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FERNANDES, Florestan.

O problema do negro na sociedade de classes, In A integração do negro na


sociedade de classes (Vol 2). Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil: 2008.
Introdução: Existe uma pressão integracionista, que opera no sentido de compelir o negro e o mulato a absorverem as normas, os padrões
de comportamento e os valores sociais da ordem social competitiva. Mas essa pressão não mobiliza todas as influências socializadoras da
sociedade inclusiva. No fundo, ela corresponde, positivamente, à necessidade de neutralizar a distância histórico-cultural que se estabeleceu
entre a herança sociocultural da “população de cor” e a civilização da era industrial. O que significa, sociologicamente, que ela é calibrada
pela necessidade de identificar o “negro” com a ordem social competitiva e, por conseguinte, de desenvolver nele lealdade para com os
fundamentos econômicos, jurídico-políticos e sociais dessa ordem societária. Ela não abrange outras áreas da socialização e da participação
de interesses econômicos, de garantias sociais e de bens culturais. Em consequência, trata-se de uma pressão integracionista que não afeta,
propriamente falando, os padrões predominantes de concentração racial da renda, do prestígio social e do poder. Tais conclusões indicam
que a sociedade de classes está se convertendo em um sistema social aberto, em termos da organização das relações raciais, mas sem
modernizar, a curto prazo pelo menos, os padrões de dominação racial herdados do passado, os quais conferem o monopólio do poder aos
círculos dirigentes da “raça branca” e dão a esta a condição quase monolítica de “raça dominante”. Dentro desse quadro global, o que se
poderia entender como democratização das relações raciais aparece como um processo histórico-social extremamente heterogêneo, lento e
descontínuo. (2)
O protesto coletivo desencadeava, no seio da “população de cor”, compulsões psicossociais que respondiam por seus conteúdos e por seu
sentido, à pressão integracionista da sociedade inclusiva. Contudo, ele punha em xeque os padrões estabelecidos de concentração racial da
renda, do prestígio social e do poder, pois pretendia a universalização, ex abrupto, dos interesses econômicos, das garantias sociais e dos
valores culturais em que se fundam a legitimidade e o equilíbrio da ordem social competitiva. (2/3)
Isso explica por que ele não encontrou eco entre os “brancos” e só contagiou pequenas parcelas da “população de cor” (...). Os mecanismos
de ascensão social do negro e do mulato, por sua vez, podiam ser e foram calibrados pela qualidade e pela intensidade da pressão
integracionista da sociedade inclusiva. [...] O que quer dizer que aquela pressão somente produziu efeitos estruturais e dinâmicos diretos em
um único nível: o da diferenciação das posições e dos papéis ocupacionais e profissionais do “homem de cor”. [...] O “negro” encontra,
finalmente, vias normais e permanentes de engajamento à sociedade de classes. Todavia, as demais posições do sistema organizatório, com
seus papéis sociais correspondentes, não foram afetadas senão de forma indireta, na rede de efeitos e em proporção à vitalidade
socioeconômica adquirida pelos estratos em formação da “população de cor”. Nem mesmo os papéis eleitorais, ligados ao sistema nacional
de poder, sofreram qualquer focalização direta e imediata. (3)
Não é de se admirar, portanto, que o “negro” em ascensão tenha optado por uma vida tão realista quanto oportunista, voltando as costas seja
para os movimentos reivindicatórios, seja para os interesses comuns da “coletividade negra”. [...] Proceder em sentido contrário equivaleria
a arriscar a segurança e os encantos de “pertencer ao sistema” em troca de miragens. A sociedade inclusiva já delineou o caminho a ser
percorrido e, com ele, traçou a solução final para o “problema do negro”. [...] (...) tentar discernir se as tensões raciais repercutem de alguma
maneira no padrão de integração da ordem social competitiva. Não nos interessa o quadro geral de manifestações do “preconceito de cor”.
Mas, apenas, determinar como as tensões raciais são percebidas e controladas socialmente. Segundo, conviria estabelecer os contornos reais
do que se configura, na atualidade e tendo em vista a situação de contato focalizada, como o dilema racial brasileiro. (4)
O dilema racial brasileiro: (...) a situação de raça da “população de cor” ainda não corresponde, estrutural e funcionalmente, às possíveis
situações de classe segundo as quais se configura, morfológica e dinamicamente, a ordem social competitiva, tal como ela se manifesta em
São Paulo. (4/5)
De um lado, a desagregação do regime de castas e estamental, associado à escravidão, não repercutiu diretamente nas formas de acomodação
racial desenvolvidas no passado. Não só os mecanismos de dominação racial tradicionais ficaram intatos. Mas a reorganização da sociedade
não afetou, de maneira significativa, os padrões preestabelecidos de concentração racial da renda, do prestígio social e do poder. Em
consequência, a liberdade conquistada pelo “negro” não produziu dividendos econômicos, sociais e culturais. Ao contrário, dadas certas
condições especificamente históricas, do desenvolvimento econômico da cidade, ela esbarrou com as pressões diretas e indiretas da
substituição populacional. As limitadas formas de sociabilidade e de vida social integrada, herdadas pela “população de cor” do regime
escravocrata e senhorial, sofreram um impacto destrutivo e essa população enfrentou uma longa e intensa fase de desorganização social.
Esses fenômenos contribuíram, decisivamente, para agravar os efeitos dinâmicos desfavoráveis da concentração racial da renda, do prestígio
social e do poder. Por anômalo que isso possa parecer, manteve-se inalterada uma situação de raça típica da ordem social desaparecida,
formando aquela população, em sua quase totalidade, um sucedâneo da antiga plebe rural e urbana. De outro lado, a formação e a
consolidação do regime de classes não seguiram um caminho que beneficiasse a reabsorção gradual do ex-agente do trabalho escravo. A
ordem social competitiva emergiu e se expandiu, compactamente, como um autêntico e fechado mundo dos brancos. Na primeira fase da
revolução burguesa – que vai, aproximadamente, da desagregação do regime escravista ao início da II Grande Guerra[370] – ela responde
aos interesses econômicos, sociais e políticos dos grandes fazendeiros e dos imigrantes. Na segunda fase dessa revolução, inaugurada sob
os auspícios de um novo estilo de industrialização e de absorção de padrões financeiros, tecnológicos e organizatórios característicos de um
sistema capitalista integrado, ela se subordinou aos interesses econômicos, sociais e políticos da burguesia que se havia constituído na fase
anterior – ou seja, em larga escala, aos interesses econômicos, sociais e políticos das classes altas e médias da “população branca”.
Em vez de se ajustar à ordem social competitiva, a situação de raça da “população de cor” teria permanecido inalterável, não fossem as
transformações sofridas pelo fluxo da substituição populacional. O declínio progressivo mas drástico das correntes imigratórias e a
intensificação das migrações internas acarretaram certas alterações no mercado de trabalho e nas técnicas de peneiramento ocupacional.
Esse fenômeno é recente, porém, e ainda não se refletiu de maneira relevante nos padrões de concentração racial da renda, do prestígio social
e do poder. Mas ele possui enorme importância heurística, porque indica que, nos últimos vinte e cinco anos, a situação de raça da “população
de cor” passou a sofrer uma modificação definida, graças à aquisição de situações de classe típicas por alguns segmentos daquela população
(a maior parte, mediante a proletarização; uma minoria, rala e heterogênea, pela incorporação nas classes médias; alguns, como casos
individuais e esporádicos, pela inserção na classe alta). [...] Enquanto a ordem social competitiva parecia totalmente bloqueada aos seus
anseios de classificação e de ascensão sociais, o “negro” ou se retraía e se isolava, agravando os efeitos anômicos da desorganização social,
imperante no “meio negro”. [...] Na medida em que as pressões do mercado de trabalho foram abrindo a ordem social competitiva ao negro
e ao mulato e em que se concretizaram certas oportunidades de classificação e de ascensão sociais, o negro e o mulato vão se concentrar na
luta absorvente para “pertencer ao sistema”. Abandonam as “agitações raciais” e se lançam, ardorosamente, pela senda da competição
egoística e individualista. (6)
(...) a “população de cor” apenas está no limiar de uma nova era. Antes, por simples inércia, a concentração racial compacta da renda, do
prestígio social e do poder era suficiente para resguardar um padrão absoluto de desigualdade racial. Agora que essa concentração começa
a apresentar indícios de que está deixando de ser compacta, outros mecanismos entram em jogo, para resguardar e fortalecer a distância
econômica, social e cultural que sempre separou o “branco” do “negro” em São Paulo. [...] Como se fosse uma hidra, a desigualdade racial
se recupera a cada golpe que sofre. Onde os interesses e os liames das classes sociais poderiam unir as pessoas ou os grupos de pessoas, fora
e acima das diferenças de “raça”, ela divide e opõe, condenando o “negro” a um ostracismo invisível e destruindo, pela base, a consolidação
da ordem social competitiva como democracia racial. Delineia-se claramente, assim, o dilema racial brasileiro. [...] (...) se caracteriza pela
forma fragmentária, unilateral e incompleta com que esse regime consegue abranger, coordenar e regulamentar as relações raciais. Essas
não são totalmente absorvidas e neutralizadas, desaparecendo atrás das relações de classes. Mas se sobrepõe a elas, mesmo onde e quando
as contrariam, como se o sistema de ajustamentos e de controles sociais da sociedade de classes não contivesse recursos para absorvêlas e
regulálas socialmente. Caracterizando-se o dilema racial brasileiro desse ângulo, ele aparece como um fenômeno estrutural de natureza
dinâmica. Ele se objetiva nos diferentes níveis das relações raciais. (7)
Mas ele se originou de uma causa geral e comum: os requisitos estruturais e funcionais da sociedade de classes só se aplicam fragmentária,
unilateral e incompletamente às situações de convivência social em que os sociise apresentam, se consideram e se tratam como brancos e
negros. Em outras palavras, as estruturas da sociedade de classes não conseguiram, até o presente, eliminar normalmente as estruturas
preexistentes na esfera das relações raciais, fazendo com que a ordem social competitiva não alcance plena vigência na motivação, na
coordenação e no controle de tais relações. As descrições feitas permitem compreender e explicar geneticamente esse fenômeno de demora
cultural. Ele se produz, de forma recorrente, porque o “negro” sofre persistentes e profundas pressões assimilacionistas e, apesar de responder
a elas através de aspirações integracionistas ainda mais profundas e persistentes, não encontra vias adequadas de acesso às posições e aos
papéis sociais do sistema societário global. Para que sucedesse o contrário, seria preciso que ambas as pressões se combinassem, pelo menos,
a uma equiparação social progressiva entre “negros” e “brancos”. (...) O dilema racial brasileiro constitui um fenômeno social de natureza
sociopática e só poderá ser corrigido por meio de processos que removam a obstrução introduzida na ordem social competitiva pela
desigualdade racial. Essa explicação permite situar o problema do negro de uma perspectiva realmente sociológica. Ele não constitui um
“problema social” apenas porque evidencia contradições insanáveis no comportamento racial dos “brancos”, porque traduz a persistência
indefinida de padrões iníquos de concentração racial da renda, do prestígio social e do poder ou porque, enfim, atesta que uma parcela
considerável da “população de cor” sofre prejuízos materiais e morais incompatíveis com os fundamentos legais da própria ordem social
estabelecida. Esses sintomas conduzem à superfície o mal crônico, que é mais grave e pernicioso. Trata-se das condições mínimas de
diferenciação e de integração normais de um sistema social. (8)
O desenvolvimento da ordem social competitiva encontrou um obstáculo, está sendo barrado e sofre deformações estruturais na esfera das
relações raciais. Desse ponto de vista, a correção de semelhante anomalia não interessa, primária e exclusivamente, aos agentes do drama,
inclusive o que é prejudicado de modo direto e irremediável. Ela constitui algo de interesse primordial para o próprio equilíbrio do sistema,
ou seja, para a normalidade do funcionamento e do desenvolvimento da ordem social como um todo. Como se sabe, onde as coletividades
humanas enfrentam problemas sociais dessa magnitude elas revelam, ao mesmo tempo, especial dificuldade em descobrir e usar técnicas de
controle social apropriadas. São Paulo não constitui, naturalmente, uma exceção a essa regra. A própria situação existente nasce, em larga
parte, do fato de a desigualdade racial ser percebida, explicada e aceita socialmente como algo natural, justo e inevitável, como se a ordem
social competitiva não alterasse o antigo padrão de relação entre o “negro” e o “branco”. A única fonte dinâmica de influência corretiva
irrefreável vem a ser, portanto, a própria expansão da ordem social competitiva. Mas isso faz com que a homogeneização do sistema social
dependa de influxos espontâneos que são, por sua própria natureza, demasiado lentos e instáveis. [...] Os mecanismos de reação societária
são variavelmente inócuos ou insuficientes. Ou eles não captam a realidade racial no sentido de transformação da ordem social competitiva;
ou eles fazem isso – como acontece com algumas das técnicas sociais manipuladas pelo “negro” – mas não encontram repercussão no fluxo
da história. (9)
Primeiro, a única força de sentido realmente inovador, e inconformista, que opera em consonância com os requisitos de integração e de
desenvolvimento da ordem social competitiva, procede da ação coletiva dos “homens de cor”. Desse lado, a reorganização dos movimentos
reivindicatórios e sua calibração ao presente parece algo fundamental. Hoje, o “meio negro” está mais diferenciado. Esses movimentos
deveriam atender à variedade de interesses sociais, econômicos e culturais que emergiram no seio da “população de cor”. Contudo, desde
que se desse maior atenção à necessidade de envolver os “brancos” em tais movimentos, essa variedade de centros de interesses seria um
fator positivo, pois facilitaria uma compreensão mais rápida do pluralismo democrático em uma sociedade de classes multirracial. Segundo,
grande parte da perplexidade que paira sobre o ânimo dos “brancos” e dos “negros” provém da inexistência de uma filosofia democrática
das relações raciais, compartilhável e aplicável socialmente. No clima moral predominante nos ajustamentos raciais em curso, é duvidoso
que se chegue a algo dessa espécie. O “branco” se apega, consciente ou inconscientemente, a uma percepção deformada da situação de
contato racial. O “negro”, por sua vez, quando rompe essa barreira, não só é ouvido, como suscita incompreensões irracionais. [...] Por isso,
qualquer inovação construtiva, de sentido mais amplo, teria de resultar de técnicas racionais de controle. (...) Seria preciso introduzir serviços
especiais, de âmbito nacional, regional e local, para lidar com os problemas práticos de absorção de contingentes populacionais diversos a
uma sociedade democrática. Infelizmente, a questão tem sido subestimada no Brasil, prevalecendo a orientação irracional de se abandonar
tais contingentes a destinos ingratos e quase sempre improdutivos para a coletividade como um todo. (10)
(...) se deve pensar numa mudança radical de tal orientação e de modo a se levar em conta, também, contingentes populacionais localizados
nas grandes cidades. No estabelecimento de uma política de integração racial assim orientada, os diversos segmentos da “população de cor”
merecem atenção especial e decidida prioridade. De um lado, porque de outra maneira seria difícil se reaproveitar, totalmente, essa
importante parcela da população nacional no regime de trabalho livre. De outro, porque não se pode continuar a manter, sem grave injustiça,
o “negro” à margem do desenvolvimento de uma civilização que ele ajudou a levantar. (10/11)