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O Estado Novo português e a vaga autoritária dos anos 1930 do século XX

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António Costa Pinto


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O Estado Novo português


e a vaga autoritária
dos anos 1930 do século XX
António Costa Pinto
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“Ditadura sem um ditador”, como um observador da época salientou, o


regime implantado em Portugal em 28 de maio de 1926, uma ditadura
militar, não transportava consigo um projecto alternativo ao liberalismo
republicano. Resultado de um compromisso transitório mediatizado pe-
los militares, o regime ditatorial foi atravessado por diversos (e contradi-
tórios) projectos até a consolidação do autoritarismo no início dos anos
1930, já sob a direcção de Salazar.
Não é fácil “ler” a sequência vertiginosa de acontecimentos políticos
nos primeiros anos da ditadura militar auxiliados por algumas das tipo-
logias habitualmente utilizadas pelos estudiosos da direita no período entre
as duas guerras. Algumas das razões remetem para a natureza política da
Primeira República Portuguesa (1910-1926) e para a consequente insi-
piência da própria representação partidária da direita sob o regime derru-
bado. Por outro lado a natureza militar do regime transportou para a ribalta
não só as tensões corporativas inerentes à instituição militar, que atraves-
saram muitos dos conflitos, como determinou ainda a formação de ver-
dadeiras facções políticas no interior das forças armadas.
Apesar dessas limitações é possível delinear uma tipologia tripartida
do espectro político-ideológico da direita portuguesa que pode ter algu-
ma utilidade analítica para o estudo das suas atitudes políticas nos primei-
ros anos da ditadura militar:1
A primeira que definimos como liberalismo conservador estava repre-
sentada nos partidos republicanos conservadores. Apelaram aos militares
e apoiaram o golpe na perspectiva de um “Estado de excepção” que lhes
permitisse a reforma da Constituição de 1911 num sentido presidencialista,
limitador do parlamentarismo. Pensavam acima de tudo na remodelação

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do sistema partidário através da criação de um forte partido conservador


com o apoio do aparelho de Estado, apto a enfrentar, reposta a legalidade
constitucional, o partido democrático, partido dominante do parlamen-
tarismo, republicano.
A segunda, que definimos como conservadorismo autoritário, era acen-
tuadamente antiliberal. A sua proposta era a da construção de um regime
autoritário que eliminasse o velho sistema de partidos da República, in-
troduzindo eventualmente um partido único de vocação “integradora”.
Alguns propunham mecanismos de representação corporativos e outros
governos de “competência técnica”. Ideologicamente filiavam-se quer no
corporativismo católico, quer em um difuso corporativismo republicano,
onde não estava ausente algum revisionismo autoritário. Nele se moviam
católicos, monárquicos e republicanos autoritários.
E, finalmente, a direita radical. A sua proposta era de ruptura total
com o sistema liberal, apontando para a construção de um Estado Nacio-
nalista baseado no corporativismo integral. Os traços de fascização desse
sector eram crescentes desde o pós-guerra, visíveis nas tentativas de cria-
ção de um partido de massas aproveitando a nova conjuntura da ditadura
militar e na opção de modelos mais carismáticos de legitimidade. O seu
principal suporte ideológico tinha origem no Integralismo Lusitano (IL),
ao qual se juntaram outros componentes de origem republicana e sidonista.
A nova situação criada pelos militares provocou no entanto uma alte-
ração sensível no espectro político e muitas das atitudes dos actores polí-
ticos, particularmente os militares, dificilmente poderão ser percebidas à
luz da tipologia atrás descrita. Os percursos erráticos multiplicaram-se e
seria fastidioso referi-los em detalhe. No entanto, as posições expressas
por algumas formações partidárias nos primeiros anos da ditadura militar
podem ser mais bem analisadas se a tomarmos em consideração.
Entre as diversas forças políticas que se situaram imediatamente no
campo de apoio à ditadura e que constituíram um contrapeso importante
à direita radical importa salientar o Centro Católico, em estreita depen-
dência da própria hierarquia da Igreja, e alguns partidos republicanos
conservadores. Alguns destes, caso da União Liberal Republicana de Cunha
Leal e do Partido Nacionalista, viram os seus projectos de manipulação

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do novo poder gorados, logo nos primeiros anos da ditadura, constituí-


ram no entanto uma escora junto da elite militar conservadora perante as
ofensivas dos radicais de direita.
Quer a Igreja, quer o partido do Centro Católico, se situaram ime-
diatamente no campo de apoio à ditadura militar. Até 1928, data da entrada
de Oliveira Salazar, então seu dirigente, no Governo, o Centro constituiu
um poderoso grupo de pressão, que só se desvaneceu quando o recém-
nomeado ministro das Finanças, uma vez consolidado o seu poder, o neu-
tralizou, já no início dos anos 1930. Como veremos à frente, as suas
posições foram decisivas no bloqueio à direita radical nos primeiros anos
do novo regime.
Convém também não subestimar o peso dos republicanos conserva-
dores. Algumas formações partidárias dispunham de uma influência impor-
tante no Exército, nomeadamente junto de alguns generais que chegaram
ao governo e que mais tarde se oporiam mesmo a Salazar, como Domin-
gos de Oliveira, Vicente de Freitas e outros. A sua importância ficaria ins-
crita no próprio compromisso que representou a nova constituição que
será a base do novo regime, em 1933.
Ainda que muitos republicanos passassem imediatamente à oposição,
fundamentalmente os ligados ao partido democrático, os pequenos parti-
dos conservadores forneceram vários ministros à ditadura e a sua influência
foi sempre grande. Uma vez em perda de influência directa, a sua capaci-
dade de influenciar um número significativo de militares continuou a ser
importante e o próprio presidente, o general Carmona, foi sempre sensí-
vel a esse sector.
Entre 1926 e 1930, a ditadura militar falhou sucessivos projectos de
institucionalização e foi alvo de várias tentativas de golpe de Estado, quer
da oposição pró-democrática (o mais forte dos quais a 7 de fevereiro de
1927), quer da extrema-direita. Na ribalta do poder, republicanos con-
servadores, católicos e extrema-direita, tentavam a sua sorte, a última es-
corada em jovens militares que constituíam como que um poder paralelo
nos quartéis, movimento agravado com nomeação de muitos para postos
de administração local. Em nível governamental, no entanto, um núcleo
mais coeso de generais conservadores, organizados em volta do general

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Carmona, foi progressivamente consolidando a ordem autoritária. Foi


nesse ambiente que Salazar, na seqüência de uma crise financeira impor-
tante foi nomeado ministro das Finanças, negociando amplos poderes sobre
os outros ministros.

O NACIONAL SINDICALISMO DE ROLÃO PRETO

O pólo unificador de uma corrente fascizante no interior da ditadura


militar foi o brevíssimo consulado do general Gomes da Costa, logo em
1926. Rolão Preto, em conjunto com jovens militares e outros expoentes
da direita radical, tentou criar de imediato uma organização milicial de
apoio ao novo regime, emergindo na ribalta política atrás da figura do
velho general.2
Em junho de 1926 Martinho Nobre de Melo, um ex-ministro de
Sidónio de formação integralista e dirigente da Cruzada Nuno Álvares,
apresentou um verdadeiro programa político para a nova ditadura. As
“milícias” nacionalistas deveriam ser organizações paramilitares de tipo
fascista. Em julho, o general Gomes da Costa demitiu uma série de minis-
tros, acumulou algumas pastas ministeriais e Martinho Nobre de Melo e
o integralista João de Almeida chegaram ao governo, mas dois dias de-
pois os generais exilaram-no nos Açores, demitiram os ministros e inter-
ditaram a organização.
Essa primeira tentativa de fascistização da ditadura militar morreu à
nascença, dado o golpe dos generais Carmona e Sinel de Cordes, que exi-
lou o velho general e neutralizou a remodelação ministerial por ele reali-
zada sob a pressão desse grupo. Mas, nos anos seguintes, a extrema-direita,
estreitamente associada ao “tenentes” do 28 de maio, participou em várias
tentativas golpistas até fundar uma organização mais estável, A Liga Na-
cional 28 de Maio, dois anos mais tarde. A partir do derrube de Gomes
da Costa, o sector mais radical da “família integralista” apostou na cria-
ção de um partido fascista susceptível de dominar a ditadura militar. Rolão
Preto regressou então à propaganda do “sindicalismo nacional”.

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No final dos anos 1920, o Nacional Sindicalismo emergiu em Portu-


gal, tentando atravessar transversalmente o espectro político da direita.
Contando com um número significativo de jovens oficiais, que dispunham
de peso assinalável nos quartéis e na administração local; dispondo de pólos
locais organizados em alternativa ao partido governamental, cuja origem
remontava ao período republicano; herdeiro de pequenas milícias criadas
apressadamente por “barões” militares; começando a mobilizar alguns
sectores da pequena burguesia e da rua, no contexto de uma ditadura ins-
tável, mas já dominada pelo católico “ditador das finanças”, Rolão Preto
viu chegada a hora da unificação desse sector num partido fascista.
A alternativa dos fascistas seria no entanto rapidamente esmagada pelos
“pactos constitucionais” entre as elites militares e Salazar, que conseguiu
amalgamar os grupos conservadores num partido único, a União Nacio-
nal, e dominar, por via administrativa e repressiva, os pólos de resistência
fascistas. A tensão entre fascistas e outros grupos de pressão autoritários
que dominavam a ditadura representou a manifestação em Portugal de
um conflito que caracterizou a maioria dos processos de transição ao auto-
ritarismo, com a presença de movimentos fascistas débeis. A sua resolução
mais rápida a favor do novo poder autoritário em Portugal, com a con-
sequente eliminação dos fascistas, é explicável por vários factores que se
podem enumerar de forma sintética.
Em Portugal existiam desde os anos 1910, ideologias e movimentos
políticos concorrentes mais adequados para colaborar com os dirigentes
militares da ditadura, sem ameaçar as suas funções, valores e posiciona-
mento no novo regime. Como salientou Juan J. Linz, no quadro de uma
transição em que os militares assumem um papel central, estes, mesmo
que os seus sectores mais jovens, simpatizem com os fascistas, viram-se
para as elites burocráticas e dos partidos conservadores, e não para os
fascistas.3 Foi esse o caso da ditadura militar portuguesa.
Foi a partir do Governo que um sector da elite civil, composta em
grande parte por professores universitários de direito, e dirigida pelo jo-
vem ministro das Finanças Oliveira Salazar, foi negociando, por vezes com
grande tensão, a “constitucionalização” da ditadura e o progressivo afas-
tamento dos militares. Os fascistas foram, nesse processo uma “quantida-

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de negligenciáveis”. A existência de uma direita autoritária, escorada em


instituições poderosas como a Igreja, o fundamental da hierarquia das
Forças Armadas e de alguns grupos de interesses dos proprietários agríco-
las e industriais, bloqueou espaço e função a esse pólo radical e mobilizador.
Parece não oferecer dúvidas que foi a transformação de um golpe de
Estado militar numa guerra civil prolongada que permitiu, por exemplo,
aos vizinhos fascistas espanhóis, cuja fraca importância numérica e socio-
lógica se aproximava dos seus congéneres portugueses, imprimirem uma
marca importante na dinâmica de criação do franquismo.4 Em Portugal,
uma intervenção militar com sucesso conduziu a uma ditadura preventiva
e foram algumas crises de institucionalização que deram aos fascistas al-
guma capacidade de manobra. No caso português, portanto, quer em ní-
vel interno, quer em nível externo, nenhum factor potenciou o papel dos
fascistas, já que nenhuma variável internacional condicionou a espontâ-
nea decisão das elites governamentais de eliminarem um contestatário
movimento fascista nativo. Muitas dessas ditaduras, utilizaram os fascis-
tas “para certas funções como as de propaganda, controle dos mass me-
dia (...)” etc.5 Em Portugal, o processo de “integração” dos fascistas no
novo regime de Salazar foi tímido e sofreu a prudência burocrática impri-
mida pela elite do “Estado Novo”, sendo esses canalizados para institui-
ções secundárias do regime. Os recalcitrantes tentaram a sua sorte num
golpe contra Salazar em 1935, mas a grande maioria reconverteu-se ao
regime, como consequência da radicalização introduzida pela Guerra Ci-
vil de Espanha.

SALAZAR E O ESTADO NOVO

Em 1930 foi criada por decreto-lei a União Nacional, um “antipartido”


destinado a agregar as forças civis que apoiavam o novo regime. Em 1933
uma nova constituição proclamou Portugal uma “República unitária e cor-
porativa”. Compromisso entre princípios liberais e corporativos de repre-
sentação, os primeiros foram pervertidos por regulamentação posterior e
os segundos limitados e secundarizados. Restou uma ditadura férrea do

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“Presidente do Conselho”, uma Assembleia Nacional ocupada pela União


Nacional, em eleições não competitivas e de acesso limitado. Para evitar
qualquer fuga de poderes, mesmo que por parte de uma câmara domina-
da exclusivamente pelo partido governamental, consagrou-se a autono-
mia quase total do Executivo. Na Presidência da República manteve-se o
general Carmona, como garantia dos interesses militares. Os serviços de
censura eliminaram qualquer idéia de conflito e viraram-se tanto para a
oposição como, inicialmente, para a minoria fascista que teimava em de-
safiar o novo regime. A polícia política foi também reorganizada e utiliza-
da com uma notável racionalidade. Tudo isso foi feito “a partir de cima”,
sem demagogia fascista de maior, contando mais com generais e coronéis
do que com tenentes, mais com o Ministério do Interior do que com a
rua. Em 1934, com alguns sobressaltos, o liberalismo político estava erra-
dicado e as velhas instituições republicanas substituídas.
Esse regime institucionalizado sob a direcção de Salazar, a partir da
ditadura militar, foi admirado por largas franjas da direita radical euro-
péia, sobretudo pelas de origem maurrasiana e tradicionalista católica, pelo
facto das novas instituições do salazarismo exprimirem uma origem cul-
tural muito semelhante. Essa identidade transcendia o mero programa da
“ordem” e não incluía, por outro lado, os aspectos totalitários e “pagões”
que faziam cada vez mais confluir a Alemanha e a Itália. É nas origens
ideológicas da direita radical e do tradicionalismo antiliberal, na impor-
tância do catolicismo antiliberal como cimento cultural, que encontram
as origens ideológicas e políticas do regime de Salazar.

O SISTEMA POLÍTICO DO SALAZARISMO

As instituições do sistema político do “Estado Novo” foram definidas no


fundamental pela Constituição de 1933. Uma constituição que por repre-
sentar um compromisso inicial com o republicanismo conservador seria
como que congelada nos seus princípios liberais e reforçada na sua dimen-
são autoritária e corporativa. Deste modo os direitos e as liberdades dos
cidadãos foram formalmente mantidos, mas eliminados por regulamen-

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tação governamental. A liberdade de associação foi mantida, mas os parti-


dos eliminados, também por regulamentação, nunca tendo a “União Na-
cional” o estatuto formal de partido único, muito embora o seja, a partir
de 1934.
Presidente da União Nacional, será Salazar quem escolherá os deputa-
dos ao parlamento. Mantendo a clássica separação de poderes, a consti-
tuição deu muito poucos poderes à câmara dos deputados e nenhuns à
corporativa, autonomizando o governo de qualquer controlo. Teoricamen-
te os membros da câmara corporativa deveriam ser designados pelas
corporações, mas na realidade seria Salazar quem nomearia a grande
maioria. Mantendo a constituição um presidente da República eleito por
sufrágio directo e um presidente do conselho de ministros, Salazar ape-
nas respondia perante o primeiro. Este seria, durante os primeiros anos, a
única ameaça constitucional ao poder absoluto de Salazar.6 Sempre ocu-
pada por um general, a presidência da República foi uma herança da dita-
dura militar que iria colocar problemas ao ditador, particularmente após
1945. Em resumo, a sua definição como uma “ditadura constituciona-
lizada”, para empregar uma frase da época, reflectia a realidade do regime.
Reduzidas a mero “conselho consultivo”, quer a câmara dos deputa-
dos, quer a corporativa concentrarão, tal como o partido único, o “plura-
lismo limitado” do regime. Por elas passaram as contradições entre adeptos
da restauração monárquica e republicanos, entre corporativistas integrais
e moderados, formando-se lobbies mais ou menos personalizados entre
defensores dos interesses agrários ou industriais, entre uma ou outra fac-
ção, particularmente nos anos 1950.
Herdando os aparelhos repressivos já constituídos pela ditadura mili-
tar, o “Estado Novo” reforçou-os. A censura, estabelecida em 1926, foi
reorganizada e, mais tarde, controlada pelos serviços de propaganda, o
mesmo se passando com a polícia política, transformada em verdadeira
espinha dorsal do sistema. A autonomia crescente da polícia política foi
sendo progressivamente decretada, até passar a depender exclusivamente
da Presidência do Conselho, ou seja, de Salazar. Para além das óbvias fun-
ções de repressão à oposição clandestina, as de controlar o acesso à admi-

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nistração pública foram centrais. Acentuaram-se os mecanismos de con-


trolo do poder judicial, particularmente no que toca a crimes políticos,
que evoluiu também da criação de tribunais militares especiais, para a
criação de um sector específico da magistratura, ao mesmo tempo que se
deram amplos poderes à polícia política para prolongar as penas de prisão.
Em 1936, já com o fundamental do sistema consolidado, Salazar au-
torizou então a criação de uma milícia, a Legião Portuguesa, e criou também
organizações de juventude e de mulheres, na dependência do ministério
da educação.7 Acentuou-se então uma coreografia mais fascistizante nos
rituais do regime. Resta um problema importante, o das relações com os
militares. Este será sempre, na longa duração do regime, o mais sensível e
o mais temido por Salazar, mas não há dúvida que a subordinação da hie-
rarquia militar ao regime era um facto, nas vésperas da Segunda Guerra
Mundial. O processo foi evidentemente mais lento e as tensões foram
inúmeras, mas o movimento de cooptação e controle de elite militar foi o
elemento central da consolidação do salazarismo.8
O salazarismo não afrontou a ordem internacional. A sua pulsão nacio-
nalista repousava na herança do passado: o seu patrimônio colonial. A
aliança com a Inglaterra nunca foi questionada, mantendo o governo inglês
um apoio discreto à ditadura. A posição geográfica e o evoluir da Segun-
da Guerra Mundial foram determinantes no não-envolvimento português,
mas todo o esforço do salazarismo se concentrou na neutralidade e na
continuidade do seu sistema de alianças. Dimensão central do nacionalis-
mo do “Estado Novo”, a sobrevivência nas colônias foi a variável mais
importante da política externa da ditadura. À medida que a cena interna-
cional se tornou progressivamente desfavorável, o colonialismo transfor-
mou-se “gradualmente na quinta-essência do regime”, e “substitui-se ao
corporativismo” no núcleo ideológico central do “Estado Novo”.
No que toca ao sistema político, pouco ou nada mudou com a altera-
ção profunda de contexto internacional, a partir de 1945. A mais impor-
tante mudança foi a decisão de permitir a emergência de uma oposição
legal, durante um mês e de quatro em quatro anos, para o qual não foi
precisa nenhuma reforma constitucional. Em 1958, na seqüência do “sus-
to” que provocou a candidatura de um general dissidente do regime,

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Humberto Delgado, a eleição do presidente passou a ser indirecta e “orgâ-


nica”, ou seja, pela Assembleia Nacional e representantes das Câmaras
Municipais.

Salazar: um ditador “forte”

Muitos estudos sobre os regimes ditatoriais modernos, quer por perspec-


tiva teórica; quer mesmo pelo carácter pragmático do ditador, ignoram o
chefe. No caso do “Estado Novo” seria um erro. Salazar vinha de um meio
político particular, mas bem definido, dispunha de uma visão do mundo e
da sociedade, dirigiu todo o desenho institucional do regime e, uma vez
chefe incontestado, pouca legislação, da mais importante à mais mesqui-
nha, deve ter sido publicada sem o seu atento visto, até à sua decrepitude
nos anos 1960. Salazar não participou no golpe de estado de 1926, nem o
seu nome existia enquanto candidato a ditador nos anos finais do regime
parlamentar. Nascido no seio de uma família rural pobre numa aldeia do
centro do país, Oliveira Salazar foi educado num meio católico tradicio-
nalista e faria o fundamental da sua formação intelectual e política antes
da Primeira Guerra Mundial. Frequentou um seminário, mas abandonou
o seu caminho eclesiástico para ir estudar direito na Universidade de
Coimbra, nas vésperas do derrube da monarquia. Estudante reservado e
brilhante seria dirigente da mais conhecida associação estudantil católica
de Coimbra, o CADC. Data daqui a sua amizade com Cerejeira, futuro
cardeal patriarca. Seguindo a carreira universitária, como professor de
direito económico, a única actividade política que exerceu nos anos da
república liberal foi feita nos estreitos limites do movimento social católi-
co, sendo um dos (mas não o) dirigentes do Partido do Centro católico,
chegando a ser eleito deputado por esse partido, no início dos anos 1920.
Foi na sua dupla qualidade de especialista de finanças e de membro do
Centro Católico que o seu nome foi invocado sucessivas vezes para mi-
nistro das finanças, imediatamente depois do golpe de 1926. E foi, como
é conhecido, nesta qualidade que entrou para o governo da ditadura mi-
litar, em 1928. A sua ascensão no governo, deveu-se inicialmente aos

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amplos poderes que negociou à entrada, como ministro das finanças, só


depois se virando para as instituições políticas.
A imagem que Salazar cultivou foi a do ditador reservado, puritano e
provinciano, marca que perdurou até à sua morte. Enquanto jovem mili-
tante católico saiu uma única vez de Portugal, para participar num con-
gresso católico na Bélgica. Após a sua chegada ao poder, viajou pouco (uma
única ida à Espanha, para se encontrar com Franco). Ditador com um
“império colonial”, nunca visitou uma única colônia, ao longo dos 36 anos
do seu consulado, ou o Brasil, o “país irmão”. Andou de avião uma única
vez e não gostou. No entanto seria errado associar o provincianismo dos
seus comportamentos com ausência de cultura política ou com um “espí-
rito de caserna”. Ditador “catedrático”, Salazar acompanhava a política
internacional e o movimento de idéias de perto.
Os seus discursos constituíram, na sua simplicidade sistemática e car-
tesiana, o único breviário do seu pensamento político.9 Falando sempre
para as elites, mesmo quando os governadores civis mobilizavam a pro-
víncia de comboio, Salazar manteve, contra ventos e marés, os seus prin-
cípios: a negação da democracia e dos partidos; um corporativismo reactivo
às mudanças econômica e social; o integrismo colonial.
Salazar conservou sempre alguns traços ideológicos centrais, que de-
rivaram do magma cultural do qual proveio: o integrismo católico, de ma-
triz tradicionalista e antiliberal, num contexto de laicização e modernização
acelerada que para ele simbolizava a república implantada em 1910. Foi
um ultraconservador no sentido mais literal do termo. Defendeu com
intransigência a recusa liminar da democracia e da sua herança ideoló-
gica, baseado numa visão “organicista” da sociedade, de matriz tradi-
cionalista e católica. Geriu o país consciente da inevitabilidade dessa
modernização, mas pensando sempre na sobrevivência e no bem-estar do
que estava ameaçado por ela. Tudo o resto foi derivado ou veio por acrés-
cimo. E este acréscimo não foi pouco, já que, ao contrário de outros dita-
dores, era ainda professor de finanças e tinha idéias claras sobre a gestão
do dever e do haver de um Estado.

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O Corporativismo em Português

O partido único e a elite autoritária

A União Nacional desempenhou um papel importante no controle políti-


co da administração central e local; na unificação das diversas tendências
políticas que apoiavam o regime; no fornecimento de quadros políticos,
mais uma vez, fundamentalmente na província. Não foi no entanto um
elemento determinante na formação da elite política do “Estado Novo”,
diminuindo a sua importância à medida que se avança para a elite nacional.
Alguns exemplos serão suficientes para observar que o partido não era
visto como condição prévia de acesso às posições mais importantes do
salazarismo. Segundo um inquérito realizado, dos 608 deputados do “Es-
tado Novo” só 45,8% eram membros da UN.10 Esse número baixaria muito
na câmara corporativa, nunca ultrapassando os 15%. Mais importante,
obviamente, era a elite ministerial e aqui o número era também baixo.11
Se no caso da ditadura do general Franco é possível identificar as diferen-
tes fases do regime com a composição da sua elite política, tal exercício é
pouco operativo para o caso do salazarismo. Partido, forças armadas, ca-
tólicos e monárquicos, muito embora importantes grupos de pressão, não
condicionaram, como em Espanha, o processo de selecção da elite como
no regime de Franco, ou pelo menos não é possível identificar ciclos de
influência e decadência.12 As forças armadas e a administração pública
foram os maiores fornecedores de ministros, muito embora a “tecnocracia”
constituísse a grande maioria. Considerando como “políticos”, os minis-
tros que tiveram cargos no partido único e/ou nas organizações miliciais,
o seu número nunca foi grande, sendo importante salientar que a maioria
desses eram professores universitários, particularmente de direito, de longe
a instituição que mais ministros forneceu ao “Estado Novo”. Essa pro-
porção de professores universitários ainda aumentará na categoria dos
“técnicos”.13
Para além de uma “tecnocracia” político-administrativa apenas os mili-
tares mantiveram uma presença sempre constante, maior obviamente na
fase inicial, dada a natureza militar da ditadura implantada em 1926, e a
partir de 1958, com o início dos problemas coloniais. Mas saliente-se no
entanto que os militares tiveram sempre uma presença forte na elite do

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regime. A presença militar na polícia política, apesar de ir diminuindo,


continuou forte até ao fim da Segunda Guerra e continuou constante em
algumas áreas como, por exemplo, os serviços de censura à imprensa. A
Presidência da República, não se esqueça, foi também sempre assegurada
por militares.

Uma Sociedade “Orgânica”

Muitos estudiosos do fascismo que utilizaram o binômio autoritarismo/


totalitarismo tenderam a salientar a dimensão não mobilizadora de regi-
mes como o de Salazar. Tal posição, se apenas entendida como sinónimo
de uma ausência de mobilização e enquadramento tendencialmente tota-
litária da população, é sem dúvida correcta. O “Estado Novo”, mesmo
durante a “época do fascismo”, foi profundamente conservador e con-
fiou mais nos instrumento de enquadramento tradicionais, como a Igreja
e as elites de província, do que em organizações de massas. Não deixou
no entanto de acautelar os seus interesses no campo das sua relações com
a sociedade, criando todo um aparato cultural e de socialização inspirado
directamente no fascismo.
O corporativismo ficou incompleto no aparato político e institucional
mas constituiu, pelo menos, o modelo cultural oficial do “Estado Novo”.
Uma concepção eminentemente “orgânicista” dominou a visão que o re-
gime tentou projectar de si próprio e do país. No campo da propaganda
dir-se-ia que era o projecto da direita radical integralista como a bênção
do catolicismo social de matriz tradicionalista que estava em aplicação.
Em 1933 o regime criou o Secretariado de Propaganda Nacional, di-
rigido por António Ferro. Ferro nada tinha a ver, no campo cultural, com
Salazar e era um jornalista cosmopolita ligado aos meios futuristas e mo-
dernistas, um admirador do fascismo desde os anos 1920.14 Dispondo da
confiança do ditador e dependendo directamente dele, Ferro criou uma
máquina que ultrapassou largamente as meras necessidades de gestão de
imagem de Salazar. Apesar de pouco ter a ver com o integrismo provinciano
do Chefe, ou justamente por causa disso, António Ferro ofereceu ao regime

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O Corporativismo em Português

de um “projecto cultural” que sintetizou com habilidade recursos estéticos


“modernos” com uma verdadeira “reinvenção da tradição”.
Foi o SPN que coordenou e alimentou a imprensa do regime, que di-
rigiu os serviços de censura, que organizou as encenações de massas que
periodicamente eram transportadas para a capital, e que alimentou as fes-
tividades viradas para as classes populares em estreita associação com o
aparelho corporativo. Como se não chegasse, assegurou ainda múltiplas
actividades mais viradas para as elites e ainda dinamizou as relações cul-
turais com o estrangeiro. Ferro recrutou com habilidade intelectuais e ar-
tistas, que sem essa mediação “modernista” dificilmente seriam atraídos
pelo perfil do chefe do Governo, alguns dos quais tinham militado nos
grupos fascistas que se opuseram a Salazar.
O projecto cultural do salazarismo procurou, como outros de regimes
semelhantes, uma “restauração sistemática dos valores da Tradição”. A
maior atenção foi dada a todo um movimento “etnográfico-folclórico”
que passou por uma verdadeira revitalização (na maioria dos casos pura
invenção) de grupos folclóricos locais, restauração dos símbolos da re-
conquista cristã e sua utilização social, por concursos como “a aldeia mais
portuguesa de Portugal”, movimento que culminou, já no início da década
de 1940, com a “Exposição do Mundo Português”, reproduzindo as for-
mas tradicionais e os hábitos das populações de todo o “Império”. Outro
revelador importante foi o da promoção do cinema português que, com
uma clara vocação popular, remete também a apologia dos sadios valores
da honestidade cristã e da família pobre mas honrada.
A orientação selectiva da censura constitui também um revelador cla-
ro do tipo ideal “organicista”. Numa sociedade onde o conflito foi teori-
camente abolido, nada que permita aferir a sua sobrevivência é publicado.
O regime aliás não proibiu ou dissolveu sistematicamente as publicações
afectas à oposição. Estas sobreviveram ao longo dos anos 1930, isoladas
ou reduzidas a um público intelectual, e puderam até debater o significa-
do social da arte ou o pacto germano-soviético, desde que se mantivessem
nos estritos limites dos cafés de Lisboa e não chegassem à classe operária,
já que no bastião provinciano e rural Salazar estava descansado e confiava
nos modelos de enquadramento tradicionais. Como disse um dia Salazar

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O Estado Novo português e a vaga autoritária dos anos 1930 do século XX

“politicamente só existe o que o público sabe que existe (...)” e, no campo


da “paz social” obrigatória, a censura foi implacável.15
O aparelho escolar sofreu uma atenção quase doentia por parte do
regime. O ensino religioso foi reintroduzido nas escolas oficiais e inundou
literalmente os curricula, particularmente no ensino primário, símbolo e
orgulho do laicismo republicano, em que toda uma minuciosa regulamen-
tação foi introduzida, acompanhando os novos programas. Paralelamente,
toda uma revisão nacionalista e tradicionalista da história portuguesa foi
introduzida.
Em 1936 foram criadas duas organizações inspiradas no fascismo, que
não se adivinhavam nos projectos iniciais do regime. A primeira foi uma
organização oficial de juventude, de carácter paramilitar, a Mocidade
Portuguesa (MP). Já em 1933, para combater e legitimar a dissolução do
Nacional Sindicalismo de Rolão Preto, o SPN tinha criado a Acção Esco-
lar Vanguarda, a primeira organização fascista de juventude de iniciativa
oficial, que tinha um carácter voluntário.16 Uma vez dissolvido o movi-
mento de Rolão Preto, o regime abandonou essa primeira iniciativa e criou
a MP. Esta tinha um carácter obrigatório e esteve sempre na dependência
do Ministério da Educação. Virada para o universo urbano, onde “vícios
dissolventes” corrompiam a juventude liceal, a MP nunca teve a dinâmica
dos seus correspondentes fascistas e foi desde logo, como assinalamos atrás,
enquadrada por serviços religiosos, já que a igreja manifestou alguma
preocupação por essa iniciativa oficial.17 A segunda teve objectivos diver-
sos e a autorização para a sua criação representou a introdução de uma
coreografia fascista, na conjuntura da Guerra Civil de Espanha.
A Legião Portuguesa constitui-se em 1936 como uma milícia antico-
munista, com funções paramilitares e de informação policial, e enviou
voluntários para combater ao lado de Franco.18 Nela se agrupou, sob es-
treito controlo estatal, parte da minoria fascista, devidamente enquadra-
da por oficiais do exército. Qualquer tentativa de ver nessa organização
alguma influência ou “tensão” fascista sobre o regime não tem qualquer
fundamento empírico, mas a sua criação reflectiu sem dúvida a crispação
do regime em face da ameaça “vermelha” no país vizinho ainda que o
ditador sempre a tenha relegado para um plano secundário.

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O Corporativismo em Português

No fundamental o regime de Salazar não compartilhou das tensões de


mobilização dos congéneres fascistas e promoveu a apatia. Isolando o pe-
queno universo urbano, não confiando sequer na mobilização da sua
pequena burguesia, este contou dois grandes agentes no universo do “Por-
tugal profundo”: a notabilidade local e a Igreja. Entrelaçando habilmente
a administração e o partido, que agregava a notabilidade local, o regime
conta com as elites tradicionais e a polícia política para manter a ordem
social. A coadjuvação da Igreja bastou para manter a província numa or-
dem que se queria imutável. Note-se que o regime não precisou sequer de
criar ou transformar sindicatos rurais no âmbito do sistema corporativo,
dada a sua inexistência no norte e centro do país. No sul latifundiário,
onde um proletariado agrícola apresentava baixos índices de religiosidade,
a polícia estava mais atenta, no resto do país rural não era preciso. Salazar
disse um dia a Henri Massis, que o seu objectivo era “fazer viver Portugal
habitualmente!”.19 Esta “maitre-mot” que tanto encantou o seu adepto
francês, para lá da demagogia consciente que encerra, resume bem a per-
manência tradicionalista do salazarismo.

Igreja, Estado e sociedade

A ascensão da Igreja Católica foi lenta e prudente, particularmente no


período de institucionalização do regime.20 Um dos factores dessa pru-
dência foi, sem dúvida, o forte peso dos republicanos conservadores, mes-
mo entre os altos comandos militares que dirigiam a ditadura, mas a
presença do centro católico, ao nível ministerial foi imediata e decisiva.
Apesar desse apoio, quer a constituição, quer os textos fundamentais
do regime, muito embora reflectindo uma cristianização generalizada,
mantiveram a separação entre a Igreja e o Estado, e o “Estado Novo” não
se transformou em “Estado confessional” como o franquismo. Ficou co-
nhecida para a história o episódio entre Salazar e o seu íntimo amigo e
companheiro de juventude, chefe da Igreja Católica portuguesa durante o
“Estado Novo”, o cardeal Cerejeira, quando este último lhe escreveu, lem-
brando-lhe que ele era primeiro-ministro, porque “emissário dos amigos
de Deus”, respondendo-lhe Salazar, num discurso, que ele estava ali “por

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O Estado Novo português e a vaga autoritária dos anos 1930 do século XX

nomeação legal do Presidente da República”.21 Por outro lado, Salazar,


quando criou o seu partido único, apelou de imediato à dissolução do seu
próprio partido do centro católico, o que provocou alguma tensão interna.
Muito embora a “catolicização” das instituições do “Estado Novo”
fosse um elemento fundador do salazarismo, a Igreja temeu a eventual
pulsão totalitária de algumas organizações do Estado a partir de 1936, e a
eventual “integração forçada” das suas organizações de juventude nas
oficiais, agora catolicizadas. Esse receio, no entanto, não se veio a confir-
mar. Pelo contrário, o regime “ofereceu” à Igreja o enquadramento sim-
bólico/ideológico de largos sectores da sociedade, particularmente aqueles
mais próximos da sociedade rural tradicional e abriu-lhe espaço social para
as suas organizações próprias. Quando Salazar institucionalizou o “Esta-
do Novo” e o seu Partido do Centro Católico foi dissolvido, pressupondo
a sua integração no partido único, apontou à hierarquia da Igreja a tarefa
da “recristianização” do país, após décadas de secularização republicana
e liberal, fechando-lhe, por desnecessária, a esfera política, e abrindo-lhe
a esfera social e religiosa.
A Acção Católica Portuguesa (ACP) foi criada em 1933 pelo episcopa-
do e seria, por muitos anos, uma garantia de uma autonomia colaborante
com o salazarismo e as suas instituições, particularmente nas corporativas.22
Estreitamente dependente da hierarquia e interpenetrando-se com algu-
mas organizações governamentais, os organismos católicos constituíram
um poderoso instrumento de socialização conservadora, com pólos espo-
rádicos de dissidência, particularmente a partir de 1945. A presença for-
tíssima do clero na direcção efectiva dos núcleos do movimento seria aliás
elemento dissuasor de tensões com o regime, por parte de sectores próxi-
mos do sistema corporativo, que se viriam aliás a verificar ocasionalmente.
Em Portugal, portanto, para além da “catolicização” das organizações
oficiais, a Igreja resistiu vitoriosamente a todas as tensões de integração.
Manteve e desenvolveu a Acção Católica. O escutismo católico nunca foi
dissolvido e desenvolveu-se paralelamente à MP. As organizações da Acção
católica ligadas ao sistema corporativo mantiveram a sua autonomia. O
sistema de ensino desenvolveu um sector católico privado importante.

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O Corporativismo em Português

Venceu, sem grande dificuldade, as resistências conservadoras republica-


nas e as veleidades fascistizantes.
Discurso e acção do “Estado Novo” e discurso e acção da hierarquia
da Igreja atingiram o seu zénite no final dos anos trinta. Em 1940, a concor-
data veio coroar esse compromisso entre Igreja e regime, regulamentan-
do o que a prática de colaboração estreita já vinha fazendo. O último ponto
da legislação republicana a ser abolido com a concordata foi o divórcio,
doravante proibido para casamentos religiosos. Pouco tempo depois uma
revisão da constituição incluía já a religião católica como “religião da nação
portuguesa”.
O Estado Novo deu assim à Igreja, como afirmaria Salazar, “a possibi-
lidade de se reconstruir (...) e recuperar (...) o seu ascendente na forma-
ção da alma portuguesa”, e a Igreja, como afirmou Pio XII, apontou o
exemplo português como modelar, onde “o Senhor deu à nação portu-
guesa um chefe de governo” exemplar.23 Quando a vitalidade ideológica
do regime começou a diminuir, sobretudo, a partir de 1945, a Igreja cons-
titui-se progressivamente como a base ideológica mais segura do “Estado
Novo”, ao mesmo tempo que a vitalidade das organizações católicas cres-
cia. No início dos anos 1940 as organizações da Acção Católica contavam
já com cerca de 70.000 filiados, na sua grande maioria nas suas organi-
zações de juventude, ultrapassando um total de 100.000 em 1956.24 O
fenômeno de Fátima, ao nível da religião popular, mas sempre bem en-
quadrado pela hierarquia e pelo regime, poderia bem simbolizar os dois
pilares ideológicos de sobrevivência do regime, após 1945, catolicismo e
anticomunismo. Só a crise do terceiro pilar, o colonialismo, e a guerra
que se desenvolveu à sua volta iria, já no período de decadência, abrir
algumas brechas.
O catolicismo tradicionalista e a Igreja, enquanto ideologia e institui-
ção, foram simultaneamente um dos elementos mais poderosos da dita-
dura e, por outro lado, de limitação à fascistização do regime, sendo aliás
o principal elemento motor do “pluralismo limitado” do “Estado Novo”.

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O Estado Novo português e a vaga autoritária dos anos 1930 do século XX

NEUTRALIDADE E SOBREVIVÊNCIA

Contra a previsão optimista da oposição, o salazarismo, que levava em


1944 com 10 anos de existência, iria resistir mais 30 longos anos. A iro-
nia da história fez com que uma jovem ditadura associada à “Era do fas-
cismo” atingisse a maturidade na “Era da democracia”. No após guerra a
propaganda do regime projectou a imagem de um ditador que salvou
Portugal da guerra, mas existiram outros decisores inesperados. Estivesse
Salazar mais próximo do centro europeu e de nada lhe valeria a clari-
vidência.
Os anos da Segunda Guerra Mundial em Portugal legaram à posteri-
dade a imagem de um Portugal triste, provinciano, mas feliz. Saint Exupéry
cunhou a frase: “um paraíso triste”. O ditador português não desafiou a
sua sorte em política externa. Preocupado com o império, Salazar temeu
as aventuras de Mussolini em África e ficou tranquilo com as opções con-
tinentais da Alemanha nazi. Manteve a Aliança Inglesa e assustou-se fun-
damentalmente com o vizinho Franco, mais próximo do Eixo.
Até 1942 Salazar preparou-se para a eventualidade de uma “Europa
Alemã” e manteve uma neutralidade “geométrica”. Portugal sofreu então
um novo “bloqueio continental” e qualquer movimentação comercial e
de pessoas era controlada pelos aliados. Salazar não acredita na vitória
esmagadora de um dos lados e pensa que a paz virá do compromisso. As
tensões com Inglaterra cresceram, à medida que os negócios se desenvol-
veram com ambos os blocos.25
A partir de 1943 o ditador tentará fazer pagar caro aos aliados uma
neutralidade mais “colaborante”. Açores e volfrâmio preenchem a gran-
de maioria da correspondência diplomática. Perante a resistência de Salazar,
a ocupação simples do arquipélago e os cenários de derrube do regime
enquanto arma de arremesso são várias vezes equacionados, sobretudo
pelos norte-americanos. Discretamente, o grande instrumento de pressão
externa do regime, destinado ao sucesso nas relações bilaterais com os EUA,
entra em cena.
O acordo de cedência dos Açores aos aliados é finalmente assinado
com os ingleses em agosto de 1943, perante uma administração norte-

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O Corporativismo em Português

americana impaciente. Apesar disso Salazar, sendo pouco dado a sonhos,


ainda crê numa “paz separada” com a Alemanha como que tentando evi-
tar o óbvio. A partir daí a sobrevivência do regime seria a sua prioridade,
sobretudo perante o peso esmagador dos EUA. Em junho de 1944, chega-
ria a vez da legalização da extensão aos norte-americanos da utilização
dos Açores. Mas nem a contestação interna nem a viragem internacional
provocaram grandes alterações no funcionamento interno do regime. Na
vizinha Espanha, o franquismo, mais próximo do fascismo, teve de mudar
mais, afastando os membros da elite mais próximos do Eixo, como Serra-
no Suñer, ou criando umas cortes corporativas. Em Portugal pouco havia
a mudar porque, com se viu atrás, formalmente tudo existia: um Presi-
dente da República eleito por sufrágio directo, um Presidente do Conselho,
uma Assembleia Nacional com deputados, as “liberdades” na constitui-
ção e mesmo “eleições”. Até a União Nacional, o partido único, não era
legalmente “único”.
Durante a guerra, ainda que alguma “plebe” do regime se tivesse en-
tusiasmado com o Eixo, a maioria era devota a Salazar e à Igreja Católica.
A Legião Portuguesa foi a única instituição e declarar fé na Alemanha nazi,
ficando mais discreta a partir de 1943, já que a Mocidade Portuguesa ti-
nha sido “catolicizada” nos anos 1930. O Secretariado de Propaganda
Nacional de António Ferro ficou-se pela propaganda do ditador e do “Im-
pério” e passou no fim da guerra a Secretariado Nacional de “Informação”.
A censura ia dando uma no cravo, outra na ferradura. A polícia política
fazia cedências aos dois lados e preocupava-se mais com a “subversão in-
terna”. Na primeira fase da guerra a propaganda pró-Eixo era mais tole-
rada do que a pró-Aliada e as pequenas delegações dos partidos nazi e
fascista apareciam simpaticamente na imprensa. A partir de 1943 a pro-
paganda aliada teve mais destaque, ainda que sempre reprimida quando
associada à oposição portuguesa.
O descontentamento social interno e o “antifascismo” mais unitário
das elites de oposição foram um poderoso motor de mobilização política
contra a ditadura a partir de 1943. Salazar prepara-se então para as con-
seqüências internas do fim da guerra. Convoca o IIº Congresso da União
Nacional e avisa-a da vitória eminente das democracias, ainda que a

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O Estado Novo português e a vaga autoritária dos anos 1930 do século XX

vantagem destas “continue sujeita a discussão”. Remodela o seu governo,


chamando ao poder os seus mais fiéis e dedicados, e prepara-se para au-
torizar a oposição a concorrer às eleições legislativas e presidenciais.
A palavra ditadura vai desaparecendo do vocabulário oficial do regi-
me, mas não há uma instituição dos anos 1930 que desapareça. Mesmo as
mais associadas ao fascismo permanecem, como a Legião Portuguesa. O
salazarismo tem uma grande estabilidade institucional na sua longa dura-
ção e o lugar relativo de cada uma altera-se pouco. O regime passa agora
a definir-se como uma “democracia orgânica” e o corporativismo é refor-
çado como elemento de legitimação da ditadura.

CONCLUSÃO: SALAZARISMO, FASCISMO, AUTORITARISMO

Do ponto de vista das origens culturais, expressas no discurso oficial, as


ditaduras mais próximas do salazarismo foram obviamente aquelas onde
maurrazianismo e catolicismo dominaram, casos de um sector dominante
do franquismo, de Vichy ou do regime de Dolfuss.26 No entanto, se esten-
dermos o campo comparativo, aos processos de transição ao autoritarismo
e aos seus agentes fundamentais, a queda do liberalismo e a ditadura mi-
litar que se lhe seguiu fez parte integrante do ciclo autoritário dos anos
1920, sobretudo de iniciativa militar, mas com um apoio decisivo dos
partidos autoritários de direita, casos também da Hungria logo em 1919,
e da Polônia, da Grécia e da Lituânia, nesse mesmo ano de 1926.
Mas o “Estado Novo” de Salazar foi, de todas as ditaduras européias
nascidas nos anos 1920, a mais institucionalizada e a de maior longevidade.
O segundo elemento é, para o que interessa aqui, menos importante. Sem
os severos constrangimentos internacionais, muitas das ditaduras dos países
periféricos da Europa do sul e de leste teriam provavelmente sobrevivido,
com características muito semelhantes às da ditadura de Salazar. Regimes
como os de Pilsudski, na Polônia, Smetona, na Lituânia, e mais tarde,
Dolfuss, na Áustria ou Horthy, na Hungria, nasceram como parte inte-
grante da mesma vaga autoritária do pós-guerra e apresentaram carac-

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O Corporativismo em Português

terísticas bem próximas das que presidiram à institucionalização do


autoritarismo português. Condicionantes mais externas do que internas
foram responsáveis pelo “congelamento” da institucionalização desses
regimes, deixando incompleta a “engenharia política” em formação.
Todas essas ditaduras foram implantadas na sequência de golpes de
estado tradicionais; representaram um compromisso entre conservadores
civis e militares; criaram sistemas políticos de partido único ou com um
partido hegemónico; os partidos fascistas foram, ou parceiros menores
nas coligações que tomaram o poder ou estiveram ausentes. Em graus
variáveis, as elites e movimentos políticos que inspiraram essas ditaduras
foram influenciadas pelo fascismo, mas os princípios, os agentes de insti-
tucionalização e o tipo de ditadura que fundaram extravasou largamente
a especificidade do fascismo.
Parece não haver dúvidas que a fascistização dos regimes ditatoriais
esteve indissociavelmente ligada ao movimento, à capacidade de este in-
fluenciar o Estado e as instituições, e de mediatizar as suas relações com a
sociedade. Reside nessa tensão totalizante ou nesse “grau de fascistização”
a especificidade do fenómeno.27 Ela foi mais forte na Alemanha nacional-
socialista que na Itália fascista, mas foi também fortemente sentida nou-
tros regimes ditatoriais. Assim a primeira fase do franquismo (1939-1945);
a Romênia sob o curto regime legionário ou a Hungria dos Arrow Cross,
para dar apenas alguns exemplos aproximaram-se bem mais da especi-
ficidade do fascismo que regimes como o de Salazar.
Como a maior parte dos regimes autoritários da Europa do sul e leste,
o salazarismo sofreu uma influência decisiva do fascismo italiano, mas não
conheceu nem a especificidade do “movimento”, nem a viragem mais tota-
lizante da segunda metade dos anos trinta. Foi no Mussolini dos anos 1920,
disciplinador do partido fascista, conciliador com a Igreja Católica,
apologista da “ordem”, em suma, o ditador “autoritário” do compromisso
com a direita reaccionária italiana que um segmento das elites autoritá-
rias portuguesas se identificou. Mesmo assim, o salazarismo e o funda-
mental da sua elite política não se identificaram com Mussolini enquanto
chefe carismático, e muito menos com o seu partido.

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O Estado Novo português e a vaga autoritária dos anos 1930 do século XX

Como outros regimes, o salazarismo enviou missões de estudo a Itália


e adquiriu modelos, que alterou e adaptou. Os estatutos do corporativismo,
a propaganda, a organização oficial de juventude e de mulheres, são exem-
plos de instituições criadas com base no modelo fascista, e significaram a
adopção de certos requisitos da política de massas, por parte de regimes
essencialmente reaccionários. Mas essas instituições mantêm-se, por um
lado, limitadas e em coexistência com outras, não visando a um domínio
exclusivo e, por outro lado, desconhecem o controle do partido fascista.
Não é por isso de estranhar que o exemplo do salazarismo fosse o “passe-
partout” das afinidades quer de ditadores, quer de movimentos de direita
radical do período, muitas vezes sinceramente, outras vezes desejosos de
evitar a identificação com o fascismo.

Notas

1. Ver António Costa Pinto, The Radical Right and the Military Dictatorship in Portugal:
the 28 May League (1928-33). Luso-Brazilian Review, Madison, University of
Wisconsin Press, vol. 23, Summer 1986, p. 1-15.
2. António Costa Pinto, Os Camisas Azuis. Ideologias, elites e movimentos fascistas em
Portugal, 1914-1945, Lisboa, Editorial Estampa, 1994.
3. Ver Juan Linz e Alfred Stepan (eds.). The Breakdown of Democratic Regimes,
Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1978, p. 82; Marco Tarchi, The Role of
fascist movements, in Dirk Berg-Schlosser e Mitch Jeremy Ell (eds.), Authoritarianism
and Democracy in Europe, 1919-1939: comparative analyses, Londres, Macmillan,
2002, p. 101-129.
4. Stanley Payne, Fascism in Spain, Madison, The University of Wisconsin Press, 1999.
5. Juan Linz e Alfred Stepan (eds.), The Breakdown of…, op. cit., p. 82.
6. António Costa Pinto e Maria Inácia Rezola (coord.), Os Presidentes da República
Portuguesa, Lisboa, Temas e Debates, 2002.
7. Anne Cova e António Costa Pinto, “O Salazarismo e as mulheres: uma abordagem
comparativa”, Penélope, nº 17, 1997, p. 71-94.
8. Telmo Faria, Debaixo de fogo: Salazar e as Forças Armadas, 1935-1941, Lisboa,
Cosmos, 2002.
9. Para os anos 1930, ver António Oliveira Salazar, Discursos e notas políticas, vol. 1,
Coimbra, Coimbra Editora, 1935.

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O Corporativismo em Português

10. Manuel Braga da Cruz, O partido e o Estado no salazarismo, Lisboa, Presença,


1988, p. 176.
11. Ver Pedro Tavares de Almeida e António Costa Pinto, “Os ministros portugueses,
1851-1999: origem social e recrutamento”, in Pedro Tavares Almeida , António
Costa Pinto e Nancy Bermeo (coord.), Quem governa a Europa do sul? Lisboa,
Imprensa de Ciências Sociais, 2003, p. 5-40.
12. Ricardo Chueca, El Fascismo em los comienzos del régimen de Franco: un estudio
sobre la FET-JONS (Madrid, CIS, 1983), p. 166; Stanley G. Payne, Fascism in Spain,
1923-1977, Madison, University of Winsconsin Press, 1999.
13. Cf. António Costa Pinto, O império do professor: Salazar e a elite ministerial do
Estado Novo numa perspectiva comparada (1933-1945), Análise Social nº 157, 2001,
p.1055-1076.
14. Cf. Artur Portela, Salazarismo e Artes Plásticas, Lisboa, Instituto de Cultura e Lín-
gua Portuguesa, 1982; Jorge Ramos do Ó, “Salazarismo e Cultura”, in Fernando
Rosas (coord.), Portugal e o Estado Novo, (12º volume de Nova história de Portu-
gal, de Joel Serrão e A. M. de Oliveira Marques — eds.), Lisboa, Presença, 1992, p.
381-454; Jorge Ramos do Ó, Os anos de Ferro: o dispositivo cultural durante a
‘Política do Espírito’, Lisboa, Estampa, 1999.
15. António Oliveira Salazar, Discursos…, op. cit., p. 259.
16. António Costa Pinto e Nuno Afonso Ribeiro, A Acção Escolar Vanguarda (1933-
1936), Lisboa, História Crítica, 1980.
17. Simon Kuin, “Mocidade Portuguesa nos Anos Trinta: anteprojectos e instauração
de uma organização paramilitar de juventude”, in Análise Social, 122, 1993, p.
155-88.
18. Luís Nuno Rodrigues, A Legião Portuguesa. A milícia do Estado Novo (1936-44),
Lisboa, Estampa, 1996.
19. Cf. João Medina, Salazar em França, Lisboa, Bertrand, 1977, p. 50.
20. Manuel Braga da Cruz, “Relações entre o estado e a igreja”, in Joel Serrão e A. H.
de Oliveira Marques, Nova História…, op. cit., p. 211.
21. Franco Nogueira, Salazar, vol. II, p. 9-11.
22. Maria Inácia Rezola, “Breve panorama da situação da Igreja e da religião católica
em Portugal (1930-1960), in Joel Serrão e A. H. Oliveira Marques, Nova Histó-
ria…, p. 222-255.
23. Ibidem.
24. Idem, p. 238.
25. Fernando Rosas, Portugal entre a paz e a guerra. Estudo do impacto, da II Guerra
Mundial na economia e na sociedade portuguesa (1939-1945), Lisboa, Estampa,
1990; António José Telo, A neutralidade portuguesa e o ouro nazi, Lisboa, Quetzal,
2000.

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O Estado Novo português e a vaga autoritária dos anos 1930 do século XX

26. António Costa Pinto, Salazar’s Dictatorship and European Fascism. Problems of
interpretation, New York, SSM-Columbia University Press, 1995; António Costa
Pinto, Elites, partido único e decisão política nas ditaduras da época do fascismo,
Penélope, n.º 26, 2002, p. 186.
27. Cf. Stanley G. Payne, A History of Fascism, Madison, The University of Wisconsin
Press, 1996.

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