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DA GRUTA A CENA

Reflexões sobre a busca de um Teatro Grotesco Ordinário a partir da encenação Dona


Augusta.

Nicolas M. Lopes q. dos Santos Correia¹, Stephan Arnulf Baumgärtel², Fátima Costa de Lima³

1
Acadêmico (a) do Curso de Teatro Licenciatura, CEART - bolsista PIBIC/CNPq
2
Co- orientador professor do Departamento de Artes Cênicas. – CEART
3
Orientadora, Departamento de Artes Cênicas, CEART – endereço de e-mail.

Palavras-chave: Grotesco. Cena. Filosofia.

O Teatro Grotesco não é uma especificidade teatral em si, mas a apropriação de um termo
provindo de uma descoberta visual das artes plásticas e reconfigurado para um modelo – espécie,
uma classe de saber artístico relacionado a ideia do riso, do ridículo e do exagero, que
rapidamente se dilui para os campos do bizarro e do fantástico a partir de reflexões da filosofia
moderna. Nas artes cênicas o Grotesco está diretamente ligado à comicidade, ao exagero das
figuras cotidianas e da sátira. Poderíamos nos desdobrar em vários fatores históricos que
caracterizam essa forma como movimento, ou até mesmo como vertente artística. Porém, o que
efetivamente interessa é entender este plano do senso comum construído historicamente nas artes
da cena quando se pensa em Grotesco (ROBLE, 2016). Minha intenção inicial na proposição de
construção do espetáculo teatral Dona Augusta, iniciado com o propósito de formação de um
grupo teatral atualmente em atividade, a Cia Mosca, onde eu sou diretor geral e diretor do
espetáculo, é aplicar o Grotesco no processo de criação do espetáculo, não somente no uso da
palavra, mas principalmente no campo da filosofia estética, a fim de despertar nos corpos as
lógicas internas e suas sensibilidades do perverso e do fantástico, contrapondo a ideia de
comicidade. O grotesco surge aqui, como um articulador da cena na tentativa de alcançar outras
fontes de criação que não somente o cômico ou o satírico. Em uma sociedade onde as figuras
grotescas do cotidiano estão banalizadas e naturalizadas por uma lógica do capitalismo,
introduzidas nas casas, nos meios de consumo, na mídia e nas esferas artísticas, me proponho a
utilizar imagens emergentes neste cenário e eleva-las a um exagero absoluto onde podemos
extrair formas e manifestações que habitam o sensível e as questões ‘apagadas’ por uma
construção histórica linear. O espetáculo pretende materializar as figuras criadas na cabeça de
uma criança que vive em um contexto de repressão máxima, fazendo referência as brincadeiras
lúdicas da infância. A partir da imaginação de uma figura propositalmente exposta como
“perturbada” começamos a injetar sob as formas propostas, uma maximização das sensações que
se diluem nas figuras criadas pela criança, a fim de alcançar o que se pretende neste trabalho
como “figura grotesca”. A Dona Augusta se propõe a ser uma peça teatral que dialoga com as
transformações cotidianas, sempre disponível a mudanças espontâneas em sua dramaturgia, como
forma de dar continuidade a busca por estas figuras grotescas, afirmando à pesquisa este teor de
investigação que atualmente se desdobra em conceitos estudados a partir da filosofia moderna e
da teoria crítica, incorporados a partir do grupo de pesquisa imagens políticas. A pretensão deste

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trabalho é então, olhar de uma perspectiva ordinária, como a imagem exagerada e fantasiada pode
decorrer sobre os corpos sensíveis trazendo reflexões negligenciadas pelo “sistema cotidiano”,
contrapondo também às ideias de harmonia, beleza e proporção desenvolvidas e valorizadas na
Estética Clássica de Platão e Aristóteles. (SUASSUNA, 2004). Quando nos deparamos com as
diferenças contextuais dos atores e atrizes durante o processo, como classe social, gênero,
sexualidade e experiência – relacionada à classe e a pobreza de experiências transmitidas e
vivenciadas de forma benevolente por uma cultura de hierarquias de idade (BENJAMIN, 1994) –
começamos a investigar nas histórias subjetivas de cada um e cada uma, potencialidades
imagéticas que nos levassem a complementação estética na dramaturgia, trazendo figuras
possíveis à tona que dialogassem com o universo que aquela criança estava produzindo em sua
imaginação, ou seja, relatos cotidianos se tornam nosso ponto de partida para criação Grotesca.
Mas não pode –se dizer que estes relatos são a fonte primária em si, mas um caminho de
autoconhecimento e risco para estes corpos alcançarem figuras em constante tensão, e assim
elaborar uma narrativa que afete o público de maneira direta e coerente. Aqui a figura grotesca,
ainda no campo da tensão, pode servir de articuladora desta narrativa proporcionando um outro
viés de expressão, para deixar o público em contato com imagens vivas, em movimento, e não
uma simples exposição narrativa focada no texto. Aliás, no que se diz respeito ao diálogo – obra
X espectador – o texto pouco importa se tais figuras darem conta dos afetos e narrativas
intencionadas na dramaturgia. A pesquisa tem como objetivo continuar explorando as imagens
cotidianas através de um entendimento estético – filosófico para delinear este outro lado da
palavra grotesco e de sua aplicação nas artes da cena, a fim de efetivar novos caminhos para o
uso da imagem, bem como desenvolver um pensamento crítico a partir do plano teórico para a
prática do grupo Cia Mosca em todo processo que permanece em atividade, e devolver ao público
o resultado filosófico, artístico e sensível que o espetáculo pretende alcançar.

Referências
ROBLE, Odilon. Introdução do Grotesco nas Artes da Cena. Pós - Belo Horizonte, vol 6, n
11, p. 148 – 159, maio 2016.
BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas: Magia e técnica, Arte e Política. Tradução de Sergio
Paulo Rouanet, 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
SUASSUNA, Ariano. Introdução à Estética. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004.

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