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Benjamin – Poema com desenhos e músicas – Biagio D’Angelo

O autor A ilustradora Ficha


PROJETO DE LEITURA

Biagio D’Angelo Thais Beltrame Autor:


Nasci na Sicília, uma Quando eu era pequena, achava Biagio D’Angelo
linda e mitológica que escondia um segredo dos meus Título:
ilha da p enínsula pais. Entrava em um armário cheio Benjamin – Poema
italiana, num vilarejo de livros, escolhia alguns dos meus com desenhos
frente ao mar, de onde saí para es- preferidos e desenhava nas pági- e músicas
tudar na Universidade de Veneza, nas em branco, pra que meus dese-
Ilustradora:
outra cidade mitológica belíssima. nhos se tornassem parte da história.
Thais Beltrame
Viajei muito a trabalho: Moscou, Não sei bem por que fazia isso, mas
Bruxelas, Lima, São Paulo, sempre cresci cultivando amor por ambas as Formato:
dando aulas de Literatura Compa- coisas: o desenho e a literatura. 20,5 x 27,5 cm
rada, Teoria Literária; apreendendo Nunca deixei de amar o papel e to- N.o de páginas:
línguas e costumes; escrevendo arti- das as coisas referentes a ele: as 32
gos; lendo muitos livros e conhecen- cartas, o nanquim, a pena, os car-
do pessoas e paisagens. Agora vivo Elaboradora:
tões escritos à mão. Acho que foi Juliana Loyola
e trabalho em Budapeste, uma cida- por isso que gostei tanto do Benja-
de imperial, onde se fala o húngaro, min; assim como eu, ele ama as su-
que é muito difícil, mas muito boni- tilezas do mundo.
to. Benjamin foi pensado por mui- Estudei Artes Plásticas em São Fran-
Quadro sinóptico
to tempo e escrito em português. O cisco e Chicago, nos Estados Uni- Gênero: literário
português do Brasil é a minha língua dos, e já expus meus desenhos em Palavras-chave: infância,
da memória, do ritmo, do Sol que várias cidades do Brasil, dos Esta- memória, narrativa poética,
deixei na minha terra natal. Benja- dos Unidos e na Inglaterra também. literatura e outras artes
min foi escrito com a companhia de Hoje transito entre as galerias e os INDICAÇÃO:
Manoel de Barros, Guimarães Rosa, Tema transversal: pluralidade Leitor
livros, e me sinto à vontade assim,
Ana Maria Machado e Angela Lago. cultural em processo
sem precisar dar nome às coisas. a partir dos

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Interdisciplinaridade: Língua
Portuguesa, Literatura, Artes
e Música anos
ensino
fundamental
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A elaboradora
Juliana Silva Loyola nasceu em Mo-
gi-Mirim (SP), mas foi criada em Sa-
cramento (MG), onde passou toda
a infância e a adolescência. Deixou
a pequena cidade mineira para cur-
sar Letras em Uberaba (MG) e, após
concluir a graduação, deu conti-
nuidade aos estudos na UNESP de
Araraquara (SP), onde concluiu o
mestrado e o doutorado em Estu-
dos Literários. É professora da Pon-
tifícia Universidade Católica de São
Paulo (PUC-SP), atuando no Progra-
ma de Estudos Pós-Graduados em
Literatura e Crítica Literária, no cur-
so de Especialização em Literatura
(como docente e coordenadora) e
no curso de Graduação em Letras.
Desde o mestrado, tem se dedica-
do de maneira especial ao estudo
da Literatura Infantil e Juvenil. A
partir de 2007, participa do corpo
de pareceristas de originais da Edi-
tora Melhoramentos.

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Resenha
Benjamin é uma narrativa poéti-
ca que se aproxima de um monólo-
go interior. Por meio desse monólo-
go, o leitor conhece o menino Benja-
min, cujo nome verdadeiro é outro,
mais difícil de ser pronunciado, se-
gundo  ele.  Asmático,  Benjamin
ouve do médico o prognóstico co-
municado  à  sua mãe:  “Quando
começar  a  desenhar,  tudo  vai
passar”.

A expectativa de cura aumenta de em ensinar os colegas. Benjamin


quando Benjamin começa a ter au- recebe de Rosália alguns desenhos
las de desenho na escola. Entretan- de presente, entre os quais está a
to a professora de desenho é uma imagem de um grande violoncelo.
mulher amarga, enrijecida, e o me- Benjamin passa a estudar o instru-
nino se sente frustrado.  Durante mento e segue pela vida lidando
o ano letivo, chega à escola uma com a asma, que, segundo ele, ain-
nova aluna: Rosália. Ela tem facili- da não passou.
dade para desenhar e boa vonta-

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Diálogo com o professor
O livro que motiva este projeto
de leitura é grandioso. Sua profun- presentativo. Nesse sentido, o livro passagens se oferecem ao leitor
didade e beleza exigem um olhar rompe as fronteiras da faixa etária, como momento presente? Sobre o
atento à forma como está cons- muitas vezes tomada como indica- que o livro fala? Qual é o tema que
truída a narrativa. É o que preten- dor de leitura. Benjamin é um livro funda essa poesia?
demos evidenciar nesta parte do que pode ser lido por todos, mes-
projeto, por considerarmos essen- mo pelas crianças. É uma obra es-
cial a apreensão mais ampla possí- teticamente completa, dotada de
vel dessa obra. predicados artísticos que atendem
O enredo de Benjamin é apenas desde o leitor infantil até o adulto
uma pequena parte dessa narrati- e o idoso.
va poética. Como se pode observar Em primeiro lugar, sugerimos a
pela resenha, a história é simples leitura desarmada: nada de querer
e relata uma parte da vida de um conhecer o livro para saber para
garoto adoentado, com limitações que ele serve, qual conteúdo ele
para viver a infância em plenitude, traz, em que ele pode ajudar as
em razão de sua grande dificuldade demais  disciplinas...  Benjamin
respiratória. pede um recolhimento, um mo-
Há elementos importantes na mento de amor, uma parada
composição, que vão dando sus- do olhar – pede exclusividade.
tentação a essa narrativa e que ga- Feito isso, há que perguntar:
rantem seu profundo significado O que há além da história?
poético e a marca literária refina- Por que essa leitura conse-
da que está presente nesse livro. gue mobilizar vários sen-
Esses elementos devem ser des- tidos de uma só vez?
cobertos pelo leitor, a fim de que Onde reside o belo
Benjamin – enquanto obra – seja nesse livro? É um re-
experimentado como um mergu- lato de memória? O
lho no interior do ser da infância, narrador já está adul-
do qual esse personagem é tão re- to? Por que algumas

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Antes de mais nada, é preciso viver se processa pela negação: em
perceber com cuidado a voz que razão da asma, adquirida (ou tor-
narra. Como se trata de uma nar- nada evidente) pelo contato com
rativa em primeira pessoa, o foco uma gata na casa da avó, Benjamin
narrativo assume papel importan- luta para respirar. Como ele próprio
te por remeter o leitor diretamente diz, a asma anuncia uma trajetória
ao interior do plano ficcional. Não de muitas batalhas, que, ao fim e
somos preparados para um encon- ao cabo, é o dia a dia de todos nós
tro com um personagem, pois é ele que experimentamos a vida.
próprio que se apresenta diante de A ideia de que, aprendendo a de-
nós. Sua primeira fala é de nega- senhar, poderia se curar da asma foi
ção: “Meu nome não é Benjamin”. vivida inicialmente como uma pro-
Ora, se o livro tem como título messa vazia, já que esse processo
esse nome, o que ele nos oferece de aprendizagem não contou com
já de saída (ou de entrada) é a ne- uma mediação eficiente, sensível,
gação do que dele se diz. O per- receptiva.  Se  desenhar  significava
sonagem explica que seu nome respirar, então as aulas de desenho
é outro, de pronúncia difícil, e eram a negação da vida para o me-
não revela qual é. Nesse fecha- nino. A chegada de Rosália é vivi-
mento, o narrador abre possi- da como um renascimento, porque
bilidades para muitos ou todos essa amizade permite a Benjamin
os nomes, o que confere ao lei- a experiência da significação – um
tor um lugar nessa narrativa pelo processo que se dá pela representa-
viés da identificação, da intimida- ção do mundo através do desenho
de. Ao se oferecer ao leitor como e depois através da música.
alguém que não é, Benjamin nos Benjamin vive todas as coisas
convida a saber quem são o per- com delicadeza e profundidade. É
sonagem e a obra. uma criança sensível e observado-
Como perso- ra. Mas, se o Benjamin que escreve/
nagem,  Ben- conta já não é criança, como pode-
jamin  é  um mos perceber tão bem esse estágio
menino  cujo infantil do personagem?

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Chegamos ao Caraluna, velhinho magrinho, magri-
cerne  da  preciosi- nho, que parecia que a esposa dele
dade dessa narrativa, não lhe dava boa comida, dizia à mi-
que é o trabalho com a lin- nha mãe (...)”. Há passagens em que
guagem. O discurso que se a mistura é tão profunda que não se
articula diante do leitor é um consegue definir a voz que narra em
misto da visão e dos sentimen- termos de uma idade cronológica: “E
tos da infância com a capaci- as perguntas eram abundantes sobre
dade  reflexiva  já  alcançada as coisas, que a mãezinha não podia
pelo  adulto.  O  autor,  Biagio responder a todas (...). A escola era
D’Angelo,  consegue  insta- uma boa dica para saber mais”.
lar sua escrita numa frontei- O autor consegue articular um
ra que amalgama os dois (ou discurso que inscreve um narrador
mais) estágios da vida. Trata- ao mesmo tempo criança, adulto e
-se de uma escrita em estado velho. Como voz, essa instância nar-
de infância, elaborada pelo au- rativa pode ser todas as idades, e
tor adulto. O texto dá vários indícios talvez esse seja o grande lugar de
de que Benjamin já não é criança: a residência da literatura infantil. Lu-
narrativa nos remete ao passado do gar de fronteira, também os gêne-
narrador; já faz dez anos que Ben- ros se misturam – uma narrativa que
jamin estuda violoncelo; Fábio, o se intitula poema com desenhos e
amigo de infância, é um encanador músicas.  Assim,  o  narrador  não
bem-sucedido. Mas, se por um lado pode ser equivalente a uma pessoa,
Benjamin não é mais uma criança, mas a uma instância de linguagem
por outro ele representa o mundo e que assume, por meio da arte literá-
as percepções que tem do passado ria, vários estados de ser, amarrados
que narra por meio de uma lógica pela memória da infância. Benjamin
infantil inscrita na linguagem: “O dr. é experiência pura!
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Mediando a leitura
Já apresentamos alguns aspectos
do livro enquanto forma literária.
Vamos a algumas ideias que podem
auxiliar o trabalho de mediação da
leitura.

Em primeiro lugar, é preciso lem- dar. As formas como a leitura será


brar que nada substitui o contato di- feita podem ser várias: o professor
reto entre leitor e obra. O trabalho lê para o grupo de alunos; todos os
de mediação é periférico a essa ex- alunos leem individualmente; a lei-
periência, embora possa ser decisi- tura é feita de maneira compartilha-
vo para os resultados que advirão da, em que cada um lê um pouco
do contato entre o leitor e o livro. etc. Feito isso, é bom estar atento
Apresentar uma obra como Benja- ao fato de que Benjamin é um livro
min deve ser o mesmo que apresen- que põe em diálogo várias manifes-
tar uma experiência de leitura. Não tações artísticas. Ele próprio inte-
se trata de propaganda ou de mar- gra dois códigos estéticos: o verbal
keting do produto, mas de uma no- e o visual. É necessário – também e
tícia que só quem viveu o livro pode principalmente – ler essa relação.
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O texto e os elementos visuais – diálogos
A ilustração em Benjamin consti- um elemento que convida ao dese-
tui uma dimensão importantíssima, nho. É importante perceber que a
porque já compreende uma primei- ilustração procura explorar aquilo
ra leitura do texto. Em pleno exercí- que o texto não mostra. Imagens e
cio da função dialógica, a ilustração metáforas como as que aparecem,
permite que o leitor entre no uni- por exemplo, nas descrições da pro-
verso singelo, porém profundo, da fessora (cara de tronco de árvore e
história, do personagem, do sentido olhos pesados como de alguém que
da infância. Trabalhando com as co- nunca tinha dormido) não são re-
res branca, vermelha e preta, o pro- presentadas pelos desenhos, por-
jeto revela, no número reduzido de que dispensam tal referência.
tonalidades, sua perfeita harmonia O vermelho está presente em to-
com a simplicidade. Os traços são fi- das as páginas e na capa, sempre
nos, semelhantes a desenhos feitos realçando detalhes, nunca toman-
com lápis preto – o primeiro objeto do toda a cena. No caso da capa,
que a criança precisa dominar quan- o vermelho marca a lombada do li-
do está em idade escolar e também vro, apresenta o autor, está na rou-
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pa do menino e nas bolinhas que porque se detém por mais tempo
introduzem a ideia de um cenário sobre as coisas da vida.
subaquático também sugerido pe- Às vezes, a cor vermelha está em
las características da vegetação do alguns peixes, outras vezes está na
entorno. Se na história narrada Ben- roupa do menino, nos objetos que
jamin é um peixe fora d’água, por ele toca, nas frases que introduzem
suas limitações que o impedem de novas páginas ou momentos mar-
participar das atividades infantis, na cantes. Essa cor confere vitalidade
ilustração ele pode respirar dentro às páginas, dá alegria aos dese-
d’água. Assim, a ilustração confere nhos, mas não de forma agressiva.
a Benjamin uma condição especial,
porque respira de forma diferencia-
da. O ritmo da respiração impõe a
lentidão dos movimentos do corpo,
uma lentidão que experimentamos
quando mergulhamos na água. A
ilustração traduz, portanto, a singu-
laridade desse menino, que, ao ter
menos,  consegue  perceber  mais,
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A presença tímida e delicada do ainda é pequeno demais (o Benja-
vermelho nos remete também à min criança) ou porque está sen-
respiração reduzida pela dificulda- do construído ao tempo em que se
de imposta pela asma, que tam- narra (uma construção da memória
bém reduz o movimento vital (do por meio de uma língua em estado
qual essa cor é representativa). Há de infância). Embora aparentemen-
pouco vermelho, mas é ele que per- te simples, os traços que desenham
mite o detalhe, o cuidado com que as cenas são de uma riqueza de
o nosso olhar é direcionado para detalhes e de uma delicadeza tais
uma ou outra parte da ilustração. que não nos permitem pensar em
A utilização dos traços em pre- algo superficial. Há nos traços a pa-
to, lembrando o lápis de desenhar ciência do gerúndio, que prenuncia
e os esboços do que será uma ilus- as mudanças mais significativas.
tração futura, nos faz pensar numa
existência em construção, algo que
está em andamento: ou porque

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Finalmente, os peixes! A ilustra- cabeça dele, como se
dora  Thais  Beltrame  é  exímia  na fosse um chapéu. Há
relação que se inscreve entre a nar- momentos em que o
rativa e a figura do peixe – animal garoto é um pouco peixe.
que nos confronta com o mistério Esse diálogo que a ilustradora
da respiração. Os peixes que ilus- estabelece com o texto verbal am-
tram o livro voam, saem do piano plia a dimensão estética do livro e
como notas musicais, passam por coloca Benjamin (como persona-
cima de uma ponte, saem de den- gem e como obra) num espaço sin-
tro de um porão. O peixe aparece gularíssimo.
também no colo do menino e na

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Interfaces interartes: literatura, música e artes plásticas
Outro aspecto que merece ser representar praticamente tudo o
destacado nessa proposta são as in- que existe no mundo. No fluxo do
terfaces que o livro estabelece com monólogo que recupera e atuali-
outras artes – o diálogo interar- za a infância, o narrador tenta se
tes. Estão presentes na concepção lembrar do nome do pintor famo-
da narrativa a literatura, as artes so que pintava formas geométricas
plásticas e a música. O subtítulo já (Picasso).
anuncia, inscrevendo as três mani-
festações artísticas: Poema com de-
senhos e músicas.
Ao ser examinado pelo dr. Cara-
luna, Benjamin recebe uma pres-
crição médica: “Quando começar
a desenhar, tudo vai passar”. Os
desenhos de Benjamin são geo-
métricos, o que incomoda muito
a professora Doroteia – uma mu-
lher com cara de tronco de árvo-
re e com olhos pesados como de
alguém que nunca tinha dormi-
do. Mais tarde, Benjamin percebe
que há beleza nas formas geomé-
tricas, já que elas podem conter e

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A música aparece no livro logo conhecendo o interior do persona-
no início, inscrita pela ilustração gem, de suas lembranças.
que mostra o menino ao piano. No caso da poesia, muitos pode-
Há outras referências à música riam ser os poemas e poetas convo-
inseridas por meio da ilustração, cados para dialogar com Benjamin:
como se pode observar em a toda “O poeta aprendiz”, de Vinicius de
obra. Moraes (musicado por Toquinho);
No nível verbal, aparece a re- “Porquinho-da-índia”, “Menino
ferência ao violoncelo: primeiro doente”, “Meninos carvoeiros”, de
num desenho feito por Rosália e Manoel Bandeira; “Eras”, “Brinca-
dado de presente a Benjamin; deiras”, de Manoel de Barros – para
mais tarde, realidade na vida citarmos apenas alguns poucos en-
do menino, que passa a estu- tre uma infinidade de belos poemas
dar esse instrumento. Há musica- que inscrevem o ser da infância.
lidade também no texto, na forma
suave e vagarosa como o leitor vai

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Benjamin – Poema com desenhos O livro é um universo de emoção,
e músicas é um livro que fala da literariedade, beleza artística. Todo
vida e das coisas que podem mar- o projeto plástico, editorial e grá-
car nossa travessia pelas diferentes fico responde harmoniosamente à
idades que enfrentamos. Benjamin proposta amorosa desse texto deli-
pode estar velho ou menino en- cado e singular de Biagio D’Angelo.
quanto narra, porque ele carrega
em seu ser todas as idades da vida.
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