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RECONHECllvIENTO E SOCIALIZAÇÃO:
MEAD E A TRANSFORMAÇÃO
NATURALISTA DA IDEIA HEGEUANA
- ! I
I

-Em nenhuma outra teoria, a ideia de que os sujeitos humanos


.:», dev~in sua ide~tid~de à experiência de um reconhecimento inter-
subjetivo foi desenv~lvida de-maneira tão consequente sob os pres-
\ -: .

supostos conceituais
, .' naturalistas
-
como na psicologia social
.
de Geor-
ge Her~ert Mead;4 seus escritos contêm até hoje os meios mais apro-
priados para reconstruir as intuições da ~tTh.~~tflrs\lbjetividâ8é
do jovem Hegel num quadro teórico pós-metafísico. No entanto,
Mead partilha com o Hegel do período de Jena mais do que sim-
plesmente a ideia de uma gênese social da identidade do Eu; e, em .-
,
suas abordagens filosófico- olíticas, ambos os pensadores estão de
acordo não só n J~.rí1iéà·-á6'~toinismo ;-da :tradi ão contratiIalista..
A indeslindável psicologia social de Me~d, n~ maior parte transmi-
tida somente na forma de transm.~ões de lições, demonstra coinci-
dências com a obra de juventude de Rege! até mesmo na parte es-
sencial que nos interessa: ela também procura fazer da luta por re-
conhecimento o ponto referencialde uma construção teórica que \
I

deve explicar a evolução moral da sociedade.ê t


",.:t E=-

4 Para a questão ~ seu todo, cf, H. Joas, Praktiscbe Intersubjektiuitãt.


Die Entwicklung des Werkes von G. H. Mead, Frankfurt, 1980; além disso, Ha-
bermas, "Individuienmgdurch Vetgesellschaftung. Zu G. H. Meads Theorie
der SubjekÍivitãt" ,Íll:~acbmetaphysisches Denken, Frankfurt, 1988, p. 187 5S.
5 Eu me apoiá ~~si~·b.pítulo sobretudo em George Herbert Mead, Geist,
Identitãt u1Jd _Gj::s~llsêhafi~ciFrankfurt,1973; na reconstrução da constituição
da conc~pcçã6:d~ci~~;giili~cifu~ntode Mead, valho-me principalmente do volu-
-... .~_- ~~,;"i"i.:.~~:,'~:~~~~,,;<::::
<:';:~'..~~.'::~',.::.; -. .
, me I dos-enSaios<-:iéilliiêl~~Geórge Herbert Mead, Gesammelte Aufsãtze Cedo
por H~l?~S~~\~~;~~~
1980.
" .'::' "-.,:;"~: ;::i<,~'_~~
,::J,: '.
::.-- ..::";. ;
," :"-'.

Reconhecimento e socialização . 125


Mead chega às premissas de sua teoria da intersubjetividade
tomando o atalho deum exame epistemolôgico do do~~' ~bj;~
da psicologia. Seu interesse pela pesquisa psicológica é desde o início
determinado pela necessidade de clarificar os problemas filosóficos
do idealismo alemão de modo não especulativo; Mead partilha com
muitos filósofos de sua época a esperança de que uma psicologia
que proceda empiricamente p~ssa contribuir a elevar nosso saber
sobre as ~perações cognitivas particulares do ser humano.f No cen-
tro de sU;à '~~ê~ç~ó;c@õci:'se rapidamente um problema teórico de
__
fundamentação. comoa pesqiiis~--psíCológica-pode(ibtei- um aces-
v: so a seu objeto específico, ao psíquico? Da resposta a essa questão ~.

~~ ele espera uma contribuição para uma explicação não redutora da


:', subjetividade humana, recuperando- as intuições do idealismo ale-
I..
.,(; mão. Na tentativa de encontrá-Ia, Mead retoma primeiramente a
~ ideia fimdamental pragmatista, her dda a de Peirce por intermédio
.c;
.......•...... ... ~----
de
Cl:----,
Dewey, segundo a qual são
.•.
justamente
__
as situações
~
de proble-
._.• _

~atizé!Ç[9_~~'>.~ções ...9..l!e
se .~o~~~ ·ha~i~que oser humano
.-, aproveita-em suas oper~çõ~ '~ogiirtiVãs:para ;; sujêit~ individUal,
- ~•._._ •. -_.... .-r;::- -_"::•.- .. . • .-----. -'-- _ •._- • -

~. só surge ll!!':.mundo de vivências psíquicas no momento em que,


.J GPlicit~do ~ problç!na prãtic-ê?}re~~~ .~~tal
modo em dificuldades que s~s in~rpretações da situa~ão, até en-
tãoobjetivamente córriprovàdasçacabam sendo privadas de sua
validade e separadas da realid.ade restante a títulode . m~' repre-
sentações ~!!p@vas: o"«psíquico" é de certo !:A04«? a ~?EPeri~D:ç@_ que
•.
. -_ ,

um. sujeito faz consigo proprioqui'ndo umipro..b~a/~~_ ~e ap~


.., "- _. _ --' jp:: -. .":j '.""-'.;.

ss;nta praticamenteq
..
impede
. --..,.,..---..
de
. _.
um.~.EL.11!len!o
..
~pitu~..desua.......'
atividadg;Por conseguinte, a psicologia obtém um acesso ao seudo- ..(. . "-'
'_'4
~o objetual desde a perspectiva de um ator que se conscientiza .J •.

de sua subjetividade porque ele, sob a pressão de um problema prá-


. rico a ser s~lucionado, é forçado a reelaborarlcrI~ti~~~t«i)mas
.
"

..:f\~reta!~=:_~a~ituaçã;'""O domínio objetual da-psic~logia fun-


.! ':. . ..

.. ~
.i
Acerca da história das ideias que constitui o pano de fundo da teoria
•.. 6

de Mead, cf, Joas, Praktische Intersubjektiuitãi, ed. cit., caps. n e fi.

!I
126 Atualização sistemática
.,.
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f" ....:;; J _0'"_ •. ~L"
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~ " --' \"'t-'\.. :
. -- . -1.1
r-.. .; z.:»; ~-' ~ ~1
"'--- ,]i I:
I.

cionalista é aquele estágio da experiência no interior do qual nós 1


!
temos uma consciência imediata dos impulsos conflitantes da ação,
os quais tiram do objeto seu caráter de objeto e, nessa medida, nos
deixa numa atitude de subjetividade, durante a qual, porém, surge
uni novo ?bjeto-estím.JJ!o em razão de nossa atividad~eêóris~ti~a~)
que pertence ao conceito do sujeito Eu"? ~''- '---_/- '.
Logo em seguida, Mead levanta contra si mesmo a objeção de
que
,. uma,.
tal "definição
."
do psíquico" não é suficiente para a demons-
tração exigida
.
da acessibilidade . ao mundo subjetivo. Certamente'
~"'.'·um ator, no momento do distúrbio de uma execução instrumental
da ação, obtém de fato uma consciência do caráter subjetivo de suas
interpretações da situação atual; sua atenção, porém, não é dirigida
primariamente à atividade do próprio Eu na solução dos problemas,
mas "à determinação mais precisa dos objetos que constituem o
esúmuio" .8 Uma vez que requerem do sujeito, no caso de um dis-
túrbio, somente a adaptação criativa à realidade mal-avaliada, as
ações instrumentais não são o modelo apropriado para a explica-
ção buscada do psíquico; para poder colocar a psicologia na mes-
·ma perspectiva em que o ator chega à consciência de sua subjetivi-
dade, seria necessária, pelo contrário, a orientação por um tipo de
.ação na ual é funcional ara os agentes, no momento do distúr~
io, I'efletir sobre a :e!ópria atitude subjetiva. Mead consegue c e-
gar a esse outro tipo de ação, mais apropriado para o propósito de
·:sua explicação, no momento em que ele começa a ampliar o mede-r Cl)
.10 darwinista da relação de si mesmo com o ambiente, abarcando ~4'
-uma dimensão social: assim que imaginamos uma interaçâo entre .~ .
.vários organismos, temos ante os olhos o caso de um processo de • J;
ação qu fno momento de cri~e,-~;ag~"funcio~~~nte de't~dos os
. !.implicados uma reconsideraçãc{sõbie sua própria atitude reativa ...

George Herbert Mead, "Die Defínirion des Psychischen", in: Gesam-


7

· melte Aufsãtze, vol. I, ed. cit., p. 143.

8 George Herbert Mead, "Soziales Bewuístsein und das BewuEtsein von


St.Becieultwlg", in: Gesammelte Aufsãtze, vol. I, ed, cit, p. 218.

i. e,' '..,i: , (·-(0.·


:-.,
VI .. (

Reconhecimento e socialização 127


Para os fins da psicologia, o comportamento humano de interação
representa até mesmo um ponto de apoio particularmente apropria-
do, visto que força
- .•
'Qs sujeitos a . se_.... conscientizarem
•.... .' .-_0' •
de. .•.....
sua própria
- - ."-

.-"""
:,g--z-,~~~Jj~~~
no caso do surgimento de problemas: "Se alguém
reage àS"condíções climáticas, isso não tem nenhuma influência sobre
o próprio clima. Para o sucesso de seu comportamento, não é im-
portante que se tome consciente" de suas próprias atitudes ede seus
•• ~bitos de r~s~?sta, mas o in~cLQ de chuva ou d~ ~~~_t~~p~!U··· ".~
comportam~n~o social bem-sucedido, ao contrário, "leva a uin do- ., .~~
~o em.qtieta cOnSdência<'ae"su~s próprias atifiid~s·aIDciJi~no }.
;7 . c~ntr()le "dóiÓmportamento
) "".. . '.~-
outros".9
... .
d~
""" "..; ""',
.""-:•.•.
_:._J~..: •••.••.•.
.:-~. "_•..•.••
_ ... _ .

) "" Esse princípiofuncionalista serve aMead para esboçar o qua-


) dro metodológico dentro do qual" ele procura doravante perseguir
~ seus verdadeiros interesses de pesquisa: se a psicologia se coloca na
perspectiva que um ator adota no relacionamento sempre ameaça-
~
-e. do com seu parceiro de interação, então ela pode obter uma visão
(J- interna dos mecanismos através dosquais surge uma consciência da
~ própria subjetividade. Todavia, é preciso pri~~~i;ieiité:- p~a" â só-·..
,.V 'l~ção .da tarefa -colocada dessa maneira, uma resposta questão " à

~ muito mais fund t Ide como um suOeito ode e odo eral.


~ alcançar uma <;2.~ª~~9~~o "~i~!~~~?"soc~~~~~s. }E:~~12tf~s!~-.
4 çõés práticas; pois, para estarem condições de um "controle do "
.éoiíip'õrt;~ent:o de outros" ,~a~or precisa possuir desde já conhe-
cim.ento~ acerca do sentido que cabe a seu próprio comportamento "
~ na situação comum da ação para o respectivo" arceiro de interação.
Y", :I,Il.r~~~g~,~~ns~~ção ~~ut~c~DSciênc~, o sur~e?:to e~" .""
" "saber sobre o significado das propnas reaçoes comportamentais e .
"o fenÔmeno mais originário; portanto a psicologia so ". e
.esclarecer ántes o mecanismo através qual pôde desenvolver-se do
IlaIri.t~r~~ãphllmana uma consciência do significa~o da~Q..e.§ so-
~:.~~;lj~~ção de Me;d toma seu ponto de pa:cida n;~b~
'1lm sujeito somente dispõe de um saber sobre o signi-
:vâção"d~ '''~ii~
~ .

511~E~.:!)Il •. ini'~f5,J,ft;v',,~AJ~ .~.

, :, •.. _;, ~ f. IJ .
~ --rjea:r~:~J~l ~
-1
128
~
~ Y t:- (J Atualização sistemática
_~ _ _.., .••f\tV).~-1 -1'"
~l
I
~
.~ ficado intersubjeti~o ~e s~as ações quand~ ele está em condições de
desencadear ~m SI proP!l(~ a mesma reaçao que sua manifestação
\.J .~
'l) ~
~

comportamental causou, como estímulo, no seu defrontante: ~o g~e .,~" ~


.!ll~~esto si.?~~~~ par~~tr~~, eu posso me conscientizar ao pro- ~ ~
duzir -em'
mim mesmo, simultaneamente, seu comportamento de -.l'Í ~ ,
resposta. Essa capacidade de desencadear em si mesmo o compor- '\
tamento reativo causado no outro está ligada para Mead, ;eorém, ~"'- ..
ao pressuposto evolucionári~ do sur· ento de um n~va fC!rm~ ~
comportamento hum~o; OlS, como Herder ja a Visto; e mais ~
tarde Gehlen, só ao "gesto vocal", diferentemente de todos os meios \'t
não vocais de entendimento, cabe a propriedade especial de influir
sobre o agente no mesmo momento e da mesma maneira que no seu
defrontante: "Enquanto se sente apenas imperfeitamente o valor da .
própria expressão facial ou do da própria postura corporal para c0ll!.
os outros, escuta-se com os próprios ouvidos o gesto vocal, na mes-
ma form~ clue ele p~sui para um pró~~:rõ~ S~~~-;~leito influi
sobre seu parceiro de interação por meio de seu gesto vocal, -
~
capaz ao mesmo tem o de desencadear em si mesmo a reaçao de~e,
ele é ....•..••.

vísto que sua ró .a e r~ssão é erce ró rio como um


estímulo vindo de fora; mas por isso seu gesto vocal, a que ele pode
reagir da mesma maneira que qualquer outro ouvinte, contém para
ele o mesmo significado que possui para seu destinatário.
Mead, que tem em vista tanto processos ontogenéticos como
processos da história da espécie, tira então desse discernimento,
próprio da teoria da comunicação, inferências acerca da questão
sobre as condições de surgimento da autoconsciência humana. À
constituição de uma 'f:;onsdência dê si mesmo está ligado o esen:'
lvolvimento da conSciência de significados! e sorte que e eltí:é-pr~
r ~ara ~.certo modo o caminho"n;- p'--
sso da experiência indivi-
dual: através da capacidade de suscitar em si o significado que a
própria ação tem para o outro, abre-se para o sujeito, ao mesmo

-9 ..

_~t--
. ,

10 Mead, "Der Mechanismus des Sozialen Bewulstseins" , in: Gesammelte


e\ Aufsãtze, vol. I, ed. cito, p. 235.
~J ~.~
I
[ Reconhecimento e socialização 129
i
I

_I ••. I
tempo, a possibilidade de considerar-se a si mesmo como um. objeto
social das ações de seu parceiro de interação. Reagindo a mim mes-
mo, na percepção de meu próprio gesto vocal, da mesma maneira
como meu defrontante o faz, eu me coloco n~a perspectiv~ t:Jf~ê~-
trica, a partir da qual posso obter uma imagem de mim mesmo e,
I
;
I
I

'd~ modo, chegar a uma consciência de minha identidade: "O fato


----.--~
I
I

-- - ..
de que o animal humano poCIeeS6rnUfai-a si mesmo da mesma ma-
i
i
I

neira que os outros e reagir aos seus estímulos da mesma maneira !

que aos estímulos dos outros insere em seu compo~'ri,ento a for-


ma de um objeto socialdaqual pode súrgit~~nn]'~:~M~~o~-a que po:~-,~ ,;-L
dem";:a:::sd: "~~~:::=
=::il~L~;:::~ri-
zar o resultado dessa autorrelação originária, devrrófhar te~o-
Iy ,
10 '~t~aro qu <o indivíduo só pÓJ,,'sê C();;;;~tiz:~
si (
mesmo na posição do objeto; pois o Self que entra em seu campo
de visão quando de reage a si mesmo é sempre o parceiro da in- 1
· teração, percebido d~.persp~~,:~ .~e.s~~ det:r0!?5~~r;(m~s.;roca ~
Lrujelto atüãhnente atrvo das propnas manifestaçoes prancas. Por
l~
is"S'c),
M~ad distingue do "Me", que conserva rninbà atividade mo~ !~
1--
menclnea tão somente como algo já passado, uma vez que ele re- I
_presenta a imagem g~e o outro teID"d~'mim, o "E~-": que é fonte a
.i{ã~-~gúI~~~~da dê todà~ ~; ~iDJias' ações atuais, O conceito de _.
,"Eu" deve ser referido à insclnci~ na personalidadehumana respon-
,
.,
sável pela respostalcriatívã}ao~ problem~spráti~~s,--senl'poder ja-
·mais entr~omo t~.r;·porê~ no campo de-
-risã~; no 'entanto, em
· sua atividade espontânea, esse "Eu" nãosó.pr~cede a consciência
que o sujeito possui de~i mes~()'do ârlgrdride~~~~6"~~:seu parcei-
ro de interação, como também se referesenipre4~'n~vo às mani- ~
festações práticas mantidas consdentemeJitC!~n();,6:Me",comentan-
do-as. Portanto, entre oCCEu"e o "Me";:~~~!~2.'~;,·p~rsonalidade
do indivíduo, uma relação comparável aoieí~~lqh:'m~~~~ entre par-
ceiros de um diálogo. "O "Eu não pode·[.~~]IJ.~E~jêª$tir como um
---',>.\:j';'.>"- -."'-

.., .
. . '

n Ibid., p. 238.

. 130 Atualização sistemática


objeto na consciência. Mas ele é justamente o caráter dialógico de
nossa experiência interna, precisamente o processo em cujo curso
respondemos à nossa própria fala e que implica um "Eu" que res-
ponde, atrás do palco, aos gestos e símbolos que aparecem em nos-
sa consciência. [...] A identidade consciente de si mesma, de fato
operante no relacionamento social, é um "Me" objetivo, ou são
vários "Mes", num processo de reação contínuo, Eles implicam um
,
.j
!
"Eu" fictício, que nunca entra no próprio campo de visão" .12
Com a referência aos "vários Mes" , que se formam no "pro-
cesso "de reaçãocontínuo", Mead já dá a conhecer a direção que __~_
-devem tomar na sequência suas investigações acerca do desenvól-....g ~
vimento da identidade humana. Até aqui seus estudos, em grande
arte ligados ainda às questões de fundamentação da psicologia, _':! J
---.-t--;.'\- fizeram-no c egar a uma coIlt? intersub"etivista a autoco~.: ~ -v :0
~ià humana: um sujeito ~Óp~de ~dquirir uma ~!J..;~~~~ê~~~<!~~L ~ (~
~esmo na medida em que ele aprende a perceber sua própria, ação ~~
~~ P~!sp'~~ya, SiII~J~oAc~en~ rt::P!es,e~tada, de uma segunda pes-, ~ ~
~: so" sa ese representa o primeiro passo para uma fui} amenta- ~ \:
\:.=~ça70naturalista da teoria do reconhecimento de Hegel, no sentido.}::: ~
de que pode indicar o mecanismo psíquico que toma o desenvolvi- ~ ~
mento da autoc()nsciênci~ dependen,te da e~tência. de. ~ segun~ ~
....
do sujeito: sem a experiência de um parceiro de interação que ~~ ~, ~
reagisse, um indivíduo não .estaria em condições de influir sobre si ~
mesmo com'base em manifestações .autoperceptíveis, de modo que '\,
aprendesse a e~tender aí suas reações como produções da própria ~
pessoa. Como o jovem Hegel, mas com os meios das ciências em-~
píricas Mead inverte a re ação de Eu e mundo socia e afirma uma
,'preced~nci~
I " .' --
o. .0 _
da p.~JE~e'pão ...4o outro sobre o de8envolYim to da
o • '. __ ._.. ._ • _ ., _ ' __

. autoconsciência: m tal 'Me' não é, portanto, uma formação pri-


meira que depois fosse projetada e ejetada nos corpos de outros seres
humanos paralli~~<:ohferir a plenitude da vida humana. É antes uma
importação4~ça@P?c10s objetos sociais para o campo amorfo, de-
.- ';"t-·~:-~~:~:~~:·::~>.:~..-.
. :' :-.-_>::.,:~~'~~. .' -

Reconhecimento e socialização 131


sorganizado, do que nós designamos experiência interna. Através
da organização desse objeto, da identidade do Eu, esse material é
por' sua vez organizado e colocado na forma da assim chamada ;

autoconsciência, sob o controle de um indivíduo".13 Contudo, o ·i


!

.e
Hegel do período de Jena perseguiu, com sua teoria' do reconheci-
mento, um objetivo mais abrangente do que está inscrito na expli-
cação da P()s~!~ili.dadeda autoconsciência; com efeito, o conceito
de "reconhedm~Ílto" já assinala com toda evidência que lhe inte-
ressayakç!!i~:~~~o{á relação cognitiva de interação, por meio da
qual um~l1J~i!%7~~g~--~-~~ cons~iênCia desi mesmo, dá que as
-,formas d~~6iifi~':ili~Çãoprática mediante as quais el adquire up:1a
.------~-
compreensão normativa
~'".~.~....
ro de pessoa.
... ~.-...~,~.., .
o,
. -- ~

quadro
de
.
si..•...
dos
mesmo
escritos em
__""':_~:__=-;-:-----.r----=:...-_,,_.-1----
_--_ como um
que e a
et~1'!!!i.n~49.g?~J~~
._--.~..
orou seu mo
.•..•..

e
..
o
__ .' -, .. -
.

e "luta porieconhecimento" , Hegel está interessado sobretudo nas


condições intersubjetivas da autorrelação prática do homem; por
sua vez, ? desenvolvimento da autorrelação epistêmica representa
aí somente um pressuposto - necessário, é verdade, mas insuficien-
te -, em cuja base a identidade do Eu prático pode se constituir .14
, Para esse cerne da doutrina do reconhecimento de Hegel, a teoria
de Mead tem tam.bém à disposição 'OS meios de uma tradução na-
turalista;' pois, depois que ele avançou até a um conceito intersub-
JettViStade-a~toconsCiêriciã~setiSescritos se-movem-igualmente'na
direção deumainvestigação da autorrelação prática doser huma-
no. A formação da identidade prático-moral do sujeito é o tema ao .
,qual Meadsededica logo depois de ter concluído seus primeiros
artigos, v~~~dos pira ~
problemática da autoconsciência; ele se ori- .
:··;:i<~;·;"'~·::·':·'-':·"~::-;:":··:"·.M"::'·::'·· :. '. .. ~ . . ...•...• - . .
I

...1J~i~J~~~;i;i(· .
A Í>iõpÓ~itô,de~~~distinção) cf, Habermas, "Individuierung durch
,.14
.
Vergesel1séhafuing::?:~~oIge Herbert Meads Theorie der Subjektivitãt" ~'m':
Nachmii~ph;;iich;~~~T/gzken,
. .
ed. cir., particularmente p. 217 ss. Habermas
.,'... <::::i·:~~~~:.;..1f;:'~i,<;.'\::;"~5t~~,~~·~%·~~~g;I~~'(~"~':
',- .
reporta~~#.â.qi#~'iífflª,iri!~ij)retação de Ernst Tugendhat: Selbstbewuf5tsein und
. ~~,;;r:;_:';..'<.~
. .: .v- :_: ~i,':~-:?<.i?~"i(":,I:~~_~:;;.;,r;'!
.• r--;.~:\;~"~<:'~"":':
'.,';.... .

Selb~~k~si!iiiif!J:ffg;f~~, 1979_ Os capítulos 11 e 12 têm em vista Mead


[p, 245 ~;rp~~2€1<~~10%n~ti,\T ;'0 .' . ."
132 Atualização sistemática

---------
gina da tentativa de transferir a distinção conceitual de "Eu" e "Me"
para a dimensão normativa do desenvolvimento individual.
Com ~ categoria "Me", Mead designou até aqui a imagem
cognitiva que o sujeito E~ebe de si mesmo, tão logo aprenda a per-
ceber-se da perspectiva de uma segunda pessoa ..Ele chega a uma
nova etapa na preparação de sua psicologia social, tão logo inclua.
na consideração da relação interativa o aspecto das normas mo-
rais; pois, desse modo, impõe-se-lhe a questão de como aquela au-
toimagem firmada no "Me" deve estar constituída, quando se tra-
ta, ,:q.asreações do parceiro de interação, não mais sinJ.pl~sDle#têdas
exigências cognitivas do comportamento, e sim de exPectati~~s nor-
mativas~'A primeira referência ao modo mais amplode~Óí()~ar o
problema já se encontra no ensaio com, que Mead concluiu a série
de sel:ls artigos dedicados à explicação da autoconsciência; numa
passagem, ali ele traça brevemente o mecanismo por meio do qual
uma criança aprende as formas elementares do juízo moral: "Uma
:C -.,

criança só pode julgar seu comportamento como bom ou mau quan-


do ela reage a suas próprias ações lembrando as palavras de seus
pais" .15 Nesse caso, as reações comportamentais com que um su-
jeito tenta influir sobre si mesmo, no papel de seu parceiro de inte-
ração, contêm as expectativas normativas de seu ambiente pessoal;
mas; de acordo com isso, também o "Me", ao qual ele se volta aqui
desde a perspectiva da segunda pessoa, não pode m~s ser a instân-
cia neutra da resolução cognitiva de problemas, senão que deve
incorporar a instância moral da solução intersubjetiva de conflitos.
Com a ampliação do comportamento reativo social até os nexos
normativos da ação, o "Me" se transforma de uma autoimagem
cognitiva numa autoimagem prática: ao se colocar na perspectiva
normativa de seu parceiro de interação, o outro sujeito assUIILesuas
referências axiológicas morais, aplicando-as na relação práª~a con-
SIgO mesmo.

15 Mead, "Die soziale Identitãt", in: Gesammelte Aufsiil~ie;;vôJ


p.246.

Reconhecimento e socialização
Em seus trabalhos posteriores, Mead faz rapidamente dessa
ideia fundamenta,l, o ponto de apoio para uma explicação da for-
mação da identidade humana. A ideia pela qual ele se deixa guiar
aí é a de uma generalização gradual do "Me" no curso do desen-
volvimento social da criança: se o mecanismo de desenvolvimento
da personalidade consiste em que o sujeito aprende a conceber-se a
. mesmo desde a perspectiva normativa de seu defrontante, então,
.sí ,

com o círculo de parceiros de ação, o quadro de referência de sua


autoimagem práticadeve também se ampliar gradativamente. Em.
seu curso sobre psicologí~-~ocicd,-q~~~os'foi transmitido na forma
de uma transcrição intitulada Mind~ Selt and SOciety,16 Mead ilustra ,
essa direção evolutiva geral, como se sabe, recorrendo primeiramente
a duas fases da atividade lúdica infantil: na etapa do play, do jogo
dos papéis, a criança se comunica consigo mesma imitando o com-
portamento de um parceiro concreto da interação, para depois rea-
gir a isso complementariamente na própria ação; por sua vez, a se-
gundaetapa, a do jogo de competição ou do game, requer da crianÇ<!
e~envolvimento que ela represente em si mesma, simüItanea'?'
.•.
mente, as expectativas de comportamento de todos os seus compa':=-

-, nheiros de jogo para poder perceber o próprio papel no contextó


..
.

'da ação funcionalmente organizado. A diferença entre as duas eta-


. ... ~ - -
,;
pas do jogo mede-se pela diferença no grau de universalidade das ::

expectativas normativas de comportamento que a criança tem de


antecipar respectivamente em si mesma: no primeiro caso, é o pa-
drão concreto de comportamento de ~a pessoa social que serve
-.:de referência, no segundo caso, ao contrário, são os padrões social-
mente generalizados de comportamento de todo um grupo que de-
vem ser incluídos na própria ação como expectativas normativas,
exercendo uma espécie de controle. Portanto, na passagem da pri-
meira à segunda etapa do jogo infantil, migram para dentro da au-
. toimagem prática da criança em desenvolvimento as normas sociais
de ação de um outro generalizado: "A diferença fundamental entre

- 1

. .".

16 Mead, Geist, Id~titãt u;d Gesellscbaft, ed. cito -,

!
:

134 Atualização sistemática


---
:7-; ~ .~?

.-.
---,
r- "-.
o jogo e competição reside em que no último a criança precisa ter ~ .
à

em si mes~a a atitude de todos os outros participantes. As atitud~s ~ ~


f dos companheiros que o participante assume organizam-se forman- t{ ~

\ do uma certa unidade, e é essa organização que controla a reação i:- Q)

) do indivíduo. Nós colocamos o exemplo do jogador de beisebol. ~ ~


"-Cãda uma de suas ações é determinada pel~ assunções das ações ~ \)
previsíveis dos próprios jogadores. Sua maneira de agir é controla- ~ t
da a partir do fato de que ele é simultaneamente todo outro mem- ( ~
bro do time, ao meno~ na medida em q-p,eessas atitudes influenciam fi
...•suas próprias atitudes ~pecíficas. Desse modo, deparamos um 'ou- ~~ '~
tro' que é uma organização das atitudes de todas aquelas pessoas ~ ~~
que estão inseridas no mesmo processo" .17 Do material ilustrativo -k ~•....
concreto fornecido pela mudança no comportamento lúdico infan- "l :
til, Mead extrai um mecanismo de desenvolvimento que deve estar
na base do processo de socialização do ser humano em seu todo. O
elo conceitual entre o campo mais estreito e o mais amplo a ser ex-
plicado é representado para ,Mead pela. categoria do "outro gene-
ralizado": assim como a criança, com a passagem parao game,
-
-adquire a capacidade de orientar seu ró rio comportamentüpõr
umcr:ri?)íue ela o teve da sintetização das perspectivas.de toàes-:
~s co~eiros o .rocesso de socializa ão em geral se efetua na
forma de uma interiorização de pofnlãs;de aç~o, proyenientes da
generalização das expectativas de Cõmp(;rtamentodetodos os mem- '"
-bros da sociedade. _Ao aprender a gener;Jjzar em
si me~mo as ex-"'-
pectativas normativas de um número cada vez maior de parceiros
de interação, a ponto de chegar à representação das normas sociais
de ação, o sujeito adquire acapacidade abstrata de poder partici-
. par nas interações normativamente reguladas de seu meio; poisaque-
Ias normas interiorizadas lhe dizem quais são as expectativas que
pode dirigir legitiJJJ~.tiJ~Ii~~
todos os outros, assim como quais são
as obrigações que ei~te~;.~~ cumprir justificadamente em relação
a eles. Em remissãoà q~~.!~~d.e como o "Me" se altera no processo
. :::..~.' . :":;::'~:<:';;~-:~.:~::'.'
.... " .

< •

Reconhecimento e socialização 135


de desenvolvimento social, isso significa que o indivíduo aprende a
se conceber, desde a perspectiva de um outro generalizado, como o
membro de um sociedade organizada pela divisão do trabalho: "Essa
inserção da extensa atividade do respectivo todo social ou da socie-
dade organizada no domínio de experiências de cada indivíduo en-
volvido ou incluído nesse todo é a base ou o pressuposto decisivo
.:para o desenvolvimento pleno identi e do indivídüo: só na me-
. a em q~e ele assume as atitudes do grupo social organizado ao
qual ele pertence C!J:D.}::~lª~oàs atividades sociais organizadas e ba-
seadas na cooperação com-q~~~s~ grupo ~~~cup~:~i~pod~ desen~ .'.-
:volver uma identidade com leta e ossuir a ue ele desenvolveu" .18
Se o sujeito, pelo fato de aprender a assumir as normas. sociais
de ação do "outro generalizado" , deve alcançar a identidade de Um
membro so.cialmente aceito de sua coletividade, então tem todo o
sentido empregar para essa relação intersubjetiva
.
o conceito de "re-
~
~nhecime~o": na medida em que a criança em desenvolvimento
reconhece seus parceiros de interação pela via da interiorização de
suas atitudes normativas, ela própria pode saber-se reconhecida
.-
<:omo um membro de seu contexto social de cooperação. A própria
proposta de Mead é falar aqui 'de uma relação de reconhecimento, .
tt..útuo: "É esta identidade que se pode manter na comunidade, que t:
t
na
i r~coDh~dd~ nanCom~]n1âad~ meâidaeni-qüeelã-reeôDhete "as-~~~-;:. .. ~
~ . ..

.•....

outras" .19 É claro que, nessecontexto, as explicaçõesde M~d se · F


:. ". • • • .;0.. ••
fi
;
.
aproximam bem mais do que foi visado
. . ~..:
.por Hegel do que.deixa -:. ".
i'

supor a mera coincidência no uso do termo "reconhecimento"; pois, .' :


.. :':,

'"não diferentemente de Hegel, ele também quer qúe·ê:I:~9inpreens~o.


que aquele que aprende a conceber-se'daperspeciivâ'do outrJ:~~~
neralizado tem de si mesmo seja entendida como -a compreensão de . .' ..

uma pessoa de direito. Com a adoção das normas sociais que regu-
Iam as relações de cooperação' da coletividade, o indivíduo em cres- .•
'. cimento não aprende só quais obrigações ele temd~cumprirem -..".; ,"-:> ..,:,:".;'..";:.,,',.,;;;,,,
..:;.,

18 Ibíd., p, 197.
19 Ibid., p. 240.

136 Atualização sistemática


t~
f~
r,
~:
!~ ~

~J~
li . ;>-

relação aos membros da sociedade; ele adquire, além disso, um sa-


}s 4.[') ber sobre os direitos que lhe pertenctii, d~do que ele pode con-,;.
â~ 0 51 ~ar le itiriJ.~ente com o respeito de algumas de suas exigências:
fr- -O ~ direitos são de ~erta maneira as retensões indiVl ualS as quais
l,...
t• .J
s,
-
\j)
E9ssQes~eguro. que o outro generalizadoo as as sari
~s ara. Nesse .sen-
~ ~ ~ tido, pela concessão social desses direitos, é possível ritedir se um
tV. ')~ sujeito pode conceber-se como membro completamente aceito de . S
t~
..
~
S. sua coletiv~~~~e~é por isso que lh~s c~be, :qo processo de "f<?~ª~ ~ ~
~.= .~) B
do ~ú prát!-:o, ~ pa~el parti~~arme~t~_si~ç.ante: "Ser~~é~~ ~
~~ .. ~ ...qu.~rmanter sua propriedade na co.•mumdade, e da maior importân- ~ ~
~. 6 .cÍa.._c.qu.
e eleseja ~ membro ~ess·acomunidade, uma vez que a ado- . ~ ~
~ ~ ção da atitude dos outros garante que os próprios direitos sejam '\) ~
t U reconhecidos. [...] Com isso recebe-s~ uma posição, consegue-se a - ~~
t ~.r.. di .dade de ser membro da comunidade" .20 ~ 'U
, / ~ t- . Não é por acaso que ea a a nessa passagem de "dignida- ~ \.
i~ j
'75 de", com a qual um sujeito se vê dotado no momento em qW;ere,
peta
concessão de direitos, é reconhecido como um membro da so-
}. '~
C- D
ciedade; pois com a expressão está imp li.citamente associada a afir- \'1
\) \~.
,-
. mação sistemática de que corresponde à experiência de reconheci- V j
~ ~I
ento um m do de autorrelação prática, o qual o indivíduo pode
estar seguro do valor soei e sua identidade. O conceito geral que
Mead escolhe para caracterizar uma tal consciência do próprio
valor é o de t)utorres~eitot; ele refer ~. .... ·de positiva ra
~onsigo mesm~ um indiví~~ ~ode adotar quando rec~
20
pelos membros de sua coletividade como um determinado gê- .

~-
nexo de pessoa. Por sua vez, o grau de autorrespeito depende da
.

medida em que são individualizadas as respectivas propriedades ou


capacidades para as quais o sujeito encontra confirmação por parte
de seus parceiros de interação; visto que "direitos" são algo por
meio do qual cada ser humano pode saber-se reconhecido em pro-

20Ibid., pp. 242-3; a respeito do conceito de direito de Mead, próprio


da teoria do reconhecimento, cf, também: George Herbert Mead, Movements
ofThought in the Nineteentb Century, Chicago, 1972, p. 21 SS.

.', "

Reconhecimento e socialização 137


priedades que todos os outros membros de sua coletividade parti-
lham necessariamente com ele, eles representam para Mead uma
base muito geral, embora sólida, para o autorrespeito: "E muito
interessante recorrer à própria consciência mais íntima e buscar
aquilo de que depende a preseryação_ de ~os~o autorrespeito. Na-
turalmente, há fundamentos ..profundos e sólidos. Manter a pala-
vra, ~p:rir as obr~gaçõ~~. Isso já dá uma base para o autorres- . .

peito. Mas trata-se aqui de propriedades que devem ser atribuídas


à maioria dos membros de nossa ~ôxrijj.r;jdade.'Todos nós falhamos
às vezes, IDa$ no geral respohd~~~~l>Ót~~~'~a- Pertence- palavra:' "

mos a um~ comunidade, e ~Ó'~~6~ri.toi~peito depende de que nós


nos vejamos como cidadãos egurÇ)s de s 21
té esse ponto, a reconstrüç- o e Mead da formação prática
da identidade pode ser entendida ainda como .!!:IDaversão dá 'teoria
do reconhecimento do jovem Hegel, precisada nos te9Jlos da, psi-
. cologia social. É verdade que falta eU!.Mind:J S~ltand Society qual- .
a
...-- - __ o '. • -

quer referência uniaetapa de reconhecimento recíproco comoa


que Hegel tentou caracterizar com seu conceito romântico de "amor";
, talvez seja essa a razão também deas explicações de Mead terem'
poupado a forma elementar de autorrespeíto dada: com a formação
.vde uma confiançaemocional nas próprias capacidades.22 Mas, com
à
vista relação de re~oxili.~~eD.t()· que Hegel introduziu em seu mo- ,
" delo. ~vo.lutivo como. ~a. segtmd~ etapa, s~b. .o 'c~nc_eito genérico, c".'···..
de "direito", a concepçao de "outro generalizado" nao representa 'fI/I"
"apenas uma complementa ão teórica~ mas tmnbém Ulll aprofun-, '
damen1:0 objeti . ~con:Peçer-s~,reciprQc~e.ntec o pessoa de
eiro Slgnmca que ambosos s~j~ittis ~duem em suaprópria ação,
com efeito de controle, a~ontad~c~ID.rUritária incorporada nas nor-
'" . • . :.;~.;,': Ó, Ô. , -' '.'. • ':. ',.:.' ,': .' ' , ' '

as jntersubjetivamenteiec:oriPec:i43:~d~
•• ' .,,' .", ':. '~"".', \" ;:.".:'C;'._' ';, -"
uma sociedade. Pois, com
J
,I
I

.. ê)Ibid., pp. s:.. ....


.I,
I,

i
Tugendhat tamh.~~~P?Il,,,,._l?~~~~lt;;,!lificit,
'. .22 se o entendo corretamente , <, L
f
r
, '.
'-' "";"":,:":~;::::,-"""'~"'~'~:.~'.'~-~?-"'~\f.~;;r."'"~'!!,,~,,,f~'_~,,,,,
-'''-- : '. ., '.
na passagem correspondeiit~:9:~:S.~~b,~~b~P#ein und Selbstbestimmung, ed.
cit., p. 275. ';/)/~'@t1!i~l~~)!~{!.~f~!~f~~]~'f .., . .' , ,

, .'~.' .
' -, ,. i
I
i

138 Atualização sistemática,


a adoção comum da perspectiva normativa do "outro generaliza-
do", os parceiros da interaçâo sabem reciprocamente quais obriga-
ções eles têm de observar em relação ao respectivo outro; por con-
seguinte, eles podem se conceber ambos, inversament~;como por-
tadores de pretensõ~s individuais, a cuja satisfação seu defrontante
sabe que está normativamente
- obrigado. A experiência
. ,- de ser reco-
.

nhecido pelos membros da coletividade como uma pessoa de direi-


to significa para o sujeito individual poder adotar em relação a si
mesmo uma atitude positiva; pois, inversamente, aqueles lhe con-
.,ferem, pelo fato de saberem-se obrigados a respeitar seus direitos,
I

.,as.propriedades de um ator moralmente imputável. Porém, uma vez


•••• ':'= ---.

, que o sujeito partilha necessariamente as capacidades vinculadas a


.isso com todos os seus concidadãos, ele não pode se referir positi-
.'y~ente ainda, como pessoa de direito, àquelas propriedades suas
em que ele se distingue justamente de seus parceiros de interação;
t para tanto 'se precisaria de uma forma de reconhecimento mútuo
~que propiciasse confirmação a cada um não apenas como membro
. de 'uma coletividade, mas também como sujeito .biograficamente ~
. ifidividuado. Mead coincide com Hegel também na constata ão de
"-----
g.ue a relação jurídica e reconheciment9 é ainda incompleta se não
. 'puder expressar positivamente as diferenças individuais entre os ci-
dadãos de uma coletividade.
, No entanto, Mead transgride esse. quadro referencial, ainda
partilhado com Hegel, no momento em que ele passa a incluir em' .
sua consideração da formação da identidade o potencial ~riativo do
."Eu"; éómp~ada ao' programa hégeliano, a ampliação temática que
ele efetua desse modo pode ser entendida no sentido de que é con- . I
..
,
ferida posteriormente ao movimento de reconhecimento a força
psíquica 'que toma explicável a sua dinâmica interna. Até o momen-
-====-------- .-
to, -Mead cóiisfderou o desenvolvimento da autorrelação prática
exclusivamente ao ponto de vista de quais alterações se realizam no
. . \ .

"Me" do sujeito individual quando ele entra ém contato, no pro-


cesso de desenvolvimento, com um círculo continuamente crescen-
te de parceiros de interação social; em contrapartida, o "Eu", isto
.E, a instância das formações reativas espontâneas, que como tal não

Reconhecimento e socialização 139


\~. ~
~ ~ ~
~. {'\ ~
u ,0 ~
f
deve ser apreendida em termos cognitivos, é provisoriamente excluí- _~. (
~ do por ele do quadro de sua análise. Porém, a par do aspecto ~ . t
t:-'controle normativo do comportamento, também faz parte da ex- ~ ~..
~ plicação integral do que sucede no processo de formação do su- ~ ~
~ jeito moral uma consideração das divergências criativas com que .~ .~ I

~ r:agimos habitualm~~t~ às obr~~ações s~ci~~ em n~sso agir coti- "\ ~~


~: diano: "9 ~Eu' contrapoe-se ao 'Me' ..O"mdiVIdno nao tem somen;:V 1__'
<, te direitos, mas também deveres; ele não é apenas um. cidadão, 1l1l! ~

!ft5 ::t:~:;:~:~:ez!:::::
~ "

~ i
~:JIleZ~e~::-
~
''l::.
i
a reação. do Íl1~~íd uo. ~Aati~de dã co~unidade, ~lcomo est~
transparece em suaexpenencia. Sua reaçao'a essa atItude orgam.- ~
$ ,,~ zadaa~tera, p<>-rsua esta" .espon vez,
mel a e prática que ~
~G
t
arca nosso agir no cou 'ano se atribui às operações de ~ "Eu"
que está contraposto ao "Me", como no caso da autorrelação cog-
nitiva, na qualidade de uma força inconsciente: enquanto este hos-.
l '
'\ ~

t:
..peda as normas sociais através das quais um sujeito controla seu .;
comportamento em conformidade com as expectativas sociais, aque-:) .!

le é o receptáculo de todos os impulsos internos que se expressam


nas reações involnntárias aos d.eSafios sociais. Porém., tanto quan- ~....
(~J... ft ~

~
to o C:'Eu"do autoconhecimento, o"Eu" da formação prática não- .O ~
é uma UiSiâ.itCiaque cc>riio'faI ~e possa penetrar-diretamente; pois, _.. ~ i
do que iíó~perturba ern manifestações práticas espontâneas, só po.- . '= ~ f"';'
,.

demos saber a parte que se dá aconhecer COmodesvio dos padrões ~~


r
de comportamento normativamente exigidos. Daí estar sempre ade- ".

1(:g~il::wttà:!::o~:a
.' . rido ~bç~n&it(): cÍé:Êu~queseenoontra em Mind~Selland Society :.

J::b:~::':: :~: ua f) \) ..

::t~b:~~;~t;';!7~::::
1>~·1t.:P~:~~~; ~ I í

1% ! '< ceito,~êàcl:~~êi~tÕ.fri~de ·dizreport~d~-se


Dlal: ~ ~Qi·'~g"{it'1#fu'reserva;ÓriOdeenergias
~ W'· 1ames cha-
psíquicas, que dota .~
,, .

., ',.:." '.

~ .Ó. ~ =.
,", .
'L> etst,7afJ.ii~/u'oo Gesellsd1aft, ed. cít., p, 240 ..
... .• ',;-'g:?~~'.::;";-'::.;'~:::
" <r >:-

, ,
140 Atualização sistemática -
..•..::-.: . -,
:.


todo sujeito de 1,1ID. grande número de possibilidades inesgotadas de
ic1tntik~e: "As possibilidades ~ nossa natureza, es"1tas energias a
q{;~-W®~.JaIP.ÇS gostava tanto de se referir, representam possi-
bilid;d~ de identidades ue residem além de noss~ própria apre-
sentação iuiediata. _ós~ão s3;bem9,ª-e4;~te_ COD?-? e as estão
-constituí as. Em certo sentido, são-os conteúdos mais fascinantes
\I
n
-I v
que temos --até onde podemos apreendê-los" .24
Mas, ;e esse potencial de .:eação criativ!:.?-,O"Eu ~ é concebi-
do comó contrapàrte psfquica do "Me", então salta à vista rapida-
memeque a mera interiorização da persp~~ya do "outro genera-
liza~" riãopode bastar na formação da i;J:6ntidade moral; pelo
contrário, o' sujeito sentirá em si, reiterad~~te, o afluxo de exi- ~ XIS;
gências in~ómp~tívei~alcomdas normas inltersubdietiv"ame d ~ ~do~ c:;ç.lrl~\i1) ':.
p e seu meIO SÓCl , e sorte que e e te.m e por em UVl a seu r--
rôprio "Me".
. s..Esse atrito interno _.entre "Eu" .e.."Me." TC4?resenta _
para Mead ..3S linhas gerais dcrcoriflito que deve-explicar o desenvol-
~ento moral tántõ dos índivíàuos corii"odas sociedades: o "Me:'
incorpora,$ em defesa da r~pectiva coletivida~ as no~s c~nve~
_cio~s que o sujeiro procura constantemente ampliar por si mes-
,. i ---- -
IDQ, a fim de poder conferir exp~são
~ ••• __ o
social à jrnpn1siyidacle ==-
e cria-
L~~~~~oQ..JJs!í:e~·~'~'tm'". Mead insere na' autorrelação prática um~
tensão entre a vontade global internalizada e as pretensões da in-
dividuação, a qual deve levar a um conflito moral entre o sujeito e
seu ambiente social; pois, para poderpôr em prática as exigências
que afluem do íntimo, é preciso em ~rincípio o assentimento de todos
,\
,.•. os membros da sociedade, visto que a vontade comum controla a
rópria ação até mesmo ~mo rro~ mteri;'rizadJ!.Jt' a existênCiaJ
do "Me" que força o sujeit~-a ~ngajai-~se,po kteresiede seu "~u",
por novas formas de reconhecimento S99~1._ r
---- -Mead elucida primeiramente a ~s~t:ty:'?4esses conflitos mo-
.
rais lançando mão de exemplos <J.rie-!)lf:~f;t~~a pretensões inter-
nas cuja satisfação pressuporia ~~;~;lji~~',~()s direitos indivi-
" .i.: ,~;'\',:f<~~Krf:;~';:~:-- ~:.

24 Ibid., p. 248.
o ' .. .-:'
Reconhecimento e socialização
I, 1\
P><J,?<:3 Nbí.e O ~c j';?Ol~
f" :.
_--_ ------ ..~~ i
.,.;;~i
• 'i I
~ fi;.

. \f
duais. A escolha desse ponto de partida se baseia em uma distin- ~'
ção implícita, .~~ qual não é m.teiran:l(~nteclaro à primeir~ vista se ~ ~
'S fi
I
~

~
deve distinguir as etapas ou as 'dimensões da formação da identi- t
\J ~
V dade um.a~das outras: !s exigências do "Eu" são distinguíveis de ~ ~ ;
j fora, p~l~ fato de poderem ,s~r classificadas, ~~ re~a~o à via de seu ~ ~ ~ j
m I
\~
~ ...
, cumprimento, ou no dOD1ID1o da autonomia individual ou no da
. auto,:ealização pessoal;~yoprimeir~ ~aso, ttata:,e ~ "Ii"':da~e . ~
':?
de leis"; no segundo caso~~o ntr~o, da "realiza~ao da l~entI- ~ (
1 I'II
~

'<, dade". No momento, a distmçao aSSImalcançada nao tem amda, \ tt


t como tal,' interesse, mas .some~t~·o fat~ d~ .~elucídação de M:ad t. ~
"\::- tomar seu ponto de partida daquela pmneira classe de pretensoes o \
~
.~
o do "Eu"; ou seja, ele tem em VISta.· . situações em.que um sujeito sent~ 'b~.~
b
'\ ~m si impulsos para agir, de cuja realização ele se vê impedido pe-
Ias normas rígidas de seu meio socia!: Mead enxerga então a es~e-
r I~ ~

~ ci6.cidade dos casos desse gênero no fato de fazerem o indivíduo V ! ~


~ concernido chegar a uma solução ativa de seu conflito moral so- ~ f'
. . i mente por meio de uma{!>peração especiãIde idealizaçã?] ele pre- 1(\ ~
. ~ cisa, se quiser realizar as exigências de seu "Eu", antecipar uma V v· ""
J ~ coletividade na qual lhe cabe uma gretensão à realiza~~o do dese- 1t
, _jo corresponden~. Essa pressão surge porque, dada a dúvida acerca ~ f?
~ das normas intersubjetivamente vigentes, perde-se também o par- ~ ~
o··· cerro do diálogo ilitemo,·peranteo qual osujeito podia. atéeiitão..~ E o

\)justificar sua ação; no lugar do "outro generalizado" da coletivi- { .,..... ~

S
. •
~ade existente entra, portanto, aquele de u.m.Yociedade futur~ ~a ~ .\J
I ~~.as pre~ensões ~dividuais e..ncontrã.r.,ã~p~êSúnn.~~~.~~te as~e~-
tunento Nesse sentido.Yfinal e pra1;lc~ e or Iiberda e e •..
If
as.ã~ j~ está ~gacbK!uposição contrãicitica)e um ;~~~~~cim~H;. . O I
I o

to ampli~do de direitot "A exigência é por liberdade de conven- ~ ~


ções, de leis. Naturalmente, ~a tal situação só é possível quando ~ ~
o-indivíduo se volta de-urna~ sociedade estreita e limitada para uma~ \T
ID3.1S a

elt
o

_ _.
ente mais abrangente no sentido lógico de que há nela
....- ......•. -- -",,_.- -- -
ue sao menos restrItos. .esviamo-nos e convençoes
I

fixas, que não têm mais sentido para uma sociedade onde os direi- ~ ij . i
i'"
o o ••

r
tos devem ser pub1i,~ameJJ.tereconhecidos, e apelamos para uma fi I

outra sob a assun-o d'" anizados ~


-~ ~rr/t-J~ /J:5 ~",..ry,~> VtJen"1~.
142 \ ~ação sistemática ~'
~r> I~f!" -se, ~ •...de.. t7~.&'"7"e; ~ZoJ~ ~-t;..(J
que reagem ao próprio ape - mesmo que ele deva estar dirigido
.... osterid " .25
Como diz Mead, o sujeito só está em condições de uma "au-
toafirmação", isto é, de uma defesa das pretensões de seu "Eu" em
face do meio social, quando se coloca na perspectiva de uma comu-
nidade .uridi aro liada, e não naquela a vonta e o existente;
o 'Me" ideal que a instItui desse modo em si mesmo concede-lhe
para além da ruptura moral com a coletividade, o reconhecimento
'"
- in~rsubjetivo, sem Q qUal(*~ não pode preservar a identidadepes-
-':;oaF Mas, visto que a imp1;llsividadedo "Eu" não pode ser aplacada,
junib com ela migra um.~l~:kento da idealizaç~o normativa para
toda a práxis social; os sujeitos não podem outra c~rsa senão se ...
assegurar reiterad;mente, na defesa de suas pretensões esponta-
neamente vivenciadas, do assentimento de uma coletividade contra-
-c . .j

-faticamente suposta, que lhes faculta, comparada à relação de reco-


nhecimento estabelecida, um maior número de direitos à liberdade.
Da imensidade dessas divergências morais, que constantemente reco- .
brem de certa maneira o processo de vida social com uma rede de
ideais normativos, resulta para Mead o movimento que constitui o
processo de ev~çiõ social: &&~ é a maneira pela qual a socieda-
de contmua a se des~volver, a saber: por uma influência recíproca,
&tÇ- . •

como a que se efetua ali onde uma pessoa pensa algo até o fim. Mu-
damos constantemente, em alguns aspectos, nosso sistema social, e
podemos fazê-lo com inteligência, porque podemos pensar" .26
Essa tese contém a chave teórica para um conceito de evolu-
"

ção social que propicia à ideia hegeliana de uma "luta por reconhe-
cimento", de modo surpreendente, uma base na psicologia social.
Mead estabelece um vínculo sistemático entre o afluxo ininterrupto
do "Eu" e o process?d~.vi4a social, adicionando o grande número
de divergências mor~~~~s9J?;l2:.Af! uma força histórica: em toda época
'.-:~'.:r; '".~~>7.<_:'i,..,:.:-:.",-
.~ histórica acumulam-se n()vaTrl.eÍlteantecipações de relações de re-
conhecimento ampliadas, formando um sistema de pretensões nor-
mativas cuja· sucessão força a evolução social em seu todo a uma
permanente adàptação ao processo de individuação progressiva.
Pois, uma vez que os sujeitos, mesmo após a efetuação. de reformas
sociais, só podem defender as exigências de seu "Eu" antecipando
uma coletividade que concede mais espaço de liberdade, origina -se
'uma cadeia histórica de ideais normativos que apontam. na direção
de um crescimento em autonomia pessoal. Sob a pressão desse pa-

1~ drão evolutivo, por assim dizer coletivamente antecipado, o processo


de civilização 'se~u, como diz Mead,' uma 'tendênCia à "liber~-
~ . da individualidade": "Uma das diferenças entre uma sociedade hu-
mana primitiva e uma civilizada é que na sociedadeprimitiva a iden-
tidade individual é determinada, em.relação a seu pensamento e
comportamento, de uma maneira muito mais ampla pelo padrão
geral da ~tividade social organizada desenvolvida pelo respectivo
grupo social do que é o caso na sociedade civilizada. Em outras
" palavras, a sociedade humana primitiva oferece muito me~o~_esp~~~
para a individualidade - para o pensamento e o comportamento
original, único ou criativo por parte da identidade individual den-
tro dela - do qu~ a sociedade civilizada. De fato, a evolução da
sociedade civilizada a partir da primitiva se deve em grande parte à
-libeiãçãõ socialprogressiva da identidade individual e de seu com-
portamento, às modificações e refinamentos do processo social que
,

.
.;.

resultaram daí e que foram possibilitados por essa liberação" .27


Assim como He el em relação ao processo de formação da
"vontade comum.", Mead concebe a evo uçao mor as sociecIa-
des corno um pro~esso de ampliação gradual dos conteúdos do re-
conhecimento jurídico; ambos os pensadores estão de acordo quanto
ao desencadeamento histórico do potencial da individualidade pela
via de um. aumento do es a o de liberdade juridicamente concedi-
. "

da.] a mesma maneira que Hegel, Mead também vê, como motor
dessas modificações geridasuma luta através da qual os sujeitos

.": ..
27 '. .' ',' :'-,:""',
Jbíd., pp. 265-6.

144 Atualização sistemática


procuram ininterruptamente ampliar a extensão dos direitos que lhes
são intersubjetivamente garantidos e, nesse sentido, elevar o grau
, ~
de autonomia pessoal; a liberação histórica da individualidade se
efetua por isso, p~s dois pensadores, como uma luta por reco-
nhecimento de longo alcance. Mas, diferentemente de Hegel, Mead
oferece para o processo evolutivo assim circunscrito uma explica-
ção que o torna transparente em seus fundamentos motivacionais:
as forças que impelem reiterada e inovadoramente o "movimento
de reconhecimento" são representadas pelas camadas incontroláveis
dQ,tI"Eu", que só podem se exteriorizar livre e espontaneamente
quando encontram o assentimento de um "outro generalizado".
Porque os sujeitos, sob a pressão de seu "Eu", são compelidos a Uma
deslimitação contínua das normas incorporadas no "outro genera-
liza do " ,eles se encontram de certo modo sob a necessidade psíq "-
ca de engajar-se por uma ampliação da relação de reconhecimento I
§í~a; apráxis social.i.~ita~~ã~~~i
"enri~uec~en~o da co@unidá-4~~~?_~ue ~eJ~~~~~.~~
cologla SOCIalde Mead, '~lut~J?-or.x~º~~o.". . I \

. . -. I

'0 fato de Mead não hesitar em derivar de sua própria abor-


dagem consequências sociais dessa espécie é o que se dá a conhecer
em seu curso nas passagens onde ele vem a falar sobre as transfor-
mações sociais de épocas passadas. Seus exemplos se referem de
hábito a situações históricas em que conceitos normativamente am-
pliados de comunidade social puderam tomar-se o cerne motiva-
cional de movimentos sociais: a "luta por reconhecimento" toma
seu ponto de partida de ideias morais em que personalidades dota-
das de carism uberam ampliar o "outro g~neraJjzado" de seu
~eio s~~~ de um modo que estav_aem concor m as ex-
pectativas intuitivas dos contemporâneos; assim que essas inovações
intelectuais puderam influir sobre a consciência de gruposmaiores,
procedeu daí uma luta por reconhecimento de pretensões jurídicas,
j que acabou colocando em questão a ordem institucionalizada. Mead
"apela com ênfase especial e repetidas vezes para a influência so-
ciorrevolucionária de Jesus, a fim de ilustrar historicamente sua tese:
"Foram grandes homens aqueles que, com seu papel na comunida-

Reconhecimento e socialização 145 ,.


·f
I
de, a modificaram. fIes eoo.quec<;!am e :u:'!e.liaram a comunidade.
Grandes figuras religiosas da história ampliaram, com seu papel ná
I
li
comunidade, suas dimensões possíveis. Jesus generalizou em suas I
parábolas sobre o próximo o conceito de comunidade, recorrendo fi .j
ao exemplo da família. Mesmo o homem fora da comunidade pode "I,' !
I

agora adotar em relação a ela ,essa atitude familial generalizada. Ele I


:faz dos indivíduos ligados a ele desse modo membros de sua comu-
nidade, da comunidade da religião universa1".28
Contudo, esse exemplo mostra também que Mead asso~~ dois ,
II I
processos muitos distintos à ideia de uma ampliação, obtida à luta, I
da relação de reconhecimento jurídícacPor uni lado, o conceito "
"~ abrange nele o processo no qual ~do membro de uma coletividade i"
~
,'p',/' ganha em autonomia pessoal, estendendo os direitos que lhe cabem; I
!b'{? .~.'~~~~dacie-~~~U;~;~~o~~to, n;;entido objetivo de que ~ I
,,'/ -,li;aumenta a dimensão do espaço para a liberdade individual. Por ~
,- J-' " outro lado, o mes~~'~~~rto refere-se, porém, àquele pro~o em !
que os direitos existentes numa determinada coletividade são trans-. ,
mitidos a um círculo cada vez maior de pesso:s; nesse caso, circuns-
crito com o exemplo citado, a comunidade se "amplia" no sentido
!j ~Ii
~ <r- '

social de que são incluídos nela um número crescente de sujeitos pela' i I


adjudicação de pretensões jurídicas, Mead não distinguecom sufi.:. ~ I
de
ciente clai~z~~rt.tr~~~-geD.~i;;HzaÇãon normas' ~oci~s'ea:-amplia- ,,',:"'-'~"-< .f:;·: :' -'c,' - "--

ção de direitos à liberdade individual; i~so torna niuito~es1:rita: a " ,',~"~" 'i-
aplicação doconceito de relação jurídica social, que ele tenta intro- ~~" !
!:: .' . ~
duzir, como Hegel, nos termos da teoria do reconhecimento.
-Ora, diferentemente de Mead, Hegel não sôfeznosseus pri-: ". ".~.'. '. .

meiros escritos que a relaçã{: amorosfrrecedesse, na quâlidaded~


~,-, . eira eta a de reconhecimento, a relação jurídica, como
também distinguiu dela uma outra relação de reco ecunento, na
qual a particularidade do sujeito individual deve obter confirmação.
Para o que é visado com isso, enco~tra-se' na psicologia social de •
Mead uma correspondência teórica na passagem onde ele inclui no

28 Ibid., pp. 260-1.

;:' 'Ú7:,
o;:,

146 Atualização sistemática


~~
quadro de seu exame aquela classe de exigências do CCEu" que ele
procura diferenciar categorialmente do tipo de pretensões tratadas
até então; como vimos, deve tratar-se aí de impulsos do "Eu" cuja
satisfação não está ligada à condição do crescimento de autonomia
Ressoal, e sim à pressuposição de chances para autorrealização in-
.fllvidual. Me~ad;~~m aberto se ele quer designar com essa se~
gunda classe de pretensões uma dimensão ou uma etapa da·forma-
ção prática da identidade; em todo caso, porém, ele parece partir
de que tais exigências só podem aparecer em separado quando um
sujeito já se sabe reconhecido, de uma maneira elementar, como
. m~~bro de umacoletividade: "Mas isso não nos basta, já ~-
re~os nos reconhecer em "Ílossas diferença~\ em relação a outras
pessoas. N aturalmente, temos um determinado status econômico e
social, que nos possibilita essa distinção ... Apoiamo-nos nas manei-
ras de f~ar e de vestir, na boa memória, nisso e naquilo - mas
sempre em algo pelo qual nos distinguimos com vantagem emrela-
ção a outras pessoas" .29
Mead conta com impulsos no ser humano dirigidos à distin-
ção em face de todos os outros parceiros da interação para que se
alcance uma consciência da unicidade individual; comoa satisfa- .
ção de tais impulsos está ligada a pressupostos diferentes do que
seriam dados com a ampliação da relação de reconhecimento jurí-
dica, ele as atribui a uma classe independente de pretensões do "Eu",
Mas também o ímpeto para a autorrealizaçâo depende, como Mead
acentua de imediato, da condição de uma espécie particular de re-
conhecimento: "Já que se trata de uma identidade social, ela reali-
za-se em sua relação com os outros. Ela tem de ser reconhecida pel?s
outros para receber aqueles valores que nós gostaríamos de ver atri-
buídos a ela" .30
Por autorrealização Mead entende o processo em que um su-
jeito desenvolvecapacidades e propriedades de cujo valor para o

29 Ibid., p. 249.
30 Ibid., p. 248.

•• ' I

Reconhecimento e socialização 147 I


I.
,

meio social ele pode se convencer com base nas reações de reconhe-
cimento de seu par<:eiro de interação. A espécie de confirmação de
que depende um tal sujeito não pode, por isso, ser aquela que ele
encontra como portador de direitos e deveres normativamente re-
gulados; pois as propriedades que lhe sãoadjudicadas como pes-
soa de direito, ~le as partilha' justamente como todos os outros me~
----~----~--~~~--~--~~--~~~------~--~
P!OS de sua coletividade. O "Me" da autorrealização não é aquela
.instância do controle normativo docOlnpoit~mento que um sujei-
to adquire ao aprendera .assumir as~~ê~~i~s)norais de um cír-
culo cada vez maior de parceiros d~-iI,it~;içã~~'~~iS'~:ô.âperspeCtiva
que ele adota em relação a si mê~rti~:~6rii~~:!~t~~ioiização desse
"outro generalizado", ele só pode concebei~s~êcÓmouma pessoa a
quem cabe, com~ a todos - -
os outrosinembfo~'disocied~de,
.. . .
- .
as pro- '. . . '.

priedades de um ator moralmente imputável. Em oposição a isso,


porém, o "Me" da autorrealização individual requer poder enten-
der-se a si próprio como personalidade única e insubstituível; nes-
se sentido,' essa 'nova instância refere-se a um órgão de autocerti-
~:
ficação ética que contém as convicções axiológicas de uma coletivi-
dade, a cuja luz um sujeito pode certificar-se da importância social 'I
'Ci
de suas capacidades m:dividuais. . .... .... " ' -Cj
!
Se a autorrealízação individ~depende,
__ "," ,.
nesse sentido, daexis-
,_. - O". --. _ _ ',' _,
i,
'tência de um "Me".,valorativ(), eJ:lrão lIlipenâeria -a-Meadinvesii-
------...;.-~ '; , '. == - "', <Ó, ..• ,.,,:;' ....•. """",' ".:: ""','.... • Ó:

gar no próximo passo 'de seu estudo a c()D.siittjiçã~ dele no sujeito


individual, com o mesmo cuidadoque ele analisou à do "Me" moral.
Até mesmo .a instincia da autoce@caçã():étiCa precisa percorrer
um proc~ssode generalízação, D:~ i#êdicÍ~eIíí'qiiese amplia, para a
criança e~ desenv~lviment~,()ci:ciilci;dÓ~:i?~g~iiós de inte~aÇão: ~
a estima que de início a criança ~~ij~Jl.ê.i~~êtamente com a de~
dicação afetiva do outro COl1cretÓ:t~ri{d~·~~'fluidmcarnuma forma
. . .: .''--;.~','-.;''::
.~::
·~i·~,,·~r·::{:~t~::/~:.~;~'-"~;::J;:;!-;
-,:-';i"!:": :';~_-- .

, ..de reconhecimento que conf~re<.:pp.§.l<!Ii~~~tW:!~~~'Ubjetiva ao indi-


. víduo em seu modo de vida mcli~dri~ârtt~:~~tólhido. Para poder
. - -:"':"
.;..r«:~::.:~·'=">.:.:~~~::,::.-.r".i~t'Ji~'-:~f.:t;~:f~~1i::;~.~:g~.ô':~':~;~:
-. -. .
che ar a um CCMe" ue o ere u:áí'semêlliâiitec'fess'eguro ético, todo
g , . q '.P~,:j)~:·'<"'1l;*r~i;j~f:~~';~~,~í:r~§;\\;e?!.~t~r;;'·> .' . -'-,'
sujeito tem de aprender a gene.r~:â~t;;itp9n~õ.::\íS convicções axioz-
'1~_~~ to~~.~ os seus parceii,g~:ã~IRtFIiiÇãB;;'queele acaba ob->
·t~~cÍo uma representação abstrãtà1.a~s'fiº~(I.~a~s comuns de 'sua
' .. .": ~.::':\>;:?: .:·/.·;~:~~{~~t~}:~~~~~·::f~~(;{\ #

..
~~' .

148 Atualizaçãos~t~rica
coletividade; 'p'oi~só n03or~onte desses valores partilhados e~
comum ele é capaz de con~~er-_~~.~_~esmo como uma pessoa que
se distingue' de todas as demais ao trazer uma contribuição, reco~
- - - .

nhecida como única, para o processo da vida social. Se Mead tives-


se seguid? de fato as'tarefas de pesquisa esboçadas dessa maneira,
ele teria deparado rapidamente com o problema de filosofia social ! .

.---
I
,
a que o primeiro Hegeltentou responder com seu conceito de etici-
dade: o que este quis delinear como uma terceira relação ética de
reconhecimento recíproco pode ser entendido a partir de Mead como
um~\resposta à questão sob~e a quais destinatários, contrafatica-
mente supostos, um sujeito teria de dirigir-se quando ele se sente
não ...reconhecido em suas propriedades particulares no interior do
sistema de valores de sua sociedade, o qual se tomou intersubjeti-
vamente habitual.é! O conceito ético de "outro generalizado" , ao
qual Mead teria chegado se.tivesse considerado as antecipações
idealízadoras do sujeito da autorrealização que se sabe sem reco-
nhecimento, partilha com a concepção de eticidade de Hegel as mes-
l mas tarefas: omear uma re çao e reco ecnnenro recíproco. na
I~ ., .\'qual todo .sujeito pode saber-se confirmado como uma pessoa que
J}t~~ \se distingue de to~~~ as outras por prop~iedades ou capacidades
I' !particular~ .- - ---- - -. ~--
.r ~ Mead, porém, não continuou a perseguir no quadro de seu
~ curso as questões que o processo de autorrealizaçãoindividual tem
~ de levantar; nos parágrafos que se ocupam com a classe correspon- .i
I

dente dos impulsos do "Eu", não se encontra mais do que poucas


e, melhor dizendo, assistemáticas referências à imagem fenomênica
que o "sentimento de superioridade" oferece no cotidiano. Mas, por

31 No meu parecer, pode-se obter de Mead um argumento contra a con-


cepção, hoje propagada, de que Hegel exagerou romanticamente, com seu con-
ceito de eticidade, as tarefas de uma teoria normativa da sociedade; cf, nesse
. sentido, por exemplo, Charles E. Larmore, Pattems ofMoral Complexity, Cam-
bridge, 1987, p. 93 ss; a melhor defesa do conceito hegeliano de eticidade é hoje, .
ao meu ver, a investigação atualizadora de Charles Taylor, Hegel and Modem
Sodety, Cambridge, 1979 (particularmente o capo 2.8).

Reconhecimento e socialização 149


í
«
i

':...
!:

isso, Mead não pôde também ter nenhuma clareza sobre o fato de ·
que a realização do "Self' toma necessária a atenção para um ideal .~
de "outro generalizado" diferente do que está inscrito no processo il
.:~
t
de aumento de autonomia pessoal. Que forma há de assumir o re- "". ta-,
O ~
conhecimento recíproco tão logo não se trate mais
. . .
da concessão 7)
~

intersubjetiva. de direitos, mas sim da confirmação da particulari- {., ~

dade individual, é uma questão que permanece excluída do círculo ,-

de suas reflexões. Apenas em uma única passagem Mead quebrou i s


'I.:

essa reserva geral e liberou o olhar para a relação social à qual con- tJ ~
·1
fiou a possibilidade 'deconferir, de -um IILodo feliz, reconhecimento ~ ~t
aos indivíduos em suas capacidades paÍÍ:i6uares;.sua proposta, que '\

:-" ..
consiste no projeto de um modelo de d~eII1pe~o funciQnald!> tra-
9aJhg, é interessante enquanto resposta ao problema traçado, sobre-
.J.
~'\.
1J
tudo porque torna transparente a profusão de dificuldades: "Quanto ·
a uma superioridade real, trata-se no fundo de uma que se baseia .~~ I,
no cumprimento de furições definidas. ~guém é um bom cirurgiãõ, "- ~ ~;
~ ~.
rum bom ªdyog'!9:~Q~(! estar or oso dessa superioridade, da \\ .~
i qual faz uso. Se faz isso no interior da própria comunidade, então . \..;~
.. i·
~
~i
,
I
, .'J ' I
ela perde aquele elemento de egoísmo no qual pensamos quando nos .~ f
Ilembramos de uma pessoa que!: ~~.!>a~?~:.ram~nte de sua superio- ~
{ridade sobre um outro".32 i
~
~
I
!
-,----- A solução que Meaitem em vista é a de um vinculo entrea __ 1·t
:',....
, autorrealizaçãoe a experiência do trabalho socialmente útil: a'me-
.:did~ de' ~~~orili~ciment~ demonstrada á' um sujeitoçque cumpre'
I
~.

"bem" a função atribuída a ele noquadro da divisão social do tra- ff


~
i I
.balho, basta. para lhe proporcionar uma consciência de sua parti- i~ i
!
C:ularicladé"Il1diVidu~.Paraa 'queStãoacerca das condições do au-
i
~
~
.
,
'-
torrespeito, resulta daí que um indivíd';1o só é capaz de respeitar-se r
i
a si mesmo de um modo integral quando, no quadro da distribui-
ção objetivamente dada de funções, pode identificar a contribuição
positiva que ele traz para a reprodução 4a coletividade. Com a sua .'
proposta, como nãoé difícil de ver, Mead quer desacoplar os pres-
o • "{ • .:. • •

. , '

32 Mead, Geist" Ident;tãt und Gesellsdhdft, ed. cit., p_ 252~

, .j:• •. "=t

150 Atualização sistemática ". .1" .~


!.
,i
i

supostos intersubjetivos da autorrealização das premissas axioló-


gicas contingentes de uma coletividade particular: o "outro gene-
ralizado" , de cujas finalidades éticas eu dependo se quero me certi-
ficar do reconhecimento social do modo de vida escolhido por mim,
deve ser superado, como uma grandeza tomada objetiva, nas regras
. da divisão do tra~alho funcion"~.·Esse modelo de solução vai ao -;n-
contro da tendência histórica para a individualização, que Meadjá
afirmou antes num outro nível, porque tenta manter baixa, tanto
quanto possível, a influência das valoraçõescoletivassobre a esco-
lha,;4a direção da autorrealização: visto que çs suj~~!9.s já podem
possuir uma consciência de sua particularidade ~divi.d"u.al dado o
. saber-de um cumprimento eficiente de seusdeverf:S profusi()nais, eles
estão liberados de todos os padrões estandardizados de autorreali-
zação_,como os estabelecidos em sociedades-tradicionais, por exem-
plo através do conceito de honra. Portanto, tomando isso em con-
junto, a idéia-de Mead representa uma resposta pós-tradicional ao
problema hegeliano da eticidade: a relação do reconhecimento re-
cíproco, no qual os sujeitos, para além de suas comunidades mo-
rais, podem saber-se confirmados em suas propriedades particula-
res, deve poder ser encontrada num sistema transparente de divi-
são funcional do trabalho.
- Contudo, o que não ficou claro a Mead é que esse modelo faz
reaparecer num outro lugar justamente as' dificuldades que tinha
por fim evitar, Pois, se os membros da sociedade devem poder se ,i
!
certificar da unicidade individual de sua pessoa ao cumprir com.
eficiência e bem as tarefas atribuídas a eles J.1adivisão do trabalho,
então não se conclui daíuma independência elll relação às finali-
dades éticas da coletividade
. correspondente+ - pois,' com efeito, é
. . .-' . .:~ .

primeiramente a concepção comum de vidaboa que estabelece a


valência das diversas funções do trabalho~~ã~:~~.~::gianeira como
uma tarefa definida' através da divisão d~#i§~,]h?\~,~tB~Ill" cum-.
prida, mas também o que é consideradocié;n1.9:ªgg~t~lluna con-

=:X::e:;~~::"vID~~~:n~ill~~~
éticas que dão à forma de vida de uma:~g"~ieaaae)séu:car~terindi-
.i

- :\. \~"":·:,:t,y

.", ,,' .

:" ..;-);,
Reconhecimento e socialização 151
vidual; daí a divisão funcional do trabalho não poder ser conside-
rada um sistema axiologicamente neutro, que abrangesse as regras
implícitas segundo as quais o indivíduo poderia examinar, de certo
modo objetivamente, sua contribuição particular para a coletividade.
Com razão, Mead parte da premissa de que um sujeito pode
conceber-se a si mesmo como uma pessoa única e insubstituível, tão
.logo sua própria maneira de autorrealização seja reconhecida por
todos os parceiros de interação na qualidade de uma contribuição
positiva à coletividade. A compreensão prática que um semelhante
.. ator tem de si mesmo, seu "Me" portanto, será nesse caso consti-
tuída de tal sorte que ela o faz compartilhar com os outros mem-
. bros de sua coletividade não só as normas morais, mas também as
finalidades éticas: se ele pode entender-se, à luz das normas comuns
de ação, como uma pessoa que possui determinados direitos em face
de todos os demais, então, à luz das convicções axiológicas comuns,
ele pode entender-se como uma pessoa que tem importância única
para eles todos. Mas, por razões bem compreensíveis, Mead tenta
..-:equipararas finàlidadesêticasde umãcoletividade pós-tradicional
com as exigências objetivas da divisão funcional do trabalho, de uma
maneira tão completa que acaba escorregando-lhe inopinadamen-
te das mãos o problema realmente desafiador: determinar asc:n- \
~,~,vicçõesêticàs de_um "outro generalizado", que por um lado sejam"
..•.•....•• .- -•.'- -Ó: substantiva~ ~ ~uficie~t~ para f~J~cada sujeito alcançar umã COD.s~'
." . ":~iêD.C::ia
de sua 'contribuição particular ao processo da vida 'social,
.:. mas, por outro lado, ainda formais o suficiente para não restringir
<.,.~<)\""iji.)!·~osteri()~ente o espaço livre, historicamente desenvolvido, de pos-
.~"c[jS~1:'fP,,·i.J:~ibiliaadespara a
autorrealização pessoal. As condições morais e
L:,:~;2'-Z-"~:culturais sob as quais se reproduzem as sociedades pós-tradicionais,
~::,;~;';Yi;F mais individualizadas no sentido de Mead, precisam também im-
;~;:'ft:! ;:'?:.ii'por fumtes normativos a seus valores e a suas fin.alidades éticas: a
\1::::;A?:t1J:tÓ~cepçãodevida boa, intersubjetivamente ~culan.-!.e, que de c;;' r.
.~ •• ~., ---~,~ "........... --, ...• p. '. •
~
-ta maneira se tornou eticamente habitual,. deve serformuladà de' tal . ':.

""'''odono plano do conteúdo que ela deixa ao próprio membro da,


91eti~idàde apossibilidade de'~determinar seu-modo de' vida no
iiadro dos ~eitos que lhe cabem.Por conseguinte; a dificuldade

152 Atualização sistemática


que Mead de fato abordou, mas para depois voltar a ignorar, con-
siste na tarefa de dotar o "outro generalizado" com um common
good, que faz todos os sujeitos conceberem igualmente seu próprio
valor para a coletividade, sem impedi-los por isso da realização
autônoma do seu Sel(; pois só uma semelhante forma de eticidade,
por assim dizer democrática, abriria o horizonte cultural no qual
os sujeitos, com direitos iguais, poderiam reconhecer-se reciproca-
mente em sua, particularidade individual pelo fato de que cada um
deles é capaz de contribuir, à sua própria maneira, para a reprodu-
çâoda identidade coletiva.
,.~Por sua vez, a solução que Mead ofereceu com seu modelo de
diviião funcional do trabalho não chegou à altura teórica do pro-
blema da integração ética das sociedades modernas; a ideia de fa-
zer o .indivíduo alcançar o reconhecimento de suas propriedades
particulares na experiência do trabalho socialmente útil há de Ira-
ry cassar já pelo' fato de a valorização das funções regulad~ pela di-
a - visão -do trabalho ser dependente das finalidades abrangentes de uma
coletividade. Mas a concepção de Mead, por mais que objetivista-
mente redutora, tem pelo menos a vantagem de trazer à luz a pos-
teriori, com mais nitidez, as dificuldades a que estava presa também
a solução do jovem Hegel, esboçada na parte I. Já havíamos mos-
trado que em Mead, assim como em Hegel, a ideia de uma "luta
por reconhecimento" socialmente efetiva aponta para uma etapa
superior, em que os sujeitos devem receber confirmação intersub-
jetiva como pessoas biograficamente individuadas; no lugar em que
_~ Mead havia aplicado para essa forma de reconhecimento o modelo
~.
~. de divisão funcional do trabalho, foi possível encontrar no quadro
~
, das primeiras obras de Hegel, a traços largos, a ideia de relações
; .. .solidárias. Certamente, "Solidariedade" não é apenas um título
l ,'... ,':'p9.ssfvel para a relação intersubjetiva que Reger tentou designar com
. ~.:_;/<';:"-:<:i:~Ónceito de "intuição recíproca"; por si mesma, ela se apresenta
1-::, _,:,-~._;~f;,',f;.:#~:%~:uma
síntese dos dois modos precedentes de reconhecimento,
_l,,;,,;:--'S":/i~?;_:~fque
ela partilha com o "direito" o ponto de vista cognitivo do

ã:i::v::a1~~:~;:;;ci:~~:
:n::::r;o~::~~:::"~~~
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l~ Reconhecimento e socialização 153
~
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medida em que não se rendeu ainda a uma versão substancialista
do conceito, o gênero de relação social que surge quando o amor,
sob a pressão cognitiva do direito, se purifica, constituindo-se em
uma solidariedade universal entre os membros de uma coletivida-
de; visto que nessa atitude todo sujeito pode respeitar o outro em
sua particularidade individual, efetua-se nela a forma mais exigen-
te de reconhecimento recíproco ...
Em comparação com a. solução proposta por Mead, porém,
transparece agora que faltava em princípio a essa concepção for-
mal de eticidade qualquer indicação de por que os indivíduos de- .
vem experimentar para com o outro sentimentos de respeito soli-
dário; sem o acréscimo de uma orientação pelos objetivos e valores
comuns, como os que Mead perseguiu objetivistamente com sua
ideia de divisão funcional de trabalho, o conceito de solidariedade
carece do fundamento dado por um contexto de experiência mo-
tivador.Para poder demonstrar ao outro o reconhecimento que se
apresenta num interesse solidário pelo seu modo de vida, é preciso
antes o estimulo de uma experiência que me ensine que nós parti- -
:% ..
lhamos uns com os outros, num sentido existencial, a exposição a
I·~.~
i~
! ...
. . certos perigos; mas quais riscos dessa espécie realmente nos vinculam
de maneira prévia é possível medir, por sua vez, pelas concepções
- que possuímos em comum acerca de uma vida bem-sucedidano c •• _~_ .

. quadro da coletividade. A questão de em que medida a integraçãó ...


social das ~ociedades depende normativamente de uma concepção
comum de vida boa constitui hoje o tema do debate entre o libera-
lismo e o "comunitarismo"; rio final, teremos d~fazer uma referência
·incfue~~:e~sa.djscUssão, 'quàndó'tentarmos derivar das ideias de-
. senvolvidas porHegel e Mead um conceito formal de eticidade. .., i

.. .' "_ ..'-" .

154 Atualização sistemática