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Eros e Psiquê Duma boca divina fala em mim !

(Fernando Pessoa)
E, olhos postos em ti, digo de rastros :
Conta a lenda que dormia "Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Uma Princesa encantada Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."
A quem só despertaria
Um Infante, que viria Amar
De além do muro da estrada. (Carlos Drummond de Andrade)

Ele tinha que, tentado, Que pode uma criatura senão,


Vencer o mal e o bem, entre criaturas, amar?
Antes que, já libertado, amar e esquecer,
Deixasse o caminho errado amar e malamar,
Por o que à Princesa vem. amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera, Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sonha em morte a sua vida, sozinho, em rotação universal, senão
E orna-lhe a fronte esquecida, rodar também, e amar?
Verde, uma grinalda de hera. amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
Longe o Infante, esforçado, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Amar solenemente as palmas do deserto,
Ele dela é ignorado,
o que é entrega ou adoração expectante,
Ela para ele é ninguém.
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
Mas cada um cumpre o Destino
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Este o nosso destino: amor sem conta,
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada. distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E, se bem que seja obscuro e na concha vazia do amor a procura medrosa,
Tudo pela estrada fora, paciente, de mais e mais amor.
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro, Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa,
Chega onde em sono ela mora, amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

E, inda tonto do que houvera, O amor bate na aorta (CDA)


À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera, Cantiga de amor sem eira
E vê que ele mesmo era nem beira,
A Princesa que dormia. vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
Fanatismo
o amor, seja como for,
(Florbela Espanca)
é o amor.
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meu bem, não chores,
Meus olhos andam cegos de te ver !
hoje tem filme do Carlito.
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida ! O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
Não vejo nada assim enlouquecida ... fui abrir e me constipei.
Passo no mundo, meu Amor, a ler Cardíaco e melancólico,
No misterioso livro do teu ser o amor ronca na horta
A mesma história tantas vezes lida ! entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..." e desejos já maduros.
Quando me dizem isto, toda a graça
Entre uvas meio verdes, O teu riso
meu amor, não te atormentes. (Pablo Neruda)
Certos ácidos adoçam Tira-me o pão, se quiseres,
a boca murcha dos velhos tira-me o ar, mas não
e quando os dentes não mordem me tires o teu riso.
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
Não me tires a rosa,
o amor desenha uma curva
a lança que desfolhas,
propõe uma geometria.
a água que de súbito
Amor é bicho instruído. brota da tua alegria,
a repentina onda
Olha: o amor pulou o muro de prata que em ti nasce.
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar A minha luta é dura e regresso
Pronto, o amor se estrepou. com os olhos cansados
Daqui estou vendo o sangue às vezes por ver
que escorre do corpo andrógino. que a terra não muda,
Essa ferida, meu bem, mas ao entrar teu riso
às vezes não sara nunca, sobe ao céu a procurar-me
às vezes sara amanhã. e abre-me todas
as portas da vida.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
Meu amor, nos momentos
mas também vejo outras coisas:
mais escuros solta
vejo corpos, vejo almas
o teu riso e se de súbito
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam vires que o meu sangue mancha
e que viajam sem mapa. as pedras da rua,
Vejo muitas outras coisas ri, porque o teu riso
que não ouso compreender… será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
Elegia (CDA)
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, À beira do mar, no outono,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. teu riso deve erguer
Praticas laboriosamente os gestos universais, sua cascata de espuma,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual. e na primavera, amor,
quero teu riso como
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, a flor que esperava,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a a flor azul, a rosa
[concepção.
da minha pátria sonora.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Ri-te da noite,
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra do dia, da lua,
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de ri-te das ruas
[morrer. tortas da ilha,
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande ri-te deste grosseiro
Máquina rapaz que te ama,
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras. mas quando abro
os olhos e os fecho,
Caminhas entre mortos e com eles conversas quando meus passos vão,
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. quando voltam meus passos,
A literatura estragou tuas melhores horas de amor. nega-me o pão, o ar,
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear. a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota porque então morreria.
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta
[distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Te amo (Pablo Neruda) outra parte
Te amo de uma maneira inexplicável, se sabe de repente.
de uma forma inconfessável,de um modo contraditório.
Te amo, com meus estados de ânimo que são muitos Uma parte de mim
e mudar de humor continuadamente é só vertigem:
pelo que você já sabe/ o tempo,/ a vida,/ a morte. outra parte,
Te amo, com o mundo que não entendo linguagem.
com as pessoas que não compreendem
com a ambivalência de minha alma Traduzir uma parte
com a incoerência dos meus atos na outra parte
com a fatalidade do destino — que é uma questão
com a conspiração do desejo de vida ou morte —
com a ambigüidade dos fatos será arte?
ainda quando digo que não te amo, te amo
mesmo quando te engano, não te engano Samba do Arnesto (Adoniran Barbosa)
no fundo levo a cabo um plano para amar-te melhor O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás
Te amo , sem refletir, inconscientemente
Nós fumos não encontremos ninguém/Nós voltermos com
irresponsavelmente, espontaneamente
involuntariamente, por instinto uma baita de uma reiva/ Da outra vez nós num vai mais
por impulso, irracionalmente Nós não semos tatu!/No outro dia encontremo com o
de fato não tenho argumentos lógicos Arnesto/Que pediu desculpas mais nós não aceitemos
nem sequer improvisados Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa/Mas você devia
para fundamentar este amor que sinto por ti
ter ponhado um recado na porta/Um recado assim ói: "Ói,
que surgiu misteriosamente do nada
que não resolveu magicamente nada turma, num deu pra espera/Aduvido que isso, num faz mar,
e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada, num tem importância,/Assinado em cruz porque não sei
melhorou o pior de mim./ Te amo escrever.
Te amo com um corpo que não pensa
com um coração que não raciocina Muriel – Ruy Belo
com uma cabeça que não coordena.
Às vezes se te lembras procurava-te
Te amo incompreensivelmente
sem perguntar-me porque te amo retinha-te esgotava-te e se te não perdia
sem importar-me porque te amo era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
sem questionar-me porque te amo/ Te amo Nada no fundo tinha que dizer-te
simplesmente porque te amo e para ver-te verdadeiramente
eu mesmo não sei porque te amo…
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Traduzir-se (Ferreira Gullar)
Uma parte de mim Era tudo tão simples quando te esperava
é todo mundo: tão disponível como então eu estava
outra parte é ninguém: Mas hoje há os papéis há as voltas dar
fundo sem fundo. há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Uma parte de mim
é multidão: Tu és a mesma mas nem imaginas
outra parte estranheza como mudou aquele que te esperava
e solidão. Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
Uma parte de mim
que é com certo espanto que no espelho da manhã
pesa, pondera:
outra parte distraído diviso a cara que me resta
delira. depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
Uma parte de mim havia as ruas as pessoas o anonimato
almoça e janta: os bares os cinemas os museus
outra parte
um dia vi-te e desde então madrid
se espanta.
se porventura tem ainda para mim sentido
Uma parte de mim é ser solidão que te rodeia a ti
é permanente:
Meu projeto cultural: O que se espera desta atividade é que sei falar com os mortos, perdi contacto com os antepassados
através da interação sociocultural em um ambiente totalmente que nos concedem o sentido da eternidade. Nessas visitas que
voltado para as tradições nordestinas, os educandos faço à savana, vou aprendendo sensibilidades que me ajudam
reconheçam que não existe uma variante linguística correta a sair de mim e a afastar-me das minhas certezas. Nesse
ou errada, mas que cada uma delas está inserida em território, eu não tenho apenas sonhos. Eu sou sonhável.
determinada situação, tanto no nível do discurso quanto no
nível do texto.
Fazer esta interação com o meio cultural nordestino,
Áreas do conhecimento como a sociolinguística concebem a
neste caso, pode contribuir para que os estudantes
língua no seio da interação social, que muda e varia em
reconheçam e valorizem a linguagem dos diferentes grupos
regionais e sociais como instrumento eficiente na função do contexto sócio-histórico, trazendo para a ordem do
comunicação. Além disso, espera-se que esta experiência dia a questão da variação linguística. Ou seja, para a
contribua para a mitigação do preconceito linguístico, sociolinguística, a língua sofre influência de fatores sociais e
evidenciando que as variantes marcam a identidade do falante históricos que causam a variação, seja dentro de um mesmo
e não devem ser desconsideradas. idioma ou entre diferentes línguas

CALLOU, D. Gramática, variação e normas. In VIEIRA, Labov: Os procedimentos de linguística descritiva se


S. R.; BRANDÃO, S. (orgs). Ensino de gramática: baseiam no entendimento de que a língua é um conjunto
descrição e uso. São Paulo: Contexto, 2007 (fragmento). estruturado de normas sociais. No passado, foi útil considerar
Há certos usos consagrados na fala, e até mesmo na escrita, que tais normas eram invariantes e compartilhadas por todos
que, a depender do estrato social e do nível de escolaridade os membros da comunidade linguística. Todavia, as análises
do falante, são, sem dúvida, previsíveis. Ocorrem até mesmo do contexto social em que a língua é utilizada vieram
em falantes que dominam a variedade padrão, pois, na demonstrar que muitos elementos da estrutura linguística
verdade, revelam tendências existentes na língua em seu estão implicados na variação sistemática que reflete tanto a
processo de mudança que não podem ser bloqueadas em
mudança no tempo quanto os processos sociais
nome de um “ideal linguístico” que estaria representado pelas
regras da gramática normativa. Usos como ter por haver em extralingüísticos.
construções existentes (tem muitos livros na estante), o do
pronome objeto na posição de sujeito (para mim fazer o A heterogeneidade linguística decorre em função da
trabalho), a não-concordância das passivas com se (aluga-se existência de muitas modalidades escritas ou faladas e
casas) são indícios da existência, não de uma norma única, pressupõe a ocorrência da diversidade da língua e de variantes
mas de uma pluralidade de normas, entendida, mais uma vez, linguísticas distintas dentro das comunidades de usuários da
norma como conjunto de hábitos linguísticos, sem implicar língua (LABOV, 1994). Tanto maior será a diversidade
juízo de valor. quanto maior for a ocorrência de registros, estilos e
O texto em questão disserta sobre o fato de haver duas variedades de emprego da língua. Mesmo no ato de escrever,
línguas: a idealizada e a efetivamente praticada, quando por exemplo, um estilo mais ou menos informal ou menos
afirma que transgressões às regras da gramática coloquial oferece evidências de diferentes usos da língua
normativa “ocorrem até mesmo em falantes que dominam escrita.
a variedade padrão”, como aponta a opção B. Na
realidade, reforça-se a ideia de norma como aquilo que se É necessário democratizar o ensino escolar, tornando-o aberto
torna hábito linguístico, independentemente de constar ou para as múltiplas variedades linguísticas (sociais, regionais,
não na gramática. profissionais, etárias) que qualquer língua viva possui. O
objetivo não é substituir um uso por outro, afirma Gagné
As variações linguísticas acontecem porque vivemos em uma (2002), mas familiarizar a criança, o aluno com a diversidade
sociedade complexa, na qual estão inseridos diferentes grupos linguística. Nesse caso, não se pretende pulverizar a qualquer
sociais. Alguns desses grupos tiveram acesso à educação custo a norma culta, mas fazer o aluno competente em
formal, enquanto outros não tiveram muito contato com a reconhecer os diversos usos da língua, inclusive o da norma
norma culta da língua. Podemos observar também que a culta. Portanto, o que se pretende, é uma democracia quanto
língua varia de acordo com suas situações de uso, pois um ao reconhecimento dos usos – substituindo-se o hegemônico
mesmo grupo social pode se comunicar de maneira diferente, e exclusivo lugar que só a norma culta possui.
de acordo com a necessidade de adequação linguística. Prova LABOV, William. Modelos sociolinguísticos. Madrid:
disso é que você não vai se comportar em uma entrevista de Cátedra, 1994.
emprego da mesma maneira com a qual você conversa com BAGNO; GAGNÉ; STUBBS. Língua materna: letramento,
seus amigos em uma situação informal, não é mesmo? (Uol) variação e ensino. São Paulo: Parábola Editorial, 2002
PERINI, Mário A. Gramática descritiva do português. São
Paulo: Ática 1992.
Mia Couto - E se Obama fosse africano?
“Sou biólogo e viajo muito pela savana do meu país. Nessas
regiões encontro gente que não sabe ler livros. Mas que sabe
ler o seu mundo. Nesse universo de outros saberes, sou eu o
analfabeto. Não sei ler sinais da terra, das árvores e dos
bichos. Não sei ler nuvens, nem o prenúncio das chuvas. Não