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Administração: teorias e processo.

São Paulo: Pearson Prentice-Hall, 2005,


de Geraldo Ronchetti Caravantes, Cláudia Caravantes Panno
e Mônica Caravantes Kloeckner

Elzo Alves Aranha


Doutor em Engenharia de Produção – USP;
Professor na graduação – UNINOVE.
eaaranha@uninove.br, São Paulo [Brasil]

A oferta de cursos de graduação em e demais autores, dirigida aos estudantes das


Administração vem-se ampliando no Brasil a disciplinas de TGA e também aos professores,
cada ano. Entre 1991 e 2002, houve crescimento convida-nos a descobrir as tessituras que envol-
de 426%, saltando do patamar de 333 para 1.413 vem as teorias da Administração, estabelecendo,
cursos. Hoje, mais de 1,7 mil faculdades, com apro- inicialmente, um diálogo com a Filosofia, de
ximadamente 576 mil estudantes matriculados, forma que propicie entre os estudantes a redução
formam cerca de 70 mil jovens por ano. Em todos da pobreza paradigmática, considerada pelos
os cursos da área, a Teoria Geral da Administração autores elemento inibidor e limitante da carreira
(TGA) é uma das disciplinas obrigatórias e pro- de executivos promissores.
fissionalizantes, tanto na antiga legislação, que Essa recente publicação no campo da
trata do currículo mínimo, quanto nas Diretrizes Teoria da Administração é ousada no sentido
Curriculares de Administração, homologadas re- de propor novas possibilidades de abordar a
centemente. A disciplina é considerada a platafor- disciplina de TGA, levando em consideração
ma que proporciona os conhecimentos essenciais uma temática – pertinente ao campo filosófico –,
para a compreensão dos diferentes contextos da denominada “formas de pensar a construção de
história da organização até a contemporaneidade. modelos conceituais”. Ao introduzirem a referida
Além dos desafios de contemplar conteú- temática, os autores conseguem desenvolver uma
dos programáticos, que forneçam aos alunos não articulação coesa e equilibrada com o campo da
apenas os fundamentos da organização na pers- Administração, promovendo o diálogo sem ruídos
pectiva histórica, mas também conteúdos ineren- com a Filosofia, exigindo do leitor um novo olhar
tes às funções das organizações, do administrador sobre duas questões apresentadas: a primeira, a
e da administração, novos horizontes estão sendo tentativa de orientar o estudante na elaboração
postos para reflexão na disciplina de TGA. Estes de modelos conceituais e mentais, como ponto
novos questionamentos contemplam uma análise de partida para inovar a organização, tendo como
crítica das abordagens mecânicas e reprodutivas, subsídios para o processo de elaboração as contri-
que tratam a trajetória histórica da Administração buições da Filosofia. Para auxiliar nesse processo,
sob um prisma linear e estático, evoluindo para di- os autores apresentam breve história dos paradig-
mensões em que estejam fortemente inseridas as mas conceituais que predominaram nos últimos
interações dinâmicas dos alunos com o contexto 2,5 mil anos da história da civilização humana.
das organizações. Nesse ambiente, postula-se a Esses paradigmas seriam, a saber: a) a ciência
necessidade de pensar novos formatos e modelos positivista ocidental; b) o misticismo oriental, e
organizacionais, visando a conduzi-los a um c) o existencialismo. Esse mergulho histórico, em
processo reflexivo e criador, articulado com o torno dos três paradigmas aliados aos princípios
Resenhas

cotidiano das organizações. filosóficos que os regem, permite ao leitor sedi-


Nessa direção, a obra Administração: mentar conceitos essenciais sobre a concepção
teorias e processos, desenvolvida por Caravantes do universo, para que consiga compreender, de

R. Gerenciais, São Paulo, v. 4, p. 123-124, 2005. 123


forma articulada e coesa, os principais elementos gicas, separando-as entre aquelas que contribuem
norteadores da organização. É importante ressal- ou não para o pensamento da administração. Os
tar que, na segunda metade do século XVIII, sob autores chamam de “modismos administrativos”
a influência das descobertas no campo das ciên- as abordagens, modelos e propostas que não con-
cias físicas, o paradigma newtoniano-cartesiano tribuem para formação de massa crítica, portanto
se firmou, foi hegemônico e transmutou em desprovidas de densidade conceitual.
“ciência positiva”, carregando em seu bojo a Para concluir, quanto à concepção, natu-
noção de que cada novo conhecimento emer- reza e aplicabilidade dessas novas abordagens,
gente na civilização ocidental estava imbuído apresenta-se a proposta teórica da “readminis-
dos três estágios de progresso – o místico ou tração”, que reúne dois componentes – de um
religioso, o metafísico e, finalmente, o da ciência lado a organização que pretende ser eficiente,
positivista. O princípio da administração cientí- eficaz e efetiva, e do outro o indivíduo provido
fica, proposto por Taylor, por exemplo, emerge de felicidade. Destaca-se que a readministração
apoiado nos princípios que haviam delineado, está apoiada em quatro aspectos: primeiro, a
como já sabemos, a “ciência positiva”. visão do homem como ser total; segundo, a nova
A segunda questão apresentada é analisada ordem da lógica, que propõe como lidar com o
do ponto de vista do funcionamento da organiza- princípio da autocontradição (elementos parado-
ção, destacando os elementos constitutivos das xais, contrapondo a lógica aristotélica) nas orga-
funções administrativas básicas, tais como planeja- nizações; o terceiro diz respeito à racionalidade
mento, organização, liderança e controle. No pri- e suas categorias (a substantiva, a funcional) e,
meiro módulo, as demarcações sobre os elementos por último, à nova visão da ecologia. Em síntese,
norteadores da ciência positiva, constituintes da a readministração teria como objetivo a busca de
cultura ocidental, e seus aspectos pertinentes aos vantagens competitivas e permitiria satisfazer os
paradigmas fornecem conhecimentos introdutó- clientes e os componentes da organização.
rios e sensibilizam o leitor quanto à necessidade Os autores parecem demonstrar alguma in-
de desenvolver a observação e percepção aguçada satisfação com as estratégias pedagógicas utiliza-
dos componentes motivadores das revoluções das em sala de aula, especialmente aquelas que se
científicas, bem como dos processos acumulativos dedicam a ministrar conteúdos programáticos de
do conhecimento ao longo da história. Os autores TGA, que se dissociam de cenários do cotidiano
sugerem que os estudantes de administração ad- das organizações, afastando o aluno da disciplina.
quiram, além daquelas competências necessárias Em síntese, as demandas estão cada vez
ao administrador, a paradigmática que se opõe à mais latentes nas organizações contemporâneas,
noção de mudança e quebra de paradigma. Essa por conta de profissionais que possuem um reper-
competência está atrelada à capacidade humana tório conceitual ampliado e capaz de identificar,
de perceber a existência de múltiplos paradigmas, analisar e diagnosticar problemas, bem como
munindo-se de um olhar que consiga esmiuçar cada propor soluções alternativas, buscando as melho-
um deles, objetivando a descoberta de elementos res opções para a tomada de decisões e, ao mesmo
comuns e síncronos, inclusive naqueles paradigmas tempo, avaliando-as. Essas demandas, oriundas
que, ao primeiro olhar, se mostrem opostos. das organizações, quando são analisadas à luz
Alguns capítulos são indicados à apresenta- da proposta da obra, consistem na inclusão, no
ção das novas abordagens que emergiram recen- mesmo corpo da disciplina de TGA, de elementos
temente (1980-2005) e propõem critérios de rele- básicos que auxiliam e estimulam o estudante a
vância para distinguir essas abordagens, modelos desenvolver o pensamento reflexivo, na busca da
e propostas que surgiram ou surgem na esteira das elaboração de conceitos que antecipem os desafios
transformações desencadeadas nas organizações, de diversas naturezas, quando se tem por foco os
pressionadas por variáveis econômicas e tecnoló- novos formatos e os modelos organizacionais.

124 R. Gerenciais, São Paulo, v. 4, p. 123-124, 2005.

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