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Enquanto ela dormia

de Carol Pitzer

ORIENTAÇÃO DE LEITURA

Dora é a protagonista desse texto.


Ela passa por vários lugares
e fala com várias pessoas durante a peça
Tudo que ela expressa de maneira oral
é indicado à esquerda da folha
enquanto seus pensamentos, memórias
e reflexões internas estão inscritos
à direita da página e em itálico

ALÉM DAS FALAS E PENSAMENTOS DA PERSONAGEM


TAMBÉM TEMOS ACESSO A ALGUNS DOCUMENTOS EXTERNOS
QUE A MESMA MANIPULA, LÊ OU COMENTA NO DECORRER DA ESTÓRIA
ESTES APARECEM EM CAIXA ALTA E COM FONTE UM POUCO MENOR.
I. ROTINA

“CONVÉM NÃO ESQUECER AINDA QUE SOMOS MULHERES


E, COMO TAIS, NÃO PODEMOS LUTAR CONTRA OS HOMENS
E, TAMBÉM, QUE ESTAMOS SUBMETIDAS A OUTROS, MAIS PODEROSOS,
E QUE NOS É FORÇOSO OBEDECER A SUAS ORDENS
POR MAIS DOLOROSAS QUE NOS SEJAM”

É um trecho de Antígona
Tava na minha mesa
Alguma aluna deixou.
Eu comentei a peça numa aula sobre gêneros literários
Falamos sobre a tragédia grega e eu citei
Édipo, Medeia, Antígona
Trouxe alguns trechos das peças
Apontei os aspectos moralizantes das tragédias gregas
Comentamos alguns aspectos de linguagem em sala
Mas não era leitura obrigatória
Nada muito aprofundado
Não achei que ninguém leria o texto na íntegra

Enfim, avisei pra senhora me ajudar a ficar de olho


Foi na 1103
Essas meninas tem entre 15 e 18 anos
Então muita coisa pode estar acontecendo
É bom falar com as outras professoras também
Observar algum comportamento diferente em sala de aula
A gente nem sabe se é uma situação aqui dentro ou lá fora
Algumas dessas meninas tem histórias de vida complicadas
Vivem em zona de risco
Família desestruturada
Algumas já trabalham pra ajudar a sustentar a família
E claramente a situação envolve homens e autoridade
Pode ser algum familiar, ou alguém do trabalho
Eu tenho minhas desconfianças
Conheço a letra delas
E a forma de abordagem também revela muito, não é?
Deixar um bilhete com uma citação na minha mesa...
Dá pra saber que é uma aluna que lê,
então eu posso checar na biblioteca quem pegou Antígona emprestado
Se ela não se identificou é porque tem medo de alguma coisa
Prefiro não apontar ninguém diretamente agora
Vou observá-las com cuidado nas próximas aulas
Me aproximar com calma
Averiguar os fatos
e fazer com que ela se sinta segura pra falar
Que tipo de risco essa menina tá correndo?
ou acha que está correndo?
II. GATILHO

Dora Bóitê.
Escreve Beu-Te: B. E. U. T. E.
É bonito, né? É alemão.
Só. Só tenho o nome do meu pai.
Olha, tá tudo aí na ficha.
Quer ver a identidade de novo?
Eu mostrei pra eles quando cheguei, mas se quiser...

Vim com ela sim. Não ia deixar a menina sozinha.


A gente veio na viatura depois da confusão.
Uma outra moça ficou também, mas como demorou muito, ela teve que ir embora.
A gente chegou aqui eram quatro e pouco.
Quando eram quase seis horas não dava mais pra ela esperar
Ela tinha que buscar a filha na escola.
A menina quis ir embora também. Quase desistiu.
Tava cansada, disse que não queria perder aula, que isso não ia dar em nada.
Eu insisti, disse que ela tinha que ficar, que era importante.
Que depois ela levava o B.O. e abonavam a falta.

Isso já é o depoimento?

Então, ela tava sentada do meu lado.


Dormindo.
A cabeça encostada na janela.
Eu tava lendo.
Ele entrou e parou do meu lado.
Roçou em mim.
O ônibus não 'tava tão cheio.
Ele não precisava 'tá tão grudado em mim.
Eu olhei pra cara dele.
Ele fingiu que não viu e continuou se roçando no meu braço.
Eu tirei o braço.
Guardei o livro.
Me levantei.
Ele sentou no meu lugar.
Eu fui mais pra frente do ônibus, mas fiquei de olho nele.
Ele colocou a mochila no colo.
Ele escorregou uma das mãos por baixo da mochila.
Ele encostou um dedo na coxa dela.
Ela continuava dormindo.
Ele deslizou a mão por baixo da saia dela.
Eu fui até o motorista e disse pra ele parar na delegacia mais próxima.
Ele disse que não podia sair da rota.
Eu expliquei pro motorista o que 'tava acontecendo.
Ela acordou gritando.
Ele tentou fugir.
Umas outras mulheres reagiram.
Um homem segurou ele.
Uma confusão danada.
Queriam linchar o cara.
O ônibus parou com as portas fechadas.
Alguém ligou pra polícia.
Ela xingava. As lágrimas escorrendo sem parar.
Ele ficou gritando que não tinha feito nada.
Tinha gente pedindo pra sair porque ia se atrasar.
O motorista disse que só abria a porta quando a polícia chegasse.
Uns caras encurralaram ele lá atrás no ônibus.
Umas mulheres partiram pra violência também.
Elas falavam todas ao mesmo tempo.
Não dava pra ver exatamente o que 'tava acontecendo lá atrás.
A polícia levou uns 20 minutos pra chegar.
O motorista abriu a porta de trás.
Umas pessoas foram embora
Umas pessoas ficaram batendo boca com o motorista pedindo o dinheiro da passagem de volta
Acho que algemaram o cara.
Botaram ele na viatura.
Ninguém queria ir pra delegacia.
O pessoal foi dispersando.
Quando eu disse que vinha, a outra moça disse que vinha também.
A menina continuava no mesmo lugar, chorando.
A outra moça do lado dela.
Um dos policiais foi até lá.
Eu expliquei pra ele o que tinha acontecido.
Ele perguntou se eu tinha certeza.
Isso é pergunta que se faça? Se eu tenho certeza?
Claro que eu tenho certeza.
Eu não ia dizer se não tivesse certeza.
Ainda mais pra polícia.
Pode até ser uma pergunta padrão, mas eu não gostei.
Imagina, todo mundo nervoso com a situação
E o cara perguntando se eu tinha certeza.
Aí ele chamou outra viatura e trouxeram a gente pra cá.

Inclusive, eu queria falar disso também.


Pra que adianta polícia especializada, delegacia especializada
Se são os policiais comuns que trazem a gente na viatura.
Eu vim com as outras duas no banco de trás.
E vi como eles ficavam olhando pra gente pelo retrovisor.
E as piadinhas que eles faziam entre eles.

Não, não conheço a menina.


Ela disse que se chama Maria, que mora no Centro.
A gente teve bastante tempo pra conversar enquanto esperava
Mas ela não falou muito.
Eu também não quis incomodar, mas fiquei.
Achei que a coisa certa era ficar.
a mão dele
deslizou
pela coxa dela
por debaixo da saia.
ninguém viu
ninguém podia ter visto
mas eu sabia de tudo
eu senti
como se
a mão dele
tivesse deslizado
por baixo da minha saia
Desculpa, não ouvi o que a senhora disse.
Ah, sim.
Onde eu assino?
III. VÔMITO

É aqui que dói.


Deve ser gastrite.
Eu vomito em situações difíceis.
Sempre foi assim.
É de família. Meu pai era assim também.
É. Gastrite nervosa.
Eu passo por essas situações e começo a sentir enjôo.
Tô acostumada até.
Sou assim desde novinha: stress igual a vômito.
Só que eu não tô conseguindo manter nada no estômago.
Tudo que eu como, eu boto pra fora.
E aí comecei a achar que podia ser outra coisa, sei lá.
Achei melhor vir no médico só pra garantir.

Não acho que seja o trabalho.


Acho que foi uma situação que eu passei
e não sai mais da minha cabeça.
ela 'tava dormindo
não tinha como se defender
Ah, uma situação meio chata num ônibus
Um cara passou a mão numa garota
ele invadiu o corpo dela
penetrou o corpo dela
Eu vi tudo.
E fui pra delegacia como testemunha
O dia inteiro lá, esperando pra depor.
É meio chato tudo isso, né?
A gente fica pensando, pensando.
os dedos afastaram a calcinha
e foram penetrando devagar
os dedos se mexiam dentro dela
como passarinhos tentando fugir de uma armadilha
Desculpa, eu não ouvi o que a senhora disse.
Não, não comi nada diferente.
Na verdade, desde esse dia não consigo comer nada
Por isso que achei que podia ter alguma relação, sei lá.
Não dá pra achar tudo isso super normal e seguir em frente.
Não foi um dia como outro qualquer.
As outras pessoas que 'tavam no ônibus,
você acha que elas foram pra casa e não pensaram mais nisso?
Ele achou que ninguém 'tava vendo.
Ele não faria isso se achasse que alguém 'tava vendo, faria?
as mãos grandes e calosas
mãos de lavrador
mãos de pedreiro
mãos pesadas e ásperas
não!
você não conhece as mãos dele
ele nunca te tocou
Eu não podia deixar ela sozinha
de quem são essas mãos?

(Dora vomita)
IV. AVESSO

Tudo bem. Eu tô acostumada


Já fiz isso antes. Várias vezes.
a agulha penetra a pele
Ai.
sonolência
“10, 9, 8, 7, 6”
- engole
(Dora tosse)
pela fresta da porta, eu vejo seus pés
de meia e chinelo
é engraçado pé-de-meia no chinelo
tento segurar o riso
“5, 4, 3, 2”
- engole
(Dora tosse)
“1. Lá vou eu!”
Os pés de meia e chinelo.
Perna cabeluda.
ele se aproxima.
tento segurar o riso.
ele abre a porta
“achô!”
quando ele ri, os olhos se fecham
ruguinhas do lado dos olhos
é tão bonito!
“Quem é a princesa do papai?”
- a mucosa no local não exibe alterações -
“Era uma vez uma rainha que queria muito ter uma filha.
Enquanto costurava, olhando pra neve, picou o dedo com a agulha
e três gotas de sangue caíram sobre a neve.”
“A princesinha tá dormindo?”
Ela tava dormindo.
Ele roçou um dedo na coxa dela.
Ela continuava dormindo.
Ele deslizou a mão por baixo da saia dela.
Não! Não é assim!
(Dora tosse)
- O fundo e o corpo apresentam pregueado e superfície normais
O caçador levou a princesa para passear na floresta
Ela colhia flores e frutinhas no caminho
Ela adorava passear na floresta!
O caçador levou a princesa para passear na floresta
Ele se preparava para arrancar seu coração
ele ia abrir seu peito e enfiar a mão dentro dela
mãos grandes e calosas
mãos pesadas e ásperas
mãos de caçador
Não! Não é assim.
(Dora tosse)
- Calibre, paredes e distensibilidade normais.
Sem resíduos em seu interior.
O caçador levou a princesa para passear na floresta
Ele se preparava para arrancar seu coração
Ela olhou nos olhos dele e implorou
Ele sorriu pra ela
e quando ele sorria, tinha ruguinhas do lado dos olhos
Ele sorriu pra ela e deixou que ela fugisse
e levou para a rainha um coração de cervo
no lugar do coração da princesa.
E a princesa levou consigo o sorriso com ruguinhas ao lado dos olhos
(Dora abre os olhos)
V. HORA DE DORMIR

o cravo brigou com a rosa


debaixo de uma sacada
o cravo saiu ferido
e a rosa despedaçada
a médica fez todos os exames
não tem nada de anormal
uma inflamação leve do estômago.
só.
nada que um omeoprazol não resolva.
ela disse que pode ser pelo stress e tal
me deu um atestado de uma semana
disse que eu preciso de repouso
me deu indicação pra um psicólogo
o cravo ficou doente
a rosa foi visitar
o cravo teve um desmaio
a rosa pôs-se a chorar
Sei lá, mãe.
Lá na escola tá tudo igual
É estressante, mas nada fora do normal
E pegar uma folga agora só vai piorar a situação
Não tem ninguém pra me substituir
E eu tô preocupada com uma aluna também
tem alguma coisa esquisita acontecendo
Não posso me afastar justo agora
Depois sou eu que vou ficar com trabalho acumulado
Eu que vou ter que correr atrás de repôr as aulas.
Não. Nem pensar em repouso.

É claro que eu tô abatida.


Tem duas semanas que eu não durmo direito.
Fico lembrando do cara do ônibus
Dos policiais escrotos na viatura
É muito violento, né mãe?
Pensar que isso acontece assim na frente de todo mundo
O tempo todo.
E ninguém vê nada.
Ninguém diz nada.
Ninguém faz nada.
O príncipe cavalgava na floresta
quando encontrou um esquife de cristal
Dentro do esquife dormia uma linda princesa
Você sabe do pai?

Queria saber só.


Ele era bom pra você?
Eu não lembro de vocês brigarem
Vocês brigavam?
Eu tenho pensado nele ultimamente.
Já tem mais de dez anos que ele foi embora
Eu mereço uma explicação
Qualquer explicação, mãe!
Olha...
Ele sempre cuidou bem de mim
Me tratou com cuidado, carinho
Eu lembro dele cuidando de mim
Me buscando na escola
Me colocando pra dormir.
e enquanto ela dormia,
o príncipe beijou seus lábios
Eu lembro.
Eu lembro.
Eu sei que eu lembro.
e enquanto ela dormia,
o príncipe tocou seu corpo
Não.
Não foi nada disso! Não foi nada disso.
Eu achava que a culpa podia ter sido minha
De ele ter ido embora, sabe?
Que eu tinha feito alguma coisa errada
Dito alguma coisa errada
Mas era só uma sensação vaga
E eu repassava tudo na minha cabeça
e não conseguia achar nada de errado
depois de entregar o coração de cervo para a rainha,
o caçador fugiu para um reino muito distante
e se casou com uma princesa que logo morreu.
Você já teve a sensação de que a sua memória não é sua?
Ou que pode até ser sua
mas não reproduz exatamente o que aconteceu
tem alguma coisa errada
você não sabe o que é
mas tem alguma coisa errada
você repassa tudo em detalhes
e de uma hora pra outra parece que tem algo fora do lugar
como se tivessem arrancado algumas páginas de um livro
ou colado umas figuras por cima
O caçador, que agora era príncipe,
cavalgava pela floresta
quando encontrou um esquife de cristal
e parecia que era assim mesmo
a história era coerente.
as imagens combinavam com a narrativa
e você nunca desconfiou que elas não eram dali
Dentro do esquife dormia uma linda princesa
não.
ela fingia dormir.
até passar o dedo por cima de uma das figuras
os dedos afastaram a calcinha
e foram penetrando devagar
ela acordou e gritou.
Não.
os dedos afastaram a calcinha
e foram penetrando devagar
ela fingia dormir e não podia gritar
Não!
ela fingia dormir
os dedos afastaram a calcinha
e foram penetrando devagar
ela queria gritar.
NÃO!
Quem arrancou as páginas?
Porquê?
Quando a história foi modificada?
Quem contou essa história?
e quando você tenta descolar a imagem
sai junto um pedaço da folha
Pode tentar com todo cuidado do mundo
Ao tirar a imagem, tudo fica ilegível
Ficam pequenas camadas finas de papel grudadas por cima das palavras
Ou buracos imensos na folha de papel.
Você fica tentando juntar as palavras soltas e construir frases que façam sentido
mas elas nunca parecem ser as frases certas.
O príncipe, que antes fora caçador,
abriu o esquife de cristal
os dedos afastaram a calcinha
não.
os dedos afastaram a coberta
“a princesinha tá dormindo?”
Eu preciso da sua ajuda.
Você leu o livro muitas vezes.
Deve saber a história de cor.
Me conta:
O que tinha escrito por baixo das imagens?
VI. NOMINAL

“LEI DE REGISTROS PÚBLICOS – LEI 6015 DE DEZEMBRO DE 1973


ART. 56. O INTERESSADO, NO PRIMEIRO ANO APÓS TER ATINGIDO A
MAIORIDADE CIVIL, PODERÁ, PESSOALMENTE OU POR PROCURADOR
BASTANTE, ALTERAR O NOME, DESDE QUE NÃO PREJUDIQUE OS APELIDOS
DE FAMÍLIA, AVERBANDO-SE A ALTERAÇÃO QUE SERÁ PUBLICADA PELA
IMPRENSA.”

desde que não prejudique os apelidos de família


Isso significa que eu não posso
em hipótese alguma
retirar nenhum sobrenome meu?
Desculpa, eu não me apresentei, né?
Meu nome é Dora.

“ART. 57 - QUALQUER ALTERAÇÃO POSTERIOR DE NOME, SOMENTE POR


EXCEÇÃO E MOTIVADAMENTE, APÓS AUDIÊNCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO,
SERÁ PERMITIDA POR SENTENÇA DO JUIZ A QUE ESTIVER SUJEITO O
REGISTRO, ARQUIVANDO-SE O MANDATO E PUBLICANDO-SE A ALTERAÇÃO
PELA IMPRENSA.”

somente por exceção e motivadamente,


É isso que eu queria entender: o que constitui uma exceção?
Quem decide o que é motivo suficiente?
Como provar a motivação?

“O DANO PSICOLÓGICO É PERFEITAMENTE CARACTERIZÁVEL E AVALIÁVEL,


HAJA VISTA, QUE AS CONSEQUENCIAS SÃO DEMONSTRÁVEIS. O DANO
PSICOLÓGICO PODE SER OBJETO DE AÇÃO DECLARATÓRIA DE REPARAÇÃO
DE DANO, DESDE QUE FIQUE CARACTERIZADO COMO UMA INCAPACIDADE
QUE IMPORTE UMA LESÃO DE TAL ENTIDADE QUE IMPLIQUE ALTERAÇÃO
DO EQUILÍBRIO EMOCIONAL DA VÍTIMA, CUJAS CONSEQUENCIAS
RESULTEM EM DESCOMPENSAÇÃO QUE AFETE GRAVEMENTE SUA
INTEGRAÇÃO NO MEIO SOCIAL.”

Então pra retirar o sobrenome do meu pai


Eu preciso ser considerada louca em juízo?
VII. PERÍCIA
ela vai fazer perguntas
e você vai responder
você não sabe o que ela vai perguntar
você precisa agir naturalmente
você precisa falar o que ela quer ouvir
você precisa parecer perturbada
você não pode parecer perturbada
você precisa ser quem você é
FOTOS
Pra quê essas fotos?
Qual a utilidade disso tudo?
São só imagens. Registros.
Eu nunca mais vi fotos dele
eu nunca mais olhei pra ele
o que eu vou encontrar nessas fotos?
Eu posso te contar várias estórias sobre essas fotos
quem eu vou encontrar nessas fotos?

UMA FOTO
o balanço
o escorrega
a grama molhada no meu pé descalço
minha mãe nunca me deixava tirar os sapatos
Essa aqui foi no parquinho
Ele sempre me levava nesse parque perto de casa

OUTRA FOTO
a rua vazia
os pés prontos para ganhar o mundo
“eu não vou te soltar”
eu confiava nele
Essa aqui é do meu aniversário de oito anos
Eu ganhei essa bicicleta de presente
Foi ele quem me ensinou a andar de bicicleta.
“não precisa ter medo,
eu não vou deixar você se machucar”
e eu pedalei
eu pedalei e quando olhei, ele tinha me soltado
eu olhei pra trás e ele sorria pra mim
ele estava feliz porque eu estava voando solo
e eu cai.
Não.
eu nunca caí.
Eu não sei se caí ou não caí.
Eu confiava nele.
Ele me deixou cair?
Olha, o que acontece é o seguinte:
eu ouço estórias sobre essas fotografias desde que elas foram reveladas
essas estórias circulam na minha mente
eu olho pra uma foto e me vem uma estória sobre ela.
Ou várias estórias
Só que eu não sei que estórias eu lembro
e que estórias foram contadas pra mim
e eu fico repetindo como se fossem uma verdade.
A memória se confunde com as palavras.
Você que estudou isso, deve saber do que eu tô falando.
É um mecanismo do cérebro, não é doutora?
De qualquer forma, tudo isso é inútil

UMA FOTO DO QUARTO

passos no escuro
eu ouvia todos os passos na casa
eu ouvia todos os passos na casa
os dele, os dela e até os meus
ele a deixou na floresta e ela correu
por kilometros e kilometros ela correu
os pés descalços na grama molhada
os pés descalços cortando nos espinhos do chão
deixava um rastro vermelho no caminho
e quando escurecia
o som de todos os bichos
e todas as noites ela procurava abrigo
e ouvia o ranger do chão
a mãe gemendo baixinho
porque ela gemia?
e todas as noites ela acordava ao menor barulho
a porta se abrindo
eu sabia distinguir o som dos passos dela
do som dos passos dele
ela andava pesado
ele era leve
como se não quisesse ser ouvido
como se sempre estivesse à espreita
mas as tábuas rangiam
eu fingia dormir quando ele vinha
eu achava que ele ia me deixar em paz
se eu já estivesse dormindo
ele vinha me colocar pra dormir
então se eu já estivesse dormindo
ele podia ir embora
mas ELA não sabia que eu já estava dormindo
então ele fechava a porta
atravessava a floresta
e abria o esquife de cristal
e ele cantava pra mim
e eu sabia que ele cantava em voz alta
pra ELA ouvir
pra ELA achar que ele me colocava pra dormir
o cravo brigou com a rosa
debaixo de uma sacada
o cravo saiu ferido
e a rosa despedaçada
O cravo ficou doente
A rosa foi visitar
O cravo teve um desmaio
E a rosa pôs-se a chorar.

Um dia ele saiu de manhã


E à noite quem me colocou na cama foi ela.
E ela disse que ele não ia voltar
E que a gente não ia mais tocar nesse assunto
Ela deixou a porta do quarto aberta
E eu nunca mais fechei a porta do quarto pra dormir
Eu nunca tinha pensado sobre isso
Sobre a porta do quarto.

O que mais você precisa saber?


VIII. IDENTIFICAÇÃO

“PROFESSORA DORA,
DESDE QUE VOCÊ SAIU DA ESCOLA, TENTO MUITO TER NOTÍCIAS SUAS.
AS VEZES, A PROFESSORA DE HISTÓRIA DIZ QUE ESTá TUDO BEM.
UNS PROFESSORES FICARAM DIZENDO QUE VOCÊ TINHA FICADO MALUCA
MAS EU NÃO ACREDITEI NELES.
A DIRETORA DISSE QUE ERA LICENÇA “POR QUESTÕES PSICOLÓGICAS”.
E AÍ EU FIQUEI MUITO PREOCUPADA.
EU QUERIA CONVERSAR COM VOCÊ E SABER O QUE ESTÁ ACONTECENDO.
NINGUÉM FALA SOBRE NADA
E VOCÊ CONVERSAVA SOBRE TUDO COM A GENTE.
AGORA EU FIQUEI SOZINHA.
EM CASA NINGUÉM NUNCA CONVERSA,
MAS AQUI VOCÊ ENTENDIA A GENTE.
OUVI FALAR DE UM PROCESSO,
MAS TODO MUNDO MUDA DE ASSUNTO QUANDO EU QUERO SABER MAIS.
FIQUEI ACHANDO QUE TEM ALGUMA COISA A VER COM ASSÉDIO
E QUERIA QUE VOCÊ SOUBESSE QUE ESTOU COM VOCÊ.
SER MULHER É DIFÍCIL MESMO
E A GENTE VAI TROPEÇANDO E ACEITANDO E ENGOLINDO OS SAPOS DA VIDA.
O PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA ME OFERECEU UMA CARONA UMA VEZ.
EU ACEITEI E ELE PAROU O CARRO E ME BEIJOU.
EU ABRI A PORTA E SAI CORRENDO.
ELE TINHA GOSTO DE CIGARRO.
EU NÃO CONTEI PRA NINGUÉM PORQUE ELE DISSE QUE IA ME REPETIR DE
ANO SE EU FALASSE.
FOI ELE QUE FEZ ALGUMA COISA COM VOCÊ?
EU NUNCA TINHA PENSADO QUE ELE PODIA MACHUCAR OUTRAS PESSOAS.
SE EU TIVESSE PENSADO NISSO, TINHA CONTADO PRA ALGUÉM.
DESCULPA, PROFESSORA.
EU NÃO QUERIA QUE ELE TE MACHUCASSE.
ESPERO QUE ESSA CARTA CHEGUE EM VOCÊ.
E QUE VOCÊ VOLTE LOGO.”
IX. PATRONÍMICO

Boa tarde, meretíssimo!


Meu nome é Dora.
Por enquanto é só esse mesmo.
Dora.
Sou filha de Dolores Nascimento
e de …
não.
Queria ser Dora Nascimento.
Herdar o Nascimento da minha mãe
e perder o nome que utilizei até então
e que é da minha família paterna.
Compreendo que o nome identifica uma linhagem de sangue
e também me identifica socialmente perante o Estado
mas um nome deveria ser mais que isso.
Desde que recordei/
“compreendo que o nome identifica...”
Você não tem que compreender nada
você viveu tudo isso
e a experiência ultrapassa a compreensão.
Desculpe.
Eu/
pára de se desculpar
você não tem culpa de nada
Eu não me sinto mais à vontade nem para falar meu próprio nome.
A figura do meu pai, o nome e tudo que se refere a ele
se tornaram prejudiciais para mim.

“Em que o trauma se configura?”


“Você tem certeza?”
Eles nunca acreditam no que você diz.
Sempre precisam de uma confirmação.
Eles duvidam de você.
Eles duvidam de nós o tempo todo.
Creio que o senhor tenha lido os autos, não?

Desculpe.
Minha advogada me alertou sobre essa possibilidade
Ela disse que o senhor talvez me pedisse
para relatar o ocorrido
apesar do laudo psicológico
Afinal, de que vale um laudo?
Meu pai me molestou sexualmente na minha infância.
a mão dele
Não sei com que idade começou
deslizou
Nem quanto tempo durou.
pela coxa dela
Ele foi embora quando eu tinha treze anos
por baixo da saia.
Não sei se minha mãe sabia
a mão dele
Não sei como nem porque eu bloqueei essa memória por tanto tempo
deslizou
Foi depois que presenciei uma situação pública de assédio
pela coxa dela
Que essa memória foi retornando aos poucos
por baixo da camisola.
Ele me colocava pra dormir.
Ele fechava a porta do quarto
os dedos afastaram a calcinha
e foram penetrando devagar
E enfiava a mão dentro da minha calcinha
E enfiava os dedos dentro de mim
Ele soltou um grunhido quase animal.
Os dedos pararam de se mexer
As vezes ele deitava em cima de mim
E eu não conseguia respirar
O corpo dele era pesado.
Um líquido escorria pelas minhas pernas.
E antes de ir embora ele me limpava com um lenço
Ele sempre tinha um lenço no bolso da camisa.
Ele me limpava com o lenço e me dava um beijo na testa
é só carinho
não é dor, é carinho
papai disse que é carinho
papai fica feliz
então não pode ser ruim
E eu não entendia o que estava acontecendo
Eu não entendia nada daquilo
Shhh!!
Shhhhh!!!
Não pode contar pra ninguém!
Ele dizia que eu não podia contar pra ninguém
não pode contar pra.
E ele dizia isso com carinho
Não pode contar!
E ele dizia isso com violência
não.pode.
E ele dizia isso ofegando
não.
E ele dizia isso com os dedos dentro de mim
não.pode.contar.
E ele dizia isso me limpando com o lenço
entendeu?
E eu não contei pra ninguém
Ela nunca contou pra ninguém.
Ela não contou nem pra ela mesma.
Eu esqueci de contar pra mim mesma.
Ela esqueceu.
Eu esqueci.

Isso não é motivo o suficiente pra eu querer tirar o nome dele?


Sim. Compreendo que não possuir o sobrenome da minha mãe
dificulta ainda mais o processo
uma vez que meu nome seria completamente alterado.
Quanto a isso, gostaria de entender uma coisa:
se eu me casasse,
poderia trocar o meu sobrenome pelo do meu marido
sem maiores problemas
Seria normal.
É quase natural que a esposa adote o nome do marido
torne-se parte da família do homem que a escolheu.
Isso é permitido por lei.
Mas se eu quero trocar o nome do meu pai pelo da minha mãe
isso é ilegal.
O nome de um estranho pode se tornar legítimo
O nome daquela que me gerou não.

O senhor conhece a história do meu sobrenome?

Meu pai me contava que a avó dele foi caçada pelo meu bisavô
Meu pai me contava essa história rindo e eu achava graça
eu via aquelas cabeças de alce na parede em filme americano
aqueles tapetes de urso no chão da sala
e eu pensava:
“Meu bisavô foi um cara muito legal mesmo
ele não arrancou a pele da bisa pra enfeitar a sala de casa.
Não pendurou a cabeça dela na parede”
Minha bisavó era índia.
Vivia numa aldeia que ela nunca mais viu
foi arrancada de uma família que ela nunca mais viu
e eu nunca soube o nome dela
ela devia ter um nome
porque ele deu um nome pra ela
e uma família
e uma casa
como se ela não tivesse nome
casa
família
antes dele.
como se ela não existisse antes dele.
ela existia antes dele?
e ela ganhou um nome
e meu avô herdou o mesmo nome
que meu pai herdou
e eu herdei.
BEUTE.

E eu fico me perguntando, meretíssimo


se eu de certa forma não fui caçada pelo meu pai
se a moça do ônibus não foi caçada por aquele homem
O senhor entende?
Há sempre um caçador à espreita
Nos olhando pelo buraco da fechadura
Através do espelho retrovisor
Pelas câmeras de segurança
virando o pescoço quando passamos na rua
pra medir a quantidade de carne do nosso traseiro
pra saber se somos saborosas o suficiente
gostosas
lambendo os lábios pensando em como nos comer
Calculando o momento certo de atacar
nos encurralar numa esquina qualquer
num elevador
no banco de um carro
ou na nossa própria casa.
Eu fui só mais uma.
A moça do ônibus foi só mais uma
Minha aluna também foi mais uma
e minha advogada deve ser mais uma
e a psicóloga que fez a perícia deve ser mais uma
e minha mãe também é mais uma.
E é o senhor quem julga
se eu devo ou não conviver com um trauma causado por outro homem
se eu devo continuar respondendo pelo nome desse homem
se minha história continua sendo posse desse homem
É o senhor quem julga se eu fui “danificada” o suficiente
pra merecer como “prêmio” ter o nome da minha mãe na minha identidade
pra merecer ter o direito de escolha sobre a minha linhagem.
X. RELATÓRIO

PROCESSO 0802143-10.2016.8.26.0176 - RETIFICAÇÃO OU SUPRIMENTO OU


RESTAURAÇÃO DE REGISTRO CIVIL - RETIFICAÇÃO DE NOME – D.B. - VISTOS.DORA
BEUTE AJUIZOU AÇÃO DE RETIFICAÇÃO DE REGISTRO CIVIL VISANDO A SUPRESSÃO
DO SOBRENOME DE SEU GENITOR (BEUTE), POIS ALEGA TER SIDO VÍTIMA DE ABUSO
SEXUAL QUANDO CRIANÇA, RAZÃO PELA QUAL PRETENDE A SUBSTITUIÇÃO DELE
PELO APELIDO DE FAMÍLIA DA SUA GENITORA (NASCIMENTO).
NOS TERMOS DO DISPOSTO NOS ARTS. 56 E 57, DA LEI Nº 6.015/1973, OS APELIDOS DE
FAMÍLIA NÃO PODEM SER SUPRIMIDOS, O QUE SE PERMITE É A ALTERAÇÃO DO
NOME QUE EXPONHA A PESSOA AO RIDÍCULO, O ACRÉSCIMO DE OUTROS NOMES DE
FAMÍLIA, OU SUBSTITUIÇÃO DO NOME POR APELIDO PÚBLICO E NOTÓRIO, OU SEU
ACRÉSCIMO, SEMPRE SEM PREJUÍZO DO APELIDO DE FAMÍLIA, TAMBÉM
CONHECIDO COMO “SOBRENOME”.
TRANSCENDENDO A MERA INDIVIDUALIDADE É O PATRONÍMICO INDISPONÍVEL,
EXIGINDO A LEI QUE, EM CASO DE ALTERAÇÃO, NÃO VENHA A SER PREJUDICADO,
COMO IRREMEDIAVELMENTE OCORRERÁ COM A SUPRESSÃO.
O INDIVÍDUO NÃO PODE DISPOR DAQUILO QUE PERTENCE A TODO GRUPO
FAMILIAR, COMO ENTIDADE.
HÁ LIBERDADE NA FORMAÇÃO DOS NOMES, MAS O SISTEMA JURÍDICO EXIGE QUE A
PESSOA TENHA OS PATRONÍMICOS QUE IDENTIFIQUEM SUA CONDIÇÃO DE MEMBRO
DE SUA FAMÍLIA E O PRENOME QUE A INDIVIDUALIZE ENTRE SEUS FAMILIARES.
DESTARTE, A PRETENSÃO DA AUTORA DE SUPRESSÃO DO APELIDO DE FAMÍLIA DO
SEU GENITOR, AINDA QUE SUBSTITUÍDO PELO APELIDO DE FAMÍLIA DA SUA MÃE,
NÃO PODE SER ACOLHIDO. DIANTE DO EXPOSTO, JULGO IMPROCEDENTE O PEDIDO
FORMULADO E, EM CONSEQUÊNCIA, JULGO EXTINTO O PROCESSO, COM RESOLUÇÃO
DO MÉRITO, COM FUNDAMENTO NO ART. 269, I, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL.
XI. (RE)NASCIMENTO

“CONVÉM NÃO ESQUECER AINDA QUE SOMOS MULHERES


E, COMO TAIS, NÃO PODEMOS LUTAR CONTRA OS HOMENS
E, TAMBÉM, QUE ESTAMOS SUBMETIDAS A OUTROS, MAIS PODEROSOS,
E QUE NOS É FORÇOSO OBEDECER A SUAS ORDENS
POR MAIS DOLOROSAS QUE NOS SEJAM”

Alguém sabe de onde é essa frase?


Quem disse essas palavras?

Essas palavras são de Antígona,


a heroína de uma tragédia escrita por volta de 442 A.C.
Essas palavras de Antígona ainda são válidas nos dias de hoje?
As mulheres hoje podem lutar contra os homens?
Somos obrigadas a obedecer às ordens dos mais poderosos?

OK... vamos começar do começo.


Eu disse que Antígona é uma tragédia
e que foi escrita por Sófocles, na Grécia, em 442 A.C.
O teatro tinha uma função central na sociedade grega
Alguém sabe me dizer que função era essa?

Boa resposta!
Mais do que isso:
uma das funções do teatro era fazer com que o público acreditasse
que aquilo é a verdade absoluta
ensinar o público a agir conforme as leis.
O que se esperava da tragédia
era que ela ajudasse a manter o povo “no seu lugar”.
E os personagens que não obedeciam às leis impostas
eram punidos gravemente:
Antígona é enterrada viva
Édipo fura os próprios olhos
Medeia é expulsa da cidade

Julgo improcedente o pedido formulado


e, em consequência, julgo extinto o processo
E hoje em dia?
Quem faz as leis?

improcedente o pedido formulado


Quem julga o que é certo e o que é errado?
O que podemos fazer quando essas leis não nos satisfazem?

extinto o processo
Acho importante começar a aula de hoje com essa discussão
Há pouco tempo, o professor de educação física da escola foi afastado
Por denúncia de assédio feita por uma aluna
Então queria propor um exercício
Quero que cada um de vocês escolha uma coisa que vocês discordam

improcedente
uma coisa que vocês acham que está errada

extinto
pode ser aqui na escola, na casa de vocês, no trabalho
qualquer coisa.
Escrevam sobre isso, tentando me convencer do seu ponto de vista
E propondo uma solução pra situação
Uma redação de 20 a 25 linhas.
Pode ser?
os apelidos de família não podem ser suprimidos
Ah, desculpe, é verdade.
Eu não me apresentei ainda.
Sou a professora de literatura
Meu nome é Dora Nascimento.