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TENDA DE UMBANDA ORIENTAL -

CABOCLO PENA BRANCA - RJ


Grupo de estudos e pesquisas de Umbanda
Esotérica da Raiz de Guiné
Agradecimento a irmã e afilhada Yacyamara Sacerdotisa
TUCAT – Tenda de Umbanda Caboclo Arranca Toco – Santos – SP
Por gentilmente compartilhar suas pesquisas e estudos
A influência do branco na religiosidade Ameríndia

Quando Portugal iniciou a colonização do Brasil, trouxe a religião oficial: o


catolicismo. A igreja católica, naquele momento, perdia adeptos para as religiões
protestantes que se formavam na Europa, portanto, a conversão dos habitantes
do Novo Mundo representava importante oportunidade para a Igreja estender
sua área de influência.

Com o crescente potencial econômico gerado pelo cultivo da cana de açúcar, a


metrópole portuguesa, visando exercer um controle político mais intenso sobre
o território, instalou o Governo Geral em 1549 na Bahia, fundando a cidade de
Salvador. Foi neste período que chegaram as primeiras missões jesuíticas a fim
de domesticar os índios, visando atender aos interesses da produção açucareira,
tendo em vista que a lavoura exigia grandes contingentes de trabalhadores.

A mão-de-obra indígena, contudo, não se adaptava ao trabalho cotidiano e foi


substituída pela de origem africana. Portugal era especializado no trafico
negreiro e não teve dificuldades de abastecer a colônia com escravos.

A presença portuguesa nos primeiros tempos da colonização representou um


verdadeiro genocídio contra a população ameríndia. Uma população estimada
em cinco milhões de nativos, em 1500, foi reduzia a 200 mil indivíduos. Tribos
foram totalmente dizimadas, como a dos Tupinambás, que habitavam no litoral
brasileiro.1 Os que não foram mortos, acabaram escravizados e convertidos a Fe
Católica.

1 Ver Umbanda Paz, Liberdade e Cura, de Jose Luiz Ligiero e Dandara, editora Nova.
Todavia, os grupos indígenas não abandonaram totalmente as crenças
tradicionais, não deixaram de acreditar nos próprios deuses, de cultuar os
espíritos das florestas ou de reverenciar os ancestrais da tribo.

Idioma Tupy

• Aba = pena ou pêlo


• Abaiuba = pena amarela
• Abanheenga = língua boa (referente ao primitivo Tupi)
• Abaré = sacerdote
• Abaré –mirim = pequeno sacerdote
• Abaré-guaçu = grande sacerdote
• Aca
• Araçaí = luz irradiada
• Caruamã = cara vermelha
• Guará = luz que vive
• Itá = pedra
• Ka’a = mata, floresta
• Ngatu ou gatu = boa
• Piratinga = peixe branco
• Piraúba = pai dos peixes
• Potyra = flor
• Tacuigi = pedra da matriz da cachoeira
• Tinga = branco(a), daí itatinga ser pedra branca
• Tupã-T-ayra = Messias (Filho de Deus)
• Tupayba = fruto de tupã
• Ubatinga = flecha branca
• Upaba = lago
• Ypiranga ou Ipiranga = rio vermelho
• Ybaca = céu
• Ybyrá = árvore
• Ybytyra = montanha
Obs: Todas as imagens de indígenas que ilustram os textos referente “A Raiz
Ameríndia” são do artista Filipe Nery.

O Pai-Nosso em Tupi Antigo


(Versão do Padre Antonio de Araújo, 1618)

Oré rub, ybakype tekoar,


Nosso Pai, o que está no céu,
i moetepyramo nde rera t'oîkó.
Como o que é louvado teu nome esteja
T'our nde Reino!
Que venha teu Reino!
T’onhemonhang nde remimotara
Que se faça tua vontade
ybype
na terra,
Ybakype i nhemonhanga îabé!
Como o fazer-se dela no céu!
Oré remi'u, 'ara-îabi'õndûara,
Nossa comida, a que é de cada dia
eîme'eng kori orébe.
dá hoje para nós
Nde nhyrõ oré angaîpaba resé orébe,
Perdoa tu nossos pecados a nós.
oré rerekomemûãsara supé
como aos que nos tratam mal
oré nhyrõ îabé.
nós perdoamos
Oré mo'arukar ume îepé tentação pupé,
Não nos deixes tu fazer cair em tentação,
oré pysyrõ-te îepé mba'e-a'iba suí.
mas livra-nos tu das coisas más
As Fusões da Raiz Afro e da Raiz Ameríndia.

O Culto Bantu dos africanos aqui no Brasil começou a receber as influências dos
outros cultos, principalmente do nagô.

Do lado ameríndio o primitivo Culto de Muyrakitan foi sendo esquecido, se


apagando dentro dos ritos sagrados dos tupy-nambás, dos tupy- guaranys e
outras tribos, após a era cabralina, deixando como herança, mas ainda
conservados seus aspectos puros, o Culto da Yurema.

Por volta do ano de 1547, foi constatada uma mistura entre esses ritos africanos
(já bastante influenciados pelos vários cultos) e o cerimonial que os nossos
índios praticavam. A essa fusão, denominou-se Adjunto de Jurema, que por
sua vez, era uma degeneração do verdadeiro Culto da Yurema.

Essas práticas religiosas, mágicas, dos índios, chamadas “Adjunto de Jurema”,


que envolviam ervas, rezas, exorcismos ou invocações, com oferendas, cânticos,
etc., foram, posteriormente, denominadas pelos brancos como Pajelança.

Dessa fusão entre o culto dos bantus e o Adjunto da Jurema surgiu, depois de
alguns anos, outra espécie de rito, com práticas mistas que foi chamado de
Candomblé de Caboclo, onde a par com a evocação e a crença nos Orixás,
predominava mais a influência ameríndia, com seus Caboclos, seus Encantados,
etc.

Todavia, essa fusão, degenerou mais ainda, prevalecendo certas práticas como
pura feitiçaria. Assim surgiu a prática denominada de Catimbó.

O termo catimbó é uma corruptela de timbó ou caa-timbó do idioma Nheengatu,


a língua sagrada, dos tupy-nambá ou tupy-guarany, e significa defumação.
Nas práticas do Candomblé de Caboclo, dado a influência ameríndia, se usavam
muito os timbós ou catimbós, com o uso exagerado de muita fumaça de
cachimbo. Então, por uma associação de idéias, de correlação, passaram a
chamar de Catimbó.

As sessões de Catimbó são chamadas de mesa. Fazer mesa é abrir uma sessão.
O trabalho para o bem, tratamento médico, remédios, conselhos, orientações
benéficas, amuletos, é denominado fumaça às direitas. Trabalho para o mal,
vinganças, dificultar negócios, impedir casamentos, adoecer alguém, conquistar
mulher casada, despertar paixões para relações não-conjugais, é fumaça às
esquerdas.

Nesse Catimbó, que ainda hoje em dia existe em muitos Estados, as sessões são
consagradas à prática da bruxaria, dos feitiços, envolvendo raízes, ervas, nozes,
frutas, defumações fortes, bebidas alcoólicas aliadas à matança de animais para
os chamados despachos. Nas sessões bebe-se, fuma-se, canta-se e dança-se
muito, com evocações extensivas a tudo quanto seja Espíritos de feiticeiros
indígenas e mandingueiros africanos do passado.

Toda essa mesclagem de práticas e concepções vinha sendo executada através


de variados e estranhos rituais. Acrescente-se isso a influencia do catolicismo
mediante alguns de seus santos, que foram identificados (sincretismo) com
certos Orixás.

Toda essa complexa mistura, que o leigo chama de macumba, baixo-espiritismo,


magia-negra, etc. e em certos Estados do Brasil, de canjerê, pajelança, batuque
ou toque de xangô, babassuê, tambor de mina etc., recebeu ainda, nos últimos
50 anos, mais uma acentuada influência – a do Espiritismo, também chamado
de Kardecismo.

Então tínhamos todos esses aspectos, envolvendo práticas, as mais confusas,


materialmente grosseiras, de ritualísticas barulhentas (pelos tambores,
triângulos, cabaças e outros instrumentos exóticos), tudo isso em pleno Século
XX, norteando, por afinidade, uma imensa coletividade, com seus milhares de
Centros, Terreiros, Tendas, Cabanas, etc.
Abaixo, algumas variações do citado sincretismo, em alguns estados do nosso
Brasil:

Surgimento do Espiritismo

O espiritismo surgiu nos Estados Unidos, a partir das primeiras manifestações


(ruídos de pancadas e movimentação de móveis), ocorridas com as irmãs Fox,
quando ainda eram crianças em 1848. As notícias do fenômeno se espalharam
e sessões espíritas começaram a ser realizadas por toda a parte, tanto nos
Estados Unidos quanto na Europa.
Contudo, foi com Alan Kardec2, pseudônimo de Hippolyte
Léon Denizard Rivail, que esses fenômenos passaram a
ganhar credibilidade.
Nascido em Lyon, na França, em 1804, Alan Kardec
formou-se em letras e ciências e doutorou-se em medicina
na Suíça. Em 25 de março de 1856, numa sessão, Kardec
recebeu, através de uma médium, a informação de que dali
por diante, um espírito denominado “A Verdade”, seria o seu guia espiritual.

Em 18 de abril de 1857, publica O Livro dos Espíritos, e após outras obras: O


Evangelho Segundo o Espiritismo, A Gênese, O Céu e o Inferno, O Livro dos
Médiuns, O Que é o Espiritismo e Obras Póstumas. Kardec faleceu no dia 31 de
março de 1869, em Paris, aos 65 anos de idade. Na França de hoje, não há mais
de mil adeptos do espiritismo.

No Brasil, na segunda metade do século XIX, surgem os novos ricos, os senhores


do café, com suas imensas fortunas, obtidas com a lavoura do café. Eles faziam
constantes viagens principalmente a Paris, que era na época o maior centro
cultural do mundo.

Nesta época, a sociedade brasileira absorveu rapidamente todas as novidades


vindas da França, tais como a moda, ciência, perfumaria, etc. Uma dessas
novidades eram os fenômenos espíritas.

Por volta de 1863 o Espiritismo foi introduzido no Brasil e teve sucesso imediato.
Nessa fase inicial era praticada pelos intelectuais, médicos, engenheiros,
funcionários públicos e universitários.

Com relação às tradições africanas e ameríndias, o kardecismo estabeleceu uma


relação ainda mais discriminatória do que a adotada pela Igreja Católica,
considerando os espíritos de índios e negros como atrasados e carentes de luz.
Kardec, entretanto, não escreveu uma linha a respeito da inferioridade espiritual

2 Alan Kardec era um pseudônimo que lhe fora revelado como sendo o nome da última encarnação na Terra,
quando viveu como um druida na antiga Galia.
de qualquer raça humana, mas os seguidores associam frequentemente os
comentários do autor francês, sobre a existência de espíritos atrasados,
embrutecidos ou materialistas a esses dois segmentos da sociedade brasileira.

Dentro da prática do Espiritismo, quem em vida não houvesse sido importante,


não tinha o direito de se manifestar nas chamadas sessões espíritas. Por isso,
um espírito que havia sido um escravo, era de imediato convidado a se retirar
da sessão.

Os reflexos dos desmandos espíritas no século XIX fizeram se sentir ainda mais,
quando uma dissidência entre seus líderes originou duas correntes: os espíritas
que se preocupavam apenas com as manifestações espíritas em si, chamados
espíritas científicos e os que se preocupavam com a parte doutrinária da
religião, chamados místicos.

Lutas, dissensões, represálias, perseguições, um mundo de atividades nocivas


caracterizava o movimento espírita no final do século XIX.

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