão de
Localização Refª Imóveis Séc. Danos Eflorescências Sal identificado (por SEM/EDS e XRD) Local
degradação
Santarém I/6 Igreja de Santa Iria XVII - - - Sulfato de cálcio Interior
(reboco desagregado) XVIII
Peniche L/3 Igreja da Misericórdia XVIII Vidrado Arestas/Vértices Eflorescências Cloreto de sódio Interior
Crostas Trona
Cloreto de sódio + trona
Trona + gailussite (carbonato de Ca e Na
hidratado)
L/4 Capela Nossa Sala ex- XVII Vidrado Arestas Eflorescências filamentosas Trona Interior
Senhora dos votos XVIII Concreções Trona
Remédios Nave XVIII Fissuração circular (vidrado + Centro /Arestas Crostas Cloreto de sódio Interior
chacota). Arenização Cloreto de sódio + sulfato de cálcio
Lisboa L/5 Museu Claustrim XVII Vidrado Arestas Concreções brancas e Trona (concreção branca e amarela) Interior
Nacional do amarelas de dureza elevada Trona
Azulejo (chacota, juntas); Sulfato de sódio (eflorescências brancas
(MNAz) Eflorescências pulverulentas e macias)
(juntas) Trona + Aftitalite (sulfato de potássio e
sódio)
XVII Vidrado Arestas - Sem sais associados Interior
Escadaria XVIII Vidrado Vértices Pulverulência Sulfatos (sódio + potássio) Interior
Chacota
Igreja XVIII Vidrado Centro Pústulas Cloreto de sódio Interior
Sala D. XVIII - - Concreções Sulfatos [cálcio + sódio (eflorescências) Interior
Manuel Sulfatos [magnésio (preenchimento) +
cálcio]
Sulfato de sódio
Claustro XVIII Vidrado Arestas (1ªfase) Concreções Sulfato de cálcio Parcial
Centro (2ªfase)
L/6 Capela das Sacristia XVIII Vidrado Arestas/Centro Arenização Cloreto de sódio Interior
Albertas Desagregação da chacota Eflorescências Sulfato de cálcio
(MNAA) (arenização e exfoliação) Subflorescências
Nave XVIII Vidrado Arestas Eflorescências Cloreto de sódio Interior
Desagregação da chacota Pulverulência Trona + Sulfato de sódio (juntas e
(arenização e exfoliação) chacota)
XVII Vidrado Vértices/Arestas - Sem sais associados Interior

94
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

Padrão de
Localização Refª Imóveis Séc. Danos Eflorescências Sal identificado (por SEM/EDS e XRD) Local
degradação
Lisboa L/7 Convento da Estrela XVIII Vidrado Arestas Crosta Cloreto de sódio Interior
Desagregação da chacota
(exfoliação)
L/8 Igreja do Convento das XVIII Desagregação da chacota Arestas/Centro Sem eflorescências (Ca2SO4) Sulfato de cálcio (arestas) Interior
Flamengas (exfoliação - Ca2SO4) Pústula (NaCl) Cloreto de sódio (centro)
Vidrado (NaCl)
L/9 Convento da Graça XVII Vidrado Vértices/Arestas Concreção Sulfato de cálcio Interior
XVIII Vidrado Vértices/Arestas/Ce - Sem sais associados Exterior
ntro
XVIII Vidrado Centro / Arestas - Sulfato de cálcio Exterior
L/10 Capela do Paço de XVIII Vidrado Arestas Eflorescências filamentosas Trona Interior
Massarelos
L/11 Palácio Real de Caxias XVIII Vidrado Arestas - Cloreto de sódio Interior
Desagregação da chacota
(exfoliação)
XVIII Vidrado Arestas/Vértices - Sem sais associados Exterior
Setúbal L/12 Igreja de S. Julião XVIII Vidrado Vértices /Arestas - Sulfato de cálcio Interior
Desagregação da chacota
(exfoliação)
L/13 Sé de Setúbal XVIII Vidrado Vértices/Arestas - Cloreto de magnésio Interior
Desagregação alveolar da
chacota
Montijo L/14 Ermida de Santo António XVIII Vidrado Centro /Arestas Eflorescências Trona Interior
Montemor- I/7 Capela de Nossa Senhora XVIII Vidrado Arestas / Centro - Sem colheita. Exterior
o-Novo da Paz
Tavira L/15 Igreja da Misericórdia XVIII Vidrado Vértices /Arestas Concreção Trona Interior
Desagregação da chacota Trona + gahnita (ZnAl2O4)
(exfoliação)
L/16 Capela da Igreja Matriz de XVIII Vidrado Aresta - Cloreto de sódio Interior
Santa Maria
Beja I/8 Museu Regional XVII Vidrado Centro /Arestas Concreção Trona Interior
I/9 Hospital da Misericórdia XIX Vidrado Vértices/Arestas - Cloreto de sódio Interior

95
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

Localização Refª Imóveis Séc. Danos Padrão de Eflorescências Sal identificado (por SEM/EDS e XRD) Local
degradação
Portalegre I/10 Mosteiro de S. Bernardo XVIII Vidrado Arestas Concreções Sulfatos (magnésio + cálcio) Interior
(quartel) Desagregação da chacota Subflorescências
I/11 Igreja de S. Lourenço XVIII Vidrado Arestas - Sulfatos (cálcio + magnésio) Interior
Desagregação da chacota (a pedra com muitos sais)
Évora I/12 Igreja da Misericórdia XVIII Vidrado Vértices/Arestas Crostas Sulfatos (magnésio + cálcio) Interior
Desagregação da chacota Eflorescências
Subflorescências
I/13 Igreja de Santiago XVII Vidrado Arestas Eflorescência Sulfatos (magnésio + cálcio) + nitrato de Interior
Desagregação da chacota potássio (?)
I/14 Igreja de Santa Marta XVII Vidrado Centro/Arestas Crostas Sulfato de cálcio Interior
Desagregação da chacota Subflorescências
Vila Viçosa I/15 Capela da Paixão XVIII Vidrado Arestas - Sulfato de cálcio Exterior
Desagregação da chacota
(exfoliação)

96
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

As espécies salinas encontradas nos edifícios espalhados pelo interior e litoral de Portugal
Continental e as respetivas associações são esquematizadas na figura 4.1. Os sais
predominantes no litoral são o cloreto de sódio, o sulfato de cálcio e a trona; no interior são os
sulfatos de cálcio e magnésio e o cloreto de sódio.

Figura 4.49

Figura 4.1: Distribuição das espécies salinas de acordo com a área geográfica definida pela proximidade
costeira ou no interior.

A degradação mostra morfologias típicas relacionadas com os pontos dos azulejos onde se
iniciou a perda de vidrado: a) vértices; b) arestas; c) centro; d) poros e outros defeitos de
fabrico; e) outros pontos, em qualquer área do vidrado (Fig. 4.2). A partir destes locais, as
frentes de destacamento propagam-se para áreas limítrofes.

a) b)
Figura 4.50

Figura 4.2: a) Destacamento de vidrado de localização indiferenciada na forma de pontos com pequenas
eflorescências de cloreto de sódio; b) Um estado mais avançado na perda de vidrado [Imagens: L.
Esteves, Capela das Albertas, MNAA].

97
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

A perda de vidrado mais comum manifesta-se a partir das arestas, verificando-se uma maior
ocorrência nas linhas verticais.
Encontraram-se diferentes estados na evolução da deterioração e, quando acompanhada por
eflorescências, estas surgem em alguma das formas seguintes: pulverulenta, granular ou
arenização, em longos filamentos retos ou encaracolados, crosta, película folhosa salina,
concreção ou em pústulas. A perda de vidrado é quase sempre progressiva a partir do primeiro
destacamento.
Também foram encontrados azulejos com danos específicos em cotas baixas, ou de forma
generalizada no revestimento, mas em condições de manifesta humidade. Estes casos
mostraram expansão e delaminação da chacota com o subsequente destacamento da
decoração. Entre estas camadas encontraram-se, por vezes, crostas salinas decorrentes de
subflorescências.
Em obra, as espécies salinas tanto surgem isoladas como associadas. Esta informação
encontra-se resumida na figura 4.3.

Figura 4.51

Figura 4.3: Ocorrência e associações dos sais encontrados nos diferentes conjuntos.

98
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

É junto à zona costeira que se encontra maior diversidade de sais. O cloreto de sódio e o
sulfato de cálcio, seguidos pela trona, são os sais com maior representatividade no litoral. No
interior é o sulfato de cálcio isolado, ou misturado com o sulfato de magnésio, que predomina.

4.2.1. Cloreto de sódio (halite)


Em 14 casos, dos quais nove localizados na zona costeira, foi predominantemente encontrado
cloreto de sódio. No interior de duas igrejas (I/3 – Capela Nª. Srª. dos Remédios e I/4 – Igreja
da Ordem 3ª de S. Francisco), a presença de cloreto de sódio poderá estar relacionada com a
contaminação a partir das pias de água benta, cuja água era frequentemente salgada por
simbolismos religiosos ou para evitar o crescimento de algas, uma vez que a degradação de
azulejos só ocorre nesses locais.
Este sal apresenta-se nos azulejos sob diferentes formas, designadamente, pequenas
eflorescências brancas quebradiças; granular; película folhosa salina; crosta; crosta em tubo e
em pústulas.
A primeira é caracterizada pela pouca aderência e fácil remoção e ocorre com particular
incidência em espaçamentos de junta, no craquelé e na chacota.
A película folhosa surge com agregados de chacota e forma-se na interface vidrado/chacota
associada a casos com degradação particularmente severa (Fig. 4.4). As formas granular e em
crosta surgem por vezes acompanhadas de chacota desagregada.

a) b)

Figura 4.52

Figura 4.4: a) Cristalização de sais com arenização da chacota e película folhosa salina que ultrapassa a
periferia do vidrado. A película localiza-se na interface vidrado/chacota (o vidrado está solto nesta zona)
propagando-se paralelamente ao contorno da falha de vidrado [Imagem: L. Esteves, Palácio do Raio,
Braga. Data de inspeção: agosto/2013]; b) imagem SEM onde se vêem os cristais de NaCl em
aglomerado.

99
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

A crosta em tubo é caracterizada pelo enrolamento ao longo do contorno do vidrado (Fig.


4.5a) e a superfície tem um aspeto liso e duro. O seu desenvolvimento junto à interface
vidrado/chacota parece resultar no enfraquecimento desta ligação, conduzindo a frentes de
destacamento. De forma semelhante, a pústula difere da forma anterior na medida em que
surge quase sempre a meio do vidrado, possivelmente por algum defeito ou dano prévio,
formando uma bolsa oca e densa, dura e fortemente aderida à superfície (Fig. 4.5b).
A perda de vidrado em diversos pequenos pontos é muito rara, mas também foi encontrada
associada ao mesmo sal (Fig. 4.2). A superfície vítrea mostra pequenos destacamentos
circulares em qualquer área do azulejo. Esta morfologia de degradação é também referida no
caso da porcelana [Fernández Ibáñez, 2003].
Na maioria dos casos, nas observações microscópicas, é frequente reconhecer-se o hábito
cúbico característico do cloreto de sódio, mas também pode surgir romboédrico e de
desenvolvimento colunar (Fig. 4.5c).
Por vezes reconhecem-se frentes de destacamento em progressão paralela ao contorno da
falha de vidrado.

a) b) c)

Figura 4.53

Figura 4.5: a) Crosta de sal em tubo que perfila o contorno duma lacuna. O vidrado mostra linhas de
rutura pela perda de ligação com o substrato. A chacota exposta é lisa evidenciando laminação limpa do
vidrado. b) Pústulas de sal [Imagens: L. Esteves, Palácio do Raio, Braga. Data de inspeção: agosto/2013];
c) Imagem SEM de uma pústula onde se vê os cristais de NaCl agregados lateralmente.

Nos casos em que foi identificado predominantemente cloreto de sódio, a perda de vidrado
inicial é geralmente caracterizada pelo destacamento de fragmentos sem resíduos relevantes
de chacota aderente, ficando esta quase sempre lisa, excetuando os azulejos de produção de
Coimbra, matéria que será desenvolvida mais à frente. Numa fase mais avançada, a chacota
pode ganhar um aspeto pulverulento, ou iniciar um processo de delaminação fina, por
subflorescências, mas pouco expressiva quando comparada com casos associados ao sulfato
de cálcio. Quando este processo ocorre junto ao vidrado conduz ao seu empolamento e
posterior destacamento.

100
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

O cloreto de sódio surge por vezes a marcar linhas de craquelé ou outras fissuras. As
cristalizações dão-se preferencialmente na periferia do vidrado onde ocorre evaporação e a
chacota evidencia, por vezes, eflorescências (Figuras 4.6 e 4.7).

a) b)

Figura 4.54

Figura 4.6: a) Degradação localizada, de formato circular, acompanhada de eflorescências. Estas


poderão ter origem em pequenos pontos de destacamento de vidrado [Imagem: L. Esteves, Capela das
Albertas, MNAA, Lisboa. Data de inspeção: setembro/2014]; b) mapa de análise elementar por EDS
sobreposto à imagem de uma área de a), onde se vêem cristais de NaCl nos interstícios da chacota.

a) b) c)

Figura 4.55

Figura 4.7: a) As eflorescências filamentosas ocorrem a delinear o contorno do vidrado. Craquelé


evidenciado e chacota com aparência pulverulenta [Imagem: L. Esteves, Igreja dos Remédios, Viseu.
Data de inspeção: julho/2014]; b) mapa elementar por EDS das eflorescências em a) que mostra uma
grande massa de cristais de NaCl que crescem segundo o mesmo eixo longitudinal [Capela das Albertas,
MNAA]; c) mapa de análise elementar EDS sobreposta à imagem SEM de um vidrado com os cristais de
NaCl a surgirem na linha de craquelé.

Um dos casos de degradação mais complexos em que se identificou cloreto de sódio foi o da
Devota Capela de Nossa Senhora dos Remédios, em Peniche (L4). Situa-se na orla costeira,
junto ao Cabo Carvoeiro, sendo o interior da nave integralmente revestido a painéis de azulejo
do século XVIII, da autoria de António Oliveira Bernardes, um importantíssimo pintor do Ciclo
dos Mestres.
O revestimento azulejar de 1720 mostra não ter sofrido danos, apesar da proximidade do mar
durante pelo menos cerca de 250 anos21. A degradação hoje encontrada terá tido início em

21
Como demonstram as nove fotografias tomadas por João Miguel dos Santos Simões cerca de 1965
(arquivo Biblioteca Digital: Azulejaria e Cerâmica on Line da Fundação Calouste Gulbenkian:

101
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

algum momento após 1965, na sequência de infiltrações ou durante/após uma intervenção de


restauro na cobertura, que o aspeto recente da mesma sugere (Fig. 4.8).

a) b) c)
Figura 4.56

Figura 4.8: Duas imagens representativas da evolução na degradação dos azulejos que decoram o
interior da Capela de Nossa Senhora dos Remédios, em Peniche. Na imagem a), datada de 1960-1970
(autoria: JMSS. Col. Azulejaria portuguesa, FCG-Biblioteca de Arte), a boa conservação dos azulejos da
abóbada contrapõe-se ao estado de degradação patente em abril de 2013 (b). Em c), um pormenor da
degradação [Imagens: L. Esteves].

Da abóbada destacam-se fragmentos com cristalizações granulares à superfície. Os


fragmentos, com espessura considerável, são compostos por vidrado e chacota, ocorrendo
crostas salinas nesta última (Figura 4.9).

a) b)

Figura 4.57

Figura 4.9: a) A chacota de um fragmento destacado tem um aspeto consolidado amarelo acastanhado
com pequenas crostas salinas à superfície [Imagem: L. Esteves]; b) imagem SEM de a), com os cristais
ligados entre si em placa sobre a chacota.

4.2.2. Carbonato de sódio (trona)


Foi encontrada trona em dez conjuntos, oito conjuntos localizados na costa litoral e dois no
interior. Surgiu também associada ao cloreto de sódio, sulfato de potássio e ao sulfato de
sódio em mais três conjuntos, todos no litoral.

http://digitile.gulbenkian.pt/cdm/compoundobject/collection/jmss/id/1798/rec/5

102
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

A sua ocorrência no azulejo caracterizou-se basicamente por duas formas: 1- eflorescências


densas e muito brancas, longas, macias e encaracoladas, com fraca ligação à chacota (Fig.
4.10a); ou 2- concreções densas e brancas ou amareladas, de elevada dureza e aderência à
chacota (Fig. 4.10b). A primeira forma é a mais comum, sendo normalmente acompanhada
pela perda progressiva de vidrado limpo de chacota que aparenta ficar inalterada (Fig. 4.10a).
O destacamento do vidrado ocorre preferencialmente a partir das arestas, mas também ao
centro, possivelmente a partir de pequenos poros. A segunda morfologia pode estar associada
a uma desagregação da própria chacota (Fig. 4.10b). Nas observações microscópicas, a trona
aparece em morfologias de placas delgadas ou cristais filiformes (Fig. 4.10c).

a) b) c)
Figura 4.58

Figura 4.10: A ocorrência da trona nas formas de eflorescência (a) [Imagem: L. Esteves, Ermida de Santo
António, Montijo. Data de inspeção: agosto/2015] e concreção (b) [Imagem: L. Esteves, Claustrim,
MNAz. Data de inspeção: julho/2014]. Em c), imagem SEM de cristais de compostos de sódio com hábito
em placas alongadas das eflorescências apresentadas na figura 4.11.

O revestimento azulejar da capela do Paço de Massarelos (L10) demonstra bem os efeitos da


trona. Duas inspeções, com um intervalo de seis anos (em 2007 e 2013), permitiram-nos
acompanhar a progressão da perda de vidrado e a invulgar formação de eflorescências (Fig.
4.11). As linhas de fissuração do vidrado, evidenciadas por pequenas eflorescências em 2007,
correspondem, em 2013, às áreas sem decoração. As eflorescências, muito macias e com fraca
aderência à chacota, acumulam-se preferencialmente junto do vidrado remanescente.

103
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

a) b)

Figura 4.59

c)
Figura 4.11: Perda de vidrado e eflorescências de trona, nos anos de 2007 (a) e 2013 (b) num dos painéis
da Capela do Paço de Massarelos, em Oeiras [Imagens: L. Esteves, Datas de inspeção: agosto/2007;
julho/2013]; c) difractograma da eflorescência (todos os picos presentes correspondem ao perfil
difractométrico da trona) [LNEC].

4.2.3. Sulfato de cálcio


O sulfato de cálcio foi o sal encontrado com mais frequência e diferencia-se dos restantes sais
aqui enumerados pela sua fraca solubilidade. Ocorria isolado em 12 conjuntos, quatro no
interior e os restantes no litoral (Tabela 4.1). Apareceu também associado a todas as espécies
salinas identificadas.
Foi encontrado nas subflorescências no interior da chacota, sob o vidrado já em destacamento
ou sobre a chacota nas formas de concreção e crosta. O exemplo mais ilustrativo deste sal foi o
do claustro do Museu Nacional do Azulejo, situado no antigo leito de cheia do Tejo. Este
conjunto parece evidenciar a confluência de três fatores: defeitos de fabrico, água e sais. Após
a perda primária do vidrado na periferia, os danos passaram a ocorrer nos poros em zonas
centrais do azulejo. Nestes locais, o vidrado apresenta empolamento circular, com a geometria
de um pequeno vulcão, no interior do qual há uma concreção de sulfato de cálcio sobre a
chacota (Fig. 4.12).

104
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

c)
a) b)
Figura 4.60

Figura 4.12: Cristalizações de sulfato de cálcio num mesmo azulejo e colheita de amostra [Imagens: L.
Esteves, Claustro do Museu Nacional do Azulejo, Lisboa. Data de inspeção: fevereiro/2013]. a) Perda de
vidrado em círculo expondo cristalizações de sais na chacota e no centro núcleo escurecido. À direita do
dano, início do empolamento em círculo a partir de um outro poro; b) O vidrado destacou-se ao toque e
o acesso ao interior permitiu confirmar a presença de uma substância salina na interface
vidrado/chacota; c) Mapa da distribuição elementar por EDS sobreposta à imagem SEM da concreção de
sulfato de cálcio colhida em b).

No mesmo sítio, foram encontradas crostas em tubo enroladas ou em espiral,


preferencialmente nas linhas de fratura, com menor ligação ao vidrado e de dureza elevada
(Fig. 4.13).

a) b)
Figura 4.61

Figura 4.13: a) Concreção em espiral na linha de fratura [Imagem: L. Esteves]; b) imagem SEM da
concreção com os cristais em escama de CaSO4, compactados.

De maneira geral, o sulfato de cálcio foi encontrado associado a azulejos com desagregação da
chacota nas arestas e vértices (Fig. 4.14), mas a velocidade e extensão da degradação parece
ser menos significativa quando comparada com a que ocorre em associação com outros sais,
noutros conjuntos. As cristalizações deste sal sobre a chacota localizam-se na periferia do
vidrado remanescente.
Nas observações microscópicas é frequente reconhecer-se o hábito em pequenas placas
circulares agregadas (Fig. 4.15).

105
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

a) b)
Figura 4.62

Figura 4.14: a) Perda de vidrado a partir das arestas e vértices; b) a imagem de pormenor mostra a
exfoliação fina da chacota e fissuração do vidrado, criando nova frente de destacamento [Imagens: L.
Esteves, Capela da Paixão, Vila Viçosa. Data da inspeção: junho/2012].

Figura 4.63

Figura 4.15: Concreções de sulfato de cálcio sobre a chacota com a respetiva imagem SEM ilustrando o
hábito em plaquetas [Imagem: L. Esteves, Escadaria do Quartel da Graça, Lisboa. Data da inspeção:
julho/2012].

4.2.4. Sulfato de magnésio


O sulfato de magnésio surgiu sempre associado ao sulfato de cálcio e foi encontrado em cinco
conjuntos em Viseu, Portalegre, Évora e Lisboa (Tabela 4.1).
Os revestimentos em que o sulfato de magnésio é predominante (Tabela 4.1, I/5, I/10, I/12)
encontram-se geralmente mais degradados. Na Sala de D. Manuel (L/5-MNAz) esta
combinação não sustenta essa observação talvez por ser produto de reação do material
moderno usado nos preenchimentos de lacunas (amostra de análise). Por fim, na Igreja de S.
Lourenço em Portalegre (I/11), onde o sal predominante é o sulfato de cálcio, os danos são
quase inexistentes.
Os danos decorrem da desagregação da chacota e perda de vidrado, nos vértices e arestas dos
azulejos e, mais raramente, também ao centro. As cristalizações foram encontradas
maioritariamente sob a forma de concreções e crostas sobre a chacota exposta (os dois sais

106
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

associados ou isolados), em crosta entre camadas laminadas da chacota com subflorescências


(sulfato de cálcio) e em eflorescências (sulfato de magnésio) (Fig. 4.16).

a) b)

Figura 4.64

Figura 4.16: a) Extensa perda de vidrado. Na chacota, crostas salinas e desagregação do material
cerâmico à superfície [Imagem: L. Esteves, Mosteiro de São Bernardo, Portalegre. Data da inspeção:
janeiro/2013]; b) mapa de análise elementar EDS sobreposta a imagem SEM onde o sal predominante é
o sulfato de magnésio.

Embora os dois sais estejam associados, nas crostas das camadas folheadas da chacota e nas
fissuras de craquelé do vidrado apenas se encontrou sulfato de cálcio.
Num revestimento azulejar, e de acordo com a fonte de água suplementar (topo-infiltrações;
inferior-ascensão), os danos ocorrem diferenciadamente em altura. Exemplo disso é o
conjunto azulejar da Igreja da Misericórdia em Évora (I/12), que recebe águas subterrâneas
por ascensão capilar. A degradação que ocorre nos azulejos mais próximos do pavimento é ao
nível da chacota com expansão volumétrica e fragmentação do vidrado. Os vértices e arestas
são as áreas preferenciais para o dano, que se desenvolve em profundidade em toda a
espessura do azulejo (Fig. 4.17). Numa cota mais alta, a perda de vidrado é mais significativa
pelo empolamento da chacota numa camada mais próxima da superfície de evaporação.
Quando a perda de vidrado é extensa, a chacota apresenta veios formados por crostas salinas
de distribuição semicircular com origem nas arestas (Fig. 4.18).
Os sais são encontrados entre camadas ou sobre a chacota, na forma de crosta ou
eflorescências. Pontualmente e numa cota mais alta encontraram-se eflorescências macias
quase sempre associadas à ocorrência de sulfato de magnésio. O SEM mostrou desigualdade
de hábitos para o sulfato de magnésio, ocorrendo em morfologias globulares ou filiformes.

107
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

Figura 4.65 Figura 4.66

Figura 4.17: Padrão de degradação na área Figura 4.18: Chacota com crostas que demarcam veios
inferior do revestimento: a partir dos vértices semicirculares e empolamentos. As novas frentes de
com prolongamento para as arestas [Imagem: destacamento são evidenciadas pelas linhas de rotura
L. Esteves, Igreja da Misericórdia, Évora. Data do vidrado, de propagação paralela e sempre maior –
de inspeção: Outubro/2014]. área central do painel ↑≈3m [Imagem: L. Esteves,
Igreja da Misericórdia, Évora].

4.2.5. Sulfato de sódio


Encontrou-se sulfato de sódio em quatro conjuntos que têm em comum a reduzida
degradação. Os danos ocorrem preferentemente ao nível do vidrado e os sais surgem nas
juntas, falhas de vidrado e craquelé na forma de eflorescências muito brancas e pulverulentas
(Fig. 4.19a). Aliás, foi um dos sais cuja presença foi sempre evidenciada por eflorescências nos
azulejos e juntas. O número de ocorrências deste sal é maior no litoral, tendo também surgido
associado ao sulfato de cálcio, sulfato de potássio e trona. A forma cristalina é um agregado de
pequenas plumas (Fig. 4.19b).

a) b)

Figura 4.67

Figura 4.19: a) Eflorescências pulverulentas de sulfato de sódio circunscritas às juntas e arestas dos
azulejos [Imagem: L. Esteves, Escadaria do Museu Nacional do Azulejo, Lisboa. Data da inspeção:
junho/2014]; b) imagem SEM da amostra colhida em a) ilustrando uma morfologia do sal em pequenas
plumas.

108
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

4.2.6. Sulfato e nitrato de potássio


No SEM/EDS detetou-se potássio em dois casos (I/1 – Igreja dos Terceiros, Braga; I/13 – Igreja
de Santiago, Évora) na forma de pequenos bagos ou numa massa densa, em pequenas
quantidades e eventualmente associado com outros elementos. Os resultados por XRD só
identificaram sulfato de potássio no primeiro caso. Na Igreja de Santiago a hipótese de se
tratar de nitrato de potássio (KNO3) está relacionada com o fato de o valor de S ser muito
baixo para se tratar de um sulfato e de o azoto não ser detetado e portanto poder estar
presente. Esta hipótese é reforçada pelo elevado teor de oxigénio (Fig. 4.20).
Nas colheitas da escadaria e Claustrim do MNAz (L/5), cujos conjuntos apresentam maiores
danos, o potássio ocorre na forma de sulfato, associado ao sulfato de sódio e à trona.

Amostragem Resultados / Nitrato de potássio (?)

Eflorescências de sais analisadas. Mapa de análise elementar por EDS.

Figura 4.68

Espectro da análise pontual por EDS. Tabela da análise pontual por EDS.

Figura 4.20: Resultados obtidos pela análise SEM/EDS das eflorescências de sais colhidas na Igreja de
Santiago, em Évora (I/13) [Imagem: L. Esteves, Data de inspeção: abril/2012].

109
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

4.2.7. Cloreto de magnésio


O cloreto de magnésio foi somente encontrado na Sé de Setúbal (L/13). A degradação ocorre
predominantemente na metade superior dos conjuntos e, na data da visita, em novembro de
2014, não eram evidentes cristalizações. Os danos estão representados na acentuada perda de
vidrado, com desagregação alveolar da chacota. O hábito deste sal manifesta-se em agulhas
com formação radial (Fig. 4.21).

a) b)

Figura 4.69

Figura 4.21: a) Pormenor da perda de vidrado e desagregação alveolar da chacota [Imagem: L. Esteves,
Sé de Setúbal. Data da inspeção: novembro/2014]; b) mapa de análise elementar EDS do cloreto de
magnésio sobreposto a imagem SEM.

4.2.8 A degradação de azulejos de Coimbra


Os azulejos de produção coimbrã foram especificamente contemplados neste estudo para
tentar reconhecer eventuais diferenças no comportamento in situ relativamente à produção
de Lisboa. Foram inspecionados três edifícios em Viseu com diferentes níveis de deterioração:
I/3 (Capela Nª Srª. dos Remédios), mostrava somente deterioração nos azulejos por
proximidade à pia de água benta (Fig. 4.22); I/4 (Igreja da Ordem 3ª de S. Francisco), com
degradação localizada no topo dos painéis, possivelmente devido a infiltrações ou decorrente
de materiais usados numa intervenção anterior; I/5 (Sé), com degradação generalizada. Nos
dois primeiros casos o sal identificado foi o cloreto de sódio, sendo a Sé de Viseu o caso mais
preocupante pela presença conjunta dos sulfatos de magnésio e cálcio.
De forma geral, a degradação regista-se ao nível da superfície e caracteriza-se pela perda de
vidrado com chacota aderente. Para além das marcas impressas pelo destacamento em
mosaico, os azulejos com perda quase total de vidrado apresentam também exfoliação na
superfície cerâmica. A perda de decoração faz-se a partir das arestas e também ao centro do
azulejo. Nesta produção, foi também comum encontrar um craquelé muito denso e marcado.

110
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

a) b)

Figura 4.70

Figura 4.22: a) Azulejos com perda de vidrado associável à proximidade da pia de água benta [Imagem:
L. Esteves, Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Viseu. Data da inspeção: junho/2014]; b) imagem
SEM do verso de um fragmento colhido em a) onde se reconhecem cristais cúbicos de NaCl.

No caso da Sé de Viseu, a perda de vidrado e a desagregação da chacota ocorrem nas arestas,


nas áreas junto aos vértices e ao centro (Fig. 4.23 e 4.24). O sulfato de cálcio e o sulfato de
magnésio, associados ou isolados, foram os resultados obtidos em diferentes locais dos
painéis. Embora encontrado a qualquer altura do revestimento, o sulfato de cálcio surgiu
isolado até à cota aproximada de 50 cm de altura.

Figura 4.71 Figura 4.72

Figura 4.23: Perda de vidrado e chacota com Figura 4.24: Perda de vidrado a partir do centro
incidência nos vértices e arestas [Imagem: L. [Imagem: L. Esteves, Batistério da Sé de Viseu].
Esteves, Batistério da Sé de Viseu. Data da
inspeção: junho/2014].

A perda de decoração nos azulejos de Coimbra caracteriza-se quase sempre pelo


destacamento de pequenos mosaicos com chacota aderente, coincidentes com o craquelé. A
superfície, após perda de vidrado, fica com marcas impressas semelhantes a um entalhe (Fig.
4.25) correspondente a um craquelé como o ilustrado na figura 1.2c.
Quando a perda de vidrado se inicia ao centro, expõe quase sempre chacota lisa e no caso de
craquelé do tipo 2, aparecem evidenciadas as marcas de uma antiga propagação para o
interior da chacota, correspondente a um craquelé inicial de tipo 1 (Fig. 4.26).

111
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

Figura 4.73 Figura 4.74

Figura 4.25: Perda de vidrado em mosaico com Figura 4.26: Perda limpa de vidrado ao centro. A
chacota aderente. A superfície cerâmica evidencia o chacota lisa evidencia o craquelé original do tipo
entalhe deste destacamento [Imagem: L. Esteves]. 1 que se propagava para o interior do cerâmico
[Imagem: L. Esteves].

Mesmo com a fragmentação do vidrado pelo craquelé é possível encontrar empolamentos nas
áreas centrais dos azulejos (Fig. 4.27). O craquelé muito denso e fechado é frequentemente
evidenciado por pequenas concreções salinas.
Nos azulejos de produção coimbrã, os danos na chacota provocados pela presença dos sulfatos
de magnésio e de cálcio são extensos. A desagregação por exfoliação é acompanhada por
crostas salinas entre camadas.

Figura 4.75

Figura 4.27: Perda da decoração, empolamentos e vidrado com craquelé denso [Imagens: L. Esteves].

Os sais, quando evidentes, surgem em eflorescências, concreção, pós destacados ou em crosta


nas juntas, nas fissuras do vidrado e na chacota (Fig. 4.28 e 4.29).

112
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

a) b)

Figura 4.76

Figura 4.28: a) Delaminação da chacota por subflorescências [Imagem: L. Esteves]; b) mapa de análise
elementar EDS sobreposta à imagem de uma área onde o sal predominante é o sulfato de cálcio.

a) b)
Figura 4.77

Figura 4.29: a) Eflorescências filamentosas e macias de sulfato de magnésio [Imagem: L. Esteves]; b)


imagem SEM com seleção para análise pontual por EDS.

4.2.9. Azulejos com danos sem sais associados


Foram registados cinco casos de azulejos com perda de vidrado (três em interiores e os
restantes no exterior) em que não foi detetado qualquer sal. Na varanda do Palácio Real de
Caxias (L/11), os azulejos mostram acentuada perda de vidrado a partir das arestas. Em alguns
casos, a perda ao centro é coincidente com a presença de inclusões na chacota (Fig. 4.30). Era
expectável encontrar-se cloreto de sódio pela proximidade com o mar, mas este só foi
encontrado numa área circunscrita de maior deterioração em dois azulejos junto ao beirado
do telhado. No restante conjunto não foram encontrados sais, quer porque tenham sido
lavados pela chuva nos pontos de colheita, quer por a perda de vidrado ter outras causas. No
outro conjunto de exterior na varanda/miradouro do antigo Convento da Graça (L/9), a perda
de vidrado verifica-se predominantemente ao centro e de forma circular a partir de defeitos de
fabricação (Fig. 4.31a). As chacotas destes painéis apresentam um grande número de
inclusões. Em alguns casos, o empolamento em forma de cone (a que chamamos “em vulcão”),
a partir dos poros, é semelhante à que ocorre nos azulejos da mesma época no Claustro do
MNAz (L/5) (Fig. 4.31b). É também de notar manchas castanhas que delimitam os defeitos de
fabricação e falhas de vidrado, por vezes com correspondência em áreas que evidenciam a

113
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

perda de ligação vidrado/chacota (Fig. 4.31c). No painel que reveste a fachada da varanda do
Convento da Graça, semelhante a L/11, predomina a perda de vidrado a partir das arestas,
com maior incidência nas verticais. Em ambos os edifícios a degradação poderá estar
relacionada com a maior humidificação dos conjuntos decorrente da exposição exterior e
agravada pela inexistência de juntas.
A inacessibilidade ao painel para colheita de amostras não permitiu incluir neste grupo os
azulejos do registo da fachada da Capela de Nossa Senhora da Paz, em Montemor-o-Novo
(I/7), mas a degradação é semelhante. Também neste conjunto e nas falhas de vidrado é
possível identificar a presença de muitas inclusões na chacota.

Figura 4.78

Figura 4.30: Perda de vidrado a partir das arestas e, à direita, pequena inclusão na chacota com
correspondência à perda de vidrado e onde também se nota a delaminação da chacota [Imagens: L.
Esteves, Palácio Real de Caxias. Data da inspeção: junho/2014].

a) b) c)
Figura 4.79

Figura 4.31: a) Perda de vidrado circular e ao centro; b) empolamento em forma de vulcão a partir de
um poro; c) manchas castanhas (de origem biológica?) que delimitam poros e onde é percetível a perda
de ligação vidrado/chacota [Imagens: L. Esteves, Antigo Convento da Graça, Lisboa. Data da inspeção:
julho/2012].

Embora os painéis de exterior estejam sujeitos à lavagem pelas águas pluviais e possa ser essa
uma causa para não ter sido encontrada qualquer espécie salina, a verdade é que também
foram encontrados casos no interior dos edifícios. O frontal de altar da nave da Capela das
Albertas do MNAA (L/6) é exemplo disso. A perda de vidrado parece ocorrer limpa de chacota
e a perda na ligação vidrado/chacota é bem evidente nas periferias do vidrado remanescente

114
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

(Fig. 4.32a). Um outro caso é o de alguns azulejos existentes numa cota alta do revestimento
do Claustrim do MNAz (L/5). Aqui, a perda de decoração é feita pela separação parcial
vidrado/chacota e é numa camada fina mais abaixo na chacota que ocorre o destacamento e
se evidencia a lisura da chacota (Fig. 4.32b). Por fim, na Sacristia da Sé de Viseu (I/5),
encontrou-se um azulejo cuja perda de vidrado ocorre ao centro, a partir de defeitos de
fabricação por enrolamento e onde também não foram encontrados sais associados (Fig.
4.32c). Os empolamentos existentes mostram a deformação da camada vítrea devido a um
craquelé muito fechado e denso que não é evidente nas imagens.

a) b) c)
Figura 4.80

Figura 4.32: Perda de vidrado em azulejos de interior sem sais associados. a) frontal de altar da Capela
das Albertas, MNAA (Data da inspeção: setembro/2014); Claustrim, MNAz (data da inspeção:
julho/2014); Sacristia da Sé de Viseu (Data da inspeção: junho/2014) [Imagens: L. Esteves].

4.3. Considerações finais


Foram identificados sais solúveis e um muito pouco solúvel (o gesso) em quase todos os
conjuntos inspecionados. A maioria não evidenciava eflorescências, excetuando os casos em
que se detetou cloreto de sódio, trona ou sulfato de sódio e, em muito menor escala, sulfato
de magnésio. Os restantes sais eram menos visíveis por apenas terem sido encontrados no
interior da chacota.
A atribuição do dano à presença de sais, e em particular à causa do dano inicial, não pode ser
comprovada apenas por inspeções pontuais como as realizadas, uma vez que não contemplam
o fator da passagem do tempo. Reconhece-se, portanto, que a presença de sais pode ser
circunstancial. No entanto, a recorrência de uma classe de danos associada sempre, ou quase
sempre, ao mesmo sal, sugere fortemente a existência de uma relação causal. Mas, ao
averiguar causas e efeitos, convém também distinguir entre as ações que podem desencadear
processos patológicos num azulejo são e as ações essencialmente oportunistas que
necessitam, por exemplo, de áreas de evaporação causadas por outros processos, para então
propagar o dano já estabelecido.

115
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

A deteção de cinco casos de destacamento do vidrado em curso sem que fosse encontrado
qualquer sal sugere a existência de mecanismos de danos que não necessitam da ação das
cristalizações de sais solúveis. Os dois casos de eflorescências de sulfato de cálcio, associado
ou não ao sulfato de sódio, sem danos visíveis, implicam também que a presença de um
qualquer sal não é causa suficiente de degradação, como já tinha sido notado por outros
autores [Mimoso e Pereira, 2011]. Ao problema interpretativo soma-se o facto de se estar em
presença de azulejos de variada cronologia, fabricados com materiais e parâmetros de
cozedura diferentes, que podem ter sido sujeitos a condições diferentes e até variáveis (como
exemplifica o caso da Capela de Nossa Senhora dos Remédios em Peniche) durante os vários
séculos em que permaneceram integrados arquitetonicamente.
Embora tendo em mente as reservas anteriores, as inspeções realizadas permitiram associar
ao sulfato de cálcio danos por desagregação da chacota. A exfoliação ocorre em profundidade,
nas arestas e nos vértices, e em toda a espessura do azulejo, levando à rotura do vidrado nas
zonas de deformação do cerâmico. Mais raramente foi encontrado sulfato de cálcio sob
vidrados empolados, em áreas com correspondência a poros do vidrado que estabelecem uma
ligação entre a chacota e o exterior, permitindo a evaporação da humidade e eventuais
cristalizações. O sulfato de cálcio surgiu combinado com todas as espécies salinas, mas com
maior associação ao sulfato de magnésio.
O sulfato de magnésio surgiu sempre em conjunto com o sulfato de cálcio, correspondendo
esta associação a uma maior intensidade de danos encontrada ao nível da chacota e da perda
de vidrado.
Ao cloreto de sódio, o segundo sal mais encontrado, as inspeções permitiram associar danos
que ocorrem sobretudo ao nível do vidrado. Foi encontrado na interface vidrado/chacota, em
frentes de destacamento e na chacota exposta após perda de vidrado. A morfologia das
cristalizações é diversa, podendo ocorrer em qualquer zona do azulejo.
A trona foi o terceiro sal mais encontrado. Surge referenciada em bibliografia, juntamente com
o cloreto de sódio e o sulfato de cálcio, como um dos minerais predominantes na orla
marítima, mas desconhecem-se os seus efeitos [Zezza e Macrì, 1995]. Os danos encontrados
nos azulejos onde ocorria são ao nível do vidrado, que se destaca sem chacota aderente,
permanecendo esta lisa e inalterada. É comummente encontrada em exuberantes
eflorescências, muito brancas, macias e de fraca aderência à chacota, mas também em
concreções duras e densas.
Os estudos da pedra apontam os sulfatos como um dos tipos de sal mais frequentemente
encontrados, sendo o de sódio considerado mais danoso pela formação de subflorescências
[Ludovico-Marques e Chastre, 2012; El-Gohary, 2011; Coussy, 2006]. Nos azulejos, este sal só

116
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

foi encontrado isoladamente em três casos. Os danos associados não se revelaram tão
significativos quanto os dos sais anteriores. Ocorrem com mais frequência ao nível do vidrado
e as eflorescências, sob a forma pulverulenta de fina granularidade, surgem nas juntas, falhas
de vidrado e craquelé.
Num mesmo azulejo, a perda de vidrado revela-se sempre um processo sequencial, cuja
propagação em fases é evidente. No entanto, ao contrário do que seria de esperar, a chacota
exposta onde a evaporação é facilitada nem sempre corresponde a uma área de cristalização
preferencial e as cristalizações tendem a concentrar-se na proximidade do vidrado
remanescente. Esta acumulação periférica, possivelmente resultante do fato de ser a última
zona a secar dada a proximidade do vidrado que impossibilita a evaporação e onde, portanto,
se concentra o sal, cria nova frente de destacamento com perfil paralelo ao da perda anterior,
progressivamente maior, até à perda total, sem afetar notavelmente a chacota anteriormente
exposta.
O destacamento do vidrado a partir das arestas é a forma mais comum. Duas hipóteses
explicativas podem ser avançadas: porque é o local onde as arestas estão expostas à
evaporação; ou porque a expansibilidade hídrica causa uma pressão significativa entre azulejos
contíguos, cujo resultado é um dano inicial com rotura do vidrado [Mimoso, 2011].
Os vértices também surgem como um dos locais mais sujeitos à degradação. É um local de
dano comum quando estão presentes o sulfato de cálcio, o sulfato de magnésio e o sulfato de
sódio, ocorrendo por vezes simultaneamente em dois, três ou quatro azulejos confluentes
num mesmo ponto.
Todos os vidrados evidenciam defeitos de fabricação, uns em maior número do que outros,
mas com maior incidência na produção do século XVII. Embora tenham sido encontrados
danos que lhes estavam associados (figuras 6A e 6B) não é, em geral, possível afirmar que
sejam locais onde o dano se tenha iniciado de maneira preferencial. No entanto, os azulejos
manufaturados com técnicas de produção deficientes, reveladas pelo zonamento da chacota
(resultante da má amassadura da pasta) ou pela presença de inclusões de grandes dimensões,
podem favorecer a ocorrência de descontinuidades e vazios no interior que propiciam o dano
ou aumentam as suas consequências.
Os azulejos de Coimbra parecem evidenciar maior propensão para a degradação do que os da
produção de Lisboa. Esta resposta à ação de agentes externos parece estar relacionada com
deficiências no processo de fabricação (temperatura de cozedura) ou com pastas de
composição diversa. A ocorrência de craquelé é comum (pouco frequente nos azulejos
contemporâneos de produção lisboeta) e a queda de vidrado a partir das arestas e vértices dá-

117
Capítulo 4: Resultados das inspeções a obras

se em mosaico com uma porção de chacota aderente, sugerindo uma rotura propiciada pela
expansibilidade hídrica a cujas tensões o material cerâmico não resiste.
A qualidade da fabricação, entendida como a capacidade de resistir a agressões degradativas,
surge, assim, como fator de influência cuja consideração é indispensável ao entendimento do
comportamento dos azulejos na presença de sais solúveis.

118
Capítulo 5
Amostras estudadas e caracterização

5.1. Amostras usadas no ensaio de envelhecimento salino


Foram selecionados 26 azulejos com datas de produção compreendidas entre os séculos XVII e
XIX, agrupados por formas de degradação prévia semelhantes e predominantes e
sistematizados em três grandes grupos de acordo com a época de produção22 (Tabela 5.1.1).
Num contexto de obra, detetaram-se formas típicas na perda de vidrado: a) começando nas
arestas, com tendência a progredir para o centro; b) iniciando-se ao centro, propagando-se no
sentido das arestas; c) junto aos vértices, com prolongamento segundo as arestas; e d) em
poros e outros defeitos de fabrico, que se pretendeu representar nas amostras de ensaio.
Partindo de algumas destas formas típicas, foi usado um código alfanumérico para
identificação, correspondendo as letras à degradação apresentada pelo azulejo:
 C – vidrado com craquelé demarcado;
 Pc– falhas de vidrado nas arestas com progressão para o centro;
 Cp – falhas de vidrado no centro com progressão para as arestas;
 B – bom estado de conservação, embora apresente algum craquelé e pequenas falhas;
 F – vidrado pardo atribuível a uma formação deficiente da estrutura amorfa;
 EMP – vidrado com sinais de separação da chacota (empolamento).
Incluíram-se no grupo três azulejos de Coimbra do século XVIII, cuja produção aparenta menor
resistência aos agentes de degradação pretendendo-se testar essa noção. Uma das amostras
de Coimbra, B2, é composta por dois fragmentos (A e C) pertencentes a painéis diferentes mas
presumivelmente da mesma produção. Nos azulejos de produção de Lisboa foi utilizada a
mesma solução por falta de uma unidade inteira no caso da amostra B4.
Foram escolhidos três azulejos de espiga do período de produção 1620-1670 presumivelmente
provenientes do mesmo revestimento (referenciados como C2, C3 e C4) por apresentarem
níveis diferentes de craquelé. Através destas amostras pretendeu-se verificar o

22
As datações foram estabelecidas pelo Dr. Alexandre Pais do Museu Nacional do Azulejo com base em
cronologias conhecidas e experiência própria.

119
Capítulo 5: Amostras estudadas

comportamento, nos ensaios de envelhecimento, de azulejos idênticos com diferentes graus


de degradação anterior.
Dois azulejos, Pc3 e EMP1, evidenciavam colonização biológica e extensas falhas de vidrado,
talvez resultantes da sua provável aplicação em exterior.
A opção pelo uso de azulejos históricos e o facto de os ensaios serem necessariamente
destrutivos não nos permitiram basear a campanha experimental num mesmo número de
azulejos com idêntica degradação por cada período de produção. Na tabela 5.1 estão
representados os azulejos utilizados nos ensaios, agrupados por períodos de produção, com
identificação alfanumérica.

Tabela 5.1: Azulejos estudados sistematizados por época de produção.

Refª. Cronologia Observação da superfície Figuras

1630-1640
Craquelé evidente e pequenas falhas de vidrado nas
C1 Lisboa
arestas.

Falhas de vidrado ao centro e arestas. Várias linhas


1620-1670 de fissura nas arestas com prolongamento para a
Cp1
Lisboa chacota. Vidrado pouco brilhante, com craquelé e
algum desnível entre as respetivas tesselas.

C5 1620-1670 Craquelé muito evidente.


Lisboa

120
Capítulo 5: Amostras estudadas

Bom estado de conservação. Duas linhas de fissura


B1 1620-1670
Lisboa nas arestas que se prolongam para a chacota.

Algum craquelé e linhas de fissura nas arestas.


C2 1620-1670
Lisboa Falhas de vidrado nas arestas.

1620-1670 Craquelé denso evidenciado pela coloração negra.


C3
Lisboa Falhas de vidrado a partir das arestas.

1620-1670 Craquelé denso, mas mais aberto e evidenciado que


C4
Lisboa no provete anterior.

1620-1670 Bom estado de conservação. Apresenta apenas


B7
Lisboa defeitos de fabricação (fendas).

121
Capítulo 5: Amostras estudadas

1650-1690 Falhas de vidrado com maior predominância ao


Cp2
Lisboa centro. Camada vítrea mate.

Craquelé e linhas de fissura bem evidenciadas. O


1690-1710
C7 centro evidencia uma pequena área com
Lisboa
empolamento.

Algum craquelé e falha de vidrado na aresta


1700-1720
C10 possivelmente provocada pela ação mecânica
Lisboa
exercida no levantamento.

1700-1720
Cp4 Falha de vidrado de grande dimensão ao centro.
Lisboa

1700-1720
Pc2 Falhas de vidrado a partir das arestas.
Lisboa

122
Capítulo 5: Amostras estudadas

1700-1720
B6 Bom estado de conservação.
Lisboa

1700-1720 Falhas de vidrado a partir das arestas e


EMP2
Lisboa empolamento do vidrado.

1710-1740
C6 Craquelé e fissuras no vidrado.
Lisboa

Falha de vidrado a partir da aresta de fratura.


1700-1750
Pc1 Craquelé pouco evidenciado e grande número de
Coimbra
poros.

Craquelé evidente mas ainda com pequena


1700-1750
C11 abertura. Grande número de poros e uma fenda de
Coimbra
fabrico no interior da área vidrada.

123
Capítulo 5: Amostras estudadas

1750-1780 Falhas de vidrado a partir das arestas. Chacota com


Pc3
Lisboa vestígios de bio colonização.

1750-1780 Falhas de vidrado a partir das arestas e


EMP1
Lisboa empolamento do vidrado.

1760-1780 Falha de vidrado ao centro coincidente com uma


Cp3
Lisboa inclusão na chacota.

B2 1760-1780 Bom estado de conservação. Craquelé pouco


Coimbra evidente.

1780-1800
B4 Bom estado de conservação.
Lisboa

1790-1820 Algum craquelé evidente, especialmente nas áreas


C9
Lisboa pintadas de cor amarela.

124
Capítulo 5: Amostras estudadas

1790-1820 Vidrado com pigmentação acastanhada e algumas


F1
Lisboa falhas de vidrado a partir das arestas.

1790-1820
C8 Superfície com craquelé.
Lisboa

5.1.1. Caracterização química-mineralógica


i) Vidrado
Os resultados semi-quantitativos da composição dos vidrados (wt.%) obtidos por análise EDS
estão representados na tabela 5.2 para fins comparativos.
Como seria de esperar, tratando-se de vidrados plúmbicos, os teores mais altos correspondem
ao silício e chumbo. Expressos em termos de óxidos, o teor de SiO2 medido varia entre 29,0 %
e 49,8 % para os azulejos de Lisboa e entre 28,9 % e 40,2 % para os de Coimbra.
A variação de PbO para a produção de Lisboa é entre 23,7 % e 49,2 % e para a produção do
norte, obtiveram-se valores entre 30,1 % e 52,8 %. Os primeiros azulejos da produção de
Coimbra do século XVIII (Pc1, C11) são os que apresentam maior teor de PbO e o valor mais
alto, obtido no azulejo C11, é coincidente com o mais baixo teor de K2O. Os elevados teores
deste composto estão em conformidade com as superfícies muito brilhantes dos azulejos
deste centro de produção, comparativamente com as de Lisboa. A maior presença de PbO nos
vidrados de Coimbra foi também observada por Vieira Ferreira et al [2015a].
K2O varia entre 3,5 % e 12.3 % (Lisboa) e nos exemplares de Coimbra registaram-se valores
mais baixos, de 3,9 % a 6,2 %.
Embora a cor e a heterogeneidade das chacotas do século XVII tornem difícil a obtenção de um
bom vidrado branco, verifica-se no entanto o emprego de menores teores de SnO2 como
opacificante (4,1 % a 7,2 %). Na totalidade das amostras de Lisboa SnO2 varia entre 3,5 % e
10,9 %. Ainda que as chacotas de Coimbra apresentem homogeneidade e cor clara, é nesta

125
Capítulo 5: Amostras estudadas

produção que o estanho tem maior aplicação (8,7 % a 11,3 %). Entre os séculos XVIII e XIX dá-
se um acréscimo de concentração deste opacificante o que poderá estar relacionado com a cor
avermelhada do suporte cerâmico. Não foram obtidos valores para o estanho em três azulejos
mas a sua presença pode ser confirmada através de espectros de XRF (Fig. 5.1).
Pulses

5
10

4
10

Sn Sn Sn
3
10

2
10

10

0 10 20 30 40
- keV -

Figura 5.81

Figura 5.1: Espectro de XRF do vidrado branco com os picos de estanho nos azulejos C5 (vermelho), C6
(azul) e C7 (verde).

Al2O3 varia entre 4,4 % e 7,4 % (Lisboa). Nos exemplares de Coimbra obtiveram-se valores mais
baixos entre 2,7 % e 5,2 %.
Os teores de MgO mais frequentes obtidos nas amostras de Lisboa variam entre 0,1 % e 0,8 %.
Contudo, uma das amostras (Cp1) difere do conjunto com o teor de 1,8 %. Nos exemplares de
Coimbra, os valores obtidos são sempre altos, com variação entre 0,5 % e 1,2 %, facto que se
admite poder estar relacionado com a composição das chacotas utilizadas serem mais ricas em
magnésio (com dolomias e/ou margas dolomíticas) comparativamente a Lisboa (calcários e/ ou
margas calcíticas). Esta hipótese é confirmada pelos teores de CaO em Lisboa (entre 0,9 % e
4,9 %) serem mais elevados do que nas amostras de Coimbra (sem cálcio ou com valores de
2,1 % e 2,6 % numa das amostras).
ZnO foi detetado na composição do vidrado de quatro azulejos do século XVII três dos quais
com amarelo na decoração. O outro exemplar é um dos azulejos da espiga. O cobre
encontrado na composição do vidrado do azulejo de Coimbra B2A não deverá representar um
traço composicional mas apenas contaminação pelo pigmento verde utilizado na pintura do
mesmo azulejo.

126
Capítulo 5: Amostras estudadas

Tabela 5.2: Composição química do vidrado (análise semi-quantitativa) de 27 azulejos, agrupados e distribuídos evolutivamente por períodos de produção dos séculos XVII,
XVIII e XIX (wt%., normalizado a 100%).

Datação Amostras Na2O MgO Al2O3 SiO2 K2O CaO TiO2 Fe2O3 ZnO SnO2 PbO CuO Pb/Si
C1 3,4 0,5 5,2 31,2 3,5 2,3 - 0,9 - 6,9 46,1 - 1,5
Cp1 2,8 1,8 5,8 39,3 9,1 4,9 - 1,1 2,8 6,5 25,8 - 0,7
C5 1,9 0,8 5,5 37,1 11,7 2,4 0,1 0,9 1,5 nd 38,4 - 1,0
B1 4,1 0,8 6,1 38,0 5,4 2,0 - 1,2 1,8 4,4 36,4 - 0,9
1620-1710

C2 2,9 0,6 5,2 36,3 7,0 1,5 - 0,9 - 6,6 39,1 - 1,1
C3 2,6 0,6 5,5 40,4 6,3 2,4 - 1,1 - 4,1 37,0 - 0,9
C4 3,3 0,8 5,7 43,7 5,2 1,8 0,0 0,9 - 3,5 35,1 - 0,8
B7 3,0 0,4 7,4 46,0 11,4 2,0 0,4 0,8 - 5,0 23,7 - 0,5
Cp2 1,1 0,5 4,7 49,8 8,6 4,0 - 0,6 - 7,2 23,7 - 0,5
C7 1,4 0,4 6,1 39,6 12,3 3,2 0,1 0,9 - nd 36,0 - 0,9
C10 3,2 0,1 7,0 42,6 9,6 2,9 0,1 1,1 - 7,9 25,5 - 0,6
Cp4 2,6 0,4 5,6 37,6 4,8 1,0 - 0,7 - 7,0 40,3 - 1,1
Pc2 3,0 0,2 6,4 42,3 8,8 1,4 - 0,5 - 7,3 30,0 - 0,7
B6 2,9 0,2 6,7 41,5 10,2 1,6 0,4 0,6 - 8,7 27,3 - 0,6
EMP2 3,6 0,4 6,4 47,6 7,2 2,4 0,4 0,8 - 6,7 24,6 - 0,6
C6 1,9 0,1 6,4 43,9 9,8 2,5 0,2 0,9 - nd 34,4 - 0,8
1700-1800

Pc1* 1,8 0,7 3,3 31,0 6,4 - - - - 9,7 47,2 - 1,5


C11* 2,2 0,5 2,7 29,0 3,9 - - 0,3 - 8,7 52,7 - 1,8
Pc3 3,3 0,4 6,5 36,3 10,8 2,6 - 0,5 - 6,9 32,7 - 0,9
EMP1 3,9 0,4 5,2 37,0 6,3 1,7 - 0,4 - 6,4 38,8 - 1,1
Cp3 3,0 0,5 7,1 44,0 11,4 0,9 0,3 0,8 - 6,5 25,6 - 0,6
B2C* 4,4 1,1 4,9 40,2 5,1 2,1 - 0,9 - 11,3 30,1 - 0,8
B2A*# 3,9 1,2 5,2 36,7 6,2 2,6 - 0,8 - 9,8 32,9 0,8 0,9
B4 3,5 0,4 5,9 38,4 6,4 1,4 - 0,5 - 11,0 32,5 - 0,9
C9 2,2 0,1 5,2 33,2 8,0 - - 0,6 - 10,9 40,0 - 1,2
1790-
1820

F1 2,5 0,6 5,5 42,6 10,4 2,0 - 0,5 - 8,0 27,8 - 0,7
C8 3,1 0,1 4,4 28,8 4,7 0,9 - 0,4 - 8,4 49,2 - 1,7

127
Capítulo 5: Amostras estudadas

Os resultados permitiram agrupar e caracterizar os exemplares de Coimbra pelos elevados


teores de MgO, SnO2 e PbO e menores de Al2O3 e de CaO.
Os dois azulejos do séc. XVII (Cp1 e Cp2) que mostram fragilidade e superfície mate
apresentam em comum baixos teores de PbO e altos teores de CaO. Cp2 é o azulejo que
regista maiores diferenças composicionais relativamente aos valores obtidos nos restantes
azulejos do mesmo século.
No último grupo de azulejos (1790-1820) F1 distancia-se composicionalmente dos restantes. O
resultado obtido para B4, por outro lado, integra-o neste grupo.

ii) Chacota
A tabela 5.3 contém os resultados obtidos por análise EDS, de alguns provetes, de duas zonas
diferentes das chacotas: uma mais próxima da interface e outra mais afastada. As diferenças
de teores encontradas estão relacionadas com a interação com o vidrado durante a cozedura e
por isso, os valores utilizados na discussão seguinte referem-se às áreas mais afastadas da
interface.
As análises composicionais das chacotas revelam a percolação do chumbo em toda a sua
espessura, resultado da porosidade e da interação do vidrado e com a chacota durante a
cozedura [Molera et al., 2001a; Coroado e Gomes, 2003]. Cp2 e Cp3 foram as exceções ao não
se ter detetado PbO na área mais afastada da interface.
As análises revelaram, para o centro de produção de Lisboa, elevados teores de CaO que
variam entre 27,2 % e 50,2 %, acompanhado do menor teor de SiO2 (27,7 % - 41,4 %) e Al2O3
(7,3 % - 15,6 %).
A produção de Coimbra é pobre em CaO (24,0 % - 30,2 %) sendo SiO2 o maior componente
com teores que variam entre 34,0 % e 42,6 % e Al2O3 com 15,9 % e 17,3 %. A maior presença
de MgO diferencia esta produção da de Lisboa [Vieira Ferreira et al., 2015a] resultado da
abundância local de dolomias e/ ou margas dolomíticas.

128
Capítulo 5: Amostras estudadas

Tabela 5.3: Composição química da chacota por EDS com duas zonas de observação agrupados e distribuídos evolutivamente por períodos de produção dos séculos XVII,
XVIII e XVIII-XIX, em wt.%. As colunas com o símbolo + e a cinzento correspondem às zonas mais próximas da interface; os valores nas colunas com símbolo ++ são de áreas
mais afastadas da interface.

Amostras Na2O MgO Al2O3 SiO2 K2O CaO TiO2 Fe2O3 PbO Cl S P
* ** + ++ + ++ + ++ + ++ + ++ + ++ + ++ + ++ + ++ * ** + ++
C1 1,1 1,0 1,8 2,5 9,9 10,4 43,1 31,6 2,0 2,2 28,3 41,0 1,0 1,0 5,9 6,1 7,1 4,3
Cp1 2,2 1,6 3,4 0,8 11,1 11,3 32,6 28,9 1,3 0,5 39,8 46,0 1,1 0,9 5,6 5,6 3,0 1,4
C5 1,2 1,0 1,7 1,7 6,7 10,0 25,3 27,2 1,6 1,9 51,8 48,5 0,7 0,6 6,1 6,2 5,0 2,9
C2 1,8 3,7 1,5 2,1 10,9 15,5 43,5 39,3 2,7 2,7 28,6 28,4 0,9 0,8 6,3 5,6 4,1 2,0
C3 1,5 1,3 1,8 2,1 17,4 13,4 31,6 31,1 2,1 1,6 35,7 40,0 0,6 0,7 7,3 6,9 6,9 3,0
C4 2,8 1,5 1,7 2,1 15,4 12,8 43,2 33,7 8,0 2,3 22,5 36,4 0,6 1,0 3,7 6,8 2,2 3,1
Cp2 1,1 1,5 3,2 2,5 9,2 11,3 31,1 28,4 0,9 3,9 46,3 46,8 1,1 0,6 4,8 3,8 1,2 nd 0,7 0,4
C7 1,7 1,6 2,5 2,6 9,1 8,8 24,5 27,7 1,3 1,1 47,4 46,3 0,7 0,6 7,5 6,7 5,4 4,6
C10 1,3 1,2 1,7 1,9 7,8 8,9 25,7 28,2 1,5 1,6 52,9 48,6 0,5 0,6 4,9 6,5 3,6 2,4 0,2 0,1 0,1
C6 0,9 0,7 2,6 3,0 6,9 7,3 46,0 41,4 1,1 1,2 32,8 41,2 0,5 0,6 4,7 4,7 4,4 5,4
C11* 1,9 0,9 3,7 4,1 17,1 17,3 34,6 34,0 3,6 2,8 23,9 30,2 0,7 0,8 4,1 4,8 10,4 5,2
EMP1 1,1 0,9 2,2 2,3 9,2 8,6 33,1 28,1 1,5 1,4 43,9 49,8 0,8 3,0 4,8 4,0 3,5 0,7 0,8 0,5
Cp3 1,5 1,1 3,3 2,6 11,0 8,9 30,6 30,5 1,7 1,0 42,4 49,2 0,8 1,0 5,4 4,7 3,0 nd 0,6 0,4 0,4
B2C* 1,9 0,9 5,2 6,1 18,5 17,1 39,7 37,8 4,1 2,0 13,0 28,0 1,3 0,9 6,8 6,0 1,5 0,2 1,0 1,1 0,8
B2A*# 1,5 1,4 3,8 3,4 17,5 15,9 39,0 42,6 5,2 5,0 23,6 24,0 1,1 1,4 4,0 4,2 4,2 2,6
C9 1,8 1,6 1,8 1,9 14,3 15,6 38,2 39,5 4,1 3,1 25,6 27,2 0,9 1,1 7,3 8,2 5,9 1,9 0,2 0,1
F1 1,5 1,0 3,1 2,3 11,6 8,8 27,7 29,5 1,0 0,7 42,8 50,2 1,0 0,8 6,5 5,0 2,7 0,7 1,4 0,9 0,6
C8 2,4 1,8 1,6 1,9 13,0 13,3 35,9 35,0 5,0 2,5 26,7 32,6 1,7 1,0 7,6 9,0 6,1 2,9 0,1

129
Capítulo 5: Amostras estudadas

Os carbonatos existentes na pasta eram transformados aquando da cozedura da chacota e na


cozedura do vidrado já só deveriam existir óxidos de cálcio e magnésio bem como espécies
neoformadas por contato. Um outro estudo realizado no LNEC mostrou que os azulejos
ganhavam massa numa câmara de carbonatação e que nalguns casos os espaços intersticiais
da chacota estavam preenchidos com carbonato de cálcio atribuível à percolação de água de
cal proveniente dos suportes [Chaban et al., 2015]. Assim, a presença de um teor considerável
de calcite na chacota poderá constituir um indicador da aplicação passada do azulejo em
paredes húmidas, pelo que foi decidido determinar o teor de carbonatos nas chacotas de 12
azulejos por TGA/DTA (tabela 5.4). Considerando que a perda de massa está associada à
presença de carbonatos adquiridos no contacto do azulejo à argamassa de assentamento,
selecionou-se preferencialmente azulejos em bom estado inicial, tentando determinar aqueles
cuja condição representasse uma particular resistência às ações degradativas. Este conjunto
foi complementado com amostras em pior estado de conservação.

Tabela 5.4: Percentagem de carbonatos nas chacotas por TGA/DTA.

Amostras Perda de massa Teor de carbonatos


(%) (%)
C2 6,24 14
B7 5,52 13
Cp2 10,10 23
C7 5,41 12
B6 11,42 26
C6 10,91 25
Pc1* 4,99 11
B2C* 1,32 3
B2A*# 2,28 5
C9 4,01 9
F1 6,24 14
C8 3,85 9
(*Coimbra) (# usado no ensaio da água)

Os azulejos B6, C6 e Cp2 apresentaram maior perda percentual de massa e teor de carbonatos.
Nos dois fragmentos de Coimbra (B2C, B2A) obtiveram-se os valores mais baixos o que poderá
significar menor percolação de fluidos durante o período em que estiveram aplicados em obra
e, portanto, condições externas mais propícias à boa conservação. Os azulejos mais modernos
(C8 e C9) enquadram-se também na mesma classe.
Os valores mais elevados de 26 % e 25 % em teores de carbonatos correspondem a azulejos do
mesmo período (B6 e C6) mas em diferentes estados de conservação iniciais. Os resultados
sugerem que ambos foram sujeitos à percolação de fluidos provenientes do suporte, aos quais
apenas B6 resistiu.

130
Capítulo 5: Amostras estudadas

Os resultados da composição mineralógica de algumas chacotas por XRD constam da tabela


5.5. O quartzo, o principal constituinte das chacotas, está presente em todas as amostras. As
outras formas cristalinas atribuíveis a componentes da pasta que ocorrem com mais
frequência são a andradita e a leucita. A calcite, já referida atrás, deriva da carbonatação do
óxido de cálcio e, eventualmente, da água de cal que tenha circulado no meio poroso. A
anortite e a wollastonite formam-se da gelenite, e são definidas como formas cristalinas de
alta temperatura [Cultrone et al., 2001]. A formação de diópsido, outra fase cristalina de
temperatura alta (c.1000 ᵒC), ocorre tipicamente quando a pasta contém dolomite [Cultrone et
al., 2001] e neste caso encontra-se nas três amostras atribuíveis à produção de Coimbra e em
quatro outros casos. A sanidina surge a temperaturas entre 1000 e 1100 ᵒC e forma-se a partir
da microclina [Cultrone et al., 2001].
Vieira Ferreira et al. [2015a] distinguem a produção de Coimbra do século XVII, da de Lisboa e
Vila Nova de Gaia, pelo maior teor de diópsido e anortite. Os mesmos autores referem a
inexistência de andradite na produção de Coimbra, mas este mineral foi encontrado no azulejo
Pc1.
Os resultados obtidos na XRD parecem mostrar que alguns azulejos (C5, B1, B7, C7, Pc1, B4, C9
e C8) terão sido submetidos a temperaturas mais altas, pois a formação franca de wollastonite
e anortite apenas foram detetadas acima de 1000 ᵒC por Cultrone et al. [op. cit.]. Os mesmos
autores detetaram a formação de sanidina (presente com elevado teor em C2) acima de 1000
ᵒC e em condições de cozedura lenta.
Não foram detetadas formas cristalinas de alta temperatura nos azulejos F1 e Cp2 o que pode
apontar para temperaturas de cozedura inferiores a 1000 ᵒC.
A escapolite23, conhecida como um mineral de alteração dos feldspatos, foi detetada no
azulejo C6 que sofreu danos significativos no ensaio de envelhecimento. A presença de uma só
forma cristalina de alta temperatura (gelenite) poderá indicar que este exemplar terá sido
cozido a uma temperatura próxima dos 900 ᵒC).

23
http://www.minerals.net/mineral/scapolite.aspx

131
Capítulo 5: Amostras estudadas

Tabela 5.5: Composição mineralógica das chacotas por XRD. A referência Mg que surge com alguns valores corresponde à forma mineral magnesiana. Os valores semi-
quantitativos representam a % de cada fase em relação à totalidade das espécies cristalinas constantes da Tabela: Quartzo SiO2; Anortite CaAl2Si2O8 ; Diópsido Ca(Mg,Al)(Si,Al)2O6
; Gelenite Ca2Al(AlSiO7); Calcite Ca(CO3); Andradite Ca3Fe2Si3O12 ; Wollastonite CaSiO3 ; Muscovite KAl3Si3O10(OH,F)2 ; Leucite K(AlSi2O6); Sanidina K(Si3Al)O8 ; Microclina KAlSi3O8 ; Akermanite
Ca2Mg(Si2O7); Escapolite (Na,Ca)4(Al,Si)3Si6O24)(Cl,CO3,SO4); Analcite NaAlSi2O8 ; Perovskite CaTiO3.

S-Q (%)
Amostras Quartzo Anortite Diópsido Gelenite Calcite Andradite Wollastonite Muscovite Leucite Sanidina Microclina Akermanite Akermanite-gelenite Escapolite Analcite Perovskite

- - 3,9
C5 13,6 - - 43,0 25,9 - 8,2 - 5,6 - - - -
- 2,8
B1 41,5 7,1 13,4 13,9 9,9 (Mg) - 11,5 - - - - - -
-
C2 19,1 19,4 22,0 9,6 (Mg) 8,0 1,6 - - 2,1 18,2 - - -
-
B7 26,1 - 18,3 (Mg) 23,6 11,0 5,3 15,9 - - - - - -
-
Cp2 12,1 - - - 27,4 5,5 - - - - 16,0 40,0 -
-
C7 12,3 - - 63,8 - 8,5 15,3 - - - - - -
-
C10 11,1 - - 45,4 35,4 7,1 - - 1,0 - - - -
-
Cp4 19,0 - - 37,0 36,0 3,4 - - - - 5,0 - -
-
Pc2 13,5 - - 54,3 24,8 5,9 - - 1,6 - - - -
-
B6 10,7 - - 48,1 35,4 4,3 - - 1,5 - - - -
C6 7,6 - - 38,4 20,2 (Mg) - - - 1,6 - - 20,5 - 11,7
-
Pc1* 18,1 26,7 12,1 3,1 (Mg) 2,6 2,8 31,3 3,4 - - - - -
-
B2C* 15,7 45,3 32,0 - - - - - 1,0 - - - -
-
B2A*# 28,5 43,9 17,5 4,6 (Mg) - - - - 5,4 - - - -
-
Cp3 20,0 - - 41,8 25,5 7,9 - - - - 4,3 - -
- 1,5
B4 24,5 36,2 13,7 8,7 8,6 - 6,9 - - - - - -
-
C9 25,3 30,4 29,5 5,2 7,6 (Mg) 0,9 - - 1,2 - - - -
-
F1 20,4 - - - 24,2 4,9 - - - - 20,9 - 29,7
-
C8 22,2 26,5 17,8 7,0 5,1 1,0 - - - - 20,4 - -

132
Capítulo 5: Amostras estudadas

5.1.2. Caracterização física


i) Vidrado
As observações por SEM mostram vidrados heterogéneos com a presença de bolhas de
diferentes tamanhos e, exceto por pequenos grãos de sílica, mais ou menos limpos de
inclusões. Esta técnica permitiu caracterizar tipos de craquelé que estão associados à perda de
vidrado. O tipo 1 (ver p. 27) predomina no século XVII e é correspondente ao encontrado em
obra onde se verifica com maior frequência a perda de vidrado com chacota agarrada. Nos
dois últimos períodos encontraram-se os dois tipos de fissuração, mas com maior ocorrência
do tipo 2 (Fig. 5.2).
A espessura do vidrado não deve servir como elemento de caraterização entre as diferentes
produções já que depende inteiramente da fabricação, podendo variar de acordo com a
viscosidade no momento da aplicação e do método de vidragem. É por isso que as variações
de espessura são grandes e não distintivas dos diferentes séculos: séc. XVII, entre 100 e 620
µm; séc. XVIII, 390-890 µm; séc. XVIII-XIX, 290-620 µm (tabela 5.6).

133
Capítulo 5: Amostras estudadas

Período de produção 1620-1710

C1 Cp1 C5 B1

Craquelé Tipo 1 Craquelé Tipo 1; 2 Craquelé Tipo 1 Craquelé Tipo 1

C2 C3 C4 B7

Craquelé Tipo 1 Craquelé Tipo 1 Craquelé Tipo 1

Cp2 C7

Craquelé Tipo 2 Craquelé Tipo 1

134
Capítulo 5: Amostras estudadas

Período de produção 1700-1800

C10 Cp4 Pc2 B6

Craquelé Tipo 2; 1 Craquelé Tipo 2 Craquelé Tipo 1

EMP2 C6 Pc1* C11*

Craquelé Tipo 2 Craquelé Tipo 2 Craquelé Tipo 1 Craquelé Tipo 1

Pc3 EMP1 Cp3 B2C*

Craquelé Tipo 2 Craquelé Tipo 2 Craquelé Tipo 2 Craquelé Tipo 1

135
Capítulo 5: Amostras estudadas

Período de produção 1700-1800

B2A*# B4

Craquelé Tipo 1

Período de produção 1790-1820

Figura 5.82

C9 F1 C8

Craquelé Tipo 1 Craquelé Tipo 2 Craquelé Tipo 1


(*Coimbra); (# usado no ensaio da água)

Figura 5.2: Imagem em SEM/EDS acompanhada da imagem do respetivo provete. Nas vistas de secções a camada superior (cinzento claro) corresponde ao vidrado, onde
num grande número de casos é possível a identificação do tipo de craquelé. A camada inferior (cinzento médio) é a chacota.

136
Capítulo 5: Amostras estudadas

Tabela 5.6: Espessuras dos vidrados obtidas no SEM.


Datação Amostras Espessura Datação Amostras Espessura Datação Amostras Espessura
(µm) (µm) (µm)
C1 100-120 C10 700 C9 290
Cp1 230-290 Cp4 700 F1 400-410
C5 400 Pc2 570 C8 620
B1 400 B6 530
C2 400-430 EMP2 450
C3 510-530 C6 890
1620-1710

1700-1800

1790-1820
C4 570 Pc1* 390
B7 670 C11* 620
Cp2 180-210 Pc3 410
C7 550 EMP1 450-460
Cp3 570-600
B2C* 440-450
B4 430
*Coimbra

Todos os vidrados apresentam pequenos poros ou pinholes, resultantes da libertação de gases


durante a cozedura. No entanto, os dois azulejos de Coimbra de mesma época de produção
(Pc1 e C11) diferenciaram-se pela presença de um número elevado de poros à superfície. Por
observação dos conjuntos na coleção do Museu Nacional do Azulejo verificou-se que este
defeito pode surgir em larga escala numa superfície vítrea. Um dos objetivos na obtenção de
um bom vidrado é exatamente a redução do número de defeitos provocadas pela libertação
de gazes durante a decomposição e cujo processo está dependente, além da desgaseificação
provocada pela primeira cozedura, da temperatura de cozedura e viscosidade do vidrado [Tite
et al., 1998]. A viscosidade deverá ser suficientemente baixa para deixar escapar as bolhas e
preencher os poros mas suficientemente alta para prevenir a escorrência do vidrado.

ii) Chacota
As secções de corte foram digitalizadas com resolução de 600 dpi e ilustram-se na tabela 5.7.
As notas seguintes são baseadas unicamente nas amostras utilizadas.
A espessura dos azulejos ao longo dos séculos, mostrando embora variações mesmo entre
produções contemporâneas, demonstra uma tendência decrescente obtendo-se a média de 15
mm para o séc. XVII, de 13 mm no séc. XVIIII e de 11 mm para o início do séc. XIX.
Considerando os valores registados e retirando os casos de exceção (C1 e EMP2) os valores
obtidos, de espessura mínima e máxima, são de 12-16 mm no séc. XVII, 11-14 mm no séc. XVIII
e na passagem para o século seguinte de 10-12 mm.

137
Capítulo 5: Amostras estudadas

A cor da chacota também mostra diferenças embora sejam mais distintas na transição para o
século XIX. Na primeira metade do século XVII a cor da chacota é bastante amarelada e
predominam filamentos de barro vermelho em toda a espessura do azulejo decorrentes da má
amassadura de diferentes argilas. A mistura de argilas de diferentes barreiros foi uma prática
comum em Portugal no século XVII em que predominava o uso de argilas brancas, mas a
junção de barro vermelho era necessária para aumentar a plasticidade [Vieira Ferreira et al.,
2015a]. As inclusões, areias e vazios alongados são também características desta época. C1 é a
exceção pela homogeneidade e espessura da chacota.
A cor adquire uma tonalidade bege, amarelada ou avermelhada, no século XVIII. Aqui
encontraram-se, ao examinar as seções, dois tipos de superfície: i) compacta e com poucos
poros; ii) com muitos poros alongados e circulares. A chacota de Coimbra, de aspeto compacto
e homogéneo, é de uma totalidade bege rosada. Por fim, as chacotas das amostras datáveis do
século XIX caracterizam-se pela coloração avermelhada e chacota densa. A exceção é F1 cujas
características se enquadram na época anterior.
Reconhece-se que a homogeneidade das chacotas aumenta com o passar dos séculos.

138
Capítulo 5: Amostras estudadas

Tabela 5.7: Observação macroscópica de seções das superfícies de corte dos azulejos.
Refª. Cronologia Observação da superfície Espessura Observações

Chacota amarelada compacta


com pequenos poros circulares
C1 1630-1640 18 mm e alongados; areias; inclusões;
Lisboa
craquelé tipo 1 com propagação
vertical na chacota.

Chacota amarelada com poros


circulares e alongados;
Cp1 1620-1670 13 mm marmoreada de filamentos de
Lisboa barro vermelho e bege
decorrentes da amassadura;
inclusões; areias.

Chacota amarelada com


pequenos poros circulares e
C5 1620-1670 14 mm alongados; finos filamentos de
Lisboa
barro vermelho; inclusões;
vazios alongados; areias.

Chacota amarelada com


grandes e pequenos poros
circulares e alongados; finos
B1 1620-1670 12 mm filamentos de barro vermelho;
Lisboa
inclusões (as vermelhas de
grande dimensão); grandes
vazios alongados; areias.

Chacota amarelada com poros


circulares e alongados;
C2 1620-1670 15 mm filamentos de barro vermelho;
Lisboa inclusões (as vermelhas de
grande dimensão); muitos
vazios alongados; areias.

Chacota amarelada com poros


circulares e alongados;
filamentos de barro vermelho;
C3 1620-1670 15 mm inclusões vermelhas e beges de
Lisboa grande dimensão; vazios
alongados; areias; craquelé tipo
1; linhas de craquelé com
origem na chacota.
Chacota amarelada com poros
circulares e alongados;
filamentos de barro vermelho;
C4 1620-1670 16 mm inclusões vermelhas, pretas e
Lisboa
beges; vazios alongados; areias;
craquelé tipo 1 com propagação
vertical na chacota.

139
Capítulo 5: Amostras estudadas

Chacota amarelada com poros


circulares e alongados; finos
B7 1620-1670 12 mm filamentos de barro vermelho;
Lisboa pequenas inclusões vermelhas
e pretas; vazios alongados;
areias.

Chacota amarelada compacta


Cp2 1650-1690 13 mm com poros alongados e
Lisboa
circulares; areias.

Chacota amarelada compacta


C7 1690-1710 14 mm com alguns poros alongados e
Lisboa circulares; vazios alongados e
algumas inclusões.

Chacota bege compacta com


C10 1700-1720 12 mm poros circulares e alongados;
Lisboa
poucas inclusões.

Chacota amarelada
avermelhada compacta com
Cp4 1700-1720 13 mm alguns poros alongados e
Lisboa
circulares; vazios alongados e
poucas inclusões.

Chacota amarelada com


Pc2 1700-1720 14 mm grandes poros alongados e
Lisboa circulares; vazios alongados e
inclusões.

Chacota amarelada com


B6 1700-1720 12 mm grandes poros alongados e
Lisboa
circulares; vazios alongados.

Chacota amarelada compacta


EMP2 1700-1720 18 mm com poros alongados e
Lisboa circulares; inclusões; vazios
alongados; craquelé do tipo 2.

140
Capítulo 5: Amostras estudadas

Chacota amarelada compacta


com alguns poros alongados e
C6 1710-1740 14 mm circulares; efeito de
Lisboa marmoreado claro; vazios
alongados e pequenas
inclusões.

Chacota bege compacta com


Pc1 1700-1750 13 mm alguns poros alongados e
Coimbra circulares; vazios alongados e
pequenas inclusões.

Chacota bege compacta com


alguns poros alongados e
circulares; efeito de
C11 1700-1750 12 mm marmoreado claro; vazios
Coimbra alongados e pequenas
inclusões; craquelé tipo 1 com
ligação ao vazio alongado mais
fechado.

Chacota bege clara compacta


Pc3 1750-1780 11 mm com grandes poros alongados e
Lisboa circulares; vazios alongados e
inclusões.

Chacota bege clara compacta


EMP1 1750-1780 12 mm com grandes poros alongados e
Lisboa circulares; vazios alongados e
inclusões.

Chacota bege compacta com


Cp3 1760-1780 14 mm poros alongados e circulares;
Lisboa
vazios alongados e inclusões.

Chacota bege rosada compacta


B2
1760-1780 11 mm com alguns poros alongados e
Coimbra circulares; vazios alongados e
algumas inclusões.

11 mm Chacota avermelhada com


B4 1780-1800
poros alongados e circulares;
Lisboa
vazios alongados; areias.

Chacota avermelhada compacta


C9 1790-1820 12 mm com poros alongados e
Lisboa circulares; vazios alongados;
areias.

141
Capítulo 5: Amostras estudadas

Chacota bege com grandes


F1 1790-1820 12 mm poros alongados e circulares;
Lisboa
vazios alongados; areias.

C8 1790-1820 10 mm Chacota avermelhada


Lisboa compacta.

5.1.3. Porosidade e propriedades hídricas


O volume e tamanho dos poros determinam a capacidade de armazenamento e circulação de
fluídos no interior da cerâmica, eventualmente favorecendo a sua alteração.
Os azulejos estudados apresentam valores elevados de porosidade destacando-se acima dos
40 % os referenciados como C7, Pc2, C6, Pc1, C11 e B2 (Tabela 5.8). O conjunto revela
porosidades entre 36-39 % no século XVII, sendo a exceção C7 com 46,7 %; 32-41 % no século
XVIII e 34-39 % na transição para o século seguinte. O conjunto de Coimbra é o que apresenta
porosidades mais elevadas (40-43 %) e é caracterizado pelo tamanho de poros na ordem dos
0,5 µm.
De todo o conjunto, EMP1 apresentou os valores mais baixos de porosidade (31,5 %) e teor
máximo em água (16,9 %).
A capacidade de imbibição à pressão atmosférica foi determinada através da massa dos
provetes saturados e os coeficientes de capilaridade, foram determinados registando a massa
de água absorvida em função do tempo, de acordo com os procedimentos descritos em 3.6.1.
Reconhece-se a existência de azulejos com grande rapidez de molhagem, especialmente B2, e
outros em que a molhagem é particularmente lenta (Cp3 e Cp4).
O volume intrudido em função do diâmetro dos poros foi determinado por intrusão de
mercúrio numa gama entre cerca de 4,27 até 0,002 µm. De todo o conjunto analisado, C7 é o
azulejo com a moda mais elevada, correspondendo a um raio de intrusão de 0,7 µm. Ao
mesmo azulejo corresponde a mais alta porosidade medida (46,7%) seguido de B2C (43,0%). A
este último azulejo corresponde o maior coeficiente de imbibição.
A tabela 5.8 sintetiza os resultados destas determinações e no anexo 2A encontram-se os
gráficos correspondentes às determinações.

142
Capítulo 5: Amostras estudadas

Tabela 5.8: Dados referentes à porosidade, capacidade de imbibição à pressão ambiente (CI), coeficiente
de capilaridade (CC) e modas.

Provete Porosidade CI CC Modas


2 1/2
(%) (%) (kg/m /h ) (µm)
C1 38,4 22,5 0,7 0,15; 0,5
Cp1 36,8 21,2 0,9 0,01; 0,42
C5 38,1 22,1 0,7 0,5
B1 35,5 20,0 0,8 0,5
C2 36,5 21,0 1,5 0,6
C3 37,1 21,6 6,4
C4 36,9 21,4 6,2
B7 37,2 21,1 0,4 0,5
Cp2 38,7 23,0 0,6 0,01 - 0,05; 0,45
C7 46,7 30,9 7,4 0,7
C10 35,0 19,9 0,9 0,02; 0,45
Cp4 35,2 20,0 0,1 0,02 - 0,2; 0,5
Pc2 40,1 24,3 1,7 0,5; 0,65
B6 35,3 20,2 1,0
EMP2 38,9 23,4 1,5
C6 40,6 24,9 4,3
Pc1* 40,1 23,8 1,2 0,48
C11* 40,8 24,5 1,8 0,5
Pc3 34,1 19,0 1,2
EMP1 31,5 16,9 1,5
Cp3 36,9 22,0 0,2 0,03; 0,4
B2C* 43,0 26,9 13,5 0,45
B4 34,0 18,6 0,5 0,34
C9 34,3 18,7 0,4 0,25
F1 38,8 23,0 2,2 0,03 - 0,2; 0,3
C8 33,6 17,9 0,6 0,04 - 0,12; 0,3
*Coimbra

143
Capítulo 5: Amostras estudadas

5.2. Amostras usadas nos ensaios de envelhecimento alcalino


Foram selecionados 10 azulejos portugueses com períodos de produção compreendidos entre
os séculos XVII e XX (Tabela 5.9). A escolha recaiu em amostras que apresentassem craquelé,
excetuando três azulejos do século XVIII pela inexistência de exemplares com esta fragilidade.
Um dos exemplares foi um azulejo da Fábrica Roseira de Lisboa24, proveniente da cozinha de
um edifício de Lisboa já demolido, datável a cerca de 1900. Esta amostra é particularmente
importante uma vez que se tratava de azulejos em muito bom estado de conservação,
provenientes do mesmo interior, e cujo número disponível permitiu a sua utilização em todos
os ataques realizados constituindo, assim, um padrão que permitiria a comparação entre os
resultados dos diversos ataques. O interesse na craquelé residia em oferecer ao fluido
caminhos de evaporação que atravessassem o próprio vidrado permitindo um ataque à ligação
de cada tessela definida pela rede de fissuras do craquelé.

Tabela 5.9: Azulejos usados nos ensaios de envelhecimento alcalino


Ref.ª Cron. Ensaio em que foi utilizado Observação da superfície Figuras

Hidróxido de sódio (pH 14,0) /


Superfície com craquelé e
1620-1670

ASR1 refª. ASR


Lisboa

linhas de fissura raiadas a partir


K1 Hidróxido de potássio (pH 10,8) / de uma marca circunscrita.
refª. K

Hidróxido de sódio (pH 14,0) /


1620-1670

ASR2 refª. ASR Craquelé pouco evidente e com


Lisboa

linhas de fissura a partir da


K2 Hidróxido de potássio (pH 10,8) / aresta.
refª. K

Hidróxido de cálcio (pH 13,3) /


refª. Ca
1620-1670

Ca1
Lisboa

Craquelé bastante acentuado e


Hidróxido de sódio + hidróxido de
NaCa1 cálcio (pH 13,9) / refª. NaCa
demarcado.

Água a 60ºC (ensaio branco)

24
Confirmada através da marcação de fábrica (“R”) existente no tardoz dalguns azulejos.

144
Capítulo 5: Amostras estudadas

Bom estado de conservação.


1760-1780
Hidróxido de sódio (pH 14,0) /

Coimbra
ASR6
refª. ASR Craquelé dificilmente visível;
K6 superfície marcada pela
Hidróxido de potássio (pH 10,8) / presença de muitos poros.
refª. K

Hidróxido de sódio (pH 14,0) /


1790-1820

ASR3 refª. ASR


Lisboa

Vidrado com pigmentação


K3 Hidróxido de potássio (pH 10,8) / acastanhada.
refª. K

Hidróxido de cálcio (pH 13,3) /


refª. Ca
1790-1820

Ca4
Lisboa

Hidróxido de sódio + hidróxido de Vidrado com pigmentação


NaCa4 cálcio (pH 13,9) / refª. NaCa acastanhada.

Água a 60ºC (ensaio branco)


1790-1840

Hidróxido de sódio (pH 14,0) /


ASR4
Lisboa

refª. ASR
Craquelé demarcado.
K4
Hidróxido de potássio (pH 10,8) /
refª. K
Fábrica Roseira
1900, Lisboa,

Hidróxido de sódio (pH 14,0) /


ASR5 refª. ASR
Craquelé demarcado e alguns
K5 Hidróxido de potássio (pH 10,8) /
poros.

refª. K

145
Capítulo 5: Amostras estudadas

Hidróxido de cálcio (pH 13,3) /

Fábrica Roseira
1900, Lisboa,
refª. Ca
Ca3
Com craquelé aberto e pouco
Hidróxido de sódio + hidróxido de
NaCa3 cálcio (pH 13,9) / refª. NaCa demarcado.

Água a 60ºC (ensaio branco)

Hidróxido de cálcio (pH 13,3) /


refª. Ca
Ca2
2010

Hidróxido de sódio + hidróxido de Bom estado.


NaCa2 cálcio (pH 13,9) / refª. NaCa

Água a 60ºC (ensaio branco)

A tabela 5.10. mostra imagens das secções acompanhadas de informações sobre as


características e espessuras.

Tabela 5.10: Observação macroscópica dos azulejos usados nos ensaios de envelhecimento alcalino.
Refª. Cronologia Observação da superfície Espessura Observações

1620-1670 Chacota amarela com poros


ASR1
Lisboa 15 mm alongados e circulares;
K1 filamentos de barro vermelho;
inclusões vermelhas; areias.

Chacota amarelada com poros


ASR2 1620-1670
15 mm circulares e alongados; finos
K2 Lisboa filamentos de barro vermelho;
vazios alongados; areias.

Chacota amarelada com grandes


e pequenos poros circulares e
Ca1 1620-1670
14 mm alongados; finos filamentos de
NaCa1 Lisboa barro vermelho; inclusões (as
vermelhas de grande dimensão);
grandes vazios alongados; areias.

146
Capítulo 5: Amostras estudadas

ASR6 1760-1780 Chacota bege compacta com


10 mm alguns poros alongados e
K6 Coimbra
circulares; vazios alongados.

ASR3
K3 1790-1820 Chacota bege com grandes poros
10 mm alongados e circulares; vazios
Ca4 Lisboa alongados; areias.
NaCa4

Chacota amarelada com poros


ASR4 1790-1840
9 mm circulares e alongados;
K4 Lisboa filamentos de barro vermelho;
vazios alongados; areias.

Ca3
1900
Chacota avermelhada compacta;
NaCa3
Lisboa 10 mm poros circulares e alongados;
ASR5 vazios alongados; inclusões
Fábrica
vermelhas.
K5 Roseira

Ca2
2010 10 mm Chacota rosada; poros circulares
NaCa2 e alongados; areias e inclusões.

147
Capítulo 5: Amostras estudadas

5.3. Amostras usadas nos ensaios com carbonato de sódio


Foram selecionados três azulejos portugueses dos séculos XVII, XVIII e XIX (Tabela 5.11). A
escolha recaiu em amostras que apresentassem craquelé, para dar início ao ensaio com uma
superfície já fragilizada.

Tabela 5.11: Azulejos usados no ensaio com carbonato de sódio

Referência Cronologia Observação da superfície Figuras

1620-1670
AZ01 Craquelé muito demarcado e algumas linhas de fissura
Lisboa a partir das arestas.

1700-1720
AZ02 Superfície em bom estado de conservação.
Lisboa

1900

AZ03 Lisboa
Vidrado com craquelé demarcado.
Fábrica
Roseira

Como anteriormente, a Tabela 5.12 inclui imagens de secções das superfícies de corte.

148
Capítulo 5: Amostras estudadas

Tabela 5.12: Observação macroscópica dos azulejos usados no ensaio de envelhecimento com
carbonato de sódio.

Refª. Cronologia Observação da superfície Espessura Observações


Chacota amarelada com grandes
1620-1670 e pequenos poros circulares e
alongados; filamentos de barro
AZ01 Lisboa 14 mm vermelho com efeito de
marmoreado; inclusões (as
vermelhas de grande dimensão);
grandes vazios alongados; areias.

Chacota bege clara compacta


1700-1720
AZ02 13 mm com grandes poros alongados e
Lisboa circulares; vazios alongados;
inclusões.

1900
Chacota avermelhada compacta;
AZ03 Lisboa 10 mm poros longos e circulares; vazios
alongados; inclusões vermelhas
Fábrica
(pontos).
Roseira

149
150
Capítulo 6
Campanha experimental

6.1. Princípio e finalidade dos ensaios de envelhecimento acelerado


A campanha experimental tem como fundamento a tentativa de simulação de dano em
azulejos através de ensaios de envelhecimento acelerado na presença de potenciais agentes
de degradação.
Os ensaios de envelhecimento acelerado pretendem simular num tempo relativamente breve
o que ocorre in situ num processo demorado. Obtêm-se resultados comparativamente rápidos
aumentando o grau de agressividade dos agentes degradativos, pretendendo-se que
reproduzam os danos causados no material e na relação que este estabelece com o suporte.
Todavia, existem fatores associados à passagem do tempo que não é possível encurtar além de
que, em obra, existe uma simultaneidade de agressões menores cujos efeitos cumulativos são
difíceis de simular.
Normalmente, as campanhas experimentais realizadas seguem ensaios normalizados para
materiais de construção de aplicação em exterior, sujeitos à degradação por ação de fatores
ambientais. Estes incluem, por exemplo, os ensaios de gelo-degelo, nevoeiro salino, climatrão
e radiação UV.
O ensaio para a determinação da resistência ao gelo tem como objetivo avaliar o
comportamento e registar alterações físicas que ocorrem nos materiais porosos ou fissurais
quando submetidos a ciclos sucessivos de gelo/degelo. É um ensaio direcionado para materiais
de aplicação exterior, em locais onde o efeito combinado da temperatura exterior e da
radiação para a abóbada celeste podem resultar na formação de gelo no interior da
porosidade e da eventual fendilhação dos materiais. No LNEC é seguido o procedimento
interno de ensaio LERO PE-16, baseado na especificação RILEM 25 PEM e na norma EN ISO
10545 - 12. Genericamente, consiste na imposição de variações cíclicas de temperatura, com a
amostra submersa no interior de uma câmara de ensaio. Os resultados são avaliados através
das variações de massa e pelas alterações físicas identificadas por inspeção visual.
O nevoeiro salino é outro dos ensaios aplicados em materiais cerâmicos. Tem como objetivo
simular de forma acelerada um ambiente costeiro através da recristalização cíclica de cloreto
de sódio em materiais artificialmente contaminados. É realizado numa câmara de nevoeiro

151
Capítulo 6: Campanha experimental

salino e segue o procedimento interno do LNEC, LERO PE-19. Resumidamente, consiste na


imposição de ciclos de nevoeiro contaminado com uma solução de NaCl a 10 % intercalados
com ciclos de secagem à temperatura constante de 40 ± 5 ᵒC. Tem normalmente a duração de
30 ciclos, podendo ser interrompido quando a perda da massa é já elevada. Terminado o
ensaio, os provetes são submetidos à dessalinização durante uma semana e os resultados são
avaliados através das variações de massa e pelas alterações físicas identificadas por inspeção
visual.
O estudo do envelhecimento dos materiais expostos a um ambiente exterior normalizado é
feito numa câmara de simulação ambiental chamada “climatrão”. O ensaio segue o
procedimento interno LERO PE-17 e pode ser realizado com ou sem radiação. A câmara é
programada para o tipo e número de ciclos pretendidos de variações de temperatura e
humidade relativa. Tem normalmente a duração de 100 ciclos, devendo ser interrompido ao
fim de 50 ciclos para secagem e inspeção visual.
O ensaio de envelhecimento aos ultravioletas (UV) pode ser realizado no climatrão, em
conjunto com os ciclos referidos, ou numa câmara dedicada. As radiações na gama dos UV são
responsáveis pelo envelhecimento de polímeros por foto degradação. A radiação UV é
produzida por uma lâmpada de xénon que simula o espectro solar, com radiação máxima
entre 360 e 400 nm. Os resultados são avaliados com diferentes técnicas analíticas e por
comparação com um provete “branco”.

6.2. Técnicas de envelhecimento aplicadas ao azulejo


No caso dos azulejos, o que se observa em obra é o resultado do somatório de agentes de
degradação que atuam durante séculos. Por isso os ensaios deste tipo apresentam riscos de
interpretação, particularmente no caso presente em que não foi possível seguir técnicas
normalizadas, como se discutirá a seguir. Esses riscos têm que ser aceites como parte do
processo de avanço do conhecimento.
As inspeções em obra realizadas por técnicos do LNEC entre 2009 e 2011 (Mimoso, 2011;
Mimoso e Pereira, 2011) mostraram que ocorrem as mesmas patologias em azulejos de
fachada e em azulejos aplicados nos interiores o que conduziu a apontar como principal causa
das formas mais comuns de degradação, e em particular, das que conduzem ao destacamento
do vidrado, a molhagem dos suportes e não a simples exposição ao ambiente exterior (ver
Mimoso e Pereira, 2011: 37-39). É por isso importante que os ensaios de envelhecimento
acelerado sobre azulejos reproduzam a molhagem das chacotas por fluidos eventualmente
agressivos provenientes do suporte e também o fenómeno natural de evaporação que ocorre

152
Capítulo 6: Campanha experimental

quando a água flui do interior da estrutura para o exterior, onde evapora, através dos
revestimentos azulejares.
Os primeiros ensaios de envelhecimento em azulejos históricos foram desenvolvidos no LNEC.
Mimoso et al. (2011a) pretenderam estudar de que forma os defeitos de fabricação poderão
influenciar ou potenciar a degradação. Nos primeiros ensaios dois tipos de azulejos foram
submetidos a ciclos de molhagem/secagem depois da contaminação. O tipo I correspondia a
duas frações de azulejos históricos com delaminação, enquanto o II consistia na colagem de
um vidro sobre chacota, o qual recebeu um pequeno furo para reproduzir um poro. As faces
laterais foram seladas com resina epóxida e a amostra foi saturada com uma solução de NaCl.
O tardoz foi depois isolado com película transparente colada com mástique. O objetivo deste
procedimento visou forçar a evaporação da solução pela face vidrada e a placa de vidro. O
protocolo estabelecido consistiu na secagem ventilada a 40 ᵒC para uma amostra e 60 ᵒC para
a outra, com ciclos de molhagem com água desionizada. Nos azulejos históricos os danos
tornaram-se visíveis nos primeiros ciclos pelo destacamento de vidrado. No tipo II, a
cristalização desenvolveu-se em redor do furo tendo ocorrido a fissuração do vidro.
No mesmo ano, Pereira e Mimoso (2011) continuaram a desenvolver o método de
envelhecimento com NaCl para a simulação da degradação física de azulejos. O estudo incidiu
em oito exemplares dos séculos XVII e XVIII, com diferentes características e defeitos de
vidrado. Com o objetivo de forçar a evaporação pelo vidrado, as amostras foram seladas
lateralmente e a molhagem foi imposta pelo tardoz até atingir-se a saturação. O primeiro ciclo
correspondeu à contaminação das amostras com uma solução de 300 g NaCl : 1 l de água
desionizada, sendo os restantes ciclos de imbibição realizados só com água desionizada. A
secagem foi testada a diferentes temperaturas (40 ᵒC, 60 ᵒC e 100 ᵒC). Os autores verificaram
que o aumento de temperatura permitia obter ciclos mais rápidos, sugerindo testar menor
quantidade de água por imbibição. As amostras que apresentavam problemas prévios de
degradação, como a delaminação, foram as mais afetadas pelos ciclos de envelhecimento e as
amostras sãs, a que se impuseram danos por impacto e perfuração, não evidenciaram
degradação. Os autores abriram um novo caminho de investigação ao apontarem as
fragilidades decorrentes do processo de fabricação ou os danos decorrentes da vivência do
azulejo como fatores importantes pela maior ou menor propensão ao dano nos ensaios de
envelhecimento. Assinalaram também que a porosidade, a permeabilidade e as características
de evaporação influenciam a circulação interna da água no corpo cerâmico com possível
influência na cristalização de sais e na degradação.

153
Capítulo 6: Campanha experimental

Os testes desenvolvidos no LNEC demonstraram a viabilidade das simulações laboratoriais e


conduziram ao presente estudo.
Sob o ponto de vista experimental a parte substancial da investigação ao abrigo do presente
projeto de investigação consistiu na tentativa de reprodução em laboratório do dano
encontrado em obra através de ensaios de envelhecimento acelerado com agentes
potencialmente causadores das degradações levantadas em obra: cloreto de sódio, soluções
alcalinas, e espécies de solubilidade variável com a temperatura.

6.3. Ensaios de envelhecimento salino com cloreto de sódio


Num estudo preliminar desenvolvido no LNEC em 2011 verificou-se a possibilidade de obter a
degradação acelerada de azulejos em simulação laboratorial empregando cloreto de sódio
(NaCl), mas as mesmas condições de ensaio não determinaram alteração com sulfato de sódio
(Na2SO4) [Pereira e Mimoso, 2011; Pereira e Mimoso, 2012]. Por outro lado, o cloreto de sódio
é o sal mais comummente encontrado em associação com a perda de vidrado, e também o
mais referido neste contexto por outros autores [Bustorff Silva 2000; Malhoa 2001; Esteves
2002]. Por isso partiu-se da hipótese de que o destacamento do vidrado poderia ser
reproduzido através da ação deste sal, particularmente em azulejos macroscopicamente sãos.
A primeira campanha experimental adiante descrita tentou provar esta hipótese apoiando em
bases sólidas uma suspeita generalizada entre os restauradores. Simulou-se do modo mais fiel
possível a evaporação natural que ocorre nos azulejos aplicados nos edifícios, em que a água
flui do interior da parede para o exterior, onde evapora. O próprio espaçamento de junta entre
azulejos foi contemplado, deixando uma aresta livre de evaporação com cerca de 1 mm de
altura.
Como a água sem teores relevantes de sais dissolvidos pode também estar presente no azulejo
por intermédio dos suportes arquitetónicos pretendeu-se, num ensaio complementar, verificar
a fragilidade dos azulejos aos ciclos de molhagem/secagem sem ação concomitante de sais,
correspondendo a um “ensaio branco” em relação aos de cristalização de cloreto de sódio.

154
Capítulo 6: Campanha experimental

6.3.1. Preliminares
6.3.1.1. Preparação de provetes

Cada azulejo foi dividido em três provetes com cerca de 5 cm de largura, tendo os cortes sido
realizados de maneira que cada provete fosse representativo da degradação previamente
existente nesse azulejo. Cada fração recebeu um código identificativo no tardoz. Uma foi
sujeita aos ciclos de molhagem e cristalização salina; a segunda foi sujeita aos mesmos ciclos
de molhagem mas sem contaminação salina (ensaio branco); e a terceira foi mantida como
testemunho. A área do azulejo B2 era suficiente para apenas um único provete, pelo que foi
utilizado um azulejo semelhante, de um painel diferente, para obter os outros provetes.
Para iniciar os processos de envelhecimento em condições idênticas e repetíveis, procedeu-se
à dessalinização preliminar com água desionizada. As leituras iniciais de condutividade do
grupo de 26 azulejos atingiram valores próximos dos 4000 μS, situação expectável pela elevada
concentração de amostras no interior dos recipientes. A dessalinização teve a duração de três
meses, com mudas de água semanais, até atingir valores estáveis na ordem dos 300 μS.
A dessalinização também pretendeu simular uma prática corrente nos restauros em obra e
evitar que os resultados dos ensaios sejam falseados pela presença de diferentes espécies
salinas que eventualmente pudessem ter anteriormente contaminado os corpos cerâmicos.

6.3.1.2. Células de envelhecimento

Pretendia-se simular, tanto quanto possível, o fenómeno natural de evaporação que ocorre
nos azulejos aplicados nas construções em que a água flui do interior da estrutura para o
exterior, onde evapora. Para tal, era fundamental a imposição do fluxo para a superfície
exposta (vidrado e arestas originais). Pretendia-se ainda deixar como área potencial de
evaporação uma faixa sob as arestas do vidrado, para criar condições semelhantes às que
ocorrem em alguns painéis in situ, correspondentes à exposição de áreas da chacota em juntas
insuficientemente fechadas com argamassa.
Foram utilizadas caixas de um plástico resistente a temperaturas até 110 ᵒC, em número
correspondente aos provetes. Para o isolamento das faces laterais de cada provete empregou-
se uma pasta epóxida de alta resistência (LOCTITE 3471, Hysol METAL Set S1), deixando
exposta uma faixa com cerca de 1mm sob cada aresta original, como referido (Fig. 6.1). As
novas faces resultantes do corte foram integralmente isoladas com a mesma pasta.
Em cada tampa foi praticada uma abertura com o contorno de cada provete, permitindo a sua
inserção (Fig. 6.2). Montaram-se os provetes de maneira a ficarem suficientemente elevados

155
Capítulo 6: Campanha experimental

para possibilitar a evaporação sob as arestas do vidrado. A junta de encaixe foi vedada pelo
verso da tampa com silicone neutro transparente Formflex 600F-7000S.

Figura 6.83 Figura 6.84

Figura 6.1: Isolamento das faces Figura 6.2: Contorno e abertura para encaixe do provete
laterais deixando livre uma aresta [Imagem: L. Esteves].
natural de evaporação [Imagem: L.
Esteves].

A evaporação preferencial na superfície exterior exposta (face vidrada e arestas originais), foi
imposta através do isolamento do tardoz com papel de alumínio e película de plástico, após o
que a caixa foi fechada. A interposição do papel de alumínio destinava-se a evitar a
contaminação do tardoz por produtos resultantes da degradação a quente da película plástica.
Designou-se este conjunto da caixa com o provete montado por “célula de envelhecimento”
(Fig. 6.3).

Figura 6.85

Figura 6.3: Célula de envelhecimento [Imagem: L. Esteves].

6.3.2. Protocolo de ensaio


O protocolo de ensaio incluiu um ciclo preparatório de pior cenário, cujo objetivo era a
indução de danos imediatamente resultantes do estado inicial das amostras, muitas das quais
incorporavam já um tipo qualquer de degradação.

156
Capítulo 6: Campanha experimental

Este primeiro ataque tinha como meta, entre outros, fazer soltar todos os fragmentos de
vidrado que já se encontrassem parcialmente destacados, para que os resultados dos ciclos de
molhagem/secagem posteriores, que constituem a base do ensaio de envelhecimento
acelerado, não fossem influenciados por essas fragilidades. Depois deste ciclo inicial, foram
concluídas séries de 15 ciclos de molhagem/secagem, separados pela renovação das
contaminações, conforme especificado abaixo.
Em simultâneo decorreu o correspondente a um “ensaio branco” nos segundos provetes de
cada azulejo, correspondendo a ciclos idênticos realizados apenas com água desionizada, sem
contaminação salina. Ente ensaio destinava-se a evidenciar as eventuais consequências da
acção da água, separando-a das consequências da cristalização dos sais.

6.3.2.1. Ciclo inicial

Contaminação com cloreto de sódio


A contaminação foi feita pela imbibição através do tardoz, durante sete dias, com uma solução
saturada de NaCl em água desionizada (330 g/l). O processo de imbibição foi efetuado com o
azulejo invertido e o tardoz coberto pela solução, até uma altura de cerca de 10 mm acima da
sua superfície (Fig. 6.4). Após cumprido o tempo de molhagem a caixa foi fechada, colocando
uma folha de papel de alumínio e uma de plástico tensionado, conforme referido para evitar a
secagem pelo tardoz para o interior da caixa.

Figura 6.86

Figura 6.4: Contaminação inicial com NaCl [Imagem: L. Esteves].

Dessalinização

A secagem foi realizada durante sete dias a 60 ᵒC. Esta temperatura foi usada nos ciclos de
secagem acelerada e representa o valor mais alto de temperatura medida ao sol nas
superfícies de construção [Heyer, 1963]. A dessalinização subsequente com água destilada

157
Capítulo 6: Campanha experimental

teve a duração de uma semana, com leituras intercalares de condutividade de 3980 µS, 2200
µS e 1370 µS. Os azulejos sofreram nova secagem a 60 ᵒC por mais uma semana, tendo sido
efetuado o registo dos danos. A condição no início do ensaio propriamente dito e após esta
preparação é designada por “ciclo 0”.

6.3.2.2. Ciclos de molhagem/secagem

Os ciclos de molhagem/secagem foram realizados em grupos de 15 (com pequenas variações


conforme detalhado em 6.3.3) dos quais o primeiro ciclo de cada série incluiu uma fase de
contaminação, ao passo que nos ciclos subsequentes foi usada apenas água destilada.

Ciclo 1 de contaminação e secagem


As tampas com os itens foram colocadas na horizontal, em ambiente laboratorial (21 ± 2 ᵒC; 50
± 5 %HR), para que o tardoz ficasse voltado para cima e fosse molhado com uma solução
saturada de NaCl. O volume da solução depositada no tardoz correspondia a 20 % do volume
de água necessário para obter a saturação. Depois de absorvida a solução, a caixa foi fechada
da forma habitual, tendo sido dado imediatamente início à secagem dos provetes, a partir da
face, com recurso a uma estufa Heraeus com ventilação natural, à temperatura constante de
60 ᵒC. As caixas foram colocadas de modo a que as faces vidradas ficassem na vertical,
reproduzindo assim mais fielmente as condições existentes in situ (Fig. 6.5). Considerou-se que
a secagem estava concluída sete dias após o início da molhagem. No final do tempo de
secagem, procedeu-se à monitorização das eflorescências e de quaisquer alterações nos
provetes, através de inspeções visuais e microscópicas, sendo de seguida anotadas e
registadas fotograficamente (Fig. 6.6).

Figura 6.87 Figura 6.88

Figura 6.5: Células de envelhecimento durante Figura 6.6: Pesagem do provete após o ciclo de
o ciclo de secagem [Imagem: L. Esteves]. secagem. A caixa serviu de recetáculo da matéria
desprendida do tardoz [Imagem: L. Esteves].

158
Capítulo 6: Campanha experimental

Ciclos de molhagem e secagem


Foram realizados ciclos subsequentes seguindo exatamente o mesmo método mas sendo a
molhagem da amostra realizada apenas com água desionizada, destinada a dissolver o sal
cristalizado na chacota após a secagem do ciclo anterior (Fig. 6.7). A água foi aplicada com uma
seringa, tendo sido atingida uma absorção integral geralmente em menos de 10 horas, mas
nunca superior a 48 horas. De modo a evitar uma excessiva perda de água através de
evaporação, utilizou-se a própria caixa fechada e invertida como proteção (Fig. 6.8). Cada novo
período de molhagem foi seguido por um período de secagem, conforme descrito acima, pelo
que cada ciclo ficou concluído em exatamente sete dias.

Figura 6.89 Figura 6.90

Figura 6.7: Processo de imbibição pelo tardoz Figura 6.8: Sistema de proteção para evitar perda
[Imagem: L. Esteves]. de água por evaporação [Imagem: L. Esteves].

Renovação da contaminação
Uma vez que a cada ciclo de molhagem/secagem ocorre alguma perda de sal, o potencial de
degradação vai diminuindo. Por isso, o protocolo de ensaio prevê ainda que após cada 15
ciclos completos de molhagem-secagem, seja realizada uma nova contaminação com uma
solução saturada de NaCl mas utilizando-se apenas 20 % do volume de soluto que seria
necessário para cada provete atingir a saturação por imbibição de água, após o que podem ser
realizados mais 15 ciclos permanentes, usando apenas água desionizada. Não é efetuada
qualquer dessalinização antes das contaminações renovadas.

6.3.2.3. Dessalinização final

No final dos ensaios, as amostras foram submetidas a um novo processo de dessalinização,


permitindo assim a separação de todas as partículas soltas ou em destacamento. A
dessalinização teve uma duração de cinco semanas, tendo originado as seguintes leituras
intercaladas de condutividade: 10390 µS, 3450 µS, 1290 µS, 469 µS, 426 µS. O estado final de
cada amostra de ensaio de envelhecimento é registado no final deste procedimento.

159
Capítulo 6: Campanha experimental

6.3.3. Duração do ensaio


O ensaio completo compreendeu a contaminação e dessalinização de acordo com a alínea
6.3.2.1 e cinco séries completas de 15 ciclos de molhagem/secagem, separados por renovação
da contaminação de acordo com o 6.3.2.2. Por razões técnicas as séries foram realmente de
15, 16, 16, 16 e 14 ciclos respetivamente.
O ensaio branco teve a mesma duração do ensaio de envelhecimento salino.

6.3.4. Resultados
Depois da secagem após a contaminação inicial com o cloreto de sódio surgiram eflorescências
em todos os provetes (nos poros e outros defeitos de fabrico, sob as arestas e outras áreas de
chacota exposta e mesmo sobre o vidrado). Os sais desempenharam a função de consolidante
dos provetes pelo que os danos só foram realmente evidenciados na dessalinização
subsequente. Esta revelou degradações na ligação entre vidrado e chacota, resultando na
perda de vidrado em 18 provetes (Fig. 6.9).

a) b)
Figura 6.91

6.9: Um dos provetes: a) Cp1 no fim do ensaio com eflorescências; b) a dessalinização removeu o sal
resultando em novos destacamentos do vidrado [Imagens: L. Esteves].

Nos ciclos posteriores de molhagem/secagem, só pontualmente voltaram a detetar-se


pequenos filamentos de eflorescência, especialmente nas faixas de chacota exposta, sob as
arestas originais. Embora o método usado tivesse sido aplicado de forma idêntica em todos os
provetes, verificou-se ter sido impossível evitar alguma evaporação para o interior da célula de
envelhecimento e metade dos provetes apresentou degradação no tardoz. Houve casos
(amostras C1, B1, Cp3, Cp4 e C9) em que a degradação se registou unicamente a esse nível,
não chegando a afetar o vidrado.
Dos 26 provetes, doze apresentavam defeitos de fabricação tais como poros ou enrolamentos
do vidrado, correspondendo a áreas preferenciais de evaporação, mas só o provete B7
apresentou danos com origem nestas áreas (Fig.6.10).

160
Capítulo 6: Campanha experimental

a) c)
Figura 92

b)
Figura 6.10: Progressão do envelhecimento do provete B7: a) condição inicial (ciclo 0); b) pormenor da
área onde surgiu o dano por rutura do vidrado na 2ª série; c) a fissuração à volta do defeito é
evidenciada pela eflorescências no fim da 5ª série dos ciclos [Imagens: L. Esteves].

Nos provetes onde ocorria empolamento prévio do vidrado (EMP) esse dano progrediu,
manifestando-se sempre a perda de vidrado através da separação completa a partir das áreas
de evaporação, sem remanescentes notáveis de chacota aderentes. O destacamento total do
vidrado do EMP2 ocorrido durante a dessalinização do ciclo inicial determinou o fim dos
ensaios neste provete (Fig. 6.11).

a) b)
Figura 93

vidrado

chacota

c)
Figura 6.11: EMP2: a) antes dos ensaios; b) e c) destacamento total do vidrado [Imagens: L. Esteves].

Dos onze azulejos com craquelé bem demarcado (grupo C), sete (cerca de 65 %) sofreram
danos sobretudo durante as primeiras três séries de ciclos, embora não tenham tido
progressão significativa a partir daí. C3, C4 e C6 são as exceções pela progressão gradual da
degradação (Fig. 6.12). É de notar a inexistência de quaisquer danos ou alterações no vidrado
em três dos azulejos, incluindo os do grupo cronologicamente mais recente. A perda de
vidrado do grupo C manifestou-se maioritariamente a partir das arestas. Embora existam casos
em que se registou a queda de pequena tesselas de vidrado com chacota aderente, este dano
é predominantemente caracterizado pela perda de vidrado sem material cerâmico substancial
aderente, ficando a superfície da chacota lisa. Este resultado foi mais comum em zonas
afastadas das arestas. Também é relevante notar que ao longo do ensaio de envelhecimento
cerca de metade dos provetes sofreram fissuração.

161
Capítulo 6: Campanha experimental

Figura 6.94

a) b) c)

Figura 6.12: Progressão da degradação do C6: a) ciclo 0; b) 3ª série; c) fissuração, empolamento da


chacota e destacamento do vidrado (último ciclo da 5ª série) [Imagens: L. Esteves].

Conforme foi apontado no Capítulo 1, Mimoso e Pereira [2011] sistematizaram a propagação


de fissuras em duas categorias: “Tipo 1” em que as fissuras do vidrado se propagam
diretamente para o interior da chacota e “Tipo 2”, em que as fissuras se propagam na exata
interface entre o vidrado e a chacota. Numa sequência evolutiva, o tipo 1 corresponde ao
craquelé inicial de um azulejo ainda não degradado e o tipo 2 corresponde a um período mais
tardio, quando a adesão entre o vidrado e a chacota está já em declínio e a separação entre as
duas camadas requer menos energia do que a propagação para o interior da chacota. A
observação da evolução na perda de vidrado permitiu reconhecer a existência destes dois
tipos de fissuras, sendo o destacamento limpo correspondente aos azulejos onde o craquelé
do tipo 2 estava já definido. Por exemplo, no C3 a perda de vidrado em pequenos mosaicos
com chacota aderente (Fig. 6.13b) mostrou correspondência com os danos pré-existentes
(fissuração do tipo 1) na amostra de caracterização (Fig. 6.13a). No SEM vêem-se as linhas
verticais que se prolongam pela chacota até a uma distância de grandeza próxima da
espessura do vidrado, estabelecendo a partir daqui a ponte de ligação entre elas. No caso da
amostra C6, o destacamento limpo de vidrado (Fig. 6.13d) encontra correspondência com a
propagação do craquelé para a interface vidrado/chacota (tipo 2- Fig. 6.13c).

a b c d
Figura 6.95

Figura 6.13: Correspondência entre fragilidades pré-existentes reveladas no SEM das amostras de
caracterização e a perda de vidrado nos ensaios de envelhecimento dos azulejos C3 (a, b) e C6 (c, d).

É também notável que, durante o ensaio de envelhecimento salino cinco das onze amostras
"C" sofreram fratura da chacota. A observação microscópica mostra que a fissuração do
craquelé do tipo 1 propaga-se no interior do corpo cerâmico, atravessando muitas vezes toda
a espessura do azulejo e portanto pode ser muito importante na fragilização do azulejo, ao
contrário do que a sua aparente inocuidade parece sugerir.

162
Capítulo 6: Campanha experimental

Os três provetes com padrão “espiga” (C2, C3 e C4) são particularmente interessantes por
provirem provavelmente da mesma obra mas apresentarem níveis diferentes de degradação
inicial a que corresponderam também resultados desiguais no ensaio de envelhecimento. A
amostra C3 era a que tinha inicialmente um dano mais avançado, correspondente a um
craquelé denso e miúdo e uma área já com falta de vidrado. No final do ensaio tinha perdido
cerca de 50% do vidrado remanescente e a cerâmica apresentava-se em desagregação. A
amostra C4, num estádio intermédio de craquelé (largo, mas demarcado) e com apenas
pequenas falhas no vidrado, terminou o ensaio com perdas adicionais nas arestas. O provete
C2 que evidenciava pouco craquelé mostrou apenas algum empolamento e propagação das
fissuras (Fig. 6.14).

C3

C4

C2

a) b) c)
ª
Figura 6.14: Progressão do envelhecimento dos provetes C3, C4 e C2: a) 1 série (0); b) 3ª série; c) último
ciclo da 5ª série [Imagens: L. Esteves].

O grupo de cinco provetes caracterizado por um bom estado inicial (B) foi o que menos danos
apresentou. Em três dos azulejos (B1, B4 e B7) não ocorreu perda de vidrado; no B6 ocorreu
uma pequena perda a partir das arestas, sem empolamento.
O provete B2, um azulejo de Coimbra inicialmente em bom estado de conservação, constituiu
uma notável exceção já que apresentou, de forma progressiva, destacamento de vidrado (Fig.
6.15). A degradação correspondeu à fragilidade observada in situ, em painéis com a mesma
origem, provavelmente derivada de algum aspeto relacionado com a produção (matérias-
primas utilizadas ou temperatura de cozedura). O processo iniciou-se com a abertura do
craquelé, incipiente no início do ensaio, progredindo para a separação de uma camada
conjunta de vidrado/chacota (Fig. 6.15d). A pigmentação com corante vermelho de uma fração
do B2 mantida como referência, revelou uma camada de maior absorção do pigmento sob o
vidrado, com o mesmo desenvolvimento mostrado pela amostra submetida aos ensaios de

163
Capítulo 6: Campanha experimental

envelhecimento (Fig. 6.15e). As análises com SEM-EDS detetaram uma camada sob o vidrado
mais rica em Al, K, Na e Mg na qual o Pb tem ainda um alto teor. A micro XRD revela a
presença de anortite num teor consideravelmente mais alto do que numa camada de chacota
mais afastada, enquanto que os teores em quartzo cristalino, diópsido e leucite são inferiores.
As diferenças composicionais sugerem a utilização de um engobe aplicado sobre a chacota
antes da vidragem, possivelmente para melhorar a adesão do vidrado à temperatura de
cozedura ou para clarear o suporte reduzindo a quantidade de óxido estanho necessária ao
vidrado branco. É possível que esta camada apresente uma baixa resistência à rotura, de tal
forma que a degradação não seria efetivamente provocada pela cristalização dos sais, mas
antes pelas tensões de corte geradas pela expansão hídrica.

a) b) c)

d)
Figura 96 e)
Figura 6.15: Progressão do envelhecimento do provete B2: a) ciclo 0; b) 3ª série; c) última série após
dessalinização final; d) pormenor da separação do vidrado; e) resultados obtidos com a penetração de
tinta vermelha [Imagens: L. Esteves].

Os três provetes Pc, que apresentavam falhas de vidrado nas arestas, perderam vidrado
adicional a partir das áreas de evaporação existentes. O vidrado solto apresentou-se limpo de
chacota e todos os provetes evidenciavam fissuração ou mesmo fracturação.
O grupo dos quatro provetes Cp, que apresentavam falhas de vidrado em áreas centrais,
evidenciaram melhor resistência ao envelhecimento salino. Dos azulejos do século XVIII, Cp4
não mostrou sinais de deterioração e a degradação de Cp3 só teve início na 4ª série de ciclos
de molhagem/secagem, quando a perda de chacota no tardoz permitiu o acesso rápido da
solução à superfície de evaporação criada pela falha de vidrado. Os provetes Cp1 e Cp2, ambos
do séc. XVII, caracterizaram-se por alterações pouco significativas durante as duas primeiras
séries de ciclos e só apresentaram danos mais consideráveis e de forma progressiva depois da
terceira série (Fig. 6.16). Este desempenho sugere que em alguns casos as lacunas pré-
existentes nas áreas centrais podiam ser resultantes de um defeito de fabricação e não de uma

164
Capítulo 6: Campanha experimental

degradação salina anterior, já que neste caso deveria ter aumentado assim que foi
confrontada com nova agressão.
Cp1
Cp2

Figura 6.97

a) b) c)
Figura 6.16: Progressão da degradação nos provetes Cp1 e Cp2: a) ciclo 0; b) e c) pormenor da
área danificada, respetivamente na 3ª e 5ª série mostrando empolamento e fissuração
[Imagens: L. Esteves].

A amostra F1, do século XVIII-XIX, não sofreu danos durante os ensaios de envelhecimento
nem na dessalinização final. Porém, um teste de arrancamento do vidrado (pull-off) revelou
que a ligação vidrado/chacota era quase inexistente, especialmente junto às arestas, com o
vidrado a soltar-se em grandes extensões, quase sem chacota remanescente em todos os
provetes desta amostra (Fig. 6.17). É possível que este desempenho único de resistência à
degradação que a amostra demonstrou ao longo dos ensaios apesar da baixa adesão do
vidrado esteja relacionado com a dificuldade que se reconheceu na imbibição das soluções
durante os ciclos de molhagem.

Figura 6.98

a) b) c)

Figura 6.17: Amostra F1: a) sem danos após o ensaio de envelhecimento; b) perda de vidrado no ensaio
pull-off; c) verso de uma lâmina de vidrado [Imagens: L. Esteves].

165
Capítulo 6: Campanha experimental

A primeira imersão na dessalinização final resultou na perda imediata de vidrado e chacota em


11 exemplares. A matéria desprendida tinha correspondência com áreas já parcialmente
afetadas, por vezes apenas agregadas pelas próprias crostas de sal. Duas das amostras do
grupo C (C1 e C9) que não sofreram danos no ensaio de envelhecimento perderam agora uma
pequena quantidade de vidrado, a partir das arestas ou de áreas com danos pré-existentes.
Os resultados do ensaio de envelhecimento salino encontram-se resumidos na tabela 6.1, de
acordo com as formas de degradação encontradas.

Tabela 6.1: Resumo dos resultados: “D”= degradação na dessalinização antes do ciclo inicial; “AG”=
degradação adicional durante os ciclos de envelhecimento acelerado (as linhas cinzentas são referentes
às amostras que não sofreram degradação macroscópica durante os ciclos de envelhecimento); “DD” =
degradação na dessalinização final.

Destacamento do vidrado Destacamento de vidrado A perda inicia- Fratura e


Amostra Empolamento arestas centro Com chacota Limpo de se a partir das fragmentação
do vidrado aderente chacota arestas ou em da chacota
áreas já
danificadas
C1 - D - DD - - DD - - DD -
C2 AG D AG DD - AG DD - - DD AG
C3 AG D AG AG DD AG DD AG - D AG
C4 - D AG - DD AG DD - - D -
C5 AG D - - - - - AG
C6 AG D AG AG DD - AG DD - DD D AG
C7 AG D - AG - AG - D AG
C8 - - - - - - -
C9 - D - DD - - - DD - -
C10 - D AG - - AG AG -
C11 - - - - - - -
Cp1 - D - AG DD AG DD - DD - AG
Cp2 AG - AG DD - AG DD D AG DD AG
Cp3 - - AG - AG DD AG -
Cp4 - - - - - - -
Pc1 - D AG - AG DD - AG DD AG
Pc2 - AG - - AG D AG AG
Pc3 AG AG - - AG D AG DD AG
B1 - - - - - - -
B2 AG D AG AG AG DD AG AG DD -
B4 - - - - - - -
B6 - D AG - - AG - -
B7 - - - - - - -
F1 - - - - - - D -
EMP1 AG AG - - AG D AG DD AG
EMP2 AG total total - AG AG -
%total 38 46 27 23 46 35 42

Dos 26 provetes submetidos aos ciclos de molhagem e secagem sem contaminação salina só
cinco mostraram degradação. A perda de vidrado ocorreu somente em três azulejos a partir da
aresta de corte (C4 e EMP2) ou a partir de áreas já degradadas (EMP1). Aparentemente, a
fragilidade imposta no corte foi mais evidente nestes dois casos porque a ligação
vidrado/chacota já era fraca. Os EMP’s continuaram a caracterizar-se pelo empolamento,

166
Capítulo 6: Campanha experimental

aumentando a separação do vidrado. Quanto aos azulejos do século XVII, B1 fraturou-se na


primeira série dos ciclos e C7 progrediu nesse sentido mas sem que se registasse a separação
completa. Este dano ocorreu a partir de fissuras pré-existentes.
Os ensaios mostraram que a progressão dos danos ocorre preferencialmente a partir de falhas
de vidrado já existentes, localizadas nas arestas ou no centro. A fragilidade que lhes esteve na
origem poderá ser a mesma que originou o dano anterior, mas agora num estádio evolutivo
mais tardio.

6.3.5. Discussão dos resultados com cloreto de sódio


A presença de sais solúveis, em particular do cloreto de sódio, nos azulejos portugueses é
geralmente apontada como perigoso fator de degradação e principal causa da perda do
vidrado dos azulejos. Esta noção pode resultar parcialmente da extrapolação para os azulejos
dos resultados dos estudos da degradação da pedra, ambos materiais porosos e ambos
integrados em construções, cuja conservação se encontra por vezes em risco. Os azulejos, no
entanto, apesar de maioritariamente constituídos por um corpo cerâmico poroso, com
tendência à absorção e retenção da humidade, são revestidos por uma superfície vítrea
essencialmente impermeável que suporta a decoração. Portanto a evaporação em toda a face
exposta, característica da pedra e doutros materiais de construção porosos tais como as
cerâmicas não-vidradas, não é fisicamente possível em igualdade de condições nos azulejos.
Uma outra evidência que parece suportar a noção da perigosidade do cloreto de sódio é a
ocorrência, nalguns casos, de eflorescências nas áreas expostas de chacota. No entanto esta
prova é circunstancial: as eflorescências decorrem da evaporação da água nessas áreas e a
evaporação só é possível porque o vidrado já se destacou ou está em processo de
destacamento. Por outras palavras, não se prova que tenha sido a presença de sais a provocar
o dano inicial que propiciou posteriormente a ocorrência de eflorescências.
Neste estudo partiu-se da hipótese de que as várias morfologias de perda de vidrado em
azulejos portugueses poderiam ser induzidas pela ação do cloreto de sódio, nomeadamente
em azulejos sem dano macroscópico prévio. Estávamos particularmente interessados nos
casos recorrentes onde o destacamento começa a partir das arestas. Nestes casos o vidrado
destaca-se muitas vezes limpo de chacota [Mimoso e Esteves, 2015]. O estudo experimental
realizado não permitiu comprovar a hipótese.
Os sais manifestam-se pelas suas cristalizações, podendo ou não implicar a perda de vidrado,
pulverulência ou laminação das chacotas. Mas com uma única exceção, a cristalização dos sais
só provocou danos macroscópicos quando o azulejo estava fragilizado por danos anteriores ou

167
Capítulo 6: Campanha experimental

por defeitos de fabricação. Este facto é evidente comparando os danos incorridos durante o
processo inicial de dessalinização e os danos finais (Tabela 6.1) que mostra que a
dessalinização foi quase tão danosa como todo o envelhecimento posterior. Este facto é
atribuível à existência de uma degradação inicial que a expansão provocada pela molhagem
veio exacerbar, tal como os ciclos de recristalização subsequentes em que os sais se
mostraram como uma agressão “oportunista” que aprofundou estados degradativos já
existentes.
Assim, podem ser tiradas as seguintes conclusões:
 De uma forma geral, os azulejos que apresentavam um nível reduzido de degradação
(ou que não apresentavam qualquer deterioração) não foram afetados em termos
macroscópicos pelos testes de envelhecimento realizados. Nesta base, a perda de
vidrado encontrada in-situ, associada à presença de cloreto de sódio, poderá resultar
doutras agressões que não apenas da cristalização do NaCl numa base causa/efeito. A
degradação típica provocada começa a maior parte das vezes a partir das arestas,
onde é possível existir evaporação, desagregando a chacota e eventualmente
propagando-se no interior, mas raramente destacando o vidrado de uma forma que
este caia sem chacota aderente. Assim, o destacamento do vidrado sem chacota
verificado in situ é hipoteticamente resultante de uma outra agressão;
 Em azulejos em que o vidrado já se encontra em destacamento, o cloreto de sódio
pode acelerar notavelmente o processo de degradação e, como regra geral, pode
afirmar-se que, quanto pior o estado inicial, maior a velocidade da degradação
resultante;
 Também as áreas de chacota expostas pelas falhas de vidrado nem sempre
corresponderam às áreas de evaporação-cristalização expectáveis e visíveis através de
eflorescências, e nem sempre se lhes reconheceu arenização ou desagregação
expectável da eventual formação de subflorescências;
 A única exceção macroscópica foi o azulejo B2, fabricado em Coimbra. Contudo,
mesmo neste caso, o destacamento de vidrado ocorreu com uma camada de chacota
aderente. A produção de Coimbra requer um estudo específico na base de hipotéticas
causas decorrentes de especificidades da técnica de fabricação, tais como a existência
de um engobe que enfraqueça a ligação, ou a sua rotura causada pela expansão
hídrica da chacota, que os dados atuais sugerem, em alternativa ao efeito físico da
simples cristalização de sais solúveis;

168
Capítulo 6: Campanha experimental

 A propagação de fendas e ruturas em cerca de 40 % dos provetes, que apresentavam


defeitos de fabricação na chacota, tais como pequenas inclusões e vazios onde se
podem concentrar as tensões, parecem ser consequência da expansão hídrica das
chacotas. Tais casos estão aparentemente relacionados com o fenómeno já registado
da rotura espontânea em azulejos pré-industriais aplicados em paramentos húmidos
[Mimoso et al, 2012c];
 Dessalinizações prolongadas por imersão mostraram ser capazes de provocar danos
consideráveis nos azulejos (frequentemente superiores, na realidade, aos danos
provocados pelo nosso ensaio de envelhecimento) devendo questionar-se o seu valor
global, especialmente nos casos em que não exista um estudo preliminar dos sais
existentes e das condições da envolvente que expressamente os recomendem;
 As amostras que melhor suportaram o ensaio de envelhecimento foram igualmente as
que menos água absorviam, o que sugere que será possível desenvolver um método
de conservação preventiva de longo prazo com base na redução das propriedades de
absorção de água de azulejos aplicados em suportes arquitetónicos.
As células de envelhecimento mostraram aptidão à realização destes ensaios. Foi possível
proceder à molhagem, ao isolamento das áreas porosas expostas no tardoz e induzir a
evaporação preferencial para as superfícies em contato com o ambiente exterior.
Por fim, apesar de o presente estudo se centrar no cloreto de sódio, consideramos que os
resultados são consistentes com a física dos processos de cristalização evaporativa e passíveis
de extrapolação a outros sais solúveis com hábitos semelhantes e sempre que a sua
solubilidade não apresente variações notáveis no intervalo de temperaturas normalmente
existente nos respetivos locais nem ocorram transições polimórficas nas condições ambientes.
Um caso que estes ensaios não permitem reproduzir inteiramente encontra-se tratado no
capítulo final: trata-se da aglomeração de cloreto de sódio em contato com o ambiente
quando a humidade relativa ambiente é tal que propicia ciclos de dissolução e recristalização
sem necessidade de água obtida dos suportes.

169
Capítulo 6: Campanha experimental

6.4. Ensaios de envelhecimento alcalino com hidróxidos


A determinação das espécies salinas colhidas nas inspeções in situ mostrou que a trona
(hidrogenocarbonato de sódio hidratado) era o terceiro sal mais comum (logo após o sulfato
de cálcio e o cloreto de sódio), tendo particular representatividade no litoral de Portugal
Continental [Esteves et al., 2015/2016].
A trona poderá resultar da carbonatação do hidróxido de sódio. As soluções alcalinas que
percolem através das paredes dos edifícios poderão molhar as chacotas e hipoteticamente
causar o enfraquecimento da ligação vidrado/chacota por ataque direto à sílica amorfa. J.M.
Mimoso [Mimoso, 2014] e colegas do LNEC encontraram geles de sílica, cálcio e potássio
associados ao destacamento do vidrado que apontam para a ocorrência de reações do tipo
alcalis-sílica, claramente identificadas no ataque alcalino aos inertes vítreos dos betões [Santos
Silva, 2006].
Com a segunda campanha experimental pretendeu-se verificar - através de ensaios de
envelhecimento acelerado que pretendem simular as condições de integração arquitetónica -
se as soluções alcalinas conduzem à degradação da interface vidrado/chacota e ao eventual
destacamento do vidrado.

6.4.1. Preliminares

6.4.1.1. Preparação de provetes

Cada azulejo foi dividido em três ou quatro provetes, de acordo com o tamanho da amostra.
Dois provetes de cada azulejo foram utilizados em diferentes ensaios, tendo o terceiro sido
mantido como testemunho e o quarto, para ensaio branco em água.
Procedeu-se à dessalinização preliminar com água desionizada durante uma semana, para dar
início aos processos de envelhecimento em condições aproximadamente iguais.

6.4.1.2 Células de envelhecimento

A técnica de construção das células de envelhecimento foi idêntica à descrita na seção 6.3.1.2.
Para os ensaios com soluções de hidróxido de sódio e hidróxido de potássio construíram-se
células individuais para cada provete. Nos restantes ensaios de envelhecimento utilizou-se
uma célula única com todos os provetes montados na mesma tampa (Fig. 6.18 – 6.20).

170
Capítulo 6: Campanha experimental

Figura 6.99

Figura 6.18: Abertura das tampas Figura 6.19: Frente e verso com os Figura 6.20: Aplicação de silicone
para encaixe dos provetes provetes montados [Imagem: L. para vedar a tampa no encaixe
[Imagem: L. Esteves]. Esteves]. [Imagem: L. Esteves].

As caixas receberam as diferentes soluções até ao limite da sua capacidade e a junta de


encaixe da tampa foi selada com silicone.
Os níveis de solução eram aferidos semanalmente e quando necessário restabelecidos com
uma seringa através de um orifício aplicado na tampa que durante o ensaio permanecia
tapado. A intenção era manter o tardoz dos provetes permanentemente molhado (Fig. 6.21 –
6.23).

Figura 6.100 Figura 6.101

Figura 6.21 Reposição dos níveis de solução Figura 6.22: Célula de envelhecimento [Imagem:
[Imagem: L. Esteves]. L. Esteves].

Figura 6.102

Figura 6.23: Esquema de montagem das células de envelhecimento (Imagem: L. Esteves).

171
Capítulo 6: Campanha experimental

6.4.2. Princípio da simulação experimental


Os provetes permaneceram numa estufa de ventilação natural Heraeus T6420 à temperatura
constante de 60 ᵒC, com o tardoz em contacto com a solução. A temperatura escolhida é
superior em 20 ᵒC ao estabelecido na norma ASTM (C1567-11) para a avaliação da reatividade
dos materiais cimentícios às soluções alcalinas mas enquadra-se na temperatura máxima
medida em fachadas exteriores (Heyer, 1963) e foi adotada para aumentar a reatividade. A
evaporação é induzida através do vidrado e pelas arestas livres. Os azulejos foram examinados
semanalmente, a fim de detetar novos danos que pudessem resultar do contacto com
soluções alcalinas.

6.4.3. Soluções alcalinas e duração dos ensaios

Solução de hidróxido de sódio


Solução alcalina de pH 14,0 estabelecida pela norma ASTM C1567-11. Dissolveram-se 40 g de
NaOH em 900 ml de água e adicionou-se água destilada até perfazer 1 L. O ensaio teve a
duração de 45 semanas em estufa e foi dado por findo devido à degradação evidenciada pelos
provetes.

Solução de hidróxido de potássio


Solução alcalina de pH 10,8 preparada dissolvendo 0,05 g de KOH em 1 L de água desionizada.
Ensaio com a duração de 77 semanas em estufa.

Solução de hidróxido de cálcio


Solução alcalina de pH 13,3 preparada dissolvendo 2 g de Ca(OH)2 em 1 L de água desionizada.
Ensaio com a duração de 65 semanas em estufa.

Solução de hidróxido de sódio + hidróxido de cálcio


Solução alcalina de pH 13,9 preparada dissolvendo 40 g de NaOH e 0,5 g de Ca(OH) 2 em 1 L de
água desionizada. Ensaio com a duração de 65 semanas em estufa (Fig. 6.24).

172
Capítulo 6: Campanha experimental

Figura 6.103

Figura 6.24: Células de envelhecimento no interior da estufa Heraeus a 60 ᵒC (LNEC)


[Imagem: L. Esteves].

Água desionizada
O teste foi realizado nas mesmas condições experimentais com os provetes no interior de uma
caixa plástica selada e com o tardoz em contacto com água desionizada.
Ensaio com a duração de 65 semanas na estufa acima referenciada.

6.4.4. Resultados

Solução de hidróxido de sódio


No final do ensaio os seis provetes submetidos à ação da solução de hidróxido de sódio
evidenciavam o destacamento do vidrado sem material cerâmico aderente (que designamos
por “destacamento limpo de chacota”).
Após a terceira semana surgiram cristalizações a partir das linhas de craquelé e, em alguns
casos, nas arestas. Os danos que entretanto foram surgindo desenvolveram-se a partir destes
locais. Os danos ocorridos ao longo dos ensaios por análise da superfície estão anotados na
tabela 6.2.

Tabela 6.2: Registo dos primeiros danos para cada provete em função do tempo de exposição ao
hidróxido de sódio.
ASR1 ASR2 ASR3 ASR4 ASR5 ASR6
Danos Semanas de ensaio em que ocorreu
Exsudações no craquelé 3 1 3 3 16 3
Perda de vidrado 9 18 - 24 4 8
(craquelé) (fissura) (aresta) (aresta) (aresta)
Empolamento - 30 27 16 28 -
Desnível entre tesselas de craquelé 8 - - 16 30 16
Pústulas - 19 28 - - -

As figuras 6.25 à 6.28 ilustram as alterações verificadas nos ensaios e registadas na tabela 6.2.

173
Capítulo 6: Campanha experimental

Figura 6.104 Figura 6.105

Figura 6.25: Exsudação a partir das linhas de Figura 6.26: Empolamento e destacamento do
craquelé no provete ASR2 [Imagem: L. Esteves]. vidrado no provete ASR5 [Imagem: L. Esteves].

Figura 6.107
Figura 6.106

Figura 6.27: Desníveis das tesselas definidas pelo Figura 6.28: Pústulas fechadas na superfície do
craquelé no provete ASR4 [Imagem: L. Esteves]. vidrado no provete ASR3 [Imagem: L. Esteves].

A tabela 6.3 mostra imagens dos provetes e vistas de secções antes e depois do ensaio. Como
foi dito, em todos os casos ocorreu o destacamento do vidrado sem chacota aderente - nas
imagens SEM a separação corresponde à camada negra entre o material cerâmico (cinzento
médio) e o vidrado rico em chumbo (cinzento claro).

174
Capítulo 6: Campanha experimental

Tabela 6.3: Imagens obtidas antes e após o ensaio de envelhecimento acelerado com hidróxido de
sódio.

ASR1 ASR2
Iníco
45 semanas

ASR3 ASR4
Iníco
45 semanas

ASR5 ASR6
Iníco
45 semanas

175
Capítulo 6: Campanha experimental

O resultado da análise por XRD às concreções formadas na interface vidrado/ chacota


identificou trona, um dos sais mais encontrados nas inspeções in situ (Fig. 6.29).

Figura 6.108

Figura 6.29: Diagrama XRD da eflorescência colhida depois do ensaio.

Solução de hidróxido de potássio


O grupo das seis amostras submetidas à ação da solução saturada de hidróxido de potássio
não evidenciou qualquer tipo de dano macroscópico, embora tenha sido o ensaio de maior
duração.

Solução de hidróxido de cálcio


Os quatro provetes não evidenciaram alterações macroscópicas durante os ensaios. O SEM
apenas mostrou alteração no provete do século XVII (Ca1) através do alargamento do craquelé
do tipo 1.

Solução de hidróxido de sódio + hidróxido de cálcio


Os quatro provetes submetidos à solução conjunta de hidróxido de cálcio e hidróxido de sódio
sofreram danos na superfície e na ligação vidrado/chacota semelhantes ao que ocorreu da

176
Capítulo 6: Campanha experimental

exposição com a solução de apenas hidróxido de sódio (Fig. 6.30 e 6.31). No entanto, a
progressão da degradação foi visivelmente mais lenta (Tabelas 6.4 e 6.5).

Figura 6.109 Figura 6.110

Figura 6.30: Empolamento e destacamento do Figura 6.31: Novas fissuras circundando os poros,
vidrado (NaCa2) [Imagem: L. Esteves]. causadas pelo início do destacamento (NaCa2)
[Imagem: L. Esteves].

Tabela 6.4: Registo dos danos para cada provete em função do tempo de exposição à solução
combinada dos hidróxidos de sódio e de cálcio.

NaCa1 NaCa2 NaCa3 NaCa4


Danos Semanas de ensaio em que ocorreu
Exsudações no craquelé 2 2 4 3
Perda de vidrado 12 17 - -
Empolamento - 30 27 16
Desnível entre tesselas do craquelé 12 65 37 16
(aresta)
Pústulas - - - 22

A tabela 6.5 mostra imagens dos provetes e vistas de secções antes e após o ensaio. O
destacamento do vidrado limpo de chacota ocorreu em todos os casos, exceto no azulejo do
século XVII (NaCa1). Nas imagens SEM a separação corresponde à camada negra entre o
material cerâmico (cinzento médio) e o vidrado rico em chumbo (cinzento claro).

177
Capítulo 6: Campanha experimental

Tabela 6.5: Imagens obtidas antes do início e após o fim do envelhecimento acelerado sob a ação
conjunta dos hidróxidos de sódio e de cálcio. Cada provete é acompanhado de fotografia em SEM-EDS
da ligação das duas camadas, antes e após o ensaio.

NaCa1 NaCa2
Iníco
Fim

NaCa3 NaCa4
Iníco
Fim

6.4.5. Discussão dos resultados do envelhecimento alcalino com hidróxidos


As soluções alcalinas de hidróxido de sódio ou de potássio atacam as ligações da sílica com
particular intensidade no caso da sílica reativa (amorfa ou muito deformada) [Rajabipour et al.,
2015] e embora não tenhamos encontrado referências escritas ao hidróxido de cálcio, a
alcalinidade das argamassas modernas de cimento Portland é considerada por alguns
investigadores como um perigoso agente de alteração dos materiais tradicionais [Sousa et
al.,2011]. No entanto, no espaço de tempo em que decorreram os ensaios de envelhecimento

178
Capítulo 6: Campanha experimental

(cerca de um ano), só as soluções com hidróxido de sódio provocaram danos visíveis nos
provetes. Nos outros casos não foi possível confirmar, à macro escala, a hipótese de que o
contacto com as soluções provocará o destacamento do vidrado.
As soluções contendo hidróxido de sódio mostraram-se altamente agressivas e eficazes na
rotura das ligações entre o vidrado e a chacota em todos os provetes, com claros sinais de
destacamento (empolamento, formação de uma superfície irregular ou queda de fragmentos)
que se tornaram evidentes, num dos provetes, a partir da quarta semana e que, no que
mostrou maior resistência, ocorreram na semana 27. A adição do hidróxido de cálcio não
tornou o ataque comparativamente mais rápido ou mais daninho.
A observação das secções polidas dos provetes após os ensaios com hidróxido de sódio
mostrou, em todos os casos e independentemente da cronologia e estado anterior do provete,
a delaminação do vidrado limpo de chacota, compatível com o tipo 2 de propagação fissural na
interface vidrado/chacota [Mimoso et al., 2012c]. Concluímos, portanto, que a presença nas
estruturas arquitetónicas de soluções alcalinas, com iões sódio, constitui um risco sério para as
cerâmicas vidradas nelas integradas, podendo conduzir a prazo mais ou menos longo
(dependendo dos períodos húmidos e da alcalinidade) à delaminação e destacamento do
vidrado, mesmo na ausência dos ciclos de dissolução/cristalização associados aos sais solúveis.
Na verdade, o ataque alcalino não exige áreas de evaporação como é o caso, por exemplo, do
cloreto de sódio. No entanto a existência de áreas de evaporação poderá tender a concentrar
as soluções e aumentar a alcalinidade. Embora este efeito deva ser mais notável no caso de
soluções ainda longe da saturação em contato com os materiais durante períodos alargados de
tempo, é relevante apontar que nos ensaios realizados se registou alguma correlação entre o
dano e a proximidade de áreas de evaporação (arestas, fissuras de craquelé e poros) visível,
por exemplo, no caso da figura 6.30 em que se observa uma fissura em torno de um poro que
prenuncia a formação de uma área circular de vidrado destacado tendo o poro como centro.
O destacamento do vidrado limpo de chacota corresponde ao encontrado por nós em
inspeções in situ realizadas em Portugal, frequentemente associado à presença de trona
[Esteves et al., 2015/2016]. A presença de trona pode ser o resultado da carbonatação do
hidróxido de sódio, que seria o agente inicial de ataque, em contacto com o ar.
As outras soluções alcalinas testadas (hidróxido de potássio e hidróxido de cálcio) não foram
macroscopicamente prejudiciais dentro do intervalo de tempo dos ensaios, nem as
observações no SEM permitiram o reconhecimento de sinais de destacamento do vidrado.
Parece no entanto verosímil que viessem a surgir danos num prazo mais alargado que a
duração dos ensaios não permitiu reproduzir.

179
Capítulo 6: Campanha experimental

O azulejo de Coimbra mostrou menor resistência à ação do hidróxido de sódio


comparativamente às outras amostras, revelando destacamento rápido do vidrado e lixiviação
do manganês. O ataque à espessura da matriz vítrea poderá estar associado à temperatura de
cozedura do vidrado.

180
Capítulo 6: Campanha experimental

6.5. Ensaios de envelhecimento na presença de carbonato de sódio


A realização de ensaios de envelhecimento acelerado com soluções de carbonato de sódio não
estava prevista no plano inicial e foi também sugerida pelo número de casos em que, nas
inspeções em obra, foi encontrada trona associada à degradação dos azulejos, tendo-se
suposto neste caso que a trona poderia resultar da percolação através das paredes de soluções
de carbonato de sódio.
Com a terceira campanha experimental procurou-se determinar se as soluções de carbonato
de sódio poderiam ser danosas para os azulejos, através da simulação em laboratório de
situações potencialmente perigosas que poderão ocorrer in situ. Foi pesquisada a ocorrência
de danos de natureza química e física, em condições de temperatura variável, em azulejos
cujas chacotas cerâmicas eram molhadas por uma solução saturada de carbonato de sódio.
Um estudo das propriedades do carbonato de sódio identificou dois fatores de risco: i) a alta
alcalinidade das soluções; e ii) a elevada dependência da solubilidade com a temperatura
numa gama encontrada nos monumentos portugueses. Este estudo sugeriu a realização de
dois ensaios diferentes que permitissem avaliar a perigosidade para os azulejos dos dois
fatores de risco mencionados.

6.5.1. Princípio da simulação experimental


Propriedades do carbonato de sódio
As soluções aquosas de carbonato de sódio são muito alcalinas. A 25 ᵒC o pH de soluções com
1, 5 e 10% m/m é indicado como, respetivamente 11.37, 11.58 e 11.70 [Eggeman, 2001].
Existem dados contraditórios na bibliografia quanto à solubilidade do carbonato de sódio em
função da temperatura devido à existência de três hidratos e por isso recorremos ao trabalho
de Apelblat e Manzurola [2003] que determinaram diretamente a solubilidade em condições
controladas (Tabela 6.6 e fig. 6.32).

181
Capítulo 6: Campanha experimental

Tabela 6.6: Solubilidade do carbonato de sódio anidro em água em função da temperatura [Apelblat e
Manzurola 2003].

T/ᵒC m/(g/kg) T/ᵒC m/( g/kg) T/ᵒC m/( g/kg)


6 95,4 43 487,6 59,2 459,0
11 111,1 44 483,4 60 452,6
15,5 166,6 44,5 474,9 61 474,9
20,5 227,9 47,5 483,4 63,5 468,5
25 300,0 49 472,8 64 460,0
30 406,0 50 467,5 65 450,5
33 469,6 53,8 465,3 67,5 451,6
35 507,7 54 472,8 68 464,3
38 498,2 55 464,3 69 460,0
40 487,6 57 457,9 70 455,8
40,5 489,7 59 466,4

Figura 6.111

Figura 6.32: Solubilidade em água do carbonato de sódio relativamente à temperatura (baseado na


tabela 6.6).

Ensaios realizados
Costa e Delgado Rodrigues [2004] mediram recentemente temperaturas do ar entre 9 e 24 ᵒC
na capela-mor da Sé de Évora. Às duas temperaturas extremas, a solubilidade do carbonato de
sódio varia desde cerca de 100 g/kg de água até cerca de 300 g/ kg de água.
Pretendeu-se verificar a ocorrência de danos de natureza química e física em condições de
temperatura variável em azulejos cujas chacotas cerâmicas sejam molhadas por soluções de
carbonato de sódio. Esperava-se dano de natureza química decorrente do contacto da
interface vidrado-chacota com uma solução de elevado pH e dano de natureza física, através
da cristalização por evaporação do solvente e ainda por precipitação de uma fase sólida por
sobressaturação causada pelo abaixamento de temperatura duma solução quase-saturada.
Foram realizados dois ensaios de contato permanente do tardoz dos provetes com uma
solução de carbonato de sódio, sendo a eventual evaporação induzida pela face vidrada e
arestas. Os ensaios diferiam sobretudo no facto de um deles impor a precipitação do sal no

182
Capítulo 6: Campanha experimental

interior dos poros por sobressaturação causada por um abaixamento da temperatura até aos 9
ᵒC.

Ensaio 1- Ataque químico a alta temperatura com cristalização por evaporação


O ensaio 1 consistiu em ciclos de 14 dias: 7 dias à temperatura de 60 ᵒC e 7 dias à temperatura
ambiente controlada de 20 ± 2 ᵒC (TA). Este ensaio impõe o ataque químico a alta temperatura
e a cristalização por evaporação. Impõe também uma eventual cristalização por
sobressaturação quando a temperatura baixa até à ambiente.

Ensaio 2- Ataque químico a alta temperatura com cristalização por evaporação e precipitação
duma fase sólida por sobressaturação a baixa temperatura
O ensaio 2 consistiu em ciclos de 14 dias: 7 dias à temperatura de 60 ᵒC e 7 dias à temperatura
de 9 ± 2 ᵒC em frigorífico.
Tomando o ensaio 1 como um branco, a comparação dos resultados deste ensaio com os do
primeiro permite avaliar que parte do eventual dano se deve à cristalização por
sobressaturação decorrente do forte abaixamento da temperatura.

Solução de carbonato de sódio


A solução foi preparada a 57,8 ᵒC dissolvendo 460 g de carbonato de cálcio anidro em 1000 g
de água desionizada. A solução foi arrefecida a 28 ᵒC, não se observando qualquer depósito
sólido visível no fundo do recipiente. Mediu-se um pH de 10,74 a 57,8 ᵒC e 11,05 a 28 ᵒC após
o arrefecimento. Uma amostra da solução foi depois arrefecida a 10 ᵒC, notando-se facilmente
uma precipitação sólida.
Os ensaios tiveram a duração de 19 semanas tendo um dos provetes sido retirado mais cedo,
como se descreverá, dado o avançado estado de desagregação.

6.5.1.1. Preparação das amostras

Cada azulejo foi dividido em três provetes. Duas frações de cada azulejo foram utilizadas, uma
para cada variante do ensaio de envelhecimento acelerado, ficando a terceira como
testemunho. Procedeu-se à dessalinização preliminar com água desionizada durante uma
semana, para dar início aos processos de envelhecimento em condições aproximadamente
iguais.

183
Capítulo 6: Campanha experimental

6.5.1.2. Células de envelhecimento

Montaram-se três provetes (correspondentes a uma fração de cada azulejo) numa célula única
seguindo as metodologias descritas nos ensaios anteriores nos pontos 6.3.1.2 e 6.4.1.2.

6.5.2. Resultados
Na tabela 6.7 sistematizam-se os danos verificados no decorrer dos ensaios 1 e 2.

Tabela 6.7: Danos verificados no decorrer dos ensaios de envelhecimento.


Ensaios AZ01 (séc. XVII) AZ02 (séc. XVIII) AZ03 (séc. XIX)
1. Ciclos semanais Alargamento e acentuação de
Sem dano macroscópico Sem dano macroscópico
60 ᵒC ↔ TA craquelé (Fig. 6.33);
Fratura (Fig.6.34 a); Delaminação da chacota; Fratura (Fig. 6.36 a);
Delaminação da chacota Frente de destacamento de Empolamento e desnível do
(arestas); vidrado (Fig. 6.35 b); vidrado (Fig. 6.36 b);
2. Ciclos semanais Empolamento e desnivelamento Perda de pequena porção Perda de vidrado com e
60 ᵒC ↔ 9 ± 2 ᵒC entre tesselas (Fig. 6.34 c); de vidrado com chacota sem chacota aderente (Fig.
Perda de vidrado com chacota agarrada; 6.36 c);
aderente (Fig.6.34 b); Acentuação de craquelé Acentuação de craquelé.
Acentuação do craquelé. (Fig. 6.35 a).

O ensaio 2 com ciclos até 9 ± 2 ᵒC foi o mais severo. Os provetes dos séculos XVII (AZ01) e XIX
(AZ03), com craquelé no vidrado mais evidente, mostraram menor resistência aos ensaios de
envelhecimento (Fig. 6.33, 6.36).

184
Capítulo 6: Campanha experimental

Figura 6.112

Figura 6.33: Azulejo AZ01 antes e durante o ensaio 1, verificando-se a acentuação de craquelé [Imagens:
L. Esteves].

a)

c)
Figura 6.113
b) d)
Figura 6.34: Provete AZ01 antes e depois do ensaio 2: a) fissuração do provete (após a 1ª semana a 9 ± 2
ᵒC); b) a mesma área com delaminação da chacota e destacamentos no fim do ensaio; c) empolamento
e fracturação do vidrado; d) danos ocorridos após o ensaio [Imagens: L. Esteves].

Figura 6.114

a) b)
Figura 6.35: Estado do provete AZ02 antes e após o ensaio 2: a) demarcação do craquelé no final do
ensaio; b) frente de destacamento a partir da aresta [Imagens: L. Esteves].

185
Capítulo 6: Campanha experimental

a) b) c)
Figura 6.115

Figura 6.36: Danos ocorridos no ensaio do provete AZ03 antes e após o ensaio 2: a) rutura e
empolamento de vidrado (às 10 semanas); b) após ensaio; c) detalhe do canto esquerdo. O
destacamento do vidrado ocorre com uma fina camada de chacota agarrada e é acompanhado da
delaminação do suporte cerâmico [Imagens: L. Esteves].

As observações no SEM/EDS (Tabela 6.8) mostraram que o tipo de craquelé de cada provete
não sofreu alteração com os ensaios de envelhecimento. Verificou-se um alargamento das
fissuras para os dois azulejos AZ01 e AZ03 depois das baixas temperaturas do ensaio 2. Nos
três provetes ocorreu a fratura da chacota ou/e o alargamento do craquelé de tipo 1, que se
propaga depois paralelamente ao vidrado conduzindo ao seu destacamento com chacota
agarrada.
Tabela 6.8: Imagens em SEM/EDS de cada azulejo. Na primeira coluna, as imagens representativas das
condições iniciais antes dos ensaios e nas duas outras colunas, os resultados obtidos nos dois ensaios de
envelhecimento.
Caracterização 60 ᵒC ↔ TA 60 ᵒC ↔ 9 ± 2 ᵒC
AZ01 (séc. XVII)
AZ02 (séc. XVIII)
AZ03 (Roseira)

186
Capítulo 6: Campanha experimental

O difractograma de XRD na figura 6.37 mostra que a eflorescência formada sobre a superfície
das amostras consiste principalmente de trona e alguma termonatrite. A sílica é atribuível a
pequenas partículas cerâmicas e a gaylussite à interferência com os componentes
carbonatados do biscoito.

Figura 6.116

Figura 6.37: Difractograma de raios X da amostra de eflorescência colhida depois do ensaio: K –


Kalicinite (bicarbonato de potássio); G – Gaylussite (carbonato de sódio cálcio hidratado
Na2Ca(CO3)2·5H2O); Th – Termonatrite (carbonato de sódio Na2CO3·H2O); T – Trona
Na3(CO3)(HCO3)·2H2O); F – Feldspatos; C – Calcite; Q - Sílica.

6.5.3. Discussão dos ensaios com carbonato de sódio


O simples contacto com o meio alcalino não provocou dano notável e, em particular, não se
registou qualquer empolamento ou delaminação do vidrado nos provetes. No entanto, em
obra, regista-se frequentemente a delaminação do vidrado associada à presença de trona
[Esteves et al., 2015/2016]. Propõem-se duas hipóteses para explicar a diferença entre o
observado em obra e o registado nos ensaios: ou a duração do ensaio foi insuficiente para
obter o mesmo resultado; ou então o agente do dano em obra é o hidróxido de sódio,
conforme ensaios de envelhecimento alcalino realizados ao abrigo deste projeto, e a trona
observada resulta da carbonatação do hidróxido em contacto com o ar.
Comparando os resultados do ensaio 2 com os do ensaio 1, os danos físicos ao nível da chacota
são atribuíveis à precipitação da fase sólida a baixa temperatura. O destacamento de vidrado
ocorreu como consequência da fissuração e delaminação da chacota.
A observação das secções polidas no SEM mostrou que os danos tiveram correspondência com
as fragilidades já existentes antes dos ensaios. O provete do século XVIII (AZ02), quase sem

187
Capítulo 6: Campanha experimental

craquelé, foi o que mostrou maior resistência à perda de vidrado. Ao contrário, a rede fissural
do vidrado já existente nos azulejos dos séculos XVII e XIX, conduziu a danos maiores. Estes
espaços, preenchidos pela solução e submetidos a tensões físicas provocadas pela precipitação
da fase sólida, particularmente no ensaio 2, levaram à progressiva delaminação da chacota e à
perda de vidrado. Por outo lado, o azulejo AZ02, que originalmente não apresentava qualquer
fissuração relevante sob o vidrado, desenvolveu uma rede de fissuras que se propagou
paralelamente à interface vidrado/chacota, à semelhança do que já ocorria nas outras duas
amostras.
De uma forma geral, os resultados mostram que as redes fissurais foram consideravelmente
ampliadas em resultado do ensaio 2, mas a importante ligação vidrado/chacota não foi
visivelmente afetada e por isso o vidrado não se destacou limpo de chacota.
A solubilidade do carbonato de sódio, que varia fortemente com a temperatura, constituiu o
motivo provável para o aumento do dano sofrido durante os ciclos de baixa temperatura. O
resultado foi o destacamento do vidrado, quer após a desagregação da chacota, quer com a
propagação de fissuras que se desenvolveram paralelamente à interface vidrado/chacota. A
temperatura usada é da ordem das temperaturas de inverno em grande parte do território
nacional, pelo que a possibilidade de precipitação de uma fase sólida deve ser um risco a
considerar quando é detetada trona em painéis de azulejos integrados.

188
Capítulo 7
Final

7.1. Revisão dos objetivos


Os principais objetivos do projeto de investigação que resultou na presente tese de
doutoramento eram:
 Apresentar uma súmula cronológica do entendimento do Azulejo no meio
científico nacional.
Em relação a este ponto foram revistas algumas das principais publicações que no domínio da
História da Arte trataram do azulejo português e refletiram o entendimento que dele houve
nessa época, desde a carta do Conde Athanasius Raczynski de janeiro de 1845 até ao
estabelecimento do Museu Nacional do Azulejo 135 anos mais tarde (Capitulo 1). No mesmo
capítulo foi feita uma revisão de literatura com particular ênfase nos estudos efetuados em
Portugal sobre a caracterização, degradação e conservação dos azulejos.

 Dar a conhecer as matérias-primas e a história dos processos de fabricação dos


azulejos pré-industriais
As caraterísticas físicas e químicas dos azulejos são consequência das matérias-primas, das
tecnologias e das práticas oficinais com que foram fabricados. Sobre este importante tema foi
realizada uma súmula crítica, referenciada a fontes coevas, que tentou abranger a longa
história da fabricação do azulejo em Portugal, desde a segunda metade do séc. XVI até ao séc.
XIX com as limitações impostas pelas fontes existentes (Capítulo 2).
 Identificar casos de degradação macroscópica em painéis azulejares in situ,
sistematizando as formas de degradação em tipos recorrentes e identificando as
suas potenciais causas.
Em relação a este ponto foram efetuadas inspeções a 31 edifícios azulejados, onde foram
realizados registos fotográficos e colhidas amostras para posterior identificação dos sais
presentes. A atividade e os resultados encontram-se no Capítulo 4 e no Anexo I.

 Estabelecer relações entre potenciais agentes agressivos e as suas consequências


nos azulejos, tendo em consideração fatores como os defeitos de fabricação, as

189
Capítulo 7: Final

características físicas (porosidade, coesão da ligação vidrado/chacota) ou


químicas-mineralógicas e a degradação prévia dos próprios azulejos.
Em relação a este ponto foi realizada uma vasta campanha experimental sobre um conjunto de
azulejos que foram caracterizados em relação às propriedades físicas e químicas (Capítulo 5). A
campanha experimental simulou um conjunto alargado de agressões, em parte sugerido pelas
inspeções in situ, cujos resultados constam do Capitulo 6.

 Apresentar recomendações de utilização imediata na conservação em obra e no


restauro de painéis azulejares.
Este ponto é tratado no presente capítulo.

190
Capítulo 7: Final

7.2. Conclusões do trabalho

7.2.1. Inspeções in situ


Cumprindo um dos objetivos propostos, foram inspecionados 40 conjuntos azulejares com
degradação macroscópica, localizados em 31 edifícios disseminados pelo Continente, em
relação aos quais se sistematizaram formas de degradação em tipos recorrentes e
identificaram as espécies salinas detetadas. Não pretendemos com este trabalho estudar o
mecanismo de cristalização/dissolução dos diferentes sais, mas sim associar tentativamente a
sua presença com as diferentes formas de degradação. Também não fez parte do âmbito deste
trabalho a identificação das causas da humidificação das paredes, relacionadas com patologias
das próprias edificações, nem relacionar a origem dos eventuais agentes degradativos com
materiais de construção utilizados. De igual forma, não foi contemplada a influência das
condições ambientais específicas dos locais visitados.
Em cinco casos com destacamento de vidrado não foram encontrados sais, o que nos sugere
que não é precisa a ação de cristalizações de sais para haver dano. Também, a presença de um
sal não é causa suficiente para haver dano, tal como foi evidenciado em dois casos com
eflorescências de sulfato de cálcio e que tinha sido já notado por outros autores [Mimoso,
2011]. Não obstante, as inspeções permitiram associar classes de danos quase sempre ao
mesmo sal, o que sugere uma relação causal.
Podem ser diferenciadas duas classes de danos no azulejo: a) os danos ocorrem à superfície; b)
os danos ocorrem no interior da chacota, por esfoliação e desagregação.
O sulfato de cálcio foi o sal mais encontrado, tendo surgido associado com maior
predominância ao sulfato de magnésio. Os danos, sendo mais devastadores na presença
conjunta dos sulfatos, ocorrem em profundidade por desagregação da chacota que conduz à
rutura e destacamento do vidrado. O facto do sulfato de cálcio estar enquadrado nos sais
pouco solúveis não lhe confere necessariamente caraterísticas inócuas, particularmente
porque o dano que hoje se regista num azulejo pode resultar de ações do passar dos séculos.
O segundo sal mais encontrado foi o cloreto de sódio, com presença nas zonas costeiras. O
dano que mais se associava à presença deste sal era a perda de vidrado sem resíduos
relevantes de chacota aderente, ficando esta quase sempre lisa.
A trona foi o terceiro sal mais encontrado. A degradação correspondente é muito semelhante
à do cloreto de sódio, diferenciando-se em obra pelo aspeto das eflorescências.
Os três casos com sulfato de sódio não foram suficientes para a padronização da degradação,
para além da presença de eflorescências sob a forma pulverulenta de fina granularidade nas

191
Capítulo 7: Final

juntas, falhas de vidrado e craquelé. Os danos não se revelaram tão significativos quanto os
dos sais anteriores. É também relevante notar que num estudo preliminar, realizado no LNEC,
conseguiu-se causar degradação com o cloreto de sódio, mas não com o sulfato de sódio
[Pereira e Mimoso, 2012].
O cloreto de magnésio foi somente encontrado num edifício e, nesse caso concreto, o dano
consistia numa acentuada perda de vidrado, com desagregação alveolar da chacota. A análise
foi somente feita a um fragmento, desconhecendo-se se existiam outras espécies salinas
envolvidas na degradação.
O número reduzido de casos em que foram detetados sais de potássio, bem como a sua
presença residual nas amostras analisadas, não permitiram associá-lo com formas de
degradação.

Em geral, a perda de vidrado revela um processo sequencial. As áreas expostas da chacota


funcionam como zonas de evaporação dos fluídos e as cristalizações tendem a concentrar-se
na proximidade do vidrado remanescente. Esta acumulação periférica cria uma nova frente de
destacamento com perfil paralelo ao da perda anterior, progredindo destes locais até à perda
total do vidrado (Fig. 7.1).
A forma mais comum de destacamento do vidrado é a partir das arestas, talvez por serem
áreas mais expostas à evaporação pelas juntas, ou como resultado da expansibilidade hídrica e
de danos iniciais causados pela pressão entre azulejos contíguos. Os vértices também surgem
como uma das zonas mais sujeitas à degradação e é comum na presença dos sulfatos de cálcio,
magnésio e sódio, propagando-se por vezes simultaneamente em dois, três ou quatro azulejos
confluentes num mesmo ponto (Fig. 7.2).

Figura 7.117 Figura 7.118

Figura 7.1: Perda progressiva de vidrado a partir das Figura 7.2: Destacamento de vidrado a partir
arestas [Igreja de São Domingos, Viana do Castelo. dos vértices [Igreja da Misericórdia, Évora,
Imagem: L. Esteves]. Imagem: L. Esteves].

192
Capítulo 7: Final

Os defeitos de fabrico existem em todos os azulejos históricos e embora tenham sido


encontrados danos que lhes estavam associados, não foi possível estabelecer um dano
preferencial, já que a análise in situ só permite, em geral, a visualização de defeitos à superfície
(poros, enrolamentos, crateras). Mesmo assim, verificou-se que a presença de inclusões e
zonamento de diferentes barros na chacota podem favorecer a ocorrência de
descontinuidades e vazios no interior, que propiciam o dano ou aumentam as suas
consequências (Fig. 7.3- 7.5).

Figura 7.119 Figura 7.120 Figura 7.121

Figura 7.3: Inclusões no interior da Figura 7.4: As inclusões Figura 7.5: Delaminação da
chacota que levaram à fratura do (vermelhas) correspondem a chacota a partir dos filamentos de
azulejo [Imagem: L. Esteves]. áreas com perda de vidrado barro vermelho [Imagem: L.
[Ermida de Nossa Senhora Esteves].
da Paz, Montemor-o-Novo.
Imagem: L. Esteves].

Os poros são um dos defeitos de fabricação mais presentes no vidrado mas a ligação física que
estabelecem entre a chacota e o ambiente, nem sempre corresponde a uma zona preferencial
de degradação. No entanto, foram encontrados casos in situ com o mesmo padrão de
degradação a partir de poros, o que indica que os danos também podem começar a partir
destes locais (Fig. 7.6).
As matérias-primas e a técnica da fabricação definem certamente a resistência do azulejo aos
agentes de degradação. Embora tenham sido apenas três os casos com azulejos atribuíveis à
produção de Coimbra, encontrou-se relação na maior propensão para a degradação
comparativamente aos das produções de Lisboa, com danos idênticos aos encontrados no
grande conjunto de painéis desta produção atualmente em restauro no MNAz.
O estudo sobre os processos antigos de fabricação dos azulejos mostrou-nos que numa mesma
fornada podem ser feitas cozeduras simultâneas de vidrado e de enxacotamento. No interior
dos fornos antigos, de planta retangular, as temperaturas são diferentes, o que pode dar
origem a azulejos com características variadas num mesmo painel, mediante o ciclo de
cozedura que cada unidade azulejar realmente teve.

193
Capítulo 7: Final

Por outro lado, a maior relação nos teores de Pb/Si na composição do vidrado, que
corresponde a um baixo ponto de fusão, nem sempre correspondem a mais baixas
temperaturas de cozedura, por terem sido encontradas formas cristalinas de alta temperatura.
Pelo contrário, se dois azulejos com diferentes proporções de fundentes em relação ao teor de
sílica forem cozidos à mesma temperatura, é de esperar que aquele que tenha mais fundentes
se comporte como se a cozedura tivesse sido a uma temperatura mais alta, uma vez que
fundiu mais cedo e presumivelmente a interpenetração com a chacota terá sido maior.
A proveniência das matérias-primas era muito variada no caso documentado da Real Fábrica
do Rato e a preparação das pastas na generalidade dos azulejos ensaiados era pouco cuidada,
o que pode conduzir a composições diferentes de chacotas em azulejos provenientes de uma
mesma oficina. Por outro lado, a utilização das mesmas receitas composicionais pode resultar
numa grande homogeneidade dos vidrados de oficinas diversas. Assim, a atribuição de
autorias e proveniências pela análise das composições química-mineralógica pode não ser
conclusiva.

Figura 7.122

Figura 7.6: O mesmo padrão de degradação “em vulcão” a partir dos poros nos azulejos do Convento da
Graça e no Claustro do MNAz [Imagens: L. Esteves].

7.2.2. Simulação experimental da degradação


Foram realizados ensaios de envelhecimento com três agentes principais, tentando obter
degradações encontradas em obra: solução de cloreto de sódio, sal frequentemente
encontrado associado a azulejos deteriorados, cujo dano se esperava resultar das pressões de
cristalização; soluções alcalinas, que se esperava que atacassem quimicamente a ligação do
vidrado à chacota; e solução de carbonato de sódio, capaz de precipitar uma fase sólida
apenas por variação da temperatura ambiente.
A campanha experimental com o cloreto de sódio foi realizada em 26 azulejos com datas de
produção entre 1710 e 1820, agrupados por formas de degradação prévia semelhantes e

194
Capítulo 7: Final

predominantes, e que foram sistematizados em três grandes grupos, de acordo com a época
de fabricação.
Havia particular interesse em reproduzir a perda de vidrado limpo de chacota, tal como
encontrada em obra, porque esta corresponde à rotura da forte ligação do vidrado ao material
cerâmico. No entanto, não se comprovou que esta possa ser provocada por ciclos de
recristalização do cloreto de sódio. Os azulejos que apresentavam um nível reduzido de
degradação (ou que não apresentavam qualquer deterioração) não foram afetados em termos
macroscópicos pelo ensaio de envelhecimento realizado. A cristalização do sal só provocou
danos macroscópicos quando o azulejo já estava fragilizado por danos anteriores ou por
defeitos de fabricação. Deste modo, a ação do cloreto de sódio no ensaio de envelhecimento
realizado constituiu uma agressão que aprofundou estados degradativos já existentes.
O azulejo da produção de Coimbra evidenciou um comportamento diferente de todos os
outros, com destacamento do vidrado sem que tivesse sido notada degradação inicial. Uma
hipótese explicativa desse comportamento é de que o destacamento inicial resulta não da
cristalização propriamente dita, mas das tensões provocadas pela expansão hídrica que a
salinização acentuará. Esta diferença de comportamento está em princípio relacionada com a
técnica de fabricação.
A perda de vidrado começou geralmente a partir das arestas, onde era possível existir
evaporação e a maneira como esse destacamento ocorreu respeitou a adesão entre o vidrado
e a chacota: quando a ligação do vidrado estava sã, o destacamento ocorria com maior ou
menor quantidade de chacota aderente; quando a aderência era já reduzida (casos com
craquelé de tipo 2)25 então o vidrado destacava-se mais ou menos limpo de chacota.
Estas constatações não implicam que, no longo prazo, o cloreto de sódio não possa atacar e
destruir um painel de azulejos sãos, mas de acordo com o resultado do ensaio o ataque iniciar-
se-á em zonas onde a evaporação é possível, normalmente nas arestas, e não afetará a
aderência do vidrado, resultando, portanto, na perda progressiva de vidrado com chacota
aderente. Este caso é exemplificado pela situação encontrada no Palácio do Raio, em Braga
(Ficha I/2 no Anexo 1).
Em relação a características que confiram maior ou menor resistência aos azulejos, os estudos
deste tipo encontram-se sempre comprometidos pelo desconhecimento da história dos
azulejos antigos até ao momento em que foram retirados do suporte. Um exemplo
interessante é o caso dos três azulejos de espiga, que se pensa provirem do mesmo painel.

25
Definição do craquelé em dois tipos: Tipo 1- as fissuras do vidrado propagam-se na vertical apenas
para o interior da chacota e não conduzem à perda da camada vítrea; Tipo 2- as fissuras resultam na
perda de vidrado pela propagação horizontal [Mimoso e Pereira, 2011].

195
Capítulo 7: Final

Aquele em melhor estado inicial e que também resistiu ao ensaio sem degradação relevante,
foi o único em cujo corpo cerâmico foi identificada sanidina, sugerindo uma cozedura a
temperatura mais alta do que os seus pares. Esta pode ser a causa da sua excelente
resistência, mas também se pode sugerir a hipótese de que se encontrava montado num local
mais protegido e por isso estava em melhor condição inicial, o que justifica só por si a superior
resistência. Cremos que uma conclusão definitiva requer a fabricação de azulejos com
parâmetros de composição e cozedura controlados, sobre os quais serão posteriormente
realizados ensaios de envelhecimento acelerado. No entanto, é relevante notar que as
amostras que menos água absorviam foram as que melhor resistiram ao ensaio de
envelhecimento com cloreto de sódio.

A segunda campanha experimental pretendeu verificar se as soluções alcalinas (hidróxido de


sódio; hidróxido de cálcio; hidróxido de cálcio + hidróxido de sódio; hidróxido de potássio)
podiam causar a degradação da interface vidrado/chacota. No espaço de tempo de cerca de
doze meses em que decorreram os ensaios verificou-se que só as soluções com hidróxido de
sódio provocaram a quebra de ligação entre o vidrado e a chacota. Independentemente da
cronologia e tipo de craquelé primário, os ensaios com hidróxido de sódio resultaram na
propagação da rede fissural na interface vidrado/chacota, conduzindo ao destacamento do
vidrado limpo de material cerâmico. Estes resultados mostram que a alcalinidade na presença
de iões sódio pode conduzir a prazo à delaminação e destacamento do vidrado, mesmo na
ausência dos ciclos de dissolução/cristalização associados aos sais solúveis. Embora o ataque
alcalino não exija áreas de evaporação, importa sublinhar que nos ensaios realizados se
registou alguma correlação entre o dano e a proximidade de áreas de evaporação, talvez
porque nestas zonas haja uma concentração de soluções, com eventual aumento da sua
agressividade.

A terceira campanha experimental incluiu a tentativa de provocar dano por cristalização sem
evaporação. Foi utilizado carbonato de sódio, cuja solubilidade cai com o abaixamento de
temperatura. Obtiveram-se assinaláveis danos físicos atribuíveis à precipitação da fase sólida a
baixa temperatura e o destacamento de vidrado ocorreu como consequência da fissuração e
desagregação da chacota. De uma forma geral, os resultados mostraram que as redes fissurais
foram consideravelmente ampliadas, mas a ligação vidrado/chacota não foi visivelmente
afetada e por isso o vidrado destacou-se com chacota aderente.
Em resumo, conclui-se que a água é o único agente sempre presente na degradação dos
azulejos, tendo sido reproduzidas três causas diferentes:

196
Capítulo 7: Final

1- Ação física decorrente da cristalização de sais solúveis por evaporação do solvente.


Tipicamente causa danos a partir das zonas de evaporação. O vidrado destaca-se a partir das
arestas ou outras áreas de evaporação e a frente de propagação ocorre no vidrado
remanescente. Após a queda, o processo pode propagar-se para o interior, eventualmente
destruindo a chacota em profundidade, ficando com aspeto irregular, com covas causadas pela
concentração local do dano. Neste trabalho o dano foi induzido com cloreto de sódio.
2- Ação física decorrente da cristalização sem evaporação. Simulou-se por arrefecimento duma
solução de carbonato de sódio cuja solubilidade é muito dependente da temperatura. Neste
caso, os danos ocorrem no interior da chacota e o vidrado destaca-se em pequenas frações
com chacota aderente. A superfície remanescente do material cerâmico tem um aspeto
irregular.
3- Ataque químico (alcalino) à ligação entre o vidrado e a chacota. O destacamento dá-se por
rotura das fortes ligações de sílica amorfa entre vidrado e cerâmico. Neste caso, o vidrado
separa-se quase limpo de chacota, remanescendo uma superfície cerâmica lisa. Os cinco
ensaios realizados só alcançaram o destacamento efetivo do vidrado na presença de sódio.
Embora tenham ocorrido processos de degradação a partir de áreas de evaporação, tais como
poros, arestas e muito em particular pelas fissuras do craquelé, o ataque químico não
necessita de evaporação, podendo por isso iniciar-se numa área aparentemente sem defeito
no interior do vidrado, presumivelmente onde a aderência vidrado/chacota seja mais fraca. A
simulação demonstrou a evolução do craquelé do tipo 1 para o tipo 2, conforme tinha já sido
observado em obra [Mimoso e Pereira, 2011].

7.2.3. Recomendações para as intervenções


A primeira recomendação já foi enunciada muitas vezes por outros autores, mas não é demais
repeti-la porque vai subordinar o restante: não se deve intervir sem um estudo prévio
orientado para a determinação das causas da degradação. É sobre as causas que há que
intervir, no sentido de as eliminar antes de iniciar o restauro dos próprios azulejos.
Uma vez que a presença de água está associada a todas as formas de degradação que
estudámos, há que determinar a sua origem havendo a considerar a circulação através dos
suportes e a humidade proveniente do ambiente.
A circulação da humidade pelas paredes deve ser referida à sua origem e a causa eliminada.
Este aspeto está fora do domínio do presente trabalho. No entanto, é do conhecimento
corrente que enquanto alguns casos são atribuíveis a infiltrações pelas coberturas e esgotos,
outros correspondem à ascensão de humidade do solo, de cisternas existentes ou de outras

197
Capítulo 7: Final

fontes que não é possível reconhecer sem trabalho especializado e que, de qualquer forma,
pode não ser viável evitar completamente.
Tratando agora dos próprios azulejos, é importante determinar quais os sais significativamente
presentes nas chacotas. Caso seja possível secar os suportes e assegurar que as paredes que
suportam os azulejos se manterão secas, os sais existentes nos próprios azulejos, sem acesso
ao contato com a humidade ambiente, podem funcionar como consolidantes [Esteves et al,
2016] e não nos parece que devam ser removidos. Na verdade as dessalinizações efetuadas no
âmbito deste projeto provaram ser muito daninhas (ver secção. 6.3) e frequentemente mais
perigosas para a integridade dos azulejos do que propriamente o envelhecimento acelerado na
presença do cloreto de sódio.
No caso de humidade perene nos suportes, a presença de carbonato de sódio deve ser
considerada muito perigosa, quer pela alcalinidade que confere às soluções, mesmo em
concentrações baixas, como pelo risco de a concentração aumentar, ocorrendo a possibilidade
de precipitar uma fase sólida sem necessidade de evaporação do solvente. Os danos com este
sal foram claramente monitorados na Capela do Paço de Massarelos, em Oeiras, em duas
inspeções, com intervalo de seis anos (ver p.101), que permitiu acompanhar a progressão na
perda de vidrado. Neste caso a abordagem deve passar pelo levantamento dos azulejos,
respetiva dessalinização e reaplicação, utilizando técnicas tradicionais de assentamento,
eventualmente em suporte separado da parede.
Quanto aos outros sais, o estado atual do conhecimento sugere que a medida mais
recomendável será evitar a cristalização, controlando a evaporação da humidade através de
lacunas existentes ou do contorno de cada azulejo, refechando as juntas até não haver chacota
acessível e tratando as lacunas com um produto que evite a evaporação. As soluções salinas
continuarão a embeber os azulejos, provavelmente de maneira perene, mas os ciclos de
cristalização serão evitados. Estes casos devem ser acompanhados para verificar o
desempenho das intervenções.

Trataremos agora da questão da humidade ambiental. Os sais são higroscópicos, absorvendo a


humidade do ar e dissolvendo-se nela quando se atingem certas condições de humidade e
temperatura (deliquescência). A Tabela 7.1 apresenta a HR de equilíbrio de sais que
encontrámos in situ para diversas temperaturas. Quando a humidade ambiente for superior à
HR de equilíbrio, o sal encontrar-se-á em solução na humidade que absorveu do ambiente;
quando a HR baixar, cristalizará. Nas condições ambientes existentes em Portugal o cloreto de
magnésio está provavelmente sempre dissolvido e o sulfato de potássio sempre cristalizado.
Estando permanentemente em equilíbrio na fase sólida ou liquefeito em solução, não trará

198
Capítulo 7: Final

problemas aos azulejos e se não houver dano aparente, também não haverá, em princípio,
necessidade de se proceder ao levantamento e à dessalinização A perigosidade de cada sal
depende das condições ambientes, particularmente dos ciclos de humidade relativa. O cloreto
de sódio é, neste enquadramento, o sal mais perigoso já que a HR de equilíbrio é de cerca de
75%, o que quer dizer que haverá casos em que apesar do suporte estar seco bastará o
contato das eflorescências com o ambiente para ocorrerem ciclos de dissolução e
recristalização.

Tabela 7.1: Alguns dos sais encontrados in situ com os respetivos valores de HR e temperatura de
equilíbrio [Watt e Colston, 2016].

Sais HR de equilíbrio (%)


10 ᵒC 15 ᵒC 20 ᵒC 25 ᵒC 30 ᵒC
Cloreto de magnésio
MgCl2·6H2O 33,5 33,3 33,1 32,8 32,4
Cloreto de sódio
NaCl 75,7 75,6 75,5 75,3 75,1
Sulfato de sódio (anídro)
Na2SO4 - - 82,0 82,8 84,4
Sulfato de sódio (hidratado)
Na2SO4·10H2O - 95,2 93,6 91,4 87,9
Sulfato de potássio
K2SO4 98,2 97,9 97,6 97,3 97,0

Um dos casos mais complexos dos conjuntos analisados foi o da Capela de Nossa Senhora dos
Remédios em Peniche, com destacamentos anormais de material cerâmico em azulejos que,
cerca de 1970, ainda não mostravam qualquer degradação, e onde foi detetado o cloreto de
sódio. A intervenção na cobertura desta Capela, que decorreu no último quartel do séc. XX, ou
a degradação da cobertura anterior que originou a intervenção, desencadearam
provavelmente o processo de alteração com consequências devastadoras nos azulejos,
especialmente nos localizados na abóbada. É provável que o cloreto de sódio tenha estado
sempre presente na estrutura, dada a proximidade do mar, mas os danos só surgiram por
alturas da intervenção, adiantando-se como hipótese que imediatamente antes ou durante a
intervenção tenha havido molhagem substancial dos suportes, que conduziu o sal até às juntas
e fissuras onde teve contacto com o ar ambiente. A partir daí, o processo de dissolução e
recristalização já não necessitou de circulação de água pelas paredes e as condições de
humidade locais devem ser tais que ocorrem com relativa frequência ciclos de recristalização a
partir da deliquescência na humidade ambiente com o resultado que se testemunhou (Ficha
L/4, Anexo 1). Eventualmente, parte do dano pode também resultar de expansão diferencial

199
Capítulo 7: Final

causada pela salinização das chacotas, apontado como um mecanismo responsável pela
deterioração de materiais porosos [von Konow 2002; Diaz Gonçalves e Brito, 2016]. Este caso
demonstra a importância de fundamentar as intervenções nos edifícios azulejados em
pareceres competentes e na importância que poderá ter a fomentação de colaborações
conjuntas nas intervenções in situ, incluindo estudos do microclima interno dos espaços com
revestimentos azulejares em risco, enquanto características relevantes para a conservação dos
próprios monumentos. Neste, e em todos os casos em que a higroscopicidade do sal e as
condições ambientes propiciem ciclos de recristalização, as eflorescências deverão ser
removidas com uma trincha seca, e as áreas de possível contato devem ser isoladas para se
evitar trocas com o meio ambiente.
A mistura dos sulfatos de cálcio e de magnésio mostrou ser muito daninha nos azulejos. As
diferenças de HR de equilíbrio entre os dois são evidentes: na epsomite (MgSO4·7H2O) situa-se
entre 82-88 % à temperatura de 25 ᵒC; na hexahidrite (MgSO4·6H2O) entre 70-79 % HR; e para
o gesso entre 88-91 % [Wilfred Mtani, 2016]. Os sistemas complexos que resultam desta, ou
de qualquer outra mistura de sais, e que modificam as características individuais do sal, ainda
não estão bem estudados e caso haja contato com o ambiente, este deve ser evitado.

7.3. Novos conhecimentos gerados pelo projeto


1. No âmbito deste projeto foi feita uma resenha crítica de conhecimentos sobre as matérias-
primas e as antigas técnicas de fabricação dos azulejos, que agregou algumas fontes e dados
que cremos terem sido publicados no seu conjunto pela primeira vez.

2. Os ensaios de envelhecimento acelerado constituem um meio privilegiado de comprovar a


relação entre agentes agressivos e dano. O LNEC tinha já efetuado ensaios preliminares de
envelhecimento acelerado com cloreto de sódio. Através do presente projeto foram
desenvolvidas células de envelhecimento, permitindo uma vasta gama de simulações;
estabeleceram-se protocolos de ensaio reproduzindo diversas agressões e demonstrou-se a
praticabilidade de simulações com diversos agentes.

3. A investigação realizada demonstrou, pensamos que pela primeira vez, a fragilidade da


ligação vidrado/chacota a um ataque alcalino na presença de sódio. Em consequência de uma
agressão deste tipo, o vidrado destaca-se sem chacota aderente ocorrendo a carbonatação do
hidróxido em contacto com o ar e eflorescências de carbonato de sódio ou trona. Esta

200
Capítulo 7: Final

constatação pôde ser cruzada com a identificação, durante as inspeções, do mesmo tipo de
destacamento, quer associado à presença de trona, quer de cloreto de sódio.

4. A investigação realizada demonstrou ainda, e cremos também que pela primeira vez, o dano
que a precipitação da fase sólida de um sal (neste caso o carbonato de sódio) causada pelo
decréscimo da sua solubilidade com a temperatura pode provocar nos azulejos. O dano ocorre
mesmo na ausência de evaporação do solvente, desde que sejam cumpridas determinadas
condições de concentração. Estes resultados são válidos para outros substratos, como a pedra,
onde a ocorrência de trona é registada mas sem ainda se lhe ter associado um potencial para
causar o dano.

5. Finalmente a investigação veio dar relevo ao fato de o craquelé em azulejos poder estar
associado a diversas formas de degradação, quer como fator de perigosidade, quer por
constituir um primeiro sintoma. Constatou-se que em diversos tipos de agressão o craquelé
ocorre associado a uma primeira fase do ataque, quando as suas consequências ainda não são
visíveis através de outro dano. Em seguida, o craquelé alarga e propaga-se e o estudo das
secções mostra que frequentemente se prolonga até ao tardoz ou às faces laterais. O volume
do azulejo está, então, cruzado por uma rede fissural que disponibiliza caminhos de fácil
propagação à percolação de soluções até atingir o exterior, onde se podem concentrar por
evaporação do solvente. Afasta-se assim a ideia de que o craquelé é um fenómeno restrito às
imediações do vidrado e sem grande perigosidade.

7.4. Vias de investigação futura


Do trabalho desenvolvido nesta dissertação resultaram aspetos importantes para investigação
futura:
 É de grande importância o estudo da interface entre o vidrado e a chacota, já que é
uma zona particularmente sujeita a alterações que conduzem ao destacamento do
vidrado. A investigação poderá ser baseada também na fabricação de reproduções
realizadas com e sem engobes e a diversas temperaturas de cozedura, com o fim de
avaliar também, através de ensaios de envelhecimento acelerado, a resiliência obtida
em cada caso. Estudada a natureza química da ligação, será também importante
investigar o seu comportamento quando sujeita a um meio alcalino, em particular na
presença de sódio.

201
Capítulo 7: Final

 O primeiro ensaio de envelhecimento deste trabalho incidiu nos efeitos do cloreto de


sódio, por ser um dos sais mais encontrados em obra. Será interessante repetir o
estudo com outros sais encontrados em obra e, em particular, com combinações de
sais que se revelem particularmente daninhas.
 Os provetes cuja chacota apresentou propriedades hidrófugas ou que absorviam
menos água tiveram um desempenho melhor nos ensaios de envelhecimento
acelerado. Isto sugere a possibilidade de desenvolver um método de conservação
preventiva de longo prazo, com base na redução das propriedades de absorção de
água de azulejos aplicados em suportes arquitetónicos É importante encontrar um
tratamento capaz de transmitir essas propriedades que não afete negativamente o
azulejo, seja essencialmente reversível e permita ainda a ligação às argamassas de cal
para o assentamento pelas técnicas tradicionais.
 Um pormenor revelado por esta investigação merece consideração especial: a única
maneira como se conseguiu sempre reproduzir o destacamento do vidrado limpo de
chacota foi através de um ataque alcalino; no entanto as inspeções in situ
identificaram este tipo de destacamento associado, também, à presença de cloreto de
sódio. Um dos orientadores desta tese sugeriu como hipótese explicativa a ocorrência
duma electrólise das soluções de cloreto de sódio cujo cátodo se situaria na região da
interface entre o vidrado e a chacota. O cloro formado no ânodo seria libertado
lentamente como gás, enquanto o hidróxido formado no cátodo iria provocar o
destacamento limpo do vidrado, após o que a evaporação conduziria à formação de
eflorescências de cloreto de sódio, ocultando a causa original. Esta hipótese poderá
ser verificada através do reconhecimento da existência de correntes elétricas
formadas pelo contato de elementos metálicos de diferente potencial com o
electrólito e, se confirmada, poderá ter consequências importantes para a
conservação do património azulejar.
 A presença comum de gesso associada à degradação dos azulejos é interessante, dada
a pouca solubilidade do sal (cerca de 2 g/ l em água). No entanto aos cristais de gesso
está associado um risco elevado na degradação da pedra [Delgado Rodrigues, 2015]. A
solubilidade do gesso aumenta em água salgada [Moghadasi et al., 2007] e a
associação foi encontrada em dois casos com degradação particularmente severa: o
Palácio do Raio em Braga e a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios em Peniche. Esta
associação sugere que a deliquescência do cloreto de sódio em ambiente húmido pode
provocar a dissolução do gesso que lhe esteja associado e danos acelerados por

202
Capítulo 7: Final

recristalização de ambos os sais. Seria interessante um estudo de envelhecimento


acelerado na presença de soluções de gesso ou gesso e cloreto de sódio, tal como foi
feito para o cloreto de sódio, e ainda uma tentativa de simulação em câmara climática
das recristalizações por deliquescência em provetes contaminados com ambos os sais.

Acreditamos que o trabalho desta dissertação será um contributo importante para os estudos
que se perspetivam no futuro sobre a degradação de azulejos históricos. O conhecimento das
técnicas complexas e seculares que definem o azulejo como artefacto, nas suas características
composicionais e físicas, bem como a resposta aos agentes de deterioração constituirão vias
para a sua preservação. Há ainda muito a apreender sobre os mecanismos da perda de vidrado
e querendo obstar a que o tempo se encarregue da ruína dos azulejos históricos é desejável a
continuação desta linha de investigação. Prevê-se, por isso, realizar mais ensaios de
envelhecimento para tentar determinar qual o grau de agressividade dos agentes identificados
neste trabalho.
Se não podemos reverter o estado de degradação a que chegaram muitos azulejos, podemos
pelo menos contribuir para o conhecimento que salvaguarde o património ainda existente com
vista à sua conservação para assegurar que novas gerações o possam usufruir, cuidando e
prosseguindo com as preocupações que nos nortearam.

203
204
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Sedas, e Obras de Agoas Livres, 29/10/1819.
Livro 395, Representações e Consultas à Direcção da Real Fábrica, 1820-1824.
Livro 399; Representações e Consultas à Direcção da Real Fábrica, 1814-1820.
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Livro 411, Livro 1º de Registo de Representações ou Contas, 1788-1834.
Livro 502, Livro de Ordens da Direcção, 1973.
Livro 867, Contabilidade.

Arquivo Nacional Torre do Tombo


ANTT, Livro 384, Livro de Registo dos Estatutos, Alvarás, Decretos, Avizos e Informações, 1757-
1774.
ANTT, Livro 384, Condições com que Sebastião Ignácio de Almeida tomou à sua conta a Real
Fábrica da Louça do Sitio do Rato desta cidade, fl. 175.
ANTT, Livro 404, Ordens da Direcção, 1805-1827.
ANTT, Livro 412, Ordens da Direcção, 1785.
ANTT, Livro 426, Livro 1º de Registo de Attestaçoens, 1788-1833.
ANTT, Livro 444, Copiador de cartas, 1761-1770.
ANTT, Livro 446, Copiador de cartas C, 1774-1779.
ANTT, Livro 458, Copiador de cartas G, 1786-1788.
ANTT, Livro 459, Copiador de cartas Lº 1º, 1788-1806.
ANTT, Livro 462, Copiador de cartas, 1806-1835.
ANTT, Livro 502, Copiador de carta B, 1770-1774.
ANTT, Livro 551, Conta corrente com a Real Fabrica, 1828-1832.
ANTT, Livro 808, Conta corrente com a Real Fabrica, 1828-1832.
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219
220
Publicações realizadas neste período
enquadradas na investigação realizada

Esteves, L., Mirão, J., Dias, L., Candeias, A., Mimoso, J. M., Levantamentos in-situ da
degradação de azulejos e da presença de sais, in Proc. ECR2015, III Encontro Luso-Brasileiro de
Conservação e Restauro, Universidade de Évora, Portugal, Nov. 11-14 (2015) [in Revista
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Esteves, L., Candeias, A., Mimoso, J. M., Experimental research with salt crystallization in
historical Portuguese Azulejos, International Journal of Architectural Heritage, (2016)
(http://dx.doi.org/10.1080/15583058.2015.1124301).

Mimoso, J. M. e Esteves, L., Uma sistematização do destacamento do vidrado em azulejos, in


Proceedings of III Encontro Luso-Brasileiro de Conservação e Restauro, Universidade de Évora,
Évora, 11-14 Nov. (2015) [in Revista Conservar Património, 23 (2016) 9-14, DOI:
10.14568/cp2015043].

Esteves, L., Candeias, A., Mimoso, J. M., Alkaline ageing tests on historical Portuguese azulejos
[submetido no Journal of Cultural Heritage].

Esteves, L., Candeias, A., Mimoso, J.M., Accelerated ageing tests on azulejos in the presence of
sodium carbonate [já preparado, a submeter].

Pinto de Matos, M. A., Mimoso, J. M., Nobre Pais, A., Esteves, M. L., Menezes, M., Portuguese
Azulejos, World Heritage, in Proceedings of International Conference Glazed Ceramics in
Architectural Heritage, GlazeArch2015, LNEC, Lisboa, July 02-03 (2015).

Nobre Pais, A., Mimoso, J. M., Dumortier, C., Esteves, M. L., Silva, M. A., Pereira, S., Graça
Church revisited, in Proceedings of International Conference Glazed Ceramics in Architectural
Heritage, GlazeArch2015, LNEC, Lisboa, July 02-03 (2015).

221
Publicações

Mimoso, J. M., Nobre Pais, A., Campelo, J., Esteves, M. L., An unlikely catalogue of the
production of azulejos by Fárica Roseira of Lisbon circa 1870, in Proceedings of International
Conference Glazed Ceramics in Architectural Heritage, GlazeArch2015, LNEC, Lisboa, July 02-03
(2015).

Nobre Pais, A., Mimoso, J. M., Azevedo Lima, C., Esteves, M. L., Ouro sobre o azul(ejo) / Gold
over azul(ejo), in Proceedings of International Conference Glazed Ceramics in Architectural
Heritage, GlazeArch2015, LNEC, Lisboa, July 02-03 (2015).

Nobre Pais, A. e Esteves, L., Devolver ao Olhar, in A Herança de Santos Simões. Novas
Perspectivas para o Estudo da Azulejaria e da Cerâmica, Edições Colibri, Lisboa (2014).

Mimoso, J.M., Pereira, S., Esteves, L., A matter of strength – measuring the glaze-biscuit
adherence in Portuguese azulejos, in Atas do Congresso AZULEJAR, Universidade de Aveiro,
Aveiro, Out.10-12 (2012).

Mimoso, J.M., Pereira, S., Esteves, L., Santos Silva, A., Degradação dos azulejos históricos
portugueses em aplicações exteriores, in Proc. Arq.Doc, Belém, Brasil, Nov.26-28 (2012).

Mimoso, J.M., Santos Silva, A., Martins, I.M., Costa, D., Pereira, S., Esteves, L., Nobre Pais, A.,
Estudo analítico de azulejos atribuídos a produção flamenga provenientes do Paço Ducal de
Vila Viçosa, in Catálogo “Da Flandres. Os azulejos encomendados por D. Teodósio I, 5º Duque
de Bragança (c. 1510-1563)”, ed: Museu Nacional do Azulejo, Fundação Casa de Bragança
(2013).

Pinto de Matos, M. A., Nobre Pais, A., Esteves, L., Returning to the light. A Project for the
inventory and restoration of a large and unknown collection of azulejos from the Museu
Nacional do Azulejo, in Atas do Congresso AZULEJAR, Universidade de Aveiro, Aveiro, Out.10-
12 (2012).

Mimoso, J. M., Pereira, S. R. M., Esteves, L., A tour of façade azulejos decay in Lisbon, in Atas
do Congresso AZULEJAR, Universidade de Aveiro, Aveiro, Out.10-12 (2012).

222
Contactos:

Universidade de Évora

Instituto de Investigação e Formação Avançada - IIFA

Palácio do Vimioso | Largo Marquês de Marialva, Apart. 94

7002-554 Évora | Portugal

Tel: (+351) 266 706 581

Fax: (+351) 266 744 677