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Sumário
1. SOBRE O ESTÁGIO INTERDISCIPLINAR DE VIVÊNCIA .......................................................................... 3
2. APRESENTAÇÃO .................................................................................................................................................. 3
3. COMISSÃO POLÍTICO PEDAGÓGICA DO EIV PORTO ALEGRE 2019................................................... 4
4. TEXTOS DE ESTUDO ........................................................................................................................................... 4
a. Elementos sobre o histórico do desenvolvimento rural no Brasil ................................................................... 4
b. Doença da “normalidade” na universidade ...................................................................................................... 8
c. Questão agrária ................................................................................................................................................. 10
d. Questão minero-energética e a construção de um projeto popular para o brasil ....................................... 14
e. Movimento estudantil: papel e concepção....................................................................................................... 19
f. Sociedade e educação, uma relação indissociável: a ruptura passa por aqui! ............................................. 23
g. Universidade e relações de poder ..................................................................................................................... 25
h. O que é gênero e suas implicações ................................................................................................................... 26
i. Juventude e diversidade sexual ........................................................................................................................ 27
j. Estruturação do racismo e os desafios para combater o genocídio da juventude negra ............................ 29
k. Agroecologia não é um tipo de agricultura alternativa ................................................................................. 29
l. Por que socialismo? ........................................................................................................................................... 31
5. CANCIONEIRO.................................................................................................................................................... 34
a. Canções............................................................................................................................................................... 34
b. Poesias ................................................................................................................................................................ 38

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1. SOBRE O ESTÁGIO INTERDISCIPLINAR DE VIVÊNCIA

A fim de contemplar uma reflexão mais profunda sobre os processos educativos, sociais e agrários, o estágio se configura
com metodologia bastante distinta dos projetos formais de extensão. As atividades dividem-se em três fases:

 Preparação: Tem início já no local da fase preparatória, na sede comunitária do assentamento de Santa Rita de Cássia
II, na cidade de Nova Santa Rita – RS. Esta fase durará sete dias, sendo este período destinado para o estudo e
aprofundamento teórico-prático e para os encaminhamentos do estágio. Nesta etapa pretende-se, através de discussões,
aprofundar alguns temas que serão necessários para um maior entendimento da/o estagiária/o acerca do contexto
organizativo e produtivos do espaço agrário.

 Vivência e acompanhamento: É, sem dúvidas, o período mais importante do estágio, uma vez que é nesse momento
que o estagiário tem a oportunidade de entrar em contato com a realidade dos assentamentos de reforma agrária do Rio
Grande do Sul e das lutas contra o atual sistema energético, por cerca de nove dias, a fim de experenciar, refletir e avaliar
o contexto vivenciado. Nesta fase os estagiários serão conduzidos até as localidades de assentamentos rurais que
perfazem as regionais do MST e comunidades de organização do MAB, onde acompanharão todas as atividades
realizadas pelas famílias e de mais organizações que possam estar inseridas neste contexto. É, de fato, um momento de
real imersão na realidade das famílias e nas suas lutas.

 Avaliação e conclusão: Nesta etapa é prevista a reunião de todos os estagiários com os demais participantes por três
dias, com o objetivo de socializar as experiências individuais do período de vivência, aprofundar os temas levantados
durante a preparação, avaliar a experiência do estágio como um todo e por fim elaborar propostas para ações futuras que
levem esta reflexão a outros espaços e a construção do próximo estágio interdisciplinar de vivência.

2. APRESENTAÇÃO

Nascido das experiências acumuladas pela FEAB (Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil) na década de 80,
o Estágio de Vivência tornou-se um espaço consolidado em inúmeras Universidades do país e vem contribuindo de
maneira significativa na formação de profissionais mais voltados para a difícil realidade social brasileira. Além de
promover um envolvimento maior das universidades com as suas regiões de abrangência, rompendo com o
academicismo desprovido de práxis social, o Estágio de Vivência proporciona aos estudantes universitários um contato
direto com as comunidades de assentados e agricultores familiares organizados, vivenciando na prática seus problemas,
suas formas de organização e os desafios por eles enfrentados. Com uma metodologia bastante distinta dos projetos
formais de extensão desenvolvidos nas Universidades, o Estágio de Vivência se caracteriza por fundamentar-se em
alguns princípios básicos, dentre eles a interdisciplinaridade, onde se procura incentivar a participação de diversos cursos
para que se possa abranger a realidade sob diversos enfoques, de acordo com as respectivas áreas do conhecimento.
Outra característica importante é a forma interativa dos espaços reservados à discussão, principalmente nas fases de
preparação e avaliação, privilegiando o debate como forma de construção do conhecimento, refletindo conjuntamente
sobre as diferentes realidades vivenciadas durante o Estágio. Este projeto busca ainda, em sua primeira fase, mostrar a
relação social do modelo de desenvolvimento imposto à sociedade Brasileira comparada à realidade vivida pelos
assentados, através de Cursos de Formação Política envolvendo Economia e o Modelo Agrário, embasado em profundos
estudos teórico-práticos desta realidade.

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3. COMISSÃO POLÍTICO PEDAGÓGICA DO EIV PORTO ALEGRE 2019

Arnaldo Dummond
Daniela Cazzaroto
Gustavo Ristow Vodzik
Larissa Jacobsen da Rocha
Maiz Bortolomiol Dias
Wagner Martins Jordão

“Ou os estudantes se identificam com o destino de seu povo, com ele sofrendo a mesma luta, ou se dissociam do
seu povo, e nesse caso, serão aliados daqueles que exploram o povo” Florestan Fernandes

4. TEXTOS DE ESTUDO

a. Elementos sobre o histórico do desenvolvimento rural no Brasil


Por Felipe Costa
Engenheiro Agrônomo pela UFSM, Mestre em Ciências Sociais e Desenvolvimento e antigo membro da Coordenação
Regional I da FEAB

A análise de nossa história nos faz trafegar por caminhos importantes para a compreensão do cenário em que estamos
inseridos no presente. Compreender as raízes das contradições da sociedade se constitui como um exercício pleno de
análise em busca das transformações necessárias. Entender as desigualdades presentes em nossa sociedade atual passa
pelo conhecimento de suas origens, definições e transformações e pela compreensão de que somos sujeitos históricos,
pois esta mesma história foi e é feita por homens e mulheres, por nós.
Acreditamos ser consenso que nos dias atuais, a agricultura, na forma do agronegócio, se constitui como um dos pontos
centrais para o desenvolvimento do capitalismo mundial, servindo de alicerce para a sustentação da economia global e
possibilitando, de diferentes formas, a reprodução deste modelo contraditório e desigual em que vivemos. Evidenciamos
hoje, na nossa agricultura, questões importantes, como a má distribuição de terras e de renda, a pobreza extrema e a
violência em parcelas consideráveis do campo, a crise ambiental e a produção de alimentos envenenados, entre outros.
Para tentarmos entender um pouco dos condicionantes destes fenômenos, suas causas e consequências, vamos fazer uma
breve incursão em nossa história.

Os quatro primeiros séculos: o colonialismo e o latifúndio agroexportador no Brasil


O desenvolvimento rural no Brasil foi historicamente calcado no modelo do latifúndio primário agroexportador, modelo
fortemente desenvolvido com a chegada dos portugueses aqui. Nossa realidade rural e agrária foi cunhada, em seus
primórdios, para atender aos interesses do capitalismo mercantil europeu, disponibilizando a baixos custos para o “Velho
Continente” as mercadorias necessárias para o atendimento das necessidades de sua população urbana em formação. Foi
baseado nestes parâmetros que se construiu a matriz de desenvolvimento econômica do Brasil colônia, um modelo
totalmente voltado aos interesses da metrópole portuguesa e da economia europeia em geral.

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Com este modelo, que ficou conhecido como plantation, nosso território se configurava como um simples “quintal” de
produção barata de matérias primas para o abastecimento dos mercados europeus. Não se focou em nenhuma medida
um plano de desenvolvimento real de nosso país ou continente, transformando-nos em exportadores de bens alimentícios
e gêneros primários em geral, como a cana de açúcar, o café, o algodão, a carne bovina, o tabaco, a borracha, a madeira
e o minério e importadores de produtos manufaturados do mercado europeu. Nossa economia estava configurada para
atender a interesses externos.
Todo este processo gerou uma elite política e econômica em nosso país. Tratavam-se de grandes senhores de terra que,
alicerçados na concessão de favores por parte da coroa portuguesa e no compromisso de produzir mercadorias para
serem exportadas, foram responsáveis por operar este amplo projeto de desenvolvimento submisso no Brasil. Para isto,
estes sujeitos estruturaram-se em alguns pilares, como a concessão de uso de grandes extensões de terras, chamadas
capitanias hereditárias e sesmarias, por parte da coroa portuguesa.
Por outro lado, estes sujeitos foram capazes de impulsionar o processo produtivo em suas áreas, utilizando-se do uso da
mão de obra escrava africana, fruto do sistema de escravismo colonial mercantil em que vivíamos. Esta força de trabalho
foi capaz de subsidiar a demanda de mão de obra de maneira eficiente e a baixos custos, já que naquele período o
desenvolvimento das tecnologias era ainda incipiente e a produção, mesmo de monocultivos, necessitava intensa
participação do trabalho humano. Era baseada principalmente nestes dois pontos, que esta aristocracia rural brasileira
foi capaz de impulsionar este modelo de desenvolvimento subordinado e incompleto e manter as classes subalternas
absolutamente presas as suas amarras de dominação.
Foi somente no final do século XIX que, a partir de pressões internacionais de países como a Inglaterra (disposta a criar
um mercado consumidor na América Latina para seus bens industriais), das revoltas e resistências dos povos negros e
do apoio de setores urbanos é que se deu fim ao regime escravocrata no Brasil. Esse processo impôs novos desafios e
limitações aos senhores da terra e foi neste sentido que se principiou no Brasil a vinda dos trabalhadores europeus,
também chamados colonos europeus.
Fugindo de uma realidade dura, em meio às crises e imersos em uma condição de submissão econômica estes
trabalhadores vieram para as Américas buscar novas oportunidades de conduzir suas vidas a partir do trabalho na terra.
Logo foram introduzidos à lógica de exploração do trabalho braçal nas grandes propriedades rurais da época.
Paralelo à estas duas etapas (regime escravocrata e colonato), assistimos à formação de um novo extrato de camada
social no campo, responsável por operar o que foi chamado de economia de subsistência, uma rede de trabalhadores
deserdados que se constituiu nas regiões periféricas ou à margem do grande latifúndio. Tratavam-se de trabalhadores
rurais que foram responsáveis por fomentar uma economia de excedentes que produzia os alimentos para o mercado
interno. Desta forma, produzia-se a baixos custos os substratos necessários para a sustentação do próprio latifúndio.
Como comentado, as origens deste sujeito remontam ainda ao sistema escravista e este fenômeno pode ser classificado,
como cunhou Tadeusz Lepkowski (1968), como uma “brecha camponesa no sistema escravista”, ainda segundo o autor
existiam duas modalidades neste sistema: 1) a economia independente de subsistência que os negros fugidos
organizavam nos quilombos; 2) os pequenos lotes de terra concedidos em usufruto, nas fazendas, aos escravos não
domésticos, criando uma espécie de “mosaico camponês escravo”(Lepkowski,1968,p.59-60).
A formação deste público camponês remonta até hoje uma contradição muito grande em nosso campo. A existência
dessa dicotomia ao longo dos séculos ajuda a explicar a característica fortemente dual da sociedade brasileira: de um
lado, na grande lavoura, abastança prosperidade e grande atividade econômica; de outro lado, a falta de satisfação da
mais elementar necessidade da grande maioria da população - a fome (PradoJúnior,1949, p.52).
Todo este cenário manteve-se por praticamente quatro séculos e se reconfigurou ao passar do tempo. Mas, nem mesmo
estes processos de abolição da escravatura, proclamação da república ou a ocorrência de algumas revoltas locais foram
capazes de alterar o cerne deste modelo contraditório e desigual, que se desenvolveu e gerou subsídios para a
continuidade da exploração e da desigualdade no Brasil.

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Século XX: A Modernização Conservadora da Agricultura Brasileira e a Revolução Verde
Este modelo de latifúndio atrasado e baseado sobremaneira na utilização intensiva de mão de obra não permaneceu
imutável ao longo da história. Foi por volta de meados do século XX que, integrado ao desenvolvimento das indústrias
metal mecânica e bélica na Europa e nos EUA e influenciado pelo regime de ditadura civil-militar no Brasil, o país
experimentou um novo modelo de desenvolvimento, baseado na utilização de tecnologias e na modernização da
agricultura. Este modelo ficou conhecido como Modernização da Agricultura ou Revolução Verde.
Estas transformações contemplaram uma nova visão acerca da produção nos latifúndios: manteve-se a lógica da
monocultura em larga escala (agora com Trigo, Arroz, Soja, Milho, Cana-De-Açúcar e Algodão), mas intensificou-se a
utilização das mercadorias desenvolvidas pela indústria em expansão nos países desenvolvidos, que estava calcada,
sobretudo nas tecnologias desenvolvidas nas duas grandes guerras. Além disso, houve o afloramento de um dos
instrumentos capitalistas de controle da produção agrícola, que hoje conhecemos como capital financeiro, já que a
aquisição de bens e serviços estava interligada a concessão de subsídios e financiamentos oficiais ou por parte das
próprias empresas que buscavam a hegemonia no controle destes mercados.
Este processo atingiu seu auge principalmente a partir da década de 1950 e veio responder a algumas crises no sistema
de produção agrícola vigente, propiciando o avanço de tecnologias, a renovação de técnicas de produção arcaicas e
principalmente, possibilitando a substituição da intensa utilização de mão de obra por máquinas, equipamentos e
produtos químicos. Era a parcela de contribuição da agricultura na receita do desenvolvimento capitalista dos países
desenvolvidos.
Porém, vale ressaltar, este modelo não transformou o Brasil, em nenhuma medida, em um país desenvolvido e
independente, pelo contrário, somente intensificou ainda mais nossa relação de dependência e subordinação à economia
europeia e norte americana e nos colocou em uma condição de alinhamento ao projeto estratégico das nações ricas,
fazendo com que nossa agricultura, agora sob outras facetas, seguisse subsidiando o desenvolvimento da indústria nos
países desenvolvidos.
Vale também analisar neste processo o grande peso de disputa ideológica presente, ou seja, a chamada Revolução Verde
apareceu aos olhos do mundo como a grande possibilidade de melhorada qualidade devida da população mundial, pois
seu pacote tecnológico trazia a promessa de aumento na produção mundial de alimentos a baixos custos, acabando com
a fome no mundo, além proporcionar diversas outras vantagens que facilitariam a vida dos agricultores e da população
em geral. O surgimento da indústria química e genética, o aperfeiçoamento de máquinas e equipamentos e a renovação
de técnicas de cultivo prometiam melhorar sobremaneira a vida do produtor rural.
Porém, todos estes artifícios na verdade estavam simplesmente escondendo os objetivos centrais. Aumentar o poder
econômico e político de elites (agora na forma de grandes corporações transnacionais), manter e até mesmo aperfeiçoar
a dependência de nosso continente aos países desenvolvidos e aumentar a subordinação da agricultura ao
desenvolvimento industrial do “Primeiro Mundo”, transferindo os ganhos da agricultura para empresas a montante e a
jusante do setor agropecuário.
Em suma, com este processo o Brasil seguiu sem pensar um modelo de desenvolvimento verdadeiramente nacionalista
e as contradições e desigualdades sociais somente se intensificaram. Trabalhadores rurais, pequenos proprietários,
camponeses e povos tradicionais, que viveram ou se formaram condicionados à lógica de exploração do grande latifúndio
tradicional, com o processo de modernização agrícola, tiveram sua situação ainda mais dificultada e foram em grande
medida expulsos em direção aos grandes centros urbanos em formação para integrar a força de trabalho do campo
industrial brasileiro, o qual, segundo Jacob Gorender (1979), principiou seu desenvolvimento “já no fim do escravismo
brasileiro, apoiado na acumulação originária de capital, processado no próprio modo de produção escravista colonial
[...] surgiu ali um setor industrial fabril, tipicamente capitalista”.
Contudo, este cenário, aliado ao processo de abertura democrática (1985) vivida no país, foi responsável também por
fazer eclodir um sentimento muito forte de revolta e indignação, aliada a necessidade de organização coletiva para se
construir a luta pela superação das mazelas enfrentadas. É neste período que se afloram muitas lutas sociais no Brasil e
nascem movimentos sociais e organizações políticas de esquerda. Como cita Guilherme Delgado (2005), “com o
ambiente de abertura política ocorre uma articulação ampla dos movimentos sociais e entidades de assessoria agrária:
nasce o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), reorganiza-se a Confederação Nacional dos

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Trabalhadores na Agricultura (Contag), a Comissão Pastoral da Terra da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB), criada em 1979, é fortalecida pela igreja e surgem várias organizações não governamentais (ONGs) em apoio
ao 'Fórum nacional pela Reforma Agrária”.
A luta seria grande, pois no nosso país, reformas estruturais que adequassem nosso cenário aos desafios de um verdadeiro
desenvolvimento nacional nunca foram operadas e o Brasil ficou a margem de nações europeias, dos EUA, de países da
Ásia e até mesmo alguns da América Latina que, a partir de ações como a Reforma Agrária, puderam distribuir suas
terras e impulsionar uma agricultura soberana e voltada aos interesses nacionais. O modelo de “Modernização
Conservadora” no Brasil não alterou a estrutura desigual presente historicamente em nosso país, pelo contrário serviu
somente para se aprofundar esta lógica e recriar alguns mecanismos para sua manutenção.
Perdemos o bonde da história ao não acumular para a construção de um projeto de agricultura familiar camponesa, que
fosse capaz de distribuir renda, diminuir as enormes desigualdades sociais presentes em nosso campo, produzir alimentos
saudáveis e a baixos custos e estruturar um verdadeiro projeto de desenvolvimento nacional a partir do campo. A aliança
entre a burguesia industrial e o campesinato, visando este desenvolvimento interno com distribuição de renda, nunca se
realizou e questões como soberania alimentar e popular, 18 produção de alimentos saudáveis e baratos e a extinção das
desigualdades sociais passaram longe da nossa plataforma política de desenvolvimento rural.

Século XXI: A Consolidação do Capital Financeiro na Organização da Produção Agrícola Brasileira


Foi a partir do final do último século que passamos a perceber de maneira mais clara esta nova reconfiguração
organizativa do campo brasileiro. Reconfiguração esta que passa não só pelo campo produtivo e tecnológico, mas adentra
também às esferas da organização social e política do meio rural, ou seja, se Revolução Verde buscou transformar um
latifúndio atrasado, arcaico e improdutivo em um cenário mais avançado, foi somente a partir do século XXI que, com
a entrada definitiva do capital financeiro na organização da produção agrícola, transformou-se também a cara do sujeito
presente neste projeto.
A figura do latifundiário, grande senhor de terras e detentor de poderes políticos oligárquicos, foi substituída pela
imagem das grandes corporações transnacionais que passaram a controlar o setor de maneira hegemônica. A agricultura
brasileira foi verdadeiramente mundializada e seu destino passou a ser decidido não mais aqui e nem em favor se quer
das antigas elites brasileiras, mas sim nas grandes bolsas de valores, seguindo os interesses do mercado especulativo
internacional.
É este mercado financeiro que controla hoje, não só a produção, mas também a distribuição das chamadas commodities
agrícolas, produto principal extraído deste modelo conhecido como agribussines ou agronegócio. Talvez seja esse um
dos motivos para que tenhamos hoje um sistema financeiro tão desenvolvido ao ponto de provocar um verdadeiro
colapso na economia internacional, buscando resposta nos números, temos hoje, grosso modo, um PIB mundial na casa
dos U$$ 50 trilhões (dólares) em mercadoria, porém, para estas mercadorias circularem, temos cerca de U$$150 trilhões
(dólares) no mercado mundial. Sem dúvida, são problemáticas que, algum dia, terão de ser respondidas.
Neste cenário nossa agricultura segue batendo recordes. Infelizmente, tristes recordes. Somos hoje, desde 2008, os
maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, os venenos agrícolas. O brasileiro consome em médio 5,2 litros destes
produtos por ano, fato extremamente preocupante, já que são eles responsáveis por causar diversas mazelas ao ambiente
e à saúde humana. Nossa agricultura hoje é vista por este mercado como o depósito mundial de agrotóxicos.
Pesquisas realizadas por cientistas sérios e renomados demonstram dados ainda mais alarmantes: em Lucas do Rio Verde
- MT foram detectados resíduos de agrotóxicos no leite materno de mulheres em lactação e na água da chuva. Estes
produtos são ainda responsáveis por causar problemas como danos de memórias, dificuldades locomotoras, redução de
imunidades no organismo, desregulação hormonal, funções reprodutivas comprometidas, além de ser agente
cancerígeno. Muitos destes princípios ativos proibidos em diversos países, ainda são permitidos no Brasil.
Vale ressaltar ainda que no Brasil hoje, enquanto o agronegócio, que recebe a grande fatia dos investimentos públicos,
se encarrega de produzir as commodities agrícolas que tem a função de enriquecer os países industrializados, a
agricultura familiar, ocupando apenas um quarto da área agrícola e com bem menos investimentos é responsável por
garantir a segurança alimentar do país, produzindo, por exemplo, cerca de 70% do feijão, 87% da mandioca e 58% do

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leite, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 59% do plantel suíno, 50% da aves, 30% dos bovinos e, ainda, 21%
do trigo consumidos no país. O setor é ainda responsável por empregar 75% da mão de obra do campo e responde por
38% do total de valor produzido na agricultura.
São números que nos apresentam uma realidade muitas vezes desconhecida aos nossos olhos, pois é construído
atualmente um pensamento hegemônico que associa tudo de próspero e moderno na agricultura ao agronegócio e relega
à agricultura familiar camponesa papel de secundária importância, ficando esta com uma imagem de símbolo da miséria
e do atraso.
Sabemos que este pensamento está equivocado e que a realidade demonstra uma pequena agricultura, que nasceu em
meio às contradições do histórico latifúndio brasileiro, capaz de subsidiar grandes conquistas para o Brasil, distribuir
renda, produzir alimentos saudáveis e a baixos custos. Se faz necessário construirmos esse novo modelo de agricultura,
capaz de corrigir as injustiças históricas praticadas em nosso território e promover um desenvolvimento sadio da
população brasileira e de nossos/as agricultores/as.

b. Doença da “normalidade” na universidade


Por Renato Santos de Souza
Publicado no E-Book: NASCIMENTO, L.F.M. (Org.) Lia, mas não escrevia (livro eletrônico): contos, crônicas e
poesias. Porto Alegre: LFM do Nascimento, 2014.

Somos todos normóticos em um sistema acadêmico de formação de pesquisadores e de produção de conhecimentos que
está doente, e nossa Normose acadêmica tem feito naufragar o pensamento criativo e a iniciativa para o novo em nossas
universidades.
Doença sempre foi algo associado à anormalidade, à disfunção, a tudo aquilo que foge ao funcionamento regular. Na
área médica, a doença é identificada por sintomas específicos que afetam o ser vivo, alterando o seu estado normal de
saúde. A saúde, por sua vez, identificase como sendo o estado de normalidade de funcionamento do organismo.
Numa analogia com os organismos biológicos, o sociólogo Émile Durkheim também sugeriu como identificar saúde e
doença em termos dos fatos sociais: saúde se reconhece pela perfeita adaptação do organismo ao seu meio, ao passo que
doença é tudo o que perturba essa adaptação. Então, ser saudável é ser normal, é ser adaptado, certo? Não
necessariamente: apesar de Durkheim, há quem considere que do ponto de vista social, ser normal demais pode também
ser patológico, ou pode levar a patologias letais.
Os pensadores alternativos Pierre Weil, Jean-Ives Leloup e Roberto Crema chamaram isto de Normose, a doença da
normalidade, algo bem comum no meio acadêmico de hoje. Para Weil, a Normose pode ser definida como um conjunto
de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou por maioria
em uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, doença e morte. Crema afirma que uma pessoa normótica
é aquela que se adapta a um contexto e a um sistema doente, e age como a maioria. E para Leloup, a Normose é um
sofrimento, a busca da conformidade que impede o encaminhamento do desejo no interior de cada um, interrompendo
o fluxo evolutivo e gerando estagnação.
Estes conceitos, embora fundados sobre um propósito de análise pessoal e existencial, são muito pertinentes ao que se
vive hoje na academia. Aqui, pela Normose não é apenas o indivíduo que adoece, que estagna, que deixa de realizar o
seu potencial criador, mas o próprio conhecimento. E não apenas no Brasil, também em outras partes do mundo.
Peter Higgs, Prêmio Nobel de Física de 2013 disse recentemente que não teria lugar no meio acadêmico de hoje, que
não seria considerado suficientemente produtivo, e que, por isso, provavelmente não teria descoberto o Bosão de Higgs
(a “partícula de Deus), descrito por ele em 1964 mas somente comprovado em 2012, quase 50 anos depois, com a entrada
em funcionamento de uma das maiores máquinas já construídas pelo homem, o acelerador de partículas Large Hadron
Collider. Higgs contou ao The Guardian que era considerado uma “vergonha” para o seu Departamento pela baixa
produtividade de artigos que apresentava, e que só não foi demitido pela possibilidade sempre iminente de um dia ganhar
um Nobel, caso sua teoria fosse comprovada. Ele reconheceu que, nos dias de hoje, de obsessão por publicações no

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ritmo do “publique ou pereça”, não teria tempo nem espaço para desenvolver a sua teoria. À sua época, porém, não só
o ambiente acadêmico era outro como ele próprio era um desajustado, um anormal, uma espécie de dissidente que
trabalhava sozinho em uma área fora de moda, a física teórica especulativa. Então, sua teoria é também fruto desta
saudável “anormalidade”.
A mim, embora não surpreendam, as declarações de Higgs soam estarrecedoras: ou seja, com os sistemas meritocráticos
de avaliação de hoje, que privilegiam a produção de artigos e não de conhecimentos ou de pensamentos inovadores, uma
das maiores descobertas da humanidade nas últimas décadas, que rendeu a Higgs o Nobel em 2013, provavelmente não
teria ocorrido, como certamente muitos outros avanços científicos e intelectuais estão deixando de ocorrer em função
dos sistemas atuais de avaliação da “produtividade em pesquisa”. É a Normose acadêmica fazendo a sua maior vítima:
o próprio conhecimento.
Aliás, nunca se usou tanto a autoridade do Nobel para apontar os desvios doentios do nosso sistema acadêmico e
científico como em 2013. Randy Schekman, um dos ganhadores do Nobel de Medicina deste ano, em recente artigo no
El País, acusou as revistas Nature, Science 21 e Cell, três das maiores em sua área, de prestarem um verdadeiro
desserviço à ciência, ao usarem práticas especulativas para garantirem seus mercados editoriais. Schekman menciona,
por exemplo, a artificial redução na quantidade de artigos aceitos, a adoção de critérios sensacionalistas na seleção dos
mesmos e um absoluto descompromisso com a qualificação do debate científico. E afirmou que a pressão para os
cientistas publicarem em revistas “de luxo” como estas (de alto impacto) encoraja-os a perseguirem campos científicos
da moda em vez de optarem por trabalhos mais relevantes. Isto explica a afirmação de Higgs sobre ser improvável a
descoberta que lhe deu o Nobel no mundo acadêmico de hoje.
O próprio Schekman publicou muito nestas revistas, inclusive as pesquisas que o levaram ao Nobel: diferentemente de
Higgs, que era um dissidente, Schekman também já sofreu de Normose. Porém, agora laureado, decidiu pela própria
cura e prometeu evitar estas revistas daqui para adiante, sugerindo não só que todos façam o mesmo, como também que
evitem avaliar o mérito acadêmico dos outros pela produção de artigos. Foi preciso um Nobel para que se libertasse da
doença.
A atual Normose acadêmica se deve à meritocracia produtivista implantada nas universidades, cujos instrumentos, no
Brasil, para garantir a disciplina e esta doentia normalidade são os sistemas de avaliação de pesquisadores e programas
de pós-graduação, capitaneados principalmente pela CAPES e CNPq. Estes sistemas têm transformado, nas últimas
décadas, docentes e alunos em burocráticos produtores de artigos, afastando-os dos reais problemas da ciência e da
sociedade, bem como da busca por conhecimentos e pensamentos realmente novos. A exigência de produtividade é um
estímulo ao status quo, obstruindo a criatividade, a iniciativa, o senso crítico e a inovação, pois inovar, criar, empreender,
fugir ao normal pode ser perigoso, pode ser incerto, pode ser arriscado quando se tem metas produtivas a cumprir;
portanto, não é desejável: o mais seguro é fazer “mais do mesmo”, que é ao que a Normose acadêmica condenou as
universidades e seus integrantes ao redor do mundo.
Eu escrevi em um artigo de 2013 que a meritocracia leva a uma ilusão de eficiência e progresso que não podem se
realizar, porque as meritocracias modernas são burocracias. Como bem ensinou Max Weber, a burocracia é uma força
modeladora inescapável quando se racionaliza e se regulamenta algum campo de atividade, como acontece no sistema
científico atual. Para supostamente discriminar por mérito pessoas e organizações acadêmicas, montou-se um tal sistema
de regras, critérios avaliativos, hierarquias de valor, indicadores, etc., que a burocratização das ações acadêmicas tornou-
se inevitável. Agora é este sistema que orienta as ações dos acadêmicos, afastando-os de seus próprios valores, desejos
e convicções, para agirem em função da conveniência em relação aos processos avaliativos, visando controlar os
benefícios ou penalidades que eles impõem. Pessoas sob regimes de avaliação meritocráticos se tornam burocratas
comportamentais; e burocratas, como se sabe, pela primazia da conformidade organizacional a que se submetem,
tornam-se inexoravelmente impessoalistas, formalistas, ritualistas e avessos a riscos e a mudanças. Tornam-se
normóticos, preferindo, no caso da academia, uma produção sem significado, sem relevância, sem substância inovadora,
porém segura, a aventurarem-se incertamente em busca do novo.
Agora, depois de já ter escrito isto naquele artigo, descubro que o Nobel de Medicina de 2002, o sul-africano Sydney
Brenner, em entrevista de fevereiro deste ano à King’s Reviw, afirmou exatamente o mesmo. Dentre outras coisas, disse
ele que as novas ideias na ciência são obstruídas por burocratas do financiamento de pesquisas e por professores que
impedem seus alunos de pós-graduação de seguirem suas próprias propostas de investigação. É ao menos alentador

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perceber que esta realidade insólita não é apenas uma versão tupiniquim da busca tardia e equivocada por um lugar o
sol no campo acadêmico atual, mas uma deformação que assola também os “grandes” da arena científica mundial. E
também constatar que os laureados com a distinção do Nobel têm se percebido disto e denunciado ao mundo.
De certa forma, todos na academia sabem que estes sistemas de avaliação acadêmicos têm levado a um produtivismo
estéril, mas isto não tem sido suficiente para mudar nem as condutas pessoais, nem as diretrizes do sistema, porque a
Normose é uma doença coletiva, não individual. Ela advém da necessidade de legitimação do indivíduo frente ao sistema
de regras, normas, valores e significados que se impõe a ele. Por isto é que o pesquisador australiano Stewart Clegg
afirmou, certa vez, que “pesquisadores que buscam legitimação profissional podem com muita facilidade ser
pressionados a aprender mais e mais sobre problemas cada vez mais desinteressantes e irrelevantes, ou a investigar mais
e mais soluções que não funcionam”.
Mas agora me advém uma questão curiosa: por que tantos Nobéis tem denunciado este sistema? Creio que porquê do
alto da distinção recebida, eles já não têm mais nenhum compromisso com a meritocracia acadêmica, e podem falar do
dano que ela causa às ideias realmente inovadoras que, inclusive, podem levar à láurea. Mas também porque o Nobel
foge à lógica da meritocracia, ele não é um mecanismo meritocrático, portanto, não é burocrático. Ele é até mesmo
político, antes de ser meritocrático e burocrático! É um reconhecimento de “mérito” sem ser uma “cracia”. Ou seja, não
há, através dele, um sistema de governo das atividades científicas, e por isso ele não leva a uma racionalidade formal,
pois ninguém em consciência normal pautaria sua atividade acadêmica quotidiana pela improvável meta de, talvez já na
velhice, ganhar o Nobel; e mesmo que tivesse este excêntrico propósito como pauta, teria que fugir da meritocracia que
governa os sistemas científicos atuais para chegar a um lugar reconhecidamente distinto, pois ser normal não leva ao
Nobel.
Mas este não é o mundo da vida dos seres acadêmicos de hoje, aqui vivemos em uma meritocracia burocrática, e num
contexto assim, pouco adiantam as advertências da editora chefe da revista Science, Marcia McNutt, publicados no
Estadão, de que a ciência brasileira precisa ser mais corajosa e mais ousada se quiser crescer em relevância no cenário
internacional. Segundo ela, para criar essa coragem é preciso aprender a correr riscos, e aceitar a possibilidade de
fracasso como um elemento intrínseco do processo científico. Mas quando as pessoas são penalizadas pelo fracasso, ou
são ensinadas que fracassar não é um resultado aceitável, elas deixam de arriscar; e quem não arrisca não produz grandes
descobertas, produz apenas ciência incremental, de baixo impacto, que é o perfil geral da ciência brasileira atualmente,
segundo ela. É a Normose acadêmica “a brasileira” vista de fora.
Somos todos normóticos em um sistema acadêmico de formação de pesquisadores e de produção de conhecimentos que
está doente, e nossa Normose acadêmica tem feito naufragar o pensamento criativo e a iniciativa para o novo em nossas
universidades. Sem eles, porém, não há futuro significativo para a vida intelectual dentro delas, nem na ciência nem nas
artes.

c. Questão agrária
Por Diego Adolfo Pitirini
Estudante de Agronomia na UFSM e integrante da FEAB
“Como esperar transformações profundas em um país onde eram mantidos os fundamentos tradicionais da situação
que se pretendia ultrapassar? Enquanto perdurassem intactos e, apesar de tudo, os poderosos, os padrões econômicos e
sociais herdados da era colônias e expressos principalmente na grande lavoura servida pelo braço escravo, às
transformações mais ousadas teriam de ser superficiais e artificiosas”
Sergio Buarque de Holanda

Compreender a questão agrária em uma perspectiva histórica faz-se necessário uma vez que o monopólio da terra pelo
latifúndio e pelas grandes empresas agrícolas hoje, são reflexos de um processo de colonização e modernização
conservadora no Brasil. Condicionantes da lógica do desenvolvimento capitalista que se faz de forma desigual e
contraditória desde a invasão de nosso país, em que a não democratização da propriedade da terra impediu o acesso ao

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trabalho e as condições dignas de vida a uma parcela significativa da população brasileira, bem como inviabilizou uma
plena soberania alimentar nacional.
Assim, a história nos mostra que os conflitos e contradições da questão agrária já se presenciam na forma de ocupação
do território brasileiro. Pois, a forma de ocupação colonial foi caracterizada pelo regime de sesmarias, da monocultura
e do trabalho escravo, fatores que conjugados, deram origem ao latifúndio, propriedade rural sobre a qual se centrou a
organização de nosso espaço agrário.
O Brasil a partir do ano de 1500 deixou de pertencer aos povos que aqui viviam por séculos e tornou-se uma propriedade
da coroa portuguesa. A ocupação do país se deu de maneira desumana e violenta, resultando na morte de milhares de
seres humanos pertencentes a povos que aqui existiam há 50 mil anos. Esta civilização organizava-se estruturalmente
no modo de produção denominado por comunismo primitivo, não havendo entre eles a conceituação de propriedade
privada das riquezas naturais.
Primeiramente estes europeus procuravam em nosso território a exploração de ouro e prata, que naquele momento não
foram encontrados, e também do pau-brasil. Com o tempo percebeu-se o potencial agrícola dos cultivos tropicais,
estabelecendo como prioridade da colônia o abastecimento do mercado europeu. Porém, a partir desse momento a
propriedade da terra em nosso país, que até então é algo exclusivo da coroa portuguesa, é distribuída para um
“gerenciamento” da nobreza e da burguesia vindas de Portugal, é o chamado regime de capitanias, onde a terra era
demarcada por acidentes naturais, tendo a elite como responsável por garantir a produção e construir suas leis. Durante
esse período explora-se comercialmente em grande escala culturas como a cana-de-açúcar, o café e gado bovino,
organizado em monoculturas e utilizando quase majoritariamente a exploração do trabalho escravo.
Posteriormente desenvolve-se um setor importante do capitalismo na Europa, ocorre o processo de industrialização
impulsionado pela exploração de matéria prima nas colônias. A Inglaterra país da revolução industrial gera tensões
internacionais, buscando mercado consumidor, para que se acabe a escravidão nos países coloniais. Assim, diante da
pressão inglesa, das lutas dos negros e de outras parcelas da população chegou-se ao fim do tráfego negreiro, e a criação
de leis que vão paulatinamente diminuindo o número de escravos no Brasil. A partir disso se começa a incentivar a vinda
de trabalhadores pobres da Europa para servirem de mão de obra nas fazendas. Como consequência da vasta área
improdutiva e a necessidade de que esses imigrantes e que os negros libertos servissem como força de trabalho de baixo
custo aos “grandes senhores de terra” levou a criação da lei 601, de 1850, pela qual se introduzia a propriedade privada
de terras, onde somente poderia virar proprietário quem comprasse, pagando em dinheiro à coroa. Este aparato
constituinte garantiu a existência dos grandes latifundiários e a exploração dos trabalhadores rurais, bem como,
caracterizou a terra como uma mercadoria plena. Neste momento histórico a superfície de nosso território deixou de ser
oficialmente considerada uma riqueza do povo, um bem da humanidade, e tornou-se uma propriedade privada, uma
forma de acúmulo de Capital. Mesmo com a libertação dos escravos em 1888, a exploração do trabalho no campo não
deixou de existir de maneira violenta.
A configuração do poder político e econômico do Brasil ficou centralizada nos grandes proprietários de terra durante o
século XX, dividindo o espaço com as elites urbanas. A partir de então o desenvolvimento do capitalismo começa a
tomar dimensões mundiais. No Brasil os grandes comerciantes em conjunto com a aristocracia cafeeira começam a
explorar a industrialização. Este setor profere de grandes dificuldades para desenvolver-se, pois diferentemente dos
países europeus, onde existia uma grande população urbana disposta a servir de mão de obra barata e submeterem-se as
condições mínimas de trabalho, a população brasileira era em grande maioria rural. A resistência a submissão aos
grandes fazendeiros se mostra eminente neste momento, ou seja, existe povo no campo buscando produzir alimentos em
uma perspectiva diferente da hegemônica. Ao longo do desenvolvimento do capitalismo no Brasil, a partir de populações
mestiças originárias do processo de colonização e de camponeses pobres vindos da Europa, constitui-se o Campesinato.
Essa construção anti-hegemônica começa a ganhar força, constituem-se grupos sociais organizados que reivindicam
terra para a produção de alimentos, são os movimentos sociais que lutam pela reforma agrária do formato atual. Durante
esta etapa de desenvolvimento, a partir da década 1950, podemos citar a luta das Ligas Camponesas, a organização da
União dos Lavradores e Trabalhadores Brasileiros (ULTAB), as lutas dos posseiros e os colonos. Nunca esquecendo
movimentos anteriores como: Canudos, Contestado, Trombas e Formoso.
As elites brasileiras se vêm neste momento com uma problemática de desenvolver-se sobre a forte pressão dos operários
na cidade e dos camponeses no campo. Vivemos momentos de grandes questionamentos a organização da produção no

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modo de produção capitalista, os trabalhadores brasileiros começam a reivindicar uma vida digna. A essência do sistema
é questionada, a luta por uma transformação estrutural da sociedade ganha força na representação do Partido Comunista
Brasileiro (PCB), que propunha um programa altamente temido, buscando organizar os trabalhadores, naquele momento,
luta por “reformas de base”. Existia apoio por parte dos comunistas ao presidente João Goulart, onde se iniciou um
processo de reforma agrária. A elite capitalista manteve-se unificada durante esse período, onde em 1964 sufocou o
anseio de liberdade dos trabalhadores sem terra, falamos do golpe militar. Oriunda das forças políticas da classe
dominante, os latifundiários e a burguesia industrial, a ditadura militar, visava resolver “a problemática do campo e da
cidade”. Torna-se importante ressaltar a existência de um processo iniciado em 1950, no mundo, a solução necessária
ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil, falamos da revolução verde, a modernização conservadora do campo.
Uma proposta simples onde se deslocou o aparato estatal para modernizar a agricultura brasileira (incentivos econômicos
públicos a compra de máquinas agrícolas, formação de profissionais para adaptação da tecnologia, a produção de
pesquisas e incentivos fiscais para que os empresários urbanos comprassem terra), ou seja, deslocar para a cidade a força
de trabalho necessária para o desenvolvimento da exploração industrial, bem como gerar demanda de maquinas agrícolas
e insumos para a indústria. Essa medida criou as condições para que no período que vai de 1960 a 2000 para que a
população urbana passa-se de 36% para 82%, enquanto a população rural cai-se de 64% para 18%.
O estado ditatorial foi um dos maiores responsáveis pelo desenvolvimento da revolução verde. A palavra modernização
que em muitos países significou a realização da reforma agrária, no Brasil se deu pela lógica inversa. Devido ao receio
de fazer a reforma agrária antes que os comunistas a façam, o regime ditatorial criou no país uma regulamentação para
contemplar a carência de distribuição de terras, o chamado estatuto da terra. Contudo, durante o estado totalitário, o que
se teve foi um programa colonização agrária, para “acalmar” os conflitos, onde se assentava famílias que reivindicavam
o acesso à terra em regiões sem as mínimas condições de vida, além do assassinato de muitas lideranças da luta.
O processo de “modernização conservadora” é responsável sobre as atuais condições da agricultura hoje, convivemos o
modelo agrícola destruidor e desigual. A produção agrícola, hegemônica hoje, em largas extensões de terra, que também
já foi chamada de “plantation”, provoca perda de diversidade e um forte desequilíbrio ambiental, sendo que seus efeitos
maléficos dos grandes cultivos são pouco mensuráveis, e que estes demoram anos para serem percebidos. Além dos
efeitos ecológicos diretos também vemos expressar as contaminações aquáticas onde cada vez mais nossos rios estão
assoreados, sofrendo também com a Eutrofização, ou ainda contaminados com metais pesados e agrotóxicos. Enquanto
isso a agricultura familiar camponesa é responsável por metade da riqueza, pela maioria dos alimentos produzidos no
campo e ainda preserva o meio ambiente, em apenas 18 % da área total do país. Hoje assistimos o clamar não mais por
algum incentivo público para desenvolver esse modelo, mas, dramaticamente, pelo perdão das dívidas dos latifundiários
e pela necessidade de pararmos com a destruição da natureza.
A partir da redemocratização do Brasil a questão agrária começou a ser tratada como uma necessidade histórica para o
desenvolvimento da nação, compreendida pelo conjunto da sociedade sobre a perspectiva capitalista. Oriunda dos países
europeus, a concepção de distribuição de terras para aquecer o mercado consumidor interno, e aumentar a produção de
alimentos, foi apoiada em diversas nações pela burguesia industrial, diferentemente de nosso país, onde estes setores
estavam aliados. Contudo as questões produtivas e a necessidade de distribuição de renda levam a um maior apoio dos
setores progressistas aqui presentes. Em um período de menor repressão à luta social ganham força novamente os
movimentos sociais organizados de luta pela terra. Em especial, surge o maior movimento social da América Latina
hoje, originário de uma articulação entre camponeses, sindicatos combativos e setores libertários da igreja católica, o
movimento dos trabalhadores rurais sem terra (MST), o grande responsável pela criação de assentamentos de reforma
agrária no Brasil nesses últimos anos.
O processo de apropriação das riquezas por poucos, ou seja, a exclusão e marginalização da maioria são contradições
que instigam a revolta e as condições de conflito, contudo a ideologia dominante reproduz as “regras” das vias de
exploração. Como já relatado, a luta por terra e consequentemente a repressão da classe dominante em nosso país começa
a partir o descobrimento, porém esta toma o formato atual a partir da regulamentação da propriedade que força a
submissão de grande parte da força de trabalho humano existente aqui, por valores mínimos aos grandes proprietários.
Os conflitos por reforma agrária permeiam a história da América Latina desde momentos anteriores à implantação dos
ditos regimes democráticos. Enganam-se redondamente os que imaginam que a violência no campo é produto da ação
dos movimentos que lutam pela reforma agrária no Brasil. É a grave crise social provocada pela inserção subalterna da
economia brasileira no processo de globalização capitalista que, ao intensificar perigosamente a violência no campo e

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na cidade, recolocou a questão agrária no centro do debate nacional. Em outras palavras, não é o MST que promove
invasão de terra, são as ocupações produzidas pelas multidões que perambulam pelo país afora que impulsionam o MST
(SAMPAIO, P. A., 1999). A grande problemática, a criminalidade presente hoje nas grandes cidades brasileiras, possui
relação umbilical entre a elevada concentração da propriedade fundiária e a presença de um enorme exército industrial
de reserva permanentemente marginalizado do mercado de trabalho.
Hoje, muitos movimentos sociais, parlamentares e sindicatos reafirmam a necessidade de reestruturação fundiária no
país, porém tal reforma não ocorre em sincronia com as demandas populares gerando um enorme descontentamento e
lutas ofensivas por acesso à terra. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) aponta que 28 pessoas foram mortas, em um
total de mais de 1176 situações de conflito no último ano. Tal problema está associado à pobreza e desigualdade social
existentes não só no meio rural, mas no conjunto da sociedade. Os movimentos sociais, ou a luta social, é originário das
deficiências e demandas de grupos excluídos da distribuição das riquezas e criminalizados no sistema de organização
em nossa sociedade.
A contraposição ideológica dos setores conservadores a esta pauta perpassa em um primeiro momento pelo direito à
propriedade privada, o que a coloca no centro da luta de classes, e a repressão por parte dos grandes proprietários que
não desejam abrir mão de seus “impérios”. Em um segundo momento, está à opinião da população comum que não seria,
em nenhum momento, prejudicada pela democratização do acesso à terra, mas que se fundamenta no repúdio a
manifestação popular, frutos da alienação e hegemonia ideológica capitalista, e que julga como únicos culpados pelos
conflitos agrários os movimentos sociais. A mais contundente proposição destes setores compreende de que a etapa atual
do desenvolvimento capitalista no campo, o Agronegócio, é a salvação do nosso país, a modernização e a geração de
renda. Devemos possuir a clareza de este modelo é o que existe desde a colonização, que serve a burguesia internacional,
a produção de commodities e que a agricultura familiar camponesa não se desenvolve sobre ele. A própria estruturação
da palavra agronegócio nos dá à clareza de que este modelo não serve aos trabalhadores, é um modelo onde o direito ao
“negócio” está acima dos direitos de o povo ter o que comer.
Existe uma parcela da esquerda que possui objeção em relação à natureza da reforma agrária em nosso país. Como já
explicitado aqui, a democratização do acesso à terra é historicamente parte de um conjunto de ações denominadas de
reformas de base, caracterizada como uma reforma democrática nos países capitalistas ou a partir de uma perspectiva
socialista nos países onde houve revoluções. A reforma agrária como proposta contemporânea, contempla certa
semelhança com os processos europeus de reestruturação capitalista. Segundo os críticos, esta reforma agrária não estaria
contemplando a luta por uma nova sociedade, por que admite a entrega de terra desapropriada aos sem-terra na forma
de propriedade privada familiar ou cooperativa; não se prevê a extinção total das médias e até grandes propriedades; e
se reconhece o mercado capitalista. Condições que não contemplam a reforma agrária socialista clássica.
Esta objeção não se sustenta. A luta pela superação do modo de produção capitalista “não exclui a concentração em
objetivos que imediatamente e de forma direta não se relacionam com a revolução socialista”. O que importa, em termos
de avanço na direção do socialismo, e que estes objetivos “representem soluções reais a serem dadas as contradições e
promovam o progresso e o desenvolvimento histórico e não o seu estancamento por tentativas de conciliação e
harmonização dos contrários, o que representa a saída conservadora senão reacionária para os problemas sociais” (Caio
Prado Jr.). É importante termos clareza que vivemos na América latina, e que aqui o capitalismo desenvolveu-se de
maneira diferente do resto mundo, aqui as reformas não foram pautadas pela burguesia, isso nos leva a um enfrentamento
direto com as elites. A reforma agrária representa o acúmulo de forças histórico e imediato à classe trabalhadora, o
acúmulo histórico é à tomada de consciência pelos que se envolvem na luta social diretamente, e o imediato faz relação
com as melhorias das condições de vida, ou seja, diminuição do poder dos de cima e aumento do poder dos de baixo.
Cabe também ressaltar, que em nossa concepção, no Brasil, algumas tarefas democráticas em relação ao
desenvolvimento produtivo terão de se dar já em uma etapa socialista.
Assim, analisamos a questão agrária em uma perspectiva histórica, porém sob uma visão crítica que tem por finalidade
não uma leitura cômoda, mas sim a busca de uma ordem social justa e equilibra. Portanto, a chegada à cidadania de
grande parte dos pobres passa resolução de um problema histórico do acesso à terra. Mas, passa também por uma
proposta de Reforma Agrária que tem de ser assumida como proposta de transformação desta sociedade, em busca de
justiça, dignidade e solidariedade

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d. Questão minero-energética e a construção de um projeto popular para o brasil

Por Grasiele Berticelli

Estudante de Agronomia da Universidade Federal da Fronteira Sul/Erexim;


Militante da Federação de Estudantes de Agronomia do Brasil, Núcleo de
Trabalho Permanente em Movimentos Sociais Populares 2018-2019; Militante e
integrante da Coordenação Estadual do Movimento de Atingidos por Barragens
– MAB.

Introdução

A questão energética pode ser abordada por diversos ângulos, desde a própria eletricidade, os combustíveis, até
os alimentos que nos dão energia para seguir na luta. O setor da mineração, que é eletro-intensivo, ou seja, que consome
grandes quantidades de energia elétrica, é um grande produtor de riquezas, essencial para o avanço da economia
nacional. A eletricidade e os minérios são fundamentais para a produção e reprodução social, cultural e material da vida.
O setor minero-energético é estratégico para a construção da soberania dos povos, com a produção de riquezas que
sirvam para atender às necessidades da população. Portanto, é fundamental a manutenção do caráter público das
empresas de setores estratégicos, como o minero-energético, assim como a efetiva participação popular nas decisões
sobre a produção e a distribuição das riquezas produzidas pela classe trabalhadora, para que a soberania nacional esteja
acima dos interesses do capital privado, nacional e internacional, e da sede de poder do imperialismo.

As barragens e a violação de direitos humanos

“Águas para a vida, não para a morte”

A produção de energia elétrica no Brasil se dá, majoritariamente, a partir de fontes hídricas, devido a abundância
deste recurso em nossos territórios e pelo baixo custo de produção envolvido. A partir da década de 1960, durante a
ditadura militar, no auge do setor energético (devido à crise mundial do petróleo e a busca por fontes renováveis), deu-
se início à estudos de viabilidade para a construção de projetos faraônicos de geração de energia hidrelétrica, com a
justificativa de promover o progresso, a modernização e a urbanização, conforme o plano de desenvolvimento traçado
para o país.

Já a mineração no Brasil remonta ao período colonial, no séc. XVIII, com a extração de ouro, prata, cobre e
pedras preciosas, através da exploração intensiva de mão-de-obra escravizada, com condições desumanas de trabalho.
Passados alguns séculos, a mineração se constitui como atividade estratégica para a soberania nacional, aplicada nas
indústrias metalúrgicas, siderúrgicas, de fertilizantes, petroquímica, dentre muitas outras, num mundo altamente
dependente de tecnologia.

Tanto na produção de energia hidrelétrica quanto na extração de minérios, é feito o uso de barragens, para a
contenção de água ou de rejeitos de mineração. Ambas as atividades apresentam um alto grau de impacto humano e
ambiental, seja pelo revolvimento do solo e acúmulo de substâncias tóxicas, seja pelo alagamento de grandes extensões
de terra. Nos dois casos, as populações que vivem nos entornos dos territórios em que se desenvolvem as atividades,
sofrem com impactos profundos e diversos, como a expulsão de suas terras, o comprometimento do trabalho para a
obtenção do sustento, até a destruição de laços comunitários e afetivos. O Movimento de Atingidos por Barragens
(MAB), desde os primórdios, ainda nas Coordenações Regionais de Atingidos por Barragens (CRAB), luta contra a
construção de hidrelétricas baseadas na violação de direitos humanos e em amplos impactos ambientais.

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Segundo o Relatório Final da Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana
(CDDPH, 2010), 16 direitos humanos são violados no processo de implantação de barragens no Brasil, dentre eles:
direito de ir e vir; direito à informação e à participação; à liberdade de reunião, associação e expressão; ao trabalho e a
um padrão digno de vida; à moradia adequada; à educação; a um ambiente saudável e à saúde; à melhoria contínua das
condições de vida; à plena reparação das perdas; à justa negociação, tratamento isonômico, conforme critérios
transparentes e coletivamente acordados; às práticas e aos modos de vida tradicionais, assim como ao acesso e
preservação de bens culturais, materiais e imateriais; à reparação por perdas passadas; direito dos povos indígenas,
quilombolas e tradicionais; de grupos vulneráveis à proteção especial; de acesso à justiça e a razoável duração do
processo judicial; e de proteção à família e a laços de solidariedade social ou comunitária.

A partir desse levantamento, podemos ter uma dimensão dos passivos enfrentados pelas populações atingidas.
Na esfera ambiental, nas barragens de contenção de água, ocorrem diversos prejuízos à saúde, pela proliferação de
doenças e má qualidade da água, que “apodrece” nos reservatórios; pelo surgimento de micro climas; pela submersão
de terras produtivas; pela formação de neblina; assoreamento dos rios; diminuição drástica da fauna aquática. Na
mineração, os impactos na saúde humana e ambiental se dão pela contaminação da água e do solo com metais pesados
e produtos químicos; a poluição do ar com partículas de poeira de minérios e sonora, pela explosão de dinamites; a
abertura de imensas crateras para a extração mineral, que altera o relevo e retira a cobertura vegetal, podendo causar
grandes erosões, além da perca da biodiversidade local; e também o consumo de grandes volumes de água em todas as
etapas da extração.

Se não bastasse tudo isso, as populações que vivem próximas as barragens correm constantemente o risco de
serem vítimas de um rompimento, como os ocorridos em Mariana e Brumadinho e tantos outros, pouco noticiados.
Estima-se que no Brasil, o número de atingidas/os por empreendimentos hidrelétricos seja de 2 milhões, sendo que 70%
destes não tiveram nenhum tipo de reparação. O custo com indenizações e reassentamentos para as populações atingidas
é em torno de apenas 5% do valor total para a construção de uma UHE, e mesmo assim não é garantido pelas empresas
donas das usinas.

Neste contexto de violação de direitos, as mulheres são as mais afetadas, desde a concepção patrimonialista da
condição de atingidos, pois, historicamente, lhes foi negado o direito à terra, sendo sempre subordinadas a uma figura
masculina que detém a propriedade privada. O MAB afirma 6 eixos principais de violações contra as mulheres: 1)
Mundo do trabalho: invisibilidade; perda do trabalho (renda) e não adaptação ao meio urbano; 2) Participação política:
desconsideradas em espaços deliberativos (negociações); desqualificadas como sujeitas de direitos; sem acesso à
serviços como creche e transporte, para possibilitar a participação política ativa; 3) Relação preconceituosa das
construtoras: não dão voz às mulheres; conceito patrimonialista de atingido; 4) Perda dos laços comunitários e familiares;
5) Aumento dos conflitos e violência: exploração sexual de mulheres e crianças, aumento do tráfico, mercado da
prostituição, gravidez acidentais, DST, estupros, feminicídios; 6) Acesso a políticas públicas: acesso precário a saúde,
educação, transporte, segurança, devido ao inchaço populacional.

Mineração no Brasil – o lucro acima da vida

“Não foi acidente, a Vale mata bicho, mata planta, mata gente”

Recentemente, no dia 25/01/19, Minas Gerais foi novamente tomada pela lama, desta vez, no município de
Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. Há 3 anos do crime ocorrido em Mariana, a mineradora Vale
é protagonista de mais um crime ambiental e social, em que o lucro está acima da vida, com o rompimento da barragem
de rejeitos de mineração da Mina Córrego do Feijão, resultando em um massacre, com grande número de mortes
confirmadas e desaparecidos/as, além da destruição de estruturas e contaminação ambiental, com os rejeitos tóxicos
presentes no Rio Paraopeba, prestes a atingir o Rio São Francisco. O crime ocorrido em Mariana, em 2015, ainda
permanece impune, com a população atingida sofrendo dia após dia, com a conivência do judiciário, com a perseguição
e o descaso da Samarco, que tem como principais acionistas a Vale e a BHP Billiton, assim como da Fundação Renova,
criada pelas empresas a partir de uma falsa promessa de reparação dos danos aos atingidos, o que nunca ocorreu. Agora,

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os esforços concentram-se em Brumadinho, no apoio às famílias que permanecem sem respostas da Vale, no que se têm
negado o direito à informação.

A história do RS também é afetada pela mineração, como em 1981, com o vazamento de mercúrio nas
instalações na antiga Companhia Riograndense do Cobre, nas Minas do Camaquã, provocando grande contaminação
humana e ambiental.

O massacre da Vale revela a perversidade das políticas de privatização das empresas públicas brasileiras pelos
governos neoliberais, resultando no abandono dos princípios de segurança humana e ambiental. Após a privatização, no
governo FHC, a prioridade passou a ser o lucro, com base na exploração intensiva dos nossos recursos minerais, de
forma insustentável e desenfreada, sem o investimento em suas estruturas locais, sem haver uma preocupação com
questões de segurança, tanto para as populações atingidas pela mineração quanto para os próprios funcionários,
desconsiderando os impactos ambientais e sociais de seus atos.

No dia 25 de julho de 2018, o governo de Michel Temer publicou três medidas provisórias para “facilitar a
expansão das atividades de mineração no país”, as quais tratam da criação da Agência Nacional de Mineração (ANM),
da modificação do Código de Mineração e da revisão da legislação que trata da Compensação Financeira pela Exploração
de Recursos Minerais. No RS, no último dia 23 de novembro, o governo de Sartori divulgou o documento “Mineração
no Rio Grande do Sul: Diagnóstico Setorial e Visão de Futuro”, defendendo o trabalho conjunto entre o poder público
e privado na mineração. O governo Sartori apontou três pontos como prioritários: o Fosfato Três Estradas, na região de
Lavras do Sul, com investimentos de R$ 184 milhões; o Retiro, em São José do Norte, que terá R$ 800 milhões em
recursos; e o Caçapava do Sul, onde serão aplicados R$ 371 milhões.

O governador eleito, Eduardo Leite, pretende seguir nesta direção ao anunciar a fusão das áreas do Meio
Ambiente e de Infraestrutura, sob o comando do advogado Artur. Leite disse que “não podemos ter processos que duram
mais tempo do que o razoável para a emissão de licenças”. Lemos definiu que “vamos destravar toda essa parte
burocrática em conjunto com a Fepam e os técnicos ambientais do Estado”.

O Projeto Caçapava, da Nexa (ex Votorantin Metais), se dará nas margens do rio Camaquã e prevê a extração
de chumbo, zinco, cobre, prata e talvez ouro para exportação, em mina a céu aberto, com vida útil de 20 anos, em área
de 388 hectares no Passo do Cação, a 9 quilômetros das Guaritas (sítio geológico). Esse projeto está localizado na Serra
do Sudeste, a região mais conservada do Bioma Pampa, com várias espécies de plantas endêmicas e caracterizada por
um modelo de desenvolvimento baseado na pecuária familiar e na produção de alimentos. Para sua implantação, está
prevista a supressão de 24 nascentes e 25 olhos d’água. Além disso, a população ameaçada não foi consultada. A
organização popular resultou na construção do “Manifesto de Palmas” assinado por 26 dos 28 municípios da bacia
hidrográfica do rio Camaquã, que são contrários à instalação.

O projeto Retiro, da empresa Rio Grande Mineração, prevê a extração de 600 mil toneladas de titânio e zircônio
em São José do Norte, numa área de cerca de 30 km de extensão, num território entre a Lagoa dos Patos e o Oceano
Atlântico. O depósito dos rejeitos tóxicos da mineração será em reserva do bioma Pampa, com pilhas de rejeitos a 800
metros do rio Camaquã. Em 22 de setembro de 2018, em uma audiência pública, agricultores e pescadores artesanais de
São José do Norte manifestaram seu repúdio ao projeto que já recebeu uma licença prévia do Ibama.

As populações ameaçadas pelos empreendimentos alegam que, em duas décadas, vão acabar os empregos
propostos, resultando em abandono social e declínio econômico individual e coletivo na região, fruto de uma riqueza
produzida para poucos.

O MAB entende que a política minero-energética nacional não atende às necessidades da população, servindo
ao enriquecimento de empresas privadas estrangeiras e deixando para trás as consequências, para todos/as os/as
brasileiros/as, que são atingidos/as pelo modelo minero-energético. O MAB afirma a importância de defendermos nossas
empresas públicas, alertando a população sobre os riscos da privatização. O que o movimento defende é um projeto
minero-energético popular, que não beneficie as grandes empresas multinacionais e o capital financeiro, como faz a
Vale.

16
Hidrelétricas no Rio Uruguai

Nos anos 70, deu-se início aos estudos de aproveitamento hidrelétrico na Bacia do Rio Uruguai (formada pelos
rios Canoas e Pelotas) que, pelo seu relevo acidentado, em forma de vales, tornava-se propícia à implantação de
barragens. Estavam previstas 22 barragens pelos estudos divulgados em 1978 pela Eletrosul. Entre as obras prioritárias
para o início da década de 1980, estavam as barragens de Machadinho (RS) e de Itá (SC).

Nessa época, em que foram confirmadas as especulações sobre a construção das barragens no Rio Uruguai,
ocorria também à retirada de direitos civis e políticos e a indignação contra o regime imposto pelos militares. Somado a
isso, a insatisfação das famílias atingidas fez surgir inúmeros focos de resistência onde as barragens estavam sendo
instaladas. Na região de abrangência da Barragem de Itá, a luta dos atingidos foi pela não construção. Posteriormente
houve a luta por indenização e logo formaram organizações locais e regionais, as chamadas Comissões Regionais de
Atingidos (CRAB).
Em 1991, no I Congresso dos Atingidos de todo o Brasil, a organização tomou caráter nacional e passou a se
chamar MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens, e nesse congresso, ficou definido que o dia 14 de março é o
Dia Nacional de Luta Contra as Barragens
Atualmente, na bacia do Rio Uruguai (considerando afluentes e leito principal) há sete grandes hidrelétricas
(Barra Grande, Machadinho, Itá, Monjolinho, Campos Novos, Passo Fundo e Foz do Chapecó). Este grande número de
barragens está transformando a bacia num imenso lago, com o final da área de alague chegando bem próximo ao muro
da barragem seguinte, rio acima, como uma escadaria. O único trecho do Rio Uruguai que ainda não foi represado no
lado brasileiro está ameaçado pela construção da barragem de Itapiranga/SC, que atingirá cerca de 2 mil famílias nos
municípios de Itapiranga, São João do Oeste e Mondaí, em SC e, no RS, Pinheirinho do Vale, Caiçara e Vicente Dutra.

Garabi-Panambi – um sonho antigo do capital

Ainda no Rio Uruguai, outro mega projeto pode ser retomado. Trata-se do Complexo Binacional de
Hidrelétricas Garabi-Panambi, que envolve os governos do Brasil e Argentina. Os trâmites sobre o projeto começaram
em meados de 1970, durante a ditadura militar e, devido a pressão da população ameaçada, a construção não foi
efetivada. O complexo é composto por dois barramentos, sendo o Panambi em Alecrim/RS, e o Garabi em Garruchos/RS,
na divisa com a Argentina - província de Missiones. A obra faz parte de um acordo entre a Eletrobras e a empresa
argentina Emprendimientos Energéticos Binacionales S.A. (Ebisa).

O complexo terá uma capacidade de produção instalada de 2.200 Megawatts, e inundará em torno de 75 mil
hectares e a estimativa é de que atingirão 12.600 pessoas. Além de Porto Mauá - o município mais afetado - o
empreendimento também atingirá Garruchos, São Nicolau, Porto Xavier, Pirapó, Roque Gonzáles, Tucunduva,
Tuparandi, Novo Machado, Doutor Maurício Cardoso, Criciumal, Tiradentes do Sul, Esperança do Sul, Derrubadas e
Alecrim, no Rio Grande do Sul. No lado argentino, a região mais afetada será a província de Missiones, principalmente
a cidade de Alba Posse. As sete usinas hidrelétricas já construídas na bacia do rio Uruguai atingiram cerca de 80 mil
hectares e somente duas hidrelétricas vão atingir 100 mil hectares, o que torna evidente a magnitude dos impactos que
serão sofridos pelas regiões afetadas.

Conforme relatório do MAB Nacional, feito por Leandro Gaspar Scalabrin, no ano de 1972, foi firmado
convênio entre os governos do Brasil e Argentina para iniciar os Estudos de Inventário Hidrelétrico. Em 2008, Argentina
e Brasil indicaram as empresas Emprendimientos Energéticos Binacionales S.A. (EBISA) e a Eletrobras - Centrais
Elétricas Brasileiras S.A. (Eletrobras), para fazer novos estudos sobre o potencial hidrelétrico das futuras barragens. No
mesmo ano, as empresas citadas realizaram a Licitação Pública Internacional Nº 1/2008, sob resistência popular,
resultando na contratação do consórcio CNEC, ESIN, PROA. Estas empresas desenvolveram os novos Estudos de
Inventário Hidrelétrico, durante os anos de 2009 e 2010, os quais modificaram o projeto original.

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Em agosto de 2013, os/as ameaçados/as bloquearam duas estradas do local previsto para a instalação do canteiro
de obras da barragem de Panambi, no município de Alecrim, exigindo a imediata paralisação dos Estudos de Viabilidade
das obras até que a população fosse consultada devidamente, os passivos nacionais de todos os atingidos solucionados
e a proposta da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB) aprovada pelo governo.
Em fevereiro deste mesmo ano, por meio do MAB, o projeto Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS)
passou a ser implantado com 25 famílias ameaçadas pelo complexo, no município de Alecrim. A iniciativa tem a
finalidade de proporcionar um acréscimo na renda das famílias, a conscientização sobre a produção agroecológica, a
melhora na saúde e qualidade de vida da população e o desenvolvimento da região, sem haver a necessidade da
construção de um projeto faraônico de produção de energia.
Desde 2014, uma liminar concedida pelo MPF de Santa Rosa, que suspendeu o processo de licenciamento
ambiental da Usina Hidrelétrica Panambi, devido aos possíveis danos ao Parque Estadual do Turvo. O MPF ingressou
com ação contra o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e as Centrais
Elétricas Brasileiras (Eletrobrás) alegando que a construção da hidrelétrica, nos moldes pretendidos pelas rés, alagará
em torno de 60 hectares da unidade de conservação de proteção integral. Um dos pontos que impedem a construção das
barragens vem do lado argentino do rio, expresso no Artigo 6 da Lei nº 56 de 2011, que estabelece que o governo de
Missiones é obrigado a consultar a população antes do início da construção de qualquer hidrelétrica. A população da
região é majoritariamente contra a construção.

Dentre as violações de direitos relatadas pelos ameaçados está a dificuldade do acesso às informações, pelo fato
de ser uma obra binacional e a maioria das negociações acontecerem em Buenos Aires (Argentina). Não há garantias de
reassentamento ou indenização para as famílias. Estas também sofrerão profundos impactos na geração de renda, sendo
muitas dependentes da pesca no Rio Uruguai. Os empregos gerados durante a construção serão temporários, provocando
alto índice de desemprego após a conclusão das obras. Além disso, o valor recebido pelo CFURH não compensará a
quantidade de dinheiro que as áreas alagadas deixarão de produzir.
Brasil e Argentina retomaram no início de abril de 2017, com o intuito de reiniciar os estudos de viabilidade de
aproveitamento hidroelétrico de Garabí, em ocasião da visita de Macri ao Brasil como consta no site da empresa Ebisa.
Em janeiro de 2019, o senador Luis Carlos Heinze (PP - Progressistas), anunciou reunião para fim de fevereiro, início
de março, entre lideranças brasileiras e argentinas tratará das obras das usinas hidrelétricas do complexo Garabi/Panambi
e da ponte internacional. O encaminhamento ocorreu em meio a visita do presidente argentino Maurício Macri ao Brasil.
A ideia é tratar da questão com os ministros da Fazenda e Transportes argentinos. Heinze é contra a criação de grupo de
trabalho e realização de estudos prévios. Segundo outra notícia veiculada no mesmo mês, A Asociación de Municipios
de las Misiones (AMM), junto as prefeituras de Porto Xavier/RS e San Javier/Argentina, apoiam a retomada dos estudos
para a construção do complexo.
Diante da nova conjuntura política de ambos os países, a população afetada corre grandes riscos. Assim como
na década de 1980, quando a resistência da região noroeste do RS não permitiu a realização do Complexo Garabi, várias
pessoas e setores da sociedade permanecem mobilizados e fazendo o contraponto, principalmente informacional, entre
os quais se destacam o MAB, a colônia de pescadores, a rádio Navegantes AM, a Igreja Evangélica de Confissão
Luterana do Brasil, a pastoral social e a Igreja Católica da Diocese de Santo Ângelo, entre outros grupos organizados.

O Projeto Energético Popular

As palavras de ordem centrais do MAB vêm sendo “Água e energia com soberania, distribuição da riqueza e
controle popular”. Quando reivindicamos tal pauta, estamos falando da luta do povo pelo poder de atuar na política
energética nacional, controle sobre as reservas estratégicas de energia, que no Brasil é de matriz hídrica, de participar
planejamento, organização e controle da produção e distribuição de energia e da riqueza gerada.

O MAB entende que a política minero-energética nacional não atende às necessidades da população, servindo
ao enriquecimento de empresas privadas estrangeiras e deixando para trás as consequências, para todos/as os/as
brasileiros/as, que são atingidos/as pelo modelo minero-energético. Nesse contexto, a política de privatizações das
empresas públicas é perversa, resultando na má qualidade dos serviços prestados; na construção de empreendimentos

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visando o menor gasto e o maior lucro; na entrega de nossos patrimônios nacionais para o exterior, com a perca de nossa
soberania; no acúmulo de resíduos em território nacional; nas péssimas condições de trabalho para os/as funcionários/as,
com o crescimento do número de acidentes. Tais consequências ficaram novamente evidentes após o massacre ocorrido
em Brumadinho, o que nos faz questionar: Vale a privatização que mata?

Empresas como a Petrobrás e a Eletrobrás também estão na fila da privatização, o que resultará no aumento dos
preços da energia e combustíveis no bolso do povo trabalhador. O MAB afirma a importância de defendermos nossas
empresas públicas, alertando a população sobre os riscos da privatização. O que o movimento defende é um projeto
minero-energético popular, que não beneficie as grandes empresas multinacionais e o capital financeiro, como faz a
Vale.

Nas palavras de Leandro Scalabrin, advogado do MAB e integrante da Comissão Nacional de Direitos Humanos,
“Ao longo dos anos conquistamos vitórias, mas ainda não conquistamos direitos. Não existe um marco legal regulatório
que assegure os direitos que os atingidos por barragens conquistaram em mais de 20 anos de lutas sociais em âmbito
nacional.” É nesse sentido que o MAB reivindica a criação da Política Nacional de Direitos dos Atingidos por Barragens
(PNAB).

Entendemos que há muito o que ser melhorado, o que depende da construção de um projeto energético popular
para o Brasil, que leve em conta a soberania nacional, desde a manutenção das empresas públicas do setor energético e
a reestatização das que foram privatizadas; o reconhecimento da população atingida por barragens; a participação
popular nas decisões sobre o setor; a redução das tarifas; a aplicação da Política Nacional de Segurança de Barragens; a
adequada destinação do recurso da Compensação Financeira por Uso de Recursos Hídricos (CFURH – também
conhecido como “royalties das barragens”) recebido pelos munícipios atingidos por barragens, considerando as
necessidades reais da população; dentro outras questões.

A luta pelo poder do povo em atuar na política energética é um processo de construção permanente, e que
necessita de muitos braços, mentes e corações para ser concretizado. Entendemos que todo o povo brasileiro é atingido
pelo modelo minero-energético, seja diretamente pela construção e rompimento de barragens, pela cobertura deficiente
da distribuição de energia, seja pelo alto preço das tarifas de energia, em que o Brasil possui a 6ª tarifa mais cara do
mundo. Por isso, convocamos à todas e todos a se somar nessa luta por justiça social, por soberania, distribuição da
riqueza e controle popular, rumo a construção de uma nova sociedade!

“Água, mulheres e energia não são mercadorias!”

“Pátria livre, venceremos!’

e. Movimento estudantil: papel e concepção


Por Saritha Vatahara Denardi, original de Rafael Pops e Mauricio Piccin

“Homens de uma República livre, acabamos de romper a última corrente que, em pleno século XX, nos atava à antiga
dominação monárquica e monástica. Resolvemos chamar todas as coisas pelos nomes que têm. Córdoba se redime. A
partir de hoje contamos para o país uma vergonha a menos e uma liberdade a mais. As dores que ficam são as liberdades
que faltam. Acreditamos que não erramos, as ressonâncias do coração nos advertem: estamos pisando sobre uma
revolução, estamos vivendo uma hora americana.”

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Dessa forma se inicia o Manifesto de Córdoba no dia 21 de junho de 1918.

Introdução
Para compreender o movimento estudantil, seu papel, sua concepção, e entender como ele se constitui numa ferramenta
de disputa da sociedade e que, por sua vez, é disputada, precisamos debater uma estratégia e uma tática de atuação que
não só supere a crise, mas que recoloque o Movimento Estudantil à frente das grandes lutas da educação e ao lado da
classe trabalhadora.

O Movimento Estudantil como Movimento Social


O movimento estudantil consiste em uma parcela da sociedade que se organiza a partir do seu lócus, que é a escola ou
universidade. Essa parcela da sociedade não é uma classe social. Os estudantes são uma categoria social que vivencia
uma realidade e demandas específicas e gerais dentro de um mesmo local.
A partir desta realidade social é que surge a sua organização e sua intervenção na sociedade. Desta maneira, o ME possui
suas particularidades.
A primeira delas é de ser policlassista, ou seja, existem estudantes e grupos de todas as classes sociais. A segunda é a
sua transitoriedade, ninguém é estudante para sempre. Essas características são fundamentais para debatermos e
entendermos a ação do ME como movimento social.
Dessa forma, o ME não possui uma origem (e uma formação) classista que o coloque no centro da luta de classes, o que
traz e impõe limites à organização estudantil. É através da opção política de parcela dos estudantes, prioritariamente dos
seus dirigentes, que o ME se insere, ou não, na disputa geral da sociedade. Compreender esse caráter não-classista é
necessário para percebemos a amplitude de sua base social, fruto de um processo histórico de exclusão dos segmentos
populares. Estes elementos são fundamentais para se pensar as táticas de organização. Desta maneira, não adianta
reproduzirmos métodos de organização do movimento sindical ou campesino para o ME, achando que iremos solucionar
os seus problemas.
O movimento estudantil deve produzir maneiras próprias de organização, o que não impede a realização de atividades
em conjunto com os demais movimentos, visando troca de experiências.
O Movimento Estudantil e seu caráter, durante sua história, são exaustivamente debatidos. Alguns acreditam que ele
tem de ser um braço dos partidos políticos, outros usam o ME como uma empresa suprimindo teoria e ideais pelo
discurso do apartidarismo, uma maioria considera o ME como um movimento de massas, sendo ele disputado por forças,
podendo essas forças serem de esquerda, direita, centro, etc.
Acreditamos que o ME deva ser de massas, onde todos os estudantes podem propor e construir o movimento. Contudo,
não abriremos mão das nossas posições e opções: acreditamos na luta de classes e, frente a ela, temos lado e partido: o
dos trabalhadores (as). A luta do Movimento Estudantil vai além de um debate sobre o que é melhor para o nosso curso
ou nossa formação profissional. Ele é responsável por nos tornar seres politicamente ativos, e quando nos tornamos
politicamente ativos fazemos nossa opção. Esta opção pode ser conservadora ou progressista, pode ser de esquerda ou
de direita, e é neste momento que nos encaixamos neste ou naquele programa partidário.
Disputaremos nossa política em todos os espaços que atuarmos, pois é desta forma que disputamos hegemonia. Não
escondemos de ninguém a nossa filiação e opção partidária, construindo a corrente e o partido nos movimentos sociais.
É por isso que, apesar de assumirmos ser o movimento poli classista, acreditamos que as entidades de vem ter lado, com
nítido corte ideológico, sendo ele contra toda forma de opressão, contra a exploração e pela libertação do nosso povo.
Voltemos à segunda particularidade do ME, a transitoriedade. Ela faz com que o movimento seja marcado por uma
extrema dificuldade na transmissão de sua história, seus métodos de organização, suas pautas e etc. Ao contrário do
movimento sindical, campesino ou partidário, nos quais seus militantes têm 10, 20,30 (...) anos de militância, o estudante
não fica mais do que quatro ou cinco anos no lócus. Desta maneira, muitos saem da universidade sem conseguir

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transmitir o acúmulo adquirido em seus anos de atuação. Entender essa particularidade é muito importante na
caracterização do ME e na posterior organização nas entidades e frente à sociedade.
Essas duas características acima levam o ME para uma terceira particularidade, a conjuntural. O ME vem sendo
determinado pela conjuntura e pouco consegue intervir e atuar nela para alcançar seus objetivos, como outros
movimentos fazem. Ou seja, se a conjuntura é favorável às mobilizações, o ME pode mobilizar. Se não, ele tem pouca
capacidade de sair do refluxo.
Hoje, isso torna o ME refém da realidade, dificultando que ele seja um dos sujeitos dela. Contudo, ao contrário das
condições e das consequências de ser poli classista e transitório, a questão conjuntural pode ser superada com uma
eficaz pauta e uma (re)organização das entidades estudantis, principalmente no que diz respeito a combater a falta de
transmissão de sua história e experiência entre as gerações e as direções do Movimento Estudantil.

Um diagnóstico atual do Movimento Estudantil


Que fatores perversos são esses, que fazem hoje as entidades nacionais, patrimônios da história, viverem uma crise que
a muito deixou de ser uma crise de representatividade, chegando a ser uma crise de legitimidade?
Os estudantes não só não vêem seus interesses representados, como a maioria não sabe o que é ou não reconhece
UNE/UBES enquanto suas entidades, e instrumentos coletivos de organização.
A sociedade não tem mais estas entidades como referências de rebeldia e contestação. Muitos acham que as entidades
estudantis e o movimento como um todo, são propriedades de alguns, "os que mexem com política" ou "os estudantes
profissionais" e que, portanto, não devem se aproximar nem se envolver, já que não é coisa sua. Ou passam a fazer parte
das entidades para torná-las em clubes de amigos ou simplesmente entidades festivas.
Mas, qual é o diagnóstico dessa crise? Ou melhor, que fatores determinam essa crise?
Atribuímos, então, à crise, quatro fatores:
-As especificidades próprias do ME;
-A conjuntura desfavorável à organização coletiva;
-A estrutura anacrônica, verticalizada, centralizada e burocrática e;
-A sua atual direção imobilista e antidemocrática.
Entre as dificuldades intrínsecas à sua lógica, já tratadas aqui, o movimento enfrenta um problema comum a todos os
movimentos sociais: a conjuntura desfavorável à organização coletiva. Todos os movimentos sociais sofrem,
cotidianamente, a dificuldade de organizar as pessoas numa sociedade impregnada pela ideologia neoliberal, baseada na
lógica do individualismo, do consumismo, do imediatismo e da competição.
O terceiro motivo é a estrutura da maioria das entidades, baseada no tripé assembleia-conselho-diretoria verticalizada.
Essa estrutura remonta aos sindicatos da década de 50. Além de ser antiga, foi uma mera transposição do modelo sindical
para o estudantil. Este tripé é importante e deve ser usado, mas enquanto único método de organização coletiva é
insuficiente, pois a participação dos estudantes se restringe basicamente à decisão do voto e da maioria. Assim, não
incorpora, neste processo, a lógica das construções permanentes, de responsabilidade com as decisões e com o acúmulo
coletivo, o que acaba sobrecarregando algumas diretorias. Os GT s - Grupos de Trabalhos - adotados por inúmeras
entidades sindicais são modelos de trabalho permanente e de acúmulo coletivo da entidade, representando formas
positivas de organização.
Dessa forma, UNE/UBES muito pouco evoluíram e muito pouco sua atual direção majoritária faz para mudá-las. Da
forma que está a estrutura, ela impede um processo de organização coletiva e plural, de responsabilização e trabalho
conjunto.

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O ME precisa fazer este debate sobre suas estruturas. Além do debate a respeito da estrutura em si, existe o problema
dos fóruns do ME que muitas vezes não são chamados pela UNE. A crise estrutural da nossa entidade nacional é
profunda.
A análise mais profunda da crise de estrutura nos leva ao último diagnóstico, da crise: a atual direção majoritária da
UNE/UBES e hegemônica no movimento (UJS/PCdoB). Essa estrutura reflete uma política que é encaminhada na
entidade durante os últimos vinte anos. A política é a seguinte: manter o aparelho é meta prioritária e de maior
importância, antes mesmo da própria mobilização estudantil. Desta maneira, a direção majoritária permanece
encastelada e pouco pode influenciarmos rumo se decisões do movimento.

O papel do movimento estudantil nas lutas sociais


Como movimento social organizado, a partir de uma realidade social limitada e concreta, o ME tem como seu palco
principal a intervenção na educação. A disputa entre os diferentes projetos e concepções de educação guarda estreita
relação com a disputa de projetos de Estado e sociedade. Dentro das instituições de ensino é possível perceber, embora
muitas vezes silenciosa e camuflada pela "neutralidade educacional", a disputa de projetos de sociedade.
É importante o Movimento Estudantil elaborar e construir bandeiras e ações concretas para que possa impulsionar a
unidade dos movimentos sociais, afirmando nossa pauta específica atrelada à pauta geral que aglutina os Movimentos
Sociais. A luta contra a mercantilização da educação está vinculada ao combate à privatização das instituições públicas,
o debate acerca da reforma dos currículos e do processo de formação profissional não ocorre deslocado da discussão
sobre as condições de trabalho e, consequentemente, das discussões sobre a reforma trabalhista.
É dentro das escolas e universidades, através de suas realidades objetivas, que se formam e se organizam os grupos
estudantis para a intervenção coletiva nos espaços. É papel do movimento estudantil estimular as discussões a respeito
das opressões que envolvem nossa sociedade, e consequentemente, nossas universidades, tendo que atuar de maneira
antirracista, antissexista e anti LGBTfóbica.
Existem grupos de estudantes que atuam em diversas outras áreas, como ONG's, sindicatos, movimento campesino e
outros. Ainda assim, a maioria não se organiza. Como a própria definição de movimentos sociais coloca, é através da
sua luta específica que os grupos sociais se inserem na disputa de sociedade. É a partir da disputa na sociedade com
interesses em comum, que estes movimentos se tornam aliados na defesa de um projeto de sociedade. Esses aliados
dependem, na maioria das vezes, das opções políticas de cada movimento.
Isso não impede que o ME seja sujeito nas grandes mobilizações sociais, nas quais todos os movimentos sociais podem
cumprir um papel protagonista. Mas é inicialmente através da organização e agitação de sua pauta específica, que estes
garantem sua capacidade de mobilização e de disputa de sociedade, pois toda pauta específica passa pelo debate sobre
o modelo de sociedade pretendido.
Não podemos deixar que os debates das pautas específicas caiam na miopia política, onde as questões da educação não
estão interligadas com as condições gerais da sociedade. Segundo a definição gramsciniana, a educação consiste em um
aparelho privado de hegemonia. Desta forma, a disputa desse aparelho está diretamente ligada à disputa de hegemonia
da sociedade.
Todos os movimentos sociais disputam parcela da sociedade. Essas disputas, em seus respectivos "lócus" de atuação,
devem estar diretamente interligadas a suas concepções de sociedade. Cabe aos movimentos sociais que lutam pelo
mesmo modelo de sociedade se aliarem para as disputas específicas e para as disputas gerais. Nenhum movimento social
será vitorioso se carregar somente sua pauta corporativa.
Dessa maneira, acreditamos que o ME deva se aliar aos trabalhadores e aos oprimidos pela superação do modo de
produção capitalista. Deve ser aliado do MST pela reforma agrária, do movimento sindical na defesa dos direitos
trabalhistas e sindicais, como os demais movimentos e entidades populares devem ser nossos aliados na luta pela
educação pública e gratuita. O ME não pode se fechar dentro das universidades, mas não pode se esquecer das lutas
específicas, pois é através da luta naquele espaço que este pode se inserir nas lutas gerais.

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Os desafios
Após compreender sua importância e nosso lugar na disputa da sociedade, é importante pararmos e analisarmos a
conjuntura atual, extremamente desafiadora e ameaçadora. Com o governo Bolsonaro eleito, um projeto nítido está
sendo posto em pauta. Um projeto que visa por meio da reforma trabalhista, da terceirização e da reforma da previdência,
aumentar a política de austeridade, esmagando os direitos trabalhistas da maior parcela da população, que ainda sofre
mazelas do processo histórico de exploração do nosso país (vide cor e gênero da parcela mais pobre da sociedade).
Conjuntamente a isso há uma reforma da educação, tendo mudanças no ensino médio, já planejadas pelo golpista Temer,
retirando a obrigatoriedade, por exemplo, de disciplinas humanísticas, exaltando a ordem e o tecnicismo do ensino. O
objetivo disso é formar uma classe de trabalhadores técnicos, voltando a negar a formação ampla e plena para os jovens
que almejam um curso superior.
O governo Bolsonaro manifesta seu desgosto ao povo brasileiro, ao ridicularizar as cotas, ao dizer que instituições
superiores devem ser para uma elite intelectual, ao afirmar que os jovens têm tara pelo ensino superior, ao atacar as
mulheres inventando fakes news a respeito da inexistente ideologia de gênero.
Entre uma das medidas mais polêmicas e mais caras ao atual governante, está a Escola Com Mordaça (Escola sem
Partido), que por meio da falsa retórica da doutrinação marxista/feminista/esquerdista, passa a permitir a perseguição
dos educadores conscientes e condena uma educação minimamente freiriana, que “ensine a pensar e não a obedecer”.
Esses são alguns dos pontos que envolvem a educação e diretamente os estudantes, não dá pra esquecer a PEC da morte,
PEC 55, que congelou os investimentos na educação por 20 anos, havendo cortes exorbitantes nas instituições públicas,
outra demonstração clara do projeto neoliberal e entreguista de Bolsonaro.
É necessário estarmos nas trincheiras de todas as lutas que desencadearam no Brasil, porque a luta do povo é a nossa
luta, e o governo atual representa a morte do nosso país, da nossa tão sonhada e nunca alcançada soberania nacional e o
fim da democracia.
Boa luta, e até a vitória.

f. Sociedade e educação, uma relação indissociável: a ruptura passa por aqui!


Por Anderson Luiz Machado
Romper com a lógica do capital na área educacional, equivale a substituir as formas onipresentes e profundamente
enraizadas de internalização mistificadora por uma alternativa concreta abrangente. (MÉZÁROS, I. Educação Para
Além do Capital)

O foco central da atuação do movimento estudantil é o debate acerca da educação. É por meio dela que se abre a
possibilidade de compreensão das relações sociais gerais. Portanto, para avançarmos na luta, é fundamental compreender
a essência do processo educacional para transformá-lo.
Vivemos sob a égide do modo de produção capitalista, que tem como um dos seus elementos centrais, a contradição
entre o trabalho assalariado e o capital. Esta contradição estrutura-se tanto no âmbito das relações de produção, quanto
erige para outras dimensões da vida social. Assim, os antagonismos entre a classe dominante e a classe dominada se
estabelecem não somente com a exploração intrínseca as relações de produção como também se estendem ao nível
político, ideológico e cultural.
A educação, compreendida como uma atividade mediadora no seio da prática social geral, forjada como um processo de
internalização de práticas sociais encontra-se inserida neste contexto.
Se retomarmos um pouco da história, veremos como a mesma assume esta dimensão política e cultural nas diferentes
formações sociais. Na Grécia dos tempos homéricos preparava o guerreiro; na época clássica, Atenas formava o cidadão
e Esparta era a cidade que privilegiava a formação militar. Na Idade Média, os valores terrenos eram submetidos aos

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divinos, considerados superiores e assim por diante. Estes processos formativos podem ser considerados finalidades da
prática educacional.
Esta análise nos leva a conceber que a educação não pode ser compreendida fora do contexto histórico-social concreto.
Ela, por ser uma prática social está imersa na sociedade. Bem como, por ser social, também é essencialmente política e
ideológica.
Podemos inferir pelo menos quatro sentidos ao papel político da educação: a educação transmite os modelos sociais, a
educação forma personalidade e consciência, a educação difunde ideias políticas, a educação é um encargo da escola,
instituição social e política.
Mais claro ainda, é seu sentido ideológico. Ao nos defrontarmos com uma sociedade composta por classes sociais
possuidoras de interesses antagônicos, o papel ideológico da educação está inserido em relações pedagógicas que visam
à ocultação da realidade. Relações onde os objetivos de uma parcela minoritária da sociedade passam a ser difundidas
como sendo os objetivos de toda sociedade. Está, na prática bancária da educação que implica em uma espécie de
anestesia, inibindo o poder criador dos sujeitos históricos. Está no afastamento da realidade social na qual estão imersos
estes sujeitos.
Cabe ressaltar que na sociedade capitalista a educação encontra-se igualmente dividida. Visto que diante da divisão
social do trabalho, surge também o homem dividido, alienado, unilateral. Pois, o tempo de trabalho necessário para sua
auto-reprodução e para a criação da mais-valia, faz com que o trabalhador não disponha de tempo livre para o
desenvolvimento de suas potencialidades.
Por fim a questão crucial imposta pela lógica capitalista no âmbito educacional está na busca para que os indivíduos
adotem como suas, as metas de reprodução deste modelo de organização social. Sua finalidade última é produzir a
conformidade, a alienação. Não somente pela via da repressão como outrora, mas, sobretudo pela dominação e direção,
pela hegemonia, construída mediante a persuasão do seu discurso, perante o consenso conciliador. Sendo que a
hegemonia é conquistada no processo de luta política entre as classes sociais.
Por outro lado, coloca-se a questão: é possível desenvolver uma educação que seja capaz de apontar para a emancipação
política dos homens e mulheres?
Concebemos que este processo de dominação ideológica inerente a educação não se desenvolve de uma forma linear,
mas é forjada no seio da luta política e social inerente a sociedade de classes. Compreendemos que a luta de classes
também se reproduz no âmbito educacional.
Portanto, cabe ao Movimento Estudantil em seus espaços de atuação, aliando-se aos demais movimentos sociais e a
classe trabalhadora, aprofundar a luta por uma educação contra-hegemônica, que caminhe na contramão da lógica do
capital. Que busca a emersão 29 das consciências como resultado da sua inserção crítica na realidade. Uma educação
que visa a elevação da consciência política dos estudantes, dos educadores, da classe trabalhadora. Porém, nunca o
Movimento Estudantil pode cair no equívoco de acreditar na capacidade redentora da educação. Ou seja, que somente
por ela conseguiremos subverter a totalidade da ordem social. Mas, deve ter como horizonte a concepção de que a
educação, ainda que não seja a força ideológica dirigente do modo de produção capitalista, é parte importante do sistema
de internalizarão do capital.
Por isso, a luta por uma educação contra-hegemônica, na guerra de posições da sociedade capitalista, torna-se um
elemento fundamental no processo de ruptura político-ideológica, social e cultural que os sujeitos coletivos devem
impulsionar contra este modo de organização da sociedade. Fazendo com que no seio das contradições da velha
sociedade, surjam as condições para a nova sociedade, a sociedade socialista. Logo, lutar por uma educação contra-
hegemônica significa construir uma das forças capazes de contribuir para o processo de luta social pela transformação
de toda a sociedade.
Assim, estamos entre aqueles que entendem que o acesso ao conhecimento é condição fundamental para a transformação
social e a elevação do nível de consciência dos povos. A educação, assim, é um bem público, que não deve ser apropriado
privadamente pelas classes dominantes e tampouco pode se constituir em privilégio de uma minoria. Portanto, a defesa
de uma educação contra hegemônica, também pressupõe a educação como um direito universal, que deve ser garantido

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pelo Estado, com recursos públicos, condição sine qua non para a manutenção de seu caráter laico, democrático e não
discriminatório

g. Universidade e relações de poder


A Universidade que vivemos é conflitante e, quanto maior o conflito dentro dela, maiores serão as chances de que ela
venha a cumprir sua função social, que ela atenda aos ideais que hoje mormente atraiçoa. (GADOTTI, M. A
Concepção Dialética da Educação, 1992).

Se tomarmos como ponto de partida, o fato da educação em grande medida reproduzir as contradições gerais da
sociedade. Necessitamos compreender como este processo também se desenvolve no interior do sistema educacional
brasileiro e, sobretudo na Universidade, espaço no qual estamos inseridos enquanto estudantes.
O ponto chave ao qual o Movimento Estudantil precisa se debruçar para entender a Universidade, é a questão da luta de
classes engendrada e realizada no âmbito da produção, não se limitar somente a este espaço, mas também se manifestar
no âmbito da superestrutura, sob a forma política e ideológica de uma luta pelo poder do Estado e pelo controle dos seus
aparelhos.
Assim, concebemos a Universidade como um aparelho de hegemonia, no qual a luta pelo seu controle é a expressão da
correlação de forças que vigora em seu interior, pelos enfrentamentos empreendidos mediante a luta dos grupos que a
compõem e a influenciam. Portanto, o aspecto da reprodução social no âmbito educacional e neste caso, na Universidade,
está no fato da mesma ser atualmente composta pelas diferentes classes sociais existentes. Já, suas funções, seus
objetivos serão determinados pela luta desenvolvida para o seu controle, para sua direção.
Cabe ressaltar que historicamente a Universidade é um espaço muito importante para as classes dominantes tornarem-
se hegemônicas na sociedade, seja no sentido de difundir sua concepção de mundo para os demais segmentos sociais,
seja no sentido de construir um modelo educacional alienador que impede a tomada de consciência a respeito da
dominação de classe vigente e por consequência dificulta a organização política das classes sociais antagônicas.
No Brasil, a universidade é uma instituição formada recentemente, pois ao contrário da colonização espanhola, os filhos
das elites coloniais do Brasil tinham que ir a Coimbra ou outras universidades europeias para atingir os estudos
superiores. A formação da universidade no Brasil recebe diretamente a influência do modelo francês de universidade
(modelo napoleônico), baseada na reunião de escolas isoladas, destinada quase que exclusivamente às profissões liberais,
o que justifica sua fragmentação e intimamente ligada à formação das elites e dos quadros dirigentes do Estado.
As instituições de ensino superior só ganham corpo nas primeiras décadas do século XX, a partir das escolas criadas no
século anterior, mas é na fundação da Escola de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (1934) e na
Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro (1935), que encontramos, de fato, as primeiras universidades do
país.
Contudo, outros aspectos importantes para a hegemonia das classes dominantes na sociedade, situam-se nas questões
mais objetivas, como a reprodução de força de trabalho e o desenvolvimento científico e tecnológico para os detentores
dos grandes meios de produção.
Porém, ao concebermos a Universidade como um aparelho de hegemonia não podemos desconsiderar a resistência para
que a Universidade tenha outra função social que não as anteriormente citadas que representam os interesses das classes
dominantes. É neste pólo oposto que se encontra a luta do Movimento Estudantil por outra Universidade.
Logo, se hoje temos Universidades produzindo ciência e tecnologia para os setores privados, mediante “projetos de
cooperação técnica”, ou se temos Universidades produzindo ensino, pesquisa e extensão junto e para os movimentos
sociais, por exemplo, sendo estas minoritárias, diga-se de passagem, aí revela-se a expressão do patamar da luta pelo
controle deste aparelho, e qual a força social que tem preponderado sobre ele. Ou seja, a luta e força com que burguesia
nacional e internacional tem conseguido incidir sobre as Instituições de Ensino Superior Brasileiras e no seu pólo

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antagônico, e luta e a força dos movimentos sociais, da classe trabalhadora e do movimento estudantil, sobre este
aparelho.

h. O que é gênero e suas implicações


Por Bruna Surdi e Camila Traesel Schreiner
“Não se nasce mulher, torna-se”
Simone de Beauvoir

Com a crescente visibilidade que tem tomado os movimentos ligados a luta das mulheres por direitos e contra a opressão
de gênero, muitas são as confusões existentes quanto aos conceitos de sexo, gênero e sexualidade. Assim, torna-se
necessário diferenciar, para uma maior compreensão e entendimento de como se relacionam. Também é importante
buscarmos compreender através da história a opressão de gênero e suas implicações na vida das mulheres na atualidade.

Sexo, gênero e sexualidade


O conceito de sexo está relacionado ao conjunto de características físicas, orgânicas, celulares, genéticas, que permitem
distinguir macho e fêmea, sendo este uma característica biológica. Assim, sexo não está ligado ao papel social do
indivíduo, mas sim, é próximo ao sentido que se dá no mundo animal.
Já o gênero, está voltado para as características originalmente dadas aos sujeitos de determinado sexo, atribuindo-lhes
lugares, status, comportamentos, papéis e poderes, na vida privada e pública (FALEIROS, 2007). Assim, a sociedade
patriarcal divide os sujeitos de acordo com seu sexo, definindo-os como feminino ou masculino, de forma binária.
Portanto, gênero é uma construção social, é o que condiciona a participação de homens e mulheres na vida pública e
privada, tendo diferenças sociais, culturais e econômicas. É o que implica na posição inferior que as mulheres ocupam
no espaço público, enquanto espaço de decisão. É o que condiciona as mulheres ao espaço privado do cuidado dos filhos
e dos afazeres domésticos. É de certa forma como os indivíduos se percebem e devem se colocar dependendo do seu
sexo.
De forma ainda mais complexa, a sexualidade, se define como a forma dos sujeitos se relacionarem sexual ou
afetivamente. Está intrinsecamente ligado ao cerne do sujeito, encarado como orientação, e não opção. Assim, os
sujeitos, independente do seu sexo e gênero, podem se relacionar sexualmente com indivíduos do mesmo sexo e gênero
ou não. Podemos citar os tipos mais recorrentes: homossexualidade, heterossexualidade, bissexualidade,
transsexualidade, travestis, transgêneros.
Ao conceituarmos estas três categorias, é importante perceber que todas elas se relacionam. Entretanto, existe na
sociedade contemporânea, traços considerados “corretos”, o que podemos chamar de perfis societários, que adquirem
privilégios dependendo da sua posição social, sexual, e de gênero. Estes perfis, que privilegiam o homem heterossexual,
não é fruto deste século, mas sim, resultado de uma construção socio-histórica, que não ocorre de forma homogênea em
todo o mundo.

Opressão de gênero ao longo da história


Em tempos remotos, a forma de organização da sociedade e da divisão do trabalho, ainda na chamada pré-história, era
baseada no coletivismo. Como os povos eram nômades, todos eram responsáveis pela coleta de raízes e frutos, assim
como pelo cuidado das crianças e idosos.
Há registros de povos que tinham como forma de organização a matrilinearidade, sendo que não havia o conhecimento
do papel masculino na reprodução. A partir do momento em que estes povos foram se fixando em territórios, com a
descoberta do fogo e criação das técnicas de cultivo de animais e plantas, foram se distinguindo em papéis diferenciados,

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atribuídos ao homem e a mulher. Ao homem cabia a caça, à mulher o cuidado comas crianças e idosos, assim como o
plantio.
Uma vez conhecida a participação do homem na reprodução e, mais tarde, estabelecida a propriedade privada, surgem
os primórdios das relações monogâmicas a fim de garantir herança aos filhos legítimos. Os homens como detentores das
propriedades precisavam garantir a perpetuação dessas em sua família, precisando garantir que os filhos fossem
genuinamente seus herdeiros e defensores, assim, era necessário que as mulheres tivessem relação monogâmica e para
isto fossem mantidas em espaços privados. Com isso, a vida e sexualidade das mulheres passa ser controlada, bem como
suas funções dentro da sociedade, principalmente a partir do casamento, é aí que se dá o início do sistema de dominação
que chamamos patriarcado.

A vida das mulheres nos dias de hoje


Mesmo com o avanço da luta das mulheres, encontramos o patriarcado evidente em nossa sociedade, provocando ainda
hoje dor e morte à milhares de mulheres no mundo todo. Antes do nascimento, já é predeterminado as meninas cor rosa,
e ao nascer a primeira marcar física é a colocação de brinco nas meninas, diferenciando-as dos meninos. A partir disso,
desencadeia-se uma série de ideologias sobre os papeis da mulher na sociedade advindas do patriarcado.
A sociedade patriarcal exige que as mulheres sejam mãe e que se responsabilizem totalmente pelo cuidado dos filhos,
que realizem os trabalhos domésticos mesmo que trabalhem o dia todo fora de casa, e ainda que sejam “boas esposas”,
estando lindas ao final da noite.
Na sociedade patriarcal, e também capitalista, as mulheres são transformadas em mercadorias, seja na indústria da
prostituição ou como são expostas nos meios publicitários. Na publicidade as mulheres são expostas como produto de
consumo aos homens, como fazem as propagandas de cerveja.
É oferecido as mulheres, diversos produtos de cosméticos para que elas fiquem atraentes aos olhares masculinos, sendo
que hoje o Brasil é o quarto vendedor de cosméticos do mundo. Também a indústria farmacêutica lucra com remédios
para emagrecer, para moderar o apetite, limpar a pele e tantas outras coisas mais.
Há também uma banalização da sexualidade feminina, que é abordada de maneira repressora em diversos âmbitos a
sociedade, sendo a todo instante vigiada e controlada. Junto com esta banalização soma-se uma padronização no
exercício da sexualidade, onde impõe como cada uma e cada um deve vivenciá-la.
Os casos de violência contra à mulher estão bastante presentes tanto em espaços privados como públicos, uma vez que
esta é entendida não apenas por agressões físicas mais também psicológicas. Os dados são alarmantes em relação aos
índices de violência contra as mulheres, tanto no campo quanto na cidade.
No meio rural, a subordinação das mulheres se dá com diferentes contornos. Os laços de dependência são mais fortes,
principalmente em relação ao econômico, pois na maioria dos casos, a propriedade é do marido, e a maioria das políticas
de acesso a crédito beneficia estes proprietários. Assim, a mulher além de não ter posse da terra, dependendo
exclusivamente do companheiro, em caso de ser agredida, também acaba tendo dificuldades em acessar as políticas de
proteção a mulher, pois a maioria, senão todas, se encontram no meio urbano.
Frente a isso percebemos a condição da mulher na sociedade atual e que, mesmo com avanços nas pautas feministas,
temos a necessidade de nos organizarmos contra o machismo e a opressão de gênero, que não atinge apenas as mulheres,
mas os homens também. Devemos lutar por "um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e
totalmente livres", como já disse Rosa Luxemburgo.
Saudações Feministas!

i. Juventude e diversidade sexual


Por João Paulo Furtado
Estudante da UFMG

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Muito mais que a beleza do arco-íris na bandeira LGBT, suas cores simbolizam a diversidade de uma juventude múltipla
em sua sexualidade, identificação pessoal, comportamentos e amores. É justamente essa diversidade que se choca com
os valores de um mundo padronizado em caixinhas que são moldadas para deixar às margens quem não se adapta.
A cada 27 horas morre uma pessoa vítima de lesbo-homo-transfobia no Brasil, segundo dados de 2014. O Relatório
sobre violência homofóbica no Brasil de 2012 – divulgado pelo Governo Federal – indica 9.982 violações para 4.851
vítimas LGBT, representando um aumento de 183,19% de em relação ao relatório do ano anterior que indicara 1.713
pessoas.
Ainda sobre o relatório de 2012, entre as pessoas violentadas em razão de sua orientação sexual, 61,16% estavam na
faixa etária de 15 a 29 anos. São jovens os mais expostos à vulnerabilidade e ao conservadorismo da sociedade brasileira.
Se esses dados já são alarmantes, mas alarmante ainda é pensar que eles representam uma parcela muito restrita da
população LGBT que entra nas estatísticas. É uma exceção à regra porque a grande maioria é invisibilizada pela
sociedade, pelo Estado e pelos relatórios.
E o que dizer da violência simbólica que é incontável? Quando se nega o direito à identidade pessoal, à sexualidade e
ao amor, a negação é da própria vida. Não é de se espantar que tantos homossexuais recorram ao suicídio ainda hoje,
provavelmente muitos entraram para as estatísticas com outros motivos justificados.
É fato que a luta pela livre orientação sexual teve grandes conquistas nesse último período no Brasil, na arena
institucional e também social. A inclusão e o fomento de políticas públicas para a população LGBT na agenda
governamental, o reconhecimento pelo STF da união homoafetiva, o primeiro “beijo gay” da televisão brasileira… Tudo
isso tem que ser comemorado, sem considerar o mérito das “boas intenções”. Mas o Brasil ainda lidera o ranking mundial
de violência contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Isso é muito grave para qualquer democracia no
século XXI. Isso é muito grave para um país que ostenta o respeito à diversidade em sua vitrine.
Se é verdade que nos últimos anos tivemos os maiores avanços para os direitos LGBT, também o é que por diversos
momentos esses viraram moeda de troca, ou colocados em segundo e terceiro plano por nosso governo. Foi assim com
o veto ao programa “Escola sem homofobia”, apelidado de kit gay, com a postura recuada do governo em relação ao
PLC 122 que prevê a criminalização da homofobia, com a tragédia que levou o homofóbico Marco Feliciano à
presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, entre outros episódios.
Em tempos de guerra, a luta LGBT é pela sobrevivência. Sobreviver à violência doméstica, sobreviver à polícia que
mais ameaça do que protege, sobreviver à escola que joga tudo para debaixo do tapete, sobreviver ao conservadorismo
que cresce em nossa sociedade com o sempre assíduo apelo midiático, sobreviver a Eduardo Cunha e sua turma da
bancada evangélica que tentam cercear os poucos direitos conquistados até hoje.
A opção de recuar não nos é oferecida enquanto milhares de pessoas continuam morrendo, física ou simbolicamente,
pelo ódio e o não reconhecimento da diversidade sexual. Avançar na conquista de direitos é um imperativo contra o
avanço do conservadorismo.
Os movimentos sociais e os setores progressistas têm o papel histórico de barrar o avanço dessa onda conservadora que
elegeu o Congresso mais reacionário desde 64 e perdeu a vergonha de ir pra rua levantar as bandeiras do fascismo. A
juventude, sobretudo, tem que ser protagonista na luta pelos direitos humanos, contra o machismo, o racismo e a lesbo-
homo-transfobia.
A esquerda brasileira e os setores progressistas têm o papel histórico de barrar o avanço dessa onda conservadora que
elegeu o Congresso mais reacionário desde 64 e perdeu a vergonha de ir pra rua levantar as bandeiras do fascismo.
Historicamente, tem sido atribuída à juventude uma condição revolucionária por natureza, aqueles jovens de 1968 que
levaram o mundo à ebulição com os movimentos contraculturais. Essa atribuição sempre foi arbitrária, mas em alguns
momentos da história, os fatos comprovam ainda mais essa arbitrariedade. Podemos dizer, certamente, que temos uma
geração de jovens hoje no Brasil que é conservadora em muitos aspectos. Em parte, esse conservadorismo continua se
reproduzindo na mesma classe média reacionária de sempre, mas por outro lado, tem atingido parcelas da juventude
vinda da nova classe trabalhadora. Esse cenário é muito preocupante.

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Noutras palavras, a juventude nunca esteve isenta da luta de classes. A onda conservadora que temos presenciado hoje
no Brasil coloca jovens na rua pedindo a volta da ditadura, se organizando para ocupar os plenários das Câmaras
Municipais contra o que chamam de “ideologia de gênero” e pregando morte aos gays.
Com o fascismo não tem conversa, temos que nos armar até os dentes para enfrentar a direita e travar a disputa ideológica
com a juventude trabalhadora. A juventude deve ser protagonista na luta pelos direitos humanos, contra o machismo, o
racismo e a lesbo-homo-transfobia. Mas, com perdão do clichê, a mudança tem que vir de dentro para fora. Não dá para
admitirmos práticas machistas, racistas e LGBTfóbicas entre as/os próprias/os jovens, inclusive dos movimentos sociais
e de esquerda, o que temos visto repetidas vezes. Os desafios são muitos, mas a certeza da tempestade é de depois que
ela passa vem o arco-íris. Até que passe o dilúvio, temos muita luta pela frente.

j. Estruturação do racismo e os desafios para combater o genocídio da juventude negra


Por Aleff Fernando
Estudante de Ciências Sociais da UFSM

O racismo está subdividido em três vertentes, as quais são utilizadas para perpetuar o modelo de sociedade opressora e
racista observada no Brasil. O Racismo Estrutural é a naturalização dos ambientes que constituem nossa sociedade, sem
a presença das/dos negras/os, sendo estas práticas, muitas vezes inconsciente as pessoas, inclusive negras. Vamos ao
médico, às escolas e universidades, visitamos câmaras e congresso, prefeituras e judiciários, nos shoppings, nas praias,
elegemos direções de partidos, coletivos de esquerda, inclusive nas entidades estudantis. As representações, cargos e
ocupação desses equipamentos sociais e vários outros com maior prestígio são historicamente construídos para pessoas
brancas.
Uma segunda forma é o Racismo Institucional, este primordial na construção da cultura racista operante na sociedade,
utiliza-se das instituições como educação, religião, a polícia para manter os privilégios da população branca. A educação
quando deixa de aplicar a Lei 10.639/03, que dispõe sobre o “Ensino da Cultura Afro brasileira e Africana nas
Instituições de Ensino”, as religiões cristãs quando oprimem e descaracterizam as de matrizes africanas, a polícia militar
tem como critérios de atuação prender e matar principalmente jovens negros.
Por último e fundamental para garantir a aplicabilidade das vertentes anteriores é o Racismo de Estado. Este pensado e
constituído por brancos, mantém suas estruturas voltadas aos privilégios desses. As políticas públicas, jamais são
produzidas para atender a população marginalizada e inibir a desigualdade social, mas sim permitir a exploração e o
genocídio do povo negro.
Entender como o racismo se integra no Brasil facilita a compreensão do descaso dos Poderes Públicos e de toda a
sociedade no que diz respeito ao Extermínio da Juventude Negra na atualidade. O Brasil assassina 60 jovens negros
todos os dias no país, naturalizamos a morte de 30 mil jovens anualmente sendo 77% destes pretos e pardos, em 30 anos
matamos uma população do Uruguai, mais de 3 milhões do mesmo público. E, a resposta do setor conservador é o
encarceramento da nossa juventude com a reabertura do processo que traz como pauta a redução da maioridade penal.
Para este próximo período, precisamos de ações concretas para que possamos de fato resolver o problema que vive nossa
Juventude Negra brasileira.
#PoderiaSerEu o jovem negro da favela,
Que sai de casa de boa e leva um tiro na viela.
(Rodger Richer)

k. Agroecologia não é um tipo de agricultura alternativa


Por Francisco Roberto Caporal

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Ao longo deste artigo vamos tentar argumentar sobre a importância do uso correto dos nomes das coisas para que se
tenha maior precisão nas estratégias de desenvolvimento rural sustentável e de construção de tipos de agriculturas
sustentáveis, que possam impulsionar uma profunda mudança no meio rural e na agricultura, além de reorientar ações
de Assistência Técnica e Extensão Rural, numa perspectiva que assegure maior sustentabilidade socioambiental e
econômica dos territórios rurais.
Como temos procurado alertar em outros textos, é comum a confusão quando se fala de tipos de agricultura alternativa
e de Agroecologia, como se fossem a mesma coisa. Já faz muitos anos que, ao lado da implementação da agricultura
convencional, agroquímica ou industrial, vêm sendo praticadas diferentes formas de agricultura que são
socioambientalmente mais adequadas. Nos anos 80, se convencionou chamar a estas agriculturas ambientalmente mais
corretas de agricultura alternativa. De fato, existem muitos tipos de agriculturas alternativas, com diferentes
denominações. Elas se orientam por determinadas linhas filosóficas, diferentes enfoques metodológicos, assim como
diferentes práticas, tecnologias, uso de preparados ou, simplesmente, proibições e restrições de uso de certos insumos,
etc. Dependendo do arranjo que seja adotado no processo produtivo, elas assumem diferentes denominações: Natural,
Ecológica, Biodinâmica, Permacultura, Biológica ou Orgânica, entre outras. Contudo, estas escolas ou correntes da
agricultura alternativa não necessariamente precisam estar seguindo as premissas básicas e os ensinamentos
fundamentais da Agroecologia. Na realidade, uma agricultura que trata, por exemplo, apenas de substituir insumos
químicos convencionais por insumos “alternativos”, “ecológicos” ou “orgânicos” não necessariamente será uma
agricultura ecológica em sentido mais amplo.
Por outro lado, ainda nos anos 80, nascia a Agroecologia: um enfoque científico que iniciou com a tentativa de mostrar
novas maneiras de integrar a Agronomia com a Ecologia, mas que, logo em seguida, viria a incorporar a importância do
saber popular, sobre o ambiente e sobre o manejo dos recursos naturais nos processos produtivos agrícolas ou
extrativistas, que foi acumulado pelas comunidades tradicionais ou camponesas ao longo dos anos, passando a articular,
desta forma, o conhecimento científico com estes saberes.
Nesse processo de construção da Agroecologia como uma nova ciência, foram sendo incorporados aportes de outros
campos do conhecimento: Sociologia, Antropologia, Física, Economia Ecológica, História e tantas outras que nos
ajudam a entender e explicar a crise socioambiental gerada pelos modelos de desenvolvimento e de agricultura
convencionais e, ao mesmo tempo, contribuem para a gente pensar e construir novos desenhos agroecossistemas
(sistemas manejados pelo homem) e de agricultura que caminhem na direção da sustentabilidade. Na verdade, então, a
Agroecologia, no seu sentido mais comum, é a ciência que nos ajuda a articular diferentes conhecimentos científicos e
saberes populares para a busca de mais sustentabilidade na agricultura.
Assim, ao contrário da agricultura convencional baseada na Agronomia tradicional ensinada pela Revolução Verde, que
sempre tende para a simplificação dos sistemas agrícolas, levando para o extremo, como são as monoculturas, a
Agroecologia é uma ciência que se situa no campo da complexidade, razão pela qual exige um enfoque holístico (ver o
todo) e uma abordagem sistêmica (relações entre as partes) para o desenho de agroecossistemas mais sustentáveis e, por
isso mesmo, necessariamente mais complexos.
Ademais, desde a Agroecologia se entende, também, que a prática da agricultura é um processo social, integrado a
sistemas econômicos, e que, portanto, qualquer enfoque baseado simplesmente na tecnologia ou na mudança da base
técnica da agricultura pode implicar no surgimento de novas relações sociais, de novo tipo de relação dos homens com
o meio ambiente e, entre outras coisas, em maior ou menor grau de autonomia e capacidade de exercer a cidadania. O
antes mencionado serve como reforço à idéia segundo a qual os contextos de agricultura e desenvolvimento rural mais
sustentáveis exigem um tratamento mais eqüitativo a todos os atores envolvidos – especialmente em termos das
oportunidades a eles estendidas –, buscando-se uma melhoria crescente e equilibrada daqueles elementos ou aspectos
que expressam os avanços positivos em cada uma das seis dimensões da sustentabilidade. Por isto mesmo, quando se
fala de Agroecologia, está se tratando de uma orientação científica cujas contribuições vão muito além de aspectos
meramente tecnológicos ou agronômicos da produção agrícola ou pecuária, pois esta ciência nos leva a incorporar
dimensões mais amplas e complexas, que incluem tanto variáveis econômicas, sociais e ambientais, como variáveis
culturais, políticas e éticas da sustentabilidade. Por esta razão o complexo processo de transição agroecológica não
dispensa o progresso técnico e o avanço do conhecimento científico, assim como não pode dispensar o saber popular.

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A Agroecologia é, pois, um enfoque científico destinado a apoiar a transição dos atuais modelos de desenvolvimento
rural e de agricultura convencionais para estilos de desenvolvimento rural e de agriculturas mais sustentáveis. Portanto,
quando se está trabalhando a partir dos princípios da Agroecologia, aparece como central o conceito de transição
agroecológica, entendida como um processo gradual e multilinear de mudança, que ocorre através do tempo, nas formas
de manejo dos agroecossistemas, aproximando esses dos sistemas naturais onde estão inseridos. Esta ideia de mudança
gradual se refere a um processo de evolução contínua e crescente no tempo, porém sem ter um momento final
determinado. Porém, por se tratar de um processo social, isto é, por depender da intervenção humana, a transição
agroecológica implica não somente na busca de uma maior racionalização econômico-produtiva, com base nas
especificidades, por exemplo, do clima, solo e água de cada agroecossistema, mas também numa mudança nas atitudes
e valores dos atores sociais em relação ao manejo e conservação dos recursos naturais. Isto determina, também, que
quando se trabalha a partir dos princípios da Agroecologia não há a possibilidade de transferência unilateral de pacotes
tecnológicos, pois devem ser respeitadas as condições locais tanto dos agroecossistemas como dos sistemas culturais
dos grupos sociais que os estão manejando. Adicionalmente, é preciso enfatizar que o processo de transição
agroecológica adquire enorme complexidade, tanto tecnológica como metodológica e organizacional, dependendo dos
objetivos e das metas que se estabeleçam, assim como do “nível” de sustentabilidade que se deseja alcançar.
O que se está tentando dizer é que, como resultado da aplicação dos princípios da Agroecologia, pode-se alcançar estilos
de agriculturas de base ecológica e, assim, obter produtos de qualidade biológica superior. Mas, para respeitar aqueles
princípios, esta agricultura deve atender requisitos sociais, considerar aspectos culturais, preservar recursos ambientais,
apoiar a participação política e o empoderamento dos seus atores, além de permitir a obtenção de resultados econômicos
favoráveis ao conjunto da sociedade, com uma perspectiva temporal de longo prazo, ou seja, uma agricultura sustentável.
Logo, é fundamental que tenhamos um entendimento correto destes conceitos, para evitar que, dando nomes errados às
coisas, possamos estar colaborando para reafirmar um equívoco, já que a Agroecologia como tentamos mostrar não é
mais uma das agriculturas alternativas.

l. Por que socialismo?


Por Albert Einstein

Será aconselhável para quem não é especialista em assuntos econômicos e sociais exprimir opiniões sobre a questão do
socialismo? Eu penso que sim, por uma série de razões.
Consideremos antes de mais a questão sob o ponto de vista do conhecimento científico. Poderá parecer que não há
diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas em ambos os campos tentam
descobrir leis de aceitação geral para um grupo circunscrito de fenómenos de forma a tornar a interligação destes
fenómenos tão claramente compreensível quanto possível.Mas, na realidade, estas diferenças metodológicas existem. A
descoberta de leis gerais no campo da economia torna-se difícil pela circunstância de que os fenómenos econômicos
observados são frequentemente afetados por muitos fatores que são muito difíceis de avaliar separadamente. Além disso,
a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história humana tem sido – como é bem
conhecido – largamente influenciada e limitada por causas que não são, de forma alguma, exclusivamente económicas
por natureza. Por exemplo, a maior parte dos principais estados da história ficou a dever a sua existência à conquista.
Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado.
Monopolizaram as terras e nomearam um clero de entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, que controlavam a
educação, tornaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores
segundo o qual as pessoas se têm guiado desde então, até grande medida de forma inconsciente, no seu comportamento
social.
Mas a tradição histórica é, por assim dizer, coisa do passado; em lado nenhum ultrapassámos de fato o que Thorstein
Veblen chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os fatos econômicos observáveis pertencem a essa
fase e mesmo as leis que podemos deduzir a partir deles não são aplicáveis a outras fases. Uma vez que o verdadeiro
objetivo do socialismo é precisamente ultrapassar e ir além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência
económica no seu atual estado não consegue dar grandes esclarecimentos sobre a sociedade socialista do futuro.

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Segundo, o socialismo é dirigido para um fim sócio ético. A ciência, contudo, não pode criar fins e, muito menos, incuti-
los nos seres humanos; quando muito, a ciência pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios
fins são concebidos por personalidades com ideais éticos elevados e – se estes ideais não nascerem já votados ao
insucesso, mas forem vitais e vigorosos – adoptados e transportados por aqueles muitos seres humanos que, semi-
inconscientemente, determinam a evolução lenta da sociedade.
Por estas razões, devemos precaver-nos para não sobrestimarmos a ciência e os métodos científicos quando se trata de
problemas humanos; e não devemos assumir que os peritos são os únicos que têm o direito a expressarem-se sobre
questões que afetam a organização da sociedade.
Inúmeras vozes afirmam desde há algum tempo que a sociedade humana está a passar por uma crise, que a sua
estabilidade foi gravemente abalada. É característico desta situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo
hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o meu pensamento, permitam-me que
exponha aqui uma experiência pessoal. Falei recentemente com um homem inteligente e cordial sobre a ameaça de outra
guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e comentei que só uma organização
supranacional ofereceria proteção contra esse perigo. Imediatamente o meu visitante, muito calma e friamente, disse-
me: “Porque se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana? ”
Tenho a certeza de que há tão pouco tempo como um século atrás ninguém teria feito uma afirmação deste tipo de forma
tão leve. É a afirmação de um homem que tentou em vão atingir um equilíbrio interior e que perdeu mais ou menos a
esperança de ser bem-sucedido. É a expressão de uma solidão e isolamento dolorosos de que sofre tanta gente hoje em
dia. Qual é a causa? Haverá uma saída?
É fácil levantar estas questões, mas é difícil responder-lhes com um certo grau de segurança. No entanto, devo tentar o
melhor que posso, embora esteja consciente do fato de que os nossos sentimentos e esforços são muitas vezes
contraditórios e obscuros e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.
O homem é, simultaneamente, um ser solitário e um ser social. Enquanto ser solitário, tenta proteger a sua própria
existência e a daqueles que lhe são próximos, satisfazer os seus desejos pessoais, e desenvolver as suas capacidades
inatas. Enquanto ser social, procura ganhar o reconhecimento e afeição dos seus semelhantes, partilhar os seus prazeres,
confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Apenas a existência destes esforços diversos e
frequentemente conflituosos respondem pelo carácter especial de um ser humano, e a sua combinação específica
determina até que ponto um indivíduo pode atingir um equilíbrio interior e pode contribuir para o bem-estar da sociedade.
É perfeitamente possível que a força relativa destes dois impulsos seja, no essencial, fixada por herança. Mas a
personalidade que finalmente emerge é largamente formada pelo ambiente em que um indivíduo acaba por se descobrir
a si próprio durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pela tradição dessa sociedade, e
pelo apreço por determinados tipos de comportamento. O conceito abstrato de “sociedade” significa para o ser humano
individual o conjunto das suas relações diretas e indiretas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas de
gerações anteriores. O indivíduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar sozinho, mas depende tanto da sociedade –
na sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da
sociedade. É a “sociedade” que lhe fornece comida, roupa, casa, instrumentos de trabalho, língua, formas de pensamento,
e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida foi tornada possível através do trabalho e da concretização dos
muitos milhões passados e presentes que estão todos escondidos atrás da pequena palavra “sociedade”.
É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um fato da natureza que não pode ser
abolido – tal como no caso das formigas e das abelhas. No entanto, enquanto todo o processo de vida das formigas e
abelhas é reduzido ao mais pequeno pormenor por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as inter-relações dos
seres humanos são muito variáveis e susceptíveis de mudança. A memória, a capacidade de fazer novas combinações e
o dom da comunicação oral tornaram possíveis os desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por
necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura;
nas obras científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica a forma como, num determinado sentido, o homem
pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta, e como neste processo o pensamento e a vontade conscientes
podem desempenhar um papel.

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O homem adquire à nascença, através da hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa ou
inalterável, incluindo os desejos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, durante a sua vida,
adquire uma constituição cultural que adopta da sociedade através da comunicação e através de muitos outros tipos de
influências. É esta constituição cultural que, com a passagem do tempo, está sujeita à mudança e que determina, em
larga medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensina-nos, através da investigação
comparativa das chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode divergir
grandemente, dependendo dos padrões culturais dominantes e dos tipos de organização que predominam na sociedade.
É nisto que aqueles que lutam por melhorar a sorte do homem podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos
não estão condenados, devido à sua constituição biológica, a exterminarem-se uns aos outros ou a ficarem à mercê de
um destino cruel e autoinfligido.
Se nos interrogarmos sobre como deveria mudar a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem para tornar a
vida humana a mais satisfatória possível, devemos estar permanentemente conscientes do fato de que há determinadas
condições que não podemos alterar. Como mencionado anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os
objetivos práticos, não está sujeita à mudança. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos
últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações com fixação relativamente densa e com bens
indispensáveis à sua existência continuada, é absolutamente necessário haver uma extrema divisão do trabalho e um
aparelho produtivo altamente centralizado. Já lá vai o tempo – que, olhando para trás, parece ser idílico – em que os
indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente autossuficientes. É apenas um pequeno exagero
dizer-se que a humanidade constitui, mesmo atualmente, uma comunidade planetária de produção e consumo.
Cheguei agora ao ponto em que vou indicar sucintamente o que para mim constitui a essência da crise do nosso tempo.
Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua
dependência relativamente à sociedade. Mas ele não sente esta dependência como um bem positivo, como um laço
orgânico, como uma força protetora, mas mesmo como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou ainda à sua existência
econômica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egotistas da sua composição estão
constantemente a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram
progressivamente. Todos os seres humanos, seja qual for a sua posição na sociedade, sofrem este processo de
deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egotismo, sentem-se inseguros, sós, e privados do gozo
ingênuo, simples e não sofisticado da vida. O homem pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, apenas
dedicando-se à sociedade.
A anarquia econômica da sociedade capitalista como existe atualmente é, na minha opinião, a verdadeira origem do mal.
Vemos perante nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros lutam incessantemente para despojar os
outros dos frutos do seu trabalho coletivo – não pela força, mas, em geral, em conformidade com as regras legalmente
estabelecidas. A este respeito, é importante compreender que os meios de produção – ou seja, toda a capacidade
produtiva que é necessária para produzir bens de consumo bem como bens de equipamento adicionais – podem ser
legalmente, e na sua maior parte são, propriedade privada de indivíduos.
Para simplificar, no debate que se segue, chamo “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a posse dos meios
de produção – embora isto não corresponda exatamente à utilização habitual do termo. O detentor dos meios de produção
está em posição de comprar a mão-de-obra. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se
tornam propriedade do capitalista. A questão essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o
que recebe, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o
trabalhador recebe é determinado não pelo valor real dos bens que produz, mas pelas suas necessidades mínimas e pelas
exigências dos capitalistas para a mão-de-obra em relação ao número de trabalhadores que concorrem aos empregos. É
importante compreender que, mesmo em teoria, o pagamento do trabalhador não é determinado pelo valor do seu
produto.
O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da concorrência entre os capitalistas e em
parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de
produção maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital
privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado mesmo por uma sociedade política democraticamente
organizada. Isto é verdade, uma vez que os membros dos órgãos legislativos são escolhidos pelos partidos políticos,
largamente financiados ou influenciados pelos capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o

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eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses
das secções subprivilegidas da população. Além disso, nas condições existentes, os capitalistas privados controlam
inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É assim
extremamente difícil e mesmo, na maior parte dos casos, completamente impossível, para o cidadão individual, chegar
a conclusões objetivas e utilizar inteligentemente os seus direitos políticos.
Assim, a situação predominante numa economia baseada na propriedade privada do capital caracteriza-se por dois
principais princípios: primeiro, os meios de produção (capital) são privados e os detentores utilizam-nos como acham
adequado; segundo, o contrato de trabalho é livre. Claro que não há tal coisa como uma sociedade capitalista pura neste
sentido. É de notar, em particular, que os trabalhadores, através de longas e duras lutas políticas, conseguiram garantir
uma forma algo melhorada do “contrato de trabalho livre” para determinadas categorias de trabalhadores. Mas tomada
no seu conjunto, a economia atual não difere muito do capitalismo “puro”.
A produção é feita para o lucro e não para o uso. Não há nenhuma disposição em que todos os que possam e queiram
trabalhar estejam sempre em posição de encontrar emprego; existe quase sempre um “exército de desempregados. O
trabalhador está constantemente com medo de perder o seu emprego. Uma vez que os desempregados e os trabalhadores
mal pagos não fornecem um mercado rentável, a produção de bens de consumo é restrita e tem como consequência a
miséria. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego e não no alívio do fardo da carga de
trabalho para todos. O motivo lucro, em conjunto com a concorrência entre capitalistas, é responsável por uma
instabilidade na acumulação e utilização do capital que conduz a depressões cada vez mais graves. A concorrência sem
limites conduz a um enorme desperdício do trabalho e a esse enfraquecimento consciência social dos indivíduos que
mencionei anteriormente.
Considero este enfraquecimento dos indivíduos como o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre
deste mal. É incutida uma atitude exageradamente competitiva no aluno, que é formado para venerar o sucesso de
aquisição como preparação para a sua futura carreira.
Estou convencido que só há uma forma de eliminar estes sérios males, nomeadamente através da constituição de uma
economia socialista, acompanhada por um sistema educativo orientado para objetivos sociais. Nesta economia, os meios
de produção são detidos pela própria sociedade e são utilizados de forma planeada. Uma economia planeada, que adeque
a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre aqueles que podem trabalhar e
garantiria o sustento a todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, além de promover as suas
próprias capacidades inatas, tentaria desenvolver nele um sentido de responsabilidade pelo seu semelhante em vez da
glorificação do poder e do sucesso na nossa atual sociedade.
No entanto, é necessário lembrar que uma economia planeada não é ainda o socialismo. Uma tal economia planeada
pode ser acompanhada pela completa opressão do indivíduo. A concretização do socialismo exige a solução de
problemas sociopolíticos extremamente difíceis; como é possível, perante a centralização de longo alcance do poder
econômico e político, evitar a burocracia de se tornar todo-poderosa e vangloriosa? Como podem ser protegidos os
direitos do indivíduo e com isso assegurar-se um contrapeso democrático ao poder da burocracia?
A clareza sobre os objetivos e problemas do socialismo é da maior importância na nossa época de transição. Visto que,
nas atuais circunstâncias, a discussão livre e sem entraves destes problemas surge sob um tabu poderoso, considero a
fundação desta revista como um serviço público importante.

5. CANCIONEIRO
a. Canções

Admirável gado novo – Zé Ramalho ferrugem lhe comer... Êeeeeh! Oh! Oh! Vida de gado
Vocês que fazem parte dessa massa. Que passa nos Povo marcado. Êh! Povo feliz!
projetos do futuro. É duro tanto ter que caminhar. E dar
Lá fora faz um tempo confortável. A vigilância cuida do
muito mais do que receber...
normal. Os automóveis ouvem a notícia. Os homens a
E ter que demonstrar sua coragem. À margem do que
publicam no jornal... E correm através da madrugada. A
possa parecer E ver que toda essa engrenagem. Já sente a

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única velhice que chegou. Demoram-se na beira da Decepar a cana
estrada. E passam a contar o que sobrou... Êeeeeh! Oh! Recolher a garapa da cana
Oh! Vida de gado. Povo marcado. Êh! Povo feliz! Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel
O povo foge da ignorância, apesar de viver tão perto
dela. E sonham com melhores tempos idos. Contemplam Afagar a terra
essa vida numa cela... Esperam nova possibilidade. De Conhecer os desejos da terra
verem esse mundo se acabar. A Arca de Noé, o dirigível. Cio da terra, propícia estação
Não voam nem se pode flutuar... Êeeeeh! Oh! Oh! Vida E fecundar o chão
de gado. Povo marcado. Êh! Povo feliz!

Canção da Terra – Pedro Munhoz


Pra não dizer que não falei de flores – Geraldo Tudo aconteceu num certo dia
Vandré Hora de ave maria o universo vi gerar
Caminhando e cantando e seguindo a canção No princípio o verbo se fez fogo
Somos todos iguais braços dados ou não Nem atlas tinha o globo
Mas tinha nome o lugar
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Era terra, terra
Caminhando e cantando e seguindo a canção
E fez o criador a natureza
Refrão:
Fez os campos e florestas
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Fez os bichos, fez o mar
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Fez por fim, então, a rebeldia
(2x)
Que nos dá a garantia
Pelos campos há fome em grandes plantações Que nos leva a lutar
Pelas ruas marchando indecisos cordões Pela terra, terra
Ainda fazem da flor seu mais forte E acreditam nas
Madre terra nossa esperança
flores vencendo o canhão
Onde a vida dá seus frutos
Refrão O teu filho vem cantar
Ser e ter o sonho por inteiro
Há soldados armados, amados ou não Sou sem-terra, sou guerreiro
Quase todos perdidos de armas na mão Com a missão de semear
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição À terra, terra
De morrer pela pátria e viver sem razão
Mas apesar de tudo isso
Refrão O latifúndio é feito um inço
Nas escolas, nas ruas, campos, construções Que precisa acabar
Somos todos soldados, armados ou não Romper as cercas da ignorância
Caminhando e cantando e seguindo a canção Que produz a intolerância
Somos todos iguais braços dados ou não Terra é de quem plantar
À terra, terra
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Floriô – Zé Pinto
Caminhando e cantando e seguindo a canção Refrão:
Aprendendo e ensinando uma nova lição Arroz deu cacho e o feijão floriô, milho na palha,
Refrão coração cheio de amor.
Povo sem terra fez a guerra por justiça visto que não tem
preguiça este povo de pegar cabo de foice, também cabo
Cio da Terra – Chico Buarque de enxada pra poder fazer roçado e o Brasil se alimentar.
Debulhar o trigo
Refrão
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão

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Com sacrifício debaixo da lona preta inimigo fez careta Sua carne não te define
mas o povo atravessou rompendo cercas que cercam a Você é seu próprio lar
filosofia de ter paz e harmonia para quem planta o amor.
Que o homem não te define
Refrão Sua casa não te define
Sua carne não te define
Erguendo a fala gritando Reforma Agrária, porque a luta
não para quando se conquista o chão fazendo estudo, Ela desatinou
juntando a companheirada criando cooperativa pra Desatou nós
avançar a produção. Vai viver só
Refrão Eu não me vejo na palavra
Fêmea: Alvo de caça
Conformada vítima
Só sai reforma agrária Prefiro queimar o mapa
Refrão:
Traçar de novo a estrada
Só, só sai, só reforma agrária
Ver cores nas cinzas
Com a aliança camponesa operária.
E a vida reinventar
Nossa primeira tarefa é ocupar
E o homem não me define
Toda terra improdutiva
Minha casa não me define
Nós queremos trabalhar
Minha carne não me define
Refrão
Eu sou meu próprio lar
Nossa segunda tarefa é resistir
Ela desatinou
Entrar bem organizado enfrentar pra não sair
Desatou nós
Refrão Vai viver só

Nossa terceira tarefa é produzir


No trabalho coletivo O cubo – Dazaranha
Colher muito e repartir. O meu compromisso com a minha natureza é de não ser
igual (2x)
Refrão
Nasci no meio de milhares de pinheiros, nasci no meio
Nossa quarta tarefa tá na mão de milhares de pinheiros, mas eu saquei, que sou uma
Organizar a juventude goiabeira (2x)
Pra fazer revolução
Na geometria desse mundo me disseram que eu sou
quadrado, mas eu sou triangular e quem sabe circular
Triste, louca ou má – Francisco, El Hombre (2x)
Triste louca ou má
Será qualificada O alecrim hortelã me confundem... o alecrim o alecrim o
Ela quem recusar alecrim o alecrim o alecrim (2x)
Seguir receita tal
A receita cultural
Negro Nagô – Pastoral da Juventude
Do marido, da família
Eu vou tocar minha viola, eu sou um negro cantador.
Cuida, cuida da rotina
O negro canta deita e rola, lá na senzala do Senhor.
Só mesmo rejeita
Dança aí negro nagô (4X)
Bem conhecida receita
Quem não sem dores Tem que acabar com esta história de negro ser inferior.
Aceita que tudo deve mudar O negro é gente e quer escola, quer dançar samba e ser
doutor.
Que o homem não te define
Sua casa não te define Dança aí negro nagô (4X)

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O negro mora em palafita, não é culpa dele não senhor. Braço erguido ditemos nossa história
A culpa é da abolição que veio e não o libertou. sufocando com força os opressores
hasteemos a bandeira colorida
Dança aí negro nagô (4X)
despertemos esta pátria adormecida
Vou botar fogo no engenho aonde o negro apanhou. o amanhã pertence a nós trabalhadores!
O negro é gente como o outro, quer ter carinho e ter
Vem, lutemos
amor.
punho erguido
Dança aí negro nagô (4X) Nossa força nos faz a edificar
Nossa pátria
A juventude tem um lado, é o lado do trabalhador livre e forte
Dança aí trabalhador (2x) construída pelo poder popular

A juventude tem um lado, é o lado da trabalhadora


Dança aí trabalhadora (2x) Nossa força resgatada pela chama
da esperança no triunfo que virá
forjaremos desta luta com certeza
Terra e raiz – 1ª Oficina Nacional dos Músicos do pátria livre operária e camponesa
MST nossa estrela enfim triunfará!
Refrão:
Vem, lutemos
A terra guarda a raiz, da planta que gera o pão, a
punho erguido
madeira que dá o cabo, da enxada e do violão.
Nossa força nos faz a edificar
A chuva cai sobre a natureza, e a planta cresce gerando a
riqueza e o trabalhador luta com certeza pra não faltar
pão sobre nossa mesa. Funk da crise – Levante Popular da Juventude
A crise é dos ricos e os pobre é que se fode
Refrão
NO PODER SÓ TEM PLAYBOY (2x)
Liberdade é pão, é vida, Terra-mãe, trabalho e amor é o
Ôoo a juventude chegou, organizada no EIV junto com o
grito da natureza viola de um cantador.
trabalhador!
Refrão
Ôoo a juventude chegou
É o povo em movimento contra as cercas da É, no campo e na cidade, vamô meter o terror!
concentração com um sorriso de felicidade e a história
Agora virou moda crise internacional,
na palma da mão.
Demitiram todo mundo pra playboy não passar mal
E o trabalhador que se ferra todo dia,
Hino do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Chega no fim do mês, a panela tá vazia
Terra
O jovem na cidade estudando e coisa e tal,
Letra: Ademar Bogo
Trabalhando noite e dia, escravo do capital
Música: Willy C. de Oliveira
Vem teçamos a nossa liberdade
braços fortes que rasgam o chão Hino da ação direta
sob a sombra de nossa valentia A história são os povos que a fazem
desfraldemos a nossa rebeldia A justiça está na mão de quem peleia
e plantemos nesta terra como irmãos!
Nossa gente tão cansada de sofrer
Vem, lutemos Vamos juntos descobrir o que fazer
punho erguido
Nossa força nos faz a edificar Se o governo e os patrões só nos oprimem
Nossa pátria Acumulando riqueza e poder
livre e forte
Ação direta é a arma que nós temos
construída pelo poder popular
Pra fazer justiça pra viver (2x)

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Povo na rua, pra resistir, pra lutar Mata gente e mata rio, é a Cargill.
Povo que avança Agronegócio, a mentira do Brasil.
Para o poder popular

Agronegócio é a mentira do Brasil – Escola de Samba


Unidos da Lona Preta
Comida ruim ninguém aguenta, é a Syngenta.
É veneno em todo canto, é a Monsanto.

b. Poesias
En la lucha de classes – Paulo Leminski Que não tem cultura, têm folclore.
En la lucha de classes Que não têm cara, têm braços.
Todas las armas son buenas Que não têm nome, têm número.
Piedras Que não aparecem na história universal, aparecem nas
Noches páginas policiais da imprensa local.
Poemas. Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os
mata.
Nossos inimigos dizem – Bertolt Brecht
Nossos inimigos dizem: a luta terminou.
Mas nós dizemos: ela começou. Quando matam um Sem Terra – Pedro Munhoz
Quem contar traz à memória, sabendo que a dor existe,
Nossos inimigos dizem: a verdade está liquidada.
quando a morte ainda insiste, em calar quem faz a
Mas nós sabemos: nós a sabemos ainda.
História.
Nossos inimigos dizem: mesmo que ainda se conheça a Pois quem morre não tem glória, nem tampouco
verdade, ela não será divulgada. desespera,
Mas nós a divulgaremos. é um valente na guerra, tomba, em nome da vida.
Da intenção ninguém duvida,quando matam um Sem
É a véspera da batalha.
Terra.
É a preparação de nossos quadros.
É o estudo do plano de luta. Foi assim nesta jornada, quando mataram mais um,
É o dia antes da queda de nossos inimigos. o companheiro ELTON BRUM, não teve tempo pra
nada.
Os ninguéns – Eduardo Galeano Numa arma disparada, o Estado é quem enterra
As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns e uma vida se encerra, em nome da covardia.
com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte Toda a nossa rebeldia quando matam um Sem Terra.
chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova
É o desatino fardado, armado até os dentes,
ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma
até esquecem que são gente, quando estão do outro lado.
chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os
E vestidos de soldado, todo o sonho dilacera,
ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce,
violência prolifera tiro certeiro, fatal.
ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano
Beiram o irracional, quando matam um Sem Terra.
mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada. Quem és tu, torturador, que tanta dor desatas,
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a desanima e maltrata o humilde plantador?
vida, fodidos e mal pagos: Negas a classe, traidor, do povo tudo se gera,
Que não são embora sejam. te esqueces deveras, debaixo de um capacete.
Dá a ordem o Gabinete, quando matam um Sem Terra.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições. Em algum lugar da pampa, ELTON deve de estar,
Que não fazem arte, fazem artesanato. tranquilo no caminhar, jeito humilde na estampa.
Que não são seres humanos, são recursos humanos. E algum céu se descampa, coragem se retempera,

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outras batalhas se espera, dois projetos em disputa. ficar.
Não se desiste da luta, quando matam um Sem Terra. Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões
Nós decidimos, de agora em diante
Para os que Virão – Thiago de Mello Temeremos mais a miséria do que a morte.
Como sei pouco, e sou pouco, faço o pouco que me cabe
me dando inteiro. Considerando que está sobrando carvão
Sabendo que não vou ver o homem que quero ser. Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão
Nós decidimos que vamos toma-lo
Já sofri o suficiente para não enganar a ninguém: Considerando que ele nos aquecerá
principalmente aos que sofrem na própria vida, a garra da Considerando que os senhores nos ameaçam
opressão, e nem sabem. Com fuzis e canhões
Nós decidimos, de agora em diante
Não tenho o sol escondido no meu bolso de palavras. Temeremos mais a miséria do que a morte.
Sou simplesmente um homem para quem já a primeira e
desolada pessoa do singular - foi deixando, devagar, Considerando que para os senhores não é possível
sofridamente de ser, para transformar-se - muito mais Nos pagarem um salário justo
sofridamente - na primeira e profunda pessoa do plural. Tomaremos nós mesmos as fábricas
Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para
Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada nós.
com quem vai no mesmo rumo, mesmo que longe ainda Considerando que os senhores nos ameaçam
esteja de aprender a conjugar o verbo amar. Com fuzis e canhões
Nós decidimos: de agora em diante
É tempo sobretudo de deixar de ser apenas a solitária Temeremos mais a miséria que a morte.
vanguarda de nós mesmos. Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida Considerando que o que o governo nos promete
verdade dos nossos erros.) Se trata de abrir o rumo. Está muito longe de nos inspirar confiança
Nós decidimos tomar o poder
Os que virão, serão povo, e saber serão, lutando. Para podermos levar uma vida melhor.
Considerando: vocês escutam os canhões
Dias de Comuna – Bertolt Brecht Outra linguagem não conseguem compreender
Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram Deveremos então, sim, isso valerá a pena
Suas leis para nos escravizarem. Apontar os canhões contra os senhores!
As leis não mais serão respeitadas
Considerando que não queremos mais ser escravos.
O Analfabeto Político – Bertolt Brecht
Considerando que os senhores nos ameaçam O pior analfabeto é o analfabeto político.
Com fuzis e com canhões Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos
Nós decidimos: de agora em diante políticos.
Temeremos mais a miséria do que a morte. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe,
da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem
Consideramos que ficaremos famintos
das decisões políticas.
Se suportarmos que continuem nos roubando
Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o
Que nos separam deste bom pão que nos falta. peito dizendo que odeia a política.
Considerando que os senhores nos ameaçam Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce
Com fuzis e canhões a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os
Nós decidimos, de agora em diante bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e
Temeremos mais a miséria que a morte. lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

Considerando que existem grandes mansões


Enquanto os senhores nos deixam sem teto Nada é impossível de mudar – Bertolt Brecht
Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
Porque em nossos buracos não temos mais condições de E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

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Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito Haveria que enchê-las de flores e de gemas as mãos de
como coisa natural, pois em tempo de desordem camponês que são todo um poema nos quais os versos
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade cheiram a terra e a suor!
consciente, de humanidade desumanizada, nada deve
parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
Intertexto – Bertolt Brecht
Primeiro levaram os negros
Despertar é preciso – Eduardo Alves da Costa Mas não me importei com isso
Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor Eu não era negro
do nosso jardim e não dizemos nada.
Em seguida levaram alguns operários
Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, Mas não me importei com isso
matam o nosso cão, e não dizemos nada. Eu também não era operário
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em Depois prenderam os miseráveis
nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, Mas não me importei com isso
arranca-nos a voz da garganta. Porque eu não sou miserável
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada. Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Privatizaram – Bertolt Brecht
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e Agora estão me levando
seu direito de pensar. Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e Ninguém se importa comigo.
seu salário.
E agora não contente querem privatizar o conhecimento,
a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade O que seria do mundo sem militantes? – Pepe Mujica
pertence. Não porque os militantes sejam perfeitos, porque tenham
sempre a razão, porque sejam super-homens e não se
equivoquem. Não é isso.
Confissões do latifúndio – Pedro Casaldáliga
Por onde passei, plantei, a cerca farpada, plantei a É que os militantes não vêm para buscar o seu, vem
queimada. entregar a alma por um punhado de sonhos.

Por onde passei, plantei, a morte matada. Ao fim e ao cabo, o progresso da condição humana
depende fundamentalmente de que exista gente que se
Por onde passei, matei, a tribo calada, a roça suada, a sinta feliz em gastar sua vida a serviço do progresso
terra esperada... humano.
Por onde passei, tendo tudo em lei, eu plantei o nada. Ser militante não é carregar uma cruz de sacrifício.
É viver a glória interior de lutar pela liberdade em seu
Mãos de camponês – Pablo Neruda sentido transcendente.
Mãos rústicas e honradas. Mãos bondosas que
adormecem na tarde, milagrosas sob o incentivo bom da
lua cheia a abençoar os seios de uma esposa. Che Guevara
“Qué la universidad se pinte de negro, que se pinte de
E adormecem cansadas da tarefa cumprida rudemente -
mulato, no sólo entre los alunos, sino también entre los
em silêncio - como que sob o encanto de possuir nos
profesores, que se pinte de obrero y de campesino, que se
músculos rosas encalecidas de ter lavrado muito e ter
pinte de Pueblo, porque la Universidad no es el
semeado tanto!
patrimônio de nadie y pertence al pueblo...”
Santificadas sejam em toda litania, nos dão o trigo de
ouro e o pão de cada dia e seguem os preceitos que lhes
deu o Senhor.

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