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Vamos falar

de Teologia
A importância do preparo teológico nos seminários para a
vida da igreja e do pastor

JÚNIOR MARTINS
Vamos falar
de Teologia
A importância do preparo teológico nos seminários para a
vida da igreja e do pastor

SÃO PAULO
JÚNIOR MARTINS
2019
VAMOS FALAR DE TEOLOGIA: A importância do preparo teológico
nos seminários para a vida da igreja e do pastor.

Categoria: Teologia. Seminários. Didática Teológica.

Autor: Júnior Martins

Todos os direitos reservados. Deverá ser pedida permissão para o autor


para usar ou reproduzir este livro, exceto por citações breves em críticas,
revistas ou artigos.

Os textos bíblicos sem indicação foram extraídos da Nova Versão


Internacional – NVI 1ª Edição – Editora Vida Nova, 2001.

PRIMEIRA EDIÇÃO: JUNHO / 2019


SUMÁRIO
PREFÁCIO 1
INTRODUÇÃO 7

PRIMEIRA PARTE
OS DESAFIOS DA SALA DE AULA
PARA ESTUDANTES DE TEOLOGIA 14
VOCAÇÃO TEOLÓGICA 20
UMA DISTINÇÃO IMPORTANTE DAS TEOLOGIAS 27
COMO ESTUDAR? 32

SEGUNDA PARTE
PENSANDO TEOLOGICAMENTE
SEGUIR OU NÃO A LEI? 41
ESTUDAR ESCATOLOGIA É IMPORTANTE? 46
LEITURA CANÔNICA 49
NEM TUDO É PIADA 53
JOGANDO CONTRA 57
MAIS CÉREBROS NOS FRONTS EVANGÉLICOS 60

TERCEIRA PARTE
DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS
PARA MENTES TEOLÓGICAS
CRISTIANISMO LÍQUIDO? 70
O DESAFIO DA SECULARIZAÇÃO 96
HOMOSSEXUALIDADE E IDEOLOGIA DE GÊNERO 163

CONCLUSÃO 212
PREFÁCIO

Este livro é a compilação de muitos textos publicados no Blog


Reflexões e Flexões com o propósito de dialogar com alunos de Teologia,
principalmente com os que são iniciantes.
O Blog foi criado no ano de 2013 para divulgar e arquivar textos que
tenho escrito desde 1998, pouco tempo depois de começar a liderar e
pastorear a Igreja Batista no Jardim Iporã, São Paulo – SP. Há textos sobre
Teologia, pequenas crônicas do dia a dia, esboços de sermões, resenhas de
livros e textos escritos para alunos do seminário Teológico Batista Mizpá
(parceria ABAFER-SUCOCAP), fundado em 2014 e que funciona nas
dependências da Igreja Batista em Vila das Belezas, São Paulo – SP.
A forma final apresentada aqui possui diferenças na forma e volume
dos mesmos textos encontrados no Blog, além de possuir textos que não
estão no blog. Não há grande preocupação com citação de fontes e de
referências porque o propósito é ter um texto final mais leve e que possa ser
lido sem as muitas interferências do rigor científico e das muitas citações e
notas de rodapé. É um diálogo. Ou pelo menos o produto de diálogos e
percepções do dia a dia da vida de seminaristas, professores e amantes da
Teologia.
Formei-me como Bacharel em Teologia pelo extinto Seminário
Teológico Batista Paulistano. O Seminário Teológico Batista Mizpá é, em
parte, o preenchimento do vazio deixado pelo Seminário Paulistano desde
2008 da região sudoeste da capital paulista. Validei meu curso de Teologia
pela Faculdade Unida, Vitória – ES. Ao longo do tempo participei de
diversos cursos de Liderança, Homilética, Teologia Contemporânea e
Psicanálise. Hoje estou me Doutorando em Ministério pelo Seminário
Teológico Servo de Cristo, São Paulo – SP. Sou aluno até hoje e tento
nunca deixar de me colocar como tal.
Enfrentei a luta de cuidar de família, de trabalhos desgastantes,
dificuldades de locomoção pela cidade São Paulo, uma rotina dura de
trabalho na igreja ao mesmo tempo em que estudava e dava aula em
Seminários, como o próprio Seminário Teológico Batista Paulistano e o
CEFAM (Centro de formação e aperfeiçoamento para o Ministério) da
Igreja Batista em Jardim das Oliveiras, São Paulo – SP e, agora, do próprio
Mizpá desde 2015.
A docência teológica tem suas glórias e espinhos. Formamos líderes
e teólogos para a igreja. Lutamos contra a falta de compreensão de parte da
igreja sobre o nosso papel de pastores e teólogos. Lutamos contra um anti-
intelectualismo evangélico (irracional por natureza). Lutamos contra a falta
de material teológico em português para análise. Livros são muito caros.
Porém, vibramos de forma quase infantil com o ambiente da sala de aula,
com as descobertas dos alunos, com a evolução de alguns e com a clara
percepção de que somos importantes para alguns poucos.
Neste espírito é que surgiram os textos aqui apresentados e
esperamos que possam ajudar de alguma forma.
INTRODUÇÃO

Obviamente que a intenção não é tratar exaustivamente da Teologia


e nem mesmo do contexto da sala de aula teológica. Este assunto mereceria
mais livros e artigos porque é ali que se forma a mentalidade de boa parte
dos líderes de muitas igrejas, principalmente das igrejas conservadoras e
históricas que ainda contam com os seminários para o preparo de seus
obreiros.
Cada um dos capítulos tem uma história a parte e um momento
específico em que surgiram.
A primeira parte é composta de textos escritos para alunos em
situações específicas no Seminário.
O primeiro capítulo chamado de Para estudantes de Teologia
nasceu da constatação de que muitos alunos entram em choque em seus
primeiros contatos com o conteúdo teológico. Não há dúvidas de que
muitos iniciam o curso de Teologia de forma pouco atenta e se deparam
com conteúdos, e tratamentos destes conteúdos, que chocam a primeira
vista. As reações são diversas e vale a pena pensar em qual postura adotar
quando há este choque. É um texto de 9 de Abril de 2015, quando
estudávamos com a turma iniciante de Teologia Nível Básico, e a
percepção das reações surpreendentes dos alunos diante de vários assuntos.
O texto foi escrito para acalmar os alunos, ao mesmo tempo em que é um
diagnóstico da saúde teológica dos mesmos.
O texto sobre a Vocação Teológica é o esboço de uma mensagem
pregada a alunos e professores do Culto da Capela no Seminário Teológico
Batista Mizpá no dia 8 de março de 2018. É um convite a uma reflexão
importante. Seminários, que é nosso locus nestes textos, formam teólogos,
ou seja, pessoas capazes de formular o pensamento teológico para a igreja.
Pastores são formados por suas igrejas na labuta diária, no uso dos dons
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espirituais e no cuidado das pessoas. Não negamos aqui, de forma alguma,


que os seminários forneçam o treinamento que é fundamental para a
formação pastoral.
No entanto, é preciso acertar o foco desta formação e levar em
consideração duas coisas. Primeiramente, motivar alunos que tenham
vocação teológica para que escrevam, palestrem e sejam teólogos orgânicos
para a igreja local. Em segundo lugar, reconhecer e suprir as necessidades
de nossas igrejas brasileiras. Infelizmente, são poucos os pastores que tem
condição de se formar em um seminário teológico, e é ainda menor o
número de pastores que dão continuidade aos seus estudos, que se tornam
estudiosos e dedicados à Teologia.
O terceiro texto, ainda na primeira parte, é chamado de Uma
distinção importante das Teologias. É muito comum ouvir de alunos,
professores, e pastores a afirmação de que têm preferência pela Teologia
Sistemática e não pela Teologia Bíblica, ou vice-versa. Nós pouco ouvimos
falar de Teologia Exegética, Teologia Histórica ou Teologia Prática. Há
vários pontos aqui para reflexão. Primeiramente, uma formação teológica
completa exigirá certo domínio de todas estas teologias. Ao contrário do
que parece a primeira vista, elas não são concorrentes, elas são
complementares. Sem dúvida, um curso completo de Teologia exigirá certo
equilíbrio entre todas estas disciplinas, seja para a formação de um pastor,
de um teólogo, ou de um pastor-teólogo. Este texto foi publicado em 17 de
agosto de 2017 atendendo a tensões entre os alunos a respeito de
preferências na área de estudos. Estas preferências se justificam por um
lado, mas são temerárias por outro.
Sobre Como Estudar, o último texto da primeira parte, é uma
tentativa de ampliar a compreensão de todas as disciplinas e elementos que
compõem um estudo completo, ao mesmo tempo em que é uma motivação
para que o estudo seja componente presente na vida de alunos (e de
professores). Infelizmente, boa parte de nossos alunos ainda se limita
apenas ao conteúdo da sala de aula e não desenvolvem a sua capacidade

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Vamos falar de Teologia 9

como estudiosos. A necessidade da formação contínua de pastores e líderes


de igreja nos impele a desenvolver a capacidade e a disciplina de estudar de
forma cada vez mais eficiente. É um texto de 29 de agosto de 2017 visando
a mesma turma do texto anterior.
A segunda parte diz respeito a pequenos exercícios de reflexão
teológica.
O primeiro texto, Seguir ou não seguir a Lei, não é necessariamente
uma resenha, mas um breve insight teológico após a leitura do livro
Somente Cristo de Sinclair Fergunson, da Editora Vida Nova, lançado em
2019. A temática do conflito entre lei e as obras é tratada de forma
primorosa. A compreensão desta aparente tensão é fundamental para o
púlpito, para a sala de aula, para o aconselhamento, para a exegese e para a
vida do pastor e do teólogo. Neste sentido, tento mostrar a relevância de ler,
compreender o que se lê e desenvolver um pensamento próprio, ou
apropriar-se de uma ideia alheia, de forma a ser usada de forma relevante
no dia a dia. De certa forma, desconfio que sejamos pouco capazes de uma
plena originalidade. Este texto foi compartilhado com membros da igreja
Batista em Vila das Belezas já que uma das temáticas da EBD de então era
a Ética Cristã, com fortes referenciais nos Dez Mandamentos (as Dez
Palavras) e a Graça de Deus.
O segundo texto deste segundo bloco, apesar de pequeno, contempla
um espectro maior: a baixa importância que é dada a certas temáticas da
Teologia sob o pretexto de que tais disciplinas têm pouca relevância ou
influência na formulação das demais temáticas teológicas. Pensar assim é
também temerário. A escatologia é ao mesmo tempo o resultado e a base
para a eclesiologia, para a compreensão da Parousia, para o Reino de Deus,
para relação da Igreja com Israel. Ser amilenista, pré-milenista e pós-
milenista, com todas as suas nuances e pequenas variáveis, deve estar em
consonância com a compreensão teológica das demais doutrinas. A
sistematização das doutrinas não pode desprezar a relação umbilical entre
todas elas.

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Vamos falar de Teologia 10

Um tema importante para a Teologia é a forma como a Bíblia, a


Palavra de Deus, é lida. Disto que trata o texto sobre a Leitura Canônica. A
busca por uma temática que integre a Bíblia é uma questão teológica
importante. Pouco nos damos conta de que a organização da Bíblia é
também um convite à forma como ela deve ser interpretada e lida. Temos
um conflito bastante interessante, o fato de que o Cânon Judaico (Bíblia
Hebraica) e o Cânon Ocidental são diferentes, pode mudar a forma como
lemos e entendemos a Bíblia. Jesus e os apóstolos admitiam o Canôn
Hebraico. É, sobretudo, um convite a uma leitura e compreensão cada vez
mais integradas do texto bíblico. Esta reflexão nasce das aulas de Panorama
Bíblico.
O capítulo Nem tudo é piada nasce como reação àquelas postagens
cada vez mais comuns nas redes sociais e que nos incomodaram de alguma
forma. O incomodo maior é o de perceber que, até mesmo aqueles que
deveriam zelar pelo crescimento espiritual e bíblico da igreja, aceitem
integralmente a ideia destacada no texto. É possível compreender a
intenção do autor da anedota ao mostrar que a distância entre o
conhecimento teológico e simplicidade das pessoas das igrejas pode se
tornar um abismo intransponível e tornar o diálogo entre o pastor e sua
ovelha algo inviável. Mas a solução não é abandonar a Teologia, mas é,
como disse alguém, a capacidade de fazer o que é difícil tornar-se fácil,
esclarecer e elucidar. A mensagem ali referida circulou nas redes sócias
entre o final do mês de Janeiro e inicio do mês de Fevereiro de 2019.
O texto Jogando Contra fazia parte de uma gama de textos que
estavam para ser publicados no blog e que ficaram parados por um bom
tempo. É uma tentativa de mostrar que a Teologia, como saber humano,
está limitada por diversos fatores e, como aqui no Brasil, ainda estamos
longe de uma estrutura teológica robusta e realmente brasileira. Estamos no
caminho. Felizmente.
Fechando a segunda parte temos o texto sobre a necessidade de Mais
cérebros nos fronts evangélicos. É uma tentativa de analisar as questões

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que impedem e dificultam a formação teológica no Brasil que ainda é


ditada por uma agenda que não privilegia o conhecimento, a profundidade,
a criatividade e a independência. Este texto fazia parte originalmente de um
trabalho sobre a relação da pós-modernidade e a brasilidade e que recebeu
o título na forma de uma pergunta: o brasileiro é pós-moderno?
A terceira parte, que é também a maior, possui reflexões um pouco
mais elaboradas.
Cristianismo Líquido: com gelo e limão, por favor! é uma
provocação, mas também o resultado de muita inquietação. Hoje em dia é
fácil encontrar pessoas que vivem o cristianismo de forma sincrética, que
procuram eliminar do cristianismo suas teses mais polêmicas, gente que
procura negar a necessidade da igreja ou de doutrinas bíblicas fundamentais
(como o pecado e o inferno). É uma espécie de cristianismo
descristianizado, como café descafeinado. Depois de ler Amor Líquido e
Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman, surgiu a ideia de escrever
sobre o assunto. Não há paralelos necessários entre o texto deste livro e os
textos e livros de Bauman.
O Desafio da Secularização é um longo texto escrito para uma
Palestra para jovens em evento realizado no dia 26 de Setembro de 2017,
cujo tema original foi: Fé integral e o problema da Secularização. A
secularização é um mal silencioso que tem devastado a fé e esfriado a
igreja. É como muitas doenças silenciosas que mostram suas garras em
momentos crucias em que quase nada mais pode ser feito.
O último texto trata da polêmica questão da Homossexualidade e a
Ideologia de Gênero. O assunto tem sido tratado de forma muito inocente
pelas igrejas e pastores. É preciso separar o assunto, dissecá-lo e
compreendê-lo em sua totalidade. Não estamos diante de um simples
problema de aceitação ou não dos homossexuais. Não estamos diante de
um simples problema do coração (se os amamos ou não), mas diante de um
desafio para o cérebro (a luta que é travada por pequenos grupos por uma

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Vamos falar de Teologia 12

hegemonia perigosa), e para o espírito (a ardilosa estratégia diabólica) com


o propósito de esvaziar o conteúdo do Evangelho destruindo famílias e
igrejas. É também, como o texto anterior, material para uma palestra
realizada no dia 26 de Maio de 2018 dentro dos estudos sobre Cristianismo
e Cosmovisão Cristã.
Esperamos que seja uma leitura interessante e edificante.

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Vamos falar de Teologia 13

PRIMEIRA PARTE
OS DESAFIOS DA SALA DE AULA

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Vamos falar de Teologia 14

PARA ESTUDANTES DE TEOLOGIA


Não é muito difícil ver alunos iniciantes em Teologia e, sobretudo,
os mais avançados, vivendo crises de toda natureza.
Vou usar o termo Teologia de modo quase irresponsável, porque não
poderia ser de outro jeito. É só um texto, e não um tratado teológico.
Teologia aqui é interpretação bíblica, origem da bíblica, história da igreja,
sistematização teológica, e tudo mais que ela possa ser. É pensar sobre
Deus, sua Palavra e como correspondemos a isto aplicando na vida e na
igreja.
Ao se depararem com o conteúdo teológico no primeiro momento,
alguns parecem encantados com o novo mundo de informações e querem a
todo custo compartilhar as novas informações com pessoas não tão
interessadas assim. Outros, de formação mais rígida, resistem bravamente
às novas ideias e se recusam a aceitar outros fatos e novas visões sobre
aquilo que já dogmatizaram em sua mente. Outros são incautos, lançando-
se sem medo em águas nunca dantes navegadas e, obviamente, ficando
sujeitos aos riscos e intempéries de quem não se prepara para uma viagem
arriscada. Há outros que se desembestam a seguir as novas ideias e vão
pregar outro evangelho. Estes chegam a mudar de aparência e de voz,
assumindo tom autoritário, tom de sabedoria, tom de importância e
relevância. Outros deixam se apavorar pelas descobertas e tem sua fé
abalada, a ponto de abandonarem suas convicções, igrejas, ministérios e
desesperam da vida. Outros murcham, julgam tudo tão alto e tão elevado
que se afundam numa relação consistente com a ignorância – um divórcio
que seria desejável. Não podemos nos esquecer dos que fazem uma salada
medonha de informações desencontradas e muitas vezes não testadas,
tornando-se incomunicáveis, adotando uma linguagem incompreensível
de outro mundo. Há os indiferentes também, aqueles que mesmo
submetidos às informações mais relevantes e interessantes não têm um só
pulso mais elevado às batidas do seu coração. Tão logo ouvem se esquecem

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 15

do que ouviram, fazendo uma distinção indesejável entre a academia e a


vida. Distinção perigosa. E, como em quase tudo nesta vida, há alguns
poucos que saem vivos e ilesos a tanta pressão e se tornam relevantes e
úteis naquilo que fazem, admitindo que sempre há muito a aprender e que o
que se sabe, e se está a aprender, merece revisão de tempos em tempos sem
cessar. A Teologia não é uma ciência fixa.
A minha contribuição aqui não é no campo do aconselhamento,
como se esperasse sentar com algum estudante de Teologia para ajudá-lo na
relação com a mesma, no sentido de falar da própria Teologia, e em tudo o
que lhe é pertinente.
Para começar, Teologia é caminho e não ponto de chegada. A sede
de querer respostas prontas e definitivas é de fato muito frustrante ao
estudante de Teologia, porque nos abrimos a um mar de respostas, pontos
de vistas e experiências diferentes. A Teologia é um diálogo atemporal.
Trazemos para nossas conversas muitos pensadores com suas ideias,
pessoas vindas de todos os tempos (passados) e lugares. Não podemos de
forma alguma esperar algo uniforme e concordante. Assim, nos
posicionarmos de modo a aproveitar a caminhada sem a expectativa de
realmente chegarmos definitivamente a algum lugar e, mesmo que em
algum momento tenhamos esta sensação de fim ou de definição, devemos
estar abertos a algo novo que virá. Em torno do mesmo assunto podemos
voltar e acrescentar novas camadas a cada novo livro lido, novo professor
conhecido, nova turma frequentada e novo momento de vida e ministério.
Tudo isto mesmo sem a necessidade de negar tudo aquilo que já sabemos,
mas lançando nova luz aos assuntos, acrescentando dados e informações e
reinterpretando os antigos conceitos.
É necessário saber que Teologia tem prazo de validade, o que não
impede que antigas ideais ressurjam de tempos em tempos. É fácil observar
lendo a história. Novas ideias, novos paradigmas, novas práticas, novas
falências, novas desistências, novas inconsistências e vamos novamente a
novas ideias, novos paradigmas e assim por diante. Podemos perceber na

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Vamos falar de Teologia 16

análise histórica que algumas ideias se repetem, com nova roupagem, mas
essencialmente as mesmas como ciclos que seguem. Não temos a ultima
palavra. Às vezes nem mesmo a primeira.
Teologia é ferramenta humana e cheia de desacertos. Aprendemos
que, apesar de todos os nossos esforços, a almejada imparcialidade não
existe. Aliás, nem mesmo a coerência. A incoerência é, infelizmente, a
essência da existência humana. Todos tropeçam, todos erram e todos
falham. E não seria diferente no que diz respeito à Teologia. Há aqueles
que confundem a Palavra de Deus com a Teologia. Que não seja o nosso
caso aqui. Uma é uma coisa e a outra, outra coisa. Se a muitos teólogos
(não a todos!) fosse dada a chance de viver mais um pouco, ou mesmo de
voltar à vida tempos depois, parte deles negaria partes daquilo que
disseram, revisariam seus conteúdos, reformulariam suas ideias,
expandiriam suas afirmações, admitiram a existência de falhas em seus
sistemas teológicos, além de admitir inexatidões e falta de elementos.
Teologia é instrumento do pensar, do filosofar, no sentido próprio da
palavra.
Ainda há quem diga que Teologia é para quem quer teologar e não
necessariamente para quem quer melhor servir. Aqui jaz um antigo
problema e um questionamento que repousa sobre teólogos: qual a validade
desta área do saber humano para o bem estar da humanidade e,
principalmente da igreja? Ainda existe, e sempre existirá, quem teologue
sem ser útil. Que se corrija este erro, mas que não se engane aquele que
pensa nela apenas para o bem servir. Pode se frustrar. Ainda que a Teologia
possa fundamentar melhor o serviço cristão, a pregação do Evangelho, a sã
doutrina e o ensino bíblico em geral, admitamos que tudo possa (de alguma
forma) ser feito sem ela. Admita que sem um longo preparo do nosso
público (o que nunca vamos conseguir fazer!), não há espaço, e nem
necessidade, de compartilhar a menor parte daquilo com o que lidamos no
dia a dia (para aqueles que teologam). Para melhor servir basta-nos a fé, o
dom e a boa vontade.

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Vamos falar de Teologia 17

Então, por que teologar se parece que já não nos resta muito apoio
para isto? Há muitos motivos sim e elencaremos a seguir alguns deles.
A teologia nos tira do estado pueril e infantil, nos tira da inocência,
ainda que ela seja, em certo sentido, um simples ouvir falar porque trata de
coisas grandiosas demais para mente humana. Ela agora é matéria de sala
de aula acompanhada pelos professores certos, com bons livros nas mãos e
que nos dá alguma solidez na busca da fonte das razões da nossa fé e dos
porquês da vida. Além disto, pode nos ajudar e nos informar a respeito do
estado religioso contemporâneo, algo que também nos conecta com a
realidade da igreja, já que muitas das questões nascem do dia a dia da vida
da igreja e não dos gabinetes teológicos. Este contraste é, às vezes, parecido
com aquela fase da vida em que muitos ouviram a história (distorcida, falsa
e infantilizada), sobre como viemos ao mundo. Em época da vida que ainda
não podíamos (ou julgavam que não podíamos) saber exatamente como foi
que viemos ao mundo dados os detalhes íntimos e sórdidos da nossa
concepção. Alguns ouviram históricas sobre bebês trazidos por cegonhas.
Talvez ainda haja gente que pense que Deus, de alguma forma, jogou um
livro preto já pronto do céu que alguém achou. Ou ainda muitos que
pensam que a Bíblia, por exemplo, é o resultado de um ditado divino. Há
ainda aqueles que fazem uma simples conta ao somar os anos dos
personagens da Bíblia para chegar à suposta conclusão da idade exata da
Terra. Há quem creia no rosto de Cristo conforme apresentado nas
propagandas de TV. Um rosto com perfil europeu totalmente incompatível
com o perfil de um judeu do primeiro século que, com certeza, tinha pele
mais escura e cabelo mais crespo. Isto para falar das coisas mais simples.
Há os que afirmam que o ministério de Jesus durou apenas três anos e que
ele foi crucificado aos 33 anos sem conhecer a forma inocente com que se
faz essa conta, contando o número de Páscoas do Evangelho de João. Já vi
quem chorasse ao ouvir que Cristo nasceu entre 7 e 5a.C, ou seja, antes do
que costumas conceber porque há um erro no calendário Gregoriano, e que
chorou também ao descobrir que a verdadeira data do Natal não é

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Vamos falar de Teologia 18

Dezembro. Sem contar que muitos dos nossos pretensos heróis eclesiásticos
são muitas vezes desmascarados quando vistos de mais perto por olhares
acurados pela Teologia.
A Teologia nos ajuda a ver de onde viemos, ou como chegamos aqui,
e para onde estamos indo. Algo talvez muito pretencioso. O meu
encantamento com a história e a Teologia se deu exatamente por sua falta
de encanto. Em outras palavras, quanta sujeira e quantas coisas mal
contadas há no passado e do passado. O ser humano é ser humano sempre e
sempre, ou seja, não nega suas idiossincrasias. As ideias mal desenvolvidas
ou mal interpretadas do passado ainda fazem eco hoje. Os bons exemplos
do passado, ainda que poucos, são referência do que é possível e não é
possível fazer, mas também me tiram o peso de querer mudar ou
transformar o que não é possível ser mudado. Há um lastro enorme de
personagens que moldaram e mudaram os rumos da historia por suas ideias
e por suas vidas. Seu legado esta aí e ecoa na minha geração e na minha
vida. Cheguei num mundo pronto, peguei uma locomotiva desenfreada em
movimento. Não preciso reinventar a roda, mas saber como ela gira e
para onde vai.
A teologia nos dá os alicerces para defender nossa fé e para nos
fazer pensar. Certo professor nos disse: ¨Perdoem-me, me tornei uma
máquina de pensar!¨. Foi um pouco assustador ouvir aquilo pela primeira
vez e ainda recuso a me ver como uma máquina seja para o que for. No
entanto, a ideia parece bastante razoável: aprender a pensar. Não tenho
condições aqui de relacionar quais são os parâmetros para uma boa
conclusão a respeito de um assunto qualquer que seja, mas basta agora
saber que na Teologia, o apanhado dos temas, as reflexões às quais somos
submetidos em todo o tempo nos dão, pelo seu constante exercício, a
capacidade de reflexão, a robustez e a consistência necessária para o bom
pensar.
Este exercício cria limites para nossas invencionices e maus hábitos.
Ainda há quem se ocupe com muitas novidades. Infelizmente, há por aí

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Vamos falar de Teologia 19

muito mais do mesmo. Talvez, com uma teologia bem fundamentada,


sejamos levados ao que é simples e trivial, como nosso famoso arroz com
feijão. Aliás, é disto que precisamos: simplicidade como arroz e feijão.
Nisto parece a ver alguma contradição no que disse até agora. O verdadeiro
saber teológico parece apontar para uma simplificação da vida e das
relações baseadas na verdade simples da Palavra de Deus. Em ver nas
antigas fórmulas as fórmulas que realmente funcionam, a ver nas velhas
ideias, a ideais que realmente valem a pena dar atenção. Refutar algo novo
apenas por ser novo é a falta de sabedoria, mas mesmo assim, nosso
paradigma de avaliação daquilo que é bom sempre será aquilo que já foi um
dia.
Espero ajudar um pouco. Não estou há muito tempo nesta estrada,
mas o suficiente para não querer sair dela tão cedo. Ela é fascinante, mas
tem seus limites. Abre novas portas e horizontes, fazendo enxergar o que já
passou um dia. Podia viver bem sem ela, mas resolvi que não seria assim.

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VOCAÇÃO TEOLÓGICA
Boa noite a todos,

Hoje faço aos alunos um convite para estudar teologia e ao


aprofundamento mostrando o quanto estas atitudes são importantes para o
Reino de Deus. Para isto vamos ler e aplicar conceitos extraídos de 1
Timóteo 4.13-16 e Judas 3, que dizem:
Persiste em ler, exortar e ensinar, até que eu vá. Não desprezes
o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a
imposição das mãos do presbitério. Medita estas coisas,
ocupa-te nelas, para que o teu aproveitamento seja manifesto a
todos. Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera
nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti
mesmo como aos que te ouvem.

Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência


acerca da comum salvação, tive por necessidade escrever-vos
e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos
santos.

Nestes breves momentos quero tratar de uma vocação que considero


importante e essencial para vida da igreja que é a vocação teológica.
Entendo que nem todos devem ser mestres e profundos conhecedores
da Teologia, mas não podemos negar a necessidade urgente e gritante de
que a boa Teologia e a boa Doutrina sejam disponibilizadas para nossas
ovelhas em nossas igrejas, que dirija o nosso dia a dia seja na EBD, cada

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Vamos falar de Teologia 21

vez mais rara e vazia, nas nossas reuniões de grupos pequenos, células, etc.
e, principalmente, nos nossos púlpitos.
Infelizmente, poucos parecem realmente convencidos do valor de
uma boa exposição bíblica e que, sem usar os jargões teológicos e sem a
necessidade de citar passagens em grego, hebraico ou até em latim,
consigam transmitir uma mensagem direta, que não deixe dúvidas, que
obrigue os ouvintes a se posicionar e que também seja uma resposta às suas
questões espirituais, emocionais e mais urgentes, fazendo os ouvintes
sempre tomar partido ao lado de Cristo e de sua Palavra. A boa teologia
acerta o coração e a mente, e faz o homem pensar, sentir e agir.
No entanto, não conheço ninguém que julgue ter alcançado tal feito
com precisão e alcance. Ouvimos histórias do passado de homens
poderosos em suas pregações, em seus ensinos, em suas virtudes, mas
quando nos aproximamos mais de suas histórias vemos que também
tiveram dificuldades, limitações e que nem sempre eram de fato tão
virtuosos quando vistos de perto. Nem sei por que muitos ainda se enganam
com pessoas, por mais virtuosos que tenham sido, já que só em Cristo
encontramos perfeição. Mesmo assim, ainda são pessoas que nos deixaram
um legado de persistência e de fé que somente a Palavra de Deus bem
pregada, bem ensinada e bem vivida pode sustentar para transformar a
igreja e o mundo.
A boa teologia não deveria se ocupar apenas na formação de mentes
excelentes, mas também em formar crentes vivos, ativos, quebrantados,
gente de oração e cheias de boas obras. A boa teologia não deveria se
ocupar em formar debatedores (apologeta), que hoje já temos aos montes,
mas formar se a base para a formação de bons servos. Uma boa teologia
assim formará melhores pastores, missionários, professores de EBD,
ministros de música. Enfim, pessoas mais pontoas para servir a Deus e à
igreja.

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Vamos falar de Teologia 22

Precisamos, no entanto, entender qual o motivo para buscarmos


profundidade e extensão de conhecimento bíblico e teológico. A igreja tem
necessidades e desafios, mas também tem uma natureza que exige que cada
crente viva em sua plenitude.
Primeiramente, como povo de Deus, a igreja precisa conhecer
plenamente Sua vontade e Sua Palavra, sem acréscimos e sem decréscimos.
Qualquer crente deveria ser capaz de responder os motivos das suas
esperanças, assim como o Apóstolo Pedro nos desafia (1Pe 3.15). Os
crentes deveriam ser capazes de entender e reconhecer um bom sermão e
compreender a importância daquilo que foi pregado para a sua vida, para a
igreja e as consequências eternas da Palavra de Deus. Richard Baxter usava
seus sermões como base para as suas visitas semanais nas casas de suas
ovelhas e como tema delas. Com isto ele doutrinava e disciplinava sua
igreja. O sermão ocupava não apenas uma parte importante do culto, mas
da vida da igreja durante toda semana. Ele queria se certificar de que cada
ovelha tinha entendido o que fora pregado no sermão do último final de
semana. De alguma forma, cada um de nós deve ensinar e ajudar a igreja a
ter contato diário com a Palavra de Deus e a se interessar por ela, sendo
capaz de identificar o que é bom e o que é ruim, o que é certo e o que é
errado, o que é de fato a Palavra de Deus.
Em segundo lugar, a igreja possui necessidades de toda natureza. As
pessoas precisam de conforto para suas aflições porque a vida não é feita só
de bençãos e vitórias, mas de duros golpes e perdas muitas vezes
irreparáveis. Outros precisam de direção segura para tomada de decisões e
precisam aprender a ouvir e compreender a voz de Deus em cada situação
da vida. Isto nos faz lembra Eli ensinando Samuel ainda no tempo dos
Juízes de Israel. Ele ensinou Samuel a entender que era a voz do Senhor e
se preparar para ouvi-la (1Sm 3.1-18). Outros, ao contrário, precisam de
repreensão porque pecam ou porque tem o coração endurecido precisando
de arrependimento para mudança de suas práticas. Há também aqueles que
demandam crescimento porque querem aprender, porque tem sede de

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Vamos falar de Teologia 23

conhecimento e usarão este conhecimento para a edificação pessoal, mas


principalmente da igreja. A teologia, neste sentido, é uma ferramenta útil
para cavar a Palavra de Deus, para nos levar aos fatos do passado e nos
ajudar a encontrar outros irmãos que no passado viveram desafios
parecidos com os nossos. A igreja precisa aprender a viver e aplicar a
Palavra de Deus com prazer e coragem.
Não estamos isolados do mundo, pelo contrário, estamos nele para
transformá-lo. O mundo tem uma agenda própria. Esta agenda inclui o
debate de gênero, a limpeza da política, a luta das religiões pelo espaço
público e de poder, o desafio do aumento das doenças mentais e
psicológicas, entre tantos outros desafios. Internamente a igreja luta por
pureza, por crescimento real, contra as heresias do liberalismo teológico
que insiste em sobreviver, das doutrinas da cura e da prosperidade que já
dominaram muitos de nossos cultos. Não basta dizer que tudo isto está
errado, não basta murmurar e se queixar que vivemos em um mundo mal.
São necessárias vozes que ataquem a raiz do problema e apontem soluções
viáveis para um mundo em constante transformação e degradação. E, mais
uma vez, a Teologia deve exercer sua função, que nada tem de fria ou
irrelevante. Neste tesouro onde muitos já se enriqueceram espiritualmente
também encontramos as respostas e as soluções para a crise de identidade
que vivemos.
Convido todos vocês a se emprenharem. A estudarem. A não
quererem apenas um diploma. Alguns de vocês serão pastores, outros
estarão liderando suas igrejas, outros cuidando da música, outros servindo
onde forem colocados. Mas todos devem saber da grandeza que é a igreja
de Deus e seu reino e reconhecerem as forças conflitantes, os desafios e a
necessidade de que a igreja seja alimentada com alimento verdadeiro para
que seja forte e cresça espiritualmente e numericamente.
De algum ponto temos que começar. Muitos resistirão. Haverá
descontentamento e estranheza, mas a perseverança que foi ensinada aos
santos não foi ensinada em vão. Portanto, algumas dicas práticas:

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Vamos falar de Teologia 24

Prestem atenção às aulas e sempre preguntem o que não entenderam


Algo do qual poucos alunos se dão conta e de que aquele tempo que
passarão em sala de aula acabará um dia. Ainda que muitos passem quatro
anos sentados ouvindo, aprendendo, fazendo os trabalhos que são
propostos, aquele tempo acabará um dia. Muitos professores estão ali há
muitos anos e permanecerão ainda por há muitos anos. Há muita
experiência acumulada, há muitas histórias vividas para serem contadas.
Mais do que o material didático apresentado (slides, pdfs, apostilas, livros,
etc.) o professor transmite experiência e, invariavelmente, o conteúdo das
aulas excede o que é proposto em uma simples ementa. Apesar do exagero,
jamais me esqueço das palavras de um professor ao final de um curso: de
tudo que vimos o que vale de fato é a amizade que fizemos!
Aproveitem o pouco tempo de aula para o que é relevante
Tenha sempre o bom senso de não atrapalhar as aulas perguntando o
que não é próprio daquela matéria. Os professores sempre tem um
programa e vão para as aulas com uma meta de ensino e conteúdo para
cada dia. Alunos muito afoitos e com curiosidade fora de controle podem
atrapalhar o professor com perguntas e comentários impróprios. Alguns
professores limitam a participação dos alunos enquanto outros buscam
maior participação. Tenha bom senso para os dois casos e saiba deixe que
professor decida o que é importante para cada aula. Ele é uma autoridade
em sala de aula.
Dê um tempo para digerir o que está aprendendo para depois aplicar
Uma boa aula contém uma boa dose de novidades. Professores mais
experientes sabem dosar as novidades para manter alunos cativos e atentos.
Criar alguns choques pode ser sempre uma estratégia boa para a didática e a
manutenção da atenção dos alunos em sala de aula. Não conheço ninguém
que tenha feito algum curso do qual já dominava todo o conteúdo, sempre
há novidades. Mas sempre aguarde um tempo para usar as novidades
aprendidas. Deixe-as maturar em sua mente e em sua experiência. Não

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Vamos falar de Teologia 25

sejam verborrágicos em suas igrejas, mas aprendam a serem ainda mais


humildes e a servirem a todos. É este o propósito final do que se aprende
em um seminário.
Aceitem os desafios que vierem e os cumpram com maestria e com
excelência, mas sem orgulho no coração, sejam esforçados
Cada vez mais nos deparamos com uma realidade triste: os alunos
querem fazer menos. Há quem se forme sem ter lido um livro completo
sequer das inúmeras referências bibliográficas apresentadas ao longo de um
curso. Há alunos que negociem ferozmente com professores para que não
apliquem provas e trabalhos. A lei do esforço mínimo ainda prevalece na
apresentação das tarefas propostas. Faça o caminho contrário. Seja
caprichoso e faça o melhor que puder em todas as matérias. Você será o
grande beneficiário destas atitudes.
Não fuja e não trave diante das dificuldades, reflita, peça ajuda, dê
tempo a si mesmo para compreender
Muitos alunos ignoram que estão fazendo um curso que os desafiará
em muitos sentidos. O desafio faz parte da formação de qualquer pessoa.
No entanto, há muitos que ainda escolhem caminhar sozinhos sem pedir
ajuda e orientação. Não seja assim. Procure ajuda sempre que precisar.
Sempre há pessoas (colegas alunos e professores) dispostas a ajudar.
Leiam muito, ouçam muito e obedeçam a Deus e as seus líderes ainda
mais.
Certa vez ouvi que um aluno de Filosofia deveria ler 80 livros por
ano para manter-se mentalmente ativo e atualizado. E um aluno de
Teologia? Foi o meu questionamento. Acredito que não deva ser nada
inferior a isto. Mesmo lendo apenas em português, você tem material de
qualidade e profundidade para uma boa formação em vários níveis
diferentes. Seja diligente procurando referências com professores, colegas,
consultando editoras, livreiros e pessoas que se dedicam à leitura. Além de

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Vamos falar de Teologia 26

te informar, o conteúdo e a forma com os assuntos são tratados em diversos


livros, o ajudarão a estabelecer uma forma de pensar.
Temos sim a necessidade de ser guiados e orientados por alguém.
Este conselho é muito importante. Procure alguém para conversar sobre o
que está aprendendo para ver se está no caminho certo.
No mais, o Senhor estará conosco e nos abençoará.

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Vamos falar de Teologia 27

UMA DISTINÇÃO IMPORTANTE DAS


TEOLOGIAS
O propósito deste pequeno artigo é fazer uma distinção prática e
metodológica das diversas formas de se fazer teologia. Ainda sim, julgamos
que a lista apresentada apenas introdutória. Ou seja, é uma lista que merece
atenção e considerações e, quem sabe, correções, além de carecer de
ampliações. Nesta lista não vamos nomear as muitas teologias especificas
do nosso tempo: teologia negra, teologia feminina, teologia inclusiva, entre
outras. Compreendemos que estas últimas sejam variações ou até distorções
das cinco teologias que citaremos.
No curso introdutório de teologia, ou mesmo nas primeiras
considerações de um curso de Teologia Sistemática, muitos assuntos
preliminares devem ser levantados e debatidos. Entre tantos assuntos, a
exposição dos diversos meios de chegar a uma teologia ou obter uma
teologia. Aqui alistamos cinco que julgamos as principais e mais
abrangentes, com que mães da outras teologias: a Teologia Exegética, a
Teologia Histórica, a Teologia Sistemática, a Teologia Bíblica e a Teologia
prática.
Mesmo antes de procurar considerar cada uma delas, ainda que em
linhas gerais, importa que façamos algumas considerações que julgamos
importantes.
Primeiramente, estas teologias não são excludentes e nem mesmo se
sobrepõe uma às outras em importância. Ou seja, qualquer estudante de
teologia deve levar em consideração cada uma delas em seus estudos.
Em segundo lugar, é que mesmo que cada uma delas possa ser
estudada separadamente, ainda assim cada uma delas terá ligação direta e
indireta com as outras sendo, assim, mutuamente necessárias ao
conhecimento teológico completo. A desconsideração desta ideia leva, sem

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Vamos falar de Teologia 28

dúvidas, a desvios de conhecimento e de interpretação. Neste artigo não nos


ateremos a estes correlacionamentos entre tais teologias, mas o bom
conhecimento de cada uma delas pode levar a afinamentos e refinamentos
na compreensão delas entre si.
Em terceiro lugar, visamos sempre chegar, por meio das teologias, a
uma teologia prática, ou seja, aquela que sirva à igreja e ao mundo. Neste
sentido, ainda que temamos afirmar que cada uma delas se apresenta em
uma ordem desejável de estudos, todas formam, a seu tempo, subsídios
necessários a outra. É, por exemplo, temerário que consideremos a
Teologia Sistemática antes de uma boa Teologia Exegética e mesmo de
uma boa Teologia Histórica. Para sistematizar é necessário conhecer bem o
caminho do conhecimento e da doutrina, além de algum conhecimento da
das línguas originais e da cultura bíblica.
Em quarto lugar, ainda que seja difícil aos alunos iniciantes em
teologia ter tal percepção, outras tantas matérias e áreas reflexivas e
práticas são subsidiárias da Teologia como um todo. Ou seja, não podemos
negar ou desperdiçar outras áreas do saber acessoriamente à teologia.
Por fim, entenda-se o termo Teologia como o conjunto total dos
saberes teológicos, mas também, e esta não está compreendida neste artigo,
como a doutrina de Deus.
Passemos às nossas breves considerações.
A Teologia Exegética é o conjunto da análise do nosso principal
documento escrito, que é a Bíblia. O estudo das línguas originais, o estudo
do contexto literário e histórico do texto bíblico e o uso correto das
ferramentas hermenêuticas, que hoje são muitas, são os fundamentos a
Teologia Exegética. Ela é, sem dúvida, um dos exercícios constantes e
necessários ao dia a dia da igreja e do pastor que querem levar a Revelação
a sério. Desta forma, gramáticas hebraicas e gregas, léxicos dos mesmos
idiomas, ferramentas de leitura e tradução, sejam elas físicas ou digitais, a
compreensão dos termos em seus contextos históricos devidos (seu campo

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Vamos falar de Teologia 29

semântico), se constituem em uma parte importante da Teologia Exegética.


Hoje em dia não é necessário ser um expert nas línguas originais da Bíblia,
mas podemos contar e estudar vasto material produzido pelos especialistas
que nos ajudam na compreensão e aprofundamento da Palavra de Deus. Há
livros em diversas editoras e uma multiplicidade de sites e blogs com
material pronto e de fácil acesso. O estudo da Hermenêutica (interpretação)
e da exegese (a compreensão minuciosa de palavras e textos) é parte
importante deste processo. Há muitos livros que ensinam os princípios da
hermenêutica e da exegese, assim como há muitos comentários prontos de
livros inteiros da Bíblia ou de pequenas porções deles. Devemos consultá-
los. Fazem parte da Teologia Exegética: Hebraico, Grego, Exegese,
Hermenêutica, Panoramas do Antigo e do Novo Testamento e suas
correlatas.
A Teologia Histórica, por sua vez, é o conjunto das considerações
histórico-sociais que deram origem aos pensamentos e pensadores
teológicos em seu tempo, além dos valores supraculturais extraídos destas
mesmas considerações. Ou seja, o conjunto de valores teológicos que
atravessaram o tempo e constituíram o Dogma e a Doutrina. Além disto, a
Teologia História é a descrição da própria vida e trajetória da igreja em
todas as suas lutas e desafios no cumprimento das ordens do Senhor.
Dentro do estudo da Teologia Histórica caberá estudar, também, o conjunto
das ideias que abandonaram a verdade bíblica, estas que costumamos
chamar de heresias. Pensando como igreja cristã, temos como fundamentos
da Teologia História o conjunto da obra do Novo Testamento, com suas
considerações em seu tempo, toda a reflexão da era patrística, o
Escolasticismo, a Reforma Protestante, os Movimentos Liberais e
Fundamentalistas, as diversas teologias do século XX e as teologias
contemporâneas. Incluímos, sem dúvida alguma nesta porção, a leitura
histórica e doutrinária da vida da Igreja, que inclui seus credos, concílios,
as divisões e cismas da igreja e seus agrupamentos, reagrupamentos e
reinvenções. A História da Igreja, A História do Dogma ou da Doutrina, a

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Vamos falar de Teologia 30

Psicologia da Religião, a Sociologia da Religião, ou seja, a Ciência da


Religião são parte integrante da Teologia Histórica.
A Teologia Sistemática é o conjunto da soma da Teologia Exegética
e da Teologia Histórica, obtendo os sistemas dentro dos principais temas da
Bíblia, que podem variar em quantidade de temas e assuntos dos mais
diversos autores. O propósito maior, ou final, da Teologia Sistemática é a
formação e a compreensão das doutrinas que diferenciam aqueles que a
estudam das demais doutrinas, religiões e vertentes teológicas dentro e fora
do cristianismo. Além de distintivas, formam o conjunto mínimo das
crenças de um grupo através das quais as distorções são definidas, para as
devidas correções ou mesmo sanções. A tendência de toda Teologia
Sistemática é ser exaustiva, ou seja, abordar um tema completamente. A
Teologia Sistemática é matéria de grande consideração em seminários
conservadores tendo uma grande quantidade de semestres à disposição. Os
grandes teólogos da igreja cristã escreveram Teologias Sistemáticas. Nem
todas tem este nome, mas devem ser consideradas como tal. Calvino
escreveu as Institutas. Apesar do paralelo com o catolicismo afugentar os
estudiosos evangélicos. Tomás de Aquino escreveu a Suma Teológica. Os
antigos livros de Dogmática, termo que muitos evitam, são Teologias
Sistemáticas e devem ser levadas em consideração.
A Teologia Bíblica leva em consideração o conjunto isolado de
temas e ideias por seção canônica (Lei, Profetas, Escritos, Evangelhos,
etc.), por autor (Moisés, Paulo, João, etc), por livro bíblico ou mesmo por
divisões literárias menores dentro do mesmo escopo literário maior. Além
disto, analisa os temas de acordo com sua própria evolução (interpretação
sincrônica). A Teologia Bíblica não leva em consideração apenas a ordem
canônica dos livros da Bíblia, mas o próprio tempo de escrita de cada texto
e da vida de cada autor e seu locus. É neste sentido, por exemplo, que o
conceito de Revelação Progressiva deve ser levado em consideração. Cabe
aqui, para melhor explicar, exemplificar. As cartas de Paulo aos Romanos e
aos Gálatas pertencem ao corpus paulino. Ambas possuem a temática da

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Vamos falar de Teologia 31

justificação pela fé, em Romanos o capítulo 4 e em Gálatas o capítulo 3.


Gálatas é escrita a uma província gentia maior entre 55-57 d.C. A carta aos
Romanos não foi escrita em período muito diferente deste. Estaria Paulo
refletindo muito sobre este assunto? Qual das duas apresenta o conceito de
justificação pela fé mais maduro ou mais robusto? Dentro da função e
propósito de cada uma das cartas, como o assunto se apresenta? Deste
modo, não estudamos na Teologia Bíblia o tema da justificação pela fé em
todo o Cânon, mas dentro de uma seção menor e especifica comparando a
evolução do tema entre outras minúcias. Todas as ferramentas anteriores
são necessárias à uma boa Teologia Bíblica e nos revelam o momento
histórico-teológico do texto, dos autores e da revelação em geral. Teologia
Bíblica do Antigo Testamento, Teologia Bíblica do Novo Testamento,
Teologia do Pentateuco, Teologia dos Profetas, etc., são parte integrante da
Teologia Bíblica.
Finamente, temos a Teologia Prática, para a qual, no nosso
entendimento, todas vivem e subsistem. A Teologia Prática compreende a
homilética (a arte de pregar), o aconselhamento bíblico (o dia a dia de
orientação prática da vida da igreja e dos crentes especificamente), a
missiologia (compreendida com a missão da igreja local e das missões
específicas), orienta a disciplina da igreja (e não entenda apenas como
sanção ou punição, mas disciplina compreende em primeiro lugar o modus
operandi da igreja), etc. Portanto, a Teologia Prática é o conjunto das
disciplinas que a partir das teologias anteriores, tornam-se verdade no dia a
dia e faz com que a igreja siga o seu caminho de modo seguro.
Não sabemos se tais definições são realmente satisfatórias, mas
suspeitamos que seja um caminho interessante para estruturar um curso
inteiro de Teologia. Ou seja, tais disciplinas definiriam o conjunto de
matérias importantes para um curso de Teologia e como devem aparecer na
sequência, seja para maior proveito das disciplinas, seja para melhor
compreensão da correlação entre todas. Deus nos abençoe e que possamos
continuar aprendendo. Soli Deo Gloria!

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Vamos falar de Teologia 32

COMO ESTUDAR?
Não vou aqui dar uma exposição do processo cognitivo, ou seja, de
como se dá o aprendizado, porque não sou capaz. Simplesmente por isto.
Vou dar algumas ideias que são uteis no processo de aprendizagem
pensando no conhecimento teológico.
Estudar é um processo complexo que não tem como objetivo apenas
a aquisição de conhecimento, mas de criar ferramentas que serão usadas na
reflexão e na vida diária. O conhecimento é acumulativo e nada do que já
foi visto é de forma alguma dispensável. É como uma grande bagagem que
carregamos na mente e coração, e é necessário guardar tudo o que foi
produzido, anotado, pensado e refletido seja na forma física ou no formato
digital. Guarde tudo!
O conhecimento é um patrimônio por si mesmo. A capacidade e a
disposição de compartilhá-lo uma grande benção! Aplicá-lo é sabedoria!
Acredito que estudar é a somatória de várias ações e habilidades.
Ler, anotar, fazer resumos, anotar os insights, participar de forma atenta a
aulas e cursos, meditar naquilo que foi aprendido, comparar vários autores
e conceitos, participar de grupos de debate e reflexão (que podem acontecer
nas aulas e cursos em grupos), revisar conteúdos (incluindo a releitura de
livros e artigos), acessar conteúdo digital (Internet) sobre assuntos
importantes. Além disto, é necessário ser perseverante, vibrante e
humildade diante dos estudos. Estudar também tem seus custos, quem
estuda também se cansa e machuca.
Quanto aos assuntos que nos interessam, podemos ser considerados
especialistas ou generalistas. O especialista tem um objeto de estudo
especifico e leva em consideração as disciplinas e temas que orbitam o seu
assunto principal. O generalista tem boa compreensão de todos os temas.
Há um debate se os estudiosos são generalistas ou especialistas, mas
deixamos este debate para os leitores interessados.

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Vamos falar de Teologia 33

Não é possível ler tudo que se quer porque o número de livros é


absurdamente grande. Há sempre muitos novos livros surgindo no mercado
editorial a cada ano, e devemos aprender a selecionar nossas leituras. Nosso
principal livro de leitura e reflexão é a Bíblia e deve haver um esforço para
lê-la pelo menos uma vez a cada ano. Os comentários são importantes, mas
é importante dar atenção aos clássicos que geraram os comentários.
Quanto às leituras, por exemplo, prefiro ler os livros de Sören
Kierkegaard a comentários de seus livros, ainda que possa vir a ler os
comentários noutro momento para maior clareza do conteúdo. Há grande
vantagem nisto. Acho que uma meta diária de tempo de leitura ou de
número de páginas, dentro das condições de nossas intensas rotinas, seja
algo necessário. Devemos pesquisar muito antes de comprar um livro ou
mesmo de assumir uma pensando na utilidade e necessidade desta leitura
para nossos estudos. Afirmando que, como útil, considero também o
entretenimento, ou seja, ler simplesmente porque é um assunto ou autor que
se gosta. Prazer também é componente importante deste processo.
Por uma limitação do cérebro, e até da condição intelectual ou do
interesse de cada um, é impossível guardar tudo que lemos e estudamos.
Logo, anotar e fazer resumos breves do que lemos é de grande valia, tanto
para fixação do conteúdo quanto para posterior uso e consulta. Há técnicas
para fichamento de leitura que são muito interessantes e úteis. Quando
estudamos música, e um instrumento em particular, repetimos inúmeras
vezes o que aprendemos a tocar para automatizar o processo, melhorar a
execução e memorizar o conteúdo. Com os estudos acontece a mesma
coisa. Em qualquer curso, principalmente em cursos superiores, é comum
que professores nos solicitem resumos, resenhas, monografias, dissertações
e até mesmo teses. Não estamos nos referindo a questões mais técnicas que
envolvem trabalhos científicos, mas ao registro e às anotações daquelas
questões mais importantes, que nos chamam a atenção ou que
consideramos de grande valia. Este recurso cria uma base de dados segura
para uso em trabalhos científicos, escritos e textos posteriores. Este registro

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Vamos falar de Teologia 34

de anotações deve ser guardado de forma que possam ser acessados e


encontrados facilmente mesmo depois de muito tempo. O conhecimento é
acumulativo. Hoje temos computadores, HD externos, vários recursos de
sites em nuvem, blogs, sites onde podemos registrar e guardar nossas
anotações.
Acredito, e a experiência pessoal confirma tal crença, que durante o
dia temos ideias muito boas e que nos vêm à mente praticamente prontas.
As chamo de insights. Uma luz que vem como que do nada. Acredito que
tais ideias vêm sem nosso consentimento ou desejo, ou seja, são
espontâneas, mas não sem fundamento, porque elas são produto daquilo
que estamos estudando ou vivendo. O que fazer? Correr e anotar. Com
certeza não lembraremos mais do conteúdo e das ideias que não forem
anotadas dentro de pouquíssimos minutos. Em algum sentido, estudar é um
processo de saturação, ou seja, provocamos certo transbordamento de ideias
e informações que vão, com aproveitamento da metáfora, gerar novos
pequenos córregos e rios em nossas mentes. É sempre bom ter papel e
caneta próximos ou, como dispomos hoje, do bloco de notas do próprio
celular.
Participar de forma atenta a aulas e cursos ainda é um dos grandes
recursos que temos para aprender, mas não o único. Muitos frequentam
cursos e acreditam que o que vêm ali é suficiente, ou que o professor tenha
a obrigação de transmitir exaustivamente todo o conhecimento a respeito de
determinado assunto. Principalmente em cursos superiores, o papel do
professor é fomentar e dar as diretrizes gerais de cada assunto, cabendo
posteriormente ao aluno realizar pesquisas complementares. Nos cursos nos
são apresentadas, também, vastas bibliografias úteis ao domínio de um
determinado assunto. Bons professores mantém suas referências
bibliográficas sempre atualizadas.
Quando falamos de meditação sempre há alguém que torce o nariz
em desaprovação e desconfiança. Imaginam um oriental sentado imóvel
debaixo de uma árvore com os trajes supostamente adequados para aquilo.

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Vamos falar de Teologia 35

Vivendo em uma sociedade tão ativista em que só tem valor o movimento e


os excessos, não é difícil concluir porque é tão estranho alguém parado e
pensando como uma atividade importante, mas é. Meditação é reflexão,
mas não necessariamente algo estático. Já ouviu falar de brain storm, algo
como tempestade cerebral ou de ideias? Já pensou em reservar algum
momento logo após algum estudo ou leitura para reconstruir mentalmente
aquilo que leu, lembrando daquilo que vem a mente e desenvolvendo? Pois
é, isto também é meditação.
Minhas principais leituras são na área teológica e leio autores de
diversas tradições religiosas, entre as quais protestantes calvinistas e
arminianas, católicas e até mesmo de ateus e, inevitavelmente aprendemos
a fazer comparação entre vários autores e conceitos. Obviamente, temos
nossas preferências e pré-conceitos e é inevitável e até necessário que as
tenhamos.
Os livros específicos sobre Teologia Sistemática são importantes.
Cada uma deles começa de um modo diferente. Alguns justificam seu
ponto de partida, sua cosmovisão, enquanto outros não. Alguns começam
por Bibliologia e outros não, e assim por diante. Há aqueles que possuem
um ponto de vista apologético e tentam dar respostas atuais a um contexto
religioso e politico específicos no qual o livro foi escrito e, ainda sim
podem, guardados os devidos cuidados, ser suficientemente proveitosos se
usados fora do seu contexto cultural. Outros, por exemplo, procuraram
preencher o vácuo da Teologia Sistemática no Brasil no início do século,
mas permanecem relevantes ainda que, por questões óbvias, não abordem
questões contemporâneas. As comparações não param por ai. Dentro de
assuntos específicos há muitas diferenças a serem observadas. Alguns, por
exemplo, simplesmente adotam certos pontos de vista sem qualquer
justificativa. Outros discutem amplamente, mas não se posicionam,
enquanto outros, além da longa exposição, apresentam seu ponto de vista
específico.

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Vamos falar de Teologia 36

Quando participar de grupos de debate e reflexão, que podem


acontecer nas aulas e cursos, muito proveito pode ser tirado destes fóruns.
Além de ouvir e refletir ideias alheias, podemos testar nossas ideias e
desenvolvê-las. Infelizmente, nossa realidade é muito paradoxal porque na
era do politicamente correto, quando o debate e a pluralidade de ideias
deveria ser algo louvável e aceitável, é comum que o debate de ideias se
torne um conflito entre partes. A tolerância não é, definitivamente, uma
marca do nosso tempo, por mais que se fale ao contrário. Entre pessoas da
mesma denominação e, supostamente, de mesma cosmovisão, há
divergências. A ideia que temos para incentivar a participação em grupos
de discussão não é uma disputa de cabo de guerra, ou uma batalha, na qual
haverá um vencedor. Pelo contrário, a intenção é produzir frutos na vida do
outro por meio a reflexão e exposição livre de ideias.
A prática leva a perfeição? Talvez. Mas com certeza a repetição
sempre faz parte do aprendizado. Revisar conteúdos, incluindo a releitura
de livros e artigos é porção importante do como estudar. Acredito que tenha
sido Albert Einstein que disse que a cada novo conhecimento nossa mente
sofre uma alteração irreversível. Falamos no bom sentido. Crescimento
pessoal, aquisição de conhecimento, transformação de mente e atitudes,
renovação das forças e ideias. A revisão de um conteúdo é a oportunidade
para um novo olhar. Todo saber, toda profissão, todo esporte, enfim, toda
ação humana tem seus fundamentos. Tomemos como exemplo o futebol.
Durante toda a vida como esportista, o jogador de futebol deve treinar
sempre os mesmos fundamentos: passes, cobrança de lateral, cobrança de
escanteios, cabeceio, etc. O que não dizer dos goleiros então? Quando
revisamos conteúdos voltamos aos fundamentos, mas não só isto, olhamos
para os mesmos com mais perspicácia enquanto os internalizamos. Para
avançar é necessário que os passos já dados estejam muito firmes e
estabelecidos.
Nem todo o conhecimento está nos livros e nas aulas, mas podemos
obtê-lo acessando todo conteúdo digital sobre tais assuntos como vídeos,

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Vamos falar de Teologia 37

filmes, artigos em blogs, sites e pdf, etc. O que não dizer das palestras,
congressos, fóruns, feiras culturais, etc, hoje tão comuns apesar de nem
sempre serem tão acessíveis quanto a valor e distância. A vantagem de
acessar tais conteúdos é a atualização do saber e do conhecimento.
Podemos ter acesso ao que estão pensando em termos de novidades e de
reflexões atualizadas sobre temas antigos. Neste sentido a Internet é de fato
uma benção e uma grande ferramenta. Não é necessário aqui discorrer
sobre a importância dos cuidados com o conteúdo acessado e quanto a
inocência comum a muitos ao acreditar cegamente em tudo que se lê e vê.
Livros de domínio público já aparecem em formato de áudio-livro no
YouTube, ou em sites específicos, e podem ser muito úteis. É preciso ter
cuidado com o conteúdo protegido por direitos autorais, além do cuidado
quanto às regras estabelecidas pelas Leis de proteção aos direitos autorais
quanto à citação e uso destes materiais. Há regras, limites e alguns autores e
editoras podem exigir uma solicitação formal para o uso de seus livros,
artigos e documentos. Estas informações restritivas costumam constar nos
próprios documentos. Não leia apenas o conteúdo de um livro ou
documento digital. Leia também a ficha catalográfica, prefácios,
apresentações e introdução que podem fornecer informações valiosas
quanto ao documento, autor, editora e restrições quanto ao seu uso e
citação.
A perseverança é um aspecto importante da vida como um todo e
uma disciplina espiritual fundamental a se considerar em tudo o que se faz.
Não poderia ser diferente no que diz respeito aos estudos. O conhecimento
é o resultado de anos a fio de estudos e reflexões. Podemos comparar ao
exercício físico. É dura a experiência de quem não consegue ter
continuidade e frequência na prática de atividades físicas. Poucos
resultados, efeito sanfona no corpo daqueles que pretendem emagrecer,
lesões por causa do pouco tônus muscular, etc. É a prática constante e
ininterrupta de exercícios físicos que traz benefícios relativamente rápidos.
No entanto, tais benefícios, como o emagrecimento, se perdem rapidamente

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Vamos falar de Teologia 38

após poucos dias ou semanas de interrupção. Não é diferente com os


estudos. A falta de prática constante também traz seus prejuízos, dos quais
o maior é o esquecimento. A regularidade dos estudos é mais importante do
que poucos momentos com sobrecarga de leituras e escrita.
Você vibra quando aprende algo novo ou quando percebe que aquilo
que está estudando faz sentido? Você se alegra quando vê as coisas fazendo
sentido ou se encaixando? Pois é, estudar é uma alegria. Alegria da
descoberta, do crescimento. Entretanto, não podemos esquecer, contudo,
que estudar também cansa e machuca. Muitos já devem ter tido a
experiência de preparo extenuante para uma prova, para um exame, para o
vestibular ou para um concurso. O cansaço das vistas (ou dos olhos), o
cansaço mental, o cansaço das muitas horas sentado escrevendo, lendo,
refletindo, pesquisando e folheando livros, sugam nossas energias: ¨o muito
estudar é um enfado da carne¨.
Além dos custos físicos e de tempo, não podemos esquecer que para
estudar sempre há um custo financeiro envolvido também. A compra de
livros, apostilas, mensalidade de cursos, conexões de internet em casa e no
celular, têm seus valores a considerar. É bom buscar sabedoria para, pelos
meios legais, encontrar os melhores custos para tudo que se faz. Vale a
leitura de pdf gratuitos de obras de domínio público, vale a pena pegar
livros emprestados (apesar de todas as implicações negativas deste processo
– o cuidado redobrado, as barreiras que muitos impõem a empréstimos,
etc.), vale a pena comprar livros em sebos físicos ou digitais. De fato,
algumas famílias e algumas pessoas mais organizadas destinam uma
porcentagem mensal para a educação e materiais de estudo, o que inclui a
compra de livros. Ou seja, é um aspecto do como estudar a ser considerado
– os custos financeiros e formas de minorar estes custos.
O que vamos oferecer aos outros em função do conhecimento que
adquirimos? Seremos especialistas em um assunto ou generalistas?
Teremos um domínio muito grande de um assunto ou uma visão satisfatória
de um grupo maior de assuntos? Esta é mais uma questão que não vamos

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Vamos falar de Teologia 39

nos aprofundar, mas devemos analisar o grau de comprometimento com o


assunto de nosso interesse. Obviamente, um mero curioso tem certo grau de
comprometimento com o seu conhecimento. Um professor de determinada
matéria tem outro e outras exigências. Um profissional tem outros
interesses voltados ao seu conhecimento. Veja onde você se encontra.
Ainda encontro pessoas que me perguntam: para que ler tanto? Para
que estudar tanto? Você não faz outra coisa? Meu Deus, você fica o tempo
todo lendo? Como já disse, o conhecimento é um patrimônio por si só,
rende alegria, sabedoria, uma cosmovisão mais abrangente do mundo,
ajuda a resolver questões pessoais, faz a vida mais interessante, aprimora os
sentimentos, melhora as relações.
Como pastor tenho uma vida social muito intensa com cultos, visitas
e conversas com pessoas, além de praticar esportes e eventualmente passear
um pouco. Além disto, devemos levar em consideração que tudo aquilo que
fazemos frequentemente, aprendemos a fazer mais rápido e melhor, e isto
vale para a leitura e para os estudos também.
Não abordei todos os aspectos do assunto, mas há indicações e
conselhos gerais que considero importantes para os meus alunos.
Espero que o texto não o desanime, pelo contrário, que o leve aos
livros e ao conhecimento.

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Vamos falar de Teologia 40

SEGUNDA PARTE
PENSANDO TEOLOGICAMENTE

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Vamos falar de Teologia 41

SEGUIR OU NÃO A LEI?


Quem tem o Espirito Santo reconhece facilmente que a Lei é boa!
Esta é uma das questões que atormentam a igreja cristã há séculos.
Parece ter ganhando maior ênfase depois da Reforma Protestante, depois da
¨conversão¨ de Lutero e do (re) descobrimento da justificação pela fé. Este
(re) descobrimento da salvação pela graça e o grande conflito com as
indulgências e o pacto das obras (salvação pelas obras) recrudesceu o
debate e lançou muita fumaça sobre o assunto.
O que compartilhamos aqui é um breve insight quanto ao (aparente)
conflito entre a Lei e a Graça após a leitura do livro Somente Cristo –
legalismo, antinomianismo1 e a certeza do Evangelho, de Sinclair B.
Fergunson (2019), publicado Editora Vida Nova.
O legalismo, que trata da prevalência da lei sobre o comportamento,
e consequentemente da sua relação direta com a Graça de Deus (seus
favores, bençãos e salvação) parece contrastar com o antinomismo, ou seja,
a ideia (doutrina) que afirma que não precisamos mais da Lei sob nenhum
aspecto porque podemos (devemos) viver livremente. Apesar de o
legalismo apontar para um excesso de zelo com padrões, regras e
convenções, muitas vezes humanas, e o antinomismo aparentemente
descambar em licenciosidade e libertinagem, podemos compreender que
ambos são faces distintas da mesma moeda: a falta de conhecimento de
Deus, seja como um Pai Gracioso seja como Juiz Imparcial e Santo.
A questão que mais no toca, no entanto, diz respeito à lembrança e
aplicação de dois textos: uma profecia do AT e uma conversa de Jesus com
seus discípulos no NT.

1
Fica uma crítica quanto à tradução do termo antinomianismo. Já temo em português o
termo antinomismo que traduz a mesma palavra e ter precisão de significado. A palavra
antinomianismo é, inclusive, um trava língua (e trava leitura).

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Vamos falar de Teologia 42

Em Ezequiel 36.26-28 (ver também Jeremias 31.33 e Hebreus 8.10),


lemos o seguinte:
E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um
espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e
vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu
Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os
meus juízos, e os observeis. E habitareis na terra que eu dei a
vossos pais e vós sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus.

Ninguém negaria que esta promessa (profecia) diz respeito ao


período que o Messias, Jesus, nos daria sua palavra por meio de seu
Espírito e que este período corresponde ao período que vivemos. No
entanto, notemos bem: sua lei guardada no coração, por meio do seu
Espírito, gravada, marcada, presente e atuante.
A segunda referência, do NT, diz respeito à conversa de Jesus com
seus discípulos quanto aos fariseus, grupo reconhecidamente legalista,
fortemente moralista e, consequentemente, hipócrita, já que alguns padrões
são inatingíveis, mas eram exigidos pelos mesmos. Veja o que Jesus diz em
Mateus 5.18-20:
Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma
alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se
cumpra. Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda
que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado
menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes
mandamentos será chamado de grande no Reino dos Céus. Pois eu lhes
digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e
mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.
É o contexto do Sermão da Montanha. Há um complicador exegético
no texto, mas que podemos resolver facilmente. Quando Jesus se refere aos

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Vamos falar de Teologia 43

mandamentos que devem ser minuciosamente seguidos, ele está fazendo


referência aos mandamentos da Lei de Moisés ou ao (novos) mandamentos
descritos no próprio Sermão da Montanha e que seguem até o final do
capítulo 7 (e que podem apresentar uma pequena, mas significativa
variável)? Acredito que a resposta seja: a duas coisas.
Veja, por exemplo, a primeira referência de Jesus ao mandamento de
não matarás (Mt 5.21-22). Ele usa o mandamento (Ex 20.13 e Dt 5.17) e
amplia sua aplicação e a aprofunda: ¨Mas eu lhes digo que qualquer que se
irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer que
disser a seu irmão: „Racá‟, será levado ao tribunal. E qualquer que disser:
„Louco! ‟, corre o risco de ir para o fogo do inferno¨. Assim ele segue
aprofundando e aplicando de forma mais intensa os demais mandamentos,
ou seja, é esperado de seus discípulos que superem a Lei, mas que não
sejam meros legalistas como eram os fariseus e escribas. Basta ver as
acusações de Jesus em Mateus 23.
Geralmente, quem defende a ideia de que a Lei foi superada,
costuma aplicar e fazer referência a textos como Romanos 6.14: ¨Porque o
pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas
debaixo da graça¨. Esquecem, no entanto, que o contexto da passagem
iniciada em Romanos 5 e concluída em Romanos 8 e que a vitória sobre o
pecado, não vem pelo simples cumprimento da Lei, mas pela presença da
Graça em nós, pelo Espírito presente e vivente em nós, como diz em
Romanos 8.1-4:
Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo
Jesus, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou
da lei do pecado e da morte. Porque, aquilo que a lei fora incapaz de fazer
por estar enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu próprio Filho, à
semelhança do homem pecador, como oferta pelo pecado. E assim
condenou o pecado na carne, a fim de que as justas exigências da lei fossem
plenamente satisfeitas em nós, que não vivemos segundo a carne, mas
segundo o Espírito.

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Vamos falar de Teologia 44

Digno de nota, e muito importante para o que tratamos aqui, é o


trecho que diz: ¨a fim de que as justas exigências da lei fossem plenamente
satisfeitas em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o
Espírito¨. Ou seja, é necessário, mesmo em nós que temos o Espírito, que
as exigências da Lei estejam plenas em nós que, incapazes de cumprir a
Lei, somos justificados por Deus, nascemos novamente, recebemos o
Espírito Santo e podemos, inclusive, ¨exceder ¨ a fariseus e escribas em sua
justiça oriunda de intepretações humanas, desprovidas do Espírito, sem a
Graça e sem a presença do próprio Cristo em nós, ou seja, legalismo.
Enquanto podemos afirmar que o legalista é aquele que foca na Lei
desprovido da Graça, podemos afirmar que os antinomistas são aqueles que
focam apenas na Graça ignorando por completo a Lei. Ambos estão
fadados a enganos. Os primeiros à hipocrisia e distanciamento de Deus, ou
seja, uma religião fria, distante e vazia de frutos; os antinomistas produzem
uma forma de fé que é uma nuvem sem água, uma alegria e liberdade sem
fundamentos, uma vida desregrada.
No entanto, o problema da tensão entre a Lei e a Graça persiste, mas
já compreendemos que ambas coexistem e devem ser compreendidas.
Aquele que é legalista acredita que pode cumprir a Lei abrindo mão
da Graça de Deus. O antinomista é aquele que acha que pode viver uma
vida excelente (excedente) sem a necessidade do cumprimento da Lei. O
equilíbrio desta tensão parece a melhor solução.
A lei é o fundamento da vida de todo crente e o padrão de
condenação para todo que não crê. Além de regra, norma, estatuto,
mandamento, ela também funciona como uma regra de vida, ou seja, as
disposições necessárias para o bem viver, os fundamentos de uma vida
saudável em todos os aspectos. Por isto, muitos teólogos sabiamente
costumam pensar na lei como tendo uma tríplice aplicação: civil ou
judicial, religiosa ou cerimonial e moral. Por isto, não podemos, negar ou
negligenciar nenhum dos seus aspectos. Tal religiosidade está fadada a todo

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Vamos falar de Teologia 45

tipo de subjetivismo e loucura. É baseado na Lei que Deus tem julgado (e


julgará) nossas obras. Quem é antinomista deve pensar nisto.
Na contramão (aparente) disto estamos incapacitados pelo pecado de
sermos cumpridores da Lei, por isto em Cristo somos selados por seu
Espírito e justificados pela fé n´Ele. É um problema que os legalistas não
conseguem enxergar. Cristo, que é o cumpridor de toda a Lei e aquele que,
como vimos em Mateus 5, exige que os seus excedam a Lei e a
compreendam com profundidade ampliando sua aplicação. Sem os critérios
da lei não podemos saber nem mesmo por onde começar, mas a leitura
simples e rasa da Lei prejudica tanto quanto negá-la. Veja o caso do jovem
rico e tantos outros (Mt 19.16-26). Ele é enquadrado nos mandamentos e
por eles é rejeitado porque Jesus exige que ele venda tudo que tem (algo
não prescrito na Lei) e o siga. Estava à prova o seu amor a Deus
provado/atestado pelo seu amor pelo próximo (¨amar a Deus sobre todas
as coisas e ao próximo como a si mesmo¨).
Falta compreensão profunda, compromisso verdadeiro e amor a Deus
em ambas as visões: antinomistas e legalistas.
Com isto fica fácil entender porque Jesus fazia o que ¨não se podia
fazer¨ no sábado e, mais ainda, compreender sua afirmação de que o
homem não foi feito para o sábado, mas o sábado para o homem¨ (Mc
2.27). Fica fácil entender porque ele comia com pecadores e os abençoava.
Fica fácil entender porque estrangeiros se aproximavam dele com tanta fé.
Também fica compreensível entender Salmos como o 119 que louvam a
Lei de Deus de modo tão intenso.
Fica fácil medir a hipocrisia dos legalistas e a libertinagem e vazio
dos antinomistas.
Enfim, quem tem o Espirito Santo de Deus reconhece facilmente que
a Lei de Deus é boa. Aliás, muito boa!

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Vamos falar de Teologia 46

ESTUDAR ESCATOLOGIA É
IMPORTANTE?
Entre alguns grupos religiosos que tem a Bíblia como guia de fé e
prática é comum que se tenha uma interpretação de como se darão os
eventos do futuro, quanto à ordem dos fatos, a importância e relevância de
cada um dos fatos além de, obviamente, interpretações literais ou
simbólicas de determinados eventos. O Milênio é um exemple destes temas
que podem ter múltiplas interpretações.
Infelizmente, é comum também que muitos escolham por não definir
sua posição escatológica por achar que podem deixar em aberto uma
questão tão importante. Didaticamente, os livros e compêndios de Teologia
Sistemática analisam os eventos finais (a escatologia) em seus capítulos
finais e, esta pode ser a causa provável deste desinteresse ou desta
despreocupação. A posição escatológica influencia a interpretação bíblica,
na prática pastoral e nas ações missionárias tanto quanto é resultado das
reflexões sobre as temáticas que naturalmente as antecedem. Quando não
influenciam diretamente nos aspectos práticos, influenciam na interpretação
dos eventos.
Um pós-milenista é extremamente otimista quanto ao papel da igreja
em suas ações missionárias porque compreende que as ações da igreja
podem antecipar ou acelerar a volta de Cristo. Momentos de avanço da
igreja ou de mudanças efetuadas pela igreja foram importantes para que
esta visão se firmasse. Foi uma intepretação comum durante o período da
Reforma Protestante. Um período de muitas mudanças e grande euforia no
ambiente cristão. Para estes, o Reino Milenar corresponde ao período da
igreja iniciado no Pentecostes, ou na Assunção de Cristo, que culminará
com o sucesso da igreja por meio de suas ações missionárias e de
transformações sociais ao vencer o mal, coroada pelo retorno literal de
Cristo como resultado destas ações. Segundo esta visão, está na mão da

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Vamos falar de Teologia 47

igreja pregar e ver pessoas se convertendo e, é natural uma visão positiva


do poder humano e muito otimismo na transformação da vida das pessoas.
Um pré-milenista, em todas as suas variáveis, aguarda uma piora
sensível do mundo com o crescimento do mal. A igreja oprimida, mas
perseverante, deve manter-se fiel e esperar a intervenção operosa e decisiva
de Cristo para então, e somente então, governar com Cristo literalmente
sobre a Terra. Antes disto, há promessas de restauração completa de Israel,
por meio de uma história e ações divinas particularizadas. A igreja, nesta
compreensão, é um parêntese histórico para salvação dos gentios. Ao
fechar este parêntese, Deus retomaria a história com Israel. O retorno de
Cristo não é anterior a uma série de eventos cósmicos e terrenos muito
evidentes. O otimismo quanto ao papel da igreja é muito menor. A igreja é
muito mais aquele agente divino que guerreia contra o mundo do que
aquele agente que o transforma e vence. Há, necessariamente, certo
desinteresse com transformações sociais e há um profetismo que não
pretende acelerar a volta de Cristo, mas evidenciar os motivos que serão
sucedidos por um grande juízo divino. Na prática missionária e pastoral a
igreja funciona como uma arca e cada um deve se ater ao seu chamado
pessoal e buscar sua salvação.
Assim como no pós-milenismo, o amilenismo entende o milênio com
um período simbólico. Diferentemente do pré-milenismo que entende o
milênio como um período de presença real de Cristo sobre a Terra, o
amilenista julga que, no Pentecostes ou na Assunção de Cristo, o milênio
não-literal (simbólico) teve início. Sua volta é iminente e não precedida de
um sucesso sem igual da igreja. A compreensão do poder de Satanás é
muito mais limitada do que no pós-milenismo, porque Satanás estaria com
poder limitado pelo poder de Cristo e ação da igreja. Não há grande ênfase
no poder da igreja de transformar o mundo como fator importante e
desencadeador da segunda vinda, mas a igreja, como Reino presente de
Deus que já chegou, impõe sua vida e pensamento pelo contraste, pelo
testemunho. A visão do homem é igualmente negativa, mas há grande

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Vamos falar de Teologia 48

ênfase no poder da igreja e na ação presente do Espírito Santo


independentemente das ações humanas. Cristo volta misteriosamente e sem
indicativos. A qualquer momento ele pode vir.
As conclusões aqui são muito básicas e merecem expansão, mas
deve servir de base para avaliarmos se de fato não nos importa o
posicionamento escatológico quando tratamos de interpretação bíblica,
ações pastorais e missionárias.
As informações acima, por exemplo, nos ajudam a compreender o
papel da Igreja (a Eclesiologia) a partir de uma visão milenar definida.

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Vamos falar de Teologia 49

LEITURA CANÔNICA
É comum começarmos qualquer curso de Introdução à Bíblia, ou
mesmo de livros ou porções especificas da Bíblia, definindo conceitos
como Cânon e Canonicidade. Infelizmente, a definição e o uso destes
termos encerram nestas primeiras aulas e não são mais levados em
consideração de forma devida ao longo dos estudos e reflexões do texto
bíblico.
Quando falamos de Cânon nas aulas de Introdução Bíblica, sempre
argumentamos que o texto que temos em mãos atende a critérios da
inspiração plenária verbal, que são textos que foram aceitos pela tradição
judaica e pela tradição cristã, seja pelos apóstolos em primeiro lugar, ao
aceitarem mutuamente seus textos. Mais tarde também foram aceitos pela
igreja primitiva, pelos pais da Igreja e pelos concílios ecumênicos que ao
longo dos primeiros séculos do cristianismo reconheceram a autoridade dos
textos que ainda temos em mãos.
O que não nos damos conta é que além de apontar para a
confiabilidade do texto que temos em mãos, o conceito de Cânon aponta,
necessariamente, para a forma como lidamos com o texto bíblico, não
apenas nas questões devocionais, mas nas questões hermenêuticas e
exegéticas a partir de seu conteúdo e de sua estrutura, ou seja, a forma
como estão organizados e como foram originalmente produzidos.
O Cânon aponta para a unidade do texto bíblico. O Cânon só é
possível por causa desta unidade. Aqui não vamos entrar na longa
discussão sobre qual é o tema ou assunto que constrói todo o alicerce da
grande narrativa bíblica, mas nos ateremos a afirmar que há coerência e a
clara presença de elementos unificadores de todo o texto bíblico, no AT e
no NT, como entre ambos também2.

2
Para uma discussão introdutória do assunto da unidade do texto recomendamos a leitura do
livro A HISTÓRIA DA SALVAÇÃO: e suas implicações hermenêuticas do mesmo autor.

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Vamos falar de Teologia 50

O bom conhecimento bíblico implica em um bom conhecimento


canônico. A divisão do texto em capítulos e versículos em meados da Idade
Média impôs uma dificuldade quase intransponível para a maioria das
pessoas: a fragmentação do texto.
A leitura canônica é aquela que nos aponta que nenhuma porção do
texto, por menor que seja, pode ser levada em consideração isoladamente
do seu contexto mais imediato e do texto bíblico como um todo. Cada vez
mais devemos compreender o espectro maior do texto: compreender a parte
pelo todo. Ou seja, de modo prático, precisamos ler e entender passagens
cada vez maiores e mais completas. No mínimo devemos ser capazes de
definir a perícope literária imediata de cada texto e esta a luz do livro que
está inserida e, por fim, de todo o texto revelado.
A leitura canônica também nos impele a compreensão do texto em
seu contexto histórico, ou seja, de todas as implicações do que está escrito
para a comunidade originária e sua posterior compreensão para a
comunidade que lê: é o aspecto interpretativo conhecido como histórico-
gramatical. Ainda que naquele momento, o momento em que o texto é
escrito e recebido pela comunidade, esta mesma comunidade não tivesse a
visão completa da importância daquele momento especifico de sua história
para o todo da narrativa. Para muitos, sobretudo para os estudiosos do AT,
surge a questão sobre como os textos, os credos de Israel incluindo o
Shemá (Dt 6.4), por exemplo, foram centrais na compreensão do papel
histórico de Israel para o plano de redenção ao mesmo tempo em que
aquele povo viva aquela história e recitava (ou não) tais credos. O que
temos por certo é que tais credos são importantes e devem estar presentes
na nossa interpretação do texto como um todo hoje. Como exemplo,
devemos levar em consideração que boa parte dos profetas do AT e do NT
cita, ora organizadamente ora desorganizadamente, ora claramente e ora
dissimuladamente, o Decálogo (os Dez Mandamentos) que aparecem de
modo integral em Êxodo 20 e Deuteronômio 5 e que, ao fazer isto, todo o
decálogo era invocado imediatamente.

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Vamos falar de Teologia 51

A leitura com conhecimento canônico implica em conhecimento


teológico, ou seja, a Bíblia é um livro que nos fala sobre Deus. A longa
história de interpretação alegórica do texto bíblico e a contemporânea
leitura antropocêntrica do enredo bíblico, produtos das influências de
cosmovisões e de momentos históricos específicos, toldaram a verdadeira
intenção do texto bíblico: mostrar a vontade e os atos de Deus em ação.
Para isto, não julgamos que haja a necessidade de um conhecimento técnico
profundo e especializado, mas uma sincera atenção e esforço grandioso
para não escapar à percepção que claramente acompanha nossa
compreensão quando observamos com a alma os autores bíblicos. Ele é um
registro simples e direto dos atos de obediência e desobediência humanas
sempre à luz da clara vontade de Deus e de sua Lei, ou seja, uma relação
espiritual e real com o Deus das Escrituras. Eis um critério canônico
importante.
Ao levar em consideração os critérios humanos que reconhecem a
origem divina das Escrituras, somos tomados por uma forma mais intensa
de lidar com o texto bíblico. Se o reconhecimento da autoria mosaica da
Lei, da presença das penas de Davi e Salomão nos livros e salmos
atribuídos a estes, se a longa vida de Isaías ao lado dos reis de Judá, se a
apostolicidade de Evangelhos e das Cartas do NT, além do uso destes
mesmos livros e cartas pelas comunidades israelitas, judaicas e da igreja
primitiva, são critérios importantes para a atestação da veracidade do texto
que lemos, devemos dar mais alguns passos decorrentes destas afirmações
no que diz respeito ao mistério e à espiritualidade ali envolvida. Temos em
mãos, de forma organizada, um registro da vontade de Deus. Uma Lei clara
(o Pentateuco ou a Lei), um registro de suas ações no mundo em paralelo e
em resposta às ações humanas (os Profetas), sejam elas positivas (de
obediência) sejam elas negativas (de rebeldia), além do conteúdo que nos
remete a contemplação e à esperança de uma realidade nova onde haverá o
completo governo e domínio de Deus (Salmos e livros históricos). Quando
tratamos do NT vemos um registro claro da presença de Deus entre nós

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Vamos falar de Teologia 52

como um ser humano (os Evangelhos), o registro das ações do Outro


Consolador (Atos) e todo o desdobramento da Igreja Militante, Triunfante e
Universal (as Cartas e o Apocalipse).
Por fim, a forma como a Bíblia está organizada deve servir como
orientação para a nossa forma de lê-la. Aqui esbarramos em uma
dificuldade especial. Consideramos dois formatos canônicos específicos: o
oriental (hebraico) e ocidental. O Cânon Hebraico é o que consta da Bíblia
Hebraica, na versão da Septuaginta e aceito por Jesus e os apóstolos. Há 22
livros na Bíblia Hebraica, ainda que o conteúdo total seja exatamente igual
ao Cânon Ocidental. A divisão é Lei (Torah), Nevim (Profetas) e Ketuvim
(Históricos). Os profetas, por exemplo, são divididos em anteriores ao
Exílio e posteriores ao Exílio. Esta nuance do Exílio em relação aos
profetas praticamente desaparece na divisão Ocidental do Cânon
(Pentateuco, Históricos, Poéticos, Profetas Maiores e Menores). Ao
encerrar o Cânon Hebraico com os Livros de Esdras e Neemias (que
constam apenas com um livro), o AT da Bíblia Hebraica termina com ares
de esperança e restauração do povo de Deus. No Cânon Ocidental, que
encerra com Malaquias, que é de fato cronologicamente posterior a Esdras
e Neemias, temos uma história com tom negativo a respeito de um povo
que, ao retornar do Exílio, não foi realmente capaz de manter e restabelecer
sua religião.
Esta leitura cada vez mais integrada da Bíblia deve levar em
consideração não apenas os critérios canônicos, mas a organização do texto
bíblico também.

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Vamos falar de Teologia 53

NEM TUDO É PIADA


O texto nasceu da necessidade de ver como podem ser nocivas para a
igreja coisas que circulam nas redes sociais.
Circulou em diversos grupos de Whatsapp e Facebook nestes últimos
dias a seguinte piada:

Um pastor voltou pra sua igreja após ter concluído seu


doutorado na EST. Foi destinado para uma igreja bem simples.
Na sua apresentação ele diz empolgado:
- Prezados irmãos, estou vindo até vocês com hermenêutica,
dogmática, pneumatologia, exegese e metafísica...
No final do culto um velhinho se aproximou dele e disse:
- Fique tranquilo pastor, e tenha fé. Quando cheguei aqui tinha
reumatismo, diabetes, artrites e dor de cabeça, mas o Senhor
me curou. Ele também pode curá-lo de todas as suas
enfermidades!

Como disse, é uma piada. E tem sua graça sim. Mas, como se diz por
aí, toda piada tem seu fundo de verdade e aí está a minha preocupação.
Recebi esta mensagem em grupos da igreja, incluindo grupos de
professores, vi na timeline do Facebook e em grupo de pastores e de
estudantes de teologia. Sim, recebi esta mesma mensagem em várias
ocasiões e grupos diferentes. Em um grupo seleto de pastores vi a seguinte
critica: ¨E isto tem acontecido em nossos púlpitos também. Vigiemos!¨
A piada pode ser entendida de diversas formas. A primeira é que o
¨Doutor Recém-formado¨ não tem noção do que as pessoas mais simples
são ou não capazes de entender, e julga que o que sabe seja facilmente

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Vamos falar de Teologia 54

compreendido e valorizado pelos outros (um problema de inocência e


inadequação). A segunda é que para as pessoas simples estas coisas soam
estranhas e pouco importa se são assim mesmo ou não (um problema de
importância e relevância). Temo que o criador da piada esteja sugerindo
que ¨ hermenêutica, dogmática, pneumatologia, exegese e metafísica...¨,
não sejam relevantes de forma alguma para a igreja, ou mesmo que sejam
uma doença da qual os pastores e pregadores devam se curar. E aqui é que
nasce minha crítica e faz com que a piada já não soe tão engraçada.
Meus primeiros anos de ministério foram desenvolvidos em um
ambiente anti-intelectual (leia-se: gente simples). Estudar era quase um
crime e me mantive firme mesmo assim. Paguei um preço muito alto e ouvi
críticas sem fim. No entanto, os meus críticos mais ferrenhos ignoravam o
fato de que suas ideias eram o resultado de ¨hermenêutica, dogmática,
pneumatologia, exegese e metafísica...¨ de quinta categoria.
Eles teologavam e diziam que não estavam teologando. Sua
hermenêutica era a da experiência pura e simples e que podia, se fosse o
caso, contrariar o que a Bíblia dizia. Tinham um sistema de interpretação
(dogmática) baseado na compreensão isolada de textos e com reflexões sem
critério nenhum que ancorasse a compreensão como um todo. Não
conheciam a Bíblia em sua totalidade. O Espírito Santo para este gente é
uma força a nos servir e que controlamos com nossa loucura emocional. A
exegese era feita a partir de um português que não dominavam, chegando a
interpretar textos a partir de uma leitura equivocada do vernáculo. Sua
metafísica os levava para montes onde buscavam experiências extáticas a
partir do reluzir de folhas mortas. Era uma teologia. Ruim, mas era uma
teologia.
Talvez alguém possa dizer: pessoas simples não precisam de
¨hermenêutica, dogmática, pneumatologia, exegese e metafísica...¨.
Lamento informar, mas precisam sim e, o que é pior, exigem de seus
pastores e líderes que sejam habilidosos e profundos ao mesmo tempo em

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Vamos falar de Teologia 55

que são simples na exposição destes assuntos. Não há contradição nisto.


Pelo contrário. Mas onde está o problema então?
Talvez o erro do nosso amigo tenha sido o de jogar ao léu palavras
incompreensíveis gerando um retorno quase anedótico de um velhinho de
tantas doenças já curadas. Em nosso tempo o que mais carecemos é de
pessoas profundas, com conhecimento amplo e assertivas em suas palavras
e procedimento. Precisamos de pessoas que conheçam bem ¨hermenêutica,
dogmática, pneumatologia, exegese e metafísica...¨. E que também sejam
diligentes e pacientes para elevar o conhecimento de seu povo. Dizem que
o problema das pessoas que não gostam de política é o de serem
governadas por aqueles que gostam. O problema da igreja é bem parecido.
Talvez um tanto pior. O problema das pessoas que não gostam e não
querem saber de ¨hermenêutica, dogmática, pneumatologia, exegese e
metafísica...¨ é que serão lideradas por pessoas que também não gostam,
mas fazem ¨hermenêutica, dogmática, pneumatologia, exegese e
metafísica...¨ da pior qualidade.
O que levamos para o povo, como pastores, é o resultado final da
nossa ¨hermenêutica, dogmática, pneumatologia, exegese e metafísica...¨.
Não levamos para o púlpito o nosso hebraico, o nosso grego, o nosso vasto
conhecimento em história, nossa capacidade de sistematizar o nosso
conhecimento e nem mesmo a capacidade de dialogar com as mais variadas
cosmovisões.
O que se deve levar é uma palavra simples e direta, mas que em
nosso conhecimento é a resposta segura da parte de Deus que o nosso povo
precisa para a má hermenêutica, para a má dogmática, para a má
pneumatologia, para a má exegese, e para a má metafísica. Temo que
expressões assim escondam o desejo de que pastores não se preocupem em
adquirir conhecimento para dirigir o seu povo. Temo que palavras assim
traduzam o desejo de deixar o conhecimento solto, sem avaliação, matando
vidas e almas nos bancos de nossa igreja. Temo que expressões assim
sejam uma forma de eternizar a ignorância em nosso meio.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 56

Mas temo também por pastores que levam para o púlpito psicologia,
que levem para o púlpito psicanálise. Que levem palavras do hebraico para
o púlpito ou mesmo o grego. Temo pastores que filosofam e não pregam.
Mas não temo aqueles que são capazes de mostrar as falácias do
pensamento humano e mostrarem ao seu povo a superioridade de Cristo e
sua Palavra. Não temo a simplicidade alicerçada em conhecimento vasto e
profundo. Não temo aqueles pastores que querem ver suas ovelhas cada vez
mais sabidas e sábias. Não temo pastores que, através de um longo e
profundo trabalho, elevem o conhecimento de suas ovelhas a ponto das
mesmas não mais acharem que ¨hermenêutica, dogmática, pneumatologia,
exegese e metafísica...¨ correspondam a uma lista de doenças dos quais os
mesmos pastores devam se curar.
Entretanto, agora voltando a minha experiência de longos anos em
ambiente hostil ao conhecimento, fico feliz em informar que os frutos
vingaram. Alguns foram estudar para valer, incluindo a teologia entre estas
áreas. Formamos grupos de estudos bíblicos mais profundos na igreja às
segundas-feiras, incluindo grupos de estudos homiléticos. Como professor
de seminário teológico, tive a honra de ter pelo menos seis das minhas
ovelhas como alunos. Alguns se formaram e outros continuam estudando.
Há aqueles que lamentam não ter tido tempo ainda de se aprofundar em
teologia. Aliás, de se aprofundar em ¨hermenêutica, dogmática,
pneumatologia, exegese e metafísica...¨.
Concluo dizendo que a igreja é a noiva de Cristo. Cristo morreu por
ela. Ele tem dado homens segundo o Seu coração para liderar sua igreja.
Sua complexidade e grandeza exigem que homens sabidos e sábios a
dirijam. Homens que saibam transmitir com profundidade, mas também
com simplicidade. Homens que elevem a capacidade da igreja em todos os
sentidos e que a façam crescer.
E que Deus nos cure das verdadeiras doenças que maltratam sua
igreja, incluindo a aversão pelo saber.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 57

JOGANDO CONTRA
Não podemos perder o foco na Bíblia e no Cânon como expressão
escrita da Revelação, como algo superior e, por vezes, incompreensível. Há
um esforço generalizado para mostrar que nossa religiosidade e
compreensão da realidade são incompatíveis com a grandeza da verdade
que há em Cristo.
Isto parece verdade em gênero, número e grau, mas isto se faz para
justificar afirmações e atitudes incoerentes e muitas vezes na direção
contrária do bom senso e da verdade. Há em nosso tempo a compreensão
de que o que é verdadeiro e profundo é aquilo que tem cara de loucura e
insanidade. Para estes, quem parece normal, ou socialmente aceitável e sem
muitos enfeites, está dentro de uma caixinha social. Uma amarra social.
O surgimento de nomes relevantes na teologia brasileira, ainda que
nos faltem trabalhos realmente relevantes para a teologia de modo geral (o
que ainda temos é muita reprodução), o fato de estarmos rodeados com as
comemorações e reflexões dos quinhentos anos da Reforma Protestante, o
crescente interesse por uma teologia mais séria que faça contraponto ao
cansativo mercado gospel de futilidades, o crescimento do interesse do
brasileiro pela leitura, que parece oriunda da estabilidade econômica e,
ainda outros fatores oriundos da relação globalizada, tem feito chover
congressos, palestras e debates que, apoiados pelas redes socais e
facilidades de divulgação, fazem surgir novos deuses de um novo mercado
gospel: reformado, teológico, politizado, intelectualizado.
Este novo mercado não vai preencher o vazio e não vai trazer
respostas sérias se não se atualizar, se não se portar humildemente, se não
trouxer envolvimento, engajamento e seriedade para a igreja. Mercado que
tem pecado no fundamental: elevar a teologia a um status mais elevado e
não apenas como mais uma ferramenta (limitada) para a compreensão da
realidade. Uma teologia incapaz de lidar com os mistérios da revelação e

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 58

com as complexidades da vida e do mundo atual não é teologia. Assim


como não a é a Teologia que é meramente descritiva e normativa, mas
pouco propositiva. É apenas Dogmática e Sistemática ancorada no passado
distante, conversando com defuntos enquanto muitos morrem de fome.
No entanto, os limites da Teologia devem levá-la a maiores esforços.
Enquanto luta contra suas próprias fraquezas, deve avançar.
Mesmo que seja impossível conhecer a essência de Deus e falar dele
sem limitações e ressalvas, como quem cava (ou tenta cavar) uma pedra
usando uma colher de plástico, a tarefa primária da Teologia é falar de
Deus. Se não podemos falar de sua essência, seus atributos incomunicáveis,
podemos falar daquilo que ele manifestou de si por meio de sua criação. É
um motivo suficiente para negar qualquer teologia fria e sem alma: porque
é e há nela uma conexão como Criador. Mesmo que esta conexão seja um
deslumbramento temeroso diante daquilo que não podemos conhecer
plenamente.
Ao mesmo tempo em que a Teologia nos ajuda a encarar alguns
desafios e fazer descobertas, ela pode ser um limitador e criar dificuldades.
Quem lê as normas de trânsito, por exemplo, fica assustado com a
quantidade de regras e riscos que dirigir impõe. No entanto, não podemos
esquecer o prazer que há em dirigir, da utilidade e da liberdade que dirigir
pode trazer ao que o faz. As regras e normas não servem para impor
limites, mas para criar liberdade. As regras dizem o que não podemos fazer,
mas de forma alguma dizem o que podemos fazer. Libertam para ir além.
Se não há assombro, descobertas, alegria no fazer teológico, você está no
caminho errado.
O que vem primeiro, Bíblia ou Teologia? A pergunta pode soar
estranha, mas é necessário que se pergunte. A Bíblia é obviamente o
material primário e fundamental, mas podemos inverter a ordem: medir a
Bíblia pela nossa Teologia. A Bíblia impõe tantos desafios a nossa
Teologia que, às vezes, somos quase obrigados a abandonar nossas

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 59

inclinações teológicas para compreender o que o texto bíblico nos traz. Ou


nossa Teologia se ajusta à Bíblia ou estaremos sujeitos a toda sorte de
males que podem cercar aqueles que abraçam sistemas teológicos e não se
submetem a Deus. Um exemplo contemporâneo é a tensão entre os
arminianos e calvinistas, ignorando um amplo espectro de teses entre estes
extremos (com o molinismo no centro). Só é possível defender um ou outro
ponto de vista negando um ou outro texto bíblico ou fazendo malabarismos
intelectuais surpreendentes para lidar com tensões de difícil solução. Deus é
Soberano e o homem, ainda que em escala menor, goza de verdadeira
liberdade. Como já disse alguém, tais sistemas são como cobertores curtos
em noites frias, você deve escolher cobrir os pés ou a cabeça, nunca os
dois.
Por mais sinceros, verdadeiros, íntegros e imparciais que sejamos
nós nunca deixamos de ser um produto do nosso tempo e da nossa cultura.
Mesmo que o contrário fosse verdade, ainda estaríamos limitados por nossa
total incapacidade de lidar com coisas tão grandes. Ou seja, há certa
relatividade, parcialidade, incapacidade e limitação próprias à Teologia.
Além da humildade que deve nos ser pertinente, certo sentimento de dever
nunca cumprido deve tomar conta da mente e do coração de quem faz
Teologia. Sem humildade profunda não se faz Teologia de verdade.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 60

MAIS CÉREBROS NOS FRONTS


EVANGÉLICOS
Portanto irmãos, rogo pelas misericórdias de Deus que se
ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o
culto racional de vocês. Não se amoldem ao padrão deste
mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente,
para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa,
agradável e perfeita vontade de Deus. Pois pela graça que me
foi dada digo a todos vocês: ninguém tenha de si mesmo um
conceito mais elevado do que deve ter; mas, pelo contrário,
tenha um conceito equilibrado, de acordo com a medida da fé
que Deus lhe concedeu.
Romanos 12.1-3

Pois, embora vivamos como homens, não lutamos segundo os


padrões humanos. As armas com as quais lutamos não são
humanas; pelo contrário, são poderosas em Deus para destruir
fortalezas.
Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra
o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento,
para torná-lo obediente a Cristo.
2 Coríntios 10.3-5

Cinco questões parecem problemáticas na formação de uma


mentalidade e cosmovisão brasileira. A primeira é a baixa adesão ao
sacerdócio aliada à baixa qualidade dos candidatos. A segunda questão é
uma baixa qualificação teológica com bases na tradição, mas que dialogue
com a realidade presente. A terceira, ligada a anterior, é a necessidade que

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 61

temos de mentes independentes na produção teológica original e voltada


para a igreja (uma teologia orgânica de teólogos orgânicos). Outra é a
pressão mercantilista dor dinheiro e dos números (resultados) que vivem os
clérigos (pastores e missionários) em suas respectivas igrejas e
denominações. E, finalmente, a nossa dificuldade de plantar igrejas que
cresçam de forma consistente que sejam biblicamente relevantes. Um é
problema de vocação e chamada. O outro problema é uma questão de
qualidade. O terceiro é um problema de pragmatismo exagerado. A quarta
questão parece de ordem econômica. E, por fim, há um problema de
politica cristã de expansão através de missões e evangelização.

Um problema de vocação e chamado


Já se percebia no final do século XIX no Brasil uma dificuldade de
estabelecer lideres religiosos puramente brasileiros, porque as famílias,
sobretudo de posse, jamais permitiriam que seus filhos entrassem para o
sacerdócio. O fenômeno parece presente ainda hoje. Até mesmo os
evangélicos trabalham para que seus filhos sejam engenheiros, advogados
ou médicos, ou como muitos costumam dizer (brincando) para que seus
filhos sejam ¨funcionários do Banco do Brasil¨. Pouco ou nada se dedicam
para que seus filhos sejam pastores, missionários ou obreiros relevantes na
igreja.
O protestantismo brasileiro inicial sofreu duramente por causa do
mau testemunho dos primeiros missionários por causa de seus vícios, por
causa do despreparo em todas as áreas, por causa dos desvios doutrinários,
entre outros problemas. Hoje não é diferente, o papel do pastor e dos
ministros religiosos é altamente caricato. Apesar da crescente importância
dos mesmos em uma sociedade perdida espiritualmente e doente nos
aspectos da alma, pastores e líderes religiosos ainda são motivo de
desconfiança, anedota e tratados como classe quase não-humana. Parte do
sofrimento daqueles que estão à frente de igrejas e do pensar teológico, se

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 62

dá porque são mal vistos, mal tratados e mal compreendidos. Devemos


olhar com simpatia e apoiar os poucos que ainda se aventuram em tarefas
de tamanha responsabilidade.

Desafios de qualidade
Quanto tempo deve ser gasto (investido) para preparo de um
diácono, de um pastor, de um missionário, de um mestre ou de um doutor
para a igreja? Sem dúvida muitos anos.
Existe uma relação direta entre a quantidade de tempo gasto no
preparo de um líder e a qualidade de nossos ministros. De modo geral, estes
valores são diretamente proporcionais, ou seja, quanto mais tempo gastos,
melhor o preparo.
Anos de estudo, anos de trabalho supervisionado, anos de construção
via planejamento, com foco e intencionalidade. Infelizmente, a vocação e o
chamado ao lado do preparo estão sendo levados em consideração em
instâncias diferentes, separados e dicotomizados, quando na verdade são
instâncias únicas do mesmo processo.
Chamado implica na consciência do candidato e de sua congregação
quanto a ouvir a voz de Deus o convocando ao trabalho. Vocação implica
na capacidade reconhecida e lapidável do candidato diante das virtudes
minimamente necessárias a execução de seu ofício. O preparo é decorrente
destes reconhecimentos, o passo seguinte e necessário. Preparo implica na
sujeição ao longo caminho de disciplinas para a formação.
Há pessoas no ministério que não tem o respaldo de suas
congregações para sua formação e que nunca foram sequer foram boas
ovelhas de Cristo e de seus guias terrenos, os pastores.
A habilidade de falar e de animar auditórios é uma virtude exaltada
em nosso tempo, mas não indicadas como importantes àquele que se inclina
ao sacerdócio. Estamos precisando de pastores e lideres e não de

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 63

animadores de auditório. Há de se ter muito mais zelo, dedicação,


obediência, estudo, consciência.
O preparo não se dá apenas com livros e palestras, mas no exercício
do ministério supervisionado e reconhecido. Analisando a obra Patrística
ou de vultos da igreja, como no período dos puritanos, por exemplo, o
sacerdócio cristão surge ou nos parece como algo praticamente impossível,
dado o alto grau de qualificações e dedicação exigidas para um homem que
faz profissão de estar a frente da igreja Deus. Falo, por exemplo, de homens
de grande vulto moral e teológico como João Crisóstomo, mas que se sentia
completamente despreparado para o ministério, mesmo possuindo virtudes
em tão alto grau. Falo de homens como Gregório Magno e Richard Baxter,
este último um puritano. Vidas dedicadas ao ministério pastoral e que
escreveram, pregaram e testemunharam de forma tão intensa e fiel que suas
vidas mereceram o registro que chegou a nós e que ainda nos assombra e
inspira. Veja, por exemplo, algumas palavras de Richard Baxter em seu
livro Manual pastoral de discipulado (também publicado no Brasil como
Pastor Reformado):

Infelizmente, a existência de pastores não regenerados e


inexperientes é um perigo e uma desgraça comum na igreja.
Há homens que tornam pregadores antes de se tornarem
cristãos, consagrados ao ministério de Deus antes de terem
sido santificados e de terem os corações consagrados ao
discipulado de Cristo. Tais homens adoram um Deus que
desconhecem e pregam um Cristo a quem não seguem; oram
por meio de um Espírito Santo que não lhes testifica a filiação
e recomendam um estado de santidade e comunhão com Deus,
gloria e felicidade, que igualmente não experimentaram – e
que talvez jamais conhecerão. Aquele que não possui no
coração a graça nem Cristo a quem prega será sempre um
pregador sem coração. Se nossos alunos nos seminários apenas

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 64

considerassem tal coisa! Fazem mal a si mesmos, aplicam


tempo tentando obter conhecimento das obras de Deus e de
alguns termos especiais, sem se aplicarem ao conhecimento do
próprio Deus para exaltá-lo e, assim, conhecer a singularidade
da obra que realmente renova e satisfaz. Há alguns que vão à
roda em vãs exibições, passando a vida como quem sonha
sonhos vãos, que promovem nomes e novidades, mas
permanecem estranhos a Deus e à vida dos santos. Se tais
homens forem despertados pela graça salvadora, cogitarão de
assuntos tão mais sérios do que suas arengas não santificadas,
que confessarão ter vivido apenas em sonhos. Criam um
mundo de ilusão religiosa, enquanto permanecem alheios a
Deus, o que é o ser primeiro, necessário, independente e tudo
em todos.3

O pragmatismo exagerado
O excesso de pragmatismo é outro problema. A partir da tradição a
igreja deve responder os desafios contemporâneos. É claro o isolamento de
pastores formandos a partir de uma escola apenas focada na tradição
dogmática. Muitas vezes há um déficit de cinquentas anos na teologia, que
é mutável e adaptável. Leem-se respostas para desafios antigos de terras
longínquas. Por outro lado, uma teologia tão alicerçada na cultura que não
se distingue dela em nada. O resultado é claro. Por um lado, guetos
ascéticos. Por outro lado, clubes animados.
Boa parte da produção teológica brasileira, senão toda ela é
reprodutiva e analítica, mas quase nunca é original e propositiva. Como
afirmamos no início deste trabalho, estamos nas mãos da produção
cientifica e bibliográfica de europeus e norte-americanos. Toda sua obra é

3
BAXTER, Richard. Manual Pastoral de discipulado. São Paulo: Cultura Cristã, 2015. 2ª
Edição. página 39.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 65

valorosa e importante para nós brasileiros, mas não nos tem catapultado na
direção de produção teológica própria. Como já afirmamos também, a
produção de uma obra brasileira que negue o passado e os pensadores
anteriores, além de uma insanidade, é inviável e improdutiva.
Particularmente não me aceito o título de teólogo e aceito com muita
dificuldade o título de pastor. A produção deve ter independência e
originalidade e deve ter espaço e lugar na igreja no dia a dia. Não é possível
uma teologia sem pratica, assim como uma pratica sem base teológica
viável.
Produzimos a Teologia da Prosperidade e captamos e adaptamos a
Teologia da Cura e da Prosperidade, dois substratos de baixa qualidade. Por
meio do avanço de congressos e divulgação de material reformado por
muitas editoras, temos a tentativa de trazer a Teologia Reformada para a
realidade brasileira, mas ela é ainda um elefante branco na realidade
brasileira, retumbante, grandiosa, mas insipida.
Poucos pastores, igrejas e ministérios têm de fato conquistado
avanços por meio da Teologia Reformada, avançar de maneira sadia como
igreja brasileira. Suspeitamos que um equilíbrio entre uma formação
clássica, conservadora e um misto com formação contemporânea e
filosófica, seja um caldeirão mais adequado para mentes e a possibilidade
de uma teologia brasileira (enquanto proposta prática) com pé em nossa
longa tradição como povo de Deus. Mas é uma conjectura.
Temos uma fraca cultura bíblica e teológica. Os próprios seminários
são incapazes de produzir pensadores porque ainda estão nos moldes de
uma teologia antiga e desconectada da realidade ou de uma teologia muito
contemporânea e desvinculada da tradição. Problemas que são
aprofundados com a falta de consciência de chamado e vocação e, muitas
vezes, da falta de experiência e de uma mentalidade moldada pela vontade
de Deus.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 66

A teologia precisa integrar todos os saberes humanos e ajudar o


diálogo da tradição e da contemporaneidade, mesmo que seja para apontar
suas falhas. Teologia bíblica e Teologia sistemática precisam se conversar.
A narrativa bíblica impõe dificuldades que a Teologia Sistemática não
consegue resolver por criar paradoxos e contradições a princípio insolúveis.
Os desafios da vida e as dificuldades impõem circunstancias não descritas
em Dogmas. Entretanto, a Dogmática, ou Teologia Sistemática, é capaz de
reunir séculos e séculos de tradição a respeito dos princípios da fé cristã.
Um equilíbrio de forças absolutamente necessário.

Questões econômicas
Religião hoje em dia é um bom negócio, infelizmente. O dízimo e as
ofertas são hoje elementos necessários a uma boa liturgia, mas têm sido
usados para manipulação espiritual de um modo que não há precedentes
históricos.
Nem mesmo o período tão criticado das indulgências tenha chegado
a patamares tão vergonhosos como os que temos hoje. Por um lado, a
pressão da culpa sobre os fiéis pela obrigação de contribuir. Por outro lado,
os anseios materialistas de pastores e denominações ávidas por poder e
dinheiro. Líderes religiosos há muito tempo figuram entre as celebridades e
as pessoas mais ricas do país, ao mesmo tempo em que ocupam páginas
policiais e situações de escândalo. Uma liderança vendida e corrupta. Uma
liderança cuja mente está guiada por princípios mercantis não pode apontar
a verdade em Cristo e nem o caminho para o céu.
O controle das intenções, das pregações, dos eventos, das ações em
geral, vem do bolso e das contas bancárias e não de uma mente dominada
por Cristo. Já se vendem igrejas ativas com membros cooperadores como
ser vendem outros produtos no comércio – as porteiras fechadas. Mesmo
nas alas mais tradicionais, pastores são medidos pelo tamanho de suas
igrejas em número de membros e no valor total mensal das entradas

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 67

financeiras. Luxo e pompa apontam (erroneamente) para uma suposta


unção especial e para a presença de Deus em na vida de algum líder
midiático, em algum lugar especial (certos templos) ou em algum
ministério. Há denominações que demitem seus pastores das igrejas em
função de baixas entradas ou perda de membros.
A verdade e a Palavra já não são os critérios para se dirigir muitas
igrejas. Os gurus do crescimento de igreja estão na moda e muitos são
impelidos a copiar seu exemplo para que também tenham mega igrejas e
mega ministérios. Somem a cada dia os pastores da Palavra, da compaixão,
que cuidam do rebanho de Cristo, que criam laços e intimidade com sua
congregação e sua cidade. Gente que cuida e ensina com cuidado e
excelência aquilo que é verdade: a Palavra de Deus.
A reprodução de um modelo bíblico de igreja é, por todos estes
motivos, prejudicada e impedida. As mega igrejas já trabalham em sistemas
de franquias e, são plantadas em lugares onde farão sucesso, sem que
estejam de forma alguma interagindo com as pessoas com quem se
encontrarão. O sucesso não é pela salvação, conversão e transformação,
mas pela adesão ao modelo. Um modelo mercadológico de igreja que
atende plenamente a um clientelismo sedento de consumir.

Questões missionais
Infelizmente, as igrejas históricas tem se arrastado na plantação de
igrejas. Falta compreensão da missão, faltam recursos, falta motivação,
falta visão. O cuidado é com o próprio umbigo. A liderança padece da
mínima compreensão da missão e da necessidade de plantar igrejas.
Planos mirabolantes e impraticáveis são apresentados, mas o
entusiasmo inicial acaba diante das primeiras dificuldades e falta de
recursos. As lideranças sequer questionam sua razão de existir e a missão
está parada.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 68

Por estes e outros motivos é necessário que líderes bem formados


assumam nossas igrejas e ponham em ação os planos de Deus e de suas
denominações.
Gente preparada que, tendo os pés na longa e bem fundamentada
tradição cristã, possa dialogar com o mundo contemporâneo e propor uma
visão cristã de mundo, tendo como resultado o crescimento do Reino,
plantação de igrejas e salvação de pessoas.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 69

PARTE 3
DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS PARA
MENTES TEOLÓGICAS

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 70

CRISTIANISMO LÍQUIDO?

(¨Com gelo e limão, por favor!¨)

..e por se multiplicar a iniquidade o amor de quase todos esfriará...¨


Mateus 24.12

Entender o que significa liquidez não parece uma tarefa difícil. A


solidez da modernidade que, em termos simples, era validada por uma
aparente capacidade da razão em resolver e responder a tudo fracassou pela
incapacidade de dar estas respostas, trazer tais soluções e colocar o homem
no ápice de sua condição existencial e, não somente por estes motivos, mas
também pelas desastrosas consequências sofridas por a toda a humanidade
a partir dos produtos e subprodutos da razão pura, dando lugar ao
ceticismo, ao relativismo, a desconstrucionismo e a queda dos mitos. O
constante processo de automação do mundo automatizou as relações
humanas também. Ou seja, a facilidade para fazer e desfazer contatos
trouxe uma nova forma de relacionamento, mais frágil, menos duradoura,
mais utilitarista. Muita gente já se debruçou sobre este assunto com muito
mais base e crédito. Que sejam lidos e estudados.
Posso, dentro dos meus limites, formular em termos de questões ou
perguntas o que a liquidez do nosso tempo traz como efeitos negativos
sobre a religião e, sobretudo sobre o nosso cristianismo brasileiro e urbano.
Questões que muitas vezes me fiz e me faço. Provavelmente, por ver
a impossibilidade da realização de alguns sonhos modernos de total
controle e felicidade advinda deste controle humano sobre tudo, um sonho
quase infantil.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 71

Será possível ser cristão sem igreja? Será possível servir a Deus sem
igreja? Seriam de fato leis meramente humanas, criadas por homens, sem
nenhum valor, as regras do jogo religioso? Devemos rechaçar a todo o
custo o termo religião? Será mesmo bom e saudável que cada um cuide
apenas de sua própria vida? Entendendo aqui o apenas de sua própria vida
como: faço o que quiser porque ninguém pode querer interferir naquilo que
faço, uma espécie de liberdade total? Será que tudo que é antigo perdeu o
valor simplesmente por sua antiguidade? Estamos todos em reais condições
de opinar sobre tudo e sobre todos de forma isenta, imparcial e completa?
Não estamos vivendo uma crise de comunicação exatamente pelo excesso
dela, o que acaba produzindo o efeito contrário: desinformação e
superficialidade, seja por causa da velocidade seja por causa da novidade
pela novidade, ou da efemeridade que no fundo são repetições constantes
de um processo que não é novo, mas repetições constantes de si mesmo?
Não vivemos uma crise de liderança que, de tão exposta, mostra a todo
instante suas fraquezas? Vivemos uma crise de incredulidade ou de
credulidade, uma vez que não pensamos mais como no passado,
doutrinariamente ou tradicionalmente, porque desmerecemos tudo que era
ensinado, mas ao mesmo tempo somos uma geração extremamente crédula,
que acredita em tudo? Será que não é tempo para abertura para novas
manifestações no formato de ser e fazer religião? E nossos vínculos: são
reais, verdadeiros, duradouros, resistirão aos princípios religiosos que
exigem fidelidade até a morte e, como explicar que ao mesmo tempo em
que os relacionamentos sejam tão fúteis e líquidos, as pessoas, uma vez
ligadas em rede, possuem cada vez mais capacidade de se relacionar e estar
atentas a tudo que acontece na vida de um número cada vez maior de
contatos? É possível ter quantidade com qualidade? Já soubemos algum dia
diferenciar o temporal do eterno, o que é de real valor e o que é efêmero?
Existe amor no nosso tempo? Existem firmeza e convicção teológica e
doutrinária no nosso tempo? Posso dar um ¨ctrl + alt + del¨ e recomeçar
sempre que quiser a vida e minhas relações sempre que quiser?

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 72

1
Se levássemos a sério o que o autor de Hebreus diz em 10.25
teríamos muito mais motivos para ir à igreja ou nos reunirmos como igreja
do que os antigos, isto porque o Dia Prometido, O Dia do Senhor, está cada
vez mais próximo. Em tese a igreja, em sua função mais básica, nos
estimula a/à fé, ao cuidado mútuo, a espiritualidade e ao amor. No entanto,
a igreja (local e humana) tem muitas vezes fracassado em sua tarefa de
acolher e ensinar.
Por um lado peca pelo exagero no controle e abuso da vida dos
crentes e fiéis, por outro lado os deixa muito à vontade. Ensina, muitas
vezes, de modo contraditório. Como diz João Alexandre em uma de suas
músicas: ¨é nem sim nem não!¨
O que salta aos olhos é a distância entre o discurso e a prática. Ela
disputa dia a após dia, com as inúmeras ofertas de sucesso, prosperidade,
bem-estar e consigo mesma uma vez que está tão seccionada e tão dividida.
Compete com os novos gurus do sucesso e bem-estar, compete com outras
religiões.
Por outro lado, poucos veem na religião a única forma de encontrar
conforto e segurança (se é este de fato o propósito – não creio!). O discurso
mais comum entre os crentes atuais é o de que não são pessoas religiosas, e
que sua religião não-religiosa é boa porque não lhes rouba a liberdade. E
comum é se multiplicam formas de igreja e de cultos alternativos, capazes
de atender as necessidades e demandas de um pouco cada vez mais
pragmático e descolado de sua religiosidade. Algo impensável há tempos
atrás, inimaginável. Ou seja, ser cristão sem igreja já é uma alternativa tida
como saudável.
Concordo que o processo, já bem adiantado e estruturado da
institucionalização, extremamente humanista, da igreja trouxe para ela
elementos de sua relação com o mundo (aqui entendido como país, leis,
regras...) que em muito tirou seu dinamismo e a capacidade necessária de

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 73

contrastar e confrontar o mundo, sendo não apenas uma alternativa para ele,
mas seu contraponto.
Infelizmente a igreja perdeu sua leveza e relevância. Buscou e
encontrou pontos de convergência com outras áreas sociais e abandonou
sua vocação espiritual, sua vocação para a misericórdia e para o amor, mas
misericórdia e amor que andam de mãos dadas com a justiça, a Justiça de
Deus. Vista a olhos nus, não difere de outras formas de comunidades.
Precisamos de mártires novamente. Testemunhas que sejam realmente fiéis.
Precisamos de pessoas dispostas a amar. Pessoas sujeitas às autoridades,
pessoas conscientes de seus deveres sociais, financeiros, econômicos, mas
completamente entregue a vontade de Deus, prontas a ajudar, priorizando o
ser e estar na igreja, que ajudem outros a descobrir ou redescobrir o prazer
da comunhão, do compartilhar, da busca pelo sentido da vida, de dar
sentido a vida e ao serviço.

2
E quando falamos de regras? De leis? De organização? Estas
palavras parecem demônios a serem exorcizados. É quase um crime falar a
respeito. O assunto do momento é a liberdade, a graça, o viver livre e sem
culpa – que sonho! Que maravilha!
A Bíblia deste povo não tem Romanos 7 e 8, que trata da luta do
homem velho e do novo, da necessidade de mortificar as obras da carne
(8.13). Uma luta constante de todo crente. Sou categórico ao afirmar que
soam muito mais demoníacas do que celestiais estas afirmações
aparentemente libertadoras e espirituais. Apenas aparentemente! Fácil de
entender. Em qualquer ambiente é necessário que sejam estabelecidas as
regras mínimas do comportamento. Curioso que aceitemos isto em todas as
outras posições que ocupemos: temos que ser pontuais no trabalho, temos
que dar retorno (feedback) daquilo que fazemos, somos passiveis de multas

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 74

no trânsito por infringir as regras, etc. Regras que sobre nós pesam, mas
que existem para nosso bem-estar e proteção.
Aí surgem as perguntas: Quem pode viver totalmente sem culpa?
Quem pode viver totalmente sem cobranças e exigências? Que progresso
espiritual, agora falo a crentes, pode ter qualquer pessoa que chegue à
conclusão de que tudo vai muito bem e que o melhor é não se preocupar?
Infelizmente, já chegamos lá. As pessoas não querem ser tratadas como
pecadoras e falhas, mas sempre como vitimas de outros, do sistema, da
vida. Não como pecadoras, mas como pessoas sem sorte na vida.
Curiosamente, vivemos nisto um paradoxo, ou seja, as igrejas neste nosso
tempo deveriam passar por um processo de esvaziamento muito rápido,
porque sua mensagem, pelo menos em tese, é incompatível com estes
pensamentos e estilos de vida. No entanto, o que vemos? ¨Templos, Tvs,
auditórios lotados, ouvindo o Evangelho da Marcha à ré¨. É o preço de
manter o negócio – vender suas convicções. Liquidez.
3
De todos os xingamentos mais terríveis, religioso é o pior. As
palavras ganham novos sentidos à medida que são usadas, este fenômeno é
incontrolável. A expressão religioso carrega em si sinônimos como:
hipocrisia, atraso, antipatia, legalismo. Mas quem é religioso é exatamente
o que? Não seria a chance ou oportunidade de mostrar que somos
diferentes? Na busca por um perfil contemporâneo, agregador, simpático, é
muitas vezes nossa armadilha, o diferencial que nos faz iguais. Deste modo
nega-se o que se afirma. Não preciso fazer aqui uma exposição
sobre religare. Ora, somos religiosos sim, e ainda mais: proselitistas e
exclusivistas. Nosso tempo é o tempo dos guetos, dos grupos. Não devemos
confundir nossa identidade, que deve ser marcante e aliada ao diálogo com
todas as áreas do conhecimento humano, com a mistura descabida do
aculturamento que nega aquilo que somos. É o momento que a liquidez se
manifesta: somos, mas negamos ser. Um paradoxo, uma espécie perigosa
de vida camaleão, uma crise de identidade. Interessante pensar que outrora,

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 75

expressões como os do caminho, cristãos, aqui no sentido de mini Cristos,


ou imitadores de Cristo, pejorativamente, foram usados por nossos
inimigos enquanto os nossos antigos irmãos se gabavam de serem
ofendidos e perseguidos. Coisas que hoje rejeitamos e rechaçamos a todo
tempo e de todas as formas: o importante é manter o diálogo.
Vemos nisto mais um paradoxo extremo: negamos que haja
diferenças cruciais para manter contato e relacionamento, mas negamos o
contato por não suportarmos a convivência. Liquidez.
4
O que dizer da vida comunitária? Ou da individualidade? Um dos
resultados da Reforma Protestante ocorrida no Século XVI, foi o processo
de individualização e/ou individuação, decorrente do livre exame das
Escrituras, da redescoberta e ênfase no sacerdócio universal dos crentes e,
consequentemente, da competência individual do ser humano. Consiste no
fato de que, uma vez que somos tidos como capazes de tomar nossas
decisões, interpretar os fatos e darmos nosso parecer individual, somos
tidos como indivíduos capazes e que guiar nossas próprias vidas. A
princípio, como no caso do sacerdócio universal dos crentes, nada mais
bíblico, nada mais cristão, nada mais lógico e aceitável. Um princípio
espiritual, bíblico, divino e louvável.
Vivemos hoje o extremo desta situação. Levamos nosso
individualismo para marcos além do bom senso, do bom convívio e da
razão. Perde-se o respeito pelo outro, não consideramos os sentimentos, a
vida familiar, o histórico de vida das pessoas. É incrível que a humanidade,
depois de tanta história e de tanto sangue derramado, ainda seja obrigada a
falar de direitos humanos, de respeito.
O paradoxo existente e inevitável como consequência disto, gerado
por uma profunda falta de esperança no ser humano e em sua capacidade de
solidarizar-se é o crescente medo da solidão. Solidão se torna cada vez mais
comum. Não que não se queira mais amar, mas amar pode ser custoso,

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Vamos falar de Teologia 76

perigoso e muito decepcionante. Há movimentos sociais que aglutinam


pessoas pelo interesse comum ao passo que não se comprometem além
daquilo, seja para o bem seja para o mal: os flash mobs, os black blocks, os
MGTows, as feministas, etc. Grupos que se relacionamento, se é que se
relacionam, esporádico e, cuja causa é comum, mas sem necessariamente
compartilharem da vida, compartilhando alegria ou reunidos para a guerra,
para ajudar ou até para espalhar o terror e a instabilidade.
A igreja é mais que o compartilhar de uma simples causa comum ou
ideia, é um compartilhamento da própria vida e, por que não dizer, da
morte. Tudo está em questão, tudo é levado em conta. Talvez um dos
grandes empecilhos da vida na igreja sejam a ingerência e a incapacidade
de suas lideranças de lidar com os desafios constantes das diferenças entre
seus congregados. E que são muitas. Nem todos estão na mesma sintonia e
propósito, nem todos compartilham do mesmo entendimento, nem sequer
enxergam com o mesmo olhar das coisas da igreja. Fazer ou construir este
diálogo é desafiador. De um lado um liberalismo exagerado e de outro um
fundamentalismo que é caricato e medonho. A igreja é pródiga em isolar
pessoas por suas atitudes inaceitáveis (o que não seria se realmente
fossem). É difícil a reintegração de pessoas depois de um grande deslize.
Sendo assim, alimentados pelas ideias e filosofias deste tempo, pessoas
decidem simplesmente viver suas vidas da maneira como entendem, como
consideram e como acham que seria melhor. No entanto, não negam seu
desejo e anseio por comunitária, viva e envolvente. Deus nos fez assim.
Geramos, assim, uma legião de pessoas que equilibram estas duas
situações, ou duas vidas: vivem como querem, faz o que querem, escondem
tudo isto, mas continuam como se não fizessem isto ou aquilo. É a
institucionalização da hipocrisia – apêndice necessário de uma vida cristã
líquida.
5
E quando ao valor das coisas antigas e novas? O que querem lutar
para que as igrejas não se transformem em clubes e boates, terão como

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Vamos falar de Teologia 77

resultado o surgimento de uma nova religião totalitarista, exclusivista,


fundamentalista, tacanha, perseguidora, chata e sem solução que repete os
erros do passado. Os que querem tornar as igrejas mais leves, mais abertas
correm o risco contrário, de acabar com a própria igreja, transformando-a
em um clube, um ponto de encontro e lugar de vaidades.
Provérbios 22.28, falando sobre marcos das propriedades, enfatiza a
ideia de que não devemos removê-los. A aplicação espiritual é clara, há
valores que são eternos independentemente da época ou circunstâncias, que
não foram firmados por serem simplesmente antigos, mas por constituírem
a vontade de Deus e o melhor para a humanidade. Um desafio para a nossa
geração é a extrema velocidade das mudanças. Não é possível absorver
tudo se posicionando equilibradamente, respeitosamente e de modo
equilibrado.
O mundo passou muito tempo sem mudanças estruturais e sociais
muito drásticas. Basicamente éramos agrícolas, vivíamos nos campos,
vivia-se muito pouco, havia poucas perspectivas de subida ou escalada
social, as sociedades eram monárquicas e centralizadoras. No fim da Idade
Média, com o processo rápido de industrialização, automatização dos
processos, novas oportunidades surgindo, a escalada dos direitos humanos,
a melhora na saúde em virtude do avanço da medicina e da ciência, a
melhoria geral da qualidade de vida com o aumento da expectativa de vida,
mais e melhor acesso à informação, iniciamos um novo mundo. A
tendência natural, ao iniciar todo este novo processo, é negar e rejeitar
veemente o que é do passado. O problema é que vamos jogando a água
suja da banheira estando o bebê ainda dentro.
Em meados do século XIX, por ocasião do debate entre o
Fundamentalismo e do Liberalismo religioso, a crise já estava muito bem
esboçada nas cadeiras teológicas. Da teoria (teologia) para a prática
(liturgia), chegando ao dia a dia de cada crente, o conflito está vivo como
nunca.

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Vamos falar de Teologia 78

O que é velho (no sentido de ultrapassado) e o que é novo (no


sentido de válido)? O que deve ser deixado para trás e o que deve
permanecer? Sempre fui ensinado que nos guiamos por princípios.
Alimentamo-nos neste mundo, ganhamos nosso sustento neste mundo, nos
favorecemos dele. No entanto, há neste mundo pecados que atentam contra
a vida e a dignidade das pessoas. Há outros que são culturais, e não são
nem menos nem mais pecados por isto, mas que igualmente contrariam a
vontade de Deus. O Apóstolo Paulo, por exemplo, cita o problema das
carnes sacrificadas a ídolos. Comer ou não comer? Ele enfatiza que, não se
coma ao saber a origem, mas que ao visitar alguém jamais pergunte a
procedência para que não haja constrangimento e garante que por meio da
oração tudo é purificado. Sua conclusão em 1 Coríntios 8.4 é bombástica:
¨pelo que, se a comida escandalizar o meu irmão, nunca mais comerei
carne, para que meu irmão não se escandalize¨, lembrando que fazer
perecer alguém por algo secundário é um erro. Lembremos também que
Paulo morreu por Cristo e por Cristo guerreou contra muitos, incluindo
pessoas da própria igreja. O que queremos dizer com isto? Que as
mudanças culturais são inevitáveis e que a igreja deve se adaptar às
mudanças sem, contudo, deixar-se absorver por este mundo. Boa parte das
igrejas que se dividem, o fazem por questões secundárias: disputas internas
por poder, contendas e guerras de opiniões que refletem preconceitos,
medos pessoais, sede de poder, experiências malfadadas e interpretações
particulares.
Gerações inteiras do passado foram oprimidas e sofreram por erros
cometidos por lideranças em disputas de poder. Não podemos abrir mão do
estudo sério da Palavra de Deus como forma de evitar que isto se repita.
Não podemos abrir mão da comunhão semanal com nossos irmãos. Não
podemos abrir mão da evangelização e da tarefa missionária e de nossa
inserção no mundo como embaixadores de Cristo visando à eternidade
como forma de evitar disputas que nada acrescentam à eternidade e trazem
muita destruição.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 79

6
Nada mais importante, necessário e humano do que dar voz ao povo,
oportunidade para que se expressem. Como ficariam contentes os nossos
predecessores se soubessem o quanto nos comunicamos no nosso tempo,
ainda que a qualidade da nossa comunicação ainda seja ruim. Não só
porque as pessoas não sabem escrever, mas porque não sabem entender o
que é lido. Informação sobre informação girando a uma velocidade
estonteante, publicações curtas e muitas vezes desconexas. Quase ninguém
tem mais tempo para ler calmamente textos longos e bem elaborados. A
próxima novidade já está pedindo espaço para si. Informações sem cunho
de utilidade, porque trata muitas vezes de particularidades e coisas sem
muita importância ou relevância, giram muito rapidamente. Não há mais
tempo para longas conversas, longas leituras, reflexões profundas, debates
mais pensados e menos acalorados, mas enriquecedores e realmente
edificantes. O formato fast food da alimentação já encontrou espaço na
informação: rápida, cheia de gordura, pouco nutritiva e cara.
Rápida porque vemos nos celulares e tablets com uma simples
passada de olhos, inclusive o que mais vale hoje é informar primeiro do
que informar certo e com precisão.
Cheia de gordura porque enche os olhos, estufa a barriga, mas faz
mal e não bem.
Pouco nutritiva porque de fato não te ajuda a resolver suas
inquietações e não te faz um ser humano melhor, pelo contrário, aumenta
sua revolta e sentimento de que o mundo não tem jeito e o que vale é só
cuidar da própria vida.
E cara porque vem cheia de acessórios. Ou seja, maquiagens,
embalagens, marcas, conceitos e filosofias cujo preço está embutido no
produto. O maior instrumento dos manipuladores do nosso tempo é a
informação. Assim com uma distração à verdade. A maior armadilha dos
pobres enganados é a desinformação (ou a má informação), gerada,

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Vamos falar de Teologia 80

principalmente, pelo excesso dela mesma e pelo pouco tempo para refletir.
Palavras e mais palavras e muita aparência, sem comunicação de verdade.
As informações têm mais aparência que conteúdo de verdade. Há pouco
para se oferecer.
A igreja também embarcou no conceito fast food de informação.
Palavras com muita aparência e pouca eficiência são repetidas
exaustivamente em cultos por aí: vitória, glória, aleluia, repreende, pisa, e
por aí afora. Vemos coisas que seriam muito cômicas e engraçadas se não
fossem tão vergonhosas e incômodas.
Porções inteiras da Bíblia são negadas porque não são boas para os
negócios. Outras, que são cuidadosamente selecionadas, são usadas
exaustivamente para apontar a direção do gasofilácio das igrejas e não a
direção do céu. Um Evangelho de informações distorcidas, sem conteúdo e
sem propósito. Pecado, santidade, salvação, boas obras não entram neste
vocabulário líquido e vazio. Há falta de transparência em tudo que se
faz. Os incautos, pessoas comuns do povo, não percebem que são usadas
como marionetes em um jogo de desinformação e confusão.
A ignorância nunca rendeu tantos frutos, nem mesmo no Grande
Período de Trevas da Igreja durante a Idade Média quando se cobravam as
indulgências. Não há solidez onde não há informação verdadeira e reflexão
profunda. Há apenas liquidez e, neste caso, há liquidez financeira também.
Já que não dá para ser, vamos ter. E ter muito.
7
Os líderes do nosso tempo são fracos e ruins. E nem podia ser
diferente. Não quero colocar todo mundo em pé de igualdade porque há
pessoas melhores e mais nobres que outras. É fato. Mas os super-heróis,
que se multiplicam nos cinemas e filmes de hoje, energizados e mascarados
por toda a cosmética e avanço da medicina que ajuda com que sejamos
cada vez mais fortes e viris (fisicamente, diga-se de passagem), é uma

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Vamos falar de Teologia 81

máscara para o fato que todos envelheceremos e morreremos,


irremediavelmente.
A consciência crescente deste fato tão aterrador não criou seres
melhores. Pelo contrário, criou seres ainda mais autocentrados, egoístas e
hedonistas. Vaidade que chegou à igreja. Pouco se ensina às pessoas como
serem melhores, de mais caráter. Pessoas são ensinadas a ter sucesso, a
parecerem bem sucedidas, a cuidarem da aparência. Coisas cujo problema
surge ao se tornarem prioridade e marcarem a realidade nua e crua das
vidas vazia.
Há um apego e valorização de títulos e cargos: pastores, bispos e
apóstolos. Assim que novas designações são criadas, rápida é a adesão a
estas e vazia titularidades. As igrejas são escolhidas pela pomba e
popularidade de seus líderes, além das vantagens sociais que oferecerem.
Ser parte (não membro) de uma igreja é sinal de bom status. O eu sou de
Paulo e o eu sou de Apolo, de 1 Coríntios 3.3 voltou com toda força. Vendo
esta pomposidade, que aponta para poder, luxo e até para uma suposta
imortalidade, legiões de pessoas são conduzidas pelo cabresto das falsas
promessas. Líderes sem consciência de que prestarão contas diante de
Deus, que segundo consta, será ainda mais severa para aqueles que lidam
com o ensino.
Há ainda outro lado. Mesmo se tratando de igrejas, pastores e líderes
mais sérios, há uma sobrecarga de tarefas administrativas, ao mesmo em
que tempo que se gasta tempo e dinheiro divertindo os bodes entre o
rebanho. Muitas igrejas são hoje o palco da satisfação pessoal de seus fieis.
Em outros termos, há um comércio religioso que tem cobrado caro dos fiéis
por um bom atendimento. Uma relação de fornecedor e cliente. Há um
comércio de produtos religiosos para um público ávido por novidades e
soluções mágicas instantâneas. Tudo é vaidade! Pagamos para ter o que
queremos e há quem venda. O velho sistema de oferta e procura. Nenhum
comércio prospera sem a presença de compradores. Via de mão dupla. Há
quem compre e surge quem venda. Oferece-se o que pode ser atraente e

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 82

aparecem os compradores. Comércio, comércio e comércio. Não é a toa


que uma parte destes líderes televisivos é oriunda de um mundo
canibalesco: o coorporativo. Ao passo que outros se valem dos recursos e
estratégias do mundo comercial. Tudo é produto. Ganha quem conhece o
mercado e sabe conquistas seus clientes. Há que enxergue lá de fora um
pretenso avivamento no Brasil dado o crescente número de evangélicos
(nominais). Momento falsamente glorioso.
8
Pode ser mais um insight sem sentido, mas não vivemos uma crise de
incredulidade, mas de credulidade. Acredita-se em tudo. Estamos perdendo
o critério do que é racional, do que é possível, do que factível, do que é
lógico. O que na verdade é uma forma de não crer, de não refletir, de não
pensar, de não analisar.
É como acreditar em promoções (o preço real está lá, com impostos,
comissões, lucros e todos os demais penduricalhos), em pagamentos em
milhares de vezes sem juros (os juros estão lá sim), em Black Friday (você
compra com preço real com desconto mascarado e compra coisas que
realmente não precisa), e na bondade desinteressada da humanidade
(sempre há intenções por trás, mesmo que sejam boas).
Pessoas correm atrás de curas milagrosas, mudanças repentinas de
vida, multiplicação de bens. Os anúncios de atividades de igrejas hoje
chegam a dar inveja nos papas do marketing. Campanha disto, campanha
daquilo. Algumas, como as Grandes Cruzadas, funcionam mesmo tendo
como base algo tão horrível de nossa história (fico imaginando crentes
matando e degolando pessoas pela rua quando vejo estes anúncios) e
mesmo assim funcionam. E, lógico, retorno certo para todos os seus
investimentos. O discurso nos leva a pensar que é bem melhor investir em
igreja do que em trabalho ou em aplicações financeiras.
Procurar médicos para quê? Em igreja se faz de tudo: multiplica-se
dinheiro, cura-se qualquer enfermidade, distribui-se alegria e felicidade

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 83

sem reservas, lá está a solução do mundo, da humanidade. Diante disto já


nem precisamos mais de Jesus, basta ir à igreja certa com a visão correta.
Pessoas ainda entram em transe pelas unções recebidas. Gente recebendo a
benção do lencinho, da florzinha, do pastorzinho. Há público para tudo isto.
Os que apostaram no fim das religiões pelo crescimento do conhecimento e
da intelectualidade média do mundo, não poderiam prever um quadro mais
desastroso. Ninguém poderia prever isto, é um ponto fora da curva das
previsões - e muito fora.
Há solução? Creio que sim. Há um desespero generalizado no mundo
pela perda de sentido da vida (niilismo?).
Por outro lado, um dos erros do viés tradicional da religião é o apelo
único e exclusivo à razão e à racionalidade. Tirar o coração da fé é tão
devastador como esta credulidade (credulismo) toda. A simplicidade ainda
é mais empolgante, edificante e emocionante. É possível, e saudável,
remover todas estes acréscimos malignos à nossa espiritualidade sem
perder o sentimento (verdadeiro) da fé.
O desafio é olhar a realidade e ver que há desafio e vida na realidade
nua e crua da vida real.
Igrejas e líderes mais humanos surgem como um clamor de toda para
toda a humanidade. Basta perceber o quanto se ganha por um pouco de
tempo gasto ao ouvir as pessoas. As pessoas clamam por algo que mereça
ser acreditado, verdadeiro, humano.
Que se duvide e se desfaça desta credulidade toda como que
parafraseando certo jogador de futebol: (num mundo vendido como este) a
gente finge que acredita e você finge que nos entrega o que acreditamos4.
Combater nossa liquidez crédula requer humanidade. Nem tudo está
perdido apesar de nossas limitações, finitude e credulismo.

4
A frase original foi: ¨eles fingem que pagam e eu finjo que jogo¨, foi dita pelo jogador
Vampeta jogando pelo Flamengo depois de retornar como Campeão do Mundo em 2002.

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Vamos falar de Teologia 84

9
Novos tempos e novos desafios pedem novos comportamentos e
novos posicionamentos, além da necessidade de respostas às novas
perguntas. Há uma corrida mundial para se adaptar as mudanças. Hoje
temos os cibercrimes e cibercriminosos, por exemplo. Ainda que na
essência os crimes sejam os mesmos, ou seja, subtrair dinheiro e
informação, as novas formas exigem novos procedimentos para investigar,
julgar e punir. Há novas formas de relacionamento também, que são cada
vez mais digitalizados e codificados. Os movimentos das minorias e a
ideologização dos comportamentos humanos provocam reações diversas e
novas formas de ver o mundo e o outro.
A própria igreja vem se adaptando a todas estas mudanças. Hoje é
possível assistir cultos ao vivo e online. É possível fazer aconselhamento
pelo computador, o que nem sempre é tão desvantajoso para quem vive em
metrópoles onde se gastam horas e horas em pequenos deslocamentos.
Os templos, por mais tradicionais que sejam, possuem bastante
tecnologia embarcada: Datashow, telões, sonorização profissional, bancos
acolchoados, ar condicionado, transmissão ao vivo, sites, blogs, etc.
Dividida em tribos e guetos, a humanidade possui códigos
particulares de comunicação e, imaginando que o Evangelho deverá atingir
todos e em todos os lugares, temos um desafio muito grande diante desta
comunicação tão líquida e fluída.
Nunca foi tão urgente, tão necessário e tão pertinente à igreja ser
multifacetada e plural em suas ações, capaz de comunicar-se nos mais
diferentes níveis e variadas formas, tornando-se receptiva e tolerante às
novas formas de ser igreja.
Estas novas formas de interagir e relacionar tem levado as pessoas a
uma nova relação com a religião e a igreja local. No há compromisso com

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 85

presença física, participação desinteressada e constante ou


responsabilização mútua dos atos da igreja.
Há uma terceirização generalizada do serviço e da vida religiosa.
Dentro de certos limites, podemos concordar e desejar alguma flexibilidade
no modo de ser da igreja. Hoje, felizmente, ou não, há igrejas abertas com
cultos todos os dias e em diferentes horários, igrejas focadas em juventudes
urbanas, igrejas mais tradicionais, igrejas em pequenos bairros e
comunidades, mega igrejas mais centralizadas, igrejas para a elite, igrejas
para os pobres. Há igrejas construídas em locais que comungam do mesmo
espaço físico com igrejas de outra denominação, ora disputando fiéis, ora
concorrendo no volume do som do culto, concorrendo na doutrina, mas
sempre disputando dízimos e ofertas.
Hoje se fala de múltipla pertença, pessoas que congregam em várias
igrejas diferentes ao mesmo tempo e/ou em religiões diferentes. Nada mais
líquido! Não parece muito sadio escolher onde congregar a cada semana
baseado em nossas necessidades momentâneas. Curioso que com isto todo
hão de concordar, ainda que na prática não.
Um erro parece fatal: basear a igreja em eventos e acontecimentos e
não na vida diária e comunitária. Quem faz assim deverá ter recursos
inesgotáveis de dinheiro e criatividade, além de gente disponível para fazer
a máquina girar sem intervalos. Nada mais apavorante que eventos sobre
eventos e atividades sobre atividades sem cessar e sem parar. Trazem com
isto a falsa ideia de serviço e envolvimento, esgotam as forças e energias, e
com nossa vitalidade espiritual. É importante que sejamos mais enxutos,
fazendo melhor menos coisas, mas que apontem para coisas mais elevadas
e espirituais. Reuniões e eventos mais curtos, no entanto, mais dinâmicos,
mais bem organizados e que contribuam mais para a vida de pessoas e da
igreja.
Por se cultuar demais a forma, os aparelhos celulares estão sempre
ligados, sempre filmando e gravando tudo. Concorremos com a qualidade

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 86

dos programas de TV, Talk shows. A igreja já virou um grande BBB


também. Ou não?
10
O ser humano precisa de vínculos. Desde o cordão umbilical da mãe
durante a gravidez, os cuidados dos pais nos primeiros anos de vida, as
novas amizades adquiridas na escola e na rua, os parceiros adquiridos por
aptidões e inclinações em comum, os namoros e o casamento, sustentamo-
nos e vivemos por meio deles. Mas nunca se esteve tão só, tão abandonado
e tão carente. A ocorrência cada vez mais comum da depressão e
transtornos de ansiedade tem, em sua raiz, boa parcela da ausência do
outro. Por outro lado, nas redes sociais todos parecem sempre muito felizes
e bem acompanhados, ou pelo menos tentam parecer. Um sintoma muito
claro disto tudo são os novos formatos de relacionamentos amorosos, desde
o famoso ficar, pessoas se casando cada vez mais tarde, ou não se casando
por optar por formas alternativas de união (inclusive já há pessoas casando
consigo mesmas), casamentos com separação de residências, além da
ocorrência cada vez maior do divórcio e de casamentos de curtíssima
duração. A igreja, infelizmente, já está bem adaptada a isto, diga-se de
passagem.
Uma característica presente nestas atitudes é o crescente e doentio
amor por si mesmo. As relações sexuais são cada vez mais furtivas e
aparentemente desinteressadas com pessoas com as quais não se pretende
mais nenhum envolvimento. Uma espécie de terceirização da masturbação.
Fazem dos outros objetos de seu próprio prazer à medida que também são
usados como objetos de prazer sexual.
É um sistema revanchista e de compensação invertida na qual
prejudico e causo danos ao outro por não ser auxiliado e ajudado. Dão-se as
mãos para cair no buraco, usando e sendo usados.
No aspecto religioso o fenômeno é parecido. Não há mais vínculos
na igreja local como seria de se esperar. Os relacionamentos são igualmente

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Vamos falar de Teologia 87

superficiais e triviais, sem raiz e por isso não germinam ao ponto de dar
frutos. As pessoas usam e também são usadas. Há disputas internas na vida
da igreja que dificilmente veremos fora dela. É muito comum ouvir frases
como: a igreja é o único exército que abandona seus soldados feridos nas
trincheiras da grande guerra. Por muito pouco nossos laços e alianças se
desfazem. Vínculos cada vez mais eletrônicos (por meio de computadores e
outras interfaces). Há um cansaço que gera descontentamento, é mais fácil
tirar da tomada e desligar. Contrariam o ensinamento bíblico, sobretudo
exemplificado em Oséias, de um Deus que não nos abandona mesmo
quando nós o abandonamos, de um Deus que é fiel a si mesmo e às suas
promessas a ponto de não nos abandonar mesmo que mereçamos, de um
Deus que ama mais que uma mãe a seus filhos. Vínculo é sacrifício.
Vínculo só é possível a quem enxerga muito além do momento. Vínculo só
é possível para quem contempla a realidade da eternidade. Vínculo é algo
muito sólido, não é para gente líquida.
11
Menos é mais, já diria o sábio. Somos uma geração acumuladora de
coisas. Queremos coisas, compramos coisas, nos desfazemos de coisas para
ter mais coisas. Queremos crescer profissionalmente e financeiramente para
consumir, quanto mais consumimos, mais precisamos crescer para poder
consumir ainda mais. Estamos sendo engolidos pela nossa fome de ter.
Toda nossa capacidade, tempo, juventude, consumida pela vontade de
consumir. Nunca estamos satisfeitos. As novidades tecnológicas para casa,
para carros, etc., surgem na velocidade da luz. Mal adquirimos algo e
aquilo já está ultrapassado e já não serve mais. Hoje se discute a
engenharia reversa. Ou seja, como podemos reutilizar de lixo, a chamada
reciclagem. E o que fazer com tantas coisas que são descartadas em todo o
mundo todos os dias. Países mais industrializados, como o EUA, são
pioneiros nesta questão porque sofrem com isto há muito mais tempo. Na
contramão e por motivos óbvios, aqueles que produzem investem cada vez

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 88

mais em produtos que sejam ao mesmo tempo descartáveis e de alto


consumo.
No que diz respeito à religião, e especificamente às igrejas
evangélicas, já dá para afirmar que quantidade nem sempre é sinônimo de
qualidade, às vezes é até o contrário. Vivemos a pressão de ter que crescer.
A pressão pelo crescimento puro e simples pode ser algo muito perigoso à
boa saúde espiritual da igreja. Tal crescimento atende muito mais à vaidade
e não ao êxito no ministério. Um pastor não é capaz de capaz de cuidar de
modo apropriado de mais do que 80 ou 100 pessoas. As muitas posses
escravizam assim como o cuidado de mais gente do que podemos cuidar de
fato. A prosperidade material de algumas pessoas é tanta que são obrigados
a gastar fortunas para proteger e cuidar daquilo que tem. É certo que as
pessoas têm diferentes capacidades para cuidar de coisas e de pessoas e,
acredito que muitas sejam capazes de lidar com muita coisa. Questiono, no
entanto, a grande atenção que damos a números, volumes e
quantidades. Tenho a suspeita de que quanto maior é o vazio de nosso
coração mais precisamos de coisas externas para compensação.
Quando encontramos satisfação maior em nós e nas coisas mais
simples, temos menos necessidade de coisas que camuflem nossa solidão,
vazio e dor, mas isto é apenas um suspeita.
Na mesma via destas questões está a insatisfação pessoa conosco e o
esforço crescente e impulsionado pela indústria da beleza para que
promovamos mudanças radicais em nossa aparência. Não tenho nada
contra a boa saúde, muito pelo contrário. Também não acho que pessoas
que se cuidam sejam vazias ou idiotizadas. Parece que a humanidade
deixou-se vencer por sua própria insatisfação. Já que não dá para ser
alguém melhor vamos ter coisas e fazer de tudo para parecer melhores.
Músculos também são feitos de água. O silicone é um gel (quase
líquido).

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 89

12
Tenho uma interpretação particularizada de João 3.12 - ¨se vos falei
de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das coisas
celestiais?¨, uma chamada dura de atenção de Jesus a Nicodemus. Jesus
aponta para a necessidade de conhecer as coisas celestiais, mas não sem
antes entender bem das coisas terrenas das quais ele falava: nascer de novo,
arrepender-se, batizar-se, etc.
Estamos cercados de gurus e super crentes, pessoas ligadas
diretamente ao trono de Deus. Entretanto, gente presa a terra demais, mas
com famílias destruídas, endividadas, com seus nomes envolvidos em toda
sorte de sordidez. Ainda devemos olhar para líderes e crentes como pessoas
que devem conduzir suas vidas com certa tranquilidade, não estando
envolvidas em escândalos e nem terem seus nomes constantemente
envolvidos em atividades suspeitas ou atos estranhos.
Mas ainda estamos diante homens que, no passado sabidamente,
estiveram envolvidos com estelionato, roubos, falcatruas e enganando fiéis.
O ruído espiritual e a aparência de vida cristã são tão importantes que
mesmo as mais aparentes formas de mau caratismo são relevadas.
Lembra-nos a famosa história da mulher de César, suspeita (jamais
confirmada) de um romance adúltero: à mulher de César não basta ser
honesta, mas parecer honesta também. Aplicando a nós deveríamos não
apenas ser, mas também parecer honestos, ou seja, o sermos por dentro e
por fora. Nenhum de nós ainda subiu ao céu, e por isto, não podemos fazer
muitas afirmações a seu respeito, mas podemos concluir, pela observação,
que são aqueles que (aparentemente) farão parte dele pelo seu
procedimento. Assim, fazem todo o sentido as palavras do Apóstolo Tiago
que nos invoca a prática das boas obras para mostrar a fé que se tem. Os
futuros cidadãos do céu já tem aqui um comportamento condizente com seu
estado final, apesar das limitações ainda presentes do pecado.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 90

Incomoda o fato de que tenhamos que ensinar princípios do caráter


às pessoas sob nossos cuidados, ainda que o caráter brote no interior e do
interior sem muita interferência externa, com um produto da alma e do
espírito. Da mesma forma, não podemos gerar um filho de Deus por nossa
própria força, capacidade de aconselhar ou por nossa capacidade de
convencimento e persuasão. Conjecturas. Líquidas.
13
O cristianismo é massacrado e desvalorizado pelas palavras e não
mais pela perseguição pura e simples. O cristianismo e os cristãos são
fortalecidos pela perseguição. Ao contrário do que parece, a estratégia de
destruição não está na perseguição e na morte, mas nas críticas, ofensas e
ridicularização. Ou seja, falando, falando e falando. O cristianismo se
fortaleceu quando era perseguido. No Brasil não sofremos perseguição,
estamos na moda. Nada pior para a gente.
O mesmo acontece com o amor. Falado, cantado, pregado, recitado,
repetido e banalizado. A profecia de Cristo Jesus se cumpre: a fé e o amor
esfriaram em quase todos. Tanto falam dele ao passo que não parecem de
fato acreditar em sua existência. É a mais pura expressão do distanciamento
de Deus.
Por outro lado, é produto de uma mistificação em torno destas
palavras: cristianismo e amor. Muitos, se valendo da Bíblia, discorrem
longamente sobre diferenças de palavras, que até existem, filosofam e
argumentam sem fim, mas sem resultado. Temos que olhar para o amor de
Deus para entender do que falamos e tratamos.
Em Êxodo 3, pouco antes da chamada de Moisés, vemos o próprio
Deus afirmar que ouviu o clamor de seu povo por causa de seus malfeitores
e afirma: ¨por isto desci¨ (3.8a). Um ato de caminhar na direção do homem
em sofrimento para cooperar, ajudar, solidarizar e resolver o problema que
causava sofrimento ao seu povo.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 91

Além disto, a expressão ¨meu povo¨ (3.7) acentua sua identificação


com toda aquela gente sofrida, deixando claro que o sofrimento deles era
seu sofrimento também. Se a Bíblia terminasse em Êxodo 3.8, ainda
poderíamos afirmar muitas coisa sobreo amor de Deus: o Deus que vê, o
Deus que ouve, o Deus que sente, o Deus que percebe, o Deus que desce, o
Deus que ajuda, o Deus que participa, enfim, o Deus que ama.
O amor se expressa em atos que são demonstrados pelas atitudes e
sentimentos expressos neste texto. Amor é algo prático e participativo e
começa por nossa sensibilidade e percepção do outro. Entretanto, a liquidez
também gera invisibilidade. Principalmente dos diferentes. Lembre que
Israel, como o próprio Deus afirmará mais tarde, era um povo sem
nenhuma expressão. Era um povo escravo, pobre, mas amado por Deus
mesmo assim.
Há uma surdez muito grande também. Há muita gente gritando o
tempo todo e pedindo a ajuda que não somos capazes de ouvir e atender.
Quem sabe isto não seja resultado da existência e posse de aparelhos que
possuem tecnologias cada vez mais avançadas na reprodução de sons e,
enquanto os fones de ouvido estão cada vez mais presentes nas nossas
orelhas, tapadas para os outros.
Se não vemos e não ouvimos, também não sentimos. Não temos
tempo para sentimentos pequenos de dor e solidariedade. Não encaramos a
dor e o sofrimento, estamos sendo treinados para apagar estas etapas da
vida. Treinados para fugir do sofrimento, mas isto é inevitável. Não
falamos mais de doenças, nem de morte, nem de perdas porque não
sabemos mais como lidar com isto. Criamos diversos eufemismos para
mascarar nossa dor e fugir de nossos sentimentos diante da dureza da
realidade da vida. Por isto, somos uma geração que sente cada vez menos,
que sabe cada vez menos lidar com os próprios sentimentos e ainda menos
com os sentimentos dos outros.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 92

Nossa percepção também é muito curta, não temos olfato, nem visão,
nem tateamos a nossa volta para saber o que acontece. As imagens a que
estamos acostumados falseiam muito bem a verdade. Estamos muito mais
condicionados pelas mensagens subliminares, não conscientes ao olho nu,
mas enriquecidas por uma cosmovisão contaminada pelo consumismo,
hedonismo, etc. Um mundo de cores e imagens cada vez melhor, mas que
esconde a verdade. Verdade que não queremos perceber. Ora julgamos que
as pessoas sofram por causa de seus próprios erros e decisões ou que
estejam pagando pelo mal que fizeram, ora culpamos o governo, ou a falta
de estrutura dos novos modelos familiares e nos escusamos de qualquer
responsabilidade. Um mundo colorido, sonoro, cheio de falsas sensações,
mas cheia de vazios.
A igreja precisa ser mais assertiva no sentido de praticar o amor, ou
seja, transformá-lo em ações praticas e objetivas, sem debate ou discussão.
Ela deve ser mais direta o sentido de caminhar na direção daqueles que
precisam de amor. Caso contrário, será liquida.
14
Concordo com aqueles meus professores de Teologia quando dizem
que a Teologia tem prazo de validade e que se ajusta e renova de tempos
em tempos. Ainda que seja uma tarefa grandiosa, basta ler a história da
igreja com todos os seus dilemas e os longos e acalorados concílios. Erros e
acertos foram cometidos no passado e hoje não é diferente. Um dos erros
da Teologia, em suas mais diversas fases, foi se deixar aprisionar por um
academicismo encarcerado em si mesmo. Ou seja, que não reproduzia na
vida e no dia a dia da igreja suas descobertas, reflexões e teses ou que não
seja oriunda da própria vida da igreja.
No entanto, vemos uma invasão de novas teses, teologias
moderninhas e interpretações das mais variadas e perigosas. A Teologia da
Cura e da Prosperidade, tão contestada e criticada, ainda é presente e vive
seu auge, invadindo a mente a e lógica de crentes e igrejas mais tradicionais

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 93

e históricas. Os meios mais tradicionais estão cheios de estudos e sermões


sobre a Graça de Deus, sobre Liberdade e a Culpa.
Creio na Graça de Deus como único remédio para aceitação por
Deus de um pecador miserável sem solução senão em Cristo. Creio que
Cristo nos dá liberdade, mas liberdade que não dê ocasião para o pecado.
Liberdade e não libertinagem. Viver sem culpa é impossível. Precisamos
dela para nos corrigir, apontando os erros das nossas almas. Somos
pecadores! Implica dizer que erramos, falhamos, fazemos avaliações falsas
e distorcidas e precisamos sentir sim o peso do que fazemos de errado.
É revoltante ver e ouvir por vídeo, pessoalmente, por áudio, pelo
testemunho de pessoas, colegas de ministério, pastores tradicionais, gente
formada em Teologia, falando impropérios do mais alto grau de
periculosidade a uma geração sedenta de pecar. Mensagens universalistas
que negam a necessidade da conversão a Cristo, a autorização para uso de
bebidas alcoólicas (com moderação), liberação do sexo antes do casamento
(desde que se tenha certeza de aquela pessoa foi escolhida por Deus), a
falta de distinção entre luz e trevas sob o pretexto de evangelização e de
que a fé cristã é aberta, livre e dialogal.
O resultado se faz presente: pessoas fracas, perdidas, lamentando sua
vida, distantes de Deus, iludidas. E, o que é pior, vazias de Deus. Um Deus
que não habita o coração vendido ao pecado.
No passado tínhamos uma sobrecarga injusta de exigências sem
sentido e de cobranças que igualmente afastava o homem de Deus pelo
cumprimento de normas e exigências que jamais foram exigidas por Deus,
mas infelizmente partimos para o liberou geral. De um extremo fomos para
o outro.
Esta interpretação teológica contemporânea é libertina e falsamente
libertadora, atropelou os conceitos das ciências gerais e do comportamento
humano claramente apontam para os riscos de certos ensinos. Com a alma
não se brinca.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 94

É o neoliberalismo teológico e bíblico atuando em prol de um


pragmatismo e utilitarismo que mata os que a eles se entregarem. Uma
liquidez que vai afogar muita gente.
15
Quem nunca deu um boot em seu computador apertando
simultaneamente as teclas: ctrl+alt+del? Depois de uma tela travada, um
processo muito demorado de iniciação (e não inicialização como aparece
em muitos computadores em virtude de um erro de tradução do inglês), ou
outros problemas quaisquer pode ser a solução. O único boot que já tive na
vida foi quando aceitei Jesus e não mais. Até confesso que gostaria de ter
outro. Reiniciar tudo. Vejo as pessoas brincando tanto com a vida,
julgando-se eternas, jugando-se com poder, e imagino que elas tenham um
sistema operacional que as permita simplesmente apagar tudo e começar de
novo. Infelizmente não dá para simplesmente apagar tudo de um instante
para o outro e recomeçar do zero como se fossemos outra pessoa. O que
funciona no computador não funciona com a gente. Não partimos do zero
simplesmente, mas partimos do que somos.
Pensando na igreja e na religião, pessoas muitas vezes se dizendo
decepcionadas, saem de suas igrejas e se mudam para outra com a
esperança de que tudo se renovará num instante. No entanto, são as mesmas
pessoas, com os mesmos problemas, as mesmas rebeldias, as mesmas
incoerências e, por certo, viverão as mesmas dificuldades e decepções em
um círculo vicioso sem fim. Como aqueles que tentam mudar seu corpo e
aparência. Há que já tenha feito mais de 60 ou 70 cirurgias plásticas ou
estéticas, deixando claro com isto que querem ser aquilo que não são,
tentando mudar-se radicalmente, apagando-se e (tentando) recomeçando
tudo. Tentando o impossível. Procuramos uma igreja ou uma religião que
mude completamente nossa mente e nosso jeito de ser e estamos dispostos
a pagar por isto. É uma crise de amor próprio paradoxal porque contrasta
com o hedonismo e o egoísmo do nosso tempo. A liquidez nos faz acreditar
que a todo tempo podemos reiniciar o nosso sistema, quando não podemos.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 95

Que não se demonize tudo que há em nosso tempo sob o custo de


cometer um suicídio social, distanciando-nos de tudo.
Nosso tempo tem suas vantagens oriundas do reconhecimento de
nossas desvantagens. Um tempo que lançou, e ainda lança muita luz, sobre
os nossos falsos desejos de sermos deuses que controlam todo o universo.
Época que lança luz sobre a incoerência de uma humanidade que causa a
morte dia após dia de si mesma ao se dividir em castas, guetos, clubes,
ideologias, gêneros e etc. uma época que desbancou lideranças, heróis e
que derrubou muros e sistemas políticos falidos. Um tempo incerto onde
tudo parece ser possível, inclusive dar tudo certo. Um tempo que já
escancarou as fraquezas e a capacidade do ser humano de ser fútil e
utilitarista. Caiu a carapuça. Não existem mais santinhos e pessoas acima
de qualquer suspeita.
Nunca precisamos tanto da segurança e da proteção de Deus. Nunca
tivemos um tempo em que a igreja pudesse ser tão importante e relevante.
Nunca precisamos tanto de Cristo.
Posso ter parecido muito rancoroso e crítico demais, mas você lerá
de modo claro e nas entrelinhas do que escrevi que vejo solução e, dentro
do possível, as apontei.
Sou um sujeito (quase) pós-moderno cheio de dúvidas e incoerente.
Sofro e não sei muito do que podemos fazer. Mas mantenho no coração a
certeza do valor da minha fé para salvar o mundo, a certeza da Palavra de
Deus como viva e eficaz, a certeza de que a Igreja é uma agencia de Deus
no mundo, a certeza de que neste mar de impiedade e de pessoas más e
perdidas há irmãos e pessoas com fé verdadeira e que não se dobrarão aos
Baaís no nosso tempo. Sei que a minha fé e a minha esperança
sobreviverão a este tempo, mesmo que em alguns dias você possa me
encontrar triste ou até um pouco revoltado.
Possa Deus me usar apesar do que eu sou.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 96

O DESAFIO DA SECULARIZAÇÃO

Introdução
Aqui vamos tratar de uma das questões mais importantes nos debates
da Teologia Contemporânea e da Práxis Cristã: o processo de secularização
da fé cristã. Este processo não começou hoje e está muito longe de seu fim,
mas passou por diversas fases e veremos seu status atual. Geralmente é o
processo que explicar o esfriamento da fé Cristã na Europa. O problema da
secularização é do foro da ortodoxia5, da ortopraxia6 e da ortopatia7. Os

5
Um problema de conhecimento bíblico e doutrinário. "Caráter ou condição de ortodoxo;
conformidade absoluta com certo padrão, norma ou dogma; interpretação, doutrina ou
sistema teológico implantado como único e verdadeiro pela Igreja; dogmatismo religioso;
intolerância com relação ao que é novo e diferente”. É a verdadeira doutrina. Uma igreja
ortodoxa é aquela que se mantém em conformidade com o ensino das Escrituras Sagradas,
rejeitando todo e qualquer padrão que o mundo apresenta como certo e doutrinal. "Orto" diz
respeito ao que é correto, reto, verdadeiro, fiel, etc. "Doxia" ou "doxo", diz respeito à
doutrina, conjunto de ideias, aquilo que é correto e deve receber total atenção. Todo cristão
verdadeiro é ortodoxo, pois mantem-se fiel as Escrituras e sempre quer viver da maneira que
a Bíblia ensina como se deve viver. Isso também deve visto na prática, pois a verdadeira
vida cristã é aquela que é mantida pelos padrões da Bíblia e não em conformidade com as
ideias mundanas.
6
Um problema de prática de vida, cristã em boa medida oriunda da falta de conhecimento
doutrinário. A Ortopraxia é um problema da Ética cristã, tem a ver com a maneira do viver
do cristão e da vida litúrgica na prática. "Orto" - correto ou direito... "praxia" - procedimento
ou ação prática. É o exercício das reflexões apresentadas pelas Escrituras - falo pelo lado
ético cristão. Ex: os Dez Mandamentos tem a função de nos levar ser pessoas de fato cristãs,
e sua reflexão nos leva a entender a quem adoramos e como deve nosso procedimento para
com o nosso próximo. A ortopraxia é o uso correto daquilo que meditamos quando
escutamos uma pregação ou lemos a bíblia e colocamos tudo o que meditamos, na prática. É
aquilo Tiago nos ensina: “Tornai-vos cumpridores da palavra, e não ouvidores tão somente,
enganando-vos a vós mesmos” Tiago 1.22.
7
Um problema de coração, afeição, sentimento e de responsabilidade. Ortopatia é a
maneira correta do saber. Aquilo que aprendo que é certo devo colocar em prática. Diferente
da maneira que o mundo vê, a mente do cristão é ligada ao que Deus pensa. Ex: as pessoas
que não conhecem a Deus sabem que deve fazer o bem, mas o faz por egoísmo, por desejos
secundários de engrandecimento de si mesmo, ao invés do engrandecimento da pessoa de
Deus. Diferente da pessoa que conhece a Deus, os que não sabem a maneira cristã na prática
das boas obras, do entendimento da vida ou do ensino das Escrituras com relação às ações,

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 97

problemas da ortodoxia são problemas da mente e do pensamento, ou seja,


àqueles que dizem respeito à doutrina e a cosmovisão, ou seja, o modo
como se enxerga o mundo. Os problemas de ortopraxia dizem respeito aos
problemas nas ações da igreja e em seu ministério e quem tem muito a ver
com os problemas de ortodoxia, ideias distorcidas produzem
comportamentos distorcidos. Os problemas de ortopatia são os problemas
de afeição, de relacionamento, ou seja, quanto à percepção de si mesmo e
do outro.
Antes de tudo, precisamos definir o que é secularização e, uma boa
maneira de fazer isto é comparar a secularização com aquilo que
costumamos chamar de mundanismo.
Veremos também que no cerne da questão há o conflito entre a
transcendência e a imanência divinas ou da relação entre a natureza e a
graça.
Este debate é de crucial importância porque a vida da igreja no seu
dia a dia, as ações missionárias e evangelísticas da igreja dependem de uma
análise do público-alvo, o homem secularizado, e da mente do próprio
cristão, altamente secularizada também.

sempre agirão de maneira diferente da qual Deus sabe e ensina que é correta. A ortopatia é o
uso correto daquilo que eu entendo como certo sem envolvimento do egoísmo, mas envolve
negação de si mesmo e humilhação perante o Deus, que sabe todas as coisas e comunica seu
entendimento ao nosso coração/mente. Isso leva a pessoa é ser piedosa. Como diz Pedro:
“Por isso mesmo vós, aplicando da vossa parte toda a diligência, ajuntai à vossa fé a virtude;
à virtude, a ciência; à ciência, a temperança; à temperança, a fortaleza; à fortaleza, a
piedade; à piedade, o amor dos irmãos; e ao amor dos irmãos, a caridade” 2 Pedro 1.5-7.
Podemos, por fim, entender ortopatia como: o verdadeiro e correto entendimento do certo
sem o ego pra trás. É eu saber o que é certo sem procurar meu próprio benefício, mas o
benefício do meu próximo. Isto está inteiramente ligado à vida cristã prática. A sabedoria de
Deus sendo usada de forma correta na minha vida e na vida das pessoas ao meu redor. É
também o que Tiago ensina sobre as obras e a fé: se eu sei que tenho fé, que amo e creio em
Deus com verdadeiro entendimento, eu devo, então, não só ter fé, mas colocá-la em prática
pelas boas obras, exercitando assim aquilo que compreendi do evangelho e que é certo; por
meio disso vem a piedade e o seu verdadeiro exercício.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 98

A dinâmica da vida humana coloca o homem sob o domínio de


diversas esferas: ciências, trabalho, esportes, saber teológico, etc. E temos
uma clara dicotomia entre tais saberes e a vida prática do homem.
Este texto dá inicio a uma serie de estudos posteriores feitos por
outros pastores e lideres. Esperamos que este seja um bom pontapé inicial.

Uma breve análise bíblica – o mundo e o século


É comum, nos meios evangélicos, nos referirmos ao ¨mundo¨. Vindo
da palavra grega cosmos, esta palavra pode ter diversos significados, dos
mais neutros ao mais complexos. Pode significar espaço universal,
composto de matéria e energia e ordenado segundo suas próprias leis, ou
seja, aquilo que chamamos de universo, com as leis da gravidade, calor,
energia cinética dos astros e estrelas, etc. Ou ainda, como conceito oriundo
da filosofia grega, a harmonia universal, o universo ordenado em leis e
regularidades, organizado de maneira regular e integrada, ou seja, o
organismo vivo que é o universo e todas as suas relações. Mas pode ter
outras conotações dentro do universo religioso e do próprio contexto
Bíblico.
Este é o termo costumeiro usado na tradução do termo
grego kósmos em todas as ocorrências nas Escrituras Gregas Cristãs, exceto
em 1 Pedro 3.3, onde é traduzido como “adorno”. “Mundo” pode significar
em primeiro lugar a humanidade como um todo, à parte da sua condição
moral ou modo de vida, ou seja, o conjunto dos seres humanos organizados
em sociedade, tribos, grupos, etc., sem qualquer juízo de valor sobre suas
ações.
Em segundo lugar, mundo pode significar a estrutura das
circunstâncias humanas em que a pessoa nasce e em que vive (e, neste
sentido, é às vezes bastante similar ao termo grego aión, “sistema mundial”
– que veremos explicada como século).

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 99

Em terceiro lugar pode aparecer como designativo das massas da


humanidade à parte dos servos aprovados de Deus, e aqui teríamos um
juízo de valor sobre a ação de homens maus (o mundo) e homens bons e
justos (de Deus). Este último conceito seria o mundo pecaminoso o qual os
crentes querem rejeitar.
A versão King James da Bíblia (Versão do Rei James, ou Tiago) usa
a palavra “world” (“mundo”) não só para traduzir kósmos, mas também
para traduzir mais três palavras gregas, em algumas das suas traduções -
GE; AIÓN; OIKOUMÉNE. E utiliza cinco diferentes palavras hebraicas -
‟ÉRETS; HHÉDHEL; HHÉLEDH; ‛OHLÁM; TEVÉL. Isto resulta numa
mistura ofuscante e confusa de sentidos, que torna difícil obter o
entendimento correto dos textos envolvidos em função de seus contextos.
Traduções posteriores serviram para elucidar consideravelmente esta
confusão. A palavra hebraica ‟érets e a grega ge (da qual derivam as
palavras “geografia” e “geologia”) significam “terra; chão; solo” (Gên 6.4;
Núm 1.1; Mt 2.6; 5.5; 10.29; 13.5), embora, em alguns casos, talvez
representem em sentido figurado as pessoas da terra, como no Salmo 66.4 e
em Apocalipse 13.3.
Tanto ‛ohlám (hebr.) comoaión (gr.) se relacionam basicamente com
um período de duração indefinida. (Gên 6.3; 17.13; Lu 1.70).
Aión pode também significar o “sistema mundial” que caracteriza
determinado período, era ou época.
Em Gálatas 1.4 temos Hhéledh (hebr.) que te um sentido algo similar
e pode ser traduzido por termos tais como “duração da vida” e “sistema de
coisas”. (Jó 11.17; Sal 17.14).
Oikouméne (gr.) significa “terra habitada” (Lu 21.26), e tevél (hebr.)
pode ser traduzido por “solo produtivo”. (2 Sa 22.16).
Hhédhel (hebr.) ocorre apenas em Isaías 38.11, e na versão Almeida
é traduzido por “mundo” na expressão “moradores do mundo”. O

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 100

Dicionário Bíblico do Intérprete; editado por G. Buttrick, 1962, Vol. 4, p.


874) sugere a tradução “habitantes de (o mundo de) cessação”, salientando
que a maioria dos estudiosos são favoráveis a textos de alguns manuscritos
hebraicos em que ocorre hhéledh em lugar de hhédhel. A visão nessa
tradução reza “habitantes da [terra da] cessação”.
Assim, além de uma descrição do mundo criado, a conotação
também nos indica a existência de um sistema inerente à criação do qual o
homem pode ser vítima. Em 1 João 2.15, por exemplo, podemos ler: ¨não
ameis o mundo e nem o que no mundo há¨, haja visto que isto pode colocar
o crente em oposição ao próprio Criador, como vemos na sequencia do
texto. Vemos também que ¨Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o
que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do
mundo, por isso é que o mundo vos odeia¨ em João 15.19, afirmando que já
clara oposição entre os crentes em Jesus Cristo e o mundo, ou aqueles que
fazem parte do mundo.
Desta forma nos é natural associar o mundo, não no sentido de
criação, mas com o sentido de sistema mundano, com toda a sorte de
práticas e pensamentos comuns a homens e sociedades distantes de Deus
em Cristo.
Automaticamente, é do pensamento comum do crente associar o
¨mundanismo¨ às praticas imorais e pecaminosas entre as quais poderíamos
alistar: festas desregradas, sexo livre (fora do casamento, antes do
casamento, etc), vícios de toda natureza (álcool, drogas, pornografia, etc.),
comportamento lascivo ou indecente, falatórios profanos, entre outros. Esta
aplicação é ainda um tanto restritiva porque trata apenas do comportamento
ético e como estamos observando, sentido completo exige considerações
que vão além. Esta lista pode ser vista em Gálatas 5.19-21 como obras da
carne, por exemplo. Ou seja, um conjunto de práticas nitidamente
contrárias à vontade de Deus.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 101

Mas o que vamos tratar aqui é também da natureza de algo ainda


mais profundo e imperceptível (para muitos), que é a secularização. Talvez,
por se tratar de uma doença, desvio ou heresia no campo epistemológico8,
ou seja, no campo das ideias, seja quase não notado, ignorado. É da
natureza da secularização este torpor intelectual prático.
Se compreendemos o termo pecado como ¨errar o alvo¨ (hatta, heb.
ou hamartia, gr.), transgredir (pesha, heb. ou parabasis, gr.) e viver fora do
propósito (avon, heb. ou adikia, gr.), podemos afirmar que a secularização é
mais uma face do pecado, talvez a pior. Assim o cremos. Compreendemos
que o pecado não é apenas a ação direta que leva o homem a transgredir,
mas a incapacidade para o bem construída sobre uma mentalidade caída
incapaz de saber o que o mal e qual a vontade de Deus.
A grande armadilha da secularização é a de que ela pode ser vivida
sem que haja qualquer problema de natureza ética, ou seja, não havendo
muitas vezes aparentes desvios na conduta prática, fazendo os indivíduos
parecem moralmente corretos e acertados, ainda que espiritualmente, ou
moralmente, seu comportamento tenha origem em desvios graves da forma
de pensar, traga consequências muito graves à fé como: apostasia,
esfriamento, falsa religiosidade (farisaísmo), ¨profissionalismo religioso¨,
etc.
Encontramos na ACRF, versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel, a
ocorrência no Novo Testamento da expressão século nos seguintes textos:
1 Coríntios 1.20: ¨Onde está o sábio? Onde está o escriba?
Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou
Deus louca a sabedoria deste mundo?¨ - este é um

8
Reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, esp. nas
relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades
tradicionais do processo cognitivo; teoria do conhecimento. Estudo dos postulados,
conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico, ou das teorias e práticas em
geral, avaliadas em sua validade cognitiva, ou descritas em suas trajetórias evolutivas, seus
paradigmas estruturais ou suas relações com a sociedade e a história; teoria da ciência.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 102

questionamento para os homens que parecem ditar os rumos


da sociedade, mas que não tem poder para isto, já que é Deus
quem comanda inclusive a sanidade ou insanidade dos
pensamentos humanos. Vários textos dizem que Deus
entregou o homem aos seus pecados e à obstinação. Este texto
afirma que esta entrega faz com que os pensamentos dos
homens sábios, conforme este mundo, estejam completamente
corrompidos.
2 Coríntios 4.4: ¨Nos quais o deus deste século cegou os
entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a
luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de
Deus.¨ - quem seria o Deus deste século? Satanás? Não nos
restam outras alternativas. Ele bloqueia o entendimento dos
incrédulos e os afasta da luz do Evangelho. Ele ¨parece¨
governar o modo de pensar do mundo (cosmos). A afirmação
de João que de o mundo jaz no maligno faz juz a esta
interpretação (1 Jo 5.19).
Gálatas 1.4: ¨O qual se deu a si mesmo por nossos pecados,
para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade de
Deus nosso Pai.¨ - o século é mau de acordo com este texto.
Uma alusão ao presente momento da humanidade, além da
clara vontade de Deus, manifesta pelas palavras do Apóstolo,
de que quer nos livrar deste mundo mau.
Efésios 1.21: ¨Acima de todo o principado, e poder, e
potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só
neste século, mas também no vindouro.¨ - aqui a expressão
século para indicar a própria realidade de Novos Céus e Nova
Terra.
Efésios 6.12: ¨Porque não temos que lutar contra a carne e o
sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades,

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 103

contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes


espirituais da maldade, nos lugares celestiais.¨ - deste século é
deste momento, a luta do fiel a Cristo contra os poderes
satânicos e os poderes humanos pecadores.
2 Timóteo 4.10: ¨Porque Demas me desamparou, amando o
presente século, e foi para Tessalônica, Crescente para
Galácia, Tito para Dalmácia.¨ - aqui parece uma alusão ao
amor ao mundo.
Tito 2.12: ¨Ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às
concupiscências mundanas, vivamos neste presente século
sóbria, e justa, e piamente.¨ - este século é simplesmente este
mundo neste momento.
Hebreus 6.5: ¨E provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes
do século futuro.¨ - mais um alusão aos Novos Céus e Nova
Terra.

Faremos destaque de quatro passagens que parecem contundentes no


debate, mas agrupadas em duas questões: 1 Coríntios 1.20; 2 Coríntios 4.4
e 2 Timóteo 4.10 e uma segunda em Efésios 6.12.
Em 1 Coríntios 1.20 o que temos traduzido como século é a palavra
aionius (era), que também é traduzida em Mateus 13.22, p.ex., como
mundo. É a mesma palavra que aparece em 2 Coríntios 4.4 como em 2
Timóteo 4.10. Este texto, que abre a carta aos Coríntios, Paulo faz um
nítido contraste entre a sabedoria deste mundo (século) e a sabedoria de
Deus. Dois contrastes podem ser observados aqui. O primeiro é a clara
oposição a uma sabedoria mundana, elitista e causadora de divisões entre
os próprios coríntios como podemos ver em toda carta, mas com destaque
para o capítulo 3. A segunda é a pomposidade com que os sábios segundo
este século eram vistos e tratados no primeiro século. Eram comuns longos

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 104

discursos com palavras e conceitos difíceis, além da cobrança para estes


momentos. Os coríntios foram criados neste ambiente e apreciavam estas
demonstrações de oratória. Paulo parece ser desprezado por sua
simplicidade no comunicar o Evangelho e a ausência de cobrança por parte
do Apóstolo para realização de longos discursos, pratica que era não apenas
comum, mas obrigatória a todo orador que se valorizasse na época, em face
do desprezo não apenas dos homens deste século, mas até mesmo dos
crentes da cidade de Corinto, parecia esvaziar o conteúdo e o poder da
mensagem evangélica na boca de Paulo. Paulo afirma que se 1 Coríntios
2.5 que desejava que a fé dos coríntios não se baseasse em sabedoria
humana, mas no poder de Deus. É neste contexto que esta afirmação deve
ser compreendida.
Em Efésios 6.12 a palavra grega que aparece é kosmokratoras
(κοσμοκράτορας - poderes cósmicos) das trevas. Esta é a única ocorrência
desta palavra em todo o texto bíblico e leva a traduções da mesma como
forças mundiais, governadores ou legisladores, ou lideranças mundiais das
trevas. A NVT9 diz: ¨governantes e autoridades do mundo invisível¨. Esta
expressão tem muito mais paralelos com principados e potestades do ar,
como em Efésios 2.2-3, ou o próprio contexto posterior de Efésios 6.12. O
contexto da passagem é da militância cristã contra todas as forças que se
opõe ao Evangelho. A armadura cristã é descrita: cinto da verdade, couraça
da justiça, pés calçados com o Evangelho da Paz, escudo da fé e o capacete
da Salvação e, conclui estas armas, falando da oração (ver Efésios 6.12-18).
Pensando no exemplo do próprio Paulo, podemos concluir que isto diz
respeito à confrontação com os incrédulos, ímpios, autoridades de então e
mesmo a um confronto com os poderes satânicos, como em muitas vezes
no seu ministério.
Poderíamos invocar a tentação sofrida por Jesus Cristo no deserto em
Mateus 4 como exemplo de como as forças lideradas por Satanás invadem

9
Nova Versão Transformadora. Editora Mundo Cristão.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 105

e tentam subverter as ações divinas. Além das distorções da Palavra de


Deus é fácil perceber como Satanás lida com as necessidades humanas e
por meio delas procura corromper o homem.
Temos assim, o mundanismo como o amor aos valores materiais e
imorais deste mundo em detrimento de uma vida de adoração e serviço a
Deus. Temos a expressão século como o mundo sob o domínio de poderes
invisíveis ou de poderes das trevas, no qual há um governo no comando
que claramente se opõe a Deus e à sua vontade, mas mascaradamente seduz
e engana as nações e os crentes individualmente. Além, é claro, de
sistemas de pensamento e conceitos humanos que podem sobrepor os
conceitos bíblicos.
Cristãos em todo o tempo sofreram perseguições e tiveram
problemas graves para manter sua fé. No período apostólico eram os
judaizantes, seguiu as perseguições dos imperadores sob a acusação de
desordem social como oposição aos césares e não pagamentos de impostos,
o próximo passo foram as heresias cristológicas, começando com as ideias
gnósticas, o materialismo da igreja cristã constantinizada perpassou vários
séculos. Pagamentos de indulgências, corrupção do clero, etc. Hoje lutamos
contra o pluralismo e o esvaziamento do conteúdo da mensagem por meio
do secularismo.
Ora o medo, ora a insegurança, ora a confusão de ideias foram os
sentimentos a intimidar os crentes. Hoje temos a pressão pelo politicamente
correto, o pluralismo como uma imposição cultural intensa e a vergonha de
defender a sua fé. Mais do que um conjunto de pressões sociais temos uma
cosmovisão anticristã que se agigante e convence a muitos, até mesmo
crentes muito sinceros.

Uma breve análise do termo a partir de outras fontes – secularização


Secularização seria transformação ou passagem de coisas, fatos,
pessoas, crenças e instituições, que estavam sob o domínio religioso, para o

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 106

regime leigo. A transferência de bens ou pessoas do regime religioso ou


monástico, passando os bens ao regime civil, e as pessoas ao regime
secular, leigo. É bem diferente da mudanização ou mesmo da entrega da
realidade criada às potestades demoníacas e poderes invisíveis. É a entrega
a poderes humanos conhecidos e reconhecidos. Aqui implicaria, no
primeiro momento, na perda do domínio da igreja e dos poderes religiosos
de bens materiais (mais tarde, também, no campo das ideias, ciências e
saberes, como veremos).
R.N. Champlin10, também confirma que o termo diz respeito ao
confisco de bens da igreja para fins de natureza egoísta ou autoritária de
governos como o de Carlos Martelo, na França no século VIII d.C. Isto
incluía todo o tipo de propriedade da igreja.
Lembremos que após a oficialização da igreja cristã como religião
oficial do Império Romano, no processo que poderíamos chamar de
constantinização, a igreja acumulou muitos bens e propriedades.
Nos tempos modernos, o termo diz respeito à separação entre o
Estado e a Igreja quanto à entrega dos domínios das atividades das ciências
humanas, artes, filosofias, educação e economia nas mãos deste mesmo do
Estado. A igreja é tida como incapaz de julgar matérias nestas áreas. Inclui-
se aí, também, a secularização das ideias no qual a visão sobrenaturalista da
vida é substituída por ideias ditas seculares e profanas, mas sobre isto
trataremos no próximo ponto.
Max Weber, importante pensador do protestantismo e da
sociologia, concluiu que grande parte da vida social foi reduzida à lógica
racional. A modernidade construiu-se em meio aos conflitos ideológicos da
razão objetiva instrumental, utilizada como ferramenta de abordagem de
problemas e questões do pensamento humano e de sua realidade, e
abandonou progressivamente o pensamento tradicional, que era religioso e
transcendente. Weber também faz alusão a esse fenômeno ao chamá-lo de
10
R.N. Champlin. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Volume 6, pag. 123-124.

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Vamos falar de Teologia 107

“o processo de desencantamento do mundo”, em que o sujeito moderno


despe-se de costumes e crenças baseadas em tradições herdadas ou
aprendidas que se apoiam nos pilares fixos das religiões ou da “magia”.
Explicações e questionamentos baseados na utilização da razão
instrumental quebram noções preconcebidas e ancoradas no núcleo
religioso tradicional, mas é importante notar aqui que mesmo este conceito
já ruiu na pós-modernidade.
Weber atribuiu ao momento de crescimento histórico do sistema
capitalista, que ganhava grande fôlego diante da enorme produção que a
Revolução Industrial, como sendo o ponto principal do processo de
secularização. O lucro tornava-se prioridade nas relações comerciais, o que
exigia em grande parte a racionalização das ações dos sujeitos. Isso se
estendeu e alcançou as demais organizações e instituições do Estado
moderno, que, em sua organização burocrática e na separação entre mundo
público e mundo religioso, isto é, a laicidade ou a constituição do Estado
laico, colocou de lado as formas de controle tradicionais, estruturando-se, a
partir de então, em torno da racionalidade formal do Direito Civil. A
secularização, neste sentido, é uma tentativa de objetivação da vida em
detrimento de qualquer subjetivação, sobretudo no campo religioso.
O processo de secularização está relacionado, portanto, com a
construção do mundo moderno. A queda das teocracias (governos
regimentados em torno de uma crença religiosa e seus preceitos) da Europa
feudal culminou no surgimento dos moldes das instituições modernas que
ainda hoje regimentam nosso mundo social. Entender o transcorrer do
fenômeno da secularização ajuda-nos a entender grande parte da forma
como o pensamento moderno estruturou-se e as diferentes formas como ele
ainda se modifica11.

11
Conf. http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/sociologia/secularizacao.htm

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Vamos falar de Teologia 108

Tendo inicio no confisco dos bens da igreja, o termo secularização


transformou-se na separação total do Estado e da Igreja e mais
recentemente, esta ideias também se aplica ao processo de divisão
(dicotomia) da via particular do crente e sua vida social. Agora ele tem
duas vidas: uma secular e outra religiosa. Isto é mesmo possível? Veremos
adiante.

Uma breve análise histórica e teológica


Nossa dicotomia está proposta entre a vida religiosa e a vida secular.
Ainda é comum ouvirmos pessoas dizendo: minha vida secular, meu
trabalho secular, etc. quando começamos a pensar assim?
Julgamos que a própria Reforma Protestante seja um dos fatores
desencadeadores mais importantes deste processo, ainda que não seja o
único e nem o fator vital para isto.
Geralmente conhecemos o período da Idade Média como Período das
Trevas. O nome é incerto, mas a expressão Idade das Trevas para se referir
à Idade Média foi muito utilizada no passado. Alguns historiadores usaram
esta expressão, pois tinham como referências a cultura greco-romana e da
época do Renascimento. De acordo com estes historiadores, a Idade Média
foi uma época com pouco desenvolvimento cultural, pois a cultura foi
controlada pela Igreja Católica.
Afirmavam também que praticamente não ocorreu desenvolvimento
científico e técnico, pois a Igreja impedia estes avanços ao colocar a fé
como único caminho a seguir. Porém, a partir da segunda metade do século
XX, com novos estudos históricos sobre a cultura e ciência da idade Média,
houve uma nova visão sobre este período e o termo foi sendo abandonado.
Alguns historiadores chegaram à conclusão que o desenvolvimento cultural
e científico foi muito rico durante a época Medieval. Ocorreram avanços
científicos e técnicos (exemplo da arquitetura).

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 109

As Universidades Medievais foram ricos centros de produção de


conhecimentos e debates. Atualmente, o uso do termo “Idade das Trevas” é
considerado preconceituoso e também incorreto, pois desqualifica a cultura,
a ciência e a arte da Idade Média.
Outra provável explicação para este termo seria o obscurantismo do
homem comum em relação aos mesmos saberes e ao conhecimento
religioso delegado exclusivamente ao clero de então.

A Reforma Protestante
A tradução da Bíblia dos originais para o Alemão realizado por
Lutero é um fator importante na virada desta fase. Mas, note-se, houve um
grande questionamento das ações e do pensamento religioso também:
mentiras, excesso de poder, dominação do povo por sua ignorância. A
Reforma protestante é sem dúvida alguma valorosa por ser uma reação do
povo, ainda que impulsionada por clérigos. Lutero era um monge instruído
e com grande peso na academia. Não podemos nos esquecer disto.
Agora, cada um podia ter acesso as Escrituras em sua própria língua
e até mesmo interpretar o texto bíblico12.
Os conflitos e a cisão causados pelas teses de Lutero, a repercussão
da Dieta de Worms, o surgimento de diversos movimentos a partir do
protestantismo, e mesmo a reação católica com a Contrarreforma e todas as
perseguições infringidas, demoliram os alicerces da unidade da igreja.
A perda do domínio nas diversas ciências foi uma consequência
direta. Como resultado imediato disso tudo, a Igreja deixou de ser vista
como aquela que tinha uma resposta para todos os problemas da vida e da
sociedade. Com suas estruturas ideológicas abaladas, a Igreja Católica
perdeu muito de seu poder político e, por incrível que possa parecer,

12
Faço uma distinção entre ¨livre exame das Escrituras¨ com ¨livre interpretação das
Escrituras¨.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 110

também perdeu muito de seu prestígio no próprio meio religioso, pois


novas interpretações, principalmente humanistas, surgiram como efeito da
Reforma Protestante13.
Além da Reforma Protestante, destacamos dois movimentos
importantes: o racionalismo cartesiano e o Escolasticismo ao lado do
Iluminismo.

Racionalismo Cartesiano
Um dos mais importantes filósofos do período moderno foi René
Descartes, um racionalista francês do século XVII, geralmente lembrado
pela ênfase na autoridade da razão em filosofia e ciências naturais, bem
como pelo desenvolvimento de métodos de verificação da verdade. Este é o
estopim para a exigência racionalista sobre a fé.
Sua influência ainda se faz sentir porque trouxe a razão como
principal fundamento da existência e colocou o homem no centro do
Universo, mas também trouxe a dúvida como elemento metodológico.
Mesmo sendo o precursor do racionalismo, e aquele em que os racionalistas
se apoiam, René Descartes criou suas teorias a partir de três sonhos que
teve. E como diz Ernesto Sabato: um belo começo para um defensor da
razão!¨14
Para Descartes a filosofia seria como uma árvore, na qual a
metafísica forma a raiz, a física seria o tronco e as diversas ciências os
galhos, sendo que o mais alto grau de sabedoria estaria na moral (elemento
que Kant vai explorar mais tarde), que pressupõem o conhecimento das
diversas ciências, sendo as principais a ética, a mecânica e a medicina.

13
http://www.historialivre.com/moderna/renascimento.htm
14
Ernesto Sabato, Antes do fim, página 60.

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Vamos falar de Teologia 111

Sua obra mais famosa, considerada a fundação da filosofia moderna,


é o tratado Discurso sobre o Método, que produziu uma revolução na
filosofia e ciência. A partir desta obra, Descartes procurou encontrar um
conjunto de princípios que pudessem ser conhecidos sem qualquer dúvida.
Para investigar tal possibilidade, procedeu à análise por meio de um
método próprio conhecido como "dúvida hiperbólica", ou "dúvida
metafísica”, mais frequentemente referida como "ceticismo metodológico",
que consiste em rejeitar qualquer ideia da qual se possa duvidar, para então,
após análise, restabelecer ou reconstruir estas ideias de modo a criar uma
base sólida para o conhecimento.
Este processo levou a sua famosa conclusão "cogito ergo sum",
traduzida como "penso, logo existo" (cogito ergo sum), pois ao eliminar
tudo de que se podia duvidar chegou à conclusão de que a dúvida era
evidência da existência do sujeito.
Aceitando assim que, o pensamento existe e, em seguida, indivíduos
pensantes existem, chegou à conclusão de que o pensamento não pode ser
separado daquele que pensa. Uma vez que os sentidos já haviam sido
rejeitados como confiáveis, Descartes conclui que o único conhecimento do
qual não se pode duvidar é "eu sou uma coisa pensante". Desta forma, o
autor estabelece um sistema baseado exclusivamente no raciocínio
dedutivo, guiando-se pela razão, que rejeita a percepção como fonte
primária de conhecimento.
Esta posição seria atacada e contestada fortemente pelos filósofos
do Empirismo Britânico, especialmente John Locke e David Hume. No
entanto, considerando que as percepções do mundo externo em comparação
ao mundo interno vêm a nós sem que as procuremos ativamente, muitas
vezes mesmo contra nossa vontade, Descartes aceita que deve haver algo
para além da mente humana, já que a origem de tais percepções é externa
aos sentidos.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 112

Considera, portanto que, tais percepções devem ser evidência da


existência do mundo externo, rejeitando assim o ceticismo acerca do
mundo exterior. A argumentação que defende este ponto está intimamente
ligada à prova ontológica para a existência de um Deus benevolente, na
medida em que Descartes defende a impossibilidade da mente humana ser
tomada por um gênio maligno que faça os sentidos nos engajarem.
Descartes foi ainda um defensor do dualismo entre a mente e o
corpo, mas diferente dos defensores anteriores do dualismo, Descartes
defendeu que a relação não é unidirecional. Sua hipótese era de que, o
corpo funciona como uma máquina enquanto a mente é imaterial e não
segue as leis da natureza. A mente e corpo estariam, desta forma,
conectados pela glândula pineal, através da qual a mente comanda o corpo,
mas também o corpo influência a mente, de forma que a relação é
bidirecional, sendo possível explicar os momentos em que agimos pelas
paixões. Fundamentos para questionar a metafísica estão embutidos no
conceito.
No campo da ética, Descartes defendeu que a virtude consiste no
raciocínio adequado, que deveria guiar nossas ações, sendo que a condição
mental, que hoje chamaríamos de saúde mental, e o conhecimento em
geral, possuem ambos de grande influência neste processo, motivo pelo
qual aconselhou ainda que um estudo completo da moral deveria incluir o
estudo do corpo. Argumentou em favor da existência de um Deus, mas
também da vontade livre, portanto, da responsabilidade humana por suas
ações.
A dicotomia entre graça e natureza lançava seus alicerces. A graça é,
pouco a pouco, substituída pela natureza na mudança do papel da igreja
para a política, a ciência, filosofia, etc.

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Vamos falar de Teologia 113

O Escolasticismo e o Iluminismo – razão no mundo e razão na fé


O escolasticismo precede o período moderno com seu principal
nome que é Tomás de Aquino. Apesar de ser muito mais considerado pelos
católicos, por ser tido como um dos seus maiores teóricos e teólogos, ele é
fundamental para a compreensão da realidade moderna. O escolasticismo é
um movimento dentro da igreja que tenta fundamentar a fé por meio da
razão.
O termo escolasticismo vem da palavra grega schole, (lugar que se
aprende). O termo foi aplicado a professores na escola palaciana de Carlos
Magno e também aos eruditos medievais que utilizavam a filosofia no
estudo da religião e da teologia.
O Escolasticismo é a tentativa de racionalizar a teologia para que se
sustente a fé com a razão; ou seja, a Bíblia deve ser interpretada e
sistematizada pelo prisma da filosofia através da dedução lógica
aristotélica. A causa principal do surgimento do escolasticismo foi a
emergência em dar uma resposta e posicionamento teológico em correlação
com a filosofia de Aristóteles na Europa.
O escolasticismo se expandiu devido o interesse dos mendicantes
pelo uso da filosofia no estudo da revelação. O grande escolástico a ser
destacado é Tomás de Aquino. Este desenvolveu as suas cinco vias, que foi
uma obra prima. Comumente se diz que Santo Agostinho cristianizou
Platão, assim como Aquino cristianizou Aristóteles. Como este, Aquino
parte do sensível para chegar ao inteligível como processo de
conhecimento. Assim, o filósofo cristão distingue cinco vias para
caracterizar o conhecimento e provar a existência de Deus. Vejamos quais
são:

1. Primeiro motor imóvel: esta primeira via supõe a


existência do movimento no universo. Porém, um ser

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 114

não move a si mesmo, só podendo, então, mover outro


ou por outro ser movido. Assim, se retroagirmos ao
infinito, nós não explicamos o movimento se não
encontrarmos um primeiro motor que move todos os
outros;
2. Primeira causa eficiente: a segunda via diz respeito ao
efeito que este motor imóvel acarreta: a percepção da
ordenação das coisas em causas e efeitos permite
averiguar que não há efeito sem causa. Dessa forma,
igualmente retrocedendo ao infinito, não poderíamos
senão chegar a uma causa eficiente que dá início ao
movimento das coisas;
3. Ser Necessário e os seres possíveis: a terceira via
compara os seres que podem ser e não ser. A
possibilidade destes seres implica que alguma vez este
ser não foi e passou a ser e ainda vem a não ser
novamente. Mas do nada, nada vem e, por isso, estes
seres possíveis dependem de um ser necessário para
fundamentar suas existências;
4. Graus de Perfeição: a quarta via trata dos graus de
perfeição, em que comparações são constatadas a
partir de um máximo (ótimo) que na verdade contém o
verdadeiro ser (o mais ou menos só se diz em
referência a um máximo);
5. Governo Supremo: a quinta via fala da questão da
ordem e finalidade que a suprema inteligência governa
todas as coisas (já que no mundo há ordem!),
dispondo-as de forma organizada racionalmente, o que
evidencia a intenção da existência de cada ser.

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Vamos falar de Teologia 115

Todas essas vias têm em comum o princípio de causalidade, herdado


de Aristóteles, além de partirem do empírico, ou seja, de realidades
concretas e de um mundo hierarquicamente ordenados. Vale também notar
como Tomás de Aquino concebe o homem. Para ele, o homem é um ser
intermediário. É composto de corpo (matéria) e alma (forma) sem as quais
nada significa, isto é, nada é isoladamente. Assim, o homem é um ser
intermediário entre os seres de forma mais elementar, como os minerais, as
plantas e os animais, e os seres mais perfeitos como os anjos e Deus. O
homem possui as características dos anteriores a ele e também dos
procedentes na hierarquia do universo.
Entretanto, o conhecimento de Deus se faz por analogia, seguindo
uma vida de negação que afasta dele todo elemento que caracteriza a
criatura. Mas somente isto redundaria num agnosticismo. E não se conhece
Deus imediatamente como numa contemplação direta com a essência
divina, mas somente através de um saber analógico em que todos os nomes
não predicados, explícita ou implicitamente de modo negativo, lhe aplicam
tal sentido analógico, o que evidencia a distância infinita entre o Criador e
as criaturas e também justifica os enunciados que de Deus fazemos (Deus é
Bom, Infinitamente Sábio, etc.).
Essa doutrina da analogia que inclui semelhança e comparação se
opõe à da iluminação; esta propõe um contato imediato com Deus. O
abandono da Iluminação divina – experiência interna – pela analogia –
experiência externa – acarretou suas consequências e dificuldades, a saber:
em primeiro lugar, as criaturas semelhantes a Deus por serem causadas por
Ele (causa equívoca) devem conter seus efeitos. Desse modo, a causa
contém em si os seus efeitos; em segundo lugar, nada é univocamente
predicável de Deus e das criaturas, o que de acordo com o dito acima
(causa equívoca) seus efeitos também o são. A univocidade se enquadra em
categorias e é a relação para a equivocidade, enquanto Deus não se encaixa
em nenhuma categoria. Ele é simplesmente; e em terceiro lugar, alguns
predicados não são enunciados do modo puramente equívoco de Deus, já

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Vamos falar de Teologia 116

que para Aquino, uma equivocação pura é um termo que, por simples
causalidade, é empregado para designar coisas diversas. O tautológico não
se relaciona com as coisas e se assim fosse, não teríamos dele
conhecimento algum; e por último, que os predicados positivos são
anunciados analogicamente de Deus e das criaturas. Em nossas
predicações, o ser compete primeiro às criaturas e depois a Deus. E não o
contrário, porque não há relações entre estes. Designamos Deus a partir do
que deparamos nas criaturas de modo infinito (nas relações, ocorre o
inverso, já que o predicado é anterior à natureza de qualquer substância).
Portanto, Santo Tomás de Aquino atribui à predicação de Deus e da
criatura, somente por analogia, evidenciando entre eles uma distância
infinita da qual nenhum conceito transpõe, já que Deus transcende
infinitamente a criatura.15
Outro motivo para sua a expansão do escolasticismo foi o início do
movimento universitário. O conteúdo do seu estudo era a Bíblia, os credos
dos concílios ecumênicos e os escritos dos Pais da igreja. A questão que
queriam resolver era saber se a Fé era ou não razoável. Sua metodologia era
norteada pela dialética lógica aristotélica. Esta dialética é mais dedutiva do
que indutiva e dá destaque para o silogismo como instrumento da lógica
dedutiva. As verdades gerais da filosofia eram tiradas da teologia; assim, os
escolásticos tentavam fazer conclusões legítimas a fim de criar um sistema
harmônico em ordem lógica.
A estrutura filosófica dos escolásticos baseava-se na filosofia grega e
dependia da posição, ou de Platão, ou de Aristóteles. Dentre elas se destaca
o realismo, onde Platão diz que os universais tem uma existência objetiva
em algum lugar do universo. Anselmo da Itália entendia a questão da fé e
da razão é de se estabelecer a fé como fundamento para o conhecimento.
Os livros-textos, como o Decretam de Graciano, um texto de lei canônica,
tiveram um lugar importante na vida da erudição medieval.
15
De acordo com http://brasilescola.uol.com.br/filosofia/cinco-vias-que-provam-existencia-
deus-santo-tomas-.htm.

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Vamos falar de Teologia 117

Outra tendência era o realismo moderado. Este era defendido por


Aristóteles, pois tinha uma visão mais moderada acerca da realidade. Ele
dizia que os universais tem uma existência objetiva, embora não exista
aparte das coisas individuais, mas sim nelas. Abelardo e Tomás de Aquino
podem ser considerados como realistas moderados. Abelardo era da
Bretanha e cria que a realidade existia primeiramente na mente de Deus,
depois, aqui e agora, em indivíduos e coisas.
Tomás de Aquino, conhecido com Doutor Angélico, dedicou-se à
integração da filosofia de Aristóteles com a teologia revelada na Bíblia
como interpretada pela igreja romana. Para isso, adotou a posição do
realismo moderado e se tornou o principal pensador escolástico a sustentar
esta posição. Em sua grande obra Suma Teológica, procurou harmonizar as
áreas da fé e da razão em uma totalidade de verdade.
Os nominalistas eram os escolásticos medievais que se opunham aos
realistas e aos realistas moderados. Roscelino e depois Guilherme de
Occam foram os representantes mais destacados do pensamento
nominalista. A frase: verdades ou ideias gerais não tem existência objetiva
fora da mente; ao contrário, elas são apenas ideias subjetivas formadas pela
mente como resultado da observação de coisas particulares descreve este
movimento.
Os universais são apenas nomes de classes. Esse grupo foi o
precursor medieval dos empiristas do século XVII e XVIII e dos
positivistas e pragmáticos contemporâneos. O conflito entre nominalismo e
realismo foi o grande problema enfrentado pelos escolásticos no primeiro
período do escolasticismo, entre 1050 e 1150.
Por fim, pode-se concluir dizendo que na Suma de Tomás de
Aquino, o escolasticismo deu à igreja romana medieval e moderna, uma
síntese definitiva e integrada que harmonizava filosofia e religião. Os
neotomistas procuram hoje através de um estudo da obra de Aquino

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Vamos falar de Teologia 118

providenciar uma integração entre ciência e religião para o catolicismo


moderno.
Este momento marca uma mudança fundamental na forma da igreja
pensar que será trazida ate hoje. Quando analisamos a obra patrística é
muito mais comum vermos o contraponto entre os saberes humanos e
bíblico-teológicos. Esta síntese foi tentada por Dooyeweerd, como veremos
mais tarde. Fé e razão em colapso e contrate, mas tentando, dentro do
cristianismo e na possibilidade de uma cosmovisão cristã, uma síntese.
Sob um prisma diferente, mas com a razão no topo da questão, temos
o Iluminismo. O Iluminismo foi um movimento intelectual que surgiu
durante o século XVIII na Europa, que defendia o uso da razão (luz) contra
o antigo regime (trevas) e pregava maior liberdade econômica e política.
Este movimento promoveu mudanças políticas, econômicas e sociais,
baseadas nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. O Iluminismo
tinha o apoio da burguesia, pois os pensadores e os burgueses tinham
interesses comuns.
As críticas do movimento ao Antigo Regime eram em vários
aspectos como: mercantilismo, absolutismo monárquico e poder da igreja e
as verdades reveladas pela fé. Com base nos três pontos acima, podemos
afirmar que o Iluminismo defendia: a liberdade econômica, ou seja, sem a
intervenção do estado na economia; o antropocentrismo, ou seja, o avanço
da ciência e da razão; o predomínio da burguesia e seus ideais; as ideias
liberais do Iluminismo se disseminaram rapidamente pela população.
Alguns reis absolutistas, com medo de perder o governo - ou mesmo
a cabeça - passaram a aceitar algumas ideias iluministas. Estes reis eram
denominados Déspotas Esclarecidos, pois tentavam conciliar o jeito de
governar absolutista com as ideias de progresso iluministas. Alguns
representantes do despotismo esclarecido foram: Frederico II, da Prússia;
Catarina II, da Rússia; e Marquês de Pombal, de Portugal.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 119

Alguns pensadores ficaram famosos e tiveram destaque por suas


obras e ideias neste período. São eles: John Locke que é considerado o “pai
do Iluminismo”. Sua principal obra foi “Ensaio sobre o entendimento
humano”, aonde Locke defende a razão afirmando que a nossa mente é
como uma tábula rasa sem nenhuma idéia. Defendeu a liberdade dos
cidadãos e Condenou o absolutismo. François Marie Arouet Voltaire, ou
simplesmente Voltaire, destacou-se pelas críticas feitas ao clero católico, à
inflexibilidade religiosa e à prepotência dos poderosos. Montesquieu, ou
Charles de Secondat Montesquieu, em sua obra “O espírito das
leis” defendeu a tripartição de poderes: Legislativo, Executivo e
Judiciário.
No entanto, Montesquieu não era a favor de um governo burguês.
Sua simpatia política inclinava-se para uma monarquia moderada. Jean-
Jacques Rousseau é autor da obra “O contrato social”, na qual afirma que o
soberano deveria dirigir o Estado conforme a vontade do povo. Apenas um
Estado com bases democráticas teria condições de oferecer igualdade
jurídica a todos os cidadãos. Rousseau destacou-se também como defensor
da pequena burguesia. François Quesnay foi o representante oficial da
fisiocracia. Os fisiocratas pregavam um capitalismo agrário sem a
interferência do Estado.
Adam Smith16 foi o principal representante de um conjunto de ideias
denominadas como liberalismo econômico, o qual é composto pelo
seguinte: o Estado é legitimamente poderoso se for rico; para enriquecer, o
Estado necessita expandir as atividades econômicas capitalistas; para
expandir as atividades capitalistas, o Estado deve dar liberdade econômica
e política para os grupos particulares. A principal obra de Smith foi “A
riqueza das nações”, na qual ele defende que a economia deveria ser

16
Adam Smith foi filósofo e economista britânico e que nasceu na Escócia. Teve como
cenário para a sua vida o atribulado século das Luzes, o século XVIII. É o pai da economia
moderna, e é considerado o mais importante teórico do liberalismo econômico.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 120

conduzida pelo livre jogo da oferta e da procura (raízes do liberalismo


econômico que temos hoje).
A contribuição destes é fundamental: o conflito fé e razão, o
crescimento do Estado em detrimento da Igreja, o surgimento do
capitalismo e dos meios de produção.

A pós-modernidade
Não faremos aqui novamente uma exposição desta fase da história
humana, ainda que nos seja tão importante, porque já consta em muitos de
nossos outros trabalhos. Basta afirmar que a pós-modernidade é o
surgimento de diversas vertentes do pensamento humanos onde a
metanarrativa é descartada, ou seja, a busca por um centro lógico que seja
capaz de explicar toda a realidade e o conflito com o papel da autoridade e
da tradição (dos pais, da sociedade, do Estado e da Igreja). Além do pós-
tradicionalismo, a pós-modernidade também se caracteriza pelo pós-
racionalismo.
A pós-modernidade fomenta a pluralidade de ideias e de crenças, tem
a tolerância como princípio da convivência social, além do aspecto
econômico do globalismo.
A insistência da religião, principalmente do cristianismo, como
aquela cosmovisão de abarca toda a realidade e como a única metanarrativa
de fato, passa a ser desprezada.
Círculos liberais do cristianismo liberal tentam viver uma versão
descristianizada do cristianismo? É possível? Sua tentativa, desde o
surgimento do Liberalismo Teológico, é a busca por um discurso onde a
aspectos transcendentes, como milagres, inspiração das Escrituras, o
nascimento Virginal de Cristo, entre outros assuntos, seja removido do
debate para que haja diálogo. Mas, como negociar fundamentos da fé e
manter a fé cristã ao mesmo tempo?

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 121

O discurso da tolerância, sabidamente tão necessário em um mundo


tenso e violentos como o atual, também esbarra nas exigências de pureza e
santidade do Evangelho. O secularismo é, também, uma resposta pós-
moderna a estes desafios tão grandiosos.

Mundo pós-industrial, pós-cristão e pós-religioso (apóstata)


Estamos ainda em plena revolução digital. Vivemos a escassez de
recursos e o processo de desindustrialização de muitas economias do
mundo parece irreversível. Novos valores e novas formas de comunicação
têm surgido e as relações são cada vez mais digitais. A própria igreja cristã
ocidental enfrenta novos desafios com os relacionamentos cada vez mais
líquidos e digitais. A Europa vive o movimento em que o esfriamento da fé
e o esvaziamento da igreja geram uma sociedade quase que pós-religiosa,
ainda que em países de terceiro mundo, ou emergentes, como o Brasil, a fé
cristã pareça resistir. Este fenômeno é chamado na Bíblia de apostasia.
Como, por exemplo:
Não deixem que ninguém os engane de modo algum. Antes daquele
dia virá a apostasia e, então, será revelado o homem do pecado, o filho da
perdição. Este se opõe e se exalta acima de tudo o que se chama Deus ou é
objeto de adoração, chegando até a assentar-se no santuário de Deus,
proclamando que ele mesmo é Deus - 2 Tessalonicenses 2.3-4.
As que caíram sobre as pedras são os que recebem a palavra com
alegria quando a ouvem, mas não têm raiz. Creem durante algum tempo,
mas desistem na hora da provação - Lucas 8.13.
Por isso é preciso que prestemos maior atenção ao que temos ouvido,
para que jamais nos desviemos - Hebreus 2.1.
Alguma nação já trocou os seus deuses? E eles nem sequer são
deuses!
Mas o meu povo trocou a sua Glória por deuses inúteis. Espantem-se diante

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 122

disso, ó céus! Fiquem horrorizados e abismados", diz o Senhor.


Jeremias 2.11-12
O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns
abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios.
Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a
consciência cauterizada e proíbem o casamento e o consumo de alimentos
que Deus criou para serem recebidos com ação de graças pelos que creem e
conhecem a verdade - 1 Timóteo 4.1-3.
Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. Os homens
serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos,
desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem amor pela família,
irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do
bem, traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que
amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder.
Afaste-se desses também. São esses os que se introduzem pelas casas e
conquistam mulheres instáveis sobrecarregadas de pecados, as quais se
deixam levar por toda espécie de desejos. Elas estão sempre aprendendo,
mas jamais conseguem chegar ao conhecimento da verdade - 2 Timóteo
3.1-7.
Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom
celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, experimentaram a
bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, mas caíram,
é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si
mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra
pública - Hebreus 6.4-6.
Se continuarmos a pecar deliberadamente depois que recebemos o
conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados, mas tão
somente uma terrível expectativa de juízo e de fogo intenso que consumirá
os inimigos de Deus - Hebreus 10.26-27.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 123

Se, tendo escapado das contaminações do mundo por meio do


conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, encontram-se
novamente nelas enredados e por elas dominados, estão em pior estado do
que no princípio. Teria sido melhor que não tivessem conhecido o caminho
da justiça, do que, depois de o terem conhecido, voltarem as costas para o
santo mandamento que lhes foi transmitido - 2 Pedro 2.20-21.
Filhinhos, esta é a última hora e, assim como vocês ouviram que o
anticristo está vindo, já agora muitos anticristos têm surgido. Por isso
sabemos que esta é a última hora. Eles saíram do nosso meio, mas na
realidade não eram dos nossos, pois, se fossem dos nossos, teriam
permanecido conosco; o fato de terem saído mostra que nenhum deles era
dos nossos. 1 João 2.18-19
Quanto a vocês, cuidem para que aquilo que ouviram desde o
princípio permaneça em vocês. Se o que ouviram desde o princípio
permanecer em vocês, vocês também permanecerão no Filho e no Pai. E
esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna - 1 João 2.24-25.
No entanto, os dados do IBGE, que dão conta de uma população de
40 milhões de evangélicos no universo de 207 milhões de habitantes, não
expressa a realidade religiosa brasileira. O modelo de cristianismo que
temos é o do clientelismo, ou seja, há relacionamento com a igreja, mas não
há expressão de vida religiosa e piedade na vida pessoal. Há uma
enormidade de trabalhos escritos neste sentido17.
Já abordamos em outro trabalho que, segundo cientistas da religião, o
Brasil ainda vive, do ponto de vista religioso, o mesmo status da fé na
Europa antes da Reforma, mas com os requintes da cultura e da pós-
modernidade que se impõe.

17
BITUN, Ricardo. Mochileiros da fé. São Paulo: Reflexão. / RAMOS, Ariovaldo. Nossa
igreja brasileira. São Paulo: Hagnos. / RAMOS, Ariovaldo. Ação da Igreja na Cidade. São
Paulo: UP. / STEUERNAGEL, Valdir (org.). A missão da igreja. São Paulo: Missão.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 124

Temos, também, um amontoado de escândalos e desvios doutrinários


que infestam a igreja nos últimos tempos que também reforçam este
desencantamento com a igreja e com a religião, sobretudo cristã.
Multiplicam-se nos últimos tempos o número de templos e de
versões alternativas do Evangelho que conseguem atrair grande número de
pessoas, enquanto outros, muito céticos, de desencantam completamente.
No Brasil estamos ainda no inicio do processo de secularização da fé
e da igreja, mas a pensando na Europa como paradigma, tal fenômeno
parece irreversível e galopante. Mas isto representará, ou representa, neste
momento o fim da fé? Com certeza não, mas sem dúvidas o surgimento de
novos paradigmas de vida cristã e de relação com a fé e com a igreja. É o
que veremos agora.
O resultado final da secularização é o esvaziamento da igreja e a
formatação irreversível de uma religiosidade sem vida, é, em última
instância, a forma atual de apostasia.

Sempre imanência e transcendência: ora em xeque ora em conflito


As diversas cosmovisões do mundo, como ateísmo, panteísmo,
agnosticismo, panenteísmo, teísmo, racionalismo, entre outras, são
respostas à tentativa de compressão de dois aspectos da divindade: a
transcendência e a imanência.
Do ponto de vista teísta, que é a nossa cosmovisão, afirmamos que a
transcendência é a afirmação que nos leva a compreensão da infinitude
divina ou seus aspectos que normalmente chamamos de atributos
incomunicáveis: onisciência, onipresença, onipotência e eternidade, ainda
que, de fato, sejamos incapazes de explicar e entender cada um destes
aspectos porque estamos limitados, como criaturas, à nossa própria
finitude. A imanência diz respeito à comunicação divina com sua criação e
aos traços de sua presença neste mesma criação, ainda que do ponto de

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 125

vista teísta, este Deus seja de ¨substância¨ totalmente diferente de sua


criação.
Não apenas no conflito apologético com outras religiões, mas
também no debate entre as filosofias e posicionamentos do nosso tempo, os
termos imanência e transcendência, no qual podemos também afirmar o
conflito de natureza e graça, surge a necessidade de reafirmações e novas
considerações.
A secularização é uma resposta que revela a pergunta e os princípios
por trás da mentalidade evangélica brasileira. Somem-se a isto todas as
demais considerações aqui.
Quem é Deus para o crente secularizado? Qual a relação dele com a
vida atual? Um ser resignado aos espaços religiosos e sem qualquer relação
com a vida comum, ou profana. O homem secularizado não é ateu no
sentido clássico da palavra, ou seja, aquele que nega a existência de Deus,
mas um ateu prático, como diz Augustus Nicodemus no livro Ateísmo
Cristão e outras ameaças à igreja, no qual afirma que mentalmente existe a
disposição de acreditar na existência de Deus ainda que a vida seja
conduzida ao largo destas afirmações. Ou seja, se vive como se Deus não
existisse. Poderíamos inclusive afirmar que é uma variação do próprio
agnosticismo, ou seja, se Deus existe ele não age neste mundo ou, não é
possível afirmar que Deus existe e nem mesmo que não exista. Neste caso,
seria algo assim: ele existe, mas há lugares e situações em que é
dispensável ou impensável ou, posso, e até devo, levar em frente a minha
vida porque esta versão que temos de Deus é ultrapassada e incapaz de
lidar como um mundo que o superou.
A secularização, assim, se apresenta como a afirmação que nem
Deus e nem mesmo a religião cristã são capazes de dar respostas e propor
soluções para o mundo atual.
Vamos agora tentar traçar um perfil prático de crentes e igrejas
secularizadas. Usaremos como boa parte das afirmações mostrarão, o

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 126

documento chamado de O Evangelho e o homem secularizado de


Lausanne. Este documento mostra, sobretudo, os reflexos mais pessoais da
secularização e procuraremos ampliar um pouco a ênfase.
Liberalismo e secularismo
Não examinaremos aqui as fontes do liberalismo teológico do século
XIX que começa com a tentativa de dialogar com o cientificismo à medida
que, também, desacreditava da narrativa bíblica e dos aspectos da
transcendência. A reação direta a este movimento, o fundamentalismo, tem
suas raízes no Seminário Teológico de Princeton por causa de sua
associação com os graduados daquela instituição. Dois ricos leigos da
igreja comissionaram 97 líderes de igrejas conservadoras de todo o mundo
ocidental a escrever 12 volumes sobre os princípios básicos da fé cristã.
Eles então publicaram esses escritos e distribuíram mais de 300.000 cópias
gratuitamente para ministros e outros envolvidos na liderança da igreja. Os
livros foram intitulados Os Fundamentos, e ainda existe hoje como um
conjunto de dois volumes. Os princípios fundamentais são:
A Bíblia é literalmente verdadeira. Associada a este princípio é a
crença de que a Bíblia é infalível, isto é, sem erro e livre de contradições.
O nascimento virginal e a divindade de Cristo. Os fundamentalistas
acreditam que Jesus nasceu da Virgem Maria, foi concebido pelo Espírito
Santo e era e é o Filho de Deus, plenamente humano e divino.
A expiação substitutiva de Jesus Cristo na cruz. O Fundamentalismo
ensina que a salvação é obtida somente através da graça de Deus e a fé
humana na crucificação de Cristo para os pecados da humanidade.
A ressurreição corporal de Jesus. No terceiro dia após a sua
crucificação, Jesus ressuscitou dos mortos e agora está assentado à direita
de Deus Pai.
A autenticidade dos milagres de Jesus como registrados nas
Escrituras e a literal e pré-milenar segunda vinda de Cristo à Terra.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 127

O poder maior do liberalismo se dá por ser uma critica de dentro para


fora, ou seja, formalizado por pastores e teólogos, lança seus alicerces de
dentro da igreja. Não é difícil perceber ataques claros destes movimentos
ainda em nosso tempo. A Bíblia como um livro que ¨nem tudo é verdade¨,
milagres e fatos sobrenaturais como mitos, etc.
O esvaziamento dos componentes sobrenaturais do Evangelho é em
ultima instância, o esvaziamento do próprio conteúdo do Evangelho. Um
dos componentes essenciais do processo de secularização.

Características de crentes e igrejas secularizadas


Vamos dividir as afirmações em três campos: do pensamento ou das
ideias (ortodoxia), do campo prático e eclesiológico (ortopraxia) e do
campo dos sentimentos e disposições da alma e do coração (ortopatia).
A luta contra a secularização não é uma luta apenas da mente, ou
seja, de questões doutrinárias, filosóficas ou apologéticas. É importante
reforçar o que já dissemos acima quanto ao racionalismo, ao iluminismo, a
pós-modernidade, etc., mas não podemos ficar apenas por aí. Também
conduzimos isto ao campo da pratica, mas sabemos que nossa práxis
também é capaz de formatar nossos pensamentos, somos seres reativos
também.
As disposições do coração, e não entenda aqui como sentimentalismo
barato, também conduzem nossa doutrina e nossa prática pratica por novos
caminhos. A antropologia cristã, sobretudo baseada em Gênesis 3, nos
mostra que o homem é pecador e as disposições de seu coração (mente,
alma, espirito), são determinantes de sua cosmovisão e prática.
PROBLEMAS DE ORTODOXIA

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 128

A secularização como um problema moral e ético18


Infelizmente as promessas da modernidade de total liberdade e
domínio do homem (ele seria deus), fracassaram ou simplesmente
exauriram-se, seja com as duas grandes guerras do século XX, seja com
as limitações evidentes da humanidade, seja pelo crescimento dos grandes
centros urbanos, seja por causa da pluralização e o globalismo que trazem
intensos conflitos de cosmovisão que podem tornar o convívio humano
quase impossível.
O Iluminismo esperava que prevalecesse a tolerância, o humanismo
e o respeito à natureza e, que se afirmaria o direito à liberdade e à
igualdade entre os homens, mas ainda estamos muito longe disto.
Acreditava-se que o progresso contínuo traria benefício à
humanidade graças ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia, mas
nada disto se evidenciou. O homem ainda não é feliz. O marxismo, ainda
que um vivo, mas moribundo, não se estabeleceu como solução para as
diferenças e conflitos humanos.
A modernidade baseada na Revolução Industrial também fracassou,
vide nosso processo de pós-industrialização, desemprego, etc. A pós-
modernidade está relacionada mais propriamente com a Terceira
Revolução Industrial, e correspondeu ao aparente sucesso do capitalismo
mostrando que regras universais não podem dar conta da diversidade
humana.
Há vazio de valores atualmente e a ele damos o nome de
relativismo. Nossas decisões éticas e morais são cada vez mais adiadas
quando não são delegadas. São também, como afirma Bauman,
relacionamentos e vida de um mundo líquido: A ética e a moral da pós-
modernidade desvela-se na responsabilidade moral incondicional na qual

18
Ver https://professoragiseleleite.jusbrasil.com.br/artigos/428574420/a-etica-e-moral-na-
pos-modernidade.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 129

cada pessoa exerce por meio de suas atitudes o “estar junto com o outro”
na vida cotidiana.
A Ética da modernidade era a possibilidade de prever e se
preparar para o mundo. Na pós-modernidade é contingente, imprevisível e
relativa: na medida em que surge a dificuldade, ter-se-á apenas uma
resposta para sua solução. O homem pós-moderno, inclua-se o religioso,
é um homem desorientado. Desorientado não no sentido de perdido (ainda
que o seja), mas não condicionado por padrões pré-determinados. Nesta
visão, consideram-se, como estado de alienação ou de coação, agentes
condicionados por estas mesmas formulações estáticas pré-concebidas.
Não seria o caso dos religiosos?
As questões éticas e morais, no entanto, se impõe, seja no cotidiano
seja nas questões mais vitais da humanidade. O homem é assim, um ser
em constante angústia. Isto justifica a quantidade enorme de problemas
mentais da natureza da ansiedade e da depressão. Eis um novo confronto
moral versus sociabilidade e a solução: o politicamente correto as
consequências: esfriamento da religião e secularização da fé.
O que temos é uma espécie de particularização da fé, com
resultados a olhos vistos: os conflitos de natureza moral e ética relegados
ao particular e agora há o conflito entre o particular e o coletivo, mas a
moralidade não se estabelece no particular, mas no coletivo. Mas este
coletivo é o mercado (ver adiante).

Cristianismo descristianizado: Bíblia, tradição, experiência e a razão


É o autor Alister MacGrath é quem nos apresenta estes quatro
parâmetros para a construção da Teologia. Entendemos a Teologia como o
fundamento sobre o qual se constrói e cosmovisão cristã e o conjunto mais
importante de suas doutrinas.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 130

O esvaziamento do conteúdo bíblico no dia a dia da igreja é


constitutivo do esvaziamento da própria religião. Sobre isto já falamos um
pouco e voltaremos a falar.
Parece importante aqui citar a fraqueza dos púlpitos de hoje, muito
mais pragmáticos, muito mais parecidos com palestras de autoajuda de má
qualidade, excessivamente triunfalistas e incapazes de conectar as verdades
das Escrituras ao cotidiano dos crentes e fiéis. Igrejas parecem servir muito
mais às determinações mercantilísticas de sucesso rápido – Business, do
que a vontade Deus.
A tradição é aqui entendida com o conjunto da história do
cristianismo não apenas por sua luta por sobrevivência em um mundo
muito hostil, mas o conjunto das ações e debates doutrinários na
formulação de sua própria identidade, não apenas em confrontação a
heresias e ideias estranhas, mas na conformação de sua própria identidade
ao longo dos séculos.
Em outras palavras, quem não sabe o que ou quem é poder ser
qualquer coisa. Este ser alguma coisa pode ser uma imposição externa.
Quem está mais evidente e presente pode levar seu coração e sua mente.
Vivemos o excesso de exposição, via mídias sociais, de um conjunto
grandioso de ideias secularistas. Algumas delas muito convincentes,
aparentes justas e enfeitadas de amor. Mas ninguém está livre de ideais
distorcidas, nem mesmo quando seu conjunto de seus relacionamentos é
prioritariamente formado por cristãos.
A experiência é outro elemento importante na construção da nossa
teologia. Obviamente podemos confundir o fator experiência com
experimentalismo, ou seja, a construção de nossa compreensão religiosa
por meio de nossas experiências particulares, mas não é disto que estamos
falando aqui.
Tratamos da adequação de nossa compreensão da fé cristã a partir da
prática da mesma experiência cristã, ou seja, a formulação de uma nova

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 131

leitura do corpo de conhecimento cristão a partir de nossa prática. Podemos


dar como exemplo, a releitura da vida por Jó e por Paulo a partir de um
relacionamento com Deus. Jó afirma em 42.5 um conhecimento prático
construído a partir do sofrimento. As respostas dadas por Deus não são
muito claras quanto ao porque do sofrimento de Jó, ainda que nossa leitura
demonstre que havia uma disputa cósmica entre Deus e o Diabo sobre a
obediência e serviço humanos, mas Jó está alheio e ignorante a este debate.
Jó, no entanto, cresce em conhecimento, humildade e entendimento a
partir daquela experiência. A conversão de Paulo em Atos 9 é outro
momento marcante. Paulo era um homem extremamente zeloso da verdade,
mas sem nenhum entendimento. O resulto disto é que ele se tornou
perseguidor de cristãos. O encontro com Cristo no caminho de Damasco é
fundamental para alterar toda a leitura e interpretação das verdades que ele
conhecia, mas sem o paradigma correto, ou seja, Jesus Cristo, a verdadeira
chave hermenêutica da Bíblia e de a toda a Revelação Divina. O que isto
implica? Que mudando nosso paradigma da religião, de Cristo e da fé
cristã, nossa percepção dos atos de Deus e do cumprimento de sua vontade,
assim como ações mais corriqueiras e quase imperceptíveis, como o fato de
que Ele sustenta por sua força e poder tudo o que existe, se perdeu.
A razão assumiu a supremacia da avaliação e percepção da vida
pelos seres humanos. Dificilmente vamos mudar este quadro. O que poucos
levam em consideração e isto inclui os cristãos, é que a razão, além de
limitada e um atributo humano para compreensão da criação (e não da
transcendência) caiu, ou seja, sofreu as consequências da queda: o homem
não pensa direito.
Deste modo, a razão não pode ser o critério único e nem último da
vida e do relacionamento do homem a Deus. No entanto, esbarramos
também no que podemos chamar de fideísmo, ou seja, a negação completa
da razão e da lógica para interpretação da vida e dos atos de Deus. O
fideísmo é a reação contra o racionalismo. Mais uma vez, a questão não é

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 132

um equilíbrio de forças, mas o foco em virtude das atribuições de cada


uma: a razão e a fé.

Religião civil oposta à religião profética


Há uma linha muito tênue que ultrapassada conduz a secularização:
quando as preocupações sociais tornam-se finalidades em si mesmas, e há
um esvaziamento da mensagem profética da igreja, ou seja, de que o
homem como criatura de Deus caiu, por causa do pecado, de sua condição
de retidão e inocência e esta queda (lapso), afetou todas as dimensões das
relações humanas (espiritual, sociológica, psico-somática, antro-ecológica).
Neste caso, no lembremos do sistema criação + queda + redenção +
glorificação, que denota que o papel da igreja é, em parte mudar a
sociedade, mas com fim último ver a humanidade resgatada em Cristo.
Esta questão diz respeito ao papel social da igreja e o antigo debate
sobre o papel de evangelizar e anunciar as boas novas - como fazer isto?
As teologias da América Latina, a Teologia da Libertação, a
Teologia da Missão Integral, o Congresso de Lausanne, entre outras
vertentes, discutem amplamente o caminho e as consequências de ações por
um lado e pelo outro. Aceitamos sem maiores questionamentos que
devemos pregar o evangelho todo ao homem todo, mas discordamos muito
sobre como isto deve ser feito.
Notamos, mais uma vez o esvaziamento da mensagem evangélica
quando o foco principal se torna apenas o social. Igrejas e grupos cristãos
tornam-se ONGs sem consequências maiores para o Reino de Deus.
Mesmo o slogan: ¨que suas ações falem tão alto que não precisem de
palavras¨, mostra-se falaciosa já que, em uma religião quase que
exclusivamente oral como o cristianismo, não baste que se fale, é
necessário falar com insistência e clareza: ¨como vou entender se não há
quem me explique¨ foi a frase dita por um alto oficial em Atos 8.31.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 133

Um problema também escatológico: o céu é aqui!


O desaparecimento das correntes escatológicas novamente convocam
os crentes a morar para sempre na terra. O pensamento é: não haverá fim,
nem mesmo morreremos mais! O céu vai descer, basta crer. Não iremos
até Deus em seus Novos Céus e Nova Terra, mas Ele homologará o mundo
que construímos.
Quando o autor de Hebreus aconselha que se congregue com cada
vez mais intensidade haja vista que o dia so Senhor se aproxima, nos
mostra que nossa vigilância, sobriedade, serviço a Deus, comunhão com os
santos deve ser intensificada dia a após dia, até que haja exclusividade –
vivamos para Deus!
Parte do fervor apostólico ao pregar as Boas Novas no primeiro
século era a evidente crença no retorno de Cristo ainda em sua geração.
Durante a Reforma Protestante, certa ética pós-milenista tomou conta dos
Reformadores que criam que por sua intervenção em breve Cristo voltaria.
O homem secularizado, ao contrário, quer o paraíso na Terra. Ele
está construindo este mundo dos seus sonhos para o seu próprio conforto.

PROBLEMAS DE ORTOPRAXIA

A busca de sucesso em oposição à igreja como serva


As buscas pelas causas deste processo de tornar a igreja um
empreendimento de grande sucesso podem nos levar muito longe:
mercantilização, problemas de natureza maligna (como sempre – um pouco
de mentira com um pouco de verdade - ¨porque Deus sabe que sereis como
ele conhecendo o bem e o mal), etc.
Muitas igrejas, sobretudo com formato episcopal, onde seus líderes
não apenas representam sua denominação, mas são a própria denominação

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 134

em si, ou seja, suas igrejas são conhecidas por eles, um verdadeiro culto
personalista, ocupam rádios, redes de televisão em horário nobre, lançam
produtos religiosos, disputam fiéis que se revezam em muitas destas
igrejas. Cultos são cada vez mais parecidos com shows cujas produções não
deixam em nada a desejar os espetáculos do mundo de entretenimento: há
um mercado e um público ávido por consumir religião a se conquistar.
Sucesso, neste caso, é medido em números: cifras monetárias,
tamanho e ostentação de luxuosos templos e quantidade de fiéis – valores
seculares e mundanos.
Gilles Lipovetysk, filósofo francês, e estudioso dos efeitos do
capitalismo sobre o comportamento humano, mostra claramente que este
sucesso impulsionado e sustentado pelo dinheiro influencia não apenas no
bolso e no poder aquisitivo, mas trazem transformação na cosmovisão.
Igrejas e pastores são pressionados por resultados. Devem dar lucro e
produzir cifras milionárias a cada mês. Há um claro conflito ao servilismo
desinteressado, pelo menos do ponto de vista material, por parte das igrejas.
Ainda que muitos se incomodem com este mercantilismo evangélico, o fato
é que igrejas estão cada vez mais lotadas e cada vez mais ricas. E cada vez
mais secularizadas. São negócios, verdadeiras empresas, e não mais
igrejas.
Envolvimento como expectador passivo oposto a contribuição de
cada membro
Aqui temos claramente o resultado do clientelismo religioso que boa
parte das igrejas evangélicas está sofrendo. Mas qual seria sua origem? Na
falta de exercício e compreensão do sacerdócio universal de todos os
crentes e, como já dito mais de uma vez, no próprio processo de
mercantilização da fé.
No entanto, esta situação de clientelismo é cômoda para uns e
favorável para outros. Muito provavelmente, as matrizes africanas e

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 135

católicas do pensamento clerical religioso ocidental, e especialmente


brasileiro, no qual apenas um ser superior, desenvolvido, consagrado ou
vacacionado é capaz de operar os segredos e mistérios religiosos, continua
vigorando, mesmo dentro das igrejas evangélicas. A comodidade é dos fiéis
e os favorecidos são os sacerdotes.
O papel de cada um parece apenas o de aprovar ou reprovar o
comportamento das lideranças clericais. O termo clérigo aqui é usado em
seu sentido pejorativo: o profissional da fé. As centrais de atendimento
telefônico e de marketing, farmácias e outros estabelecimentos comerciais,
já possuem uma forma simples, direta, rápida e acessível de avaliar seus
serviços por meio de breves consultas nas quais se dá uma nota de acordo
com a satisfação.
A presença constante nos cultos, as ofertas e os dízimos, indicar a
igreja a um conhecido, são manifestações deste clientelismo e desta
passividade. Já não se vai muito além destas coisas. O grande número de
igrejas existentes e tão próximas umas das outras são oportunidades, senão
um convite, à migração instantânea ao menor descontentamento.

Elitismo oposta a comunidade


Acompanhando de perto alguns processos de sucessão pastorais
percebi uma ênfase interessante quanto à designação do perfil do pastor da
igreja. Seu currículo, idade, formação, forma de comunicação são
elementos tidos como mais importantes do que sua vida cristã, seu
compromisso com a Palavra, o corpo doutrinário que defende.
Mesmo as igrejas já começam a se dividir pela classe social e a
heterogeneidade esperada e desejada das igrejas já não se demonstra.
Obviamente, não estamos questionando ou reprovando ministérios que
procuram atender grupos específicos de pessoas, porque julgamos isto
necessário. O que se questiona é a exclusão e o elitismo.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 136

Aqui está em debate, inclusive, o ressurgimento de termos e títulos


como apóstolos e bispos entre os evangélicos. Uma hierarquização na qual
uns se sobressaem aos outros.
O ensino de Jesus foi claro, ao tratar do pedido dos filhos de Zebedeu
(ou o pedido da mãe) para assentarem com o Filho em seu Reino: quem
quiser ser grande que sirva os outros e o próprio Jesus não veio para ser
servido, mas servir e morrer em favor de muitos.
O elitismo é um valor secular. Sabemos das consequências maiores
de uma postura como esta como, por exemplo, da raça ariana no nazismo.
Dentro da perspectiva do povo hebreu pré-Canaã, já havia orientação clara
de cuidado dos pobres, viúvas, órfãos, idosos e desvalidos. Jesus afirmou
que sempre teríamos os pobres para cuidar (Jo 12.8).

A Profissionalização da fé e da igreja
O que tratamos aqui é o conflito entre organismo e organização. É
igreja é chamada e reconhecida no registro bíblico com corpo (organismo)
de Cristo, do qual Cristo é a cabeça. Isto denota dinâmica, vida,
movimento, ações interdependentes.
Mas a igreja é também uma organização. Ela faz parte de um país.
Paga impostos, tem patrimônio dentro de uma cidade, movimenta pessoas,
pode ser responsabilizada civil e criminalmente e é convocada para se
posicionar diante da sociedade. A igreja pode ser composta de ministros
(chamados e vocacionados), profissionais (pagos pelas regras do país e da
cidade) e por voluntários (crentes da igreja com trabalhos e ministérios
específicos).
A igreja, como dito, possui ministros pagos em período parcial e
integral. John Piper, pastor batista, é categórico em afirmar que pastores
não são profissionais, mas homens com um chamado especial para pregar,
ensinar e cuidar. As igrejas nem sempre entendem bem como isto se dá.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 137

Havendo a necessidade de ministros em período integral é inevitável que


haja esta mistura de conceitos, ou seja, confundir ministros com
profissionais. .
Há, também, um conjunto dos profissionais pagos pela igreja,
principalmente quando a igreja é de médio (500 membros) ou grande porte
(acima de 1000 membros). É inevitável que serviços de limpeza, segurança,
manutenção, etc., sejam terceirizados e os profissionais pagos segundo as
regras e valores do mercado.
Temos também o trabalho voluntário. Aqui é que temos o exercício
do sacerdócio universal de todos os crentes, mas nem por isto menos
problemas. Do mesmo modo que temos ministérios que funcionam apenas
nos finais de semanas na igreja e trabalhos que necessitam de menos
capacitação técnica, cresce o número de igrejas que desenvolvem
ministérios de cunho social pela prestação de serviços dos mais diversos
profissionais liberais: médicos, dentistas, advogados. Já há igrejas que
discutem as implicações legais e a possiblidade de acionamentos legais e
problemas nestas condições.
Quanto a o trabalho ao trabalho voluntario prestado por membros ou
por profissionais liberais em termos parciais ou integrais, temos que
observar a lei e o bom senso. Quanto ao trabalho de ministério de leigos
ligado diretamente ao exercício da igreja cabe a direção da liderança e
compreensão do papel daquele ministério para o desenvolvimento do
organismo.
Nossa questão aqui é quando o ministério cristão remunerado,
principalmente de pastores e missionários, é visto como um prestação de
serviço profissional e as implicações de uma relação legal são postas acima
das atribuições ministeriais. Pastores e missionários não são empregados da
igreja mesmo que pagos por ela. Suas atribuições, de fato, excedem em
muito as atribuições de um simples empregado com horário certo para
trabalho e outras limitações.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 138

No que diz respeito mesmo ao trabalho ministerial de leigos e do


trabalho voluntário, a visão é de serviço a comunidade por vocação
também.
A visão da profissionalização da igreja pode trazer muitos benefícios
para a igreja, mas desvirtua sua essência de chamado, vocação, ministério e
serviço. É uma faceta da secularização, onde valores comerciais,
industriais, do mundo dos negócios se sobrepõe a essência do serviço
cristão.

Sérias crises de comunhão


Muitos afirmam que não precisam mais da igreja para viver sua fé e
servir a Deus. Há outros que dizem se recusar terminantemente a apagar de
vez as chama do Evangelho no coração, mais ainda exercem uma fé pouco
produtiva e engajada, e a explicação para quase todos estes a são as crises
de comunhão e conflitos tão comuns na igreja.
Muitas pessoas alegam que seus desafetos pela igreja, seu
desencantamento com o corpo local de crentes, se deve, também,
arbitrariedades das lideranças, a falta de bom testemunho de muitos
membros e até mesmo problemas sérios de relacionamento pessoal.
É comum ver pessoas afirmando: tenho melhores amigos fora da
igreja do que na própria igreja! Uma das consequências disto é que cada
um, também, define Deus e igreja à sua própria maneira. Mas é possível
amar a Deus e odiar a igreja? Amar a Cristo e odiar o seu corpo?
Este é motivo, também, também da tentativa de formação de
comunidades alternativas contrárias à institucionalização da igreja. Ou seja,
a fé secularizada, independente da instituição igreja, tem como dificuldade,
também, os diversos conflitos de comunhão da igreja.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 139

A fé como item de uma economia de mercado


Há muitos trabalhos escritos sobre a mercantilização da fé, sobre o
transito religioso, sobre o uso comercial da religião e da grande geração de
renda de igrejas pela arrecadação de dízimos e ofertas. Há pastores que
figuram entre os grandes milionários do país. Há igrejas que funcionam
como grandes empresas geradoras de lucro.
O clientelismo da membresia de muitas igrejas, senão como um
fenômeno presente em todas as igrejas, é uma fonte geradora de distorção
de comportamento e de falta de envolvimento no ministério. O que
determina o que é bom ou mau doravante é o mercado, não mais, a
consciência humana, a fé e a verdade doutrinária.
A mercantilização da fé é outro fenômeno de adaptação dos valores
seculares no formato e visão da igreja.

Religião secular – quando o século se torna religião


Neste caso temos algumas questões importantes a levantar. A
primeira é a religião secular, ou seja, a religião fora dos espaços religiosos
tradicionais. A outra é o século e sua cotidianidade como forma de culto,
independente da religião instituída. No primeiro caso acompanhamos, por
exemplo, o surgimento de coaching espirituais, ou seja, cientistas da
religião e mesmo pastores que ministram espiritualidade no ambiente
empresarial. No segundo caso a tentativa de fazer da vida cotidiana uma
forma de culto: religião secular. Isto envolveria o trabalho, os esportes, as
atividades mais frugais do dia a dia. É uma ideologia que se aproxima do
conceito de religião temporal ou de religião secular.
O modelo soviético, ao apresentar uma intenção de Estado
Universal, foi também acompanhado por uma espécie de religião secular
dado que o poder temporal e público é acompanhado de um poder menos
visível que, operando para além das fronteiras do império, enfraquece e

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Vamos falar de Teologia 140

mina as estruturas sociais das comunidades vizinhas. Assim, como o Islã


conquistador, ignora a distinção do político e do religioso e, se aspira
simultaneamente ao duplo papel de Estado universal e de doutrina
universal, no interior de uma civilização de um mundo coexistindo com
outras civilizações, com outros 'mundos', mas na escala e nos limites da
Terra. O próprio Marxismo e o socialismo se revestem de uma forma de fé
religiosa no partido e na ideologia ao apresentar uma forma de escatologia
terrena pela força do proletariado e do Estado – os fiéis e o seu deus.
O Estado, ideologias e partidos políticos substituem o querer
religioso da sociedade e do homem secular. Não tratamos aqui, mas o
desespero religioso do homem o faz parecer saciado nestas novas formas de
idolatria.
A religião secular e o século como religião são apenas novas
formas de idolatria.

PROBLEMAS DE ORTOPATIA

Preocupação consigo próprio oposta ao autosacrifício


A ética racionalista, iluminista, romântica (experiencial), moderna e
pós-moderna é evidentemente antropocêntrica. A diluição da verdade e das
instituições, incluindo as autoridades, tem como resultado certo o declínio
do coletivo e a ampliação do individual. Mesmo o politicamente correto é
uma busca incessante por equilibrar os interesses do coletivo em função dos
interesses individuais, mesmo que sejam conflitantes. Não poderia ser
diferente da igreja, que é mais reflexo da sociedade do que o contrário.
O registro do Novo Testamento do sacrifício dos apóstolos (¨...vivo
não mais eu, mas Cristo vive em mim...¨ conf. Gálatas 2.20), o registro
histórico do martírio dos pais da igreja em luta contra as forças de Roma, o
que inclui a enormidade de documentos registrados de defesa da Reforma

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Vamos falar de Teologia 141

pela verdade, o início do período das grandes missões transculturais com


Willian Carey, e até mesmo o atual problema dos cristãos em países onde o
cristianismo é criminalizado e perseguido fazem contraste muito marcante
como a atual condição da igreja cristã ocidental e brasileira.
Ambientes de perseguição e de restrições de liberdade, alimentação,
de opinião, etc., parecem favorecer o despertamento de uma fé mais viva e
capaz de produzir mártires. A melhoria nas condições de vida pós-guerra na
Europa parece explicar o esfriamento da fé.
Não podemos, contudo, esquecer que a condição do egoísmo esta na
gênese da queda humana no Éden, a busca por prazer e por dominar o que
não lhe era permitido.
Falta de espirito de coletividade, competição, luta por poder,
autoritarismo, divisões e partidos fazem parte do dia a dia da igreja. Este
fator desagregador descaracteriza o propósito da igreja e impedem a
consecução de seus objetivos.

Competição oposta à cooperação


Quando falamos de da manifestação da rebeldia e que o pecado da
rebeldia é mais grave que o de idolatria ou feitiçaria (conf. 1 Sm 15.23)
diretamente na falta de espírito de cooperação. A Missão da igreja e sua
essência são possíveis apenas dentro do espirito de cooperação e de
unidade. A meritocracia, por exemplo, não é um dos valores que exaltamos
na igreja, senão apenas depois da cooperação e do espirito de grupo.
Não são apenas os crentes que competem entre si, mas igrejas
também concorrem entre si nas mídias e mesmo no bairro onde se
encontram. Era comum no passado recente que nenhuma nova igreja,
mesmo de denominação diferente, abrisse sem antes pesquisar a presença
de outras igrejas e denominações. Hoje é comum ver igrejas de frente uma
para outras e mesmo igrejas que compartilham paredes germinadas.

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Vamos falar de Teologia 142

Comparar-se, se auto elogiar, criticar, desdenhar e boicotar


atividades da igreja, pessoas e a própria igreja são atitudes muito comuns.
Além de valores deste mundo e seculares, a igreja assim perde sua essência,
a possibilidade de avançar em sua missão.

Divisibilidade oposta ao desejo de unidade


Vivemos, não apenas no aspecto individual, mas no contexto
denominacional a desintegração de qualquer forma de unidade viável ou
possível. O processo de individuação e individualização da fé, cria não
apenas divisões pessoais, mas o surgimento cada vez maior de grupos e
denominações independentes.
A observação do fenômeno evidencia lutas internar por poder e
alcance e nem sempre divisões por questões de doutrina ou heresias.
Existem hoje cerca de 30.000 denominações cristãs diferentes, e
todas alegando serem portadoras da verdade e representantes de Cristo na
terra. No Brasil somos cerca de 40 milhões de evangélicos distribuídos em
boa parte destas 30.000 denominações mundiais. Talvez concordemos em
boa parte das doutrinas e interpretações da Bíblia, mas com certeza não
conseguiríamos conviver no mesmo ambiente. Por quê?
Com o grande fluxo de crentes entre várias igrejas em virtude da
grande oferta de igrejas e denominações, surgem diversos textos e até
mesmo livros que tratam dos motivos para estar na igreja A ou B, ou para
não se mudar para a igreja A ou B, ou mesmo os motivos que justificariam
ou não a mudança para a igreja A ou B.
Veja, por exemplo, este texto extraído da Internet19:

19
In: https://www.esbocandoideias.com/2017/01/pecado-mudar-de-igreja.html
acesso em 24/05/19 11.35.

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Vamos falar de Teologia 143

É pecado mudar de igreja ou visitar outras igrejas?


Você pergunta: Eu sou crente há mais ou menos uns três anos.
De uns tempos para cá a minha igreja tem pregado algumas
doutrinas que não acho que são bíblicas. Já conversei com
meu pastor sobre isso, mas ele não dá ouvido. Devido a isso
tenho ido na semana visitar outras igrejas. No meu coração o
meu desejo é mudar para uma igreja que pregue corretamente
a Bíblia. Mas esse fato gerou muitas críticas de irmãos da
minha igreja. Eles dizem que é pecado mudar de igreja e que
visitar outras igrejas é uma atitude de quem está desviado. O
que me pode dizer sobre isso? É pecado mudar de igreja e
visitar outras igrejas? O que a Bíblia diz?
Caro leitor, essa é uma questão que causa dúvidas em muitos
irmãos. Não temos na Bíblia mandamentos ou ordens precisas
a respeito dessa questão de mudança de igreja, até porque essa
divisão por denominações que temos hoje é algo que não
existia quando a igreja de Cristo iniciou. Dessa forma, gostaria
de apresentar alguns pontos de reflexão sobre o tema para que
você possa tomar a melhor decisão.
É pecado mudar de igreja e visitar outras denominações
diferentes da minha?

(1) A primeira coisa que é importante pensarmos é o porquê.


Por que você deseja sair de sua igreja e ir para outra? Existem
motivos que são banais. Por exemplo, já conheci pessoas que
saíram de suas igrejas porque não tinha ar-condicionado.
Então, ficavam vagando de igreja em igreja até achar uma que
tinha um ar-condicionado que as agradava. Esses são motivos
carnais que, em minha opinião, não devem ser motivos que
nos façam abandonar a igreja local em que congregamos.

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Vamos falar de Teologia 144

(2) Mas, evidentemente, existem motivos que são fortes: por


exemplo, no seu caso, você disse na pergunta que sua igreja
tem pregado coisas que não são bíblicas. Se isso foi realmente
analisado com muito critério, é um motivo forte para uma
mudança de igreja. Ficar numa igreja que não prega a
verdadeira palavra de Deus será algo complexo, poderá gerar
conflitos desnecessários. Só aconselho ficar caso Deus te dê
uma direção forte de permanecer para que você seja um agente
de Deus para a transformação da postura dos líderes da igreja.
Caso contrário é melhor sair e evitar ficar ouvindo heresias e
passando por um desgaste desnecessário.

(3) É importante fazer uma observação aqui: a igreja de Cristo


não se resume a paredes ou ao ministério “a” ou “b”. É
verdade que a Bíblia nos manda congregar (Hebreus 10.25).
Mas isso não significa que pastores ou líderes possam te
impedir ou dizer que é pecado mudar de igreja. Na realidade,
se você é um crente alcançado por Cristo, você já faz parte da
igreja invisível Dele. Já a igreja visível, você pode estar em
qualquer uma delas (as que pregam a verdade. É claro).
Certamente Deus vai te direcionar para o lugar onde Ele deseja
que você o sirva. E havendo motivos corretos, Deus pode sim
te levar para outras igrejas sem que haja qualquer pecado
nisso.

(4) Mas uma coisa que acho importante orientar é que, se for
sair da sua igreja, que busque sair em paz. Eu sei que nem
sempre isso é fácil, pois algumas pessoas ficam magoadas com

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Vamos falar de Teologia 145

uma saída, mas busque sair em paz, sem escândalos. Isso é


algo que devemos buscar em uma eventual mudança de igreja.
Visitar outras igrejas é pecado?
(5) Alguns líderes e pastores ficam incomodados quando um
membro visita outra igreja. Penso que isso não seja pecado,
mas, evidentemente, os porquês aqui também são importantes
para evitar fofocas e falatórios prejudiciais. Por que você está
visitando outra igreja e não está participando ativamente da
obra de Deus realizada ali na sua igreja? Se existe o desejo de
mudança de igreja, converse isso com sua liderança para que
tudo fique claro. Se o motivo é outro, por exemplo, você está
apenas indo ver algum pregador que gosta ou acompanhando
um amigo novo convertido, creio que não haverá qualquer
problema nisso. Mas havendo qualquer questionamento sobre
isso, explique com carinho. A maioria dos líderes realmente se
preocupa com um membro que possa estar indo por caminhos
errados. Por isso, explique os motivos de suas decisões se
houver espaço para esse tipo de conversa. Não sei se você é
uma dessas pessoas que tem dificuldades de entender a Bíblia.
Eu já fui e sofri muito! Mas não me dei por vencido, não me
deixei ser derrotado pelos inimigos. E você, como anda sua
leitura da Bíblia? Seu entendimento? Que tal melhorar nessa
área da sua vida espiritual, aprendendo a entender assuntos da
Bíblia de forma simples e rápida, ajudado por quem já superou
as mesmas dificuldades que você enfrenta?
Desprezando muito critérios como distância, possibilidade de melhor
servir, empatia e outros elementos, a subjetividade parece ser prioridade.
Muda-se de igreja porque as ofertas também são muitas. A divisibilidade
está posta.

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Vamos falar de Teologia 146

Propostas contra a secularização

Quanto à ortodoxia

Por uma ortodoxia descomplicada, mas completa e fiel


Ainda vigora um espirito de mistério das doutrinas fundamentais e de
manipulação do sagrado por uma parte especifica da liderança da igreja. A
linguagem da Bíblia, como sabemos, é uma linguagem coloquial, cotidiana
e própria do homem comum. Os escritores inspirados das Escrituras eram
homens comuns do povo e muitos eram semianalfabetos. Figuravam entre
eles Reis e intelectuais? Sim, sem dúvida, mas também se dirigiam ao povo
comum. Jesus andava pelas ruas, campos e mesmo quando estava no
templo preferia o pátio onde as pessoas comuns circulavam durante o dia.
Jesus esteve por várias vezes cercado de multidões e entre os apóstolos, a
exceção de Mateus e Paulo, todos eram iletrados.
O legado da Reforma Protestante tem no livre exame das Escrituras
um dos seus pontos mais fortes. Assim que a Reforma se instalou e
espalhou, igrejas formadas por grande número de leigos em posição de
liderança surgiram. Pastores surgiram do povo mais simples e do cotidiano
da igreja.
A reflexão em torno do Credo Apostólico e de outros credos da
igreja, como o Credo Niceno, aproximavam a teologia e os ensinos mais
profundos e fundamentais da igreja do povo comum. Este esforço é da
natureza da Reforma e deveria ser o esforço das igrejas evangélicas
brasileiras.
Mais do que nunca o púlpito das igrejas deve ser forte e não vendido
a temáticas triunfalistas e de autoajuda, com linguagem simples deve
abordar as principais doutrinas da vida cristã, expor de modo completo a

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Vamos falar de Teologia 147

Revelação Escrita, fomentar o desejo pelo conhecimento e pelo passado da


igreja cristã, mas não apenas isto.
Não deve figuras temáticas e tensões atuais, mas também não se
vender exclusivamente a ela.
Pequenos grupos, grupos familiares, células, ou o nome que se queira
dar, devem ser compostos por líderes leigos capacitados pela liderança da
igreja e explorar sua capacidade de comunicação e compreensão da
verdade. Mesmo as mídias sociais devem ser um incentivo ao aprendizado
e compreensão da verdade de modo direto, completo e profundo.

Melhorando a comunicação – mais simples é sempre melhor


Israel Belo de Azevedo, pastor da Igreja Batista de Itacuruçá no Rio
de Janeiro, defende a ideia de que as verdades profundas do cristianismo
devem ser comunicadas como frases de para-choque de caminhão: curtas,
diretas, fáceis de entender e gravar.
Pastores são, em geral, bons comunicadores. Devem usar esta
capacidade pra o bem geral da igreja e não somente de si mesmos. Isto deve
servir de alerta. Mas serve de alerta, também, a necessidade crescente de
descentralização. As verdades bíblicas, doutrinárias e da história da igreja
são um patrimônio de todos os crentes e não apenas da liderança. O
conhecimento deve ser partilhado e correr como um rio.
A temática do Pastor como teólogo público já é uma realidade do
pensamento teológico protestante brasileiro. Obras como a de Kevin
Vanhoozer e textos como de Darci Dusilek nos chamam a atenção para isto.
Entre suas tônicas está a necessidade na simplicidade na
comunicação com o povo e mostrar o lado prático da teologia, ou seja, de
como ela se aplica ao nosso dia a dia. O vocabulário muito rebuscado e a
mudança na entonação da voz não condizem com o dia a dia da igreja. O
populismo de muitos pregadores de televisão comprova esta tese. ¨Ele é um

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 148

homem do povo¨, ¨ele é um homem que veio do povo¨, são frases que
ouvimos e que conhecemos bem. Por que não aprender com os mesmos,
mas a bem da verdade?
O povo gosta da ideia de que pastores se pareçam gente comum. E,
na verdade, são mesmo.

Comunicando o Evangelho - conhecendo melhor a mente das pessoas


Qualquer empresa que se preze faz uma análise de mercado para
avaliar antecipadamente o sucesso ou não de vendas de seus produtos, para
a formação de seu portfólio de produtos, para levantamento do perfil de
seus possíveis consumidores. Estes são valores de uma economia de
mercado, do capitalismo.
Já discutimos e criticamos anteriormente esta posição mercadológica
de muitas igrejas e denominações e que tornam a religião um produto, mas,
não devemos conhecer a mente do homem a quem vamos evangelizar,
discipular, do homem que fará parte de nossa igreja, de nossa liderança?
Não há dúvidas que devemos.
Recentemente a equipe de pesquisas da Life Way Research –
Biblical Solutions for life, fez um grande levantamento do perfil dos
moradores de São Paulo com destaques por região. Os resultados podem
ser encontrados em www.amarsampa.weebly.com. Além de apontar uma
série de características que nos permitem a aproximação das pessoas, como
o desejo de conhecer a bíblia, simpatia por Cristo e pelos evangélicos, a
percepção de que há vida após a morte mostrou, também, uma série de
desvios de conhecimento e pontos conflitantes a serrem abordados como,
por exemplo: que igrejas são e quais igrejas não são evangélicas, a relação
do dinheiro e culto, entre outros pontos de tensão.
O que percebemos após a leitura desta pesquisa é que há um grande
campo para crescimento da igreja, abertura de novas frentes missionárias e

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 149

como podemos comunicar o conteúdo essencial do Evangelho de maneira


mais direta, correta e produtiva.

¨Novas¨ leituras da Bíblia para uma sociedade secularizada


A palavra nova aqui é usada no sentido irônico. Na verdade deve
haver uma clara tentativa de voltar ao conteúdo da Bíblia como ela mesma
se apresenta. Direta, coloquial, compreensiva, sem rodeios, direta.
A Bíblia não é um livro de ciências e nem mesmo um sistema
incompreensível, ainda que o conteúdo seja muito diverso e extenso.
Sofremos ainda a tentação de leituras inclusivas da Bíblia entre outras
leituras como Teologia Feminina, Teologia Negra, Teologia Latino-
americana, Teologia Gay que são leituras parciais e tendenciosas na defesa
de interesses específicos de grupos em conflito. É necessário que se leia a
Bíblia de verdade. Apenas isto. Coletivamente e individualmente. Sem
leituras selecionadas. Leitura de capa a capa. Somos todos profetas e não
precisamos de gurus. Ou precisamos?
Não, não precisamos de clérigos, párocos, super bispos e apóstolos.
Não precisamos de cobertura espiritual, de transmissão de autoridade e nem
mesmo de unções especiais.
Vivemos agora um fenômeno interessante: a busca de vozes de fora
da igreja e mesmo vozes contrárias à religião como porta-vozes de boas
novas para uma igreja moribunda de paradigmas e de direção. Filósofos
midiáticos, historiadores bom comunicadores são exemplos disto. De
modo algum ignoramos a leitura da realidade destes homens da vida e do
mundo como parte importante da construção de nossa cosmovisão, mesmo
que em alguns momentos seja por oposição. O que questionamos é o
silêncio interno das vozes evangélicas.
Nossa ênfase recai sobre outro ponto: o conhecimento bíblico é um
conhecimento comprometido com a vida – se sabe e se vive! Além disto, é

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 150

também fundamental que se saiba que o conhecimento bíblico é produto de


um testemunho interno do Espirito Santo, como enfatizou Calvino.
Para muitos pode soar como um preceito muito subjetivo, mas pelas
obras se conhece a árvore. As vozes de fora são importantes, mas não nossa
autoridade final. Alguns chegam a acreditar em textos e passagens bíblicas
somente apenas ouvirem a afirmação por meio de seus gurus.
Neste sentido a igreja precisa reafirmar sua posição como portadora
da revelação e como intérprete dela.

Quanto à ortopraxia

Por uma ortopraxia mais generosa


O que diferencia a igreja é o amor e a misericórdia. Já há quem tenha
dito que o que mobiliza a igreja é a prática de missões e de ação social.
Ação social aqui é a ampla gama de ações da igreja no sentido de estar ao
lado do homem pecador e em sofrimento: pobres, famintos, famílias
desestruturadas, encarcerados, adictos, etc.
Paulo levantou uma grande oferta para os crentes e moradores de
Jerusalém por causa da fome. Não temos certeza se a oferta realmente
chegou, mas vemos seu empenho conforme ele mesmo narra em Coríntios
e de seus bons frutos mesmo entre os pobres da macedônia. Jesus teve
compaixão das multidões famintas. Dentro do livro de Êxodo, logo após os
Dez Mandamentos, vemos desdobramentos da Lei na direção de todas as
necessidades sociais, para que não houvesse pobres e desamparados, ainda
que a eliminação das diferenças nunca tenha sido uma tônica da Lei.
As tensões entre conservadores e pregadores da TMI20 têm
produzido apenas briga e pouca ação verdadeira neste sentido. Que se

20
Teologia da Missão Integral.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 151

abandone o debate e que se haja. A igreja precisa aprender novamente a ser


generosa e se sacrificar por um mundo melhor.

Somos um corpo – juntos caímos e juntos nos levantamos21


A nossa prática deve nos levar a compreensão da igreja como um
corpo local cujas ações individuais e coletivas influenciam na vida do
coletivo e do individual também. Fomos feitos como povo e nação. Quando
estudamos Teologia nos debatemos sobre a temática da imputação do
pecado de Adão sobre toda a humanidade. Quando vemos a soteriologia,
doutrina da salvação, vemos o alcance da obra expiatória de Cristo. Russel
P. Shedd em seu livro Solidariedade da Raça, debate amplamente as
implicações do pecado e da salvação sobre a unidade de um povo, e a
complexa linguagem bíblica sobre a relação de Deus com um povo, com
uma nação, com uma família, um corpo coletivo. Nosso individualismo e
antropocentrismo exagerado nos afastam muito disto.
Não geramos unidade de grupo forçando a comunhão, mas
acreditamos que o exercício pleno dos ministérios da igreja possa ampliar
isto. O cuidado mútuo e a preocupação com outro já temas urgentes, mas
não apenas de pastores e líderes, mas o cuidado de todo o corpo consigo
mesmo.
Parte de nossa derrota em influenciar o mundo de hoje se dá porque
não compreendemos nossa unidade e como nossas ações afetam o grupo e,
mais ainda, como nossas inações paralisam o grupo também.
Nadar contra a corrente secularizante é tarefa diária
Um modelo de luta contra a corrente que sempre vem à mente é o da
piracema. Um evento sem igual no qual certos tipos de peixe tem que nadar
contra a corrente de um rio para que possam botar seus ovos em águas mais

21
https://reflexoes-e-flexoes.blogspot.com.br/2017/09/sermao-de-10-de-setembro-em-isaias-
13.html

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 152

tranquilas nas cabeceiras e nascentes de rios. Neste processo muitos


morrem, os que conseguem chegar ficam extenuados, mas a espécie segue
em frente e se reproduzindo.
Os membros de nossas igrejas sofrem influencia constante do mundo
digital já tão popularizado. Passam mais horas na semana com pregadores
midiáticos do que conosco, mas suas ações são sempre um problema para
os pastores locais. Pregadores midiáticos são inacessíveis.
Muitos ensinamentos divulgados parecem muito lógicos e óbvios,
mas muitas vezes construídos sobre falácias muito perigosas. Não lutamos
apenas com o pecado e erros individuais, mas contra a crescente influencia
de ideias perniciosas e perigosas. Ser cristão, líder, pastor, leigo engajado
com a verdade, é cada vez mais extenuante e difícil. Tarefa diária.
A importância da igreja e ministérios alternativos em uma sociedade
secularizada
A criatividade e comprometimento da igreja devem ser incentivados.
Alguns ministérios devem ser criados porque é necessário que extrapolem o
templo e ideias aparentemente exclusivas do cristianismo. Ainda reduzimos
muito nossa atividade e trabalho ao templo, pelo menos na maioria dos
casos. É necessário ir. Mas é necessário saber como ir.
Recorremos sempre, nestes casos, ao discurso de Paulo no areópago
em Atos 17. Ele usa os elementos presentes, atrai a atenção dos ouvintes
com elogios e se vale de sua conhecida curiosidade com novidades. Perde,
é verdade, a atenção e até mesmo o respeito de muitos ao falar da
Ressurreição, mas alguns ficam para ouvir melhor e aceitam a mensagem
de Salvação em Cristo. Nunca alcançaremos todos, mas sempre
alcançaremos alguém.
Há coisas que não tem lugar no culto público na igreja, mas podem
ser dispositivos interessantes para chegar ao coração dos não crentes:
teatro, certos tipos de música, de arte, comunicação mais despojada, etc.

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Vamos falar de Teologia 153

Contra um cristianismo nominal por cristianismo prático


Reproduzo aqui um texto simples e interessante22:
É o cristão de nome. Na verdade, tem o nome de cristão, mas não
vive como cristão ou um pseudocrístão. O que caracteriza um cristão
nominal é a sua falta de compromisso com Cristo em função de uma
experiência emocional e não espiritual. Conhece a Cristo de nome, mas não
pela via do novo nascimento ou da regeneração. Conhece de casca, mas não
na profundidade. Como Jesus mesmo disse: “Este povo honra-me com os
lábios, mas o seu coração está distante de mim; em vão me adoram,
ensinando doutrinas que são preceitos humanos” (Mt 15.8,9). O Mestre
diagnostica a nominalidade de muitos que O seguem, mas não O servem.
Que gostam d´Ele, mas não O amam. Seguem como uma religião e não O
servem com a natureza do Evangelho. Pode-se seguir a Cristo por simpatia,
apegos a sinais ou milagres, por interesses escusos, para se ter uma religião
e outros motivos meramente humanos. É ter o nome no rol de membros da
Igreja, como uma assembleia, ou uma instituição, mas não ser membro da
Igreja como Corpo vivo de Cristo. O cristão nominal não quer obedecer,
tomar a cruz, sofrer, testemunhar e servir. Ele não está comprometido com
Cristo às raias da morte como muitos cristãos do passado (e até do
presente) que morreram por cauda do testemunho do Evangelho. Ele não
entende o desafio de Jesus em Mateus 16.24-27: “Se alguém quiser vir após
mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e segui-me. Pois quem quiser
preservar a sua vida, irá perdê-la; mas quem perder a vida por minha causa,
este a preservará. Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e
perder a vida? Ou, que dará o homem em troca da sua vida? Porque o Filho
do Homem virá na glória de Seu Pai, com os Seus anjos, e então retribuirá a
cada um segundo suas obras”.

22
http://prazerdapalavra.com.br/colunistas/oswaldo-jacob/14076-o-cristao-nominal-
oswaldo-jacob

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Vamos falar de Teologia 154

A relação do cristão nominal com Cristo está reduzida aos domingos


como fazia na missa. Durante a semana vive como quer. Ele não tem
consciência ética. Não conhece limites. Não busca uma espiritualidade
saudável. Não considera a seriedade do evangelho, a leitura devocional das
Escrituras, o investimento missionário, a ajuda aos pobres e necessitados, a
seriedade com o seu corpo, a importância da Igreja, a comunhão profunda
dos santos e sua influência no mundo. Ele não está interessado no
cumprimento da Grande Comissão: “E, aproximando-se Jesus, falou-lhes:
Toda autoridade me foi concedida no céu e na terra. Portanto, ide, fazei
discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo; ensinando-lhes a obedecer a todas as coisas que vos
ordenei; e eu estou convosco todos os dias, até o final dos tempos” (Mt
28.18-20). Não contribui para o sustento dos ministérios da Igreja. Possui
uma visão apequenada da Igreja. Para ele a igreja é uma agremiação como
outras.
É muito triste ver como há cristãos nominais em nossas
comunidades, descomprometidos com o evangelho do Reino, com o
evangelho da graça. Para eles, Cristo é periférico e não central. É
secundário e não primário ou prioridade. Ele não possui uma experiência
cristocêntrica, mas egocêntrica. Não comunga das ordens ou dos
imperativos de Cristo. Os seus interesses estão acima dos interesses de
Cristo. A sua vontade é mais importante do que a vontade e a doutrina do
Senhor. O cristão nominal é secularizado. Não há referenciais éticos,
morais. Ele está conformado com o mundo, acenando todos os dias para
ele. Nos seus relacionamentos na Igreja, usa uma linguagem religiosa. Nos
seus contatos com o mundo, utiliza uma linguagem própria do mundo.
O cristão nominal precisa de novo nascimento, de uma experiência
profunda com Jesus de amor e cumplicidade. Uma experiência de serviço,
de diaconia. Ele necessita se arrepender dos seus pecados, crer na
suficiência da obra de Cristo e obedecê-lo de todo o coração, sendo uma
testemunha fiel em todo o tempo. Na verdade, necessita de uma

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 155

identificação plena com Cristo na Sua morte e na Sua ressurreição (Rm 6.1-
11). Ao se converter, não sendo mais nominal, ele testemunha
corajosamente do Evangelho de Cristo è semelhança de Paulo quando ele
diz: “Porque não me envergonho do Evangelho de Cristo, pois é o poder de
Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também
do grego” (Rm 1.16). Para o cristão genuíno, o viver é Cristo e o morrer é
lucro (Fp 1.21). Ele possui um imenso prazer em servir a Cristo dentro e
fora do santuário sempre para a Glória de Deus Pai.
O cristianismo nominal, em última instância, não é cristianismo. Um
problema sério de disciplina é o que temos aqui, no que diz respeito a quem
faz parte ou não do corpo local de crentes e que pode representar a igreja,
mas uma questão importante. A quem compete este problema? Quem julga
e quem avalia? Difícil responder por causa do autoritarismo que pode gerar
se respondermos que é um agente humano e o subjetivismo se delegarmos
ao Espirito Santo (quem o ouve e interpreta sem erros?). Talvez caiba a
igreja como um todo este juízo e decisões de ordem disciplinares tão
importantes.

Por uma ortopatia baseada no exemplo de Cristo


Aprendendo com o Exemplo de Cristo - sua humildade
Em Filipenses 2 lemos sobre a humilhação de Cristo que sendo Deus
se esvaziou tornando-se servo e morrendo na cruz. A palavra servo talvez
não traduza a ideia real de escravo, aquele que não tem vontade própria e
fatalmente é destinado a uma vida que, no caso de Cristo, não é merecida
pois ele é Deus. Como podemos ensinar humildade às pessoas? Como
podemos exigir humildade da igreja? É uma boa pergunta.
Dizem que humildade é algo que nunca sabemos se temos porque
isto seria um ato de arrogância. Mas acho que isto não é verdade. Jesus
disse certa vez: ¨aprendei de mim que sou manso e humilde e encontrareis
descanso para as vossas almas¨ (Mt 11.29). Jesus diz nesta mesma

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 156

passagem que isto é um jugo ou fardo que devemos tomar se queremos


segui-lo.
Humildade é humilha-se, se reconhecer menor do que os outros e
servo de todos. Humilhar-se é se colocar passivamente diante de Deus agir
assim.
Quem se humilha serve, na vive em contendas, não vive em meio a
fofocas, está sempre ocupado com questões realmente importantes porque
está sempre servindo a Cristo e à sua igreja.
Em Marcos 10.45 temos o ponto alto desta questão: ¨porque o Filho
do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em
favor de muitos¨. A igreja deve reconhecer aqueles que se colocam assim e
dar vazão a este sentimento e atitude.

Glorificando a Deus com todo nosso ser – tudo é dele


Paulo nos ensina que tudo deve ser feito para a glória de Deus (1 Co
10.31-33). Jesus priorizava a vontade de Deus comparando com sua comida
e bebida (Jo 4.34). O céu e a sua plenitude pertencem ao Senhor (Sl 24.1).
Quando estudamos antropologia cristã vemos que mesmo o homem
pertence a Deus (Ec 12.7). O número de referências é vasto.
O mundo não pertence ao homem, às ideologias vigentes, nem
mesmo ao Estado. Somos mordomos de toda a criação e as regras de seu
cuidado e zelo pertencem a Deus. Daremos conta de tudo que fizermos.
Na parábola dos talentos em Mateus 24.14-30 vemos como o
cuidado de tudo nos será cobrado e o quanto já nos é exigido aqui. Vale a
pena reproduzir o texto na versão ACF:
Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da
terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens. E a um deu
cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua

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Vamos falar de Teologia 157

capacidade, e ausentou-se logo para longe. E, tendo ele partido, o que


recebera cinco talentos negociou com eles, e granjeou outros cinco talentos.
Da mesma sorte, o que recebera dois, granjeou também outros dois. Mas o
que recebera um, foi e cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
E muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e fez contas com eles.
Então aproximou-se o que recebera cinco talentos, e trouxe-lhe outros cinco
talentos, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis aqui outros
cinco talentos que granjeei com eles. E o seu senhor lhe disse: Bem está,
servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra
no gozo do teu senhor. E, chegando também o que tinha recebido dois
talentos, disse: Senhor entregaste-me dois talentos; eis que com eles
granjeei outros dois talentos. Disse-lhe o seu senhor: Bem está, bom e fiel
servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do
teu senhor. Mas, chegando também o que recebera um talento, disse:
Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não se
measte e ajuntas onde não espalhaste. E, atemorizado, escondi na terra o teu
talento; aqui tens o que é teu. Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe:
Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde
não espalhei? Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e,
quando eu viesse, receberia o meu com os juros. Tirai-lhe pois o talento, e
dai-o ao que tem os dez talentos. Porque a qualquer que tiver será dado, e
terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado.
Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger
de dentes.

Igrejas 24 horas por dia - um ministério integral


A ociosidade dos templos religiosos em boa parte da semana já foi
assunto, se ainda não é, de longos debates, texto e capítulos de livros. O uso
do templo em si é uma questão delicada, mas não das demais dependências
da igreja. Além de ocupar o espaço ocioso é uma forma de ampliar o

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Vamos falar de Teologia 158

ministério leigo e o alcance da igreja. Como tudo, possui os seus riscos e a


necessidade de amplo cuidado e supervisão. .
Já tive a experiência de pastorear uma igreja com um terreno de
200m2 com um templo de apenas 72m2. Mesmo assim, disponibilizamos
ao espaço para uma série de ações durante a semana: AA (alcoólicos
anônimos), Posto do bairro (para facilitar o acesso de deficientes e idosos
da parte mais distante do bairro), biblioteca comunitária com aulas de
reforço, etc. Ações que aproximavam a comunidade e mostravam o amplo
espectro de ação da igreja. Vale a penas mencionar aqui que é de amplo
interessa da igreja que as pessoas tenham educação formal de boa qualidade
para que possam compreender o que ouvem e possam ler e chegar às suas
próprias conclusões, com todos os riscos inerentes a que isto nos possa
sujeitar como igreja.

Conclusão
Neste breve texto introduzimos um assunto fundamental para a
igreja: o processo avançado de secularização que vivemos.
O secularismo implica em um problema de cosmovisão que afeta a
religião e a compreensão da revelação e a relação de Deus com o mundo.
O secularismo cresce à medida que a igreja acua e não age de modo
integral no mundo. Mesmo as ações que vemos e que parecem dar certo
frescor a toda esta problemática, ainda são poucas e muito tímidas.
Os problemas de comunhão e testemunho da igreja são também uma
fonte de esfriamento do fervor religioso. A fé se tornou um item de
mercado, mas como o mercado é regido por leis de oferta e procura, relação
custo e qualidade, relação custo e satisfação, parece demais exigir
fidelidade a qualquer igreja ou sistema religioso que seja. A ética pluralista
do politicamente correto também impede que qualquer ideia queira se
sobrepor a outras.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 159

O homem é um ser pecador que procura sempre roubar a glória de


Deus, e é incapaz de refletir com pureza e imparcialidade. Somos atacados
por ideologias totalizantes e pelo tamanho do Estado. Temos que
sobreviver e viver em um mundo muito competitivo. Carecemos de boa
doutrina, bons exemplos e de senso de comunidade. Não usamos o
conhecimento adquirido em outras áreas para o bem da igreja e do
Evangelho e sequer compreendemos que toda a realidade foi criada por
Deus para a sua glória. A igreja não é capaz de dar respostas adequadas
aos desafios do homem pós-moderno.
A multiplicidade de igrejas, pastores e ministérios não criam a
diversidade no sentido positivo de que mais lugares e pessoas em todas as
suas formas e cores possam ser alcançadas, mas antes de tudo, é fonte de
mais divisões e conflitos porque o que temos é competição.
É preciso aceitar o conselho e desafio do apóstolo Paulo: pregar a
tempo, fora de tempo com toda longanimidade e ensino (2 Tm 4.2). É
preciso servir ao Senhor com toda alegria e ter as mãos cheias de boas
obras (Sl 100.1; Ef 2.10). É preciso amor para com os crentes e verdadeiro
senso de comunidade (1 Co 13; 1 Pe 2.9).
Deus abençoe a igreja, sobretudo a brasileira, para que resista ao
secularismo e viva seu propósito. Propósito para o qual Cristo morreu.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 160

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA SOBRE SECULARISMO


BAUMAN, Zygmunt. A vida em fragmentos; sobre a ética pós-moderna.
Tradução de Alexandre Werneck. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011.
BAUMAN, Zygmunt. Ética Pós-Moderna. Tradução de João Rezende
Costa. São Paulo: Paulus, 1997.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. Introdução de Marcus
Penchel. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
BITUN, Ricardo. Mochileiros da fé. São Paulo: Reflexão.
LAUSANE. O Evangelho e o Homem Secularizado – o desafio do homem
e da sociedade moderna. São Paulo: ABU.
LIPOVETSKY, Gilles. Os Tempos Hipermodernos. São Paulo: Bacarolla,
2004. 129 p.
__________________. A estetização do mundo: viver na era do
capitalismo artista. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 467 p.
_________________. O império do efêmero: a moda e seu destino nas
sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 345 p.
MARQUES, Christopher. Um novo olhar para a missão da igreja: por
uma teologia prática. São Paulo: Reflexão, 2015. 116 p.
MCGRATH, Alister. Teologia: sistemática, histórica e filosófica. São
Paulo: Shedd, 2005. 659 p.
NEWBIGIN, Lesslie. O Evangelho em uma sociedade pluralista. Viçosa,
MG: Ultimato, 2016. 315 p.
NICHOLLS, Bruce J. Contextualização, uma teologia do evangelho e
cultura. São Paulo: Vida Nova, 2013. 95 p.
NICODEMUS, Augustus. O que estão fazendo com a igreja. São Paulo:
Mundo Cristão, 2008. 201 p.

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Vamos falar de Teologia 161

_____________________. O ateísmo cristão e outras ameaças à igreja.


São Paulo: Mundo Cristão, 2011. 198 p.
PIPER, John. Irmãos, não somos profissionais. São Paulo: Shedd, 2011.
RAMOS, Ariovaldo. Ação da Igreja na Cidade. São Paulo: UP.
RAMOS, Ariovaldo. Nossa igreja brasileira. São Paulo: Hagnos.
RUSSEL, Bob. Uma igreja de sucesso: 10 princípios bíblicos testados e
aprovados. São Paulo: Vida Nova, 2003. 280 p.
SABATO, Ernesto. Antes do fim – Memórias. São Paulo: Companhia das
Letras, 2000. 165 p.
SHEDD, Russel P. A Solidariedade da raça: o homem em Adão e em
Cristo. São Paulo: Vida Nova, 1995. 194 p.
STEUERNAGEL, Valdir (org.). A missão da igreja. São Paulo: Missão.
VANHOOZER, Kevin J. Encenando o Drama da Doutrina: Teologia a
serviço da Igreja. São Paulo: Vida Nova, 2016. 349 pág.
____________. O Drama da Doutrina: uma abordagem canônico-
linguística da teologia Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2016. 509 pág.
____________. A trindade, as escrituras e a função do teólogo:
contribuições para uma teologia evangélica. São Paulo: Vida Nova, 016.
127 p.
YUILLI, J. Stephen. Um trabalho de amor – prioridades pastorais de um
puritano. Recife: Puritanos, 2015.
WARE, Bruce A. Teísmo Aberto: a teologia de um deus limitado. São
Paulo: Vida Nova, 2010. 144 p.
WINTER, Ralph D. Perspectivas no movimento cristão mundial. São
Paulo: Vida Nova.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 162

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo:


Martin Claret, 2008. 4ª edição. 238 p.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 163

HOMOSSEXUALIDADE E IDEOLOGIA
DE GÊNERO
Vamos tratar introdutoriamente sobre um assunto amplamente
discutido e que trás a tona muitas questões importantes: a
homossexualidade. Nossa abordagem será bíblica e pastoral, mas não
fugiremos das questões ideológicas, biológicas e comportamentais.
O assunto mereceria vários encontros, grupos de debate,
apresentação de vídeos além de muita troca de informação, ideias e
opiniões, mas não temos tempo para isto. O tempo que temos no MJA deste
mês, cerca de 40 minutos, é pouco demais para tanto. Por isto, vamos soltar
alguns textos, áudios e sugerir alguns vídeos e textos para os que quiserem
se aprofundar um pouco mais e se munir de informações para reflexão.
Neste primeiro momento vamos apenas apontar algumas diretrizes e
propor algumas perguntas para começarmos a pensar. Os assuntos seguirão
certa ordem temática, mas abaixo estão misturados de propósito.
 Por que o assunto é tão importante?
 O que a Bíblia diz sobre a homossexualidade?
 O que a ciência diz sobre a homossexualidade? Existe
cromossomo gay?
 Por que falamos de ¨ideologia de gênero¨? Existe
mesmo uma instrumentalização sócio-política da
homossexualidade?
 O que seria amar um homossexual e não sua
homossexualidade? Dá para separar as coisas?
 Devemos aceitar uma teologia inclusivista?

Existem mais gays hoje do que antigamente? Será que isto não tem a
ver com as mudanças na alimentação e com a presença de alimentos

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Vamos falar de Teologia 164

modificados geneticamente ou com muitos produtos químicos que alteram


a composição hormonal de homens e mulheres?
Teorias da conspiração e outras pirações - o que é verdade, o que é
provável, o que é improvável e o que é mentira?
Existe mesmo homofobia? É verdade que matam gays por serem
gays? Quem os mata?
Tenho um amigo gay. Isto é um problema?
Quantos gêneros existem? Existem mesmo? Um homem pode virar
mulher e uma mulher pode se transformar em um homem?
E quando temos um gay na igreja?
O que pode mudar em uma sociedade com o aumento da
homossexualidade? Melhora ou piora? Ou tanto faz?
Estas e outras questões talvez não sejam plenamente respondidas,
mas vai valer a pena refletir. Sugerimos, aos que se interessarem, ampliar e
aprofundar as questões que colocaremos adiante.

A questão da cosmovisão mais uma vez


Desde o mês de novembro de 2017 nosso Ministério, o MJA, tem
trabalho a questão da cosmovisão cristã em diálogo com várias faces da
vida e outras cosmovisões. Já abordamos a definição de cosmovisão, a
questão do trabalho e da teologia liberal. Este mês, Maio de 2018, é a vez
de falarmos da homossexualidade. Em junho abordaremos a questão das
artes.
Em resumo, a cosmovisão é a forma como enxergamos o mundo, ou
seja, as lentes advindas de nossas influências, estudos, experiências,
religião, etc. Se alguém é ateu, por exemplo, lerá o mundo sem a presença
de Deus e, muito provavelmente, terá uma visão materialista do mundo, ou
seja, que tudo o que existe é apenas a matéria. Muitos ateus negam a

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 165

existência da alma. Para eles, o que os religiosos chamam de alma, nada


mais é que o produto de impulsos elétricos interpretados pelo cérebro.
Curiosamente, o fato de que alguém se afirma uma ou outra coisa,
não faz desta pessoa esta ou aquela coisa. Uma pesquisa realizada nos EUA
poucos anos atrás mostrou que apenas 4%23 (Morley: 2012, pág. 24) dos
cristãos americanos realmente adotam uma cosmovisão cristã da vida, ou
seja, levam em consideração a Bíblia, a construção da Teologia ao longo
dos séculos, etc. Portanto, quando abordamos assuntos à luz da cosmovisão
cristã, que é bíblica também, estamos falando de algo muito importante.
Ao falarmos da homossexualidade, por exemplo, tocamos em um dos
temas sobre o qual a maioria dos cristãos estão dispostos a encontrar outras
soluções, além de propor novas respostas e interpretações, mas que são
contrárias a textos bíblicos que são assustadoramente claros, objetivos e
diretos.
Entre as visões que mais dominam os cristãos no ocidente está o
secularismo. O secularismo é a cosmovisão que nos leva a guiar a vida e a
própria religião à luz dos valores deste século, como o materialismo (apego
material), a ostentação das riquezas, o culto à razão, a supervalorização da
ciência, formas de religiosidade desapegada (um cristianismo
descristianizado), espiritualidade vazia de ações, etc. Isto é preocupante.
É possível que no Brasil o número de cristãos professos, mas que não
adotam uma cosmovisão verdadeiramente bíblica e cristã seja muito
grande. Infelizmente não encontramos nenhuma pesquisa neste sentido. É a
percepção que temos. Dizer-se cristão, frequentar a igreja, adotar jargão
religioso não faz de ninguém realmente cristão. Quanto mais aumenta o
nosso conhecimento da visão bíblica e teológica cristã, mais aumenta a
nossa percepção de um abismo entre a vontade de Deus, sua Palavra e o

23
MORLEY, Patrick; DELK, David; CLEMMER, Bret. Homens além do churrasco e
futebol. São Paulo: Hagnos, 2012. 263 p.

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Vamos falar de Teologia 166

exemplo de Cristo no que diz respeito à maneira como denominações,


igrejas e crentes dirigem suas vidas.

A importância de falarmos sobre a homossexualidade


O assunto se impõe. Quem é mais jovem, talvez com menos de 20
anos de idade, não deve ter conhecido o tempo em que este assunto
raramente ocupava nossas conversas. Hoje falamos dele com muita
frequência e o vemos comentado o tempo todo.
Dependendo da maneira com o assunto é concebido, muitos preferem
o termo homossexualismo, já que o termo denotaria uma doença por causa
do sufixo ¨ismo¨. A luta dos movimentos LBGTs e afins, conseguiu impor,
sobre muitas áreas, como a psicologia, por exemplo, a expressão
homossexualidade, denotando comportamento e escolha, afastando o termo
de qualquer relação com doença, seja física, social ou psicológica. Freud,
que muitos gostam de citar, chamava a homossexualidade de perversão,
mas não se engane. No vocabulário freudiano, perversão é muito mais um
desvio ou deslocamento de personalidade e comportamento, do que algo
que possa ser chamado de abominável.
O assunto é pauta importante na política e há muitos políticos que
militam na causa. Sem dúvida, o deputado Jean Wyllys é o mais famoso
deles. Eles falam de homofobia, que não é apenas o medo ou aversão aos
homossexuais, mas uma clara referência a atitudes contrárias e agressivas
aos homossexuais que vão do desprezo, passando pela negação de vagas de
emprego, até o homicídio. Apresentam números que fazem com que esta
realidade se mostre realmente preocupante (falaremos disto).
O nosso dia a dia apresenta em escala crescente o assunto. Nas ruas
já é comum ver moças andando de mãos dadas e se beijando, e o mesmo
acontecendo com rapazes entre si. Os programas de televisão e novelas
incluem, necessariamente, representantes do mundo LGBT. A igreja lida
constantemente com pessoas homossexuais e elas são sempre uma batata

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 167

quente¨ nas mãos de líderes. No nosso caso a coisa é ainda mais complexa
já que ninguém é capaz de afirmar que não se deve amar alguém
sabidamente e assumidamente homossexual, mas é sempre difícil
determinar os limites de uma relação que pode ser tensa, já que todos os
holofotes estão sobre ela.
Além disto, devemos desconfiar da agenda LGBT. Muitos afirmam
que se todos os projetos anti-homofobia passarem, teremos a criação de
uma espécie de super-cidadão intocável, porque com muita facilidade
alguém poderá ser acusado de homofóbico pagando caro na justiça por
causa disto. O simples fato de ser religioso, e se for padre ou pastor pior
ainda, cria o rótulo de homofóbico. Um colega de classe na psicanálise
levou mais de oito meses para dizer que era gay porque tinha medo de mim
já que rapidamente me apresentei como evangélico e pastor. Ele era filho
de pastor e tinha passado pela terrível experiência de ser expulso de casa
por ser homossexual. Ainda era 2010 e a coisa não era tão intensa como
hoje.
Outra questão importante diz respeito àqueles que querem deixar a
homossexualidade. Muitos dizem que não se deve falar disto e
pejorativamente criaram a expressão ¨cura gay¨. No entanto, muito
timidamente e secretamente, há muitos que gostariam de um tratamento ou
de poder falar do quanto ser gay pode ser angustiante, mas não encontram
espaço para isto. O CRP24 de um psicólogo, por exemplo, pode ser cassado
se porventura ele for denunciado fazendo terapia com alguém assim.
Neste ponto ainda temos outra questão: se é um comportamento que
a pessoa controla e decide, uma forma de construção social, por que os gays
não podem decidir o contrário, ou seja, decidir não ser mais gay? Se for
uma condição biológica, porque ninguém conseguiu provar isto, e porque o
próprio movimento não insiste nesta questão tão fundamental e que

24
CRP é o Conselho Regional de Psicologia, órgão que regulariza em cada estado a
profissão de psicólogo.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 168

determinaria o fim da discussão? Mas para isto deveriam também


relacionar esta condição biológica a eventos tardios, ou seja, a pessoas que
manifestam ou assumem a homossexualidade tardiamente sem sinais
anteriores, mas isto seria um complicador.
Há muitos casos de pessoas que deixaram de ser gays, constituíram
família e que não recebem nenhum destaque da mídia e dos outros meios de
comunicação. Será que estes nunca foram gays de verdade? Caso a resposta
seja positiva, eles têm um novo problema – quantos seriam os falsos gays
vivendo na pele de um gay e que se descobrirão heterossexuais no futuro?
Muito complexa a questão.
Devemos notar que a pauta LGBT é parceira e defendida por grupos
feministas, abortistas, de liberação do uso das drogas, desarmamentistas, de
politização da educação, do aquecimento global, etc. Desconfio que
nenhum destes assuntos sejam elementos de agendas diferentes. Ou seja,
estamos lidando com um assunto que está dentro de uma agenda maior? É
provável. Admito que alguém possa ter pensamentos congruentes com estes
grupos em alguns casos, mas incongruentes em outros casos e não
participar de nenhum grupo e nem defender nenhuma agenda tão bem
orquestrada. Há grupos independentes agindo diferentemente em cada uma
das causas? Sim, há. Mas tenha um olhar mais amplo e verá que há certa
unidade entre os assuntos e seus defensores.
Dentro do possível compartilharei casos próximos, como na família,
no lugar onde cresci e depois que me tornei pastor. Nunca é fácil lidar.
Temos que conviver com a pressão de que nossas ações nem sempre serão
compreendidas tanto por um lado quanto pelo outro, mas com já dissemos
anteriormente na primeira postagem, vale a pena pensar, refletir e discutir.

O que a Bíblia diz sobre homossexualidade e a Nova Hermenêutica


A Bíblia é a nossa regra de fé e prática, ou seja, ela é que nos orienta
quanto a nossa fé em Deus e em seu Filho Jesus Cristo e orienta o nosso dia

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 169

a dia como pessoas e como servos de Deus. A Bíblia não trata com detalhes
de todas as possibilidades do convívio humano, mas baliza a conduta, o
caráter e nos mostra a vontade Deus para seus servos, além de apontar o
futuro da humanidade com base na sua relação com Cristo. A Bíblia é o
único documento confiável que temos e que revela a vontade de Deus.
Na Bíblia não vemos longos textos e longas explicações a respeito da
homossexualidade, mas apesar de pontuais são suficientemente claras
quanto ao que significa: pecado. E pecado é o que desagrada a Deus e nos
afasta dele (Rm 3.23). Alguns textos que tratam de homossexualidade na
Bíblia são:

1. Gênesis 19.5-7: Chamaram Ló e lhe disseram: "Onde estão


os homens que vieram à sua casa esta noite? Traga-os para
nós aqui fora para que tenhamos relações com eles". Ló saiu
da casa, fechou a porta atrás de si e lhes disse: Não, meus -
amigos! Não façam essa perversidade! – esta era uma prática
escandalosa dos moradores de Sodoma e Gomorra e por isto o
termo sodomia passou a ser utilizado.

2. Levítico 18.22: Não se deite com um homem como a quem


se deita com uma mulher; é repugnante – este texto está
dentro do código de santidade do povo de Deus que tem início
no capitulo 19 de Êxodo com grande destaque para Levíticos
11. Estas práticas eram comuns entre os moradores de Canaã e
Deus já os advertia para que não repetissem estas atitudes.

3. Juízes 19.22-23: Quando estavam entretidos, alguns vadios


da cidade cercaram a casa. Esmurrando a porta, gritaram
para o homem idoso, dono da casa: "Traga para fora o

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 170

homem que entrou em sua casa para que tenhamos relações


com ele!" O dono da casa saiu e lhes disse: "Não sejam tão
perversos, meus amigos. Já que esse homem é meu hóspede,
não cometam essa loucura¨ - aqui já estamos no contexto em
que os hebreus estavam em parte estabelecidos em Canaã e
estas tensões apareciam. Infelizmente a concubina foi alvo da
violência e acabou morrendo.

4. Romanos 1.21-27 - Porque, tendo conhecido a Deus, não o


glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os
seus pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato
deles obscureceu-se. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e
trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo
a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros,
quadrúpedes e répteis. Por isso Deus os entregou à impureza
sexual, segundo os desejos pecaminosos do seu coração, para
a degradação do seu corpo entre si. Trocaram a verdade de
Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres
criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre.
Amém. Por causa disso Deus os entregou a paixões
vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas relações
sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da mesma
forma, os homens também abandonaram as relações naturais
com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros.
Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e
receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua
perversão - aqui o apóstolo Paulo relaciona algum grave
problema no primeiro século à promiscuidade e à
homossexualidade como um castigo da parte de Deus. O
ambiente greco-romano era altamente sexualizado e

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 171

sensualizado25 e a homossexualidade era um forte componente


daquela sociedade. Alguns imperadores romanos, por
exemplo, são descritos como homossexuais. As fontes
históricas disponíveis sobre a prática homossexual na Roma
Antiga, suas atitudes e a aceitação deste fato são abundantes.
Há obras literárias, poemas, gravuras e comentários sobre a
condição sexual de todos os tipos de personagens, incluindo
imperadores solteiros e casados. Por outro lado, as
representações gráficas são mais raras do que no período
da Grécia clássica. Atitudes em relação à homossexualidade
mudaram com o tempo de acordo com o contexto histórico,
variando de forte condenação a uma aceitação
consideravelmente ampla. Na verdade ela foi considerada um
costume cultural em certas províncias. O uso do termo na
literatura pode ser confuso se comparado ao uso que fazemos
hoje. Se quiser conhecer mais vale a pena consultar como isto
acontecia no período como contam Suetônio (70-126 d.C) e
Tácito (56-117 d.C), por exemplo, que são escritores e
historiadores do período.

5. 1 Coríntios 6.9-11: Vocês não sabem que os perversos não


herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem
imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais
passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem
alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o
Reino de Deus. Assim foram alguns de vocês. Mas vocês
foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome
do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus – este

2525
Uso estes dois termos nas seguintes condições. Por sexualizado compreendo um
ambiente onde o sexo está presente por suas mais diversas formas. Por sensualizado
compreendo o ambiente onde há insinuação e provocação de natureza sexual.

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Vamos falar de Teologia 172

ensinamento e orientação de Paulo está entre o capítulo que


narra o relação incestuosa de um rapaz com sua madrasta e a
orientação quanto a pureza no casamento. A tradução que diz
¨homossexuais passivos e ativos¨ funciona para advertir a
todos indistintamente. Lembremos que passividade, omissão, e
até pecado cometido por ignorância são pecados diante de
Deus. Ninguém pode dizer: Eu não sabia! Não fui eu quem fiz!
É o mesmo princípio que rege as leis de um país. Ignorar a lei
não te isente da responsabilidade de cumpri-la e nem da
penalidade ao descumpri-la.

6. 1 Coríntios 6.18: Fujam das imoralidade sexual. Todos os


outros pecados que alguém comete, fora do corpo os comete;
mas quem peca sexualmente, peca contra o seu próprio corpo
- este texto parece não tratar diretamente da questão da
homossexualidade, mas está no mesmo contexto do texto
anterior em 1 Coríntios 6.9-11, mas generaliza e amplia os
pecados sexuais.
Além destes textos, ainda temos pelo menos mais texto que é usado
para defender que havia homossexualidade aprovada por Deus. É o caso de
Davi e Jonatas. A amizade dos dois é bem conhecida dos leitores da Bíblia.
Após a morte de Saul e Jônatas a Bíblia narra a reação de Davi manifesta
por meio de um cântico:
2 Samuel 1.17-27: Davi cantou este lamento sobre Saul e seu
filho Jônatas, e ordenou que se ensinasse aos homens de Judá
este Lamento do Arco, que foi registrado no Livro de Jasar: "O
seu esplendor, ó Israel, está morto sobre os seus montes. Como
caíram os guerreiros! "Não conte isso em Gate, não o
proclame nas ruas de Ascalom, para que não se alegrem as
filhas dos filisteus nem exultem as filhas dos incircuncisos. Ó
colinas de Gilboa, nunca mais haja orvalho nem chuva sobre

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 173

vocês, nem campos que produzam trigo para as ofertas. Porque


ali foi profanado o escudo dos guerreiros, o escudo de Saul,
que nunca mais será polido com óleo. Do sangue dos mortos,
da carne dos guerreiros, o arco de Jônatas nunca recuou, a
espada de Saul sempre cumpriu a sua tarefa. Saul e Jônatas,
mui amados, nem na vida nem na morte foram separados.
Eram mais ágeis que as águias, mais fortes que os leões.
Chorem por Saul, ó filhas de Israel! Chorem aquele que as
vestia de rubros ornamentos, e suas roupas enfeitava com
adornos de ouro. Como caíram os guerreiros no meio da
batalha! Jônatas está morto sobre os montes de Israel. Como
estou triste por você, Jônatas, meu irmão! Como eu lhe queria
bem! Sua amizade me era mais preciosa que o amor das
mulheres! Caíram os guerreiros! As armas de guerra foram
destruídas!
Não há nos registros anteriores da Bíblia nenhuma referência a
qualquer relação homossexual entre Davi e Jônatas, mas de uma amizade
muito grande na qual um correu riscos de morte pelo outro, jurando
lealdade. Jônatas, além de admirar e defender Davi diante de seu pai, o Rei
Saul, sabia que Davi fora ungido Rei de Israel por Samuel. Infelizmente, já
há pessoas e grupos interpretando homossexualmente a relação de Jesus
com seus apóstolos, mas não vamos aqui comentar tal loucura.
A pergunta que surge é simples: diante de textos tão claros sobre a
homossexualidade como pecado e, portanto, algo abominável a Deus, como
há grupos que usam a Bíblia para defender que não há problema e não há
pecado na homossexualidade de posse da Bíblia? A resposta não pode ser
curta e simples, mas vamos tentar a partir de uma vertente importante: as
novas formas de interpretação textual ou a Nova Hermenêutica. Esta,
também, é resultado da pecaminosidade humana e seu distanciamento de
Deus. Tem os dedos malignos do Diabo e a simplicidade de pessoas
vendidas às ideias seculares.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 174

A relação do homem como textos antigos e fatos históricos é sempre


tensa. De tempos em tempos a história, os documentos antigos, as
interpretações dos fatos são revisadas e podem assumir novos contornos.
Como é dito em 1984, livro de George Orwell: ¨quem domina o presente,
domina o passado¨. Vamos a um exemplo:
João bebeu água do rio.
Dentro da metodologia conhecida como histórico-gramatical
veríamos algumas coisas nesta frase: um homem chamado João (sujeito),
bebeu (verbo) água do rio (complemento).
Teríamos uma frase com pleno sentido morfológico, no qual as
palavras existem e são conhecidas, e sentido sintático. Deste modo, há
perfeita relação entre as palavras e formam uma sentença compreensível
sobre um fato testemunhado e averiguável.
No entanto, o sentido da frase não é apenas gramatical, mas
histórico porque poderíamos aprofundar:
Quem é João? Sua nacionalidade, seu perfil físico, sua idade, suas
ideias, por que estava com sede (ou não estava), etc.
Por que bebeu água? Era a única coisa disponível, é uma preferência
dele, etc.
De que rio? Onde ficava o rio, qual era o nome do rio, a água desse
rio era boa, João poderia ter algum problema com aquela água, qual a
história deste rio, etc.
Quem é o observador que descreveu a ação? O texto está na terceira
pessoa e exige que alguém tenha observado, sabido de outra forma e tenha
tido uma intensão ao narrar este fato. Esta frase deve estar inserida no
contexto de uma história maior já que João não surgiu do nada, o rio não
surgiu do nada, etc.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 175

A Nova Hermenêutica, que em certo sentido é o possível atestado do


fracasso de descobrir de forma precisa todos os elementos de um texto,
afirma que, por isto mesmo, um texto, sobretudo tão antigo quanto a Bíblia,
não nos possibilita e jamais nos possibilitará sua completa compreensão.
Qual a opção que fazem? O texto perde seu peso histórico-gramatical
e ganha um peso apenas histórico-crítico (quando a análise de texto está
sujeita exclusivamente ao conhecimento e a comprovação cientifica) e
subjetivo, ou seja, uma vez escrito um texto se descola de seus autores e
personagens e pode ganhar a interpretação que cada leitor em cada época
fizer dele. Isto é o que chamamos de anacronismo, ou seja, interpretar um
texto de acordo com as opções contemporâneas e não de acordo com as
ideias presentes no contexto em que foi escrito.
Esta interpretação gera termos muito conhecidos nossos como
subjetivismo, ou seja, análise do sujeito que tem a posse do texto; e
relativismo, ou seja, a interpretação em relação ao intérprete e não em
relação aos personagens e autores. A Nova Hermenêutica é a hermenêutica
do movimento conhecido como pós-modernidade, termo que uso com
muitas reservas26, mas facilmente compreendido por muitos.
Assim a frase: ¨João bebeu água do rio¨ pode, de acordo com a Nova
Hermenêutica, querer dizer muitas coisas. Por exemplo:
João é o pseudônimo de um agente secreto da Shield no
Saara. Rios lá são raros, mas este é especial. João não está
com sede, mas não pode dispensar água tão especial. Este rio,
sem nome, está dentro das reservas e áreas inimigas, e João
está mais perto de cumprir sua missão, mas tomar água pode
colocá-lo em risco porque esta região, preciosa naquele

26
A expressão pós-modernidade prevaleceu para explicar a realidade atual. Existem, no
entanto, outras expressões como modernidade líquida, modernidade tardia e
hipermodernidade. Cada uma delas revela uma faceta da complexidade que vivemos em
todos os aspectos.

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Vamos falar de Teologia 176

ambiente, é altamente vigiada. Depois de beber água do rio,


João morre. Antecipadamente o inimigo havia contaminado a
água.
É um exagero. Concordo. Mas como aplicamos isto ao contexto da
Bíblia e da homossexualidade?
Primeiramente, eles afirmam que estes textos são antigos e dizem
respeito apenas a um ambiente de formação do povo que não tem mais a
ver com o povo de hoje. Ignoram com isto que as leis estabelecidas para o
Israel antigo, são reforçadas dentro do ambiente da igreja por Paulo. Não
podemos esquecer jamais que a igreja cristã é construída sobre o alicerce
dos ensinos apostólicos.
Afirmam que as poucas ocorrências destes textos mostram que não
era um assunto tão importante, mas esquecem de que há doutrinas inteiras e
sólidas criadas em textos que têm apenas uma ocorrência e que reverberam
indiretamente em toda a Bíblia, como o milênio, por exemplo.
Argumentam, também, que o tipo de homossexualidade, ligada a
violência, conquistas, promiscuidade, etc., não é do mesmo tipo praticado
hoje que tem o amor como tônica. O amor, para estes intérpretes, é a única
hermenêutica da Bíblia, já que Deus é amor (1 João 4.8). Se Deus é amor,
ele não pode condenar os homossexuais por amarem pessoas do mesmo
sexo. A hermenêutica do amor ainda tem outra vertente: a sinceridade do
coração. Como a Bíblia diz que Deus julgará os homens segundo as
intenções de seus corações, apostam que esta sinceridade os livrará porque
serão vistos como puros e inocentes. Mas vemos que há textos claros no
próprio Novo Testamento, como citado acima, que condena de forma clara
a homossexualidade. O amor e a justiça de Deus não são auto excludentes.
Como já dissemos anteriormente, se apoiam em interpretações
suspeitas de textos que, segundo eles, afirmam relacionamentos
homossexuais entre pessoas aprovadas por Deus e já começam a montar e

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 177

criar argumentos para encontrar homossexualidade durante o ministério de


Jesus e dos apóstolos.
Por fim, afirmam que o fato de que Jesus não repreendeu ninguém
por causa da homossexualidade, ainda que naquele tempo os homossexuais
fossem muitos, revela sua aceitação e aprovação. Jesus, no entanto,
conviveu no ambiente quase que exclusivamente judaico, o que pode
explicar a ausência destes casos em seu ministério, mas presentes no
ministério do apóstolo Paulo, por exemplo, que expandiu para dentro e para
o centro do Império Romano a pregação do Evangelho e, por conseguinte,
abordou o assunto com o qual se deparou. Isto aparece na carta de Paulo
aos Romanos.

O que a ciência diz a respeito da homossexualidade?


Deveríamos definir a ciência primeiramente e seu papel de
relevância em nossos tempos. A palavra ciência por si mesmo quer dizer
conhecimento. Ela é um ramo do conhecimento humano composta por
diversas diferentes disciplinas e que procuram a explicação e
fundamentação da existência e da realidade, por daquilo que se pode
mensurar, reproduzir, manipular, replicar, etc.
Ao contrário do que se propõe hoje em dia, a ciência é um ramo
originário da filosofia, já que foi um dos primeiros exercícios dos primeiros
filósofos, quando a ciência era apenas um exercício descritivo da natureza
das coisas e das coisas da natureza, passando a novos estágios na alta Idade
Média, Modernidade e hoje. Embalada pelo racionalismo cartesiano,
empirismo de John Locke e David Hume, pela Revolução Industrial, que
deram ao homem a falsa ideia de que poderia dominar tudo se obtivesse o
perfeito conhecimento de todas as coisas, vivemos hoje, ainda que
teoricamente enfraquecido, o que podemos chamar de cientificismo, ou
seja, a ideia de que a ciência é capaz de dar conta sozinha de explicar a
realidade e que detêm a última palavra em relação à natureza.

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Vamos falar de Teologia 178

A filosofia cristã, principalmente a filosofia neocalvinista holandesa


kuyperiana e dooyeweerdiana, tratando da soberania das esferas, que divide
a explicação da realidade em quinze camadas hierarquizadas, coloca a
ciência em seu devido lugar, e a sujeita a outras áreas do conhecimento
humano e afirma, por meio disto, que nenhuma área do conhecimento
humano deve contradizer outras áreas, mas serem sempre revistos quando
houver contradições. Na filosofia cristã a ciência não contradiz a fé e nem
mesmo é um empecilho para ela. Pelo contrário, é parte integrante e
necessária para a completa descrição da realidade e da natureza.
Infelizmente, esta unidade do pensamento e esta unidade da própria
ciência internamente, ainda é um sonho para a maioria dos círculos do
conhecimento e nem mesmo temos notícias de que haja qualquer esforço
neste sentido fora da filosofia cristã. Logo, tudo que é dito pode ser
contraditado e reinterpretado ao sabor de cada cliente.
Há um esforço para comprovar a existência de elementos biológicos
que comprovem que a homossexualidade é um componente da natureza. Ao
lado destes estudos, que poderíamos chamar de científicos, a ciência
também se coloca como aquela que procura no comportamento humano o
elemento determinante da homossexualidade. Não podemos nos esquecer,
por exemplo, que a psicologia é uma área do ramo científico e que busca
comprovação e explicação do comportamento humano enxergando neles
certos padrões.
Um trabalho científico é composto de quatro partes importantes. A
primeira é a observação, esta implica em análise, comparação, em
verificação dos elementos externos que podem influenciar naquela
observação, etc. A segunda parte é a descrição, ou seja, de posse de todos
estes levantamentos, os pensamentos e ideias são ordenadas e o padrão é
estabelecido. A terceira fase é das hipóteses e teorias, ou seja, procura se
determinar o porquê daquele fenômeno ou evento analisado. Por fim, uma
parte importante e necessária, mas negligenciada até mesmo pelos
cientistas, é a reorientação científica por meio da filosofia, da religião e

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Vamos falar de Teologia 179

outras áreas externas àquele ramo da ciência. Não podemos negar que esta
última fase pode ser conflitante, e que interesses outros sempre existem nas
análises científicas, que podem readaptar os dados para que os resultados
atendam a interesses outros como políticos, econômicos, religiosos,
sociológicos, etc.
Um famoso caso aconteceu no EUA com o psiquiatra John Money e
a família Reimer. Bruce, filho da família Reimer, teve o pênis mutilado
após um erro médico durante uma cirurgia. Conhecendo a situação da
família, Reimer sugeriu que o pênis dilacerado fosse amputado e que seria
melhor para Bruce crescer como Brenda do que castrado. Aos 17 meses de
idade ele passou pela cirurgia e teve início um longo caso de
acompanhamento. Aos nove anos de idade de Brenda (Bruce), o Dr. Money
descreveu o caso como um caso de sucesso, ou seja, o meio e a criação
tinham sido determinantes para que Bruce se tornasse uma mulher,
ignorando diversas dificuldades de adaptação ao longo da infância quando
Brenda (Bruce) insistia em brincadeiras masculinas e dificuldades de lidar
com roupas femininas, por exemplo.
Aos 13 anos de idade, Brenda (Bruce) foi tomada por ideias suicidas.
As consultas com o Dr. Money pararam quando a família contou a Brenda
o que aconteceu e esta passou a tentar viver como David, passando por
tentativa de reconstrução do órgão genital. Ele chegou a se casar, mas aos
30 anos se divorciou e em 2002, aos 38 anos de idade, morreu por abuso de
drogas. Ainda se tenta tratar pessoas com aquilo que chamam de distúrbio
do desenvolvimento sexual, mas o caso usado como emblemático, é ainda
um caso de completo fracasso, mas vendido como bem-sucedido.
É possível, também, encontrar vídeos na Internet, material escrito,
palestras e gente defendendo a ideia de que há um processo de
homossexualização no mundo como consequência da alimentação. Os
defensores desta vertente afirmam que a larga industrialização de produtos
com conservantes, corantes e outros modificadores; o uso em larga escala
de agrotóxicos na natureza; a injeção de hormônios para rapta engorda

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Vamos falar de Teologia 180

bovina, suína e de aves, seriam fatores de alterações hormonais


significativas nos seres humanos. O hormônio mais prejudicado seria a
testosterona, hormônio presente em maior quantidade nos homens. Isto
explicaria o aumento no número dos casos de câncer também, mas um dado
diretamente conflitante com esta informação seria o aumento da expectativa
de vida da população. No Brasil esta média passou para em torno de 58
anos em 1960, para 75,8 anos em 2015. Em países ainda mais
industrializados, como os EUA, estes números são ainda maiores. O avanço
dos estudos na área da genética está lançando dia a dia no mercado
produtos geneticamente modificados e muitos têm se empenhado em
encontrar possíveis danos e consequências ruins ao homem. Cresce no
mercado a venda e propaganda dos produtos chamados orgânicos, sem
qualquer intervenção química ou industrial, mas cresce também o número
de defensores da ideia de que estes alimentos não são tão seguros quanto
aqueles que sofrem intervenções químicas, já que certos contaminantes,
pragas e outros elementos que podem prejudicar os alimentos, não podem
ser plenamente evitados por meios naturais.
A ciência também procura se basear na natureza e explicar a
homossexualidade sobre um prisma natural. Pelo menos 20 animais da
natureza apresentam comportamento homossexual observado e
documentado: girafas, galo da serra do Pará, leões, besouro da farinha,
pinguim (inclusive há estudos muito completos sobre eles e já foi objeto de
tabu por serem muito chocantes), baleia cinzenta, chipanzé pigmeu, pato
real, bisão americano, golfinho tusiops, aranha, lagarto cnemidophorus,
abutre fouveiro, boto cor-de-rosa, ovelha, macaco japonês, hiena, cisne
negro, morsa e os elefantes, mas não seriam os únicos. É possível encontrar
estudos que afirmam que o comportamento homossexual na natureza
atende aos instintos de sobrevivência, sobretudo dos machos, que podem
ser eliminados em lutas por território e posse de fêmeas já que são mais
fracos e vencidos nas batalhas. Desta forma, se misturam às fêmeas e
chegam a assumir comportamento das mesmas. No entanto, há estudos que

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 181

apontam que muitos do comportamento homossexual dos animais na


natureza atendem a desejos por lazer.
Há, também, tímidos estudos realizados desde a década de 1990,
época do avanço e estabelecimento da ciência genética, falando sobre a
possibilidade do cromossomo gay. A mesma ciência já comprovou que
alterações nos cromossomos são decisivas na formação e em algumas
alterações humanas: Down, Edwards, Patau, Turner, Kleinfelter,
Cromossomo Frágil, etc. Um estudo neste sentido aconteceu em UCLA
pelos geneticistas Eric Vilain e Tuck Ngun. O estudo gerou uma avalanche
de críticas por causa da baixa amostragem para uma conclusão tão
importante. Veja, no entanto, a reprodução de um artigo do Dr. Dráusio
Varela:
Nas duas últimas décadas, acumulamos evidências científicas
suficientes para afirmar que a homossexualidade está longe de
ser mera questão de escolha pessoal ou estilo de vida.
“Quem quiser gostar de mim, eu sou assim,” diz o samba de
Wilson Baptista.
A homossexualidade tem forte componente genético. Diversos
estudos com gêmeos univitelinos demostraram que, quando
um deles é homossexual, a probabilidade de o outro também o
ser varia de 20% a 50%, ainda que separados quando bebês e
criados por famílias estranhas.
Nas duas últimas décadas, acumulamos evidências científicas
suficientes para afirmar que a homossexualidade está longe de
ser mera questão de escolha pessoal ou estilo de vida. É
condição enraizada na biologia humana.
Nunca houve nem existirá sociedade em que a
homossexualidade esteja ausente. O estudo mais completo até
hoje, realizado por Bailey e colaboradores da Austrália,

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Vamos falar de Teologia 182

mostrou que 8% das mulheres e dos homens são


homossexuais.
Em 1993, o geneticista Dean Harner propôs um caminho para
a identificação dos “genes gay”, sequências de DNA que
estariam localizadas no cromossomo X (região Xq28). A
descrição virou manchete de jornal, mas não pôde ser
confirmada por outros pesquisadores, requisito fundamental
para adquirir validade científica.
O fato de que 20% a 50% dos gêmeos univitelinos apresentam
concordância da homossexualidade ressalta a influência
genética, mas deixa evidente que a simples identidade de
genes não justifica todos os casos.
Em 2012, William Rice propôs que a epigenética explicaria
com mais clareza a orientação sexual. Damos o nome de
epigenéticas às alterações químicas do DNA que modificam a
atividade dos genes sem, no entanto, alterar-lhes a estrutura
química.
Durante o desenvolvimento, os cromossomos podem sofrer
reações químicas, que não afetam propriamente os genes, mas
podem “ativá-los” ou “desligá-los”. O exemplo mais
conhecido é a metilação, processo em que um radical metila
(CH3) se fixa a uma região específica do DNA, formando o
que chamamos de epimarca.
Como algumas epimarcas são silenciadas nos óvulos e
espermatozoides, enquanto outras podem ser transmitidas aos
descendentes, Rice propôs que epimarcas ancoradas junto aos
genes responsáveis pela sensibilidade à testosterona podem
conduzir à homossexualidade, quando transmitidas do pai para
a filha ou da mãe para o filho.

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Vamos falar de Teologia 183

Especificamente, ainda no ventre materno, epimarcas que


afetam a resposta às ações da testosterona produzida pelos
testículos ou ovários fetais, são capazes de masculinizar o
cérebro de meninas ou afeminar o dos meninos, conduzindo,
mais tarde, à atração homossexual.
O grupo de Eric Vilain, um dos mais conceituados nessa área,
estudou 37 pares de gêmeos idênticos discordantes (apenas um
homossexual) e 10 pares concordantes.
A avaliação de 140 mil regiões do DNA desses gêmeos
permitiu identificar cinco delas em que os padrões de
metilação guardavam relação direta com a orientação sexual
em 70% dos casos.
Por que razão alguns gêmeos idênticos terminam com padrões
distintos de metilação?
Segundo Rice, epimarcas podem ser apagadas num irmão e
persistir no outro. Vilain concorda: diferenças sutis no
ambiente intrauterino, ditadas pela circulação do sangue e a
posição espacial de cada feto, seriam as causas mais prováveis.
A antiga visão do sexo como um binário, condicionado pelos
cromossomos XX ou XY, está definitivamente ultrapassada.
Ela é incapaz de explicar a diversidade de orientações sexuais
existente nos seres humanos, nos demais mamíferos e até nas
aves.
Transmitidas de pais para filhos, epimarcas específicas nas
regiões do DNA ligadas às reações dos tecidos fetais à
testosterona oferecem bases mais sólidas, inclusive para
entender os casos de bebês com órgãos sexuais ambíguos e das
pessoas que julgam haver nascido em corpos que não
condizem com sua individualidade sexual.

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Vamos falar de Teologia 184

A homossexualidade é um fenômeno de natureza tão biológica


quanto à heterossexualidade. Esperar que uma pessoa
homossexual não sinta atração por outra do mesmo sexo, é
pretensão tão descabida quanto convencer heterossexuais a
não desejar o sexo oposto.
Os que assumem o papel de guardiões da família e da palavra
de Deus para negar às mulheres e homens homossexuais os
direitos mais elementares, não são apenas sádicos,
preconceituosos e ditatoriais, são ignorantes.
Este estudo, que é duvidoso dentro do próprio meio científico, já que
é possível ver médicos defendendo fortemente ideias contrárias, é capaz de
explicar todos os casos, ou seja, todo homossexual é produto da biologia?
Não é isto que os ideólogos de gênero defendem plenamente. Não é
também o que temos observado em nossos tempos já que vemos pessoas
optando tardiamente pela homossexualidade e alguns afirmando que estão
experimentando uma novidade já que as possibilidades hoje estão todas em
aberto.
Não estamos propondo uma generalização aqui, mas também não
estamos aceitando uma generalização que venha do lado de lá. Acredito
que muitos sejam capazes de afirmar que conhecem pelo menos um caso de
pessoas que, ainda na infância, apresentaram comportamento que possa ser
dito homossexual. Além destes casos, temos um pequeno número de
hermafroditas (cerca de 0,00002% da população), mas mesmo nestes há
certa preponderância de uma característica, mas nem por isso, são casos
fáceis de lidar e determinar.
Em meio a tantos dados, e poucos deles estão aqui de fato, é possível
se perder. Talvez um questionamento para reflexão final seja importante:
julgamos o todo pela parte ou a parte pelo todo? Ou nenhuma das duas
coisas?

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 185

Teorias da conspiração e outras pirações


Não sou fã de teorias conspiratórias, mas algumas histórias que são
muito bem reforçadas por fatos, fazem muito sentido. As teorias
conspiratórias giram sempre em torno de grupos, organizações e até mesmo
de pessoas que, por meio de manipulações diversas, procuram o domínio de
regiões ou do planeta todo. O propósito destas conquistas é sempre livrar a
destruição total da humanidade por meio da salvação de uma parte da
população em virtude da escassez de alimentos, ou por causa de pragas
como resultado da superpopulação, etc. (eugenia). Livrar a humanidade de
uma suposta invasão de seres alienígenas com os quais estes grupos
mantêm algum contato, ou conquistar o domínio do planeta para um
pequeno grupo que terá a totalidade do controle de tudo seja pela
possibilidade da falência do planeta seja pelo controle puro e simples.
Estes grupos totalitários e que tentam dominar tudo não são
novidade para a história mundial. Sem nem precisar recorrer à história
mundial extrabíblica, nos basta lembrar os terríveis assírios, dos babilônios,
do medo-persas e dos romanos. Os romanos, por exemplo, dominaram
praticamente todo o mundo conhecido de então, formando o maior Império
já visto tanto territorialmente quanto cronologicamente. Dependendo de
como se fazem as contas pode ter se estendido por quase 1600 anos.
Dominaram nações inteiras, cobraram impostos, impuseram a cultura, o
idioma e a forma de fazer comércio, prenderam, mataram, sequestraram,
subjugaram povo inteiros. Após o Saque de Roma em 410 d.C. pelos
visigodos, os bárbaros se tornaram uma pedra no sapato de Roma, vindo
após estes os muçulmanos e outros tantos combates e lutas que fizeram
com que os imperadores e governantes romanos fizessem esforços sem fim
para manter o império.
Quem não conhece histórias de sociedades secretas dentro do próprio
cristianismo e que supostamente possuem informações que não podem
vazar, e que se beneficiam há séculos destes segredos? É o caso, por
exemplo, dos famosos Cavaleiros Templários que surgiram durante as

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Vamos falar de Teologia 186

Cruzadas e que persistem como uma sociedade, já não tão secreta, até os
dias de hoje. Ou mesmo a versão gnóstica do cristianismo.
Lembram-se do filme que virou livro: o Código Da Vinci? Nele o
autor sugere que o Santo Graal não seria um objeto que provaria que Jesus
viveu muito tempo após o período que supostamente teria ressuscitado,
tendo formado família, mas que o Santo Graal seria a proteção da
genealogia de Cristo, ou seja, de seus filhos biológicos com Maria
Madalena, e estes descendentes seriam guardados por esta organização até
hoje. A exposição deste segredo iria, segundo esta teoria, destruir os
alicerces da igreja cristã. A manutenção deste segredo sustentaria os
desmandos da igreja, o domínio social da religião, suas intervenções na
politica e economia.
Quem nunca ouviu falar da maçonaria? Uma sociedade quase
invisível, mas onipresente, com seus graus, seus cultos não muito claros e
não muito bem explicados, seus sinais, suas assinaturas, suas reuniões
secretas e que, aos que muitos insinuam, promete poder e riquezas aos seus
membros? Um rápido exame desta sociedade desmente muito destas
informações.
O século XX foi um século intenso e cheio de histórias mal contadas
e estranhas. As histórias que antecedem a Segunda Guerra Mundial em
1944 são volumosas, documentadas e cheias de detalhes. Uma das grandes
dificuldades apresentadas hoje em dia é sobre qual posição que Hitler
representava: de direita ou de esquerda? Talvez alguns bastidores da vida
de Hitler nos ajudem a entender.
Hitler queria o domínio da Europa, mas não conseguiria isto sozinho.
Stalin, seu contemporâneo, se orgulhava de ter instituído o comunismo da
antiga União Soviética e também sonhava com o comunismo em toda a
Europa. A união dos dois nunca ficou muito clara para o público daquele
tempo e até mesmo para o público de hoje. No entanto, há documentos de
acordos secretos feitos entre ambos na calada da noite. O ataque à Finlândia

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Vamos falar de Teologia 187

em 1939, conhecida como a Guerra de Inverno, realizada pela União


Soviética, que com a vitória anexou 10% do território finlandês ao seu,
decorreu de um acordo entre a Alemanha Nazista e a União Soviética. Os
finlandeses foram pegos de surpresa suspeitando que por algum motivo os
aviões alemães tivessem errado sua rota. Apesar da surpresa, a mobilização
foi grande e o frio favoreceu o combate para os finlandeses. Outro acordo
entre Stalin e Hitler levou à invasão da Polônia em 1940.
A Alemanha Nazista guardava fortes semelhanças com a União
Soviética que iam das cores do uniforme, forma de fazer propaganda do
governo, ódio aos judeus, eugenia, etc. No acordo entre ambos sabemos
que a Europa já estava geograficamente dividida após seu esperado triunfo,
que não se realizou. Sabemos que Hitler, por exemplo, lera Marx e em
algum momento de sua vida e se gabara de ter chegado ao modelo
socialista quase perfeito. Não podemos esquecer que o partido de Hitler era
o famoso Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores. Judeus, que não
podiam saber destas associações, migraram entre os territórios fugindo da
perseguição nazista, mas eram levados pelas guardas soviéticas aos campos
alemães para o holocausto, dentro de trens que cruzavam a Europa e que
não tinham banheiro e nem ventilação. A cada parada muitos eram
removidos mortos e abandonados nas estradas. Apesar de fartamente
documentado, havendo inclusive filmagens, muitos ainda negam estas
associações, chamando-as de teorias conspiratórias.
No livro 1984 de George Orwell, que era um socialista, mas critico
da forma como o socialismo aconteceu na União Soviética (hoje Rússia,
mas com variações territoriais significativas), fala do excesso de controle
exercido pelo Estado sobre seus cidadãos como uma distorção do
comunismo. A figura do Grande Irmão (Big Brother – é não é mera
coincidência! É o olho que tudo vê27) mostra o controle de tudo pela

27
O programa Big Brother Brasil é uma versão nacional do programa internacional baseado
no livro de Orwell onde uma pessoa, ou todas, tem acesso à tudo o que as pessoas fazem e o
poder de decidir o que fazem também.

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Vamos falar de Teologia 188

onipresença do Estado na vida de seus cidadãos. Não há liberdade de forma


alguma.
Neste livro, Orwell imagina um mundo divido em três grandes
forças: Oceania, Eurásia e Lestásia. Estas divisões do mundo guardariam
alguma relação com a atual suposta divisão do mundo em três grandes
forças: Globalismo, Islamismo e a Aliança Sino-russa? Um mundo
disputado por homens como George Soros e as famílias judias norte-
americanas, lideres religiosos muçulmanos e os presidentes da Rússia e da
China? Veja, por exemplo, como estão atualmente as tensões na tão
maltratada Síria e como norte-americanos e russos brigam entre si por
causa daquele conflito que, por sua vez, também envolve forças islâmicas.
Muitos afirmam que o planeta não se sustenta com 7 bilhões de
habitantes e que haveria projetos de controle populacional para reduzir a
população a no máximo 3 bilhões de pessoas. A eugenia presente
novamente. Durante o período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial
era possível ver lideres falando da eliminação de judeus (capitalistas e
fascistas segundo seu discurso), pessoas negras, deficientes físicos, pessoas
sem formação técnica ou superior, etc., como forma de purificar a
população. Hitler sonhava com uma nação de louros, inteligentes e
perfeitos em todos os aspectos: a raça ariana, um conceito originado no
século XIX.
Ainda nesta linha de pensamento, mas nos voltando para o nosso
assunto que é a homossexualidade, não podemos esperar consenso e
completa aceitação de quaisquer ideias nem de um lado e nem de outro.
Nem todos concordam que a forma como a homossexualidade, assim como
outros assuntos como aborto, liberação do uso de drogas, desarmamento,
politização da educação, estão integrados com o fim de controle da
população e como base para a imposição de um regime seja ele socialista,
comunista ou outro. Alguns enxergam nestas afirmações um exagero. A
homossexualidade teria, como mote nestes tempos, o foco na destruição da
família tradicional, já que seria a forma embrionária da opressão em todos

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 189

os campos da sociedade, e o enfraquecimento da população, que ficaria


muito mais fácil de ser dominada. Será?
Os gays sempre existiram, mas em tempo algum assistimos uma
ditadura gay como a que vemos agora. Afirmar a heterossexualidade é
quase uma ofensa. É possível ver feministas, por exemplo, declarando
morte aos homens e sugerindo a castração masculina ou a amputação do
pênis como forma de acabar com os desmandos autoritários neste mundo.
Afirmam que toda forma de violência tem origem no pênis, o símbolo
fálico.
Esta agenda é muito perversa e inclui projeto para descriminalizar o
incesto e a pedofilia. Leia alguns trechos da feminista Shulamith
Firestone28 no livro Dialética do Sexo, ainda em 1972:
Devemos incluir a opinião das crianças em qualquer programa
feminista revolucionário. Nossa etapa final deve ser a eliminação das
próprias condições da feminilidade e da infância. O tabu do incesto hoje é
necessário somente para preservar a família. Então, se nós nos desfizermos
da família, iremos de fato desfazermos das repressões que moldam a
sexualidade em formas específicas.
Será necessária ¨não apenas a eliminação do privilégio masculino,
mas da própria distinção sexual¨¨.
Os tabus sexuais como as relações homossexuais ou entre adultos e
menores irão desaparecer, assim como as amizades não sexuais [...] todas
as relações próximas irão incluir o físico.
Uma das maiores porta-vozes destas ideias hoje é a filósofa Judith
Butler, que esteve recentemente no Brasil e quase teve palestras canceladas.
Por exemplo, veja o que ela diz no livro O problema do Gênero: o
28
A Shulamith Firestone ainda está situada no feminismo de primeira onda onde o foco
estava apenas em buscar a igualdade entre homens e mulheres, mas ela é precursora do que
viria a ser a segunda onda, onde há a deliberada intenção de destruir os sexos e,
principalmente o sexo masculino.

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Vamos falar de Teologia 190

feminismo e a subversão da identidade, afirmando que o gênero é uma


construção social, afirmando que a heterossexualidade, chamada de
heteronormatividade por alguns, segundo ela não se sustenta:
Se os atributos de gênero não são expressivos, mas
performativos, então constituem efetivamente a identidade que
pretensamente expressariam ou revelariam. A distinção entre
expressão e performatividade é crucial. Se os atributos e atos
do gênero, as várias maneiras como o corpo mostra ou produz
sua significação cultural, são performativos, então não há
identidade preexistente pela qual um ato ou atributo possa ser
medido: não haveria atos de gênero verdadeiros ou falsos,
reais ou distorcidos, e a postulação de uma identidade de
gênero verdadeira se revelaria uma ficção reguladora. O fato
de a realidade do gênero ser criada mediante performances
sociais contínuas significa que as próprias noções de sexo
essencial e de masculinidade ou feminilidade verdadeiras ou
permanentes também são constituídas, como parte da
estratégia que oculta o caráter performativo do gênero e as
possibilidades performativas de proliferação das configurações
de gênero fora das estruturas restritivas da dominação
masculinista e da heterossexualidade compulsória. Os gêneros
não podem ser verdadeiros nem falsos, reais nem aparentes,
originais nem derivados. Como portadores críveis desses
atributos, contudo, eles também podem se tornar completa e
radicalmente incríveis.“
Ela não exclui, pelo menos no primeiro momento, a possibilidade
de que existam homens e mulheres heterossexuais, desde que se admita que
sejam papéis construídos, mas de onde viriam estas ideias? As feministas
americanas da década de 1960, como as citadas, vem do contato com a
Escola de Frankfurt que lhes deu contato com os escritos marxistas.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 191

Os estudiosos de Karl Marx afirmam que no final da vida ele


começou a esboçar novas ideias que denotavam severa mudança de seu
pensamento, marcado até então pela possibilidade da eliminação da luta
entre as classes para implantação do comunismo, voltando o foco para a
família como o berço onde nascem as hierarquias e as opressões.
Engles teria recolhido este esboço e terminado a obra. A revolução
não seria apenas na esfera social, politica e econômica, mas deveria ter foco
no fim da família tradicional. O livro de Marx e Engels se chama A Origem
da família, da propriedade privada e do Estado29. Veja o trecho de uma
resenha extraída de um blog30 sobre o livro:
A tese central de Engels é que, na passagem da selvageria para a
barbárie, ao final do “comunismo primitivo”, nascem conjuntamente a
opressão de classe, com o surgimento da propriedade privada, inclusive de
outros homens na forma de escravos, e a opressão feminina com a
subordinação da mulher ao direito paterno para garantir a transmissão de
sua linhagem e propriedade. Nesse sentido, ele afirma de forma lapidar, que
“a derrota histórica do gênero feminino” ocorreu com o advento da
propriedade privada. O surgimento de um excedente nas sociedades
primitivas não só teria levado à sua apropriação desigual, como a uma
desigualdade na relação entre os gêneros na partilha das tarefas da
produção e reprodução da espécie, que passam a ficarem separadas,
cabendo à mulher quase exclusivamente as funções da criação dos filhos e
da casa, cada vez mais afastadas da “indústria social”. Enquanto entre os
caçadores e coletores e mesmo no início da horticultura com estaca ou
enxada, as mulheres viviam em condições igualitárias e eram as mais
importantes fornecedoras de comida e criadoras dos artesanatos, com a
expansão da agricultura extensiva e o surgimento de excedentes, sua

29
A autoria do livro é de Engels, mas ele partiu de várias anotações deixadas por Marx.
30
https://luizmuller.com/2017/09/10/a-origem-da-familia-da-propriedade-privada-e-do-
estado-um-texto-atual/

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Vamos falar de Teologia 192

condição social decaiu para um tipo de servidão. Essa tese, afirmando que a
origem da opressão é cultural e pode vir a desaparecer no futuro, refuta as
interpretações que buscam um fundamento biológico “natural” para a
opressão feminina, como ocorria, por exemplo, no liberalismo preocupado
com a questão da emancipação da mulher de Stuart Mill, que identificava a
origem da opressão feminina na maior força física dos homens.
O livro de Engels representa um posicionamento político diante de
todas as formas de opressão, que, para ele, possuem raízes comuns,
chegando a dizer que “na família, o homem é o burguês e a mulher o
proletário”. Nesse sentido, dando continuidade a uma tradição que tem
antecedentes no utopista francês Charles Fourier, ele participou da
fundação das bases teóricas do feminismo político contemporâneo. A
defesa não só da igualdade política, mas da conversão da economia
doméstica num assunto público, com a reincorporação plena das mulheres
na “indústria social” definiu um programa necessário para a emancipação
feminina.
Mas, como já dito anteriormente, ao custo da destruição da família.
A homossexualidade, dentro deste conceito, seria instrumentalizada
(vocabulário próprio do movimento) para atender a este fim maior.
Estrutura hegeliana, uso cientifico do termo gênero, discurso
desconstrucionista e senso de urgência na causa são os principais elementos
na construção desta agenda. Sendo a base para o feminismo, a
homossexualidade, entre outros assuntos desta mesma agenda.
Perceba que os conservadores, religiosos, entre outros, são aqueles
que defendem a família tradicional e, não necessariamente, apresentam a
uma agenda homofóbica, mas os defensores destas ideologias jamais
dissociam uma coisa da outra.
Teorias conspiratórias ou não, estamos nós aqui, nos debruçando
com muita atenção sobre o assunto. Teorias conspiratórias ou não, já é
possível assistir vídeos na Internet de mulheres europeias sofrendo pela

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Vamos falar de Teologia 193

falta de defesa masculina em países como a Alemanha, por exemplo, em


que as fronteiras foram abertas indiscriminadamente para imigrantes
muçulmanos, e já não há homens para defender o país e as mulheres.
Teorias conspiratórias ou não, jovens e adolescentes já tem a mentalidade
moldada para serem tolerantes às ideologias de gênero, já acham tudo
comum e normal, e a boca de muitos que discordam e não aceitam, está
amordaçada pelo medo de não ser politicamente correto, de coração aberto
e tolerante. Teorias conspiratórias ou não, os defensores da ideologia de
gênero são os mesmos que ou atacam a religião pedindo o seu fim e sua
extinção, ou que pouco a pouco vão insistindo e ganhando espaço em
igrejas cada vez mais inclusivas. Teorias conspiratórias ou não, aprendi que
onde há fumaça há fogo.
Quem detém o poder da palavra detém a verdade? Guerra de
narrativas!
Neste texto não abordaremos diretamente a questão da
homossexualidade, mas de um problema que afeta nossa visão do assunto:
a maneira como a informação é produzida, divulgada e assimilada.
Estamos falando do ponto de vista de cristãos conservadores. Uma
das coisas que mais fazemos, ainda quem nem sempre muito bem, é
comunicar, falar. Jesus, nosso Senhor e Salvador, é chamado de A Palavra
ou O Verbo, termos que traduzem a expressão grega Logos, que aparece
nos primeiros versos do Evangelho de João. A Bíblia diz que na criação,
Deus criou todas as coisas por meio de sua palavra, ou seja, dizia Deus algo
e aquilo passava a existir. Moisés ficou muitos dias conversando com Deus
e, ao descer o monte, trouxe consigo o Decálogo, as Dez Palavras, que
conhecemos como os Dez Mandamentos. Em Deuteronômio os pais são
convocados a inculcar na mente dos filhos as palavras de Deus. Jesus
ensinou pregando e conversando com seus discípulos. A igreja aprendeu a
cultuar e a ter como centro importante do culto a leitura, a recitação e a
exposição da Palavra de Deus. Nem todas as religiões são assim tão orais
como o judaísmo e o cristianismo. Algumas religiões são focadas na

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 194

cerimônia ou no ritual, outras na busca do conhecimento e, ainda outras, no


esvaziamento e na anulação, na qual o silêncio pode ser a parte mais
importante da religião. Conhecemos muito bem a importância de um bom
discurso, de um bom sermão e de um bom orador com palavras e ideias
convincentes e persuasivas.
Os meios de comunicação, a mídia, são as ferramentas mais
poderosas do nosso tempo. Estudos mostram que a quantidade de conteúdo
produzido hoje em dia dobra a cada três anos quando, até cerca de 200 anos
atrás, podia levar até 100 anos, mas não nos enganemos. Conteúdo não
significa conhecimento, novidade, descoberta, mas informação. Os meios
de comunicação foram turbinados pela Internet e o acesso às interfaces
conectadas à Internet, principalmente os celulares. Todo mundo pode
produzir conteúdo a custo quase zero, desde tenha um celular e o serviço de
dados. Rapidamente acessamos informações de forma que, 20 anos atrás,
nem sequer podíamos imaginar. A quantidade de dados é tão grande, a
velocidade de produção de conteúdo tão assustadoramente rápida, que
novas ferramentas estão sendo estudadas e criadas para que este conteúdo
seja acessado, selecionado e para que a experiência, principalmente de
empresas e grandes corporações, seja sincrônica com esta criação de
conteúdo. É o caso do Big Data, conceito com mais de 50 anos, mas que
começa agora, de fato, a ser realidade já que tem um campo extremamente
fértil: a Internet. O Big data é um conjunto de programas, sistemas e
algoritmos que permitem (ou permitirão) gerenciar os conhecidos dados
estruturados (sites de empresas, etc) e dados não estruturados, conteúdo
produzido por pessoas comuns com fotos, vídeos, blogs, etc. Cerca de 85%
da Internet está em dados não estruturados. Ainda não se chegou a algo
satisfatório com esta técnica. Os estudiosos e perseguidores desta
tecnologia afirmam que isto permitirá controle de inflação, prever eventos
da natureza, prever surtos de doenças, etc, mas permitira maior controle de
informação também. Uma ferramenta tão poderosa pode ser usada para o
bem e para o mal.

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Vamos falar de Teologia 195

Recentemente assistimos o depoimento do CEO do Facebook no


Senado Americano prestando esclarecimentos por causa do vazamento de
informações confidenciais de 84 milhões de usuários do Facebook. Um dos
gestores do Whatsapp deixou recentemente a direção do aplicativo porque
os novos gestores pretendem reduzir as proteções de dados do sistema,
permitindo maior acesso às informações e gerando insegurança para os
usuários. Alguns escândalos têm origem no vazamento de informações das
redes sociais. Muitas empresas chegam a stalckear as redes sociais de seus
funcionários e candidatos às vagas na empresa para traçar o perfil e
conhecer sua vida social. É cada vez menor o número de pessoas fora da
rede já que o celular é objeto de desejo e algo que quase todo mundo já
tem. Um celular desligado ainda continua enviando dados como, por
exemplo, os de localização. Muitas operações profissionais, comerciais,
particulares, etc., já são feitas exclusivamente pelo celular. Muitas
empresas investem em softwares e sistemas de proteção, mas rackers
sempre estão à frente procurando furar a barreiras e acessar dados de
pessoas para cometimento de crimes. É difícil afirmar se a evolução da
tecnologia e a segurança de dados e informações caminharão juntas, mas
uma coisa é certa: informação é o bem mais precioso do nosso tempo.
Infelizmente, não podemos afirmar que quanto mais informações nós
temos mais inteligentes, mais sábios, mais equilibrados e mais próximos da
verdade estamos. O contrário é que parece verdade. O mundo,
principalmente aquele controlado pelos meios de comunicação, é o mais
esquizofrênico possível. A informação atende a interesses que nem sempre
são claros, e isto fica evidente pela maneira como as informações são
tratadas e como são veiculadas.
Preste atenção, por exemplo, ao tempo destinado a determinadas
notícias e a outras, ou seja, tempo exagerado para questões de menor
importância. Perceba a ausência de certos tipos de opiniões em
determinadas emissoras de TV. A verdade é que, mesmo tendo acesso a
toda informação do mundo, não damos conta de explicar nem mesmo o que

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Vamos falar de Teologia 196

acontece no nosso quintal. Desta forma, ficamos nas mãos de especialistas,


de pseudo-especialistas, de cientistas, de formadores de opinião, etc.
Ficamos à mercê de nossa própria incapacidade de lidar com tantas coisas.
Impossível!
As informações em nosso tempo são construídas sobre as bases
arenosas e gelatinosas do método histórico-critico, que é desconstrucionista
por natureza; do politicamente correto, que impõe a necessidade da
tolerância e por consequência da aceitação pacífica da contradição; da
imposição pluralista, que desafia desde a ética pessoal à soberania de
países; do relativismo moral, que é antirreligioso (ou anticristão) em sua
essência. Não é a toa que farto material tem sido produzido ultimamente
com o propósito de revisar a história, mostrar as idiossincrasias dos falsos
heróis, a parcialidade na exposição de fatos, trazer à tona fatos obscuros ou
mesmo negados ao grande público, enfim, mostrar como a informação
sempre foi manipulada por aqueles que detêm os meios de propagá-la,
distorcê-la e usurpá-la.
No texto anterior, por exemplo, trouxemos informações com citações
extraídas de livros e palestras, e que muitos ainda insistem serem falsas e
nunca terem sido ditas ou escritas. Talvez sejam os mesmos que afirmam
serem dados oriundos das teorias conspiratórias. Não bastasse este fogo de
fora, ainda temos o fogo amigo. Mais do que nunca se percebe que não há
qualquer unidade ou consenso na igreja evangélica brasileira. Quando
falamos de homossexualidade parece que muito menos.
Nestes últimos dias a Editora Vida Nova, de perfil conservador, com
posições políticas à direita, lançou um livro no limite das tensões chamado
A atração por pessoas do mesmo sexo e a igreja: a plausibilidade do
celibato de Ed Shaw. De cara é uma tentativa de fugir do rótulo desgastado
dos termos homossexual, homossexualidade e homossexualismo,
construindo uma nova narrativa que leve a igreja à maior aceitação e
inclusão, mas dizendo que os cristãos que lutam contra isto devem se tornar
celibatários. Acredito que a repercussão desta tradução será muito intensa e

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 197

desastrosa, mas não estou torcendo para isto. No entanto, alguém vai ter
que explicar isto melhor.
A informação repetitiva e insistente é capaz de nos sensibilizar e nos
dessensibilizar quanto ao seu assunto alvo. Quem detém os meios de
comunicação é capaz de ditar as nossas agendas e nossas preocupações.
Estar bem informado, ter informação de boa qualidade e em boa
quantidade, exige muito esforço, trabalho, tempo e pode custar muito caro
e, além disto, pouca gente tem esta gama toda de possibilidades e
capacidades, além da vontade. Alguns na verdade simplesmente regurgitam
o que vem a mente. A facilidade de produzir conteúdo tem formado uma
série de especialistas de plantão com milhares de seguidores, gente bem
intencionada, mas mal orientada e mal informada. Mas em meio a estes
sinceros, mas errados, existem aqueles que estão muito conscientes do que
dizem e onde querem chegar, tanto para o bem quanto para o mal.
Fecha parênteses.

Quantos gêneros existem?


Quando fazemos uma pergunta como esta nós estamos enganados e
mal influenciados logo na partida, já que o termo gênero é um termo usado
desde a década de 1960, pelo médico psiquiatra Money, já citado
anteriormente, e amplamente utilizado e popularizado pela Judith Butler, da
qual já tratamos um pouco anteriormente. Até então o que tínhamos eram
os dois sexos: homem e mulher. Ao lado desta expressão ainda temos
outras já citadas, como heteronormatividade, a exclusão do termo
homossexualismo, IVG (interrupção voluntária da gravidez) para tentar
suprimir a palavra aborto, entre outras. Como dissemos anteriormente, uma
guerra de narrativas, de termos e de palavras.
Em 2011, quando tive o primeiro contato com as expressões de
gênero, me apresentaram 17 gêneros, mas hoje já se fala que as
possibilidades são inumeráveis. Pode-se falar em:

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Vamos falar de Teologia 198

1. Heterossexualidade - É a orientação sexual


caracterizada pela atração sexual e emocional entre
pessoas de sexos opostos.
2. Homossexualidade - É a orientação sexual
caracterizada pela atração sexual e afetiva entre
indivíduos do mesmo sexo. Em termo comum para
designar homens homossexuais chama-se de “gay” e a
mulheres homossexuais chama-se “lésbicas“.
3. Bissexualidade - É a orientação sexual caracterizada
pela atração sexual e sentimental entre pessoas tanto
do mesmo sexo como do sexo oposto. A diferença
entre a bissexualidade e a homossexualidade é que
também pode haver hipótese de atração entre pessoas
do sexo oposto.
4. Transexualidade - Um transexual é uma pessoa que
não se sente identificada com o seu corpo e o seu
género psicológico não corresponde ao físico. Pode
acontecer em homens que se sentem mulheres ou
mulheres que se sentem homens. A transexualidade
não está de todo relacionada com a homossexualidade.
Um homem homossexual não se sente mulher, sente-
se homem. No caso de sentir-se mulher considera-se
transexual. A orientação sexual de um transexual
depende da sua orientação de género. Um homem
pode sentir-se mulher e ser lésbica ou heterossexual,
por exemplo. Atualmente é possível fazer-se uma
operação de mudança de sexo para que o homem se
conversa em mulher e vice versa.
5. Pansexualidade - A pansexualidade também
denominada como omnisexualidade, polisexualidade
ou trisexualidade é caracterizada pela atração sexual
ou romântica por pessoas independentemente do sexo

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Vamos falar de Teologia 199

ou género das mesmas. Podem sentir-se atraídos por


homens, mulheres ou também por pessoas que não se
sentem identificadas com o seu gênero incluindo
intersexuais, transexuais e intergêneros.
6. Asexualidade - É a falta de orientação e desejo sexual.
As pessoas assexuais não sentem atração física ou
sexual para com nenhuma pessoa e não sentem desejo
pelo prazer sexual, pelo que não se identificam com
nenhuma orientação sexual definida. Não é habitual
que se apaixonem ou tenham um namorado/a. Tendem
a criar um laço afetivo com alguém ainda que não
implique que tenham uma relação sexual.
7. Intergênero - A diferença entre intergênero e
transexual é que os intergêneros não se identificam
nem com homens nem como mulheres. Podem ver-se
como homens ou mulheres. Algumas pessoas têm
características do sexo oposto em junção com
características do mesmo sexo. Alguns vêm a sua
identidade como uma junção entre o masculino e o
feminino. Intergênero não designa uma orientação
sexual, mas sim um conceito relacionado com a
identidade de género.

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Vamos falar de Teologia 200

Mas estas listas não são definitivas, veja outra lista a seguir:
Gêneros binários: Feminino, Masculino.
Gêneros não-binários: Agênero, Andrógino, Genderqueer,
Homem não-binário, Mulher não-binária, Negativo,
Pangênero, Positivo, Transmasculino, Travesti não-binária.
Gêneros não-ocidentais: Alyha, Ay’lonit, Androgynos, Badés,
Baklâ / Bayot, Bissu, Calabai e Calalai, Dalopapa / Binabaye,
Ektomias, Fa’afafine, Fakaleiti.
Orientações sexuais / sexualidades: Androssexualidade,
Assexualidade, Bissexualidade, Ginessexualidade,
Skoliossexualidade.
Orientações românticas / romanticidades:
Androrromanticidade, Arromanticidade, Birromanticidade,
Ginerromanticidade, Skoliorromanticidade.

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Vamos falar de Teologia 201

Os termos se multiplicam e admite-se que algumas pessoas podem


variar suas opções e formas ao longo da vida. Isto advém da Teoria Queer.
A Teoria Queer, oficialmente Queer Theory (em inglês), é uma teoria sobre
o gênero que afirma que a orientação sexual e a identidade sexual ou de
gênero dos indivíduos são o resultado de um construto social e que,
portanto, não existem papéis sexuais essenciais ou biologicamente inscritos
na natureza humana, mas antes disto são formas socialmente variáveis de
desempenho ou vários papéis sexuais. Está confuso para você? Para mim é
bem confuso. Alguns afirmam que, de propósito, alguns ideólogos de
gênero usam linguagem complicada, ambígua e misturam conceitos antigos
com neologismos criados por eles mesmos. Mas o cerne da questão é: um
homem pode se tornar mulher e uma mulher pode ser tornar homem? O que
são na verdade todas estas variáveis de gênero? Por que as questões de
natureza sexual têm vindo para o topo dos debates?
Com exceção dos hermafroditas, que possuem o aparelho genital e
hormonal ambíguo, de modo geral os seres humanos nascem com sexo
definido: masculino e feminino. Já vimos em textos anteriores que a
tentativa de criar um menino como menina, no caso Brian, não foi bem
sucedido. Quando tratamos da Suécia, que muitos apontam como sucesso
no sentido de criar crianças com tratamento indefinido para que elas
decidam seu gênero quando forem maiores, geralmente se ocultam os
problemas familiares e psicológicos das crianças de lá e, escondem
também, o elevado número de suicídios na adolescência. Nosso amigo Ed
Shaw, do livro da Vida Nova que também citamos, em um lúcido capítulo
do livro, afirma que jamais se encontrou o gene gay e mesmo tendo nascido
gay (o que ele não consegue explicar porquê), não se isenta da
responsabilidade diante de Deus por algo que o desagrada. O Ed Shaw
ainda não justifica sua condição nem mesmo por violência ou abusos na
infância e adolescência, e nem mesmo por causa de algum tratamento
distorcido ou equivocado dos pais. O condicionamento biológico é

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 202

essencial para a determinação do sexo. As raras exceções não podem ser


tratadas como regras.
As cirurgias chamadas de redesignação de sexo, outro termo
tendencioso criado pela ideologia de gênero, porque com isto procura
afirmar que a pessoa, através da cirurgia, será readequada a sua real
condição de gênero, é cada vez mais comum. Jean Wylys, deputado federal,
defende a ideia de que crianças ainda com oito ou nove anos de idade sejam
capazes de tomar uma decisão deste porte à revelia dos pais. Mas defende,
também, que ninguém pode ser preso antes do 18 anos de idade por não ser
capaz de assumir seus erros, como um homicídio por exemplo. Incoerência.
Mesmo quando a cirurgia é feita, e ainda que ela seja profunda afetando
órgãos internos, a essência de uma pessoa permanece a mesma. Homens
transformados continuam não menstruando, não engravidando. Mulheres
transformadas continuam não tendo um pênis funcional e continuam não
tendo os níveis de força e hormônios masculinos.
Um dos mais famosos casos atuais é do ex-jogador de Vôlei agora
chamado de Tifanny. Um debate dentro das confederações é sobre a
divergência entre seus níveis hormonais, que são iguais ao de uma mulher
por causa das constantes ingestões de hormônios, mas cuja estrutura óssea e
muscular ainda é a de um homem desenvolvido pela prática constante ao
longo de muitos anos no esporte.
Suas adversárias têm sofrido muito com a potência de seus ataques,
mas poucas adversárias de fato têm questionado a situação. Pares de
homens e pares de mulheres não produzem filhos. Precisam recorrer à
adoção, no caso das mulheres há a possiblidade de inseminação artificial
(ou a inclusão de um homem reprodutor na relação – mais confusão ainda).
Mesmo aqueles que alcançam níveis elevados de transformação como é
comum hoje em dia, ou seja, homens transformados que realmente parecem
mulheres, e mulheres transformadas que realmente parecem homens, não
são em sua essência aquilo que parecem.

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Vamos falar de Teologia 203

Além de todas estas questões, devemos sempre lembrar que a


maneira como Deus nos fez faz com que homens e mulheres se completem.
Na relação heterossexual, homem e mulher se completam fisicamente,
emocionalmente, espiritualmente e podem gerar filhos. A relação
homossexual ainda esbarra em dificuldades como o sexo anal (o ânus não
foi feito para o ato sexual por questões anatômicas e de higiene) e a
necessidade de suprir aquilo que lhes falta biologicamente. A despeito do
que possam dizer, é sempre uma relação capenga e carente de
complementos, ao contrário do que acontece no relacionamento entre um
homem e uma mulher.
É curioso que, mesmo a despeito do direito que todos tenham de ter
sua liberdade, mesmo que seja sexual, a exaltação de uma parcela da vida
das pessoas, que é a vida sexual, esteja em voga e que relações íntimas e até
vergonhosas sejam o centro do debate. Da mesma forma que não queremos
ver casais heterossexuais falando de suas intimidades a todo tempo em
todos os lugares, não queremos ouvir e assistir as histórias dos
homossexuais. Esta exposição é própria do nosso tempo e digna de ser
ignorada e combatida, assim como devemos fazer com a pornografia e
prostituição.

A homossexualidade percebida e a homofobia


É fato que há mais gays e simpatizantes à nossa volta do que
podíamos perceber antes. Às vezes, passando pela porta de escolas ou nos
horários de entrada e saída de alunos nas escolas, percebo muitos meninos
de mãos dadas com outros meninos, meninas de mãos dadas com outras
meninas e, uma vez ou outra, trocando carícias e beijos. Alguns parecem
olhar a volta esperando alguma repreensão, ou como forma de provocar, ou
talvez por medo, difícil dizer o que acontece e o que pensam. Nos
ambientes das empresas também se convive com pessoas assumidamente
homossexuais.

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Vamos falar de Teologia 204

Esta experiência foi farta para mim. Cresci em uma rua onde que
havia travestis e uma região onde a prostituição era comum. No entanto, é
muito raro ouvir que há embates, brigas, animosidades e divergências
muito sérias entre homossexuais e heterossexuais. Mesmo aqueles que são
cristãos dizem manter relações cordiais e honestas com homossexuais. As
queixas que costumo ouvir dizem respeito ao mau caráter de muitos, mas
ser mau caráter é característica da humanidade. Com certeza isto não é
condicionado pela sexualidade. Pelas igrejas que passei sempre tivemos
homossexuais presentes. Alguns se batizaram, se tornaram membros da
igreja, outros não, alguns manifestaram a homossexualidade tardiamente e,
por isto, causaram incômodos e muitas debates, mas de modo geral, tanto
eles quanto nós sobrevivemos.
Quando acontece a crentes que já estão na igreja há tempos e, muito
mais quando isto acontece em famílias cristãs, sempre haverá alguém
procurando a culpa ou responsabilizando alguém. Alguns podem afirmar
que há uma crescente aceitação por parte de cristãos guiada por um
comodismo gerado pelo tempo que é capaz de acalmar os ânimos e nos
fazendo arrefecer na disciplina. O fato é que, aqueles que se dizem ou
assumem como homossexuais, parecem saber seu espaço. Eu nunca me vi
obrigado a aceitar qualquer comportamento e nem mesmo a fazer qualquer
outra coisa da qual não estivesse convicto. As famílias cristãs que conheço
e que tiveram esta experiência, viveram tal experiência sob muita dor,
dúvidas, acusações internas e externas, mas para não dividir a família
definitivamente se viram obrigados a aceitar a nova condição e manter a
paz. O que digo aqui é apenas a observação sem qualquer juízo de valor.
No ambiente de trabalho, na escola ou na vizinhança, uma vez que
sejamos conhecidos como cristãos, somos rejeitados e muitos temem
nossos possíveis julgamentos e acusações, ou seja, ainda mais embates com
os homossexuais. Há toda uma mídia que semeia a ideia de que cristãos são
naturalmente e necessariamente avessos e antipáticos a pessoas
homossexuais. O contrário é verdade. Cada vez mais os cristãos,

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 205

conscientes desta luta provocada por grupos específicos e pela mídia, têm
procurado se aproximar, dialogar e conviver com a homossexualidade.
Muitos têm sido escritos, cada vez mais vemos vídeos na Internet
discutindo a questão, mas muitos outros, caminhando para o extremo
oposto, têm usado indevidamente a Bíblia e assumido posições que
convencionamos chamar de inclusivista. Já há igrejas inclusivas e pastores
homossexuais casados com pessoas do mesmo sexo.
O relacionamento com pessoas homossexuais tem se tornado
delicado já que qualquer rejeição, recusa, crítica ou comentário logo é
associado à uma rejeição à opção sexual da pessoa. Apesar da insistência de
muitos que de a sexualidade não define a vida da pessoa como um todo,
estar nessa mesma condição é, no discurso de muitos, o motivo da
aceitação ou da recusa. É confuso? Sim.
Um grande debate dentro da questão diz respeito a homofobia, ou
seja, o medo dos homossexuais, que explicaria assassinatos, recusa de
ofertas de empregos, problemas familiares sérios. O fato é: há pessoas
assassinadas por serem homossexuais? Não tenho dívidas. Há pessoas cujas
portas de emprego lhes foram fechadas por causa da homossexualidade?
Sim. Há casos de jovens, por exemplo, expulsos de casa pelos pais por
causa da homossexualidade? Sim. Não podemos afirmar, em um país com
cerca de 208 milhões de habitantes e de perfil conservador, que coisas
como estas não aconteçam. Eu ainda namorava a Vera quando um
homossexual chegou à nossa igreja, com trejeitos muito claros. A aceitação
dele na igreja foi muito tranquila. A forma próxima e intensa dele cativou
muita gente. Eu e a Vera nos tornamos seus amigos. Passamos a visitar a
sua casa regulamente e a estudar a Bíblia com ele.
Poucos meses depois, infelizmente, ele descobriu que era soro
positivo, começou a sofrer as consequências da AIDS e resolveu abandonar
tudo e voltar para a casa dos pais na Bahia. Não foi possível impedi-lo. Não
havia tratamento com coquetéis de drogas como hoje. A última notícia que

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 206

tivemos dele foi à de que seu pai simplesmente não permitiu que ele
permanecesse com eles por causa da homossexualidade e da AIDS e pouco
tempo depois ele morreu provavelmente em profunda solidão no interior da
Bahia. Mais de 20 anos depois ainda lembro bem dele e sei que foi um
prazer tem convivido com ele ainda que por tão pouco tempo, ter
compartilhado o Evangelho com ele, mas infelizmente saber que partiu em
situação provavelmente muito ruim.
Outro rapaz, que mais tarde assumiria sua homossexualidade, cantou
em meu casamento, cerca de dois anos depois deixaria a igreja, a família, o
bairro que morava e o contato com todos nós da igreja. Não me lembro de
ter vivido com a igreja grande dor ou embaraço por esta situação e
revelação. Havia em muitos o sentimento de verdadeira amizade com ele.
Ele era ativo na igreja e muito presente. Sua decisão de se afastar pode ter
evitado maiores problemas para ele e para a igreja. Não sei como seria se
houvesse insistência da parte as dele em permanecer assumindo sua
condição, principalmente nos idos da década de 1990. Como pastor, coloco
limites claros na relação de homossexuais com a igreja, mas eles são muito
mais respeitosos do que se pode imaginar. Os que conheci de perto
passaram por lutas, por dúvidas intensas, e sabiam da sua inadequação com
a Bíblia e com a igreja.
No entanto, nos últimos anos tem aumentado a exposição e certa
imposição da homossexualidade por meio da mídia, que explora o tema ao
máximo em todos os horários do dia em programas de entrevistas, filmes,
documentários e, sobretudo em novelas, além da marcha gay, evento anual
de grande repercussão e exposição. Os arredores da marcha gay são o palco
de atitudes indescritíveis. A mídia enfatiza a presença de religiosos, de
famílias com crianças, mas ocultam o lado sujo da história. Não somente
nas marcha gay, mas em encontros promovidos por movimentos LGBT,
sigla que muda a cada ano, podemos ver muita imoralidade e provocação
social. Mais uma vez, alguém pode afirmar que isto é muito generalista e
não descreve a situação de todos. Terei que concordar. O que quero dizer

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 207

com isto? Que há um clima de provocação crescente que impede o diálogo


e que a impossibilidade de convívio pode ser cada vez mais inviável à
medida que o tempo está passando.
A instrumentalização da homossexualidade por grupos de cunho
politico tem provocado, por um lado certa glamourização da
homossexualidade e arrastado muita gente, sobretudo os jovens. Por outro
lado, as tensões entre homossexuais e outros grupos têm aumentado,
trazendo prejuízo para todas as partes. Nem mesmo os homossexuais são
capazes de perceber que são usados como instrumentos de uma guerra
armada e com propósitos que pouco tem a ver a com a sua proteção. Para
isto, os números precisam ser exagerados, as estatísticas tem que ser
manipuladas e os casos que surgem de homofobia devem ser explorados ao
máximo. Rapidamente alguns grupos, partidos políticos e participantes de
certas vertentes do pensamento, se posicionam dando suas versões
construídas (ideologicamente) dos fatos. Isto parece estar na contramão de
uma realidade na qual, os dispositivos legais cada vez mais concedem
direitos aos homossexuais no que diz respeito à união estável e casamento,
registro civil e adoção de crianças, direito a pensões, herança e outras
formas de transmissão de bens a companheiros legalmente reconhecidos e
registrados.
O site Infonet apresenta a morte de 303 homossexuais, por causa da
homossexualidade, em 2017. O canal do You Tube Gay.com apresenta o
número de 437 mortes no mesmo ano, sendo São Paulo a capital onde mais
se mata homossexuais por causa da homossexualidade. Estes canais e
informes sempre acrescentam a informação de que os números são
subestimados porque muitas pessoas simplesmente não fazem o BO
(Boletim de Ocorrência). Infelizmente, a porcentagem de crimes
solucionados no Brasil é muito baixa, cerca de 6% de acordo com algumas
pesquisas. Outras são ainda mais pessimistas e falam em apenas 4%. Esta
insegurança de dados nos coloca em situação realmente difícil. Mesmo
destes prováveis 437 casos, quantos seriam de fato por causa de

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 208

homossexualidade? É uma boa pergunta. Na contramão disto, tivemos em


torno de 61,2 mil homicídios no Brasil em 2016 e em torno de 63 mil casos
em 2017 – números de guerra. Veja estes dados do IPEA:

Perfil das vítimas


Mais de 318 mil jovens foram assassinados no Brasil entre 2005 e
2015. Apenas em 2015, foram 31.264 homicídios de pessoas com idade
entre 15 e 29 anos, uma redução de 3,3% na taxa em relação a 2014. No
que diz respeito às Unidades da Federação, é possível notar uma grande
disparidade: enquanto em São Paulo houve uma redução de 49,4%, nesses
onze anos, no Rio Grande do Norte o aumento da taxa de homicídios de
jovens foi de 292,3%.
Os homens jovens continuam sendo as principais vítimas: mais de
92% dos homicídios acometem essa parcela da população. Em Alagoas e
Sergipe a taxa de homicídios de homens jovens atingiu, respectivamente,
233 e 230,4 mortes por 100 mil homens jovens em 2015.
A cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. De acordo
com informações do Atlas, os negros possuem chances 23,5% maiores de
serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças, já descontado o
efeito da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência.
Os dados sobre mortes decorrentes de intervenção policial
apresentam duas variações: as analisadas por números do SIM na categoria
“intervenções legais e operações de guerra” (942) e os números reunidos
pelo FBSP (3.320) em todo o país. Os estados que mais registraram
homicídios desse tipo pelo SIM em 2015 foram Rio de Janeiro (281), São
Paulo (277) e Bahia (225). Pelos dados do FBSP, foram registrados em São
Paulo 848 mortes decorrentes de intervenção policial, 645 no Rio de
Janeiro 645 e 299 na Bahia.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 209

De forma alguma desprezamos a morte de qualquer pessoa por


qualquer motivo. Mas nosso problema parece, de fato e a primeira vista, ser
racismo ou hominicídio. Veja os números acima.
Quem, por exemplo, não ficou revoltado e sensibilizado em junho de
2016, quando em uma boite gay em Orlando-EUA, contabilizou-se a morte
de 47 pessoas em um ataque inexplicável e brutal associado e assumido
pelo Estado Islâmico? Não podemos esquecer que, em países islâmicos, a
homossexualidade de fato é punida com morte, mas não vemos estes
mesmos movimentos questionando ou agindo contra isto. A grande
contradição disto já se vê na Europa, onde os homens são demasiadamente
femininos e não tem sido capazes de proteger as mulheres da grande
invasão islâmica da Europa. Quem faz a acusação e levanta a questão é
uma jornalista holandesa chamada Iben Thranhom31.
E aí, qual a sua percepção do assunto?

Conclusão
Estamos ainda muito longe de uma solução universal que seja capaz
de abarcar a totalidade da questão porque há mais do que a religião
envolvida na questão. Questões políticas, econômicas, questões relativas ao
direito às liberdades individuais estão envolvidas. O discurso dos
pregadores da ideologia de gênero é confuso e pode mudar ao sabor dos
ventos.
Há muito mais envolvido na questão, como vimos, do que
simplesmente a homossexualidade. A destruição da família, o
enfraquecimento das nações, a destruição do cristianismo também estão
envolvidos. Pautas como desarmamento da população, aborto, legalização
de drogas, entre outros assuntos, são pautas da mesma agenda e defendidas
31
Há um vídeo sugerido no final do texto onde aparece uma patética manifestação de
homens na Europa. São incapazes de defender o próprio país e muitas mulheres têm sido
estupradas na Europa como resultado da invasão de países em guerras e conflitos.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 210

pelos mesmos grupos de pessoas. Como cristãos devemos abandonar a


inocência de que se trata apenas de um problema de tolerância e aceitação o
que, ao contrário do que dizem, na maioria dos círculos evangélicos, já está
definido.
Nem mesmo a maioria dos gays e simpatizantes da causa consegue
enxergar o quanto estão sendo usados para defender uma pauta maior que
acabará por destruí-los também. Mal percebem que o jogo dos tolerantes e
politicamente corretos é um jogo que divide e insufla grupos uns contra os
outros.
Dentro de poucos anos teremos a ONU 203032 e a pauta já está
colocada. Ao observar o ponto cinco das propostas, vemos claramente que
esta proposta enfatiza a necessidade da igualdade de gênero e do
empoderamento feminino. Desde 2015 está posta como a agenda para o
desenvolvimento sustentável do mundo. É um ponto que merece nossas
considerações e o Brasil já está mobilizado através de diversos partidos e
políticos para isto. Vale a pena dar uma olhada cuidadosa no texto que
coloca a igualdade de gênero como fundamental para o todo da
humanidade. Será?
Seguimos com a Bíblia, apontando que o pecado desagrada e afasta o
homem de Deus, mas não esquecendo jamais que os que roubam,
blasfemam, adulteram, mentem, etc. também estão sob os olhares atentos
de um Deus justo.
Seguimos também conscientes de este debate ainda vai muito longe
e a igreja tem que estar atenta para isto.

32
https://nacoesunidas.org/tema/ods5/

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 211

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA SOBRE IDEOLOGIA DE GÊNERO


GERBASE, Ana Brúsulo. Relações homoafetivas: direitos e conquistas,
adoções homoafetivas. São Paulo: Edipiro, 2012. Este livro vasculha os
avanços das causas LGBT na legislação brasileira na aquisição de direitos
que muito de nós ignoramos.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da
identidade. Santos, SP: Civilização Brasileira, 2003.
DEYOUNG, Kevin. O que a Bíblia ensina sobre a homossexualidade? São
José dos Campos, SP: Fiel, 2015. 194p. (este livro, assim como o livro do
Walter Kaiser não aprofunda na questão do debate cultural e ideológico,
mas dá boas dicas de como tratar do assunto dentro da igreja).
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do
Estado. São Paulo: Lafonte, 2012.
FIRESTONE, Shulamit. A dialética do sexo: um estudo da revolução
feminista. Rio de Janeiro: Labor do Brasil, 1976.
KAISER, Walter C. Jr. O cristão e as questões éticas da atualidade. São
Paulo: Vida Nova, 2016. 315 p. (este livro só aborda a questão bíblica e
não aprofunda na questão do debate de gênero).
MOURA, Lisânias. Cristão homoafetivo: um olhar amoroso à luz da
Bíblia? São Paulo: Mundo Cristão, 2017.
MORLEY, Patrick; DELK, David; CLEMMER, Bret. Homens além do
churrasco e futebol. São Paulo: Hagnos, 2012. 263 p.
SHAW, Ed. Atração por pessoas do mesmo sexo e a igreja: a
plausibilidade do celibato. São Paulo: Vida Nova, 2018.

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Vamos falar de Teologia 212

CONCLUSÃO

A sala de aula de nossos seminários é um celeiro importante para a


formação da mentalidade dos lideres de nossas igrejas. É preciso encarar o
desafio com o máximo de seriedade.
O número de obreiros formados em seminários é muito pequeno e de
tempos em tempos este número parece ainda mais reduzido. Há seminários
sendo fechados e alunos migrando para outras formações deixando de lado
sua vocação que tem grande importância para a vida da igreja.
Por outro lado, aqueles que estão na docência teológica devem
também ter ciência da sua grande responsabilidade. Além do grande lastro
na tradição, é necessário que os docentes estejam atentos às novidades boas
e ruins do mercado editorial e religioso que cerca o mundo que vivemos.
Ainda focamos demais (e mal) o cérebro de nossos alunos quando
não vinculamos as doutrinas, princípios e sistemas teológicos ao dia a dia
da igreja. Esta integração deve ser refeita com máximo de urgência.
Por outro lado, devemos abandonar a forma pueril, infantil e
simplória de um mundo em plena transformação que nos traz desafios cada
vez maiores e que em pouco tempo estarão presentes a desafia o bem estar
da igreja e o avanço do Evangelho. É uma verdadeira batalha espiritual para
qual o saber teológico é arma importante.
Que Deus nos abençoe nesta tarefa e que para ela sejamos espirituais,
inteligentes e incansáveis.

Júnior Martins
Vamos falar de Teologia 213

SOBRE O AUTOR

José Martins Júnior (Júnior Martins) é pastor batista desde 1999,


professor no Seminário Teológico Batista Mizpá desde 2015 e Pastor-
Auxiliar na Igreja Batista em Vila das Belezas – SP desde 2013. É casado e
pai de um filho.
É formado pelo Seminário Teológico Batista Paulistano, Faculdade
Unida de Vitória – ES, e Doutorando em Ministério pelo Seminário
Teológico Servo de Cristo – SP. Também cursou Liderança, Homilética e
Psicanálise em diversas instituições de São Paulo.
Lecionou matérias teológicas no Seminário Teológico Batista
Paulistano – SP e no CEFAM – SP (Centro de formação e aperfeiçoamento
ministerial) entre os anos de 2000 e 2011.
Trabalhos, textos, esboços de sermões e comentários sobre diversos
assuntos também podem ser encontrados no blog do autor em
www.reflexoes-e-flexoes.blogspot.com.br e também no seguinte site
www.pastorjuniormartins.weebly.com.
Leia também:
INTRODUÇÃO AO DISCIPULADO
O BRASILEIRO É PÓS-MODERNO?
A HISTÓRIA DA SALVAÇÃO.

Júnior Martins

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