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INTRODUÇÃO À ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO

INTRODUÇÃO À ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO

Caro(a) aluno(a),

A Universidade Candido Mendes (UCAM), tem o interesse contínuo em proporcionar um ensino de qualidade, com estratégias de acesso aos saberes que conduzem ao conhecimento.

Todos os projetos são fortemente comprometidos com o progresso educacional para o desempenho do aluno-profissional permissivo à busca do crescimento intelectual. Através do conhecimento, homens e mulheres se comunicam, têm acesso à informação, expressam opiniões, constroem visão de mundo, produzem cultura, é desejo desta Instituição, garantir a todos os alunos, o direito às informações necessárias para o exercício de suas variadas funções.

Expressamos nossa satisfação em apresentar o seu novo material de estudo, totalmente reformulado e empenhado na facilitação de um construto melhor para os respaldos teóricos e práticos exigidos ao longo do curso.

Dispensem tempo específico para a leitura deste material, produzido com muita dedicação pelos Doutores, Mestres e Especialistas que compõem a equipe docente da Universidade Candido Mendes (UCAM).

Leia com atenção os conteúdos aqui abordados, pois eles nortearão o princípio de suas ideias, que se iniciam com um intenso processo de reflexão, análise e síntese dos saberes.

Desejamos sucesso nesta caminhada e esperamos, mais uma vez, alcançar o equilíbrio e contribuição profícua no processo de conhecimento de todos!

Atenciosamente,

Setor Pedagógico

alcançar o equilíbrio e contribuição profícua no processo de conhecimento de todos! Atenciosamente, Setor Pedagógico
SUMÁRIO HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DA ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO 4 ASPECTOS ECONÔMICOS, POLÍTICOS E

SUMÁRIO

HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DA ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO

4

ASPECTOS ECONÔMICOS, POLÍTICOS E SOCIAIS E RELAÇÕES DE TRABALHO NA SOCIEDADE PRIMITIVA

 

4

OS ACIDENTES DE TRABALHO E A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

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PROTEÇÃO AO TRABALHADOR NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

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PREVENCIONISMO: HISTÓRIA, FUNDAMENTOS E OBJETIVOS

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A

PARTICIPAÇÃO DAS ENTIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS NA SEGURANÇA DO TRABALHO

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SUBJETIVIDADE E SEGURANÇA DO TRABALHO: A EXPERIÊNCIA DE UM GRUPO DE MÚTUA AJUDA

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INTRODUÇÃO

 

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COMPREENSÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA

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MÉTODOS DE PESQUISA

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RESULTADOS E DISCUSSÕES

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ALGUNS RELATOS DAS ESPERIÊNCIAS DO GRUPO

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PRIMEIRO

RELATO

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SEGUNDO

RELATO

36

TERCEIRO RELATO

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

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O ENGENHEIRO DE SEGURANÇA DO TRABALHO NO CONTEXTO CAPITAL E TRABALHO

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O

PAPEL E AS RESPONSABILIDADES DO ENGENHEIRO DE SEGURANÇA DO TRABALHO

42

O

CONTEXTO

CAPITAL E TRABALHO

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ACIDENTES DE TRABALHO

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CONCEITUAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO

44

CAUSAS DE ACIDENTES: FATOR PESSOAL, ATO INSEGURO

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CONDIÇÕES AMBIENTAIS DE SEGURANÇA

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CONSEQUÊNCIAS

DO ACIDENTE

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LESÃO PESSOAL E

PREJUÍZO MATERIAL

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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REFERÊNCIAS

BÁSICAS

50

REFERÊNCIAS

COMPLEMENTARES

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HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DA ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO A história situa as pessoas no

HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DA ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO

A história situa as pessoas no tempo e no espaço, leva a reflexões sobre a evolução da vida, dos acontecimentos, como chegamos aqui e quais as perspectivas podemos reservar para o futuro, portanto, vamos conhecer um pouco da história do trabalho, dos acidentes e as relações de segurança no trabalho. O foco, na realidade, centra-se na história do prevencionismo que decorre de aspectos econômicos, políticos e sociais.

ASPECTOS ECONÔMICOS, POLÍTICOS E SOCIAIS E RELAÇÕES DE TRABALHO NA SOCIEDADE PRIMITIVA

Devido às inter-relações entre homem e trabalho, torna-se imprescindível discorrer sobre sua história. A disciplina segurança no trabalho foi concebida para prevenir os acidentes que atingem direta e indiretamente o trabalhador, por meio da segregação ou eliminação dos riscos gerados pelas condições dos locais de trabalho e pelas tecnologias empregadas, de modo a promover, continuamente, medidas para prevenção de acidentes, doenças e otimização das condições e do meio ambiente de trabalho. Por meio do trabalho, o homem atendeu e continua atendendo às suas necessidades bio- psico-sociais e construindo os bens que sustentam as bases da vida material em suas dimensões econômica, política, social, religiosa e cultural. Nos tempos mais remotos, o trabalho humano era restrito a tarefas que tinham como finalidade assegurar, essencialmente, a proteção do grupo e sua sobrevivência, desta forma, a caça e a pesca eram as atividades preponderantes. A vida era marcada pelo nomadismo e pela transumância, ou seja, o homem primitivo não vivia fixado num local determinado. Por evidenciar um espírito eminentemente gregário, detectou-se no homem primitivo os indícios da presença de uma noção, mesmo que muito rústica, de segurança e proteção coletiva (BRASIL,

2002).

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De acordo com Oliveira (2000), a transumância foi o fenômeno que possibilitou ao homem passar

De acordo com Oliveira (2000), a transumância foi o fenômeno que possibilitou ao homem passar de caçador, nômade, para outra fase, intitulada coletora, passando a se valer de outras fontes de alimentos, como tubérculos, frutos silvestres e leguminosas. O fato do homem primitivo se abrigar em cavernas ou no cume das montanhas, buscando um modo de proteção contra as intempéries, animais de grande porte e até mesmo de inimigos, merece destaque neste início de curso, pois revela comportamentos em busca de medidas de proteção coletiva, como requisito básico para a própria sobrevivência e do grupo (BRASIL, 2002). Como esses grupos se abrigavam em cavernas próximas a cursos d’água, sementes e raízes presentes nos restos de alimentos jogados à terra começavam a se reproduzir e, por conseguinte, a lhes proporcionar uma outra fonte de alimento, nascendo dessa experiência a agricultura. Com a evolução da agricultura, criaram-se as bases necessárias a uma nova experiência de vida o pastoreio. Através das atividades relacionadas com o pastoreio, o homem passou a dispor de animais não somente como fonte de alimento, mas também como meio de tração. A

agricultura permitiu o aumento populacional do homem e o tornou sedentário, isto é, fixado em uma base territorial onde se encontram as terras cultivadas e as primeiras edificações, onde se formaram as primeiras cidades, nações e impérios. Por este novo paradigma o homem é liberado da transumância penosa, abrindo caminho à agropecuária (BRASIL, 2002).

A agropecuária marcou um dos estágios mais significativos da evolução humana, não só

porque facilitou ao homem a obtenção dos meios necessários à vida, como a alimentação e a habitação, mas, principalmente, por ter lhe proporcionado um dos primeiros modelos de organização e economia que vai estimular a produção de excedentes. No entendimento de Oliveira (2000), quando o homem passou a produzir mais do que era necessário ao consumo diário e desenvolveu a ideia de guardar esse excedente para consumo

posterior, nasceram as trocas e a noção de posse. Por meio das trocas, o intercâmbio entre povos diferentes tornou-se possível. A noção de propriedade, a princípio grupal, depois privada, mudou radicalmente os paradigmas da vida humana.

O advento da propriedade privada levou o homem a construir uma outra forma de vida

calcada na organização e no controle. A família monogâmica e o Estado, que surgiram em

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virtude dessa mudança, passaram a dar sustentação a esse novo estilo de vida. Da propriedade

virtude dessa mudança, passaram a dar sustentação a esse novo estilo de vida. Da propriedade privada ao escravismo foi apenas uma questão de tempo (BRASIL, 2002). Das lutas travadas contra seus inimigos, emerge naturalmente no homem a necessidade de se proteger, portanto, ele começa a adotar as primeiras medidas de proteção individual e coletiva. Cave (1986 apud BRASIL, 2002) afirma que a forma mais antiga de proteção individual adotada pelos nossos ancestrais foi o “escudo”. O homem primitivo sabia que entre ele e o perigo havia a necessidade de se antepor uma barreira para sua defesa. Foi bastante natural também pensar que essa barreira pudesse ser carregada pelo homem de um local para outro.

Em seguida, o homem adota também o capacete para proteção da cabeça nas lutas contra seus inimigos e, mais tarde, em estádios mais avançados da história, os guerreiros adotam armaduras de metal, composta por elmo, couraça e cota de malha. Associadas a essas práticas nasciam também os inconvenientes e até os primeiros casos de rejeição ao uso (BRASIL, 2002). Quando o homem se conscientizou de que a riqueza acumulada era oriunda da terra e de braços que a cultivavam, começou a poupar da morte os vencidos de guerra e a transformá-los em produtores de excedentes os escravos que, a princípio, produtores de bens, em pouco tempo vieram a se transformar em um deles, sendo transacionados como qualquer outro bem de consumo. É importante destacar que o rebaixamento de cidadão à condição de escravo, segundo costumes e normas adotadas por civilizações na Idade Antiga e no período medieval, podia se dar por questões políticas e até mesmo pelo inadimplemento de uma dívida. Na condição de escravo nenhum tipo de direito ou defesa, nem mesmo religiosa, era assegurado ao indivíduo. Ao escravo só restava ser produtivo e leal ao seu dono. A única preocupação de seu dono era a de evitar que ele adoecesse ou tivesse morte prematura, pois assim deixaria de explorá-lo ao máximo de sua resistência física (OLIVEIRA, 2000). A partir deste período e em decorrência do novo contexto vivenciado pelo grupo humano, compreende-se o desinteresse e a inexistência de registros históricos relacionados com a segurança do trabalhador, uma vez que os trabalhos mais pesados ou de mais elevado risco eram destinados a escravos. Além disto, na cultura greco-romana, o trabalho se relacionava em sua origem filosófica ao rebaixamento humano, porque ligava o indivíduo à matéria, daí ser

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também sinônimo de castração, sofrimento, humilhação, expiação e de afastamento dos deuses (BRASIL, 2002). Para

também sinônimo de castração, sofrimento, humilhação, expiação e de afastamento dos deuses (BRASIL, 2002). Para se ter uma dimensão mais clara do descaso com os registros sobre as questões ligadas à proteção do trabalhador à época, mesmo Hipócrates (460-375 a.C.) citado por Mendes (1996), no momento em que descreve com particular agudeza o quadro clínico da intoxicação saturnina, encontrado em um trabalhador mineiro, omite totalmente o ambiente de trabalho e a ocupação no seu clássico “Ares, Águas e Lugares”. Inúmeros ensinamentos são dedicados às relações entre ambiente incluindo clima, topografia, qualidade da água e mesmo organização política e saúde, sem haver qualquer menção às condições em que o trabalho era realizado. Ramazzini (2000) cita a preocupação de Lucrécio em Roma, um século antes do início da Era Cristã, já perguntando a respeito dos cavadores das minas: “Não viste ou ouviste como morrem em tão pouco tempo, quando ainda tinham tanta vida pela frente?”. O mesmo ocorre com Plínio, o Velho (23 a 79 dc), citado por Mendes (1996), autor da obra De História Naturalis, que, após visitar alguns locais de trabalho, principalmente galerias de minas, descreve impressionado o aspecto dos trabalhadores expostos ao chumbo, ao mercúrio e a poeiras. Mendes (1996) menciona a iniciativa dos escravos de utilizarem à frente do rosto, à guisa de máscaras rústicas, panos ou membranas de bexiga de carneiro para atenuar a inalação de poeiras.

Na Europa, do ponto de vista do trabalho, especificamente do trabalho manual, a transformação do escravismo em feudalismo mudou pouco a vida das pessoas. Os escravos e os trabalhadores romanos, com o feudalismo, transformaram-se em servos de gleba, tão miseráveis quanto antes. O único ganho foi o de não serem mais vendidos como mercadoria qualquer, ficando, porém, vinculados ao senhor feudal (BRASIL, 2002). Os primeiros registros de casos de acidentes e doenças e os seus respectivos nexos com o trabalho ocorreram na Idade Média e foram efetuados por médicos que atendiam pacientes nas corporações de ofícios. Hunter (apud Nogueira, 1981) afirma que, em 1556, Georg Bauer, mais conhecido pelo seu nome latino de Georgii Agricolae, publica o livro De Re Metallica, onde eram relatados estudos sobre os diversos problemas relacionados à extração de minérios argentíferos e auríferos e sua fundição.

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Conforme as observações de Agricolae, em algumas regiões extrativas, “as mulheres chegavam a casar sete

Conforme as observações de Agricolae, em algumas regiões extrativas, “as mulheres chegavam a casar sete vezes, roubadas que eram de seus maridos, pela morte prematura encontrada na ocupação que exerciam”. O próprio Agricolae já sabia como estes problemas poderiam ser evitados. Não se tratava de uma questão médica e sim de um problema de natureza tecnológica, decorrente do processo de trabalho utilizado, cuja modificação, acrescida da introdução de meios para melhorar a ventilação no interior das minas, poderia, como medida profilática, proteger os trabalhadores da inalação de poeiras nocivas. O mesmo Hunter (apud Nogueira, 1981) assinala também a publicação, no ano de 1567, da primeira monografia sobre as relações entre trabalho e doença, de autoria de Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, mais conhecido pelo nome de Paracelso. Seu autor nasceu e viveu durante muitos anos em um centro da Boêmia, sendo numerosas as suas observações relacionando métodos de trabalho ou substâncias manuseadas e doenças, destacando-se, por exemplo, que, em relação à intoxicação pelo mercúrio, os principais sintomas dessa doença profissional, a despeito de sua importância, ali se encontram assinalados. Estes trabalhos pioneiros permaneceram praticamente ignorados por mais de um século e não tiveram qualquer influência sobre a segurança ou a saúde do trabalhador (BRASIL, 2002). Em 1700, era publicada em Módena, na Itália, a primeira edição de um livro que iria ter notável repercussão em todo o mundo. Tratava-se da obra De Morbis Artificum Diatriba as doenças dos trabalhadores de autoria do médico italiano Bernardino Ramazzini, mais tarde justamente cognominado o “Pai da Medicina do Trabalho”. Neste famoso tratado, o autor descreve uma série de mais de 50 doenças relacionadas a profissões diversas. Às perguntas hipocráticas fundamentais na anamnese médica, propõe Ramazzini que se acrescente mais uma:

“Qual é a sua ocupação?” De acordo com o autor, tal pergunta é considerada oportuna e é mesmo necessário lembrar ao médico que trata um homem do povo, que dela se vale para chegar às causas ocasionais do mal, a qual nunca é posta em prática, ainda que o médico a conheça. Entretanto, se a houvesse observado, poderia obter uma cura mais feliz (RAMAZZINI, 2000). Brasil (2002) ressalta que a importância do trabalho de Ramazzini não pôde ser devidamente avaliada na época. Realmente, ainda predominavam as corporações de ofício, com número de trabalhadores relativamente pequeno e um sistema de trabalho muito peculiar. Os casos de doenças profissionais eram poucos, assim, não obstante as corporações não raro

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disporem de médicos que deviam atender seus membros, tais profissionais praticamente ignoraram o trabalho de

disporem de médicos que deviam atender seus membros, tais profissionais praticamente ignoraram o trabalho de Ramazzini, cuja importância só seria reconhecida quase um século mais tarde.

OS ACIDENTES DE TRABALHO E A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

Os impactos da Revolução Industrial ocorrida na Europa, notadamente na Inglaterra, França e Alemanha, principalmente sobre a vida e a saúde das pessoas têm sido objeto de importantes estudos. Historiadores sociais, cientistas políticos, economistas e outros têm enfocado este período da história, principalmente de 1760 a 1850, com detalhes descritivos e analíticos extremamente minuciosos e perspicazes, até porque o fenômeno, em sua natureza, tem se repetido em outras regiões e épocas, sem que as lições mais duras e cruéis tivessem sido aprendidas. Hunter (apud Mendes, 1996), afirma que toda a sorte de acidentes graves, mutilantes e fatais, além de intoxicações agudas e outros agravos à saúde, atingiram os trabalhadores, incluindo crianças de cinco, seis ou sete anos e mulheres, preferidos que eram crianças e mulheres pela possibilidade de lhes serem pagos salários mais baixos. Nogueira (1981) enfatiza que a Revolução Industrial foi um marco inicial da moderna industrialização que teve a sua origem com o aparecimento da primeira máquina de fiar. Até então, a fiação e tecelagem de tecidos tinham constituído uma atividade doméstica tradicional, com uma produção apenas suficiente para atender às necessidades do próprio lar e com um pequeno excesso que era vendido, a preço elevado, em regiões onde estas atividades não eram desenvolvidas. O advento das máquinas, que fiavam em ritmo muitíssimo superior ao do mais hábil artífice, tornou possível uma produção de tecidos em níveis, até então, não imaginados. Até o advento das primeiras máquinas de fiação e tecelagem, o artesão fora dono dos seus meios de produção. O custo relativamente elevado das máquinas, porém, não mais permitiu ao próprio artífice possuí-las. Sendo assim, essas máquinas eram adquiridas pelos detentores do capital, antevendo as possibilidades econômicas dos altos níveis de produção. Assim surgiu a manufatura: da necessidade da burguesia de empregar pessoas para fazer as máquinas funcionarem. Essas máquinas em ação, propiciaram o surgimento das fábricas de tecidos, e com elas, uma marcante dicotomia entre o capital e o trabalho (BRASIL, 2002).

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As primeiras máquinas de fiação e tecelagem necessitavam de força motriz para acioná- las e

As primeiras máquinas de fiação e tecelagem necessitavam de força motriz para acioná- las e esta foi encontrada na energia hidráulica. As primeiras fábricas foram instaladas em antigos moinhos. A localização não permitia uma expansão adequada da nascente indústria, que era obrigada a instalar-se apenas junto a cursos d’água. A invenção da máquina a vapor e seu aperfeiçoamento no ano de 1760 por Scott James Watt, permitiram a instalação de fábricas em outros lugares mais favoráveis ao comércio. Naturalmente as grandes cidades, onde existia abundante mão-de-obra com salários aviltados, foram escolhidas como locais favoritos para o funcionamento das indústrias. Huberman (1976) destaca que a introdução da máquina a vapor do Sr. Watt era tão importante para os ingleses que, “no ano de 1800, essas máquinas se encontravam em uso em 30 minas de carvão, 22 minas de cobre, 28 fundições, 17 cervejarias e 8 usinas de algodão”. Galpões, estábulos e velhos armazéns, eram rapidamente transformados em fábricas, colocando-se no seu interior o maior número possível de máquinas de fiação e tecelagem. Nas grandes cidades inglesas, o baixo nível de qualidade de vida e as famílias com numerosa quantidade de filhos, garantiam um suprimento fácil de mão de obra com míseros salários, sendo aceitos, como trabalhadores, não só homens, mas também mulheres e mesmo crianças, sem quaisquer restrições quanto ao estado de saúde e desenvolvimento físico. Intermediários inescrupulosos percorriam as grandes cidades inglesas arrebanhando crianças que lhes eram vendidas por pais miseráveis e, posteriormente, revendidas a cinco libras por cabeça aos empregadores que, ansiosos por obter um suprimento inesgotável de mão de obra barata, se comprometiam a aceitar uma criança débil mental para cada 12 crianças sadias (NOGUEIRA, 1981). A improvisação das fábricas e a mão-de-obra constituída principalmente por crianças e mulheres resultaram em problemas ocupacionais extremamente sérios. O número de acidentes do trabalho, era aterrorizante, provocados por máquinas sem qualquer tipo de proteção e movidas por engrenagens e correias expostas, sendo que as mortes, principalmente de crianças, eram muito frequentes. Inexistindo limites de horas de trabalho, homens, mulheres e crianças iniciavam suas atividades pela madrugada, abandonando-as somente ao cair da noite. Em muitos casos o trabalho continuava mesmo durante a noite em fábricas precariamente iluminadas por bicos de

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gás. As atividades profissionais eram executadas em ambientes fechados, com ventilação extremamente escassa. Os ruídos

gás. As atividades profissionais eram executadas em ambientes fechados, com ventilação extremamente escassa. Os ruídos provocados pelas máquinas primitivas atingiam limites altíssimos, tornando impossível até mesmo a audição de ordens e comandos, o que muito contribuía para aumentar o número de acidentes (BRASIL, 2002). Não é, pois, de estranhar-se, que doenças de toda a ordem se alastrassem entre os trabalhadores, especialmente entre as crianças, doenças tanto de origem não ocupacional (principalmente as infectocontagiosas, como o tifo europeu, que era chamado de febre das fábricas), quanto de origem ocupacional, cujo número aumentava à medida que se abriam novas fábricas e novas atividades industriais eram iniciadas (MENDES, 1996). As primeiras medidas de proteção ao trabalhador, adotadas nas fábricas inglesas, eram de natureza estritamente médica. Nascia uma preocupação direcionada à higiene pessoal nos locais de trabalho, por conseguinte, também relacionada com a saúde dos trabalhadores. Inexistiam relatos sobre iniciativas destinadas à segurança no trabalho, entendida como medidas de natureza educativa, técnica ou legal, voltadas para melhoria do ambiente de trabalho, proteção coletiva e individual, segregação ou eliminação de fontes de riscos de acidentes, proteção e otimização de máquinas, ferramentas e equipamentos (BRASIL, 2002). No início do século XIX, na Inglaterra, a dramática situação dos trabalhadores não poderia deixar indiferente a opinião pública e, por essa razão, criou-se no Parlamento britânico, sob a direção de Sir Robert Peel, uma comissão de inquérito que, após longa e tenaz luta, conseguiu que, em 1802, fosse aprovada a primeira lei de proteção aos trabalhadores:

“Lei de Saúde e Moral dos Aprendizes”, que estabelecia o limite de 12 horas de trabalho por dia, proibia o trabalho noturno, obrigava os empregadores a lavar as paredes das fábricas duas vezes por ano e tornava obrigatória a ventilação destas. Tal lei não resolvia senão parcela mínima do problema e assim foi seguida de leis complementares surgidas em 1819, em geral, pouco eficientes devido à forte oposição dos empregadores. Em 1830, quando as condições de trabalho das crianças ainda se mostravam péssimas, a despeito dos diversos documentos legais, Robert Dernham, proprietário de uma indústria têxtil inglesa, que se sentia perturbado diante das péssimas condições de trabalho dos seus pequenos trabalhadores, procurou Robert Baker, famoso médico inglês, pedindo-lhe conselho sobre a melhor forma de proteger a saúde dos mesmos. Baker vinha já há bastante tempo se interessando

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pelo estudo do problema da saúde dos trabalhadores. Conhecedor que era da obra de Ramazzini

pelo estudo do problema da saúde dos trabalhadores. Conhecedor que era da obra de Ramazzini dedicava grande parte de seu tempo a visitar fábricas e a tomar conhecimento das relações entre trabalho e doença, o que levou o governo britânico, quatro anos mais tarde, a nomeá-lo Inspetor Médico de Fábricas (BRASIL, 2002). Diante do pedido do empregador inglês, Baker aconselhou-o: “Coloque no interior de sua fábrica o seu próprio médico, que servirá de intermediário entre você, os seus trabalhadores e o público. Deixe-o visitar a fábrica, sala por sala, sempre que existam pessoas trabalhando, de maneira que ele possa verificar o efeito do trabalho sobre as pessoas. E se ele verificar que qualquer dos trabalhadores está sofrendo a influência de causas que possam ser prevenidas, a ele competirá fazer tal prevenção. Dessa forma você poderá dizer meu médico é a minha defesa, pois a ele dei toda a minha autoridade no que diz respeito à proteção da saúde e das condições físicas dos meus operários. Se algum deles vier a sofrer qualquer alteração da saúde, o médico unicamente é que deve ser responsabilizado”. Surgia, assim, o primeiro serviço médico industrial em todo o mundo (OLIVEIRA, 1998). A iniciativa daquele empregador, movida até pelo temor de ser responsabilizado pelos infortúnios laborais, veio mostrar a necessidade urgente de medidas de proteção aos trabalhadores, pelo que, em 1831, uma comissão parlamentar de inquérito, elaborou um cuidadoso relatório, concluído do seguinte modo:

Diante desta Comissão desfilou longa procissão de trabalhadores homens e mulheres, meninos e meninas. Abobalhados, doentes, deformados, degradados na sua qualidade humana, cada um deles era a clara evidência de uma vida arruinada, um quadro vivo da crueldade do homem para com o homem, uma impiedosa condenação daqueles legisladores que, quando em suas mãos detinham poder imenso, abandonaram os fracos à capacidade dos fortes (MENDES, 1996).

O impacto deste relatório sobre a opinião pública foi tremendo, e assim, no ano de 1833, foi baixado na Inglaterra o Factory Act 1833, que deve ser considerada como a primeira legislação realmente eficiente no campo da proteção ao trabalhador. Aplicava-se a todas as empresas têxteis onde se usasse força hidráulica ou a vapor; proibia o trabalho noturno aos menores de 18 anos e restringia as horas de trabalho destes a 12hs por dia e 69 por semana; as fábricas precisavam ter escolas, que deviam ser frequentadas por todos os trabalhadores menores

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de 13 anos; a idade mínima para o trabalho era de nove anos, e um

de 13 anos; a idade mínima para o trabalho era de nove anos, e um médico devia atestar que o desenvolvimento físico da criança correspondia à sua idade cronológica (NOGUEIRA, 1981). O grande desenvolvimento industrial da Grã-Bretanha levou ao estabelecimento de uma série de medidas legislativas, destacando-se a criação do Factory Inspectorate, primeiro órgão do Ministério do Trabalho britânico, com função de proceder ao exame médico pré-admissional, ao exame médico periódico, ao estudo de casos de doenças causadas por agentes químicos potencialmente perigosos e à notificação e investigação de doenças profissionais, especialmente em fábricas pequenas, que não dispunham de serviço médico próprio (BRASIL, 2002). Observada por Oliveira (1988), a expansão da Revolução Industrial no resto da Europa resultou, também, no aparecimento progressivo dos serviços médicos de empresa industrial em diversos países, sendo que em alguns deles, foi dada tal importância a esses serviços que sua existência deixou de ser voluntária, como de princípio na Grã-Bretanha, para tornar-se de imediato obrigatória. Nos Estados Unidos, a despeito da industrialização ter-se desenvolvido de forma acentuada, a partir da segunda metade do século XIX, os serviços médicos nas empresas permaneceram praticamente desconhecidos, não dando os empregadores nenhuma atenção especial aos problemas de saúde dos seus trabalhadores. No entanto, o aparecimento, no início do século XX, da legislação sobre indenizações em casos de acidentes do trabalho, levou os empregadores a estabelecerem os primeiros serviços médicos de empresa industrial naquele país, com o objetivo básico de reduzir o custo das indenizações, através de cuidado adequado dos casos de acidentes e doenças profissionais. Desses relatos se conclui que, mesmo na Europa e nos Estados Unidos, a conscientização dos empregadores precisava ser impulsionada pela coerção da lei, pois continuava inexistindo, salvo raríssimas exceções, interesse em preservar a saúde ou a vida dos trabalhadores (BRASIL, 2002). No final do século XIX, no dia 15 de maio de 1891, a Encíclica do Papa Leão XIII, De Rerum Novarum, conclama os povos no sentido da justiça social, influenciando legisladores e estadistas para o avanço da proteção social. A Encíclica mencionada, no Capítulo 22, asseverou ser absolutamente necessário “aplicar a força e autoridade das leis, dentre outros casos, contra os patrões que esmagam os trabalhadores sob o peso de ônus iníquos, ou desonram, neles, a pessoa

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humana, por condições indignas e degradantes ou, ainda, que atentam contra a saúde destes por

humana, por condições indignas e degradantes ou, ainda, que atentam contra a saúde destes por um trabalho desproporcionado com a sua idade e sexo”. Mais adiante, no capítulo 27 desta mesma Encíclica, a censura contra os abusos dos empregadores é clara “Não é justo nem humano exigir do homem tanto trabalho a ponto de fazer pelo excesso de fadiga embrutecer o espírito e enfraquecer o corpo. A atividade do homem, restrita como a sua natureza, tem limites que se não podem ultrapassar” (apud OLIVEIRA,

1998).

PROTEÇÃO AO TRABALHADOR NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

No período que coincide com a Primeira Guerra Mundial, manifestações e reivindicações ocorridas em diversos congressos de trabalhadores levaram à Conferência da Paz de 1919, organizada pela Sociedade das Nações, a criar, pelo Tratado de Versalhes, a Organização Internacional do Trabalho OIT. Esta organização foi criada com o propósito de dar às questões trabalhistas um tratamento uniformizado, com fundamento na justiça social. O preâmbulo da constituição da OIT enfatiza que “existem condições de trabalho que implicam para grande número de indivíduos misérias e privações, e que o descontentamento que daí decorre põe em perigo a paz e harmonia universais.” (SUSSEKIND, 1994). Já na primeira reunião da OIT, no ano de 1919, foram aprovadas seis convenções, com visíveis propósitos de proteger à saúde e integridade física dos trabalhadores, tratando de limitação da jornada de trabalho, desemprego, proteção à maternidade, trabalho noturno das mulheres, idade mínima para admissão de crianças e o trabalho noturno dos menores. O eco dessas convenções, posteriormente, levou representantes da Organização Internacional do Trabalho OIT e da Organização Mundial da Saúde OMS a se reunirem para deliberar e estudar com maior ênfase o assunto. Em 1950, a Comissão Conjunta OIT/OMS sobre saúde ocupacional estabeleceu, de forma muito ampla, os objetivos da saúde ocupacional. Em junho de 1953, a Conferência Internacional do Trabalho adotou princípios, elaborando a Recomendação n° 97, sobre a Proteção à Saúde dos Trabalhadores em Locais de Trabalho, e insistiu com os Estados-membros, no sentido de que os mesmos incrementassem a criação de serviços médicos nos locais de trabalho. Em junho de 1959, a 43ª Conferência Internacional do

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Trabalho, reunida em Genebra, Suíça, estabeleceu a sua Recomendação n° 112, que tomou o nome

Trabalho, reunida em Genebra, Suíça, estabeleceu a sua Recomendação n° 112, que tomou o nome de “Recomendação para os Serviços de Saúde Ocupacional” (BRASIL, 2002).

PREVENCIONISMO: HISTÓRIA, FUNDAMENTOS E OBJETIVOS

Enquanto o termo Prevenção significa trabalhar as causas de um acidente acontecido, visando criar mecanismos e procedimentos que impossibilitem o acontecimento de novos e futuros acidentes vinculados às causas do anterior, prevencionismo por sua vez, significa o estudo dos ambientes de trabalho e comportamento humano respectivos de cada atividade, tendo como objetivo, a eliminação da potencialidade de acontecimento de incidentes e acidentes, ou seja, colocar em prática a expressão que preceitua a profissão do Especialista em Higiene e Segurança do Trabalho: “o desafio é impedir que o suor de um trabalhador se transforme em sangue”.

O prevencionismo em seu mais amplo sentido evoluiu de uma maneira crescente, englobando um número cada vez maior de fatores e atividades, desde as precoces ações de reparação de danos (lesões) até uma conceituação bastante ampla, onde se buscou a prevenção de todas as situações geradoras de efeitos indesejados ao trabalho. De todo modo, embora as abordagens modernas assemelham-se em seus objetivos de controle e prevenção de danos, elas diferem em aspectos básicos, existindo algumas correntes que explicam tais diferenças. Enquanto uma corrente, como é o caso do Controle de Danos e do Controle Total de Perdas, baseados em aspectos administrativos da prevenção e aliados às técnicas tradicionais e outras mais recentes, enfatizam a ação administrativa de controle, a outra corrente procura dar um enfoque mais técnico da infortunística, buscando para problemas técnicos, soluções técnicas. Esta última corrente é o que foi denominado de Engenharia de Segurança de Sistemas, sendo uma metodologia para o reconhecimento, avaliação e controle dos riscos ocupacionais, com ferramentas fornecidas pelos diversos ramos da engenharia e oferecendo novas técnicas e ações para preservação dos recursos humanos e materiais dos sistemas de produção. Ao se analisar mais a fundo as abordagens de Controle de Danos e Controle Total de Perdas de Bird e Fletcher (1974 apud ALBERTON, 1996) respectivamente, chega-se a conclusão que os mesmos estão baseados unicamente em práticas administrativas, carecendo de

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estudos e soluções técnicas, como o é exigido pelos problemas inerentes à Prevenção de Perdas

estudos e soluções técnicas, como o é exigido pelos problemas inerentes à Prevenção de Perdas na Segurança do Trabalho. A mentalidade de dar um enfoque técnico à Engenharia de Segurança fundamentou-se em 1972 pelos trabalhos de um especialista em Segurança de Sistemas, o engenheiro Willie Hammer. Seus trabalhos foram embasados nas técnicas utilizadas na força aérea e nos programas espaciais norte-americanos onde atuava. Foi da reunião destas técnicas, que sem dúvida oferecem valiosos subsídios na preservação dos recursos humanos e materiais dos sistemas de produção, que nasceu a Engenharia de Segurança de Sistemas. Desta forma, a grande maioria das técnicas, hoje empregadas na Engenharia de Segurança, surgiram ligadas ao campo aeroespacial, vindas dos norte-americanos, o que é bastante lógico devido a necessidade imprescindível de segurança total em uma área onde não podem ser admitidos riscos. Estas técnicas, inicialmente desenvolvidas e dirigidas ao campo aeroespacial, automotivo, militar (indústria de mísseis) e de apoio, puderam ser levadas a outras áreas, com adaptações, podendo ter grandes e significativas aplicações em situações da vida em geral.

As técnicas de Segurança de Sistemas começaram a tomar forma ainda na década de 60, sendo criadas e apresentadas paulatinamente ao prevencionismo na década de 70. Desde esta época um leque de diferentes técnicas vem buscando sua infiltração, sendo utilizadas como uma ferramenta eficaz no combate à infortunística, embora ainda hoje, passadas mais de três décadas, existe pouca literatura à respeito, principalmente quanto a sua aplicação na prevenção do dia-a- dia ou na adaptação destas para aplicação nas empresas, projetos e segurança em geral. Segundo De Cicco e Fantazzini (1994), a Engenharia de Segurança de Sistemas foi introduzida na América Latina pelo engenheiro Hernán Henriquez Bastias, sob a denominação de Engenharia de Prevenção de Perdas, e pode ser definida como “uma ciência que se utiliza de todos os recursos que a engenharia oferece, preocupando-se em detectar toda a probabilidade de incidentes críticos que possam inibir ou degradar um sistema de produção, com o objetivo de identificar esses incidentes críticos, controlar ou minimizar sua ocorrência e seus possíveis efeitos”.

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A PARTICIPAÇÃO DAS ENTIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS NA SEGURANÇA DO TRABALHO Em se tratando da

A PARTICIPAÇÃO DAS ENTIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS NA SEGURANÇA DO TRABALHO Em se tratando da área de Segurança do Trabalho, abaixo temos os órgãos e suas competências:

À Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) compete:

I - formular e propor as diretrizes da inspeção do trabalho, inclusive do trabalho

portuário, priorizando o estabelecimento de política de combate ao trabalho forçado e infantil,

bem como a todas as formas de trabalho degradante;

II - formular e propor as diretrizes e normas de atuação da área de segurança e saúde do

trabalhador;

III - participar, em conjunto com as demais Secretarias, da elaboração de programas

especiais de proteção ao trabalho; (

VIII - formular e propor as diretrizes para o aperfeiçoamento técnico-profissional e

gerência do pessoal da inspeção do trabalho;

IX - promover estudos da legislação trabalhista e correlata, no âmbito de sua

competência, propondo o seu aperfeiçoamento; (

XI - acompanhar o cumprimento, em âmbito nacional, dos acordos e convenções

ratificados pelo Governo brasileiro junto a organismos internacionais, em especial à OIT, nos

assuntos de sua área de competência; ( competência.

XIII - baixar normas relacionadas com a sua área de

)

)

)

Ao Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho (DSST) Subordinado a SIT, cabe:

I - subsidiar a formulação e proposição das diretrizes e normas de atuação da área de segurança e saúde no trabalho;

II - planejar, supervisionar, orientar, coordenar e controlar a execução das atividades

relacionadas com a inspeção dos ambientes e condições de trabalho;

III - planejar, coordenar e orientar a execução do Programa de Alimentação do

Trabalhador e da Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho;

IV - planejar, supervisionar, orientar, coordenar e controlar as ações e atividades de

inspeção do trabalho na área de segurança e saúde;

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V - subsidiar a formulação e proposição das diretrizes para o aperfeiçoamento técnico- profissional e

V - subsidiar a formulação e proposição das diretrizes para o aperfeiçoamento técnico- profissional e gerência do pessoal da inspeção do trabalho, na área de segurança e saúde; (

VII - supervisionar, no âmbito de sua competência, a remessa da legislação e atos administrativos de interesse da fiscalização do trabalho às Delegacias Regionais do Trabalho.

)

As Delegacias Regionais do Trabalho:

Tem como objetivo principal coordenar e controlar, na área de sua jurisdição, a

execução das atividades relacionadas com a fiscalização do trabalho, a inspeção das condições ambientais de trabalho e a orientação ao trabalhador.

A Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho

FUNDACENTRO tem como objetivo:

Produzir e difundir conhecimento sobre Segurança e Saúde no Trabalho e Meio Ambiente, para fomentar, entre os parceiros sociais, a incorporação do tema na elaboração e gestão de políticas que visem o desenvolvimento sustentável com crescimento econômico, promoção da equidade social e proteção do meio ambiente.

Pode-se dizer que esta fundação é o braço técnico do Ministério do Trabalho e Emprego com atribuições bastante definidas no campo da pesquisa e assessoramento técnico.

O Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (INMETRO):

É uma autarquia federal, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e

Comércio Exterior, que atua como Secretaria Executiva do Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro), colegiado interministerial, que é o órgão

normativo do Sistema Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Sinmetro).

O INMETRO tem como missão prover confiança à sociedade brasileira nas medições e

nos produtos, através da metrologia e da avaliação da conformidade, promovendo a harmonização das relações de consumo, a inovação e a competitividade do País.

A Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT:

Fundada em 1940, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) é o órgão responsável pela normalização técnica no país, fornecendo a base necessária ao desenvolvimento tecnológico brasileiro.

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É uma entidade privada, sem fins lucrativos, reconhecida como único Foro Nacional de Normalização através

É uma entidade privada, sem fins lucrativos, reconhecida como único Foro Nacional de Normalização através da Resolução n.º 07 do CONMETRO, de 24.08.1992. São objetivos da normalização:

Economia: Proporcionar a redução da crescente variedade de produtos e procedimentos.

Comunicação: Proporcionar meios mais eficientes na troca de informação entre o fabricante e o cliente, melhorando a confiabilidade das relações comerciais e de serviços.

Segurança: Proteger a vida humana e a saúde.

Proteção do Consumidor: Prover a sociedade de meios eficazes para aferir a qualidade dos produtos.

Eliminação de Barreiras Técnicas e Comerciais: Evitar a existência de regulamentos conflitantes sobre produtos e serviços em diferentes países, facilitando assim, o intercâmbio comercial (ABNT, 2012).

Encontramos na Norma Regulamentadora NR 4 - SERVIÇOS ESPECIALIZADOS EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA E EM MEDICINA DO TRABALHO as especificações em seus mínimos detalhes do papel das empresas, quer sejam públicas ou privadas. “As empresas privadas e públicas, os órgãos públicos da administração direta e indireta e dos poderes Legislativo e Judiciário, que possuam empregados regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, manterão, obrigatoriamente, Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho, com a finalidade de promover a saúde e proteger a integridade do trabalhador no local de trabalho. (Alterado pela Portaria SSMT n.º 33, de 27 de outubro de 1983).

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SUBJETIVIDADE E SEGURANÇA DO TRABALHO: A EXPERIÊNCIA DE UM GRUPO DE MÚTUA AJUDA Este trabalho

SUBJETIVIDADE E SEGURANÇA DO TRABALHO: A EXPERIÊNCIA DE UM GRUPO DE MÚTUA AJUDA

Este trabalho 1 investigou a relação entre subjetividade e segurança do trabalho no setor de manutenção de uma empresa de mineração de grande porte. Verificou que a experiência com um grupo de mútua ajuda pode ser usada como instrumento de melhoria da segurança do trabalho. Foi estudado um grupo de mútua ajuda denominado Programa Hoje Não, composto por 35 trabalhadores do setor de manutenção. Os métodos empregados foram entrevistas conforme os modelos da psicodinâmica do trabalho e da psicossociologia, além da clínica do trabalho e da análise ergonômica do trabalho. Com as técnicas do Programa Hoje Não, aplicadas no grupo, o número de acidentes foi reduzido até atingir valores nunca alcançados em 11 anos.

INTRODUÇÃO

Este trabalho traz uma contribuição para o campo da segurança do trabalho ao demonstrar como a subjetividade, conforme tratada pela abordagem dejouriana, pode se transformar em agente de prevenção de acidentes, no mesmo nível que as condições de trabalho, a organização do trabalho, os processos de trabalho, a tecnologia e a autonomia. A literatura é farta nas explicações sobre como as novas formas de gestão e de organização do trabalho "apropriam-se da subjetividade dos trabalhadores" (SILVA, 2006, p. 4) com objetivos filiados a uma racionalidade técnica, ou seja, obtenção de adesão e envolvimento para aumentar produtividade, reduzir índices de retrabalho e o número de produtos com defeitos. Outros autores defendem que as novas formas de organização do trabalho, como o ohnoísmo (toyotismo) e o modelo sueco, promovem uma exploração da subjetividade, com vistas a manter uma intensificação maior do trabalho em relação ao modelo clássico de organização da produção (ANTUNES, 2007). Apropriação e gestão da subjetividade serviriam, ainda, segundo o autor,

1 Texto publicado pela Revista de Administração de Empresas. Versão Online. ISSN 2178-938X. Rev. adm. empres. vol.50 no.1 São Paulo jan./mar. 2010. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-75902010000100005. Gilbert Cardoso Bouyer. Professor do Departamento de Ciências Exatas e Aplicadas, Universidade Federal de Ouro Preto - João Monlevade - MG, Brasil. Eduardo Barbosa. Engenheiro pelo Departamento de Engenharia da Produção, Faculdade Pitágoras - Cidade Jardim - MG, Brasil.

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para amenizar as objeções às elevadas cargas de trabalho impostas aos trabalhadores, no novo taylorismo-fordismo

para amenizar as objeções às elevadas cargas de trabalho impostas aos trabalhadores, no novo taylorismo-fordismo e nos novos modelos de organização do trabalho.

A pergunta que este trabalho se propôs a responder é se a mesma subjetividade, tão

apropriada com fins de maior produtividade do capital nos novos modelos de organização da empresa e da produção, não poderia ser também poderoso recurso na melhoria da segurança do trabalho.

Nesse âmbito de relações entre subjetividade e organização do trabalho, observa-se que existem estratégias de defesa contra o sofrimento provocado pelo hiato entre organização do trabalho prescrita e organização do trabalho real. Há, nesse contexto, defesas contra os riscos reais da atividade. As estratégias coletivas de defesa tendem a agravar esses riscos, ao invés de amenizá-los (DEJOURS, 1987, 2006). Portanto, neste estudo, ao observar e analisar as situações que envolvem estratégias coletivas de defesa, foi verificado que a percepção e a conscientização dos atores (gestores e operadores), dos próprios aspectos subjetivos e compromissos cognitivos envolvidos na regulação dos riscos da atividade (AMALBERTI, 1996), mediante técnicas de interação em um grupo de mútua ajuda, os conduziam a uma tomada de consciência quanto aos próprios mecanismos defensivos empregados e quanto aos riscos reais da atividade. A tese ora defendida é que a interação intersubjetiva em um grupo de mútua ajuda reforça e revigora o gênero (CLOT, 2004), permitindo que as ações e estratégias desenvolvidas pelos trabalhadores para lidar com os riscos da atividade de trabalho sejam amparadas e legitimadas pelo coletivo, o que impacta positivamente na segurança do trabalho.

A equipe de pesquisa optou, neste estudo, por não oferecer uma definição de grupos de

mútua ajuda, já bem presente na literatura das ciências humanas e sociais. A razão é que a conotação e o sentido de grupo de mútua ajuda, neste trabalho, é bastante singular e guarda suas particularidades e diferenças em relação ao que se conhece comumente por essa expressão. Por isso, optamos por fazer ficar claro, para o leitor, o que ora denominamos de grupo de mútua ajuda (no contexto específico deste trabalho), não por referências a outros trabalhos, mas pela leitura integral do presente texto. Isso se deve ao fato de as experiências aqui relatadas não se assemelharem integralmente aos trabalhos que são desenvolvidos, por exemplo, nos grupos de mútua ajuda dos Alcoólicos Anônimos (AA) e em outros similares.

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Entendemos o gênero, conforme os estudos de Clot (2004), como um background composto de instrumentos,

Entendemos o gênero, conforme os estudos de Clot (2004), como um background composto de instrumentos, saberes e regras tácitas, encontrados num coletivo de trabalho, que orientam e amparam a ação dos atores da atividade. O grupo de mútua ajuda mostra-se eficaz na melhoria da segurança do trabalho porque dinamiza a força e o poder do gênero. Isso viabiliza um maior suporte às ações (e mecanismos de regulação) envolvidas na gestão dos riscos. Essa gestão subjetiva - cognitiva e afetiva - dos riscos, por parte dos trabalhadores e apoiada pelo gênero, é necessária ao combate aos acidentes. Ela opera por

mecanismos de regulação, individual e coletiva, para enfrentar os imprevistos e reveses do real do trabalho.

A fragilidade da segurança do trabalho, em diferentes organizações produtivas, ocorre

pela negligência do gênero enquanto categoria fundamental para a integridade física e mental dos

atores em atividade. Aqui, os resultados profícuos ocorreram pela via inversa: ao invés de negar

o gênero, a experiência de sucesso ora relatada permitia o seu reforço, o seu revigoramento, conferindo maior liberdade para a modificação de modos operatórios e a adoção de um amplo repertório de estratégias essenciais para regulação dos riscos.

O coletivo, segundo a noção de gênero, não é apenas a soma de indivíduos. Ele se

interpõe entre a ação individual e os instrumentos, saberes, competências, estratégias e compromissos cognitivos (necessários à segurança de cada um e de todos), coletivamente cristalizados por uma história em uma atividade de trabalho específica. É por ele que cada

trabalhador encontra apoio nos momentos de ação (incluindo as decisões). Portanto, o coletivo e

o gênero têm o poder de proteger o sujeito até de si mesmo, bem como, o poder de amparar as ações e, assim, funcionar como barreira contra os acidentes de trabalho. Barreira contextualizada, situada, incorporada, histórica e culturalmente localizada.

A dimensão comunicacional e de partilha intersubjetiva é de fundamental importância

para a potencialização do gênero como instrumento coletivo de segurança do trabalho. Nas comunicações nesse grupo de mútua ajuda (envolvido no Programa Hoje Não), verificou-se a elaboração de novas formas de proteção bem conscientes e calcadas no agir concreto sobre o processo de trabalho. Isso ocorreu pelo diálogo e compreensão mútua, num espaço coletivo de relações intersubjetivas (intercâmbios na dimensão da linguagem) e num espaço deliberativo para a explicitação:

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(1) de habilidades e regras tácitas no repertório do gênero e da métis (inteligência da

(1) de habilidades e regras tácitas no repertório do gênero e da métis (inteligência da prática); (2) de componentes cognitivas do trabalho real e compromissos cognitivos elaborados pelos trabalhadores;

(3) de componentes psíquicas e afetivas da atividade de trabalho (como, por exemplo, as estratégias e mecanismos de defesa); (4) de mecanismos de regulação e estratégias de modificação dos modos operatórios para gerir os riscos da atividade e a variabilidade inerente ao trabalho real. Tal pôde ser demonstrado pela análise sistemática de 68 casos estudados no grupo de mútua ajuda (Programa Hoje Não). Alguns deles foram selecionados para discussão neste trabalho.

O Programa Hoje Não, conforme será explicado a seguir, foi concebido por uma equipe

multidisciplinar que envolve pesquisadores e profissionais da empresa, com o objetivo de funcionar, em caráter experimental, como ferramenta de combate aos acidentes de trabalho. A organização do trabalho do setor de manutenção tomado para este estudo

experimental caracteriza-se por um maior grau de autonomia dos atores, uma vez que os processos de trabalho ainda não estão inteiramente prescritos e formalizados. Os atores

desfrutam de certa margem de manobra para utilizar a engenhosidade e a inteligência astuciosa.

A tecnologia não é fator de destaque no cerne da organização do trabalho em manutenção, sendo

os processos de trabalho pautados predominantemente por atos manuais, soluções artesanais e corriqueiras oriundas da criatividade dos atores. Conhecer os fenômenos subjetivos envolvidos em um coletivo envolve compreender sua "atividade subjetivante" ou "subjektvierendes handeln" (DEJOURS, 1997, p. 43). Isso requer

a análise da dinâmica implícita de seu uso, com os compromissos (cognitivos, psíquicos)

elaborados para enfrentar o real do trabalho, uma vez que estes não são apreensíveis apenas pelo

que se observa, objetivamente, nos modos operatórios e nos atos. É necessário analisar sua forma de manifestação nas condutas, nos modos operatórios e nos juízos elaborados pelo sujeito que trabalha; em sua ação.

A atividade subjetivante envolve a inteligência do corpo, um saber-fazer latente cujas

coordenadas de uso, em parte, escapa da própria consciência dos agentes, mas emerge nos

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fenômenos desencadeados pelos métodos de entrevista em grupo, segundo os moldes da psicossociologia do trabalho

fenômenos desencadeados pelos métodos de entrevista em grupo, segundo os moldes da psicossociologia do trabalho (ENRIQUEZ, 1995). Esse saber-fazer operatório tácito e incorporado é pouco explorado na compreensão dos acidentes de trabalho, visto sua relevância para compreender situações em que a ação do operador seguiu determinado curso (apoiado em seu saber corporal não simbolizado) e não outro qualquer. É necessário compreender a ação, em seus aspectos subjetivos, de difícil simbolização, e pouco objetivados em atos concretos visíveis ao olhar do observador, contextualizada pelas situações concretas da atividade, pelas condições de trabalho e pelas prescrições (tarefa) da organização do trabalho em questão. Nessa ação contextualizada, existem estratégias de regulação e compromissos subjetivos, elaborados pelos trabalhadores, para administrarem os riscos do trabalho e a variabilidade das situações de produção, de modo a obter os resultados exigidos com segurança e eficiência produtiva. Distancia-se a presente abordagem da gestão da subjetividade, e da atividade subjetivante, daqueles encaminhamentos convencionais de pesquisa que tratam o fator humano como falha humana ou como recurso humano (DEJOURS, 1997). Está-se mais próximo de uma hermenêutica da ação via uma tradição compreensiva (RICOEUR, 1978) mediada pelo recurso da linguagem como fonte de acesso às componentes cognitivas e afetivas de cada ato, aqui compreendido como ato tradicional eficaz, situado e contextualizado pela história e pela cultura. Mas a compreensão de como os operadores regulam os riscos, em sua atividade de trabalho real, somente ganha corpo pela linguagem dos próprios trabalhadores, num modelo de análise que aqui ganhou corpo pelas contribuições de três escolas, a saber: (a) clínica do trabalho (CLOT, 1995, 2004); (b) psicodinâmica do trabalho dejouriana (DEJOURS, ABDOUCHELI, JAYET, 1994); (c) psicossociologia do trabalho (ENRIQUEZ, 1995). A questão dos acidentes de trabalho deve ser avaliada sem negligenciar os aspectos subjetivos da atividade de trabalho. Na subjetividade, compreendemos aqui que estão inseridos os aspectos implícitos da atividade, como a regulação dos riscos e os compromissos cognitivos (AMALBERTI, 1996) elaborados, pelos atores, para enfrentar os riscos e imprevistos do real do trabalho. Trata-se de um uso de si pelo sujeito (SCHWARTZ, 1998), na ação de conciliar a segurança de si e dos outros com a necessidade de obter os resultados e objetivos prescritos pela empresa, num modelo específico de organização do trabalho. A subjetividade, assim

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compreendida, não vem explicitada nas prescrições e não tem como ser inteiramente simbolizada, objetivada,

compreendida, não vem explicitada nas prescrições e não tem como ser inteiramente simbolizada, objetivada, formalizada. No entanto, conforme atestam os resultados ora obtidos, ela ganha forma na experiência de um grupo de mútua ajuda, o que, segundo a clínica da atividade de Clot (2004), fortalece o gênero da atividade de trabalho e, consequentemente, a segurança do trabalho, conforme será explicado. No efetivo funcionamento do trabalho concreto, são, assim, mobilizados recursos de um recôndito domínio sensorial-afetivo-cognitivo do sujeito atuante, apoiados pelo gênero, os quais germinaram e floresceram ao longo de sua história no trabalho. Esse domínio sensorial e afetivo é uma componente relevante para a compreensão dos acidentes de trabalho, ainda pouco ou nada explorada nos trabalhos sobre segurança do trabalho (ALMEIDA, 2006; ALMEIDA, BINDER, 2004). Uma forma de fazer ganhar visibilidade esse domínio sensorial e afetivo, fator-chave para a segurança e a saúde ocupacional, é compreender o papel da subjetividade do coletivo na regulação dos riscos, pela profícua experiência de um grupo de mútua ajuda, como no caso do Programa Hoje Não. A experiência e a vida dos homens que trabalham não podem ser colocadas entre parênteses. A instigação da comunicação em um grupo, de modo a provocar a visibilidade das componentes intersubjetivas do trabalho real, pode tirar essa experiência de suas fronteiras de clandestinidade ("parênteses"). Isso anima a dimensão subjetiva da atividade e confere, ao domínio inicialmente inapreensível da ação, uma fértil possibilidade de apreensão. Nesse domínio, localiza-se o saber tácito (POLANYI, 1983), sem privilégio de visualização, objetivação e formalização plena, mas que vem ganhando visibilidade no Programa Hoje Não, conforme verificado por este trabalho de pesquisa.

COMPREENSÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA

Na ação envolvida em um acidente, há a presença das habilidades tácitas dos operadores em dada situação de risco, num contexto que tem seus contornos tecidos pelos conceitos bem conhecidos da ergonomia da atividade:

(a)

condições, meios e instrumentos de trabalho oferecidos aos operadores;

(b)

possibilidades (ou restrições, constrangimentos) à variação dos modos operatórios;

(c)

regulações realizadas para lidar com os riscos na atividade;

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(d) compromissos e estratégias (cognitivas e psíquicas) elaborados para lidar com a variabilidade das situações

(d) compromissos e estratégias (cognitivas e psíquicas) elaborados para lidar com a variabilidade das situações de trabalho; (e) estratégias e regulações para manter a integridade física e mental paralelamente à obtenção dos resultados exigidos pela organização do trabalho prescrita; (f) possibilidades (ou constrangimentos) à negociação dos objetivos e resultados.

Nesse contexto, a compreensão do funcionamento das habilidades tácitas e estratégias, implícitas na regulação e enfrentamento dos riscos, mostra-se necessária. As habilidades tácitas (tacit skills) não adquirem visibilidade na linguagem da empresa. É, então, necessário que essas componentes da atividade subjetivante (DEJOURS, 1997) sejam mais bem compreendidas no próprio terreno da linguagem, o que é possível nas experiências de grupo que promovem intercompreensão (ZARIFIAN, 1999) e intercâmbio mútuo na linguagem, como num grupo de mútua ajuda. Por intermédio deste, verificou-se que os fenômenos de compreensão recíproca e outros no terreno da intersubjetividade (compartilhamento de valores, emoções, estratégias de defesa, mecanismos de regulação etc., antes implícitos na ação) podem ocorrer no espaço público de deliberação reservado para que os agentes possam verbalizar suas experiências e vivências no tocante ao que se passa, em seus corpos e em sua ação, quando da ocorrência de um evento, de uma pane, de um acidente. Essa explicitação da subjetividade mostrou-se fértil na experiência de um grupo de mútua ajuda, ora estudada, implicando no fortalecimento do gênero (CLOT, 2004) e, consequentemente, no aprimoramento da segurança do trabalho. A ação é o pressuposto ontológico de toda e qualquer possibilidade de intercompreensão ou reconhecimento recíproco no campo comunicacional (RICOEUR, 1978). Ou seja, é a ação no trabalho que constrói uma dimensão motivacional expressiva de significações para os indivíduos e as estruturas normativas que são tecidas intersubjetivamente (WHITE, 1995). Em outras palavras, é a ação no trabalho que viabiliza uma orientação intersubjetivocontextual. A racionalidade do comportamento e da comunicação apoia-se na racionalidade da ação, na atuação, no agir incorporado (DEJOURS, 1997) de um agente ou ser atuante (agissant ou que age). Pela ação, consolida-se o gênero (CLOT, 2004), enquanto reservatório coletivo, de instrumentos, práticas, saberes e regras tácitas, que dão suporte à própria ação individual.

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A presente perspectiva, situada e contextualizada no mundo do trabalho, tem se mostrado eficaz na

A presente perspectiva, situada e contextualizada no mundo do trabalho, tem se mostrado eficaz na própria tentativa de conceitualizar e teorizar a dimensão da ação operatória, em situações de risco, nas quais se manifestam, tacitamente e no universo intersubjetivo dos trabalhadores, crenças, códigos, normas coletivas e linguagens próprias. Isso tem permitido

compreender como, no trabalho e pelo trabalho, visto sob o prisma da ação situada, a ação tem o poder de criar seu mundo próprio: um mundo comum (PASTRÉ, 2005); de dotar a atividade individual de sentido social, de significação e assim permitir a intercompreensão entre os agentes incorporados em seu contexto. Por ora, o objetivo é aquele da compreensão e da interpretação, no sentido que Ricoeur (1978) oferece para esses termos como possibilidade mais adequada de explicar os agentes se articulando, agindo, atuando, comunicando e se compreendendo (ou intercompreendendo) além

de toda justificação normativa universalizada da racionalidade comunicativa dos engenheiros e

projetistas (domínio de atuação de concepção e planejamento). Tornou-se necessário adentrar a

cultura e o contexto em que estão atuando os agentes num espaço de intercâmbios entre si (espaço social e cultural); agentes que partilham de uma intersubjetividade na atividade que ultrapassa, recria, reelabora a própria "estrutura normativa profunda da consciência, instrumentalizada e tecnicizada" (WHITE, 1995, p. 32) - transforma-a numa estrutura

contextualizada, incorporada pelos atores em ação e cognição situadas, que o processo produtivo

e a segurança do trabalho necessitam em seu funcionamento. Estrutura contextualizada

necessária para gerar o consenso na linguagem, a intercompreensão e a autenticidade no intercâmbio comunicacional sobre as situações de risco. A linguagem, porém, não revela o não dito de forma espontânea. E verifica-se que na empresa existe uma lacuna entre a linguagem dos gestores e conceptores das tarefas, por um lado, e por outro a linguagem dos operadores. A primeira desfruta de uma objetivação formal nos códigos da gestão, da engenharia e das ciências da natureza. É, portanto, legitimada epistemologicamente. Já a linguagem dos operadores não desfruta dessa legitimidade, ocorrendo na obscuridade dos parcos momentos de interação na linguagem entre os pares e nos fartos intercâmbios intersubjetivos tecidos na área de manutenção da empresa estudada. O benefício da experiência ora estudada, do grupo de mútua ajuda, está no fato de colocar em visibilidade essa linguagem dos operadores e permitir simbolizar essa parcela do saber de difícil objetivação, que

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assim pode ser compartilhada, objetivamente, por todo o coletivo envolvido no programa em questão. Um

assim pode ser compartilhada, objetivamente, por todo o coletivo envolvido no programa em questão.

Um grupo de mútua ajuda envolve a cooperação na busca por soluções que beneficiem todos os atores da produção. É o meio de colocar a inteligência astuciosa a serviço do coletivo (DEJOURS, 1997), de modo compartilhado. Isso ocorre no espaço de deliberações ocupado pelo coletivo, em que a inteligência astuciosa, agora compartilhada e simbolizada, tende a suscitar mudanças na organização do trabalho e na segurança do trabalho. Segundo Dejours, a cooperação é a inteligência prática compartilhada e o espaço de deliberações, que implicam o trabalho vivo. A inteligência prática e individual, ou seja, a engenhosidade contribui para a ressignificação do sofrimento, mas se não transformada em cooperação, não consegue produzir mudanças na organização do trabalho (MENDES, 2008, p.

23).

Num grupo de mútua ajuda, ocorre o que Dejours (2006) denomina psicodinâmica do reconhecimento: reconhecimento, pelo outro, da contribuição do sujeito para a administração da defasagem entre organização prescrita e organização real do trabalho. A interação do trabalhador com o trabalho se dá em três dimensões necessárias para a psicodinâmica do reconhecimento. Uma delas é a dimensão da conduta, que envolve as relações interindividuais com o coletivo de trabalho.

Nos grupos de mútua ajuda (em situação de trabalho) ocorre a psicodinâmica do reconhecimento (DEJOURS, 2006), ou seja, reconhecimento pelos pares das contribuições do outro para suprir a lacuna entre organização prescrita e organização real do trabalho. Além disso, num grupo de mútua ajuda em situação de trabalho, ocorre o que esse autor identifica por fala autêntica, ou espaço coletivo de discussões e deliberações, no qual há autonomia para se falar e predisposição para uma escuta atenta daquilo que é dito. O que é dito é autenticamente ouvido pelo outro, num espaço de autonomia e equidade. Ou, segundo um ponto de vista bastante pertinente, dar visibilidade a essa dissonância na linguagem, entre operadores e projetistas (gestores, engenheiros), não é tarefa fácil, exigindo esforço metodológico: "A palavra do agente sobre o seu comportamento no trabalho é muito problemática e pode ser difícil para ele explicar e justificar seus atos, porque a linguagem não é feita para falar do trabalho" (DEJOURS, 1999, p. 50). Nos grupos de mútua ajuda, há a

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participação de gestores e operadores, num intercâmbio na linguagem profícuo em estabelecer compreensão recíproca.

participação de gestores e operadores, num intercâmbio na linguagem profícuo em estabelecer compreensão recíproca. Há, ainda, autores que postulam mesmo a existência de uma formação discursiva deficitária no que tange à descrição da ação dos operadores (no presente caso):

Raros são os discursos sobre o trabalho: J. Boutet (1993) faz essa constatação e formula a hipótese de uma formação discursiva deficitária. Para que se desenvolva a fala sobre o trabalho, além de um enraizamento na vivência, são também necessárias ocasiões e motivos (LACOSTE, 1999, p. 16). Ou, como nos descreve novamente Dejours (1999), nossa linguagem de administradores (ou de engenheiros) é inapta para descrever o real do trabalho, por se prender ao prescrito:

Para descrever o trabalho e justificar os atos do trabalho, dispomos de descrições feitas pelos administradores e engenheiros. Nossa linguagem sobre o trabalho é uma linguagem de engenheiros, inapta para descrever o real do trabalho (DEJOURS, 1999, p. 66). Como transpor para a linguagem essa inteligência astuciosa, esse saber-fazer arraigado no corpo, essa atividade subjetivante, de modo a permitir um coletivo compreender os acidentes de trabalho e os fenômenos psíquicos e cognitivos (tais como, segundo Amalberti (1996), os compromissos cognitivos) que nele interferem? Todo acidente envolve componentes subjetivas em sua ocorrência (ALMEIDA, 2006). Portanto, a melhoria das condições de segurança e trabalho passa, primeiramente, por uma compreensão dessas componentes subjetivas (psico-afetivas e cognitivas) e, posteriormente, pela interação com o universo psíquico dos atores, de modo a favorecer os mecanismos e compromissos, subjetivos e cognitivos, de enfrentamento dos riscos. O conhecimento que se traduz no trabalho prescrito não abrange a insondável e inesgotável amplitude do saber operatório mobilizado na atividade. O fenômeno de um acidente de trabalho, antes de ser um evento simples explicável por causalidade linear, como em alguns modelos biológicos e físicos, e/ou outros oriundos das ciências da natureza, é, ao contrário, um evento complexo por envolver uma causalidade múltipla que perpassa as dimensões social, psíquica e cognitiva da atividade de trabalho. Abarca, também, a atividade subjetivante dos coletivos de trabalho em diferentes organizações produtivas. Envolve, além de aspectos históricos manifestados no projeto de sistemas técnicos e

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de trabalho, inclusive os sistemas sociotécnicos, problemas e falhas latentes nos equipamentos e sistemas, que

de trabalho, inclusive os sistemas sociotécnicos, problemas e falhas latentes nos equipamentos e sistemas, que permaneceram implícitos, durante uma longa trajetória histórica, na própria atividade de trabalho. Os operadores, então, desenvolveram estratégias mentais, no campo de sua subjetividade, para lidar com essas falhas latentes. Mas essas estratégias permaneciam desconhecidas e sem visibilidade na linguagem. Por isso, a experiência do grupo de mútua ajuda se mostrou eficaz na segurança do trabalho: por dar visibilidade, na linguagem, a essas estratégias tácitas, e permitir o compartilhamento delas pelo coletivo (inclusive dos gestores, administradores e projetistas dos sistemas e do trabalho), de modo a fazer com que tais mecanismos e estratégias subjetivas, ao invés de serem coibidas e negligenciadas, fossem aprimoradas e favorecidas pela própria organização do trabalho. Nas organizações, é restrito ou inexistente o espaço para a compreensão, pela linguagem, desses riscos que são de domínio apenas dos operadores, em sua cognição situada e não compartilhada com gestores e planejadores do trabalho. Por isso, neste estudo, verificou-se que a experiência do grupo de mútua ajuda se mostra profícua para a segurança do trabalho: ela permite explicitar os riscos e estratégias tácitas de regulação neles envolvidas e a maneira de lidar com eles. Trata-se de uma partilha, pela linguagem, do próprio gênero (CLOT, 2004); partilha dos instrumentos coletivos (subjetivos) desenvolvidos para lidar com os riscos; partilha da subjetividade e da atividade subjetivante, antes distantes da linguagem e reclusas na ação incorporada dos indivíduos. Os saberes dos riscos e das falhas latentes, no âmbito das habilidades tácitas incorporadas, adquirem uma inteligibilidade simbólica perante os demais membros do coletivo, pela criação do importante espaço para a comunicação e intercompreensão (ZARIFIAN, 1999) entre os atores, espaço propiciado pela experiência do grupo de mútua ajuda. Isso tornou o trabalho mais seguro.

MÉTODOS DE PESQUISA A demanda da presente pesquisa foi apresentada ao Sindicato dos Trabalhadores das Empresas de Mineração, conforme descrito nas páginas seguintes. A partir da demanda inicial, foi montada uma equipe de pesquisa, envolvendo psicólogas, médico do trabalho, ergonomistas e bolsistas do CNPq. A equipe projetou o programa de mútua ajuda (Programa Hoje Não),

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colocou-o em funcionamento com 35 trabalhadores do setor de manutenção da empresa pesquisada e, ao

colocou-o em funcionamento com 35 trabalhadores do setor de manutenção da empresa pesquisada e, ao longo de três anos de pesquisa (entre 2006 e 2009), mediante os métodos aqui descritos, coletou dados, avaliou-os e obteve os resultados discutidos nas próximas páginas. Realizado no meio da semana de trabalho (todas as quartas-feiras), antes do início da jornada, o grupo de mútua ajuda envolvido no Programa Hoje Não, com 35 trabalhadores do setor de manutenção de uma grande empresa mineradora, reunia os operadores do setor de manutenção de equipamentos da empresa para expressarem, na dimensão da linguagem compartilhada por eles, suas experiências. Estas emergiam num discurso livre, conforme moldes da análise de discurso em psicossociologia (ENRIQUEZ, 1995) e Análise Ergonômica do Trabalho (AET) (WISNER, 1987; GUÉRIN, LAVILLE, DANIELLOU, DURAFFOURG, KERGUELEN, 2001). As verbalizações dos operadores, bem como suas expressões corporais e manifestações de emoções (comuns nas reuniões do Programa Hoje Não) foram gravadas em vídeo, para posterior análise pelo grupo de pesquisa e replanejamento das entrevistas subsequentes. Os métodos de entrevista empregados aproximam-se da observação participante (BECKER, 1997). Inicialmente, foram utilizados, também, questionários, visando a uma observação estruturada (LAVILLE, DIONNE, 1999) que buscou consolidar dados bastante objetivos, como grau de instrução dos observados, sexo, idade, tempo de trabalho no setor estudado, tempo de trabalho na empresa pesquisada, naturalidade, renda mensal, condições de moradia e situação familiar. Alguns desses dados, que se mostraram relevantes para o presente estudo, estão registrados no item "Resultados e Discussões" do presente texto. As entrevistas não estruturadas, segundo o modelo de observação participante (BECKER, 1997), tiveram o objetivo de elucidar as razões e motivos das ações dos operadores. De acordo com a Análise Ergonômica do Trabalho - AET (WISNER, 1987), o discurso dos trabalhadores a respeito da atividade de trabalho deve ser pautado pelos caracteres objetivos, concretos e contextualizados da própria atividade. Unicamente a observação exterior e sistemática dos comportamentos visíveis não possibilita um acesso aos compromissos cognitivos (AMALBERTI, 1996), às estratégias, às regulações dos riscos, aos mecanismos de defesa e aos saberes tácitos envolvidos na segurança do trabalho. Assim, a AET permitiu a explicitação das razões e motivos das ações e dos comportamentos observados e registrados em vídeo.

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Foi possível, então, aprofundar-se nas verbalizações dos operadores e em suas manifestações afetivas, emocionais e

Foi possível, então, aprofundar-se nas verbalizações dos operadores e em suas manifestações afetivas, emocionais e corporais, por intermédio dos recursos de gravação de som e imagem. Algumas situações de trabalho foram acompanhadas de perto pelos pesquisadores que, com autorização da empresa, puderam gravar, com uma câmera de vídeo, os comportamentos dos trabalhadores na realização de suas tarefas concretas do dia a dia. Essas imagens foram empregadas nas entrevistas e nas autoconfrontações, conforme proposto pela AET.

Técnicas da psicossociologia (ENRIQUEZ, 1995) que permitem dar espaço amplo ao discurso dos trabalhadores foram empregadas nas sessões realizadas com pequenos grupos de dois ou três operadores, simultaneamente entrevistados após o término das sessões do Programa Hoje Não, ou após o estudo das imagens e falas realizado pela equipe de pesquisa. O discurso, até certo grau livre, mediado pelo entrevistador e com condições de contorno dadas tanto pelas situações do trabalho quanto pelas vivências no trabalho (nos mesmos moldes das entrevistas de natureza psicossociológica) muitas vezes foi regredindo a momentos pretéritos, às vezes longinquamente situados na história de cada operador em sua atividade.

Pode-se, então, dizer que, por permitir elucidar melhor o objeto investigado, via esses resgates de situações vivenciadas no tempo pretérito da trajetória histórica (na atividade de trabalho) de cada trabalhador, o método da história de vida (BECKER, 1997; LAVILLE, DIONNE, 1999) não se desprendeu nem se isolou do discurso ora desencadeado pelas entrevistas situadas no domínio da psicossociologia e da AET. Significa, portanto, que discurso psicossociológico e discurso de história de vida caminharam integrados um ao outro na presente pesquisa. Parte das questões nas entrevistas posteriores às reuniões do Hoje Não foi formulada de forma contextualizada, conforme proposta da AET (WISNER, 1987), ou seja, referindo-se a situações concretas, da atividade de trabalho, que haviam sido relatadas nas reuniões do grupo de mútua ajuda ou previamente gravadas em vídeo. Com o auxílio das imagens, procurou-se, nesse tipo de entrevista, manter o verbo no presente e remeter o sujeito ao seu próprio comportamento, de acordo com aquilo que fora observado, gravado ou relatado. Questões do tipo "o que você

"o que faz você

está fazendo na

decidir por essa intervenção

foram largamente empregadas, conforme métodos de

verbalização propostos pela AET. O contexto das situações de trabalho se sobressai nessa

";

"como você sabe que

"etc.,

";

"quando é que você auxilia

";

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segunda fase. A objetividade, a reconstituição minuciosa das situações, as observações sistemáticas juntam-se e

segunda fase. A objetividade, a reconstituição minuciosa das situações, as observações sistemáticas juntam-se e buscam conduzir as falas, o discurso, culminando em momentos graves de confrontação daquilo que se diz com aquilo que se observa e que se tem, concretamente, numa situação real contextualizada (autoconfrontação).

RESULTADOS E DISCUSSÕES

O grupo de 35 trabalhadores referido foi tomado para estudo no então denominado

programa de mútua ajuda ou Programa Hoje Não. O universo da população estudada era composto por 35 atores do sexo masculino. Todos possuíam formação escolar até o ensino médio-profissionalizante (técnicos em manutenção e técnicos em mecânica). A média de idade era de 38 anos. O tempo médio de trabalho na empresa pesquisada, nesse mesmo setor de manutenção, era de oito anos.

O setor de manutenção foi escolhido porque até então era o que registrava o maior

número de ocorrências de acidentes com lesões graves, dentre os demais setores da empresa. Cerca de 39% dos casos de acidentes registrados na empresa, entre 1992 e 2005, envolviam o

setor de manutenção.

A implementação do Programa Hoje Não teve origem numa demanda apresentada pela

empresa ao Sindicato dos Trabalhadores de Empresas de Mineração. Após a apresentação da demanda, uma equipe foi montada pelo sindicato, envolvendo duas psicólogas (pesquisadoras nas áreas da Psicologia Social e da Psicologia do Trabalho), dois representantes da empresa (trabalhadores do próprio setor de manutenção), um ergonomista (pesquisador na área da

ergonomia), o médico do trabalho da empresa e dois bolsistas do CNPq. Essa equipe multidisciplinar ficou responsável pela elaboração do projeto experimental denominado Programa Hoje Não, que se estendeu por três anos: de 2006 a 2009.

A empresa de mineração estudada (empresa x) deparava-se com o seguinte problema:

Em 11 anos (de 1992 a 2003), conseguiu reduzir o número relativo de acidentes pessoais com lesões graves no trabalho, no seu setor de manutenção, em aproximadamente 80%. Mas os resultados estagnaram num patamar ainda inaceitável do ponto de vista da segurança do trabalho, o que será discutido a seguir. A redução verificada, de 80% nos acidentes, se deu, ao longo dos anos, por meio da aplicação de princípios dos "Sistemas de Segurança e Saúde Ocupacional -

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SSO", bastante frágeis do ponto de vista prático por ainda se pautarem excessivamente nas componentes

SSO", bastante frágeis do ponto de vista prático por ainda se pautarem excessivamente nas componentes prescritivas das tarefas. Vejamos. Em 1992, ocorreram 131 acidentes com lesões. Em 1995, esse número caiu para 101. Com progressivas reduções nos anos seguintes - 63 em 1999, 54 em 2000, 34 em 2001, 36 em 2002 - atingiu-se um patamar, em 2003, de 27 acidentes com lesões. De 2003 até 2005, o número de acidentes oscilou entre 25 e 28 (com lesões). Porém, a empresa não mais conseguiu reduzir os índices das ocorrências para além desse valor, apesar da sua insistência em empregar programas tradicionais de segurança do trabalho (que visam, sobretudo, ao comportamento dos operadores, sem espaço amplo para comunicação e diálogo no coletivo). O sindicado foi acionado, dando início ao objeto do presente estudo: o Programa Hoje Não. As melhorias significativas surgiram a partir de janeiro de 2006, quando teve início o Programa Hoje Não, não apenas focando o comportamento (como os programas tradicionais), mas principalmente fornecendo amplo espaço para o diálogo e os intercâmbios subjetivos no interior do grupo, verdadeiros espaços de deliberação coletiva, fortalecendo o gênero da atividade, conforme explicado anteriormente, e viabilizando a explicitação e compartilhamento, pelos atores, de suas próprias estratégias de regulação dos riscos e de suas habilidades tácitas empregadas na promoção da segurança (atividade subjetivante). Os resultados foram bastante significativos: nos anos de aplicação do Programa Hoje Não - 2006, 2007 e 2008, até janeiro de 2009 - o índice de acidentes com lesão, no setor de manutenção, caiu para o valor zero, algo nunca alcançado anteriormente pela empresa. No Programa Hoje Não, os resultados mostraram que os fatores subjetivos da atividade adquiriam relevância no coletivo, pelas experiências no grupo de mútua ajuda. A subjetividade surgia sempre em íntima relação com os fatores técnicos, organizacionais e econômicos, compreendidos em sua relação com as condições reais da atividade de trabalho. Verificou-se que a nova abordagem adotada pela equipe de pesquisa para o estudo experimental colocava em relevo as componentes cognitivas e psíquicas, individuais e coletivas, da atividade de trabalho, e acabava por explicitar os compromissos cognitivos tecidos como forma de efetuar a regulação dos riscos na atividade de trabalho (AMALBERTI, 1996). Observou-se, com o devido rigor metodológico, que estes podiam ser compartilhados no programa experimental de mútua ajuda. Verificou-se que o Programa Hoje Não criava um

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espaço coletivo para deliberação, acordo e intercompreensão na dimensão da linguagem, o que reforçava os

espaço coletivo para deliberação, acordo e intercompreensão na dimensão da linguagem, o que reforçava os elementos essenciais para a segurança do trabalho (ao invés de negligenciá-los). Ou seja, as análises revelaram que os fenômenos de grupo, que punham em destaque as dimensões intersubjetivas tecidas por intermédio da linguagem, favoreciam a percepção e a tomada de consciência, por parte dos atores, de sua atividade subjetivante, bem como de suas estratégias e mecanismos de regulação dos riscos e dos seus compromissos cognitivos estabelecidos para manter a segurança. Isso potencializava a segurança do trabalho pelo reforço do gênero (CLOT, 2004), potencializando a partilha deste "mundo comum" (PASTRÉ, 2005) repleto de instrumentos, saberes, códigos e regras tácitas fundamentais para a regulação e o enfrentamento dos riscos na atividade de trabalho. Nas reuniões que envolviam os 35 membros do grupo de mútua ajuda, os casos e diálogos forneceram resultados preciosos para análise e discussão. As descrições dos resultados aqui presentes são relatos, com o máximo grau de fidelidade, dos acontecimentos. Porém, conforme combinado com os participantes, os nomes verdadeiros foram preservados, sendo substituídos por pseudônimos. Os depoimentos não são, neste estudo, a fonte principal de material empírico para análise, mas parte dela. Os depoimentos e relatos feitos pelos atores estão, então, colocados aqui como uma forma de exemplo ou fotografia parcial daquilo que se passa no real do trabalho, e que foi concretamente observado e analisado por diferentes métodos de pesquisa, conforme anteriormente explicado. As constatações e discussões de resultados mais substanciais para esta pesquisa foram provenientes não apenas dos depoimentos aqui expostos, mas, conforme já explicado, das múltiplas análises realizadas tendo como objeto o trabalho real e o real do trabalho: observações sistemáticas, entrevistas contextualizadas, autoconfrontações, gravações em som e em vídeo etc. Em decorrência disso, e também por uma questão de espaço disponível, neste texto, apenas alguns casos (dentre 68 avaliados) serão brevemente relatados. As considerações e discussões dos dados, resultados e análises, entretanto, tomaram por base todo o material empírico obtido ao longo dos três anos de pesquisa.

ALGUNS RELATOS DAS ESPERIÊNCIAS DO GRUPO

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Um dos trabalhadores inicia a reunião fazendo uma prece. É observado que, a partir desse

Um dos trabalhadores inicia a reunião fazendo uma prece. É observado que, a partir desse momento, o ente empresa parece desaparecer e todos os entrevistados, após o ocorrido, se diziam sentir "irmanados em um pensamento de bem-estar comum". O trabalhador, então, lança a pergunta que sempre abria todos os encontros: "Por que hoje eu não vou me acidentar ou deixar que meu colega se acidente?" Os depoimentos começam. Um olhar coletivo identifica, sem ao menos uma palavra, qual colega deseja se manifestar.

PRIMEIRO RELATO

O Técnico de manutenção Jorge começa seu depoimento, contando que é o aniversário

de sua filha de quatro anos e que ele está muito feliz. Por isso, não vai se acidentar nem deixar que seu compadre Gerson, padrinho de sua filha e eletricista de sua equipe, se acidente (lágrimas são verificadas nos olhos de Jorge). Todos aplaudem. Jorge fala das atividades da semana e que no dia anterior realizou uma tarefa em que teve muitas dificuldades em substituir escovas dos

motores em determinado equipamento.

O trabalhador verbaliza que gostaria de saber se alguém tem a mesma dificuldade e se

alguém sabe de uma maneira mais fácil, porém correta, de executar essa tarefa. Imediatamente, dois outros colegas se manifestam, confirmando a dificuldade para realizá-la. Um terceiro participante propõe a revisão do procedimento de substituição das escovas, sugerindo duas alterações.

O gerente da área oferece apoio técnico para a pesquisa da viabilidade das alterações, o

que é prontamente aceito por todos. Os envolvidos comprometem-se a apresentar os resultados

das eventuais melhorias na próxima reunião. Os outros membros do grupo agradecem Jorge pela oportunidade de identificar uma fonte de erro potencial da máquina. Todos aplaudem o companheiro. Segundo Jorge, participar do Hoje Não é o momento em que ele se sente mais valorizado na empresa.

SEGUNDO RELATO

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O mecânico Ailton começa seu depoimento lembrando das dificuldades da área de manutenção no passado,

O mecânico Ailton começa seu depoimento lembrando das dificuldades da área de

manutenção no passado, quando os recursos ferramentais eram escassos e o ambiente de trabalho não era bom. Refere-se ao predomínio de relações hierárquicas ríspidas que existiam até mesmo entre os colegas. Com a voz trêmula, o mecânico Ailton relata um incidente ocorrido com ele em uma tarefa de substituição de componentes. O trabalhador conta a seus colegas que se esqueceu de realizar um passo importante da tarefa que executava - aplicar calço nas rodas do equipamento. "Esse erro quase me levou ao acidente, pois houve uma pequena movimentação do equipamento em decorrência da falta dos calços. Por sorte, eu estava trabalhando sozinho" afirma Ailton. Outros membros do círculo relatam que esse esquecimento não é exclusividade de Ailton e que isso já havia acontecido anteriormente com outras pessoas. Então os integrantes, entre si, começam a se questionar: "O que podemos fazer para evitar esses esquecimentos?" A resposta é quase imediata: "Mudar os calços de lugar e deixá-los próximos aos boxes de manutenção." O gerente do se-tor consente com a observação dos operadores. Ailton é aplaudido. Declara, ao grupo de pesquisa e aos demais integrantes do Programa Hoje Não, que seu coração parece que vai saltar pela boca na hora de falar. Diz sentir-se emocionado e pensar na família nas sessões do programa. Ailton também chora e recebe aplausos.

TERCEIRO RELATO

O controlador de máquinas operatrizes, João, reclama que todas as vezes que ele

necessita utilizar o moto-esmeril, esbarra a cabeça na luminária. Ele alerta que caso a lâmpada se

quebre, poderá se cortar ou até mesmo sofrer um choque elétrico, visto que os filamentos da lâmpada e outras partes energizadas da luminária podem ficar expostos. João lembra que o equipamento foi adquirido há 15 anos e, desde então, todos convivem naturalmente com a condição sem perceber o risco de acidentes. Um dos eletricistas da equipe, Lúcio, se oferece para mudar a luminária de posição, pois, segundo ele, trata-se de uma coisa simples. Ele assume esse compromisso com João e com os demais. Todos aplaudem o depoimento de João e a iniciativa de Lúcio.

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Com lágrimas nos olhos, emocionado com a atitude do colega em se preocupar, João afirma

Com lágrimas nos olhos, emocionado com a atitude do colega em se preocupar, João afirma que foi a maior prova de companheirismo que já recebeu em todos os seus 20 anos como trabalhador na empresa. Nas narrativas nesses três casos, é possível captar o modo como os indivíduos vivenciam intensamente seus dramas, negociam e legitimam a condição de exposição aos fatores de riscos do trabalho, ao mesmo tempo em que modulam sua subjetividade. O que ressalta nessas narrativas é a compreensão da exposição aos fatores de risco, vivenciada como uma experiência- problema coletiva e compartilhada, e os compromissos cognitivos (AMALBERTI, 1996) que são estabelecidos na regulação dos riscos. Nos fenômenos de grupo, ocorre a psicodinâmica do reconhecimento, ou seja, reconhecimento pelo outro do esforço que o colega exercita para suprir a lacuna entre trabalho prescrito e trabalho real. As melhorias são possíveis pelo consentimento dos responsáveis pela organização do trabalho e pelo projeto das tarefas, que sempre estão presentes nas reuniões do Hoje Não. A relação entre subjetividade e segurança do trabalho é dada pela interseção entre as componentes afetivas e cognitivas da atividade. A mobilização, no grupo, de sentimentos e emoções (e, em alguns casos, sensações) promove a explicitação dos compromissos cognitivos envolvidos na regulação dos riscos na atividade de trabalho e permite ao gênero (CLOT, 2004), instrumento cognitivo que ampara a ação dos indivíduos, funcionar efetivamente como instrumento de segurança do trabalho. Outro fenômeno notável é a expressão de preocupação e atenção com o outro, em um verdadeiro exercício de empatia. Numa primeira aproximação às práticas do grupo de mútua ajuda, é percebida uma sensibilidade social centrada no reconhecimento simbólico do outro. Visto dessa forma, pode-se dizer que o grupo se pauta no seu interior por uma verdadeira ética da alteridade, na qual o apoio mútuo e a reciprocidade entre seus membros é a pedra de toque para o fenômeno da cognição compartilhada e da intersubjetividade. Todo trabalhador recebe periodicamente um bloco de formulário para registro de condições inadequadas, conforme padrão adotado para toda a empresa. O primeiro resultado observado em curto prazo foi o aumento significativo desses registros preenchidos pelos

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operadores participantes do Hoje Não. Obteve-se uma média superior a 90% em relação à média

operadores participantes do Hoje Não. Obteve-se uma média superior a 90% em relação à média de registros detectada antes do início das experiências do programa. Em um segundo momento, ocorreu o aumento nas comunicações e registros dos incidentes ou quase acidentes de maneira formal. Isso se explica pelo fato de os participantes do programa sentirem confiança no sistema de cognição e afetividade partilhadas (percepção e subjetividade) fomentado no programa de mútua ajuda e maior confiança nos gestores que dele participam. O relato de incidentes é considerado importante para que medidas de neutralização sejam aplicadas imediatamente, buscando anular a probabilidade de ocorrência de acidentes com vítimas ou com danos materiais. O resultado considerado mais importante pela empresa foi a redução do número de acidentes pessoais envolvendo os empregados da oficina de manutenção de equipamentos. Não houve registros de ocorrências desde janeiro de 2006 até janeiro de 2009 fato surpreendente segundo os gestores, reconhecido como fruto da aplicação das soluções propostas pelo grupo. A organização do trabalho adquire uma nova plasticidade pela experiência do Hoje Não, possibilitando o efetivo exercício de estratégias e regulações, em situações concretas, para fazer frente aos riscos da atividade real. Essas modificações concretas na organização do trabalho são legitimadas pela efetivação do gênero (CLOT, 2004) como instrumento coletivo que apoia e dá suporte às ações individuais, enquanto reservatório de competências, saberes e normas tácitas não formalizados. A organização do trabalho e a gestão do setor de manutenção adquiriram um grau de compreensão refinada do trabalho real, algo raro no cenário das organizações produtivas modernas, ao ponto de reconhecerem a organização do trabalho real, com suas estratégias e regulações, individuais e coletivas, para lidar com os riscos da atividade de trabalho. Isso permitiu que diversas modificações nas tarefas e no trabalho prescrito fossem efetuadas, no senti-do de ampliar o escopo da segurança do trabalho no setor estudado. A reorganização de diversas tarefas foi proposta no programa Hoje Não e elas foram efetivamente implementadas. Isso comprova a força e o desempenho do coletivo no sentido de propor ações efetivas para eliminar as restrições e constrangimentos às estratégias de regulação necessárias para a segurança. Essas melhorias envolviam desde a simples instalação de placas para sinalização, até o rearranjo dos passos em dada tarefa para minimizar as probabilidades de erro. Essas ações

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objetivavam sempre aproximar as tarefas prescritas com a realidade de campo vivenciada pelos operadores em

objetivavam sempre aproximar as tarefas prescritas com a realidade de campo vivenciada pelos operadores em seu trabalho real, em suas formas de gerenciar o risco mediante complexos compromissos cognitivos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo não teve o objetivo de polemizar sobre as questões positivas ou negativas da gestão da subjetividade nas organizações contemporâneas. Apenas constatou que a criação de um espaço coletivo para intercâmbios subjetivos, aplicada em um grupo piloto de 35 trabalhadores de um setor de manutenção, reduziu os índices de acidentes a patamares tão baixos quanto nunca alcançados em 11 anos. As limitações deste estudo referem-se ao fato de ter sido aplicado a um pequeno grupo de trabalhadores, num único setor de uma empresa com mais de 1.000 trabalhadores. No entanto, fica como sugestão para trabalhos futuros verificar e validar a hipótese ora proposta com grupos maiores ou com setores maiores divididos em subgrupos. Limitações à parte, não há como negar que algo de relevante ocorreu no grupo estudado. Desde as manifestações de emoção apresentadas, bem como o senso de partilha de sofrimentos, angústias e reveses do trabalho, até as drásticas reduções nos índices de acidentes, nunca a equipe de pesquisa envolvida neste trabalho havia presenciado um fenômeno tão forte envolvendo coordenadas subjetivas (psíquicas e afetivas) de um grupo e coordenadas tão concretas como as enormes reduções reais dos acidentes obtidas desde a implantação do Programa Hoje Não. Não se pode deixar de relatar que este estudo se apoiou, teórica e metodologicamente, nos trabalhos da escola dejouriana, de análise da subjetividade, e na clínica da atividade, de Yves Clot, em suas incursões pelo terreno das relações intersubjetivas, tendo como mediador o trabalho real. Os resultados permitem constatar que a dimensão da subjetividade (mobilizada na experiência do grupo de mútua ajuda) foi a força motriz da melhoria da segurança do trabalho, aliada a modificações concretas na organização, nas condições e nos processos de trabalho, bem como nos instrumentos e modos de execução do trabalho (facilitadas e viabilizadas pelo intenso envolvimento dos gestores no próprio programa) e, principalmente, aliada ao maior grau de

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autonomia que foi concedido aos trabalhadores por intermédio da experiência do grupo de mútua ajuda.

autonomia que foi concedido aos trabalhadores por intermédio da experiência do grupo de mútua ajuda. Autonomia para "usar de si" no trabalho, da forma que se apresentasse, de acordo com a situação e com o contexto, mais eficaz para a garantia da segurança. Autonomia para propor modificações no próprio trabalho, as quais não figuravam apenas como meras sugestões, mas chegavam, de fato (em parte pela atitude e pela iniciativa de transformação dos gestores) a se transformarem em modificações concretas na organização e nas condições de trabalho. Isso somente foi possível pela capacidade do programa de mútua ajuda em colocar, num mesmo mundo ou domínio de interações e de discussões (e de intercompreensão), atores até então isolados em mundos distintos de atuação: gestores e trabalhadores.

Referências deste texto:

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O ENGENHEIRO DE SEGURANÇA DO TRABALHO NO CONTEXTO CAPITAL E TRABALHO O PAPEL E AS

O ENGENHEIRO DE SEGURANÇA DO TRABALHO NO CONTEXTO CAPITAL E TRABALHO

O PAPEL E AS RESPONSABILIDADES DO ENGENHEIRO DE SEGURANÇA DO

TRABALHO

De uma maneira normativa e prescritiva, os Engenheiros de segurança são especialistas que têm como objetivo prevenir a ocorrência de acidentes e doenças dentro da empresa. Externos

às situações de trabalho, agem sobre as máquinas e sistemas (projeto de sistemas de proteção), sobre os trabalhadores (treinamentos) e sobre as normas e procedimentos. As responsabilidades do Engenheiro de Segurança do Trabalho, enquanto integrante do Serviço Especializado em Segurança e Medicina do Trabalho SESMT, também estão estabelecidas na Norma Regulamentadora n.4, dentre as quais destacam-se:

aplicar os conhecimentos de engenharia de segurança do trabalho ao ambiente de trabalho e a todos os seus componentes, inclusive máquinas e equipamentos, de modo a reduzir até eliminar os riscos ali existentes à saúde do trabalhador;

colaborar, quando solicitado, nos projetos e na implantação de novas instalações físicas e tecnológicas da empresa;

responsabilizar-se tecnicamente pela orientação quanto ao cumprimento do disposto nas NR aplicáveis às atividades executadas pela empresa e/ou seus estabelecimentos;

promover a realização de atividades de conscientização, educação e orientação dos trabalhadores;

esclarecer e conscientizar os empregadores sobre acidentes do trabalho e doenças ocupacionais, estimulando-os em favor da prevenção;

analisar e registrar em documento(s) específico(s) todos os acidentes e doenças ocupacionais ocorridos na empresa ou estabelecimento.

O CONTEXTO CAPITAL E TRABALHO

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Se tomarmos como parâmetro a crise econômica que vem se tornando crescente em vários países,

Se tomarmos como parâmetro a crise econômica que vem se tornando crescente em vários países, podemos considerar que o momento é de muita reflexão e ponderação e para o Engenheiro de Segurança do Trabalho é momento de perceber que sua atuação vai além das normas e prescrições da profissão. O ambiente de trabalho está sofrendo pressões, existem casos específicos que ele precisa ficar atento, pois nesses momentos de crise, as relações entre capital e trabalho acabam ficando discrepantes e muitas vezes, insatisfatórias para ambos os lados. Amenizar conflitos deve ser, então, uma das habilidades a ser desenvolvida por esse profissional. Embora pareça, ao contrário de outras engenharias, a Engenharia de Segurança do Trabalho não é uma ciência exata. Sobre ela existem vários olhares. Ela relaciona um leque abrangente de ideias multifuncionais, com diversos setores. Lida com pessoas, com equipamentos, com gerenciamento, com liderança e acaba por ser um elo entre empregados e empregadores, devendo ser coerente e equilibrado em suas ações e atitudes. Enfim, as organizações empresariais, por meio de seu Engenheiro de Segurança têm como responsabilidade integrar o cuidado para com a saúde e a segurança do trabalhador com a preservação do meio ambiente. Este profissional, portanto, precisa estar sempre se atualizando, observando as várias perspectivas, os horizontes que vão surgindo, sem esquecer a importância de equilibrar as relações entre o capital e o trabalho.

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ACIDENTES DE TRABALHO O paradigma cultural predominante no Brasil em relação à SST baseia-se na

ACIDENTES DE TRABALHO

O paradigma cultural predominante no Brasil em relação à SST baseia-se na visão de que

o sistema técnico é confiável e o ser humano constitui o elo frágil da corrente. As falhas humanas são consideradas decorrentes de fatores individuais e do desrespeito às normas

prescritas, fruto de decisões “conscientes” dos trabalhadores. Nesse contexto as medidas adotadas quase sempre se resumem a punições e a “treinamentos” (BRASIL, 2010).

A realidade brasileira em SST é extremamente heterogênea. Gera desde eventos adversos

de diagnóstico evidente até situações complexas que demandam estudos aprofundados. Em situações de incidência elevada de acidentes do trabalho geralmente os problemas são identificados com relativa facilidade. Nesses casos, o desrespeito à legislação é flagrante e as ações de prevenção são óbvias. Em sistemas com baixa incidência de acidentes, sua ocorrência depende da combinação de múltiplos fatores que, por não se apresentarem de forma explícita na situação de trabalho habitual, dificilmente são identificados por meio das avaliações de segurança clássicas (BRASIL,

2010).

Muitas são as definições de acidente, e variam segundo o enfoque que pode ser legal, prevencionista, ocupacional, estatístico, previdenciário, entre outros, como veremos nesta introdução ao curso de Engenharia de Segurança do Trabalho.

CONCEITUAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO ACIDENTE é um evento indesejável e inesperado que produz desconforto, ferimentos, danos, perdas humanas e/ou materiais. Um acidente pode mudar totalmente a rotina e a vida de uma pessoa, modificar sua razão de viver ou colocar em risco seus negócios e propriedades (UNESP, 2010). Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o acidente não é obra do acaso e nem da falta de sorte. Denomina-se SEGURANÇA, a disciplina que congrega estudos e pesquisas visando eliminar os fatores perigosos que conduzem ao acidente ou reduzir seus efeitos. Seu campo de

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atuação vai desde uma simples residência até complexos conglomerados industriais (UNESP, 2010). Sob o ponto

atuação vai desde uma simples residência até complexos conglomerados industriais (UNESP,

2010).

Sob o ponto de vista dos especialistas em Segurança, os acidentes são causados por fatores conhecidos, previsíveis e controláveis. Milhares podem ser as causas de um simples acidente, entretanto todas elas podem ser agrupadas em duas categorias:

Condição Insegura;

Ato Inseguro.

Outras definições importantes que balizam todo o conteúdo são:

EVENTO ADVERSO: qualquer ocorrência de natureza indesejável relacionada direta ou indiretamente ao trabalho, incluindo:

ACIDENTE DE TRABALHO: ocorrência geralmente não planejada que resulta em dano à saúde ou integridade física de trabalhadores ou de indivíduos do público. Exemplo: andaime cai sobre a perna de um trabalhador que sofre fratura da tíbia. INCIDENTE: ocorrência que sem ter resultado em danos à saúde ou integridade física de pessoas tinha potencial para causar tais agravos. Exemplo: andaime cai próximo a um trabalhador que consegue sair a tempo e não sofre

lesão.

CIRCUNSTÂNCIA INDESEJADA: condição, ou um conjunto de condições, com potencial de gerar acidentes ou incidentes. Exemplo: trabalhar em andaime fixado inadequadamente (instável). TRABALHADOR: pessoa que tenha qualquer tipo de relação de trabalho com as empresas envolvidas no evento, independentemente da relação de emprego. INDIVÍDUO DO PÚBLICO: pessoa que não sendo trabalhador sofra os efeitos de eventos adversos originados em processos de produção ou de trabalho, tais como visitantes, transeuntes e vizinhos. PERIGO: fonte ou situação com potencial para provocar danos. RISCO: exposição de pessoas a perigos. O risco pode ser dimensionado em função da probabilidade e da gravidade do dano possível.

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CAUSAS DE ACIDENTES: FATOR PESSOAL, ATO INSEGURO As pessoas reconhecem com maior facilidade as condições

CAUSAS DE ACIDENTES: FATOR PESSOAL, ATO INSEGURO As pessoas reconhecem com maior facilidade as condições inseguras, que os atos inseguros. Por exemplo, um indivíduo ao abalroar o veículo que vai a sua frente, facilmente atribuirá a causa do acidente a: defeito nos freios; parada brusca do veículo dianteiro; pista molhada, entre outros. Este mesmo indivíduo terá muita dificuldade em admitir que a causa foi um ato inseguro decorrente de não ter mantido a mínima distância necessária, em relação ao veículo da frente, para uma parada de emergência. Estatisticamente sabe-se que os atos inseguros são responsáveis por mais de 90% dos acidentes das mais diversas naturezas. Uma condição insegura normalmente é o resultado do ato inseguro de alguém ao longo do desencadeamento do acidente. A implosão parcial de um shopping center, devido ao vazamento de GLP 2 , é o resultado de uma condição insegura criada pelo ato inseguro daqueles que não deram tratamento técnico adequado ao projeto e ao local. O ato inseguro normalmente decorre de situações tais como:

Excesso de confiança;

Agir sem ter conhecimento específico do que está fazendo;

Não valorizar medidas ou dispositivos de prevenção de acidentes;

Exceder limites de máquinas, veículos ou do corpo humano;

Uso de veículos para fins de demonstração e não transporte;

Imprudência e negligencia;

Improvisações.

No Brasil, os acidentes nas rodovias são causadores de milhares de mortos e feridos, vindo a seguir os acidentes na construção civil e na indústria. Nos países desenvolvidos medidas preventivas e de segurança de caráter individual ou coletivo são aplicadas e praticadas pela maioria de seus cidadãos, ao passo que nos países em desenvolvimento ainda são largamente inexistentes ou ignoradas. Em alguns destes países a legislação apresenta alguns absurdos como compensação monetária pela exposição ao risco

2 Gás Liquefeito de petróleo uma mistura de gases de hidrocarbonetos geralmente usados como combustível.

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(periculosidade, insalubridade), fazendo com que empregados e empregadores concentrem suas atenções no custo da

(periculosidade, insalubridade), fazendo com que empregados e empregadores concentrem suas atenções no custo da exposição e não na eliminação da mesma (ST, 2006). Estes conceitos apresentados não só parecem como realmente podemos considerar como primários, mas infelizmente a maior parcela da população não se preocupa com a segurança como deveria, daí as estatísticas manterem-se altas, necessitando de uma política e programas de educação para a segurança nos vários tipos de trabalho. São vários os princípios de segurança que já salvaram muitas vidas, sendo relacionados abaixo os mais básicos e simples de seguir.

1. Reconhecer suas limitações:

Não tente realizar um trabalho para o qual você não está qualificado. A falta de conhecimentos e o jeitinho podem trazer consequências lamentáveis. Seu corpo também tem

limitações, ele só pode alcançar até determinada altura e levantar determinado peso.

2. Ler os manuais antes de operar algo:

Entenda a intenção do fabricante de determinado dispositivo e para quê e dentro de que limites foi projetado para atuar. Os manuais não foram feitos para serem usados só em caso de

dúvidas e sim permitir a correta utilização de determinado dispositivo.

3. Usar ferramentas apropriadas Cada ferramenta tem limitações e um propósito específico de utilização. As ferramentas

e máquinas têm uma maneira inesperada e violenta de protestarem quando ao seu uso inadequado.

4. Usar o método apropriado:

Não utilize improvisações ou de nenhum método para realizar determinada tarefa,

trabalho ou atividade.

5. Seguir regulamentos, sinalizações e instruções:

Eles foram idealizados para protegê-lo. Um sinal de pare, pode indicar que naquele

local muitas pessoas já se acidentaram.

6. Usar bom senso e moderação:

Existe uma grande diferença entre eficácia e pressa. Um ritmo consistente e progressivo

permitirá atingir os objetivos a médio e longo prazo.

7. Valorizar sua vida e a dos outros:

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Haja e pense como ser humano que é, não permita que o instinto prevaleça. CONDIÇÕES

Haja e pense como ser humano que é, não permita que o instinto prevaleça.

CONDIÇÕES AMBIENTAIS DE SEGURANÇA Quanto às condições de ambiente de segurança podemos definir como a condição do meio que causou o acidente ou contribuiu para a sua ocorrência; incluindo a atmosfera do local de trabalho até as instalações, equipamentos, substâncias e métodos de trabalho empregados. Na identificação das causas do acidente é importante evitar a aplicação do raciocínio imediato, devendo ser levados em consideração fatores complementares de identificação das causas de acidentes. Tais causas têm a sua importância no processo de análise, como, por exemplo, a não existência de Equipamento de Proteção Individual (EPI), mas não são suficientes para impedir novas ocorrências semelhantes. Para a clara visualização deve-se sempre perguntar o “por quê”, ou seja, por que o empregado deixou de usar o EPI disponível? Liderança Inadequada? Engenharia Inadequada? É indispensável também a apuração das “causas gerenciais”, como a “falta de controle” – inexistência de padrões ou procedimentos, como ventilação inadequada, empilhamento inadequado e proteção coletiva inadequada ou inexistente.

CONSEQUÊNCIAS DO ACIDENTE Dentre as consequências dos eventos adversos que levam aos acidentes temos os tipos:

Fatal: morte ocorrida em virtude de eventos adversos relacionados ao trabalho.

Grave: amputações ou esmagamentos, perda de visão, lesão ou doença que leve a perda permanente de funções orgânicas (por exemplo: pneumoconioses fibrogênicas, perdas auditivas), fraturas que necessitem de intervenção cirúrgica ou que tenham elevado risco de causar incapacidade permanente, queimaduras que atinjam toda a face ou mais de 30% da superfície corporal ou outros agravos que resultem em incapacidade para as atividades habituais por mais de 30 dias.

Moderado: agravos à saúde que não se enquadrem nas classificações anteriores e que a pessoa afetada fique incapaz de executar seu trabalho normal durante três a trinta dias.

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 Leve: todas as outras lesões ou doenças nas quais a pessoa acidentada fique incapaz

Leve: todas as outras lesões ou doenças nas quais a pessoa acidentada fique incapaz de executar seu trabalho por menos de três dias.

Prejuízos: dano a uma propriedade, instalação, máquina, equipamento, meio- ambiente ou perdas na produção.

LESÃO PESSOAL E PREJUÍZO MATERIAL

O acidente é, por definição, um evento negativo e indesejado do qual resulta uma lesão

pessoal ou dano material. Essa lesão pode ser imediata (lesão traumática) ou mediata (doença profissional). Assim, caracteriza-se a lesão quando a integridade física ou a saúde são atingidas. O acidente, entretanto, caracteriza-se pela existência do risco.

A lesão pessoal inclui tanto lesões traumáticas e doenças, quanto efeitos prejudiciais

mentais, neurológicos ou sistêmicos, resultantes de exposições do trabalho. Quanto ao prejuízo material este é decorrente de danos materiais, perda de tempo e outros ônus resultantes de acidente do trabalho, inclusive danos ao meio ambiente (NBR 14280) AGENTE DA LESÃO - É o local, o ambiente, o ato, enfim, o que possa ser o causador

da lesão.

A FONTE DA LESÃO - É o objeto que, agindo sobre o organismo, provocou a lesão.

Pode ser uma coisa, substância, energia ou movimento do corpo que diretamente provocou a lesão.

Torna-se importante estabelecer como foi o contato entre a pessoa lesionada e o objeto ou movimento que a provocou (queimadura, corte, fratura, etc.) e sua localização que permite, muitas vezes, identificar a fonte da lesão e indicar, também, certas frequências em relação a alguns fatores de insegurança para os procedimentos necessários à sua futura prevenção.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS REFERÊNCIAS BÁSICAS GARCIA, Gustavo Filipe Barbosa (org.). Legislação de Segurança e

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