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Aula 1 - Tipos de Equações

Diferenciais

Objetivos

Nesta primeira aula, deveremos:

–– Revisar alguns conceitos básicos relativos a funções, intervalos e


equações;
–– Relembrar as formas de representação das derivadas;
–– Definir o conceito de equações diferenciais;
–– Determinar a classificação das equações diferenciais segundo di-
versos parâmetros.

Assuntos
–– Origem e ocorrência das equações diferenciais
–– Notações de derivadas
–– Conceitos básicos
–– A equação diferencial (ED)
–– Notações das equações diferenciais Glossário
–– Classificação das equações diferenciais

O Teorema Fundamental do
Introdução Cálculo considera um intervalo
O estudo das equações diferenciais envolve o Cálculo Diferencial e o Cálculo com mais de um ponto,
Integral, que se conectam através do Teorema Fundamental do Cálculo. onde, se for uma função

Sua aplicação prática se dá na medicina, engenharia, química, física, biolo- contínua de em , então,
para cada , a função
gia, economia, antropologia, estatística, dentre outros tantas áreas.
de em definida por

é derivável,
Existem equações diferenciais ordinárias (EDO) e equações diferenciais par-
ciais (EDP), que têm seus nomes relacionados com os tipos de derivadas e/ou e sua derivada é, justamente,
a função , ou seja, é uma
diferenciais que aparecem em seu corpo. função primitiva de .

Nesta aula, vocês irão relembrar alguns conceitos fundamentais relacionados


com esse tema. Também irão aprender a identificar os vários tipos de equa-
ções diferenciais, classificando-as de acordo com alguns critérios.

Equações Diferenciais e Ordinárias 11 UAB


Origem e ocorrência das equações dife-
renciais
Considerando a dinâmica dos eventos da natureza, no sentido de que, pra-
ticamente, tudo muda à medida que o tempo passa, ou enquanto outro
evento ocorre, há um termo matemático, diretamente, relacionado com es-
sas mudanças. Esse termo matemático necessita de alguns conceitos para
ser mais bem compreendido.

Assim, consideremos como uma variável qualquer evento que se modifi-


que. Por sua vez, o termo derivada é a taxa de mudança de certa variável
em relação à outra. Por exemplo, se a velocidade de um carro (variável)
muda em relação ao tempo (outra variável), chamamos de derivada a taxa
de variação da velocidade do carro com relação ao tempo (nesse caso, uma
derivada temporal). Nós conhecemos bem outro nome para essa derivada:
aceleração. Então, aceleração é a derivada temporal da velocidade. Outro
exemplo pode ser dado com respeito às reações químicas: seja a concentra-
ção de um dado reagente a uma variável; a taxa com que varia essa concen-
tração à medida que certo produto é formado se considera uma derivada
negativa, uma vez que a quantidade de reagente diminui ao mesmo tempo
em que a quantidade de produto aumenta.

Equações diferenciais são equações que relacionam variáveis e suas deri-


vadas.

Veja as equações a seguir:

Elas são equações diferenciais, segundo a definição do parágrafo anterior.

Uma derivada costuma ser representada por ou y’ ou f’(x) ou ou

ainda , ou seja, podemos dizer que

, consideradas as explicações sobre


notações de derivadas a seguir.

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Notações de derivadas Glossário
Há diversas formas de representar as derivadas. Primeiramente, vamos ob-
servar que o termo diferenciável é sinônimo de derivável, assim como o
Gottfried Wilhelm von Leibniz
termo diferencial é sinônimo de derivada. As diferentes formas de escre-
ver as derivadas estão, geralmente, relacionadas com quem as criou:

Notação de Leibniz
• A notação recebe esse nome em homenagem ao filósofo e matemático
alemão Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716), que usou os sím-
bolos dx e dy para representar incrementos infinitesimais das variáveis x
e y respectivamente, da mesma maneira que representam
Nasceu: 1º de julho de 1646
incrementos finitos das mesmas variáveis. (Leipzig, Alemanha).
Morreu: 14 de novembro de
1716 (Hanover, Alemanha).
• , lê-se “dê ípsilon dê xis”, ou “dydx”; representa a derivada y de em Feitos notáveis: Mônada,
harmonia pré-estabelecida,
linguagem binária, teodiceia.
relação a x.

• , lê-se “dê dois ípsilon dê xis dois”, ou “d2ydx2”; representa a de-

rivada segunda de y em relação a x. A derivada segunda ou segunda

derivada também pode ser reescrita como .

• Observe-se que, com essa notação, nós podemos nos referir à derivada de Glossário

y em relação ao ponto x = a de duas formas: , sendo a


Joseph Louis Lagrange

última forma menos comum.

• Outra observação que podemos fazer é que, uma vez que y = f(x), então

Notação de Lagrange Nasceu: 25 de janeiro de 1736


(Turim, Itália).
• Também conhecida como notação prima, recebe esse nome em home- Morreu: 10 de abril de 1813
nagem ao matemático italiano Joseph Louis Lagrange (1736-1813). (Paris, França).
Feitos notáveis: polinômio de
Lagrange, função de Lagrange,
• y’, lê-se “ípsilon linha”; representa a derivada primeira de y em relação à mecânica de Lagrange,
multiplicadores de Lagrange,
outra variável, considerada fixa. pontos de Lagrange.

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• y”, lê-se “ípsilon duas linhas”; representa a derivada segunda de y em re-
lação à outra variável, considerada fixa. A derivada segunda ou segunda
derivada também pode ser reescrita como y”= (y’)’.

• f’ (x), lê-se “efe linha de xis”; representa a derivada primeira da função f


Glossário
em relação à variável x.

Sir Isaac Newton • f” (x), lê-se “efe duas linhas de xis”; representa a derivada segunda da
função f em relação à variável x. A derivada segunda também pode ser
reescrita como f” (x) = [f’ (x)]’.

• f’, sem a variável x representada; lê-se simplesmente “efe linha”; repre-


senta a derivada primeira da função f.

• f” , lê-se “efe duas linhas”; representa a derivada segunda da função f.


A derivada segunda também pode ser reescrita como f” = (f’)’.
Nasceu: 4 de janeiro de
1643 (Woolsthorpe-by-
Colsterworth,Inglaterra). • A representação de derivadas de quarta ordem em diante é fei-
Morreu: 31 de março de 1727
(Londres, Inglaterra). ta assim , para a deri-
Feitos notáveis: Lei vada sexta, por exemplo.
Fundamental da Dinâmica,
Lei da Gravitação Universal,
Cálculo.
Notação de Newton
• Também conhecida como notação em ponto de Newton, por vezes, é
denominada, pejorativamente, como notação “excremento de mosca”.
É mais utilizada na física ou na matemática, quando se pretende repre-
sentar derivadas temporais, ou seja, em relação ao tempo. Recebe este
Glossário nome em homenagem ao cientista inglês Isaac Newton (1643-1727).
Em função de sua representação, a partir de derivadas de terceira e quar-
A expressão “excremento de ta ordens em diante, se tornar “inapresentável” – embora haja alguns
mosca” ou “cocô” de mosca” que a usem – não costuma ser muito utilizada. , lê-se “ípsilon ponto”;
passou a ser usada em função
da representação da derivada representa a derivada primeira de y em relação ao tempo.
não ser mais que um “ponto
minúsculo”, o que lembra
justamente a excreção desse • , lê-se “ípsilon dois pontos”; representa a derivada segunda de y em
ser.
relação ao tempo.

Notação de Euler
• Recebe este nome em homenagem ao matemático e físico suíço Leo-
nhard Euler (1707-1783), para representar a derivada de uma função,
usando um operador diferencial D, cuja criação é creditada a Oliver He-
aviside (1850-1925), que atuou nos campos da matemática, física e en-

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genharia elétrica. É muito usada na resolução de equações diferenciais Glossário
lineares.
Leonhard Euler
• , lê-se “derivada de efe de xis em relação a xis”; representa a
derivada primeira de y em relação à x , se a função y = f (x).

• Não é comum se usar a notação de Euler para a representação de deriva-


das de segunda ordem em diante.

Podemos escrever as três equações anteriores, portanto, de forma que ter-


mos ou expressões dx ou dy não apareçam mais na forma de quocientes. Nasceu: 15 de abril de 1707
(Basileia, Suíça).
Morreu: 18 de setembro de
1783 (São Petersburgo, Rússia).
Feitos notáveis: Fórmula
de Euler, Número de Euler,
Característica de Euler,
Identidade de Euler, Reta de
Euler, Constante de Euler-
Mascheroni, Produto de Euler,
Diagrama de Euler, Ângulos de
Euler, Soma de Euler, Conjectura
de Euler, Equação de Euler,
Equações de Euler (fluidos).

Glossário

Oliver Heaviside

Observe que, na primeira equação, pudemos, realmente, reduzi-la a termos


sem os quocientes. Na segunda e terceira equações, entretanto, para fazer
isso, precisaríamos resolvê-las, usando técnicas de integração, como vere-
mos mais adiante.
Nasceu: 18 de maio de 1850
(Camden Town, Londres,
Inglaterra).
Morreu: 3 de fevereiro de 1925
Conceitos básicos (Torquay, Devon, Inglaterra).
Feitos notáveis: Método de
Para compreender melhor as equações diferenciais, é importante revermos recobrimento Heaviside, camada
alguns termos e conceitos básicos: de Kennelly-Heaviside, reatância,
função degrau de Heaviside,
operadores diferenciais, análise
Conjunto: trata-se de uma seleção de determinados valores (em matemáti- vetorial, condição de Heaviside
Frase famosa: “Devo recusar
ca). Um exemplo seria o conjunto de números inteiros negativos entre -10 e o meu jantar, por não entender
completamente o processo de
-1, incluídos eles mesmos. digestão?”

Equações Diferenciais e Ordinárias 15 UAB


Elemento: é cada um dos valores individuais de um conjunto. No exemplo
do conjunto, citado no parágrafo anterior, os elementos seriam -10, -9, -8,
-7, -6, -5, -4, -3, -2 e -1.

Intervalo: é o conjunto de todos os elementos situados entre quaisquer


dois pontos de uma linha. Nesse caso, um exemplo representativo seria
. Observe-se que são considerados quaisquer valores entre -5,
incluído este valor, e 0, não incluído este valor, e, por quaisquer valores com-
preende-se que podemos ter valores fracionários, valores racionais, etc.

Coordenada: costuma se referir a um ponto, que pode estar numa linha ou


ainda numa região, seja plana, espacial ou de uma dimensão maior. Assim,
a coordenada de uma linha é apenas um número: x = 3, por exemplo; a co-
ordenada de uma região plana é composta de dois pontos: (x, y) = (-2,5); a
de uma região espacial, de três pontos: (x, y, z) = (0, 1, -3).

Função: é uma relação que há entre uma variável dependente e uma ou


Saiba mais mais variáveis independentes. Então, verificaremos que somente pode haver
uma variável dependente, e, conforme haja uma ou mais variáveis indepen-
dentes, a função é chamada de função de uma variável independente, ou
Este tipo de função, na
verdade, é mais conhecida função de duas variáveis independentes, etc.
como função real. Para
os efeitos desse texto,
considerando que só devermos Em outras palavras, se, para cada valor de uma dada variável independen-
tratar com funções reais, te (por exemplo x ), que pertença a um conjunto previamente determina-
omitiremos o termo real daqui
por diante. do, corresponder um e somente um valor real da variável dependente (por
exemplo y ), dizemos que a variável y é uma função da variável independente
x neste conjunto, ou seja y = f (x).
Saiba mais
Domínio de uma função é como se costuma chamar o conjunto de elemen-
Tanto o domínio como a tos representativos dos valores que podem assumir a variável independente
imagem costumam ser ou cada variável independente.
descritos, normalmente,
através da representação de
intervalos apropriados.
Imagem de uma função, por sua vez, é como é conhecido o conjunto de
elementos representativos dos valores que podem assumir a sua variável de-
pendente.

Função de uma variável independente: trata-se de uma função em que,


a cada valor de uma variável dita independente, corresponde um, e somente
um, valor da variável dita dependente. Costuma ser representada por y =
f(x), que é uma equação que fornece a relação direta entre as duas variáveis
x.e y.

UAB 16 Equações Diferenciais e Ordinárias


Aqui, a variável independente é x e a variável dependente y. Para qualquer
valor de x, somente corresponde um único valor de y. Um exemplo seria y =
x² . Observe que, qualquer que seja o valor de x, haverá um e somente um
único valor de y correspondente.

Por outro lado, a expressão não corresponde a uma função, uma vez
que, por exemplo, atribuindo-se x = 4 , obteríamos y = -2 e y = 2 , portanto,
dois valores de y , contrariando o conceito de função, uma vez que a variável
dependente pode assumir mais de um valor.

Neste último caso, podemos considerar a expressão como Saiba mais


uma função se fixarmos algum intervalo para ela, da seguinte maneira:
. Note-se que x não poderia ser negativo; ainda,
Isto é válido para a chamada
que, situado que y > 0, a raiz de x deverá ser positiva; dessa forma, a um função real, como já
dado valor de x, dentro do intervalo citado, ou seja, , somente corres- comentado anteriormente.

ponderá um único valor de y. Podemos dizer ainda que o domínio da função


, nesse caso é , e sua imagem, .

Função de duas variáveis independentes: trata-se de uma função em


que, a cada valor do conjunto de elementos, (x,y) , por exemplo, num plano Saiba mais
que deve ser determinado, corresponde um, e somente um, valor da variável
dependente. Uma representação comum é z = f (x,y) , sendo as variáveis in- Para funções de mais de duas
variáveis independentes, vale
dependentes a x e a y , e a variável dependente a z . Para quaisquer valores o mesmo que o descrito para
funções de duas variáveis
determinados e fixos de x e y, somente deverá corresponder um único valor independentes.
de z. Também aqui, o conjunto de valores possíveis das variáveis indepen-
dentes x e y é denominado domínio da função, e o conjunto de valores pos-
síveis da variável dependente z é denominado imagem da função.

Funções e equações: há uma ligeira diferença entre os dois termos. Dize-


mos que uma função é algo do tipo f (x,y), e uma equação é como f (x,y)=0.
Observe-se a sutil diferença: uma função não carece do sinal de igualdade;
por sua vez, uma equação, como o próprio termo indica, representa uma
igualdade, exigindo a representação do sinal “=”.

Mas, nem sempre uma equação corresponde a uma função. Seja, por exem-
plo, a equação: x² + y² + 9 = 0. Note que podemos dispô-la assim: x² + y²=
-9. Neste caso, é impossível que essa relação se dê, uma vez que o quadrado
de qualquer número real é sempre positivo, e a soma de dois valores positi-
vos jamais pode dar um valor negativo.

Equações Diferenciais e Ordinárias 17 UAB


Dessa forma, podemos dizer que: x² + y² + 9 = 0 é uma equação, mas não é
uma função, se definirmos como domínio e imagem somente valores reais,
ou seja,{ }. Será, entretanto, uma função, se considerarmos valores
complexos para x e/ou y.

Função explícita: seja a equação x + y = 3xy. Consideremos que a variável


independente é x, sendo y a variável dependente. Podemos agrupar os ter-
mos que incluem a variável dependente, de forma a isolá-la:

desde que . Quando, em uma equação que represente uma função,


isolamos a variável dependente (dizemos que y é função de x ), então dize-
mos que y depende de x explicitamente, motivo por que temos uma função
explícita.

Função implícita: nem sempre podemos explicitar, ou seja, isolar a variá-


vel dependente. Mesmo quando podemos isolar a variável dependente, en-
quanto não a isolarmos, dizemos que a função está representada de forma
implícita. Assim, x + y = 3xy é uma função implícita. Como esta função pode
ser rearranjada para x + y - 3xy = 0, sua representação geral é f (x,y) = 0.
Dessa maneira, dizemos que y é uma função implícita de x.

A equação diferencial
Nós já definimos as equações diferenciais quando falamos da origem e ocor-
rência das mesmas. Em outras palavras, podemos dizer também que:

Equações que possuem uma ou mais variáveis dependentes e independen-


tes, acompanhadas de suas derivadas, são conhecidas como equações di-
ferenciais.

Conforme o tipo de diferenciação a que uma equação diferencial foi subme-


tida, podemos ter:

Equação diferencial ordinária (EDO): a equação possui somente uma va-


riável dependente:

UAB 18 Equações Diferenciais e Ordinárias


A primeira equação se refere a uma derivada primeira (notação de Leibniz);
a segunda equação possui uma derivada segunda (notação de Lagrange ou
notação prima); a terceira contém uma derivada terceira temporal (notação
em ponto de Newton).

Equação diferencial parcial (EDP): a equação possui mais de uma variável


dependente, de maneira que apresenta derivadas parciais:

A primeira equação corresponde a uma derivada primeira parcial de uma


função cuja variável dependente é z e cujas variáveis independentes são x e
y.

Nesse ponto, convém falar do tipo de notação da segunda e terceira equa-


ções acima. Trata-se da notação subscrito, por vezes utilizada para repre-
sentar derivadas parciais. Os subscritos se referem sempre às variáveis inde-
pendentes.

Assim, na segunda equação, como o subscrito x aparece duas vezes, temos


uma função que foi derivada, parcialmente, em relação à variável indepen

dente x por duas vezes: .

Na terceira equação, temos uma função que foi derivada parcialmente em


relação à variável independente x também por duas vezes e derivada par-
cialmente em relação à variável y uma vez, no lado esquerdo da equação, e,
uma derivada parcial em relação à x no lado direito da equação, de maneira

que é o mesmo que .

Como este componente curricular se deterá no estudo das equações di-


ferenciais ordinárias (EDO), o parágrafo anterior serve apenas para esta-
belecer a diferença entre estas equações e as equações diferenciais parciais
(EDP).

Notações das equações diferenciais


A partir do conceito já apresentado de equações diferenciais, qual seja o
de que são equações que possuem em seu corpo a relação entre variáveis

Equações Diferenciais e Ordinárias 19 UAB


dependentes e independentes, e suas derivadas, falemos agora sobre a re-
presentação ou notação das equações diferenciais.

Forma diferencial
• M (x,y) dx + N (x,y) dy = 0

• Tal forma costuma ser usada para representar as equações diferenciais


ordinárias de primeira ordem. M (x,y) e N (x,y), como se pode observar,
são funções com variáveis x e y.

Forma alternativa
• ou ainda

• É obtida a partir da forma diferencial, dividindo-se a mesma pelo elemen-


to diferencial dx . Consideramos ainda que a variável dependente é y e a
independente é x.

Forma geral
• Uma equação diferencial ordinária de qualquer ordem, ou seja, de ordem
n, por exemplo, que possua uma variável dependente, pode ser repre-
sentada como:

• A função F possui n + 2 variáveis, uma vez que possui a variável indepen-


dente x, a variável dependente y e suas n derivadas.

• Mesmo a forma geral pode ainda ser subclassificada como implícita ou


explícita, como veremos mais adiante.

Forma padrão
• Se for possível a resolução de uma equação diferencial para a derivada
mais alta , em função das n + 1 variáveis restantes, que possua a
forma geral acima, podemos definir essa derivada como a forma padrão
de uma equação diferencial:

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Classificação das equações diferenciais
As equações diferenciais podem ser classificadas conforme diversos aspec-
tos.

Quanto ao tipo
• Equações diferenciais parciais (EDP): envolvem derivadas parciais e dife-
renciação total, ou seja, funções de duas ou mais variáveis independen-
tes:

• Equações diferenciais ordinárias (EDO): envolvem somente diferenciais


ordinárias e não parciais. Assim, possuem funções de apenas uma variá-
vel, com derivadas e/ou diferenciais dessa mesma variável: Glossário

dy = f (x) dx + 3dx
Se todos os termos da equação
diferencial dependem,
Como uma equação diferencial ordinária pode possuir a variável dependente exclusivamente, de x, ela é
dita homogênea, embora
y e a variável independente x, e, ainda, suas derivadas primeira, segunda,..., esse termo não seja muito
empregado por se confundir
n-ésima, podemos dizer que a forma geral de uma equação diferencial ordi- com outra classificação de
nária (EDO) é dada tanto pelas equações 1 ou 2. equações diferenciais a ser
vista mais adiante.
Se a EDO não depende de
As EDO’s podem aparecer sob sua forma implícita (Eq. 1): x, ela é conhecida como
autônoma.

Eq. 1

Exemplo: (notação de Leibniz) ou x² + y + y’- y”’ = 0

(notação de Lagrange). Observe que o 2º membro da equação é “zero”.

Ou sob sua forma explícita. A diferença é que a enésima derivada pode


estar, implicitamente, na EDO, ou pode aparecer explicitamente (destacada
no segundo membro da EDO).

Eq. 2

Equações Diferenciais e Ordinárias 21 UAB


Exemplo: (notação de Leibniz) ou x² + y + y’ = y”’ (nota-

ção de Lagrange). Observe que o 2º membro da equação contém a derivada


de ordem mais alta isolada.
Atenção
Quanto à ordem
• A ordem de uma equação diferencial ordinária corresponde à mesma da
Observe nas equações o
termo em negrito e dentro sua derivada mais alta.
de uma caixa, para melhor
compreensão do comentário
ao lado. Exemplos:

(equação diferencial de primeira ordem)

(equação diferencial de segunda ordem)


Atenção
Quanto ao grau
• Esta classificação, embora não muito importante, é a que permite outra
Na verdade, função não possui
grau, recebendo apenas o classificação, a ser vista em seguida, referente à linearidade da equação.
nome do polinômio que a Corresponde à mesma classificação do grau de uma equação, ou seja,
representa. Exemplo: y = x²
é uma função polinomial do depende das potências a que são elevadas as incógnitas da equação.
segundo grau e não função do
segundo grau. A rigor, o grau de uma equação diferencial é correspondente à potên-
Apesar disso, quando cia que se acha submetida a derivada de ordem mais alta, desde que
tratarmos desse assunto,
usaremos o termo “função a equação diferencial possa ser escrita como um polinômio da variável
do n-ésimo grau” apenas por dependente e de suas derivadas.
economia linguística, sabendo
que o estudante deve ter em
mente tal informação.
Exemplos:

(equação diferencial do terceiro grau)

(embora pareça que esta equação diferencial pertença ao segundo grau, na


verdade, ela não pode receber classificação alguma quanto a grau, uma vez
que o termo ey impede que a equação possa ser escrita como um polinômio
da variável dependente e de suas derivadas).

UAB 22 Equações Diferenciais e Ordinárias


Quanto à linearidade
• Equação diferencial linear: trata-se da equação em que todos os coeficien-
tes (como na expressão a seguir) são funções de x, e as funções y e suas deri-
vadas possuem expoentes igual a 1 ou 0 (primeiro grau, no máximo, então).
Em outras palavras, os coeficientes de y e de suas derivadas podem até
ser constantes (como também podem ser funções de x), porém nunca
podem depender de y. E a variável y, bem como todas as suas derivadas,
devem ser, no máximo, de primeiro grau (podendo inclusive se apresen-
tarem como de grau zero, o que faria com que o termo se tornasse uma
constante).

Sua forma geral será (notação de Lagrange):

Eq. 3

ou, na notação de Leibniz:

Eq. 4

Um exemplo: (aqui, usamos ambas as no-

tações, de Leibniz e de Lagrange).

• Equação diferencial não linear: pela definição acima, basta que qualquer
termo possua grau diferente de 0 ou 1.

Alguns exemplos:

(função y não é do primeiro grau)

(derivada segunda de y não é do primeiro grau)

Equações Diferenciais e Ordinárias 23 UAB


(sen y não é uma função linear, ou seja, de algum grau)

(o coeficiente da primeira derivada não é função somente de x, aliás, nem é


função de x, mas de y).

Quanto à homogeneidade
• Homogênea: trata-se de uma equação diferencial ordinária linear em
que, nas equações 3 ou 4, o termo g (x) = 0:

Eq. 5

Eq. 6

• Não homogênea: o oposto da situação anterior, ou seja, quando


.

Quanto aos coeficientes


• Com coeficientes constantes: como a própria classificação propõe, bas-
ta que os coeficientes ,
conforme as equações acima sejam funções constantes.

• Com coeficientes não constantes: eles podem ser funções de x ou de y


(se as variáveis forem essas).

Quanto à resolução
• Separáveis: tratam-se das equações diferenciais que podem ser reescri-
tas de maneira a se separar, em um membro, as variáveis x, e, no outro
membro, as variáveis y.

UAB 24 Equações Diferenciais e Ordinárias


Exemplo:

(observe que as variáveis foram separadas em cada membro)

• Não separáveis: quando não dá para separar as variáveis, por ser impos-
sível fatorar a expressão para a derivada dy/dx como uma função de x
multiplicada por uma função de y (uma das formas de se chegar a uma
separabilidade):

Exemplos:

(é impossível separar as variáveis em cada membro da equação)

Quanto à forma
• Exatas: são chamadas assim as equações diferenciais quando possuem
a forma da eq. 7 abaixo e cujo primeiro membro pode ser representado
por uma diferencial exata ou total como na eq. 8 (observe-se que o ex-
posto aqui se aplica às equações diferenciais de primeira ordem).

Eq. 7

Eq. 8

ou seja:

Eq. 9

Equações Diferenciais e Ordinárias 25 UAB


Glossário Ainda comparando a eq. 7 com a 8, teremos que:

Alexis Claude de Clairaut

Eq. 10

Supondo que M e N sejam definidas como derivadas parciais de primeira


ordem contínuas em uma dada região R² sem pontos duplos, poderemos
dizer que:
Nasceu: 13 de maio de 1713
(Paris, França).
Morreu: 17 de maio de 1765
(Paris, França).
Feitos notáveis: Equação de
Clairaut.
Eq. 11

Glossário Como, pelo Teorema de Clairaut-Schwarz, as derivadas parciais de segun-


da ordem nos segundos membros da eq. 11 são equivalentes, então:

Karl Hermann Amandus


Schwarz

Eq. 12

Alexis Claude de Clairaut (1713-1765), francês, e Hermann Amandus


Schwarz (1843-1921) foram matemáticos, não contemporâneos, que rece-
beram a homenagem no Teorema que leva o nome deles. Esse teorema diz
Nasceu: 25 de janeiro de 1843
(Jerzmanowa, Silesia, Polônia).
que, se F é uma função escalar, de duas variáveis, por exemplo, x e y, que pos
Morreu: 30 de novembro de
1921 (Berlim, Alemanha).
Feitos notáveis: Desigualdade sua derivadas parciais de segunda ordem contínuas, então .
de Cauchy-Schwarz, Teorema
de Clairaut-Schwarz.
• Não exatas: quando o descrito acima não ocorre.

Resumo
Nesta aula, procuramos revisar alguns tópicos relativos ao Cálculo:

1. Origem e ocorrência das equações diferenciais, chegando ao conceito


destas;

UAB 26 Equações Diferenciais e Ordinárias


2. Notações de derivadas, dentre as quais as de Leibniz, de Lagrange, de
Newton e de Euler;

3. Conceitos básicos, abrangendo os seguintes termos: conjunto, coorde-


nada, função, domínio e imagem, funções de uma e de duas variáveis inde-
pendentes, diferença entre funções e equações, funções explícita e implícita;

4. Equação diferencial, distinguindo a ordinária (EDO) da parcial (EDP);

5. Notações das equações diferenciais, ou seja, suas representações nas for-


mas diferencial, alternativa, geral e padrão;

6. Classificação das equações diferenciais, quanto aos seguintes critérios:


tipo, ordem, grau, linearidade, homogeneidade, presença de coeficientes,
forma de resolução, forma de apresentação (exatas ou não exatas).

Exercícios resolvidos
Classifique cada equação diferencial abaixo quanto aos seguintes critérios
(sempre que possível):

(a) Tipo (EDO ou EDP)

(b) Ordem

(c) Grau

(d) Linearidade

(e) Homogeneidade

(f) Coeficientes

• Exemplo 1:

Solução:

Rearranjando a equação, teremos:

Equações Diferenciais e Ordinárias 27 UAB


(a) EDO: não há derivadas parciais.

(b) Segunda ordem: a mais alta derivada é .

(c) Primeiro grau: a equação está reescrita na forma polinomial e o grau


da derivada mais alta é um, . A derivada cuja potência é 4 é de

ordem menor (primeira ordem).

(d) Linear: os coeficientes das derivadas dependem apenas da variável inde-


pendente, x.

(e) Não homogênea, .

(f) Coeficientes não constantes: há pelo menos um coeficiente de alguma


derivada que não é constante: 4x.

• Exemplo 2:

Solução:

Rearranjando a equação, teremos:

(a) EDO: não há derivadas parciais.

(b) Terceira ordem: a mais alta derivada é .

(c) Segundo grau: a equação está reescrita na forma polinomial e o grau da


derivada mais alta é dois, .

(d) Linear: os coeficientes das derivadas dependem apenas da variável in-


dependente, x (desde que se considere que a e b sejam, no máximo,
funções de x apenas, podendo também ser constantes.

(e) Não homogênea, g (x) = C, considerando que C seja uma constante dife-
rente de zero.

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(f) Coeficientes constantes: desde que se considere que a e b sejam cons-
tantes.

• Exemplo 3:

Solução:

Rearranjando a equação, teremos:

(a) EDP: há derivadas parciais.

(b) Primeira ordem: a mais alta derivada é .

(c) Primeiro grau: a equação está reescrita na forma polinomial e o grau da


derivada mais alta é um, .

(d) Não linear: os coeficientes das derivadas dependem também da variável


x. Se fosse somente da variável independente y, seria linear.

(e) Homogênea, g (z) = 0. Observe que z é a variável independente.

(f) Coeficientes não constantes: o coeficiente (x² + z) não é constante.

Exercícios propostos
Classifique cada equação diferencial abaixo quanto aos seguintes critérios
(sempre que possível):

(a) Tipo (EDO ou EDP)

(b) Ordem

(c) Grau

(d) Linearidade

(e) Homogeneidade

Equações Diferenciais e Ordinárias 29 UAB


(f) Coeficientes

Respostas dos exercícios propostos


(a) Tipo (b) (c) Grau (d) Lineari- (e) Homoge- (f) Coeficien-
Ordem dade neidade tes

1. EDO 1ª 1º L N N

2. EDO 2ª 1º L N S
3. EDO 3ª 1º NL N N
4. EDP 2ª 1º L S S
5. EDO 1ª - NL N N
6. EDO 2ª 3º L S S

Legenda: L = linear; NL = não linear; S = sim; N = não.

Referências
TENEMBAUM, M.; POLLARD, H. Ordinary differential equations: an elementary
textbook for students of mathematics, engineering, and the sciences. (Dover edition
reprint, 1985). New York: of Harper & Row, New York, 1963.
ZILL, D.G.; CULLEN, M.R. Matemática avançada para engenharia: equações
diferenciais elementares e transformada de Laplace. 3 ed. Porto Alegre: Bookman, 2009.

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