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A REENCARNAÇÃO

Nº 427 - ANO LXX - 1º semestre 2004


Sumário
Diretor
Seldon Fritz Hofmann
Redação
Gládis P. de Oliveira A Educação Moral ....................................... 04
Revisão
Celina Corrêa Córdova Editorial
Jornalista Responsável
João Paulo Lacerda (DRT/RS 4044)
Arte das Capas
Dimitrius Gutierres A Evangelização Espírita e os
Produção Gráfica Serviços Assistenciais .................................. 06
Cecília Rocha
Redação e Administração
Av. Desembargador André da Rocha, 49
Fone/Fax: (51) 3224.1493
Bases da Educação Moral............................ 09
Porto Alegre -RS- CEP 90050-161-Brasil Gladis Pedersen de Oliveira
reencarnacao@fergs.com.br
Esta revista está registrada no C.R.C. (Dec.
nº 24776, Art. 5º, item 1) sob o nº 211.185, cadas-
tro nº 458/p nº 209/73 do D.C.D.P.
A importância da Literatura
Fundada em julho de 1934 por Oscar
Breyer (seu primeiro diretor) sendo presidente da
FERGS Ildefonso da Silva Dias.
Infanto-juvenil na formação de
uma personalidade sadia .............................. 13
Eloína da Silva Lopes
FEDERAÇÃO ESPÍRITA
DO RIO GRANDE DO SUL
http://www.fergs.com.br O papel dos pais no processo de
CONSELHO EXECUTIVO 2004/2005
Presidente
evangelização dos filhos .............................. 16
Jason de Camargo Sérgio Lopes
Vice-Presidente
Gladis Pedersen de Oliveira
Vice-Presidente
Antônio Carlos Santos Rosa A Instituição Espírita como uma
Vice-Presidente
Nilton Stamm de Andrade Unidade Educacional ................................... 21
Departamento Doutrinário
João Felício
Edvaldo Roberto de Oliveira
Departamento de Assuntos da Família
Marilene Huff
Departamento da Infância e Juventude Uma introdução à proposta
Vilma Darde Ruiz
Departamento de Comunicação pedagógica de Jesus ..................................... 25
Seldon Fritz Hofmann
Livraria Espírita Francisco Spinelli Sandra Borba Pereira
Elmira Maria Pelufo
Departamento de Pesquisas e Estudo
Méri Otero da Silveira
Departamento de Assistência e
A sexualidade, a rede comunicante e a
Promoção Social Espírita
Éber Waner Borges Rosa
difícil arte de educar .................................... 32
Assessor Jurídico Gelson Luis Roberto
Lauro Borba
1ª Secretária
Cristina Canovas de Moura
2ª Secretário Contribuição Filosófica do Espiritismo
Antônio Carlos Costa
1º Tesoureiro ao entendimento da drogadição ................... 37
Lauro Varella
2º Tesoureiro
João Paulo Lacerda
Erico Seus

A REENCARNAÇÃO - Nº 427 3
Editorial
A Educação Moral
"Educar a infância e a juven-
tude é semear o bom grão; é pre-
parar uma nova sociedade, é cri-
ar um novo mundo onde habitará
a justiça, onde reinará a solidari-
edade, garantindo alimento para
todos e a oportunidade de reve-
larem suas capacidades" (Cf.
Vinícius, in: O Mestre na Educa-
ção p. 110).
A sociedade contemporânea
está a procura de uma força puri-
ficadora que a tire da degradação
moral, da impudência, da
corrupção dos costumes, dos cri-
mes bárbaros que constituem em
seu conjunto problema grave a
ser solucionado. 106): “Os espíritos que volvem à
A sentença proferida por Je- Terra, vêm em busca da própria
sus: “Deixai vir a mim as evolução; chegam ricos de espe-
criancinhas e não as impeçais...” rança, desejosos do aprendizado
revela o perfeito conhecimento do que o mundo pode lhes proporci-
Mestre das condições que a in- onar e sabem quão precioso é
fância se apresenta. Adverte-nos esse instante de vida no planeta.
Ele quanto a época propícia ao Crescerão em sabedoria e
lançamento das bases da Educa- evolução espiritual, preparando-
ção Moral. Educar, no legítimo se para as grandes jornadas aos
sentido da expressão, é orientar países estelares.
o Espírito na aquisição parcial, Formarão o alicerce do mun-
porém progressiva, da verdade. do de amanhã e serão os
Quando Jesus acrescenta. “e continuadores das lições grandi-
não as impeçais”, nos alerta osas do Amor Divino.
quanto ao descuido da educação Abençoados pelo Alto, vol-
infantil, que impedirá que as cri- vem ao orbe terrestre, oferecen-
anças e jovens se iluminem com do-se como base angular para o
o conhecimento da moral evangé- futuro, dependentes das criaturas
lica, contribuindo, assim, para o que lhes guiarão os passos.
seu extravio. Os Altos Planos confiam aos
Nos diz Bezerra de Menezes homens as crianças, páginas em
(in: “Garimpeiros do Além” p. branco do Livro da Vida.
A elas, toda dedicação e

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amor! ança, ansiosos de paz e progres-
Felizes as mãos que as con- so. Desejam reencontrar o cami-
duzem nos caminhos da sabedo- nho da evolução. Buscam liber-
ria espiritual! Benditos os cora- tar-se dos elos do passado, das
ções maternos e paternos que se cadeias cruéis do egoísmo e da
doam ao amor sublimado na co- vaidade.
criação divina. Quando um Espí- A educação no lar é a chave
rito volve aos planos maiores, principal para lhes moldar o ca-
vencedor da carne e das tenta- ráter e atender suas necessida-
ções, resplandece o nome daque- des psicossomáticas. Educar o
les que se entregam à tarefa da pensamento da criança e do jo-
exemplificação e educação do vem, dirigindo-o cautelosamente,
mesmo. em torno das lições de moral, dos
Sob a renúncia e abnegação, estudos nobres, das conversas
permaneçamos atentos aos nos- edificantes, como as que se pro-
sos deveres junto às crianças que porcionam no Estudo do Evange-
o Senhor nos confiou e estaremos lho no Lar e nas aulas de Evan-
ajudando e auxiliando a nós mes- gelização Espírita Infanto-Juve-
mos, pois nesse permanente cres- nil, representa um caminho segu-
cimento para a vida, formaremos ro a ser seguido.
a formosa família universal, sob A Educação Moral promove
as harmonias celestiais em plena uma revolução importante, uma
luz”. batalha silenciosa no interior do
Os pais geralmente demons- indivíduo para o exterior, num
tram grande preocupação, iludi- processo de esforço continuo.
dos pelo valor utilitário, com a O conhecimento científico,
carreira profissional dos filhos e sem apoio da moral, conduz à vi-
se descuram da questão funda- olência e à alucinação. A situa-
mental da educação que é a con- ção caótica em que vive a huma-
solidação do caráter. nidade nos dias atuais, é resultan-
Os pais são os primeiros te da falta de rumo moral nas to-
mentores dos filhos, o lar é a pri- madas de decisões individuais e
meira escola que eles freqüen- coletivas.
tam. Os benfeitores espirituais O conhecimento moral ilumi-
esclarecem que os espíritos que na as decisões, mostra o caminho
atualmente regressam à encarna- correto a ser perseguido em to-
ção, geralmente, já evoluíram nas das as situações da vida.
Ciências Terrestres em experiên-
cias passadas e que agora bus-
cam a Ciência do Espírito. Vol-
tam, envolvidos em suave confi-

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A Evangelização
Espírita e os Serviços
Assistenciais
Cecília Rocha

*Pedagoga, Vice-Presidente da FEB

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O trabalho de evangelização es- trabalho entre as providências de or- teúdos evangélicos e espíritas com
pírita junto ao menor socialmente ca- dem material socorrista e a organiza- uma metodologia própria para a faixa
rente tende a se confundir com a as- ção das tarefas que visam a levar os etária a qual é destinado.
sistência material, no que concerne à ensinos evangélicos, à luz do Espiri- Fornecer às crianças lanche, ape-
distribuição de alimentos, roupas e tismo, a esses menores, carentes não trechos de higiene, atividades recrea-
agasalhos indispensáveis ao bem es- somente de pão material, mas sobre- tivas etc, não substitui a evangeliza-
tar físico dessas crianças e adolescen- tudo do espiritual pois que, na base de ção propriamente dita, embora lhe
tes, multi-carenciados. qualquer tipo de carência situam-se sejam parte integrante. É preciso en-
Levados pelos seus mentores as de ordem espiritual. sinar-lhes as sublimes lições do Evan-
espirituais esses menores nem sabem A ação evangelizadora não visa gelho, interpretadas à luz do Espiritis-
o que procuram nem o de que, real- tão somente à criança necessitada de mo, metódica e gradativamente para
mente, necessitam, quando batem à bens materiais, mas a todas as crian- que removam, para sempre, os moti-
porta da instituição espírita. Sentem ças e adolescentes que desabrocham vos pelos quais sofrem.
fome e passam frio, ou estão suados para a vida física necessitados da ori- É necessário descortinar-lhes
e sedentos, buscando todos a sa-
tisfação de suas necessidades ime-
diatas de sobrevivência. Seus inte-
resses, conforme a situação em que
se encontram, não vão além da bus-
ca do alimento. A fome leva-os a
se concentrarem totalmente na pro-
cura do pão pois, que nesta contin-
gência, tudo o mais lhes parece se-
cundário.
Sob os rigores de climas frios
ou sob o sol escaldante das regiões
quentes, chegam eles aos nossos
redutos de trabalho cristão espe-
rançosos, certos de obter o socor-
ro urgente de que carecem.
Entretanto, como soe aconte-
cer nos arrais espíritas, são poucos
os trabalhadores dispostos ao tra-
balho e enormes as necessidades da- entação evangélica, na ótica da Dou- novos horizontes. É mister penetrar-
queles que chegam às casas espíritas trina Espírita. lhes o interior, ai depositando os ger-
em busca de auxílio, os mais diver- Não obstante a consciência de mes da verdadeira sabedoria que se
sos. que todo o momento é o momento de fundamenta nas singelas lições de
Em vista desse fato, os compa- evangelizar, há todo um programa es- Jesus.
nheiros incumbidos da tarefa de pecífico para esse trabalho na qual Para isso, cumpre-nos organizar
evangelizar ficam sobrecarregados de estão expressos os objetivos, os con- esses momentos nos quais serão ana-
lisados temas da maior importância
para todos nós, jovens e adultos, que
estamos percorrendo os caminhos da
A evangelização da criança experiência física.
socialmente carente acrescenta A tarefa de evangelizar que pre-
vê uma estrutura escolar, com Currí-
um desafio assistencial à culo de Ensino próprio, controle de
atividade pedagógica freqüência, experiências de aprendi-
zagens, situações provocadas de

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É preciso evitar a simplificação reducionista
que mutila o aspecto doutrinário em nome
da adequação pedagógica à criança socialmente carente

aprendizagem, de vivências e de explicações preciosas, aplacando-lhes guir, ao mesmo tempo em que levam-
seriação que prevê as faixas etárias a revolta e reforçando-lhes o desejo na a compreender a Justiça Divina, o
de infância e adolescência, não pode de superarem-se. que é fundamental para o seu equilí-
estar contida dentro da tarefa Negar os ensinamentos do Espi- brio psíquico.
assistencial. Essas duas tarefas po- ritismo e do Evangelho aos necessi- Seguindo essa linha de pensamen-
dem correr juntas, mas não podem tados ou carentes é pior do que ne- to, fazemos nossas as palavras conti-
substituir uma a outra. Uma socorre gar-lhes o pão e a sopa, pois, se a fome das no Currículo para as Escolas de
o corpo, casa do Espírito, e a outra de alimento constitui-lhes um grande Evangelização Espírita: “Sendo o Es-
socorre o Espírito dono da casa. flagelo, a da alma lhes paralisa o pro- piritismo a revivescência do Cristia-
Alguns companheiros de Doutri- gresso, embotando-lhes os sentidos e nismo, [Cristianismo do Cristo], nada
na Espírita, examinando, talvez de a inteligência. mais natural que ele tenha no seu in-
maneira superficial, a problemática É natural que nos sensibilizemos terior uma dimensão essencialmente
das crianças carentes, julgam-nas in- ante a criança com fome e frio, educativa, uma proposta de educação
capazes de compreenderem o Espiri- perambulando aparentemente sem moral voltada para a formação do
tismo, restringindo suas aulas a con- destino e sem esperanças. Mais na- homem cristão, do homem de bem.”
teúdos de boas maneiras, ou de higie- tural, ainda, corrermos ao seu encon- Fica, pelo exposto, evidenciada a
ne corporal, sem entrar nas causas tro, oferecendo-lhe, além do nosso necessidade de a evangelização espí-
rita ter seu espaço próprio, sua pro-
gramação curricular, sua metodologia,
adequada à faixa etária dos partici-
pantes, e, ainda, uma organização re-
comendável e necessária a toda e
qualquer atividade produtiva.

profundas de seus sofrimentos o que carinho, o pão e o agasalho. Isso é


fariam se lhes repassassem noções de muito, mas não é tudo. As razões, as
livre-arbítrio e lei de causa e efeito, causas dos seus sofrimentos, que o
noções de reencarnação e de Justiça Espiritismo esclarece, fortalecem-lhes
Divina, capazes de lhes oferecerem a coragem e a disposição de prosse-

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Bases da Educação Moral
Gladis Pedersen de Oliveira*

A fase infantil, com o


esquecimento das tendências
anteriores, favorece o aprendizado
de novos comportamentos

* Pedagoga, Especialista em Educação

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A moral é a regra para bem se primeiros anos de vida. Os pais de- início com um diálogo entre a criança
conduzir; é a capacidade de distinguir vem se programar para oferecerem e os genitores. O pensamento autô-
entre o bem e o mal e baseia-se na ao espírito reencarnante uma educa- nomo começa quando a criança é, pela
observação e aplicação da Lei de ção que lhe possa favorecer o pro- primeira vez, capaz de interiorizar esta
Deus, conforme esclarece a questão cesso encarnatório. conversação e instituí-la dentro de si.
629 de “O Livro dos Espíritos”. O mestre Lionês, analisando e Na verdade, esse diálogo, no iní-
Uma indagação está presente na comentando a resposta à questão nº cio, é um monólogo da mãe, do pai,
mente de pais e educadores: Como 917 de “O Livro dos Espíritos” con- dos que cercam a criança, feito de
fazer a Educação Moral de crianças clui que a educação moral, a que ten- sons meigos, de estímulos e sorrisos,
e jovens? de a fazer homens de bem, será a de gestos que exercitam, na criança,
Allan Kardec no capítulo VIII de chave para a evolução definitiva da o reconhecimento, a resposta com
“O Evangelho Segundo o Espiritismo” humanidade. movimentos corporais, o balbucio ale-
explica que a criança, com toda a sua “Quando se conhecer a arte de gre, pré-lingüístico, o riso, o choro,
fragilidade e inocência, necessita de manejar o caráter como se conhece etc...
cuidados especiais que somente a ter- a de manejar a inteligência, poder-se- As mães, principalmente, falam
nura materna lhe pode dispensar. á endireitá-lo”.... bastante com os bebês, cantam músi-
A atividade do principio inteligen- Os recursos da comunicação cas de acalanto, nos primeiros meses
te, do espírito, é proporcional à fra- verbal dos genitores, primeiros mes- de vida, repetem palavras amorosas,
queza do corpo. tres da criança, são um meio pelo qual carregadas de boas vibrações sono-
O espírito, ao aproximar-se-lhe a estes passam o ensino moral para os ras, ao mesmo tempo que aconche-
encarnação, entra em perturbação e filhos, desde a fase da gestação até a gam o filho ao colo, ou dão banho, ou
perde, pouco a pouco, a consciência adolescência. A informação verbal alimentam.
O nenê, que está com a “mente
absorvente”, interioriza a linguagem
e todo tipo de estímulo do mundo que
Com as tendências do passado adormecidas, o cerca.
Na fase infantil a criança não tem
o espírito logo após o reencarne é mais só fome de alimentos, mas também,
fome de estímulos sonoros e visuais
maleável ao aprendizado, facilitando que tenham mensagem positiva, pre-
a tarefa moralizadora dos pais ferencialmente.
A fala maternal, ladainha imagi-
nosa, poética, dá uma forma mágica
aos cuidados que o bebê recebe, e faz
de si mesmo, permanecendo numa deverá ser coroada com o exemplo parte do instinto materno, verdadeira
espécie de sono induzido, com as fa- dos pais na vivência dos princípios intuição divina que ajuda o despertar
culdades em estado latente. ensinados. do espírito de forma agradável, fra-
Este é um período de transição É grande a repercussão, na acús- terna, para a nova vida que se inicia.
para que o espírito tenha um novo tica do reencarnante, da voz do adul- Em nosso planeta, ainda de pro-
ponto de partida esquecendo, em a to emitindo uma mensagem positiva, vas e expiações, nem sempre os
nova existência física, tudo que o pos- ajudando-o na estruturação de uma recomeços reencarnatórios se reali-
sa perturbar. personalidade equilibrada em relação zam de forma amena e prazeirosa...
À medida que o corpo se desen- às leis divinas. Hoje, está comprovado, que mes-
volve, as idéias gradativamente vão Pesquisas realizadas na Univer- mo o feto, desde a formação, registra
se organizando. sidade de Turku, na Finlândia, por ci- as cargas emotivas da mãe e dos que
Durante o tempo em que seus entistas, com bebês, revelam que es- o cercam. Ele capta as mensagens
instintos se conservam adormecidos, tes, mesmo dormindo, podem assimi- emocionais dos episódios que ocorrem
o espírito é mais maleável ao apren- lar conhecimentos verbais, compro- a sua volta e que, de uma certa for-
dizado, pois está aberto às impressões vando que o córtex cerebral dos mes- ma, estão ligados a ele.
capazes de lhe modificarem a natu- mos registra o som da voz durante o Os pais gestantes devem cultivar
reza e de fazê-los progredir. É nesta sono e depois recordam a informação o hábito de conversar com o filho
fase que a tarefa dos pais, na educa- simples emitida, como por exemplo o reencarnante, no ventre materno.
ção moral deste espírito, é mais fácil som das vogais, quando despertam. Passar-lhe boas mensagens,
de ser feita. Lev Vygotski (Pensamento e Lin- através das preces, de histórias sim-
A Educação Moral pode iniciar- guagem, 1967) afirma que o desen- ples. Dizer-lhe que ele é muito ama-
se na fase fetal e intensificar-se nos volvimento dos processos mentais têm do e esperado, que juntos vão apren-
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der mais e se melhorar, que todos so-
mos filhos de Deus e, acima de tudo,
irmãos. O uso da linguagem supõe um ato criativo
Esta fase é propícia a que se car-
regue o inconsciente do espírito de e de indagação , criando a auto-consciência
mensagens educativas e otimistas. e a consciência moral, através da relação
“Você vai ser muito feliz”. “Vai ven-
cer os obstáculos”. “Vai ser bom, equi- social mediada verbalmente
librado, alegre”....
Nada melhor que o veículo da voz
para canalizar conteúdos e sentimen- As crianças gostam de escutar a O uso da linguagem supõe um ato
tos positivos, que serão armazenados mesma história várias vezes, com as criativo e de indagação de todos os
na memória mais profunda do espíri- mesmas palavras, de aprendê-las em que participam da conversação e per-
to, os quais, na fase juvenil ou adulta, seus detalhes, na exata seqüência, de mite desenvolver, em cada indivíduo,
vão emergir para ajudar superar pro- reviver as emoções na mesma ordem, a consciência de si mesmo. Sem a
blemas ou sublimá-los. desde a primeira vez que ouviram: experiência da inter-relação social
Isto é Educação Moral; é a arte surpresa, medo, tristeza, raiva, grati- mediada pela linguagem, pelo diálo-
de manejar o caráter. ficação, alegria... precisam destes go, não é possível a construção da
A fase de gestação e os primei- momentos mágicos (Gianni Rodari – consciência moral.
ros anos de vida são a base para a “Gramática da Fantasia” – 1983). Se o diálogo constitui o compo-
estruturação da personalidade equili- Quando a mãe ou outro adulto lê nente essencial dos procedimentos
brada, segundo nos mostram estudos ou conta uma boa história para a cri- morais, as emoções e sentimentos são
mais recentes da Psicologia. ança, permanecendo até o fim, inte- seu motor e impulsionam as atitudes
É óbvio que o espírito gralmente para ela, sua presença mais humanas.
reencarnante traz também um plane- longa é fonte de proteção e seguran- A construção da identidade mo-
jamento de vida que leva em conta ça. Quando a mesma solicita: conta ral se nutre também da linguagem sim-
suas experiências anteriores e suas de novo, conta outra, conta mais, tal- bólica. O simbolismo é um meio para
necessidades evolutivas. vez queira apenas prolongar o mais aproximar-se de um conhecimento
Os pais, com a sua atuação que puder aquela agradável situação, mais vivo dos valores. Os valores,
educativa, poderão atenuar ou acen- continuar a ter o adulto ao seu lado. além de conhecidos conceitualmente,
tuar as dificuldades que fazem parte Enquanto, entre os dois, segue a nar- o são simbolicamente.
do plano existencial do filho. Pesqui- rativa, a criança pode apreciar, com
sas recentes, feitas com criminosos calma, a sua mãe ou pai ou avô, ou a A captação dos valores se reali-
que cumprem penas longas, revelam professora, observar seu rosto, anali- za de maneira mais profunda e com
que a maioria deles tiveram uma in- sar-lhe as feições. maior eficácia quando sua transmis-
fância silenciosa, ou aturdida com A voz do adulto não lhe fala só são não se reduz à linguagem de con-
mensagens verbais negativas (Proje- dos personagens da história, fala de ceitos e razões, mas se estende à lin-
to – Family Literacy – Prof. Richard si própria; a criança se detém na subs- guagem dos símbolos. “Quando a co-
Roe da Georgetown University, em tância da expressão, isto é, na voz que municação com a criança funde idéi-
Washington – Estados Unidos). narra, na sua modulação, no seu vo- as e afetividade, facilita o conheci-
A partir desta constatação os lume, na musicalidade que comunica mento moral que se quer ensinar. Os
pesquisadores concluíram que contar ternura, que aquieta e faz desapare- símbolos motivam e transmitem for-
boas histórias para as crianças, ade- cer os fantasmas do medo. ça” (Josep Maria Puig “A constru-
quadas ao seu entendimento, é a me- A fábula, a história, o conto sim- ção da Personalidade Moral” – 1998).
lhor forma para enfrentar o déficit ples, servem para construir-se estru- O brincar com os filhos deveria,
emocional provocado pelo silêncio dos turas mentais para estabelecer rela- também, ser uma atividade obrigató-
pais, durante a gestação e na primei- ções: “eu e os outros”, “eu e as coi- ria para os pais. Quando um adulto
ra infância. sas”, “eu e os valores”, “longe – per- brinca com a criança tem a vantagem
A forma mais eficaz de sociali- to”, “antes e depois”, etc... de dispor de mais experiência e pode
zar uma criança é estimular o gosto Ouvir é um exercício extraordi- ir mais longe com a imaginação mas
pela leitura e contar histórias para ela, nário. Serve para o petiz empenhar- deve deixar a criança agir com auto-
onde a mensagem de amor incondici- se, conhecer-se, medir-se; por exem- nomia e comandar a brincadeira e,
onal dos pais é passada, despertando plo: medir o medo. Ele aprende a iden- enquanto se brinca, se fala, ensina....
a confiança e a sensação de tificar e a educar as emoções bási- Deve-se estimular a criança e o
pertencimento do filho ao grupo soci- cas: a raiva, o medo, a tristeza, a ale- jovem a contar a sua história, fazer a
al primário que é a família. gria, o afeto. sua autobiografia, narrar fatos verídi-
A REENCARNAÇÃO - Nº 427 11
A proposta de Educação Moral é de
edificar uma vida que valha a
pena ser vivida e que produza a felicidade
e o equilíbrio a quem a vive
cos, refletir sobre si mesmo. O uso correto, diante de situações controver- Na introdução do livro “O Evan-
da narrativa constitui um dos meios tidas e supõe, também, sentir-se obri- gelho Segundo o Espiritismo”, Allan
essenciais para a construção da iden- gado, por si mesmo, a fazê-lo com in- Kardec explica que reúne na Obra um
tidade moral. dependência dos pontos de vista e das código de Moral Universal retirado
A linguagem narrativa, auto-bio- pressões do meio. dos Evangelhos de Mateus, Marcos,
gráfica ou de ficção, proporciona uma Atinge-se a moralidade quando Lucas e João. Este código moral é o
forma de conhecimento diferente da se pode refletir sobre comportamen- conteúdo que deve servir de base
argumentação lógico-científica e evi- to interpessoal, sobre a convivência para a educação moral aplicado por
dentemente racional; ela abre espaço social, sobre todo o tipo de vida que pais e educadores.
para o mundo dos valores e da se leva, sobre os valores que preten- O ensino moral do Cristo apre-
subjetivação, proporcionando a vivên- dem conduzir o comportamento ou senta “guias de valores” que devem
cia de dois planos; o dos fatos e o da sobre as vivências problemáticas. ser ensinados e vividos como: o amor
consciência, onde os valores são usa- Adquire-se a capacidade de atribuir a Deus, ao próximo e a si; a capaci-
dos em situações semelhantes às re- valores, pensar e decidir por si mes- dade a justiça, a liberdade, a fraterni-
ais. mo sobre os próprios valores, pensa- dade, etc...
“Saber criar ocupações para as mentos e decisões. Estes temas precisam ser apre-
crianças é um dos pontos mais impor- A consciência se faz juiz do su- sentados naturalmente à criança e ao
tantes na educação moral, mas é pre- jeito que a possui. jovem e irão servir de “horizonte
ciso que essas ocupações sejam ao O desenvolvimento da consciên- normativo” para guiar equilibra-
mesmo tempo agradáveis e úteis; é cia moral instaura uma relação da damente os atos da vida individual e
preciso que possam se entregar a elas, pessoa com ela mesma, de modo que coletiva dos mesmos.
por sua própria atividade” Hippolyte seus sentimentos, juízos e ações são
Leon Denizard Rivail, in “Textos Pe- sancionados por ela própria como cer-
dagógicos” p. 56. tos ou errados.
A construção da personalidade Ao atingir esta fase a pessoa tem
moral está ligada ao desenvolvimento possibilidade de total domínio sobre
de capacidades pessoais de julgamen- suas atitudes físicas e mentais, não é Bibliografia
to e compreensão dos eventos da vida só o simples “saber algo” ou “saber 1.Kardec, Allan – “O Livro dos Espíri-
individual e social que permitirão o fazer algo” mas, “saber sobre o sa- tos” – Ed. FEB
enfrentamento autônomo com os con- ber” (cf Puig – 1998 – p. 78-80). 2.Kardec, Allan – “O Evangelho Segun-
flitos de valor. A criança e o jovem, O indivíduo estruturado moral- do o Espiritismo” - Ed. FEB
através do processo de adaptação ao mente aprende a se auto-conhecer e 3.Rodari, Gianni – “Gramática da Fanta-
grupo social e a si mesmos, vão regula sua conduta; é capaz de co- sia” - Editorial SUMMUS 6ª edição 1982
aprendendo as regras básicas de con- nhecer e entender os outros. Tem juízo 4.Puig, Josep Maria – “A Construção
da Personalidade Moral” Ed. ÁTICA
vivência. moral, compreensão crítica e se abre
1998
“A construção da personalidade para o diálogo e a comunicação, utili- 5.Weil, Pierre – “A Criança, o Lar e a
moral conclui com a construção da za sua sensibilidade e as emoções e Escola” Ed. VOZES - 1982
própria identidade, como cristalização não só o raciocínio lógico para avaliar 6.Rivail, Hippolyte Leon Denizard –
dinâmica de valores, como espaço de a realidade e impulsionar e motivar sua “Textos Pedagógicos”
diferenciação e de criatividade moral”. conduta com mais discernimento. 7.Paiva, Maria Cecília (Médium) – “Ga-
(Josep Maria Puig – A Construção A aquisição de consciência mo- rimpeiros do Além” – 1991
da Personalidade Moral). ral promove no indivíduo, a capacida- 8.Vinícius – “Na Escola do Mestre” Ed.
A proposta de Educação Moral de de decisão pessoal, a partir de um FEB – 1954
é de edificar uma vida que valha a processo de reflexão fundamentado 9.Vinícius – “O Mestre na Educação”
Ed. FEB – 1976
pena ser vivida e que produza a feli- em motivos e razões com base na
10. Vygotsky, L. S. – “Pensamento e Lin-
cidade e o equilíbrio a quem a vive. moral aceita universalmente, que ele guagem” Buenos Aires, La Pléyade -
Ser moral pressupõe desentra- já introjetou em si e pela qual pauta 1967
nhar o que nos parece pessoalmente suas decisões e ações.
12 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
A importância da Literatura
Infanto-juvenil na formação de
uma personalidade sadia
Eloína da Silva Lopes*

Professora*

A REENCARNAÇÃO - Nº 427 13
O objetivo maior da vida é a bus- to, a utilidade de passar pelo estado fazer homens instruídos, mas a que
ca incessante da evolução. de infância? tende a fazer homens de bem.” Co-
L.E. 170 – Em que se trans- “Encarnando, com o objetivo de mentário à questão 917 – L.E.
forma o espírito, depois de sua se aperfeiçoar, o Espírito, durante Especialmente na fase da infân-
última encarnação? esse período, é mais acessível às im- cia, oportunidade em que o espírito
— Espírito bem-aventurado; um pressões que recebe, capazes de lhe reencarnado está aberto a novas ex-
Espírito puro. auxiliarem o adiantamento, para o que periências e lições, é que deveremos
Este é o grande desafio da evo- devem contribuir os incumbidos de aproveitar para oferecer-lhe recursos
lução dos seres! educá-lo.” a fim de conduzi-lo, com segurança
O estado de humanidade já al- Eis a razão pela qual o ser maior, a um futuro espiritual mais pro-
cançado pelo homem é valiosa con- reencarnante passa, inicialmente, pe- missor.
quista no curso do aprimoramento, las idades da infância e da juventude, A Literatura Infanto-Juvenil,
no entanto, é o passo inicial de nova pois são fases muito favoráveis à além de reunir em si finalidades soci-
ordem de valores, que jazem adorme- educação do Espírito. ais, didáticas, psicológicas, todas im-
cidos, aguardando estímulos para que Diz-nos Emmanuel : portantes e necessárias, apresenta-
sejam desdobrados , alavancando, “ Encetando uma nova existên- nos uma fonte inesgotável de valores
assim, o progresso individual e coleti- cia corpórea, (...) a criatura recebe morais.
vo. implementos cerebrais novos, e, para Literatura é arte, e a arte é, es-
Recordemos Kardec na questão que se lhe adormeça a memória, fun- pecialmente, moralizadora. Desper-
754 de “O Livro dos Espíritos”: ciona a hipnose natural como recurso ta os bons sentimentos, portanto, aper-
“Em estado rudimentar ou laten- básico. feiçoa a conduta. Cultivando o senti-
te, todas as faculdades existem no ho- Há prostração psíquica nos pri- do do Belo, a sensibilidade torna-se
mem. Desenvolvem-se, conforme meiros sete anos de tenra aprimorada, conduzindo às boas
lhes sejam mais ou menos favoráveis instrumentação fisiológica dos encar- ações.
as circunstâncias.”, nados.(..) Como pode a Literatura Infanto-
De acordo com os estímulos re- Temos, assim, mais ou menos três Juvenil contribuir na educação?
cebidos, o homem, pelo esforço pró- mil dias de sono induzido ou hipnose Através da Literatura infanto-ju-
prio e sob a supervisão dos Espíritos terapêutica, a estabelecerem enormes venil podemos:
superiores a que fizer jus, desenvolve alterações nos veículos de · ajudar a criança e o adolescente
seus valores e conquista cada degrau exteriorização do Espírito, as quais, a ampliar e enriquecer suas experi-
de sua escalada evolutiva. (...) motivam o entorpecimento das ências;
De experiência em experiência, recordações do passado, para que se · imprimir neles o entusiasmo
de encarnação em encarnação, o Es- alivie a mente na direção de novas pelas boas ações e bons sentimentos;
pírito enriquece sua bagagem espiri- conquistas. (...)” · incentivá-los a cultivar senti-
tual. Durante o tempo em que ador- mentos altruísticos;
Não importam as falhas e defici- mecem suas recordações, a criança · ajudá-los a perceber a vitória
ências do passado, suas tendências é mais flexível e, por isso mesmo, mais do bem e o insucesso do mal;
nem sempre felizes. acessível às impressões que podem · estimular o sentido da verda-
O Espírito renasce para educar- modificar sua natureza e fazê-la pro- de, da bondade e do amor ao próxi-
se, para progredir, para reajustar-se gredir. É, portanto, a fase mais opor- mo;
com as leis divinas, para desenvolver tuna para que novas luzes se acen- · levá-los a apreciar e entender
o senso moral e enfraquecer, pouco a dam na trilha do viajor da eternidade. os problemas alheios, para melhor
pouco, as faculdades e impulsos pu- compreensão de si mesmos;
ramente animais. Uma personalidade sadia · ressaltar o respeito à natureza
“Só a educação poderá reformar e o amor pelo seu Criador;
Reencarnação e esquecimen- os homens que, então, não precisarão · apresentar-lhes exemplos de
to do passado mais de leis tão rigorosas.” L.E. 796 vultos e personagens que se destacam
L.E. – 330 – Qual, para o Espíri- “Não a educação que tende a pela sua estatura moral e espiritual.
A história, em especial, é um
manancial incalculável de inspiração
A narrativa de histórias é sempre e sugestões para a formação do ca-
ráter daqueles que a lêem e/ou ou-
fascinante, facilitando a assimilação e a vem.
Podemos esquecer muitos deta-
memorização do seu conteúdo moral lhes de uma exposição doutrinária ou
de um discurso, mas uma informação
14 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
em forma de história, adequada ao
grupo a que se destina, dificilmente Jesus, o Mestre por excelência, foi
esquecemos.
Isto porque a história exerce o grande contador e valorizador
sobre nós uma atração fascinante.
Grava-se em nossa mente e passa a
da história, pelo uso que dela fez
fazer parte de nossa bagagem moral.
Argumentações ou exposições
podem não ser entendidas, mas uma creveu num pergaminho, que se en- ao entendimento e às experiências de
história será perfeitamente assimila- contra ainda na coleção de manuscri- vida daqueles que O seguiam e ouvi-
da. E a mensagem fica. tos em Lichtental, Budapeste, o se- am avidamente.
Conta-nos Katherine D. Cather guinte: “Foi por causa da semente Certamente por isso, as histórias
um episódio da história árabe muito lançada pelas histórias.” e parábolas que Ele usou impressio-
interessante, ocorrido, há muitos sé- No encontro com a Literatura, a naram fortemente aqueles que regis-
culos, num banquete em Bagdad, ofe- criança e o jovem têm a grande opor- traram, em suas anotações, a Sua vida
recido por um Califa para festejar o tunidade de transformar ou enrique- e os Seus ensinamentos.
nascimento de seu filho. cer suas experiências e sua visão de Dos evangelistas, Mateus foi o
Todas as pessoas da alta roda, vida. primeiro a escrever os “ditos do Se-
que foram convidadas, compareceram Quantas vezes já ouvimos de nhor”, entre 50 a 55.
à festa e trouxeram presentes para o uma criança: Alguns anos se passaram, por-
menino, menos uma, um jovem sábio “ — Conta uma história ...!” tanto, desde o retorno do Mestre ao
chamado Mehelled Abi. Ele veio de Começamos, então: mundo Espiritual, até que Mateus co-
mãos vazias e, ao entrar no palácio, “ —Era uma vez...” meçasse a escrever. E, no entanto,
no momento em que apresentava seus E a criança penetra num mun- estavam nítidas as recordações, os
cumprimentos ao Califa, exclamou: do mágico que lhe permite conviver exemplos, as comparações, as pará-
“Finos ornamentos, jóias e ouro com a vida dos personagens, seus bolas, a emoção.
o príncipe receberá em profusão. Por- sonhos, suas conquistas. Temos à nossa frente um campo
tanto, de mim, ele receberá algo mais Quantas mensagens, lições, ima- imenso a cultivar. Um horizonte am-
precioso que tudo isto. Cada dia de gens, exemplos permanecem emba- plo, largo onde vislumbramos o cená-
sua vida, desde o momento em que lando o coração infantil, preparando- rio magnífico da colheita farta, dos
tiver idade de entender até que entre o para uma caminhada mais rica e tempos chegados, das almas boas, dos
na posse de sua maioridade, eu lhe segura! gestos amigos, do sorriso puro, do
contarei histórias que o farão sábio e Como é importante para a crian- olhar fraterno.
justo. E, quando teus dias se finda- ça ouvir e ouvir histórias. Muitas his- Usemos a Literatura Infanto-Ju-
rem em Bagdad,ó Califa, e ele se as- tórias! venil como recurso valioso para po-
sentar no trono para reger o seu povo, Jesus, o Mestre por excelência, dermos atingir o cerne dos sentimen-
será justo e misericordioso, será rei foi o grande contador e valorizador tos infantis e juvenis e, desta forma,
de quem toda a Arábia se orgulha- da história, pelo uso que dela fez. ajudarmos na formação de uma per-
rá.” Descortinou para todos nós a sonalidade sadia.
Mehelled Abi cumpriu sua pro- Mensagem do Amor e da Paz,
messa. Logo que a criança começou alicerçada nas ilustrações adequadas
a falar e entender, aquele homem de
pele bronzeada entrava no palácio e
BIBLIOGRAFIA:
lhe contava e recontava as histórias ·KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos,86.ed.Brasília,FEB,1987
que exaltavam o que havia de melhor O Evangelho Segundo o Espiritismo. 96. ed.Brasília, FEB,1986
na tradição árabe. Não veio apenas ·FRANCO, Divaldo Pereira. Primícias do Reino. Espírito Amélia
por alguns dias ou meses, não se limi- Rodrigues.3.ed.Salvador,LEA.1975
tou à infância do príncipe, mas, religi- ·FRANCO, Divaldo Pereira. Quando Voltar a Primavera. Espírito Amélia
osamente, o visitava todos os dias até Rodrigues.1.ed.Salvador,LEA.1977
que ele ficou homem. Quando, final- ·XAVIER, Francisco Cândido. Espírito Emmanuel. Religião dos
mente, Harounal-Raschid, que assim Espíritos.2.ed.FEB,1978
se chamava este príncipe, assumiu as ·CASASANTA,Tereza. Criança e Literatura.4.ed.Belo Horizonte,Veja
·CATHER, Katherine D. Religious Education Through Story Telling. The abingdon
rédeas do governo, como califa, sua
Press. New York.Cincinatti. Chicago
fama de bom governante se espalhou ·CARVALHO, Bárbara Vasconcelos de. Compêndio de Literatura Infantil. 3.ed.
por todo o Oriente. IBEP
Naquele tempo o seu mestre es-
A REENCARNAÇÃO - Nº 427 15
O papel dos pais no
processo de
evangelização
dos filhos
Sérgio Lopes*

* Psiquiatra

16 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
A evangelização começa e
termina no comportamento. A evangelização dos filhos começa
Quando melhoramos como já na dos pais. Não a santificação
pessoas, passamos a ter influência
p o s i t i v a n o a m b ien te em q u e artificial e pretensiosa, mas a
vivemos. O resultado do cres-
cimento é, na maior parte das humana transformação, gradual
vezes, silencioso, quase im- e segura, no ritmo dos anos
perceptível. Somente depois de
algum tempo é que as estrutu-
rações mais sólidas, sob o ponto e depressivas. noutras existências. Fortalecem-se
de vista afetivo e espiritual, Mas, na atualidade, preocupa simpatias, afinam-se sentimentos.
expressam-se mais visivelmente. muito uma questão oposta à Ao contrário do que muitos
O papel dos pais no processo a n t e r i o r. A d o s p a i s q u e n ã o imaginam, “os que encarnam numa
de evangelização dos filhos abrem quase nenhum espaço para família, sobretudo como parentes
começa, inevitavelmente, na a dedicação aos filhos. próximos, são, as mais das vezes,
evangelização deles próprios. A renúncia consciente de Espíritos simpáticos, ligados por
Evangelização, não um trabalho de determinadas necessidades em anteriores relações, que se ex-
santificação da noite para o dia prol dos filhos é atitude saudável pressam por uma afeição recíproca
mas, sim, um esforço, como ser necessária, para que eles possam na vida terrena. É verdade que na
humano, de uma progressiva se desenvolver. família nascem antigos desafetos,
melhora, ao longo dos anos. A vida moderna sugere que as com a finalidade de reajustamento,
Os laços do sangue não pessoas têm o direito de procurar mas as dificuldades que surgem na
criam forçosamente os liames a própria felicidade custe o que convivência se devem muito mais
entre os Espíritos. O corpo custar. Só que isso tem custado pela falta de evolução de cada um.
procede do corpo, mas o caro para as crianças, tem cus- Quanto mais evoluímos espiritual e
Espírito não procede do tado o seu abandono. Invariavel- afetivamente, menos nos atritamos.
Espírito, porquanto o Espírito já mente percebe-se a ausência de Quanto mais evoluído o ser, mais
existia antes da formação do suporte afetivo dos pais para ele simpatiza com o seu semelhante.
corpo. Não é o pai quem cria o desenvolvimento emocional dos
Espírito de seu filho; ele mais filhos. LE. 208 - Nenhuma influên-
não faz do que lhe fornecer o cia exercem os Espíritos dos pais
invólucro corpóreo, cumprindo- Os que encarnam numa sobre o filho depois do nasci-
lhe, no entanto, auxiliar o família, sobretudo como parentes mento deste?
desenvolvimento intelectual e próximos, são, as mais das vezes, Ao contrário: bem grande
moral do filho, para fazê-lo Espíritos simpáticos, ligados por influência exercem. Conforme
progredir. anteriores relações, que se dissemos, os Espíritos têm que
( C a p . X I V, de O expressam por uma afeição contribuir para o progresso uns dos
EVANGELHO SEGUNDO O recíproca na vida terrena. outros. Pois bem, os Espíritos dos pais
ESPIRITISMO) Cap. XIV, “O EVANGELHO têm por missão desenvolver os de
SEGUNDO O ESPIRITISMO”.1 seus filhos pela educação. Constitui-
Depois que temos filhos, em lhes isso uma tarefa. Tornar-se-ão
parte, deixamos de existir para nós As famílias não se formam ao culpados, se vierem a falir no seu
mesmos. Por que em parte? acaso, são organizadas no plano desempenho.2
Porque seria um exagero supor espiritual. Parte da família espiritual
que os filhos devam anular a não reencarna, ficando sempre Gosto de brincar dizendo que
individualidade e as necessidades espíritos familiares que perma- boa parte das pessoas são amargas
pessoais dos pais. Há pais, e necem na dimensão imaterial. porque faltou açúcar na hora em que
principalmente mães, que abdicam A espiritualidade orienta que a foram feitas, ou foram feitas às
da própria existência para se experiência da paternidade e da pressas. É comum as pessoas
dedicarem aos filhos. Isso é um maternidade é das mais valiosas considerarem ter filhos como um
equívoco, pois cobrarão destes para a evolução, desde que apro- problema. Depois que os têm, não
uma retribuição de reconhe- veitadas de forma satisfatória. sabem o que fazer com eles.
cimento e de companhia per- É na família que se consolidam É sinal de maturidade querer
manente. Se os filhos saírem de e se ampliam os laços do amor, ter filhos, é lei da natureza que a
casa um dia, sentir-se-ão vazias laços esses que já começaram reprodução se efetue. Há cres-
A REENCARNAÇÃO - Nº 427 17
cimento emocional, quando o casal temporariamente, pelo encaixe dos a mãe tem dos potenciais de seu
consegue ampliar sua relação corpos de ambos, o que se traduz filho tornam-se parte importante das
afetiva de forma que surja o espaço na forma de quando a mãe o segura representações que este terá de si
para os filhos. Há casais que não no colo, embala-o, faz sua higiene, próprio.
conseguem abrir esse espaço e etc.
vivem numa simbiose absoluta, - Compreender e decodificar a PATOGENIA DA
dedicando-se apenas um para o arcaica linguagem corporal do FUNÇÃO MATERNA
outro. Trata-se somente de um bebê. Ex. Se o choro expressa sono,
vínculo a dois, onde as atenções não fome, frio, dor, ou um apelo por Simbiose - tanto pode
podem sair do circuito da relação. companhia. prevalecer nela o desejo de ter um
Uma vez nascendo os filhos - Presença continuada da mãe filho para ajudá-lo a crescer até que
espera-se que pai e mãe cumpram que “entende e atende” essas ele tenha condições de emancipar-
algumas funções fundamentais para necessidades básicas, dando-lhe um se, como também é possível que ela
o êxito educativo no desenvol- senso de continuidade. sinta o filho como uma posse sua,
vimento destes. - A presença não deve ser dentro de seu projeto inconsciente
de uma “gestação eterna”. Mães
depressivas ou com fobia de solidão
A mãe ideal tem que prover, mas também investem no filho, numa espécie de
“seguro solidão”.
frustrar. Estar presente, mas igualmente se Corpo - há uma confusão de
ausentar.Entender a linguagem do corpo, corpos que se expressa pela
imposição da mãe no uso de roupas
mas falando a terna língua do olhar. Ser da criança (se ela está com fome o
filho tem que comer, ou com frio, o
cúmplice, enfim, e de todas as formas, do filho tem que usar roupas). J.
amadurecimento psicológico do indivíduo MacDougall (1987) chama isso de
“um corpo para dois”,
Frustrações inadequadas -
“Escassas”, a mãe resolve
David Zimerman 3, eminente permanente, mas também saber todas as situações pela criança,
psicanalista gaúcho, faz um estudo estar ausente e, com isso, promover antecipa-se a tudo.
valioso a respeito de algumas uma progressiva e necessária “Exageradas”, fica tudo para a
funções básicas de pais e mães para “desilusão das ilusões”. criança, que terá a incumbência de
um aporte afetivo satisfatório no - Espelhar a criança através do se tornar adulta precocemente.
desenvolvimento infantil. Nesse seu olhar. O primeiro espelho da “Incoerente”, estado de
estudo ele apresenta a normalidade criança é o olhar da mãe. Tal como confusão, a mãe oscila de um para
e patogenia das funções maternas aparece nesta frase de Winnicott outro.
e paternas. Destaco aqui algumas (1967), tão bela como verdadeira: o “Indiferença”, ausência de
delas: primeiro espelho da criatura humana interesse verdadeiro, a pior de
é o rosto da mãe, seu olhar, sorriso, todas.
expressões faciais, etc. Espelho - quando a mãe olha
NORMALIDADE DA - Frustrar adequadamente e , para o bebê, de forma patológica,
FUNÇÃO MATERNA com isso estabelecer a noção de ou quando não está olhando para ele
limites. (vazio).
- Ser provedora das - Deve favorecer a formação Conter - ela acolhe, transforma
necessidades básicas do filho ( de no psiquismo da criança de e devolve para o filho os conteúdos
sobrevivência física e psíquica: representações valorizadas e conflitantes da convivência, sem
alimentos, agasalho, calor, amor, admiradas, tanto do próprio filho perder sua posição de adulta frente
contato físico, etc). como também dos pais que estão às dificuldades dele enquanto
- Simbiose adequada; sensa- sendo internalizados pela criança. criança.
ções desprazerosas do bebê não são Assim, é especialmente relevante a Discurso - duplas mensagens
discriminadas se são de fora ou de representação que a mãe tem do pai (double bind), mensagens
dentro do seu corpo. Assim, é do seu filho, porquanto essa será a contraditórias e paradoxais gerando
função da mãe, de certa forma, imagem que a criança terá de seu estados de confusão.
“emprestar o seu corpo” ao bebê, pai. Da mesma forma, a visão que

18 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
FUNÇÕES PATERNAS - insônia ou hipersonia diária permitido. A conseqüência disso
- Segurança e estabilidade que - agitação ou retardo psi- são as personalidades limítrofes e
ele dá, ou não dá, à mãe; comotor narcisistas. O crescente número de
- Educar e prover as neces- - fadiga diária ou perda de acidentes de trânsito, envolvendo
sidades do filho; energia adolescentes, o uso de drogas, as
- Processo de separação- - sensações de inutilidade ou mais diversas manifestações nos
individuação (Mahler,1986) refe- culpa inapropriada transtornos de ansiedade e a busca
rente à díade mãe-filho, mostrando- - capacidade diminuída para desenfreada de prazer.
se presente, apresenta-se como pensar ou concentrar-se
outra figura de amor. Ênfase na sua - pensamentos recorrentes de
presença física e afetiva. morte 3) Indiferente; caracterizado
- Limites, frustrações ade- - esses sintomas devem por negligência e falta de envol-
quadas. Formação da capacidade produzir comprometimento social ou vimento, levando a um compor-
para pensar. escolar tamento agressivo;
FONTE: David Também muito comum em
Zimerman(Fundamentos NA ADOLESCÊNCIA nossos dias, pelo mesmo motivo do
Psicanalíticos) anterior, só que muito pior. Aqui fica
- comportamento negativista ou facilitada a eclosão da delinquência.
A função materna não precisa francamente anti-social
ser exercida exclusivamente pela - uso abusivo de álcool ou TRANSTORNO DE
mãe. O pai pode exercer essa substâncias ilícitas CONDUTA
função em muitos momentos, assim - sensações de inquietação,
como a mãe pode exercer funções mau humor, agressividade e O aspecto essencial do trans-
paternas. O estudo revela a amargura torno da conduta é um padrão
importância desses fatores e que - relutância para cooperar em repetitivo e persistente de conduta,
eles devem existir de alguma empreendimentos familiares no qual os direitos básicos dos
maneira no desenvolvimento da - retraimento de atividades outros ou as normas ou regras
criança, através de alguém que sociais e desejo de sair de casa sociais apropriadas à idade são
verdadeiramente “cuide”. - dificuldades escolares violados.
Se houver falhas nesse - desatenção à aparência As crianças, criadas em
desenvolvimento é provável que o pessoal condições caóticas e negligentes,
espírito que está reencarnado como - emocionalidade aumentada, tornam-se rancorosas, exigentes,
filho, naquele contexto, sofra, de com particular sensibilidade à perturbadoras e incapazes de
alguma maneira, conseqüências que rejeição em relacionamentos desenvolver, progressivamente,
podem variar conforme a sua amorosos. tolerância à frustração, necessária
evolução. para relacionamentos maduros.
2) Permissivo; caracterizado Uma vez que seus modelos de
ESTILOS DE PAIS4 por indulgência e ausência de papéis são fracos e mudam com
limites, podendo levar a um fraco freqüência, inexiste a base para o
A maneira de ser dos pais controle dos impulsos; desenvolvimento tanto de um ideal
interfere diretamente no desen- São os pais dos nossos dias, de ego quanto de uma consciência.
volvimento do perfil caracteriológico pouco identificados com o papel de As crianças sentem pouca
dos filhos. pais. Filhos de uma geração em que motivação para seguirem as normas
Rutter descreveu quatro estilos quase tudo era proibido, criaram a sociais e são relativamente imunes
de pais: geração em que quase tudo é ao remorso.
1) Autoritário; caracterizado
por rigidez e regras inflexíveis. Pode
levar a criança à depressão;
Pais autoritários, permissivos ou
DEPRESSÃO NA
INFÂNCIA indiferentes, podem favorecer uma
- humor deprimido ou irritável
- perda de interesse ou prazer
série de comportamentos patológicos
- fracasso da criança em obter por parte dos filhos
os ganhos de peso esperados

A REENCARNAÇÃO - Nº 427 19
Muitas das crianças com Jesus, o grande educador da seguinte. Responsabilidade dos pais
comportamentos agressivos não humanidade, propõe a possibilidade para com os filhos, que, por sua vez,
conseguem desenvolver vinculos do AMOR nas relações. se tornarão recíprocos um dia, se
sociais... Estas crianças, em geral, Pais e filhos são espíritos que não com seus pais diretamente, com
são socialmente retraídas ou caminham juntos na valiosa certeza através de seus futuros
isoladas. A maioria tem baixa auto- oportunidade da família, onde a filhos, na progressiva caminhada
estima, embora projetem uma função procriadora do homem e da evolutiva em direção a um mundo
imagem de coragem. Essas crianças mulher imita a Deus, quando geram melhor.
não têm preocupação pelos a existência de seus filhos.
sentimentos, desejos e bem-estar A evangelização é o passo
alheios, sendo raro que tenham
sentimentos de culpa ou remorso por
seu comportamento rude, procu-
rando responsabilizar outrem.
Os genitores, especialmente o
pai, com freqüência recebem o
diagnóstico de transtorno da perso-
nalidade anti-social ou dependência
de álcool.
Os padrões de disciplina dos
pais raramente são ideais e podem
variar desde uma excessiva rigidez
até à indiferença.

4) Recíproco; caracterizado
pelo compartilhamento na tomada
de decisões, com um compor-
tamento dirigido de modo racional,
resultando em um senso de auto-
confiança.
Em geral, os estudos expe-
rimentais indicam que o estilo mais
eficaz é o que envolve coerência,
recompensa pelo bom compor-
tamento e punição pelo compor-
tamento indesejável; ambos devem
ocorrer dentro do contexto de um
ambiente terno e carinhoso.

FONTE:KAPLAN,
Compêndio de Psiquiatria

BIBLIOGRAFIA

1. KARDEC, Allan., O Evangelho Segundo o Espiritismo, 110a Ed., FEB, 1944.


2. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos , 56a. Ed., FEB, 1944.
3. ZIMERMAN, David. Fundamentos Psicanalíticos, ArtMed, 1999.
4. KAPLAN, Harold I. Compêndio de Psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria
clínica, 7a. Ed., Porto Alegre, Artes Médicas, 1997.

20 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
A Instituição
Espírita como uma
Unidade Educacional
Edvaldo Roberto de Oliveira*

Os profetas judeus (aqui


representados num pórtico
da catedral de
Estrasburgo) criaram uma
tradição pedagógica que
desenvolveu os princípios
monoteístas e normativos
da lei mosaica.

* Assistente social

A REENCARNAÇÃO - Nº 427 21
1-Afirmativa: ção, o Espiritismo, partindo das pró- tação). É o aspecto científico que nos
O Espiritismo é obra de educação prias palavras do Cristo (Eu rogarei oferece a captação sensorial do mun-
Justificativa: ao Pai, e Ele vos enviará outro Con- do fenomênico dessa faixa da Natu-
É mediante intervenções huma- solador... - João, 14:16), tal como Je- reza em que o espírito se manifesta
nas que Deus age sobre a Humani- sus partira das de Moisés. A Doutri- no sensível e a captação extra-sen-
dade, tanto no domínio dos fatos his- na Espírita, portanto, é conseqüência sorial do inteligível da realidade espi-
tóricos, como no do pensamento e da direta da promessa do Cristo. Acres- ritual. O segundo é o raciocínio e do
ciência. centa, à idéia vaga da vida futura, a estabelecimento da teoria. É o aspecto
O destino da Humanidade é de revelação do conhecimento das leis filosófico que nos dá a interpretação
elevar-se incessantemente de crença que regem o mundo espiritual e das racional do Universo e do Homem
em crença, de concepção em concep- relações deste com o mundo corpo- numa visão integral. E o terceiro é o
ção, a sínteses sempre e cada vez ral. Com o auxílio das novas luzes que da aplicação e das conseqüências. É
mais amplas e fecundas. o Espiritismo e os Espíritos espargem, o aspecto religioso (Religião Moral,
As sínteses se encadeiam e su- o homem se reconhece solidário com normativa e jamais ritual, sacramen-
cedem numa ordem racional; nascem todos os seres e compreende essa so- tal, destituída de resíduos mágicos)
umas das outras à medida em que se lidariedade; a caridade e a fraterni- que determina a orientação adequa-
desenvolve a História. dade se tornam uma necessidade so- da no plano existencial à nossa con-
duta em face da realidade ampla que
conseguimos descortinar.
A educação, mais poderoso fator de O Espiritismo é uma síntese, ain-
auto-realização do homem, deve da, porque o seu objeto de estudo - a
origem, a natureza e a destinação dos
inspirar-se no estudo da vida sob as suas Espíritos, bem como suas relações
duas dimensões, a material e a espiritual com o mundo corporal - é o traço de
união que liga a Ciência e a Religião.
Assevera Kardec: “O Espiritismo e a
Neste sentido, as três revelações cial; o Homem faz por convicção o Ciência se completam reciprocamen-
(a de Moisés, a de Jesus e a dos Es- que fazia unicamente por dever, e o te”. Não mais a Ciência tentando inu-
píritos) são sínteses que assinalam faz melhor. tilmente provar que o Homem é só
momentos históricos na marcha da O Espiritismo é uma síntese pelo corpo, nem tampouco a Religião afir-
Humanidade determinando novas con- processo de conhecimento adotado no mando vagamente que é o Homem é
cepções da vida e do homem. exame dos fenômenos que lhe deram alma, mas sim, segundo o Espiritismo,
A primeira síntese, ou 1ª Reve- origem. Processo analítico-sintético, o Homem é a unidade dialética alma/
lação, (revelação significa simples- ou seja, aquele que refaz o todo des- corpo que busca a sua auto realiza-
mente ação de levantar o véu e des- de as partes. Diz Kardec, em Obras ção.
cobrir coisas ocultas que podem ser Póstumas: “Apliquei a essa nova ci- A educação, sabe-se, é o mais
verdades científicas ou morais) se pro- ência, como até então o tinha feito, o poderoso fator de auto-realização do
pôs a estabelecer uma ordem moral método de experimentação; nun- Homem, pois contém em gérmen todo
através do Decálogo. Cumprindo-o, o ca formulei teorias preconcebidas; ob- o futuro. Mas, para ser completa (por-
povo hebreu manteria a sua aliança servava atentamente, comparava, de- que o homem é unidade dialética alma/
com o Deus Único, fazendo-se me- duzia as conseqüências; dos efeitos corpo) deve inspirar-se no estudo da
recedor da terra prometida, ou seja, procurava remontar às causas, pela vida sob suas duas formas alternantes,
da felicidade aqui mesmo no mundo. dedução, pelo encadeamento lógico espiritual e material, em sua plenitu-
A segunda síntese, ou 2ª Reve- dos fatos, não admitindo como válida de, em sua evolução ascendente para
lação, tem os seus princípios essenci- uma explicação, senão quando ela os cimos da natureza e do pensamen-
ais claramente enunciados nos Evan- podia resolver todas as dificuldades to.
gelhos. É a paternidade Universal de da questão. Foi assim que sempre Os preceptores da Humanidade
Deus e, sob ela, desenvolve-se a fra- procedi em meus trabalhos ante- têm, pois, um dever imediato a cum-
ternidade humana com deveres e di- riores....”. prir. É o de repor o Espiritualismo na
reitos recíprocos; é a vida imortal a O Espiritismo é uma síntese, tam- base da educação, trabalhando para
todos franqueada e que a cada um bém, porque no desenvolvimento de refazer o homem interior e a saúde
permite em si próprio realizar “o rei- suas idéias apresenta três períodos moral. É necessário despertar a alma
no de Deus”, isto é, a perfeição atra- que correspondem às fases sucessi- adormecida por uma retórica funes-
vés do caminho da Cruz - renunciar vas do processo de conhecimento. O ta, mostrar-lhe seus poderes ocultos,
ao “eu” para servir ao próximo. primeiro é o da curiosidade ou da prá- obrigá-la a ter consciência de si mes-
A terceira síntese, ou 3ª Revela- tica (da observação e da experimen- ma, a realizar seus gloriosos destinos.
22 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
A tarefa a cumprir é grande. A
educação do homem deve ser intei- Ao lado das instituições que visam à
ramente refeita. E essa educação,
nem a Universidade, nem a Igreja, es- especialização profissional e científica,
tão em condições de a fornecer, pois na atualidade, encontramos no
que já não possuem as sínteses ne-
cessárias para esclarecerem a mar- templo espírita a escola da alma,
cha das novas gerações. Uma só dou-
trina pode oferecer essa síntese, ensinando a viver
a do Espiritismo.
Simultaneamente, ciência expe-
que abria o serviço com a oração. De- gem vale mais que mil palavras, por
rimental, filosofia e moral, o Espiritis-
pois da leitura, fazia uma exposição exemplo, o ato de lavar os pés dos
mo traz uma concepção geral do mun-
sobre ela, ou o leitor ou qualquer ou- discípulos na última ceia.
do e da vida, baseada na razão e no
tra pessoa presente. Os apóstolos, escolhidos por Je-
estudo dos fatos e das causas, con-
Jesus, seguindo a tradição dos sus para lhe continuarem a missão, er-
cepção mais vasta, mais esclarecida,
profetas Hebreus, ensinava ao povo gueram os Centros de Cultura Evan-
mais completa do que aquelas que a
diretamente, tanto nas praças quanto gélica - as Casas do Caminho. Distri-
precederam.
nos recintos familiares. E utilizava buíram as tarefas: servidores para os
para isso diversos métodos: os discur- serviços assistenciais aos necessita-
2-Afirmativa:
sos, sendo que o mais famoso deles é dos, servidores para os serviços de
“Levantam-se educandários em
o Sermão da Montanha, que podemos “imposição das mãos” em benefício
toda a Terra.
considerar como o conteúdo progra- do doente, servidores para os servi-
Estabelecimentos para a instru-
mático da 2ª Revelação; as parábo- ços administrativos, servidores da e-
ção primária, Universidades para
las, por meio das quais as verdades vangelização.
o ensino superior. Ao lado, porém,
morais se ilustram pela analogia com A divisão de trabalho nos núcle-
das instituições que visam à espe-
fatos comuns da vida; os atos que ti- os primitivos do Cristianismo visava
cialização profissional e científica,
nham algum significado, pois uma ima- sobretudo a dar prioridade à evange-
na atualidade, encontramos no
templo Espírita a escola da alma,
ensinando a viver.”
(Emmanuel)

Justificativa:
A escola de Profetas com sede
em Guilgal foi o centro de orientação
espiritual do povo Hebreu durante tre-
zentos anos.
Os profetas, verdadeiros educa-
dores, desenvolveram a revelação de
Moisés (a 1ª síntese) procurando en-
sinar o povo sobre Deus, a Sua natu-
reza e caráter, como adorá-Lo, e, tam-
bém, como proceder com o próximo.
Enquanto durou o cativeiro em
Babilônia, era impossível assistir o
culto no templo de Jerusalém, e por
isso foram-se erguendo sinagogas em
diversas partes, dentro e fora da
Judéia. Na sinagoga não se ofereci-
am os sacrifícios, liam-se as Escritu-
ras e fazia-se a oração.
A leitura da Lei fazia-se por di-
versos assistentes. Cada um dos quais
lia um parágrafo, alternadamente.
Seguia-se uma lição dos profe-
tas que era lida pela mesma pessoa Moisés e os Dez Mandamentos

A REENCARNAÇÃO - Nº 427 23
liturgias.
A divisão de trabalho nos núcleos primitivos • Haveria uma diretoria respon-
do Cristianismo visava sobretudo a sável pela administração da Socieda-
de.
dar prioridade à evangelização como • As reuniões seriam experimen-
atividade educativa iluminadora tais e particulares, reservadas apenas
aos sócios efetivos.
• Haveria reuniões gerais, às
quais podiam comparecer pessoas in-
teressadas no estudo do Espiritismo,
desde que convidadas por um sócio
efetivo.
As 3 Revelações ou Sínteses no
curso da história humana determina-
ram:
a)Novas idéias sobre o mundo e
o homem;
b)A organização de instituições
especializadas na educação das no-
vas gerações com base nessas novas
idéias;
c)A formação de pessoas aptas
na tarefa da educação.
Assim é que tivemos no passa-
do, a Escola dos Profetas, as Sinago-
gas e as Casas do Caminho como Ins-
tituições de Educação, conseqüente-
mente, e os profetas e apóstolos como
educadores. Nos dias de hoje quando
nos defrontamos com o materialismo
de um lado e, do outro, com o misti-
cismo - ambos sem solução para o
Jesus deu continuidade à pedagogia profética, numa didática que
problema moral da Humanidade - te-
enfatizava as ações ,como fez no episódio do lava-pés, na última ceia, mos, no Espiritismo, a resposta para
em que exemplificou a humildade. (Gravura reproduzida de um livro do a formação de novo Homem - o Ho-
século XI.)
mem Ético do amanhã. É evidente
lização como atividade educativa de de uma melhor acomodação, a Soci- que, neste momento, a Instituição Es-
iluminação do espírito. edade, já legalmente constituída, a par- pírita deve posicionar-se como uma
Após quase um ano da publica- tir de 1º de abril de 1858 passou a fun- Unidade Educacional, ou seja, “A Es-
ção d‘O Livro dos Espíritos, obra bá- cionar no Palais Royal, galeria de cola da Alma, ensinando a viver”, pos-
sica da 3ª Revelação, foi fundada a Valois, tendo por objeto o estudo dos sibilitando ao homem a sua emanci-
Sociedade Parisiense de Estudos Es- fenômenos relativos às manifestações pação íntima diante da Vida.
píritas. Allan Kardec, seu fundador, espíritas e tendo por finalidade a apli-
assim explica a constituição da primei- cação desses estudos às ciências
ra Sociedade Espírita do mundo. “Ha- morais.
via cerca de seis meses, eu realizava, Kardec, para assegurar o cará-
em minha casa, à rua dos Mártires, ter de seriedade da Sociedade, ado-
uma reunião com alguns adeptos, às tou alguns princípios. Livros Consultados:
terças-feiras.(...) Conquanto o local • Admissão só de pessoas que KARDEC, Allan. A Gênese.
não comportasse mais de 15 ou 20 pes- simpatizassem com os princípios e o _____ O Evangelho Segundo o Espiritis-
soas, até 30 lá se juntavam às vezes. objetivo dos trabalhos da Sociedade. mo.
Apresentavam grande interesse tais • Tudo nas reuniões espíritas de- _____ O Livro dos Espíritos.
reuniões, pelo caráter sério de que se veria se passar religiosamente, isto é, _____ O que é o Espiritismo.
revestiam e pelas questões que ali se com gravidade, respeito e recolhimen- _____ Obras Póstumas.
DÉNIS, Leon. O Problema do Ser, do Des-
tratavam.(...)” Obtida a autorização to, ficando proibido o emprego de apa-
tino e da Dor.
legal, e para atender a necessidade ratos exteriores do culto ou quaisquer PIRES, Herculano. O Espírito e o Tempo.
24 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
Uma introdução à
proposta pedagógica de Jesus,
seus princípios norteadores e práticas de ensino
Sandra Borba Pereira*

Sermão da Montanha, Henrik Olrik *Pedagoga e Filósofa

A REENCARNAÇÃO - Nº 427 25
“A obra messiânica é obra de Embora sem registro escrito da pagã e vagamente desvendada pela
educação”(Vinicius) parte de seu fundador, o Cristianis- filosofia grega, que se veio a encon-
A afirmativa acima nos apresen- mo tem plenamente identificada, no trar uma nova base de vida e uma
ta o principal caráter do Evangelho: corpo de suas idéias, uma proposta nova solução do problema funda-
a ação transformadora que ele deve pedagógica. Renomados estudiosos mental da educação e da vida mo-
operar através da educação voltada da História da Educação, tais como ral.”
para a formação do homem de bem. F.LARROYO, R. HUBERT, Mas é em F.Larroyo5 que en-
Por essa razão mesma, o único título L.LUZURIAGA, MESSER, contramos a mais significativa visão
esse legitimado por todo um conjunto P.MONROE, H.MARROU, acerca da contribuição pedagógica
de práticas pedagógicas por Ele uti- BONATELLI, L.RIBOULET, de Jesus:
lizadas. R.GAL, dentre outros, afirmam a “Jesus é o modelo perfeito do
É que Jesus viu na educação existência de toda uma dimensão mestre cristão. Clemente de
moral de cada e de todo homem o “pedagógica” no dizer e agir de Je- Alexandria denominou-o Pedagogo
caminho da redenção humana, o ro- sus junto aos discípulos e à multidão da Humanidade, pois considerou que
teiro de libertação dos vícios de di- que sempre O cercava. deu, por seu exemplo e seu ensino,
versa ordem, a rota segura para se GAL2 por exemplo, lamenta: os princípios eternos da educação e
alcançar a vivência da Lei Divina em “O cristianismo alterou menos conduta humanas.”
toda sua plenitude. Toda obra crística do que se poderia pensar as formas Que princípios norteadores de
foi para esclarecer e demonstrar a da educação antiga, se considerar- uma prática pedagógica podemos
força da educação. mos as novas convicções de que ele identificar no cristianismo primitivo?
era portador. “Sem dúvida, com suas
”Essa obra, sendo de redenção idéias de filiação divina de todos os Princípios norteadores
porque visa libertar o homem dos li- homens e, por conseguinte, de fra- a) A pessoa humana como o
ames que o prendem à animalidade, ternidade universal, ele deveria con- mais elevado dos investimentos di-
cujos vestígios, nele, são patentes, é tribuir para libertar pouco a pouco o vinos é a crença no valor do ser hu-
por isso mesmo, obra de Educação.” homem dos estreitos vínculos que o mano, qualquer que ele seja, que o
(Vinicius) prendiam aos grupos humanos da torna o ser por excelência, o ser ca-
paz de transformar-se, de construir
algo novo a partir de sua própria re-
Pedagogo da Humanidade, construção pessoal. Esse princípio
o Cristo nos trouxe os princípios conduz necessariamente o mestre
cristão a jamais desistir de seu tra-
eternos da educação com amor balho de semeadura, na convicção
que deve ter sobre as possibilidades
ilimitadas de transformação que a cri-
cidade, da nação ou da raça.” atura humana detém. Exemplos
Sendo obra de educação, o como o de Maria de Magdala, a
Cristianismo possui em sua origem - L.Riboulet3 assevera: atormentada; Zaqueu, o publicano
ainda que de forma primordialmente “O Evangelho encerra os gran- antipatizado e Paulo, o defensor in-
oral - uma proposta pedagógica que des princípios da psicologia huma- transigente da lei antiga, devem ser
repassa toda a prática do Cristo. A na; contém lições sobre a natureza lembrados pois foram igualmente
principal ocupação de Jesus, nos da criança, seus deveres, a autori- identificados pelo Senhor como a
comprovam os dados constantes do dade dos mestres, etc. Traz certos
Evangelho1, foi o exercício pedagó- elementos que têm exercido grande 1 - Dados constantes da obra A PEDAGOGA
DE JESUS, de J.M.Price, 4ª ed., RJ, JUERP,
gico: influência na educação...” 1983.
Jesus ensinando 45 vezes 2 - Roger Gal, HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO,
Martins Fontes, SP, 1989, p.39
Jesus pregando 11 vezes P.Monroe4 enfatiza a grande 3 - L.Riboulet, HISTÓRIA DA PEDAGOGIA,
e ensinando contribuição pedagógico-moral do Ed. FTD, SP, vol.1, p.161.
4 - P.Monroe, HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO,
O uso do termo Cristianismo: 14ª Ed. Nacional, SP, 1979.
Discípulo para seus 243 vezes “Foi assim, na natureza moral do 5 - F.Larroyo, HISTÓRIA GERAL DA PEDA-
GOGIA, 2ª Ed., Mestre Jou, SP, 1974, vol.1,
seguidores de perto homem, apenas tocada pela religião p.252.

26 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
redimida, o rico de talentos e o vaso
escolhido, respectivamente, criaturas
de Deus à procura do melhor de si. O homem e sua situação
b) O crescimento pessoal. Esse cultural foi o ponto de partida
princípio, que decorre do primeiro,
diz respeito às possibilidades que do exercício docente do Messias
Jesus Identificou e estimulou nas pes-
soas, dando-lhes a oportunidade de ÊNCIA HUMANA COMO PON- da salvação, alerta os que o ouvem
encontrar seus próprios valores de TOS DE PARTIDA PARA CO- para o que o coração sente, estimu-
crescimento, no rumo da perfeição. NHECIMENTO a grande preocu- la a decisão de Zaqueu, valoriza o
A natureza um tanto rude de Simão pação de Jesus quando do momento esforço de Pedro, destaca a fé do
Pedro, os interesses imediatistas de do ensino propriamente dito situa-se centurião romano, faz poesia com
Judas Iscariotes, a situação de pe- no que o homem-ouvinte é, na sua elementos da natureza, enfatiza a
cado da mulher adúltera, receberam experiência cultural, na sua “pronti- condição de espíritos imortais que
do Mestre o tratamento do jardinei- dão” para a aprendizagem, nas pos- somos, sempre vendo no homem a
ro capaz de podar as plantas das sibilidades pessoais e coletivas de síntese da Criação Divina.
imperfeições que apresentam, com transformação e crescimento. “Que f) RELAÇÃO TEORIA-PRÁ-
vistas à descoberta íntima da própria direi eu que é semelhante a essa ge- TICA, esse principio da pedagogia
beleza e possibilidades de frutificar. ração? “ é uma questão central da crística esta enunciado em diversas
Nesse princípio cabe ainda ressaltar prática comunicativa-pedagógica do oportunidades mas pode ser sinteti-
as noções de liberdade e responsa- Cristo. O mestre verdadeiro sabe zado de modo completo no critério
bilidade. À medida em que se escla- que muitas vezes terá que “descer” estabelecido por Jesus em relação à
rece, o indivíduo pode melhor para ajudar seus alunos a crescerem aprendizagem de seus ensinos “Nis-
discernir e escolher os atos de sua e ascenderem. Levar em considera- to todos reconhecerão que sois meus
vida com mais largueza de vistas, o ção as condições psico-culturais do discípulos: Se vos amardes uns aos
que lhe confere, conseqüentemente, aluno é das mais graves responsabi- outros.” (Jo. 13:35)
responsabilidade pela escolha feita e lidades que o educador deve ter para g) SENTIDO IMANENTE E
seus efeitos. Quem quer que se apro- direcionar seu trabalho ao alcance TRANSCENDENTE DA EXPE-
ximasse do Senhor recebia o incen- dos objetivos desejados. Compro- RIÊNCIA HUMANA no celebre
tivo ao crescimento espiritual. vam esse principio as incontáveis si- diálogo com os discípulos em torno
c) Valorização do contato pes- tuações de aprendizagem que Jesus da salvação (o grande julgamento),
soal. A força do ensino do Cristo si- aproveitou e criou no dia a dia, como Jesus se refere ao valor imanente e
tua-se na exemplificação. Longe da ilustram os casos do tributo a César, transcendente das ações humanas
“cátedra” que caracteriza tantos do óbolo da viúva, da cura em dia afirmando que todos os nossos atos
“doutos”, Jesus é o mestre que con- de sábado, do não lavar as mãos do cotidiano são igualmente
vive, que permuta, que participa do antes das refeições, nas imagens uti- contabilizados perante a Justiça Di-
cotidiano de seus aprendizes, que lizadas como o grão de mostarda, os vina: “Em verdade vos afirmo que
atende com desvelo à multidão, que lírios do campo, etc. sempre que o fizestes a um destes
dialoga com especial atenção com os e) VISÃO INTEGRAL DO meus pequeninos irmãos, a mim o
que o procuram em particular HOMEM, sendo o homem e sua si- fizestes.” (Mt..25:40). A construção
(Nicodemus, o Moço Rico, por tuação cultural o ponto de partida do da felicidade na vida eterna, pois, ini-
exemplo) e que demonstra uma pre- exercício docente do Messias, im- cia-se na construção do reino de
ocupação acentuada para com a porta ressaltar que com Ele ganha Deus na vida terrena, através do
aprendizagem de seus discípulos, o corpo a visão integral da perso- comprimento da lei de amor, justiça
que comprovam os relatos evangéli- nalidade humana. A ação educacio- e caridade “Se queres, porém, en-
cos de situações de convivência nas nal do Senhor não se dá só no nível trar na vida, guarda os mandamen-
mais variadas formas (nas bodas, em do intelecto do aprendiz mas atinge tos” (Mt. 19: 17)
jantares, na visita ao Templo, nas a consciência como um todo,
conversas na casa de Simão Pedro, alcançando sua dimensão bio-psico- Fim e objetivos gerais
no barco, só para citar algumas). social e espiritual. Instiga o doutor Partindo dos princípios acima,
d) O HOMEM E A EXPERI- da lei a raciocinar sobre o sentido já podemos identificar qual o fim úl-

A REENCARNAÇÃO - Nº 427 27
lei divina ou natural, o que equivale a
dizer: o alcance da felicidade que
todo ser humano busca.
O grande problema para nós
criaturas encarnadas, ainda tão limi-
tadas em nossas condições espiritu-
ais, é justamente atingir a esses ob-
jetivos de longo alcance que muitas
vezes se nos apresentam por demais
distantes, fora até de nossas possi-
bilidades. Ciente dessa nossa con-
dição, Jesus nos apontou e demons-
trou objetivos mais específicos, mais
próximos ao campo da nossa expe-
riência cotidiana, aproveitando todos
os instantes possíveis para torná-los
“visíveis”, como uma espécie de ro-
teiros” para se alcançar os objetivos
gerais. Poderíamos até chamá-los de
objetivos operacionais tal o seu grau
de especificação, como destacamos
abaixo:
“...todo aquele que se irar con-
tra seu irmão será no juízo...”
(Mt.5:22)
“Seja, porém, a tua palavra: Sim,
sim; Não, não...” (Mt.5:44)
O Mestre comentou, embora veladamente, o princípio da reencarnação no diálogo com o mestre
Nicodemos ("Jesus e Nicodemos", Jacob Jordaens)
Conteúdo
Não nos será possível, nesse es-
timo da educação para Jesus que tão com os discípulos sobre a volta de paço, aprofundar a questão do con-
bem o enunciou mo Sermão do Elias como João Batista (Mt.17:12- teúdo da revelação crística. Neces-
Monte: 13). sário, porém, se torna, situar as gran-
“Sede, pois, vós outros, perfei- Qual deverá ser portanto, a es- des linhas do Seu pensamento
tos como perfeito é o vosso pai sência dessa perfectibilidade? A que revelador que o caracteriza como um
celestial” (Mt.5:48) diria respeito? É o próprio Mestre grande revolucionário para as auto-
Perfectibilidade, crescimento, quem estabelecerá os dois grandes ridades de seu tempo e o maior re-
desenvolvimento, evolução, aprimo- objetivos gerais que devem canali- formista sócio-moral que o mundo
ramento, transformação para o bem, zar nossos esforços para alcançar a conheceu, pela força de Sua palavra
harmonia com as leis divinas, eis o perfeição a que estamos destinados, alicerçada no Seu Exemplo.
fim a que toda educação verdadei- assinalados nas colocações abaixo: A nova visão de Deus e, conse-
ramente inspirada pelos postulados “Conhecereis a Verdade e ela qüentemente, do culto religioso da
cristãos deve buscar. vos libertará.” Jesus (jo. 8:32) fraternidade divina;
Seria necessário no entanto que “Amai-vos uns aos outros como - A visão de Deus e, conse-
o Espiritismo viesse a nos esclarecer vos tenho amado.” Jesus (Jo.14:34) qüentemente, do culto religioso, da
o mecanismo desse processo atra- fraternidade com base na paternida-
vés da lei da reencarnação a que Je- Razão e sentimento, inteligência de divina;
sus também se reportou, ainda que e emoção, sabedoria e amor, eis os - O esclarecimento em torno do
veladamente, no célebre diálogo que grandes objetivos a colimar na ex- real significado da imortalidade da
travou com Nicodemos (Jo.3:1-15) periência terrestre com vistas a al- alma até então pouco compreendi-
e de modo mais direto na conversa cançar a compreensão e vivência da da pelos judeus:

28 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
- A conceituação “revolucioná- 02. TODA APRENDIZAGEM álogo de Jesus com o Moço Rico
ria” em torno das virtudes sócio- SE DA No TEMPO E É CUMU- em Lucas 18:18-23.
morais: paciência e perdão ao invés LATIVA > “Primeiro a erva, depois
de vingança; humildade ao contrário a espiga e por último o grão cheio na 08. TODA APRENDIZAGEM
do orgulho; a abnegação no lugar da espiga (Mc. 4.28) NECESSARIAMENTE POSSUI
exploração; a indulgência ao invés do 3. 0 PROCESSO ENSINO- MOMENTOS DE AVALIAÇÃO >
ódio, dentre outras; APRENDIZAGEM TEM COMO “Aquele dentre vós que estiver sem
- O redimensionamento do va- FONTE O INDIVÍDUO E SUA pecado, atire a primeira pedra.”
lor da criança e da mulher; SITUAÇÃO HISTÓRICO-CUL- (Jo.8:7)
- A valorização da pessoa como TURAL, “ A que assemelharemos o 9. O ERRO É UMA PARTE
criatura divina independente de sua reino de Deus? Ou com que pará- DO PROCESSO DE APRENDI-
condição de raça, credo ou posição bola o apresentaremos? (Mc.4:30) ZAGEM E DEVE SER TRANS-
social; 4. A APRENDIZAGEM FORMADO EM ESTÍMULO DE
- A inversão da pirâmide social: DEVE SE BASEAR NA DESCO- CRESCIMENTO > De Jesus para
os doentes e pobres é que são bem BERTA PESSOAL, CONCRETA, a mulher adúltera. “Vai e não tornes
aventurados; A PARTIR DA REFLEXÃO EM a pecar” (Jo 8: 11) - De Jesus para
- O reino de Deus deve ser PROFUNDIDADE “Quem (per- o paralítico: “Olha que já estás cura-
construído na terra a partir da ação gunta Jesus ao doutor da lei, narran- do; não peques mais para que não
solidária entre os homens. do a parábola do Bom Samaritano) te suceda coisa pior.” (Jo 5:14)
Esses e outros conteúdos, foi o próximo daquele que caiu nas 10. O AMBIENTE DE CON-
depreende-se, causaram e causam mãos dos salteadores? “ (Lc.10:36). FIANÇA E RESPEITO É FUN-
até hoje, espanto para muitos. A Ao ouvir a resposta conclui o Mes- DAMENTAL PARA A APRENDI-
mensagem do Evangelho permane-
ce ainda esquecida quando não de- A pedagogia crística é
turpada pelos interesses egoísticos
que nos mantêm aprisionados nos atualíssima, de acordo com
equívocos diante da Lei Divina, re- os avanços da psicologia
quisitando mais esforços de apren-
dizagem de todos nós. cognitiva e da aprendizagem
Princípios de aprendizagem tre: “Vai e procede tu de igual modo ZAGEM > Provam as inúmeras si-
Enquanto Mestre por excelên- “ (Lc.10:37) tuações em que os discípulos per-
cia, Jesus adotou uma postura por 05. A APRENDIZAGEM SE guntam, debatem, questionam as
demais inovadora no que diz respei- EVIDENCIA NA VIVÊNCIA, próprias palavras de Jesus. Leia-se,
to à aprendizagem e aos métodos e NA DEMONSTRAÇÃO, NO para ilustrar, o que consta de
procedimentos de ensino que possi- COMPORTAMENTO QUE DE- Mt.13:10, Mt.13:36. Mt 15:2
bilitam a construção dela. Afastou- NOTA A TRANSFORMAÇÃO
se da verbosidade, do formalismo, INTERIOR >” Porquanto cada ár- 11 A APRENDIZAGEM
da memorização, da lição “ex vore é conhecida pelo seu próprio VERDADEIRA CONDUZ O DIS-
cathedra”, demonstrando sua fruto.” (Lc.6:44) CÍPULO À LIBERDADE E À AU-
preocupação com a assimilação ati- 6. TODA APRENDIZAGEM TONOMIA > “Conhecereis a ver-
va do conteúdo, com uma aprendi- SIGNIFICATIVA CONDUZ 0 dade e ela vos libertará.” (Jo.8:32)
zagem verdadeiramente significativa. HOMEM À HARMONIA CON-
Eis abaixo alguns desses princípios, SIGO PRÓPRIO, COM O PRÓ- 12. A COERÊNCIA E O
que pudemos identificar nos ditos do XIMO E COM DEUS > “Quem MODO DE SER DO MESTRE
Senhor. pratica a verdade aproxima-se da SÃO IGUALMENTE ELEMEN-
luz...” (Jo.3:21) TOS FAVORECEDORES DA
01. A APRENDIZAGEM 7. É NO PRÓPRIO APREN- APRENDIZAGEM > “As minhas
DEVE ALICERÇAR-SE NO VA- DIZ QUE ENCONTRAMOS O ovelhas ouvem a minha voz: eu as co-
LOR DA PESSOA HUMANA > “ FEEDBACK SOBRE SUA nheço e elas me seguem” (Jo. 10:27)
Vos sois a luz do mundo” (MT.5:14) APRENDIZAGEM > Leia-se o di- 13 0 MESTRE E UM APREN-

A REENCARNAÇÃO - Nº 427 29
DIZ COMPLETO E O APRENDIZ
Técnicas Exemplos na prática crística
É UM MESTRE EM POTENCIAL Preleções Sermões. Ex. Do Monte (Mt. 5)
> “O discípulo não está acima de seu
Explicações No caso da parábola do semeador (Mt. 13:10-23)
mestre; todo aquele, porém, que for
Narrativas As incontáveis parábolas.Ex.: Do joio (Mt. 13:24-30)
bem instruido será como o seu mes-
tre.” (Lc.6:40) Ilustração Olhai os lírios do campo... (Lc. 12:27)
Conversação Ex.: Diálogo de Jesus com a mulher samaritana (Jo. 4: 6-26)
didática
14 TODA APRENDIZAGEM
SIGNIFICATIVA É AQUISIÇÃO Observação No caso do óbolo da viúva (Lc. 21:1-4)
PARA O ESPÍRITO IMORTAL > Perguntas “Que é que está escrito na lei? Como interpretas” (Lc. 10:26)
“Porque o Filho do homem há de vir Debate Sobre quem é ele, Jesus: “Que diz o povo ser o filho do homem?”
na glória de seu Pai, com os seus (Mt. 16:13)
anjos, e então retribuirá a cada um Exemplificação “Mulher, ninguém te condenou? Eu também não te condeno”.
conforme as suas obras.” (Mt.16:27) (Jo. 8:11)

Métodos e Procedimentos época, nos informando dos costu- identificamos a excelência espiritual
Com base nesses princípios de mes, modos de vida tão bem usados do Messias que, como ninguém até
aprendizagem, a prática pedagógica como recursos para seus ensinos. hoje, soube tão bem utilizar a capa-
crística flui com tal dinamismo que Exemplos disso encontramos nas cidade de expressão e comunicação
nos parece, hoje, atualíssima, em se suas falas em que se reporta, dentre a serviço da aprendizagem dos ou-
tratando especialmente das conquis- outras coisas aos odres e vinhos, o vintes.
tas mais recentes no campo da psi- hábito considerado sagrado de la- A linguagem de Jesus não é eru-
cologia cognitiva e da aprendizagem, var as mãos antes das refeições, o dita, nem cheia de simbolismos ina-
do desenvolvimento moral, etc. caso do sábado, a comemoração tingíveis. É cheia de lirismo e poesia,
Jesus preocupou-se com uma da páscoa judaica, o lava-pés, as de símbolos e imagens, mas também,
aprendizagem significativa e, por isso atividades econômicas (a pesca, o de objetividade, clareza e logicidade.
mesmo, buscou métodos de ensino cultivo da vinha, o investimento Destacamos na linguagem didá-
baseados na assimilação ativa dos dos talentos, etc.), as questões das tica do Senhor dois extraordinários
conteúdos que veio revelar, utilizan- tradições, as exigências da lei an- aspectos: o uso de contrastes e de
do-se, para isso, de inúmeras técni- tiga, dentre outras. expressões incisivas. No que se re-
cas dinamizadoras. No quadro des- São também as reálias, objetos fere ao primeiro aspecto observemos
ta página alguns exemplos. concretos, largamente utilizados pelo alguns dos inúmeros exemplos dos
Senhor: a moeda de César, o pão, relatos evangélicos e encontraremos
Os recursos didáticos os peixes, a figueira, a espada, o farto material para nossas reflexões:
utilizados por Jesus sal , a candeia, a ovelha, o Tem- • “Quem acha a sua vida,
Mais uma vez podemos identi- plo, a dracma, para citar alguns. perdê-la-á; quem, todavia, perder
ficar a atualidade da pedagogia de Outro valioso recurso de que a vida por minha causa, acha-la-
Jesus ao identificarmos toda Sua sa- Jesus lançou mão é o próprio apren- á”. (Mt. 10:39)
bedoria no uso dos recursos didáti- diz ou personagens da multidão como •”Pois ao que tem se lhe dará.
cos que estavam disseminados no seu revelam ensinos pronunciados em e, ao que não tem, até o que tem
ambiente de atuação. Ele próprio, torno das crianças, do moço rico, lhe será tirado”. (Mc. 4:25) “Pois
sem dúvida alguma, era o melhor re- dos irmãos João e Tiago, cuja mãe quem não é contra nós, é por
curso de ensino, o que demonstram solicitava privilégios, a mulher nós”. (Mc. 9:40)
os evangelistas ao afirmarem que o samaritana, o centurião que tinha • Porque aquele dentre vós
Senhor estava sempre a braços com fé, o cego Bartimeu, a mulher que for o menor de todos, esse é
as multidões que O buscavam hemorroíssa... que é o grande”. (Lc. 9:48)
sequiosas de Sua palavra e Sua ação • “Pois todo o que se exalta
curadora e libertadora. A linguagem didática do Cristo será humilhado; e o que se hu-
O que mais nos chama a aten- O próprio Jesus asseverou: “A milha será exaltado”. (Lc. 14:11)
ção nesse item é o fato de o Mestre boca fala do que o coração está • “Não ajunteis tesouros so-
ser um verdadeiro “repórter” de sua cheio” (Mt. 12:34). Mais uma vez bre a terra (...) mas ajuntai para

30 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
vós outros tesouros no céu ...” Maria de Magdala, de Zaqueu, dos a) Comprometida com a trans-
(Mt. 6:19-20) impulsos de Pedro, das disputas de formação - o reino de Deus deverá
privilégios por parte dos seus segui- ser construído entre os homens, com
As expressões incisivas, por sua dores de perto, Jesus os estimulava os homens e pelos homens, apesar
vez, possibilitavam de um lado a sín- a refletir usando os parâmetros da dos homens;
tese de fácil assimilação e, de outro, Boa Nova e seus objetivos para que, b) Baseada na participação de
a sensibilização do ouvinte. Recor- dessa forma, os aprendizes se vol- cada um - pois cada um é sol, é luz,
demos máximas como estas: tassem sobre si próprios, suas con- é sal, é herdeiro de Deus e, por essa
• “Porque onde está o teu dições e necessidades. A negação de razão, está “condenado” à perfeição
tesouro, aí estará também o teu Pedro, o encontro com Paulo na es- e à felicidade;
coração”. (Mt. 6:21) trada de Damasco são dois dos mo- c) Alicerçada na visão do ho-
• “Bem-aventurados os que mentos mais dramáticos das avalia- mem integral - aliando razão e emo-
choram, pois que serão consola- ções feitas pelo Mestre. ção a serviço da busca da perfeição;
dos”. (Mt. 5:4) Relação Mestre-Discípulo d) Dialógica- pois centrada na
• “Se alguém quer vir após mim, Jesus é o Mestre convicto de interrelação pessoas, na construção
negue a si mesmo, tome a sua sua tarefa educativa, de sua missão coletiva dos ideais de fraternidade;
cruz e siga-me”. (Lc. 9:23) libertadora. Posiciona-se frente aos e) Libertadora - pela grande fi-
• “Eu sou o caminho, a verdade discípulos como condutor, como nalidade de auxiliar os homens a
e a vida; ninguém vem ao Pai pastor, como porta. Porém, a base deflagrarem o grande vôo da des-
senão por mim”. (Jo. 14:6) de sua relação afetiva com os discí- coberta de sua condição de co-cri-
• “Não é o que entra pela boca pulos encontramos no sentimento de adores: Vós sois deuses (Jo. 10:34);
do homem que o macula mas o amizade, como revelam essas suas Relata o evangelista Marcos
que por ela sai”. (Mt. 15-11) palavras: • “Já não vos chamo ser- (1:22): “Maravilhavam-se da sua
vos, porque o servo não sabe o que doutrina, porque os ensinava como
A avaliação como instrumento faz o seu senhor; mas tenho-vos cha- quem tinha autoridade, e não como
de crescimento mado amigos, porque tudo quanto os escribas”.
Toda proposta pedagógica traz, ouvi de meu Pai vos tenho dado a Isso nos dá a segurança de afir-
em seu interior, uma visão do papel conhecer”. (Jo. 15:15) mar que Jesus é de fato o Mestre
da avaliação. Já vimos anteriormen- Igualmente significativa é a pre- dos Mestres, o modelo a ser medi-
te, no item sobre os princípios da ocupação do Cristo com a tado, estudado, sentido e sobretudo
aprendizagem, que Jesus situou a harmonização de todos em torno de praticado por todos aqueles que
necessidade da vivência, do testemu- um foco comum: Deus e o atendi- acreditam nas possibilidades da edu-
nho como critério de aprendizagem. mento à lei divina, como demonstra cação enquanto prática de libertação
Como modelo de educador, o no pedido que registramos a seguir e crescimento do homem.
Cristo usou a avaliação de modo na sua oração pelos discípulos: Tomara que esse rápido estudo
correto, sem se preocupar com • “(Rogo)... a fim de que todos possa despertar a curiosidade de
“classificações” ou “rótulos” para sejam um; e, como és Tu, ó Pai, em outros para cada vez mais encontrar-
atribuir aos seus aprendizes. Sua pos- mim e eu em Ti, também sejam eles mos na pedagogia de Jesus elemen-
tura no campo da avaliação remete em nós...” (Jo. 17:21) tos teórico-práticos capazes de nos
para dois ângulos: o diagnóstico e a À guisa de conclusão estimular no nosso trabalho de edu-
auto-avaliação como formas de au- Finalmente, podemos concluir cação dentro ou fora dos limites da
xiliar o discípulo a encontrar seu ro- que a ação pedagógica de Jesus Casa Espírita, na certeza de que fo-
teiro de libertação, seus “motivos” pode ser compreendida como uma mos, também nós, convidados a
interiores para crescer. Diante de proposta de educação: exercer nossa ação pedagógica no
cumprimento das palavras finais do
Senhor:
A linguagem de Jesus é cheia de
lirismo e poesia, mas também de “Ide e evangelizai a
todas as gentes...”
objetividade, clareza e logicidade

A REENCARNAÇÃO - Nº 427 31
A sexualidade, a rede comunicante
e a difícil arte de educar:
Alguns recortes
da pós-modernidade*
Gelson Luis Roberto **

*Do Livro
"Aquém e Além do Tempo, um
entendimento Psicológico e Espírita das
O mundo pós-moderno esvaziou o conteúdo afetivo das relações humanas, Etapas da Vida", Ed. Letras de Luz
criando uma sociedade de pessoas alienadas e solitárias ** Psicólogo

32 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
"O bem é tudo quanto írem como sujeitos. males.
Convido, então, o leitor a fazer Os jovens hoje se perdem em
estimula a vida,
um passeio por esse momento em que movimentos comportamentais basea-
produz para a vida, passamos, para entendermos a reali- dos em filosofias absurdas, extrava-
respeita e dignifica a vida. dade que vivemos. Farei uma rápida gantes, mais agressivas, mais primá-
O mal é toda ação mental, avaliação da sociedade atual como um rias, mais violentas. Formam-se os
todo e de sua dimensão psicológica e, guetos e o indivíduo identifica-se por
física ou moral que atinge após, as implicações desta no campo diversas lutas, formando pequenos
a vida perturbando-a, mais específico da sexualidade e da fragmentos massificados na luta su-
ferindo-a, matando." educação. E, finalmente, buscarei al- perficial e oca, sem um "se dar conta
Joanna de Angelis gumas alternativas construtivas para do porquê e para quê".
enfrentar e superar esses momentos Numa sociedade onde a noção
que, segundo alguns, é a própria ex- do sentido cada vez é menor, valori-
Introdução pressão do apocalipse. zando o, desempenho, o ato-show do
Quando analisamos temas des- Desenvolvimento super, do hiper perfeito sem substân-
sa ordem, temos que considerar duas Do ponto de vista social, vive- cia, desumaniza-se o indivíduo, entre-
dimensões, dinâmicas e interdepen- mos hoje a sociedade pós-moderna e gando-se ao pavor, gerando-o, ou in-
dentes: uma individual, que se cons- que, numa linguagem econômica, é diferente a ele. O ser humano se vê
trói através de uma árdua estrutura- chamada de sociedade pós-industri- perdido no meio de tanta informação.
ção dentre as fileiras reencarnatórias; al. Sem discernimento, ele, inseguro, agar-
e outra social, baseada na lei da soci- A sociedade pós-moderna tem ra-se a amontoar coisas e cuidar do
edade onde o indivíduo se expressa e início, simbolicamente, com a explo- ego deixando de lado o seu desenvol-
se constitui como realidade histórica, são da primeira bomba atômica em vimento integral. Com tudo isso, não
transformando e sendo transformado. Hiroshima. Caracteriza-se por uma é difícil entender a indiferença pela
Segundo Joanna de Ângelis falta de, identidade generalizada, por ordem, pelos valores éticos, pelo as-
(1991), o homem é um mamífero
biossocial, construído para experiên-
cias e iniciativas constantes, renova-
doras. E, no contexto em que vive- O indivíduo vive sem projetos,
mos, ainda nos digladiamos na faixa sem ideais, limitando-se à cultivar
do orgulho e do egoísmo.
Com o advento da revolução sua auto-imagem e a buscar a
industrial e, agora, pós-industrial, ocor-
reu uma transformação profunda na satisfação no aqui e agora
tarefa de ser pai e mãe. Condicio-
nadas pelas tradições culturais, ques-
tões antes funcionais para a educa- um vazio constante, pelo niilismo, pelo seio corporal.
ção como o medo e a desconsideração individualismo e pela valorização ex- Vivíamos antes numa época de
da criança como indivíduo que preci- trema da imagem sobre a realidade, hipocrisia, de uma falsa moral que
sa ser entendido, foram dando lugar a ou seja, época do hiper-real. Neste mascarava os erros através de tabus
uma nova forma de perceber a crian- sentido, a imagem sempre é melhor, e superstições, levando a fatores atu-
ça e, conseqüentemente, de educá-la. mais viva e importante do que o real. antes na desagregação da personali-
Mas as transformações sociais, Para Joanna de Ângelis, dade. A mudança de hábito possibili-
políticas e econômicas ocorridas não "chegamos a este ponto de delicada tou a mudança de algumas fobias mas
mudaram apenas a visão da infância. situação por causa do materialismo impôs outros padrões comporta-
Derrubaram inúmeras "verdades" e utilitarista que objetiva possuir, mentais de massificação, levando ao
trouxeram novos referenciais. Chamo dominar e gozar por algum momento. modismo, ao desequilíbrio de compor-
a atenção principalmente para a se- Esta é a meta a que " ele" se atira, tamentos extravagantes.
xualidade e a influência dos meios de desarvorado". Houve troca de conduta, mas
comunicação. Diante disso, temos sintoma e não renovação saudável na forma de
Este artigo pretende analisar o conflitos de ordem complexa que au- encarar-se a vida e de vivê-la.
atual contexto em que vivem milha- mentam cada vez mais a alienação e Diante disso não se tem muita
res de crianças e adolescentes. Seus a dissociação do ser humano. Temos, opção: ou se coloca numa postura
meios de interação, os valores que os daí, a rotina, a ansiedade, o medo e a competitiva, repressora, violenta, e
cercam e que tipo de estímulos e difi- solidão engendrando homens- aparên- agressiva que chega aos raios da per-
culdades enfrentam para se constitu- cia, a fobia social, o ódio entre outros versão, ou o homem busca mecanis-
A REENCARNAÇÃO - Nº 427 33
mos de proteção emocional que o le-
vam à acomodação, à agressão, por A sexualidade perdeu a sua
medo e busca da sobrevivência, pois substância: o afeto.
se encontra com o receio de ser con-
sumido, esmagado pela massa cres- Os encontros são fugazes, anônimos,
cente ou pelo desespero avassalador.
Perde-se o idealismo e o ho-
inconsistentes, descompromissados
mem se vê comprimido onde todos
fazem a mesma coisa, assumem iguais
composturas, passando de um com-
promisso para outro numa ansiedade mam o mundo num espetáculo. acrescentar à "era da ansiedade".
constante. Tem-se a preocupação de Há atualmente um princípio Estamos cada vez mais acometidos
parecer triunfador, de responder de esvaziador. O sujeito vai perdendo os por síndromes de pânico, doenças
forma semelhante aos demais, de ser referenciais da realidade, perdendo a autodestrutivas, nossos olhos estão
bem recebido e considerado, causan- própria substância de si mesmo. É o opacos e vazios, nossos corações com
do a desumanização do indivíduo, que que os filósofos chamam uma dor surda...
se torna um elemento complementar desreferencialização do sujeito. Esse Segundo Hillman (1995, p.
do agrupamento social. princípio desfaz regras, valores, faz 151): "Existe um império imenso, feio
O resultado é que o indivíduo se com que a realidade se degrade e que e maligno trabalhando dia e noite para
entrega a viver apenas o presente e o o indivíduo viva sem projetos, sem ide- nos conservar dessa forma. A diver-
prazer, ao consumo e ao individualismo. ais, a não ser cultivar sua auto-ima- são e a televisão maniacamente
As pessoas se encontram perdidas com- gem e buscar a satisfação no aqui e saturadas, excessivas, sonoras e for-
pletamente atropeladas pela "correria agora. tes, as informações da mídia, a bebi-
da vida", num lugar onde não há tempo O que vale são as vitrines, o da, o açúcar e o café, desenvolvimen-
para o encontro verdadeiro, para o en- culto ao corpo, o fantástico do mo- to e melhorias, consumismo, comprar
tendimento e para a paz. O indivíduo mento, o consumo de tudo, até do ou- comprar, comprar a indústria da saú-
acaba perdendo a noção do real e do tro. A "realidade" da TV é mais fácil, de construindo músculo e não sensi-
limite de si mesmo e do mundo. mais viva, imagens onde, por exem- bilidade, a indústria médica no papel
Essa crise se estende tanto plo, os carros são mais ágeis e nobres de boticário, pílulas para dormir, pílu-
para os indivíduos como para todos e passeiam por estradas magníficas las excitantes, tranqüilizantes, lírio para
os setores e componentes da vida, com efeitos de cores e músicas espe- crianças. "
principalmente a vida urbana, que é a ciais, doces e comidas que enchem É nesse ambiente que vivemos
vida construída pelo homem. Os sin- os olhos, e aquele prazer de viver e educamos os nossos filhos. Uma
tomas são: fragmentação, hiperespe- maravilhoso da coca- cola. Agora sociedade decadente, onde o sexo e
cialização, depressão, inflação, perda perguntem-se: quando se consome um o afeto foram banalizados. O homem
de energia, jargões e violências. Isso desses produtos, conseguimos captu- se viu num leque muito amplo de op-
aparece também no mundo: nossos rar e sentir o que a imagem nos trou- ções e o resultado disso é a existên-
prédios são anoréxicos, nossos negó- xe? cia de pais e mães despreparados no
cios paranóicos e nossa tecnologia O que isso acarreta é um mis- papel de educar, perdidos na questão
maníaca. Como diz Hiliman (1993, p. to de fascínio e vazio, dando a falsa de quem são, que lugar e qual a fun-
150): impressão que se vive tudo aquilo que ção que ocupam na sociedade.
"Sujar o mundo com lixo, cons- aparece, mas que na realidade não A tendência é os pais desistirem des-
truir estruturas monstruosas, consu- existe. A vida acaba ficando mais di- se papel de educadores e/ou transfor-
mir e desperdiçar para distrair o tédio fícil do que é, por ela ser um choque marem-se em "escravos" dos própri-
não é apenas ilegal, imoral ou anti- com o paraíso e facilidades ofereci- os filhos, pelas necessidades criadas
social e doentio. É vergonhoso, ofen- das pela mídia. pelo universo do consumo, sem quali-
sivo para o mundo, nocivo para sua Isso adoece qualquer um, prin- dade nas relações.
alma." cipalmente se não temos uma susten- Não quero dizer que o momen-
Esse ambiente pós-moderno tação espiritual. Se perdemos a fé, se to é só de pessimismo e de confusão,
demonstra que estamos separados do não temos ideais, se vivemos uma vida é também um momento de liberdade,
mundo. E entre nós e o mundo estão superficial com uma imagem falsa que onde cada um pode assumir o que
os meios tecnológicos de comunica- nos tira do contato mais íntimo com a quer, sem esquecer que estamos im-
ção com toda sua mídia. Eles não nos vida, se perdemos a noção dos limi- plicados com tudo o que fazemos. E
informam sobre o mundo; eles refa- tes, o que pode nos acontecer? um momento de transformação, pro-
zem o mundo como eles querem, si- É o que a psicologia chama de funda e vital.
mulam uma vida para nós e transfor- "entorpecimento psíquico" que vem se Diante disso tudo, temos que
34 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
recuperar a noção de um todo inte-
grado e com vida, onde cada coisa,
cada elemento do universo ocupa um
lugar de importância própria e
intransferível. O que queremos mos-
trar é a necessidade de resgatar um
mundo com alma.
Vamos entender então o que
representa uma sexualidade armada
frente ao que estamos vivendo ou
vendo nossos filhos viverem.
A sexualidade saiu dos porões
escondidos, fruto da repressão, ga-
nhou espaço e agora vive uma indife-
rença completa de orientação. Os
pais ainda oscilam entre a repressão
que neurotiza e muitas vezes
hipersexualiza o indivíduo e a apatia
que delega ao mundo uma orientação,
levando a indiferenciação, superfici-
alidade, descaso e abuso.
Os adolescentes começam
cada vez mais cedo as suas experi-
ências sexuais. A sexualidade perdeu
sua substancialidade que é o afeto. Os
encontros são fugazes, sem consistên- Quando nos apaixonamos por
cia, fica-se com alguém e no outro dia alguém o nosso ser completo (corpo
não se sabe direito que rosto a pes-
soa tinha, muito menos quem ela é, o e espírito) está plenamente envolvido,
que faz, etc. São encontros "sem obri-
gações", voltados inteiramente para a
na busca de um todo integrado
sensação do momento. Isto gera uma
frustração interior muito grande, mes-
mo que em nível de superfície possa turas. Vejamos o sexo como qualida- tetores da vida e reconhecedores do
ter sido prazeroso, pois é um encon- de positiva ou passiva, emissora ou mundo. Eles devolvem o sabor, a cor,
tro sem consistência afetiva. receptora da alma... Substituamos as dando consistência à vida. São a pró-
Uma questão que se apresen- palavras "união sexual" por "união de pria vida renovando a todos.
ta a partir disso é a da genitalidade qualidades" e observaremos que toda Um dos sentimentos já há mui-
versus afetividade. O sexo tem sido a vida universal se baseia nesse divi- to esquecido é a vergonha. Ela foi
vivido de uma forma muito genital, no fenômeno..." confundida com culpa, medo ou difi-
apesar das revistas e conversas atu- Em matéria de envolvimento, culdade de se colocar e ficou como
ais colocarem a necessidade do pre- acabamos tão insensíveis que cada vez algo negativo de nossa personalida-
lúdio sexual com suas carícias e cari- mais precisamos de algo mais "quen- de. Mas a vergonha é um sentimento
nhos bem como de todo um te", estímulos e choques da pior espé- ecológico que nos une uns aos outros
envolvimento compreensivo. Redu- cie para eletrizar nossa sensibilidade. e a toda a natureza. As crianças per-
zimos a sexualidade esquecemos que Deixando nossa alma deram a vergonha e com isso perde-
ela é um todo. Quando nos envolve- anestesiada, ficamos separados do ram também a importância do outro.
mos com alguém, todo o nosso ser mundo, excluídos da vida. Queremos, Ficamos sem vergonha de mostrar
(corpo e espírito) está plenamente então, nos apossar com violência e nossa intimidade sexual, sem vergo-
envolvido, na busca de um todo inte- indiferença por ela. Ficamos com um nha de mostrar toda nossa agressão
grado. André Luiz (1994, p. 200), re- olhar autocentrado: é o egoísmo que e animalidade no trânsito, sem vergo-
fere que: faz do outro um objeto da nossa ne- nha de roubar ou de adotar compor-
"E necessário deslocar a con- cessidade. tamentos bizarros e ridículos.
cepção de sexo, abstendo-nos de O retorno a uma "sexualidade Termos vergonha é como se
situá-la tão-somente em determinados com alma" requer a primazia dos sen- disséssemos "eu me importo com o
órgãos do corpo transitório das cria- timentos, pois são vivificadores, pro- outro". Se jogamos lixo na rua,
A REENCARNAÇÃO - Nº 427 35
Honestos conosco mesmo e com nossos filhos, a nossa
educação sempre será mais adequada do que a da
TV ou do mundo pós-moderno
desconsideramos o próximo, então fi- ensejando a permuta de vibrações ele- Duas coisas merecem ser lem-
camos envergonhados porque impor- vadas. Com isso, a relação ganha bradas, para finalizar. Primeiro, que
ta o que eu faço e a pessoa em ques- muito mais em força, vigor, e, ao mes- independente das nossas limitações,
tão. É restituir a cada coisa sua im- mo tempo, leveza e candura. é importante assumir os nossos pa-
portância, agindo de acordo com a A hipótese de que o mundo está péis de pais. Se tivermos honestidade
mesma. vivo, representa uma reversão com- para conosco mesmos e para com
Assim, uma sexualidade pleta de valores, e o grande fator nossos filhos, a nossa educação sem-
almada dá muita importância para o revolucionador é o amor. O que pode pre será mais adequada do que a apre-
pormenor. Sentimos a necessidade de mexer com nossas profundezas e sentada pelas imagens na TV ou pelo
buscar o belo em cada situação: um como as profundezas da vida, do sexo, mundo pós-moderno. Segundo, o diá-
gesto, uma mão que toca a outra em do outro? Só o amor pode dar o senti- logo é a melhor metodologia que se
movimentos fraternos, encantamentos do e o significado que mantenham conhece para educar, depois do
de um perfume que evocam momen- viva a nossa alma. É ele que conce- exemplo. Se não temos a evolução
tos mágicos, mistérios no olhar, uma de vitalidade e um interesse em que necessária para fazer valer o que é
espera que torna mais especial e va- se apóiam todos os outros esforços. melhor, busquemos no diálogo o me-
lorizado um encontro... Só o amor pode nos salvar. lhor para o entendimento e a solução
Encontrar o poder das coisas Se Deus é a Inteligência Su- das situações apresentadas. Um diá-
comuns, aí está o segredo. É o pe- prema e o Criador de todas as coisas, logo interior, consigo mesmo, para o
queno, o comum, o detalhe, que po- então nós, que somos criados à Sua autoconhecimento e transformação do
dem revelar o poder invisível da bele- imagem e semelhança, temos como que deve ser mudado; e com o outro,
za. Deixamos a vida ficar muito "nor- essência a inteligência e a criativida- para que o encontro possa ser pro-
mal" e rotineira, tendendo a buscar nas de. Abdicar de relações baseadas no veitoso.
coisas grandiosas a felicidade. É que entendimento e na criatividade é abrir
não examinamos cuidadosamente a mão da nossa condição humana.
vida. Assim, não permitimos ver seu Não poderemos caminhar nes-
convite, seu sorriso, para a felicida- sa direção até termos feito mudanças
de. Plotino, numa passagem (IV.4.37), radicais de orientação. Faz-se neces-
coloca: sário reelaborar nossa noção de rea-
"Devemos admitir então, que lidade, que implica reelaborarmos nos- Bibliografia
cada coisa em particular tem um po- sa formação. Buscarmos o coração ÂNGELIS, Joanna de. O Homem
der sem razão... tem um tanto de do mundo, um mundo com alma. Um Integral. Psicografado por Divaldo
alma..." lugar onde o respeito possa estar pre- Pereira Franco. Salvador: Leal Edi-
Sabemos tudo da diferença sente. E respeito que vem do Iatim
entre os sexos, mas não sabemos ain- respectare, significa olhar de novo. tora, 1990.
da nos encontrar e buscar a Precisamos parar um pouquinho e
interioridade das coisas. Chegamos olhar de novo o outro, a situação que HILLMAN, James. Cidade &
com isso a outro elemento: a intimi- está ali, um segundo olhar, o olhar do Alma. São Paulo: Stúdio Nobel,
dade. coração. Para que possamos fazer de
O lugar da alma é o da reserva nossa vida um encontro de almas; de 1993.
e intimidade. Chega de excessivas nossa realidade, poesia.
exposições que tornam grosseiro e Bem, oferecemos algumas LUIZ, André. Missionários da Luz.
medíocre o sexo. Assim como um lu- questões que consideramos importan- Psicografado por Francisco C.
gar aconchegante, reservado, com te serem refletidas pelos pais e edu-
uma iluminação tênue onde os obje- cadores, a fim de que possamos en- Xavier. Rio de Janeiro: FEB, 1994
tos não estão bem delimitados, enche contrar alternativas para esta realida-
o nosso ser de imagens interiores, o de que vivemos. Resta cada um po- SANTOS, José Ferreira dos. O que
sexo deve ser compartilhado pelo ca- der se descobrir verdadeiramente, é Pós-Moderno. 13. ed. São Paulo:
sal num clima de encantamento, com- entendendo-se e ao outro, para bus-
panheirismo e mútuo respeito, car o melhor caminho e metodologia Brasiliense, 1994.
favorável a um mundo melhor.
36 A REENCARNAÇÃO - Nº 427
Contribuição
Filosófica do
Espiritismo ao
entendimento
da drogadição
João Paulo Lacerda*

* Médico e Jornalista

A REENCARNAÇÃO - Nº 427 37
Para somar forças na luta con-
tra a dependência química, trazemos
A fé na nossa capacidade
aqui algumas reflexões que não têm de mudar antecede a
a pretensão de esgotar a complexida-
de do tema. São apontamentos que mudança em si mesma
se restringem ao aspecto filosófico da sobre a dependência química é a de da realidade é capaz de nos inspirar
Doutrina, como subsídio à futura ela- que todos somos reencarnados. To- ainda outra conceituação filosófica
boração de uma proposta espírita ao dos, de alguma forma, nos ressenti- que suporta uma proposta espírita de
tratamento da drogadição. mos da limitação corporal, e busca- terapia à drogadição. É a idéia de que
Um primeiro conceito de grande mos, inconscientemente, recuperar a o nosso ser atual resulta de um imen-
importância é o que poderíamos re- liberdade da condição espiritual. Fa- so movimento de transformação, onde
sumir na frase: o prazer é dinâmico. ria parte da nossa psicologia básica a não somos simples herdeiros genéti-
É uma abordagem inovadora da te- fome de transcendência. Tal tese é cos mas protagonistas desta flecha do
mática das motivações humanas, defendida em O Evangelho Segundo tempo que vem dos reinos inferiores
oriunda da interpretação espírita, pois o Espiritismo, na mensagem A Me- da Natureza e se dirige ao desconhe-
a visão tradicional é a de um prazer lancolia, item 25 do quinto capítulo, cido, ao estado angélico. Tal conheci-
estático. Algo assim como a afirma- onde se afirma que o fato de viver- mento tem uma poderosa conseqüên-
ção daquele alcoolista de trinta e pou- mos simultaneamente a dimensão fí- cia pedagógica, pois rompe essa in-
cos anos: “Se eu parar de beber ago- sica e a espiritual expressa um confli- tuição de nós mesmos como seres
ra e viver até os setenta - serão qua- to, uma contradição, que inevitavel- cristalizados em hábitos ou vícios
se quarenta anos sem beber!” Lamen- mente provocará algum momento de intransponíveis. Estabelece condições
tava-se porque sentia a necessidade humor disfórico ou depressivo, como para um tipo especial de fé, insepará-
de parar de beber, pressionado pelos inescapável componente da experiên- vel do esforço terapêutico, que não
efeitos negativos que já se faziam pre- cia humana. dispensa a auto-educação. A fé em
sentes, mas ao mesmo tempo seu ho- Diante desse mesmo afeto me- nossa capacidade de mudar, que an-
rizonte de gratificação era tão limita- lancólico, as pessoas responderiam de tecede a mudança em si mesma.
do que se sentia empobrecido na pers- forma diferente. As mais maduras, Um outro estímulo a essa refor-
pectiva da abstinência. atingindo estados que poderíamos de- ma íntima é o princípio espírita da éti-
Esta pessoa simplesmente repro- nominar transcendentes. É o êxtase ca do autocuidado. Nele, restabele-
duzia uma cristalizada noção cultural artístico que cria novos mundos, o ce-se uma vinculação de responsabi-
do prazer como gozo dos sentidos ou místico que põe em contato com ou- lidade da criatura com o seu Criador,
como exercício e exibição de poder, tras realidades, ou ainda essa intensa em que o homem deve responder pelo
com limites biológicos e sociais bem compensação vibratória com esferas uso do seu corpo e do seu tempo, ten-
demarcados. Já a visão espírita do mais elevadas na prática da caridade do em vista o projeto inteligente da
prazer aponta para o ilimitado, a evo- cristã. Os mais imaturos, incapazes vida, em relação ao qual deve se po-
lução humana em expansão infinita. por enquanto da mesma flexibilidade sicionar como agonista ou co-criador.
O prazer, na visão de O Livro dos criativa, diante daquele tipo universal Aquele que violenta o corpo forçan-
Espíritos, é uma espécie de salário que de depressão, simplesmente se ator- do prazeres descontextualizados das
a Natureza garante para estimular o doariam, buscando intoxicar-se não só leis naturais, ao preço de um inútil e
cumprimento de determinadas tare- com drogas mas com qualquer ativi- imenso gasto de energia, gera danos
fas. Como as tarefas mudam, mudam dade que produza o mesmo efeito orgânicos e psicológicos, rompendo
os prazeres, adaptados a novos está- alucinante. Haveria uma espécie de com o processo educativo da existên-
gios de avanço. A progressividade identidade, do ponto de vista cia e antecipando o desencarne.
essencial do ser implica na idéia de motivacional, entre a atitude de trans- Deve, portanto, esperar por conseqü-
um prazer evolutivo, dinâmico. Ou, cender e a de alienar-se, ambas ex- ências dolorosas de natureza cármica,
falando a linguagem do drogadito: não tremos de um mesmo espectro de res- a partir dos registros desarmônicos
se trata de, com a abstinência, supri- posta à limitação do reencarne. O re- impressos no perispírito e da reação
mir a dimensão prazerosa das nossas conhecimento disto teria a conseqü- ecológica do determinismo evolutivo
vidas, mas de substituir o precário pra- ência prática de reforçar a proposta universal. A visão espírita posiciona-
zer da drogadição, tão inapelavelmente substitutiva já mencionada. E do ponto se radicalmente em favor da vida
contaminado pela dor, aprendendo de vista dos familiares, facilitaria a iden- como um valor, contrapondo-se a essa
outras formas de gratificação, mais tificação, primeiro passo para compre- defesa que a pós-modernidade faz da
coerentes e estáveis - portanto mais ender, algo indispensável no apoio ao liberdade, mesmo que a escolha seja
satisfatórias. doente que busque recuperação. a morte.
Outra idéia que nos parece inte- O princípio doutrinário da evolu-
ressante na construção de um saber ção espiritual como essência do ser e
38 A REENCARNAÇÃO - Nº 427