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Direito Civil:

Mario Godoy, Espaço Jurídico.


mhgodoy@yahoo.com.br
Face: Mario Godoy II

Bibliografia:
 Direito Civil, Sinopses Jurídicas, VOLUME 1, Carlos Roberto Gonçalvez;
 Código Civil Anotado, Maria Helena Diniz.

AULA 1: Introdução
Basicamente estudar:
 LINDB (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro);
 Parte geral do Código Civil 2002, nos 3 livros seguintes:
o Das Pessoas;
o Dos bens;
o Dos fatos jurídicos;

LINDB
DECRETO-LEI Nº 4.657, DE 4 DE SETEMBRO DE 1942.

A LINDB é uma lex legum, conjunto de normas sobre normas, um direito sobre direito
(sobredireito), enfim, um código de normas. Enuncia Pontes de Miranda que a palavra portuguesa
que melhor traduz Überrecht é “sobredireito", advertindo que “não se trata de direito superlativo, de
direito hipertrofiado, a que serviria, com mais exatidão, a expressão “superdireito"; mas de direito
que está por sobre outro direito, que dita regras a outro direito, que é direito sobre direito". Normas
de sobredireito, em suma, são regras a respeito da incidência das leis; são leis sobre leis.

Regula questões relacionadas ao conflito de leis. Quando entrar em vigor? O que ocorre com uma lei
omissa?

Vacatio Legis
Espaço de tempo que se aguarda para que a lei entre em vigor.
É, por regra da LINDB, de 45 dias depois de oficialmente publicada a lei (após sua publicação).
 Se a lei brasileira vigorar em estado estrangeiro, o prazo para ela vigorar nesse estado
estrangeiro passa a ser 3 meses depois de oficialmente publicada;
 É o caso do brasileiro eleitor ativo no estrangeiro, quando a lei alterações nas leis que
disciplinam a eleição no estrangeiro provocarem efeitos;

E se houver REPUBLICAÇÃO?
Se durante a vacatio legis ocorrer nova publicação destinada a correção da lei, o prazo é
interrompido, ou seja, se reinicia, para o início de sua vigência (art 1, par 3, LINDB).

Eventuais alterações em lei já vigente consideram-se lei nova!

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Cessação de vigência (art 2, LINDB)
1. Advento do termo final;
Leis que vigoram sobre certo período, são as leis temporárias. Ex.: leis orçamentárias.
São as leis AUTOFÁGICAS, leis suicidas.

2. Advento de lei MODIFICATIVA;


Modifica o conteúdo de uma lei anterior.

3. Advento de lei REVOGADORA;


É a situação mais frequente. Revogar vem do latim “revogare”, que é “tirar a voz”.

Atenção:
o Revogação TOTAL é o mesmo que AB-ROGAÇÃO.
o PARCIAL é o mesmo que DERROGAÇÃO;

Revogação
Pode ser:
 EXPRESSA;
 TÁCITA¸ que pode ocorre em 2 situações:
o Quando a lei nova é incompatível com a anterior ou;
São as chamadas ANTINOMIAS LEGISLATIVAS (contradição);
o Quando a lei nova regula toda a matéria tratada na lei anterior;
É o caso das leis que falavam sobre concubinato. O novo CC passou a regular toda a
matéria em questão, revogando tacitamente aquelas antes existentes.

ATENÇÃO: lei NOVA, GERAL ou ESPECIAL, não revoga nem modifica lei anterior. Ambas
permanecem vigentes, e regeram os casos específicos a que se referem. É o caso do CC e do CDC,
ambos são vigentes, e se aplicam aos casos gerais e aos relacionados ao consumidor,
respectivamente, apesar do segundo ser anterior ao primeiro.

ATENÇÃO À QUESTÃO:
A revogação de uma norma pela superveniência de outra que disponha sobre a mesma matéria poderá
atingir as situações já consumadas sob a égide da lei antiga, afetando os efeitos pretéritos produzidos
ou incidindo sobre os efeitos presentes ou futuros de situações passadas ocorridas na vigência da
norma revogada.

LINDB:
Art. 6º A Lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido
e a coisa julgada.
§ 1º Reputa-se ato jurídico perfeito o já consumado segundo a lei vigente ao tempo em que se
efetuou.
§ 2º Consideram-se adquiridos assim os direitos que o seu titular, ou alguém por ele, possa exercer,
como aqueles cujo começo do exercício tenha termo pré-fixo, ou condição pré-estabelecida inalterável,
a arbítrio de outrem.
§ 3º Chama-se coisa julgada ou caso julgado a decisão judicial de que já não caiba recurso.

A irretroatividade da lei é a regra no sistema jurídico brasileiro. Irretroativa é a lei que não se aplica às
situações constituídas anteriormente. O princípio da irretroatividade das leis objetiva assegurar a

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certeza e a segurança jurídica, preservando as situações já consolidadas.
Porém, a irretroatividade não tem caráter absoluto, retroagindo algumas vezes, atingindo os efeitos dos
atos jurídicos praticados sob o império da norma revogada.
Como regra, a lei nova aplica-se aos casos pendentes (facta pendentia) e aos casos futuros (facta
futura), e só pode retroagir para atingir fatos já consumados, ou fatos pretéritos quando não ofender o
ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada.
Também, para que a lei retroaja e se aplique a casos pretéritos, é necessário que o legislador
expressamente o diga, mesmo que a palavra “retroatividade” não seja usada.

A doutrina classifica a retroatividade como justa ou injusta.


 Retroatividade justa – quando da sua aplicação, não tem qualquer ofensa ao ato jurídico
perfeito, ao direito adquirido e à coisa julgada.
 Retroatividade injusta – quando da sua aplicação, ofende o ato jurídico perfeito, o direito
adquirido e ou à coisa julgada. E se verifica lesão, em maior ou menor grau, a direitos
individuais.

A retroatividade pode ser, ainda, máxima, média e mínima.


 Retroatividade máxima – afeta direito adquirido e afeta negócios jurídicos perfeitos.
 Retroatividade média – a lei nova alcança os fatos pendentes, os direitos já existentes mas
ainda não integrados no patrimônio do titular (regra geral).
 Retroatividade mínima – a lei nova afeta apenas os efeitos dos atos anteriores, mas
produzidos após a data em que ela entrou em vigor (regra geral). Ou seja, não há que se falar
ainda em direito adquirido, posto que os efeitos ainda serão produzidos;

Assim, a revogação de uma norma pela superveniência de outra norma que disponha sobre a mesma
matéria poderá atingir as situações já consumadas sob a égide da lei antiga. A retroatividade
da nova norma irá afetar os efeitos pretéritos produzidos ou incidir sobre os efeitos presentes
ou futuros de situações passadas ocorridas na vigência da norma revogada.
Importante lembrar que a irretroatividade é a regra e a retroatividade a exceção.
A questão trouxe a exceção. E a questão disse situações já consumadas e não ato jurídico perfeito,
direito adquirido e coisa julgada.

Por fim, a revogação de uma norma pela superveniência de outra, regendo a mesma matéria, causa
tríplice repercussão na antiga lei:
1. poderá atingir as situações já consumadas sob sua égide (não sendo o caso do ato jurídico
perfeito, direito adquirido e coisa julgada);
2. afetar os efeitos pretéritos produzidos ou;
3. incidir sobre os efeitos presentes ou futuros de situações passadas ocorridas na vigência da
norma revogada.

E por fim:

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AS TEORIAS SUBJETIVA E OBJETIVA sobre a temporalidade das leis:

Diante do problema de determinar os efeitos da lei no tempo, ou seja, se esta deve regular somente
os fatos posteriores à sua vigência, ou também pode reger os anteriores, duas grandes correntes de
juristas apresentam-se.
 Uma delas adotava a teoria subjetiva, em que a aplicação da lei nova somente ocorreria
quanto aos fatos presentes e aos futuros, com exclusão dos passados, tendo fundamento na
sua irretroatividade.
 A outra corrente era adepta à teoria objetiva, em que a lei nova era imposta, imediatamente,
aos fatos pretéritos e futuros, baseando-se na sua retroatividade.

Foi através de Lassale, porém, com a idéia subjetiva do direito adquirido, que surgiu uma teoria
sistematizada, orgânica e profunda, encarando a retroatividade como que ligada a dois postulados
fundamentais, em que nenhuma lei poderia retroagir se atingisse um indivíduo através de seus atos
de vontade; ou, ainda, que toda lei poderia retroagir se o tocasse fora dos seus atos de vontade
(PEREIRA, 1990).

Gabba, também adepto da teoria subjetivista, foi o mais relevante expoente da mesma e criou a sua
doutrina retomando a ideia de proteção aos direitos adquiridos, de forma abrangente e com
praticidade. Para o tratadista italiano, a lei nova não pode violar direitos precedentemente
adquiridos, mas quanto aos direitos de outra natureza, a lei deve ser aplicada amplamente
(RETROAGE, portanto), tanto para relações jurídicas novas, como para consequências de relações
anteriores.

Noutro vértice, para a corrente objetivista, preconizadora da teoria das situações jurídicas, cujo
maior corifeu foi o francês Paul Roubier, o conflito de leis no tempo soluciona-se por meio da
identificação da lei vigente no momento em que os efeitos dos fatos são produzidos (ALMEIDA,
2006). A doutrina de Roubier gira, essencialmente, em torno da diferenciação entre efeito imediato e
efeito retroativo da lei, sendo este a aplicação da lei ao passado e aquele a aplicação da lei ao
presente. O limite da lei no tempo é demarcado pela ideia de situação jurídica constituída, de forma
objetiva, diferentemente da noção de direito adquirido utilizada na teoria subjetivista. Aliás, na
mesma esteira dos demais objetivistas, Roubier repele a teoria dos direitos adquiridos. A situação
jurídica decisivamente estabelecida apoia-se na lei sob cuja égide se compôs, tanto nos seus
efeitos presentes, como nos futuros (NÃO RETROAGE, portanto).

Para o estudioso francês, é possível estabelecer três categorias de fatos: facta praeterita, pendentia, e
futura. Assim:
 se a intenção do legislador é de que os efeitos da lei alcancem o passado, há retroatividade;
 se pretende que a mesma desenvolva seus efeitos em relação aos facta pendentia, deve
distinguir as partes anteriores à data da mudança de legislação, que não poderiam ser
atingidas sem retroatividade, das parcelas ulteriores, para as quais a lei nova, se aplicada,
necessariamente, surtirá efeito imediato.
 Quanto aos facta futura jamais há retroatividade possível.

A teoria de Roubier consagra a imediatidade da lei, e é o que se adota no Decreto-lei 4.657/42


(LINDB): a lei em vigor terá efeito imediato e geral. Denota-se, então, que a Lei de Introdução ao
Código Civil mescla, em seu bojo, ambas as teorias subjetiva e objetiva a fim de tratar acerca
da incidência da lei aos fatos pretéritos, atuais e vindouros.
 Pelo princípio do tempus regit actum, a lei é imediata: a partir de sua entrada em vigor,
aplica-se a todas as situações existentes.

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 Todavia, não deve atingir a tríade direito adquirido, ato jurídico perfeito e coisa julgada, com
vistas a respeitar a segurança jurídica, um dos fins buscados pelo direito, sob pena de sobeja
ofensa ao princípio da dignidade da pessoa humana, arrimo constitucional do ordenamento
jurídico brasileiro.

Art 2, § 2o A lei nova, que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já existentes, não
revoga nem modifica a lei anterior.

Repristinação
É o retorno a vigência da lei anterior revogada, quando a lei que a revoga é também revogada.
NÃO ADMITIDA NO BRASIL, SALVO em disposição em contrário, e EXPRESSA.

Art 2, § 3o Salvo disposição em contrário, a lei revogada não se restaura por ter a lei revogadora
perdido a vigência.

Princípio da NÃO-REPRISTINAÇÃO: “lei primeiramente revogada não se restaura pelo fato da lei
revogadora perder sua vigência”.

Integração normativa
Compõe um conjunto de técnicas que visam a suprir as lacunas da lei. São elas, admitidas pelo CC:
 Analogia: Busca por dispositivo que rege caso semelhante. É o caso da lacuna quanto à união
homoafetiva, que foi solucionada através dos dispositivos previstos para a união estável;

 Costumes: São práticas sociais reiteradas que despertam a convicção de sua obrigatoriedade.
Ex.: observar uma fila. Não há lei que diga que a fila deve ser observada.

 Princípios gerais do direito: São valores que consagram o ordenamento jurídico, que
norteiam as decisões nele baseadas.

Código Civil de 2002

Personalidade
É a aptidão UNIVERSAL que toda pessoa tem de ser titular de direitos e deveres na vida civil.
E que dever tem uma criança de 2 anos? O melhor exemplo é a criança de 2 anos herdeira. Ela é
contribuinte fiscal de um imposto, mesmo que não tenha capacidade processual para tanto, daí a
necessidade de seu representante legal. É a criança de 2 anos que é titular do dever de contribuir face
à fazenda pública.

Início da personalidade
Nosso código civil adota a TEORIA NATALISTA: a personalidade civil começa do nascimento
com vida.
 NÃO é a concepção;
 NÃO é a gravidez.

O termo inicial adotado é o nascimento com vida. Mas isso não quer dizer que o bebê nascituro
(feto, embrião, ser em formação, mas que ainda não adquiriu personalidade, ainda não nasceu) que
ele está desprovido. Assim, a lei põe a salvo os direitos do nascituro, ou seja, aquele que foi

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concebido, mas que ainda não nasceu. Assim como há outras entidades despersonalizadas que
possuem direitos e deveres (espólio, associações de fato...).

O nascituro é, portanto, titular de DIREITOS EXPECTATIVOS, direitos em vias de formação que


ainda não se aperfeiçoaram. Ou seja, é possível a proteção dos direitos do nascituro. Porém, se ele
não nascer, o objeto se perderá, perdendo também todos os efeitos uma possível ação judicial a seu
favor.

Existem três teorias que tentam explicar a situação da personalidade jurídica do nascituro:

1ª) Teoria natalista: parte da interpretação literal e simplificada da lei, dispõe que a personalidade
jurídica começa com o nascimento com vida, o que traz a conclusão de que o nascituro não é
pessoa, portanto, tem apenas expectativa de direitos. Nega seus direitos fundamentais, tais como, o
direito à vida, à investigação de paternidade, aos alimentos, ao nome e até à imagem.

2ª) Teoria da personalidade condicional: afirma que a personalidade jurídica começa com o
nascimento com vida, mas os direitos do nascituro estão sujeitos a uma condição suspensiva,
portanto, sujeitos à condição, termo ou encargo. Ao ser concebido o nascituro poderia titularizar
alguns direitos extrapatrimoniais, como, por exemplo, à vida, mas só adquire completa
personalidade quando implementada a condição de seu nascimento com vida.

3ª) Teoria concepcionalista: sustenta que o nascituro é pessoa humana desde a concepção, tendo
direitos resguardados pela lei.

Há quem defenda que nosso CC adotou a teoria concepcionalista. Alguns julgados recentes do STJ
são nesse sentido.

Para concluir: nosso código adota a teoria natalista para a aquisição dos direitos da personalidade.
 Para o nascituro e natimorto, a jurisprudência e doutrina moderna adotam a teoria
concepcionalista, pois eles têm protegidos os direitos da personalidade (apesar de não terem
personalidade adquirida) tais quais nome, imagem e sepultura;
 É a chamada personalidade formal (a material é a aquisição da personalidade);

Fim da personalidade (AUSÊNCIA)


Ocorre com a MORTE o fim da personalidade civil!
E como precisar a morte do desaparecido?

Daí a existência dos AUSENTES: estado de quem desapareceu de seu domicílio sem deixar notícia
de seu paradeiro, nem representantes que administrem seus bens. Assim, são 2 requisitos:
 Pessoa desaparecida sem que dela haja notícias;
 Inexistência de representantes que administrem seus bens.

E como formalizar o estado de ausência?

1.Instaurar a CURADORIA PROVISÓRIA (art. 22);


Pode ser instaurada por qualquer interessado (não precisa ser da família) ou pelo MP. Tem 3
objetivos:
o Declarar a ausência;
o Promover a arrecadação dos bens (móveis e imóveis);
o Nomear um curador para administrar os bens;

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E quem seria o curador? Existe uma ordem legal a ser observada (sigla “CAD” – art 25, par 1,
CC):
 Cônjuge, desde que não esteja separado judicialmente ou de fato há mais de 2 anos;
 Ascendentes (Pais);
 Descendentes (os mais próximos precedem os mais remotos);
 Não existindo quaisquer, o juiz nomeará;

E durante quanto tempo permanece essa curatela (ausência)? Por 1 ano, via de regra!
 Transcorrido 1 ano da arrecadação dos bens (art 26, CC), procede-se à sucessão provisória;
 Esse prazo é estendido para 3 anos, desde que o ausente tenha deixado representante legal;
 O fim do prazo trata-se tão somente da confirmação da ausência e abertura da sucessão
provisória;

Assim, o prazo é de 1 ano ou 3 anos, a depender da situação, para decretação oficial da ausência a
abertura da sucessão provisória.

2.Instaurar a SUCESSÃO PROVISÓRIA (art. 26):


E quais os objetivos da sucessão provisória? São 3 também:
 Decretar oficialmente a ausência, iniciando a contagem do prazo (10 anos) para a sucessão
definitiva;
 Promover o inventário e a partilha dos bens (como se morto fosse o ausente);
 Transferir os bens à posse dos herdeiros. Imiti-los na posse dos bens inventariados.

ATENÇÃO: Ocorre a imissão da posse SEM GARANTIAS? Não é nesse momento que os
herdeiros se tornam proprietários. Passam a deter apenas a posse dos bens. São meros detentores.
Com o intuito de proteger os bens do ainda ausente, o CC obriga a prestação de CAUÇÃO pelos
herdeiros para imiti-los na posse dos bens. Condiciona-os à prestação de garantias, sob pena de
exclusão no ingresso na posse. Mas há previsão em que as garantias são descartadas:
Art. 34. O excluído, segundo o art. 30, da posse provisória poderá, justificando falta de meios,
requerer lhe seja entregue metade dos rendimentos do quinhão que lhe tocaria.
 Se o herdeiro for cônjuge, ascendente ou descendente (CAD), não prestam garantia. Nestes a
lei confia (art. 30, par 2);

A sucessão provisória dura 10 ANOS após o trânsito em julgado da sentença que ABRE a
sucessão provisória! É somente após esse prazo que se inicia a sucessão DEFINITIVA.

Recuperação de TODOS os bens, inclusive RENDIMENTOS


É nesta fase que o ausente tem a possibilidade de recuperar os frutos e rendimentos dos bens
administrados durante a ausência, desde que (art. 33 c/c art. 36):
 Reaparecer antes da abertura definitiva (ou se houver prova de sua existência);
o Aparecendo o ausente, cessam-se todos os efeitos da sucessão provisória (art. 36, bens
devem ser resguardados para sua devolução);
 A ausência deve ser justificada;

Art. 33. O descendente, ascendente ou cônjuge que for sucessor provisório do ausente, fará seus
todos os frutos e rendimentos dos bens que a este couberem; os outros sucessores, porém, deverão
capitalizar metade desses frutos e rendimentos, segundo o disposto no art. 29, de acordo com o
representante do Ministério Público, e prestar anualmente contas ao juiz competente.

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Parágrafo único. Se o ausente aparecer, e ficar provado que a ausência foi voluntária e
injustificada, perderá ele, em favor do sucessor, sua parte nos frutos e rendimentos.

3.Instaurar a SUCESSÃO DEFINITIVA (art. 37);


Requerida após 10 anos do trânsito em julgado da abertura sucessão provisória.

Está decretada a MORTE PRESUMIDA do ausente.


 Que também pode ser decretada sem a ausência, veremos abaixo;

É somente com a morte presumida que a transferência dos bens aos herdeiros se dá por concluída. É
quando ocorre a transferência definitiva da propriedade, portanto.
 ATENÇÃO: a transferência dos bens aos herdeiros se dá de maneira resolúvel. De forma
que, caso o ausente retorne, este recuperará os bens, via de regra. Veremos à frente.

Recuperação de TODOS os bens, SEM RENDIMENTOS


E se o morto voltar, tendo havido a transferência dos bens? Vamos ao art 39, CC:
 Se o ausente voltar em até 10 anos a partir da abertura da sucessão definitiva, ou seja, antes
dos 10 anos após declarada sua morte presumida, ele recupera TODOS OS BENS DE
VOLTA, inclusive os sub-rogados em seu lugar;
o Se os bens forem vendidos, recuperará o preço da venda;
o Se permutados por outros, sub-rogar-se-á sobre os bens permutados;
 Se retornar após os 10 anos, PERDE TUDO;

MORTE PRESUMIDA DE IMEDIATO (sem abertura da ausência):


Para tanto, basta estar entre as seguintes 3 hipóteses (art 7 e art 38, CC):
Ar 7, CC:
I - se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida;
II - se alguém, desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado até dois anos
após o término da guerra.
Parágrafo único. A declaração da morte presumida, nesses casos, somente poderá ser requerida
depois de esgotadas as buscas e averiguações, devendo a sentença fixar a data provável do
falecimento.

Art. 38, CC. Pode-se requerer a sucessão definitiva, também, provando-se que o ausente conta
oitenta anos de idade, e que de 5 anos datam as últimas notícias dele.

Assim:
 Morte extremamente provável de quem estava em perigo de vida;
 Não encontrado o combatente de guerra há mais de 2 anos do seu término;
 Ter 75 anos na data do desaparecimento (ou seja, comprovar que tem hoje 80 anos de idade),
estando desaparecido a mais de 5 anos;

Isto quer dizer que, estando em uma das situações, basta iniciar a abertura da sucessão definitiva, não
sendo necessária sucessão provisória.

Comoriência
Fenômeno em que se verifica 2 mortes ocorridas no mesmo contexto, sem precisar o horário de cada
uma delas. Assim, presumem-se as mortes simultâneas. É a presunção de morte simultânea.

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Ex.: caso de um casal que morre por conta da queda de um avião. A deixa um irmão apenas, e B, a
mãe apenas.
 A e B são marido e mulher. Se ambos morrem no mesmo momento, os bens de A vão para
seu irmão, e os de B, para a sua mãe;
 A solução não mudaria se houvesse a comunhão universal de bens, posto que os bens se
confundiriam por conta da comunhão, e seriam divididos pela metade, cada uma indo para
seus herdeiros respectivos, ou seja, o irmão de A e a mãe de B.

Registro público e averbação


Art. 9o Serão registrados em registro público:
I - os nascimentos, casamentos e óbitos;
II - a emancipação por outorga dos pais ou por sentença do juiz;
III - a interdição por incapacidade absoluta ou relativa;
IV - a sentença declaratória de ausência e de morte presumida.

Art. 10. Far-se-á averbação em registro público:


I - das sentenças que decretarem a nulidade ou anulação do casamento, o divórcio, a separação
judicial e o restabelecimento da sociedade conjugal;
II - dos atos judiciais ou extrajudiciais que declararem ou reconhecerem a filiação;

Capacidade civil
Para tanto, é necessário identificar:
 CAPACIDADE DE DIREITO: é a capacidade de ser titular de direitos e deveres. A plena
capacidade de direito/gozo é adquirida desde o nascimento, e não a partir dos 18 anos. TODA
PESSOA É TITULAR DE DIREITOS E DEVERES na vida civil. TODA PESSOA TEM
CAPACIDADE DE DIREITO, portanto.

 CAPACIDADE DE FATO (EXERCÍCIO): esta representa a capacidade de exercer, por si


ou por outros, os direitos e deveres. Uma criança de 5 anos de idade não pode passar cheque,
nem fechar contrato. Falta-lhe maturidade, capacidade de discernimento, daí não tem a
capacidade de fato. Então, muito cuidado. A capacidade de fato se adquire com 18 anos de
idade!

A ausência da capacidade de fato gera a incapacidade.

Incapacidade
Quanto à incapacidade, ela pode ser:
 ABSOLUTA: são pessoas desprovidas da capacidade de fato. Elas não podem expressar sua
vontade, a lei não reconhece a emissão de vontade de um absolutamente incapaz.
o Daí exige sua representação. O representante praticará os atos do incapaz em seu
nome, ou seja, em nome de outrem;

 RELATIVA: o relativamente incapaz pode expressar sua vontade, mas deverá agir
juntamente a um assistente.
o O Assistente acompanhará os atos do relativamente incapaz, confirmando a vontade
daquele que representa;

E quem podem ser os representantes ou assistentes?

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Os pais, tutores e curadores são os representantes dos incapazes.
 Na falta dos pais, o juiz nomeará um TUTOR ao incapaz, até os 18 anos;
 Se a incapacidade permanecer passando-se os 18 anos, será nomeado o CURADOR;

E quem são os incapazes?


 Art 3 (ABSOLUTAMENTE incapazes):
1. Menores de 16 anos (menores impúberes);
2. Deficientes mentais SEM DISCERNIMENTO NECESSÁRIO (loucos absolutos);
3. Aqueles que, mesmo que transitoriamente, não puderem exprimir a vontade (o
comatoso, por ex);

ATENÇÃO: Deficientes visuais e os analfabetos NÃO SÃO INCAPAZES (usam “assinatura a


rogo”);

A assinatura a rogo consistirá na assinatura do documento por outra pessoa, a seu pedido, diante da
situação de não saber ou poder assinar. O termo “a rogo” vem do verbo “rogar” que
significa pedir ou suplicar. Assim, o assinante a rogo será uma das testemunhas do contrato ou
documento, que tem conhecimento da situação e assina em nome do analfabeto, enfermo ou idoso que
não consegue assinar. O documento será assinado pela testemunha, chamada de “testemunha
instrumentária”, colhendo-se a impressão digital do contratante.

 os absolutamente incapazes são aqueles IMPOSSIBILITADOS, física ou legalmente,


em exprimir sua vontade.

 Art 4 (RELATIVAMENTE incapazes): são eles:


1. Maiores de 16 e menores de 18 não emancipados (menores púberes);
a. O menor de idade que mente sua idade responde como maior. Se dolosamente
a maioridade alcunhou, não pode se eximir de sua responsabilidade (art 180,
CC). Responderá como se maior fosse;
2. Os ébrios habituais, viciados e os deficientes com discernimento REDUZIDO;
a. Não é por beber muito que se perde a capacidade civil, é necessário que o
vício seja capaz de reduzir o discernimento;
3. Excepcionais (autismo ou síndrome de down) sem desenvolvimento mental
completo;
4. Os pródigos;
a. Os gastadores, aquele que lapida seu patrimônio. Evitar que ele entre em
penúria.

REVOGADOS PELO ESTATUTO DA DEFICIÊNCIA (veremos ao fim).

 Os relativamente incapazes agem ASSISTIDOS, para exercer seus direitos, devem estar
sempre acompanhados e assistidos pelos pais, tutor ou curador.
 ATENÇÃO: ser assistido NÃO É ser representado, como ocorre a representação
obrigatória para os absolutamente incapazes.

Estatuto da deficiência lei 13.146/2015 (NOVO)


NOVIDADE.
Lembrar da distinção entre CAPACIDADE DE DIREITO e de FATO.
Todos são capazes de direito, mas nem todos, de fato. A capacidade de fato é aquela que permite
exercer direitos, daí a necessidade de discernimento necessário aos atos da vida civil.

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Assim, a ausência da capacidade de fato cria a incapacidade civil, que pode ser absoluta ou
relativa.

O estatuto da deficiência altera a definição do incapaz.


Antes dela, conhecemos os incapazes pelos artigos 3 e 4, CC.

De acordo com esse estatuto, pessoas que sofrem de deficiência mental passam a ser
PLENAMENTE CAPAZES.
 Mas isto não quer dizer que não há limitações legais a esses sujeitos, como por ex. o art. 447,
II, novo CPC, que o considera o enfermo ou possuidor de retardamento mental, desde que
não capaz de discernir fatos, incapaz para testemunho;
 Art. 447, IV, CPC: o mesmo vale para o cego e surdo cuja prova dependa de seus sentidos
falhos;

Altera radicalmente os arts 3 e 4, CC:

Art. 3o São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16
(dezesseis) anos.
I - (Revogado); (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência)
II - (Revogado); (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência)
III - (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência)

A nova lei revoga o CC naquelas previsões quanto aos deficientes mentais.


Ou seja, APENAS OS MENORES DE 16 ANOS passam a ser ABSOLUTAMENTE
INCAPAZES.
A incapacidade ABSOLUTA se define agora apenas pelo seu aspecto ETÁRIO.

Art. 4o São incapazes, relativamente a certos atos ou à maneira de os exercer: (Redação dada pela
Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência)
I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos;
II - os ébrios habituais e os viciados em tóxico; (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015)
(Vigência)
III - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade;
(Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência)
IV - os pródigos.

 Observe que o art 4, inciso II NÃO MAIS PREVÊ os deficientes mentais como
relativamente incapazes.
 Já o art 4, inciso III passa a prever o “comatoso” como relativamente incapaz.
o Antes o comatoso, ou qualquer pessoa que por causa transitório não pode exprimir
vontade, era considerado como ABSOLUTAMENTE incapaz.

Assim, são pessoas que passarão a não ser mais representadas, mas ASSISTIDAS.
Mas, como será possível assistir um comatoso? Como ele poderá assinar um contrato, mesmo
que assistido, se está em coma? A assistência NÃO É CAUSA DE SUBSTITUIÇÃO processual do
assistido, como ocorre na representação. Ou seja, aquele que recebe assistência DEVE SIM assinar
um contrato, por exemplo, desde que o assistente proporcione meios para que consiga.

E como o comatoso será assistido? Absurda tal previsão.

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Assim, a grande alteração do estatuto é afastar a incapacidade relativa do deficiente mental,
tornando-o PLENAMENTE capaz.
Se o objetivo era proteger o deficiente, trata-se de um tiro do pé.
 Imagine o contratante, sabendo da deficiência mental daquele com quem negocia, poderá dela
se beneficiar, e ainda assim o contrato será considerado legalmente válido!
 Imagine o paciente de hospício sendo levado a casar-se com aquele que dele se aproveita?
 O deficiente mental, mesmo sem o menor juízo, poderá casar com qualquer regime de
bens, sem qualquer proteção ao seu patrimônio. Nem mesmo há aquela proteção dada ao
maior de 70 anos, quando o regime de casamento é obrigatoriamente a separação obrigatória
de bens;
 O próprio crime de estupro deixará de ser aplicado, posto que o deficiente passa a ter
vontade própria, ignorando a conduta daquele que da deficiência se aproveita.
 Deficiente mental pode ser curador. Absurdo, pois como considerar um deficiente mental
curador quando ele deveria ser o curatelado?
 Os deficientes mentais passam a ficar sujeitos à prescrição! Perderam essa proteção legal;

Emancipação (art 5)
Só se processa a partir dos 16 anos.
É a antecipação da plena capacidade civil. São os casos:
 Voluntária;
 Judicial;
 Legal.

A VOLUNTÁRIA ocorre por concessão dos pais. São necessários 3 requisitos:


 Autorização de ambos os pais, se vivos;
 Ato realizado por escritura pública (sem necessidade da homologação do juiz);
 Idade mínima de 16 anos;

A JUDICIAL ocorre em apenas 1 caso:


 Menor sob tutela. Ocorre quando o menor é representado por um tutor;

A LEGAL ocorre em 4 hipóteses:


 Casamento (idade mínima para casar é 16 anos);
o União estável, segundo a lei, NÃO EMANCIPA;
 Exercício de emprego público efetivo;
o Suboficial das forças armadas, por ex., permite a nomeação de menor de 18 anos;
 Colação de grau em curso superior;
 Pelo estabelecimento civil ou comercial, ou pela existência de relação de emprego, desde
que o menor com 16 anos completos tenha economia própria (vive às próprias custas);

AULA 2:

Direitos da personalidade
De um lado temos os direitos patrimoniais, do outro, os direitos da personalidade.
Os direitos da personalidade são aqueles NÃO PATRIMONIAIS: são direitos que integram a
condição essencial da pessoa como pressupostos de sua existência e dignidade.

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ATENÇÃO. Características (art 11, CC):
 INTRANSMISSIBILIDADE: são direitos intransmissíveis.
o A lei de transplante de órgão é exceção ao direito à integridade física. O direito não
permite a transmissão de órgãos livremente;
 IRRENUNCIABILIDADE: seu titular não pode abrir mão;
o A mudança de sexo é exceção (o CC prevê a existência de exceções, desde que
previstas em lei – art 11, CC);

Atenção quanto à tutela do direito da personalidade do MORTO:

Art. 12. Pode-se exigir que cesse a ameaça, ou a lesão, a direito da personalidade, e reclamar
perdas e danos, sem prejuízo de outras sanções previstas em lei.
Parágrafo único. Em se tratando de morto, terá legitimação para requerer a medida prevista
neste artigo o cônjuge sobrevivente, ou qualquer parente em linha reta, ou colateral até o quarto
grau.
Ou seja:
 Cônjuge;
 Parentes em linha reta ou;
 Colateral até o 4 grau (irmão, tio, sobrinho, primo, tios-avôs, sobrinhos-netos);

O parentesco colateral no Brasil só vai até o 4 grau (primo, tio-avô ou sobrinho-neto)!

Atos de disposição corporal (art 13)


Cortar o cabelo, fazer tatuagem... são atos de disposição corporal.

E o que se proíbe? Temos 2 hipóteses proibitivas, SALVO em caso de exigência médica:


 Quando houver diminuição PERMANENTE da integridade física;
 Contrariar os bons costumes;

No caso da cirurgia de mudança de sexo, existe o motivo médico de preservação da integridade


psicológica do paciente, visto se tratar de pessoa que acredita pertencer a sexo diferente.

Lei de transplante
O CC permite a doação de órgãos pós morte apenas nos 2 seguintes casos:
 Fins científicos (doação para pesquisa);
 Fins altruísticos (doação para transplante);

O ATO DEVE SER GRATUITO. Qualquer valoração comercial é considerada crime!

A lei de transplantes segue o PRINCÍPIO DO CONSENSO AFIRMATIVO. De acordo com o art


14, CC, deve ser respeitada a vontade daquele que se declarar doador de órgãos.
 O ato de disposição pode ser revogado a qualquer tempo.

E quanto aos riscos assumidos pelo paciente ao se submeter a uma cirurgia de risco?
Ninguém pode ser constrangido a submeter-se a tratamento de risco sem o próprio consenso. É mais
uma manifestação do princípio do consenso afirmativo.

Direito ao nome (art 17)


Mesmo que não haja a intenção de difamar, o nome da pessoa não pode ser usado publicamente sem
sua autorização, sob pena de responsabilidade.

13
Ou seja, independe de dolo ou culpa a responsabilidade sobre a publicação de elementos
pejorativos ao nome de outrem.
 O PSEUDÔNIMO também é protegido, desde que usado em atividades lícitas.

Direito a palavra ou imagem (art 20)


São os seguintes casos de uso indevido da palavra ou imagem:
 Ofensa à honra, à boa fama ou à respeitabilidade;
 Quando houver destinação comercial;

ATENÇÃO ÀS EXCEÇÕES:
 Quando autorizadas;
 Necessárias à justiça ou à ordem pública;

Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da


ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou
a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da
indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se
destinarem a fins comerciais.
Parágrafo único. Em se tratando de morto ou de ausente, são partes legítimas para requerer essa
proteção o cônjuge, os ascendentes ou os descendentes.

Pessoa jurídica (art 40 e ss)


É toda pessoa dotada de personalidade. A pessoa jurídica difere da pessoa humana por não possuir o
elemento orgânico, carne e osso, mas tem direitos e deveres, assim como a pessoa física.

Súmula 227, STJ: a pessoa jurídica pode sofrer dano moral! O dano moral não somente inclui o
abalo psicológico, mas também, o dano à honra objetiva, elemento pertencente à pessoa jurídica.

Classificação
As pessoas jurídicas de direito público EXTERNO são todas aquelas reconhecidas
internacionalmente.
Art. 42. São pessoas jurídicas de direito público externo os Estados estrangeiros e todas as pessoas
que forem regidas pelo direito internacional público.

As de direito público INTERNO são os entes públicos reconhecidos em nosso país, como já
conhecemos.
 Aqui se enquadram os Territórios Federais;

São pessoas jurídicas de direito PRIVADO:


Art. 44. São pessoas jurídicas de direito privado:
I - as associações (reunião de pessoas sem fins lucrativos);
II - as sociedades (reunião de pessoas COM fins lucrativos);
III - as fundações (patrimônio destinado a um fim).
IV - as organizações religiosas;
V - os partidos políticos;
VI - as empresas individuais de responsabilidade limitada. (EIRELI);

ATENÇÃO1 à proteção às entidades religiosas quanto ao registro de sua personalidade:

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Art 44, § 1º São livres a criação, a organização, a estruturação interna e o funcionamento das
organizações religiosas, sendo vedado ao poder público negar-lhes reconhecimento ou registro dos
atos constitutivos e necessários ao seu funcionamento.

ATENÇÃO2 ao prazo decadencial de anulação da pessoa jurídica de direito privado:


Art. 45. Começa a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado com a inscrição do ato
constitutivo no respectivo registro, precedida, quando necessário, de autorização ou aprovação do
Poder Executivo, averbando-se no registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo.
Parágrafo único. Decai em três anos o direito de anular a constituição das pessoas jurídicas de
direito privado, por defeito do ato respectivo, contado o prazo da publicação de sua inscrição no
registro.

ATENÇÃO3 aos elementos do registro constitutivo:


Art. 46. O registro declarará:
I - a denominação, os fins, a sede, o tempo de duração e o fundo social, quando houver;
II - o nome e a individualização dos fundadores ou instituidores, e dos diretores;
III - o modo por que se administra e representa, ativa e passivamente, judicial e extrajudicialmente;
IV - se o ato constitutivo é reformável no tocante à administração, e de que modo;
V - se os membros respondem, ou não, subsidiariamente, pelas obrigações sociais;
VI - as condições de extinção da pessoa jurídica e o destino do seu patrimônio, nesse caso.
 Não contendo algum dos requisitos acima, o registro constitutivo será anulável, devendo o
prazo para tal anulação seguir o disposto no art 45, visto acima.

As decisões da pessoa jurídica serão tomadas pelos administradores (regra: voto da maioria relativa –
art. 48), dentro dos poderes definidos pelo estatuto;

Tratando-se de administração coletiva, as decisões serão tomadas pela MAIORIA SIMPLES dos
presentes, salvo se o estatuto trouxer modo diverso (art 48).

Art. 48. Se a pessoa jurídica tiver administração coletiva, as decisões se tomarão pela maioria de
votos dos presentes, salvo se o ato constitutivo dispuser de modo diverso.
Parágrafo único. Decai em três anos o direito de anular as decisões a que se refere este artigo,
quando violarem a lei ou estatuto, ou forem eivadas de erro, dolo, simulação ou fraude.

Tem PRAZO DECADENCIAL DE 3 ANOS a anulação de decisões deste artigo, quando violarem
lei ou estatuto, ou forem eivadas de:
 Erro;
 Dolo;
 Simulação ou;
 Fraude.
É hipótese de anulabilidade da decisão.

 Em caso de destituição dos administradores, ou na falta destes, o juiz nomeará


ADMINISTRADOR PROVISÓRIO (art 49);

Desconsideração da pessoa jurídica (art 50)


Surgiu nos EUA.
Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou
pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público
quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de

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obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa
jurídica.
A desconsideração da pessoa jurídica é a sua suspensão temporária de modo a estender a execução
aos bens particulares de seus sócios ou administradores.
Desconsiderar-se-á a pessoa jurídica quando configurar o ABUSO DE PERSONALIDADE, que se
reflete quando ocorrer:
1. Desvio de finalidade da pessoa jurídica ou;
o Pessoa jurídica declarada como restaurante, mas opera como casa de prostituição. A
pessoa jurídica persegue atividade sob o manto do abuso personalidade;
2. Confusão patrimonial;
o É a mistura irregular de patrimônios. É a lavagem de dinheiro, desvio de verbas, caixa
2;
ATENÇÃO:
 Qualquer outra hipótese além dessas 2 não caracterizará a desconsideração;
 Apenas o juiz pode desconsiderar a pessoa jurídica;
 A desconsideração deve se dar por REQUERIMENTO da parte ou do MP;
 Nunca de ofício;

Desconsideração INVERSA:
Ocorre quando a execução sairá do âmbito patrimonial do sócio, como pessoa física, incidindo no
da pessoa jurídica.
O sócio devedor, por meio de fraude, transfere seus bens para a pessoa jurídica, impedindo a
execução que corre contra si.
Neste caso a busca se dará no patrimônio da pessoa jurídica, por isso o nome “inversa”;

Dissolução da pessoa jurídica


São 4 os tipos de dissolução:
1. CONVENCIONAL;
2. JUDICIAL;
3. ADMINISTRATIVA;
4. NATURAL;

A convencional é a deliberada pela vontade dos sócios.


A judicial, pelo juiz. É o caso da falência, por exemplo.
A administrativa ocorre por decisão do poder público, que cassa a autorização de funcionamento.
Ocorre quando o MEC retira a autorização da faculdade, por exemplo.
A natural ocorre quando os sócios morrem e não são substituídos.

E quais os trâmites para a dissolução?


O que deve ser feito para a dissolução provocar efeitos?

1. Averba-se a dissolução. Os sócios registram em cartório a vontade de dissolver a pessoa


jurídica;
2. Procede-se à liquidação da pessoa jurídica. É a solução das questões patrimoniais pendentes:
pagar impostos, resolver dívidas. Referem-se às sociedades (NÃO CAI PRA O
CONCURSO);
3. Promove-se o cancelamento da inscrição. A pessoa jurídica deixa de existir, seu registro é
cancelado.

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AULA 3:
Continuando o tema das pessoas jurídicas.

Fundação (art 62, CC)


É um patrimônio destinado a um fim. Normalmente criado por quem tem um vasto patrimônio, que
necessita geri-los especialmente (daí o termo “dotação especial de bens livres”, prevista no art 62,
CC).

Antes do NCPC, não havia previsão expressa das finalidades da fundação.

A fundação pode ter 9 finalidades (NOVIDADE trazida pelo NCPC, art 62, par U, CC):
1. Assistência social;
2. Cultura defesa e conservação do patrimônio histórico e artístico;
3. Educação;
4. Saúde;
5. Segurança alimentar e nutricional;
6. Defesa preservação e conservação do meio ambiente e promoção do desenvolvimento
sustentável;
7. Pesquisas científicas, desenvolvimento de tecnologias alternativas, modernização de sistemas
de gestão, transmissão e promoção de conhecimentos;
8. Promoção da ética, cidadania, democracia e direitos humanos;
9. Atividades religiosas;

Etapas para criação de fundação


1. Dotação;
2. Elaboração do estatuto;
3. Aprovação;
4. Registro;

A DOTAÇÃO representa a separação do patrimônio, com o objetivo de especializá-lo. A dotação


deve trazer conjunto de bens livres e desembaraçados, sem afetação.
Deve trazer também a finalidade, dentre aquelas previstas em lei.
Pode ser feita de 2 modos:
 Escritura pública ou (criada em VIDA);
 Testamento (criada para depois da MORTE).

O ESTATUTO diz como a fundação funcionária. Como será administrada. Ele é confeccionado pelo
próprio fundador, ou pessoa por ele designada.
 ATENÇÃO: qual o prazo para a confecção do estatuto?
o Será o definido pelo fundador ou;
o Não havendo, de 180 dias;
 Não sendo confeccionado o estatuto no prazo, tal incumbência passará para o MP;

A APROVAÇÃO do estatuto deve ser realizada pela autoridade competente, que é o MP. Se este
recursar-se será cabível o suprimento judicial, quando o juiz substituirá o MP e proverá a
aprovação.
Uma vez aprovado o estatuto, registra-se a fundação em cartório, quando passa a existir legalmente.

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Fiscalização
Realizada pelo MP.

Em regra, competirá ao MP ESTATAL a fiscalização.


 Se a fundação for interestadual (situada em mais de um estado, por ex, em PE e PB),
competirá ao MP ESTADUAL de cada um deles;
 MPDFT: O art 66, par 1, CC, fala das fundações situadas no DF ou Territórios, que define a
competência do MPDFT, Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (mudança
dada pelo NCPC).

Alteração do estatuto da fundação


São 3 requisitos exigidos:
1. Deliberada por 2/3 dos gestores da entidade;
2. O fim da fundação deve ser preservado (não deve ser contrariado);
3. Aprovação do MP (realizada em 45 dias, prazo dado pelo NCPC);
a. Findo o prazo, caso de o Ministério Público a denegar, poderá o juiz supri-la
(suprimento judicial), a requerimento do interessado.

Em caso de alteração não unânime, permite-se a impugnação da parte vencida, em 10 dias:


Art. 68. Quando a alteração não houver sido aprovada por votação unânime, os administradores da
fundação, ao submeterem o estatuto ao órgão do Ministério Público, requererão que se dê ciência à
minoria vencida para impugná-la, se quiser, em dez dias.

Extinção
Art. 69. Tornando-se ilícita, impossível ou inútil a finalidade a que visa a fundação, ou vencido o
prazo de sua existência, o órgão do Ministério Público, ou qualquer interessado, lhe promoverá a
extinção, incorporando-se o seu patrimônio, salvo disposição em contrário no ato constitutivo, ou no
estatuto, em outra fundação, designada pelo juiz, que se proponha a fim igual ou semelhante.

É o caso dos “3 i´s”: ocorrerá a extinção da fundação quando esta tornar-se ilícita, impossível ou
inútil. Ou ainda quando vencer-se o prazo de sua existência.

Competência da extinção:
 MP;
 Ou qualquer interessado;

Efeitos da extinção, salvo disposição em contrário:


 Os bens passarão para outra fundação criada a fim igual ou semelhante;

Domicílio (art 70, CC)


É o local em que a pessoa estabelece sua residência com ânimo definitivo.
Assim, domicílio vai além da residência: RESIDÊNCIA + ÂNIMO DEFINITIVO.

E o que é residência?
É o elemento OBJETIVO do conceito de domicílio: é o local de permanência da pessoa. O local
onde ela está. Se a pessoa passar férias no Rio de Janeiro, esta será sua residência naquele momento.

E ânimo definitivo?

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É o elemento SUBJETIVO. É a intenção de permanência, de se radicar, de estabelecer naquela
localidade. É a vontade de se estabelecer. A residência pode mudar, o domicílio, em regra, não.

É POSSÍVEL a existência de 2 ou mais domicílios, desde que haja mais de uma residência onde
se vive alternadamente.

E o domicílio PROFISSIONAL?
É o local que diz respeito aos assuntos profissionais da pessoa, quanto às relações concernentes à
profissão.
Art. 72. É também domicílio da pessoa natural, quanto às relações concernentes à profissão, o lugar
onde esta é exercida.

E o domicílio das pessoas jurídicas?


Art. 75. Quanto às pessoas jurídicas, o domicílio é:
I - da União, o Distrito Federal;
II - dos Estados e Territórios, as respectivas capitais;
III - do Município, o lugar onde funcione a administração municipal;
IV - das demais pessoas jurídicas, o lugar onde funcionarem as respectivas diretorias e
administrações, ou onde elegerem domicílio especial no seu estatuto ou atos constitutivos.
§ 1o Tendo a pessoa jurídica diversos estabelecimentos em lugares diferentes, cada um deles será
considerado domicílio para os atos nele praticados.
§ 2o Se a administração, ou diretoria, tiver a sede no estrangeiro, haver-se-á por domicílio da
pessoa jurídica, no tocante às obrigações contraídas por cada uma das suas agências, o lugar do
estabelecimento, sito no Brasil, a que ela corresponder.

Assim:
Pessoas jurídicas de direito público:
 União, no DF;
 Estados, nas capitais;
 Municípios, na prefeitura;

De direito privado:
 Onde funciona sua administração ou;
 No foro que o estatuto eleger;
 Havendo estabelecimentos distintos, todos eles serão domicílios para os atos nela praticados;
 Tendo sede no estrangeiro, será domicílio o local no Brasil onde ela se estabelecer;

ATENÇÃO: DOMICÍLIO ELEITORAL x DOMICÍLIO DE ELEIÇÃO:


 Domicílio eleitoral é instituto de direito eleitoral. É o local onde a pessoa vota, onde ela se
alistou.
 Já o domicílio de ELEIÇÃO é aquele eleito pelos contratantes nos contratos escritos para
fins de exercícios e cumprimento de obrigações contratuais. É a cláusula de foro:
 SÓ SE PERMITE DOMICÍLIO DE ELEIÇÃO EM CONTRATOS ESCRITOS!

Art. 78. Nos contratos escritos, poderão os contratantes especificar domicílio onde se exercitem e
cumpram os direitos e obrigações deles resultantes.

Mudança de domicílio
A prova da mudança será dada pelas declarações as municipalidades (de onde sai ou para onde vai).
Em caso de não haver comunicação, a prova será dada pelas próprias circunstâncias da mudança:

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Art. 74. Muda-se o domicílio, transferindo a residência, com a intenção manifesta de o mudar.
Parágrafo único. A prova da intenção resultará do que declarar a pessoa às municipalidades dos
lugares, que deixa, e para onde vai, ou, se tais declarações não fizer, da própria mudança, com as
circunstâncias que a acompanharem.

Domicílio ITINERANTE
Quando a pessoa não tem residência fixa (cigano, circenses...), será o domicílio o local onde for
encontrada.
Art. 73. Ter-se-á por domicílio da pessoa natural, que não tenha residência habitual, o lugar onde
for encontrada.

Domicílio NECESSÁRIO
É o domicílio daqueles que não tem direito de escolha, é o imposto pela lei.
São as pessoas que terão o domicílio necessário (são 5 casos):
1. O incapaz, que corresponderá o domicílio de seu representante ou assistente;
2. O servidor público, no local onde exerce permanentemente suas funções;
a. Difícil o servidor que trabalha em SP morar em PE;
3. O militar, no local onde servir;
a. O militar da marinha ou aeronáutica, na sede do comando a que se subordina. Isto
porque ele pode estar em alto mar ou nos céus;
4. O marítimo, da marinha mercante, (civil), no local onde está matriculado o navio;
5. O preso, onde cumpre sentença;

Art. 76. Têm domicílio necessário o incapaz, o servidor público, o militar, o marítimo e o preso.
Parágrafo único. O domicílio do incapaz é o do seu representante ou assistente; o do servidor
público, o lugar em que exercer permanentemente suas funções; o do militar, onde servir, e, sendo
da Marinha ou da Aeronáutica, a sede do comando a que se encontrar imediatamente subordinado;
o do marítimo, onde o navio estiver matriculado; e o do preso, o lugar em que cumprir a sentença.

E o agente diplomático brasileiro?


O diplomata tem domicílio SEMPRE em seu país de origem.
É o PRINCÍPIO DA EXTRATERRITORIALIDADE.
O diplomata responde em seu país de origem. Para o caso do Brasil, o local poderá ser:
 O lugar designado por ele, caso existir;
 No DF, onde funciona o Itamaraty;
 Último ponto no Brasil onde foi domiciliado;

Art. 77. O agente diplomático do Brasil, que, citado no estrangeiro, alegar extraterritorialidade sem
designar onde tem, no país, o seu domicílio, poderá ser demandado no Distrito Federal ou no último
ponto do território brasileiro onde o teve.

DOS BENS (art 79...)


Classificações

IMÓVEIS: O CC admite 3 espécies de bens imóveis:


POR NATUREZA:
O solo ou tudo que nele se incorporar naturalmente (árvores, frutos pendentes, jazidas minerais).
São imóveis enquanto permanecer a incorporação;
20
ATENÇÃO: O que dizer da safra? Da colheita futura? A safra plantada no chão, destinada a ser
colhida no futuro, serão móveis ou imóveis? São frutos e produtos incorporados ao solo destinados
a um negócio jurídico. NÃO SÃO IMÓVEIS. São móveis por antecipação (art 95, CC).
Art. 95. Apesar de ainda não separados do bem principal, os frutos e produtos
podem ser objeto de negócio jurídico.

POR ACESSÃO:
São as construções e edificações incorporadas ao solo pelo homem. Ex.: casas, edifícios, pontes e
viadutos.

ATENÇÃO: Uma casa rebocada? PERMANECE COMO IMÓVEL:


Art. 81. Não perdem o caráter de imóveis:
I - as edificações que, separadas do solo, mas conservando a sua unidade, forem removidas para
outro local;
II - os materiais provisoriamente separados de um prédio, para nele se reempregarem.
 Materiais descartados passam a ser MÓVEIS, pois não foram reempregados;

POR DEFINIÇÃO LEGAL:


Ocorre apenas em 2 situações:
1. Direitos reais sobre imóveis e suas ações;
2. Direito à sucessão aberta;

Direito real é aquele que grava um poder a determinado bem. É o “gravame”. A hipoteca por ex.
Deve seguir todos os procedimentos previstos aos bens imóveis, pois representa um valor
patrimonial IMÓVEL segundo a lei.

O direito a sucessão aberta é o direito de herança. HERANÇA é bem IMÓVEL por força de lei,
portanto! Exigirá registro em cartório, visto do cônjuge. Tudo por questão de conveniência jurídica.

Art. 80. Consideram-se imóveis para os efeitos legais:


I - os direitos reais sobre imóveis e as ações que os asseguram;
II - o direito à sucessão aberta.

MÓVEIS: O CC admite também 3 espécies:


SEMOVENTES:
Bens móveis que se movimentam sozinhos. Os animais são um exemplo.
PROPRIAMENTE DITOS:
São os passíveis de remoção pela força humana. Qualquer objeto inanimado que não se move por si
próprio.
POR DEFINIÇÃO LEGAL:
São eles:
 Energias de valor econômico;
o Energia elétrica, por ex. Tanto é móvel que pagamos ICMS sobre seu uso.
 Os direitos reais sobre móveis e suas ações;
o Ex.: penhor. É uma relação mais simples, menos formal por se tratar de bem móvel.
 Direitos pessoais de caráter patrimonial e suas ações;
o São direitos que vinculam pessoas (contrato de prestação de serviço, por ex). É
relação mais simples ainda. Por ser dessa natureza simples, considera-se como bem
21
móvel;

Art. 83. Consideram-se móveis para os efeitos legais:


I - as energias que tenham valor econômico;
II - os direitos reais sobre objetos móveis e as ações correspondentes;
III - os direitos pessoais de caráter patrimonial e respectivas ações.

FUNGÍVEIS x INFUNGÍVEIS:
Bens FUNGÍVEIS são bens móveis que podem substituir-se por outros da mesma espécie,
quantidade e qualidade.

ATENÇÃO: IMÓVEIS SÃO SEMPRE INFUNGÍVEIS. Todo imóvel é único, tem apenas um
número de registro;

CONSUMÍVEIS x INCONSUMÍVEIS:
Bens CONSUMÍVEIS são bens móveis cujo uso destrói sua substância, perde-se sempre parte de
sua essência no seu uso: alimentos, perfume, tinta... Além daqueles destinados à alienação.
Assim, são 2 categorias:
 Aqueles bens móveis cujo uso os destrói;
 Qualquer bem móvel posto a venda;

A peça de roupa é consumível ou inconsumível? Ela se desgasta, não se destrói, não perde sua
essência. Daí é INCONSUMÍVEL.
ATENÇÃO: se estiver posta a venda, passa a ser consumível! A roupa posta a venda é
CONSUMÍVEL. Quando utilizada pelo consumidor, passa a ser INCONSUMÍVEL.

Art. 86. São consumíveis os bens móveis cujo uso importa destruição imediata da própria
substância, sendo também considerados tais os destinados à alienação.

DIVISÍVEIS x INDIVISÍVEIS:
Bens DIVISÍVEIS são aqueles que se podem repartir em porções, desde que:
 Não altere a substância;
 Não prejudique sua utilização, sua funcionalidade;
 Não acarrete diminuição considerável do valor;
Ex.: barra de ouro, terreno...

ATENÇÃO:
Art. 88. Os bens naturalmente divisíveis podem tornar-se indivisíveis por determinação da lei ou
por vontade das partes.
Exemplos:
 Terrenos tombados pelo patrimônio histórico, por exemplo, são indivisíveis por força de lei.
 Cláusula de indivisão sobre um bem, acordado pela força da vontade das partes;

SIGULARES x COLETIVOS:
Bem SINGULAR é aquele que, mesmo reunidos a outro, é considerado de per si.
Ex.: o volume 1 de uma coleção de livros. Ele é considerado por si só, de per si.

Já o COLETIVO é considerado agregado à coletividade.


Ex.: caixa de fósforos: não se compra um fósforo isolado.

22
É dos bens coletivos que se tem o instituto da UNIVERSALIDADE: define todo e qualquer
agrupamento. Para o CC, o que interessa são 2 espécies:
 UNIVERSALIDADE DE FATO: É um complexo de bens singulares que, pertencentes a
mesma pessoa, tenham destinação unitária.
Ex.: a biblioteca. Cada livro tem sua singularidade, mas todos estão reunidos na biblioteca;

 DE DIREITO: é aquela universalidade, aquele conjunto formado por meios jurídicos, por
relações jurídicas de uma pessoa, desde que dotadas de valor econômico.
Ex.: patrimônio contábil, herança...

PRINCIPAIS x ACESSÓRIOS:
O bem PRINCIPAL existe por si só, já o ACESSÓRIO, segue o principal. É preciso lembrar que a
classificação em principal ou acessório sempre dependerá do referencial. Para tanto, são necessários
dois objetos, o de referência e aquele que se deseja classificar. Ex.: O pneu pode ser principal com
relação à jante, mas acessório com relação ao carro.

É dessa classificação que surge o PRINCÍPIO DA GRAVITAÇÃO JURÍDICA: “o acessório


segue o principal”. Mas nem sempre o princípio tem atividade prática. Existem 2 classes distintas
de bens acessórios. Aqueles que traduzem:
 Partes integrantes: são os acessórios estruturais, que compõem a estrutura da coisa
principal. Apesar de poderem existir isoladamente, são essenciais para o bem principal. É o
caso do pneu para o carro, o piso em relação ao apartamento. Neste caso, as partes
integrantes seguirão o principal. Vender o carro significa vender os pneus. Os negócios
jurídicos para estes bens devem seguir o princípio da gravitação.

 Pertenças: neste caso são acessórios UTILITÁRIOS, não compõe a estrutura básica do
principal Não é esta sua função. Prestam apenas utilidade extra, facilitando a utilização do
principal. Destinam-se de modo duradouro ao uso, serviço ou aformoseamento do
principal. É o sistema de som do carro, películas... Se forem retiradas, o bem principal
permanecerá utilizável.
o As pertenças NÃO seguem o principal. Exceções (art 94, CC):
 Quando a lei o determina;
 Extintor de incêndio no carro;
 Triângulo de segurança...
 Quando a vontade determina;
 Por contrato, por ex;
 As circunstâncias assim determinarem;
 O som de fábrica do carro, por ex, pois integra o design do veículo;

Benfeitorias
São obras ACESSÓRIAS que trazem valor ao bem principal. São elas:
 Necessárias;
 Úteis;
 Voluptuárias;

As necessárias visam CONSERVAR o principal, evitando sua ruína. Ex.: substituição das telhas de
uma casa.

23
As úteis AUMENTAM OU FACILITAM SEU USO. Ex.: garagem, segundo pavimento, pátio...
As voluptuárias buscam trazer LAZER OU EMBELEZAMENTO. Ex.: piscina.

Dos bens públicos


Pertence mais ao direito administrativo do que o civil. Porém, tal classificação é prevista no CC>

São bens pertencentes às pessoas jurídicas de direito público INTERNO. Qualquer outro bem é
privado.
São classificados em:
 De uso comum;
 De uso especial;
 Dominicais;

Os de uso comum são aqueles de acesso irrestrito da população: praças, estradas, rios, mares...
Normalmente os bens de uso comum são gratuitos, mas podem exigir remuneração. É o caso de
pedágio em certas estradas, zona azul (uso da via pública remunerada).

Os de uso especial são os edifícios e terrenos onde a administração presta seus serviços. Ex.: escolas
públicas, hospitais públicas, delegacia de polícia...

Bens públicos dominicais integram o patrimônio dos entes públicos como objeto de direito real ou
pessoal. A administração pública se comporta como um particular em face desses bens. São objetos
que permitem que a administração exerça com relação a eles os poderes atinentes à propriedade. Por
isso integram o patrimônio público. Ex. terrenos de marinha (serve para instituir receita à União, é o
aforamento – exploração do bem dominical pela União), as ferrovias públicas, terras devolutas.

ATENÇÃO: São INALIENÁVEIS os bens públicos de uso comum e de uso especial. Não podem
ser transmitidas ao particular.
 Os bens dominicais são ALIENÁVEIS na forma da lei. A administração pode deles se
desfazer.

Assim:
 São INALIENÁVEIS apenas:
o Bens públicos de uso comum;
o De uso especial;
 São IMPRESCRITÍVEIS: QUALQUER BEM PÚBLICO. Ou seja, não são usucapíveis. O
requisito temporal da usucapião NÃO tem efeito para os bens públicos.

AULA 4 – FATOS JURÍDICOS

Fato jurídico lato sensu


É todo acontecimento, natural ou humano, voluntário ou não, relevante para o direito (o direito se
origina do fato), em virtude dos quais nascem, subsistem e se extinguem as relações jurídicas.

O fato jurídico tem definição abrangente e se refere a qualquer tipo de acontecimento capaz de criar,
modificar, conservar ou extinguir a relação jurídica. Ex.: nascimento de uma pessoa, confecção de
algo, a maioridade, a morte etc.

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Podem ser:
 Involuntários (naturais): fatos jurídicos em sentido estrito. Ocorrem independentemente da
vontade do ser humano, ou seja, pela ação da natureza (a morte, uma inundação, o
nascimento etc.);
 Voluntários (humanos): atos jurídicos em sentido amplo. Derivam da vontade direta do ser
humano e podem ser:
o Lícitos: quando produzem efeitos legais, conforme a vontade de quem os pratica
(casamento, contrato de compra e venda);
o Ilícitos: quando produzem efeitos legais contrários à Lei (o homicídio, o roubo, a
agressão etc.).

Também se dividem em:


 Fato jurídico em sentido restrito são o terremoto em zona urbana ou o raio que atinja uma
pessoa, exemplos em que haverá consequências jurídicas: morte, sucessão, seguro, etc. NÃO
HÁ EXPRESSÃO DA VONTADE humana, embora provoquem efeitos jurídicos (são fatos
naturais – já que não há vontade humana - que provocam efeitos jurídicos, portanto).
 Atos jurídicos lato sensu são atos praticados pelo agente, volitivamente, ou seja, com
vontade de praticar.

Atos jurídicos
Os Atos Jurídicos são fatos jurídicos praticados pelo homem; o AJ restrito não tem intenção de
negócio, mas por acidente, surgem efeitos jurídicos (ex: descobrir um tesouro, plantar por engano em
terreno alheio).
Dividem-se em:
 Ato jurídico estrito senso: os efeitos jurídicos são previstos por lei. Não há liberalidade das
partes;
 Negócio jurídico: uma declaração de vontade para produzir efeito jurídico, podendo ser mais
livremente combinados pelas partes do que previamente regulados pela lei (é informal, ex:
contratos verbais do 107,112; os contratos e a propriedade são os dois principais institutos do
dir. civil, art. 170 CF), ou então o contrário (negócio solene, ex: casamento, testamento,
alienação de imóvel que exige forma escrita do 108). O art. 104 traz os elementos do NJ, aos
quais se deve acrescentar a legitimidade: limitador da capacidade em relação a certos
negócios jurídicos, ou seja, é o interesse e autorização para agir em certos casos previstos em
lei como o 497 e o 1647.
o Aqui entra o conceito de ATO-FATO jurídico: quando a vontade seria parte
integrante do fato jurídico, porém não determinante. É o caso da compra de um gibi
realizada por um menor. Embora esta não pode ser caracterizada como uma vontade
válida, tendo em vista a incapacidade do sujeito, o fato jurídico é aceito. Deveria
caracterizar-se como negócio jurídico, mas, por vício em um de seus elementos
formadores, passa a ser um ato-fato, posto que não é ato jurídico somente, já que há
uma vontade declarada cujo efeito não é provocado por lei, porém, ela tem valor
menor, se aproximando de um fato jurídico, no qual a vontade é ignorada;

A Teoria do Ato-Fato busca estabelecer critérios para validar atos praticados por menores
incapazes. Nesse sentido, traria 3 requisitos cumulativos:
i) os atos praticados devem ter pouca expressão econômica;
ii) os atos devem atender os interesses imediatos e cotidianos do incapaz;
iii) os atos usualmente são realizados com recursos do seu representante ou assistente.

Assim, preenchidos os requisitos cumulativos, impede-se a invalidação de ato praticado pelo

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incapaz.

O interessante de se notar na Teoria do Ato-Fato, contudo, é o reconhecimento da possibilidade de


se conservar um ato jurídico, ainda que em tese este fosse nulo.

Tal se deve à elevação dos princípios, reconhecidos como normas jurídicas superiores à
formalização excessiva do Direito. Como se vê, o fundamento para o raciocínio da Teoria é a
necessidade de observância dos Princípios da Segurança Jurídica e da Boa-Fé Objetiva que, em
técnica de ponderação, sobressaem sobre a mera interpretação formal do texto, que induziria à
simples nulificação do ato.

Finalmente, os atos ilícitos produzem efeitos jurídicos contrários à lei; seu autor será punido
financeiramente se provocou um dano, patrimonial ou moral, a outrem (art 186). Consequência do
ato ilícito é a responsabilidade civil (art 927) que veremos em Civil III, nas Fontes das Obrigações.

Do Negócio jurídico (arts 104 a 184)


É todo ato de vontade que se destina a operar efeitos jurídicos queridos pelas anuências das partes.

Ato jurídico em sentido estrito


É todo ato de vontade que se destina a operar efeitos jurídicos pré-estabelecidos em lei.
NÃO É A VONTADE DAS PARTES que determina os efeitos.
 Se os efeitos fossem dados pela vontade das partes, tratar-se-ia de um negócio jurídico;
 É o exemplo das obrigações adquiridas pela pessoa quando se torna pai. Deve alimentos ao
filho, mesmo que contra a própria vontade;

Ato jurídico em sentido estrito Negócio jurídico


 Depende da lei;  Depende da vontade das partes;
 Independe da vontade das partes;

Art. 185. Aos atos jurídicos lícitos, que não sejam negócios jurídicos, aplicam-se, no que couber, as
disposições do Título anterior.

O art 185 aplica aos atos jurídicos em sentido estrito tudo que couber aos negócios jurídicos.

Vamos ao negócio jurídico:

Pressupostos de validade do negócio jurídico (art. 104)


São 3 (NÃO ESQUECER).
1. Agente capaz;
2. Objeto lícito (não proibido em lei), possível, determinado ou determinável;
3. Forma prescrita ou não defesa em lei;

1. AGENTE CAPAZ;
Assim, incapazes não praticam negócios jurídicos válidos.

2. OBJETO LÍCITO;
Objetos ilegais também não podem ser alvos de negócios jurídicos válidos.
Objeto possível é aquele que pode ser consumado, alcançado.

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 É o caso da IMPOSSIBILIDADE RELATIVA: quando o objeto do negócio jurídico é
possível para alguns e impossível para outros. Imagine um contrato em que um velhinho se
compromete a levantar 100kg? Trata-se claramente de um negócio impossível para o
velhinho.

Art. 105. A incapacidade relativa de uma das partes não pode ser invocada pela outra em benefício
próprio, nem aproveita aos co-interessados capazes, salvo se, neste caso, for indivisível o objeto do
direito ou da obrigação comum.
 ATENÇÃO: a incapacidade relativa de uma das partes não pode ser alegada pela outra.
Havendo co-interessados capazes, a incapacidade relativa da outra parte apenas será
aproveitada se quem alega não tenha dado causa ao negócio jurídico, pois, caso contrário,
dela se beneficiará diretamente – o que é vedado pelo art. 105.
o O aproveitamento da incapacidade relativa só se dará quando alegado por terceiros
co-interessados, de maneira indireta, portanto, nunca em benefício próprio;

 ATENÇÃO (art 106, CC): segundo o CC, a IMPOSSIBILIDADE RELATIVA NÃO


INVALIDA o negócio jurídico. Neste caso, se eu fosse o velhinho, começaria a treinar;

Art. 106. A impossibilidade inicial do objeto não invalida o negócio jurídico se for relativa, ou se
cessar antes de realizada a condição a que ele estiver subordinado.

Classificação dos objetos:


O objeto pode ser DETERMINADO ou DETERMINÁVEL. Ambos são aceitos pelo CC. Será
determinado quando já consumado, quando já é possível de quantificar e qualificar o objeto. Uma
casa já construída é objeto determinado.
Será determinável quando ainda estiver pendente sua especificação, quando for objeto de
determinação futura, por ex. Uma casa a construir é um objeto determinável.

3. FORMA PRESCRITA E NÃO DEFESA EM LEI:


Quando à forma do negócio, temos 2 possibilidades:
 Solene: não exigem forma, são de forma livre. Em Direito Civil, a NÃO SOLENIDADE é a
regra. É o que diz o art 107, CC.
 Não solene: somente se aperfeiçoam por escritura pública ou instrumento particular.
Representa as exceções, desde que exigida em lei.

Art. 107. A validade da declaração de vontade não dependerá de forma especial, senão quando a lei
expressamente a exigir.

Um bom exemplo é disposição sobre direitos reais de imóveis. Para saber se o contrato de compra e
venda de imóvel será SOLENE, por exemplo, dependerá do valor do imóvel, de acordo com o art
108, CC:
 Se for de preço SUPERIOR a 30 salários mínimos, exigirá escritura pública, ou seja, será
SOLENE:

Art. 108. Não dispondo a lei em contrário, a escritura pública é essencial à validade dos
negócios jurídicos que visem à constituição, transferência, modificação ou renúncia de
direitos reais sobre imóveis de valor superior a trinta vezes o maior salário mínimo vigente
no País.

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Assim, por curiosidade, o TETO para o valor de direitos reais sobre imóveis inexigirem escritura
pública é de 30 salários mínimos.

Da interpretação do negócio jurídico


Muitos negócios são discrepantes entre o que diz o contrato e a vontade das partes. Daí a necessidade
de se regular as formas de interpretação do negócio jurídico.
Ex.: vou à padaria e digo: “me dê 3 pães”. Trata-se de uma doação de pães ou compra e venda?

Assim, o que vale é a intenção, de acordo com o art 112, CC:

Art. 112. Nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciada do que ao
sentido literal da linguagem.

Apenas em CARÁTER EXCEPCIONAL, por questão de segurança jurídica, alguns negócios


jurídicos devem ser interpretados LITERALMENTE:

Art. 114. Os negócios jurídicos benéficos e a renúncia interpretam-se estritamente.

De acordo com o art 114, os negócios jurídicos BENEFÍCIOS e a RENÚNCIA, exigem interpretação
estrita, literal.
 O negócio BENÉFICO: visa à beneficiar exclusivamente uma das partes. Ex.: doação.
Imagine a doação de uma fazenda de João a Pedro. A fazenda será doada com os bois ou sem
os bois, não havendo previsão expressa em contrato? Será doada SEM os bois, pois deve ser
interpretada ESTRITAMENTE. Para tanto, deve estar expresso em contrato;
 RENÚNCIA: ato de abdicar o direito. Ex.: imagine a seguinte previsão em testamento: “eu
renuncio a herança do meu genitor”. Se a mãe morrer? A interpretação é restrita, ele se referia
ao pai apenas.

Da reserva mental (art 110)


Baseia-se no código civil alemão.
Vimos que todo negócio jurídico é pautado por um ato de vontade.
Neste caso, existem 2 momentos:
 O DA VONTADE: momento interno do negócio jurídico. Quando se deseja uma joia, não
há tem desde o desejo. Para tanto, deve-se ir a loja e compra-la;
 O DA MANIFESTAÇÃO DA VONTADE: momento externo. Ocorre quando o sujeito vai
a loja e compra a joia, manifestando sua vontade;

A RESERVA MENTAL ocorre quando o agente manifesta a vontade, mas não tem a intenção de
cumpri-la.
Ex.: recompensa para cachorro perdido. O sujeito promete recompensa, mas desde o início já sabe
que não a pagará. Neste caso, ele deverá dar cumprimento à obrigação, mesmo contra a sua vontade.
Ou seja, a manifestação da vontade SUBEXISTE mesmo quando não há a intenção de cumpri-la.
Ainda que seu autor tenha feito reserva mental de não querer o que manifestou.

Reserva mental é a intenção de não cumprir a obrigação. Ela é não expressa, é interna à intenção do
contratante.
Se ela passa a ser externa (como é a própria manifestação), aquele que sabia da informação não
poderá exigir-lhe o cumprimento da obrigação, pois sabia da intenção do agente.

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É o caso do vizinho que, sabendo da intenção do outro em não pagar-lhe a recompensa, exige-lhe.
Ele não estará protegido pelo direito, pois sabia da intenção, tinha conhecimento da reserva
mental, do não pagamento desde o início.

Art. 110. A manifestação de vontade subsiste ainda que o seu autor haja feito a reserva mental de
não querer o que manifestou, salvo se dela o destinatário tinha conhecimento.

E quanto ao silêncio? (art 111)


No direito civil não existe o “quem cala consente”. No direito, o brocar é “quem cala nada diz”. Ou
seja, não se aperfeiçoa negócio jurídico algum.

MAS HÁ EXCEÇÃO. É o caso do SILÊNCIO CONCLUDENTE:


 É aquele em que os costumes ou circunstâncias, desde que fundamentados em lei, devem ser
interpretados como uma aceitação.
 É espécie de silêncio circunstanciado;

É o que se prevê no art 111, CC:


Art. 111. O silêncio importa anuência, quando as circunstâncias ou os usos o autorizarem, e não for
necessária a declaração de vontade expressa.

 É o exemplo da doação a prazo SEM ENCARGOS (art 539, CC): se o prazo transcorrer
sem resposta, o doador entende que a doação foi aceita;
Art. 539. O doador pode fixar prazo ao donatário, para declarar se aceita ou não a
liberalidade. Desde que o donatário, ciente do prazo, não faça, dentro dele, a declaração,
entender-se-á que aceitou, se a doação não for sujeita a encargo.

Ou seja, há previsão expressa de aceitação tácita, do silêncio circunstanciado;

DEFEITOS do negócio jurídico


São eles:
1. Erro;
2. Dolo;
3. Coação;
4. Estado de perigo;
5. Lesão;
6. Fraude contra credores.
7. Simulação;

São vícios que prejudicam a validade do negócio.


Mas precisamos saber quais as consequências desses vícios. Eles causam NULIDADE OU
ANULABILIDADE?

O negócio será NULO ou NULÁVEL? Haverá nulidade absoluta?


A CONSEQUÊNCIA GERAL É A ANULABILIDADE!

Assim, os defeitos do negócio jurídico operam anulabilidade, com prazo DECADENCIAL DE 4


ANOS para a propositura da ação judicial que buscar sua declaração. Veremos mais a frente.

MAS CUIDADO: há um vício que não provocará a anulabilidade (art 167, CC).
 SIMULAÇÃO opera NULIDADE ABSOLUTA!

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Assim, MUITA atenção quando a prova falar de simulação.

Vamos a eles:

1. Erro (art 138 e ss)


É a falsa percepção da realidade. É o engano a respeito de algum requisito do negócio, que se fosse
conhecido, não seria compactuado. É o caso de comprar um anel de latão achando que é de ouro.

Para ser considerado erro, devem estar presentes 2 características fundamentais. O erro deve ser:
1. SUBSTANCIAL:
2. COGNOCÍVEL:

Erro SUBSTANCIAL
É o erro sério, grave o suficiente para induzir o agente à celebração do negócio. É o erro que, se
sabido, não permitiria a celebração contratual. O CC traz as situações do erro substancial:

Art. 139. O erro é substancial quando:


I - interessa à natureza do negócio, ao objeto principal da declaração, ou a alguma das qualidades
a ele essenciais;
II - concerne à identidade ou à qualidade essencial da pessoa a quem se refira a declaração de
vontade, desde que tenha influído nesta de modo relevante;
III - sendo de direito e não implicando recusa à aplicação da lei, for o motivo único ou principal
do negócio jurídico.

Assim, são as hipóteses de erro substancial:


 Aquele que afeta a NATUREZA do negócio: mendigo entra num restaurante e pede café. O
garçom, não sabendo da condição de mendigo, atendeu-lhe o pedido. Para o garçom, trata-se
de uma compra e venda. Para o mendigo, uma doação. Este é um erro substancial pela
natureza.
 Quanto ao OBJETO: Sujeito aluga apartamento, que viu em anúncio não muito claro, em
edifício homônimo. Errou quanto ao objeto do contrato de locação;
 Quanto à QUALIDADE: comprar o anel de latão achando que é de ouro;
 Quanto à PESSOA: são as relações em que predominam os atributos de ordem pessoal. Caso
do casamento, por ex. A esposa descobre que o marido é gay. Neste caso, o matrimônio pode
ser anulável quanto à pessoa;

 Quanto ao DIREITO: erro que recai sobre o desconhecimento da lei, ou até mesmo
interpretação errônea:
ATENÇÃO: Como conciliar o princípio da inescusabilidade X erro de direito?

De acordo com o art 3, LINDB, ninguém pode se escusar de cumprir a lei alegando que a não
conhece (princípio da inescusabilidade da lei). Ninguém pode se aproveitar do seu
desconhecimento da lei. E como conciliar as duas teses antagônicas? Inescusabilidade X
erro de direito?

Temos 2 tipos de normas que nos servem de referencia. Normas cogentes e dispositivas:
 COGENTES: de cunho obrigatório. É norma que tem que ser cumprida. Impõe-se
coercitivamente aos destinatários. Normas cogentes não incorrem em erro de direito.
O princípio da inescusabilidade se aplica, portanto, às normas cogentes!
 DISPOSITIVAS: de conteúdo facultativo, o sujeito observa se quiser. É o caso do

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voto facultativo aos menores de 18 anos. É para esse tipo de norma que se aplica o
erro de direito. Ou então, João contrata advogado para resolver uma causa no juizado
especial, acreditando precisar do causídico para tanto. Depois descobre que o
advogado é opcional nesses casos. Tenta anular o contrato com o advogado, que não
aceita. Neste caso, ele pode exigir o distrato no judiciário, alegando o erro de direito.

ATENÇÃO2: A parte mais importante quando ao erro de direito está no meio do incisivo: “e
não implicando recusa à aplicação da lei, for o motivo único ou principal do negócio
jurídico”. E o que quer dizer isso?
o Exige-se para a alegação do erro de direito a não implicação em descumprimento da
lei. Ou seja, só é possível invocar o erro de direito quando não implicar em
descumprimento da lei. É o caso do sonegador de imposto, que alega não saber que
sonegava. Neste caso não pode invocar o erro de direito pois estava infringindo a lei,
descumpria a lei. O sujeito que contrata o advogado não o faz obrigado, não há caráter
cogente na contratação do advogado no juizado, por isso lhe é permitido invocar o
erro de direito;

Erro COGNOSCÍVEL (art 138)


Art. 138. São anuláveis os negócios jurídicos, quando as declarações de vontade emanarem de erro
substancial que poderia ser percebido por pessoa de diligência normal, em face das circunstâncias
do negócio.

É aquele que poderia ser percebido por pessoa de diligência normal. Cognoscibilidade tem a ver com
perceptibilidade.
E que pessoa de diligência normal é essa? A OUTRA PARTE!
A cognoscibilidade diz respeito ao poder que tem a outra parte de perceber o erro daquele com
quem negocia, porém nada diz. Ex.:
 B compra de A um anel achando que é de ouro. A, ouvindo o comentário de que B queria um
anel de ouro, percebeu o erro mas permaneceu em silêncio. Neste caso, agiu de má fé. Ele
tinha a cognoscibilidade de reconhecer o erro, mas não o fez.

Falso motivo (art 140)


Tem a ver com o erro quanto ao motivo.
Aluno contrata o espaço jurídico para passar no concurso do TJ. O aluno não passa no concurso. Não
pode exigir seu dinheiro de volta...

Mas, se o espaço jurídico prometer a devolução do dinheiro em caso de insucesso? O aluno


reprovado pode sim pleitear a devolução do dinheiro. Se o espaço jurídico se recusar a devolver, está
caracterizado o FALSO MOTIVO. Foi criada uma falsa ilusão para que o curso fosse vendido.
Falso motivo é a mentira, é a cláusula contratual essencial descumprida. Para tanto deve ser
EXPRESSO.
 É o mesmo de erro quanto ao motivo.

Art. 140. O falso motivo só vicia a declaração de vontade quando expresso como razão
determinante.

Para atacar a motivação do negócio, o motivo deve estar expresso no contrato!

Transmissão errônea por meios interpostos (art 141)


Ocorre quando a vontade é transmitida por meios indiretos, interpostos.

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 Ex.: anúncio de jornal. Joao contrata com o JC o anúncio para venda de um imóvel. João diz
que o valor é de 200mil. O JC anuncia por 20mil. A oferta vincula o anunciante? Neste
caso, o anúncio não vinculará o vendedor posto que a responsabilidade é do JC, que é a
interposta pessoa (meios interpostos) que viciou o anúncio.

Art. 141. A transmissão errônea da vontade por meios interpostos é anulável nos mesmos casos em
que o é a declaração direta.

Erro de cálculo (art 143)

Art. 143. O erro de cálculo apenas autoriza a retificação da declaração de vontade.

O erro de cálculo autoriza apenas a RETIFICAÇÃO.


 A anulabilidade NÃO persiste neste caso.

Convalescimento do erro (art 143)


Convalescer é sanar o vício. Assim, é possível que o erro seja sanado.
Imagine o exemplo da compra do anel de latão, achando q era de ouro. Volta à loja, avisa ao gerente,
que faz a troca do anel. Neste caso o erro foi sanado. Ainda existe interesse do agente em processar a
loja? NÃO, pois o erro convalesceu.

Art. 144. O erro não prejudica a validade do negócio jurídico quando a pessoa, a quem a
manifestação de vontade se dirige, se oferecer para executá-la na conformidade da vontade real do
manifestante.

2. Dolo (art 145 e ss)


Difere do dolo do direito penal. No direito civil tem outro significado.
No direito civil, dolo é o artifício que se prega para induzir a vítima ao engano.
O agente falseia informações. Induz de forma ativa a vítima ao erro.
É a vontade de enganar.

Ex.: fulano vende rolex falsificado, com um certificado falso.


DIFERENÇA ENTRE ERRO E DOLO:
 No erro a vítima se engana espontaneamente;
 No dolo, é induzida ao engano;

Falar em dolo é falar em lábia, ardil, vontade de enganar.

Art. 145. São os negócios jurídicos anuláveis por dolo, quando este for a sua causa.

Art. 146. O dolo acidental só obriga à satisfação das perdas e danos, e é acidental quando, a seu
despeito, o negócio seria realizado, embora por outro modo.

De acordo com os artigos acima, temos 2 tipos de dolo:


o DOLO PRINCIPAL: é a razão determinante do negócio. É o que fere a causa do contrato. É a
venda que só se valida por achar o comprador que o objeto era original.
 O dolo principal torna o negócio ANULÁVEL (art 145, CC), operam anulabilidade;

o DOLO ACIDENTAL: acarreta uma maior onerosidade ao negócio, mas não de forma essencial.
Ou seja, mesmo com o dolo acidental, o negócio seria realizado, porém por outra forma ou preço.

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 É o caso da balança de um restaurante pesar 1kg como 1,04kg, por exemplo. O
restaurante altera a balança para vender mais caro. Neste caso, o dolo foi a razão do
negócio? NÃO. O dolo não formou o negócio, apenas o tornou mais oneroso.
 O dolo acidental obriga a satisfação das PERDAS E DANOS (art 146, CC).

Há também outra classificação:


 DOLO RECÍPROCO: quando uma parte intenciona enganar a outra. Ex. de uma troca de
um relógio falso por outro. NENHUM DOS CONTRATANTES poderá anular o negócio
jurídico.

Art. 150. Se ambas as partes procederem com dolo, nenhuma pode alegá-lo para anular o
negócio, ou reclamar indenização.

 DOLO DE TERCEIRO: quem realiza o dolo não é a parte contratante, mas sim um terceiro
que induz a parte a realizar um contrato. Ex.: corretor imobiliário. Gringo procura corretor
para comprar imóvel em Suape. O corretor convence o gringo a comprar imóvel na Muribeca,
afirmando que o terreno vale 500mil reais (quando na realidade custa 20mil). O gringo fecha
contrato com Daniel, que nada tem a ver com a história. O contrato pode ser anulado pelo
dolo do corretor. MAS ATENÇÃO:
o Se a parte beneficiada, ou seja, Daniel sabia da intenção do corretor, o negócio
será ANULÁVEL;
o Se a parte beneficiada estava de boa fé, o negócio será considerado VÁLIDO,
respondendo o terceiro (corretor) por PERDAS E DANOS, mantendo-se o negócio
jurídico válido.

Art. 148. Pode também ser anulado o negócio jurídico por dolo de terceiro, se a parte a
quem aproveite dele tivesse ou devesse ter conhecimento; em caso contrário, ainda que
subsista o negócio jurídico, o terceiro responderá por todas as perdas e danos da parte a
quem ludibriou.

Art. 149. O dolo do representante legal de uma das partes só obriga o representado a
responder civilmente até a importância do proveito que teve; se, porém, o dolo for do
representante convencional, o representado responderá solidariamente com ele por perdas e
danos.

AULA 5

3. Coação
É a grave ameaça, que seja capaz de forçar a vontade da vítima.

Art. 151. A coação, para viciar a declaração da vontade, há de ser tal que incuta ao paciente
fundado temor de dano iminente e considerável à sua pessoa, à sua família, ou aos seus bens.
Parágrafo único. Se disser respeito a pessoa não pertencente à família do paciente, o juiz, com base
nas circunstâncias, decidirá se houve coação.

Art. 152. No apreciar a coação, ter-se-ão em conta o sexo, a idade, a condição, a saúde, o
temperamento do paciente e todas as demais circunstâncias que possam influir na gravidade dela.

Art. 153. Não se considera coação a ameaça do exercício normal de um direito, nem o simples temor
reverencial.

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Art. 154. Vicia o negócio jurídico a coação exercida por terceiro, se dela tivesse ou devesse ter
conhecimento a parte a que aproveite, e esta responderá solidariamente com aquele por perdas e
danos.

Art. 155. Subsistirá o negócio jurídico, se a coação decorrer de terceiro, sem que a parte a que
aproveite dela tivesse ou devesse ter conhecimento; mas o autor da coação responderá por todas as
perdas e danos que houver causado ao coacto.

Exige a presença de 4 pressupostos:


1. Ameaça GRAVE;
a. Devem-se levar em conta as circunstâncias pessoais da vítima para considerar a
gravidade da ameaça. Daí ser um elemento subjetivo;
b. A filha obrigada a casar com o prometido da família é coagida? NÃO. É a figura
do TEMOR REVERENCIAL: ela age apenas para não desagradar os pais, daí não
ser considerada grave ameaça;

2. Ameaça INJUSTA:
a. É a ameaça contrária ao direito;
b. Imagine que a ameaça de despejo do inquilino caso ele não pague o aluguel é
injusta? NÃO. É o tipo de ameaça tolerável pelo direito;
c. Assim: NÃO se considera coação a AMEAÇA DO EXERCÍCIO
REGULAR/NORMAL DE UM DIREITO;

3. Ameaça IMINENTE:
a. É a ameaça prestes a se consumar;
b. A ameaça futura não é coação;
4. Ameaça deve RECAIR SOBRE A PESSOA OU OS BENS DA VÍTIMA OU DE SEU
FAMILIAR:
a. A coação pode ser pessoal ou patrimonial, portanto;
b. E o que deve entender sobre familiar? Noiva é família? Deverá o juiz recorrer ao
bom senso. EM não se tratando pessoa da família, o juiz decidirá conforme as
circunstâncias (art 151, par U);
Para concluir, NÃO SE CONSIDERA COAÇÃO:
 Temor reverencial (receio de desapreço por quem tem grande estima);
 Ameaça do exercício regular de um direito;

4. Estado de perigo
Alguém se aproveita do estado de perigo que passa a vítima para explorá-la de forma gananciosa,
tirando-lhe proveito. O negócio se vicia pelo fator exploração de quem contrata em situação
vulnerável.

Art. 156. Configura-se o estado de perigo quando alguém, premido da necessidade de salvar-se, ou
a pessoa de sua família, de grave dano conhecido pela outra parte, assume obrigação
excessivamente onerosa.
Parágrafo único. Tratando-se de pessoa não pertencente à família do declarante, o juiz decidirá
segundo as circunstâncias.

São 3 requisitos:
1. Necessidade de salvamento, da vítima ou familiar (também latu sensu, o juiz decide de
acordo com as circunstâncias);

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2. A outra parte tem consciência do dano que a vítima sofrerá;
a. É o dolo de aproveitamento, que deve ser comprovado;
3. Obrigação excessivamente onerosa, abusiva;

Geralmente é o que se vê nos hospitais, que exigem a caução para uma cirurgia urgente.

ATENÇÃO: no estado de perigo a ameaça é PESSOAL. Se a ameaça se der sobre bens, será caso de
coação.
 Não será caso de lesão, pois este instituto não tem a ameaça como elemento;
 A lesão, como veremos a frente, se dá com obrigação onerosa assumida por necessidade ou
inexperiência. Não é caso de ameaça;

ATENÇÃO2: o estado de perigo exige a comprovação do dolo de aproveitamento: trata-se do


conhecimento da parte beneficiada sobre a situação de necessidade que passa a outra parte que sofre
o dano de salvar a si ou à pessoa de sua família;
 Este dolo NÃO é exigido na lesão, que veremos à frente; a lesão presume-se indenizável, sem
comprovação do dolo do aproveitamento;
 De acordo com o parágrafo único, se a pessoa protegida não for da família de quem alega o
estado de perigo, o juiz decidirá segundo as circunstâncias. Ou seja, ainda assim o dolo de
aproveitamento deve ser comprovado.

5. Lesão (art. 157)


Está diretamente ligada ao desequilíbrio contratual. Pressupõe uma relação contratual de valores
desproporcionais.
 Por possuir critérios objetivos, cujos valores serão analisados no tempo em que se
efetivou o negócio jurídico, o dolo de aproveitamento é presumido (art. 157, par 1);
 Ex.: o preço do combo da pipoca no cinema custa R$ 30,00, quando o custo de fabrico é no
máximo R$4,00;

Art. 157. Ocorre a lesão quando uma pessoa, sob premente necessidade, ou por inexperiência, se
obriga a prestação manifestamente desproporcional ao valor da prestação oposta.
§ 1o Aprecia-se a desproporção das prestações segundo os valores vigentes ao tempo em que foi
celebrado o negócio jurídico.
§ 2o Não se decretará a anulação do negócio, se for oferecido suplemento suficiente, ou se a parte
favorecida concordar com a redução do proveito.

Mas não basta o desequilíbrio, a desproporção manifesta.


É preciso também que seja causado por uma premente necessidade ou por inexperiência.

Assim, são requisitos para a lesão:


1. Obrigação desproporcional;
a. Causada por premente necessidade ou;
b. Inexperiência;

É o caso do único borracheiro da estrada cobrar mil reais para trocar o pneu. Apesar de não passar
perigo, a vítima não tem outra opção se não a de aceitar.
 Estado de perigo pressupõe a necessidade de salvamento, que aqui não é o caso. O objetivo
do viajante é seguir viagem, e não salvar-se;
 Inexperiência é pegar um taxi em São Paulo, quando o taxista faz o caminho mais longo
porque percebe a inexperiência do passageiro;

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Por fim, a lesão pode ser sanada, convalescida. Neste caso o negócio NÃO SERÁ invalidado, desde
que o proveito que seria obtido seja reduzido ou o seja oferecido suplemento suficiente para
equilibrar a obrigação.

6. Fraude contra credores


Devemos partir do conceito de insolvência, daquele que não tem patrimônio suficiente para pagar
suas dívidas.
Assim, o devedor que simula uma situação de insolvência comete fraude contra credores. É o caso do
devedor transferir bens para outras pessoas para que não seja executado numa possível ação judicial.

Assim, ocorrerá fraude contra credores quando o devedor INSOLVENTE ou na iminência de


insolvência pratica atos capazes de reduzir seu patrimônio em prejuízo aos seus credores.

Requisitos:
 Devedor solvente ou na iminência de insolvência;

E que classes de credores pode ser prejudicada pela fraude?


São 2 classes principais:
1. Aqueles com garantia real: tem seus créditos garantidos por penhor ou hipoteca. A garantia real
pressupõe a existência de um bem;
2. Os credores quirografários: credor sem garantia de recebimento.

Daí existe uma hierarquia jurídica entre essas classes; os credores com garantia real tem preferência
aos quirografários. Na possível execução do bem dado em garantia, o que sobrar dos valores pagos
aos credores com garantia real, fica com os quirografários.

E se o devedor vender a casa hipotecada? Representa fraude contra o banco?


NÃO. CREDORES com garantia real NÃO podem alegar fraude contra credores, não sofrem
fraude contra credores.
Isto porque a garantia que o credor tem pode ser exigida a qualquer momento, daí não ser necessário
anular o suposto negócio jurídico.
Assim, apenas os credores quirografários são vulneráveis a fraude.
A expressão “fraude contra credores” deve ser entendida como “fraude contra credores
quirografários”.

Art. 158. Os negócios de transmissão gratuita de bens ou remissão de dívida, se os praticar o


devedor já insolvente, ou por eles reduzido à insolvência, ainda quando o ignore, poderão ser
anulados pelos credores quirografários, como lesivos dos seus direitos.
§ 1o Igual direito assiste aos credores cuja garantia se tornar insuficiente.
§ 2o Só os credores que já o eram ao tempo daqueles atos podem pleitear a anulação deles.

EXCEÇÃO: quando a garantia for INSUFICIENTE (art 158, par 1). Neste caso pode o credor com
garantia real alegar a fraude contra credor, no que se refere aos outros bens que se desfez o
insolvente.
 No caso da hipoteca insuficiente, o banco se transforma em credor quirografário para a
quantia restante.

Art 158, par 2: é vedado o pleito de fraude, a anulação de atos, por futuros credores.

36
E quando ocorre a fraude?
Quando o devedor repassa seus bens a um terceiro adquirente.

E o adquirente deve estar em conluio com o devedor para caracterizar a fraude?


É controverso. Devemos apurar como a fraude se consumou.
Ela pode se consumar por 2 maneiras:
1. Por ato de transmissão gratuita (NÃO EXIGE PROVA DO CONLUIO);
2. Ou onerosa (EXIGE PROVA DO CONLUIO);

APENAS A TRANSMISSÃO GRATUITA DISPENSA a prova do conluio.


 Só o fato de a transmissão ter se processado a título gratuito, presume-se a fraude;
 Ainda que o adquirente jure estar de boa fé;
 É anulável de per si;
 É a expressão “Os negócios de transmissão gratuita [...] se os praticar o devedor já
insolvente, ainda quando o ignore [..].”;
 Já a transmissão onerosa exige a prova do conluio;

Mas a prova do conluio é bastante difícil, daí o CC, no art 159, criar MAIS duas situações que se
presumem o conluio.
Assim, são as PRESUNÇÕES DE CONLUIO:
 Insolvência notória (art 159);
o Isto porque a compra de bens de devedor insolvente é anulável, porque o bem deve
entrar no concurso de possíveis credores;
 Motivo relevante para que a insolvência seja conhecida pelo adquirente (art 159);
o É a proximidade entre os fraudadores, é a transferência de bens entre pai e filho,
sócios, de pessoas que possivelmente saberiam da condição de insolvência do outro;
 E por fim, a transmissão gratuita (art 158);

Art. 159. Serão igualmente anuláveis os contratos onerosos do devedor insolvente, quando a
insolvência for notória, ou houver motivo para ser conhecida do outro contratante.

Ação pauliana
Ação que busca anular a fraude contra credores.
No polo ATIVO: quem são os legitimados?
1. Credores quirografários ao tempo dos atos fraudulentos praticados;
2. Credores com garantia real de valor insuficiente;

Os legitimados são os credores quirografários. Mas apenas aqueles que já o eram durante a prática
dos atos fraudulentos (art 158, par 2).
 Os credores que surgirem após os atos fraudulentos, contra eles nada poderão fazer na ação
pauliana, visto que já deveriam saber da condição do devedor;
No polo PASSIVO: quem são os legitimados (art 161)?
1. Devedor insolvente;
2. Pessoa em conluio (adquirente que ultimou a fraude);
3. Terceiro de má fé (terceiro cúmplice);

E a SENTENÇA?
Julgada procedente a ação pauliana, os bens oriundos da fraude revertem em prol do concurso de
credores, do acervo de credores (art 165).
 As vantagens intencionadas pelo devedor revertem-se ao acervo de credores;

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Art. 160. Se o adquirente dos bens do devedor insolvente ainda não tiver pago o preço e este for,
aproximadamente, o corrente, desobrigar-se-á depositando-o em juízo, com a citação de todos os
interessados.
Parágrafo único. Se inferior, o adquirente, para conservar os bens, poderá depositar o preço que
lhes corresponda ao valor real.

Art. 161. A ação, nos casos dos arts. 158 e 159, poderá ser intentada contra o devedor insolvente, a
pessoa que com ele celebrou a estipulação considerada fraudulenta, ou terceiros adquirentes que
hajam procedido de má-fé.

Art. 162. O credor quirografário, que receber do devedor insolvente o pagamento da dívida ainda
não vencida, ficará obrigado a repor, em proveito do acervo sobre que se tenha de efetuar o
concurso de credores, aquilo que recebeu.

Art. 163. Presumem-se fraudatórias dos direitos dos outros credores as garantias de dívidas que o
devedor insolvente tiver dado a algum credor.

Art. 164. Presumem-se, porém, de boa-fé e valem os negócios ordinários indispensáveis à


manutenção de estabelecimento mercantil, rural, ou industrial, ou à subsistência do devedor e de
sua família.

Art. 165. Anulados os negócios fraudulentos, a vantagem resultante reverterá em proveito do


acervo sobre que se tenha de efetuar o concurso de credores.
Parágrafo único. Se esses negócios tinham por único objeto atribuir direitos preferenciais, mediante
hipoteca, penhor ou anticrese, sua invalidade importará somente na anulação da preferência
ajustada.

INVALIDADE do negócio jurídico


IMPORTANTE!
Aqui veremos as diferenças entre negócios NULOS (nulidade absoluta) x ANULÁVEIS (nulidade
relativa ou anulabilidade).

São 2 graus de invalidade: absoluta (MAIS GRAVE) ou relativa;


A nulidade absoluta pressupõe VÍCIO DE ORDEM PÚBLICA, contaminado, portanto, com a
nulidade total do ato, desde sua origem.
A nulidade relativa vem atrelada a um vício particular dos contratantes, daí sua anulabilidade.

Nulidade Absoluta ou Nulidade (art 166)


São 7 hipóteses (DECORAR):
Art. 166. É nulo o negócio jurídico quando:
I - celebrado por pessoa absolutamente incapaz;
II - for ilícito, impossível ou indeterminável o seu objeto;
III - o motivo determinante, comum a ambas as partes, for ilícito;
 É bem raro a lei se preocupar com o motivo a contratar;
 Quando ela se preocupa, é porque o caso é sério, daí sua nulidade absoluta. Ex.: num contrato
de aluguel, o motivo é criar uma boca de fumo. O locador e inquilino concordam com o
contrato. O motivo do contrato é ilegal. O motivo é comum a ambas as partes.
 Se o locador NÃO SOUBER do motivo ilícito, o contrato é VÁLIDO;

38
IV - não revestir a forma prescrita em lei;
V - for preterida alguma solenidade que a lei considere essencial para a sua validade;
VI - tiver por objetivo fraudar lei imperativa;
 É o procedimento aparentemente lícito, que vise burlar a lei;
 É o caso de casamento entre um velho de 90 anos, militar reformado, com uma menina de 15
anos, de namorado. O casamento é aprovado pelos pais, com o único motivo de, em caso de
morte do velho, a filha receba a pensão, por ser sobrinha-neta dele;
VII - a lei taxativamente o declarar nulo, ou proibir-lhe a prática, sem cominar sanção.
 Pai não pode casar com filha, por exemplo (art 1.521);

Nulidade Relativa ou Anulabilidade (art 171)


Art. 171. Além dos casos expressamente declarados na lei, é anulável o negócio jurídico:
I - por incapacidade relativa do agente;
II - por vício resultante de (1)erro, (2)dolo, (3)coação, (4)estado de perigo, (5)lesão ou (6)fraude
contra credores.

 Outros casos podem ser reconhecidos pela lei;


 Pressupõe vício de ordem particular;
 É rol exemplificativo;

Eficácia jurídica
Negócio nulo NÃO gera eficácia jurídica. É nulo desde a origem.
O negócio anulável gera eficácia jurídica até a sentença que o anule.
 O art 177 diz que a anulabilidade somente terá efeito após a sentença;
 A anulabilidade NÃO É PERMITIDA de ofício, por ter caráter de ordem privada;
 Tem eficácia restrita, apenas entre as partes, salvo quando o objeto é indivisível ou a
obrigação, solidária (quando pela própria natureza da obrigação, os efeitos serão expandidos
aos terceiros envolvidos);

Art. 177. A anulabilidade não tem efeito antes de julgada por sentença, nem se pronuncia de
ofício; só os interessados a podem alegar, e aproveita exclusivamente aos que a alegarem, salvo o
caso de solidariedade ou indivisibilidade.
 A anulabilidade NÃO vicia o negócio. O vício só será observado após sentença que o
determinar;

AULA 6
Ratificação ou Convalidação
É a possibilidade de sanar o vício.
Dependerá do tipo de nulidade:
 NULIDADE ABSOLUTA: NÃO admite ratificação;
o Nunca convalescerá;
o É o caso da criança que assina um contrato, sendo este posteriormente ratificado por
assinatura de seu representante. NÃO É POSSÍVEL, não convalesce pelo decurso do
tempo. Neste caso somente será possível um novo contrato;
 NULIDADE RELATIVA: admite ratificação;
o É o caso do contrato assinado por jovem de 17 anos (relativamente incapaz);
o Ao se tornar maior, permite a ratificação do contrato;

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E como se operacionaliza a ratificação?

1. DE MANEIRA EXPRESSA (art 173):


a. Operacionaliza-se através da vontade expressa de confirmação do negócio, da mesma
maneira, mesma substância, em que o contrato foi realizado de início;

Art. 173. O ato de confirmação deve conter a substância do negócio celebrado e a


vontade expressa de mantê-lo.

2. DE MANEIRA TÁCITA:
a. Dá-se pelo cumprimento voluntário da obrigação DESDE que a parte esteja ciente do
vício;

Art. 174. É escusada a confirmação expressa, quando o negócio já foi cumprido em


parte pelo devedor, ciente do vício que o inquinava.

Conversão (art 170)


Art. 170. Se, porém, o negócio jurídico nulo contiver os requisitos de outro, subsistirá este quando o
fim a que visavam as partes permitir supor que o teriam querido, se houvessem previsto a nulidade.

É a hipótese em que a nulidade ABSOLUTA se converte em negócio jurídico válido.


Converter é mudar a substância do ato.
SÓ EXISTE PARA A NULIDADE ABSOLUTA.

Ex.1: É o caso do casamento realizado apenas no religioso, por vontade das partes, sem efeito algum
no civil À época. A viúva depois descobre que não tem direito à herança por não ser casada. Neste
caso, ocorre a conversão para uma união estável, que permite a pretensão requerida.

Ex.2: contrato de compra e venda de imóvel por instrumento particular. É nulo porque a venda do
imóvel exige escritura pública. Neste caso o imóvel permanece com o antigo proprietário. Mas, se
convertida em uma promessa de compra e venda, permitida por instrumento particular, o negócio
seria válido. Neste caso, o juiz, por entender ser esta a vontade das partes desde o início do pacto,
converte a compra e venda em uma promessa de compra e venda, numa outra espécie negocial.

Então, conversão é a transformação do negócio nulo, portanto INVÁLIDO, em um negócio de


natureza distinta, VÁLIDO, mediante o aproveitamento de seus requisitos, de modo a atender ao
interesse presumível das partes.

CONVERSÃO RATIFICAÇÃO
Incide em negócios nulos; Incide em negócios anuláveis;
Transforma o negócio jurídico; Mantém o mesmo negócio jurídico.

Nulidade absoluta x relativa


ABSOLUTA RELATIVA
1. Seu vício é de ordem pública; 1. Traz vício é de ordem particular;
2. Pode ser arguida por qualquer 2. Só pode ser arguida pelo prejudicado pelo
interessado (inclusive o MP); vício;
3. Pode ser declarada de ofício pelo juiz; 3. NÃO pode ser declarada de ofício pelo juiz;
4. Imprescritível (pode ser atacada a 4. Sujeita-se a prazos decadenciais (permite a
qualquer tempo); convalidação caso o prazo se esgote);

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Prazos decadenciais da anulabilidade (art 178)
Dependerá da hipótese da nulidade relativa:
Será de 4 anos:
 Agente relativamente incapaz: 4 anos, a partir de quando cessar a incapacidade;
 Defeitos do negócio jurídico: 4 anos, contados da celebração;
o Tratando-se de COAÇÃO, por ser o único vício que se protrai no tempo, conta-se o
prazo a partir de sua cessação;

Art. 178. É de quatro anos o prazo de decadência para pleitear-se a anulação do negócio jurídico,
contado:
I - no caso de coação, do dia em que ela cessar;
II - no de erro, dolo, fraude contra credores, estado de perigo ou lesão, do dia em que se realizou o
negócio jurídico;
III - no de atos de incapazes, do dia em que cessar a incapacidade.
Será de 2 anos para os casos em que a lei não define prazo expresso (CASOS OMISSOS, a contar
da conclusão do ato);
Ex.: art 496 diz que é anulável a venda do ascendente ao descendente salvo consentimento dos
outros sucessores, mas não fala de prazo;

Art. 179. Quando a lei dispuser que determinado ato é anulável, sem estabelecer prazo para
pleitear-se a anulação, será este de dois anos, a contar da data da conclusão do ato.

A nulidade absoluta não se sujeita a prazos prescricionais ou decadenciais por ser matéria de ordem
pública, diferente da nulidade relativa.

Invalidade parcial do negócio jurídico (art 184)


O que dizer do vício em determinada cláusula de um contrato?
Tudo dependerá da SEPARABILIDADE da parte viciada.
Se for inseparável o vício do restante, todo o negócio jurídico restará inválido.
Se separável o vício, este não prejudica o restante.
 Imagine a cláusula de foro de um contrato de consumo, que exige a presença do réu em
cidade na qual não mora. Apesar da cláusula em si ser inválida, o restante do contrato
permanece válido, pois é possível separar a cláusula abusiva.
 Juquinha de 5 anos contrata uma empresa para realizar um serviço. Neste caso, por tratar-se
de nulidade absoluta, esta é inseparável, tornando todo o restante nulo.

Obrigação principal x acessória


Se a obrigação principal for inválida, a acessória também o será! Como o acessório segue o principal,
a invalidade do principal contaminará o acessório.
 Contrato de locação é inválido, a fiança acessória a ele também o será;
 A recíproca não é verdade:
o Sendo o acessório inválido, a principal pode sobreviver;

Art. 184. Respeitada a intenção das partes, a invalidade parcial de um negócio jurídico não o
prejudicará na parte válida, se esta for separável; a invalidade da obrigação principal implica a
das obrigações acessórias, mas a destas não induz a da obrigação principal.

Eficácia da sentença que declara a nulidade


Tratando-se de:
Nulidade ABSOLUTA: sentença produz eficácia ex tunc;

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 Como a nulidade absoluta não produz eficácia jurídica, deve invalidar todo o procedimento
desde seu surgimento, fazendo com que o estado das partes retorne ao que era antes do
acordo de vontades;

Nulidade RELATIVA: há 2 correntes: sabemos que o negócio jurídico, até que se declare inválido,
provoca efeitos. Para entender o que quer dizer cada corrente, basta saber o entendimento de cada
corrente sobre a sentença anulatória de efeitos.
 Corrente 1: efeito ex nunc:
o A sentença anulatória APENAS interrompe a eficácia do negócio, mantendo os
efeitos anteriores;
 Corrente 2: efeito ex tunc:
o A sentença, além de interromper a eficácia, desconstitui os efeitos provocados mesmo
anteriores à sentença;

E qual considerar? FUDEU! Depende da banca:


 CESPE (mais atual), FCC: EX TUNC;
 ESAF: EX NUNC (a CESPE já entendeu assim);

E QUAL ESTÁ CORRETO? Vamos ao art 182, CC:

Art. 182. Anulado o negócio jurídico, restituir-se-ão as partes ao estado em que antes dele se
achavam, e, não sendo possível restituí-las, serão indenizadas com o equivalente.

De acordo com a literalidade da lei, a SEGUNDA CORRENTE está correta.

Simulação
É o mascaramento do negócio jurídico.
É comprar um imóvel por 1milhão de reais e escriturá-lo por 300mil.

E como identificar?
Primeiro vamos identificar a diferença entre negócio OCULTO e APARENTE.
 Negócio Aparente: simulado. É um negócio real, com todas as formalidades cumpridas, que
buscar simula a existência de outro negócio jurídico. É aquele que aparece, mesmo não sendo
a realidade.
o A escritura declarada por 300mil segue todos os requisitos, mas materialmente está
simulando um fato inexistente, qual seja, a venda de um imóvel de 300mil (a venda
que se deu foi de um imóvel de 1 milhão);
 Negócio Oculto: dissimulado. É aquele que não se mostra, não aparece. O valor de 1 milhão
reais ficou oculto, dissimulado;

Então, no caso da simulação, haverá sempre a presença de um negócio aparente (aquele que aparece
para as pessoas) e um negócio oculto.

E qual o efeito da simulação?


SERÁ SEMPRE NULA!

Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na
substância e na forma.
§ 1o Haverá simulação nos negócios jurídicos quando:

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I - aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se
conferem, ou transmitem;
II - contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira;
III - os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós-datados.
§ 2o Ressalvam-se os direitos de terceiros de boa-fé em face dos contraentes do negócio jurídico
simulado.
 É simulação toda e qualquer alteração dos fatos;
 Documentos particulares ANTEDATADOS e PÓS-DATADOS também o são;

Quanto ao nosso exemplo, o que fará o juiz?


Ele invalidará a venda do imóvel por 300mil. Mas, por ser a venda do imóvel um negócio válido (por
seu valor correto), permanecerá a venda de 1 milhão.

E quais os requisitos para a manutenção da validade de um negócio jurídico simulado?


Aquilo que se dissimulou, ou seja, ocultou-se, deve ser válido, deve ser permitido pelo direito:
 Na substância;
 Na forma;

Imagine o exemplo do rapaz que importa uma prancha de surf, escondendo drogas nela.
O negócio aparente é a importação da prancha de surf;
O negócio oculto é a importação das drogas.
O negócio jurídico “importação das drogas” será considerado válido?
Não. Pois ele não é válido em sua substância ou forma, por ser objeto ilícito.
O negócio simulado é inválido por ser simulação.
O oculto é inválido por ser ilícito, portanto, não subsistirá.

AULA 7

Prescrição e decadência
São institutos que podem prejudicar a exigência da pretensão de um direito.
Toda vez que houver um descumprimento de uma obrigação, haverá um direito violado, dando
ensejo a uma pretensão, que nada mais é que a exigibilidade do direito violado.
A ação judicial é o meio para exigir o direito violado.

Prescrição
A PRESCRIÇÃO nada mais é do que a perda da pretensão diante da não propositura da ação
judicial no prazo exigido em lei.
 NÃO É PERDA DA AÇÃO, muito menos do DIREITO;
 O direito pretendido permanecerá;
 A possibilidade de entrar com a ação judicial persistirá;
 O que deixa de existir a exigibilidade do direito, daí o conceito correto de ser a perda da
exigência do direito, a perda da pretensão;

Assim, a pretensão e a exigibilidade são conceitos importantes.


Só é exigível a obrigação não prescrita.

A prescrição é INALTERADA PELAS PARTES; Somente a lei pode prever prazos prescricionais,
portanto.

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Art. 192. Os prazos de prescrição não podem ser alterados por acordo das partes.

Renúncia
Pode ser renunciada pelo devedor. Ocorre quando o devedor decide cumprir a obrigação, mesmo
prescrita.

Art. 191. A renúncia da prescrição pode ser expressa ou tácita, e só valerá, sendo feita, sem prejuízo
de terceiro, depois que a prescrição se consumar; tácita é a renúncia quando se presume de fatos do
interessado, incompatíveis com a prescrição.

Para a renúncia da prescrição, exigem-se 2 requisitos:


1. A prescrição tenha se consumado;
2. Não prejudique terceiros (pois eles terão direito aos efeitos da prescrição);
o Imagine o exemplo em que Joao deve 20mil a Maria e 30mil a Daniel. A dívida está
em 50mil, portanto.
o João tem apenas 40mil em caixa;
o Opera-se a prescrição para Maria;
o João pode renunciar a essa prescrição? Não, pois assim não poderia solver a dívida
com Daniel;
o Situação diferente seria se João tivesse 60mil em caixa, por ex.;

Prescrição de exceção
Exceção, para o direito civil, é defesa.
Os prazos prescricionais podem ser aplicáveis às exceções?

Imagine que A e B celebraram um contrato em 2004. A deve a B 5mil reais. Diante da inércia de B,
o contrato prescreveu em 2014.
Em 2015, B bate no carro de A, cujo valor do dano fica em 3mil reais;
A cobra os 3mil em juízo.
B pode se recusar a pagar os 3mil alegando o débito existente de A em relação a ele?
NÃO. A exceção prescreve no mesmo prazo que a pretensão (art 190, CC).
 Ou seja, B não poderá exigir de A os 5mil, nem poderá alegar em sua defesa a existência
desse débito.

Art. 190. A exceção prescreve no mesmo prazo em que a pretensão.

Art. 193. A prescrição pode ser alegada em qualquer grau de jurisdição, pela parte a quem
aproveita.
 Mesmo não alegada pela parte, o juiz pode reconhecer de ofício, por ser de ordem pública;

Proteção aos incapazes e pessoas jurídicas


Art. 195. Os relativamente incapazes e as pessoas jurídicas têm ação contra os seus assistentes ou
representantes legais, que derem causa à prescrição, ou não a alegarem oportunamente.

Corre prescrição contra esses entes?


 NÃO CORRE prescrição contra os absolutamente incapazes, enquanto permanecer a
incapacidade;
 Corre contra os relativamente incapazes e contra as pessoas jurídicas;
o O relativamente incapaz e a pessoa jurídica necessitam de um assistente e
representante, respectivamente, para velar por seus interesses;

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o Se essas pessoas sofrerem prescrição a culpa é do representante (PJ) ou do assistente
(incapaz);
o Por isso, é permitida ação judicial contra o representante ou assistente que deram
causa a prescrição da pessoa jurídica ou do incapaz;

ATENÇÃO: A jurisprudência admite a aplicação do art 195 também para a DECADÊNCIA;

Sucessão do prazo prescricional


O prazo prescricional continua correndo normalmente contra os sucessores.

Art. 196. A prescrição iniciada contra uma pessoa continua a correr contra o seu sucessor.

Impedimento e suspensão da prescrição (art 197 ao 199)


DICA: as causas impeditivas ou suspensivas dizem respeito ao estado ou situação de alguém, ou a
uma situação de um fato (ainda que no caso do art. 199, III – “pendente ação de evicção”. Se está
pendente, é um fato, não uma ação). Assim fica mais fácil de lembrar.
 Se a causa se referir a uma ação, ou a um ato, será causa de interrupção;
 Se se referir a um estado da pessoa, será causa de suspensão ou impedimento (a depender se a
prescrição já tiver iniciado ou não);

Qual a diferença entre suspensão e impedimento?


 CAUSA SUSPENSIVA é aquela que suspende temporariamente o prazo prescricional em
andamento. O prazo se inicia, mas é suspenso por algum motivo;
o É o caso do empréstimo obtido ao namorado;
o Com o casamento, há a suspensão do prazo, até que ocorra a extinção da sociedade
conjugal (art 197, I, CC);

 CAUSA IMPEDITIVA é aquela que impede, que bloqueia o início do prazo. O prazo não
chega nem a iniciar-se;
o É o exemplo do prazo prescricional contra uma criança de 5 anos;
o Há causa de impedimento, pois o prazo nem se inicia;
o Só iniciar-se-á quando o menor completar 16 anos, quando será relativamente
incapaz;
Muito mais importante do que decorar os artigos é entendê-lo. Haverá situações em que estaremos
tratando de suspensão e outros de impedimento.
 A DICA para identificar é a seguinte: se o prazo prescricional se iniciou, a causa será de
SUSPENSÃO. Se o prazo prescricional não se iniciou, a causa será de IMPEDIMENTO.

Art. 197. Não corre a prescrição:


I - entre os cônjuges, na constância da sociedade conjugal;
II - entre ascendentes e descendentes, durante o poder familiar;
III - entre tutelados ou curatelados e seus tutores ou curadores, durante a tutela ou curatela.
 CURADOR: representante nomeado ao maior incapaz;
 TUTOR: representante nomeado ao menor incapaz (o menor que não tem pais ou estes estão
impedidos);
 A curadoria e a tutela têm o mesmo efeito que os pais sobre os filhos, são pessoas que tem
representantes para poder exercer seus direitos, daí o tratamento não poderia ser diferente.

Art. 198. Também não corre a prescrição:


I - contra os incapazes de que trata o art. 3o;

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II - contra os ausentes do País em serviço público da União, dos Estados ou dos Municípios;
III - contra os que se acharem servindo nas Forças Armadas, em tempo de guerra.
 Art 3, CC fala dos absolutamente incapazes;
o Contra os relativamente incapazes, os prazos correm NORMALMENTE;

Art. 199. Não corre igualmente a prescrição:


I - pendendo condição suspensiva;
II - não estando vencido o prazo;
III - pendendo ação de evicção.
 Condição suspensiva é o evento futuro e incerto. O prazo prescricional só começará a correr
quando a condição, que suspende a prescrição, ocorrer, por óbvio. Na falta da certeza jurídica
da ocorrência da condição (suspensiva) o prazo não corre;
 Ação de evicção: sofrer evicção é perder um bem por força de decisão judicial. É a perda
judicial de um bem:
o Joao compra, sem saber, um carro roubado. O proprietário roubado descobre e ajuíza
a ação contra o adquirente. Juiz decide condenará João a restituir ao proprietário,
sofrendo evicção do veículo.
o Transitada em julgado a decisão de evicção, encerra-se a suspensão da prescrição, que
passa a correr para qualquer direito existente, como por exemplo, o direito que tem
João a incorrer em ação judicial contra o vendedor do veículo roubado;

E por fim, os artigos finais:

Art. 200. Quando a ação se originar de fato que deva ser apurado no juízo criminal, não correrá a
prescrição antes da respectiva sentença definitiva.

Art. 201. Suspensa a prescrição em favor de um dos credores solidários, só aproveitam os outros se
a obrigação for indivisível.

A suspensão da prescrição apenas aproveita os credores solidários se a obrigação for indivisível: isto
ocorre porque o direito civil protege apenas aquele que não dorme. Ou seja, a regra é o não
aproveitamento. A exceção é apenas quando:
 em caso de solidariedade
 e quando a obrigação é indivisível.

Interrupção do prazo (art 202)


Causas interruptivas fazem “zerar” o prazo, correndo ele novamente pelo mesmo prazo definido
inicialmente. É causa que provoca o reinício da contagem do prazo.
A INTERRUPÇÃO OCORRE APENAS UMA VEZ!

O titular da ação é o MAIOR interessado em interromper a prescrição. Por isso a regra é que
as ações venham dele. A única exceção vem do inciso VI, do art 202 – quando se refere a uma
ação do devedor: qualquer ato inequívoco que reconheça a dívida.

Art. 202. A interrupção da prescrição, que somente poderá ocorrer uma vez, dar-se-á:
I - por despacho do juiz, mesmo incompetente, que ordenar a citação, se o interessado a promover
no prazo e na forma da lei processual;
II - por protesto, nas condições do inciso antecedente;
III - por protesto cambial;
IV - pela apresentação do título de crédito em juízo de inventário ou em concurso de credores;

46
V - por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor;
VI - por qualquer ato inequívoco, ainda que extrajudicial, que importe reconhecimento do direito
pelo devedor.
Parágrafo único. A prescrição interrompida recomeça a correr da data do ato que a interrompeu,
ou do último ato do processo para a interromper.
 Inciso I (despacho da citação): NÃO É A CITAÇÃO que interrompe a prescrição, MAS
SIM O SEU DESPACHO. Isso encerra uma controvérsia que antes exigia com o CPC
antigo, que em seu art 219, falava que a interrupção se dava com a citação, e não com o
despacho. O NCPC corrige isso.
o O despacho interruptivo válido pode se dar mesmo por juízo incompetente;
 Inciso II e III: (protesto): também dependerá do despacho da citação do protesto.
o O protesto cambial é realizado através do cartório de notas.
 Inciso IV (habilitação em juízo de inventário): serve tanto para as ações de inventário
como para ações de concurso de credores;
 Inciso V (ato que caracterize a mora, atraso): qualquer ato judicial que constitua em mora
o devedor. Basta lembrar dos efeitos da citação, que vimos em processo civil. Um deles é
constituir em mora o devedor, interrompendo o prazo prescricional.
 Inciso VI (reconhecimento de dívida): toda vez que o devedor reconheça a dívida, ainda
que por ato extrajudicial, está interrompida. Ex.:
o Devedor envia carta para o credor reclamando dos juros, mesmo que próximo da
prescrição da dívida. A carta é suficiente para reconhecer a dívida.
o Conselho: se está devendo FIQUE CALADO!
 Parágrafo único:
o Ato simples: o prazo interrompe a partir de sua conclusão;
o Ato complexo: o prazo interrompe após a última ação do ato complexo;

ATENÇÃO: Geralmente, os efeitos da prescrição são pessoais, de maneira que a interrupção da


prescrição feita por um credor não aproveita aos outros, assim como aquela promovida contra um
devedor não prejudica aos demais. Isto está no artigo 204 de CC:

Art. 204. A interrupção da prescrição por um credor não aproveita aos outros; semelhantemente, a
interrupção operada contra o co-devedor, ou seu herdeiro, não prejudica aos demais coobrigados.
§ 1o A interrupção por um dos credores solidários aproveita aos outros; assim como a interrupção
efetuada contra o devedor solidário envolve os demais e seus herdeiros.
§ 2o A interrupção operada contra um dos herdeiros do devedor solidário não prejudica os outros
herdeiros ou devedores, senão quando se trate de obrigações e direitos indivisíveis.
§ 3o A interrupção produzida contra o principal devedor prejudica o fiador.

Como vimos, a suspensão da prescrição apenas aproveita os credores solidários se a obrigação for
indivisível. A regra para a interrupção é a mesma: o direito protege apenas os que não dormem (salvo
obrigações solidárias e indivisíveis).
 ATENÇÃO: para a interrupção, há previsão de aproveitamento em caso de solidariedade,
apenas. Ou seja, se a obrigação for solidária, a interrupção aproveita a todos;
o Diferente da suspensão que exige também a indivisibilidade;
 EXCEÇÃO da exceção: CASO DE HERDEIROS DO DEVEDOR: se a interrupção se der
contra o herdeiro do devedor solidário (art. 204, par 2), só aproveitará os outros herdeiros em
caso de indivisibilidade (volta pra regra geral da suspensão);
 Os outros incisos caem na regra geral (só aproveita a interrupção em caso de solidariedade.
Lembrando que o fiador tem obrigação solidária com o devedor principal. A interrupção
contra o devedor principal neste caso aproveita o fiador por conta do princípio da gravidade
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jurídica: o acessório segue o principal. A recíproca não é verdadeira. Se a interrupção se der
contra o fiador, efeito não causará contra o devedor principal);

PRAZOS prescricionais (art 206)


A doutrina os divide em prazos GERAIS e ESPECIAIS:
 GERAIS: se a lei for omissa o prazo da prescrição será de 10 anos;
o Ex.: dívidas contratadas em contratos verbais (não há expresso dispositivo sobre esse
caso no CC. Daí será de 10 anos o prazo);

 ESPECIAIS: variam de 1 ano até 5 anos. Dicas para decorar:

INICIA PELOS PARES (2 e 4):


Começa pelos 2 anos: prestação alimentar é a única opção para prazo de 2 anos; É A ÚNICA
MATÉRIA QUE PRESCREVE EM 2 ANOS: prestação alimentar!
Vai para os 4 anos: pretensão relativa a tutela. Também ÚNICA HIPÓTESE de prazo
prescricional de 4 anos.
 Dica: QUATRO ELA: QUATROELA: QUATROTELA: QUATRUTELA: TUTELA!
Sobram os IMPARES: 1 ano, 3 anos e 5 anos: DECORAR!!
Art. 206. Prescreve:
§ 1o Em um ano:
I - a pretensão dos hospedeiros ou fornecedores de víveres destinados a consumo no próprio
estabelecimento, para o pagamento da hospedagem ou dos alimentos;
II - a pretensão do segurado contra o segurador, ou a deste contra aquele, contado o prazo:
a) para o segurado, no caso de seguro de responsabilidade civil, da data em que é citado
para responder à ação de indenização proposta pelo terceiro prejudicado, ou da data que a
este indeniza, com a anuência do segurador;
b) quanto aos demais seguros, da ciência do fato gerador da pretensão;
III - a pretensão dos tabeliães, auxiliares da justiça, serventuários judiciais, árbitros e peritos, pela
percepção de emolumentos, custas e honorários;
IV - a pretensão contra os peritos, pela avaliação dos bens que entraram para a formação do capital
de sociedade anônima, contado da publicação da ata da assembleia que aprovar o laudo;
V - a pretensão dos credores não pagos contra os sócios ou acionistas e os liquidantes, contado o
prazo da publicação da ata de encerramento da liquidação da sociedade.

§ 2o Em dois anos, a pretensão para haver prestações alimentares, a partir da data em que se
vencerem.

§ 3o Em três anos:
I - a pretensão relativa a aluguéis de prédios urbanos ou rústicos;
II - a pretensão para receber prestações vencidas de rendas temporárias ou vitalícias;
III - a pretensão para haver juros, dividendos ou quaisquer prestações acessórias, pagáveis, em
períodos não maiores de um ano, com capitalização ou sem ela;
IV - a pretensão de ressarcimento de enriquecimento sem causa;
V - a pretensão de reparação civil;
VI - a pretensão de restituição dos lucros ou dividendos recebidos de má-fé, correndo o prazo da
data em que foi deliberada a distribuição;
VII - a pretensão contra as pessoas em seguida indicadas por violação da lei ou do estatuto, contado
o prazo:
a) para os fundadores, da publicação dos atos constitutivos da sociedade anônima;

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b) para os administradores, ou fiscais, da apresentação, aos sócios, do balanço referente ao
exercício em que a violação tenha sido praticada, ou da reunião ou assembleia geral que
dela deva tomar conhecimento;
c) para os liquidantes, da primeira assembleia semestral posterior à violação;
VIII - a pretensão para haver o pagamento de título de crédito, a contar do vencimento, ressalvadas
as disposições de lei especial;
IX - a pretensão do beneficiário contra o segurador, e a do terceiro prejudicado, no caso de seguro
de responsabilidade civil obrigatório.

§ 4o Em quatro anos, a pretensão relativa à tutela, a contar da data da aprovação das contas.

§ 5o Em cinco anos:
I - a pretensão de cobrança de dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular;
II - a pretensão dos profissionais liberais em geral, procuradores judiciais, curadores e professores
pelos seus honorários, contado o prazo da conclusão dos serviços, da cessação dos respectivos
contratos ou mandato;
III - a pretensão do vencedor para haver do vencido o que despendeu em juízo.

Decadência
Vem montado em cima do DIREITO POTESTATIVO:
 Direito potestativo é o direito de constituir, modificar ou extinguir uma relação jurídica,
contra o qual não há defesa – tampouco exige-se alguma obrigação de terceiros.
 É a existência do direito propriamente dito em criar, modificar ou extinguir relação jurídica,
dependente apenas da vontade daquele que o pode exercitar;
 Ex.: é o caso do marido que deseja se divorciar da mulher. Não há nada que qualquer pessoa
possa fazer em contrário, bastando apenas a vontade do marido.

Alguns direitos tem prazo para permanecerem exigíveis (não é o caso do direito ao divórcio). São
aqueles direitos sujeito à decadência.
A perda do direito potestativo (exigível a qualquer tempo) por decurso de prazo face a inércia do seu
tutelar é chamada de DECADÊNCIA.

PRESCRIÇÃO DECADÊNCIA
 Perda da pretensão;  Perda do direito potestativo;
 Admite causas impeditivas, suspensivas e  NÃO admite causas impeditivas,
interruptivas; suspensivas ou interruptivas;
 Criada APENAS por lei;  SALVO para o absolutamente incapaz;
 Nasce com a violação do direito; nasce  Criada pela lei ou pela vontade das
após o direito; partes;
 Nasce com o direito;
A decadência criada pela vontade das partes
geralmente é vista no prazo criado pelos
contratantes para alguma possível reclamação do
compactuado. Por ex.: garantia estendida de
eletrodoméstico.
PONTO COMUM entre prescrição x decadência: a decadência APENAS sofrerá impedimento,
assim como a suspensão, como exceção à característica ininterrupta da decadência, quando ocorrer
contra ABSOLUTAMENTE INCAPAZ.

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Art. 207. Salvo disposição legal em contrário, não se aplicam à decadência as normas que impedem,
suspendem ou interrompem a prescrição.

Art. 208. Aplica-se à decadência o disposto nos arts. 195 e 198, inciso I.

Art. 209. É nula a renúncia à decadência fixada em lei.

Art. 210. Deve o juiz, de ofício, conhecer da decadência, quando estabelecida por lei.

Art. 211. Se a decadência for convencional, a parte a quem aproveita pode alegá-la em qualquer
grau de jurisdição, mas o juiz não pode suprir a alegação.

Assim, a decadência se divide em:


 LEGAL: pode ser decretada de ofício pelo juiz, assim como a prescrição;
o É nula a renúncia à decadência legal. Se a decadência é dada pela lei, não há como
renunciá-la;

 CONVENCIONAL: depende de alegação da parte (NÃO PERMITE decretação de ofício),


em qualquer tempo e grau de jurisdição.
o Admite renúncia;

AULA 8

Da prova
Art. 212. Salvo o negócio a que se impõe forma especial, o fato jurídico pode ser provado mediante:
I - confissão;
II - documento;
III - testemunha;
IV - presunção;
V - perícia.

Art. 213. Não tem eficácia a confissão se provém de quem não é capaz de dispor do direito a que se
referem os fatos confessados.

Parágrafo único. Se feita a confissão por um representante, somente é eficaz nos limites em que este
pode vincular o representado.

Art. 214. A confissão é irrevogável, mas pode ser anulada se decorreu de erro de fato ou de coação.

Art. 215. A escritura pública, lavrada em notas de tabelião, é documento dotado de fé pública,
fazendo prova plena.

§ 1o Salvo quando exigidos por lei outros requisitos, a escritura pública deve conter:

I - data e local de sua realização;

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II - reconhecimento da identidade e capacidade das partes e de quantos hajam comparecido ao ato,
por si, como representantes, intervenientes ou testemunhas;

III - nome, nacionalidade, estado civil, profissão, domicílio e residência das partes e demais
comparecentes, com a indicação, quando necessário, do regime de bens do casamento, nome do
outro cônjuge e filiação;

IV - manifestação clara da vontade das partes e dos intervenientes;

V - referência ao cumprimento das exigências legais e fiscais inerentes à legitimidade do ato;

VI - declaração de ter sido lida na presença das partes e demais comparecentes, ou de que todos a
leram;

VII - assinatura das partes e dos demais comparecentes, bem como a do tabelião ou seu substituto
legal, encerrando o ato.

§ 2o Se algum comparecente não puder ou não souber escrever, outra pessoa capaz assinará por ele,
a seu rogo.

§ 3o A escritura será redigida na língua nacional.

§ 4o Se qualquer dos comparecentes não souber a língua nacional e o tabelião não entender o idioma
em que se expressa, deverá comparecer tradutor público para servir de intérprete, ou, não o havendo
na localidade, outra pessoa capaz que, a juízo do tabelião, tenha idoneidade e conhecimento
bastantes.

§ 5o Se algum dos comparecentes não for conhecido do tabelião, nem puder identificar-se por
documento, deverão participar do ato pelo menos duas testemunhas que o conheçam e atestem sua
identidade.

Art. 216. Farão a mesma prova que os originais as certidões textuais de qualquer peça judicial, do
protocolo das audiências, ou de outro qualquer livro a cargo do escrivão, sendo extraídas por ele, ou
sob a sua vigilância, e por ele subscritas, assim como os traslados de autos, quando por outro
escrivão consertados.

Art. 217. Terão a mesma força probante os traslados e as certidões, extraídos por tabelião ou oficial
de registro, de instrumentos ou documentos lançados em suas notas.

Art. 218. Os traslados e as certidões considerar-se-ão instrumentos públicos, se os originais se


houverem produzido em juízo como prova de algum ato.

Art. 219. As declarações constantes de documentos assinados presumem-se verdadeiras em relação


aos signatários.

Parágrafo único. Não tendo relação direta, porém, com as disposições principais ou com a
legitimidade das partes, as declarações enunciativas não eximem os interessados em sua veracidade
do ônus de prová-las.

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Art. 220. A anuência ou a autorização de outrem, necessária à validade de um ato, provar-se-á do
mesmo modo que este, e constará, sempre que se possa, do próprio instrumento.

Art. 221. O instrumento particular, feito e assinado, ou somente assinado por quem esteja na livre
disposição e administração de seus bens, prova as obrigações convencionais de qualquer valor; mas
os seus efeitos, bem como os da cessão, não se operam, a respeito de terceiros, antes de registrado no
registro público.

Parágrafo único. A prova do instrumento particular pode suprir-se pelas outras de caráter legal.

Art. 222. O telegrama, quando lhe for contestada a autenticidade, faz prova mediante conferência
com o original assinado.

Art. 223. A cópia fotográfica de documento, conferida por tabelião de notas, valerá como prova de
declaração da vontade, mas, impugnada sua autenticidade, deverá ser exibido o original.

Parágrafo único. A prova não supre a ausência do título de crédito, ou do original, nos casos em que
a lei ou as circunstâncias condicionarem o exercício do direito à sua exibição.

Art. 224. Os documentos redigidos em língua estrangeira serão traduzidos para o português para ter
efeitos legais no País.

Art. 225. As reproduções fotográficas, cinematográficas, os registros fonográficos e, em geral,


quaisquer outras reproduções mecânicas ou eletrônicas de fatos ou de coisas fazem prova plena
destes, se a parte, contra quem forem exibidos, não lhes impugnar a exatidão.

Art. 226. Os livros e fichas dos empresários e sociedades provam contra as pessoas a que pertencem,
e, em seu favor, quando, escriturados sem vício extrínseco ou intrínseco, forem confirmados por
outros subsídios.

Parágrafo único. A prova resultante dos livros e fichas não é bastante nos casos em que a lei exige
escritura pública, ou escrito particular revestido de requisitos especiais, e pode ser ilidida pela
comprovação da falsidade ou inexatidão dos lançamentos.

ATENÇÃO: o art 227 foi revogado pelo novo CPC:


Art. 227. Salvo os casos expressos, a prova exclusivamente testemunhal só se admite nos negócios
jurídicos cujo valor não ultrapasse o décuplo do maior salário mínimo vigente no País ao tempo em
que foram celebrados.
Parágrafo único. Qualquer que seja o valor do negócio jurídico, a prova testemunhal é admissível
como subsidiária ou complementar da prova por escrito.

Testemunhas impedidas
Art. 228. Não podem ser admitidos como testemunhas:
I - os menores de dezesseis anos;
II - (Revogado);
 ESTATUTO DA DEFICIÊNCIA: falava dos enfermos e retardados sem discernimento
III - (Revogado);
 ESTATUTO DA DEFICIÊNCIA: falava dos cegos e surdos cuja prova imprescindisse dos
sentidos deficientes
IV - o interessado no litígio, o amigo íntimo ou o inimigo capital das partes;

52
V - os cônjuges, os ascendentes, os descendentes e os colaterais, até o terceiro grau de alguma das
partes, por consangüinidade, ou afinidade.

§ 1o Para a prova de fatos que só elas conheçam, pode o juiz admitir o depoimento das pessoas a
que se refere este artigo.
§ 2o A pessoa com deficiência poderá testemunhar em igualdade de condições com as demais
pessoas, sendo-lhe assegurados todos os recursos de tecnologia assistiva. (Incluído pela Lei nº
13.146, de 2015) (Vigência)

Assim dispõe o novo CPC sobre a admissibilidade das testemunhas


Art. 442. A prova testemunhal é sempre admissível, não dispondo a lei de modo diverso.

Art. 443. O juiz indeferirá a inquirição de testemunhas sobre fatos:


I - já provados por documento ou confissão da parte;
II - que só por documento ou por exame pericial puderem ser provados.

Art. 444. Nos casos em que a lei exigir prova escrita da obrigação, é admissível a prova
testemunhal quando houver começo de prova por escrito, emanado da parte contra a qual se
pretende produzir a prova.

Art. 445. Também se admite a prova testemunhal quando o credor não pode ou não podia, moral ou
materialmente, obter a prova escrita da obrigação, em casos como o de parentesco, de depósito
necessário ou de hospedagem em hotel ou em razão das práticas comerciais do local onde contraída
a obrigação.

Art. 446. É lícito à parte provar com testemunhas:


I - nos contratos simulados, a divergência entre a vontade real e a vontade declarada;
II - nos contratos em geral, os vícios de consentimento.

Art. 447. Podem depor como testemunhas todas as pessoas, exceto as incapazes, impedidas ou
suspeitas.
§ 1o São incapazes:
I - o interdito por enfermidade ou deficiência mental;
II - o que, acometido por enfermidade ou retardamento mental, ao tempo em que ocorreram os fatos,
não podia discerni-los, ou, ao tempo em que deve depor, não está habilitado a transmitir as
percepções;
III - o que tiver menos de 16 (dezesseis) anos;
IV - o cego e o surdo, quando a ciência do fato depender dos sentidos que lhes faltam.

§ 2o São impedidos:
I - o cônjuge, o companheiro, o ascendente e o descendente em qualquer grau e o colateral, até o
terceiro grau (APENAS COLATERAL), de alguma das partes, por consanguinidade ou afinidade,
salvo se o exigir o interesse público ou, tratando-se de causa relativa ao estado da pessoa, não se
puder obter de outro modo a prova que o juiz repute necessária ao julgamento do mérito;
II - o que é parte na causa;
III - o que intervém em nome de uma parte, como o tutor, o representante legal da pessoa jurídica, o
juiz, o advogado e outros que assistam ou tenham assistido as partes.

§ 3o São suspeitos:

53
I - o inimigo da parte ou o seu amigo íntimo;
II - o que tiver interesse no litígio.

§ 4o Sendo necessário, pode o juiz admitir o depoimento das testemunhas menores, impedidas
ou suspeitas.
§ 5o Os depoimentos referidos no § 4o serão prestados independentemente de compromisso, e o juiz
lhes atribuirá o valor que possam merecer.

Art. 448. A testemunha não é obrigada a depor sobre fatos:


I - que lhe acarretem grave dano, bem como ao seu cônjuge ou companheiro e aos seus parentes
consanguíneos ou afins, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau;
II - a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar sigilo.

Assim, de acordo com o CPC, são:

São incapazes:
I - o interdito por enfermidade ou deficiência mental;
II - o que, acometido por enfermidade ou retardamento mental, ao tempo em que ocorreram os fatos,
não podia discerni-los, ou, ao tempo em que deve depor, não está habilitado a transmitir as
percepções;
III - o que tiver menos de 16 (dezesseis) anos;
IV - o cego e o surdo, quando a ciência do fato depender dos sentidos que lhes faltam.

§ 2o São impedidos:
I - o cônjuge, o companheiro, o ascendente e o descendente em qualquer grau e o colateral, até o
terceiro grau (APENAS COLATERAL), de alguma das partes, por consanguinidade ou afinidade,
salvo se o exigir o interesse público ou, tratando-se de causa relativa ao estado da pessoa, não se
puder obter de outro modo a prova que o juiz repute necessária ao julgamento do mérito;
II - o que é parte na causa;
III - o que intervém em nome de uma parte, como o tutor, o representante legal da pessoa jurídica, o
juiz, o advogado e outros que assistam ou tenham assistido as partes.

§ 3o São suspeitos:
I - o inimigo da parte ou o seu amigo íntimo;
II - o que tiver interesse no litígio.

Os arts. 229 e 230 foi revogado pelo NOVO CPC:


Art. 229. Ninguém pode ser obrigado a depor sobre fato: (Revogado pela Lei n º 13.105,
de 2015) (Vigência)
I - a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar segredo; (Revogado pela Lei n º
13.105, de 2015) (Vigência)
II - a que não possa responder sem desonra própria, de seu cônjuge, parente em grau sucessível, ou
amigo íntimo; (Revogado pela Lei n º 13.105, de 2015) (Vigência)
III - que o exponha, ou às pessoas referidas no inciso antecedente, a perigo de vida, de demanda, ou
de dano patrimonial imediato. (Revogado pela Lei n º 13.105, de 2015) (Vigência)

Art. 230. As presunções, que não as legais, não se admitem nos casos em que a lei exclui a prova
testemunhal. (Revogado pela Lei n º 13.105, de 2015) (Vigência)

Art. 231. Aquele que se nega a submeter-se a exame médico necessário não poderá aproveitar-se de
sua recusa.

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Art. 232. A recusa à perícia médica ordenada pelo juiz poderá suprir a prova que se pretendia obter
com o exame.

Responsabilidade civil
Só vai entender o seu conceito, aquele que souber o que é ATO ILÍCITO.
Para o direito civil, para ser ato ilícito, deve haver: Violação de um direito + DANO.
Isto quer dizer que apenas ultrapassar o semáforo vermelho NÃO É ATO ILÍCITO para o direito
civil. Só o será em caso de ocorrência de algum dano.

Assim, o ato ilícito, ou a violação de um direito atrelada ao cometimento de um dano, gera a


RESPONSABILIDADE CIVIL: consiste na obrigação de reparar os prejuízos resultantes de um ato
ilícito.

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-
lo.

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e
causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.

Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente
os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.

Pressupostos da ilicitude
1. Ação ou omissão;
2. Resultado;
3. Nexo causal;
4. Culpa.

Somente caracterizados os 4 pressupostos, estará implementado o ato ilícito, e surgirá a


responsabilidade civil de indenizar, portanto.
Assim:

1.Ação ou omissão
Para o direito civil, somente responderá por omissão aquela pessoa que tem o dever legal de agir. É o
caso do bombeiro, policial, salva vidas;

2.Resultado:
É a consumação do dano, que pode ser material, moral ou estético. Assim, são os danos indenizáveis
pelo direito civil:
 Dano material: é o dano ao patrimônio. Ex.:
o Quebrar o carro do vizinho;
o Quebrar os dedos do pianista (ele deixará de ganhar por isso);
 Dano Moral: dano causador de dor, sofrimento, angústia e humilhação. O dano deve ser
grave, para que o instituto não seja desmoralizado;
o Dano moral in re ipsa: é a ausência de necessidade de comprovar o dano moral,
quando ele resulta de maneira evidente, não exigindo prova.
 Dano estético: é a deformidade física permanente.

É possível a cumulação de todos esses tipos de dano!

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3.Nexo causal:
É a relação de causa e efeito entre o comportamento do agente e o resultado.

FATORES QUE ROMPEM O NEXO CAUSAL, afastando a responsabilidade civil:


1. Culpa exclusiva da vítima:
o Afasta-se a responsabilidade civil de indenizar quando o dano foi provocado
exclusivamente pela vítima, por óbvio;
2. Caso fortuito ou força maior:
o É qualquer acontecimento inevitável ou irresistível.
o Força maior: geralmente relacionado às forças da natureza, e, mesmo que previsíveis,
são inevitáveis;
o Fortuito: geralmente os casos imprevisíveis, que surgem pelo acaso;

4.Culpa:
Aqui é a culpa lato sensu, abrange tanto o comportamento doloso quanto o culposo.

Classificação
Subjetiva: para ser configurada, exige o pressuposto da culpa, é a regra geral exigida pelo art. 186;

Objetiva: se configura independentemente de culpa;


 Que culpa tem o pai se o seu filho menor quebra a janela do vizinho? Nenhuma, mas será
alvo da responsabilidade civil.
 São os casos EXPRESSOS;

Responsabilidade objetiva
A responsabilidade OBJETIVA está nos seguintes artigos:

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-
lo.
Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos
especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano
implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.

Art. 931. Ressalvados outros casos previstos em lei especial, os empresários individuais e as
empresas respondem independentemente de culpa pelos danos causados pelos produtos postos em
circulação.

Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:


I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia;
II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições;
III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do
trabalho que lhes competir, ou em razão dele;
IV - os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro,
mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos;
V - os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a concorrente quantia.
Art. 933. As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa de
sua parte, responderão pelos atos praticados pelos terceiros ali referidos.
Art. 934. Aquele que ressarcir o dano causado por outrem pode reaver o que houver pago daquele
por quem pagou, salvo se o causador do dano for descendente seu, absoluta ou relativamente
incapaz.

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Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não provar culpa da
vítima ou força maior.

Art. 938. Aquele que habitar prédio, ou parte dele, responde pelo dano proveniente das coisas que
dele caírem ou forem lançadas em lugar indevido.

Vamos às previsões elencadas:


1. Art 927, par U: dano causado por atividades de risco, potencialmente capazes de colocar
direitos de terceiros em risco. Ex.:
a. Postos de combustível;
b. Minas e pedreiras;

2. Art 931, danos causados por produtos postos em circulação por empresas (inclusive as
individuais). Ex.:
a. Caso da mala do Fox que decepava o dedo;
b. Celulares que explodem;

3. Art 936, dano causado por animal do dono ou detentor, SALVO nos casos de culpa
exclusiva da vítima ou força maior (ambos afastam a responsabilidade, porque rompem o
nexo causal, como vimos). A responsabilidade será imputada tanto ao dono quanto ao
detentor (exemplo do cachorro, deixado na casa da irmã, que provoca dano a terceiro, a irmã
será responsabilizada junto com o proprietário)
a. Cachorro ataca pedestre na rua;

4. Art 938, dano causado por objetos caídos ou jogados de prédio. Não há que se falar em
análise da culpa.
a. Estando o apartamento alugado, a responsabilidade é do inquilino, pois é ele quem
“habita”, segundo a própria letra da lei, o imóvel;

5. RESPONSABILIDADE POR ATO DE TERCEIRO: Art 932, 933 e 934 em conjunto:


Ocorre quando a responsabilidade não recai sobre o agente, mas sim sobre seu representante
legal.
a. Os pais pelos menores que estiverem sobre sua companhia e autoridade;
b. O curador ou tutor, nas mesmas condições acima;
c. O empregador pelo empregado ou preposto, em razão do serviço ou de suas funções;
d. Os donos de hospedagem NÃO gratuita pelos hóspedes;
i. As escolas inclusive, pois a letra da lei inclui aqui as instituições de fins
educacionais;
ii. Da porta da escola para dentro, quem responde é a instituição. Para fora,
os pais. Justamente pela previsão do art 932, inc IV, CC;
e. Aqueles que gratuitamente concorrem para o produto de crime, até o seu valor;
i. São os receptadores. Recebeu produto de roubo, deve ser entregue à polícia.
Ficando com o produto, responderá pelo crime de receptação;
 O art 934, CC, apenas expressa a ação regressiva a favor daquele que ressarce o dano causado
por outrem, SALVO quando o causador do dano é DESCENDENTE INCAPAZ,
absoluta ou relativamente.
o Ou seja, a ação regressiva será impossibilitada quando o dano é causado por
descendente INCAPAZ;
o Não há que se falar em regressiva, ainda que o incapaz, por menoridade, chegue à
maioridade.

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Por fim, completar a leitura:
Art. 939. O credor que demandar o devedor antes de vencida a dívida, fora dos casos em que a lei o
permita, ficará obrigado a esperar o tempo que faltava para o vencimento, a descontar os juros
correspondentes, embora estipulados, e a pagar as custas em dobro.

Art. 940. Aquele que demandar por dívida já paga, no todo ou em parte, sem ressalvar as quantias
recebidas ou pedir mais do que for devido, ficará obrigado a pagar ao devedor, no primeiro caso, o
dobro do que houver cobrado e, no segundo, o equivalente do que dele exigir, salvo se houver
prescrição.

Art. 941. As penas previstas nos arts. 939 e 940 não se aplicarão quando o autor desistir da ação
antes de contestada a lide, salvo ao réu o direito de haver indenização por algum prejuízo que prove
ter sofrido.

Art. 942. Os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam sujeitos à
reparação do dano causado; e, se a ofensa tiver mais de um autor, todos responderão
solidariamente pela reparação.
Parágrafo único. São solidariamente responsáveis com os autores os co-autores e as pessoas
designadas no art. 932.

Art. 943. O direito de exigir reparação e a obrigação de prestá-la transmitem-se com a herança.

Excludentes da ilicitude (art 188)


Ocorre em 3 situações as circunstâncias que afastam o caráter ilícito da conduta:
1. Legítima defesa;
2. Exercício regular de um direito;
3. Estado de necessidade;

Art. 188. Não constituem atos ilícitos:


I - os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido;
II - a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fim de remover perigo
iminente.
Parágrafo único. No caso do inciso II, o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o
tornarem absolutamente necessário, não excedendo os limites do indispensável para a remoção do
perigo.

1.Legítima defesa
Exige 3 requisitos:
1. Ameaça ATUAL e IMINENTE.
a. Se o dano já foi consumado, passado, não cabe vingança. Contra males já consumados
cabe ação judicial, nunca legítima defesa;
2. Ameaça ou agressão INJUSTA;
3. Uso de meios MODERADOS para afastar a agressão;
a. Prosseguir com o comportamento defensivo pode qualificar o excesso;

2.Exercício regular de um direito


O direito reconhecido pela lei estará por ela acobertado, não caracterizando ato ilícito.
É o caso as obras em apartamento executadas nos horários permitidos.

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3.Estado de necessidade
Deterioração de direito alheio a fim de remover perigo iminente. Para tanto, devem ser observados
alguns parâmetros para que o ato seja legítimo:
 Quando as circunstâncias são absolutamente necessárias (NECESSIDADE);
 Não haja excesso (PROPORCIONALIDADE);

Poderá o terceiro, que teve seu direito violado, entrar com ação regressiva contra aquele que
agiu em estado de necessidade? SIM.
O ato praticado em estado de necessidade NÃO exclui a obrigação de reparação do dano. A ilicitude
é excluída, MAS PERMANECE a obrigação de indenizar.
Assim:
 O estado de necessidade exclui a ilicitude;
 MAS gera a obrigação de indenizar;

E por fim, para que a justiça seja feita, aquele que age em estado de necessidade tem direito a
ação regressiva contra o autor do perigo.

Art. 929. Se a pessoa lesada, ou o dono da coisa, no caso do inciso II do art. 188, não forem
culpados do perigo, assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram.

Art. 930. No caso do inciso II do art. 188, se o perigo ocorrer por culpa de terceiro, contra este terá
o autor do dano ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado.
Parágrafo único. A mesma ação competirá contra aquele em defesa de quem se causou o dano (art.
188, inciso I).

ATENÇÃO: dentre as 3 excludentes de ilicitude vistas, APENAS o estado de necessidade gera a


obrigação de indenizar.

EXCEÇÃO: ESTADO DE NECESSIDADE DEFENSIVO: retira a obrigação de indenizar.


 Ocorre quando o direito violado pertence àquele que causou o perigo, e não a um terceiro não
culpado.
 Assim, quando causador do perigo e a vítima do dano são as mesmas pessoas, o estado de
necessidade é caracterizado como defensivo, afastando a obrigação de indenizar.

Abuso de direito
É a extrapolação do exercício de um direito.
A proteção contra ao abuso do direito ocorre quando o exercício do direito não atinge o fim para o
qual foi criado. É o exemplo do vizinho que instala toras de madeiras com pregos para impedir o
proprietário do terreno ao lado de voar com seu balão.

E que limites são esses?


1. FIM ECONÔMICO OU SOCIAL;
2. BOA FÉ;
3. BONS COSTUMES;

Sempre que o exercício do direito extrapolar os limites vistos acima, incorrerá em abuso.
As relações jurídicas são protegidas pela norma tendo em vista uma finalidade, que pode ser
chamada de finalidade econômica e social do direito. Todas as vezes que o direito é exercido de
acordo com essas finalidades, está dentro dos quadros teleológicos, ou seja, dentro dos fins para que

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fora criado. Se o titular do direito exercê-lo contra a finalidade para que foi criado, incorrerá no
exercício antissocial, ou seja, em abuso. Assim, o abuso do direito é seu exercício anormal.

E qual a consequência?
Neste caso, o exercício do direito se caracterizará abuso do direito, será equiparado ao ato ilícito, e
gerará a obrigação de indenizar.

Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede
manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons
costumes.

Já vimos esse artigo acima.

Mas, que tipo de responsabilidade se caracteriza no abuso de direito? A responsabilidade


OBJETIVA ou SUBJETIVA?
Segundo a doutrina majoritária, a responsabilidade é OBJETIVA.
Assim, o que se exige é a prova da conduta abusiva (instalação de postes com pregos), além da
prova do nexo causal. Não há que se falar em prova do elemento subjetivo culpa, posto que era será
presumida. Isto quer dizer que o abuso do direito prescinde da comprovação do interesse de
prejudicar alguém (interesse de furar os balões).

O Enunciado 37 da Jornada de Direito Civil, promovida pelo Centro de Estudos do Conselho da


Justiça Federal, trata acerca da responsabilidade civil no abuso do direito, reconhecendo a
responsabilidade objetiva nos seguintes termos: “A responsabilidade civil decorrente do abuso do
direito independe de culpa, e fundamenta-se somente no critério objetivo-finalístico”.

Além disso, o Enunciado 24 da I Jornada de Direito Civil, promovida pelo Conselho da Justiça
Federal, trata também acerca da violação dos deveres anexos e reconhece a responsabilidade
objetiva nos seguintes termos: “em virtude do princípio da boa-fé, positivado no art. 422 do novo
Código Civil, a violação de deveres anexos constitui espécie de inadimplemento, independente de
culpa”.

Desta forma, muito embora não haja previsão legal específica acerca da tese da violação objetiva, é
amplamente reconhecida em sede doutrinária e jurisprudencial que o descumprimento dos deveres
anexos à obrigação civil (deveres anexos ao contrato, por exemplo) poderá ensejar o
reconhecimento de conduta abusiva por parte do violador da norma.

O art 187, CC, em lugar algum menciona a consciência de provocar o dano, ou a consciência de se
excederem os limites impostos pela boa fé, bons costumes ou fins social ou econômico do direito:
 Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede
manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos
bons costumes.

Mas atenção: para caracterizar o abuso do direito, o excesso deve ser MANIFESTAMENTE
anormal e comprovado, não havendo que se falar em abuso o mal inevitável causado a outrem como
próprio efeito da execução do ato legal (cobrança de uma dívida, por ex).

Responsabilidade do incapaz
Lembrar que os pais, tutores e curadores são civilmente responsáveis por atos dos incapazes.

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MAS ATENÇÃO: existem circunstâncias em que o próprio incapaz pode ser responsabilizado.

Art. 928. O incapaz responde pelos prejuízos que causar, se as pessoas por ele responsáveis não
tiverem obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios suficientes.
Parágrafo único. A indenização prevista neste artigo, que deverá ser eqüitativa, não terá lugar se
privar do necessário o incapaz ou as pessoas que dele dependem.

Assim, excepcionalmente, o incapaz responderá nas seguintes situações, quando seu responsável:
1. NÃO TIVER OBRIGAÇÃO de indenizar;
1.1. E quando ocorre isso? Há casos em que a responsabilidade do representante do incapaz
inexiste.
1.1.1. Imagine o adolescente de 16 anos que no primeiro emprego causa dano à empresa em
que é funcionário. Os pais NÃO tem obrigação de indenizar pois o dano foi causado
durante a atividade funcional do adolescente.
1.1.2. Neste caso, apesar de ser menor, ou seja, incapaz, o adolescente será responsabilizado.
2. NÃO DISPUSER de meios suficientes.
2.1. É o caso do menor jogador de futebol, que tem passe valorizado, em situação financeira bem
melhor que seus pais pobres. Neste caso será ele o responsável pela indenização do dano.

Em ambos os casos, tratando-se de responsabilidade do incapaz, esta não poderá privá-lo de seu
sustento.

Responsabilidade subsidiária
A responsabilidade subsidiária ocorre sempre quando há um responsável principal e um secundário.
Quando o menor causa um dano, o responsável principal será seus pais, tutor ou curador. Se eles não
tiverem condições, como vimos acima, o menor será responsabilizado, sendo esta imputada em
caráter subsidiário, portanto.

ATENÇÃO: não se trata de responsabilidade SUBSIDIÁRIA.

Indenização equitativa
Adequada à condição do incapaz, que não terá lugar quando privar do necessário o incapaz ou as
pessoas que dele dependam.
A lei só condenará o incapaz se não houver privação do incapaz e seus dependentes.

Desproporção entre a culpa e o dano


Quando a culpa é leve, quase que incensurável, causa um dano monstruoso.
Ex.: sujeito vai mudar a estação de rádio do carro, se distrai, faz com que um ônibus escolar saia da
pista, matando todos os passageiros.

Exigir uma altíssima quantia do autor do dano, é praticamente transformá-lo em vítima, pois passará
o resto da vida pagando pelo que fez.

Art. 944. A indenização mede-se pela extensão do dano.


Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o
juiz reduzir, eqüitativamente, a indenização.

Neste caso, caberá ao juiz reduzir a indenização de forma equitativa.

Culpa concorrente
Quando autor e vítima concorrem ao evento danoso.

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Ex.: dois motoristas atravessam sinal piscando em atenção. Ambos são culpados.

E como será imputada a responsabilidade neste caso?


O juiz deverá analisar a medida da culpabilidade de cada um. De repente pode acontecer de um deles
ser mais culpado que o outro. Aquele que dirige acima da velocidade, ou está embriagado, tem grau
de culpa maior que o outro.
É dessa análise de culpa que o juiz extrairá o valor justo indenizável.

É a chamada apuração do grau de culpa dos envolvidos.

Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será
fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano.

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