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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando


por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível."
Para Samuele, Sebastiano e Barbara.
Obrigado.
Os degraus a subir são trinta e seis, trinta e seis degraus de pedra, que o velho sobe
devagar, com circunspecção, como se recolhesse um a um para conduzi-los ao primeiro
andar: ele pastor, eles animais mansos. Modesto é o seu nome. Serve naquela casa há
cinquenta e nove anos, portanto é o sacerdote dali.
Ao chegar ao último degrau, detém-se diante do largo corredor que se alonga sem
surpresas ante seu olhar: à direita os quartos fechados dos Senhores, cinco; à esquerda
sete janelas, escurecidas por folhas cegas de madeira laqueada.
Está quase amanhecendo.
Detém-se, o velho, porque precisa atualizar a contagem. Registra as manhãs que
anunciou naquela casa, sempre do mesmo modo. Então acrescenta uma unidade que se
perde para além dos milhares. A conta é vertiginosa, mas isso não o perturba: o fato de
celebrar desde sempre o mesmo rito matutino lhe parece coerente com seu ofício,
respeitoso às suas inclinações e típico do seu destino.
Depois de passar a palma das mãos no tecido engomado da calça — nos flancos, à
altura das coxas —, avança a cabeça um pouquinho e recomeça a caminhar. Ignora as
portas dos Senhores, mas, diante da primeira janela, à esquerda, detém-se para abrir as
folhas cegas. Faz isso com gestos suaves e calculados. Repete os movimentos em cada
janela, sete vezes. Só então se volta, para contemplar a luz da alvorada que entra em feixes,
pelas vidraças: conhece todas as possíveis nuances e, pelo aspecto, sabe como será o dia:
pode deduzir daí, às vezes, esbatidas promessas. Já que confiarão nele — todos —, é
importante a opinião que vai formular.
Sol encoberto, brisa leve, decide. Assim será.
Então percorre de volta o corredor, dessa vez dedicando-se à parede ignorada antes.
Abre as portas dos Senhores, uma a uma, e anuncia em voz alta que já é dia, com uma
frase que repete cinco vezes, sem modificar nem o timbre nem a inflexão.
Bom dia. Sol encoberto, brisa leve.
Depois desaparece.
Deixa de existir até reaparecer, inalterado, na sala dos desjejuns.

De velhos acontecimentos de que por enquanto se preferem ignorar os detalhes vem


o costume de despertar tão solene, que depois se torna festivo e prolongado. Abrange a
casa inteira. Nunca antes do amanhecer, isso é lei. Esperam a luz e a dança de Modesto
nas sete janelas. Só então consideram terminadas a condenação ao leito, a cegueira do
sono e a aposta dos sonhos. Mortos, são devolvidos à vida pela voz do velho.
Então debandam para fora dos quartos, sem jogar uma roupa sobre o corpo, nem
sequer passando pelo alívio de um pouco d’água nos olhos, nas mãos. Com os odores
do sono entre os cabelos e nos dentes, nos cruzamos nos corredores, pela escada, na
saída dos quartos, trocando um abraço como exilados de volta a alguma terra longínqua,
incrédulos por havermos escapado àquele encantamento que a noite nos parece.
Dispersados pelo sono obrigatório, voltamos a formar uma família e desembocamos no
térreo, na grande sala dos desjejuns, como um rio cárstico que agora sobe à superfície,
pressagiando o mar. Quase sempre fazemos isso rindo.
De fato, um mar preparado para refeições: é isso a mesa dos desjejuns — termo que
ninguém jamais pensou em usar no singular, porque somente um plural pode restituir a
riqueza, a abundância e a irrazoável duração. É evidente o sentido pagão de
agradecimento — a calamidade a que todos escaparam, o sono. Por cima de tudo vela o
imperceptível deslizar de Modesto e de dois copeiros. Em um dia normal, nem de
quaresma nem de festa, o cardápio corriqueiro oferece torradas de pão branco e preto,
bolinhas de manteiga em bandejinhas de prata, geleia de nove frutas, mel e doce de
castanhas, oito tipos de pastelaria que culminam em um croissant inigualável, quatro
tortas com coberturas diferentes, taça de creme batido, frutas da estação sempre cortadas
com geométrica simetria, exposição de raros frutos exóticos, ovos do dia oferecidos em
três tipos de cozimento, queijos frescos mais um queijo inglês chamado Stilton, presunto
artesanal em fatias finas, cubinhos de mortadela, consommé de porco, frutas cozidas em
vinho tinto, biscoitos de sorgo, pastilhas digestivas de anis, cerejinhas de marzipã,
sorvete de avelã, um bule de chocolate quente, pralinas suíças, balas de alcaçuz,
amendoim, leite, café.
O chá é detestado. A camomila, reservada aos doentes.
Pode-se então compreender como, naquela casa, um repasto considerado em geral
uma veloz arrancada para iniciar o dia seja, ao contrário, um processo complexo e
interminável. A praxe quer todos à mesa durante horas, até invadir o momento do
almoço, que de fato naquela casa nunca se consegue fazer, como uma imitação itálica do
brunch, mais prestigioso. Só aqui e ali, de vez em quando, alguns se levantam para em
seguida reaparecer à mesa parcialmente vestidos, ou lavados — as bexigas esvaziadas.
Mas são detalhes que mal se percebem. Porque à grande mesa, convém dizer, chegam os
visitantes do dia, parentes, conhecidos, postulantes, fornecedores, eventuais autoridades,
homens e mulheres de igreja: cada um com seu assunto. A Família tem costume de
receber as visitas ali, na corrente do torrencial desjejum, por uma forma de exibida
informalidade que ninguém, nem mesmo eles, seria capaz de distinguir do máximo da
arrogância, ou seja, receber de pijama as pessoas. De qualquer modo, o frescor da
manteiga e o lendário ponto de cozimento das crostatas predispõem à cordialidade. O
champanhe sempre no gelo, e oferecido com generosidade, basta para motivar a presença
de muitos.
Por isso, em torno da mesa dos desjejuns não é raro ver dezenas de pessoas reunidas,
embora sejam apenas cinco da família, na realidade quatro, agora que o Filho homem
está na Ilha.
O Pai, a Mãe, a Filha, o Tio.
Temporariamente no exterior, na Ilha, o Filho homem.
Retiram-se finalmente para seus quartos por volta das três da tarde e reaparecem dali
meia hora, esplêndidos de elegância e frescor, como todos reconhecem. As horas centrais
da tarde as consagramos aos negócios — a fábrica, as chácaras, a casa. Ao escurecer, o
trabalho solitário — medita-se, inventa-se, reza-se — ou as visitas de cortesia. O jantar é
tardio e frugal, consumado esparsamente, sem solenidade: já se abriga sob a asa da noite,
então tendemos a suprimi-lo, como um inútil preâmbulo. Sem nos despedirmos, em
seguida nos entregamos à incógnita do sono, exorcizando-a cada um a seu modo.
De cento e treze anos para cá, convém dizer, todos em nossa família morreram de
noite.
Isso explica tudo.

Naquela manhã, em particular, o assunto era a utilidade dos banhos de mar, sobre os
quais o Monsenhor, lambuzando-se de creme batido, alimentava reservas. Intuía neles
alguma evidente incógnita moral, sem contudo ousar defini-la com exatidão.
O Pai, homem bonachão e, dependendo, feroz, o ajudava a entender a coisa.
— Por gentileza, Monsenhor, me recorde precisamente de onde isso está dito no
Evangelho.
Serviu de contrapartida à resposta, evasiva, a campainha da entrada, à qual todos
dedicaram moderada atenção, tratando-se obviamente da enésima visita.
Disso ocupava-se Modesto, que nesse ínterim foi abrir a porta. Encontrou diante de
si a Noiva jovem.
Não era esperada para aquele dia, ou talvez sim, mas eles tinham esquecido.
Sou a Noiva jovem, informei.
Ah, a senhora, anotou Modesto. Depois olhou ao redor, espantado, porque não era
razoável que eu chegasse sozinha, mas não havia mais ninguém, a perder de vista.
Deixaram-me no final da alameda, expliquei, eu queria contar os meus passos em paz.
E pousei a mala no chão.
Eu tinha, como havia sido combinado, dezoito anos.
Na verdade, eu não teria nenhuma reserva a me mostrar nua na praia — estava
enunciando enquanto isso a Mãe —, porque sempre tive certa inclinação pela montanha
(muitos dos seus silogismos eram de fato imperscrutáveis). Eu poderia citar ao menos
dez pessoas que vi nuas, prosseguia, e não estou falando de crianças ou de velhos
moribundos, por quem tenho no fundo certa compreensão, ainda que…
Interrompeu-se quando a Noiva jovem entrou na sala, não tanto porque a Noiva
jovem tivesse entrado na sala, mas porque fora introduzida por um alarmante pigarro de
Modesto. Talvez eu não tenha mencionado que, em cinquenta e nove anos de serviço, o
velho havia elaborado um sistema comunicativo laríngeo que todos na família
aprenderam a decifrar como se fosse uma escrita cuneiforme. Evitando recorrer à
violência das palavras, um pigarro — ou raramente dois, nas mais articuladas formas —
complementava seus gestos como um sufixo que esclarecia o significado. À mesa, por
exemplo, Modesto não servia um só prato sem acompanhá-lo com uma elucidação da
epiglote à qual conferia seu próprio julgamento personalíssimo. Naquela específica
circunstância, ele introduziu a Noiva jovem com um sibilo apenas insinuado, longínquo.
Indicava, como todos sabiam, um altíssimo nível de vigilância, e por essa razão a Mãe se
interrompeu, coisa que não costumava fazer, pois em uma situação normal anunciar-lhe
um convidado não era diferente de servir-lhe água no copo — com calma, ela beberia
depois. Interrompeu-se, então, voltando-se para a recém-chegada. Percebeu como era
nova e, com um automatismo de classe, disse
— Meu bem!
Não fazia a mínima ideia de quem fosse.
Depois deve ter se aberto uma fresta em sua mente tradicionalmente desordenada,
porque ela perguntou
— Estamos em que mês?
Alguém respondeu Maio, provavelmente o Farmacêutico, a quem o champanhe
tornava insolitamente preciso.
Então a Mãe repetiu Meu bem!, mas desta vez consciente do que dizia.
É incrível como maio chegou depressa, este ano, estava pensando.
A Noiva jovem fez uma reverência.

Haviam esquecido, só isso. Cada coisa era combinada, mas já fazia tanto tempo que o
registro preciso daquilo acabara se perdendo. Não se devia deduzir daí que eles tivessem
mudado de ideia: em todo caso, seria cansativo demais. Uma vez decidido algo naquela
casa, não se mudava nunca, por evidentes razões de economia das emoções.
Simplesmente o tempo havia passado com uma velocidade que eles não tiveram a
necessidade de registrar, e agora a Noiva jovem estava ali, provavelmente para fazer aquilo
que fora combinado de longa data, com aprovação oficial de todos: desposar o Filho.
Era perturbador admitir que, como demonstravam os fatos, o Filho não estava.
Não pareceu urgente, porém, demorar-se sobre esse detalhe, e assim as pessoas se
dedicaram sem hesitações a um alegre coro de acolhida geral, variadamente permeado de
surpresa, alívio e gratidão, esta última pelo andar das coisas da vida, que parecia
indiferente às distrações humanas.
Uma vez que já comecei a contar esta história (e isso apesar da desconcertante série de
vicissitudes que me atingiu e que não recomendaria semelhante iniciativa), não posso
evitar esclarecer a geometria dos fatos, tal como vou recordando pouco a pouco,
anotando por exemplo que o Filho e a Noiva jovem se conheceram quando ela tinha
quinze anos e ele dezoito, terminando por gradativamente identificar, um na outra, um
magnífico remédio contra as indecisões do coração e o tédio da juventude. Agora é
prematuro explicar por qual singular percurso, mas é importante saber que um tanto
depressa chegaram à feliz conclusão de que queriam se casar. Às respectivas famílias a
coisa pareceu incompreensível, por motivos que eu talvez consiga esclarecer se a mordida
desta tristeza acabar afrouxando a preensão: mas a singular personalidade do Filho, que
mais cedo ou mais tarde me animarei a descrever, e a límpida determinação da Noiva
jovem, que eu gostaria de ter lucidez para transmitir à posteridade, sugerem certa
prudência. Combinou-se que era melhor contemporizar e passou-se a desatar alguns
nós técnicos, o primeiro deles o não perfeito alinhamento das respectivas posições
sociais. Convém lembrar que a Noiva jovem era a única filha mulher de um abastado
pecuarista que ostentava cinco filhos homens, ao passo que o Filho fazia parte de uma
família que havia três gerações colhia lucros na produção e no comércio de lãs e tecidos
de certa qualidade. Não faltava dinheiro nem de um lado nem de outro, mas
indubitavelmente eram patrimônios de natureza diferente: um, oriundo de teares e antigas
elegâncias, outro do estrume e de labutas atávicas. A coisa produziu uma esgarçadura de
pacata indecisão que afinal foi superada de chofre, quando o Pai comunicou com
solenidade que o casamento entre a riqueza agrária e a finança industrial representava o
desenvolvimento natural do empreendedorismo do Norte, traçando uma clara via de
transformação para todo o País. Disso ele deduzia a necessidade de superar
esquematismos sociais que àquela altura pertenciam ao passado. Como o Pai formalizou
a coisa nesses termos precisos, mas lubrificando a sequência com algumas bem colocadas
blasfêmias, a argumentação pareceu a todos convincente, em seu irrepreensível misto de
racionalidade e veraz instinto. Decidimos esperar apenas que a Noiva jovem ficasse um
pouco menos jovem: convinha evitar possíveis comparações entre um matrimônio tão
bem ponderado e certas uniões de camponeses, apressadas e vagamente animais. Esperar,
além de ser de indubitável comodidade, pareceu-nos a certificação de uma atitude moral
superior. O clero local não tardou a assentir, esquecido das blasfêmias.
Portanto, os dois se casariam.
Já que estou neste ponto, e visto que esta noite me sinto invadido por certa leveza
ilógica, talvez induzida pelas melancólicas luzes deste aposento que me emprestaram,
disponho-me a acrescentar algo a propósito do que aconteceu pouco depois do anúncio
do noivado, por iniciativa, surpreendente, do pai da Noiva jovem. Era um homem
taciturno, talvez bom a seu modo, mas também impetuoso, ou inesperado, como se a
excessiva proximidade com certos animais de trabalho lhe tivesse transmitido um traço de
inócua imprevisibilidade. Um dia comunicou em escassas palavras que havia decidido
tentar uma apoteose definitiva dos seus negócios emigrando para a Argentina, a fim de
conquistar pastos e mercados que estudara em todos os detalhes durante tediosíssimos
serões invernais assediados pela névoa. Os conhecidos, vagamente perplexos, decidiram
que a uma tal determinação não deviam ser estranhas a interposta frieza do leito conjugal,
talvez certa ilusão de juventude tardia, provavelmente uma suspeita infantil de horizontes
infinitos. Ele transpôs o oceano com três filhos homens, por necessidade, e com a Noiva
jovem, por consolo. Deixou a mulher e os outros filhos cuidando da terra, prometendo-
se mandar buscá-los caso as coisas tomassem o rumo certo, o que de fato ele fez mais
tarde, um ano depois, até mesmo vendendo todas as suas propriedades na terra natal e
apostando o patrimônio inteiro em mesas de jogo nos pampas. De qualquer modo, antes
de partir visitou o Pai do Filho e confirmou, empenhando a palavra, que a Noiva jovem
se apresentaria quando aflorassem seus dezoito anos, a fim de cumprir a promessa de
casamento. Os dois homens trocaram um aperto de mão, em um gesto que por aquelas
paragens era sagrado.
Quanto aos dois noivos, despediram-se tranquilos por fora e desnorteados por
dentro: tinham, devo dizer, boas razões para estar uma coisa e outra.
Zarpados os pecuaristas, o Pai passou alguns dias em um silêncio para ele incomum,
negligenciando práticas e hábitos que considerava imprescindíveis. Algumas de suas
decisões mais inesquecíveis haviam nascido de semelhantes ausências, motivo pelo qual
toda a Família estava resignada a grandes novidades quando enfim o Pai se pronunciou
de modo breve mas claríssimo. Disse que cada um tinha a sua Argentina, e que para eles,
líderes do setor têxtil, a Argentina se chamava Inglaterra. De fato, desde algum tempo
antes, observavam-se além da Mancha certas fábricas que otimizavam de modo
surpreendente a linha de produção: nas entrelinhas, intuíam-se lucros de enlouquecer.
Convém ir ver, disse o pai, e se for o caso copiar. Em seguida virou-se para o Filho.
Irá você, agora que se arranjou, disse, trapaceando um pouco sobre os termos da
questão.
E então o Filho partiu, até feliz, com a missão de estudar os segredos ingleses e de
registrá-los da melhor maneira, para a futura prosperidade da Família. Ninguém
esperava seu retorno no decorrer de algumas semanas, e em seguida ninguém percebeu
que ele não estava voltando nem mesmo depois de alguns meses. Mas eram assim,
ignoravam a sucessão dos dias, porque se propunham a viver um só, perfeito, repetido
ao infinito: por conseguinte, o tempo era para eles um fenômeno de contornos lábeis,
que ressoava em suas vidas como uma língua estrangeira.
Todas as manhãs, o Filho nos mandava da Inglaterra um telegrama, de texto imutável:
Tudo bem. Pretendia referir-se, obviamente, à insídia da noite. Era a única notícia que em
casa desejávamos saber de verdade: quanto ao resto, seria muito cansativo para nós
duvidar de que o Filho pudesse fazer outra coisa, naquela prolongada ausência, além do
próprio dever, atenuado no máximo por alguma amena distração invejável.
Evidentemente, havia inúmeras fábricas inglesas, que mereciam análises aprofundadas.
Paramos de esperá-lo, até porque ele voltaria.
Mas a Noiva jovem voltou primeiro.

Deixe-nos ver você, disse a Mãe, radiante, uma vez recomposta a mesa.
Todos a olharam.
Percebiam uma nuance que não saberiam definir.
Expressou-a o Tio, despertando do sono em que estava mergulhado havia algum
tempo, reclinado numa poltrona — um cálice de champanhe, cheio até a borda, entre os
dedos.
Deve ter dançado muito, senhorita, lá onde se encontrava. Isso me alegra.
Em seguida bebeu um gole de champanhe e voltou a adormecer.
A figura do Tio era figura grata e insubstituível, na família. Uma síndrome
misteriosa, de que era a única vítima conhecida, mantinha-o pregado em um sono perene
do qual saía por brevíssimos intervalos, com o único objetivo de participar da conversa
com uma pontualidade que todos já nos tínhamos habituado a considerar óbvia, mas
que, ao contrário, era evidentemente ilógica. Alguma coisa nele era capaz de registrar,
mesmo no sono, qualquer acontecimento e qualquer palavra. Ou melhor, o fato de vir de
outra parte muitas vezes parecia lhe conferir tal lucidez, ou um olhar tão singular sobre
as coisas, que dotava seus despertares, e as respectivas externalizações, de uma
ressonância quase oracular, profética. Aquilo nos tranquilizava muito, porque sabíamos
poder contar a qualquer momento com a reserva de uma mente a tal ponto repousada
que podia desatar com perfeição qualquer nó que se apresentasse no raciocínio familiar
ou na convivência cotidiana. Ademais, não nos desagradava o estupor dos estranhos
diante daquelas proezas singulares, detalhe que dava à nossa casa mais um motivo de
atração. Quando voltavam às suas famílias, não raro os convidados levavam consigo a
lendária lembrança desse homem que podia, dormindo, deter-se em gestos até mesmo
complexos, dos quais segurar um cálice de champanhe cheio até a borda era só um
pálido exemplo. Ele podia, durante o sono, fazer a barba, e não raro havia sido visto
tocando piano enquanto dormia, embora retardando ligeiramente os tempos. Não faltava
quem afirmasse tê-lo visto jogar tênis completamente adormecido: ao que parece, só
despertava nas trocas de lado. Conto isso por dever de cronista, mas também porque
hoje me pareceu vislumbrar uma coerência em tudo o que está me acontecendo, e
portanto de umas horas para cá me é simples ouvir sons que de outro modo, no
desconforto do aturdimento, se tornam inaudíveis: por exemplo o tilintar da vida, muitas
vezes, sobre a mesa de mármore do tempo, como o de pérolas caindo. O fato de ser
bufão dos viventes — esta circunstância particular.
Isto mesmo, sim, vocês devem ter dançado muito, confirmou a Mãe, eu não saberia
como dizer melhor, e por outro lado jamais gostei de tortas de frutas (muitos dos seus
silogismos eram de fato imperscrutáveis).
Tangos? inquiriu perturbado o tabelião Bertini, para quem pronunciar a palavra
Tango já trazia em si algo de sexual.
Tangos? Argentina? Com aquele clima? perguntou a Mãe, mas não se compreendeu
a quem.
Posso lhe assegurar que o tango é de origem claramente argentina, teimou o tabelião.
Então se ouviu a voz da Noiva jovem.
Vivi três anos nos pampas. Nosso vizinho ficava a dois dias de cavalo. Uma vez por
mês, um padre nos trazia a Eucaristia. Uma vez por ano fazíamos uma viagem para
Buenos Aires, pensando em assistir à Abertura da Temporada de Ópera. Mas nunca
chegamos a tempo. Era sempre muito mais longe do que imaginávamos.
Definitivamente, pouco prático, observou a Mãe. Como seu pai pretendia lhe arranjar
um marido, desse jeito?
Alguém lembrou que a Noiva jovem estava prometida ao Filho.
É óbvio, acham que não sei? Fiz só uma observação geral.
Mas é verdade, disse a Noiva jovem, eles lá dançam o tango. É lindo, disse.
Percebeu-se a misteriosa oscilação do espaço que sempre anunciava os imponderáveis
despertares do Tio.
O tango dá um passado a quem não o tem e um futuro a quem não o espera. Em
seguida voltou a adormecer.
Enquanto isso a Filha, de sua cadeira ao lado do Pai, observava, em silêncio.
Tinha a mesma idade da Noiva jovem, uma idade, diga-se de passagem, que não
tenho há muitos anos. (Agora, recordando-a, vejo apenas uma grande confusão, mas
também, coisa que me parece interessante, o desperdício de uma beleza inaudita e
inutilizada. O que por outro lado me remete à história que eu pretenderia contar, ao
menos para me salvar a vida, mas com certeza também pela simples razão de que fazê-lo é
o meu ofício.) A Filha, dizia eu. Tinha herdado da Mãe uma beleza que por aquelas
paragens soava aristocrática: uma vez que às mulheres daquela terra eram reservados
lampejos de esplendor circunscritos — o desenho dos olhos, duas pernas afortunadas, o
negro corvino dos cabelos —, mas nunca aquela perfeição completa e rotunda — fruto
aparente de melhorias seculares trazidas na procissão de infinitas gerações — que a Mãe
até então conservava e que ela, a Filha, repetia miraculosamente, sob a douradura,
ademais, da idade feliz. E até aí, tudo bem. Mas a verdade se torna evidente quando saio
da minha elegante imobilidade e me movo, deslocando cotas irremediáveis de
infelicidade, pelo fato imodificável de ser coxa. Um acidente, eu tinha uns oito anos. Uma
carroça descontrolada, um cavalo que empina de repente, em uma estreita rua entre as
casas, na cidade. Os médicos buscados no exterior, insignes, fizeram o resto, nem sequer
por incompetência, talvez por azar, mas de maneira complicada, fosse como fosse, e
dolorosa. Agora caminho arrastando uma perna, a direita, que embora desenhada à
perfeição é dotada de um peso irrazoável e desprovida da mínima ideia de como se
harmonizar ao resto do corpo. O pé se apoia pesado e um pouco morto. O braço
também não é normal, parece capaz somente de três posições, e nem mesmo muito
elegantes. Parece um braço mecânico. Assim, ver-me levantar de uma cadeira e me
aproximar, para um cumprimento ou um gesto de cortesia, é experiência estranha, de que
o termo decepção pode dar uma pálida ideia. Indescritivelmente bela, desmorono ao
mínimo passo, transformando, em um instante, admiração em piedade e todo desejo em
constrangimento.
É uma coisa que eu sei. Mas não tenho inclinação para a tristeza, nem talento para a
dor.
Enquanto a conversa passava ao tardio florescimento das cerejeiras, a Noiva jovem se
aproximou da Filha e se inclinou para beijá-la na face. A Filha não se levantou porque
naquele momento queria estar bonita. Conversaram baixinho, como se fossem velhas
amigas, ou talvez pelo desejo repentino de vir a sê-lo. Por instinto, a Filha compreendeu
que a Noiva jovem havia aprendido a distância, e jamais a desmentiria, tendo-a escolhido
como a própria, particular e inimitável forma de elegância. Será ingênua e misteriosa,
sempre, pensou. Vão adorá-la.

Depois, quando já eram retiradas as primeiras garrafas de champanhe vazias, a


conversa teve um instante de suspensão coletiva, quase mágica, e naquele silêncio a Noiva
jovem pediu licença, graciosamente, para fazer uma pergunta.
Mas é claro, meu bem.
O Filho não está?
O Filho?, repetiu a Mãe, para dar tempo ao Tio de sair de seu alhures e ajudar, mas,
visto que não acontecia nada, Ah, o Filho, claro, prosseguiu, o Filho, obviamente, meu
Filho, certo, é uma boa pergunta. Depois, voltou-se para o Pai. Querido?
Na Inglaterra, disse o Pai, com absoluta serenidade. Faz ideia do que é a Inglaterra,
senhorita?
Creio que sim.
Pois é. O Filho está na Inglaterra. Mas de modo totalmente provisório.
No sentido de que voltará?
Sem sombra de dúvida, assim que o chamarmos.
E vão chamá-lo?
É uma coisa que devemos fazer o mais depressa possível, com certeza.
Hoje mesmo, circunscreveu a Mãe, gastando certo sorriso que mantinha para as
grandes ocasiões.
Assim, à tarde — e não antes de exaurir a liturgia do desjejum —, o Pai se sentou à
escrivaninha e aceitou registrar os acontecimentos. Em geral, fazia-o com certo atraso —
refiro-me a registrar os fatos da vida, em especial aqueles que traziam certa desordem —,
mas não me agradaria que isso fosse interpretado como uma forma de letárgica
ineficiência. Era, na realidade, uma lúcida cautela de ordem médica. Como todos sabiam,
o Pai nascera com o que ele gostava de definir como “uma inexatidão do coração”,
expressão que não se deve inserir em um contexto sentimental: algo de irreparável se
estilhaçara em seu músculo cardíaco, quando ele ainda era hipótese em construção no
ventre da mãe, e assim nasceu com um coração de vidro, ao qual primeiro os médicos e
depois ele se resignaram. Não havia tratamento, mas só uma abordagem prudente, e
vagarosa, ao mundo. Segundo os compêndios, um sobressalto específico, ou uma
emoção imprevista, deveriam levá-lo embora de imediato. O Pai, contudo, sabia por
experiência que a coisa não devia ser entendida tão ao pé da letra. Compreendera que
estava emprestado à vida, e daí havia deduzido uma habituação à cautela, uma inclinação à
ordem, e a confusa certeza de fazer parte de um destino especial. A isso devem ser
remetidas sua natural bonomia e sua ocasional ferocidade. Quero acrescentar que ele não
temia a morte: mantinha com ela grande confiança, se não intimidade, a ponto de saber
com segurança que a sentiria chegar a tempo para usá-la bem.
Portanto, naquele dia, não se apressou de modo particular a registrar a chegada da
Noiva jovem. Porém, liquidadas as costumeiras incumbências, não se subtraiu à tarefa
que o esperava: debruçou-se sobre a escrivaninha e sem hesitações redigiu a mensagem
do telegrama, concebendo-a no respeito a elementares exigências de economia e na
intenção de alcançar a irrefutável clareza que se tornava necessária. Continha estas
palavras:
Retornou Noiva jovem. Apresse-se.
A Mãe, por sua vez, decidiu que não havia nada a discutir, a Noiva jovem, não
dispondo de uma residência própria, e em certo sentido nem mesmo de uma família,
visto que todos os seus haveres, assim como os parentes próximos, tinham sido
transferidos para a América do Sul, ficaria esperando ali, com eles. Como o Monsenhor
não pareceu apresentar nenhuma objeção moral, levando em conta a ausência do Filho
sob o teto familiar, pediu-se a Modesto que preparasse o quarto de hóspedes, sobre o
qual aliás todos sabiam pouco, já que nunca hospedavam ninguém. De qualquer modo,
estavam mais ou menos seguros de que o aposento existia. Na última vez, existia.
Não será necessário nenhum quarto de hóspedes, ela dormirá comigo, disse
tranquila a Filha. Disse isso sentada e, quando estava assim, sua beleza era daquelas à
qual não se fazem objeções.
Naturalmente, se for do seu agrado, acrescentou a Filha, buscando o olhar da Noiva
jovem.
É, sim, disse a Noiva jovem.

E assim começou a fazer parte da Casa, justamente onde havia imaginado entrar
como esposa, e em vez disso via-se agora como irmã, filha, hóspede, presença bem-
vinda, decoração. Resultaram-lhe naturais esses papéis, e rápida a aprendizagem de
modos e tempos de um viver que não conhecia. Notava a estranheza dessas coisas, mas
raramente chegava a suspeitar do absurdo de tudo. Alguns dias após sua chegada,
Modesto veio procurá-la e respeitosamente explicou que, se ela sentisse necessidade de
algum esclarecimento, para ele seria um privilégio poder informá-la.
Existem regras que me escaparam?, perguntou a Noiva jovem.
Se me permitir, sublinharei apenas quatro, até para não ser dispersivo, disse ele.
Certo.
A noite é temida, imagino que a senhorita já tenha sido informada disso.
Sim, claro. Achei que fosse uma lenda, mas compreendi que não é.
De fato. E esta é a primeira regra.
Temer a noite.
Respeitá-la, digamos assim.
Respeitá-la.
Exato. Segunda: a infelicidade não é bem-vinda.
Ah, não?
Não me entenda mal, a coisa deve ser compreendida dentro da perspectiva correta.
Que seria?
Ao longo de três gerações, a Família acumulou uma fortuna considerável, e se a
senhorita chegasse a se perguntar de que modo semelhante resultado foi alcançado, eu
me permito sugerir a resposta: talento, coragem, maldade, erros afortunados e um
profundo, coerente, indefectível senso de economia. Quando falo de economia, não me
refiro só ao dinheiro. Esta família não desperdiça nada. Está me acompanhando?
Claro.
Veja, aqui as pessoas se inclinam a crer que a infelicidade é um desperdício de tempo,
e portanto uma forma de luxo que, ainda por certo número de anos, ninguém poderá se
permitir. Talvez um dia. Mas, por enquanto, a nenhuma circunstância da vida, por mais
penosa que seja, é concedido roubar aos ânimos algo mais do que uma momentânea
desorientação. A infelicidade rouba tempo à alegria, e na alegria se constrói
prosperidade. Se a senhorita pensar nisso um instante, é muito simples.
Posso levantar uma objeção?
Por favor.
Se eles são maníacos a tal ponto pela economia, como encarar aqueles desjejuns?
Não são desjejuns, são ritos de agradecimento.
Ah.
E também eu falei de senso de economia, não de avareza, esta sim, uma característica
totalmente estranha à Família.
Entendi.
Tenho certeza, são nuances que a senhorita seguramente é capaz de captar.
Obrigada.
Haveria uma terceira norma sobre a qual eu chamaria sua atenção, se é que ainda
posso aproveitar sua disponibilidade.
Aproveite. Por mim, eu ficaria escutando o senhor durante horas.
Costuma ler livros?
Sim.
Não faça isso.
Não?
A senhorita vê livros nesta casa?
Não… Na verdade, agora que o senhor me fez notar, não.
Pois é. Não há livros.
Por quê?
Na Família existe uma grande confiança nas coisas, nas pessoas, e em si mesmos. Não
se vê a necessidade de recorrer a paliativos.
Não estou segura de ter compreendido.
Já existe tudo na vida, desde que se tome o cuidado de escutá-la. Os livros distraem
inutilmente dessa tarefa, que todos cumprem com tanta dedicação, nesta família, que um
homem absorto na leitura, nestes aposentos, não deixaria de parecer um desertor.
Surpreendente.
Discutível, melhor dizendo. Mas considero oportuno sublinhar que se trata de uma
norma tácita que nesta casa é interpretada com muito rigor. Posso fazer-lhe uma modesta
confissão?
Seria uma honra para mim.
Eu adoro ler, então mantenho um livro escondido, no meu quarto, e dedico tempo a
ele, antes de dormir. Nunca mais de um, porém. Quando termino a leitura, eu destruo o
exemplar. Não é para sugerir que a senhorita faça o mesmo, só para demonstrar a
seriedade da situação.
Creio que compreendi, sim.
Que bom.
Havia uma quarta regra?
Sim, mas é pouco mais do que uma obviedade.
Diga.
Como sabe, o Pai tem uma inexatidão no coração.
Certo.
Não espere que ele se desvie de uma genérica e inevitável placidez. Nem lhe exija isso,
naturalmente.
Naturalmente. Ele corre mesmo o risco de morrer a qualquer momento, como
dizem?
Temo que sim. Mas a senhorita deve levar em conta que no período diurno ele
praticamente não corre nenhum risco.
Ah, sei.
Bom, creio que é tudo, por enquanto. Não, mais uma coisa.
Modesto hesitou. Estava se perguntando se era necessário proceder à alfabetização da
Noiva jovem, ou se esse seria um esforço inútil, se não até mesmo imprudente. Guardou
o silêncio por um momento, antes de emitir dois leves pigarros, algo secos, e próximos
um do outro.
Acha que pode memorizar o que acaba de ouvir?
Os pigarros?
Não são pigarros, são um alerta. Tenha a bondade de considerá-los um respeitoso
sistema, de minha parte, para deixá-la em guarda, se necessário, quanto a possíveis erros.
Por favor, eu gostaria de ouvi-los de novo…
Modesto produziu uma réplica exata da mensagem laríngea.
Dois pigarros secos e próximos, entendi. Prestar atenção.
Exato.
Há muitos outros?
Mais do que estou disposto a lhe revelar antes do casamento, senhorita.
Certo.
Agora, realmente devo ir.
O senhor foi muito útil, Modesto.
Era o que eu desejava conseguir ser.
Posso retribuir de algum modo?
O velho ergueu o olhar para ela. Por um instante, sentiu-se disposto a formular um
dos pedidos infantis que sem hesitação assomaram à sua mente, mas logo recordou o
quanto as distâncias dimensionavam a humildade e a grandeza de seu ofício, então baixou
o olhar e, fazendo uma reverência quase imperceptível, limitou-se a dizer que sem dúvida
não faltaria oportunidade. Afastou-se dando os primeiros passos para trás e em seguida
girando sobre si mesmo, como se uma rajada de vento, e não uma opção desrespeitosa
de sua parte, tivesse decidido por ele — técnica na qual era mestre insuperável.

Mas havia também os dias diferentes, obviamente.


A cada duas quintas-feiras, por exemplo, o Pai se dirigia de manhã cedo à cidade:
muitas vezes acompanhado por seu cardiologista de confiança, o dr. Acerbi, comparecia
ao banco, passava pelos prestadores também de confiança — alfaiate, barbeiro, dentista,
mas também charutos, sapatos, chapéus, bengalas e, de vez em quando, confessores —,
encaixava no momento oportuno um almoço significativo, e por fim se concedia o que
costumava definir como um giro elegante. A elegância era conferida pelo passo adotado e
pelo percurso escolhido: nunca displicente, o primeiro; escolhido pelas ruas do centro, o
segundo. Quase regularmente concluía a jornada no bordel, mas, considerando a
inexatidão do coração, interpretava a coisa como um procedimento, por assim dizer,
higiênico. Convencido de que certo desafogo dos humores era necessário ao equilíbrio
do seu organismo, havia encontrado na disponibilidade daquela casa quem sabia evocá-lo
de modo quase indolor, entendendo-se por dor qualquer excitação que pudesse rachar o
vidro do seu coração. Exigir da Mãe semelhante prudência seria inútil, e por outro lado
os dois dormiam em quartos separados porque, mesmo amando-se profundamente, não
tinham escolhido um ao outro, como se verá, por razões relativas aos respectivos corpos.
Do bordel o Pai saía no final da tarde, para tomar o caminho do retorno. Ao fazê-lo,
refletia: e ali tinham origem, muitas vezes, suas decisões ferozes.
Todo mês, mas em dias variáveis, chegava Comandini, o gerente comercial da
empresa, anunciado quarenta e oito horas antes por um telegrama. Então qualquer
hábito era sacrificado à urgência dos negócios, os convites suspensos, o desjejum
reduzido ao mínimo, e a vida da Casa entregue à torrencial exposição daquele
homenzinho de gestos nervosos que sabia, por insondáveis caminhos seus, o que as
pessoas gostariam de vestir no ano seguinte, ou como induzi-las a desejar os tecidos que
o Pai decidira produzir no ano anterior. Raramente errava, podia negociar em sete
idiomas, esbanjava tudo no jogo e tinha predileção por mulheres ruivas. Anos antes saíra
ileso de um pavoroso acidente de trem: desde então tinha parado de comer carnes
brancas e de jogar xadrez, mas sem dar explicações.
Na quaresma reduzia-se a espetacularidade dos desjejuns, nos dias de festa todos se
vestiam de branco, e na noite do Santo Padroeiro, que caía em junho, varavam a noite
entregues a jogos de azar. No primeiro sábado do mês fazia-se música, reunindo alguns
diletantes da região e, raramente, algum cantor profissional, depois recompensado com
paletós de tweed inglês. No último dia de verão o Tio organizava uma corrida de bicicleta
aberta a todos, e no Carnaval contratava-se fazia anos um mágico húngaro que com a
idade se tornara pouco mais do que um animador bonachão. No dia da Imaculada
Conceição matava-se o porco sob a orientação de um salsicheiro famoso por sua
gagueira, e em novembro, nos anos em que a névoa ficava espessa até atingir ofensivas
densidades, organizava-se, muitas vezes por decisão repentina e ditada pela exasperação,
um baile algo solene em que, por desapreço à escuridão láctea do lado de fora, cuidava-se
de acender um número de velas surpreendente sob qualquer aspecto: era como se um sol
tremulante de final de tarde estival brigasse na sala com o parquê, desatando passos de
dança que remetiam todos a certo Sul da alma.
Em contraposição, os dias normais, na verdade, como foi dito, considerando a
realidade dos fatos e querendo expressar a coisa de maneira sintética — esses eram todos
maravilhosamente iguais.
Daí resultava uma espécie de ordem dinâmica que, em família, era considerada
impecável.

Enquanto isso, tinha-se chegado a junho, resvalando sobre telegramas ingleses que
solapavam o retorno do Filho de modo quase invisível, mas afinal sensato, razoáveis
como eram, e precisos. Acabou que antes dele chegou o Grande Calor — opressivo,
impiedoso, pontual a cada verão, naquelas terras — e despencou em cima da Noiva
jovem, em graus que ela dificilmente recordava após sua vida argentina, reconhecendo-o
por fim com definitiva exatidão uma noite, na escuridão oleosa de umidade, ao se revirar
na cama, por esta vez insone, ela que entrava no sono como em uma bem-aventurança,
única naquela casa. Revirava-se e, com um gesto que a surpreendeu, arrancou
nervosamente a camisola, deixando-a cair ao acaso, e em seguida girou-se de lado, a pele
nua sobre os lençóis de linho, para receber a dádiva de um frescor provisório. Fez isso
com naturalidade porque a escuridão era compacta no quarto, e a Filha, em sua cama, a
poucos passos de distância, uma companheira com quem eu já estabelecera uma
intimidade fraternal. Conversávamos, habitualmente, apagada a luz, pelo tempo de
algumas frases, de algum segredo, depois nos despedíamos para entrar na noite e agora
pela primeira vez eu me perguntava o que era aquela espécie de canto circular que da
cama da Filha subia toda noite, apagada a luz e exauridos os segredos e as palavras,
depois da saudação habitual — subia para oscilar no ar por um tempo longo cujo fim eu
nunca ouvia, caindo sempre no sono, eu sozinha, naquela casa, sem terror. Mas não era
um canto — havia uma nuance de gemido, como de animal — e naquela noite oprimente
de verão tive vontade de compreendê-lo porque o calor me mantinha desperta e meu
corpo sem roupas me tornava diferente. Então, por um instante, deixei o canto oscilar no
ar, para compreendê-lo melhor, e depois, no escuro, sem preâmbulos, perguntei
tranquila: O que é?
O canto parou de oscilar.
Por um momento só houve silêncio.
Depois a Filha disse Não sabe o que é?
Não.
Mesmo?
Mesmo.
Como é possível?
A Noiva jovem conhecia a resposta, sabia exatamente qual era o dia em que havia
escolhido aquela ignorância e poderia explicar em detalhes por que a tinha escolhido.
Mas se limitou a dizer: Não sei.
Ouviu a Filha esboçar uma risada, e depois alguns minúsculos rumores, e o riscar de
um fósforo que em seguida brilhava e se aproximava do pavio — por um instante a luz
do lampião a óleo pareceu fortíssima, mas logo as coisas ganharam contornos
cautelosos, precisos, todas as coisas, inclusive o corpo nu da Noiva jovem, que não se
moveu, permanecendo tal como estava, e a Filha o viu, e sorriu.
É o meu modo de entrar na noite, disse. Se não fizer assim não consigo adormecer, é
o meu modo.
É mesmo tão difícil?, perguntou a Noiva jovem.
O quê?
Entrar na noite, para vocês.
Sim. Acha engraçado?
Não, mas é misterioso, não é fácil de entender.
Você sabe toda a história?
Não toda exatamente.
Não há ninguém que tenha morrido durante o dia, nesta família, isso você sabe.
Sim. Não acredito, mas sei. Você acredita?
Eu conheço a história de todos os mortos durante a noite, um por um, desde quando
era pequena.
Talvez sejam apenas lendas.
Três eu vi.
É normal, muita gente morre de noite.
Sim, mas não todos. Aqui, até os bebês que nascem de noite nascem mortos.
Você está me amedrontando.
Veja, você começou a compreender — e nesse momento a Filha arrancou a camisola,
com um gesto preciso do braço bom. Arrancou a camisola e virou-se de lado, como a
Noiva jovem — nuas, olhavam-se. Tinham a mesma idade, e era a idade em que não
existe feiura porque tudo é luminoso na luz do princípio.
Calaram-se um pouco, precisavam se olhar.
Depois a Filha disse que estava com quinze, dezesseis anos, quando tivera a ideia de
rebelar-se contra essa história das mortes noturnas, e pensara seriamente que eram todos
malucos, e o havia feito de um modo que agora recordava como muito violento. Mas
ninguém se assustou, disse. Deixaram passar algum tempo. Até que um dia o Tio
mandou que eu me deitasse ao seu lado. Fiz isso e esperei que ele acordasse. Com os
olhos fechados, me falou demoradamente, talvez no sono, e explicou que cada um é
senhor da sua vida, mas uma coisa não depende de nós, porque a recebemos na herança
do sangue e não faz sentido rebelar-se porque é uma perda de tempo e de energias.
Então respondi que era idiota pensar que um destino podia ser transferido de pai para
filho, e que a própria ideia de destino era uma fantasia, uma fábula para justificar as
próprias vilezas. Acrescentei que eu morreria na luz do dia, nem que me matasse entre
uma alvorada e um ocaso. Ele dormiu muito tempo, mas afinal abriu os olhos e disse
que naturalmente não, não existe o destino, e o que se herda não é isso, era só o que
faltava. É algo muito mais profundo e animal. Herda-se o medo, disse. Um medo
específico.
A Noiva jovem viu que a Filha, enquanto falava, tinha aberto ligeiramente as pernas e
em seguida fechado, depois de esconder ali uma das mãos, que agora mantinha entre as
coxas, e de vez em quando movia lentamente.
Então me explicou que é um contágio sutil e me demonstrou como em cada gesto,
em cada palavra, pais e mães não fazem senão transmitir um medo. Até mesmo quando
aparentemente estão ensinando solidez e soluções, e em última análise sobretudo quando
estão ensinando solidez e soluções, estão na realidade transmitindo um medo, porque
tudo o que eles conhecem de sólido e resolutivo não passa daquilo que encontraram
como remédio contra o medo, e muitas vezes contra um medo específico, circunscrito.
Assim, quando as famílias parecem ensinar a felicidade às crianças, na verdade estão
infectando-as com um medo. E é o que fazem a cada hora, ao longo de uma
impressionante série de dias, sem relaxar um só instante, na mais absoluta impunidade,
com uma eficácia pavorosa e sem que se possa de modo algum interromper o círculo das
coisas.
A Filha separou um pouco as pernas.
Então, tenho medo de morrer durante a noite, disse, e só tenho um modo para entrar
no sono, o meu.
A Noiva jovem permaneceu em silêncio.
Fitava a mão da Filha, o que fazia. Os dedos.
O que é?, perguntou outra vez.
Em vez de responder, a Filha fechou os olhos e virou-se de costas, buscando uma
posição que conhecia. Mantinha uma das mãos como uma concha apoiada sobre o
ventre, e com os dedos procurava. A Noiva jovem se perguntou onde já havia visto aquele
gesto, e era tão nova para aquilo que estava descobrindo que por fim se lembrou, e era o
dedo de sua mãe procurando numa caixa de botões o pequenino de madrepérola que ela
havia reservado para os pulsos da única camisa do marido. Obviamente tratava-se ali de
outra região do ser, mas sem dúvida o gesto era igual, ou pelo menos o foi até começar a
ser circular de um modo muito veloz, ou violento, para ser apenas um modo de
procurar, ao passo que se tornara sobretudo um modo de caçar — veio-lhe à mente a
caça a um inseto, ou um modo de matar algo pequeno. De fato a Filha de repente
começou a arquear as costas, de vez em quando, e a respirar estranhamente — uma
espécie de agonia. Elegante, ainda assim, pensou a Noiva jovem, e até atraente, pensou:
seja lá o que a Filha estivesse eliminando dentro de si, seu corpo parecia ter nascido para
aquele delito, a tal ponto se dispunha com justeza no espaço, como uma onda,
desaparecidas até mesmo as deformidades de aleijada, desaparecidas no vazio — qual era
o braço anormal, ninguém saberia dizer, qual das pernas abertas era a defeituosa, não
seria possível recordar.
Parou de matar por um instante, mas sem se voltar nem abrir os olhos, e perguntou:
Você realmente não sabe o que é?
Não, respondeu a Noiva jovem.
A Filha riu, de um jeito bonito.
Está falando a verdade?
Sim.
Então a Filha iniciou aquele canto circular, semelhante ao lamento, que a Noiva jovem
sabia mas não sabia, e de novo voltou à minúscula ocisão, mas como se tivesse decidido
manter, enquanto isso, uma espécie de prudência que ainda conservava. Movia os
quadris, agora, e quando jogou a cabeça para trás sua boca se abriu um pouco, de um
modo que me pareceu a ultrapassagem de um limite e soou como uma revelação: cheguei
a pensar, mas como em um lampejo, que, embora fosse proveniente de longe, o rosto da
Filha tinha nascido para acabar ali, naquela onda aberta que agora se dobrava sobre o
travesseiro. Era tão verdadeiro, e último, que toda a beleza da Filha — aquela com a qual
encantava o mundo durante o dia — me surgiu de repente como aquilo que era, ou seja,
uma máscara, um subterfúgio — ou pouco mais que uma promessa. Perguntei-me se era
assim para todos, e também para mim, mas depois a pergunta que fiz em voz alta — em
voz baixa — foi outra e de novo a mesma.
O que é?
A Filha, sem se deter, abriu os olhos e voltou a mirar a Noiva jovem. Mas não parecia
que mirava de verdade, seus olhos fitavam outro lugar, e a boca estava levemente aberta.
Ela continuava com aquele canto circular, não parava os dedos, não falava.
Incomoda você que eu observe?, perguntou a Noiva jovem.
A Filha fez um gesto negativo com a cabeça. Continuou se acariciando sem falar.
Estava em algum lugar, dentro de si mesma. Mas como seus olhos pousavam sobre a
Noiva jovem, pareceu à Noiva jovem que já não havia nenhuma distância entre elas, física
ou imaterial, e assim fez outra pergunta.
É assim que você elimina seu medo? Procura-o e o mata?
A Filha então girou de novo a cabeça, fitando por um instante o teto e depois
fechando os olhos.
É como se desprender, disse. De tudo. Convém não ter medo e ir até o fim, disse.
Então você se desprende de tudo e um cansaço imenso a carrega para a noite,
presenteando você com o sono.
Depois voltou aquele rosto derradeiro, sobre seus traços, a cabeça jogada para trás e
a boca entreaberta. O canto circular recomeçou e, entre as pernas, os dedos fizeram-se
velozes, de vez em quando desaparecendo. Parecia perder pouco a pouco a capacidade de
respirar, e a certa altura foi invadida por uma pressa que a Noiva jovem poderia tomar
por uma pressa desesperada se não tivesse acabado de aprender que era justamente aquilo
que a Filha buscava, toda noite, apagada a luz, descendo a um ponto dentro de si mesma
que de algum modo devia lhe resistir se agora eu a via extenuar-se para exumar com a
ponta dos dedos alguma coisa que a etiqueta do viver evidentemente sepultara no
decorrer de uma longa jornada. Era uma descida, quanto a isso não havia dúvida, e
parecia tornar-se a cada passo mais íngreme, ou arriscada. Depois ela começou a tremer,
e continuou assim até que o canto circular se rompeu. Enovelou-se, então, virando-se de
lado, dobrando as pernas e recolhendo a cabeça entre os ombros — eu a vi transformada
em uma menina, enrodilhada sobre si mesma, as mãos escondidas entre as pernas, o
queixo apoiado no peito, a respiração voltando.
O que foi que eu vi, pensei.
O que devo fazer agora, pensei. Não me mexer, não fazer ruído. Dormir.
Mas a Filha abriu os olhos, buscou os meus e, com estranha firmeza, disse alguma
coisa.
Não compreendi, e então a Filha repetiu o que havia dito, porém com voz mais alta.
Experimente.
Não me movi. Não falei nada.
A Filha me fitava, com uma brandura tão ilimitada que parecia maldade. Estendeu um
braço e baixou a luz do lampião.
Experimente, repetiu.
E em seguida mais uma vez.
Experimente.
Foi nesse instante que voltou à mente da Noiva jovem, fulminante, aquilo que agora
eu deveria contar, um episódio de nove anos antes, tal como cheguei a reconstituí-lo
recentemente, de noite. Especifico de noite, porque me sucede esta coisa de acordar de
repente a certa hora da madrugada, antes do alvorecer, e com grande lucidez calcular a
ruína da minha vida, ou pelo menos seu geométrico apodrecimento, como de fruta
deixada em um canto: eu combato isso, justamente, reconstituindo essa história, ou
outras histórias, coisa que ocasionalmente me leva para longe dos meus cálculos —
outras vezes não leva a lugar nenhum. Meu pai faz a mesma coisa imaginando percorrer
um campo de golfe, buraco após buraco. Especifica que é um campo de nove buracos. É
um sujeito simpático, tem oitenta e quatro anos. Por mais que neste momento me pareça
inacreditável, ninguém pode afirmar se ele ainda estará vivo quando eu tiver escrito a
última página deste livro: em geral, TODOS os que estão vivos enquanto você escreve
um livro deveriam continuar vivos quando você o termina, e isso pela elementar razão de
que escrever um livro é, para quem o faz, coisa de um instante, ainda que longuíssimo,
por conseguinte seria irrazoável pensar que alguém possa morar dentro dele vivo e
morto, simultaneamente, muito menos meu pai, homem simpático, que à noite, para
dissipar os demônios, joga golfe mentalmente, escolhendo os tacos de ferro e dosando a
força da tacada, ao passo que eu, diferentemente dele, como falei, desenterro esta história,
ou outras. O que me leva, pelo menos, a saber com certeza o que à Noiva jovem
aconteceu recordar, de repente, enquanto a Filha a fitava dizendo uma só palavra,
Experimente. Sei que fulminante foi uma lembrança que ela jamais abandonara, pelo
contrário, guardara ciosamente por nove anos, e precisamente a lembrança de quando,
numa manhã de inverno, a avó mandou chamá-la ao seu quarto, onde, não ainda velha,
estava tentando morrer sem desordem, num leito suntuoso, acuada por uma doença que
ninguém tinha conseguido explicar. Por mais absurdo que possa parecer, sei com
exatidão quais foram as primeiras palavras que a avó lhe disse — as palavras de uma
moribunda a uma menina.
Como você é pequena.
Justamente essas palavras.
Mas não posso esperar que você cresça, estou morrendo, esta é a última vez em que
posso lhe falar. Se não entender, escute e grave tudo na mente: mais cedo ou mais tarde,
entenderá. Está claro?
Sim.
Só estavam elas duas, no quarto. A avó falava em voz baixa. A Noiva jovem a temia e a
adorava. Era a mulher que havia parido seu pai, portanto era para ela indiscutível, e
solenemente remota. Quando lhe ordenou sentar-se e puxar a cadeira para perto do leito,
pensou que nunca lhe estivera tão próxima, e com curiosidade se deu conta de que podia
sentir o cheiro dela: não era cheiro de morte, mas de ocaso.
Preste atenção, menina. Eu cresci como você, era a única filha fêmea no meio de
muitos filhos machos. Não contando os mortos, somavam seis. Mais um: meu pai.
Nossa família é gente que trabalha com animais, desafia a terra a cada dia e raramente se
permite o luxo de pensar. As mães envelhecem depressa, as filhas têm traseiros duros e
seios brancos, os invernos são intermináveis, os verões tórridos. Consegue entender
qual é o problema?
Obscuramente, mas a Noiva jovem podia entendê-lo.
A avó abriu os olhos e fitou a neta.
Não pense que vai se safar escapulindo. Eles correm mais depressa do que você. E
quando não querem correr, esperam que você volte, e depois atacam.
A avó fechou os olhos e fez uma careta, porque algo dentro dela a estava devorando e
o fazia com mordidas, repentinas e imprevisíveis. Quando passava, ela recomeçava a
respirar e cuspia no chão um líquido fedorento, tingido de cores que só a morte pode
inventar.
Sabe o que fiz?, perguntou.
A Noiva jovem não sabia.
Fiz me desejarem até que ficassem doidos, depois me entreguei, e depois os mantive
presos pelos colhões por toda a vida. Já se perguntou quem manda nesta família?
A Noiva jovem acenou que não com a cabeça.
Eu, imbecil.
Outra mordida me tirou o fôlego. Cuspi aquele troço, já nem queria saber onde. Só
tomava o cuidado de não cuspir sobre mim. Aquilo ia parar nas cobertas, nem caía mais
no chão.
Tenho cinquenta e três anos, estou à beira da morte e posso lhe dizer com segurança
uma coisa: não faça como eu. Não é um conselho, é uma ordem. Não faça como eu.
Entendeu?
Por quê?
Perguntou com uma voz adulta, quase agressiva. De uma hora para outra já não havia
nela nada de criança. Tinha ficado aborrecida, de repente. A coisa me agradou.
Empertiguei-me um pouco no travesseiro e compreendi que com aquela menina eu
podia ser dura, má e fantástica tal como havia sido, com grande prazer, a cada instante
daquela vida que agora me fugia a fisgadas no ventre.
Porque não funciona, respondi. Todos ficam malucos, não há mais nada que se ajeite,
e mais cedo ou mais tarde você se vê de barriga.
Como assim?
Seu irmão vem para cima de você, mete o passarinho e lhe deixa um filho no bucho.
Quando não é seu pai que faz isso. Ficou claro agora?
A Noiva jovem permaneceu impassível. Mais claro, sim.
Não imagine que seja uma coisa desagradável. Na maioria das vezes, deixa você
enlouquecida.
A Noiva jovem não disse nada.
Mas isso você não pode entender agora. Limite-se a gravar na mente minhas palavras.
Está claro?
Sim.
Portanto, não faça como eu, está tudo errado. Eu sei o que você deve fazer, preste
bem atenção, vou lhe dizer o que deve fazer. Chamei você aqui para dizer o que deve
fazer.
Tirou as mãos de sob as cobertas, precisava delas para se explicar. Eram mãos feias,
mas se via que, se dependesse delas, ainda esperariam um bom tempo antes de acabar
embaixo da terra.
Isso que você tem no meio das pernas, esqueça. Não basta esconder. Deve esquecer.
Nem mesmo você deve saber que tem essa coisa. Não existe. Esqueça que é uma mulher,
não se vista como mulher, não se mova como mulher, corte os cabelos, mova-se como
um rapaz, não se olhe no espelho, arruíne as mãos, resseque a pele, nunca deseje ser
bonita, não procure agradar a ninguém, nem sequer a você mesma. Tem que causar
repulsa, e então eles a deixam em paz, se esquecem de você. Está me entendendo?
Acenei que sim com a cabeça.
Não dance, nunca durma com eles, não se lave, acostume-se a feder, não olhe os
outros homens, não faça amizade com nenhuma mulher, prefira os trabalhos mais duros,
mate-se de cansaço, não acredite nas histórias de amor e nunca sonhe de olhos abertos.
Eu escutava. A avó me olhou bem, para ter certeza de que eu a escutava. Depois
baixou a voz, e então se percebia que estava para vir a parte mais difícil.
Mas preste muita atenção a uma coisa: guarde nos olhos e na boca a mulher que você
é, jogue tudo fora mas conserve os olhos e a boca: um dia você vai precisar deles.
Ficou pensando um instante.
Se realmente for inevitável, renuncie aos olhos, acostume-se a olhar para o chão. Mas
salve a boca, do contrário não vai saber por onde recomeçar, quando lhe for necessário.
A Noiva jovem a observava com olhos que haviam se tornado enormes.
Quando me vai ser necessário?, perguntou.
Quando você encontrar um homem que lhe agrade. Vá buscá-lo e case-se com ele, é
uma coisa que convém fazer. Mas você deverá ir buscá-lo, e então vai precisar de sua
boca. E em seguida dos cabelos, das mãos, dos olhos, da voz, da astúcia, da paciência e
da habilidade do ventre. Terá que reaprender tudo desde o início: faça isso depressa,
senão eles vão chegar antes desse homem. Compreende o que eu quero dizer?
Sim.
Verá que tudo vai voltar em um instante. Você deve somente se apressar. Escutou
bem?
Sim.
Então repita.
A Noiva jovem fez isso, palavra por palavra, e quando não se lembrava da palavra
certa usava uma das suas.
Você é uma mulher esperta, disse a avó. Disse exatamente mulher.
Esboçou um gesto no ar, talvez fosse uma carícia não feita.
E agora vá, disse.
Tinha sentido uma daquelas mordidas, soltou um ganido, de animal. Voltou a
colocar as mãos sob as cobertas, para apertar onde a morte comia, no ventre.
A Noiva jovem se levantou e por um tempinho ficou imóvel, ao lado da cama.
Pretendia perguntar uma coisa, mas não era fácil encontrar o jeito.
Meu pai, falei. E logo travei.
A avó se voltou para me esquadrinhar, com olhos de animal acuado.
Mas eu era uma menina esperta, portanto não me detive e perguntei Meu pai nasceu
daquele modo lá?
Que modo?
Meu pai nasceu de um homem da nossa família, daquele modo lá?
A avó me encarou e o que ela pensou eu posso compreender hoje: que nunca se
morre verdadeiramente, porque o sangue continua, levando consigo pela eternidade todo
o melhor e o pior de nós.
Deixe-me morrer em paz, menina, respondeu. Agora me deixe morrer em paz.
Por isso, naquela noite tórrida, quando a Filha, fitando-me com uma mansidão que
podia também ser maldade, me repetiu que experimentasse, e portanto que recordasse o
que eu tinha entre as pernas, eu soube de imediato que não era um momento qualquer, e
sim o encontro de que minha avó havia me falado, enquanto cuspia morte ao redor: à
Filha, aquilo podia parecer um jogo, mas para mim era um limiar. Eu o adiara
sistematicamente, com uma determinação feroz, porque também havia herdado um medo,
como todos, e dedicado a ele boa parte da minha vida. Tinha conseguido fazer o que me
ensinaram. Mas, desde quando conheci o Filho, sabia que agora faltava o último gesto,
talvez o mais difícil. Devia reaprender tudo desde o início, e agora que ele estava
chegando convinha fazer isso depressa. Pensei que a voz mansa da Filha — a voz maldosa
da Filha — era um presente da sorte. E, já que ela me dizia que experimentasse, obedeci e
experimentei, sabendo perfeitamente que estava tomando um caminho sem retorno.
Como acontece às vezes na vida, percebeu que sabia muito bem o que fazer, embora
ignorasse o que estava fazendo. Era um début e um baile, teve a impressão de haver
trabalhado nisso durante anos, em horas de exercício das quais agora não tinha memória.
Deixou tudo seguir sem pressa, esperava que os gestos certos chegassem, vinham com
um ritmo de lembranças, desconexas mas exatas até o detalhe. Gostou quando a
respiração começa a soar na voz, e dos momentos em que é o caso de parar. Na mente
não tinha pensamentos, até lhe ocorrer que desejava se ver, senão de tudo isso só lhe
restaria uma sombra feita de sensações, e ela queria uma imagem, verdadeira. Então abriu
os olhos, e o que viu permaneceu durante anos em minha mente como uma imagem
capaz, em sua simplicidade, de explicar coisas, ou de identificar um início, ou de excitar a
fantasia. Sobretudo o primeiro lampejo, no qual tudo era inesperado. Não me deixou
mais. Porque a gente nasce muitas vezes, e naquele lampejo eu tinha nascido para uma
vida que depois viria a ser a minha mais verdadeira, e irremediável, e violenta. Assim, até
hoje, quando tudo já aconteceu, e é a estação dos esquecimentos, me seria difícil recordar
se de fato a Filha a certa altura realmente se ajoelhou ao lado da minha cama, e me
acariciou os cabelos e me beijou as têmporas, coisa que eu talvez tenha apenas sonhado,
mas ainda recordo com absoluta precisão que de fato ela me comprimiu a boca com uma
mão quando eu, no fim, não consegui sufocar um grito, e disso tenho certeza, porque
ainda posso recordar o sabor daquela mão e o estranho instinto de lambê-la, como faria
um animal.
Se você gritar vai ser descoberta, disse-lhe a Filha, afastando a mão da boca da Noiva
jovem.
Eu gritei?
Sim.
Que vergonha.
Por quê? É só que podem descobri-la.
Que cansaço.
Durma.
E você?
Durma, eu vou dormir.
Que vergonha.
Durma.
Na manhã seguinte, à mesa dos desjejuns, tudo lhe pareceu mais simples, e, por
razões incompreensíveis, tudo mais lento. Percebeu que deslizava pelas conversas e que se
esgueirava delas com uma facilidade da qual nunca se consideraria capaz. Não era uma
impressão somente sua. Intuiu um véu de galanteria em um pequeno gesto do Inspetor
dos Correios e convenceu-se de que os olhos da Mãe verdadeiramente a viam, até com
um instante de hesitação, quando passavam sobre ela. Buscou com o olhar a taça de
creme, à qual não tinha ainda ousado aspirar e, antes mesmo de encontrá-la, viu que
Modesto a estendia para ela com o comentário de dois inequívocos pigarros. Ela o
encarou, sem compreender. Ele, estendendo-lhe o creme, fez uma reverência em que
escondeu uma frase quase imperceptível, mas claríssima.
Brilhe, hoje, senhorita. Tome cuidado.

O Filho começou a chegar em meados de junho, e a todos pareceu claro, após alguns
dias, que aquilo levaria um tempo. A primeira coisa a ser entregue foi uma pianola
dinamarquesa, desmontada, e até aí se podia inclusive pensar que um fragmento
enlouquecido tivesse fugido à lógica que o Filho dera seguramente ao transporte de seus
objetos, acabando por preceder, com certo efeito cômico, o grosso da expedição. Mas no
dia seguinte foram entregues dois carneiros galeses da raça Fordshire, assim como um
baú lacrado e identificado com a escrita MATERIAL EXPLOSIVO. Seguiram-se, em
cadência cotidiana, um tecnígrafo produzido em Manchester, três quadros de naturezas-
mortas, a maquete de um estábulo escocês, um uniforme de operário, um par de rodas
dentadas de difícil destinação, doze mantas de lã levíssima, uma chapeleira vazia e um
painel com os horários da estação londrina de Waterloo. Como a procissão não parecia
prever um fim, o Pai se sentiu no dever de tranquilizar a Família esclarecendo que estava
tudo sob controle e que, tal como o Filho havia tratado de lhe anunciar por carta, o
retorno da Inglaterra estava acontecendo dentro das maneiras mais apropriadas a evitar
inúteis superposições e danosas complicações. Modesto, que tivera suas dificuldades em
instalar os dois carneiros da raça Fordshire, permitiu-se um pigarro seco, e então o Pai
teve de acrescentar que convinha levar em conta um mínimo de incômodo. Como
Modesto parecia não ter resolvido seus problemas laríngeos, o Pai concluiu assegurando
que lhe parecia razoável prever a chegada do Filho a tempo para o veraneio.
O veraneio, em família, era um aborrecido costume que se resolvia em duas semanas
passadas nas montanhas francesas: em geral era interpretado como um dever e suportado
por todos com elegante resignação. Quando chegava o momento, era tradição deixar a
casa completamente vazia, e isso por um instinto de origem camponesa, que tinha a ver
com a rotação das culturas: pensava-se que ela devia ser deixada em repouso a fim de que,
no retorno, fosse possível voltar a semear, com sucesso, a efervescência dos membros da
Família, seguros de poder contar com a costumeira e abundante colheita. Por esse
motivo, os serviçais eram mandados para suas casas, e até Modesto era convidado a
dispor daquilo que outros chamariam de férias e ele interpretava como uma suspensão
imotivada do tempo. Via de regra, tudo acontecia em torno do feriado de 15 de agosto:
devia-se deduzir, por conseguinte, que a procissão de objetos ainda se prolongaria
durante uns cinquenta dias. Estava-se em meados de junho.
Não entendi, ele chega ou não chega?, perguntou a Noiva jovem à Filha quando
ficaram sozinhas, terminado o desjejum.
Está chegando, a cada dia chega um pouco, acabará de chegar dentro de um mês, se
tanto, respondeu a Filha. Você sabe como ele é, acrescentou.
A Noiva jovem sabia como ele era, mas não muito bem, nem em detalhes, nem de
modo particularmente claro. Na realidade, o Filho lhe agradara justamente porque não
era compreensível, ao contrário de todos os outros rapazes de sua idade, em quem não
havia nada a compreender. Na primeira vez em que os dois se viram, ele a impressionou
pela elegância de doente com que exibia os gestos, e por certa beleza de moribundo.
Estava muitíssimo bem, que ela soubesse, mas uma pessoa com os dias contados se
moveria como ele, e sobretudo silenciaria ao máximo, como ele, para falar somente de vez
em quando, em voz baixa, e com uma intensidade irrazoável. Parecia marcado por alguma
coisa, mas que se tratasse de um destino trágico era uma dedução literária demais que a
Noiva jovem aprendeu cedo, e por instinto, a superar. Na realidade, na trama daqueles
fragilíssimos traços e daqueles gestos convalescentes, o Filho escondia uma assustadora
avidez de vida e uma rara facilidade de imaginação: virtudes, ambas, que naquele ambiente
rural eram de uma inutilidade espetacular. Todos o consideravam inteligentíssimo, coisa
que na sensibilidade comum equivalia a considerá-lo anêmico, ou daltônico: uma doença
inofensiva e elegante. Mas o Pai, de longe, espiava-o e sabia; a Mãe, mais de perto,
protegia-o e intuía: tinham um filho especial. Com instinto de animalzinho, a Noiva
jovem também compreendeu isso, e tinha somente quinze anos. Então passou a ficar
perto dele, a troco de nada, sempre que a ocasião se oferecia, e, como ao longo dos anos
fizera de si mesma uma espécie de garoto agreste, tornou-se para o Filho uma espécie de
fiel amigo estranho, mais jovem, um pouco selvagem e tão misterioso quanto ele.
Ficavam em silêncio. A Noiva jovem, sobretudo, em silêncio. Compartilhavam o gosto
pelas frases suspensas, a predileção por certos ângulos de luz e a indiferença por toda
mesquinhez. Era estranho vê-los, ele em sua elegância, ela obstinadamente malcuidada, e
se havia um traço feminino, em algum ponto, naquele casal, seria mais fácil encontrá-lo
nele. Começaram a conversar, quando conversavam, dizendo nós. Eram vistos correndo
ao longo da cheia do rio, mas seguidos por alguma coisa da qual não havia rastro na
imensidão do campo. Foram vistos no alto do campanário, depois de terem copiado a
escrita gravada dentro do sino grande. Tinham sido vistos na fábrica perscrutando os
movimentos dos operários sem dizer uma só palavra, durante horas, mas anotando
números em um caderninho. As pessoas acabaram se habituando a eles, coisa que os
tornou invisíveis. Quando aconteceu, a Noiva jovem se lembrou das palavras de sua avó,
e sem pensar muito reconheceu aquilo que ela lhe havia prenunciado, ou talvez até
prometido. Não se lavou, não prendeu os cabelos, manteve as roupas imundas de
sempre, a terra embaixo das unhas e o odor áspero entre as coxas; e mesmo os olhos, aos
quais tinha renunciado havia tempos, ela continuou a movê-los sem mistério, imitando a
matreira obtusidade dos animais domésticos. Mas quando um dia o Filho, ao término de
um silêncio que a Noiva jovem achou de duração perfeita, virou-se para ela e fez uma
simples pergunta, ela, em vez de responder, usou aquilo que durante seis anos tinha
mantido reservado para ele, e o beijou.
Não era o primeiro beijo, para o Filho, mas de certo modo o foi. Antes, e em tempos
diferentes, outras duas mulheres tinham-no beijado: coerentemente com o tipo de rapaz
que ele era — sem idade —, duas mulheres maduras, amigas da Mãe. Tudo havia sido
feito por elas, uma em um canto do jardim e a outra em um vagão ferroviário. Mais do
que qualquer outra coisa ele recordava, em ambas, o estorvo do batom. Não a primeira,
por delicadeza, mas a segunda, por puro desejo, havia se abaixado para tocá-lo e tomá-lo
na boca demorada e lentamente, até fazê-lo gozar. Depois não se seguira nada, por outro
lado eram duas mulheres cultas, mas quando lhe acontecia encontrá-las o Filho lia nos
olhos delas uma longa prosa secreta que, afinal, era a parte de tudo aquilo que lhe
resultava mais excitante. Quanto ao acasalamento propriamente dito, digamos completo,
o Pai, homem bonachão e, dependendo, feroz, havia fixado o prazo para o momento
certo e no bordel de família, na cidade. Uma vez que ali sabiam reconhecer depressa as
predileções de cada um, tudo aconteceu de modo que o Filho achou confortável e
apropriado. Apreciou a velocidade com que a primeira mulher da sua vida compreendeu
que ele faria aquilo vestido e de olhos abertos, e que ela deveria fazer em silêncio e
completamente nua. Era alta, falava com um sotaque do Sul e abria as pernas com
solenidade. Ao se despedir, passou-lhe um dedo sobre os lábios — que ele tinha
exangues, de doente, mas belíssimos, de mártir — e disse que ele teria sucesso com as
mulheres, porque nada as excita tanto quanto o mistério.
Portanto, tinha um passado, o Filho, e mesmo assim o beijo virgem da Noiva jovem
o deixou estupefato: porque a Noiva jovem era um garoto, porque era um pensamento
impensável, porque era um pensamento que na realidade ele sempre havia pensado, e
porque agora era um segredo que ele conhecia. Além disso, ela beijava de um modo…
Assim, o Filho ficou perturbado, e ainda meses depois, quando a Mãe, sentada ao seu
lado, pediu-lhe que explicasse, por piedade, por que diabos queria ficar noivo de uma
garota que, ao que ela sabia, não dispunha nem de peitos, nem de bunda, nem de
tornozelos, ele fez um dos seus intermináveis silêncios e depois respondeu apenas: sua
boca. A Mãe procurou no índice de lembranças algo que ligasse aquela garota ao termo
boca, mas não encontrou nada. Então deu um longo suspiro, prometendo-se prestar
mais atenção no futuro, porque evidentemente alguma coisa tinha lhe escapado. Foi o
instante, pode-se dizer, em que lhe nasceu uma curiosidade que, anos depois, iria lhe
ditar um gesto instintivo e memorável, como se verá. Naquele momento, porém, limitou-
se a dizer: Aliás, sabe-se que os rios correm para o mar, e não o contrário (muitos dos
seus silogismos eram de fato imperscrutáveis).
Depois daquele primeiro beijo, as coisas se precipitaram de modo geométrico,
primeiro secretamente, depois à luz do sol, até gerar aquela espécie de lento matrimônio
que é de fato o tema da história que me vejo contando aqui, e a propósito da qual um
velho amigo me perguntou ontem, com doçura, se teria a ver alguma coisa com as
vicissitudes que estão me matando nestes meses, ou seja, no mesmo período em que me
revejo contando esta história que, pensava o velho amigo, podia também ter a ver com a
história daquilo que está me matando. A resposta correta — não — não era difícil de
dar, e no entanto fiquei mergulhado no silêncio e não respondi nada, e isso porque
deveria explicar como tudo o que escrevemos tem naturalmente a ver com o que somos,
ou o que fomos, mas quanto a mim jamais pensei que se possa resolver o ofício de
escrever confeccionando de maneira literária os próprios assuntos, com o penoso
estratagema de mudar os nomes e às vezes a sequência dos fatos, quando em vez disso o
sentido mais correto do que podemos fazer sempre me tenha parecido inserir entre nossa
vida e aquilo que escrevemos uma distância magnífica que, primeiro produzida pela
imaginação e depois preenchida pelo ofício e pela dedicação, nos leva a um alhures onde
surgem mundos, antes inexistentes, nos quais tudo o que existe de intimamente nosso,
inconfessavelmente nosso, volta a existir, mas quase desconhecido por nós, e tocado pela
graça de formas delicadíssimas, como de fósseis ou de borboletas. Decerto o velho
amigo teria tido dificuldades para compreender e este é o motivo por que me mantive
mergulhado no silêncio e não respondi nada, mas agora percebo que eu poderia ter mais
proveitosamente caído na gargalhada perguntando-lhe, e me perguntando, o que caralho
pode ter a ver a história de uma família que faz o desjejum até as três da tarde, ou de um
tio que dorme o tempo todo, com a repentina derrota que está me cancelando da face da
terra (ou pelo menos é essa a sensação que experimento). Nada, mas absolutamente nada.
Se não o fiz, porém, não foi só porque rir me custa muito, nestes tempos, mas também
porque sei, com segurança, que de maneira sutil teria dito uma falsidade. Uma vez que os
fósseis e as borboletas estão ali, e você começa a descobri-los já enquanto escreve, às
vezes não deve nem esperar anos, relendo a frio — de vez em quando os intui enquanto a
fornalha está incandescente e você está malhando o ferro. Por exemplo, eu deveria ter
contado ao velho amigo que escrevendo sobre a Noiva jovem me acontece mudar mais ou
menos bruscamente a voz narrativa, por razões que no momento me parecem
requintadamente técnicas, e no máximo debilmente estéticas, com o evidente resultado de
complicar a vida do leitor, coisa por si irrelevante, mas também com um aborrecido
efeito de virtuosismo que em um primeiro momento até procurei combater, mas me
rendendo depois à evidência de que simplesmente não conseguia sentir aquelas frases
senão as fazendo deslizar daquele modo, como se o sólido apoio de uma voz narrativa
clara e distinta fosse algo em que eu não acreditava mais, ou que para mim se tornara
impossível de apreciar. Uma simulação para a qual eu tinha perdido a inocência
necessária. No final me caberia admitir diante do velho amigo que, mesmo sem intuir os
detalhes da coisa, posso chegar a pensar que exista uma assonância entre o eventual
deslizamento da voz narrativa nas minhas frases e o que me coube descobrir nestes
meses, a propósito de mim e de outros, vale dizer, o assomar possível à vida de
acontecimentos que não têm uma direção, e por conseguinte não são histórias, por
conseguinte não é possível contá-los, e em última análise são enigmas sem forma
destinados a me queimar os miolos, tal como meu caso está demonstrando. De maneira
quase involuntária eu reverbero o desconcertante absurdo disso no gesto artesanal que
faço para ganhar a vida, ocorre-me agora dizer ao meu velho amigo, conquanto
tardiamente, implorando-lhe compreender que sim, estou escrevendo um livro que
provavelmente tem a ver com o que está me matando, mas peço que considere isso uma
admissão arriscada e muito confidencial, completamente inútil de recordar, já que no fim
a sólida realidade dos fatos, que chega a surpreender até a mim, juro, é que no fim,
apesar de tudo o que está me acontecendo ao redor, e dentro, agora a coisa que mais me
parece necessitada de cuidados é depurar a narrativa de quando, no geométrico fluir de
sua paixão, o Filho e a Noiva jovem tropeçaram na variante inesperada daquela migração
para a Argentina, nascida da férvida imaginação de um pai inquieto — ou louco. O
Filho, em particular, não ficou muito perturbado, porque herdara da Família uma ideia
de tempo um tanto evanescente, à luz da qual três anos não eram substancialmente
distinguíveis de três dias: tratava-se de formas provisórias da provisória eternidade deles.
A Noiva jovem, contudo, ficou aterrorizada. Ela, de sua família, herdara um medo
preciso, e naquele momento compreendeu que, se os preceitos da avó tinham-na
defendido e salvado até então, tudo seria mais difícil naquela terra estrangeira, longínqua
e secreta. Sua condição de esposa prometida deixava-a aparentemente em segurança, mas
também trazia à tona aquilo que durante anos ela conseguira sepultar, ou seja, a óbvia
verdade de que era uma mulher. Acolheu com nervosismo a decisão do pai de levá-la
logo consigo, claramente inútil como seria ela naqueles confins, e chegou a se perguntar
se na repentina decisão do pai não se escondia uma intenção oblíqua. Partiu para a
Argentina com a mala leve e o coração pesado.
Como se viu, fosse o que fosse o acontecido lá — e sem dúvida havia acontecido,
como se verá —, a Noiva jovem voltou pontualmente, bastante polida, os cabelos
devidamente recolhidos, a pele cândida e o passo gentil. De longe, tinha voltado para
tomar posse do que lhe cabia e, pelo que sabia, nada a impediria de apresentar-se
pontual, o coração intacto, para resgatar a delícia daquilo que lhe fora prometido.
No dizer de todos, isso aconteceria antes do veraneio.

Modesto.
Sim?
Aquela história dos livros.
Sim?
Podemos falar sobre isso um instante?
Se a senhorita desejar. Mas não aqui.
Estavam na cozinha e Modesto tinha uma ideia um pouquinho rígida quanto à
destinação de cada espaço naquela casa. Na cozinha, cozinhava-se.
Se a senhorita quiser me acompanhar, eu estava justamente indo colher umas ervas
aromáticas na horta, acrescentou.
O jardim, por exemplo, era um lugar adequado para falar.
O dia estava luminoso, não trazia vestígios da untuosa bruma que em geral, naquela
estação, afligia os olhos e os humores. Pararam ao lado da sebe das ervas, à sombra
comedida de um lilás.
Eu estava me perguntando se não seria possível uma dispensa, disse a Noiva jovem.
Como assim?
Eu queria permissão para ler. Ter livros. Não ser obrigada a ler no banheiro.
A senhorita faz a leitura no banheiro?
O senhor tem outros lugares para sugerir?
Modesto silenciou um instante.
É uma coisa importante para a senhorita?
É. Eu cresci numa família de camponeses.
Ofício nobilíssimo.
Pode ser, mas não é esse o ponto.
Não?
Frequentei um pouco uma escola de freiras, e só. Sabe por que não sou
completamente ignorante?
Porque leu livros.
Exato. A descoberta ocorreu na Argentina. Não havia mais nada para fazer. Quem me
passava os livros era um médico, levava-os para mim na ocasião em que aparecia em
nossa casa, uma vez por mês, talvez fosse seu modo de me cortejar. Eu entendia pouco,
eram em espanhol, mas os devorava mesmo assim. Era ele que escolhia os títulos, eu
achava tudo ótimo. Era a melhor coisa que eu fazia, por lá.
Posso entender.
Agora sinto falta.
Mas no banheiro consegue ler alguma coisa.
O único livro que eu trouxe. Daqui a pouco vou poder repeti-lo de cor.
Posso me conceder a liberdade de lhe perguntar de que se trata?
Dom Quixote.
Ah, esse.
Conhece?
Um tantinho lento, não acha?
Descontínuo, digamos.
Eu não queria chegar a tanto.
Mas uma língua belíssima, acredite.
Acredito.
Cantante.
Imagino.
Seria de fato impossível encontrar algum outro, nesta casa? E ter a permissão para lê-
lo?
Agora?
Sim, agora, por que não?
A senhorita se casará dentro em pouco. Quando estiver em sua casa, poderá fazer o
que quiser.
O senhor deve ter notado que o andar das coisas está um pouco vagaroso.
Sim, é uma impressão que eu também tive.
Modesto ficou pensando um tempinho. Claro que ele mesmo, pessoalmente, poderia
ajudar, sabia onde encontrar os livros e não seria difícil, nem desagradável, fazer chegar
algum à Noiva jovem: mas era claro que a coisa representaria uma infração para a qual
não tinha certeza de estar preparado. Após longa hesitação, pigarreou. A Noiva jovem
não podia saber disso, mas era o prefixo laríngeo com que ele introduzia as
comunicações a que atribuía particular caráter de reserva.
Fale a respeito com a Mãe, disse.
Com a Mãe?
O Pai é muito rígido quanto a este assunto. Já a Mãe, em segredo, lê. Poesias.
A Noiva jovem relembrou os silogismos imperscrutáveis e começou a compreender
de onde vinham.
E quando o faz?
À tarde, no quarto dela.
Achei que recebia visitas.
Nem sempre.
A Mãe lê. Inacreditável.
Naturalmente, nunca lhe contei isso e a senhorita o ignora.
Claro.
Mas, se estivesse no seu lugar, eu recorreria à Mãe. Tenha a ousadia de pedir-lhe
uma conversa em particular.
Bater à porta dela, sem muita cerimônia, parece-lhe uma coisa impraticável?
Modesto ficou imóvel.
Como?
Quero dizer, será suficiente ir bater à porta dela, imagino.
Modesto estava inclinado sobre a horta. Empertigou-se.
A senhorita tem consciência de quem estamos falando, não?
Claro. Da Mãe.
Mas no mesmo tom poderia ter dito “no porão” a alguém que lhe tivesse perguntado
onde estavam as cadeiras quebradas a serem descartadas, e assim Modesto compreendeu
que a Noiva jovem não sabia, ou pelo menos não sabia tudo, e amargurou-se
profundamente, já que naquele momento percebeu que falhara na ambição com que
despertava a cada manhã — ser perfeito —, por ter concedido àquela jovem o privilégio
da confiança sem haver medido a circunferência da ignorância dela. Ficou perturbado e,
por um longo instante, acabou refém de uma hesitação que não fazia parte nem dos seus
deveres nem dos seus hábitos. A Noiva jovem até acreditou, por um átimo, que Modesto
vacilava — só um titubeio no espaço —, e aliás vacilar é exatamente o que nos sucede
quando percebemos traiçoeiramente a distância abissal que se produz, à nossa revelia,
entre nossas intenções e a evidência dos fatos, experiência que me coube fazer reiteradas
vezes, nos últimos tempos, como natural consequência de escolhas minhas e alheias.
Como volta e meia tento explicar a quem se aventura a me escutar, a sensação que
experimento, não particularmente original, é de não estar em lugar nenhum, mas a tal
ponto que nem mesmo deus, se por capricho, naquele instante, decidisse lançar um olhar
sobre a criação, poderia notar minha presença, de tão provisoriamente inexistente que
sou. Naturalmente há fármacos para semelhantes circunstâncias, mas afinal cada um tem
seus sistemas para entreter-se durante essas mortes intermitentes, e por exemplo eu tendo
a organizar objetos, vez ou outra pensamentos, raramente pessoas. Modesto limitou-se a
habitar o vazio por um punhado de segundos — muitíssimos, tratando-se dele —, e um
dos privilégios do meu ofício é conhecer em detalhes o que lhe passou pela mente, vale
dizer, a quantidade surpreendente de coisas que a Noiva jovem, evidentemente, não sabia.
E o que a Noiva jovem não sabia era, evidentemente, a Mãe. A lenda, da Mãe.
Que era bela eu já devo ter mencionado, mas agora é o caso de especificar que sua
beleza era, na percepção comum, e naquele mundo circunscrito, algo de mitológico. Suas
origens mergulhavam nos anos da adolescência vivida na cidade, e por isso, no campo,
só se conheciam ecos longínquos desse período, narrações lendárias, detalhes de
insondável origem. Sabia-se, contudo, que a Mãe havia assumido sua beleza muito cedo e
feito dela um uso, durante certo tempo, espetacular. Tinha se casado com o Pai à idade de
vinte e cinco anos, quando muitas coisas já haviam acontecido, e por outro lado nunca
tinha se arrependido de nada. Inútil esconder que o casamento não fazia nenhum sentido
aparente, sendo o Pai um homem fisicamente irrelevante e sexualmente vinculado a
cautelas previsíveis, mas tudo ficará mais claro na tarde, ou mais provavelmente na noite,
em que eu sentir ter nos dedos as arestas adequadas a contar ao certo como as coisas se
passaram, e portanto não agora, neste dia de sol em que me sinto antes capaz da
suavidade necessária para resumir o que Modesto sabia e a Noiva jovem não, vale dizer,
por exemplo, como era heterogênea a esteira de loucura que a Mãe deixara atrás de si, em
seu simples deslizar pela vida citadina, experimentando sobre debilidades alheias a força
do próprio encanto. Sabe-se que dois se mataram, um ingerindo uma dose até excessiva
de veneno, o outro desaparecendo nos sorvedouros do rio. Mas inclusive um padre, de
certa notoriedade, excelente pregador, havia sumido atrás dos muros de um convento, e
um cardiologista estimado tinha encontrado abrigo nos corredores de um manicômio.
Eram incontáveis os casais em que esposas nada desprezíveis conviviam com maridos
cuja certeza era a de ter nascido para amar uma outra, isto é, a Mãe. Além disso,
conheciam-se analogamente pelo menos três moças, todas de ótima família, todas
regularmente casadas, que lhe estiveram tão próximas, nos anos verdes, a ponto de
maturar uma repulsa perpétua pelo corpo masculino e pelas respectivas necessidades
sexuais. O que ela concedera, a cada uma dessas vítimas, para levá-las a extremos, é
notícia de que só existem vagos contornos, mas em dois fatos irrefutáveis pode-se
confiar. O primeiro, e aparentemente mais previsível: o Pai desposou uma moça que não
era virgem. O segundo, que deve ser tomado ao pé da letra: à Mãe, no tempo da
juventude, não era necessário conceder nada para enlouquecer alguém: bastava
amplamente o seu simples estar ali. Se isso pode parecer pouco crível, vejo-me obrigado
a exemplificar escolhendo um detalhe, talvez o mais significativo, e sem dúvida o mais
divulgado. Tudo era esplêndido, nela, mas, se falarmos de décolleté, ou mesmo daquilo
que mantinha a promessa formulada pelo décolleté — estamos falando de seio —, então
somos obrigados a nos alçar a um nível que é difícil definir, a menos que se queira
recorrer a termos como encantamento. Baretti, em seu Índice, ao qual a referência é
inevitável se quisermos dar à coisa um contorno objetivo, arrisca até a expressão
feitiçaria, mas esta sempre foi uma passagem muito discutida de seu trabalho, elogiável
sob todos os outros aspectos: é que, simplesmente, o termo feitiçaria sugere uma
intenção maligna que de modo algum restitui a felicidade cristalina, conhecida por todos,
que o olhar, mesmo fugaz, ao seio da Mãe proporcionava a quem tivesse a coragem de
ousá-lo, ou o privilégio de poder ousá-lo. Com o tempo, o próprio Baretti concordou
com isso. Nas mais tardias declamações do seu Índice, quando ele já era um ancião,
embora digníssimo, a referência à feitiçaria tendia a desaparecer, dizem as testemunhas.
Usei o termo declamação porque, como talvez não seja universalmente conhecido, o
Índice de Baretti não era um livro, ou um documento escrito, mas uma espécie de
liturgia oral por ele oficiada, que ademais se desenvolvia raramente, e nunca era
anunciada com antecedência. Tinha em média uma frequência bienal, costumava cair no
verão, e uma só coisa era fixa: começava à meia-noite em ponto. Mas de qual dia, isso
ninguém sabia. Não raro acontecia que, pela imprevisibilidade do evento, Baretti se
exibisse na presença de poucas testemunhas, se não até de duas únicas testemunhas, e em
certo ano — que depois se revelou de seca — diante de ninguém. A coisa não parecia lhe
importar, e isso deve esclarecer como a disciplina do Índice era nele uma necessidade
pessoal, uma urgência que lhe concernia intimamente, e que só acidentalmente podia
concernir aos outros. Aliás, ele era um homem de elegante modéstia, como se podia
logicamente deduzir de seu ofício: trabalhava como alfaiate, na província.
Tudo começara quando — talvez para ostentar certa benevolência, talvez obrigada por
uma urgência repentina — a Mãe foi à casa dele um dia, para mandar consertar um
vestido de noite ao qual, na cidade, não tinham evidentemente dedicado o cuidado
necessário. Por isso, o resultado do decote havia ficado impreciso.
Baretti estava, à época, com trinta e oito anos. Era casado. Tinha dois filhos. Gostaria
de ter um terceiro. Naquele dia, porém, tornou-se velho, e simultaneamente menino, e
definitivamente um artista.
Tal como ele depois teve oportunidade de contar incontáveis vezes, a Mãe o fez notar
logo de início que, se ele teimasse em olhar para outro lado, para ela não seria fácil fazê-
lo compreender o que desejava.
Desculpe, mas não creio ter a necessária imprudência para lhe ser útil, esquivou-se
Baretti, sempre mantendo os olhos longe do decote.
Não diga bobagens, o senhor é alfaiate, não?
Em geral, me dedico à moda masculina.
Isso não é bom. Seus negócios vão se ressentir.
De fato.
Dedique-se às mulheres, vai lhe trazer vantagens indubitáveis.
Acha mesmo?
Não tenho dúvidas.
Acredito.
Então olhe para mim, santo Deus.
Baretti olhou.
Está vendo aqui?
Aqui era onde o tecido acompanhava a curva do seio, concedendo algo ao olhar e
sugerindo muitíssimo à imaginação. Baretti era alfaiate, portanto a nudez não lhe era
indispensável, e ele sabia ler os corpos sob o tecido: quer fossem os ombros ossudos de
um velho tabelião ou a seda dos músculos em um padre jovem. Assim, quando se voltou
para estudar o problema, o que constatou em um instante era como se curvavam os seios
da Mãe, como os mamilos os giravam muito de leve para fora e ao mesmo tempo os
remetiam para o alto, e que a pele era alva, salpicada de sardas que mal se anunciavam na
área descoberta mas que sem dúvida desciam até onde a maioria das pessoas não podia
ver. Sentiu na palma das mãos o que podiam ter sentido os amantes daquela mulher, e
intuiu que eles haviam conhecido a perfeição, e decerto o desespero. Imaginou-os
apertando, na cegueira da paixão, e acariciando, quando tudo já estava perdido: mas não
encontrou em todo o reino natural um fruto que pudesse recordar mesmo de longe o
misto de plenitude e de tepidez que eles deviam ter encontrado no fundo de seus gestos.
Assim, pronunciou uma frase de que nunca se acreditaria capaz.
Por que tão fechado?
Como disse?
Por que usa um decote tão fechado? É um pecado. Um pecado imperdoável.
Quer saber mesmo?
Sim, disse Baretti, contra todas as suas convicções.
Estou cansada de acidentes.
Acidentes de que tipo?
Acidentes. Se o senhor quiser, dou uns exemplos.
Gostaria muito. E, se não lhe for incômodo, enquanto isso vou mexer nestas pences,
que me parecem totalmente fora de lugar.
Foi assim que nasceu o Índice de Baretti, primeiro construído sobre os exemplos que
a Mãe lhe forneceu, generosamente, e depois integrado por copiosíssimos depoimentos,
recolhidos ao longo dos anos, e sistematizados em uma só narração litúrgica que alguns
denominavam Saga, outros Catálogo e Baretti, com uma pontinha de megalomania,
Poema épico. O tema era constituído pelos curiosos efeitos que, ao longo dos anos, o
fato de ter tocado, entrevisto, afagado, intuído ou beijado o seio da Mãe havia produzido
sobre quem tinha embarcado, incautamente, em uma das supracitadas cinco operações:
aqueles efeitos que a Mãe definia, em uma rara exibição de síntese, como acidentes. A
habilidade de Baretti foi memorizar tudo, sem incertezas; seu engenho, remeter a
multiforme e incalculável casuística em questão a um esquema formular de indubitável
eficácia e de certo valor poético. A primeira seção era fixa:
Não convém esquecer que
Entre o convém e o esquecer, muitas vezes aparecia, por razões musicais, um
advérbio.
Não convém aliás esquecer que
Não convém ademais esquecer que
Não convém certamente esquecer que
Seguia-se uma breve colocação no tempo ou no espaço
na véspera da Páscoa
na entrada do Círculo de Oficiais
que introduzia a citação do protagonista, na maioria das vezes protegido sob uma
expressão minimamente genérica
um suboficial da engenharia
um estrangeiro vindo no trem das 18 e 42
mas às vezes citado de maneira literal
o tabelião Gaslini
A reboque, seguia-se a enunciação do fato, que Baretti afirmava ser sempre verificado
com rigor
dançou a quarta valsa do serão com a Mãe, estreitando-a por duas vezes, suficientes
para sentir o seio dela comprimindo-lhe o fraque azul.
teve com a Mãe uma relação que durou três dias e três noites, aparentemente sem
interrupções.
Nessa altura Baretti fazia uma pausa variável, às vezes quase imperceptível, segundo
uma técnica teatral em que se tornou mestre, com o tempo. Quem assistiu a uma de suas
declamações do Índice sabe que, naquela pausa, se formava um silêncio totalmente
particular no qual é duvidável que alguém tivesse a ideia de respirar. Era como um ritmo
animal, e Baretti o administrava esplendidamente. Na apneia geral, deixava então fluir a
segunda parte da narração, a decisiva, aquela que dava conta das curiosas consequências
que se seguiam ao fato citado — aquilo que a Mãe denominava acidentes. Essa era a
seção menos rígida: a cada vez a métrica encontrava sotaques diferentes e o relato se
desenrolava com certa liberdade, deixando espaço à invenção, à fantasia e, com frequência,
à improvisação. Algo de verdadeiro havia sempre, no dizer de Baretti, mas todos
concordam em afirmar que os contornos das circunstâncias sofriam de certa
condescendência para com o maravilhoso. Aliás, era isso que todos esperavam — uma
espécie de recompensa final e libertadora.
Em resumo, o esquema formular criado por Baretti previa duas seções, a primeira
(inspirar) constituída de quatro subseções, e a segunda com maior liberdade mas sempre
respeitando certa harmonia de conjunto (expirar). Deve-se levar em conta que esse
esquema se repetia dezenas de vezes e — com o passar dos anos, por sucessivo acúmulo
de exemplos — chegou a repetir-se centenas de vezes. Pode-se facilmente deduzir daí o
efeito hipnótico, ou no mínimo acalentador, da singular declamação. Eu mesmo posso
confirmar que assistir ao evento era uma experiência singular, raramente maçante, sempre
deleitável. Ouvi em teatro coisas muito mais inúteis, quero dizer. E, naquelas
oportunidades, eu tinha até pagado o ingresso. Não convém ademais esquecer que, em
abril de 1907, o irmão de um notório exportador de vinhos, por causa de um repentino
aguaceiro, viu-se atravessando a praça protegendo sob seu guarda-chuva a Mãe, que com
naturalidade deu-lhe o braço, pressionando com aparente intenção o seio esquerdo
contra ele. (Pausa) Sabe-se que o irmão do notório exportador de vinhos daí deduziu
promessas que depois, não cumpridas, levaram-no a se transferir para o Sul, onde
atualmente convive com um ator dialetal. Não convém esquecer que, durante o baile das
jovens de dezoito anos em 1898, a Mãe tirou a pelerine e dançou sozinha, no meio do
salão, como se tivesse sido tomada por uma repentina meninice, indiferente ao fato de
que uma alça do vestido tivesse escorregado. (Pausa) Deve ter sido também pela idade,
mas o fato é que nessa ocasião o deputado Astengo foi atingido por um infarto
fulminante, morrendo enquanto formulava mentalmente a dúvida de ter se equivocado
sobre certas prioridades da vida. Não convém por outro lado esquecer que Matteo Pani,
pintor estimado, obteve da Mãe a permissão para retratá-la em um nu que ela, por uma
forma tardia de pudor, exigiu que fosse em meio-busto. (Pausa) O retrato foi depois
adquirido por um banqueiro suíço que passou os últimos onze anos de vida escrevendo
todos os dias à Mãe, sem jamais obter resposta, pedindo-lhe para dormir uma só noite
com ela. Também não convém certamente esquecer que na praia de Marina di Massa,
onde a mãe passou por equívoco as férias de 1904 hospedada no Hotel Hermitage, a um
jovem garçom coube por acaso socorrê-la e estreitá-la nos braços durante um desmaio
sem dúvida causado pelo calor, e num momento em que a Mãe usava um simples roupão
de banho sobre a pele nua. (Pausa) O garçom descobriu nessa ocasião a existência de
ulteriores horizontes, abandonou a família e abriu um salão de baile no qual está até hoje
exposto na entrada, sem lógica aparente, um roupão de hotel. Assim como não se pode
esquecer que o terceiro filho da família Aliberti, doente dos nervos, durante uma festa
privada pediu à Mãe, então muito jovem, que se despisse para ele, em troca de toda a sua
herança. (Pausa) A Mãe, como se sabe, despiu a blusa, tirou o corselete e se deixou tocar,
recusando depois a herança, bastando-lhe a satisfação de deixar ali, enquanto se vestia de
novo, o terceiro filho da família Aliberti caído no chão, sem sentidos.
Acontece-lhe fazer gestos repetitivos?, me perguntou o Doutor (acabei procurando
um doutor, os amigos insistiam, fiz isso sobretudo por gentileza em relação a eles). Na
vida, não, respondi. Acontece-me quando escrevo, esclareci. Gosto de escrever listas de
coisas, índices, catalogações, acrescentei. Ele achou isso interessante. Afirma que, se eu
lhe mostrasse o que estou escrevendo, a coisa poderia revelar-se de grande utilidade.
Naturalmente é uma possibilidade que excluo.
Volta e meia ele se cala, e eu também, sentados um diante do outro. Por muito tempo.
Presumo que ele atribui a essa atitude certo poder terapêutico. Deve imaginar que eu,
naquele silêncio, percorro algum caminho dentro de mim. Na realidade, penso no meu
livro. Notei que me agrada, mais do que no passado, deixá-lo deslizar para longe da via
principal, despencar de repentinas escarpas. Naturalmente nunca o perco de vista, mas,
visto que me aconteceu, trabalhando em outras histórias, proibir-me qualquer evasão
desse tipo, na intenção de construir relógios perfeitos com os quais eu me comprazia
tanto mais quanto conseguia remetê-los a uma limpeza absoluta, agora me agrada deixar
o que escrevo ficar à deriva na corrente, em um aparente efeito de adernamento que o
Doutor, sem erro, em sua douta ignorância, não hesitaria em vincular ao aluimento
incontrolado da minha vida pessoal, segundo uma dedução que me seria penosíssimo
escutar, em sua ilimitada idiotice. Jamais conseguirei explicar-lhe que se trata de uma
coisa refinadamente técnica, ou no máximo estética, muito clara a quem pratica, com
conhecimento, o meu ofício. Trata-se de dominar um movimento afim àquele das marés:
conhecendo-as bem, pode-se deixar o barco encalhar alegremente, e de pés descalços
andar por praias recolhendo moluscos ou animaizinhos que de outro modo seriam
invisíveis. Depois, basta não se fazer surpreender pelo retorno da maré, voltar a bordo e
deixar apenas que o mar retome a quilha com doçura, levando-a a zarpar de novo. Com a
mesma suavidade, eu, após ter demorado recolhendo todas aquelas estrofes de Baretti e
outros moluscos do gênero, sinto voltarem, por exemplo, um velho e uma moça, e vejo-
os tornarem-se um velho de pé, imobilizado diante de uma sebe de ervas aromáticas, e
uma Noiva jovem diante dele, tentando compreender o que há de tão grave em
simplesmente ir bater à porta da Mãe. Sinto com distinção a água retomar a quilha do
meu livro e vejo cada coisa zarpar de novo na voz do velho que diz
Não creio que a senhorita disponha de todas as informações necessárias para poder
julgar o modo mais oportuno de aproximar-se da Mãe.
Acha?
Acho.
Então seguirei seu conselho. Pedirei a ela uma conversa em particular, e farei isso
durante o desjejum. É uma boa ideia?
Melhor, disse Modesto. E, se a senhorita confia em mim, acrescentou, não
economize na cautela, ao lidar com ela.
Manterei uma postura de absoluto respeito, prometo ao senhor.
O respeito eu já daria por certo. Se me permite, o que sugiro é certa cautela.
Em que sentido?
Ela é uma mulher notável, sob todos os aspectos.
Eu sei.
Modesto baixou o olhar e o que ele disse, disse-o à meia-voz, com uma repentina
entonação melancólica.
Não, não sabe.
Em seguida, inclinou-se de novo sobre a sebe das ervas aromáticas.
Não acha que a segurelha tem um modo extremamente elegante de se aprumar?,
perguntou com súbito entusiasmo, e isso significava que a conversa havia terminado.
Assim, no dia seguinte, a Noiva jovem se aproximou da Mãe, durante o desjejum, e
perguntou com certa discrição se não lhe seria incômodo, durante a tarde, recebê-la em
sua saleta, e trocar umas palavras com ela, em particular.
Mas claro, meu bem, disse a Mãe. Venha quando quiser. Às sete em ponto, por
exemplo.
Em seguida acrescentou algo sobre as geleias inglesas.

***

Depois foram chegando da Ilha, em cadência cotidiana, nesta ordem, uma


escrivaninha em nogueira, treze volumes de uma enciclopédia em alemão, vinte e sete
metros de algodão egípcio, um receituário desprovido de ilustrações, duas máquinas de
escrever (uma pequena, uma grande), um volume de estampas japonesas, outras duas
rodas dentadas, idênticas em tudo àquelas entregues dias antes, oito quintais de
forragem, o brasão de uma família eslava, três caixas de uísque escocês, um apetrecho
algo misterioso que depois se revelou ser um taco de golfe, as credenciais de um banco
londrino, um cão de caça e um tapete indiano. Era uma marcação do tempo, ao seu
modo, e a Família se habituou a isso a tal ponto que, se por execráveis disfunções no
serviço de expedição lhes acontecesse passar um dia inteiro sem uma entrega, todos se
ressentiam de uma imperceptível desorientação, como se tivesse vindo a lhes faltar o
badalar do sino do campanário, ao meio-dia. Gradativamente, começou a fazer parte dos
hábitos familiares chamar os dias pelo nome do objeto, em geral absurdo, que havia
chegado naquela data. O primeiro a intuir a utilidade de semelhante método foi,
desnecessário dizer, o Tio, quando, durante um desjejum particularmente divertido,
alguém se perguntou desde quando não caía uma gota de chuva naquela maldita campina
e ele, constatando no sono que ninguém era capaz de articular uma resposta plausível,
virou-se no sofá e, com a autoridade que lhe era habitual, disse que o último aguaceiro,
aliás decepcionante, havia sido no dia dos Dois Carneiros. Depois voltou a adormecer.
Assim, agora podemos dizer que o dia do Tapete Indiano foi aquele em que, sem se
fazer preceder pelo costumeiro telegrama, e por conseguinte ditando certo desconcerto
na alegre comunidade reunida em torno da mesa dos desjejuns, apareceu Comandini, do
nada, com ar de ter algo urgente a comunicar.
O que aconteceu, ganhou no jogo, Comandini?, perguntou bonachão o Pai.
Quem dera.
E foram se trancar no escritório.
Onde eu os vi incontáveis vezes, durante aquelas noites a que já tive oportunidade de
aludir, dispondo-os como peças sobre um tabuleiro de xadrez, e jogando com eles todas
as partidas possíveis, justamente para desviar meus pensamentos insones, que sem isso
me levariam a dispor sobre um semelhante tabuleiro as peças da minha vida atual, coisa
que prefiro evitar. Deles, ali sentados cada um na própria poltrona, vermelha a do Pai,
negra a de Comandini, acabei por conhecer cada detalhe, por causa daquelas noites
insones — mas eu deveria dizer de preferência manhãs insones, embora isso tampouco
defina bem aquela hesitação fatal que a aurora inflige a quem não consegue dormir —
como um atraso ruinoso, e sádico. Conheço por conseguinte cada palavra dita e cada
gesto feito, naquele encontro, mas por outro lado jamais sonharia registrá-los todos
aqui, visto que, como todos sabem, meu ofício consiste exatamente em ver cada detalhe e
escolher alguns poucos, como faz quem desenha um mapa, do contrário seria antes um
fotografar o mundo, coisa talvez útil mas que não tem a ver com o gesto de narrar. Que
é, em vez disso, escolher. Então descarto de bom grado qualquer outra coisa que sei,
para salvar o movimento com o qual Comandini se ajeitou melhor na poltrona,
deslocando o peso de uma nádega para a outra, e, inclinando-se minimamente para
diante, disse uma coisa que ele temia dizer, e que de fato não disse de seu modo habitual,
isto é, com torrencial e brilhante loquacidade, mas no curto respiro de pouquíssimas
palavras.
Disse que o Filho tinha desaparecido.
Como assim?, indagou o Pai. Fez a pergunta ainda sem desmanchar o sorriso que as
duas fúteis tagarelagens com que os dois tinham se aquecido lhe deixaram no rosto.
Não temos condições de saber onde ele está, esclareceu Comandini.
É impossível, decidiu o Pai, perdido o sorriso.
Comandini permaneceu imóvel.
Não foi isso que eu lhe pedi, disse então o Pai, e Comandini sabia exatamente o
significado dessas palavras porque se lembrava bem de quando, três anos antes, sentado
naquela mesma poltrona, como um peão em F2, ouvira do Pai algumas ordens corteses
cuja essência era: tratemos, com certa discrição, de ficar de olho no Filho durante esta sua
temporada inglesa, e possivelmente de lhe oferecer, de modo invisível, as ocasiões
apropriadas para deduzir por si mesmo a inutilidade de um casamento tão desprovido de
perspectivas e, no fundo, de razões fundamentadas e, em última análise, de bom senso. O
Pai acrescentara que um vínculo com uma família inglesa, sobretudo se não fosse
estranha ao setor têxtil, seria desejável. Naquela ocasião Comandini não havia discutido, e
sim procurado entender até onde poderia ir para desviar os destinos do Filho. Tinha em
mente diferentes gradações de violência, no gesto que deveria mudar uma vida, ou
melhor, duas. O Pai então balançara a cabeça, como se expulsasse uma tentação. Oh, nada
além de um firme acompanhamento das coisas, esclarecera. Eu consideraria
suficientemente elegante reservar à Noiva jovem uma mínima chance, explicara. E essas
tinham sido as últimas palavras pronunciadas por ele sobre o assunto. Do qual, depois,
por três anos, se havia quase desinteressado.
Aqui, porém, as remessas continuam a chegar, objetou, pensando nos carneiros e em
todo o resto.
Ele tem uma série de agentes, explicou Comandini, espalhados mais ou menos por
toda a Inglaterra. Procurei investigar, mas estes também sabem pouco. Têm ordens de
expedição, e só. Nunca viram o Filho, não sabem quem é. Ele pagou com antecedência e
deu indicações muito precisas, quase maníacas.
Sim, é típico dele.
Mas não é típico dele desaparecer assim.
O Pai ficou em silêncio. Era um homem que, ao menos por razões médicas, não
podia se permitir uma propensão à ansiedade: além disso, acreditava firmemente em uma
objetiva tendência das coisas a se resolverem por si mesmas. Contudo, naquele
momento, percebeu um baque do estado de espírito que raramente havia conhecido, algo
como o abrir-se de uma clareira, em algum lugar, no bosque denso de sua tranquilidade.
Então levantou-se da poltrona e por um tempinho ficou de pé, esperando que as coisas
se rearranjassem em seu âmago por alguma razão mecânica, como em geral acontecia no
caso de certos incômodos que o aguilhoavam sobretudo no início da tarde. Obteve
apenas uma controlável urgência de soltar um pum. Ao mesmo tempo não desapareceu
aquela sensação que agora ele conseguia focalizar melhor e poderia resumir na absurda
ideia de que o Filho estava desaparecendo não na Inglaterra, mas em algum lugar dentro
dele, onde antes havia a solidez de uma permanência e agora o vazio de um silêncio. Não
lhe pareceu ilógico porque, embora a imposição da época previsse para os pais um papel
vago, distante e comedido, não tinha sido assim para ele, com aquele Filho, que ele havia
querido contra toda lógica e que, por razões das quais conhecia todas as nuances, era a
origem de sua única ambição. Assim, pareceu-lhe razoável registrar como, no
desaparecimento daquele rapaz, também ele estava desaparecendo um pouco: podia
perceber isso como uma minúscula hemorragia, e misteriosamente sabia que, se a
negligenciasse, ela se ampliaria sem trégua.
Quando foi visto pela última vez?, perguntou.
Oito dias atrás. Estava em Newport, comprando um cúter.
O que é isso?
Uma pequena embarcação a vela.
Imagino que a veremos ser descarregada diante do portão, um destes dias.
É possível.
Modesto não vai ficar muito entusiasmado.
Mas haveria também outra possibilidade, arriscou Comandini.
Qual?
Pode tê-la usado para lançar-se ao mar.
Ele?
Por que não? Se imaginarmos certa vontade, por parte dele, de desaparecer…
Ele odeia o mar.
Sim, mas…
Certa vontade, por parte dele, de desaparecer?
O desejo de se tornar inencontrável.
Mas por quê?
Ignoro.
Como assim?
Ignoro.
O Pai sentiu uma rachadura se abrir, em algum lugar, dentro dele — mais uma. A
possibilidade de Comandini ignorar alguma coisa o golpeou traiçoeiramente, já que
devia àquele homem, no fundo, modesto, mas maravilhosamente pragmático, a convicção
de que a qualquer pergunta correspondia uma resposta, talvez inexata, mas real, e
suficiente para desfazer qualquer possibilidade de perigoso aturdimento. Assim, ergueu,
estupefato, o olhar para Comandini. Contemplou-lhe no rosto uma expressão que não
conhecia, e então sentiu um estalido em seu coração de vidro, percebeu um perfume
adocicado que reconheceu, e soube com segurança que naquele momento havia
começado a morrer.
Encontre-o, disse.
Estou tentando, senhor. Aliás, é até possível que acabemos vendo-o chegar
tranquilamente à porta, um dia destes, talvez casado com uma inglesa de pele cor de leite
e pernas esplêndidas, o senhor sabe, o criador as dotou de pernas incríveis, já que
quanto às tetas não conseguiu imaginar algo decente.
Tinha voltado o Comandini de sempre. O Pai lhe ficou agradecido.
Faça-me um favor, nunca mais use aquela palavra, disse.
Tetas?
Não. Desaparecer. Não me agrada. Não existe.
Uso-a com frequência a propósito das minhas economias.
Sim, compreendo, mas, aplicada aos seres humanos, me desorienta, os seres
humanos não desaparecem, no máximo morrem.
Não é o caso do seu filho, tenho certeza.
Ainda bem.
Estou disposto a lhe prometer isso, disse Comandini, com uma sombra de hesitação.
O Pai sorriu para ele, com infinita gratidão. Depois foi tomado por uma inexplicável
curiosidade.
Comandini, o senhor já entendeu por que sempre perde no jogo?, perguntou.
Tenho algumas hipóteses.
Por exemplo?
A mais pungente me foi sugerida por um turco que, jogando em Marrakech, eu vi
perder uma ilha.
Uma ilha?
Uma ilha grega, acho, posse da família havia séculos.
Está me dizendo que é possível apostar uma ilha na mesa de pôquer?
Tratava-se de blackjack, no caso. Mas é possível, sim. A pessoa pode apostar até uma
ilha, se tiver a coragem e a poesia necessárias. Ele tinha. Voltamos juntos para o hotel,
era quase de manhã, eu também tinha perdido muito, mas não parecia, caminhávamos
como príncipes, e sem sequer expressar isso nos sentíamos belíssimos, e eternos. A
inaudita elegância de um homem que perdeu, disse o turco.
O Pai sorriu.
Então, o senhor perde por uma questão de elegância?, perguntou.
Como eu disse, é só uma hipótese.
Há outras?
Muitas. Quer a mais provável?
Eu gostaria.
Perco porque jogo mal.
Desta vez, o Pai riu.
Depois decidiu que morreria sem pressa, com cuidado e não em vão.

Às sete em ponto a Mãe a esperava, de fato, no gesto que lhe era habitual àquela hora,
ou seja, aperfeiçoar o próprio esplendor: só enfrentava a noite em beauté absoluta —
nunca permitiria que a morte a surpreendesse em um estado que pudesse decepcionar os
primeiros a quem caberia descobri-la pronta para os vermes.
Assim, a Noiva jovem encontrou-a sentada diante do espelho e a viu como jamais a
vira, usando somente uma túnica levíssima, os cabelos soltos sobre os ombros, caindo
até os quadris: uma moça muito novinha, quase uma menina, escovava-os: o gesto descia
a uma velocidade sempre igual, a cada vez luzia um reflexo castanho-dourado.
A Mãe mal se voltou, apenas o suficiente para presentear um olhar.
Ah, pronto, disse, então é hoje mesmo, me veio a dúvida de que hoje fosse ontem, o
que me acontece com muita frequência, para não falar de quando tenho certeza de que é
amanhã. Sente-se, meu bem. Queria falar comigo? Ah, esta aqui, a menina, chama-se
Dolores, faço questão de sublinhar que é surda-muda de nascença, me foi arranjada pelas
freiras do Bom Conselho, deus as tenha em sua glória, agora você entenderá por que
sinto por elas uma devoção que em certos momentos pode ter lhe parecido exagerada.
Deve ter sido invadida pela dúvida de que o raciocínio pudesse não resultar
inteiramente compreensível. Então concedeu uma explicação veloz.
Bem, nunca se deixar pentear por alguém que tenha possibilidade de falar, isto é
óbvio. Por que não se senta?
A Noiva jovem não se sentava porque não havia imaginado nada do gênero e no
momento não tinha muitas outras ideias, afora a de sair do quarto e recomeçar tudo.
Levava sob o braço o seu livro: parecia-lhe um modo de ir direto ao âmago do problema.
Porém a Mãe nem parecia tê-lo visto. Era estranho, porque naquela casa uma pessoa com
um livro na mão deveria saltar aos olhos, pelo menos tanto quanto uma velhinha que se
apresentasse ao rosário vespertino empunhando uma balestra. Na mente da Noiva jovem,
o plano era entrar naquele quarto com o Dom Quixote bem à vista e, no lapso de tempo
que a presumível surpresa da Mãe lhe concederia, pronunciar a seguinte frase: Não pode
fazer mal a ninguém, é belíssimo, e eu não queria permanecer nesta casa sem dizer a
alguém que o leio todos os dias. Posso dizer à Senhora?
Não era um plano ruim.
Mas agora a Mãe era como uma aparição, e a Noiva jovem sentiu que havia naquele
quarto algo muito mais urgente a resolver.
Então se sentou. Pousou o Dom Quixote no chão e se sentou.
A Mãe girou a cadeira para observá-la melhor. Dolores acompanhou-a nesse
movimento, a fim de encontrar a posição em que pudesse continuar seu gesto paciente.
Não era apenas surda-muda, era também próxima à invisibilidade. A Mãe parecia
estabelecer com ela a mesma relação que poderia ter com um xale jogado sobre os
ombros.
Sim, disse, você não é feinha, alguma coisa aconteceu, anos atrás não merecia nem
sequer ser olhada, com certeza vai me explicar o que lhe passava pela cabeça ou o que
pretendia obter arruinando-se daquele jeito, naquela que sem sombra de dúvida é uma
forma de descortesia imotivada para com o mundo, descortesia a evitar, acredite, tão
inútil, o desperdício… mas não existe riqueza sem desperdício, ao que parece, portanto
não vale a pena isso de… De todo modo, o que quero dizer é que você não é feinha, não
é em absoluto, então imagino que seria o caso de se tornar bonita, de algum modo, deve
ter pensado nisso, imagino, não vai querer passar a vida neste estado, assim sem graça,
santo deus, você tem dezoito anos… tem dezoito anos, não?, sim, tem dezoito, bem,
francamente, nessa idade não se pode verdadeiramente ser bonita, mas pelo menos é
obrigatório ser escandalosamente desejável, quanto a isso não deveria haver dúvidas, e
então, se eu me perguntar se você é escandalosamente adorável, mas talvez eu tenha dito
desejável, sim, provavelmente eu disse desejável, é mais exato, então se eu me perguntar…
levante-se um pouquinho, meu bem, me faça esse favor, pronto, obrigada, pode se sentar
de novo, é claro, a resposta é não, você não é escandalosamente desejável, me desagrada
dizer isso, aliás muitas coisas são desagradáveis, você com certeza notou quantas coisas
desagradam, se ao menos… mas a terra vista da lua não deve ser diferente, não crê?, eu
creio, sou levada a crer, e também por isso não penso ser o caso de… desesperar-se talvez
seja forte demais… ficar melancólica, é isso, com certeza não é o caso de ficar
melancólica, eu jamais iria querer vê-la melancólica, é uma coisinha de nada, afinal se
trata apenas de uma decisão, veja bem, você deveria se render à ideia e parar de opor
resistência, creio que você deveria decidir ser bonita, só isso, talvez sem esperar demais, o
Filho está chegando, eu se fosse você me apressaria, ele é capaz de chegar de um
momento para outro, não vai poder continuar eternamente expedindo carneiros selvagens
e rodas dentadas… ainda que agora me ocorra que você talvez tenha vindo aqui para me
perguntar alguma coisa, ou então a estou confundindo com alguém, há tanta gente que
quer coisas, o número das pessoas que desejam de nós alguma coisa é estranhamente…
você veio para me perguntar alguma coisa, meu bem?
Sim.
O que era?
Como se faz.
Como se faz o quê?
Para ser bonita.
Ah.
Entregou um pente a Dolores do mesmo modo que poderia ter ajeitado o xale que
deslizara de um ombro. A menina o pegou e continuou seu trabalho com esse.
Provavelmente o objeto tinha certo alinhamento milimétrico dos dentes que, naquela
particular fase da operação, devia ser de indiscutível necessidade. Talvez tivesse
importância específica até mesmo o material de que era feito. Osso.
Em geral, é algo que leva anos, disse a Mãe.
Creio que tenho certa pressa, disse a Noiva jovem.
Sem dúvida.
Posso aprender rápido.
Não sei. É possível. Poderia levantar os cabelos?, perguntou a mãe. Recolha-os sobre
a nuca.
A Noiva jovem obedeceu.
O que é isso?, indagou a Mãe.
Levantei os cabelos.
Justamente.
Era o que eu devia fazer.
Não se recolhem os cabelos sobre a nuca para recolher uns cabelos sem graça sobre
uma nuca sem graça.
Não?
Experimente de novo.
A Noiva jovem experimentou.
Meu bem, está me olhando? Olhe para mim. Bom, o único objetivo por que
levantamos e recolhemos os cabelos sobre a nuca é tirar o fôlego de todos os que
estiverem por perto, lembrando-lhes, com a simples força desse gesto, que qualquer
coisa que estejam fazendo naquele momento é tremendamente inadequada, uma vez que,
como recordaram no exato instante em que viram você enrolando os cabelos sobre a
nuca, só existe uma coisa que eles desejam de verdade fazer na vida: trepar.
Verdade?
Claro, não desejam outra coisa.
Não, quero dizer, verdade que levantamos os cabelos para…
Oh, meu deus, você também pode fazer isso como se amarrasse os sapatos, muitas o
fazem, mas estávamos falando de outra coisa, acho eu, não? De ser bonita.
Sim.
Pois é.
A Noiva jovem então soltou os cabelos, ficou um pouquinho em silêncio, em seguida
voltou a pegá-los e lentamente os levantou até enrolá-los sobre a nuca e prendê-los em
um nó frouxo, e concluiu o gesto ajeitando atrás das orelhas os dois cachinhos que, de
um lado e de outro de seu rosto, haviam fugido à operação. Em seguida pousou as mãos
no regaço.
Bem…
Esqueci alguma coisa?
Você tem um dorso. Use-o.
Quando?
Sempre. Recomece desde o início.
A Noiva jovem inclinou um pouco a cabeça para a frente e levou as mãos à nuca para
soltar os cabelos que havia acabado de prender.
Pare. Sua nuca está coçando, por acaso?
Não.
Estranho, a gente baixa a cabeça para se coçar.
E então?
Cabeça levemente inclinada para trás, obrigada. Assim, muito bem. Agora deve ser
balançada duas ou três vezes com garbo, enquanto as mãos vão desatar o nó, e isso a
levará inevitavelmente a arquear o dorso naquilo que para qualquer macho presente soará
como uma espécie de anúncio, ou de promessa. Pare, assim. Sentiu o dorso?
Senti.
Agora leve as mãos à fronte e recolha todos os cabelos, com cuidado, mais cuidado
do que o necessário, então jogue a cabeça bem para trás e, deixando as mãos passarem
sobre a cabeça, segure os cabelos à altura da nuca para fazê-los cair bem. Quanto mais
embaixo os segurar, mais o dorso se arqueará e você assumirá a posição correta.
Assim?
De novo.
Está doendo.
Bobagem. Quanto mais para trás vão os braços, mais o seio é impelido para a frente e
mais o dorso se arqueia. Pronto, assim, olhos para o alto, parada. Consegue se ver?
Com os olhos para cima…
Sentir-se, quero dizer. Sente em que posição está?
Sim. Acho.
Não é uma posição qualquer.
É incômoda.
É a posição em que uma mulher goza, segundo a fantasia um tanto moderada dos
homens.
Ah.
Daí em diante, é tudo mais simples. Não economize nas rotações do pescoço e
retome esses cabelos, enrolando-os como preferir. É como se seu robe tivesse se aberto e
agora você o fecha de novo, simples. Um robe sem nada por baixo, quero dizer.
A Noiva jovem fechou de novo o robe, com certo garbo.
Não se esqueça de sempre deixar que alguns fios escapem à operação: ajeitá-los por
último com gestos vagamente imprecisos dá certo toque infantil que os tranquiliza. Os
machos, não os cabelos. Pronto, assim, isso você faz bem, admito.
Obrigada.
Agora, tudo de novo.
Desde o início?
Trata-se de fazer isso não como se tivesse que levantar uma amassadeira de pão da
cozinha, mas como se fosse a coisa que você faz com a maior naturalidade do mundo.
Não pode funcionar de verdade se a primeira a se excitar não for você.
Eu?
Sabe do que estamos falando, não?
Creio que sim.
Ficar excitada. Já deve ter acontecido com você, espero.
Não enquanto eu ajeitava os cabelos.
É exatamente o erro que estamos tentando corrigir.
Certo.
Pronta?
Não tenho certeza.
Talvez uma pequena recapitulação possa ajudá-la.
Como assim?
A Mãe fez um gesto imperceptível, Dolores parou de penteá-la e deu dois passos para
trás. Se antes estava próxima da invisibilidade, naquele instante pareceu desaparecer.
Então a Mãe soltou um pequeno suspiro, e depois simplesmente levantou e ajeitou os
cabelos sobre a nuca devagarzinho, em um tempo que à Noiva jovem pareceu um instante
dilatado até o inverossímil. Teve a irrazoável impressão de que a Mãe se despira para ela,
e o tinha feito por uma duração misteriosa, suficiente para suscitar o desejo mas também
tão comedida que impedia qualquer lembrança. Era como tê-la visto nua para sempre e
não tê-la visto nunca.
Naturalmente, acrescentou a Mãe, o efeito é mais devastador se, ao executar a
operação, tivermos a astúcia de falar de assuntos fúteis, como a maturação do salame, a
morte de algum parente ou as condições das estradas no campo. Não convém dar a
impressão de que estamos nos empenhando, entende?
Sim.
Bem, agora é sua vez.
Não creio que…
Bobagem, faça e pronto.
Um instante…
Faça. Não esqueça que tem dezoito anos. Já venceu antes de começar. Eles a desejam
há pelo menos três anos. Trata-se apenas de lembrá-los disso.
Certo.
A Noiva jovem refletiu que tinha dezoito anos, que já vencera antes de começar, que
eles a desejavam havia pelo menos três anos e que do Dom Quixote já não recordava nem
sequer a trama. Passou um instante dilatado de maneira incompreensível e no final estava
ali, os cabelos recolhidos sobre a nuca, o queixo levemente erguido e um olhar que ela
não recordava ter tido nunca.
A Mãe silenciou por um bom tempo, encarando-a.
Estava pensando no Filho, naquele longo silêncio e naquelas palavras dele: sua boca.
Inclinou um tantinho a cabeça, para olhar melhor.
A Noiva jovem se mantinha imóvel.
A boca estava entreaberta.
Foi bom?, perguntou a Mãe.
Sim.
Agora precisa compreender o quanto foi bom.
Existe algum modo de saber?
Sim. Se gostou verdadeiramente, você agora sente uma grande vontade de fazer
amor.
A Noiva jovem tentou encontrar uma resposta em algum lugar, dentro de si.
E então?, perguntou a Mãe.
Creio que sim.
Crê?
Sinto uma grande vontade de fazer amor, sim.
A Mãe sorriu. Depois fez um movimento imperceptível com os ombros, levantou-os
um nada.
Devia ter esboçado algum gesto invisível, em um momento invisível, porque já não
havia rastro de Dolores no quarto, alguma porta igualmente invisível a engolira.
Então venha cá, disse a Mãe.
A Noiva jovem se aproximou e se deteve de pé à frente da Mãe, que enfiou uma mão
embaixo da saia dela, afastou um pouco a calcinha e lhe abriu o sexo, lentamente, com um
dedo.
Sim, disse, está com vontade.
Em seguida retirou a mão e pousou o dedo sobre os lábios da Noiva jovem,
relembrando aquilo que o filho lhe havia dito, muito tempo antes. Deslizou o dedo sobre
os lábios da Noiva jovem e depois o empurrou até lhe tocar a língua.
É o seu sabor, aprenda a reconhecê-lo, disse.
A Noiva jovem o lambeu de leve.
Não. Saboreie.
A Noiva jovem fez isso, e a Mãe começou a compreender o que seu Filho queria
dizer, naquela vez. Recolheu o dedo, como se tivesse se queimado.
Agora, faça você, disse.
A Noiva jovem não teve certeza de ter compreendido. Enfiou a mão embaixo da
própria saia.
Não, disse a Mãe.
Então a Noiva jovem compreendeu e precisou se debruçar um pouco para enfiar a
mão sob a roupa da Mãe, cujo comprimento chegava quase até o chão. A Mãe abriu um
tantinho as coxas, a jovem subiu os dedos ao longo da pele dela e encontrou o sexo sem
topar com mais nada. Viu-se com ele entre os dedos. Moveu-os de leve, e em seguida
tirou a mão dali. Olhou-a. Os dedos luziam. A Mãe fez um gesto e ela obedeceu,
deslizando aqueles dedos entre os próprios lábios e sugando-os lentamente.
A Mãe a deixou agir, antes de dizer:
Deixe-me provar também.
Debruçou-se um pouco, não fechou os olhos e foi beijar aquela boca porque sentia
vontade e porque jamais desprezaria uma só oportunidade de compreender o mistério do
próprio Filho tão amado. Com a língua, foi recuperar duas coisas que eram suas, e que
vinham de seu ventre.
Afastou-se por um instante.
Sim, disse.
Em seguida abriu de novo, com a língua, os lábios da Noiva jovem.
Agora, muitos anos depois, agora que a Mãe nem existe mais, ainda consigo me
surpreender com a lucidez com que ela fez tudo. Quero dizer, era fantástica, durante o
dia, em seu devaneio contínuo, perdida de si mesma, errante em suas palavras,
imperscrutável em seus silogismos. Mas me dou conta, na nitidez imprecisa da
lembrança, de como desde o primeiro momento em que nos aproximamos, ainda que só
para falar de beleza, tudo havia mudado nela, e em direção a um domínio absoluto, que
começava justamente a partir das palavras, para em seguida transbordar nos gestos.
Quando eu lhe disse isso, a certa altura daquela noite, ela parou um instante de me
acariciar e me sussurrou “O Albatroz” de Baudelaire, leia, já que você lê, e só muito
tempo depois, quando efetivamente o li, compreendi que ela era um animal solene,
quando voava em seu corpo e no dos outros, e um volátil desajeitado em qualquer outro
momento — e essa era a sua maravilha. Recordo que enrubesci, quando ela disse aquela
frase, porque nos senti descobertos, eu e o meu Dom Quixote, e então enrubesci, na
quase escuridão do quarto, e isso até hoje me parece tão absurdo, enrubescer por causa
de um livro enquanto uma mulher mais velha do que eu, a quem mal conhecia, me
lambia a pele, e isso eu a deixava fazer, sem enrubescer, sem a mínima vergonha. Ela me
tirou qualquer vergonha, é isso. Por todo o tempo falou comigo, enquanto guiava
minhas mãos, e movia as suas, falou comigo lentamente, no ritmo que lhe permitia usar
sua boca sobre mim ou usá-la para falar comigo, um ritmo que depois sempre procurei
em todos os homens que tive, mas sem voltar a encontrá-lo. Explicou-me que com
frequência o amor não tinha a ver com tudo aquilo, ou pelo menos ela não estava a par de
que tivesse com muita frequência. Era antes uma coisa animal, que dizia respeito à
salvação dos corpos. Disse-me que, se você simplesmente evitar atribuir um sentido
demasiado sentimental àquilo que está fazendo, então cada detalhe se torna um segredo a
arrebatar, e cada canto do corpo um apelo irresistível. Recordo que por todo o tempo
não parou nunca de me falar do corpo dos homens, e do modo primitivo de desejar que
eles têm, para que me ficasse claro que, por mais que me fosse adorável aquele misturar-
se dos nossos corpos simétricos, o que ela queria me presentear era só uma simulação
que, no momento certo, me ajudasse a não perder nada do que o corpo de um homem
podia me oferecer. Ensinou-me que não se deve ter medo dos odores e dos sabores —
são o sal da terra, e me explicou que os rostos mudam, no sexo, mudam os traços, e não
compreender isso seria uma pena, porque com um homem dentro, e movendo-se em
cima dele, você pode ler-lhe na face toda a vida, do menino ao velho moribundo, e é um
livro que naquele momento ele não pode fechar. Com ela aprendi a começar lambendo,
contra qualquer etiqueta amorosa, porque é um gesto servil e régio, de sujeição e de
posse, vergonhoso e corajoso — E não estou dizendo que você deva lamber de imediato
o sexo dele, alertava, é a pele que você deve lamber, as mãos, as pálpebras, o pescoço —
não pense que seja uma humilhação, faça isso como uma rainha, um animal rainha.
Explicou-me que não se devia ter medo de falar, ao fazer amor, porque a voz que temos
quando fazemos amor é o que temos de mais secreto em nós, e as palavras de que somos
capazes a única nudez total, escandalosa, final, de que dispomos. Disse que eu não
fingisse nunca, é somente cansativo — acrescentou que se pode fazer tudo, e até muito
mais do que acreditaríamos querer fazer, e mesmo assim existe a vulgaridade, e mata o
prazer, e recomendou muito que eu a mantivesse longe de mim. De vez em quando,
disse, os homens, enquanto fazem, fecham os olhos e sorriem: ame esses homens, disse.
De vez em quando abrem os braços e se rendem: ame esses também. Não ame os que
choram enquanto trepam, guarde-se dos que na primeira vez se despem sozinhos —
despi-los você mesma é um prazer que lhe cabe. Ela falava, e nem por um instante se
detinha, alguma coisa no seu corpo estava sempre me buscando, porque, explicou, fazer
amor é uma tentativa sem fim de procurar uma posição na qual se confundam um no
outro, posição que não existe, mas existe o procurá-la, e saber fazer isso é uma arte. Com
os dentes, com as mãos, me machucava às vezes, apertando ou mordendo ou colocando
nos gestos uma força quase má, e a certa altura me disse que não sabia por quê, mas
aquilo também tinha a ver com o prazer, portanto não convinha ter medo de morder ou
de apertar ou de usar a força, embora o segredo fosse saber fazê-lo com legível
transparência, para ele saber que você sabe o que está fazendo, e que o faz por ele.
Ensinou-me que só os idiotas fazem sexo para gozar. Você sabe o que significa gozar,
não sabe?, perguntou. Contei-lhe sobre a Filha, não sei por quê, contei tudo. Ela sorriu.
Passamos aos segredos, disse. Então me contou que durante anos fizera os homens
enlouquecerem porque se recusava a gozar fazendo amor com eles. A certa altura se
afastava, encolhia-se em um canto da cama e gozava sozinha, acariciando-se. Ficavam
malucos, disse. A alguns, me lembro, eu pedia que fizessem o mesmo, eles também.
Quando sentia uma espécie de cansaço final, eu me desprendia deles e dizia Acaricie-se,
faça isso. É bom vê-los gozar, diante de você, sem sequer tocá-los. Uma vez, só uma, me
disse, eu estava com um homem que me agradava tanto que no fim, sem sequer dizer
nada a ele, nos afastamos e, nos olhando de longe, não muito, só um pouco de longe,
nos acariciamos, cada um por si, mas nos olhando, até gozar. Depois ficou muito tempo
calada, segurando minha cabeça entre as mãos e empurrando-a devagar até onde queria
sentir minha boca, no pescoço, depois mais embaixo, e onde quer que lhe agradasse.
Mas é uma das poucas coisas que recordo com distinção, em sequência, porque o resto
da noite me parece agora, deixando-o voltar à memória, um lago sem início nem fim,
onde cada reflexo ainda está ali luzindo, mas cada margem está perdida, e a brisa é
ilegível. Sei, porém, que não tinha mãos, antes daquele lago, nem havia jamais respirado
daquele modo, junto a alguma outra pessoa, ou perdido meu corpo em uma pele que
não era a minha. Posso recordar quando ela pousou uma mão sobre meus olhos e me
pediu que abrisse as pernas, e muitas vezes revi, nos momentos mais estranhos, o gesto
com que de vez em quando ela enfiava sua mão entre seu sexo e minha boca, para deter
alguma coisa que não sei: à minha boca reservava a palma, o dorso ao seu sexo. Devo
àquela noite toda a inocência que gastei mais tarde em muitos gestos de amor, para sair
deles limpa, e devo àquela mulher a certeza de que o sexo infeliz é o único desperdício
que nos torna piores. Ela era lenta ao fazê-lo, menina e solene, magnífica quando ria no
prazer, e desejável em cada desejo seu. Não tenho em minha memória cansada as palavras
que ela me disse por último, e lamento havê-las perdido. Recordo que adormeci nos seus
cabelos.
Muitas horas depois se ouviram as portas do quarto se abrindo e a voz de Modesto
que escandia, Bom dia, calor opressivo e umidade maçante. Ele tinha, em tais
circunstâncias, um olhar de cego em que estava inscrita sua superior capacidade de ver
tudo e não recordar nada.
Mas veja só, disse a Mãe, nos safamos também desta noite, eu contava com isso, mais
um dia presenteado, não vamos deixá-lo escapar — e efetivamente já descera da cama e
sem sequer lançar um olhar para o espelho já saía do quarto para o desjejum,
anunciando em voz alta, mas não sei a quem, que a colheita devia ter começado, visto que
fazia alguns dias que ela acordava com uma sede imotivada e aborrecida (muitos dos seus
silogismos eram de fato imperscrutáveis). Eu, porém, continuei na cama, eu que não
temia a noite, e muito devagar deslizei de sob os lençóis, porque pela primeira vez tinha a
impressão de estar me movendo com um corpo dotado de quadris, de pernas, de dedos,
de odores, de lábios e de pele. Repassei mentalmente o índice que minha avó me havia
listado e registrei que, se quisesse ser detalhista, ainda me faltavam a astúcia e a habilidade
do ventre, não importando o que isso queria dizer. Eu encontraria o sistema para
aprender também aquilo. Uma olhada para o espelho me deu a resposta. Naquilo que vi,
eu soube, pela primeira vez com absoluta certeza, que o Filho iria voltar. Agora sei que
não me enganava, mas também que a vida pode ter modos muito elaborados de nos dar
razão.
Descer à sala dos desjejuns foi estranho porque em nenhuma outra manhã eu tinha
descido com um corpo e agora me parecia muito incauto, ou absurdo, levá-lo à mesa
saindo diretamente da noite, tal como ele estava, protegido apenas por uma camisola da
qual só agora eu percebia que me deixava as coxas descobertas e que se abria na frente,
quando me inclinava — coisas que eu jamais tinha tomado o cuidado de registrar. O
odor nos dedos, o sabor na boca. Mas era assim, fazia-se assim, éramos todos malucos,
de uma maluquice feliz.
Chegou a Filha, sorria, quase corria, arrastando a perna, mas isso não lhe importava,
veio direto a mim, a Filha, eu a tinha esquecido, minha cama vazia, ela sozinha no quarto,
nem de longe me ocorrera pensar nisso. Ela me abraçou. Eu ia dizendo alguma coisa, ela
balançou a cabeça, sempre sorrindo. Não quero saber nada, disse. Depois me beijou, de
leve, na boca.
Hoje ao anoitecer você vai comigo ao lago, me disse, quero lhe mostrar uma coisa.

E fomos mesmo, ao lago, na luz declinante do fim de tarde, cortando caminho pelos
pomares para seguir mais depressa e chegar na hora certa, uma hora que a Filha conhecia
com exatidão — aquele era o seu lago. Era difícil compreender como aquela obtusa
campina o acolhera em seu regaço, mas sem dúvida, ao fazer isso, tinha-o feito bem e em
definitivo: assim, a água era inexplicavelmente clara, imóvel, gélida e magicamente
indiferente às estações. Não congelava no inverno, não secava no verão. Era um lago sem
lógica, e talvez por isso ninguém havia jamais conseguido lhe dar um nome. Aos
forasteiros, os velhos diziam que ele não existia.
Cortaram pelos pomares e por isso chegaram bem a tempo — deitaram-se à beira
d’água, a Filha disse Não se mova, depois disse Estão vindo. E de fato, do nada,
começaram a chegar, um a um, pequenos pássaros de barriga amarela, quase andorinhas,
mas com um modo de mover-se desconhecido, e um reflexo de outros horizontes nas
penas. Agora faça silêncio e escute, disse a Filha. Os passarinhos cortavam o lago com
um voo pacato, a poucos palmos de altura. Depois, de repente, desciam ainda mais, e,
velocíssimos, chegavam à flor d’água: ali, em um instante, devoravam em pleno voo um
inseto que fora procurar abrigo, ou conforto, sobre a crosta úmida do lago. Faziam isso
com uma desenvoltura divina e, ao fazê-lo, por um segundo riscavam a água com a
barriga amarela: no silêncio absoluto da campina estonteada pelo calor, ouvia-se um
ciciar argênteo, as penas fazendo soar brevemente a pele da água. É o rumor mais belo
do mundo, disse a Filha. Deixou passar algum tempo, e um passarinho após o outro.
Depois repetiu: É o rumor mais belo do mundo. Certa vez, acrescentou, o Tio me disse
que muitas coisas, a respeito dos homens, só são compreensíveis se recordarmos que
eles jamais serão capazes de um som desse tipo — a leveza, a velocidade, a graça. Então,
me disse, não se deve esperar que proporcionem elegância, mas somente aceitar aquilo
que são, predadores imperfeitos.
A Noiva jovem ficou um pouco em silêncio, escutando o rumor mais belo do
mundo, e depois se voltou para a Filha.
Você sempre fala do Tio, sabe?, disse.
Sei.
Você gosta dele.
Claro. É com quem vou me casar.
A Noiva jovem caiu na risada.
Não faça barulho, senão eles vão embora, disse a Filha, irritada.
A Noiva jovem encolheu a cabeça entre os ombros e baixou a voz.
Você é maluca, ele é seu tio, não se pode desposar um tio, é uma coisa idiota, e
sobretudo proibida. Não vão lhe permitir isso.
Quem mais você quer que me queira, aleijada como sou?
Está brincando, você é magnífica, você…
Além disso, ele não é meu tio.
O quê?
Não é meu tio.
Claro que é!
Quem disse?
Todo mundo sabe, vocês o chamam de Tio, ele é seu tio.
Não é.
Está dizendo que aquele homem…
Quer se calar um pouco? Se você não os olhar, eles param.
Então as duas voltaram aos passarinhos de penas amarelas, vindos de longe para fazer
soar a água. Era surpreendente quantos detalhes haviam se encontrado em um só instante
para produzir o saldo daquela perfeição: nada teria funcionado de maneira tão desenvolta
com um lago pouco encrespado, e outros insetos, mais astutos, poderiam dificultar o
voo dos pássaros, assim como, sem o silêncio da campina obtusa, qualquer som se
perderia, mesmo que magnífico. Mas nenhum detalhe havia desertado, nem acumulado
atrasos no caminho, nem cessado de crer na própria minúscula inevitabilidade: então, em
cada ciciar das penas amarelas sobre a água, oferecia-se o espetáculo de uma passagem
bem-sucedida da Criação. Ou, se quisermos, o mágico avesso de uma Criação não
acontecida, isto é, um detalhe fugido à, de outro modo, casual gênese das coisas, uma
exceção à desordem e à insensatez do todo. Em todo caso, um milagre.
Deixaram passar um tempo. A Filha encantada, a Noiva jovem atenta, embora ainda se
demorando um pouco naquela história do Tio. Escapou às duas a elegância do ocaso —
uma eventualidade que raramente acontece: como se deve ter notado, não existe quase
nada que possa distrair a pessoa de um ocaso quando o tem diante dos olhos. A mim
aconteceu uma só vez, que eu me lembre, pela presença de certa pessoa ao meu lado, mas
foi a única vez — era de fato uma pessoa irrepetível. Normalmente isso não acontece —
mas aconteceu à Filha e à Noiva jovem, que tinham nos olhos um ocaso de certa elegância
e não o viram, porque estavam ali escutando o mais belo som do mundo repetir-se igual
muitas vezes, e depois uma última vez, não diferente. Os passarinhos de penas amarelas
desapareceram em uma distância cujo segredo só eles detinham, a campina voltou a ser
óbvia como era, e o lago, mudo como o tinham encontrado. Só então a Filha,
permanecendo deitada e continuando a fitar a superfície do lago, começou a falar e disse
que num dia de muitos anos antes, era inverno, ela e o Filho se perderam. Ele tinha sete
anos, eu cinco, disse, éramos crianças. Andávamos pelo campo, fazíamos isso com
frequência, era o nosso mundo secreto. Mas fomos longe demais, ou não sei, seguindo
alguma coisa, não me lembro — talvez uma ilusão, ou um pressentimento. Desceu a
escuridão e, com a escuridão, a névoa. Só percebemos tarde demais, não havia como
reconhecer nada, e o caminho de volta havia sido engolido por um muro que não
conhecíamos. O Filho sentia medo, eu também. Caminhamos muito tempo, tentando
manter sempre a mesma direção. Chorávamos os dois, mas silenciosamente. Depois
tivemos a impressão de escutar um rumor, que perfurava a névoa, o Filho parou de
chorar, recuperou uma voz firme, disse Vamos até lá. Nem víamos onde pousávamos os
pés, de vez em quando era terra dura, gelada, de vez em quando eram fossos, ou lama,
mas fomos adiante, seguíamos o rumor, que ouvíamos sempre mais perto. Afinal era a
roda de um moinho, girava com as pás em uma espécie de canal, estava tudo quebrado, a
roda girava com dificuldade, batendo por todos os lados, e aquele era o rumor. Em
frente, parado, havia um automóvel. Não tínhamos visto muitos, em nossa vida, mas
nosso pai possuía um, sabíamos do que se tratava. Sentado ao volante estava um homem,
que dormia. Eu disse alguma coisa, o Filho não sabia o que fazer, então nos
aproximamos, eu comecei a dizer que devíamos ir embora dali, e o Filho dizia Cale a
boca, depois disse Nunca encontraremos o caminho de casa, o homem dormia.
Falávamos baixo, para não o acordar, mas também levantando um pouco a voz, de vez em
quando, porque estávamos brigando e tínhamos medo. O homem abriu os olhos, nos
viu e disse: Subam aqui, eu levo vocês para casa.
Quando abriram a porta para nós, em casa, a Mãe gritou alguma coisa absurda, mas
muito feliz. O Pai se aproximou daquele homem e pediu explicações. No final apertou-
lhe a mão, ou o abraçou, não me lembro, e perguntou se podíamos fazer algo por ele.
Sim, respondeu ele, estou muito cansado, será muito incômodo se eu ficar um pouco
aqui, para dormir?, depois vou embora. Deitou-se no sofá, sem nem sequer esperar a
resposta. E adormeceu. Daquele dia em diante não foi mais embora, porque ainda deve
acabar de dormir, e porque seria tremendamente triste vê-lo partir. Quem o chamou de
Tio a primeira vez foi o Filho, dias depois. E ele permaneceu sendo o Tio, para sempre.
A Noiva jovem ficou refletindo um pouco.
Vocês nem sabem quem ele é, disse.
Não. Mas, quando nos casarmos, ele me contará tudo.
Não seria melhor pedir-lhe que conte e depois, se for o caso, casar-se com ele?
Já tentei.
E ele?
Continuou dormindo.
Aliás, é mais ou menos o que continuei fazendo quando o Doutor, em um
sobressalto insuportável de obviedade, me comunicou que o cerne do problema estava na
minha incapacidade de compreender quem sou. Como permaneci calado, o Doutor
repetiu sua obviedade, talvez esperando que eu reagisse de algum modo, por exemplo,
explicando quem eu era, ou, ao contrário, admitindo não ter a mais pálida ideia a
respeito. Mas na realidade o que fiz foi continuar cochilando mais um pouco. Em
seguida me levantei e cansadamente me dirigi à porta, dizendo que nossa colaboração
acabava ali. Recordo haver usado exatamente essas palavras, ainda que agora me pareçam
excessivamente formais. Ele então caiu na risada, mas uma risada forçada, provavelmente
prevista pelos compêndios, algo estudado nos livros, algo que me pareceu tão
insuportável que me induziu a um gesto inesperado — tanto para o Doutor quanto para
mim —, ou seja, empunhar o primeiro objeto que tive ao alcance da mão — um relógio
de mesa de limitadas dimensões, mas não desprovido de ângulos e de certa consistência
— e arremessá-lo contra o Doutor, acertando-o em cheio no ombro — e não na cabeça,
como depois relataram equivocadamente os jornais —, com o resultado de fazê-lo perder
os sentidos, não ficou claro se pela dor ou pela surpresa. Tampouco é verdade que
depois eu tenha me encarniçado contra o Doutor a pontapés, como sustentou um jornal
que me odeia há anos — ou pelo menos não recordo ter feito isso. Seguiram-se alguns
dias extremamente desagradáveis, em que me recusei a emitir qualquer declaração, por
mínima que fosse, aguentando todo tipo de insuportável mexerico e recebendo, sem
particular interesse, uma denúncia por agressão. Como é compreensível, desde então
vivo encerrado em casa, limitando as saídas ao estritamente necessário, e afundando aos
poucos em uma solidão pela qual me sinto aterrorizado, e ao mesmo tempo protegido.
Devo admitir que, pelas fotos enviadas por meu advogado, pareceria que de fato eu
golpeei o Doutor na cabeça. Que pontaria.
Afinal voltaram quando a escuridão já estava a caminho, a Filha com seu passo
cubista, a Noiva jovem com a mente em certos pensamentos seus, esfumados.

Fingiram não se dar conta, mas a verdade é que as entregas começaram a rarear,
deixando dias vazios sem nome, segundo ritmos que pareciam ter pouco de racional e
portanto algo de incoerente com a mente do Filho, tal como a tinham conhecido.
Chegou uma harpa irlandesa, e no dia seguinte vieram duas toalhas de mesa bordadas.
Depois nada, porém, por dois dias. Sacos de sementes, numa quarta-feira, e nada até o
domingo. Uma barraca amarela, três raquetes de tênis, mas no meio quatro dias sem
nada. Quando uma semana inteira se passou sem que um só toque do correio chegasse
para medir o tempo de espera, Modesto se decidiu a solicitar, respeitosamente, uma
conversa com o Pai. Havia preparado com cuidado a frase de abertura. Era coerente com
as enraizadas inclinações da Família, historicamente estranhas a qualquer pessimismo.
Terá com certeza registrado, senhor, certo espaçamento das entregas, nos últimos
tempos. Eu estava me perguntando se não seria o caso de deduzir daí a iminente chegada
do Filho.
O Pai o encarou, silencioso. Vinha de pensamentos longínquos, mas registrou em
alguma nesga periférica da mente a beleza da fidelidade a um estilo, com frequência mais
visível nos servos do que nos patrões. Certificou-a com um sorriso imperceptível. Mas,
como ele continuava silencioso, Modesto prosseguiu.
Aconteceu-me notar, por outro lado, que o último telegrama matutino remonta a
vinte e dois dias atrás, disse.
O Pai também havia notado. Não seria capaz de remontar a um dia exato, mas sabia
que desde algum tempo antes o Filho havia parado de tranquilizar a Família sobre o
resultado de suas noites.
Acenou que sim, com a cabeça. Mas permaneceu silencioso.
Na severa interpretação que dava ao seu ofício, Modesto considerava que se calar em
companhia de um patrão era uma prática excessivamente íntima, e por conseguinte a
evitava sistematicamente recorrendo a duas operações elementares: pedir permissão para
sair, ou continuar falando. Em geral preferia a primeira. Naquele dia, arriscou a
segunda.
Então, se o senhor me der licença para tal, iniciarei os preparativos para a chegada, e
disponho-me a dedicar a isso todo o meu empenho, dado o afeto que sinto pelo Filho e
considerando a alegria que o fato de revê-lo irá trazer para toda a casa.
O Pai quase se comoveu. Conhecia aquele homem desde sempre, então naquele
momento era perfeitamente capaz de compreender o que ele estava verdadeiramente lhe
dizendo, no avesso de suas palavras, com uma generosidade e uma elegância
irrepreensíveis. Modesto dizia que alguma coisa não ia bem com o Filho, e que ele estava
ali para fazer tudo o que fosse necessário a fim de que não fosse perturbada a regra que,
naqueles aposentos, não permitia a ninguém render-se à dor. Provavelmente, estava
também recordando ao Pai que sua própria devoção pelo Filho era tal que nenhuma
tarefa lhe pareceria imprópria, se o objetivo fosse o de suavizar o destino dele.
Por isso manteve-se em silêncio, o Pai — tocado pela proximidade daquele homem.
Pela inteligência, pelo controle. Estava, justamente naquela tarde, medindo a própria
solidão, e ao observar Modesto deu-se conta de ver nele o único personagem, digno, que
habitava naquelas horas a paisagem aberta do seu desconcerto. E de fato acontece, em
momentos como aqueles, quando somos chamados a suportar dores secretas, ou não
facilmente enunciáveis, que sejam personagens secundários, de programática modéstia, a
quebrar de vez em quando o isolamento ao qual nos obrigamos, com o resultado de nos
vermos, como aconteceu comigo há apenas alguns dias, concedendo a desconhecidos a
entrada ilógica em nosso labirinto, na ilusão infantil de poder extrair disso uma sugestão,
ou uma vantagem, ou mesmo apenas um alívio passageiro. No meu caso, tenho vergonha
de dizê-lo, tratava-se do vendedor de um supermercado que com meticulosa atenção
estava dispondo congelados no caixote apropriado — eu não saberia como chamá-lo
exatamente —, e o fazia com as mãos avermelhadas pelo gelo. Não sei, pareceu-me que
ele fazia algo afim àquilo que eu deveria fazer, relativamente ao caixote da minha alma —
não saberia como chamá-lo exatamente. Acabei dizendo-lhe isso. Gostei de ver que ele
não parava de trabalhar enquanto me dizia que não estava seguro de haver compreendido
bem. Então expliquei melhor. Minha vida se despedaçou, contei, e não consigo repor os
pedaços nos lugares certos. Minhas mãos estão cada vez mais geladas, faz algum tempo
que já não sinto nada, acrescentei. Ele deve ter pensado estar lidando com um doido, e de
fato aquela foi a primeira vez em que pensei que poderia até enlouquecer — possibilidade
que o Doutor, tolamente, fazia questão de excluir, antes de eu o acertar a golpes de
relógio. O segredo é fazê-lo todos os dias, me disse então o vendedor do supermercado.
A pessoa faz as coisas todos os dias, e assim fica fácil. Eu faço isto todos os dias, nem
percebo mais. O senhor faz alguma coisa todos os dias?, me perguntou. Escrevo,
respondi. Ótimo. O que escreve? Livros, eu disse. Livros sobre o quê? Romances,
respondi. Eu não tenho tempo de ler, comentou — é o que dizem sempre. Certo,
compreendo, disse eu, não é grave. Tenho três filhos, disse ele — talvez fosse uma
justificativa, mas eu em vez disso tomei-a pelo início de um diálogo, como uma
autorização para trocarmos alguma coisa, então lhe expliquei que, embora possa parecer
curioso, eu podia colocar pedaços de livro um sobre o outro sem sequer olhá-los, basta
tocá-los com a ponta dos dedos, por assim dizer, enquanto a mesma operação me resulta
proibitiva quando me aplico aos pedaços da minha vida, com os quais não consigo
construir nada que tenha uma forma sensata, ou mesmo apenas educada, se não
agradável, e isso apesar do fato de ser um gesto a que me aplico praticamente todo dia, e
já faz tantos dias que, sabe, eu disse, minhas mãos estão geladas, não sinto mais nada.
Ele me encarou.
Sabe onde posso encontrar guardanapos de papel?, perguntei.
Claro, venha comigo.
Caminhava à minha frente, em seu uniforme branco, e por um instante vi o único
personagem, digno, que habitava naquelas horas a paisagem aberta do meu desconcerto.
Por isso consigo compreender por que o Pai, em vez de dizer alguma coisa a propósito
do Filho, abriu uma gaveta e tirou dali um envelope, aberto, carregado de selos. Girou-o
um pouco entre as mãos. Depois o estendeu a Modesto. Disse que vinha da Argentina.
Modesto não dispunha de imaginação — qualidade inútil em seu ofício, se não
danosa —, de modo que não se moveu: estava-se falando do Filho, a Argentina não tinha
a ver, ou, se tivesse, fazia-o mediante conexões cujo mapa ele não conhecia.
Mas o Pai estava apavorado com a própria solidão, por isso fez um gesto
peremptório e disse:
Leia, Modesto.
Este pegou o envelope. Abrindo-o, viu-se pensando que, em cinquenta e nove anos
de serviço, tivera acesso a uma série de segredos, e no entanto aquela era a primeira vez
que alguém lhe ordenava expressamente que o fizesse. Estava se perguntando se isso
mudaria de algum modo o estatuto de sua posição naquela Casa, quando as primeiras
linhas o arrebataram de qualquer pensamento. A carta estava escrita em uma letra um
tanto complicada, mas com uma ordem que apenas no fim se rendia ao cansaço.
Nomeava as coisas sem buscar elegância ou precisão, mas sim remetendo tudo à
simplicidade que se imagina terem os fatos, quando não se teve o privilégio de estudá-
los. Não havia luxo, nem comoção, nem inteligência. As pedras, se falassem, falariam
daquele modo. Era uma carta breve. Estava assinada com uma rubrica.
Modesto dobrou de novo o papel e, por vocação instintiva para a ordem, guardou-o
no envelope. A primeira coisa que registrou, desorientado, foi que não havia rastro do
Filho, naquela carta: o assunto era totalmente outro. Ele não estava habituado a enfrentar
as coisas daquele modo — tinha sempre a argúcia de dispor os problemas em uma
sequência linear, na qual fosse possível considerá-los um a cada vez: arrumar a mesa
constituía a mais elevada exemplificação de tal preceito.
A segunda coisa que registrou, ele a disse em voz alta.
É terrível.
Sim, disse o Pai.
Modesto pousou a carta sobre a escrivaninha, como se ela queimasse.
Quando chegou?, perguntou. Não se lembrava de ter pronunciado uma pergunta tão
direta ao Pai, nem ao Pai do Pai, em toda a sua vida.
Faz alguns dias, respondeu o Pai. Foi escrita por um informante de Comandini, eu
tinha pedido a este que mantivesse a situação vagamente sob controle.
Modesto assentiu. Não admirava os modos de Comandini, mas sempre havia
reconhecido a habilidade dele.
A Noiva jovem sabe?, perguntou.
Não, disse o Pai.
Será preciso informá-la.
O Pai se levantou.
Talvez, disse.
Por um instante hesitou entre ir até a janela, para esculpir uma pausa silenciosa, ou
medir o aposento com passos lentos que fariam Modesto compreender seu cansaço, mas
também sua calma. Optou por girar em torno da escrivaninha e deter-se, diante do
serviçal. Olhou para ele.
Disse-lhe que muitos anos antes havia começado a fazer um gesto, e que desde então
nunca tinha parado de se dedicar à ilusão de concluí-lo. Disse, um tanto obscuramente,
que havia herdado de sua família um nó intricado em que já ninguém parecia conseguir
distinguir qual era o fio da vida e qual o fio da morte, e disse que havia pensado em
desatá-lo, e esse era o seu projeto. Podia recordar o dia preciso em que isso tinha lhe
ocorrido, a saber, o dia da morte do seu pai — pelo modo como este havia morrido,
como tinha querido morrer. A partir dali havia iniciado a trabalhar com paciência,
convencido de que desencadear aquele gesto seria a passagem mais difícil: mas agora
compreendia que o esperavam provas inesperadas, de que não tinha experiência, e diante
das quais exibia um saber insuficiente. Porém não podia voltar atrás, a não ser que se
fizesse perguntas para as quais não tinha nem talento nem respostas. Assim, ainda existia
aquela trilha a percorrer de novo, e de repente ele constatara haver perdido os traços dela
porque alguém tinha removido, ou baralhado, os sinais que ele havia predisposto no
terreno. E por cima de tudo estava descendo uma névoa, ou um crepúsculo, não lhe era
claro. Por isso nunca estivera tão próximo de se perder, e essa era a razão por que agora
se via, estupefato, explicando tudo aquilo a um homem que eu recordo, eterno,
movendo-se em torno da minha vida de menino, presente em toda parte e sempre
ausente, tão inexplicável que um dia cheguei a perguntar ao meu pai quem era ele,
ouvindo como resposta É um serviçal, nosso melhor serviçal. Então eu lhe perguntei o
que fazia um serviçal. É um homem que não existe, me explicou meu pai.
Modesto sorriu.
É uma definição bastante exata, disse.
Mas tinha afastado ligeiramente da cadeira uma das pernas, e o Pai compreendeu que
não podia pedir novamente, àquele homem, que percorresse outra vez com ele as pegadas
do próprio extravio. Modesto não nascera para isso, e, se tanto, seu trabalho o destinava
a servir exatamente o contrário — gerir algumas certezas, ocorridas na vida, cristalizadas
por uma família.
Então o Pai recuperou sua costumeira e branda firmeza.
Amanhã irei à cidade, disse.
Não é quinta-feira, senhor.
Eu sei.
Como preferir.
Levarei comigo a Noiva jovem. Iremos de trem. Conto com você para organizar uma
acomodação reservada, o ideal seria viajarmos sozinhos.
Certamente.
Outra coisa, Modesto.
Diga.
O Pai sorriu, porque via aquele homem recuperar as cores, agora que ele o trouxera
de volta à superfície de suas tarefas, depois de tê-lo incautamente mergulhado nas
profundezas de incertas reflexões. Modesto havia até devolvido a perna ao devido lugar,
alinhada com a outra, disposta a permanecer.
Daqui a vinte e dois dias partiremos para o veraneio, disse, com pacata segurança.
Nenhuma mudança na programação habitual. Naturalmente, a casa deverá ficar
completamente vazia, para repousar, como sempre fizemos.
Depois deu uma resposta genérica a uma pergunta que Modesto não teria coragem
de fazer.
O Filho saberá como se comportar, disse, seja lá em que pé andem as coisas.
Bem, disse Modesto.
Esperou um instante e em seguida se levantou. Com licença, disse. Ia iniciando
aqueles primeiros passos para trás que precediam a lendária rajada de vento, quando o
pai, com uma pergunta, induziu-o a interromper seu número preferido e a erguer o
olhar.
Modesto, faz anos que eu queria lhe perguntar: o que você faz quando nós viajamos e
fechamos a casa?
Eu me embriago, respondeu Modesto, com imprevisível presteza e despreocupada
sinceridade.
Por duas semanas?
Sim senhor, todos os dias, por duas semanas.
Onde?
Tenho uma pessoa que cuida de mim, na cidade.
Posso cometer a indiscrição de perguntar de que tipo de pessoa se trata?
Se for estritamente necessário, senhor.
O Pai pensou um instante.
Não, não creio que seja estritamente necessário.
Modesto fez uma reverência agradecida e se deixou levar pela costumeira lufada. O Pai
teve inclusive a impressão de sentir um sopro de brisa, a tal ponto havia chegado a
mestria daquele homem. Então, por um tempinho, manteve-se entregue à própria
admiração, antes de se levantar e ousar aquilo que, durante a conversa com Modesto,
havia imaginado fazer, com certa urgência, até mesmo espantado por não ter tido essa
ideia antes. Saiu do escritório e começou a peneirar a casa procurando aquele que
desejava encontrar, ou seja, o Tio. Achou-o, obviamente adormecido, no divã do
corredor, um daqueles divãs em que ninguém pensa em sentar-se — eles são inseridos
em algum espaço para corrigi-lo, simulando uma necessidade a fim de preencher vazios.
É a mesma lógica à qual se devem as mentiras, nos casais. O Pai foi buscar uma cadeira e
levou-a para perto do divã. Sentou-se. O Tio dormia segurando entre os dedos um
cigarro, apagado. Exibia no rosto traços isentos de qualquer pensamento e respirava
devagar, no puro exercício de uma necessidade do viver, desprovida de objetivo ulterior
ou de fins secundários. O Pai falou em voz baixa, e disse que o Filho tinha desaparecido,
e que ele podia perceber isso, a cada momento, no gesto irremediável de apartar-se, de
todos e provavelmente de si mesmo. Disse que não conseguia interpretar aquilo como
uma possível variante frutífera do seu destino de homem, embora admitisse que podia
efetivamente sê-lo, e isso porque jamais acreditara na possibilidade de organizar o
mundo, se era permitido que algumas peças desfrutassem do privilégio de desaparecer,
verbo que abominava. Assim, estava desarmado e se perguntava se ele, o Tio, podia por
acaso devolver-lhe seu filho mais uma vez, como soubera fazer muito tempo antes, de um
modo misterioso mas pontual, ou pelo menos ajudá-lo a compreender a etiqueta dos
desaparecimentos, visto que parecia conhecer-lhes os detalhes, e talvez até as derradeiras
razões. Disse tudo isso torcendo as mãos uma na outra, em um gesto nervoso que não
lhe era habitual, e que ele sabia provir da terra para a qual estava viajando, nos passos
lentos de sua última peregrinação.
O Tio não se moveu, mas misteriosos eram os ritmos de sua presença, e o Pai ficou
esperando, sem pressa. Não acrescentou nada ao que havia dito, a não ser, por fim, um
longo silêncio paciente. Até que uma das mãos do Tio se moveu para um bolso, puxando
dali uns fósforos. O Tio abriu os olhos, não pareceu perceber a presença do Pai, acendeu
o cigarro. Só então se voltou para ele.
Todas aquelas coisas que ele manda, disse.
Com um gesto afastou a fumaça, que parecia dirigir-se para o Pai.
Está se livrando delas, disse.
Não levava aos lábios o cigarro, deixava-o fumar-se a si mesmo, como se acendê-lo
tivesse sido um gesto de cortesia para com ele.
Eu não havia percebido isso. Alguém havia percebido?, perguntou.
O Pai disse que a ele as remessas tinham parecido um modo curioso de voltar, talvez
até um modo bonito: um pouco a cada vez. Parecia um modo feliz de voltar.
Em vez disso, ele estava indo embora, disse.
O Tio olhou o cigarro, concedeu-lhe mais alguns segundos e depois o apagou em
um jarro de flores que havia tempo estava habituado à coisa.
Pois é, disse.
Em seguida fechou os olhos. Dormindo, acrescentou que ninguém desaparece para
morrer, mas alguns o fazem para matar.

Mas sem dúvida, havia sentenciado alegremente a mãe, é óbvio que a moça deve ver a
cidade, do contrário que possibilidade terá de compreender uma catedral gótica ou o
meandro de um rio. Na cidade não havia nem catedrais góticas nem meandros de rios,
mas a ninguém ocorreu fazê-la notar a coisa (muitos dos seus silogismos eram de fato
imperscrutáveis). Estava-se no meio do desjejum, as torradas começavam a arrefecer, e o
Pai e a Noiva jovem terminavam os preparativos em seus quartos. Só não compreendo
por que de trem, continuou a Mãe. Quando se tem um automóvel, quero dizer. O
Farmacêutico, notório hipocondríaco, e por conseguinte insolitamente adequado ao
próprio ofício, deflagrou uma reflexão sobre os riscos das viagens, fosse qual fosse o
modo pelo qual se pretendesse realizá-las. Com certo orgulho, sublinhou que ele jamais
percorrera uma distância que excedesse trinta e cinco quilômetros a partir de sua casa.
Para isso é necessária certa constância, admitiu a Mãe. É uma das minhas virtudes, disse
o Farmacêutico. E uma surpreendente dose de estupidez, completou a Mãe. O
Farmacêutico fez uma reverência e murmurou Obrigado, porque havia bebido e somente
à noite, depois, em casa, reconstituiu a sequência inteira, compreendendo então que algo
lhe havia escapado. Não pensou muito no assunto. A esposa, uma megera dez anos mais
velha do que ele e tinha um hálito famoso em toda a região, perguntou se alguma coisa o
incomodava. Além de você?, perguntou o Farmacêutico, que na juventude tivera seus
momentos de esplendor.
E assim viram-se no trem. Modesto havia trabalhado bem, e um vagão inteiro se
oferecia à solidão daqueles dois, enquanto nos outros as pessoas se acotovelavam entre
bagagens e gritos de crianças. É incrível o que se pode obter quando se dispõe de muito
dinheiro e de certa vocação para a prodigalidade.
O pai se sentou no sentido do avanço do trem, e isso por causa da inexatidão do
coração e de uma tão meticulosa quanto idiota recomendação do seu cardiologista, o dr.
Acerbi. A Noiva jovem se vestira com uma elegância castigada, porque havia optado por
um perfil algo discreto. Efetivamente, ao vê-la partir, a Mãe torcera o nariz. Ela vai se
encontrar com freiras?, havia perguntado ao seu vizinho no desjejum, sem dar
importância ao fato de que este era o monsenhor Pasini. Mas, quando se tratava de falar,
a Mãe não se preocupava com escolher os interlocutores. Provavelmente imaginava falar
ao mundo, quando falava. É um erro que muitos cometem. É possível, tinha respondido
gentilmente o monsenhor Pasini. Anos antes, ele perdera a cabeça por uma freirinha do
Carmelo, mas naquele momento a coisa não lhe voltou à mente.
Tendo partido o trem — no qual, por outra recomendação do já citado dr. Acerbi,
eles embarcaram com uma hora de antecedência, a fim de evitar qualquer probabilidade
de estresse —, o Pai pensou que era o caso de iniciar a operação à qual, com certa
ferocidade, decidira aplicar-se naquele dia.
Deve ter se perguntado por que eu a levo comigo, disse.
Não, respondeu a Noiva jovem.
E por um tempinho a conversa teve dificuldade de decolar.
Mas o Pai tinha uma missão a cumprir, estudada milimetricamente, e portanto
esperou que o plano se recompusesse com clareza em sua mente, abriu a pasta com a
qual sempre se dirigia à cidade (com frequência não continha nada, mas ele gostava de ter
algo a não esquecer pelo caminho) e dali tirou uma carta. Estava aberta e carregada de
selos.
Recebi esta aqui faz alguns dias, da Argentina. Temo que a senhorita deva lê-la.
A Noiva jovem deu uma olhada no envelope, mas do mesmo modo como poderia
olhar um prato de aspargos depois de ter vomitado.
Prefere que eu a resuma?, perguntou o Pai.
Eu preferiria que o senhor a guardasse de volta na pasta, se é para falar a verdade.
Isso é impossível, disse o Pai. Ou melhor: inútil, esclareceu.
Então eu preferiria um resumo.
De acordo.
O trem chacoalhava.
Recebi notícias de sua família, começou ele. Não são boas, completou.
Depois, visto que a Noiva jovem não esboçava reação, decidiu entrar no cerne do
assunto.
Temo ter de informar a senhorita que, no dia seguinte ao de sua partida da
Argentina, seu pai foi encontrado em um fosso, afogado em dois palmos de água e lama.
A Noiva jovem não moveu um só músculo. O Pai prosseguiu.
Ele estava voltando de uma noitada não sei onde, provavelmente bêbado, ou prefiro
pensar que o cavalo empinou de repente e o jogou no chão. Provavelmente uma
fatalidade, um revés da sorte.
Não é um fosso, disse a Noiva jovem. É um rio, uma miséria de rio, o único que
corre por aquelas paragens.
O Pai imaginava um tipo diferente de reação, para a qual tinha se preparado. A carta
lhe escapou da mão e ele precisou se inclinar para recolhê-la.
Nenhum revés da sorte, prosseguiu a Noiva jovem. Ele tinha prometido fazer isso e
fez. Deve ter se embriagado como um animal e depois se jogou.
Sua voz era duríssima, e calma. Mas o Pai lhe viu lágrimas nos olhos.
Sabe de mais alguma coisa?, perguntou a Noiva jovem.
Deixou um estranho testamento, escrito no mesmo dia de sua morte, disse o Pai, com
cautela.
A Noiva jovem assentiu com a cabeça.
O trem chacoalhava.
Deixou metade de seus haveres para a esposa, e a outra metade para os filhos, disse o
Pai.
Todos os filhos?
Pois é, este é o ponto, digamos assim.
Digamos.
Devo informar-lhe que a senhorita não é citada.
Agradeço ao senhor pela prudência, mas preferiria evitar eufemismos, sei o que
posso esperar.
Digamos que a senhorita é citada, mas em um contexto um tanto… eu diria severo.
Severo.
Há somente uma frase dedicada à senhorita.
Uma frase que diz o quê?
Aparentemente, seu pai desejava que a senhorita fosse amaldiçoada, por todos os dias
que ainda vai viver. Cito de cor, e me desculpo profundamente.
As lágrimas começaram a correr pelo rosto da Noiva jovem, que no entanto mantinha
a coluna empertigada, e os olhos fixos no Pai.
Mais alguma coisa?, perguntou.
Isso é tudo, disse o Pai.
Como o senhor sabe todas essas coisas?
Eu me mantenho informado, quem quer que se dedique ao comércio faz isso.
O senhor negocia com comerciantes da Argentina?
Pode acontecer.
A Noiva jovem nem sequer procurava esconder as lágrimas, ou enxugá-las de algum
modo. Em sua voz, porém, não havia sombra de lamento ou de surpresa.
O senhor se incomoda se ficarmos um pouco em silêncio?, indagou.
Imagine, eu a compreendo muito bem.
Pelas janelas do trem passaram muitas campinas, sempre iguais, enquanto a Noiva
jovem se mantinha em um silêncio de ferro, e o Pai fitava o vazio, repassando seus
pensamentos. Desfilaram estaçõezinhas de nomes pungentes, campos de trigo
engordados pelo calor, casebres sem poesia, campanários mudos, telhados, estábulos,
bicicletas, seres humanos surdos, curvas de estradas, renques de plantas, e em certo
momento um circo. Somente quando a cidade estava iminente a Noiva jovem pegou um
lenço, secou as lágrimas e ergueu o olhar para o Pai.
Eu sou uma moça sem uma família e sem um centavo, disse.
Sim, concordou o pai.
O Filho sabe disso?
Não me pareceu que houvesse especial urgência de informá-lo.
Mas vai saber.
É inevitável, mentiu o Pai, sabendo que a questão era um pouco mais complicada.
Para onde o senhor está me levando?
Como assim?
Está me levando embora?
O Pai escolheu um tom firme, queria que a Noiva jovem soubesse o quanto ele
dominava a situação.
Absolutamente não, a senhorita por enquanto permanecerá com a Família, quanto a
isso não vale a pena nem mesmo iniciar uma conversa. Eu desejava apenas que nós dois
ficássemos sozinhos, para poder comunicar as notícias que lhe interessavam. Não estou
levando-a embora.
Para onde, então?
Para a cidade, senhorita, peço-lhe apenas que me siga.
Eu queria voltar para casa. É possível?
Naturalmente. Mas posso pedir que não o faça?
Por quê?
O Pai adotou um tom a que raramente recorria, e que jamais havia usado com a
Noiva jovem. Implicava a admissão a alguma confidência.
Veja, não foi agradável para mim tratar de coisas que lhe diziam respeito, e não fiquei
feliz por receber, antes da senhorita, notícias que só marginalmente me cabem. Tive a
desagradável sensação de haver lhe roubado algo.
Fez uma breve pausa.
Então, achei que ficaria aliviado à ideia de que também a senhorita pudesse conhecer
circunstâncias que ignora, e que até exerceram e ainda exercem uma grande influência
sobre a vida da Família, e em particular sobre a minha.
A Noiva jovem ergueu o olhar e mostrou um estupor que, ao ouvir a notícia sobre
seu pai, ela sequer havia esboçado.
Vai me contar algum segredo?, perguntou.
Não, eu não seria capaz disso. E também tendo a evitar situações emocionalmente
muito envolventes, por razões de cautela médica, como talvez a senhorita possa
compreender.
A Noiva jovem assentiu com um leve aceno de cabeça.
O Pai prosseguiu.
Creio que o melhor é ir comigo até onde a estou levando, é um lugar onde alguém
saberá lhe contar aquilo que é muito importante para mim que a senhorita saiba.
Buscou a exatidão das palavras concentrando-se na abotoadura de um pulso.
Já aviso que em um primeiro momento o lugar lhe parecerá pouco apropriado,
sobretudo depois da notícia que acaba de receber, mas pensei muito e tenho a presunção
de crer que a senhorita é uma jovem pouco inclinada aos lugares-comuns, e portanto me
convenci de que não se perturbará, e por fim compreenderá que não havia outro modo.
Por um instante a Noiva jovem pareceu ter algo a dizer, mas depois se limitou a
dirigir o olhar para a janelinha do trem. Viu que a grande estação os estava engolindo
com seu palato de ferro e vidro.

E o que você faz em toda esta solidão?, me perguntou L., enquanto inspecionava,
horrorizada, a ordem maníaca da minha casa.
Escrevo meu livro, respondi.
E você, o que veio fazer nesta minha solidão?, perguntei, notando que ela ainda tinha
os mesmos lábios de antes, lábios difíceis de compreender.
Vim ler seu livro, respondeu.
Mas com aquele olhar que eu conheço. Todos se irritam um pouco, ao seu redor,
quando faz meses, talvez anos, que você trabalha em um livro que ninguém leu ainda. No
fundo, no fundo, pensam que você não o está verdadeiramente escrevendo. O que
esperam é encontrar em sua gaveta uma montanha de folhas de papel nas quais está
escrito milhares de vezes Só trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Só vendo a
surpresa deles, quando descobrem que você escreveu o livro para valer. Babacas.
Passei-lhe as folhas impressas, ela se reclinou em um sofá e, fumando, começou a ler.
Fazia anos que eu a conhecia. Uma vez ela me fizera compreender que estava
morrendo, mas talvez fosse só infelicidade, ou médicos incompetentes. Agora tem duas
crianças e um marido. Dizia coisas inteligentes, sobre aquilo que eu escrevia, enquanto
fugíamos para quartos de hotel a fim de nos amarmos, desajeitados mas obstinados. Ela
sempre disse coisas inteligentes inclusive sobre as pessoas de verdade, e às vezes sobre
como vivíamos nós. Talvez eu esperasse que ela pudesse reabrir o mapa da Terra e me
mostrar onde eu estava — eu sabia que, no caso, ela o faria com certa beleza nos gestos,
porque lhe era inevitável. Por isso lhe respondi quando me escreveu, ressurgindo do
nada em que desaparecera. Não é uma coisa que faço, ultimamente. Não respondo a
ninguém. Não pergunto nada a ninguém. Não devo pensar nisso, do contrário fico
incapaz de respirar, pelo horror.
Agora ela se reclinava no sofá, lendo o que estava impresso naquelas folhas, em vez de
Só trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Deve ter levado nisso uma hora — ou
um pouco mais. Por todo esse período, fiquei quieto, olhando-a e procurando um nome
para aquela película que, passado o tempo, permanece sobre as mulheres que outrora
amamos, sem que os dois verdadeiramente se deixassem, ou se odiassem, ou se
engalfinhassem — simplesmente se separaram. Isso não deveria me importar muito,
agora que já não tenho nomes praticamente para nada, mas a verdade é que tenho uma
conta em suspenso, com aquele nome, faz anos que me escapa. Quando estou pertíssimo
de capturá-lo, ele se enfia em uma rachadura invisível da parede. E depois não há jeito de
fazê-lo sair. Resta o perfume de uma atração sem nome, e aquilo que não tem nome é
inquietante.
No final ela se espreguiçou, pousou as folhas no chão e se virou de lado para me
olhar bem. Ainda era bonita, quanto a isso não havia dúvida.
Para onde diabos ele a está levando?
Queria saber do Pai e da Noiva jovem.
Eu disse para onde.
Para um bordel?, perguntou, sem convicção.
Muito elegante, respondi. Imagine um salão, imerso em luzes discretas e
cuidadosamente disseminadas, e com muita gente de pé ou nos divãs, garçons pelos
cantos, bandejas, cristais, você poderia tomar a cena por uma festa muito comportada,
mas a normalidade era rompida pelo fato de haver pouca distância, em geral, entre os
rostos — as mãos destacavam gestos inadequados, como o deslizar da palma por baixo
da barra de uma saia, ou os dedos brincavam com um cacho de cabelo, com um brinco.
Eram detalhes, mas destoavam de todo o resto, e ninguém parecia se dar conta disso, ou
ficar perturbado. Os decotes não escondiam, os sofás predispunham a posições
escorregadias, os cigarros viajavam de boca em boca. Parecia que alguma urgência havia
trazido à superfície vestígios de um despudor que em regra jazia sepultado sob as
conveniências: uma escavação arqueológica poderia, de igual modo, fazer reaflorarem, do
piso de uma basílica, placas de um mosaico obsceno. A Noiva jovem ficou atordoada
pelo espetáculo. Pelo levantar-se de alguns casais, e pelo desaparecimento destes através
de portas que abriam para em seguida fechá-las atrás de si, intuiu que o salão era um
plano inclinado, e a destinação de todos aqueles gestos, um alhures labiríntico escondido
em alguma parte do prédio.
Por que me trouxe aqui?, perguntou.
É um lugar muito especial, disse o Pai.
Isso eu entendi. Mas o que é?
Uma espécie de clube, digamos.
São todos de verdade?
Não sei se compreendi a pergunta.
São atores, é um espetáculo, ou o quê?
Oh, se o que a senhorita esperava era isso, não, absolutamente não. Não é esse o
objetivo.
Então, é o que eu pensei.
Provavelmente. Mas está vendo aquela mulher que vem ao nosso encontro,
sorridente, muito elegante?, pronto, tenho certeza de que ela conseguirá lhe explicar tudo
e deixá-la à vontade.
A Mulher elegante segurava uma taça de champanhe entre os dedos, e quando chegou
diante deles debruçou-se para beijar o Pai, murmurando-lhe ao ouvido algo secreto. Em
seguida voltou-se para a Noiva jovem.
Ouvi muito falar de você, disse, antes de se debruçar para beijá-la uma vez, numa
bochecha. Evidentemente havia sido linda, quando moça, e agora não aparentava ter
necessidade de demonstrar mais nada. Usava um vestido esplêndido, mas sem decote, e
nos cabelos exibia joias que à Noiva jovem pareceram antigos troféus.
Porque imaginei — disse eu a L. — esta Mulher elegante e a Noiva jovem sentadas
naquela grande festa ambígua, mas em um divãzinho um pouco afastado dos outros,
esfumado em uma luz indireta, fraca, quase fechadas em uma bolha particular, próxima
da imprudente exultação dos outros, mas soprada no vidro de suas palavras. Sempre as vi
beber alguma coisa, vinho ou champanhe, e sei que de vez em quando lançavam um olhar
ao redor, mas sem ver. Sei que a ninguém ocorreria aproximar-se delas. A Mulher
elegante tinha uma tarefa a cumprir, mas sem pressa, e uma história a contar, mas com
prudência. Falava lentamente e pronunciava o nome das coisas sem embaraço, porque
isso fazia parte de seu ofício.
Que ofício?, me perguntou L.
A Mulher elegante riu com uma bela risada, cristalina. Como assim, que ofício,
mocinha? O único que se pode exercer aqui.
Ou seja?
Os homens pagam para se deitar comigo. Estou simplificando um pouco,
obviamente.
Tente não simplificar.
Bem, eles também podem pagar para não se deitar comigo, ou para falar enquanto
me tocam, ou para me ver trepar, ou para serem olhados, ou…
Entendi, pode parar.
Foi você quem pediu que eu não simplificasse.
Sim, claro. Incrível.
O que é incrível, querida?
Que existam mulheres com um ofício desses.
Oh, não só mulheres, é uma coisa que os homens também fazem. Se observar ao
redor com um mínimo de atenção, você encontrará senhoras de certo frescor que
parecem gastar seu dinheiro com incauta originalidade. Ali adiante, por exemplo. Mas
também aquela moça, aquela alta, que está rindo. O homem com quem ela ri não é de se
desprezar, certo? Posso lhe assegurar que está sendo comprado por ela.
Dinheiro.
Dinheiro, sim.
Como é que alguém acaba fazendo amor por dinheiro?
Oh, há muitos motivos.
Como?
Por fome. Por tédio. Por acaso. Por ter talento para isso. Para se vingar de alguém.
Por amor a alguém. Basta escolher.
E não é terrível?
A Mulher elegante disse que não sabia mais. Talvez, disse. Mas acrescentou que seria
bobagem não compreender que havia algo de muito intrigante em ser puta, e esta é a
razão por que, sentado diante de L., que reclinada no sofá me olhava, virada de lado,
acabei perguntando se por acaso já lhe acontecera pensar que havia algo de muito
intrigante em ser puta. Respondeu que sim, que lhe acontecera pensar isso. Depois
ficamos em silêncio por um bom tempo.
Por exemplo, despir-se para alguém que você não conhece, disse ela, deve ser bom.
Ou mesmo outras coisas, disse.
Que coisas?
Perguntei-lhe isso porque recordava este traço bonito dela, não ter vergonha de dar
nome às coisas.
Olhou-me demoradamente, estava procurando um limite.
Os minutos precedentes, ou as horas, esperando. Sabendo que você está prestes a
transar, mas sem saber com quem.
Disse isso lentamente.
Vestir-se sem sentir vergonha.
A curiosidade, descobrir corpos que você jamais escolheria, pegá-los, tocá-los, poder
tocá-los.
Ficou um pouco em silêncio.
Olhar-se no espelho tendo em cima de você um homem a quem nunca viu antes.
Olhou para mim.
Fazê-los gozar.
Sentir-se assustadoramente bela, disse a Mulher elegante. Já aconteceu com você?
Uma vez, uma manhã, disse a Noiva jovem.
Talvez até se sentir desprezada, disse L., mas não sei, talvez. Talvez me agradasse
transar com alguém que me despreza, não sei, deve ser uma sensação fortíssima e não é
uma coisa que aconteça na vida da gente.
E muitas outras coisas que não acontecem na vida, disse a Mulher elegante.
Mas agora chega, disse L.
Por quê?
Paremos com isso, vamos.
Continue.
Não, agora chega, disse a Mulher elegante.
Sim, disse a Noiva jovem.
Tenho uma história para contar. Prometi ao Pai.
Precisa mesmo fazer isso?
Sim.
Conte-me uma história, eu prefiro, disse L.
Era a história do Pai.

Que comparecia àquele bordel duas vezes ao mês, por exigências sobretudo médicas,
com o objetivo de desafogar os humores do corpo e assegurar certo equilíbrio ao
organismo. Raramente a coisa ultrapassava os limites emocionais de uma doméstica
medicação, consumada no prazer da conversa e com uma polidez de cerimônia do chá.
Nem sequer faltavam as ocasiões em que à enfermeira da vez cabia repreender com garbo
o Pai — Definitivamente, hoje resolvemos nos deixar levar pela preguiça, hein? —, e isso
segurando o sexo dele entre os dedos com grande mestria, mas escassos resultados.
Então se suspendia a conversa, e a enfermeira pegava a mão do Pai para metê-la entre as
coxas — outras vezes descobria um seio e o oferecia aos lábios dele. Bastava isso para
realinhar o procedimento ao seu objetivo, e conduzir o Pai ao amplo delta de um
orgasmo compatível com a inexatidão do seu coração.
Se tudo isso pode parecer tediosamente asséptico, ou mesmo cínico, ou
exageradamente médico, ainda assim convém lembrar que no alvorecer de tudo, muitos
anos antes, esta história havia sido, ao contrário, uma história de ferozes paixões — disse
a Mulher elegante à Noiva jovem — e de amor, e de morte, e de vida. Você não sabe nada
do Pai do Pai, disse-lhe, mas na época todos sabiam dele, porque era um homem que se
destacava gigantesco no panorama prudente destas terras. Foi ele quem inventou a
riqueza da Família, quem lhe cunhou a lenda e tornou-lhe imutável a felicidade. Foi o
primeiro a não ter nome, porque as pessoas, todas, se referiam a ele como o Pai,
intuindo que não era apenas um homem, mas uma origem, um início, um tempo antigo,
a hora sem precedentes e a primeira terra. Antes dele talvez não tivesse existido nada, e
por isso ele era para todos, e de tudo, O Pai. Era um homem forte, calmo, sensato e de
uma feiura encantadora. Não fez uso da juventude, porque esta lhe serviu para inventar,
para construir, para combater. Quando completou trinta e oito anos, ergueu a cabeça e
viu que tudo o que havia imaginado estava concluído. Então partiu rumo à França e não
deu notícias, até que, alguns meses depois, voltou para casa trazendo consigo uma
mulher que tinha sua mesma idade e não falava a nossa língua. Desposou-a, recusando-
se a fazer isso na igreja, e um ano depois ela morreu ao parir um filho que por toda a
vida carregaria, em memória dela, uma inexatidão no coração: hoje você o chama o Pai. O
luto durou nove dias, e não duraram mais do que isso a consternação e o estupor, já que
o Pai do Pai não acreditava na infelicidade, ou ainda não tinha compreendido o objetivo
dela. E assim tudo voltou a ser como antes, com o imperceptível acréscimo de um
menino, e outro, mais vistoso, de uma promessa: disse, o Pai do Pai, que nunca mais
amaria nem desposaria outra mulher no mundo. Tinha então trinta e nove anos, estava na
plenitude de sua força, de seu mistério e de sua feiura encantadora: a todos, isso pareceu
um desperdício, e a ele não escapou o risco de uma insensata renúncia ao desejo. De
modo que se dirigiu à cidade, adquiriu um edifício apartado mas suntuoso e ali mandou
construir, no último andar, um local em tudo idêntico àquele onde, em Paris, havia
conhecido a mulher francesa. Olhe ao seu redor e verá. Não mudou praticamente nada,
desde então. Imagino que uma pequena parte da riqueza a que você terá acesso com seu
casamento venha daqui. Mas o que interessava ao Pai do Pai não era o lado financeiro da
coisa. Durante vinte e dois anos, duas vezes por mês, sempre numa quinta-feira, ele
entrou por aquela porta, porque havia prometido a si mesmo carregar até a morte um
coração que não admitisse o amor e um corpo que não aceitasse privações. Uma vez que
era o Pai, não imaginava fazê-lo de outra maneira que não em um cenário luxuoso e em
um clima de festa coletiva e permanente. Por todo aquele tempo, as mulheres mais ricas,
mais ambiciosas, mais solitárias ou mais belas da cidade tentaram em vão subtraí-lo à sua
promessa. Era um assédio com o qual ele se comprazia, mas se mantendo inacessível por
trás das paredes de suas recordações e escoltado pela cintilação de suas putas. Até o
momento em que uma mocinha ficou obcecada por ele. Dispunha de uma beleza
esplendorosa e de uma inteligência imprevisível, mas o que a tornava perigosa era algo de
mais impalpável e desconhecido: era livre, e o era com tal ilimitada naturalidade que
inocência e ferocidade eram indistinguíveis nela. Provavelmente começou a desejar o Pai
do Pai antes mesmo de vê-lo: talvez tenha sido atraída pelo desafio, decerto lhe agradou
aplicar-se a uma lenda. Sem hesitações, tomou uma iniciativa surpreendente, que ela
achou simplesmente lógica: veio trabalhar aqui e o esperou. Um dia ele a escolheu, e a
partir daquele dia ela foi a única escolhida. Durou longamente: por todo aquele tempo,
nunca se viram uma só vez fora daqui. Por isso, ao Pai do Pai devem ter parecido
inviolada sua própria firmeza e intacta sua promessa: tarde demais percebeu que o
inimigo já se apossara, e não mais existiam promessa nem firmeza. Teve certeza absoluta
disso quando a mocinha lhe avisou, sem alarde, que esperava um bebê. É difícil dizer se
o Pai do Pai contemplou a possibilidade de redesenhar sua vida sobre aquela paixão
tardia e sobre aquela progênie imprevista, porque, se o fez, não lhe foi dado o tempo
para dizê-lo a si mesmo e ao mundo: morreu, uma noite, entre as pernas da mocinha, em
um movimento do ventre, na penumbra de um quarto que desde então mais ninguém
usou. Se você ouvir dizer que foi uma inexatidão do coração a traí-lo, finja acreditar. Mas
foram obviamente a inquietação, a surpresa, talvez o cansaço, talvez o alívio de não
precisar inventar para si um fim diferente. A mocinha ficou ali, apertando-o entre as
pernas, acariciando-lhe os cabelos, falando-lhe em voz baixa de viagens e inventores, por
todo o tempo que foi necessário para mandar alguém até o campo, a fim de avisar as
pessoas em casa. Fez-se tudo com uma discrição aprendida de cor, e isso porque muitos
homens morrem nos bordéis, mas nenhum homem morre em um bordel, como se sabe.
Por isso todos sabiam exatamente o que fazer, e como fazer. Um pouquinho antes do
alvorecer, chegou o Filho. Hoje você o chama o Pai, mas ele estava então com pouco mais
de vinte anos e, por causa da inexatidão do coração, tinha fama de rapaz esmaecido,
elegante e misterioso. No bordel fora visto poucas vezes, e nessas poucas vezes
dificilmente as pessoas se deram conta de sua passagem. Confiava apenas em uma
mulher, uma moça portuguesa que em geral trabalhava para certas senhoras entediadas,
muito ricas: mandavam-lhe as filhas, para aprender. Foi ela quem se dirigiu a ele, naquela
noite. Levou-o para um quarto, deitou-se ao seu lado e contou o que ele estava prestes a
ver, explicando-lhe cada coisa e respondendo a todas as suas perguntas. Certo, disse ele.
Levantou-se e foi até onde estava o pai. Naquele preciso momento, a Família era pouco
mais do que uma hipótese, pendente da vida ainda não nascida de um bebê equivocado e
da saúde precária de um rapaz. Mas ninguém compreendera de que rapaz se tratava, e
ninguém podia saber que a intimidade cotidiana com a morte nos torna perspicazes e
ambiciosos. Sentou-se numa poltrona, em um canto do quarto, e, mantendo as duas
mãos pressionadas sobre o coração, a fim de protegê-lo, permaneceu longo tempo
olhando o dorso pétreo de seu pai, e o rosto daquela jovem que falava em voz baixa,
pernas abertas, velando um morto. Compreendeu que algo de estranho se desarrumara,
no destino da Família, algo pelo qual ficara difícil separar o nascer do morrer, o
construir do destruir, e o desejar do matar. Perguntou a si mesmo se fazia algum sentido
opor-se à inércia da sorte, e se deu conta de que lhe bastariam uns dez minutos para
arruinar tudo. Mas ele não tinha nascido, nem sua mãe tinha morrido, para isso.
Levantou-se e mandou chamar o fiel serviçal com quem havia chegado — um homem de
excepcional dignidade. Disse-lhe que o Pai morrera em casa, na própria cama, às três e
quarenta e dois da madrugada, vestido em seu melhor pijama e sem ter tido tempo de
pedir ajuda. Claro que sim, disse o serviçal. Provavelmente uma inexatidão do coração,
disse o Filho. É óbvio, disse o serviçal, enquanto já se aproximava da mocinha e, com
uma frase inesquecível — Permite? —, se inclinava sobre o corpo do Pai. Com uma força
insuspeitável, tomou-o nos braços. Depois deu um jeito de fazer o corpo desaparecer do
bordel de maneira invisível, sem estragar o prazer e a festa que, entre estas paredes, eram
e são uma obrigação inflexível, sempre. Tendo ficado sozinho com a jovem, o Filho se
apresentou. Perguntou-lhe se sabia algo sobre ele. Tudo, respondeu a jovem. Ótimo,
isso nos fará poupar tempo, comentou o Filho. Em seguida lhe explicou que os dois se
casariam e que o bebê que ela trazia no ventre havia sido gerado com ele e seria para
sempre o amado filho do casal. Por quê?, perguntou a mocinha.
Para reorganizar o mundo, respondeu ele.
Na manhã seguinte, ordenou que o luto durasse nove dias, contados a partir da data
do enterro. No décimo, anunciou seu casamento com a mocinha, e no primeiro dia de
verão o matrimônio foi celebrado com inesquecível regozijo. Três meses depois a jovem
pariu, sem morrer, um filho homem, que você dentro em pouco desposará: desde então,
todos a chamam a Mãe. Na casa que você conheceu, ela se tornou mulher, de modo
diligente, e é a luz que permite, àquele homem que agora todos chamam o Pai, viver na
penumbra, enquanto com ferocidade mantém o mundo em ordem. Existe algo que os
liga, mas obviamente a palavra amor, neste caso, não explica nada. É mais forte o segredo
que compartilham, assim como a tarefa que escolheram para si. Um dia, quando já fazia
um ano que viviam sob o mesmo teto, sem jamais dividir a cama, sentiram-se
suficientemente fortes para desafiarem juntos os dois medos que se haviam habituado a
associar ao sexo: ele de morrer, ela de matar. Fecharam-se num quarto e só saíram
quando tiveram certeza de que, se existia um encantamento sobre eles, tinham-no
desfeito. Por isso existe a Filha, que naquelas noites foi concebida: se a sorte a quis
aleijada e belíssima, foi sem dúvida para escrever uma mensagem cifrada, que ninguém
conseguiu compreender ainda. Mas é só questão de tempo, mais cedo ou mais tarde se
saberá. Quando você organiza o mundo, diz o Pai, não pode ser também você a decidir
em qual velocidade ele lhe permitirá fazer isso. Queria que eu lhe contasse esta história,
não sei por quê. Contei. Agora não me olhe assim e acabe seu vinho, mocinha.
Mas a Noiva jovem permaneceu imóvel, o olhar cravado na Mulher elegante. Parecia
escutar, absorta, palavras que se haviam atrasado ao longo do caminho e agora se
acotovelavam retardatárias, desprovidas de qualquer som. Instintivamente, recebia-as com
enfado. Perguntava-se o que acontecera àquele dia para torná-lo tão efeminado, a ponto
de desfazer qualquer segredo e despedaçar o dom da ignorância. Não compreendia o que
desejava dela essa gente, repentinamente ávida e generosa de verdades que lhe pareciam
arriscadas. Sem refletir, lançou uma pergunta, mordendo as palavras.
Se é uma história secreta, como é que você a conhece?
A Mulher elegante não abriu mão de sua leveza.
Eu nasci em Portugal, ensino sexo às mocinhas da alta sociedade, disse.
Você.
Precisa de alguma lição?
Não preciso de nada.
Não precisa de nada, certo.
Ou talvez de uma coisa.
Diga.
Poderia me deixar sozinha um pouco?
A Mulher elegante não respondeu. Limitou-se a erguer os olhos para a sala, mas
como se os baixasse sobre um tabuleiro no qual alguém tinha iniciado uma partida cujo
resultado ela era capaz de prever, sem incertezas. Em seguida, o que fez foi descalçar com
certa lentidão as esplêndidas luvas de seda, que eram vermelhas e longas, até acima do
cotovelo, e pousá-las no colo da Noiva jovem.
Quer ficar sozinha, disse.
Sim.
Certo.
Levantou-se, a Mulher elegante, sem desapontamento, sem pressa, sem nada. Devia
ter se levantado daquele modo de muitos divãs, muitos leitos, muitas alcovas, muitas
vidas.
L. também se levantou, mas não com a mesma paz, não conhecia paz, que eu
soubesse. Esticou-se e olhou a hora.
Caralho.
Precisa ir embora?
Já devia ter ido há um tempão.
Você foi embora há um tempão.
Não nesse sentido, seu bobo.
Quando foi embora você esqueceu em cima da cama um maço de cigarros, pela
metade. Andei com ele durante meses. De vez em quando fumava um. Por fim acabaram.
Não comece.
Não estou começando.
E pare de se matar nesta porcaria de alojamento que parece a toca de um maníaco.
Chamo um táxi para você?
Não, estou de carro.
Vestiu a jaqueta e, no reflexo de uma janela, deu uma ajeitada nos cabelos. Depois
ficou parada um instante, de pé, me encarando, pensei que ela estivesse decidindo se me
daria um beijo de despedida, mas na realidade estava pensando em outra coisa.
Por que todo aquele sexo?
Como assim?
No livro, todo aquele sexo.
Quase sempre há sexo, nos meus livros.
Sim, mas neste é uma obsessão.
Acha?
Você sabe disso.
Obsessão me parece um pouco exagerado.
Pode ser. Mas evidentemente existe alguma coisa que o atrai, nisso de escrever sobre
sexo.
Sim.
O que é?
O fato de ser difícil.
L. começou a rir.
Você não muda nunca, hein?
Foi a última coisa que disse. Afastou-se sem sequer se voltar ou se despedir, era algo
que ela fazia inclusive antes, e de que eu gostava.
Afastou-se com beleza, sem nem sequer se voltar ou se despedir, pensou a Noiva
jovem, observando a Mulher elegante atravessar a sala. Gosto disso. Sabe lá quantas
noites é preciso passar para se tornar assim. E quantos dias desperdiçar, pensou. Anos.
Serviu-se de mais vinho. Tanto faz. A estranha solidão de quem está só no meio de uma
festa como aquela. A minha solidão, disse a si mesma em voz baixa. Empertigou o dorso,
jogou os ombros para trás. Agora vou colocar nos respectivos lugares os meus
pensamentos, e em ordem alfabética os meus medos, pensou. Mas sua mente permaneceu
imóvel, incapaz de percorrer a via estreita dos pensamentos: vazia. Gostaria de se
perguntar o que ainda lhe pertencia, depois daquele dia de narrativas. Fez uma breve
tentativa. A primeira coisa é que não tenho mais ninguém. Nunca tive, então não muda
nada. Mas em seguida a mente voltou a ficar vazia, imóvel. Um animal preguiçoso.
Melhor que todos saibam, posso finalmente ser eu mesma, saber disso foi melhor
inclusive para mim, eu ficaria com um pai atravessado na garganta, a vida toda, melhor
que ele tenha morrido, melhor agora. Um dia vou entender se fui eu que o matei, agora
sou jovem demais, devo tomar cuidado para não me matar. Adeus, pai, adeus, irmãos.
Mas depois o vazio, novamente, nem sequer doloroso, apenas incorrigível. Ergueu o
olhar para a festa que crepitava ao seu redor, e se deu conta de ser uma sombra, em sua
roupa inadequada, um lance indecifrável à margem da partida. Não se importava. Baixou
a vista e fitou aquelas luvas vermelhas, de seda, longas, pousadas em seu regaço. Difícil
dizer se tinham um significado. Tirou a jaqueta, permanecendo em seu vestido ordinário,
que lhe deixava descobertos os braços. Pegou as luvas e calçou-as com cuidado mas sem
objetivo, ou mal entrevendo consequências que lhe eram desconhecidas. Gostou de
encontrar para cada dedo uma acomodação macia, e em seguida de fazer a seda vermelha
deslizar sobre a pele, até acima do cotovelo. Dedicar-se a um gesto inútil lhe fazia bem.
Aqui eu poderia aprender muitas coisas, disse a si mesma. Quero voltar, devo me vestir
de outra maneira, talvez o Pai me deixe voltar. Quem sabe se a Filha já esteve aqui. E a
Mãe, aqui, ainda mocinha, que espetáculo não terá sido? Glorioso. Olhou as próprias
mãos, pareciam mãos que ela havia perdido e que agora alguém lhe restituíra. Devem
estar grotescas, com este vestido, pensou. Não se importava. Perguntou-se com o que se
importava, naquele momento. Nada. Depois percebeu que um homem tinha parado, de
pé, diante dela. Ergueu o olhar: ele era jovem, parecia educado, e estava lhe dizendo
alguma coisa, provavelmente alguma coisa brilhante — sorria. Não estou escutando você,
pensou a Noiva jovem. Mas o homem não saía dali. Não estou escutando você mas é
verdade, você é jovem, não está bêbado, usa um belo paletó. Ele continuava sorrindo para
ela. Depois se inclinou com elegância e perguntou, de um modo bonito, se podia sentar-
se ao lado dela. A Noiva jovem olhou-o demoradamente, como se devesse recapitular
toda uma história sem a qual não seria capaz de dar uma resposta. Por fim deixou-o se
sentar, sem um sorriso. O homem voltou a falar, e a Noiva jovem permaneceu
observando-o sem escutar uma só palavra: mas, quando ele lhe estendeu a taça de
champanhe que mantinha entre os dedos, ela a levou aos lábios, sem cautelas. Ele a fitou,
com ar de quem estuda um enigma.
Pode perguntar, se não estiver entendendo, disse a Noiva jovem.
Eu nunca a vi aqui, disse o homem.
Não, eu também nunca me vi aqui, disse ela. Nem sequer agora estou me vendo,
pensou.
O homem registrou a sorte de ter encontrado uma moça inexperiente e limpa, uma
circunstância que naquele tipo de jogo resultava rara e apresentava um atrativo todo
especial. Mas, como sabia que com frequência se tratava de uma encenação hábil,
inclinou-se para diante a fim de pousar os lábios no pescoço da Noiva jovem e, quando
esta instintivamente se retraiu, ele começou a pensar que naquela tarde a sorte estava de
fato lhe concedendo um deleite que, sob a condição de certa paciência, tornaria
memorável sua noitada.
Peço desculpas, disse.
A Noiva jovem o encarou.
Não, disse, não se preocupe comigo, faça de novo, é que eu não esperava.
O homem então se inclinou de novo sobre ela, e a Noiva jovem se deixou beijar no
pescoço, fechando os olhos. Pensou que o homem sabia beijar com garbo. Ele levantou a
mão para lhe tocar o rosto, numa carícia polida. Quando se distanciou dela, não afastou a
mão de seu rosto, pelo contrário, demorou-se em acariciá-lo até que, com a ponta dos
dedos, roçou os lábios, que não se deu conta de estar fitando, surpreso: então o vestido
dela deixou de lhe parecer tão inexplicavelmente inadequado, e por um instante ele
duvidou da própria certeza. Ela sabia por que e, surpreendendo a si mesma, prendeu
entre os lábios aqueles dedos, manteve-os um instante, aquecendo-se, e em seguida,
girando a cabeça, afastou o homem com um gesto cortês e disse que nem sequer sabia
quem ele era. Quem eu sou?, perguntou ele, sem parar de fitar os lábios dela.
Pode até inventar, disse a Noiva jovem.
Então ele sorriu, e permaneceu um instante fitando-a em silêncio, porque já não tinha
muita certeza sobre o que estava acontecendo.
Não vivo aqui, disse.
Onde, então?
Ah, em outro lugar, disse ele. Depois acrescentou que era um estudioso.
De quê?
Ele explicou e, sem sequer compreender bem por quê, fez isso escolhendo
atentamente as palavras, e com o desejo de que ela entendesse de verdade.
Está inventando?, perguntou ela.
Não.
Mesmo?
Juro.
Fez menção de beijá-la na boca, mas ela recuou e, em vez de conceder um beijo,
segurou-lhe uma mão e pousou-a sobre os joelhos, impelindo-a em seguida para a barra
do vestido, mas de um modo indecifrável, que podia parecer um insignificante,
milimétrico gesto escapado a uma intenção real. Nem mesmo ela sabia, naquele
momento, o que estava buscando. Mas se deu conta de que em algum lugar, em seu
corpo, estava o absurdo desejo de fazer-se tocar pela mão daquele homem. Não porque
aquele homem lhe agradasse, era-lhe indiferente: sentia antes a urgência de descartar
alguma coisa de si, e abrir as pernas à carícia daquele homem lhe pareceu de pronto o
modo mais breve, ou simples. Fitou-o com um olhar que não significava nada. O
homem silenciava. Depois levou a mão até embaixo do vestido, com cautela. Perguntou a
ela de onde vinha, e quem era. E a Noiva jovem respondeu. Enquanto tentava recordar
até onde subiam suas meias e onde começaria a pele sob os dedos do homem, pôs-se a
falar. Inesperadamente, escutou a própria voz, calma, quase fria, pronunciando a verdade.
Disse que havia crescido na Argentina e, para a própria surpresa, contou o sonho de seu
pai, os pampas, os rebanhos de gado, o casarão no meio do nada. Falou de sua família.
Não fazia sentido, mas contei tudo. Ele, lentamente, com certa elegância, me acariciava o
joelho, às vezes mantendo a palma imóvel e mexendo só os dedos. Eu disse que aquilo
que na Itália havia parecido fácil tinha se revelado, na Argentina, muito mais complicado,
e quase sem perceber me surpreendi confidenciando pela primeira vez a alguém o meu
segredo, dizendo que a certa altura meu pai precisara vender tudo o que possuía na Itália
para continuar com seu sonho. Era obstinado, em suas ilusões, e corajoso, em seus
erros, eu disse. Então vendeu tudo o que tínhamos para pagar as dívidas e recomeçar um
pouco mais a leste, onde a cor da grama lhe pareceu a melhor e as profecias de uma
feiticeira lhe prometeram ilimitada e tardia fortuna. O homem escutava. Fitava-me nos
olhos, depois descia para fitar os lábios — eu sabia por quê. Começou a subir com a
mão por baixo do vestido e não opus resistência, porque, misteriosamente, era aquilo
que eu queria. Contei que havia regras, lá, que não compreendíamos, ou talvez não
compreendêssemos a terra, a água, o vento, os animais. Havia guerras antigas às quais
chegávamos por último, e uma ideia misteriosa de propriedade, e um conceito fugidio de
justiça. Também uma violência invisível, que era fácil de perceber mas impossível de
decifrar. Não recordo ao certo quando, disse a Noiva jovem, mas a certa altura tivemos
todos a certeza de que tudo estava se arruinando e de que, se permanecêssemos lá por
mais um dia, não haveria como voltar atrás. O homem se inclinou para beijá-la na boca,
mas ela recuou porque devia terminar de pronunciar o nome de certa verdade, e aquela
era a primeira vez em que o fazia em voz alta. Os homens da família se fixaram nos olhos,
disse, e o único que não os abaixou foi meu pai. Então compreendi que não nos
salvaríamos mais.
Sem parar de me acariciar, o homem me olhou, talvez estivesse procurando
compreender se alguma coisa daquilo que eu estava dizendo me importava. Fiquei em
silêncio, apenas o encarei com uma graça que tinha sabor de desafio. Sentia a mão dele,
sob o vestido, entre as pernas, e me ocorreu, de repente, que eu podia fazer daquela mão
o que quisesse. É incrível como pronunciar uma verdade mantida oculta por muito
tempo nos torna arrogantes, ou seguros, ou não sei — fortes. Inclinei um pouco a
cabeça para trás, fechei os olhos e senti a mão subindo pelas minhas pernas. Bastou um
pequeno suspiro para levá-la até onde as meias acabavam e senti-la sobre a pele.
Perguntei-me se de fato era capaz de detê-la. Então abri os olhos e disse com uma voz
absurdamente doce que meu pai, à noite, fazia exatamente aquele gesto, com sua mão
lenhosa — sentava-se ao meu lado e, enquanto meus irmãos saíam mudos do aposento,
deslizava justamente daquele modo sob a minha saia, com sua mão de madeira cansada.
O homem parou. Voltou com a mão até o joelho, mas sem um gesto brusco,
simplesmente como se já pensasse em fazê-lo havia tempo. Não era mais o pai que eu
tinha conhecido, disse a Noiva jovem, era um homem destroçado. Estávamos tão
sozinhos que o voo de um falcão já era uma presença, ou a chegada de um homem da
crista da colina, um acontecimento. Ao dizer isso ela era encantadora, a tal ponto os
olhos se perdiam em uma obscura distância, e firme era a sua voz. Então o homem se
inclinou para ela, a fim de beijá-la na boca, em um gesto em que nem mesmo ele poderia
distinguir entre a urgência do desejo e a cortesia de um gesto protetor. A Noiva jovem se
deixou beijar, porque naquele momento estava subindo a encosta da verdade, e qualquer
outro gesto lhe era indiferente — era a outro lugar que estava se dirigindo. Mal sentiu a
língua do homem, não lhe importava. Sentiu, mas com uma percepção periférica, que
aquela mão, sob o vestido, se aproximava do seu sexo. Afastou-se da boca do homem e
disse que por fim a única solução que encontrou foi a de chegar a um acordo com certa
gente, lá na Argentina, e isso significava que ela deveria desposar um homem que mal
conhecia. Nem era um homem desagradável, sorriu a Noiva jovem, mas eu estava
comprometida com um rapaz que amava, aqui na Itália. Que amo, disse. Abri um
pouquinho as pernas e deixei que os dedos do homem encontrassem o meu sexo. Então
disse ao meu pai que jamais o faria, e que iria partir, como desde sempre havíamos
decidido, para me casar aqui, e que nada poderia me impedir. Ele disse que assim eu o
arruinaria. Disse que, se eu partisse, ele se mataria no dia seguinte. O homem abriu meu
sexo, com os dedos. Eu disse que fugi em plena noite, com a ajuda dos meus irmãos, e
que não olhei para trás, enquanto não acabei de atravessar o oceano. E quando o homem
enfiou os dedos no meu sexo eu disse que, um dia depois da minha fuga, meu pai tinha
se matado. O homem se deteve. Dizem que caiu bêbado em um rio, acrescentei, mas eu
sei que ele deu um tiro na cabeça com sua espingarda, porque me havia descrito
exatamente como o faria, e me havia prometido que, no último instante, não teria nem
medo nem pesares. Então o homem me fitou nos olhos, queria saber o que estava
acontecendo. Peguei com doçura a sua mão e tirei-a de sob meu vestido. Levei-a à boca e
prendi seus dedos entre os lábios, por um instante. Depois disse que lhe seria
infinitamente grata se ele fizesse a cortesia de me deixar sozinha. Ele me olhou sem
entender. Eu lhe seria infinitamente grata se agora o senhor fizesse a cortesia de me
deixar sozinha, repetiu a Noiva jovem. O homem fez uma pergunta. Por favor, disse a
Noiva jovem. Então o homem se levantou, por um reflexo instintivo de educação, e sem
compreender o que lhe acontecera. Disse uma frase de circunstância, mas em seguida se
manteve de pé, prolongando alguma coisa que ele não sabia. Por fim disse que não era
aquele o modo mais adequado de entreter um homem, naquele lugar. Não posso lhe
tirar a razão e peço que o senhor aceite minhas desculpas, disse a Noiva jovem: mas
tranquila, sem a sombra de um pesar. O homem se despediu com uma inclinação. Várias
vezes, depois, na vida, tentaria esquecer aquele encontro, sem conseguir, ou contá-lo a
alguém, sem achar as palavras certas para fazê-lo.

Ficaram bem, na senhorita, disse o Pai, apontando as compridas luvas vermelhas.


A Noiva jovem ajeitou uma dobra do vestido.
Não são minhas, disse.
Que pena. Podemos ir?
Voltaram de trem, de novo sozinhos, um sentado em frente à outra, na luz de um
ocaso longo, e se agora eu recapitular esse momento posso recordar em detalhes, apesar
de todos os anos passados, a intenção com a qual me mantinha altiva, a coluna ereta, nem
mesmo apoiada no espaldar, lutando contra um cansaço imenso. Era orgulho, mas de
uma espécie que o sangue só gera na juventude — emparelha-o, por equívoco, à
fragilidade. Mantinham-me desperta a trepidação do trem e a dúvida de que uma infâmia
definitiva se tivesse derramado, toda em um dia, no bojo da minha vida, como em uma
xícara que agora parecia impossível esvaziar: eu mal conseguia incliná-la o suficiente para
ver escoar pelas bordas o líquido opaco da vergonha — sentia-o escorrer lento, sem
saber o que pensar. Se tivesse sido lúcida, se tivesse tido mil vidas a mais, teria sabido, ao
contrário, que aquele dia estranho, de confissões e bizarrices, me trouxera uma lição que
depois levei anos, e muitos erros, para aprender. Em cada detalhe, o que eu havia feito
naquelas horas — e escutado, e dito, e visto — estava me ensinando que são os corpos a
ditar a vida — todo o resto é uma consequência. Eu não podia acreditar nisso, naquele
momento, porque como todos, na juventude, esperava algo mais complexo, ou
sofisticado. Mas agora não conheço história, minha ou de outrem, que não se tenha
iniciado no movimento animal de um corpo — uma inclinação, uma ferida, uma
torcedura, às vezes um gesto brilhante, com frequência instintos obscenos que vêm de
longe. Tudo já está escrito ali. Os pensamentos vêm depois, e são sempre um mapa
tardio, ao qual atribuímos, por convenção e cansaço, uma precisão qualquer.
Provavelmente era isso que o Pai tinha intenção de me explicar, tomando a iniciativa
aparentemente absurda de levar uma mocinha a um bordel. À distância de anos, devo
reconhecer nele uma corajosa exatidão. Queria me levar a um lugar onde fosse impossível
defender-se da verdade — e inevitável escutá-la. Pretendia me dizer que a trama de
destinos que o tear das nossas famílias tinha produzido ao longo de anos era tecida com
um fio primitivo, animal. E que, por mais que nos fatigássemos em buscar explicações
mais elegantes ou artificiais, a origem de todos nós estava escrita nos corpos, em
caracteres gravados a fogo — quer fosse a inexatidão de um coração, o escândalo de uma
beleza imprudente, ou a brutal inevitabilidade do desejo. Assim se vive na ilusão de
recompor aquilo que o movimento humilhante de um corpo, ou esplêndido,
desarrumou. Em um último movimento esplêndido do corpo, ou humilhante, morre-se.
Todo o resto é uma dança inútil, tornada memorável por bailarinos maravilhosos. Mas
eu sei disso agora, não sabia então — e naquele trem estava cansada demais para
compreender, ou orgulhosa, ou amedrontada, não sei. Mantinha a coluna ereta e isso era
tudo. Observava o Pai: ele tinha retomado sua aparência de homem bonachão, acessório
— estava ali com as mãos uma na outra, apoiadas no colo, e as fitava. De vez em quando,
mas brevemente, erguia os olhos para a janela do trem. Depois voltava a fitar as mãos.
Um espetáculo. A Noiva jovem se deu conta de achar aquele homem, de repente,
irresistível, apenas juntando aquilo que havia sabido sobre ele e a figura desanimada que
estava agora à sua frente. Registrou pela primeira vez a habilidade espetacular com que o
Pai sabia esconder a força de que dispunha, as ilusões de que era capaz e a ambição
desmesurada a que estava dedicando a vida. Um jogador profissional, que vencia com
cartas invisíveis. Um trapaceiro fantástico. Viu nele uma beleza que nem por um instante,
antes daquele dia, lhe havia acontecido vislumbrar. Agradaram-na aquela solidão, no
trem que avançava, e o fato de terem sido eles dois, por um dia. Tinha dezoito anos:
levantou-se, foi sentar-se ao lado dele e, quando compreendeu que ele não pararia de fitar
as mãos, apoiou a cabeça em seu ombro e adormeceu.
O Pai interpretou isso como um gesto de síntese, o compêndio de tudo o que à
Noiva jovem podia ter acontecido de pensar a propósito do que descobrira naquele dia.
Pareceu-lhe até de certa, inesperada, exatidão. De modo que a deixou dormir e voltou ao
que estava fazendo, fitando as próprias mãos. Estava recapitulando as ações realizadas
naquele dia, extraindo do ato a comportada satisfação de um general que, ao mudar a
disposição das tropas no campo de batalha, tivesse obtido um enfileiramento mais
adequado ao terreno e menos vulnerável às invenções do inimigo. Naturalmente havia
alguns detalhes a providenciar, sendo o primeiro encontrar o Filho que estava
desaparecido, mas o resultado daquele dia de grandes manobras o inclinava ao otimismo.
Tendo chegado a essas conclusões, parou de fitar as mãos e, erguendo o olhar para a
janela, concedeu-se um rito mental a que não conseguia se dedicar fazia tempo: repassar
as próprias certezas. Tinha certo número delas, e de diferentes tipologias. Misturava-as
com prazer infantil. Partiu da ideia, sobre a qual não alimentava dúvidas, de que no verão
era aconselhável usar sabão para barba aromatizado com cítricos. Depois prosseguiu
com a convicção, amadurecida ao longo dos anos, de que a caxemira na realidade não
existia, e continuou repetindo para si mesmo a óbvia evidência da inexistência de deus.
Quando se deu conta de que deviam desembarcar, saltou para a última certeza da lista,
porque era a que mais lhe importava, a única que ele jamais confidenciara a ninguém, e
aquela a que reservava a parte mais heroica de si. Nunca pensava nela sem pronunciá-la
em voz alta.
Não morrerei de noite, mas sim à luz do sol.
A Noiva jovem levantou do ombro dele a cabeça, retornando de sonhos longínquos.
O senhor disse alguma coisa?
Que devemos desembarcar, senhorita.
Quando saíram da estação a Noiva jovem permanecia em silêncio, enredada na teia de
um despertar complicado. Modesto tinha vindo buscá-los e levou-os de caleça para casa,
anotando as pequenas novidades do dia com uma nuance de alegria na voz: era praxe na
Família, de fato, que qualquer retorno, mesmo o mais corriqueiro, trouxesse júbilo nos
modos e alívio nos gestos.
Somente quando já tinham descido da caleça, e poucos passos os separavam da
soleira da casa, a Noiva jovem deu o braço ao Pai e se deteve. Infalível, Modesto
prosseguiu, sem se voltar, e desapareceu por uma porta lateral. A Noiva jovem apertou o
braço do Pai, mas sem desviar o olhar da ampla e clara fachada que estava prestes a
engoli-los.
E agora?, perguntou.
O Pai não se perturbou.
Faremos o que deve ser feito, disse.
E seria o quê?
Que pergunta. Partiremos para o veraneio, querida.

Não quando a escrevi, mas dias depois, durante a releitura, deitado no divã, atentei
para aquela frase que eu havia escrito, e passei a examiná-la de perto. Querendo, podia-se
até tentar dar-lhe um acabamento um pouco melhor. Por exemplo, Será de dia, à luz do
sol, que morrerei soava mais rotundo. Também Quero morrer à luz do sol, e o farei podia
funcionar. Quando é assim, experimento ler a frase em voz alta — em voz alta, aliás, era
como também a pronunciava o Pai —, e repetindo-a, então, a escutei, e de repente foi
como se eu não a tivesse escrito, mas sim recebido, naquele momento, esgueirada até ali
de alguma distância desconhecida. Acontece. O som era nítido, a postura correta. Não
morrerei de noite, mas sim à luz do sol. Não vinha de mim, estava ali e pronto: então me
dei conta de que ela dizia alguma coisa que eu não saberia formular, mas que agora
reconhecia sem incertezas. Tinha a ver comigo. Li-a mais uma vez e compreendi, em toda
simplicidade, que aquilo que me restava a desejar, dado por definitivo o meu
desconcerto, era de fato morrer à luz do sol, embora morrer fosse sem dúvida um termo
algo precipitado — digamos desaparecer. Mas em nenhuma noite, isso agora me estava
claro. À luz do sol. Eu estava deitado no divã, repito, e fazendo o único gesto que
ultimamente consigo fazer com segurança e com boa capacidade de controle, ou seja,
escrever um livro: mas de repente já não estava escrevendo, estava vivendo — justamente
uma coisa que negligencio fazer há tempos, ou ao menos sempre que me é possível —,
se viver é o nome daquele rápido voltar a mim que me aconteceu experimentar, sem aviso
prévio, enquanto, deitado no divã, lia em voz alta uma frase que eu havia escrito alguns
dias antes e que agora me reaparecia, como proveniente de longe, na luz convincente de
uma voz que já não era a minha.
Olhei ao redor. As coisas, a ordem, a penumbra. A toca de um maníaco, dissera L.
Um pouquinho exagerada, como sempre. E no entanto…
Será que eu devo acabar assim?
Ocasionalmente — como se deve ter notado — acontece de alguém pensar: será que
eu devo acabar assim?
Quanto a mim, fazia tempo que não pensava nisso. Havia parado de me interrogar.
Você se precipita para baixo, sem perceber muito, ensurdecido pela dor, e é tudo.
Mas naquele momento pensei — Será que eu devo acabar assim? —, e me ficou claro
que, seja lá qual fosse a destinação do meu viver, era decerto inadequada a luz em que eu
estava esperando conhecê-la, assim como absurda era a paisagem em que eu lhe permitia
aproximar-se, e demencial a fixidez que eu me havia reservado na expectativa. Era tudo
injusto.
Sobre o rumo declinante que minha situação tinha tomado, eu não me permitia
julgar. Mas, quanto à ambientação, eu tinha algo a dizer, era isso.
Não morrerei de noite, mas sim à luz do sol.
Era o que eu tinha a dizer.
Honestamente eu jamais esperaria semelhante arroubo de determinação, e até hoje me
espanta que a gerá-lo tenha sido uma frase lida em um livro (afinal, que se tratasse de um
livro meu é, sem dúvida alguma, um detalhe um tanto penoso). O que posso dizer é que
levei a coisa ao pé da letra — não morrerei de noite, mas sim à luz do sol —, já que
desde tempos antes havia perdido as energias, ou a fantasia, para elaborar o assunto
simbolicamente, como sem dúvida alguma teria exigido de mim o Doutor (a quem, aliás,
ficou deliberado que devo doze mil euros), com certeza me impelindo a traduzir o termo
luz em uma nova disposição de ânimo e o termo noite na projeção das minhas fantasias
cegas: sacanagens. Resolvi, mais simplesmente — e não dispondo, como já disse, das
energias e da fantasia necessárias a uma solução diferente —, ir para perto do mar. Não,
não exatamente — não sou tão desprovido assim de energias e fantasia, em última análise.
Mas é verdade que, em vez de imaginar sei lá o quê, só consegui retornar a uma manhã
de anos atrás e a uma barca que, na luz invernal, me levava a uma ilha. Era no Sul. O
andamento era preguiçoso, o mar estava calmo. Sentando-se no convés do lado certo,
você viajava com o sol nos olhos, mas, tratando-se de uma manhã de fevereiro, era apenas
banhado pela luz, e só. Era agradável o rumor amortecido das máquinas.
Será que ainda existe, disse a mim mesmo. Eu pensava na barca.
Tratava-se de reconstituir algum detalhe que naquele momento me fugia (qual ilha?,
por exemplo), mas naturalmente estamos falando de obstáculos irrelevantes, e esta é a
razão pela qual, com uma determinação que até agora me espanta, desci do divã para
subir àquela barca, mesmo estando perfeitamente consciente da incerta série de gestos
que transitar de um para a outra comportaria (em contraposição, é admirável como, na
simplicidade formal de uma frase escrita, divã e barca estão quase unidos: daí o primado
do escrever sobre o viver, como nunca me cansarei de repetir). Recordo ter me
despedido do meu apartamento em vinte minutos — e, mais genericamente, de certo
aparato de certezas parciais, e em última análise da treva organizada em que eu tinha me
sepultado. Se fizéssemos ideia do nada que é necessário para desmantelá-las, não
perderíamos tanto tempo edificando defesas estratégicas contra as ofensas da vida. Bastou
o tempo de escolher os poucos objetos a levar — me veio à mente o número onze. Onze
objetos, então — escolhê-los foi uma delícia. Fiz isso enquanto, com andamento muito
semelhante, a Família, na minha cabeça, velejava rumo ao veraneio, em um amplo
movimento coletivo que depois foi um prazer fixar na esteira nítida da escrita à mesa de
um hotelzinho minúsculo, o primeiro na estrada para o Sul, durante a primeira noite
depois da eternidade. Tendo que dispor as coisas em boa ordem, iniciei recordando
como o veraneio, para todos eles, representava um tedioso costume que se resolvia em
duas semanas passadas nas montanhas francesas: não sei exatamente onde, mas eu devia já
ter dito que ele era em geral interpretado como um dever, e por conseguinte suportado
por todos com elegante resignação.
Para reduzir o tédio ao mínimo, recorria-se a frágeis expedientes, entre os quais o
mais curioso era evitar fazer as malas: depois se compraria tudo no local de veraneio. O
único que tinha uns baús, e se obstinava em usá-los, era o Tio, que gostava de levar
consigo, sem inúteis meias medidas, tudo o que possuía. Arrumava-os pessoalmente:
como o fazia dormindo, a coisa podia demorar semanas. Todos os outros, ao contrário,
só cuidavam disso na manhã da partida, dispondo objetos de utilidade dúbia em
pequenas bolsas que com frequência acabavam esquecendo. Havia umas constantes: a
Mãe, por exemplo, jamais partia sem levar seu travesseiro, cartões-postais que em viagens
precedentes não tinha tido tempo de escrever, saquinhos de lavanda e a partitura de uma
canção francesa da qual havia perdido a última página. O Pai fazia questão de levar um
manual de xadrez, a Filha um álbum e as cores a óleo (por razões misteriosas, deixava em
casa todas as tonalidades de azul, do claro ao marinho). O Filho, na época em que ainda
não havia desaparecido, desmontava o relógio da escada e levava consigo as peças,
prometendo-se remontá-las nas férias. A soma final de semelhante seleção de objetos
resultava em um número moderado de bagagens e em certo montante coletivo de
lamentações: muitas vezes tornava-se necessário deixar para trás fragmentos preciosos da
loucura comum.
Modesto se encarregava da casa. Também ali, mantinha-se a fidelidade a um
protocolo cuja racionalidade, se é que existia, mergulhava suas raízes em um passado já
desprovido de explicações. Cobriam-se todos os móveis com lençóis de linho,
abasteciam-se as despensas com todos os alimentos não perecíveis, fechavam-se todas as
folhas cegas das janelas, menos aquelas voltadas para o sul, enrolavam-se os tapetes,
tiravam-se os quadros das paredes, apoiando-os no chão (havia um motivo, mas se
perdera), deixavam-se os relógios sem corda, colocavam-se flores amarelas em cada
jarro, preparava-se a mesa como para um desjejum de vinte e cinco pessoas, removiam-se
as rodas de tudo o que tinha rodas e descartavam-se todas as roupas que, no decorrer do
último ano, não haviam sido usadas pelo menos uma vez. Um cuidado especial era
reservado ao precioso rito de deixar, disseminados pela casa, gestos interrompidos: isso
parecia ser uma garantia segura de que todos voltariam para completá-los. Por essa
razão, partida a Família, os aposentos ofereciam a um olhar atento uma profusão de ações
deixadas pela metade: um pincel de barba ensaboado, partidas de baralho abandonadas de
qualquer jeito, baldes cheios d’água, frutas meio descascadas, uma xícara de chá ainda a
ser bebida. No atril do piano costumava ficar aberta na penúltima página uma partitura, e
uma carta inconclusa permanecia sempre sobre a escrivaninha da Mãe. Na cozinha
pendurava-se à parede uma lista de compras aparentemente muito urgentes, nas gavetas
deixavam-se preciosos trabalhos de crochê inacabados, e sobre a mesa de bilhar
abandonava-se um lance sublime, inexplicavelmente adiado. No ar, se fosse possível vê-
los, pairavam pensamentos interrompidos no meio, recordações incompletas, ilusões a
serem aperfeiçoadas e poemas sem final: pensava-se que a sorte pudesse vê-los.
Completava-se o conjunto deixando esquecida nos corredores, no momento do adeus,
uma boa parte das bagagens — gesto doloroso, mas considerado decisivo. À luz de tanto
zelo, a possibilidade de que os riscos da viagem fizessem algum deles não voltar para casa
era considerada simplesmente ofensiva.
Não que se pudesse tomar todos esses cuidados sem que isso levasse certo tempo.
Assim, a Família começou a preparar a partida com ampla antecedência, alinhando
placidamente a regra cotidiana ao objetivo representado pelo DIA DA PARTIDA. Na
prática, isso significava que cada um continuava a fazer exatamente as mesmas coisas, mas
acrescentando aos gestos uma ulterior precariedade, gerada pela iminência da despedida,
e subtraindo aos pensamentos qualquer residual tom dramático, inutilizado pela anistia
espiritual prestes a chegar. Somente o Tio, como foi dito, procedia a atividades de amplo
fôlego (arrumar os baús). De resto, o que tornava tangível a iminência do DIA DA
PARTIDA era a febril atividade da criadagem, um polvo do qual Modesto representava a
cabeça, e servos mais irrelevantes, os tentáculos. A ordem era fazer tudo com grande
elegância mas sem hesitações inúteis. Dado que, por exemplo, por inexplicável hábito,
todas as almofadas da casa eram retiradas e reunidas em um só guarda-roupa, o mínimo
que podia acontecer era alguém ver subtraírem de sob seu traseiro, com certa classe, a
macia almofada que suavizava, em torno da mesa dos desjejuns, o vime das cadeiras:
nesse caso, você nem sequer interrompia a conversa, apenas se soerguia um pouquinho,
como por uma repentina urgência de soltar um gás, e deixava que os domésticos
cumprissem seu dever. De igual modo podiam fazer desaparecer de sua frente um
açucareiro, os sapatos ou, em casos particularmente drásticos, aposentos inteiros: de
repente você descobria que o uso da escada fora suspenso. Assim, enquanto os
moradores continuavam a deslocar o prazo que os aguardava, situando O DIA DA
PARTIDA em um futuro próximo, de limites incertos, a casa, em vez disso, avançava de
maneira irrefreável rumo à meta: disso brotava uma espécie de velocidade dupla — uma
do espírito, outra das coisas — que expunha a calma dos dias à incursão de dissimetrias
surreais. Havia gente que, sem pestanejar, se sentava a mesas que já não estavam ali,
convidados que chegavam atrasados a coisas que ainda iriam acontecer, espelhos que,
deslocados, refletiam acontecimentos de horas antes, e rumores permanecidos no ar,
órfãos de sua origem, que vagavam pelos aposentos até que Modesto cuidava de guardá-
los, provisoriamente, em gavetas marcadas em seguida com uma cruz de tinta vermelha
(raramente, na volta, as pessoas se lembravam de liberá-los, coisa que preferiam fazer,
por brincadeira, no período do Carnaval: então, às vezes, apresentavam-se amigos ou
conhecidos que, tardiamente, passavam para retirar certa frase, ou um ruído corporal,
que haviam sido perdidos no verão precedente. O advogado Squinzi, para dar só um
exemplo, conseguiu recuperar um arroto seu, do ano anterior, em uma gaveta em que, de
surpresa, encontrou também uma risada histérica da esposa e o início de uma granizada
que, na época, havia feito disparar o preço dos pêssegos. Dom Giustelli, excelente
homem do Senhor que tive a sorte de conhecer e de frequentar, me confessou certa vez
que costumava se apresentar por ocasião da abertura das gavetas para abastecer-se de
respostas. Havia um monte, ali dentro, sabe?, me disse. Criei a convicção — esclareceu-
me ele — de que durante o período que precedia O DIA DA PARTIDA muitas
respostas, naquela casa, ficavam perdidas, na conversa, porque se prestava menos atenção
(às vezes nenhuma atenção) nelas — e assim ficavam perdidas. Permaneciam no ar, isso
se sabia: para depois irem parar nas famosas gavetas. Em geral, acrescentava dom
Giustelli, em fevereiro eu já esgotara meu estoque de respostas, então é compreensível
que me fosse cômodo ir recuperar algumas naquelas gavetas, e ademais sem gastar um
centavo. Respostas, todas, de excelente qualidade, sublinhava. De fato, quando ele quis
me mostrar algumas, tive de admitir que o nível formal era quase sempre superior à
norma. Havia umas esplendidamente sintéticas — Nunca, para sempre —, e não
faltavam as dotadas de certa elegante musicalidade — Não por vingança, se tanto por
estupor, no máximo por acaso. (De todo modo, eu, particularmente, achava lancinantes
aquelas respostas. O fato de não ser possível ligá-las a nenhuma pergunta era obviamente
intolerável. Não era um problema só meu. Alguns anos atrás, a filha mais nova dos
Ballard, então com vinte anos, apresentou-se na abertura das gavetas para recuperar um
acorde de violão que a fizera sonhar no verão anterior, mas não conseguiu encontrá-lo
porque encalhou, justamente quando abria caminho entre os rumores, em uma resposta
que depois levou para casa, em vez do acorde de guitarra, intuindo com absoluta certeza
que, se não encontrasse a pergunta à qual aquela resposta se referia, perderia o juízo.
Passou os treze meses seguintes interrogando dezenas de pessoas com a única intenção,
furiosa, de descobrir aquela pergunta. Enquanto isso a resposta, apoiada em sua mente,
fermentava de esplendor e de enigma. No décimo quarto mês ela começou a escrever
poemas, no décimo sexto perdeu o juízo. Destruído pela dor, seu pai quis compreender
o que a derrotara daquele modo. Achava curioso que uma jovem tão inteligente pudesse
deixar-se prejudicar pelo desaparecimento de uma pergunta, e não pela dureza de uma
resposta. Como era homem de enorme senso prático e esplêndido discernimento, venceu
a própria dor, procurou Modesto e perguntou se ele algum dia havia escutado aquela
resposta.
Claro, disse Modesto.
Lembra-se também da pergunta?, insistiu o conde.
Naturalmente, respondeu Modesto.
Na realidade não se lembrava de nada daquilo, mas era um homem sensível, tinha
lido muitos livros e desejava sinceramente ajudar aquele pai.
Até quando deverei esperar para saber as razões de vossa felicidade e o escopo de vosso
desespero?
O conde agradeceu, deu uma gorjeta comedida e voltou para casa a fim de relatar. Sua
filha acolheu com calma aparente a tão procurada pergunta. No dia seguinte retirou-se
para um convento perto de Basileia. (Será dela, mais tarde, o singular Manual para
jovens donzelas adormecidas que tanto sucesso fez, como se sabe, nos anos anteriores à
guerra. Assinado com um nom de plume — Herodíade —, sugeria cotidianos exercícios
espirituais para mocinhas a que faltassem um apropriado guia intelectual ou um vigor
moral qualquer. Que eu me lembre, fixava preceitos cotidianos de curiosa natureza mas
de fácil execução. Coisas tipo comer só alimentos amarelos, correr em vez de caminhar,
dizer sempre sim, falar com os animais, dormir nua, fingir-se grávida, mover-se em
câmera lenta, beber a cada três minutos, usar sapatos de outra pessoa, pensar em voz alta,
raspar-se a zero, comportar-se como uma galinha friulana. Recomendava-se que cada
exercício durasse doze horas. Nas intenções da autora, aquelas singulares observâncias
deviam servir para gerar, nas jovens, a capacidade de disciplinar-se e o prazer de adquirir
certa independência de pensamento. Ignoro se os resultados estiveram à altura das
expectativas. Recordo distintamente, porém, que a autora, pouco depois de ter alcançado
o sucesso, pariu dois gêmeos que chamou de Primeiro e Segundo, afirmando tê-los tido
por intercessão do arcanjo são Miguel. (Obviamente, paginazinhas como estas parecerão
ao editor que se ocupará delas, dentro de alguns meses, totalmente inúteis e tristemente
pouco funcionais ao decurso da narrativa. Com a educação costumeira, me sugerirá
cortá-las. Já sei que não farei isso, mas desde o presente momento posso admitir não ter
mais probabilidades de acertar do que ele. O fato é que alguns escrevem livros, outros os
leem: sabe deus quem está na melhor posição para entender alguma coisa. O coração de
uma terra se concede a quem a vê com adulto maravilhamento, pela primeira vez, ou a
quem nasceu lá? Não se sabe. Tudo o que aprendi, quanto a isso, é resumível em poucas
linhas. Escreve-se como se poderia fazer amor com uma mulher, mas em uma noite sem
luz alguma, nas trevas mais absolutas, e portanto sem vê-la nunca. Depois, na noite
seguinte, os primeiros que passarem irão levá-la para jantar, ou para dançar, ou às
corridas, mas compreendendo desde o primeiro momento que não conseguirão sequer
tocá-la, quanto mais levá-la para a cama. A todos falta um pedaço, e raramente o
encantamento se descerra. Na dúvida, eu tendo a confiar em minha cegueira e a tomar
por boa a memória da minha pele. Por isso, agora fecharei quatro parênteses, e o farei
com pacata segurança, embalado por este trem regional que me leva para o Sul.))))
Voilà.
É lógico que, em tal redemoinho de afazeres, acabou enfraquecendo-se a atenção
pelas remessas inglesas, as quais, por sua vez, tinham rareado cada vez mais, em um
decréscimo que ninguém, honestamente, sabia interpretar. Chegou um quartilho de
cerveja irlandesa, é verdade, mas de modo episódico, tanto que depois foi preciso esperar
bem uns sete dias até que aparecesse um pacote, aliás de limitadas dimensões e de
conteúdo discutível: aberto este, encontrou-se um livro, ainda por cima usado. A maioria
mal registrou essa chegada, e logo a esqueceu, mas não a Noiva jovem, que sem dar a
perceber achou um jeito de recuperar o volume e de mantê-lo consigo, em segredo. Não
era um livro qualquer, era o Dom Quixote.
Por alguns dias manteve-o escondido em seu quarto e em seus pensamentos.
Reiteradas vezes perguntou a si mesma se não corria o risco de superestimar uma
brincadeira do acaso, lendo-o como uma mensagem a ela destinada. Com grande
atenção, ficou à escuta do próprio coração. Depois pediu ao Pai uma conversa e,
autorizada esta, apresentou-se no escritório dele às sete da tarde, quando as incumbências
do dia estavam concluídas e já se anunciava o tradicional corre-corre noturno. Tinha se
vestido bem. Falou mansamente, mas permanecendo de pé e escandindo cada palavra com
grande segurança. Pediu permissão para não partir rumo ao veraneio e ficar na Casa, à
espera. Tenho certeza, disse, de que o Filho está para voltar.
O Pai ergueu o olhar de certos papéis que estava organizando e fitou-a, surpreso.
Quer ficar sozinha nesta casa?, perguntou.
Sim.
O Pai sorriu.
Ninguém fica nesta casa quando saímos para o veraneio, disse com serenidade.
Como a Noiva jovem não se moveu, o Pai achou necessário recorrer a uma
argumentação definitiva.
Nem sequer Modesto fica nesta casa quando saímos para o veraneio, disse.
Era, objetivamente, um argumento inatacável, e no entanto a Noiva jovem não pareceu
muito impressionada.
É que o Filho está para voltar, disse.
É mesmo?
Creio que sim.
Como sabe?
Não sei. Eu sinto.
Sentir é meio pouco, querida.
Mas às vezes é tudo, senhor.
O Pai permaneceu olhando-a. Não era a primeira vez que via aquela branda insolência
nela, e a cada vez não conseguia se eximir de ficar fascinado. Era um traço inoportuno,
mas ele intuía ali a promessa de uma força paciente que seria capaz de viver, de cabeça
erguida, qualquer vida. Por isso, observando a Noiva jovem firme em suas resoluções,
por um instante achou que podia ser uma boa ideia contar tudo a ela: avisar-lhe que o
Filho havia desaparecido e confessar não ter nenhuma ideia de como resolver o
problema. Depois o deteve a suspeita, surgida do nada, de que, onde havia falhado sua
abordagem racional do problema, podia ter êxito a ilimitada intensidade daquela moça.
Em um instante de estranha lucidez, pensou que o Filho de fato retornaria se ele apenas
permitisse àquela jovem que o esperasse verdadeiramente.
Ninguém jamais permaneceu nesta casa quando saímos em veraneio, repetiu, mais
para si do que para a Noiva jovem.
É tão importante assim?
Creio que é.
Por quê?
Na repetição dos gestos, detemos o mundo: é como segurar pela mão um menino,
para que não se perca.
Talvez não se perca. Talvez apenas comece a correr um pouco, e fique feliz.
Eu não me iludiria muito.
E, também, mais cedo ou mais tarde ele se perderá, não acha?
O Pai pensou no Filho, nas mil vezes em que havia segurado a mão dele.
Pode acontecer, disse.
Por que o senhor não confia em mim?
Por causa de seus dezoito anos, senhorita.
E daí?
Ainda precisa aprender uma série de coisas, antes de pensar que tem razão.
Está brincando, não é?
Estou falando seriíssimo.
O senhor estava com vinte anos quando arrumou uma esposa e um filho, que não
havia decidido ter. Alguém lhe disse que o senhor não tinha idade para isso?
O Pai, apanhado de surpresa, fez um gesto vago, no ar.
Esta é uma outra história.
Acha mesmo?
O Pai fez outro gesto indecifrável.
Não, não acha, disse a Noiva jovem. O senhor sabe que estamos todos imersos em
uma só história, que começou muito tempo atrás e ainda não acabou.
Sente-se, por favor, senhorita, me inquieta vê-la aí em pé.
E levou uma mão ao coração.
A Noiva jovem se sentou diante dele. Buscou em si mesma uma voz muito calma, e
muito doce.
O senhor não acredita que eu possa me arranjar, sozinha, nesta casa. Mas não faz
ideia de como era grande e isolada aquela casa na Argentina. Eles me deixavam ali,
durante dias. Se eu não tinha medo naquela época, não poderia ter agora, acredite. Sou
apenas uma jovenzinha, mas atravessei duas vezes o oceano, e numa dessas vezes, sozinha,
para vir até aqui, sabendo que ao fazer isso mataria meu pai. Pareço uma jovenzinha, mas
já não o sou há muito tempo.
Eu sei, disse o Pai.
Confie em mim.
O problema não é esse.
E qual é, então?
Não estou habituado a confiar na eficácia do irracional.
Como assim?
A senhorita quer ficar aqui porque sente que o Filho vai chegar, não é?
Sim.
Não estou habituado a tomar decisões com base naquilo que se sente.
Talvez eu não tenha escolhido a palavra certa.
Escolha uma melhor.
Eu sei. Sei que ele voltará.
Com base em quê?
O senhor acha que conhece o Filho?
O pouco que se pode conhecer os filhos. São continentes submersos, nós só vemos o
que aflora acima da água.
Mas para mim ele não é um filho, é o homem que amo. O senhor consegue admitir
que eu possa saber dele algo mais? Não digo sentir, digo saber.
É possível.
Não lhe basta?
Reapresentou-se ao Pai, como um relâmpago, a dúvida de que, se ele simplesmente
permitisse àquela jovem esperar verdadeiramente o Filho, este retornaria.
Fechou os olhos e, apoiando os cotovelos sobre a escrivaninha, levou a palma das
mãos ao rosto. Com a ponta dos dedos repassou as rugas, na testa. Ficou assim por
longo tempo. A Noiva jovem não disse nada: esperava. Perguntava-se o que poderia
acrescentar, para dobrar a vontade daquele homem. Por um instante pensou em lhe falar
do Dom Quixote, mas logo compreendeu que apenas complicaria as coisas. Não havia
mais nada que ela pudesse dizer, agora se tratava apenas de esperar.
O pai afastou do rosto as mãos e se acomodou com calma na cadeira, apoiando-se no
espaldar.
Como sem dúvida lhe contaram naquele dia, na cidade, disse, vejo-me há anos na
condição de me dedicar a uma tarefa que assumi e que, com o tempo, aprendi a amar.
Esforço-me por organizar o mundo, por assim dizer. Não me refiro ao mundo inteiro,
obviamente, mas àquela pequena porção do mundo que me foi atribuída.
Falava com grande tranquilidade, mas selecionando as palavras uma a uma.
Não é uma tarefa simples, disse.
Pegou na mesa um abridor de cartas e começou a girá-lo entre os dedos.
Nos últimos tempos fiquei convencido de que só levarei isso a termo fazendo um
gesto de cujos detalhes posso controlar uma parte, infelizmente irrelevante.
Ergueu o olhar para a Noiva jovem.
É um gesto que tem a ver com morrer, disse.
A Noiva jovem não moveu um só músculo.
Assim, com frequência me pego pensando se estarei à altura, prosseguiu o Pai. Devo
também levar em conta que, por razões a que eu não saberia dar uma explicação
convincente, me vejo enfrentando tanto esta quanto outras provações em completa
solidão, ou pelo menos sem a segura presença, ao meu lado, de alguma pessoa adequada.
É uma coisa que pode acontecer.
A Noiva jovem assentiu com a cabeça.
Por isso eu estava me perguntando se não seria audácia demais, da minha parte,
chegar ao ponto de lhe pedir um favor.
A Noiva jovem ergueu só um pouquinho o queixo, sem mudar o olhar.
O Pai pousou o abridor de cartas sobre a escrivaninha.
Nesse dia, quando eu me vir diante da urgência de executar esse gesto, a senhorita
faria a gentileza de permanecer ao meu lado?
Disse isso com frieza, tal como poderia pronunciar o preço de um tecido.
Também é possível, acrescentou, que quando esse dia chegar a senhorita já não esteja
em absoluto nesta casa, e aliás é razoável pensar que desde algum tempo antes eu me
tenha habituado a não ter notícias suas. Contudo, saberei encontrá-la, e mandarei chamá-
la. Não lhe pedirei nada em particular, bastará tê-la perto e conversar com a senhorita,
ouvi-la falar. Sei que terei muita pressa ou tempo demais pela frente, nesse dia: pode me
prometer que me ajudará a passar da melhor maneira essas horas, ou esses minutos?
A Noiva jovem riu.
O senhor está me propondo uma barganha, disse.
Sim.
Vai me deixar sozinha, nesta casa, se eu prometer vir ao seu encontro, nesse dia.
Exato.
A Noiva jovem riu de novo, depois pensou alguma coisa e voltou a ficar séria.
Por que eu?, perguntou.
Não sei. Mas sinto que é isto mesmo.
Então a Noiva jovem balançou a cabeça, divertida, e recordou que ninguém
embaralha as cartas melhor do que um trapaceiro.
De acordo, disse.
O Pai esboçou uma inclinação.
De acordo, repetiu a Noiva jovem.
Sim, disse o Pai.
Depois se levantou, contornou a escrivaninha, dirigiu-se à porta e, antes de abri-la,
voltou-se.
Modesto não vai gostar, disse.
Ele também pode ficar, tenho certeza de que se sentiria feliz.
Não, isso está fora de cogitação. Se a senhorita quiser ficar, ficará sozinha.
De acordo.
Tem alguma vaga ideia do que fará em todo o tempo?
Claro. Esperarei o Filho.
É evidente, desculpe.
O Pai continuou ali, sem saber bem por quê. Havia pousado a mão sobre a maçaneta
da porta, mas se mantinha ali.
Não tenha medo, ele voltará, disse a Noiva jovem.

A tradição pedia que partissem em dois automóveis espalhafatosos. Nada de


particularmente elegante, mas a solenidade da circunstância impunha certa ostentação de
grandeur. Habitualmente, Modesto saudava a partida postado na soleira da entrada,
embora já pronto para ir embora também, a mala pousada no chão junto de si: como
qualquer capitão, considerava seu dever ser o último a abandonar o navio. Naquele ano,
topou ao seu lado com a Noiva jovem, e isso por causa da variante que o Pai anunciara de
maneira sucinta, durante um dos últimos desjejuns, e que ele havia aceitado sem
entusiasmo. O fato de que isso parecesse prenunciar um retorno do Filho tinha-o
ajudado a suportar o aborrecimento da novidade.
Assim, estavam na soleira, empertigados, ele e a Noiva jovem, quando os dois
automóveis arrancaram, com os pistões pipocando, mãos agitadas no ar em despedida, e
gritinhos variados. Eram dois belos automóveis, de cor creme. Percorreram uns dez
metros e pararam. Engrenaram a ré e, de maneira um tanto elaborada, voltaram. A Mãe
desceu com surpreendente agilidade e correu para a casa. No momento de passar diante
de Modesto e da Noiva jovem, murmurou às pressas três palavras.
Esqueci uma coisa.
E desapareceu lá dentro. Saiu alguns minutos depois e, sem sequer cumprimentar os
dois, correu para os automóveis e entrou em um deles. Parecia visivelmente aliviada.
E assim os carros partiram de novo, pipocando como na primeira vez, e até mais
animados de saudações definitivas e vozes alegres. Percorreram uns dez metros e
pararam. Foi preciso recorrer novamente à marcha a ré. Dessa vez a Mãe desceu com
uma pontinha de nervosismo. Cobriu em passos decididos a distância que a separava da
entrada e desapareceu na casa murmurando quatro palavras.
Esqueci mais uma coisa.
A Noiva jovem se virou para Modesto, com um olhar interrogativo.
Modesto limpou a garganta com duas precisas contrações da laringe, uma breve e
outra longa. A Noiva jovem não estava tão adiantada assim na aprendizagem daquela
escrita cuneiforme, mas intuiu vagamente que estava tudo sob controle, e ficou tranquila.
A Mãe entrou de volta no carro, os motores deram nova partida e, em uma bolha de
ruidoso júbilo, as pessoas se despediram definitivamente e sem lamentações. Dessa vez,
antes de parar, percorreram alguns metros a mais. Fizeram a manobra de marcha a ré
com certa desenvoltura, resultante da aprendizagem.
A Mãe retornou a casa cantarolando, no mais completo controle de si. Parecia ter as
ideias claras. Porém, quando se viu na soleira, bem ao lado de Modesto e da Noiva
jovem, foi tomada por um instante de hesitação. Deteve-se. Pareceu concentrar-se em
alguma reflexão tardia. Ergueu os ombros e disse três palavras.
Não, tudo bem.
Em seguida deu meia-volta e retornou para os automóveis, sempre cantarolando.
Quantas vezes ela faz isso?, perguntou, séria, a Noiva jovem.
Em geral quatro, respondeu Modesto, imperturbável.
Portanto, não foi surpresa ver os automóveis partirem, deterem-se após certo número
de metros, voltarem e cuspirem fora a Mãe, que dessa vez fez o caminho até a casa
aparentemente furibunda, pisando forte e recitando à meia-voz uma ladainha ininterrupta
da qual a Noiva jovem captou, de passagem, um incerto fragmento.
Que vão todos cagar.
Ou talvez cantar, não dava para entender bem.
A Mãe voltou a emergir da casa, depois de uma ausência mais longa do que as
precedentes, apertando na mão um talher de prata e agitando-o no ar. Não parecia menos
furibunda do que antes. À sua passagem, a Noiva jovem constatou que a ladainha havia
enveredado para o francês. Teve a impressão de reconhecer distintamente a palavra
connard.
Mas também podia ser moutarde, não dava para entender bem.
Quando Modesto levantou um braço acenando uma saudação, a Noiva jovem
compreendeu que a cerimônia ia se concluir, e então, com sincera alegria, e talvez uma
pontinha de pesar, também começou a saudar, agitando uma mão no ar e erguendo-se na
ponta dos pés. Viu-os afastar-se, em uma nuvem de poeira e emoção, e por um instante
pensou se não teria esperado demais de si mesma. Em seguida viu os dois automóveis
deterem-se.
Ah, não, deixou escapar.
Mas dessa vez eles não deram marcha a ré, e não foi a Mãe que saltou do estribo. No
meio da poeira, viu-se a Filha correr para a casa, com seu passo torto, mas
despreocupada e decidida, até mesmo bonita em sua pressa vagamente infantil. Parou
diante da Noiva jovem.
Você não vai fugir, não é?, perguntou com voz firme.
Mas seus olhos estavam reluzentes, e não era por causa da poeira.
Nem pensei nisso, disse, surpreendida, a Noiva jovem.
Pronto, está combinado, você não vai fugir.
Depois se aproximou da Noiva jovem e abraçou-a.
Ficaram assim por alguns instantes.
Ao voltar para os automóveis, a Filha já não tinha a pressa de antes. Afastou-se
arrastando seu passo infeliz, mas tranquila. Entrou sem olhar para trás.
Então desapareceram todos atrás da primeira curva, e dessa vez haviam realmente
partido.
Modesto deixou que o espocar dos dois automóveis se extinguisse na distância da
campina e depois, no silêncio regular do nada, emitiu um leve suspiro e levantou sua
mala.
Deixei três livros para a senhorita, escondidos no banheiro. Três textos de certa
notoriedade.
É mesmo?
Como já disse, a despensa está cheia de comida, contente-se com refeições frias e não
toque na reserva de vinho, a não ser em caso de absoluta necessidade.
A Noiva jovem se esforçou por imaginar qual podia ser um caso de absoluta
necessidade.
Deixo-lhe um endereço meu, na cidade, mas não gostaria que a senhorita entendesse
mal. Deixo-o apenas porque o Filho, se realmente estiver para chegar, pode precisar de
mim.
A Noiva jovem recebeu o papelzinho, dobrado em dois, que ele estendia.
Creio que isso é tudo, concluiu Modesto.
Decidiu que naquele preciso instante estava entrando em férias, portanto se afastou
sem dar os primeiros passos para trás, como exigiria seu número mais glorioso.
Limitou-se a uma reverência apenas sugerida.
A Noiva jovem deixou-o se afastar um pouco e em seguida o chamou.
Modesto.
Sim?
Não lhe pesa ter que ser sempre tão perfeito?
Não, pelo contrário. Isso me livra de procurar outras finalidades para os meus
gestos.
Como assim?
Não preciso ficar me perguntando, a cada dia, por que vivo.
Ah.
É consolador.
Imagino.
Tem outras perguntas?
Sim, uma.
Diga.
O que o senhor faz quando eles viajam e fecham a casa?
Eu me embriago, respondeu Modesto, com imprevisível presteza e despreocupada
sinceridade.
Por duas semanas?
Sim, todos os dias, por duas semanas.
Onde?
Tenho uma pessoa que cuida de mim, na cidade.
Posso cometer a indiscrição de perguntar de que tipo de pessoa se trata?
Um homem simpático. O homem que amei por toda a vida.
Ah.
Ele tem uma família. Mas se convencionou que, nos quinze dias das férias, fique
comigo.
Muito prático.
Bastante.
Então, o senhor não estará sozinho, na cidade.
Não.
Isso me alegra.
Obrigado.
Trocaram um olhar, em silêncio.
Ninguém sabe disso, informou Modesto.
Evidentemente, disse a Noiva jovem.
Em seguida acenou-lhe com a mão, embora quisesse abraçá-lo, ou mesmo beijá-lo
de leve, ou algo do gênero.
Ele compreendeu, e ficou agradecido a ela pelo comedimento.
Foi embora caminhando devagar, meio curvado, e de repente estava longe.
A Noiva jovem entrou em casa e fechou a porta atrás de si.

Foi um verão tórrido, naquele ano. Os horizontes evaporavam sonhos tremulantes.


As roupas se grudavam à pele. Os animais se arrastavam, desmemoriados. Era difícil
respirar.
Era ainda pior naquela casa, que a Noiva jovem mantinha fechada, com a ideia de
fazê-la parecer deserta. O ar estagnava preguiçoso, dormindo uma espécie de úmida
letargia. Até as moscas — em geral capazes, como já deve ter sido notado, de inexplicável
otimismo — pareciam desanimadas. Mas à Noiva jovem isso não importava. De certo
modo, era-lhe até agradável mover-se devagar, a pele brilhando de suor, os pés buscando
o conforto da pedra. Como ninguém podia vê-la, com frequência andava nua pelos
aposentos, descobrindo sensações estranhas. Não dormia em sua cama, mas em pontos
variados da casa. Ocorreu-lhe usar os lugares onde habitualmente via dormir o Tio, e
então os habitou um após o outro, no sono. Quando o fazia nua, sentia uma agradável
perturbação. Não tinha horários, porque decidira deixar que o ritmo dos seus dias fosse
ditado pela urgência de seus desejos e pela asséptica geometria de suas necessidades.
Portanto, dormia quando tinha sono, comia quando tinha fome. Mas não se deve pensar
que isso a tornasse selvagem. Por todos aqueles dias cuidou meticulosamente de si —
afinal, estava esperando um homem. Escovava reiteradas vezes os cabelos, passava longos
momentos diante do espelho, permanecia na água durante horas. Uma vez por dia vestia-
se com elegância máxima, usando as roupas da Filha ou da Mãe, e sentava-se esplêndida
na sala grande, para ler. Volta e meia sentia-se oprimida pela solidão, ou por uma
incontrolável angústia, e então escolhia um canto da casa em que recordava haver visto ou
vivido algo de notável, e ia refugiar-se ali. Abria as pernas e se acariciava. Como por
encanto, tudo se resolvia. Era uma sensação estranha tocar-se na poltrona onde o Pai lhe
pedira para morrer ao lado dela. Também foi notável fazê-lo sobre o pavimento de
mármore da capela. Quando sentia fome, recuperava alguma coisa na despensa e ia se
sentar à grande mesa dos desjejuns. Como já foi mencionado, era tradição deixar vinte e
cinco lugares impecavelmente preparados, como se de um momento para outro fosse
chegar uma horda de convidados. A Noiva jovem decidiu que a cada vez comeria em um
deles. Quando terminava, tirava tudo, lavava, limpava, e deixava sobre a mesa o lugar
vazio, prato e talheres desaparecidos. Assim, suas refeições eram como uma lenta
hemorragia na qual a mesa perdia sentido e vocação, progressivamente esvaziada de todo
adereço e de qualquer ornamento: abria caminho o branco ofuscante da toalha, nu.
Uma vez, no meio de um sono que não havia buscado, foi despertada pela repentina
certeza de que esperar um homem, sozinha, naquela casa, era um gesto tragicamente
inútil e ridículo. Estava dormindo, nua, sobre um tapete que ela havia desenrolado diante
da porta da sala. Procurou alguma coisa com a qual se cobrir, porque sentia frio. Puxou
para cima de si um lençol que protegia uma poltrona, ali ao lado. Equivocadamente,
repassou sua vida com a mente, para encontrar algo que freasse aquela estranha e
repentina queda no vazio. Só conseguiu piorar as coisas. Tudo lhe pareceu errado, ou
horrível. Desarticulada a Família, grotesca sua excursão ao bordel, veleidosa qualquer
frase sua pronunciada com soberba, enfadonho Modesto, louco o Pai, doente a Mãe,
ignóbeis aqueles lugares, sórdido o fim de seu pai, desesperador o destino dos seus
irmãos, desperdiçada a sua juventude. Com uma lucidez que só se tem nos sonhos,
compreendeu que não possuía mais nada, que não era suficientemente bela para se salvar,
que havia matado seu pai e que a Família estava lhe roubando, pouco a pouco, a
inocência.
Será que eu devo acabar assim?, perguntou-se, aterrorizada.
Só tenho dezoito anos, pensou, com assombro.
Então, para não morrer, foi se refugiar onde sabia que encontraria a última linha de
resistência ao desastre. Obrigou-se a pensar no Filho. Mas pensar é uma palavra
redutora para definir uma operação que ela sabia bastante complexa. Três anos de
silêncio e de separação não eram fáceis de voltar a percorrer. Havia se sedimentado tanta
distância que o Filho, fazia tempo, tinha deixado de ser, para a Noiva jovem, um
pensamento facilmente acessível, ou uma lembrança, ou um sentimento. Tinha se tornado
um lugar. Um enclave, enterrado na paisagem do seu sentir, que ela nem sempre
conseguia reencontrar. Com frequência partia, para alcançá-lo, mas se perdia pelo
caminho. Seria mais simples se pudesse dispor de algum desejo físico ao qual se agarrar
para escalar as paredes do esquecimento. Mas o desejo pelo Filho — a boca, as mãos, a
pele dele — era algo a que não era simples regressar. Ela podia distintamente convocar
outra vez à memória certos instantes em que o desejara de modo até mesmo devastador,
mas agora, ao observá-los, parecia-lhe observar um aposento onde, em vez de tinta,
tivessem sido aplicados às paredes uns papeizinhos com os nomes das cores escritos em
cima: índigo, vermelho-veneziano, amarelo-areia. Turquesa. Não era agradável admitir
isso, mas assim era. E o era ainda mais, para ela, agora que as circunstâncias tinham-na
levado a conhecer outros prazeres, com outras pessoas, com outros corpos: não haviam
bastado para cancelar a lembrança do Filho, mas sem dúvida o colocaram em uma espécie
de pré-história na qual tudo soava tanto mítico quanto inexoravelmente literário. Por
isso, com frequência, voltar a percorrer as pegadas do desejo físico não era, para a Noiva
jovem, o melhor sistema para reencontrar o caminho que levava ao esconderijo do seu
amor. De vez em quando ela preferia resgatar na memória a beleza de certas frases ou de
certos gestos — beleza na qual o Filho era mestre. Então a reencontrava, intacta, na
lembrança. E por um instante isso parecia lhe restituir o encanto do Filho e reconduzi-la
ao exato ponto a que sua viagem visava. Porém, mais do que tudo, era uma ilusão. Via-se
contemplando objetos maravilhosos que no entanto jaziam nos relicários da distância,
impossíveis de tocar, inacessíveis ao coração. Assim, ao deleite da admiração mesclava-se
a sensação lancinante de uma perda definitiva, e distanciava-se ainda mais o Filho, quase
inalcançável, agora. Para não o perder de verdade, a Noiva jovem precisou aprender que,
na realidade, àquela altura nenhuma qualidade do Filho — ou detalhe, ou maravilha —
era suficiente para fazê-la preencher o abismo da distância, porque nenhum homem, por
mais amado que seja, basta por si só para derrotar o poder destrutivo da ausência. O que
a Noiva jovem compreendeu foi que somente pensando neles dois, juntos, era capaz de
mergulhar dentro de si mesma até o ponto onde, intacta, residia a permanência do seu
amor. Retornava então a certos estados de espírito, a certos modos de perceber-se, que
ainda recordava muito bem. Pensava neles dois, juntos, e podia sentir de novo certa
tepidez, ou o tom de certas esfumaturas, até mesmo a qualidade de certo silêncio. Uma
luz particular. Então lhe era dado reencontrar o que procurava, na sensação certa de que
existia um lugar onde o mundo não era admitido, e que coincidia com o perímetro
desenhado dos dois corpos, suscitado pelo fato de estarem juntos, e tornado
inexpugnável pela anomalia deles. Se conseguisse acessar aquela sensação, tudo voltava a
ser inofensivo. Porque o desastre de toda vida ao redor, e até da sua, já não era uma
emboscada contra sua felicidade, mas, se tanto, a contrapartida que tornava ainda mais
necessário o ninho que ela e o Filho haviam gerado, amando-se. Eram a demonstração
de um teorema que contestava o mundo e, quando ela conseguia retornar àquela
convicção, todo medo a abandonava, e uma nova segurança, doce, apoderava-se dela. Não
havia nada mais delicioso no mundo.
Deitada no tapete, enrolada sob aquele lençol empoeirado, foi essa a viagem que a
Noiva jovem fez, salvando-se a vida.
Assim, dispunha ainda inteiramente do seu amor quando, dois dias depois, diante de
uma mesa sobre a qual haviam restado nove lugares postos, e justamente quando se
aprontava a fazer desaparecer mais um, ouviu chegar de longe o rumor de um automóvel,
primeiro incerto e a seguir sempre mais claro — ouviu-o chegar diante da casa,
estacionar, e por fim se extinguir. Levantou-se, deixou tudo como estava sobre a mesa e
foi até seu quarto para se arrumar. Tinha escolhido, havia tempo, um traje para a ocasião,
e o vestiu. Escovou os cabelos e pensou que o Filho jamais a vira tão bonita. Não sentia
medo, não estava nervosa, não tinha perguntas. Ouviu que o automóvel ligava novamente
o motor e depois se afastava. Desceu a escada e atravessou a casa com passo firme, de pés
descalços. Quando chegou à porta de entrada, distendeu os ombros, como a Mãe lhe
havia ensinado. Depois abriu a porta e saiu.
No pátio externo viu certo número de baús, pousados no chão. Ela os conhecia.
Sentado no maior — um bicharoco de couro escuro, levemente riscado de um lado —
viu o Tio, vestido como havia partido, e imóvel. Dormia. A Noiva jovem se aproximou.
Aconteceu alguma coisa?
Como o Tio continuava a dormir, sentou-se ao seu lado. Percebeu que ele dormia de
olhos semiabertos, e que de vez em quando tremia. Tocou-lhe a testa. Estava ardendo.
O senhor não está bem, disse a Noiva jovem.
O Tio abriu os olhos e fitou-a como se tentasse compreender alguma coisa.
É uma sorte encontrá-la aqui, senhorita, disse.
A Noiva jovem balançou a cabeça.
O senhor não está bem.
De fato, disse o Tio. Incomoda-se de fazer umas coisas por mim?, perguntou.
Não, disse a Noiva jovem.
Então, por gentileza, encha a banheira com água muito quente. Além disso, abra o
baú amarelo, aquele pequeno, e encontrará ali uma garrafa lacrada, com um pó branco
dentro. Pegue-a.
Era uma frase longa, e devia tê-lo esgotado, porque ele voltou a cair no sono.
A Noiva jovem não se moveu. Pensou em si mesma, no Filho e na vida.
Quando teve a impressão de que o Tio estava prestes a despertar, levantou-se.
Vou chamar um médico, disse.
Não, por favor, não faça isso, não é o caso. Sei o que é.
Fez uma longa pausa e deu um cochilo.
Ou melhor, não sei o que é, mas sei como tratar. Bastarão um banho quente e esse
pó branco, acredite. Naturalmente, dormir um pouco me fará bem.
Dormiu por três dias, quase ininterruptamente, aquartelado no corredor do primeiro
andar, aquele das sete janelas. Ficava deitado sobre a pedra do pavimento, a cabeça
apoiada numa camisa dobrada em quatro. Não comia, raramente bebia. A intervalos
regulares, a Noiva jovem subia para colocar ao lado dele um copo no qual havia
dissolvido o pó branco: a cada ocasião o encontrava em outro ponto do corredor, às
vezes enrodilhado em um canto, outras deitado abaixo de uma janela, recatado, tranquilo,
mas trêmulo: imaginava-o rastejando sobre a pedra, como um animal de que tivessem
decepado as patas. Volta e meia se detinha para observá-lo, sem dizer nada. Sob uma
roupa encharcada de suor, intuía um corpo que parecia ter todas as idades, disseminadas
nos detalhes, sem um desenho preciso: mãos de um garoto, pernas de velho. Uma vez
passou-lhe os dedos entre os cabelos, grudentos. Ele não se moveu. Com surpresa, ela
se deu conta de pensar, sem a mínima perturbação, que aquele homem talvez estivesse
morrendo: nada lhe pareceu mais impróprio do que tentar impedir isso. Voltou para
baixo, e recomeçou a esperar o Filho, com a intensidade que lhe parecia a mesma, e a
mesma beleza de antes. Mas naquela noite, quando voltou para perto do Tio, ele lhe
apertou um pulso, com estranha energia, e, dormindo, disse que estava tremendamente
mortificado.
Por quê?, perguntou a Noiva jovem.
Eu lhe arruinei tudo, disse ele.
E a Noiva jovem compreendeu que era verdade. Primeiro a surpresa, depois o
instinto de ser útil, tinham-na impedido de perceber que a chegada do Tio havia
estragado algo perfeito, e desviado um voo que estava avançando sem erros. Repassou
todos os próprios gestos, magníficos, que não cessara de realizar, e compreendeu que
desde a chegada daquele homem eles se haviam sucedido sem felicidade e sem fé. Parei de
esperar, disse a si mesma.
Voltou para baixo sem dizer uma palavra, e começou a caminhar pelos aposentos,
primeiro furiosa, depois desolada. Fitou demoradamente a porta, até que compreendeu
com inexorável lucidez que ela havia sido aberta para deixar passar o homem errado, no
momento errado, por razões erradas. Chegou a pensar que, de algum modo misterioso,
o Filho devia ter se dado conta disso, quando subia o caminho que o levaria para casa:
viu-o no instante em que ele pousava uma mala no chão, deixava partir um trem sem
embarcar, parava um carro e desligava o motor. Não, por favor, não, lhe disse. Eu lhe
imploro, se disse.
Quando o Tio desceu ao térreo, depois de seis dias, perfeitamente barbeado e
bastante elegante em um terno cor de tabaco, encontrou-a sentada no chão, em um canto,
o rosto irreconhecível. Olhou-a só por um instante e se dirigiu à cozinha, onde
adormeceu. Havia muito tempo que não comia: enfim o fez, com certo comedimento,
sem parar de dormir. Depois desceu até a adega, e ali desapareceu por duas ou três
horas: foi o tempo de que precisou para escolher uma garrafa de champanhe e uma de
vinho tinto. Voltou à cozinha, onde colocou o champanhe no gelo. Sem descansar um só
instante, abriu a garrafa de vinho e deixou-a respirando sobre a bancada. Exaurido pela
trabalheira, arrastou-se até a sala de refeições e desabou numa poltrona, bem diante da
Noiva jovem. Dormiu uns dez minutos, e então abriu os olhos.
Amanhã eles voltam, disse.
A Noiva jovem fez um aceno com a cabeça. Podia também querer dizer que não se
importava nada com isso.
Eu estava me perguntando se a senhorita tem compromissos para esta noite,
continuou o Tio.
A Noiva jovem não disse nada. Não se moveu.
Tomo seu silêncio por um não, informou-a o Tio. Neste caso, para mim será uma
honra convidá-la para jantar, se a coisa não lhe trouxer incômodo ou até transtorno.
Em seguida adormeceu.
A Noiva jovem ficou olhando para ele. Perguntou a si mesma se o odiava. Sim, sem
dúvida, odiava-o: não mais, porém, do que odiava todo mundo. Não lhe parecia que lhe
tivessem restado doçura, loucura e beleza, em algum lugar, desde quando todos haviam
entrado em acordo para lhe saquear a alma. Podia fazer algo diferente de odiá-los? Se
você não tem futuro, odiar é um instinto.
Aonde quer me levar?, perguntou.
Precisou esperar a resposta por uns dez minutos.
Oh, a nenhum lugar. Pensei em jantar aqui, eu cuido de tudo. Prometo-lhe alguma
coisa de certo nível.
O senhor cozinha?
Às vezes.
Dormindo?
O Tio abriu os olhos. Fitou demoradamente a Noiva jovem. Era uma coisa que ele
não fazia nunca. Fitar alguém demoradamente.
Sim, dormindo, disse afinal.
Levantou-se, cochilou apoiado ao guarda-louças, e em seguida dirigiu-se à porta de
entrada.
Creio que vou fazer uma caminhada breve, disse.
Depois, antes de sair, virou-se para a Noiva jovem.
Espero a senhorita às nove. Seria muito incômodo apresentar-se com uma roupa
esplêndida?
A Noiva jovem não respondeu.

Ainda posso ver aquela mesa posta, a mesma dos desjejuns, mas agora dotada de uma
elegância essencial, com a simetria dos dois lugares, um diante do outro, e o branco da
toalha espalhando-se ao redor. A luz era correta, meticulosa a ordem dos talheres,
impecável o alinhamento dos copos. Nos pratos estava à espera uma composição de
alimentos que pareciam escolhidos por suas cores. Cinco velas, e mais nada.
O vestido que escolhi era irresistível. O mesmo em que eu tinha vivido e transpirado
nos últimos dias, comprido até os pés, pouco decotado, sujo, levíssimo. Mas por baixo
eu havia tirado tudo. Não me preocupei com o que era visível de fora: bastava-me a
sensação, muito simples, daquele momento: eu estava indo a um jantar, nua. Não tinha
me lavado, as mãos estavam como havia dias, e nos pés continuavam a poeira, a
imundície, o odor. Tinha chorado mil vezes, e não passei nem água no rosto. Mas com
os cabelos fiz uma coisa de que a Mãe iria gostar: escovei-os o dia inteiro, com escovas
perfumadas: diante do espelho, recolhi-os sobre a cabeça, experimentando mil
arquiteturas para encontrar a mais sedutora e para fazer passarem as horas. Escolhi um
penteado alto, um pouco arrogante, mas inocente na frente, e complexo a ponto de
sugerir a suspeita de uma maquilagem. Eu podia desmanchar tudo, em um instante,
apenas com um hábil movimento do pescoço.
De tudo isso, não conhecia o porquê. Tinha me movido por instinto, sem pensar.
Nada me podia ser mais estranho, naquele momento, do que a ambição por um objetivo,
ou a expectativa de algum resultado. O tempo fora substituído por um calor infinito,
qualquer saber por uma distraída indolência e todos os meus desejos por uma dor
inócua, surda, por trás do coração. Nunca existi tão pouco quanto neste navio, que
brandamente rasga a umidade fervente da noite, transportando a mim e as minhas onze
coisas à brancura de uma ilha que nada sabe sobre mim — pouco ou nada, eu, sobre ela.
Da terra seremos invisíveis, ambos, no tempo de um pensamento — para o mundo,
desaparecidos. Porém, envolta por uma desorganizada beleza, às nove eu estava ali, em
uma curiosa homenagem à exatidão que agora, sinceramente, não sei compreender.
Escutei o Tio agitar-se na cozinha, e depois o vi chegar. Ele também não tinha trocado
de roupa, havia apenas tirado o paletó. Trazia na mão a garrafa de champanhe, gelada.
A comida está nos pratos, disse.
Sentou-se à mesa e adormeceu. Mal tinha me olhado. Comecei a comer — escolhia
as cores, uma a uma. Ele bebia, no sono. Eu comia sem usar os talheres, limpava os
dedos no vestido. Mas não sei por quê. De vez em quando, sem abrir os olhos, o Tio me
servia champanhe. Não recordo ter me feito perguntas sobre a absurda exatidão daquele
gesto, nem sobre sua improvável pontualidade. Eu bebia, e era tudo. Aliás, naquela casa
interrompida, no segredo das nossas liturgias insanas, assediados pelas nossas poéticas
enfermidades, éramos personagens órfãos de qualquer lógica. Eu continuava a comer, ele
dormia. Eu não estava constrangida, aquilo me agradava — justamente porque era
absurdo, me agradava. Comecei a pensar que aquele seria um dos melhores jantares da
minha vida. Não me entediava, era eu mesma, bebia champanhe. A certa altura comecei a
falar, mas devagar, e só de bobagens. O Tio, no sono, de vez em quando sorria. Ou fazia
um gesto no ar, com a mão. Ficava me escutando, de algum modo, e a mim era agradável
lhe falar. Era tudo muito leve, inexpugnável. Eu não saberia dizer o que estava vivendo.
Era um encantamento. Senti-o estreitar-se sobre nós e quando não houve mais nada, no
mundo, além da minha voz, intuí que na realidade nada estava acontecendo daquilo que
estava acontecendo, nem jamais aconteceria. Por um motivo que devia proceder da
intensidade absurda de nossas derrotas, nada daquilo que podíamos fazer, nós dois,
naquela noite, permaneceria no livro-razão da vida. Nenhum cálculo nos levaria em
conta, nenhuma soma sairia diferente em relação ao nosso fazer, nenhuma dívida seria
coberta, nenhum crédito se abriria. Estávamos escondidos em uma dobra da criação,
invisíveis à sorte e dispensados de qualquer consequência. Assim, enquanto comia, com
os dedos nas cores tépidas daquele alimento arrumado com cuidado maníaco,
compreendi com absoluta certeza que aquele adorável vazio, sem direção e sem objetivo,
exilado de qualquer passado e incapaz de qualquer futuro, devia ser, literalmente, o
encantamento no qual aquele homem vivia, a cada minuto, havia anos. Compreendi que
aquele era o mundo em que ele tinha ido se esconder — inacessível, sem nomes, paralelo
aos nossos, imutável — e entendi que naquela noite eu havia sido admitida ali, em virtude
da minha loucura. Devia ter sido necessária muita coragem, àquele homem, para se
decidir a imaginar um convite do gênero. Ou muita solidão, pensei. Ele agora dormia,
diante de mim, e eu, pela primeira vez, sabia o que ele estava de fato fazendo. Estava
traduzindo a intolerável distância que havia escolhido para si em uma metáfora educada,
legível por qualquer um, irônica, inócua. Porque era um homem gentil.
Limpei os dedos no vestido. Olhei-o. Ele dormia.
Há quanto tempo não dorme?, perguntei.
Ele abriu os olhos.
Há anos, senhorita.
Talvez tenha se comovido, ou fui eu que imaginei isso.
Mais que de tudo, sinto falta dos sonhos, disse.
E permaneceu com os olhos abertos, despertos, me fitando. Havia pouca luz, não era
fácil perceber de que cor eram. Cinza-azulados, talvez. Com algo de dourado. Eu nunca
os tinha visto.
Está tudo muito gostoso, comentei.
Obrigado.
O senhor deveria cozinhar mais vezes.
Acha?
Não havia também uma garrafa de vinho tinto?
Tem razão, desculpe.
Levantou-se, desapareceu na cozinha.
Eu também me levantei. Peguei minha taça e fui me sentar no chão, em um canto do
aposento.
Quando ele voltou, veio me servir vinho, e depois ficou ali, em pé, sem saber bem o
que fazer.
Sente-se aqui, disse eu.
Era uma poltrona imensa, um daqueles lugares onde eu o tinha visto dormir mil
vezes, enquanto os desjejuns corriam fluviais. Pensando bem, era a mesma poltrona da
qual ele havia saudado meu retorno, com uma frase que eu não tinha esquecido: Deve ter
dançado muito, senhorita, lá onde se encontrava. Isso me alegra.
O senhor gosta de dançar?, perguntei.
Gostava muito, sim.
De que outras coisas gostava?
De tudo. Demais, talvez.
O que mais lhe faz falta?
Além dos sonhos?
Além deles.
Os sonhos, aqueles que temos durante o dia.
Tinha muitos?
Sim.
E os realizou?
Sim.
E como é?
Inútil.
Não acredito.
De fato, não deve acreditar. É cedo demais para acreditar nisso, em sua idade.
Que idade eu tenho?
Uma idade pequena.
Faz alguma diferença?
Sim.
Explique.
A senhorita vai descobrir, um dia.
Quero saber agora.
Não lhe seria de nenhuma utilidade.
De novo com essa história?
Qual?
De que é tudo inútil.
Eu não disse isso.
Disse que é inútil realizar os próprios sonhos.
Isto, sim.
Por quê?
Porque para mim foi inútil.
Conte-me.
Não.
Conte.
Senhorita, realmente devo lhe pedir por favor que…
E fechou os olhos, deixando a cabeça cair para trás, sobre o espaldar. Parecia atraído
por uma força invisível.
Ah, não, disse eu.
Pousei a taça, me levantei e fui para cima dele, pernas abertas. Vi-me com meu sexo
sobre o seu, não era o que eu queria. Mas comecei a me balançar. Mantendo a coluna
ereta, me remexia lentamente sobre ele, mãos apoiadas em seus ombros, encarando-o.
Ele abriu os olhos.
Por favor, repetiu.
O senhor me deve alguma coisa, me basta sua história, respondi.
Não creio que lhe devo nada.
Oh, sim.
É mesmo?
Não era o senhor quem devia voltar, era o Filho.
Lamento.
Não pense que vai se livrar facilmente.
Não?
O senhor me arruinou tudo, agora quero em troca pelo menos sua verdadeira
história.
Ele olhou o ponto exato em que eu me remexia.
É uma história como muitas outras, disse.
Não importa, quero mesmo assim.
Eu não saberia nem por onde começar.
Comece pelo fim. O momento em que começou a dormir e parou de viver.
Eu estava à mesinha de um Café.
Havia alguém com o senhor?
Não mais.
Estava sozinho.
Sim. Adormeci sem nem sequer inclinar a cabeça. Terminei meu Pastis dormindo, e
aquela foi a primeira vez. Quando acordei e vi o copo vazio, compreendi que seria assim
para sempre.
E as pessoas ao redor?
Em que sentido?
Bom, os garçons, ninguém veio acordá-lo?
Era um Café um pouco decadente, com garçons muito velhos. Nessa idade, você
compreende muitas coisas.
Então o deixaram dormir.
Sim.
Que horas eram?
Não sei, era de tarde.
Como o senhor tinha ido parar nesse Café?
Já disse que é uma história longa, não sei se tenho vontade de contá-la, e além disso a
senhorita está se balançando em cima de mim, e eu não entendo por quê.
Para não o deixar retornar ao seu mundo.
Ah.
A história.
Se eu lhe contar, a senhorita voltará a se sentar no chão?
Nem pensar, estou gostando disto. O senhor, não?
Como assim?
Perguntei se não está gostando.
De quê?
Disto, minhas pernas abertas, meu sexo se esfregando no seu.
Ele fechou os olhos, a cabeça deslizou um pouco para trás, eu fiz pressão com os
dedos sobre seus ombros, ele voltou a abrir os olhos, me encarou.
Havia uma mulher, que amei muito, disse.

***

Havia uma mulher, que amei muito. Tinha um jeito bonito de fazer qualquer coisa.
Não há no mundo ninguém igual a ela.
Um dia chegou com um livrinho, usado, a capa de um azul-claro muito elegante. O
bonito é que ela atravessara a cidade para me trazer esse livro, tinha-o visto em uma velha
livraria, e agora deixara tudo de lado para trazê-lo imediatamente, tão irresistível o
considerava, e precioso. O título era magnífico: Como abandonar um navio. Era um
manualzinho. Os caracteres da capa eram limpos, perfeitos. As ilustrações, dentro,
paginadas com infinito cuidado. A senhorita consegue compreender que um livro desses
vale mais do que muita literatura?
Talvez.
Não acha pelo menos que ele tinha um título irresistível?
Talvez.
Não importa. O que importa é que ela chegou com aquele livrinho. Por muito tempo
carreguei-o comigo, de tanto que o amava. Era pequeno, cabia no bolso. Quando eu ia
dar aula, pousava-o sobre a cátedra, e depois o guardava de volta no bolso. Devo ter lido
só umas duas páginas, era uma coisa bastante tediosa, mas não era esse o ponto. Era
bom tê-lo nas mãos, folheá-lo. Era bom pensar que, por mais que a vida pudesse ser
desagradável, eu tinha aquele livrinho no bolso e, ao meu lado, a mulher de quem o havia
ganhado. E isso, a senhorita consegue compreender?
Claro, não sou tola.
Ah, já ia esquecendo a coisa mais bonita. Na primeira página, branca, havia uma
dedicatória, muito pungente. Era um livro usado, como eu disse, e na primeira página
havia esta dedicatória: Para Terry, depois do primeiro mês de sua estada no Hospital de St.
Thomas. Papai e mamãe. É possível fantasiar dias inteiros, sobre uma dedicatória assim.
Era aquele tipo de beleza que eu achava lancinante. E que a mulher a quem tanto amei
sabia compreender. Por que estou lhe contando tudo isto? Ah, sim, o Café. Tem certeza
de que deseja continuar?
Tenho.
O tempo passou, e nesse tempo eu perdi a mulher que tanto amava, por razões que
não nos interessam aqui. Aliás, não estou seguro de tê-las compreendido. Seja como for,
continuei carregando comigo…
Ei, um instante. Quem disse que não nos interessam?
Eu.
Fale por si.
Não, falo por nós dois, se não concordar desça daí, e a história, peça ao Filho que lhe
conte, quando chegar.
Tudo bem, tudo bem, não há necessidade de…
Portanto eram tempos estranhos para mim, eu tinha um pouco a impressão de estar
viúvo, caminhava como os viúvos, sabe?, um pouco desfalecidos, com aqueles olhos de
passarinho que não compreende bem. Sabe o que quero dizer?
Sim, creio que sim.
Mas sempre com meu livrinho no bolso. Era idiota, eu deveria ter jogado fora tudo o
que a mulher a quem tinha amado tanto havia deixado para trás, mas o que fazer?, é como
um naufrágio, fica uma série de coisas boiando, e de todos os tipos, nesses casos.
Realmente você não pode fazer nenhuma limpeza. E deve se agarrar a alguma coisa,
quando já não consegue nadar. Por isso eu mantinha aquele livrinho no bolso, naquele
dia, no Café, e veja que já se haviam passado meses, desde quando tudo acabara. Mas eu
o levava no bolso. Tinha encontro com uma mulher, nada de muito importante, não era
uma mulher especial, eu mal a conhecia. Gostava do jeito como se vestia. Tinha uma bela
risada, só isso. Falava pouco, e ali, no Café, naquele dia, falou tão pouco que tudo me
pareceu tremendamente deprimente. Então puxei o livrinho e comecei a falar sobre ele,
dizendo que acabava de comprá-lo. Ela achou toda aquela história muito estranha, mas
de algum modo curiosa, então se soltou um pouco, passou a me perguntar sobre mim,
começamos a conversar, eu disse alguma coisa que a fez rir. Foi tudo bem simples, até
agradável. Ela me pareceu mais bonita, de vez em quando nos debruçávamos um para a
outra, nos esquecemos das pessoas nas outras mesas, éramos nós dois, era delicioso.
Depois ela teve que ir embora, e pareceu natural trocarmos um beijo. Eu a vi desaparecer
atrás de uma esquina, com um andar muito atraente. Então baixei o olhar. Sobre a
mesinha estavam nossos dois copos de Pastis, meio cheios, e o livrinho azul. Apoiei uma
mão sobre ele e de repente pensei em sua ilimitada neutralidade. Muito amor, e tempo, e
desvelo, haviam sido depositados naquele livro, desde a época de Terry até a minha, e
por conseguinte muita vida, e da melhor espécie: e no entanto ele não era nada, não
apresentara a mínima resistência à minha pequena infâmia, não se rebelara, limitando-se a
ficar ali, disponível a qualquer outra aventura, completamente desprovido de um sentido
permanente, leve e vazio como um objeto que tivesse nascido naquele instante, em vez de
ter crescido no coração de muitas vidas. Então me aconteceu compreender nossa derrota,
em todo o seu trágico alcance, e me senti vencido por um cansaço indizível e definitivo.
Talvez tenha me dado conta de que algo havia se quebrado, para sempre, dentro de mim.
Senti que deslizava a certa distância das coisas, e que nunca mais me seria possível
percorrer de novo aquele caminho. Deixei-me levar. Foi esplêndido. Percebi que
qualquer angústia se desfazia dentro de mim, e desaparecia. Então me vi em uma
luminosa serenidade, ligeiramente sulcada de tristeza, e reconheci a terra que sempre
havia procurado. As pessoas, ao redor, viram que eu adormecia. Foi isso.
O senhor não vai querer me fazer acreditar que, se dorme há anos, é por causa de
uma bobagem do gênero…
Era só a gota d’água de uma série impressionante de bobagens do gênero…
Como, por exemplo?
A traição das coisas. Sabe do que estou falando?
Não.
É muito instrutivo: ver como os objetos não trazem em si nada do sentido que nós
lhes damos. Basta uma circunstância oblíqua, um pequeno ajuste da trajetória, e em um
instante eles são parte de uma história totalmente diversa. Acha que esta poltrona será
diferente por ter escutado minhas palavras e acolhido seu corpo e o meu? Talvez, daqui a
meses, alguém morra nesta poltrona e, por mais que tornemos inesquecível esta noite, ela
acolherá essa morte e pronto. Fará isso da melhor maneira possível, e como se tivesse
sido construída para tal fim. Tampouco reagirá quando, talvez somente uma hora depois,
alguém se deixar cair sobre ela, e rir de uma tirada vulgar, ou contar uma historinha em
que o defunto fará as vezes do perfeito imbecil. Percebe? A neutralidade infinita?
É tão importante assim?
Claro. No comportamento das coisas aprende-se um fenômeno que vale um pouco
para tudo. Acredite, dá-se o mesmo com os lugares, com as pessoas, até com os
sentimentos, até com as ideias.
Como assim?
Temos essa força incrível com a qual damos um sentido às coisas, aos lugares, a
tudo: no entanto não conseguimos fixar nada, tudo volta logo a ser neutro, objetos
tomados de empréstimo, ideias de passagem, sentimentos frágeis como cristal. Até os
corpos, o desejo dos corpos: imprevisível. Podemos tomar como alvo qualquer pedaço
de mundo com toda a intensidade de que somos capazes e ele, uma hora depois, volta a
ser recém-nascido. Você pode compreender uma coisa, sabê-la profundamente, e ela já
mudou, não sabe nada de você, tem sua própria vida misteriosa, que não leva em conta o
que você fez dela. Aqueles que nos amam nos traem, e nós traímos aqueles que amamos.
Não conseguimos fixar nada, acredite. Quando eu era jovem, ao procurar explicações
para a dor surda que se grudava a mim, tinha me convencido de que o problema se
situava na minha incapacidade de encontrar o meu caminho: mas, veja, na realidade se
caminha muito, e até com coragem, intuito, paixão, e cada um pelo próprio caminho
certo, sem erros. Mas não deixamos rastros. Não sei por quê. Nossa passagem não deixa
rastros. Talvez sejamos animais astutos, velozes, maus, mas incapazes de deixar marcas na
terra. Não sei. Mas, acredite, não deixamos rastros nem sequer em nós mesmos. Assim,
não há nada que sobreviva à nossa intenção, e aquilo que construímos nunca é
construído.
Acredita mesmo nisso?
Sim.
Talvez seja uma coisa que só diz respeito ao senhor.
Não creio.
Diz respeito a mim também?
Imagino que sim.
De que modo?
De muitos.
Diga um.
Aqueles que nos amam nos traem, e nós traímos aqueles que amamos.
E o que eu tenho a ver com isso?
É o que está lhe acontecendo.
Não estou traindo ninguém.
Ah, não? E isto, como o chama?
Isto o quê?
Sabe muitíssimo bem.
Isto não tem nada a ver.
Justamente. Não tem nada a ver com o seu grande amor, não tem nada a ver com o
Filho, não tem nada a ver com a ideia que a senhorita faz de si mesma. Não há rastros de
tudo isso nos gestos que a senhorita está fazendo neste momento. Não lhe parece
curioso? Nenhum rastro.
Fiquei aqui esperando por ele, isso não significa nada?
Não sei. Diga-me a senhorita.
Nunca deixei de amá-lo, estou aqui por causa dele, ele está sempre comigo.
Está convencida disso?
Claro. Nunca deixamos de estar juntos.
No entanto, não o vejo aqui.
Está chegando.
É o que todos acreditam.
E então?
Talvez a verdade possa lhe interessar.
A verdade é que o Filho está chegando.
Temo que não, senhorita.
O que sabe quanto a isso?
Sei que a última vez em que o viram foi um ano atrás. Estava entrando em um cúter,
uma pequena embarcação a vela. Desde então, ninguém soube mais nada dele.
Mas que diabo o senhor está dizendo?
Naturalmente, não era uma coisa que pudesse ser comunicada ao Pai com muita
crueza, e de modo repentino. Então, preferiu-se primeiro adiá-la e depois administrá-la
de um modo, digamos assim, mais gradual. Também não se excluía a hipótese, aliás, de
que o Filho reaparecesse do nada, mais dia, menos dia. Parou de se remexer, senhorita.
Mas o senhor, não.
Eu, não, é verdade.
Por que me conta essas mentiras? Quer me magoar?
Não sei.
São mentiras?
Não.
Diga a verdade.
É a verdade: o Filho desapareceu.
Quando?
Faz um ano.
E quem lhe disse?
Comandini, que era quem se ocupava do assunto.
Ah, ele.
Ele era o único a saber, até alguns dias atrás. Depois veio me contar, pouco antes de
partirmos. Queria um conselho.
E todas aquelas coisas?
Os dois carneiros e o resto?
Sim.
Bem, a situação se complicou um pouco quando a senhorita chegou. Era difícil fazê-
la durar por um prazo muito maior. Então Comandini achou que uma mudança
longuíssima, infinita, podia nos fazer ganhar algum tempo.
Era Comandini quem mandava aquelas coisas?
Sim.
Não posso acreditar.
Era uma forma de cortesia para com o Pai.
Loucuras…
Lamento, senhorita.
Odiarei todos vocês, com toda a alma, para sempre, até o dia em que o Filho voltar.
O Tio fechou os olhos, senti sob minhas mãos os ombros dele mudando de peso.
Aumentei a pressão dos dedos.
Não faça isso, pedi. Não vá embora.
Ele voltou a abrir as pálpebras, o olhar vazio.
Agora me deixe ir, senhorita, por favor.
Nem pensar.
Por favor.
Eu não fico sozinha, aqui.
Por favor.
Fechou de novo os olhos, estava partindo rumo ao seu encantamento.
O senhor me ouviu?, eu não fico sozinha, aqui.
Preciso ir, realmente.
Já estava me falando no sono.
Então apertei sua garganta com a mão. Ele abriu os olhos, estupefato. Eu o fitava, e
dessa vez era um olhar parado, talvez maldoso.
Aonde acha que vai, por cristo?, perguntei.
O Tio olhou ao redor, sobretudo para fugir da minha mirada. Ou para procurar
uma resposta, nas coisas.
Eu não fico aqui, sozinha, repeti. O senhor vai embora comigo.
Vi suas pálpebras descerem, enquanto ele respirava demoradamente. Mas eu sabia
que não o deixaria ir. Sob meu sexo ainda sentia o dele, eu não tinha parado um só
instante de dançar. Despi o vestido, pela cabeça, com um gesto que não pudesse assustá-
lo. Ele voltou a abrir os olhos e me encarou. Tirei de seus ombros as mãos e comecei a
lhe desabotoar a camisa porque a Mãe havia me ensinado que era um direito que me
cabia. Não me inclinei para beijá-lo, não o acariciei, nunca. Em um instante, com um só
movimento do pescoço, soltei meus cabelos. Desci até o último botão da camisa e depois
não parei mais. Continuava fitando o Tio nos olhos, não o deixaria retornar ao seu
encantamento. Ele observava minhas mãos, depois me mirava nos olhos, depois voltava a
observar minhas mãos. Não parecia ter medo, nem perguntas, nem curiosidade. Segurei
seu sexo e, por um tempinho, mantive-o imóvel, apertado na palma, como alguma coisa
que eu tinha voltado de longe para recuperar. Levei à frente minhas pernas abertas, e me
lembrei da bela expressão da vovó: a habilidade do ventre. Eu estava prestes a
compreender-lhe o significado.
Não o faça com ódio, disse o Tio.
Desci sobre ele e o recebi dentro de mim.
Não o faço por amor, enunciei — e todo o resto eu o recordo mas o mantenho para
mim, daquela noite estranha, passada em uma greta do mundo, inencontrável no livro-
razão dos viventes, roubada por horas à derrota, e restituída durante o alvorecer, quando
a primeira luz se filtrou pelas persianas e eu, estreitando aquele homem nos braços, o
adormeci, dessa vez para valer, e o devolvi aos seus sonhos.
Quando acordamos era tarde. Olhamo-nos e compreendemos que não nos
deixaríamos encontrar assim. O instinto de recomeçar, sempre. Arrumamos tudo, às
pressas, eu me troquei, ele subiu ao seu quarto. Movia-se como eu nunca o tinha visto,
enfileirando os gestos com segurança, os olhos vivazes, os passos elegantes. Cheguei a
pensar que seria fácil, para a Filha, amá-lo.
Não trocamos uma palavra. Somente, a certa altura, eu perguntei:
E agora, o que o senhor fará?
E a senhorita?, respondeu ele.
No sol do meio-dia alguém bateu à porta, de maneira respeitosa mas firme.
Modesto.

Foi mais ou menos neste ponto que esqueci meu computador no assento de um
micro-ônibus. Um micro-ônibus que atravessava a ilha de norte a sul, esgueirando-se
por estradinhas pouco mais largas do que ele. Fazia isso com milimétrica inépcia. A certa
altura saltei e esqueci o computador sobre o assento. Quando me dei conta, o micro-
ônibus já desaparecera. Era um bom computador, ainda por cima. Dentro estava o meu
livro.
Naturalmente não seria difícil recuperá-lo, mas a verdade é que deixei para lá. Para
compreender isso é preciso levar em conta a luz, o mar ao redor, os cães vagarosos ao
sol, a maneira como vive aquela gente ali. O Sul do mundo sugere curiosas prioridades.
Tem-se uma abordagem particular aos problemas — resolvê-los não é o primeiro gesto
que nos vem à mente. Por tal motivo caminhei um pouco, me sentei sobre uma mureta,
no porto, e depois passei a observar o vaivém dos barcos. Agrada-me que, não importa o
que façam, eles o fazem lentamente. Se os olharmos de longe, quero dizer. É uma espécie
de dança, parece comportar alguma forma de sabedoria, ou de solenidade. Há também
desencanto, às vezes. Talvez uma esfumatura de renúncia — branda. É a maravilha dos
portos.
Por tal motivo eu me mantinha ali, e tudo ia bem.
Depois, à noite, voltei a pensar no computador, mas sem ansiedades específicas, ou
medos. Pode parecer estranho, visto que escrever naquele computador, e construir meu
livro, era, havia meses, a única atividade que eu conseguia desenvolver com suficiente
paixão e inalterado capricho. Eu deveria ter me cagado de terror, eis o que eu deveria ter
feito. Em vez disso, muito simplesmente, pensei que continuaria a escrever, e que o faria
em minha mente. Pareceu-me até um epílogo natural, e inevitável. Aquilo dos dedos
sobre o teclado me pareceu, de repente, uma inútil aspereza, ou um apêndice
excessivamente complicado a um gesto que podia ser muito mais leve, e invencível. Por
outro lado, fazia tempo que eu escrevia meu livro caminhando, ou deitado no chão, ou de
noite na escuridão da minha insônia: depois, no computador, apertava os parafusos,
lustrava com cera, embalava adequadamente — todo aquele repertório de cuidados
artesanais cujo objetivo, para ser sincero, agora já não recordo ao certo. Devia haver um,
com certeza. Mas eu o esqueci. Talvez não fosse assim tão importante.
Além disso convém considerar que, se a pessoa nasceu para fazê-lo, escrever é um
gesto que coincide com a memória: aquilo que você escreve, você recorda. Portanto, de
fato seria inexato afirmar que eu tinha perdido meu livro, já que, para dizer as coisas
como realmente são, eu podia recitá-lo todo em voz alta, ou, se não todo, digamos pelo
menos as partes que tinham alguma importância. No máximo eu podia não recordar
exatamente certas frases: mas também deve ser dito que ao trazê-las de volta à superfície,
do lugar para o qual haviam deslizado, acabava por reescrevê-las em minha mente, sob
uma forma muito próxima da original mas não exatamente idêntica, com o resultado de
produzir uma espécie de desfoque, ou revérbero, ou duplicação, em que amadurecia,
esplendidamente, tudo o que eu havia imaginado escrever. Já que, afinal de contas, a
única frase que poderia traduzir exatamente uma particular intenção de quem escreve não
é nunca uma frase, mas a soma estratificada de todas as frases que a pessoa imaginou
antes, e depois escreveu, e depois recordou: elas deveriam ser apoiadas uma sobre a
outra, transparentes, e percebidas simultaneamente, como um acorde. Isso é o que a
memória faz, em sua visionária imprecisão. Assim, objetivamente falando, eu não havia
perdido meu livro, mas sim, em certo sentido, tinha-o reencontrado em sua plenitude,
agora que ele se desmaterializara, retirando-se para os quartéis de inverno da minha
mente. Eu podia voltar a convocá-lo à superfície a qualquer momento com um esforço
quase imperceptível, colocado em algum recesso do meu corpo que eu não sabia
identificar: ele reaparecia em um esplendor evanescente diante do qual a nítida ordem de
uma página impressa revelava a fixidez de uma pedra tumular.
Ou pelo menos assim me pareceu, sentado ali, em uma trattoria do porto, naquela
noite, na ilha. Sou um gênio em fazer evoluírem bem as coisas que funcionaram mal. Eu
poderia encontrar vantagens até mesmo em ficar preso dentro de um elevador no dia de
Natal. É um truque que aprendi com meu pai (ah, ele ainda é vivo e de noite continua
perambulando em seu campo pessoal de golfe de nove buracos). Ter alguma coisa para
contar no almoço do dia de Santo Estêvão, por exemplo.
Eu pensava nessas coisas e, enquanto isso, relia um pouco do livro, aqui e ali o
reescrevia, tudo em minha cabeça: enquanto mecanicamente passava o pão no molho das
almôndegas.
A certa altura um sujeito gordo e feliz, sentado a uma mesa vizinha, também sozinho,
me perguntou se estava tudo bem. Imaginei que eu devia ter feito algo estranho — era até
possível, quando leio ou escrevo o livro na minha cabeça já não controlo bem as outras
partes do corpo. Aquelas nas quais o livro não foi se enfiar, quero dizer. Sei lá, os
tornozelos.
Saí do meu livro e respondi que tudo ia muito bem.
Eu estava escrevendo, disse.
O homem fez sinal de sim com a cabeça, como se aquilo fosse uma coisa que sempre
acontecia também com ele, anos antes, quando ainda era jovem.
Agora estava na casa dos sessenta.
Plácido e satisfeito de si, quis me informar sobre o fato de que estava ali, à beira-mar,
porque havia obtido de um médico complacente a prescrição de sete dias de
balneoterapia. Não podem dizer nada, observou. Referia-se aos seus empregadores,
creio. Explicou que com o termo balneoterapia você ficava protegido praticamente em
uma armadura. Podem me mandar a perícia, não importa, disse. Em seguida passou à
política e me perguntou se a Itália se salvaria.
Obviamente não, se todos forem como nós dois, respondi.
Ele achou aquilo muito divertido, deve ter lhe parecido como o início de uma
amizade, ou algo do gênero. Decidiu que éramos feitos um para o outro, e depois foi
embora. Precisava voltar cedo para casa porque tinha sido convidado pelos vizinhos para
comer berinjelas no dia seguinte: o nexo entre as duas coisas devia lhe parecer tão
evidente que não precisava de explicações.
Então permaneci ali, e era o último. Esta é outra coisa que me agrada: fecharem os
restaurantes na minha cara, à noite. Perceber aos poucos que começaram a apagar as
luzes, a virar as cadeiras sobre as mesas. Gosto sobretudo quando vejo os garçons indo
para casa, mas vestidos como cristãos, sem o paletó branco ou o avental, repentinamente
retornados à terra. Caminham meio oblíquos, parecem animais do bosque fugidos de
um encantamento.
Naquela noite, porém, nem os vi. O fato é que eu estava escrevendo. Na verdade, nem
sequer recordo se paguei a conta. Estava escrevendo na minha mente: sobre quando a
Noiva jovem partiu. Isso devia acontecer, mais cedo ou mais tarde, e no dia em que
aconteceu todos souberam fazer os gestos mais apropriados, sugeridos pela educação e
aprovados por décadas de compostura. Foram banidas as perguntas. Evitou-se a
banalidade das recomendações. Não agradou entregar-se ao sentimentalismo. Quando a
viram desaparecer atrás da curva, ninguém seria capaz de dizer para onde ela estava indo:
mas o atraso bíblico do Filho, e a suspensão do tempo que aquele atraso imprimira aos
dias deles, tornara-os inaptos a interrogar-se sobre a pálida relação que reúne, em geral,
uma partida e uma chegada, uma intenção e um comportamento. Então a viram partir
como, no fundo, tinham-na visto chegar: ignaros de tudo, de tudo sabedores.
Seus dezoito anos, a Noiva jovem foi depositá-los no lugar que lhe pareceu mais
apropriado e menos ilógico. Agora poderá parecer surpreendente o resultado de
semelhante operação mental, mas convém recordar que jamais, nem sequer por um
instante, residindo no mundo abstrato da Família, aquela moça havia parado de aprender.
Então, agora sabia que não existem muitos destinos, mas uma só história, e que o único
gesto exato é a repetição. Perguntou-se onde esperaria o Filho, segura de que ele voltaria,
e para onde o Filho voltaria, segura de que para sempre ela o esperaria. Não teve dúvidas
sobre a resposta. Apresentou-se no bordel, na cidade, e perguntou se podia viver ali.
Não é exatamente um ofício que se aprenda de um dia para outro, disse-lhe a Mulher
portuguesa.
Não tenho pressa, disse a Noiva jovem. Estou esperando uma pessoa.
Quando já fazia quase dois anos que ela ganhava a vida daquele modo, alguém
mandou chamá-la no meio da noite. Ela estava no quarto com um viajante russo — um
homem lá pelos quarenta anos, muito nervoso e insolitamente educado. No mesmo
instante em que o tocou pela primeira vez, a Noiva jovem compreendera que ele era
homossexual e não sabia.
Na realidade, eles sabem perfeitamente, havia lhe esclarecido certa vez a Mulher
portuguesa. É que não se permitem admitir isso.
Então, o que esperam de nós?, tinha perguntado a Noiva jovem.
Uma ajuda para a mentira.
Em seguida a Mulher portuguesa havia enumerado sete truques para fazê-los gozar e
sair dali em paz consigo mesmos.
Tal como depois a Noiva jovem pudera constatar reiteradas vezes, tratava-se de sete
truques infalíveis: naquele momento, portanto, estava deslizando com elegância rumo ao
primeiro quando vieram chamá-la. Como era regra imprescindível do bordel que o
trabalho das moças não fosse interrompido por nenhuma razão no mundo,
compreendeu que algo de especial havia acontecido. Porém, não pensou no Filho. Não
que tivesse deixado de esperá-lo ou de acreditar em seu retorno. Pelo contrário: se por
acaso houvesse alimentado alguma dúvida, teria descartado todas as que restassem no dia
em que, no bordel, Comandini aparecera, sem se fazer anunciar. Depois de perguntar
por ela, havia se apresentado com o chapéu na mão. Os dois não se viam desde mais de
um ano antes.
Queria somente falar um instantinho com a senhorita, esclarecera ele.
A Noiva jovem o odiava.
O preço é o mesmo, disse, e se o senhor quiser somente falar o problema é seu.
Então Comandini desembolsou uma soma não desprezível para se sentar diante da
Noiva jovem, em um quarto de decoração vagamente otomana, e lhe dizer a verdade. Ou
pelo menos o que ele sabia da verdade. Contou desde quando não se sabia mais nada do
Filho. Explicou toda a história das remessas, dos dois carneiros em diante. Esclareceu
que na verdade o último gesto conhecido do Filho tinha sido comprar um pequeno cúter
em Newport. Acrescentou que não havia notícia de uma eventual morte dele, ou de
qualquer acidente que pudesse ter lhe ocorrido. Ele tinha desaparecido no nada, e só.
A Noiva jovem havia feito um aceno de assentimento com a cabeça, e depois resumido
toda a história a seu modo.
Bom. Então, ele está vivo e voltará.
Depois perguntou se devia se despir.
Convém registrar, infelizmente, que Comandini hesitou um longo momento antes de
dizer Não, obrigado, levantar-se e dirigir-se para a porta.
Estava saindo quando a Noiva jovem o deteve com uma pergunta.
Por que diabos o senhor enviou o Dom Quixote?
Como assim?
Por que diabos, com todos os livros que existem, o senhor enviou justamente o Dom
Quixote?
Comandini precisou recapitular uma lembrança que evidentemente não havia
considerado útil manter ao alcance da mão. Em seguida explicou que não entendia muito
de livros, tinha simplesmente escolhido um título que havia visto por acaso na capa de
um volume abandonado em um canto, no quarto da Mãe.
No quarto da Mãe?, perguntou a Noiva jovem.
Exatamente, respondeu Comandini, com certa dureza. Depois, sem se despedir, foi
embora.
Por tal motivo, enquanto caminhava pelo corredor, fechando sobre o peito um leve
agasalho, a Noiva jovem poderia ter pensado no Filho — teria razão de fazê-lo, e até
desejo. Contudo, desde quando um tio devorado pela febre havia chegado, em vez do
homem que dava um sentido à sua juventude, a Noiva jovem tinha parado de esperar da
vida movimentos previsíveis. Por isso, limitou-se a deixar-se conduzir — a mente livre de
pensamentos, o coração ausente — até o aposento onde alguém estava à sua espera.
Entrou e viu Modesto e o Pai.
Estavam ambos vestidos com ordem e elegância. O Pai estava deitado na cama, os
traços do rosto transtornados.
Modesto emitiu dois pequenos pigarros. A Noiva jovem nunca os escutara, mas
compreendeu perfeitamente. Leu neles uma estudada mescla de consternação, surpresa,
embaraço e nostalgia.
Sim, disse, com um sorriso.
Agradecido, Modesto fez uma leve reverência e se afastou da cama dando os
primeiros passos para trás e em seguida girando sobre si mesmo, como se uma lufada, e
não uma opção inoportuna de sua parte, tivesse decidido por ele. Saiu do quarto, e deste
livro, sem dizer uma palavra.
Então a Noiva jovem se aproximou do Pai. Olharam-se. A palidez do homem era
tremenda, e o sobressalto do seu peito, desprovido de qualquer ordem. Ele respirava
como se mordesse o ar, não controlava os olhos. Parecia ter envelhecido mil anos.
Reuniu todas as energias de que ainda podia dispor e pronunciou, com grande fadiga e
insuspeitável firmeza, uma só frase.
Não morrerei de noite, mas sim à luz do sol.
Instintivamente, a Noiva jovem compreendeu tudo e ergueu o olhar para a janela.
Pelas persianas semicerradas só se filtrava a escuridão. Virou-se para conferir a hora, no
relógio de pêndulo que naquele quarto, como em todos os outros, media com certo luxo
o tempo do trabalho. Não sabia em que momento chegaria o alvorecer. Mas
compreendeu que eles tinham algumas horas a derrotar e um destino a desfazer. Decidiu
que conseguiriam.
Muito depressa passou em revista os possíveis gestos a executar. Escolheu o que
apresentava o defeito de ser arriscado e o preço de ser inevitável. Saiu do quarto,
percorreu de novo o corredor, entrou no quartinho onde as moças guardavam seus
pertences, abriu a gaveta que era reservada a ela, pegou um pequeno objeto — um
presente que lhe era imensamente precioso — e, com ele na mão, voltou para perto do
Pai. Chaveou a porta do quarto, aproximou-se da cama e tirou o agasalho. Retornou
com a mente a uma imagem precisa, a da Mãe apertando entre as pernas o Pai do Pai,
muitos anos antes, acariciando-lhe os cabelos e falando-lhe baixinho, como se ele
estivesse vivo. Como aprendera que o único gesto exato é a repetição, subiu à cama,
aproximou-se do Pai, segurou o corpo dele e com grande delicadeza pousou-o entre as
pernas e sobre o peito. Tinha total segurança de que ele sabia o que ela estava fazendo.
Esperou que a respiração do Pai se tornasse um pouco mais regular, e pegou o
presente que lhe era tão precioso. Era um livrinho. Mostrou-o ao Pai, e leu o título, em
voz baixa.
Como abandonar um navio.
O Pai sorriu, porque não tinha forças para rir e porque quem tem senso de humor o
tem para sempre.
A Noiva jovem abriu o livrinho na primeira página e começou a lê-lo, em voz alta.
Como o havia folheado muitas vezes, sabia que ele era idêntico ao Pai: meticuloso,
racional, lento, incontestável, aparentemente asséptico, secretamente poético. Tentou lê-lo
o melhor que podia e, quando sentia o corpo do Pai adquirir peso ou perder vontade,
acelerava o ritmo, para afugentar a morte. Estava na página 47, mais ou menos no meio
do capítulo dedicado às regras de etiqueta que se impõem a bordo de um bote salva-
vidas, quando pelas lâminas da persiana começou a se filtrar uma luz ligeiramente veiada
de laranja. A Noiva jovem a viu planar sobre as páginas de cor creme, sobre cada letra e
na própria voz. Não parou de ler, mas percebeu que qualquer cansaço havia se dissolvido
nela. Prosseguiu listando as razões, surpreendentemente numerosas, que aconselham
dispor mulheres e crianças na proa, e só quando passou a examinar os prós e os contras
dos coletes salva-vidas em borracha viu o Pai girar o rosto para a janela, e permanecer
com os olhos abertos, naquela luz, estupefato. Então leu ainda algumas palavras, mais
devagar, e em seguida outras, com um fio de voz — e depois silêncio. O Pai continuava a
fitar a luz. Baixou as pálpebras, a certa altura, para expulsar umas lágrimas que não havia
levado em conta. Buscou uma das mãos da Noiva jovem e apertou-a. Disse alguma coisa.
A Noiva jovem não compreendeu e então se inclinou sobre o Pai para ouvir melhor. Ele
repetiu.
Diga ao meu filho que a noite acabou.
Morreu quando o sol mal se havia destacado do horizonte, e o fez sem um estertor,
sem um movimento, em um suspiro igual a tantos outros, o último.
A Noiva jovem procurou o batimento de um coração, no corpo que estreitava entre
os braços, e não o encontrou. Então passou a palma da mão sobre o rosto do Pai a fim
de lhe fechar os olhos, em um gesto que desde sempre é privilégio dos vivos. Em
seguida voltou a abrir o livrinho de capa azul e recomeçou a ler. Não tinha dúvidas de
que o Pai gostaria assim, e em alguns trechos sentiu que nenhuma oração fúnebre
poderia ser mais adequada. Não parou até o fim e, tendo chegado à última frase, leu-a
com grande lentidão, como para proteger-se do risco de despedaçá-la.
Quatro anos depois — como me aconteceu escrever, dias atrás, em minha mente,
enquanto eu fitava, sem ver, um mar que não abandonarei nunca mais —, apresentou-se
no bordel um homem de fascínio anômalo, elegante em suas roupas simplicíssimas e
fortalecido por uma calma inatural. Atravessou o salão quase sem olhar ao redor e, com
segurança, foi parar diante da Noiva jovem, que, sentada numa dormeuse, com uma taça
de champanhe na mão, estava escutando divertida as confissões de um ministro
aposentado.
Ao vê-lo, a Noiva jovem apertou as pálpebras só um pouquinho. Depois se levantou.
Fitou o rosto do homem, os traços enxutos, os longos cabelos puxados para trás, a
barba que emoldurava os lábios, semicerrados.
Você, disse.
O Filho tirou-lhe a taça de champanhe de entre os dedos e a entregou ao ministro
aposentado, sem uma palavra. Depois tomou pela mão a Noiva jovem e levou-a dali
consigo.
Saídos à rua, detiveram-se um instante, a fim de respirar o ar penetrante do
entardecer. Tinham a vida inteira pela frente.
O Filho tirou o paletó, que era de uma lã dura e de uma cor encantadora, e o pousou
sobre os ombros da Noiva jovem. Depois, sem a mínima inflexão de reprimenda, e em
um tom de curiosidade quase infantil, fez uma pergunta.
Por que justamente em um bordel?
A Noiva jovem sabia com absoluta precisão a resposta, mas a manteve para si.
Aqui, quem faz as perguntas sou eu, disse.

FIM
ELEONORA MARANGONI
ALESSANDRO BARICCO nasceu em Turim, Itália, em
1958. É autor de livros de ensaio, peças teatrais e romances.
O seu primeiro best-seller internacional, Seda, foi traduzido
para várias línguas, e seus romances já ganharam diversos
prêmios literários, incluindo o Prix Médicis Étranger, na
França, e o Selezione Campiello, na Itália. Vive atualmente em
Roma. Dele, a Alfaguara publicou Mr. Gwyn e Três vezes ao
amanhecer.
Sumário

Capa

Folha de rosto

A Noiva jovem

Sobre o autor