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CONSTRUÇÕES GEOMÉTRICAS

E NÚMEROS ALGÉBRICOS

Três problemas famosos e de impossível solução:

• Duplicação do cubo

x = 3 2a
a

volume V volume 2V

• Trissecção de um ângulo qualquer

α β

3β = α

• Quadratura do círculo

área γ área γ
x= πr
r
Pappus atribuiu a Platão as seguintes regras:

Na solução dos problemas acima, são admitidos tão


somente o uso de régua e compasso.
• A régua deve ser usada somente para unir dois
pontos
• O compasso deve ser usado somente para traçar um
círculo de centro e raio dados.

Construções geométricas que todos aprendemos

‰ Construir um triângulo equilátero sobre um


segmento dado
‰ Bissectar um ângulo dado
‰ Traçar um segmento mediatriz de um segmento
dado
‰ Encontrar o ponto médio de um segmento dado
‰ Traçar um segmento passando por um ponto e
paralelo a um segmento dado
‰ Construir uma estrela pitagórica
C
A

A B O

D B
A estrela pitagórica

‰ Dados segmentos de comprimentos a e b, a > b,


admitindo a existência de um segmento unitário,
construir segmentos de comprimentos
a + b, a – b, ab, a/b e a

x x

b
1

1 a b a

x = ab x = a/b
x x= a

1 a

O problema da trissecção do ângulo de 60°

Podemos construir um ângulo se e somente se


podemos construir seu cosseno.

θ = 20° ⇒ cos(3θ) = cos 60° = 1/2

1/2 = cos(3θ)
= cos(2θ + θ)=
= cos2θ cosθ – sen2θ senθ
= (cos²θ – sen²θ) cos θ – 2 senθ cosθ senθ
= cos³θ – 3 sen²θ cosθ
= cos³θ – 3 (1 – cos²θ) cosθ
= 4 cos³θ – 3 cosθ

⇒ 8 cos³θ – 6 cosθ – 1 = 0

Fazendo então u = 2 cosθ, obtemos a equação


u³ – 3u – 1 = 0
Questão: Podemos construir esse número real u ?
Um dos pontos altos dos Elementos de Euclides:
A construção do pentágono regular
ou de um ângulo θ = 72° = 360°/5

Consideremos z = cosθ + isenθ

z5 = (cosθ + isenθ)5 = cos5θ + isen5θ


= cos 360° + isen 360° =
= 1 + i0 = 1 ⇒ z5 – 1 = 0

(z – 1)(z4 + z3 + z2 + z + 1) = 0
⇒ z4 + z3 + z2 + z + 1 = 0
⇒ z2 + z + 1 + z–1 + z–2 = 0

Colocando u = z + z–1, temos u2 = z2 + z–2 + 2, e a


equação acima fica
u² + u – 1 = 0
de onde
u = (–1+ 5 )/2

Por outro lado, z–1 = z , já que z z = cos²θ + sen²θ = 1


Assim,
z + z–1 = z + z = 2 cos72°
∴ cos72° = (–1 + 5 )/4

Assim, podemos construir o número cos72°, logo


podemos construir o pentágono regular.
Trissecção "trapaceira" de Arquimedes

θ 3θ

Dos resultados previamente estabelecidos,


‰Partindo de um segmento unitário OX, podemos
construir cada segmento de comprimento racional
‰Podemos construir cada segmento cuja medida
seja uma expressão dada por uma combinação das
operações racionais e de raízes quadradas,
envolvendo números racionais.

Assim por exemplo, podemos construir um


segmento de comprimento

 2 7−3 2
3 + 5 − ⋅
 3  3− 5 + 2
N¶umeros Construt¶³veis
Partimos de dois pontos O e X, considerando o segmento
OX como unit¶ario.
² Os pontos O e X s~ao pontos construt¶³veis a priori.
² Uma reta (ou segmento) unindo dois pontos construt¶³-
veis ¶e chamada reta (ou segmento) construt¶³vel.
² Um c¶³rculo ¶e construt¶³vel se tem centro e raio constru-
t¶³veis
² A intersec»c~ao de duas curvas (retas ou c¶³rculos) constru-
t¶³veis ¶e um ponto construt¶³vel.
² Um n¶umero real a ¶e construt¶³vel se existem pontos cons-
trut¶³veis A e B com AB = jaj.
Caracteriza»c~ao alg¶ebrica dos n¶umeros construt¶³veis.
Podemos construir dois eixos coordenados, mutuamente
perpendiculares, de modo que o segmento OX seja o seg-
mento unidade do eixo x.
² A = (x1; y1) e B = (x2; y2) s~ao pontos construt¶³veis ,
x1; y1; x2 e y2 s~ao n¶umeros construt¶³veis
² A reta passando pelos pontos A e B acima tem equa»c~ao
(y2 ¡ y1)x ¡ (x2 ¡ x1)y + (x1y2 ¡ x2y1) = 0
sendo assim tem uma equa»c~ao com coe¯cientes constru-
t¶³veis
² O c¶³rculo de centro A, passando por B tem equa»c~ao
(x ¡ x1)2 + (y ¡ y1)2 = r2
r
onde r = AB = (x1 ¡ x2)2 + (y1 ¡ y2)2
² Se duas retas ax + by + c = 0 e mx + ny + p = 0 tem
um ponto de intersec»c~ao, ele ¶e solu»c~ao do sistema
8
< ax + by + c = 0
>

>
:
mx + ny + p = 0
sendo portanto, pela regra de Cramer, dado por
bp ¡ cn ap ¡ cm
x= e y=
an ¡ bm an ¡ bm
² Se um c¶³rculo x2 + y 2 + dx + ey + f = 0 encontra a reta
ax + by + c = 0, os pontos de intersec»c~ao de ambos s~ao
solu»c~oes do sistema
8
2 2
< x + y + dx + ey + f = 0
>

>
:
ax + by + c = 0
Assumindo b 6 = 0, substituindo
¡a c
y= x¡
b b
na primeira equa»c~ao, obtemos uma equa»c~ao quadr¶atica
de coe¯cientes construt¶³veis
Ax2 + Bx + C = 0
dando p
¡B § B 2 ¡ 4AC
x=
2A
² A intersec»c~ao de dois c¶³rculos x2 + y 2 + dx + ey + f = 0
e x2 + y 2 + rx + sy + t = 0 ¶e dada pelo sistema de
equa»c~oes
8
2 2
< x + y + dx + ey + f = 0
>

>
:
x2 + y 2 + rx + sy + t = 0
Subtraimos a segunda equa»c~ao da primeira:
(d ¡ r)x + (e ¡ s)y + (f ¡ t) = 0
e em seguida resolvemos o sistema
8
>
< x2 + y 2 + dx + ey + f = 0
>
:
(d ¡ r)x + (e ¡ s)y + (f ¡ t) = 0
O corpo dos n¶umeros construt¶³veis
Para os nossos prop¶ositos um corpo F ¶e um conjunto
de n¶umeros reais ou complexos, satisfazendo
² 1 2 F e F ¶e fechado sob as opera»c~oes racionais, ou seja
a; b 2 F ) a + b; a ¡ b; ab 2 F
= 0 ent~ao tamb¶em ab 2 F .
e se b 6
Se F ¶e um corpo e c 2 F com c > 0,
p p
F ( c) = fa + b c j a; b 2 F g
p p
F ( c) tamb¶em ¶e um corpo. Assumindo c 6 2 F,
p p
1 1 a¡b c a¡b c
p = p £ p = 2
a + b c a + b c a ¡ b c a ¡ b2c
a b p
= 2 2
¡ 2 2
c
a ¡b c a ¡b c
Um n¶umero real a ¶e construt¶³vel se existem n¶umeros reais
positivos c0; c1; c2 : : : ; cs satisfazendo
² c0 ¶e um n¶umero racional,
p
² c1 2 Q( c0),
p p p p
² c2 2 Q( c0)( c1) = (Q( c0))( c1),
:::::::::::::::
p p p p
² cs 2 Q( c0)( c1)( c2) : : : ( cs¡1),
p p p p
² a 2 Q( c0)( c1) : : : ( cs¡1)( cs)
Ou seja,
p p p p p
a 2 Q( c0)( c1)( c2) : : : ( cs¡1)( cs)

(Wantzel, 1837) Suponhamos que


f (x) = x3 + a2x2 + a1x + a0
¶e um polin^omio com coe¯cientes num corpo F . Suponha-
mos tamb¶ep m que a p equa»c~ao f (x) = 0 tem uma solu»c~ao
x1 = a + b c 2 F ( c), com c 2 F (c > 0). Ent~ao essa
equa»c~ao tem tamb¶em uma raiz em F .
p
x1 = a + b c ) (x1 ¡ a)2 = b2c ) x21 + px1 + q = 0,
com p; q 2 F .
f (x) = (x2 + px+ q)(x + d) + (mx + n), com d; m; n 2 F
f (x1) = 0 e x21 + px1 + q = 0 ) mx1 + n = 0
Se m 6= 0, ent~ao x1 = ¡n=m 2 F
Se m = 0, ent~ao necessariamente n = 0 e ent~ao f (x) =
(x2 + px + q)(x + d), logo ¡d 2 F ¶e raiz de f (x)
(Wantzel) Se um n¶umero construt¶³vel ¶e solu»c~ao de uma
equa»c~ao c¶ubica com coe¯cientes racionais, ent~ao essa
equa»c~ao tem uma raiz racional.
Suponha que a equa»c~ao c¶ubica f (x) = 0 tem uma solu»c~ao
construt¶³vel
p p p p p
a 2 Q( c0)( c1)( c2) : : : ( cs¡1)( cs)
p p p
onde c0 2 Q; c1 2 Q( c0); : : : ; cs 2 Q( c0) : : : ( cs¡1)
Ent~ao, pelo teorema anterior, f (x) = 0 tem uma raiz em
p p p p
Q( c0)( c1)( c2) : : : ( cs¡1)
visto que os coe¯cientes de f (x), racionais, s~ao tamb¶em
elementos desse corpo.
Procedendo indutivamente, chegaremos µa conclus~ao e-
nunciada
Se uma equa»c~ao polinomial de coe¯cientes inteiros
anxn + an¡1xn¡1 + ¢ ¢ ¢ + a1x + a0 = 0
tem uma raiz racional p=q, com p e q relativamente primos,
ent~ao p divide a0 e q divide an
Substituindo p=q na equa»c~ao, e multiplicando tudo por
q n, obtemos
anpn + an¡1pn¡1q + ¢ ¢ ¢ + a1pq n¡1 + a0q n = 0
Assim a0q n ¶e divis¶³vel por p. Mas q n n~ao o ¶e, por hipot¶ese.
Logo, p divide a0.
Analogamente, anpn ¶e divis¶³vel por q, mas pn n~ao o ¶e.
Logo, q divide an
A impossibilidade da trissec»c~ao do ^angulo de 60±, da du-
plica»c~ao do cubo e da constru»c~ao de um hept¶agono regular
Os n¶umeros a serem constru¶³dos na solu»c~ao dos proble-
mas acima satisfazem µas equa»c~oes alg¶ebricas
² (Trissec»c~ao) u3 ¡ 3u ¡ 1 = 0, onde u = 2 cos 20±
² (Duplica»c~ao do cubo) x3 ¡ 2 = 0
² (Constru»c~ao do hept¶agono) u3 + u2 ¡ 2u ¡ 1 = 0, onde
u = 2 cos(360±=7)
Uma r¶apida inspe»c~ao revela que nenhuma dessas equa»c~oes
tem uma solu»c~ao racional, logo nenhuma tem solu»c~ao cons-
trut¶³vel

² O pol¶³gono regular de 2m lados, m inteiro ¸ 2, ¶e cons-


trut¶³vel.
² Gauss mostrou que ¶e poss¶³vel construir um n-¶agono re-
gular quando n ¶e um n¶umero primo de Fermat, ou seja,
quando n tem a forma
k
p = 22 + 1
² Wantzel mostrou que se o pol¶³gono regular de n lados ¶e
construt¶³vel e n ¶e primo, ent~ao n ¶e um primo de Fermat.
² Apenas 5 primos de Fermat s~ao conhecidos, sendo eles
3, 5, 17, 257 e 65 537, correspondentes aos valores de n
0, 1, 2, 3 e 4. N~ao se sabe se existem outros primos de
Fermat.
² Se o pol¶³gono regular de mn lados ¶e construt¶³vel, ent~ao
tamb¶em o s~ao os pol¶³gonos regulares de m lados e de n
lados.
² Se r e s s~ao n¶umeros relativamente primos, e os pol¶³go-
nos regulares de r lados e de s lados s~ao construt¶³veis,
ent~ao o pol¶³gono regular de rs lados ¶e construt¶³vel.
Existem inteiros a e b tal que ar + bs = 1. Da¶³,
1 a b
= +
rs s r
² Suponha que n = p®1 1 ¢ ¢ ¢ p®r r , onde p1; : : : ; pr s~ao pri-
mos distintos. Ent~ao o pol¶³gono regular de n lados ¶e
construt¶³vel se e somente se s~ao ¶e construt¶³vel o pol¶³gono
regular de p®i i lados, para cada i.
² (Gauss-Wantzel) O pol¶³gono regular de n lados ¶e cons-
trut¶³vel se e somente se n = 2m, com m inteiro ¸ 2,
ou n = 2mp1 ¢ ¢ ¢ ps, com s ¸ 1 e p1; : : : ; ps primos de
Fermat dois a dois distintos.
N¶umeros alg¶ebricos
Um n¶umero real ou complexo ® ¶e alg¶ebrico sobre um
corpo F se existe uma equa»c~ao polinomial
f (x) = xn + an¡1xn¡1 + ¢ ¢ ¢ + a1x + a0
com coe¯cientes em F , da qual ® ¶e raiz, ou seja f (®) = 0.
Quando F = Q, dizemos simplesmente que ® ¶e um
n¶umero alg¶ebrico.
Um n¶umero real ou complexo ¯ n~ao alg¶ebrico sobre um
corpo F ¶e chamado n¶umero transcendente sobre F
O grau de um n¶umero alg¶ebrico ® sobre F , denotado
deg(®; F ), ¶e o grau do polin^omio (n~ao nulo) de menor grau,
com coe¯cientes em F , que tem ® como raiz.
Um polin^omio f (x), com coe¯cientes em F , ¶e irredut¶³vel
sobre F se ¶e imposs¶³vel escrever f (x) como produto de dois
polin^omios de grau ¸ 1, ambos com coe¯cientes em F
Se ® ¶e raiz de um polin^omio f (x), irredut¶³vel sobre F ,
ent~ao deg(®; F ) = grau
p de f (x). p
Por exemplo, deg( 2; Q) = 2, deg( 3 2; Q) = 3.
Se a ¶e um n¶umero construt¶³vel, ent~ao a ¶e alg¶ebrico sobre
Q e deg(a; Q) ¶e uma pot^encia de 2.

p(Lindemann, 1882) ¼ ¶e transcendente. Logo, o n¶umero


¼ n~ao ¶e construt¶³vel. Logo, o problema da quadratura
do c¶³rculo n~ao tem solu»c~ao.