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Universidade Autónoma de Lisboa

Departamento de Direito

Perspectiva Jurídica da Humanização do Sistema Prisional integrada no Tratamento


Penitenciário

Dissertação de Mestrado apresentada à Universidade Autónoma de Lisboa, para obtenção do


grau de Mestre em Direito, com especialização em Ciências Jurídico – Processuais.

Orientação do Professor Doutor Paulo Pinto de Albuquerque

Sílvia Alexandra de Oliveira de Sousa Pinto

Janeiro de 2010
1
“ Um emaranhado de grades naturais”

Por:Luís Pais
2
A Vós o meu obrigado.

Tu, tal como a tua Criadora,

sempre me deram um 2 para me obrigarem a conseguir um 5.

Foi um gosto conhecer o Mundo e os Bichos pela tua mão.

3
Agradeço aos meus pais sempre terem perdoado os desvios do meu comportamento e
apoiarem todos e cada um dos meus sonhos;

À minha família por acreditar em mim;

Ao Ludgero Paninho por ser o meu Mestre;

Ao Zé Tó Soares Nobre pela cumplicidade e confiança partilhada;

Ao juiz Juarez Morais de Azevedo pela sincera crença de que se pode mudar o Mundo;

Aos membros da F.I.A.R. por me terem adoptado e por acreditarem em mim;

Ao Caro Professor Doutor Paulo Pinto de Albuquerque por ter aceite o repto;

A todos os Profissionais que colaboraram no proposto;

Ao Dr. Moita Flores por ter suscitado tão grande interesse por este tema;

A todos os que durante horas falaram, e assim enriqueceram o meu Saber;

4
"Aquele que conhece verdadeiramente os animais é por isso mesmo capaz de compreender
plenamente o carácter único do homem."

Konrad Lorenz

"O condicionamento operante modela o comportamento como o escultor modela a argila."

Burrhus Frederic Skinner

5
Abreviaturas e siglas

AO- Ordem dos Advogados

CEFP – Centro de Estudos e Formação Penitenciária

CEPMPL- Código de Execução de Penas e Medidas Privativas de Liberdade

CP- Código Penal

CPP- Código de Processo Penal

DGPJ- Direcção-Geral da Política de Justiça

DGRS- Direcção Geral de Reinserção Social

DGSP- Direcção Geral dos Serviços Prisionais

DR- Diário da República

E.P. – Estabelecimento Prisional

IRS- Instituto de Reinserção Social

PIR- Plano Individual de Readaptação

RAVE- Regime Aberto virado para o Exterior

RAVI- Regime Aberto virado para o Interior

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Resumo

Com o presente estudo pretende apresentar-se uma breve definição e enquadramento de


conceitos tais como: Humanização; Sistema Prisional; Tratamento Penitenciário e Reinserção
Social, avançando paulatinamente pela respectiva evolução histórica e legislativa dos
mesmos.

Numa segunda fase, pretende-se atentar melhor sobre os conceitos de Tratamento


Penitenciário e de Reinserção Social, sob o prisma jurídico, enquadrando-se os mesmos
temporalmente, e procedendo-se a uma caracterização orgânica e funcional dos Agentes
intervenientes no processo acompanhamento dos Reclusos.

A Humanização é um dado adquirido do actual estado do Tratamento Penitenciário, sendo de


algum modo certo que a aplicação de Técnica nas Intervenções levadas a cabo pelos Agentes
responsáveis, teria, certamente, um resultado mais pródigo no sentido dessa pretendida
Humanização.

Afigura-se-me interessante a investigação do papel das peças legislativas na não - evolução do


Tratamento Penitenciário, ou o peso dos Direitos, Liberdades e Garantias constitucionalmente
consagrados versus a necessidade de responsabilização do indivíduo recluso e de mudança do
paradigma do actual Sistema.

É-me importante debruçar sobre a evolução da Lei no Tratamento Penitenciário, e de que


modo a produção de legislado tem vindo a influenciar positiva ou negativamente a Instituição
Prisão, enquanto Instituição modificadora de comportamento desviante, com vista ao
objectivo maior – a Reinserção do recluso na Sociedade.

Parece-me igualmente interessante ultrapassar o esquema em que o Recluso produz uma


acção, e o Sistema reage, para um outro em que o Sistema de Tratamento Penitenciário
interage logo de início com o recluso – enquanto sujeito objecto de avaliação, tendo por base
uma planificação concertada e uma evolução contingente.

A questão por detrás de toda a investigação prende-se com o seguinte:

- O Sistema é humano. Será Técnico? (leia-se planificado, consequente, eficaz…)

7
Pretende proceder-se à identificação das dificuldades sentidas pelos Técnicos na
concretização dos objectivos consagrados na Lei; das limitações do próprio Sistema; ao
levantamento de necessidades inventariadas pelos Técnicos no decorrer da sua função e ao
apuramento de razões que esclareçam a actual taxa de reincidência.

Palavras-Chave:

-Humanização

-Sistema Prisional

-Tratamento Penitenciário

-Reinserção Social

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Abstract:
In this study we present a brief definition and framework of concepts such as: Humanization;
Prisons, Prison Treatment and Reintegration, slow-moving by its historical and legislative
development.
In a second step, we intend to attend more about the concepts of Penitentiary treatment and
Social Welfare, from a legal perspective, considering a time context, and proceeding to an
organic and functional characterization of the agents involved in the process of seclusion.
The Humanization is an assumption in the current state of prison treatment, and undoubtedly
the application of technique carried out by specific agents t would achieve better results
towards Humanization.
It seems interesting to me to investigate the role of pieces of legislation on non – development
of Penitentiary treatment, or the weight of the constitutional Rights and Liberties versus the
need for self-responsibility of the individual prisoner and change the paradigm of the current
system.
It is important to me to look into the evolution of Penitentiary treatment Law, and how the
production has been legislated to influence positively or negatively the Institution Prison, as a
deviant behavior-modifying institution in order to aim higher - Reintegration of Inmates
Society.
It also seems interesting to go further and put an end to the situation in which the Recluse
produces an action and the system reacts to it, substituting it by another situation in which the
system of prison treatment interacts with the prisoner from an early stage - as a assessed
subject, based on a coordinated planning and evolution quota.
The question behind all the research relates to the following:
- The system is human. Is it Technical? (meaning planned, consistent, effective ...)
It is intended to identify the problems faced by technicians in achieving the objectives
enshrined in the law, the limitations of the System, the needs identified by technicians in the
course of their function and the clearance of the reasons to explain the current rate of
recurrence.

Key-words:

-Humanization
-Prisons
9
-Prison Treatment
-Probation

Résumé

Dans cet étude, on a l’intention de présenter une brève définition et un cadre de plusieurs
concepts, tels que: l’Humanisation; le Système Prisionnel; le Traitement Pénitentiaire; la
Réinsertion Sociale. Cette présentation est accompagnée par la découverte, peu à peu, de
l’évolution historique et législative de tels concepts.
Dans une deuxième partie, on fera attention, sous le prisme juridique, aux concepts
Traitement Pénitentiaire et Réinsertion Sociale, en encadrenant eux-mêmes temporelment, et
en procédant à une caractérisation organique et fonctionnelle des Agents intervenants dans le
procès de la Réclusion.
L’Humanisation est un donnée acquérit de l’état actuel du Traitement Pénitentiaire, donc
l’application de quelque technique dans les interventions effectuées par les Agents
responsables aurait un résultat plus prodigue pour l’Humanisation désirée.
Selon moi, il est intéressant investiguer le rôle accomplit par les pièces législatives dans la
non-évolution de le Traitement Pénitentiaire, ou le poids des Droits, des Libertés et des
Garanties constitutionnellement consacrés versus la nécessité de la responsabilisation de
chacun sujet reclus et de la changement du paradigme établi dans le Système d’aujourd’hui.
Il me semble important penser sur l’évolution de la Loi liée au Traitement Pénitentiaire, et
aussi l’influence, positive ou négative, de la production de législation dans l’Institution
nommée «Prison», tandis qu’une institution modifiante des déviations de comportement. Tout
ça en envisageant un objectif majeur – la Réinsertion du sujet reclus dans la société.
À mon avis, il est également relevé outrepasser le schème où le sujet reclus produit une
action, et le Système réagit après cette-là, pour, ainsi, créer un Système de Traitement
Pénitentiaire, marqué par l’interaction initiale parmi celui-ci et la personne prisonnière –
comme un sujet objet d’évaluation, en ce qui concerne à une planification concertée et une
évolution contingente.
La question qui soutien la base de toute cette investigation concerne à:

10
- Le Système est humain. Sera-t-il d’ordre technique (i.e., mise en plan, conséquent, efficace,
…) ?
On souhaite, alors, identifier: quelques difficultés trouvées par les Techniciens, en ce qui
concerne à la concrétisation des objectifs consacrés dans la Loi; les limitations du Système;
les nécessités énumérées par les techniciens au cours de ses fonctions; et les raisons
justifiantes de la taxe de Récidive actuelle.

Mots-clés:
- Humanisation ;
- Système Prisionnel ;
- Traitement Pénitentiaire ;
- Réinsertion Sociale

11
Indice Geral

Abreviaturas e siglas…………………………………………………………………………..6

Resumo………………………………………………………..……………………………….7

Abstract………………………………………………………………………………………..9

Resumé………………………………………………………………………………………10

1. Contextualização………………………………………………………………………….15

2. Breve Abordagem Semântica……………………………………………………………15


2.1. Sistema Prisional…………………………………………………………………….15
2.2. Tratamento Penitenciário……………………………………………………………16
3. Da História……………………………………………………………………………….16
3.1. Resenha Histórica da Pena Privativa de Liberdade…………………………………16
3.2. Súmula dos Sistemas de Execução Penal……………………………………………19
4. Do Direito Penitenciário Português………………………………………………………20
4.1. Evolução Legislativa…………………………………………………………………20
4.2. O Enforme do Direito Penitenciário no séc. XIX……………………………………20
4.3. Regulamento das cadeias civis do continente do reino e ilhas adjacentes de
1901………………………………………………………………………………….21
4.4. Reforma da Organização Prisional de 1936…………………………………………24
4.5. Reforma Prisional de 1979………………………………………………………….26
5. Das Leis Penitenciárias Nacionais……………………………………………………….29
5.1. Análise do DL 265/79 de 1.8………………………………………………………..29
5.2. Análise da Lei 15/2009 de 12.10…………………………………………………32

6. Do Normativo Legal Internacional inerente ao tratamento de reclusos…………………36


6.1. Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos……………………………………36
6.2. Regras Penitenciárias Europeias…………………………………………………….39

7. Do Garantismo………………………………………………………………………..…..42
7.1. Do excesso ou da falta [dele]…………………………………………………….…..43

12
8. Da Humanização………………………………………………………………………….50
8.1. O modelo APAC……………………………………………………………………..56
9. Do Tratamento Penitenciário……………………………………………………………..59
9.1. Dos Princípios Orientadores………………………………………………..………..64
9.2. O Plano Individual de Readaptação……………………………………….………..67
9.3. Do Ensino……………………………………………………………………………68
9.4. Da Formação Profissional……………………………………………………..…….69
9.5. Do Trabalho………………………………………………………………………….71
9.6. Da Família………………………………………………………………………..…75
9.7. Do voluntariado…………………………………………………………………..…78
9.8. Dualidade: Recluso/Sociedade ……………………………………………….……..79
9.9. Da Inovação Organizacional - os Programas do Sistema…………………….……..80
10. Da Reinserção Social……………………………………………………………………84
11. Dos Técnicos e da Técnica……………………………………………………………….92
11.1. Análise da evolução da estrutura orgânica da DGSP…………………………93
11.1.1. Serviços Técnicos………………………………………………………………93
11.2. As Orientações propostas pela Organização das Nações Unidas……………..99
12. Visão genérica do contributo das Ciências Sociais para o Sistema Prisional…………...100
13. Comentário aos Inquéritos………………………………………………………………105
14. A necessidade de um Núcleo de Formação Prisional……………………….…………..110
14.1. Centro de Estudos e Formação Penitenciária português……………..……..110
14.2. Escolas Penitenciárias brasileiras………………………………………..…..111
15. Da Reincidência………………………………………………………………….……..112
15.1. Visão de proposta: Plataforma de Prevenção da Criminalidade – PPR……..116
16. Do peso da Criminologia para o Tratamento Penitenciário………………………..……116
16.1. Da existência, evolução e necessidade de uma Investigação Científica de foro
criminal desenvolvida por organismo público……………………………...………116
17. Conclusão…………………………………………………………………………..……122
18. Anexos…………………………………………………………………………………..125
18.1. I- Textos resultantes de convites endereçados…………………...…………..125
18.1.1. Humanizar as Prisões por Ludgero Paninho………………………….………..125
18.1.2. Crime e Castigo – o poder da mente por Elizabete Carvalho……………..….127

13
18.1.3. Restaurar a humanidade em contexto prisional por Bruno Caldeira………..129
18.1.4. A humanização da prisão na perspectiva de um director prisional por Carlos
Marques Pinto………………………………………………………………………....132
18.1.5. Humanização das Prisões por José de Sousa Mendes…………………………134
18.1.6. Humanização do Sistema Prisional por António Marinho Pinto……….…….136
18.2. Questionário aplicado a Administradores Prisionais e Técnicos de Reeducação
(e outros)……………………………………………………………………...…….138
18.3. Respostas da amostra aos Inquéritos………………………………………...140
18.4. Pedido e resposta da DGPJ acerca da taxa de reincidência……………..….188
19. Bibliografia………………………………………………………………………….…..190

14
1.Contextualização

É preciso tempo. Tempo para parar e tempo para poder voltar a andar.

É preciso dar muito tempo, carinho, atenção e espaço para se ter a veleidade de pensar em
Tratamento Penitenciário.

Certamente, todo o processo se deveria pautar pela Lealdade, Confiança e Disciplina para que
se pudesse falar em Humanização do Sistema Penitenciário, mas estes são vocábulos que não
se encontram em nenhuma das Leis que regula ou já regulou a execução de penas e medidas
privativas de liberdade, falando-se sim amplamente, em Reinserção, Ressocialização e
Reeducação.

Não faltará Tecnicidade ao invés de mais Humanização?

Atentemos, Humanização é o termo utilizado para descrever a aquisição ou assimilação de


características humanas positivas por uma pessoa ou grupo de pessoas, é o acto de tornar-se
humano. Pois bem, no processo de Tratamento Penitenciário intervêm apenas e somente seres
humanos pelo que será tão difícil exigir a um recluso que adquira características humanas,
quando o que se pretende é que ele transite de um comportamento desviante para um
socialmente conforme, como exigir aos Serviços de Educação e de Reinserção Social que
igualmente sejam mais humanizados.

Torna-se redundante pedir a humanos que se humanizem. Mas pode pedir-se-lhes que sejam
mais tecnicistas, produzindo trabalho planificado, consequente e que reflictam um Sistema
mais eficaz, não obstante toda a escassez de meios humanos, técnicos, logísticos com que
convivem todos os dias.

2.Breve Abordagem Semântica

2.1 Sistema Prisional

O Sistema Prisional é um conjunto de órgãos funcionais com a competência de execução de


pena e medidas privativas de liberdade, garantindo a criação de condições para a reinserção
social dos reclusos e contribuindo para a defesa da ordem e da paz social.

15
A Direcção-Geral dos Serviços Prisionais (DGSP) é um serviço da administração directa do
Estado, integrado no Ministério da Justiça, tendo sido a orgânica da DGSP estabelecida pelo
Decreto-lei n.º 125/2007, de 27 de Abril, pelas Portarias n.ºs 516/2007 e 559/2007, de 30 de
Abril e pelo Despacho n.º 22 058/2008, in DR II, de 26 de Agosto de 2008.

2.2 Tratamento Penitenciário

Pode conceber-se tratamento penitenciário enquanto conjunto de normas jurídico-legais de


que a administração penitenciária dispõe, na medida em que a duração da pena permita, com
vista à melhoria das condições afectas ao próprio estabelecimento prisional, e ao incremento
de competências no recluso, de modo a conseguir-se uma reinserção na sociedade, tendo
dotado o indivíduo de uma conduta responsável e idónea, afastando-o de uma postura
criminógena.

3. Da História

3.1 Resenha Histórica da Pena Privativa de Liberdade

Na Idade Antiga, portanto, entre a invenção da escrita e a queda do Império Romano do


Ocidente, a pena privativa de liberdade não era concebida como sanção penal mas sim como
período de tempo que antecedia o julgamento ou a execução do réu, já que à época se aplicava
a pena de morte, as penas corporais (amputação de membros), o enforcamento, a pena de
decapitação, a roda e as infamantes.

As sanções penais atrás elencadas pesavam o estrato social do réu, e a sua aplicação tinha um
carácter discriminado sendo aplicadas segundo o arbítrio do governante.

Ao entrar-se na Idade Média (entre o séc. V e o séc. XV), o cenário manteve-se, já que a
prisão continuou sem se assumir como pena, mas sim como função cautelar, assegurando que
o réu se apresentasse a julgamento e que se efectivasse o cumprimento da sentença, visando-
se igualmente a execução de obrigações de carácter patrimonial.

Sublinhe-se que as contingências materiais eram notórias, tendo-se adoptado a aplicação de


penas cruéis cujo efeito dissuasor perante os outros transpareceriam o poder e a força da lei,

16
significando igualmente uma economia de meios, já que se evitavam os custos decorrentes da
construção de edifícios encarceradores e do consequente sustento dos reclusos.

A Idade Moderna (entre o séc. XV e o séc. XVIII) ficou marcada pelo seu carácter
transitório, dado o surgimento do sistema capitalista. O comércio cresceu
extraordinariamente, fruto, naturalmente, de modificações ocorridas no interior das
sociedades feudais europeias que se traduziram num aumento exponencial da população, no
crescimento das cidades, no desenvolvimento das manufacturas e no correlativo abandono da
economia agrícola, tendo estes vectores confluído num manifesto aumento da criminalidade.

Tendo em conta a evolução da conjuntura económica, política e acima de tudo social, a pena
capital deixou de se afigurar apropriada, pelo que cinquenta anos depois do início do século
XVI a concepção de prisão assume-se como controlo político e de segurança da própria
sociedade, tendo-se incrementado as penas privativas de liberdade, medida essa acompanhada
da edificação de cárceres.

O preso encarna o papel da efectiva aplicação da lei, enquanto objecto submisso ao poder
punitivo.

A primeira prisão na verdadeira acepção da palavra data de finais do século XVI, tendo sido
erigida na Holanda, salientando-se a instituição do trabalho obrigatório, as leituras espirituais
e a constante vigilância, podendo correlacionar-se a instituição total – Prisão, com a
conversão espiritual do indivíduo, com o exercício reiterado de actividades, que podemos
associar às origens da concepção actual de Tratamento Penitenciário.

É definitivamente na Época Contemporânea, na transição do século XVIII para o século


XIX que a mentalidade punitiva se altera, começando a encarar-se a utilização sistemática de
castigos corporais, da pena de exílio, da pena de morte e dos trabalhos forçados como práticas
bárbaras, de manifestação exacerbada de poder, sendo certo que a nova ideologia pretendia
encarar a pena como uma forma de efectivação da justiça.

O Iluminismo, em paralelo com os princípios universais de Liberdade, Igualdade e


Fraternidade que marcaram a Revolução Francesa fazem com que a pena de prisão ganhe um
duplo enfoque, já que se assume perante a sociedade, como uma punição passível de ser

17
graduada e portanto proporcional e até dividida, e por outro lado assume agora um efeito
regenerador do ser humano errante.

É nos últimos anos do século XVIII que a mentalidade punitiva ocidental se torna mais
ponderada, procurando abdicar-se das penas cruéis que não se coadunam com princípios
humanistas. Beccaria marca a história da justiça penal vincada pela certeza da punição mais
do que pela sua dureza. Na sua obra “Dos delitos e das Penas” condenam-se as penas bárbaras
e degradantes, apelando-se a uma dignificação do condenado e a uma adequação da pena
aplicada ao dano provocado, não se olvidando os específicos fins de segurança e ordem,
dando-se deste modo o mote à formação do Direito Penitenciário, já que a punição passa a
provir de um processo legal.

É no decorrer do século XIX que o poder de punir se centraliza no Estado, exercido com um
carácter igualitário sobre todos os seus membros, sobressaindo a prisão no centro do sistema
punitivo, na esperança que o recluso altere o seu comportamento, depois de reflectir num
ambiente de isolamento total, colhendo sãs influências morais.

Com a aplicação da pena privativa de liberdade pretende-se que o preso se regenere e


apreenda uma conduta reeducada, pautada pela actividade laboral, objectivo este marcado
pelas teorias humanitaristas que durante os séculos XIX e XX se inquietaram com as
condições em que a pena de prisão se fazia cumprir.

As alterações que marcaram profundamente o domínio económico, social, político e


científico ao longo do século XX produziram inevitavelmente transformações no que toca aos
fins das penas, tendo sido certa a convergência de várias ciências humanas com o objectivo de
se explicar o fenómeno criminal e a delinquência.

Desenvolveram-se as ciências do comportamento humano, relacionando-as com os desvios de


comportamento, como sendo os decorrentes de um percurso criminal, visando-se a descoberta
de procedimentos ressocializantes integrados num paulatino acompanhamento do recluso e
devolvendo-lhe a responsabilidade, no seu próprio processo de reintegração social, em suma,
adoptando-se e desenvolvendo-se o conceito de Tratamento Penitenciário.

18
3.2 Súmula dos Sistemas de Execução Penal

Resultantes das teorias de execução penal protegidas por John Howard, Cesare Beccaria e
Jeremie Bentham surgem Sistemas Penitenciários – Padrão, nos Estados Unidos da América e
Europa, que de seguida se evidenciam:

O Sistema de Philadelphia que se caracterizava pelo isolamento total, em cela de área


reduzida, sendo proibidas visitas excepto a do Director, a do Capelão e a de membros da
Sociedade de Philadelphia de Alívio da Miséria nas Prisões Públicas. Pretendia-se com a
aplicação deste sistema o corte com o mundo social, fonte de perversidade, no entanto
revelou-se inoperante pelos inúmeros casos de loucura e de suicídios que provocava, não
obstante, deu o mote ao surgimento do Sistema Auburniano.

Por seu turno o Sistema Auburniano surgiu em 1818, na Penitenciária de Auburn, desta
caracterizado pela imposição do silêncio absoluto entre reclusos durante o período de trabalho
diário. Era severamente punido qualquer tipo de comunicação entre reclusos, sendo apenas
autorizada a comunicação com os guardas, ainda que em tom de voz moderado. Como se
referiu, a influência do Sistema de Philadelphia jaz no facto de, durante o período nocturno os
reclusos serem conduzidos às suas celas, igualmente exíguas, onde deveriam descansar em
silêncio.

Em 1840, e resultado do descontentamento com a ineficácia dos sistemas atrás elencados,


surge o Sistema Progressivo Inglês, idealizado por Alexander Maconochie.

Este sistema já demonstra algum sentido de recompensa, de acordo com o comportamento


demonstrado, quer pelo trabalho desenvolvido, quer pela conduta prisional do recluso,
atribuindo marcas ou vales, que acumulados, lhe garantiam privilégios, que de algum modo
lhe permitiam uma paulatina readaptação à vida social.

Tendo sido este sistema igualmente influenciado pelos dois anteriores, torna-se importante
salientar que o mesmo se divide em três fases, sendo que a primeira se cingia aos moldes do
Sistema de Philadelphia, a segunda fase conformava-se com o Sistema Auburniano e
finalmente na terceira fase surge a inovação da figura da liberdade condicional obtida a partir

19
da acumulação das marcas, sendo certo que a indisciplina demonstrada durante a execução da
pena era punida com a perda das ditas.

É igualmente importante salientar a importância do Sistema Montesinos, que entre finais do


século XVIII até meados do século XIX, na Europa (Espanha), foi implementado por Manuel
Montesinos y Molina.

Concomitante aos Sistemas maioritariamente transeuropeus, e aproximado dos sistemas


progressivos, o Sistema Montesinos promoveu desde cedo o tratamento humanitário do
recluso, preocupando-se com o objectivo ressocializador da pena, logo remunerando o
trabalho prestado pelos reclusos, abolindo os castigos corporais, e respeitando a aplicação de
regras orientadoras da execução.

Composto por três fases distintas, este sistema já previa a visita a familiares e o trabalho no
exterior, algo semelhante ao nosso actual regime de RAVE.

4. Do Direito Penitenciário Português

4.1 Evolução Legislativa

Na história do Direito Penitenciário português conseguimos identificar três blocos temporais,


demarcados inicialmente pelo Regulamento das cadeias civis do continente do reino e ilhas
adjacentes, publicado em 21 de Setembro de 1901, posteriormente pela Reforma da
Organização Prisional, ocorrida a 28 de Maio de 1936, com a publicação do Decreto-Lei nº 26
643, e finalmente com a Reforma Penitenciária resultante da publicação do Decreto-Lei nº
265/79 de 1 de Agosto de 1979.

Em suma, um cento de anos de história legislativa prisional polvilhado de diplomas que foram
imprimindo alterações no sistema prisional português, caracterizam o século XX.

4.2 O Enforme do Direito Penitenciário no séc. XIX

Debrucemo-nos sobre o período antecedente ao Regulamento publicado em 1901 e constate-


se a influência que a Constituição liberal de 1822, marcada por princípios Iluministas e
Humanistas, teve na reorganização do Estado, adoptando princípios de humanização,
20
igualdade, e de necessidade e proporcionalidade das penas, (entretanto presentes no Código
Penal de 1852), e logo fixou normas inerentes ao sistema prisional, nomeadamente nos seus
artigos nrsº 208º, 209º e 210º1, em detrimento da arbitrariedade e da desigualdade, próprias do
regime das Ordenações.

No entanto, não obstante a limpidez na previsão dos crimes inscritos no Código Penal de
1852, sucessivas foram as modificações, nomeadamente com a aprovação do Código Penal de
1886 que se distinguiu pelo normativo dos fins das penas.

Assinale-se pela especial relevância a Lei nº 1, datada de Julho de 1867, que extinguiu a pena
de morte, a prisão perpétua e os trabalhos de carácter público, tendo perfilhado o Sistema de
Philadelphia para modelar a execução da pena e o Decreto de 6 de Junho de 1893 que
estabeleceu o regime da liberdade condicional.

4.3 Regulamento das cadeias civis do continente do reino e ilhas adjacentes de 1901

Com a publicação do Regulamento aos vinte e um dias do mês de Setembro do ano um do


século XX, a preocupação com temas tão actuais como a orgânica funcional, o ensino,
educação moral, saúde, cultura e procedimentos internos era já uma tónica, senão atentemos à
letra do Preâmbulo do Regulamento onde se fazem fixar:

cuidadosa e minuciosamente as attribuições e deveres dos empregados da cadeia;


determinou-se o modo como havia de ser ministrado o ensino, tão útil para o
aperfeiçoamento intellectual e moral dos presos; attendeu-se à sua educação moral,
incutindo-lhe no animo os princípios religiosos e moraes, confiando-se especialmente ao
professor e ao capello da cadeia, e cuidou-se por ultimo do tratamento dos enfermos,

1
Cite-se integralmente o conteúdo dos artigos 208º, 209º e 210º respectivamente: “As cadeias serão seguras,
limpas e bem arejadas, de sorte que sirvam para segurança e não tormento dos presos. Eelas haverá diversas
casas, em que os presos estejam separados, conforme as suas qualidades e a natureza de seus crimes, devendo
haver especial contemplação com os que estiverem em simples custódia, e ainda não sentenciados. Fica contudo
permitido ao juiz, quando assim for necessário para indagação da verdade, ter o preso incommunicavel em
logar commodo e idóneo, pelo tempo que a lei determinar” (art.º 208.º).
“As cadeias serão impreterivelmente visitadas nos tempos determinados pelas leis. Eenhum presodeixará de ser
apresentado n estas visitas” (art.º 209.º).
“O juiz e o carcereiro que infringirem as disposições do presente capítulo, relativas à prisão dos delinquentes,
serão castigados com as penas que as leis declararem “(art.º 210).
21
organizando-se devidamente as enfermarias das cadeias. Criou-se, para instrucção dos
presos, uma bibliotheca de obras moraes e de instrucção profissional.
Determinaram-se quaes os deveres dos presos, as penas que pelas suas faltas lhes podem ser
impostas pelo director da cadeia e os prémios que lhes podem ser conferidos pelo seu bom
procedimento na prisão. Regulam-se os serviços das secretarias das cadeias; providencia-se
sobre o fallecimento dos presos e seus espolios.2

Legitimada a obrigatoriedade do recluso prestar trabalho durante a execução da pena,


acompanhada da pretensão de uma regrada divisão de tarefas diárias e visando-se uma
ingénua modificação do comportamento do recluso, que resulta de :

[s]e a ociosidade é a mãe de todos os vícios, nas cadeias é ella a mais enérgica educadora
dos criminosos e a maior geradora de crimes. Assim se regulam as cousas de modo que ao
preso não seja consentido ficar ocioso, dividindo-se-lhe o tempo pelo trabalho nas oficinas,
pelo estudo, pelas conferencias e praticas religiosas, pelas visitas de pessoas de família e
outras, pelas horas de refeição e pelo descanso. Arbitra-se-lhes um salário, extrahido do
producto do trabalho, em que parte fica pertencendo ao Estado, como indemnização pelo
sustento que lhes fornece, e em parte aos presos, constituindo-se-lhes um pequeno peculio, ou
dividindo-o com a família, que assim se evita de cair na desgraça.3

claramente transparecem o dever do recluso em auto-sustentar a sua permanência na


Instituição, e o dever de auxiliar a família, que terá ficado temporariamente apartada da sua
fonte de sustento.

A criação da figura da associação do patronato revela uma inegável preocupação com o


acompanhamento da família do recluso durante os períodos de execução e, do recluso em si
na pós-execução, já que devem: “[e]stas associações auxiliar efficazmente as famílias dos
presos indigentes, subsidiando-as durante a prisão dos seus chefes, tratar da educação dos

2
In Preâmbulo do Regulamento de 1901
3
In Preâmbulo do Regulamento de 1901

22
seus filhos, tomando-os carinhosamente sob a sua protecção, e por ultimo cuidar da
collocação dos delinquentes, cumprida que está a sua pena”4 .

O espírito inovador que caracterizou o Regulamento de 1901, efectivamente não se


pragmatizou, no entanto, acompanhou os vários diplomas (de maior importância) surgidos a
uma cadência praticamente anual, entre 1911 e 1915, e após um interregno de praticamente
vinte anos, em 1933 e 1935.
A Constituição de 1911, ficou marcada pela protecção da pessoa do recluso já que se manteve
a proibição da pena de morte, e das penas corporais, perpétuas ou de duração ilimitada, tendo-
se igualmente consagrado o direito do recluso a ver reparado o efeito de uma execução de
sentença injusta.
A Lei de 20 de Julho de 1912 tenta solucionar a problemática dos vadios, mendigos e
delinquentes comuns, dando origem às casas correccionais de trabalho e às colónias penais
agrícolas.
Seis meses depois, surge o Decreto de 29 de Janeiro de 1913 com o propósito de flexibilizar a
execução da pena, onde se faz notar a adopção do sistema Auburniano, em detrimento do
sistema de Philadelphia.
Por sua vez, a Lei nº 428 de 13 de Setembro de 1915 autoriza o Governo a estruturar os
serviços de administração e inspecção comum e geral de todas as cadeias para adultos,
auxiliando os serviços prisionais na sua cada vez mais complexa organização.
O Decreto nº 13 343 de 26 de Março de 1927, vem introduzir a fixação de multa, pesando os
rendimentos do condenado, em detrimento da condenação a pena de prisão correccional até 6
meses.

Em 1933, com a publicação do Decreto nº 22 708 de 20 de Junho a Administração e


Inspecção-Geral das Prisões adquire o estatuto de Direcção-Geral, confluindo nela, dois anos
mais tarde, todos os assuntos relacionados com os Prisionais, por ordem do Decreto nº 25
016, no entanto, é de ressalvar que a Constituição de 1933 já se faz compor de normas que se
espelham no direito penitenciário, nomeadamente no artigo 123º do diploma que reza: “Para

4
Regulamento de 1901

23
a prevenção e repressão dos crimes haverá penas e medidas de segurança que terão por fim
a defesa da sociedade e tanto quanto possível a readaptação social do delinquente”.
É finalmente em Novembro de 1956 que se atinge uma eficiente organização, que dota a
Direcção – Geral de autonomia de decisão, conferida pelo Decretos-Lei nº 40 876 e pelo
Decreto Regulamentar nº 40 877.

4.4 Reforma da Organização Prisional de 1936

O segundo bloco temporal inicia-se com a publicação do Decreto-Lei nº 26 643 a 28 de Maio


de 1936, cuja autoria se deve ao Professor Beleza dos Santos, destacável pelo seu carácter
inovador.
A importância dada ao valor do trabalho prestado pelos reclusos enquanto princípio de
reinserção na sociedade foi suma, como aliás se comprova pela letra do preâmbulo:

[o] trabalho foi sempre uma escola de virtude e, portanto, um instrumento de regeneração e
da recuperação social dos condenados. Deve o trabalho do preso ser remunerado como
estímulo e porque é de justiça que o seja. A remuneração em todo o caso não será entregue
integralmente ao preso. Uma parte destina-se ao Estado para pagamento da manutenção do
preso, uma outra será para o pagamento da indemnização às vítimas do delito, e uma outra
parte será destinada ao próprio preso, reservando-se desta uma importância para lhe ser
entregue quando sair da prisão, constituindo um pecúlio5.

No que se prende com a retribuição monetária do trabalho prestado, é importante salientar a


preocupação com o ressarcimento da vítima pelos danos sofridos, ainda que perdurasse a
responsabilidade do recluso em auto-sustentar a sua permanência na prisão.

O preâmbulo realça a deficiente e ineficaz organização vinda detrás, tecendo duras críticas às
edificações prisionais, em parte responsáveis por gerarem resultados antagónicos ao objectivo
primordial: o efeito disciplinar e educativo do cumprimento de uma pena privativa de
liberdade, estabelecendo assim “os serviços destinados à execução da pena de prisão e das

5
Preâmbulo do Decreto-Lei nº 26 643 de 28.05

24
medidas de segurança, e de tudo o que constitue o seu natural complemento”6, isto é,
lançando novos modelos de execução de pena.
Com a Reforma distinguem-se dois géneros de estabelecimentos prisionais: as prisões e os
estabelecimentos para medidas de segurança, que se dividem consoante os tipos de pena ou
medida de segurança, sendo que:

as prisões gerais subdividem-se em cadeias comarcãs, cadeias centrais e cadeias


penitenciárias. As cadeias comarcãs destinam-se ao cumprimento de pena de prisão até três
meses, as cadeias centrais ao cumprimento da pena de prisão superior a três meses e as
cadeias penitenciárias ao cumprimento da pena de prisão maior (i.e., penas superiores a três
anos). Por outro lado, são criados vários tipos de prisões especiais, adequadas à natureza
peculiar do delinquente, como sejam as prisões-escola, prisões-sanatório, prisões-
maternidade ou prisões para criminosos políticos. Por último, o diploma cria em cada
comarca uma cadeia preventiva, adequada também para cumprimento de penas de prisão de
curta duração7.

A Reforma de 1936 realça a figura da individualização da pena e encarrega a Associação do


Patronato de prestar assistência moral e material ao recluso e sua família, durante e no período
pós-pena, tendo fundado colónias de refúgio e albergues, destinados a amparar o recluso no
período após o cumprimento, e a acolher as famílias do recluso durante a visita, semelhantes
ao nosso actual conceito de Casa de Transição.
Foi idealizada e consumada a criação de uma nova categoria profissional: a dos assistentes e
auxiliares sociais, cuja função consistia no acompanhamento e consequente elaboração de
relatórios acerca do recluso, durante e no pós-pena.
Durante o período que mediou as Reformas de 1936 e 1979, a execução de penas privativas
de liberdade ficou marcada pela criação do Tribunal de Execução de Penas, com a publicação
da Lei nº 2000 de 16 de Maio de 1944 e do Decreto-Lei nº 34 553 de 30 de Abril de 1945,
cujo mentor foi o Professor Cavaleiro Ferreira.

6
Preâmbulo do Decreto –Lei nº 26 643 de 28.05
7
Relatório da Comissão de Estudo e Debate da Reforma do Sistema Prisional, 2005:20

25
Começa então a pugnar-se pela jurisdicionalização da pena, intervindo os tribunais nas
relações entre os reclusos e a administração prisional, ao mesmo tempo que se contrapõe o
peso administrativo na concessão da liberdade condicional.
Refiram-se ainda os Decreto-Lei nº 34 135 de 24 de Novembro de 1944 que dá origem a uma
Comissão para a estruturação do trabalho prisional e correccional, e o Decreto-Lei nº 34 674
datado de 18 de Junho de 1945, que regulará o trabalho prisional exercido extramuros,
semelhante ao actual RAVE, sendo reconhecida “a generalização desejável do emprego
produtivo da mão de obra prisional e até a deficiência conhecida das instalações
penitenciárias implicam a necessidade de se organizar a ocupação dos presos fora dos
estabelecimentos, em campos e brigadas de trabalho”.8
Tendo-se concluído pela existência de demasiadas cadeias comarcãs e julgados municipais
desadequados das necessidades, eis que surge o Decreto-Lei nº 49 040 de 4 de Junho de 1969,
cujo conteúdo dita as directrizes segundo as quais se fará desaparecer, paulatinamente o
modelo das cadeias comarcãs e dos julgados municipais, substituindo-as por estabelecimentos
regionais.
Com a Constituição da República Portuguesa do ano de 1976 estabelece-se o Estado de
Direito Social que dota o recluso de direitos essenciais, indissociáveis dos direitos
fundamentais reconhecidos a qualquer cidadão, apenas beliscáveis em condições pré-
estabelecidas, relacionadas com as limitações decorrentes da sentença homologada, e seu
consequente cumprimento, e com respeito por preceitos de adequação, necessidade e
proporcionalidade.
Já o Decreto-Lei nº 783/ 76 de 29 de Outubro vem fixar a orgânica dos Tribunais de Execução
de Penas, legitimando a “intervenção directa de uma magistratura especializada no
cumprimento das penas e medidas de segurança privativas de liberdade e na reintegração
social dos condenados”9.

4.5 Reforma Prisional de 1979

8
Preâmbulo do Decreto-Lei nº 36 674 de 18.6.1945
9
Preâmbulo do Decreto-Lei nº 783/76 de 29.10

26
O turbilhão provocado em todos os quadrantes da sociedade portuguesa pela Revolução de 25
de Abril de 1974 não vai deixar incólume a legislação que regula os Serviços Prisionais,
podendo referir-se, pela acrescida importância, a publicação do Decreto-Lei nº 265/79 de 1 de
Agosto, da autoria do Professor Eduardo Correia, mais tarde alterado pelo Decreto-Lei nº
49/80 de 22 de Março e pelo Decreto-Lei nº 414/85 de 18 de Outubro.
Diversas matérias inerentes à execução de penas são revistas e inovadas, entre elas o primado
da reinserção social, onde se prevê a maior aproximação possível dos moldes da vida em
liberdade, expressa no artigo 2º10 do Decreto-Lei 265/79, como finalidade da execução de
pena privativa de liberdade, igualmente plasmado nos regimes de flexibilização da execução,
tentando evitar-se as consequências nefastas do apartamento da vida em sociedade.
Ao recluso, a quem são tacitamente reconhecidos os direitos fundamentais e essenciais
enquanto cidadão, requer-se uma colaboração responsável no seu processo de ressocialização,
implicando-o no seu próprio Plano Individual de Readaptação, deste constando uma panóplia
de áreas de intervenção, como sendo a ocupação laboral, a formação profissional, o ensino, e
a análise e definição conjuntas de medidas de flexibilização da pena e de preparação para a
liberdade, mais favoráveis para o recluso, que se assume já como sujeito de direitos,
responsável por um salutar retorno à sociedade.
Decorrente deste ideal surge o direito à remuneração do trabalho prestado, bem como o acesso
aos benefícios da segurança social.
No sentido da referência de Figueiredo Dias11, é certo o peso dessocializador do corte das
relações do recluso com a sociedade, nomeadamente com os laços familiares, com a
actividade profissional e com as relações sociais decorrentes do cumprimento de pena
privativa de liberdade, agravado ainda com a inserção num ambiente com carácter
essencialmente criminógeno, no entanto, com o intuito de diminuir estes efeitos menos sadios
é publicado o Decreto-Lei nº 49/80 de 22 de Março, que viria a alterar o Decreto-Lei nº
265/79, estatuindo o regime aberto e as saídas do estabelecimento, com vista a um retorno
consequente à vida social.
O artigo 58º do Decreto-Lei nº 265/79 vem regular o RAVE, enquanto medida especialmente
favorável no que se prende com a flexibilização da execução de medida privativa de

10
“A execução das medidas privativas de liberdade deve orientar-se de forma a reintegrar o recluso na
sociedade, preparando-o para, no futuro, conduzir a sua vida de modo socialmente responsável, sem que pratique
crimes.”
11
Jorge de Figueiredo Dias, 1993:112 e 113

27
liberdade, requerendo um comprometimento voluntário do recluso no sentido de se mostrar
colaborante e responsável no seu processo de reintegração na sociedade.
A permanência neste regime faculta ao recluso a possibilidade de exercer actividades
profissionais, incrementar o seu percurso formativo ou frequentar programas de tratamento de
toxicodependência.
Por seu turno, o regime de RAVI, já só permite o exercício laboral, que pode ocorrer intra ou
extramuros, sob vigilância descontínua, detendo o director do respectivo estabelecimento o
poder de o autorizar.
Conclui-se que a essência das medidas de flexibilização não é senão um planeamento eficaz e
consequente do regresso à sociedade.
São ainda de apontar a criação do Instituto de Reinserção Social, com a publicação do
Decreto-Lei nº 319/82 de 11 de Agosto, cujas competências se encontram plasmadas no seu
artigo 2º12, com o fito de se reformar o serviço social prisional, tendo sido aprovada a
primeira Lei Orgânica do referido Instituto a 20 de Maio pelo Decreto-Lei nº 204/83 que
outorgou a este órgão capacidade de promoção da prevenção criminal e, de apoio a menores
que apresentem ineptidões sociais ou que se encontrem em perigo.
Foi assinado um Protocolo de Acordo entre a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais e o
Instituto de Reinserção Social a 1 de Junho de 1984 com vista a uma definição clara dos
objectivos que possibilitem uma intervenção concertada de ambos, no propósito da reinserção
social, no entanto com o avançar do tempo este acordo veio a revelar-se ultrapassado.
Ainda o Decreto-Lei nº 401/82 de 23 de Setembro vem designar a medida de correcção em
centro de detenção na alínea d) do artigo 6º e nos artigos 10º, 11º, 12º e 13º enquanto regime
penal especialmente aplicável a jovens entre os 16 e os 21 anos, no entanto, por nunca se ter
verificado a instalação dos referidos centros de detenção, a medida nunca chegou a efectivar-
se.
Nascido da crescente preocupação com a problemática do consumo de estupefacientes surge o
Decreto-Lei nº 15/93 de 22 de Janeiro, cuja tónica recai na necessidade concreta de actuar
junto do delinquente toxicodependente com vista ao seu tratamento, razão pela qual se
ajustam medidas e sanções penais e se criam zonas ajustadas dentro dos estabelecimentos

12
“desenvolver as actividades de serviço social prisional e pós-prisional, bem como implementar as medidas
penais não institucionais existentes ou que venham a ser consagradas na lei, relativamente a delinquentes
imputáveis e inimputáveis”

28
prisionais para a comunidade toxicodependente a cumprir pena de prisão, privilegiando-se
uma relação mais estreita com o serviço nacional de saúde.
Assim é, que a 3 de Agosto, através do Decreto-Lei nº109/99 se garante a assistência médica
a reclusos toxicodependentes, e por outro lado se implementa a realização de rastreios de
doenças infecto-contagiosas, gratuitos, periódicos e se adoptam normas de higiene, segurança
e saúde no trabalho, por força da Lei nº 170/99 de 18 de Setembro.
Visando uma especial sensibilidade para com os reclusos que padecem de doença grave e
irreversível em fase terminal, é criada a Lei nº 36/96 de 29 de Agosto que prevê a
possibilidade de se alterarem os moldes de execução da pena, desde que não obstem
princípios de prevenção ou de ordem e paz social.
Por fim, com a publicação do Decreto-Lei nº 122/99 de 20 de Agosto evidencia-se a
regulação da vigilância electrónica para cumprimento da obrigação de permanência na
habitação, constante do artigo 201º do CPP.

5. Das Leis Penitenciárias <acionais

5.1 Análise do DL nº265/79 de 1.8

No âmbito da reforma prisional registada em 1979 com a publicação do DL nº 265/79 de 1.8,


Portugal entra definitivamente num novo registo, materializado pelo crescente cuidado com a
reinserção social do delinquente como se comprova pela letra da lei:” reintegrar o recluso na
sociedade, preparando-o para, no futuro, conduzir a sua vida de modo socialmente
responsável, sem que pratique crimes”13,bem como com a individualização da execução da
pena.
Durante a sua vigência terá sido alterado pelo DL nº 49/80 de 22.3 e pelo DL nº 414/85 de
18.10.
Tal como indiciado por Dias14 este DL”constitui uma espécie de lei fundamental em tema de
execução das reacções criminais detentivas – penas e medidas de segurança privativas da
liberdade – cujas ideias mestras se casam completamente com as concepções político-

13
Artigo 2º nº1 do DL nº 265/79 de 1.8
14
Jorge de Figueiredo Dias, 1993:108

29
criminais primárias do CP de 1982 em matéria de prisão”, sendo certo que o autor, o
Professor Eduardo Correia se empenhou em construir um direito prisional moderno e com
base nos modelos europeus: italiano, francês, alemão e espanhol, no qual se encontram
plasmadas as orientações disseminadas pelas mais importantes organizações internacionais,
tais como a O.N.U e o Conselho da Europa.
Consciencializados que estavam do efeito nocivo de uma pena de prisão, considerou-se que as
condições de execução de pena deveriam, e tendo em conta as contingências, aproximar-se ao
máximo da vida em meio livre, ideário que acompanhou os regimes de flexibilização da
execução da pena de prisão.
Tendo por objectivo último a reinserção do recluso na sociedade, crê-se pródigo motivar o
recluso a participar no seu próprio processo de reinserção, dinamizando a sociedade com o
mesmo fim.
Ao recluso é então solicitada uma postura dinâmica e interessada ao colaborar no denominado
Plano Individual de Readaptação (PIR), que se assume como um relevante processo de
intervenção, composto por uma conjectura de áreas a desenvolver, fortuitas em si, tais como o
trabalho, a formação profissional, o ensino, as actividades formativas, o estudo de medidas de
flexibilização da pena, e de medidas de preparação para a liberdade, sendo que todo o Plano
deveria ser preparado em conjunto com, e para o recluso.

É definitivamente com a reforma de 1979 que o recluso deixa de ser objecto de tratamento e
em quem se intervém, para passar a ser sujeito de direitos, sendo alertado para a sua
responsabilidade no sucesso do processo de tratamento penitenciário.
Enquadradas no objectivo maior da ressocialização, uma série de medidas inovadoras,
directamente relacionadas com a actividade laboral, dada a grande importância que lhe é
agora conferida, são tomadas tais como: o direito à remuneração pelo trabalho prestado, o
usufruto dos benefícios da segurança social, o acesso, ainda que restrito, à cultura e a
actividades que possam desenvolver a sua personalidade e intelecto.
Existia a consciência de que uma pena de prisão acarretava inevitavelmente elementos
dessocializadores decorrentes do corte ou pelo menos suspensão das relações familiares,
sociais e profissionais, para além do que a partir daquele momento o recluso ficava exposto à
subcultura prisional, marcada pelo carácter criminógeno, tendo sido com o intuito de
amenizar esses elementos menos saudáveis que o DL nº 49/80 de 22.3 veio introduzir

30
mecanismos de flexibilização na execução da pena, não tendo sido olvidada a preparação para
a liberdade, nomeadamente com a previsão na lei do regime aberto e com a permissão de
saídas do estabelecimento prisional.
Como já se referiu, o recluso foi convidado a participar activamente no seu processo de
ressocialização, devendo acalentar uma postura responsável e disciplinada, requisito essencial
para poder beneficiar da concessão de uma medida de flexibilização da execução da pena
privativa de liberdade, o regime aberto virado para o exterior (RAVE) que fitava materializar
o desejo do legislador em estreitar as relações do recluso com o exterior, permitindo-lhe
frequentar por exemplo tratamentos de toxicodependência ou até incrementar o seu percurso
formativo e profissional.
Igualmente a previsão do regime aberto virado para o interior (RAVI) se destinava a conceder
liberdade ao recluso para progredir, colocando a tónica no trabalho, já que permitia ao recluso
trabalhar no estabelecimento, intra ou extra-muros, sob vigilância descontínua, consoante
autorização do director do estabelecimento prisional.
Em suma, conforme o prescrito no artigo nº 58º do DL em análise, as medidas de
flexibilização traçam o cumprimento do princípio de aproximação ao meio livre, que mais não
é do que facultar ao recluso uma reaproximação gradual à sociedade, permitindo-lhe um
entrosamento menos abrupto com a família e com a sua profissão.
Todo o sistema se vira para a pessoa do recluso, procurando não descurar nenhum campo
essencial à sua regeneração, e exemplo disso foi, como já atrás se enunciou, a criação de
medidas flexibilizadoras da execução de pena privativa de liberdade, a preocupação com o
garante dos direitos do recluso e com os planos de tratamento, a atenção dada ao trabalho,
formação e aperfeiçoamento profissional, a regulamentação das visitas e da correspondência,
a ocupação dos seus tempos livres, a prestação de assistência religiosa, espiritual e médico-
sanitária.
O sistema prisional vai igualmente ficar marcado, por força deste DL, pelo princípio da
separação de reclusos por estabelecimentos, segundo o grau de segurança exigido e oferecido
(máxima, média ou mínima).
Não é descurada a investigação científica em matéria criminal, pelo que se prevê uma
reestruturação dos já existentes Institutos de Criminologia, competindo-lhes pugnar por uma
evolução esclarecida do fenómeno da criminalidade e de contribuir com avanços sustentados
no campo do tratamento penitenciário.

31
Definiram-se regras sobre a execução da prisão preventiva e concretamente sobre as
particularidades da execução de pena privativa de liberdade pela população feminina, tendo
sido mostrada preocupação pelo bem-estar físico e psicológico das crianças (filhos das
reclusas).
Não foram olvidados os denominados centros de detenção, institutos que acolheriam jovens
imputáveis até aos 25 anos, poupando-os ao ambiente criminógeno de uma prisão.
Também se previram regras aplicáveis a reclusos de nacionalidade estrangeira, atentas as
especificidades, bem como se definiu o cumprimento de medidas por parte dos sujeitos
inimputáveis.

Não se encontra na letra deste articulado qualquer menção aos vocábulos – humanização;
humanidade; dignificação; dignidade; tecnicidade ou tecnicismo.

5.2 Análise da Lei nº 15/2009 de 12.10

Impunha-se a reforma da Lei de Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade, dado
que tanto esta (DL nº 265/79 de 1.8) como a Lei Orgânica dos Tribunais de Execução de
Penas (DL nº783/76 de 29.10) datam de período anterior ao Código Penal de 1982 e ao
Código de Processo Penal de 1987, recentemente alterados em 2007.
Urgia renovar a letra da Lei de modo a que a mesma contemplasse toda uma evolução das
práticas penitenciárias, a mudança do perfil da massa reclusa, a evolução criminal enquadrada
no contexto social e novas tendências nos processos de intervenção prisional, tendo-se para tal
criado um Código de Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade, onde se
encontram agora reunidas normas que no passado se encontravam dispersas.
A recente Lei preconiza cinco grandes objectivos: a clarificação das incumbências do sistema
penitenciário português, explicitação dos direitos garantidos ao recluso, bem como dos
deveres a que estão sujeitos, e evidenciação da necessidade de protecção da vítima, assumindo
esta agora um papel com peso, a clarificação dos regimes de detenção e toda uma
preocupação acrescida com a actuação do recluso uma vez liberto e devolvido à sociedade,
isto é, concretamente com a prevenção da reincidência.
Prevê-se a criação de um Regulamento Geral dos Estabelecimentos Prisionais, o qual não só
substituirá os regulamentos internos de cada E.P. como regulamentará o presente Código,

32
Código este norteado pelo princípio orientador que é peremptório quanto às condições de
cumprimento da pena que devem respeitar a dignidade humana, e ser harmónicas com os
princípios constitucionais, com o normativo internacional, que adiante se explicitará, e com a
Lei em si.
Princípios como o do respeito pelos direitos e interesses do recluso, juridicamente protegidos,
o da proibição de qualquer tipo de discriminação, o do estreitamento com a vida em meio
livre, o da promoção de uma postura responsável que o recluso deve adoptar depois de sentir
que é parte activa do tratamento, e por fim o do entrosamento da execução da pena com a
sociedade.
Com este Código o sistema prisional sai visivelmente renovado, encontrando-se devidamente
enumerados os direitos e deveres, dos quais ressaltam o direito à informação, o direito a
conhecer o seu processo individual, o direito dos filhos da massa reclusa feminina poderem
permanecer junto da progenitora até aos cinco anos, o direito ao voto e o direito a que a sua
vida privada e familiar seja resguardada.
Por seu turno torna-se relevante o entendimento de que a definição de deveres é toda ela
direccionada para uma actuação regrada, decorrente da ordem, disciplina e segurança que
orienta uma Instituição deste carácter, mas concomitantemente porque se considera que esta
disciplina será “terapêutica” para um bom retorno à vida em sociedade.
O Ministério Público ganha neste articulado um maior poder de intervenção, concertado com
o Tribunal de Execução das Penas, sendo certo que ambas as decisões, de colocação de um
recluso em regime de segurança ou em regime aberto deverão ser comunicadas às entidades já
referidas, para que as mesmas verifiquem e decidam da sua legalidade.
Toda a matéria relacionada com o regime disciplinar foi revisto e redefinido, com o objectivo
de se perfilharem regras pautadas pelas garantias do recluso, como sendo a proibição da
analogia para caracterizar uma infracção, a proibição de uma dupla punição pela mesma
infracção, uma clara definição dos termos: reincidência disciplinar, concurso de infracções e
infracção disciplinar continuada, uma enunciação das infracções disciplinares, o
estabelecimento de regras acerca dos regimes de prescrição e suspensão do procedimento
disciplinar e por fim a oportunidade que o recluso tem de apresentar provas em sua defesa.
Os direitos de reclamação, petição, queixa e exposição que o recluso pode exercer torna-se
mais esclarecido e assertivo já que se encontram definidos na lei os órgãos ou entidades a

33
quem o mesmo pode recorrer, estando prevista uma resposta obrigatória por parte do director
do E.P. em 30 dias.
Ampliada que foi a intervenção do Tribunal de Execução das Penas, este incrementa o
controlo sobre os actos da administração prisional, cabendo-lhe anular ou não anular a decisão
impugnada pelo Ministério Público face ao princípio da jurisdicionalização da execução,
cabendo-lhe igualmente a homologação do plano individual de readaptação, bem como
eventuais alterações ao mesmo.
No que concerne à ligação entre o recluso e a administração prisional, o Ministério Público vê
ampliado o seu poder de impugnação sobre resoluções da segunda, perante o Tribunal de
Execução das Penas.
Consagra-se a programação da execução das penas e medidas privativas da liberdade,
procedendo-se numa primeira fase ao levantamento das necessidades e riscos individuais e
numa segunda fase organiza-se o plano individual de readaptação, no entanto sublinhe-se que
esta programação já se encontrava prevista em legislado anterior, no entanto poucas vezes
cumprido por uma série de contingências inerentes ao sistema prisional, que não me parecem
honestamente ultrapassadas. Não obstante, a tónica é reforçada na importância de um
planeamento consequente e da elaboração do já referido PIR, designando a individualização, a
programação e o faseamento da execução das penas e medidas de segurança.
Da avaliação do recluso pretende-se um levantamento de informações acerca do meio social
em que o recluso estava inserido, do seu estado de saúde, das lacunas nas competências do
mesmo, do risco ou perigosidade patenteadas, e do seu risco de evasão, para que se possa
partir para a organização do seu PIR (o qual deverá contar com a adesão voluntária do
recluso), onde serão delineadas as estratégias necessárias ao tratamento do recluso com
especial enfoque na formação e actividade laboral, instrumento este previsto para os casos em
que o remanescente da pena a cumprir exceda um ano, para os reclusos com menos de 21
anos e para penas relativamente indeterminadas.
No caso dos presos preventivos, considerou-se benéfica (sempre consoante a sua adesão
voluntária) a sua avaliação, com o fito de o motivar para actividades ou programas existentes
no E.P., sendo certo que os frutos desta avaliação possam ser postos à consideração do
tribunal que o tutela para uma eventual alteração da medida de coacção, prevendo-se
igualmente que o preso preventivo possa receber visitas diárias, salvo ordem em contrário.

34
Definitivamente toda a execução de pena ou medida privativa de liberdade se orienta para
uma inserção social bem sustentada, sendo disponibilizados ao recluso instrumentos cívicos
tais como a sua inclusão no Sistema Nacional de Saúde, bem como nas políticas nacionais de
educação, formação e apoio social.
O trabalho desenvolvido durante o período de cumprimento da pena desempenha um papel
vital já que se considera que o mesmo preparará o recluso para a vida em meio livre, dada a
sua vertente formativa, proporcionando ao recluso a aquisição de competências sociais e o
ganho de valores de responsabilidade, que lhe serão úteis uma vez em liberdade, não tendo
sido olvidada a protecção do recluso – trabalhador, já que se afirmam princípios de
dignificação do trabalho, de protecção contra interesses económicos e de defesa contra
condições insalubres ou perigosas durante a actividade laboral, privilegiando-se o
desenvolvido em unidades produtivas de natureza empresarial, reguladas em diploma próprio.
É equiparado o trabalho realizado intra-muros, como sendo a prestação de serviços auxiliares
de limpeza e manutenção das instalações prisionais, no que toca à remuneração e à protecção
conferida em matéria de acidentes de trabalho e doenças decorrentes da actividade laboral.
Os serviços prisionais operam colectivamente com entidades públicas e privadas com vista à
criação de postos de trabalho, que pode ser operado dentro e fora dos estabelecimentos
prisionais, sob supervisão dos serviços prisionais.
A opção do recluso pela frequência de cursos de ensino ou por acções formativas, bem como
no empenho na actividade laboral vai pesar na flexibilização da pena (que compreende:
concessão das licenças de saída; opção por regime aberto e atribuição de liberdade
condicional), gratificando-se de algum modo o recluso pela sua dedicação ao tratamento que
lhe foi proposto, no âmbito do planeamento do mesmo.
A vítima é outro dos actores que sai com um papel reforçado já que em apreciação realizada
após o ingresso do recluso, em sede de avaliação, se aprecia o risco para a vítima; no caso de
flexibilização da pena averiguam-se as necessidades de protecção da vítima, sendo que quota-
parte da remuneração do recluso será atribuída ao cumprimento de obrigações judiciais,
encontrando-se igualmente prevista a participação consentida em programas de justiça
restaurativa e de reparação do dano.
Sendo uma das directrizes orientadoras a colaboração com a comunidade, cabe à
administração prisional promover e captar o envolvimento de instituições de solidariedade

35
social ou particulares, em actividades culturais, formativas, de apoio social e económico, bem
como na reinserção social.
Pretende incorporar-se no presente Código a figura da modificação da pena actualmente
regulada pela Lei nº 36/96 de 29.8, dadas as especificidades da execução de penas por
indivíduos em condição incompatível com a normal manutenção em meio prisional, tendo
sido invocadas razões humanitárias.
Fica igualmente definido que a intervenção do tribunal julgador cessa com o trânsito em
julgado da sentença condenatória a pena privativa da liberdade, incumbindo a presente Lei, o
Tribunal de Execução das Penas do acompanhamento e fiscalização da execução de pena de
prisão e da detenção preventiva, por três motivos: evitar-se um tratamento menos favorável do
preso preventivo, igualdade de tratamento de todos os indivíduos abstidos de liberdade e
uniformização da jurisprudência dos Tribunais de Execução das Penas.
Com a promulgação do presente Código, o Tribunal de Execução das Penas assume não só o
poder de controlar as matérias inerentes à execução, bem como de alguns actos da
administração prisional, competindo paralelamente ao Ministério Público a visita de
estabelecimentos prisionais, procedendo à audição dos reclusos, competindo-lhe também,
como já atrás foi dito, a verificação da legalidade das decisões da administração prisional, ao
mesmo tempo que lhe é conferida legitimidade para recorrer das decisões do Tribunal de
Execução das Penas e para participar nos Conselhos Técnicos.
Define a presente Lei que para cada recluso deverá ser organizado no Tribunal de Execução
das Penas, um processo único partindo dos autos principais aos quais serão apensados todos
os outros, visando-se deste modo a unidade do critério de decisão e o acesso facilitado à
evolução do processo de reinserção social.

Não se encontra na letra deste articulado qualquer menção aos vocábulos – humanização;
humanidade; dignificação; tecnicidade ou tecnicismo, mas existem onze referências ao termo
dignidade.

6. Do <ormativo Legal Internacional inerente ao tratamento de reclusos

6.1 Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos

36
A Organização das Nações Unidas revelou desde sempre cuidados por um tratamento digno
do ser humano, tendo-se mostrado empenhada em criar instrumentos relacionados com a
prevenção criminal, o sistema criminal e o tratamento da delinquência.
Foi no ano de 1955 que se realizou o primeiro Congresso das Nações Unidas orientado para a
prevenção do crime e para o tratamento de delinquentes, tendo sido emanadas nesta data as
Regras Mínimas para o Tratamento dos Reclusos. Trata-se de um conjunto de normas
internacionais que visam orientar a legislação e as práticas dos países membros no que se
prende com matéria penitenciária.
Este instrumento apresenta-se como o mais antigo a nível internacional no que se relaciona
com o tratamento da massa reclusa, sendo-lhe reconhecido elevado mérito pela sua qualidade
jurídica e ética, que se tem traduzido na adesão de inúmeros Estados, e conseguindo deste
modo influenciar a essência das políticas penais nacionais, bem como das suas práticas
penitenciárias.

Assume-se como um padrão mínimo de garante de direitos dos reclusos, abaixo do qual não
se deve decair, tendo-se tornado portanto um importante amparo de tribunais nacionais e
internacionais, embora não seja sua pretensa constituir-se um molde para sistema
penitenciários dada a sua visão consciente das contingências a que alguns dos sistemas
penitenciários estão sujeitos, conforme se comprova pela letra do texto das Observações
Preliminares do referido instrumento:

1. As regras que se seguem não pretendem descrever em pormenor um modelo de sistema


penitenciário. Procuram unicamente, com base no consenso geral do pensamento actual e
nos elementos essenciais dos mais adequados sistemas contemporâneos, estabelecer os
princípios e regras de uma boa organização penitenciária e as práticas relativas ao
tratamento de reclusos.2. Tendo em conta a grande variedade das condições legais, sociais,
económicas e geográficas do mundo, é evidente que nem todas as regras podem ser aplicadas
indistinta e permanentemente em todos os lugares. Devem, contudo, servir como estímulo de
esforços constantes para ultrapassar dificuldades práticas na sua aplicação, na certeza de
que representam, em conjunto, as condições mínimas aceites pelas Eações Unidas.3. Além
disso, os critérios que se aplicam às matérias tratadas por estas regras evoluem
constantemente. Eão se pode excluir a possibilidade de experiências e da adopção de novas
práticas, desde que estas se ajustem aos princípios e objectivos que informaram a adopção
37
das regras. De acordo com este princípio, pode a administração penitenciária central
autorizar excepções às regras.

Sublinhe-se a criação do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, em 1950, no âmbito da


aprovação da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, instrumento de extrema
importância na história da Organização das Nações Unidas, cujos alicerces assentam na
Declaração Universal dos Direitos do Homem, também da autoria da última, encontrando-se
esta matéria desenvolvida no capítulo sétimo, (intitulado “Do Garantismo”) desta dissertação.

As Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos assumem-se enquanto prescrições


fundamentais e absolutas, em sede de garante de direitos humanos, versando sobre matérias
como: princípios norteadores de actuação prisional, equidade processual e as figuras de
queixa e recurso, condições de reclusão atinentes a necessidades básicas asseguradas, saúde
física e mental dos reclusos, comunicação do recluso com o meio livre, programas
direccionados para o tratamento de reclusos, pessoal funcionário da instituição prisional, tipo
e objectivos das inspecções, e enunciando princípios donde se destaca o seguinte ideário:
subentende-se uma organização da instituição – prisão, não existindo perigo de vida, saúde ou
integridade física das pessoas; não deve registar-se qualquer tipo de descriminação no trato
com os reclusos, subentendendo-se a sua igualdade; encara-se a pena de prisão como sendo já
suficientemente sancionatória, pelo que as condições em que se processa a execução não
devem provocar sofrimento; toda a linha condutora de execução de pena de prisão deve
desaguar na ressocialização do recluso, pelo que as normas e os regimes prisionais devem ser
facilitadores da readaptação e consequente reintegração na comunidade, da pessoa reclusa.

Sendo certo que este trabalho se focaliza na humanização do sistema prisional, torna-se
oportuno fazer expressa referência, - no âmbito da actividade desenvolvida pela Organização
das Nações Unidas, ao conteúdo do artigo 7º do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e
Políticos, de suma importância, já que por um lado proíbe a tortura, e as penas e tratamento
cruéis, desumanos e degradantes. Por outro lado afirma no seu artigo 10º nº1, conforme
citação integral: “Todos os indivíduos privados da sua liberdade devem ser tratados com
humanidade e com respeito da dignidade inerente à pessoa humana”.

38
Desde a data da perfilhação das Regras Mínimas que se tem reiterado a sua reafirmação por
outros instrumentos internacionais ou regionais, registando-se ao longo do tempo o seu
reconhecimento por parte de órgãos legislativos, tribunais e administrações prisionais de
carácter nacional, baseando-se nas primeiras para definirem os seus próprios trilhos penais.

6.2 Regras Penitenciárias Europeias

O Conselho da Europa prima pela protecção dos Direitos do Homem, e tem demonstrado
especial interesse pela matéria penal e penitenciária, sendo que esta última se encontra
especialmente plasmada no Anexo à Recomendação Nº R(87) 3, datada de 1987, onde versam
as Regras Penitenciárias Europeias, entretanto revistas e substituídas pela Recomendação do
Conselho da Europa, Rec (2006) 2, sobre as Regras Penitenciárias Europeias, datada de 11 de
Janeiro de 2006.
O estabelecimento das regras constantes desta Recomendação Europeia (Nº R(87) 3) pretende
a fixação de um conjunto de regras segundo as quais a administração prisional deverá agir,
encontrando-se todas elas orientadas para o garante de um tratamento humano e evolutivo que
auxilie o recluso no objectivo último que é a reinserção do mesmo na sociedade.
Pretendem estas orientações motivar o pessoal funcionário a consciencializar-se da nobre
função social que têm em mãos, e da postura eticamente correcta com que devem vivenciar a
sua actividade profissional, já que agem no interesse do indivíduo recluso e da comunidade.
Igualmente consagram as Regras Europeias que a administração penitenciária bem como os
serviços de inspecção devem poder organizar o trabalho desenvolvido segundo critérios pré-
definidos, com base em dados realistas que lhes permitam um fiel controlo dos resultados, e
permitindo-lhes agir em função da melhoria dos mesmos.
A tónica do preceituado assenta primordialmente na preservação ou alcance da dignidade
humana em meio prisional, no dever que a administração penitenciária tem de agir segundo
valores humanitários e de modo eficaz, no papel social que o pessoal penitenciário detém
enquanto agentes activos no tratamento dos reclusos, e na visão e aplicação destas regras
enquanto referência de boas práticas prisionais.
Na primeira parte das regras fixam-se os princípios fundamentais da administração
penitenciária, que devem primar pelo respeito pela dignidade humana, em ambiente de
taxativa imparcialidade, como aliás se consubstancia na regra 3ª:” Os fins dos tratamentos dos

39
reclusos devem proteger a sua saúde, garantir a sua dignidade e, na medida em que a duração
da pena o permita, desenvolver o seu sentido das responsabilidades e dotá-los com as
competências que os ajudem a reintegrar-se na sociedade, a viver na legalidade e a prover às
suas próprias necessidades após a saída da prisão”, sendo que o desapossamento da liberdade
deve ocorrer em condições materiais e morais dignas, regularmente inspeccionadas por
entidades qualificadas e experientes.
Na segunda parte do preceituado no ano de 1987, as regras versam sobre a actividade da
administração prisional, recomendando o cumprimento de procedimentos relativamente a
matérias como: o acolhimento e registo do recluso; orientações no que concerne ao modo de
efectuar a distribuição e classificação dos reclusos; as edificações penitenciárias; a higiene
pessoal, disponibilizada e exigível ao recluso; o vestuário e respectiva roupa de cama, que
deverá ser congruente com a estação do ano, deve ser limpo e no caso de ser instituído uso de
farda esta deve ser aceitável; a alimentação que deverá estar em bom estado de conservação,
tendo em conta as normas emanadas pelas autoridades de saúde, e ser distribuída em horários
pré-definidos e em quantidade suficiente; os serviços médicos mínimos que deverão ser
assegurados aos reclusos pelo menos por um médico de clínica geral, devendo ser atendidas
algumas situações específicas, como a necessidade de tratamentos especializados, assistência
a reclusas grávidas ou puérperas, bem como assistência aos filhos que permanecem consigo; a
disciplina e sanções, sendo certo que nos temos da regra 33ª :”a ordem e a disciplina devem
ser mantidas no interesse da segurança e duma vida comunitária bem organizada e dos
objectivos do tratamento seguidos no estabelecimento”, devendo a lei ou regulamento
atinentes a esta matéria ser taxativos quanto à enumeração do que constitui infracção
disciplinar, o tipo e duração que as sanções podem revestir, a quem compete decidir das
sanções, bem como a entidade a quem se pode o recluso dirigir pretendendo recorrer da
decisão sancionatória; os meios de coacção física apenas aplicáveis em caso de prevenção de
fuga durante o trânsito, ou por razão médica atendível, ou por ordem expressa do director do
E.P. sendo requerida fundamentação da aplicação; o direito que o recluso tem de tomar
conhecimento dos meios que lhe assistem de obter informações e de efectuar queixas, da
tomada de conhecimento do regulamento do E.P. bem como de todos os direitos e deveres
que lhe são garantidos e exigíveis; o contacto e comunicação com o exterior do
estabelecimento prisional como se constata pela regra 43.1º: “ Os reclusos devem ser
autorizados a comunicar com a sua família e, sob reserva dos imperativos resultantes do

40
tratamento, da segurança e da boa ordem do estabelecimento, com as pessoas ou
representantes das organizações do exterior e a receber as visitas destas pessoas com
intervalos regulares”, sendo certo o peso ressocializador do mantimento do contacto com a
vida em meio livre; a assistência religiosa e moral que deve ser autorizada aos reclusos, se
nada houver em contrário, permitindo-lhes a participação em actividades do seu credo, bem
como a posse de literatura religiosa e o encontro com o capelão designado; o depósito de
objectos pertencentes aos reclusos cujo regulamento não autorize a posse; a notificação de
morte ou patologia grave e de transferência de estabelecimento prisional a familiar ou
representante legal; o trânsito de reclusos deve ser feito sob a máxima discrição e em
condições dignas.
Toda a matéria relacionada com o pessoal funcionário se encontra plasmada nas regras 51ª a
57ª, sendo de realçar o papel social especialmente valorizável do desempenho das suas
funções, da importância da formação humana, intelectual e académica aquando da selecção
para o posto, e do peso de uma formação continuada que permitirá uma evolução de
conhecimentos e um desempenho informado e consequente. Devem existir em número
suficiente, prevendo-se o encaixe de especialistas em ciências humanas. Encontram-se
igualmente previstas as condições de trabalho em que o pessoal deve desenvolver a sua
actividade.
O tratamento penitenciário, os elementos que o constituem e as condições ou modo em que o
mesmo deve ser aplicado encontra-se especialmente regrado na quarta parte, entre as regras
64ª e 89º, delineando-se na regra 64ª que:” A prisão, enquanto privação da liberdade, constitui
em si uma punição. As condições da reclusão e os regimes penitenciários não devem agravar
o sofrimento causado pela prisão, excepto se a segregação ou a manutenção da disciplina o
justificar”, sendo que “Nesta perspectiva, todos os meios terapêuticos, educativos, morais,
espirituais e todos os outros meios adequados deverão estar disponíveis e ser utilizados para
corresponder às necessidades do tratamento individualizado dos reclusos”15.Encontram-se
melhor desenvolvidas as matérias respeitantes ao Trabalho, ao Ensino, à Educação física,
exercício, desporto, ocupação de tempos livres e ao regime de preparação para a liberdade no
capítulo nono deste trabalho.

15
Anexo à Recomendação Nº R (87) 3-Regras Penitenciárias Europeias/1987- Regra 66ª

41
Na quinta e última parte são definidas as regras (complementares) especialmente aplicáveis a
determinados grupos de reclusos como sendo os presos preventivos, os condenados em
processo não penal, alienados e doentes mentais.

Ora, todo este enquadramento das regras penitenciárias europeias resultante da sua publicação
em 1987, foi recentemente actualizado e substituído pela Recomendação do Conselho da
Europa, REC (2006) 2, sobre as Regras Penitenciárias Europeias, dado que: “é importante que
os Estados membros do Conselho da Europa continuem a actualizar e a respeitar princípios
comuns, no que tange as suas políticas penitenciárias”, saindo reforçada a “cooperação
internacional neste domínio”16.
No capítulo primeiro reforçam-se todos os princípios que já norteavam a anterior
Recomendação, realçando-se o princípio do respeito pelos direitos humanos que assistem
igualitariamente a massa reclusa, o estreitamento do contacto com a vida em meio livre por se
considerar um passo importante para a reintegração do recluso na comunidade, esclarecendo e
proporcionando a participação da sociedade civil no cosmos penitenciário, e claro está, o
princípio da orientação da toda a actividade penitenciária para o objectivo último que é a
reinserção na sociedade.
Faça-se notar a inclusão de um princípio que corresponde a uma das actuais angústias do
sistema prisional. O princípio da não violação dos direitos humanos por motivos que se
prendam com a escassez de recursos.
São ao longo da Recomendação datada de 2006, previstos inúmeros outros aspectos inerentes
à privação da liberdade, nomeadamente as condições de detenção, a saúde, a ordem,
segurança e disciplina que se devem acautelar em meio prisional, o corpo directivo e o
pessoal funcionário, a inspecção e o controlo, os presos preventivos, a reclusão de mulheres, a
reclusão de estrangeiros, a educação, a formação profissional, o trabalho, a preparação para a
liberdade e o reforço da noção de que sendo a prisão um serviço público este deve reger-se
por boas práticas quer a nível ético quer a nível deontológico, baseadas na humanidade do
tratamento e no respeito pela dignidade humana.

7.Do Garantismo

16
Preâmbulo do Anexo à Recomendação REC (2006) 2

42
Do excesso ou da falta [dele]

Confesso que durante a investigação levada a cabo para a feitura desta dissertação senti a dada
altura que estava perante um dilema, já que não se tornava clara a ambivalência do alcance de
garantismo, enquanto conceito, nomeadamente quando o isolamos e conjugamos em ambiente
prisional.

Numa perspectiva histórica, o garantismo penal inserido no contexto do direito penal do


século XIX, fitava a preservação da concepção de Estado de Direito, visando, concretamente
a “frequente ilegalidade da administração judiciária e penitenciária; tónica numa política de
ordem e prevenção, pouco atenta a regras e garantias”17.

Luigi Ferrajoli diferencia cinco tipos distintos de garantismos18, como sendo o liberal,
proprietário, civil, social e internacional, interessando-nos particularmente debruçar sobre o
garantismo liberal-penal já que nos permite avaliar o peso concreto das garantias de que
dispõe os cidadãos num Estado de Direito, e que consoante as áreas, obrigam o Estado a um
comportamento mais proteccionista, menos intervencionista, e consequentemente menos
responsabilizante.
Pelas palavras do autor, podemos definir o garantismo, nomeadamente o penal, como sendo o
conjunto de estruturas direccionadas para a defesa dos direitos de liberdade, privilegiando o
direito da liberdade pessoal, protegendo o indivíduo de atitudes policiais ou judiciais de
carácter autoritário, despótico ou arbitrário.
Ao consagrar-se um direito fundamental disponível, torna-se pertinente conferir-lhe
efectividade, criando concomitantemente “garantias eficazes, funções adequadas e instituições
de garantia”.19
Pretende evitar-se o despotismo daquele poder, do poder punitivo, apelidado de terrível por
Montesquieu, em prol de um futuro em que se não volte a repetir o atropelo da dignidade
humana, registado nos suplícios ostentados pela palavra de Foucault.

17
Hespanha, 2003: 1293
18
Luigi Ferrajoli, 2008:51
19
Luigi Ferrajoli, 2008: 52

43
Ferrajoli sugere uma cadeia de actuações que refreiam a punição desenfreada, sujeitando o
poder penal à lei penal, e o poder penal legislativo às normas com protecção constitucional.
Torna-se portanto límpida a importância de se prever e tipificar o crime com estrito respeito
pela tutela dos direitos da pessoa, e cumprindo os trâmites processuais legais.
Visa-se sobretudo um cumprimento, integral e sem desculpas, do princípio da legalidade, do
contraditório, da paritatis entre os intervenientes antagónicos do processo, de um duro
apartamento entre o juiz e a acusação, do princípio in dúbio pro reo, do ónus da prova
concedido á acusação, da publicidade do julgamento, do princípio do juiz natural e da
independência de que qualquer magistrado se deve revestir.
Ferrajoli distingue três teses onde estabelece o nexo entre o garantismo e a justificação
externa do direito penal, entre o primeiro e a legitimação e por fim explicita o garantismo
como filosofia política e como teoria crítica do direito.
Quando se propõe a estabelecer uma relação entre garantismo e a política do direito penal
(primeira tese), o autor começa por afirmar que o Direito Penal visa a redução do impacto,
quer qualitativo, quer quantitativo, da violência causada pela acção-crime, bem como pela
reacção-punição ao crime, sendo este o fito de um Direito Penal eficaz, devendo cumprir-se
“um dúplice objectivo: não apenas a prevenção e a minimização dos crimes, mas também a
prevenção das reacções informais aos crimes e a minimização das penas” (direito penal
mínimo). 20
Numa perspectiva perfeitamente antagónica situam-se as teorias absolutas (retributivas),
influenciadas pelos clássicos e pelas ideias de Kant, Hegel, Carrara e até Roxin, que
entendiam que o fundamento da pena era a retribuição, simplesmente como uma exigência de
justiça.
Encaravam a pena, como uma privação total ou parcial de um bem jurídico tutelado pelo
Estado, por meio da acção penal, em retribuição ao autor, de uma infracção penal, cujo
objectivo é evitar novas violações.
A pena então, tinha uma motivação ética, validando o direito e ripostando ao crime.
Contrapunha-se igualmente, o autor, às teorias utilitaristas da prevenção, quer geral, quer
especial pelo facto de se apresentarem parciais, cobrindo o seu utilitarismo, apenas a defesa
social da maioria, entenda-se, a maioria não desviante, enquanto a teoria do direito penal

20
Ferrajoli, 2008: 53

44
mínimo visava proteger sim, o “mais fraco”, o ofendido, a vítima, o desfalcado de algum dos
seus direitos essenciais aquando da ocorrência de um crime, e o arguido durante a démarche
processual, que passa a condenado no momento em que executa a pena.
Na sua segunda tese Ferrajoli questiona o fundamento democrático da jurisdição penal,
começando por afirmar que se o conceito de Democracia, do ponto de vista político se define
como o primado da vontade popular, então essa vontade representa a maioria, no entanto, é
importante que não se confunda vontade popular com vontade da maioria, já que se
seguíssemos a lógica da vontade da maioria, ainda que democrática, imperaria a aplicação de
um direito penal máximo, opressor, a roçar o vingativo, despido de limites e garantias, e isto
porque a linha condutora de pensamento penal da maioria vai no sentido da defesa social, isto
é, na garantia das conveniências dos cidadãos não desviantes, logo, a variável da máxima
utilidade possível confundir-se-ia com a maximização da aflição da pena, e não com critérios
minimizadores ou limitativos da punição.
Paralelamente, uma acção ou comportamento desviante suscita sempre a união da dita
maioria, enquanto cumpridora dos princípios sociais impostos, derivando numa diferenciação
negativa dos desviantes.
Ferrajoli conclui constatando que a legitimação do poder judicial não é democrática, porque
não representa efectivamente a vontade do povo.
O autor sugere ainda no mesmo sentido, e tentando encontrar uma forma mais pacífica de
justificar a legitimação do poder punitivo, o entendimento de uma democracia com
legitimação constitucional, que autoriza uma concepção mais amena e mediada.
Quando o autor utiliza o termo “democracia constitucional”21, refere-se não à maioria que
pode decidir graças ao peso do seu voto, mas à matéria sobre a qual não tem o poder de
decidir, pelo menos directamente, já que essa foi a garantia de uma construção ponderada de
um Estado Constitucional de Direito.
Subtraiu-se o poder da vontade da maioria dos cidadãos, e negaram-se todos e quaisquer
interesses gerais, em prol de um respeito que se pretende cego ao princípio da igualdade de
todos os cidadãos, e da igual garantia e defesa dos seus direitos fundamentais e assim se
explica o cunho democrático das garantias.

21
Luigi Ferrajoli, 2008:55

45
Sublinhe-se que o carácter imparcial, não representativo da maioria, também se estende à
legitimação da actuação dos órgãos executores da jurisdição penal, por respeito ao princípio
da independência e à garantia da descoberta da verdade e curiosamente conclui citando
Ronald Dworkin, inferindo que os direitos, as garantias, bem como o poder judicial que os
tutela são “contra a maioria”.
O garantismo enquanto filosofia política e teoria crítica do direito (terceira tese) é trazido à
colação pelo autor enquanto doutrina filosófico-política de confirmação do direito penal e
concomitantemente como teoria jurídico-normativa das garantias penais e processuais.
Assim, e não alongando a explicação, enquanto filosofia política o garantismo encarna o
papel de sistema de garantias que tutelam os direitos fundamentais, de todos: “daqueles sobre
os quais, como vítimas, recaem os crimes, como daqueles sobre os quais, como arguidos e
condenados, recaem os processos e as penas”.22
Enquanto teoria jurídico-normativa o garantismo assume um papel vigilante, com o fito de
colmatar eventuais lacunas nas garantias exigidas pelos direitos com assento constitucional, e
de localizar as eventuais invalidades ou discrepâncias da legislação em vigor ou da prática
judiciária, tendo por base o modelo constitucional.
Deduz pois o autor que o garantismo, enquanto modelo de direito deve cobrir portanto todos
os poderes (públicos ou privados), e todos os direitos fundamentais (de liberdade e sociais).
Quando se refere à actualidade Ferrajoli torna-se incisivo, anunciando a criminalidade do
poder que ofende gritantemente os direitos fundamentais e a convivência social, resultante de
uma profunda crise do sistema político que se deixou degenerar sem se preocupar em refreá-
la.
O paradigma penal alterou-se de facto, e a prisão deixou de ser um local onde se inserem os
indivíduos desviantes que violaram os princípios fundamentais de um todo, e sobre os quais
recaiu uma execução penal eficaz e imparcial, para se tornar numa colectora de pessoas
marginalizadas que “devido ao aumento do desemprego e da pobreza, à crise simultânea do
Estado social e das suas prestações assistenciais”23 se desviaram do caminho.
Efectivamente contra estes, a justiça penal revela-se célere e eficaz, mas nada dissuasora e
muito menos, ressocializadora, tendo-se considerado socialmente aceite a aplicação de

22
Luigi Ferrajoli, 2008:57
23
Luigi Ferrajoli, 2008: 59

46
práticas sumárias e expeditas para a problemática da criminalidade de rua, ou menor. Ora,
toda esta lógica gerou uma desconformidade quer entre o efeito negativo e dessocializador de
uma pena de prisão e a declarada incapacidade preventiva que o Direito Penal devia
assegurar, quer pela gravidade dos danos provocados pelo carácter corruptivo da
criminalidade do poder, face à totalidade vã de processos procriados pela inflação de legislado
penal.
É imperativo reflectir-se e reajustar-se coerentemente todo o sistema de crimes, bem como o
sistema de penas que lhe é respectivo.
Em suma, o que punir e como punir, e como melhor prevenir o punível e como minimizar a
punição do punível que não se conseguiu prevenir.
Ferrajoli sugere que se reavaliem os bens jurídicos, penalmente protegidos pretendendo-se
atingir uma despenalização concertada e consequente, o que levaria a um direito penal
mínimo mais eficiente e credível.
No que toca à proposta de desencarceramento, o autor sugere que se adapte o conceito de
prisão aos dias actuais, que não se pare a evolução do construto e que se deixe avançar a
civilização dos países, já que a mesma se mede pela moderação das penas, segundo as
palavras de Montesquieu. Se abolir a pena de prisão possível não for, que se reduza a duração
das penas e se lhe imprima um carácter excepcional. Limitemo-la à violação mais danosa dos
direitos fundamentais e apercebamo-nos da contradição que a prisão representa enquanto
negação de um direito fundamental constitucionalmente protegido.
A prisão é sinónimo de tormento físico e psicológico, mesmo na actualidade, incrementado
pela efectiva perda da liberdade pessoal, tendo-se tornado até mais acérrima a atipicidade e
imprevisibilidade dos conteúdos da reclusão, variáveis em si, conferindo-lhe uma tónica algo
arbitrária e desigual.
Segundo o autor:”A prisão é, portanto, de facto, uma instituição ao mesmo tempo não liberal,
desigual, atípica, pelo menos em parte extra-legal e extra-judicial, lesiva da dignidade da
pessoa, penosa e inutilmente aflitiva” pelo que se deve pugnar por uma “necessária uma
drástica redução, através, por um lado, do encurtamento da sua duração e, por outro lado, da
restrição das suas hipóteses de aplicação e a sua substituição, nos outros casos, por uma mais
ampla panóplia de penas, também elas limitativas das liberdades mas não segregadoras.”24

24
Luigi Ferrajoli, 2008:62

47
Concomitantemente, restrinja-se a pena de prisão apenas aos crimes mais graves, e deixe-se
para os menos danosos a aplicação de penas que igualmente limitem a liberdade ou outros
direitos, mas que não seja segregadoras, que não obriguem a entrega de “corpo e alma a uma
instituição total”, revertendo e transformando em principais as penas alternativas ou de
interdição que actualmente se aplicam só na fase da execução da pena.
Impõe-se uma reforma dirigida pela minimização da força punitiva do penalismo e pela
racionalização da sua actuação, enquanto requisitos de eficiência e de garantismo.
Ferrajoli lança por fim o repto: ”Todas as normas relativas a crimes, penas e processos
deveriam estar contidas, na base desta reserva de Código, no Código Penal ou no Código de
Processo Penal”25de modo a restringir a produção de legislação avulsa, por vezes
desconforme com a unidade e a coerência do conjunto.
Em suma, o direito penal não pode estar disponível quer para manifestações exibicionistas do
poder governativo, quer para o imediatismo criminal de uma sociedade moderna.

Albuquerque26 explícita pormenorizadamente os direitos garantidos ao recluso, para além de


todos os direitos fundamentais de que goza enquanto cidadão, dos quais se obliteram apenas
os direitos incompatíveis com o cumprimento da sentença condenatória e com o trinómio-
ordem, segurança e disciplina do estabelecimento prisional, procedendo-se aqui a uma mera
enumeração dos direitos dos reclusos: direito a tomar conhecimento do regulamento interno
do estabelecimento prisional; direito a informar a família ou representante legal do seu
ingresso no estabelecimento prisional; direito a ser conduzido à presença do director do
estabelecimento prisional com brevidade, direito a ser submetido a exame médico para
diagnóstico; direito a alojamento, higiene pessoal e alimentação; direito a dispor de água
potável a qualquer momento; direito a permanecer em recreio a céu aberto pelo menos duas
horas por dia (salvo cumprimento de sanção disciplinar); direito a não ser submetido a
experiências médicas ou científicas; direito a prestação médica ou medicamentosa a título
remunerado ou gratuito (consoante avaliação dos seus meios financeiros); as reclusas têm
direito a assistência médica especializada (serviço de ginecologia e obstetrícia), a manter os
filhos junto de si (até aos cinco anos com a publicação da Lei nº 115/09 de 12.10) e a usufruir

25
Luigi Ferrajoli, 2008:64
26
Paulo Pinto de Albuquerque,2006:243 a 257

48
de assistência pediátrica e rastreios vários para os seus filhos; o recluso vítima de acidente de
trabalho ou doença profissional durante o período de reclusão tem direito a assistência médica
e medicamentosa sustentada pela entidade empregadora; direito a recorrer ao estabelecimento
prisional para receber cuidados médicos enquanto goza de licença de saída; direito a receber
visitas e a manter correspondência, até como garante do seu direito à defesa jurídica; direito a
receber dos representantes diplomáticos ou consulares no caso de se tratar de um recluso
estrangeiro ou apátrida; direito a receber documentos provindos de advogados ou notários;
direito a ser ouvido sobre eventuais informações pertinentes obtidas pela vigilância; direito a
organizar os seus tempos livres e o seu espaço habitacional [cela]; direito a usar o próprio
vestuário durante as saídas do estabelecimento prisional (no caso de ser imposto uso de
farda); direito à destruição dos seus elementos de identificação que constem dos arquivos do
estabelecimento prisional aquando da sua saída em liberdade; direito a que não seja feita
qualquer menção à sua condição de recluso em nenhum documento relativo a matérias de
educação, ensino e formação profissional; direito a ser revistado com o máximo respeito pela
sua pessoa; direito a possuir objectos pessoais de valor cultural, formativo, moral ou afectivo;
direito a que os objectos não autorizados sejam inventariados e depositados no seu nome até
ao momento da saída; direito a que o valor monetário que possuir aquando do ingresso lhe
seja depositado no seu nome; direito a possuir textos e objectos de cariz religioso, bem como
a contactar e a ser assistido por um ministro da sua comunidade religiosa; direito a que os
seus familiares ou representante legal sejam informados da sua doença grave ou morte, ou a
ocultar estes factos aos primeiros, bem como a ser informado da doença grave ou falecimento
destes; direito a receber documento comprovativo de libertação e a receber as importâncias
monetárias compostas pelo fundo disponível e pelo fundo de reserva.

Já no ponto de vista de Pereira, “as garantias nunca são excessivas. O seu uso pode, esse sim,
ser exagerado ou abusivo”27, no entanto a verificar-se a última parte da premissa, tal não deve
resultar num racionamento das garantias, mas sim no sancionamento ou punição do abuso
constatado.
Os direitos, liberdades e garantias constitucionalmente protegidos devem ser encarados de
uma forma desempoeirada, sendo certo que todos os cidadãos devem poder gozar dos

27
Rui Pereira, 2003: 3

49
mesmos, segundo princípios de igualdade, já que os mesmos se encontram consagrados com
vista a impedir o “arbítrio e a prepotência e assegurar um processo leal e justo”28.

Segundo a opinião de António Manuel Clemente Lima29, “o excesso de garantismo e


burocratismo” são causas entorpecedoras do funcionamento do sistema judicial e,
“consequentemente, paralisantes da tutela dos direitos”30, inferindo que a política criminal, no
que concerne aos direitos fundamentais em contexto de processo penal jogam com duas
variáveis: a segurança e a protecção da dignidade do indivíduo e uma componente fixa: a
realidade social, económica, e política do país, concluindo-se pela referência ao trinómio –
garantias, eficácia e realismo.

Na mesma linha de pensamento, Morgado afirma que em Portugal dispomos de um processo


penal “excessivamente garantístico” que privilegia os direitos dos arguidos, atropelando os
direitos das vítimas e obstando ao direito de punir capazmente, o que inviabiliza a
concretização da justiça, tornando-se o “excesso de garantismo tão injusto como a falta de
garantias porque conduz à impunidade”31.

8. Da Humanização

Embora a humanização, nomeadamente do sistema prisional tivesse sido o grande mote que
inicialmente me motivou na feitura desta dissertação, confesso que à medida que fui
avançando na inerente investigação científica, e depois de muitas horas de escuta de
profissionais que se entregam à nobre obra que é o tratamento penitenciário, o meu espírito
deixou de se iluminar com a escolha deste termo, acreditando que a coerência assentava, isso
sim na dignificação do ser humano em reclusão, aliada a uma sageza científica, e assente
numa actuação consciente e tecnicista por parte dos profissionais.

28
Rui Pereira, 2003:4
29
Inspector-Geral da Administração Interna
30
Clemente Lima, 2008:13
31
Maria José Morgado, magistrada do M.P., 2009

50
As nossas crenças influenciam invariavelmente o rumo que imprimimos no nosso projecto, e
isso espelha-se na exploração dos meios à nossa disposição.
A verdade é que os termos humanização e tecnicidade conseguem suscitar interpretações
diversas o que leva a concepções inevitavelmente discrepantes, senão vejamos, o termo
humanização é à primeira vista, quase sempre encarado como a prática de acções caritativas e
a dádiva de um apoio reconfortante à pessoa em reclusão e muito raramente é visto como a
adquirição de competências sociais, afectivas, económicas, laborais, familiares e até
comunicativas por parte do recluso.
Por seu turno a tecnicidade, salvo raras excepções também é quase sempre confundida com o
trabalho burocrático dos serviços prisionais e com o respeito cego pela hierarquia vigente nos
mesmos, vigorando uma ideia geral de exagero do mesmo, e quase nunca a tecnicidade é
encarada como base de trabalho desempenhado pelos funcionários, assente num plano
científico, decorrente de uma investigação criminal séria e atenta e muito esclarecida.

Esta discrepância de concepções é explicável segundo uma perspectiva filosófica que define
moral humanitária como o conjunto de deveres entre cidadãos, segundo uma visão igualitária,
dividindo-se estes, em deveres de justiça e caridade, sendo que os primeiros se subdividem
em respeito pela vida física alheia, moral, propriedade, pelo seu trabalho e pela sua profissão,
visando em suma a protecção dos direitos da pessoa alheia (da sua pessoa, dos seus bens e da
sua honra).
Já os deveres de caridade que compõe a moral humanitária consistem na benevolência,
enquanto reconhecimento da dignidade do ser humano e na beneficência enquanto prática de
boas acções de apoio ao semelhante.
Os meus parâmetros e o meu entendimento sobre a matéria alteraram-se, e neste momento
percebo que não se torna essencial humanizar o sistema prisional, em si, mas sim humanizar o
cumprimento das penas.
O meu conceito de humanização defende precisamente a dotação da pessoa do recluso, de
competências, já acima elencadas, incutindo-lhe valores de responsabilidade e paralelamente
responsabilizando-o pelo processo cujo fito é a sua reinserção na sociedade.

Vários autores colaboram nesta linha de pensamento humanista, nomeadamente Beccaria no


seu pequeno escrito, onde refere que a lei redigida permitiu travar uma luta à ignorância e á

51
incerteza da mesma, tendo preparado o século das Luzes para a:”humanidade, a beneficência”
e para a “tolerância para os erros humanos”32, até porque uma pena “pública, pronta,
necessária, a mais pequena possível nas circunstâncias dadas, proporcional aos delitos, fixada
pelas leis”33 despe a mesma do seu carácter violento e vingativo, reforçando que um
crescimento da sensibilidade na sociedade gera em proporção inversa um decréscimo da força
da pena.
Já Delgado34 faz referência ao movimento das prisões abertas surgido em 1936 em Inglaterra,
essencialmente caracterizado por uma diminuição do controlo vigilante em troca de uma
conduta disciplinada e obediente por parte do recluso. O autor elenca as qualidades desta
inovação, sendo certa a ressocialização enquanto objectivo último, em que sobressaem: o
equilíbrio físico e mental dos reclusos; uma maior estreiteza com o modo de vida em
ambiente livre; existência de um elevado grau de obediência, que gera disciplina, e por
consequência resulta numa diminuição de altercações e num inter-relacionamento mais
saudável e no estabelecimento de sentimentos de confiança que acompanhados pelo respeito
pelas regras vigentes vão dotar o recluso de noções favoráveis à sua ressocialização.
Note-se que é feita expressa referência à necessidade de específica qualificação dos
profissionais, já que os mesmos devem conseguir motivar os reclusos a confiar no modelo,
tendo por base uma disciplina rígida.

No ponto de vista de Rodrigues35o princípio da humanidade empresta a sua tónica à execução


da pena, sendo que se o princípio da legalidade fita a protecção dos direitos fundamentais dos
cidadãos perante o poder punitivo, a mesma necessidade de confiança na justiça deve alargar-
se à administração penitenciária, procedendo-se a um elenque legal dos direitos e deveres,
quer da administração penitenciária, quer do recluso, retirando a execução da mercê da
administração, e perfilhando-se um movimento legislativo denominado de “garantia
executiva”.

32
Cesare Beccaria, 1998:72
33
Cesare Beccaria, 1998:163
34
José Augusto Delgado, 1997:32-34
35
Anabela Miranda Rodrigues, 2002:66

52
Determina-se a posição jurídica do recluso, deixando o mesmo de ser objecto de normas
jurídicas para passar a ser sujeito de direitos, tratando-se de: “definir um estatuto que
«restitui» ao condenado a sua dimensão de ser humano: o indivíduo –recluso torna-se sujeito
de direitos que lhe demarcam a fronteira da «humanidade».36
A autora termina o raciocínio referindo que a «humanização» confere ao direito penitenciário
novas fundamentações religiosas e culturais e anuncia definitivamente o recluso enquanto
sujeito do processo de execução.

Apresenta-se de clara importância elencar os direitos humanos dos reclusos, providos dos
direitos do homem, gerais e universais, como sendo o direito à vida e à integridade pessoal; o
direito de não ser torturado e de não sofrer maus tratos; o direito à saúde; o direito ao respeito
pela dignidade humana; o direito a um processo conforme ao Direito; o direito a ser
preservado de todo o tipo de discriminação; o direito de não ser sujeito a escravidão; o direito
à liberdade de religião; o direito ao respeito pela vida familiar e o direito ao desenvolvimento
pessoal.
Claramente, todos estes direitos pugnam pelo tratamento humanitário de todos os reclusos,
enquanto seres humanos, iguais, que por sujeição a detenção ou prisão ficam temporariamente
isentos do gozo pleno do direito à liberdade.
E assim entramos no campo das normas jurídicas e dos princípios internacionais com relevo
em matéria de direitos humanos e de tratamento penitenciário.
Podemos afirmar que a viragem para a humanização acontece quando o homem se assume
enquanto sujeito de direitos, legalmente protegidos, perfilhando a acepção de direitos
humanos.
Numa sequência cronológica os finais do século XVIII ficaram marcados pela Declaração da
Independência Americana e pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão datada de
1789, ambas com base no primado da igualdade perante direitos e liberdades inalienáveis,
investindo os governos do dever de garante desses direitos.
A Carta das Nações Unidas é preparada em 1945, e surge na constância da Conferência
Internacional das Nações Unidas com vista a sarar algumas das feridas resultante do atropelo
da dignidade humana registadas na 2ª Grande Guerra precisamente terminada, como aliás se

36
Anabela Miranda Rodrigues, 2002:67

53
comprova pelo conteúdo do seu preâmbulo: “proclamar de novo a nossa fé nos direitos
fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos
entre homens e mulheres, bem como das nações, grandes e pequenas”.
Reunida em 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas perfilha a Declaração Universal
dos Direitos do Homem visionando-se que o peso de um instrumento internacional possa
chegar a todos, onde se prevêem direitos de vários quadrantes e que a todos devem beneficiar
por igual.
Douto documento previu também a matéria penal e penitenciária, citando-se de seguida
integralmente o conteúdo dos artigos relacionados:
“Artigo 1º -Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”;
“Artigo 5º - Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos
ou degradantes”;
“Artigo 9º - Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado”;
“Artigo 10º - Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa
e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos
e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja
deduzida”;
“Artigo 11º nº1- Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-se inocente até que a
sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas
as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas”; “nº2 – Ninguém será condenado
por acções ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam acto delituoso à face
do direito interno ou internacional. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do
que a que era aplicável no momento em que o acto delituoso foi cometido.”

Em paralelo com a actuação da Organização das Nações Unidas, e com a mesma força motriz,
o Conselho da Europa valida em 1950 a Convenção Europeia dos Direitos do Homem, que
reforça e ultrapassa o âmbito da Declaração Universal dos Direitos do Homem, inovando com
a organização e legitimação de um sistema internacional de fiscalização e preservação, o
denominado Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, sito em Estrasburgo, com a
competência de dirimir eventuais desrespeitos pelos direitos consagrados e defendidos pela
Convenção, depois de se terem esgotado todas as instâncias nacionais.

54
Indiquem-se os artigos 5º, 6º e 7º da Convenção particularmente relacionados com a
actividade da justiça penal, onde se prevê o direito à liberdade e à segurança, enumerando as
exclusivas excepções à abstenção da liberdade, atinentes a um processo legal, e sem que
sejam obliterados os direitos e garantias de pessoas detidas ou presas.

Ratificado que foi em 1966, o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, oriundo
da ONU, apresenta-se como uma miscelânea do normativo previsto na Declaração Universal
dos Direitos do Homem e da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, sublinhando o
artigo 9º, respeitante às garantias dos detidos. Por outro lado, no artigo 28º do articulado está
prevista a criação do Comité dos Direitos do Homem cuja competência é o supervisionamento
da aplicação do disposto pelos Estados Partes.
Avaliado que foi o passado recente, de há apenas dois séculos, apresenta-se pertinente
enquanto motivação das Nações Unidas o desarreigar dos antigos suplícios que ainda
perduram na modernidade, pelo que surge em 1984 a Convenção contra a Tortura e Outras
Penas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes, resultante da vontade e da
necessidade de se codificar e uniformizar todo o legislado repleto de Princípios, espalhados
por vários instrumentos de Direito Internacional, encontrando-se plasmada no artigo 1º uma
definição extensiva do termo tortura, e no seu artigo 17º criado o Comité contra a Tortura, em
funcionamento quatro anos depois. Também a competência deste Comité consiste no controlo
da aplicação das normas multilaterais, tendo para tal sido investido de poder de exame e
investigação como garante de uma eficiência pragmática.
É certo que tudo indica que esta última Convenção foi concebida, adaptando-se
primordialmente a situações que envolvessem prisão, detenção ou reclusão em
estabelecimentos públicos, no entanto a sua aplicação pode ser mais lata.
Efectivamente, o facto de um número elevado de Estados ter aderido a estas normas
internacionais, com uma vasta solidez vinculativa, permitiu um reconhecimento respeitável
dos direitos humanos que se querem garantidos.
Como já se referiu, os reclusos gozam de um uso totalmente igualitário de todos os direitos
humanos disponíveis, à excepção do gozo da liberdade, temporariamente subtraída por
sentença judicial decorrente de um processo penal justo e legal, sendo certo que vêem alguns
outros direitos ligeiramente tocados, por força das circunstâncias justificadas, tais como o

55
direito à vida privada, a liberdade de movimentos, a liberdade de expressão, de reunião e de
voto, sempre rectos a parâmetros pré-estabelecidos.
Albino37 suscita a questão de ainda não ser líquido se o poder que o sistema penal e
penitenciário dispõe de limitar alguns dos direitos acima elencados, poderá ser encarado
enquanto exacerbamento de poder pelos órgãos punitivos ou se por outro lado será apenas o
resultado natural da clausura.

8.1 O Modelo APAC

Inevitável seria terminar este capítulo dedicado a um termo (ambíguo, devo dizê-lo) como é a
Humanização, sem fazer expressa referência ao caríssimo Juarez Morais de Azevedo, juiz de
direito no estado de Nova Lima (Brasil) que descreve a actual conjuntura penitenciária
brasileira de um modo quase tão sórdido quanto a descrição da morte de Damiens, por
Foucault, concluindo o raciocínio da soma de várias premissas pela evidência de qualquer
tentativa de recuperação nascer já morta.
Conheci e colaboro na disseminação da metodologia APAC- Associação de Protecção e
Assistência aos Condenados pelo facto do projecto se apresentar sustentado e consciente, e
em franca expansão já que em cinco anos conseguiu a adesão de quinze comarcas (estando 59
comarcas a aplicar parcialmente o método), tendo sido já implantados inúmeros Centros de
Recuperação.
Os reclusos são denominados de recuperandos, dada a efectiva determinação em recuperá-los
(afinal não é esse o objectivo último do cumprimento de uma pena de prisão?), e o mais
surpreendente, para além de vigorar uma estreita relação de proximidade com a comunidade
em geral e com a família em particular, é não existirem guardas prisionais a vigiar.
Confesso que quando fui apresentada ao projecto fiquei toldada pela renitência. Afinal como é
possível que num país com uma das mais altas e violentas taxas de criminalidade se conceba
um construto tão anti-natural como uma prisão sem guardas?
É sem dúvida a dignificação do ser humano a dar evidentes e frondosos frutos.
A APAC nasceu em São José dos Campos, no estado de São Paulo em 1972, pela mão do
advogado Mário Ottoboni, encontrando-se actualmente espalhada por vários países do mundo

37
Clara Albino, 2007:20

56
como: Equador, Argentina, Perú, Estados Unidos da América, Colômbia, África do Sul entre
outros.
Doze princípios determinam e validam a metodologia APAC, mas acima de tudo conseguem
resultados visíveis no tratamento e alteração do comportamento criminógeno.
Sob pena de deturpar a essência dos mesmos, citarei integralmente Azevedo38, um dos
persecutores activos da metodologia.

1. Participação da Comunidade
A comunidade participativa é fundamental para o êxito da APAC, porquanto é ela a
responsável pela introdução do Método e da direcção do estabelecimento prisional em
concurso com os recuperandos.
2. Recuperando ajudando o recuperando
O sentimento da solidariedade é o que se desperta por intermédio deste princípio,
provocando a harmonia no ambiente prisional, com destaque para o CSS – Conselho de
Sinceridade e Solidariedade – ou seja, o grupo de recuperandos encarregado de ser o elo
entre eles e a direção do estabelecimento.
3. Trabalho
O trabalho, nos três regimes, faz parte da proposta, merecendo ser destacado que no regime
fechado, a actividade laboral tem como escopo a melhoria da auto-estima do recuperando,
enquanto no semi-aberto busca-se a sua profissionalização e no aberto a sua inserção social.
4. Religião
O principal é a experiência de Deus, sem que nenhuma linha religiosa seja imposta, na busca
da transformação moral do recuperando.
5. Assistência Jurídica
A grande maioria dos recuperandos não possui condições económicas para a contratação de
um profissional do Direito, daí a importância desse elemento, diante dos benefícios que a
legislação, em especial na fase da execução, oferece, o que cria grande ansiedade naquele
que pode ser beneficiado.
6. Assistência à saúde
A assistência é global: médica, odontológica, psicológica ou outra necessária.

38
Juarez Morais de Azevedo, 2008:296/297

57
7. Valorização Humana
O ser humano que está cumprindo a sua pena é o principal objetivo da metodologia, e para
ele são voltadas todas as atenções com o escopo de ajudá-lo a recuperar a sua auto-imagem,
com destaque à educação e ao estudo, aspectos falhos na grande maioria da massa
carcerária.
8. A Família
O resgate da família é fundamental, porquanto o recuperando para ela voltará após o
processo de recuperação a que foi submetido durante o cumprimento de sua pena e se não a
encontrar bem estruturada poderá retornar à vida errante.
9. O voluntário e sua formação
A base da metodologia é o voluntariado – o sentimento de solidariedade em sua forma mais
patente – mostrando ao recuperando que nem todos lhe viraram as costas. Mas para isso
mister a preparação daqueles que se dedicarão ao trabalho, pois a improvisação e o
amadorismo não são bons companheiros e para tanto deverá submeter-se a um curso de
formação, em média desenvolvido em 42 aulas, para conhecimento da metodologia e do
trabalho a ser desenvolvido.
10. Centro de Reintegração Social – CRS
O estabelecimento prisional, seguindo os mandamentos da LEP, possui locais para o
cumprimento da pena nos três regimes: fechado, semi-aberto e aberto, possibilitando ao
recuperando o cumprimento da pena próxima de sua família.
11. Mérito
É o requisito principal que deve ser observado na caminhada do recuperando, posto que só
quem tem mérito alcança a progressão nos regimes.
12. A jornada de libertação com Cristo
É o encontro anual onde todos os recuperandos – dos três regimes – assistem a palestras,
meditações e testemunhos dos participantes com o fito de provocar uma verdadeira mudança
em suas vidas.

Muito se pode conjecturar sobre este sistema, até porque se pode ao primeiro relance mais
incauto, considerá-lo demasiado idealista, e quiçá pouco realista, encará-lo com menos
respeito por ser aparentemente tão improvável, um movimento sem expressão (?), utópico, tão
desburocratizado, demasiado humano…será?

58
Depois de reflectir penso que acima de tudo, à mentalidade europeia assusta a demasiada
proximidade e entrega entre recluso e funcionários ou voluntários, não que defenda o
abandono de regras de convívio social entre uns e outros até porque isso levaria, como já se
encontra provado, a putativas quebras na ordem, segurança e disciplina que devem co-existir
dentro deste tipo de instituições, tão particulares, mas creio profundamente que o grande
desenvolvimento intelectual (explicado pelo contexto histórico, social, económico, político e
até bélico) absorvido pela antiga Europa, de início tão empenhada com o movimento da
codificação, actualmente tolda e mina uma visão progressista e disponível, que curiosamente,
e apesar de pugnar por isso todos os dias, não consegue estar disponível para um desempenho
eficaz e eficiente, de tão fixada que está na letra da lei e no respeito cego pela mesma.

E eis senão quando passo os olhos por uma sentença de Van Hamel, que sucinta toda a ideia
que acabei de sustentar :” César Beccaria, nos dias de arbítrio, disse ao homem: conhece a
justiça; César Lombroso, na época em que se está aferrado às fórmulas clássicas do Direito
Penal, disse à justiça: conhece o homem.”
Perfeito, afigura-se-me.

Doutos comentários se poderão tecer acerca deste modelo, mas como se explica que
nomeadamente no Brasil, a actual (2008) taxa de reincidência dos condenados em sistema
regular roce os 85% e com a prática deste modelo apenas 10% voltem a reincidir?

Já Lombroso na sua obra -O Homem Criminoso, fazia alusão à penitenciária de Neuchatel-


Suíça, tecendo-lhe fortes elogios, moldes segundo os quais actualmente o modelo da APAC
encaixa na perfeição, conforme se comprova pelo citado: “todos esses pilotos cegos dos
Estados modernos, para os quais o homem não é modificável nem educável, que colocam em
toda parte a sentimentalidade e a rotina em lugar da utilidade social, poderiam ver, bem perto
de nós, na Penitenciária de Neuchatel, aquilo que se pode obter com sistema, – tão humano e
tão científico.”39

9. Do Tratamento Penitenciário

39
Cesare Lombroso, 1985:95

59
Idealmente, no contexto actual, o sistema de Tratamento Penitenciário interage logo de início
com o sujeito, objecto de uma avaliação, planificação concertada e evolução contingente.
Mas faça-se referência a Foucault40, que encarava a prisão enquanto “empresa de modificação
dos indivíduos que a privação de liberdade permite fazer funcionar no sistema legal”, sendo
certo que o século XIX marcou o encarceramento legal, caracterizado pela privação da
liberdade e concomitantemente pela transformação técnica dos reclusos, considerando-se que
os indivíduos recluídos deviam ser rodeados de uma “disciplina incessante”, acreditando
igualmente Ferri41 que a vida prisional deve compor-se de um tratamento económico
(organização e retribuição do trabalho), acompanhado de um tratamento higiénico, educativo,
disciplinar e jurídico.
Na mesma linha de pensamento encontramos Santos42que defende, acerca da reforma de 1936
que no decorrer do cumprimento de pena de prisão “procura dar-se ao preso um forte
interesse e estímulo para que possa e queira tornar-se um elemento socialmente útil ou pelo
menos sem nocividade. Esta actuação positiva, é acompanhada de precauções destinadas a
evitar, quanto possível, a influência prejudicial do ambiente da Cadeia e sobretudo da má
convivência prisional”, devendo para tal optar-se pela classificação dos reclusos e
diferenciação dos estabelecimentos prisionais.
Lopes43 faz uma apreciação curiosa acerca do fosso entre a Lei, no seu esplendor teórico, e a
realidade, quando refere que “tem de reconhecer-se a incapacidade da lei para individualizar o
tratamento ou para prever a evolução da técnica penitenciária”, pois “em textos legais pode
apenas estabelecer-se o enquadramento de grupos”, sendo real que após a reforma de 1936, “
o regime progressivo adoptado como base do tratamento penitenciário (…) só em pequeno
número de estabelecimentos pôde ser cumprido e, mesmo assim, por forma incompleta”, e
bem assim, “As normas que condicionam a distribuição dos presos nunca tiveram inteira
aplicação”.44

40
Michel Foucault, 1977:209
41
Henrique Ferri, 1931:359
42
Prof. Doutor José Beleza dos Santos, 1947:11
43
José Guardado Lopes, 1961:6
44
José Guardado Lopes, 1961:9

60
Entende Pinto45que por tratamento se deve compreender “programa de readaptação social,
baseado em métodos científicos e em estudos que habilitem o orientador da execução da pena
a agir, em relação a determinado indivíduo, consoante as exigências da personalidade deste,
digamos mesmo da sua perigosidade”, prosseguindo o duplo desiderato de restituir ao meio
livre o indivíduo em condições de não tornar a reincidir, e de asseverar a defesa da
comunidade.46
Pinatel47apela ao tratamento de delinquentes consubstanciado na cura psico-moral, pela
segurança e pela educação.48
Na óptica de Correia49 o processo de tratamento penitenciário deve ser encarnado pelos
serviços sociais ao serviço da Justiça, enquanto “ensinamento e ajuda e aprendizagem, através
de um discurso cognitivo em que se radique a ideia de que o crime não compensa; que cada
homem tem responsabilidade pelos seus actos como pelos dos outros; que só pode pretender-
se o respeito pelos direitos próprios quando se respeitem os direitos alheios”, sendo de realçar
que no entendimento do autor para que o processo de ressocialização seja bem sucedido, deve
acreditar-se no ser humano, e “na sua permanente disponibilidade para, ainda quando decaído
e marginalizado pela prisão, poder ser recuperado pela sociedade donde veio e à qual importa
restituir”50, não obstante “ A regeneração não deve (…) ser utopia mistificadora, mas realismo
verdadeiro, embora iluminado por aquele grão de fermento utópico, que se esconde no
coração de todos os homens”.51

45
J. Roberto Pinto, 1963:7
46
“O tratamento penitenciário, tomando, como é sabido, posição proeminente no campo da execução da sanção
penal, envolve variadíssimos aspectos da actividade da administração penitenciária. Exigindo, para o mínimo de
êxito, observação e estudo científico do delinquente, a sua classificação segundo critério que mais se harmonize
com a individualização da pena decretada no aspecto da forma do seu cumprimento, a distribuição do indivíduo
pelo estabelecimento que reúna as condições próprias para a eficácia do plano traçado, a vida do próprio preso na
instituição penitenciária que lhe foi destinada, o ensaio de um contacto com o exterior tanto na fase do
internamento prisional como na fase subsequente de libertação condicional”( J.Roberto Pinto, 1963:10)
47
Jean Pinatel, 1971:206
48
“traiter les délinquants, c´est donc mettre en oeuvre une cure psycho-morale ayant pour but de remodeler leur
système de valeurs, dans les conditions de securité exigées par leur dangerosité individuelle et s´efforcer
d´améliorer par un travail de rééducation leurs possibilités d´adaptation sociale.”
49
Eduardo Correia,1984:7
50
Eduardo Correia, 1979:5
51
Eduardo Correia, 1979:9

61
Na opinião de Malça Correia52as coordenadas do tratamento penitenciário decompõe-se na
austeridade institucional, donde transpareça a gravidade e a consequente reprovação social do
delito, e na composição do pessoal preparado para, sensatamente poder amenizar a dureza da
instituição, procurando gerar um ambiente de calor humano, com vista a criar ou a fortalecer
neles, os necessários mecanismos de aversão a todo o comportamento anti-social.
Já no prisma de Gonçalves53, concebe-se o Tratamento Penitenciário enquanto “disposições
jurídico-legais que a administração prisional tenta pôr de pé para melhorar as condições da
vida interna nas prisões bem como os seus projectos reabilitativos”, sendo que toda a actuação
neste sentido se encontra correlativamente dependente da maior ou menor permissividade da
legislação e, actualmente, do Regulamento Geral dos Estabelecimentos Prisionais, devendo
ser elaborado “um plano individual de acompanhamento de cada recluso, consoante as
características da pena a cumprir e do estabelecimento em que está inserido, onde existe uma
preocupação com a forma como se procura a sua adaptação à prisão mas também se
intencionalizam esforços no sentido de dotar o sujeito de competências psicológicas e sociais
que lhe permitam enfrentar com êxito a retoma da vida em liberdade, prevenindo assim a
reincidência”54, salientando o autor, o facto do tratamento penitenciário ser cada vez mais
“um trabalho que apela à participação de todos os agentes, intra e extra-penitenciários”55.

Como se depreende da letra do artigo 2º, nº1, da Lei nº115/2009 de 12.10, no período
compreendido entre a admissão do recluso em estabelecimento e a sua saída em liberdade, o
Estado encarna a responsabilidade de apresentar ao recluso um plano de reinserção na
sociedade, que o dote de valores de responsabilidade e de consciência social. Paralelamente
pretende o Estado assegurar a protecção de bens jurídicos, bem como a defesa da sociedade.
Na óptica de Albuquerque56a execução das medidas privativas de liberdade deve guiar-se por
dois princípios essenciais. São eles o princípio da inclusão, substanciado no estreitamento
entre as condições de vida do estabelecimento prisional e as condições de vida livre, conforme

52
A. Malça Correia, 1978:106 e 107
53
Rui Abrunhosa Gonçalves, 1993:108
54
Rui Abrunhosa Gonçalves, 1998:67
55
Rui Abrunhosa Gonçalves, 1998:72
56
Paulo Pinto de Albuquerque, 2006:313 e 314

62
se retira do artigo 3º nº5 da Lei nº 15/200957, bem como no privilegiamento da cooperação
com a comunidade, nos termos do artigo 3º nº 7 da Lei atrás enunciada58, e o princípio da
promoção da responsabilidade consistente no chamamento do recluso a participar
proactivamente, embora de modo voluntário, no seu próprio processo de reinserção social,
conforme se extrai do artigo 3º nº659, não se devendo descurar a importância da ordem e da
disciplina, enquanto requisito impreterível de um tratamento penitenciário apropriado60.
A Lei define no seu artigo 5º nº2 e 3, tratamento penitenciário ou prisional enquanto
“conjunto de actividades e programas de reinserção social que visam a preparação do recluso
para a liberdade, através do desenvolvimento das suas responsabilidades, da aquisição de
competências que lhe permitam optar por um modo de vida socialmente responsável, sem
cometer crimes, e prover às suas necessidades após a libertação”, sendo que o mesmo deve ser
“programado e faseado, favorecendo a aproximação progressiva à vida livre, através das
necessárias alterações do regime de execução”.
Como já atrás se frisou, é essencial que a participação do recluso no seu tratamento seja
voluntária, como aliás se depreende da Lei, no seu artigo 21º nº561, e este sentido de
voluntariedade resulta de uma carga legal e psicológica, já que no prisma de Rodrigues62, “É
um princípio – o do tratamento voluntário - que não pode deixar de se fazer valer, dado o
perigo que para os direitos fundamentais do recluso representa a imposição de um tratamento
coactivo.”, pois, “A afirmação do princípio do tratamento voluntário é uma evidência,
segundo a dimensão de «direito» do recluso conferida à socialização e entendida esta também
como emanação do princípio da dignidade da pessoa humana. O que converte em
inconstitucional um tratamento coactivo.”.
A procura dos serviços prisionais na obtenção de uma participação e adesão voluntária ao
tratamento, por parte do recluso nega absolutamente “a consagração de um dever geral de
participação do recluso na obtenção da finalidade de socialização e, por idênticas razões, de

57
“A execução, na medida do possível, evita as consequências nocivas da privação da liberdade e aproxima –se
das condições benéficas da vida em comunidade.”
58
“A execução realiza -se, na medida do possível, em cooperação com a comunidade.”
59
“A execução promove o sentido de responsabilidade do recluso, estimulando -o a participar no planeamento e
na execução do seu tratamento prisional e no seu processo de reinserção social, nomeadamente através de
ensino, formação, trabalho e programas.”
60
Paulo Pinto de Albuquerque,2006:333
61
“Na elaboração do plano individual de readaptação deve procurar -se obter a participação e adesão do
recluso.”
62
Anabela Miranda Rodrigues, 2002:188 a 190

63
deveres concretos de tratamento. (…) Só deste modo é possível compatibilizar a intervenção
de socialização com o respeito pelos direitos, liberdades e garantias.”
Já na visão de Paninho63, “ninguém se cura se não quiser e uma vez que queira todo o método
se torna repentinamente mais eficaz.”, e é esta carga psicológica que a espontaneidade com
que o recluso é convidado a participar no processo traz, que inconscientemente implicará e
responsabilizará o indivíduo pelo seu rumo.
Numa perspectiva filosófica, “O que dá verdadeiro valor e dignidade ao homem (…) é a
rectidão da sua vontade e a sua submissão aos princípios do dever”64, pois, “conhecido o bem,
é preciso querê-lo ou aceitá-lo e, portanto, a vontade livre é outra condição subjectiva
indispensável na actividade moral”65.
Actualmente, persiste a convicção filosófica e executória prisional de que cada recluso tem
uma individualidade própria e um atalho que o levou ao cometimento do crime, e de que é
possível encontrar “com ele e para ele, um caminho de regresso à vida ajustada em
comunidade”66.

9.1 Dos Princípios Orientadores

No que se prende com o Tratamento Penitenciário, recomendam as Regras Mínimas para o


Tratamento de Reclusos que devem os sistemas prisionais pugnar pela atenuação do
sofrimento inerente à prisão67, procurando encaminhar o recluso a adoptar, após a libertação,
uma conduta regida pela obediência à lei e pela sua auto-sustentabilidade68, proporcionando

63
http://www.scribd.com/perigosidade-ludgero-paninho/d/23774407
64
Compêndio de Filosofia, 1964:241
65
Compêndio de Filosofia, 1964:482
66
Ludgero Paninho, 2007: 82

67
“Regra 57- A prisão e outras medidas que resultam na separação de um criminoso do mundo exterior são
dolorosas pelo próprio facto de retirarem à pessoa o direito de auto-determinação, por a privarem da sua
liberdade. Logo, o sistema penitenciário não deve, excepto pontualmente por razões justificáveis de segregação
ou para a manutenção da disciplina, agravar o sofrimento inerente a tal situação.”

68
“Regra 58 - O fim e a justificação de uma pena de prisão ou de uma medida semelhante que priva de liberdade
é, em última instância, de proteger a sociedade contra o crime. Este fim só pode ser atingido se o tempo de prisão
for aproveitado para assegurar, tanto quanto possível, que depois do seu regresso à sociedade, o criminoso não
tenha apenas a vontade, mas esteja apto a seguir um modo de vida de acordo com a lei e a sustentar-se a si
próprio.”

64
ao indivíduo um retorno paulatino ao meio livre, norteado por um contacto contínuo dos
reclusos com o meio exterior, nunca olvidando o carácter individualizado do tratamento69.

Na letra do artigo 3º da Lei nº 115/2009 de 12.10, sob a epígrafe -Princípios orientadores da


execução encontra-se plasmada a linha condutora da execução das penas e medidas privativas
da liberdade, donde sobressaem o respeito pela dignidade da pessoa humana bem como pelos
princípios fundamentais, constitucional e internacionalmente consagrados. O respeito pela
personalidade do recluso, o respeito pelo princípio da igualdade que impede qualquer tipo de
distinção discriminatória, o respeito pela especialização e individualização do tratamento
penitenciário inerente a cada recluso, a maior aproximação possível às condições de vida em
meio livre, a motivação do recluso para participar livremente na escolha e execução do seu
tratamento penitenciário, do qual constam as vertentes de ensino, laboral, formativa e
programas avançados pelos serviços prisionais, com o fito último da sua reinserção social, e
procurando sempre captar a atenção da comunidade, que se pretende colaborativa.

No que se prende com os princípios que delineiam o Direito Penitenciário relevam o princípio
da legalidade, o princípio da reintegração social, o princípio da humanidade e o princípio da
presunção de inocência, adquirindo o princípio da reintegração social particular interesse para
o tratamento penitenciário, bem assim “A ideia sobre a qual assenta o princípio da reinserção
social é a da consideração de um direito penal fundado na culpa, no qual o homem como ser
livre há-de ser responsável pelos seus actos e pode ser capaz de transformá-los”70,
manifestando-se igual e maioritariamente relevante o princípio da humanidade, propugnador
da melhoria das condições de vida dos reclusos, quer na fase da aplicação da pena71

69
“Regra 59 - Nesta perspectiva, o regime penitenciário deve fazer apelo a todos os meios terapêuticos,
educativos, morais, espirituais e outros e a todos os meios de assistência de que pode dispor, procurando aplicá-
los segundo as necessidades do tratamento individual dos delinquentes.”

70
João Luís Moraes Rocha, 2005:23
71
No que se prende com a actual amplitude do princípio da humanidade, cite-se Hans-Heinrich Jescheck,
1993:23 “Fundamento de la Política criminal ha de ser, finalmente, el principio de humanidad. A su tenor, todas
las relaciones humanas que surgen del Derecho penal en su más amplio sentido deben ordenarse sobre la base de
la solidariedad recíproca, de la responsabilidad social para com los reincidentes, de la libré disposición hacia la
ayuda y la assistência sociales, y de la decidida voluntad de recuperar a los delincuentes condenados.(…) La
conciencia de la responsabilidad humana compartida es decisiva, por último, para la estructuración de las
medidas assistenciales que han de acompanãr hoy el tratamiento criminal en libertad y a la reincorporación
65
(sintetizando-se no facto de causar o menor sofrimento possível, ajustando a pena à realidade
social do condenado), quer na fase da execução da pena, obrigando-se ao respeito pela
dignidade da pessoa sentenciada.
Reitera-se que a política criminal que preside ao sistema penal português é de essência
humanista, dada a atribuição ao direito penal do cargo de protecção dos valores fundamentais
da pessoa e das condições sociais imprescindíveis à concretização desses valores, avocando a
pena como um mal exclusivamente legitimado, quando indispensável na prevenção de
comportamentos criminógenos, em que vigora o princípio de aplicação da pena menos
gravosa, pena essa cujo intuito se enraíza na recuperação do delinquente.
Encerra-se Rocha72 pela franca responsabilização do Estado pela humanização penitenciária
(bem assim pela desumanização), já que o princípio que ora se trata se assume como cúpula
do sistema prisional, repercutido no respeito pelos direitos fundamentais do recluso e na
aplicação pensante das sanções penitenciárias.

Desde meados do século XIX que perdura na legislação portuguesa a ideia de que a execução
de pena privativa de liberdade tem por aspiração fundamental a reintegração do delinquente,
entretanto corrigido, no seio da sociedade, no entanto esta questão não é linear, nem tão pouco
pacífica tendo vindo a ser apontada pelas suas falibilidades, questionável que é a legitimidade
de uma sociedade criminógena, desigual na sua essência, em arrogar-se a pretensão de que o
indivíduo se adapte a ela, por outro lado é considerado que o desiderato da reinserção se torna
intrusivo na esfera individual do elemento intervencionado, numa época em que se defende
que a intervenção deve assumir-se como uma mera oferta de possibilidades ao dispor da
personalidade individual. Concomitantemente crê-se que o estreitamento das condições de
vida dentro de uma instituição fechada às condições da vida em meio livre não é bastante
quando o que se pretende é a adquirição de competências sociais, já que os elementos se
encontram apartados da sociedade, pesando até em contrário o facto do meio prisional,
constituir em si um agente criminógeno. Por fim pondera-se o facto da reintegração social
poder apresentar-se desnecessária ou incapaz de acontecer, quer pelo facto de o recluso se

social del liberado.Ciertamente, tampoco cabe ignorar las dificultades aquí existentes.(…) Sin embargo, dentro
de esos limites trazados por la naturaleza de su misión, todas las relaciones humanas que juegan un papel en el
Derecho penal deben descansar en el principio de humanidad.”
72
João Luís Moraes Rocha, 2005:26

66
encontrar perfeitamente inserido na sociedade, quer por o mesmo não assentir na intervenção
reinserciva ou pelo simples facto de o ambiente social que circunda o recluso no exterior
carecer de alterações irrealizáveis.73

9.2 O Plano Individual de Readaptação (PIR)

O Plano Individual de Readaptação assume-se enquanto instrumento de trabalho essencial


para os técnicos prisionais, operando numa base contratual entre o sistema prisional e o
indivíduo recluso, de modo a ocupar o tempo de reclusão de forma mais pró-activa possível,
provendo ao recluso a oportunidade de adquirir novas competências ou robustecendo as já
existentes, por forma a inseri-lo ajustadamente em meio livre.
Este instrumento deve ser considerado um processo dinâmico, que embora elaborado no
início da pena de prisão, se deve reajustar constantemente à realidade, tendo por base um
diagnóstico inicial de necessidades (por áreas específicas), a perspectiva avaliativa do recluso,
os objectivos a prosseguir, as acções a desenvolver, a estimativa do tempo para a sua
aplicação, e os expedientes necessários para a sua efectivação.

De acordo com a Lei nº115/2009 de 12.10, o sistema prisional compromete-se a elaborar um


plano individual de readaptação para todos os reclusos com menos de 21 anos ou condenados
em pena relativamente indeterminada e para os restantes cuja pena exceda um ano, no âmbito
do tratamento penitenciário74.
O tratamento prisional que visa a preparação para a liberdade, decompõe-se nas áreas de
ensino, formação, trabalho, saúde, actividades sócio-culturais e contactos com o exterior75,
sendo o caminho traçado com base na avaliação feita ao recluso, e trilhado pelo mesmo de
forma voluntária.
Apesar da aplicação menos bem sucedida do PIR num passado recente (assunto desenvolvido
mais adiante), perspectiva-se e augura-se que doravante a sua realização seja efectiva.

73
João Luís Moraes Rocha, 2005: 23 e 24
74
Artigo nº21, nº1 e nº2
75
Artigo nº21, nº3

67
9.3 Do Ensino

O ensino e formação escolar da população prisional são asseverados em todos os


estabelecimentos prisionais nos termos do Despacho-Conjunto n.º 451/99 76, publicado no DR
nº 127 de 1.6.1999.

Tanto as Regras Mínimas de Tratamento de Reclusos77 como os Princípios de Base relativos


ao Tratamento de Reclusos78 evidenciam o direito de participar na educação, enquanto
vertente fundamental do desenvolvimento humano, sendo certo que o desiderato fulcral da
educação assenta no peso da educação para o desenvolvimento do indivíduo e da comunidade,
no efeito humanizador da educação no contexto prisional, e no papel da educação na
reinserção social, atendendo às especificidades e necessidades educativas da massa prisional.

No Relatório de Actividades da DGSP79, referente ao ano de 2008 infere-se que o Centro de


Competências para o Ensino e Formação profissional se integra na estrutura matricial para a

76
In Preâmbulo do Despacho-Conjunto- “A população prisional portuguesa é constituída maioritariamente por
jovens e adultos com baixos níveis de escolaridade e de qualificação, originados pelo abandono precoce do
sistema educativo e pelas dificuldades em aceder ao sistema de formação profissional. No respeito pelo princípio
da solidariedade; impõe-se criar condições que permitam a esta população adquirir competências facilitadoras de
uma reintegração bem sucedida. Constitui objectivo comum dos Ministérios da Justiça e da Educação conjugar
esforços no sentido de permitir a valorização pessoal da população reclusa, bem como a frequência e certificação
dos ensinos básico ou secundário e a frequência de esquemas de formação que favoreçam o acesso à qualificação
profissional.”
77
“Regra 77 –nº1 - Devem ser tomadas medidas no sentido de melhorar a educação de todos os reclusos que daí
tirem proveito, incluindo instrução religiosa nos países em que tal for possível. A educação de analfabetos e
jovens reclusos será obrigatória, prestando-lhe a administração especial atenção.
nº2 - Tanto quanto for possível, a educação dos reclusos deve estar integrada no sistema educacional do país,
para que depois da sua libertação possam continuar, sem dificuldades, a sua educação.”
78
“Princípios 6 – Todos os detidos têm o direito de participar em actividades culturais e educativas orientadas ao
desenvolvimento integral da personalidade humana.”
79
“Em termos da formação de nível básico e secundário, manteve-se a articulação com os competentes serviços
do Ministério da Educação para a concretização dos projectos educativos apresentados pelos Estabelecimentos
Prisionais e para a revisão do Despacho Conjunto nº 451/99 de 01 de Junho; Com vista a aumentar a oferta de
formação escolar junto dos reclusos que já dispõem do ensino secundário realizaram-se várias sessões de
trabalho com a Direcção Geral do Ensino Superior para a elaboração de um Protocolo nessa matéria; Em matéria
de ensino superior, fez-se a gestão do Protocolo com a Universidade Aberta e foram iniciados estudos no sentido
de proporcionar aos reclusos que pretendam ingressar nesse nível de ensino, condições de acesso e frequência
em igualdade de oportunidades com outros alunos, nomeadamente em relação aos que não possuem rendimentos
suficientes para custear os seus estudos; No âmbito da Iniciativa Novas Oportunidades, foram apoiadas e
dinamizadas outras modalidades de educação e formação de adultos, nomeadamente o Sistema de
Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, tendo sido certificados através deste processo 119
reclusos: 8 no Nível 2 do ensino básico e 114 no Nível 3 também do ensino básico; Foram apreciadas os
68
área do tratamento penitenciário, em respeito ao Decreto-Lei nº 125/2007 de 27.4, tendo sido
o organismo criado por despacho do Director-Geral, datado de 30.4.2007, com vista à
concepção de condições favoráveis ao aumento das competências e qualificações escolares da
população prisional.
O ensino em meio prisional80, enquanto vertente ressocializadora e preventiva de
reincidência81, insere-se no quadro das políticas nacionais de educação, devendo certificar-se
o sistema prisional, do encaminhamento prioritário de reclusos jovens ou iletrados, para o
cumprimento da escolaridade obrigatória, da prestação de apoio ao recluso com necessidades
educativas especiais, e do acesso de reclusos estrangeiros a programas de ensino da língua
portuguesa.
A adesão do recluso a cursos de ensino, cumpridos que sejam com carácter assíduo, é
considerada tempo de trabalho, o que confere ao recluso um subsídio de montante fixado por
portaria do Governo, sendo pertinente referir que o aproveitamento escolar, a assiduidade e o
comportamento são variáveis ponderadas para efeitos de flexibilização da execução da pena82.

De acordo com fonte da DGSP: “Nos últimos anos e respondendo às necessidades educativas
da população prisional, o número total de reclusos a frequentar o ensino situa-se próximo dos
3700 indivíduos, correspondendo a 28% da população prisional.”83

9.4 Da Formação Profissional

Em cada E.P. deve primar-se pela organização de cursos de formação e aperfeiçoamento


profissionais do recluso, ou se se considerar preferível que o auxiliem na mudança de ofício
ou profissão, dedicando especial atenção aos reclusos de idade inferior a 25 anos.

projectos educativos dos Estabelecimentos Prisionais e emitidos pareceres sobre os “plafonds” a atribuir para a
execução destes projectos; No âmbito da coordenação e avaliação da actividade escolar nos Estabelecimentos
Prisionais, foi elaborado o Relatório Geral do Ensino - ano lectivo 2007/2008.”

80
Artigo 38º da Lei nº 115/2009 de 12.10
81
Cesare Beccaria, já se referia à Educação como “o mais seguro mas mais difícil meio de prevenir os
delitos”(1998:160)
82
Artigo 39º da Lei nº 115/2009 de 12.10
83
http://www.dgsp.mj.pt/ - (Abril de 2009)

69
Na óptica da DGSP, a formação profissional afigura-se como instrumento promotor da
reintegração social dos reclusos, e consequentemente como elemento preventivo da
reincidência, existindo uma constante preocupação por parte do Centro Protocolar da Justiça
(CPJ) com a redefinição e reprogramação da oferta formativa, de modo a que esta seja sempre
actual e diversificada.
Assim, para o planeamento das ofertas de formação profissional contribuem levantamentos de
necessidades de aprendizagem da massa reclusa, a sua rentabilização em contexto prisional e
a sua aplicação em meio livre84.
A formação profissional afigura-se como uma das vertentes mais nobres do trabalho de
reeducação, contudo exige uma constante melhoria da comunicação e interacção com
parceiros exteriores, acertando-se entre ambos, os mecanismos de validação e credenciação
das competências que se vão conferir aos reclusos.
Paninho85 sugere, com vista ao desenvolvimento deste sector dentro do próprio E.P., que após
estudo intensivo da legislação nacional acerca da formação profissional de adultos se
promovam as devidas adaptações ao meio prisional, de modo a poder recolher o máximo de
benefícios. Por outro lado, julga benéfico a celebração de mais protocolos de carácter inter-
ministerial, e por fim, aventa que se aposte nas parcerias com instituições não
governamentais, já que a entrada nos E.P.s, de pessoal de origem diferenciada, tem
demonstrado ser uma mais valia para o ambiente prisional, por estes serem alheios ao sistema
prisional (e portanto encarados com uma menor carga punitiva), e por se permitir ao recluso
um maior contacto com a realidade social.

84
No Relatório de Actividades da DGSP referente ao ano de 2008, no que concerne à área da formação
profissional, “A actividade na área de formação profissional foi de natureza diversificada, orientando-se sempre
pelo princípio do equilíbrio entre a oferta e a procura, no sentido de ajustar as necessidades e expectativas dos
formandos às necessidades do mercado e também às condições dos estabelecimentos prisionais. A seguir
enunciam-se apenas as que se consideram de maior interesse e as que representam também maior volume de
trabalho: Análise e tratamento de dados recolhidos junto dos estabelecimentos prisionais sobre as necessidades
de formação; Análise dos instrumentos nacionais – Catálogo Nacional de Qualificações e Sistema Nacional de
Qualificações e das modalidades de formação existentes, com vista à elaboração de Planos de Formação
actualizados e ajustados às necessidades do recluso e do mercado de emprego; Elaboração do Plano de Formação
para 2009 em articulação com as entidades formadoras; Coordenação do processo de formação em estreita
ligação com os estabelecimentos prisionais e as entidades formadoras; Compilação e tratamento dos dados
relativos à formação profissional que é ministrada nos estabelecimentos prisionais, com apuramento dos vários
indicadores nesta área; Acompanhamento e avaliação regular das acções de formação profissional a decorrer nos
estabelecimentos prisionais, com elaboração de vários relatórios intercalares.”
(fonte: DGSP- http://www.dgsp.mj.pt/backoffice/Documentos/DocumentosSite/RelAct_08/Relafinal_Vol-I.pdf)
85
Ludgero Paninho, 2007:135

70
Presentemente, com a publicação da Lei nº 115/2009 de 12.10, a formação profissional
encontra-se contemplada no artigo 40º do diploma, visando-se essencialmente o aumento do
nível de empregabilidade do recluso, através de acções de formação. É importante que se
ponderem os condicionalismos decorrentes dos recursos existentes no E.P., em termos de
trabalho e de desenvolvimento de actividades produtivas, sendo no entanto atendíveis as
necessidades específicas dos reclusos jovens ou que demonstrem possuir necessidades
educativas especiais.
Mais uma vez, o aproveitamento, a assiduidade e o comportamento são variáveis ponderáveis
para efeito de flexibilização da pena, sendo certo que o tempo que o recluso dedique ao
processo formativo é por analogia considerado tempo de trabalho, podendo ser atribuída uma
bolsa de formação ao recluso.

9.5 Do Trabalho

Se nos detivermos numa perspectiva cronológica, verificamos que desde muito cedo, os
diplomas regulamentares comprovam a existência e as virtudes da actividade laboral enquanto
instrumento regenerador, apesar de ter sido com a reforma prisional de 1936 que o legislador
atribuiu ao trabalho uma função de destaque, como aliás se comprova pela letra do
instrumento: “como elemento natural da própria pena e tirou dessa consideração as ilações
que, modificando embora a rigidez da execução das penas, salvaguardam o trabalho prisional
como elemento moralizador da própria pena”, sendo útil citar a este propósito o Regulamento
das Cadeias Civis do continente do reino e ilhas adjacentes, de 1901, segundo o qual se
rezava: “Na organização do trabalho de presos nas cadeias deve principalmente atender-se
mais ao seu proveito futuro, sob o ponto de vista moral, do que à receita que o Estado possa
auferir do mesmo trabalho”.
O bloco temporal decorrido entre as duas reformas prisionais acima referidas foi preenchido,
por vários diplomas cujo enfoque recaía na actividade laboral, sendo de sublinhar a Lei nº 428
de 13.9.1915, segundo a qual se devia aproveitar o trabalho dos reclusos na construção e
obras de manutenção das cadeias, colónias penais, bem como em obras de proveito social, os

71
Decretos nºs 6117, de 20.9.1919 e 10 767 de 15.5.1925, segundo os quais se considerava o
trabalho como potencial meio pedagógico para os menores e jovens delinquentes86.
Doravante, conferiu-se particular relevo ao peso do trabalho no tratamento penitenciário,
tendo mesmo constituído este factor um critério orientador para a localização dos
estabelecimentos prisionais nos arredores dos grandes centros, e não já em pontos isolados ou
de difícil acesso87.
Retomando a letra do instrumento que enformou a reforma de 1936, encontram-se os
princípios que regeram o trabalho prisional enquanto pilar da individualização da pena, como
se atesta: “evitar a ociosidade, diminuir os encargos do Estado na sustentação dos presos,
sanear moralmente o ambiente da prisão e o espírito do preso, procurar obter meios para uma
indemnização da vítima e dar ao preso a possibilidade de viver e ganhar a vida quando sair da
prisão”, tratando-se portanto de proporcionar ao recluso a aprendizagem de um ofício, através
de uma actividade produtiva, com carácter obrigatório e devidamente remunerada,
essencialmente manual, sendo que a escolha por um trabalho agrícola, artesanal ou industrial
ficaria pendente da apreciação de factores institucionais ou individuais.
Oito anos volvidos sobre a reforma de 1936 surge o Decreto-Lei nº 34 135 de 24.11.1944,
criador da comissão para a organização do trabalho prisional, que encara o trabalho como
“elemento vivificador das medidas penais sem o qual amortecem e se deformam os resultados
que seriam de esperar da repressão e prevenção criminais (…) A recuperação social dos
condenados só se consegue pelo revigoramento do seu apego ao trabalho”, tendo proposto à
data, sob influência de experiências estrangeiras, um maior aproveitamento do trabalho
prisional em obras públicas, com vista a “melhorar de maneira sensível os serviços prisionais
realizando ao mesmo tempo, mediante a regeneração dos reclusos pelo trabalho, uma política
de largo alcance social”.
Em 1945, a preocupação do legislador já recai na regulamentação do trabalho prisional
realizado extra-muros, com a publicação do Decreto nº 34 674 de 18.6, derivada à
“generalização desejável do emprego produtivo da mão de obra prisional” e às deficientes
condições em que se encontravam as instalações penitenciárias, tendo sido dado, deste modo,
o mote para “o funcionamento dos campos de trabalho vocacionados para obras ou outros

86
Nesta linha orientadora foi criada em 1934 a Prisão-Escola de Leiria, destinada a jovens delinquentes.
87
Maria Amélia Vera Jardim, 1988:74

72
trabalhos públicos administrados directamente pelos serviços do Estado ou dos corpos
administrativos, ou tomados de empreitada por particulares.”88
Em 1951, com a publicação a 8.8 do Decreto-lei nº 38 386, clarifica-se e justifica-se a posição
do trabalho como meio de formação de um novo homem, delegando-se para segundo plano a
produção de bens e a sua utilidade para o Estado, já que “ o mais alto valor social é o homem,
e é à sua recuperação que os serviços prisionais terão de subordinar os instrumentos de que se
servem”.
A concepção do trabalho prisional enquanto instrumento de pedagogia criminal e até de
ortopedia social tem-se mantido ao longo dos anos, com claros avanços, nomeadamente pela
centralização dos benefícios para o recluso e já não para a instituição, como se pode atestar
pela essência dos Decretos-Lei nºs 4076 de 24.11 e 44 287 de 20.4.
O Decreto-Lei nº 265/79 de 1.8 apresenta-se já idealizado e elaborado à luz do “que os
organismos internacionais especializados têm vindo a preconizar”89, numa postura claramente
mais comedida e despojada, e até disponível para se adaptar às vindouras realidades materiais,
humanas, sociais e financeiras.
Em 1980, com a publicação do Decreto-Lei 49/80 de 22.3 sublinha-se a curiosa necessidade
do legislador em “permitir à administração penitenciária o integral cumprimento da lei”,
utilizando para tal na redacção do instrumento uma linguagem intencionalmente vaga e
indeterminada no afloramento do trabalho prisional.
As Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos alertam para a primordialidade da
actividade laboral desenvolvida em meio prisional, no entanto ressalva-se que se não
impossível, é pelo menos difícil conseguir dar trabalho a todos os reclusos dentro do E.P., não
obstante, é a actividade laboral enformada pelas Regras 71 a 7690, sabendo-se que muitos

88
Maria Amélia Vera Jardim, 1988:81
89
Nota introdutória do Decreto-Lei nº 49/79

90
Regra 71.1) O trabalho na prisão não deve ser penoso.2) Todos os reclusos condenados devem trabalhar, em

conformidade com as suas aptidões física e mental, de acordo com determinação do médico.
3) Deve ser dado trabalho suficiente de natureza útil aos reclusos de modo a conservá-los activos durante o dia
normal de trabalho. 4) Tanto quanto possível, o trabalho proporcionado deve ser de natureza que mantenha ou
aumente as capacidades dos reclusos para ganharem honestamente a vida depois de libertados. 5) Deve ser
proporcionado treino profissional em profissões úteis aos reclusos que dele tirem proveito, e especialmente a
jovens reclusos. 6) Dentro dos limites compatíveis com uma selecção profissional apropriada e com as
exigências da administração e disciplina penitenciária, os reclusos devem poder escolher o tipo de trabalho que
querem fazer. Regra 72.1) A organização e os métodos do trabalho penitenciário devem aproximar-se tanto
quanto possível dos que regem um trabalho semelhante fora do estabelecimento, de modo a preparar os reclusos
73
reclusos têm pouca ou nenhuma experiência de trabalho remunerado, pelo que carecem de
capacidades que lhes tornem acessível o mercado de trabalho.

Actualmente, a posição da DGSP baseia-se na crença de que o trabalho prisional se apresenta


como o maior e mais importante denominador comum entre a vida na prisão e a vida em meio
livre, constituindo um elemento primordial para o tratamento penitenciário.91

Os princípios que norteiam o trabalho prisional, decorrentes da publicação da Lei nº 115/2009


de 12.10 consubstanciam-se na criação, conservação e desenvolvimento de capacidades e
competências do recluso, que lhe permitam exercer uma actividade laboral no período pós-
pena, devendo para tal os serviços prisionais, assegurar-lhe trabalho em unidades produtivas
de natureza empresarial, complementado pelo acesso ao ensino, à formação profissional e
participação em programas.

para as condições normais do trabalho em liberdade. 2) No entanto o interesse dos reclusos e da sua formação
profissional não deve ser subordinado ao desejo de realizar um benefício por meio do trabalho penitenciário.
Regra73.1) As indústrias e explorações agrícolas devem de preferência ser dirigidas pela administração e não por
empresários privados. 2) Quando os reclusos forem empregues para trabalho não controlado pela administração,
devem ser sempre colocados sob vigilância do pessoal penitenciário. Salvo nos casos em que o trabalho seja
efectuado por outros departamentos do Estado, as pessoas às quais esse trabalho seja prestado devem pagar à
administração a remuneração normal exigível para esse trabalho, tendo todavia em conta a remuneração auferida
pelos reclusos. Regra74. 1) Os cuidados prescritos destinados a proteger a segurança e a saúde dos trabalhadores
em liberdade devem igualmente existir nos estabelecimentos penitenciários. 2) Devem ser adoptadas disposições
para indemnizar os reclusos dos acidentes de trabalho e doenças profissionais, nas mesmas condições que a lei
concede aos trabalhadores em liberdade. Regra75. 1) As horas diárias e semanais máximas de trabalho dos
reclusos devem ser fixadas por lei ou por regulamento administrativo, tendo em consideração regras ou costumes
locais respeitantes ao trabalho dos trabalhadores em liberdade. 2) As horas devem ser fixadas de modo a deixar
um dia de descanso semanal e tempo suficiente para educação e para outras actividades necessárias como parte
do tratamento e reinserção dos reclusos. 76. 1) O tratamento dos reclusos deve ser remunerado de modo
equitativo. 2) O regulamento deve permitir aos reclusos a utilização de pelo menos uma parte da sua
remuneração para adquirir objectos autorizados destinados ao seu uso pessoal e para enviar outra parte à sua
família. 3) O regulamento deve prever igualmente que uma parte da remuneração seja reservada pela
administração de modo a constituir uma poupança que será entregue ao recluso no momento da sua colocação
em liberdade.”

91
“O direito penitenciário português e o sistema de execução das penas, têm desde sempre atribuído importância
ao papel que o trabalho prisional assume no processo de reabilitação individual dos reclusos e de readaptação à
vida em liberdade A importância que reveste o trabalho prisional no tratamento penitenciário, constitui o maior e
mais importante denominador comum entre a vida na prisão e a vida em meio livre. Por isso, o trabalho é
inquestionavelmente, um elemento positivo e primordial no tratamento penitenciário, pela utilidade social que se
reveste e pela valorização que proporciona ao indivíduo, sendo também, um elemento de coesão social, na
medida em que permite estabelecer e consolidar relações sociais. Através do exercício de uma actividade laboral
estruturada e continuada, os reclusos desenvolvem competências pessoais e sociais, nomeadamente ao nível da
aquisição de hábitos de trabalho, cumprimento de horários e regras e gestão das relações laborais.” (fonte
DGSP:http://www.dgsp.mj.pt/backoffice/Documentos/DocumentosSite/GuiaEntEmpreg.pdf)
74
Deve respeitar-se a dignidade do recluso, e pugnar-se por boas condições de trabalho, em
semelhança ao trabalho desenvolvido por qualquer cidadão livre, sendo-lhe devida
remuneração equitativa, e sendo certo que a assiduidade e o empenho são variáveis
ponderadas em contexto de flexibilização da pena.92
O trabalho pode ser exercido intra ou extra-muros do E.P, em colaboração ou não com
entidades públicas ou privadas, concebendo-se o trabalho em unidades produtivas de natureza
empresarial e o trabalho organizado pelos E.P.´s nas suas próprias instalações, decorrido que
deve ser em condições análogas ao trabalho desenvolvido em meio livre, podendo
inclusivamente ser autorizada pelo director do E.P. a figura do trabalho por conta própria.93
Designa-se que o trabalho em unidades produtivas de natureza empresarial, bem como o
trabalho desenvolvido por conta própria, devem assentar numa relação jurídica especial,
prevista em diploma próprio (segundo o regime geral das relações de trabalho em
liberdade).94
O trabalho desenvolvido por recluso, sob organização e nas instalações do E.P., deve ser
remunerado nos termos fixados por portaria do membro do Governo, responsável pela área da
justiça, prevendo-se as devidas protecções em matéria de acidentes de trabalho e doenças
profissionais.95
Toda a matéria relativa ao destino e repartição da remuneração auferida pelo recluso se
encontra regulada no artigo nº 46 da Lei nº 115/2009 de 12.10..

9.6 Da Família

A não quebra dos laços familiares apresenta-se como uma das vertentes essenciais do
Tratamento Penitenciário, devendo os sistemas prisionais zelar pela boa manutenção destas
ligações, sendo certo que deste modo se proporciona ao indivíduo recluído uma base sólida
para a sua reinserção social, afinal o mesmo foi apartado deste seio familiar, que podendo,
nalguns casos não ser o ideal, pelo menos era o que o acolhia e reconfortava.

92
Artigo 41º da Lei nº 115/2009 de 12.10
93
Artigo 42º da Lei nº 115/2009 de 12.10
94
Artigo 43º da Lei nº 115/2009 de 12.10
95
Artigo 44º da Lei nº 115/2009 de 12.10

75
As Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos recomendam a permissão para o
mantimento de uma comunicação regular do recluso com os familiares e com o círculo de
amigos, quer através de visitas quer por correspondência96, devendo os serviços sociais
existentes na prisão pugnar pela melhoria das relações familiares, mediando eventuais
conflitos97.
Goffman distingue cinco tipos de Instituições totais existentes na nossa sociedade, sendo que
numa das categorias cabem as prisões, que merecem neste trabalho especial atenção, pelo que
considera primordial apresentar o conceito de Instituição total, premissa a partir da qual se
tentará evidenciar a importância das relações familiares para o indivíduo institucionalizado.
Goffman98 concebe Instituição total enquanto “local de residência e trabalho onde um grande
número de indivíduos com condições semelhante e afastados da sociedade geral por um
período de tempo apreciável, leva uma vivência imposta e formalmente gerida”, denunciando
uma desculturalização99 do indivíduo, preconizada pelo ambiente prisional e mais
concretamente pelo corpo funcional da prisão, bem como pelos restantes reclusos.
Todo o turbilhão de mudanças que invadem a vida de um recente recluso, como sendo o
apartar da vida em comunidade, a perda da liberdade física, o cerceamento da sua autonomia,
a quebra de rotinas decorrentes da vida em liberdade em detrimento da adopção de rotinas em
meio fechado, a subjugação a uma estrutura autoritária e impessoal100 vão colocar o indivíduo
numa situação frágil e hostil, pelo que a estrutura familiar assume neste contexto uma
importância acrescida, já que proporciona ao seu elemento recluído harmonia emocional e

96
“Regra 37 - Os reclusos devem ser autorizados, sob a necessária supervisão, a comunicar periodicamente com
as suas famílias e com amigos de boa reputação, quer por correspondência quer através de visitas.” e “ Regra 92
- O preventivo deve ser autorizado a informar imediatamente a sua família da detenção e devem ser-lhe dadas
todas as facilidades razoáveis para comunicar com a sua família e amigos e para receber as suas visitas sob
reserva apenas das restrições e supervisão necessárias aos interesses da administração da justiça e à segurança e
boa ordem do estabelecimento.”

97
“Regra 79 - Deve ser prestada atenção especial à manutenção e melhoramento das relações entre o recluso e a
sua família, que se mostrem de maior vantagem para ambos.” e “ Regra 80 - Desde o início do cumprimento da
pena de um recluso deve ter-se em consideração o seu futuro depois de libertado, sendo estimulado e ajudado a
manter ou estabelecer as relações com pessoas ou organizações externas, aptas a promover os melhores
interesses da sua família e da sua própria reinserção social.”

98
Erving Goffman, 1974:11
99
Erving Goffman, 1974:23
100
António Pescada Santos, 2008:76

76
material, afigurando-se como um cessar temporário da tensão decorrente do ambiente
prisional.
Na opinião de Rodrigues101“ A família desempenha um papel preponderante, uma vez que é o
suporte do sistema, isto é, fonte primária do amor, preocupação, afecto, carinho e apoio
emocional”, sendo de sublinhar que “um dos aspectos que contribui para a unificação do
grupo familiar é o facto de os seus membros sentirem necessidade de mútua protecção contra
algo que lhes é exterior e que (…) os ameaça”, podendo concluir-se que “os membros da
família, quando adoptam uma posição de solidariedade, contribuem para uma maior
integração do recluso, afectando decididamente o comportamento do mesmo”.
Também são de apontar as consequências negativas registadas no comportamento do recluso,
quando se verifica o corte abrupto e radical, um quase abandono por parte da família, como
sendo o aumento da agressividade, o despertar de um sentimento de insegurança, que vai
acentuar o sentimento de arrependimento, e em última análise vai originar carências materiais
e alimentares.
Em suma, é defensável que “a família assume um papel determinante no início do processo de
socialização (enquanto agente socializador), durante o processo de prisionização (decorrendo
no período de reclusão) e na perspectiva de reinserção social (fim último da sanção aplicada)
”102.
Na opinião de Paninho103, “As famílias são, na maioria das vezes, um dos factores
preponderantes na estabilização da vida do recluso”, já que uma família estruturada, que visite
regularmente o seu membro, contribuirá para a pacificação da execução da pena.
Não obstante, é importante a interacção entre os serviços técnicos e os familiares que visitam
o recluso, devendo os primeiros elucidar os últimos acerca do peso da sua visita, enquanto
elemento estabilizador para o recluso, alertando-os para, no interesse do seu familiar recluído
manterem uma atitude positiva e demonstrando-lhes os benefícios da cooperação com os
serviços, no sentido de se atingir uma melhoria da postura do recluso e do seu equilíbrio
psico-social.

101
Donizete Rodrigues et al., 2000:84 e 85
102
Donizete Rodrigues et al., 2000:85
103
Ludgero Paninho, 2007:149

77
Importante também será ressalvar que”independentemente da personalidade da família ou do
seu contexto sócio-económico, a situação de reclusão é sempre vivida como crise (no sentido
da mudança), uma vez que a falta de um membro vem alterar a estrutura e funcionalidade dos
restantes elementos. O recluso também sente essa crise, mas esta é vivida de diferentes
formas, que dependem do papel que esse indivíduo tinha na família e da função que nela
desempenhava.”104

9.7 Do voluntariado

O estabelecimento de relações sociais de cooperação com autarquias, paróquias, grupos


religiosos, associações de beneficência, de auto-ajuda ou profissionais, e com entidades
públicas ou privadas, procurando-se saber das suas potencialidades e disponibilidade serão
uma mais-valia para a prossecução do desiderato reinsercivo prosseguido pelos serviços
prisionais ou de reinserção social.

A prática do voluntariado assume actualmente na área da Justiça uma suma importância,


corroborada, nomeadamente, pelos serviços prisionais que procedem à selecção, acreditação e
formação específica dos voluntários105, procurando enquadrar a acção das entidades
voluntárias, que se pode consubstanciar no desenvolvimento de actividades de cariz cultural e
de ocupação de tempos livres, no apoio social e económico a reclusos e seus familiares, e em
actividades de relevo para o processo de reinserção social (trabalho e alojamento)106.

Infere a Lei nº115/2009 de 12.10 que a comunidade deve tomar conhecimento dos objectivos
e dos resultados do trabalho prosseguido pelos serviços prisionais, de modo a estreitarem-se
relações e a alcançar-se uma crescente participação da primeira durante o período de execução
das penas e medidas privativas da liberdade107.

Paralelamente, as Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos invocam a participação de


entidades voluntárias com outra finalidade, desta, enquanto entidade inspectora, já que “
Visitando as prisões, recolhendo documentação e através do contacto com os reclusos, ex-

104
João Luís Moraes Rocha, 2005:119
105
Artigo 55º, nº3 da Lei nº115/2009 de 12.10
106
Artigo 55º ,nº1 da Lei nº115/2009 de 12.10
107
Artigo 55º, nº 4 da Lei nº 115/2009 de 12.10

78
reclusos e pessoal, podem obter e apresentar informação valiosa acerca do seu ambiente,
condições e práticas”108.

Como já anteriormente se referiu, tem sido crescente a intervenção e colaboração de entidades


voluntárias com os serviços prisionais, -sendo já visíveis resultados louváveis - que
conscientemente têm apostado na formação dos voluntários, mostrando-lhes o melhor meio de
conseguirem prosseguir os seus objectivos, bem como na criação de programas em que o
voluntário encarna um papel de destaque e na realização de reuniões periódicas entre os
voluntários e os serviços em que se apuram estratégias e resultados, no entanto, é importante
sublinhar que um voluntário está de sua livre e espontânea vontade a oferecer o seu tempo, a
sua personalidade, a sua preocupação, o seu carinho e afecto, o seu despreconceito, em
particular, aos reclusos com quem interage, e em geral aos serviços prisionais, pelo que
também é importante que se sublinhe que o voluntário não é um funcionário dos serviços, e
que como tal deve ser preservada a sua liberdade, vontade e autonomia (na condição das
mesmas não influírem na ordem e segurança do estabelecimento prisional), que não deverão
ser beliscadas por uma ténue tentativa de institucionalização do voluntariado.

Não posso terminar sem fazer referência às palavras defendidas por Carmo Ferreira109acerca
do princípio humanidade regente da identidade ética do voluntário, sendo que :”O termo
«humanidade» designa aqui a ideia de que o ser humano é essencialmente uma possibilidade:
feito de natureza e de aventura, as condições naturais, da herança genética aos acidentes da
vida, e as condições sociais, do desfavorecimento económico às mais diversas formas de
menorização, restringem, enviesam ou mesmo anulam o horizonte do possível humano.”

9.8 Dualidade: Recluso/Sociedade

Torna-se difícil destrinçar a maior preocupação do legislador na emanação das leis referentes
à regulação da execução de penas e medidas privativas de liberdade, ao longo dos tempos.

108
Procuradoria-Geral da República, 1996:175
109
Manuel J. do Carmo Ferreira (Director do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa), Evento: Fórum -
Voluntariado: "Promotor de Desenvolvimento", realizado nos dias 21 e 22.11.09.

79
Honestamente, não se torna evidente se concorrem com igual paridade uma preocupação
generosa do Estado em reinserir o ex-recluso na sociedade, se uma preocupação egoísta em
proteger a sociedade daquele que quebrou a confiança social.

Longo foi o caminho percorrido entre a aplicação dos suplícios e os actuais direitos,
liberdades e garantias constitucionalmente protegidos, como aliás nos refere Foucault :”
Naturalmente, damos um veredicto, mas ainda que reclamado por um crime, vocês bem
podem ver que para nós funciona como uma maneira de tratar um criminoso; punimos, mas é
um modo de dizer que queremos obter a cura”, e “Consequentemente, tomar a punição como
uma função social complexa.”110

Se ainda no século XIX em plena Europa era admissível recorrer da tortura como meio de
obtenção de uma confissão e a inflição de bárbaros sofrimentos físicos e morais ao
condenado, como reagirá a sociedade do século XXII ao nosso actual sistema prisional?

Ter-se-ão tornado eles mais humanistas ou optarão pelo tecnicismo?

9.9 Da Inovação Organizacional - os Programas do Sistema

Actualmente o sistema prisional conta com vários projectos e programas que visam
maioritariamente a “preparação do recluso para a liberdade, através do desenvolvimento das
suas responsabilidades, da aquisição de competências que lhe permitam optar por um modo
de vida socialmente responsável, sem cometer crimes, e prover às suas necessidades após a
libertação”, como se comprova pelo artigo 5º nº2 da Lei nº 115/2009.
No artigo 47º da Lei acima enunciada encontram-se plasmados os princípios orientadores que
guiam a prossecução de programas, verificando-se já uma inovação decorrente da reforma,
com a previsão de programas de justiça restaurativa que introduzem a prática da mediação em
ambiente intra-muros.
Os programas devem primar pela diferenciação das variáveis (idade, sexo, origem étnica e
cultural, a vulnerabilidade do indivíduo, os perfis e problemáticas criminais, os factores
criminógenos e as necessidades específicas de cada recluso no que concernem à sua
reinserção social), bem como pelas necessidades individuais e específicas de cada recluso,

110
Michel Foucault, 1975, cit.: 25

80
devendo sublinhar-se que a adesão do recluso a programas propostos é um elemento de
ponderação para efeitos de flexibilização da execução da pena111.

No âmbito da Iniciativa Comunitária EQUAL foram desenvolvidos inúmeros projectos, cujo


enfoque recai primordialmente na reinserção social da população reclusa, sinónimo de
mudança e inovação para os serviços prisionais, reflectidas na cultura organizacional, na
formação dos diversos grupos profissionais, na formulação de novos métodos de trabalho
devendo sublinhar-se a abertura e participação de variados sectores da comunidade -
empresas, escolas, Universidades, grupos de voluntariado, entre outros.
São de referir os princípios que nortearam toda a Iniciativa, pelo carácter inovador que
imprimiram ao resultado, destacando-se nomeadamente o trabalho desenvolvido em parceria,
o empowerment dos agentes e dos próprios (ex) reclusos/as, o envolvimento dos
empregadores, a igualdade de género e a cooperação transnacional.
Enumerar-se-ão sumariamente os projectos desenvolvidos, bem como as suas mais-valias112.
O programa “Um dia na Prisão” fita a sensibilização dos jovens, alertando-os para a prática da
cidadania e auto-responsabilização, com vista à prevenção de comportamentos de risco,
delinquência e criminalidade, baseada no desenvolvimento de competências pessoais e
sociais, reforçando a instituição prisional enquanto instância promotora de prevenção,
reabilitação e ressocialização, tendo-se percepcionado alterações de atitude, a longo prazo, em
alguns dos jovens participantes.
O projecto “Empreendedorismo para a Reinserção Social de (ex) reclusos/as” visa a criação
de vias sustentáveis de reinserção socioprofissional de reclusos/as, pretendendo evitar-se a sua
reincidência no cometimento de crimes, desejando-se a final que o individuo consiga criar o
seu próprio posto de trabalho ou trabalhar por conta de outrem, possa retomar o ensino ou
preferindo, a formação profissional. Este projecto nasceu da escassez de respostas –
programas de ressocialização e de preparação para a vida profissional, dirigidos aos/às
reclusos/as.
Com a implementação deste projecto pretende reforçar-se o empowerment e o sentido de
responsabilidade, bem como o aumento da motivação e uma consequente mudança de atitude,

111
Artigo nº47º nº6 da Lei nº 115/2009 de 12.10
112
“Passaporte para a Liberdade”, 2008:12 a 35

81
dotando o indivíduo de capacidade de tomada de decisão. Paralelamente o projecto permite
aglutinar recursos oriundos do ambiente interno e externo à prisão, reforçando a comunicação
entre a última e a comunidade local, o que vai multiplicar os benefícios obtidos, quer pelos/as
reclusos/as, quer pela sociedade.
Por seu turno, o programa ”O meu Guia para a Liberdade” visa a incrementação de mudanças
a nível cognitivo - comportamental nos indivíduos recluídos, de modo a facilitar o processo
de transição para a liberdade, pretendendo auxiliar no desenvolvimento do auto e hetero
conhecimento, na “construção e monitorização de um projecto de vida”, no reconhecimento
do dano causado à vítima e na consciencialização da necessidade de reparação do dano.
Concomitantemente, o programa pretende ainda cooperar numa reinserção eficaz, fundada no
desenvolvimento de competências de procura activa de trabalho, apostando na interacção
entre o recluso/a e a sua rede pessoal/social.
O projecto “Auto-Ajuda – Guia Prático para a Criação e Gestão de Grupos” assume-se como
um guia pragmático de auxílio e preparação de pessoas que pretendam criar e gerir grupos de
auto-ajuda, formando-os de modo a conferir-lhes competências comunicacionais, de gestão de
problemáticas e de liderança.
O “Modelo da Casa de Transição – da Concepção à Implementação”, melhor desenvolvido no
Capítulo acerca da Reincidência, trata-se de um projecto bastante inovador em Portugal, cujos
beneficiários são (ex) reclusos/as, sem enquadramento habitacional. Este projecto visa dotar
eventuais entidades públicas ou privadas que pretendam gerar este tipo de equipamentos, de
competências metodológicas interventivas que lhes permitam realizar um acompanhamento
de elevada proximidade técnica, individual e/ou de grupo, com vista ao desenvolvimento de
competências pessoais, escolares, profissionais e sociais por parte dos beneficiários.
Já o “Guia Metodológico de Envolvimento de Empregadores”pretende aproximar o tecido
empresarial da realidade do sistema prisional, auxiliando na redução da taxa de reincidência
criminal, com base na promoção da empregabilidade da massa reclusa ou ex-reclusa.
Pretende este projecto potenciar a responsabilidade social das empresas contratantes,
apresentando às mesmas as mais-valias sociais e económicas decorrentes da contratação da
população reclusa ou ex-reclusa. Outro dos métodos aplicados por este projecto, com vista a
uma reinserção social estruturada do recluso ou ex-recluso consiste no estabelecimento de
parcerias entre as empresas contratantes, os serviços prisionais e IPSS(s), prestando apoio às
organizações que se disponibilizem a colaborar, o que contribuirá em última análise para uma

82
prevenção sustentada da reincidência criminal, para um desenvolvimento económico e social
mais ponderado e para uma sociedade mais segura.
Porque a tónica desta iniciativa comunitária recai grandemente na mudança e inovação dos
serviços prisionais, apostando no empowerment dos grupos profissionais, o “ Manual de apoio
à dinamização das Cafetarias do Conhecimento e Espaços GI” surge com o propósito de se
buscarem soluções para as problemáticas organizacionais, ao nível da comunicação e da
partilha de práticas, da segregação profissional e cultura hierarquizada, oferecendo e dotando
os gestores de ambos os espaços, de estratégias de intervenção que visam uma melhoria do
clima organizacional e concomitantemente a coesão entre os diferentes grupos profissionais,
para tal apostando em espaços onde os funcionários podem partilhar competências e
experiências, e onde se possa propagar a missão, visão, valores, estratégia de actuação e
objectivos da DGSP, e os objectivos, projectos em curso e informações internas do próprio
E.P. em que os funcionários se encontram inseridos.
O Guia Metodológico para a “Gestão do Voluntariado em Meio Prisional” foi idealizado
tendo em conta a crescente valorização do papel do voluntariado no processo de reinserção
social, tendo sido pretensa deste projecto, a definição e o enquadramento legal da actividade
de voluntariado, bem como a clarificação das relações entre os voluntários e a Instituição
prisional em si, constituída pelos funcionários e pela massa reclusa.
Partindo-se de um levantamento das necessidades e expectativas dos reclusos/as, visa-se
dinamizar a actividade voluntária em contexto prisional, clarificando-se na íntegra os direitos
e deveres do indivíduo voluntário e apoiando o estreitamento das relações entre os serviços
prisionais e as instituições promotoras do voluntariado.
O projecto desenvolvido no âmbito da criação do “Guia Metodológico de Avaliação de
projectos de Mudança Organizacional no sistema prisional” visa a fortificação do processo de
mudança e inovação organizacional, no que se prende com as vertentes de diagnóstico,
orientação, acompanhamento e avaliação da mudança, com o estabelecimento de uma
metodologia que permite tornar mensuráveis os resultados da mudança, pressupondo uma
participação activa por parte dos promotores e dos beneficiários da pretendida mudança.
Focado nos agentes de reabilitação, actuantes em contexto prisional, surgiu o projecto “
Relação.Com – Manual de Formação em competências relacionais para agentes de
reabilitação em contexto prisional” que encara as variáveis relacionais e a concertação entre
os vários profissionais envolvidos no processo de reinserção, como aspectos essenciais da

83
intervenção prisional, que se pretende reabilitadora no seu âmago, visão esta validada por
estudiosos portugueses e estrangeiros.
Paralelamente, ao incentivar o enriquecimento do papel dos profissionais prisionais, este
projecto possibilita aos mesmos uma maior confiança no trabalho desenvolvido, crendo-se
que sairá beneficiado o envolvimento nas funções, dada a pró-actividade gerada.
Tendo-se contraposto a concepção legal do objectivo da intervenção prisional, à efectiva e
pragmática aplicação, foram denotadas incongruências, que se tentaram colmatar com o
programa “Percurso de Inserção Sócio-Profissional – Guia de Análise”. Este programa
pugnou pela focagem da intervenção no plano de vida individual, bem como na
responsabilização dos profissionais por uma postura actuante que ultrapasse os actuais
procedimentos técnico-administrativos de gestão.
O último dos doze programas desenvolvidos no âmbito da Iniciativa EQUAL denomina-se “
Os 7 Passos para a Gestão de Casos de Reclusos e (Ex)Reclusos: Guia Metodológico” e visa
potenciar os resultados positivos no processo reintegrativo, decorrentes de uma articulação
estruturada, consequente e contratualizada entre a população reclusa, os serviços estatais
envolvidos e a sociedade, oferecendo um maior leque de respostas para a reintegração no
meio livre e optimizando a regulação, normalização e avaliação das intervenções, bem como
dos seus resultados.

Actualmente, encontram-se a ser prosseguidos pela DGSP os seguintes projectos e


programas113: “Rumos de Futuro – da prisão para a inclusão”; “PGISP – Projecto Gerir para
Inovar os Serviços Prisionais”; “Projecto Sida em Meio Prisional”; “Plano de Acção Nacional
para Combate à Propagação de Doenças Infecciosas e Toxicodependência em Meio
Prisional”; “Parcerias de Aprendizagem Grundtvig”; “Programa de Intervenção em
Agressores Sexuais em Meio Prisional”; “Programa de Intervenção em Delitos Estradais”;
“REXISTIR – Projecto Pluridisciplinar de Formação e Criação Artística Contínua” e
“Projecto de gestão integrada da população reclusa do Algarve”.

10. Da Reinserção Social

113
http://www.dgsp.mj.pt/

84
Uma reinserção social, ou ressocialização ou até reintegração [de sucesso] é sem dúvida o
objectivo último, mas não o único que faz pulsar todo um sistema prisional, e neste sentido
Sangion “no âmbito dos estudos sobre os fins da pena criminal, dentre aquelas orientadas por
finalidades de prevenção especial (positiva e negativa), a (re)socializadora não se afigura
como única, apesar da doutrina orientar-se sempre no sentido da reinserção social”114, que se
quer bem sucedida, por se ter conseguido que o recluso, durante o período em que esteve
apartado da sociedade em cumprimento de pena privativa de liberdade, adquirisse
competências sociais, profissionais, de aprendizagem, educativas, familiares, económicas,
valores de responsabilidade, de respeito, por si próprio, pela comunidade e até pelo
ordenamento jurídico, que ganhasse hábitos saudáveis e quiçá até se tornasse diligente o
suficiente para querer, numa fase posterior, ajudar outros indivíduos que se encontrem
privados da liberdade.
Assim, podemos condensar que o objectivo da aplicação de uma pena ou medida privativa da
liberdade, enfim, da prisão é o tratamento do recluso, ou melhor, nas palavras de Rocha115, é a
ressocialização, enquanto “trabalho de remodelação do indivíduo associal” que o preparará
para a reinserção, sendo que esta por seu turno lhe garantirá um lugar na sociedade.
Adoptou-se uma “perspectiva abrangente, que implica no mesmo processo de socialização o
delinquente, o Estado e toda a sociedade.”116
Actualmente, todo o sistema de aplicação de penas privativas da liberdade se encontra
projectado no eficaz tratamento do recluso, podendo até pensar-se que os fins intimidativos ou
repressivos de uma pena de prisão saem obliterados, mas a questão é que se existir uma
técnica devidamente aplicada, consciente, realista, adequada e consequente, e tempo para

114
João Paulo Sangion, Reflexões Acerca da Compreensão Conceitual-Teleológica do “Direito” à
(Re)Socialização do Recluso, como um dos fins preventivo-especiais da Pena Privativa de Liberdade, pp. 2,
citando Jorge de Figueiredo Dias, Temas básicos da doutrina penal. Sobre os fundamentos da doutrina penal.
Sobre a doutrina geral do crime, Coimbra: Coimbra Editora, 2001, p. 82 e s. “o pensamento da prevenção
especial não pode valer, só por si, como uma solução integral do problema dos fins da pena” (itálico do autor).
No mesmo
sentido, Mapelli Caffarena e Terradillos Basoco afirmam que os fins (re)socializadores não são, logicamente, os
únicos que se pretendem alcançar nas instituições penitenciárias (…), in Las Consecuencias Jurídicas del Delito,
Tratados y Manuales, 2ª ed. Madrid: Civitas, 1993, p. 113.

115
João Luís Moraes Rocha, 2005:251
116
João Luís Moraes Rocha, 2005:251

85
aplicar a mesma, certamente se conseguirá obter um tratamento apropriado e em última
análise uma reinserção inteligentemente concretizada.
Efectivamente é importante o anuimento do recluso ao plano de tratamento traçado com a sua
concordância, mas não será legítimo exigir do recluso (depois de se ter motivado o mesmo)
que colabore activamente no processo já que será um dos maiores interessados no processo?

A Lei nº 15/2009 de 12.10 contempla o sentido de responsabilização do recluso nos seus


artigos 3º nº6:”A execução promove o sentido de responsabilidade do recluso, estimulando -o
a participar no planeamento e na execução do seu tratamento prisional e no seu processo de
reinserção social, nomeadamente através de ensino, formação, trabalho e programas.” e 5º
nº2: “O tratamento prisional consiste no conjunto de actividades e programas de reinserção
social que visam a preparação do recluso para a liberdade, através do desenvolvimento das
suas responsabilidades, da aquisição de competências que lhe permitam optar por um modo
de vida socialmente responsável, sem cometer crimes, e prover às suas necessidades após a
libertação” mas a questão é que no concreto, não é legítimo exigir do condenado a sua entrega
[desinteressada] ao processo de tratamento, até porque a lei praticamente premeia a
participação dos reclusos como se verifica na sua letra:” A participação do recluso em
programas é tida em conta para efeitos de flexibilização da execução da pena”117, o que acaba
por desvirtuar, na minha opinião, o propósito, dado o já provado comportamento
manipulativo da massa reclusa, mas “O Estado já não se sente imbuído de uma missão de
socialização que, mantendo os indivíduos submetidos a um interesse geral, autorize métodos
de coacção individual ou colectiva próprios do controle social. Deixou também de existir,
entre o Estado e o indivíduo, qualquer relação que funde um equilíbrio socializante”.118
Porque afinal, “O Estado renunciou à sua função integradora, recuou e aceitou funcionar
como garante, contra si próprio, da protecção e promoção dos direitos da pessoa (direitos
«egoístas»). Em síntese, o Estado restringiu o seu domínio para aumentar aquele que reserva à
livre determinação da pessoa.”119

117
Lei 15/2009 12.10 –artigo 47º nº6
118
Anabela Miranda Rodrigues,2002:144 citando J. de Maillard, Crimes e Leis, 1994: 98
119
Anabela Miranda Rodrigues, 2002:144

86
Verifica-se que “Na execução da sanção, a concepção autoritária evola-se, não admitindo o
tratamento com vista à socialização contra a vontade do recluso”120, e isto porque “A política
criminal foi, assim, apanhada no centro de uma insuperável contradição, pois tornou-se
prisioneira de um paradoxo. Observado como principal ameaça à liberdade individual, o
Estado é intimado simultaneamente a desenvolver um sistema de protecções jurídicas para
garantir o exercício de direitos e a apagar-se precisamente pelas mesmas razões. É um
movimento circular de demanda de protecção ao Estado e de exigência de autonomia do
indivíduo”.121

O passado acabou por legar no presente uma fenda entre o legislado e o exequível e executado
em matéria de reinserção. Um brando e desinteressado empenho da sociedade (na
generalidade), a carência de vontade política, e uma ineficaz organização da gestão
governamental que dimana no défice de meios humanos, técnicos, formativos e materiais
previstos na Lei, comprometem toda uma política prisional.
Centremo-nos por ora no processo de desenvolvimento do Plano Individual de Readaptação.
Este, por existir uma notória escassez de recursos humanos, perde inevitavelmente as suas
características ideais, de planeamento e sistematização, como aliás é percepcionado pela lei,
saindo prejudicado o recluso, que ao invés de dispor de um tratamento regido por dinâmicas
de envolvimento, diagnóstico, planificação e avaliação constantes, com base em critérios pré-
definidos, acaba por retumbar numa prática (quando se verifica) imediatista e pouco
consequente por parte dos técnicos, que têm de socorrer a todos (e são bastantes!) os
processos que lhes couberam, situação corroborada pelo Centro de Estudos Sociais, do
Observatório Permanente da Justiça Portuguesa e plasmada no estudo intitulado –A
Reinserção Social dos Reclusos - Um contributo para o debate sobre a reforma do Sistema
Prisional sob a direcção científica de Boaventura de Sousa Santos, em 2003:”este propósito
legal raramente passou, na grande maioria dos estabelecimentos prisionais, de mero processo
de intenções sem qualquer concretização prática. De facto, bloqueios de ordem legal e
organizacional, entre outros factores, têm impedido a concretização dos objectivos da reforma

120
Anabela Miranda Rodrigues, op. cit., p.146
121
Anabela Miranda Rodrigues, op. cit., p.145

87
no que respeita à ressocialização do recluso e, concretamente no que respeita à efectiva
concretização do PIR”.

Pelo número elevado de processos atribuído a cada técnico, pela falta de tempo que permita
ao técnico uma eficiente recolha de informação sobre o recluso (e tempo até para poder
conhecer as suas angústias e temores), pela pouca articulação entre os vários serviços, pela
falta de actualização e formação específica do corpo técnico e porque não são efectivamente
esgotados todos os recursos e possibilidades de que se pode lançar mão com vista à efectiva
reinserção, saem diminuídas as reais possibilidades do recluso se reintegrar na sociedade com
sucesso.
Mas apesar de tudo, a Lei nº15/2009 de 12.10, e seguindo o trilho do Decreto –Lei nº 265/79
de 1.8, continua a contemplar a execução de um Plano Individual de Readaptação, no seu
artigo 21º, sempre que:” a pena, soma das penas ou parte da pena não cumprida exceda um
ano, o tratamento prisional tem por base um plano individual de readaptação, o qual é
periodicamente avaliado e actualizado, nos termos previstos no Regulamento Geral”, com
carácter obrigatório para os reclusos até aos 21 anos ou condenados em pena relativamente
indeterminada, fitando “a preparação para a liberdade, estabelecendo as medidas e actividades
adequadas ao tratamento prisional do recluso, bem como a sua duração e faseamento,
nomeadamente nas áreas de ensino, formação, trabalho, saúde, actividades sócio -culturais e
contactos com o exterior” e baseando-se na “avaliação do recluso, efectuada nos termos do
artigo 19.º”, tendo sido estabelecido que “ O plano individual de readaptação e as suas
alterações são aprovados pelo director do estabelecimento prisional e homologados pelo
tribunal de execução das penas”, devendo ser entregue ao recluso “ Um exemplar do plano
individual de readaptação e das respectivas actualizações”.

Na perspectiva de Paninho122 a dignificação do recluso passa pela dignificação do técnico e


isto porque o técnico como ser humano que é, deixa transparecer a sua ansiedade e por vezes
a sua desmotivação por se sentir menos acompanhado pelas suas hierarquias, pela imensidão
de processos que tem em braços e pelo ínfimo tempo de que dispõe para os tratar, e afinal,
sendo certa a proximidade que existe entre o recluso e o técnico, é a pessoa que o técnico é,
que o recluso tem oportunidade de conhecer e com ela aprender e aumentar as suas

122
http://www.scribd.com/perigosidade-ludgero-paninho/d/23774407

88
expectativas de conseguir reinserir-se na sociedade, e não com eventuais filosofias, doutrinas
ou teorias de tratamento de que o técnico possa dar conhecimento, podendo até fazer-se
alusão a um chavão: “os professores recordam-se não pelo que ensinaram, mas pelo que
foram”, aplicando-se as devidas adaptações.
Por isto, torna-se primordial que o técnico consiga fascinar o recluso pela sua postura segura,
competente, digna, honesta, atenciosa, atempada, preocupada, bem como pela sua vivência e
conduta irrepreensíveis e idóneas, de dignidade imaculada, não querendo isto dizer que o
técnico deva perder a sua identidade, mostrando que são iguais enquanto seres humanos, mas
seres humanos diferentes.
Igualmente se pode apontar a desarticulação entre serviços, que provoca o corte repentino do
acompanhamento do recluso, após terminus da pena, como aliás refere Soares123”As
Instituições existem, mas não se articulam e aqui, parece-nos residir o grão de engrenagem
mais evidente e que determina o fracasso das políticas do “papel”, no terreno da prática
prisional. Deixou de se discutir e a comunicação entre o sistema prisional e judicial é surda,
quer no interior de cada sistema, quer entre si, quer ainda com outras instituições como o IRS,
o Centro Protocolar de Justiça, o Instituto de Emprego e Formação Profissional e o Instituto
de Solidariedade e Segurança Social, o que provoca inevitáveis desperdícios, sobreposição de
tarefas e aumenta os custos quer do sistema prisional, quer do Instituto de Reinserção Social”.
Rocha124 sublinha a imprescindibilidade de uma rede social equilibrada que “poderá ser o
melhor apoio e, pressupondo um trabalho de acompanhamento, a continuidade de todo um
processo de reinserção do recluso, pelo que todo o trabalho realizado deve estar em
permanente ligação com a rede social de suporte ao recluso ou, pelo menos, atento à rede
social (ou falta dela) que imediatamente espera o recluso.”
Ainda na mesma linha de pensamento, Sangion :“Diante dos efeitos criminógenos do cárcere
e seus fatores retrógrados ao objetivo primeiro da pena privativa de liberdade, o intuito de
preferir-se o ideal de se evitar a dessocialização do recluso nos parece o mais pertinente e
sensato, pelo que se conhece, exaustivamente, sobre o hodierno ambiente prisional, unidos

123
Luísa Soares, O purgatório na Terra:14
124
João Luís Moraes Rocha, 2005:251 e 252

89
sempre àquela idéia de aproximação recluso/sociedade como catalisador do objetivo
(re)integrador”125.
Refiram-se, porque oportunas, o Conjunto de Recomendações propagadas no âmbito da
iniciativa comunitária EQUAL, desenvolvidas por uma parceria de dez membros europeus126,
com base na Recomendação do Conselho da Europa, Rec(2006)2, sobre as Regras
Penitenciárias Europeias.

“1-A reintegração bem-sucedida de (ex) -reclusos exige uma abordagem de gestão de caso,
desde a detenção, passando pelo período de reclusão até ao momento de libertação e depois
dele.”

É imprescindível o envolvimento de todos os elementos desde o momento da detenção até à


libertação para que o processo de tratamento seja bem sucedido, quer dos profissionais que
dos quais se espera o desempenho de funções com a máxima competência e dedicação, dos
familiares que devem ajudar o recluso a não cortar o cordão umbilical com a vida em meio
livre, quer do Estado que garante ao recluso a protecção da sua dignidade humana.

“2-Todos os reclusos devem ter a possibilidade de participar em programas de formação e de


educação que reforcem a sua empregabilidade”.

Deve proceder-se, aquando da entrada de um recluso para uma prisão, a um levantamento


exaustivo das suas necessidades, valências e ambições para que o processo de reinserção
encontre um bom porto.
É essencial que durante o período de reclusão, os reclusos possam incrementar a sua
escolaridade, normalmente baixa, tendo igualmente oportunidade de desenvolverem as suas
competências profissionais, que lhes conferirá, uma vez libertos uma maior agilidade
profissional, devendo estreitar-se no mesmo sentido, o contacto com as entidades
empregadoras que estiverem dispostas a contratar.

125
Paulo Sangion, Reflexões Acerca da Compreensão Conceitual-Teleológica do “Direito” à (Re)Socialização
do Recluso, como um dos fins preventivo-especiais da Pena Privativa de Liberdade, pp. 7
126
Bélgica, Países Baixos, Alemanha com França, República Checa e Grécia, Luxemburgo, Itália com Suécia e
Áustria, Portugal, Polónia com Lituânia e Finlândia, Espanha, Reino Unido (Grã Bretanha) com Estónia, Reino
Unido (Irlanda do Norte) com Letónia, Hungria e Irlanda
90
“3-Como ter trabalho é o factor mais importante para a prevenção da reincidência, são
necessários mais esforços para envolver empregadores tanto públicos como privados e para
explorar outras formas de criação de emprego”.

Durante o cumprimento da pena privativa de liberdade é recomendável que se ensinem e


proporcionem ao recluso meios de elevar o seu sentido de cidadania e que se encaminhe o
mesmo, quando este se encontrar perto do final do cumprimento da pena e aproveitando os
laços laborais iniciados durante a reclusão para serviços públicos ou privados que o poderão
auxiliar na hora de voltar à comunidade.
Devem dissecar-se todos os meios úteis e disponíveis ao recluso, a nível laboral, permitindo-
lhe ter acesso a informações e formações nomeadamente sobre o modo de criar o seu próprio
posto de trabalho.

“4-Também se deve prestar atenção a outros aspectos da vida dos (ex) reclusos, se se pretende
uma reintegração bem sucedida”.

O período de cumprimento de pena privativa de liberdade não deve ser encarado enquanto
estanque, devendo ser bem estruturado o momento de saída do recluso, e para tal deve
investir-se no encaminhamento do recluso para entidades prestadoras de trabalho, para
profissionais médicos, e para a própria estrutura familiar durante as concessões de saídas
precárias.

“5-É urgente promover a mudança nas prisões, estimular uma cultura de inovação e apoiar
não só a cooperação com agências externas mas também o tipo de acção acima apresentado”.

Apesar do sistema prisional se tratar de uma estrutura altamente complexa e hierarquizada,


naturalmente fechada por questões de ordem e segurança, é importante que a comunidade se
sinta esclarecida para que não se criem mitos contraproducentes devendo.
É imprescindível que os profissionais do meio prisional se sintam acompanhados e
incentivados para uma melhoria contínua.

“6- Os progressos realizados na EQUAL e por seu intermédio devem ser consolidados.”

91
A nível internacional deve imbuir-se uma visão orientada para a população reclusa e ex-
reclusa, colocando-se a tónica na inovação e na transnacionalidade.

11. Dos Técnicos e da Técnica

O Sistema é humano. Será Técnico? (leia-se planificado, consequente, eficaz…)


Esta foi sem dúvida a premissa com que encetei este estudo, e que ao longo da investigação
pude verificar que suscitava pontos de vista ambíguos, nomeadamente por parte do pessoal
técnico a trabalhar directamente com a população reclusa.
De um ponto de vista filosófico a Técnica define-se enquanto “esforço para produzir o que
deve ser, o que se sonha que seja, e que não é”, sendo que a Técnica “é um saber aplicado”,
que “conduz à acção”, podendo até afirmar-se que “a Técnica adapta a ciência à prática” 127.
Como refere Beccaria, “ os conhecimentos, facilitando os confrontos dos objectos e
multiplicando os seus pontos de vista, contrapõem muitos sentimentos entre si, que se
modificam reciprocamente tanto mais facilmente quanto mais se descobrem nos outros os
mesmos pontos de vista e as mesmas resistências”128.
Antes de mais torna-se pertinente definir concretamente as competências do pessoal técnico a
funcionar dentro dos estabelecimentos prisionais como sendo o técnico de educação, o técnico
de serviço social e o técnico de reinserção social.
Ora, segundo o afirmado por Albuquerque129cabe à DGSP a selecção e a preparação do
pessoal, que se subentende formativa, com o respeito pela natural evolução dos
conhecimentos e pelo surgimento de novas técnicas.

Se no Decreto – Lei nº 265/79 de 1.8 o princípio orientador da actuação do pessoal consistia


na ideia de que ”a reinserção social dos reclusos constitui a sua principal tarefa”, conforme o
transcrito do nº2 do artigo 194º do diploma, na actual Lei (que entrará em vigor nos primeiros
meses de 2010), toda a matéria relacionada com o pessoal técnico é remetida para um
Regulamento Geral dos Estabelecimentos Prisionais, podendo no entanto deduzir-se que o

127
J.Bonifácio Ribeiro; José da Silva, 1964:335 e 336
128
Cesare Beccaria, 1998:156
129
Paulo Pinto de Albuquerque, 2006:281

92
princípio a prosseguir pelos funcionários, nomeadamente o corpo técnico seja o plasmado no
artigo 2º “a execução das penas e medidas de segurança privativas da liberdade visa a
reinserção do agente na sociedade, preparando-o para conduzir a sua vida de modo
socialmente responsável, sem cometer crimes”.
Actualmente é dado adquirido, tendo em linha de conta toda a filosofia penitenciária, que
cada recluso detém uma individualidade própria, e que apesar do delito cometido e de todas as
razões que o possam ter tornado desviante, o indivíduo é recuperável, e que como tal, com ele
e para ele deve ser encontrada uma via sustentada de reintegração na sociedade, fitando-se a
sua não reincidência delitual.
O pessoal técnico a quem está adstrito o acompanhamento da execução da pena, deve rodear-
se das pessoas, associações, centros da vida laboral e económica, dos Ministérios da Educação
e do Trabalho e outros organismos que de algum modo possam auxiliar e participar na busca
de actividade laboral por parte do recluso, que lhes possa conferir dignidade e independência
económica, tentando igualmente que ao recluso seja disponibilizado apoio religioso, espiritual
e moral, sem que seja olvidado o encaminhamento médico (sempre com o consentimento do
recluso) se isso se revelar com peso para o seu processo de reinserção social.

11.1. Análise da evolução da estrutura orgânica da DGSP

11.1.1. Serviços Técnicos

Não pretendendo alongar-me num estudo exaustivo do legislado referente à orgânica dos
serviços técnicos, e numa lógica cronológica revela-se importante fazer referência
nomeadamente ao Decreto-Lei nº 199/73 de 3.5 onde se prevê a existência de orientadores
sociais e de educadores com funções docentes entre outras definidas no artigo 33º nº1 do
instrumento, tendo sido afirmado aquando da criação do Decreto-Lei nº 265/79 de 1.8 que a
assistência e orientação sociais deveriam passar a constar de regulamento autónomo.
Tendo-se revelado imprescindíveis a intensificação e a diversificação do desempenho em
matéria social, é criada com a publicação do Decreto-Lei nº168/80 de 29.5 a direcção dos
serviços de educação, ensino e serviço social, dividida em quatro serviços distintos, para além
dos três acima indicados, contando com um serviço administrativo.

93
Ao serviço de educação competia a cooperação na feitura e actualização do plano individual
de readaptação do preso, bem como o acompanhamento do mesmo durante o período de
cumprimento da pena, a organização de actividades culturais, recreativas e desportivas, a
promoção de conferências e formações específicas com carácter regular e não obrigatório,
providenciar informação actualizada ao recluso acerca da comunidade, a distribuição dos
reclusos por actividades profissionais de acordo com as suas competências, motivação do
recluso para a actividade laboral, contribuir com pareceres aquando da aplicação de uma
sanção disciplinar gravosa a um recluso, a colaboração com os congéneres (serviço social) na
preparação para uma saída precária, que incluía o seu regresso, e por fim a organização da
biblioteca existente.
Já ao serviço social cabia o apoio ao serviço de educação na preparação e actualização do
plano individual de readaptação, maquinar o marco da libertação dos condenados, garantir a
conexão dos reclusos ao meio social, o acompanhamento do trabalho e dos estudos
prosseguidos pelos reclusos em meio livre, assistir os reclusos em período de visitas, a
preparação para as saídas precárias autorizadas ao recluso, juntamente com os educadores
elaborar na emissão de pareceres no caso de se registar uma sanção disciplinar gravosa
acompanhando o recluso durante o cumprimento da mesma, trabalhar em equipa com as
direcções dos estabelecimentos com vista à criação de infantários que pudessem acolher os
filhos da população reclusa, apoiar psicológica, moral e materialmente as famílias dos
reclusos, quer directamente quer em parceria com instituições públicas ou privadas, assegurar
apoio no período pós-pena através de encaminhamento laboral, e promovendo acções de
sensibilização, realizadas no seio comunitário com vista a promover a prevenção da
criminalidade e elucidando os presentes da importância de uma eficaz reintegração social, do
trabalho desenvolvido pelos serviços prisionais, alertando-os para toda a problemática da
delinquência.
Pode dizer-se que é uma verdadeira obra de Santa Engrácia para uma classe só.

Considerando vital o aumento de serviços, com a publicação do Decreto-Lei nº 268/81 de


16.9 dá-se uma reestruturação orgânica da DGSP, em que foram mantidas as direcções e
serviços já existentes, tendo-se acrescentado mais um serviço de educação e ensino e outro de
serviço social, desta a integrarem os serviços operativos dos estabelecimentos prisionais
centrais e especiais, encontrando-se fixada a competência dos primeiros e dos últimos no

94
Decreto-lei nº 168/80 de 29.5, já vigente, embora os primeiros tenham ganho a competência
adicional de organização de cursos escolares de diversos graus de ensino.
Três anos volvidos sobre a reforma prisional de 1979, é criado o Instituto de Reinserção
Social, com a publicação do Decreto-Lei nº 319/82 de 11.8, sendo certa a clara limitação dos
serviços sociais, quer pela falta de recursos humanos, quer pela falta de meios de actuação, o
que os impossibilita de agir eficiente e eficazmente.
Destacava-se ainda a evidente falta de habilitações para um desempenho cabal das suas
funções, incapazes de acompanhar a evolução trazida pelo recente Código Penal, que prevê
para além do carácter ressocializador da pena uma série de sanções não institucionais, pelo
que se revelava imperioso a admissão de técnicos do serviço social especializados na matéria.
Atentemos desta às competências do Instituto de Reinserção Social, igualmente vastas, pelo
menos em termos quantitativos.
Sendo certo que este Instituto era autónomo dos serviços prisionais, cabia aos seus técnicos o
acolhimento em estabelecimento prisional, a preparação do diagnóstico psicológico e social
do recluso, a preparação e execução e consequente avaliação da elaboração dos planos
individuais de readaptação, a participação nos conselhos técnicos, a promoção de uma saída
em liberdade bem alicerçada em matéria familiar, cabia-lhe mediar eventuais situações de
conflitos geradas pela carga social do cumprimento de uma pena, a elaboração de relatórios
que auxiliassem a concessão de saídas prolongadas ou de liberdade, o acompanhamento do
trabalho desenvolvido pelos reclusos ainda durante o período de execução de pena e da
situação escolar ou de formação profissional e certificava-se de eventuais necessidades de
reclusos semidetentivos, conferindo-lhes apoio.
Para além de todas as áreas de actuação atrás enumeradas ainda acresciam o planeamento da
execução das liberdades condicionais e experimentais, a produção de relatórios para
apreciação periódica e final da execução das medidas, a realização de acção social, a
elucidação do recluso e suas famílias dos direitos que lhes assistiam, a concessão pontual de
apoio monetário, o acolhimento em equipamentos sociais sob a sua alçada, entre outras.

Avaliando as áreas de competência dos serviços centrais operativos (educação, ensino e


serviço social) da DGSP, dos serviços operativos dos estabelecimentos prisionais centrais e
especiais (educação, ensino e serviço social) e do Instituto de Reinserção Social, constata-se a
óbvia justaposição, responsável a longo prazo por conflitos de competências e até de alguma

95
confusão funcional que entretanto se gerou, no entanto, aquando da publicação do Decreto-
Lei nº 10/97 de 14.1 em que se dá nova reestruturação orgânica no seio da DGSP, tal conflito
não foi dirimido.
Por imposição deste instrumento, surge a divisão de individualização e definição de regimes e
a divisão de organização e gestão da população prisional, ambas integradas na direcção de
serviços de execução das medidas privativas da liberdade.
Paralelamente surge a direcção de serviços de educação, ensino, formação profissional e de
apoio à reintegração social dos reclusos composta pela divisão de educação, ensino e
animação sociocultural e pela divisão de formação profissional e de apoio á reintegração
social dos reclusos, sendo certo que apesar da alteração da nomenclatura, e do surgimento de
divisões que compõe as direcções, as competências não diferem, na essência, de todas as já
elencadas atrás.
Refira-se que a publicação do Decreto-Lei nº 257/99 de 7.7 acrescentou a secção de reclusos e
a secção de expediente e arquivo à direcção de serviços de execução de medidas privativas de
liberdade, aquando da sua revisão.
Na entrada do século XXI, altera-se a ideologia orgânica com a publicação do Decreto-Lei nº
146/2000 de 18.7, após decisão do Ministério da Justiça em atribuir à DGSP as funções da
competência do IRS, mobilizando este último para tratamento de questões relacionadas com o
cumprimento de penas e medidas alternativas à pena de prisão e para a prestação de apoio
técnico ao tribunal na tomada de decisões no processo penal, com o objectivo de extinguir
definitivamente a intervenção do IRS no interior dos estabelecimentos prisionais.
A massa humana entregue à nobre função de promover a reintegração social do recluso, sai
grandemente ressentida quando sente, que ela própria será involuntariamente reintegrada
noutras funções.130
Por não ter sido efectuada uma avaliação de necessidades conscienciosa, sobrecarregaram-se
os técnicos de reeducação após a saída dos técnicos do IRS, o que poderá muito bem justificar
a manifesta falta de recursos humanos, que persiste, deixando em média nas mãos de cada
técnico, a reinserção social de 120 reclusos.

130
Paulo Pinto de Albuquerque, 2006:282 a 289

96
Nos dias de hoje, apesar da notória escassez de meios humanos, que em muito dificulta um
desempenho de alta qualidade, ainda assim não se pode diminuir a importância dos
funcionários que desempenham a mui nobre função de reinserir na comunidade, um elemento
que algures no tempo se desviou131, tarefa sempre atinente ao aspecto securitário da pena ou
medida aplicada.
É primordial que se garanta, dadas as especificidades da função, que os técnicos gozem de
uma formação cívica e académica que os suporte e predisponha para um desempenho
diferenciado, encontrando-se os mesmos conscientes do resultado feliz ou menos feliz da sua
intervenção, e qual a sua quota-parte de responsabilidade nesse resultado.
Não devem os mesmos temer o contacto com informação confidencial relativa aos reclusos,
mas saber usar a mesma nomeadamente no estudo de caso concreto e para a construção de um
bom esboço de tratamento penitenciário, que se quer individualizado.
Sendo certa a existência de directrizes superiores decorrentes de um sistema altamente
hierarquizado, as mesmas devem encontrar-se bem definidas de modo a não causar dúvidas
que poderiam de algum modo travar o complexo processo que é o tratamento penitenciário,
mas não basta que as mesmas existam por si só, é essencial que a classe técnica se sinta
acompanhada, e vá recebendo retorno do seu desempenho, porque isso lhes vai permitir tomar
consciência de melhorias a adoptar.
Modernizados que foram os parâmetros procedimentais, com a experiência positiva das boas
práticas a moldar todo o agir, os meios de avaliação e os programas de intervenção que se
substanciam em modelos - padrão para os processos acima referidos, caracterizados pela sua
clareza, por um conteúdo funcional bem definido e apreensível, pela existência de um sistema
informático optimizador da informação recolhida e que permite um uso cruzado, auxiliam
indubitavelmente na concretização de uma lida penitenciária rentável e consequente.
Seria ideal que todos os técnicos iniciassem as suas funções com uma formação diferenciada,
para além da sua formação base, em áreas como a sociologia, criminologia, direito penal,
execução de um estudo de caso e psicologia que lhes permita avaliar em contexto prisional, as

131
Nesse sentido o artigo 46º nº2, das Regras Mínimas para o Tratamento dos Reclusos:” A administração
penitenciária deve esforçar-se permanentemente para suscitar e manter no espírito do pessoal e da opinião
pública a convicção de que esta missão representa um serviço social de grande importância; para o efeito, devem
ser utilizados todos os meios adequados para esclarecer o público.”

97
atitudes e comportamentos da sua matéria-prima, em suma dotar o técnico de uma formação
multidisciplinar, que lhe vai conferir confiança na sua actuação.132
Compete ao técnico a elaboração de um estudo social sobre o recluso, que vai determinar em
última instância um plano de intervenção, cujos objectivos globais são o enquadramento do
comportamento (delituoso) apresentado pelo recluso, determinação da sua perigosidade para a
comunidade (uma vez em meio livre), apreciação das capacidades de recuperação e
descoberta de um plano que favoreça a mesma, sendo considerados objectivos específicos,
(tendo em conta a individualização de cada caso), a recolha de elementos essenciais à
administração prisional, o esclarecimento do recluso quanto ao fim de uma prisão, quanto aos
procedimentos legais, ao papel do técnico social, a criação de uma relação amistosa de ajuda,
o conseguir a colaboração voluntária do recluso e por fim a determinação do tratamento social
a seguir.
De um estudo social, procedendo-se ao levantamento de determinados elementos, devem
constar áreas específicas da vida do recluso como: factores sociais, integrados pelos dados
pessoais de identificação, o estado físico do recluso, o seu estado intelectual, a sua situação
profissional, o seu estado mental, as suas tendências psicológicas, o seu grau de maturidade,
(sub-composto pela sua noção de realidade, pelas relações afectivas, pelo seu sentido de
responsabilidade, pelas suas crenças enquanto cidadão e por eventuais experiências de vida
que o tenham marcado), pelo modo como ocupa os seus tempos livres, pelo enquadramento
do delito praticado (devendo o técnico assumir uma postura contrária ao mesmo, e apurar as
causas e as consequências do crime praticado) e factores do meio, compostos pela
identificação do grupo familiar, das condições de habitabilidade, pela sua situação económica,
e pelo ambiente familiar.
Após apuramento de dados, em contexto de entrevista com o recluso, ou outro, deve o técnico
proceder ao diagnóstico social, onde vai expor de modo conciso e exacto as suas deduções
acerca de um plano favorável ao recluso.
Existe a necessidade actual e premente de se actuar de um modo mais técnico, esclarecido e
padronizado.

132
Ludgero Paninho, 2007:82 e 83

98
Em contexto prisional, os técnicos devem dispor de espaço para interagir logo de início com o
sujeito recluso, procedendo a uma correcta avaliação, seguida de uma planificação concertada
com vista a uma evolução contingente.
Após o apuramento de dados e do caminho traçado, é altura de conceber o Plano Individual
de Readaptação.

11.2. As directrizes da Organização das <ações Unidas

Quando nos debruçamos nas directrizes emanadas da Organização das Nações Unidas,
plasmadas nas Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos, relativamente à matéria sobre
a qual versa esta capítulo verificamos que é pressuposto um sofisticado processo de avaliação,
que implica tempo e especialização por parte do pessoal envolvido.
A formação do pessoal, académica e intelectual, conforme o já anteriormente referido, é um
requisito essencial para que a avaliação e um plano de tratamento sejam processos bem
sucedidos, considerando-se oportuna a citação das regras relacionadas, sob a epígrafe: Pessoal
penitenciário:

Regra 46

1) A administração penitenciária deve seleccionar cuidadosamente o pessoal de todas as


categorias, dado que é da sua integridade, humanidade, aptidões pessoais e capacidades
profissionais que depende uma boa gestão dos estabelecimentos penitenciários.

Regra 47

1) O pessoal deve possuir um nível intelectual adequado.


2) Deve frequentar, antes de entrar em funções, um curso de formação geral e especial e
prestar provas teóricas e práticas.
3) Após a entrada em funções e ao longo da sua carreira, o pessoal deve conservar e
melhorar os seus conhecimentos e competências profissionais, seguindo cursos de
aperfeiçoamento organizados periodicamente.

Regra 49

99
1) Ea medida do possível, deve incluir-se no pessoal um número suficiente de especialistas,
tais como psiquiatras, psicólogos, trabalhadores sociais, professores e instrutores técnicos.

Regra 50

1) O director do estabelecimento deve ser bem qualificado para a sua função, quer pelo seu
carácter, quer pelas suas competências administrativas, formação e experiência.
2) Os membros do pessoal penitenciário devem receber se necessária uma formação técnica
especial que lhes permita dominar os reclusos violentos.

Sublinhe-se ainda que a formação do pessoal técnico não deve ser um processo estanque e
estático, mas sim em constante actualização, já que é imprescindível o acompanhamento das
necessidades reveladas pelos reclusos, o que se consegue com uma postura elástica e com um
desenvolvimento sustentado dos conhecimentos necessários para modificar, adaptar e
incrementar os programas de tratamento.

Um pessoal técnico, com confiança e segurança no trabalho que desenvolve, porque sente
intimamente que conhece as matérias e domina as técnicas e os instrumentos que lhe são
disponíveis em meio prisional, e consciente dos seus deveres e responsabilidades vai revelar-
se um elemento mediador, que conseguirá ”manipular a sua matéria-prima” de modo a que
impere a tolerância entre os reclusos, e a que os mesmos se conformem com as contingências
decorrentes do cumprimento de uma pena, conseguindo em última análise cumprir com os
elementos ordem, segurança e disciplina, base de um sistema prisional. Sendo certo que os
últimos beneficiados da sageza do técnico serão a comunidade e o Estado.

12.Visão genérica do contributo das Ciências Sociais para o sistema prisional

Refere Gonçalves133 que a contribuição da Sociologia do meio prisional, surgida nos Estados
Unidos da América nos anos 40 auxiliou em muito à compreensão dos modos de adaptação à
prisão, tendo sido decompostos temas como a subcultura prisional, os códigos dos reclusos, os
grupos de pressão interna, a organização informal, o poder da comunicação, o relacionamento
entre presos e corpo vigilante, as situações de crise dentro do estabelecimento, entre outros.

133
Rui Abrunhosa Gonçalves, 1993:145

100
O ser humano, enquanto ser extremamente complexo que é, vê o seu processo de
desenvolvimento pautado por inúmeras mudanças (físicas, cognitivas, sociais e emocionais).
São estas mudanças as responsáveis pela constante necessidade de adaptação de cada
indivíduo ao meio que o envolve, com todas as adversidades a ele intrínsecas.

De contribuição inegável para a adaptação constantemente exigida ao indivíduo encontra-se o


meio social envolvente, cada vez mais pautado por inúmeras exigências que obrigam a um
esforço maior de cada elemento, e inerente a toda a natureza humana está o conceito de
Liberdade, que parece assumir contornos particularmente mais difíceis quando de contexto
prisional se trata. Daí que ganhem particular relevo os estudos, e consequente intervenção, das
Ciências Sociais em contexto prisional, permitindo “justificar junto da opinião pública que as
prisões não são só um depósito de pessoas, que afinal o dinheiro que lá se gastou dá frutos, e
podem e devem constituir um parceiro social válido”.134
Detentores de vastos e aprofundados conhecimentos teóricos e instrumentos técnicos
adequados, os cientistas sociais constituem-se como peças indispensáveis para uma melhor
compreensão das características psicológicas dos indivíduos reclusos, revelando-se
indispensáveis a uma mais frutífera intervenção em contexto prisional.
A intervenção do psicólogo em meio prisional tem sido alvo de atenção, sobretudo devido aos
fracassos e falhas que a ela parecem estar associados, falhas essas que poderão basear-se em
apreciações erróneas do real efeito dos programas de intervenção, ou no facto de se estar a
lidar com populações grandemente marginalizadas e estigmatizadas ou até devido a
“ambiguidades éticas”, no entanto “ há tratamentos eficazes e que merece a pena continuar a
intervir junto dos ofensores institucionalizados, pelo menos até que nos apresentem um
método mais eficaz e mais barato do que os que actualmente empregamos”, apesar de, e neste
ponto o autor torna-se incisivo quando acusa que “nem se sabe se algo funciona porque, em
boa verdade, não se avalia nada do que se faz. (…) Quer dizer, desenvolvem-se imensas
actividades de carácter lúdico, recreativo e cultural, mas não se conhece um estudo que
evidencie uma avaliação do efeito que isso possa ter na reincidência ou em qualquer outro
índice de adaptação prisional” 135, sendo igualmente apontada a inexistência de parâmetros-

134
Rui Abrunhosa Gonçalves, 2008:274
135
Rui Abrunhosa Gonçalves , 2008:273

101
base que permitam avaliar os programas de intervenção psicológica, nomeadamente os que se
destinam a reclusos adictos.
O autor invoca os números apontados pela Provedoria da Justiça referentes aos anos de 1996
e 1999, dos quais se extrai que a percentagem de presos primários era superior à de
reincidentes, o que demonstra a eficácia da prisão, apesar da diferença não ser significativa.
Têm sido, progressivamente, levados a cabo esforços no sentido de solucionar o problema da
sobrelotação prisional e das condições de saúde dos reclusos portugueses, investimento tal
que se traduz no ambiente calmo que, regra geral, se vive em contexto prisional.
Tais esforços /progressos carecem, contudo, de um plano de avaliação que permita uma
evolução/crescimento mais coerente e conciso da qualidade dos serviços prisionais.
Gonçalves136, fazendo suas as palavras de David Farrington (1980) que reclamava muito
astutamente que “o principal papel dos psicólogos em meio prisional deverá ser o de se
dedicarem à investigação, visto serem, entre todos os profissionais que lá existem, os mais
bem apetrechados técnica e cientificamente para tal. Sendo certo que, uma tal especialização
funcional seria particularmente útil para a instituição prisional já que rentabilizaria melhor os
seus recursos. Sabe-se, porém, que no quadro da actual Lei Orgânica dos Serviços Prisionais
não existem psicólogos enquanto tal, mas sim Técnicos Superiores de Reeducação que,
ocasionalmente, podem ser psicólogos.”
O autor defende que a intervenção do psicólogo na prisão deve contemplar a designação da
tipologia do percurso adaptativo, com base na classificação dos reclusos (bem-adaptados,
mal-adaptados, sobre-adaptados, inadaptados), ao mesmo tempo que procede ao levantamento
das características dos sujeitos reclusos (idade, tipo de crime cometido, comportamento
disciplinar, usufruto ou não de saídas precárias, condição de reincidente ou primário, extensão
da pena de prisão, naturalidade, residência, estado civil, profissão, escolaridade e prestação de
trabalho intra-muros), dividindo-se a actuação do psicólogo em duas fases, uma de
diagnóstico e uma seguinte, de intervenção.
Gonçalves137 aponta que “desde a década de 50, se tem assistido, na Europa e em particular
nos E.U.A., a um progressivo interesse pela introdução de métodos psicoterapêuticos no
domínio da prevenção da reincidência no crime junto da população recluída, juvenil e adulta.

136
Rui Abrunhosa Gonçalves, 2008:275
137
Rui Abrunhosa Gonçalves, 1993: 219 citando (Farrington, 1984; Lipton, Martinson & Wilks, 1975;
Martinson, 1974; Kassebaum, Ward & Wilner, 1971)

102
As más notícias dizem que a esmagadora maioria desses esforços “reabilitativos” se têm
saldado por fracassos “.
A intervenção levada a cabo no âmbito do tratamento penitenciário pode assumir-se enquanto
sendo psicológica, psiquiátrica, psicoterapêutica, médica, pedagógica ou sociológica,
prevalecendo o critério da reincidência como indicador dos resultados da intervenção.
O autor parafraseando Bravo (1986), refere138 que o tratamento penitenciário se prende com a
“ajuda baseada nas ciências do comportamento, aceite voluntariamente pelo condenado para
que este adquira a intenção e a capacidade de viver respeitando a lei”, ou noutro sentido
enquanto “ajuda para que possa superar essa série de condicionalismos pessoais e sociais que
puderam provocar ou facilitar a sua delinquência”.139
Deduza-se então que o tratamento penitenciário repousa sobre dois pressupostos de base
distintos. Por um lado, encontramos as ciências sociais e humanas, como sendo a psicologia e
a sociologia, e por outro lado a tónica assente na dinâmica tendente à reintegração,
reeducação, readaptação, reinserção.

Estudos acerca dos métodos psicoterapêuticos compreendidos na intervenção com sujeitos (do
sexo masculino) reclusos / populações delinquentes, realizados nos EUA e nalguns países
europeus, ao longo de 40 anos (entre 1945 e 1985) revelam que a maioria das intervenções
psicológicas desenvolvidas assentam no modelo comportamental ou de grupo, podendo
afirmar-se que a terapia de grupo, muito presente na 1.ª metade da década de 60, tem vindo a
decair, a terapia comportamental, foi utilizada com mais frequência entre 1965 e 1974, a
terapia institucional, maioritariamente utilizada durante a 2.ª metade da década de 60, e a
terapia individual, que tem vindo a progredir com regularidade, desde início da década de 60.
O autor questiona então porque falham em contexto prisional, as intervenções psicológicas,
logo de seguida inferindo que “se as psicoterapias falham na ajuda a indivíduos que sofrem
com os seus problemas e buscam ajuda para eles, não há razão para esperar que elas tenham
sucesso na modificação de comportamentos de indivíduos que não se queixam e raramente
buscam assistência terapêutica. Assim, a mudança do comportamento de pessoas (com os

138
Rui Abrunhosa Gonçalves, 1993: 219 citando (Bravo, 1986)
139
Rui Abrunhosa Gonçalves, 1993: 220

103
delinquentes) que beneficiem dos seus comportamentos desviantes é provavelmente muito
mais difícil do que a mudança daqueles que não tiram benefício desse comportamento”.140
Gonçalves citando Diaz (1986) justifica que “a eficácia das intervenções comportamentais
junto de delinquentes deixa muito a desejar sobretudo porque não vai além da modificação de
comportamentos parcelares esquecendo o contexto social em que, futuramente, os ex-reclusos
viverão”141, pois que “o êxito do Tratamento Penitenciário está efectivamente ligado a um
adequado diagnóstico dos sujeitos tendo em vista a sua adequação ou não às intervenções”.142
O autor adverte para a importância de levar a cabo programas “onde as modificações a
implementar comportem aspectos tais como, a importância do comportamento a modificar, as
suas características quantitativas, as manipulações experimentais que permitam verificar, com
clareza, quais são os factores responsáveis pela modificação, a eficácia dos procedimentos e,
por último, a validade das modificações em ordem a estabelecer o seu grau de
generalização”.143
Um dos principais obstáculos que se afiguram à intervenção de melhor qualidade do
psicólogo remete para a inadequação entre as exigências do cumprimento da pena, as
condições do espaço físico, o tempo disponível e o processo adaptativo do recluso.

O autor alerta mais uma vez para a extrema importância dos psicólogos a actuar em contexto
prisional, poderem apresentar-se e exercer as suas funções enquanto tal, e não como técnicos
de Reeducação, apostando-se nos serviços técnico-científicos.

Gonçalves144considera que o psicólogo deve “contribuir através de diagnósticos, testes,


entrevistas e outros procedimentos, para um melhor conhecimento do recluso em ordem a
melhor gerir o seu desvio. Por outro lado, assinala a importância do estabelecimento de uma
relação com o recluso tendo presente que essa relação psicológica assume o carácter de um
“lugar de segredo dentro de um lugar de segredo”.

140
Rui Abrunhosa Gonçalves, 1993:224, citando Feldman (1977)
141
Rui Abrunhosa Gonçalves, 1993:225
142
Rui Abrunhosa Gonçalves, 1993:226 citando Kozol et al. (1972)
143
Rui Abrunhosa Gonçalves, 1993:228
144
Rui Abrunhosa Gonçalves, 1933:234 e 235

104
Acaba o autor concluindo-se pela inexistência de psicólogos nos E.P´s, já que não se efectiva
a sua contratação para os quadros públicos, situação coexistente com uma indefinição do
papel dos psicólogos, que exercem, simultaneamente, funções de psicólogos e técnicos de
reeducação, o que nos leva a findar pela ausência de intervenção de psicólogos no ambiente
prisional português.

13.Comentário aos Inquéritos

No âmbito deste trabalho, e porque um dos principais componentes do mesmo foi a


auscultação, apreensão e enquadramento das considerações de várias classes ligadas ao meio
prisional, procedi à aplicação de questionários145, anónimos, junto dos estabelecimentos
prisionais do Linhó, Tires, Lisboa, Sintra, Monsanto e Carregueira, a uma média de quatro
técnicos de Reeducação por E.P. e a Administradores Prisionais escolhidos aleatoriamente,
sendo certo que alguns dos elementos mantiveram diálogo comigo enquanto procediam à
resposta escrita146 do questionário, tendo havido quem sugerisse transformar o questionário
em entrevista, ao que eu não me opus.

Foi solicitado aos técnicos e administradores prisionais que voluntariamente acederam a


colaborar que, às nove questões colocadas respondessem com base na intuição e na
experiência, não excedendo as trintas palavras por resposta.

Confesso que acreditei que a adesão dos Técnicos e dos Administradores Prisionais seria mais
ávida, dada a simplicidade e celeridade aparentes do inquérito, e por de algum modo, lhes
estar a dar a possibilidade de prostrarem as suas ambições, as suas frustrações, os seus
receios, as suas vitórias e as contingências com que têm de lidar, no entanto, existiram E.P.´s
em que apenas um técnico se mostrou disponível para colaborar (E.P. de Lisboa, e E.P. da
Carregueira), tendo sido avançada pela Administração Prisional destes E.P´s, a informação de
que todos os Técnicos teriam tomado conhecimento do conteúdo do inquérito, no entanto, por
razões que se prenderam com a escassez de tempo, e por considerarem (os técnicos) que,
apesar do anonimato garantido do inquérito, de algum modo ficariam expostos, várias foram
as declarações de escusa à réplica.

145
Anexo II
146
Anexo III

105
Deve mencionar-se que houve Técnicos que demonstraram preocupação em elaborar
respostas devidamente fundamentadas, tendo até excedido a formalidade das trinta palavras
por resposta. Também houve quem considerasse satisfatório responder às perguntas abertas,
com respostas herméticas ou até mesmo fechadas. E houve quem preferisse não responder a
algumas das perguntas, por questões de “segurança”.

Os E.P.´s de Sintra, Tires e Monsanto foram claramente os que demonstraram maior abertura
ao solicitado, e melhor acolhimento do projecto, tendo tido os superiores hierárquicos, a
amabilidade de anunciarem o meu intuito, e de me apresentarem pessoalmente aos Técnicos,
o que prolificou a mais-valia de se ter gerado um ambiente empático e colaborante, tendo
conseguido quatro colaborações no E.P. de Sintra, três no E.P. de Tires e outras três no E.P.
de Monsanto, no entanto foi no E.P. do Linhó que pude contar com o maior número de
colaborações - cinco.

Nos E.P´s do Linhó e da Carregueira, os superiores hierárquicos, receptores do pedido de


aplicação do inquérito e da autorização veiculada pela DGSP, reiteraram a evidência da não
obrigatoriedade de adesão ao inquérito, por parte dos Técnicos.

Não se pretendia com a aplicação, uma amostra quantitativamente considerável, mas sim
qualitativamente tratável, procurando verificar se abundavam pontos de confluência de
opiniões, ou respostas difusas e descomprometidas.

Uma vez que as questões colocadas eram todas elas abertas, optei por referenciar aqui as mais
pertinentes, quer pelo consenso (vários respostas com o mesmo teor), quer pela
particularidade (apontamento de sugestão de relevo).

Passemos à análise das respostas.

A descrição da função desempenhada enquanto técnico é unânime, consubstanciando-se no


acompanhamento de reclusos no âmbito do tratamento penitenciário, com vista à sua
reinserção na comunidade, competindo paralelamente aos administradores prisionais a
coordenação dos vários serviços e eventuais projectos que se estejam a desenrolar, com
ligação a entidades externas ou aos serviços centrais.

106
Relativamente à questão em que se afirma veementemente que o sistema é humano e se
questiona se o mesmo é técnico, as respostas diferem entre si, identificando-se a confusão que
os termos – humanização e tecnicidade podem causar no que toca à sua interpretação, questão
já atrás tratada. Ainda assim é de valorar a discrepância entre respostas, não se notando
qualquer tipo de uniformização, isto é, uns há que consideram o sistema [demasiado ou não]
técnico (no sentido em que são cada vez mais aplicadas metodologias operacionais de
intervenção, sendo esta planificada, sendo igualmente referido que actualmente o pouco
domínio científico que se tem sobre técnicas de imputação de competências não confere aos
técnicos grandes margens de sucesso até porque se considera que a vertente técnica não tem
sido acautelada eficazmente, outros que o consideram [demasiado ou não] humano, fazendo-
lhes muito sentido que assim seja outros ainda que não o consideram nem humano nem
técnico, isto porque aos técnicos são impostos objectivos quantitativos (e qualitativos), no
entanto aqui importam-nos os primeiros, que devem ser cumpridos num espaço temporal
determinado, independentemente de todas as limitações com que um técnico tem de lidar no
seu dia a dia profissional, pelo que consideram ser esquecida a vertente humana do técnico,
também não o consideram técnico porque (e esta foi uma resposta recorrente) acham que não
lhes é manifestamente disponibilizada formação para que o sistema possa ser técnico.

Existe a certeza porém de que 2/3 das respostas são unânimes em considerar o sistema
demasiado burocrático e pouco eficaz.

Quando foram questionados no sentido de identificarem as maiores dificuldades na


concretização dos objectivos consagrados na Lei, as respostas não foram muito díspares,
tendo sido apontadas a manifesta escassez de recursos humanos, e a gritante falta de formação
técnica especificamente orientada para o tratamento penitenciário, alguma falta de recursos
materiais, a burocratização do sistema, a falta de tempo para um estudo criterioso e até
reflexivo sobre todas as opções de tratamento penitenciário disponíveis, o cumprimento de
objectivos que na prática são apenas quantitativos, a desarticulação com os serviços
responsáveis pelo acompanhamento do período pós-pena, a não existência ou generalização
de levantamento de necessidades que conduzam a uma programação de acções objectivas, a
não uniformização de critérios…

107
Quanto às limitações apresentadas pelo sistema prisional, julgou-se que o mesmo se encontra
limitado pelo nrº de funcionários existentes que claramente não têm capacidade de resposta
aos processos que lhe são distribuídos, ficando em média cada técnico responsável por 120
reclusos, a burocratização do sistema não permite um avanço razoável do trabalho
desenvolvido, a excessiva verticalidade do sistema de comunicação organizacional que não
deixa espaço aos técnicos para reflectirem em equipa, o sistema é pouco oleado no que toca a
articulação entre as diferentes estruturas, o sistema torna-se limitado ao não conseguir travar a
grande rotatividade dos dirigentes máximos, uma vez que a linha condutora é muitas vezes
desviada da anterior, não conferindo coerência ao sistema, limitado por não conseguir
acompanhar a mudança de “paradigma” da população reclusa (que entretanto vai adquirindo
novas posturas) conferindo formações actualizadas aos técnicos, o excessivo número de
reclusos limita a aplicação de um tratamento penitenciário, individualizado (ideal), e por fim
as necessidades securitárias inerentes ao E.P. que são necessariamente um travão a
intervenções técnicas mais abertas.

Levantamento de necessidades efectuado, apura-se que há falta de planificação a médio e


longo prazo, falta formação específica em estratégias de intervenção e identificação de perfis
criminais, sentindo os técnicos necessidade de acompanhamento e retorno do trabalho por si
desenvolvido, e necessidade de que a Lei se adeqúe à realidade não impondo o cumprimento
de objectivos irrealizáveis, necessidade de abertura do sistema prisional e promoção de
encontros nacionais dos profissionais técnicos, onde possam partilhar angústias, e vitórias,
partilhando e visando o desenvolvimento de boas práticas prisionais, falta de uma supervisão
mais colaborante, muita falta de tempo para desenvolver uma maior proximidade com o
recluso e conseguir encontrar um caminho viável a seguir, a falta de uma orientação assertiva,
necessidade de descentralizar o poder de decisão concentrado na direcção do E.P..

Quando se lhes solicitou que indicassem razões que eventualmente pudessem explicar a actual
taxa de reincidência, a questão foi claramente devolvida com uma questão pertinente:

-“E qual é a actual taxa de reincidência?”

Em segundo plano, foram apontadas as dificuldades de integração a nível profissional, num


contexto socioeconómico actualmente desfavorecido e curiosamente o sentimento que muitos

108
técnicos partilham de que o facto de terem de cumprir com objectivos maioritariamente
quantitativos, vai implicar uma reinserção de pouca qualidade que a longo prazo vai
contribuir para a reincidência delitual. Foi igualmente apontado, o regresso para um contexto
disfuncional e problemático, após cumprimento da pena e o facilitismo e infantilização do
recluso durante o cumprimento da pena, que de algum modo o não dota de responsabilidade
perante o seu futuro, por outro lado a existência de uma política social desajustada e a pouca
assistência no período pós-libertação, bem com a dependência de substâncias aditivas. Não
auxilia o facto de o trabalho ser desenvolvido com indivíduos já com continuidades
desviantes ou comportamentos enraizados, difíceis de alterar.

Que avaliação fazem os técnicos dos resultados da aplicação do tratamento penitenciário?

Antes de mais verifica-se que a maioria dos técnicos considera que os resultados concretos da
intervenção podiam ser mensuráveis, no entanto não dispõem de estudos longitudinais,
estatísticas ou valores (de preferência apurados por entidades externas ao sistema) que lhes
permitam ter a percepção do bom ou mau resultado do trabalho que desenvolvem diariamente.
Declaram ter a consciência que um bom resultado, resulta de um envolvimento de todas as
partes, quer do recluso com a motivação para alterar eventuais comportamentos
problemáticos, quer dos técnicos com os instrumentos de mudança de comportamento
desviante, com tempo para dedicar a cada recluso (individualização), quer com a formação
humana, intelectual e académica que lhes permite ter uma visão global e abrangente dos
contextos limitativos em que o recluso estava inserido.

Maioritariamente consideram que seria tão importante ter conhecimento das taxas de
reincidência actualizadas como conhecer quantos indivíduos, após cumprimento da pena, se
encontram social, económica, profissional e familiarmente inseridos.

Quando se questiona se consideram o esforço empregue proporcional aos resultados globais, a


resposta dos técnicos é [infelizmente] negativa, tendo havido quem referisse que sentia que a
sua vida profissional nos serviços prisionais era um autêntico mito de Sísifo. Na opinião dos
técnicos, a desproporcionalidade que inferem justifica-se grandemente pelo
desacompanhamento que sentem por parte das hierarquias superiores, e porque apesar das
necessidades já se encontrarem inventariadas não são colmatadas. Neste ponto, a classe de

109
administradores prisionais relembra que a taxa de sucesso em contexto prisional deve ser
posicionada num patamar não muito alto, quer pelas contingências do passado, quer pela
realidade social da massa reclusa.

No final do questionário afere-se do sentimento de recompensa vivido pelos técnicos, em


função do retorno (durante o cumprimento da pena e no período pós-pena) que vão obtendo
dos seus casos individuais.

Na generalidade podemos concluir que a grande maioria se sente realizada e recompensada


pelo trabalho que desenvolve. Referem igualmente que, em período pós-pena, se têm retorno,
é mau sinal porque significa que os indivíduos voltaram a entrar no sistema.

No dia-a-dia, dizem, a sensação de recompensa torna-se ilusória, porque os reclusos não


apresentam habitualmente posturas coerentes, pelo que a verdadeira recompensa só
conseguem ter após a saída em liberdade do indivíduo.

Definem a sua actividade como sendo aliciante, sendo habituais algumas frustrações.

14.A <ecessidade de um <úcleo de Formação Prisional

14.1.Centro de Estudos e Formação Penitenciária português

Conforme o definido pela DGSP147:” O Centro de Estudos e Formação Penitenciária (CEFP)


é um organismo da DGSP especialmente vocacionado para a formação de todo o pessoal dos
serviços prisionais. É também da competência do CEFP colaborar na preparação dos modelos
de recrutamento e selecção de pessoal, nomeadamente do pessoal de vigilância e do pessoal
de carreira técnica de tratamento penitenciário e participar em projectos de cooperação, em
especial, com os PALOP.”

A missão deste organismo consiste na investigação e realização de estudos no âmbito


penitenciário, promovendo acções de formação dirigidas ao pessoal dos serviços prisionais ou
ao pessoal que integre administrações prisionais transnacionais, bem como a entidades que
revelem interesse nos assuntos penitenciários. Cabe-lhes o tratamento da documentação da

147
http://www.pgisp.info/content/view/47/64/

110
DGSP, bem como a concepção de programas de tratamento penitenciário, visionando a sua
aplicação no sistema.

No que se prende com a questão da formação o CEFP deve pugnar pelo desenvolvimento das
competências do pessoal, promovendo o seu potencial, respeitando a missão e estratégia da
DGSP, que no que toca ao modelo organizacional se pretende preparado para responder às
exigências de uma administração penitenciária modernizada, sem esquecer a orientação para
resultados.

A recente alteração legislativa atribui ao CEFP a competência para realizar estudos. A


parceria com Universidades e Centros de Estudos nacionais e transnacionais é uma estratégia
a desenvolver.

Pretendendo-se dinamizar a investigação, atinente ao desenvolvimento de novos moldes de


funcionamento da organização, foi na pendência da última alteração legislativa, atribuída ao
Centro de Estudos e Formação Penitenciária a função de realização de estudos, sendo certo
que parcerias com entidades nacionais e internacionais serão uma mais-valia.

14.2.Escolas Penitenciárias brasileiras

Recuperando o exemplo do Brasil, onde existem Escolas Penitenciárias dada a necessidade


evidente de uma formação específica apesar de pluridisciplinar, disponibilizada para o pessoal
técnico, apraz referir que estas nasceram da necessidade de concentrar a formação,
capacitação e aperfeiçoamento profissional do pessoal técnico prisional, promovendo um
espaço privilegiado de debate, crítica construtiva, produção e sistematização de conhecimento
e experiências sobre política e gestão penitenciárias, processo penal, segurança, programas de
educação e profissionalização, entre outros.
No caso brasileiro a criação deste tipo de equipamentos veio suprir uma lacuna, já que não
existia um sector dedicado à qualificação, treino e formação teórico-prática dos quadros de
pessoal técnico, no entanto, no caso português, evoluiu-se num sentido inverso, já que se
extinguiram os primários Institutos de Criminologia, ao longo do tempo redenominados,
assunto explorado adiante.
Recorde-se a missão das Escolas Penitenciárias brasileiras: “Desta forma, ela [escola]
pretende desenvolver competências técnicas, intelectuais e humanas para o tratamento da
111
pessoa presa, tendo como perspectiva a promoção da cidadania, da dignidade e a inclusão do
recluso penal”, cuja estratégia consiste na educação para a ressocialização, proporcionando
formação integral ao funcionário prisional, desenvolvendo conceitos, atitudes pessoais e as
relações de trabalho no tratamento penitenciário aplicado ao recluso, no fomento da
excelência profissional (treinando a alto nível, competências técnicas como a aptidão, a
eficácia e a eficiência profissional para actuar em meio prisional), da excelência Intelectual
(desenvolvimento da capacidade de pensar criticamente a Instituição e o seu próprio trabalho,
num contexto de integração na sociedade) e da excelência humana (incrementando uma
postura sensível, humanitária e pró-activa na relação com o recluso), e por fim no
estabelecimento de diálogos com forças sociais pró-activas, articulando permanentemente as
considerações sobre formação, trabalho e relação entre técnico e recluso, convidando
quadrantes sociais, governamentais ou não para este exercício.

15.Da Reincidência

Segundo definição avançada pela Direcção-Geral da Política de Justiça, o conceito de


reincidência148 materializa-se enquanto:” Situação do arguido que, por si só ou sob qualquer
forma de comparticipação, comete um crime doloso a que corresponde pena de prisão, depois
de ter sido condenado por sentença transitada em julgado em pena de prisão total ou
parcialmente cumprida, por outro crime doloso, se as circunstâncias do caso mostrarem que a
condenação ou condenações anteriores não constituíram suficiente prevenção contra o crime.”

Por se considerar conveniente e oportuno no âmbito do desenvolvimento deste capítulo, foi


solicitado pedido de informação, acerca da taxa de reincidência, à Direcção – Geral da
Política de Justiça, através da página de internet do organismo149, no entanto a resposta não
foi satisfatória, sendo certo que a taxa de reincidência não consta das informações
disponibilizadas pelo referido organismo no item – Estatísticas da Justiça.

148
http://www.dgpj.mj.pt/sections/siej_pt/metainformacao2925/anexos/conceitos-para-fins/reincidencia/
149
http://www.dgpj.mj.pt/DGPJ/FormularioPIE

112
Os últimos dados relacionados com a taxa de reincidência datam de 2003, podendo apurar-se
pelo relatório oriundo do Provedor de Justiça datado de 2003150, que no período
compreendido entre 1998 e 2002 a taxa de população prisional masculina reincidente subiu
três pontos percentuais, tendo-se registado uma taxa de reincidência de 48% no ano de 1998 e
já de 51% em 2002, valor este digno de apontamento, como aliás se notou pelas palavras que
se citam:”Creio ser este um sinal de alerta, na medida em que a reincidência é a face mais
visível da (não) efectividade da reinserção social”.151
Infere o Provedor de Justiça que:”Na aplicação de recursos” [afectos à reinserção] ” sempre
escassos, haverá lugar para maior investimento na prevenção da primeira reincidência ou,
indiscriminadamente, de todas. A elaboração de estudos científicos poderá propor a maior
eficácia de uma ou de outra abordagem”, recomendando a final, que:”seja sempre garantido
um apoio adequado aos E.P.(s) que albergam população com maior taxa de reincidência, pela
maior dificuldade presumível na obtenção de um dos fins das penas; seja dada uma atenção
primordial aos reclusos primários, principalmente aos que verdadeiramente indiciem não
possuir passado estruturado em termos criminais”, e que:” seja efectuada avaliação, em meio
prisional como no meio livre, da eficácia do sistema prisional na reinserção social dos
reclusos, se necessário estabelecendo o competente quadro normativo.”152
Albuquerque153 pronuncia-se pela inexistência de uma política criminal bem alicerçada, já que
nenhum dos dois pilares essenciais, nem o preventivo nem o repressivo são visados em
Portugal, situação que acarreta consequências negativas quer para o” funcionamento do
sistema penal, para a credibilidade do sistema judiciário e, mais genericamente, para o
equilíbrio e o desenvolvimento da sociedade portuguesa.”, afigurando-se no entanto
primordial que Portugal gere, nomeadamente, uma política de prevenção criminal, já que os
estudos e a própria experiência estrangeira demonstram que esta se demarca pela eficácia e
pela economia de recursos, enquanto instrumento de combate à reincidência, em termos
comparativos com uma política repressiva.

150
http://www.provedor-jus.pt/restrito/pub_ficheiros/RelPrisoes2003.pdf
151
Relatório sobre o sistema prisional,2003:52
152
Relatório sobre o sistema prisional,2003:53
153
Paulo Pinto de Albuquerque, participação na conferência sobre “A reforma da justiça criminal em Portugal”,
organizada pelo Instituto Francisco Sá Carneiro no dia 24.11.2004 e presidida pelo Dr. João Bosco Mota
Amaral.
113
Sendo certo que os Serviços Prisionais, juntamente com os serviços de Reinserção Social
acompanham o recluso durante o cumprimento da pena, auxiliando-o na preparação do seu
regresso à sociedade154, e os Serviços da Reinserção Social garantem o acompanhamento da
liberdade condicional155, a verdade é que após emissão por tribunal competente, do mandado
de libertação156, o ora cidadão (ex-recluso) se vê, em alguns casos, para não dizer em muitos
casos, perfeitamente desamparado quando volta a atravessar os portões de um
estabelecimento prisional, na posse dos seus objectos, valores e documentos, em direcção à
liberdade, à comunidade, à sociedade, à família, ao seu emprego, à rede social donde fora
extraído, à estrada se for condutor, e a uma série de perigos a que ficará exposto enquanto
cidadão que se pretende activo, dos quais ficou afastado nos últimos meses ou anos da sua
vida em que ficou resguardado intra-muros.
Recuperando a proposta apresentada por Albuquerque157no que concerne à criação de uma
Comissão de Prevenção da Criminalidade Violenta e Sexual, conciliadora das vertentes
preventiva e ressocializadora, consubstanciada na prevenção da criminalidade violenta e
sexual aliada a uma assistência social, psicológica e fisiológica prestada aos indivíduos
condenados ou acusados pela prática deste tipo de crimes, questiono-me se não seria
exequível e benéfica a criação de um organismo, de cariz público, sob a alçada do Ministério
da Justiça, autónomo, estabelecendo no entanto parcerias com várias outras entidades públicas
e privadas, e com base em estudos que revelem as necessidades mais prementes, que possam
auxiliar no encaminhamento de ex-reclusos que demonstrem claros indícios de inadaptação
social, por abandono por parte das famílias, por falta ou dificuldade em encontrar trabalho,
por incapacidade económica para manter uma habitação, com as despesas que lhe são
inerentes, alimentação, vestuário, por afastamento dos cuidados de saúde e por afastamento da
rede social (amizades) com a qual entretanto quebrou os vínculos.

154
“Lei nº115/2009,Artigo 135.º1 — Os serviços prisionais garantem, nos termos da lei:a) A execução das penas
e medidas privativas da liberdade,de acordo com as respectivas finalidades”
155
“Lei nº115/2009, Artigo 136.º1 — Os serviços de reinserção social intervêm na execução das penas e medidas
privativas da liberdade prestando assessoria técnica aos tribunais de execução das penas e garantindo o
acompanhamento da liberdade condicional e da liberdade para prova, nos termos previstos na lei.; 2 — Os
serviços de reinserção social colaboram com os serviços prisionais na preparação da liberdade condicional,
promovendo a reinserção social e a prevenção criminal, nomeadamente através de mecanismos de natureza
social, educativa e laboral.”
156
Lei nº115/2009, Artigo 23º
157
Paulo Pinto de Albuquerque, participação na conferência sobre “A reforma da justiça criminal em Portugal”,
organizada pelo Instituto Francisco Sá Carneiro no dia 24.11.2004 e presidida pelo Dr. João Bosco Mota
Amaral.

114
O que se pretende é quebrar o ciclo vicioso da delinquência (polícia-tribunais-prisões) que
estigmatiza o delinquente, institucionalizando-o, e que o deixa pouco apto a um regresso com
sucesso à sociedade.

A incrementação de mais Casas de Transição, enquanto equipamento inovador em Portugal,


mas com imensas provas dadas a nível europeu, será também um passo consistente na
persecução do combate à reincidência, já que

estes indivíduos vêm da prisão, onde estão fechados 24 horas por dia, o que faz com que eles
percam aptidões e competências no mundo exterior. Estas casas servem para esta população
reaprender a viver em sociedade, em vez de serem largados nela, depois de terem
desaprendido muito do que sabiam. Faz ainda parte deste projecto, o desenvolvimento de
planos de inserção individuais com cada residente, que incidem em áreas como a
empregabilidade, a formação escolar, o desenvolvimento de competências, as redes de apoio
sócio-familiar, o apoio económico e a saúde. Eeste contexto, a experiência europeia diz-nos
que estas Casas são uma resposta adequada

, que funcionam nos seguintes moldes:

O indivíduo é sinalizado, a equipa do projecto desloca-se até ao local, por norma 6 meses
antes de ele sair, e durante esses 6 meses a equipa vai vendo que condições são possíveis
criar para tornar a reinserção daquele indivíduo o mais fácil possível. Eo dia em que o
indivíduo sair deve dirigir-se à sede do Projecto Oportunidades para falar com a assistente
social do Projecto ou com outro técnico de referência, educador social, coordenadora do
projecto, após o que assinam um contrato de adesão. Estando o contrato de adesão assinado,
que inclui o respectivo plano de inserção, o indivíduo entra na Casa.
A partir do momento em que os indivíduos entram na Casa de Transição, surge também o
desafio de como ocupar os seus tempos livres.
Eormalmente passam os primeiros dias a tratarem da sua documentação, sempre
acompanhados por um elemento da equipa.
Quando um indivíduo arranja emprego, habitação e já tem a sua vida organizada, sai da
Casa em busca dos seus próprios objectivos, ou seja, continua o seu projecto de vida fora da

115
casa. De referir que podem continuar sempre com a ajuda do Projecto Oportunidades, se
assim o entenderem158.

Quanto ao balanço do equipamento, a Coordenação do projecto é objectiva:” Está provado


que o período em que estes indivíduos têm mais probabilidades de voltar a reincidir é logo
após terem saído da prisão, portanto, estando eles aqui a serem acompanhados, é mais difícil a
sua reincidência. Esta casa serve para eles se estabilizarem numa primeira instância, e de
certeza que eles ao virem para aqui é totalmente diferente do que saírem à deriva para o meio
da rua. O tempo em que têm cá estado, tem sido de certeza uma mais-valia para a sua
integração na comunidade.”

15.1.Visão de Proposta: Plataforma para a Prevenção da Reincidência

Vários indivíduos se têm reunido com o intuito de se lançarem e trocarem ideias que definam
a criação de uma associação, cuja personalidade jurídica ainda se encontra em análise, e cujo
fito se prenderá com o combate à reincidência criminal, elaborando estudos e promovendo
programas de intervenção com delinquentes e pré-delinquentes, acentuando a tónica nos
programas que promovam as competências psicológicas, emocionais e sociais dos sujeitos e
das respectivas comunidades de referência, auferindo-se deste modo uma quebra do ciclo de
institucionalização, que encoraja uma liberdade sem sustentabilidade, que idealmente deverá
ser intervencionada.
Pretendem trabalhar-se as noções de dano e reparação, bem como promover uma participação
activa da sociedade civil e do seu potencial de controlo social e de mediação, envolvendo esta
com os parceiros institucionais e com o mundo académico.

16.Do peso da Criminologia no Tratamento Penitenciário

16.1.Da existência, evolução e necessidade de uma Investigação Científica de foro


Criminal desenvolvida por organismo público

158
http://ww3.scml.pt/media/reportagens/Casa_Transicao.pdf

116
Já António Maria de Sena, director do Hospital Conde de Ferreira, no discurso proferido na
Câmara dos Pares, na sessão acontecida a 7 de Maio de 1888 realçava a necessidade do
legislador dominar a matéria sobre a qual versa, nomeadamente a matéria criminal, para que a
aplicação da lei possa ser fortuita nos seus resultados.
Insurgia-se o pleiteante, do seguinte modo, contra a Lei de 1 de Julho de 1867, que aprovou o
Código Civil Portuguez, na qual se estabelecia em Portugal, entre outros preceitos, o regime
penitenciário de tipo philadelphiano:

Se o 1egislador de 67, considerando o crime como uma doença, estudasse com mais
profundeza a etiologia da criminalidade, veria, como nós os médicos, que há doenças
congénitas que não se curam, doenças crónicas que mal se podem modificar e, enfim, outras
mais simples e menos profundas que podem curar-se com uma terapêutica adequada. Mas o
legislador não fez isso, supôs iguais todos os criminosos e apontou regras de tratamento
idêntico para todos, variando apenas a dose dos mesmos remédios. Se ele tivesse analisado o
criminoso que deseja curar, conheceria que o crime por ele praticado era, umas vezes, a
expressão natural e fatal da sua natureza perversa; que outras, provinha da sua deficiente
educação, do abandono em que havia vivido desde o nascimento; enfim, que, noutros casos, o
crime era perfeitamente casual, explicando-se sempre por circunstâncias imperiosas. Isto
conduzi-lo-ia a classificar os criminosos em três grandes classes: natos, por defeito de
educação e de ocasião.

Após a primeira Grande Guerra, e existindo um já notável e deveras disputado passado de


estudo e investigação criminológica, é sentida a necessidade de progredir, entretanto
imprimida nos avanços notórios registados ao nível da psicologia, que gerou novas correntes,
ao nível da medicina, da investigação bio-criminal, da sociologia, entre outros.

Portugal, dada a conjuntura, considera primordial inserir a Criminologia, enquanto ciência na


estrutura curricular do curso ministrado pelas Faculdades de Direito.
Paralelamente reconhece-se o proveito de se fomentarem centros de investigação,
correlacionados com o meio prisional, e em estreita vivência com as Faculdades de Direito
pudessem contribuir para melhorar o seu ensino, completando-o.
Eis que surgem os Institutos de Criminologia, que acabam por se implantar em todos os
países, primando pelo alto grau de investigação.
117
Portugal dá o primeiro passo com a publicação da Lei de 17 de Agosto de 1899159, dada a
pretensão que tinha de criar um organismo oficial, cuja preocupação se prenderia com a
investigação científica da criminalidade portuguesa, tendo gerado para tal dois postos para
médicos antropologistas criminais em Lisboa e um posto no Porto, a funcionarem junto das
respectivas cadeias civis, e tendo-lhes sido atribuída competência para procederem ao estudo
antropométrico, biológico e social dos criminosos; para apurarem a estatística criminal e
procederem à apresentação de um relatório anual, apresentando igualmente ao Governo
propostas de eventuais alterações fundamentadas nas necessidades decorrentes da prática e na
evolução da ciência antropológica e para prestarem apoio inerente à sua especialização, aos
magistrados judiciais de Lisboa, Porto e Coimbra, bem como aos respectivos Conselhos
Médico-Legais.
A Repartição de Antropologia e Psicologia Criminal, já enquanto organismo autónomo
inserido no Instituto de Medicina Legal vem substituir, em 1918, o Posto Antropométrico
sediado no Porto e um ano mais tarde, com a publicação do Decreto nº 5 609 de 10.5
inaugura-se o Instituto de Criminologia de Lisboa, que se apresenta já com uma área de
competência mais alargada, somando o estudo das causas sociais do crime, bem como a
terapêutica criminal.
Com a publicação no ano de 1927, do Decreto nº 13 254 de 9.3 cria-se o Instituto de
Criminologia de Coimbra, tendo-se procedido à reorganização do já existente em Lisboa.
Existem assim à data, os Institutos de Criminologia de Lisboa e Coimbra e a Repartição de
Antropologia e Psicologia Criminal do Porto, junto dos quais serão colocados os serviços de
identificação e registo criminais, dada a inerência dos serviços, e encontrando-se plasmada no
texto do relatório do Decreto nº 13 254 toda a sua virtude: “Tem-se reconhecido em todos os
países a necessidade de fazer investigações metódicas da criminalidade para determinar, o
mais rigorosamente possível, o seu movimento, a sua distribuição no território nacional, os

159
Preâmbulo do DL 11/98 de 24.1:“A Carta de Lei de 17 de Agosto de 1899, que constituiu o primeiro diploma
legislativo que seriamente se debruçou sobre a realização de perícias médico-legais no nosso país, dividiu
Portugal em três circunscrições médico-legais, em cujas sedes, Lisboa, Porto e Coimbra, passou a funcionar um
conselho médico-legal, ao mesmo tempo que criou uma morgue junto da Faculdade de Medicina de Coimbra e
das Escolas Médicas de Lisboa e do Porto, com vista a garantir a realização de autópsias médico-legais e o
ensino prático da medicina legal, sem deixar de prever a realização de investigações químicas e bacteriológicas
nos institutos técnicos do Estado e nos laboratórios municipais de Lisboa e do Porto. Quase de imediato, em 16
de Novembro desse ano, o Governo publicou o Regulamento dos Serviços Médico-Legais, onde fixou os termos
de funcionamento dos conselhos médico-legais, bem como o formalismo a observar na realização dos diversos
exames médico-legais.”

118
seus factores prováveis, os seus remédios possíveis. Sem a elucidação destes problemas, toda
a política criminal, todo o combate contra o crime tem de ser feito às cegas, na maior das
incertezas, quanto aos meios a empregar e quanto a eficácia daqueles que se tenham
empregado.”

Anos volvidos e pesa a escassez de elementos de identificação, de verbas e de recursos


económicos, decorrentes das publicações regulares dos boletins estatísticos, pelo que se opta
por centralizar num único organismo todos os serviços producentes de estudos estatísticos,
que se viria a denominar Instituto Nacional de Estatística, criado a 9 de Novembro de 1935.
E nesse mesmo ano, os Institutos de Criminologia sofrem mutações a nível organizacional
com a publicação do Decreto nº 26 156 em Dezembro, passando a Repartição do Porto a
denominar-se Instituto de Criminologia do Porto, e tendo ficado então os três Institutos
existentes a nível nacional, sob a alçada da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais.
Outra das alterações registadas prende-se com a sua subdivisão em função das matérias
desenvolvidas, sendo que a 1ª secção debruçar-se-ia sobre o estudo do crime como factor
social, as suas causas e os respectivos meios de o prevenir e reprimir e a 2ª secção procederia
ao estudo dos delinquentes do ponto de vista antropológico, dedicando-se especialmente ao
seu psiquismo.
Por fim, o Boletim dos Institutos de Criminologia colige todos os trabalhos desenvolvidos em
cada um dos Institutos, tendo sido igualmente prevista pela Lei, a organização de cursos de
investigação científica e de preparação técnica.

Avançando no tempo, verifica-se que no Decreto-Lei nº 265/79 de 1.8, é feita, no preâmbulo


do diploma, referência aos Institutos de Criminologia, bem como à necessidade de
reestruturar os moldes em que a investigação é desenvolvida, encontrando-se designado no
artigo 200º160 do diploma que os Institutos de Criminologia estão incumbidos de desenvolver
a investigação criminal, bem como o tratamento penitenciário.

160
“Investigação criminal e execução da pena- Compete aos institutos de criminologia, em conexão com os
serviços de investigação ligados à execução das medidas privativas de liberdade, particularmente no que se
refere aos métodos de tratamento, desenvolver cientificamente os dados obtidos e aplicar os seus resultados na
administração da justiça penitenciária.”
119
Já no Decreto-Lei nº 268/81 de 16.9, responsável pela reestruturação orgânica dos Serviços
Prisionais, os Institutos de Criminologia são considerados serviços externos, no termos do
artigo 43ºnº1 do diploma, encontrando-se plasmada no artigo 90º, a transição dos chefes de
secção e respectivos adjuntos dos Institutos de Criminologia para lugares de ingresso da
carreira técnica superior dos Institutos, por motivo de extinção dos primeiros.
E novamente, na pendência do que já havia sido instituído no Decreto-Lei nº 265/79 volta a
reforçar-se a necessidade de reestruturação dos Institutos de Criminologia, remetida para
diploma especial, conforme artigo 107º do DL nº 268/81.

A dita reestruturação dos Institutos de Criminologia chega apenas dezasseis anos depois, com
a publicação do Decreto-Lei nº 96/95 de 10.5 que procede no seu artigo 16º à extinção dos
Institutos de Criminologia, substituindo os mesmos por um organismo único, sediado em
Coimbra - o Instituto Nacional de Criminologia, que goza de autonomia administrativa e
científica, encontrando-se directamente sob a tutela do Ministro da Justiça, mas encontrando-
se disponível para colaborar e auxiliar todos os serviços responsáveis pela justiça penal.
Porque o preâmbulo do diploma é deveras esclarecedor optei por citá-lo, pois nele se encontra
plasmada a declaração de intenções do organismo ora criado, conforme se comprova:

tem como principal objectivo a elaboração de estudos que forneçam suportes científicos para
a adopção de políticas criminais integradas e de programas de prevenção de criminalidade,
bem como para a avaliação das práticas existentes (…) e, bem assim, a responsabilidade pela
colaboração em acções de formação profissional a cargo de outros serviços. (…) através da
organização de colóquios, conferências ou de outras acções de informação do público, possa
contribuir para o incremento de atitudes sociais mais esclarecidas perante o fenómeno da
criminalidade, tanto no que respeita à solidariedade para com as vítimas, como ao apoio à
reintegração dos delinquentes na comunidade.

A letra da lei parece excepcionalmente consciente e consequente, já que toca nos pontos vitais
e essenciais da actividade investigadora, não obstante, é a partir deste momento que começa a
verificar-se uma crescente desvalorização e desinteresse pelo trabalho desenvolvido,
[colmatada com uma sucessiva redenominação do organismo], que se vem a considerar num
futuro próximo, pouco frutuoso, tendo culminado poucos anos mais tarde na sua mortificação.

120
Assim, dois anos depois, com a publicação do Decreto-Lei nº 289/97 de 22.10, o Instituto
Nacional de Criminologia é extinto, como já atrás se referiu por não se ter mostrado
simplesmente… frutuoso, tendo sido criado, em sua substituição o Conselho Superior de
Assuntos Criminais, enquanto órgão superior consultivo do Ministério da Justiça, sito em
Coimbra, cujas competências, plasmadas em doze itens distintos161, são (na sua essência) em
tudo análogas às competências do extinto Instituto Nacional de Criminologia[!].
É por conta de um alegado “avanço prospectivo “que ocorre a reforma da Lei Orgânica do
Ministério da Justiça, com a publicação do Decreto-Lei nº 146/2000 de 18.7, que extingue
com carácter imediato, nos termos da alínea a) do nº1 do artigo 33º, o Conselho Superior dos
Assuntos Criminais.

Actualmente, não existe em Portugal, um organismo público de Investigação Científica de


foro criminal, que sob a pendência do Ministério da Justiça, se debruce séria e
consequentemente sobre o fenómeno criminológico, que possa e saiba produzir estudos
comparados sobre a matéria a nível europeu e mundial, que permita a Portugal encontrar-se na
vanguarda dos métodos de tratamento penitenciário, que possa instruir, esclarecer e formar
técnicos de excelência, que possa enformar convenientemente as actuais políticas criminais
nacionais, que permita sagazmente institucionalizar uma forte política de prevenção,
permitindo um decréscimo de necessidade da já gasta política de reinserção, que permita um
conhecimento deveras esclarecido dos mais recentes perfis criminais, que confira aos exímios
investigadores e estudiosos do crime, existentes em Portugal, dignidade profissional,
concedendo-lhes o direito de serem reconhecidos pela excelência do produzido, a liberdade

161
“Artigo 2º -Competência-
Ao Conselho Superior de Assuntos Criminais compete: a) Contribuir para a preparação de planos, de programas
de acção e de medidas de política criminal, em particular de prevenção criminal; b) Emitir parecer sobre medidas
de política ou medidas legislativas que lhe sejam apresentadas pelo Ministro da Justiça; c) Apoiar iniciativas,
nacionais e locais, estaduais e comunitárias, de prevenção criminal, de auxílio às vítimas e de colaboração na
execução de sanções criminais não privativas de liberdade; d) Avaliar a efectividade e a eficácia de políticas
criminais empreendidas e confrontar as realizações executadas no seu âmbito; e) Formular e avaliar métodos de
tratamento dos delinquentes; f) Promover a investigação científica no âmbito criminal, propondo a execução de
planos e programas de investigação; g) Desenvolver projectos e actividades de investigação, no quadro de planos
e programas aprovados; h) Propor a celebração de contratos-programa com outras entidades públicas e privadas
para execução de planos e programas aprovados; i) Promover e coordenar a investigação científica que, em
assuntos criminais e no quadro dos planos e programas referidos na alínea anterior, é desenvolvida pelos serviços
do Ministério da Justiça; j) Acompanhar o funcionamento do sistema de notação estatística criminal e apresentar
propostas de aperfeiçoamento; l) Promover debates e acções de informação da opinião pública sobre a política
criminal, em particular sobre acções concretas de prevenção criminal e sobre os seus resultados; m) Contribuir
para a coordenação da formação profissional dos profissionais que, no sector da justiça, contribuem para a
execução da política criminal.”
121
para evoluírem, e a garantia de respeito pela função desempenhada, sem se encontrarem
pendentes de livres arbítrios governamentais.

17.Conclusão

“Portugal é rico na tradição e nos avoengos penitenciaristas e, em certas ocasiões históricas,


esteve mesmo na vanguarda de projectos, sistemas e realizações.”162

“O problema do nosso sistema prisional nunca foi como continua a não ser hoje, no essencial
um problema de má legislação ou falta dela, antes consiste num problema de falta de visão
global da estratégia adequada à execução das leis elaboradas (falta de vontade política e
administrativa, falta de organização e de gestão, falta de meios humanos, técnicos e
financeiros e, também, falta de empenhamento da própria sociedade no seu conjunto) ”.163
Inaugurei a minha conclusão com base nestas duas acepções porque muito me revejo nelas.

É indispensável que o legislador, bem como os investigadores e estudiosos que se proponham


debruçar sobre o sistema prisional português, com a finalidade de melhor o entenderem, ou
até de o dilatarem, adaptando-o às ininterruptas e renovadas realidades, e enquadrando-o a
nível nacional, europeu e mundial, mantenham com ele, e utilizando uma expressão de
Moraes Rocha164, “um contacto directo, actual e de forma não episódica”, e isto para que uma
quimérica composição textual não seja somente consoladora para o espírito, porque
actualmente o é, mas que consiga trajar também a realidade, sem que as vestes lhe não
assentem.
Nos dias de hoje, os Sistemas engolem os Humanos, carecidos de Técnica, para lidarem pró-
activamente com os personagens que completam os primeiros, sem que se sintam largados
unicamente, ao seu próprio senso comum.

162
Anabela Miranda Rodrigues, 2002: 185
163
Relatório da Comissão de Estudo e Debate da Reforma do Sistema Prisional, 2005, pp.30
164
João Luís de Moraes Rocha, aquando da sua intervenção no debate sobre a Reforma do Sistema Prisional,
promovida pelo Observatório Permanente da Justiça Portuguesa a 10.10.2003

122
Sugere-se humildosamente, e porque se julga útil, a possibilidade de se promoverem
intervenções oficiosas, - pressupondo o apoio da Ordem dos Advogados, durante a execução
da pena ou medida privativa da liberdade. Já atrás se ofereceu o prenúncio de criação de uma
associação dedicada à investigação e promotora do combate à reincidência. A promoção de
encontros, nacionais ou internacionais, onde se possam reunir as classes profissionais aliadas
ao meio prisional, com vista à troca de experiências, interrogações e técnicas não se mostra
despicienda. Urge apostar na investigação científica (formação específica, adequada às
necessidades) de carácter criminal e penitenciário, recuperando a essência dos Institutos de
Criminologia, debaixo da alçada do Estado, sob pena de se estarem a licenciar e pós-graduar
indivíduos em Criminologia sem existir cabimento profissional para os acolher. Quebre-se o
pudor garantista de incutir disciplina, obediência e responsabilidade, com um excelso
respeito. Nunca nenhum ser humano menos se engrandeceu por ter acatado algum destes
atributos. Que exista uma aplicação pragmática, consequente e continuada de iniciativas
nacionais e comunitárias. Tente desmistificar-se o dogma Donec eris felix, multos numerabis
amicos pois, Re opitulandum, non verbis.
Sou administradora de um blog165 de informação penitenciária (onde se reportam notícias
referentes ao meio prisional, onde se trocam experiências, onde os voluntários se podem
expressar, onde se encaminham pessoas…), sob alçada da IPSS –F.I.A.R. (Fraternidade das
Instituições de Apoio ao Recluso), da qual faço parte da Direcção.

A dada altura do processo de investigação levado a cabo, no interesse deste trabalho,


questionei Maria166, uma minha sobrinha de onze anos, frágil na casca mas assertiva até ao
tutano, acerca de qual seria, no seu entendimento o propósito de se cercear a liberdade a
outrem.
A resposta foi breve, concisa e de todo despida de nenhuns cuidados teórico-legislativos.
Foi farta. Foi de criança. E foi na minha opinião humana.

165
http://www.fiar-linho.blogspot.com/
166
Maria Ana Barata de Paiva Teles Teixeira

123
“As pessoas estão lá de castigo. Alguma coisa de mal devem ter feito. Eu tinha medo, aquilo
é tão escuro e deve ser muito frio. Einguém lá pode entrar, não é? Tu não tens medo quando
lá vais?”

Reconheço que senti a necessidade de esquadrinhar nos meus “pretéritos” uma justificação
para uma qualquer sensação vibrante perante os motes penitenciários. Descobri qualquer
coisa. Talvez seja esta a resposta, também existe a possibilidade de não ser. Pelo menos fui
feliz por descobrir.
O meu avô materno, António Baptista de Oliveira, natural de Odeceixe, trabalhou na
construção do E.P. de Tires como marceneiro. Hoje sou lá voluntária.
O meu bisavô paterno, Francisco de Paiva Teles, natural de Braga e pharmaceutico de
profissão, cumpriu dois anos de pena de prisão na Cadeia comarcã de Braga, por ter vingado a
morte do irmão. Estive lá à porta.

Humanização? Sim.
Melhor ainda. Dignificação Humana.

Elíxir da reinserção social, ou inserção, como preferirem, não existe.


Talvez numa futurista e ultra-moderna sociedade se deslinde.
Até lá, investigue-se.
De preferência partilhando o dióxido de carbono existente numa cela.

124
18.Anexos

18.1.Textos resultantes de convites endereçados

Humanizar as Prisões
Ludgero Paninho
Psicólogo Clínico / Administrador Prisional

“Sempre achei esta frase um problema em si mesmo!


A prisão é um construto de humanos para humanos. Não é ideal mas ainda não se lhe
descobriu alternativa, pelo menos para os delitos mais pesados e que põem em perigo o
cidadão que os pratica e os cidadãos que com ele se cruzam.
Humanizá-la mais é impossível! A prisão padece de todos os factores relacionados com o
facto de termos humanos a controlar em absoluto a vida de outros humanos. E os humanos
têm crenças, afectações, dores, esperanças e outras coisas mais, de um lado e do outro do
pretenso muro que os separa mas que acima de tudo os une ainda mais.
Mas o que a prisão mais precisa é de rentabilizar o tempo em que tem o cidadão ao seu dispor,
usando-o no tempo estritamente necessário para o mudar para melhor. Precisa, portanto, de
ser mais técnica! Precisa de decisões sobre como ocupar eficazmente o tempo de quem
acolhe, de gerir esse tempo e a sua progressiva abertura de uma forma contingente com a
capacidade e a vontade de mudança do recluso. Precisa que as decisões sejam tomadas por
humanos com conhecimentos técnicos de criminologia e de técnicas de modificação do
comportamento, de humanos que sejam capazes de uma liderança firme e inspiradora de
mudança. Precisam de modelos, com muita firmeza, muita disponibilidade e muito afecto.
Precisam de tempo e espaço para trabalharem os deveres a incutir aos que nela vão parar, não
descurando os direitos desses cidadãos, nomeadamente o direito que têm a aprender a viver de
forma mais ajustada e harmoniosa com os interesses do todo social, o direito a aprenderem
que têm de semear muitos dias para colher em outros bem mais à frente, o direito a darem
algo aos outros sem todos os dias receber algo desses mesmos outros, o direito que têm de
aprender que os outros têm também os seus direitos.
Nem sempre os humanos sabem isto tudo! Somos humanos, nascemos humanos, com tudo de
bom e de mau que isso acarreta. O que temos, certamente, é de tornar as prisões em escolas de
vida mais ajustada e mais consequente, para sermos mais o colectivo e menos o individual.
125
Podíamos até ser lobos e não humanos, mas até uma alcateia tem regras para que se viva em
sociedade sabendo cada um reconhecer o seu lugar e o seu papel. E a cada momento cada um
dos lobos do lado é polícia, juiz, e carrasco de quem se desvia um pouco que seja do caminho
da matilha.
Saibamos todos, a cada momento, ser o ombro do lado onde se recompõe um qualquer
desequilíbrio momentâneo, ou porque estamos simplesmente lá quando o desequilíbrio
ocasional nos procura para voltar ao trilho certo, ou quando o movimento do outro se
intromete no espaço que é nosso e temos de o fazer voltar ao que é seu preservando ao mesmo
tempo o que é nosso.
Em ambos os casos somos o parceiro do lado! Só assim podemos continuar a sê-lo!”

126
Crime e Castigo – o poder da mente
Elizabete Carvalho
Ex-Reclusa

“Sempre que leio ou oiço discussões e medidas sobre este tema, pergunto – me a mim mesma,
aquilo que gostaria de perguntar aos implementadores das sucessivas medidas puramente
burocráticas que vão ou pretendem ir no sentido da humanização do sistema prisional.
“Vamos mudar o mundo?”

Acredito e sempre acreditei no “trabalho” e vejo nele solução para muitas mazelas
consideradas incuráveis. Nunca a humanização do sistema prisional será levada a bom porto
se não se começar pela base - a desumanização. Estudá-la, analisá-la … trabalhar mentes é
uma tarefa complexa e morosa, mas é na mente e da mente que tudo parte.

Longe vão os tempos em que as prisões eram consideradas escolas de vida, em que a
população acreditava que os “mauzões” depois de cumprir pena se tornariam homens de bem
– hoje em dia, a minha percepção, que é no fundo a percepção popular, ainda que mais
apurada devido à minha experiencia “in loco”, é de que as prisões estão única e
exclusivamente reservadas aos desafortunados! A todos aqueles que não têm poder
económico para pagar a própria defesa … a todos os pequenos delinquentes cuja sociedade
nem dá pela sua presença, nem dentro das prisões nem fora delas …

Incutir nas mentes dos profissionais que trabalham em prol da justiça, que cada recluso é um
cidadão e como tal deve ser tratado, somar esforços para que o sistema penal seja imparcial e
justo, ter sempre presente que o cidadão recluso, continua a ser cidadão, continua a ser pessoa
e a ter direitos, que pode e deve exercer, bem como deveres, que devem também estes ser
incutidos na sua mente.

Responsabilizar!! Responsabilizar os profissionais para a necessidade de adoptar uma postura


humana, sensível e aberta o quanto baste, ainda que firme e justa.

Responsabilizar o recluso – atribuir-lhe responsabilidades … deixar claro que, o recluso “não


entra em coma” no momento que é detido nem perde a sua dignidade enquanto pessoa –

127
encorajar a sua vontade de “crescer” enquanto pessoa e de modificar o rumo da sua vida.
Lançar-lhe objectivos!

O Estado não pode ter apenas a função de dar condições dignas ao cidadão durante o
cumprimento da sua pena, tem sobretudo a missão, muito maior, de criar condições que
possibilitem a recuperação do individuo recluso para que este possa reinserir – se numa
sociedade, que é sua!

“Vamos mudar o mundo?””

128
Restaurar a humanidade em contexto prisional
Bruno Caldeira
Presidente da Associação de Mediadores de Conflitos

“Embora ambicioso, o objectivo expresso no título do presente texto surge como uma
necessidade imperiosa quando se percebe o modo como os reclusos analisam a sua situação e
o impacto dessa análise no seu processo de reinserção. Estudos realizados em
estabelecimentos prisionais portugueses sugerem que o sistema prisional é percepcionado
pelos reclusos como “predominantemente impositivo, com regras rígidas e permitindo pouco
envolvimento dos sujeitos no seu próprio percurso de reclusão e (re)inserção social” (Moraes
Rocha et al., 2005). Ao não permitir o envolvimento do próprio, o sistema parece incapaz de
responsabilizá-lo por um processo que é seu, não lhe reconhecendo um direito que parece
inalienável: o de participar de forma responsável, sendo escutado e respeitado em função das
suas necessidades.

A realidade vivida num estabelecimento prisional (ou, como se propõe, numa comunidade
penitenciária), embora definida segundo padrões bastante rígidos, é um espaço relacional em
que diferentes visões, necessidades e interesses se encontram, dando origem, inevitavelmente,
a conflitos. Tem-se defendido que os conflitos devem ser valorados não por si mesmos, mas
pela forma como são geridos e que esta gestão será mais adequada se tiver como ponto de
partida o respeito mútuo, elemento essencial para relações verdadeiramente humanas.

A introdução de programas baseados em princípios restaurativos será uma das formas


possíveis de permitir uma participação activa e responsável de todos os elementos da
comunidade penitenciária, começando por servir como um convite para o diálogo e a
exploração, de modo a encontrar a forma mais adequada de aplicar os princípios restaurativos
à realidade (única) de cada comunidade (Zehr, 2002).

Apesar da necessidade de adaptação da aplicação dos programas, é pertinente apresentar


alguns aspectos essenciais que servem de ponto de partida para o seu desenvolvimento. Em
primeiro lugar é importante que se consiga ter uma clara noção do modelo de comunicação
que a comunidade penitenciária utiliza e que espaço existe para a participação de todos. A

129
redefinição do modelo de comunicação proporcionará a oportunidade para, através de
formação, trabalhar estratégias de gestão de conflitos em que elementos como o respeito, a
cooperação, o atender das necessidades e a separação pessoa/problema estejam presentes.

Uma das características essenciais do trabalho proposto é a participação, voluntária e


responsável, dos intervenientes. Por isso mesmo a sua introdução deve estar dependente não
de uma decisão superior, mas sim de uma necessidade sentida, e preferencialmente expressa,
pela comunidade. Como se referiu no início, há já indícios que apontam a existência de uma
necessidade que pode ser atendida por este tipo de programa, mas uma outra realidade retirada
do estudo citado responsabiliza os dirigentes dos estabelecimentos prisionais (e
consequentemente a tutela). Pelos dados recolhidos, é evidente a diferença entre as opiniões
de reclusos que se encontram em estabelecimentos prisionais em que existem respostas
específicas para as suas necessidades e os casos em que tal não se verifica.

Este apoio institucional, traduzido em acções concretas que permitam humanizar não só o
espaço prisional, mas também os relacionamentos que acontecem nesse espaço, parece de
primordial importância para atingir o objectivo da reinserção apresentado por Genovés e
Piñana (cit. por Moraes Rocha et al., 2005) como o treino das competências sociais do
indivíduo que delinquiu. Para tal, ter-se-á que criar as condições necessárias para que novos
modelos relacionais possam ser experienciados e para que seja reconhecida a possibilidade de
todos os intervenientes se poderem expressar sobre questões relevantes para cada um deles.

Sendo esta uma nova perspectiva que se pretende introduzir na realidade portuguesa, e
respeitando os princípios que são aqui defendidos, há que conseguir não só recolher as
opiniões de todos aqueles a quem este tipo de programa se dirige (reclusos, guardas prisionais
e outros funcionários dos estabelecimentos prisionais e directores) mas também avaliar os
seus resultados sob o ponto de vista do seu impacto na sociedade.

Tendo em conta o conhecimento existente sobre programas deste tipo realizados noutros
países europeus, parece claro que esta deverá ser uma aposta (necessária, mas não exclusiva)
a fazer para concretizar este propósito de humanização, tão necessário, especialmente em
contextos potenciadores de exclusão. “

130
Bibliografia
Moraes Rocha, João Luís et al. (org.), (2005), Entre a Reclusão e a Liberdade – Estudos
penitenciários, Vol. I, Coimbra: Almedina.

Zehr, Howard (2002), The little book of Restorative Justice, Intercourse: Good Books.

131
A humanização da prisão na perspectiva de um director prisional
Carlos Alberto Marques Pinto
(Ex) Director Prisional do E.P. de Pinheiro da Cruz

“Pede-me a Dr.ª Sílvia de Sousa Pinto que lhe redija um texto de “apenas uma página A4”,
subordinado ao tema “a humanização da prisão na perspectiva de um director prisional”,
para inserir na sua tese de Mestrado.

Embaracei-me ao pensar como espartilharia alguns “garatujos” teclados, de um tema desta


abrangência, em tão exíguo espaço. Descansei-me, decidindo não fazer quaisquer citações de
ilustres penitenciaristas e expor, com singeleza, somente aquilo que me ficou de dez anos de
experiência.

Director Prisional de instituição central, aposentado há mais de nove anos, perguntei-me


também, naturalmente, porque haveria de ser eu e não um Director actual, porventura mais
actualizado, a ser distinguido com esta pequena honraria.

Percebi que, conhecendo-se o meu percurso crítico, ao nível do sistema prisional, de tal
ordem que me olhava a mim próprio como excrescência do mesmo, seria interessante uma
voz independente.

Tenho para mim que o fim último de qualquer sistema prisional evoluído, e o mais objectivo,
para as respectivas sociedades que o Estado e a Prisão devem servir – para além da nobre
ressocialização – será a progressiva diminuição da taxa de reincidência aproximando-a do
mínimo possível, face ao estado de humanização das próprias sociedades civis que deveria
tender para os antípodas da violência, da criminalidade e da ambição puramente material.

O que vale por dizer que, sendo a ressocialização e a taxa de reincidência também directa e
indirectamente dependentes dos estádios socioeconómico, ético e dos valores dos Países, a
humanização dos sistemas prisionais é, porventura, a base sobre a qual assenta o sucesso das
sociedades contemporâneas no domínio da paz social.

E humanizar não deve significar reduzir a disciplina e a segurança, bem pelo contrário, sendo
factor indispensável à reeducação, à ressocialização activa e à mais consistente segurança

132
institucional interna e das sociedades onde os condenados serão inexoravelmente inseridos,
hajam ou não sido ressocializados.

Sendo a Prisão, uma instituição de matriz complexa, constituída por malhas por vezes
justapostas, quiçá, aparentemente antagónicas e organizacionalmente difíceis de
compatibilizar, na sua inevitável convivência (os presos e os guardas, os administrativos e os
técnicos, os operários e os professores, os médicos e os dirigentes, enfim, as famílias dos
presos e a dos próprios funcionários - todos condenados a viverem problemas, dramas e
alegrias, comuns aos seres humanos) o seu valor padrão, condutor da ambiência institucional,
se de cariz profundamente humanista é o factor de contágio à humanização da prisão e esta, o
único sentido conducente do que apelidámos de fim último dos respectivos sistemas.

Será legítimo perguntar: e Portugal, como está? Onde se situa no processo de humanização do
sistema?

Passando em revista as últimas três décadas creio que a época de ouro da humanização das
prisões se situa entre 1990 e 2000 sendo que o primeiro decénio do século XXI foi período de
regressão.

Será pacífico para todos os agentes responsáveis pelos sistemas prisionais europeus que,
sendo as instalações físicas (se arquitectonicamente humanizadas) factor importante para a
qualidade dos sistemas – a Comissão dos Direitos, Liberdades e Garantias e Contra os
Tratamentos Humanamente Degradantes do Comissariado dos Direitos Humanos do
Conselho da Europa já definiu parâmetros e índice de classificação – não será o primordial
índice de qualidade/humanização das prisões. Este será, sim, o ambiente institucional
humanista definido, ao nível da matriz institucional, pela harmonização das malhas pelo
respectivo valor padrão.

E como se define e encontra este valor padrão?

Pelo valor das mulheres e dos homens que integram o sistema.

E isso tem acontecido na última década em Portugal?

Extinguiu-se a página A4 pela qual a Dr.ª Sílvia me limitou. “

133
Humanização das Prisões
José da Mata de Sousa Mendes
Director da F.I.A.R.

“Numa visão estritamente punitiva, a pena aplicável ao condenado tem algo subjacente que a
rebaixa para um patamar de vingança (colectiva).
«No mundo de hoje o conceito de Justiça é, em geral, aquele que põe ênfase num castigo
rigoroso para os infractores, ou seja, o castigo deve igualar ou inclusive exceder o delito» (cf.
Prison Fellowship International, “Global Link”, Maio de 2007)

Uma sociedade que castiga por impulso de vingança não é uma sociedade à altura dos valores
humanos e éticos que fundamentam a civilização ocidental.
Permanece, todavia, a nossa esperança de que a pena imposta aos que a merecem – e, entre
todas, a pena de prisão, ou seja, a privação do bem mais precioso que é a liberdade individual
– venha a transformar-se em verdadeiro remédio salutar.
Uma sociedade que pretende pautar-se por valores de justiça e de solidariedade e que, para
viver em segurança, assume os custos inerentes a um sistema prisional, não pode nem deve
deixar de querer o retorno desse investimento, através da própria recuperação das pessoas dos
detidos com vista à sua reinserção social, como também a eliminação ou, pelo menos, a
drástica redução do fenómeno da reincidência.
Não se pode, não se deve, sem ofensa grave aos direitos fundamentais da pessoa, deixar
apodrecer no cárcere um homem que transgrediu, mas que, pelo simples facto de o ser merece
que se lhe dê uma oportunidade para ser melhor.
É preciso que, quer a Sociedade, quer o Estado, se consciencializem e ponham em prática, a
montante da prisão, as condições de prevenção eficazes contra as causas do crime e, a juzante,
medidas que restaurem e consolidem as relações afectadas e, bem assim, sejam geradoras de
paz.
É preciso enxergar para além do crime e do castigo, ou seja, orientar-nos por uma óptica de
“Justiça Restaurativa” centrada na reparação do mal causado pelo ofensor, na aproximação
vítima/ofensor, no relacionamento de ambas com a comunidade e na possibilidade de
mudança interior que é oferecida ao agressor e a todos os afectados pelo crime.

134
Neste enquadramento é possível encontrar soluções capazes de ajudar a pessoa do recluso a
reconciliar-se consigo própria, com as vítimas dos seus actos, com a família e com a
comunidade a que pertence e, deste modo, ressurgir para “uma vida nova em sociedade”.
São, por exemplo, as comunidades prisionais baseadas na confiança, co-responsabilização e
disciplina, com destaque para a metodologia brasileira da APAC.
Tudo isto se torna claro porque no íntimo da consciência é-nos revelado que somos maiores
que os nossos erros, maiores que o nosso pecado, maiores que a nossa culpa. Passámos a
aceitar algo que transcende o nosso entendimento, mas nos dá a paz.
Todo e qualquer homem tem direito a ser feliz.

Querem uma sugestão?


Façam como eu : Visitem a APAC de Itaúna – “prisão sem guardas” brasileira – e partilhem a
vida diária, 24 sobre 24 horas, dos “recuperandos” durante uma semana, para entenderem o
que pode ser um verdadeiro instrumento global integrado de medicina salutar, para “matar o
criminoso” e salvar o homem!”

135
Humanização do Sistema Prisional
António Marinho Pinto
Bastonário da Ordem dos Advogados
(reunião realizada na sede da O.A. a 2.12.2009)

Este texto resulta das anotações extraídas do diálogo mantido com o Bastonário da O.A.,
consistindo portanto, em ideias e opiniões expressadas pelo autor.

Lançado o tema – Humanização do Sistema Prisional - referiu o Bastonário que se convive


actualmente com uma cultura fundamentalista e justiceira, e para isso, deve o processo ser
conduzido por um juiz e não por quem o constitui arguido e o condena. Isto para a punição
não ser vista como vingança.

Para acautelar aquilo a que chama “trabalho forçado”, Marinho Pinto propõe um trabalho
remunerado, com redução de pena, contemplando-se a figura da remição: “Por cada cinco dias
de trabalho efectivo voluntário, que não pode ser obrigado, o recluso possa descontar um dia
na sua pena”, transformando o trabalho num motor de ressocialização.

Marinho Pinto realçou a importância de extinguir o facto de “os reclusos trabalharem a preços
absolutamente irrisórios, às vezes preços que o aproximam do trabalho escravo ou do trabalho
forçado”.

Para a além da dignificação do recluso, o bastonário quer que seja dignificado o processo de
instrução de penas, pois “quando se condena, condena-se a uma pena privativa da liberdade,
não privativa da dignidade”.

O Bastonário referiu igualmente a existência de demasiadas mortes nas prisões devido à falta
de cuidados de saúde e ao ambiente nas cadeias, que tem levado a muitos suicídios,
justificados pela problemática da toxicodependência, que encontra no cumprimento da pena
de prisão um alongamento da dependência e pela quebra dos laços familiares de que sofrem
os reclusos internados longe de casa, que determina o isolamento do recluso e a dificuldade da
família o visitar com mais regularidade.

136
Marinho Pinto, parafraseando Foucault, defende que a sociedade deve abrir as portas à
sociedade, no sentido figurado, claro está, alegando que “os muros das prisões são demasiado
altos, pouco transparentes e a sociedade precisa de saber o que lá vai dentro.”

O bastonário menciona que “a maior parte das prisões são universidades do crime, e devem
ser, pelo contrário, um exemplo. As prisões devem ser um local de esperança. Esperança no
recluso que vai sair de lá apto a reintegrar o convívio social. E esperança da sociedade, de que
os que delinquiram sairão de lá capazes de voltar ao convívio social”.

Deve continuar a apostar-se na separação dos reclusos pela idade, pela situação de
primário/reincidente, pelo tempo da pena…

O que marca a passagem da barbárie para a civilização na história da Humanidade é


justamente aquele momento em que o Homem chama a si o monopólio da administração da
Justiça. Hoje, isso não está a acontecer. É o regresso à barbárie, um retrocesso civilizacional,
utilizando a expressão “vindicta publica”. O Estado está a tirar a administração da Justiça dos
tribunais, e está a remetê-la para as conservatórias de registo civil, para centros de mediação.

Alerta o Bastonário para a necessidade do sistema prisional se colocar mais no papel da


vítima, considerando as suas necessidades, bem como no lugar da família do criminoso, que
tantas vezes fica desamparada.
Também refere o autor que devem as Câmaras Municipais apostar na recuperação das velhas
cadeias comarcãs, como factor de aproximação entre o recluso e a sua habitual rede social.
Considera que o Observatório das Prisões podia e devia colaborar na divulgação da actual
situação.
Quando introduzido o tema do garantismo, o Bastonário declinou imediatamente o seu
excesso, pois os reclusos devem dispor de todos os direitos constitucionalmente protegidos,
tantas vezes preteridos.

137
18.2. II - Questionário aplicado a Administradores Prisionais e Técnicos de Reeducação
(e outros).

Universidade Autónoma de Lisboa

Curso de Mestrado em Ciências Jurídico-Criminais

Tema: “A Humanização do Sistema Prisional integrada no Tratamento Penitenciário com


vista à Reinserção Social”

Orientador: Professor Doutor Paulo Pinto de Albuquerque

Mestranda: Sílvia de Sousa Pinto – BI 11696921

QUESTIONÁRIO

1) Descreva-me, sumariamente, em que consiste a sua função enquanto Técnico(a).

2) “O Sistema é humano. Será Técnico? (leia-se planificado, consequente, eficaz…)”.Qual a


sua opinião?

3) Consegue identificar-me as dificuldades, com mais peso, sentidas pelos Técnicos na


concretização dos objectivos consagrados na Lei?

4) Consegue elencar-me as limitações do próprio Sistema?

5) Identifique por favor, as necessidades sentidas no decorrer da sua função enquanto


Técnico.

6) Que razões encontra que auxiliem a compreensão da actual taxa de reincidência?

7) Como avalia os resultados concretos da aplicação do tratamento penitenciário? São


mensuráveis?

8) Considera o esforço que emprega no desempenho da sua função proporcional aos


resultados globais?

138
9) Sente-se recompensado no desempenho das suas funções, pelo feedback que vai obtendo
dos casos individuais que lhe cabem?

TÉCNICO DE_____________________________

E.P. ____________________________________

Obrigada pela colaboração!

2009

139
18.3. III- Respostas da amostra aos Inquéritos

Universidade Autónoma de Lisboa

Curso de Mestrado em Ciências Jurídico-Criminais

Tema: “A Humanização do Sistema Prisional integrada no Tratamento Penitenciário com


vista à Reinserção Social”

Orientador: Professor Doutor Paulo Pinto de Albuquerque

Mestranda: Sílvia de Sousa Pinto – BI 11696921

QUESTIONÁRIO

1) Descreva-me, sumariamente, em que consiste a sua função enquanto Técnico(a).

Como Administradora Prisional desempenho funções de Adjunta da Direcção e coordeno os


Serviços de Educação e Ensino e os Serviços Clínicos do E.P..

2) “O Sistema é humano. Será Técnico? (leia-se planificado, consequente, eficaz…)”.Qual a


sua opinião?

Cada vez mais há uma tendência para humanizar o sistema, através das medidas de
flexibilização da pena e das diversas actividades ao nível do ensino, formação e grupos de
inter-ajuda.

3) Consegue identificar-me as dificuldades, com mais peso, sentidas pelos Técnicos na


concretização dos objectivos consagrados na Lei?

Morosidade do sistema judicial, demasiada burocracia.

4) Consegue elencar-me as limitações do próprio Sistema?

Ausência de critérios idênticos em todos os EP´s, regulamento único bem como processo
único.

140
5) Identifique por favor, as necessidades sentidas no decorrer da sua função enquanto
Técnico.

Elevado rácio por técnico.

6) Que razões encontra que auxiliem a compreensão da actual taxa de reincidência?

Para além dos casos patológicos, a falta de emprego e por conseguinte as condições sócio -
económicas dos seus agregados familiares.

7) Como avalia os resultados concretos da aplicação do tratamento penitenciário? São


mensuráveis?

A nível do tratamento penitenciário é possível em determinados casos obter taxas de sucesso


e como tal são mensuráveis.

8) Considera o esforço que emprega no desempenho da sua função proporcional aos


resultados globais?

Procuro superar todos os objectivos que me são impostos bem como os que dizem respeito ao
EP e que a equipa se envolva também no seu cumprimento.

9) Sente-se recompensado no desempenho das suas funções, pelo feedback que vai obtendo
dos casos individuais que lhe cabem?

Eas minhas funções não acompanho casos, no entanto todo o trabalho que desenvolvo é
reconhecido e sempre procuro dar o meu melhor.

TÉCNICO DE__Administrador Prisional__________________

E.P. ________Carregueira____________________________

Obrigada pela colaboração!

2009

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18.4 IV- Pedido e resposta da DGPJ acerca da taxa de reincidência

Estatísticas da Justiça
1 mensagem

Direcção-Geral da Política de Justiça <correio@dgpj.mj.pt> 7 de Janeiro de 2010 12:46

Para: silviadesousapinto@gmail.com

Exma. Senhora
Sílvia de Sousa Pinto,
Na sequência do seu pedido, informo que não dispomos de dados sobre a taxa de
reincidência criminal.
Aproveito para informar que está disponível o novo sistema de consulta e importação das
Estatísticas da Justiça, ao qual pode aceder directamente a partir do site da DGPJ em
www.dgpj.mj.pt. Com este sistema, a consulta dos dados passa a ser feita de forma
dinâmica e adaptável às necessidades do utilizador, sendo possível igualmente importar
ficheiros com os resultados estatísticos pesquisados.
Com os melhores cumprimentos,
Maria João Morgado Costa
Directora de Serviços
Direcção-Geral da Política de Justiça
Av. Óscar Monteiro Torres, 39
1000-216 Lisboa

-----Mensagem original-----
De: Direcção-Geral da Política de Justiça
Enviada: quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009 15:39
Assunto: Pedido de Informação Estatística - Sílvia de Sousa Pinto

DADOS
------------------------------------

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Nome: Sílvia de Sousa Pinto
E-mail: silviadesousapinto@gmail.com
Morada: rua josé moreira rato,lt6, bl2B, R/C, 2770-106 Paço Darcos
Telefone: 919142600

PEDIDO
------------------------------------
Finalidade: Trabalho académico
Outro:
Pedido: Necessito da taxa de reincidência(criminal) actualizada. Se me puderem ajudar
agradeço desde já.

189
BIBLIOGRAFIA

ALBINO, Maria Clara; GONÇALVES, Rui Abrunhosa; PANINHO, Ludgero - Manual de


Acção Social Prisional. INA – Instituto Nacional de Administração, 2007.

ALBUQUERQUE, Paulo Pinto de - Direito Prisional Português e Europeu. Coimbra:


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BECCARIA, Cesare - Dos delitos e das Penas. Trad. José de Faria Costa. Edição da Fundação
Calouste Gulbenkian, 1998.

BENTHAM, M. Jérémie - Théorie dês Peines et dês Récompenses. Troisiéme édition, tome
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BRANDÃO, Manuel de Sousa - Direito Penitenciário. Porto: Athena Editora, 1982.

CORREIA, Eduardo - Ainda sobre o problema da «Ideologia do Tratamento»: Algumas


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Lisboa: Aequitas, Editorial Notícias,1993.

DIAS, Jorge de Figueiredo - Liberdade, Culpa, Direito Penal. 3º edição. Coimbra:Coimbra


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Delinquente e a Sociedade Criminógena. Coimbra: Coimbra Editora, Lda., 1992.

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Direcção Geral dos Serviços Prisionais - Temas Penitenciários, número 2.89, 1989.

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Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. Edição Século XXI, nº15. São Paulo, Lisboa:
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FERRAJOLI, Luigi- Garantismo e Direito Penal. Trad. Pedro Vaz Patto. Revista JULGAR-
Número Especial, Artigo. Pág. 51 a 64, 2008.

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D´Oliveira. S. Paulo: Livraria Academica, 1931.

FOUCAULT, Michel - Vigiar e Punir. Trad. Lígia M. Pondé Vassalo. Petropólis: Editora
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GONÇALVES, Rui Abrunhosa - A Adaptação à Prisão: Um Processo Vivido e Observado.


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“Planando sobre o passo do mundo”

Por: Luís Pais

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