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Casa da ISSN 0100-6541

Ano 18 - N.º 2
abr./mai./jun./2015

Agricultura

Olericultura
Olerícolas: geração

Editorial
de empregos no campo;

Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI


diversidade e qualidade no
prato da população

F
olhosas, raízes, bulbos, tubérculos e frutos está em constante crescimento e muito se deve, além
integram a olericultura, uma área da horticul- da mudança dos hábitos alimentares da população,
tura que abrange a exploração de um grande ao incremento tecnológico nos campos, o qual sem a
número de espécie de plantas, conhecidas como hor- pesquisa, a assistência técnica e a extensão rural, não
Governador do Estado taliças. São várias espécies de verduras, legumes e fru- teria tantos resultados positivos. Hoje em dia é pos-
Geraldo Alckmin tos em cultivo comercial, que oferecem ao mercado sível trabalhar e obter um aumento da produtivida-
um mix de produtos ricos em vitaminas e sais mine- de, com mais qualidade, diminuição do desperdício e
Secretário de Agricultura e Abastecimento rais, que atendem consumidores exigentes os quais usando, de forma racional, os recursos hídricos.
Arnaldo Jardim prezam por uma alimentação cada vez mais saudável
Com o objetivo de melhorar o acesso ao mercado
e buscam, além de cores e sabores, frescor, qualidade
Secretário-Adjunto olerícola paulista, por meio de adoção de Boas Práticas
e segurança alimentar, sem deixar de lado o respeito
Rubens Naman Rizek Junior Agrícolas (BPA) e de estratégias adequadas ao merca-
ao meio ambiente.
do, a CATI executa o Projeto da Cadeia Produtiva de
Chefe de Gabinete De acordo com o Levantamento Censitário Olericultura, com metas que incluem a capacitação
Omar Cassim Neto das Unidades de Produção Agropecuária (LUPA de produtores em utilização de ferramentas de ges-
2007/2008), elaborado pela Coordenadoria de tão administrativa e BPA no fortalecimento de organi-
Coordenador/Assistência Técnica Integral Assistência Técnica Integral (CATI), órgão da Secretaria zações de produtores; e a instalação de Unidades de
José Carlos Rossetti de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Adaptação de Tecnologia.
Paulo, a olericultura está amplamente distribuída em
Diretor/Departamento de Comunicação e Treinamento A instituição também atua na capacitação con-
todo o território paulista, havendo uma concentração
Ypujucan Caramuru Pinto tínua dos seus técnicos e de produtores rurais, para
no entorno das regiões metropolitanas, nos chama-
que possam acessar políticas públicas como os pro-
Diretor/Departamento de Sementes, Mudas e Matrizes dos cinturões verdes. São mais de 42 mil Unidades de
gramas federais de Aquisição de Alimentos (PAA) e de
Edson Luiz Coutinho Produção Agropecuária (UPAs), que produzem pelo
Alimentação Escolar (PNAE), e o Programa Paulista da
menos uma espécie olerícola. No Brasil, São Paulo é o
Agricultura de Interesse Social (PPAIS).
Estado que possui o maior setor produtivo, com 20%
da produção e é também o principal mercado consu- Nas próximas páginas desta edição da Revista
midor, que absorve 22% do que é produzido. Casa da Agricultura, você poderá ler nos artigos e nas
reportagens o que há de mais significativo sobre as
Outro dado extremamente relevante da cadeia
Boas Práticas na produção e comercialização; o uso de
é o do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e
defensivos; as tendências de mercado; as linhas de
Comércio Exterior, que revela que a olericultura é fa-
crédito; as diversas formas de produção; vai se inteirar
tor de empregabilidade com baixo investimento ini-
sobre o mercado de orgânicos, agroecológicos, horta-
cial de capital pois, a cada R$ 5 mil investidos na ativi-
liças não convencionais, hortas periurbanas, políticas
dade, pode-se gerar até dois empregos diretos. Além
públicas, alternativas de combate ao desperdício; e vai
disso, o cultivo de verduras e legumes gera mais lucro
conhecer histórias de produtores que impulsionam a
por hectare do que outras culturas, principalmente se
olericultura e fazem com que o cenário mercadológi-
falarmos em cultivo protegido e hortaliças diferencia-
co para os próximos anos seja bastante positivo.
das.
É fato que a produção brasileira de hortaliças, re- Boa leitura! José Carlos Rossetti
alizada com predominância da agricultura familiar, Coordenador da CATI
Edição e Publicação - Cecor/CATI

Expediente

Sumário
4 Entrevista
Departamento de Comunicação e Treinamento – DCT 7 Hortaliças: negócio do futuro ou do presente?
Diretor: Ypujucan Caramuru Pinto
Centro de Comunicação Rural - Cecor 10 Boas Práticas Agrícolas na produção de hortaliças
Diretora: Roberta Lage
Editora responsável: Jorn. Roberta Lage (MTB 43.382-SP)
12 Hortaliças de qualidade: exigência do consumidor, dever de toda a cadeia produtiva
Coeditora: Jorn. Graça D’Auria (MTB 18.760-RJ 14 Irrigação – escolha do sistema depende de avaliação e planejamento
Revisor: Carlos Augusto de Matos Bernardo
Reportagens: Jornalistas Cleusa Pinheiro (MTB 28.487-SP), Graça 16 Comercialização e Marketing de Hortaliças
D’Auria (MTB 18.760-RJ), Roberta Lage (MTB 43.382-SP).
19 Agregação de valor e tendências de mercado em hortaliças
Supervisão técnica dos textos: Gilberto J. B. de Figueiredo 22 Manejo do solo, calagem e adubação de hortaliças
– Engenheiro Agrônomo – Gestor Estadual do Projeto CATI
Olericultura – Casa da Agricultura de Caraguatatuba 24 Casa da Agricultura de Biritiba Mirim

Foto da capa: Lilian Cerveira 27 Crédito Rural para a Olericultura


Designer gráfico: Lilian Cerveira
29 Uso adequado de defensivos
Distribuição: Centro de Comunicação Rural – Cecor
Impressão e acabamento: Cássia Simões Santana ME 31 O desenvolvimento da agroecologia em Avaré

Os artigos técnicos são de inteira responsabilidade dos autores.


33 PANC – não é moda ou estilo de vida, é resgate de uma alimentação mais saudável!
É permitida a reprodução parcial, desde que citada a fonte.
A reprodução total depende de autorização expressa da CATI.
35 Produção de olerícolas – tecnologias diversas e sabores diferenciados
38 Hortas Urbanas e Periurbanas: alimento saudável e renda no calor do asfalto
Assista aos vídeos das reportagens na versão virtual da 41 Políticas públicas incentivam produção de olerícolas
Revista Casa da Agricultura no site
www.cati.sp.gov.br 43 Desperdício: combate tem que ser feito em todos os elos da cadeia produtiva
45 Olericultura: um pouco de história e o trabalho da Secretaria de Agricultura
Não deixe de nos escrever, por carta ou e-mail 48 Aconteceu
Nosso endereço: CATI – Centro de Comunicação Rural
Av. Brasil, 2.340 – CEP 13070-178 – C.P. 960 – CEP 13012-970
Campinas, SP – Tel.: (19) 3743-3870
cecor@cati.sp.gov.br
www.cati.sp.gov.br
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Olericultura: ridades e suas necessidades es- lógicas, das práticas de preservação maior ou menor necessidade de
pecíficas, tratando sempre de um ambiental e o uso e a conservação seu uso. No caso da olericultura, as
conjunto amplo de fatores. Afirmar dos solos fez com que a cadeia se culturas necessitam de um volume
Graduado em engenharia agronômica, um setor que que uma região é mais tecnificada modernizasse rapidamente. O au- maior de água para se desenvolve-
ou melhor que a outra exige um mento do consumo gerado pelo rem ou mesmo para que possam
pela Universidade de Taubaté (Unitau), Renato
Abdo é também pós-graduado em gestão e oferece diversidade, estudo profundo dos fatores edá- crescimento populacional e tam- estar em conforto climático, assim
ficos (relativos ao solo), climáticos, bém a adesão de mais pessoas em as consequências de uma redução
manejo ambiental em sistemas agrícolas, pela sociais, econômicos e ambientais; busca de uma alimentação sau- da produção até mesmo sua pa-
Universidade Federal de Lavras (UFLA), e possui
mestrado em Mudança Social e Participação
qualidade, respeito não podemos comparar sem a dável disparou um processo de ralização geram um efeito cascata
Entrevista

base científica como plataforma de redução de perdas, melhoria na crítico. Os municípios que têm sua
Política, pela Universidade de São Paulo (USP).
Sua trajetória profissional é marcada
ambiental e emprego sustentação. Entre-
tanto, posso afirmar
base econômica na
produção de oleríco-
pelas ações em prol da agricultura paulista e que a tecnologia da “A modernização do acondicionamento dos las (acima de 20% do
Roberta Lage – Jornalista – Centro de Comunicação Rural
dos produtores rurais. Possui experiência em Cecor/CATI – roberta.lage@cati.sp.gov.br
produção nacional é produtos em embalagens plásticas, laváveis e PIB) devem se atentar
recuperação de áreas degradadas e plantio suficiente para suprir a um histórico quando
de mudas no campo; na sanção de portarias e as necessidades mer- higienizáveis, aumentando a segurança e a qualidade a agricultura vai mal, o
resoluções estaduais em relação às questões RCA – Como avalia a atual situação da cadológicas exigidas do alimento, é um fator muito positivo. Um fator efeito é direto no co-
de recursos hídricos, ambientais e técnicas de olericultura no Estado de São Paulo e atualmente. mércio onde os produ-
negativo que deve ser melhorado e já vem sendo tores, seus dependen-
produção agropecuária; na prestação de serviços no Brasil?
RCA - As legislações
em tecnologia da produção de olerícolas, frutas RA – O setor detém uma responsabili-
analisado são as perdas na cadeia de produção, ou tes e os trabalhadores
que regem a cadeia rurais retraem-se e
de clima temperado, pastagens e capineiras; dade social que ultrapassa as questões são suficientes? seja, a somatória das perdas de campo, no transporte, desaceleram as com-
entre outras. econômicas individuais; os produtores Quais as principais no manuseio entre mercados atacadistas e varejistas pras, seguidamente as
Atualmente, Renato é presidente da Câmara para manterem seus negócios ativos e legislações e suas indústrias sofrem com
Setorial de Hortaliças, Cebola e Alho do Estado de buscarem sua permanência no mercado determinações? e, finalmente, as perdas nos consumidores, que
a economia resfriada.
São Paulo (CSHCA); gerente do Sindicato Rural de devem produzir com qualidade, seguran- atingem níveis que devem ser trabalhados.”
RA – A legislação é Consequentemente,
Mogi das Cruzes (SRMC); e sócio-proprietário de ça e equilíbrio ambiental, disponibilizan-
ampla, os produtores a queda na disponi-
uma empresa de consultoria em agronegócios. do produtos com diversidade, condições
devem estar atentos a leis, resolu- bilidade de produtos
adequadas e rastreabilidade para toda
Nesta entrevista, Abdo afirma que a cadeia ções, portarias, decretos, instruções qualidade e aumento da produti- agrícolas geram uma alta nos pre-
população brasileira. É um setor que ali-
de olerícolas se modernizou nos últimos anos, normativas e tantas outras ferra- vidade. Todo esse desafio vem se ços, o que diminui ainda mais a
menta diariamente 200 milhões de pes-
com incremento de tecnologia, aplicação de mentas regulatórias existentes em consolidando com a implantação capacidade de compra, trazendo a
soas, responsabilidade que além de reali-
técnicas conservacionistas e atendimento às nosso País. Não existe uma única re- de tecnologia no setor, utilização reboque o desemprego no campo
zada com presteza, ainda gera empregos
exigências de mercado. Como gra, como tudo na agricultura está de ambientes protegidos, manejos e nos setores citados, assim, uma
e renda para milhões de pessoas.
desafios estão o combate ao vinculado a um conjunto de fato- modernos e sustentáveis no uso do crise hídrica se transforma em uma
O cenário acima aponta um setor de ca-
desperdício e as crises res e condicionantes, as principais solo, utilização racional de recursos crise econômica e social de impac-
racterística fundamental para a manuten-
hídrica e econômica. são tributárias, fiscais, trabalhistas, hídricos com redução do consumo to nacional. O acompanhamento
ção e desenvolvimento dos outros seto-
res, como diz o velho ditado “saco vazio ambientais e sanitárias. A revisão e de água por meio de gotejamento e monitoramento do desenvolvi-
não para em pé”. O Brasil, com sua exten- implementação dos marcos regu- e ainda a possibilidade do uso da mento dos mananciais é constante
são territorial, apresenta ainda esses con- latórios é uma constante devido às fertirrigação. para que possamos estar cientes e
Renato Abdo: trastes, mas não podemos nos acostumar inovações de técnicas de produção possivelmente evitar essas preo-
RCA - Até que ponto a questão cupações. A orientação que posso
e modernização mercadológica, as-
atuação em prol e achar que isso é comum. Mesmo assim,
sim, estar sempre em contato com
hídrica é um entrave para a pro- deixar é a mesma que diariamente
o setor e seus atores estão sempre dis- dução? Quais as principais con- ouvimos: utilizar racionalmente a
da olericultura postos e abertos a modernizações com extensionistas, assistentes técnicos
sequências e alternativas de pro- água, para que possamos utilizá-la
foco no desenvolvimento socialmente e a sua base sindical permite um
dução? Qual a orientação para sempre.
renato.abdo@ig.com.br justo, economicamente viável e ambien- acesso direto a essas adequações,
que o produtor não desanime e
talmente sustentável. evitando surpresas desagradáveis
para que o consumidor não deixe RCA – Como estão os níveis
em relação à sua atividade.
de comprar esses produtos por de importação e exportação
RCA - Comparado a outros estados e
RCA - Quais os principais avanços causa dos altos preços? das olerícolas? Faça um breve
países, como está o Brasil diante da balanço.
dos últimos 10 anos nessa cadeia
olericultura? Qual o atual perfil do se- RA – De forma geral, a agropecuária
produtiva?
tor? depende diretamente da água para RA – Atualmente, a importação é
RA – A tecnologia implantada no sua realização e o bom desenvolvi- uma constante, produtos como
RA – A comparação é difícil, cada estado setor nos últimos anos é significati- mento das atividades, as caracte- alho e o cogumelo são importados
e país têm seu potencial, suas peculia- va, a soma das exigências mercado- rísticas de cada setor determinam sem grandes barreiras ou restri-
8 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬9

ções, colocando em risco iminente


as cadeias produtivas internas; a ex-
portação praticamente não ocorre,
pois são produtos que abastecem
capilarizar as informações junto a
quem realmente precisa e depende
dessas para realizar sua atividade. A
extensão rural e a pesquisa devem
investimento, o que dificulta ainda
mais o desenvolvimento do seg-
mento. Hortaliças: negócio do futuro
ou do presente?
RCA - De que forma os progra-
internamente nosso mas de compras
País. do governo (PPAIS,
“A pesquisa e a tecnologia são a base do desenvol-
RCA – Como ava- PNAE e PAA) e o Mi-
lia as questões do
transporte e da
vimento de qualquer setor, mas não adianta criar e crobacias II – Acesso
ao Mercado fortale-
Panorama das hortaliças no Brasil e no mundo
elaborar sem difundir e capilarizar as informações
comercializaç ão? cem a olericultura
Quais os pontos po- junto a quem realmente precisa e depende dessas paulista? Gilberto J. B. de Figueiredo – Engenheiro Agrônomo – Gestor Estadual do Projeto CATI Olericultura – Casa da Agricultura de Caraguatatuba –
CATI Regional Pindamonhangaba – gilberto.figueiredo@cati.sp.gov.br
sitivos, e negativos? para realizar sua atividade. A extensão rural e a RA – São programas
O que há de bom que apresentam difi-
pesquisa devem andar de “mãos juntas” com os

Q
sendo realizado e o culdades na implan- uando me formei em 1986 e fui traba- Pecuária e Abastecimento (MAPA), ainda é inexpres-
que precisa ser me- setores da cadeia de produção, para que possam tação; a organização lhar na Cooperativa Agrícola de Cotia, no siva diante da produção e depende basicamente do
lhorado? social dos grupos e a
agilizar o desenvolvimento.” Departamento de Hortaliças, a minha área desempenho da fruta olerácea melão. Já a importa-
RA – Estrategicamen- adequação a burocra- de atuação estava restrita aos cinturões verdes, que ção cresceu 118,7%, principalmente em batata in-
te, as áreas de pro- cia são bons exem- ficavam ao redor dos grandes centros urbanos, como glesa, cebola e alho, segundo dados do Ministério da
dução de olerícolas plos, mas, assim que São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Brasília. As Agricultura. O avanço neste quadro é um dos desafios
encontram-se nas proximidades andar de “mãos juntas” com os se- sanados, garantem aos agriculto- pessoas não tinham o hábito de consumir hortaliças e do setor, ao mesmo tempo em que a cadeia busca
dos centros urbanos; a perecivida- tores da cadeia de produção, para res, de caráter familiar, uma renda quando o faziam, o prato era composto basicamente maior conhecimento e reconhecimento, diante da
de dos produtos e o alto custo da que possam agilizar o desenvolvi- mínima anual. por alface, tomate e cebola. Passados um pouco mais real importância que assume na socioeconomia na-
distribuição levam a esse cenário, mento. Atualmente, os investimen- de 20 anos, os hábitos de consumo das famílias brasi- cional. A olericultura se posiciona entre os segmentos
assim, a otimização do transporte RCA – Quais as perspectivas para
tos nos dois pontos citados ficam a leiras mudaram e aumentou a compra de hortaliças e com maior expressão produtora no destacado agro-
é essencial para viabilizar a comer- a produção e para o consumo in-
desejar, sendo os maiores avanços frutas. Os restaurantes por quilo passaram a oferecer negócio brasileiro.
cialização e distribuição. A moder- terno, nos próximos meses/anos?
desenvolvidos e difundidos pela uma maior diversidade de produtos e as políticas pú-
nização do acondicionamento dos A produção brasileira de hortaliças cresceu 31%
iniciativa privada e cobradas do RA – O crescimento populacional blicas de compras, como a aquisição para a merenda
produtos em embalagens plásticas, entre 2000 e 2011, conforme os últimos levantamen-
setor produtivo. Visando à perma- e o crescimento de consumido- escolar deram um grande impulso na produção.
laváveis e higienizáveis, aumen- tos da Embrapa Hortaliças, os quais evidenciam que a
nência do produtor no campo, os res em busca de uma alimentação A horticultura brasileira, no decorrer dos últimos quase totalidade do incremento se deu na produtivi-
tando a segurança e a qualidade investimentos na extensão rural e saudável têm concretizado um au-
do alimento, é um fator muito po- anos, dá mostras de seu potencial produtivo, com dade, com 83,7%, graças à adoção de novas tecnolo-
assistência técnica devem ser reali- mento no consumo, entretanto, o evolução em diversos índices e condições para ir ao gias. A área praticamente não se alterou, mantendo-
sitivo. Um fator negativo que deve zados a curtíssimo prazo, o mesmo consumo ainda é muito abaixo do
ser melhorado e já vem sendo ana- encontro das demandas. Estas, no entanto, ainda não se em cerca de 800 mil hectares. Inclusive já esteve
nos centros de desenvolvimento e recomendado por organizações de correspondem às expectativas: em nível interno, o um pouco maior neste período (824 mil hectares em
lisado são as perdas na cadeia de pesquisa, para que possamos redu- saúde. O cenário mercadológico
produção, ou seja, a somatória das consumo fica aquém das necessidades; e no plano ex- 2002). Na relação com o aumento populacional, a dis-
zir os custos da modernização. é extremamente positivo, a mo- terno há poucas saídas de produtos. Embora a expor- ponibilidade também se elevou, na ordem de 17,4%.
perdas de campo (por diversos fa- dernização e o desenvolvimento
tores), com as perdas no transpor- RCA - Como avalia as linhas de tação tenha avançado 14% entre 2000 e 2011 (em nú-
tecnológico na produção também, O cultivo de hortaliças é uma atividade agroeco-
te, as perdas no manuseio entre crédito oferecidas ao produtor, meros, o aumento ficou em 33 mil toneladas),
resta então analisar as variáveis nômica que é realizada por micro, pequenas,
mercados atacadistas e varejistas e, para que ele possa incrementar estatística indicada pelo Ministério
como as crises econômica e hídrica, médias e grandes propriedades, localizadas
finalmente, as perdas nos consumi- suas atividades? da Agricultura,
que até o momento não há defini- tanto no interior, quanto nas proximidades
dores, que atingem níveis que de- RA – Posso dividí-las em três gru- ção específica. dos grandes centros urbanos. O cultivo de ver-
vem ser trabalhados. pos distintos: agricultura familiar, duras e legumes gera mais lucro por hectare
RCA – Deixe uma mensagem aos do que outras culturas, sendo que as hortaliças
RCA - Qual a importância da ex- agricultura empresarial de micro,
produtores rurais e extensionis- em sistemas de produção em campo aber-
tensão rural, da pesquisa e da pequeno e médio porte e agricul-
tas que trabalham com olericul- to exigem investimento médio inicial de
tecnologia para a manutenção tura empresarial de grande porte.
tura. US$ 1 mil a US$ 5 mil por hectare, e geram
do olericultor no campo e para a Cada grupo apresenta suas carac-
terísticas e sua relevância nacional, RA – Somos todos brasileiros e não mais lucro a cada hectare cultivado, quando
melhoria constante da qualidade
entretanto, o grupo da agricultura desistimos nunca, essa velha máxi- comparada a outras culturas, como os grãos.
da olericultura?
empresarial de micro, pequeno e ma define bem esses atores do se- Estima-se que cada hectare de
RA – A pesquisa e a tecnologia médio porte fica sem uma defini- tor. Somente com força e união, de hortaliças gere, em média, entre
são a base do desenvolvimento ção de política pública específica, pessoas comprometidas e sérias, três e seis empregos diretos e
de qualquer setor, mas não adian- o que o torna responsável pelos poderemos manter e desenvolver a um número idêntico de empre-
ta criar e elaborar sem difundir e seus aportes e buscas de setores de olericultura nacional. gos indiretos, sendo que a soja
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Fotos: Banco de Imagens – Cecor/CATI

e o milho geram 0,4 empregos/ha. Estima-se que de lhosas, entre 2008 e 2009, foi de 4kg/por pessoa/ano se acentuando a cada dia. No Estado de São Paulo gia vem permitindo cultivar onde antes era necessário
8 a 10 milhões de pessoas dependem da olericultura. e as demais hortaliças de 12kg/por pessoa/ano, o que surgiram diversos cinturões verdes ao redor de cida- trazer produtos das áreas serranas. (“Anuário Brasileiro
Por isso, apesar das variações cíclicas e sazonais das ainda é pouco se comparado com outros países. des como Campinas, Ribeirão Preto, Bauru, Presidente de Hortaliças 2013” e Instituto de Economia Agrícola
hortaliças, os negócios no setor vêm sendo bastante Em relação à comercialização, também de acordo Prudente, só para citar algumas delas. Tanto em São (IEA)/Secretaria de Agricultura e Abastecimento do
atrativos. Em condições normais de mercado, estima- com o MAPA, estima-se que entre 55% e 60% do vo- Paulo como no Brasil, são praticamente os mesmos Estado de São Paulo).
se que as hortaliças gerem renda entre US$ 2 mil e lume de hortaliças são comercializadas pelos merca- produtos da olericultura que se destacam. Sem levar
US$ 20 mil por hectare (campo aberto). Essa variação em conta a mandioca, sobressaem-se a batata inglesa Desafio: fazer as hortaliças chegarem a um
dos atacadistas, que movimentam uma média anual número maior de pessoas
acontece porque os lucros obtidos dependem do va- de 15 milhões de toneladas de hortaliças oriundas da e o tomate (para mesa e industrial), que no território
lor agregado do produto e da conjuntura de mercado. produção nacional e importada, totalizando um valor paulista ocupam, respectivamente, 26,2 mil, 8,5 mil A cabeça de todo mundo sempre relaciona frutas
Além disso, a maior rentabilidade da cultura é condi- no atacado superior a R$ 10 bilhões. Porém, o cresci- e 3,5 mil hectares. A produção de cada um deles, em e hortaliças frescas com o que é natural, saudável,
cionada ao alto nível tecnológico, incluindo cultiva- mento do setor varejista, principalmente do chamado 2011, pela mesma ordem, alcançou 665 mil, 587 mil e previne doenças, saboroso, tem frescor e oferece di-
res/híbridos mais produtivos e manejo adequado da “atacarejo”, que reúne em um só local o comércio va- 276 mil toneladas. Ainda passam de 200 mil tonela- versidade ao paladar e aos olhos. O distanciamento
cultura. rejista e atacadista, vem crescendo muito nos últimos das, no mesmo Estado: a beterraba, a cebola, a melan- entre o consumidor e a agricultura cresce com a urba-
anos e, em breve, deve ultrapassar o setor atacadis- cia, o repolho e as alfaces. nização e com o crescimento das grandes metrópo-
As frutas e hortaliças são ainda sinônimos de facili-
ta na comercialização de hortaliças. Adicionalmente, les. Segundo a Organização das Nações Unidas para
dade de preparo e consumo (o fast food do tempo das O Sudeste brasileiro concentra a maior parcela
existem os processos de vendas diretas por produ- Alimentação e Agricultura (FAO), o cultivo de frutas
cavernas), de sobrevivência digna para o pequeno e da produção de hortaliças, destacando-se também
tores, em geral destinadas às feiras livres locais, aos e hortaliças nas cidades e seus arredores aumenta a
para o médio produtor, de fartura de empregos, de Minas Gerais, que inclusive aparece na primeira po-
sacolões, supermercados ou mercados sobre veículos. oferta de produtos frescos e nutritivos e melhora o
alimentação barata, de oportunidade de diferencia- sição no último Censo Agropecuário do IBGE (2006),
acesso econômico dos pobres aos alimentos.
ção no varejo, de sobrevivência do pequeno e médio No continente europeu, já é hábito muito antigo levando-se em conta o número de estabelecimentos
varejista, de margem alta para o varejo e de um nú- o consumo de hortaliças, que são produzidas em sua dedicados à atividade: 5.449 unidades, do total de Segurança alimentar significa que as pessoas po-
mero infinito de novos bons negócios. grande maioria por pequenas propriedades, mas com 27.374 no Brasil. O Sul igualmente é forte no setor. O dem produzir suficientes alimentos, ou comprá-los,
tecnologia embutida. Mas há muitas hortas urbanas, Paraná, inclusive, ocupava então a segunda posição para satisfazer suas necessidades diárias a fim de levar
Os consumidores têm redirecionado a produção
espalhadas pelas cidades. no País entre os estados com mais produtores: 3.857 uma vida ativa e saudável. Em muitas das cidades em
no setor. Além dos tradicionais produtos in natura,
propriedades, posicionado logo após São Paulo neste desenvolvimento do século 21, todas estas condições
as indústrias processadoras vêm ampliando a oferta São Paulo: maior setor produtivo de
item. Nos últimos anos, por outro lado, tem sido veri- da segurança alimentar estão ameaçadas. As famílias
de produtos, seja na forma de vegetais conservados, olerícolas do Brasil
ficada maior descentralização da produção, que apa- urbanas pobres gastam até 80% de sua renda em ali-
gelados ou supergelados, desidratados e liofilizados, No Brasil, o Estado de São Paulo possui o maior se- rece de forma mais expressiva e extensiva em outros mentos, o que as tornam muito vulneráveis quando
seja como hortaliças minimamente processadas. As tor produtivo de olerícolas do Brasil, com 20% da pro- pontos, como Goiás, no Centro-Oeste. Na Bahia, líder os preços dos alimentos sobem ou sua renda dimi-
transformações na cadeia de hortaliças têm sido guia- dução, e o principal mercado consumidor, que absor- no Nordeste, também aparece em evidência a expan- nui. A horticultura urbana e periurbana ajuda as cida-
das pelas demandas dos consumidores que buscam: ve 22% do que é produzido. Em 2011, computadas 11 são da olericultura em polos como Irecê e Chapada des em desenvolvimento a enfrentar esses desafios.
qualidade, conveniência, alimento seguro e saudável culturas, a quantidade colhida chegou a 2,7 milhões Diamantina. A região serrana do Rio de Janeiro obser- Primeiro, contribui para o fornecimento de produtos
e inovações/novas experiências. As hortaliças produ- de toneladas, em 86 mil hectares, segundo informa- vou uma grande expansão do cultivo, o mesmo acon- frescos, nutritivos e disponíveis o ano todo. Segundo,
zidas em sistemas orgânicos também vêm conquis- ções do Instituto de Economia Agrícola (IEA). Hoje, tecendo no Norte e Nordeste do Brasil. A cidade de melhora o acesso econômico dos pobres aos alimen-
tando cada vez mais consumidores. podemos afirmar que ainda temos uma concentração Salvador tem hoje uma região de cultivo de hortaliças tos quando a produção familiar de frutas e hortaliças
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia nos chamados cinturões verdes, mas o desenvolvi- que chega a se expandir em uma raio de 100km da ci- reduz os gastos com alimentos e quando os produto-
e Estatística (IBGE), no Brasil o consumo médio de fo- mento e a expansão do cultivo fora destes locais vêm dade e, principalmente, nas áreas costeiras, a tecnolo- res obtêm renda com as vendas.
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adequadas ao clima do local e à época de plantio.

Boas Práticas Agrícolas Outro fator importante é realizar rotação de culturas


e adubação verde sempre que possível. A aplicação
de calcário e a adubação devem ser realizadas basea-
Embalagens de
agrotóxicos e lixo: risco
de contaminação de
trabalhadores rurais e do

na produção de hortaliças
das na análise de solo e no tipo de cultura; não devem meio ambiente.
ser aplicadas doses sem controle ou sempre as mes-
mas quantidades do adubo ou corretivo, é importan-
te também que estes sejam aplicados no momento
Henrique Bellinaso – Engenheiro Agrônomo, MSc. – CATI Regional Piracicaba – henrique.bellinaso@cati.sp.gov.br correto. Devem ser adotados programas de controle
de pragas e doenças, sempre priorizando medidas

B
oas Práticas Agrícolas (BPA) são o conjunto de prevenção como uso de variedades tolerantes ou

Henrique Bellinaso
de ações e recomendações técnicas realiza- resistentes; limpeza do local, não deixando restos de

Henrique Bellinaso
das durante toda a produção, colheita e pós- culturas passadas; uso correto da irrigação e nutrição
-colheita de determinado produto agrícola, até que equilibrada, entre outras. Quando necessária, a apli-
esse chegue ao consumidor, como um alimento que cação de agrotóxicos deve ser baseada no monitora-
seja seguro para o consumo e produzido de maneira mento e na detecção de pragas e doenças; deve ser
sustentável. Além disso, as BPA garantem melhores usada dosagem correta dos produtos, além dos de-
condições de trabalho e segurança aos produtores e mais itens já comentados anteriormente. No caso do do principalmente para sua higienização. Quanto à
trabalhadores rurais, assim como um produto final de uso de controle biológico, deve haver maior atenção mão de obra, é preciso estar atento à saúde dos traba-
maior qualidade, que atende às exigências do merca- aos horários adequados para uso dos mesmos, além lhadores, os quais devem ter acesso a boas condições
do. É bom lembrar que alimento seguro é aquele que de serem seguidas todas as recomendações dos fabri- de higiene, com instalações sanitárias adequadas. É
não apresenta risco à saúde do consumidor, ou seja, cantes. Deve haver controle de plantas espontâneas de grande importância, para sucesso da adoção das
aquele que não oferece perigos químicos, físicos ou (plantas daninhas). Boas Práticas, a realização constante de capacitações
microbiológicos. Neste texto serão abordadas as Boas dos trabalhadores.
Práticas Agrícolas de produção. Sistema de irrigação Boas Práticas na gestão da propriedade são funda-
por gotejamento para
Quando se fala de BPA na produção de hortaliças mentais para o sucesso econômico da atividade, para
economia de água.

Henrique Bellinaso
nos diversos sistemas disponíveis, duas atividades ro- isso recomenda-se que o produtor adote o uso de do-
tineiras na produção devem receber maior atenção cumentação e controle de fornecedores de insumos,
por parte do agricultor, para que o seu produto seja ção (não armazenar juntamente com insumos e ferra- da entrada e saída de recursos, das práticas do manejo
seguro para a saúde do consumidor: a qualidade da mentas); evitar contaminação de mananciais; instruir da irrigação, do uso de defensivos, do controle de pra-
água utilizada na irrigação e o uso adequado de agro- os trabalhadores no uso correto dos Equipamentos de gas e doenças, da aquisição de insumos e da venda
tóxicos, especialmente no cultivo de culturas em que Proteção Individual (EPIs); aplicar produtos registra- dos produtos. Além disso, é importante a padroniza-
as partes aéreas da planta são consumidas, como é o dos para a cultura; não realizar misturas de diferentes ção das tarefas, por isso é recomendável a criação de
caso da alface, da rúcula, da couve, do pimentão, do produtos na mesma calda; respeitar o período de ca- documentos que descrevam cada atividade realizada
tomate, do brócolis, entre outras. rência do produto; realizar aplicações somente quan- na propriedade.
do necessário; e atentar para as condições ambientais Adubação verde de
A água utilizada na irrigação pode apresentar con- durante a aplicação (calor, umidade relativa do ar e Boas Práticas Agrícolas no Projeto CATI
inverno (aveia preta)
taminantes biológicos que podem trazer doenças ao velocidade dos ventos). Olericultura
para preparo em estufa
consumidor. Recomenda-se que, sempre que possível, de futuro plantio de
o produtor faça análises microbiológica e parasitoló- Além dos cuidados específicos com a água e os Em 2014, a CATI desenvolveu o Protocolo de Boas
pimentão. Práticas Agrícolas, utilizado como uma ferramenta
gica. Não deve ser utilizada água de córregos, açudes, agrotóxicos, outras práticas são essenciais. Primeiro
lagos ou rios que recebem esgoto doméstico sem que deve ser realizado um correto planejamento de ações, que auxilia os técnicos na orientação aos produto-
essa seja tratada, ou seja, o produtor deve estar aten- começando pela escolha do local para o plantio, o res rurais. O Protocolo consiste em um conjunto de
to quanto ao local de captação. Quando utilizar água qual não deve possuir alta declividade, para mini- Na infraestrutura devem existir depósitos para perguntas ou tópicos, sendo que para cada resposta
de poços artesianos ou cisternas de armazenamento, mizar problemas de erosão. Também é preciso estar armazenamento dos equipamentos utilizados, de existe uma recomendação correspondente. Ao final
o produtor pode realizar o tratamento com cloro. O atento ao histórico da área, verificando se no solo insumos e de agrotóxicos, bem como instalações sa- do preenchimento é possível estabelecer um retrato
sistema de irrigação deve ser bem dimensionado, de não há presença de contaminantes como, por exem- nitárias para uso dos trabalhadores. Quando se trata da propriedade, apontando os pontos críticos que de-
acordo com a atividade e situação local. Por causa dos plo, resíduos industriais. Deve-se verificar também as da produção em estufas (ambiente protegido ou plas- vem ser trabalhados prioritariamente. Recomenda-se
atuais problemas de escassez hídrica é recomendado áreas ao redor da produção, observando se não há ticultura), alguns cuidados são essenciais para uma a aplicação do Protocolo na mesma propriedade, pelo
que sempre se opte por sistemas que utilizem menor risco de contaminação externa derivada de agrotóxi- boa produção: a localização delas, atentando para menos a cada seis meses, para verificar se houve me-
quantidade de água. Ao usar mulching plástico, reco- cos, esgoto, entrada de animais domésticos ou ainda condições de iluminação e direção predominante dos lhoria nas ações desenvolvidas na propriedade. Bem
menda-se a adoção de irrigação por gotejamento. Em água contaminada. É preciso verificar ainda, se a área ventos; a sua estrutura, que deve ser bem dimensio- aplicada, essa ferramenta pode servir de diferencial à
sistemas que utilizam irrigação por aspersão, deve-se possui acesso a pontos de captação de água boa para nada; a altura do pé-direito, a qual está relacionada ao comercialização pelo produtor, que pode obter me-
atentar aos horários corretos para realizá-la, isso é ne- irrigação, bem como se está livre do acúmulo de lixo. calor e seus efeitos nas plantas; o uso do plástico e/ou lhores condições de remuneração.
cessário para que haja menor incidência de doenças e tela de boa qualidade, os quais devem ser resistentes
No plantio e na condução da cultura é impres- à ação dos raios UVA-UVB. Além disso, as casas e os sa- Para receber mais informações, esclarecimentos ou orientações,
perda de água por evaporação. cindível que sejam realizadas análises de solo (física, nitários devem possuir fossas sépticas para tratamen- incluindo o Protocolo de Boas Práticas Agrícolas, o produtor deve
No uso de defensivos, o produtor deve possuir lo- química e biológica); usadas sementes ou mudas de to do esgoto. Os equipamentos utilizados na colheita procurar a Casa da Agricultura do seu município.
cal de armazenamento adequado conforme a legisla- boa qualidade; escolhidas espécies e/ou variedades devem ser inspecionados constantemente, atentan-
14 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬15

Hortaliças de qualidade:

Lilian Cerveira – Cecor/CATI


exigência do consumidor, dever
de toda a cadeia produtiva
Gabriel Vicente Bitencourt de Almeida – Engenheiro Agrônomo, DSc. – Centro de Qualidade, Pesquisa e Desenvolvimento da Companhia de
Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) – gabriel.bitencourt@gmail.com
Fabiane Mendes da Camara – Engenheira de Alimentos, MSc. – Centro de Qualidade, Pesquisa e Desenvolvimento da Ceagesp –
fabianecamara@gmail.com

A
Adoção de BPA nos pontos de comercialização
dquirir uma fruta ou hortaliça com qualidade que são selecionadas para a adequação a um determi-
e segurança é direito inalienável do consumi- nado uso; os atributos sensoriais (coloração, formato, As Centrais de Abastecimento (Ceasas) são os
dor e, por consequência, dever a ser cumprido gosto, aromas e sabor); o valor nutritivo; os constituintes pontos de concentração física da produção de hor-
por todos os elos das cadeias produtivas de hortícolas. químicos; as propriedades funcionais ou nutracêuticas; tifrutigranjeiros e flores oriundos das diversas regi-
O Código de Defesa do Consumidor (Lei n.º 8.078, de e os defeitos. ões do País. No Estado de São Paulo, a Companhia
11/9/1990) estabelece direitos básicos como garantia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo
No segundo nível, uma parcela menor, mas já bas- (Ceagesp), empresa pertencente ao Ministério da
da qualidade, aquisição de alimentos seguros e informa-
tante significativa, de compradores finais preocupa-se Agricultura, Pecuária e Abastecimento, engloba 13
ções claras e precisas sobre o que está sendo comprado.
com a questão da segurança do alimento, ligada a fa- entrepostos atacadistas além de manter uma rede pú-
E para garantir esses direitos ao consumidor final, boa
tores como a quantidade de resíduos de agrotóxicos, blica com 34 unidades (ativas, locadas ou cedidas) de
parte dos produtores hortícolas ainda precisa inserir as
presença de micro-organismos causadores de doenças armazéns, silos e graneleiros. O Entreposto Terminal
chamadas Boas Práticas Agrícolas (BPA) nos seus siste-
e de metais pesados. E, finalmente, no terceiro nível, de São Paulo (ETSP) da Ceagesp é a maior central de
mas de produção.
um número menor de pessoas, mas com tendência ao distribuição da América Latina, sendo abastecido por
O conceito de qualidade de um alimento engloba crescimento, se atenta para os aspectos ambientais e so- mais de 1.300 municípios brasileiros, 16 países, res-
não só as características de sabor, aroma, aparência e ciais da produção, evitando a compra de produtos que ponsável pela comercialização de cerca de 12% da
padronização, mas também a preocupação em ofertar afetem demasiadamente o meio ambiente no processo produção nacional de produtos hortícolas in natura e,
produtos que não causem danos ou ameaças à saúde. produtivo ou que este não cumpra adequadamente as ainda, por 33% do volume de cereais, hortícolas e pes-
Nesse aspecto, o valor nutricional e a segurança do ali- obrigações sociais. Diversos protocolos de certificações, cados comercializados em todas as Ceasas do Brasil.
mento ganham cada vez mais importância por estarem como a Produção Integrada e a Produção Orgânica do
relacionados diretamente ao bem-estar das pessoas. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento No entanto, a dinâmica da comercialização das fru-
(MAPA), algumas independentes e diversas estrangeiras, tas e hortaliças nas Ceasas muitas vezes não atende
O grande sucesso de produtores que conseguiram a todos os requisitos das Boas Práticas. O grande vo-
se propõem a dar essas garantias. Todos esses protoco-
associar seus nomes ou marcas a produtos com atri- lume diário de comercialização aliado ao manuseio,
los se baseiam nas BPA. Concluindo, um produto hor-
butos superiores indica que esse é o primeiro passo no muitas vezes excessivo, geram toneladas de resíduos
tícola apto a ocupar os melhores nichos do mercado é
caminho da diferenciação. Nos últimos anos, são vá- (madeira, palha, papelão, plástico pescado e descar-
aquele que consegue atender aos três níveis de exigên-
rios os exemplos, principalmente no melão, no mamão tes); sendo assim, os produtos hortícolas que são ex-
cias dos consumidores.
‘Formosa’, nas mangas colhidas maduras, nos tomates tremamente sensíveis às condições ambientais e de
italianos, entre tantos outros. Provavelmente, a grande A segurança dos alimentos só pode ser alcançada manuseio, podem vir a desenvolver estresses e desor-
quantidade de programas especializados em culinária com a adoção das BPA, com métodos de organização e dens fisiológicas que comprometem sua qualidade e
e gastronomia nas televisões aberta e paga, juntamen- higiene necessários para garantir a seguridade na pro- o seu valor comercial durante as etapas de pós-colhei-
te com publicações e sites da internet voltados a esses dução, na seleção de fornecedores, no manuseio, na em- ta (produção, comercialização e consumo).
temas, estejam criando rapidamente uma maior cultura balagem, no transporte, no armazenamento, no recebi-
gastronômica no País e, consequentemente, consumi- mento, na distribuição, na exposição e na comercializa- As práticas de manuseio pós-colheita são tão im-
dores mais exigentes e predispostos à experimentação ção, adotando-se ou não um Protocolo de Certificação e, portantes quanto as práticas culturais. De nada adian-
e à busca por produtos diferenciados. ainda, investindo na capacitação de toda a equipe. ta a utilização de moderna tecnologia agrícola visan-
do ao aumento da produção de alimentos, se esses
Pode-se considerar que as exigências ou os desejos Todas as empresas que trabalham com alimentos de- não forem convenientemente aproveitados.
dos consumidores estejam situados em níveis básicos. vem, por exigência da Lei, adotar Boas Práticas Agrícolas
No primeiro nível, estão as características qualitativas e Procedimentos Operacionais Padronizados (POPs), os Todos os que trabalham com alimentos em toda a
extrínsecas e intrínsecas, ou seja, aquelas que levam ini- quais descrevem, de forma simples e objetiva, as práti- cadeia de produção e consumo são responsáveis não
cialmente a uma maior atratividade no ponto de venda cas e rotinas realizadas no estabelecimento, estabele- só pela saúde, mas também pelo bem-estar e pela
e, posteriormente, à maior satisfação e ao prazer no mo- cem os responsáveis por cada tarefa, a frequência e os satisfação do consumidor. É essencial adotar proce-
mento do consumo. Nesse patamar se adequa muito a horários de sua realização, além de listarem os materiais dimentos de rotina que garantam a segurança dos
qualidade e excelência de frutas e hortaliças in natura, exigidos para a realização de cada atividade. produtos.
16 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬17

Irrigação – escolha do sistema transpiram. Com os primeiros raios de sol a planta


inicia sua transpiração, que é intensificada no perío-
do entre 10h e 16h. O ideal é que no período noturno
não haja água livre na folha, e no solo seu teor esteja

depende de avaliação e planejamento abaixo da capacidade de campo, mas acima do pon-


to crítico da cultura. Podemos tomar como exemplo
o cultivo de alface em sistema hidropônico (NFT), no
Vinicius Sampaio do Nascimento – Engenheiro Agrônomo – CATI Regional Guaratinguetá – vinicius@cati.sp.gov.br qual o fluxo de água é interrompido durante a noite
sem causar nenhum prejuízo ao desenvolvimento da

A
cultura.

Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI


história da humanidade registra a impor- utilizada de forma generalizada, que vai de sistemas
tância primordial da Agricultura para o seu automáticos com injeção de fertilizantes até outros Aos olericultores que irão instalar ou ampliar um
desenvolvimento. Falar de alimento é falar rudimentares de aplicação manual. Os sistemas por sistema de irrigação seguem algumas recomenda-
de água, não apenas pela sua essencialidade para o aspersão e localizados (gotejamento e microaspersão) ções.
desenvolvimento vegetal mas, também, pela sua ex- são os de maior ocorrência, embora ainda existam os • Na implantação do sistema, considere no custo total
pressividade na resposta produtiva das culturas agrí- sistemas por superfícies e cultivos não irrigados. Isso as despesas de elaboração do projeto, seja por profis-
colas. se deve principalmente às diferenças de necessidades área efetivamente irrigada por aplicador (microsper- sional competente ou empresa especializada. A irriga-
hídricas entre as culturas consideradas olerícolas, a sor). Na olericultura são utilizados em culturas de me- ção é uma obra de engenharia complexa e cara.
Nestes anos de seca, várias considerações podem
exemplo do agrião e da batata, e a resposta econômi- nor porte em que o molhamento foliar não é proble- • Em conjunto com o projetista, avalie as opções de
ser feitas em relação ao uso da água, e elas vão do
ca que a irrigação promove em algumas culturas em ma, demandando menores investimentos na implan- orçamento priorizando a praticidade e eficiência de
compromisso do produtor que a utiliza na irrigação
sistemas de produção mais intensivos. Outro ponto tação. manejo do sistema. Não se deve abrir mão de um
até a sua importância
relevante é a capacida- tensiômetro, TDR ou qualquer outro equipamento de
para outros setores • Aspersão
de de investimento do monitoramento da umidade do solo ou substrato. O
econômicos e sociais.

Lilian Cerveira – Cecor/CATI


produtor e o seu nível Sistema predominante em grandes áreas de culti- manômetro também é imprescindível ao sistema.
Em um cenário de es-
sociocultural. vo, é de menor investimento do que os anteriores e • Caso a opção seja a irrigação por aspersão, prefira
cassez é indiscutível
tem reduzido risco de entupimento dos aplicadores aplicadores de baixa intensidade (menores que 5mm
o uso prioritário da As principais carac-
(aspersores). Entretanto, são os menos eficientes no por hora), para evitar o escorrimento de água entre os
água para consumo terísticas dos sistemas
uso da água; não permitem, no caso das olerícolas, o canteiros.
humano. Entretanto, de irrigação usados em
uso da fertirrigação (aplicação de adubos por meio do • Não utilize materiais de baixa qualidade.
em situações de con- olericulturra são:
sistema de irrigação) e nem de coberturas plásticas • Garanta que o projetista treine os operadores do sis-
flito, algumas questões
• Gotejamento (mulching) nos canteiros e nas linhas de produção. tema e que acompanhe o projeto por pelo menos seis
técnicas devem ser
É um sistema de meses.
avaliadas, em especial Dentre as diversas diferenças entre os sistemas, a
grande eficiência no • Avalie com critério a fonte hídrica, quantidade e
para a olericultura. O menos considerada é o nível de conhecimento ope-
uso da água, entretan- qualidade, antes de decidir qual sistema de irrigação
grande número de em- racional do produtor para o manejo da irrigação. O
to sua utilização está adotar.
pregos diretos e indi- momento de iniciar a irrigação e a quantidade de
retos gerados pela ca- condicionada à qua- Aos olericultores que já possuem um sistema de
água a ser aplicada, que na prática é o tempo de fun- irrigação, nas Casas da Agricultura (CA), unidades sob
deia produtiva, o valor lidade da mesma, à cionamento do sistema, são as maiores dificuldades
da produção, a renda presença de materiais a administração das Regionais CATI, estão disponíveis
encontradas pelos produtores na utilização eficiente folhetos elaborados pela Secretaria de Agricultura e
auferida e a qualidade sólidos em suspensão dos sistemas de irrigação. Na irrigação por aspersão
de vida associada ao consumo regular dos produtos ou de substâncias químicas, como excesso de ferro e Abastecimento de São Paulo, à qual a CATI é vincula-
é possível visualizar a aplicação da água e a condição da, com orientações básicas para o uso eficiente da
são alguns deles. Olhar o olericultor como cidadão materiais orgânicos, que podem entupir os aplicado- de umidade do solo antes e durante a irrigação. Nos
que retira o sustento de sua família em uma ativida- res (gotejadores). Ao não aplicar água na folha e no irrigação. Caso as orientações do folheto não sejam
sistemas localizados esta visualização é mais sutil ou suficientes, o extensionista da Casa da Agricultura ou
de de elevado risco, utiliza tecnologias além da sua caule, o sistema passa a ser ideal para culturas de alta inexiste quando se utiliza mulching, por exemplo. O
formação educacional e, ainda, considerar a pressão suscetibilidade a doenças nestes órgãos e em siste- Regional mais próxima estará apto a fornecer mais in-
produtor que migra entre esses sistemas necessita formações e orientação.
de gigantes econômicos, se sobrepõe às relevâncias mas de produção em ambientes protegidos ou com o de novas referências de verificação e procedimentos,
técnicas no cenário da justiça humana. uso de mulching (cobertura morta feita com plástico lançando mão, em muitos casos, de equipamentos de

Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI


ou outros materiais). O gotejamento apresenta alto medição indireta do teor de umidade do solo. O grau
A irrigação agrícola, resumidamente, é um ramo da
custo de implantação pela vasta rede de tubos con- de conhecimento e a necessidade de treinamento dos
engenharia que trata do dimensionamento hidráuli-
dutores e aplicadores utilizados e pela necessidade operadores devem ser considerados na opção de sis-
co, de formas de captação, armazenagem, condução
de estruturas adicionais para a filtragem e aplicação temas de irrigação localizados e o produtor deve estar
e aplicação de água em sistemas de produção agríco-
de fertilizantes. Entretanto, são os sistemas de maior tecnicamente preparado para esse saldo tecnológico.
las, considerando questões fisiológicas vegetais, edá-
eficiência de uso de mão de obra, compensando, a
ficas e climáticas fixas num contexto de projeto, mas No manejo da irrigação de várias culturas a aplica-
médio e longo prazos, as despesas adicionais de im-
variáveis no tocante operacional e norteados pela efi- ção de água é feita à noite, para aproveitar a tarifa ver-
plantação.
ciência econômica. de. Infelizmente, em olericultura isso não é possível.
• Microaspersão A aplicação de água no período noturno aumenta a
As olerícolas, em sua maioria, necessitam obri-
gatoriamente da irrigação para a obtenção de pro- É um sistema que apresenta características seme- incidência de doenças nas culturas. Não podemos es-
dutividades econômicas. Na atividade, a irrigação é lhantes aos gotejadores, se diferenciando pela maior quecer que à noite nossas plantas praticamente não
18 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬19

Comercialização e Marketing
apresentava falhas de planejamento, na produção e
na distribuição; entretanto, pelo ainda baixo consumo
e pela falta de planejamento das cidades, mantinham Lilia
n Cer
a distribuição de forma direta. O consumo estava fo- vei

de Hortaliças
ra
– Ce
cado basicamente em produtos in natura ou semipro- co
r /C
AT
cessados. Com o aumento do interesse pelo autosser-

I
viço em comercializar produtos frescos, a redução da
participação das feiras livres na distribuição desses
Renato Augusto Abdo – Engenheiro Agrônomo, MSc. – Sindicato Rural de Mogi das Cruzes – Presidente da Câmara Setorial de Hortaliças, produtos foi reduzida. A comercialização de horta-
Cebola e Alho da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA) – renato.abdo@ig.com.br liças pelo autosserviço inicialmente era vista como
Gilberto J. B. de Figueiredo – Engenheiro Agrônomo – Gestor Estadual do Projeto CATI Olericultura – Casa da Agricultura de Caraguatatuba – uma estratégia de atração de consumidores aos pon-
CATI Regional Pindamonhangaba – gilberto.figueiredo@cati.sp.gov.br tos de venda e a rentabilidade era baixa em relação
aos outros itens oferecidos. A estratégia de atração

A
tualmente, os desafios para a distribuição de últimos anos no mercado atacadista. Sua distribuição funcionou e ainda passa a interferir no hábito de con-
hortaliças estão na necessidade de atender tradicionalmente ocorria por meio das Centrais de sumo. O que não se esperava era que essa estratégia
os consumidores modernos, mais exigentes Abastecimento (Ceasa) estaduais. Nestas, a maior par- dos supermercados contribuiria para mudar o hábito
por qualidade e produtos diferenciados. Este desafio cela de suas atividades comerciais se caracteriza como de consumos das pessoas. Porém, com a concorrência
foi, é e será mais complexo quando depara-se com transações do tipo spot (pagamento à vista e entre- direta das grandes redes varejistas e dos varejões ou
o setor no qual o produto depende diretamente de ga imediata da mercadoria). Outro tipo de mercado sacolões, essas lojas devem realizar uma mudança na
um conjunto amplo de fatores para ser produzido. atacadista é realizado por empresas profissionais in- postura para garantir a sua sobrevivência.
Estamos nos referindo às olerícolas, seres vivos que dependentes, que trilharam novos caminhos comer- Consolidando esta forma de varejo, que se carac-
precisam de água, temperatura, umidade, nutrição, ciais, os mercados de autosserviço, que passaram a teriza não somente em disponibilizar ao consumidor
luminosidade, controle e combate de pragas doenças exigir maior eficiência no sistema comercial, aceleran- produtos de qualidade mas, também, se preocu-
e plantas invasoras para o seu pleno desenvolvimen- do o processo de modernização do mercado. Nesse pa com fatores como conveniência e localização, a
to. Esses fatores desafiam o setor a implantar sistemas sentido, os atacadistas profissionais e independentes maioria dos supermercados vem adquirindo as FLVs
de padronização, classificação e embalagens, dificul- assumem a distribuição com maior eficiência, além de (frutas, legumes e verduras), especialmente as horta-
tando a implementação da rastreabilidade dos pro- criarem formas diferenciadas de distribuição, como as liças, diretamente dos produtores. Visando garantir
dutos e o próprio desenvolvimento das operações de centrais de compras, e adotam sua própria distribui- a qualidade e a procedência dos produtos ofertados um intermediário, distribuidor, atacadista ou varejis-
mercado. ção. Esses novos fornecedores localizam-se próximos aos consumidores modernos e exigentes, as redes de ta, o nosso verdadeiro cliente é o consumidor final.
às áreas de produção e abastecimento pela alta pere- varejo passaram a exigir dos produtores a rastreabili- Assim, é a ele que devemos conquistar por intermé-
Com esta realidade, novas formas de comercia- dio de nossos produtos, os quais precisam satisfazer
cibilidade das hortaliças, atuam também no abasteci- dade dos produtos, disparando um processo de mo-
lização passam a ser realizadas, como a distribuição seus desejos e anseios, seja por uma alimentação
mento dos mercados de pequeno e médio porte, por dernização e adequação tecnológico no campo, onde
direta dos produtores. A comercialização direta do mais natural, pela beleza do produto e sua apresen-
conseguirem embalagens de volumes variados e uma todas as ações, os procedimentos, processos realiza-
produtor foi um passo fundamental para a agregação tação, ou pelo preço justo etc. O consumidor compra
diversidade de produtos que acabam por formar um dos e produtos utilizados devem estar registrados,
de valor aos produtos e o aumento da renda da ati- aquilo que deseja, não aquilo que é necessário so-
mix, o que dinamiza a compra por parte desse seg- catalogados e identificados por lotes de produção, a
vidade. Assumir mais uma parte da cadeia produtiva, mente. Num momento de crise como o que estamos
mento de mercado. Todo esse processo inicia a evo- ponto de permitir a logística reversa dos produtos,
como a logística de distribuição, ocasiona um acúmu- vivendo, ele até pode buscar restringir suas compras
lução na cadeia produtiva, onde o próprio mercado identificando, quando necessário, os pontos falhos
lo de funções que podem prejudicar o negócio, caso em razão do dinheiro disponível, mas a vontade fica
não seja realizado da maneira correta. Assim, o produ- de autosserviço (que hoje conhecemos como varejo), nos processos de produção, manejo e distribuição
para suprir as necessidades dos consumidores, passa dos produtos, não somente em relação ao produtor, lá, reprimida à espera do momento certo. Estudos da
tor rural deve passar por uma transformação profis- Universidade de Oxford indicaram que o ser humano
sional, se capacitando e aprimorando suas técnicas de a se abastecer diretamente dos produtores. mas em todo percurso logístico da produção.
carrega uma herança genética que dá preferência por
produção e administração e se tornar um empresário Antigamente, no mercado varejista a distribuição Atualmente, estar inserido na cadeia de produção alimentos gordurosos e doces, pois evoluímos para
rural. de hortifrutigranjeiros era realizada, com maior im- de olerícolas requer conhecimento técnico especí- o que somos hoje graças a esses produtos. Assim, a
O segmento de hortaliças foi o principal respon- portância, pelas feiras livres. Nessa época, a estrutu- fico em diversas áreas de atuação, como tecnologia indústria de sementes de hortaliças vem trabalhando
sável pelas mudanças mercadológicas ocorridas nos ração da cadeia produtiva de hortifruti era precária, de produção, Boas Práticas Agrícolas, gerenciamento para produzir alfaces, repolhos e outros produtos cada
de recursos humanos, gestão empresarial, ações e es- vez mais adocicados, seguindo o mesmo caminho já
tratégias de marketing, logística e meteorologia, para trilhado pelas frutas. Mas, o que isso tem a ver com o
que o produtor possa permanecer ativo no mercado, marketing? Satisfazer “desejos e necessidades” mesmo
Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI

produzir com qualidade, volume, diversidade, garan- quando estão ocultos (quando o consumidor não tem
tindo a saúde do consumidor e do planeta. ciência desse fato), pois ao provar dois alimentos é o
Mas, afinal, qual é o significado de marketing ? mais doce, o mais bonito, o mais cheiroso que acaba
Segundo o professor Theodore Levitt, da universi- sendo comprado, muitas vezes independente do va-
dade americana de Harvard, um dos primeiros a usar lor nutritivo ou do preço.
a palavra “globalização” e autor de numerosos artigos Os 4 “P”s do marketing
no tema, “marketing é tudo aquilo que fazemos para Qualquer um pode desenvolver na propriedade
conquistar e manter um cliente”. Simples assim. Num uma estratégia de marketing, que nada mais é do que
primeiro momento, devemos entender que mesmo “convencer” o consumidor a comprar nosso produto.
que comercializemos nossos produtos por meio de Existe uma metodologia muito simples a ser seguida,
20 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬21

a qual chamamos de 4 Ps, que são: produto, preço,


ponto ou local de comercialização e promoção do
produto.
para que o consumidor saiba que aquele é o produto
que ele estava procurando. Nas feiras é possível escu-
tar “é puro mel, prove que está doce”, enfim, é preciso
informar de alguma forma, no rótulo, em um cartaz
Agregação de valor e tendências
de mercado em hortaliças
O primeiro e mais importante é o produto, pois
próximo ao local de venda ou em folheto as caracte-
sem ele a comercialização não acontece. Nós “come-
rísticas mais marcantes do produto, facilitando, assim,
mos com os olhos” e quanto mais atraente for o pro-
a escolha pelo cliente. Promoções do tipo, “a cada 10
duto, maior será a possibilidade de venda. Isso signifi-
pés de alface, leve um maço de cheiro verde”, o con-
ca que é preciso ter capricho na produção, fazer adu- Átila Queiroz de Moura – Engenheiro Agrônomo – Casa da Agricultura de São Miguel Arcanjo – CATI Regional Itapetininga
sumidor gosta de ganhar brindes e de levar alguma
bação, manejo, colheita, armazenamento e transpor- ca.miguelarcanjo@cati.sp.gov.br
vantagem que, muitas vezes, têm custo baixo para ser
te de formas adequadas e ter atenção às Boas Normas Gilberto J. B. de Figueiredo – Engenheiro Agrônomo – Gestor Estadual do Projeto CATI Olericultura – Casa da Agricultura de Caraguatatuba –
produzido e pode fidelizar o cliente, uma prática que
de Produção e Comercialização. É preciso dar uma es- CATI Regional Pindamonhangaba – gilberto.figueiredo@cati.sp.gov.br
vem sendo perseguida por vários setores. No Estado

N
pecial atenção à criação de uma marca, pois estudos
do Paraná, recentemente, foi criada uma lei exigindo o dicionário Aurélio, tendên- e as revendas agrícolas, ou seja, o agri-
do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas
que os pontos de venda, sejam quais forem, tenham cia quer dizer: "aquilo que cultor familiar compra insumos agríco-
Empresas (Sebrae) comprovam que produtos com
informações claras sobre o produto (frutas e horta- leva alguém a seguir um de- las a preços muito altos.
marca chegam a receber até 30% a mais, pois acredi-
liças) indicando nome, endereço e informações que terminado caminho ou a agir de certa A pergunta é: o que fazer?
ta-se que em geral tenham uma maior preocupação
identifiquem o produtor. E esta é uma tendência que forma". Na comercialização de hortali-
com os aspectos de seleção e padronização, além de O primeiro passo a ser dado é que
veio para ficar. O marketing faz parte da vida das pes- ças, o caminho que a maioria está se-
estarem acondicionados em uma embalagem com os produtores rurais devem se profis-
soas nas ações mais corriqueiras como para conseguir guindo ou a forma como irá agir é que
maior apelo visual e que ofereça proteção e conser- sionalizar na gestão administrativa
um bom emprego, uma boa imagem, melhorar a re- indica a probabilidade de sucesso ou
vação do produto. A marca pode e deve acentuar de suas propriedades rurais e de suas
muneração. Não é diferente na atividade agrícola e fracasso que um produtor irá obter na
propriedades que interessam ao consumidor, como associações e cooperativas, além de
em nenhuma outra atividade. Então, não tenha receio atividade. Aquele que indica o cami-
sabor, cheiro, valores nutricionais, valorização visual, focarem no desenvolvimento de suas
do marketing, pratique e o coloque a favor dos seus nho tem maiores chances de sucesso
segurança alimentar, entre outros. Feito isso, a próxi- próprias agroindústrias, agregando va-
interesses. mas, para isso, ele deve ter uma visão
ma etapa é procurar trabalhar o preço, pois sabemos lor, bem como construindo produtos
que para o produtor rural nem sempre é fácil estipular apurada da cadeia como um todo e,
diferenciados, com marca própria.
um preço, visto que muitas vezes é a lei da oferta e Lilian C principalmente, conhecer seus consu-
erv
eira midores. Dados do Serviço Brasileiro de
procura. Porém, é possível passar a ter um rigor –C
ec
or Apoio às Micro e Pequenas Empresas
com os custos de produção, o transporte e a Sabemos que a maior parte do va-
(Sebrae – SP) indicam que produtos
/C

comercialização (vender gera custos que, na


AT

lor agregado às hortaliças em relação


I

Graça D' com marca agregam valor e melhoram


maioria das vezes, são pagos pelo produ- Auria
–C ao preço final do produto pago pelo
eco a margem de comercialização (em al-
tor) e, ainda, inserir os valores de compra r/C
AT consumidor é absorvido pelos agentes
I guns casos em até 30% a mais sobre
de insumos em uma planilha que deve e/ou empresas que atuam depois que
produtos sem marca), pois trazem jun-
documentar o máximo possível de infor- o produto sai das porteiras e das mãos
to a si conceitos de seleção e padroni-
mações que permitam ao produtor che- dos agricultores familiares.
zação, além de um maior cuidado com
gar a um custo real de produção. Acertada
Todos esses agentes externos, que o aspecto visual e de embalagem, com
essa questão, é preciso se preocupar com o
atuam na comercialização, são impor- identificação do fornecedor; eles têm a
ponto ou local de comercialização, pois todo
tantes para o abastecimento das cida- função de buscar uma fidelização por
o trabalho anterior de controle do cultivo e dos
des e para o fluxo logístico e comercial parte do cliente. O design, a embala-
custos e produzir com uma marca pode levar ao
das frutas e hortaliças, porém, os agri- gem e a rotulagem são tão importan-
fracasso se o local escolhido não for adequado. Um
cultores estão sofrendo com a redução tes quanto a marca. São capazes de
pimentão de excepcional qualidade, cor vermelha in-
de suas margens de ganhos à medida transferir valor para a mercadoria e, em
tensa, aroma agradável, selecionado e embalado em
que vendem seus produtos de forma muitos casos, um conceito (produtos
bandeja, com rótulo e todas as indicações se levado
individual, por preços baixos, sem va- saudáveis, naturais, ecológicos etc.). O
para comercializar em uma central atacadista que não
lor agregado, a prazos muitos longos, design pode ser uma das armas mais
valoriza estes atributos; ou o contrário, um produto
são vítimas de calote, e os preços de competitivas do arsenal de marketing
sem seleção, com tamanhos e colorações variados, al-
seus produtos não aumentam na mes- de uma empresa. Já a embalagem não
guns com manchas e outros bonitos embalados jun-
ma proporção que o restante dos bens serve apenas para proteger, acondi-
tos, e levados para vender em uma grande rede de
na economia brasileira. cionar ou transportar o produto, mas
supermercados ou um restaurante.
tem papel importante na conquista do
Lilia

Além disso, os insumos agrícolas


n

Qual a diferença de preço entre os produtos? É comprador.


Cerveira Cecor/CATI

modernos e as sementes e mudas uti-


preciso pensar no consumidor final, onde ele irá pro- lizados pelos agricultores familiares E quando se fala em agregar va-

curar o produto que deseja, de que forma ele será ex-

Lilian Cerveira – Cecor/CATI


são vendidos por poucas empresas lor, não é fazer o que todos já fazem
posto e valorado, para poder escolher se a preferência nacionais ou multinacionais, por meio e cobrar um pouco menos. Também
é vender no atacado, no varejo ou direto ao consumi- de uma rede de distribuição. Quando não é melhorar algo que já é percebi-
dor, lembrando que para cada local há uma estratégia o insumo agrícola chega para ele, já do como bom ou ótimo pelo cliente.
diferente a ser trabalhada. E, por último, porém não está com remuneração embutida para Muito menos divulgar melhor a em-
menos importante, está a propaganda do produto, a indústria, o transporte, a distribuição presa. Agregar valor é dar um salto de
22 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬23

Outra característica importante é a diminuição do Assim, é fundamental que o produtor esteja infor-

Lilian Cerveira – Cecor/CATI

Lilian Cerveira – Cecor/CATI


número de pessoas na família, segundo a mesma fon- mado sobre essas tendências do mercado varejista, o
te, fazendo com que o tamanho dos produtos dimi- qual só cresce no Brasil. Para tanto, ele deve procurar
nua, o que pode ser comprovado com o aumento da o auxílio dos órgãos públicos e de instituições com-
comercialização das chamadas "mini ou baby hortali- prometidas com o desenvolvimento rural sustentá-
ças", que têm uma taxa de crescimento anual de cer- vel, bem como procurar acessar as políticas públicas
ca de 20%, de acordo com a Revista Hortifruti Brasil/ voltadas à agricultura familiar, tais como o Programa
Cepea/Esalq, de 2015. São produtos cuja colheita é Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar
antecipada e que têm menores tamanhos, como alfa- (Pronaf ); as linhas de financiamento do Fundo de
ces de 200g a 300g; cenouras torneadas, com apenas Expansão do Agronegócio Paulista (Feap); os pro-
5cm de comprimento; pimentões com 30g; e melan- gramas de aquisição de alimentos, como o Programa
cias com apenas 2kg, mas que, além de não terem ca- Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa
roço, são muito doces. Paulista da Agricultura de Interesse Social (PPAIS); o
O processamento mínimo de produtos, técnica Projeto Microbacias II – Acesso ao Mercado, o qual
que altera fisicamente (descascamento, corte, fatia- tem a finalidade de fortalecer as associações e coo-
qualidade em uma ou mais características, do produ- sabor, o aspecto nutricional e, principalmente, a se-
mento etc.) ou quimicamente a apresentação das perativas de produtores, incentivando o acesso a es-
to ou serviço, que de fato são relevantes para a esco- gurança alimentar, predominam e isso facilita a nego- ses novos mercados, com apoio e subvenções para
lha do consumidor, e depende tanto de investimentos ciação entre as partes, permitindo que os produtores hortaliças e frutos, deixando-os prontos para consu-
mo ou preparo, está cativando a preferência dos con- a montagem de packing houses, unidades de bene-
em pesquisas para detectar as necessidades dos clien- obtenham melhores remunerações. Mas, também ficiamento, bem como aquisição de veículos para o
tes como no desenvolvimento de tecnologias e for- traz à tona questões relativas à gestão da atividade; sumidores por vários motivos: são práticos e conve-
nientes, mantêm as características do vegetal fresco, transporte das hortaliças, de acordo com as novas
mas de administrar mais eficazes. Em outras palavras à qualidade final do produto; ao respeito com o meio exigências; entre outros. É preciso destacar que, ao
para agregar valor é preciso “ter um olho no cliente e ambiente; à legislação de modo geral; ao transporte evitam desperdício por partes estragadas, são limpos
e embalados, têm qualidade sanitária alta e são pos- se capacitar para o atendimento à comercialização
outro na inovação”, de acordo com dizeres de técnicos do produto, de maneira adequada, visando garantir de seus produtos nessas políticas governamentais, o
do Sebrae. sua integridade e qualidade final. Nesse contexto in- síveis de serem obtidos em menores quantidades, de
acordo com o Boletim Sebrae 2014 sobre hortifrutis. produtor automaticamente está se preparando para
cluem-se questões como estratégias de marketing, acessar outros mercados.
É muito importante que o produtor rural busque Outro ponto importante para o aumento dos produ-
locais de distribuição, horário de entrega, diversidade
adquirir o conhecimento necessário para produzir tos minimamente processados são as compras públi- Portanto, o momento é de investimento em tec-
de produto e redução de custos de produção.
mais e melhor, com menor custo e maior qualidade; cas, principalmente nos programas de aquisição de nologia, gestão e capacitação, para que a agricultura
apropriar-se de novas tecnologias de produção; maxi- Para comercializar nesses locais de varejo, o produ- alimentos para merenda escolar, haja vista que nas familiar tenha cada vez mais acesso aos novos nichos
mizar o uso dos recursos disponíveis em suas proprie- tor deve começar a pensar em embalagens individuais escolas a demanda das merendeiras é por eles, visan- de mercado, com produtos saudáveis e sustentáveis,
dades rurais, tais como: terra, clima, capital imobiliza- ou com poucos produtos, as quais sejam atrativas aos do otimizar a elaboração dos cardápios e agilizar a como é a sua marca, garantindo mais renda, emprego
do e mão de obra. Ele precisa se comprometer com consumidores. Muitos supermercados não comercia- confecção dos pratos. e fixação do homem no campo.
suas organizações e participar ativamente das reuni- lizam mais folhosas que não estejam ensacadas, em
ões, contribuindo com seu planejamento, controle, unidades individuais ou em maços, e a tendência é
execução e avaliação de resultados, pois por meio do que diminua cada vez mais a comercialização a gra-
trabalho em conjunto é possível ter maior quantidade nel, como já acontece na Europa e nos Estados Unidos,
de produtos, seja em volume ou diversidade, caracte- pois esse tipo de comercialização reduz a vida de pra-
rística exigida pela maioria dos mercados hoje em dia. teleira do produto, aumenta o desperdício e gera lixo,
Para onde caminha a comercialização o qual está ficando cada vez mais caro de se descartar.
de hortaliças Atualmente, o consumidor dá muito valor à
Ainda nos dias de hoje, uma grande parte dos pro- aparência do produto, mas também ao seu sabor.
dutores enviam seus produtos aos atacadistas ou in- Pesquisas de universidades europeias indicam que o
termediários, pela facilidade e comodidade. Porém, ser humano tem uma notada preferência por sabo-
nem sempre é a melhor situação, principalmente do res adocicados e, por isso, a indústria de sementes de
ponto de vista de remuneração. O atacado, por traba- hortaliças tem trabalhado em variedades mais doces
lhar com maiores volumes, é menos exigente em rela- e suaves, seja de alface, repolho, tomate e pimentões,
ção à embalagem, à classificação e a outros itens, mas que estão cada vez mais palatáveis. Já existem varie-
também valoriza menos o produto final, justamente dades de pimentões tão doces, que são consumidas
em razão dessa menor exigência. Isso vem mudando, como aperitivos.
mas ainda de forma lenta.
O número de pessoas acima dos 60 anos já re-
A tendência para os próximos anos é de um pre- presenta 20% da população mundial; se contarmos
domínio da comercialização de hortaliças pelo vare- aqueles acima dos 40 anos, chegamos ao número de
Lilian Cerveira – Cecor/CATI

jo, onde se enquadram aqueles que trabalham dire- 44%, sendo que, em 2020, essa parcela será de 78%,
tamente com o consumidor final, como é o caso de segundo dados do Banco Mundial. Isso indica que, ao
supermercados, mercearias, quitandas e, mais recen- plantar hortaliças, os produtores devem estar atentos
temente, das butiques de hortifrutis. Nesses locais, a esses números, no momento de escolher as varie-
a preocupação com a aparência final do produto, o dades.
24 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬25

Manejo do solo, calagem e benefícios da adubação verde destacam-se: melho-


ria das propriedades físicas e biológicas
do solo; controle de nematoides; forne-

adubação de hortaliças
cimento de nitrogênio fixado da atmos-
fera por plantas leguminosas; produção
de fitomassa para formação da cobertura
morta (mulching). A economicidade da
adubação verde deve ser comparada com
Paulo Espíndola Trani – Engenheiro Agrônomo, doutor e pesquisador científico do Instituto Agronômico (IAC), de Campinas – Agência Paulista a rotação de culturas, sistema de produ-
de Tecnologia dos Agronegócios (Apta/SAA) – petrani@iac.sp.gov.br ção onde plantas de diferentes famílias
botânicas são cultivadas até a colheita e

A
podem proporcionar uma renda extra ao
s hortaliças constituem um grupo de plantas É fundamental realizar as análises química e físi- produtor de hortaliças.
com características próprias de cultivo, com ca do solo da área a ser cultivada com hortaliças. As
o uso intensivo do solo e da água de irriga- amostras compostas (resultado da mistura de pelo • Adubação mineral
ção, requerendo também a utilização de quantidades menos 12 subamostras) devem ser coletadas sepa- As quantidades recomendadas de ma-
elevadas de calcário e fertilizantes, podendo repre- radamente, conforme os diferentes tipos de solo da cro e micronutrientes, no plantio e em
sentar 20% a 25% do custo total de produção. propriedade e, também, de acordo com o histórico da cobertura, baseiam-se nos resultados de
área a ser utilizada. análise do solo, da análise foliar e na exi-
Recomenda-se o preparo do solo e a construção

Edson Akira Kariya


Etapas de manejo e nutrição pré e gência nutricional das culturas.
de canteiros com alturas desde 20cm até 30cm, para
possibilitar o pleno desenvolvimento das raízes das pós-plantio • Adubação mineral de plantio
plantas e a melhor absorção da água e dos nutrientes. Adotando-se as recomendações a seguir, é possí- No caso das hortaliças, é particularmente impor- Tomateiros que receberam
vel a obtenção de boas produtividades de maneira tante a localização dos fertilizantes. Deve-se levar em calagem e adubação corretas,
consideração a distribuição do sistema radicular, a conforme as análises de solo e foliar.
sustentável, conforme mostram, por exemplo, as la-
Paulo Espíndola Trani

vouras de tomate do Estado de São Paulo, especial- textura do solo, os espaçamentos entre linhas, entre
mente aquelas situadas no sudoeste paulista. plantas e o tipo de irrigação utilizada. Em solos argi-
dratado), proporcionando os conhecidos efeitos be-
• Calagem losos ou orgânicos, os adubos minerais devem ser
néficos às plantas. Vale ressaltar ainda, que o fósforo
aplicados nos sulcos de plantio ou em covas. A apli-
A distribuição do calcário, aos 60 dias antes solúvel disponibilizado em quantidades adequadas
cação localizada melhora o efeito do fósforo, devido à
do plantio, deve ser feita a lanço, de forma manual no solo favorece a absorção de nitrogênio e de mag-
menor fixação pelo solo. Em solos arenosos, a aplica-
ou mecanizada, em área total, desde a superfície até nésio pelas plantas, por conta do sinergismo entre
ção localizada de fórmulas NPK (nitrogênio, fósforo e
20cm a 30cm de profundidade. A quantidade do cor- esses nutrientes quando presentes em quantidades
potássio) com alto efeito salino, nos sulcos de plantio,
retivo de acidez é determinada pela análise de solo equilibradas na solução do solo.
pode ser danosa ao desenvolvimento inicial de algu-
e o seu Poder Relativo de Neutralização Total (PRNT). mas hortaliças, razão pela qual quando aplicados em A liberação dos nutrientes para as plantas é mais
Canteiros bem formados em Para as hortaliças em geral, recomenda-se realizar a altas doses, devem ser esparramados na área total dos eficaz se a fórmula de cobertura for aplicada próxima
horta no Sítio dos Mendonça, em calagem para se atingir a saturação por bases do solo canteiros. às raízes das plantas em crescimento e coberta com
Campinas (SP). de 80% (que na literatura técnica sobre o assunto é o solo. Recomenda-se parcelar as coberturas com fer-
identificada como V). A irrigação do solo, após a apli- • Adubação mineral em cobertura
tilizantes, de acordo com a marcha de absorção de
cação do calcário, tornará mais rápida a sua ação cor- A maior parte do nitrogênio (80% a 90%), de 50% nutrientes da cultura e a orientação técnica do enge-
Quando do cultivo de hortaliças em áreas de decli- retiva. a 60% do potássio e 20% a 30% do fósforo são forne- nheiro agrônomo da CATI. Podem ser utilizados tanto
ve acentuado, é fundamental a execução de práticas • Adubação com fertilizantes orgânicos e aduba- cidos em cobertura para a maioria das culturas, con- os fertilizantes sólidos, de solubilização gradual, apli-
conservacionistas, como a construção de terraços e ção verde forme pesquisas realizadas e observações de campo. cados manualmente ou com máquinas, bem como
curvas de nível, para se evitar as perdas do solo e de Vale observar que a aplicação de fósforo em cober- aqueles altamente solúveis, por meio da fertirrigação.
Os fertilizantes orgânicos têm importante função tura, nas proporções máximas de 1:4 a 1:3 de P2O5
água por erosão. O sistema de semeadura direta cons- A escolha da melhor maneira de aplicação deve consi-
na manutenção e na melhoria das propriedades físi- (pentóxido de fósforo) em relação ao N (nitrogênio)
titui-se também em uma boa alternativa ao produtor derar os custos da mão de obra, o preço dos fertilizan-
cas e biológicas do solo. São utilizados estercos ani- e ao K2O (óxido de potássio), pode proporcionar me-
rural, citando-se como exemplo o crescente cultivo de tes e a produtividade esperada.
mais, materiais vegetais triturados, tortas vegetais e lhor qualidade das hortaliças colhidas, conforme ob-
cebola e beterraba na região da Média Mogiana do
compostos orgânicos, desde que devidamente bio- servações práticas em diversos locais com diferentes • Adubação mineral com micronutrientes
Estado de São Paulo.
estabilizados. A aplicação dos fertilizantes orgânicos tipos de solos e algumas espécies de hortaliças. A alta Os micronutrientes devem ser aplicados no solo
Cebola produzida em
deve ser feita em área total dos canteiros, sulcos ou solubilidade dos fertilizantes binários monoamônio de preferência junto com os macronutrientes, parte
área que recebeu as Boas covas, incorporando-se uniformemente, com antece- fosfato (MAP) e diamônio fosfato (DAP), que contêm no plantio e parte em cobertura. A aplicação desses,
José Maria Breda Júnior

Práticas conservacionistas. dência de 30 a 40 dias ao plantio. No comércio exis- o fósforo (P) nas formas H2PO4- e HPO4 - e são com- por meio de pulverizações foliares, complementa a
tem compostos orgânicos humificados, que podem ponentes de fórmulas de média e alta concentração aplicação no solo, sendo importante destacar que os
ser aplicados com antecedência de 15 a 20 dias antes de nutrientes, possibilita uma rápida absorção de fós- fertilizantes foliares não devem ser misturados com
do plantio, sem o risco de “queima” das sementes ou foro pelas raízes das hortaliças, inclusive aquelas de agrotóxicos na mesma aplicação. A falta ou carência
mudas. ciclo rápido. Nas fórmulas de baixa concentração de de determinados micronutrientes podem compro-
A adubação verde consiste no cultivo e no corte nutrientes (como 12-4-12) nas quais o superfosfato meter o bom desenvolvimento das culturas, como no
de plantas imaturas, no pleno florescimento, com ou simples está presente, essas contêm além do fósforo, caso da couve-flor, onde a falta de boro (B) pode pro-
sem a incorporação da fitomassa ao solo. Dentre os cerca de 40% de gesso agrícola (sulfato de cálcio di-hi- vocar a podridão parda.
26 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬27

mais complicada devido às mudanças climáticas e altas va armazenadas em reservatório com capacidade para
temperaturas, passaram a investir em olericultura; ou- mais de um milhão de litros. A classificação, embalagem
tros ainda aproveitaram para descobrir novas formas de e o processamento mínimo estão nos planos, mas por
produção. Júlio acompa- enquanto investe em sistemas variados de culti-
nha as decisões, opina, Shintate e Júlio: CATI dá vo: céu aberto com mulching, gotejamento, fitas

CASA DA AGRICULTURA
faz projetos para obten- assistência e apoio ao microaspersoras que jogam água de baixo para
ção de crédito rural, bus- produtor. cima (“santeno”), telados coloridos. Sabe dizer
ca aperfeiçoamento, está com exatidão as vantagens e desvantagens de
junto com a comunidade cada um destes sistemas de acordo com o mer-
nas lutas por um olhar
Biritiba Mirim – uma cidade em tons de verde
cado, se para feirantes alfaces de 700g, se para
mais compreensivo para supermercados bastam 300g. “É preciso tirar o

Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI


o produtor rural em uma melhor proveito de cada um deles”, diz Toshi,
região que, se por um um exemplo entre os produtores.
Graça D’Auria – Jornalista – Centro de Comunicação Rural (Cecor/CATI) – gdauria@cati.sp.gov.br
lado é privilegiada pela
Enquanto uns diversificam, outros investem

H
natureza, por outro tenta
á quase cem anos, imigrantes japoneses che- de irrigação, conseguirão passar pela maior crise hídrica sobreviver às várias limi- em produzir o melhor agrião. Não é que Stevan
gavam trazendo na bagagem determinação da história de São Paulo”, alerta o engenheiro agrôno- tações à produção agro- Wihthmann, um descendente de alemães e
para mudar as suas vidas e a de toda uma mo Júlio Nagase, responsável pela Casa da Agricultura pecuária. japoneses, não cultive outras verduras como
região por muitas gerações e Mogi das Cruzes e região (CA) de Biritiba Mirim, em tupi-guarani o “pequeno lugar repolho, alfaces diversas e rabanete (na rotação com o
Olericultores de Biritiba Mirim –
tornaram-se conhecidas pela oferta de flores e horta- onde nascem muitos biris”, uma planta nativa que flores- agrião) como alternativas de renda, mas o forte mesmo
liças, parte do “cinturão verde” formado no entorno da ce em terrenos alagados. exemplos de perseverança é o agrião de qualidade. “O plantio é rústico e o agrião
maior capital do País. Um local Andando pelas ruas e estradas vicinais de Biritiba se desenvolve mui-
As mineradoras também dispu-
privilegiado pelos mananciais de Mirim, a paisagem lembra uma colcha de retalhos em to bem em terre-
Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI

tam espaço com os agricultores e


água, berço de um dos principais e vários tons de verde, tanto nas turfas quanto nas encos- nos como a turfa,
a expansão imobiliária encareceu
mais conhecidos rios do Estado de tas onde o terreno é um argissolo, vermelho e arenoso e presente em 100%
as terras na região, muitos produ-
São Paulo, o Tietê, que nasce em os plantios protegidos vão sendo instalados em colora- da propriedade”,
tores não são proprietários, mas
Salesópolis. O Tietê, somado aos ções que vão do branco ao pérola, vermelho, azul e ao afirma Stevan que
arrendatários das terras (25%).
rios Paraitinga, Taiçupeba, Jundiaí preto. “Hoje existem plásticos e telas de cores variadas, conta ter “virado
Consciente destes fatores, o pre-

Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI


e Biritiba Mirim, entre vários ou- cada um oferece vantagens e desvantagens, então é agricultor”. Na ver-
feito Carlos Alberto Taino Junior, o
tros córregos e cursos d’água, per- preciso experimentar com cuidado antes de investir em dade, casou-se com
“Inho”, oferece todo apoio à CA lo-
mitiram a construção de três gran- tecnologias ainda não dominadas”, explica Júlio Nagase. a bióloga Neusa
cal, apesar de não haver um convê-
des represas: Taiçupeba, Ponte Coberturas vermelhas, por exemplo, auxiliam algumas Hideko Gishifu e foi
Nova e Paraitinga. Com água em nio formal. O Banco de Alimentos, ela quem trouxe a
criado pela Prefeitura, atende 200 variedades de alfaces e tornam a colheita mais precoce,
abundância até bem pouco tempo porém podem sombrear demais outras, principalmen- experiência com
atrás, a olericultura prosperava. O famílias carentes com oferta de agricultura. Ela tam-
cestas de hortaliças e há uma preo- te em dias nublados, faltar insolação e causar danos. “O
povoado de Biritiba Mirim foi cres- ideal é experimentar em uma área menor, verificar os bém é responsável
cendo e, emancipado em 1964, cupação do prefeito com a melho- pela genética da planta, escolhe as mudas com folhas
ria das estradas, elas cortam a área resultados e nunca apostar todas as fichas em uma só
hoje conta com quase 30 mil ha- tecnologia”, diz o técnico. mais redondas, uniformes e de um verde bem escuro.
bitantes e 545 unidades de produ- rural, facilitando o escoamento da A qualidade do agrião é reconhecida nas Centrais de
ção agropecuária, segundo os da- produção. “Fizemos aqui um rodo- O produtor Evandro Toshiyuki Omura, o Toshi, vem Abastecimento de São Paulo, Mogi das Cruzes e Bauru e
Equipe da Casa da Agricultura de anel rural”, afirma o prefeito, que
dos do Levantamento Censitário de uma família de agricultores. Ao decidir ficar na ter- está conquistando o Rio de Janeiro. Como Toshi, Stevan
Biritiba Mirim comandada pelo técnico está em segundo mandato e de
das Unidades de Produção Júlio Nagase.
ra, a exigência era que fosse própria. O sítio de 12ha em também faliu e passou cinco anos no Japão trabalhan-
Agropecuária (LUPA). O municí- sua janela observa os canteiros de Biritiba foi adquirido em 1994 depois de mais de 20 anos do para pagar as dívidas. Voltou decidido a vencer como
olerícolas, paisagem frequente em de arrendamentos. Aos 42 anos Toshi já faliu, passou
pio tem na agricultura a principal agricultor. Começou em cerca de 5ha, hoje arrenda ou-
Biritiba Mirim. O prefeito conta: “O seis anos no Japão e voltou decidido a alavancar o seu
fonte de renda e geração de emprego, diretos e/ou in- tros 7ha onde pratica irrigação superficial com água do
papel do extensionista é tão fundamental que depois de negócio. Muitos conceitos mudaram: o tratamento dos
diretos, produz e envia hortaliças para as Centrais de rio Biritiba Mirim, uma outorga que irá vencer em pouco
trabalhar por sete anos como conveniado da Prefeitura funcionários (são oito), “são parceiros, recebem bônus
Abastecimento (Ceasa) de Mogi das Cruzes e São Paulo e tempo. Fica a pergunta: sem chuva, o que fazer? A turfa
de Biritiba Mirim, Júlio Nagase passou no concurso pú- quando a lucratividade é maior, bônus de Natal ao invés
atende supermercados, restaurantes, quitandas e feiras é úmida, mas resseca com facilidade, vira um torrão; é
blico da Secretaria de Agricultura e Abastecimento e de cestas para que possam decidir o que comprar e vale
livres de cidades dos Litorais Sul e Norte, além do Vale uma terra difícil de ser trabalhada, que exige maquinário
assumiu a vaga em Franca. Disposto a se mudar para a a cada 15 dias”; a busca incessante pela qualidade, “no
do Paraíba. Em 2010, Biritiba Mirim ganhou o título de especial, mais leve para não afundar. Foram os financia-
Alta Paulista, o técnico foi surpreendido por um abaixo Japão não é preciso revirar as gôndolas, há uniformidade
Capital Nacional do Agrião, folhosa plantada a céu aber- mentos via Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista
-assinado, comandado pelos próprios produtores soli- e perfeição”; a necessidade de disciplina, limpeza, plane-
to nos terrenos formados pelas turfas, uma terra negra (Feap) que permitiram a aquisição. E já que “virou” agri-
citando ao governador a sua transferência para Biritiba jamento e investimento em tecnologia e o olhar para o
e úmida encontrada nos vales. O plantio a céu aberto cultor, tudo que Stevan espera é ter um horizonte para
Mirim”. Foi assim que Júlio assumiu de vez seu papel na futuro. Enquanto muitos reduzem a produção no inver-
ainda predomina (85 a 90%), porém com a interrupção continuar produzindo, mesmo que a chuva não venha,
comunidade. Conhecido por todos, ele circula pelas pro- no, ele consegue mantê-la durante todo o ano devido
das licenças (outorgas) de uso da água, desde 2013, no- mesmo que o clima esteja mais quente, mesmo que haja
priedades, conta as histórias das famílias, agruras, voltas à fidelidade dos seus sete compradores (não tem capa-
vos planejamentos precisam ser feitos. “Apenas aqueles dificuldades a serem enfrentadas.
por cima e as opções para seguirem como produtores cidade para atender mais). Porém, não para de investir
que estão investindo em sistemas que reduzem o uso da rurais. Alguns desistiram quando Holambra passou a li- como no recém-construído barracão de 450m² com te- Julio Nagase conta que 40 famílias são responsáveis
água, como hidroponia, plasticultura e diversos sistemas derar o ramo da floricultura; outros além da fruticultura, lhado térmico e calhas para captação de água da chu- por 150ha de agrião (nos anos 1980 e 1990 era mono-
28 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬29

Crédito Rural para a Olericultura


cultura na região) e ser considerada a Capital Nacional Matrizes (DSMM/CATI).
do Agrião oferece um plus na venda do produto. Foi com Os caquizeiros são an-
esse pensamento que o prefeito de Biritiba Mirim traba- tigos, Cláudio lembra
lhou para conquistar o título. Alguns produtores usam que ainda menino via
esse marketing outros não, mas uma estátua no meio da
cidade não deixa mentir: nela um agricultor carrega uma
o pai fazer a poda das
árvores. Elas têm entre
Financiando o alimento na mesa do cidadão
cesta com agrião, verdura rica em ferro, de plantio e co- 30 e 50 anos e continu- Alexandre Manzoni Grassi – Engenheiro Agrônomo – Assessoria de Políticas Públicas/CATI/SAA
lheita rústica. No cultivo do agrião não é preciso encan- am produzindo: “estou Alexandre Mendes de Pinho – Engenheiro Agrônomo – Assessoria de Políticas Públicas/CATI/SAA

A
teirar, vira um tapete e o corte é feito em maços usando- sempre em busca de olericultura, dentro do universo da agricultura, é a maior responsável pela produção de alimentos para
se uma faca. É também muito resistente. Caminhe sobre tecnologia, faço visitas, o ser humano. Todos os dias consumimos algum produto advindo da olericultura, podendo ser uma sa-

Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI


ele, formará uma trilha, pouco depois já estará fechada vou aos Dias de Campo lada (ex.: folhas), um molho (ex.: tomate), batata frita, um refogado (ex.: chuchu), temperos (ex.: salsinha
pela exuberância do cultivo. promovidos pela CATI, e cebolinha), entre muitas outras.
mudei o sistema de
Biritiba Mirim apresenta uma enorme diversidade Dada a importância desses produtos, foram colocadas à disposição do olericultor as seguintes linhas de finan-
podas e tenho garanti-
de oferta em hortaliças em áreas de cultivo que vão Cláudio Gunji alia ciamento.
do uma boa colheita”,
de 2ha até 50ha, maiores do que isso só duas grandes olericultura e fruticultura
diz Cláudio. A opção Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (Feap) – Ano Safra 2015/2016
fazendas, mas também elas arrendam suas terras para para obter maior renda.
da família é investir A olericultura envolve um número muito grande de culturas, cada uma com sua particularidade, e visando
os pequenos produtores. Além desses, ainda há um as-
em qualidade e sabor contemplar as necessidades do produtor rural paulista, o Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista/Banco do
sentamento com 52 famílias reunidas na Associação dos
diferenciado, tanto em relação às frutas como à horta. Agronegócio Familiar (Feap/Banagro) disponibiliza algumas linhas de crédito para investimento, que têm por ob-
Pequenos Agricultores e Produtores Rurais do Casqueiro
“Temos conversado com vizinhos e todos vêm mudando jetivos financiar a modernização dos meios de produção, via atualização da infraestrutura já existente na proprie-
e Região sob o comando da presidente Ana Paula Roque
a mentalidade, buscando uma produção mais natural, dade ou a implantação de novas infraestruturas; bem como adequar o sistema produtivo buscando a certificação
dos Santos. São, principalmente, produtores de bata-
saudável e diferenciada para conquistar mercados mais orgânica quando o produtor assim o quiser.
ta-doce e mandioca, além das tradicionais folhosas e
exigentes que pagam um preço justo pelos produtos.
entregam para políticas públicas como o Programa de
“Ganho na pós-colheita, os produtos têm maior durabi- Principais linhas de financiamento para a olericultura:
Aquisição de Alimentos e párea o programa Nacional da lidade, cor e sabor melhores e compradores certos em Linhas Finalidade Limite de Prazo Carência*
Alimentação Escolar (PNAE), atendendo aos municípios Caraguatatuba, Santos, Guarujá e Serra da Cantareira, na Crédito Máximo
de Suzano, Mauá e Biritiba Mirim. Julio Nagase explica capital paulista. AGRICULTURA EM Pessoa Física – Implantação, modernização e/ou reforma de estufas R$ 200.000,00 6 anos 2 anos
que o associativismo não tem uma boa aceitação na
AMBIENTE PROTEGIDO agrícolas ou outros sistemas de produção em ambiente protegido,
região. “Existem em Biritiba associações muito antigas,
inclusive destinados à fungicultura.
de mais de 70 anos, mas os associados se reúnem social
e culturalmente, e em questões que demandam cons- Pessoa Jurídica – Estufas com edificações conforme normalização R$ 500.000,00
cientização e auxílio mútuo, como no caso do preenchi- da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), especificadas
mento do Cadastro Ambiental Rural (CAR), exigido por em projeto técnico; e declaração do produtor rural, com indicação
lei e que foi agilizado pela parceria com as associações. da capacidade de comercialização da produção, qualificando e

Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI


Mas na hora da comercialização cada um prefere ter a quantificando os mercados e canais de distribuição atuais e potenciais.
sua própria estrutura. De qualquer forma, tudo o que é AGRICULTURA IRRIGADA Para a construção isolada de poços artesianos ou semiartesianos. R$ 200.000,00 8 anos 3 anos
produzido tem mercado certo e garantia de venda. Não PAULISTA Para a aquisição e/ou modernização de equipamentos de irrigação. R$ 500.000,00
é difícil colocar produto no mercado, que é amplo e va- AGRICULTURA ORGÂNICA Produtor rural, pessoa física ou jurídica. R$ 200.000,00 7 anos 4 anos
riado: venda direta, feirantes, supermercados, restauran- Cooperativa ou associação de produtores rurais. R$ 500.000,00
tes, quitandas. O desafio está sendo em como produzir
DESENVOLVIMENTO Investimento e custeio para melhoria das condições tecnológicas e da R$ 200.000,00 7 anos 3 anos
e avançar dentro das limitações impostas pelo clima e Paulo Shintate, em busca de diversificação, fez uma
REGIONAL SUSTENTÁVEL infraestrutura produtiva das explorações agropecuárias.
pela escassez de água”, explica Júlio. Aí entra o trabalho opção diferente. Produtor de hortaliças há 30 anos em
PAULISTA
da extensão rural em orientar, oferecer treinamento, au- campo aberto e premido pela expansão de uma mine-
radora, que já avista da sua plantação, Paulo aproveita SEMENTES E MUDAS Para aquisição de sementes e/ou mudas. R$ 100.000,00 2 anos 2 anos
xiliar nos projetos para obtenção de financiamentos, di-
fundir as políticas públicas. o inverno e reduz as hortaliças para dar mais atenção às Para produção de sementes e/ou mudas. 5 anos 2 anos
orquídeas variedade Cymbidium, as quais passou a pro- *A carência está inclusa no prazo máximo.
A preocupação em aumentar a produtividade, reduzir duzir há 14 anos. Como não tem estrutura para entrega,
custos e preservar os recursos naturais levou outro pro- faz parcerias e tem clientela certa. No caso das verduras, Condições gerais para obtenção de financiamentos utilizando o Feap/Banagro
dutor, Felício Suzuki, a transferir quase toda sua produ- o pedido é feito um dia antes e cortadas na hora. E suas Beneficiários – produtores rurais, pessoa física, com renda agropecuária anual de até R$ 800.000,00, que deve
ção para o cultivo em ambiente protegido. “O custo ini- orquídeas seguem para as Centrais de Abastecimento representar, no mínimo, 50% do total de sua renda bruta anual;
cial é alto, mas compensa, é possível recuperar o investi- de São Paulo e Campinas, feiras e lojas locais e vão até
mento de dois a três anos”, diz Felício. Realmente não fal- Taxa de juros – 3% ao ano;
para Holambra, a capital das flores, e Brasília.
ta mercado para os olericultores. É por isso que mesmo Garantia – de, no mínimo, 100% do valor financiado, podendo ser constituída de penhor, hipoteca, fiança,
aqueles que têm tradição em fruticultura também reser- Com muito a oferecer, nichos diferenciados à dispo- aval e/ou outras formas de garantia reais;
vam um espaço para olerícolas. Cláudio Hideo Gunji tem sição e proximidade dos grandes mercados consumi-
1ha de horta e, além do pomar de caquis, passou a plan- dores, Biritiba Mirim só quer manter as suas conquistas. Agente financeiro – Banco do Brasil S.A.;
tar atemoia, cultivar Thompson, 50 mudas adquiridas do E para isso conta com a orientação e auxílio técnico da Critérios para concessão de mais de um financiamento: para os produtores rurais, pessoa física, serão con-
Núcleo de Produção de Mudas de São Bento do Sapucaí, Casa da Agricultura, basta chegar lá: Rua Sebastião Silva, cedidos mais de um financiamento, para o mesmo tomador, desde que a somatória dos valores financiados dos
pertencente ao Departamento de Sementes, Mudas e 94 – Centro. contratos, ao ser acrescida ao financiamento solicitado, não ultrapasse o valor de R$ 600.000,00.
30 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬31

Programas de subvenção
Programa Finalidade Limite de Crédito Prazo Máximo Carência*
Uso adequado de defensivos
Segurança no controle de pragas e doenças
Pró-Trator Subvenção da taxa de juros para a aquisição de tratores novos ** 8 anos 3 anos
Pró-Implemento Subvenção da taxa de juros para a aquisição de implementos e R$ 200.000,00 8 anos 3 anos
equipamentos novos acopláveis ao trator
Integra SP Recuperação de Áreas Degradadas por Grandes Erosões R$ 10.000,00 *** - Sergio Mitsuo Ishicava – Engenheiro Agrônomo – CATI Regional Bauru – sergio.ishicava@cati.sp.gov.br
Seguro Rural Subvenção do prêmio do seguro rural R$ 24.000,00 - -

A
*A carência está inclusa no prazo máximo. olericultura tem particularidades que a dife- A legislação brasileira é rigorosa no registro dos
**Consultar preços dos tratores na Casa da Agricultura de seu município. renciam de outros setores da agropecuária. agrotóxicos (e aqui nem iremos discutir o uso do ter-
***Pagamento feito mediante recebimento das obras e apresentação das respectivas notas fiscais. Uma das principais vem do fato de ser cons- mo agrotóxico, termo oficial usado na legislação em
tituída por um grupo diverso de plantas, formado por vigor, ou defensivo) e isso leva os fabricantes a não
Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) – Ano Safra 2015/2016 variadas espécies cultivadas de forma temporária. A incluírem as culturas de menor expressão econômica,
maior parte da produção de olerícolas (hortaliças de fazendo com que a listagem de produtos liberados
Para o novo ano safra que se iniciou no dia 1.° de julho de 2015, as novas condições de financiamento são: modo geral) está concentrada em propriedades de para uso em hortaliças seja muito restrita, oferecendo
Linhas Faixa I Faixa II Faixa III exploração familiar, intensivamente utilizadas em suporte fitossanitário insuficiente para alguns tipos
Pronaf Custeio Limite de Crédito Até R$ 10 mil Acima de R$ 10 mil até Acima de R$ 30 mil até área e tempo. É uma atividade que gera significativa de pragas e doenças. Como resultado, algumas ole-
R$ 30 mil R$ 100 mil quantidade de empregos no campo pela alta exigên- rícolas acabam figurando como “grandes vilãs” (fora
Taxa de Juros 2,0% a.a. 3,5% a.a. 4,5% a.a.
cia de mão de obra em todas etapas da produção; de conformidade legal) quando se observa as análises
cada hectare responde por até seis empregos diretos de resíduos de agrotóxicos realizados periodicamente
Pronaf Investimento Limite de Crédito Até R$ 10 mil Acima de R$ 10 mil até Acima de R$ 30 mil até
e mais seis indiretos. Embora exija altos investimen- pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
R$ 30 mil R$ 150 mil ou R$ 300 mil
tos, permite a obtenção de elevados rendimento e Nos últimos anos, podemos citar como exemplos o pi-
para avicultura, suinocultura
produção por área. No entanto, trata-se de uma ativi- mentão e o pepino, no entanto já foram outras, como
e fruticultura.
dade de alto risco em função da grande sensibilidade o tomate.
Taxa de Juros 2,5% a.a. 4,5% a.a. 5,5% a.a. às condições climáticas, maior sazonalidade de oferta
O que ocorre é que muitas vezes esses resultados
Prazo Até 5 (cinco) anos, com até 1 (um) ano de carência, para caminhonetes de carga; e oscilações de preços, além de problemas fitossani-
são divulgados na grande imprensa de forma irres-
Até 10 (dez) anos, incluídos até 3 (três) anos de carência, para os demais itens financiáveis. tários devido ao cultivo intensivo e escalonado em
ponsável e sensacionalista, faltando dar uma melhor
pequenas áreas.
O Pronaf Custeio deve ser utilizado para financiar as despesas normais de produção. orientação à população sobre as reais condições de
São justamente esses problemas decorrentes da contaminação. Fatos como esse podem causar sérios
O Pronaf Investimento se destina a promover o aumento da produção e da produtividade e a redução dos incidência de pragas e doenças nas olerícolas os que prejuízos a toda cadeia produtiva de diversas cultu-
custos de produção, tendo por objetivo a elevação da renda familiar. acarretam maior demanda de assistência técnica jun- ras. Recente divulgação sobre o potencial efeito can-
Os créditos de investimento estão restritos ao financiamento de itens diretamente relacionados com a implan- to à extensão rural. Mesmo assim, desses, apenas cerígeno dos resíduos dos agrotóxicos em olerícolas
tação, ampliação ou modernização da estrutura das atividades de produção, de armazenagem, de transporte uma pequena parcela de produtores procura auxílio, e frutas, principalmente, tem trazido uma série de
ou de serviços agropecuários ou não agropecuários, no estabelecimento rural ou em áreas comunitárias rurais a grande maioria ainda recorre às "receitas" de vizi- preocupações para toda a sociedade em relação ao
próximas, sendo passíveis de financiamento, ainda, a aquisição de equipamentos e programas de informática nhos ou parentes, orientações de lojas agropecuárias consumo de produtos seguros e saudáveis. O consu-
voltados para a melhoria da gestão dos empreendimentos rurais, de acordo com projetos técnicos específicos. e, em alguns casos como o da produção em ambiente midor de hortaliças também tem se tornado cada vez
protegido, de assistência técnica privada contratada mais exigente em qualidade e aspectos nutricionais,
Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) - Ano Safra 2015/2016 e, nesse caso, nem sempre corretas, pois muitas ve- sendo fundamental aos produtores se adequarem a
Linhas Limite de Crédito Prazo Máximo Taxa de Juros
zes são observadas receitas proibidas pela legislação esta realidade.
vigente como misturas de produtos com princípios
Pronamp Custeio R$ 710.000,00 2 anos 7,75% a.a.
ativos diferentes com aplicações sistemáticas. Nesse Portanto, não discutiremos a semântica entre agro-
Pronamp Investimento R$ 385.000,00 12 anos, inclusos até 2 anos de carência. 7,50% a.a. caso é usar uma "bala de canhão" para tentar acertar tóxicos ou defensivos, ou entraremos na discussão
um possível "inseto", o qual muitas vezes ainda não sobre as vantagens e desvantagens dos sistemas de
Para ter acesso ao crédito do Pronamp, o produtor rural tem que atender aos seguintes requisitos: esteja causando um problema tão grande para justifi- cultivo convencional ou orgânico, um debate muito
• Ter, no mínimo, 80% de sua renda bruta anual originária da atividade agropecuária ou extrativa vegetal; car tal procedimento. mais amplo. Quero abordar é a necessidade premente
• Possuir renda bruta anual de até R$ 1,6 milhão.
O interessado deve se dirigir à instituição financeira de sua preferência, que informará qual a documentação
necessária, analisará a possibilidade de concessão do crédito e negociará as garantias.
Edson Savazaki

Outras linhas de financiamento – Ano Safra 2015/2016


Linhas Limite de Crédito Prazo Máximo Taxa de Juros
Moderfrota / PSI Rural Não tem* 8 anos, inclusos até 2 anos de carência. 7,75% a.a.
Moderinfra (Irrigação) R$ 2.000.000,00 12 anos, inclusos até 3 anos de carência. 8,75% a.a. (7,50)**
*De acordo com limite de crédito estipulado pela instituição financeira que estiver analisando a proposta de crédito.
** Taxa de juros a ser utilizada para projetos de irrigação.

Mais informações sobre as linhas de financiamento citadas podem ser obtidas na Casa da Agricultura de seu município.
32 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬33

órgãos competentes. As embalagens vazias rígidas


O desenvolvimento da agroecologia em Avaré
Roberta Lage – Cecor/CATI

devem passar por tríplice lavagem e ser inutilizadas


e as flexíveis devem ser separadas e armazenadas
no depósito junto com as cheias até o momento da Projeto envolve agricultores familiares, docentes, estudantes, consumidores e
devolução, devendo ser acondicionadas para tal. técnicos; mais de meio milhão de reais são comercializados na merenda escolar
Com relação ao depósito, foi editada a resolução NBR
9843, determinando que volumes inferiores a 100kg Fernando Franco Amorim – Biólogo e jornalista da Casa da Agricultura de Avaré (CATI Regional Avaré) – ca.avare@cati.sp.gov.br
ou 100L podem ser armazenados em um armário de
material não combustível, devidamente identificado

Fernando Franco
com o adesivo “Cuidado Veneno”. O local deve ser co- o início de 2013, a CATI Regional Avaré ini- Muda alta: melhor
ciou os trabalhos para possibilitar a partici- enraizamento e resistência
berto, ter piso impermeável e estar localizado fora da a pragas e doenças.
residência. Antes, havia uma única resolução, inde- pação dos agricultores familiares nas cha-
pendente de volume, e a obrigatoriedade de se ter madas públicas do Programa Nacional de Alimentação
uma construção específica para essa finalidade. Escolar (PNAE) no município, por meio do Projeto CATI
Olericultura e, a partir dessa ação,
Recomenda-se aos produtores rurais procurarem foi criado um grupo informal de

Fernando Franco
os técnicos locais da Coordenadoria de Assistência agricultores. Esse grupo partici-
Técnica Integral (CATI) e da Coordenadoria de Defesa pou ativamente de reuniões arti-
Agropecuária (CDA), ambas pertencentes à Secretaria culadas pela CATI com a Secretaria
de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Municipal da Agricultura e
Paulo, nas Casas da Agricultura e/ou nos Escritórios Abastecimento e a Central de
Regionais das Coordenadorias para obterem mais in- Alimentação Escolar. Em julho de
formações. Além disso, o site da Associação Nacional 2013 foi aprovado o primeiro pro- Palha: controla o mato, retém água e
de Defesa Vegetal (Andef ) disponibiliza mate- jeto desse grupo para venda no aumenta a atividade biológica no solo. to do uso do solo aos agricultores e a rea-
rial didático interessante e o Serviço Nacional de PNAE. lização da primeira edição do “Semeando
Aprendizagem Rural (Senar) oferece cursos a aplica-
Com o sucesso desse primeiro projeto e com as capa- Agroecologia em Avaré”, encontro técnico com mesas-
dores de agrotóxicos.
citações promovidas no Programa de Desenvolvimento -redondas e palestras fizeram parte das atividades de
Esse trabalho de "educação sanitária" faz parte das Rural Sustentável - PDRS – Microbacias II – Acesso ao 2014, bem como a campanha de consumo consciente
Boas Práticas Agrícolas (BPA) divulgadas pela CATI. Mercado, o grupo cresceu, se formalizou e hoje a em comemoração ao Dia Nacional da Agroecologia.
Mas, principalmente em relação à olericultura, é fun- Associação dos Seis Bairros está em seu segundo con- No segundo semestre de 2014 foram definidas qua-
damental a mudança da atual situação na qual se ob- trato de venda com a Prefeitura, ultrapassando meio mi- tro Unidades de Adaptação de Tecnologia (UAT), ten-
servam ações positivas, como cursos, palestras, entre lhão de reais e com vários agricultores comercializando do os agricultores familiares destas unidades como
de uma ampla discussão envolvendo todo o setor no outros, acontecendo em diversas regiões do Estado. individualmente no Programa Paulista da Agricultura bolsistas do projeto para condução das atividades de
sentido de promover o uso adequado e racional de Porém, são ações pontuais e isoladas. O ideal seria de Interesse Social (PPAIS). ampliação e adequação de tecnologias locais. Isto foi
produtos e trazer algumas reflexões sobre os diversos promover uma maior articulação, envolvendo profis-
O apoio no acesso ao mercado, a preocupação com a proposto como forma de incentivo ao agricultor duran-
desafios a serem vencidos, com objetivo de se ter uma sionais de órgãos públicos e privados ligados ao setor,
qualidade dos alimentos e a segurança alimentar, bem te o processo de transição agroecológica.
produção sustentável de alimentos seguros e saudá- desde a pesquisa, o ensino até a extensão dentro de
um programa ou projeto de trabalho que coordenas- como o início do Programa SP Orgânico, motivou a par- Parcerias – “O desenvolvimento dessa parceria com
veis. ceria entre a CATI Regional Avaré e o Instituto Federal
se as ações e metas a serem cumpridas. São diversas a CATI Regional Avaré para criação do Núcleo, com
Para o uso correto de defensivos/agrotóxicos é as propostas de ações, dentre elas cito como funda- de Educação, Ciência e Tecnologia (IFSP) Campus Avaré apoio do CNPq, possibilitou a docentes e estudantes,
fundamental se adequar às normas vigentes quanto mentais: na elaboração e aprovação do projeto de formação bem como técnicos, parceiros e agricultores familiares
à aplicação, ao transporte, armazenamento e descar- do Núcleo de Estudos em Agroecologia e Produção desenvolverem ações, integrando ensino, pesquisa e
• o desenvolvimento de normas oficiais de Boas Práti- Orgânica (NEA Avaré), com financiamento do Conselho
te de embalagens vazias. O uso e a aplicação deverão cas, observando os princípios da Produção Integrada extensão rural, aproximando a academia da comunida-
estar de acordo com o receituário agronômico feito Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico de local, favorecendo a construção e socialização dos
para algumas olerícolas de maior expressão; (CNPq). As atividades iniciais do NEA Avaré, em 2014,
por um técnico habilitado, que fará toda prescrição • a viabilização da extensão de uso para culturas de conhecimentos e práticas relacionadas à agroecologia
relativa às culturas nas quais serão aplicadas, deven- consistiram na visita aos produtores a fim de divulgar a e aos sistemas de produção orgânica”, avalia Raquel
suporte fitossanitário insuficiente por intermédio de criação do Núcleo e a parceria.
do constar a especificação não só da cultura, mas normas editadas pelo Ministério da Agricultura, Pecu- Mattana, pesquisadora do IFSP e coordenadora do NEA
também da propriedade onde será aplicado, não sen- ária e Abastecimento (MAPA), responsável por estabe- “O projeto coloca em prática a sustentabilidade, Avaré.
do permitido o uso fora da área especificada. É fun- lecer essas diretrizes e exigências; produzindo alimentos em quantidade e qualidade, Sistema PMB - Palha, Muda Alta e Biofertilizante
damental que o aplicador utilize o Equipamento de • a ampliação e divulgação de estudos de Manejo In- aumentando renda ao agricultor e viabilizando novos – Além da CATI Regional Avaré, o projeto conta com a
Proteção Individual (EPI) adequado. tegrado de Pragas e Doenças. postos de trabalho. A expectativa é de que ampliando a parceria do engenheiro agrônomo Sérgio Pimenta, que
É claro que, além desses, há vários outros desafios renda e a qualidade de vida dos agricultores familiares, há mais de 20 anos estuda os benefícios do uso da com-
Por ocasião da compra, verificar se consta na Nota
a serem vencidos. O que se deseja e se faz necessá- a atividade seja atrativa ao jovem, promovendo tam- postagem laminar. Com o apoio de Pimenta, o Núcleo
Fiscal o local de devolução das embalagens vazias. O
rio é incentivar essa discussão sobre o uso adequado bém a renovação e a permanência na atividade rural”, iniciou os trabalhos de desenvolvimento do Sistema
local deve ser devidamente licenciado para esse fim,
ressalta Eliseu Aires de Melo, diretor da CATI Regional PMB, que consiste no desenvolvimento da tecnologia
sendo responsabilidade das revendas, na data da de- dos agrotóxicos nas olerícolas em face da importância
Avaré. de plantio direto na palha sem herbicida, com uso de
volução, emitir um recibo comprovando a entrega. dessa cadeia produtiva nos aspectos nutricional e de
Este recibo deve ser guardado pelo produtor durante saúde, social e econômico, para que haja um desen- Uma série de capacitações sobre conceitos de agroe- biofertilizante e muda alta. Tendo como referência o
um ano para ser apresentado em caso de vistoria dos volvimento sustentável de todo o setor. cologia, sistemas orgânicos de produção e planejamen- plantio direto na palha e o pastoreio racional Voisin,
34 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬35

PANC – não é moda ou estilo de vida, é


Já para a agricultora Maria Izabel Alves, da UAT Sítio
Biofertilizante: Santo Antonio, a entrada no projeto mudou sua vida.
restaura a Ela estava desanimada com a baixa produtividade da
fertilidade do horta e o alto custo dos insumos e pensava em desistir
solo e reduz
fungos nocivos e
nematoides.
da atividade. “Usando a palha, a muda alta e o 'bio' con-
sigo colher frutas, legumes e verduras mais saudáveis,
gastando menos. Além disso, fico mais tranquila ao
resgate de uma alimentação mais saudável!
saber que minha clientela Graça D’Auria – Jornalista – Centro de Comunicação Rural (Cecor/CATI) – gdauria@cati.sp.gov.br
está consumindo produtos

D
“Hoje, consigo

Fernando Franco
produzir irrigando sem resíduos de venenos”, e uns tempos para cá, uma nova sigla come- Soledade
apenas com declara. çou a circular pela mídia e a fazer parte do vo-
Fernando Franco

e Valéria:
biofertilizante”, Miro cabulário de naturalistas, nutricionistas, chefs
Albano. Para o olericultor André parceria
Diego Albano, da UAT de cozinha, médicos, engenheiros agrônomos e che- no projeto
Primus Ranch, o benefício é gou até aos consumidores exigentes e atentos a tudo Angico do
o rápido desenvolvimento o que pode favorecer a saúde. Nesse caso, as Plantas Cerrado
das plantas no campo por Alimentícias Não Convencionais (Pancs) oferecem qua-
Pimenta passou a explorar alternativas ao meio das mudas altas, sem a lidades e valores nutricionais maiores do que muitas

Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI


trabalhoso processo de compostagem tra- necessidade de utilizar adu- verduras e legumes convencionais cultivados em larga
dicional em camadas (pilhas). bos químicos, herbicidas e escala podem oferecer. Nossos avós sabiam disso, mas
Pimenta relata que para o bom funcio- venenos para controlar pra- com o tempo azedinha, bertalha, taioba, ora-pro-nobis,
namento do Sistema PMB, cada agricultor gas e doenças. “Atualmente, dente-de-leão, feijão-guandu foram sumindo dos quin-
deve encontrar a forma mais fácil de obter consigo tirar repolho ape- tais e hortas e, por consequência, do nosso vocabulário
palha na sua propriedade. Seja por rotação com uma nas utilizando o biofertilizante com o uso do Sistema e paladar. Esse resgate de tradições é tão importante
cultura que deixa bastante macega, pousio da área PMB”, declara o agricultor Miro Albano. culturalmente quanto é para os hábitos alimentares
para produção de biomassa, corte de capim elefante das populações, principalmente aqueles regionais que o movimento Comunidade que Sustenta a Agricultura
A agricultora Kátia Aparecida dos Santos Ribeiro, da (CSA) Brasil, uma organização de origem japonesa que
usado como quebra-vento, pela poda de ramos em sis- acabam por definir quem e como seremos por várias
UAT Sítio Sertãozinho, destaca que, ao aderir ao Sistema chegou ao País há três anos, por intermédio do alemão
tema agroflorestal ou com máquinas para corte de so- gerações.
PMB e seguir as orientações dos técnicos da CATI Herman Pohmann. “Nesses projetos que estão se espa-
bras de pasto. “São várias as alternativas para obter ma- Regional Avaré, conseguiu ampliar sua horta e entregar Para Valéria Paschoal, estudiosa dos valores nutricio-
terial que vai cobrir o solo e abafar a rebrota do mato”, lhando rapidamente pelo Brasil – são 70 iniciativas já
produtos na Merenda Escolar, por meio da Associação. nais das Pancs, os quintais e hortas cederam lugar ao consolidadadas em estados como Rio de Janeiro e São
destaca. “Atualmente, tenho o apoio do meu marido e dos meus concreto e as mais de 10 mil espécies passíveis de se Paulo –, grupos de agricultores são incentivados a culti-
Em seguida, o agricultor deve aprender a produzir filhos no trabalho com a horta. Como não lido com ve- tornarem alimento e que eram encontradas em abun- var uma horta orgânica que ofereça a maior biodiversi-
mudas altas em copinhos plásticos ou pequenos vasos. neno, hoje fico sossegada, pois tenho criança pequena. dância em diversas regiões do Brasil estão desapare- dade possível, incluindo as medicinais, aromáticas e as
“Durante muito tempo pesquisamos substrato adequa- Estou muito animada em ampliar e diversificar minha cendo. Uma das idealizadoras da Organização Não Pancs. Tendo um grupo formado, com produção razoá-
do, mas agora percebemos que o foco deve estar no produção”, alega. Governamental Projeto Angico do Cerrado, com sede vel para atender a uma demanda específica, uma igreja,
adubo líquido que usamos para irrigar as mudas, esta OCS/UAT – Atualmente, as quatro famílias de agri- em Bauru, Valéria percorre 15 estados brasileiros dando um hospital ou um grupo de consumidores, um novo
é a base para a produção de mudas de qualidade, com cultores das UATs formaram uma Organização de aulas em cursos de pós-graduação em Nutrição Clínica CSA é formalizado.
capacidade de competir e sair na frente sombreando o Controle Social (OCS), denominada Orgânicos Avaré, Funcional. Neles, fala sobre o que mais gosta: a riqueza
mato”, destaca Pimenta. nutricional das Pancs em minerais, proteínas e vitami- O Projeto Angico do Cerrado nasceu de uma pro-
visando obter a certificação para venda direta ao con-
sumidor, ampliando o valor agregado dos produtos em nas. “As folhas escuras, como das couves, brócolis, taio- posta parecida. O local escolhido foi o Jardim Europa,
Por outro lado, o agricultor deve dominar a produ-
vários programas de compras governamentais, bem ba, cenouras e beterrabas são ricas em magnésio, um comunidade que concentra uma população de baixa
ção de biofertilizante líquido usando o material dispo-
nível (estercos, farelos e outros resíduos orgânicos). A como uma maior garantia da qualidade biológica dos mineral fundamental ao funcionamento do nosso orga- renda e maior vulnerabilidade na periferia de Bauru, re-
parte líquida será usada na adubação de cobertura e alimentos nos circuitos curtos de produção, comerciali- nismo e ativam a serotonina, responsável pela sensação gião onde ainda havia resquícios de plantas do cerrado
para abrir os “berços” de plantio. O lodo acumulado no zação e consumo. de bem-estar. Outras combatem a hipertensão arterial paulista como gabiroba e mamica-de-cadela, conforme
fundo do tanque de biofertilizante, com a adição regu- ou o colesterol, enfim, tudo o que precisamos pode ser conta a líder comunitária Soledade Roque Moreira, a
lar de esterco, é um excelente material para plantio das encontrado na natureza”, argumenta Valéria. Fuá, que ao lado de Adrina Roque da Fonseca conseguiu
AGROECOLOGIA – O conceito de agroecologia geralmente é utilizado destinar uma área para começar uma horta urbana, que
mudas altas. para fazer referência a uma agricultura que abrange, além da produção Para contribuir com essas mudanças, a nutricionista
não mede esforços em divulgar a missão dos profissio- prega uma agricultura sustentada pela comunidade
Os resultados – Segundo o agricultor Alexandre sem contaminantes (agrotóxicos), as questões sociais e políticas, a
onde todos são coagricultores. Com o apoio do proje-
Gabriel Ribeiro, da UAT Estância Água da Fazenda, pro- diminuição da dependência de insumos externos, o manejo ecológico e a nais de nutrição – “garantir o hábito regional e preservar
preservação dos recursos naturais e o desenvolvimento local. a fitobiodiversidade” – e faz isso dividindo o seu tem- to e da Prefeitura de Bauru e também dos profissionais
dutor de olerícolas diversas, especialmente alface, rú-
po e sua casa entre São Paulo, onde tem sua empresa, de extensão rural da CATI, os quais oferecem assistência
cula e almeirão, a principal vantagem do Sistema PMB Porém, para o aspecto legal de comercialização e atendimento à legislação Bauru, onde reside de segunda a quinta-feira, e inúme- técnica, a horta não para de crescer. “Trata-se não mais
é a grande economia de água para irrigação e a redu- vigente, utiliza-se o termo “orgânico”. Independente das conceituações ros locais onde vai a convite e aproveita para divulgar de segurança alimentar, mas da conquista de soberania
ção da compra de insumos externos. “Com a entrada e das diversas correntes filosóficas, para Sergio Faria “o importante é o
no projeto reduzi o uso da irrigação em torno de 70% que nos une e não o que nos separa. Acredito que nossa atuação como
e hoje eu, minha mulher e filha trabalhamos menos e

Lilian Cerveira – Cecor/CATI


extensionistas deva ser a de articuladores para formação de redes, pois
quase não compramos insumos de fora. Antigamente, são elas que possibilitam o desenvolvimento local agroecológico e não
eu gastava muito com agrotóxicos e arriscava a saúde apenas o conhecimento ou a atuação isolada”, esclarece o técnico da CATI
da minha família”, salienta Alexandre. Regional Avaré.
36 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬37

alimentar, quando dessas plantas que podem alimentar milhares de pes-


Produção de olerícolas – tecnologias
Lilian Cerveira – Cecor/CATI

hábitos são resga- soas. É aí que as duas nutricionistas, Neide e Valéria, se


tados e há oferta de complementam e reforçam sua postura. “Existe muito
alimentos saudáveis.
Com isso, ganha a
população direta-
preconceito, ninguém tem medo ou desconfiança com
alfaces, por exemplo”, cita Neide, que se anima com as
trocas e descobertas, a cada viagem por todo o Brasil
diversas e sabores diferenciados
mente envolvida e o onde dá palestras e cursos, levando e trazendo novida-
entorno que adquire des. O cipó-alho veio da Amazônia e enfeita seu jardim, Graça D’Auria – Jornalista – Centro de Comunicação Rural (Cecor/CATI) – gdauria@cati.sp.gov.br
os produtos e contri- assim como o feijão-borboleta, do qual brota uma linda
bui para o aumento flor azul. Esse é o espírito, a Horta Comunitária City Lapa

D
da renda na comuni- fica no caminho que leva à estação e ao metrô e muitas iversos são os sistemas de produção de ole- ras mortas, responsáveis por reduzir o calor, melho-
dade”, explica Valéria pessoas que passam por ali pegam algo para acrescen- rícolas e diversos também são os sabores rar a matéria orgânica e proteger o solo de erosões,
Paschoal. “Nesse tar ao cardápio e deixam algo, foi assim que a catalonha e as cores proporcionados por essa impor- aliadas à irrigação por gotejamento ou por microas-
projeto eu mais passou a fazer parte da horta. “Esse espírito comunitário tante fonte nutricional. Cada um a seu modo, oferece persão, as produções foram aumentando. Entre as
é que faz bem”, diz Neide. Em sua cheirosa cozinha onde ao produtor e ao consumidor final, esse cada vez mais coberturas mortas também há o que escolher, alguns

Lilian Cerveira – Cecor/CATI


recebe com chás, pães caseiros variados e outras recei- exigente, vantagens ou desvantagens em relação a optam pelo plantio direto na palha, técnica muito
tas que deram certo há uma infinidade de utensílios e outros. Definir qual o melhor sistema de produção ou utilizada na produção de grãos, porém de pouco uso
aprendo do que ensino, novas plantas e uma lógica para os diferentes materiais: o melhor resultado à mesa, irá depender de vários fa- ainda em olericultura. O produtor Felício Suzuki fez
minha atuação é desco- o pilão de mármore é para ervas, o de madeira para o tores. Alguns são objetivos e práticos, outros são sub- esta opção e está satisfeito com os resultados. Em
brir o que as plantas po- alho. Tudo que sai dali é fruto de observação e experi- jetivos mas, na verdade, produção e consumo são de- terrenos em pousio, ele planta aveia, desseca após
dem oferecer e contribuir ência e é assim que vai contagiando leitores, vizinhos, finidos pela disponibilidade financeira. Em uma ponta 60 dias e, a seguir, cultiva repolhos, brócolis e cou-
para a saúde”, afirma a nu- chefs de cozinha, estudantes de gastronomia, nutricio- estão os produtores e há grande diferença se são fa- ve-flores. Outros, como o assentado Elpídio José de
tricionista. nistas, enfim, todos por quem passa e até onde seus co- miliares ou não; se têm água disponível; se a topogra- Castro Carneiro, do Assentamento Mário Covas em
mentários e experiências chegam. Afinal, sempre tem fia da propriedade ou o clima da região são adversos São Simão, usa apenas grama e capim cortado de ou-
Em São Paulo, outra nutricionista vem chamando a uma nova descoberta a ser compartilhada e a que mais ou favoráveis; se há mão de obra ou se ela é escassa; tras áreas para cobrir o solo. O importante, nesse caso,
atenção por ter transformado uma pequena área, que a surpreendeu foi a guasca, muito usada na culinária se o mercado consumidor está próximo e é diversifi- é deixá-los secar bem antes de usar para não conter
recebia vários tipos de entulho em um espaço coletivo peruana e que por aqui era apenas um mato, e a última cado ou se é preciso conquistar novos nichos, este- sementes que venham a concorrer com as olerícolas.
onde convivem perto de 130 Pancs. A Horta Comunitária foi a erva-pepino, de folhinhas verdes miúdas, mas puro jam onde estiverem. Para o consumidor final, além Porém, o que mais se vê são os plásticos pretos ou
City Lapa, no bairro do mesmo nome, em plena capital pepino no sabor. “Imagine polvilhando uma salada!”. da preocupação com a questão financeira ainda há brancos que costumam chamar de mulching (embora
paulista, antes de ser capitaneada por Neide Rigo e as- Segue a receita: use flores aromas, abuse da imaginação outra, que pode ser maior ou menor em adquirir pro- mulching seja sinônimo de todas as formas de cober-
sumida pela coletividade, causou uma enorme polêmi- pois a variedade é grande e as Pancs podem estar cada dutos de qualidade e procedência conhecidas, mais tura morta). “Quando esses plásticos passaram a ser
ca. Até hoje há vizinhos que questionam, mas o bom vez mais disponíveis, pois depende de cada um de nós saudáveis em função de conceitos comercializados já perfurados, facilitou muito o tra-
senso venceu e muitos moradores dos arredores já têm a sobrevivência dessas espécies. subjetivos sugerido pelo balho”, conta Felício. Mas isso não é problema
a sua própria horta onde prevalecem Pancs. Há alguns marketing: mais fibras; para José Carlos de Souza, proprietário
meses, Juliana Gago, uma fã da coluna Paladar publica- menos agrotóxicos; do Sítio Magiolli em Bragança Paulista,
da no jornal O Estado de S. Paulo, e do blog onde Neide A CATI e as Pancs
vindos da terra ou que inventou uma forma prática de
revela suas experiências gastronômicas, passou a ajudar Duas nutricionistas, Denise Baldan e Beatriz Cantusio
produzidos em fazer os furos: usa um molde e com
na manutenção da horta e já pensa em cursar Botânica Pazinato, somadas a um grupo de engenheiros agrôno-
água; grandes latinhas esquentadas, rapidamen-
para conhecer e reconhecer essas plantas poderosas, mos, entre eles Osmar Mosca Diz, Hiromitsu Gervásio
e vistosos para te faz as perfurações.
a maioria delas considerada apenas “mato”. Um mato Nishizawa, Maria Cláudia Silva Garcia Blanco, todos
alimentar uma
muito nutritivo, pois o teor de minerais dessas plantas da Divisão de Extensão Rural; Sergio Ishicava da CATI José é um produtor que gosta
família inteira
rústicas e resistentes é alto. “São plantas ‘vira-latas’, so- Regional Bauru; Francisco Nelson Mascarenhas e Silva, de inventar, foi assim que passou
ou baby;, exó-
brevivem a quase tudo”, diz Juliana, que ajuda a regar, da CATI Regional Pindamonhangaba; e certamente ou- a usar ráfia no lugar do plástico e
ticos, em emba-
separar, colher sementes e depois vai para a espetacu- tros vêm realizando um trabalho de conscientização em
lagens unitárias;
lar cozinha de Neide Rigo descobrir a magia de novas relação à importância de serem incluídas na alimentação
processados total ou
receitas, os aromas e as texturas mais variadas encon- plantas não convencionais ou partes “menos nobres”.
minimamente, com a
tradas não só nas Pancs, mas também nas partes não Beatriz Cantúsio tem receitas publicadas na Instrução
marca de um grande varejista
convencionais de olerícolas convencionais, como por Prática 269 – Aproveitamento Integral de Alimentos e
ou simplesmente in natura, como en-
exemplo, os ricos talos e folhas de cenoura e beterraba. divulga o uso em cursos oferecidos pela CATI. Denise e
contrados em feiras livres.
Nos azulejos são escritas as receitas “em teste”, dando Osmar já receberam Neide Rigo em Campinas no Dia
certo vão para o blog e são divulgadas e repetidas por Mundial da Alimentação e têm sido responsáveis por Mulching e telados – uma proteção
chefs de cozinha que vêm se especializando em pratos palestras sobre as não convencionais em eventos rea- necessária
onde as Pancs são as estrelas. lizados pela instituição. Maria Cláudia, Gervásio, Sérgio Há várias decisões e as primeiras e princi-

Lilian Cerveira – Cecor/CATI


e Francisco têm oferecido treinamentos para técnicos e pais estão no campo onde são produzidos.
Para Neide Rigo, “o valor nutricional certamente produtores. “A instituição tem estado atenta ao movi- Segundo técnicos da CATI, de 80 a 90% da
existe e não sendo produzidas em larga escala são na- mento das Pancs, a demanda tem sido crescente”, essa olericultura ainda é praticada a céu aberto e
turalmente orgânicas". Mas esse não é seu campo de é uma afirmação daqueles que fazem extensão rural no portanto a mercê de ventos, chuvas, granizos
estudo, o que move as suas experiências é ter a certeza Estado de São Paulo, o maior mercado consumidor do e ataque de pragas. Com a adoção de práticas
da importância de manter, reavivar ou reacender o uso País. como quebra-ventos e instalação de cobertu-
38 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬39

está satisfeito com os resultados. A ráfia não esquenta ainda, mantém a crocância, apreciada pelo mercado

Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI


a terra e mantém a umidade, com isso ele conseguiu de restaurantes ao qual atende. “Quando consegui Felício Suzuki:
reduzir o uso da água, molhando somente a cada dois conquistar esse mercado específico, tudo ficou mais tecnologia na
dias a sua horta onde não usa agrotóxicos, produz fácil, pois tenho um vendedor que negocia e repassa; produção de
no sistema natural e está passando para o orgânico. se fosse depender do mercado comum não consegui- tomates.
“Além disso, a água penetra melhor e de maneira mais ria sobreviver, pois o custo de produção é maior”, diz
uniforme e constatei que a ráfia evita a salinização, André. A venda para restaurantes paga o custo, que
que prejudica as raízes. O custo inicial é maior, porém é equivalente ao da produção em hidroponia, com a
ganho em durabilidade”, diz o produtor. José, que vantagem de se conseguir produzir alface americana
produzia alfaces variadas em túnel baixo e mulching em vaso (essa variedade de alface não é produzida

Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI


até pouco tempo em 5.800m² de área, em outra área Família em sistema hidropônico) e obter uma vida de prate-
da propriedade reuniu duas tecnologias – hidroponia Gunji: irmãos leira maior”, explica André, que é engenheiro agrôno-
sob telado vermelho – e em mil metros quadrados dividem as mo com especialização em hidroponia. Os vasos são
produz a mesma quantidade, porém ganhou em pre- atividades do de um e quatro litros, os maiores duram cinco anos e
cocidade e redução do consumo de água, de 38 mil agronegócio. os de um litro de três a quatro colheitas. O substra-
litros por dia para cerca de oito mil litros por semana. to, depois de um período de descanso, é aproveita-
“Também fiz testes com estruturas cobertas com plás- Yukio e Bete. Sergio é o mais velho e responsável pela do. André conta ainda que faz experiências paralelas
tico e teladas nas laterais, mas o clima vem esquentan- comercialização; o do meio, Edson, pela produção como o uso de plásticos azuis. “A temperatura fica
do e as alfaces ficavam estioladas”, conta o produtor. em hidroponia; e Milton fica com o campo. Quando mais baixa e a produtividade em relação à rúcula é
Ainda em outra área, de mata nativa, José pretende há algum problema, todos se reúnem para discutir o maior, porém são 50% mais caros, então é preciso
implantar o sistema agroecológico e garante que em que fazer. Fora isso, cada um cuida e se especializa em avaliar e fazer planilhas de custo para ver se irão com-
breve também irá produzir olerícolas nesse sistema. sua área, porém o que todos têm consciência é que a pensar, por enquanto apenas três estufas receberam
Para isso, está sempre atento aos treinamentos ofe- água, ou a falta dela, e a mão de obra, cada vez mais plásticos azuis.
recidos, tanto pela CATI quanto por outros órgãos e escassa, são os grandes gargalos, somados à atual cri- Outra inovação de André, que recebe
empresas certificadoras. “Mesmo em uma pequena se econômica. “A crise está atingindo todos os setores sempre muitos visitantes interessa-
área é possível ir passando de um a outro sistema, o e também a produção de alimentos, então a saída é o dos em conhecer a sua produção
importante é procurar conhecimento e observar o planejamento. Fazemos nossa própria compostagem em vasos, é utilizar a terra em-
desenvolvimento das plantas”, confirma o engenheiro para não corrermos risco de contaminação, as mudas baixo dos vasos para culti-
agrônomo Marco Alberto de Faria, da CATI Regional também são próprias e tentamos reduzir ao máximo
Bragança Paulista. Outro produtor, também orienta- var espinafre. “São anos de
os custos e, nesse caso, a hidroponia pode ser o cami- substrato, desde o tempo
do pelo técnico, cultiva olerícolas em apenas 350m², nho a seguir”, diz Edson.
onde instalou oito estufas. Em uma delas, o sistema em que eram produzidas
é de hidroponia, em outra reutiliza baldes de 20 litros Vasos – Medidas criativas têm mostrado que o pro- flores, e, neste sistema ver-
É o mesmo tomate, então
sobre ráfia. “O terreno tinha muitos nematoides, en- dutor rural está consciente dos problemas relativos à tical, está sendo aproveita-
é possível chegar lá”, diz
tão esse foi o jeito encontrado pelo Hélio Lustosa para escassez hídrica, concorrência, redução da margem do”, conta o produtor. André
Felício, que alcança até 15kg/
produzir sem contato direto com a terra”, conta Marco. de lucro e às exigências dos novos mercados. Quem já fez testes com outros cul-
m² na estufa própria para o slab,
está atento, aproveita e consegue não apenas sobre- tivos como beterraba, mas dão
Hidroponia – A hidroponia, com certeza, reúne di- que tem pé direito mais alto, 4,50m,
viver, mas aproveitar e/ou adaptar a infraestrura para muito trabalho, então compra de
versos benefícios: é o sistema de menor consumo de e janelas no teto, tipo Zenith, que aju-
conquistar mercados específicos. É o caso do produ- parceiros espécies que não produz, como
água, reduzida mão de obra, oferece maior conforto dam a reduzir a temperatura e o uso de água.
tor do município coentro, salsa e cebolinha. Tudo é higienizado, desfo-

Rodrigo Di Carlo – Cecor/CATI


para se trabalhar tanto no manejo quanto na colheita de Suzano, André Atualmente, de sete mil metros quadrados de estufas,
lhado e preparado em pacotes de meio quilo em uma
(ergonômica); porém ainda é cara para ser instalada e, Hiroshi Nishicawa, em seis, ele usa os slabs. A durabilidade é de cerca de
cozinha industrial. São 45 funcionários ao todo, 70%
uma vez feita a opção, é preciso ficar atento. “É um sis- da Horta Leve, que três anos e depois o substrato (no caso a opção foi
deles na cozinha industrial e o restante cuidando dos
tema mais tecnificado, é preciso dominar a irrigação e recebeu de herança por fibra de coco) é incorporado nos 5ha de canteiros,
32 mil metros quadrados de estufas e 95% do que é
a fertirrigação, controlar as doenças, principalmente uma área de cultivo uma rica matéria orgânica. “A vantagem da fibra é o
produzido, no inverno ou verão, vão para restauran-
fúngicas, que possam surgir”. E por ser realmente mais protegido já mon- tes da Grande São Paulo e da Baixada Santista. reaproveitamento”, diz Felício. A irrigação dos toma-
caro, os produtores familiares têm utilizado verbas do tada com estufas teiros é feita por um software que garante uniformida-
Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura e vasos onde eram Slabs – Foi a preocupação em investir em tecnolo- de na produção e evita desperdício. Foi também pen-
Familiar (Pronaf ) e/ou do Fundo de Expansão do produzidas flores. gias para aumentar a produtividade, reduzir custos e sando em economia de água e preservação dos recur-
Agronegócio Paulista/Banco do Agronegócio Familiar Com o mercado de preservar os recursos naturais que levaram o produ- sos naturais que o produtor adotou o plantio direto:
(Feap/Banagro) para implantação. “Depois, o próprio flores em baixa na tor de Biritiba Mirim, Felício Suzuki, a transferir qua- cultiva aveia, desseca e incorpora ao solo onde planta
sistema se paga”, contam os irmãos Sergio, Milton região de Mogi das se toda a sua produção de tomates para o cultivo em alfaces, couve-flores e brócolis. Como outros produ-
e Edson Gunji, proprietários do Sítio Paraitinga em Cruzes, André apro- ambiente protegido, com uso de slabs (sacos plásticos tores, Felício tem venda garantida: “o que é produzido
Biritiba Mirim. Com o suporte de 25 funcionários e veitou a estrutura e com substrato). “O custo inicial é alto, mas compensa, é vendido, o desafio aqui é a redução de custos e o
cinco caminhões eles produzem, selecionam, higieni- os vasos para plan- pois é possível recuperar o investimento em dois ou aumento da produção, ou seja, ter produtividade”, diz
zam e entregam para uma grande rede de supermer- tar alfaces. “O sabor três anos”, diz Felício. Isso em função da produtivida- Felício. Estar atento às novidades tecnológicas, tirar
cados. São 20ha em campo aberto e 15 mil metros é diferenciado pela de alcançada. “Apesar de no Brasil ainda ser baixa em proveito delas planejando as ações e tendo em vista
quadrados em hidroponia. As mudas são de produção qualidade ofereci- relação a países como a Holanda, que chega a produ- o mercado é uma receita de sucesso e pode significar
própria, os encarregados por essa parte são os pais, da pelo substrato e, zir 25kg de tomate por metro quadrado, compensa. melhoria de renda e continuidade na atividade.
40 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬41

Hortas Urbanas e Periurbanas: alimento A seguir, alguns exemplos da agricultura urnana e pe-
riurbana que, apesar da intensa urbanização ocorrida no
Brasil, principalmente no Estado de São Paulo, desde mea-
em serviços gerais em instituições bancárias e “casas de
família”. Mas nunca se esqueceram das raízes rurais da fa-
mília. “Conhecemos o projeto de hortas em reuniões que

saudável e renda no calor do asfalto dos do século XX, não foi sufocada completamente.
São Paulo capital: projeto revela o avanço da agricul-
aconteciam na igreja do bairro. Contamos com o apoio da
bióloga Vandineide, da prefeitura, e começamos uma pe-
quena horta em local próximo à nossa casa, mas o terre-
Até há alguns anos considerada restrita à paisagem rural, a horticultura tem se mostrado uma alternativa tura urbana e periurbana
no não era adequado. Há seis anos, por meio do Programa
sustentável para atender às necessidades de consumo e gerar renda nas cidades de Agricultura Urbana, tivemos acesso a esse terreno da

Cleusa Pinheiro – Cecor/CATI


Eletropaulo; limpamos o mato e, com apoio da Tatiane da
Cleusa Pinheiro – Jornalista – Centro de Comunicação Rural (Cecor/CATI) – cleusa@cati.sp.gov.br
Casa da Agricultura Ecológica e de outras entidades parcei-

H
ras, conseguimos transformar uma área abandonada em
á alguns anos, moradores de grandes cidades do e a boa gestão das áreas baldias; amenizar o microclima
um solo fértil, por meio do qual obtemos hortaliças e frutas
mundo, como São Paulo, têm se deparado com local; viabilizar oportunidades de educação ambiental.
para nosso consumo e também para comercializar”, explica
aromas, cores e imagens típicas da zona rural. ”Essa agricultura deve ser analisada de forma ampla, pois
o casal, falando também sobre como a experiência tem sido
Em pequenos canteiros em ilhas de grandes avenidas, no tem suas raízes firmadas no tripé da sustentabilidade: am-
transformadora para suas vidas. “O começo foi muito difí-
telhado de prédios comerciais e residenciais, em terrenos biental, social e econômica. Falando apenas das hortas, os
cil, pois não temos muitos recursos para investir. Mas, com
antes abandonados, na periferia ou nos centros, a cada benefícios gerados são imensos, pois nas grandes cidades
apoio e força de vontade, hoje podemos contemplar essa
dia mais pessoas estão engajadas na divulgação de uma além de fonte de renda para muitos, elas também têm se
maravilha. É um presente de Deus trabalhar com a terra e
alimentação saudável, que promova segurança alimentar. firmado como fonte de conscientização da população
ver que o fruto das nossas mãos faz bem para a nossa vida
Nesse movimento, o qual também preconiza uma renova- sobre a importância do alimento saudável e do produtor
e para a dos outros. E trabalhar com a agricultura orgânica
ção nas relações entre produtor e consumidor com incen- rural. Agregando-se a isso, investimentos do governo do
é ainda mais gratificante, pois sabemos da qualidade dos
tivo à dinâmica do produzir e comprar localmente, estão Estado têm levado à implantação de hortas em escolas es-
produtos que vendemos. Participar desse Programa resga-
envolvidas instituições públicas, organizações não gover- taduais, as quais têm mudado a relação de crianças com os
Agricultores urbanos fazem dos solos das cidades uma fonte de vida. tou a nossa história de vida e a nossa alegria. Trabalhamos
namentais, ao lado de iniciativas individuais que em mui- alimentos, desenvolvendo hábitos alimentares mais saudá-
Grupo de produtores em terreno de empresa de eletricidade, no Bairro todos os dias, desde o amanhecer até à noite, felizes da
tos locais deram o start para o envolvimento da sociedade veis, que são levados para as famílias. Além disso, não se
São Mateus, contam com o apoio da engenheira agrônoma Tatiane vida”, diz dona Sebastiana.
organizada. pode esquecer do papel relevante das hortas comunitárias
Soares.
que, em muitas locais, têm sido fonte de segurança alimen- As hortaliças são comercializadas em um ponto de ven-
Conceitualmente, essas iniciativas estão agregadas nos da instalado na entrada do terreno que, além do casal, tem
tar para pessoas em condições de risco nutricional”, avalia Em um primeiro momento, para a maioria das pessoas
termos agricultura urbana e periurbana que, segundo es- áreas de produção de mais três famílias. “Adultos e crianças
José Carlos Rossetti, coordenador da CATI, destacando que o cenário parece deslocado de lugar mas, ao adentrar pe-
tudiosos, podem ser definidas como produção, transfor- vêm aqui não só para adquirir os produtos, mas conhecer
a instituição tem atuado com orientação técnica e elabo- los portões do terreno pertencente à empresa Eletricidade
mação, comercialização e prestação de serviços, de forma como eles são produzidos. É incrível ver a emoção de pes-
ração de projetos que auxiliem os produtores urbanos e de São Paulo S.A. (Eletropaulo), no Bairro São Mateus, zona
segura, para gerar produtos agrícolas (hortaliças, frutas, soas que, como nós, se lembram do tempo em que tam-
periurbanos a acessarem o crédito rural e as políticas públi- leste da capital paulista, é possível ver a vida que brota em-
plantas medicinais, ornamentais, cultivados ou advindos cas de aquisição de alimentos, nas regiões que comportam bém trabalhavam na roça e daqueles que acham que a
baixo dos postes de eletrificação. O terreno de pouco mais
de agroextrativismo etc.) e pecuários (animais de pequeno esse tipo de agricultura. hortaliça nasce na banca do mercado”.
de oito mil metros quadrados, onde havia lixo e destruição,
porte), (re)aproveitando-se, de forma eficiente e sustentá-
Como iniciativa nacional, a Secretaria de Segurança hoje reluz a uma profusão de nuances verdejantes e mostra Segundo Tatiane, a maioria dos agricultores ingressou
vel, os recursos e insumos locais (solo, água, resíduos, mão
Alimentar e Nutricional, ligada ao Ministério do aos habitantes das imediações que a agricultura traz não no Programa para obter uma complementação da renda fa-
de obra e saberes) de espaços urbanos ou periurbanos.
Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), em apenas alimento para a mesa, mas também mais frescor miliar, sendo que uma parte do grupo é formada por apo-
Relatos históricos apontam que a agricultura urbana parceria com a Organização das Nações Unidas para a e a possibilidade de contato com a natureza, para locais sentados ou pessoas desempregadas, com ou sem expe-
não é um fenômeno novo nas cidades e ocorre desde os Alimentação e a Agricultura (FAO), elaborou o documento onde o cinza do concreto predomina. “Há seis anos, esse riência anterior com a agricultura. “Ao conversar com eles,
primórdios da formação dos centros urbanos, estando pre- “Panorama da Agricultura Urbana e Periurbana no Brasil e local estava vazio, com mato alto e era alvo de vândalos. observa-se que houve significativa melhora nos padrões
sente até hoje nas práticas cotidianas de parte da socieda- Diretrizes Políticas para sua Promoção”, por meio do qual Após a iniciativa de uma bióloga que atuava na Secretaria de vida, pois a renda gerada com a produção ajuda na ma-
de, mesmo não sendo notada muitas vezes pela maioria identificou e caracterizou as iniciativas de agricultura ur- Municipal do Verde e a implementação de um projeto de nutenção das despesas das residências. Outra informação
dos habitantes. ”Foi apenas após a Conferência Habitat bana e periurbana em regiões metropolitanas brasileiras, agricultura urbana pela prefeitura municipal, em 2010, ter- bem interessante, é que eles deixam claro que houve uma
II - Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos colocando em prática, em 2013, o Programa de Agricultura renos como esse foram cedidos em comodato para pessoas melhora na saúde por conta do acesso a uma alimentação
Urbanos, realizada em 1996, na qual a Organização das Urbana em 13 regiões, envolvendo mais de 250 mil famílias. interessadas em cultivar hortaliças e frutas, o que tem gera- mais saudável, proveniente da agroecologia”, informando
Nações Unidas (ONU) começou a alertar a sociedade para do uma transformação na vida de quem produz e de quem que na zona leste são 79 produtores, dos quais 38 produ-
os elevados índices de urbanização e sua relação direta com Além dos benefícios já relacionados advindos da agri- consome”, explica Tatiane Soares, engenheira agrônoma zem no sistema orgânico, tendo fundado a Associação de
os níveis de pobreza e insegurança alimentar, que o tema cultura praticada nos espaços urbanos, outro fator impor- da Casa da Agricultura Ecológica da Zona Leste, unidade Produtores Orgânicos de São Mateus.
ganhou maior visibilidade”, explica Gilberto Figueiredo, en- tante tem raízes históricas na migração de um grande nú- criada em 2009, ligada à Secretaria Municipal do Trabalho,
mero de famílias rurais para os centros urbanos ao longo Desenvolvimento e Empreendedorismo, cuja finalidade é Além de áreas de linhas da Eletropaulo, as hortas ur-
genheiro agrônomo responsável pelo Projeto Olericultura
de décadas. “Nesse processo, uma grande parte das famí- a extensão rural. “Prestamos assistência técnica aos agri- banas cadastradas no Programa ocupam áreas de aduto-
da CATI, informando que a maioria da agricultura urbana
lias que migraram das zonas rurais não tinham capacitação cultores envolvidos no Programa de Agricultura Urbana e ras da Sabesp, terrenos públicos ociosos, bem como áreas
e periurbana do Estado de São Paulo tem na olericultura a
para serviços tipicamente urbanos e ficaram à margem do Periurbana, que cultivam hortaliças, frutas, flores, plantas particulares, não apenas na zona leste, mas, principalmente
principal atividade.
mercado de trabalho, deixando de ter condições apropria- medicinais e ornamentais, desde o preparo do solo até a na zona sul, na região do Bairro Parelheiros, que concentra
Pesquisas realizadas em várias partes do mundo apon- das para satisfazer as suas necessidades. Portanto, incenti- comercialização dos produtos”. cerca de 400 produtores, considerados periurbanos, muitos
tam que esse tipo de agricultura pode contribuir para var a agricultura urbana e periurbana é um meio viável de dos quais estão organizados na Cooperativa Agroecológica
promover a segurança alimentar, a geração de renda, a reinserir um grande número de pessoas as quais, apesar da Entre esse grupo, destaca-se o casal Genival Morais da Região das APAs (Cooperapas). Nesse local, os horticul-
economia doméstica, a nutrição e a saúde de famílias; enri- assimilação de um modo de vida essencialmente urbano, e Sebastiana Helena de Farias. Egressos do Estado de tores são acompanhados pelos extensionistas da Casa da
quecer a paisagem e a biodiversidade dos bairros; permitir retêm antigas práticas provenientes de suas origens rurais”, Pernambuco, na década de 1970, trabalharam por anos Agricultura Ecológica da Zona Sul, pertencente à Prefeitura,
a reciclagem sistemática dos resíduos orgânicos urbanos explica Gilberto Figueiredo. na área urbana, ele em uma indústria de papelão e ela os quais contam com apoio dos técnicos da Casa da
42 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬43

Agricultura de Embu-Guaçu, pertencente à CATI Regional


São Paulo. “A CATI tem sido uma grande parceira nesse
Programa pois, além de apoio em capacitações e outras
atividades, realiza a emissão das Declarações de Aptidão
divide a produção e comercialização de hortaliças com a
esposa Maria de Lurdes, que deixou o ofício de costureira,
para usar as mãos no plantio de alface, rúcula, almeirão e
outras folhosas. Nas manhãs, o casal tem a companhia do
Políticas públicas incentivam
ao Pronaf (DAPs), que estão disponíveis para os agriculto-
res urbanos”, salienta Tatiane. “Com isso, a comercialização
dessa produção urbana e periurbana está alcançando cada
vez mais mercados. Temos produtores que comercializam
filho Mateus, de 9 anos, que está aprendendo o valor da
agricultura “É muito bom ver que o meu filho, nascido e
criado na área urbana, está pegando amor pela agricultura
e mostrando aos colegas o valor do produtor de alimentos,
produção de olerícolas
Graça D’Auria – Jornalista – Centro de Comunicação Rural (Cecor/CATI) – gdauria@cati.sp.gov.br
em feiras livres, em espaços cedidos em parques e outras seja rural ou urbano”, ressalta o Rodrigo, comentando que a
localidades da capital, na Ceasa, e em programas governa- família está fazendo a transição para a agricultura orgânica
mentais de aquisição de alimentos”. e comercializa toda a produção em uma barraca instalada
Americana: 250 hortas urbanas mudam o no terreno. “Nosso sonho é crescer na agricultura, conhecer
cenário da cidade novas técnicas e nos profissionalizar a cada dia”.
Em Americana, município de pouco mais de 100 mil Em Americana, o projeto de agricultura urbana é apoia-

Juliana Montoya – Cecor/CATI


habitantes, localizado a 150km da capital, com a indus- do pela Prefeitura Municipal e por um conselho, os quais
trialização e o aumento no setor de serviços, a zona rural adotam critérios de avaliação a permissão de uso da área
perdeu espaço por conta da expansão urbana, onde áreas com finalidades de horticultura. “Essas áreas são contem-
são convertidas em loteamentos, restando pouco espaço pladas com isenção da taxa de esgoto, redução do Imposto
disponível para a produção agropecuária. Atualmente, Predial Territorial Urbano (IPTU) e de cobrança do uso água”,
apenas 2% da área total do município é considerada rural. explica o agrônomo André, informando que a CATI partici-

N
Por outro lado, a demanda por alimentos provenientes ma- pa do projeto, atendendo os produtores em quase sua tota-
joritariamente da agricultura familiar, como os produtos lidade (atualmente cerca de 200 famílias são responsáveis ão há estudos que confirmem, porém é im- Campinas e Baixada Santista, no Vale do Paraíba (fa-
hortícolas, cresceu com o aumento da população e dos pelas hortas). A orientação técnica vai desde a adoção das possível não notar e comprovar, sobretudo vorecido pelo eixo Rio-São Paulo) em outras cidades
serviços. Diante desse quadro, a implementação de hortas Boas Práticas Agrícolas em hortaliças e frutas (adubação por vários depoimentos colhidos ao lon- pelo interior consideradas polos regionais de distri-
urbanas se mostrou uma boa alternativa de renda para os equilibrada, otimização da irrigação, controle alternativo go de reportagens, a diferença que vêm fazendo na buição, com as suas Centrais de Abastecimento. Os
produtores e o atendimento da demanda crescente. “Hoje, de pragas, cultivo protegido, cuidados pós-colheita, entre vida dos produtores rurais, principalmente dos agri- problemas enfrentados pela agricultura familiar estão
o município tem aproximadamente 250 hortas urbanas, outros), até o apoio na obtenção de certificados orgânicos, cultores familiares, os ganhos proporcionados pelas relacionados à oferta em relação ao volume e ao pre-
com tamanhos que variam de 1.500m² a 10.000m², em crédito agrícola e venda direta ao consumidor. “Nosso obje- políticas públicas de compra de alimentos, como o ço, geralmente mais baixo pago pelas grandes redes.
bairros de zoneamento comercial, industrial e residencial, tivo é favorecer a qualidade de vida não apenas do produ- Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Programa “As políticas públicas caíram como uma luva para es-
com mão de obra predominante familiar, onde famílias tor, mas também dos outros munícipes. O benefício social Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e Programa ses grupos e estão tornando a olericultura uma ca-
produzem e vendem para os consumidores vizinhos, res- que as hortas têm trazido é enorme, pois geralmente esses Paulista da Agricultura de Interesse Social (PPAIS), os deia forte, tanto pelo aumento do volume, como pela
taurantes, empresas de alimentos processados e mercados terrenos, públicos ou privados, eram baldios, com presença quais têm possibilitado a compra de produtos in natu- possibilidade de agregar valor ao produto. O Projeto
locais. Mas já temos produtores que estão atendendo às de mato, entulho, lixo e pragas urbanas. Além disso, pesso- ra ou minimamente processados para atendimento às Microbacias II e os programas de compras governa-
políticas públicas de aquisição de alimentos, como é o caso as que estavam aposentadas e até desempregadas ganha- creches, escolas, universidades, aos hospitais e às pe- mentais de alimentos se complementam”, avalia o
da merenda escolar e as Centrais de Abastecimento”, expli- ram uma nova profissão ou puderam reencontrar sua ver- nitenciárias. São programas que incentivam os órgãos gerente técnico do Projeto Microbacias II, engenheiro
ca o engenheiro agrônomo André Luiz Xavier de Macedo dadeira vocação: a de agricultor, trabalhando a terra para públicos a adquirirem no mínimo 30% de alimentos agrônomo João Brunelli Junior. Com a possibilidade
Barreto, da Casa da Agricultura de Nova Odessa, pertencen- de construção de packing houses para concentrar a
que o alimento não falte à mesa”. oriundos da agricultura familiar. Complementando
te à CATI Regional Piracicaba, que atende os horticultores produção e a compra de equipamentos de seleção,
esses programas, ainda existem outros como o Projeto
de Americana. classificação, limpeza, embalagem estão permitindo
de Desenvolvimento Rural Sustentável – Microbacias
A vizinhança das hortas tem aprovado a iniciativa. II – Acesso ao Mercado, que está permitindo que as- o processamento mínimo das mais variadas oleríco-
Moradores e comerciantes afirmam ter sempre em mesa sociações e cooperativas aumentem a infraestrutura las. Essa é uma demanda das merendeiras das escolas
um produto fresco e de qualidade, e que olhar a diversida- para produzir e entregar mais alimentos com maior que recebem alimentos da agricultura familiar. Outro
de de alimentos produzidos é privilégio para quem mora valor agregado, como os minimamente processados, ganho de mercado foi conquistado com a aquisição
entre uma infinidade de concreto. Para eles é bom ver o que contam com classificação, seleção, processamen- de veículos para uso no campo ou logística de entre-
alimento sendo produzido e conhecer quem produz. Um to, embalagem, logística de distribuição, entre outros, ga de produtos, que permite aumentar o raio e a fre-
desses produtores é Rodrigo Aparecido Castello Novo de tornando-se uma política pública que abre opor- quência de entregas e, consequentemente, o acesso
Assunção. “Por muitos anos trabalhei em uma metalúrgica. tunidades de novos negócios, gera emprego e ren- a novos mercados, muitas vezes em âmbito estadual.
Não tenho origem rural, mas possuía uma pequena chácara Dessa forma, as associações e cooperativas formadas
da no campo, e contribui para conter o êxodo rural.
e sempre gostei de trabalhar com a terra. Há um ano, fiquei principalmente por agricultores familiares puderam
Subjetivamente, ainda aumentam a autoestima das
sabendo desse projeto com hortas urbanas e me interessei. passar a competir em igualdade de condições quan-
pessoas que se dedicam à difícil arte de produzir ali-
Consegui a autorização para instalar uma área de cultivo do comparados aos médios e até grandes produtores.
em um terreno público municipal. Nesse período conheci a
mentos, mesmo contando com ventos, tempestades,
chuvas de granizo, pragas, doenças e, mais recente- “Foi um ganho enorme, a olericultura para os peque-
CATI e, com apoio dos técnicos da Casa da Agricultura, par- nos era uma atividade que poderia ser considerada
ticipei de cursos, capacitações, além de receber orientação mente, falta de água.
Os produtores Rodrigo e Maria de Lurdes de Assunção cultivam marginal, mas que hoje está no centro de interesse
técnica. Após apenas um ano, só contabilizo coisas boas. A folhosas, plantando cerca de 2,5 mil mudas por semana. A A olericultura está espalhada por todos os cantos dos agricultores”, argumenta Brunelli.
renda da horta é suficiente para manter minha família, amo comercialização é feita no sistema de venda direta. do Estado de São Paulo e “tem demanda certa”, con-
o que faço e me sinto gratificado”, conta o produtor, que tam os agricultores, principalmente aqueles que se O Projeto Microbacias II – Acesso ao Mercado tam-
estabilizaram próximo aos grandes centros de consu- bém está permitindo que as associações se profissio-
mo, como nas regiões metropolitanas de São Paulo, nalizem no processo de gestão desses novos negó-
44 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬45

cios, desde o planejamento da produção do grupo de


produtores até a identificação de novos mercados.
Não é só a CATI que observa as mudanças, a
Quanto à melhoria da infraestrutura, existem vá-
rias linhas de financiamento (ver artigo na página
27), basta o produtor se planejar quanto ao que é pri-
Desperdício: combate tem que ser feito
Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo
(Itesp) também verificou um aumento na produção de
mordial para alavancar a sua produção e em quanto
tempo terá retorno, já que as linhas preveem carên-
cias de três anos para começar a pagar e, geralmente,
em todos os elos da cadeia produtiva
olerícolas a partir dos programas de compras gover- Cleusa Pinheiro – Jornalista – Centro de Comunicação Rural (Cecor/CATI) – cleusa@cati.sp.gov.br
os juros são baixos ou até zero no caso de compra de

A
namentais, e um dos mais impactantes foi o Programa
tratores, por exemplo. Os irmãos Milton e Reginaldo s cenas são cho- das perdas no País, que apesar de não ter dados atualizados,
de Aquisição de Alimentos (PAA) no caso dos assenta-
de Oliveira Morais, de Mogi das Cruzes, são um exem- cantes: tonela- não difere do estudado por ele entre os anos 1997 e 2000.
mentos geridos pelo Itesp. Nos levantamentos feitos
plo desse planejamento. Ao resolverem implantar o das de alimentos “Em 1998, o consumo de frutos era da ordem de 40kg/hab./
em 2010/2011 pelo órgão verifica-se que as oleríco-
plantio de tomates variedade Débora, investiram em desperdiçadas, enquanto ano nas 10 principais capitais do Brasil. A produção das prin-
las tiveram um aumento de 30% em área de cultivo,
uma estufa de mil metros quadrados, adquirida via milhares de pessoas pas- cipais hortaliças frescas comercializadas no Brasil era de apro-
a produção aumentou de 8,1% para 15,7% e a ren-
recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da sam fome nos mais diver- ximadamente 16 milhões de toneladas. O índice de perdas
da para significativos 27,7% contra 12,8%, segundo
Agricultura Familiar (Pronaf ). Até 1997, Reginaldo tra- sos países. Segundo dados desses produtos situava-se em 35%. Sendo assim, verificava-
Renata Cunha, gerente de Desenvolvimento Humano
balhava como topógrafo e Milton como empregado da Organização das Nações se o valor de 5,6 milhões de toneladas/ano de produto não
do Itesp. Renata conta que tanto deu certo que o Itesp
de agricultores da colônia japonesa, agora cuidam das Unidas para a Alimentação consumido – 37kg/hab./ano. No mesmo período, o consumo
acabou lançando, em janeiro de 2012, mais uma al-
suas próprias terras e investem cada vez mais. “Tenho e Agricultura (FAO), 1,3 bi- de hortaliças, nesses locais, era da ordem de 35kg/hab./ano.
ternativa para os agricultores: o Programa Paulista da
clientela certa, já planto sabendo quanto vou ga- lhão de toneladas de ali- Portanto, verificou-se que eram jogadas fora mais hortaliças
Agricultura de Interesse Social (PPAIS), para compras
nhar, está tudo vendido”, conta Milton, que começou mentos é desperdiçada do que se consumia”.
de alimentos da agricultura familiar por universida-
produzindo couve-de-bruxelas, aí o preço caiu e ele anualmente. Relatório da
des, presídios, hospitais, creches e escolas estaduais. Para a nutricionista Beatriz Cantúsio Pazinato, da Divisão
mudou para o tomate para o qual conta com venda FAO indica também que,

Antonio Gomes Soares


Mas para aumentar a oferta na ponta e poder garantida; ainda cultiva pimentas especiais que têm de Extensão Rural (Dextru/CATI), que trabalha diretamente
Embalagens no caso de hortaliças e fru- com projetos de agroindústria artesanal e cursos de aprovei-
participar das Chamadas Públicas, muitas vezes é tido uma boa procura. Com essa atenção ao mercado, inadequadas tas, o problema é motivado
preciso estar capacitado e melhorar a infraestrutu- o financiamento foi pago sem problemas. tamento integral de alimentos, o planejamento do plantio
geram grandes pela falta de infraestrutura
ra da propriedade. Em relação à capacitação, a CATI perdas. em função da colocação do produto no mercado, ou seja,
“A olericultura oferece giro rápido, essa é uma das e manuseio adequado ao garantir o escoamento da produção, deve ser o primeiro pon-
priorizou as principais cadeias produtivas do Estado
vantagens, por outro lado há muita sazonalidade e o longo da cadeia produti- to a ser considerado. “É preciso avaliar o que produzir, para
e a olericultura é uma delas. Por meio do Projeto CATI
clima pode afetar de maneira significativa, por isso e va. Outras informações apontam que 54% desse desperdí- quem produzir, em qual quantidade e de que forma esses
Olericultura, as Casas da Agricultura e Regionais têm
aliado à falta d’água, temos incentivado os produto- cio anual se dá na fase inicial da produção do alimento, na produtos chegarão nos pontos de distribuição. Além disso,
promovido palestras e Dias de Campo divulgando as
res, a maioria ainda produzindo em campo aberto, a manipulação, no pós-colheita e na armazenagem. Os outros todas as etapas desde a colheita devem ser administradas
principais técnicas e o manejo de olerícolas. “Cada investirem em cultivo protegido”, afirma o diretor da 46% ocorrem nas etapas de processamento, distribuição e no com bastante critério, observando sempre as Boas Práticas.
Regional CATI conta com monitores especializados CATI Regional Mogi das Cruzes. E, para isso, aí estão momento do consumo. “O descarte de alimentos que podem A colheita, o transporte, a classificação, o armazenamento e
que abordam os temas mais variados preconizados as políticas públicas que auxiliam o produtor nos mais ser processados é enorme, na maioria das vezes por questões a distribuição exigem muito cuidado e atenção, pois as frutas
pelas Boas Práticas Agrícolas em Olericultura, que vão variados aspectos de sua atividade: produção, colhei- comerciais e não de saudabilidade. A quantidade de produ- e hortaliças são muito sensíveis e perecíveis. A manutenção
desde o controle da erosão, instalação de quebra- ta, pós-colheita, processamento, embalagem e distri- tos desperdiçados, além de desequilibrar a cadeia produtiva, da cadeia do frio logo após a colheita até os pontos de dis-
ventos, compostagem, principais pragas e doenças, buição. Basta procurar a Casa da Agricultura do seu impacta na qualidade do produto que chega ao consumidor. tribuição também contribui para a preservação das frutas e
irrigação com suas várias técnicas, como microasper- município para receber mais orientações sobre cada Gastamos insumos raros de alto valor financeiro como a água hortaliças”, esclarece.
são, gotejamento, entre outras, e o incentivo ao uso uma dessas políticas e ver a que melhor se enquadra e o adubo para produzir alimentos que não são consumidos”,
de equipamentos como tensiômetros e tensímetros ao seu momento, ao seu negócio. Esse é o recado da Segundo a pesquisadora da Empresa Brasileira de
afirma José Carlos Rossetti, coordenador da CATI, ressaltando
para regularizar o volume de água aplicado”, explica o extensão rural, principal atividade da CATI! Pesquisa Agropecuária (Embrapa – Hortaliças), Milza Moreira
que, para auxiliar os produtores a aprimorar a produção, vi-
coordenador da CATI, José Carlos Rossetti, que tem in- Lana, a busca por soluções tem que ser conjunta. “As perdas
sando aumentar a qualidade e diminuir as perdas, a CATI ela-
centivado o trabalho com cadeias produtivas. que ocorrem em um elo da cadeia têm reflexo nos outros. São
borou um protocolo de Boas Práticas, no âmbito do Projeto
“Às vezes uma simples regulagem acaba con- muitos os problemas identificados, mas é imprescíndivel que
CATI Olericultura, para que na parte que lhes cabe as tecnolo- se entenda que o desperdício de alimentos é uma questão
ferindo economia para o produtor e reduzin-
do o risco de problemas”, diz Sergio Ishicava, gias e metodologias disponíveis possam ser adotadas. de toda a sociedade. Para os produtores é preciso implantar
monitor do Projeto Olericultura na região de Antonio Gomes Soares, pesquisador da Empresa Brasileira uma nova cultura de como tratar o produto, disponibilizando
Bauru. “As palestras funcionam como uma de Pesquisa Agropecuária - Embrapa Agroindústria de recursos e capacitação da mão de obra. Na área de comercia-
isca na retomada de relacionamento com o Alimentos, em seu estudo “Desperdício de alimentos no lização, o mercado tem um papel primordial, pois determina
produtor”, confirma o engenheiro agrôno- Brasil: um desafio político e social a ser vencido”, afirma que o que compramos, como são as embalagens etc. Por isso, é
mo Felipe Monteiro de Almeida, que recen- as principais causas de perdas em produtos hortifrutícolas no importante estreitar a ligação entre os produtores e os com-
temente assumiu a diretoria técnica da CATI País são o manuseio inadequado no campo, as embalagens pradores. Também é fundamental que o País faça mudanças
Regional Mogi das Cruzes, onde a produção impróprias, o transporte ineficiente, a comercialização de em sua infraestrutura de transportes e logística. Outro fator
de olerícolas tem grande importância eco- produtos a granel, a não utilização da cadeia de frio (refrige- importante é analisar o que é produzido e fazer uma cam-
Juliana Montoya – Cecor/CATI

nômica. “Temos uma boa relação e parceria ração em todo o processo), a classificação não padronizada, panha junto aos consumidores, pois muitas hortaliças não
com os técnicos da Coordenadoria de Defesa a contaminação, o comércio ineficaz no atacado, o excesso são consumidas ou utilizadas de forma adequada, porque
Agropecuária (CDA) e as palestras itinerantes as pessoas não conhecem, o que também gera perdas”, diz a
de “toque” nos produtos por parte dos consumidores, o acú-
são conjuntas na abordagem de temas como pesquisadora.
mulo de produtos nas gôndolas de exposição de varejo, as
uso de defensivos, conservação do solo e ou- deficiências gerencial e a administrativa nos centros ataca- Para minimizar as perdas no pós-colheita, a Embrapa
tros”, diz Felipe Almeida. distas e varejistas. O pesquisador também traça um cenário Hortaliças tem um projeto voltado aos pequenos horticulto-
46 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬47

res que não têm condições de ter um packing house, visando


melhorar o manuseio durante a colheita. “É preciso que o pro-
duto seja protegido de condições adversas e menos machu-
Como combater o desperdício no consumo
Segundo a nutricionista Beatriz Cantusio Pazinato, da
Divisão de Extensão Rural (Dextru/CATI), o consumidor deve
Olericultura: um pouco de história e o
cado. Para isso, a proposta é montar em cada pequena pro-
priedade uma estrutura simples de ferro e lona, como uma
‘casa de embalagens móvel’, para que a hortaliça removida do
planejar o cardápio da semana e, a partir dele, fazer as suas
compras prevendo as quantidades em função do número de
pessoas que farão as refeições. “Essa prática contribuirá para
trabalho da Secretaria de Agricultura

Reprodução – pintura de José de Castro Mendes – IAC


solo seja imediatamente levada para sombra após a colheita”, evitar que ele compre hortaliças ou frutas que não consegui- Cleusa Pinheiro – Jornalista – Centro de Comunicação Rural (Cecor/CATI) – cleusa@cati.sp.gov.br
afirma, reforçando que a estrutura é simples e pode ser cons- rá consumir, as quais poderão se estragar”, afirma.
truída pelo produtor.
A nutricionista também dá algumas dicas para o melhor
Para Anita Gutierrez, coordenadora do Centro de aproveitamento de hortaliças e frutas. “As hortaliças devem
Qualidade em Horticultura da Companhia de Entropostos e ser sempre armazenadas sob refrigeração. No caso das fo-
Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), o transporte com- lhosas, como alface, rúcula, chicória entre outras, elas po-
pletamente inadequado aliado ao uso de embalagens áspe- dem ser lavadas, escorridas ou centrifugadas manualmente
ras são dois dos principais motivos para gerar o desperdício e guardadas em um pote plástico grande com tampa, man-
de alimentos no Brasil. “Além disso, o excesso de manuseio, a tido na geladeira, evitando que fiquem murchas. Quanto
exposição dos alimentos a granel e o ambiente de conserva- aos legumes, se o consumidor verificar que não conseguirá
ção e exposição quente e seco são outros problemas graves. consumir os legumes adquiridos naquela semana, como por
O agricultor pode fazer um grande esforço durante a produ- exemplo cenoura, vagem, abobrinha, brócolis e couve-flor,
ção para oferecer um alimento de qualidade e ter todo o tra- eles podem ser lavados, branqueados e congelados. Dessa
balho facilmente destruído nos elos seguintes”, avalia, infor-

E
forma, se conservarão por mais tempo e não se estragarão
mando também que, no País, poucos produtos são armaze- caso fiquem por vários dias na geladeira doméstica. A maio- timologicamente, a palavra olericultura significa olericultura nacional evoluiu de 'pequena horta' para uma
nados para a comercialização por um longo tempo. “A perda ria das frutas também deve ser armazenada sob refrigeração cultivo de hortaliças. O termo é derivado do latim exploração comercial”, esclarece Gilberto.
de peso de frutas e raízes pode chegar a 15% em quatro dias ao atingirem o ponto de maturação desejado, conseguindo olus, que significa hortaliça, e colere, que significa
A partir da década de 1940, instituições oficiais de pes-
após a colheita, em temperatura e umidade ambientes. A so- preservar suas características ideais de textura, aroma e sa- cultivar. Para muitas pessoas, olericultura e horticultura são
quisa passaram a apoiar a olericultura, proporcionando uma
lução é desenvolver um ambiente climatizado”. bor e valor nutricional”, ensina a nutricionista. palavras sinônimas, mas publicações técnicas demonstram
retaguarda técnico-científica composta por pesquisadores,
A coordenadora ressalta outros pontos que devem ser que o último termo é mais abrangente, pois refere-se à pro-
A CATI possui várias publicações que orientam e ofere- professores e extensionistas. Artigo publicado em 2015, pe-
combatidos para conter o desperdício. “No Brasil, a impres- dução de uma grande diversidade de culturas, como fruticul-
cem dicas e receitas sobre o melhor aproveitamento de fru- los pesquisadores do Instituto de Economia Agrícola (IEA), da
são de fartura e a sensação de vantagem de menor reposição tura, cultura de cogumelos comestíveis, plantas medicinais
tas e hortaliças, como: Aproveitamento integral dos vege- Secretaria de Agricultura e Abastecimento, Waldemar Pires
fazem com que o sistema não funcione como nos países eu- e condimentares, bem como a produção de flores e plantas
tais; Congelamento Doméstico de Alimentos; Frutas cítricas: de Camargo Filho e Felipe Pires de Camargo, aponta que o
ropeus. O alimento fica deteriorado e é descartado porque ornamentais. De forma simplificada, a olericultura pode ser
dicas e receitas; Processamento Artesanal de Hortaliças – ponto alto da organização da pesquisa de hortaliças no Brasil
perde seu valor comercial. É necessária a implantação de um definida como a área da horticultura que abrange a explora-
Conservas; entre outras. ocorreu na década de 1970, por meio do Programa de Apoio
programa abrangente, desde a modernização de cada etapa ção de hortaliças.
à Produção e Comercialização de Produtos Hortigranjeiros
do processo até a inovação das técnicas de cada elo da ca- Com a finalidade de incentivar o consumo de hortaliças Relatos históricos destacam que após a descoberta do (Prohort), o qual foi fundamental para a modernização das
deia produtiva. Essas mudanças melhorariam todo o proces- e promover uma alimentação saudável, visando também Brasil em 1500 e o início da colonização sistemática em 1530 cadeias produtivas. “O Programa era composto de planos
so existente”, conclui. combater o desperdício no armazenamento e na elaboração ocorreu então, promovido pelos colonos, navegadores e je- para a fruticultura e a olericultura, tendo como hortaliças
de receitas, a Embrapa Hortaliças lançou o site Hortaliças na suítas, um amplo processo de troca de plantas, dentre elas as prioritárias a batata, o tomate, a cebola e o alho (para indús-
Combate ao desperdício: questão de Web – www.cnph.embrapa.br/hortalicasnaweb/index.html. hortaliças, oriundas de Portugal, do Brasil e de outras posses- tria e mesa). Suas ações promoveram o desenvolvimento e
segurança alimentar De acordo com a pesquisadora Milza Lana, com as informa- sões portuguesas da África e da Ásia. “Essas plantas serviram a modernização das cadeias produtivas da olericultura, com
ções disponíveis o objetivo é oferecer opções de preparo, de material básico para o melhoramento genético, muitas metas de melhoria na produção, na comercialização, na dis-
Segundo o relatório da FAO de 2013, o Brasil tem cerca de
com receitas nutritivas, práticas para o dia a dia e com preços vezes realizado de forma empírica, ou seja, na base da obser- tribuição e no abastecimento”, escreveram os pesquisadores.
três milhões de pessoas em situação de insegurança alimen-
acessíveis. “Pretendemos também orientar a população so- vação prática, na adaptação das novas espécies às condições
tar, o que representa 1,7% da população. De acordo com o bre os atributos de qualidade a serem considerados na hora A implantação das Centrais de Abastecimento (Ceasas),
mesmo documento, mais de 800 milhões de pessoas, ou seja, de solo e clima brasileiros, bem como em uma diversificação
da compra e o correto manuseio e acondicionamento das pelo governo federal – que depois se tornaram responsabi-
da alimentação na Colônia”, explicam os engenheiros agrô-
uma em cada nove sofre de fome no mundo. hortaliças no mercado e na residência para evitar desperdí- lidade dos estados –, ao longo da década de 1970, também
nomos e pesquisadores Paulo E. Trani, Arlete M. T. de Melo,
cios”. foi decisiva para a expansão da olericultura.
Acabar com o desperdício, principalmente na olericultura, Francisco A. Passos e Luis Felipe V. Purquério, do Centro de
é uma questão que deve ser tratada de forma integrada entre O destaque do site é a seção “50 hortaliças”, que relaciona Horticultura do Instituto Agronômico (IAC), de Campinas. A década de 1980 é considerada muito importante para
todos os elos da cadeia produtiva: da produção ao consumo, informações de cada hortaliça como origem, valor nutritivo, a olericultura brasileira, especialmente graças à atividade da
Desse período em diante, as hortaliças começaram a fa-
pois as soluções são complexas. De acordo com o pesquisa- receitas e dicas de como comprar, conservar e consumir. zer parte da alimentação da população, mas cultivada em pesquisa oficial, com a recomendação e o lançamento de
dor Antônio Gomes, entre 1997 e 2000, período em que ele pequenas áreas rurais, nos arredores das cidades. “A oleri- cultivares de hortaliças adaptadas às mais diversas condi-
fez o estudo, a produção dos principais frutos frescos comer- cultura, no Brasil, evoluiu mais acentuadamente a partir da ções climáticas do território nacional, bem como com a in-
Lilian Cerveira – Cecor/CATI

cializados no Brasil era de aproximadamente 17,7 milhões de década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial”, conta trodução dos Planos de Produção Programada de Hortaliças,
toneladas/ano. Desse total, a perda estava calculada em 30%. o engenheiro agrônomo Gilberto Figueiredo, responsável da Cooperativa Agrícola de Cotia, a qual teve um papel fun-
Segundo ele, aumentar a produção agrícola sem reduzir as pelo Projeto Olericultura da CATI, acrescentando que relatos damental na expansão da comercialização de olerícolas em
perdas, não é uma das soluções para acabar com a insegu- históricos mostram que, nessa época, existiam apenas pe- São Paulo em especial no “Cinturão Verde” da cidade de São
rança alimentar. “Se o Brasil diminuir o seu desperdício pode- quenas explorações diversificadas. “Depois desse período, Paulo (Mogi das Cruzes, Ibiúna, entre outras), o qual teve iní-
rá aumentar a oferta de produtos sem aumentar a produção houve uma migração da produção de hortaliças para áreas cio com os imigrantes japoneses que instalaram-se em pe-
agrícola; isso reduziria custos e preços”, avalia. rurais, maiores e mais especializadas no interior; com isso, a quenas propriedades ao redor da cidade de São Paulo, onde
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Cleusa Pinheiro – Cecor/CATI


produziam hortaliças conhecidas no Brasill e cultivavam ou- variedades não tinham valor comercial, mas caracterizavam- Em 1998, a Seção de Hortaliças passou a integrar o Centro
tras trazidas por eles, como os brotos de bambu e de feijão, o -se como tolerantes ao calor e formavam cabeças nas nossas de Horticultura do IAC, com sede na Fazenda Santa Elisa, em
rabanete e o espinafre, entre outros. condições de verão. A partir do cruzamento com variedades Campinas. “Desde a década de 1990, aliando as atividades
locais de inverno e com algumas gerações de seleção, che- de pesquisa com a transferência de tecnologia, o Centro de
Nos anos 2000, acentuou-se a implantação de sistemas
gou ao mercado uma variedade de verão com características Horticultura vem desenvolvendo ações de capacitação de
de cultivos protegidos, em estufas, e da hidroponia.
comerciais adequadas ao nosso mercado. Foi um dos pri- horticultores familiares em parceria com a extensão rural.
São Paulo: expansão do cultivo de tomate e batata no meiros sucessos dos melhoristas brasileiros que estenderam Essas atividades envolvem: instalação de propriedades de
Estado foi o marco do início da olericultura comercial no essa estratégia no desenvolvimento de variedades de toma- referência em sistemas de produção em transição; mane-
Brasil te, batata, berinjela, pepino, pimentão, alface etc. Cabe res- jo agroecológico; capacitação de agricultores familiares e
Segundo Hiroshi Ikuta, engenheiro agrônomo, pesqui- saltar que no mundo não existiam muitos relatos de melho- técnicos; treinamento avançado em técnicas de produção
sador e professor da Escola Superior de Agricultura “Luiz de ramento de hortaliças tropicais, e o trabalho dos melhoristas hortícolas para jovens oriundos de assentamentos rurais do
Queiroz” (Esalq) que, por mais de quatro décadas, dedicou- brasileiros tornou-se reconhecido mundialmente”. Estado”, explicam Arlete Melo e Paulo Trani.
se ao trabalho e às pesquisas com hortaliças, a história da O papel da Extensão Rural
No IAC, as primeiras pesquisas estão datadas do ano de
olericultura nacional moderna coincide com a ampliação do
1937, a partir da criação da antiga Seção de Olericultura, Pesquisadores e produtores são unânimes em afirmar
cultivo das culturas da batata e do tomate no Estado. “Essas
mas ganharam impulso a partir de meados da década de que o trabalho árduo de extensionistas dos órgãos de assis-
foram as primeiras culturas que tiveram importância econô- Encontro de gerações durante o workshop sobre Olericultura
1940. “Na fase do pós-guerra, a experimentação, inclusive tência técnica e extensão rural da Secretaria, desde a década realizado na CATI, no mês de julho: engenheiros agrônomos
mica e foram produzidas de maneira intensiva, criando a fi-
de caráter regional, trouxe importantes contribuições para o de 1950, (e, a partir de 1967, agregados na criação oficial da Nozomu Makishima, trabalhou na CATI e na Embrapa; Gilberto
gura do produtor agrícola profissional em São Paulo”, explica
fortalecimento da olericultura paulista e nacional, principal- CATI) foi fundamental para o desenvolvimento da olericul- Figueiredo, responsável pelo Projeto CATI Olericultura; e Paulo
o professor. Espíndola Trani (IAC).
mente com o desenvolvimento de cultivares melhoradas e tura no Estado. “O trabalho conjunto da CATI e das coopera-
Dados históricos atribuem à imigração japonesa, a partir o aperfeiçoamento das técnicas de manejo”, explicam Arlete tivas permitiu aos melhoristas terem acesso às reais neces-
do início dos anos de 1900, a contribuição mais significati- Melo, Francisco Passos e Paulo Trani, pesquisadores do IAC, sidades de pesquisa do campo. A extensão rural é a ponte equipamentos, possibilitaram a mecanização da olericultu-
va para a incorporação do hábito do consumo de hortaliças que atuam na área há mais de 30 anos, informando que o entre a pesquisa e a produção, bem como fonte de informa- ra em solo nacional”. Outra contribuição dos técnicos foi a
pelos paulistas. “Os imigrantes japoneses tiveram um papel Centro guarda documentos datados da década de 1940, os ção atualizada das necessidades do mercado consumidor. edição de publicações específicas sobre o segmento. “Com
de grande relevância e iniciaram o cultivo da batata na re- quais registram as principais ações desenvolvidas, com rela- Além disso, os técnicos têm papel fundamental por orientar a criação da CATI, as Casas da Lavoura passaram a ter ainda
gião de Cotia, a partir de variedades locais, de forma muito tórios de campo. tecnicamente os produtores, levando novos conhecimen- mais influência na produção, pois foram criadas seções técni-
rústica. Com auxílio do governo japonês, que enviou adidos tos, informando sobre as novas variedades e tecnologias de cas para cada cultura de importância econômica”. Com isso,
A partir de 1970, o IAC ficou responsável pela pesquisa foram editados vários títulos como “A Cultura do Tomateiro”
agrícolas para prestar suporte técnico, promoveu a introdu- produção para explorar ao máximo o potencial produtivo.
de mais de 40 espécies entre as quais: abóbora, alface, alho, e “Aplicação de adubos em olericultura” (esse em parce-
ção de novas variedades e o melhor conhecimento de adu- Graças a esse trabalho integrado da pesquisa com a assis-
beterraba, cenoura, cebola, melancia, morango, pepino, pi- ria com o engenheiro agrônomo Hipólito Mascarenhas),
bação, bem como controle de pragas e doenças, a cultura da tência técnica, o Estado de São Paulo foi o berço da olericul-
mentão, pimenta, quiabo, repolho e tomate. “Nesse período, ambos escritos pelo agrônomo e editados pelo Serviço de
batata se desenvolveu enormemente, se tornando o berço tura nacional, criando diversos núcleos de produção que por
as principais pesquisas e atividades foram relacionadas à Comunicação Rural da CATI, em 1973, em uma fase na qual
da Cooperativa Agrícola de Cotia. muitos anos supriram as necessidades de abastecimento do
produção e à conservação de sementes de hortaliças, à in- havia pouca literatura disponível em português e com adap-
País”, comenta o professor Ikuta.
Quanto à cultura do tomate, o professor Ikuta relembra: trodução de novos materiais genéticos, à avaliação das cole- tação às necessidades nacionais.
“a região de Mogi das Cruzes teve grande importância no ções e germoplasmas e ao melhoramento genético para as Nozomu Makishima, engenheiro agrônomo formado
desenvolvimento da cultura do tomate. Os imigrantes japo- diferentes regiões ecológicas do Estado. Também foram rea- em 1955 pela Esalq, conhece a fundo o trabalho da exten- Nozomu relata também que os extensionistas da CATI
neses selecionaram variedades locais, por meio da coleta de lizados estudos de épocas e densidade de plantio, nutrição, são rural em parceria com a pesquisa. No final da década de sempre trabalharam próximos às cooperativas e participa-
sementes das plantas mais produtivas, elevando significati- calagem e adubação, propagação, irrigação e de cultivo em 1950 começou a trabalhar no Serviço do Vale do Paraíba, da ram da difusão de políticas públicas para o setor. “No início
vamente a produção no Estado. No entanto, o consumo de ambiente protegido. É importante destacar nesse período então Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio de São dos plantios comerciais, as cooperativas eram as principais
tomate era baixo; nesse momento surgiu a Cooperativa de o trabalho do pesquisador Hiroshi Nagai, que desenvolveu Paulo (atual SAA), fomentando a produção de hortaliças na fontes de renda para os olericultores; só depois da década de
Mogi das Cruzes, que teve papel fundamental no escoamen- variedades de tomate, como o foi o caso da Ângela e Santa região. “O relacionamento dos técnicos das Casas da Lavoura 1970, os produtores passaram a contar com linhas de crédito
to do produto e no incentivo para a fundação das primeiras Clara, resistentes a viroses, que predominaram nas regiões (atuais Casas da Agricultura) com os pesquisadores sempre governamentais, acesso às quais sempre foi feito via atuação
agroindústrias de massa de tomate”. produtoras do Estado, nas décadas de 1970 e 1980; e da al- foi muito bom. Eles eram capacitados pelos pesquisadores e dos técnicos da CATI”.
A expansão da olericultura e o papel da Secretaria de face Brasil, que possibilitou o plantio no verão”, informam identificavam os problemas reais dos produtores e levavam Aos 83 anos, o agrônomo que, após 1977, foi convidado
Agricultura e Abastecimento Paulo Trani e Arlete Melo. os materiais para serem analisados no IAC e no IB”, avalia o a trabalhar na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
agrônomo, continuando a explicação. “Nosso trabalho bá- (Embrapa), sendo um dos responsáveis pela implantação do
O papel da pesquisa, por meio do Instituto Agronômico sico era a transferência das principais tecnologias geradas Centro Nacional de Pesquisas em Hortaliças (atual Embrapa
(IAC), de Campinas, ao lado de ações do Instituto Biológico pela Secretaria e pelas universidades para os produtores”. - Hortaliças) considera que o trabalho do extensionista foi
(IB) e do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), ligados
Com o trabalho intenso junto aos produtores, a par- fundamental para a expansão da olericultura.
à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta),
Arquivo pessoal

todos da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA), tir do final da década de 1960, a extensão rural paulista O produtor rural Luis Yano, de Mogi das Cruzes, tem na
ao lado dos trabalhos de pesquisadores da Esalq/USP, foi Professor contabilizou grandes avanços na produção de hortaliças. família a tradição da agricultura há três gerações. Há mais de
fundamental para a expansão da olericultura em São Paulo. Hiroshi “Fomentamos a modernização do sistema de produção, com 20 anos produzindo hortaliças, Yano afirma que a orientação
“Naquela época, entre as décadas de 1950 e 1970, as varieda- Ikuta, em a introdução de novas técnicas de plantio, que levavam em dos extensionistas da CATI e os eventos técnicos organiza-
des locais não tinham tanta expressão econômica e a maio- atividade no consideração Boas Práticas, que nesse período nem tinham dos pela instituição foram primordiais para sua capacitação
ria das sementes utilizadas eram importadas, porém não campo na esse nome, desde o preparo de solo até a collheita, como a e profissionalização na atividade. “Sempre contei com o
adaptadas para as nossas condições tropicais”, explica o pro- década de correção da fertilidade do solo, visando adaptar o plantio de apoio técnico da CATI para solucionar dúvidas no campo e
fessor Ikuta, dizendo que um marco da pesquisa paulista foi 1980.
hortaliças cujas mudas vinham de fora. Nessa época também para aprimorar os conhecimentos. Também foi por meio da
o melhoramento da couve-flor de verão, desenvolvido por fizemos a introdução de equipamentos adaptados às cultu- instituição que tive acesso às políticas públicas e ao crédito
meio da coleta de sementes da Índia e do Paquistão. “Essas ras, como foi o caso dos microtratores que, ao lado de outros rural quando precisei”, conta o produtor.
50 ‫ ׀‬Casa da Agricultura Casa da Agricultura ‫ ׀‬51

CATI capacitou extensionistas das Casas da tivos, a produção escoada era transportada de forma indi-
Aconteceu
Agricultura em técnicas de irrigação vidual entre os associados, e com as novas aquisições, os
A Coordenadoria de Assistência Técnica Integral produtores garantirão a entrega de legumes e frutas fres-
(CATI), órgão vinculado à Secretaria de Agricultura e cos em condições adequadas de transporte.
Abastecimento do Estado de São Paulo, promoveu, en- CATI completa 48 anos
tre os dias 7 e 9 de abril, para seus extensionistas, o cur-
so “Atualização em Sistemas e Manejo da Irrigação”, com
o objetivo de capacitá-los para a orientação dos produ-
tores rurais em técnicas de irrigação. A capacitação foi
realizada na CATI Regional Bragança Paulista e teve o
objetivo de preparar os técnicos do órgão sobre como
avaliar as propriedades do agricultor quanto ao tipo de
irrigação aplicada, mas a proposta é poder levá-la para ser

Lilian Cerveira – Cecor/CATI


aplicada em todas as Regionais.
Semana de Fitoterapia foi realizada em abril
Com o tema “Plantas medicinais – a saúde em suas
mãos”, a XIII Semana de Fitoterapia Prof. Walter Radamés
Accorsi, organizada pela CATI e Prefeitura de Campinas, foi
realizada de 14 a 17 de abril, em Campinas.
Fizeram parte da programação palestras, oficinas de sa- No dia 20 de junho, a CATI completou 48 anos de atua-
bonetes artesanais e de culinária saudável, como a baseada ção para o desenvolvimento da agropecuária paulista.
nas receitas da artista e curadora famosa por suas obras li- Com o objetivo de relembrar a sua história e aprimorar
gadas às plantas medicinais, Hildegarda de Bingen; cursos as suas atividades no presente foram realizadas, na sede
de Fitoterapia para estudantes e profissionais da área; ci- da instituição em Campinas, reuniões com a presença de
ne-arte; apresentação de trabalhos sobre o tema por meio diretores das 40 Regionais, técnicos e equipe administra-
de painéis e de forma oral; exposição e venda de produtos tiva, que conversaram com o coordenador da instituição,
e apresentações artísticas e corporais. Uma atividade di- José Carlos Rossetti, e com o secretário de Agricultura e
ferenciada, oferecida aos visitantes, foi o Jardim Sensorial
Conheça as publicações
Abastecimento, Arnaldo Jardim.
que foi um espaço de contato com a natureza e de aprendi-
Também houve uma sessão solene, aberta a convida-
zado de cores, plantas, aromas e sabores.
dos, onde falou-se sobre a importância da CATI como órgão
Governador Geraldo Alckmin entrega caminhão
adquirido com recursos do Microbacias II – Acesso
de extensão rural e foram homenageados um produtor ru-
ral e um ex-servidor, que contribuíram para o fortalecimen-
da CATI com dicas e
ao Mercado para associação de Castilho
O governador Geraldo Alckmin entregou, no dia 27 de
junho, em Castilho, na região de Andradina, um caminhão
to da CATI e da agricultura paulista.
Projeto Microbacias II – Acesso ao Mercado receitas sobre a melhor
forma de preparar,
é prorrogado
baú e 400 caixas plásticas para transporte da produção,
O Projeto Microbacias II – Acesso ao Mercado, destina-
num valor de R$ 150.168,00, adquiridos com recursos do
do ao produtor familiar, foi prorrogado por mais dois anos.
Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável (PDRS) –
Microbacias II – Acesso
ao Mercado, execu-
A decisão de estender o prazo de desembolso dos re-
cursos do Projeto até setembro de 2017 foi uma reivindi-
aproveitar e conservar os
tado pela Secretaria
de Agricultura e
cação do governo do Estado de São Paulo, por meio da
Secretaria de Agricultura, para garantir a continuidade das alimentos!
Divulgação CATI Regional Andradina

Abastecimento do ações propostas e negociadas com o Banco Mundial, que


Estado de São Paulo, se encerrariam no dia 30 de setembro de 2015.
por meio da CATI.
“Caso o acordo de empréstimo não fosse prorrogado,
Mais informações podem ser
O caminhão, com os recursos da Conta Operativa do PDRS - Microbacias II se- obtidas no Setor de Publicações
capacidade de car- riam encerrados, acarretando inúmeros prejuízos às ações
em andamento e a toda estratégia futura. Essa era uma das
da CATI.
ga de cerca de cinco
toneladas, foi entre- prioridades do governador Geraldo Alckmin em garantir
gue pelo governador a continuidade do Projeto”, afirmou o secretário Arnaldo
Jardim.
(19) 3743-3858
para a Associação Nova Ypê, localizada no assentamento
“Esperança de Luz”, que conta com 54 associados e com cecor@cati.sp.gov.br
produção média anual de 315 toneladas de frutas e horta- Leia as notícias completas no site da CATI
liças. Do total investido, 70% foram recursos provenientes www.cati.sp.gov.br
do Microbacias II e 30% de contrapartida. Antes dos incen-