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Crítica

1 de Novembro de 2016 ⋅ Dicionário Escolar de Filosofia

Dicionário escolar de filosofia


Organização de Aires Almeida

dasein Termo alemão introduzido por Heidegger e que significa “ser-aí”. Para este filósofo, o ser
humano é um ser-aí no sentido em que a sua natureza consiste em estar no mundo. (Desidério Murcho)

datum Termo latino que significa “dado”: o que é dado nos sentidos, por exemplo. Opõe-se ao que é
inferido, nomeadamente com base nos sentidos. Por exemplo, o que eu vejo ao olhar para uma maçã é
apenas uma forma e uma cor; mas infiro que é um objecto real com base em vários outros dados,
nomeadamente dados de outros sentidos. (Desidério Murcho)

decadentismo Doutrina estética que coloca a arte acima da ética, defendendo que arte pode mesmo
ser imoral, sem que isso lhe retire qualquer valor. É uma doutrina associada às teorias da “arte pela
arte”, ou esteticismo. O esteta e escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) é um dos seus mais ilustres
representantes. (Aires Almeida)

dedução Um argumento cuja validade depende unicamente da sua forma lógica, ou da sua forma
lógica juntamente com os conceitos usados. Por exemplo, o argumento seguinte é dedutivo: “Se os
animais têm direitos, têm deveres; dado que não têm deveres, não têm direitos”. É dedutivo porque a
sua validade depende unicamente da sua forma lógica, que neste caso é a seguinte: “Se P, então Q; não
Q; logo, não P”. O argumento seguinte é dedutivo porque a sua validade depende unicamente da sua
forma lógica juntamente com os conceitos usados: “A neve é branca; logo, tem cor”. Não é verdadeiro
que nos argumentos dedutivos se parta sempre do geral para o particular. O argumento seguinte é
dedutivo e tanto a sua premissa como a sua conclusão são particulares: “Alguns filósofos são gregos;
logo, alguns gregos são filósofos”. Ver indução. (Desidério Murcho)

definição Uma maneira de dizer o que uma coisa é. Por exemplo, quando se pergunta o que é a água
pode-se responder que é H2O; quando se pergunta o que é o azul pode-se apontar para o céu, o mar, etc.
A primeira é uma definição explícita; a segunda é uma definição implícita. Em filosofia, as definições são
importantes por duas razões: para que o nosso discurso seja mais claro e como meio para uma
compreensão mais substancial dos nossos conceitos mais importantes. Mas as definições filosóficas são
objecto de disputa porque são surpreendentemente difíceis de obter. Isto acontece porque os conceitos
que queremos definir em filosofia são por vezes tão centrais na nossa economia conceptual que se
tornam difíceis de definir. Por exemplo: a física consegue definir “massa”, mas torna-se cada vez mais
difícil definir, sem cair em circularidade, os conceitos com que se define a massa, nomeadamente
“energia” e “corpo”. E depois será necessário definir os conceitos que usamos para definir esses
conceitos, e acabaremos por entrar em problemas filosóficos. As definições que interessam na filosofia
são difíceis porque são definições de conceitos tão básicos e centrais que é difícil encontrar outros
conceitos mais básicos e mais simples que possamos usar para os definir. (Desidério Murcho)

Murcho, Desidério, “Definição de “Definição"" in A Natureza da Filosofia e o seu Ensino (Lisboa:


Plátano, 2002).

definição essencialista Uma definição que apresenta as condições necessárias e suficientes que algo
satisfaz não apenas de facto, mas que é impossível que não satisfaça (ver condição necessária e
suficiente). Por exemplo, podemos definir água como H2O; esta é uma definição essencialista porque é
impossível que a água não tenha a composição química que tem. As definições essencialistas são
importantes em filosofia e correspondem à ideia popular de uma boa definição como algo que capta “a
essência” de uma coisa. Imagine-se que se define do seguinte modo criatura com rins: “Criatura com
rins é toda a criatura que tem coração”. Enquanto definição essencialista, é uma má definição porque
apesar de ser verdade que todas as criaturas que têm rins têm coração, e vice-versa, não é impossível que
algumas criaturas com rins não tenham coração, e vice-versa. Talvez noutros planetas outras criaturas
com rins não tenham coração; ou talvez tivesse havido na Terra criaturas com rins e sem coração, se a
história evolutiva tivesse sido diferente. (Desidério Murcho)

definição explícita Uma maneira de definir algo por meio de condições necessárias e suficientes (ver
condição necessária e suficiente). Por exemplo: “o Homem é um animal racional”; ou: “um estudante
transita de ano se, e só se, tiver uma média igual ou superior a 50%”. Há três tipos de definições
explícitas: extensionais, essencialistas e analíticas. As definições extensionais limitam-se a procurar
dizer o que as coisas são de facto, sem procurar dizer o que as coisas são necessariamente; dado que
todos os seres humanos são animais racionais, e que só os seres humanos são animais racionais, esta
definição é extensionalmente boa. Mas é uma má definição essencialista, porque não é necessário que
todos os animais racionais sejam seres humanos, nem que só os seres humanos sejam animais racionais.
E é uma má definição analítica porque a expressão “ser humano” não significa “animal racional" (ver
analítico/sintético). As definições explícitas contrastam com as definições implícitas (ver definição
implícita). Em filosofia, procuram-se sobretudo definições essencialistas e analíticas dos conceitos
filosóficos centrais, como conhecimento, verdade, arte, etc. (Desidério Murcho)

definição implícita Uma maneira de definir algo sem recorrer a condições necessárias e suficientes
(ver condição necessária e suficiente). Por exemplo, para definir a cor verde basta apresentar vários
objectos verdes; e podemos compreender o que é a melancolia lendo um romance que descreve uma
personagem melancólica, apesar de no romance nunca se dizer explicitamente o que é a melancolia. Há
dois tipos de definições implícitas: as ostensivas e as contextuais. Nas ostensivas apresentam-se casos
que exemplificam a propriedade que se quer definir (como no caso da cor). Nas contextuais (como no
caso do romance) apresentam-se vários contextos nos quais se usa o termo a definir. É um erro tentador
pensar que desconhecemos algo se não o soubermos definir explicitamente; na maior parte das vezes, as
definições implícitas são perfeitamente adequadas. Contudo, faz parte do estudo sistemático em
qualquer área, seja na filosofia ou na ciência, conseguir definir explicitamente os conceitos mais
importantes e centrais da área em causa. Do modo como Platão descreve Sócrates, este parecia
particularmente preocupado com o facto de os seus concidadãos serem incapazes de definir
explicitamente alguns dos conceitos centrais da filosofia, como os de justiça e conhecimento, por
exemplo. (Desidério Murcho)

democracia deliberativa Tipo de democracia que dá ênfase à participação dos cidadãos e aos
mecanismos racionais e discursivos de tomada de decisão, supostamente subalternizados pelos
processos de decisão tradicionais da democracia representativa. Os seus defensores afirmam que é uma
forma de aproximar os decisores dos cidadãos, de permitir a participação de minorias e a expressão de
pontos de vista normalmente excluídos pelos processos de tomada de decisão maioritários, de respeito e
esclarecimento mútuo e de obter consensos entre participantes livres e iguais. Os críticos, pelo contrário,
afirmam que a democracia deliberativa é potencialmente destrutiva (porque o objectivo de alcançar o
consenso torna praticamente impossível chegar a decisões, sobretudo em matérias urgentes) e utópica
(porque pretende associar deliberação e participação de massas). (Álvaro Nunes)

democracia representativa Forma de governo em que as pessoas elegem representantes que fazem
e aplicam as leis. Se à representatividade se acrescentar a promoção das liberdades básicas dos cidadãos,
a democracia representativa torna-se também liberal (ver liberalismo). Um argumento frequentemente
apontado a seu favor é o de que constitui a forma de governo que melhor promove o bem-estar e a
autonomia intelectual e moral dos cidadãos. Os críticos, por seu lado, tendem a ver nela a negação da
própria democracia e apontam o perigo de conduzir a uma tirania electiva. Entre os muitos problemas
que a democracia representativa enfrenta destacam-se os de saber como e quais representantes eleger de
modo a garantir a eficácia governativa e como proteger as minorias derrotadas da “ditadura da maioria”.
(Álvaro Nunes)

definiendum Expressão latina que significa “a definir”; em definições do tipo “F é G” ou “F se, e só se,
G” refere-se ao F. Por exemplo, ao definir conhecimento como crença verdadeira justificada,
“conhecimento” é o definiendum. (Desidério Murcho)

definiens Expressão latina que significa “o que define”; em definições do tipo “F é G” ou “F se, e só se,
G” refere-se ao G. Por exemplo, ao definir conhecimento como crença verdadeira justificada, “crença
verdadeira justificada” é o definiens. (Desidério Murcho)

deísmo Há diversos tipos de deísmo, mas, em geral, trata-se de uma concepção acerca de Deus que
assenta em pelo menos uma das seguintes teses: 1) Existe um Deus criador, mas uma vez criado o
mundo, ele não tem qualquer intervenção no curso dos acontecimentos; 2) Existe um Deus criador, mas
não existe qualquer espécie de revelação divina que nos diga o que é correcto ou incorrecto acerca da
nossa conduta moral, bastando para isso consultar a razão humana; 3) Existe um ser supremo criador,
mas esse ser não é o Deus revelado pelas religiões. Locke, Voltaire (1694-1778) e Rousseau (1712–1778)
defenderam algumas formas de deísmo. (Aires Almeida)

deliberação A consideração dos factores que tornam uma acção preferível a outras, tendo em conta a
informação disponível acerca da realidade e as previsíveis consequências da nossa escolha. O
instrumento privilegiado da deliberação é o raciocínio prático (ver razão prática), mediante o qual se
avalia qual das várias acções possíveis melhor concretiza os nossos desejos e melhor se adequa às nossas
crenças. Actualmente, a teoria da decisão constitui um suporte teórico indispensável para as
deliberações dos juristas, dos gestores, dos médicos ou dos cientistas no seu trabalho, tendo conhecido
um desenvolvimento assinalável no último século. (António Paulo Costa)

demarcação, critério de Ver critério de demarcação.

demarcação, problema da Ver critério de demarcação.

democracia Sistema de governação do povo, pelo povo (democracia directa) ou seus representantes
(democracia representativa), e para o povo. Platão defendeu que a democracia é irracional porque coloca
o poder de decisão nas mãos da maioria da população, que muitas vezes não tem o conhecimento
apropriado para tomar as melhores decisões. Outra crítica relacionada com esta é que a democracia, sem
restrições, é apenas uma injusta ditadura da maioria. Finalmente, discute-se também se a democracia
tem valor em si ou se tem valor apenas porque as suas consequências são melhores do que as de
qualquer outra forma de governação. (Desidério Murcho)

demonstração O mesmo que derivação.

denotação 1. A denotação de um nome próprio como “Aristóteles” é aquilo que o nome refere: o
próprio Aristóteles, neste caso.
2. Aplicado a classes, o termo “denotação” é equivalente ao mais corrente “extensão”. Ver também
conotação, referência. (Pedro Santos)

deontologia Ver ética deontológica.

derivação Uma forma de mostrar conclusivamente, passo a passo e de um ponto de vista


exclusivamente sintáctico, que uma dada forma argumentativa é válida (ver sintaxe e forma lógica).
Derivar uma conclusão de um conjunto de premissas é mostrar que a conclusão é uma consequência
lógica das premissas em causa. Uma maneira de fazer isso é proceder passo a passo, procurando que
cada passo seja de tal forma evidente que não possa esconder erros de raciocínio. Uma derivação é um
dispositivo da lógica formal para o fazer de forma completamente rigorosa — e por isso é um modelo do
que é pensar correctamente. Há diferentes estilos de derivações. Uma derivação simplificada tem o
seguinte aspecto:

1. R e não S Premissa
2. Se P, então S Premissa
3. Não S 1, Eliminação da conjunção
4. Não P 2, 3, modus tollens
5. R 1, Eliminação da conjunção
6. R e não P 4, 5, Introdução da conjunção

A primeira coluna limita-se a numerar os passos; a segunda coluna apresenta as formas lógicas que são
objecto do raciocínio; e a terceira coluna justifica cada um dos passos dados, apelando a regras válidas.
As derivações são dispositivos sintácticos para determinar a validade de argumentos porque não fazem
qualquer referência às condições de verdade (ver tabela de verdade) das premissas e conclusão, ao
contrário do que acontece nos inspectores de circunstâncias, que determinam a validade em função das
condições de verdade das premissas e conclusão em causa. (Desidério Murcho)

Descartes, René (1596-1650) Filósofo, matemático e cientista francês. É considerado o pai da


filosofia moderna. Abandonou os métodos que até então eram habituais da filosofia do continente
europeu e que seguiam o estilo de Tomás de Aquino: no estudo de cada problema filosófico recorria-se à
comparação das teorias dos filósofos do passado, sobretudo Aristóteles, e das doutrinas da Bíblia. Ao
invés, Descartes enfrenta directamente os problemas da filosofia, sem comparar as teorias dos filósofos
anteriores e sem atender às doutrinas da Bíblia. A sua formação científica diferencia-o também de
muitos filósofos medievais, cuja formação era fundamentalmente teológica. Descartes era, contudo, um
homem muito religioso e alega que o seu método filosófico lhe foi revelado em sonhos.
No Discurso do Método (1637), Descartes apresenta um resumo do seu pensamento filosófico, que
mais tarde desenvolve nas Meditações sobre a Filosofia Primeira (1641). A preocupação central de
Descartes é conseguir estabelecer um método seguro para a filosofia, que a coloque no mesmo caminho
de sucesso que a ciência do seu tempo começava a percorrer. Como muitos filósofos do seu tempo,
Descartes está igualmente preocupado com o cepticismo. A sua famosa dúvida metódica consiste em
levar até às últimas consequências as dúvidas dos cépticos, convencido de que no fim haverá uma
verdade da qual não será possível duvidar. Santo Agostinho já tinha proposto o mesmo método de
refutação do cepticismo, mas Descartes entende que, com base no que restar depois da aplicação da
dúvida metódica, será possível reconstruir os fundamentos de todo o conhecimento. Descartes costuma
por isso ser visto como um fundacionalista (ver fundacionalismo) com respeito à epistemologia.
A verdade irrefutável e que nem os cépticos mais radicais poderiam recusar é a própria existência de
quem duvida; daí a famosa expressão “Penso, logo existo" — isto é, posso duvidar de tudo, incluindo da
realidade do mundo exterior, mas, para poder duvidar, tenho de existir, e por isso a minha própria
existência é indubitável e evidente. Mas a minha existência não se pode confundir com a existência do
meu corpo, do qual posso duvidar. E Descartes introduz assim o famoso e poderoso argumento dualista:
se é possível que o meu corpo seja uma ilusão, mas é impossível que eu seja uma ilusão, então eu não
sou o meu corpo. Com base na certeza de que o eu existe, Descartes procura então mostrar a existência
de Deus e, com base na existência de Deus, a existência do mundo exterior. A obra de Descartes,
sobretudo as Meditações, é um modelo da actividade filosófica genuína e constitui um bom ponto para
começar o estudo da filosofia. (Desidério Murcho)

Blackburn, Simon, Pense, Cap. 1 (Lisboa: Gradiva, 2001).


Descartes, René, Discurso do Método (Lisboa: Sá da Costa, 1984).
Descartes, René, Meditações sobre a Filosofia Primeira (Coimbra: Almedina, 1985).
Kenny, Anthony, História Concisa da Filosofia Ocidental, Cap. 11 (Lisboa: Temas e Debates, 1999).
Magee, Bryan, Os Grandes Filósofos, cap. 4 (Lisboa, Presença, 1989).

descritivo Ver normativo/descritivo.

desejo Estado mental em que um dado acontecimento, acção, objecto ou estado, é representado como
atraente, agradável ou apetecível. Em filosofia da mente, atribui-se ao desejo (e à crença) um papel
central na explicação da acção e do comportamento humano. Alguns filósofos, como Hume, defendem
que o desejo é o “motor” da acção moral e que sem desejo esta não existiria. Ver intenção e ética.
(António Paulo Costa)

desobediência civil Forma de protesto em que se infringe deliberadamente a lei. A desobediência


civil tem um carácter público e destina-se a combater uma injustiça, que por vezes reside na própria lei
infringida. Por exemplo, pode-se praticar a desobediência civil infringindo leis de segregação racial de
modo a alertar a opinião pública para a injustiça do racismo. Quem recorre à desobediência civil
costuma ser escrupulosamente pacífico e estar disposto a sofrer as sanções jurídicas decorrentes da
infracção à lei. Ver justiça. (Pedro Galvão)

determinismo Na sua versão radical, é uma teoria que afirma que todos os estados ou acontecimentos
do mundo são determinados por estados ou acontecimentos que lhes são anteriores, de acordo com as
leis da natureza. Nesta versão, defende-se que, para qualquer acontecimento b, existe um acontecimento
a anterior tal que é impossível que ocorra a sem que, consequentemente, ocorra b. Se esta versão mais
radical for verdadeira, levanta-se o problema de saber se é compatível com o livre-arbítrio, isto é, se a
acção humana pode ser concebida como genuinamente livre — os compatibilistas defendem que sim; os
incompatibilistas, que não. O determinismo não deve ser confundido com o fatalismo, que é a doutrina
segundo a qual nada do que fizermos agora terá eficácia causal. Além disso, nem todos os deterministas
são radicais, existindo filósofos que defendem um determinismo moderado. Ver
compatibilismo/incompatibilismo, libertismo e indeterminismo. (António Paulo Costa)

Deus A ideia de Deus é o aspecto central de quase todas as religiões (exceptuando algumas versões do
budismo), apesar de existirem diversas concepções de Deus. Para algumas religiões — cristianismo,
judaísmo e islamismo — há um só Deus e por isso se chamam monoteístas. Mas há também religiões
politeístas, de acordo com as quais não existe apenas um Deus, mas vários. A noção de Deus não é,
contudo, exclusiva das religiões. Muitas pessoas, como sucede com os panteístas, acreditam que Deus é
imanente ao mundo e às coisas que dele fazem parte, mas as principais religiões monoteístas concebem
Deus como um ser transcendente. A concepção de Deus mais discutida em filosofia é a concepção teísta
(ver teísmo), exposta nos grandes livros sagrados, como a Bíblia e o Corão, e consolidada e desenvolvida
ao longo dos séculos pelos mais destacados representantes das grandes religiões ocidentais. Entre eles
encontram-se filósofos como Santo Agostinho, Santo Anselmo (1033-1109) e Tomás de Aquino. O
teísmo é a concepção de Deus discutida também por Descartes, Hume e Kant, entre muitos outros. O
Deus teísta é um Deus criador do mundo, sumamente bom, todo-poderoso e infinitamente sábio. É
também encarado por alguns teólogos como fonte de obrigações morais, ou mandamentos, que
determinam o que é moralmente bom e moralmente mau. São muito discutidos em filosofia da religião
os argumentos a favor da existência de Deus, havendo três grandes linhas de argumentação: o
argumento ontológico, o argumento cosmológico e o argumento do desígnio. Ver também problema do
mal. (Aires Almeida)

dever O dever moral de um agente é aquilo que ele tem a obrigação de fazer. A noção de dever é central
numa ética deontológica, como a de Kant. Na ética de Kant, distinguem-se os deveres perfeitos dos
imperfeitos: os primeiros, como o dever de não mentir, têm de ser respeitados em quaisquer
circunstâncias; os segundos, como o dever de ajudar os outros, não constituem uma obrigação
permanente. Isto significa que, embora devamos fazer algo para ajudar os outros, não temos de estar
sempre empenhados nisso nem podemos desrespeitar quaisquer deveres perfeitos (por exemplo, mentir
a alguém) para prestar ajuda. Kant distinguiu também dois tipos de actos que estão de acordo com o
dever: os que são realizados apenas por dever e os que estão em mera conformidade com o dever. Neste
últimos o agente faz o que deve, mas por motivos egoístas ou por compaixão; Kant sustenta que só os
primeiros, que resultam do respeito puramente racional pelo dever, têm valor moral. Ver direitos,
máxima, vontade boa. (Pedro Galvão)

devir Falar do devir das coisas é uma forma de falar da mudança ou fluxo das coisas. Um tema comum
na filosofia da antiguidade grega era saber se haveria alguma estabilidade além da mudança constante
que se observa na natureza, pois achava-se que só a descoberta dessa constância poderia ajudar a
compreender a própria mudança. Heraclito (cerca de 535-475 a. C.) e Parménides (séc. V a. C.)
representavam na antiguidade dois filósofos opostos quanto ao papel da mudança. Heraclito ficou
associado à ideia de que tudo está em mudança, e Parménides à ideia contrária de que a mudança é
apenas aparente, sendo a realidade última imutável. Contudo, a verdadeira oposição entre estes filósofos
era mais subtil. Ambos concordavam que além da mudança aparente havia uma realidade imutável, a
que Heraclito chamava “logos" (razão). A diferença residia no facto de Heraclito pensar que a própria
mudança era apenas uma faceta particular do imutável, ao passo que Parménides entendia que a
mudança era uma completa ilusão. (Desidério Murcho)

dialéctica Originariamente, a arte do diálogo e da discussão. Em Sócrates é o processo que permite,


por perguntas e respostas, refutar (ver refutação) os oponentes expondo as contradições (ver
contradição) e as dificuldades das suas posições. Para Platão, a dialéctica é o processo que permite
remontar, a partir de hipóteses, de ideia em ideia até à ideia de Bem. Aristóteles considera a dialéctica o
estudo dos raciocínios que, ao contrário dos demonstrativos (ver demonstração), partem de premissas
(ver premissas) somente prováveis. Kant chama dialécticos a todos os raciocínios ilusórios e define a
dialéctica como uma lógica da ilusão. A “Dialéctica Transcendental” é o estudo das ilusões (paralogismos
e antinomias) em que a razão cai quando aplicada para além dos limites de toda a experiência possível.
Os idealistas alemães (ver idealismo) vêem na dialéctica uma noção triádica, constituída de tese,
antítese e síntese, que Hegel pensa constituir o processo histórico necessário ao desenvolvimento do
espírito e Marx da matéria. Usa-se também a expressão “dialéctica argumentativa” para referir o modo
como se desenvolve a troca de argumentos numa discussão. (Álvaro Nunes)

dianoia Termo grego que refere um tipo de conhecimento cujo objecto são questões matemáticas e
técnicas, e que Platão considera inferior à noesis. O termo é também usado de forma mais geral
unicamente para referir a expressão do pensamento. (Desidério Murcho)

dilema 1. Em lógica, um dilema é um argumento com a seguinte forma: P ou Q; se P, então R; se Q,


então R; logo, R. Por exemplo: “O prazer ou a felicidade é o bem maior; se for o prazer, temos de
procurar eliminar o sofrimento; se for a felicidade, temos igualmente de eliminar o sofrimento; logo, em
qualquer dos casos, temos de eliminar o sofrimento”. Chama-se “dilema construtivo simples” a este
dilema e é dos mais comuns. Menos habituais são os dilemas construtivos complexos (P ou Q; se P,
então R; se Q, então S; logo, R ou S). Chamam-se “dilemas destrutivos” quando a conclusão é negativa e
não afirmativa. Ver falso dilema.
2. Em geral, um dilema é uma situação na qual estamos perante duas alternativas, temos de escolher
uma delas e nenhuma delas é agradável. (Desidério Murcho)

dilema de Êutifron Dilema apresentado pela primeira vez por Platão no diálogo Êutifron. Este
dilema proporciona um argumento poderoso contra a teoria dos mandamentos divinos. Podemos
introduzi-lo através desta pergunta, onde x é um acto como matar, roubar ou mentir: x é errado porque
Deus julga que x é errado ou Deus julga que x é errado porque x é errado? Se optarmos pela segunda
hipótese, temos de rejeitar a teoria dos mandamentos divinos, porque estamos a presumir, afinal, que
certas coisas são erradas independentemente do que Deus pensa sobre elas. Se optarmos pela primeira
hipótese, temos de concluir que, se Deus considerasse bom fazer coisas como matar, roubar ou mentir,
então seria bom fazer essas coisas. Esta hipótese, no entanto, faz da ética um conjunto de convenções tão
arbitrárias como a de que devemos conduzir pela direita e não pela esquerda. (Pedro Galvão)

dilema de Hume Um dilema clássico acerca da liberdade e da responsabilidade. O dilema de Hume,


ou dilema do determinismo, pode ser esquematizado da seguinte forma:

1.ª premissa — Ou o determinismo é verdadeiro, ou é falso;


2.ª premissa — Se for verdadeiro, então não somos livres;
3.ª premissa — Se for falso, as nossas acções são aleatórias e, portanto, também não somos livres.
Conclusão — Em qualquer caso, não somos livres.

O desafio posto por este argumento é o de nos instar a encontrar uma alternativa à determinação
completa ou à aleatoriedade total das acções, que têm como consequência a negação da responsabilidade
humana. (António Paulo Costa)

direitos Um direito é uma pretensão legítima a uma coisa. Se as pessoas têm direitos morais, então é
errado privá-las daquilo a que elas têm direito para benefício dos outros. Por exemplo, se as pessoas têm
o direito à vida, não se pode assassinar uma pessoa para salvar outras. Os direitos impõem limites àquilo
que é permissível fazer em nome da felicidade geral ou do bem comum (ver utilitarismo), e por isso
costumam ser reconhecidos pelos que defendem uma ética deontológica. Não se deve confundir os
direitos legais com os direitos morais. Para saber se os animais têm direitos legais, basta consultar a
legislação; para saber se têm direitos morais, é preciso investigar as características que conferem direitos
a uma entidade e determinar se os animais possuem essas características. (Pedro Galvão)

discriminação positiva Quando se recorre à discriminação positiva dá-se tratamento preferencial a


membros de grupos sociais desfavorecidos. Em alguns países a discriminação positiva é usada com
muita frequência no ensino e no emprego. Por exemplo, num país em que as mulheres vivem oprimidas,
uma universidade pode recorrer à discriminação positiva reservando um certo número de vagas para as
mulheres. Com esta medida controversa, procura-se promover a igualdade ou compensar as vítimas de
desigualdades injustas. Ver justiça. (Pedro Galvão)

discursivo O que se refere ao discurso, entendido como qualquer segmento de linguagem em que se
articulam várias frases, como conversas faladas ou escritas, textos, troca de argumentos, narrativas, etc.
Para a análise e compreensão do discurso intervêm aspectos como a relação de implicação entre aquilo
que as frases exprimem, os pressupostos do que é afirmado, a força argumentativa, os aspectos
contextuais, etc., que são estudados por disciplinas como a linguística, a lógica, a filosofia da linguagem
e, em muitos casos, também a sociologia, a psicologia e a retórica. Dizer que a filosofia tem uma
dimensão discursiva é dizer que utiliza instrumentos lógicos e linguísticos. (Aires Almeida)

disjunção (∨) Qualquer afirmação da forma “P ou Q”, como “Platão, ou Sócrates, era grego”. Uma
disjunção é verdadeira se, e só se, pelo menos uma das proposições que a constituem for verdadeira. Isto
significa que a disjunção só será falsa se ambas as proposições, P e Q, forem falsas. Mas este é apenas
um dos tipos de disjunção, a que se chama inclusiva. Há também a chamada disjunção exclusiva, que se
distingue da anterior pelo seguinte: é falsa caso ambas as proposições, P e Q, sejam verdadeiras; por
exemplo, em muitos casos a seguinte afirmação é, infelizmente, uma disjunção exclusiva: “Estudo ou
vou ao cinema”. (Aires Almeida)

divisão, falácia da Ver falácia da divisão.

dogma Uma afirmação ou teoria cujo partidário se recusa a discutir e para a qual não apresenta
quaisquer razões sólidas. Por exemplo: quem defende que os animais não têm direitos porque são
animais, e se recusa a discutir o tema, está a afirmar um dogma. Neste sentido, a filosofia, a ciência e as
artes opõem-se ao pensamento dogmático dado que tendem a favorecer a diversidade e a discussão
aberta. (Desidério Murcho)

doxa Termo grego que significa “crença”, “opinião”, ou ainda “o que se diz”. Platão foi um dos
primeiros filósofos a colocar, no diálogo Teeteto, o problema da distinção entre a doxa e a episteme, isto
é, entre opinião ou crença e conhecimento. Ver epistemologia.

dualismo/monismo Uma tese dualista defende que, num certo domínio, existem dois géneros de
coisas diferentes e irredutíveis; uma tese monista, pelo contrário, defende que nesse domínio existe um
só género de coisas. Usa-se estes termos principalmente em filosofia da mente. Filósofos como Platão,
Aristóteles, Descartes e Kant defenderam a tese clássica do dualismo corpo/alma, segundo a qual o
corpo e a alma têm naturezas essencialmente distintas. Esta tese enfrenta o problema de explicar as
relações entre o físico e o mental, em especial a causalidade que ocorre entre ambos. Pelo contrário, o
monismo corpo/mente defende que não há, a este respeito, uma genuína dualidade. O idealismo e o
fisicismo são as duas teorias monistas mais importantes. (António Paulo Costa)

dúvida Duvida-se de uma afirmação ou argumento quando se questiona a sua verdade ou solidez. Ver
cepticismo e Descartes. (Desidério Murcho)

dúvida metódica Estratégia proposta por Descartes para procurar aquele conhecimento seguro que
nenhuma dúvida céptica poderia pôr em causa. A ideia é duvidar de tudo o que seja possível duvidar até
encontrar algo de que não possamos duvidar; Descartes defende que podemos duvidar de tudo, mas não
da nossa própria existência. (Desidério Murcho)

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