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ROMANO

OS SEGREDOS DO IMPÉRIO

A F U N DAÇ Ã O D E R O M A • A R E P Ú B L I C A • I M P E R A D O R E S • A P O L Í T I C A D O “ PÃ O E C I R C O ”
E X PA N S Ã O • E C O N O M I A • C U LT U R A • A R T E S • R E L I G I Ã O • C R I S E E D E C A D Ê N C I A • L E G A D O
PREFÁCIO • CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

TODOS OS CAMINHOS
LEVAM A ROMA!
Fotos: Shutterstock

O IMPÉRIO ROMANO FOI UM DOS MAIS INFLUENTES E


IMPORTANTES DA HISTÓRIA E, DURANTE 600 ANOS,
ROMA FOI UMA DAS CIDADES MAIS DESLUMBRANTES
DO MUNDO ANTIGO.

Podemos começar a lista de legados pela nossa língua, o português,


que é derivada do latim, a língua que era escrita e falada em Roma. Se-
guimos pelos algarismos romanos, representados por sete das letras do
alfabeto, que também conhecemos. O Direito influenciou e deu origem a
códigos jurídicos, adotados em sociedades ocidentais. Nas artes, os roma-
nos foram influenciados pelos gregos, e foram mestres na reprodução da
figura humana. Em Florença, o Renascimento foi um dos períodos mais
ricos de toda a história da arte, com mestres como Leonardo Da Vinci,
Michelangelo e Botticelli encantando a humanidade.
Os caminhos do Império Romano, na política, economia, artes, cul-
tura, arquitetura, religião e muito mais, você encontra aqui neste guia. E
por falar em “caminhos”, a expressão “todos os caminhos levam a Roma”
remete ao século 1, quando o Império Romano se estendia da Bretanha
à Pérsia (hoje, da Inglaterra ao Irã), e chegou a incríveis 80 mil quilôme-
tros de estradas, constituindo-se importantes meios de comunicação, por
onde mensageiros levavam ordens ao longo do império.
Boa leitura!

Os editores
redacao@editoraonline.com.br
SUMÁRIO •
6

Fotos: Shutterstock
CAPÍTULO 1 •
ORIGEM E
FUNDAÇÃO
DE ROMA
A fundação de Roma e como a mistura
de diferentes povos (gregos, etruscos
e italiotas) deu origem aos romanos

14 CAPÍTULO 2 • 38 DO IMPÉRIOASCENSÃO
CAPÍTULO 5 •
REPÚBLICA ROMANO
ROMANA
Após inúmeras guerras, um
repaginado sistema monárquico
O período republicano de Roma, que de governo elaborado por
compreende de 509 a.C. a 27 a.C. César Augusto reaparece
em 27 a.C.

20 E EXPANSÃO
FORMAÇÃO
CAPÍTULO 3 •
DO
IMPÉRIO ROMANO
O período de conquistas de outros
territórios pelos romanos e como as
conquistas mudaram a vida e a estrutura
de Roma na área econômica

28 CAPÍTULO 4 •
QUEDA DA 48 CAPÍTULO 6 • PRINCIPAIS
REPÚBLICA IMPERADORES
ROMANOS
Como os conflitos e a falta
de consenso com relação
às políticas sociais tornou Conquistas, comportamentos e como as
praticamente insustentável o atitudes de cada um deles teve efeitos
regime republicano em Roma positivos e negativos no Império

4
100
58 SOCIAIS E PROBLEMAS
CAPÍTULO 7 •
A POLÍTICA
CAPÍTULO 11 •
RELIGIÃO
O politeísmo e o credo
DO PÃO E CIRCO nos deuses, retirados,
O crescimento urbano em Roma, o desemprego em sua maioria, do
na zona rural e as “benesses” feitas por meio próprio panteão
das lutas de gladiadores nos estádios grego. Constantino
torna o cristianismo
68 a religião oficial do
Império Romano
CAPÍTULO 8 •
ECONOMIA NA
ROMA ANTIGA
Como as relações
econômicas colocaram
as diferentes regiões do
Império em contato umas
com as outras e dinamizaram

112 DECADÊNCIA
as produções de minérios e
artesanal
CRISE E
CAPÍTULO 12 •
80 CAPÍTULO 9 • RELIGIÃO DO
CULTURA ROMANA IMPÉRIO ROMANO
Como a cultura romana foi influenciada Por que o Império Romano chegou à
pela cultura grega. A mitologia como forma decadência e como a corrupção dentro
e explicação da realidade do governo e os gastos extravagantes
do exército aceleraram o fim

92 CAPÍTULO 10 • ARTES
A influência grega nas criações dos artistas de 124 LEGADO ROMANO CAPÍTULO 13 •
Roma e a introdução de novos elementos na
arquitetura, como o arco redondo e a cúpula As heranças nos aspectos culturais,
científicos, artísticos e linguísticos,
o que enriqueceu a cultural ocidental

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

G971

Guia conheça a história : Roma / -- [3. ed.] - São Paulo : On Line, 2016.
: il.

ISBN 978-85-432-0050-7

1. Roma - História.

16-34727 CDD: 937


CDU: 94(37)

18/07/2016 20/07/2016

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CAPÍTULO 1 • ORIGEM
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
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DE VILAREJO
A UMA POTÊNCIA
O SURGIMENTO DE ROMA, NO
CENTRO DA ITÁLIA, DATA DO
SÉCULO VIII A.C., PERÍODO EM QUE
O FUTURO IMPÉRIO ERA APENAS
UM PEQUENO AGRUPAMENTO
DE POVOS DIVERSOS

E  m geral, os historiadores modernos


dão como certo o surgimento da cidade
de Roma, durante o século VIII a.C., como
um vilarejo no centro da Itália. Aquelas ter-
ras na península Itálica já eram ocupadas
desde o primeiro milênio antes de Cristo
por diversos povos. Estas populações se
aproveitavam do solo fértil e clima bastante
ameno da região. Entre elas, estavam tribos
úmbrias, sabinas e latinas, que instituíram
aldeias agrícolas e pastoris.

Os especialistas ressaltam que Roma tem início


por meio da junção de um grupo de sete aldeias
latinas e sabinas, todas elas situadas às margens
do rio Tibre. Tais povos tiveram uma relação bas-
tante estreita com os gregos – fundadores de colô-
nias localizadas ao sul daquela península – e com os
etruscos, estabelecidos ao norte.

ANCESTRAIS
Segundo o historiador e professor da Universidade
Harvard, Thomas R. Martin, as principais evidên-
cias dos ancestrais imediatos dos romanos vêm da
escavação arqueológica de túmulos – datados dos
séculos IX e VIII a.C. – dos povos chamados poste-
riormente de villanovianos.
Contudo, não há quaisquer razões para se acre-
ditar que essas populações, que habitavam em co-
munidades diferentes, se classificavam como um
Às margens do grupo unificado ou então homogêneo. Por outro
Rio Tibre, surgiram lado, os estudos destacam claramente que estas
as primeiras
aldeias que deram pessoas realizavam atividades rudimentares de
origem a Roma agricultura e também de criação de cavalos. »»

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CAPÍTULO 1 • ORIGEM

Templo na Sicília, Itália,


mostra influência grega

GREGOS
na formação romana

No oitavo século antes de Cristo, os ro-


manos e os demais povos do sul e do
centro da Itália já realizavam contato
frequente com muitos comerciantes
provenientes da Grécia que viajavam
para o território italiano pelo mar. Tal
intercâmbio econômico contribuiu subs-
tancialmente para o crescimento da so-
ciedade e cultura romanas.
Uma quantidade considerável de
gregos fixou residência na região neste
mesmo período atrás de oportunidades
de enriquecer por meio da agricultura.
Assim, algumas cidades povoadas ma-
joritariamente por cidadãos da Grécia
tornaram-se, anos mais tarde, comuni-
dades extremamente representativas.

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Alguns exemplos são Sicília e Nápoles.
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A aproximação com a cultura grega


gerou um efeito no desenvolvimento
do modo de vida dos romanos, que fo-
ram inspirados pelos modelos de litera-
Busto de
tura, teatro e também arquitetura. Po- Heródoto:
rém, se por um lado, a Grécia influen- historiador
ciou e foi alvo da constante admiração acreditava que
etruscos eram
dos habitantes de Roma, por outro, era provenientes
menosprezada devido à sua desunião de Lídia, na
política e inferioridade militar. Anatólia

Povo etrusco
produzia peças
bastante refinadas
para a época

CURIOSIDADE
ETRUSCOS
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Os trabalhos arqueológicos
mostram que os ancestrais Há muito debate com relação à influência dos
romanos fabricavam armas de
etruscos na vida romana. Alguns grupos de estu-
metal, além de outros objetos
de bronze e ferro. Como diosos consideram que este povo, situado ao norte
o bronze é, basicamente, de Roma, teria sido a força externa mais relevante
uma mistura de cobre e a afetar os modos romanos. Alguns especialistas
latão, e como o latão só era
até já especularam que eles teriam conquistado
minerado em locais bem
distantes da Itália, essas a Roma Antiga, com reis etruscos governando a
populações praticavam, muito nova cidade na parte final da monarquia.
provavelmente, um sofisticado
comércio de longa distância.

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CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

as águas empurrariam o cesto onde festejaram como o dono do trono por


A ORIGEM as crianças estavam para as margens ter um número maior de aves.
MITOLÓGICA do rio. Ali, os dois foram achados
por uma loba, que os amamentou e,
Durante a discussão que teve início por
ASSIM COMO EM OUTRAS conta da indefinição, Rômulo matou
consequentemente, os manteve vivos. Remo. Diante do falecimento do irmão,
CIVILIZAÇÕES E POVOS, AS ORIGENS Um pastor que passava pelo local viu as
DE ROMA FORAM CONTADAS Rômulo tornou-se o primeiro monarca
duas crianças e as levou imediatamente da cidade, que foi batizada com o
POR MEIO DE MITOS. SEGUNDO para serem criadas em sua aldeia.
A HISTÓRIA, O MAIOR IMPÉRIO nome de Roma em sua homenagem.
DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA FOI A lenda conta que Rômulo e Remo O poema épico Eneida, obra de
FUNDADO PELOS GÊMEOS RÔMULO cresceram, tornando-se pastores Virgílio, é uma das obras utilizadas
E REMO. A TRADIÇÃO RESSALTA e caçadores. Viraram dois adultos como fonte para a expansão deste
QUE, QUANDO PEQUENOS, fortes. No entanto, nesta época, mito. O historiador Tito Lívio também
FORAM AMAMENTADOS POR eles foram descobertos por Amúlio. contribuiu, por meio de seu livro
UMA LOBA QUE OS ENCONTRARA O rei capturou um dos irmãos, Desde a fundação da cidade, no
ÀS MARGENS DO RIO TIBRE. Remo, quando ambos participavam desenvolvimento da narrativa.
de um evento esportivo. Foi aí que
Rômulo e Remo souberam que eram
Rômulo e Remo, reza a lenda, seriam descendentes de Eneias e que possuíam
descendentes de Eneias, guerreiro e o direito de reivindicar o trono. Eles Estátua de
nobre troiano, filho da deusa Vênus e também tiveram conhecimento da Vênus: mãe
de Anquises. Conta-se que ele deixou história por completo, que eram dos gêmeos
Troia depois que a cidade foi destruída netos de Numitor e que Amúlio havia seria uma
pelos gregos durante a famosa Guerra deposto o avô deles para se tornar sacerdotisa
de Troia. Eneias seguiu, sem direção rei. Eles, então, depuseram Amúlio, da deusa
certa, pelo mar Adriático até chegar vingaram Numitor e o recolocaram
à região de Lácio, onde mais tarde ele no trono de Alba Longa.
iria levantar Roma. Porém, os gêmeos não permaneceram
Neste período, Eneias ficou mais por lá. Os dois decidiram fundar outra
próximo da população local e casou- cidade, exatamente onde tinham
se com a filha do rei Latino, Lavínia. sido abandonados quando bebês.
Posteriormente, foi o fundador da Ergueram muros, mas não sabiam
cidade de Alba Longa, onde iniciou quem iria assumir o seu governo, pois,
a adoração aos mesmos deuses que como eram gêmeos, não havia quem
costumava cultuar na região de fosse mais velho. Para definir isto, cada
origem dele. A cidade alcançou um um subiu em um dos morros da região.
período de crescimento e mudou a Remo foi para o Aventino e Rômulo
vida das pessoas que ali habitavam. O para o Palatino para esperarem um
primeiro monarca de Alba Longa foi presságio que decidiria de uma vez por
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Ascânio, filho de Eneias. Ele gerou uma todas aquela pendência. Remo recebeu
descendência no comando da cidade. o primeiro presságio: seis abutres. Mas
Depois de doze gerações, nasceram Rômulo também recebeu um presságio
Rômulo e Remo, filhos de Reia Sílvia. na sequência: doze abutres.
A mãe dos gêmeos era filha de Assim, aqueles que eram partidários de
Numitor, rei de Alba Longa na época. Remo o saudaram como rei por ter sido
Ela era uma vestal, ou seja, uma o primeiro. Já os favoráveis a Rômulo o
sacerdotisa da deusa Vênus. Ela havia
se tornado uma vestal a mando do
irmão de Numitor, seu tio Amúlio.
Amúlio tinha como plano ocupar o
trono de Alba Longa e, para alcançar
este objetivo, depôs o irmão, matou
todos os filhos homens dele e ordenou
Estátua
que Reia Sílvia virasse uma sacerdotisa
ilustra a lenda
de Vênus. A intenção de Amúlio era que de que Rômulo
ela não pudesse ter filhos que viessem a e Remo foram
competir com ele pelo poder da cidade. amamentados
Entretanto, Reia engravidou do deus por uma loba
Marte. Assim que soube do nascimento quando bebês
de Rômulo e Remo, Amúlio mandou
que os gêmeos fossem jogados no
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rio Tibre. O que ele não previa é que

»»

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CAPÍTULO 1 • ORIGEM

No entanto, o próprio conhecimen- MONARQUIA


to da origem dos homens e mulheres A configuração inicial de governo dos romanos foi a monarquia. Basicamente, o
da Etrúria continua extremamente limi- rei era escolhido pelo Senado, formado por uma espécie de conselho de anciãos
tado. Em parte porque os historiadores de origem nobre e de chefes de famílias aristocráticas. O monarca exercia funções
compreendem somente uma pequena judiciárias, administrativas, legislativas, militares e, até mesmo, religiosas. No en-
parcela de seu idioma, que provavel- tanto, para tomar decisões consideradas mais relevantes, o rei fazia uma consulta
mente não seja indo-europeu. junto aos senadores.
No século V a.C., o historiador Heró- Os historiadores destacam que neste período de dois séculos e meio de história
doto afirmava que os etruscos haviam sete reis administraram Roma – sendo Rômulo o pioneiro. Destes, os quatro pri-
emigrado de Lídia, na Anatólia, para a meiros eram sabinos e latinos, enquanto os três últimos eram de origem etrusca.
região onde hoje está a Itália. No en-
tanto, Dionísio de Halicarnasso recha-

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çou a hipótese dizendo que o território
italiano sempre foi a verdadeira casa Afresco
desta população. romano
retrata
De qualquer maneira, sabe-se hoje conversa
que os etruscos não formavam um país entre escravo
unificado étnica ou politicamente. Eles e seus
senhores
moravam em incontáveis cidades in-
dependentes agrupadas nas colinas da
região da Itália central.
Culturalmente, executavam peças
de arte consideradas muito refinadas
para a época, como joias e também
esculturas. Porém, eles despendiam
bastante dinheiro na importação de
objetos luxuosos da região do Mediter-
râneo, sobretudo dos gregos. Os etrus-
cos, aliás, nutriam uma relação próxima
com os habitantes da Grécia na época
e adequaram aquela cultura à sua. Um
exemplo são os famosos vasos gregos,
encontrados intactos em túmulos etrus-
cos.

DESENVOLVIMENTO
De maneira geral, esse grupo de monarcas foi
responsável pelo desenvolvimento urbano e
CURIOSIDADE fortalecimento romano. Pouco a pouco, Roma
se tornou uma povoação maior e mais capaz
Os arqueólogos dão conta de que
o povo etrusco tinha o costume de de se proteger de possíveis ataques através da
enterrar seus mortos em tumbas adoção de uma estratégia focada em duas fren-
subterrâneas construídas na forma tes: a absorção de outros povos e o acerto de
de réplicas – em escala menor – das
casas onde moravam quando vivos. alianças com sociedades vizinhas para a criação
Eles revestiam a parte interior de uma cooperação militar.
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da residência com pinturas que O tempo provou que esta tática acabou sen-
retratavam episódios mitológicos e do do a mais correta, pois foi a responsável por for-
cotidiano. As famílias desta população
também adornavam os locais de mar a base de expansão romana de longo prazo.
sepultamento com objetos pessoais A incorporação de estrangeiros era praticamente
Os senadores romanos
e de decoração. O objetivo era o de uma necessidade de sobrevivência para uma co-
eram os responsáveis por
sempre reproduzir o conforto da vida escolherem o rei munidade como Roma, que teve um nascimento
real nas tumbas.
tão frágil e pequeno.

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CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Além disto, a estratégia foi uma por nascer de uma mãe escrava. Este Roma ser pequena naquele momento,
inovação no mundo antigo. Nem mes- servo poderia comprar a sua liberda- os deuses tinham concedido a ela um
mo os gregos ou quaisquer outros de com ganhos que o mestre permitia futuro bastante próspero.
grupos da época implementaram uma que juntasse para incentivar o trabalho No entanto, todos os povos ao re-
política parecida. A realidade é que os mais intenso ou podia ainda receber a dor teriam recusado a solicitação de
estados da Grécia Antiga quase nunca liberdade como presente no testamen- alianças matrimoniais. Sem saída, o
permitiam que um membro de fora se to do proprietário. rei decidiu preparar um plano bastante
tornasse cidadão. O mundo grego em- Vale ressaltar que o escravo liber- arriscado. Ele mandaria sequestrar mu-
pregava o advento da cidadania apenas to tinha suas obrigações legais com o lheres. Para tanto, convidou o povo sa-
como um jeito de homenagear um es- ex-proprietário na forma de cliente. bino para uma festa religiosa em Roma
trangeiro rico que tivesse beneficiado Em contrapartida, homens e mulheres e raptou todas as moças solteiras.
a comunidade e que não possuísse a libertos, como era a designação oficial, O episódio gerou uma batalha san-
necessidade ou a intenção de se tornar tinham direitos civis completos, como o grenta entre as duas comunidades vi-
cidadão comum. casamento legal. Mesmo não podendo zinhas. Porém, em meio à guerra, as
Assim, a nova e exclusiva política ser eleitos a cargos políticos nem servir noivas sabinas teriam se precipitado
romana de receber estrangeiros de bra- no exército, seus filhos se tornavam ci- contra os combatentes, fazendo com
ços abertos com o intuito de elevar o dadãos de Roma com direitos integrais. que a luta fosse interrompida. Foi então
número de cidadãos foi o segredo para Como em outros tantos casos, havia que as novas esposas dos romanos im-
se transformar no Estado mais podero- uma lenda que fornecia uma origem ploraram aos dois grupos que parassem
so que o planeta já viu. antiga desta política bastante incomum de se digladiar e fizessem as pazes.
A ação era tão essencial que o go- de inclusão de estrangeiros. Rômulo, Caso contrário, poderiam matá-las ali
verno de Roma oferecia até mesmo de acordo com a história, teria perce- mesmo. Diante da súplica, romanos e
aos escravos a chance de mobilidade bido que Roma, depois da fundação, sabinos cessaram a batalha e combina-
social ascendente. Os nobres romanos não reunia condições de crescer ou ram as duas populações em um Estado
tinham escravos como suas proprie- se preservar, pois não tinha mulheres romano ampliado.
dades, da mesma forma como ocorria suficientes para darem à luz crianças A lenda consegue explicar, por
em todas as outras sociedades antigas. necessárias para elevar o seu número meio do papel das mulheres neste in-
Na época, os servos eram considerados de habitantes. Desta maneira, ele teria cidente específico, como a imigração e
apenas um bem e não seres humanos. enviado representantes às sociedades a assimilação de outros povos forma-
Eles passaram a ter a oportunidade de vizinhas para pedir o direito de que ram a base de poder na Roma Antiga.
ganharem o direito da cidadania após seus homens, sem importar a classe A história ainda destaca o ideal romano
o período de liberdade. Alguém virava social, pudessem casar com as mulhe- tradicional da mulher sendo a mãe dos
escravo ao ser capturado na guerra, res de qualquer comunidade próxima. cidadãos romanos, disposta, inclusive,
vendido no mercado internacional por Rômulo instruía os mensageiros a di- a se sacrificar corajosamente pela so-
invasores que o haviam sequestrado ou zer que, apesar de a comunidade de brevivência daquela sua comunidade.

Fórum Romano
era o espaço
para reuniões
políticas, jurídicas
e comerciais na
Roma Antiga

CURIOSIDADE
Hoje, o Fórum Romano
apresenta uma aglomeração
de ruínas de séculos da
história. Pouco ou quase
nada restou da arquitetura
daquela época. Mesmo assim,
um passeio pelo local coloca
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o turista em um ambiente
revestido pelos áureos
momentos de Roma. »»

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CAPÍTULO 1 • ORIGEM

EXPANSÃO
ARISTOCRACIA A política que visava absorver os estrangeiros teve um efeito tão
DA ROMA ANTIGA grande que a população romana cresceu consideravelmente em
dois séculos. Neste período, o território já ocupava cerca de 780
O AMBIENTE ARISTOCRÁTICO ROMANO, UMA
ESPÉCIE DE NOBREZA HEREDITÁRIA, ERA quilômetros quadrados do Lácio, terras agrícolas suficientes para
COMPOSTO POR CIDADÃOS DENOMINADOS sustentar até 40 mil famílias.
PATRÍCIOS. ESTE SELETO GRUPO PERDUROU Provavelmente por meio dos serviços especializados de en-
DURANTE PRATICAMENTE TODO O PERÍODO
HISTÓRICO DE ROMA, DESDE A SUA ORIGEM genheiros etruscos, os romanos drenaram, no século VI a.C., a
ATÉ A QUEDA DO PODEROSO IMPÉRIO. O CERNE seção aberta no sopé dos montes Palatino e Capitolino, que an-
DESTA ARISTOCRACIA MUDOU MUITO POUCO tes era pantanosa, para ser o centro da cidade. O espaço recém-
EM TERMOS DE CARACTERÍSTICAS BÁSICAS, -criado, chamado de Fórum Romano, permaneceu sendo a seção
APESAR DAS DIVERSAS VARIAÇÕES EM TERMOS
DE PODER E INFLUÊNCIA NO DECORRER DOS mais histórica e simbólica de Roma por mil anos.
SÉCULOS SEGUINTES. A construção dele como um local de reunião para assuntos
Em linhas gerais, as chamadas famílias patrícias políticos, jurídicos e comerciais, além de funerais públicos e fes-
eram aquelas que descendiam dos fundadores da tivais, ocorreu quase ao mesmo tempo em que os atenienses
cidade de Roma, o que mostra que a importância criaram a ágora na Grécia para servir de centro público aberto.
e o prestígio delas vinha de uma longa data,
em tempos em que a região ainda estava sob o Isso demonstra os desenvolvimentos culturais comuns que acon-
governo dos principais membros das antigas tribos teciam na região do Mediterrâneo na época.
itálicas. Vale ressaltar que a palavra “patrício” é No decorrer dos anos, foram erguidas novas e grandes cons-
derivada do latim “patres”, que significa “pais”. truções no entorno do Fórum. Estas edificações eram usadas para
Originalmente, era aproximadamente 130 o encontros entre autoridades, realização de julgamentos e fun-
número de famílias patrícias. No começo da fase
republicana, a inserção de novas famílias foi vetada, ções administrativas do governo.
assim como o matrimônio com os cidadãos plebeus.
Tal proibição fez com que houvesse uma diminuição
progressiva e acentuada no número de aristocratas
em virtude da morte de muitos de seus
integrantes. Por conta disto, Júlio César
REIS
decidiu, anos depois, instaurar lei que A figura do rei nutria uma forte valorização na Roma
permitia o ingresso de novos núcleos Antiga. Os monarcas eram reconhecidos como céle-
familiares na aristocracia romana. bres fundadores de tradições duradouras. Um exem-
O interesse em fazer parte deste plo é Numa Pompílio, o segundo a assumir o trono
grupo não era meramente
(governou de 715 a.C. até 673 a.C.), que ganhou fama
uma questão de status social.
Na verdade, os patrícios pelo estabelecimento dos rituais religiosos públicos e
detinham diversos privilégios sacerdócios que veneravam os deuses para pedir su-
governamentais. Eles porte a Roma.
possuíam, por exemplo,
o direito à isenção de
Túlio Hostílio foi o sucessor de Numa Pompílio e go-
impostos. Tinham também vernou entre os anos de 673 a.C. e 641 a.C. Ele ganhou
a possibilidade exclusiva de mais notoriedade por conta de suas guerras com Alba
se tornarem soberanos de Longa, Fidene e Veios, que se notabilizaram como as
Roma. Além disto, ainda
poderiam ser oficiais, primeiras conquistas de território latino e o primeiro
magistrados e senadores, aumento dos domínios fora dos muros de Roma.
o que era vetado para a Anco Márcio assumiu o reinado de Roma após o fa-
maior parte dos cidadãos. lecimento de Túlio Hostílio e permaneceu no comando
Normalmente, eles exerciam por 25 anos. Conhecido por ter alcançado uma admi-
funções bastante elevadas
na religião, no exército, na nistração tranquila, foi o último rei de origem sabina.
administração pública e Estruturou a cidade com a construção de aquedutos,
também no sistema judiciário. fundou o porto de Óstia e ergueu a primeira ponte de
Eram donos de enormes madeira sobre o rio Tibre.
porções de terra e ainda tinham
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os plebeus como credores. Depois da morte de Anco Márcio, Tarquínio Prisco


Os patrícios moravam em um foi até a Comitia Curiata – a assembleia popular – e
domus – uma mansão – ou em conseguiu convencer seus integrantes que ele devia
suas propriedades rurais. ser eleito rei no lugar dos filhos do falecido monarca,
pois estes ainda eram apenas adolescentes. Desta for-
Estátua de Júlio César, que
muitos anos depois permitiu
o ingresso de novas famílias
na aristocracia
12
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

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Festival de reconstituição da história
em Moscou, na Rússia, mostra um
pouco da vida dos patrícios romanos

ma, Tarquínio sucedeu a Anco Márcio.


Ele assumiu o trono em 616 a.C. e nele
continuou até 578 a.C, quando teria
sido morto em um complô promovido
pelos três filhos de Anco Márcio.
Sérvio Túlio, também etrusco, era
genro de Tarquínio Prisco e assumiu o
poder por influência de sua sogra, Ta-
naquil. Ele governou entre 578 a.C. e
535 a.C. Ficou famoso pela criação de
instituições básicas para organizar os
cidadãos romanos em grupos para fins
ESTRUTURA munidade política como um todo era

SOCIAL
políticos e militares, além de instaurar “povo romano” (populus Romanus),
com bastante sucesso a prática de con- mas na realidade essa definição não
cessão de cidadania a escravos libertos. Grande parte dos romanos acreditava sugeria propriamente um ambiente de
O sétimo e último rei romano antes mesmo que a região tomou forma de democracia. A realidade é que a clas-
da instauração da república foi Tarquí- comunidade no século VIII a.C., quando se dominante quase sempre tinha as
nio, o Soberbo. Ele chegou ao trono em esteve sob domínio de reis. Este teria rédeas do governo local. Assim como
535 a.C. e o deixou em 509 a.C., quando sido o primeiro período monárquico na sociedade contemporânea mundial,
uma série de eventos culminou em sua de Roma. Entretanto, os historiadores algumas poucas famílias possuíam os
deposição e no encerramento do primei- modernos concluem que pouco se sabe comandos político e econômico dentro
ro período monárquico em Roma. sobre os eventos do período formativo do cenário romano.
da história local. Desta maneira, os plebeus, maior
Mesmo assim, as lendas que ron- parcela da população – composta por
dam a monarquia da época demons- artesãos, comerciantes e camponeses –
CURIOSIDADE tram a existência de ideias relevantes
que os cidadãos romanos tinham sobre
viviam em condições sociais pouco con-
fortáveis. Os clientes, pessoas livres e
Reza a lenda que o rei Túlio
Hostílio, terceiro monarca suas origens. Tais linhas de pensamen- pobres, dependiam das famílias patrí-
de Roma, morreu atingido to auxiliam na compreensão da estru- cias, para as quais prestavam regular-
por um raio como punição tura da política e também da sociedade mente favores, serviços e davam apoio
por seu orgulho.
já nos tempos posteriores de Repúbli- político e militar. Em troca, recebiam
ca, sistema que surgiu na parte final do ajuda econômica e proteção. Quanto
século VI a.C. assim que a monarquia mais clientes um patrício tivesse sob a
foi derrubada. Um fato curioso é que sua proteção, mais importância política
Wikipedia

os romanos, pelo resto de sua história, e social ele conquistava. Por fim, os es-
referiram-se ao governo como republi- cravos, em geral prisioneiros de guerra
cano, mesmo depois da restauração da ou endividados, compunham uma par-
monarquia no Império. cela da população não muito numerosa
O termo técnico romano para a co- no período monárquico.

SÉCULOS X E IX A.C. 715 A 673 A.C. SÉCULO VI A.C.


Os villanovianos, gregos e etruscos começam Numa Pompílio Roma se expande para
Wikipedia

a se desenvolver na região da Itália. torna-se rei e controlar o território de


estabelece rituais 780 quilômetros quadrados
religiosos públicos na região central da Itália
753 A.C. e sacerdócios. e cria seu Fórum.
Rômulo funda
Roma e torna-se
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o primeiro rei.
Frans Huys

578 A 535 A.C.


Sérvio Túlio assume
716 A.C. o trono e passa a
Rômulo organizar os cidadãos
morre sob em grupos políticos e
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circunstâncias militares. Estabelece a


misteriosas. concessão de cidadania
a escravos libertos.
CAPÍTULO 2 • REPÚBLICA

A ROMA REPUBLICANA
OPOSIÇÃO DA
ARISTOCRACIA T  udo indicava que eram bons os ventos
que sopravam sobre a monarquia de
Roma. Era praticamente um consenso que
de morrer, no entanto, ela solicitou aos
familiares que a vingassem.
A deposição de Tarquínio foi lidera-
FEZ FRACASSAR Sérvio Túlio – governante entre os anos de da por Lúcio Júnio Brutus, que alcançou
O PERÍODO 578 a.C. e 535 a.C. – havia criado bases só- êxito na missão ao se unir a homens
MONÁRQUICO lidas para organizar os cidadãos romanos autointitulados libertadores. A aliança
em grupos para fins políticos e militares. entre estes integrantes da classe alta
NO TERRITÓRIO A ideia de conceder cidadania a escravos foi suficiente para a abolição da mo-
ROMANO E ABRIU libertos também parecia ser um passo im- narquia romana.
CAMINHO PARA portante para a consolidação do regime. Após o episódio, ficou estabeleci-
da a República Romana. A justificativa
UMA NOVA FORMA Contudo, os monarcas passaram a ter o do- para a entrada do novo regime era que
DE GOVERNO mínio ameaçado pelas classes mais abastadas. o governo capitaneado por um único
Esta oposição direta imprimiu forte pressão, pois homem, como era o caso da monar-
as famílias ricas se consideravam equivalentes quia, levava a terríveis abusos de po-
sociais do rei e, portanto, requeriam mais status der, como o estupro de Lucrécia.
e poder em suas mãos. O apoio que pessoas co- O termo “República” é originado do
muns davam ao monarca também as incomoda- latim res publica, que significa “a coi-
va profundamente. sa do povo”, “o assunto do povo” ou
Esta guerra fria colocava os reis em posição “comunidade”. Esse era o ideal do go-
de insegurança absoluta, pois havia o medo de verno romano: ser para a comunidade.
que um integrante mais poderoso da alta clas- Porém, esse conceito nunca foi coloca-
se recorresse à violência para tomar o trono. Em do completamente em prática, pois a
busca de um apoio contra tais pessoas, os mo- classe alta dominou o governo e a so-
narcas costumavam ter como importantes alia- ciedade neste período.
dos cidadãos donos de riqueza suficiente para
lhes abastecer com armas, mas que não reuniam
dinheiro para fazer parte da classe alta.
Mesmo com esta salvaguarda, alguns dos
mais ricos romanos conseguiram, em 509 a.C.,
depor o rei Tarquínio, o Soberbo. Ele perdeu o
CURIOSIDADE
Segunda a lenda, o
trono por conta de um episódio envolvendo Lu- rei Tarquínio, o Soberbo,
crécia. Esta peculiar integrante da classe alta de era um etrusco que ascendeu
Roma teria sido estuprada pelo filho do rei após ao trono depois que a filha
de Sérvio, Túlia, o forçou
ser ameaçada com uma faca. Apesar de o marido
a desposá-la e, em seguida,
e seu pai terem pedido a ela que não se culpasse matar o próprio pai dela.
pelo incidente, Lucrécia cometeu suicídio. Antes

14
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Pintura do espanhol Eduardo Rosales retrata


o suicídio de Lucrécia, que culminou na queda
da monarquia e na instituição do período
republicano em Roma
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REPÚBLICA os plebeus mais abastados, que eram os altos juros de suas dívidas, muitos

DOS CARGOS
os encarregados de exercerem ativida- plebeus chegaram ao ponto de saírem
des econômicas e militares. do limite sagrado da cidade para um
O período republicano em Roma ficou Mas as fontes de conflito entre pa- povoado temporário em uma colina que
marcado pelo surgimento de inúmeros trícios e plebeus no início da República ficava nas proximidades. Além disto, os
postos políticos. Tais cargos visavam eram também econômicas. Os plebeus plebeus se recusaram a servir no exér-
satisfazer os anseios da elite patrícia pobres eram os mais desesperados por cito da milícia de cidadãos. A secessão
em participar ativamente do governo. alívio das políticas dos patrícios no perí- funcionou. A defesa romana ficou bas-
Esta situação foi o estopim para o apa- odo. Com o aumento populacional, esta tante prejudicada, pois não contava com
recimento de conflitos sociais diversos fatia da população precisava de mais um exército permanente profissional.
na época. terra para cultivar e se alimentar. Os Essa situação fez com que os patrícios
Esta presença de membros da clas- integrantes da elite, no entanto, domi- precisassem ceder, algo que eles, natu-
se alta nos postos mais importantes e navam a maior parte das propriedades ralmente, não gostavam nem um pouco.
nas decisões políticas de Roma promo- e ainda faziam empréstimos aos pobres. Assim, tiveram que costurar um acordo
veu uma disputa acirrada entre estes e Com a falta de terra para plantio e com os plebeus. »»

15
CAPÍTULO 2 • REPÚBLICA

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conjunto. O tempo de governo era de
um ano e estava proibida a reeleição
para mandatos consecutivos.
A palavra cônsul tinha o significado
de “aquele que cuida da comunidade”.
Era uma forma de deixar claro que os
detentores do posto deveriam agir em
nome dos interesses de todos os roma-
nos. As principais atribuições dos côn-
sules eram fornecer liderança sobre a
orientação política e civil, além de co-
mandar o exército em tempos de guer-
ra. O embate para alcançar este posto
era intenso, pois ocupá-lo se tratava de
uma maneira de elevar o prestígio fa-
miliar por um longo período. Algumas
Ilustração presente no Museu de Madri retrata o sonho de um patrício e sua esposa famílias com apenas um cônsul entre
os seus ancestrais tinham o costume de

DIREITO inclina sobre o terreno do vizinho, que se chamar de “nobres”.

ROMANO
os seus galhos sejam podados à altura Já o Senado, que perdurou durante
de mais de quinze pés”. Esse conjunto todos os séculos da história romana,
De acordo com a tradição local, o acerto de regras mostrava que o romano tinha pode ser considerado a instituição mais
entre as duas partes foi o que levou à um intenso interesse pelo direito civil. influente da “constituição romana”.
criação das primeiras leis escritas em Já o código penal nunca chegou a ser Importante lembrar que a casa datava
Roma. O código legal passou a vigo- extenso. Desta forma, os tribunais não da época monárquica e que mesmo os
rar depois da visita de uma delegação tinham um conjunto vasto de regras reis não tomavam decisões importan-
romana a Atenas, onde foi estudado para orientar os vereditos. tes sozinhos, uma vez que era uma
como a cidade grega desenvolveu um tradição romana sempre pedir conse-
código de direito escrito. Apesar des- lho a amigos e a idosos. Deste modo,
ta pesquisa, foi necessário um tempo os monarcas reuniram um grupo seleto
grande para que as duas ordens roma- de experientes conselheiros que eram
nas atingissem o acordo final sobre as CURIOSIDADE chamados de senadores (palavra latina
leis. Isso porque o pacto precisaria, por A Lei das Doze Tábuas para idosos). Portanto, o costume de o
transformou-se em um símbolo
um lado, proteger os plebeus e, por ou- nacional do compromisso líder tomar conselho sempre prosse-
tro, garantir o status dos patrícios. romano com a justiça legal. guiu durante o período republicano.
A Lei das Doze Tábuas, o código es- 400 anos depois, as crianças Durante a maior parte da história, o
crito mais antigo do direito romano, foi ainda eram obrigadas a Senado funcionava com cerca de trezen-
decorar essas antigas leis.
promulgado entre os anos de 451 e 449 tos membros. O general Sulla dobrou
a.C. Apesar de gerar avanços, os patrí- este número com o advento de uma
cios aproveitaram a ocasião para incluir profunda reforma em 81 a.C. Júlio Cé-
a abolição do matrimônio com plebeus.
SISTEMA sar, por sua vez, subiu o montante para

POLÍTICO
Contudo, era muito importante à clas- novecentos com o objetivo de conseguir
se plebeia ter um código de leis escrito partidários durante a guerra civil da
com o intuito de evitar que os magis- A constituição romana incluía vários década de 40 a.C. Em 13 a.C., Augusto
trados patrícios, que julgavam a maio- funcionários eleitos e o Senado como reduziu o contingente de senadores no-
ria das ações legais, tivessem decisões órgão especial. O posto de cônsul era o vamente para seiscentos.
arbitrárias e injustas apenas por causa mais alto no período republicano. Como Segundo historiadores, o Senado
de interesses pessoais. a República foi criada para evitar que sempre incluiu patrícios e plebeus da
De modo geral, a Lei das Doze Tábu- apenas um homem tomasse o governo elite. O tempo encarregou-se de obrigar
as trazia questões muito práticas e sim- por um tempo indeterminado, o cônsul os candidatos a possuírem uma quantia
ples, como “Se alguém for chamado a surgiu para que dois líderes do Estado grande de propriedades para poderem
juízo, compareça” ou “Se uma árvore se fossem eleitos para prestar serviço em entrar na disputa ao posto de senador.

16
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

No início da República, os senadores tentando a eleição de menor valor, a de se tornava necessária a rápida tomada
eram escolhidos pelos cônsules entre os questor, que era responsável pela admi- de decisões para garantir a boa saúde
homens já eleitos anteriormente como nistração financeira do Estado. O cargo do Estado. Geralmente, a posse de um
magistrados menores. Tempos depois, seguinte era o de edil, que carregava ditador significava que Roma havia so-
a seleção passou a ser realizada pelos consigo a difícil tarefa de gerenciar a frido uma perda militar muito grande e
censores, que eram magistrados espe- manutenção de ruas, esgotos, templos, precisava de uma ação extremamente
ciais de alto prestígio. Uma das maiores mercados e demais obras públicas. cirúrgica para que um desastre fosse
influências do Senado recaía sobre as O passo seguinte dentro da hierar- evitado. O ditador tinha plenos poderes,
decisões relativas à declaração e con- quia do poder romano era buscar a vitó- suas decisões não poderiam ser ques-
dução de guerras. Importante observar ria na eleição para o cargo anual de pre- tionadas, mas a sua permanência no
que, nesta época, Roma vivia em confli- tor, magistratura muito prestigiosa e que posto era de, no máximo, seis meses.
tos armados quase que continuamente. só perdia em importância para a vaga
Um aspecto relevante é que no de cônsul. Em geral, os pretores tinham
FUNCIONÁRIOS
ASSALARIADOS
período republicano o Senado não de- como incumbência a administração da
tinha o poder de votar projetos, ele justiça e o comando de tropas de guerra.
apenas agia como conselheiro. Ou seja, Assim, o poder e o prestígio des- A entrada na carreira pública, no entan-
não possuía o direito oficial de vetar ou sas posições as tornavam o centro da to, estava longe de gerar lucros finan-
liberar quaisquer decisões do governo disputa entre patrícios e plebeus por ceiros aos portadores dos cargos, que
executivo, mas sim um status de res- postos públicos. Em 337 a.C., a pressão não recebiam salário por seu trabalho.
peito e consideração em meio aos cida- da classe plebeia forçou a aprovação de Ao contrário, os funcionários, inclusi-
dãos romanos. lei que abria todos os cargos de forma ve, gastavam parte do seu dinheiro ao
uniforme entre as duas ordens. exercerem tais atividades. Desta forma,

CARGOS
A “constituição romana” tinha ain- fica claro que somente aqueles homens
da duas posições de governo especiais que tinham condições financeiras privi-
Obviamente, o posto de cônsul era tido não anuais: censor e ditador. O primeiro, legiadas podiam cumprir o funcionalis-
como o mais importante em Roma. Na que deveria ser um ex-cônsul, cuidava mo público. Estes, normalmente, obti-
sequência, os demais cargos seguiam da contagem periódica de cidadãos e nham renda por meio de propriedade
uma ordem de prestígio. Mas, para al- de suas propriedades para que os im- familiares ou suporte financeiro de
cançar os lugares mais elevados, era postos pudessem ser cobrados de uma amigos mais próximos.
necessário seguir um plano de carreira, maneira mais justa e os romanos classi- Além disto, assim como nos dias
que tinha início por volta dos vinte anos ficados para o serviço militar. Já o cargo de hoje, os custos de uma campanha
de idade, geralmente como assistente de ditador era ocupado somente em eleitoral eram bastante exacerbados.
de oficial. A seguir, a escalada seguia emergências nacionais graves, quando Os candidatos, por vezes, desprendiam
uma quantidade razoável de recursos
e até contraíam dívidas enormes. Não
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bastasse isto, era desejável que, depois


de eleito, um funcionário do governo
pagasse, com seu dinheiro, obras públi-
cas em estradas, templos e aquedutos.
Mas, se no início, a carreira pública
conferia só status social, depois de um
tempo a conquista de novos territórios
ajudava muitos a ganharem dinhei-
ro. Estes funcionários passaram a ter o
direito legal de enriquecer ganhando
presas de guerra quando exerciam os
postos de comandantes em batalhas
de conquistas vencidas. Outra forma de
obter ganhos – ilicitamente – era pelo
recebimento de propina enquanto ad-
ministrava as províncias dos territórios
conquistados pelos romanos. »»
Figura de senador e seus escravos: parlamentar
romano era uma espécie de conselheiro do cônsul

17
CAPÍTULO 2 • REPÚBLICA

ASSEMBLEIAS soas era respeitada. Para piorar, a vota- Já os grupos eleitorais na Assem-
As decisões em Roma eram tomadas ção começava dos mais ricos até chegar bleia Tribal dos Plebeus eram deter-
por meio da votação em assembleias. aos menos abastados. Com isso, os in- minados segundo o local onde os
Nestes eventos ao ar livre, eram defi- tegrantes das classes mais afortunadas cidadãos moravam. Este assembleia
nidos os resultados de pleitos e aprova- podiam votar em bloco na assembleia obteve o nome da instituição romana
das novas leis. No entanto, os historia- e, quando o pleito chegava aos mais de tribos. À época, chegava a 35 o nú-
dores afirmam que tais ocasiões apre- pobres, a maioria de votos já estava mero de tribos, que eram estruturadas
sentavam um nível de complexidade praticamente decidida. em termos geográficos para dar uma
muito grande. Os cidadãos – adultos e
livres – se reuniam depois da convoca-
ção de um funcionário público. MACCARI, César
(1840-1919), Cícero
Os debates ocorriam antes das as- Denunciando Catilina,
sembleias em um grande agrupamento 1880, Roma
do qual qualquer um – mesmo não ci-
dadãos e mulheres – podiam participar,
mas somente cidadãos homens tinham
o direito à palavra. Por outro lado, to-
dos podiam expressar suas opiniões
através de aplausos ou vaias para aqui-
lo que era falado.
Entretanto, no início da assembleia
em si, apenas poderiam ser votadas
propostas feitas pelos funcionários pú-
blicos. Era momento também de solici-
tar emendas às propostas.
Nesta época, a cidade de Roma pos-
suía três assembleias eleitorais diferen-
tes: Assembleia das Centúrias, Assem-
bleia Tribal dos Plebeus e Assembleia
Tribal do Povo. A apuração, porém, não
estabelecia a regra de “um homem,
um voto”. Na Assembleia das Centú-
rias, por exemplo, os cidadãos eram di-
vididos em pequenos grupos segundo
as regras específicas de cada encontro.
Estes grupos, em geral, não eram equi-
valentes em tamanho. Primeiramente,
os integrantes de cada círculo votavam
individualmente para que fosse deter-
minado qual seria o voto único do gru-
po na assembleia. Assim, a soma dos
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votos únicos dos grupos definia uma


assembleia.
O grande problema é que este pro- CURIOSIDADE
cedimento, aparentemente democráti- Para conseguirem apoio dos
co, gerava distorções nos resultados das eleitores, candidatos a cargos
eleições. Os homens mais ricos e pode- públicos em Roma financiavam
festivais de luta entre
rosos compunham grupos menores que
gladiadores e batalhas de
possuíam votos com o mesmo peso de animais trazidos da África.
grupos bem maiores formados por ci-
dadãos pobres. Assim, nem sempre a
vontade da maioria absoluta das pes-
Em busca de votos, candidatos a cargos
públicos promoviam lutas entre gladiadores
para cativar os cidadãos romanos
18
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

vantagem a proprietários de terras cano, todas as propostas aprovadas


ricos da zona rural. Esta assembleia pelos plebeus nestas reuniões eram públicos e de assembleias dava a eles
não incluía os chamados patrícios. tidas somente como recomendações, um potencial enorme de influenciar o
Constituída, basicamente, de eleitores nunca como leis. Assim, os aristocra- governo de Roma. Desta maneira, os
plebeus, conduzia julgamentos e as tas, que dominavam o governo ro- detentores do cargo passaram a ser
mais diferentes formas de negócios mano nesta época, em muitos casos odiados por integrantes da elite roma-
públicos imagináveis. Sobretudo nos simplesmente ignoravam os encami- na, que, em inúmeras ocasiões, tinham
primeiros séculos do período republi- nhamentos dados nestes plebiscitos. os seus desejos políticos negados por
Contudo, os plebeus passaram a se conta da influência deles.
revoltar com tal falta de consideração Posteriormente, a Assembleia
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da elite para com os seus pedidos e Tribal também passou a ter reuniões
desejos. Diante disso, a prática da se- ampliadas com as presenças de pa-
cessão foi uma ferramenta mais uma trícios e plebeus. Os encontros com
vez importante para pressionar a aris- este formato ganharam o nome de As-
tocracia romana. Repetido por várias sembleia Tribal do Povo. Tais reuniões
vezes, esse instrumento de luta fez serviam para eleger, por exemplo, os
com que os patrícios fossem obriga- questores e ainda podiam decretar leis
dos a ceder. Um novo movimento de e realizar julgamentos considerados
revolta em 287 a.C. culminou em um de menor importância.
acordo que tornava as decisões toma- Apesar de todas as tentativas de
das nos plebiscitos plebeus uma fonte chegar a um denominador comum,
de leis oficiais. a luta entre classes e poderes gerou,
Essa mudança fez com que os re- durante a República, muitos conflitos
sultados de votos dados na Assem- políticos sérios. Tais confrontos, acre-
bleia dos Plebeus passassem de meras ditam alguns historiadores contempo-
recomendações a uma das principais râneos, eram causados pelo fato de
fontes de legislação, que atingiam, várias instituições poderem criar leis
inclusive, os próprios patrícios. O reco- ou normas equivalentes. Como Roma
nhecimento destes plebiscitos acabou, não tinha uma Suprema Corte, não
assim, com o conflito das ordens entre era possível resolver disputas sobre a
patrícios e plebeus. validade das leis que estavam sobre-
A Assembleia Tribal dos Plebeus postas ou em discordância umas com
era responsável por eleger, entre ou- as outras.
tros, os dez tribunos. Estes eram funcio- Mesmo com toda esta movimenta-
nários públicos especiais e poderosos ção e efervescência, os romanos mais
dedicados a proteger os interesses da ricos e de maior status social continu-
classe plebeia. O poder dos tribunos de aram dominando a maior parte do go-
obstruir ações de outros funcionários verno republicano de Roma.

451 A.C. E 449 A.C.


Com o desenvolvimento
da República, é criada
a Lei das Doze Tábuas,
o mais antigo código
escrito do direito romano.
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337 A.C. 287 A.C.


509 A.C. Após pressão dos plebeus, Novamente depois
Depois do estupro os patrícios são obrigados de grande pressão, a
e suicídio de a aceitar a criação de assembleia plebeia
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Lucrécia, membros uma lei que distribuía deixa de ser um


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da elite derrubam a todos os cargos públicos mero conselho e


monarquia e de forma uniforme entre ganha o caráter de
instituem a República. as duas ordens. formadora de leis.
CAPÍTULO 3 • EXPANSÃO

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Expansão romana: mapa mostra que, no segundo século depois de Cristo,
o império dominava boa parte da Europa, Ásia Menor e norte da África

GUERRAS  
D urante sua época republicana, Roma travou
guerras que a ajudaram a ampliar o domínio

E AVANÇO
territorial de um modo bastante significativo. Esta
expansão sobre terras anteriormente governadas
por outros povos foi fundamental no projeto de
formação de um verdadeiro império.

TERRITORIAL Se trouxe ganhos de terras, este movimento tam-


bém gerou profundas mudanças na sociedade de Roma.
Após dominar diversos arraiais, os romanos passaram a
ter contato muito estreito com o modo de viver de outras
OS ROMANOS ENFRENTARAM DURAS BATALHAS PARA culturas. O caso mais claro foi a interação com os gregos.
CONSEGUIREM AMPLIAR DE MANEIRA SIGNIFICATIVA SEU Esta relação levou, inclusive, à criação da primeira obra de
DOMÍNIO NO PERÍODO REPUBLICANO literatura romana escrita em latim.
Além disto, a expansão fez com que uma infinidade
de pequenos agricultores da Itália caísse na pobreza. Tal
situação gerou conflito entre os membros da elite sobre
o que fazer com estes conterrâneos necessitados. Era o
prenúncio do fim da República.

20
Apóstolo São Paulo utilizou as peças do
vestuário de um soldado romano para
exemplificar como deveria estar preparado
um cristão para enfrentar suas provações CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Nos cem anos seguintes, travaram in- intensa preparação do exército auxiliou
tensas lutas contra os etruscos da loca- Roma a avançar em suas investidas.
lidade de Veios, ao norte do rio Tibre. A Em 220 a.C., o imperialismo começava
vitória veio no ano de 396 a.C. e ajudou a ganhar contornos mais fortes depois
os romanos a praticamente dobrarem o que toda a Itália ao sul do rio Pó estava
seu território. Nesta época, o exército sob controle dos valentes romanos.
romano já era considerado o mais pode- Quando vencia as ásperas batalhas,

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roso da região do Mediterrâneo. A sua Roma tinha como estratégia escravizar
maior unidade era a legião, composta os povos derrotados. Quando não fazia
por, aproximadamente, 5 mil soldados isso, os forçava a ceder extensões de
CURIOSIDADE de infantaria. Cada legião ainda tinha a
retaguarda de 300 tropas de cavalaria,
terra bastante consideráveis. Com re-
lação a povos italianos conquistados,
A eficiência e força do exército
romano eram bem conhecidas no além de engenheiros responsáveis por os romanos não os obrigavam a pagar
primeiro século depois de Cristo. atividades de apoio. impostos, mas exigiam que estes pres-
Tanto é verdade que, na carta A legião era subdividida em unida- tassem ajuda militar nas batalhas. Os
bíblica aos cristãos da igreja de
de menores, que eram lideradas pelos novos aliados recebiam uma parte dos
Éfeso, escrita por volta de 60 d.C.,
o famoso apóstolo São Paulo utiliza chamados centuriões. Tratava-se de despojos de guerra – como escravos
como exemplo os armamentos e uma forma de garantir maior mobilida- e terra. Em linhas gerais, a estratégia
peças do vestuário de um soldado de do exército em caso de necessidade romana era agregar ex-adversários e,
de Roma para rogar que os efésios
de uma reação rápida a situações ines- assim, fazer com que sua riqueza fos-
permanecessem fiéis aos seus
ensinamentos. Ele usa expressões peradas durante os combates. Essa for- se ainda maior com o passar do tempo.
como “armadura de Deus”, “cinto mação deixava espaços entre os grupos Diante deste cenário, os especialistas
da verdade”, “couraça da justiça”, de cem homens, o que permitia que os no tema enfatizam que o imperialismo
“escudo da fé”, “capacete da
salvação” e “espada do Espírito” soldados de infantaria permanecessem romano era inclusivo.
(Efésios 6:11-17). atrás dos grandes escudos enquanto fa-
ziam bom uso das lanças para romper a
linha de frente d o inimigo. Em seguida,
eles empunhavam suas espadas para o UM MILHÃO
PRIMEIROS temido combate corpo a corpo. DE HABITANTES
COMBATES
Segundo historiadores, as espadas A REPÚBLICA NÃO FOI UM
usadas pela infantaria eram especial- MOMENTO APENAS DE
EXPANSÃO TERRITORIAL. DE
As batalhas iniciais ocorreram na região mente feitas para golpear oponentes
ACORDO COM HISTORIADORES,
central da Itália. Os romanos obtive- a uma distância bem curta. Além dis- A CIDADE DE ROMA TAMBÉM
ram importante triunfo sobre vizinhos so, tais homens passavam por rigoroso ALCANÇOU UM AUMENTO
latinos em 499 a.C., pouco depois que treinamento para conseguirem suportar POPULACIONAL SIGNIFICATIVO
NESTE PERÍODO E TERIA SIDO A
o regime republicano foi estabelecido. os sangrentos confrontos. Essa boa e
PRIMEIRA CIDADE DO PLANETA
A ATINGIR A IMPRESSIONANTE
Legião do exército romano era composta MARCA DE UM MILHÃO
por 5 mil soldados de infantaria DE HABITANTES HÁ CERCA
DE 2.500 ANOS.
Apesar de alguns especialistas
não concordarem com a
afirmação e dizerem que
Alexandria, no Egito, seria a
dona do feito, a maioria dos
peritos costuma dar o título a
Roma. Com o passar do tempo,
a cidade italiana foi perdendo
espaço e acabou ultrapassada
por outras localidades.
Atualmente, as cinco maiores
metrópoles do mundo são
Tóquio, Cidade do México, Nova
Iorque, Mumbai e São Paulo.
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21
CAPÍTULO 3 • EXPANSÃO

EXPANSÃO PRIMEIRA dido por toda a região oeste do Medi-

GUERRA PÚNICA
terrâneo, até mesmo sobre a ilha da
Por volta de 300 a.C., a taxa populacio- Sicília, localizada em uma faixa estreita
nal de Roma chegou, diante deste am- Um combate, no mínimo, bem diferente de mar na ponta da península italiana.
biente de progresso, a níveis considera- colocou à prova a hegemonia romana A prosperidade de Cartago gerou um
dos altíssimos para o período. Somente entre os anos de 280 e 275 a.C. A bata- ávido interesse dos romanos. O grande
dentro do muro de fortificação da ci- lha na cidade grega de Taranto colocou problema é que lhes faltava experiência
dade viviam cerca de 150 mil pessoas. Roma diante de um exército equipado naval para um combate marítimo, algo
Para conseguir abastecer toda esta alta com elefantes de guerra. A tática foi que sobrava para os cartagineses. Os ci-
demanda, foram levantados aquedutos utilizada pelo general mercenário Pirro dadãos de Roma, no século III a.C., não
que levavam água potável para a ci- para tentar conter o quase inevitável contavam com praticamente nenhum
dade. Além disto, a presa das guerras avanço adversário sobre o sul da Itália. conhecimento tecnológico para cons-
vencidas era usada para financiar um Diante de um inimigo tão podero- truir um navio de guerra e também não
amplo projeto de edificações de casas. so, os líderes romanos convenceram as possuíam a organização necessária para
Fora das muralhas, aproximada- assembleias a votarem favoravelmente formar uma marinha poderosa.
mente 750 mil cidadãos romanos liber- ao enfrentamento desta ameaça. Ape- Dessa forma, uma batalha parecia
tos moravam em diferentes regiões da sar de todas as dificuldades, após cinco inviável. Além disso, não havia traço
Itália na terra tomada dos povos locais. anos, Pirro abandonou a guerra e retor- de inimizade entre os povos para que
A população rural, contudo, acabou nou à Grécia. Assim, Roma obteve total fosse precipitado qualquer tipo de ação
passando por percalços econômicos na controle do sul da Itália até a costa do romana contra Cartago. Porém, um epi-
época por conta do aumento da taxa de Mediterrâneo no fim da península. sódio insignificante mudou este cená-
natalidade – o que levava à impossibi- Diante desta expansão em direção rio e levou a uma guerra destruidora
lidade em conseguir sustentar famílias ao sul, os romanos estavam à beira da com mais de um século de duração.
maiores – e também pela dificuldade região dominada por Cartago, um Es- Tudo começou quando, em 264
em manter uma fazenda produtiva tado bastante próspero que ficava do a.C., um bando de mercenários na ci-
quando muitos homens estavam em outro lado do mar Mediterrâneo, na dade de Messina, no extremo nordeste
campanhas militares muito longas e região onde atualmente está localizada da Sicília, encontrava-se em situação
desgastantes. Além disso, as grandes a Tunísia. Em 800 a.C., os fenícios colo- de perigo depois que o serviço militar
porções de terras nas mãos de poucos nizaram Cartago, uma região favorável para o qual foi contratado terminou em
contribuíram para o surgimento de no- para o comércio marítimo e com áreas fracasso. Desesperados, eles decidiram
vos conflitos velados entre romanos ri- agrícolas férteis em sua parte central. solicitar auxílio de Cartago e Roma ao
cos e pobres. O comércio dos cartagineses foi expan- mesmo tempo. O senado romano não
entrava em um consenso sobre o que
fazer com relação ao pedido de resgate
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Em 300 a.C., a população apenas dentro da


Roma fortificada já era de 150 mil pessoas dos mercenários. No entanto, o cônsul
patrício Ápio Cláudio Cáudice convenceu
a maioria a votar pelo envio de tropas
para a região da Sicília com a promes-
sa de garantia de excelentes despojos.
Assim, o envio do exército para Messina
tornava-se a primeira expedição militar
de Roma fora da Itália.
O que ninguém esperava é que Car-
tago também enviaria soldados àquela
região. O encontro dos dois exércitos
eclodiu uma batalha entre as forças das
potências econômicas. Como resultado,
houve a Primeira Guerra Púnica entre
os anos de 264 a.C. e 241 a.C. A vitória
romana veio a partir da persistência.
Preparada a sacrificar vidas e gastar
muito dinheiro no conflito, Roma per-
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Imagem de antiga construção em Sagunto: conflito
na região precipitou Segunda Guerra Púnica

deu 250 mil homens e cerca de qui-


nhentos navios de guerra construídos
recentemente. Um século depois, o his-
toriador Políbio, da Grécia, considerou a
Primeira Guerra Púnica a maior guerra
da história em duração, intensidade e
escala de operações.
O que impressiona é que, forçada a
lutar no mar contra um rival muito me-
lhor preparado para estas condições,
Roma decidiu desenvolver sua mari-
nha a partir do zero. Copiou os navios
e táticas do adversário com a ajuda dos
gregos e conseguiu, finalmente, con-
quistar Messina. Assim, findava-se a
Primeira Guerra Púnica em 241 a.C.

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Com o triunfo, os romanos torna-
ram-se os mestres da próspera Sicília,
região repleta de portos e campos. A
receita que vinha dos impostos que os duas colônias cartaginenses – as ilhas
SEGUNDA
GUERRA PÚNICA
romanos recebiam dos sicilianos era de Córsega e Sardenha – também fo-
tão elevada que, em 238 a.C., outras ram anexadas pelo império.
Depois da longa guerra diante de Carta-
go, os romanos decidiram fazer alianças
com comunidades que ficavam ao leste
da Espanha com o intuito de bloquear
o poder inimigo na região. Roma, con-
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tudo, dava garantias de que não iria


interferir no lado sul do rio Ebro, loca-
lidade de domínio cartaginês.
Entretanto, as autoridades de uma
cidade de nome Sagunto, que ficava
justamente naquela região, solicitaram
auxílio romano contra Cartago. Vale
destacar que se tratava de um local
com intensa atividade comercial em
recursos minerais e agrícolas na Espa-
nha. Diante do pedido, o senado roma-
no simplesmente ignorou a promessa
feita anteriormente de não intervir na
cidade e decidiu socorrer.
Talvez, o principal motivo para a
quebra do pacto tenha sido a visão ro-
mana de que os cartagineses eram bár-
baros de moral inferior. Eles os conde-
navam pela prática de sacrificar bebês e
Ilustração de crianças em emergências nacionais para
navio romano
durante
recuperar o favor dos deuses.
viagem no mar Assim, em 218 a.C., 23 anos de-
Mediterrâneo pois do primeiro combate entre Roma
em meio a
uma grande e Cartago, tinha início a Segunda Guerra
tempestade Púnica, que só chegaria ao fim em 201 »»

23
CAPÍTULO 3 • EXPANSÃO

a.C. Este novo longo combate foi ainda go, os romanos voltaram as atenções
TERCEIRA
GUERRA PÚNICA
mais desgastante. Tudo porque o gene- para o embate contra os gauleses no
ral cartaginês Aníbal Barca fez uso de norte da Itália. Este grupo celta era
uma audaciosa tática. Ele marchou com considerado muito perigoso, sobretudo O ano de 146 a.C. marcou a aniqui-
suas tropas e elefantes pelas passagens depois que saqueou Roma de modo de- lação de Cartago ao final da Terceira
cobertas de neve nos Alpes para inva- vastador no ano de 387 a.C. Tratava-se, Guerra Púnica (149 a.C. a 146 a.C.). O
dir a Itália. Em 216 a.C., 30 mil romanos portanto, de uma defesa preventiva. derradeiro combate começou no mo-
foram dilacerados naquela que ficou co- No fim do século III a.C., os romanos já mento em que Cartago, já recuperado
nhecida como Batalha de Canas. controlavam todo o vale do Pó – antes do pagamento de indenizações impos-
Aníbal conhecia o tamanho do po- em poder dos gauleses – e, consequen- tas por Roma após a Segunda Guerra
derio romano e tinha como estratégia temente, toda a Itália até os Alpes. Púnica, atacou o vizinho rei da Numí-
tentar provocar revoltas nas cidades dia, Massinissa, aliado romano. Desta
italianas aliadas a Roma. Ele ainda vez, a cidade foi completamente des-
apostou corretamente em uma aliança truída e o território passou a ser uma
com o rei Filipe V, da Macedônia, em província do império. A destruição de
215 a.C., o que forçou os romanos a lu- CURIOSIDADE Cartago como um Estado independen-
tarem na Grécia. O general de Cartago Em 249 a.C., durante a te foi uma resposta aos insistentes pe-
gerou inúmeras dificuldades aos seus Primeira Guerra Púnica, a didos do senador romano Marco Pórcio
oponentes durante quinze anos. Ele derrota de Roma em uma Catão, que temia as ameaças, ainda
marchou pela Itália neste período, des- batalha foi explicada como que tímidas, daquele rival.
punição divina pelo suposto
truiu parte do território romano e ame- sacrilégio cometido pelo cônsul

MUDANÇAS
açou, inclusive, a soberania da capital. Cláudio Pulcro. Segundo lenda
Porém, Aníbal falhou em sua táti- romana, antes de um combate,
o comandante precisava ver
ca de jogar os aliados italianos contra Como consequência das atividades
aves se alimentando como
Roma. Eles, muito pelo contrário, per- um sinal de sorte. Entretanto, militares e diplomáticas intensas, as
maneceram leais e o general teve de quando algumas galinhas, relações romanas com o sul da Itália,
finalizar a campanha de guerrilha na provavelmente enjoadas com o Sicília, Grécia e Ásia Menor tornaram-
balanço do navio, se rejeitaram
Itália para retornar ao norte da África -se mais efetivas e fizeram com que
a comer no convés, Cláudio,
juntamente com todo o seu exército em em um ataque de raiva, as teria os romanos tivessem um contato mais
203 a.C. Naquele mesmo ano, os roma- lançado ao mar e dito: “Ora, que aprofundado com a cultura grega. Essa
nos, sob o comando do general Cipião, bebam, então”. Apesar disto, interação influenciou profundamente o
ele deu início à batalha e perdeu
lançaram ataque importante contra Car- 93 de seus 123 navios em uma desenvolvimento da arte, arquitetura
tago. Após longos anos, finalmente Aní- espetacular derrota naval. Mais e literatura na cultura de Roma. O pri-
bal seria definitivamente derrotado na tarde, o cônsul foi punido pelo meiro templo de mármore construído
batalha de Zama, em 202 a.C. desacato arrogante à tradição. na capital, por exemplo, foi erguido
Para concretizar a vitória, os roma-
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Templo em homenagem
nos impuseram aos cartagineses um a Júpiter mostra influência
acordo de paz punitivo. Eles foram obri- grega na cultura romana
gados a afundar navios, pagar indeniza-
ções de guerra muito elevadas durante
cinquenta anos e abrir mão de territó-
rios na Espanha. Roma ainda lutaria pos-
teriormente contra indígenas espanhóis
pelo controle das áreas, mas os lucros
que as terras eram capazes de gerar aos
seus donos – principalmente por meio
da extração mineral – faziam a difícil
empreitada valer a pena. Essas receitas
eram tão grandes que garantiam a reali-
zação de projetos de prédios públicos de
custo elevadíssimo em Roma.
Depois do sucesso diante de Carta-

24
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

no ano de 146 a.C. em homenagem a Estátua de Cícero,


responsável por processar
Júpiter, seguindo a tradição dos gregos um governador da Sicília
de usarem este tipo de pedra brilhante.
A literatura também ganhou corpo
a partir dos conhecidos e admirados
modelos gregos. Por volta de 200 a.C.,
a primeira história romana foi escri-
ta no idioma grego. Já a peça literária
mais antiga escrita em latim, um po-
ema longo produzido após a Primeira
Guerra Púnica, foi uma adaptação da
Odisséia, de Homero.
Mas as mudanças sociais no Impé-
rio Romano também foram profundas
no período. A classe alta auferiu ganhos
consideráveis nos séculos II e III a.C, so-
bretudo por meio do recebimento de
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presas de guerra.
Além disto, a criação de novas pro-
víncias gerou a necessidade de uma
quantidade mais elevada de líderes Antes do acontecimento das Guer-
militares e políticos que não podia ras Púnicas, Roma mantinha uma ope-
ser fornecida pelo número tradicional ração bélica que seguia os padrões
de funcionários públicos eleitos. Com mediterrâneos normais, ou seja, cam-
isto, um ajuntamento cada vez maior panhas militares curtas programadas

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de funcionários passou a ter poderes que não interferiam nas atividades
estendidos para comandar tropas e relacionadas à agricultura. Os comba-
administrar estas províncias. Todavia, tes sazonais permitiam que os homens Servos retratado em mosaico romano
como o governador provincial geria permanecessem em casas nos períodos

MIGRAÇÃO
por lei marcial, ninguém era capaz de do ano em que necessitavam semear
impedir que ele enriquecesse por meio e colher, além de supervisionar o aca-
de corrupção e extorsão. Claro que nem salamento e abate de animais. Mas, Sem condições para plantar e viver dig-
todos eram corruptos. Verdade também a partir da Primeira Guerra Púnica, as namente, muita gente passou a migrar
que poucos dos do que praticavam atos campanhas passaram a ser demasiada- para Roma. Na capital, homens procu-
ilegais eram punidos. Um dos poucos mente extensas e impediam que estes ravam um trabalho subalterno. As mu-
exemplos foi Verres, processado por voltassem periodicamente aos lares. lheres aguardavam serviços ocasionais
Cícero, em 70 a.C., por crimes adminis- Em muitos casos, mulheres e crian- na produção de tecidos. Este exército
trativos na Sicília. ças – sobretudo familiares de soldados de pobres desesperados em busca de
– morriam de fome por não contarem alimento inchou a população da cidade.

POBREZA
com a figura masculina para lhes ga- Este cenário transformara o ambiente
rantir a provisão necessária. Outras mu- político romano em um verdadeiro bar-
Na época, a base econômica continuou lheres decidiam buscar a sobrevivência ril de pólvora. Estas famílias inteiras de
sendo a agricultura. Nestes séculos, os se prostituindo nas cidades da Itália. miseráveis estavam dispostas a apoiar
agricultores trabalharam em pedaços de Diversas famílias agrícolas se endivida- através de seus votos quaisquer políti-
terra pequenos no interior da Itália. Pa- vam e tinham de vender a terra. Por sua cos que prometessem atender às suas
ralelamente, os proprietários também vez, ricos proprietários de terras podiam necessidades mais básicas. De alguma
representavam a principal fonte de sol- adquirir estes terrenos para criar plan- maneira, os mais carentes precisavam
dados do exército. Devido a este quadro, tações ainda maiores. Já os latifundiá- ser alimentados para que grandes ma-
a República passou por imensuráveis di- rios aumentavam as suas posses ainda nifestações fossem evitadas ao máximo.
ficuldades, econômicas e sociais. Duran- mais ocupando, de modo ilegal, terras Roma, no final do século II a.C., foi
te as guerras, a produção agrícola ficou públicas que Roma havia confiscado dos obrigada a importar grãos para conse-
demasiadamente desguarnecida. povos derrotados na Itália. guir alimentar minimamente sua ex- »»

25
CAPÍTULO 3 • EXPANSÃO

cessiva população urbana. O mesmo volvidas para redistribuir terras públi- preços subsidiados pelo Estado. Conse-
havia feito Atenas cerca de trezentos cas para romanos que não tinham pro- guiu ainda aprovar projetos de obras
anos antes. Além disto, o senado ro- priedades. Tal medida foi adotada sem públicas por toda a Itália para fornecer
mano fazia um trabalho de supervisão a consulta e aprovação dos senadores. emprego aos pobres.
no mercado de grãos especulação no A manobra era legal – já que o senado As mais revolucionárias de todas
suprimento alimentar básico e garantir não podia barrar quaisquer medidas –, as ações foram as suas propostas de
a distribuição em tempos de escassez. mas extremamente estranha à tradição dar cidadania romana a diversos ita-
No entanto, essa política gerava romana. Ele afrontou ainda mais o cos- lianos e constituir um tribunal de júri
muita controvérsia. Enquanto alguns lí- tume político romano ao simplesmente para senadores acusados de prática
deres entendiam que esta era a única ignorar o senado sobre a questão do de corrupção enquanto exerciam car-
solução possível para o problema que financiamento desta proposta de refor- gos governamentais nas províncias. A
batia à porta, outra parcela significati- ma agrária. proposta de cidadania fracassou. Já o
va discordava com bastante veemência, As reformas levantadas por Tibério estabelecimento do tribunal para pro-
mas também não buscava propor uma para auxiliar os agricultores desapro- cessos contra os senadores gerou uma
alternativa melhor. Desta maneira, esta priados tinham, obviamente, uma raiz enorme polêmica, pois suas causas
política permaneceu. No decorrer dos política, pois ele precisava quitar um seriam analisadas por homens ricos.
anos, a quantidade de necessitados débito com rivais políticos e tinha o À época, estes cidadãos, conhecidos
cresceu vertiginosamente. Dezenas de objetivo de se tornar popular como um como equestres, eram mais envolvi-
milhares faziam parte desta grande lista defensor do povo mais sofrido. dos em negócios, mas mantinham suas
de pessoas com direito ao recebimento Esse ímpeto de Tibério, contudo, ambições em serem designados a car-
dos subsídios sem qualquer custo. Pros- foi barrado de maneira violenta. Um gos públicos. A entrada deles no funcio-
seguir ou não com este gasto exponen- ex-cônsul chamado Cipião Nasica or- nalismo, contudo, era frequentemente
cial gerava cada vez mais discussão. ganizou violento ataque surpresa con- bloqueada pelos senadores.
tra ele. Um grupo de senadores e seus A proposta de Caio de fazer com que

CONFLITOS clientes assassinaram Tibério e seus os equestres atuassem como jurados no

INTERNOS
companheiros a golpes no monte Capi- júri dos senadores acusados de ilegali-
tolino no final do ano de 133 a.C. Deste dades na administração das províncias
A total falta de consenso em torno do modo sangrento e nada republicano marcou a ascensão deles na política ro-
auxílio aos pobres teve efeitos devas- teve início esta triste história de violên- mana. Tal ameaça deixou o senado em
tadores até mesmo em núcleos fami- cia e assassinato como tática política fúria. Os senadores, então, em 121 a.C.,
liares proeminentes. Tibério Graco e em Roma. publicaram documento que autorizava
Caio Graco vieram de uma das famílias Caio Graco venceu eleição para tri- o cônsul Opímio a empregar força mi-
de classe alta mais distintas de Roma: buno em 123 a.C. e, mais uma vez, em litar dentro da cidade de Roma, onde,
Cornélia, mãe de ambos, era filha do 122 a. C. Assim como o irmão Tibério, segundo a tradição, nem mesmo os
lendário general Cipião Africano. Tibé- ele deu o pontapé inicial a algumas re- funcionários públicos tinham tal poder.
rio foi eleito para o posto de tribuno formas que ameaçavam muito a elite Caio ainda buscou contratar um guarda-
plebeu em 133 a.C. Imediatamente, fez romana. Além de manter as reformas -costas para tentar se proteger contra
com que a Assembleia Tribal dos Ple- agrárias, introduziu ainda leis que ga- ataques inesperados. Mas, sem saída,
beus adotasse leis de reforma desen- rantiam grãos a cidadãos de Roma a ele, para fugir da detenção e execução

300 A.C.

CURIOSIDADE 499 A.C.


Aumento populacional:
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Cidade de Roma chega


Romanos vencem
Uma parte dos ganhos a 150 mil moradores.
guerra contra
com despojos de guerra vizinhos latinos.
era direcionada para a
construção de templos. Para
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o romano, a construção de
locais sagrados era uma
forma de garantir maior
segurança para todos, pois 396 A.C.
acreditava-se que os deuses Roma alcança vitória
ficariam satisfeitos por na batalha contra
terem mais santuários que etruscos em Veios.
os homenageassem.
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

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Vista do Monte Capitolino, onde
Tibério e seus companheiros teriam
sido assassinados em 133 a.C.
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que se avizinhavam, ordenou a um de seus escravos


que cortasse a sua garganta.
Depois dos falecimentos de Tibério e Caio Graco,
os membros da alta classe romana viram-se cada vez
mais divididos. Não havia qualquer possibilidade de
se estabelecer consenso com relação à ajuda irrestrita Estátua equestre do
Imperador Marco Aurélio
ou não aos pobres que tomavam a capital do império. em frente ao Capitólio
Certos líderes políticos ainda preservavam suas alian- (datada de 175 a.C.).
ças políticas. Outros simplesmente tinham o objetivo Sua imagem foi utilizada
para ilustrar a moeda de
de promover abertamente as suas carreiras fingindo 50 cents de euro italiano
ser adeptos de um ou de outro lado. Porém, indepen-
dentemente da postura adotada, o racha dentro da
elite continuou sendo uma plena fonte
de efervescência política e violência gra-
tuita nos últimos anos de República.

280 A.C. 149 A.C. A 146 A.C.


Tropas romanas Romanos obtém vitória definitiva sobre
vencem forças Cartago na Terceira Guerra Púnica.
gregas no
Sul da Itália.
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264 A.C. A 241 A.C.


Roma vence a Primeira 130 A.C. E 120 A.C.
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Guerra Púnica. Cônsules Tibério


e Caio incitam
violento conflito
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político e acabam
218 A.C. A 201 A.C. assassinados.
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Aníbal invade Itália, mas


é superado por romanos
na Segunda Guerra Púnica.
CAPÍTULO 4 • MUDANÇA

O FIM DA ERA
REPUBLICANA
OS CONFLITOS ENTRE INTEGRANTES DA ELITE ROMANA
E AS REVOLTAS INTERNAS DESTRUÍRAM O REGIME E
MARCARAM UM NOVO TEMPO DENTRO DO IMPÉRIO

A  falta de consenso com relação a políticas


sociais tornou insustentável o regime repu-
blicano em Roma no século I a.C. O processo de
deterioração começou na época dos mandatos
dos cônsules Tibério e Caio Graco e durou cerca
de cem anos. As guerras civis no período tam-
bém ajudaram a acelerar ainda mais este mo-
mento de degradação.

Além disso, o Estado romano passou a enfrentar re-


beliões internas e externas. Na época, cerca de 70 mil
escravos escaparam de propriedades na região da Sicília
e uniram-se com o objetivo de organizarem um levante.
A revolta durou três anos. Também foi preciso estancar
uma guerra estrangeira com Jugurta, rei-cliente rebelde
na África do Norte. Por fim, guerreiros gauleses precipi-
taram diversos ataques nas regiões do norte da Itália.
O ambiente inóspito abriu caminho para um novo
tipo de líder, alguém sem vínculo com a nobreza, mas
muito hábil na condução militar e com melhor reputa-
ção para o cargo de cônsul. Estes novos candidatos ao
cargo, mesmo não tendo um histórico familiar distinto,
passaram a ser chamados de novos homens.
Porém, eles precisaram vencer o preconceito social
para alcançarem tal posto. Isso foi possível por meio de
atitudes consideradas nobres, como a generosidade com
soldados – que recebiam despojos e tinham suas ne-
cessidades atendidas. Em geral, o combatente romano
comum era pobre. Assim, ele via nesta nova figura um
comandante a quem devia ter como patrono e prestar
obediência. Este personagem nutria mais empatia do
que senadores ou integrantes de assembleias. Assim, o
sistema patrono-cliente tornou-se mais um jeito de os
líderes conseguirem poder individual do que um suporte
para os interesses da comunidade de Roma em si.
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28
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Imagem mostra local de


reunião dos senadores na
época da República, que
começaria a se degradar no
início do século I a.C.

»»

29
CAPÍTULO 4 • MUDANÇA

PRECURSOR os romanos puderam finalmente cami-


CURIOSIDADE Caio Mário (157 a.C. a 86 a.C.) foi quem
mais colocou a ideia reformada de li-
nhar rumo à vitória.
Assim, o general começou a subir
Durante as cerimônias de
honra militar em carro derança em prática. Sem raízes nobres, alguns importantes degraus na escada
aberto, era bastante ele teria não teria chance alguma de de cargos eletivos. O apoio a interesses
comum o general chegar a um posto de liderança den- de patronos nobres e o casamento com
homenageado ter
tro do cenário tradicional romano. Sua uma mulher pertencente a uma famosa
atrás dele um
escravo que lhe condição o levaria, no máximo, a uma família de patrícios o auxiliaram ainda
alertava: “Olhe carreira pública em cargos minoritários mais na empreitada que tinha como
atrás de você e dentro do senado. objetivo maior o cargo de cônsul. As-
lembre-se de que
Contudo, uma grande e urgente ne- tuto, Caio Márcio soube usar a sua boa
é um mortal”. A
prática era uma cessidade de Roma fez com que o jogo reputação e o histórico invejável de
forma de evitar que virasse completamente para ele. No fi- triunfos militares para vencer as elei-
o orgulho e a fama nal do século II a.C., o império precisava ções para um dos cônsules de 107 a.C.
subissem à cabeça.
de homens com suas características e Sua popularidade era notória entre
capacidades para levar um exército à os eleitores. Tanto que as vitórias con-
vitória. Mário serviu com maestria na tra os celtas do norte – este povo tentou
guerra norte-africana e ganhou noto- em inúmeras oportunidades invadir a
riedade. Tais combates haviam se ar- Itália no fim do século II a.C. – o fizeram
rastado por muito tempo por conta da ser escolhido cônsul por seis mandatos
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falta de competência de outros gene- seguidos, algo sem precedentes.


rais. Somente com a chegada dele que Caio Mário ainda nutria o respeito
Estátua de Caio
Mário, que do senado, que lhe homenageou com a
instituiu em honra militar definitiva de Roma. Trata-
Roma sistema va-se de um raro reconhecimento dado
patrono-cliente
somente a generais que obtinham
triunfos considerados estupendos. No
dia de recebimento da nomeação, o ge-
neral desfilava pelas ruas da cidade em
uma carruagem militar e era aclamado
pela multidão.
Porém, mesmo com a popularidade
em alta, Mário nunca foi unanimidade
na elite romana. Ele era visto como
um ameaçador ‘novo rico’. Seu grande
apoio vinha mesmo da ordem equestre
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– classe aristocrática considerada mais


baixa – e do povo comum. É provável
que os equestres tenham incentivado
sua entrada na nobreza com a intenção
de provarem o valor desta classe social.
A notoriedade de Caio Mário entre
os mais pobres teria sido um reflexo,
entre outras coisas, da reforma que ele
fez em relação aos requisitos para que
um homem pudesse entrar no exército
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de Roma. Se antes apenas pessoas com


posses podiam se alistar, naquele mo-
mento o proletário também tinha este
direito. Com isso, os cidadãos da classe
Figurante reconstitui figura do
centurião: exército romano passou baixa vislumbravam ganhar recompen-
por importantes avanços sas de status e despojo aos quais os
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Italianos chegaram a
cunhar suas moedas
durante a Guerra Social
contra Roma

soldados tinham direito em campanhas


vitoriosas. Essa era a grande oportuni-
dade para que estes pobres romanos
pudessem melhorar um pouco suas
vidas. Nem mesmo o risco de serem
mortos ou gravemente feridos tirava a

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vontade destes homens de irem para
os combates.
Nesse período, o Estado romano
não oferecia qualquer tipo de recom-
pensa ou pensão a ex-soldados. Desta
forma, um bom retorno financeiro de-
pendia de uma vitória na batalha e ain-
da da generosidade do general. Como
não havia mais terra na Itália para ser
distribuída entre os veteranos nesta
época, as tropas ficavam dependentes
por completo da participação nos des-
pojos conseguidos. Vale ressaltar que

GUERRA SOCIAL
o general tinha o direito de manter a
maior parte da pilhagem para si mes- a palavra latina para “aliado” é socius –
mo. Por isso, as tropas proletárias sen- Ao mesmo tempo em que o exército de teve duração de quatro anos.
tiam uma imensa gratidão quando seu Caio Mário abriu espaço para importan- Os italianos se uniram para formar
líder era generoso na distribuição. tes vitórias, trouxe também problemas. uma nova república, que recebeu o
Diante deste comportamento de Suas tropas se tornaram uma fonte de nome de Itália. Decidiram montar uma
Caio Mário, a lealdade dos combatentes poder político para comandantes sem confederação – composta por picenos,
era cada vez maior para com seus ge- escrúpulos que desestabilizaram a Re- lucanos, marsos, samnitas, apúlios,
nerais e não necessariamente para com pública em termos políticos. Mário, po- etruscos e úmbrios – para lutar contra
o Estado. Assim, o exército romano pas- rém, era muito apegado à tradição para Roma. Eles cunharam uma moeda pró-
sou a se comportar como uma legião de utilizar um exército seu para manter a pria e implementaram seu senado. O
clientes, seguindo com retidão seus lí- própria carreira. Com essa postura, ele conflito contou com muitas batalhas.
deres e deixando os interesses estatais acabou perdendo importância política As primeiras foram vencidas pelos ita-
em segundo plano. depois do ano 100 a.C. lianos. Mas, quando Lúcio Cornélio Sulla
Este período marcou uma reorgani- No começo do século I a.C., as cres- assumiu o controle do exército romano,
zação do exército de Roma, com o uso centes crises de relacionamento entre a em 90 a.C., o jogo virou. Daí por diante,
de novas táticas. As legiões passaram capital e seus aliados italianos transfor- Roma aniquilou os samnitas. Algumas
a ser compostas por dez unidades com maram-se em guerra. A tradição roma- fontes dão conta de que aproximada-
480 homens cada. Cada unidade ti- na conta que os aliados costumavam di- mente 300 mil italianos foram mortos
nha seis centúrias de oitenta homens vidir os despojos dos triunfos militares. em batalha.
comandados por um centurião. Nesta Contudo, eles não eram cidadãos roma- Ao final da guerra, a vitória, teorica-
época, o armamento, antes composto nos e não tinham direito de interferir mente, foi romana. Porém, os italianos
por quaisquer equipamentos, também nas decisões das políticas domésticas conseguiram alcançar parte de seus ob-
passou a ser mais uniforme. ou internacionais. Tal situação deixava- jetivos. Para garantir um ambiente de
A infantaria principal levava lanças, -os insatisfeitos, pois eles viam a rique- paz, Roma decidiu conceder aos aliados
espadas e grandes escudos. Mário pro- za aumentar cada vez mais dentro da a cidadania, motivo pelo qual tinham
jetou o uso de lanças pesadas para que República. Os italianos desejavam uma dado início à revolta. A partir daquele
dobrassem após o impacto no escudo divisão muito mais igualitária. momento, os povos nascidos livres da
inimigo, o que impedia o seu movi- O aborrecimento dos aliados passou Itália ao sul do rio Pó passavam a ter
mento e facilitava sua morte. Em se- do limite do aceitável em 91 a.C., quan- os privilégios da cidadania romana. Um
guida, os soldados romanos agrediam do a violência tomou conta da Roma dos direitos – talvez aquele que mais
o adversário e utilizavam espadas no republicana na Guerra Social. O embate contava para eles – era o de votar nas
combate individual. interno – que foi assim chamado porque assembleias. »»

31
CAPÍTULO 4 • MUDANÇA

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GUERRA CIVIL
Lúcio Cornélio Sulla saiu das guerras
Social e Mitridáticas em alta. Com a
exitosa condução do exército romano,
este nobre romano – vindo de uma de-
cadente família de patrícios – venceu,
em 88 a.C., eleição para o cargo de
cônsul. Diante do ganho de poder do
ex-subordinado, Mário conspirou contra
Sulla para tirá-lo do posto.
Foi então que Lúcio Cornélio Sulla
tomou uma medida ousada. Aprovei-
tando-se de seu exército de clientes,
marchou com os soldados contra Roma.
Estava decretada a guerra civil. Ao cap-
turar Roma com tropas de cidadãos
romanos, Sulla matou brutalmente ou
Mapa da Ásia Menor, palco
das guerras mitridáticas exilou adversários políticos. Em segui-
da, conduziu seus soldados para uma

GUERRAS campanha militar na Ásia Menor.

MITRIDÁTICAS SULLA, Após a saída de Sulla da Itália,


Caio Mário e seus aliados retomaram
Mas a sangrenta Guerra Social era ape- O DITADOR para Roma. A violência de Sulla seria
nas um prenúncio das dificuldades que LÚCIO CORNÉLIO SULLA combatida por eles, a partir de agora,
ATERRORIZOU ROMA
Roma iria enfrentar. Uma rebelião de- com mais violência. O território roma-
DEPOIS DE SUA OUSADA E
sencadeada na Ásia Menor abalaria ain- INESCRUPULOSA ESTRATÉGIA no estava imerso em um mar de ódio
da mais a frágil estrutura republicana. PARA CONTINUAR NO PODER. e sangue. Mário morreu pouco tempo
O rei de Ponto, Mitríades VI, liderou um A CRUELDADE DELE FEZ depois, mas os seus seguidores manti-
COM QUE OS SENADORES
levante, sobretudo, por conta da forma TEMESSEM POR SUAS VIDAS veram o poder até 83 a.C., ano em que
arbitrária como os impostos eram co- E DECIDISSEM DAR A ELE A Sulla retornou da Ásia Menor com uma
brados naquela região. NOMEAÇÃO DE DITADOR SEM vitória importante na bagagem.
A requisição dos tributos, vale dizer, LIMITE DE MANDATO. VALE Uma nova guerra civil começou
LEMBRAR QUE TAL CARGO SÓ
não era feita por funcionários romanos. ERA OCUPADO EM CASO DE depois que os adversários de Sulla se
A capital fazia uma espécie de licitação EMERGÊNCIA NACIONAL E POR uniram a outros italianos para comba-
entre empreendedores privados para UM PERÍODO MÁXIMO DE SEIS ter o inimigo em comum. Segundo o
MESES. DESTA MANEIRA, A
definir quem faria o serviço. Aquele NOMEAÇÃO ERA CONTRÁRIA
historiador Thomas R. Martin, “a bata-
que desse a maior oferta ganhava a À TRADIÇÃO REPUBLICANA. lha culminante da guerra ocorreu no fim
concorrência e poderia ficar com os va- Este patrício fez jus à sua de 82 a.C., na Porta Colina de Roma”. O
lores arrecadados a mais. Assim, os co- ditadura. Com a alegação de general dos samnitas teria inflamado
bradores pressionavam de modo brutal estar devolvendo a República seus homens contra Sulla: “O dia final
ao coração da tradição,
os locais para que pudessem levar uma transformou o senado no poder está próximo para os romanos! Esses
quantidade grande de dinheiro. supremo do Estado. Ele ainda lobos que tanto assolaram a liberdade
Mitríades obteve um sucesso instan- mudou a composição dos júris dos povos italianos jamais desaparece-
tâneo em sua ação militar. Um ataque para que os equestres não rão enquanto não cortarmos a floresta
julgassem mais os senadores.
surpresa teve como resultado o assassi- Além disso, o posto de tribuno que lhes serve de refúgio”. Porém, mes-
nato de dezenas de milhares em um dia plebeu foi fragilizado, pois estes mo diante da empolgação, os samnitas
só. Foi o estopim para a Primeira Guerra não mais poderiam sugerir perderam a batalha e a guerra. Foram
Mitridática, ocorrida entre os anos de 88 legislação sem aprovação prévia exterminados e o território deles seguiu
do senado. Um homem eleito
a.C. e 85 a.C. Ao todo, foram necessárias tribuno também não poderia para as mãos de Sulla e seus partidários.
três guerras para que Roma, com extre- ter mais nenhum outro cargo Ele ainda aterrorizou seus inimi-
ma dificuldade, conseguisse afastar a público posteriormente. gos em Roma utilizando medida de
ameaça do rei do Ponto. lei marcial chamada de “proscrição”.

32
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

CURIOSIDADE
Sobre o fato bastante
incomum de ter sido
homenageado por uma
A tática era publicar lista dos nomes grande vitória militar com
de pessoas acusadas de crimes de trai- apenas 23 anos – já que os
ção. Qualquer cidadão poderia caçar e grandes generais só recebiam
honrarias em idades mais
matar tais pessoas sem a necessidade
avançadas –, Pompeu teria
de qualquer julgamento prévio. A pro- dito a Sulla: “Mais pessoas
priedade dos proscritos era confiscada veneram o nascer do que o
e distribuída aos homicidas. Os aliados pôr do sol”.
de Sulla passaram, então, a adicionar a

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esta macabra lista nomes de homens
inocentes que tinham muitas terras.
Dessa forma, eles tinham o pretexto
perfeito de punir “supostos traidores”
e ficar com as suas valiosas e cobiçadas
propriedades.
Busto do líder
Percebendo que sua saúde estava Pompeu, que,
debilitada, Sulla deixou a vida pública bastante jovem,
em 79 a.C. e faleceu no ano seguinte. se tornou um
reconhecido líder

POMPEU VITÓRIA SOBRE OS PIRATAS


O novo modelo de líder romano deixa- No ano de 67 a.C., Pompeu acabou eleito para ser um comandante com altos po-
do por Sulla criou sucessores. Homens deres no combate a mais de mil navios piratas que infestavam as rotas do mar
que buscavam poderes para si mesmos Mediterrâneo. O cônsul romano contava com 500 barcos, 120 mil homens, além de
enquanto proclamavam estar traba- cinco mil cavalos.
lhando pelo Estado. Gneu Pompeu Sua tática nesta batalha foi bastante astuta. Ele dividiu o Mediterrâneo em tre-
(106 a.C. a 48 a.C.) foi o primeiro líder ze regiões, pois, se tentasse atacar em um só ponto, os piratas teriam tempo para
desta leva. Ainda muito jovem, com reagir. Sua estratégia deu certo. Os adversários não puderam revidar a ofensiva
apenas 23 anos, Pompeu teria agrega- romana. Eles ainda tentaram fugir para a região da Sicília, mas, em apenas 40 dias,
do, de acordo com a tradição, um exér- os ladrões que ameaçavam o comércio marítimo do Império Romano já estavam
cito privado dos clientes de seu pai na dispersos. Cerca de 20 mil deles foram rapidamente capturados.
Itália para se unir a Sulla na campanha
de retomada do poder da capital no
ano de 83 a.C. O rapaz alcançou o fei-
to de derrotar os inimigos restantes de VIOLÊNCIA NO
Sulla que tinham fugido para a Sicília e TOPO DA POLÍTICA
África do Norte. O episódio lhe rendeu LÚCIO CORNÉLIO SULLA
a honra de celebrar um triunfo, algo ATERRORIZOU ROMA DEPOIS DE
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incomum para os mais jovens – ainda SUA OUSADA A CONSPIRAÇÃO


DE LÚCIO SÉRGIO CATILINA,
mais para alguém que nunca ostentou EM 63 A.C., MOSTRAVA COMO
um cargo público sequer. RAZÕES FINANCEIRAS PODERIAM
O prosseguimento de sua carreira GERAR PROBLEMAS DENTRO DO
mostrou que ele não se importava mui- CONTEXTO POLÍTICO.
to com as tradições romanas. Depois Ele era um nobre afundado em
dívidas que reuniu um grupo de
que Sulla saiu de cena, ele tomou as devedores de alta classe e vítimas
rédeas do poder para si. Ajudou a re- dos confiscos realizados por Sulla.
primir uma rebelião na Espanha e uma Como não conseguia vencer a eleição
revolta bastante aguda de escravos na para cônsul, tentou matar os líderes
da época para redistribuir a riqueza
Itália, liderada pelo gladiador Espárta-
aos seus partidários. No entanto,
co. Como consequência dos triunfos mi- Cícero, um dos cônsules daquele
litares, exigiu e foi eleito cônsul em 70 ano, impediu que o plano de Catilina
a.C., bem antes de ter atingido a idade ganhasse forma.
legal de 42 anos. »»
busto em
mármore
de Cícero
33
CAPÍTULO 4 • MUDANÇA

ÊXITOS E

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Gravura de
ESCRAVOS SE Espártaco,
líder da PROBLEMAS
REVOLTAM SOB rebelião de
escravos O sucesso de Pompeu lhe rendeu gló-
A LIDERANÇA rias. Ele chegou a ser comparado com

DE ESPÁRTACO Alexandre, o Grande. Por isso, recebeu


o nome Magnus, o que o tornou “Pom-
NA ÉPOCA DE POMPEU, A peu, o Grande”. Ele gabava-se por ter
REPÚBLICA FOI COLOCADA
SERIAMENTE EM RISCO POR
feito as receitas das províncias de Roma
ESPÁRTACO, LÍDER DE UMA dispararem e chegou a distribuir aos
REVOLTA DE ESCRAVOS SEM soldados dinheiro que equivalia a doze
PRECEDENTES. OS SERVOS anos de pagamento apenas com a par-
ENFRENTARAM COM BRAVURA
AS LEGIÕES POR DOIS ANOS ticipação nos despojos.
era atravessar os Alpes e chegar à
E SÓ FORAM VENCIDOS PELA Gália. Em seguida, queriam pisar na
Quando da conquista de algum ter-
INTERVENÇÃO DAS TROPAS Trácia, a sua terra natal. Para impedi- ritório, não consultava o senado sobre
TOCADAS POR POMPEU. los, dois cônsules foram destacados. os arranjos políticos que deveria seguir.
O grego Espártaco foi pastor O primeiro, Gélio Publícola, seguiu Comportava-se como um rei indepen-
e soldado romano. Desertou e em direção ao sul. Já Lêntulo
tornou-se chefe de uma quadrilha. dente, não mais como representante
Clodiano tinha como tarefa
Em 73 a.C., acabou preso e vendido interceptar os escravos no norte. maior da República.
a uma escola de gladiadores no No Monte Gargano, na Apúlia, Gélio Mas os êxitos de Pompeu também
sul da península Itálica. Segundo venceu vinte mil rebeldes. O cônsul lhe reservavam dificuldades. Os rivais
conta o historiador grego Plutarco, partiu, em seguida, para auxiliar
Espártaco se revoltou contra da classe alta romana estavam ressen-
Lêntulo. Contudo, os escravos
a humilhação e as injustiças destruíram os dois exércitos. tidos e temerosos. Entre eles estavam
cometidas no local e fugiu junto Marco Licínio Crasso – que comandou a
com outros cativos. O governador da Gália Cisalpina,
Cássio Longino, atacou Espártaco vitória sobre Espártaco – e o jovem Júlio
Foi então que Roma mandou tropas com 10 mil homens na atual César (100 a.C. a 44 a.C.). Para conse-
para estancar a rebelião. Mas o Modena, mas também sofreu revés.
exército romano sofreu um forte guirem apoio contra Pompeu, decidi-
Espártaco poderia ter prosseguido
revés. As notícias começaram a a viagem para o lado norte, ram ajudar os mais necessitados e se
se espalhar rapidamente e muitos entretanto, decidiu voltar para tornaram líderes populares.
outros escravos juntaram-se aos o sul. Talvez pretendesse atacar
rebeldes, refugiados no monte Roma, que tinha dois dos principais
Vesúvio (um vulcão em Nápoles). generais em campanhas distantes:
Em nova tentativa de encerrar o Pompeu, na Espanha, e Lúculo, na
levante, o governo de Roma enviou Trácia. O senado destacou Marco
três mil homens sob o comando do Crasso para combatê-lo.
pretor Cláudio Glaber, que planejou Espártaco venceu mais duas colunas
matá-los de fome fechando a única romanas e continuou rumo ao sul.
saída do Vesúvio. No entanto, Ele queria chegar ao mar e atravessar
Espártaco desceu a montanha para a Sicília. Fez um pacto com
com cordas e atacou as tropas de piratas, mas os espiões de Crasso
surpresa. Os romanos abandonaram descobriram o plano e subornaram
suas armas e fugiram. os corsários. Sem opções, Espártaco
A cada nova vitória alcançada, ainda buscou negociar a rendição.
o contingente rebelde recebia a Crasso negou-lhe. Sem saída, o
adesão de agricultores pobres, rebelde atacou o exército romano
desempregados, além de mais no norte da Lacânia, em 71 a.C.
escravos. O avanço de outro pretor, O historiador Plutarco conta que
Públio Varino, também foi detido Espártaco tentou matar Crasso, mas
pelas táticas de guerrilha dos não teve condições de chegar até o
gladiadores. No final de 73 a.C., o general. O exército dos rebeldes foi
exército de Espártaco já contava com, derrotado e os 6 mil combatentes
aproximadamente, 100 mil homens. que sobreviveram foram crucificados
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Os rebeldes se dividiram. Uma parte ao longo dos 200 quilômetros da


continuou no sul da península Itálica. Via Ápia de Cápua, perto de
Já o líder Espártaco e outro grupo Nápoles, até Roma. O movimento
seguiram para o norte. O plano deles rebelde chegava ao fim.

34
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

A população de Roma era muito TRIUNVIRATO noivo dispensado casando-o com a fi-
grande e boa parte dela morava amon- No ano de 62 a.C., quando Pompeu lha dele. O casamento entre Pompeu e
toada em prédios não melhores do que voltava a Roma, vindo da vitória no Júlia, inicialmente apenas um arranjo
favelas. Estava bem difícil achar tra- Mediterrâneo, os líderes políticos de- com interesse estritamente político,
balho. Muitos se alimentavam apenas cidiram se recusar a apoiar os seus virou paixão intensa. O relacionamen-
com os grãos que eram distribuídos há arranjos territoriais e a autorizar a dis- to ajudou a impedir que Pompeu rom-
tempos pelo governo central. Era peri- tribuição de terras como recompensa pesse de imediato a aliança política
goso andar na rua, pois a cidade não aos veteranos de guerra. A represália com César. Contudo, em 54 a.C., quan-
tinha força policial constituída. O cená- era fruto de inveja pela fama dele. O do ela faleceu durante um parto junto
rio econômico também já não era dos episódio fez com que Pompeu fosse com a criança que carregava, o vínculo
melhores e os preços das propriedades obrigado a fazer uma aliança política entre os líderes foi quebrado definiti-
caíam a olhos vistos. com Crasso e Júlio César. Estava for- vamente.
mado o Primeiro Triunvirato – aliança
Estátua de
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entre três homens.


Marco Licínio
Crasso César foi eleito cônsul em 59 a.C. e
recebeu um comando especial amplia-
do na Gália. Já Crasso conseguiu opor- CURIOSIDADE
tunidades financeiras para cobradores Na batalha épica ocorrida na
de impostos romanos na Ásia Menor, Grécia, os homens de César
alcançando importância política e mais tiveram seus suprimentos
alimentares cortados por
recursos financeiros. Pompeu através de um bloqueio.
Os triunviratos – reeditados poste- Mas os seus fieis soldados não o
riormente – foram invenções políticas abandonaram e foram obrigados
que ignoraram a constituição romana. a comer um pão de gosto
horrível feito de grama e raízes
Tinham o objetivo, único e exclusivo, misturadas com leite.
de beneficiar seus membros. Para sus- Os homens de César correram
tentar esta estrutura, os integrantes da até os postos avançados de
tríplice união passaram então a con- Pompeu e atiraram o primitivo
trair casamentos de motivação política alimento por sobre o muro
gritando que jamais deixariam
entre si. Em 59 a.C., Júlio César casou de lutar enquanto “a terra
a filha dele, Júlia, com Pompeu. Ela es- produzisse raízes para que
tava comprometida com outro rapaz, roessem”. Os historiadores
relatam a exclamação de
mas o próprio Pompeu tranquilizou o
Pompeu: “Estou lutando
contra animais selvagens”! Ele,
então, proibiu que o alimento
rudimentar fosse mostrado
às tropas, temendo que os
homens perdessem a coragem
caso descobrissem como eram
corajosos e obstinados os
soldados de César.

Imagem de
Júlio César, que
dividiu o poder
Por suas com Pompeu
conquistas, e Crasso
Pompeu chegou
a ser comparado
a Alexandre, o
Grande, retratado
nesta escultura
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»»

35
CAPÍTULO 4 • MUDANÇA

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JÚLIO CÉSAR
X POMPEU
Cônsul na Gália (atual França) a partir
de 58 a.C., César virou o maior rival de
Pompeu e decidiu lutar pelo cargo má-
ximo em Roma. Ele começou a montar
sua estratégia durante a Guerra da Gá-
lia. Após derrotar os gauleses, Júlio Cé-
sar atravessou o Rubicão, rio que sepa-
ra a Itália da Gália, em direção a Roma.
O senado já o via como uma ameaça
real e um futuro ditador.
Sem alternativa diante do rival,
Pompeu enfrentou as tropas inimigas
na Itália, na Espanha e nos Balcãs. Cé-
Pintura do francês Antoine
CÉSAR E CLEÓPATRA
sar o derrotou nas três oportunidades.
Caron ilustra batalha entre
Finalmente, em Farsália – norte da Gré- Pompeu e Júlio César
cia –, veio o revés definitivo de Pompeu, Após derrotar Pompeu, o líder viajou ao Egito para cobrar uma

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mesmo com uma cavalaria bem arma- quantia em dinheiro que o governo devia ao tesouro romano
da. Os exércitos de César se antecipa- desde o reinado do pai de Cleópatra. No entanto, os assuntos
ram aos oponentes, mataram seis mil políticos abriram espaço para o famoso romance entre Júlio César
adversários e capturaram outros 24 mil e Cleópatra.
homens. Pompeu, após 34 anos de in- O rei Ptolomeu 13 – irmão de Cleópatra –, ao saber do caso
vencibilidade militar e aos 59 anos, pre- entre os dois, incitou o povo de Alexandria a rebelar-se contra os
cisou fugir. Foi de barco rumo ao Egito. romanos. O exército de Roma foi cercado e sitiado no palácio. Os
Como o rei egípcio, Ptolomeu, tinha reforços para auxiliar César chegaram apenas meses depois, mas
apenas 10 anos de idade, o governo lo- conseguiram vencer os aliados de Ptolomeu. O jovem faraó foi
cal era administrado por um conselho achado morto por afogamento no Rio Nilo. Mantendo a tradição,
constituído por Potino, Tódoto e Áquila. Cleópatra casou-se com o último irmão dela, Ptolomeu 14.
O trio teve medo de César e planejou Mesmo assim, o romance entre César e Cleópatra era eviden-
Modelo utiliza
uma armadilha para Pompeu. Áquila te a todos. Eles teriam passeado de barco durante dois meses indumentárias
convocou o tribuno Septimio e o cen- pelo Nilo como dois bons amantes. Contudo, os historiadores res- de Cleópatra
turião Sálvio. Os três receberam o barco saltam que o motivo maior da permanência de César no Egito
de Pompeu, que foi assassinado. Ele era outro: como abril era o mês da colheita do trigo egípcio, ele
teve a cabeça cortada e levada para Jú- aproveitou a ocasião para estocar as suas embarcações com o
lio César que, uma década depois, foi cereal. Vale dizer que a maior parte do trigo consumido em Roma
nomeado ditador romano (48 a.C.). vinha justamente do Egito.

88 A.C.
Romanos lutam
107 A.C. a Primeira Guerra
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Caio Mário Mitridática contra 73 A.C.


CURIOSIDADE vence
eleição
o rei do Ponto,
na Ásia Menor
Sob a liderança
de Espártaco,
Júlio César mostrou-se mais para cônsul
benevolente com os inimigos escravos se
revoltam
Nikolay Sachkov/ Shutterstock

do que outros líderes.


contra Roma
Orgulhava-se de sua clemência
e tinha os antigos adversários
como seus clientes. Como 91 A 87 A.C. 87 A.C.
recompensa, César recebia Romanos e Confronto entre
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homenagens sem precedentes, aliados italianos Lúcio Cornélio


como um assento de ouro confrontam-se Sulla e Caio
no senado e a renomeação na Guerra Social Mário dá início
à Guerra Civil
do sétimo mês do ano (Júlio,
dando origem a julho).
Vincenzo Camuccini, do período
neoclássico, retratou em tinta a
óleo a morte de Júlio César

Júlio César nunca se casou com Cle-


ópatra. Isso porque ele já era casado
com Calpurnia, uma romana com quem
jamais teve filhos.

GOVERNO

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DE CÉSAR
Em 47 a.C., no mês de julho, Cleópatra As eleições para cargos públicos peras de iniciar mais uma campanha
deu à luz um menino. Ele recebeu o continuavam, mas César era quem de- militar, foi atacado por seus conspira-
nome de Ptolomeu 15, mas ficou mais terminava os resultados recomendando dores. Em 15 de março de 44 a.C., foi
conhecido mesmo como Cesário. candidatos às assembleias, que eram assassinado por 60 senadores, que o
César assumiu a paternidade. Con- dominadas por seus partidários. E, evi- acusavam de querer ser rei, o que sig-
tudo, atualmente, muitos colocam em dentemente, as suas “recomendações” nificaria o fim da República e a volta da
dúvida quem era o verdadeiro pai da eram imediatamente obedecidas. Ele monarquia. Ele teria sido alvejado com
criança. Segundo alguns historiadores foi ambicioso em seu governo. Reduziu 23 facadas nas escadarias do senado.
contemporâneos, Cleópatra nutria a as dívidas com moderação, iniciou um A história conta que o grupo foi li-
esperança de que seu filho fosse her- grande programa de obras públicas – in- derado por Marcus Julius Brutus, filho
deiro não somente do reino do Egito, clusive com a edificação de bibliotecas adotivo dele. Júlio César ainda buscou
mas também de Júlio César. Caso isso –, estabeleceu colônias para os vetera- se defender, cobrindo-se com uma toga.
ocorresse, Cesário se tornaria gover- nos na Itália e ampliou a cidadania aos Ao ver Brutus, ele teria dito a sua última
nante de um império comparável ao de não romanos. César ainda regularizou frase, que ficaria muito famosa: “Até tu,
Alexandre, o Grande, da Macedônia. o calendário, iniciando um ano de 365 Brutus”. O que os conspiradores não
O nascimento do filho de Cleópatra dias. Este sistema foi fundamentado em imaginavam era que o assassinato de
foi bastante conveniente para César. um antigo calendário egípcio e forma a César não traria o sistema republicano
Como pai do herdeiro do trono do Egi- base do calendário moderno. de volta, mas criaria uma nova guerra
to, ele poderia garantir o envio do trigo civil e as condições necessárias para o

DERROCADA
egípcio para o território romano sem início de uma verdadeira monarquia.
maiores despesas. No ano de 44 a.C., Após o episódio, Cleópatra surpre-
César removeu qualquer limitação de Este líder governou Roma como quis. endeu-se ao verificar que o testamento
tempo ao seu mandato de ditador. Tan- Obrigava senadores a aprovar projetos de César designava Otávio, seu sobri-
to que em suas moedas aparecia a ins- que não haviam lido. Elevou o número nho, e não Cesário, como o seu principal
crição “ditador perpétuo”. Como havia de integrantes do senado para colocar herdeiro. O mais conhecido atentado
um ódio à monarquia dentro de Roma, amigos nos novos postos. Ainda ali- político da Antiguidade deu fim à vida
ele insistia em dizer: “Não sou rei, sou mentava o sonho de conquistar o reino do polêmico ditador. Mesmo assim, o
César”. Mas a distinção que fazia era, na dos Partos (região entre o mar de Aral nome “César” ainda foi utilizado por
prática, insignificante. Com ditador, ele e o mar Cáspio) para formar uma nova muitos anos como título para os futuros
controlava pessoalmente o governo. monarquia mundial. Porém, às vés- imperadores romanos.
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63 A.C. 58 A.C.
Catilina tenta conspirar Tropas de Pompeu investem
contra Pompeu contra Júlio César, que vence
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batalhas e assume o poder

60 A.C:
Pompeu,
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Crasso e Júlio
70 A.C. César formam
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Após importantes o primeiro


vitórias militares, governo 47 A.C.
Pompeu é eleito cônsul Triunvirato Cleópatra dá à
luz Cesário, filho
67 A.C. de Júlio César
Pompeu vence 59 A.C. 57 A.C.
piratas que ameaçavam
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Júlio César luta Júlio César inicia 44 A.C.


comércio marítimo na Guerra da Gália romance com Cleópatra Grupo de conspiradores
pelo Mediterrâneo assassina Júlio César
CAPÍTULO 5 • MONARQUIA
Estátua de César
Augusto em Roma:
imperador assumiu
o poder após a
morte de Júlio César
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

A ASCENSÃO DO
IMPÉRIO ROMANO
APÓS O DERRAMAMENTO DE SANGUE EM
INÚMERAS GUERRAS, UM REPAGINADO SISTEMA
MONÁRQUICO DE GOVERNO ELABORADO POR
CÉSAR AUGUSTO REAPARECE EM 27 A.C.

O  assassinato de Júlio César, em 44 a.C., marcaria o


triste fim da República e também uma nova etapa
na história romana. Em 27 a.C., o sistema monárquico
estava de volta, ainda que não fosse assim denomina-
do. Naquele ano, Otaviano já havia vencido todos os
seus rivais e adotou o nome Augusto – com a alegação
de estar aprimorando a República. Os historiadores con-
temporâneos são unânimes em dizer que se tratava de
uma monarquia disfarçada e afirmam que tais governa-
dores eram, na realidade, imperadores.

Independentemente disso, o grande mérito do novo sistema


era ter posto fim a décadas de guerra civil. A concentração de
poder nas mãos de um homem soberano trouxe de volta valo-
res como a lealdade ao governante e sua família. Otaviano, por
sua vez, manteve instituições importantes e já consagradas no
ambiente romano – casos do Senado, da escada de cargos, das
assembleias e dos tribunais. Enquanto isso, ele atuava como um
imperador sem reivindicar os privilégios de tal posição.

DISPUTAS
Após a morte de Júlio César, a batalha pela vaga do tirano não foi
tranquila. Mais guerras civis marcaram o momento. Os concor-
rentes iniciais foram Lépido e Marco Antônio – dois experientes
generais –, além de Otaviano, sobrinho-neto de apenas 19 anos
de César. Esse último era um militar novato, cuja nova identidade
como filho de César rendeu-lhe a lealdade daqueles soldados
que tinham adorado o ditador.
Com o apoio dos militares veteranos de seu pai adotivo, que
aguardavam pelo recebimento de recompensas pelo general
morto, Otaviano estudava na Grécia. Assim, o jovem os enviou
para lutar contra Marco Antônio no Norte da Itália. Depois de um
triunfo inicial, ele marchou com seus homens para a capital. Lá,
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exigiu ser eleito cônsul, mesmo não tendo nenhuma experiência


sequer em cargos públicos. Bastante amedrontados, os senadores »»

39
CAPÍTULO 5 • MONARQUIA

No entanto, Otaviano e Marco Antônio


conspiraram entre si para relegar Lépido
a um cargo de importância menor. Ele fi-
cou com o posto de governador da África
do Norte, mas perdeu todo e qualquer
poder de decisão com relação aos assun-
tos de Roma.
Desta maneira, Marco Antônio e
Otaviano passaram a dividir o controle
romano. O primeiro detinha os territó-
rios do Mediterrâneo Oriental – incluindo
as terras do Egito. Já o segundo ficava
com a Itália e o Ocidente. Porém, com o
passar do tempo, a relação entre ambos
ficou mais hostil.

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Antônio uniu-se à rainha do Egito,
Cleópatra VII. Sagaz, ela fez da relação
mais do que um acordo de aliados: os

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dois tiveram uma relação amorosa.
Como resposta, Otaviano reuniu os ro-
manos e alegou que o rival tinha planos
de fazer de Cleópatra a soberana estran-
geira deles. Além disso, também trans-
formou os habitantes da Itália e provín-
Marco Antônio, retratado em obra exposta cias ocidentais em clientes, obrigando-
na Áustria, lutou pelo posto de tirano
-os a fazer juramento de lealdade a ele
em 32 a.C. Foi desse modo que Otavia-
no conseguiu, em 31 a.C., vencer uma
guerra naval contra Cleópatra e Antônio
na costa de Ácio, no Noroeste da Grécia.
CURIOSIDADE Os amantes derrotados decidiram fugir
Os historiadores contam que para solo egípcio, onde teriam cometido
Cleópatra VII decidiu dar fim suicídio um ano depois. Otaviano tomou
à própria vida de um modo para si o reino do Egito, muito rico em
bastante inusitado. Ela teria
permitido ser picada por uma Escultura antiga faz menção a recursos diversos. Abastado e no coman-
cobra venenosa, símbolo de Cleópatra VII, que se uniu amorosa e do de um exército poderoso, tornou-se
autoridade régia. politicamente com Marco Antônio um líder sem rival à altura e, de longe, o
mais próspero da época.
concederam o posto a Otaviano. Essa foi,

RESTAURAÇÃO
sem dúvida alguma, a maior exceção à
tradição da escada de cargos.
Em seguida, Otaviano decidiu unir
forças com Marco Antônio e Lépido para DA REPÚBLICA?
enfrentar nova guerra civil contra os Após a vitória, Otaviano – líder de um
seus inimigos na Itália. Eles venceram exército de clientes – distribuiu terras
a batalha e, em novembro de 43 a.C., aos militares veteranos com o objetivo
formaram um novo Triunvirato – gover- de criar povos fiéis a ele. No ano de 27
no de três líderes. Forçaram o Senado a a.C., fez um comunicado público de que
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reconhecer a aliança como uma disposi- estava restaurando a República. Disse


ção emergencial oficial para reconstru- ainda que seria tarefa do Senado e do
ção do Estado. Juntos, triunfaram sobre o povo romano decidir a forma como o
exército dos “libertadores”, em 42 a.C., governo deveria ser preservado a par-
na batalha de Filipos, norte da Grécia. tir daquele momento. Os senadores,

40
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Estado. Para tanto, concederam a ele o buno mesmo sem exercer tais funções.
nome honorário de Augusto – que signi- Era desse modo que Augusto conseguia
CURIOSIDADE ficava “favorecido dos deuses”. Na oca-
sião, Otaviano pensou em mudar seu
manter-se como uma espécie de impe-
rador camuflado. César Augusto tam-
Otaviano – também chamado
de César Augusto – recebeu nome para Rômulo, o que o colocava bém decidiu prosseguir com a cerimô-
uma grande homenagem como uma espécie de segundo funda- nia tradicional. Vestia-se como um cida-
ao dar nome ao oitavo mês dor de Roma. Porém, ele avaliou que a dão normal e não como um monarca.
do ano, “augustus”, que antes
era chamado de “sextilis”. alcunha de um rei era perigosa naquele A estrutura de governo, nos anos
momento político. após 27 a.C., ajudou a manter a apa-
A realidade é que a forma de gover- rência republicana. As eleições anuais
no elaborada por Augusto atualmente de cônsules e outros cargos, a existên-
é denominada principado, derivada do cia do Senado e a aprovação de legis-
seu título de princeps – que significa lação nas Assembleias são alguns bons
Estátua
“o primeiro”. A escolha da designação exemplos de práticas que asseguraram
de César “primeiro homem” foi uma verdadeira essa imagem. Isso ocorria porque o
Augusto jogada de mestre. No período republi- controle de Augusto era exercido no
em Roma
cano, tal designação honorária era dada exército e no tesouro público. Essas
ao senador com o maior status, para instituições foram reconfiguradas com
quem os demais integrantes do Senado a intenção de garantir a manutenção
se voltavam em busca de orientação. do poder. O exército deixou de ser uma
Com isso, Augusto indicava de maneira milícia de cidadãos para se tornar uma
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implícita que continuava uma das mais força permanente. A receita imperial
valorizadas tradições republicanas. foi usada para garantir os salários dos
Para reforçar a ideia de que estava soldados e bonificação na aposentado-
apenas dando sequência à República, ria. Para conseguir pagar demais cus-
ele mantinha vivo o discurso de que tos, Augusto instituiu um imposto sobre
contudo, reconheciam que Otaviano só prosseguia como líder político por as heranças. A tributação direta sobre
possuía um poder avassalador e im- insistência dos senadores. Obrigava-os os cidadãos, algo bastante raro, afetou
ploraram a ele que continuasse com também a aprovar, periodicamente, a sobremaneira os mais ricos, o que cau-
as rédeas da situação para proteger o concessão de poderes de cônsul e tri- sou descontentamento.

Foto atual da floresta de Teutoburgo, na Alemanha,


onde três legiões romanas foram exterminadas
EXÉRCITO DE AUGUSTO SOFRE
DERROTA NA ALEMANHA
SEMPRE EM OBEDIÊNCIA AO SEU LÍDER, OS SOLDADOS
ACEITAVAM OS DESAFIOS PROPOSTOS SEM HESITAR.
A GRATIDÃO PELO PATRONO MOVIA AQUELE GRUPO DE
HOMENS RUMO A TAREFAS BASTANTE PERIGOSAS.
Em uma delas, no ano de 9 d.C., Augusto designou as forças
militares de Roma para uma expedição que tinha como
objetivo expandir a dominação para a atual Alemanha.
Contudo as três legiões da missão foram exterminadas em
uma emboscada na Floresta de Teutoburgo. O exército romano
bateu em retirada e não alcançou seu grande objetivo.
A história conta que Augusto ficou em desespero, pois temia
uma série de rebeliões e ataques. Além disso, na avaliação dele,
os danos pela perda de tantos homens na guerra poderiam ser
avassaladores. Segundo o escritor latino Caio Suetônio, nesta
época, Augusto parou de se barbear e de cortar o cabelo por
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meses. Ele vagava pela residência em Roma e batia a cabeça em


uma porta enquanto gritava contra o comandante morto da
expedição: “Quintílio Varo, devolva minhas legiões”.
»»

41
CAPÍTULO 5 • MONARQUIA

ORDEM IMAGEM
de Augusto foi formalmente aberto

NA CASA
em 2 a.C. e nele havia um templo para
Mostrar a figura do imperador como um Marte (o deus romano da guerra) e
Com o passar do tempo, César Augus- líder bem-sucedido e patrono generoso Vênus (deusa do amor), que o impera-
to decidiu concentrar a sua atenção na era de fundamental importância para dor alegava ser a sua ancestral divina.
segurança do perímetro do Império. Em garantir a estabilidade daquele sistema O santuário foi construído como uma
geral, a maior parte do exército cuidava político. Para conseguir passar adiante forma de agradecimento às divinda-
das províncias para que fossem evita- este conceito, Augusto utilizava as mo- des pelo triunfo diante das forças dos
das rebeliões internas e também inva- edas como um meio de propaganda assassinos de César. Lá era exibida a es-
sões dos diversos povos estrangeiros. política. Nelas era possível ler mensa- pada de Júlio César como um memorial
A partir do ano de 27 a.C., o líder gens que o proclamavam “restaurador ao pai adotivo.
romano começou a colocar em posição da liberdade”. Outras faziam menção a A preocupação de Augusto com sua
soldados na própria capital. Tais ho- alguma obra importante por ele idea- imagem fica clara até mesmo no lo-
mens eram chamados de pretorianos lizada. cal de habitação. O imperador romano
por conta da função original de esta- Augusto, aliás, enfatizava outra fez questão de edificar sua residência
rem estacionados como guarda-costas tradição romana: como um homem pessoal no monte Palatino, onde vivia
perto da barraca (praetorium) de um rico, usava o próprio dinheiro para er- modestamente. Tal fato, é claro, era
comandante no campo. Essas tropas guer importantes construções públi- muito bem divulgado com o objetivo
compunham a guarda imperial prin- cas. Importante dizer que o imperador de mostrá-lo como um cidadão comum.
cipal, ainda que o imperador contasse herdou uma enorme fortuna de Júlio Já os imperadores que o sucederam não
com um pequeno grupo de mercenários César, além de ter multiplicado seus tiveram essa astúcia política e construí-
alemães – fiéis somente a ele – para a ganhos através dos confiscos de guer- ram palácios gigantescos na mesma co-
proteção pessoal. A existência desses ras e despojos conquistados, principal- lina com vista panorâmica para o Circo
agrupamentos foi uma forma de mos- mente, no Egito. Os projetos arquitetô- Máximo, local que abrigava corridas de
trar que a superioridade do governante nicos dele não só garantiam melhorias bigas – um dos entretenimentos públi-
era pela ameaça de força, não somente nas instalações públicas, mas também cos favoritos de Roma.
pela suposta autoridade moral em si. passavam ao povo a mensagem de
que seu imperador era alguém bas-
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tante generoso.
O novo fórum – uma praça pública
ao lado do antigo Fórum Romano – foi
totalmente custeado por Augusto. Se-
gundo o historiador Thomas R. Martin,
“a obra no centro da cidade ilustra in-
teiramente a sua habilidade em enviar
mensagens claras aos populares por
meio das pedras e estátuas”. O Fórum

Atores encenam em
Roma uma ação da
antiga guarda pretoriana
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Moedas da época
do Império Romano:
Augusto as usava
como instrumento de
propaganda política
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Durante seu governo, Augusto ainda mais que havia visto a República estava dele: além da conexão familiar com o
elaborou um longo documento. Ele que- vivo”. Contudo, mesmo os mais jovens antecessor, o brilhante histórico de ge-
ria que a carta, que descrevia todas as podiam perceber que o imperador trou- neral garantia-lhe o respeito máximo
suas realizações como governante, fosse xe uma rara estabilidade à sociedade de todo o exército romano.
divulgada por toda parte depois de seu de Roma, o que ajudou a transformá-la O sucesso político, contudo, gerou
falecimento. Nela, Augusto afirma, em no grande império do período. perdas pessoais. Para tornar-se suces-
primeira pessoa, que sua carreira fora sor de César, precisou fortalecer os la-
firmada nas tradições da República.
DINASTIA JÚLIO- ços familiares. Augusto forçou Tibério

CLAUDIANA
Em geral, os historiadores diver- a separar-se da esposa, Vipsânia, para
gem sobre as reais intenções de César desposar a filha dele, Júlia. Um matri-
Augusto. Enquanto alguns o classificam Antes de falecer, Augusto arquitetou a mônio estritamente político e extre-
como um imperador cruel e descarado sucessão de poder em Roma. Como não mamente infeliz, pois ele amava mui-
que tinha apenas o objetivo de alcan- tinha herdeiro próprio, adotou Tibério, to a ex-mulher. Tibério nunca teria se
çar o poder suprimindo a liberdade da filho adulto do casamento anterior da recuperado por completo da tristeza.
República, outros o consideram um re- esposa dele, Lívia. O rapaz apresenta- Tanto que passou a última década de
formador bem-intencionado que encon- va um brilhante histórico militar. César, vida recluso em um palácio na ilha de
trou na monarquia maquiada uma ma- então, informou ao Senado que o exér- Capri, perto de Nápoles, e nunca mais
neira de superar um cenário anárquico. cito queria que esse filho adotivo esti- voltou para Roma. »»
Mesmo sofrendo com muitas doen- vesse na linha sucessória.
ças durante a sua vida, ele governou Os senadores foram bastante pru- Escultura de
Roma até a morte, em 14 d.C., aos 75 dentes ao confirmar a escolha de Au- mármore do
imperador
anos de idade. Foram, ao todo, 41 anos gusto a esse respeito depois do fale- Tibério, sucessor
de um longo reinado. Segundo observou cimento do primeiro imperador. Inte- de Augusto
o historiador Tácito um século depois, grantes da família de César – conheci-
Augusto viveu tanto que, por volta da dos como Júlio-Claudianos por causa
época em que morreu, “quase ninguém dos nomes das linhagens da família de
Augusto (julianos) e Tibério (claudia-
Imagem do nos) – continuaram a ocupar a posição
Fórum de
Augusto, obra de “primeiro homem” nos cinquenta
totalmente anos seguintes com aprovação do Se-
custeada pelo
imperador
nado. Tibério assumiu o poder e perma-
neceu como imperador por 23 anos, até
37 d.C. O longo período de governo só
foi possível por causa das qualificações
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Ruínas no monte Palatino, local


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de habitação dos imperadores


CAPÍTULO 5 • MONARQUIA

CALÍGULA por uma prostituta que escapasse do

CURIOSIDADE Caio foi o sucessor de Tibério na di-


nastia Júlio-Claudiana. Mais conhecido
tributo de Caio.
Vaidoso, ele ainda exagerou em sua
Algumas fontes antigas
como Calígula (12 a 41 d.C.), ele nu- conduta pública, labutando em comba-
dão conta de que, após
separar-se de Vipsânia, Tibério tria um defeito letal dentro da política: tes gladiatórios simulados e fazendo
foi para a casa da ex-mulher apreciava demasiadamente o poder. aparições em palcos como cantor, ator
para lhe rogar o perdão. Além disso, não havia construído uma e até vestido de mulher. Calígula ainda
Não há registro na história
sobre a resposta ao pedido sólida carreira militar como os demais teria tido casos sexuais com as próprias
dele. O que se sabe é que, líderes romanos. A verdade é que Tibé- irmãs. O comportamento do imperador
pouco depois, ele prometeu rio o escolheu para substituí-lo por ser ultrapassou todos os limites. Em 41
a Augusto que nunca mais bisneto da irmã de César Augusto. d.C., para colocar fim à sua farra, dois
voltaria a ver Vipsânia.
Mesmo com a falta de tais atribu- soldados da guarda pretoriana o mata-
tos, Caio poderia ter alcançado suces- ram como vingança pelos insultos dire-
so na empreitada, pois, no começo de cionados a eles.
Mesmo com fama de poucos ami- seu governo, possuía uma considerável
gos e da impopularidade, Tibério con- apreciação do povo. Também entendia
seguiu oferecer à nação um tempo de assuntos militares, apesar da falta
tranquilo de transição. Era o período de maior experiência prática.
que o Império necessitava para que Contudo, ao receber poder sem li-
ficasse estabelecido um denominador mites, Calígula mostrou que não trazia
comum entre o imperador e a elite, tão consigo uma personalidade de lide-
descontente na época de César Augus- rança. Ele, na realidade, carregava no
to. Ainda que governasse como um mo- coração o desejo de satisfazer os seus
narca, ele precisava da cooperação da interesses pessoais. O sucessor de Ti-

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classe alta nos cargos públicos da admi- bério governou cruelmente, usando da
Imagem de
nistração, de comandantes do exército violência para tratar de diversos pro- Agripina,
e de líderes nas províncias. Enquanto blemas. Também desperdiçou o dinhei- mulher de
esta relação fosse boa, governo e elite ro público para seu próprio gozo. Para Cláudio: ela
o matou
poderiam gozar de respeito e status. As preencher o rombo que abriu no tesou- envenenado
classes mais abastadas continuavam se ro, impôs novos impostos sobre vendas
deleitando com o prestígio das funções em todos os setores. Não havia refeição
de cônsules, pretores e senadores. Já os rápida na rua ou ato sexual realizado
imperadores poderiam deixar o status
superior evidente ao decidirem quem Busto de
ocuparia tais postos. Assim, as Assem- Calígula,
imperador
bleias logo passaram a ser apenas au- romano que
torizações automáticas para os anseios apreciava
muito
dos imperadores. Com isso, essas reu-
o poder
niões perderam muito de sua antiga
força.
No ano de 23 d.C., Tibério decidiu
construir um acampamento permanen-
te na cidade para a guarda pretoriana.
Isso facilitava a utilização dos homens
para apoiá-lo caso fosse necessário agir
com força. Ele teria morrido em seu
leito por causas naturais mesmo. No
entanto, um rumor espalhado pelo Im-
pério dava conta de que teria sido asfi-
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xiado. A notícia da morte dele, aliás, foi


comemorada efusivamente por muitas
pessoas.

44
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

AMEAÇA À DINASTIA
O período Júlio-Claudiano ficou em perigo após o assas- NERO E O INCÊNDIO EM ROMA
sinato de Calígula, pois ele não possuía filhos e o com-
ATUALMENTE, AO CONTRÁRIO DO QUE FOI CONTADO
portamento violento dele havia assustado sobremanei- DURANTE ANOS, OS HISTORIADORES RECHAÇAM A
ra a população de Roma. Quando da notícia do homi- IDEIA DE QUE NERO REALMENTE COLOCOU FOGO EM
cídio, uma parcela dos senadores movimentou-se com ROMA NO ANO DE 64 D.C. O MAIS PROVÁVEL É QUE O
INCÊNDIO ARRASADOR QUE TOMOU CONTA DA CAPITAL
o objetivo de restaurar a República original. Porém,
DO IMPÉRIO ENTRE OS DIAS 18 E 19 DE JULHO DAQUELE
essa tentativa foi frustrada pela guarda pretoriana, que ANO TENHA COMEÇADO ACIDENTALMENTE. AS CHAMAS
desejava que os imperadores continuassem como seus DESTRUÍRAM GRANDE PARTE DA CIDADE E DEIXARAM
patronos. Os soldados literalmente arrastaram Cláudio MUITOS MORTOS (APESAR DE O NÚMERO TOTAL DE
ÓBITOS NÃO SER CONHECIDO). A REALIDADE É QUE AS
– parente de Augusto que não evidenciava qualquer ca-
INFORMAÇÕES SOBRE O INCIDENTE SÃO ESCASSAS, POIS
pacidade de governar – para o acampamento e, à força, OS REGISTROS DO CASO SÓ FORAM ESCRITOS VÁRIAS
fizeram o Senado proclamá-lo o novo soberano. DÉCADAS DEPOIS.
Cláudio, aos cinquenta anos de idade, assumiu o A teoria de que Nero fora o responsável pelo fogo surgiu
poder e mostrou competência no comando romano. da ideia de que ele tinha a intenção de fazer uma grandiosa
reforma urbana na cidade, dando fim a diversos bairros
Ele instaurou um precedente essencial ao governo do
inteiros para edificar construções mais modernas no lugar.
Império alistando homens da província de Gália Tran- Os defensores dessa versão da história acreditavam que o
salpina – Sudeste da França – no Senado pela primeira incêndio aceleraria esse processo na metrópole.
vez. Essa modificação abriu caminho para a importân- Já a tese de fogo acidental parte do pressuposto de que as
cia de se ter províncias como clientes dos imperadores, chamas teriam surgido em um dos cubículos de madeira do
grande camelódromo ao lado do Circo Máximo, o principal
cuja função era ajudar a manter o Império em paz e hipódromo romano. Eram centenas de barracos ocupados
próspero. O governante ainda liberou o emprego de por astrólogos, prostitutas e cozinheiros, que utilizavam
escravos libertos em cargos administrativos poderosos fogo para cozinhar e iluminar os ambientes.
esperando lealdade dos mesmos. Segundo relatos da época, o calor do verão em Roma
O que Cláudio não esperava era pela traição da era intenso naquele dia e as chamas teriam se alastrado
rapidamente alimentadas pela grande quantidade de
própria esposa, Agripina, que o envenenou em 54 d.C. madeira e materiais inflamáveis de lojas próximas. Conta-se
Ela desejava que Nero (37 a 68 d.C.) – filho adoles- que o fogo propagou-se ainda mais por conta do forte vento
cente de um ex-marido – virasse imperador, ao invés que soprava no sentido sudeste.
do próprio filho de Cláudio. Agripina alcançou o seu O setor mais densamente povoado de Roma tinha vários
objetivo e naquele mesmo ano Nero assumiu o trono. pequenos e precários prédios de até cinco andares, todos
edificados com madeira, tijolos e alvenaria. O fogo,
O novo imperador apresentava uma personalidade provavelmente, se disseminou primeiro por
difícil e também caiu nas perigosas armadilhas pro- essas construções. Em seguida, avançou para

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porcionadas pelo poder absoluto. Não possuía treina- as áreas mais nobres e consumiu
mento militar adequado. Tampouco foi devidamente construções mais sólidas.
capacitado para governar um Império. Há registros de que uma
gigantesca nuvem de
O que não faltava a Nero era a paixão por música fumaça cobriu a cidade.
e pela arte dramática. Assim, os luxuosos festivais pú- Com suas casas arrasadas
blicos que organizava e o dinheiro distribuído às mas- e parentes mortos,
sas mantinham a sua popularidade nas alturas. Nero pessoas se desesperaram
e cometeram suicídio.
desprendeu quantias enormes apenas com os seus Pelas ruas, muita gente
prazeres. Para conseguir mais dinheiro, costumava tentou combater o
forjar acusações de traição contra cidadãos abastados. incêndio utilizando
Assim, podia confiscar as suas propriedades. baldes com água. Por
isso, vários romanos morreram asfixiados
Diante de um governo tão problemático e polêmi- ou pisoteados. Já os bandidos buscavam
co, os indignados comandantes das províncias apoia- saquear as casas abandonadas.
ram rebeliões contra ele. Os senadores também insti- Reza a lenda que, durante o incêndio, Nero
tuíram um levante. O fim da linha para Nero foi quando teria subido no teto de seu palácio para
um dos comandantes dos pretorianos os subornou para tocar lira e apreciar os efeitos do fogo. Já
outros relatos informam que ele, na verdade,
desertarem o imperador. Em 68 d.C., com medo de ser participou das brigadas para conter o grande
preso e executado, não teve outra escolha: pediu a um incêndio. As chamas teriam, inclusive,
servo para cortar sua própria garganta. Antes de fale- destruído o seu palácio.
cer, teria exclamado: “Que artista morre comigo!”. »»
Desenho contemporâneo faz menção à
lenda de que Nero estava tocando lira
enquanto assistia ao incêndio em Roma
45
CAPÍTULO 5 • MONARQUIA

Estátua de
Vespasiano, CONTINUIDADE
VOCÊ SABIA? sucessor
de Nero
A dinastia flaviana teve prosseguimen-
Calígula quer dizer “botinhas”. no poder to com os filhos de Vespasiano, Tito e
O imperador recebeu este Domiciano. Ambos, contudo, herdaram
apelido das tropas quando
criança, pois utilizava problemas profundos. Primeiramente,
pequenos sapatos de precisavam melhorar a vida do povo
couro que imitavam os dos para prevenir as desordens. Em segun-
soldados enquanto viveu nos do lugar, tinham que esmerar-se na
acampamentos militares onde
seu pai era comandante. defesa contra invasões de outros povos
nas fronteiras.
Tito ganhou fama no ano 70 ao
derrotar uma rebelião de quatro anos

NOVA DINASTIA
entre os judeus onde hoje fica Israel
e capturar Jerusalém. O Templo de Je-
A morte de Nero deixou Roma sem um rusalém, onde ocorriam os rituais do

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sucessor, pois ele não tinha filhos. Es- judaísmo, fora incendiado no ataque e
tava decretado o fim da dinastia Júlio- nunca mais reconstruído. No pequeno
-Claudiana. Por conta disso, em 68 d.C., período em que permaneceu no poder
uma guerra civil teve início entre os in- (79 a 81 d.C.), Tito ainda foi responsá-
teressados em assumir o poder. O vence- ras divindades soava normal aos mo- vel por enviar ajuda às comunidades
dor da batalha pelo posto de imperador radores das províncias, que já home- prejudicadas pela erupção vulcânica no
romano foi o general Vespasiano. Com nageavam reis locais desta forma há Monte Vesúvio em 79 d.C.
isso, em 69, ele empossou a família – os séculos, desde a época de Alexandre, o Além das ações emergenciais, Tito
flavianos – como a nova dinastia. Grande, no século IV a.C. ainda foi o provedor de diversão para
Para dar legitimidade ao novo re- Como o culto ao imperador já es- as massas romanas. Ele concluiu o Co-
gime, Vespasiano obrigou o Senado a tava estabelecido no lado oriental do liseu, em 80 d.C., equipando a constru-
reconhecê-lo como governante com Império, Vespasiano buscou fortalecer ção com imensos toldos para fornecer
uma declaração bastante minuciosa a ideia entre os das províncias da Es- sombra à multidão. Tito faleceu no ano
dos poderes que passava a ter. Esta foi panha, Sul da França e África do Norte. seguinte devido a causas naturais.
oficialmente transformada em lei. Com Contudo, na Itália o conceito não ga- Domiciano, irmão dele, assumiu
o objetivo de estimular a lealdade nas nhou força entre aqueles habitantes. Os o posto em 81 d.C. e permaneceu até
províncias, ele incentivou os integran- italianos, aliás, desdenhavam do culto 96. Ele conduziu o exército no combate
tes das elites locais a participarem do imperial. a invasores germânicos – do Norte até
culto imperial. Tais celebrações incluí- Em um período de estabilidade, as áreas do Reno e do Danúbio. Era o
am o sacrifício de animais aos deuses Vespasiano seguiu soberanamente no início de perigosas batalhas fronteiriças
para o bem do imperador e, em certos poder até a sua morte, no ano de 79. Ele que se intensificariam com o passar dos
casos, a adoração do próprio imperador. deixou o terreno preparado para a con- anos. Mas o que derrubou Domiciano
A veneração de líderes como verdadei- tinuidade da nova dinastia que surgira. mesmo foi a arrogância. O historiador

43 A.C.
Otaviano força 31 A.C.
o Senado a Tempos depois do
reconhecê-lo como rompimento do governo
CURIOSIDADE cônsul. Ele, Lépido
e Marco Antônio
triúnviro, Otaviano derrota
aliança entre Cleópatra VII
Vespasiano parece ter formam um Triunvirato. e Marco Antônio.
levado a sério a ideia
de ser uma divindade.
De acordo com o 42 A.C. 9 D.C.
historiador Suetônio, Trio vence os Augusto sofre revés na
ele teria proferido autoproclamados Alemanha e encerra planos
a seguinte frase no “libertadores” na batalha de expansão ao Norte.
leito de morte: “Ai de de Filipos, na Grécia.
mim! Acho que estou
14 D.C.
virando deus”. Augusto morre
27 A.C.
Otaviano “restaura a depois de 41 anos
República”, que, na realidade, como imperador.
é o início do Império.
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

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Suetônio relata que, ao comunicar seus o que transformou Jerusalém em uma
desejos pessoalmente ou então por es- colônia militar. Aurélio, por sua vez, pas-
crito, costumava afirmar: “Nosso Mestre sou muitos anos protegendo a região do
e Deus, eu mesmo, ordena que façais Danúbio contra as tentativas de invasão.
isso”. Ele ainda ampliou o seu palácio Os cinco imperadores se sucede-
no monte Palatino para mais de 32 mil ram um ao outro sem registros de ca-
metros quadrados. Seu comportamento sos de assassinatos ou conspiração. Os Adriano foi
imperador
gerou descontentamento. Após o surgi- quatro primeiros, por não possuírem na época da
mento de uma conspiração dentro de filhos, usaram a tradição romana de chamada
sua própria residência, Domiciano foi adotar adultos com o intuito de en- Idade de Ouro
da política
assassinado em 18 de setembro de 96. contrar o melhor sucessor possível. Na romana
área econômica, tudo caminhava bem:

IDADE DE OURO os impostos geravam boas receitas e o


comércio exterior atingiu o seu auge.
não eram necessárias as guarnições de
tropas. Até mesmo a Gália, que resistira
Nesse período, o assassinato de um
Além disso, o exército continuava obe- muito ao controle romano nos tempos
imperador já não causava mais tanta
diente ao comando dos imperadores. de Júlio César, passou a ser controlada
turbulência política. Era apenas motivo
Foi o mais longo período da história por poucos homens. A preocupação
para iniciar a busca por um novo nome
romana sem uma guerra civil desde o quase que exclusiva ficou com a manu-
que fosse de agrado do exército.
século II a.C. A grande parte das pro- tenção da segurança nas fronteiras.
Os cinco imperadores seguintes
víncias era pacífica nesta época. Assim,
estabeleceram um período de relativa
paz em Roma. A época ficou conhecida
como a Idade de Ouro política do Impé-
rio, pois esses soberanos conseguiram OS AVANÇOS COM Nessa época, o comércio também
se intensificou, inclusive com a
providenciar tranquilidade por quase
um século. Nerva governou de 96 a 98;
A ROMANIZAÇÃO interação maior com mercados
distantes, como Índia e China.
Trajano ficou no poder entre 98 e 117; A ADOÇÃO DA CULTURA ROMANA Mercadores romanos passaram
Adriano foi imperador entre 117 e 138; POR NÃO ROMANOS ALTEROU a navegar para estas regiões em
O MUNDO MEDITERRÂNEO. A busca de produtos para importar
Antonino Pio esteve no trono romano “ROMANIZAÇÃO” TAMBÉM FOI à Europa. Os tributos sobre tais
entre 138 e 161; por fim, Marco Aurélio IMPORTANTE INSTRUMENTO PARA mercadorias acabavam sendo uma
governou entre 161 e 180. Esta foi a di- A ELEVAÇÃO DO PADRÃO DE VIDA. das principais fontes de receita
nastia dos Antoninos. PARA MUITOS HABITANTES DAS para o Império.
PROVÍNCIAS, A CONSTRUÇÃO A agricultura nas províncias
Trajano foi quem travou mais bata-
DE ESTRADAS E PONTES ELEVOU também prosperou a olhos vistos
lhas. Foram violentas campanhas que A QUALIDADE DO TRANSPORTE com o passar do tempo. O fato
expandiram o Império rumo ao Norte PARA OUTROS PATAMARES. JÁ OS de que a maioria dos provinciais
– além do rio Danúbio até a atual Romê- LONGOS AQUEDUTOS FORNECIAM tinha uma vida mais próspera
nia – e para o Leste, até a Mesopotâmia GRANDE QUANTIDADE DE ÁGUA sob o domínio romano facilitou
PARA AS CIDADES. a aceitação da “romanização”.
(Iraque). Já o imperador Adriano com-
bateu uma segunda rebelião judaica,

14 a 37 54
Primeiro imperador da Cláudio é
dinastia Júlio-Claudiana, assassinado e 69
Tibério governa até sua morte. Vespasiano
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Nero assume
o poder. vence guerra
civil e cria
37 a 41 dinastia
Calígula assume o governo 64 flaviana.
e permanece por quatro 81
Incêndio Tito morre e
anos, até ser assassinado. de grandes Domiciano assume.
proporções 70
41 destrói parte Tito, filho de 96
Guarda de Roma. Vespasiano, captura Domiciano é assassinado.
Pretoriana Jerusalém e encerra
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impede volta rebelião judaica.


da República 68 96 a 180
e faz de Nero é perseguido por Cinco bons imperadores (Nerva,
Cláudio o novo conspiradores e comete suicídio; 79 Trajano, Adriano, Antonino Pio e
imperador. a morte dele marca o fim Vespasiano falece e Marco Aurélio) governam durante
da dinastia Júlio-Claudiana. Tito assume o poder. a Idade de Ouro do Império.
CAPÍTULO 6 • IMPERADORES
Busto de
imperadores
romanos
expostos no
Vaticano, Itália

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CRUELDADE R esponsável pela introdução do perí-
odo imperial em Roma, César Augusto

E INSANIDADE
puxou a fila de líderes astutos que gover-
naram com mãos de ferro. Ele deu a es-
tabilidade ao ambiente político romano,
mas, indiretamente, também abriu cami-

NO TRONO
nho para imperadores cruéis e habituados
a condutas pouco ortodoxas.

A realidade é que os donos do poder tiveram


atitudes das mais variadas. Algumas versões –
IMPERADORES ROMANOS ERAM GENIOSOS, nem todas confirmadas pelos historiadores – dão
EXCÊNTRICOS, CHEIOS DE MANIAS E conta de que até um cavalo teria sido nomeado
ALGUNS DELES DEMONSTRAVAM UM para um cargo público de bastante importância.
Os imperadores também eram conhecidos pela
COMPORTAMENTO ATROZ CONTRA SEUS crueldade e ganância, o que teria levado alguns
PRÓPRIOS FAMILIARES E ADVERSÁRIOS até a matarem os seus familiares.
No entanto, certas atitudes – como, por exem-
plo, a prática do incesto – precisam ser relativi-
zadas, pois ocorreram há quase dois mil anos e
em contextos completamente distintos dos dias
de hoje. Nas próximas páginas, o leitor poderá
conhecer mais detalhadamente o perfil e o com-
portamento de alguns desses homens.

48
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

CÉSAR AUGUSTO,
extremamente gracioso em todos os acreditam que era pelo fato de não ser
períodos de sua vida, embora não se um lambe-botas e por afrontá-lo em

O PRIMEIRO importasse com nenhum adorno pesso-


al”. O imperador também era portador
diversas oportunidades.
Tibério passou boa parte do reinado
IMPERADOR ENTRE de olhos claros e brilhantes. em campanhas militares. Muitas asse-
27 A.C. E 14 D.C. Por outro lado, o biógrafo relata guraram a expansão das fronteiras. Em
Além de ter sido o primeiro imperador que Augusto tinha dentes afastados, uma dessas batalhas, perdeu o irmão,
romano, não há dúvida de que Caio Jú- pequenos e mal conservados. O cabelo Druso, seu companheiro nas investidas.
lio César Otaviano Augusto também foi dele era ligeiramente cacheado e incli- Já o episódio do falecimento de seu
um dos mais importantes. Ele nasceu nado para dourado. Já as suas sobran- sobrinho Germânico, no Oriente, deu
na cidade de Roma – capital do Império celhas se juntavam. Por outro lado, as início a uma época de governo marca-
– em setembro de 63 a.C. e morreu em suas imagens oficiais eram bastante da pela violência e tirania. Em um esta-
agosto de 14 d.C. na comuna italiana controladas e idealizadas. Aos 19 anos, do de insanidade bastante acentuado,
de Nola. Augusto, que pertencia à di- a face dele apareceu pela primeira vez matou a própria esposa, Júlia, e o chefe
nastia Júlio-Claudiana, teve dois filhos, em moedas, uma forma de destacar a da Guarda Pretoriana, Lúcio Élio Sejano.
Maior e Júlia. Esteve no poder romano imagem do imperador. Também executou friamente seus fa-
por 41 anos, de 16 de janeiro de 27 a.C. miliares, cúmplices e amigos.
até a data de sua morte. TIBÉRIO: Nesse período, integrantes impor-

EFICIENTE E
Durante seu governo, Otaviano or- tantes da sociedade romana foram per-
ganizou expedições militares na Récia, seguidos, torturados e assassinados,
Panônia, Hispânia, Germânia, Arábia e
África. Ainda pacificou as regiões dos
MALDOSO principalmente na capital do Império. O
reinado dele também é marcado pela
Alpes e Hispânia. Além disso, anexou IMPERADOR ENTRE crucificação de Jesus Cristo. O governo »»
ao Império a Galácia e a Judeia. Muitos 14 E 37 D.C.
historiadores consideram o período de Tibério Cláudio Nero César, nascido no
Augusto como um dos mais prósperos ano 42 a.C. e falecido em 37 d.C., foi
do Império, tanto no quesito econômico imperador romano com a idade de 56
quanto no cultural. anos. Reinou desde a morte do padras-
Era conhecido como um governante to, Augusto, em 14, até sua morte.
moderado e enérgico. Implicitamente, Era filho de um casamento anterior
queria deixar a imagem de um grande de Lívia, a terceira mulher de Augusto.
pai que restaurou a paz e a prosperida- Foi adotado e executou, a mando do

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de ao povo devastado pela guerra de então imperador, missões diplomáti-
modo altruísta. Não há dúvida de que cas e militares. Os combates vitoriosos
Augusto foi um patrono generoso aos na Panônia e Germânia o credencia-
mais pobres, forçando os ricos a fazerem ram para ser o sucessor no Império.
contribuições financeiras para pagar o Tibério não era a primeira
exército permanente e obras públicas. opção de seu padrasto. No en-
Contudo, atrás da benevolência estava tanto, Augusto não teve outra
escondido um veio de crueldade. Mui- escolha, já que todos os seus
ta gente – inclusive amigos e parentes sucessivos herdeiros falece-
– foi assassinada nas proscrições de 43 ram, casos de Agripa, Marcelo,
a.C. Tantos outros cidadãos perderam Lúcio e Gaio.
suas casas nos confiscos que forneciam Na cerimônia em que anun-
terras para veteranos do exército. ciou Tibério como herdeiro do
trono, César mostrou relutân-
APARÊNCIA cia. Tanto que, ao final do
Um século depois, Suetônio, biógrafo discurso, disse: “Faço isso
de Augusto, utilizou muitas expressões por questões de Estado”.
para exaltar a boa imagem do primeiro A história não explica o
imperador de Roma. Ele ressaltava que motivo de não gostar
Otaviano era “incomumente bonito e do enteado, mas muitos
Suetônio, biógrafo de César
Augusto, o descreve como
“incomumente bonito”
49
CAPÍTULO 6 • IMPERADORES

dele ajudou a impregnar a ideia do cul- CALÍGULA E romano. De acordo com o próprio Tibé-
to ao imperador e elevou o caráter ma-
A DEVASSIDÃO rio, Calígula possuía todos os vícios dos

MORAL
terialista em Roma. Os pontos positivos pais e nenhuma das virtudes.
foram a melhora nos serviços públicos, O início liberal de seu governo pare-
o equilíbrio nas finanças e o controle IMPERADOR ENTRE cia um bom presságio para a população.
disciplinar do exército.
Em 26 d.C., Tibério parece cansa-
37 E 41 D.C. Porém, o imperador adoeceu por conta
dos excessos e orgias. Quando estava
O pai de Caio Calígula era Germânico,
do das intrigas políticas da Corte. Ele finalmente recuperado, mostrou o seu
valente cônsul e general do Império Ro-
abandonou a capital e estabeleceu-se lado maligno. Alguns historiadores acre-
mano que faleceu com apenas 34 anos,
na Campânia. No ano seguinte foi para ditam que a doença fez com que ficasse
provavelmente envenenado. Órfão mui-
a Ilha de Capri, onde passava o tempo demente. Nesse momento, começou a
to pequenino, Calígula foi adotado pelo
com os intelectuais gregos. Faleceria gastar de forma exorbitante e impor tri-
imperador Tibério e tinha 25 anos quan-
naturalmente em 37. Contudo, muitos butos muito elevados. A parte final do
do sucedeu o pai adotivo e foi nomeado
acreditam que ele teria sido assassinado reinado de Calígula não teve freios.
imperador. Com o passar dos anos, ele
no próprio leito, sob as ordens de Calígu- Era conhecido pela completa devas-
obteve todos os títulos imperiais, inclu-
la, pelos homens da Guarda Pretoriana. sidão na vida sexual. Foi acusado de ter
sive o de Augusto César, que lhe garan-
transado com suas três irmãs. Contudo,
tia poder soberano sobre toda a nação.
a sua principal diversão era torturar
Ele viveu desde os dois anos de
condenados na frente dos familiares.
idade no acampamento militar do pai.
Estátua de Tomava as posses das vítimas e não ad-
Era muito querido pelos soldados, que
mármore retrata mitia, de jeito algum, ser contrariado.
Tibério: crueldade acompanharam o seu crescimento. Fo-
Ele também foi acusado de determinar
marcou o reinado ram eles que lhe colocaram o apelido
do imperador que criminosos fossem servidos vivos
com o qual ficou famoso. Calígula é o
como refeição para animais selvagens.
diminutivo de caliga, o calçado militar
Ele mantinha uma casa de prosti-
usado pelos romanos.
tuição e chegou a dar ordens para que
Segundo o historiador Suetônio,
estátuas fossem postas em locais de
Calígula teria participado do assassi-
destaque em todos os templos, inclu-
nato de seu pai adotivo. Tibério – que
sive nas sinagogas de Jerusalém. Isso
o designou como um de seus
gerou conflito com os judeus, que não
herdeiros – conhecia bem o seu
aceitavam de modo nenhum esse de-
caráter distorcido e afirmou que
sejo do imperador. Calígula queria ser
preparava uma víbora para o povo
adorado como um verdadeiro Deus.

Busto de
Calígula em
MITO OU
Modena,
na Itália
VERDADE?
UMA HISTÓRIA QUE GANHOU
STATUS DE VERDADE FOI A
SUPOSTA NOMEAÇÃO DE
INCITATUS COMO SENADOR.
O PROBLEMA É QUE ELE ERA O
CAVALO DE CALÍGULA, QUE TERIA
AINDA LEVANTADO UM PALÁCIO
DE MÁRMORE PARA O ANIMAL.
Antes, o quadrúpede fora designado
sacerdote pelo imperador e tinha
o seu sono velado pela Guarda
Shutterstock

Pretoriana. A ideia de Calígula seria


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humilhar os senadores e mostrar


que ele poderia fazer qualquer coisa
com a vida de qualquer pessoa.
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Apesar de os soldados apoiarem


NERO E SEU
VERGONHOSO
as loucuras de seu líder, os oficiais da
guarda se cansaram de tanta insanida-
de e decidiram acabar com seu governo
desvairado. Numa conspiração que reu- GOVERNO
niu a guarda e senadores, o imperador IMPERADOR ENTRE
foi assassinado num túnel que ligava o 54 E 68 D.C.
Palácio ao Fórum. Nascido em Antium no dia 15 de de-
zembro de 37 d.C., Tibério Nero Cláudio

CLÁUDIO: Shutterstock
Domiciano César tornou-se soberano

AVANÇOS E
em Roma aos 17 anos de idade. A as-
censão dele ao poder foi fruto de uma

POLÊMICAS Morte de Cláudio teria sido


por envenenamento
trama conjunta da mãe, Agripina, e do
filósofo Sêneca, seu mestre. Eles con-
IMPERADOR ENTRE venceram Cláudio a adotá-lo um pouco
41 E 54 D.C. 53, a ilha da Bretanha. Vinculou ao Im- antes de morrer.
Nomeado imperador pelos pretorianos, pério a Lícia, Judeia e Trácia, e promoveu Contudo, logo que assumiu o pos-
Tibério Cláudio César Augusto Germâni- a romanização das novas províncias. to, Nero entrou em conflito com a mãe,
co nasceu em Lyon (10 a.C.) e morreu Como benefício direto ao povo, que tinha como grande aspiração domi-
em Roma (54 d.C.). Filho de Nero Cláu- executou obras públicas de suma im- nar Roma através do filho. Com o tem-
dio Druso e Antônia, ele era irmão mais portância, como a edificação de novos po, ela passou a cogitar a possibilidade
jovem de Germânico, o sucessor natural aquedutos – o que solucionou o pro- de mudar o dono do trono. Sêneca, po-
ao trono. No entanto, este morreu em blema de abastecimento em Roma –, rém, providenciou a morte de um dos
circunstâncias bastante estranhas: retor- a melhoria das estradas e a edificação concorrentes.
nando de Antioquia, teria sido acometi- de um porto em Óstia. Seu passatempo O próprio Sêneca e o prefeito de
do de uma doença que se tornou fatal. O preferido de Cláudio era ver criminosos Roma, Sexto Afrânio, eram os conse-
governador da Síria, Calpúrnio Piso, não sendo torturados até a morte. Ele tam- lheiros de Nero. Os cinco primeiros anos
gostava dele e foi acusado de envenená- bém mandou matar a terceira mulher do governo dele, aliás, foram conside-
-lo ou amaldiçoá-lo. Cláudio, com apoio dele, Messalina, e trezentos amigos – rados um dos períodos mais felizes do
da Guarda Pretoriana – que lutava contra inclusive o famoso ator Mnester. A ver- Império. Seus orientadores o deixavam
o reestabelecimento da República pro- dade é que desconfiava que sua esposa se satisfazer com todas as suas paixões. »»
posto pelo Senado –, foi colocado como o promovia orgias com esses homens.
grande líder do governo romano. No fim, acabou sendo assassinado
O imperador era coxo e gago. Quan- pela quarta esposa, Agripina II, depois
do criança, foi acometido por diferentes que adotou o filho dela, Nero, como seu
doenças. Isso fez com que seu corpo fi- sucessor. Cláudio foi envenenado com
casse debilitado e sua mente sofresse cogumelos. Foi com César que a célebre
com um ligeiro retardo. Era considera- frase dos gladiadores surgiu: “Ave Cesar.
do um tolo pela própria mãe. Por outro Nós que vamos morrer te saudamos”.
lado, Cláudio confessou que fingiu ser
retardado para passar despercebido a
seu sobrinho, Calígula, sobrevivendo
assim ao reinado de terror. DECISÕES
Cláudio foi muito dedicado à lite- FOLCLÓRICAS
ratura durante seu governo. Iniciou, CLÁUDIO NÃO FOI SOMENTE
EFICIENTE NO GOVERNO E Maldade,
mas não terminou um trabalho sobre a
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que beirou
MALDOSO NO TRATO COM
história romana. Foram ainda mais de a loucura,
OS INIMIGOS. foi a marca
duas dezenas de livros sobre os etrus-
Ele também tomava medidas de Nero
cos e cartagineses, uma autobiografia e bizarras. A princaipal foi a
um projeto de reforma ortográfica. liberação da livre flatulência
Como conquistador, anexou, em 42, durante os banquetes!
a Mauritânia, no norte da África, e, em

51
CAPÍTULO 6 • IMPERADORES

VESPASIANO,
Como contrapartida, precisava permitir dele, apesar das muitas acusações.
ser guiado por eles no governo. Nero decidiu, então, colocar a culpa nos
Enquanto isso, a mãe de Nero, Agri-
pina, buscava recuperar a autoridade
cristãos, que já eram odiados e passa-
ram a ser perseguidos. Segundo conta
O NORMAL
perdida junto ao filho. No entanto, em a tradição, ele teria mandado crucificar IMPERADOR ENTRE
59, o imperador mandou matá-la. Há o apóstolo Pedro e decapitar Paulo de 69 E 79 D.C.
quem diga que ela era seu único freio Tarso. Em 65, Nero, no auge de sua lou- Tito Flávio Sabino Vespasiano nasceu
moral. Após o assassinato, Nero tornou- cura, matou Popeia – que estava grávi- no ano 9, na comarca dos Sabinos,
-se um líder tirânico e, com o passar do da – com um pontapé no ventre. próximo de Rieti, e morreu em 79. Ele
tempo, ficaria conhecido como um dos A maldade extrema e o desperdí- acabou sendo proclamado imperador
mais vergonhosos de Roma. Ele se ca- cio dos recursos públicos fizeram com pelos soldados em Alexandria. Primeiro
sou, então, com Popeia Sabina depois que a oposição a ele ganhasse um coro burguês a ascender a um cargo tão ele-
de se divorciar de Otávia, que foi as- cada vez maior. Tais conspirações foram vado e prestigiado, deu início à dinastia
sassinada logo em seguida também a abafadas por três vezes e os envolvidos Flaviana.
mando dele. eram obrigados a cometer suicídio. Fi- Segundo afirmam historiadores, era
Na mesma época, Sexto Afrânio fa- cou paranoico. O pavor de ser morto o muito simples e trabalhador. Colocou
leceu e Nero nomeou para o cargo de assombrava. Por conta disso, instalou ordem no exército, pacificou as provín-
conselheiro Ofrônio, um sujeito sem es- um regime de terror e tentava se man- cias e continuou com o processo de con-
crúpulos. A decisão do imperador levou ter popular doando quantidades enor- quista de Bretanha. Ainda combateu
Sêneca a renunciar ao seu posto. mes de trigo. rebelião judaica em 66 e a esmagou
O período foi marcado ainda pela No ano de 66, se casou com Messa- violentamente em 70, quando ocorreu
loucura dele em ser admirado. A paixão lina e viajou para um passeio de dois a destruição de Jerusalém pelas mãos
inflamada de Nero pela arte dramáti- anos pelas ilhas gregas, um desejo do coronel Tito, seu filho.
ca e pelos espetáculos o levou a atu- muito antigo. No fim da viagem, Nero Ele também foi bastante eficaz na
ar como poeta e músico. O desejo de libertou a Grécia do domínio romano e administração econômica, tanto na
ser famoso pelos mais variados feitos a tornou um estado independente. capital quanto nas províncias. Isso foi
também o impulsionou a participar de Contudo, no retorno à capital do possível graças, sobretudo, ao aumento
corridas de biga, talvez o principal en- Império, se deparou com uma situação do tributo anual e à sensível diminui-
tretenimento do Império. caótica. Ocorriam naquele momento ção nos gastos públicos. A boa saúde fi-
O incêndio que destruiu parte de rebeliões nas mais importantes pro- nanceira do Império garantiu, inclusive,
Roma em 64 não teria sido a mando víncias de Roma, como Gália, Germâ- a arrecadação de fundos para a edifica-
nia, África, Lusitânia, Síria e Egito. Nero ção do Templo da Paz – dedicado a Júpi-
também foi traído por Ofrônio e deixou ter Capitolino – e também do Coliseu de
de ter a adesão da Guarda Pretoriana. Roma. Morreu de causas naturais.
Inimigo principal do Senado, Nero teve
como única alternativa fugir e se matar.
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O suicídio aos 30 anos de idade acabou


com a dinastia Júlio-Claudiana.
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O filósofo
Sêneca foi o
grande tutor
de Nero
RESSUSCITOU?
MESMO DEPOIS DE MORRER,
NERO CONTINUOU TENDO UM
CONCEITO BASTANTE ELEVADO Moeda com
ENTRE OS ROMANOS POBRES. a face de
Tanto é verdade que, por três Vespasiano,
responsável por
vezes, muitos deles acreditaram
colocar Roma
que ele havia reaparecido no em ordem
Oriente, o que ajudou a alimentar
a lenda do “Nero redivivo”.
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Arco de Tito foi construído para celebrar


a vitória na província da Judeia
Mesmo com a tragédia, a popula-
ridade dele não diminuiu. Até os dias RELAÇÃO DE
de hoje, pode-se observar pelo centro IMPERADORES DESDE
histórico de Roma obras em sua ho- O INÍCIO DO IMPÉRIO
menagem. A mais famosa é o Arco de ROMANO, EM
Tito, peça de 15 metros de altura feita 27 A.C., ATÉ A QUEDA
de mármore que celebra justamente a
DO IMPÉRIO DO
OCIDENTE, EM 476 D.C.
vitória na Judeia. Foram esculpidos na
abóbada a mesa do pão ázimo, trom-
betas de prata e o candelabro de sete DINASTIA JÚLIO-CLAUDIANA
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braços, símbolos do judaísmo. Augusto (27 A.C. - 14 D.C.)


Tibério (14-37)

A TIRANIA DE

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Calígula (37-41)

DOMICIANO
Cláudio (41-54)
Nero (54-68)

BREVE REINADO IMPERADOR ENTRE


DE TITO 81 E 96 D.C.
Tito Flávio Domiciano nasceu em 24 de
ANO DOS QUATRO
IMPERADORES
IMPERADOR ENTRE outubro de 51. Foi designado impera- Galba (68-69)
79 E 81 D.C. dor depois da morte do irmão mais ve- Otão (69)
Tito Flávio Vespasiano Augusto nasceu lho, Tito, em 81. Há quem diga que o Vitélio (69)
em 30 de dezembro de 39, em Roma. falecimento do irmão foi causado jus- Vespasiano (69)
Era filho mais velho e sucessor de Ves- tamente por ele. Teria também execu-
pasiano. Deixou o trono justamente por tado friamente um primo durante seu DINASTIA
falecimento em 13 de setembro de 81. governo. FLAVIANA
É mais lembrado como o general que – Os abusos tiveram início, no en- Vespasiano (69-79)
durante o reinado de Vespasiano – com- tanto, quando seu pai Vespasiano ain- Tito (79-81)
bateu rebelião na província da Judeia da era imperador. Domiciano forçou Domiciano (81-96)
(no ano de 66) e destruiu Jerusalém Domícia Longina, legítima esposa de
(ano 70). Elius Lamia, a se divorciar para casar DINASTIA DOS ANTONINOS
Durante o reinado dele ocorreu a com ele. Como imperador, limitou os
Nerva (96-98)
famosa erupção do Vesúvio, que en- poderes dos senadores, tomando para
goliu Pompeia, Herculano e Stabia em si a responsabilidade de designar go- Trajano (98-117)
Adriano (117-138)
agosto de 79. Somente em Pompeia, vernadores para as províncias, e criou
Antonino Pio (138-161)
foram 16 mil mortos, cerca de 80% da o Conselho do Príncipe, que suplantou
Lúcio Vero (161-169)
população da cidade. o Senado. Além disso, acumulou os
Marco Aurélio (161-180)
Cômodo (177-192)

DINHEIRO NÃO TEM CHEIRO!


A FRASE PECUNIA NON OLET (DINHEIRO NÃO TEM CHEIRO) FOI DITA
POR VESPASIANO NA ÉPOCA DO IMPOSTO SOBRE URINA COBRADO POR
ELE E TAMBÉM PELO ANTECESSOR NERO. OS INTEGRANTES DAS CLASSES
MAIS POBRES DA SOCIEDADE DE ROMA URINAVAM EM POTES QUE ERAM
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ESVAZIADOS EM FOSSAS PÚBLICAS.


A urina era recolhida e servia como uma valiosa matéria-prima para variados
processos químicos. Era usada, por exemplo, para curtimento de couro, como
fonte de amoníaco para limpar lã e ainda como clareador de dentes.
Quando Tito, filho de Vespasiano, reclamou da natureza repugnante do
imposto, o seu pai lhe mostrou uma moeda de ouro e fez a famosa afirmação:
“Dinheiro não tem cheiro”. Muitos, ainda hoje, utilizam essa expressão para
demonstrar que o valor do dinheiro não está contaminado por suas origens.
»»

53
CAPÍTULO 6 • IMPERADORES

títulos de cônsul e de censor perpé- miciano foi muito pressionado e buscou vítima de uma conspiração em 18 de
tuo. Não bastasse, empenhou-se na garantir sua permanência no poder tor- setembro de 96. Teriam integrado o le-
reconstrução de monumentos, onde nando-se sanguinário e cruel. Adversá- vante contra ele alguns de seus amigos
mandava gravar o seu nome sem nem rios eram torturados e mortos sumaria- e sua própria mulher, Domitia Longina.
mesmo mencionar a alcunha do fun- mente. Com o passar dos anos, passou Após o assassinato, o Senado, horrori-
dador. Chegou também a proibir que também a exigir ser tratado como um zado com aquela figura nefasta, decide
erguessem estátuas dele no Capitólio deus. Nessa época, deu início à segun- declará-lo maldito e apaga seu nome
que não fossem de ouro ou de prata. da perseguição de cristãos. dos monumentos romanos.
Dono de um caráter reprovável, Do- Diante de tanta tirania, foi morto

Trajano ficou
conhecido pela
TRAJANO: ADMINISTRADOR NATO
competência
militar e
IMPERADOR ENTRE 98 E 117 D.C.
administrativa Marco Úlpio Nerva Trajano nasceu em 18 de setembro de 53 na Hispânia. Era filho
de uma família nobre e teve formação militar. Com 38 anos foi nomeado cônsul
e adotado pelo imperador Nerva como o seu sucessor. As vitórias alcançadas em
campanhas foram seu passaporte para angariar tanto prestígio.
Quando Nerva faleceu, Trajano recebeu apoio do Senado e demonstrou, com
o tempo, ser um excelente administrador. Reorganizou o Império, recuperando a
agricultura e o comércio e, mesmo diminuindo a carga tributária, promoveu obras
importantes para os romanos. Liderou ainda conquistas territoriais que levaram
Roma à sua extensão máxima na história.
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A parte final de seu reinado foi marcada pelas guerras. Justamente retornando
de uma batalha próxima do Mar Negro, Trajano faleceu, provavelmente de ataque
cardíaco, no dia 8 de agosto de 117.

ADRIANO,
COLUNA DE UM AMANTE
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TRAJANO DAS ARTES


EM SUAS CAMPANHAS
EXPANSIONISTAS, TRAJANO IMPERADOR ENTRE
AVANÇOU SOBRE O DÁCIOS,
QUE VIVIAM EM UMA TERRA 117 E 138 D.C.
RICA EM OURO E PRATA – Nascido no ano de 76 em Itálica (atual
ONDE ATUALMENTE ESTÃO Espanha), Adriano governou entre os
ROMÊNIA E HUNGRIA. anos de 117 e 138. Era sobrinho de Tra-
A conquista territorial ocorreu jano, que foi também seu grande tutor.
depois de duas grandes
guerras entre os anos de 101 Ficou conhecido como um administra-
e 105. A campanha militar é dor muito hábil, além de um viajante
documentada no monumento incansável. Andou por todo o Império
chamado de Coluna de Romano para avaliar a situação das
Trajano, que até hoje pode ser
encontrado no centro de Roma. províncias e garantir as adequações e
A coluna de pedra, levantada reformulações que precisavam.
em 113, diante do Fórum de Ele ainda implementou uma pro-
Roma, está repleta de imagens funda reforma na administração e, no
do combate em baixo-relevo
ano de 131, editou um código de leis
que sobem em espiral por todo
o monumento. A coluna tem 30 para ser aplicado em todo o Império, o
metros de altura e mais de três Edito Perpétuo. Trata-se de uma com-
metros e meio de diâmetro. pilação judicial que regeu Roma até o
tempo de Justiniano.

54
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Adriano abandonou as campanhas de Traja- GOVERNO PRETORIANO
no na Mesopotâmia e adotou uma política de- Pertinax (193)
fensiva, fortificando as fronteiras do Império Ro- Dídio Juliano (193)
mano. Em solo inglês, mandou edificar em 112
o Muro de Adriano, que marcou durante séculos DINASTIA DOS SEVEROS
a fronteira entre a Inglaterra e a Escócia para Adriano era
imperador Septímio Severo (193-211)
defendê-la dos povos do norte.
e poeta Geta (209-211)
Mas o governo não foi a sua maior paixão.
Caracala (211-217)
Ele gostava era mesmo das letras e das artes em
geral. Em seu leito de morte, produziu o poema
Anímula, que significa pequena alma: DINASTIA MACRINA

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Macrino (217-218)
Pequena alma terna flutuante, Diadumeniano (217-218)
Companheira e hóspede do corpo
Agora se prepara para descer a lugares DINASTIA (RESTAURADA)
Pálidos, árduos, nus DOS SEVEROS
Onde não terás mais os devaneios costumeiros Heliogábalo (218-222)
Alexandre Severo (222-235)

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Adriano ainda inspirou-se na cultura grega
para deixar Roma mais bonita. O império en- CRISE DO TERCEIRO SÉCULO
cheu-se de monumentos: ele mandou construir
a Vila de Adriano, a ponte de Sant’Ângelo e o Maximino Trácio (235-238)
Gordiano I (238)
castelo de mesmo nome, seu mausoléu.
Gordiano II (238)
Pupieno (238)
PRINCÍPIO DA Balbino (238)
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Gordiano III (238-244)


PRESUNÇÃO DE

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Filipe, o Árabe (244-249)
INOCÊNCIA Décio (249-251)
MUITO JUSTO, ANTONINO PIO Herénio Etrusco (251)
REUNIU, DURANTE SEU MANDATO, Hostiliano (251)
UMA EQUIPE DE ESPECIALISTAS Treboniano Galo (251-253)
EM LEIS QUE O AUXILIARAM
Volusiano (251-253)
NO TRABALHO DE REVISÃO DA
Antonino ficou LEGISLAÇÃO ROMANA. Emiliano (253)
conhecido como Valeriano I (253-260)
um sujeito Ainda hoje lhe é creditado o
desapegado princípio de que todo o homem Galiano (253-268)
do poder deve ser considerado inocente Salonino (260)
até que seja provado o contrário.

IMPERADORES ILÍRIOS
Cláudio II (268-270)

ANTONINO PIO, O SERENO


Quintilo (270)
Aureliano (270-275) »»
IMPERADOR ENTRE 138 E 161 D.C. Tácito (275-276)
Imperador romano entre 138 e 161, Antonino Pio contrasta com muitas das amar- Floriano (276)
gas figuras que comandaram o Império. Ele nasceu em Lanúvio, em 86, e vinha da Próbo (276-282)
burguesia tradicional de Lácio. Era um homem que nutria respeito pelas pessoas e Caro (282-283)
divindades. Chegou a ser chamado de Imperador perfeito pela doçura, ar sereno e Carino (283-285)
desapego pela glória. Além de tudo, aceitava de bom grado um conselho amigo. Numeriano
(283-284)
Diferente da maioria dos imperadores romanos, Antonino amava muito a sua
mulher. Um dos mais bem preservados monumentos do Fórum, em Roma, é o Tem-
plo de Antonino e Faustina, que foi construído em 141 a.C. em honra à sua esposa.
O local foi depois dedicado ao imperador na data de sua morte, em 161.
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CAPÍTULO 6 • IMPERADORES

O FILÓSOFO AS LOUCURAS

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MARCO AURÉLIO DE CÔMODO
IMPERADOR ENTRE IMPERADOR ENTRE
161 E 180 D.C. 177 E 192 D.C.
Nascido em 26 de abril de 121, em Cômodo pode ser definido como um
Roma, Marco Aurélio Antonino era de menino mimado. O filho de Marco Au-
uma família de aristocratas, mas, quan- rélio e Faustina nasceu em 31 de agos-
do criança, perdeu os pais. Foi adotado to de 161. Foi feito César por seu pai
pelo tio Aurélio Antonino – que mais com somente cinco anos de idade e,
tarde seria imperador. Pouco tempo aos 16, tornou-se Augusto. Participou
depois, foi nomeado o seu sucessor. nas guerras do Danúbio por dois anos
Com 11 anos, conheceu as ideias junto com o pai. Virou único imperador
do estoicismo – doutrina que coloca a com a morte de Marco Aurélio em 180.
extirpação das paixões e a aceitação A realidade é que Cômodo não es-
resignada do destino como marcas do tava nem um pouco interessado nos
homem sábio. Dedicou-se ao estudo da assuntos ligados ao governo nem ao
filosofia e um pouco de retórica. Forma- Império. Sua vida era uma eterna festa,
do, ocupou o cargo de cônsul por três com um harém de 300 mulheres e 300
vezes. Após a morte de Antonino, vira homens. Por conta de sua falta de com-
imperador junto com Lúcio Vero. Quan- Marco Aurélio foi influenciado prometimento, teve ao menos o bom
do este morre, em 169, torna-se o úni- pelo estoicismo de Zenão senso de escolher indivíduos capazes
co dono do trono. para a administração das províncias.
O governo de Marco Aurélio foi assim o terceiro e último expoente
marcado por guerras prolongadas e por do estoicismo romano. O conteúdo de
uma série de dificuldades internas. Ele suas Meditações é marcado por essa
foi excelente guerreiro e administrador filosofia, mas um estoicismo distante
e, ao mesmo tempo, humanizou ao ex- das doutrinas de Zenão, fundador des-
tremo o exercício do poder. ta linha de pensamento. As especula-
Quando possível, entregava-se à ções físicas e lógicas cedem lugar ao
reflexão filosófica e escrevia seus pen- caráter prático dos romanos e ao acon-
samentos em língua grega. Tornou-se selhamento moral.

MEDITAÇÃO DE MARCO AURÉLIO


EM SEU TRABALHO MEDITAÇÕES, MARCO AURÉLIO TRAZ REFLEXÕES QUE
INSPIRARAM INÚMEROS PERSONAGENS NA HISTÓRIA. ABAIXO, UM DOS
Viacheslav Lopatin/ Shutterstock

PENSAMENTOS DO IMPERADOR E FILÓSOFO ROMANO.


“Lembra-te sempre de todos os médicos, já mortos, que franziam as
sobrancelhas perante os males dos seus doentes; de todos os astrólogos que
tão solenemente prediziam o fim dos seus clientes; dos filósofos que discorriam
incessantemente sobre a morte e a imortalidade; dos grandes chefes que
chacinavam aos milhares; dos déspotas que brandiam poderes sobre a vida e a
morte com uma terrível arrogância, como se eles próprios fossem deuses que
nunca pudessem morrer; de cidades inteiras que morreram completamente,
Hélice, Pompeia, Herculano e inúmeras outras. Depois, recorda um a um todos
os teus conhecidos; como um enterrou o outro, para depois ser deposto e
enterrado por um terceiro, e tudo num tão curto espaço de tempo. Repara, em
resumo, como toda a vida mortal é transitória e trivial; ontem, uma gota de
sémen, amanhã uma mão cheia de sal e cinzas. Passa, pois, estes momentos
Cômodo levava
fugazes na terra como a natureza te manda que passes e depois vai descansar uma vida
de bom grado, como uma azeitona que cai na estação certa, com uma bênção totalmente
para a terra que a criou e uma ação de graças para a árvore que lhe deu a vida”. desregrada

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TETRARQUIA E DINASTIA
Era um sujeito bastante singular. Ao contrário de seu pai, apreciava muito as CONSTANTINIANA
lutas e chegou a participar, inclusive, dos embates dos gladiadores. Contudo, dife-
rentemente do que acontecia nas disputas comuns, o imperador não corria perigo: Diocleciano (284-305)
Maximiano (286-305)
os adversários sempre o deixavam vencer e depois tinham a vida poupada. Como
Constâncio Cloro (305-306)
maluquice pouca é bobagem, Cômodo acreditava ser o semideus Hércules e exigia
Galério (305-311)
que todos o adorassem.
Severo II (306-307)
Mandou assassinar sua irmã Lucila e senadores que conspiravam contra ele.
Maxêncio (306-312)
Porém, seus desmandos tiveram um fim. Ele foi estrangulado por um de seus alia-
Constantino I, o Grande
dos durante o banho. No governo de Septímio Severo, Cômodo acabou divinizado. (307-337)
Licínio (308-324)

CARACALA:
Maximino Daia (310-313)
Valério Valente (316-317)
ALEXANDRE,
O GRANDE
MAIS UM INSANO Martiniano (324)

NO PODER
Constantino II (337-340)
O IMPERADOR CARACALA Constâncio II (337-361)
ERA CONSIDERADO UM IMPERADOR ENTRE Constante (337-350)
ADMIRADOR FANÁTICO DE
ALEXANDRE, O GRANDE. 211 E 217 D.C. Juliano (361-363)
Joviano (363-364)
Assim, sem qualquer Nasceu em 4 de abril de 188 na atual Lyon,
cerimônia, começou a usar França. Era filho do imperador Septímio Se-
DINASTIA VALENTINIANA
as mesmas roupas e a se vero e Júlia Domma. Governou Roma por
comportar como ele. Valentiniano I (364-375)
seis anos. Seus feitos administrativos fica-
Alexandre o ram bem menos conhecidos do que suas Valente (364-378)
Grande em seu atitudes insanas. Graciano (367-383)
cavalo, Bucéfalo Valentiniano II (375-392)
Logo depois que deixou a adolescên-
cia, a instabilidade psicológica dele gerava Magno Máximo (383-388)
muita preocupação de todos que o rodea-
vam. Conta-se que, certo dia, tentou esfa- CASA DE TEODÓSIO
quear o próprio pai pelas costas diante de Teodósio I (379-395)
todo o exército romano. Também detestava Arcádio (383-395)
a esposa e condenou-a ao exílio antes de Honório (393-395)
mandar matá-la.
Santo
Ambrósio e
o Imperador
Teodósio Everett-Art/ Shutterstock
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IMPÉRIO DO OCIDENTE
Honório (395-423)
Prisco Átalo (409-410)
Constâncio III (421)

HELIOGÁBALO Valentiniano III (425-455)


Petrónio Máximo (455)
IMPERADOR ENTRE Avito (455-456)
218 E 222 D.C. Majoriano (457-461)
Heliogábalo era outro que tinha Líbio Severo (461-465)
um comportamento muito excên- Antêmio (467-472)
trico. Para se ter uma ideia, ele se Olíbrio (472)
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castrou publicamente em nome de Glicério (473-474)


um culto religioso. Em outro episó- Júlio Nepos (474-480)
dio, tentou impor aos romanos a Rômulo Augusto (475-476)
adoração de um deus estrangeiro.
Imperador Heliogábalo
castrou-se por causa de
um culto religioso
57
CAPÍTULO 7 • PROBLEMAS E ENTRETENIMENTO

PÃO E CIRCO:
SOLUÇÃO PARA
UM IMPÉRIO
DESIGUAL
NEM MESMO A IMPONÊNCIA DE SUAS
CONSTRUÇÕES E AS VITÓRIAS MILITARES
CONSEGUIRAM ESCONDER AS DIFERENÇAS
SOCIAIS PRESENTES NA ROMA ANTIGA;
IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICA POPULISTA FOI
UMA FORMA DE ABAFAR OS PROBLEMAS

A capital do Império Romano, fundada no século VIII a.C., é


considerada uma das cidades pioneiras no Ocidente quando o
assunto é organização. Essa sociedade teve como base a civilização
da Grécia Antiga. Assim, Roma conseguiu fortalecer os costumes,
aperfeiçoar os seus sistemas político e também religioso, além de
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estruturar o comércio e a área habitacional como um todo. Tratava-


-se de um bom exemplo de gestão eficiente, uma vez que era o
centro desse imenso Império – o domínio ia desde a Península Ibé-
rica até o Egito e a Síria.
ONDE SURGIRAM
OS PROBLEMAS
Contudo, além de trazerem enriquecimento, as conquistas também fize-
ram com que os problemas sociais aflorassem intensamente a partir do século
II a.C. Durante o seu auge, a cidade de Roma ficou próxima da marca de dois A expansão territorial do Império, ain-
milhões de habitantes. Esse enorme grupo de moradores era formado por da na época republicana, foi primor-
homens e mulheres de classes sociais bem distintas. Havia uma parcela de dial para as profundas transformações
camponeses que perderam os seus trabalhos nas lavouras por conta da escra- sociais em Roma. Logo de cara, a eco-
vidão, além de artistas de rua, artesãos, membros da plebe, integrantes da nomia, que tinha um aspecto agropas-
nobreza e ainda políticos. toril, passou a disputar espaço com um
Dessa maneira, as diferenças poderiam ser verificadas com facilidade sistema de comércio muito bem articu-
mesmo pelo mais alienado forasteiro. Aqueles que compunham a elite eram lado entre as diversas regiões localiza-
donos de vistosas residências e palácios requintados. Já o restante da popula- das nas proximidades do Mediterrâneo.
ção – a imensa maioria – se apertava em prédios de vários andares com apar- O aumento no número de escra-
tamentos pequenos sem cozinha e banheiro. Parecia somente uma questão vos disponíveis para o trabalho gerou
de tempo para problemas urbanos maiores começarem a aparecer. também uma elevação da oferta de ali-

58
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Ilustração de Roma
Antiga, cidade que
se tornou exemplo
de organização

mentos. Enquanto isso, os magistrados igualdade com os preços dos alimentos construção de pontes e estradas. O ple-
e generais se beneficiavam por meio oferecidos pelos astutos patrícios. Além no controle sobre essas atividades foi
da administração e arrecadação de tri- disso, os plebeus perderam oportunida- reforçado quando os senadores e seus
butos nas províncias da nova potência. de de trabalho por conta da utilização descendentes acabaram sendo proibi-
Paralelamente, o controle dos patrícios dos escravos nas lavouras e pastos. dos de exercer qualquer atividade que
sobre o Senado fez com que essa classe Já os outros plebeus que faziam não fosse agrícola.
enriquecesse ainda mais com o alarga- parte das longas fileiras do exército de Por sua vez, aqueles plebeus que
mento das propriedades e o grande uso Roma passaram a se beneficiar com a não conseguiam enriquecer foram obri-
da mão de obra escrava. conquista de terra e servos. Esses inte- gados a se desfazer de suas terras ven-
Se, por um lado, havia uma incrí- grantes da classe plebeia, conhecidos dendo para algum grande proprietário.
vel e crescente produção de riquezas, como cavaleiros, ganharam conside- Sem alternativa, iam para a cidade. Lá
por outro, esse novo cenário trouxe ráveis quantias de dinheiro através da chegando, enfrentavam outro grande
imensos prejuízos aos pequenos pro- cobrança de tributos, distribuição de problema: a falta de vagas de empre-
prietários de terras, pois esses não alimentos aos exércitos, arrendamen- go. O fácil acesso à força de trabalho
conseguiam mais competir em pé de to de áreas florestais e minas, além da escravo estreitava as oportunidades. »»

59
CAPÍTULO 7 • PROBLEMAS E ENTRETENIMENTO

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Aqueduto em Roma
mostra um pouco
da infraestrutura
do Império Romano mente o risco de propagação de sérias
doenças por contaminação.
Os funcionários públicos tentavam
garantir que esses resíduos fossem des-
cartados fora das áreas residenciais da
cidade, mas eram em um número mui-
to limitado para impor essa regra com
eficiência. Durante o governo de Au-
gusto (27 a.C. – 14 d.C.), os residentes
em Roma geravam, aproximadamente,
sessenta toneladas de resíduo humano
por dia. Escavações arqueológicas mos-
traram a existência, no Monte Esquilino,
de centenas de poços profundos reple-
tos de uma mistura em decomposição
de cadáveres, carcaças de animais e es-
goto de todo tipo não muito longe do

ESGOTO E SAÚDE
centro da cidade. Essa área estava de-
to dos dejetos das casas – elaboradas marcada com avisos como: “Caio Séntio,
Inúmeras obras de infraestrutura na exclusivamente nas localidades mais filho de Caio, como pretor e por ordem
Roma Antiga eram invejáveis naquela nobres da capital. do Senado, estabeleceu essa linha de
época. A arquitetura e a engenharia Essa situação impunha uma dificul- pedras de delimitação para marcar a
foram vastamente utilizadas na região dade extra: sem um sistema adequa- área que deve ser mantida livre de su-
para levar serviços públicos de qualida- do, o restante da população romana jeira, carcaças de animais e cadáveres.
de à capital. Aquedutos que impressio- era simplesmente obrigado a lançar os Também é estritamente proibido quei-
navam pela engenhosidade, estádios excrementos pelas janelas dos aparta- mar cadáveres aqui”.
– caso do famoso Coliseu – e jardins mentos. Algumas outras pessoas des- Com o problema sanitário, cada vez
especiais eram algumas das especiali- ciam com os baldes até a rua para que mais gente ficava enferma. A impossi-
dades do povo romano. fossem esvaziados por pessoas que bilidade de manter a cidade limpa sig-
O grande problema, porém, é que ganhavam a vida coletando os deje- nificava que moscas estavam presentes
a maioria absoluta dessas intervenções tos para vender a agricultores, que os em quase todos os lugares e que as
trazia benefícios somente aos mais usavam como fertilizantes. Não era só pessoas tinham problemas intestinais
abastados. Um exemplo claro disso o cheiro horrível pelas ruas que trazia frequentes causados por comida e água
eram as redes de esgoto – que foram extremo incômodo, uma vez que a contaminadas. Para piorar, não havia
construídas para garantir o destino cer- prática também elevava consideravel- tratamento médico adequado. Como

Antiga latrina coletiva em


Éfeso, na Turquia: Roma
BANHEIROS PÚBLICOS
expandiu o costume EM ROMA, NO INÍCIO DO PERÍODO CRISTÃO, ERA BASTANTE
COMUM O CIDADÃO FAZER SUAS NECESSIDADES FISIOLÓGICAS
EM CONSTRUÇÕES COMUNITÁRIAS ANEXAS A TERMAS. COM A
EXPANSÃO DO IMPÉRIO, O CONCEITO DE BANHEIRO PÚBLICO
CHEGOU A OUTRAS LOCALIDADES DO MUNDO.
O curioso é que, com o tempo, essas latrinas coletivas tornaram-se
locais de debates, encontros cívicos e até banquetes. Embaixo das
grandes bancadas de pedra geralmente corria um canal de água corrente,
aproveitado para levar os dejetos lançados até rios mais afastados.
Uma informação importante: nessa época não existia papel higiênico.
Assim, os usuários dos banheiros públicos se limpavam com aquilo que
havia por perto, como grama, água ou areia. A partir do século V, com
a diminuição da influência romana, essas construções deixaram de ser
utilizadas com a mesma frequência de antes.
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60
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Gravura mostra
artistas de rua
se apresentando
Paisagem atual de Roma: construções nas ruas de
onde os pobres viviam eram precárias Roma Antiga
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AGLOMERADOS
só os mais ricos tinham algum ampa- engenharia. Essa situação fez o impera-
ro medicinal, muitas pessoas simples- dor César Augusto limitar em 21 metros
mente padeciam sem qualquer pers- A infraestrutura na cidade de Roma a altura dos prédios de apartamento.
pectiva de serem curadas. não crescia na mesma velocidade que Os edifícios dos mais pobres tam-
Vale ressaltar que mesmo os nobres a população urbana. Uma quantidade bém estavam suscetíveis a inundações,
corriam riscos, pois a medicina ainda cada vez maior de edifícios era cons- uma vez que ficavam em áreas baixas.
engatinhava. Em geral, os tratamentos truída para dar conta de tanta gente Já as colinas ensolaradas abrigavam as
romanos empregavam ervas medici- que chegava para se instalar na capital. suntuosas residências dos ricos.
nais, cuja forma curativa os pais revela- Porém, essa medida estava longe de A situação caótica gerou um descon-
vam aos filhos como tradição, passando ser suficiente para sanar as principais forto muito grande entre os populares.
a herança de geração em geração. Aos dificuldades. As ruas começaram a ficar Diante do assustador cenário urbano, os
remédios feitos em casa ajuntavam um superlotadas. As vias eram o local de plebeus passaram a pensar que pode-
pouco de feitiçaria. Sobre o doente eram trabalho de diferentes profissionais: co- riam fazer reivindicações contundentes
impostas fórmulas místicas e, muitas merciantes e trabalhadores se aglome- para obterem melhorias e condições de
vezes, extravagantes. Acreditava-se, por ravam em espaços sufocantes. Diversos vida mais dignas. Assim, deram início
exemplo, na possibilidade de expulsão vendedores ambulantes faziam das vias a algumas revoltas. As manifestações,
da enfermidade. Para se ter uma ideia, públicas o único balcão de exposição de entretanto, eram enfrentadas com vio-
os mais ricos da época utilizavam uma suas mercadorias. Outros que disputa- lência pelo exército romano e foram ra-
joia popular que, de acordo com a cren- vam os espaços públicos eram os sal- pidamente abafadas.
ça, evitava dores de estômago. timbancos (atores que se apresentavam Por volta do século I a.C., o grande
nas ruas) e os adestradores de animais. número de escravos também transfor-
As carruagens e liteiras – cadeiras uti- mou essa classe subalterna em um vi-
CADÁVERES lizadas para transportar os ricos – divi-
diam espaço com toda essa gente e o
goroso e ameaçador agente político do
mundo romano. Em 71 a. C., o gladiador
PELA RUA trânsito era intenso demais. Espártaco organizou uma revolta que
SEGUNDO O HISTORIADOR Além disso, os prédios da cidade reuniu dezenas de milhares de escravos
THOMAS R. MARTIN, NA
corriam sérios riscos de cair. Apesar do contra as tropas do exército romano.
ROMA ANTIGA, AS PESSOAS
DEIXAVAM CADÁVERES conhecimento no uso de pedra, concre- Graças à ação dos generais romanos, o
HUMANOS NO MEIO DA RUA to e tijolo, os engenheiros romanos não levante foi contido. Mesmo assim, ficou
PARA QUE FOSSEM COMIDOS possuíam tecnologia suficiente para o alerta para as crescentes tensões den-
POR ABUTRES E CÃES.
calcular precisamente quanta tensão tro do território que poderiam ocasionar
A tradição conta que, certa vez,
as edificações conseguiam aguentar. até mesmo uma guerra civil. Já passava
um cão vira-lata trouxe a mão
de um homem à mesa onde Outro problema era que os construtores da hora de o governo agir para evitar a
o então imperador Vespasiano buscavam, de todas as maneiras possí- total perda de controle da situação in-
estava almoçando. veis, diminuir os gastos sem levar em terna. Bastava saber qual seria o plano
consideração os meios de proteção de a ser executado pelos líderes. »»

61
CAPÍTULO 7 • PROBLEMAS E ENTRETENIMENTO

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CRÍTICAS E
FRASES DE
JUVENAL
DÉCIMO JÚNIO JUVENAL NASCEU
POR VOLTA DO ANO 60 D.C. EM
AQUINO, APÚLIA. DE UMA FAMÍLIA
ABASTADA E COM FORMAÇÃO
MILITAR, ESSE POETA SATÍRICO
ROMANO DEIXOU NOS DEZESSEIS
POEMAS QUE ESCREVEU UMA
O trigo era distribuído IMAGEM BASTANTE CRÍTICA E
fartamente ao povo MORDAZ DA SOCIEDADE ROMANA
durante a política DO PRIMEIRO SÉCULO.
do Pão e Circo
Os vícios e costumes em Roma
foram alvo de suas palavras sempre
afiadas, direcionadas até mesmo
a imperadores. No decorrer dos
séculos vindouros, seu trabalho
inspirou diversos escritores, como
o italiano Giovanni Boccaccio e os
britânicos Jonathan Swift e Samuel

PÃO E CIRCO Johnson. Juvenal deixou uma série


de frases famosas:
Para apaziguar os ânimos, o Império Romano buscou adotar uma ação
que assegurasse, ao menos, uma alimentação adequada à população “O primeiro castigo do criminoso
é o da própria consciência, que o
mais carente. Foi instituída por César Augusto a política do Pão e Circo julga e que nunca o absolve”.
(panem et circenses, no original em latim). A frase, aliás, tem origem
na Sátira X do poeta e humorista romano Juvenal, que viveu por volta “A intenção oculta do
crime é já o próprio crime”.
do ano 100 d.C. No seu contexto original, o artista criticava a falta de
informação do povo, que, segundo ele, não nutria qualquer interesse em “Alguns tiveram a forca como preço
assuntos ligados à política e só queria mesmo alimento e diversão. pelo próprio crime, outros, a coroa”.
Nessa época, o coliseu e outros grandes estádios foram construídos
“É tão indulgente para consigo
para a realização de lutas de gladiadores – que passaram a ser grandes
mesmo o homem que nunca julga
espetáculos – e corrida de bigas, por exemplo. Durante tais eventos, a ter-se aproveitado bastante da
população comparecia para se distrair, mas também recebia fartamente liberdade de se portar mal”.
alimentos e trigo. Além disso, outro costume dos imperadores era a dis-
“Quanto mais o dinheiro aumenta,
tribuição mensal de cereais no Pórtico de Minucius. mais cresce a vontade de possuí-lo”.
De modo geral, esses “agrados” ao povo eram a garantia de que
a plebe não morreria de fome e tampouco de aborrecimento. A van- “Uma mente sã em um corpo são”.
tagem de tal prática era que, ao mesmo tempo em que a população
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ficava contente e apaziguada, a popularidade do imperador entre os


mais humildes se consolidava. Era a melhor e mais imediata maneira
de manter o povo sob o controle governamental.

AUGUSTO E SEU
GOSTO DISCUTÍVEL
O IMPERADOR CÉSAR AUGUSTO DEU A ROMA O PRIMEIRO
DEPARTAMENTO DE BOMBEIROS DA HISTÓRIA EUROPEIA.
Ele também estabeleceu a primeira força policial da cidade. No Capa
entanto, o imperador gostava mesmo era de ver o circo pegar fogo: de "The
Augusto ficou conhecido por ‘apreciar de camarote’ as brigas que Satires of
aconteciam com certa frequência nas ruas superlotadas da cidade. Decimus
Junius
Juvenalis"

62
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

ALIMENTO a sua fortuna pessoal para comprar os Itens encontrados em Pompeia:


escavações sugerem que moradores
Importante destacar que a distribuição grãos importados. Estima-se que o pri- locais tinham um cardápio nobre
de grãos a preço de custo ou até mes- meiro imperador romano beneficiava
mo gratuitamente era uma tradição de cerca de 250 mil homens. Uma vez que
décadas, bem antes da adoção dessa muitos tinham famílias, estatísticas
política mais populista. Por praticamen- sugerem que até 700 mil pessoas de-
te toda a época da República o supri- pendiam do regime dele para obter os
mento de cereais era parte das tarefas alimentos básicos.
dos chamados edis. Esse suprimento Os pobres transformavam o grão –
era personificado como uma deusa e a que não era o mais adequado para as-
cota de cereais acabava por ser distribu- sar pães – em um mingau aguado, que
ída a partir do templo de Ceres. vinha acompanhado por um vinho bara-
Em 440 a.C., o Senado de Roma no- to. Com mais sorte, poderiam ter ainda
meou um oficial para a função: o pre- feijão, alho-poró e até alguns pedaços
feito das provisões. O dono do cargo ti- de carne. Enquanto isso, os ricos se de-
nha grandes poderes. O suprimento de liciavam com pratos mais agradáveis,

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cereais de emergência era uma impor-
tante fonte de influência e poder para
como porco assado ou lagosta.
A maior parte do suprimento aca-
CARDÁPIO
o cônsul Pompeu Magno (106 a.C. – 48 bava sendo conseguida através do mer- PECULIAR
a.C.) no final de sua carreira. Nos tem- cado livre. Isso porque os valores em EM POMPEIA
pos de principado, a posição de prefeito Roma eram muito elevados, já que os ESCAVAÇÕES RECENTES EM
das provisões tornou-se permanente e comerciantes buscavam lucrar dema- POMPEIA – ENGOLIDA PELAS
uma série de privilégios, incluindo con- siadamente. O interessante é que os CINZAS DO VULCÃO VESÚVIO
EM 79 A.C. – INDICAM IGUARIAS
cessões de cidadania e isenção de deve- cereais também eram coletados como DIFERENTES NO CARDÁPIO
res, era oferecida aos capitães de navios tributo em certas províncias por solda- DOS HABITANTES DA CIDADE.
que assinassem contratos de transporte dos e oficiais, que depois os revendiam. Em poucas casas, carnes
de cereais para a cidade. Com o tempo, o suprimento ganhou nobres e peixes vindos da
Augusto, no entanto, elevou o mon- Espanha indicavam nível
um status maior. Durante o reinado de
econômico mais alto. O que os
tante de cidadãos atendidos utilizando Séptimo Severo (193 – 211), foi acres- pesquisadores não esperavam
centado o azeite à cota. Contudo, no encontrar eram restos do osso
governo de Aureliano (270 – 275), foi da perna de uma girafa.
realizada uma grande reorganização da
provisão. Ele teria cessado a distribui-

DIVERSÕES
ção de cereais. No lugar, passou a dar
ou vender por um preço baixo pão, sal,
carne de porco e vinho. Essas medidas Os passatempos romanos não eram tão
continuaram com seus sucessores. diversificados. Concentravam-se basi-
com a desvalorização da moeda, no camente nas corridas de bigas, espe-
século III, o exército romano começou a táculos teatrais, lutas de gladiadores,
ser pago com suprimentos e também espetáculos com animais selvagens e
em espécie por uma pesada administra- batalhas navais. Esses divertimentos
ção de coleta e redistribuição de supri- públicos eram incentivados e pagos
mentos. O papel do estado na disponi- pelo governo ou então por patrícios.
bilização de cereais continuou sendo um Os palcos desse eram os estádios
ponto central de sua unidade e poder. ou anfiteatros, edifícios ovais ou circu-
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lares com arquibancadas e uma arena


Cônsul Pompeu no meio, onde ocorriam apresentações,
Magno era
responsável pelas combates e outros tipos de jogos. Nos
provisões antes dias dos espetáculos, havia o costume
do Pão e Circo de músicos tocarem. Os instrumentos
mais comuns eram liras, flautas, cím-
balos, gaitas, cornetas e chocalhos. »»

63
CAPÍTULO 7 • PROBLEMAS E ENTRETENIMENTO
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Representação de
uma luta entre
gladiadores romanos

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GLADIADORES Desenho com imperador
Os combates entre os gladiadores tor- indicando sinal de misericórdia;
naram-se um dos principais entreteni- na maioria das vezes, era a
mentos romanos. Contudo, pouca gente própria plateia quem decidia
se lutador derrotado deveria
conhece a realidade desses lutadores. O ser poupado
gladiador, em geral, era um escravo na
Roma Antiga. O termo usado para se re-
ferir a esses homens que eram forçados rado um vencedor de fato quando um que o derrotado teria a sua vida poupa-
a brigar vem de gládio, nome dado a deles morria, ficava sem suas armas da naquele momento.
uma espada curta e de dois gumes que ou sem condições de combater. Havia Por diversos séculos, os gladiado-
empunhavam. sempre um responsável – uma espécie res não só lutaram entre si, como tam-
De acordo com os historiadores, os de árbitro – que determinava se o ho- bém contra animais ferozes vindos do
primeiros registros sobre lutas de gla- mem derrotado deveria ser morto ou território africano. Além de escravos,
diadores em território romano datam não. Nesses casos, o povo presente nas prisioneiros de guerra e autores de
de 286 a.C. Todavia, sabe-se que esse arquibancadas tinha uma fortíssima crimes considerados mais graves eram
foi um “esporte” inventado pelo povo influência na decisão. Usualmente, os participantes frequentes dos sangren-
etrusco. Logo, as lutas agradaram os torcedores se manifestavam apontan- tos embates.
habitantes de Roma. O sucesso foi qua- do a mão fechada com o dedo polegar Para lutar, os gladiadores passavam
se imediato e atraía uma quantidade para baixo, o que significava que que- por rígidos treinamentos em escolas
cada vez maior de pessoas. riam o assassinato do perdedor. Contu- especializadas em combates de arena.
Originalmente, os combatentes se do, nem sempre a morte era desejada Eles recebiam ainda um tratamento
digladiavam na arena e só era decla- e o dedo polegar para cima era sinal de especial nos intervalos dos embates

64
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

COLISEU
e não costumavam lutar mais do que público ensandecido ir ao delírio. Além
três vezes por ano. Dessa maneira, ser das arquibancadas, que ficavam a três
um gladiador era muito mais vantajoso Certas construções são verdadeiros sím- metros do chão, havia um camarote
do que um escravo romano comum e bolos de localidades específicas e sua bastante próximo à arena destinado
ainda por cima era uma oportunidade cultura. Assim era o Coliseu, sinônimo ao imperador de Roma. Do local, os lu-
única de receber reconhecimento do das lutas entre os gladiadores. Majes- tadores faziam a saudação que ficaria
público em geral. toso, tinha mais conforto do que muitos mundialmente conhecida através dos
Quando viajavam para lutar em ou- estádios de futebol modernos. séculos: “Salve, César! Aqueles que vão
tras cidades, se deslocavam em grupos A construção teve início em 72 d.C., morrer te saúdam”.
conhecidos como famílias e iam acom- por ordem do imperador Flávio Vespa- Depois da proibição das lutas, no
panhados até por treinadores. E, ao siano, que tomou a decisão de erguer a século quatro, o Coliseu teve diversos
contrário do que muitos possam ima- arena no lugar de um antigo palácio de outros usos. Chegou, por exemplo, a ser
ginar, os gladiadores geralmente eram Nero, seu antecessor no trono romano. A empregado como cenário para simula-
vegetarianos. grandiosa obra levou oito anos para ser ções de batalhas navais, ocasiões em
Para equilibrar as batalhas, os lu- concluída e, quando estava totalmente que a área ocupada pela arena ficava
tadores eram separados por catego- pronta, Roma já era governada pelo fi- completamente alagada. Na Idade Mé-
rias, que eram as seguintes: trácios, lho de Vespasiano, o general Tito. Para dia, o mármore e o bronze da estrutura
murmillos, retiários, secutores e dima- prestar uma homenagem ao pai, ele ba- foram sendo saqueados paulatinamen-
chaeri. Estudos feitos em esqueletos tizou o local com o nome de “Anfiteatro te e utilizados para ornamentar igrejas
desses combatentes mostraram que Vespasiano”. A capacidade de público e demais monumentos católicos. Peças
os derrotados que eram julgados pela girava em torno de 50 mil pessoas e o de mármore do anfiteatro foram em-
plateia costumavam ser mortos por espaço de luta – a arena propriamente pregadas até mesmo na construção
um golpe na jugular. Quando o lutador dita – media 85 por 53 metros. da famosa Basílica de São Pedro, no
estava muito debilitado, ficavam de Segundo alguns historiadores, pro- Vaticano. Já no século 11, o Coliseu foi
quatro e recebiam uma forte pancada vavelmente o nome Coliseu seria dado transformado em fortaleza, abrigando
nas costas que chegava diretamente somente algumas centenas de anos de- integrantes de uma família nobre, os
ao coração. pois, talvez já no século 11. Teria surgido Frangipane, que usaram a edificação
Para a realização dos espetáculos, inspirado no Colosso de Nero, uma sun- para se proteger em seus combates
eram reservados aproximadamente tuosa estátua feita de bronze com uma contra grupos rivais.
182 dias no ano. Após muitos séculos altura estimada de 35 metros. A peça Mesmo em ruínas nos dias de hoje,
de lutas de gladiadores, o cristianismo fica justamente ao lado do anfiteatro. o Coliseu ainda inspira uma majesta-
baniu esses combates com a proibição As primeiras lutas disputadas para de que impressiona turistas de todo o
oficial do imperador Constantino I, em comemorar a finalização do Coliseu te- mundo que visitam a capital italiana.
325. As lutas, contudo, continuaram por riam durado cerca de 100 dias. Somen- Localizado justamente no centro da
mais um século clandestinamente. So- te nesse período, estima-se que cen- cidade, recebe, por ano, mais de três
mente o papa Inocêncio I e o imperador tenas de gladiadores e mais de cinco milhões de visitantes. Quem circula
Honório conseguiram decretar o fim de- mil animais selvagens e ferozes teriam dentro dele pode sentir ao menos um
finitivo da prática. caído mortos no local. Os jogos faziam o pouco do clima do grandioso anfiteatro. »»

Foto atual mostra área interna do Coliseu, que abrigava


mais de 50 mil pessoas em seus tempos áureos

CURIOSIDADE
Como uma forma de
satisfazer os estranhos
fetiches de alguns
imperadores, mulheres e
anões também lutavam
nos combates gladiatórios
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realizados, sobretudo,
no Coliseu.

65
CAPÍTULO 7 • PROBLEMAS E ENTRETENIMENTO

Oitenta
arcos
CORRIDAS DE BIGA
enfeitam A biga foi um carro de combate bastante utilizado na Anti-
a fachada guidade. É muito comum vermos em manifestações artís-
do Coliseu,
em Roma ticas e filmes que representam o período. A biga era um
importante recurso para combates. Basicamente, tratava-
-se de um modelo de carro de guerra movido por dois
cavalos puxando uma carroceria suportada por duas rodas
na qual os combatentes se deslocavam.
Mas o meio de transporte e luta não era uma exclusi-
vidade romana. A biga foi utilizada em diversas partes do
mundo antigo e obteve sucesso e repercussão por causa
da invenção dos aros na roda. O alívio e a distribuição do
peso cansavam menos os cavalos, que, em geral, eram
pequenos demais para suportar o peso dos combatentes
por muito tempo nos campos de batalha.
Logo, o veículo também passou a ser usado para in-
crementar o entretenimento da política do Pão e circo.
Com os romanos, a modalidade chegou a ter conotações
de Fórmula 1 da Antiguidade, com equipes estruturadas,
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patrocinadores e pilotos bastante requisitados.


As equipes se dividiam por cores. Existiam corridas
de dois cavalos (bigas) e com quatro cavalos (quadrigas).
SAIBA MAIS Os corredores podiam ser escravos ou homens livres, mas
SOBRE O COLISEU ganhavam muito dinheiro e poderiam tornar-se ricos e
famosos. O problema é que os veículos tinham pouca es-
O FORMIDÁVEL COLISEU APRESENTA NÚMEROS
QUE IMPRESSIONAM TANTO QUANTO A SUA tabilidade e a uma tendência bem grande de virarem nas
BELEZA. FORAM USADOS NA CONSTRUÇÃO DELE curvas. As equipes pertenciam a particulares e os prêmios
MAIS DE 100 MIL METROS CÚBICOS DE MÁRMORE eram altos. O insano imperador Nero participava das corri-
TRAVERTINO (COR CLARA), SOBRETUDO PARA
REVESTIR A FACHADA EXTERIOR. CONTUDO, BOA
das – e ganhava sempre por ser o governador. As corridas
PARTE DESSE MATERIAL ACABOU SENDO FURTADA de carros só deixaram de existir em Roma com o colapso
AO LONGO DOS SÉCULOS. HOJE, RESTA POUCO do Estado.
DELE. TIJOLOS E PEDRAS VULCÂNICAS TAMBÉM Era um dos passatempos favoritos da população. Uma
AUXILIARAM NO ERGUIMENTO DA EDIFICAÇÃO.
distração que ajudava a perpetuar as diferenças sociais
No tempo em que ocorriam jogos no Coliseu, o
imperador Tito mandou instalar grandes toldos
entre os cidadãos, que ficavam entorpecidos com a diver-
para que os espectadores se protegessem do sol são proporcionada pelo Império.
forte. Já uma entrada exclusiva garantia o acesso
ao camarote destinado ao imperador romano
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e também aos seus convidados de honra. Essa


tribuna especial ficava num local privilegiado do
anfiteatro, bastante próximo à arena. O prefeito
da cidade de Roma era outra figura importante que
tinha direito a um espaço particular no estádio.
A fachada do Coliseu apresentava, naquela época,
uma impressionante riqueza no acabamento.
Colunas jônicas e coríntias ornamentavam a
construção. Cada um dos pisos tinha oitenta arcos,
com sete metros de altura cada um. Centenas de
peças feitas de bronze decoravam a área externa.
Não há consenso entre os historiadores se o Coliseu
foi realmente utilizado para sacrifício de cristãos
quando esses eram perseguidos pelos romanos,
sobretudo por Nero. Essa versão foi sustentada Corrida de
pela igreja católica, mas não há provas conclusivas bigas era
de que os martírios ocorreram no local. uma das
principais
atrações
em Roma

66
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
General Lew
Wallace foi
quem escreveu a
lendária história
de Ben Hur

FIM DAS
BEN HUR E MEDIDAS
AS CORRIDAS POPULISTAS
DE CARRO Mesmo com o sucesso obtido, a políti-
AS CORRIDAS DE BIGA ESTÃO ca populista do Pão e Circo não conse-
RETRATADAS EM “BEN HUR – UMA
HISTÓRIA DOS TEMPOS DE CRISTO”, guiu sobreviver para sempre. A capital,
UM ROMANCE ÉPICO QUE FICOU Roma, sofreu um processo de esvazia-
GUARDADO NA MEMÓRIA DE mento por conta da insatisfação popu-
MILHÕES DE PESSOAS AO REDOR lar, das invasões de outros povos e da
DO MUNDO POR CAUSA DE SUA
REPRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA. proliferação de doenças e pestes. Junto
FOI ESCRITO PELO GENERAL NORTE- com o próprio Império foi-se também

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AMERICANO LEW WALLACE (1827- a prática, que funcionou de maneira
1905), QUE TAMBÉM ERA UM RENOMADO PINTOR E TINHA GRANDE
bastante eficiente enquanto a base da
CONHECIMENTO DA BÍBLIA. TODAS AS VEZES EM QUE FOI LEVADA ÀS
TELAS DE CINEMA, A OBRA OBTEVE SUCESSO ESTRONDOSO. política romana mantinha-se forte.
Na história, o personagem principal, Judá Ben Hur, é um contemporâneo Há quem acredite que, até os dias
de Jesus Cristo. Ele fora injustiçado e traído pelo então melhor amigo, o de hoje, muitos governos se utilizam de
romano Messala, mas consegue sair de uma situação difícil e volta para medidas semelhantes para consegui-
procurar vingança e sua família perdida. O enredo pode parecer simples,
rem manipular as massas. Para esses, a
mas a ambientação e o tempo no qual ele se passa envolvem o leitor, que
consegue viver um pouco de cada angústia da vida do hebreu Ben Hur de tática adotada em Roma há quase dois
forma plena, pois é um personagem íntegro em questões morais, além mil anos ainda tem funcionalidade por
de ser devotado à família e à religião judaica. meio de eventos esportivos e progra-
Num mundo dominado por Roma, Judá Ben Hur é acusado de atentar mas televisivos de maior apelo.
contra a vida do cônsul romano e, por isso, condenado a servir como
um escravo para o resto de sua vida, além de não saber o que foi feito
com sua mãe e sua irmã. A casa de Hur ficou desmoralizada e todos os
bens da família foram confiscados, sendo um dos beneficiários o jovem
ambicioso Messala, antigo amigo de Ben Hur.
Ajudado por pessoas que conquista por meio de sua personalidade
cativante, entre elas o próprio Jesus Cristo, Judá Ben Hur consegue a
confiança e a adoção de um rico cidadão romano, que faz com que ele
seja livre e vá até Roma aprender as técnicas de luta deles.
Ao conhecer o Mago Baltazar, um dos três que acompanhou a estrela-
guia e adorou o Cristo Menino, Judá Ben Hur começa a se interessar
pelo tão desejado Messias e, então, promete colocar tudo que tem em
favor dele quando o encontrá-lo. Desta forma, Ben Hur não entendia
algumas características do reino que o tão falado Rei dos Judeus iria
implantar. Mas, depois de segui-lo por três anos e presenciar milagres
importantes, Ben Hur finalmente entende a visão espiritual que o Cristo
tinha do reino de Deus.

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SÉCULO I 80 D.C.
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César Augusto dá Tito inaugura o Coliseu, local de 325 D.C.


início à política espetáculos onde os gladiadores lutam Imperador Constantino decide
do “Pão e Circo” e divertem a população romana proibir oficialmente as lutas
gladiatórias, que continuam
acontecendo clandestinamente
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SEGUNDA METADE
DO SÉCULO I 200 D.C.
Poeta e humorista Séptimo Severo acrescenta
Juvenal satiriza o azeite à cota de alimentos
política adotada distribuídos ao povo
pelo Império
270 D.C.
Romano
Governo de Aureliano
passa a fornecer
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à população itens
como carne de porco,
pão e vinho
CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

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Moedas da época
do Império:
economia romana
demonstrou vigor
durante séculos

UMA ECONOMIA
IMPERIAL MESMO EM MEIO A GUERRAS E
CONFLITOS INTERNOS, A ROMA ANTIGA
MANTEVE-SE PUJANTE ECONOMICAMENTE
DURANTE MUITO TEMPO

A economia romana foi a base da força do Império em


seus séculos de domínio. Como reflexo de todas as ri-
quezas adquiridas, destacavam-se as construções imponen-
tes na capital e um exército muito poderoso e temido por
todos os povos do mundo antigo. Mesmo com os problemas
sociais crescentes no decorrer dos anos, o poderio financeiro
da potência manteve-se em alta e só foi abalado com a der-
rocada de Roma a partir do século IV.

68
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Contudo, antes da vasta expansão as cidades à procura de melhores con-


territorial, o setor econômico era ali- dições de vida. Estava estabelecido um
cerçado pelas diversificadas atividades período de intenso êxodo rural.
agrícolas. A agricultura e a pecuária fo- As cidades constituíam o centro da
ram as atividades que desempenharam vida política e administrativa do Im-
um papel fundamental, uma vez que pério, onde os imperadores e os mais
90% da população vivia no campo. Os abastados escolhiam construir edifícios
principais produtos eram típicos da cul- públicos – balneários, teatros e anfitea-
tura mediterrânea: cereais, azeitonas, tros – para conseguir atrair habitantes.
frutos, vinho, além da criação de gado. No século II a.C. já existiam em todo o
Os mais ricos possuíam grandes proprie- Império cerca de 4 mil cidades.
dades agrícolas. Já os imensos latifún- Ocorria uma tendência acentuada
dios eram cultivados por escravos. de especialização nos setores de ma-
Nesse momento da história roma- nufatura, agricultura e também minera-
na, não havia transações monetárias. O ção. Certas províncias eram mais volta-
comércio e o artesanato, por sua vez, das para o cultivo de determinados ti-
eram ainda bem pouco desenvolvidos. pos de produtos, como os grãos no Egito
Com a integração de vastos terri- e na África do Norte e o vinho e azeite
tórios no Império, assistiu-se ao cres- na Itália, Hispânia e ainda Grécia.
cimento progressivo do comércio, favo- Entretanto, o conhecimento da eco-
recido pela Paz Romana. As diferentes nomia romana é considerado irregular

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províncias romanas possuíam recursos e inconstante. A grande maioria dos
diferentes e intensificaram as trocas produtos comercializados, sendo de
comerciais entre si, apoiadas por uma origem agrícola, normalmente não dei- Desenho mostra mulher romana em atividade
agrícola, principal prática econômica entre os
vasta rede de estradas, rios navegáveis xa evidência arqueológica direta. Muito primórdios dessa civilização
e o mar Mediterrâneo, onde o transpor- excepcionalmente, como em Berenice,
te marítimo era mais seguro e também há evidência de comércio de longa dis-
mais barato. tância em pimenta, amêndoas, avelãs, marmelada para a capital Roma.
Chegavam a Roma produtos de pinhão, nozes, coco, damascos e pêsse- O que se sabe com certeza é que
todo o Império. Esse crescimento co- gos, além dos comércios mais espera- as exportações cresceram e os roma-
mercial fez aumentar a produção agrí- dos (como figos, passas e alcaparras). nos seguiram pelo caminho de um
cola e artesanal, assim como a circula- As vendas de vinho, azeite e garum desenvolvimento econômico bastante
ção de moeda. As cidades do Império (molho de peixe fermentado) eram acentuado. Diante do cenário favorá-
ganharam dinamismo, em especial os feitas em ânforas, excepcionalmente, vel, os centros urbanos se alargaram,
pontos privilegiados de comércio, onde deixando para trás registro arqueoló- uma vez que a construção de novas es-
proliferaram as pequenas oficinas ar- gico. Por outro lado, existe uma única tradas e o trabalho escravo formavam
tesanais, atraindo os camponeses para referência na Síria de exportação de um cenário bem propício.

TÉCNICAS DE AGRICULTURA
OS MÉTODOS PARA ALCANÇAR UM MELHOR RENDIMENTO NA
AGRICULTURA ROMANA – A IRRIGAÇÃO, A DRENAGEM E AINDA
A RECUPERAÇÃO DE TERRAS – GARANTIRAM UM ADEQUADO
FORNECIMENTO DE MANTIMENTOS QUE FEZ AUMENTAR COM
RAPIDEZ AS POPULAÇÕES URBANAS.
Nas secas terras do Mediterrâneo criaram-se reservas de água para
a irrigação mediante a construção de grandes e sofisticados açudes.
Em contrapartida, nas terras ao leste da Bretanha e na planície do
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Pó, as terras baixas pantanosas eram recuperadas através de extensas


redes de canais de drenagem. O emprego de moinhos de água também
é conhecido desde a Roma Antiga.
»»
Técnicas de agricultura como a irrigação ajudaram
a expandir agricultura em Roma

69
CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

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Caminho por onde passavam
mercadorias romanas na Antiguidade
CALCULADORA
ROMANA
A COMPLICADA
CONTABILIDADE DO COMÉRCIO
DE ROMA ERA REALIZADA,
SOBRETUDO, POR MEIO DE
QUADROS E COM O ÁBACO.
O segundo, que usava
algarismos romanos, era ideal
para a contagem da moeda e
ainda registrar medidas de peso.

COMÉRCIO Imagem do
denário, uma das
As transações comerciais em Roma moedas usadas no
Império Romano
foram extremamente importantes du-
rante a maior parte da época imperial.
Há quem negligencie atualmente esse
setor. No entanto, não há como negar
que o comércio ajudou não apenas a
UNIDADES
DE MEDIDA
expandir a língua franca-latina, como
também a sustentar as façanhas das le-
giões. Vale dizer que os romanos eram Os habitantes da Roma Antiga eram Embora o Egito e algumas províncias
homens de negócios e a longevidade conhecidos como engenheiros muito emitissem as suas próprias moedas, os
do Império deve-se, em grande parte, sofisticados. Dessa forma, eles tinham romanos conseguiram padronizar razo-
às relações comerciais. unidades bem definidas de medição avelmente essa relação no câmbio mo-
A sociedade local mostrava que de comprimentos, pesos e distâncias. netário por volta do século II a.C., o que
era segmentada em torno das áreas e O sistema romano de medição foi contribuiu muito para facilitar o comér-
atividades comerciais. Os integrantes construído com base no sistema gre- cio na principal cidade da potência.
do Senado e os seus filhos, por exem- go e também em algumas influências As moedas romanas, em circulação
plo, ficavam restritos ao envolvimento egípcias. As unidades de peso roma- durante a maior parte da República e
no comércio. Os membros da ordem nas eram conhecidas pela precisão. As do Império Romano do Ocidente, inclu-
equestre eram conhecidos por diversi- distâncias acabavam sendo medidas e, íam o áureo (feito de ouro); o denário
ficarem mais os seus negócios, ainda sistematicamente, inscritas em pedras (de prata); o sestércio e o dupôndio
que os de classe superior tivessem ên- por agentes do governo. (ambos de bronze); além do asse (feito
fase maior em atividades militares e Para negociação comercial, a ânfora de cobre). Essas denominações foram
de lazer. Já os plebeus e libertos man- era uma base conveniente de medida utilizadas até meados do século III.
tinham lojas e barracas em mercados. de líquido. Ela continha um pé cúbico Após as reformas, as moedas em cir-
Enquanto isso, uma incontável quanti- romano, o equivalente a cerca de sete culação passaram a ser, basicamente,
dade de escravos realizava toda espé- litros. A ânfora padrão – a capitolina – o soldo (cunhado em ouro) e algumas
cie de trabalho pesado. Esses próprios era mantida no templo de Júpiter no denominações menores de bronze, que
servos, aliás, eram objeto de transa- Capitólio, em Roma, para que outros perduraram até o fim do Império Ro-
ções comerciais bastante lucrativas. pudessem comparar sua ânfora a ela. mano do Ocidente.

70
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

presença nas proximidades de acam- rios realizavam o mesmo tipo de traba-


pamentos militares romanos durante lho dos mensários, banqueiros públicos
as diversas campanhas que o exército nomeados pelo Estado romano. Eles
participava. Vendiam alimentos e rou- recebiam os juros sobre o empréstimo
Ábaco era pas aos soldados e costumavam pagar bem como um valor referente à comis-
instrumento
de cálculo na em dinheiro vivo por qualquer espólio são, conhecida como mercê. Alguns
Roma Antiga proveniente das vitórias nos campos argentários, conhecidos como coado-
de batalha. res, cobravam dívidas e faziam leilões,
Na Roma Antiga, outro grupo co- enquanto outros argentários eram as-
nhecido era o dos argentários, que sistidos por coadores que coletavam as
trabalhavam como agentes em leilões dívidas para eles.
públicos ou privados comercializan- Por fim, no século III, aproximada-

NEGOCIATAS
do moedas. Tais cidadãos mantinham mente, os mascates eram aqueles que
depósitos de dinheiro para outros in- vagavam pelo Império Romano e com-
A sociedade romana era caracterizada divíduos, descontavam cheques – cha- punham a menor instituição comercial
também pela presença dos chamados mados prescrições – e serviam como ambulante que se tem conhecimento
negociadores – atuantes principalmen- casas de câmbio. O curioso é que eles na Antiguidade. Esses comerciantes
te nos últimos anos da República. Eles mantinham em seu poder livros rigoro- itinerantes trabalhavam levando espe-
eram cidadãos estabelecidos nas pro- sos, que eram considerados como prova ciarias e perfumes para os habitantes
víncias que emprestavam dinheiro com jurídica pelos tribunais em caso de falta das regiões rurais e mais afastadas dos
a cobrança de juros. Ainda comerciali- de pagamento. Por vezes, os argentá- grandes centros.
zavam cereais com o objetivo de espe-
cular e ganhar com o aumento de pre-

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ços do principal alimento daquele tem-
po. Costumavam enviar os grãos para
Roma e também para fora dos limites
da fronteira.
Todavia, o negócio principal deles
era mesmo a cessão de dinheiro com
cobrança de juros. Portanto, as palavras
negociador, negociata e negociação fo-
ram utilizadas com esse sentido naque-
le período. Segundo o filósofo Cícero,
eles eram simplesmente “homens de
negócios” e teriam sido fundamentais
para a organização dos mercados, in-
vestimentos em transporte e disponi-
bilização de crédito que ajudavam na
realização de novos empreendimentos.
O termo “negociador” era tido em mais
alta reputação. Muitos deles acumula-
ram fortunas significativas nas provín-
cias. No século I, seus descendentes,
em sua maioria, seguiram para Roma
como senadores provinciais.
Já os mercadores eram, habitu-
almente, plebeus ou então homens
libertos. Eles podiam ser vistos em
praticamente todas as feiras ao ar li-
vre, em lojas ou em barracas venden-
do mercadorias à beira das estradas.
Os mercadores também marcavam »»
Desenho faz uma reconstituição do trabalho dos chamados mercadores

71
CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

ESCRAVOS INFRAESTRUTURA
tinham um custo inferior a um adulto,
enquanto outras informam que o preço
A mão de obra escrava sustentava de
forma importante o comércio romano.
era bem maior.
No momento da aquisição de um
COMERCIAL
Na Roma Antiga, o principal centro
Esses servos participavam dos proces- escravo, esses eram apresentados nus
comercial era o Fórum Cupedino. Esse
sos de produção, transporte e ainda ao comprador interessado. Isso porque
mercado vendeu inúmeras iguarias
venda de mercadorias. De acordo com os romanos queriam saber exatamente
durante muitos anos. Tempos depois,
estimativas, metade de todos os es- o que estavam adquirindo. O compra-
o espaço passou a ser mais conhecido
cravos em Roma era de propriedade dor tinha até seis meses para devolver
como Fórum Magno. A região atraía a
da classe alta. Além disso, 50% deles um escravo se esse viesse “com algum
maior parte do tráfego comercial. Ori-
trabalhavam na zona rural, onde eram defeito” não revelado no ato da ven-
ginalmente, foi utilizado para a disputa
apenas uma pequena porcentagem da da. Outra alternativa era o comerciante
de jogos esportivos e com a finalidade
população, com exceção de algumas compensar financeiramente a perda.
de abrigar o comércio de todos os ti-
propriedades agrícolas. A outra metade Já os servos que eram comercializados
pos imagináveis. Contudo, mais tarde,
compunha uma porcentagem signifi- sem quaisquer garantias utilizavam
tornou-se o centro político e bancário,
cativa de 25% nas cidades. Nesses lo- uma touca no momento do leilão.
onde negociadores, argentários e men-
cais, se tornavam empregadas domés-
sários mantinham os seus escritórios.
ticas, prostitutas ou trabalhadores em
Já o fórum comercial ou mercantil –
empresas comerciais, de construção e
conhecido como Venálio – passou a exis-
manufatura. Na época das conquistas,
tir nos tempos do Império por conta da
diversos novos escravos foram adquiri- VENDA POR acelerada expansão da cidade e do au-
dos por comerciantes no atacado. Eram
homens capturados que estavam com
ATACADO mento nos negócios nas províncias. Ao
Certa vez, o tirano Júlio menos outros quatro grandes mercados
os exércitos romanos. César teria vendido como abasteciam toda aquela grande região.
Segundo historiadores, muitas pes- escrava toda a população
de uma região conquistada Além disso, seis fóruns comerciais de
soas que compravam escravos queriam
na Gália. Os revendedores menor tamanho eram especializados
pessoas mais fortes, preferencialmente adquiriram nada menos na venda de produtos mais específicos:
do sexo masculino. Não há consenso do que 53 mil pessoas! Fórum Boário (voltado ao comércio de
sobre os valores de crianças escraviza-
gado); Fórum Holitório (produtos rela-
das. Algumas fontes indicam que elas
cionados à horticultura); Fórum Suário
(comércio de carnes suínas); Fórum Pis-
Trabalho escravo cário (peixes e frutos do mar); Fórum
era a base da mão
de obra em Roma Pistório (pães em geral); e Fórum Viná-
rio (bebidas, principalmente os vinhos).
O Fórum Romano atraía a grande
parte do tráfego de pessoas. Mesmo
assim, todos os locais precisavam de
uma infraestrutura adequada para com-
pradores e vendedores terem acesso fa-
cilitado às mercadorias disponíveis. As
novas cidades, como, por exemplo, Tim-
gad (localizada na atual Argélia), foram
estabelecidas segundo um plano orto-
gonal de estradas que facilitou o trans-
porte e também o comércio. As locali-
dades estavam ligadas por vias de boa
qualidade. Rios navegáveis foram outro
modo de condução amplamente usado,
além de alguns canais escavados. Toda
essa vasta estrutura foi descoberta em
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muitos trabalhos de escavação arqueo-


lógica no decorrer dos tempos.

72
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Ruínas do Fórum Magno,


que abrigava, entre outras
coisas, um grande mercado

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POR TERRA em um comboio. Mesmo assim, não ha- tar os navegadores. No seu auge, Roma

E MAR
via, naquele tempo, um modo melhor colocou faróis em quarenta locais dife-
e mais eficaz de transportar cargas do rentes para ajudar a navegação.
Segundo o historiador romano Lívio, no que por meio de embarcações. Mesmo antes do estabelecimento
ano de 752 a.C. foram estabelecidas as O tipo de navio comumente usa- da República, o reino romano estava
primeiras colônias romanas. Todos os do pelos romanos era conhecido como envolvido em comércio regular usando
assentamentos, sobretudo aqueles me- Córbita. Tais embarcações podiam o Tibre. Essa proximidade com o rio de-
nores, estavam localizados em posições transportar até seiscentos passageiros sempenhou um papel fundamental no
estrategicamente importantes. Tanto ou seis mil ânforas de barro de vinho, desenvolvimento econômico da cidade
antes quanto depois do Império Roma- óleo e outros líquidos semelhantes. Es- porque as mercadorias que provinham
no, localizações consideradas mais se- ses navios transportavam em um curto do mar tinham que subir pelo curso das
guras foram as favoritas para pequenos período de tempo mais mercadorias águas para serem dirigidas para a Etrú-
assentamentos. Isso porque a pirataria do que poderiam ser transferidas por ria e também para a Campânia grega.
fazia das atividades comerciais realiza- terra. Uma embarcação desse tipo le- Dessa maneira, Roma era capaz de
das no povoado costeiro uma prática vava, por exemplo, entre duas e três monopolizar o tráfego terrestre, uma
extremamente perigosa. semanas – dependendo das condições vez que estava situada na interseção
Em 67 a.C., depois de uma batalha climáticas – para ir do Egito até Roma. das principais estradas do interior ita-
contra piratas e a consolidação da ma- A fim de elevar a eficácia do transporte liano. Além desse fator, pela incidência
rinha de Roma, já sob o comando de marítimo, os romanos desenvolveram de importantes salinas nas proximi-
Augusto, essa ameaça foi praticamente portos profundos em locais chave. Um dades da cidade, Roma conseguiu se
dilacerada. Por outro lado, o mau tem- dos maiores portos estava em Óstia, transformar em um ponto de mercado
po, os mapas de baixa precisão e os rús- quase 25 quilômetros de Roma, na cos- praticamente perfeito da “via do sal”,
ticos equipamentos de navegação eram ta do Mediterrâneo. No ano de 50 d.C., que anos mais tarde seria conhecida
capazes de causar enormes estragos um farol foi criado no local para orien- como via Salária. »»

73
CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

Trecho da Rota da Seda que


passa pelo atual Cazaquistão

e Anatólia. Chegando a esse ponto, se


dividia em rotas que levavam à Síria ou
ao Egito e ao norte da África.
A Rota da Seda marítima foi aberta
entre Jiaozhi (Vietnã moderno) – con-
trolada pelos chineses – e os territórios
nabateus na costa noroeste do Mar Ver-
melho. Muito provavelmente inaugu-
rada no século I d.C., estendia-se pelo
litoral da Índia e Sri Lanka e pelos por-
tos controlados por Roma, entre eles os
principais portos do Egito. Os mercado-
res transportavam pela Rota da Seda
produtos diversificados.
Além da seda, ouro, prata, cobre,
ferro, chumbo, bronze, escravos, tar-

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tarugas, cavalos, ursos, conchas, mar-
fim, âmbar, vidro, jade, cravo, canela,
coentro, noz-moscada, cardamomo,

ROTA DA SEDA
linho, tapetes, ervas medicinais, chás,
joias, artefatos de metal, madeira, ce-
UMA ROTA Esse importante caminho mercantil râmicas, porcelanas e obras de arte.
CULTURAL possibilitava o transporte de mercado- Em direção à China seguiam produtos
NÃO ERAM APENAS rias diversas entre o Oriente e a Europa. de beleza e maquilagem, diamantes,
MERCADORIAS QUE Suas inúmeras rotas interconectadas pérolas, corais e vidros de manufatura
CIRCULAVAM PELA FAMOSA através do Sul da Ásia eram utilizadas ocidental.
ROTA DA SEDA.
– como o nome sugere – sobretudo A expressão Rota da Seda foi
Nas viagens, que duravam
meses e, por vezes, anos, um
para o comércio de seda. Essa impor- cunhada somente no século XIX pelo
número incontável de pessoas tante passagem era dividida em rotas estudioso alemão Ferdinand von Ri-
se movia. Essas relações do norte e do sul por conta da presen- chthofen. Ela se tornou o maior eixo
criaram um caldeirão cultural ça de centros comerciais nas duas ex- comercial de todos os tempos. Os se-
composto por gente de várias
nacionalidades e colocações, tremidades da China. A Rota da Seda gredos de fabricação da seda – objeto
como soldados, sacerdotes, norte atravessava o Leste Europeu, a do desejo dos ricos da Europa e mundo
exploradores, embaixadores, Península da Crimeia, Mar Negro, Mar árabe – eram dominados pelos chine-
emissários, peregrinos de Mármara, passando pelos Balcãs e ses. Por isso, o material foi escolhido
religiosos e até artistas. Assim,
crenças, estilos de arte e escolas chegava, por fim, à Itália. A rota sul como símbolo dessa gigantesca rede
de pensamento circulavam percorria Turcomenistão, Mesopotâmia de comunicação terrestre.
intensamente pela Rota da Seda.
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74
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

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ROTA DO ÂMBAR
Antes do nascimento de Jesus Cristo,
esse caminho já ligava o Mar do Norte
e o Mar Báltico à Itália, Grécia, Mar Ne-
gro e o Egito. A rota permaneceu ativa
por muitos anos e era importante para
escoar produtos como o próprio âmbar,
Com auxílio uma resina fóssil muito utilizada na
de camelos,
deserto do Saara confecção de objetos ornamentais. Os
foi importante principais trechos fluviais eram feitos
rota comercial pelo Vístula e Dniepre.
Com a expansão do território ro-
SAARA mano até o Danúbio, já no começo do
século I sob os governos de César Au-
Os camelos tinham importância funda-
mental nos transportes de mercadorias gusto e Tibério, a Rota do Âmbar tor-
feitos pelo conhecido e desafiante de- nou-se uma estrada romana dentro da
serto do Saara. Com o auxílio do resis- área pertencente ao Império. O trecho
tente animal, o comércio transaariano romano da Rota do Âmbar pode ser en-
chegou ao auge inicialmente no sécu- contrado nos registros da Tabula Peu-
lo I a.C. diante da ascensão do Impé- tingeriana (mapa que mostra a rede de
rio Romano. Por aquela região fluíam estradas do Império Romano). Segundo
relatos, a estrada oferecia maior segu-
MARCO POLO mercadorias como ouro, escravos, mar-
fim e animais exóticos em intercâmbio rança no período de inverno ligando
NA ROTA com itens de luxo provenientes da ca- Carnuntum, no Danúbio, a Aquileia, na
DA SEDA pital Roma. Itália.
NO ANO DE 1271, OS
COMERCIANTES NICOLAU

ROTA DO
E MATEUS POLO SEGUIRAM
PARA A CHINA, ATRAVÉS DA

INCENSO
ROTA DA SEDA, PARA UMA
VIAGEM COM DURAÇÃO DE
CERCA DE VINTE ANOS.
Esse outro importante caminho ligava o CURIOSIDADE
Com eles estava o jovem reino oriental a Gaza. As rotas de cara- O âmbar sempre esteve
Marco Polo, que passaria para envolvido com crenças. Muitos
a história como um dos mais vanas de camelos através dos desertos povos antigos criam em seu
importantes viajantes de todos da Arábia e os portos ao longo da costa dom medicinal, utilizando a
os tempos. As aventuras vividas do sul da Arábia faziam parte de uma resina em pó misturada com
por ele são descritas no livro mel para combater a asma,
vasta rede de comércio.
A descrição do mundo. a gota e ainda a peste negra.
O incenso e a mirra, extremamente
Ele atuava também na esfera
valorizados na Antiguidade como per- mística, na luta contra espíritos
fumes, só poderiam ser conseguidos a maus. Não à toa, nota-se a
partir de árvores plantadas no sul da sua presença em talismãs,
Arábia, Etiópia e Somália. Os mercado- terços e incensos para espantar
energias ruins.
res árabes transportavam para Roma
não só incenso e mirra, mas também
especiarias, ouro, marfim, pérolas, pe- Âmbar
dras preciosas e tecidos. era usado
também
A partir do século I d.C., as boas para
relações entre o Reino de Meroe, na espantar
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Núbia, e os governantes romanos do espíritos


maus
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Egito contribuíram para a expansão do


comércio através do Mar Vermelho e do
Oceano Índico. »»

75
CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

HISPÂNICA
PROVÍNCIAS PRÓSPERAS A presença de Roma auxiliou no rápido
As regiões dominadas por Roma também cresceram muito economicamen- avanço econômico local. Se antes as ati-
te no período imperial. Na parte final do século II d.C., quase todas as pro- vidades eram mais rudimentares, com
víncias era praticamente autossuficientes em artigos de produção em série. o avanço do Império a região passou
a ostentar uma atividade agrícola com
bom aproveitamento do solo e de vá-

ÁSIA
rias culturas, como trigo, oliveiras, fru-
tas e vinhas. Os romanos implantaram
Essa província era uma das mais prósperas e de maior desenvolvimento as trocas comerciais, incentivaram a cir-
cultural. O estabelecimento do domínio romano trouxe uma época de certa culação da moeda, trouxeram o arado
paz que permitiu o crescimento econômico de cidades como Éfeso, Pérga- de madeira, as forjas, lagares, aquedu-
mo, Esmirna, Sardes e Mileto. tos, estradas e as pontes.
Belíssimas localidades apareceram não apenas no sul e no oeste da pe- Além disso, as populações, que
nínsula, mas também na região central. Em todas estas cidades havia obras anteriormente ficavam predominan-
monumentais, tais como ágoras, ginásios, estádios, teatros, banhos e outras temente nas montanhas, passaram a
edificações, sendo muitas delas em mármore. Havia ainda estradas pavimen- ocupar os vales e as planícies. As mora-
tadas com mármore e água canalizada via aquedutos a partir de fontes. dias de tijolo cobertas com telha eram
um bom exemplo de avanço nos tipos
Shutterstock de construção também. Com isso, surgi-
ram cidades importantes como Braga,
Beja e Cacém (todas no atual território
de Portugal).
A indústria se desenvolveu, princi-
palmente a olaria, minas, tecelagem
e as pedreiras, o que ajudou a ampliar
substancialmente também o comércio,
que passou a contar com feiras e mer-
cados. Toda essa estrutura era apoiada
por uma extensa rede viária.

Cidade de Braga, em Portugal,


fazia parte da província Hispânica

Ruínas de
Éfeso (Turquia),
importante
cidade na
província romana
da Ásia na época
do Império
Shutterstock

76
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

BRETANHA EGITO
A riqueza natural foi um dos principais motivos para a conquista de Roma. A região Com muito prestígio, a província
contava com quantidades enormes de estanho e ferro. Prata e ouro também esta- egípcia era importantíssima para
vam bem presentes na região, o que se tornou importante para abastecer Roma, Roma. E não era para menos: forne-
pois as minas da Hispânia encontravam-se quase esgotadas. cia o trigo necessário para a capital
Nas planícies, tanto as cidades como as fazendas eram bem integradas à eco- e era uma localidade fácil de ser de-
nomia mercantil. Londres e outras antigas cidades da Bretanha desenvolveram-se fendida de ataques externos. Além
e prosperaram durante os dois primeiros séculos de administração romana. Eram do trigo, havia plantações fartas de
exportados ouro, prata, ferro, estanho, grãos, carne e lã. uva para a produção de vinho em
A partir da época em que os limites de fronteira foram fortificados na Bretanha, grande quantidade. Além disso, os
sob os imperadores Adriano (117 – 138 d.C.) e Pio (138 – 161 d. C.), surgiu ao sul imperadores romanos ainda tinham
da muralha fronteiriça um espaço de próspera atividade econômica. Investidores o monopólio sobre as minas, as sali-
extraíam de lá chumbo, prata, ferro e sal. nas e a produção de papiros.
Diante da descoberta dos ventos
de monções do Oceano Índico – uma

MACEDÔNIA
ocorrência climática periódica que
beneficia as atividades agrícolas –,
Nessa província, a economia foi muito estimulada pela edificação da via Egnácia Alexandria passou ser o centro do
– estrada feita pelos romanos no século II a.C. –, pela chegada de mercadores nas comércio entre Oriente e Ocidente e
cidades e ainda pela fundação de colônias romanas. Com ricas pastagens aráveis, a segunda cidade mais importante
as famílias dominantes adquiriram grandes fortunas com o trabalho escravo. do Império Romano (atrás apenas, é
A melhoria nas condições de vida das classes produtivas acarretou em um au- claro, de Roma). Alexandria era um
mento no número de artesãos na província. Pedreiros, mineiros e ferreiros eram grande armazém, recebia e exporta-
usados em todo tipo de atividades comerciais e artesanais. va os produtos do Egito e os materiais
A economia de exportação foi baseada essencialmente na agricultura e pecuá- exóticos da Índia e do Oriente, trazi-
ria. O ferro, o cobre e o ouro, junto com produtos como madeira, resina, breu, linho, dos nas épocas das monções aos por-
cânhamo e peixes, também foram bastante exportados. Portos como Dion, Pela e tos do Mar Vermelho e transportados
Tessalônica apresentaram um grande crescimento no período romano. para o Nilo por todo o deserto.

Ruínas da cidade de Alexandria, centro


do comércio entre o Oriente e o Ocidente

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»»

77
CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

SÍRIA ÁFRICA PROCONSULAR


A região foi outra que prosperou demasia- O cultivo da terra se tornou uma tarefa bastante lucrativa nessa
damente com o advento do domínio ro- região. Ainda no primeiro século, a terra fértil ao sul de Cartago
mano. A Síria exportava abundantemente produziu quantidades significativas de trigo. Já no século seguinte,
resina, madeira, cerâmica, linho, lã, pano, as culturas acabaram sendo diversificadas e os olivais foram uma
grãos, frutas e, especialmente, os corantes. boa fonte de lucro. Além disso, pomares e vinhas movimentaram a
O de cor roxa, retirado de moluscos na costa economia da África Proconsular. A pecuária também teve um papel
síria, tinham um particular valor. Os portos econômico muito importante, com gado ovino e bovino, cabras e
e as rotas com o Oriente Extremo tiveram cavalos. Essas criações garantiam excelentes lucros.
grande importância na economia local. As estradas foram imprescindíveis para o avanço agrícola, pois
Cidades como Alepo, Antioquia, Palmi- permitiam que os produtos fossem levados com facilidade para os
ra e Damasco ficaram extremamente ricas mercados das cidades. Com relação ao Império, as vias possibilitavam
com o comércio de sedas, madeira de ce- que uma importante indústria de exportação funcionasse. Em portos
dro, perfumes, joias, vinhos e especiarias. famosos, como o de Cartago, os navios partiam para Roma lotados de
Cresceram tanto que se tornarem os princi- trigo, cerâmica, mármore, entre outras valiosas mercadorias.
pais centros comercias da Síria romana.
Cidade de Arezzo, na Itália,
Ruínas da antiga cidade era importante centro
de Palmira, Síria de produção de cerâmica
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GERMÂNIA
Localizada às margens do rio Reno, de forma bastante
rápida virou um importante centro de comércio roma-
no ao norte dos Alpes. Mesmo nos dias de hoje, ainda
há alguns traços daquele período, como partes da mu-
ralha romana, alguns dos portões e o aqueduto. Até
hoje o mapa da cidade de Colônia espelha a rede de
ruas e avenidas da época romana.
Naqueles campos eram cultivadas qualidades de
cereais mais rentáveis e criadas raças de gado e cava-
lo maiores. As plantações de uva se estendiam pelas
regiões do Reno, Mosel e Neckar. Praticamente todos
os tipos de frutas que conhecemos hoje, como cerejas
e peras, eram colhidos por lá. Da mesma forma, as-
pargo, salsão e acelga tinham espaço nas terras culti-
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váveis. Até o final do domínio dos romanos, o número


de plantas comestíveis no sul da Germânia dobrou.

78
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

ITÁLIA JUDEIA
A localidade teve sucesso maior no cul- Por causa de sua posição estratégica, a Judéia era uma região de trânsito. Por lá
tivo de milho, trigo, cevada, azeitona passavam soldados, comerciantes, mensageiros e ainda diplomatas. A região ti-
e uva. Na região central da Itália eram nha importantes centros urbanos, como Cesareia Marítima, Gaza e Jerusalém, que
manufaturados utensílios domésticos concentravam pessoas e atividades econômicas. Assim como em outras áreas do
que serviam para equipar o exército Império, nessa região existiam vias e portos, que facilitavam o transporte de mer-
romano na Gália e Germânia. Tais itens cadorias e também a comunicação.
eram negociados fora dos limites do O comércio era largamente praticado. Internamente, ocorriam trocas locais que
império, na Bretanha e norte europeu. visavam simplesmente o abastecimento das grandes cidades. A Judeia, por sua
No início da era cristã, o comércio vez, importava produtos de luxo – consumidos pelas classes mais elevadas e pelo
de cerâmica, cujo principal centro de Templo – e exportava alimentos (frutas, vinhos, óleo e peixes) e manufaturas (per-
produção era Arezzo, na Itália, abaste- fumes e betume).
cia o mercado romano, bem como as
províncias ocidentais, do norte e sudes- Caesarea Maritima,
Israel
te do Império.

Shutterstock
ACAIA
A região pertencente à Grécia possuía
um sistema de indústria e comércio
bastante complexo para a época. Boa
parte de matérias-primas, como chum-
bo, cobre e ferro, estava disponível na
Acaia. Dos itens agrícolas, as impor-
tações mais relevantes eram de mel,
azeitonas, azeite e vinho.
Praticamente qualquer item de
luxo doméstico era elaborado na Acaia.
Preciosos óleos, pós, perfumes, cosmé-
ticos, roupas, cerâmicas, tintas, móveis
e muitos outros produtos eram manu-
faturados em fábricas e oficinas gre-
gas. Esculturas e outras obras de arte
também foram largamente exportadas
para o mundo romano. »»

79
CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

GÁLIA ARÁBIA PÉTREA


Sob o Império Romano, a região desfru- Essa foi outra região que prosperou durante o domínio do Império Romano. Petra,
tou de uma prosperidade muito efetiva. uma das cidades mais importantes da localidade, tinha como principais produtos
Nos séculos I e II d.C., a Gália avançou o incenso, especiarias e tecidos.
economicamente por meio da exporta- A conquista romana da Arábia foi uma vitória importante tanto comercial como
ção de carne, cereais, vinho, prata, vi- militar. Os romanos tinham o controle completo de todas as rotas de comércio aces-
dro e cerâmica. Algumas cidades, como síveis e importantes do Mediterrâneo. Outro benefício da adição da Arábia foi que
Arles, Narbonne e Trèves, enriqueceram os romanos garantiram o flanco sul das províncias da Síria e da Judeia.
de maneira significativa.
Os cereais eram cultivados nas pla-

BITÍNIA MOESIA
nícies da bacia parisiense e da atual
Bélgica. Também eram cultivados linho
e cânhamo para a confecção dos famo- Localizada em uma planície fértil, a pro- Essa região, além e servir como uma
sos panos gauleses. A esses recursos víncia colhia grãos em abundância. Um espécie de tampão entre as províncias
tradicionais os romanos acrescentaram constante fluxo de mercadorias passava gregas e vários potenciais invasores,
a cultura da vinha, que foi implantada pelos seus portos. Suas principais cida- também possuía ricas minas e campos
nas regiões setentrionais. des foram Niceia, Prusa e Nicomédia. muito férteis.
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ILÍRIA
As exportações de peles de
animais, ferro, ouro e prata
eram facilitadas nessa re-
gião por sua posição no Mar
Adriático e a proximidade
com a Itália. A localização
estratégica fez dela um im-
portante elo comercial entre
Europa Ocidental e Oriental.

Região dos Balcãs,


onde ficava a
província da Ilíria

DÁCIA PANÔNIA
As principais atividades na província eram agricultura, vinicultura, Tratava-se de uma localidade muito produtiva.
criação de gado e trabalhos em metal. Os habitantes da Dácia possu- Aveia e cevada eram os seus principais produ-
íam grandes rebanhos – não somente de gado, mas também de ovi- tos agrícolas. As videiras e as oliveiras, por ou-
nos. Fora da região, eram bem conhecidos pela apicultura. Os cavalos tro lado, foram cultivadas em pouca quantidade.
dácios foram muito reverenciados e procurados para uso militar. Os Já a madeira era uma de suas mais importantes
romanos tinham o controle sobre as minas de ouro e prata da Transil- exportações. As minerações de ferro e prata tam-
vânia. A província mantinha ainda um considerável mercado externo, bém predominaram. Além disso, a província da
como é visto pelas várias moedas estrangeiras encontradas no país. Panônia era famosa por sua raça de cães de caça.

80
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

DECLÍNIO
A reforma monetária feita pelo impera- a 200 mil pessoas pobres em determi-
dor Diocleciano, entre os séculos III e IV, nado momento. Essa entrega gratuita
ECONÔMICO tentou reverter essa situação, mas não
durou muito tempo, pois afetava a pro-
no Egito, Sicília e África Proconsular ti-
nha como contrapartida o dinheiro que
Não há uma razão simples que possa
dução sensivelmente. Roma sacava às províncias. O comércio
explicar com toda a exatidão necessá-
Dentro desse complicado contexto, romano se baseava na espoliação indi-
ria o retrocesso financeiro do Império
as sucessivas crises políticas que ocor- reta – reembolsava as importações com
no decorrer dos anos. Talvez, um dos
reram a partir do fim do reinado de os impostos com que taxava as provín-
motivos tenha sido a diminuição acen-
Marco Aurélio até Diocleciano, com o cias. A triste realidade é que Roma vi-
tuada no número de escravos. No sécu-
seu cortejo de guerras civis, invasões rou uma cidade de mendigos.
lo III, sem grandes campanhas militares
bárbaras, epidemias e confiscos, leva- Garantir o sustento mínimo da po-
que garantissem novas terras e mão
ram a uma trágica decadência econô- pulação virou, após o governo de César,
de obra gratuita, a situação chegava a
mica, com o desaparecimento da mo- uma necessidade política. Além das
uma escassez quase que definitiva. As-
eda em espécie, o desmoronamento distribuições gratuitas de cereais, os jo-
sim, o efeito da crise do escravismo ge-
das principais atividades de comércio gos constituíam um dos serviços públi-
rou também um declínio na economia,
e o regresso à chamada economia na- cos mais importantes do Estado. Dessa
com a alta nos preços de diversos itens
tural. Roma havia atingido uma condi- forma, os dias feriados passaram de 65,
e desabastecimentos de produtos em
ção econômica que tornava qualquer nos tempos de César, para 135 na épo-
praticamente todas as cidades.
regra ou lei impotente e ineficaz, O ca de Marco Aurélio. Depois, para 175
Junto com a crise econômica veio
Império Romano nos séculos III e IV dias. A partir dessa época, a população
também o abalo nas estruturas de
não conseguia sustentar os seus habi- de Roma passava a vida nos teatros,
produção devido ao aumento contínuo
tantes, manter a sua administração e anfiteatros e no circo.
das taxas de impostos administrativos,
pagar as tropas. Diante de um cenário nada anima-
enormes despesas burguesas em habi-
Por fim, Roma se tornou uma capi- dor, restou pouco a se fazer, a não ser
tação nos centros urbanos, desvaloriza-
tal ociosa. A distribuição livre de cere- lembrar os tempos áureos de uma ver-
ção da moeda, deterioração das con-
ais pelos proletários romanos chegou dadeira potência econômica.
dições de vida das classes inferiores,
encarecimento dos produtos e substi-
tuição do pagamento em dinheiro pelo
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pagamento com produtos, o que oca-

Shutterstock
sionou a decadência do comércio.
Houve ainda um aumento sistemá-
tico das importações de produtos agrí-
colas. Isso significava uma elevação da
saída de moedas do Império, agravada
pelo fato de as minas de metais precio-
sos já estarem esgotadas àquela altura. SÉCULO VII A.C.
A soma de todos esses elementos, Os primórdios da civilização 67 A.C.
romana viviam basicamente Vitória sobre piratas no
como também a crescente insegurança de atividades agrícolas Mediterrâneo abre espaço
das rotas, gerou uma grave crise finan- para o comércio marítimo
ceira que, por sua vez, provocou o declí-
nio do comércio e de toda a atividade
urbana. Para piorar, segundo o historia-
SÉCULO I D.C.
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dor Plínio, as constantes importações de Inauguração


mercadorias do Oriente e a quase ine- da importante
xistência das exportações para aquela Rota da Seda
mesma região como forma de contra-
partida criaram um enorme déficit nas SÉCULO IV
contas do governo romano. Assim, se Derrocada da
economia romana com
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tornou impossível, durante dois séculos, SÉCULOS I E II D.C. o aumento da dívida


manter a sangria de gastos. Prosperidade econômica externa e a escassez da
A dívida com o exterior levou ao nas províncias romanas mão de obra escrava
esgotamento do dinheiro em espécie.

81
CAPÍTULO 9 • CULTURA

Ilustração da
zona rural romana:
no princípio, a agricultura
de subsistência e uma
vida simples

O JEITO ROMANO DE SER


VALORES ETERNOS E INTERESSES POLÍTICOS EXPLICAM PARTE DO
COMPORTAMENTO DESSA SOCIEDADE QUE MARCOU ÉPOCA

82
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Shutterstock

N o início da civilização roma-


na, seus membros tinham
uma vida cotidiana considerada
Já a família era tida como uma insti-
tuição sagrada e o seu chefe – pater fa-
milias – possuía todo poder, autoridade
ção a uma quantidade enorme de deu-
ses. A prática religiosa marcava presen-
ça nos diferentes aspectos do dia a dia e
bastante simples. Eram traba- e direitos sem limites sobre a esposa, carregava um caráter cívico, pois estava
lhadores no campo e realizavam os seus filhos, escravos e demais bens ligada diretamente ao Estado romano.
uma agricultura de subsistência, materiais. Além disso, todos nutriam O tempo encarregou-se de interli-
ou seja, plantavam e colhiam imenso respeito pelos mais idosos, que gar a tradição dos deuses gregos com a
apenas o que era básico para so- serviam de exemplo a ser seguido pela dos romanos por conta da grande influ-
breviver. Disciplina e modéstia, comunidade em geral. ência da Grécia – uma das províncias do
aliás, eram avaliadas como virtu- A religião, por sua vez, tinha como Império – na cultura dos povos daquele
des essenciais ao homem. base o culto aos antepassados e adora- período histórico. »»

83
CAPÍTULO 9 • CULTURA

Ruínas do templo de Apolo, pois sempre havia exceções em deter-


um dos deuses adorados
minados grupos. Essa linha de raciocínio
também variou bastante com o passar
dos anos.
No entanto, algumas coisas não
mudavam. Além de dar as cartas na
política, a classe mais alta também
era a responsável por definir o sistema
de valores morais que orientava a vida
pública e privada dos romanos, por
volta do ano 500 a.C., no ambiente da
República. Quando membros da elite
social criaram o regime republicano,
o objetivo era inviabilizar o gover-
no de um único homem por meio da
criação de um princípio de comparti-
lhamento de poder para eles próprios,
mas não para todas as pessoas. Dessa
forma, pretendiam afastar o controle
do domínio das mãos da maioria. Isso
porque criam piamente que o cidadão
mais pobre poderia preferir viver sob
o governo de um rei que ganharia seu
apoio através dos benefícios financei-
Shutterstock

ros, recursos esses que os ricos seriam


forçados a dar de suas próprias fortu-
nas pessoais.
Por outro lado, como a classe alta
O cidadão romano também coloca- era muito reduzida para administrar e
va o Estado acima de todas as demais fazer a defesa de Roma sozinha, ela
coisas. Dessa maneira, aquele que es- precisou entrar em acordo por meio de
tivesse a serviço da res publica (coisa concessões, como dar algum papel de
pública) precisa respeitar os deuses, governo a outros cidadãos de menor
demonstrar lealdade e coragem, além status social e também financeiro. Sem
de ter a glória como ambição. Tais qua- esse tipo de pacto, os romanos não
lidades deixavam claro o caráter guer- teriam condições de organizar, entre
reiro manifestado através dos tempos outras coisas, um bom exército. A era
entre os romanos. republicana de Roma foi marcada por
lutas muito tensas pela obtenção do
poder. A mais sangrenta batalha acon- cenário destruidor parece ter sido cau-

PRINCÍPIO teceu na República tardia, ocasião em sado “por alguma tensão com origem

DE TUDO
que a classe alta travava lendários com- na importância avassaladora que os
bates entre si para definir quem alcan- romanos davam à conquista de status
Em geral, os habitantes de Roma acre- çaria determinados níveis nos postos individual como recompensa pelo ser-
ditavam que podiam e deveriam viver governamentais. viço à comunidade”.
debaixo das obrigações com as divin- Muitos historiadores questionam Os habitantes de Roma entendiam
dades e com as outras pessoas. Enten- se essa busca desenfreada pelo domí- que seus ancestrais, no decorrer do
diam ainda que o respeito na sociedade nio, que jogava cidadão contra cida- tempo, tinham transmitido os valores
era conquistado ou perdido de acordo dão, teve raízes no fracasso dos roma- que deviam orientar a sua vida inteira.
com o comportamento que o sujeito nos em seguirem valores tradicionais. Assim sendo, costumavam se referir ao
apresentava. É claro que esse era um Segundo o professor da Universidade sistema de valores como “o costume
pensamento da maioria e não do todo, de Harvard, Thomas R. Martin, esse dos ancestrais”.

84
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Membros da elite precisaram abrir concessões


para conseguirem financiar o exército tuoso: alguém que conseguia diferen-
ciar o bem do mal; que sabia reconhe-
cer o que era inútil; que era inimigo
de homens ruins; protetor das pesso-
as boas; e que punha o bem-estar da
nação em primeiro lugar, seguido dos
interesses familiares e, por último, dos
interesses próprios.
Além disso, era dever de um ho-
mem com probidade cuidar bem de
seu corpo e se exercitar para manter-se
saudável e forte para poder sustentar
a família e lutar pelo país na guerra. A
realização suprema para o homem jus-
to era o heroísmo na batalha, mas ape-
nas se servisse à comunidade ao invés
de propiciar somente glória pessoal. Da
mulher com probidade esperavam-se
ações valorosas dela para com a sua
família. Acima de tudo, ela deveria se
casar, ter filhos e educá-los desde pe-
quenos segundo os preceitos éticos da
referida comunidade onde vivia.
Já o valor da fidelidade apresenta-
va distintas formas. Acima de qualquer
coisa, tal lealdade significava o cumpri-
mento de obrigações, sem avaliar o pre-
ço a ser pago e nem mesmo se o com-
promisso era informal ou formal. Para
o natural de Roma, não cumprir uma
obrigação ou desrespeitar por completo
um contrato era uma grande ofensa à
comunidade e também aos seus deuses.
A mulher, por exemplo, demonstrava fi-
SE É ANTIGO, delidade mantendo-se virgem até a re-
Shutterstock

LOGO É BOM alização do matrimônio e sendo, depois


de casada, uma esposa monógama – re-
EM GERAL, OS ROMANOS
lação apenas com seu marido. Porém, o
CARREGAVAM GRANDE
ESTIMA PELA ANTIGUIDADE mesmo não era aplicado aos homens,

VALORES
DE SEUS VALORES PORQUE, uma vez que os atos sexuais com pros-
PARA ELES, “ANTIGO” titutas não eram tidos como motivo de
TINHA O SIGNIFICADO DE
“BOM”, POIS “ERA TESTADO Probidade, fidelidade e status. Esses reprovação pública. Para os romanos do
PELA EXPERIÊNCIA”. eram os três valores principais que os sexo masculino, o que importava mes-
Por outro lado, “novo” romanos criam terem sido instituídos mo era cumprir a sua palavra, pagar as
queria dizer “potencialmente por seus ancestrais. O primeiro, basi- dívidas corretamente e tratar todas as
perigoso”, já que “não havia camente, definia como uma pessoa se pessoas com senso de justiça.
sido testado antes”. Já a
expressão “coisas novas” era relacionava com os seus semelhantes. Em último lugar, o status – tercei-
utilizada como um sinônimo No início, probidade tinha um sentido ro valor central romano – nada mais
de “revolução”, algo temido masculino e vinha do latim virtus – que era do que a recompensa que alguém
como uma fonte de violência significa virtude. O poeta Lucílio listou alcançava por viver segundo esses va-
e desordem na sociedade.
aquilo que ele considerava serem as lores todos. Isso vinha do respeito que
qualidades morais de um homem vir- uma pessoa conquistava e também »»

85
CAPÍTULO 9 • CULTURA

Shutterstock
A PIEDADE
PARA O ROMANO, SER PIEDOSO
SIGNIFICAVA DEVOÇÃO À ADORAÇÃO
DOS DEUSES E AO SUSTENTO DE
SUA PRÓPRIA CASA. ALÉM DO
CUNHO RELIGIOSO, ESSE VALOR
TAMBÉM ERA SOCIAL. HOMENS E
MULHERES QUE ATENDIAM A ESSE
PRECEITO COSTUMAVAM RESPEITAR A
AUTORIDADE DOS MAIS VELHOS, DOS
ANCESTRAIS FAMILIARES E TAMBÉM
DAS DIVINDADES. ALIÁS, DEMONSTRAR
RESPEITO AOS DEUSES – FAZENDO
CULTOS RELIGIOSOS DE MANEIRA
ADEQUADA E REGULARMENTE – ERA
IMPRESCINDÍVEL. VALE RESSALTAR QUE
O FAVOR DIVINO, DE ACORDO COM OS
ROMANOS, GARANTIA A PROTEÇÃO DE
SUA COMUNIDADE.
Nem por isso o respeito a si mesmo era
ausente nos valores de alguém piedoso.
Isso porque respeito próprio significava
muitas outras coisas. Queria dizer, acima
de tudo, que o homem não devia desistir
nunca, independentemente da dificuldade
que pudesse ter pela frente. Perseverar e
cumprir os deveres sob todas as condições
– por mais adversas que fossem – eram
comportamentos básicos. O respeito
próprio, por fim, também significava
limitar manifestações de emoção e manter
sempre o autocontrole. A expectativa
sobre esse aspecto era tão grande quem
nem mesmo maridos e esposas podiam
se beijar em público para que não fosse
transmitida a sensação de terem perdido o
controle emocional.

Antiga família romana reunida: fidelidade


era um dos valores centrais da época

esperava dos outros por se comportar atos de coragem. Segundo os historia- RIQUEZA
corretamente com relação aos compro- dores, o efeito do status social era tão Os habitantes da Roma Antiga criam
missos tradicionais. A mulher ganhava influente que um homem com conceito que o status da família afetava dire-
respeito – além de recompensas rela- elevadíssimo por ações e autocontrole tamente os valores. Para eles, quanto
cionadas à sua reputação e aceitação podia receber tanto respeito ao ponto mais elevada fosse a classe familiar
social – quando gerava filhos legítimos de todos os outros lhe obedecerem, de uma pessoa, mais rígidos eram os
e os educava em termos morais. A mãe mesmo sem ter o domínio jurídico ou valores pessoais que se devia seguir.
romana, aliás, merecia e esperava um formal. Costumava-se dizer que aque- Dentro dessa linha de pensamento
grande respeito. le que atingia esse ápice de prestígio romana, nascer em um núcleo proe-
As recompensas para os homens tinha o poder moral de autoridade. minente tinha prós, mas também con-
envolviam honrarias públicas, ou seja, Isso significava que as pessoas fariam tras. Diretamente, garantia o direito a
eleições para posições oficiais no Esta- o que recomendava não por imposição um status superior na sociedade. Por
do – no caso dos homens ricos o bas- da lei, mas sim pelo enorme respeito outro lado, impunha um padrão mais
tante para o governo, pois eles não que tinham pelo exemplo sumo de vi- severo de avaliação de comportamen-
recebiam salário. Já os soldados na mi- ver dentro dos valores estabelecidos to. Em geral, os integrantes da elite
lícia de cidadãos de Roma esperavam transmitidos anteriormente por seus acreditavam que uma pessoa nascida
um reconhecimento público por seus ancestrais. em uma família desprestigiada pos-

86
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Foto em preto e branco mostra Fórum Romano, importante
ponto de encontro da população romana na antiguidade
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suía também menor capacidade de se ção fornecer “bondades” aos de status


comportar adequadamente. Essa visão
gerava, costumeiramente, certa tensão
POBRE HERÓI menor. Essas pessoas beneficiadas, por
sua vez, tornavam-se clientes e passa-
O MAIS FAMOSO HERÓI
entre as classes sociais. Teoricamente, ROMANO VINDO DA CLASSE
vam a dever “tarefas” ao patrono. Im-
a riqueza não tinha qualquer relação POBRE FOI LÚCIO QUÍNCIO portante dizer que mesmo os patronos,
com a virtude moral. Os próprios roma- CINCINATO, NO SÉCULO por exemplo, podiam ser clientes de
nos mantinham o costume de contar V A.C., QUANDO SALVOU pessoas com status maior do que o seu.
ROMA DA ANIQUILAÇÃO
aos seus filhos diversas histórias sobre CONDUZINDO O EXÉRCITO EM Trocando em miúdos: um mesmo indi-
heróis compatriotas que eram pobres, UM GRANDE TRIUNFO DIANTE víduo poderia ser tanto patrono quanto
mas extremamente valorosos. DE ESTRANGEIROS INVASORES. cliente.
No entanto, à medida que, no de- Ele chegou a um status tão O romano costumava definir essa
correr dos séculos, Roma foi conquistan- elevado que poderia ter relação de interesses como um tipo de
governado Roma. Contudo,
do novas terras e dominando um espa- sempre fiel aos valores locais, amizade em que cada parte tinha o seu
ço cada vez maior, o dinheiro passou a ele decidiu retornar à família papel precisamente definido. Assim,
ter uma importância maior para a elite, muito pobre e à fazenda sem um patrono sensível demonstraria todo
pois possuía o poder de elevar o sta- empregados. Segundo conta o seu respeito para com o cliente cum-
Tito, Cincinato voltou “feliz por
tus com gastos excessivos em prédios ter cumprido com seu dever e primentando-o como “meu amigo” ao
públicos e em entretenimentos para a por ter sido fiel ao país”. invés de “meu cliente”.
comunidade ao redor. Dessa maneira, Contudo, apesar desse ar aparen-
ter dinheiro tornou-se uma necessidade temente amistoso e de respeito, essa
para quem desejava ascender em pres- relação patrono-cliente era amparada
tígio social. No século II a.C., romanos legalmente e garantia direitos e de-
mais ambiciosos necessitavam de recur-
PATRONO veres das partes nela envolvidas. A Lei

E CLIENTE
sos financeiros para comprar respeito e, das Doze Tábuas, de 449 a.C., que foi o
assim, cresceu e muito a disposição em primeiro conjunto de regras escritas em
passar por cima de outros valores para O ambiente republicano trouxe consi- Roma, declarava criminoso um patrono
conseguir esse objetivo. A busca por de- go uma nova relação: a de patrono e que enganasse o seu cliente.
terminados “valores” acabaria por levar cliente. Os dois formavam, na realida- Os deveres de um cliente incluíam
Roma a um ambiente de inquietação e, de, uma rede de obrigações recíprocas. o suporte financeiro e político do pa-
na época da República tardia (146 a.C. Patrono era aquele homem de status trono. De acordo com a tradição, um
até 27 a.C.), de ditadura. social superior que tinha como atribui- cliente devia ajudar, por exemplo, a dar »»

87
CAPÍTULO 9 • CULTURA

dotes – presentes de casamento mui- do patrono era garantir o sustento do


to valiosos – para as filhas do patrono. cliente e de sua família em eventuais REJEIÇÃO
Já na vida política, era esperado que
um cliente ajudasse seu patrono nas
dificuldades jurídicas, como no caso de
ações judiciais relativas à posse e pro-
DO PAI
A LEI ROMANA ERA, DE FATO,
campanhas a cargos públicos ou ainda priedade, o que era bastante comum. AMPLAMENTE PATRIARCAL.
quando um amigo do patrono concor- Em momentos assim, pessoas de status PARA SE TER UMA IDEIA, ATÉ
ria em uma eleição. O cliente era muito social menor ficavam em desvantagem QUE UM PAI TOMASSE UM
útil para convencer pessoas a trocarem no sistema judicial romano se não ti- RECÉM-NASCIDO EM SUAS
MÃOS – DEMONSTRANDO,
seu voto. Ele também poderia ser inti- vessem amigos mais influentes para DESSA MANEIRA, QUE
mado a emprestar dinheiro ao patrono auxiliá-los na apresentação de suas ACEITAVA A CRIANÇA COMO
quando esse tivesse vencido uma elei- causas. A ajuda de um patrono com SUA E SE COMPROMETIA EM
CRIÁ-LA –, O BEBÊ PODIA SER
ção e precisasse de recursos financeiros dom de oratória era uma necessidade
LITERALMENTE ABANDONADO.
para custear as obras esperadas dele na bem específica no tribunal, pois acusa-
Acredita-se que as meninas
posição de funcionário público. dores e acusados tinham que falar por tenham sofrido com essa
Nos tempos da República tardia, si mesmos ou então ter pessoas próxi- situação mais frequentemente,
era comum e muito prestigioso o patro- mas que discursassem por eles. já que as famílias alcançavam
maior ascensão na sociedade
no ter um grande número de clientes Nesse período histórico, Roma não
gastando seus recursos com
o tempo todo. O curioso é que esses possuía – como ocorre hoje – promoto- os filhos homens.
diversos clientes costumavam se reunir res públicos ou advogados de defesa Em textos do médico Sorano
em sua residência logo pela manhã e disponibilizados pelo Estado, tampou- de Éfeso (por volta do século
o acompanhavam até o Fórum Roma- co defensores para serem contratados I), há ainda informações
que confirmam a prática do
no – o centro comercial, político e ju- particularmente. Assim, os cidadãos
aborto, que era usada naquela
rídico de Roma. Por conta disso, um proeminentes com mais conhecimen- época (sempre em casos de
integrante da elite romana necessitava to de história e procedimentos legais perigo para a criança ou a
ter uma casa bem grande e requintada eram os especialistas jurídicos naquela mãe) com o uso de abortivos.
As mulheres provocavam
para receber uma verdadeira multidão região. No século III a.C., tais especia- o aborto de diversas
para esse encontro matinal. Além dis- listas autodidatas, conhecidos como maneiras: apertando os seios
so, o patrono também tinha como bom juristas, exerciam função primordial no exageradamente, tomando
hábito convidar esse seu parceiro social sistema judicial. bebidas extremamente geladas,
consumindo mel em grandes
para jantares em sua própria residên- Todas as obrigações jurídicas re- quantidades, ingerindo óleo de
cia. Muita gente ao redor era sinal de cíprocas da relação patrono-cliente quinino, inserindo um feixe de
sucesso social. Diante desse cenário, o deviam ser estáveis e duradouras. palha na vagina para perfurar
dinheiro tornou-se fundamental para Em certas situações, esses vínculos se o útero ou tomando misturas
preparadas com o uso de
os romanos das classes mais elevadas. prolongavam por gerações, passando vinhosmisturas preparadas
Eles tinham que desprender enormes à família. Um exemplo disso era o ex- com o uso de vinhos.
quantias para serem vistos como exce- -escravo que automaticamente se tor-
lentes patronos. nava cliente, por toda a vida, do mestre
Mas não é só. Geralmente, o patro- que o libertou e, muitas vezes, passava
no tinha que gastar dinheiro para con- aos filhos essa relação com a família do
seguir oferecer uma variedade de bon- patrono. Já o romano com contatos fora
dades onerosas para os clientes nessa das fronteiras poderia angariar clientes
via de mão dupla. No regime republi- estrangeiros. Principalmente os mais
cano, era de bom tom um patrono aju-
dar um cliente a iniciar carreira política
ricos tinham, em alguns casos, comuni-
dades inteiras de clientes.
PUNIÇÃO AOS
dando apoio à sua candidatura ao ga- As características de dever e per- SOLTEIRÕES
binete ou ainda garantindo um aporte manência do sistema patrono-cliente Na época do Império, o
casamento passou a ser
financeiro ocasionalmente. Durante o deixavam evidente a ideia romana de bastante impopular. Assim,
Império, o patrono deveria ofertar uma que estabilidade e bem-estar social foram tomadas medidas
cesta de piquenique cheia de comida eram alcançados por meio da manu- para encorajá-lo mediante
para o café da manhã dos clientes que tenção fiel de uma rede de ligações a imposição de penalidades
aos não-casados.
estavam em sua casa logo cedo. que juntava pessoas umas às outras na
Mas a obrigação mais importante vida pública e também privada.

88
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

FAMÍLIA
Já no caso da esposa, o pátrio po-
der tinha um efeito bem mais limitado APARÊNCIA
A legislação romana tornava o pátrio sobre a sua vida. Nos primórdios da Na Roma Antiga, as
mulheres da classe nobre
poder a maior força dentro das relações República, uma mulher podia estar desfrutavam de certo
familiares, com exceção do vínculo en- sob o poder do marido. Contudo, era prestígio e precisavam
tre marido e mulher. A concessão de possível que no contrato de casamen- tomar um cuidado especial
com a sua aparência,
domínio a homens mais velhos fazia de to tivesse um impedimento específico
sendo o mais importante
Roma uma sociedade patriarcal. Um pai dessa subordinação, deixando-a livre o estilo de cabelo. Eles
tinha poder legal sobre os seus filhos de quaisquer controles legais pelo costumavam ser muito bem
– independentemente da idade – e so- homem. Nesses casos, a esposa con- elaborados, com diversos
tipos de enfeites. Como
bre seus escravos, que contavam como tinuava, na teoria, sob o poder do pai complemento, brincos e
membros de seu domicílio. enquanto ele estivesse vivo. Todavia, pulseiras de pedras preciosas,
Esse pátrio poder ainda fazia do existiam poucos casos de pais idosos colares ou gargantilhas. Os
chefe da família o único proprietário que mantinham o controle da vida de vestidos eram sempre longos
combinando com um manto
de toda terra adquirida por qualquer filhas já maduras e casadas, pois a bordado com cores variadas.
um dos filhos. Enquanto o pai estives- maioria das pessoas morria jovem no
se vivo, nenhum filho ou filha poderia, mundo antigo. No momento em que
juridicamente, ter algo em seu nome. a grande parte das mulheres romanas

MULHERES
Entretanto, na prática, os filhos adultos se casava, no fim da fase da adoles-
costumavam manter propriedade pes- cência, praticamente metade já havia
soal e contrair recursos financeiros. Da perdido seu pai. Essa realidade demo- Comumente, a sociedade romana es-
mesma forma, escravos protegidos po- gráfica mostra que o pátrio poder pos- perava que a mulher se desenvolvesse
diam ter economias próprias. suía um efeito bem limitado sobre os de um modo rápido e assumisse suas
O pai ainda tinha poder legal de filhos maiores. responsabilidades na família. Túlia (79
vida e morte sobre aqueles que esta- Além disso, a mulher adulta sem o a.C. a 45 a.C.), filha do famoso político
vam debaixo de seu teto. Mesmo assim, pai em vida também possuía autonomia e orador Cícero, noivou aos doze anos,
era bastante raro ele exercer esse direi- plena. Com relação aos homens, já que casou-se aos dezesseis e ficou viúva
to sobre qualquer um deles. Já o aban- eles não se casavam antes dos trinta com apenas vinte e dois anos de idade.
dono de recém-nascidos era algo muito anos de idade, na época do casamento e As mulheres ricas tinham o dever de
comum. Tratava-se de uma prática acei- na formação de sua própria família, ape- administrar a propriedade da família, o
ta para controlar o tamanho das famí- nas 20% deles ainda tinham o pai vivo. que incluía os escravos domésticos.
lias e descartar crianças que nasciam Assim, os outros 80% eram juridicamen- A esposa possuía ainda a função de
com problemas físicos variados. te independentes de controle. supervisionar a criação de seus filhos
por amas de leite, além de estar jun-
to com o marido em jantares festivos,
muito importantes na formação de re-
Representação lacionamentos entre as famílias.
de antiga A influência da mãe na formação
família romana
moral dos filhos tinha um valor especial
na sociedade romana. Um exemplo dis-
so foi Cornélia, integrante abastada da
classe alta do século II a.C., que conquis-
tou fama e respeito na administração da
propriedade da família e pela educação
dos filhos. Quando o marido morreu, ela
decidiu recusar uma oferta de matrimô-
nio do rei do Egito para que pudesse su-
pervisionar o patrimônio familiar, além
de educar uma filha e dois filhos – Tibé-
Shutterstock

rio e Caio Graco, que cresceram entre os


líderes políticos mais influentes e polê-
micos do período republicano. »»

89
CAPÍTULO 9 • CULTURA

Já a mulher pobre precisava criar os


filhos e trabalhar duro para se susten-
tar. O número de profissões voltadas ao
MANIFESTAÇÃO FEMININA
ERA BASTANTE RARO AS MULHERES REALIZAREM QUAISQUER ATOS DE
sexo feminino também era menor. Ge-
CUNHO POLÍTICO. NO ENTANTO, EM 215 A.C., NO AUGE DE UMA CRISE
ralmente, tinha que aceitar empregos FINANCEIRA EM TEMPOS DE GUERRA, FOI APROVADA LEI QUE LIMITAVA
relacionados à venda de produtos ou A QUANTIDADE DE OURO QUE AS MULHERES PODERIAM TER, PROIBIA
de comida em lojas pequenas. Mesmo QUE ELAS USASSEM ROUPAS COLORIDAS EM PÚBLICO E ANDASSEM
DE CARRUAGEM A UMA DISTÂNCIA DE 1,5 QUILÔMETRO DE ROMA OU
quando pertencia a uma família produ- DE OUTROS MUNICÍPIOS ROMANOS, EXCETO PARA PARTICIPAR DE
tora de artesanato – que predominava EVENTOS RELIGIOSOS.
na economia romana –, era mais fácil a Essa lei pretendia atender ao descontentamento dos homens em relação
mulher vender do que fabricar aquilo aos recursos controlados por mulheres ricas em uma época que o Estado
que era produzido. enfrentava uma grande necessidade de fundos. Em 195 a.C., depois da guerra,
as mulheres afetadas pela regra organizaram uma grande manifestação contra
As mulheres de famílias mais po- as restrições impostas. Elas tomaram as ruas para expressar o que desejavam
bres viravam, muitas vezes, prosti- e cercaram as portas das casas de dois líderes políticos que vinham tentando
tutas. Aliás, a prostituição era legal, bloquear a revogação da regra. Diante da pressão, a lei foi anulada.
mas quem ganhava a vida vendendo
o próprio corpo era considerado sem
status social. As garotas de programa
utilizavam uma peça de roupa mascu- Pintura descoberta em um antigo bordel
lina – a toga – para sinalizar a falta de de Pompeia retrata uma relação sexual
castidade tradicional associada a hero-
ínas romanas.
A mulher não tinha permissão de
votar nas eleições romanas. Também
não poderia exercer a função
de funcionária pública. Po-
dia somente ter influência
política indireta ao mani-
festar opinião a parentes
em cargos públicos. Marco
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Pórcio Catão, ilustre senador


e autor (234 a.C. a 149 a.C.),
descreveu, certa vez, em

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tom cômico, a influ-
ência que as mu-
lheres poderiam
exercer sobre seus
maridos governan-
SEXO
A conduta dos romanos quando o as- era mostrado. Os romanos eram puri-
tes: “A humanidade
sunto era relação sexual pode parecer tanos nesse aspecto, mas adornavam
inteira governa suas
muito imoral para os dias de hoje. Por as suas casas com pinturas e mosaicos
esposas, nós governa-
exemplo: os cidadãos da Roma Antiga com nus e motivos eróticos, sobretudo
mos a humanidade e
podiam se aproveitar da intimidade nos quartos.
nossas esposas nos
das suas escravas e dos seus jovens es- No Império Romano, assim como
governam”.
cravos. As crianças adotadas – tratadas na Grécia Antiga, a prostituição não
como filhos – eram muitas vezes sujei- era proibida, sendo normalmente feita
tas a práticas homossexuais. As rela- por escravas trazidas de outros lugares,
ções entre um adulto e um adolescente mulheres gregas e orientais. Mesmo
eram permitidas, mas nunca entre dois sabendo-se que nas tabernas havia
Mulher romana homens adultos. locais destinados às relações sexuais,
era cobrada a No entanto, o ato sexual com a sua escavações nas ruínas de Pompeia en-
assumir as suas
responsabilidades esposa era às escuras e o seio dela, co- contraram um único bordel composto
rapidamente berto com uma espécie de sutiã, nunca por dez quartos. Na época, esses locais

90
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Desenho mostra aluno e seu tutor na Roma Antiga


eram designados como Lupanare – pa-
lavra derivada de lupaes, que eram as
prostitutas que frequentavam os par-
ques públicos e atraíam a atenção de
seus clientes com uivos de lobo.
O lesbianismo também era per-
mitido na Roma Antiga. Nos banhos
públicos eram frequentes os encontros
de mulheres que, embora sendo casa-
das, recorriam às escravas para satis-
fazerem os seus desejos lésbicos mais
profundos.

EDUCAÇÃO
Um dado importante é que a educa-
ção escolar romana das crianças era
particular para ricos e pobres, pois não
havia escolas públicas. Quando sa-
biam ler, escrever e fazer aritmética,
os pais de muitas famílias mais pobres
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que trabalhavam como produtores de


bens costumavam transmitir esse co-
nhecimento aos filhos por educação
doméstica informal. Como Roma não
tinha leis que proibiam ou limitavam o mais abastadas da cultura da Grécia,
trabalho infantil, essas crianças exer- elas começaram a comprar escravos alcançar o sucesso em uma carreira
ciam atividade remunerada junto com gregos mais instruídos para educar os pública. Para conseguir ser eleito, um
os pais. seus filhos. Muitos deles acabavam por homem precisava saber discursar de
Contudo, o mais provável mesmo é virar bilíngues em latim e grego. maneira persuasiva aos seus eleitores.
que a maioria esmagadora da popula- As meninas costumeiramente re- Além disso, falar bem nos tribunais era
ção nem soubesse ler ou escrever. As cebiam treino mais ameno que os me- outra preocupação, pois as ações judi-
crianças romanas de famílias mais ricas ninos, mas ambos os sexos aprendiam ciais eram veículo de proteção da pro-
também recebiam a educação básica a ler entre os cidadãos de classe alta. A priedade privada.
em sua própria residência. repetição era a técnica padrão de en- Um menino ouvia técnicas de retó-
No começo do regime republica- sino. A punição física era usada para rica indo com o pai, tio ou irmão mais
no, os pais eram os responsáveis pela manter os alunos atentos ao trabalho velho a reuniões públicas, assembleias
educação ao menos até que seus filhos de rotina. As famílias ricas providen- e sessões no tribunal. Ao escutar as fa-
completassem sete anos. A partir dessa ciavam às filhas os ensinos de litera- las feitas em debates sobre política e
idade, os pequenos já estavam aptos a tura, um pouco de música e de tópicos causas de direito, o garoto aprendia a
receber instruções de um tutor contra- de conversação para ocasiões e janta- imitar técnicas vencedoras. Além disso,
tado. As crianças também podiam ser res festivos. os pais ricos contratavam docentes ca-
enviadas a aulas oferecidas por profes- Um dos principais objetivos da edu- pazes de ensinar um grande volume de
sores independentes mediante o paga- cação da mulher era prepará-la para o conhecimento em história, geografia,
mento de uma taxa. papel que as mães romanas precisa- literatura e finanças, disciplinas neces-
Os pais buscavam manter o cuidado vam desempenhar no ensino aos filhos sárias para formar um orador realmen-
de doutrinar os filhos sobre os funda- sobre o respeito aos valores morais e te eficaz.
mentos da virtude masculina, princi- sociais de Roma. Já a meta de educa- A retórica romana, aliás, devia mui-
palmente treinamento físico, combate ção de um menino romano de classe to às técnicas da retórica grega. Muitos
com armas e coragem. Quando a ex- alta era torná-lo um especialista em oradores de Roma estudavam com pro-
pansão romana aproximou as pessoas retórica, pois isso era fundamental para fessores da Grécia. »»

91
CAPÍTULO 9 • CULTURA

EXEMPLO DE DIA A DIA VIDA SOCIAL


ORADOR Tudo indica que os romanos tinham o
costume de se levantar ao nascer do
A MOVIMENTAÇÃO PELAS
RUAS DA CIDADE ERA MUITO
MARCO TÚLIO CÍCERO (106 A.C. INTENSA DURANTE TODO O
A 43 A.C.) FOI O RESPONSÁVEL sol, já que as ruas não possuíam ilu-
DIA. AS IDAS E VINDAS DAS
POR DAR O MAIS FAMOSO minação – como ocorre hoje – e haver
PESSOAS DE TODAS AS CLASSES
EXEMPLO DA REPÚBLICA SOBRE nas casas somente candeias de azeite. SOCIAIS SE MISTURAVAM AO
A PROEMINÊNCIA À QUAL UM Lavavam o rosto e logo calçavam suas CAÓTICO COMÉRCIO.
HOMEM PODE CHEGAR COM O
SEU TALENTO EM RETÓRICA. sandálias ou sapatos de madeira. Nem Contudo, à noite o cenário
perdiam tempo com a vestimenta, já mudava por completo. Não era
O pai dele pagou para estudar nada aconselhável sair após
a disciplina em Roma e na que dormiam com a roupa do cotidia-
o entardecer, pois a cidade
Grécia. Entre os gregos, no mesmo (ou então diversas túnicas era violenta. Assassinatos
Cícero desenvolveu um estilo e assaltos eram bastante
sobrepostas, dependendo do período
brilhante de oratória que o frequentes em solo romano.
permitiu superar o baixo status do ano).
social de origem – ele era filho Em seguida, já se alimentavam com As termas eram os locais de
de uma família local vinda de encontro favoritos e tinham
a primeira refeição do dia: pão, queijo
um pequeno município italiano divisões para separar os homens
e água. Os rapazes das famílias ricas das mulheres. Era o lugar para
e não de um núcleo familiar da
elite romana. seguiam para o estudo acompanhados relaxar, praticar esportes e
por seus escravos de confiança. encontrar amigos para um bom
Cícero começou a carreira de papo. Os bares também eram
orador público defendendo Os ricos utilizavam o período da bastante frequentados, mas
homens acusados de crimes. Era manhã para tratar dos seus negócios, somente pelos homens.
um início seguro e tranquilo,
visitar propriedades e resolver demais
pois os réus ficavam gratos por
esse suporte e os promotores assuntos particulares. O passeio pelo
públicos não retaliavam contra fórum (praça pública) para conhecer
apoiadores de réus.
Mas ele abalou as estruturas
as últimas novidades, discutir assuntos
VESTIMENTAS
PADRONIZADAS
públicos e socializar com os amigos era
da elite social romana em 70
a.C., quando decidiu processar
uma atividade de praxe.
por corrupção Caio Verres, um Por volta do meio-dia, os romanos As roupas dos habitantes de Roma fo-
funcionário do alto escalão e paravam para a segunda refeição. Essa ram extremamente influenciadas pelos
de enorme status. Seu discurso era rápida: carnes frias, frutas e legu- gregos e variavam de acordo com sexo
chacoalhou a capital com a
ameaça de exilar Verres. Em 63 mes. Tudo regado a um bom vinho. e categoria social. As mulheres soltei-
a.C., atingiu o auge do sucesso Após se alimentarem, voltavam aos ras, por exemplo, geralmente vestiam
ao ser eleito cônsul, o mais alto seus trabalhos, parando habitualmente uma túnica, sem mangas, que se es-
posto da República. no meio da tarde para se banharem. tendia até o tornozelo. Depois de se
Durante toda a sua carreira, O dia terminava com a refeição casar, utilizavam o mesmo tipo de tra-
Cícero utilizou o dom para a
retórica em uma tentativa de principal, a ceia. Os mais ricos gosta- je, mas com mangas. As qualidades de
reconciliar as facções contrárias vam de convidar amigos para seus ban- tecido também mudavam. Enquanto as
na classe alta de Roma nas lutas quetes. Comiam vários pratos, servidos mulheres da elite trajavam roupas de
violentas por poder político no
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por escravos em travessas comuns, algodão e seda, as das classes menos


fim da República.
de onde o convidado retirava a comi- abastadas utilizavam linho ou lã.
Oradores estudaram seus
discursos – muitos dos da com uma colher ou mesmo com as Os homens livres, por sua vez, ves-
quais ele preparou para a mãos. Depois do banquete, vinham as tiam túnica de linho ou lã até os jo-
publicação escrita após distrações, como músicos, bailarinas ou elhos. Esse comprimento evitava que
pronunciá-los – a fim de recitais de poesia. as vestes atrapalhassem os seus mo-
aprenderem as técnicas dos
argumentos estruturados Para os mais pobres, o trabalho vimentos. Já os trabalhadores usavam
com cuidado, clareza de continuava até mais tarde e a ceia era roupas de couro por causa da durabi-
expressão e imagens pobre, baseada no trigo – item distri- lidade. A toga, um manto longo, era
convincentes.
buído gratuitamente ou a baixo cus- usada somente pelos cidadãos a par-
to, sobretudo nos tempos de Império. tir dos 14 anos de idade. Os meninos
Cícero foi o principal Deitavam-se cedo e levantavam-se ao carregavam no pescoço um pendente
nome da oratória nascer do sol para iniciarem mais um em forma de concha marinha, que era
romana
dia de trabalho. abandonado no momento de vestir a
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

FIM DE COSTUMES ANTIGOS


toga, uma representação da chegada
à idade adulta.
A indumentária também contava Os principais preceitos estabelecidos ao longo dos anos em Roma acabaram
com os acessórios como elementos se deteriorando com o tempo. A busca desenfreada por poder e recursos fi-
muito importantes para os romanos. nanceiros fez com que diversos líderes e integrantes das classes mais elevadas
Não era raro ver as mulheres utilizarem distorcessem valores há muito praticados no território romano.
braceletes, tornozeleiras, pulseiras, Comportamentos insanos de imperadores como Calígula (37 a 41 d.C) e
anéis e colares. Os materiais de joa- Nero (54 a 68 d.C) – que buscaram a glória própria acima de qualquer coisa
lheria mais comuns eram ouro, prata, – são exemplos. Uma prova clara disso é que, para ambos, não havia mais a
pedras preciosas e semipreciosas, como necessidade de respeitar as opiniões dos mais velhos, algo instituído como
cobre, bronze e ferro. Nelas, estavam imprescindível.
desenhados símbolos como o Cupido, Outros imperadores vieram posteriormente e retornaram, em parte, para
além de aves e cenas mitológicas. alguns dos valores essenciais, mas muita coisa já havia mudado. Roma não
Também havia o costume de se voltaria a ter mais os mesmos costumes e, também por isso, deu início a um
passar maquiagem e usar perucas. Para período de declínio como nação dominante que era. As ações tiranas de alguns
complementar o vestuário, os homens no passado acabariam por diluir a prosperidade romana no futuro.
preferiam sandálias, chinelos e botas
de feltro ou couro.
Com o passar do tempo, houve, é
claro, algumas mudanças e inserções,
VII A.C.
como uma túnica interior por debaixo A partir de sua fundação, Roma
da roupa principal. Essa nova peça ti- estabeleceu-se como uma sociedade
nha como maior diferencial um capuz. patriarcal. O pai dava as ordens e
tinha o poder sobre as vidas dos filhos

Túnica
masculina ia APROXIMADAMENTE ANO 500 A.C.
somente até Elite, além de dar as cartas na política,
o joelho definia os valores morais da sociedade
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449 A.C.

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Instituição da Lei das
Doze Tábuas regulariza
relação entre patrono
e cliente

SÉCULO IV A.C.
Nessa época, sociedade
romana já tinha estabelecido
os valores centrais de
sua cultura: probidade,
fidelidade e status SÉCULO II A.C.
Com a expansão
territorial por meio
das conquistas, a
40 D.C. busca pelo poder
Comportamento do acaba distanciando
imperador Calígula muitos cidadãos
mostra um acentuado romanos de seus
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retrocesso dos valores originais


valores romanos
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Shutterstock

Mulheres SÉCULO II D.C.


solteiras 60 D.C. Imperadores seguintes
utilizavam Governo de Nero apresenta mais um tentam retomar valores
túnica sem capítulo da derrocada moral de Roma do passado
mangas

93
CAPÍTULO 10 • ARTES
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Fórum Romano:
a arte pelas
ruas da capital
italiana

INFLUÊNCIAS
GREGA E ETRUSCA
EM CENA
DOMINADORES TERRITORIAIS, OS ROMANOS FORAM
TOTALMENTE CONQUISTADOS PELOS ARTISTAS
DA GRÉCIA NA ANTIGUIDADE; A ETRÚRIA TAMBÉM
INTERFERIU DIRETAMENTE NA ARTE DE ROMA

O território dominado ia da Gália ao Cartago, da Grécia ao


Egito. Mas nem todo o inigualável poderio bélico e as vito-
riosas campanhas militares foram capazes de livrar Roma de se
render a algo: a arte grega. Tanto é verdade que praticamente
tudo o que foi produzido artisticamente pelos romanos durante
seus anos de ouro teve a influência dessa província.

Para muitos historiadores, inclusive, a “Cidade Eterna” – como a ca-


pital do antigo Império ficou conhecida – pouco produziu de original.
Segundo os especialistas, os romanos “abafaram” a única manifestação
artística significativa verificada em solo italiano, que foi a etrusca. Ao
invés de exaltar seu conteúdo interno, preferiram importar escultores,
decoradores e pintores gregos. Alguns críticos ressaltam que a poderosa
Roma contribuiu menos com a arte do que pequenos estados, como a
Suméria, por exemplo.
Já outros especialistas rechaçam essa opinião. Para esses, a socieda-
de romana era muito cosmopolita e aberta, o que permitiu a incorpora-
ção de certos elementos gregos. Entretanto, acreditam que não podemos
dizer em hipótese alguma que a arte romana foi uma mera cópia. Citam
como sua principal característica a ideia de energia, força, realismo e
grandeza material.
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»»

95
CAPÍTULO 10 • ARTES

Ponte sobre o rio Tibre é um exemplo


do utilitarismo da arte romana

ARQUITETURA
Um dos pontos altos da arte romana foi
a grandiosidade de suas construções.
Com o poder exercido em seu tempo,
passou essa ideia também para as im-
ponentes edificações, sobretudo na
capital do Império. Mesmo sobre alicer-
ces gregos, não há como negar a com-
petência desenvolvida por Roma na
execução de sua arquitetura. Por esse
motivo, há quem diga que foi na enge-
nharia civil que os romanos realmente
se encontraram.
Importante ressaltar que as cons-
truções eram executadas dentro de um
contexto de expansão. As edificações
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foram feitas conforme o desenvolvi-


mento das cidades. Por conta disso, a
praticidade sobressaía ao efeito arqui-

PRINCÍPIO
No começo do século I a.C., Caio Mece-

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nas, conselheiro do imperador Augusto,
foi o primeiro dos principais patronos
da arte local. Na época dele, os artistas
alcançaram, pela primeira vez na socie-
dade de Roma, o mesmo prestígio de
soldados e políticos.
No entanto, a origem da arte ro-
mana – propriamente dita – remonta
ao início do século VIII a.C., aproxima-
damente. No século IV d.C., esse mo-
vimento artístico na península itálica
chegaria ao fim para dar espaço à arte
cristã primitiva.
As criações artísticas em Roma, so-
Detalhe do domo do Panteão, em Roma
bretudo a arquitetura e as artes plás-
ticas, atingiram uma notável unidade
em consequência do poder político que O IMPRESSIONANTE PANTEÃO
se estendia pelo vasto Império. A civi- APESAR DA FAMA DO COLISEU, ATÉ OS DIAS DE HOJE, UM EDIFÍCIO
IMPRESSIONA PELA BELEZA, GRANDIOSIDADE E CONQUISTA DO ESPAÇO
lização romana criou grandes cidades.
EM ROMA: O PANTEÃO, UM TEMPLO DEDICADO A TODOS OS DEUSES. ELE
A estrutura militar favoreceu as cons- NUNCA FOI DESTRUÍDO JUSTAMENTE POR ESSA RAZÃO, POIS, NO INÍCIO
truções defensivas – como fortalezas e DA ERA CRISTÃ, FOI TRANSFORMADO EM IGREJA, PERMANECENDO COMO
muralhas – e as obras públicas (estra- UM LOCAL DE CULTO.
das, aquedutos e pontes). O grau eleva- De acordo com especialistas, “o Panteão é o prédio romano mais bem
conservado e um dos maiores marcos da arquitetura universal”. Sua cúpula, de
do de organização daquela sociedade e 43 metros de diâmetro, continua a ser a maior construída sem a utilização de
o utilitarismo do modo de vida foram concreto armado. A imensa cúpula, alegoria da abóbada celeste, é iluminada
os principais fatores que caracterizaram graças a um óculo central de nove metros de diâmetro que simboliza o sol.
toda a sua produção artística especifi- A espessura mínima dessa estrutura é de apenas um metro e meio.
camente nesse período.

96
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

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tetônico. A beleza de suas obras
provinha desse caráter funcional.
Em geral, os arquitetos roma-
nos utilizaram as formas gregas,
mas desenvolveram novas técni-
cas de construção, como o arco que
abrange uma distância maior que
o sistema grego de pilar e dintel
– dois postes verticais suportando
uma trave horizontal. O concreto
permitiu projetos mais flexíveis,
como o teto abobadado e imensas Fontana di Trevi, edificada
áreas circulares com teto elevado
no ano de 19 d.C.
FONTANA DI TREVI
por domo. UM DOS PONTOS TURÍSTICOS MAIS
Foi justamente esse caráter VISITADOS DE ROMA, A FONTANA DI
funcional que levou os romanos a TREVI FOI EDIFICADA NO ANO DE 19 D.C.
E ASSINALAVA O FINAL DO AQUEDUTO
desenvolverem o arco, a abóbada Abaixo: Coliseu, um símbolo BATIZADO DE “ÁGUA VIRGEM”. A GRANDE
e o domo, itens que não foram da arquitetura romana, E FAMOSA OBRA ERA UMA HOMENAGEM
e coluna ornamentada
utilizados pelos gregos, embora A UMA LENDA BASTANTE DIFUNDIDA. A
HISTÓRIA CONTA QUE UMA JOVEM TERIA
eles os conhecessem. Entretan-
CONSEGUIDO SALVAR UM GRUPO DE
to, os romanos, como precisavam SOLDADOS ROMANOS, QUE MORRIAM
conquistar espaços, utilizaram-se DE SEDE, LEVANDO-OS ATÉ A FONTE,
dos arcos, tendo em vista que eles SITUADA NO ATUAL CENTRO HISTÓRICO
DA CAPITAL ITALIANA.
possibilitavam a proeza de gran-
No decorrer dos tempos, o projeto
diosas construções.
original foi modificado por várias e várias
Quando o assunto é arquitetu- vezes. A partir do século XVII, arquitetos
ra romana, não há como deixar de como Bernini, Salvi e Panini foram os
lado o mais famoso desses edifí- principais responsáveis por deixá-la
como conhecemos nos dias de hoje. A
cios, o Coliseu – a enorme arena localização, aliás, também mudou e
para 50 mil espectadores onde a atualmente o monumento se encontra a
população era distraída pelos im- alguns metros do originalmente proposto.
A última reforma na fonte ocorreu no final
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peradores com diversões em larga


de 2015 depois de quase um ano e meio de
escala. Segundo o historiador da intervenções de restauro.
arte do século XX, Ernst Gombrich, A Fontana di Trevi tem mais de 26
o Coliseu apresenta claramente metros de altura e 49 metros de
características da construção ro- largura. Diariamente, ela jorra cerca
mana, que suscitou muita admira- de 80 mil metros cúbicos de água. O
projeto é baseado em três elementos
ção em épocas subsequentes. arquitetônicos: uma fachada de
travertino, estátuas de mármore carrara
e um recife de travertino. No centro dela
está Netuno em sua carruagem. Há ainda
um relevo mostrando a moça virgem
indicando aos soldados a fonte de água.
A lenda urbana indica que quem joga uma
moeda na fonte – de costas, com a mão
direita e por cima do ombro esquerdo
– acaba voltando para Roma em outra
oportunidade. Os mais místicos afirmam
que, se você jogar duas moedas ao invés
de uma, encontrará o amor na cidade. Se
você arremessar três moedas, se casará
por lá mesmo. Vale dizer que a quantia
retirada todos os dias de lá é destinada
posteriormente à caridade.
»»
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97
CAPÍTULO 10 • ARTES

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ESCULTURA
Esculturas romanas eram caracterizadas A influência etrusca se mostra eviden-
pelos traços mais reais te na escultura romana até o século II
a.C., apesar dos poucos vestígios re-
manescentes. Após esse período his-
tórico, o estilo helênico mostrou a sua
predominância. Com o domínio sobre
o território grego, Roma trouxe para
si diversas peças vindas de santuários
gregos do sul da Itália e da Anatólia.
Mais tarde, artistas da Grécia, insta-
Ao fundo, o famoso Fórum de Trajano
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lados na capital do Império, fizeram


réplicas e imitações das obras gregas
mais apreciadas.

URBANISMO
Em geral, os nomes dos artistas
não são conhecidos e, mesmo obras
O conhecimento contemporâneo sobre revestida de mármores e possuía salas importantes, como o “Altar da paz de
a arquitetura romana antiga é prove- de reunião, bibliotecas, um templo con- Augusto”, permaneceram anônimas. A
niente de diversas escavações arqueo- sagrado a Trajano, além de uma basílica. antipatia dos romanos à nudez atlética
lógicas feitas por toda a área do Impé- Já as termas são uma criação origi- da escultura grega explica um pouco da
rio e ainda de registros escritos, como nal dos arquitetos romanos. Nas grandes ausência de estudos de anatomia nessa
dedicatórias, livros e ainda inscrições. cidades, ocupavam um espaço conside- arte. O rosto é a parte mais importante
Seguindo o plano etrusco, os roma- rável, com banhos, saunas e numerosos das peças.
nos edificavam as cidades em torno de estabelecimentos anexos. Os banhos de Assim, a escultura romana come-
duas avenidas principais. Uma via no Agripa, em Roma, hoje desaparecidos, çou a desenvolver o seu estilo próprio.
sentido norte-sul, a outra de leste para são o primeiro exemplo da concepção Apesar de a arquitetura ser considerada
oeste, além de uma praça (ou fórum) na monumental das termas romanas dos a maior conquista dos romanos, é im-
interseção. Os edifícios públicos agrupa- séculos II e III, das quais as mais famo- portante ressaltar que eles criaram um
vam-se em geral em torno do fórum. sas são as do imperador Caracalla – que estilo bastante característico de escul-
A arquitetura romana – que, no possuíam bibliotecas, salas de leitura tura. Os maiores exemplos disso são os
princípio, era dominada pela influência e conversação, ginásios e um teatro – e famosos bustos romanos, peças dignas
etrusca – conquistou um estilo mais pró- as de Diocleciano, a maior de todas com da atenção dos admiradores da arte.
prio através do surgimento do cimento, inacreditáveis 140 mil metros quadrados. Nesse caso, não mais os deuses são
no século II a.C., da construção com tijo- No ano de 50 a.C., Pompeu cons- adorados, ainda que os representados
los e do aprimoramento dos arcos. Já as truiu o primeiro teatro de alvenaria, possuam traços muito semelhantes às
construções dos dois últimos séculos do em substituição à madeira. Diferente- divindades.
Império incluem-se entre as manifesta- mente dos gregos, os teatros romanos Mais tarde, durante o Império Ro-
ções mais importantes da arte romana. possuem um espaço semicircular reser- mano, seus imperadores foram conser-
Após o grande incêndio ocorrido vado à plateia, uma pequena orquestra vados em bustos e estátuas, objetos
no reinado de Nero, o aspecto urbano – local destinado às danças, aos músi- que eram vistos com certa adoração.
transformou-se com as reconstruções. cos e aos coros – e um palco maior com Contudo, são retratos mais realistas
Destacam-se os grandes fóruns im- fundo feito de alvenaria. e, talvez, menos satisfatórios que as
periais e o mais suntuoso de todos, o O mausoléu, espécie de túmulo, obras gregas. Os artistas de Roma pre-
de Trajano, em que predominavam os prevaleceu a partir do reinado de Au- tendiam representar fielmente seus
“mercados” – seis andares de lojas li- gusto. Dos templos mais antigos, so- retratados, porém, não os viam como
gados por corredores e escadarias, esca- braram apenas alguns vestígios, como deuses perfeitos e sublimes, pois sua
vados na rocha viva do monte Quirinal. os de Júpiter Capitolino, Saturno e Ce- escultura era mais literal. Esse espírito
Verdadeira obra-prima da engenharia e res, todos em Roma. A partir do século prático dos romanos levava-os para o
da arquitetura romana em sua técnica I aumentou e muito a influência Síria. caminho da realidade. Assim, o ima-
de origem oriental, o fórum de Trajano A principal característica era a enorme ginário – tão preconizado pela Grécia –
era cercado por uma grande muralha riqueza de elementos de decoração. perdia seu espaço cada vez mais.

98
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

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De acordo com Agnes Strickland,
“os romanos tinham em casa másca-
ras – feitas em cera – dos seus ances-
trais”. O historiador destaca que essas
imagens realísticas eram moldes total-
mente factuais das feições do falecido.
Essa tradição influenciou os demais
escultores romanos. Resquícios
Além dos bustos e estátuas, os re- de um mural
levos narrativos foram muito impor- em Pompeia
mostram um
tantes. Painéis de figuras esculpidas pouco dessa
representando feitos militares deco- arte romana
ravam arcos de triunfo, sob os quais
desfilavam os exércitos vitoriosos
conduzindo longas filas de prisionei-
PINTURA
Em geral, as pinturas de Roma origina- rada e baseia-se em originais gregos.
ros acorrentados. ram-se de Pompeia e Herculano. Infe- São painéis que parecem abrir-se para
Segundo o historiador de arte Ernst lizmente, elas foram soterradas pela paisagens e palácios povoados por per-
Gombrich, a Coluna de Trajano, por erupção no monte Vesúvio. Os pintores sonagens da mitologia grega. O terceiro
exemplo, mostra toda a crônica ilustra- romanos utilizaram, paralelamente, o estilo, ornamental, aparece em Pom-
da de suas guerras e vitórias na Dácia realismo e a imaginação. peia no fim do século I a.C. O realismo
– a moderna Romênia. Todo o enge- As mais antigas pinturas romanas dá lugar à idealização e os personagens
nho e as realizações de séculos de arte conhecidas são os afrescos descobertos míticos dominam completamente as
grega foram usados nessas autênticas em uma tumba do monte Esquilino e paisagens. O quarto estilo corresponde
façanhas de reportagem bélica. Mas a datam, aproximadamente, do século III ao reinado de Nero, entre os anos 54 e
importância que os romanos atribuíam a.C. Assim como a escultura, a pintura, 68. Na arte mural, destacam-se também
a uma reprodução exata dos detalhes e em sua primeira fase, reflete a influência os mosaicos, de forte influência oriental.
a uma clara narrativa que gravasse as etrusca e, em seguida, itálica e helênica.
façanhas de uma campanha – impres- Assim, elas desencadearam quatro

MÚSICA E DANÇA
sionando quem ficara em casa – modi- estilos distintos. O primeiro, de incrus-
ficou o caráter da arte. tação, imita obras da Anatólia e da ilha
Apesar de os painéis serem bem de Delos e reproduz revestimentos de Sabemos hoje que a cultura musical
feitos, o objetivo dos romanos era a mármore multicolorido. Entre 70 a.C. e do lado leste do Mediterrâneo, princi-
ilustração perfeita de um fato históri- o ano 20 da era cristã, o segundo estilo palmente da Grécia, trazida pelas le-
co. Eles não se preocupavam mais com arquitetônico apresenta técnica aprimo- giões romanas, foi alterada e também
ideais de beleza ou harmonia em suas bastante simplificada. Ainda assim, as
obras tal qual o grego fazia. Eles tinham suas teorias musicais e acústicas, prin-
gosto apurado pela narração. Os assun- cípios de construção de instrumentos,
tos que eram narrados e representados acervo de melodias e sistema de no-
tornaram-se o mais importante ele- tação formaram a base da música do
mento de todos.
A escultura floresceu nos séculos I e
CURIOSIDADE Ocidente posteriormente.
Já na dança, ao contrário do que
Seguindo o caráter utilitarista
II, especialmente no reinado de Adriano, aconteceu em outros tipos de arte, o
de sua arte, os romanos da
sob forte influência grega. Um segundo Antiguidade usaram bastante Império Romano não seguiu os passos
momento importante teve início no ano as esculturas para retratar da cultura dos etruscos. Aparentemen-
de 193, com Sétimo Severo. Entretanto, fielmente seus mortos. te, as mulheres da Etrúria tinham um
Essas peças eram carregadas
as abaladas condições políticas a partir durante as procissões
importante papel nas danças em pa-
do século III trouxeram a decadência de fúnebres. As celebrações res, realizadas sem máscaras em locais
todas as artes e também da escultura. faziam parte de um costume públicos. A cultura romana, envolta ao
Entre os objetos domésticos (lâmpadas, que se relaciona ao dos seu conhecido racionalismo, era muito
egípcios, na crença de que a
ferramentas, armas etc.) – executados imagem conserva a alma. avessa à dança. Até o início do século
predominantemente em bronze –, exis- III, tais movimentos corporais ficavam
tem verdadeiras obras de arte. restritos a formas processuais ligadas a »»

99
CAPÍTULO 10 • ARTES

Detalhe do Arco de Tito, que


possui 15 metros de altura
ritos de guerra e também agrícolas. gências daquele contexto e se dedicou
Mais tarde, a influência etrusca e à tradução das tragédias gregas. Ape-
grega se disseminou, mas as pessoas nas no final do século II a.C. surgiria a
que dançavam eram consideradas sus- verdadeira comédia latina.
peitas, afeminadas e até mesmo peri- As representações teatrais eram par-
gosas pela aristocracia romana. Cícero, te do entretenimento gratuito oferecido
por exemplo, ressaltou que a dança era nos festivais públicos. Desde o início, no
um sinal de insanidade. O culto grego a entanto, o teatro romano dependeu do
Dioniso incluía a indução ao êxtase por gosto popular, de uma forma que nun-
meio de uma dança convulsiva. ca havia ocorrido na Grécia. Assim, caso
No Império Romano, as danças trans- uma peça não agradasse ao público, o
formaram-se nas festas com orgias de promotor do festival era obrigado a de-
Baco, a princípio só para mulheres e re- volver parte do subsídio que recebera.
alizadas durante três dias no ano. Embo- Por isso, mesmo durante a época da
ra secretos, tais cultos se disseminaram, República, havia certa ansiedade em
passaram a incluir também os homens e oferecer à plateia algo que a agradasse,
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ARCO DE TITO chegaram a uma frequência de cinco por


mês. No ano de 186 a.C., sob a alegação
o que logo se comprovou ser o sensacio-
nal, o espetacular e o grosseiro.
O ARCO, COMO O NOME
SUGERE, FOI CONSTRUÍDO EM de obscenidade, foram proibidos e seus Os imperadores romanos fizeram
MEMÓRIA AO IMPERADOR TITO praticantes sofreram implacável perse- um uso descarado desse fato, provendo
FLÁVIO VESPASIANO AUGUSTO guição, somente comparável à movida “pão e circo” – segundo a célebre ex-
(39 D.C. A 81 D.C.). FILHO
MAIS VELHO E DESCENDENTE
contra os cristãos. Na verdade, seu cará- pressão cunhada pelo satirista Juvenal
DE VESPASIANO, ELE ter de sociedade secreta era ameaçador – para que o povo se distraísse de suas
GOVERNOU ROMA ENTRE OS para o Estado. Por volta do ano 150 a.C., miseráveis condições de vida. O gran-
ANOS DE 79 E 81. foi ordenado também o fechamento de dioso Coliseu e outros anfiteatros es-
O imponente arco teria sido todas as escolas de dança, o que não er- palhados por todo o Império atestam o
edificado, provavelmente,
após a morte dele, por desejo
radicou a prática. Dançarinos e professo- poder e a grandeza de Roma, mas não
de seu irmão Domiciano, para res eram trazidos, em número cada vez sua energia artística.
comemorar a vitória do então maior, de outros países. Não há razões para crer que tais
general em campanha militar
realizada no ano de 70 na cidade
de Jerusalém.
O monumento pode ser visitado
na zona oriental do Fórum TEATRO
Romano, ao sul do templo de Essa representação artística foi total-
Vênus e Roma. Trata-se de um mente calcada nos costumes gregos.
arco revestido de mármore O filósofo
que apresenta quatro colunas. Isso ocorria apesar de já existir na pe-
Sêneca foi
O Arco de Tito tem 15 metros nínsula itálica uma tradição teatral bas- um dos
de altura, 13 metros de largura tante incipiente, de influência etrusca. entusiastas
e quase cinco metros de Em 240 a.C., teria sido apresentada pela do teatro de
profundidade. tragédia em
primeira vez uma peça traduzida do gre- pequenos
Nele, estão esculpidos em
baixo-relevo talhado, de um go durante os jogos romanos. O primei- recintos
dos lados, soldados romanos ro autor romano a produzir uma obra de
carregando lanças, coroados qualidade mais refinada – estreou em
de louros e transportando 235 a.C. – foi Cneu Nevius. O teatro his-
símbolos sagrados do judaísmo,
como a mesa do pão ázimo, tórico foi a criação original inicial do au-
as trombetas de prata e o tor, que ainda incorporou às suas peças
candelabro. Do outro lado, – classificadas como mordazes e francas
o relevo mostra Tito vitorioso, – críticas à aristocracia romana. Ele teria
em pé, numa carruagem
puxada por quatro cavalos e sido preso ou exilado por conta disso.
conduzida por uma mulher, Muito por conta disso, o grande po-
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que representa Roma. eta Quintus Enius, sucessor de Nevius,


decidiu adaptar o seu talento às exi-

100
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

construções se destinavam a outra coisa


LEGADO romanos incorporaram inovações em

ARTÍSTICO
que não espetáculos banais e degradan- dois campos principais, que seriam o
tes. As arenas foram então totalmente retrato e o relevo descritivo. O retrato
ocupadas por gladiadores em combates Mesmo com a indiscutível influência em si, como processo artístico, passou
mortais, feras espicaçadas até se faze- da arte grega, é igualmente inquestio- por diversas etapas, já que não só re-
rem em pedaços, cristãos cobertos de nável o fato de o movimento artístico fletiu com bastante aproximação as
piche e usados como tochas humanas. romano ter conseguido formar a sua modas, como também se manifestou
Não é de se admirar que tanto os es- própria identidade de modo bastante de maneira sucessiva em grandes mo-
critores como o público de outra índole rápido. Por meio da representação real mentos e lugares e tendências ultrarre-
passassem a considerar o teatro como e extremamente fiel das pessoas – na alistas, ilustrando o mais real possível,
manifestação indigna e humilhante. contramão da Grécia, que buscava ide- ajudando posteriormente na execução
Durante o período imperial, surgi- alizar o que era retratado –, os romanos das esculturas.
ram as tragédias para pequenos recin- apresentavam em suas peças figuras A temática histórica desses relevos
tos privados ou para declamação sem verdadeiras da casta social. narrativos se constituiu com a contri-
encenação. São desse tipo as obras de Além disso, Roma foi uma socieda- buição mais original de Roma para
Sêneca, filósofo estóico e principal con- de claramente visual. Com a maioria essa forma artística, sempre exaltando
selheiro de Nero, as quais exerceram absoluta de sua população analfabeta feitos militares, quase como uma his-
enorme influência durante o Renasci- e sem capacidade até mesmo de falar o tória em quadrinhos. Outra forma de
mento, sobretudo na Inglaterra. Ainda latim erudito que circulava entre a eli- expressão importante foi o mosaico,
durante a República, a mímica e a pan- te, as artes visuais funcionaram como que, mais tarde, foi muito utilizado na
tomima tornaram-se as formas teatrais uma espécie de literatura acessível às Idade Média.
mais populares. Baseadas nas impro- grandes massas, confirmando ideolo- Diante desse quadro, é possível des-
visações e agilidade física dos atores, gias e divulgando a imagem de perso- tacar que a arte de Roma, dentro de seu
elas ofereciam uma ampla oportuni- nalidades eminentes. Nesse contexto, contexto de conquistas, ao contrário do
dade para a audaciosa apresentação a escultura desfrutou de uma posição que muita gente afirma, foi muito im-
de cenas imorais e pornográficas. No privilegiada, ocupando todos os espa- portante e deixou importantes legados
tempo da perseguição aos cristãos, sob ços – públicos e privados – e povoando para as nações futuras. Com um caráter
Nero e Domiciano, a fé cristã era ridicu- as cidades com inumeráveis exemplos mais utilitário, os romanos levaram o
larizada. Depois do triunfo do cristianis- em várias técnicas. ambiente artístico para o cotidiano e a
mo, porém, as apresentações teatrais Apesar de ter notáveis influências realidade para peças que antes repre-
foram sumariamente proibidas. de movimentos artísticos passados, os sentavam apenas um ideal inatingível.
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SÉCULO VIII A.C. SÉCULO I A.C.


Surgimento da arte romana propriamente Caio Mecenas, conselheiro do
dita; nesse período, ela ainda era totalmente imperador Augusto, é o primeiro SÉCULO I
dominada por influências gregas e etruscas patrono da arte romana Escultura floresce,
especialmente
no reinado de
ANO 50 A.C. Adriano, sob forte
É construído o primeiro influência grega
SÉCULO II A.C. teatro de alvenaria
Arquitetura romana,
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antes dominada pela


influência etrusca,
conquista estilo
ANO 19 D.C.
próprio através do
É edificada na capital
surgimento do cimento
do Império a famosa
Fontana di Trevi

ANO 240 A.C.


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Teria sido apresentada pela SÉCULO IV


primeira vez uma peça traduzida do A arte romana dá lugar
grego durante os jogos romanos à arte cristã primitiva

101
CAPÍTULO 11 • RELIGIÃO
Estátua de
Júpiter na
Piazza Navona,
em Roma

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UM POVO DE FÉ
DA ADORAÇÃO AOS DEUSES DE ORIGEM GREGA ATÉ OS TEMPOS
DA CRISTIANIZAÇÃO, ROMANOS SEMPRE DEMONSTRARAM UMA
FORTE INCLINAÇÃO RELIGIOSA

A variedade da religião romana era


bastante acentuada e comprometia prati-
camente todos os aspectos da vida. A verdade
Assim, os romanos da Antiguidade eram conside-
rados politeístas, já que nutriam uma forte crença em
diferentes deuses. Essas divindades eram antropomór-
é que os habitantes da Roma Antiga adoravam ficas, ou seja, possuíam características – qualidades e
diversos seres sobrenaturais – desde os deu- também defeitos – próprias dos homens, além de se-
ses com raízes na Grécia até espíritos capazes rem representadas em forma humana. O Estado apre-
de habitar em elementos naturais, como tem- goava uma religião oficial que prestava culto aos gran-
pestades, árvores e rochas. des deuses de origem grega, mas com nomes latinos.

102
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Vista do Capitólio, templo de
adoração a Júpiter, Juno e Minerva

RELIGIÃO
E ESTADO
A divindade de maior importância para
os romanos era Júpiter. Para o povo, tra-
tava-se de um pai poderoso, muito se-
vero e rei sobre todos os outros deuses.
Juno, rainha dos deuses por ser irmã
e esposa de Júpiter, e Minerva, deusa

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virgem da sabedoria e filha de Júpiter,
uniam-se ao deus maior e formavam a
tríade central nos cultos públicos ofi-
ciais. Eram feitos sacrifícios, orações e
rituais sancionados pelo próprio Estado.
Os três deuses dividiam o Capitólio, o
templo mais famoso e importante de
Roma, localizado na região central da
cidade.

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Esse lugar de adoração foi constru- Tábuas dos dez
ído ainda no século VI a.C., no rochoso mandamentos:
monte Capitolino, e adornado com 24 relação dos hebreus
com seu Deus
colunas de pedra com pouco mais de 20 contrastava com
metros de altura cada. Dentro do tem- a que os romanos
tinham com suas
plo, os religiosos encontravam três sa-
divindades
las internas, sendo que na principal es-
tavam as estátuas dos deuses. Segundo
os historiadores, a separação interna
do Capitólio era bem semelhante à dos
templos etruscos.
Júpiter, Juno e Minerva recebiam co Máximo. No período imperial, esse
oferendas dos fiéis, pois esses deuses local de competições abrigava até 250

MORALIDADE
tinham a função de resguardar a segu- mil pessoas em assentos de pedra e
rança física e a prosperidade de Roma. concreto para acompanhar combates
Como forma de homenagear o primei- entre gladiadores, corridas de bigas, Os romanos não atrelavam o culto a
ro – considerado o melhor e maior –, execuções públicas e ainda encenações deidades com a necessidade de um
os romanos realizavam um festival de de caçadas de animais selvagens im- comportamento moral aceitável. Para
exercícios militares e esportivos no Cir- portados de diversas partes do mundo. eles, os deuses não eram os originado-
res do código moral da sociedade. Era
uma crença que contrastava bastante
com a dos hebreus, que tinham a sua
conduta regida por Deus através dos
CARO, MAS NECESSÁRIO dez mandamentos e outras leis trans-
mitidas divinamente por meio da vida
CONSTRUIR O TEMPLO NO CAPITÓLIO, ALIÁS, NÃO SAIU NADA BARATO
PARA OS COFRES DO GOVERNO, QUE NA ÉPOCA AINDA NÃO OSTENTAVA do profeta Moisés.
O PODERIO FINANCEIRO DOS TEMPOS VINDOUROS. MESMO ASSIM, O Na realidade, os deuses romanos
GASTO VALEU A PENA, POIS OS ROMANOS CRIAM QUE A CONQUISTA pareciam demonstrar um interesse
DA BOA VONTADE DOS DEUSES ERA UMA REAL NECESSIDADE PARA A
DEFESA NACIONAL CONTRA OS VIZINHOS MAIS AGRESSIVOS.
grande em como as pessoas os trata-
riam, mas desprezavam por completo
Ao mesmo tempo, os habitantes de Roma criam ainda que os deuses
determinavam que as pessoas assumissem a responsabilidade pela própria a forma como elas viviam entre si.
segurança. Dessa forma, os romanos do século VI a.C. também levantaram A trapaça nos negócios, mentira ou
um muro enorme em torno da cidade. agressão mútua não eram ações pas-
síveis de castigo divino, conforme o »»

103
CAPÍTULO 11 • RELIGIÃO

SACERDÓCIO
entendimento romano. Assim, apesar dos séculos, mantiveram essa compre-
de acreditarem que Júpiter poderia ensão da natureza divina.
punir alguém pela quebra de um con- No entanto, os naturais de Roma No período republicano, a classe de sa-
trato juramentado, a punição ocor- entendiam que alguns de seus valores cerdotes que dirigia o culto oficial aos
reria porque a pessoa ofendeu esse mais importantes – como, por exem- diversos deuses romanos era compos-
deus ao ignorar o compromisso sob o plo, a fidelidade – eram seres ou forças ta por homens e mulheres do alto da
testemunhar dele. divinas especiais. Tanto é verdade que hierarquia social. Tais pessoas não con-
O historiador romano Cícero fez um os romanos edificaram, em 181 a.C., sideravam o sacerdócio uma carreira
resumo das crenças romanas do se- um templo para Pietas, uma espécie profissional, mas tinham essa atividade
guinte modo: “Júpiter é chamado de de personificação do valor central re- como o cumprimento de um dos aspec-
‘o melhor’ e ‘o maior’ não porque nos lativo ao respeito aos deuses e obriga- tos de uma vida pública bem-sucedida
faz justos, moderados ou sábios, mas ções morais. No local, havia a estátua na cidade de Roma.
porque nos faz seguros, ricos e bem- de uma deusa que representava tais A função principal desses cidadãos
-providos”. Os romanos, no decorrer qualidades. era garantir a boa vontade dos deu-
ses para com a nação e o Estado. Esse
relacionamento era denominado “paz
dos deuses”. Com o intuito de alcançar
a serenidade das divindades, sacerdo-
CULTO A VESTA tes e sacerdotisas eram frequente-
A DEUSA DO LAR E PROTETORA DA FAMÍLIA TINHA DENTRO DE SEU TEMPLO mente chamados para conduzir fes-
A CHAMA ETERNA OFICIAL DE ROMA. SUAS SACERDOTISAS, CHAMADAS
DE VIRGENS VESTAIS, MANTINHAM O CULTO A VESTA. TRADICIONALMENTE, tivais, sacrifícios e demais rituais em
ERAM SEIS MULHERES SOLTEIRAS QUE PRESTAVAM UM JURAMENTO DE NÃO exata conformidade com a tradição de
FAZER SEXO PELOS TRINTA ANOS DE SERVIÇO ÀS DEUSAS. seus ancestrais.
A principal responsabilidade delas era garantir que o fogo continuasse aceso. Nada poderia ser feito de modo
Conforme o historiador e crítico literário grego do século I a.C., Dionísio de
diferente. Caso a execução das fór-
Halicarnasso, os romanos temiam a “extinção da chama acima de todas as
coisas”. Criam que o apagar do fogo era “um presságio mulas antigas de preces fosse dita de
da destruição da cidade”. maneira errada ou ocorresse um úni-
Se uma virgem vestal fosse declarada culpada de co equívoco em uma palavra, todo o
uma transgressão mais leve, ela era chicoteada procedimento deveria ser reiniciado.
em público. Caso a chama
Assim, como Roma passou a ser, com
se apagasse, os romanos
presumiam que uma o tempo, a sede de inúmeros santuá-
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das sacerdotisas havia rios e templos, tais atividades sagra-


rompido o juramento de das tomavam muito tempo e esforço.
manter-se virgem. Se fosse
Além disso, os gastos em torno delas
condenada pela quebra
dessa promessa, a virgem eram bastante elevados.
vestal era transportada em Os eventos oficiais do Estado, ali-
um leito fúnebre – como ás, sempre contavam com um ritual
um cadáver vivo – para
ser sepultada em uma religioso preparatório. As reuniões do
câmara subterrânea, onde Senado, por exemplo, usualmente ti-
permanecia confinada até nham início com a análise de assuntos
a morte. Assim, a pureza religiosos considerados mais relevantes
sexual das mulheres recebia
um reconhecimento público ao Estado. Já os comandantes militares
como uma espécie de faziam ritos de adivinhação para desco-
símbolo da segurança e brir a vontade dos deuses e auxiliá-los
da proteção da estrutura a compreender a melhor hora de reali-
familiar romana e,
automaticamente, da zar os seus ataques.
preservação do Estado. O conselho mais importante de
sacerdotes, que possuía quinze mem-
bros durante a República, era respon-
Ilustração
da deusa sável por aconselhar os magistrados
romana Vesta sobre as suas responsabilidades reli-
giosas no papel de agentes do Estado.

104
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

O líder desse grupo era o sumo pon- tes pelas zonas rural e urbana e “cada geiras que não possuíam um culto tra-
tífice, que tinha o cargo mais elevado proprietário atuava como empregado dicional entre os romanos. Um exemplo
dentro da religião pública romana. de seus escravos”. Por um lado, essa foi a importação do culto de Asclépio, o
Ele possuía a maior autoridade sobre revirada servia para liberar as tensões deus grego da área medicinal, no ano
assuntos religiosos que afetavam di- causadas pelas desigualdades entre 293 a.C., com o intuito de livrar Roma
retamente o governo local. Toda essa essas duas figuras. Por outro, buscava de uma grande peste. Outros cidadãos
importância política do sumo pontí- reforçar os vínculos de obrigação dos importavam da Grécia o culto ao deus
fice fazia com que os homens mais servos com seus senhores ao simbolizar Dionísio – mais conhecido como Baco
influentes buscassem o posto, que, a bondade que deveria ser retribuída entre os romanos. Essa veneração a
no século III a.C., era preenchido por com um serviço fiel. Baco, contudo, gerou certo desconten-
meio de eleição. Como bons politeístas, os habitan- tamento, pois exigia ritos moralmente
tes da Roma Antiga acreditavam que reprováveis na questão sexual. O go-
poderiam existir deuses que exigiam verno, porém, não demonstrava muito

FESTIVAIS
veneração, mas que ainda não tinham interesse nessas polêmicas, a não ser
aceitado. Em casos de emergências na- que despertassem uma ameaça ao Es-
No princípio, a maioria dos eventos cionais, o Estado costumava buscar pro- tado, como ocorreria anos depois com o
religiosos romanos era baseada nas teção divina contra divindades estran- cristianismo.
aspirações da comunidade agrícola.
Tradicionalmente, a religião de Roma
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procurava proteção para a sua planta-
ção, o principal meio de sobrevivência
daquela comunidade em seu período
inicial. Assim, comumente as orações
estavam centradas em pedidos de aju-
da aos deuses para alcançar colheitas
de qualidade, evitar doenças, além de
garantir a reprodução saudável entre
animais domésticos.
O enorme santuário em Praeneste
– atual Palestrina, cidade a 32 quilô-
metros de Roma – era o local onde se
buscava ajuda divina com relação à ob-
tenção do alimento. Essa edificação de
cinco níveis era uma das maiores estru-
turas religiosas de toda a Itália antiga.
No geral, os rituais religiosos não
mudaram de modo considerável ao
logo dos anos. Isso ocorreu porque,
de acordo com o pensamento roma- Cidade de Palestrina, na Itália, local que abrigava
no, a adição de qualquer novidade às santuário um enorme santuário onde pessoas faziam
suas preces para conseguirem alimento
homenagens consideradas habituais
feitas aos deuses poderia os ofender
e provocar uma ira indesejada contra
os humanos. FESTIVAL DE LUPERCÁLIA
Assim, a religião da chamada Re- UM DOS FESTIVAIS DE MAIOR TRADIÇÃO EM ROMA ERA O DE
pública tardia manteve diversos ritu- LUPERCÁLIA. DURANTE TAL CELEBRAÇÃO, JOVENS CORRIAM NUS AO
REDOR DO MONTE PALATINO, NO CENTRO DA CIDADE, E CHICOTEAVAM
ais antigos. Um deles era o festival da
– COM TIRAS DE COURO DE CABRA – QUALQUER MULHER QUE PASSASSE
Saturnália, realizado em dezembro, PELO CAMINHO.
quando a ordem social era temporaria- O mais curioso é que aquelas romanas que não conseguiam engravidar
mente invertida. Segundo o dramatur- passavam propositalmente pelo local para serem atingidas, pois criam que
go e erudito Ácio (170 a.C. a 80 a.C.), isso as ajudaria a serem férteis.
na ocasião, as pessoas faziam banque- »»

105
CAPÍTULO 11 • RELIGIÃO

MITOLOGIA MARTE. Equivalente ao deus


grego Ares, Marte – filho de Juno
ROMANA e Júpiter – era o deus romano da
guerra sangrenta. Ele tinha uma
ASSIM COMO AS GREGAS, AS rixa com sua irmã Minerva. Esse
DIVINDADES ROMANAS TAMBÉM desentendimento todo culminou em
POSSUÍAM CARACTERÍSTICAS DOS um embate entre ambos, em frente
HOMENS. SENTIMENTOS COMO às muralhas de Troia. Marte perdeu a
IRA E CIÚME ERAM NORMAIS guerra familiar.
NESSES DEUSES. ALÉM DISSO, ERAM Mesmo sendo considerado cruel
ATRIBUÍDAS A ELES FORMAS FÍSICAS e bárbaro, Marte era amado pela
HUMANAS. O QUE DISTINGUE AS Marte era deusa Vênus, com quem acabou
DIVINDADES DE ROMA, PORÉM, É QUE conhecido tendo um filho, Cupido. Da relação
ELAS NÃO TINHAM CONTATO DIRETO por sua entre eles também foi gerada
COM OS HOMENS. crueldade Harmonia, uma filha mortal.

JÚPITER. Era o deus do dia e muito DIANA. Ártemis para os gregos, Diana era a deusa
comumente identificado com Zeus, seu virgem da lua e irmã gêmea de Apolo. Era tida como
correspondente grego. Júpiter tinha como pais poderosa caçadora, protetora das cidades, dos animais e
Saturno e Cibele. Ele teria sido doado pela mãe ainda das mulheres. Na cidade de Roma, o templo mais
logo ao nascer para as ninfas da floresta para importante dela encontrava-se no monte Aventino. O
que, como os demais irmãos, ele não fosse local teria sido erguido no século VI a.C. Ela era festejada
castigado pelo pai. A verdade é que Saturno não na metade do mês de agosto. Era representada na arte
queria dividir o seu trono com mais ninguém e, romana como uma caçadora – equipada com arco e uma
por isso, buscava impedir os demais, ainda que aljava – acompanhada por um cervo ou cão.
fossem seus próprios filhos. Quando adulto,
Júpiter descobriu tudo sobre seu triste passado e
decidiu retornar à casa dos pais para libertar os
irmãos. Travou uma batalha contra o pai, venceu CERES. A filha de Saturno com Cibele era a deusa
e se casou com Juno, a sua irmã. das plantas que brotam – sobretudo os grãos – e do amor
maternal. Ela é a equivalente da deusa grega Deméter.
Júpiter teria travado uma batalha Além disso, era irmã e amante de Júpiter. Foi retratada por
com seu pai para libertar os irmãos muitos artistas com um cesto de flores e frutos, um cetro,
além de uma coroa.
De acordo com historiadores, foi adotada pelos romanos no
JUNO. Conhecida como Hera na mitologia grega, Juno era ano de 496 a.C., quando uma fome devastadora assolou a
a mulher de Júpiter. Considerada a grande rainha dos deuses, era cidade de Roma. A palavra cereal deriva do nome da deusa,
conhecida pelos romanos como a protetora do casamento, das associando a imagem dela aos grãos comestíveis. Havia um
esposas, crianças e lares. Ela é costumeiramente representada templo em honra a Ceres no monte Aventino, em Roma.
pelo pavão, que era a sua ave predileta.

BACO. O deus romano Baco tinha Baco era


MINERVA. como correspondente grego Dionísio.
O filho de Júpiter e da mortal Sêmele
o deus
do vinho
Além de ser a deusa da
guerra justa, Minerva era era considerado o deus do vinho e dos e dos
prazeres, além de promotor da civilização, prazeres
Minerva, considerada a divindade
a deusa da romana da sabedoria, legislador e um amante da paz.
sabedoria das artes, da tecelagem, As festas chamadas de bacanais eram feitas em
e das artes agricultura e navegação. honra a Baco. Em tais eventos ocorriam, muitas
Correspondia à grega vezes, orgias. As sacerdotisas dele, conhecidas
Atena. A história conta como bacantes, dançavam freneticamente
que ela saiu da cabeça nestas ocasiões vestidas com peles de leão.
do pai, Júpiter, já adulta Por esse motivo, bacanal permaneceu como
e revestida de uma um sinônimo para reuniões em que há sexo
armadura completa. e danças. O curioso é que, inicialmente,
somente mulheres podiam entrar nessas
festas. Com o tempo, porém, os homens
também ganharam o direito de participar.
Imagem de Vênus, a deusa do
amor e também da beleza

Imagem de Febo
(ou Apolo) no
museu do Vaticano

AURORA. A deusa romana


do amanhecer – equivalente à grega
Eos – renovava-se todo amanhecer
e alçava voo pelo céu anunciando
que a manhã havia chegado. Vale
destacar que aurora é a palavra
latina para amanhecer. Os parentes
mais próximos dela eram Helios
(Sol) e Selene (Lua), seus irmãos.
VÊNUS. Ela William Shakespeare faz referência a FEBO. Equivalente ao grego Apolo, Febo era o irmão
ela em sua obra Romeu e Julieta. gêmeo de Diana e também filho de Júpiter com Latona. Ficou
correspondia à grega conhecido como o deus das músicas e o mais belo de Roma.
Afrodite. Era considerada
a deusa do amor e ABEONA E Segundo a mitologia, quando Juno descobriu que a mãe
de Febo estava grávida de seu esposo Júpiter, ficou muito
da beleza. Segundo
o mito, era o ideal de
ADEONA. As duas divindades enciumada e pediu para que a deusa Gaia não cedesse lugar
romanas eram as protetoras das algum da terra para que ela pudesse ter seus filhos. Após
beleza feminina. Em sua viagens. Enquanto Abeona era
representação artística, muito vagar, Latona acabou por chegar à ilha flutuante
invocada para acompanhar a ida, de Ortígia, achando, finalmente, um lugar seguro onde
ela tinha um carro puxado Adeona protegia o retorno. Na
por cisnes. Há duas pudesse dar à luz. Logo após seu nascimento, Febo matou a
cidade de Roma, Abeona também serpente Píton em Delfos, lugar onde foi construído o mais
versões para a origem era conhecida como aquela que
dela. A primeira dá conta célebre de seus templos.
ensinava os meninos a caminhar,
de que ela era filha de acompanhando-os nos primeiros
Júpiter e Dione (deusa passos longe de casa.
das ninfas). A segunda ESCULÁPIO. VULCANO.
afirma que teria nascido
da espuma do mar. CUPIDO. Equivalente ao deus Era conhecido como
o deus romano da
Conhecido como Hefesto
pelos gregos, Vulcano era o
grego Eros, Cupido era filho de Vênus cura e da medicina. É, deus romano do fogo. Ele
e Marte. Com o passar do tempo, como muitas outras seria filho de Júpiter e de Juno
NETUNO. O começou a ser representado como
um menino alado carregando um
divindades, uma herança ou ainda, segundo alguns
deus romano do mar da mitologia grega. Ele especialistas em mitologia,
foi inspirado na figura arco e um carcás com setas. A lenda teria nascido como um apenas de Juno com a ajuda
grega de Poseidon. Ele afirma que os ferimentos provocados mortal, mas, depois de do vento. Sua figura era
representava os oceanos pelas setas que atirava geravam seu falecimento, recebeu representada por um ferreiro.
e as correntes d’água, amor nas vítimas atingidas. Apesar o dom da imortalidade
era filho de Saturno e de ser apresentado algumas vezes e transformou-se na
controlava o universo
ao lado de seus irmãos,
como descuidado ou insensível, o
deus Cupido era considerado como
constelação Ofiúco. IUSTITIA. Era a deusa
O culto a Esculápio foi de Roma que personificava a
Júpiter (céus) e Plutão benéfico por conta da felicidade
disseminado por uma própria justiça. Equivalia na
(mundo dos mortos). que concedia aos casais. A história
vasta região da Europa, Grécia a Nêmesis. A diferença
conta que, logo após o nascimento
Contudo, existe uma norte da África e ainda é que essa divindade romana
de Cupido, Júpiter, conhecedor
diferença entre o deus pelo Oriente Próximo, aparecia com os olhos
das perturbações que esse poderia
dos mares, segundo sendo homenageado sempre vendados, uma forma
provocar, tentou obrigar Vênus a se
as mitologias grega com inúmeros templos e de mostrar a imparcialidade
desfazer da criança. Para protegê-lo,
e romana. Enquanto santuários, que atuavam da justiça nos julgamentos e
a mãe o escondeu em um
Poseidon tinha caráter como hospitais. a igualdade de direitos entre
bosque, onde o menino
violento e agressivo, os homens.
alimentou-se de leite de
Netuno era somente o animais selvagens.
senhor das águas.
PLUTÃO. O deus do submundo – ou mundo dos
mortos – e também das riquezas era o correspondente do
grego Hades. Era filho de Saturno e de Reia e irmão
de Júpiter e Netuno. Quando Júpiter fez a partilha
do Universo, deu a Plutão o império dos infernos. Plutão
era tão macabro e assustador, que não conseguia encontrar
mulher que o aceitasse para casar. Por esse motivo, decidiu
roubar Perséfone, filha de Júpiter e de Ceres. Plutão é
O deus
Netuno representado com uma coroa de ébano na cabeça e as
representava chaves do inferno na mão em um coche puxado por cavalos
os oceanos negros. Em sua homenagem era celebrado um grande
festival em fevereiro, quando então lhe eram ofertados
sacrifícios de touros e cabras da cor negra.
»»
Cupido ficou conhecido
por conceder a
felicidade aos casais

107
CAPÍTULO 11 • RELIGIÃO

FAMÍLIA

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Dentro do seio familiar, os elementos da religião se
mostravam muito presentes nos próprios lares. Toda
residência romana tinha espaços considerados sagra-
dos. A estátua de Juno – que possuía duas faces – era
colocada logo à porta da casa. Uma face ficava volta-
da para a rua e a outra para o interior da residência.
Dessa maneira, cria-se que aquela divindade garantia
proteção ao lar, impedindo a entrada de inimigos.
As famílias ainda mantinham um santuário no
formato de um armário para guardar estatuetas que
representavam espíritos bons, como o dos mantimen-
tos e dos ancestrais. Os moradores da casa ainda pen-
duravam máscaras da morte de antepassados ilustres
nas paredes da sala. Era uma maneira de lembrar
aquela geração da importância de viver à altura dos
ideais antigos e virtuosos. Aliás, a fonte principal da
moralidade romana estava diretamente atrelada ao Jesus escrevendo na areia: homem de Nazaré arrebatou
forte sentimento de tradição familiar presente nessas muitos com seus ensinamentos na província da Judeia
práticas e propagado pelos pais. O que mais ajudava
a impedir um comportamento imoral era o receio da DE ONDE VIERAM OS CRISTÃOS?
perda do respeito e não o temor de receber alguma A PRÁTICA DO CRISTIANISMO SURGE A PARTIR DA
punição por parte dos deuses. DOUTRINA DE HOMENS QUE DECIDIRAM SEGUIR JESUS
Os rituais caseiros eram tão comuns que acompa- CRISTO, UM JUDEU NASCIDO E MORTO NA REGIÃO ONDE
HOJE ESTÃO JORDÂNIA E ISRAEL, NO ORIENTE MÉDIO.
nhavam até atividades consideradas mais corriquei- O TERRITÓRIO EM QUESTÃO ESTAVA SOB O DOMÍNIO
ras, como a amamentação de uma criança e a adu- ROMANO NO PRIMEIRO SÉCULO.
bagem da terra para a plantação. A realização desses Atualmente, a maior parte do mundo ocidental segue o
pequenos eventos religiosos estava ligada à reverên- calendário cristão. Por isso, o ano um de nossa era é marcado
cia respeitosa que os romanos buscavam ter e à busca pela data aproximada do nascimento de Jesus. O destaque que
recebe o personagem histórico, que nasceu em Belém – cidade
da segurança em meio a um mundo cheio de perigos. no reino da Judeia –, é devido ao fato de ele ser considerado o
A disposição dos deuses em intervir em pratica- Filho de Deus por seus seguidores.
mente todos os aspectos da vida cotidiana deixava a Uma parte dos judeus cria que Jesus fosse verdadeiramente
relação entre seres humanos e o divino bastante com- o enviado de Deus para redimir toda a humanidade,
plicada. Isso porque os romanos não acreditavam que como estava escrito em seus textos sagrados. Já os mais
proeminentes daquela religião acreditavam que ele era um
os deuses tinham a tendência de amar os homens. herege. Com isso, houve perseguição a ele por parte das
Assim, as divindades poderiam punir toda e qualquer autoridades judaicas.
criatura sem ter nem mesmo uma razão plausível. De acordo com os evangelhos bíblicos – registros feitos pelos
Essa relação era ainda mais difícil porque não havia discípulos –, Jesus foi morto na cruz por seus perseguidores,
uma clara comunicação entre as duas partes. Os ho- mas ressuscitou ao terceiro dia por ser Deus. Tal crença não
foi abafada com a morte de seu líder. Pelo contrário: acabou
mens, então, faziam de tudo para descobrir a vontade sendo alimentada e cresceu como uma nova religião.
divina. Essa constante obrigação de entender o querer Os discípulos – como Pedro e Paulo – espalharam os
dos deuses motivava a atividade religiosa em Roma. ensinamentos e histórias sobre Jesus, a partir de 40 d.C.,
por diversos pontos da Europa, Ásia e norte da África.
Escreveram ainda vários textos, que formaram mais tarde o
Novo Testamento.
A principal diferença entre judeus e cristãos é que os
Ilustração primeiros não acreditam que Jesus é o filho enviado por
mostra estátua Deus para salvar o mundo. Vale ressaltar que os seguidores
de Juno, de Jesus não tinham a intenção inicial de formar uma nova
divindade religião, e sim de dar continuidade àquela já existente. A
protetora discordância entre os dois grupos, porém, tornou impossível
dos lares a permanência como um só credo.

108
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

PERSEGUIÇÃO ACUSAÇÕES – e o incesto – essa era interpretação que

AOS CRISTÃOS INFUNDADAS


faziam do abraço da paz que se dava na
celebração da Eucaristia entre “irmãos e
No período imperial, em meio ao po- As chamas que consumiram uma parte irmãs”. Essas acusações eram alimenta-
liteísmo, o governo romano mostrava significativa de Roma no ano 65 foram das pelas fofocas entre os populares e
profundo incômodo com o avanço no atribuídas pelo imperador Nero aos foram sancionadas pela autoridade do
número de cristãos. Os seguidores de cristãos. A verdade é que essa foi a imperador, que perseguia os cristãos e
um homem chamado Jesus se nega- maneira encontrada pelo rei de tirar o os condenava à morte.
vam a participar dos cultos religiosos foco dele, já que o povo o culpava pelo
realizados regularmente em Roma. incêndio.
Esse cenário foi o motivo principal Nero, então, passou a perseguir, du-
das perseguições ao grupo, conside- rante três anos, os seguidores de Jesus.
rado uma seita do judaísmo. Alguns historiadores dão conta de que
Além disso, os encontros dos os apóstolos Pedro e Paulo estavam en-
cristãos despertavam suspeitas. Por tre os mortos na caçada.
conta disso, eles eram acusados de O historiador Tácito Cornélio (54 a
praticar atos considerados imorais e 120 d.C.), mesmo sendo um ácido críti-
criminosos. Tais homens se reuniam co dos cristãos, acusou Nero de ter cul-
antes do sol nascer ou à noite quase pado os religiosos injustamente. Mes-
sempre em cavernas. Entre as acusa- mo assim, ele declarava-se convencido
ções contra eles estavam canibalis- de que os cristãos mereciam as mais
mo, incesto e até infanticídio como severas punições, pois as superstições
forma de adoração à sua divindade. os levavam a cometer infâmias.
Até mesmo a saudação com um beijo Portanto, os cristãos eram tidos

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foi taxada como uma forma de con- como gente desprezível, capaz de cri-
duta imoral. mes horrendos, como o infanticídio – os
Os cristãos da época também romanos acreditavam que, na renovação
não aceitavam o fato de o impe- da Ceia do Senhor, quando se alimenta-
rador ser adorado como um deus. vam da Eucaristia, os religiosos sacrifica-
Para os romanos, se curvar diante vam uma criança e comiam suas carnes
do rei era prova de lealdade. Havia
no Império inúmeras estátuas es-
palhadas pelos locais públicos para Estátua
de mármore
serem reverenciadas. Os seguidores
da nova religião não faziam tal ado-
MÁRTIRES de Nero,
perseguidor
OS CRISTÃOS CONDENADOS, dos cristãos
ração, pois esta era prestada apenas CONFORME O HISTORIADOR
a Jesus, o verdadeiro rei deles. Tal TÁCITO, MORRIAM
posicionamento os colocava como DILACERADOS POR CÃES,
CRUCIFICADOS OU MESMO MAIS
PERSEGUIÇÕES
revolucionários ameaçadores diante
QUEIMADOS VIVOS COMO
de Roma. TOCHAS QUE SERVIAM PARA
O primeiro movimento de perse- ILUMINAR A ESCURIDÃO Marco Aurélio (161 – 180) foi conside-
guição do Estado contra os cristãos QUANDO CHEGAVA A NOITE. rado um imperador erudito e filósofo.
NO GOVERNO DE NERO, O
ocorreu durante o governo de Cláu- Em suas frequentes anotações, o rei
IMPERADOR OFERECIA SEUS
dio, entre 41 e 54 d.C., quando o im- JARDINS PARA ASSISTIR A ESTE mostrava um desprezo grande pelo
perador mandou expulsar judeus de “ESPETÁCULO”. cristianismo. Dizia que aquela religião
Roma porque estes discutiam entre O próprio Tácito afirma em seus era uma loucura, pois propunha à gente
si devido a um certo Cristo. Em geral, escritos que, com o tempo, “comum e ignorante uma maneira de
crescia certo senso de piedade
os romanos viam o cristianismo como comportar-se que só os filósofos como
pelos cristãos, pois estes eram
um conjunto de práticas irracionais “sacrificados não em vista de ele poderiam compreender e praticar
que magos e feiticeiros de personali- uma vantagem comum, mas ao final de longas meditações e disci-
dade sinistra usavam para enganar o pela crueldade do príncipe”. plinas”. Para Marco Aurélio, a popula-
povo ignorante. ção comum não era capaz de praticar, »»

109
CAPÍTULO 11 • RELIGIÃO

por exemplo, a fraternidade universal,


o perdão e o sacrifício pelos outros sem CONSTANTINO E JESUS CRISTO
esperar uma recompensa. MUITOS GARANTEM QUE A VITÓRIA DE CONSTANTINO SOBRE MAXÊNCIO
Assim, o imperador atacou direta- TEVE COMO PRINCIPAL MOTIVO A INTERVENÇÃO DE UM DEUS. ANTES
mente o cristianismo no segundo sé- DA FAMOSA BATALHA, O IMPERADOR MANDOU PINTAR NOS ESCUDOS
DOS SOLDADOS O SÍMBOLO DE UMA DIVINDADE. EM GERAL, HÁ DUAS
culo. Decidiu proibir qualquer prática
VERSÕES DISTINTAS SOBRE ESSE SUPOSTO EPISÓDIO SOBRENATURAL.
dessa religião, pois, segundo ele, ofe-
A primeira dá conta de que em 310, em um santuário gaulês de Apolo,
recia perigo ao Estado. A situação dos Constantino teria visto aparecer um deus que lhe prometeu um reinado longo
cristãos, que já era complicada, ficou e muito vitorioso. Portanto, desde seu triunfo,
ainda mais difícil. ele passou a dedicar um culto ao Sol. Em
315, contudo, os escritores cristãos Eusébio e
Diversas comunidades na Ásia Me-
Lactâncio começaram a espalhar outra história,
nor, fundadas pelo apóstolo Paulo, dizendo que Jesus Cristo se manifestou ao
eram roubadas e saqueadas constan- imperador na Gália ou mesmo na véspera da
temente. Em Roma, o filósofo Justino e batalha sobre o rio Tibre. A lenda tomou a sua
forma definitiva no fim do século IV. Segundo a
um grupo de seguidores de Jesus foram história, Jesus apareceu em sonho a Constantino
condenados à morte. e lhe apresentou um emblema dizendo “Por este
Intelectuais contrários ao cristianis- sinal, vencerás”. Esse famoso sinal seria composto
mo, como Marco Aurélio, Galeno (129- de duas letras gregas: o X atravessado pelo P, ou
seja, o início da palavra Cristo no idioma grego.
200) e Celso, rebatiam a doutrina. Para O que se sabe é que, desde então, o imperador
eles, a filosofia era o caminho único para declarou-se um seguidor de Jesus, interrompeu
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a salvação do homem: “A ‘salvação’ da a perseguição aos cristãos e, como resultado


desordem dos acontecimentos, do ani- disso, o Império passou a ter o cristianismo como
religião oficial anos mais tarde.
quilamento da morte, da dor, só pode
ser encontrada numa ‘sabedoria filosófi-
ca’ por parte de uma elite de raros inte-

IMPÉRIO CRISTÃO
lectuais. Trata-se de uma loucura o fato
de os cristãos colocarem esta ‘salvação’
na ‘fé’ num homem crucificado (como O movimento de perseguição aos cris- expedição com o objetivo de libertar a
os escravos) na Palestina (uma provín- tãos só terminou de vez em 321 d.C., Itália.
cia marginal) e declarado ressuscitado. É após o edito de Constantino I, que ga- A ação de Constantino era ousada,
preciso eliminar os cristãos como trans- rantia a liberdade de culto no Império já que ele dispunha somente de 25
gressores da civilização humana”. Romano. A história que envolve o fim mil homens, enquanto seu oponen-
Mais tarde, já no terceiro século, da caça aos seguidores de Jesus, contu- te possuía cerca de 100 mil soldados.
ocorrem anos de terríveis perseguições do, começou alguns anos antes. O seu exército transpôs rapidamente
aos cristãos. Renasceu no período a A partir do ano 306, com o fracas- os Alpes, ultrapassando o desfiladeiro
caça ao cristianismo em nome da lim- so do sistema de tetrarquia – o Estado de Montgenèvre. Com isso, apoderou-
peza étnica. Como o Império Romano dividido em quatro partes –, ocorre -se da cidade de Susa e a incendiou, o
atravessava uma profunda crise econô- uma grande confusão na distribuição que abriu caminho para Turim. Nesta
mica e social, os reis enxergavam que dos poderes em Roma. No Ocidente, localidade, aconteceu a batalha mais
a única maneira de salvar a nação era porém, a eliminação de Maximiano e violenta. O exército dos generais de
voltar a uma linha de pensamento ho- Galérico deixa em destaque somente Maxêncio, com seus temíveis guerrei-
mogênea. Assim, os seguidores de Je- Constantino, que acaba sendo procla- ros cobertos por uma couraça de ferro
sus deveriam ser aniquilados. mado “augusto”. Maxêncio, filho de e montados em cavalos, tinha grande
Entretanto, as perseguições siste- Maximiano, também recebe a denomi- vantagem. Constantino, porém, utilizou
máticas mostraram-se ineficazes. Isso nação de “augusto”. uma tática que bagunçou o exército
porque os próprios cristãos despreza- Maxêncio habitava em Roma. Já inimigo e conquistou importante triun-
vam as honras e muitos tinham como Constantino, que fizera uma aliança fo. A vitória o ajudou a entrar majes-
objetivo final morrer por sua causa reli- com Licínio – imperador do Oriente –, tosamente em Milão. Novos triunfos
giosa. Além disso, a doutrina espalhada estava na Gália. No ano de 312, Cons- levaram os homens de Constantino em
largamente por eles tinha conquistado tantino utiliza supostos maus tratados marcha até Roma.
a mente de muitas pessoas que foram infligidos por Maxêncio a seus súditos Maxêncio, muito supersticioso, te-
relegadas por anos pelo Império. como pretexto para chefiar uma grande ria sido atormentado por pesadelos e

110
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

maus presságios que o impediam de depois, a história se inverteria por com-


avançar contra o seu rival. Por influ- pleto. Em 391, o cristianismo não só se SÉCULO VI A.C.
Politeístas por influência dos
ência dos magos de sua corte, decidiu tornou a religião oficial de Roma, como etruscos e gregos, romanos
assim mesmo enfrentar o adversário ao todas as outras seitas pagãs passaram a constroem o Capitólio, templo
norte da cidade de Roma. ser perseguidas. Foi a partir desse mo- de adoração aos deuses Júpiter,
Juno e Minerva
Em 28 de outubro de 312, Cons- mento que a igreja cristã começou a
tantino tomou a iniciativa na batalha. ganhar mais força e transformou-se em SÉCULO III A.C.
O ataque lançado por ele desorganizou uma poderosa instituição. Cargo de sumo pontífice, o
muito rapidamente o exército de Ma- Os patriarcas do cristianismo espa- líder do conselho de sacerdotes,
passa a ser preenchido por
xêncio. Uma parte dos homens dele se lharam-se por toda a região dominada meio de eleição
jogou no rio Tibre, enquanto a outra se pelos romanos. Os patriarcados foram
refugiou em cima de uma ponte que, divididos entre as cidades de Alexan- 293 A.C.
sem suportar o peso, se rompeu. Os dria, Jerusalém, Antioquia, Constanti- Romanos ‘importam’ deus grego
Asclépio para livrar a cidade de
soldados foram levados pela correnteza nopla e Roma. Por ordem do impera- uma grande peste
e o próprio Maxêncio morreu afogado. dor, no ano 455, o patriarca de Roma
Após o completo triunfo, Constan- passou a ser, a partir de então, a au- 181 A.C.
tino foi acolhido em Roma como um toridade máxima de igreja, sob a de- Governo de Roma ergue templo
verdadeiro libertador. Os seus soldados, nominação conhecida nos dias de hoje para Pietas, uma espécie de
personificação do valor relativo
que encontraram o cadáver de Maxên- como papa. ao respeito aos deuses
cio, seguiram o cortejo do vencedor, No ano de 325, o imperador Cons-
levando a cabeça do imperador morto tantino havia promovido uma reunião 40 D.C.
espetada na ponta de uma lança, sob em Nicéia com autoridades eclesiásti- Cresce na província da Judeia
a crença de que Jesus Cristo era
os aplausos dos cidadãos romanos. Com cas para definir as principais crenças o Filho de Deus e que teria sido
essa vitória, Constantino passou a do- que deveriam reger a conduta dos cris- crucificado pelos líderes judaicos
minar sozinho o Império Romano. tãos. Esse acordo foi chamado de Concí-
A partir disso, no ano 313, o impera- lio de Nicéia e tornou-se um marco na 50 D.C.
Tem início o primeiro movimento
dor Constantino converteu-se ao cristia- constituição da religião. Outros encon- de perseguição dos cristãos
nismo e permitiu o culto dessa religião tros foram promovidos no futuro para durante o governo de Cláudio
em todo o Império. Quase oito décadas alinhar a igreja doutrinariamente.
65 D.C.
A cruz de Cristo: imperador Constantino Nero culpa os cristãos pelo
passou a professar a fé cristão após enorme incêndio que destruiu
vencer importante batalha parte de Roma e inicia uma
nova perseguição contra o
grupo religioso

SÉCULOS II E III
Segue a caçada dos
imperadores aos cristãos

313 D.C.
Após supostamente ter visto Cristo
durante um sonho, imperador
Constantino vence batalha
pelo poder, declara-se cristão e
permite livre culto da religião

391 D.C.
Cristianismo torna-se a
religião oficial do Império
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111
CAPÍTULO 12 • CRISE

A DECADÊNCIA
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DO IMPÉRIO

Exército romano precisou ser ampliado no terceiro


século por conta das invasões estrangeiras

A PARTIR DO SÉCULO III, AS SUCESSIVAS INVASÕES ESTRANGEIRAS E OS


CONSEQUENTES E IRRESPONSÁVEIS GASTOS COM O EXÉRCITO AJUDARAM
A LEVAR A POTÊNCIA PARA A SUA DERROCADA

V iver ficou bem mais difí-


cil para a maioria dos habitan-
tes do Império Romano a partir do
imperadores de Roma a aumentar con-
sideravelmente o efetivo do exército.
A ampliação das forças de defesa, no
as receitas e o déficit fiscal no Império
foi praticamente inevitável.
Essa situação incômoda gerou uma
século III d.C. por conta de vários entanto, prejudicou as finanças impe- profunda crise na defesa nacional. Im-
desastres combinados que criaram riais, já que havia cessado o processo peradores desesperados por uma arre-
uma crise no governo e também de grandes conquistas territoriais – que cadação de dinheiro maior danificaram
na sociedade. Esse cenário, inima- garantiam ótimas recompensas com o muito a economia romana e ainda des-
ginável alguns anos antes, deu iní- despojo – e, àquela altura, o exército só gastaram a confiança que as pessoas
cio ao declínio da grande potência gerava gastos. tinham na segurança. Tal ambiente in-
daquela época. Para piorar ainda mais, a chama- centivou generais ambiciosos a toma-
da economia não militar expandiu-se rem o poder por meio de seus exércitos
As frequentes invasões impostas bem menos do que o necessário para pessoais. Isso levou a mais uma guerra
por estrangeiros há diversos anos nas contrabalancear. Em outras palavras: as civil, que durou décadas e desestabili-
fronteiras norte e leste obrigaram os despesas cresceram muito mais do que zou por completo o governo imperial.

112
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Detalhe no Arco de Constantino, em Roma,


ilustra batalha entre legião romana e bárbaros
cinco a seis mil homens exigia o couro
de 54 mil bezerros.
Não bastasse essa grande demanda
de recursos, a inflação do período fez
com que os valores de tais mercado-
rias subissem demais. Acredita-se que
o principal motivo para a elevação nos
preços tenha sido o período da “paz
romana”, que aumentou a procura por
produtos e serviços da economia local.
Ao logo do tempo, alguns impera-
dores de Roma responderam aos pre-
ços inflacionados fraldando as moedas
de prata emitidas em nome do gover-
Shutterstock

nante, a forma mais importante de di-


nheiro oficial. A adulteração da cunha-
gem ocorria por meio do uso de menos
INVASORES bárbaros desejarem continuar no ter-
ritório do Império permanentemente.
prata na moeda sem diminuir o seu va-
lor nominal. Dessa maneira, o governo
Bastante preocupados com a soberania
Importante ressaltar que esse movi- comprava mais gastando menos.
nacional, os líderes de Roma vinham re-
mento foi um prenúncio dos contornos Contudo, os mercadores eram es-
alizando campanhas para combater in-
territoriais da Europa na atualidade. pertos e dificilmente deixavam ser lu-
vasores desde o século I d.C., no reinado
dibriados. Eles subiram ainda mais os
de Domiciano. Os invasores considera-
preços com o intuito de compensarem
GASTOS
dos mais agressivos eram os germâni-
as perdas com as moedas adulteradas,
cos, bandos desorganizados vindos do
o que gerou uma hiperinflação. No final
norte que, muitas vezes, atravessavam Por volta do ano 200 d.C., o exército
do século II d.C., esse cenário conturba-
os rios Danúbio e Reno para saquear as romano cresceu de maneira bastante
do provocou um déficit permanente na
províncias daquela região. acentuada. Neste período, segundo os
balança comercial do Império Romano.
Esses grupos começaram a fazer historiadores, havia 100 mil tropas a
Mesmo assim, os soldados continuavam
ataques que geraram muitas perdas mais do que nos tempos de Augusto.
exigindo bons pagamentos. A situação
durante o governo de Antonino Pio Estima-se que o recrutamento, no iní-
encaminhou-se para uma profunda cri-
(138 a 161 d.C.) e elevaram ainda mais cio do terceiro século, tenha chegado a
se financeira no governo.
as suas investidas no reinado de Marco quase 400 mil homens.
Aurélio (161 a 180 d.C.). As batalhas Mas, para manter todo esse contin-
contra o exército romano ficaram mais gente satisfeito, tornava-se importante

Shutterstock
constantes e isso permitiu que os ger- providenciar o soldo regular, já que
mânicos se tornassem, com o tempo, a carreira era bastante difícil. Além
melhor organizados militarmente. disso, era necessária uma quan-
Como estratégia para diminuir os tidade enorme de suprimentos
estragos, Roma usou a arma inimiga a para essa verdadeira multidão.
seu favor. Os imperadores passaram a Em um forte temporário de
contratar os combatentes germânicos determinada área de fron-
como soldados auxiliares e os posicio- teira arqueólogos acha-
navam justamente nas fronteiras para ram, aproximadamente,
estancar o avanço de mais bandos inva- um milhão de pregos
sores. O recrutamento de estrangeiros de ferro, o equivalente
foi, no curto prazo, uma das principais a dez toneladas do ma-
alternativas da defesa nacional. O efei- terial. Esse tipo de acam-
to colateral, entretanto, foi permitir que pamento precisava ain-
os alemães tivessem conhecimento de da de 28 quilômetros de
como era o confortável dia a dia roma- tábuas para as fortificações. Por fim, a Ilustração mostra organização de um
no. Isso aumentou a tendência desses estimativa é que equipar uma legião de acampamento do exército romano »»

113
CAPÍTULO 12 • CRISE

Óleo sobre tela retrata


discussão entre Severo
e Caracala: imperadores
severianos destruíram
austeridade romana

Crédito Editorial: McCarthy's PhotoWorks / Shutterstock.com

Soldados romanos precisavam


ter ótimo preparo físico
Shutterstock

VIDA DE
SOLDADO
OS SOLDADOS ROMANOS
NÃO TINHAM VIDA FÁCIL. OS pouco ortodoxo nos gastos do tesouro, compensação monetária (espécie de
INTEGRANTES DO EXÉRCITO o que desestabilizou ainda mais o já bônus) da parte do imperador para
PASSAVAM POR TREINAMENTOS combalido Império. amenizar as perdas.
CONSTANTES E PRECISAVAM
Muito experiente na área militar, Severo não só desprendeu estron-
MANTER UMA BOA FORMA
FÍSICA PARA CONSEGUIR Severo começou a lutar pelo posto de dosas quantias para providenciar o di-
CARREGAR EQUIPAMENTOS imperador depois do assassinato de nheiro como ainda decidiu melhorar as
DE QUASE 20 QUILOS POR Cômodo – filho de Marco Aurélio –, que condições dos soldados no longo prazo,
ATÉ 35 QUILÔMETROS,
gerou uma grande crise em solo ro- elevando a taxa regular de pagamento
ATRAVESSANDO RIOS A NADO
NO CAMINHO. mano. Ele precisou derrotar seus prin- em um terço. O considerável tamanho
Em campanha, levantavam cipais pretendentes ao trono em uma do exército romano naquela época fez
um acampamento fortificado violenta guerra civil para tomar posse com que esse reajuste salarial fosse
por noite. Para tanto, era no ano de 193. muito superior ao que o tesouro na-
preciso transportar para todo
o lugar que fossem o material
Em busca de recursos financeiros cional poderia suportar. Dessa forma, a
necessário para montar uma para o exército e glória para a sua inflação cresceu ainda mais.
cidade cercada por um muro família, o rei perseguiu arduamente Mesmo diante de um ambiente
de madeira. O historiador o sonho da conquista de novas terras econômico calamitoso, o imperador
Flávio Josefo, depois de ver os
soldados de Roma em ação, ao lançar campanhas para além das
relatou que “a infantaria pouco fronteiras orientais e ocidentais do Ruínas dos banheiros públicos
se diferenciava de mulas de Império na Mesopotâmia e também construídos por Caracala
carga carregadas”. na Escócia. Porém, as expedições não
alcançaram o lucro esperado e ele fra-
cassou em sua tentativa de consertar o

PIORA
déficit no orçamento.
Do outro lado, os soldados se pre-
Septímio Severo (145 a 211) e seus ocupavam cada vez mais, pois a infla-
filhos CaSeptímio Severo (145 a 211) ção corroía o poder de compra de seus
e seus filhos Caracala e Geta foram os salários para quase nada, principal-
responsáveis por garantir a concretiza- mente com os descontos decorrentes
ção da ruína econômica. Eles secaram dos custos de suprimentos básicos
os cofres públicos para satisfazerem os e vestimentas do soldo, segundo as
desejos dos homens do exército. Além antigas regulamentações do exército.
disso, o trio era conhecido por seu perfil Assim, as tropas aguardavam por uma

114
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Shutterstock
não se preocupava nem um pouco com cargo lutou arduamente pelo trono.
as gravíssimas consequências. Tanto é Aproximadamente trinta homens as-
verdade que, em seu leito de morte, sumiram o governo ou simplesmente
teria dito aos filhos: “Mantenham as o reivindicaram. Alguns “imperado-
boas relações entre vocês, enriqueçam res” chegaram ao poder até mesmo
os soldados e não prestem atenção em simultaneamente. O cenário era aná-
mais ninguém”. logo ao anarquismo.
O problema foi que os filhos dele O terceiro século foi repleto de
seguiram apenas parte do conselho guerras civis que prejudicaram dema-
à risca. Caracala não mostrou estar siadamente o povo e a economia. A
tão disposto a ter uma boa relação falta de segurança atingiu o seu ápice.
Antiga moeda romana de prata com
com Geta e o assassinou para garan- o retrato do imperador Caracala A hiperinflação prosseguiu e a vida ga-
tir o controle do governo para si. O nhou ares de lamento na maior parte
reinado, reconhecidamente violento do poderoso Império. A agricultura ja-
e libertino, acabou definitivamente CARACALA E zia, uma vez que os agricultores não
com a paz e a prosperidade da Idade SUA SEDE POR conseguiam manter a produção habitu-
de Ouro da época imperial. Caracala DINHEIRO al por causa da guerra. Nesse período,
subiu o valor do soldo em quase cin- NO ANO DE 212, CARACALA os exércitos combatentes danificavam
quenta por cento. Além disso, torrou TOMOU UMA MEDIDA boa parte das plantações atrás de algo
uma montanha de dinheiro em cons- DRÁSTICA PARA TENTAR para se alimentarem.
SOLUCIONAR A CRISE
truções colossais, sendo a maior delas Os membros dos conselhos das
FINANCEIRA. O IMPERADOR
uma sequência de banheiros públicos DECIDIU CONCEDER CIDADANIA cidades enfrentavam obrigações cada
que se estendiam por incontáveis ROMANA A PRATICAMENTE dia mais elevadas de arrecadação por
quarteirões da capital. TODOS OS HABITANTES DO exigência dos imperadores, que se al-
IMPÉRIO, EXCEÇÃO FEITA AOS
A extravagância do imperador nos ESCRAVOS. A INICIATIVA VISAVA ternavam no poder com uma veloci-
gastos impôs pressão insustentável nos AUMENTAR A RECEITA COM dade incrível. A total desordem admi-
funcionários públicos das províncias na OS IMPOSTOS PAGOS PELOS nistrativa fez com que as elites locais
arrecadação de tributos e também, é CIDADÃOS SOBRE HERANÇA deixassem de apoiar as comunidades.
E COM AS TAXAS PARA A
claro, nos cidadãos, que eram obriga- LIBERTAÇÃO DE SERVOS. Não bastassem os problemas in-
dos a pagar impostos absurdos. Caraca- A busca por receitas a qualquer ternos, mais inimigos estrangeiros se
la conseguiu, assim, devastar qualquer custo gerava boatos vindos de aproveitaram da fragilidade romana
possibilidade de recuperação da eco- pessoas próximas, que diziam para irem ao ataque. A situação ficou
nomia romana. O ambiente ruim foi a que o imperador estava insano. realmente crítica quando o rei do Im-
Em certa ocasião, sua própria
desculpa perfeita para o guarda-costas mãe o repreendeu pelo exagero, pério Persa Sassânida, Sapor I, capturou
do imperador o assassinar no ano 217 mas ele respondeu tirando sua Valeriano – governante entre os anos
para assumir o trono. espada da bainha: “Não importa, de 253 e 260 – na Síria, em 260.
jamais ficaremos sem dinheiro Até o experiente imperador Aure-
enquanto eu tiver isto”. Caracala
foi morto pouco tempo depois. liano – no poder entre 270 e 275 – su-
Shutterstock

cumbiu à situação caótica e só conse-


guiu cuidar das operações iminente-
mente de defesa, casos da recuperação

DESORDEM
do Egito e da Ásia Menor das mãos de
Zenóbia, rainha guerreira de Palmira,
Depois dos imperadores severianos, na Síria. Ele ainda cercou Roma com
uma sucessão de problemas tomou uma muralha de dezessete quilôme-
conta do Império Romano e levou ao tros de comprimento para se proteger
ponto máximo da crise no século III. de ataques surpresa, sobretudo das
Inicialmente, a instabilidade na políti- tribos germânicas, que já se avizinha-
ca foi o efeito mais imediato da crise vam pelo norte. Ainda hoje, partes da
econômica. Por um período de quase construção (bem como suas torres e
setenta anos, uma quantidade gran- portões) podem ser vistas em diversos
de de imperadores e postulantes ao locais da capital da Itália. »»

115
CAPÍTULO 12 • CRISE

Imagem mostra ruínas do

Shutterstock
antigo palácio de Diocleciano:
imperador reergueu o Império
no fim do século III

RESGATE
Um herói improvável. Assim Diocleciano
podia ser considerado pelos romanos do
final do século III. O rapaz da região aci-
dentada da Dalmácia, nos Balcãs, iniciou
a carreira militar sem grande instrução.
Mas a coragem e a inteligência fizeram
com que ele subisse na hierarquia e,
com o apoio do exército, foi declarado
Foto de ossadas de cristãos imperador em 284.
mortos na perseguição romana
Conseguiu encerrar a crise do século

TERREMOTOS,
III por meio de um governo autocráti-
co, ou seja, baseado em suas próprias

DOENÇAS ideias. Com a adesão dos militares, foi

E COLAPSO
reconhecido de modo formal como do-
minus (mestre) ao invés de “primeiro
Em meio ao fracasso administrativo ro- homem”. O sistema de governo instituí-
mano, os desastres naturais. Os tremo- do a partir de Diocleciano passou a ser
res de terra devastavam construções. denominado Dominato, que consistia no
As epidemias virulentas atingiam em poder absoluto do imperador. Isso elimi-
cheio toda a região mediterrânea. Para nava qualquer possibilidade de autori-
piorar ainda mais, a procedência dos dade compartilhada entre o governante
alimentos tornava-se menos confiável e a elite de Roma. Os cargos de senador,
e também ajudava a deixar a popula- cônsul e outros postos inerentes à Repú-
ção mais fraca e suscetível. As guerras blica foram mantidos, mas faziam parte
civis aniquilavam soldados e civis. somente de uma fachada.
O cenário colapsado deixou as áreas Uma característica do novo modo de do Dominato reafirmavam a autocra-
fronteiriças muito convidativas para os governar era a escolha de funcionários cia na punição de crimes e no direito.
ataques estrangeiros. Os bandos erran- a partir das camadas menores da socie- A ordem vinda deles tinha força de lei
tes de ladrões também se faziam pre- dade, de acordo com a competência e a e as assembleias da República não ope-
sentes dentro do Império à medida que lealdade ao governante. Assim, foi in- ravam mais como fontes de legislação.
as condições econômicas pioravam. terrompida a tradição de nomear admi-
Os adeptos da religião tradicional nistradores com origem na classe alta.
politeísta passaram a crer que os deu- Além disso, os governantes do Do-
ses estavam contra eles. O motivo? minato deixaram a tradição iniciada por DIVINDADE
Acreditavam que as divindades tinham Augusto de vestirem roupas simples e IMPERIAL
se zangado por causa dos cristãos, que do cotidiano. Começaram a usar vesti- UM EPISÓDIO EM 331 MOSTRA
se negavam a adorar os deuses roma- mentas com joias e coroas deslumbran- COMO OS IMPERADORES DO
DOMINATO PASSARAM A TER
nos. O ambiente já extremamente con- tes. Como forma de mostrar a diferença UMA VOZ QUASE DIVINA ENTRE
flitante ficou ainda mais inóspito com entre o “mestre” e as pessoas comuns, OS “MORTAIS” ROMANOS.
a perseguição mais intensa aos segui- no palácio, vários véus separavam as sa- Naquele ano, Constantino
dores de Jesus. O imperador Décio (go- las de espera do espaço interno onde o ordenou aos funcionários
vernante entre 249 e 251) capitaneou governador realizava as suas audiências. públicos que “contivessem
as mãos gananciosas”, senão
ataques violentos contra os cristãos com No período, também foi desenvol- seriam punidos tendo seus
o objetivo claro de eliminar o grupo. vida uma estrutura teológica que vi- membros superiores decepados
O imperador Galiano (dono do trono sava legitimar o governo. Diocleciano, pela espada. Essa nova
entre os anos de 260 e 268) restaurou por exemplo, adotou o título Jovius, “legislação” previa ainda que
quem cometesse um crime
a paz religiosa e cessou a perseguição. proclamando-se descendente de Júpi- grave poderia ser amarrado em
Apesar disso, na década de 280, não ha- ter (principal deus romano). um saco de couro com cobras e
via como negar que o Império Romano As palavras do imperador ganharam afogado em um rio.
encontrava-se à beira do abismo. tons mais agressivos. Os imperadores

116
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Shutterstock
REFORMA
ECONÔMICA
O imperador também fez de tudo para
reestabelecer o poderio da economia
de Roma. Inicialmente, Diocleciano
buscou restaurar a importância das mo-
edas de prata e de ouro ao diminuir a
quantidade agregada de ouro nas pe-
ças, mas mantendo o valor nominal.
Além disso, colocou em circulação mo-
edas divisionárias de bronze com uma
fina cobertura de prata, que serviam
para as operações do cotidiano e visa-
vam facilitar o troco. Tal peça, contudo,
foi depreciada e diversos comerciantes
passaram a se negar a aceitá-la como
forma de pagamento.
Nessa época, as casas de cunhagem
precisaram ser ampliadas para pode-
rem satisfazer as necessidades prove-
nientes do comércio, da construção de
obras públicas e da elevação do núme-
ro de militares e civis.
O governante ainda impôs refor-
mas tributárias para cobrar impostos
diferenciados de acordo com as classes

NOVA TETRARQUIA
sociais. Para tanto, ele realizava um
recenseamento do povo a cada cinco
Mesmo com seu sucesso como gover- deveria receber a lealdade do demais anos e, segundo os dados levantados
nante, Diocleciano avaliava que o Impé- coimperadores. sobre os seus bens, taxava o cidadão.
rio Romano era muito extenso para ser A nova tetrarquia tinha o objetivo Tais tributos eram, muitas vezes, in na-
defendido e administrado através de de conter o isolamento do governo tura. Um exemplo era o agricultor, que
um único centro. Diante disso, concluiu imperial de Roma, que estava muito pagava em grãos, vinhos, azeites e
que dividir o governo em duas partes longe das enormes fronteiras do gran- carnes. O pagamento em espécie, por
seria a melhor saída. Por meio de um de Império e dos problemas que apa- sua vez, só era feito pelos negociantes
processo arrojado, separou o territó- reciam nessas regiões mais afastadas. e artesãos presentes nas cidades.
rio em Leste e Oeste. Na prática, criou Tais decisões foram históricas, já Os entraves na agricultura, aliás,
um Império Romano Oriental e outro que a criação das quatro regiões fez precisavam ser solucionados breve-
Ocidental, apesar dessa divisão não ter com que Roma deixasse de ser a ca- mente, pois o setor era considerado
sido reconhecida de modo formal. pital dos romanos depois de mil anos. como o fundamento da manufatura,
Após a primeira etapa de reforma Escolheu as novas capitais de acordo onde se extraía da natureza a matéria-
administrativa, Diocleciano fez outras com suas utilidades como postos de -prima. A medida adotada por Diocle-
duas subdivisões – uma em cada região comando militar: Milão, na região nor- ciano foi a ruralização, que nada mais
– e nomeou homens de confiança para te da Itália; Sírmia, perto da fronteira era que o arrendamento das terras aos
uma espécie de governo de coopera- com o rio Danúbio; Tréveris, na fron- camponeses, agricultores e arrendatá-
ção. Cada um controlava um distrito, teira com o rio Reno; e Nicomédia, na rios, que deveriam pagar um imposto
sua respectiva capital e as forças mi- Ásia Menor. sobre a produção agrícola anual.
litares. Para evitar quaisquer tipos de Assim, a Itália tornou-se apenas Os desenvolvimentos adequados
desavenças ou desunião, o líder mais mais uma seção do Império, em igual- da agricultura, comércio, pecuária e ar-
graduado – neste caso específico, Dio- dade com as demais províncias e sujei- tesanato foram garantidos depois que
cleciano – atuava como imperador e ta ao mesmo sistema de tributação. diversos germânicos pacíficos foram »»

117
CAPÍTULO 12 • CRISE

comercializassem as suas colheitas aos


chamados atravessadores. Assim, os
compradores oficiais de Roma deve-
riam controlar a semeadura, realizar a
fiscalização da colheita e monopolizar
os transportes, dando ênfase à quali-
dade do desenvolvimento da produção
e também do comércio.
O governo de Diocleciano ainda
ficou conhecido por gerar inúmeras
vagas de trabalho por meio de inves-
timentos nas construções, ampliações
ou reformas de viadutos, pontes, estra-
das, arcos triunfais, edifícios imperiais,
aquedutos, obras públicas, circos para
apresentações teatrais, abóbadas, en-

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Moedas romanas: quantidade de ouro tre outros projetos arquitetônicos.
foi diminuída para equilibrar a economia Com a proposta de diminuir os
custos dessas intervenções, foi usado
como alternativa o concreto – que era

Shutterstock
um material mais barato – juntamente
com os tijolos. Nas casas mais simples,
eram utilizados ainda ladrilhos, pedre-
gulhos e estuque.
Diocleciano instituiu como forma
de lazer os banhos públicos, que che-
gavam a reunir até três mil pessoas.
Os cidadãos de Roma se encontravam
nesses locais para conversar em salões
centrais refrigerados. Não eram somen-
te lugares onde as pessoas simples-
mente tomavam banho, como também

POUPANÇA
Agricultor IMPERIAL
romano passou a APESAR DE COLOCAR EM
pagar imposto PRÁTICA DIVERSAS MEDIDAS
in natura AUSTERAS, DIOCLECIANO TINHA
UM MODO DE GOVERNO QUE
agregados como agricultores ou solda- rativa que reunia os trabalhadores do PRIMAVA PELA SIMPLICIDADE
ADMINISTRATIVA.
dos com o objetivo de defenderem a mesmo ramo de atividade.
fronteira romana. No ano de 301, Diocleciano iniciou O imperador deixava essa
característica clara ao, depois
Já os plebeus presentes nos gran- o combate à hiperinflação ao lançar de pagar as despesas em curso,
des centros urbanos passaram ter o Edito Máximo de Preços, que previa formar uma ampla reserva
uma representação política que re- um limite de ganhos dos salários so- financeira com aquilo que
sobrava do tesouro imperial.
fletisse a nova realidade econômica. bre a jornada de trabalho e um teto
Segundo a medida, eles deveriam de preço para os produtos de consu- Esse dinheiro poderia ser
revertido livremente, mas com
continuar em suas respectivas profis- mo. Na Sicília, o Estado foi obrigado a muita prudência e sensatez,
sões e transmiti-las aos descenden- fazer a regulamentação da produção pois também servia para as
tes. Também precisariam formar ou agrícola dos cereais e da troca de mer- emergências do Estado.
se associar a uma espécie de coope- cadorias, impedindo que os lavradores

118
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Shutterstock
havia bares, restaurantes, barbeiros,
livrarias, bordéis, casas de massagem,
lojas de roupas, espaços para prática de
esportes, piscinas, área para exercícios
de ginástica e salas aquecidas. Tratava-
-se de uma forma de empreendedoris-
mo para fazer a economia romana girar
cada vez mais intensamente.
Mesmo com o sucesso obtido em
sua gestão, Diocleciano decidiu abdicar
do governo do Império. No dia primeiro
de março de 305, ele anunciou a de-
cisão de deixar o trono durante uma
cerimônia na região de Nicomédia. Ele
retirou-se para a Dalmácia com o senti-
mento de dever cumprido.

Estátua de Constantino, imperador romano que aderiu ao cristianismo

CONSTANTINO
Os feitos administrativos de Dioclecia- Mesmo assim, fez grande força para na construção de uma nova capital,
no são incontestáveis. O imperador, promover o cristianismo através da entre os anos de 324 e 330. O impera-
porém, fez de tudo para ter o controle construção da Basílica de São João de dor ergueu Constantinopla no lugar da
absoluto do governo. No ano 303, vol- Latrão para que fosse a igreja sede do antiga Bizâncio (atualmente Istambul,
tou a imprimir uma forte perseguição bispo de Roma. Ele ainda edificou outra na Turquia) na foz do Mar Negro. Nesse
aos cristãos presentes no Império, des- enorme basílica dedicada a São Pedro. novo projeto, Constantino decidiu colo-
truiu suas igrejas, ordenou que seus O prédio, concluído no ano de 349 d.C. car estátuas dos costumeiros deuses da
textos sagrados fossem queimados e após décadas de obras, foi um centro de cidade para não causar discordâncias
matou aqueles que se recusavam a adoração por mais de mil anos. No sé- com o tradicionalismo. Com esse com-
participar dos ritos religiosos oficiais. culo XVI, acabou sendo derrubado para portamento, ele desejava manter a boa
Na realidade, o interesse dele não era dar lugar ao prédio atual. relação e não causar implicações polí-
religioso, mas buscava manter ordem Constantino também devolveu to- ticas ruins e desnecessárias para o seu
no período, conhecido como a Grande das as propriedades confiscadas por governo, que caminhava com bastan-
Perseguição. Diocleciano aos cristãos. Contudo, para te tranquilidade durante todos esses
Já Constantino, que assumiu a não ter problemas com os não cristãos anos. Respeitar os costumes romanos
vaga deixada pelo antecessor em 306, que adquiriram as terras em leilão, foi um de seus principais lemas.
mudou a história religiosa – e conse- ordenou uma compensação financeira Lentamente, com o sincretismo re-
quentemente política – do Império ao pelas perdas. ligioso, o cristianismo ganhou espaço
se converter ao cristianismo. Era a pri- Mas o governo dele não foi com- e tornou-se a religião oficial do Impé-
meira vez que um governante de Roma posto apenas de benevolência para rio Romano em 391, durante o reinado
proclamava sua aliança com a religião. com os cristãos. Ele também investiu de Teodósio.
Constantino, aliás, adotou o cristianis-
mo pelo mesmo motivo que Dioclecia-
no o havia perseguido: na crença de
que estava alcançando a proteção divi- DIA DO SENHOR
na para o Império e também para si. EM 321 D.C., CONSTANTINO TOMOU A DECISÃO DE TORNAR O DIA DO
SENHOR UMA OCASIÃO SAGRADA NA QUAL NENHUM NEGÓCIO OFICIAL
O imperador não fez de sua nova fé
OU TRABALHO DE MANUFATURA PODERIAM SER FEITOS.
pessoal a religião oficial, mas decretou a
Porém, o imperador teve a sagacidade de garantir que o dia em questão
tolerância de crença. A realidade é que correspondesse ao domingo. Isso permitia que os adeptos ao politeísmo
ele não desejava atrair a raiva dos adep- cressem que um dia específico da semana continuava a homenagear a antiga
tos ao politeísmo, pois esses ainda eram deidade deles, o sol (domingo, em inglês, é Sunday, literalmente o dia do sol).
muito mais numerosos que os cristãos. »»

119
CAPÍTULO 12 • CRISE

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DIVISÃO
DO IMPÉRIO
O plano de um governo tetrarca, ins-
tituído por Diocleciano, não vingou.
Apesar disso, o princípio de divisão da
administração rendeu frutos. Constanti-
no travou uma intensa guerra civil no
começo do reinado dele para alcançar
um governo unificado e aboliu a tetrar-
quia por temer lideranças desleais.
No final de seu reinado, ele ainda
relutava em admitir que o Império ne-
cessitasse de mais governantes. Mes-
mo assim, Constantino designou os três
filhos dele como sucessores conjuntos.
Porém, uma rivalidade entre os irmãos
arruinou por completo qualquer possi-
bilidade de manter a unificação. No fim
do século IV, o Império foi formalmente
dividido em duas seções (ocidental e
oriental), cada qual com um imperador.
O tempo e as desavenças fizeram
com que houvesse um distanciamento
entre as duas metades. Constantinopla
era a capital do Império Oriental e tra-
zia qualidades importantes: estava em
MIGRAÇÕES
BÁRBARAS
uma península fortificada e encontrava-
-se entre as rotas de comércio. Além
disso, Constantino deixara a cidade Os bárbaros levavam esse nome por
equipada com fórum, palácio imperial conta da impressão que os romanos
e um hipódromo para corridas de bigas. tinham dos habitantes do norte. O idio-
A geografia também determinou o ma, as vestimentas e os costumes di-
local da capital do Império Ocidental. ferentes os faziam parecer atrozes aos
Em 404, o imperador Onório fez de Ra- olhos dos moradores do Império.
vena – um porto na costa nordeste ita- Os bárbaros germânicos do século
liana – a capital permanente do Ociden- IV d.C., que formavam um grupo bem
te. Grandes muros a protegiam contra diverso etnicamente, migraram pela
os ataques terrestres. Já o acesso para primeira vez para as terras romanas
o mar evitava que ficasse totalmente na condição de refugiados em busca
privada de mantimentos se ocorresse de outro local por estarem amedronta-
um cerco. Mesmo assim, Ravena nunca dos com os fortes ataques dos hunos.
alcançou Constantinopla em tamanho Estavam interessados na segurança e
ou esplendor, conforme o historiador conforto garantidos pelo Império. No
Thomas R. Martin. fim do século IV d.C., porém, a chega-
A cidade de Roma, por sua vez, che- da de bárbaros tornou-se muito mais Antiga igreja dos visigodos
gara a um triste declínio que a reduzi- intensa. Esse povo foi escorraçado da na Espanha: povo bárbaro
foi perseguido pelos hunos e
ria, com o passar dos anos, à condição terra onde hoje é o Leste Europeu, a seguiu para o Império Romano
do vilarejo empobrecido em que o anti- norte do rio Danúbio.
go lar dos romanos começara há muito Os bárbaros tinham pouquíssima
séculos. A pomposa localidade entrou expectativa de avanço como nação,
em um processo de ruína. pois não eram unidos política e mili-

120
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Vista aérea de
Istambul: antiga
Constantinopla
era a capital do
Império Oriental

tarmente. Nem mesmo um senso com- bens móveis e os escravos da cidade,


partilhado de identidade possuíam. os romanos teriam perguntado: “O que
A única ligação que mantinham – ao ficará para nós?”. “Suas vidas”, teria
menos uma parcela considerável deles respondido o general bárbaro.
– era a origem germânica dos muitos Diante da grave situação, o gover-
idiomas. no do Império Ocidental concordou, em
Os primeiros bárbaros germânicos 418, assentá-los no sudoeste da Gália
a fugir pela fronteira até o Império Ro- (atual território francês). Lá, organi-
mano vieram a ser chamados de visi- zaram um Estado e tornaram-se uma
godos. Como andavam espalhados por sociedade tribal ligeiramente demo-
conta dos ataques dos hunos, em 376, crática. O problema do Império Ociden-
imploraram ao imperador oriental, Va- tal, contudo, estava só começando. As
lente, que permitisse a eles migrar para concessões feitas aos visigodos fizeram
os Balcãs. Os visigodos foram autoriza- com que outros grupos bárbaros utili-
dos sob a condição de que seus guer- zassem a força para conquistar o terri-
reiros se alistassem no exército romano tório romano. Em 406, o bando conhe-
na defesa contra os hunos. cido como vândalos, também fugitivo
No entanto, alguns gananciosos dos hunos, atravessou o rio Reno. Esse
funcionários públicos de Roma, encarre- volumoso grupo abriu caminho pela
gados de ajudar os refugiados, acaba- Gália até chegar à costa espanhola. No
ram explorando os bárbaros para obte- ano 429, 80 mil vândalos navegaram
rem lucro. Assim, os germânicos foram até a África do Norte, onde capturaram
enfraquecidos pela fome. Tais funcioná- a província romana. Lá, se apropriaram
rios até mesmo os forçavam a vender de terras e do pagamento de tributos.
alguns de seu próprio povo como escra- Isso enfraqueceu ainda mais o Império
vos em troca de cães para comer. Ocidental.
Diante desse cenário, os visigodos Em 455, saquearam Roma e destru-
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revoltaram-se. No ano de 378, der- íram o símbolo central da antiga glória


rotaram e assassinaram Valente em do Império. Os vândalos também atra-
Adrianópolis (atual parte europeia da palharam os planos do Império Oriental
Turquia). Mataram ainda dois terços quando romperam o comércio no Medi-
das forças romanas. Sucessor de Valen- terrâneo, sobretudo o de suprimentos
te, Teodósio I (governante entre 379 alimentares.
e 395) teve que renegociar o acordo Além disso, grupos menos numero-
com os visigodos, que conquistaram o sos se aproveitaram da desordem total
direito de ficar permanentemente no causada pelos bandos mais expressi-
Império, a liberdade para estabeleci- vos para se apossarem de partes do
mento de um reino sob suas próprias Império do Ocidente. Entre eles esta-
leis e o recebimento de valores anuais vam os anglo-saxões. Esse grupo, com-
do tesouro. posto por anglos vindos da Dinamarca
Sem conseguir cumprir o trato, os e saxões provenientes do noroeste da
governantes do Ocidente começaram a Alemanha, invadiu a Bretanha, na dé-
forçar a ida dos bárbaros para a direção cada de 440 d.C., depois que o exército
do Império Oriental. Os imperadores romano foi convocado para defender
cortavam os subsídios aos refugiados e a Itália contra os visigodos. Os anglo-
ameaçavam uma guerra total caso não -saxões estabeleceram reinado na Bre-
fossem embora. tanha ao arrancarem o território à força
Mais uma vez, os visigodos respon- dos povos celtas indígenas e dos habi-
deram. Em 410, os bárbaros captura- tantes romanos remanescentes. No fim
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ram Roma e aterrorizaram a população do século V, foi a vez dos ostrogodos,


local. Quando Alarico, comandante dos vindos do leste, instituírem seu reina-
visigodos, exigiu o ouro, a prata, os do na Itália. »»
Indumentária de um soldado anglo-saxão:
povo estabeleceu reinado na Bretanha

121
CAPÍTULO 12 • CRISE

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Capela privada
de Teodorico, em
Ravena: rei dos
ostrogodos assumiu
o controle do
Império do Ocidente
no século VI

FIM DO IMPÉRIO rei independente e encerrou um perí- também queria manter as tradições do

OCIDENTAL
odo de cinco séculos de imperadores Império Romano para garantir status ao
de etnia romana. Era o fim político do seu novo governo. Mais uma vez, o Se-
Vários comandantes do exército germâ- Império Ocidental. nado e o posto de cônsul continuaram
nico foram chamados para ajudar na Mesmo assim, Odoacro fez questão intactos. Cristão ariano, Teodorico se-
defesa da área central romana. Mas, no de manter o Senado de Roma e ainda guiu o exemplo deixado por Constanti-
século V, alguns desses generais apro- os cônsules para mostrar certo amor no e adotou uma política de tolerância
veitaram-se das lutas pelo poder entre pela tradição. Além disso, ele enviou religiosa.
os romanos que concorriam ao posto embaixadores a Constantinopla para de-
de imperador e se transformaram em monstrar reconhecimento ao imperador
mediadores com influência política na do Oriente e garantir apoio diplomático.
CALDEIRÃO
CULTURAL
decisão sobre quem seria o governante No entanto, Constantinopla descon-
da vez. Os germânicos, aliás, também fiou da atitude e decidiu contratar o rei
podiam destituí-lo, o que reduzia o im- dos ostrogodos, Teodorico, o Grande, A ascensão dos bárbaros ao trono do
perador romano a um mero fantoche para eliminar Odoacro. Ele fez o serviço, Ocidente, destacada por historiadores
nas mãos deles. assassinou o intruso, mas traiu o impe- como a grande transformação política
O último a ocupar o trono nessas rador do Oriente. Teodorico criou o seu da Europa na época – gerou profundas
condições foi um garoto de nome Rô- próprio reino germânico em território transformações socioculturais. Os ha-
mulo Augusto. No ano 476, o coman- italiano e manteve o Ocidente sob o bitantes recém-chegados ajudaram a
dante bárbaro Odoacro o depôs, mas domínio ostrogodo até o final de sua criar novas formas de vida baseadas
foi piedoso por conta da pouca idade vida, no ano 526. em uma mistura de tradições de dife-
do rapaz e lhe deu uma pensão para Na mesma linha de pensamento de rentes partes.
viver em um exílio perto de Nápoles. Odoacro, Teodorico desejava usufruir da O rei visigodo Ataulfo – governante
O general germânico se autoproclamou vida mais luxuosa da elite imperial. Ele entre 410 e 415 – foi um exemplo disso.

122
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Ele se casou com uma nobre romana e subornos com astúcia para rechaça- tiniano (entre 482 e 565). Ele lançou
falou abertamente sobre a integração rem as migrações e as enviaram para expedições romanas para tentar supri-
dos costumes diversos: “No início, eu o Ocidente (longe de seus territórios). mir os germânicos do Ocidente, mas
queria apagar o nome dos romanos e Também bloquearam a agressão do tais campanhas serviram apenas para
transformar a terra deles em um impé- reino sassânida na Pérsia ao leste e alimentar um sonho distante e esvaziar
rio gótico, fazendo a mim mesmo o que protegeram a rota das especiarias no os cofres públicos.
Augusto fizera. Mas aprendi que a selva- sentido leste-oeste. Dessa maneira, os A partir do sétimo século, os impe-
geria desregrada dos godos jamais acei- governantes do Oriente mantiveram, radores perderam enormes áreas de
taria o governo da lei, e que Estado sem em grande parte, as tradições antigas terra nos ataques violentos de exérci-
lei não é Estado. Sendo assim, escolhi e a população da região. tos islâmicos, mas ainda conseguiram
com mais sabedoria outro caminho para O último imperador oriental a ten- manter o governo na capital por mais
a glória: renovar o nome romano com o tar ressuscitar o antigo Império foi Jus- 850 anos.
vigor gótico. Rezo para que as gerações
futuras se lembrem de mim como o fun-
dador de uma restauração romana”. SÉCULO II ANO 215
Contudo, os visigodos não demons- Ataques estrangeiros, Imperador Caracala

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travam estar preparados para adminis- sobretudo germânicos, administra mal o
geram as primeiras perdas Império e deixa Roma
trar o Império por conta das antigas tra- ao Império Romano ainda mais devastada
dições trazidas do nordeste da Europa. economicamente
Naquela região, eles viviam em assenta-
mentos pequenos cujas economias de-
ANO 200
pendiam do cultivo de lotes diminutos,
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Crescem demasiadamente os gastos


pastoreio e trabalho com o ferro. com o exército, que chega a 400 mil
As assembleias de guerreiros livres homens; tesouro do governo romano
apresenta primeiros sinais de déficit
eram a única forma tradicional de or-
ganização política dos bárbaros. As fun-
ções dos líderes ficavam basicamente ANO 306
SÉCULO III FIM DO SÉCULO III Constantino assume
restritas a deveres religiosos e milita- posto de Diocleciano;
Ambiente político Diocleciano governa com
res. Tribos e clãs, muitas vezes, sofriam conturbado leva a mão de ferro, institui anos depois, imperador
conflitos internos e se hostilizavam vio- guerras civis reformas e garante uma se converte ao
sobrevida ao Império cristianismo e declara
lentamente. Assim, os reinos germâ- liberdade religiosa no
nicos jamais se equipararam ao modo território romano
ENTRE 324 E 330 FIM DO SÉCULO IV
organizacional do antigo governo ro- Constantino Império Romano
mano na Idade de Ouro do Império. investe na é dividido em duas ANO 404
construção de partes: Ocidental Ravena torna-se a nova
uma nova capital e Oriental capital do lado ocidental
– Constantinopla

IMPÉRIO – no lado oriental


do Império
SÉCULO V

ORIENTAL
Imperador oriental
Justiniano tenta
resgatar antigo
Do outro lado, os integrantes do Im- Império, mas não
ANOS 476 obtém sucesso;
pério do Oriente procuraram evitar as
Após longo período Império do Oriente
mudanças que alteraram por comple- de invasões bárbaras, ainda resiste por
to a metade ocidental. A integridade germânicos ascendem muitos séculos
ao poder no Ocidente grupo religioso
econômica e a união política foram
as suas marcas nos séculos seguintes.
Na maioria das vezes, os historiadores SÉCULOS II E III
313 D.C.
contemporâneos se referem ao Império Segue a
Após supostamente ter visto 391 D.C.
caçada dos
Oriental como Império Bizantino, termo Cristo durante um sonho, Cristianismo
imperadores
imperador Constantino torna-se
derivado de Bizâncio, nome anterior da aos cristãos
vence batalha pelo poder, a religião
capital. declara-se cristão e permite oficial do
Os imperadores em Constantino- livre culto da religião Império
pla se valeram de força, diplomacia e

123
CAPÍTULO 13 • LEGADO
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Os algarismos romanos foram um


dos legados que resistiram aos séculos

A HERANÇA do Império do Ocidente. Essas caracte-

ROMANA
rísticas foram ainda mantidas na Euro-
pa Medieval e, a partir do século XVI – o
período das grandes navegações e dos
descobrimentos –, passaram a ser di-
fundidas por algumas regiões da Ásia,
O DOMÍNIO SE ESVAIU COM O PASSAR DOS África e América.
ANOS, MAS A INFLUÊNCIA DA ANTIGA POTÊNCIA
ESTENDEU-SE NO DECORRER DOS SÉCULOS POR LATIM
MEIO DO DIREITO, IDIOMA, ARQUITETURA E ARTES Se hoje podemos nos comunicar uti-
lizando a língua portuguesa por meio
da fala e também da escrita, devemos

A s invasões bárbaras ao
Império Ocidental nos séculos
IV e V destruíram o domínio roma-
Contudo, a herança de Roma vai
muito além e está presente nas cultu-
ras ocidentais contemporâneas, sobre-
isso quase que exclusivamente ao latim,
idioma da Roma Antiga. Depois da que-
da do Império do Ocidente e da invasão
no depois de séculos de uma plena tudo nas áreas jurídica e linguística. dos germânicos na Europa, o português
preponderância. Entretanto, o que Não há como esquecer também o le- foi uma das línguas que se originaram
nem sempre nos damos conta, gado romano na arquitetura, engenha- do latim. Os outros filhos do idioma são
mas que fica claro quando pres- ria e até mesmo no campo das artes. o francês, italiano, espanhol e o romeno.
tamos um pouco mais de atenção Não estamos isentos dele nem mesmo O latim nada mais é do que uma
ao nosso redor, é que a influência quando nos deparamos com nosso ca- língua indo-europeia. Ele teria surgi-
desse povo ainda está muito pre- lendário diariamente. do no século VI a.C., na região do Lá-
sente em nosso dia a dia. No iní- Tais traços marcantes dessa civiliza- cio, próximo à cidade de Roma. Além
cio desse parágrafo está um bom ção foram preservados muito por conta de tomar conta de todo o Império, foi
exemplo disso: continuamos utili- da instauração dos reinos germânicos. adotado posteriormente pela Igreja
zando os algarismos romanos para Essas populações absorveram profun- Católica Apostólica Romana. No pe-
nos referirmos a um determinado dos aspectos culturais romanos na Ida- ríodo conhecido como Idade Média,
século. de Média, quando dominaram a região a maior parte das regiões utilizava o

124
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

VOCÊ FALA
LATIM TODOS
OS DIAS!
MESMO NÃO TENDO UM PAÍS
PARA CHAMAR DE SEU, O
LATIM É FALADO TODOS OS
DIAS. INCLUSIVE POR VOCÊ.
Muitos nomes das marcas
que estão disponíveis aos
montes nas gôndolas dos
supermercados, por exemplo,
estão escritos em latim. A
verdade é que o idioma ganhou
a simpatia dos publicitários,
sobretudo nas últimas décadas.
Apesar da forte tendência de
utilização de palavras de origem
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anglicana (já que o inglês é o


idioma preferido das agências
de publicidade), o latim foi
resgatado. Entende-se hoje que
Apesar de não ser falado por nenhum país atualmente, o latim foi de extrema
as expressões latinas conferem
importância, uma vez que deu origem a outros idiomas, como o nosso português
ao produto certo status e
credibilidade. Além das marcas,
o latim também está presente
em palavras e expressões que
latim. Nos dias de hoje, nenhum país
usamos em diferentes ocasiões.
do mundo fala o idioma, mas, mes- Exemplos não faltam:
mo assim, muitos consideram que ele
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não está totalmente morto. A verda- A priori = em princípio


de, porém, é que poucas pessoas ao Aliás
redor do planeta – a maioria, estudio- Carpe diem = aproveite o dia
sos de línguas antigas e religiosos – Corpus Christi = corpo de Cristo
conhecem bem o latim.
Curriculum Vitae = trajetória de vida
O português foi o último idioma
Data venia = com o devido respeito
formado a partir do idioma. O poema
Et cetera (etc)
“Língua portuguesa”, de Olavo Bilac,
In loco = no local
faz essa referência de maneira bem
Palíndromo mais antigo do Mea culpa = minha culpa
clara: “Última flor do Lácio, inculta e
mundo, escrito em latim Modus operandi = modo de agir
bela. És, ao mesmo tempo, esplen-
Sui generis = de seu próprio gênero
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dor e sepultura. Ouro nativo, que na


ganga impura. A bruta mina entre os
CURIOSIDADE Vade mecum = vem comigo
O palíndromo é uma palavra
cascalhos vela”. ou frase que tem a mesma
Já o alfabeto romano é utilizado sequência de letras em
até hoje na maioria dos países ao redor qualquer ordem de leitura,
do globo. Até mesmo línguas que não tanto da esquerda para a
direita, quanto da direita para
são de origem latina (o alemão é um a esquerda. Alguns exemplos:
exemplo) fazem uso dele. “ovo”, “osso” e “radar”.
Também chegaram até nós os al- O curioso é que o palíndromo
garismos romanos, instituídos e usados mais antigo do mundo é a
na Roma Antiga. Entretanto, os utiliza- frase em latim “Sator arepo
tenet opera rotas” (O lavrador
mos hoje mais para nos referirmos aos diligente conhece a rota do
séculos. Sete letras maiúsculas com- arado). Ele foi criado entre os
põem o sistema de numeração romana séculos II e V.
do alfabeto latino: I, V, X, L, C, D e M. »»
A expressão latina curriculum
vitae está muito presente em
nosso dia a dia
125
CAPÍTULO 13 • LEGADO

Reprodução de antigo calendário Egípcio


dele, aliás, se confunde bastante com por meio de números ordinais: Quin-
a origem de Roma (753 a.C.). tilis, Sextilis, September, October,
Curiosamente, o calendário roma- November e December. É importante
no primitivo tinha apenas 10 meses lembrar que se tratava de um calen-
e 304 dias. Nele, os quatro primeiros dário sem qualquer base astronômica,
meses possuíam nomes próprios em já que os períodos nele definidos não
homenagem aos deuses da mitologia tinham relações com os movimentos
romana (Martius, Aprilis, Maius e Ju- solar ou lunar.
nius). Já os demais eram designados

NUMA POMPÍLIO
Somente o segundo rei romano, Numa Pompílio (715-673 a.C.), estabeleceu um ca-
lendário baseado nos movimentos do Sol e da Lua. Com isso, o ano passou a ter 355
dias devidamente distribuídos em doze meses. Como ele considerava meses com
dias pares “azarados”, decidiu tirar um dia de cada mês que tinha trinta dias. Ele,
então, juntou esses seis a mais outros 50 e constituiu dois novos meses: Januarius e
Februarius. Esse segundo – com 28 dias – foi dedicado a Februa, divindade que purifi-
cava os mortos. Os romanos ofereciam sacrifícios a ela para compensar as suas faltas
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durante todo o ano. Por conta disso, Februarius foi instituído como o último mês.

CALENDÁRIO CALENDÁRIO Ao alcançar o poder em Roma, Júlio

ROMANO JULIANO
César decidiu eliminar o problema de
uma vez por todas. O novo imperador
Os calendários foram elaborados em Porém, os romanos começaram a ve- destacou o astrônomo Sosígenes, da
muitas sociedades devido à necessi- rificar a importância de coordenar seu Grécia, para avaliar a caótica situação.
dade de mensuração do tempo. Com ano lunar com o ciclo das estações. Para O especialista concluiu que havia um
o passar dos anos, esse mecanismo tanto, eles formaram um incipiente sis- adiantamento de 67 dias no calendário
assumiu o papel de principal orien- tema solar-lunar, colocando em seu romano quando comparado às estações.
tador da vida em muitos sentidos. Os calendário, a cada dois anos, um novo Assim, Júlio César deu ordens para
integrantes de diferentes povos davam mês, que ganhou o nome de Mercedo- que naquele ano de 46 a.C., além do
funções para determinados dias e anos. nius. Esse novo mês tinha duração de Mercedonius, fossem instituídos ainda
Ou seja, os calendários ganharam ain- 22 ou 23 dias. Desse modo, passou a mais dois meses: um de 33 e outro de
da um forte caráter cultural e estavam existir um ano de 377 dias e outro de 34 dias, perfazendo um ano civil de 445
ligados também a aspectos como cren- 378 entre dois anos com somente 355 dias, o maior de todos os tempos. Esse
ças e religiosidade. dias. Ao considerarmos a média a cada ficou bastante conhecido como o Ano
Os calendários mais primitivos quatro anos, constatamos que ela é de da Confusão.
eram o hebreu e o egípcio. Os dois 366,25 dias, um dia a mais que o cha- A partir do ano 45 a.C., foi adotado
possuíam um ano composto por exa- mado ano trópico. o calendário solar ou calendário Julia-
tos 360 dias. Segundo alguns histo- Tais intercalações do mês Merce- no. Ele se desenvolveu por meio de um
riadores, por volta do ano 5.000 a.C., donius, contudo, começaram a ocorrer sistema que deveria se desenrolar por
após várias reformas, os egípcios es- segundo os interesses políticos. Geral- ciclos de quatro anos, com três perío-
tabeleceram um ano civil de 365 dias, mente, os pontífices aumentavam ou dos comuns de 365 dias e um bissex-
sem variação. O atraso aproximado de diminuíam o ano de acordo com as suas to de 366 dias. O ano bissexto tinha o
seis horas por ano com relação ao ano simpatias com quem detinha o poder objetivo de compensar as quase seis
trópico fez com que, de modo lento, naquele momento. Essa situação trouxe horas de diferença para o ano trópico.
as estações egípcias atrasassem. Já a tanta confusão que chegou ao ponto de Mercedonius foi retirado e Februarius
introdução do primeiro calendário ro- o início do ano estar adiantado quase realocado como o segundo mês do ano.
mano é atribuída ao lendário funda- três meses em relação ao ciclo das es- Como uma homenagem a Júlio César, o
dor da cidade, Rômulo. A construção tações climáticas. mês Quintilis passou a se chamar Julius.

126
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

POLÍTICA
Apesar de o período imperial ter marcado
definitivamente Roma como uma gigantes-
ca potência, boa parte de sua história foi
O calendário só chegou ao formato
que conhecemos hoje na época do escrita sob o regime republicano. Do século
imperador César Augusto VI a.C. até o ano 27 a.C., esse foi o sistema
político utilizado como forma de adminis-
tração. A expressão latina res publica sig-

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nifica “coisa pública”. Assim, ao menos na
teoria, tratava-se de um modo de governo
ligado ao povo. Mas não a toda a população
romana. Quem detinha o poder nessa época eram
os patrícios.
O senado de Roma, aliás, era formado por 300
patrícios e tinha como uma de suas funções eleger
um cônsul para governar a República por um pe-
ríodo determinado. Havia, abaixo dos senadores,
as magistraturas, por meio das quais os magistra-
dos exerciam diversas funções públicas. Ocorriam
também as assembleias ou comícios. Eram três Busto de senador
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tipos: Curiata, Tribucínia e Centuriata. Essa últi- romano: legislativo


ma tinha maior importância, pois agregava os da Roma Antiga
era composto por
soldados, sendo um poder político dos militares. 300 patrícios

CALENDÁRIO
As diferentes divisões e funções talvez tenham
sido os maiores legados romanos para a política contemporânea. Um espaço terri-
DE AUGUSTO torial tão grande não poderia ser gerenciado por poucos e as diversas estratégias
traçadas ao longo dos séculos – inclusive no período de Império – foram de funda-
O calendário romano só chegaria ao
mental importância para a manutenção da governabilidade.
formato usado ainda nos dia de hoje no
Além disso, a época da República assistiu à luta das classes entre os menos
ano 730 de Roma. Naquela ocasião, o
favorecidos e os detentores do poder. O sistema daquele período possibilitou uma
senado definiu, através de decreto, que
abertura para que os mais simples tivessem sua representação na política. Apesar
Sextilis fosse chamado de Augustus, já
das falhas na execução do sistema republicano, foi o momento em que o povo teve
que foi durante esse mês que o então
um pouco mais de voz ativa.
imperador César Augusto colocou fim à
guerra civil que assolava a população

ECONOMIA DIREITO
romana. Para que o mês de Augustus
não tivesse menos dias que o de Julius
(dedicado a Júlio César), o oitavo mês Alguns dos pilares da economia roma- Os governantes de Roma precisaram criar
do ano passou a ter 31 dias. O dia em na no período imperial eram a indústria alguns mecanismos para manter o imen-
questão foi tirado do mês de Febru- artesanal e a mineração. As conquistas so Império dentro de certa ordem duran-
arius, que ficou com 28 dias em anos de outras terras ao seu redor fizeram te os seguidos séculos. Para tanto, foram
comuns e 29 nos bissextos. com que Roma desse grande salto de desenvolvidas leis que deram origem,
A alteração gerou outras mudanças. uma economia agrária para uma mer- posteriormente, aos códigos jurídicos.
Para que não houvesse diversos meses cantil, ou seja, o comércio como siste- Nasceu, dessa forma, o direito romano,
na sequência com 31 dias, September ma soberano na área econômica. que foi utilizado como base pelas socie-
e November foram diminuídos para 30 Esse modelo foi amplamente difun- dades futuras do lado ocidental. Óbvio
dias. Assim, October e December ga- dido ao redor do planeta e hoje muitos que tais normas e regulamentações so-
nharam mais um dia e ficaram com 31. países tem no comércio uma considerá- freram diversas adaptações e também
Mesmo sem muita lógica, essa distri- vel fonte de rendimentos. Além disso, alterações no decorrer dos anos.
buição dos dias e meses continua ainda Roma instituiu o pagamento obrigató- O direito romano foi dividido, basi-
hoje. O nome de cada mês foi apenas rio de impostos como forma de susten- camente, em três categorias distintas:
transcrito para os respectivos idiomas. to da máquina pública. direito público (leis voltadas aos cida- »»

127
CAPÍTULO 13 • LEGADO

Estátua de Justiniano:

Andrii Lutsyk/ Shutterstock.com


formação do direito
moderno ocorreu na época
do imperador romano
dãos); direito privado (leis para as fa-
mílias); e direito estrangeiro. O código
civil, bastante comum em nações do
Ocidente nos dias de hoje, surgiu a par-
tir do direito público.
Além disso, várias expressões da
área jurídica usadas atualmente nas
legislações de muitos países foram
cunhadas no direito romano e, por esse
motivo, são grafadas em latim, o idio-
ma oficial do Império. Alguns exem-
plos: habeas corpus, habeas data (ação
que assegura acesso do cidadão a in-
formações relativas ele mesmo), stric-
to sensu (senso restrito), juris tantum
(presunção de inocência), vacatio legis

FASES DO DIREITO
(prazo legal que uma lei tem para en- culo IV d.C., após o imperador Dioclecia-
trar em vigor), entre tantas outras.
ROMANO
no. Esse regime continuou até a morte
O direito em Roma teve início no do imperador Justiniano, no século VI.
período de fundação da cidade (753 Foi o momento do direito pós-clássico,
O desenvolvimento do direito romano
a.C.) e estendeu-se até a morte do úl- marcado pela ausência de grandes ju-
no decorrer da história ocorreu em eta-
timo imperador, Justiniano, em 565 de risconsultos e pela adaptação das leis
pas bem distintas. Com isso, o processo
nossa era. Nesses mais de oitocentos em face à nova religião oficial, o cristia-
jurídico passou por um constante aper-
anos, o corpo jurídico romano estabele- nismo. Nesse período ocorre a forma-
feiçoamento. O primeiro período do di-
ceu-se como um dos mais importantes ção do direito moderno, que começa a
reito romano foi o Régio, que começou
sistemas criados. ser codificado a partir do século VI por
na fundação de Roma e prosseguiu até
o século V a.C., já na época do regime Justiniano.
republicano. Nesse momento, predomi-
nava um direito baseado no costume,
tendo o direito sagrado diretamente
ligado ao humano. UMA OBRA
O período seguinte foi o Republi- FUNDAMENTAL
cano, que vai desde 510 a.C. até o iní- UMA OBRA, ESPECIFICAMENTE,
cio dos tempos imperiais, em 27 a.C., FOI PREPONDERANTE PARA DAR
BASE PARA AQUILO QUE HOJE
com Augusto no comando da grande CONHECEMOS COMO DIREITO
potência. Nessa etapa prevalecia o jus CIVIL MODERNO.
gentium (direito dos povos) no lugar O Corpo de Lei Civil, do
do jus fas (direito sagrado). Era uma imperador Justiniano, organizou
forma comum a todos os povos do Me- as leis existentes na época e
formulou novas normas. Além
diterrâneo. Na mesma época, também de ser uma verdadeira revolução
O direito estavam em voga os conceitos “direito jurídica, a compilação é ainda
romano foi e justiça” e boa fé. um documento importante
utilizado como
Já o período do Principado foi o do sobre a vida no Império Romano.
base pelas
sociedades direito clássico, uma época áurea da O livro é dividido em quatro
seguintes partes: Código de Justiniano
jurisprudência, que vai do reinado de (com toda a legislação
Augusto até o imperador Diocleciano, romana revisada desde o
no fim do século III. Nessa ocasião, ha- século II); Digesto (composto
via uma participação muito maior dos pela jurisprudência romana);
Institutos (princípios
especialistas do direito – conhecidos fundamentais do direito); e as
Shutterstock

como jurisconsultos. Novelas ou Autênticas (as leis


Por fim, o direito romano viveu o formuladas por Justiniano).
período da Monarquia Absoluta, no sé-
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

ENGENHARIA E
Qualidade das estradas romanas
permitia a ligação da capital a

ARQUITETURA
diversas províncias do Império

Um dos principais ganhos pro-


porcionados por Roma foi o desen-
volvimento de variadas técnicas ar-
quitetônicas e de engenharia para
a construção de grandes edifícios,
palácios, basílicas, estádios, anfite-
atros, além de prédios públicos. Os
romanos demonstraram uma efici-
ência tão grande que muitas edi-
ficações daquela época chegaram
até os dias de hoje.
Os aquedutos, por exemplo,
deixavam a paisagem romana ain-
da mais atraente. Essas constru-
ções – espécies de grandes pontes
com colunas de pedra e arcos –

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eram responsáveis pelo transporte
de água às cidades. De tão sólidos
que eram, alguns ainda se encon-

ARTES
tram em uso, como os aquedutos
de Espanha, construídos nos tem- histórico, os artistas esculpiam cenas de
pos do imperador Augusto. Os romanos foram fortemente influen- momentos importantes. Os principais
Pode-se dizer ainda que as ci- ciados pelos gregos também no campo exemplos são as conhecidas colunas dos
dades romanas tinham um plano das artes. Entre as mais profundas ca- imperadores Trajano e Adriano.
urbanístico perfeito que era estru- racterísticas vindas da Grécia que che- Durante a República, o retrato foi o
turado a partir de um traço de ruas garam à Roma estão a reprodução do gênero mais cultivado. Ele vinha apre-
retas que se cruzavam de modo corpo humano e de elementos da natu- sentado em forma de bustos e também
perpendicular. Esse modelo urba- reza de modo real. de estátuas equestres. Na época do
no de Roma se impôs em todos os Apesar de ter sido deixado de lado imperador César Augusto, produzia-se
locais que abrangiam o Império, nos idos da Idade Média, o realismo em imagens apenas até o pescoço. Porém,
com foros, arcos de triunfo, termas esculturas e pinturas acabou por ser res- no século I da era cristã já se fazia pe-
e templos. gatado no período do Renascimento e ças até a metade do peito. Com o tem-
As estradas eram outra uma foi preservado por diferentes correntes po, o retrato distinguiu-se pelo realis-
especialidade dos romanos. Tais e escolas de arte posteriormente. mo sóbrio.
vias ligavam a capital às inúmeras As primeiras esculturas romanas fo- Se as estátuas tiveram grande re-
províncias que estavam sob o seu ram desenvolvidas, na verdade, por gre- levância, a pintura romana não deixou
controle. Elas possibilitavam um gos e também orientais que viviam em um legado profundo, ficando mais
rápido transporte de mercadorias e Roma. As formosas estátuas de César como uma função decorativa da arqui-
foram fundamentais no desenvol- Augusto e de seus auxiliares chegaram tetura. Importante ressaltar que não
vimento econômico do Império. até a época atual. Já a arte do camafeo são muitos os restos desse tipo de arte
Toda a técnica para o desen- – que consistia em ressaltar determina- que chegaram até o Ocidente. Mesmo
volvimento dessas edificações foi da figura em uma pedra semipreciosa assim, a pintura foi trabalhada em três
amplamente usada pelas socieda- usando as veias da pedra e as cores das superfícies principais: o livro, o muro e
des que vieram na sequência. Até diferentes camadas – chegou ao seu ápi- a tabela. Os grandes murais surgiram
mesmo o estudo da física (aplica- ce no século I do Império Romano. por meio, principalmente, da decora-
da à engenharia) avançou. Com Os relevos pictóricos, por sua vez, ção de igrejas. Por fim, os mosaicos
isso, a influência romana está pre- receberam novos elementos. Eles ga- tiveram um espaço bastante acentuado
sente em prédios, casas e igrejas nharam profundidade com a introdução em Roma, tanto na decoração de muros
nos dias atuais. de paisagens. Por outro lado, no relevo quanto na pavimentação do chão. »»

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CAPÍTULO 13 • LEGADO

Exemplo de mosaico romano, usado em


decoração de muros e pavimentação

OUTRAS HERANÇAS
ALÉM DAS GRANDES DISCIPLINAS, OUTROS ITENS ESSENCIAIS DO NOSSO DIA
A DIA FORAM DESENVOLVIDOS PELOS ROMANOS. O PERFUME, POR EXEMPLO,
TEVE O SEU USO POPULARIZADO NA ÉPOCA FINAL A REPÚBLICA, QUANDO
ROMA CONVERTEU-SE EM UMA CIDADE RICA E PRÓSPERA. FOI UM PERÍODO
DE INTENSO CRESCIMENTO DAS ÁREAS DE COSMÉTICO E PERFUMARIA.
Na medicina, os romanos nos deixaram importantes conhecimentos
científicos, apesar de ser, na época, uma espécie de prática bastante
rudimentar. Com o conhecimento adquirido dos gregos, criaram uma escola
médica própria em Roma. No século II, Galeno, um médico de origem grega,
mas que viveu entre os romanos, escreveu inúmeros tratados de medicina
e assentou a base do conhecimento médico com relação às doenças. Se
anteriormente os médicos atribuíam as enfermidades a superstições e crenças
religiosas, Galeno passou a estudar os sintomas do paciente para poder
determinar qual órgão estava sendo afetado. Assim, deduzia a causa da doença
e o possível medicamento. Além disso, os mais renomados doutores romanos
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usavam técnicas cirúrgicas mais avançadas para cuidar de feridas de soldados.

ENRIQUECEDORES
Os gregos são muito mais conhecidos pelo gênio intelectual e de Roma está presente em incontáveis disciplinas e o modelo de
criativo na Antiguidade. Contudo, mesmo não alcançando tal ca- organização do Império fica como uma verdadeira lição para nós
pacidade criadora, os romanos conseguiram assimilar, enrique- ainda na atualidade. Sendo assim, não há qualquer dúvida que
cer e difundir a herança helênica pelo Ocidente. Dessa forma, a nossa sociedade não chegaria ao nível de crescimento e amadu-
tradição cultural greco-romana nunca se perdeu por completo, recimento cultural sem o auxílio dessa importante sociedade que
como pode ser verificado no período da Renascença. O legado estabeleceu o seu poderio no mundo antigo.

753 A.C.
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Surge o primeiro calendário 750 A.C.


romano, atribuído a Rômulo, Início do período Régio
lendário fundador de Roma do direito romano
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SÉCULO VI A.C.
Época provável do nascimento
do latim, na região do Lácio,
SÉCULO I A.C. próximo à cidade de Roma
Imperador Augusto
faz últimos ajustes
SÉCULO VI A.C. no calendário SÉCULO IV D.C.
Instituição da República, sistema político romano, que perdura Direito romano vive o período
que influenciou o restante do mundo até os dias de hoje da Monarquia Absoluta

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