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Mons.

Jean Joseph Gaume

A REVOLUÇÃO – INTRODUÇÃO
Por mais otimista que se seja, é difícil negar que existe o mal no interior das sociedades modernas, e até que ele
exista em proporções assustadoras.

“O mal não é maior hoje quanto outrora. Todos os séculos são iguais. Os homens sempre foram os mesmos. Nossa
época pode ser comparada com todas as épocas”. Eis o que vários se apressam em responder.

“Ouve-se dizer muito comumente, retoma o conde de Maistre, que todos os séculos são iguais e que os homens
sempre foram os mesmos. Porém é preciso evitar essas máximas gerais inventadas pela leviandade e a preguiça para
se dispensarem de refletir. Todos os séculos, pelo contrário, manifestam um caráter particular e distintivo que é
preciso considerar cuidadosamente. Sem dúvida, sempre houve vícios no mundo, porém esses vícios podem diferir
em quantidade, em natureza, em qualidade dominante e em intensidade. O que há de extremamente notável é que,
à medida que os séculos passam, os ataques contra o edifício católico se tornam sempre mais fortes. De modo que
dizendo sempre que não há nada além disso, nos enganamos sempre[1]”.Mas não nos contentemos com o
testemunho de outra pessoa. Comparemos nós mesmos a Europa de hoje com a Europa de outrora. A fim de
obtermos os termos de uma comparação séria, voltemos ao período que divide a história das sociedades cristãs em
duas partes, a essa época da qual apenas o nome indica o fim da Idade Média e o começo da era moderna,
o Renascimento.

Se, por um lado, é verdade que o catolicismo, único que justifica o poder e o dever, é a alma das sociedades. Se, por
outro, como se pretende, é verdade que nossa época pode ser comparada com todas as demais épocas, essa
afirmação significa que hoje o catolicismo é aplicado à sociedade, à família, ao indivíduo, de um modo ao menos tão
íntimo e tão completo quanto outrora. Vejamos o que devemos pensar dessa afirmação.

Primeiro fato – Tirando alguns territórios setentrionais, a Europa, há quatro séculos, era completamente católica.
Hoje, metade da Europa não é mais católica, e a outra o é apenas meio católica.

Segundo fato – Há quatro séculos, a indissolubilidade do laço conjugal era a lei universal da família. Hoje, o divórcio
está legalmente estabelecido em metade da Europa.

Terceiro fato – Há quatro séculos, o suicídio, esse atentado supremo que anuncia a extinção do sentido moral entre
aqueles que se tornam culpados dele, era desconhecido das nações cristãs. Hoje, esse crime, que teria aterrorizado
os nossos pais, se tornou tão comum que não se dá mais atenção a ele, e ele tem até seus apologistas.

Com base nessa tríplice relação, o catolicismo é aplicado à sociedade, à família, ao indivíduo, de um modo tão
completo hoje quanto outrora?

Quarto fato – Há quatro séculos, não havia teatros na Europa; nem artes corruptoras, nem conspiração geral do
talento e do gênio contra a fé e os costumes. Hoje, a Europa está coberta por teatros, onde, todas as noites,
milhares de espectadores aplaudem à apresentação e o triunfo das mais perigosas paixões. As ruas, as praças, os
jardins públicos estão cheios de estátuas indecentes. As galerias, os salões, os livros oferecem por todos os lados
quadros e gravuras que o pudor não pode olhar sem se envergonhar. Milhares de inteligências inundam, faz quatro
séculos, a Europa inteira com obras em verso em prosa, nas quais não existe um crime contra Deus, contra a Igreja,
contra os poderes públicos, contra os esposos e os pais, que não encontre sua fórmula e até sua apologia.

Sob todos esses pontos de vista, nossa época pode ser comparada com as épocas onde nada disso existia?

Quinto fato – Enquanto que outrora a Europa tinha uma hierarquia social, liberdades públicas, uma consciência
pública. Enquanto que entre as nações cristãs a paz era perturbada apenas superficialmente, ou seja, na ordem dos
fatos e não na ordem dos princípios, de modo que as dinastias tinham um amanhã e os povos um futuro, hoje toda a
hierarquia social composta por elementos naturais e históricos desapareceu. Todas as liberdades públicas são
absorvidas pela centralização. A consciência pública alterada ou extinta produz apenas o insucesso, e até os
fundamentos da família, da propriedade, da ordem social estão abalados até em seus alicerces.
Nas almas ou nas ruas, a Revolução é permanente. Sobre seus tronos cambaleantes, os reis se assemelham a
marinheiros colocados no topo do navio durante a tormenta. O som do trono que desmorona hoje anuncia quase
sempre a queda do trono que desmoronará amanhã. Os povos descontentes alimentam no fundo de seus corações a
aversão por toda superioridade, a inveja de todo gozo, a impaciência com qualquer freio. E a força material se
tornou a única garantia da ordem social. E apesar dessa força imponente, apesar do progresso, apesar da indústria,
apesar da tomada de Sébastopol, a Europa teme. Um instinto secreto lhe diz que ela pode perecer, como Baltasar,
em meio a um banquete, com a taça da volúpia em mãos.

Que aceitem meditar friamente e sem tomar partido esses pontos comparativos, que seria fácil de multiplicar, e
digam se a época onde se encontram todos esses sintomas pode ser comparada com todas as demais épocas da
história!

Afirmar isso é pretender ou que nenhuma das coisas que acabam de ser assinaladas é um mal nem causa de mal, ou
que a Europa moderna oferece, com base em outras relações, uma compensação de tal forma abundante, que lhe
resta um patrimônio de verdades e virtudes, em uma palavra, de catolicismo, ao menos igual ao de seus ancestrais. É
assim?

Tirando alguns venturosos sintomas dos quais não é necessário nem contestar a existência nem exagerar o
significado, por toda parte o mal permanece estacionário ou continua seus funestos progressos.

Nenhuma das nações separadas da Igreja pelo cisma ou pela heresia deram, como nação, um passo para regressar
ao redil.

Até no interior dos países que permaneceram católicos, a quem pertence a colheita das almas? Na França, na Itália,
na Bélgica, na Espanha, quais jornais sustentam a sorte da conservação?

Fala-se de um movimento religioso: mas qual? Individual ou social? As conservações salvam os indivíduos, somente a
volta aos princípios pode salvar as nações. Ora, que lugar os princípios sociais do cristianismo retomaram nas
constituições e cartas modernas? O amor, a indiferença, o temor ou o ódio, qual desses sentimentos domina nossa
época em relação à Igreja, essa grande monarquia das inteligências, estabelecida no mundo moral para aí manter a
harmonia, como o sol a mantém no mundo planetário? O que aconteceu com sua independência territorial, a
submissão aos seus preceitos, a total liberdade de sua ação?

Fala-se dos crimes de outrora: onde estão as iniquidades privadas e públicas cometidas pelos nossos pais e que não
cometemos mais, ou que cometemos menos frequentemente, com características menos odiosas, ou que expiamos
por remorsos mais sinceros e por reparações mais visíveis? O que as estatísticas da justiça criminal dizem todos os
anos?

O naturalismo religioso, a centralização política, o enfraquecimento do sentido moral, o desprezo pela autoridade,
qualquer que seja seu nome, o império tenebroso das sociedades secretas, o reino visível do sensualismo, esses
grandes sintomas de decadência desconhecidos outrora são fatos que atingem todos os olhares, e pelos quais não
há compensação.

Dizendo tudo numa única palavra: a emancipação progressiva da Europa da tutela do catolicismo, sua saída da
ordem divina e a substituição, em todas as coisas, da soberania do homem à soberania de Deus. Eis o caráter
distintivo da era moderna. Eis o que chamamos de Revolução[2]. Eis o mal!

De resto, que aceitem notar, a comparação que precede não tem por fim nem denegrir a época atual nem
desencorajar as almas. Ainda restam bons elementos, sobretudo na França. A seiva da fé que opera pela caridade
ainda circula ativa e abundante nas veias de muitos cristãos, sempre fiéis ou que felizmente se remendaram de seus
erros. Enfim, a mão materna da Providência continua visivelmente estendida sobre a Europa ocidental.

Alertar a opinião contra os hipnotizadores, despertar o zelo de todos assinalando a grandiosidade do mal e a
iminência do perigo, tal é o propósito desse esboço.

E agora, de onde vem esse mal que nos envolve e penetra de todos os lados, esse mal que todos veem com seus
próprios olhos e tocam com suas próprias mãos, que leva alguns a gritar de alegria e outros de alerta, esse mal que
mantém a ordem social em xeque e o mundo suspenso sobre um abismo?
Após o pecado original, uns o veem principalmente na Revolução francesa e na liberdade de imprensa que resulta
dela; outros, no Voltairianismo ou na filosofia do século XVIII; aqueles, no Cesarismo ou na política pagã; estes, no
Protestantismo. Uns, no Racionalismo; vários, na Renascença.

Assim, as causas próximas e geralmente reconhecidas do mal seriam:

 A Revolução francesa,

 O Voltairianismo,

 O Cesarismo,

 O Protestantismo,

 O Racionalismo,

 A Renascença.

Não se pode negar que haja tudo isso na doença social. Porém todas essas causas são realmente causas, e causas
isoladas, independentes unas das outras, e não os efeitos sucessivos de uma causa primeira, as diferentes evoluções
de um mesmo princípio? Para saber, e importa soberanamente não ignorar isso, é preciso, com a história em mãos,
fazer a genealogia de cada uma delas. Se o resultado invariável desse estudo demonstrar, em todos esses fatos, o
mesmo princípio gerador, em todos essas causas, uma raiz comum da qual elas saíram, será preciso reconhecer
como causa principal e próxima do mal atual esse princípio do qual tudo o que vemos é a consequência.

Importa soberanamente, dizemos, não ignorar isso. Não foi em um dia que a sociedade chegou ao desfiladeiro
temível onde ela pode perecer. Somos filhos dos nossos pais. Carregamos o peso da herança deles. Antes de tudo, é
necessário conhecer bem o passado, que explica o presente. É necessário que saibamos sobre qual ladeira o mundo
se abandonou e rumo a qual topo ele deve retomar seu esforço. Isso significa que a história genealógica do mal atual
é de uma importância capital.

Ignorá-lo é nos expormos a jogar fora os nossos golpes, a nos consumir atingindo os ramos e poupando a raiz, é
dividir nossas forças. Ora, diante da temível unidade do mal, dividir as nossas forças é mais do que um perigo, é uma
falta. Lutar isoladamente é se deixar derrotar. Ficar na defensiva é, além disso, adiar a hora de perecer.

Se não nos atentarmos a isso, os elementos de regeneração que nos restam não irão se enfraquecer? Essa palavra
fatal: “é tarde demais”, que alguns já murmuram não se tornaria o grito geral? O presente não oferece senão um
ponto de apoio cambaleante. Atrás de uma espessa cortina se esconde o futuro: o futuro, cheio de esperança para
uns, de terror para outros, de mistério para todos; saudado por uns como o reino absoluto do bem, por outros,
temido como o reino absoluto do mal, por todos, esperado com ansiedade. Ora, o futuro será o que tivermos feito.

Nessa situação, que partido tomar? Lamentar-se? Isso seria infantil. Adormecer contando com o imprevisto? Isso
seria fatalismo. Então o que é preciso fazer? É preciso combater. Combater é, em primeiro lugar, vencer-se a si
mesmo, despojando-se de todo prejulgamento, a fim de buscar com sucesso a verdadeira causa do mal. É, em
seguida, atacá-la em conjunto e com vigor. Quaisquer que sejam os destinos do mundo, esse trabalho corajoso não
será infrutífero: ele contribuirá poderosamente para formar ou nobres vencedores ou nobres vítimas.

Queiram não esquecer disso: a questão do mal não é uma questão especulativa ou puramente religiosa ou
indiferente à maioria. Não existe questão mais prática nem mais grave, nem que atinge mais de perto todos os
gêneros de interesses. Ela é realmente, e sob todos os pontos de vista, uma questão de vida ou de morte. As ondas
ameaçadoras que outrora falharam em transbordar sobre a sociedade continuam a bater à porta de cada morada.
Quem poderá responder por muito mais tempo pela solidez dos diques tantas vezes ameaçados que as detêm? E se,
hoje, esses diques vierem a ceder, quem poderá dizer que não seríamos levados, amanhã, num cataclismo tal que o
munda nunca viu?

A fim de concorrer, o tanto quanto nos cabe, à obra de salvação comum, vamos, começando pela revolução
francesa, estudar sucessivamente em sua origem, em suas características e em sua influência, cada uma das causas
do mal indicadas mais acima.
Aqui, nem polêmica, nem discussão, nem espírito de sistema, nem partido tomado, mas fatos: fatos verídicos, fatos
relatados com imparcialidade e dos quais deixaremos aos outros o cuidado de apreciar o significado e tirar as
consequências. Simples narrador, daremos constantemente a palavra à história. Sua autoridade, e não a nossa, deve
servir de base ao julgamento do leitor.

A única coisa que pedimos é que nos abstenhamos de nos pronunciarmos antes de ter lido tudo.

Paris, festa de São José, 1856

Mgr. Gaume. La Révolution, recherches historiques sur l’origine et la propagation du mal en Europe. Révolution
Française – Ière Partie. Tradução de Robson Carvalho. Paris, Gaume Frères, 1836, p. 1-12.

__________

[1] Consider. sobre a França: Do papa, t. II, p. 271.

[2] Trata-se aqui da Revolução em geral, e não da Revolução francesa de 1789, que caracterizaremos mais tarde.

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REVOLUÇÃO – CAPÍTULO I
DA REVOLUÇÃO

Antes de falarmos da Revolução francesa, indicada em primeira linha como causa do mal atual, é necessário dizer o
que é a Revolução em geral. Por um lado, isso é necessário a fim de conhecer corretamente a natureza deste poder
temível que, espiando a sociedade como o tigre expia sua presa, promete para si mesmo triturá-la sob seus dentes
de ferro e tornar real o caos; por outro lado, a fim de saber com certeza qual é sua verdadeira origem e quais são os
novos Palus Maeoticas[1] de onde têm saído as barbáries com as quais ela nos ameaça, de modo a não nos
enganarmos sobre os meios de combatê-la e medirmos nossos esforços diante da grandeza do perigo.

Hoje não há duas questões na Europa, há apenas uma: é a questão revolucionária. O futuro pertencerá, sim ou não,
à Revolução? Tudo se resume a isso.

A Revolução! Essa palavra vulgarizada é repetida simultaneamente em Paris, Londres, Berlim, Madri, Viena, Nápoles,
em Bruxelas, Fribourg, Turim, Roma, e, por toda parte, ela ecoa como o sussurro da tempestade. Exceto aqueles que
a gravaram sobre sua testa como um sinal de identificação, essa palavra faz tremer instintamente todo homem que,
às lembranças do passado, liga as previsões do futuro.

Esse instinto não se engana: a Revolução não está nem morta nem convertida. Ela não está morta: milhares de vozes
proclamam sua existência. Ela própria revela isso orgulhosamente diante de todos os tribunais criminais
encarregados de atingir seus adeptos. Ela não se converteu: independente do que dizem, a Revolução é sempre a
mesma: a essência dos seres não muda. Em seu ódio sempre antigo e sempre novo, a Revolução ameaça igualmente
o trono dos reis e o limite dos campos, o tesouro do capitalista e a poupança do operário. Para ela nada é sagrado:
nem a ordem religiosa, nem a ordem social; nem os direitos adquiridos, nem a consciência; nem a liberdade, nem
mesmo a vida. Ela odeia tudo o que não foi criado por ela, e tudo o que ela não criou, ela destrói. Concedei-lhe hoje
a vitória, e o que ela foi ontem, vereis que o serás também amanhã.

Da mesma forma, o triunfo ou a derrota da Revolução é a questão íntima que mantém todos os espíritos na
expectativa. Ela é considerada em todos os cálculos, ela pesa sobre todas as vidas. Enquanto a Igreja reza para
impedir uma vitória justamente temerária, os governos têm um olhar sempre aberto sobre a caminhada da
Revolução. No mundo industrial e comercial não se vende mais, não se compra mais, não se especula mais, mesmo
que de forma insignificante, sem olhar para o horizonte; e as chances favoráveis ou desfavoráveis à Revolução se
tornam o marco regulador da confiança, modificam as transações e são cotadas na Bolsa. Todos compreendem que
a Revolução triunfante ou vencida é a última palavra do duelo mortal que se desenrola debaixo dos nossos olhos, e
que pode terminar, pela vitória da Revolução, repentinamente.

Mas o que é a Revolução? Fazer tal pergunta é sublinhar sua importância.

Se, retirando a máscara da Revolução, lhe perguntardes: Quem és tu? Ela vos dirá:
“Eu não sou o que pensam de mim. Muitos falam sobre mim, mas poucos me conhecem. Eu não sou nem o
carbonarismo que conspira na sombra, nem a rebelião que brame nas ruas, nem a mudança da monarquia em
república, nem a substituição de uma dinastia por outra, nem a perturbação momentânea da ordem pública. Não
sou nem os urros dos Jacobinos, nem os furores da Montanha, nem o combate das barricadas, nem a pilhagem, nem
o incêndio, nem a lei agrária, nem a guilhotina, nem os afogamentos. Eu não sou nem Marat, nem Robespierre, nem
Babeuf, nem Mazzini, nem Kossuth. Esses homens são meus filhos, mas não sou eles. Todas essas coisas são minhas
obras, mas não sou elas. Esses homens e essas coisas são fatos passageiros, e eu, eu sou um estado permanente.

Eu sou o ódio contra toda ordem religiosa e social não estabelecida pelo homem e da qual ele não é rei e deus ao
mesmo tempo; eu sou a proclamação dos direitos do homem contra os direitos de Deus; eu sou a filosofia da revolta,
a política da revolta, a religião da revolta; eu sou a negação armada[2]; eu sou a fundação do Estado religioso e
social baseado na vontade do homem no lugar da vontade de Deus! Em uma palavra, eu sou a anarquia; pois eu sou
Deus destronado e o homem em seu lugar. Eis porque eu me chamo Revolução, ou seja, a desordem, pois eu coloco
em cima aquele que, segundo as leis eternas, deve estar embaixo, e embaixo aquele que deve estar em cima”.

Essa definição é exata: a própria Revolução vai no-la provar ao enumerar suas exigências. O que a Revolução
solicitou e ainda solicita?

A Revolução sempre solicitou, ela ainda solicita, a destruição da ordem social e religiosa existente. Ela a ataca
incessantemente, sobre todos os pontos e de mil modos: pela injúria, pela calúnia, pelo sarcasmo, pela violência; ela
a chama de escravidão, superstição, degradação. Ela quer destruí-la totalmente, a fim de refazer tudo.

A Revolução solicita a soberania do homem, Rei, Senado, ou Povo, no intuito de estabelecer, seja o despotismo da
multidão, seja uma monarquia na qual o rei é escravo do parlamento, o parlamento escravo da opinião e a opinião
escrava de alguns homens.

A Revolução solicita a liberdade, ou seja, o faça como quiser em todas as coisas, salvo, adiante, para não fazer nada
sem sua permissão: a fragmentação e a alienação ilimitadas da propriedade, a liberdade ilimitada da concorrência
operária, a liberdade ilimitada da palavra, dos cultos e do divórcio.

A Revolução solicita a igualdade, ou seja, a abolição de todos os direitos adquiridos, de todas as hierarquias sociais,
de todas as autoridades estabelecidas, de todas as superioridades em benefício do nivelamento completo.

A Revolução solicita a separação da Igreja e do Estado, a fim de arruinar a influência social da primeira, despojá-la
impunemente, para absorver o poder espiritual, ou de Deus, pelo poder temporal, ou do homem, de modo a tornar
real sua máxima favorita: a Igreja deve estar no Estado, e o padre na sacristia.

A Revolução solicita o reconhecimento político e a proteção de todos os cultos, a fim de colocar no mesmo patamar
o erro e a verdade, de torná-los, aos olhos dos povos, objeto de uma igual indiferença, de confundi-los em um
desprezo comum e, assim, substituir a religião revelada de Deus pela religião natural, fabricada pelo homem,
interpretada e sancionada por ele.

A Revolução solicita incessantemente Constituições, ou seja, o aniquilamento da constituição natural, histórica, tal
como foi formada e desenvolvida durante séculos, pelas tradições e costumes nacionais, a fim de substituí-la por
uma nova constituição, feita pela tinta de uma caneta, no intuito de abolir todos os direitos anteriores, exceto
aqueles que estão contidos nesta nova carta. Desde 1789, a França teve dezessete constituições, e ela ainda não se
contentou com isso.

Tais são as principais demandas da Revolução. Há quatro séculos, seus organismos, em toda a Europa, não cessam
de renová-las, às vezes, uma a uma, às vezes, todas juntas, por vezes de um modo imperioso, frequentemente sob
fórmulas chamadas governamentais.

Dizemos há quatro séculos. Naquela época, com efeito, a Revolução, ou seja, a teoria pagã da soberania absoluta do
homem, era formulada entre as nações cristãs. Partindo de cima para baixo, ela apresenta três fases distintas. Da
Renascença até 1789, ela é real; em 1789, ela se torna burguesa; hoje ela se tornou popular.

Inspirados pelo espírito da antiguidade pagã, a maioria dos reis cristãos quiseram se fazer Césares; e a história no-los
apresentam perseguindo, durante três séculos, como última palavra de suas políticas, o enfraquecimento e a
destruição de todo poder capaz de contrabalancear seus poderes absolutos ou de lhes atrapalhar o exercício. Eles
quiseram se fazer Papas. Dai a opressão sistemática da Igreja, a espoliação de seus bens e a proclamação de
máximas visando consagrar o enfraquecimento de sua autoridade social.

No fim do século passado, a classe média reage com uma energia terrível contra o paganismo monárquico, derruba-
o e confisca-o em seu benefício. Ao exemplo dos reis, os revolucionários de 80 se fazem Césares, eles se fazem
Papas. Consequentemente, vemos eles arrasarem o que restava do estado religioso e social; e, do meio das ruínas,
ouvimos eles proclamarem, em seu benefício, a soberania absoluta do homem sobre toda ordem dada.

O povo, cujo braço executou a Revolução, o povo, para quem se dizia que ela era feita, foi sua vítima; o povo, por
sua vez, aspira ao Cesarismo e ao Papado, e, com uma voz mais terrível ainda, ele brada para a burguesia: “Retire-se
daí, para que eu aí me coloque!” Assim, após ter sido real e burguesa, a Revolução ameaça tornar-se popular. “O
gafanhoto comerá os restos da lagarta; o roedor, os restos do gafanhoto; o devorador, os restos do roedor, e não
restará mais nada[3].” Tal será, se Deus não intervir, a última fase da Revolução.

Com efeito, o que o paganismo real e o paganismo burguês solicitaram para eles, o paganismo democrático solicita
para si, a saber: a supremacia absoluta do homem na ordem religiosa e na ordem política. A supremacia absoluta nas
mãos da multidão é a destruição universal. Consequentemente, a abolição da propriedade, para chegar, como o
povo entende, e isso não é segredo, ao comunismo e, do comunismo, ao prazer.

Como se iludir sobre esse ponto? A propriedade não é senão o privilégio de posse dada por Deus a um em vez de
outro ou por nascimento e hereditariedade, ou pelo trabalho bem-sucedido, ou por venturosas especulações? A
santidade da propriedade não é senão a submissão à lei de Deus, que proíbe o roubo? Se, portanto, a Revolução não
reconhece a lei divina como obrigatória à religião, à autoridade, à família, à constituição, à hierarquia social, por que
ela reconheceria o privilégio de propriedade? E se ela busca renovar tudo, religião, Estado, família, comuna, povo e
constituição, por que, dessa modificação universal, ela excluiria a propriedade[4]?

Portanto, eis com o que a Europa hoje está ameaçada.

Mgr. GAUME, Jean-Joseph. La Révolution, recherches historiques sur l’origine et la propagation du mal em Europe.
Révolution Française – Ière Partie. Tradução de Robson Carvalho. Paris, Gaume Frères, 1836, p. 13-21.

______

[1] N.d.t.: “Lago” dentro da área do Mar Negro envolvido por duas penínsulas. Região habitada antigamente pelos
hunos.

[2] Nihilum armatum.

[3] Residuum erucae comedit locusta; et residuum locustae comedit bruchus; et residuum bruchi comedit rubigo.
Joel 1, 4.

[4] Conferir sobre essas ideias o notável Discurso do doutor protestante Stahl.

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El error más grande


MI QUERIDO FEDERICO:

Si yo tuviera cien pechos y cien voces, no cesaría de gritar: ¡Oh, hombres, mis amigos! y mis hermanos! El error más
radical, el más cruel, el más desastroso, y desgraciadamente el más extendido en nuestros días, es creer que la vida
de acá abajo es la verdadera vida.

He ahí, amigo mío, el Goliath contra quien debes combatir, no solamente tú, sino todo hombre y toda mujer que
vienen á este mundo. Esa lucha será de todos los días y de todas las horas. Para sostenerla emplearás, no sólo las
armas que te he proporcionado en nuestras primeras correspondencias , sino todas las que la Iglesia misma te ha
dado; á manejarlas bien deberás dedicar toda la energía de tus potencias, tu razón, tu fe, tu voluntad.
La lucha es decisiva: de ella dependen tu felicidad ó tu desdicha; tú mismo eres lo que en ella se disputa. Es guerra á
muerte. Como en los antiguos combates de gladiadores, que se llamaban sine remissione, no se da cuartel al
vencido; tiene que morir en el campo de batalla.

EL ERROR QUE CONSISTE EN CREER QUE ESTA VIDA ES LA VIDA, ES EL MÁS RADICAL DE TODOS LOS ERRORES.

Le llamo radical porque es el primero. Mientras en los otros errores no se incurre sino adelantando en edad, éste
tiende á apoderarse del hombre desde la infancia. La razón medio desarrollada, envuelta en los sentidos como el
cuerpo en el vestido, no conoce durante los primeros años otra vida que ésta. Para desengañarla, ó si te parece
mejor, para ilustrarla, se necesita de tiempo y de muchos cuidados.

Radical. A diferencia de otros errores, que no recaen en general sino sobre algunos puntos particulares, ó no afectan,
digámoslo así, más que á la superficie del alma, éste ataca al hombre en lo más íntimo de su ser, en la noción misma
de la vida, y atacándole así le fascina. Los engañosos encantos desorientan la razón, desorientan la voluntad,
desorientan el corazón, falsean toda la existencia y acaban por atraer á su víctima al tragadero de la antigua
serpiente. Me explicaré con la siguiente anécdota.

Siendo yo estudiante, estaba de vacaciones. Era el mes de Setiembre; las avellanas se hallaban en sazón. Se sabía
que las mejores se criaban en la falda de una montaña expuesta al sol de Mediodía. Algunos árboles, muchos
arbustos, la maleza y las zarzas cubrían el pié de ásperas rocas, desnudas por la lluvia, y en cuyos abrigados rincones
tenían sus guaridas reptiles más ó ménos dañinos. Uno de mis compañeros y yo trepamos ágilmente á la montaña,
buscando á derecha é izquierda, con nuestros ojos de lince, avellanas que pudiéramos atrapar.

Apenas habíamos dado algunos pasos, observamos en la picota de un joven fresno un pinzón que piaba de un modo
lastimero, batía las alas y bajaba de rama en rama sin advertir nuestra presencia, sin asustarse de nosotros.

Nos paramos á mirar tal espectáculo, cuya causa nos era desconocida. El pajarillo, no obstante, seguía descendiendo,
y ya casi llegaba á la altura de nuestras cabezas, cuando bajando la vista vimos al pié del árbol una gran víbora,
inmóvil, con la cabeza levantada y los ojos fijos en los del pobre pinzón: lo fascinaba, y fascinándole, lo atraía á su
tragadero. Comprendimos lo que era, y con un movimiento de brazo, cortando el rayo visual de ambos animales,
rompimos el hechizo. Huyó la víbora, y el afortunado pajarito echó á volar, no sin darnos muy bien las gracias, y con
razón, que si tardamos un instante más era perdido.

El efecto producido en aquel pájaro por la mirada fascinadora de la serpiente lo produce también en sus
desventuradas víctimas, el error de tomar esta vida por la vida verdadera. Más allá de esta vida no ven nada; más
allá de los negocios de esta vida, nada; más allá de las ocupaciones de esta vida, nada; más allá de los bienes y los
males, de las alegrías y las penas de esta vida, nada, absolutamente nada. Para ellos todo se encierra en los
estrechos límites del tiempo: que se haga la prueba de hablarles de otra vida, de otros intereses, de otros bienes y
otros males; como el pájaro fascinado, no ven nada ni entienden nada: van y van, y siguen yendo por el camino á
que los atrae la engañosa fascinación, ¿Quieres convencerte de ello por ti mismo? Fíjate en su vida, observa sus
habitudes, conoce sus preocupaciones, sus temores, sus ambiciones, sus dolores. Lee sus diarios, sus libros, sus
discursos; escucha sus conversaciones íntimas. Diez, veinte y cien veces que renueves la prueba, á todas horas y en
todas las circunstancias te dará el mismo resultado. Fascinación, fascinación de las bagatelas, fascinatio nugacitatis,
que no los deja ver los bienes y los males reales, y menos el abismo á que se dirigen: obscurat bona ,¡Desdichados!
¡Y caen por miles cada día!

EL ERROR CONSISTENTE EN CREER QUE ESTA VIDA ES LA VIDA, ES EL MÁS CRUEL DE TODOS LOS ERRORES.

Digo cruel, porque degrada al hombre y le hace desventurado: lo vas á ver.

Le degrada. Ciertos locos, que en vez de estar en las gavias, andan con el seudónimo de sabios por esas regiones del
mundo moderno, que presumen ser palacios de la ciencia, tienen sobre el hombre ideas bien peregrinas. Hace unos
cien años que uno de esos maestros pretendía que el hombre había comenzado por ser una carpa... y se tenía á sí
mismo por un pez perfeccionado. Otro decía que el hombre es una masa organizada, que recibe el espíritu de todo
lo que la rodea... y se reputaba un pedazo de lodo.
Cincuenta años más tarde, uno de sus discípulos definía al hombre: un tubo apetitivo y digestivo, abierto por arriba y
por abajo... y se conceptuaba simple máquina. Debo decirte que estas definiciones no corren ya: murieron con sus
inventores.

Los locos de hoy día, más instruidos ya que sus antepasados, han descubierto, gracias á la fisiología comparada, que
el hombre desciende del mono. En lugar de admitir nuestra noble alcurnia, y decir con todo el linaje humano: Somos
de nuestro padre, que fue de Noe que fue de Adán, que fue de Dios; ellos se creen hijos, nietos ó tataranietos de
algún gorila de largo rabo y agudo hocico, solitario habitante de las selvas africanas. Y se quedan tan orondos, y
hacen esfuerzos desesperados por persuadirse á sí mismos, y aun á otros. A decir verdad, en vista de sus instintos y
de las zancadas que dan, se encuentra uno tentado á concederles tan honrosa genealogía.

Pero no. «Alma abyecta, les dice Rousseau; en vano quieres envilecerte: tu miserable filosofía te hace semejante á
las bestias; pero tu genio depone contra tus principios, y el abuso mismo de tus facultades prueba su excelencia á
despecho tuyo».

Mal que les pese á ese puñado de pequeños gorilas, el hombre forma una especie aparte en la cadena de los seres:
es la criatura más noble del mundo visible. Dotado de razón y de libertad, es el rey de todo lo que le rodea. Si por su
cuerpo, obra acabada de un poder y sabiduría infinitos, toca á los seres materiales, es para dominarlos; en tanto que
por su alma, mil veces más noble que su cuerpo, toca á los seres puramente espirituales, y es para ennoblecerse.
¿Quién dirá su dignidad? Nobleza obliga: ¿quién dirá la extensión de sus deberes? Y sin embargo, la grandeza del
hombre desaparece ante la grandeza del cristiano. Hijo de Dios, heredero de Dios: tal es el cristiano. ¿Comprendes,
mi querido amigo, semejante grandeza? Ser hijo de un rey es ser algo; pero ¡ser hijo de Dios! Ser heredero presunto
de ricos tesoros, de vastos dominios, de quintas magníficas, de un nombre gloriosamente histórico, algo es; ser
heredero de las cinco partes del mundo sería mucho más. Pero ser heredero de Dios, no solo de sus bienes, sino de
Él mismo, de su poder, de su sabiduría, su majestad, sus felicidades infinitas, hasta el punto de hacerse uno con Él,
¡oh, qué herencia! La razón se pierde aquí.

Pues á este hombre tan grande; á este cristiano, mil veces más grande que el hombre; á este ser inmortal de tan
sublimes destinos; á este dios de la tierra, vasallo solamente del Dios del cielo, post Deum terrenus Deus, ¿en qué le
trueca el error de que hablamos? En un calador de moscas, en un fabricante de telarañas, en un caballo de montar.

No tengo yo tiempo para presentártelo en el desempeño de tan dignos oficios. Hasta mañana.

Tuyo afectísimo...

(Tomado de "Esta vida no es la vida", Monseñor Gaume)

Quiero terminar con un fragmento de Mons. Gaume, el cual definió a la


Revolución así:
“Si le preguntas a la Revolución: ¿Quién eres tú?. te responderá: ” Yo no soy lo que se cree. Muchos hablan de mí y
pocos me conocen. No soy….ni el motín, ni el cambio de la monarquía por la república, ni el desorden público…….ni el
combate de las barricadas, ni el pillaje,…..ni la guillotina. No soy ni Marat, ni Robespierre………. Estos hombres son
mis hijos, pero no yo. Esas cosas son mis obras, pero no yo. Esas cosas y esos hombres son hechos pasajeros y yo soy
un estado permanente.

Soy el odio de todo orden que no haya sido establecido por el hombre y en el cual él no sea a la vez rey y dios……Soy
la fundación del estado religioso y social en la voluntad del hombre en lugar de la voluntad de Dios. Soy Dios
destronado y el hombre en su lugar. He aquí porqué me llamo Revolución, es decir subversión……

Nota: Detrás de donde se cita a Rosbespierre, caben algunos nombres de “actores” muy conocidos en el ámbito del
tradicionalismo. Los lectores pueden muy bien entretenerse rellenando el espacio.

https://radiocristiandad.wordpress.com/2014/12/26/andres-carballo-tesis-antitesis-y-sintesis/#more-34866
Primeiramente, do Mons. Gaume, algumas palavras de encorajamento para o
que parece ser outro intimidador Ano Novo:

“Veja o que está acontecendo à sua volta; compreenda tanto o sinal dos tempos e as coisas que disseram para você,
quanto os terríveis perigos que o ameaçam. A sedução o cerca por todos os lados; nas leis, na moral, nos livros, nos
discursos, no comportamento público e privado das pessoas. A quantidade e a autoridade das verdades católicas
estão encolhendo a cada dia entre os filhos dos homens. Entenda tudo muito bem: esteja firmemente convencido de
que sua posição nunca foi tão grave. Levando à conclusão não de que você deve se retirar do mundo, mas que você
deve guardar-se do mal. Mais do que em qualquer outra época, todo católico deve ser um soldado até o seu último
suspiro. Se você tem uma compreensão clara do tremendo julgamento que o aguarda e pelo qual você já está
passando, isso irá preenchê-lo com grande coragem e santa alegria. Esta é a prova inabalável da sua fé e a sólida
base na rocha das suas esperanças porque é o cumprimento tangível das profecias do nosso Divino Mestre.

“Ele não disse há 1800 anos, que no fim dos tempos, as nações iriam universalmente apostatar? Que a fé cresceria
tão fraca que daria apenas um vislumbre de luz? Que a iniquidade iria inundar como uma impetuosa torrente por
toda a face da terra e que a caridade de muitos iria esfriar? Ele não disse que iria se levantar uma multidão de falsos
profetas, precursores do Homem do Pecado? Que Deus não seria levado em conta? E que ao mesmo tempo o
Evangelho iria chegar a todas as partes do mundo? Ele não disse que estava predizendo essas coisas para preveni-lo
de ser escandalizado pelo triunfo passageiro dos homens perversos? Para prevenir que você diga em seu coração:
Cristo dorme; será que Ele desistiu de nós? Todas essas coisas preditas por Deus, você não tem a impressão de estar
vendo, ao menos em parte, ser cumpridas diante de seus próprios olhos? Então tenha uma clara compreensão da
sua posição, e levante a cabeça abaixada sob o peso do sofrimento, das humilhações e do medo. A grande luta
contra Cristo é tanto a prova da sua fé quanto o alvorecer do dia da justiça, quando a ordem correta de tudo será
restabelecida, e nunca mais será perturbada.

“Não se contente com apenas ver tudo isso, mas observe também; o que eu digo a você, eu digo a todos: observe.
Muitos homens no tempo de Noé não reconheceram os sinais de aviso do Dilúvio, nem na época da morte de Nosso
Senhor os sinais de aviso da destruição de Jerusalém: então assim será no fim dos tempos" ("Where are we
headed?", pg. 198-200).

Os Efeitos da Água Benta, inúmeras bênçãos! – Monsenhor Gaume


Referindo-se às orações feitas ao ser benzida a água, Monsenhor Gaume afirma:

Estas orações nos ensinam que podemos esperar cinco efeitos da água benta:

1. Expulsar o demônio dos lugares que ele pode infestar, e fazer cessar os males que ele causou;

2. Afastar o demônio de nós, dos lugares que habitamos e de tudo aquilo que serve para nossos usos;

3. Servir para a cura das doenças;

4. Atrair-nos em toda ocasião à presença e ao socorro do Espírito Santo, para o bem de nossa alma e de nosso corpo;

5. Apagar os pecados veniais.

(Mons Gaume, “Cathécisme de perséverance” – Librairie Catholique Emmanuel Vitté, 11ª ed., vol. 7, p. 235)

O sino: simbolismo e efeitos benéficos. A oração do Ângelus


O SINO: SIMBOLISMO E EFEITOS BENÉFICOS. A ORAÇÃO DO ÂNGELUS

Oração do Angelus, Jean-François Millet

A oração do Ângelus compõe-se de duas partes essenciais: a oração e o som do sino.

O sino dá ao Ângelus uma solenidade excepcional.

Por que o sino toca o Ângelus de manhã, ao meio-dia e à tarde?


Por ordem da Igreja Católica, cumpre a palavra do rei profeta: “À tarde, de manhã e ao meio-dia, cantarei os
louvores de Deus, e Deus ouvirá a minha voz”.

À tarde, canta o princípio da Paixão do Redentor no Jardim das Oliveiras.

De manhã, a sua Ressurreição, e ao meio-dia a sua Ascensão.

De manhã, dá o sinal do despertar, da oração e do trabalho.

Ao meio-dia, adverte o homem de que a metade do dia é passada, e que a sua vida não é mais que um dia.

À tarde, toca ao recolhimento e ao repouso.

Diz ao homem: faze tuas contas com Deus, pois esta noite talvez Ele exigirá a tua alma.

Fazendo ouvir a sua voz três vezes por dia, recorda aos cristãos as lembranças de um glorioso passado, essas
belicosas expedições, a honra eterna dos Papas, que salvaram o Ocidente da barbárie muçulmana.

Toca três vezes, para recordar as três Pessoas da Trindade, às quais o mundo é devedor da Encarnação.

Toca nove vezes, em honra dos nove coros de anjos, para convidar os habitantes da Terra a abençoar com eles o seu
comum benfeitor.

Entre cada tinido – ou melhor, entre cada suspiro – deixa um intervalo, para que sua voz desça mais suavemente ao
coração e desperte com mais segurança o espírito de oração.

Por que, depois do tinido do Ângelus, o sino faz ribombar sua voz? Canta uma dupla redenção: a redenção dos vivos,
pelo mistério da Redenção, e a redenção dos finados, pela indulgência ligada ao Ângelus.

Ao Purgatório toca uma felicidade, e a Maria a saudação de uma alma que entra no céu.

Assim opera a Igreja da terra, cheia de ternura por sua irmã padecente.

Por que chora o sino na agonia? Se reflete as alegrias deve refletir também as dores.

Para sustentar o jovem cristão nos combates da vida, o sino pede as nossas orações.

Como não solicitá-las nas lutas da morte? Entre todas, estas lutas não são as mais terríveis e as mais decisivas.

No toque da agonia, o sino diz: “Miseremini mei saltem vos amici” – Tende piedade de mim, pelo menos vós que
fostes meus amigos!

Vinde orar por mim, vinde sepultar o meu corpo, vinde acompanhá-lo à igreja, depois ao dormitório, onde ele deve
repousar até a ressurreição dos mortos.

O sino, nesse momento, assemelha-se a uma mãe que, na sua terna solicitude, não se permite nem paz nem trégua,
para clamar em socorro de seus filhos desgraçados e obter a sua libertação.

Também o sino deve tornar o cristão invencível na sua guerra contra os demônios.

Ao estridor dos sinos – acrescenta um de nossos antigos liturgistas – os espíritos das trevas são penetrados de terror,
da mesma forma que um tirano se espanta quando ouve ressoar nas suas terras as trombetas guerreiras de um
monarca seu inimigo.

Toque de recolher: no inverno, nos países montanhosos, pelas nove horas da noite, o sino faz ouvir a sua voz mais
forte.

Chama o viajante desencaminhado, e indica-lhe a estrada que deve seguir para chegar ao lugar onde achará a
hospitalidade.

Uma imagem do que também acontece com as almas perdidas no pecado.

Eram inteiramente outros os sentimentos de nossos religiosos antepassados.


Testemunhas inteligentes das bênçãos e das consagrações praticadas pela Igreja no batismo dos sinos, devotavam-
lhe um profundo respeito e santo pavor.

Daí vem que temiam infinitamente mais jurar sobre um sino consagrado do que sobre os próprios Evangelhos.

(Mons. Gaume, “L’Angelus au dix-neuvième siècle”)

Fonte: Blog Orações e milagres medievais

Eis uma substanciosa explicação das bênçãos do toque do sino feita por Mons.
Jean-Joseph Gaume (1802-1879), célebre por sua ciência teológica.

“Como todas as coisas grandes e belas, é à Igreja que devemos o sino.

O sino nasceu católico, por isso a Igreja o ama como a mãe ama seu filho. Ela benze o metal de que é feito. Logo que
ele veio ao mundo, a Igreja o batizou e fez dele um ente sagrado.

Com razão, porque o sino é destinado a cantar tudo o que há de santo e de santificante na Terra e no Céu. Pelas
orações e cerimônias que o acompanham, o batismo vai dizer-lhe a sua vocação.

A Igreja sempre considerou com muito respeito o sino, o que se constata com novo esplendor nas preces e nas
cerimônias de seu batismo.

Reunidos os fiéis em torno do sino suspenso a alguns metros acima do solo, chega majestosamente o bispo em
hábitos pontificais, acompanhado do clero e seguido do padrinho e da madrinha do sino.

Em nome de Deus, de quem é ministro, o bispo invoca sobre essa maravilhosa criatura a virtude do Espírito Santo,
tornando-a fecunda no primeiro dia de sua criação.

Certo de ser atendido, o bispo asperge o sino com água benta, conferindo-lhe o poder e o dever de afastar de todos
os lugares onde seu som repercutir, as potências inimigas do homem e de seus bens: os demônios, os redemoinhos,
o raio, o granizo, os animais maléficos, as tempestades e todos os espíritos de destruição.

Vejamos sua missão positiva.

A sua voz proclamará os grandes mistérios do cristianismo, aumentará a devoção dos cristãos para cantarem novos
cânticos na assembleia dos santos, e convidará os anjos a tomarem parte nos seus concertos.

O sino fará tudo isto, porque esta missão lhe é confiada em nome d’Aquele que possui todo o poder no Céu e na
Terra.

Cada badalada faz retinir ao longe os dois mistérios da morte e da vida — alfa e ômega — necessários para orientar
a vida do homem e consolar suas esperanças.

Não admira, pois, que o bispo, dirigindo-se ao próprio sino, o dedique a um santo ou a uma santa do Paraíso
dizendo-lhe, com uma espécie de respeitosa ternura: “Em honra de São N., a paz doravante esteja contigo, caro
sino”.

Como o sino deve ter um nome, cumpre que tenha também um padrinho e uma madrinha. O nome do sino é
gravado abaixo da cruz em relevo, que o marca com o selo de Nosso Senhor e o consagra ao seu alto culto.

Daí vem um fato pouco notado: o amor dos verdadeiros filhos da Igreja ao sino e o ódio que lhe votam os inimigos
de Deus.
Uma das mais doces alegrias de nossos pais, ao se libertarem da Revolução Francesa, foi ouvir os sinos, emudecidos
durante muitos anos.

Esse incontestável poder do sino contra os demônios do ar justifica as virtudes de que ele goza: dissipar os ventos e
as nuvens, afugentar diante de si o granizo e o raio, conjurar as tempestades e os elementos desencadeados, pois
que todas essas perniciosas influências da atmosfera provêm muito menos de coisas naturais do que da maldade
desses espíritos maléficos.

Nossos pais, na hora do perigo, faziam ouvir pelo Pai Celeste o som dos sinos, seu primeiro grito de alarme. O Senhor
não permanecia muito tempo insensível à voz de seu povo.

A corda que serve para tocar o sino, que sobe e desce sem cessar, indica o trabalho do pregador, e é também uma
imagem da nossa vida”

(Mons. Gaume, L’Angelus au dix-neuvième siècle, Editions Saint-Remi, 2005).

O que a palavra é para o pensamento, a alma para o corpo, a Igreja católica o é


para o gênero humano
O cristianismo é o sol da humanidade: lux mundi. Por toda parte onde ele reina, bilha a luz e floresce a vida. Por toda
parte onde ele se apaga, as trevas e a morte. Basta um olhar sobre o mapa-múndi para se convencer disso. Por uma
consequência necessária, no dia em que o cristianismo deixar de iluminar as nações, como nações, o mundo viverá o
crepúsculo do último dia.

A Igreja católica é a guardiã e o órgão do cristianismo. O que a palavra é para o pensamento, a alma para o corpo, a
Igreja católica o é para o gênero humano. Unido à alma, o corpo vive; separado, ele morre.

Para entender onde estamos hoje, e onde estaremos amanhã, devemos, antes de tudo, saber em quais relações
estão com a Igreja católica e com seu Chefe venerável, por consequência, com o cristianismo, a França, a Europa, o
mundo.

Quando, há 1800 anos, a Igreja saiu do Cenáculo, ela se encontrou diante de um mundo que não era cristão, que não
queria se tornar cristão, que não queria até que se fosse cristão, que perseguia de todos os modos o cristianismo e
aqueles que se faziam ou que queriam permanecer cristãos. Entre ela e esse mundo, oposição completa de ideias,
de costumes, de tendências; luta incessante, universal, obstinada.

Nesta época, cuja duração foi de três séculos, a Igreja apareceu como potência puramente espiritual e sem raízes no
solo. Sua propriedade material, se ela teve, permanecia submissa às leis cesarianas, ou seja, aos caprichos dos
dominadores do mundo, que, sob o menor pretexto, ou mesmo sem sombra de pretexto, podiam despojá-la dela.
De fato, sua autoridade social não existia. A Igreja não tinha nem voz nos conselhos dos príncipes, nem lugar nas
assembleias dos povos.

Quanto à sua autoridade moral, ela se restringia a limites restritos. A Igreja reinava não sobre províncias, nem sobre
cidades, nem mesmo, salvo exceções, sobre famílias inteiras.

Objeto preferido do ódio do mundo, o Chefe da Igreja morava nas catacumbas e assinava seus decretos com seu
sangue. César dominava o Papa, e Satanás dominava César.

Tal foi, nestes traços gerais, a situação da Igreja nascente perante o mundo pagão.
Graças às vitórias deslumbrantes obtidas ao preço de seu sangue mais puro, e mais ainda aos seus imensos
benefícios, a Igreja ocupou seu lugar no mundo. Aos povos retirados por ela da barbárie, ela apareceu como o sol no
meio do firmamento, iluminando toda a natureza, a aquecendo e a vivificando.

Compenetrados de reconhecimento e de respeito por sua mãe, os povos cristãos se fizeram um dever de aceitar de
sua mão os princípios de sua legislação e de lhe conferir, por suas ofertas, uma posição materialmente
independente, digna dela e digna deles. A mais legítima e a mais nobre em sua origem, a propriedade da Igreja foi a
mais sagrada. Com a fé dos povos, vigiavam em torno dela, com armas em mão, os doadores e os filhos dos
doadores. No cumprimento deste dever de piedade filial, se encontram os particulares e os príncipes. Na esteira de
Carlos Magno, que assinava servo de Jesus Cristo e sargento da Igreja, vemos um bom número de monarcas
oferecerem seus reinos a São Pedro, e torná-los feudatários da Igreja.

Graças à observação social do quarto mandamento: Pai e mãe honrarás, a Europa, filha da Igreja, apesar das
enfermidades inerentes à natureza humana, gozou de longos séculos de estabilidade e de progresso verdadeiro. Se
houve guerras particulares e revoluções dinásticas, não vemos guerras gerais nem revoluções sociais. Em outros
termos: se houve mudança de pessoas sociais, não houve mudanças de princípios sociais. Foi então que a filha
primogênita da Igreja pôde gravar sobre suas moedas de ouro a divisa triunfal: Christus vincit, regnat, imperat.

Hoje, tudo mudou. Após tantos séculos de benefícios, de poder social e de posse territorial, onde está a Igreja?

A resposta a esta questão será o tema do próximo capítulo.

GAUME, J.. Où en sommes-nous? Paris: Gaume Frères et J. Duprey, 1871, p.5-8.

http://catolicosribeiraoarteehistoria.blogspot.com.br/2013/10/o-que-palavra-e-para-o-pensamento-alma.html

A Igreja perante o mundo atual


Um simples olhar, conduzido sobre a face do globo, encontra uma surpreendente analogia entre a situação atual da
Igreja e sua situação antes de Constantino.

Com efeito, após dezoito séculos de cristianismo, a Igreja se encontra diante de um mundo que, a olhos vistos, deixa
de ser cristão, que não quer se tornar novamente cristão, que não quer que se seja cristão, e que de mil modos
persegue o cristianismo e aqueles que se fazem ou que querem permanecer cristãos. Entre ela e o mundo atual,
tomado em sua generalidade, oposição completa de ideias, de costumes e de tendências.

Isso ocorre a tal ponto que, no Syllabus, Pio IX foi obrigado a condenar o que chamam de espírito moderno,
liberdades modernas, progressos modernos, civilização moderna, como incompatíveis com os princípios do
catolicismo. Ademais, entre a Igreja e o mundo, luta incessante, universal, tenaz. Como nos dias de seu nascimento,
a Igreja volta a ser potência puramente espiritual. Outrora maior proprietária da Europa e provavelmente do globo,
ela se vê hoje despojada de tudo e não tem mais raízes no solo.

O patrimônio de São Pedro, único pequeno canto de terra independente, onde seu augusto Chefe poderia descansar
sua cabeça, acaba de lhe ser arrebatado[1].

Sua autoridade social, por tanto tempo respeitada, não existe mais; ela não é nem reconhecida, nem desejada. Para
a Igreja, não há mais voz nos conselhos dos reis, mais lugar nas assembleias dos legisladores. Fora de seu espírito se
formam, tanto quanto possível, as constituições modernas, e leis anticristãs mancham todos os códigos da Europa.

Cada vez mais desconhecida, sua autoridade moral se fecha em limites relativamente estreitos. Os povos europeus,
que formavam a mais bela porção de sua herança, se separaram de sua mãe. Metade é herética ou cismática; a
outra metade é apenas meio católica.

A fim de não apagar a mecha que ainda fumega, a Igreja se vê constrangida, sobretudo há alguns anos, a caminhar
de concessões em concessões. Que se tornaram suas leis disciplinares do jejum e da abstinência, da confissão e da
comunhão, outrora tão religiosamente observadas? Quantos usos, modas, leituras, gêneros de prazeres mais ou
menos contrários ao espírito do cristianismo se introduziram entre seus próprios filhos, e que ela não ousa condenar
abertamente no temor bem fundamentado de não ser obedecida?

Quanto aos países de ultramar e a estes duzentos milhões de católicos, que, dizem, vivem sobre a superfície do
globo, quantos dentre eles a Igreja pode contar como filhos submissos, de espírito e de coração, aos seus dogmas e
aos seus preceitos? Infelizmente o número não é grande. Rechaçada pouco a pouco, a Igreja hoje reina não sobre
províncias, nem sobre cidades, nem mesmo, salvo exceções, sobre famílias inteiras. Como nos dias de seu
nascimento, seu reino é composto de individualidades, mais ou menos numerosas e disseminadas aos quatro
ventos.

Objeto preferido do ódio do mundo atual, o Chefe da Igreja, injuriado, caluniado, espoliado por seus próprios filhos,
viu quatro vezes, em menos de oitenta anos, seu trono temporal derrubado. O caminho do exílio e da prisão se abriu
diante dele. Privado de sua independência real, quem pode responder se um dia ele não será obrigado a assinar seus
oráculos com a assinatura dos mártires? Mais do que nunca, Cesar tende a dominar o Pontífice, e Satanás a dominar
Cesar. A metade dos reis da Europa se fizeram papas; a outra metade trabalha para torná-lo.

Nesse paralelo, cujas grandes linhas se mostram a todos os olhos, se encontra, não obstante, uma diferença assaz
importante para ser assinalada. O mundo pagão não tinha abusado do cristianismo, e ele caminhava rumo ao
Redentor. O mundo atual atravessou o cristianismo; e, calcando com os pés o sangue do Calvário, ele vira as costas
ao Redentor. O mundo antigo tinha uma promessa de regeneração, e nós não temos.

Outro traço do paralelo se projeta hoje com uma clareza miraculosamente providencial. Durante o período três
vezes secular das grandes perseguições, a Igreja foi governada somente pelo Papa, sem o concurso de nenhum
concílio ecumênico. Somente sua mão basta para dirigir a barca de Pedro no meio dos escolhos; somente sua
autoridade basta para estabelecer a disciplina e manter a unidade; somente sua palavra basta para separar as trevas
da luz e formar o invencível Credo dos mártires.

Em antecipação a uma situação análoga, o que a Igreja faz? Vendo entorno dela somente hostilidade ou indiferença
da parte das potências da terra, ela faz aliança com as potências do céu. O grande Papa que a governa elevou os
olhos rumo às montanhas eternas, d'onde desce o socorro verdadeiro; e, inspirado pelo alto, ele proclama a
Imaculada Conceição de Maria. Por esta suprema homenagem prestada à poderosa Rainha do céu, ele a obriga a
tomar em mãos, de um modo mais deslumbrante do que nunca, a causa da Igreja.

A este primeiro ato de política divina, Pio IX acrescenta um segundo. Ele quer que a Igreja do século dezenove tenha
ainda por defensor o glorioso patriarca a quem a própria Maria obedeceu sobre a terra, e que no céu não perdeu sua
autoridade sobre ela nem sobre seu divino Filho. Por um decreto recente, o Vigário de Jesus Cristo declara
solenemente São José protetor da Igreja universal. Ora, a Providência que dirige a Igreja não tateia no escuro nunca.
Assim, estes dois grandes atos têm sua razão de ser nas necessidades do momento.

Protegida por essas alianças, a Igreja espera sem temor os inimigos confederados contra ela. Que eles não esperem
de sua parte nem concessões nem fraquezas: longe disso. Recolhendo-se, e encontrando somente em si sua força
invencível, ela se afirma mais altivamente do que nunca. Sem nenhuma deferência, mesmo com um brilho
desabituado, ela condena o erro vitoriosamente e dá uma nova energia à sua unidade, princípio divino de sua
imortal vitalidade.

Daí provém que o século dezenove é a testemunha de dois fatos particularmente notáveis, e do qual todos hoje
veem a razão. O primeiro é o movimento inesperado que conduz rumo a Roma, centro da unidade católica, todas as
Igrejas particulares do velho e do novo mundo. A união faz a força: vis unita fortior. Graças a este primeiro fato, a
Igreja, semelhante a um exército bem disciplinado, pode manobrar como um único homem.

Esse movimento providencial de união na verdade e na caridade, corresponde ao movimento paralelo de união no
ódio da parte da igreja de Satanás, e de dissimulação intelectual e moral fora da Igreja católica. Assim se encontra
mantido o equilíbrio das forças beligerantes.
Sanção e coroamento do primeiro, o segundo fato é ainda mais significativo. Apesar de todos os obstáculos, e
contrariamente a todas as previsões humanas, a Igreja se reúne em concílio ecumênico[2]. Deste concílio saíram
duas constituições fundamentais.

Pela primeiro, a Igreja atinge com anátema todos os erros antigos e modernos. Separando nitidamente o joio do
bom grão, as trevas da luz, ela se cerca de um muro de fogo[3], que não permite mais que os lobos cobertos com
pele de cordeiro se introduzam furtivamente no redil.

Mais providencial ainda, se é permitido o dizer, a segunda proclama solenemente como dogma de fé a infalibilidade
do Pontífice romano. Por que esta definição hoje e não ontem ou amanhã? Porque ela responde com uma precisão
matemática à necessidade de hoje. Qual é esta necessidade? Até os cegos podem vê-la. A definição infalível que leva
até as extremidades do mundo o dogma da infalibilidade do Chefe da Igreja, falando ex cathedra, ocorreu em 18 de
julho, e na manhã do dia 19, aparecia a declaração de guerra entre a França e a Prússia.

Um dos primeiros resultados desta guerra, e sem contradizer o mais alarmante, foi a ocupação sacrílega do
patrimônio de São Pedro, a ocupação de Roma pelos revolucionários italianos e a prisão do soberano Pontífice.
Doravante, e durante certo tempo, cujo somente Deus conhece a duração, não haverá mais concílio.

Todavia é necessário que a Igreja seja governada: é preciso que a barca de Pedro seja conduzida seguramente
através dos terríveis escolhos que a cercam por todos os lados. No meio das espessas trevas aglomeradas sobre o
mundo, os católicos necessitam de um farol que não se apague nunca. Aos bispos, aos padres, enfim, a todos é
preciso uma palavra dirigente, cuja infalível verdade não possa ser contestada por ninguém e que exige a obediência
interior e exterior, instantânea, perseverante, e que conduz até o martírio.

Graças ao ato providencial que acaba de ser realizado, esta palavra existe, reconhecida por todos. A partir de 18 de
julho de 1870, o galicanismo e os galicanos deixaram de existir. Há sobre a terra somente católicos ou hereges.

Venham agora as impossibilidades de reunir os bispos em concílio, ou de conhecer, como dizem, seus assentimento
expresso ou tácito; venham as agitações sociais ou as tentativas de cisma, como no fim do século passado e nos
primeiros dias do nosso; venham até as perseguições sangrentas, como sob o reinado dos antigos Césares: a Igreja
está segura de sua direção. Uma palavra de seu augusto Chefe bastará, sem desvios possível, para mantê-la na via da
verdade.

Tal é a situação da Igreja rechaçada do mundo atual. Porém tal é também sua poderosa unidade em face deste
mundo, entregue a todas as aberrações dos sofistas, a todas as incertezas da dúvida, e devorado vivo pelos erros
mais monstruosos. Perguntar agora a quem o futuro pertence, não é mais uma questão[4].

GAUME, J.. Où en sommes-nous? Paris: Gaume Frères et J. Duprey, 1871, p.9-17.


_______

[1] Ndt: Episódio da captura de Roma pelas forças armadas do Reino da Itália, em 1870.
[2] Ndt: Concílio Ecumênico do Vaticano I.
[3] Murus ignis in circuitu ejus Zc II, 5.
[4] Ndt: Infelizmente esse movimento foi abruptamente rechaçado pelo Concílio Vaticano II. A partir do CVII a Igreja
deixa de lutar para se submeter à modernidade, e, despojada de suas riquezas, de sua doutrina, só resta esse edifício
carcomido que agoniza diante de nossos olhos.

http://catolicosribeiraoarteehistoria.blogspot.com.br/2013/10/a-igreja-perante-o-mundo-atual.html

Que mal ele fez?


A hora fatal se aproximava. As potências das trevas estavam livres; e eis que todo um povo, tomado por um espírito
de furor e de vertigem, se apodera do Justo. Seus próprios discípulos, educados em sua escola, alimentados com seu
pão, cobertos por suas carícias; seus discípulos, que acabam de lhe jurar uma fidelidade a toda prova, o abandonam,
o negam: um deles o traiu. Amarrado como um malfeitor, ele é levado de tribunal em tribunal, pelas ruas de uma
grande cidade. Homens, mulheres, crianças, magistrados, anciões com cabelos brancos, todos acorreram e
formaram um cortejo tumultuoso. Do seio desta multidão, hedionda como um homem embriagado, agitada como
um mar em fúria, se elevam incessantemente gritos de morte. O ódio impaciente não pode esperar a sentença que
deve lhe entregar o inocente. Escarram em seu rosto, o esbofeteiam, batem nele com varas, até colocar a nu as veias
e os ossos: da cabeça aos pés seu corpo forma apenas uma ferida.

À crueldade se junta a insultante zombaria. Como o tigre que brinca com sua presa antes de devorá-la, esse povo
bárbaro ultraja sua vitima antes de beber seu sangue. Eles o revestiram com uma túnica de escárnio; em sua mão
eles colocaram um caniço como um cetro, e sobre sua cabeça uma coroa de espinhos em sinal de diadema; depois,
vendando-lhe os olhos, eles dobram os joelhos, o batem rudemente no rosto e lhe dizem: "Salve, Rei dos Judeus".

E este Justo era o benfeitor público da nação! Entre esse povo de carrascos vocês não encontrariam um que não
tivesse sentido em sua pessoa ou na pessoa dos seus os efeitos salutares de sua poderosa bondade. Ele purificou os
leprosos, ele devolveu a visão aos cegos, a audição aos surdos; ele libertou os possessos, ressuscitou os mortos: a
todos ele fez o bem, a ninguém ele fez mal. Enquanto que o pisoteiam como um verme, ele se mantém calmo e
cheio de dignidade. Semelhante ao terno cordeiro que levam mudo ao matadouro, ele se deixa conduzir ao suplício
sem abrir a boca. Em nome de Deus, o conjuram a falar: ele responde com doçura e verdade. De sua palavra lhe
fazem um crime: uma bofetada a mais é o prêmio de sua obediência.

O Justo a recebe e se cala. Sua resignação exaspera seus perseguidores. As vociferações redobram. Como uma
torrente, elas ressoam os ecos da cidade deicida: "Matem-no! matem-no! Que ele seja crucificado!" e eles o
empurram brutalmente perante o juiz que pode lhes dar sua cabeça. Esse juiz é um estrangeiro, é um ambicioso, é
um medroso. Não obstante, a inocência do acusado o subjuga; ele a proclama: "Que mal ele fez? Se ele não fosse
culpado, nós não o teríamos te entregado!... Que mal então ele fez? Ele pretende reinar, e nós não queremos que
ele reine sobre nós[1]". O juiz hesita... eis o último esforço de sua coragem se expirando. "Não quero ser responsável
pelo sangue do justo, disse ele lavando as mãos, isso é lá convosco. - Que ele morra! Que ele morra! E que seu
sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos!" A sentença iníqua é obtida.

A vítima caminha ao suplício. Tanto ódio por tanto amor, tanta injustiça por tanta inocência, tanta ingratidão por
tantos benefícios, fazem jorrar algumas lágrimas. Um pequeno número de mulheres escondidas na multidão,
demonstram uma dor sincera. O Justo as viu; ele se voltou, e, como despedida, ele fez ouvir essas palavras: "Filhas
de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas sobre vós e sobre vossos filhos". A via dolorosa é cruzada. Despojado de
sua túnica ensanguentada, ele é pregado na cruz, condenado a morrer entre dois celerados! Enquanto os carrascos
saciam sua sede com fel e vinagre, seus inimigos passam e repassam diante dele, acenando a cabeça, elevando os
ombros e lançando contra ele os traços afiados de suas injúrias e de suas blasfêmias. Sua divindade, eles a negam;
sua realeza, eles zombam dela; seu poder, eles o enfrentam; sua ira, eles a desafiam. Em seu silêncio sublime, o
Justo cumpre sua missão e a ordem de seu Pai: ele expira!

A natureza inteira estremece, o céu se cobre com um véu lúgubre, o terror está por toda parte. Logo um mensageiro
de desgraças, profeta como nunca se viu, rodeia dia e noite em torno de Jerusalém gritando sem nunca parar: "Voz
do Oriente, voz do Ocidente, voz dos quatro ventos, voz contra Jerusalém e contra o templo, voz contra todo o povo.
Aí de nós! Aí de nós[2]!"

GAUME, J.. Où allons-nous? Paris, Gaume Frères, 1844.

_____

[1] Jo XIX, 12-15, Lc XIX, 14.

[2] Joseph. Bell. lib. VII, c. 12.

http://catolicosribeiraoarteehistoria.blogspot.com.br/2013/11/que-mal-ele-fez.html

Por este Sinal vencerás


“In hoc Signo vinces.”

Por este Sinal vencerás.


(Euseb. vit. Const., 1,22)

Nota preliminar
(da primeira edição francesa)

No mês de novembro deste ano, chegou a Paris, para seguir os cursos de um colégio de França, um jovem católico,
pessoa de grande distinção. Fiel ao uso tradicional de fazer o Sinal da Cruz antes e depois de comer, foi, desde o
primeiro dia, objeto de espanto para os condiscípulos pensionistas.

O dia seguinte, em virtude da – liberdade dos cultos – o objeto das zombarias era ele.

Vindo-me visitar, pediu-me que algo lhe eu dissesse a respeito do Sinal da Cruz; pois os condiscípulos pretendiam
fazê-lo envergonhar-se de o fazer.

Respondem àquele pedido as cartas seguintes.(Nota do blogue: total de 23 cartas)

Paris, 1862 – Monsenhor Gaume.

Sétima carta
Paris, 2 de dezembro de 1862.

Meu caro Frederico,

Os que desprezam o Sinal da Cruz ou dele desdenham não podem ter dúvida nenhuma com relação ao lugar que o
Sagrado Sinal ocupa no mundo.

Tais indivíduos pertencem a uma classe hoje muito numerosa: é a classe dos que de nada duvidam porque ignoram
tudo.

Tu, porém, deixa por um instante a sede de Juiz e, dando-me tua mão, em rápida viagem, percorre comigo os
mundos – antigo e moderno.

Visitemos primeiro a brilhante antiguidade.


Peregrinos da verdade; entremos no oriente e no ocidente.

Memphis, Athenas, Roma.

São três grandes centros de luzes, que nos convidam a visitar as escolas de seus sábios. Vejamos que dizem estes
mestres ilustres sobre os pontos cujo conhecimento mais nos interessa.

O mundo é eterno, ou foi criado?


Se foi criado, quem foi o seu criador?
É corpo ou espírito, o autor da natureza?
É ou não é eterno?
É livre, independente?
É um só ou são muitos?

As respostas são – hesitações, incertezas, flagrantes contradições.

Que é o bem?
Que é o mal?
Qual a origem do bem e do mal?
Como o bem e o mal se acham no homem e no mundo?
Há um remédio para o mal ou é incurável?
Se tem remédio, qual é ele?
Quem o possui?
Como se pode obter?
De que modo se aplica?

Hesitações, incertezas, fragrantes contradições, são as respostas.

Que é o homem?
Entra na sua essência uma coisa chamada – Alma?
É um fogo?
É matéria aeriforme?
Morre com o corpo?
Sobrevive ao corpo?
É espírito?
Qual é o seu destino?
Qual a finalidade de sua existência?

E as respostas a estas e mil outras questões, não passam de hesitações, incertezas, flagrantes contradições.

Ah! Meus grandes povos, meus grandes homens!

Apesar de tão pretensiosos, vós não sabeis nem a primeira palavra de uma resposta a estas questões fundamentais!

Não sois mais do que – notáveis ignorantes!

Que importa saber fabricar sistemas, compor sofismas, inundar de eloqüência as escolas, os senados, os areópagos?

Que importa saber guiar carros no circo, edificar cidades, dar batalhas, conquistar províncias, tornar a terra e os
mares tributários de vossa avareza?

Ignorais o que sois, donde vindes, e para onde ides?


No dizer de um de vós mesmos não passais de uns suínos mais ou menos gordo, lá no rebanho d’Epicuro!... –
“Epicuri de grege porci.” – Eis o mundo antigo.

Com a divulgação deste Sinal eloqüente que é o Sinal da Cruz essas vergonhosas trevas se dissiparam.

Aprendendo a fazer o Sinal da Cruz, o homem, ilustrado ou não, aprende a ciência de Deus, do mundo, e de si
mesmo.

Repetindo-o constantemente, grava-se-lhe no fundo da alma esta doutrina a ponto de jamais esquecê-la.

Digam o que disserem: graças ao uso tão freqüente do Sinal da Cruz em todas as classes da sociedade, tanto nas
cidades e como nas aldeias o mundo católico dos primeiros séculos e da idade média conservou em grau até então
desconhecido, o conhecimento da ciência divina, mãe de todas as ciências e mestra da vida.

Poderia acontecer o contrário disto?

Se durante anos, certo homem repete um erro dez vezes por dia, dele fica plenamente compenetrado e com ele,
para assim dizer, se identifica.

Ora, se isto acontece com o erro, porque não há de acontecer com a verdade?
Desejas a contra-prova?

Continuemos nossa viagem e entremos no mundo moderno.

Abandonou ele o Sinal da Cruz e desde esse tempo, não mais teve a seu lado um monitor que lhe avivasse a cada
instante os três grandes dogmas indispensáveis à vida moral.

Por isso que olvidou o Sinal da Cruz, Criação, Redenção e Glorificação, essas três verdades fundamentais são para ele
como se não existissem.

Não vês o que ele está sendo em matéria de ciências? Semelhante ao mundo de outrora, tu ouves o mundo de agora
gaguejar vergonhosamente sobre os princípios mais elementares da religião, do direito, da família e da propriedade.

Que fundo de verdades alimenta suas conversas?


Que contêm seus livros de política e de filosofia?
À luz de que fachos anda ele com sua vida política e particular?
E que pensas tu dos jornais?
Na torrente de palavras que despejam diariamente na sociedade, quantas idéias sãs poderás apontar, com relação a
Deus, ao homem, e ao mundo?
Qual é a sabedoria deste mundo, deste século de luzes, que não sabes fazer o Sinal da Cruz?

Igual ao mundo pagão que lhe serve de mestre e de modelo.


O mundo de hoje só conhece e adora

o deus-eu,
o deus-comércio,
o deus-dinheiro,
o deus-ventre,
o deus-prazer.

Conhece e adora

a deusa-indústria,
a deusa-politicagem,
a deusa-volúpia.

Por serem meios de satisfazer a todos os seus maus desejos, ele conhece e adora as ciências da matéria: - a química,
a física, a mecânica, a dinâmica; as essências, os sulfatos, os nitratos, os carbonatos.

Eis aqui destes séculos as suas divindades e o seu culto.

Eis aqui a teologia, a filosofia, a política, a moral, a vida do mundo moderno: - O egoísmo com seus vícios. –
Progredindo assim, breve estará ele bem a par dos contemporâneos de Noé, destinados a morrer nas águas do
dilúvio.

Para aqueles também consistia-lhes toda a ciência em conhecer e adorar os deuses do mundo moderno.

Consistia em comer, beber, edificar, comprar, vender e casar cada um, a si e aos outros na depravação.

O homem tinha concentrado sua vida na matéria.

Havia-se ele mesmo tornado carne: ignorante como as carnes e manchado como as carnes. (1)
De todas estas más tendências, qual é a que falta ao mundo atual?
De resto, nada de melhor o mundo hoje exige de sua própria essência.

Não sabendo fazer e não fazendo o Sinal da Cruz, ele se materializa.

Em virtudes, pois da lei de gravitação moral, o gênero humano tem forçosamente de recair no estado em que estava
antes de amar a este Sinal salvador.

Digamos a este mundo ignorante de hoje:

O Sinal da Cruz é um livro que nos educa e nos eleva.

Sob tal ponto de vista, podes agora julgar se era sem razão que nossos pais constantemente faziam o Sinal da Cruz.

Agora vais ver que, há uma ignorância mui deplorável do mundo atual é que se deve imputar, em grande parte, o
abandono do Sinal da Cruz.

Que é a ignorância?

É a indigência do espírito.

Em matéria de religião, ela acusa sempre a indigência do coração. E tal indigência procede da fraqueza em – praticar
a virtude e repelir o mal.

E porque existe tal fraqueza? É porque o homem despreza os meios de obter a graça e de torná-la eficaz.

O primeiro, o mais pronto, o mais vulgar, o mais fácil destes meios, é, como sabes, a oração. E de todas as orações, a
mais fácil, a mais pronta, a mais vulgar, e, talvez, a mais poderosa, é o Sinal da Cruz...
Nota:

1 – Sicut autem in diebus Noe ita erit et adventus filis hominis. Sicut enim in diebus ante diluvium comedentes
nubentes, et nuptui tradentes… donec venit diluvium et tulit omnes. (Math., XXIV, 37,38,39.)

- Edebant et bibebant; emebant et vendebant; plantabant, et oedificabant. (Luc., XVII, 28.)

- Omnis quipe caro corruperat vitam suam super terram. (Gen., VI, 12)

- Quia caro est. (Ibid., 3.)

(Excertos do livro: O Sinal da Cruz por Monsenhor Gaume, Protonotário Apostólico, livro que de Pio IX mereceu um
“Breve” especial, primeira tradução brasileira cuidadosamente calcada sobre a 4ª edição francesa, 1950)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/03/por-este-sinal-venceras.html

Sinal da Cruz - Terror para os inimigos infernais


Sinal da Cruz - Terror para os inimigos infernais

"É com o Credo e com o Sinal da Cruz que é necessário correr o inimigo. Revestido destas armas, o Cristão sem
dificuldade triunfará do antigo e soberbo tirano. A Cruz basta para desfazer todas as maquinações do espírito das
trevas." (lib. de Symb., c. I. - Santo Agostinho)

"O Sinal da Cruz torna impotentes todos os artifícios da magia, ineficazes todos os encantos e ao abandono todos os
ídolos. Por ele é moderado, abatido, extinto o fogo da voluptuosidade mais brutal; e a Alma, curvada para a terra,
levanta-se para o Céu. Outrora os demônios enganavam os homens, tomando diferentes formas; postados à beira
das fontes e dos rios, nos bosques e nos rochedos, surpreendiam por artificiosos enganos aos insensatos mortais.
Mas, depois da vinda do Verbo Divino, basta o Sinal da Cruz para desmascará-los todos. Quer alguém a prova do que
digo? Não tem mais que colocar-se no meio dos artifícios dos demônios, das imposturas dos oráculos e os embustes
da magia e, feito o Sinal da Cruz, verá como por virtude dele fogem os demônios, calam-se os oráculos e se tornam
impotentes todos os encantos e malefícios." (Lib. de Incarnat. Verb. - Santo Atanásio)

"O Sinal da Cruz é a armadura invencível dos Cristãos. Esta armadura que te não falte ó Soldado de Cristo, nem de dia
nem de noite, nem um só instante, seja qual for o lugar em que te aches. Quer durmas, quer vigies, quer trabalhe,
quer comas, quer bebas, quer navegues, quer atravesses rios, sempre andarás revestidos desta couraça. Orna e
protege teus membros com este Sinal vencedor e nada te poderá fazer mal. Contra as setas do inimigo, não há
escudo mais poderoso. A vista deste Sinal, trêmulas e aterradas fugirão as potências infernais." (S.Eph. de Panophia
ot de poenitem, apud Gretzer p. 580,581 e 642. - São João Crisóstomo)

(Frases retiradas do livro: O Sinal da Cruz por Monsenhor Gaume, Protonotário Apostólico, livro que de Pio IX
mereceu um “Breve” especial, primeira tradução brasileira cuidadosamente calcada sobre a 4ª edição francesa,
1950.)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/04/sinal-da-cruz-terror-para-os-inimigos.html

"Eu Sou a Subversão"

“Se arrancando sua máscara, perguntar-se à Revolução: Quem sois? Ela lhes dirá: Eu não sou o que pensam. Muitos
falam de mim e poucos me conhecem. Não sou o Carbonarismo, nem motim..., nem troca de Monarquia por
República, nem substituição de uma Monarquia por outra, nem a perturbação momentânea da ordem pública. Não
sou nem os latidos dos Jacobinos, nem os furores de Montagne, nem a guerrilha, nem a pilhagem, nem o incêndio,
nem a Reforma Agrária, nem a guilhotina, nem as execuções. Não sou nem Marat, nem Robespierre, nem Babeuf,
nem Mazzini, nem Kassuth.

Esses homens são meus filhos, mas não eu. Essas coisas são minhas obras, mas não eu. Esses homens e essas
coisas são passageiros, mas eu sou um estado permanente. Sou o ódio por toda ordem que não tenha
sida estabelecida pelo homem e na qual ele não seja ao mesmo tempo rei e deus. Sou a proclamação dos direitos
do homem sem respeito aos direitos de Deus. Sou a fundação do estado religioso e social na vontade do homem
em lugar da vontade de Deus. Sou Deus destronado e o homem em seu lugar. Eis porque me chamoRevolução, ou
seja, Subversão...” (Mons. Gaume, “La Revolution, Recherches Historiques”, Sec. Soc. Saint Paul, Lile, 1877, T. 1, pág.
18. Citado por Jean Ousset, “pour Qu'll Regne”, pág. 122).

A Santa Missa - uma breve explicação sobre o Santo Sacríficio


Introdução

A Igreja e os santos sempre ensinaram que as coisas ocorridas no Antigo Testamento são prefigurações daquelas que
aconteceriam no Novo Testamento. Isso quer dizer que Deus, para poupar a fraqueza do homem e para ensinar-lhe
as verdades da Revelação de modo gradativo e adequado à nossa inteligência, quis ou permitiu que ocorressem os
fatos do Antigo Testamento para que estes servissem como analogias em relação aos fatos que se realizariam no
futuro, no Novo Testamento.

Além de utilizar os fatos ocorridos no Antigo Testamento com a finalidade de preparar os homens para o que seria
revelado no Novo Testamento, Deus se utilizou também das profecias.

E é assim que vemos, no Antigo Testamento, a Santa Missa prefigurada por muitos fatos e também predita pelos
profetas.
Dentre os fatos do Antigo Testamento que são prefigurações do Santo Sacrifício da Missa estão:

1. o oferecimento de pão e vinho a Deus por Melquisedec, sacerdote e rei de Salém (Gen. 14, 18-20);

2. o maná, sustento milagroso que o Senhor fazia cair todas as manhãs em torno do campo dos hebreus no
deserto, depois de terem saído do Egito guiados por Moisés (Ex. 16, 4-36). O maná era um alimento descido
do céu. Nosso Senhor na Santa Eucaristia é o Pão vivo descido do céu. – O maná substituía todos os
alimentos, tendo nele todos os sabores. A Santa Eucaristia é o pão por excelência: basta para todas as
necessidades da alma. – O maná durou até que os hebreus entrassem na terra prometida. A Santa Eucaristia
nos será dada até que entremos no céu, onde veremos face à face o Deus que recebemos, no Sacramento,
sob o véu de pão.

Várias coisas a respeito da vinda e da obra de Jesus Cristo foram também preditas pelos profetas, e uma delas é o
Sacrifício da Missa, que seria instituído por Nosso Senhor e que se haveria de oferecer por toda a terra.

O profeta Malaquias nos mostra Deus irritado com as negligências e as provas de má vontade dos sacerdotes judeus
da Antiga Lei quando ofereciam os sacrifícios:

“O filho honra seu pai, e o servo reverencia o seu senhor. Se eu, pois, sou vosso pai, onde está a minha honra? E se eu
sou o vosso Senhor, onde está o temor que se me deve? diz o Senhor dos exércitos. Convosco falo, ó sacerdotes, que
desprezais o meu nome, e que dizeis: em que desprezamos nós o teu nome? Vós ofereceis sobre o meu altar um pão
imundo, e dizeis: Em que te profanamos nós? Nisso que dizeis: A mesa do Senhor está desprezada. Se vós ofereceis
uma hóstia cega para ser imolada, não é isto mau? E se ofereceis uma que é coxa e doente, não é isto mau? Oferecei
estes animais ao vosso governador, e vereis se eles lhe agradarão, ou se ele vos receberá com agrado, diz o Senhor
dos Exércitos” (Mal. 1, 6-8).

Diante disto, Deus, pela boca do profeta, se mostra resolvido a rejeitar e abolir os sacrifícios antigos: “O meu afeto
não está em vós, diz o Senhor dos exércitos; nem eu receberei algum donativo de vossa mão” (Mal 1, 10).

E passa a anunciar um Sacrifício Novo, oferecido em toda a terra: “Porque desde o nascente do sol até o poente é o
meu nome grande entre as gentes, e em todo lugar se sacrifica e se oferece ao meu nome uma oblação pura” (Mal.
1, 11).

A expressão “do nascente do sol até o poente” é usada nas Escrituras para significar o mundo inteiro. A
palavra “gentes” é sempre empregada na Escritura para significar os gentios, os povos que não são o povo israelita.
Esta oblaçãoa que o profeta se refere não é tomada no sentido metafórico de oração ou sacrifício espiritual ou
esmola: ela vem substituir os sacrifícios dos sacerdotes da Antiga Lei.

E não se refere diretamente ao Sacrifício cruento da Cruz, pois este foi oferecido em um só lugar, uma vez só, no
monte Calvário, ao passo que aqui se trata de um sacrifício oferecido em todo lugar, de modo a tornar o nome do
Senhor engrandecido entre as gentes: a Santa Missa, renovação incruenta daquele mesmo Sacrificio do Calvário.
O fato de Deus ter usado de figuras e profecias no Antigo Testamento com a finalidade de preparar o povo escolhido
para aceitar o Sacrifício da Missa mostra-nos a grande importância deste mesmo Sacrifício e a grande estima que
Deus tem por ele. A finalidade deste pequeno trabalho é tornar mais conhecido este Sacrifício tão estimado por
Deus e que tem tão grande valor, expondo seu significado e as verdades que ele exprime, e que estão contidas em
cada palavra e ação do sacerdote.

Terceira parte: O conhecimento e a compreensão das orações e cerimônias da Santa Missa

§ 1º Do conhecimento profundo da Santa Missa


1. É necessário conhecer profundamente a Santa Missa?Um ato de religião praticado com tanta freqüência,
tão precioso em suas graças, e tão consolador em seus frutos, é desejoso que se conheça o mais possível, na
medida de nossas capacidades.

2. Como podemos conhecer mais profundamente a Santa Missa?Podemos conhecê-la mais profundamente
estudando seus mistérios, seus dogmas, a moral que ela encerra, e até os menores detalhes de suas
cerimônias e orações.

3. Para que devemos conhecer tudo isto?Para que a Santa Missa, que é o centro do culto católico, desperte os
mais vivos sentimentos de religião e de piedade.

4. Que mais devemos conhecer da Santa Missa?Devemos conhecer suas palavras sagradas; cada ação e cada
movimento do sacerdote; cada palavra que ele pronuncia para nos lembrar que um Deus se imola por nós, e
que nós também devemos nos imolar com Ele e por Ele.

5. Que mais é salutar conhecer?Devemos saber as grandes vantagens espirituais que um conhecimento mais
íntimo da Santa Missa proporciona aos fiéis, com a explicação literal de suas orações e cerimônias.

6. Deus exige de todos os fiéis um conhecimento profundo e detalhado da Santa Missa?Não. Deus supre com
a fé o conhecimento que não foi possível adquirir e jamais irá desprezar o sacrifício de um coração
arrependido e humilhado (Sal. 50, 19).

7. Por acaso a Igreja ocultaria aos fiéis algum mistério da Santa Missa?Não. Na Igreja nada há de oculto e Ela
jamais pretendeu ocultar qualquer mistério aos fiéis, seja da Santa Missa ou de qualquer outra cerimônia
litúrgica.

8. Com que estado de espírito devemos assistir a Santa Missa?Devemos deixar fora da igreja a indiferença e o
tédio, a dissipação e o escândalo e sermos, na igreja, adoradores em espírito e verdade.

§ 2º Da celebração da primeira Missa e da sua relação com a Paixão e a Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo: as
ações e palavras do sacerdote

1. Quando foi celebrada a primeira Missa? Pode-se e deve-se crer que a primeira Missa foi celebrada no
Cenáculo, à véspera da morte de Salvador.

2. Que paralelo podemos fazer entre o Cenáculo e a Santa Missa? Podemos estabelecer o seguinte paralelo:

Cenáculo Santa Missa

Jesus dirige-se ao Cenáculo: acompanhado dos seus O sacerdote dirige-se ao altar, precedido dos seus
apóstolos, chega ao Cenáculo, onde estava preparada a ministros, onde tudo está disposto para o sacrifício da
mesa do sacrifício e da comunhão. Santa Missa.

Jesus deixa a mesa depois da ceia prescrita pela Lei, O sacerdote desce ao pé do altar, mesmo puro de faltas
humilha-se ao lavar os pés dos apóstolos e os manda graves, para lavar-se e purificar-se das faltas mais leves.
que se lavem mutuamente, voltando, depois, a ocupar o Por isso o sacerdote faz a confissão mútua com os
seu lugar à mesa. assistentes, subindo depois ao altar.
Jesus senta-se à mesa eucarristica: instrui seus apóstolos O sacerdote faz no altar a instrução pública e
e lhes dá o resumo de sua doutrina, dizendo: “ Eu vos preparatória, com o objetivo de explanar estes dizeres
dei o exemplo para que façais como eu fiz” (Jo. 13). profundos de S. Justino: “ Só pode participar da
eucaristia aquele que crê que nossa doutrina é
verdadeira, que recebeu a remissão dos pecados e que
vive como Jesus ensina” (Apologia, 2).

Jesus toma o pão e o vinho num cálice, e os abençoa. O sacerdote toma o pão e o vinho num cálice: eis a
oblação, as orações e bênçãos que a acompanham.

Jesus deu graças, elevando os olhos aos céus: embora os O sacerdote emprega as mesmas palavras e gestos no
evangelistas não registrem as palavras de que Jesus se Cânon da Missa, repetindo a fórmula da consagração: É
serviu nesta ação de graças, sabemos pela Tradição que a comunhão na Santa Missa.
Ele enumerou os benefícios da criação, da providência e
da redenção, que iriam se concentrar nesta vítima
adorável; depois o Senhor partiu o pão e o deu aos seus
discípulos dizendo: “ Isto é o meu corpo”; em seguida os
deu também o cálice, dizendo: “ Isto é o meu sangue”.
Eis a fórmula da consagração. É a comunhão no
Cenáculo.

Jesus pronuncia um hino de ação de graças O sacerdote termina o Santo Sacrifício da Missa com a
ação de graças.

3. O que fizeram Jesus e os apóstolos após a Ceia? Os apóstolos saíram do Cenáculo com o seu Mestre, e se
dirigiram ao Horto das Oliveiras, para serem testemunhas da renovação e da consumação do grande
sacrifício da Cruz, da mesma forma que o sacerdote se dirige ao santuário, subindo ao altar.

4. Que paralelo podemos estabelecer entre a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo e a Santa
Missa?Podemos estabelecer o seguinte paralelo:

Cenas da Paixão, Morte e Ressureição de Nosso Cenas da Missa


Senhor Jesus Cristo

Jesus ora no Horto, com o rosto prostrado na terra em O sacerdote, ao pé do altar, recita o Confiteor, em
agonia. humilde postura.

Jesus, amarrado, sobe a Jerusalém. O sacerdote, cingido com todos os paramentos, sobe ao
altar.

Jesus foi, de tribunal em tribunal, instruindo o povo, O sacerdote vai de um ao outro lado do altar,
seus acusadores e seus juizes. para multiplicar e difundir a instrução preparatória.

Jesus Cristo, assim que sentenciado e despojado de O sacerdote descobre as oblações, retirando o véu que
suas roupas, oferece seu corpo à flagelação, prelúdio da cobre o cálice e a hóstia, ainda nãoconsagrados, e faz a
sua execução e morte. oferenda do pão e do vinho, que vão ser consagrados, e
cuja substância vai ser consumida.

Jesus é pregado na cruz. Jesus se torna presente no altar com as palavras da


Consagração.
Jesus é suspenso na Cruz, entre o céu e a terra. Como no momento da Elevação, na Missa.

Jesus expira na cruz. O sacerdote parte a Hóstia, indicando, visivelmente, esta


morte.

Jesus é colocado no sepulcro. Na Comunhão, Jesus é recebido pelo sacerdote e pelos


fiéis.

Jesus ressuscita glorioso. A ressurreição é significada pelo lançamento de um


fragmento da hóstia consagrada (o corpode Cristo) no
cálice que contém o sangue de Cristo, na hora em que o
sacerdote diz a oração “ Pax Domini sit semper
vobiscum”, fazendo cinco cruzes sobre o cálice e fora
dele. O sacerdote pede o efeito desta vida nova
através das orações após a Comunhão.

Jesus sobe aos céus, abençoando sua Igreja. O sacerdote se despede dos fiéis e os abençoa.

Jesus envia o Espírito Santo aos seus discípulos. No final da missa, é lido o início do Evangelho de S. João,
que nos exorta a tornar-nos filhos de Deus, dirigidos e
movidos pelo seu Espírito, conforme estas palavras do
apóstolo S. Paulo: "aqueles que são conduzidos pelo
Espírito

de Deus, são filhos de Deus" (Rom. 8, 14).

5. Que relação há entre a Santa Missa e as palavras de Cristo na Última Ceia? Nosso Senhor instituiu, após a
Última Ceia, a parte essencial das orações e cerimônias da Santa Missa.

6. Quem estabeleceu as orações e cerimônias das outras partes?


As orações e cerimônias das outras partes foram estabelecidas pelos apóstolos, pela Tradição e pela Igreja,
que acrescentaram o que convinha à dignidade do Santo Sacrifício, em nada alterando o substancial da
Instituição Divina.

Referências:
Extraído do Catecismo da Santa Missa

§ 3o Da celebração da primeira Missa e da sua relação com a Paixão e a Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo: as
vestimentas do sacerdote

1. O sacerdote deve usar vestes específicas para rezar a Santa Missa? Sim, o sacerdote deve usar vestes
específicas para rezar a Santa Missa.

2. Estas vestes que o sacerdote deve usar para rezar a Santa Missa nos remetem ao que sofreu Nosso
Senhor em sua Paixão e em sua Morte na Cruz?
Sim, as vestes que o sacerdote deve usar na Santa Missa nos remetem ao que Nosso Senhor sofreu em sua
Paixão e em sua Morte na Cruz.

3. Estas vestes sacerdotais nos lembram mais alguma coisa?


Sim. Estas vestes nos lembram diversas virtudes que devemos nos esforçar para possuir e diversas boas
obras que devemos praticar.

4. Quais são as vestimentas do sacerdote que vai celebrar a Santa Missa? As vestimentas do sacerdote que
vai celebrar a Santa Missa são o amito, a alva, o cíngulo, o manípulo, a estola e a casula.
5. O que é o amito?
O amito é um véu branco que o sacerdote passa sobre a cabeça e com que cobre os ombros. Remete a coroa
de espinhos com a qual Nosso Senhor Jesus Cristo foi coroado. O amito recorda-nos que devemos sempre
ter pensamentos puros, combatendo sobretudo aqueles que nos vêm contra a castidade. Lembra-nos
também a modéstia das palavras e o cuidado que devemos ter de não conversar inutilmente na Igreja.

6. O que é a alva?
A alva é uma túnica branca, larga e que desce até os pés do sacerdote. Remete à túnica branca com a qual
Herodes mandou vestir a Cristo, para dizer que era louco. A alva recorda-nos de que seremos chamados de
loucos pelo mundo se formos fiéis a Nosso Senhor, seguindo-Lhe os passos e renunciando às ilusões deste
mundo para alcançarmos nossa recompensa no Céu. O fato da alva descer até os pés significa que devemos
perseverar nas boas obras. E o símbolo da pureza que o padre deve ter ao rezar a Santa Missa e que os fiéis
dever também ter ao assisti-la.

7. O que é o cíngulo?
O cíngulo é uma corda com a qual o sacerdote aperta a alva na altura da cintura. Remete-nos aos açoites da
flagelação de Nosso Senhor, bem como a corda com a qual amarraram Nosso Senhor para puxá-lo. Lembra-
nos as virtudes da fortaleza e da castidade.

8. O que é o manípulo?
O manípulo é um pano que o sacerdote traz no braço esquerdo. Sua origem está no fato de que os filósofos
gregos levavam no braço um pano para enxugarem o suor do rosto quando ensinavam nas praças; bem
como no fato de que os trabalhadores também levavam um pano no braço para enxugarem o suor do rosto
enquanto trabalhavam. Remete-nos às cordas que ataram as mãos de Nosso Senhor. Lembra-nos a
autoridade que o sacerdote tem para pregar a verdade, bem como de que devemos trabalhar para
conseguirmos o Céu, fazendo boas obras.

9. O que é a estola?
A estola é um ornato que o sacerdote traz em torno do pescoço e que cruza sobre o peito. Remete-nos à
Cruz que Nosso Senhor carregou. Ela é o símbolo da dignidade e do poder do sacerdote, e nos lembra o
respeito que devemos ter para com os padres. O fato da estola ser cruzada no peito do sacerdote significa
também a troca que os judeus e gentios fizeram na crucificação de Jesus Cristo, passando os judeus da mão
direita para a esquerda e os gentios da mão esquerda para a direita de Deus.

10. O que é a casula?


A casula é um manto aberto dos lados e que o sacerdote põe por cima de todos os outros paramentos.
Remete-nos ao pano vermelho com o qual os soldados romanos vestiram a Nosso Senhor, para zomba-Lo
(Jo. 19, 1-3). Lembra-nos a virtude da caridade, que deve animar as nossas obras e orações. Lembra-nos
também o jugo da Cruz de Cristo que assumimos no Batismo. E por isso que se desenha uma cruz atrás da
casula.

Referências:Extraído do “ Catecismo de Perseverança” ± Quarta parte,lição XII ± Abade Gaume ± Porto, Livraria
Chardron, 1901, 4ë Edição.

Para citar este texto:

"A Santa Missa - uma breve explicação sobre o Santo Sacríficio"


MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=documentos&subsecao=catecismo&artigo=a_santa_missa&lang=bra
Online, 04/11/2013 às 09:06h

A TRADIÇÃO DOS SINOS NAS IGREJAS


Texto de sua Reverendíssima, Mons. Jean-Joseph Gaune, disponibilizado por Santiago Fernandez, em seu
blog Orações e Milagres Medievais.
***

Como todas as grandes e belas coisas, é à Igreja que devemos o sino.

O sino nasceu católico, por isso a Igreja o ama como a mãe ama o seu filho. Ela benze o metal de que é feito.

Logo que ele veio ao mundo, a Igreja o batizou e fez dele um ente sagrado.

Com razão, porque o sino é destinado a cantar tudo o que há de santo e de santificante na terra e no céu.

Pelas orações e cerimônias que o acompanham, o batismo vai dizer-lhe a sua vocação.

A Igreja sempre teve em muito respeito o sino, o que se mostra com novo esplendor nas preces e nas cerimônias do
seu batismo.

Reunidos os fiéis em roda do sino, suspenso a alguns metros acima do solo, o bispo em hábitos pontificais chega
majestosamente, acompanhado do clero e seguido do padrinho e da madrinha do sino.

Em nome de Deus, de quem é ministro, o bispo chama sobre essa maravilhosa criatura a virtude do Espírito Santo,
que a torna fecunda no primeiro dia da criação.

Certo de ser atendido, o bispo asperge o sino, ao qual confere o poder e o dever de afastar de todos os lugares,
onde seu som repercutir, as potências inimigas do homem e de seus bens: os demônios, as trombas, o raio, o
granizo, os animais maléficos, as tempestades e todos os espíritos de destruição.

Vejamos sua missão positiva.

A sua voz proclamará os grandes mistérios do Cristianismo, aumentará a devoção dos cristãos, para cantar novos
cânticos na assembléia dos santos, e convidará os anjos a tomar parte nos seus concertos.

O sino fará tudo isto, porque esta missão lhe é confiada em nome d'Aquele que possui todo o poder no céu e na
terra.

Cada badalada faz retinir ao longe os dois mistérios de morte e de vida - alpha e ômega - mistérios necessários para
orientar a vida do homem, consolar as suas esperanças.

Não admira, pois, que o bispo, dirigindo-se ao próprio sino, o dedique a um santo ou a uma santa no paraíso, e lhe
diga, com uma espécie de respeitosa ternura: “Em honra de São N., a paz doravante seja contigo, caro sino”.

Como o sino deve ter um nome, é preciso também que ele tenha um padrinho e uma madrinha.

O nome é gravado no sino, abaixo da cruz em relevo, que o marca com o selo de Nosso Senhor e o consagra ao seu
alto culto.

Daí vem um fato pouco notado: o amor dos verdadeiros filhos da Igreja ao sino, e o ódio que lhe têm os inimigos de
Deus.

Uma das mais doces alegrias de nossos pais, ao saírem da Revolução Francesa, foi ouvir os sinos, que haviam
emudecido durante muitos anos.

Este incontestável poder do sino contra os demônios do ar justifica a virtude que ele goza, de dissipar os ventos e as
nuvens, de afugentar diante de si o granizo e o raio, de conjurar as tempestades e os elementos desencadeados, pois
que todas essas perniciosas influências da atmosfera provêm muito menos de coisas naturais do que da maldade
desses gênios maléficos.

Nossos pais, na hora do perigo, faziam ouvir ao Pai Celeste, ao som dos sinos, seu primeiro grito de alarme. O Senhor
não permanecia muito tempo insensível à voz do seu povo.

A corda que serve para tocar o sino, essa corda que sobe e desce sem cessar, indica o trabalho do pregador, e é
também imagem da nossa vida.

( Mons. Jean-Joseph Gaume, “L’Angelus au dix-neuvième siècle”, Editions Saint-Remi, 2005)

Read more: http://www.saopiov.org/search?updated-max=2009-01-13T19:43:00-08:00&max-results=10&reverse-


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SINOS: O TOQUE DO ÂNGELUS


Texto de sua Reverendíssima, Mons. Jean-Joseph Gaune, disponibilizado por Santiago Fernandez, em seu
blog Orações e Milagres Medievais.

O Ângelus compõe-se de duas partes essenciais: a oração e o som do sino. O sino dá ao Ângelus uma solenidade
excepcional.

Por que o sino toca o Ângelus de manhã, ao meio-dia e à tarde? Por ordem da Igreja Católica, cumpre a palavra do
rei profeta: "À tarde, de manhã e ao meio-dia, cantarei os louvores de Deus, e Deus ouvirá a minha voz".

À tarde, canta o princípio da Paixão do Redentor no Jardim das Oliveiras. De manhã, a sua Ressurreição, e ao meio-
dia a sua Ascensão.

De manhã, dá o sinal do despertar, da oração e do trabalho. Ao meio-dia, adverte o homem de que a metade do dia
é passada, e que a sua vida não é mais que um dia.

À tarde, toca ao recolhimento e ao repouso. Diz ao homem: faze tuas contas com Deus, pois esta noite talvez Ele
exigirá a tua alma.

Fazendo ouvir a sua voz três vezes por dia, recorda aos cristãos as lembranças de um glorioso passado, essas
belicosas expedições, a honra eterna dos Papas, que salvaram o Ocidente da barbárie muçulmana.

Toca três vezes, para recordar as três Pessoas da Trindade, às quais o mundo é devedor da Encarnação.

Toca nove vezes, em honra dos nove coros de anjos, para convidar os habitantes da Terra a abençoar com eles o seu
comum benfeitor.

Entre cada tinido - ou melhor, entre cada suspiro - deixa um intervalo, para que sua voz desça mais suavemente ao
coração e desperte com mais segurança o espírito de oração.

Por que, depois do tinido do Ângelus, o sino faz ribombar sua voz? Canta uma dupla redenção: a redenção dos vivos,
pelo mistério da Redenção, e a redenção dos finados, pela indulgência ligada ao Ângelus.

Ao Purgatório toca uma felicidade, e a Maria a saudação de uma alma que entra no céu. Assim opera a Igreja da
terra, cheia de ternura por sua irmã padecente.

Por que chora o sino na agonia? Se reflete as alegrias deve refletir também as dores.

Para sustentar o jovem cristão nos combates da vida, o sino pede as nossas orações.
Como não solicitá-las nas lutas da morte? Entre todas, estas lutas não são as mais terríveis e as mais decisivas.

No toque da agonia, o sino diz: "Miserere mihi mei saltem vos amici" - Tende piedade de mim, pelo menos vós que
fostes meus amigos! Vinde orar por mim, vinde sepultar o meu corpo, vinde acompanhá-lo à igreja, depois ao
dormitório, onde ele deve repousar até a ressurreição dos mortos.

O sino, nesse momento, assemelha-se a uma mãe que, na sua terna solicitude, não se permite nem paz nem trégua,
para clamar em socorro de seus filhos desgraçados e obter a sua libertação.

Também o sino deve tornar o cristão invencível na sua guerra contra os demônios.
Ao estridor dos sinos - acrescenta um de nossos antigos liturgistas - os espíritos das trevas são penetrados de terror,
da mesma forma que um tirano se espanta quando ouve ressoar nas suas terras as trombetas guerreiras de um
monarca seu inimigo.

Toque de recolher: no inverno, nos países montanhosos, pelas nove horas da noite, o sino faz ouvir a sua voz mais
forte.

Chama o viajante desencaminhado, e indica-lhe a estrada que deve seguir para chegar ao lugar onde achará a
hospitalidade. Uma imagem do que também acontece com as almas perdidas no pecado.

Eram inteiramente outros os sentimentos de nossos religiosos antepassados.

Testemunhas inteligentes das bênçãos e das consagrações praticadas pela Igreja no batismo dos sinos, devotavam-
lhe um profundo respeito e santo pavor.

Daí vem que temiam infinitamente mais jurar sobre um sino consagrado do que sobre os próprios Evangelhos.

(Fonte: Mons. Gaume, “L’Angelus au dix-neuvième siècle”)

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O SINO: SIMBOLISMO E EFEITOS BENÉFICOS. A ORAÇÃO DO ÂNGELUS


A oração do Ângelus compõe-se de duas partes essenciais: a oração e o som do sino.

O sino dá ao Ângelus uma solenidade excepcional.

Por que o sino toca o Ângelus de manhã, ao meio-dia e à tarde?

Por ordem da Igreja Católica, cumpre a palavra do rei profeta: “À tarde, de manhã e ao meio-dia, cantarei os
louvores de Deus, e Deus ouvirá a minha voz”.

À tarde, canta o princípio da Paixão do Redentor no Jardim das Oliveiras.

De manhã, a sua Ressurreição, e ao meio-dia a sua Ascensão.

De manhã, dá o sinal do despertar, da oração e do trabalho.

Ao meio-dia, adverte o homem de que a metade do dia é passada, e que a sua vida não é mais que um dia.

À tarde, toca ao recolhimento e ao repouso.

Diz ao homem: faze tuas contas com Deus, pois esta noite talvez Ele exigirá a tua alma.

Fazendo ouvir a sua voz três vezes por dia, recorda aos cristãos as lembranças de um glorioso passado, essas
belicosas expedições, a honra eterna dos Papas, que salvaram o Ocidente da barbárie muçulmana.

Toca três vezes, para recordar as três Pessoas da Trindade, às quais o mundo é devedor da Encarnação.
Toca nove vezes, em honra dos nove coros de anjos, para convidar os habitantes da Terra a abençoar com eles o seu
comum benfeitor.

Entre cada tinido – ou melhor, entre cada suspiro – deixa um intervalo, para que sua voz desça mais suavemente ao
coração e desperte com mais segurança o espírito de oração.

Por que, depois do tinido do Ângelus, o sino faz ribombar sua voz? Canta uma dupla redenção: a redenção dos vivos,
pelo mistério da Redenção, e a redenção dos finados, pela indulgência ligada ao Ângelus.

Ao Purgatório toca uma felicidade, e a Maria a saudação de uma alma que entra no céu.

Assim opera a Igreja da terra, cheia de ternura por sua irmã padecente.

Por que chora o sino na agonia? Se reflete as alegrias deve refletir também as dores.

Para sustentar o jovem cristão nos combates da vida, o sino pede as nossas orações.

Como não solicitá-las nas lutas da morte? Entre todas, estas lutas não são as mais terríveis e as mais decisivas.

No toque da agonia, o sino diz: “Miseremini mei saltem vos amici” – Tende piedade de mim, pelo menos vós que
fostes meus amigos!

Vinde orar por mim, vinde sepultar o meu corpo, vinde acompanhá-lo à igreja, depois ao dormitório, onde ele deve
repousar até a ressurreição dos mortos.

O sino, nesse momento, assemelha-se a uma mãe que, na sua terna solicitude, não se permite nem paz nem trégua,
para clamar em socorro de seus filhos desgraçados e obter a sua libertação.

Também o sino deve tornar o cristão invencível na sua guerra contra os demônios.

Ao estridor dos sinos – acrescenta um de nossos antigos liturgistas – os espíritos das trevas são penetrados de terror,
da mesma forma que um tirano se espanta quando ouve ressoar nas suas terras as trombetas guerreiras de um
monarca seu inimigo.

Toque de recolher: no inverno, nos países montanhosos, pelas nove horas da noite, o sino faz ouvir a sua voz mais
forte.

Chama o viajante desencaminhado, e indica-lhe a estrada que deve seguir para chegar ao lugar onde achará a
hospitalidade.

Uma imagem do que também acontece com as almas perdidas no pecado.

Eram inteiramente outros os sentimentos de nossos religiosos antepassados.

Testemunhas inteligentes das bênçãos e das consagrações praticadas pela Igreja no batismo dos sinos, devotavam-
lhe um profundo respeito e santo pavor.

Daí vem que temiam infinitamente mais jurar sobre um sino consagrado do que sobre os próprios Evangelhos.

(Mons. Gaume, “L’Angelus au dix-neuvième siècle”)

Fonte: Blog Orações e milagres medievais

Habite, Senhor, em minha alma!


Ecce evangelizo vobis gaudium magnum, quod erit omni populo: quia natus est vobis hodie Salvator.

S. Lucas II, 10

Ir anunciar a um povo de pobres exilados, banidos para longe de seu país, e todos condenados ao último suplício:
Nasceu-vos um Salvador que, não somente vos libertará da morte, mas também vos reconduzirá para vossa pátria:
Qual nova há de mais agradável? Tal é, palavra por palavra, o que nos é anunciado nesta noite pelos anjos: Jesus
nasceu. Ele nasceu para nos livrar da morte eterna e nos reabrir o céu. Queremos a partir de hoje amar, como Ele
merece, o Redentor que acaba de nascer? Coloquemos diante dos olhos o lugar onde Ele nasceu e o modo cujo Ele
nasceu; busquemos onde se passa essa noite, a fim de ir encontrá-Lo e de agradecê-Lo por tanto amor.

Eis em poucas palavras a história do nascimento desse Monarca do mundo, que desceu do céu para nossa salvação.

"Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Este
recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade.
Também José subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa
e família de Davi". (Lc 2, 1-5)
A viagem durou quatro dias; viagem longa e difícil através das montanhas, por caminhos escabrosos e na estação
mais rigorosa.

Quando um rei faz sua primeira entrada em uma cidade de seu reino, quantas honras lhe preparam! Quantas
demonstrações de alegria! Quantos arcos de triunfo! Prepare-se, portanto, feliz Belém, para receber com honra teu
Rei, o Rei não somente da Judéia, mas do mundo inteiro. Ouça o Profeta que te diz:
"Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que sairá para mim aquele que é chamado a
governar Israel". (Mq 5, 1)
Eis chegando a Belém, esses dois grandes peregrinos, José e Maria, que carregam com eles o Salvador do mundo.
Eles entram na cidade; eles vão ao palácio do ministro do imperador; eles pagam o tributo; eles se registram no
registro dos súditos de César, no número dos quais deve figurar o Filho de Maria, o mestre de César e de todos os
monarcas da terra. Porém quem os reconhece? Quem vai ao seu encontro para honrá-los? Quem os saúda? Quem
os acolhe[1]? Eles parecem pobres, e como pobres os desprezam. Melhor, os tratam pior que os demais pobres. Por
toda parte onde eles se apresentam, os expulsam, pois tinha chegado a hora do parto para Maria[2].

A augusta Virgem compreende isso. Ela sabe que o Verbo encarnado escolheu esses lugares e essa noite para nascer
e se mostrar ao mundo: ela adverte José. José se apressa em buscar algum aposento nas casas particulares, e não
quer que sua santa Esposa seja exposta a dar à luz na hotelaria pública; o que era ainda menos conveniente, porque
Maria era jovem e porque nesse momento a hotelaria estava cheia de gente. Buscas inúteis! Ele não encontrou
ninguém que quisesse escutá-lo. É mesmo provável que vários o tenham tratado como imprudente e insensato, por
viajar durante a noite com uma esposa prestes a dar à luz e em um tão grande concurso de pessoas. A fim de não
passar a noite na rua, ele foi então forçado a se dirigir à hotelaria pública.
Eles se apresentam. Mas que coisa! Daí também eles são impelidos. A todas suas persistências, respondem: não há
lugar para vós aqui[3]. Havia lugar para todos, mesmo para as pessoas do povo, mesmo para os mendigos e os
animais de carga; mas para o Filho de Deus não havia lugar! Essa hotelaria é a figura destes corações ingratos, nos
quais há lugar para tudo, exceto para Deus. Quantos amam seus pais, seus amigos, as criaturas mais vis, os próprios
animais; mas não amam Nosso Senhor Jesus Cristo, e não dão a mínima para sua graça nem seu amor!

"De resto, diz a Santíssima Virgem a um de seus bem-amados; foi por uma disposição particular de Deus que nos
faltou, a mim e a meu Filho, aposento entre os homens. A Providência queria ensinar às almas devotadas ao meu
Filho, que elas deveriam oferecer a si mesmas para lhe servir de morada, e convidá-Lo afetuosamente para habitar
nelas[4]".

"Divino Menino Jesus, que para a salvação do mundo quisestes nascer em um estábulo, e ser deitado em um
presépio, sobre um pouco de palha; tende piedade de mim!

Maria e José, intercedam ao Menino Jesus por mim!

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, assim como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos
séculos. Amém".

Mgr. Gaume. Bethléem ou l'école de l'Enfant Jésus. Paris, Gaume Frères et J. Duprey, 1860.

_______

[1] Jo 1, 2.
[2] Lc 2, 6.

[3] Lc 2, 7.

[4] Ver o P. Patrign.

http://catolicosribeiraoarteehistoria.blogspot.com.br/2013/10/habite-senhor-em-minha-alma.html

Eis, uma substanciosa explicação das bençãos do toque do sino feita por um
digno representante do clero francês, Mons. Jean-Joseph Gaume (1802-1879),
célebre pela sua ciência teológica:
Como todas as grandes e belas coisas, é à Igreja que devemos o sino. O sino nasceu católico, por isso a Igreja o ama
como a mãe ama o seu filho. Ela benze o metal de que é feito. Logo que ele veio ao mundo, a Igreja o batizou e fez
dele um ente sagrado. Com razão, porque o sino é destinado a cantar tudo o que há de santo e de santificante na
terra e no céu. Pelas orações e cerimônias que o acompanham, o batismo vai dizer-lhe a sua vocação. A Igreja
sempre teve em muito respeito o sino, o que se mostra com novo esplendor nas preces e nas cerimônias do seu
batismo. Reunidos os fiéis em roda do sino, suspenso a alguns metros acima do solo, o bispo em hábitos pontificais
chega majestosamente, acompanhado do clero e seguido do padrinho e da madrinha do sino. Em nome de Deus, de
quem é ministro, o bispo chama sobre essa maravilhosa criatura a virtude do Espírito Santo, que a torna fecunda no
primeiro dia da criação. Certo de ser atendido, o bispo asperge o sino, ao qual confere o poder e o dever de afastar
de todos os lugares, onde seu som repercutir, as potências inimigas do homem e de seus bens: os demônios, as
trombas, o raio, o granizo, os animais maléficos, as tempestades e todos os espíritos de destruição.
Vejamos sua missão positiva.
A sua voz proclamará os grandes mistérios do Cristianismo, aumentará a devoção dos cristãos, para cantar novos
cânticos na assembléia dos santos, e convidará os anjos a tomar parte nos seus concertos. O sino fará tudo isto,
porque esta missão lhe é confiada em nome d'Aquele que possui todo o poder no céu e na terra. Cada badalada faz
retinir ao longe os dois mistérios de morte e de vida - alpha e ômega - mistérios necessários para orientar a vida do
homem, consolar as suas esperanças. Não admira, pois, que o bispo, dirigindo¬-se ao próprio sino, o dedique a um
santo ou a uma santa no paraíso, e lhe diga, com uma espécie de respeitosa ternura: “Em honra de São N., a paz
doravante seja contigo, caro sino”.
Como o sino deve ter um nome, é preciso também que ele tenha um padrinho e uma madrinha. O nome é gravado
no sino, abaixo da cruz em relevo, que o marca com o selo de Nosso Senhor e o consagra ao seu alto culto. Daí vem
um fato pouco notado: o amor dos verdadeiros filhos da Igreja ao sino, e o ódio que lhe têm os inimigos de Deus.
Uma das mais doces alegrias de nossos pais, ao saírem da Revolução Francesa, foi ouvir os sinos, que haviam
emudecido durante muitos anos. Este incontestável poder do sino contra os demônios do ar justifica a virtude que
ele goza, de dissipar os ventos e as nuvens, de afugentar diante de si o granizo e o raio, de conjurar as tempestades e
os elementos desencadeados, pois que todas essas perniciosas influências da atmosfera provêm muito menos de
coisas naturais do que da maldade desses gênios maléficos.

Nossos pais, na hora do perigo, faziam ouvir ao Pai Celeste, ao som dos sinos, seu primeiro grito de alarme. O Senhor
não permanecia muito tempo insensível à voz do seu povo. A corda que serve para tocar o sino, essa corda que sobe
e desce sem cessar, indica o trabalho do pregador, e é também imagem da nossa vida.

(Fonte: Mons. Jean-Joseph Gaume, “L’Angelus au dix-neuvième siècle”, Editions Saint-Remi, 2005)

http://sanctidominici.blogspot.com.br/2010/10/as-bencaos-do-toque-do-sino.html

A Revolução - Introdução
Qualquer otimista, independente de quem seja, dificilmente negará que o mal habita no seio das sociedades
modernas, e mesmo que ele habita em proporções assustadoras. "O mal não é maior hoje do que outrora; todos os
séculos se assemelham; os homens sempre foram os mesmos; nossa época pode ser comparada com todas as
demais épocas." Eis o que vários se apressam a responder.
"Ouvimos dizer muito comumente, responde o conde Maistre, que todos os séculos se assemelham e que os
homens sempre foram os mesmos. Mas é preciso se preservar dessas máximas gerais, que a imprudência ou a
preguiça inventam para se dispensarem de refletir. Todos os séculos, ao contrário, manifestam um caráter particular
e distintivo que é preciso considerar cuidadosamente. Sem dúvida, sempre houve vícios no mundo, mas esses vícios
podem diferir em quantidade, em natureza, em qualidade dominante e emintensidade. O que há de extremamente
notável, é que na medida que os séculos fluem, os ataques contra o edifício católico se tornam sempre mais fortes;
de modo que ao dizer sempre: Não há nada além disso, nos enganamos sempre(1)."

Mas não nos aludamos ao testemunho de outrem. Comparemos, nós mesmos, a Europa de hoje com a Europa de
outrora. A fim de obtermos os termos de uma comparação séria, voltemos à época que divide em duas partes a
história das sociedades cristãs, à época cujo nome sozinho indica o fim da Idade Média e o começo da era moderna,
o Renascimento.

Se, de um lado, é verdade que o catolicismo, que sozinho dá razão do poder e do dever, é a alma das sociedades; se,
do outro lado, é verdade, como o pretendem, que nossa época pode ser comparada com todas as demais épocas,
esta proposição significa que: hoje o catolicismo é aplicado à sociedade, à família, ao indivíduo, de um modo, ao
menos, tão íntimo e tão completo quanto outrora. Vejamos o que é preciso pensar desta afirmação.

Primeiro fato - Tirando algumas regiões setentrionais, a Europa, há quatro séculos, era inteiramente católica. Hoje,
metade da Europa não é mais católica, a outra metade o é somente meio católica.

Segundo fato - Há quatro séculos, a indissolubilidade do laço conjugal era a lei universal da família. Hoje o divórcio
está legalmente estabelecido em metade da Europa.

Terceiro fato - Há quatro séculos, o suicídio, este atentado supremo que anuncia, entre aqueles que se tornaram
culpáveis, a execução do sentido moral, era desconhecido das nações cristãs. Hoje, esse crime, que teria horrorizado
nossos pais, tornou-se tão comum que o ignoramos, e ele tem até seus apologistas.

Baseados nessa tripla relação, o catolicismo é aplicado à sociedade, à família, ao indivíduo, de um modo tão
completo como outrora?

Quarto fato - Há quatro séculos, não havia teatros na Europa; nem artes corruptoras, nem conspiração geral do
talento e do gênio contra a fé e os costumes. Hoje, a Europa está coberta de teatros, onde todas as noites milhares
de espectadores aplaudem a apresentação e o triunfo das mais perigosas paixões. As ruas, as praças, os jardins
públicos estão povoados de estátuas indecentes; as galerias, os salões, os livros oferecem em todas as partes
quadros e gravuras que o pudor não pode olhar sem se envergonhar. Milhares de inteligências inundam, há quatro
séculos, a Europa inteira de obras em verso e prosa, nas quais não há um crime contra Deus, contra a Igreja, contra
os poderes públicos, contra os esposos e os parentes, que não encontre sua fórmula e mesmo sua apologia.

Sob todos esses pontos de vista, nossa época pode sustentar a comparação com as épocas em que nada disso
existia?

Quinto fato - Enquanto que outrora, a Europa tinha uma hierarquia social, liberdades públicas, uma consciência
pública; enquanto que entre as nações cristãs a paz era perturbada apenas superficialmente, ou seja, na ordem dos
fatos e não na ordem dos princípios, de modo que as dinastias tinham um amanhã e os povos um futuro: hoje toda a
hierarquia social, composta de elementos naturais e históricos, desapareceu; todas as liberdades públicas são
absorvidas pela centralização; a consciência pública, alterada ou extinta, definha quase que ao insucesso; as próprias
bases da família e da propriedade estão abaladas profundamente; marchamos de revoluções em revoluções, de
quedas em quedas; sociedades secretas laçam o antigo e o novo mundo em uma imensa rede; assassinam o
presidente da República do Equador, e a Comuna, com todos seus horrores, é, para eles, apenas um combate
de vanguarda. Enfim, com a moral privada, indo de par com a decadência social, caímos no sepultamento humano: o
que nos coloca metros abaixo dos selvagens.
Nas almas ou nas ruas, a Revolução é permanente. Sobre seus tronos cambaleantes, os reis assemelham-se aos
marujos colocados no topo do navio durante a tempestade. O barulho do trono que se aniquila hoje, anuncia quase
sempre a queda do trono que ruirá amanhã. Os povos descontentes alimentam no fundo de seus corações o ódio
por toda superioridade, a cobiça de toda alegria, a impaciência de todo freio, e a força material se torna a única
garantia da ordem social. E, apesar desta força impotente, apesar dos progressos, apesar da indústria, apesar
daquilo que chamam de civilização, a Europa teme. Um segredo instintivo lhe diz que ela pode perecer, como
Baltasar, no meio de um banquete, com o copo da volúpia à mão.

Que nos agrademos em meditar friamente e sem partido esses pontos de comparação, e assim será fácil multiplicar,
e dizer se a época onde encontramos todos esses sintomas pode sustentar o paralelo com todas as outras épocas da
história!

Afirmá-lo (esse paralelo), é pretender: ou que nenhuma das coisas que acabam de ser assinaladas não é um mal nem
uma causa do mal; ou que a Europa moderna oferece, sob outras relações, uma compensação de tal modo
abundante, que ainda lhe resta um patrimônio de verdades e de virtudes, em uma palavra, de catolicismo, ao menos
igual àquele de seus antepassados. É assim?

Exceto alguns sintomas felizes do qual não é preciso nem contestar a existência nem exagerar a significação, por
toda parte o mal permanece estacionado ou continua seus progressos funestos.

Nenhuma das nações separadas da Igreja, pelo cisma ou pela heresia, deu, como nação, um passo para retornar ao
aprisco.

Mesmo no seio dos países ainda católicos, à quem cabe a seara das almas? Na França, na Itália, na Bélgica, na
Espanha, quais jornais sustentam o dado da conservação?

Falam de um movimento religioso: mas qual é? Individual ou social? As conversões salvam os indivíduos, somente o
retorno aos princípios pode salvar as nações. Ora, qual lugar retomou, nas constituições e nas cátedras modernas, os
princípios sociais do cristianismo? O amor, a indiferença, o temor ou o ódio, qual desses sentimentos domina nossa
época em relação à Igreja, esta grande monarquia das inteligências, estabelecida no mundo moral para aí manter a
harmonia, como o sol a mantém no mundo planetário? O que aconteceu com sua independência territorial, a
submissão aos seus preceitos, a inteira liberdade de sua ação?

Falam de crimes de outrora: onde estão as iniquidades privadas e públicas cometidas por nossos pais e que não
cometemos mais, que cometemos com menos frequência, com características menos odiosas, ou que expiamos pelo
remorso mais sincero e pelas reparações mais brilhantes? Que dizem a cada ano as estatísticas da justiça criminal?

O naturalismo, em religião, a centralização, em política, o enfraquecimento do sentido moral, o desprezo da


autoridade, independente de qual seja seu nome, o império tenebroso das sociedades secretas, o reino visível do
sensualismo, esses grandes sintomas de decadência, desconhecidos outrora, são fatos que afetam todos os olhares,
e pelos quais não há compensação.

Para resumir: a emancipação progressiva da Europa da tutela do catolicismo, sua saída da ordem divina e a
substituição, em todas as coisas, da soberania de Deus à soberania do homem: eis o caráter distintivo da época
moderna; eis o que chamamos a Revolução(2), eis o mal!

Do resto, observemos bem: a comparação que precede não tem por finalidade nem denegrir a época atual nem de
lançar o desencorajamento nas almas. Ainda há bons elementos, sobretudo na França; a seiva da fé, que opera pela
caridade, ainda circula ativa e abundante nas veias de numerosos cristãos, sempre fiéis à verdade, ou felizmente
despojados de seus erros; enfim, a mão materna da Providência permanece visivelmente estendida sobre a Europa
ocidental.
Confrontar, em estado de vigilância, os enganadores, despertar o zelo de todos, assinalando a grandeza do mal e
iminência do perigo, tal é o fim desse esboço.

E agora, esse mal que nos envolve e nos penetra de todos os lados, esse mal que todos veem com seus próprios
olhos e tocam com suas mãos, que faz alguns gritarem de alegria, e outros de assombro, esse mal que coloca a
ordem social em ruína e suspende o mundo sobre um abismo, de onde ele vem?

Após o pecado original, uns o veem, principalmente: na Revolução francesa e na liberdade de expressão que dela
saiu; outros, no Voltairianismo ou na filosofia do século XVIII; aqueles, no Cesarismo ou na política pagã, estes, no
Protestantismo; alguns, no Racionalismo; vários no Renascimento.

Assim, as causas próximas e geralmente reconhecidas do mal seriam:


 A Revolução francesa;
 O Voltairianismo;
 O Cesarismo;
 O Protestantismo;
 O Racionalismo.

Não se pode negar que haveria de tudo isso na doença social. Mas todas essas causas são realmente causas e causas
isoladas, independentes umas das outras, e não os efeitos sucessivos de uma causa primeira, as evoluções diferentes
de um mesmo princípio? Para conhecê-lo, e importa soberanamente não ignorá-lo, é preciso, com a história à mão,
desenvolver a genealogia de cada uma. Se o resultado invariável deste estudo é de mostrar, em todos esses fatos, o
mesmo princípio gerador, em todas essas causas uma raiz comum da qual todas saíram, será necessário,
certamente, reconhecer por causa principal e próxima do mal atual, esse princípio do qual tudo o que vemos é a
consequência.

Importa soberanamente, dizemos, de não ignorá-lo. Não foi em um dia que a sociedade chegou ao desfiladeiro
medonho no qual ela pode perecer. Somos filhos de nossos pais, carregamos o peso da herança deles. Antes de
tudo, é necessário conhecer bem o passado, que sozinho explica o presente. É necessário que saibamos sobre qual
encosta o mundo se abandonou, e rumo a qual topo ele deve retomar seu impulso. É dizer que a história
genealógica do mal atual é de uma importância capital.

Ignorá-lo, é nos expor a desencaminhar nossos golpes, a nos consumir batendo nos ramos e poupando a raiz, é
dividir nossas forças. Ora, na presença da medonha unidade do mal, dividir nossas forças é mais do que um perigo, é
uma falta; lutar isoladamente é se deixar abater, permanecer na defensiva, é apenas retardar a hora de perecer.

Se não nos protegermos, os elementos de regeneração que nos restam não irão se enfraquecer? Essa palavra fatal: é
muito tarde, que alguns já murmuram, não se tornaria o grito geral? O presente oferece apenas um ponto de apoio
cambaleante. Atrás de uma espessa cortina se esconde o futuro: o futuro, cheio de esperança para uns, de terror
para outros, de mistério para todos; para uns, saudado como o reino absoluto do bem, para outros, temido como o
reino absoluto do mal, para todos, esperado com ansiedade. Ora, o futuro será o que fizermos.

Nesta situação, qual partido tomar? Se lamentar? Isso seria infantilidade. Adormecer contando com o imprevisto?
Isso seria fatalismo. O que é preciso fazer então? É preciso combater.

Combater é, inicialmente, vencer a si mesmo, se despojar de todo pré-julgamento, a fim de procurar com sucesso a
verdadeira causa do mal. É, em seguida, atacá-la em conjunto e com vigor. Quaisquer que sejam os destinos do
mundo, esse trabalho corajoso não será infrutífero: ele contribuirá poderosamente para formar ou nobres
vencedores, ou nobres vítimas.

Vigiemos para não esquecer: a questão do mal não é uma questão especulativa ou puramente religiosa ou
indiferente para a maioria. Não há nada mais prático, nem mais grave nem que toque mais proximamente a todos os
tipos de interesse. Ela é verdadeiramente, e sob todos os pontos de vista, uma questão de vida ou de morte. As
torrentes ameaçadoras, que recentemente ameaçaram transbordar sobre a sociedade, continuam a bater na porta
de cada morada. Quem pode responder ainda pela solidez dos diques tantas vezes ameaçados que as detém? E se,
hoje, esses diques viessem a ceder, quem pode dizer que não seríamos levados, amanhã, em um cataclismo tal que
o mundo jamais viu?

A fim de concorrer, enquanto que nos cabe, à obra da salvação comum, iremos, começando pela Revolução
francesa, estudar sucessivamente, em sua origem, em suas características e em sua influência, cada uma das causas
do mal, indicadas mais acima.

Aqui, nem polêmica nem discussão, nem espírito de sistema nem partido tomado, mas fatos: fatos autênticos, fatos
relatados com imparcialidade, e dos quais deixaremos a outrem o cuidado de apreciar o significado e de extrair as
consequências. Simples narrador, daremos constantemente a palavra à história. Sua autoridade e não a nossa deve
servir de base ao julgamento do leitor.

A única coisa que pedimos, é que se abstenham de se pronunciar antes de terem lido.

Paris, festa de São José, 1856.

Monsenhor Gaume. La Révolution, recherches historiques. Révolution française. Lille, 1877, p.9-15.

(1) Consid. sobre a França; Do Papa, t. II, p. 271.


(2) Trata-se aqui da Revolução em geral, e não da Revolução francesa de 1789, que caracterizaremos mais tarde.

http://catolicosribeiraoarteehistoria.blogspot.com.br/2012/10/a-revolucao-i-parte.html

A Revolução - Capítulo II - I Parte


A Revolução Francesa

O ódio contra toda ordem religiosa e social não estabelecida pelo homem e sobre a qual ele não exerce uma
soberania absoluta; a proclamação dos direitos do homem em todas as coisas, contra os direitos de Deus; a
fundação de uma nova ordem religiosa e social fabricada pelo homem, governada por ele, independente das
vontades de Deus, em uma palavra, a apoteoso do homem: eis, assim, o que temos mostrado, a Revolução em sua
essência, a Revolução propriamente dita, a Revolução que ameaça atualmente a Europa inteira, e da qual todos os
tipos de agitação serão apenas sua representação.

Mas esta potência tenebrosa, de onde ela vem? Assim como dissemos, alguns lhe atribuem como causa principal a
Revolução francesa de 1789. Eles estabelecem essa genealogia mostrando, na Revolução de 1789, o ódio e a
destruição da ordem religiosa e social estabelecida em benefício do nivelamento universal[1]; a reconstrução de
uma ordem religiosa e social fabricada pelo homem e governada por ele e para ele; em uma palavra, eles mostram
claramente, na Revolução francesa, o homem substituindo, em todas as coisas, as leis eternas por suas vontades
arbitrárias, e operando sua apoteose religiosa e social.

A não ser com o intuito de negar a história, nada de tudo isso pode ser contestado. Mas, por sua vez, a Revolução
francesa de 1789 não nasceu em uma noite, como um champignon sob uma árvore. Ela tem suas raízes no passado:
quais são essas raízes? Ela é a representação de certos princípios, de certas ideias: quais são esses princípios e essas
ideias? De onde eles vieram?

Seja considerando a Revolução francesa como um simples fato, seja considerando como o fato gerador da grande
Revolução que nos ameaça, importa soberanamente, na Europa, saber de onde ela saiu.
Considerada simplesmente como um fato, a Revolução de 1789 é inquestionavelmente o acontecimento capital da
história moderna. Ela não imprimiu somente na Europa um tremor que ainda dura: ela cortou a vida da Europa em
duas. A Revolução pôs fim à ordem social européia cuja origem se perdia na noite dos séculos. Do meio das ruínas do
passado, ela fez surgir uma ordem nova. Ela proclamou princípios religiosos, filosóficos e políticos; ela inaugurou
vestimentas, costumes, uma língua desconhecida dos povos cristãos. A maior parte de suas máximas entrou nos
espíritos e rege a opinião. Ela fez mais, ela se traduziu em instituições e em leis que formam a grande base do direito
público europeu.

Se ela deixou de existir como fato material, se mesmo ela foi modificada em vários de seus atos, a Revolução em seu
espírito ainda vive. Este espírito poderoso continua a soprar sobre a Europa. Ele inspira todas as revoluções que
vemos, há sessenta anos, eclodir ao nosso redor. Todas reconhecem a Revolução francesa como sua mãe: Magnae
matri grata filia[2]. Suas teorias são as teorias delas; suas promessas, as promessas delas; seus grandes homens, os
grandes homens delas; seus inimigos, os inimigos delas; sua maneira de proceder, seus atos e sua linguagem,
continuam como modelo obrigatório da maneira de proceder, dos atos e da linguagem delas.

Da mesma forma, quando se quer olhar mais proximamente, vê-se que é a Revolução francesa, ou seja, seus
princípios e suas ideias, que mantém a Europa dividida em dois campos; que, sob um nome ou outro, ela está na
base de todas as nossas lutas filosóficas, políticas, literárias ou militares: alguns querem seu triunfo a todo custo,
pois eles lhe agradecem as liberdades, o progresso e as luzes das quais eles gozam; outros combatem com energia,
pois eles lhe imputam as calamidades do presente e os terrores do futuro.

Ora, esta Revolução, objeto de amor para uns, de ódio para outros, de quem ela é filha? Amigos e inimigos
compreendem completamente a importância desta questão fundamental. Daí, uma multidão de obras publicadas há
sessenta anos sobre as causas da Revolução francesa. A divergência extrema de opiniões que encontramos sobre
esse assunto é uma prova de que se quer estabelecer a genealogia da Revolução muito mais pelo raciocínio do que
pela história; por deduções lógicas do que por fatos. Assim, uns a atribuem ao voltairianismo e à filosofia do século
dezoito, o que outros negam formalmente; estes a remontam até Luís XI, alguns ao protestantismo, e a opinião
destes é longamente combatida por outros escritores.

Há mesmo alguns que, tomando pretextos por causas, atribuem seriamente a Revolução de 1789 a um déficit nas
finanças e em certos abusos do antigo regime. É assim que ofereceram como causa da Revolução de 1830, os
decretos de Carlos X, e à Revolução de 1848, a reforma eleitoral. Todos sabem hoje que essas pretendidas causas
foram apenas pretextos, palavras de concentração, ou, como quiserem, o peso que fez pender a balança; contudo,
ninguém vê aí a causa desses grandes acontecimentos.

Para estabelecer com certeza a genealogia da Revolução, há um passo mais simples e mais seguro.

Constatar a genealogia de um fato, assim como constatamos a genealogia de um homem. Para constatar a
genealogia de um homem, dois meios são empregados: falamos com testemunhas competentes; e verificamos seus
testemunhos, interrogando o próprio individuo, em suas palavras e em seus atos. Tal é o passo que seguimos para
constatar a genealogia da Revolução francesa. Testemunhas serão ouvidas; suas disposições serão verificadas pela
Revolução, à quem daremos a palavra para testemunhar sobre si mesma.

Ora, há mais de sessenta anos, uma multidão de testemunhas que assistiram o nascimento da Revolução, dos quais
alguns aclamaram a recém chegada, e outros a maldisseram, e que todos procuraram com cuidado seus títulos
genealógicos, a apresentam com uma voz unânime, dizendo:

continua...

[1] "São os sistemas da santa igualdade que tem arruinado a França, concluía Dubois-Crancé." Monit. 16 flor. an. III.
[2] Divisa que a Revolução romana, que se proclamava a filha da Revolução francesa, escrevia sobre seus diáfanos.
A Revolução - Introdução
A Revolução - Capítulo I

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A Revolução - Capítulo III

Mal a Revolução viu a luz, e o corpo docente se apressou em reconhecê-la como sua filha e a reivindicar
publicamente as honras da paternidade. Em 8 de janeiro de 1790, o reitor da Universidade de Paris, o padre
Dumonchel, liderando todos os professores, se apresenta na barra da Assembleia nacional e pronuncia esse
discurso, que é preciso reler duas vezes:

"É em nosso seio que tivestes os mais sinceros e os mais zelosos admiradores. Interrogando noite e dia as sombras
de todos estes grandes homens que imortalizaram as repúblicas da Grécia e da Itália, encontramos nos monumentos
de Atenas e de Roma esses sentimentos generosos de liberdade e de patriotismo, dos quais suas cinzas ainda estão
abrasadas.

Depositários do fogo sagrado, nós não temos de nos reprovar de tê-lo deixado extinguir entre nossas mãos. Mas
nossa educação era uma contradição com nossos costumes e nossos usos. Falávamos de pátrias e de liberdade, e
não percebíamos ao nosso redor nem liberdade nem pátria.

Os tempos mudaram. Não riremos mais de compaixão dessas velhas virtudes dos gregos e dos romanos. A
Assembleia nacional fez reviver em seu seio o espírito dos grandes homens da antiguidade; ela transportou as
virtudes de Roma e de Esparta a um reino onde, antes dela, encontrávamos somente tiranos e escravos[1]."

Torrentes de aplausos interromperam várias vezes esse discurso, do qual a Assembleia inteira pediu a impressão.

Graças aos estudos colegiais, não somente os alunos estão prontos para a Revolução, mas os próprios mestres a
abraçam como uma velha conhecida, e se encontram aí como em seu elemento. Para falar apenas dos padres,
testemunhamos entre outros: os padres Poultier, Dumonchel, Grégoire, Schneider, Daunou, Chabot, Bernard, Auger,
Dotteville - que, querendo viver com os antigos, terminam na política de Brutus e na religião de Sócrates.
Em seu panegírico do padre Auger, um revolucionários famoso, Hérault de Séchelles, se expressa assim:

"O padre Auger colocou, durante dez anos, toda sua alegria em Demóstenes. Ele estudou em todos seus recônditos
as constituições dos gregos, seus governos, suas leis, seus usos, seus costumes. A própria geografia de Ática, suas
aldeias e até seus riachos se embelezavam, aos seus olhos, de uma importância antiga e quase religiosa. Graças ao
cuidado do padre Auger, o príncipe da eloquência antiga reconquistou seu domínio em todo o império literário.

Representante de Demósteles, ele sentiu que toda a eloquência grega e romana tinha direito de esperar de si os
mesmos serviços. Alguns anos passados, e de repente eu o vejo reaparecer na liderança de um novo cortejo de
ilustres mortos: Sócrates, Lísias, Licurgo, Iseu, Andócido e Dinarco, Gorgias e Alcidamas, Cícero, enfim, cuja imensa
glória impede o elogio, e que custou trinta anos de estudo e de respeito ao abbé Auger.

... Um dia, sobre as margens do Sena, a caminhada nos conduzia sobre o topo de uma colina, onde vivia sozinho um
velho eremita ignorado por toda a natureza. O abbé Auger o aborda, lhe tira seu chapéu, depois, o olhando
fixamente: "Conheces Cícero? perguntou-lhe ele - Não, respondeu o solitário. - Pobre homem!" exclamou o abbé
Auger, e imediatamente ele lhe deu as costas[2]...

A Revolução encontrou o abbé Auger no meio das repúblicas da Grécia, e esta alma tão plena da dignidade do
homem e do direito eterno que consagra sua igualdade, não precisou de nenhum esforço para se entregar
sinceramente em sua pátria à esses mesmos prazeres que sua imaginação tinha tão frequentemente saboreado na
história. Muito feliz de poder dirigir às assembleias de franceses a língua dos romanos e também esses períodos em
que os gregos tinham entregado as fórmulas da liberdade, nós o vimos publicar uma sequência de discursos onde
respira o amor por nossas novas leis, e, dirigindo, ademais, toda sua erudição rumo nossa felicidade, traçar a história
da constituição romana, para depositá-la em sequência junto do berço da constituição francesa.

Infelizmente! essa foi tua última obra! homem da natureza! amigo das musas!... Que os deuses concedam às tuas
cinzas uma terra mais leve, flores e uma primavera eterna em torno de tua urna, e, embora tua sombra, errante no
Eliseu, conversa, sem dúvida, com as sombras de Lísias, de Esquino, de Isócrates, colocaremos tua imagem entre
Demóstenes, do qual reproduzistes a glória, e Sócrates, ao qual a natureza te tinha feito parecer pelos traços do
rosto, como por algumas relações intimas de uma sabedoria superior[3]."

Os detalhes seguintes terminarão de apresentar o abbé Auger, assim como a influência da antiguidade clássica sobre
ele mesmo e sobre a juventude revolucionária, da qual ele foi um dos principais instituidores. Professor de
eloquência no colégio de letras de Paris, o abbé Auger estava de tal modo apaixonado pelos autores pagãos, que o
bispo de Lescar, do qual ele era vigário-mor, chamava ordinariamente seu vigário geral in partibus Atheniensium.

"Acostumado a viver com os antigos, ele tinha tirado em suas leituras esse orgulho, este amor pela liberdade e pela
coisa pública, todas essas virtudes que, na vileza em que nos mantinha um governo corruptor, acreditávamos
inimitáveis ainda há apenas três anos. Que contraste entre os exemplos que um filho admirava em seus autores
clássicos, e os discursos que ele ouvia, e os homens que ele encontrava na sociedade ao sair do colégio! Havia algo a
agitar sua cabeça juvenil, e lhe dar uma ideia bem apreciada de seus contemporâneos.

Nos primórdios da Revolução, uma jovem duquesa dizia diante de seu filho, de nove a dez anos: "Fizemos as
palavras novas de liberdade e de pátria para enganar o povo". "Se enganastes, mamãe, replicou o filho com
vivacidade, essas palavras aí eram muito familiares aos antigos; eles também eram homens diferentes de nós". O
preceptor pagão foi despedido oito dias depois.

O abbé Auger escreveu também sobre vários pontos políticos, e sempre nos princípios que alimentavam nele a
leitura de seus queridos anciões. Sua Constituição romana e seu Tratado da Tragédia grega foram suas últimas obras
literárias, mas não seus últimos trabalhos[4]."

Penetrado pelo espírito de elevação e de liberdade que se respira entre os gregos e entre os romanos, ninguém
empregou mais vivacidade e perseverança que ele em sustentar os princípios cismáticos da constituição civil do
clero, pela qual ele combateu até a morte.

Por sua vez, um confrade de Dumonchel e de Auger, o padre Grégoire, escreve: "O gênio virtuoso é o pai da
liberdade e das revoluções. Aristogíton e Brutus não foram mais úteis à nossa, por seu exemplo, que Demóstenes e
Cícero por suas obras. Sem os esforços da república das letras, a república francesa estaria ainda à nascer[5]."

Em seu entusiamo reconhecido pela bela antiguidade, o tribuno impetuoso acrescenta: "Reimprimimos todos os
bons autores gregos e latinos com as variantes e a tradução francesa ao lado... Ademais, se nossos exércitos
penetram na Itália, o rapto de Apollon do Belverede e de Hércules Farnèse seria a conquista mais brilhante. Foi a
Grécia que ornou Roma; mas as obras das repúblicas gregas devem ornar o país dos escravos? A república francesa
deve ser sua última morada. Philippe de Macedônia dizia: "Eu conseguirei logo dominar tanto a belicosa Esparta
quanto a sábia Atenas." Reunamos, portanto, a coragem de Esparta e o gênio de Atenas. Que da França vejamos
evadir-se sem cessar torrentes de luz para iluminar todos os povos e queimar todos os tronos[6]!"

Onde o padre Grégoire aprendeu esta língua estranha? Foi junto de sua mãe? Onde ele tirou essas ideias ainda mais
estranhas? Foi no grande seminário? Não; entre sua infância e sua vida pública, ele passou oito anos na escola dos
gregos e dos romanos, tomando a língua e as ideias deles. Ora, essa linguagem e essas ideias, que não são nem de
um cristão nem de um francês, são a linguagem e as ideias da própria Revolução.

"Foi o colégio, diz um testemunho não suspeito, que produziu a Revolução com todos os males dos quais ela é a
fonte. Nossa educação pública altera o caráter nacional. Ela deprava os jovens, ensinando-lhes a sempre falar e a
jamais agir, a ver os belos discursos honrados e as belas ações sem recompensa. Ela enche seu espírito de
contradições, insinuando, segundo os autores que explicamos, máximas republicanas, ambiciosas e
desnaturalizadas. Tornam-se os homens cristãos pelo catecismo, pagãos pelos versos de Virgílio, gregos ou romanos,
pelo estudo de Demóstenes ou de Cícero, jamais franceses.

O efeito desta educação tão vã, tão contraditória, tão atroz, é de torná-los, por todas suas vidas, indiscretos, cruéis,
enganadores, hipócritas, sem princípios, intolerantes... Eles tem levado do colégio apenas o desejo de ocupar o
primeiro lugar entrando na sociedade... Vendo que os estudos não podem lhes servir de nada para alcançar isso, a
maioria termina por uma ambição negativa, que busca abater tudo o que se eleva para se colocar em seu lugar: é o
espírito do século. Assim, todos os males saem do colégio[7]."

Nós vemos, amigos e inimigos, os testemunhos são unânimes em apresentar que a Revolução é filha da educação
colegial.

Em seu relatório oficial sobre a instrução pública, o oratoriano Daunou reconhecia que em 1789 a educação, viciada
sob seu ponto de vista, tem, além do mais, levado em seus flancos a gloriosa Revolução que renova na liberdade o
povo francês e que deve regenerar o mundo.

"Aí, diz ele, os pensamentos dos grandes homens eram constituídos por outros grandes homens. A eloquência e a
filosofia se uniam para lançar, algumas vezes, aos pés dos tronos aterrorizados, longos sulcos de luz através da noite
antiga dos preconceitos e dos erros. Ai se formava um tipo de opinião pública que se acostumava a murmurar em
torno dos governantes[8]."

Ele acrescenta que a instrução clássica conduzia à admiração dos filósofos que se comentavam, e, especialmente, do
precursor da Revolução, "este imortal autor de Émile, lançado por engano em nossos tempos modernos e entre
multidões de escravos, como o representante da antiguidade e da liberdade.

"Em consequência, continua em termos mais explícitos, o revolucionário Briot, sobre os bancos do colégio
obedecíamos aos tiranos, mas admirávamos em segredo Brutus e Chéréas[9]." Podemos dizer mais claramente que
é aos estudos clássicos que toda esta geração devia seu ódio aos tiranos e sua admiração pelos regicídios?

De seu lado, o literato Dupuy, morto em 1795, dizia em seus últimos momentos: "Eu era republicano antes da
Revolução em consequência dos meus estudos; eu morro republicano, contente e glorioso: o reino da justiça e da
paz chegou."

Para louvar dignamente o defunto, manifestando seus sentimentos pessoais, outro letrado, o sr. de Sacy, lhe fez o
seguinte epitáfio:
Das obras primas de Atenas ele enriqueceu a França. E das virtudes de Esparta ele encheu seu coração!

No mesmo sentido fala Boissy d'Anglas.

"Foi, diz ele, em 1786, alguns instantes antes do fim do antigo regime, que homens então consideráveis organizaram
o Liceu. As lições que aí eles ofereciam, sobretudo aquelas que tinham por objeto a história e a literatura, não
tardaram em incomodar aos déspotas. Foi aí que Garat, retraçando a história das repúblicas antigas, afeiçoava
nossas almas na energia republicana. Séguier preparou requisitórios, mas a opinião pública defendeu o Liceu. Sentiu-
se desde então a necessidade de respeitá-la, e não se ousou atingir um estabelecimento no qual o público se
conduzia em multidão[10]."

A Boissy d'Anglais sucede outro filho da Revolução, Dupuis, que traçou assim a genealogia de sua mãe:

"A Convenção nacional, cujo nome será imortal nos anais do mundo, qualquer que deva ser o resultado de seus
esforços árduos para regenerar um povo degradado por uma longa servidão, e para mostrar, enfim, ao resto do
universo subjugado uma sociedade de homens libertos da tirania dos reis, dos nobres, dos padres, concebeu o
projeto mais ousado que jamais pôde ser formado, aquele de fundar uma vasta república sobre os despojos de uma
monarquia corrompida...

Esta obra é mais do que aquela da educação, aquela das leis. A educação antiga tinha grandes defeitos, mas,
imperfeita como era, é ela, enfim, que formou os homens que conduziram a Revolução. É-lhes necessária uma
educação nacional e republicana: não podeis mais diferir sem comprometer a salvação da república; que deve se
apoiar sobre esta base[11].

Os colégios, continua Fourcroy, foram o berço da Revolução. Para desenvolvê-la e mantê-la, precisamos de uma
educação completamente republicana. Os últimos clamores da ignorância, dos preconceitos, do fanatismo vão ser
asfixiados pela sabedoria e a grandeza das instituições republicanas... 90 novas escolas parecem sair de repente do
nada... No lugar de alguns traços da história grega e romana, que só ofereciam outrora uma ideia confusa desses
dois povos famosos e que semeavam em nossos jovens espíritos alguns germes de republicanismo, que o
despotismo monarquista e os hábitos deviam logo asfixiar ou comprimir, ofereceremos aos jovens republicanos a
série não interrompida da história dos homens ilustres, desde os tempos fabulosos até as épocas modernas[12]."

Mães e amas de leite da Revolução, tais são também os nomes que a compilação literária mais considerável do fim
do último século dá aos estudos colegiais, e a homenagem que ela lhe faz.

"Era, diz a Década filosófica, uma contradição muito bizarra de nossa educação sob o antigo regime; colocavam-nos
nas mãos, quando éramos crianças, dos livros feitos para inspirar o amor da pátria, a grandeza da alma, o
desinteresse, todas as virtudes. Nossos jovens corações palpitavam com esses traços do heroísmo dos Aristides, dos
Epaminondas, dos Catãos, dos Brutus, etc.. Mas, mal saíamos do colégio, e era preciso esquecer, com dificuldades,
esses sublimes exemplos. Não encontrávamos em nenhuma parte a realidade desses magníficos quadros: nada de
liberdade, nada de pátria.

É agora que pode haver um feliz acordo entre nossas luzes e nossos costumes, entre nossas leituras e nossa conduta.
Quereis gerar republicanos? Que nossos jovens leiam Tito-Lívio, Salústio, Tácito, Plutarco, etc.[13]."

"Meus caros irmãos, acrescenta Camille Desmoulins, porque vocês leem Cícero, eu respondo-lhes: sereis livres[14]."

"Com o Renascimento, escreve outra testemunha, o espírito republicano da antiguidade reapareceu na Europa: A
democracia saiu dos colégios. Desde o século quinze, a instrução científica tem tido apenas duas fontes, a Grécia e
Roma, países republicanos por excelência, terra natal do regicídio[15]."

Após ter solicitado, como o último progresso da razão, que a educação fosse ateia, Condorcet quer, para perpetuar a
Revolução, que as Vidas de Plutarco tornem-se o livro clássico por excelência; ele quer que se reabilite aos olhos da
juventude os Gracos, os Drusos, "todos esses antigos tribunos votados em certos livros à execração dos séculos, e
que quase sempre sustentaram a causa da justiça"; além disso, honrando o Renascimento e os estudos colegiais (...)
ele diz:

"No princípio do século quinze, a Europa inteira, mergulhada na ignorância, gemia sob o julgo da aristocracia
nobiliária e da tirania sacerdotal; contudo, desde esta época, os progressos rumo à liberdade seguiram, em cada
nação, (...) com esta constância que anuncia entre dois fatos uma ligação necessária, fundamentada sobre as leis
eternas da natureza[16]."

Eis um depoimento de outro modo muito significativo, o depoimento de Danton. Do alto da tribuna da Convenção,
no meio das ruínas da ordem religiosa e social o gigante revolucionário dirige às congregações educacionais este
elogio que faz corar e tremer:

"É aos monges, exclama ele, esta espécie miserável, é ao século de Luís XIV, que devemos o século da verdadeira
filosofia. É a eles que devemos esses impulsos sublimes que despertam a admiração. A república estava nos espíritos
vinte anos, pelo menos, antes de sua proclamação. Cornélio tinha falado em Romano, e aquele que tinha dito: Para
ser mais que um rei, você se acredita qualquer coisa; era um verdadeiro republicano[17]."

Salvo engano, esse precioso testemunho diz claramente: "Desde a Renascença, mesmo nas congregações religiosas
docentes, a educação clássica é uma balança. Carregue um dos pratos da balança com pesos da admiração mais
considerável possível pelos autores pagãos, pelos homens, as máximas e as instituições da antiguidade. Como
contra-peso, coloque no outro prato um pouco de instrução cristã e alguns exercícios religiosos; e se encante de ter
estabelecido nas almas o equilíbrio e mesmo a preponderância do cristianismo! A experiência de 1793 prova toda a
ilusão de um sistema semelhante."

O bispo da Revolução, Talleyrand, fala como Danton:

"Nas escolas antigas, diz ele, onde tantos interesses se reuniam para enganar, para degradar a espécie humana, se
encontrava, portanto, homens cujas lições corajosas pareciam pertencer aos mais belos dias da liberdade, e que
prepararam, sem o conhecimento do despotismo, a Revolução que acaba de se concluir[18]."

Após Talleyrand escutemos Chateaubriand. Padres e leigos, nobres e plebeus, democratas e monarquistas, todos
devem depor, a fim de tornar incontestável a genealogia da Revolução. Em seu ensaio sobre as Revoluções,
publicado na Inglaterra no mesmo instante em que a monarquia francesa era presa, Chateaubriand proclama
altivamente que a Revolução tinha saído dos colégios, que ela era apenas a aplicação dos estudos clássicos; que as
instituições de Esparta e de Atenas eram o seu ideal, Licurgo, o legislador, e os jacobinos, os únicos revolucionários
sérios, verdadeiros espartanos, nem mais nem menos. O testemunho do ilustre escritor tem, ademais, maior peso,
visto que ele compartilhava então, graças a sua educação, mais de uma ideia revolucionária.

"Nossa Revolução, diz ele, foi gerada em parte[19] por pessoas letradas que, mais habitantes de Roma e de Atenas
do que de seus países, procuraram reconduzir na Europa os costumes antigos... As escolas públicas eram fontes
onde dávamos de beber, à juventude, o fel e o ódio contra todos os demais governos... É no momento em que o
corpo político, todo maculado pelas manchas da corrupção, caia em uma dissolução geral, que uma raça de homens,
se levantando imediatamente, entra em sua vertigem para soar a hora de Esparta e de Atenas.

Os jacobinos tinham percebido que o vício radical existia nos costumes, na desigualdade das fortunas e em mil
outros obstáculos. Onde encontrar o talismã para fazer desaparecer tantas dificuldades? Quais costumes
substituirão aos antigos? O plano estava, portanto, traçado há muito tempo; bastava aos jacobinos somente segui-
lo...

Rarefeitos no fogo do entusiamo republicano, eles empregaram uma energia da qual jamais houve igual, e
contravenções que todos aqueles da história postos juntos poderiam dificilmente igualar. Os guardas nacionais
subornados, agentes colocados em seus postos em todos os cantos da república, a palavra comunicada às
sociedades afiliadas, os monstros, tapando os ouvidos, deram o sinal horrível que deveria tornar a chamar Esparta
de suas ruínas. Ele ecoou na França como o grito do anjo exterminador: os monumentos dos homens desabaram, e
as tumbas abriram-se[20].

Tais foram os jacobinos. Muitos falaram deles, e poucas pessoas os conheceram. A maioria publica os crimes desta
sociedade, sem nos ensinar o princípio geral que dirigia suas intenções. Ele consistia, esse princípio, no sistema de
perfeição, rumo ao qual o primeiro passo a dar era a restauração das leis de Licurgo[21]."

Chateaubriand mostra, com efeito, que todas as medidas ordenadas pelos jacobinos se espelham nas repúblicas da
Grécia.
"Havia em Atenas três facções: a Montanha, composta, assim como o famoso partido do mesmo nome na França,
dos cidadãos mais pobres da República, que queriam uma democracia pura. A Planície reunia os ricos detentores das
terras, que pediam uma constituição oligarca. Enfim, a terceira, chamada a Costa, se compunha dos negociantes do
Ático. Igualmente aterrorizados com a liberdade excessiva dos pobres e da tirania dos grandes, eles solicitavam um
governo misto: eram os moderados[22]. Vemos aqui a fonte donde os franceses tiraram os nomes dos partidos que
os dividiram.

A agitação total que os franceses e, sobretudo, os jacobinos, quiseram operar nos costumes de sua nação
assassinando os proprietários, transportando as fortunas, mudando os trajes, os usos e o próprio Deus, foi apenas
uma imitação do que Licurgo fez em sua pátria. Ele instituiu as refeições públicas (...), baniu o ouro e as ciências,
ordenou requisições de homens e de propriedades, fez a partilha das terras, estabeleceu a comunidade das crianças
e quase a das mulheres[23]. Os jacobinhos o seguiram passo a passo nessas reformas violentas, pretendendo, por
sua vez, aniquilar o comércio, extirpar as letras, ter ginásios, (...) refeições cívicas, clubes; eles quiseram forçar a
virgem ou a noiva a receber, apesar de sua vontade, um esposo; eles utilizam, sobretudo, as requisições, e se
preparavam para promulgar as leis agrárias[24].

Parece, acrescenta Chateaubriand, que este homem extraordinário, Licurgo, não tinha ignorado nada do que pode
tocar os homens, que ele tenha abraçado ao mesmo tempo todos os tipos de instituições mais capazes de agir sobre
o coração humano, de elevar seu gênio, de desenvolver as faculdades de suas almas. Mas estudamos as leis de
Licurgo, mais estamos convencidos que depois dele não encontramos nada de novo na política[25]."

Nem mesmo o Evangelho! Eis, todavia, os axiomas que eles admitiam, que proclamavam no momento da Revolução!
Se a educação tinha alterado a esse ponto um espírito da elite como Chateaubriand, qual efeito ela deve ter
produzido sobre a multidão das almas comuns?

O que segue não é menos significativo. Para o jovem Chateaubriand, tudo o que não é pagão é bárbaro, a Igreja é
inimiga das ciências, e é ao Renascimento do paganismo que a Europa cristã é agradecida de sua civilização e de suas
luzes... Outros preconceitos da educação colegial dos quais o eloquente escritor deveria fazer mais tarde uma tão
eloquente justiça.

"Na Idade Média, diz ele, uma filosofia bárbara se estendeu sobre o Ocidente, ao mesmo tempo em que o ódio das
ciências reinava sobre aqueles que teriam podido protegê-las. Era assim que os imperadores faziam leis para banir
os matemáticos e os magos; que os papas incendiavam as bibliotecas de Roma... Contudo, Constantinopla acabava
de passar sob o julgo dos turcos, e o remanescente dos filósofos gregos fugitivos encontrou um asilo na Itália. As
letras começaram a renascer em todas as partes. Daí saíram Gassendi, o epicurista, Descartes, o pirrônico, Espinosa,
o ateu, Bayle, o cético, Locke e seu Ensaio, um dos mais belos monumentos do gênio do homem[26]."

Segue um ditirambo em honra dos filósofos gregos, educadores gloriosos da Europa moderna, de suas instituições
sociais e de seus principais intérpretes. Diante deles, Chateaubriand está em êxtase. No lugar de admirar os
Apóstolos ou alguns dos Padres da Igreja, ele escreve:

"Platão, Fenelon, J.J. Rousseau! Nós ofereceremos o belo grupo desses três gênios, que contem tudo o que há de
amável, na virtude, de grande, nos talentos, de sensível, no caráter dos homens. Em Platão a educação do cidadão
começa no nascimento. Levado em um lugar comum ele espera que um fato desconhecido venha satisfazer suas
necessidades. Mal adolescente, o ginásio ocupa seus instantes... Se entre essas crianças comuns da pátria se
encontra um que, pela beleza de seus traços, os indícios de seu gênio denotam o grande homem futuro, o retiramos
da multidão. Um filósofo tira o véu do grande Ser... Ele viaja e torna-se um dos magistrados da pátria. Tal é o homem
político de Platão. O discípulo divino de Sócrates, no delírio de sua virtude, queria espiritualizar os homens
terrestres[27]...

A influência de Telêmaco foi considerável: ele contém todos os princípios do dia. Ele respira a liberdade, e a
Revolução também se encontra aí predita. Que o consideremos na época em que ele apareceu, e veremos que ele é
um dos primeiros escritos que mudaram o curso das ideias nacionais na França...

Émile está tão acima dos homens de seu século quanto há de diferença entre nós e os primeiros romanos. Que
quero dizer! Émile é o homem por excelência; pois ele é o homem da natureza; seu coração não conhece
preconceitos... Tal é a famosa obra que precipitou nossa Revolução... Talvez há no mundo apenas cinco obras para
ler: o Émile sendo uma delas[28]."

Que idéias! e que linguagem na boca do futuro autor do Gênio do cristianismo! Vendo o eclipse desta bela
inteligência, como não repetir as palavras de Santo Agostinho: "Rio maldito da educação pagã, até quando
continuará a lançar os filhos dos homens em tuas ondas infernais? Foi aí, ó meu Deus! que eu perdi a luz de meu
espírito e a inocência de meu coração[29]!"

Monsenhor Gaume. La Révolution, recherches historiques. Révolution française. Lille, 1877, p.23-33.

[1] Monit. 8 de janeiro de 1790.


[2] Pobre homem, com efeito, que só conhecia o Evangelho e a ciência dos santos! E é um padre que sustenta essa
linguagem!
[3] Disc. pronunciado na Academia das Nove-irmãs, em 20 de março de 1792.
[4] Monit. 12 de abril de 1792.
[5] Monit. nonidi 19 vend. an III.
[6] Monit. 14 fructid. an III.
[7] Bernardino de São Pedro, Obra post., p. 447, ed. 1840.
[8] Relatório sobre a inst. publ. 23 de out 1789.
[9] Disc pela festa do ... (sic).
[10] Relatório sobre o liceu. Nov de 1791.
[11] Relatório à Conv. 7 ventose an IV.
[12] Relatório sobre a colocação das escolas centrais. 13 de julho de 96.
[13] Década filos. t. I, p. 104.
[14] Revol., t. I, p. 164.
[15] Du régicide.
[16] Relatório sobre a instr. pública. Oeuvr., t. VIII, p. 348-349.
[17] Monit. 13 de agosto de 93.
[18] Relatório sobre a instr. 11 de setembro de 1791.
[19] É por distração que Chateaubriand faz esta restrição, pois todo seu livro prova que ele atribui completamente a
Revolução às inspirações do paganismo clássico.
[20] P.2, 52. 74, 75.
[21] P.86.
[22] ...; Arist., De rep., liv. II, c. XII; Plut. in Solon.
[23] Plut. in Lycurg.; Pausan., liv. III, c. IV; Isocrat. Panath., t. II; Xénoph., De rep., p. 681.
[24] P. 63.
[25] P. 67.
[26] P. 522.
[27] P. 534.
[28] P. 541-548-553. Seguimos a edição princeps de Londres, tornada muito rara; ela difere consideravelmente das
edições posteriores.
[29] Confiss. liv. I, c. IX.

A Revolução - Introdução
A Revolução - Capítulo I
A Revolução - Capítulo II - I Parte
A Revolução - Capítulo II - II Parte

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Basílica de São João de Latrão


Vinte minutos após a partida, entramos na grande praça que se estende desde o batistério de Constantino até à
porta de São João. Roma é, por excelência, a terra das emoções e das recordações. Ora, que multidão de lembranças
grandiosas surgem desses lugares atualmente pisoados por nossos pés! Que emoções grandiosas vem agitar a alma
até à sua última fibra! O horizonte alarga-se sem medida; todos os séculos repassam diante de nós com os maiores
dramas da história. Foi aqui que após trezentos anos de uma luta encarniçada, o mundo pagão curvou sua cabeça
soberba sob o jugo da cruz; é aqui que o primeiro dos Césares tornou-se filho da Igreja. Sucessores dos mestres do
mundo e líderes de um império mais extenso, foi aqui que habitaram durante onze séculos os vigários de Jesus
Cristo.

Aqui cada pontífice ainda vem tomar solenemente posse de sua formidável dignidade; aqui se celebraram trinta e
três concílios. Por consequência, estes lugares viram quase todas as glórias da Igreja, milhares de bispos, cardeais, de
doutores do Oriente e do Ocidente, acorridos de século em século para testemunharem a fé do mundo inteiro e
ministrarem essas grandes batalhas da verdade contra o erro, que, consolidando o Evangelho, salvaram a civilização.

Cheios desses pensamentos, passamos diante da porta do palácio pontifical, e achamo-nos diante da santíssima e
venerável basílica. Como a maioria dos grandes monumentos de Roma, a igreja de São João de Latrão tem o
privilégio de revelar os fatos da história profana e da história sagrada. Seu nome de Latrão recorda uma das mais
antigas e mais ilustres famílias romanas, a família Sextia. Segundo o costume, o sobrenome de Lateranus distinguia
seus membros dos outros descendentes do tronco comum: este nome foi gloriosamente usado nos tempos da
República, e, sob o império, a crueldade de Nero só elevou seu brilho pelo assassinato do cônsulPlantius Lateranus.
A riqueza também foi o apanágio desta família. Seu palácio hereditário, de uma magnificência real, ocupava o lugar
da igreja atual, e lhe deu seu nome. Tornando-se detentor desse monumento, Constantino o concedeu ao papa São
Silvestre, para aí edificar uma igreja ao Salvador. Ela foi consagrada no ano de 324.

Penetrado de gratidão para com o Deus ao qual ele devia a fé de cristão e o cetro do mundo, Constantino se aprouve
em ornar o novo templo com uma magnificência digna de um imperador romano. Daí vem à basílica o nome
de Basílica de ouro:nunca um nome foi tão bem justificado; e se julgará isso por alguns dos presentes do neófito
real. Uma estátua do Salvador sentado, de cinco pés de altura, em prata, do peso de 120 libras; os doze apóstolos,
de tamanho natural, em prata, com coroa da mais pura prata; cada estátua pesando 90 libras. Quatro anjos de prata,
de tamanho natural, tendo cada um uma cruz à mão; cada anjo pesando 105 libras. A cornija contínua, servindo de
pedestal para todas as estátuas, de prata esculpida, do peso de 2.025 libras. Uma alampada, do ouro mais puro,
suspensa na abóbada, pesando, com suas correntes, 25 libras. Sete altares de prata, cada um pesando 200 libras.
Sete patenas de ouro, cada uma do peso de 30 libras. Sete charamelas de ouro, pesando cada um 10 libras; outra
charamela de ouro, todo enriquecido de pedrarias, pesando 20 livras e 3 onças. Dois cálices do mais puro ouro,
pesando cada um 50 libras. Vinte cálices de prata, pesando cada um 10 libras. Quarenta cálices menores, do ouro
mais puro, cada um pesando 1 libra. Cinquenta cálices, para a distribuição do sangue precioso aos fiéis, pesando
cada um 2 libras.

Como ornamentos da basílica, um candelabro, do ouro mais puro, colocado diante do altar, onde queimava óleo de
nardo, ornado de oitenta golfinhos, pesando 30 libras, e sustentando outros tantos de velas compostas de nardo e
dos aromas mais preciosos; outro candelabro de prata com cento e vinte delfins, do peso de 50 libras, onde
queimavam os mesmos aromas. No coro, quarenta candelabros de prata, do peso de 30 libras, donde exalavam os
mesmos perfumes. Do lado direito da basílica, quarenta candelabros de prata, do peso de 20 libras, o mesmo do
lado esquerdo. Enfim, duas cassoulas em ouro fino, pesando 30 libras, com um dom anual de 150 libras dos
perfumes mais delicados para queimar diante do altar.

Ao recordar tanta magnificência, como cansar-se de admirar a fé do senhor do mundo, e seu reconhecimento, e sua
docilidade em tornar-se o instrumento da Providência, fazendo servir ao culto do verdadeiro Deus o ouro e a prata,
por tanto tempo prostituídos aos ídolos! Assim, graças ao cristianismo, tudo tornava a entrar na ordem, e
remontaria ao seu princípio, o homem, o mundo e as criaturas. O que se tornou a Basílica de ouro? O que ocorreu
com todas suas riquezas? Perguntem aos chefes bárbaros tão famosos na história, Alarico e Totila. Contudo, o
augusto edifício, várias vezes saído de suas ruínas, ainda existe. Seus tesouros desapareceram, mas seu principado
permanece. Sobre o frontispício lemos esta simples, mas sublime inscrição: Sacrosancta Lateranensis Ecclesia,
omnium urbis et orbis ecclesiarum mater et caput. "A santíssima igreja de Latrão, Mãe e Senhora de todas as igrejas
da cidade e do mundo".
Das três portas da basílica, duas enchem de espanto o viajante, uma por seu mistério, a outra por sua magnificência.
Aquela da direita, chamada Porta-Santa, está murada: e só é aberta pelo próprio São Pedro no ano jubilar. A do meio
é uma porta antiga, em bronze e quadriforme: é quase a única que existe. Entrando, ficamos logo maravilhados com
o simbolismo da grande nave. Acima das janelas, próximos do princípio da abóbada, estão pintados os Profetas.
Acima dos Profetas vemos, de um lado, as figuras do Antigo Testamento relativas ao Messias, do outro os, fatos do
Evangelho que são o cumprimento destas figuras: a figura e o figurado. Assim, sob os dois cruzamentos mais
próximos da abside aparecem:

De um lado Do outro lado

Adão e Eva expulsos do paraíso terrestre por Nosso Senhor sobre a árvore da cruz,
ter tocado na árvore proibida reabrindo o céu ao gênero humano

O Dilúvio O batismo de Nosso Senhor

O Sacrifício de Abraão Nosso Senhor subindo ao Calvário

José vendido por seus irmãos Nosso Senhor traído por Judas

Moisés libertando os israelitas do cativeiro do Nosso Senhor pregando nos limbos


Faraó

Jonas saindo da goela da baleia Nosso Senhor saindo da tumba

Por baixo de cada um destes baixos-relevos, tendes os doze Apóstolos de pé. As suas belas e grandes estatuas estão
em perfeita harmonia , seja com as pinturas superiores, seja com os nichos que as recebem. Os doze Pregadores do
Evangelho estão ali, como tendo iluminado com a sua palavra e os oráculos dos Profetas as sombras da aliança
figurativa. Mas o ensino apostólico não esclareceu somente o passado, lança o brilho da sua luz sobre o futuro; o
Evangelho ocupa o meio entre a sinagoga e o céu. Eis porque, atrás de cada Apóstolo, no fundo do nicho, está
pintada uma porta meia aberta; o Apostolo está no limiar, para dizer que depois da revelação cristã, de que ele é
órgão, não há mais que a Jerusalém eterna, cidade de luz, de doze portas de esmeralda. Finalmente, na base de cada
nicho, aparece uma pomba em relevo, com o ramo de oliveira no bico: tocante emblema do espírito do Evangelho.
Deste modo, nesta série admirável de pinturas e esculturas, aparece toda a Religião, na sua letra e no seu espirito,
desde a origem dos tempos até á eternidade; e tudo se resume no hino de Belém: Glória a Deus nas alturas dos céus
e paz aos homens de boa vontade.

Direi que felicidade foi a minha encontrando na senhora de todas as igrejas o plano completo do Catecismo de
perseverança! Entre as outras riquezas de S. João de Latrão, deve-se citar o túmulo de bronze do papa Martinho V,
grande pontífice grande entre os outros, pois que pôs fim ao cisma do Ocidente; de um lado do transepto, a
Capela de Santo André Corsini, uma das mais magnificas de Roma, que recorda ao mesmo tempo a piedade filial de
Clemente XII e as tocantes virtudes de seu ilustre avô. As duas colunas de pórfiro que acompanham o grande nicho,
à direita do Evangelho, ornavam outrora o pórtico do Panteão de Agrippa; do outro lado do transepto está a rica
capela do Santíssimo Sacramento... O majestoso pórtico da igreja oferece as suas vinte e quatro pilastras de
mármore, e a estatua colossal de Constantino, encontrada nas suas Termas; por último, a famosa porta de bronze da
Basílica AEmília, transportada para aqui por Alexandre VII.

Monseigneur Gaume. Les trois Rome, Tome I, Gaume Frères, Paris, 1856, p. 236-241.

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Da Revolução
Antes de falar da Revolução francesa, indicada em primeira linha como causa do mal atual, é necessário dizer o que
é a Revolução em geral. Isso é necessário, de um lado, a fim de bem conhecer a natureza desse poder tremendo que,
espiando a sociedade como o tigre expia sua presa, caminha para triturá-la sob seus dentes de ferro e para operar o
caos; do outro lado, a fim de saber com certeza qual é sua verdadeira origem e quais são os novos Palus
Maeoticas[1] de onde saíram as barbáries com as quais ela nos ameaça, de maneira a não nos enganarmos sobre os
meios de combatê-la e para medirmos nossos esforços em face da grandeza do perigo.

Hoje não há duas questões na Europa, há apenas uma: é a questão revolucionária. O futuro pertencerá, sim ou não,
à Revolução? Isso é tudo.

A Revolução! essa palavra vulgarizada é repetida simultaneamente em Paris, em Londres, em Berlim, Madri, Viena,
Nápoles, em Bruxelas, Fribourg, em Turim, em Roma, e, por toda parte, ecoa como o sussurro da tempestade.
Tirando aqueles que a gravaram sobre sua fronte como sinal de identificação, essa palavra faz instintivamente
tremer todo homem que, às lembranças do passado, une as previsões do futuro.

Esse instinto não é enganador: a Revolução não está nem morta nem convertida. Ela não está morta; milhares de
vozes proclamam sua existência: ela mesma a revela orgulhosamente diante de todas as cortes criminais
encarregadas de cunhar seus adeptos. Ela não se converteu: independente do que dizem dela, a Revolução é sempre
a mesma: a essência dos seres não muda. Em seu ódio sempre antigo e sempre novo, a Revolução ameaça
igualmente o trono dos reis e o limite dos campos, o tesouro do capitalista e a poupança do operário. Para ela nada
é sagrado: nem a ordem religiosa nem a ordem social; nem os direitos adquiridos, nem a consciência; nem a
liberdade, nem mesmo a vida. Ela odeia tudo o que não foi feito por ela, e tudo o que ela não produziu, ela destrói.
Dai-lhe hoje a vitória, e o que ela foi ontem, vereis que o será também amanhã.

Da mesma forma, o triunfo ou a derrota da Revolução é a questão íntima, que mantém todos os espíritos em
suspenso. Ela é considerada em todos os cálculos, ela pesa sobre todas as vidas. Enquanto que a Igreja reza para
impedir uma vitória justamente receosa, os governos têm um olho sempre aberto sobre a marcha da Revolução. No
mundo industrial e comercial não se vende mais, não se compra mais, não se forma mais especulações, mesmo que
insignificantes, sem olhar para o horizonte; e as chances favoráveis ou desfavoráveis para a Revolução tornam-se o
marco regulador da confiança, modificam as transações e são cotadas na Bolsa. Todos compreendem que a
Revolução triunfante ou vencida é a última palavra do duelo mortal que se desenrola sob nossos olhos, e que pode
acabar, pela vitória da Revolução, repentinamente.

Mas o que é a Revolução? Fazer uma questão semelhante é evidenciar sua importância.

Se, retirando a máscara da Revolução, lhe perguntardes: Quem és tu? Ela vos dirá:

"Eu não sou o que pensam de mim; Muitos falam de mim, mas poucos me conhecem. Eu não sou nem o
carbonarismo, que conspira na sombra, nem a rebelião que brame nas ruas, nem a mudança da monarquia em
república, nem a substituição de uma dinastia por outra, nem o desvio momentâneo da ordem pública. Não sou nem
os urros dos Jacobinos, nem os furores da Montanha, nem o combate das barricadas, nem a pilhagem, nem o
incêndio, nem a lei agrária, nem a guilhotina, nem os afogamentos. Eu não sou nem Marat, nem Robespierre, nem
Babeuf, nem Mazzini, nem Kossuth. Esses homens são meus filhos, mas eles não sou eu. Todas essas coisas são
minhas obras, mas elas não sou eu. Esses homens e essas coisas são fatos passageiros, e eu, eu sou um estado
permanente.
Eu sou o ódio contra toda ordem religiosa e social não estabelecida pelo homem e na qual ele não é rei e deus ao
mesmo tempo; eu sou a proclamação dos direitos do homem contra os direitos de Deus; eu sou a filosofia da
revolta, a política da revolta, a religião da revolta; eu sou a negação armada(2); eu sou a fundação do Estado
religioso e social sobre a vontade do homem, em lugar da vontade de Deus! Em uma palavra, eu sou a anarquia; pois
eu sou Deus destronado e o homem em seu lugar. Eis porque eu me chamo Revolução, ou seja, a desordem, pois eu
coloco em cima aquele que, segundo as leis eternas, deve estar em baixo, e em baixo aquele que deve estar em
cima."

Esta definição é precisa: a própria Revolução vai nos prová-la ao enumerar suas exigências. O que pediu e o que
ainda pede a Revolução?

A Revolução sempre pediu, ela ainda pede, a destruição da ordem social e religiosa existente. Ela a ataca
incessantemente, sobre todos os pontos e de mil maneiras: pela injúria, pela calúnia, pelo sarcasmo, pela violência;
ela a chama de escravidão, superstição, degradação. Ela quer destruí-la totalmente, a fim de refazer tudo.

A Revolução pede a soberania do homem, Rei, Senado, ou Povo, no intuito de estabelecer, seja o despotismo da
multidão, seja uma monarquia na qual o rei é escravo do parlamento, e o parlamento escravo da opinião, e a opinião
escrava de alguns homens.

A Revolução pede a liberdade, ou seja, o faça como quiser em todas as coisas, salvo, adiante, para não fazer nada
sem sua permissão: a fragmentação e a alienação ilimitadas da propriedade, a liberdade ilimitada da concorrência
operária, a liberdade ilimitada da palavra, dos cultos e do divórcio.

A Revolução pede a igualdade, ou seja, a abolição de todos os direitos adquiridos, de todas as hierarquias sociais, de
todas as autoridades estabelecidas, de todas as superioridades, em proveito do nivelamento completo.

A Revolução pede a separação da Igreja e do Estado, a fim de arruinar a influência social da primeira, despojá-la
impunemente, para absorver o poder espiritual, ou de Deus, pelo poder temporal, ou do homem, de modo a realizar
sua máxima favorita: a Igreja deve estar no Estado, e o padre na sacristia.

A Revolução pede o reconhecimento político e a proteção de todos os cultos, a fim de colocar no mesmo patamar o
erro e a verdade, de lhes tornar, aos olhos dos povos, o objeto de igual indiferença, de confundi-los em um desprezo
comum, e, assim, substituir a religião revelada de Deus pela religião natural, fabricada pelo homem, interpretada e
sancionada por ele.

A Revolução pede sem cessar Constituições, ou seja, o aniquilamento da constituição natural, histórica, tal como foi
formada e desenvolvida durante séculos, pelas tradições e costumes nacionais, a fim de substituí-la por uma nova
constituição, feita pela tinta de uma caneta, no intuito de abolir todos os direitos anteriores, exceto aqueles que
estão contidos nesta nova carta. Desde 1789, a França teve dezessete constituições e ainda não se contentou com
isso.

Tais são as principais demandas da Revolução. Há quatro séculos, seus organismos, em toda a Europa, não cessam
de renová-las, às vezes, uma a uma, às vezes, todas juntas, em algumas vezes de um modo imperioso,
frequentemente sob fórmulas chamadas governamentais.

Dizemos há quatro séculos. Hoje, com efeito, a Revolução, ou seja, a teoria pagã da soberania absoluta do homem, é
formulada entre as nações cristãs. Partindo do alto para baixo, ela nos apresenta três fases distintas. Da Renascença
até 1789, ela é real; em 1789 ela se torna burguesa; hoje ela se tornou popular.

Inspirados pelo espírito da antiguidade pagã, a maioria dos reis cristãos quis se fazer Césares; e a história no-los
mostra perseguindo durante três séculos, como última palavra de suas políticas, o enfraquecimento e a destruição
de todo poder capaz de contrabalancear seus poderes absolutos, ou de perturbar-lhes o exercício. Eles quiseram se
fazer Papas. Dai a opressão sistemática da Igreja, a espoliação de seus bens e a proclamação de máximas visando
consagrar o enfraquecimento de sua autoridade social.
No fim do último século, a classe média reage com uma energia terrível contra o paganismo monárquico, o derruba
e o confisca ao seu proveito. Ao exemplo dos reis, os revolucionários de 80 se fazem Césares, eles se fazem Papas.
Vimo-los, em consequência, arrasarem o que restava do estado religioso e social; e, do meio das ruínas, os ouvimos
proclamar, em seu proveito, a soberania absoluta do homem sobre toda ordem dada.

O povo, cujo braço executou a Revolução, o povo para quem se dizia que ela era feita, foi sua vítima; o povo, por sua
vez, aspira ao Cesarismo e ao Papado, e, com uma voz mais terrível, ele brada para a burguesia: Retire-se daí, para
que eu aí me coloque! Assim, após ter sido real e burguesa, a Revolução ameaça tornar-se popular. "O gafanhoto
comerá os restos da lagarta; o roedor, os restos do gafanhoto; o devorador, os restos do roedor, e não restará mais
nada(3)." Tal será, se Deus não intervir, a última fase da Revolução.

Com efeito, o que o paganismo real e o paganismo burguês demandaram para eles, o paganismo democrático o
pede para si, a saber: a supremacia absoluta do homem na ordem religiosa e na ordem política. A supremacia
absoluta nas mãos da multidão é a destruição universal, por consequência, a abolição da propriedade, para chegar,
como o povo entende, e isso não é oculto, ao comunismo, e do comunismo ao prazer.

Como se iludir sobre esse ponto? A propriedade é outra coisa senão o privilégio de posse dada por Deus à um ao
invés de outro, seja pelo nascimento e hereditariedade, seja pelo trabalho exitoso, seja por especulações felizes? A
santidade da propriedade é outra coisa senão a submissão à lei de Deus, que proíbe o roubo? Se, portanto, a
Revolução não reconhece a lei divina como obrigatória na religião, na autoridade, na família, na constituição, na
hierarquia social, por que ela reconheceria o privilégio da propriedade? E se ela busca renovar tudo, religião, Estado,
família, comuna, povo e constituição, por que, dessa modificação universal, ela excluiria a propriedade(4)?

Eis do que, portanto, a Europa hoje está ameaçada.

[1] N.d.t.: "Lago" dentro da área do Mar Negro envolvido por duas penínsulas. Região habitada, antigamente, pelos
hunos.
[2] Nihilum armatum.
[3] Residuum erucae comedit locusta; et residuum locustae comedit bruchus; et residuum bruchi comedit rubigo.
Joel 1, 4.

[4] Ver sobre essas ideias, o notável Discurso do doutor protestante Stahl.

Monsenhor Gaume. La Révolution, recherches historiques. Révolution française. Lille, 1877, p.17-22.

http://catolicosribeiraoarteehistoria.blogspot.com.br/2012/10/a-revolucao-capitulo-i.html

QUE ÉS TU, Ó REVOLUÇÃO?


Antes de falarmos da Revolução francesa, indicada em primeira linha como causa do mal atual, é necessário dizer o
que é a Revolução em geral. Isso é necessário, por um lado, a fim de bem conhecer a natureza desse poder
tremendo que, espiando a sociedade como o tigre expia sua presa, caminha para triturá-la sob seus dentes de ferro
e para operar o caos; por outro lado, a fim de saber com certeza qual é sua verdadeira origem e quais são os
novos Palus Maeoticas[1] de onde têm saído as barbáries com as quais ela nos ameaça, de maneira a não nos
enganarmos sobre os meios de combatê-la e para medirmos nossos esforços em face da grandeza do perigo.

Hoje não há duas questões na Europa, há apenas uma: é a questão revolucionária. O futuro pertencerá, sim ou não,
à Revolução? Isso é tudo.

A Revolução! essa palavra vulgarizada é repetida simultaneamente em Paris, em Londres, em Berlim, Madri, Viena,
Nápoles, em Bruxelas, Fribourg, em Turim, em Roma, e, por toda parte, ecoa como o sussurro da tempestade.
Tirando aqueles que a gravaram sobre sua fronte como sinal de identificação, essa palavra faz instintivamente
tremer todo homem que, às lembranças do passado, liga as previsões do futuro.
Esse instinto não é enganador: a Revolução não está nem morta nem convertida. Ela não está morta; milhares de
vozes proclamam sua existência: ela mesma a revela orgulhosamente diante de todas as cortes criminosas
encarregadas de cunhar seus adeptos. Ela não se converteu: independente do que dizem dela, a Revolução é sempre
a mesma: a essência dos seres não muda. Em seu ódio sempre antigo e sempre novo, a Revolução ameaça
igualmente o trono dos reis e o limite dos campos, o tesouro do capitalista e a poupança do operário. Para ela nada
é sagrado: nem a ordem religiosa nem a ordem social; nem os direitos adquiridos, nem a consciência; nem a
liberdade, nem mesmo a vida. Ela odeia tudo o que não foi feito por ela, e tudo o que ela não produziu, ela destrói.
Dai-lhe hoje a vitória, e o que ela foi ontem, vereis que o será também amanhã.

Da mesma forma, o triunfo ou a derrota da Revolução é a questão íntima que mantém todos os espíritos em
suspenso. Ela é considerada em todos os cálculos, ela pesa sobre todas as vidas. Enquanto que a Igreja reza para
impedir uma vitória justamente receosa, os governos têm um olho sempre aberto sobre a marcha da Revolução. No
mundo industrial e comercial não se vende mais, não se compra mais, não especula mais, mesmo que de forma
insignificante, sem olhar para o horizonte; e as chances favoráveis ou desfavoráveis à Revolução tornam-se o marco
regulador da confiança, modificam as transações e são cotadas na Bolsa. Todos compreendem que a Revolução
triunfante ou vencida é a última palavra do duelo mortal que se desenrola sob nossos olhos, e que pode acabar, pela
vitória da Revolução, repentinamente.

Mas o que é a Revolução? Fazer tal questão é evidenciar sua importância.

Se, retirando a máscara da Revolução, lhe perguntardes: Quem és tu? Ela vos dirá:

“Eu não sou o que pensam de mim; Muitos falam de mim, mas poucos me conhecem. Eu não sou nem o
carbonarismo, que conspira na sombra, nem a rebelião que brame nas ruas, nem a mudança da monarquia em
república, nem a substituição de uma dinastia por outra, nem o desvio momentâneo da ordem pública. Não sou nem
os urros dos Jacobinos, nem os furores da Montanha, nem o combate das barricadas, nem a pilhagem, nem o
incêndio, nem a lei agrária, nem a guilhotina, nem os afogamentos. Eu não sou nem Marat, nem Robespierre, nem
Babeuf, nem Mazzini, nem Kossuth. Esses homens são meus filhos, mas eles não são eu. Todas essas coisas são
minhas obras, mas elas não são eu. Esses homens e essas coisas são fatos passageiros, e eu, eu sou um estado
permanente.

Eu sou o ódio contra toda ordem religiosa e social não estabelecida pelo homem e na qual ele não é rei e deus ao
mesmo tempo; eu sou a proclamação dos direitos do homem contra os direitos de Deus; eu sou a filosofia da
revolta, a política da revolta, a religião da revolta; eu sou a negação armada[2]; eu sou a fundação do Estado
religioso e social sobre a vontade do homem, em lugar da vontade de Deus! Em uma palavra, eu sou a anarquia; pois
eu sou Deus destronado e o homem em seu lugar. Eis porque eu me chamo Revolução, ou seja, a desordem, pois eu
coloco em cima aquele que, segundo as leis eternas, deve estar embaixo, e embaixo aquele que deve estar em
cima.”

Esta definição é precisa: a própria Revolução vai no-la provar ao enumerar suas exigências. O que pediu e o que
ainda pede a Revolução?

A Revolução sempre pediu, ela ainda pede, a destruição da ordem social e religiosa existente. Ela a ataca
incessantemente, sobre todos os pontos e de mil maneiras: pela injúria, pela calúnia, pelo sarcasmo, pela violência;
ela a chama de escravidão, superstição, degradação. Ela quer destruí-la totalmente, a fim de refazer tudo.

A Revolução pede a soberania do homem, Rei, Senado, ou Povo, no intuito de estabelecer, seja o despotismo da
multidão, seja uma monarquia na qual o rei é escravo do parlamento, e o parlamento escravo da opinião, e a opinião
escrava de alguns homens.

A Revolução pede a liberdade, ou seja, o faça como quiser em todas as coisas, salvo, adiante, para não fazer nada
sem sua permissão: a fragmentação e a alienação ilimitadas da propriedade, a liberdade ilimitada da concorrência
operária, a liberdade ilimitada da palavra, dos cultos e do divórcio.

A Revolução pede a igualdade, ou seja, a abolição de todos os direitos adquiridos, de todas as hierarquias sociais, de
todas as autoridades estabelecidas, de todas as superioridades, em proveito do nivelamento completo.
A Revolução pede a separação da Igreja e do Estado, a fim de arruinar a influência social da primeira, despojá-la
impunemente, para absorver o poder espiritual, ou de Deus, pelo poder temporal, ou do homem, de modo a realizar
sua máxima favorita: a Igreja deve estar no Estado, e o padre na sacristia.

A Revolução pede o reconhecimento político e a proteção de todos os cultos, a fim de colocar no mesmo patamar o
erro e a verdade, de lhes tornar, aos olhos dos povos, o objeto de igual indiferença, de confundi-los em um desprezo
comum, e, assim, substituir a religião revelada de Deus pela religião natural, fabricada pelo homem, interpretada e
sancionada por ele.

A Revolução pede incessantemente Constituições, ou seja, o aniquilamento da constituição natural, histórica, tal
como foi formada e desenvolvida durante séculos, pelas tradições e costumes nacionais, a fim de substituí-la por
uma nova constituição, feita pela tinta de uma caneta, no intuito de abolir todos os direitos anteriores, exceto
aqueles que estão contidos nesta nova carta. Desde 1789, a França teve dezessete constituições e ainda não se
contentou com isso.

Tais são as principais demandas da Revolução. Há quatro séculos, seus organismos, em toda a Europa, não cessam
de renová-las, às vezes, uma a uma, às vezes, todas juntas, por vezes de um modo imperioso, frequentemente sob
fórmulas chamadas governamentais.

Dizemos há quatro séculos. Hoje, com efeito, a Revolução, ou seja, a teoria pagã da soberania absoluta do homem, é
formulada entre as nações cristãs. Partindo do alto para baixo, ela nos apresenta três fases distintas. Da Renascença
até 1789, ela é real; em 1789 ela se torna burguesa; hoje ela se tornou popular.

Inspirados pelo espírito da antiguidade pagã, a maioria dos reis cristãos quis se fazer Césares; e a história no-los
mostra perseguindo durante três séculos, como última palavra de suas políticas, o enfraquecimento e a destruição
de todo poder capaz de contrabalancear seus poderes absolutos, ou de perturbar-lhes o exercício. Eles quiseram se
fazer Papas. Dai a opressão sistemática da Igreja, a espoliação de seus bens e a proclamação de máximas visando
consagrar o enfraquecimento de sua autoridade social.

No fim do último século, a classe média reage com uma energia terrível contra o paganismo monárquico, o derruba
e o confisca ao seu proveito. Ao exemplo dos reis, os revolucionários de 80 se fazem Césares, eles se fazem Papas.
Vimo-los, consequentemente, arrasarem o que restava do estado religioso e social; e, do meio das ruínas, os
ouvimos proclamar, em seu proveito, a soberania absoluta do homem sobre toda ordem dada.

O povo, cujo braço executou a Revolução, o povo para quem se dizia que ela era feita, foi sua vítima; o povo, por sua
vez, aspira ao Cesarismo e ao Papado, e, com uma voz mais terrível, ele brada para a burguesia: Retire-se daí, para
que eu aí me coloque! Assim, após ter sido real e burguesa, a Revolução ameaça tornar-se popular. “O gafanhoto
comerá os restos da lagarta; o roedor, os restos do gafanhoto; o devorador, os restos do roedor, e não restará mais
nada(3).” Tal será, se Deus não intervir, a última fase da Revolução.

Com efeito, o que o paganismo real e o paganismo burguês demandaram para eles, o paganismo democrático o
pede para si, a saber: a supremacia absoluta do homem na ordem religiosa e na ordem política. A supremacia
absoluta nas mãos da multidão é a destruição universal, por consequência, a abolição da propriedade, para chegar,
como o povo entende, e isso não é oculto, ao comunismo, e do comunismo ao prazer.

Como se iludir sobre esse ponto? A propriedade é outra coisa senão o privilégio de posse dada por Deus à um ao
invés de outro, seja pelo nascimento e hereditariedade, seja pelo trabalho exitoso, seja por especulações felizes? A
santidade da propriedade é outra coisa senão a submissão à lei de Deus, que proíbe o roubo? Se, portanto, a
Revolução não reconhece a lei divina como obrigatória na religião, na autoridade, na família, na constituição, na
hierarquia social, por que ela reconheceria o privilégio da propriedade? E se ela busca renovar tudo, religião, Estado,
família, comuna, povo e constituição, por que, dessa modificação universal, ela excluiria a propriedade[4]?

Eis do que, portanto, a Europa hoje está ameaçada.

GAUME, Jean-Joseph. La Révolution, recherches historiques. Révolution française. Lille, 1877, p.23-33.

______
[1] N.d.t.: ”Lago” dentro da área do Mar Negro envolvido por duas penínsulas. Região habitada, antigamente, pelos
hunos.

[2] Nihilum armatum.

[3] Residuum erucae comedit locusta; et residuum locustae comedit bruchus; et residuum bruchi comedit rubigo.
Joel 1, 4.

[4] Ver sobre essas ideias, o notável Discurso do doutor protestante Stahl.

http://catolicosribeiraopreto.wordpress.com/2013/11/24/quem-es-tu-o-revolucao/

QUE MAL ELE FEZ?


A hora fatal se aproximava. As potências das trevas estavam livres; e eis que todo um povo, tomado por um
espírito de furor e de vertigem, se apodera do Justo. Seus próprios discípulos, educados em sua escola, alimentados
com seu pão, cobertos por suas carícias; seus discípulos, que acabam de lhe jurar uma fidelidade a toda prova, o
abandonam, o negam: um deles o traiu. Amarrado como um malfeitor, ele é levado de tribunal em tribunal, pelas
ruas de uma grande cidade. Homens, mulheres, crianças, magistrados, anciões com cabelos brancos, todos
acorreram e formaram um cortejo tumultuoso. Do seio desta multidão, hedionda como um homem embriagado,
agitada como um mar em fúria, se elevam incessantemente gritos de morte. O ódio impaciente não pode esperar a
sentença que deve lhe entregar o inocente. Escarram em seu rosto, o esbofeteiam, batem nele com varas, até
colocar a nu as veias e os ossos: da cabeça aos pés seu corpo forma apenas uma ferida.

À crueldade se junta a insultante zombaria. Como o tigre que brinca com sua presa antes de devorá-la, esse povo
bárbaro ultraja sua vitima antes de beber seu sangue. Eles o revestiram com uma túnica de escárnio; em sua mão
eles colocaram um caniço como um cetro, e sobre sua cabeça uma coroa de espinhos em sinal de diadema; depois,
vendando-lhe os olhos, eles dobram os joelhos, o batem rudemente no rosto e lhe dizem: “Salve, Rei dos Judeus”.

E este Justo era o benfeitor público da nação! Entre esse povo de carrascos vocês não encontrariam um que não
tivesse sentido em sua pessoa ou na pessoa dos seus os efeitos salutares de sua poderosa bondade. Ele purificou os
leprosos, ele devolveu a visão aos cegos, a audição aos surdos; ele libertou os possessos, ressuscitou os mortos: a
todos ele fez o bem, a ninguém ele fez mal. Enquanto que o pisoteiam como um verme, ele se mantém calmo e
cheio de dignidade. Semelhante ao terno cordeiro que levam mudo ao matadouro, ele se deixa conduzir ao suplício
sem abrir a boca. Em nome de Deus, o conjuram a falar: ele responde com doçura e verdade. De sua palavra lhe
fazem um crime: uma bofetada a mais é o prêmio de sua obediência.

O Justo a recebe e se cala. Sua resignação exaspera seus perseguidores. As vociferações redobram. Como uma
torrente, elas ressoam os ecos da cidade deicida: “Matem-no! matem-no! Que ele seja crucificado!” e eles o
empurram brutalmente perante o juiz que pode lhes dar sua cabeça. Esse juiz é um estrangeiro, é um ambicioso, é
um medroso. Não obstante, a inocência do acusado o subjuga; ele a proclama: “Que mal ele fez? Se ele não fosse
culpado, nós não o teríamos te entregado!… Que mal então ele fez? Ele pretende reinar, e nós não queremos que
ele reine sobre nós[1]“. O juiz hesita… eis o último esforço de sua coragem se expirando. “Não quero ser responsável
pelo sangue do justo, disse ele lavando as mãos, isso é lá convosco. – Que ele morra! Que ele morra! E que seu
sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos!” A sentença iníqua é obtida.

A vítima caminha ao suplício. Tanto ódio por tanto amor, tanta injustiça por tanta inocência, tanta ingratidão por
tantos benefícios, fazem jorrar algumas lágrimas. Um pequeno número de mulheres escondidas na multidão,
demonstram uma dor sincera. O Justo as viu; ele se voltou, e, como despedida, ele fez ouvir essas palavras: “Filhas
de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas sobre vós e sobre vossos filhos”. A via dolorosa é cruzada. Despojado de
sua túnica ensanguentada, ele é pregado na cruz, condenado a morrer entre dois celerados! Enquanto os carrascos
saciam sua sede com fel e vinagre, seus inimigos passam e repassam diante dele, acenando a cabeça, elevando os
ombros e lançando contra ele os traços afiados de suas injúrias e de suas blasfêmias. Sua divindade, eles a negam;
sua realeza, eles zombam dela; seu poder, eles o enfrentam; sua ira, eles a desafiam. Em seu silêncio sublime, o
Justo cumpre sua missão e a ordem de seu Pai: ele expira!
A natureza inteira estremece, o céu se cobre com um véu lúgubre, o terror está por toda parte. Logo um mensageiro
de desgraças, profeta como nunca se viu, rodeia dia e noite em torno de Jerusalém gritando sem nunca parar: “Voz
do Oriente, voz do Ocidente, voz dos quatro ventos, voz contra Jerusalém e contra o templo, voz contra todo o povo.
Aí de nós! Aí de nós[2]!”

GAUME, J.. Où allons-nous? Paris, Gaume Frères, 1844.

_____

[1] Jo XIX, 12-15, Lc XIX, 14.

[2] Joseph. Bell. lib. VII, c. 12.

http://catolicosribeiraopreto.wordpress.com/2013/11/21/que-mal-ele-fez/

A língua litúrgica na Igreja II


Do Catecismo de Perseverança, Tomo VII – Pe. J. Gaume

Uso do Latim

Todas as horas do seu ofício oferece-as a Igreja a Deus numa língua hoje desconhecida à maioria dos fiéis, e dirige-
lhas cantando. É justo que vos faça admirar nestes dois usos a profunda sabedoria de vossa mãe. E, primeiramente,
porque se usa da língua latina nas orações públicas?

1º. É para conservar a unidade da fé. Ao nascer do Cristianismo, fez-se o serviço divino em língua vulgar na
maioria das igrejas. Mas, como todas as coisas humanas, estão sujeitas à mudança. A língua francesa, por exemplo,
já não é a mesma que era há duzentos anos; bom número de termos envelheceram, e outros mudaram de
significado. O torneio das frases difere tanto quanto diferem as nossas maneiras das de nossos avôs. Todavia, uma
coisa deve permanecer imutável, que é a fé. Para pô-la a salvo dessa instabilidade perpétua das línguas vivas,
emprega a Igreja católica uma língua fixa, uma língua que, não sendo já falada, já não está sujeita à mudança.

A experiência prova que a Igreja foi dirigida, nisto como em todas as coisas, por uma sabedoria divina. Vede
o que sucede entre os protestantes. Quiseram empregar nas suas liturgias as línguas vivas, e eis que
incessantemente se veem obrigados a renovar as fórmulas, e a retocar as versões da Bíblia: donde alterações
infindas. Se a Igreja houvesse feito o mesmo, teria sido necessário de cinquenta em cinquenta anos reunir concílios
gerais para redigir novas fórmulas na administração dos sacramentos.

2º. É para conservar a catolicidade da fé. É necessária a unidade de linguagem para manter mais estreita
ligação e mais fácil comunicação de doutrina entre as diferentes Igrejas do mundo, e para as tornar mais facilmente
adictas ao centro da unidade católica. Suprimi a língua latina, e eis que o Sacerdote italiano que viaja por França, ou
o sacerdote Francês que viaja por Itália, não pode celebrar os santos mistérios nem administrar os sacramentos. É o
que sucede ao protestante. Fora do seu país não pode tomar parte no culto público: o Católico não está desterrado
em nenhuma das regiões da Igreja Latina.

Honra, pois, aos Sumos Pontífices que nada têm descurado para introduzirem em todas as partes a liturgia
romana. O homem imparcial encontra aqui uma nova prova do seu ilustrado zelo pela catolicidade, caráter augusto
da verdadeira Igreja. Ah! Se os gregos e os latinos não houvessem tido senão uma mesma língua, não teria sido tão
fácil a Fócio e aos seus aderentes arrastar toda a Igreja grega ao cisma, atribuindo à Igreja romana erros e abusos de
que ela nunca foi culpada!

3º. É para conservar à Religião a majestade que convém. Uma língua douta, que não é entendida senão
pelos homens instruídos, inspira mais respeito que a algaravia popular. Os mais santos mistérios não pareceriam
ridículos, se fossem expressos em linguagem demasiadamente familiar? Todos o compreendem. Os mesmos
protestantes, inimigos jurados da Igreja romana, o conheceram com os outros; porém, a renunciarem às suas
preocupações anti-católicas, preferiram ser inconsequentes consigo próprios. Fizeram traduzir o ofício divino em
francês: muito bem; mas os da Baixa Bretanha, da Picardia, do Auvergne e da Gasconha não tinham tanto direito a
fazer o ofício divino na sua geringonça, como tinham os calvinistas de Paris de o fazerem em Francês? Os
reformadores, tão zelosos da instrução do povo baixo, porque não traduziram a liturgia e a Escritura Sagrada em
todas essas algaravias? Não contribuiria isto muito para tornar respeitável a Religião [i]?

Pelo contrário, a língua grega no Oriente, e a latina no Ocidente, conservam alguma coisa da majestade
romana, que convém o mais possível à majestade muito maior da Igreja católica. A uma Religião senhora do mundo
quadra a língua dos dominadores do mundo, como a uma doutrina imortal quadra uma língua imutável. Se a Religião
e a razão devem ações de graças à Igreja católica por ter adotado as línguas gregas e latina, não lhes convém menos
reconhecimentos as ciências. Imortalizando a sua língua, imortalizou a Igreja a literatura dos gregos e romanos, do
mesmo modo que os Papas salvaram, santificando-os, os monumentos dos Césares. Se não fosse a cruz que a
domina, há muito que estaria em terra a coluna Trajana.

De resto, não é certo que, pelo uso duma língua morta, se achem os fiéis privados do conhecimento do que se
contem na liturgia. Longe de vedar-lhes este conhecimento, recomenda a Igreja aos seus ministros expliquem ao
povo as diferentes partes do santo Sacrifício e o sentido das orações públicas [ii]. Muito mais, não proibiu
absolutamente as traduções das orações da liturgia, pelas quais pode ver o povo na sua língua o que dizem os
Sacerdotes no altar [iii]. Não é pois, verdade, como lhe arguem os protestantes, que ela quisesse ocultar os seus
mistérios; não, só quis pô-los a salvo das alterações, inevitável consequência das mudanças de linguagem [iv].

[i] Bergier, art. Lingua.


Vol. VII.

[ii] Conc. Trid., Sess. XXII e VIII.

[iii] Exceto o Canon ou o ordinário da Missa, cuja tradução é contrária às intenções da Igreja.

[iv] Vide o Cardeal Bona, Rerum liturg., I, I, c, v, p. 33.

Publicado em Formativos

Para que serve o Papa? - Iª Resposta - Impedir o retorno do Paganismo


Não, isto não é um sonho. Após mil e oitocentos anos de cristianismo, em pleno século dezenove, século, dizem, de
progresso e de luzes, nas assembleias legislativas, nos salões, nos cafés, nas oficinas, na intimidade do lar, tanto nos
campos quanto nas cidades, milhões de criaturas batizadas se perguntam, com uma segurança que aflige: Para que
serve o Papa, sobretudo o Papa-Rei?

Formulada em termos mais ou menos parecidos, o que significa, nos perguntamos por nossa vez, semelhante
questão? Ela significa que a noção do Papado, tal como o próprio Filho de Deus estabeleceu, se altera de um modo
assustador. Ela significa que o princípio, fundamento da Igreja, passa do estado de dogma ao estado de problema.
Ela significa que o poder, conservador das sociedades civilizadas, cai no meio, senão de uma hostilidade, ao menos
de uma indiferença, que se tornou contagiosa mesmo entre os cristãos.

Quanto ao que chamam de mundo, a queda do trono de São Pedro o comove menos que uma suspensão de
pagamento, menos que uma baixa na bolsa de valores. Nele, nenhum temor a mais, nenhum baile a menos.

No meio deste descarrilamento geral, somente uma palavra sobre o Papa Pontífice e sobre o Papa Rei.

E por que esta palavra? Para impedir a catástrofe? Não há mais tempo. No momento presente, a velha Europa pode
se comparar a um navio sem direção impelido pelo furacão e pronto a saltar a grande catarata do Niágara.

Por que então esta palavra? Por duas razões que não carecem de gravidade. A primeira, a fim de resumir
brevemente tudo o que foi dito da questão pontifical, de modo a fornecer às almas retas, para os dias de perigo,
uma arma fácil e segura contra os sofismas revolucionários. A segunda, a fim de lançar um último raio de luz sobre o
abismo sem fundo, onde vai descer a Europa sem Papa.
Para que serve o Papa?

Seria preciso de preferência perguntar para que o Papa não serve. Para que serve a cabeça sobre os ombros do
homem?... Pois bem, o que a cabeça é para o corpo, o Papa é para a Igreja. Sem cabeça, nada de corpo; sem Papa,
nada de Igreja; sem Igreja, nada de cristianismo.

Vejamos; todos vocês, pessoas letradas e iletradas, homens e mulheres, que discutem a questão romana com mais
ligeireza do que ciência, que fizestes uma pergunta de teatro ou da moda; que em vossa impaciência de vê-la acabar
(a Igreja), acham o Papa lento por ceder: vocês compreendem a extensão de vossa linguagem?

Vocês não têm medo de chamar o Papado de uma velha instituição, cujo mundo pode de agora em diante ficar sem,
e fanáticos aqueles que o defendem. Sem grande dificuldade vocês tomam partido pela queda do trono pontifical.
Aos vossos olhos, ela seria apenas uma reorganização acidental no equilíbrio da Europa, um abalo incapaz de
comprometer vossos interesses, no máximo uma simples avaria, reparável a poucas custas. Vocês refletiram bem?

Leiam a história. Sem Papa, vocês teriam o mundo tal como ele era antes do Papa. De um jeito ou de outro, a
escravidão por base, Nero por rei, Satanás por Deus. Vocês são livres para negar. Os fatos são fatos. Não há nem
luzes, nem civilização, nem literatura, nem jornalismo, nem pretensões que façam isso: entre o homem e o
paganismo com suas vergonhas e seus crimes, a história nunca conheceu, ela ainda só conhece uma barreira: é o
Papa. Com ele desaparece o que sozinho impede os crimes pagãos e as vergonhas pagãs, a Igreja e o cristianismo.

Olhem o mapa mundi. Sem Papa, tereis o mundo tal como ainda é na China, no Tibete, na Oceania: degradação
moral, ignorância, antropofagia, superstições sanguinárias. Em uma questão em que há somente dois termos,
inutilmente buscamos um terceiro. Entre o cristianismo e o satanismo, não há meio termo. O homem nasceu para
adorar. Todo aquele que não adora o verdadeiro Deus, adora o falso. Todo aquele que não adora o Deus altíssimo,
adora o deus das profundezas. Todo aquele que não adora o Deus espírito, adora o deus matéria, o deus metal, o
deus carne, o deus ventre, como diz São Paulo, quorum Deus venter.
Interroguem suas lembranças. Sem Papa, tereis o mundo tal como ele tinha se tornado na França, na época de 93:
Robespierre na Convenção, Fouquier-Tinville no palácio de justiça; Simon com seu instrumento sobre a praça da
Revolução; Carrier em Nantes; Vênus em Notre-Dame; a Bastilha por toda parte. Apesar de todos os certificados de
probidade, de honra e de filantropia que apreciamos entregar em nosso tempo, não é preciso jurar nada, exceto
uma coisa: Sem Papa, nada de cristianismo. E sem cristianismo, tudo o que se viu antes do cristianismo, tudo o que
ainda se vê fora do cristianismo, pode ser revisto.

"Não há crime, diz um grande sábio, cometido por um homem ou por um povo, que possa ser cometido por outro
homem ou outro povo, se ele é socorrido por Deus que fez os homens e os povos[1]".

Para impedir o retorno de semelhante assombração, eis inicialmente para que serve o Papa.

Dom Gaume. A quoi sert le Pape? IIéd. Paris, Gaume Frères et J. Duprey, 1861.

http://catolicosribeiraoarteehistoria.blogspot.com.br/2013/08/para-que-serve-o-papa-i-resposta.html

Para que serve o Papa? - IIª Resposta - Iluminar e conservar o mundo civilizado
Para que serve o sol à natureza? Pois bem, o que o sol é para a natureza, o Papa é para o mundo civilizado. Aqui,
uma negação muito acentuada sai de vossas bocas. Com a mão, vocês mostram a Inglaterra, a Rússia, os Estados
Unidos e outros povos separados da Igreja: e vocês triunfam. Pobre triunfo! Vossa objeção é mais do que umnon-
senso, é um erro grosseiro. A verdade é que as nações heréticas e cismáticas, sem nenhuma exceção, vivem do Papa,
vivem apenas do Papa. Se vocês se apalparem o pulso, vocês descobrirão que cada pulsação normal é católica.
O que é, em vossa opinião, que constitui sua existência como nações cristãs? Sem dúvida, o elemento cristão. A
quem elas devem o elemento cristão? Ao Papa, por mais que isto vos desagrade, e somente ao Papa. De um lado, é
o Papa que lhes enviou os primeiros apóstolos do cristianismo. Do outro, tudo o que estas nações conservam de
coisas cristãs, mesmo a Bíblia, elas devem à Igreja, por consequência, ao Papa, sem o qual a Igreja não existiria,
nunca teria existido.

Daí segue que nenhum protestante, nenhum cismático, pode realizar qualquer ato de vida cristã, um ato de fé na
Escritura, sem fazer por isso um ato à necessidade e à infalibilidade do Papa. Todo homem que diz: eu acredito na
Bíblia, porém não acredito no Papa, não sabe o que ele diz. Ele mente para si mesmo e vive inconsequentemente.
No dia em que ele não viver mais assim, ele será ateu ou católico. Até tal momento, ele não vive, ele vegeta. Assim,
o protestante pode negar a personalidade do Papa, mas, querendo ou não, ele é forçado a admitir oprincípio do
Papa.

Há mais. Esta necessidade do Papa, para permanecer cristão, é de tal modo implacável, que ninguém é tão papista
quanto o protestante. O católico reconhece somente um Papa, bispo de Roma, há dezoito séculos. O protestante
não se contenta com tão pouco. Ele tem tantos papas quantos ministros, reis ou rainhas; assim como também, no
curso de um dia, de afirmações religiosas. Ele sempre tem um papa consigo; ele próprio é seu papa.

Se a quantidade é vantajosa para o protestante, a qualidade está em favor do católico. O Papa católico nunca varia.
A essência dos papas protestantes é de variar sempre. Nunca eles estão de acordo entre eles nem com eles mesmos.
Querem uma prova disso? Olhem as miríades de seitas nas quais eles fragmentaram o dogma cristão. Isto chegou o
ponto, que tudo o que resta hoje de crenças comuns, entre os protestantes, poderia, diz um de seus ministros, ser
escrita sobre a unha do polegar.

Por sua natureza, este princípio de divisão tende à fragmentação infinita. Quem impede isso de acontecer? Este
ainda é o Papa. Por quê? Porque o Papa é uma afirmação, e enquanto uma afirmação existe, a negação não pode ser
completa.

Tomem isto por certo: sem a ação indireta do verdadeiro Papa sobre os países protestantes, ou seja, sem a
influência permanente da afirmação católica no mundo batizado, há muito tempo os últimos vestígios da verdade
cristã, e com eles os últimos elementos de civilização, teriam desaparecido das nações heterodoxas.
É, portanto, verdade: o que o sol é para a natureza, o Papa é para o mundo cristão. Assim como o sol sozinho,
mesmo quando ele se põe, conserva ainda por muito tempo a luz no mundo físico; assim o Papa sozinho, Vigário
imortal dAquele que ilumina todo homem vindo sobre a terra, conserva o cristianismo em todas as partes, católicas
ou não, do mundo civilizado.

Isto não é nada?

Dom Gaume. A quoi sert le Pape? IIéd. Paris, Gaume Frères et J. Duprey, 1861.

http://catolicosribeiraoarteehistoria.blogspot.com.br/2013/08/para-que-serve-o-papa-ii-resposta.html

Explicação do dogma “Fora da Igreja não há salvação”


FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO

Explicação do dogma “Fora da Igreja não há salvação”

Pelo Rev. Pe. Jean-Joseph Gaume (1854)

PDF: Explicação do dogma “Fora da Igreja não há salvação”

Fora da Igreja não há salvação… É uma máxima certíssima. Nosso Senhor compara o reino dos Céus, que é a Igreja, a
um príncipe que, querendo celebrar as núpcias de seu filho, e vendo que os convidados recusavam assistir a elas,
jurou, irritado, que nenhum dos tais, que recusaram o convite, gozariam das delícias de sua mesa (1). Logo aqueles
que resistem à graça do Salvador não esperem reinar com ele no Céu; por outras palavras, aqueles que não entram
na Igreja, para a qual são convidados, permanecem estranhos a Jesus Cristo (2). Demais o Filho de Deus disse aos
Apóstolos: Pregai o Evangelho a toda a criatura; aquele que crer e se batizar será salvo; aquele que não crer será
condenado (3). É pois vontade de Nosso Senhor, a mais formal verdade, que todos os homens creiam no Evangelho,
e por ele entrem na Igreja, tornando-se seus membros pelo batismo. Com efeito, se todos os homens, como não se
pode duvidar, são obrigados a abraçar a Religião Cristã, logo são também obrigados a entrar na Igreja de Jesus
Cristo. A razão desta consequência é que a Igreja não foi estabelecida senão por causa da Religião. Ora, quem quer o
fim quer os meios: logo

1.º Nosso Senhor, querendo que todos se salvem pela Religião, necessariamente quer que pertençam à sociedade
que ele mesmo fundou, para conservar e ensinar a Religião.

2.º sendo todos os homens obrigados a abraçar a Religião de Jesus Cristo, são por isso mesmo obrigados a receber
os meios que Nosso Senhor estabeleceu, para alcançar o verdadeiro conhecimento da Religião e dar a Deus um culto
legítimo. Ora, o meio essencial que Nosso Senhor estabeleceu para alcançar estes fins é a sua mesma Igreja. Logo, se
quem é obrigado aos fins é obrigado aos meios, todos têm a obrigação de entrar na Igreja.

3.º sendo pois a Igreja uma sociedade essencialmente necessária, a qual todos tem a obrigação de pertencer de
direito natural e divino; aquele, por consequência, que permanece advertida e voluntariamente fora da Igreja, não
pode ter salvação. As portas da vida eterna, diz o Salvador, somente se abrirão àqueles que tiverem guardado os
mandamentos; se algum pois, conhecendo o mandamento, recusar cumpri-lo, será condenado (4).

Os Padres, herdeiros da doutrina do Salvador e dos Apóstolos, professaram altamente a mesma verdade: “Aquele,
diz S. Cipriano, que não tiver a Igreja por mãe, não terá a Deus por pai. Se alguém escapou à água do Dilúvio sem
estar na Arca, então sim, poderá escapar à condenação eterna, quem estiver fora da Igreja.” (5) “Ninguém alcançará
salvação, diz também S. Agostinho, se não tiver a Jesus Cristo por cabeça, se não pertencer ao seu corpo, que é a
Igreja.” (6)

Notável coisa! Os mesmos protestantes professam esta máxima; que digo? Ela foi a causa e o motivo de sua
pretendida reforma! Por que se separaram eles da Igreja Romana? Porque a condenaram de não ser a verdadeira
Igreja, isto é, a sociedade em que os homens devem estar para se salvarem! Por que têm eles estabelecido novas
Igrejas? Para estarem (dizem) em sociedades onde se possam salvar! Por que se anatematizam eles uns aos outros?
Porque cada seita diz: Eu sou a verdadeira Igreja, fora de mim não há salvação! Logo, estar na verdadeira Igreja, e no
caminho da salvação, é para eles uma e a mesma coisa. Pois isto, em termos católicos, quer dizer: Fora da Igreja não
há salvação. E já se vê que não são só protestantes, mas ainda os sectários de todas as religiões, que professam o
mesmo princípio; e é preciso ser muito néscio para não conhecer que eles têm muita razão. O caso é saber qual é a
verdadeira Igreja; que depois, fica fácil conhecer que quem não está na verdade, está no erro; quem não está no
bem, está no mal; quem não está no caminho, está perdido. Aqui não há meio termo. Se esta máxima não é
certíssima: Fora da Igreja não há salvação, nesse caso é preciso admitir a contrária: fora da Igreja a salvação é
possível. Mas admitido isto, não há mais distinção entre a verdade e o erro: o herege, o cismático, o turco, o infiel, o
judeu, o deísta, o ateu estarão na mesma condição; e poderão salvar-se, professando as mais contraditórias e
funestas doutrinas (7).

Professar esta máxima é para os católicos de suma caridade. Ainda mais, ela é e tem sido a causa da caridade
apostólica. Com efeito, convencidos, por uma parte, a ponto de derramar seu sangue, que existe uma Religião
verdadeira e obrigatória; assim como uma sociedade, encarregada de a conservar e explicar; convencidos por outra
parte, que esta Religião é a Religião Católica; e esta sociedade, a Igreja Romana; que maior obra de caridade do que
dizer a todos: Entrai nesta sociedade, para conhecerdes a Religião verdadeira, e a única que pode vos tornar felizes
nesta vida e na futura. Reparai bem, que vos é de absoluta necessidade pertencer a esta Igreja; pois Fora da Igreja
não há salvação. Apregoar esta máxima, publicá-la por todos o mundo, será porventura, como se pretende dizer,
uma prova de má vontade, e de crueldade para com o gênero humano? Pelo contrário, não será isto prova de amor
sincero, uma verdadeira caridade? Dir-se-ia que Noé era feroz e cruel quando, construída a Arca, dizia aos
pecadores, para os converter: Fora da Arca não há salvação? – E Nosso Senhor não teria caridade quando disse:
Todo o que não entrar na Igreja pela fé e o batismo será condenado? Porventura o médico será cruel e misantropo
quando diz ao doente: Se não tomardes tal ou tal remédio não tereis saúde? Sei eu, por exemplo, que vos hão de
pôr fogo à casa, e fazer-vos morrer a vós e a vossa família no meio das chamas; conheço um meio único de
desconsertar os planos infernais de vossos inimigos, e digo-vos: acautelai-vos que se não fizerdes assim e assim,
morrereis queimado. Ora, pergunto, serei eu cruel em vos avisar? Não seria eu antes se me calasse? Certo que sim.
Pois isto é o que sucede no nosso caso. Nós, os católicos, sabemos de ciência certa (e todos como nós o podem e
devem saber), que o Filho de Deus, a virtude mesma, o juiz supremo dos vivos e dos mortos, declarou que fora da
Igreja não há salvação. Repetimos isto mesmo; prevenimos a todos da sorte que os espera, se não cumprirem com o
que ele manda; pedimos, exortamos… quê? Pois não é isto mesmo o que produziu e produz na Igreja a caridade
apostólica? Não é este o zelo dos Apóstolos, dos mártires, dos missionários, de todos os santos, que se santificam,
por dizer a todas as nações: Fazei-vos cristãos, entrai no aprisco de Jesus Cristo: fora da Igreja não há salvação?! Sim,
eis o motivo que os abrasa, que os inflama: quem há aí que lhe chame crueldade!

Sem dúvida, esta máxima: Fora da Igreja não há salvação, com ser certíssima, é de uma caridade suma; o ponto está
só em entendê-la bem; pois cumpre saber que há muitas maneiras de pertencer à Igreja.

1.º Pertence ao corpo da Igreja aquele que vive na sociedade visível de todos os fiéis sujeitos ao Papa, e professando
exteriormente a mesma doutrina. A isto se chama pertencer à Igreja exterior; e neste sentido pertence à Igreja ainda
o incrédulo ou o que está em pecado mortal; embora seja um membro morto, ou uma ramo seco.

2.º Pertence ao corpo e à alma da Igreja aquele que à profissão externa da Religião católica ajunta a graça
santificante; e isto se chama pertencer simultaneamente à igreja externa e interna.

3.º Pertence finalmente à alma da Igreja, sem pertencer ao seu corpo, aquele que, por boa fé ou ignorância
invencível, está desculpado diante de Deus, de não pertencer à Igreja, pois a não conhece. Neste caso, se o indivíduo
tem uma verdadeira caridade, um desejo sincero de conhecer a vontade de Deus e cumpri-la, praticando fielmente a
lei natural, e todos os deveres de que tem notícia ou de que a podia ter, este tal, digo, pertence de fato à alma da
Igreja ou à Igreja interna, e é possível salvar-se. (8)

Assim pois, entre os hereges e os cismáticos, todos os meninos que são batizados e que ainda não chegaram a idade
da razão, bem como muitas pessoas símplices, que vivem em boa fé, e das quais só Deus conhece o número, todas
estas, digo, não participam da heresia nem do cisma; são desculpados por ignorarem invencivelmente o seu estado,
e não se devem considerar estranhas à Igreja, fora da qual não há salvação; porquanto, os meninos, em primeiro
lugar, não podendo ainda ter perdido a graça que receberam no batismo, sem dúvida pertencem à alma da Igreja,
isto é, estão unidos a ela pela fé, esperança e caridade habituais. Em segundo lugar, os símplices e ignorantes, de
que falamos, podem ter conservado a mesma graça; ou ainda, em muitas seitas, havendo aprendido certas verdades
de fé, que aí se conservaram, e que bastam absolutamente para a salvação, podem crer nelas sinceramente e viver,
com o auxílio da graça, uma vida pura e inocente. Deus não lhes imputa os erros, a que estão forçados por uma
ignorância invencível. Enquanto aos nossos olhos pareçam membros de uma seita, bem podem pertencer à alma da
Igreja, pela fé, esperança e caridade. Em suma, todos esses meninos e essas pessoas de boa fé podem salvar-se; mas
ainda assim devem a sua salvação à Igreja Católica, embora não a conheçam; porque é dela que dimanam as
verdades salutares pelas quais se salvaram; porque é dela que dimanam as salutares verdades pelas quais se
salvaram; como é, por exemplo, o batismo, que as seitas separando-se conservaram. É verdade que estas luzes
receberam-nas imediatamente daquelas seitas; mas elas as tinham recebido da Igreja, a qual Jesus Cristo confiou a
administração dos Sacramentos, e o depósito da fé (9). Assim pode o homem salvar-se, ainda quando pertença
exteriormente a uma religião estranha; mas não porque lhe pertença, o que é bem diferente.

Eis aqui, pois, o sentido exato desta máxima, tão perfeitamente irrepreensível, e todavia tantas vezes censurada e
como que lançada em rosto aos católicos: fora da Igreja não há salvação. Pois certo que a não há para todo aquele
que, conhecendo ou devendo conhecer a verdadeira Igreja, recusa entrar nela; certo que, a não há para todo aquele
que, estando na verdadeira Igreja, dela sai, para abraçar uma seita estranha. Todos esses evidentemente se lançam
fora do caminho da salvação; porque se tornam culpados duma contumácia imperdoável. Jesus Cristo não promete a
vida eterna, senão às ovelhas que ouvem a sua voz; aquelas, porém, que desertam do seu aprisco, ou recusam
entrar nele, serão sem nenhuma dúvida a presa dos lobos e o pasto das chamas.

Quanto a nós, filhos da Igreja, demos muitas graças a Deus, Nosso Pai, e à Igreja, nossa Mãe; e corresponda de
algum modo a nossa gratidão à excelência e número dos benefícios que nos fazem. Qual é o motivo por que não
nascemos, como tantos nascem, no domínio da heresia, da infidelidade e da idolatria? A quem devemos a boa
fortuna de sermos nascidos e criados no grêmio desta verdadeira Igreja, que nos alimenta, como carinhosa mãe, de
seu leite puro e virginal? A quem o devemos? A uma graça toda gratuita, que o Senhor concede a quem lhe apraz.
Sejamos pois agradecidos a um bem tão especial e imerecido. Não sejamos ingratos a esta Igreja tão cheia de amor,
e tão pouco amada; e até desgraçadamente tão perseguida! Provemos-lhe a nossa gratidão;

1.º submetendo-nos às suas decisões, com um temor filial; e observando suas leis, com escrupulosa fidelidade.

2.º tomando parte em suas dores e alegrias; e interessando-nos em tudo o que lhe interessa.

3.º abraçando generosamente a sua causa, e sacrificando-nos, se preciso for, pela manutenção da sua fé, unidade,
disciplina, autoridade e prerrogativas.

4.º não desprezando meio algum, nem perdendo ocasião ou oportunidade de a fazer conhecer e amar daqueles, que
a não conhecem nem amam. Assim seremos os verdadeiros imitadores de Nosso Senhor Jesus Cristo, que amou
tanto a sua Igreja que por ela deu o seu sangue e a sua vida. (10)

ORAÇÃO

Ó meu Deus! Que sois todo amor, eu vos dou graças de todo o meu coração por terdes estabelecido a vossa Igreja,
para perpetuar a vossa Santa Religião, e a vossa união conosco; permiti, Senhor, que eu seja sempre uma dócil
ovelha do vosso aprisco.

Eu protesto amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em
testemunho deste amor, orarei muitas vezes pela Igreja. Amém.

NOTAS

1 – Mat. XXII.
2 – C. XVI.
3 – Marc. XVI.
4 – Luc. XII, 4, 7.
5 – De Unit. Eccles.
6 – Veja-se o texto em Nat. Alex. De Symbol. p. 320.
7 – Na ordem social, a mesma máxima é também a razão de existência de todos os partidos políticos. Quem a
professa mais altamente; quem a sanciona mais terrivelmente, que as seitas socialistas, comunistas, fourieristas?!
Não bradam eles, a qual mais altamente: Sou eu, que possuo a verdade; fora do meu ensino, da minha política; fora
do meu grêmio não há salvação para a sociedade!
8 – Catecismo do Concílio de Trento.
9 – Veja-se a censura de Emilio pela Universidade de Sorbone.
10 – Christus dilexit Ecclesiam et se ipsum tradidit pro ea. Efés. V, 2, 3. Veja-se Nat. Alex. De Symb. 329.

REFERÊNCIA

GAUME, Pe. Jean-Joseph. Catecismo da Perseverança: ou Exposição Histórica, Dogmática, Moral, Litúrgica,
Apologética, Filosófica e Solcial da Religião, desde a origem do mundo até nossos dias. Porto: Typ. de Francisco
Pereira d’Azevedo, 1854, pp. 60-66.

O culto do Espírito Santo - capítulo I


Corações ao alto: Sursum corda. Os sofrimentos do tempo presente nada são, se comparados à glória futura que se
nos há de revelar. À consideração do fruto da vida eterna, caso ainda nos reste algum claro da luz verdadeira, algum
sentimento de nobre ambição, diremos com o Apóstolo: Para ganhar o céu, de tudo fiz palha; candidatos à
eternidade, imitemos o mercador de pérolas sobre que conta o Evangelho. Encontrara uma pérola que, por si só, era
todo um tesouro. Em vez de gastar o tempo em perseguir, e o dinheiro em consumir outras pérolas, comprara
aquela outra, vindo a ser o mais rico e feliz dos mercadores.

Mas como há de ser, tão grande recompensa para tão pouca labuta! O infinito pelo finito, qual o mistério? O Espírito
Santo é amor infinito, e o céu, o reino deste amor. Esconde-se-nos a razão de tal proporção, mas o fato é inconteste.
Afiança-nos a palavra divina, tornam-no sensível aos olhos as imagens presentes. Quem não presenciou a bondade,
a grandeza, a prodigalidade de algumas árvores? Num instante meditado, fala-nos este espetáculo: para abrigar-se
dos ardores soalheiros, aquecer o lar, cobrir a mesa de frutos suculentos, por anos a fio, ao homem basta-lhe o
sacrifício dum só fruto, capaz quando muito da satisfação dum tênue apetite.

Aquele que multiplica, de tão espantoso modo, os frutos das árvores, prometeu-nos multiplicar, conforme a mesma
lei, o fruto das obras: Centumplum accipiet. A quem cabe o direito de lhe duvidar da palavra, limitar-lhe o poder? Os
milagres resplendentes da ordem material são pálida imagem dos milagres que se consumam na ordem moral.
Quanto vai da diferença entre a humílima semente, plantada em terra, e a árvore magnífica, repleta de flores e
frutos, segundo a estação, vai com usura da diferença que há entre o prazer fugaz, que sacrificamos ou cuja privação
voluntária aceitamos, e as torrentes de deleites eternos com que seremos inundados.

Ora, nasce o fruto do fruto. Nasce o fruto da vida eterna dos frutos temporais, nossos conhecidos. Resta dizer o
como cultivá-los. Há de se cultivá-los no cultivo da árvore que os carrega: esta árvore nada mais é que o próprio
Espírito Santo (S. Agost., Enarrat, in ps. 145 n. 11, opp. t. IV p. 2333, edit. Noviss). Como cultivá-lo? Rendendo-lhe o
merecido culto. Daí, duas perguntas: deve o mundo culto ao Espírito Santo? qual este culto?

1º Deve o mundo um culto ao Espírito Santo? Quando desejo obter a resposta a uma pergunta de história ou
astronomia, interrogo os historiadores ou os astrônomos. Para saber se o mundo deve um culto ao Espírito Santo,
dirijo-me aos mestres em ciência divina. São eles: o próprio Deus, Nosso Senhor, os Apóstolos, os Padres, a Igreja.
Desde o começo do mundo, tais mestres ensinam em uníssono, de geração a geração, ao eterno soldado cujo nome
é gênero humano: teus mais terríveis inimigos não são aqueles que vês, os homens de carne e sangue. Para ti, a
verdadeira luta é contra o espírito do mal e suas hostes invisíveis. Quereis conhecer-lhes a natureza? é superior à
tua. O caráter? são a própria maldade. O contingente? incalculável. Os artifícios? são os pais da mentira. O quartel?
habitam o ar que respiras, investem contra ti mais ligeiros que a ave de rapina. Só, espírito luta contra espírito,
Espírito do bem contra espírito do mal. Conservar-se escondido sob as asas do Espírito do bem, ou cair nas garras do
espírito do mal, é a inevitável condição da tua existência. (Eph, VI; Corn. A Lap., ibid; 1Petr., V, 8). Assim em uníssono
ensinam os mestres da ciência. Escutemos cada qual em particular.

Deus. A fim de tornar presença constante no homem a necessidade do culto ao Espírito Santo, escreveu Deus dois
grandes livros: o mundo e a Bíblia. Com igual eloqüência, ambos os livros contam as glórias do Espírito Santo. O
amor imperecível à humanidade, e a indispensável assistência sua. O céu e seus sóis, a terra e suas riquezas, o mar e
suas leis, até o caos que ele ordena e fecunda, falam dele, assim como do Filho e do Pai. Mais de cinqüenta vezes,
nomeia o Antigo Testamento, bendizendo-a, a terceira pessoa da Adorabilíssima Santíssima Trindade. Duzentas
vezes prestam-lhe homenagem dentro do Novo Testamento.

Que revela a repetição tão freqüente, senão o papel soberano e eterno do Espírito Santo na obra da criação, do
governo e da redenção do mundo? Que apregoa, senão o dever imposto aos homens e aos anjos de sempre tê-lo
consigo, junto com o Pai e com o Filho, como objeto de seus pensamentos, orações e adorações? Adicionemos que
se há de existir alguma preferência no culto incessante, esta recairá sobre o Espírito Santo, Amor substancial do Pai e
do Filho. Ele só se revela nas mercês. Os dons da natureza e da graça vêm diretamente dele.

Nosso Senhor. Juntam-se a voz da Bíblia e das criaturas àquela da Verdade em pessoa, o Verbo encarnado. Nem
exemplos nem palavras, nada omitiu o Salvador do gênero humano para nos instar ao amor do Espírito Santo e
puséssemos Nele toda a confiança. O que era João Batista em relação ao Cristo, parecia Ele em relação ao Espírito
Santo. O filho de Zacarias, o maior dentre os filhos de homens, foi escolhido precursor do Messias. O filho de Deus
como que toma para si o papel de precursor do Espírito Santo, e parece não ter outro fim, senão o de preparar o
mundo para recebê-lo.

Decidiu se fazer homem, mas quisera sua mãe esposa do Espírito Santo. Quisera seu corpo formado numa operação
do Espírito Santo; que no dia do batismo o mesmo Espírito descesse sobre si visivelmente, e o conduzisse ao deserto,
a fim de prepará-lo para sua missão. Durante o inteiro curso da vida mortal, mostra-se amiúde sob a dependência do
Espírito Santo, que o conduz ao Calvário. Morto, é o Espírito Santo que o retira do sepulcro (Matth., IV, 1; XII, 18, 28;
Hebr., IX, 15; Rom., VIII, 2).
Há mister de defender os direitos do Espírito Santo? Parece que se esquecem deles. Pronunciara o mesmo Cristo
esta sentença: quem pecar contra o Filho do Homem, será perdoado; mas quem pecar contra o Espírito Santo, não
será perdoado nem neste século, nem no vindouro (Matth., XII, 32). Deve-se reservar um lugar para ele dentro das
almas? Jesus não hesita em separar-se de tudo quanto lhe era mais caro no mundo, de temor que tal presença
constitua-se em obstáculo ao reinado absoluto do Espírito Santo (Joan., XVI, 7). Tais foram as palavras e condutas da
segunda pessoa da Santíssima Trindade em face da terceira pessoa. Jamais céu e terra ouviram nem ouvirão nada
tão eloqüente, acerca da excelência do Espírito Santo, do culto que lhe é devido e da necessidade de seu reinado.

Os Apóstolos. Instruídos na escola do Verbo e formados pelo Espírito Santo, contam os apóstolos a sua plenitude.
Diante dos novos fiéis e dos perseguidores, em seus escritos e discursos, sempre trazem o Espírito Santo sobre os
lábios. Aos diáconos o cuidado de alimentar os pobres; a eles, a missão de anunciar o Espírito Santo, de dá-lo a saber
ao mundo e proclamar por toda parte a necessidade premente de submeter-se a seu império. Nada mais lógico.
Qual sua vocação, e por que são eles apóstolos? A vocação é uma rija luta contra o espírito do mal, satã, deus e rei
do mundo. Como apóstolos, está sua razão de ser na caça ao usurpador, fazendo reinar o Espírito do bem.

Qual nuvens salutares, soprados pelo Vento do Cenáculo, espalham-se para os quatro cantos do céu e fazem chover
sobre todas as partes da terra – é neles em que o Espírito tem morada. Gigante desta imensa batalha, São Paulo o
leva por durante trinta anos, de Oriente a Ocidente, e de Ocidente a Oriente. Em todo lugar, exalta as glórias do
Espírito Santo, revela sua presença por meio de esclarecidos milagres, não cessa de rogar aos judeus e aos pagãos,
aos gregos e aos bárbaros: “recebei o Espírito Santo; guardai-vos de entristecer o Espírito Santo; sobretudo, guardai-
vos de expulsá-lo. Senão, permanecereis ou caireis no império do espírito infernal. Quem nega o espírito de Jesus
Cristo, não tem parte com ele. Sem o Espírito Santo, nada podeis obrar para vossa salvação, sequer pronunciar o
nome do autor da salvação e das graças” (Eph., I, 17; IV, 30; I Thess., V, 19; Galat., V, 16, 17; Rom., VIII, 9; I Cor., XII,
3).

O que Paulo ensina em Tessalônica, Efésio, Atenas e Corinto, ensina Pedro em Jerusalém, Antioquia, Roma;
Bartolomeu na Armênia; Tomé nas Índias; André na Cítia; Tiago na Espanha. Mateus na Etiópia. Assim os apóstolos
se nos deparam como homens do Espírito Santo. Pode-se definir o que eram suas pregações, viagens, milagres, sua
vida sublime e sua morte não menos sublime: era o Espírito Santo anunciado, comunicado e apresentado para amor
e obediência do mundo inteiro. Ora, a conservação dos seres nada mais é que continuação de sua criação. Caso o
mundo cristão, formado pelo Espírito Santo, queira continuar a sê-lo, é imprescindível que permaneça fiel ao
princípio de sua origem. Ótimo tema para reflexões em nossa época!

Os Padres. Aos apóstolos sucederam os padres da Igreja e os doutores. Eles viram com os olhos a mais espantosa
das revoluções: satã expulso de seu império, e a humanidade, livre da escravidão, converter-se à liberdade, à luz e às
virtudes do Evangelho. Nenhum deles ignora que o milagre da regeneração do mundo, maior que o da criação, não
começou em Belém, mas no Cenáculo, por obra do Espírito Santo. Consumiam suas vidas na perpetuação e
divulgação desta obra maravilhosa, como consumiram os apóstolos para estabelecê-la. Desde os primeiros séculos, a
história mostra-nos os mais excelsos gênios de Oriente e Ocidente consagrando o saber e a eloqüência na explicação
das prerrogativas do Espírito Santo, na justificação da divindade, na explicação das operações miraculosas, na
demonstração da necessidade de seu reinado, na solicitação das adorações que lhe devem o gênero humano.

A exemplo do Apóstolo, São Crisóstomo, Santo Agostinho, São Jerônimo não se cansam de falar do Divino Paráclito.
Dídimo, São Basílio, Santo Ambrósio consagram-lhe cada qual um tratado particular. As obras imortais de São
Cipriano, Santo Atanásio, São Cirilo, São Gregório Nazianzeno, Santo Hilário, São Leão, São Gregório o Grande, Beda
o Venerável, Ruperto, Santo Tomás de Aquino, São Boaventura, São Bernardo, Santo Antônio e duma multidão
doutros são outros tantos canais por que corre abundante o ensinamento apostólico do Espírito Santo. A todos estes
grandes homens, fundadores da sociedade cristã, nada lhes era tão caro como o inculcar no mundo o estado de
permanente necessidade deste, que se há de viver ou sob o império do Espírito Santo ou sob o de satã.

Em nome de todos, ouçamos São Bernardo e São Crisóstomo. “Temos, diz o primeiro, duas prendas do amor de Deus
por nós: a efusão do sangue de Jesus Cristo, e a efusão do Espírito Santo. Um de nada serve sem o outro. O Espírito
Santo só se dá a quem acredite em Jesus crucificado. Mas a fé de nada serve, se não opera na caridade. Ora, a
caridade é dom do Espírito Santo” (Epist. 107 ad Thom., Praeposit. de Beveria, opp. t. I, p. 294. n. 8 e 9, edit. Noviss).

São Crisóstomo: “Sem o Espírito Santo, nem os fiéis poderiam orar a Deus, nem chamá-lo de Pai. Sem ele, não
haveria ciência, nem sabedoria na Igreja, nem pastores, nem doutores, nem santificadores. Em suma, sem ele não
haveria Igreja” (In sanct. Pentecost., hom. I, n. 4, opp. t. II, p. 543; id., t. IX, p. 296, 297).

Caso não existissem Igreja, padres, doutores, nem possibilidade de orar, nem meio de lucrar do sangue do Calvário,
como subtrair-se ao domínio do demônio? Ora, sem o Espírito Santo, nada disso existiria. As partes do mundo
civilizadas pelo cristianismo seriam ainda como a China, as Índias, a África, o Japão, o Tibete, regiões sob o domínio
do príncipe das trevas. Este é o ensinamento tradicional dos padres da Igreja. Existe razão mais poderosa acerca da
necessidade de conhecer o Espírito Santo, de amá-lo, de adorá-lo e de submeter-se a seu império?

A Igreja. Para torná-lo indelével, tornando-o popular, a Igreja cuida de traduzir em atos esse ensinamento
fundamental. Além do sinal da cruz, cujo uso freqüente, mui recomendado1, repisa diversas vezes ao dia às crianças
o nome e a influência necessária do celeste Consolador, emprega ela mil outros meios de mantê-lo sempre em face
de seu pensamento.

Qual seja, junto com o Pai e o Filho, o objeto invariável da liturgia, deseja a Igreja que uma festa, soleníssima, a cada
ano, de geração em geração, recorde o reconhecimento das nações batizadas, recorde aquele a quem o mundo tudo
deve: luz, caridade, liberdade, civilização no tempo, glorificação na eternidade.

Apresenta-se ele na vida da Igreja, na vida dos povos, ou na de particulares, nas circunstâncias em que a sabedoria
do alto se torna especialmente necessária? A Igreja nunca deixa de se dirigir ao Espírito Santo.

A metrópole do mundo católico, Roma, está de luto. A morte, que não respeita ninguém, abateu-se sobre seu
pontífice e rei. A Pedro se deve um sucessor, ao Filho de Deus um vicário. O Sacro Colégio está em assembléia,
profundo silêncio engolfa o santuário, onde se dará continuidade à seqüência dos pontífices. Por onde começará o
ato decisivo, quem deve depositar nas mãos dum frágil mortal o destino do mundo civilizado? A primeira palavra
que escapa dos lábios dos anciãos, prosternados diante de Deus, é a invocação do Espírito de sabedoria, hino
diversas vezes secular: Veni, creator Spiritus.

Da mesma forma que se perpetua o pontificado, assim o sacerdócio. Contemplem a tropa de jovens levitas que
avançam modestos e tímidos em direção ao bispo, cuja mão lhes deve consagrar padres, segundo a ordem de
Melquisedeque. Arautos da fé, modelos dos povos, missionários nas margens distantes, talvez mártires caso se
precise de grandes virtudes, o consagrante tem necessidade de muitas luzes. Para lograr aos primeiros heroísmo,
aos segundos discernimento, a quem a Igreja irá dedicá-los? ao Espírito Santo. Na ordenação, como no conclave, o
hino real eleva-se ao céu, consagrando a augusta cerimônia desde o início: Veni, creator Spiritus. Desta forma, desde
o pontífice posto no cume da escada sagrada, até o levita assentado sobre o último degrau, a hierarquia da Igreja
perpetua-se sob os influxos do adorável Espírito que a forma.

Na incompreensível ternura para com os filhos dos homens, Deus em pessoa digna-se habitar sobre a terra: permite
que lhe erijam templos. Quem os tornará dignos, estes templos materiais? Quem fará novos céus? É o mesmo
Espírito que das castas entranhas de Maria erigiu o santuário do Verbo eterno. Ao chamado da Igreja, descerá até às
moradas terrestres, as purificará, as ungirá com sua sagrada presença, e para sempre as fará agradáveis a Deus e
respeitáveis aos homens. A invocação solene é o começo da imponente dedicação, que vai pedir com instância por
sobre o trono o Espírito santificante: Veni, creator Spiritus.

Consagrar-lhe-ão augustíssimos templos. Aos pobres, aos órfãos, aos doentes, dar-se-ão padres e madres, irmãos e
irmãs que lhes esposam os sofrimentos, aliviam as necessidades, desde o berço até à tumba e mais além. Quem
operara tal milagre, desconhecido do mundo até antes do Pentecostes cristão? A partir de então, invocar-se-á o
Espírito de devoção. Como no dia do Cenáculo, ele descerá; novos corações surgirão da ação de seu poder, e o
mundo terá, nos religiosos e religiosas, contínuas gerações redivivas de mártires e apóstolos da caridade: Veni,
creator Spiritus.

Por obra de pérfidas inteligências no humano coração, o espírito do mal conseguira aos pouquinhos franquear as
muralhas da cidade do bem. A cizânia foi semeada no campo do pai de família. À vista da defecção dalguns, da
conivência e cobardia doutros, os chefes das tropas ficaram confundidos. Tornou-se necessária uma regeneração,
parcial ou total. Então, recorre a Igreja aos excelentes instrumentos que se chamam concílios e missões.

Recolhida, como os apóstolos no Cenáculo, começa invariavelmente na invocação do Espírito Santo formador e que,
no formar, renova de alto a baixo a face da terra. Em favor de suas orações e cânticos, conjura-o à iluminar as
inteligências; em ditar pessoalmente as decisões de fé e as regras de costumes; em dar eficácia à palavra do Verbo,
em purificar os corações e em lhes influir, junto com a vida sobrenatural, coragem para a luta. Sob a influência
sempre antiga e sempre nova do Espírito criador, luzes viventes derramam-se por sobre o mundo, transformações
miraculosas se dão nestes novos cenáculos: Veni, creator Spiritus.

Tanto quanto o homem cristão, o homem social precisa do Espírito Santo. Em todas as ocasiões solenes, toma a
Igreja o cuidado de recordá-lo disso. A morte que se abate sobre os pontífices não poupa os reis. O trono está
vacante, deve-se preenchê-lo. Dar um rei a uma nação é presenteá-la com bem precioso ou funestíssimo. Bispo dos
leigos, protetor, modelo e pai dos povos são tudo nomes dos reis cristão. Nestes nomes, quais os deveres? quem se
elevará à altura da dignidade? quem lhe ensinará que o poder é um jugo? quem os despojará de si mesmo para ser
um homem de todos? Somente o Espírito Santo opera este difícil milagre.

Sabe-o a Igreja: a sagração dos reis nada mais é que a evocação perpétua do Espírito de força, luz, justiça e caridade.
Nesta terrível consagração, declara aos reis da terra: sois vassalos do Rei dos céus, obrigando-os a ser dele a imagem
viva; para ele, como para o último dos súditos seus, há de prestar contas da administração: são estas as garantias
para a felicidade temporal e a salvação eterna das almas! Ainda para as dinastias, que regalo de duração! Meteoros
passageiros ou torrentes sempre a correr, eis o que foram e para sempre serão, caso se não sustentem no Espírito
de Deus: Veni, creator Spiritu.

Fazer leis e aplicá-las com discernimento, i. é, distinguir por sua vez o justo do injusto, punir o culpado com utilidade,
absolver o inocente com coragem, é tão importante para a felicidade das nações quanto a consagração dos reis. A
prosperidade pública, a paz interna, o respeito externo, a fortuna, a honra, a liberdade, a segurança, a vida mesma
dos cidadãos estão nas mãos do legislador e do juiz. Que responsabilidade!

Nem o próprio Salomão conhecia nada de mais temível. Já o paganismo disso não se dava conta, ou não o tinha em
conta. Seus códigos testemunham que só se valiam das regras vulgares de prudência humana, ou o dictamen
vacilante da eqüidade natural: amiúde o único deus invocado era o interesse, o capricho ou a força. Nas mesmas
fontes de direito se desalteram os povos não-cristãos e aqueles que pouco a pouco o deixaram de ser. Daí, o
escândalo das legislações e a iniqüidade das jurisprudências.

Comportam-se assim as nações nascidas no Cenáculo? de forma alguma. Quer a Igreja que os legisladores e os
magistrados cristãos busquem inspiração na fonte da vida, tomando por regra constante a lei imaculada, de que o
Espírito Santo é ao mesmo tempo o autor e o intérprete2: Veni, creator Spiritu.

Durantes quantos anos a velha Europa não assistira assembléias políticas, estados gerais, parlamentos, tribunais
abrirem suas sessões com a invocação compenetrada do Espírito de sabedoria e de luz, sem o quê toda legislação é
defeituosa, toda justiça cega, toda ciência perigosa ou vã? (Prov., VIII, 15. – Sap., XIII, 1). Aquela piedade não fora
estéril. Enquanto o Espírito Santo dirigia os trabalhos, os legisladores e os magistrados não macularam os códigos
modernos de quaisquer leis anticristãs, nem os anais dos tribunais de enormidades jurídicas.

Não basta para a Igreja a invocação do Espírito Santo, quando dos grandes momentos em que se deve debater o
proveito geral das sociedades cristãs. Recomenda a todos os seus filhos, pouco importa idade ou estado, recorrer a
ela no começo de suas ocupações. Assim, diversas vezes ao dia, sobre todos os pontos do globo, a criança cristã, que
estuda as ciências sagradas ou profanas, clama ao socorro de sua jovem inteligência o Espírito de luz, coragem e
pureza.

Quer dizer isso, para as jovens gerações que entram no embate da vida, receber a terceira pessoa da Santíssima
Trindade? é por isso que a Igreja multiplica os esforços de solicitude materna. Instruções prolongadas, orações
públicas e particulares, purificação da alma pelos sacramentos, anúncio solene do pontífice: tudo é posto em ação
para de cada paróquia fazer um novo cenáculo3.

Junto com muitos outros, estes são os meios que sem cessar emprega a Igreja, para tornar o Espírito Santo sempre
presente à memória e ao coração de seus filhos. Há como repetir com maior força a contínua necessidade que
temos dele, enquanto homens e cristãos? É permitido afastar as recomendações tão instantes da mais sábia das
mães? Não haveria ingratidão em esquecê-la? Qual dentre as criaturas possui todos seus dons? Não haveria perigo
na pretensão de seguirmos sem ele, rodeados de inimigos que somos?

Não é o mesmo o perigo, tanto para os indivíduos como para as sociedades? Podem se imiscuir da alternativa
imperiosa de viver sob o império do Espírito Santo ou sob a tirania do espírito do mal? Particularmente, nossa época
goza dalguma imunidade neste jogo? Infelizmente, para ela, bem mais que para outra, o culto do Espírito Santo é, do
ponto de vista apenas social, a mais premente necessidade do momento.

Esta época, tão confiada em ser mestra de si mesma, como se encontra? Interroguemos seus atos e tendências. O
desarvorado luxo que a devora e convida a grandes brados a formidável reação do pobre contra o rico, o socialismo;
o sacrifício perpétuo, e a cada dia mais comum, da consciência, da honra, da inteligência, da vida pública e privada
ao culto da carne; a insurreição generalizada, inaudita, obstinada das nações contra Deus e contra seu Cristo; as
torrentes de doutrinas envenenadas, noite e dia espalhadas pelo mundo, terríveis semeaduras, seguidas
inevitavelmente por colheitas piores ainda: é o Espírito Santo que inspira e faz todas essas coisas? Se não é o Espírito
de vida, é o de morte.

A qual dos dois pertencerá o amanhã? Quem quer sabê-lo desde agora, não interrogue a ciência e a diplomacia,
basta olhar para qual lado se voltam as nações. Eis aí a questão. Para nós, se há algo evidente, é que o mundo atual,
o infeliz suspenso por um fio sobre o abismo, deve ao Espírito Santo, seu único libertador, o mesmo culto, com isso
querendo dizer as mesmas orações ardentes. Quem entenderá tal situação? Quem sentirá tal necessidade? Quem
cumprirá tal dever? Ninguém ou quase; mas esta não é lá grande prova de que o que dizemos é a verdade. Terribilli
et ei qui aufert Spiritum principium.

(Retirado de O Tratado do Espírito Santo; tradução: Permanência)


1. 1. Um decreto de Pio IX anexa 50 dias de indulgência à prática deste sinal venerável. Ver nossa obra: Le Signe
de la Croix au XIX siècle.

2. 2. Nunca cessam de repetir, conforme Bossuet, que o direito romano é a razão por escrito. Nada mais falso.
A verdadeira razão por escrito é o decálogo. Não houve nem haverá outra, jamais.

3. 3. É de lamentar ao infinito que as prudentes intenções da Igreja não se cumpram sempre, e que, segundo
um dito vulgar, a confirmação seja escamoteada em proveito da primeira comunhão.

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O culto do Espírito Santo - capítulo II


2º Qual culto deve o mundo ao Espírito Santo? Como o Pai e o Filho, o Espírito Santo é Deus. Como o Pai e o Filho,
tem direito ao culto de latria. O culto soberano é interior e exterior, público e privado. Todos estes aspectos,
obrigatórios em relação ao Pai e ao Filho, se devem também guardar em relação ao Espírito Santo. Ousemos
acrescentar que, em desagravo do longo esquecimento, cuja culpa recai na Europa moderna, e em razão da
ameaçadora invasão do espírito do mal, a terceira pessoa da Santíssima Trindade há de ser atualmente objeto de
culto preferencial, ardentíssimo como nenhum outro.
Consiste o culto interior na fé, na esperança e na caridade (S. Aug. Euchyrid., c. III). Crer que o Espírito Santo é Deus,
como o Pai e o Filho; como eles, pessoa distinta; com eles, uma só natureza; neles, em tudo igual; como eles, eterno,
todo-poderoso, infinitamente bom e perfeito. Deve-se crer que é tudo o Espírito Santo, como se crê que é o Pai e o
Filho; e esperar no Espírito Santo, como se espera nas duas outras pessoas da Adorabilíssima Trindade; e amar o
Espírito Santo com amor soberano, de complacência, de reconhecimento, de esperança, como se ama, pelos
mesmos motivos, o Filho e o Pai – eis os três atos fundamentais do culto interior que deve o mundo ao Espírito
Santo.

Dizemos: amor de complacência, por causa das infinitas amabilidades do Espírito Santo. Amor de reconhecimento,
por suas mercês. Só para falar de algumas, deve-lhe o mundo a Santa Virgem, o Homem-Deus, a Igreja e o cristão.
Amor de esperança, por suas magníficas promessas: o céu será o reino excelente do Espírito Santo, pois que há de
ser o reino da caridade (Corn. a Lapid., in Luc., I, 35).

Como a claridade sai da fornalha, necessariamente o culto exterior sai do culto interior, não menos obrigatório. É ao
homem impossível, composto de dupla substância, não manifestar por sinais exteriores os sentimentos que lhe
agitam a alma. Melhor ainda: todos seus atos exteriores não passam da tradução dos pensamentos e sentimentos
interiores. Além disso, deve violentar de contínuo sua natureza, para recalcar ao fundo d’alma o que imperiosa e
constantemente teima em se manifestar. Deve o homem a Deus a homenagem dos sentidos, tanto quando lhe deve
a do espírito. Assim, os atos exteriores de adoração, as orações, o sacrifício, a ação de graças devidas ao Pai e ao
Filho, devem-nas ao Espírito Santo.

O homem não é um ser isolado, mas social. A este título, é obrigado a prestar a Deus um culto público. Deus, autor
das famílias, dos povos e da sociedade, e também dos indivíduos, tem direito às homenagens deste ser coletivo,
como tem direito às homenagens do ser individual. Enquanto pessoa pública, os seres coletivos só retribuem a Deus
o tributo por meio de adorações coletivas. Um povo sem culto público seria um povo ateu; como jamais existisse um
povo ateu, desde a origem do mundo e sobre todos os pontos do globo, houve um culto público.

Acrescentemos que este culto é todo benesses para as nações, que dele tem necessidade para viver. Um mero
raciocínio é bastante para prová-lo: não há sociedade sem religião; não há religião sem culto interior; não há culto
interior sem culto exterior. São tais proposições axiomas de geometria moral e também de leis sociais e políticas,
que época alguma, nem nação, jamais dispensou impunemente.

Não menos necessário que o culto público, o culto privado se deve manifestar na lembrança do Espírito Santo, na
oração, na imitação e no temor de ofendê-lo.

A lembrança é o pulso da amizade. Enquanto bata, existe amizade. Com que força ou freqüência não deve bater
nosso coração pelo Espírito Santo? Amor consubstancial do Pai e do Filho, amor ativo de eternidade, fonte dos bens
da natureza e da graça de que gozamos cá embaixo, é também rei do século futuro, quando santificará os eleitos na
efusão, ilimitada e infinita, dos divinos deleites.

Enquanto espera, por quantos expedientes solicita nosso amor! O ar que se respira, a estrela que brilha no
firmamento, as árvores carregadas de frutos, as ricas colheitas, as flores tão odoríferas, variadas e belas – todas as
criaturas que só tem alento para nosso serviço, parecem gritar-nos com voz infatigável: Amai o Espírito de amor que
nos criou como a vós, e que para vós nos criou. Se escutássemos esta voz, e quem não na escutaria! o amor do
Espírito Santo extravasaria do coração nosso, como o ribeiro da nascente. Manifestando-se o Espírito, a ação de
graças, a invocação, a adoração, as confidências íntimas, a oração em suas várias formas, tornar-se-iam um laço de
comércio habitual entre o mundo e o Espírito Santo, em que todo lucro seria nosso.

Nas dúvidas, perplexidades, doenças d’alma ou do corpo, a quem nos dirigir com maiores oportunidades de êxito?
Sobretudo, qual defensor invocar, ao considerar as catástrofes com que nos ameaça o espírito do mal? Somente o
Espírito do bem lhe pode obstar o progresso. O mesmo é dizer que a devoção ao Espírito Santo deve ser a favorita
dos cristãos atuais, e as orações íntimas, inspirada na fé dos avós, hão de exalar do coração, com freqüência
semelhante a do alento que nos sai dos lábios: Veni, creator Spiritus Veni, sancte Spiritus, etc.
Aqui se apresenta uma questão: quando da necessidade de luzes, por que se dirigir ao Espírito Santo e não ao Filho,
luz do mundo: Ego lux mundi? Tal prática não se opõe ao costume de atribuir ao Pai o poder, ao Filho a sabedoria e
ao Espírito Santo a caridade?

É fácil responder: a luz é dom de Deus, e como ato de amor é natural pedi-lo ao Espírito Santo, o amor por essência
e, por conseguinte, o princípio de todos os dons. Acrescente-se que, sendo Deus, o Espírito Santo é luz, como é o
próprio Filho; e que o amor, principal atributo do Espírito Santo, é a luz verdadeira, por que são esclarecidos a alma
e o coração. Donde vem que o melhor conselheiro, o causídico mais confiável, é o amor de Deus e do próximo, cuja
fonte é o Espírito Santo.

Ademais, seguindo a prática secular, a Igreja limita-se a se conformar às intenções de Nosso Senhor. Não fora ele
mesmo que ensinara a guardar o Espírito Santo como a morada da luz e oráculo da verdade? Na pessoa dos
apóstolos, disse ele a sua esposa, duma vez por todas: “Quando vier o Espírito que vos enviarei, ele vos instruirá de
toda a verdade” (Joan., XVI, 13). Assim, nada mudou: nem o papel que o Verbo feito carne toma em face do Espírito
Santo, nem a missão excelente do Espírito Santo. Luz dos profetas do Antigo Testamento, locutos per prophetas, ele
continua a inspirar a Igreja e todos seus filhos.

Entretanto, não bastam as orações e adorações para que haja o verdadeiro culto do Espírito Santo. O culto tem por
fim aproximar o adorador do ser adorado. Essencialmente, consiste esta aproximação na imitação. Imitar o Espírito
Santo é parte fundamental de seu culto.

Ora, a pureza e a caridade são atributos distintivos do Espírito Santo. Segue-se que imitá-los constitui a essência do
culto. A pureza de afetos, i. é, o desapego do coração das paixões desordenadas, é tão almejada pelo Espírito Santo,
que somente a sombra de tal imperfeição o impediria de descer ao coração dos apóstolos. Já que é assim, seria
ilusão grosseira ter a pretensão de que ele escolheria por morada a alma escrava da carne. Santificar os afetos e
pensamentos é o primeiro passo a se dar na imitação e no culto do Espírito Santo.

A caridade é o outro atributo da terceira pessoa da Santíssima Trindade. Por um lado, tende a caridade à união,
união que faz a força; por outro, a caridade se manifesta nas obras. Esta segunda parte do culto do Espírito Santo é
tão necessária quanto a primeira. Daí, nos séculos cristãos, as ordens militares do Espírito Santo, as numerosas
associações de caridade espiritual e corporal, conhecidas sob o nome de Confrarias do Espírito Santo. Uma palavra
acerca destas instituições, cuja só existência caracteriza o Espírito reinante sobre a velha Europa.

No século catorze, apesar da decadência dos costumes, era o Espírito Santo popular o bastante, até nas classes altas
da sociedade, para permitir aos reis honrá-lo com cultos vistosos, com a participação da flor da nobreza. No dia de
Pentecostes de 1352, Luís de Tarento instituiu, quando de sua coroação como rei de Jerusalém e de Sicília, em honra
do Espírito Santo, a quem se considerava devedor deste insigne favor, a ordem militar do Espírito Santo da Reta
Intenção.

Ele mesmo redigiu os estatutos, que começavam assim: “Estes são capítulos feitos e engendrados pelo
excelentíssimo príncipe Senhor rei Luís, pela graça de Deus, rei de Jerusalém e de Sicília, em honra do Espírito Santo,
provedor e fundador da nobilíssima companhia do Espírito Santo da Reta Intenção, começada no dia de Pentecostes
do ano da graça de MCCCLII”.

“Nós, Luís, pela graça de Deus, rei de Jerusalém e de Sicília, em honra do Espírito Santo, no dito dia, por sua graça,
fomos coroados de nossos reinos, e por alçamento e crescimento de sua honra, ordenamos se fizesse uma
Companhia de cavaleiros que serão chamados os cavaleiros do Espírito Santo da Reta Intenção, e os ditos cavaleiros
serão em número de trezentos; dos quais Nós, como provedor e fundador desta Companhia, seremos príncipe; e
também o devem ser todos nossos sucessores reis de Jerusalém e de Sicília” (Ver Guisliniani Ist. di tui gli ordin. ozilit.,
et Hélyot, Hist. des ordres religieux T. VIII, p. 319, edit, in-4).
Ajudar e socorrer o rei, na guerra ou demais ocasiões, era o grande dever dos cavaleiros. A disposição constante ao
sacrifício simbolizava-se em um nó ou um laço de amor, em fazenda colorida, pregado sobre o peito. Acima do nó,
lia-se: Se Dieu plaist [Se praz a Deus]. Enquanto o cavaleiro não prouvesse a Deus com um assinalado e esclarecido
feito de devotamento, o nó continuava atado.

Se combatesse o inimigo superior em número e recebesse honrosas feridas, ou levasse notável vantagem, desde
este dia levava consigo o nó desatado, até que visitasse o Santo Sepulcro e rendesse preito a Nosso Senhor de sua
vitória. Ao retorno, o nó estaria novamente atado, com este dístico: Ele prouve a Deus, acompanhados dum feixe de
luz ardente, a representar uma língua de fogo, memória do símbolo sob que o Espírito Santo descera sobre os
apóstolos.

Tais guerreiros, verdadeiros cristãos, jejuavam todas as quintas-feiras do ano, e neste dia davam de comer a três
pobres em honra do Espírito Santo. A cada ano, compareciam em Nápoles no dia de Pentecostes. Encerrava-se a
celebração por uma refeição, que o rei em pessoa presidia. No centro do salão, punham uma mesa chamada de “A
Mesa Desejada”, onde comiam os cavaleiros que, durante o ano, desataram o nó. O que carregava o nó novamente
atado com a flama recebia uma coroa de louros.

À morte dum cavaleiro, o rei celebrava um ofício solene pelo repouso de sua alma. Presentes, os cavaleiros ali
assistiam; um parente próximo ou amigo do defunto pegava as espadas pela ponta e oferecia-as no altar, seguidos
do rei e demais cavaleiros, que o acompanhavam até o altar. Em seguida, punham-se de joelhos, rogando pela alma
do cavaleiro, e após o serviço fincavam a espada na amurada da capela. Recebida de Deus, empregada no servido de
Deus, retornava ela a Deus. Se o cavaleiro trouxesse a flama presa ao nó, gravavam em seu sepulcro uma flama,
donde saiam estas palavras: Ele cumpriu seu quinhão de Reta Intenção, estando cada cavaleiro obrigado a oferecer-
lhe sete missas em intenção do repouso de suaalma (Helyot, ubi supra).

Dois séculos depois, a França teria também sua ordem do Espírito Santo. No dia de Pentecostes de 1573, Henrique III
foi eleito rei da Polônia, e no mesmo dia, no ano seguinte de 1574, elevado ao trono francês. Com vontade de
imortalizar o reconhecimento para com o Espírito Santo, dera este príncipe, em 1575, uma carta de privilégio para a
instituição da ordem militar do Espírito Santo, de tantas glórias na história da Europa. Esta carta exprime
sentimentos, dos quais nos regozijamos, tanto mais que estamos desacostumados em lhes encontrar na boca dum
rei.

“Depositando, disse o monarca, toda a confiança na bondade de Deus, em quem reconhecemos a posse e o sustento
de toda a felicidade desta vida, é razoável que relembrássemos quanto nos esforçamos de lhe prestar imortais ações
de graças, e quanto testemunhamos à posteridade as grandes mercês que dele recebemos, particularmente em
meio a tantas opiniões diferentes que se embatem sobre o assunto da religião, e que afligem a França. Ele a
conservou no conhecimento de seu Santo Nome, na profissão da fé única e católica, e na união da única Igreja
apostólica e romana.

“E por isso prouveram, por inspiração do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, reunir-se os corações e as vontades
da nobreza polonesa, o que levou todos os Estados desse reino e do ducado de Lituânia a nos eleger rei, e depois de
tal dia elevar-nos ao governo do reino de França; por meio do qual, tanto para conservar a memória de todas as
coisas, como para fortificar e manter doravante a religião católica, e bem assim para condecorar e honrar a nobreza
do reino, Nós instituímos a ordem militar do Espírito Santo... a qual ordem criamos e instituímos em aquele reino, a
fim de que o Espírito Santo faça-nos a graça de ver reunidos todos nossos súditos na fé e na religião católica, e de
viver para o amanhã em boa amizade e concordância uns com os outros... que é o fim ao qual tendem nossos
pensamentos e ações, e o cúmulo de nosso maior regozijo e contentamento” (Helyot., t. VIII, p. 406 e ss).

Satã é o espírito da divisão. O Espírito Santo é o Espírito de caridade. Se há um meio de unir novamente um reino,
cruelmente cindido por guerras de religião e discórdias civis, suas inevitáveis conseqüências, é com certeza o
restabelecimento do reino do Espírito Santo. O pensamento do príncipe é justíssimo: nada é tão apetecível quanto a
finalidade desta instituição. A sua mera existência é já um imenso serviço. Exibindo a nobreza mais alta
comprometida após o pavilhão do Espírito Santo, dá-lhe suma importância enquanto elemento social, retardando a
época do funesto esquecimento no qual caiu a terceira pessoa da Adorabilíssima Trindade, sob os olhares dos
governos modernos.

Os estatutos da ordem eram adequados à realização dos votos do monarca. Como guia supremo, o rei da França, no
dia da sagração, prestava juramento sobre o Evangelho: “de viver e morrer na santa fé e religião católica, apostólica
e romana, e antes morrer que dela sair; de conservar para sempre a ordem do Espírito Santo; de nunca poder
dispensar os comandantes e oficiais recebidos na ordem da comunhão e do recebimento do precioso corpo de
Nosso Senhor Jesus Cristo, nos dias ordenados, quais sejam, o primeiro dia do ano e o dia de Pentecostes.”

Instituída a ordem na propagação da fé católica, e na extirpação das heresias, o mesmo juramento de fidelidade
prestavam a Deus, à Igreja, ao Espírito Santo, ao rei os cavaleiros, no dia da recepção. Os cavaleiros eram em
número de cem, todos egressos de famílias nobres, de boa vida e costumes. Quando podiam, assistiam a missa
diariamente, e mais os dias de festa, na celebração pública do ofício divino.

Estavam obrigados a recitar a cada dia um rosário de uma dezena, que deviam levar consigo, e após o ofício do
Espírito Santo, com seus hinos e orações; ou então os sete salmos penitenciais ou, se não o recitassem, dar uma
esmola ao pobres. Nos dias de comunhão, ordenados pelos estatutos, deviam carregar o colar da ordem durante a
missa e a comunhão, em qualquer lugar em que se encontrassem.

No dia seguinte ao da recepção, iam escutar a missa vestidos com os trajos de cerimônia, e o rei, no ofertório,
apresentava um círio engastado de tantos escudos d’ouro quantos eram seus anos de idade. Após a missa,
almoçavam com sua majestade, e à tarde assistiam às vésperas dos mortos. No terceiro dia, assistiam ao serviço
pelos cavaleiros falecidos. O rei e os cavaleiros ofereciam cada um, no ofertório, um círio de uma libra. Além disso,
duas missas se celebravam a cada dia, no convento dos Agostinianos, de Paris: uma pela prosperidade da ordem e
dos cavaleiros vivos, outra para os cavaleiros falecidos (Helyot., ubi supra).

Que diferença entre as ordens militares d’outrora e as ordens modernas!

Enquanto a alta nobreza praticava com tanta pompa e circunstância o culto do Espírito Santo, o povo, ainda mais fiel
às tradições, conservava-o na sua ingênua, contudo patética e enérgica simplicidade. Parte da Europa estava coberta
de associações ou Confrarias do Espírito Santo. A alma destas instituições preciosas, cuja origem se perde na noite
dos tempos da barbárie, era a santificação de seus membros na união fraterna e na caridade: eis o Espírito Santo em
ação. É de se notar que elas existiam na maioria das paróquias da Sabóia. Até hoje, a privilegiada diocese de Saint-
Jean de Maurienne regozija por lhes conservar muitos belos vestígios.

As refeições públicas, de que tomavam parte os confrades (os confrades eram todos ou quase todos habitantes da
mesma paróquia), nos fazem pensar que as associações do Espírito Santo têm sua origem nos ágapes. Tais refeições
se realizavam sobre o gramado, em campo aberto. Matavam um boi para o festim. Até um tempo atrás, quando se
abatiam as enormes nogueiras, encontravam-se nos flancos das árvores seculares o gancho de ferro que utilizavam
para despedaçar o animal. Ainda existem, nalgumas paróquias, daqueles caldeirões imensos, em que se cozia o
ensopado para o dia do ágape. Mudados os tempos, converteram-se os ágapes em esmolarias gerais, para conservar
a memória da antiga disciplina e confortar com mais eficácia os pobres envergonhados.

Na qualidade de confrades, tinham os ricos parte nas esmolas, recebendo-as como os pobres. Assim usava o grande
e amável santo da Sabóia. Sabe-se que Francisco de Sales carregava religiosamente, nas dobras da sotaina, as nozes
que as criancinhas lhe davam, quando apareciam para a confissão. Eles as mandava servir à mesa, dizendo ao comer:
é o trabalho de minhas mãos, estou feliz de comê-las: Labores manum tuarum quia mandicabis, beatus es et bene
tibi erit.

Mas em desagravo ao que recebiam, e para tornar mais e mais generosas as porções dos pobres, os ricos
diligenciavam em aumentar, seja por doação ou testamento, a aporte de fundos dos confrades. Graças à
liberalidade, havia em cada paróquia, até cinco esmolarias gerais por ano.
Devido à época em que ocorriam e à natureza dos objetos distribuídos, vê-se que as esmolas tinham por fim
proporcionar aos confrades algumas alegrias inocentes, dulcíssimas ao deserdados do mundo, ou socorros materiais
necessários ao cumprimento das leis da Igreja. Deste modo, faziam a distribuição de azeite de noz no começo da
quaresma, pois que se não podiam curtir os alimentos na manteiga. A distribuição de toucinho era aos sábados
santos, para que os fiéis pudessem preparar a comida na gordura, durante o tempo pascal.

Mas era mui pouco ter parcos alimentos curtidos em gordura, na época em que a Igreja estava em alegria e os
ermitões mais rígidos afrouxavam as austeridades. Assim, no sábado de Páscoa distribuíam-se pão e vinho. Quando
da Ascensão, em que a geada vinha se precipitar por sobre as montanhas, distribuíam sal. Enfim, na segunda ou
terça-feira de Pentecostes, festa do patrono da confraria, distribuíam cozido, vinho e toucinho, o que permitia aos
mais pobres esquecer um instante as privações habituais. Atualmente, as distribuições ou esmolas apoucaram-se
àquelas do início da Quaresma e do Sábado Santo.

É isto apenas a face material da confraria. Todas as obras de caridade espiritual possuem sua face moral. Em
primeiro lugar, figura o cuidado das almas do purgatório. Por elas se oferecem missas numerosas e obras pias e
sortidas. Derramando sobre os mortos o orvalho refrigerante e pacífico, estes testemunhos de caridade intencional
buscam para os vivos poderosas intercessões aos pés de Deus, e imortalizam os laços da confraria. Onde se pode
encontrar algo melhor?

Por que o espírito moderno andou perseguindo ou destruindo as admiráveis associações? Nós o sabemos; mas o que
impede seu restabelecimento onde outrora existiam, e sua criação, onde não existiam então? Não o sabemos. Para
que isso aconteça, que falta?

Vontade. Vontade e sabedoria, considerando as circunstâncias de tempo e lugar1. Vontade e perseverança, não
temendo obstáculos, tendo-se em conta que o necessário há de se fazer sempre. Cada dia vê novas confrarias se
estabelecerem. São poucas as paróquias que não possuam associação ou conferência em honra da Santa Virgem, de
Sant’Ana e dos diversos santos do paraíso. Estará só e esquecida a terceira pessoa da Augustíssima Trindade, a quem
devemos tudo, até a Santa Virgem? Qual é a desculpa, sobretudo hoje em dia, para nossa indiferença?

Satã não se limita em capitanear o grande exército do mal. Com atividade inaudita, alicia sob nossos olhos
numerosos adeptos nas milhares de confrarias da iniqüidade. Sabe que para destruir, como para edificar, a união faz
a força. Sozinho, o Espírito do bem vence o espírito do mal. Basta dizer, parece-nos, que a ordem do dia é, mais que
nunca, favorecer o reino do Espírito Santo.

Em favor deste culto salutar, ainda há uma última consideração, que será objeto do capítulo vindouro.

(Retirado de O Tratado do Espírito Santo; tradução: Permanência)


1. 1. Que impediria, por exemplo, aproveitar o tempo da confirmação para realizar o projeto?

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“EJERCICIOS DE PIEDAD EN HONOR DE LA SANTÍSIMA TRINIDAD”


…”Nuestros deberes respecto a la Santísima Trinidad son tres: adorarla, darle gracias e
imitarla. Debemos adorarla sin tratar de comprenderla, porque este misterio es como el sol cuya existencia es
cierta, pero cuyo brillo deslumbra al que quiere mirarlo fijamente.
Debemos dar gracias al Padre por habernos criado, al Hijo por habernos rescatado, y al Espíritu Santo por habernos
santificado.
Debemos imitar a las tres personas de la santísima Trinidad en su santidad y caridad. Su santidad consiste: 1º en no
tolerar ningún mal en sí misma ni en las criaturas. 2º en dar a todos los hombres medios de santificarse. Su caridad
consiste en estar siempre perfectamente unidas y en hacer bien a todas las criaturas.
Estamos obligados a imitar a la santísima Trinidad porque hemos sido criados a imagen y semejanza suya, y Nuestro
Señor ha dicho: Sed perfectos, así como vuestro Padre celestial es perfecto.

FUENTE: Catecismo de perseverancia. Por el abate J. Gaume. Tomo VIII. Barcelona. Imprenta de Pablo Riera. 1857.
Págs. 348-349

O ensino da religião segundo Santo Agostinho


Santo Agostinho, interrogado por um diácono da igreja de Cartago sobre o melhor modo de ensinar a Religião, lhe
respondeu por seu admirável tratado: De catechizandis rudibus[1].

"O verdadeiro modo de ensinar a Religião, diz o grande bispo de Hipona, é de remontar a estas palavras: No princípio
Deus criou o céu e a terra, e de desenvolver toda a história do Cristianismo até nossos dias. Não que devemos relatar
de um extremo ao outro tudo o que está escrito no Antigo e no Novo Testamento: isso não é nem possível nem
necessário. Faças um resumo: insistas mais sobre o que lhe parece mais importante, e passe ligeiramente sobre todo
o resto. Deste modo, não cansareis aquele em quem queres excitar o ardor pelo estudo da religião, e não
sobrecarregareis a memória daquele que deveis instruir.

Ora, para mostrar toda a sequência da religião, lembre-se de que o Antigo Testamento é a imagem do Novo; que
toda a religião mosaica, os Patriarcas, suas vidas, suas alianças, seus sacrifícios, são igualmente imagens do que
vemos; que o povo judeu inteiro e seu governo são apenas um grande profeta de Jesus Cristo e da Igreja[2]".

Tal deve ser, segundo Santo Agostinho, o ensino da letra da Religião. Quanto ao espírito, o santo doutor, interprete
fiel do Mestre divino, o apresenta no amor de Deus e do próximo. Eis suas palavras notáveis:

"Começareis, portanto, vossa narração pela criação de todas as coisas em um estado de perfeição, e a continuareis
até os tempos atuais da Igreja. Vossa única finalidade será de mostrar que tudo o que precede a Encarnação do
Verbo tende a manifestar o amor de Deus no cumprimento desse mistério. O próprio Cristo imolado por nós, o que
ele nos ensina, senão o amor imenso que Deus nos tem testemunhado ao nos dar seu próprio Filho?!

Mas se, de uma parte, o fim principal que o Verbo se propôs ao vir sobre a terra foi de ensinar ao homem quanto ele
é amado por Deus, e se este conhecimento em si não tem outra finalidade senão de acender no coração do homem
o amor de um Deus que o amou por primeiro, e amor do próximo do qual este mesmo Deus veio dar o preceito e o
exemplo; se, de outra parte, toda a Escritura anterior a Jesus Cristo tem por finalidade anunciar seu advento, e se
toda aquela que lhe é posterior fala apenas do Cristo e da Caridade, não é evidente que não somente a Lei e os
Profetas, mas ainda todo o Novo Testamento, se reduzem a estes dois grandes preceitos: amor de Deus e o amor do
próximo?

Dareis conta, portanto, de tudo o que relatareis; explicareis a causa e o fim de todos os acontecimentos pelo amor,
de modo que esta grande ideia esteja sempre diante dos olhos, do espírito e do coração. Este duplo amor de Deus e
do próximo sendo o termo no qual se relaciona tudo o que tendes a dizer, conte tudo o que conte, de modo que
vossa narração conduza vosso auditor à fé, da fé à esperança, da esperança à caridade[3]".

Tal é o plano que temos tentado realizar. Poderíamos escolher um plano melhor? A juventude do século 19 se
perderá se lhe dermos por catequista Santo Agostinho? Assim a exposição da Religião desde o princípio do mundo
até nossos dias, a Religião antes, durante e depois da pregação de Jesus Cristo, eis o objeto desta obra.

[1] Modo de ensinar a religião aos ignorantes.

[2] Cap. III, n 5 e seq..

[3] Aug, Catechiz. rud..

Abbé J. Gaume. Catéchisme de Persévérance. 5ème édition, Gaume Frères, Paris, 1845, t.I.

http://catolicosribeiraoarteehistoria.blogspot.com.br/2013/06/o-ensino-da-religiao-segundo-santo.html