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Gaelen Foley

CORAÇÃO DE TORMENTA
Tíítulo original: His Wicked Kiss
Famíília Knight 07

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Como uma rosa inglesa florescendo nas indômitas selvas da América do Sul, Eden
Farraday leva uma vida independente — nada própria numa dama — junto com seu pai, um
médico exercendo sua profissão no campo da investigação. Mas Eden sente terrivelmente a falta
de sua terra natal, Inglaterra. Quando o perigoso, misterioso e encantador Lorde Jack Knight
entra em sua vida, Eden vê a oportunidade de retornar à civilização e lhe pede que a leve de
volta ao seu país, mas este se nega, assim Eden decide esconder-se dentro do navio de Jack.
Jack, um homem com um passado sombrio, conseguiu tudo o que é graças a um enorme
esforço. Agora, navega pelos mares em uma missão secreta de vital importância. Assim, quando
a tentadora ruiva é descoberta em seu navio, reage furiosamente — e com uma luxúria inegável.
Obrigado a protegê-la de sua rude tripulação, o demoníaco Lorde Jack pede à mulher um preço
nada honrado em troca de uma passagem segura através do mar. E, quando um beijo consegue
acender entre eles as chamas da paixão, Jack e Eden enfrentarão um amor impossível de negar.

A história de um feroz homem do mar e a única mulher capaz de domar seu selvagem
espírito.
Nem pátria, nem alma, nem coração: Jack, a ovelha negra do clã Knight, é um
autêntico pirata que forjou uma fortuna à margem da lei e que dirige sua frota da Jamaica.
Entretanto, Jack sempre ocultou sua verdadeira personalidade e as memórias de um doloroso
passado. Sua missão mais recente o levou a selva venezuelana, onde encontra a um excêntrico
cientista inglês e sua filha muito bela, Eden Farraday, que sonha retornar a Londres. Jack é a
primeira e talvez a única oportunidade dela para fugir da inóspita selva, mas o capitão Knight se
nega embarcar esta teimosa ruiva: não quer mulheres a bordo.
Eden não se dá por vencida. Intrépida e valente, embarca como clandestina e revela
sua presença em alto mar, quando a volta do navio é impossível. Chegados a este momento, só
resta uma solução: Eden terá que fingir ante a tripulação que é a amante do capitão Knight...

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Nota da revisora Edith: Gostei do livro. O mocinho e a mocinha crescem durante a história. Eles se
entendem bem em matéria de sexo (e como!), mas quanto ao resto muitas vezes se desentendem.
A mocinha, que passou muitos anos na selva sonha com gente, festas, teatros, passeios e tudo mais
que se desfruta na temporada londrina. O mocinho, traumatizado com sua situação de bastardo e
tendo fugido de tudo isso custa a aceitar tais fatos. Ele parece um leão ferido e a mocinha é uma
leoa (e sabe como usar um facão)! Ambos enfrentam inimigos com muita valentia e coragem. E seu
amor vence todas as dificuldades: as diferenças entre si, fofocas da sociedade, inimigos de Bolívar e
sua luta pela liberdade da Venezuela, um cientista meio louco, e por aí vai.

Nota da revisora Heloisa: De toda a série com certeza este foi o livro que mais gostei, quero um
Jack Knight para mim também!!!

Tudo o que vive, não vive só nem para si mesmo.


WILLIAM BLAKE
O livro de Thel, lâmina 3, verso 26 (1789).

Revisão Inicial: Edith Suli

Revisão Final: Julianna

Visto Final: Heloisa

Projeto Revisoras Traduções

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Capítulo 1

Fevereiro, 1818

Ela queria dançar.


Os dedos de seus pés calçados com sapatilhas de seda davam batidinhas sob a prega
de seu vestido de seda branco... não, azul… não, verde, ao ritmo dos elegantes compassos da
orquestra.
As inumeráveis velas que piscavam nos lustres de cristal desprendiam uma bruma
dourada sobre o salão de baile, onde os casais de bailarinos giravam seguindo os passos da
nova e atrevida valsa; as damas, vestidas com sedas suntuosas, pálidas e luminosas, e os
cavalheiros, vestidos de majestoso branco e negro.
De repente, notou que alguém a estava olhando fixamente entre a multidão. Deu uma
olhada por cima de seu leque pintado e viu fugazmente uma figura alta e imponente antes que
os giros dos bailarinos a ocultassem novamente.
Acelerou-lhe o pulso. Ela estremeceu ao perceber sua presença, ao notar como se
aproximava para lhe pedir que dançasse com ele a seguinte contradança.
Ela aguardou com os olhos muito abertos e o coração palpitante, ansiosa para ver
melhor o rosto de seu homem misterioso, seu herói destinado...
Naquele preciso momento, um comichão instintivo de advertência arrancou Eden
Farraday de seu maravilhoso devaneio.
Seu olhar perdido foi ganhando precisão à medida que a realidade se impunha de
novo sobre seus reticentes sentidos, e com ela chegaram os incessantes sons e os penetrantes
aromas de outra noite negra e úmida na selva tropical.
Em lugar dos lustres de cristal, um solitário e oxidado lampião brilhava na mesa de
bambu situada junto a sua rede, coberta pela nuvem de um mosquiteiro branco transparente.
Em vez de cavalheiros e damas, umas traças pálidas dançavam e revoavam contra o vidro do
lampião, e mais à frente do telhado coberto com folhas de palmeira da cabana erguida sobre
pilares, pulsava a escuridão transbordante de vida.
Os insetos zumbiam com uma cadência ensurdecedora. Os macacos disputavam os
ramos das árvores mais cômodas para dormir, mas pelo menos os estridentes papagaios tinham
interrompido suas ensurdecedoras rixas. Um jaguar rugiu ao longe para expulsar a um rival de
seu território, pois tinha chegado a hora da caça para as feras grandes e silenciosas.
O feroz eco do rugido afugentou sua resplandecente visão da elegância londrina;
unicamente permaneceu o objeto que a tinha inspirado: um exemplar amarelado e enrugado de
uma revista de moda com um ano de idade, La Belle Assemblée, enviado por sua querida prima
Amélia da Inglaterra.
Entretanto, a sensação de perigo se manteve.
Olhou ao seu redor ansiosamente, com os instintos que havia acentuado na selva em
estado de alerta; deslizou a mão para a pistola que sempre levava no flanco.

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E então o ouviu: um sussurro débil e sutil procedente de um lugar muito próximo em
cima de sua cabeça.
Levantou a vista e se achou cara a cara com os olhos frios e brilhantes de uma
monstruosa ponta de lança. Mostrando suas presas reluzentes, a mortífera serpente tirou sua
língua bifurcada em direção a ela. Eden retrocedeu lentamente, sem ousar mover-se muito
rápido.
A grande serpente, que andava em busca de uma presa de sangue quente, pareceu
perceber as vibrações de seu coração palpitante. As espécies animais invadiam muitas das
moradias humanas da Zona Intertropical: os humanos deixavam farelos, os farelos atraíam aos
ratos, e os ratos atraíam à ponta de lança, uma víbora de notório mau gênio famosa por atacar a
menor provocação.
Sua picada era letal.
Fina e sinuosa, a serpente deslizou pelas vigas deterioradas do refúgio. Devia estar
explorando sigilosamente em busca de algum roedor gordo para comer como prato principal,
pois nesse momento estava enrolada ao redor do poste do qual pendia a rede e examinava Eden
como se estivesse perguntando-se que gosto teria.
Para seu grande assombro, a serpente tinha cortado o mosquiteiro com suas presas
como adagas, que desprendiam um veneno capaz de matar a um homem corpulento em menos
de meia hora. Eden tinha sido testemunha disso, e não era uma morte agradável.
Quando a ponta de lança arqueou seu pescoço escamoso e adotou uma inquietante
forma, ela viu o ataque vir durante uma breve fração de segundo; então, o animal se jogou. O
furioso réptil se sacudiu como um chicote e mostrou fugazmente suas presas.
Ela se lançou de costas sobre a rede, tirou a pistola e disparou.
Quando a cabeça da serpente caiu justo em meio de sua apreciada revista, deixou
escapar um grito de indignação.
—Maldita...! — exclamou, mas em seguida se deteve e se limitou a pronunciar a
expressão movendo silenciosamente os lábios, pois as damas refinadas de Londres não
xingavam, em voz alta. Ainda!
Tinha demorado um ano para receber aquela condenada revista por mensageiro via
Jamaica. Eden deu a volta na rede agilmente e observou com olhar carrancudo a cabeça da
serpente boquiaberta que manchava a elegante publicação. Jogou sua longa trança de cabelo
castanho avermelhado por cima do ombro, retirou o mosquiteiro e se afastou, depois de
sobreviver a sua última topada com a morte.
—Vai tudo bem, querida? — perguntou despreocupadamente seu pai, o doutor Victor
Farraday, de sua tenda de trabalho situada do outro lado do acampamento naturalista, colocado
no coração do verde e úmido delta do Orenoco1.
Ela lançou um olhar distraído em direção a ele.
—Perfeito pai! — respondeu ela, e guardou a pistola com as mãos trêmulas.
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Rio sul-americano que apresenta uma extensão de 2061 quilômetros. Nasce no maciço das Guianas, na serra
Parima, e deságua no oceano Atlântico. Corre num vale de fratura que separa o maciço das Guianas das
planícies venezuelanas e colombianas; nesta região, recebe os principais afluentes com origem nos Andes.
Num percurso de 420 quilômetros, serve de fronteira entre a Venezuela e a Colômbia.

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"Deus, estou desejando sair daqui".
Fez uma careta, pegou a revista como se fosse uma bandeja, mantendo a cabeça da
serpente em equilíbrio sobre ela, e se dirigiu estoicamente para o corrimão rústico que dava ao
cheio rio de ônix. Jogou a cabeça à corrente sem olhar, e escutou como caía ao Orenoco com um
pequeno chapinhar.
Com certeza algum animal a comeria em questão de minutos, pensou. Era a lei da
selva: comer ou ser comido. Lançou um olhar receoso ao outro lado do escuro rio e viu uns
olhos vermelhos que brilhavam com o fulgor do lampião; então, algo grande submergiu sem
nem criar ondas à luz prateada da lua.
Eden sacudiu a cabeça. Crocodilos que comiam carne humana, serpentes venenosas,
morcegos que chupavam sangue... e seu pai dizia que Londres era perigoso. "Paciência", disse
para si, fazendo todo o possível para reprimir suas ânsias de civilização. Faltava pouco. Logo
voltariam para a Inglaterra, tanto se seu pai gostasse como se não.
Ao voltar-se para olhar em direção à tenda de trabalho de seu pai, sua expressão se
encheu de determinação. Assentiu ligeiramente com a cabeça para si mesma. "Sim". A incerteza
era uma tortura. Tinha que saber a decisão de seu pai... agora. Arrancou as páginas de sua
revista que não se podiam salvar e as reservou como combustível para a luz; em seguida saiu
resolutamente de sua palafita de estilo nativo. Fixou a vista na tenda principal de trabalho
situada do outro lado do acampamento.
Um círculo de tochas ardia ao redor do perímetro da clareira para afugentar os
animais, mas contavam com pouca ajuda para espantar os mosquitos. Afastou um com um tapa
ao passar diante do espaço destinado à fogueira que havia no centro do acampamento, onde
saudou seus três criados negros afetuosamente. Seus brilhantes sorrisos reluziram na escuridão.
Agora que o calor do dia já tinha passado, os criados, vestidos com trajes tropicais leves e
folgados, estavam preparando o jantar.
Eden trocou uns comentários zombadores com eles e seguiu avançando. A saia de seu
vestido de algodão formava redemoinhos ao redor de suas pernas, e suas botas de couro grosso
afundavam com firmeza na erva macia a cada passo. Olhava para frente com segurança, mas em
realidade seu coração palpitava enquanto aguardava o veredicto de seu pai.
Em frente dela, sob a tenda de estilo militar com três lados, o doutor Victor Farraday e
seu robusto ajudante australiano, Connor O’keefe, mantinham uma conversa íntima com as
cabeças juntas enquanto estudavam atentamente um mapa deteriorado. A mesa de trabalho
estava coberta com os últimos espécimes que tinham recolhido nesse dia em sua expedição,
guiada pelo xamã2 dos waroa até o lugar onde cresciam as plantas medicinais. Entretanto, no
momento, seus novos achados tinham ficado esquecidos. A expressão dos homens parecia tensa
e séria a tênue luz alaranjada do lampião.
Não era de se estranhar. A apreciada revista de Eden não era o único artigo que o
mensageiro havia trazido naquele dia do mundo exterior, pois tinha conseguido escapar da frota
espanhola que patrulhava a costa e passar em contrabando sua correspondência e umas
quantas provisões.
Também tinham recebido uma carta, tão antiga como a publicação, do advogado que

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Feiticeiro que se supõe com poder para entrar em contato com os espíritos e os deuses, adivinhar, e curar
enfermos.

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representava o aristocrata patrocinador de seu pai na Inglaterra. A missiva comunicava a triste
notícia de que, desgraçadamente, o velho e filantropo quarto conde de Pembrooke tinha
passado desta para melhor há uns meses.
O herdeiro de sua senhoria, o quinto conde, era jovem e galhardo, se murmurava que
muito bonito e, se podia dar crédito ao que diziam as páginas de sociedade de La Belle
Assemblée, também tinha fama de jogador e de ser um pouco libertino. O novo lorde
Pembrooke estava construindo uma magnífica casa de campo, e ao que dizia respeito a ele,
todos os artistas e eruditos, músicos, escultores e cientistas que seu avô tinha patrocinado
durante tanto tempo podiam apodrecer. De modo que tinha dado instruções ao seu advogado
para que comunicasse a notícia.
Em conclusão, o ilustre doutor Farraday tinha perdido os recursos destinados a sua
investigação; Eden tinha estado a ponto de prorromper em vivas ao inteirar-se.
Entretanto, ela mordeu a língua e tinha reprimido sua alegria, já que seu pai tinha
empalidecido ante a notícia, entregue como estava ao seu trabalho igual a todo gênio obcecado.
Claro que tampouco iriam morrer de fome quando chegassem à Inglaterra, meditou ela com o
obstinado espírito prático que frequentemente compensava seu lado sonhador.
O doutor Farraday, médico qualificado assim como autor de prestígio, tinha recebido
uma oferta permanente para ocupar um posto docente muito respeitável no Real Colégio de
Medicina de Londres. Quando o aceitasse, como sem dúvida ia ter que fazer, ela e sua prima
Amélia poderiam passear juntas pelo Hyde Park entre outras damas elegantes, fazendo com que
os jovens danificassem seus modernos faetones para voltar-se para olhá-las.
Dentro de pouco tempo – quem sabe quando – poderia ter uma vida normal.
Eden juntou as mãos às costas e pigarreou educadamente para chamar a atenção do
cavalheiro.
Os dois cientistas estavam tão absortos em sua conversa que não tinham reparado em
sua presença. De repente ficaram calados e interromperam sua discussão em voz baixa.
—Bom, meninos — disse ela com um sorriso alegre, tratando de aliviar com um toque
de humor parte da tensão que todos experimentavam com a repentina mudança de sua
situação. —Quando iremos?
Por desgraça, sua pergunta não fez a menor graça. O par cruzou um olhar cauteloso.
Connor se levantou ao estar na presença de uma dama, consciente de que gostavam muito
daqueles pequenos gestos de cortesia.
Connor O’keefe era um imponente australiano loiro e bronzeado de mais de um metro
oitenta de estatura e o dobro de largura que os guerreiros tribais do delta. Era um homem de
poucas palavras e um especialista em zoologia; sua sensibilidade em relação aos animais da
selva despertava a simpatia de Eden, mas os olhares fixos que lhe dedicava cada vez com mais
frequência a faziam sentir-se desconfortável.
—Vai tudo bem? — perguntou ele, pondo os braços na cintura e franzindo o cenho
com gesto de preocupação. —Por que disparou?
—Uma ponta de lança entrou na casa. Sinto muito, Con. Tive que escolher entre sua
sinuosa amiga ou eu.
—Santo Deus, estás bem? — exclamou seu pai, enquanto tirava os óculos

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rapidamente e começava a levantar-se assustado de seu tamborete.
—Estou bem, pai — lhe assegurou ela. —Me perguntava se Connor poderia levar essa
coisa repugnante. A maior parte continua presa nas vigas — disse, fazendo uma careta.
O australiano assentiu firmemente com a cabeça e a seguir lançou um olhar ao seu
pai.
—Volto em seguida, senhor.
—Sim, isto... deixe-nos um momento, rapaz. Eu gostaria de falar com minha filha.
—É claro. Connor se deteve para dar um suave apertão no ombro de Eden.
—Tem certeza de estar bem? — murmurou.
Ela assentiu com a cabeça, cruzou os braços e reprimiu um sorriso ao mesmo tempo
em que se esforçava para ignorar o sutil matiz possessivo de sua carícia. Não se sentia com
coragem para mencionar a desagradável sensação que despertava com respeito ao seu pai, que
amava Connor como ao filho que nunca tinha tido.
Além disso, não lhe convinha armar um número sabendo que sua sobrevivência
dependia de Connor. Ele conseguia a comida, construía os refúgios e os protegia tanto dos
indígenas hostis como dos ocasionais jaguares.
Mas às vezes, quando o olhava nos olhos, como naquele momento, dava-lhe a
impressão de que Connor achava que ela lhe pertencia.
Uma vez que se convenceu de que Eden estava a salvo, o australiano assentiu com a
cabeça e entrou na escuridão para cumprir suas ordens. Eden o seguiu com o olhar
cautelosamente.
—Sente-se, querida — lhe pediu seu pai, apontando a cadeira vazia de seu ajudante.
Ela reparou distraidamente que sua barba grisalha necessitava de um barbeado. —Temos muito
do que falar.
—Claro.
Ela se sentou frente a ele e adotou alegremente o papel de encarregada de coordenar
a retirada da selva. Afinal, era a governanta nominal de seu pai, a responsável pelo bom
funcionamento do acampamento.
—Calculo que com a ajuda dos criados, demoraremos mais ou menos uma semana em
recolher tudo. Teremos que tomar medidas especiais para nos assegurar de que suas amostras
botânicas se mantenham em bom estado com o ar do mar, mas se acharmos uma forma de
atravessar os estreitos até Trindade, não acredito que tenhamos que esperar muito para que
apareça um navio inglês que nos leve para casa...
—Eden — ele a interrompeu ele com delicadeza, mas empregando um tom
terminante. —Vamos ficar.
Ela ficou olhando para ele um longo tempo e a seguir fechou os olhos apertando-os e
estremeceu.
—Oh, pai, não.
—Vamos, Edie, entendo que possa ser um duro golpe para ti, mas estamos fazendo
tantos progressos... Céu, você gosta disso! Eu sei. Perceba as aventuras que vivemos! Subir nas

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árvores para explorar as intermináveis copas! Encontrar pássaros e animais totalmente
desconhecidos para a ciência! — pegou-lhe a mão em atitude tranquilizadora. —Não se
preocupe querida. Não me olhe dessa forma — protestou quando ela voltou a abrir os olhos
com expressão de abatimento. —Pense nos remédios que levaremos algum dia e nas vidas que
salvaremos! Não podemos abandonar agora. Simplesmente, não podemos.
Ela fez um esforço para recuperar a fala.
—Achava que tínhamos perdido os recursos. Lorde Pembrooke...
—É um canalha! — afirmou ele. —Mas não importa. Esse jovem sem vergonha não
estragará nossos progressos. Certo, teremos que economizar papel e outras provisões, mas
aprendemos com os indígenas a viver da terra. Pelo amor de Deus, além de tudo, somos
ingleses! Devemos seguir em frente, e isso faremos.
—Seguir... em frente.
—Sim, querida! Verás... — se aproximou dela, cheio de uma emoção juvenil imprópria
de um homem de meia idade. —Tenho um plano.
"Oh, não".
—Um plano?
Ele assentiu com a cabeça, entusiasmado.
—Entraremos mais, Edie. Iremos ao interior.
Ela abriu muito os olhos.
—Não estarás dizendo...?
—Sim — sussurrou ele, sem mal poder conter seu regozijo. —Ao Amazonas!
Eden ficou boquiaberta.
Ele interpretou seu horror como assombro.
—Pense nisso filha! Nossa aventura mais fabulosa até a data: um hábitat ainda mais
complexo que a selva do Orenoco! O delta foi nossa mãe e nossa professora; preparou-nos. Ah,
mas o Amazonas é nosso destino! — apertou sua mão tentando lhe contagiar com seu
entusiasmo, mas ela se soltou puxando seus dedos e se levantou rapidamente.
—Está louco!
—Oh, Edie...!
—Sabia! Afinal ocorreu o que sempre temi! Tanto tempo na selva acabou fazendo-o
perder o juízo, papai! Meu Deus, certamente eu serei a seguinte! — levou a mão à fronte, mas
ele se limitou a rir. —Não brinco e não penso ir até lá! Alguém tem que ficar firme! Seja sensato!
Ali há caçadores de cabeças e canibais que não são pacíficos como os waroa e Deus sabe o que
mais!
—Tolices. Connor nos protegerá. Necessito de ti ao meu lado, Edie. Sabes que não
posso fazê-lo sem ti. Enquanto nos mantenhamos juntos, estarás totalmente a salvo. Quando
tivermos conquistado o Amazonas, voltaremos para a Inglaterra e darei conferências sobre
nossas viagens. Escreverei outro livro! Uma nova obra que competirá com a de Alexander von
Humboldt. Não teremos que voltar a depender de outro mecenas rico.

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Ela levantou as mãos, incapaz de expressar sua irritação com palavras.
Seu pai franziu o cenho.
—O que?
Ela tinha prometido a sua mãe em seu leito de morte que cuidaria dele, mas como ia
fazê-lo se aquele homem não dava o menor valor à sua vida?
—Papai — disse Eden seriamente, cruzando os braços — tu tens cinquenta e cinco
anos. Teu herói, Von Humboldt, estava na flor da idade quando fez essa viagem, e esteve a
ponto de morrer. Não conseguiu nada com aquele argumento salvo um resfôlego e um
murmúrio de vaidade masculina ferida, de modo que provou outra tática; sentou-se de novo
olhando-o com seriedade. —Esqueceste que, fora desta selva, a Venezuela está em guerra?
—É claro que não — grunhiu ele, franzindo o sobrecenho ao ouvir que ela o
recordava. —Ainda não envelheço. É isso o que importa?
—Para chegar ao Amazonas teríamos que cruzar as planícies. As planícies são o
principal campo de combate entre as forças da Coroa espanhola e os colonos rebeldes.
—E o que? Ainda temos tempo. Agora há um afastamento das hostilidades. Os
rebeldes de Angostura controlam o interior, e os espanhóis não abandonam seus navios da
costa. Qual é o problema?
—O problema? — ela esteve a ponto de soltar uma gargalhada; não sabia por onde
começar. —Para começar, cada bando acredita que és um espião do outro lado! Os espanhóis
acreditam que confabulaste com os revolucionários, e os colonos acreditam que estás
trabalhando para a Espanha.
—Se seriamente acreditassem, já teriam me expulsado do país. Diabo, Edie, como
dizem os malditos burocratas de Caracas, a ciência é neutra! Estou aqui pelo bem da
humanidade.
—Uf! — ela tampou o rosto com as mãos, o que apagou o som de sua réplica. —Estás
aqui porque queres te esconder do mundo.
—O que disseste? — perguntou ele bruscamente.
Ela reprimiu sua irritação lançando um suspiro e levou as mãos ao regaço.
—Nada, pai.
—É claro que disse. Vigie essa língua, jovenzinha — lhe aconselhou, antes de voltar a
colocar-se em seu áspero tamborete de madeira e dar um puxão ao seu colete em atitude
solene. —Eu te dou muita liberdade, mas continuo sendo seu pai.
—Sim, senhor — respondeu ela, abaixando a cabeça. —Mas...
—Mas o que, menina?
Sustentou-lhe o olhar um instante em atitude inquisitiva.
— No ano passado me prometeste que voltaríamos para a Inglaterra.
Aquilo era exatamente o que ele não queria ouvir.
Imediatamente, seu pai franziu o cenho e afastou a vista para concentrar-se em seus
achados científicos.

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—Inglaterra, Inglaterra. Por que tens que estar falando sempre desse maldito lugar?
Acaso achas que o mundo de fora é maravilhoso? Como podes sabê-lo? Mantive-a protegida
dele aqui. Se tu te lembraste de como é, agradeceria-me por isso. Nem tudo são bonitas
carruagens e bailes luxuosos, querida. O mundo lá fora também tem um lado sombrio. Lançou-
lhe um olhar por cima dos aros de seus óculos. —Enfermidades, crimes, sujeira, pobreza,
corrupção. Aqui não há nada disso.
—Tampouco há alguém com quem falar! — gritou ela, e de repente as lágrimas
ameaçaram brotar de seus olhos.
Seu pai fez uma careta compassiva e se deixou cair outra vez em seu tamborete.
—Tolices, estou eu aqui! Sou uma companhia muito boa... e também há o Connor.
Bom, não fala muito, reconheço-o, mas quando o faz vale a pena escutá-lo. Não te preocupes,
minha menina bonita — disse ele, lhe dando um tapinha na mão com expressão de
preocupação. —Asseguro que nossa conversa é muito mais inteligente que a que acharias nos
salões de Londres.
—Por uma só vez, eu gostaria de saber de que falam as pessoas normais — disse ela
de forma apenas audível.
—Normais? Não é mais que outra forma de referir-se à mediocridade! — respondeu
ele em tom de mofa. — Edie, pelo amor de Deus, essas garotas de Londres que admiras são as
criaturas mais tolas e corriqueiras da terra. Não pensam mais que em fitas, chapéus e sapatos.
Por que demônios quer ser como elas?
Ela conteve um gemido. "Agora vem o sermão".
—Pense nas vantagens que desfrutas aqui! Veste-se como queres, dizes o que queres
e fazes o que te agrada. Não tens nem ideia de como essas garotas da alta sociedade são
perseguidas por suas acompanhantes, cujo único objetivo na vida é controlar cada um de seus
atos. Ficarias louca se tiveste que suportar isso um só dia. Pensas na liberdade que te dei... e a
educação, pelo amor de Deus!
"Liberdade? — perguntou-se ela. Então, por que me sinto como uma prisioneira?"
—Eduquei-a como a um filho, mais que como a uma filha — continuou ele, repetindo
seu gasto discurso. Ela quase sabia de cor. —Por Deus, achas que as elegantes damas de Londres
podem recitar todas as espécies conhecidas da família das Arecaceae? E preparar uma infusão
de ervas para curar a febre amarela? E encaixar um osso quebrado? Eu diria que não — declarou
orgulhosamente. —Você, minha querida Eden, é totalmente única!
—Não quero ser única, papai — disse ela cansativamente. —Só quero voltar a formar
parte do mundo. Quero achar meu lugar.
—Já tem seu lugar, querida. Comigo!
Ela afastou a vista; de repente se sentia apanhada. Ele a entendia perfeitamente; só
fingia que não a compreendia.
—Acaso não fui uma filha obediente? Acaso não estive ao teu lado às duras penas,
não te ajudei em teu trabalho e não tenho feito tudo o que me pediste?
—Sim — reconheceu ele com nervosismo.
—Papai, dizem que na Inglaterra uma mulher de vinte e cinco anos é uma solteirona.

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Já sei que não te preocupam essas coisas, mas no mês passado fiz vinte e três anos. Ele começou
a zombar, mas ela abaixou a cabeça. —Por favor, pelo menos uma vez não ria de mim. Não só
me interessam os salões de baile e as carruagens luxuosas. Reconheço que eu gosto dessas
coisas... Que garota não gosta? Mas isso só é uma pequena parte; eu achava que a estas alturas
me conhecias melhor.
—Pois o que é então, Edie, querida? — perguntou ele com delicadeza. —Que mosca te
picou?
Ela o olhou nos olhos, sentindo-se tremendamente indecisa e vulnerável.
—Não entendes? Eu... quero achar alguém, papai.
—A quem? — gritou ele com impaciência.
—Ainda não sei! Alguém... alguém a quem amar.
Ele se recostou em seu assento e a olhou cheio de assombro.
—Assim tudo se reduz a isso?
Ela abaixou a cabeça de novo com as faces acesas. Depois de ter reconhecido a solidão
que aninhava em seu coração, desejava que a terra se abrisse e a engolisse.
Seu pai deu uma palmada nas coxas com as mãos, embargado por um repentino
entusiasmo.
—Bom em minha opinião, todo este tempo tiveste a resposta diante do nariz!
Quando ela o olhou esperançada, seu pai indicou com a cabeça de forma não muito
sutil na direção pela qual partiu Connor.
Eden ficou vermelha.
—Papai não comece outra vez, por favor! — sussurrou ela furiosamente.
—Por que não? Se tiveres armado todo este alvoroço porque queres ter marido, não
tens que procurar muito longe. Se tiver chegado o momento de que aceites a um homem,
escolhe ao Connor.
—Papai! — gritou ela, escandalizada.
—Se por acaso não o notaste, esse homem a adora. Um sorriso em que havia uma
mescla de orgulho e diversão se desenhou em seus lábios, como se Eden ainda fora uma menina
de quatro anos que está aprendendo o alfabeto grego. —Tens minha bênção. Além disso, assim
todos poderíamos seguir juntos como estamos e continuar com nosso trabalho. É a situação
mais conveniente. O que tem ele de errado?
Estava claro que seu pai tinha esquecido o incidente que tinha acontecido no bosque
quando ela tinha dezesseis anos.
Abaixou a cabeça e não se incomodou em recordar-lhe, pois não queria falar disso.
—Connor sente carinho por ti, Eden. É indiscutível. Ele tem mostrado isso centenas de
vezes. É um espécime magnífico e robusto, não? É valente e capaz, como devem ser os machos
das espécies. Tem uma descendência forte e robusta, bom instinto e uma mente aguda — disse
seu pai, contando com os dedos as múltiplas virtudes de seu protegido enquanto Éden voltava a
levantar a cabeça, cruzava os braços e lançava ao seu pai um olhar silenciador. —É claro, não há

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nenhum pároco na área, mas o que importa uma folha de papel em um lugar como este?
Poderia te casar o xamã do povoado... ou poderias desposar como os escoceses. Não te
preocupes querida. Todas as criaturas procuram um companheiro ao chegar à idade reprodutiva.
—Mas, papai! — exclamou ela, envergonhada até o insuportável por seu rude discurso
de cientista. —Não tens um pingo de romantismo no coração? A propagação das espécies se
pode aplicar a uma rã, a um macaco ou a um peixe, mas, papai, eu sou uma jovem inteligente e
formosa... bom, razoavelmente atraente. Quero rosas e poemas antes de deixar para trás os
melhores anos de minha vida, e caixas de doces, e passeios pelo parque! É pedir muito? Quero
que me façam a corte os solteiros da cidade vestidos com roupa de Savile Row! Quero ter um
noivado, pai, e pretendentes... inclusive um bastará. Pode ser que eu seja capaz de recitar todas
as espécies da família das Arecaceae, mas isso só demonstra a classe de bicho estranho em que
me converti!
—Bom, Connor também o é! Fazem um casal perfeito.
—Queres fazer o favor de falar a sério? — ela voltou a sentar-se lançando um bufo. —
Não funcionará, papai. Eu quero voltar a formar parte do mundo algum dia, e a Connor atrai a
civilização ainda menos que a ti. Para ele, visitar seus amigos da sociedade de Kingston é uma
tortura. Não fala com ninguém. Fica calado em um canto e nem sequer tenta integrar-se.
—Bom, Eden, ele é tímido.
—Eu sei. E me dá pena... mas não quero me casar com alguém só porque me dá pena
— sussurrou ela, de forma que Connor, que tinha um ouvido muito sagaz, não pudesse ouvi-la
nem sentir-se ofendido.
—Como queiras — concluiu seu pai lançando um suspiro. —Mas temo que de
qualquer forma não se possa fazer nada. Agora que ficamos sem subvenção, não podemos nos
permitir a passagem. A viagem é muito cara.
—Não poderias comprá-la a crédito?
—E me endividar por algo que nem sequer desejo? Converter-me-ia em alguém tão
esbanjador como lorde Pembrooke!
—Podemos devolver o dinheiro quando tiver ocupado seu posto na universidade.
—Não! Não vou aceitar o posto, Eden. Jamais. Ele se levantou subitamente, voltou à
cabeça e evitou o olhar dela, que o observava com assombro. —Pensei muito — disse
bruscamente. —Deveria ter te dito isso antes: não vou poder cumprir a promessa que me
arrancou o ano passado. Não vamos voltar para a Inglaterra, e no que diz respeito à Londres,
antes preferiria ir ao inferno.
—O que? — disse ela com voz entrecortada, ao mesmo tempo em que empalidecia.
—Sinto quebrar o juramento que te fiz, filha, mas é a única coisa que resta, e nem
louco voltaria a expô-la à mesquinha e asquerosa cidade que matou a sua mãe — concluiu seu
pai, com uma veemência tão cheia de amargura que deixou Eden aniquilada ante sua
surpreendente revelação.
O doutor Farraday arrojou sua pena com cansaço; seu aspecto era ligeiramente
macilento à luz do lampião.
Enquanto a cabeça lhe dava voltas de incredulidade, Eden disse a si mesma que seu

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pai não falava a sério. Ainda estava destroçado pela morte de sua mãe. Os olhos lhe encheram
de lágrimas ao perceber a dor que ainda o atormentava e que tinha determinado aquele
estranho rumo nas vidas de ambos. Ela levantou-se, aproximou-se dele e apoiou a cabeça em
seu ombro.
—Papai — sussurrou — não foi culpa sua. Não podias salvá-la.
—Eu era seu marido e seu médico, Edie. A quem se não eu vou culpar? A Deus? —
parecia mais tranquilo. Abatido. Pôs a mão em cima da qual ela tinha pousado em seu ombro,
mas não a olhou. —Não te preocupes, menina. Logo me passará.
"Não, não te passará". Estava assim há doze anos. Abraçou-lhe a cintura durante um
longo tempo com grande pesar.
—Papai, não podemos ficar aqui para sempre.
Ele não disse nada.
—Sei que só estás tentando me proteger, mas seriamente acreditas que mamãe teria
desejado isto... para qualquer um dos dois?
—Se por acaso te esqueceste, tua mãe é o motivo pelo qual estamos aqui. Ele respirou
fundo para acalmar-se. —Qualquer cura que encontremos está dedicada a sua memória...
—Deixe de te castigar — sussurrou ela, lhe rodeando os ombros. —Ela não teria
querido que ele se isolasse do mundo desta forma. Não se incomodou em dizer que também
estava isolando a ela. Apoiou a cabeça no flanco dele; sentia-se incapaz de aliviar sua dor. —Sei
que tratas de lhe render homenagem com seu trabalho, mas se pedires minha opinião, o que ela
teria querido seriamente... são netos.
Um segundo depois de havê-lo feito se deu conta de que não deveria ter dito. Seu pai
ficou tenso, moveu a cabeça com gesto de desgosto e se limitou a fechar-se em si mesmo
quando a emoção ameaçou apoderar-se de sua mente lógica.
Ele afastou-se dela, deu-lhe as costas e ficou a olhar por seu microscópio. Como tinha
feito durante anos, dentro da circunferência ordenada daquele mundo diminuto podia se evadir
da dor e da terrível sensação de perda.
—A expedição ao Amazonas continua adiante — disse em tom monocórdio. —Sinto
que sejas desventurada, mas todos temos que fazer sacrifícios, e os desejos de um indivíduo não
têm importância comparados com o bem comum. Me acompanharás como sempre tens feito;
sou teu pai, e essa é minha resposta. E agora, com tua permissão, tenho trabalho a fazer.
Sua postura irada deixava claro que a estava rechaçando. Eden observou seu tenso
perfil, desconcertada. Não sabia que mais dizer nem o que fazer. Não havia forma de fazê-lo
entrar em razão quando caia naquele estado de ânimo sombrio e distante. Qualquer conversa
significativa a respeito de sua mãe agia sempre como catalisador de seu frio retraimento,
sobretudo ao tratar o futuro que ele e sua mulher nunca desfrutariam.
Eden conteve as lágrimas piscando, voltou-se sem dizer nada mais e retornou aturdida
à palafita.
Connor a olhou em silêncio quando entrou. Estava apoiado no poste de onde tinha
tirado a serpente morta. Eden lançou um olhar em direção a ele, mas foi incapaz de deter-se em
seus olhos penetrantes; perguntou-se se teria ouvido a humilhante proposta de matrimônio

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feita por seu pai.
O australiano cruzou seus musculosos braços diante do peito enquanto a observava
com um olhar paciente e sombrio de caçador.
Ela meneou a cabeça com gesto de desgosto e passou diante dele.
—Ele está louco. Vai se matar e vai nos matar em sua cruzada para salvar à
humanidade. O Amazonas!
Mas, naturalmente, Connor já estava a par dos planos de seu pai. Pelo que ela sabia,
inclusive podia ter sido ideia dele.
—Seja o que for o que disse teu pai, saiba que ele jamais quereria te fazer mal.
—Eu sei.
Eden se sentiu apanhada e se dirigiu ao corrimão, onde ficou olhando o rio negro
durante um longo momento.
Ouviu como os pesados passos de Connor se aproximavam por trás. O australiano se
apoiou junto a ela no corrimão. Eden viu pela extremidade do olho que a estava olhando
fixamente.
—Tudo ficará bem, Eden. Não vou permitir que aconteça nada a nenhum dos dois.
—Quero ir para casa.
—Esta é tua casa.
—Não, Connor, não é. Este é seu lugar não o meu! — exclamou ela raivosamente, ao
mesmo tempo em que se voltava para ele.
O rosto largo e firme dele se escureceu. Tinha entendido o que ela estava tentando lhe
dizer? Connor baixou a vista, voltou à cabeça com indignação e partiu rapidamente com passo
irado para deixá-la sozinha. Eden fechou os olhos um instante e soltou um comedido suspiro.
Quando voltou a abri-los, percorreu com um olhar de desespero o curso negro do Orenoco, que
cobria numerosos quilômetros até desembocar no mar. Aquele rio grande e mortal. Era a única
forma de entrar naquela selva impenetrável. E a única forma de sair.

Alto, forte e vestido todo de negro, lorde Jack Knight acendeu o charuto com a tocha
que segurava na mão; depois, inclinou-se com um movimento relaxado e acendeu o pavio do
canhão.
"Um... dois... três".
—Bum — murmurou, balançando o charuto em seus lábios de expressão séria
enquanto o estrondo do grande canhão retumbava do outro lado do vale. A bala saiu uivando
pelo canhão e atravessou a noite como um cometa, enquanto seu reflexo aceso brilhava através
da superfície negra e cristalina do Orenoco.
Desceu do céu escuro como um raio e se estrelou contra a gigantesca rocha que se
sobressaía no meio do rio, a famosa Pedra del medio3, utilizada como marcador para registrar a
3
Quem se interessar, pode ver a Piedra del Médio aqui: http://www.panoramio.com/photo/2457582

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profundidade das enchentes das estações: um objetivo útil.
"Justo no alvo".
No terraço cheio de flores situado atrás dele, o público crioulo4 prorrompeu em
aplausos; aclamavam o canhão com o mesmo entusiasmo que mostravam em todas as facetas
da vida.
—Bravo capitão!
—Bem feito!
Jack lhes ignorou.
Os cidadãos mais destacados de Angostura tinham construído suas elegantes casas de
campo de estuque ao longo de uma encosta bem situada que dava ao rio; deste modo, da casa
de Montoya os líderes crioulos da revolução podiam apreciar a precisão e a potência das armas
que ele lhes tinha conseguido.
—Entregou-nos uma maravilhosa peça de artilharia, lorde Jack!
—Ajudará vocês a expulsar aos espanhóis se eles se aproximarem pelo rio —
murmurou ele. —E estes, também. Fez um sinal ao seu ajudante estalando os dedos e apontou
para as várias dúzias de caixas de excelentes fuzis Baker que também tinha levado para eles.
Era uma lástima que Bolívar não se achasse presente, mas o líder rebelde estava
tentando converter seu lastimoso bando de camponeses mestiços e granjeiros analfabetos em
um exército.
"Que Deus lhes ajude", pensou Jack, pois naquele preciso instante quinze mil soldados
reais aguardavam em seus navios a ordem de ataque.
O rei Fernando VII da Espanha, o boneco Bourbon dos Habsburgo, um indivíduo
desagradável em todos os aspectos segundo a maioria das pessoas, que acabava de retornar ao
trono depois que Wellington e seus homens derrotaram Napoleão, tinha decidido fazer alarde
de seu poder meio esquecido e tinha enviado o maior exército da história através do Atlântico
para frustrar as esperanças de liberdade dos colonos.
Jack tinha seus motivos para participar da causa. Era mais cínico que idealista, mas
nunca tinha podido suportar valentões, e saltava à vista que se alguém não ajudasse aqueles
pobres homens, ia se produzir uma carnificina.
—Aqui tem senhor. Seu fiel tenente, Christopher Trahern, entregou-lhe um dos fuzis
de precisão carregado.
Jack colocou a arma ao ombro e apontou a um dos desagradáveis vampiros que
batiam as asas do outro lado do rio, lançando-se em vôo em ziguezague...
—Quanto alcance tem esse troço? — perguntou dom Eduardo Montoya, o
proprietário da casa e um dos máximos financistas dos rebeldes.
—Cento e oitenta metros. É tão preciso como o atirador.
Bam!
O estalo seco do fuzil ressoou pela ladeira do povoado quando matou com um tiro o
4
Descendente de pais europeus, nascido na América Hispânica ou de algum país hispano-americano ou
relativo a ele.

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morcego chupa sangue no céu noturno. Satisfeito, devolveu a arma a Trahern.
—Volte a carregá-lo para o senhor Montoya.
—Sim, capitão.
No porto situado ao pé da colina, seus homens ainda estavam descarregando artigos
da embarcação fluvial na qual Jack tinha chegado há menos de uma hora. Apesar de
acostumados como estavam com a proximidade do fogo, inclusive sua leal tripulação parecia um
tanto nervosa com todos aqueles impetuosos revolucionários disparando suas novas armas
britânicas.
—Me deixe provar um desses! — exclamou Carlos, o filho de vinte anos de Montoya.
O jovem e atraente fidalgo se afastou do trio de jovens belezas que tinham estado
adulando-o e se aproximou resolutamente à balaustrada de pedra que rodeava o agradável
terraço lajeado.
Jack lançou um olhar irônico de avaliação ao rapaz, depois de ter catalogado o
Casanova de incorrigível sedutor de criadas. Claro que tampouco podia culpar ao garoto.
"Diabos — pensou, lançando um olhar sub-reptício em direção às jovens belezas. Mulheres sul-
americanas". Até as criadas pareciam Helena de Tróia.
Jack se fixou em uma delas, que o olhava com um interesse cheio de receio. Uma
criatura deliciosa, com a pele de caramelo e um véu de cabelo castanho liso que lhe caía até a
cintura.
Quando seu olhar posou nela, os olhos escuros da jovem se abriram muito.
Desconcertada, baixou a vista e fugiu para desaparecer de novo na casa, conforme parecia com
o propósito de retornar as suas obrigações.
Jack lançou um suspiro tênue, franziu os lábios e afastou a vista. Enfim. "Assustei
outra".
Sua má reputação devia tê-lo precedido, como sempre.
Carlos pegou o fuzil das mãos destras de Trahern e o levou ao ombro para prová-lo.
—Ah, vou matar cem espanhóis com esta preciosidade!
Jack resmungou e pôs as mãos na cintura, rodeada por uma pistoleira, enquanto o
rapaz apontava.
—Procures que não te matem.
Carlos apertou o gatilho e deu no alvo.
—Ora!
Lançou o fuzil a Jack com um sorriso de presunção e voltou tranquilamente para seu
harém para ser admirado.
Jack olhou atentamente ao jovem com uma diversão sardônica enquanto afastava a
arma; ele também se achava invencível na sua idade.
—Um conselho — recomendou a dom Eduardo. —Não deixe que seu filho vá ao
campo de batalha. É muito novato e está muito obcecado com a glória.
—É fácil de dizer, meu amigo. Dom Eduardo lhe deu um tapinha no ombro com um

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risinho cordial. —Entre para tomar um gole.
Entraram sem pressa na luxuosa casa de campo, cujas janelas que davam ao terraço
iam do chão até o teto. A brisa noturna balançava as cortinas transparentes e refrescava o
majestoso salão. A julgar pelos elegantes móveis e quadros com molduras douradas, a casa
poderia ter estado perfeitamente em Londres, Paris ou Madrid, mas se achavam a muitos
quilômetros da civilização. A capital, Caracas, a uns trezentos quilômetros de distância, era a
cidade mais próxima, mas por estar situada na costa, tinha caído em poder do império espanhol.
Entretanto, os rebeldes controlavam o interior e tinham convertido o caloroso povoado de
Angostura em sua fortaleza.
Aquele povo recordava a Jack vagamente Nova Orleans: outro lugar no qual procurou
mais problemas do que deveria. Além de suas colinas baixas, suas abundantes florestas e seus
frondosos carvalhos cobertos de musgo, estendiam-se quilômetros intermináveis de planícies
até que, finalmente, o enorme Orenoco, a principal via fluvial da Venezuela, penetrava na selva
sombria antes de desembocar no mar.
—Quanto demorará a chegar à Inglaterra, lorde Jack?
—Entre quatro e seis semanas, dependendo dos ventos.
—Lhe alegrará saber que Bolívar pensa lhe oferecer quatro mil hectares de férteis
terras de pasto como mostra de agradecimento quando ganharmos a guerra.
Montoya lhe lançou um olhar perspicaz enquanto observava a etiqueta de uma
garrafa de porto à luz dos tremulantes candelabros de estanho.
Jack o olhou fixamente.
—Não é necessário.
—Agradecemos muito a ajuda que prometeu a nossa causa, milorde. Veja você
mesmo.
Quando terminou de servir o porto, Montoya tirou um mapa, desdobrou-o sobre a
mesa e se inclinou para inspecioná-lo depois de indicar com a cabeça a assinatura de Bolívar.
—O Libertador marcou os limites de seus terrenos aqui. Desejamos que o aceite...
como um presente.
—Me deixe ver.
Jack entreabriu os olhos. Percorreu com a folha de sua adaga os contornos da terra
que lhe iriam entregar a pedido de seu líder, mas seus lábios se torceram em um sorriso cínico.
"Um suborno".
Ora, não confiavam nele. Sentia-se um pouco ofendido, mas não de todo surpreso.
Baixou as pestanas enquanto olhava o mapa, mas não deu importância ao insulto. Não
necessitava do dinheiro deles nem de suas terras, mas se isso os tranquilizava, podia fingir que
mordia o anzol. Além de tudo, Black-Jack Knight tampouco fazia nada por amor à arte.
Além disso, se aquele temerário plano desse resultado podia obter enormes
benefícios incorporando o continente ao comércio.
Durante séculos, Espanha tinha exercido um domínio absoluto sobre a América do Sul;
tinha controlado suas férteis colônias com monopólios couraçados.

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Se Bolívar conseguisse libertar a América do Sul de suas correntes, os riscos que Jack
estava correndo ao ir ajudar dos rebeldes garantiriam a presença das Empresas Knight entre as
primeiras companhias estrangeiras que realizassem entendimentos comerciais favoráveis com as
nações recém-independentes.
Por desgraça, os colonos não tinham a menor possibilidade de ganhar aquela batalha
a menos que recebessem reforços... e logo.
Os rebeldes tinham muita prata. O que lhes faltavam eram homens. Entretanto, Jack,
que tinha sua base na vizinha Jamaica, sabia exatamente onde achar aquela mercadoria em
abundantes quantidades; ou seja, os heróis de Waterloo.
Depois de retornar em manada a Inglaterra após ganhar a guerra contra Napoleão,
milhares de soldados britânicos chegaram em casa e descobriram que não havia trabalho para
eles, nem forma de dar de comer a suas famílias. Por toda a Inglaterra, Escócia e Irlanda, havia
um excedente de guerreiros destros e curtidos na batalha, muitos dos quais estariam dispostos a
lutar como mercenários na América do Sul, sobretudo tendo em conta que a causa de Bolívar se
podia considerar nobre, se a algum homem importasse tais assuntos.
Só havia um pequeno problema. O Parlamento acabava de promulgar um decreto que
proibia aos soldados ingleses participarem de guerra. Logicamente, se os ingleses combatiam
junto aos venezuelanos para despojar a Espanha de suas colônias, provocariam um grande
estupor em Madrid.
Depois de conseguir tirar a nação de uma guerra contra a França, que tinha se dilatado
ao longo de vinte anos, o que menos desejava o Ministério dos Assuntos Exteriores eram novos
problemas com os vizinhos europeus: desta vez, com a Espanha.
Mas se Jack sabia de algo a respeito dos soldados — e assim era, pois entre seus
irmãos havia um autêntico herói de guerra — era que estavam acostumados a serem homens
práticos. A lealdade ao rei e ao país chegava até certo ponto; podia cortar os braços e as pernas
de um soldado e voar pelos ares aos seus amigos íntimos, mas era melhor que não te ocorresse
se colocar contra sua família.
Nenhum guerreiro com um mínimo de dignidade que tivesse ajudado a derrotar a
Grande Armée5 ia cruzar os braços e deixar que seus filhos morressem de fome quando podia
agarrar seu mosquete e sua espada e ganhar um magnífico salário na América do Sul.
A única coisa necessária era alguém com os contatos adequados em todas as partes, a
coragem e a discrição para recrutar os tais mercenários sem chamar a atenção do governo
britânico, os navios com os quais transportar aos homens e a capacidade para introduzir a vários
milhares de soldados burlando o bloqueio espanhol.
Aí era onde entrava em jogo Jack, mas ninguém devia inteirar-se de seu interesse.
Levantou a vista do mapa, assentiu com a cabeça ante a oferta e bebeu um bom gole
de Porto.
O rosto de Montoya relaxou com alívio.

5
Em português, «o Grande Exército» foi o nome dado ao exército imperial de Napoleão I, entre 1805 e 1807;
entre 1811 e 1814, e, finalmente, em 1815, durante a guerra dos Cem Dias – fase final da era napoleônica, que
se inicia com o retorno de Napoleão do seu exílio, na ilha de Elba, e termina com sua derrota na batalha de
Waterloo.

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—Trato feito, então? Nos trará os homens?
Ele soltou uma gargalhada de mercenário apropriada para a ocasião.
—Homens? — deu uma palmada no ombro de Montoya com um brilho de lobo nos
olhos. —Diga a Bolívar que lhe trarei demônios.
Um momento mais tarde, Jack atravessava o escuro quarto de convidados que lhe
tinham destinado para passar a noite, enquanto desabotoava a pistoleira com cansaço e jogava
a um lado o cinturão com sua adaga.
Ele tirou a jaqueta negra e a deixou sobre a grande cama; depois, saiu ao balcão
sentindo-se inquieto.
Apoiou as mãos no corrimão de ferro forjado negro e contemplou o rio, procurando
não pensar em tudo o que se arriscava a perder se as coisas saíssem erradas. Sua liberdade. Sua
empresa. Possivelmente a pele. Entretanto, nenhuma daquelas coisas lhe preocupava tanto
como a ideia de ter que voltar a enfrentar o mundo que tinha abandonado tanto tempo atrás.
Um mundo que não o desejava.
Deixou vagar sua mente mais à frente da sombria paisagem, longe, em direção ao seu
destino do outro lado do mar… para os campos verdes e ondulados de sua Inglaterra natal.
Todos os músculos de seu corpo se retesaram. Deixou escapar um tênue suspiro para
acalmar-se. Custava acreditar que dentro de algumas semanas iria pisar outra vez em chão
inglês. Só a ameaça da carnificina que podia produzir-se praticamente atrás de sua casa podia
havê-lo impulsionado a retornar.
Sabia que teria que voltar a ver seus irmãos, e naturalmente, não deveria esquecer-se
de Maura.
Seu rosto se endureceu. Talvez quando voltasse a vê-la depois de todos aqueles anos,
pudesse lhe perguntar se tinha valido a pena casar-se com um marquês.
Jack se afastou do corrimão, entrou de novo na desconhecida habitação, tirou o colete
e o lançou a um lado, junto com seus pensamentos agitados. "Que calor do demônio". Como ia
dormir nessas circunstâncias? As frescas brisas marinhas da elegante casa de campo de estuque
branco que tinha na Jamaica o tinham acostumado mal.
Seu lar principal se achava no alto de uma colina com vistas ao mar. Estava a pouca
distância de Port Royal, onde se achava a sede de sua companhia, as Empresas Knight. Aquele
era o lar que construíra para si mesmo, embora uma parte dele ainda não estivesse convencida
de que pertencesse a algum lugar da terra.
Enquanto tirava a camisa folgada de linho pela cabeça, um tímido golpe soou na porta.
—Sim?
Jack aguardou. Provavelmente Trahern queria voltar a lhe recordar o carregamento de
madeira nobre tropical que iriam recolher pela manhã antes de partir — concretamente, ia
vender a rara madeira de cebrano por um preço muito elevado nos mercados de Londres — mas
quando a porta do quarto abriu, arqueou as sobrancelhas.
A formosa senhorita do terraço apareceu com um cântaro de água em uma mão e um
montão de toalhas recém-dobradas na outra.
—Trago-lhe estas coisas, senhor — disse com um ligeiro acento muito doce.
21
O sangue de Jack acendeu. Um sorriso se desenhou em seu rosto.
—Entre, linda.
Olhou-a avidamente, assombrado de novo por aquelas deusas locais.
Em atitude pensativa, observou como ela levava os artigos ao lavatório de mogno e
lhe dedicava um sorriso tímido, mas sensual.
Entre quatro e seis semanas no mar… sem nenhuma mulher que lhe esquentasse a
cama.
Jack colocou a mão no bolso de sua jaqueta em busca de umas moedas de ouro,
disposto a compensá-la generosamente.
Ela devia ter notado que estava sendo observada, pois lhe lançou um olhar por cima
do ombro, baixou a vista com curiosidade ao seu peito nu e percorreu seus grossos músculos,
seu contorno endurecido pelo trabalho e as diversas cicatrizes de seu corpo.
Ele levantou o queixo e se ofereceu para o desfrute da jovem sem pronunciar uma
palavra. A garota engoliu em seco, visivelmente interessada, mas possivelmente também
intimidada por seu tamanho e constituição de valentão que tinha herdado de seu autêntico pai,
um boxeador profissional; ela devia estar mais acostumada ao corpo enxuto e forte daquele
moço excessivamente ansioso.
—Não mordo — sussurrou ele com um sorriso intrigante.
Mas talvez ela gostou do que viu, já que quando Jack lhe fez um sinal com o dedo
lentamente para que se aproximasse, a jovem se aproximou com passos cautelosos.
—Deseja... algo mais, milorde? — perguntou com a voz um tanto entrecortada.
Ele assentiu com a cabeça, olhando-a fixamente, e lhe pôs o dinheiro na mão. A garota
tremeu, mas não protestou absolutamente quando ele começou a lhe desatar a blusa com
delicadeza.

Capítulo 2

22
Na manhã seguinte, seu pai e Connor saíram cedo para visitar o povoado dos waroa
situado a vários quilômetros de distância, na esperança de achar um guia indígena disposto a
levá-los ao Amazonas.
Eden rezou para que os waroa tivessem mais bom senso que o gênio de seu pai.
Talvez o xamã, que era amigo dele, inclusive conseguisse convencê-lo para que não seguisse
adiante com seu disparatado plano, pois a maioria das tribos da área temia aos yanomami, que
controlavam a selva do Amazonas tanto como os brancos. Diziam por aí que preparavam uma
sopa com os inimigos que matavam.
Quanto mais pensava nisso, mais temia que seu pai estivesse realmente decidido a
destruir-se, talvez sem nem sequer ser consciente disso. Possivelmente sua intenção era achar a
morte, para reunir-se o antes possível com sua mãe. Esteve toda a manhã preocupada com
aquela terrível possibilidade enquanto cumpria com suas habituais tarefas: organizar o café da
manhã, dar aos criados as instruções diárias, revisar as provisões, anotar as leituras dos
instrumentos no diário (temperatura, pressão barométrica e, por último, a profundidade da
corrente do rio).
Para realizar essa última operação, seguiu a passarela de tábuas e cânhamo que unia
seu acampamento com o pequeno mole desvencilhado que tinham construído os homens.
Durante o caminho, achou consolo na brisa matutina que sussurrava graciosamente entre as
folhas das palmeiras e balançava as folhagens e os cipós que pendiam.
Inclinou a cabeça para trás e observou como as araras de cor azul, dourada e vermelha
se lançavam em vôo do alto e desciam em espiral entre o manto de folhas como foguetes
viventes. Três níveis por cima de sua cabeça, uma macaca aranha se balançava de galho em
galho com sua cria agarrada às costas. Mais abaixo, uma cutia grande e gorda escavava no chão
com as longas unhas de suas patas dianteiras, tratando de tirar uma raiz para tomar o café da
manhã e farejando na terra com um prazer de roedor. Eden a observou um momento com
diversão e logo seguiu seu caminho.
Uma grande libélula azul cruzou com ela zumbindo quando rodeava as gigantescas
raízes escoradas de um mogno nativo. Ao aproximar-se da borda do rio, deteve-se para dar uma
olhada ao entorno antes de passar ao seu precário mole privado: não tinha intenção de
converter-se no café da manhã de nenhuma criatura.
Ao achar o caminho livre, avançou até a área em que havia três pirogas atadas
balançando na preguiçosa corrente.
Realizou suas anotações olhando com os olhos semicerrados o marcador que Connor
pôs no lodo do rio a uns três metros da borda. O poste servia de instrumento de medição. "Sete
metros e meio". Naquele dia o rio estava baixo, inclusive para a estação seca.
Anotou a leitura com seu lápis no diário.
De repente, um salpico de água perto dela a sobressaiu, mas a seguir sorriu
consciente de que o visitante era um dos misteriosos golfinhos rosados que habitavam no rio.
Tratava-se de umas criaturas mágicas, invisíveis na água negra. Ela agachou-se e esquadrinhou
os turvos baixios. Seu sorriso se ampliou ao vislumbrar uma nadadeira de cor rosa coral.
Os indígenas chamavam a aquele animal de boto e achavam que era em realidade um
feiticeiro com forma de golfinho, que morava em um reino maravilhoso que existia debaixo do
rio. Quando uma moça sem marido do povoado dava a luz a um menino, os anciões

23
proclamavam que era obra de um boto que se convertera por arte de magia em um guerreiro
jovem e atraente e tinha entrado furtivamente na aldeia em busca de uma mulher. Os botos
tinham má fama por seus costumes amorosos quando se transformavam em homens.
Por sorte para a virtude de Eden, o golfinho rosado desapareceu com a mesma rapidez
com a qual tinha aparecido.
Satisfeita com suas anotações, retornou ao acampamento para acabar com suas
tarefas.

Rio acima, em Angostura, Jack recebeu a partida de madeiras nobres tropicais que lhe
entregou o madeireiro local e fiscalizou pessoalmente o laborioso processo consistente em
amarrar a barcaça carregada de árvores à ampla embarcação fluvial de fundo plano que tinha
alugado.
Quando os vinte membros da tripulação de seu navio canhoneiro ficaram preparados,
estreitou a mão a dom Eduardo no mole.
—Boa viagem, Knight.
Montoya seguiu o olhar de Jack para o balcão da habitação de convidados, onde uma
garota morena, envolvida em um lençol, despedia-se dele com a mão no corrimão de ferro
forjado.
Jack lhe lançou um beijo.
—Pode levá-la se quiser — disse seu anfitrião com discreta diversão. —Ao menos
assim não estaria ao alcance das garras de meu filho.
—Meu Deus, não. Jack lhe lançou um olhar irônico. —Uma mulher em alto mar? Não
me daria mais que dores de cabeça.
E depois de dizer aquilo, subiu de um salto à robusta embarcação, um híbrido de casco
de navio de vapor e veleiro de aspecto estranho, mas prático.
Dom Eduardo se dirigiu à borda do mole enquanto os homens de Jack soltavam as
amarras. Quando Jack deu a ordem de zarpar, dedicou-lhe uma última saudação.
Uma vez que seus homens separaram a embarcação do mole empurrando com varas e
a situaram em meio da lenta, mas poderosa corrente do rio, Jack dirigiu a vista à frente, sem
dedicar um só olhar à mulher a qual tinha seduzido por completo na noite anterior.
Aquele era o destino de um marinheiro. Naturalmente, o segredo estava em não
permanecer em nenhum lugar o suficiente para ficar amarrado. E Jack preferia que as coisas
fossem assim.
Passou a primeira hora de viagem vigiando ao piloto local que tinha contratado para
que os levasse por aquele rio desconhecido. Sabia o bastante sobre o mar para compreender
que um homem prudente trata um rio grande como o Orenoco com extremo respeito. Ele
sempre preferia aos guias locais em suas viagens, e ao ver que o capitão mestiço de tez morena
pilotava bem a nave, foi revistar a madeira; se cravou uma lasca. Finalmente, uma vez que a
viagem rio abaixo parecia prosseguir sem problemas, decidiu que podia relaxar um momento.

24
Enquanto Trahern permanecia apoiado perto dele, contemplando o largo rio banhado
de sol que se estendia ante eles, Jack ficou confortável para realizar a travessia de um dia de
duração com um exemplar do primeiro jornal oficial de Angostura, fundado recentemente por
Bolívar. Reclinou-se em uma cadeira de madeira que havia na lotada timoneira, pôs os pés no
alto, cruzou seus pés calçados com botas e mordeu um charuto apagado.
—Continuo sem entender por que não insistiu para que lhe pagassem com prata —
disse Trahern finalmente em inglês, uma língua que o piloto não entendia. —Poderia tê-la
vendido no mercado de divisas da China e ter tirado um benefício de cinquenta por cento.
—Santo Deus, relaxe. Já fizemos um bom negócio com prata em Buenos Aires. Era
prata de contrabando, é claro, mas por que procurar pêlo em ovo? A Coroa inglesa fazia vista
grossa com os florescentes negócios dos contrabandistas britânicos na América do Sul; afinal, a
Inglaterra atravessava um mau momento econômico. —Deves ter paciência se queres ficar rico
— lhe aconselhou, virando a página do jornal antes de lançá-lo a um lado bruscamente. —
Tolices. Liberdade isto, liberdade aquilo. Não é mais que a propaganda de sempre.
—Mas o encanta a propaganda, Jack — disse Trahern divertido.
—Só quando sou eu quem a utiliza. Deus santo, que calor. Abre mais a janela.
Trahern obedeceu.
—Olhe! — assinalou um grupo de pitorescos cavaleiros que avançavam como um
furacão através das planícies douradas. —Um bando de habitantes das planícies.
—Menos mal que por fim Bolívar os tem do seu lado.
—Isso é o que ele chama de uma cavalaria... — assentiu Trahern dando de ombros.
—Pelo menos sabem lutar — murmurou Jack. —Eles não fugirão. E conhecem o
território. Observou como os fortes boiadeiros das planícies conduziam seus rebanhos para os
pastos frescos.
Uma vez que a imponente boiada passou, recostou-se pensativamente em sua
cadeira.
—Acredito que vou dormir um pouco. Essa garota me deixou esgotado.
Trahern se pôs a rir.
—Pobrezinho.
Jack sorriu e puxou a aba de seu chapéu de palha para baixo para cobrir os olhos;
cruzou os braços, estirou suas longas pernas e ficou cochilando. Na noite anterior não tinha
dormido muito — embora tampouco se queixasse — mas sabia que teria que estar bem
acordado quando chegasse o momento de burlar aos espanhóis na costa e de recuperar seu
navio. O Ventos de fortuna estava escondido em uma caverna perto de Ponta Icaco, uma
península rochosa que se sobressaía para o sul da ilha de Trindade, no estreito conhecido como
Bocas da Serpente.
Tinha deixado a seu terceiro de bordo, o tenente Peabody, a cargo do navio, e a Brody,
o robusto mestre de armas, para que contribuísse com um pouco de firmeza adicional a suas
ordens. De todas as formas, a ideia de estar separado de seu querido navio enquanto a
esquadrilha espanhola se achava tão perto o punha um tanto nervoso.
Assim que o Ventos de fortuna recolhesse Jack e seus homens, junto com aquele
25
pequeno tesouro em madeira, zarpariam para cruzar o Atlântico aproveitando os ventos alísios e
retornariam às Ilhas Britânicas.

Era meio da manhã quando Eden terminou de catalogar os últimos exemplares do


herbário cada vez maior de seu pai e de assegurar e se assegurar de que todas as amostras
botânicas recém prensadas e secas não estivessem danificadas pela implacável umidade.
Finalmente, quando dispôs de tempo livre, escapou às verdes catedrais góticas das
copas das árvores.
Desde os dez anos, Eden dominava a arte de subir nas árvores utilizando um antigo
invento dos indígenas consistente em uma correia. Subiu cinco níveis por cima do chão da selva
e ficou um momento no ramo de um imponente mogno, olhando ao longe.
Nem sequer seu pai gostava de subir tão alto, mas Eden sim. Podia ver tudo daquela
altura; de algum modo, daquele ponto panorâmico, era mais fácil pensar.
As coisas pareciam mais claras, mais simples. Milhares e milhares de quilômetros se
estendiam por todos os lados ao seu redor, amplos horizontes, com a trêmula luz azulada e
brumosa do mar que a atraía mais à frente. Enquanto contemplava a nebulosa lonjura, sentia-se
inquieta, resultado do excesso de isolamento.
Ali, em seu paraíso selvagem, a solidão lhe sussurrava uma pergunta cada vez mais
urgente: "Estarei sempre sozinha?".

Quando Trahern pronunciou seu nome em um estranho tom, Jack não sabia com
segurança o tempo que tinha estado adormecido.
Ao abrir os olhos e olhar ao seu redor, teria jurado que tinham retrocedido mil anos
no tempo.
Depois de deixar para trás a savana dourada com seus céus azuis e vastos horizontes,
tinham entrado em um misterioso mundo esmeralda gotejante de luz verde e sombras da cor de
musgo.
O rio de largura quilométrica se dividiu em centenas de línguas estreitas no delta, um
complexo labirinto de canais naturais menores chamados caños6, que desembocavam todos no
mar.
Jack viu que seu piloto mestiço os estava levando por uma dessas tranquilas artérias
através da selva. A frondosa vegetação formava um túnel sobre a via fluvial e preservava o
ambiente próprio de uma estufa. O ar era denso e úmido, e não soprava nenhum pingo de brisa.
O navio deslizava no interior daquela antiga selva tropical sem que o constante gorjeio

6
É um curso de água marina que se interna em terrenos lamacentos de marismas e cuja profundidade e
aparência muda em função das marés. Pode estar comunicado diretamente com o mar ou não. No primeiro
caso, se denomina caño principal ou caño madre, e por sua vez pode estar aberto ao mar por um extremo ou por
vários.

26
dos pássaros e ruídos dos animais interrompesse a profunda quietude do lugar. Jack olhava
assombrado.
Inclusive os membros de sua escandalosa tripulação ficaram calados.
Incontáveis insetos de longas patas patinavam sobre a água, cuja superfície parecia de
cristal de cor azeitona. De repente, um rugido agressivo e rouco rompeu o silêncio do alto das
árvores. Seus homens deram um salto e olharam ao seu redor com inquietação à medida que o
rugido se convertia em uma série de gritos entrecortados.
—Que demônios foi isso, capitão? — murmurou Higgins, o vigia que estava no cesto
do traquete, ao mesmo tempo em que se benzia apressadamente.
—Um macaco uivador — murmurou Jack, recordando as descrições que tinha lido. Ele
esquadrinhou os ramos situados em cima de sua cabeça em busca do grande macaco, mas em
seu lugar viu a esplêndida penugem branca de uma águia harpia com o porte nobre de um grifo
mítico. Apontou o animal para mostrá-lo a seus homens. —Observem isso!
Uns papagaios verdes, uns tucanos com o bico laranja e umas estridentes araras se
afastaram voando do caminho da águia harpia quando esta abandonou o ramo em que tinha
estado pousada e se lançou em vôo pelo lugar espaçoso do caño; o metro oitenta de
envergadura de suas asas a transportou a uma assombrosa velocidade. Jack olhou o rio quando
a grande águia se lançou novamente para cima agitando relaxadamente suas gigantescas asas e
desapareceu entre as copas das árvores, mas então um movimento fugaz na água escura lhe
chamou a atenção.
—O que foi isso? — murmurou Trahern, esquadrinhando a via fluvial ao lado de Jack.
—Um crocodilo?
—Eu juraria que era... rosa?
Eles olharam-se consternados. Então a criatura apareceu nadando junto ao navio, e
todos os homens exclamaram assombrados ao ver que aquela coisa era um golfinho rosado.
—Um boto — disse o piloto local sabiamente, e a seguir indicou por cima do leme. —
Olhe aqui!
Na borda direita do rio havia um monstro primitivo que poderia ter descendido dos
legendários dragões que cuspiam fogo.
—Virgem Santa — disse Higgins com voz entrecortada, olhando essa enorme besta.
O crocodilo do Orenoco era maior que o navio. Jack ficou olhando o imponente animal
com assombro, mas Trahern lhe deu uma olhada e pegou o fuzil que havia mais perto.
—Não.
Jack o deteve, mas o animal também reagiu instintivamente na defensiva e, movendo-
se a tal velocidade que provocou calafrios a todos os homens, lançou-se à água silenciosamente,
sem mal emitir algum chapinhar.
Era impossível saber como algo tão grande podia desaparecer por completo, mas sua
pele curtida estava magnificamente preparada para confundir-se com o rio de cor azeitona
apagado. Os membros da tripulação olharam-se entre si; todos estavam se fazendo a mesma
pergunta.
Trahern pigarreou.
27
—Essas coisas... atacam... os navios? — perguntou ao piloto em espanhol com certo
nervosismo.
—Sim, às vezes.
—Às vezes? Entendo. Ora, é muito tranquilizador — murmurou Trahern a Jack, que
sorriu. —Deveria ter me deixado atirar nele.
Trahern se foi resmungando para examinar o outro lado do navio.
Uma vez que o tenente partiu, Jack ficou só no corrimão da proa arredondada do
navio, invadido por uma estranha sensação de assombro ante o mundo estranho e formoso, mas
temível que se desdobrava ao seu redor. A viva cor de uma flor da paixão lhe chamou a atenção
na borda, e enquanto a observava, um brilho azul apareceu como por arte de magia na borda da
flor e permaneceu ali; um delicado milagre.
Durante uns breves instantes, o colibri extraiu o doce néctar da flor; quando um
trovão rugiu ao longe, ele desapareceu. Uma ligeira brisa soprou entre as folhas grossas e
gomosas de uma palmeira como a sutil sensação de desejo que experimentava no mais
profundo de seu ser; um desejo de algo que não podia comprar todo seu ouro e que não podia
dominar todo seu poder, algo no qual tinha deixado de acreditar.
Então o vento trouxe consigo uma chuva suave e prateada; Jack inclinou a cabeça para
trás e recebeu sua carícia.

Eden sempre tinha as melhores ideias no alto das copas das árvores, e naquele dia
não foi uma exceção. Enquanto contemplava a selva, lhe tinha ocorrido um plano desesperado
para salvar seu pai de si mesmo. A solução era simples.
Pode ser que não tivessem dinheiro para que os três retornassem a Inglaterra, mas
podia ir ela sozinha e levar uma amostra dos descobrimentos mais importantes de seu pai; em
Londres poderia reunir-se com o novo lorde Pembrooke, o filho do antigo patrocinador de seu
pai, e lhe oferecer pessoalmente as maravilhosas curas que este tinha achado.
Se conseguisse convencer ao conde libertino da importância do trabalho de seu pai
para o bem da humanidade, talvez sua senhoria estimasse convenientemente restabelecer sua
subvenção. Mas inclusive no caso daquele dissoluto desconsiderado se negasse, em Londres
havia muitos filantropos ricos. Com certeza com a fama de seu pai e o peso de seu trabalho,
acharia alguém disposto a financiar sua investigação.
Dessa forma, seu pai poderia ficar ali, na relativa segurança das selvas do Orenoco, em
lugar de procurar uma morte segura no Amazonas. No que dizia respeito a ela, poderia ficar com
sua tia Cecily e sua prima Amélia quando chegasse à Inglaterra, de modo que não deveria
preocupar-se com lhe buscar acompanhante. Em suma, parecia-lhe a solução perfeita: todos
sairiam ganhando.
Naturalmente, conhecendo seu pai, com certeza criticaria seu plano; mesmo assim, só
a possibilidade de consegui-lo lhe levantava o ânimo. No momento, não havia nada a fazer salvo
esperar que ele voltasse para lhe perguntar sua opinião sobre o plano. Satisfeita com sua
ocorrência, desceu a um ramo inferior e se pôs a trabalhar nas orquídeas.

28
Depois de arregaçar um pouco o vestido de algodão que lhe chegava até a tíbia,
colocou-se escarranchada sobre um grosso ramo musgoso que formava um arco sobre o rio;
começou a balançar distraidamente seus pés, calçados com botas, à medida que se concentrava
em seus estudos científicos.
Apesar de estar ansiosa para voltar para a civilização, era bastante sincera para
reconhecer que sua vida no delta não se podia qualificar de desagradável. Aqueles dias estavam
cheios de satisfações. Apesar de tudo, a paz que sempre sentia no alto das copas das árvores
não demorou a apoderar-se dela.
Ao cabo de uma hora, não só tinha realizado um descobrimento que ia deixar atônito
a seu pai, mas também tinha feito um amigo sob a forma de um pequeno bonito macaco prego
que se interessou por ela. Observava-a sem perder detalhe, aninhado na curva do ramo justo
em cima dela.
O macaco-prego devia seu nome à similitude da cor de sua pelagem com os hábitos
marrons da ordem dos monges que tinham ido ao Novo Mundo na qualidade de missionários
com os conquistadores. O diabrete tinha a cara branca, uns grandes olhos redondos, o corpo
marrom com um gorro negro e as mangas negras.
—Note isto — murmurou Eden dirigindo-se a ele. —Não é... extraordinário?
Ela pôs suas grossas luvas de pele de jardinagem, pegou a pequena faca com mais
força e cortou com cuidado o tapete de musgo que lhe tinha servido de leito no grosso galho da
árvore, enquanto examinava as gavinhas7 que se nutriam do ar e a ajudavam a segurar-se.
Enquanto isso, as sementes das folhas superiores desciam dando voltas diante dela e
caíam para o chão como confete natural.
Prosseguiu com seu exame do pequeno mundo que vivia no ramo e reparou nos
arranhões que tinham deixado na casca os pássaros em busca de insetos; depois, descobriu uma
cria de rã arbórea com os olhos saltados flutuando no cálice cheio de água de chuva de uma
bromélia.
Embora fosse diminuta, não se atreveu a tocá-la, pois a maioria de rãs da selva era
extremamente venenosa. As secreções de sua pele proporcionavam aos indígenas um
ingrediente chave da letal resina com a qual impregnavam as pontas dos dardos de suas
zarabatanas.
Voltou a concentrar sua atenção nas últimas espécies de orquídea que tinha achado:
um esplêndido maciço de flores vermelhas e brancas que cresciam com grande facilidade no
ramo cada vez mais fino, quase em cima do centro do rio. Depois de avançar muito lentamente e
balançar-se com intensa concentração, conseguiu tomar algumas amostras para examiná-las
mais atentamente e desfrutou de sua magnífica fragrância. Aspirou ao delicioso aroma de
baunilha da flor, acentuado de forma exuberante pelo nutritivo pé d’água diário que regava a
selva naquele momento.
A chuva a tinha estado empapando durante um momento, mas Eden desfrutava da
sensação. Depois de ter pegado as orquídeas, anotou onde as tinha encontrado, fazendo todo o
possível para proteger o papel da chuva; de repente, seu amigo macaco voltou à cabeça e ficou
7
Gavinha é um órgão preênsil presente nas lianas ou cipós. São estruturas filiformes, simples ou bifurcadas na
extremidade, com a função de agarrar ramos, galhos, folhas, ou qualquer outro objeto que sirva de apoio para
a planta em crescimento.

29
imóvel enquanto olhava rio acima por um instante.
De repente, o macaco prego soltou um chiado de advertência e fugiu subindo pelas
frondosas torres. Eden ficou paralisada, enquanto esquadrinhava os ramos ao seu redor e rezava
para não achar-se com um jaguar que despertara cedo.
Com o coração palpitante e cheio de medo, permaneceu atenta se por acaso ouvia
algum ruído por cima do repicar suave e constante da chuva nas folhas; observou as copas ao
redor, totalmente consciente de que a pelagem com manchas do animal era quase impossível de
distinguir até que fosse muito tarde.
Estava tentando decidir se era melhor ser devorada no ramo, ou atirar-se ao rio,
quando de repente ouviu vozes.
Vozes de muitos... homens.
E falavam em inglês!
Ao voltar-se para observar na direção que tinha fugido o macaco-prego, contemplou
uma imagem muito assombrosa.
"Gente!"
Um navio fluvial baixo e largo que puxava uma barcaça carregada de madeira aparecia
lentamente pela curva do rio.
"O que estão fazendo aqui? — perguntou-se, enquanto olhava cheia de emoção.
Esqueça-se disso!" Aquela podia ser a oportunidade pela qual tinha estado rezando.
À medida que o navio se aproximava trazido pela corrente, observou uns homens de
aspecto rude situados na amurada e ajeitados sob o toldo de lona da coberta.
O certo era que não parecia um grupo muito prometedor, pois se assemelhavam a
muitos piratas. Muitos dos homens não levavam camisas devido ao calor e a sua pele, morena e
robusta, estava cheia de tatuagens. Entretanto, sua esperança aumentou ao fixar-se em um
homem loiro que se dirigia resolutamente à proa.
Diferente dos outros, estava totalmente vestido, embora talvez um pouco debilitado
pelo calor úmido da selva. Parecia resistente a deixar-se desanimar pelo clima. Com sua gravata
de cavalheiro em perfeito estado, as mangas de sua camisa confeccionadas com esmero e
decoro, e suas altas botas negras, parecia um jovem oficial orgulhoso e muito correto.
Seu coração se acelerou. Santo céu, era a criatura mais charmosa que tinha visto em
muito tempo, até que seguiu os movimentos do estranho e seu olhar se posou no esplêndido
homem moreno com o qual o jovem se juntou na amurada.
Uma sensação de indescritível assombro – ou fascinação – se apoderou dela ao olhar
ao régio líder do grupo. Tinha estudado os animais o suficiente para distinguir imediatamente ao
macho dominante, e não havia a menor dúvida de que se tratava dele.
Tinha aspecto de rondar os quarenta e, santo Deus, era muito grande. Inclusive
superava um par de centímetros a Connor, e superava em vários quilos de puro músculo ao seu
pai. Surpreendentemente, o estranho parecia achar-se como em casa naquele entorno
selvagem. Levava um lenço vermelho amarrado ao redor do pescoço ao estilo espanhol; usava
uma camisa branca folgada e aparentemente se desprendera da jaqueta e do colete devido ao
calor. Tinha a camisa aberta em forma de V até a altura do esterno, com o que deixava à vista

30
seu peito musculoso e reluzente.
O fino linho branco se tornou transparente com a chuva, e tinha a camisa grudada aos
seus enormes ombros. Além disso, usava umas calças pardas colocadas por dentro de suas
lustrosas botas negras.
De repente, Eden se deu conta de algo.
"Eu sei quem é esse homem".
Lorde Jack Knight, o misterioso comerciante e aventureiro que se converteu em um
magnata naval: um dos homens mais temidos e poderosos das Índias Ocidentais.
Alguns o chamavam Black-Jack Knight.
Na alta sociedade de Kingston circulavam montões de histórias sobre o enigmático
aventureiro, mas apesar de sua reputação de homem malvado, a imprensa local se queixava de
que era muito solitário e quase nunca se deixava ver em suas elegantes reuniões. Era o segundo
filho de um duque, segundo os rumores, mas tinha dado as costas a sua Inglaterra natal há anos
para abrir-se caminho na vida. Todos diziam que tinha triunfado muito bem.
Dizia-se que era dono de uma grande parte da Jamaica, que tinha uma frota de
dezoito embarcações e que possuía armazéns em todos os continentes. Nenhuma região do
globo ficava fora de seu alcance: peles das terras remotas do norte do Canadá, sedas e
especiarias do Oriente, canas-de-açúcar da Zona Intertropical, e novas e assombrosas máquinas
industriais do norte da Inglaterra. Sua companhia, as Empresas Knight, tinha sua sede em Port
Royal, mas Éden tinha ouvido que ele vivia fora da cidade, em uma elegante casa de campo de
estuque branco situada em um penhasco à borda do mar. A residência tinha mais de cem
aposentos, mas ele vivia ali só, excetuando a seus criados.
Havia quem afirmasse que tinha negócios ilícitos contrabandistas que lotavam Buenos
Aires. Outros diziam que tinha ajudado aos americanos durante a guerra de 1812, o que o teria
convertido em um traidor se fosse certo, já que era britânico de nascimento. Circulavam
histórias ainda mais sinistras, rumores de que tinha sido pirata em seu sombrio passado, mas
pelo que Eden sabia ninguém tinha ousado enfrentá-lo para averiguar se tudo aquilo era
verdade ou só lenda.
"Bom, que diabos — pensou ela engolindo em seco, embora seu olhar se
intensificasse. Dá-me no mesmo se for o próprio Barba Negra desde que me tire daqui".
Vendo a forma como se desenvolvia, não custava acreditar que um homem assim
pudesse extrair sua fortuna do mar rebelde.
Cada contorno de seu imponente físico desprendia poder, perigo e uma enérgica
vitalidade; mantinha a cabeça no alto com um ar de inteligente autoridade. Seu rosto quadrado
estava emoldurado por umas costeletas escuras, e seu cabelo despenteado possuía o mesmo
tom castanho escuro e quente do mogno que arrastava seu navio.
—Olhe! — gritou de repente o jovem oficial loiro. —Há... — entreabriu os olhos com
incredulidade. —Há uma dama nessa árvore!
"Ora por Deus". A tinham visto. Era muito tarde para voltar atrás.
A tripulação prorrompeu em juramentos e exclamações de assombro depois de seguir
a direção do dedo com o qual estava apontando o jovem. A imagem dela ali acima, sentada em

31
um ramo que formava um arco sobre o rio, devia ser tão inverossímil que a maioria deles parecia
achá-la hilariante.
Ela apertou o queixo e se ruborizou ligeiramente, mas se negou a deixar-se
desconcertar. Apoiou uma mão no ramo atrás dela e se reclinou distraidamente, tratando de
aparentar despreocupação.
Um marinheiro deu uma palmada na coxa enquanto ria a gargalhadas.
—Se nestes lugares crescem nas árvores, capitão, pode me deixar aqui mesmo!
Ela conteve um sorriso enquanto alguns dos homens estalavam em gargalhadas, mas
lorde Jack se dirigiu à proa com expressão de perplexidade à medida que o navio se aproximava
até situar-se a poucos metros da posição de Eden.
A garoa gotejava por sua larga testa até as espessas sobrancelhas escuras. Tinha uns
olhos fundos com grandes pálpebras e um nariz proeminente e aquilino. Uma barba de um dia
obscurecia sua dura mandíbula, aumentando sua aura de perigo. A ela pareceu que ele tinha os
lábios um pouco gretados. "E totalmente apetecíveis".
Aquele repentino pensamento a pegou completamente de surpresa.
—Que espécie de pássaro acham que é? — insistiu um de seus homens, o que
despertou mais risadas em seus companheiros.
Imediatamente, Eden ficou mais vermelha e franziu o sobrecenho, já que considerou
que seu amo carecia de maneiras ao não pôr fim a seu jogo. Antes de tudo, talvez fosse um
pirata.
Ela, por sua parte, estava começando a sentir-se um tanto ridícula, perfeitamente
consciente de que subir às árvores não era precisamente o tipo de comportamento que La Belle
Assemblée recomendava às jovens damas.
E desgraçadamente, ali estava ela, sendo observada por um homem carismático e
totalmente irresistível, possuidor de uma frota de navios que podia ser sua única forma de sair
dali; um homem cujo olhar direto e seguro fazia com que lhe acelerasse o coração, embora
aquilo, em uma pequena parte, podia-se dever ao medo.
Entretanto, enquanto lhe sustentava o olhar, incapaz de afastar a vista, assombrou-se
de seus fascinantes olhos. Em contraste com sua tez bronzeada, tinham a cor turquesa das águas
do mar do Caribe. Detectou uma faísca de diversão neles enquanto a observava detidamente,
sem conseguir ocultar de todo seu travesso assombro.
—A vê, milorde? — perguntou o jovem oficial. —Por favor, me diga que não me tornei
louco com o calor.
—Trahern — ordenou ele, em tom sereno e autoritário, sem tirar os olhos de cima
dela. —Pare o navio.

Não, certamente, o calor tropical não tinha turvado o bom juízo de seu ajudante a
menos que também tivesse nublado o de Jack, pois ele também via uma deliciosa e jovem ruiva
na árvore. Montada escarranchada no grosso galho, a garota balançava os pés com ligeiro
acanhamento justo em cima de onde o piloto tinha conseguido deter a embarcação.
32
Encontrar a qualquer tipo de mulher em um galho em cima do Orenoco a mais de
cento e cinquenta quilômetros de qualquer assentamento humano podia ter sido uma surpresa,
e que não dizer de uma espantosa beleza com os olhos esmeralda e, pelo que ele pôde apreciar,
umas proporções perfeitas.
Sua longa cabeleira caía solta; molhada pela chuva, ela a afastou do rosto para trás
enquanto ele a observava, seguindo com o olhar as mechas de cor castanha avermelhada que se
enroscavam ao redor de seus delicados ombros. Levava um leve vestido de passeio verde com
umas polainas8 com babados que apareciam por baixo antes de desaparecer dentro de umas
grossas botas marrons. Jack não podia tirar os olhos de cima dela.
Seu rosto, de um oval arredondado de forma delicada e ligeiramente salpicado de
sardas, brilhava com a chuva; tinha as maçãs do rosto altas com uma tez aveludada e um nariz
reto e perfeito.
Embora normalmente não fosse dado a resgatar raparigas nem a realizar outras boas
ações, tirou de cima o atordoamento momentâneo, mais que contente de fazer uma exceção e
interpretar o papel de herói naquele caso.
—Bom dia, senhorita — disse como saudação, disposto a lhe oferecer ajuda. —Vejo
que está em um pequeno apuro aí em cima.
—Ah, sim? — respondeu ela com receio, inclinando a cabeça. —Como é isso?
Jack franziu o cenho. Sua resposta serena o surpreendeu; esperava algo mais parecido
a um grito de socorro. Lançou um olhar aos seus homens discretamente; eles deram de ombros,
tão perplexos como ele.
Ele voltou-se para a garota uma vez mais enquanto ela tirava suas luvas de couro e
uma folha do cabelo franzindo um pouco o sobrecenho.
—Vai tudo... bem?
— Acredito que sim — disse ela com cautela, olhando-o como se fosse um inseto
estranho. —A você vai tudo bem?
—É claro. Jack estava desconcertado e começava a perguntar-se se falavam a mesma
língua. —Isso não parece muito seguro — indicou. —Necessita ajuda para descer?
—Ah! — respondeu ela com uma repentina gargalhada de surpresa. —Não, não
necessito de ajuda para descer. Mas você é muito amável — acrescentou compassivamente.
Jack ficou olhando-a, perplexo.
—Que demônios está fazendo nessa árvore?
—Estudando as epífitas.
—Epi... quê? — murmurou Higgins.
—Orquídeas — esclareceu ela.
—Essas flores parasitas que crescem nas árvores por toda parte — esclareceu Jack
com ironia enquanto cruzava os braços. Veio-lhe à cabeça uma comparação com a maioria das
mulheres que conhecia, mas a guardou para si.

8
Espécie de meia calça que cobre a perna até o joelho.

33
—As orquídeas não são parasitas! — informou-lhe a jovem dama, muito indignada.
Jack arqueou uma sobrancelha. Hum, a moça não só não tinha fugido dele assustada,
mas agora se atrevia a contradizê-lo em sua própria cara.
Evidentemente, não tinha nem ideia de quem era ele.
—Justamente o contrário — continuou ela. —E se quiser o posso demonstrar, pois
acabo de fazer um descobrimento muito assombroso.
—Seriamente? — respondeu ele, convencido de que seu descobrimento não podia ser
mais assombroso que o que tinha feito ele ao encontrá-la.
Ela assentiu com a cabeça energicamente.
—Acabo de descobrir que a simbiose entre as epífitas e estas copas gigantescas é
ainda mais profunda do que tínhamos acreditado a princípio!
Mas ao dizê-lo pareceu incomodar-se consigo mesma, como se depois de havê-lo feito
se tivesse dado conta de quão aborrecida podia considerar uma conversa científica em
determinados círculos.
Em seu foro interno, Jack se estava divertindo, e a animou ligeiramente.
—Não me diga.
—Explico? — propôs ela, e lhe iluminou o rosto.
—Parece-me que essa garota não sai muito — murmurou Trahern.
—É claro — disse Jack a modo de convite, ocultando sua diversão. Fez calar a seus
homens, que se estavam rindo entre dentes, com uma ordem brusca.
Visivelmente satisfeita com o interesse dele, a excêntrica criatura começou a
entusiasmar-se com o tema de conversa.
—Oh, é apaixonante! Verá, estas orquídeas floresceram neste galho de árvore durante
muitas gerações. Elas viveram, morreram e depois se decompuseram aqui mesmo, neste galho
grosso, até que ao final, ao longo de vários anos, criaram sua própria camada de terra e de
húmus. Naturalmente, não necessitam de terra para crescer; longe de serem parasitas, têm
raízes especiais que lhes permitem absorver a água do ar, como esta chuva.
Ela estendeu sua mão para agarrar umas gotas de chuva enquanto erguia a vista para
a copa da árvore.
Quando ela inclinou a cabeça para trás, o olhar dele se posou no lenço branco
molhado que a jovem tinha posto no decote de seu vestido, um objeto junto à recatada fenda
de seu peito.
—É isso... certo? — murmurou ele fracamente, invadido por um repentino
arrebatamento de desejo.
—Totalmente. Pegue! — quando ela se inclinou para lhe lançar uma flor arroxeada,
Jack esteve a ponto de ter um ataque, convencido de que ela ia cair da árvore diretamente na
boca de um crocodilo. Mas ela não se preocupava sua própria segurança. —Hoje descobri que
estas pequenas orquídeas recompensam à árvore que as abriga de uma forma absolutamente
maravilhosa.

34
—Como? — perguntou ele, atraído contrariado pelo pequeno mistério da jovem, e
talvez um tanto cativado.
—Alimentam-na. Olhe. Ela levantou um corte transversal do que lhe pareceu um
simples pedaço sujo de erva. —Quando cortei a camada de terra das orquídeas para estudá-las
mais atentamente, descobri que a árvore tinha começado a expulsar do galho estas pequenas
formas que parecem raízes para poder receber os nutrientes do húmus que as gerações de
orquídeas decompostas criaram aqui. Não se dá conta do que significa?
Jack se dispunha a responder, mas mudou de parecer. Limitou-se a negar com a
cabeça.
Ela posou a mão no enorme galho em que estava sentada e levantou a vista
melancolicamente para a copa.
—Entregam-se uma à outra sem prejudicarem-se mutuamente. Este grande mogno
oferece proteção e um firme sustento a esta pequena e delicada flor, enquanto que a orquídea,
por sua vez, cria os nutrientes para ajudar a alimentar à árvore e mantê-la forte. Vivem juntas
em perfeita harmonia. Não é... lindo?
Jack a olhava mudo de admiração masculina.
Ele não era um grande entusiasta da botânica, e embora milagroso, o acordo entre a
flor e a árvore não lhe parecia à metade de estranho e formoso que aquela delicada e excêntrica
sabichona.
Então soube quem era.
Sua amizade com Victor Farraday e sua irmã mais nova, Cecily, remontava há vinte
anos, na Inglaterra, embora tanto ele como Victor fossem agora expatriados. A última coisa que
tinha ouvido era que o afamado naturalista tinha desaparecido no delta do Orenoco e que não
se tinham notícias dele.
—Você é a filha do doutor Farraday — lhe comunicou.
Ela se endireitou orgulhosamente e assentiu com a cabeça.
—E você é lorde Jack Knight… embora Jack só seja um diminutivo de John. Isso é o que
sei.
Se ele se surpreendeu antes, agora ficou totalmente desconcertado.
—Conhece-me?
Ela riu.
—Vi-o uma vez em um baile de Kingston.
—Seriamente? — disse ele de novo, desta vez de forma ainda mais fraca. O mundo
parecia em estado de confusão.
—Sim — declarou ela com grande segurança. —Acredito que levava uma jaqueta
negra.
—Esteve em um baile a que eu fui e não notei você? É muito pouco provável... a
menos que seu pai tivesse se empenhado em mantê-la fora de minha vista.
—Talvez — reconheceu ela, com um leve indício de flerte brilhando em seus olhos.

35
Jack não sabia o que pensar, mas a olhou fixamente com um meio sorriso cauteloso.
Ou ela não se dera conta de que era a viva encarnação do diabo, isolada naquele lugar selvagem,
ou estava muito necessitada de companhia humana para preocupar-se.
Ao tratar-se de alguém com pouco contato com o gênero humano em geral, Jack se
surpreendeu sentindo-se estranhamente comovido por seu tímido, mas entusiasmado sorriso.
Imaginou-a como uma formosa princesa meio selvagem daquele misterioso reino
esmeralda ou um maravilhoso animal silvestre que jamais tinha visto o homem e não sabia o
bastante dele para estar assustado.
"Totalmente inocente".
Mas ao reparar na pistola e no facão que a jovem levava presos a sua esbelta cintura,
deduziu com um crescente respeito que a dama sabia como cuidar de si mesma. Sem dúvida
Victor tinha treinado bem a sua filha em técnicas de sobrevivência. Certamente, Jack bastou
olhar aos seus olhos verdes, com sua franca expressão de determinação, para compreender que
também tinha herdado a inteligência de seu pai.
As epífitas, claro.
Limpou a garganta.
—Está seu pai... em casa, senhorita Farraday?
—Não, foi visitar os indígenas... Ah, mas não se vá! Ele voltará logo. Quer esperá-lo?
Venha ver nosso acampamento. Prepararei chá!
—Chá? Ah... é muito amável de sua parte, senhorita Farraday, mas, isto, estamos a
mais de trinta graus.
—Não, só estamos a trinta! Venha tomar um pouco de abacaxi, então. Por favor — lhe
rogou de forma encantadora. —Nunca temos visitas nem notícias do mundo exterior. Venha de
visita um momento... só para nos fazer companhia. Papai voltará logo, prometo!
Jack e Trahern cruzaram um olhar receoso.
A sociabilidade nunca tinha sido o forte de Jack, mas seu cavalheiresco ajudante deu
de ombros e lhe fez um discreto sinal com a cabeça para lhe expressar sua simpatia pela jovem
beleza, que estava visivelmente necessitada de companhia.
—Isso é um sim? — apontou ela, com transbordante otimismo.
Trahern deu uma cotovelada em Jack dissimuladamente.
—Está bem — grunhiu ele, dirigindo-se ao tenente entre dentes, resignado a fazer a
visita, pois para falar a verdade não tinha coragem de dizer não à garota.
Além disso, sabia melhor que ninguém que a guerra se intensificaria durante os
seguintes meses. O doutor Farraday merecia ser advertido em privado de que partisse da
Venezuela enquanto pudesse.
Jack ergueu o queixo e seus olhos encontraram o olhar ofegante da jovem.
—Nós adoraríamos lhes fazer uma visita, senhorita Farraday, mas só um momento.
Vamos muito justos de tempo sobre o horário previsto...
—Hurra! — gritou ela, e ao ficar em pé alegremente sobre o galho com um equilíbrio

36
felino, provocou um grito abafado de medo em Jack. —Leve o navio à volta da curva. Há um
mole ali... Mas tome cuidado, por favor. É um pouco inseguro, e não lhe convém cair à água.
—Há crocodilos? — aventurou Trahern.
—Piranhas — disse ela com doçura.
—Necessita de ajuda para descer daí? — perguntou Jack, convencido de que lhe ia
parar o coração com as acrobacias da jovem, mas ela se limitou a rir.
—Absolutamente — disse com um risinho, enquanto pegava um grosso cipó que
pendia. —Os verei abaixo.
E então, segurando com as duas mãos à liana como se fosse uma corda e enroscando-
a ao redor de sua perna esbelta e torneada como a de uma trapezista dos jardins de Vauxhall,
Eden Farraday se lançou pelo galho a toda velocidade e se balançou até a frondosa escuridão da
selva, fazendo ondear seu cabelo ruivo.

Capítulo 3

37
A chuva cessou de forma tão repentina como tinha começado, como se um jardineiro
tivesse fechado a torneira mecânica de uma enorme estufa envidraçada.
Quando a embarcação manobrou pela curva em direção ao acampamento dos
Farraday,
Jack e Trahern apenas se recuperaram de seu assombro ante a exibição de habilidade de
sua jovem e intrépida anfitriã, mas acharam o pequeno mole lhes aguardando em frente, tal
como ela tinha indicado.
Três pirogas balançavam com a suave corrente do canal. Quando o piloto aproximou o
navio ao mole, Jack ficou olhando fascinado para a casa com pilares de aspecto primitivo que
havia junto ao rio.
—Extraordinário — murmurou Trahern, que parecia igualmente fascinado como ele.
—É como uma cena de Robinson Crusoé.
Jack se inclinou com as mãos apoiadas na grade da embarcação, meditando enquanto
observava.
—Um homem poderia viver aqui toda a vida sem um centavo — disse em voz baixa, e
aquela ideia despertou uma pergunta ainda mais intrigante em sua cabeça.
Era possível que havendo se criado naquele lugar, tão longe das influências perniciosas
da civilização, a senhorita Farraday se convertera na mais estranha das espécies: uma mulher a
quem não importavam os bens materiais nem a posição social de um homem; uma mulher
impossível de comprar?
O ruído de sua tripulação arrancou Jack de suas reflexões. Os homens puseram-se a rir
a gargalhadas e ficaram a assobiar ao ver a roupa interior com babados da dama pendurada de
um varal improvisado. Ele os fez calar lhes lançando um olhar carrancudo por cima do ombro,
mas em seu foro interno Jack também se divertiu com a visão.
Certamente ela se ruborizaria.
Com a vista cravada na borda, Jack colocou sua jaqueta a pesar do calor que fazia.
Seus anfitriões mereciam no mínimo aquela gentileza, mas de maneira nenhuma ia vestir o
colete.
A passarela do navio golpeou contra o pequeno e precário mole, e Knight atravessou
resolutamente o convés em direção a ele.
Trahern o seguiu apressadamente.
Jack deteve o resto de homens levantando a mão.
—Fiquem a bordo — ordenou. —O menor espirro ou a mínima tosse de qualquer um
de vós poderia contagiar aos indígenas da área e matá-los. Zarparemos de novo dentro de um
quarto de hora.
—Como sabe disso? — murmurou Trahern, enquanto os dois desciam pela plataforma
para o mole.
—Eu estive lendo o livro do Victor.
—Ah! — Trahern estava visivelmente surpreso.
Jack, que ia primeiro, percorreu com passo majestoso o mole de cânhamo e tábuas,

38
elevado vários centímetros por cima do chão da selva.
Atrás deles, o abrasador sol tropical voltou a sair sobre o rio, pondo fim ao frescor da
chuva. Entretanto, as longas folhas situadas no alto continuavam gotejando quando entraram na
penumbra infernal da selva esmeralda.
As plantas e as árvores jovens que ladeavam o caminho ameaçavam invadir, e havia
incontáveis lianas penduradas no alto dos ramos. Diante dele viu um vislumbre de movimento:
uma saia branca e sussurrante. Sua masculinidade se intensificou.
Uns passos ligeiros se aproximavam; seu ritmo vibrava para ele através das tábuas. A
seguir se fez um tímido silêncio. Jack esquadrinhou a folhagem. Onde estava aquela malandra?
Deteve-se na persiana formada por um palmito que lhe chegava à altura do peito e traçava um
arco através do atalho, e viu uns olhos verdes cheios de curiosidade que o olhavam entre os
dedos com forma de folha da palmeira.
Seu coração começou a pulsar mais depressa. Com um movimento suave, afastou
lentamente a folha longa e plana... e ali estava ela.
Jack sustentou seu olhar receoso com uma estranha sensação de ligeiro prazer. A
garota era ainda mais adorável de perto. Dedicou-lhe um cândido sorriso e a seguir olhou atrás
dele.
—Senhorita Farraday, me permita que lhe apresente ao meu ajudante, o tenente
Christopher Trahern.
O jovem se inclinou ante ela.
—Senhorita Farraday.
—Eden, por favor — os corrigiu a ambos com um sorriso cálido e bastante tímido. —
Aqui não somos tão solenes. Bem-vindos. Passem por aqui.
Ela os acompanhou pelo caminho até que chegaram ao complexo acampamento
científico de seu pai, rodeado de tochas apagadas colocadas em postes de bambu distribuídos a
cada poucos metros. A clareira, que devia medir uns dez metros, tinha um espaço destinado à
fogueira no centro; do outro lado da casa, havia duas grandes tendas de estilo militar, uma
fechada e a outra aberta por três lados.
Na tenda aberta havia uma grande mesa de trabalho com dois microscópios, várias
bússolas, uma pequena balança e diversos instrumentos científicos menos conhecidos. Uns
criados negros se ocupavam de várias tarefas, mas se detiveram e ficaram boquiabertos ao ver
os estranhos; depois, sorriram e os saudaram com a mão.
Eden os apresentou a todos. Os fez entrar na casa e lhes informou que se chamava
"palafita". Dentro dela havia umas poucas redes penduradas aqui e ali, e uns móveis
improvisados que fizeram Jack suspeitar que se achavam no dormitório da dama.
Havia uma mesa de bambu com três pilhas de livros antigos que estavam se
deteriorando com a implacável umidade. Shakespeare, Aristóteles, Rousseau e a poesia de Scott.
—Vejo que gosta de ler — comentou Trahern enquanto Jack examinava uma longa
zarabatana indígena pendurada na parede.
—Oh, sim. Bom, aqui não há muito mais que fazer.
Ela lhe dedicou um sorriso recatado por cima do ombro e em seguida cortou a parte
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superior de um abacaxi com um golpe de machadinha; tinha uma pontaria letal sem olhar.
Jack ficou assombrado, embora não o demonstrasse, e sacudiu a cabeça. Eden
Farraday era sem dúvida a mulher mais estranha que tinha conhecido em toda sua vida. A jovem
passou a cortar o abacaxi em rodelas finas e bonitas com uma série de golpes resolutos. Ele a
observou com receio, mantendo os braços na cintura.
—Maneja muito bem essa faca.
—Deveria ver-me com uma zarabatana — respondeu ela com um sorriso coquete,
enquanto se voltava para lhe oferecer uma parte da fruta doce e suculenta.
Ele o pegou assentindo com a cabeça cautelosamente em sinal de agradecimento.
Trahern também aceitou uma rodela; depois, a senhorita Farraday se serviu de um pedaço e
convidou aos criados a comerem o resto se quisessem.
Enquanto isso, Jack inspecionou uma delicada caixa de música colocada em uma
prateleira junto a outros pequenos artigos da civilização: um impreciso espelho de mão e uma
escova de cabelo com um cabo de estanho oxidado.
—Não lhe parece bonita? Toca Mozart. Ela se aproximou de Jack e levantou a tampa
da caixa de música. Umas notas persistentes brotaram dela antes de irem se apagando até
desaparecer no silêncio. —Terá que lhe dar corda. —lançou-lhe um olhar sério. —Era de minha
mãe.
Ele a olhou de esguelha e recordou que a mulher de Victor tinha morrido de uma
epidemia de febre que tinha assolado várias partes de Londres uns doze anos atrás. Um triste
destino para um médico: não conseguir salvar a sua própria esposa. Não era de estranhar que
Farraday houvesse dado as costas à profissão médica. Ninguém de sua especialidade tinha
podido salvá-la.
O doutor Farraday explicava na introdução de seu livro que depois da morte de sua
mulher, ele e sua única filha se mudariam às Índias Ocidentais. Uns amigos crioulos que
tentavam animá-lo e lhe fazer sair de seu desespero lhe propuseram que realizasse uma breve
visita a selva do Orenoco, sabedores de seu antigo interesse pela filosofia natural e as ciências. A
ele pareceu que seria bom para sua alma, de modo que aceitou fazer a viagem. Entretanto, uma
vez na selva, o aflito médico contraiu uma febre que deveria tê-lo matado, mas salvou sua vida
mediante uns desconhecidos remédios a base de ervas que lhe aplicou um feiticeiro indígena.
Segundo seu livro, o doutor Farraday compreendeu então que seu objetivo na vida era
descobrir os segredos das antigas curas indígenas e das plantas da floresta com as quais eram
elaboradas; o médico pretendia levar algum dia aqueles conhecimentos ao mundo civilizado
para que se pudessem salvar mais vidas.
Em seu livro não se mencionava que o bom doutor tinha arrastado sua filha com ele
em sua perigosa cruzada. Agora que Jack sabia a verdade, ficou furioso, embora não o
demonstrasse. Aquele não era lugar para uma jovem.
—Lamento sobre sua mãe — comentou em tom brusco.
—Não se preocupe — ela sorriu tristemente e deixou a caixa de música na prateleira,
negando-se a dar mais voltas a sua perda. —Bom, o que os traz a Venezuela, cavalheiros? —
retrocedeu para apoiar-se na coluna situado atrás dela e deu uma dentada no abacaxi.
—Só viemos a... isto... — começou a dizer Trahern.

40
—Visitar uns amigos — disse Jack com soltura.
—Entendo — murmurou ela, assentindo com a cabeça de forma perspicaz. —Uns
amigos de Angostura?
Jack e Trahern cruzaram um discreto olhar de surpresa; pegou os dois despreparados,
pois a nenhum dos dois escapou seu tom sagaz. Jack, por sua parte, estava desconcertado.
A maioria das mulheres que conhecia ao menos fingia que não pensavam em nada
além dos bailes, noitadas e a última moda em vestidos, mas aquela garota praticamente lhe
tinha perguntado a queima roupa se sua visita era de índole política.
—Não importa — disse ela com um movimento despreocupado da mão, descartando
o assunto como se não desejasse incomodar seus convidados. —Não é de minha incumbência se
ajudam aos rebeldes. Sinceramente, espero que ganhem, embora papai insista em que a ciência
é neutra.
—Ninguém há dito nada de ajudar aos rebeldes, senhorita Farraday. Estamos aqui em
viagem de negócios — corrigiu-a Trahern com um sorriso encantador, que delatava que
continuava confundindo-a com uma mulher a qual se podia controlar, suspeitou Jack. —
Comercializamos muito com madeiras nobres, sabe? Só viemos recolher essas árvores que viu
na barcaça.
—Ah, sim. Falando dessas árvores...
A jovem lançou um olhar interrogativo a Jack com o qual expressava seu cepticismo
fundamentado ante a ideia de que o diretor das Empresas Knight tivesse ido pessoalmente
recolher um simples carregamento de madeira, mas não insistiu no assunto e não deu
importância com a nobreza de uma anfitriã da cidade. Jack a observava fascinado. Mas
enquanto ela limpava as comissuras da boca delicadamente com as pontas dos dedos, deu-se
conta de que o novo tema de conversa não era menos problemático.
—Vi que quase todos são palissandros e mognos — disse ela — mas observei que há
alguns cebranos entre eles. Espero que não tenham cortado muitos.
—Não cortamos nenhuma árvore, senhorita Farraday — replicou Trahern. —
Compramos essas de um comerciante local.
—Sim, mas são muito raros, sabe? O cebrano demora cinquenta anos para alcançar a
maturidade. Se cortarem muitos em certa época, os arvoredos não podem repovoar-se.
—Sua raridade é o que os fazem tão valiosos, senhorita Farraday — respondeu Jack
em tom cínico, ligeiramente aborrecido por sua reprimenda. —Os bons fabricantes de móveis de
Londres pagarão generosamente por eles.
—Londres? — disse ela com voz entrecortada, e se afastou da coluna subitamente. Ela
abriu muito os olhos ao mesmo tempo em que se aproximava um passo. —É para lá aonde se
dirigem?
Ele assentiu com a cabeça.
—Por que o pergunta?
Ela o olhou fixamente e em seguida agachou a cabeça, como se de repente se sentisse
coibida.
Ele arqueou as sobrancelhas.
41
—Ocorre algo, senhorita Farraday?
—Oh... não. Não, não é nada. Só que... sempre quis ir até lá.
—A Londres? — disse ele alongando as palavras. —Para que? O clima é frio e as
pessoas também.
Ela ergueu o olhar com assombro para ele.
—Não, não o são!
—É claro que sim. É um lugar deprimente. Eu só vou porque não há mais remédio.
Jack empregou um tom despreocupado, mas estava falando com mais franqueza do que ela
podia imaginar.
—Por que diz que não há mais remédio? — perguntou ela.
—Tenho que me desfazer dessas árvores. Não pôde resistir ao impulso de zombar um
pouco. Não podia lhe dizer a verdade. —Se Napoleão comprar uma mesa de cebrano, todas as
anfitriãs da alta sociedade querem uma para adornar o vestíbulo de suas casas.
Suas cínicas palavras arrancaram um risinho de Trahern, mas a senhorita Farraday não
parecia divertir-se absolutamente.
—Tenho certa de que não são tão maus como diz você.
—Não, são piores — murmurou Jack; seus olhos dançavam de alegria com o jogo que
acabava de descobrir e que consistia em atormentá-la. —Pretensiosos, folgazões… acredite em
mim, amor, sei do que falo. Afinal, meu irmão mais velho é um duque. Trahern, pode ser que a
duquesa de Hawkscliffe queira uma mesa de cebrano. O que opinas?
—Cobre-lhe o dobro.
Jack se pôs a rir e fez uma careta quando o suco do abacaxi caiu na lasca que tinha
cravado na mão.
—Ai.
A senhorita Farraday o olhou franzindo o cenho; parecia que não estiva segura se
tinha sido boa ideia convidá-lo.
—O que acontece?
Ele murmurou que não era nada.
—Machucou-se?
—Só é uma lasca. Cravou-me ao carregar a madeira.
—Me deixe vê-la. A jovem se aproximou resolutamente de Jack, pegou-lhe a mão e
lhe abriu o punho fechado para examiná-lo. Inspecionou o pedaço de madeira em forma de
alfinete que tinha cravado debaixo da pele e depois lhe lançou um olhar travesso. — Cebrano, o
asseguro.
—Bom, trato de seguir a moda.
—Em minha opinião, merece esta lasca. Mesmo assim, vou ajudá-lo, lorde Jack. Sente-
se, por favor.
—Não, obrigado. Não é nada. Ocuparei-me dela no navio...

42
—Sente-se!
Jack arqueou as sobrancelhas ao ouvir seu tom, que não admitia discussão.
—Nada de feridas abertas na selva — declarou ela. —É uma norma.
—Feridas abertas? — Jack zombou. —Mas se mal é um arranhão.
—É um grande arranhão, e é profundo. Acredite em mim, se não se ocupar dele agora
mesmo... Bom, não acredito que queira saber o que pode acontecer.
—O que pode acontecer? — perguntou Trahern, ao mesmo tempo em que
empalidecia.
—Tenho certeza de que prefere que não o diga. Cavalheiros, acreditem, é muito
desagradável.
Os dois ficaram olhando-a com expectativa. Ela cedeu lançando um suspiro.
—Inclusive os pequenos arranhões podem infeccionar-se rapidamente na selva. Para
que saibam, há um pequeno inseto que gosta de pôr seus ovos nas feridas abertas que
encontra. Depois disso, o único remédio é a amputação.
Jack se sentou imediatamente no tamborete que lhe tinha indicado e lhe ofereceu a
mão.
—Sou todo seu, querida. Só me diga que não tem que usar o facão.
Ela dedicou-lhe um sorriso de recriminação e foi procurar a caixa de costura.

Eden notava como ele a observava com seu olhar de predador, mas seu coração ainda
palpitava ante a notícia de que ele e sua tripulação se dirigiam a Inglaterra.
Sem dúvida aquele era o milagre pelo qual tinha estado rogando. Agora a única coisa
que tinha de fazer era armar-se de coragem para perguntar ao célebre Black-Jack Knight se a
levaria em seu navio.
Era consciente de que ele não tinha por que agradá-la, e se fosse tão malvado como
afirmavam os rumores, talvez estivesse mais segura acompanhando seu pai ao Amazonas.
Mesmo se alguma vez foi pirata, Eden não desejava parecer insistente nem grosseira abusando
dele.
Além disso, era muito humilhante saber que ele era milionário e que ela não tinha
dinheiro para pagar a viagem. Tinha seu orgulho. Entretanto, estava decidida a lhe demonstrar
que podia ser de utilidade. Talvez suas aptidões a ajudassem a ganhar a aceitação que tão
desesperadamente necessitava. Inspirada por aquela esperança voltou e se sentou em frente
dele enquanto o senhor Trahern procurava com inquietação pequenas feridas abertas ou
picadas de inseto que tivesse podido não notar.
Eden aproximou seu tamborete ao de seu paciente arrastando-o, colocou sua mão
grande e quente em seu regaço e lhe virou a palma para cima; seus dedos repousavam sobre
sua coxa.
O olhar turvado do homem posou nela, como se ele também tivesse notado a

43
descarga de eletricidade que sacudiu o corpo de Eden quando se tocaram. O coração lhe deu um
salto. Suas faces se avermelharam ao inclinar-se para examinar a lasca, com sua agulha de
costurar entre os dedos.
Lorde Jack franziu o sobrecenho quando a usou para pinçar em sua mão.
—Espero que saiba o que está fazendo.
—Certamente que sei. Sou a filha de um médico. E sabe o que é você? — murmurou
ela com um sorriso cauteloso, ao mesmo tempo em que afastava uma mecha de cabelo para
trás da orelha.
—Diga-me, por favor — sussurrou ele, observando-a.
—Um leão grande e resmungão com um espinho na garra.
Um sorriso triste se desenhou no rosto dele.
—Sim, senhorita Farraday, parece-me que me descreveu perfeitamente.
Eles cruzaram um sorriso que durou um longo instante; depois, ela concentrou de
novo sua atenção na tarefa que a ocupava, tratando de não fazer caso as palpitações infantis de
seu coração.
A pequena lasca se cravara profundamente. Parecia doer. Quando Eden deslizou o
polegar pela palma de sua mão, assombrando-se de como eram grandes e fortes suas mãos
calosas, voltou a notar que ele a olhava fixamente. O vivo interesse masculino de seus olhos era
um tanto perturbador; ela fez todo o possível para não prestar atenção nele e conseguiu que
não lhe tremessem as mãos por força de vontade. Murmurou uma advertência, cravou-lhe a
pele com suavidade e abriu um pouco a incisão para procurar a lasca.
—Bom, lorde Jack... — Eden limpou a garganta. Seu pai sempre dizia que era melhor
distrair o paciente durante tais operações. —Não pensará em cruzar o oceano nesse vapor?
—No vapor? Não, senhorita Farraday...
—Eden — o interrompeu ela com delicadeza, erguendo a vista para olhá-lo nos olhos.
Um olhar especulativo invadiu os olhos água-marinha dele.
—Eden — corrigiu ele de forma apenas audível. Fez uma pausa antes de continuar em
um tom mais informal: —Meu navio está me esperando em Trindade. Temos que nos reunir com
ele na costa.
—É um navio grande? — inquiriu à jovem, perguntando-se se haveria espaço para ela.
—Muito grande — respondeu ele, de forma suavemente insinuante, e lhe dedicou um
sorriso malicioso.
Ela notou que lhe ardia o rosto.
—Como se chama?
—Ventos de fortuna.
—É... um nome muito bonito — disse ela, com a voz um tanto entrecortada.
—Obrigado.
Ao trocar a agulha pelas pinças, ela lançou-lhe outro olhar receoso, e desta vez o

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surpreendeu olhando-a fixamente na boca; seus pensamentos eram perfeitamente claros em
seu atraente rosto.
O coração dela começou a pulsar com força.
—Achava que a maioria dos navios tinha nome de mulher.
—Os meus, não.
—E isso por quê?
—Meus navios são confiáveis.
—Entendo. E suas mulheres não?
Ele arqueou uma sobrancelha de forma enfastiada e esboçou um meio sorriso
lacônico como toda resposta.
Eden riu em voz baixa e abaixou a cabeça de novo.
—Temo, lorde Jack, que você é um cínico.
—Nasci assim.
Impulsionada por uma curiosidade quase científica, Eden se inclinou e formulou a
pergunta supostamente proibida relacionada com Jack Knight.
—Dizem que você foi pirata, sabe? — confiou-lhe em um atrevido murmúrio.
—Ah, sim? — sussurrou ele.
O sorriso travesso dela se fez mais amplo.
—É certo?
Ele meditou um momento, enquanto seus olhos dançavam.
—Digamos querida, que é questão de perspectiva.
—Ah.
Ela assentiu com a cabeça de forma judiciosa, mas demorou um instante em dar-se
conta de que ele não havia dito nada. Sua evasiva não fez mais que estimular seu interesse.
Enquanto isso, o cabelo longo e escuro dele secou; ao olhá-lo, o impulso de deslizar os
dedos por suas ondas suaves e despenteadas se apoderou de Eden. Reprimiu o desejo de lhe
tocar também o rosto, aquela pele tão bronzeada depois de uma vida de aventuras ao ar livre,
no convés de um navio.
Não, admitiu ela, sem deixar de examiná-lo de perto, ele não era um elegante dândi
da cidade como os quais povoavam seus devaneios, mas havia algo realmente apaixonante
naquele homem.
Recordou o baile da Jamaica onde o tinha visto pela primeira vez; ele era o homem
mais cativante da sala e atraía os olhares de todas as mulheres presentes, enquanto a maioria
dos homens simplesmente se afastava de seu caminho.
Depois de olhá-lo abertamente um instante mais, Eden chegou à conclusão de que o
que mais gostava dele eram as leves rugas que lhe formavam no canto exterior dos olhos ao
sorrir. Parecia-lhe que tinha uns olhos doces, e se perguntou se ele saberia.

45
—Eden — disse em voz baixa. Seu nome soava deliciosamente pronunciado por ele. —
Você está me olhando muito fixamente.
"Pegou-me". Mordeu o lábio inferior e se ruborizou.
—Mas, lorde Jack, você também está me olhando fixamente — respondeu ela com
idêntica suavidade. Naturalmente, ele sabia; seu lento sorriso era indubitavelmente malicioso.
Uma onda de atração pura e visceral atravessou todo seu ser; uma febre contagiada
diretamente por ele.
Enquanto lutava para não perder a compostura, procurou um assunto de conversa
neutra.
—Como pensa se enfrentar os espanhóis?
—Oh, tenho meus métodos.
—Com certeza que sim — murmurou Eden.
Ele se inclinou para ela.
—Tem muito boas mãos.
Eden conteve o fôlego, com o pulso acelerado. Quando ele a olhou fixamente nos
olhos, acreditou que ia beijá-la.
Ela ficou imóvel, deslumbrada, — esperando — mas então ele se colocou de novo em
seu tamborete com expressão de arrependimento.
Por um instante ela foi incapaz de respirar, e menos ainda de continuar. Em seu foro
interno, zombou do absurdo frenesi de seu pulso e da decepção que lhe tinha causado que
aquele ex-pirata de má fama tivesse decidido comportar-se bem.
É claro, uma autêntica dama teria considerado suas atenções de uma grosseria
escandalosa. Sua prima Amélia, uma perfeita senhorita da nobreza, teria desmaiado.
Consternada ao descobrir que nem sequer era capaz de sentir-se ofendida, Eden agachou a
cabeça com renovada concentração e terminou de extrair a lasca.
Agarrou o pequeno fragmento de madeira entre as pinças e, manipulando-as com sutil
precisão, tirou-a por fim.
—Boas notícias — anunciou, olhando-o outra vez depois de ter recuperado a
compostura. —Viverá.
—O que vamos fazer… Eden — disse ele de repente. —Por que a esconde desta
forma?
—Refere-se a papai? Ele acredita que está me protegendo. Aplicou um pedaço de
tecido molhado com conhaque na pequena incisão. —Não é um gênio em tudo, lorde Jack, e
menos ainda nos assuntos do coração. Entristecida por ter reconhecido aquilo, levantou-se para
recolher as coisas.
—Mas é um crime deixá-la abandonada aqui. Ele a seguiu com o olhar com uma
intensidade que ela podia notar do outro lado do aposento. —Você deveria estar em Kingston,
adorada pelos filhos dos colonos ricos.
Ela se voltou subitamente, surpreendida, adulada e acima de tudo emocionada ao

46
pensar que por fim alguém a compreendia. Ah, acabava de encontrar-se com aquele homem e
de certo modo já a conhecia melhor que seu pai.
Olhava-lhe assombrada.
Enquanto cruzava os braços e apoiava o quadril na mesa, de repente Eden se sentiu
esperançada; se simpatizava tanto com ela com certeza estaria disposto a ajudá-la.
Sem dúvida, se ela o pedisse, seu cavalheirismo o impulsionaria a acompanhá-la a
Inglaterra sem que sofresse nenhum percalço. Era evidente que se tratava de um cavalheiro,
independentemente do que dissessem os rumores; além de tudo, há alguns instantes podia tê-la
beijado, mas decidiu fazer o correto e se conteve. Além disso, ela acabava de lhe fazer um favor
ao tirar a lasca e possivelmente lhe salvar a mão, não? Com certeza estaria encantado de
compensá-la fazendo uma boa ação por ela.
Sim, pensou Eden, agora podia pedir-lhe. Tanto se tinha sido um pirata como se não,
seu excelente instinto lhe dizia que podia confiar naquele homem.
Ela mordeu o lábio e se armou de coragem.
—O que diria se lhe pedisse um favor? — ela começou lentamente.
—Um favor? — ele entrecerrou os olhos com súbito receio. —Que tipo de favor
exatamente?
O sorriso cheio de segurança de Eden não se alterou, apesar de ter o coração na
garganta. Ergueu o queixo e ficou direita.
—Me leve com você para a Inglaterra.

Capítulo 4

“Levá-la...?”
Jack olhou fixamente seus olhos esmeralda cheios de esperança, pensou em sua
missão secreta — uma missão absolutamente ilegal — e soltou uma maldição.

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—Não. Negou com a cabeça e se levantou estremecendo. —De maneira nenhuma.
—Por quê?
—Porque é uma ideia descabelada!
—Não, não o é! — ela deu um passo para ele e forçou um sorriso persuasivo. —Você
vai de qualquer modo, não?
"Maldita seja".
—Por isso me convidou? — perguntou secamente. —Para me adular e assim poder
conseguir o que queria?
Ela abaixou a cabeça ao ouvir essa pergunta; Jack franziu o cenho. Lançou um olhar a
Trahern.
—Preparado?
—Sim, senhor.
—Por favor, não se vão... Acabam de chegar!
A senhorita Farraday saltou diante de Jack e lhe fechou a passagem. Parecia impávida
ante seu famoso olhar colérico, embora só lhe chegava à altura do peito e teve que inclinar a
cabeça para trás para olhá-lo nos olhos.
O sorriso de ansiedade da jovem anulava o efeito demolidor de seu olhar furioso.
—Disse que seu navio é grande, muito grande. Tem que haver lugar para mim a bordo.
—Não o há.
—Não ocupo muito espaço, como pode ver.
—Obrigado pelo abacaxi, senhorita Farraday...
—Eden — insistiu ela, tratando de enredá-lo com uma familiaridade que ele não
desejava, para conseguir que cumprisse sua vontade. Sim, assim era como dominavam aos
homens.
Era uma criatura muito decidida, e cada vez que ele tentava esquivá-la, movia-se
rapidamente à esquerda e à direita para lhe fechar a passagem.
—Sinto muito, senhorita Farraday — disse Jack apertando os dentes — mas meu navio
não está equipado para levar passageiros. É um navio mercante, um cargueiro. Não há nenhum
lugar para uma jovem dama...
—Não necessito de um alojamento especial. Poderia pendurar minha rede em
qualquer parte! De fato... — engoliu em seco com ar de desespero sob seu sorriso cada vez
menor — isso... me leva ao seguinte ponto.
Jack pôs os braços na cintura.
—Ah, assim há mais.
— Sim. Verá, o certo é que não tenho dinheiro. É terrivelmente embaraçoso, mas
temo que não possa pagar a passagem. Mas trabalharei — acrescentou resolutamente. —Posso
ajudar na enfermaria ou na cozinha. Sou muito trabalhadora; só tem que me dizer o que quer
que faça. Não me queixarei. Sou muito alegre.

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—Sim, já o vejo — disse Jack entre dentes.
Trahern conteve a tosse.
Jack lhe lançou um olhar feroz.
—Ouvi falar das patrulhas de recrutamento, assim sei que em todos os navios sempre
vêm bem um par de mãos mais...
—Mas não as suas, querida. Um estremecimento de desejo percorreu a Jack só de
imaginar onde gostaria que trabalhassem aquelas bonitas mãos.
—Por quê? — perguntou ela, piscando com um olhar triste e inocente.
—Porque eu o digo — grunhiu ele. —E agora, quer fazer o favor de afastar-se?
—Não! Não quero ser chata, mas necessito desesperadamente voltar para a
Inglaterra.
—E isso por quê? — inquiriu Jack, embora jurasse para si mesmo que não lhe
importava e que não queria sabê-lo. Não ia levá-la à Inglaterra, e ponto. Havia muito em jogo
para pô-lo em perigo incluindo uma jovem formosa em sua tripulação.
—O patrocinador de meu pai morreu — exclamou ela. —Seu herdeiro cortou os
recursos destinados a nossa investigação. Aquilo despertou imediatamente o instinto de Jack
para detectar as oportunidades lucrativas. —Quero voltar para a Inglaterra para poder falar com
o novo conde e convencê-lo para que restitua nossa subvenção.
Ele arqueou uma sobrancelha.
—Você vai falar com o conde?
—Sim — declarou ela, assentindo com a cabeça firmemente.
Ele ficou olhando-a.
—Ninguém vai querer escutar a uma simples menina.
—Oh, sim escutarão. Ela apoiou os punhos na cintura. —Farei com que me escutem.
Ele se surpreendeu reprimindo um sorriso irônico. Jack olhou atentamente à ruiva
com receio e, um tanto divertido ao seu pesar, deu-se conta de que a moça realmente tinha
conseguido que ele a escutasse.
De certo modo, não era difícil imaginar à intrépida dama das orquídeas agarrando o
conde pela orelha como a um aluno extraviado e obrigando-o a prestar atenção no seu discurso
científico. Jack não pôde evitar pensar no revôo que causaria em Londres se lhe apresentasse a
oportunidade... ou, melhor dizendo, no pontapé que lhe daria em seu pomposo traseiro.
Aquela ideia esteve a ponto de convencê-lo de levá-la só pelo prazer de ver o que
aconteceria, mas, naturalmente, não podia arriscar-se. Sacudiu a cabeça com um débil sorriso
reticente.
A garota tinha coragem, tinha que reconhecer, e também era inteligente, mas se por
acaso não bastasse com os perigos habituais de uma viagem por mar, sua missão secreta era
extremamente complicada e perigosa. Quando voltasse a aparecer em Londres depois de uma
ausência tão longa, começariam a circular os rumores, e seus numerosos inimigos procurariam a
menor oportunidade para jogarem-se em cima dele. Ainda não tinha conhecido uma mulher

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capaz de guardar um segredo, e esta sabia muito... tanto se fosse consciente disso como se não.
—Sinto muito — disse em tom mais amável, mas de forma cortante. —Sinceramente,
não posso ajudá-la. E depois pronunciar aquelas palavras, passou junto a ela e saiu
resolutamente da palafita.
A senhorita Farraday se voltou e o seguiu com dificuldade. Ele a ouvia, mas não olhou
para trás.
—Mas lhe direi o que farei — declarou Jack antes que ela pudesse protestar, enquanto
os passinhos da jovem seguiam seus longos passos. —Diga ao seu pai que escreva aos meus
escritórios de Port Royal e que me mande uma proposta. Eu financiarei sua investigação em
troca do... —fez um rápido cálculo mental — oitenta por cento dos benefícios de todos os
remédios que desenvolva.
Ela deixou de segui-lo, aparentemente surpreendida.
—Oitenta por cento! — gritou. —Não lhe parece uma quantia um pouco elevada?
—É claro que é elevada. Ele subiu à passarela e lhe dedicou um sorriso cúmplice por
cima do ombro. —Ouviu falar de algo chamado negociações?
—Negociações — repetiu ela entre dentes. —De acordo!
Enquanto ele continuava caminhando, ouviu que ela punha-se a correr atrás dele de
novo.
—Então, se conseguimos chegar a um acordo, talvez aceite me levar a Inglaterra...?
—Um momento. Não me referia a isso. Lançou um olhar impaciente de esguelha. —
Falava em geral.
—Que homem tão exasperante — murmurou ela entre dentes, enquanto ele seguia
avançando pela passarela. —Detenha-se, por favor. Lorde Jack quer fazer o favor de esperar? —
uma formosa mão pegou Jack pela dobra do cotovelo e o pegou com uma tenacidade que teria
impressionado ao seu bull terrier, Rudy, o único ser vivo no qual confiava além de Trahern.
—O que quer de mim? — perguntou com cansaço, ao mesmo tempo em que se
voltava para olhá-la. —Tem que falar isso com seu pai.
—Você não entende.
—A ajudaria se pudesse, mas simplesmente não é seguro.
—Sim, já sei que o mar é perigoso, mas eu... eu confio em você.
O olhar inocente da jovem esteve a ponto de desarmá-lo, algo que irritou a Jack em
supremo grau.
—Confia em mim. Menina... — zombou dela, sacudindo a cabeça. —Nem sequer me
conhece!
Ele virou-se e avançou resolutamente pela passarela ligeiramente aturdido, enquanto
o coração lhe pulsava com força ao ritmo de seus enérgicos passos. Santo Deus, não tinha
motivos para "confiar" nele.
Certamente ele não confiava nela. Aquela garota era perigosa, sim, letal. Tinha que
sair dali antes de encontrar a forma de fazer com ele o que tivesse vontade.

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Eden ficou feita uma fúria ao ver que ele voltava a partir. Não havia forma de fazer
entrar em razão àquele homem? Simplesmente ele impunha seu critério e esperava que todo
mundo...
De repente, ouviu que seu pai e Connor saudavam os criados no outro extremo do
acampamento; haviam voltado de sua viagem a tempo para complicar as coisas.
"Maldição!"
—Edie! Vá, temos visita? Quem é? — gritou seu pai, mas ela não respondeu, pois
naquele momento cada segundo era precioso.
Não havia tempo para dar explicações ao seu obstinado pai.
Ela recolheu a saia e pôs-se a correr atrás de lorde Jack uma vez mais, golpeando com
força as tábuas com seus passos.
—Papai voltou. Por que não fica e fala com ele?
—Jack Knight, canalha! — rugiu seu pai naquele preciso instante da outra ponta da
passarela, vários metros atrás deles. —Afaste-se de minha filha agora mesmo, senhor!
—Obrigado, mas acho que vou partir — murmurou a Eden sarcasticamente.
—Eden te afaste desse descarado! É um homem perigoso!
—Eu também me alegro de voltar a vê-lo, Victor! — gritou ele secamente. —Não se
preocupe, já vou.
Eden se deteve o tempo suficiente para lançar um olhar fulminante ao seu pai e lhe
indicar com a mão que não fosse mal educado; depois, seguiu de novo ao seu convidado, que
tentava escapar daquele lugar.
Diante dela, lorde Jack se afastou de um golpe as folhas de palmeira e passou
resolutamente. As folhas voltaram a colocar-se em seu lugar como se de uma porta giratória
verde se tratasse e se fecharam atrás dele.
Eden não estava disposta a tolerar aquele desprezo, embora suas esperanças
estivessem diminuindo.
—Assim é verdade? — soltou, dirigindo-se às costas dele enquanto sua tripulação
observava. —A única coisa que lhe importa é o dinheiro! Não quer me ajudar só porque não
posso lhe pagar!
—Tesouro. Ele virou sobre seus calcanhares para colocar-se de frente a Eden e
percorreu seu corpo com um olhar lascivo. —Se você estivesse em meu navio, saldaria a dívida.
Pagaria até o último centavo com seu trabalho. Só que não acredito que gostaria do preço.
Profundamente escandalizada, ela se endireitou indignada.
—Senhor, você não é um cavalheiro.
—Por fim descobriu isso?
—Eden Farraday, venha aqui imediatamente! — gritou seu pai. A jovem olhou zangada
por cima do ombro e viu que seu pai se dirigia para ela com o rosto aceso. —Quero falar com
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você, senhor! — apontou a barcaça. —Que madeira transporta?
—Oh, Oh — disse Eden suavemente em tom de mofa. —Agora sim que o espera uma
boa.
Lorde Jack lhe lançou um olhar, demasiadamente advertido para receber a explosão
de seu pai.
O doutor Farraday deu uma olhada ao montão de madeira mais de perto.
—Cebranos? Cebranos, maldito saqueador! Como se atreve? Cinquenta anos de
crescimento, e você os destrói por umas sujas moedas? Maldito seja...! Afaste-se de minha filha!
Em lugar de dizer ao pai de Eden que estava tentando fazer era precisamente escapar
dela, lorde Jack tomou a ordem do doutor como um grave insulto pessoal; ela o olhou a tempo
para ver a expressão de rebeldia pura e tenaz que escureceu seu rosto.
—Que me afaste dela, é? — grunhiu entre dentes. —Não sou bastante bom para sua
filha, é isso? — dedicou ao seu pai um sorriso de pirata e de repente pegou Eden pela cintura e
puxou-a de tal forma que se chocou contra seu duro e quente peito.
Antes que ela pudesse reagir, a boca dele pegou à sua, quente e forte. E diante de
todos, incluído seu pai, profanou seus lábios e lhe deu um beijo digno de um bandido.
Sua prima Amélia sem dúvida teria expirado no ato. Mas Eden não era sua prima
Amélia.
Ele começou de forma brusca; machucou-a no lábio inferior com a pressa e arranhou
seu delicado queixo com sua áspera mandíbula, mas assim que ela começou a choramingar,
apanhada em seus braços de ferro, passou a beijá-la com mais suavidade.
Então ela se esqueceu por completo de resistir. Fechou os olhos pestanejando, e
durante uns segundos breves o tempo ficou suspenso na esteira vacilante de uma mariposa.
Beijou-a mais profundamente, abrindo os lábios dela para que recebesse em sua boca
a carícia lenta e inquisitiva de sua língua.
De longe, os homens gritavam, mas quando Jack enredou a mão de forma sensual em
seu cabelo, Eden se achava a milhares de quilômetros daquele alvoroço. Ele a pegou pela nuca
enquanto sua boca se inclinava sobre a sua com ofegante exigência; as mãos dela se aferraram
fracamente aos seus largos ombros. Lorde Jack a abraçou mais forte, de forma que os seios dela
se esmagaram contra seu peito. E embora a segurasse com firmeza, por dentro Eden estava
caindo da copa de uma árvore, dando voltas sem gravidade para o chão como uma semente
com asas. Estava totalmente em poder dele, e o prazer que lhe provocou aquele repentino
ataque alarmou-a.
Ele continuou beijando-a durante uns deliciosos segundos, como se tivesse se
esquecido de que aquilo não era mais que um ato desafiante; ela notou como sua ira ia
desaparecendo. De repente, ele afastou a boca de Eden e lançou uma maldição com a voz
cortante. Quando a soltou, ela cambaleou aturdida e desorientada; teria caído do mole na água
se ele não a tivesse pegado imediatamente e houvesse tornado a sustentá-la.
Eles cruzaram um olhar de surpresa enquanto ele a pegava pelo cotovelo e a punha a
salvo de um puxão. Seus olhos se escureceram até adquirir um turbulento tom azul de ardósia.
Depois, um meio sorriso melancólico se desenhou em seus lábios.

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—Quase consegue me fazer mudar de opinião — sussurrou em voz baixa para que só
ela pudesse ouvi-lo.
Então ela, com um sobressalto de horror, reparou que estavam em um beco sem
saída.
Connor tinha chegado.
Ele parou em seco na passarela a certa distância, e ao ver que Jack a pegava, tinha
pego o fuzil que levava preso com uma correia às costas.
Entretanto, quando o australiano apontou em Jack a arma, uma dúzia de marinheiros
do navio tinham pego seus fuzis imediatamente e tinham apontado para ele por sua vez. O pai
de Eden se colocou diante de Connor, com os braços estendidos, enquanto o senhor
Trahern gritava aos seus homens que não disparassem.
—Santo Deus! — disse Eden com voz entrecortada.
Mas Jack se pôs no controle da situação lançando um rugido imponente:
—Baixem as armas!
Seus homens obedeceram sem vacilar, mas Connor continuou apontando
destramente para Jack com seu fuzil.
A expressão do rosto de Connor fez Eden saber que queria derramar sangue.
Tinha visto aquela expressão antes, naquele dia terrível no bosque. Era uma
lembrança que detestava mais que tudo.
Sem mal perceber que se pôs diante de Jack, Eden levantou as mãos em um gesto
tranquilizador.
—Connor, por favor. Abaixe o fuzil.
Ele a olhou fixamente em um silêncio glacial, uma recriminação silenciosa.
O medo se apoderou de Eden quando percebeu a fúria de seus olhos, como se ele
visse e soubesse o muito que ela tinha desfrutado do escandaloso beijo de lorde Jack.
—Faça o que ela diz homem! — ordenou seu pai. —Baixe o fuzil! Estás louco?
"Sim, papai, está um pouco louco. Não se tinha dado conta?", pensou Eden.
Connor, que continuava preparado para disparar, lançou um olhar receoso em direção
ao doutor Farraday.
De repente jogou o fuzil ao ombro outra vez e lançou a Eden um gélido olhar que
ameaçava futuras consequências. Girou sobre seus calcanhares e abandonou a cena sem
pronunciar uma palavra, mas Eden ficou pálida.
Formou-lhe um nó na boca do estômago, consciente de que teria que enfrentá-lo a
sós dentro de pouco tempo; parecia que a paciência de seu protetor com ela se esgotara.

Jack não tinha nem ideia de quem era o sujeito fastidioso que lhe tinha apontado na
cabeça com um fuzil, mas estava acostumado a topar com pessoas que queriam matá-lo, e

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naquele momento se achava muito embriagado daquela doce boca para preocupar-se.
O doutor Farraday estava gritando com ele, mas Jack limitou-se a olhar a Eden,
aturdido pela inesperada generosidade de seu beijo, com seus sentidos empanados de desejo.
Aqueles lábios grossos e sedosos eram tão deliciosos como ele tinha fantasiado, e Jack desejava
mais; desejava descer por seu pescoço e seus braços e subir por suas pernas beijando-as.
Recordou a história das orquídeas e das árvores e sua doce simbiose, e sentiu que a
força daquela mulher o fazia estremecer. Sua imaculada beleza interior nutria de algum modo
sua alma.
Certo, tinha desejado provar seus lábios desde o começo, mas se tinha sucumbido ao
impulso tinha sido para esfregar isso pelo rosto de seu pai. Jack já tinha ouvido as palavras de
Victor —"Afaste-se de minha filha!"— com antecedência. Tinham-lhe feito remontar a outro
lugar, a outra época, a outra garota.
Aquele bastardo irlandês.
Nunca era suficientemente bom.
"Não te aproximes de nossa filha". Ah, aquela estúpida moça a quem tinha acreditado
amar. Que não teria feito por ela aos dezessete anos? Teria bebido cicuta para demonstrar seu
amor se Maura Prescott o tivesse pedido, mas ela o tinha deixado por um título.
Era uma lição que Jack se negava a esquecer, um engano que não pensava voltar a
cometer —afeiçoar-se de forma exagerada — mas tinha que reconhecer que tinha conseguido
muito mais do que esperava quando tinha estreitado Eden Farraday entre seus braços.
Seu pai se aproximou resolutamente, pegou-a pelo pulso e a afastou de Jack
plantando-se entre eles.
—Como se atreve a fazer algo assim a minha filha, selvagem?
—Eu? — Jack não sabia de onde tinha saído o desejo de protegê-la que sentia, mas
alguém tinha que defender à garota. —E o que me diz de você, que a tem encerrada aqui como
a uma prisioneira? — trovejou em resposta. —Pelo amor de Deus, olhe ao seu redor, homem!
Crocodilos, aranhas venenosas, morcegos! Este não é lugar para uma dama!
—Não me diga como tenho que me ocupar de minha filha! Ela poderia sobreviver
nesta selva melhor que você!
—A sobrevivência? É o máximo que aspira oferecer a sua filha? Baixem a vista,
rapazes! — gritou a sua tripulação quando percebeu que estavam olhando como se tratasse de
uma peça de teatro. —O que estão olhando? Acordem! Trahern! — rugiu. —Ponha em marcha o
condenado navio! Temos que seguir um programa!
—Sim, senhor.
Jack se voltou para o doutor Farraday de novo, enquanto Eden o olhava aturdida.
—A garota quer ir embora daqui, e com toda a razão. De qualquer forma, não me
ocorre como você pensa continuar agora que perdeu o financiamento.
Victor ficou paralisado e olhou a sua filha como se fosse uma traidora.
—Contou a ele?
Eden vacilou, ao que parecia, despreparada, e a seguir deu de ombros com expressão

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desventurada.
Seu pai a olhou com o cenho franzido.
—Não se zangue com ela! — disse Jack impacientemente. —É a única pessoa que há
aqui com bom senso! Victor se fosse a metade genial do que supostamente é, daria-se conta de
que sair do delta é a única opção inteligente neste momento! Maldito seja.
Jack não tinha tempo para aquilo. Estava chateado, suado e ofendido pela diatribe de
Victor, mas aquela criatura adorável parecia tão perdida ali que pelo menos tinha que tentar
ajudá-la de alguma forma, embora não fazendo algo tão temerário como levá-la com ele a
Inglaterra.
—Agora mesmo faz muito calor na costa — disse Jack bruscamente. —Mas posso levar
a todos para Trindade se estiverem preparados dentro de três horas.
—Do que está falando?
—Se demorarem mais tempo, nos arriscamos a nos encontrar com os espanhóis. Eu
gostaria de evitar uma briga...
—Desde quando? — replicou Victor. —É muito famoso por suas brigas.
Jack lhe lançou um olhar glacial.
—Se for esperto, aceitará minha oferta. Dentro de seis meses, a guerra se avivará de
verdade. Esta poderia ser sua última oportunidade de escapar.
Eden lhe lançou um olhar inquisitivo.
—Não importa como sei — a advertiu ele antes que ela pudesse perguntar.
—Para sua informação, não temos intenção de partir — lhe replicou seu pai. —Nós
não fugimos de situações difíceis, diferente de outras pessoas.
Jack entrecerrou os olhos e recebeu o comentário de seu pai como a ponta de uma
adaga.
Victor seguiu falando coisas, mas Jack se limitou a sacudir a cabeça e baixou a vista.
Deus santo, que fazia ali perdendo tempo? Bonita ou não, Eden Farraday não era problema seu.
Se quisesse uma garota formosa, compraria uma.
Lançou-lhe um olhar duro, sem saber que mais acrescentar. A situação estava muito
clara: o teimoso pai queria a sua filha ao seu lado para que cuidasse dele, e o outro sujeito tinha
tentado voar sua cabeça.
A atitude beligerante do homem loiro tinha delatado sem dúvida alguma que
reclamava seu direito sobre Eden Farraday, tanto se ela gostasse como se não.
Jack indicou com a cabeça ao seu pai.
—És um maldito estúpido — disse intencionalmente a Victor, e a seguir subiu ao vapor
de um salto e deu a ordem de zarpar.
Obedeceram-lhe imediatamente. Seus arroubos eram escassos, mas ainda faziam
andar a sua tripulação com pés de chumbo.
Enquanto o navio se afastava do cambaleante mole dos Farraday, tentou seguir sua
estratégia habitual consistente em não voltar o olhar para trás no referente às mulheres, mas

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diferente de seu delicioso brinquedo da noite anterior, Eden Farraday não era tão fácil de
esquecer.
Muito contrariado, lançou um olhar pensativo por cima do ombro e viu que ela
continuava ali, olhando como ele se afastava, com uma expressão triste em seu lindo rosto.
Embora a olhasse de forma inexpressiva, não podia livrar-se da sensação de culpa de
estar abandonando a um dos seus, como um capitão pirata que deixa a sua sorte a um membro
de sua tripulação em uma ilha deserta por ter cometido uma maldade infame.
"Que lástima, moça. A vida é dura".
Ele sabia melhor que ninguém.
A garota confiava nele? Zombou para si mesmo, emocionado por aquelas palavras.
Ninguém confiava nele. Ninguém deveria fazê-lo. Era um perfeito bastardo, e estava orgulhoso
disso.
Enquanto endurecia seu coração com esforço, voltou a olhar à frente em direção ao
mar implacável.

—Como te atreveste a falar de nossos assuntos privados com ele? — perguntou seu
pai, depois de voltar-se para Eden enquanto o navio e sua carga de madeira se afastavam. —Não
tens nem ideia do tipo de homem que ele é! Jack Knight é um canalha e um descarado, e seja o
que for que esteja fazendo aqui, garanto-lhe que está tramando algo!
—O que acontece, tampouco queres que me junte com ele, papai? — respondeu ela
entre dentes.
—Cuide dessa língua! — rugiu ele, que a tinha ouvido pesar do tom baixo no qual
tinha falado. —Teu comportamento foi imperdoável, e quanto a ti, já estou farto de tua
rabugice! Ficarás aqui conosco, e não se fala mais nisso!
Depois de ter imposto seu critério, seu pai começou a afastar-se sacudindo a cabeça e
amaldiçoando para si mesmo sua má conduta, com o peito inchado de indignação paternal.
Eden reprimiu sua frustração e gritou atrás de seu pai antes que estivesse fora do
alcance de sua voz.
—Como acha que conseguiu esquivar-se aos espanhóis?
—Eu te direi como! — ele se deteve resmungando e se voltou para colocar-se de
frente à Eden. —Jack Knight adquiriu experiência traficando armas e conhaque do mercado
negro e burlando o bloqueio europeu de Napoleão. Não é mais que um pretensioso criminoso...
e esse é o motivo pelo qual vais esquecer que o viste! Por que achas que ele é o maldito rei de
Port Royal? Já ouviste as histórias sobre essa cidade: uma cidade de piratas e ladrões!
—Se ele é tão mau, como é que o conheces?
Seu pai lhe lançou um olhar indeciso, moveu a cabeça enquanto vacilava, e a seguir
secou o suor da fronte com ar lento.
—Quando era jovem, sua tia Cecily era a dama de companhia de lady Maura Prescott,
a filha mais nova do marquês de Griffith; Prescott é o sobrenome da família. Eu conheci

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vagamente à garota, já que minha irmã tinha que acompanhá-la constantemente. Sempre me
pareceu uma moça arrogante. Em qualquer caso, assim é como conheci lorde Jack. Ele adorava
lady Maura, mas não lhes permitiam casar-se. Eram muito jovens e — reconheceu a contra
gosto — estavam muito apaixonados.
Seu pai fez uma pausa, enquanto recordava aquela época longínqua.
—Minha irmã me contou que quando lorde e lady Griffith ordenaram a sua filha que
dissesse a seu pretendente que não podia voltar a vê-lo, Jack tentou que ela fugisse com ele.
Maura se negou — disse dando de ombros. —Jack partiu da Inglaterra furioso e, que eu saiba,
não retornou desde então.
"Igual a você, papai — pensou ela. Um exílio".
—E agora, se me deres licença, necessito urgentemente me refrescar depois deste
longo e exaustivo dia. Jantarei dentro de uma hora. Ah, por certo — acrescentou, enquanto
retornava pela passarela em direção ao acampamento. —O sobrinho do xamã aceitou nos levar
ao Amazonas. Iremos dentro de três dias.
Eden ficou boquiaberta, mas seu pai não voltou a olhar para trás. Olhou-o horrorizada,
enquanto cobrava consciência do absurdo empreendimento de seu pai com uma espécie de
assombro retardado.
Era impossível! Ela voltou-se, aturdida, e contemplou como o navio se fazia cada vez
menos na distância.
Ela tampou os olhos para proteger-se do sol abrasador e se deu conta de que sua
única esperança de conseguir uma vida normal era lançar-se ao Orenoco. Oh, era um desastre.
Mal podia acreditar que seu pai pensasse seguir adiante com aquilo.
Baixou a vista às tábuas ásperas do mole, passou a mão pelo cabelo e tratou de pensar
no que ia fazer.
Então viu de repente a imagem familiar das pirogas amarradas ao mole. Seus
pensamentos agitados cessaram subitamente.
Ela ficou olhando sua piroga por um segundo e então a ideia lhe cruzou a cabeça como
um relâmpago.
"Sim".
Seu pai e Connor a tinham empurrado a fazer aquilo. Era a única solução que restava.
Em um instante de imprudência e temeridade, soube o que tinha que fazer.
Com o pulso palpitante, Eden ergueu a vista e olhou rio abaixo em direção à
embarcação cada vez menor. Certamente, parecia que não tinha alternativa. Partir era a única
forma de evitar que seu pai realizasse sua viagem suicida ao Amazonas.
No mais profundo de seu coração, ela sabia que ele deixaria tudo para segui-la,
embora aquilo significasse voltar a enfrentar à civilização. Talvez, se ele visse a Inglaterra com
seus próprios olhos depois de todo aquele tempo, compreenderia que o mundo exterior não era
tão ruim como tinha chegado a acreditar. Em realidade, sua fuga podia ser a única forma de
salvar a pele de seu teimoso pai.
E, além disso, havia Connor. Partindo também conseguiria pôr distância entre eles. Se
Deus quisesse isso, o australiano perceberia e aceitaria por fim que ela não desejava passar o

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resto de sua vida ali convertida em sua companheira. Depois de ter beijado Jack, parecia que
finalmente Connor tinha captado a indireta, mas Eden sabia que ele estava furioso.
Ela não desejava arriscar-se a ter um enfrentamento com ele ali, na selva, onde não
havia código moral nem lei que o impedissem de dominá-la. Naquele lugar imperava a força, e
Connor era o mais forte de todos eles.
Durante todos aqueles anos, ele tinha refreado sua paixão pela adoração que sentia
por ela e tinha esperado que estivesse preparada, mas depois de ter visto como ela devolvia o
beijo a Jack Knight, Eden sabia que agora não a esperava mais que sua cólera, e tinha medo. Há
muito tempo tinha visto do que era capaz se sua ira se desatasse; Eden não teria outra opção
que se submeter. E então se converteria em sua prisioneira durante o resto de sua vida.
Pôs-se em movimento e avançou pela passarela dando grandes passadas e conferindo
mentalmente a lista de provisões que necessitaria.
Connor tinha se dirigido ao acampamento com seu fuzil ao ombro para desafogar sua
frustração com o trabalho, mas ela sabia que tinha que se apressar porque ele logo voltaria.
Jack a tinha advertido do que lhe aconteceria se subisse a bordo de seu navio; mas se
o capitão não se inteirasse, não poderia lhe incomodar. Ia viajar como clandestina, e ninguém a
ia impedir. Podia cuidar de si mesma, e não pensava deixar-se ver até que chegassem à
Inglaterra. Tinha aprendido a se esconder graças à observação de centenas de animais.
Atravessou o acampamento, entrou sigilosamente na tenda de pesquisa de seu pai e
colheu com as mãos trêmulas as amostras mais importantes do trabalho do doutor para mostrar
o conde de Pembrooke, tal como havia dito à lorde Jack. Colocou-as furtivamente em uma
mochila de lona. Deu uma olhada por cima do ombro para assegurar-se de que ninguém a via e
se dirigiu à palafita para recolher suas coisas.
Sabia que tinha que se apressar, ou o Ventos de fortuna não demoraria a zarpar sem
ela.
Uma vez dentro da casa elevada, vestiu umas calças, uma camisa e a velha jaqueta de
couro marrom de seu pai, que às vezes usava ela por motivos práticos quando acompanhava aos
homens em suas expedições aos lugares mais profundos da selva.
Amarrou um lenço azul marinho para tampar o cabelo, pois lhe ajudaria a dissimular
seu sexo no caso de que algum membro da tripulação de Jack a visse. Moveu-se com a maior
rapidez possível e meteu na mochila todas as provisões com as quais pôde carregar, inclusive a
última carta de sua prima Amélia com seu endereço de Bedfordshire e alguns exemplares de La
Belle Assemblée.
A única coisa que restava fazer era despedir-se, mas não se atrevia a correr esse risco.
Ao olhar do outro lado do acampamento, viu como seu pai explicava seus planos aos criados e
vacilou rasgada pela dor. Mas então sacudiu a cabeça.
"Vá. Uma oportunidade assim só se apresenta uma vez na vida". Era o que sua mãe
haveria dito. Ela deteve-se diante da mesa de bambu e escreveu rapidamente uma nota dirigida
a seu pai e a Connor em que lhes dizia o que ia fazer para que não se preocupassem muito.
Assinou "com todo meu amor" e a seguir, sem mais a fazer, escapou por um lado da palafita e
tomou o atalho cheio de barro que descia até o mole.
Depois de lançar energicamente a mochila a sua confiável piroga, sentou-se na

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pequena embarcação e pegou os remos que tão bem conhecia, sem proporcionar-se tempo para
perder a coragem. Soltou o pequeno barco do mole e se afastou empurrando com um remo.
Ao cabo de uns instantes deslizava silenciosamente pelo caño, remando com todas
suas forças.
Remou com rapidez até que lhe doeram os ombros; divisou aterradoras silhuetas
rugosas que sulcavam a água sinuosamente aqui e ali, e formas grandes e escuras nos baixios,
mas se negou a dar a volta.
E então, aproximadamente meia hora depois de ter empreendido sua perigosa
viagem, viu o preguiçoso navio, cuja velocidade ficava reduzida pela barcaça carregada de
madeira. O navio a vapor navegava pelo rio principal, mas Eden tomou os caños menores que
avançavam em paralelo; desse modo, conseguiu permanecer oculta pelas plantas da selva
enquanto seguia o avanço da grande embarcação.
À medida que se aproximavam do Golfo de Paria9, começou a avançar rapidamente
graças a corrente cada vez mais forte. Em pouco tempo, começaram a aparecer mangues, e
percebeu o sabor salgado do ar.
Quando se deu conta de que estava adiantando o barco a vapor, sorriu com
entusiasmo. O navio ficara encalhado em um banco de areia. Embora não fosse uma corrida,
chegar antes de lorde Jack só podia ser vantajoso para ela.
Remou mais forte.
Pouco depois, chegou a uma praia de fina areia branca ladeada de elegantes
palmeiras. As ondas brancas açoitadas pelo vento quebravam contra a borda, e mais adiante, na
praia, os gordos iguanas tomavam sol nas rochas. Em frente se achava o extenso mar azul, com a
ilha de Trindade ligeiramente para o norte.
No estreito de Bocas da Serpente situado entre a borda sul da ilha e o continente,
havia um esplêndido navio com setenta e quatro canhões amarrado a umas colunas, que
permitia ver o intrincado vigamento de equipamentos de barco que seguravam os três
imponentes mastros.
"Não há lugar?", pensou lançando um grunhido. Levou a luneta ao olho e leu o nome
do navio pintado junto ao mastro maior: Ventos de fortuna. Com toda segurança era o navio de
lorde Jack: grande como um castelo flutuante e repleto de armamento mortal.
Assombrada pela imponência do enorme navio, examinou por um momento a
carranca de proa pintada com vivas cores enquanto os botes da embarcação se moviam
rapidamente ao redor do casco revestido de cobre como formigas ao redor da rainha. Percorreu
com o olhar o casco de sessenta metros, com suas duas cobertas de canhões, até a popa
esculpida e pintada de cor dourada.
"Como demônios vou subir nesse traste?", perguntou-se, olhando pela luneta.
Considerou suas opções. "Subir por uma dessas cordas?". Além de tudo, tinha habilidade para
subir. "Não, vão me ver. E essas caixas de madeira grandes que estão subindo a bordo? Talvez
9
Golfo de Pária é um grande golfo localizado na foz do delta do rio Orinoco no oceano Atlântico, ao norte da
América do Sul com extensão de aproximadamente 7800 km2, conforma uma parte da fachada atlântica de
Venezuela, formando as costas dos estados de Delta Amacuro, Monagas e Sucre e por sua vez separando o
continente sul-americano da ilha de Trinidad, a maior de Trinidad e Tobago, pelo que o golfo é uma zona de
fronteira marítima.

59
poderia me esconder em uma delas".
Parecia um plano tão bom como qualquer outro.
Depois de lançar um último e longo olhar para trás em direção à selva e perguntar a si
mesma se voltaria a vê-la, olhou de novo para frente, cobrou ânimo e saiu como uma flecha de
seu esconderijo. Correu sigilosamente de uma rocha a outra em direção ao grande montão de
caixas de madeira que estavam carregando no navio.
Enquanto os marinheiros estavam distraídos pela chegada do navio, que por fim se
libertou do banco de areia, Eden se aproximou às escondidas ao montão de caixas em cujas
diversas etiquetas se podia ler: ABACAXIS, LIMAS, COCOS, MANGAS e BANANAS. Arrancou a
tampa de uma, meteu-se dentro e a colocou outra vez apressadamente sobre sua cabeça.
O interior da caixa era aproximadamente do tamanho de uma armadilha para
jaguares. Uma vez mais, pensou em Connor e se perguntou como reagiria quando descobrisse
que tinha escapado.
Permaneceu à espera com o coração palpitante e conteve o fôlego quando os
suarentos marinheiros de lorde Jack voltaram, depois de percorrer penosamente a areia, para
prosseguir com a carga das caixas nas lanchas com o fim de transportá-las ao enorme navio
canhoneiro.
—Pelos pregos de Cristo, como pesam estas limas! — exclamou um homem com uma
camisa vermelha ao agarrar a caixa em que estava escondida Eden.
—Pelo menos não pegaremos escorbuto.
—Me dê uma mão com esta, Sharky! Vou partir as costas — disse o primeiro, mas por
sorte nenhum deles reparou em sua presença ao levar a caixa à lancha e empilhá-la com as
demais.
Em pouco tempo, o bote avançou para as ondas; os marinheiros remaram para o navio
queixando-se do calor durante todo o caminho.
Eden afastou algumas limas e olhou entre as frestas da caixa com os olhos muito
abertos. De repente, uma gigantesca grua com uma plataforma de carga pendurada de um
enorme gancho de metal, desceu do céu azul. Quando desceu o suficiente, os marinheiros
começaram a transladar as caixas de fruta à plataforma.
—Ei, Bob, achas que o capitão se dará conta se pegarmos umas limas? — perguntou a
outros um sujeito corpulento com um brinco, enquanto colocava a caixa de Eden na plataforma.
Ela se encolheu tudo o que pôde e rezou para que não a vissem.
—Conhecendo-o, claro que se daria conta, idiota. Amarrem forte! — ordenou Sharky
aos homens; continuando, seguraram a pilha de caixas com uma corda. —Se caírem ao mar, ele
terá um ataque.
—De acordo, subam-nas! — gritou o de camisa vermelha, indicando aos homens que
dirigiam a boléia.
Uma vez no convés do navio, outro grupo de marinheiros se pôs em movimento:
empurraram o enorme guincho em um círculo e puxaram a grande polia para cima. Enquanto
isso, outro par de marujos postados no corrimão da amurada estavam atentos se por acaso
aparecia à frota espanhola.

60
Eden contemplava a água e a terra sem mal se atrever a respirar, enquanto a
plataforma de carga ascendia cada vez mais acima até que pôde ver por cima das copas da selva
uma extensão de vários quilômetros.
A selva, acesa com o pôr-do-sol fúcsia resplandecendo por trás, perfilava os
imponentes e bicudos coqueiros e as copas gigantescas e frondosas que tinham sido seu pátio
de jogos, enquanto o Orenoco corria como ouro líquido. Dali podia ver o labirinto de caños
sinuosos e quase podia distinguir ao longe as montanhas com topos planos chamadas tepuyes.
Em algum lugar daquele paraíso verde, seu pai achava que ela estava preparando-se
para cozinhar seu jantar. Teve remorsos de consciência, mas... céus, Inglaterra!
Ela aferrou-se a seu sonho com todas suas forças e se negou a voltar o olhar para trás.
Ela disse a si mesma que aquilo era para o bem.
Enquanto a plataforma de carga flutuava sobre a buliçosa coberta principal,
vislumbrou o navio a vapor, que estava parando entre os resfôlegos na praia.
Lorde Jack saltou à areia, caminhou pelos baixios e se deteve para encharcar-se. Ela
ainda podia saborear seu beijo. Observou como jogava água sobre o cabelo escuro e revolto e
depois se dirigia para a praia a grandes passadas para tomar o controle da operação. Os homens
estavam trabalhando duro e redobraram seus esforços visivelmente quando chegou seu capitão.
"Mais vale que não te pegue", aconselhou-lhe seu instinto feminino, enquanto o sol
gravava a fogo a imagem bronzeada e poderosa daquele homem em seu cérebro.
Logo se fez a escuridão quando a grua desceu pela escotilha grande e quadrada,
penetrando cada vez mais nas entranhas do navio até que, por fim, ficou engolida pelo profundo
e escuro espaço do porão de carga.

Capítulo 5

Naquela noite o Ventos de fortuna zarpou no abrigo da escuridão, esquivou-se dos


navios espanhóis de vigilância rodeando sigilosamente o cabo Galeota, no extremo inferior de
Trindade, e virou bruscamente para nordeste no paralelo doze.
Jack tinha ordenado à tripulação que estivessem calados e desligassem os faróis do
navio. Na embarcação se respirou um ambiente tenso até que estiveram seguros de que os
espanhóis não os tinham divisado. Entretanto, um vento favorável procedente do sul os

61
empurrava.
Era uma boa noite para lançar-se ao mar, fresca e parcialmente limpa, mas apesar da
tranquilidade, havia algo assustador no silêncio e na forma em que a brilhante meia lua
iluminava os grupos de nuvens aqui e lá.
As algas luminescentes, famosas na zona intertropical, reluziam sobre as ondas.
—Tenente, a que velocidade vamos? — perguntou ao vigia.
—A cinco nós, senhor.
"Não está ruim, com todo o carregamento que levamos", pensou. Como ainda se
achavam em uma área de recifes de coral, a precaução ditava manter uma velocidade
moderada.
Navegavam a meia vela enquanto o intendente realizava suas pacientes sondagens
pela proa, vigiando se por acaso visse rochas sob a superfície.
Umas vinte pequenas ilhas se achavam espalhadas pelo mar perto de Trindade e
Tobago; a maioria estava rodeada de baixios e recifes. Até que o Ventos de fortuna chegasse à
borda do talude continental, onde as águas pouco profundas do litoral desciam até o abismo,
Jack não daria a ordem de navegar a toda vela.
Lançou um olhar ao céu estrelado com os braços na cintura perto do timoneiro,
enquanto fumava um charuto.
—Que marca o barômetro, senhor Clark?
—Estável, capitão — respondeu o timoneiro.
Jack assentiu com a cabeça.
—Mantenham o rumo, rapazes — murmurou à tripulação, passeando com
inquietação de alcançar à proa.
Logo atrás dele, sobre as pranchas imaculadas, ouvia-se o ruído das garras caninas de
seu fiel cão Rudy, que seguia seus passos.
Fruto da relação ilícita de um bulldog com um terrier branco inglês, Rudy era
rechonchudo e robusto e tinha as patas curtas. Era um cão valente, apesar de tão só chegar à
altura dos joelhos de Jack.
Trotava pelas cobertas como se fosse o dono do navio ou de todo o mar. Rudy tinha
uma curta pelagem branca, uma mancha negra ao redor de um olho como se tivesse participado
de uma briga, um focinho aquilino de aspecto muito ridículo e espírito de palhaço. Em resumo, o
cão era o melhor amigo que ele tinha tido, mas Jack Knight não era o tipo de homem que
reconhecia essas coisas.
—Senhor, alcançamos dezessete braças de profundidade — confirmou de seu posto
na proa o intendente, que acabava de recolher a corda.
—Excelente. O sorriso de Jack se ampliou. —Desdobrem as velas, rapazes. Vamos às
latitudes médias para pegar vento do oeste.
Os membros da tripulação amorteceram sua ovação de resposta e subiram pelas
tensas escadas de corda dos equipamentos do barco.

62
Jack jogou a fumaça de seu charuto, inclinou a cabeça para trás e observou como
subiam às vergas com decisão e arrojo, apesar do constante balanço do navio e da ação do
vento.
Ao cabo de quatro minutos, desenrolaram o resto dos oito mil metros quadrados de
vela de cor pérola, de aspecto reluzente e mágico à luz da lua.
Jack sempre ficava sem fala ao ver como o navio cobrava vida quando o vento enchia
as velas.
—Não é uma beleza, tenente?
Peabody lhe sorriu, entendendo perfeitamente seus sentimentos.
—Sim, capitão.
—Continue — disse afinal, e deixou a custódia do navio nas mãos do tenente.
Jack se dirigiu ao corrimão e contemplou melancolicamente a esteira que se formava
na proa, relaxado com o familiar balanço do Ventos de fortuna enquanto abria caminho através
das ondas e levantava colunas de espuma.
Muito mais abaixo, alguns golfinhos mergulhavam alegremente ao lado deles, e sua
pele escorregadia reluzia à luz da lua. Era um bom presságio, e tudo tinha transcorrido sem
contratempos, mas Jack estava um pouco pensativo.
Atormentavam-lhe os remorsos. Tinha gravada na cabeça a triste imagem de Eden
Farraday sozinha no mole. Teria gostado de ajudá-la, mas não tinha sido assim. Como sempre,
Jack tinha desempenhado o papel de vilão. Lançou um suspiro e moveu a cabeça com gesto de
desgosto. Decidiu que iria vê-la quando retornasse para entregar os mercenários a Bolívar. Da
próxima vez a tiraria dali tanto se seu pai gostasse como se não.
E se aquele sujeito loiro tentasse lhe apontar outra vez com uma arma, pensou Jack
com resolução, também se ocuparia dele.
Naquele preciso instante, um insistente gemido procedente da coberta lhe chamou a
atenção. Ao olhar para baixo, viu Rudy ao seu lado com seu pau favorito preso entre os dentes,
enquanto agitava a cauda com entusiasmo.
Jack pegou o pau da boca do cão com um sorriso triste e o lançou com força em
direção à popa.
—Pegue-o — murmurou, mas Rudy não necessitava daquela ordem; já tinha saído
correndo em busca de seu troféu como se aquele pedaço de madeira valesse seu peso em ouro.
***

Durante uma semana, Eden tinha aguentado no lúgubre porão de carga. Permanecia
escondida totalmente às escuras, e já desejava voltar a desfrutar de luz, ar fresco e alguma
companhia humana.
A temperatura tinha descido à medida que o navio se dirigia inexoravelmente para o
norte, e deixava para trás a terra quente e as temperaturas tropicais às quais ela estava
acostumada por climas que evocavam outonos fracamente recordados. Os frescos e ensolarados
dias davam passagem a temperaturas mais frias de noite. Claro que, no lugar ao qual se dirigiam
o mês de fevereiro equivalia ao mais frio do inverno, embora segundo seus cálculos não

63
chegariam até finais de março.
Enquanto isso, a cabeça tinha começado a lhe dar indisposição devido ao implacável
negrume. Tinha muito tempo para preocupar-se com os ratos que ouvia passeando na
escuridão. Esperava que não se atrevessem a mordê-la.
Mas, sobretudo, tinha muito tempo para pensar… em tudo o que podia sair mal
naquela aventura agora que embarcara nela. E também tempo para contemplar ao poderoso
capitão do navio.
Como aquela era uma questão muito mais interessante, passava incontáveis horas
refletindo sobre o que lhe havia dito seu pai de Jack Knight; entretanto, por algum motivo, só
acabava expondo-se mais perguntas.
Por exemplo, por que lhe tinham proibido casar-se com a garota a que amava, lady
Maura? Se ele era o segundo filho de um duque, por que tinham considerado seus pais que
lorde Jack era pouco idôneo? Era essa a razão pela qual não tinha retornado a Inglaterra durante
todo aquele tempo? Não tinha família ali que o animasse a voltar de visita?
E, sobretudo, o que estava fazendo naquele dia na selva? Recordava o misterioso olhar
de seus olhos quando lhe tinha perguntado por sua visita à cidade rebelde de Angostura. Seu pai
havia dito que só sua presença na Venezuela significava que lorde Jack estava tramando algo.
Recolhendo madeira...? Não. Ele e seus homens estavam ocultando algo. Fosse o que fosse no
que estava envolvido aquele patife, era evidente que não queria que ela soubesse.
Por desgraça, em Eden tinham inculcado o espírito de indagação desde muito tenra
idade para deixar o mistério sem resolver. Não tinha nada mais a fazer, uma hora após outra, de
modo que tinha decidido olhar ao seu redor e ver se podia achar respostas.
Tirou o isqueiro de sua mochila de provisões e acendeu uma vela golpeando várias
vezes a pederneira. Sabia que tinha que conservar a vela, mas a luz era uma bênção. Com a
pequena chama como guia, exploraria um pouco.
O grande armazém bamboleante do porão de carga não continha pistas sobre os
segredos de Jack, mas estava cheio de ordenadas montanhas de artigos. Barris de água e vinho.
Várias ferramentas e velas de reposição. Reservas de pólvora e balas de canhão. Havia suficiente
comida e água para abastecê-lo durante a longa viajem, mas o ar era fétido em cima da quilha.
Não necessitava que seu pai lhe dissesse que entre aqueles vapores espreitavam as
febres. De fato, duvidava que ficassem mais de dois dias de ar respirável ali embaixo.
Compreendeu que teria que subir ao seguinte nível e procurar um novo esconderijo.
Aquilo foi o que fez na manhã seguinte. Subiu sigilosamente à coberta inferior e ali
passou escondida vários dias mais. Seguia sem poder ver a luz do dia, pois a rangente coberta se
achava por baixo da linha de flutuação, igual ao porão de carga, mas pelo menos ali havia
lanternas nos estreitos e lotados corredores e melhor ventilação. O ar marinho se filtrava entre
as caixas de madeira colocadas sobre as escotilhas muito mais acima, no convés principal.
A coberta inferior também continha reservas, inclusive a tonelada de mercadorias que
lorde Jack transportava para pôr à venda na Inglaterra. O mogno e outras madeiras tropicais
ocupavam grande parte do espaço, mas também havia enormes quantidades de açúcar, rum,
algodão, tabaco e anil. Todos eles eram artigos úteis, mas nenhum proporcionava informação
sobre a viagem do capitão a Angostura.

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Em suas cuidadosas explorações, durante as quais sempre se esquivava dos membros
da tripulação que passavam ocupados em seus afazeres, tinha encontrado a sala que continha o
pão e o queijo, onde os gatos do navio estavam constantemente de guarda caçando ratos.
Encontrou a oficina do carpinteiro do navio e o escritório do comissário, o frugal indivíduo
encarregado de dar conta de todas as provisões: quem usava o que e quanto.
Embora frequentemente ouvisse o acomodado carpinteiro cantando na oficina
enquanto martelava, e sorria ao ouvir os constantes murmúrios do comissário enquanto
rabiscava em sua escrivaninha as contas em seus livros maiores e se queixava de que ninguém o
valorizava, Éden permanecia fora da vista e fazia amizade com os gatos do navio para passar o
tempo.
De vez em quando, conforme passavam os dias, tratava de consolar-se evocando
imagens familiares e resplandecentes de salões de baile brilhantes, música elegante e damas e
cavalheiros que dançavam, mas era então quando descobria que algo não encaixava em sua
bonita fantasia.
Cada vez que imaginava a si mesma no baile, o homem que se aproximava entre os
bailarinos para lhe pedir uma dança não era outro que esse canalha ex-pirata, lorde Jack.

Quinze dias depois de ter deixado a bacia do Caribe, o Ventos de fortuna tinha
atravessado mais de mil milhas de mar, navegando a oito nós em um ângulo pronunciado para
nordeste. Tinham passado pelo quente mar dos Sargaços.
Tendo em conta as condições do vento, Jack deu ordens de mudar ligeiramente a
posição das velas e pediu ao timoneiro que ajustasse o leme.
Tudo estava em ordem, e o capitão estava satisfeito.
As velas se achavam em bom estado, os homens alegres nos equipamentos de barco,
o vigia postado na gávea. Uma dúzia de membros da tripulação esfregava as cobertas, enquanto
outro grupo recebia seu treinamento semanal com pistolas e alfanjes repartidos pelo áspero e
duro senhor Brody, o mestre de armas. O velho Brody também se fazia de treinador de esgrima
de Jack e de ocasional treinador em seu treinamento diário de boxe e outras disciplinas viris de
defesa pessoal.
Os marinheiros ficavam firmes e saudavam seu capitão quando passava diante deles
enquanto inspecionava suas tarefas, fazia pergunta aqui, dava ordens lá e assentia com a cabeça
em sinal de aprovação aos homens que tinham feito um bom trabalho.
Em realidade, enquanto ele passeava pelas cobertas seguido de Rudy, o bom
funcionamento de seu excelente navio — e sua empresa a escala mundial — inspirava a Jack
uma sensação de ordem, segurança e lucro muito satisfatória. E, entretanto...
Atormentava-lhe a crescente certeza de que em sua vida havia um grande buraco. Um
vazio. Durante muito tempo o tinha percebido e não lhe tinha feito conta, mas desde que
partiram da Venezuela se intensificou até converter-se em um desejo indescritível, uma urgência
permanente.
Sim, tinha construído um império e possuía uma fortuna que competia com a de seu
irmão duque, mas não tinha com quem compartilhá-la, e o que era pior, não tinha a quem deixá-

65
la. Se morresse repentinamente — e tendo em conta o estilo de vida que levava, sempre havia
essa possibilidade — tudo pelo qual tinha trabalhado e a companhia cuja criação tinha dedicado
sua vida morreriam com ele.
É claro, a solução era simples: necessitava de filhos. E se seu pai tinha tido cinco, Jack
queria seis. Mas ter herdeiros implicava achar esposa, uma ideia que achava tão pouca graça
que a tinha estado postergando durante anos.
Onde podia achar uma mulher que lhe desse filhos e logo o deixasse em paz?
Enquanto rondava pelas cobertas de seu navio, perturbado com aquele delicado problema, só
uma candidata foi a sua mente: Eden Farraday.
Era uma garota que sabia cuidar de si mesma. Demônios!, se fosse esperto, casar-se-ia
com ela, pensou Jack. Note nas condições nas quais cresceu, disse-se. Certamente faria o que
lhe dissesse em troca dos luxos que poderia lhe oferecer. Depois de ter permanecido junto ao
seu pai ao longo de sua investigação, sua capacidade de lealdade era inquestionável. No
momento, estava claro que estaria encantada de sair da selva, mas Jack podia lhe oferecer muito
mais que isso, se chegassem a um acordo razoável. Uma vida de privilégios e de categoria social.
Uma vida desafogada.
Ela merecia mais que a maioria das mulheres que conhecia.
Certamente, em seu breve encontro, a garota tinha mostrado qualidades que faziam
pensar que poderia lhe dar uns filhos excelentes: força, confiança, saúde robusta, aguda
inteligência, coragem, iniciativa. Observando-a também tinha percebido que seria uma boa mãe,
pois lhe tinha mostrado sua faceta solícita ao lhe tirar a lasca.
Tendo em conta os costumes egoístas de Jack, a capacidade de sua futura mulher para
amar a seus filhos era de crucial importância para ele.
Oh, tudo aquilo parecia uma loucura, pensou, franzindo o cenho, mas em termos
práticos, talvez não fosse tão má ideia. Segundo todos os elementos visíveis, a ruiva parecia
cumprir os requisitos.
Era carinhosa, capaz, deliciosamente formosa e, o melhor de tudo, não era uma boba
senhorita da alta sociedade que reagiria ante o perigo desmaiando languidamente em um sofá.
Em realidade, ainda era muito jovem, mas à medida que passassem os anos e
demonstraria sua valia, converter-se-ia em uma rainha formidável, capaz de fazer-se
encarregada de tudo enquanto ele estivesse na outra ponta do mundo durante longos períodos
de tempo ocupando-se dos amplos interesses de seu império.
Se Victor confiava nela e deixava que lhe ajudasse em seu complexo trabalho
científico, Jack não via motivo pelo qual não pudesse aprender a vigiar a empresa por ele.
A mulher ideal — uma mulher com bom senso, em quem ele pudesse confiar e que
soubesse se virar só — seria uma espécie de sócia na companhia, meditou Jack.
Nunca tinha pensado que pudesse achar um.
Mas ali estava Eden Farraday, escondida entre as árvores, onde os homens mais
dignos que ele não podiam encontrá-la. Sem falar de seu beijo, cuja lembrança continuava
fazendo com que lhe ardesse o corpo com turbulento desejo.
Demônios, perguntava-se se ela o aceitaria depois que lhe tivesse falhado negando-se

66
a levá-la a Inglaterra. Que opções tinha? Com um estado de ânimo inquieto, Jack se juntou com
Trahern na amurada.
—Ainda não há rastro do Intrépido — lhe informou seu tenente chefe.
—Não, não acredito que vejamos o velho até estar por cima do paralelo quatorze —
murmurou Jack, embora ao pensar em seu tio, lorde Arthur Knight, sorriu ironicamente.
Era reconfortante saber que pelo menos restava um familiar com quem podia
relacionar-se, provavelmente porque seu tio, aquele velho rico e diferente, tinha sido em seus
bons dias a ovelha negra da família como Jack o era agora.
Décadas atrás, depois de uma rixa com seu irmão mais velho, o anterior duque de
Hawkscliffe, lorde Arthur Knight, o segundo filho, tinha renunciado ao império da família, tinha
preparado a bagagem e tinha zarpado rumo à Índia para fazer fortuna. Ali tinha prosperado
graças a sua inteligência e ao suor de sua testa, tinha encontrado esposa e tinha formado uma
família: dois filhos magníficos e uma formosa filha. Tinha subido de categoria na Companhia das
Índias Orientais e logo, depois de aposentar-se, tinha usado tudo o que tinha aprendido durante
três décadas de negócio implacável no Oriente para ajudar Jack a converter sua empresa em
uma companhia digna.
Era o mais próximo de um pai que jamais Jack tinha tido. Arthur e ele tinham
combinado que voltariam juntos a sua terra natal; para darem-se apoio moral, por assim dizer.
Era difícil saber qual dos dois causaria mais surpresa ao resto do clã quando os vissem.
Trahern fechou sua luneta de repente e olhou a Jack, esperançado.
—Acredita que seu tio trará a senhorita Georgie com ele?
Jack se pôs a rir.
—Quem? A beleza das Ilhas das Especiarias? A rainha de Bombaim? Seriamente acha
que renunciaria a sua vida social só para te ver?
—Não. Trahern suspirou. —Mas posso sonhar, não? Essa mulher é uma deusa.
Jack lhe fez um gesto sardônico com a cabeça.
—Esqueça-se dela, amigo. Comeria-o vivo.
—Sim, mas não acredito que me importasse.
—Ei. Arqueou uma sobrancelha e o olhou franzindo o cenho. —Estás falando de
minha prima mais nova.
Rudy os interrompeu com seus repentinos latidos, ocupado uma vez mais com sua
afeição favorita, consistente em incomodar às galinhas e aos patos que viviam nas caixas de
madeira dentro dos botes salva-vidas. Guardavam as aves vivas a mão para abastecer a cozinha
de ovos frescos.
No interior dos botes se produziu um clamor de cacarejos e grasnidos, e embora os
marinheiros que havia perto tentaram dissuadir ao cão de seu jogo, Jack suspirou e foi procurar
seu desgarrado mascote.
Agarrou Rudy pela sua correia de couro, afastou ao cão ofegante repreendendo-o sem
muito entusiasmo e voltou para seu luxuoso camarote. Ao entrar na espaçosa câmara com
painéis de madeira, Rudy pôs-se a correr diante dele e foi saudar Phineas Patrick Moynahan, o

67
imundo grumete10 de nove anos de Jack, também conhecido como o Guri. O maroto estava
dando brilho às botas de Jack, mas Rudy o empurrou de seu tamborete abaixo com suas alegres
saudações.
O Guri caiu ao chão soltando uma gargalhada de ligeiro aborrecimento.
—Me deixe vira-lata tolo!
Rudy lhe lambeu a face e esperou meneando a cauda como louco para que o menino
brincasse com ele.
Entretanto, Jack, que era um homem prático, deu ao menino seu seguinte recado.
—Senhor Moynahan, necessito de meu secretário. Vá procurar ao senhor Stockwell.
Quero ditar uma carta.
—Sinto muito, capitão, mas não posso. Subiu ao tamborete de novo. —Ele desceu à
enfermaria porque pegou uma dessas febres tropicais.
—De verdade? — perguntou Jack, surpreso.
O Guri assentiu com a cabeça e pegou a outra bota.
No dia anterior, quando estavam trabalhando, o senhor Stockwell se queixou de que
não se achava bem, mas Jack não tinha imaginado que fosse tão grave.
—Senhor Moynahan — disse bruscamente — tem betume na testa.
O Guri levantou a mão para limpar-se com o cenho franzido e só conseguiu manchar o
rosto de negro ainda mais.
Jack reprimiu um sorriso.
—Martin! — gritou, chamando ao seu criado de quarto para que substituísse seu
secretário.
Imediatamente, o homem limpo e meticuloso acudiu correndo em resposta a sua
chamada. Enquanto Martin se queixava daquela tarefa, que não fazia parte de suas
responsabilidades habituais e se apressava a pegar papel e tinta, Jack se sentou e apoiou os pés
no canto de sua grande escrivaninha de estilo baronial escocês, recostou-se e pensou em como
começar a carta.
Quando se achava redigindo mentalmente um lacônico cabeçalho, bateram na porta
do camarote.
— Entre.
Jack ergueu a vista quando o mestre de armas entrou.
—Algum problema, Brody? — Jack consultou seu relógio de bolso. —Nossa sessão de
treinamento não começa até as quatro.
—Posso falar-lhe, capitão? — disse o homem, com o chapéu nas mãos.
—Claro. Fale com toda confiança.
Brody olhou a Martin com seu habitual receio de guerreiro.
—Pareceu-me que devia saber que circula um rumor entre os homens, capitão,
10
Jovem aprendiz de marinheiro que ajuda a tripulação em suas tarefas.

68
segundo o qual um clandestino subiu ao navio em Trindade.
Jack entrecruzou os dedos pensativamente.
—Seriamente?
—Sim. Um companheiro do carpinteiro diz que viu um rapaz escondido na cobertura
inferior.
—É isso verdade? — murmurou Jack, sem prestar atenção ao muito que se animou o
Guri ao ouvir a notícia.
Meditou um momento; Brody permaneceu à espera.
Jack desceu os pés da escrivaninha com um golpe pesado.
— Leve a um par de homens abaixo e dêem uma olhada. Se acharem alguém
escondido ali que não seja dos nossos, ponha a trabalhar. Todo mundo paga sua parte em meu
navio — reiterou, afastando de sua cabeça outra lembrança zombadora da ruiva com os olhos
verde esmeralda.
"Não, é impossível".
Eden Farraday era atrevida, mas não estava louca.
Além disso, ninguém podia confundir àquela deliciosa preciosidade com um rapaz,
nem sequer a tênue luz da coberta inferior. Sem dúvida, não era mais que um pobre órfão
fugitivo das ilhas do Caribe em busca de uma vida melhor. Seu navio mercante recolhia meninos
desamparados por todo mundo. Caso se negassem a trabalhar, sua firme política consistia em
entregá-los à polícia como ladrões. Antes de tudo, não controlava uma organização beneficente.
—Recorde à tripulação que todo aquele que ajude a ocultar a um vagabundo sofrerá
represálias — ordenou. —Não penso tolerar que ninguém me roube.
—Sim, capitão — respondeu Brody resolutamente, e foi cumprir a ordem.
—Aonde vai você? — perguntou Jack, ao ver que o Guri se levantava rapidamente de
seu tamborete e atravessava o camarote correndo.
Rudy aguçou o ouvido ante o movimento do menino, mas permaneceu deitado junto
à escrivaninha de Jack.
—Isto... vou encher o barril de água, capitão.
—Terminou de polir minhas botas?
—Quase, senhor. Necessitam de uma última mão, mas o betume ainda não se há
secao...
—Secado — lhe corrigiu Jack com suavidade.
—Sim, senhor, ainda... não se secou... e como você sempre diz que tenho que
aproveitar melhor o tempo...
—Exato. Muito bem, senhor Moynahan. Vá, pois — disse, olhando diabrete com
suspeita.
Uma vez que obteve permissão para retirar-se, o Guri saiu do camarote a toda
velocidade. Jack não recordava ter visto nunca ao menino tão ansioso para fazer suas tarefas,
mas deu de ombros e começou seu ditado:
69
—Querido Abraham — disse, enquanto Martin começava a escrever rapidamente — vi
com grande pesar como as relações amistosas entre nossas duas companhias se dissolviam
durante o curso dos últimos anos. Apesar de meus esforços para me manter imparcial, o certo é
que as políticas preferenciais de sua empresa...
—Senhor?
Não podia ser Eden Farraday.
Ela não teria feito algo assim.
"Não se esqueça de com quem está tratando". Aquela criatura indômita não era uma
mulher normal.
E aquele era exatamente o motivo pelo qual lhe interessava. Ela tinha se metido
dentro dele como aquela condenada lasca…
Ele ficou olhando ao vazio enquanto dava batidinhas com sua pena na escrivaninha e
recordava como se lançara intrepidamente do galho da árvore, balançando-se na liana, e a jovial
facilidade com a qual tinha cortado o abacaxi em perfeitas rodelas com aquele facão afiado.
Sim, e a forma como enfrentou a ele, Black-Jack Knight, o suposto terror dos mares.
Tinha-o olhado nos olhos e tinha Expressado sua opinião com uma sinceridade que a maioria
das mulheres não ousaria empregar.
Mas era tão temerária para viajar clandestina depois da negativa dele de levá-la em
seu navio?
Certamente que sim, compreendeu, embora lhe custasse fazer-se à ideia de que
durante todo o tempo que ele tinha estado desejando-a, ela podia ter estado no navio, diante
de seu nariz, e agora podia achar-se ao alcance de sua mão.
O terror dos mares se surpreendeu de repente feito um molho de nervos.
Jack franziu o cenho. "É ridículo".
—Milorde?
—Podes partir. Levantou-se de sua escrivaninha subitamente em um estado de
desconcerto e incredulidade e atirou à pena. —Terminaremos mais tarde, Martin. Tenho que ir...
verificar uma coisa.
Seu valete ficou surpreso.
—E sua carta, senhor?
—Pode esperar. Jack saiu de seu camarote dando grandes passadas e se dirigiu à
coberta inferior.
Tinha que ver o clandestino com seus próprios olhos.

Eden se achava recostada no convés inferior com a cabeça apoiada em um saco de


açúcar, folheando um exemplar de La Belle Assemblée cujas páginas conhecia de cor,
profundamente aborrecida, quando de repente seus sentidos aguçados na selva perceberam
uma presença desconhecida muito perto.

70
Ela ficou paralisada um instante e a seguir ficou de lado e se escondeu atrás das caixas
de fruta. Aproximava-se alguém... ou já estava ali?
Conteve a respiração e escutou com a máxima concentração. Aguçando o ouvido,
identificou as tênues pisadas de pés descalços sobre as pranchas de madeira.
—Saia de qualquer lugar que estejas — gritou uma voz suave e bastante aguda.
Franziu o sobrecenho. Ah, parecia a voz de um menino. —Sei que estás aqui. Não podes te
esconder para sempre, não achas? Ninguém é invisível.
Era um menino, pensou surpreendida. Claro que meninos desempenhavam diversos
trabalhos no mar: de grumetes a garotos da pólvora.
Ansiosa como estava por ter companhia — e também muito aliviada, pois que
problemas podia lhe dar um menino — não pôde resistir ao impulso de subir a borda da caixa
inferior sem fazer ruído e olhar para seu pequeno perseguidor.
Sorriu para si mesma ao ver um malandrinho descalço que avançava lentamente com
sigilo felino pela lotada área de carga, olhando atrás dos sacos de açúcar e barris de pólvora,
como se estivesse brincando de esconder.
O pirralho era adorável; procurava a alguém à altura de seus olhos, enquanto ela o
olhava de cima.
Tinha uma madeixa alvoroçada de cabelo loiro brilhante que necessitava
desesperadamente de um corte de tesouras e estava vestido com uma bonita jaqueta curta
como um oficial em miniatura e calças largas e folgadas que lhe chegavam até os tornozelos.
—Assim estás fugindo? Sempre encontramos clandestinos que fogem, mas eu não sou
desses. Minha tia Moynahan me mandou de aprendiz ao navio de lorde Jack. Talvez você
também possa ser aprendiz. Posso perguntar ao capitão, se quiseres. O capitão Jack me escuta
— acrescentou dando-se ares de importância. —Deverias sair e aceitar minha ajuda se fores
esperto, porque o senhor Brody e uns homens vêm buscá-lo. Sabem que estás aqui.
"Santo Deus!" Deu um salto o coração de Eden ao inteirar-se de que a procuravam.
Não perdeu tempo perguntando quem era o senhor Brody; jogou a mochila com os espécimes
botânicos de seu pai ao ombro e se dirigiu para a porta sigilosamente.
Tinha que sair dali... já. Subiu às escondidas pela estreita escada que conduzia aos
camarotes, chegou à coberta de canhões inferior e escapou pelo estreito corredor situado no
alto da escada.
Ao ouvir vozes na outra direção, deu uma olhada e conteve o fôlego. Cinco
marinheiros de aspecto rude avançavam pesadamente pelo corredor em direção à coberta
inferior. Voltou a ocultar-se entre as sombras e deduziu que eram o senhor Brody e seus
companheiros. Confundindo-se com a permanente penumbra de baixo, subiu a outra escada,
subiu à coberta de canhões intermediária e percorreu o corredor sigilosamente.
Enquanto mantinha o equilíbrio ante o balanço do navio, percebeu o cheiro de comida
dos fogões na cozinha e ouviu que os homens davam ordens pela escotilha. Os flancos do
Ventos de fortuna também estavam guarnecidos com longas fileiras de canhões naquele nível,
mas ali as frestas estavam abertas por ambos os lados, o que criava uma deliciosa brisa cruzada.
A esplêndida luz dourada do sol se filtrava pela grade da escotilha situada a vários
metros de distância. Eden se deteve para olhá-la um momento. Fascinada como alguém

71
hipnotizado, dirigiu-se para ela piscando ante a luz.
Por um breve instante, a sós na escada, permitiu-se absorvê-la colocando-se no raio
de luz cheio de pó. Inclinou a cabeça para trás e gozou de seu brilho reparador. Enquanto
permanecia com os olhos fechados e deixava que o raio de luz lhe esquentasse o rosto,
percebeu que alguém a estava observando.
Não tinha ouvido ninguém, mas quando abriu os olhos e olhou o escuro corredor, viu-
o: uma formidável silhueta situada ao fundo do corredor.
Acabava de descer da escada e estava imóvel, olhando-a fixamente. A luz descia sobre
sua cabeça e seus largos ombros, e envolvia em um halo sua figura alta e tremendamente
musculosa com seu brilho, embora sua cabeça ficasse na escuridão.
Ameaçador e possuidor de uma beleza enigmática, ele não disse uma só palavra
quando seus olhares se encontraram através do corredor.
"Jack".
Como uma presa enfeitiçada por um predador, Eden ficou momentaneamente
paralisada pelo brilho de seus olhos azul água marinha na penumbra; ele manteve o olhar fixado
nela, como em sua fantasia do salão de baile.
Então recordou que era uma intrusa que penetrara em sua propriedade; o navio era
sua fortaleza flutuante, e ele, seu suserano. Não gritou com ela, mas assim que se moveu —
começou a caminhar a grandes passadas em direção a ela — Eden se virou e fugiu.
Correu para a popa com todo o sigilo que tinha desenvolvido na selva, mas quando o
navio balançou, esteve a ponto de cair de cabeça na cabine de oficiais, onde os tenentes e os
alferes se preparavam para jantar.
Depois de recuperar o equilíbrio, seguiu correndo ignorando ao oficial que gritou com
ela:
—Acorde marinheiro! Ocupe seu posto!
Notava que Jack a estava seguindo e que a estava alcançando. Dobrou outra esquina
escura do corredor, mas ante ela não achou mais que a coberta limpa.
Desesperada, ficou a procurar outro lugar onde se esconder, viu um armário cujo
letreiro estava SALVA-VIDAS e se meteu dentro. Apertou-se entre os montões de bóias de cortiça
dura e fechou a porta sem fazer ruído. Conteve o fôlego enquanto seu coração pulsava com
força.
Aguçou o ouvido por cima do ruído de seu estrondoso coração e ouviu que se
aproximavam passos bruscos e contundentes sobre as pranchas de madeira.
—Capitão, ocorre algo? — perguntou Peabody.
—Acaba de passar alguém por aqui? — rugiu uma voz profunda e autoritária.
—Pois sim, senhor. Um dos rapazes do intendente subiu à coberta há um momento.
Lorde Jack grunhiu justo ao lado da porta do armário.
Eden aguardou com o coração na mão.
Ao cabo de outro angustiante momento, seguiu adiante.

72
Justo quando começou a expulsar o ar, soaram umas batidinhas atrás do capitão. Era
um cão? O animal se deteve de repente. Na fresta situada ao pé do armário se ouviu um som de
farejo ansioso e rápido. Eden abriu muito os olhos na escuridão. Só podia distinguir a ponta de
um focinho canino negro. "Oh, não".
—Rudy! Venha aqui, menino! Basta já! — repreendeu-o o oficial. —O que andas
fazendo?
Pouco a pouco, pisadas fortes e firmes retornaram.
—Acho que encurralou um dos gatos do navio, milorde.
O ritmo ameaçador dos passos se deteve do outro lado da porta.
—Já veremos.

Jack pegou Rudy pela coleira e entregou o cão a Peabody fazendo um gesto com a
cabeça para lhe indicar que levasse o animal. Não prestou atenção ao resto dos oficiais que
tinham saído ao corredor e o cercado para ver qual tinha sido a causa do alvoroço.
Voltou-se uma vez mais para o armário com os olhos semicerrados, indicou com a
mão a seus homens para que retrocedessem e tirou seu alfanje se por acaso se equivocasse com
respeito à identidade do clandestino. Para falar a verdade, ainda não sabia se dava crédito aos
seus olhos depois da visão da pequena figura que tinha contemplado no corredor iluminada por
um raio de sol.
Agarrou o fecho com cuidado, abriu a porta de um puxão subitamente e colocou a
mão a apalpadas no armário. Quando pegou a parte dianteira da roupa do velhaco, um grito
abafado brotou da escuridão.
—Saia daí! — bradou, enquanto tirava o clandestino e o expunha.
Apesar de já ter imaginado, ao voltar a vê-la cara a cara ficou profundamente
surpreso. É claro, era Eden Farraday; transformada num desastre, apanhada e aterrada ante sua
ira.
Jack a soltou como se queimara.
Percorreu o corpo dela com um olhar de assombro, do lenço manchado que tinha
amarrado ao redor da cabeça até a camisa suja, o colete de homem e as calças grandes que
levava presas com um pedaço de corda e que lhe chegavam até as botas sujas e cheias de
arranhões.
Mal podia falar.
—Pensa apresentar-se em Londres com essa aparência? — replicou-lhe, sem sair de
seu assombro.
Ela soltou um grito de guerra ao ouvir sua cínica saudação. Jack deveria ter sabido que
não lhe convinha abandonar àquela criatura, pois quando ainda não se recompusera da
surpresa, atacou-o arremetendo-se contra ele. Empurrou-o a um lado com o que Jack supôs que
eram todas suas forças, embora ele não se movera, e a seguir se lançou diante dele.
Ele estendeu a mão para agarrá-la, mas em um abrir e fechar de olhos, ela se agachou

73
por baixo de seu braço e escapou. Jack se virou e a pegou, mas só pegou a mochila de lona que
levava ao ombro. Eden seguiu correndo.
De repente, Jack baixou a vista e se deu conta de que lhe tinha roubado a pistola da
capa que levava no quadril. Então olhou com o cenho franzido.
—Atrás dela! — gritou a seus homens.
—Ela, capitão? — repetiu um deles surpreso.
O jovem alferes empalideceu ao ver o terrível olhar de Jack.
Todos se apressaram a obedecer.
"Maldita descarada!"
Ia bem atrás de seus homens, percorrendo o escuro corredor com passo firme. Ele a
enforcaria por aquela façanha. Como tinha se atrevido a lhe tirar a arma na presença de tantos
homens de sua tripulação? Como podia tê-lo permitido?
Ah, mas uma beleza como Eden Farraday era feita para deixar os homens em ridículo.
—Aonde acredita que vai? — rugiu ele, enquanto ela avançava pesadamente pelo
corredor como uma raposa açoitada por uma matilha de cães. —Estamos no meio do mar!
Em pânico, ela saiu correndo à coberta de canhões superior e sem dúvida ficou cega
pelo sol depois de tantos dias na parte de baixo do navio.
Os uivos de seus homens tinham despertado aos membros da tripulação que estavam
de guarda na parte superior, e quando Jack chegou ao alto da escada, seus robustos marinheiros
tinham rodeado ao clandestino.
—Tranquilos. Que menino tão atrevido — estava dizendo o bom Higgins, tratando de
dominar a situação.
—Garoto ou garota? — chiou outro marinheiro. —O capitão disse que era uma moça!
A tripulação prorrompeu em murmúrios de surpresa quando essa informação
percorreu as cobertas.
Jack percebeu que apesar de estar rodeada por toda parte, Eden se esforçava para
manter a todos a distância com seu facão em uma mão e a pistola que lhe tinha roubado na
outra.
—Uma moça? — murmuravam os homens.
—Não pode ser — diziam outros em tom de mofa.
—Usa calça, não?
—E o que? Não ouviram falar dos prostíbulos onde os homens se exibem vestidos de
mulheres? Pode ser que ela seja o caso contrário.
—Ou uma mulher pirata, como Mary Read ou Anne Bonny! — interveio outra alma
serviçal.
—Não sou uma mulher pirata, idiotas! — gritou-lhes Eden, mas não ajudou a
tranquilizar a situação o mínimo. —Para trás!
Nas cobertas se ouviram gargalhadas cordiais, mas Jack franziu o cenho,

74
entrecerrando os olhos para se proteger do sol. Aquele não era precisamente o tipo de assunto
que queria que seus marinheiros debatessem diante de uma jovem, mas uma dose de grosseria
masculina podia ser exatamente o que ela necessitava para compreender que o mundo que
havia além de seu paraíso verde era um lugar sombrio, estranho e frequentemente perigoso.
Talvez desse modo aprendesse que não podia realizar a desatinada aventura que lhe
tinha metido na cabeça. Deus, era tão travessa como insensato seu pai, pensou enquanto
reprimia a onda de instinto protetor que o invadiu. Cruzou os braços e deixou que os rapazes
zombassem dela por um momento enquanto permanecia à sombra do convés do navio,
bastante perto para intervir se fosse necessário. "A muito safada se colocou nisto. Vamos ver
como consegue sair".
A tripulação seguiu debatendo o mistério do sexo do clandestino de forma estridente.
Sua confusão era compreensível, dada a roupa de rapaz que levava e a destreza com que
empunhava duas armas ao mesmo tempo: um fato que infundiu em Jack um absurdo orgulho
pela pequena tigresa.
Tinha emagrecido desde seu encontro na selva; com o cabelo recolhido debaixo do
lenço, suas delicadas feições tinham um aspecto mais fino por causa da fome. Sua atlética
esbelteza tinha dado passagem a uma enxuta fragilidade de menina desamparada, e estava
decididamente esquelética; a folgada roupa masculina pendendo de seu magro corpo. Mas
apesar de seu rosto sujo e pálido refletir vigor juvenil, ferocidade e uma absoluta determinação
que poderiam ter pertencido a qualquer um dos dois sexos, só era uma garota.
Enquanto esquadrinhava nervosamente o muro de homens sujos, suados e rudes que
a rodeavam, seu olhar se deteve em Jack e seus olhos verdes lhe suplicaram ajuda de forma
comovedora.
Parecia que por fim tinha olhado atentamente a sua tripulação e se dera conta de que,
além de seu facão e as duas balas da pistola de duplo cano de Jack, ele era o único amparo com
o qual contava.
Ele se limitou a arquear as sobrancelhas e lhe dedicou um sorriso atento, enquanto
esperava ver o que ela faria a seguir.
O olhar suplicante dela se endureceu e se converteu em um olhar desafiante ante a
mostra de divertida indiferença de Jack. Um brilho obstinado apareceu em seus olhos, como se
quisesse dizer: "Vá para o inferno, Jack Knight. Não necessito de você!".
"Hum", pensou ele. Depois de ter tratado com inumeráveis jovens revoltados e
arrogantes, e de ter sido ele mesmo um deles anos atrás, fazia muito tempo que tinha
aprendido a controlar aquelas criaturas. Normalmente se convertiam em magníficos
marinheiros depois que ele os castigasse durante meses até submetê-los. No final
compreendiam que um deles ia ceder e que não ia ser Jack. A única coisa que era preciso era
uma disciplina como a qual repartia a marinha; a aversão dos rapazes à autoridade só requeria
um pouco de domesticação.
Mas todos aqueles jovens marinheiros aos quais tinha submetido eram homens,
percebeu com certa inquietação, e embora sua tripulação ainda não estivesse a par do assunto,
Jack era perfeitamente consciente de que seu pequeno clandestino era uma mulher feita e
direita; uma espécie que atuava de acordo com leis naturais totalmente distintas.
Trahern, que se fazia de vigia, entrou então em cena.

75
—Deixem-no! Voltem para seus postos! O capitão se ocupará do rapaz! Deixem em
paz ao garoto!
Jack arqueou uma sobrancelha sardonicamente ao descobrir que Trahern continuava
ignorando a verdadeira identidade do clandestino.
Um dos marinheiros tratou de informá-lo a respeito.
—Asseguro-lhe, senhor Trahern, que não é nenhum rapaz!
—Claro que o é! — protestou outro.
—Estás cego! Aposto contigo tuas rações de grog.
—Aceito a aposta! Note em seus olhos! Sim, pela boca se nota que é uma garota!
O marinheiro revirou os olhos.
—As garotas bonitas não usam armas!
—Bem? O que é então? — perguntou o corpulento Ballast, o artilheiro, enquanto se
aproximava dela sem temer suas armas; seu dente de ouro brilhava e sua calva reluzia ao sol.
Jack se tencionou ligeiramente ao olhá-lo. Todos os navios tinham seu principal
bagunceiro, e no Ventos de fortuna aquela distinção correspondia a Ballast, o arisco artilheiro
que se considerava acima da tripulação e só obedecia a duas pessoas do navio: o senhor Brody e
o capitão Jack.
—Garota ou garoto? — disse-lhe em tom de mofa. —Nos mostre seu engodo e
saldemos a aposta!
—Para trás! — advertiu-lhe ela quando Ballast tentou agarrá-la pelo braço rindo e
falhou.
Eden se esquivou virando agilmente.
—Vamos, não seja assim — insistiu ele, dando voltas ao seu redor, enquanto a maior
parte da tripulação ria de seu jogo. —Queremos saber o que tens!
—Deixe em paz ao garoto, Ballast — disse Higgins, dando um passo adiante com
valentia em direção ao homem, que era muito mais corpulento que ele.
Ballast empurrou Higgins e o lançou para trás contra um grupo de marinheiros que o
seguraram.
—Por que não vais lamber as botas do capitão um momento? É a única coisa para que
serves!
Jack já se pôs em movimento e se dirigia a pôr fim naquilo. Entretanto, no último
momento, Ballast estendeu a mão rindo atrevidamente e tentou agarrá-la de novo, mas Eden
reagiu em defesa própria, e seu facão reluziu ao sol; Ballast caiu para trás amaldiçoando de
forma incompreensível, com um corte desagradável em seu antebraço tatuado.
As estridentes gargalhadas da tripulação deram passagem a gritos abafados de
surpresa.
—Ora, pequeno verme. Ballast tirou sua adaga. —Vou te estripar pelo que acabas de
fazer!
—Tente-o e te colocarei uma bala no cérebro — respondeu Eden com admirável
76
serenidade. —Embora acredite que te supervalorizei senhor. Está claro que não tens cérebro!
Naquele instante, uma rajada de ar levantou o lenço que tinha amarrado ao redor da
cabeça, e sua esplêndida cabeleira de cachos acobreados se derramou sobre seus ombros,
ondeando ao vento.
Todos os homens presentes lançaram um grito de surpresa... e a olharam fixamente.
—Basta! — Jack saltou da ponte e caiu entre eles com o alfanje desembainhado. —A
garota está sob minha proteção — anunciou ao mesmo tempo em que percorria a coberta
abarrotada com um olhar brutal. —Se algum homem puser a mão em cima dela, enforcarei-o
pessoalmente no mastro de proa. Entendido?
Ouviram-se uns tímidos "Sim, senhor" enquanto os homens se afastavam de seu
caminho.
Ballast se arrependeu de seu imprudente comportamento assim que o capitão pisou
no convés. Abaixou sua cabeça raspada e levou a mão a sua ferida ensanguentada.
—Encontramos... o clandestino, capitão — resmungou.
—Já o vejo — disse Jack secamente. —Vá à enfermaria. Está manchando de sangue
toda minha coberta.
—Sim, capitão.
Ballast lançou a Eden um olhar de persistente incredulidade enquanto escapava para
receber a atenção do cirurgião. Jack se ocuparia dele mais tarde, e o artilheiro sem dúvida sabia
disso.
—Voltem para o trabalho! — ordenou Trahern.
—Já ouviram vagabundos! — disparou Brody, que voltou a aparecer no convés
naquele momento após ter procurado sem êxito no convés inferior.
Os homens se tornaram mais vivos ao ouvir o grito estridente do mestre de armas.
Jack lançou um olhar colérico a Eden. Alegrava-se de saber que a garota sabia cuidar
de si mesma, mas maldita seja!
Ao olhá-la de novo percebeu o terror que se refletia em seus olhos e sentiu um
intenso remorso por ter permitido que seus homens zombassem dela. Mesmo assim, esperava
havê-los convencido.
Jack estendeu a mão.
—Me devolva minha pistola.
Ela tinha muito abertos seus olhos verdes, que continuavam cheios de temor.
Percorreu a tripulação que a rodeava com um olhar de inquietação.
—Nem pensar — disse, engolindo em seco.
—Eden, não só é uma clandestina, mas além disso, me roubaste a arma diante de
meus homens — disse ele com suavidade. —Não piores a situação de nenhum dos dois.
Ela umedeceu os lábios nervosamente com a língua e voltou a observar à tripulação.
—Mas Jack...

77
—É comigo que você deveria se preocupar neste momento — lhe advertiu ele em voz
baixa. —Devolva-me a maldita pistola.
Jack aguardou inflexível; a tripulação se deteve antes de retornar as suas tarefas e
observou com uma tensão evidente como a feroz moça se atrevia a desobedecer a ordem do
capitão.
Ele moveu os dedos impacientemente e lhe fez gestos para que lhe entregasse a
pistola; depois, estendeu a palma de sua mão.
Era a mesma mão da qual lhe tinha tirado a lasca. O leão da antiga fábula nunca tinha
esquecido o favor, e tinha perdoado a vida do jovem que o tinha ajudado.
Jack a olhou intensamente.
Ela duvidou antes de tomar a decisão; a batalha que travavam as emoções em seu
interior se refletia em seu formoso rosto, mas depois de um longo momento, rendeu-se
lentamente e entregou a pistola.
Jack pegou a arma e a guardou de novo em sua pistoleira.
—Bom, não foi tão difícil, não é? Agora o facão.
—Não!
Ele moveu os dedos de novo.
—É meu! Não pode ficar com ele.
Ele a olhou fixamente.
—Não, Jack, por favor — lhe rogou ela em um sussurro lastimoso.
—Me entregue — respondeu ele em tom duro. —Não tem opção.
—É um abusado! — gritou ela em um arrebatamento de fúria renovada.
Ele arqueou uma sobrancelha, mas tinha outras formas de fazê-la obedecer.
—Me dê à mochila — disse a Trahern. O tenente entregou a mochila de lona que Jack
tinha tirado do ombro de Eden. —O que há aqui dentro, querida? — perguntou-lhe, pois a bolsa
pesava muito pouco.
Ao ver que ela se negava a responder, abriu-a e deu uma olhada dentro.
Além da laranja que havia no bolso lateral, roubada da adega de carga, a mochila não
continha mais que umas folhas imprensadas em papel encerado.
Ele sabia o que eram, mas a olhou sardonicamente, tratando de insistir que entregasse
a arma.
—Ervas?
Agarrou a laranja, a lançou ao Guri e a seguir devolveu a mochila a Trahern.
—Atire-a pela amurada.
—Sim, senhor.
—Não! — gritou ela. —Senhor Trahern, por favor, não pode fazê-lo!
—Por quê? — perguntou Jack.

78
Trahern vacilou, deslocando a vista de seu idolatrado capitão a clandestina uma e
outra vez, debatendo-se entre o dever e o cavalheirismo.
Eden ergueu o queixo e indicou as folhas de plantas imprensadas.
—Não são ervas, como bem sabes. São amostras botânicas da investigação de meu
pai: plantas com poderes curativos. Vou levá-las a Londres para mostrar à lorde Pembrooke.
—Ah, sim?
—Sim, Jack.
—Capitão — a corrigiu ele, pondo-a em seu lugar. Dadas as circunstâncias, não
pensava em consentir que se dirigisse a ele com semelhante insolência diante de seus homens.
Ela levantou o queixo.
—Capitão, são umas plantas muito valiosas e pouco comuns que os cientistas do
Jardim Botânico quererão plantar em suas estufas!
—Fascinante. Trahern, atire-a ao mar.
—Sim, senhor. Abatido, o tenente seguiu avançando em direção ao corrimão.
—Não! — gritou Eden.
—Espere — ordenou Jack.
—Por favor — ela o olhou exasperada.
—Muito bem, senhorita Farraday — continuou ele em um tom consumadamente
razoável. —Dê-me o facão, e não atirarei suas ervas.
Sua oferta obteve por toda resposta um olhar colérico da jovem.
—Quer ele? Está bem. Aqui o tem! — murmurou ela a seguir.
Sem prévio aviso, lançou o facão, que saiu voando pelos ares e se cravou no mastro,
muito perto da cabeça de Jack.
A tripulação soltou exclamações de assombro ante a desafiante demonstração de
coragem, indubitavelmente impressionados por sua pontaria.
Os olhos de Jack brilharam de orgulho enquanto a observava por um instante. Olhou
brevemente a enorme faca que seguia vibrando depois do impacto, com a folha cravada uns
cinco centímetros na madeira.
A indômita mulher, sua futura esposa, cruzou os braços e ergueu o queixo, furiosa
ainda, mas decididamente satisfeita consigo mesma.
—Senhorita Farraday — lhe reprovou ele, fazendo estalar a língua em atitude
indulgente. —Arranhou meu navio.

79
Capítulo 6

Apesar de manter o queixo erguido em atitude desafiante, Eden sabia que estava
indefesa depois de ter sido desarmada. Mas quando lorde Jack se encaminhou para ela com
aquele sorriso estranho e inquietantemente sereno no rosto, empalideceu e se virou, em busca
de uma via de fuga.
Não havia aonde escapar. Seu coração palpitava acelerado. Percorreu as ensolaradas
cobertas com o olhar e se deteve nos equipamentos de barco.
—Oh, não. Nem lhe ocorra — a repreendeu ele, e a pegou pela cintura quando ela
tentou subir a toda pressa pela escada de corda mais próxima.

80
Afastou-a pela força dos degraus dos amantilhos11 do mastro maior, colocou-a sobre
seu ombro e a pôs em seu lugar lhe dando uma vigorosa palmada no traseiro.
Ela soltou um agudo grito ante semelhante indignidade e lutou com ele o melhor que
pôde, mas Jack não se deixou intimidar e imobilizou sem problemas os braços e pernas de Eden.
Inclusive teve o descaramento de rir de seus esforços.
—Me solte, pirata... canalha! — chiou ela, embora estivesse claro qual dos dois
mandava.
Mas aquilo não a dissuadiu de seguir lutando, sem preocupar-se de que a única coisa
que mediava entre ela e aquele ex-pirata tremendamente corpulento, forte e zangado, era o
pingo de cavalheirismo que ainda aninhava em seu peito.
Uma esperança duvidosa.
—Não faça nada que eu não faria capitão — disse um apressado marinheiro piscando
o olho quando passaram ao seu lado.
Jack lhe lançou um olhar carrancudo.
—Traga um barril de água fresca ao meu camarote. Esta garota cheira mal.
—Não é verdade!
—Sim, senhor — o marinheiro correu para cumprir a ordem.
—Claro que sim. Comida e bebida, rápido — ordenou a outro. —Deixe de me dar
pontapés, Eden.
—Merece-o!
—Não sou eu que viajava como clandestino — recordou-lhe, enquanto a levava mais à
frente do leme do navio e do grupo de jovens marinheiros boquiabertos e com os olhos
arregalados. Lorde Jack a introduziu por uma porta e a meteu na fortaleza.
—Me solte, maldito!
—Melhore a linguagem! — exclamou ele suavemente. —Se falar assim, não fará
muitos amigos em Londres.
—É você um ogro — declarou ela, pendendo precariamente de seu enorme ombro.
Ele a deixou no chão com um ruído surdo, sorriu-lhe de um modo intencionalmente
provocador e a seguir voltou para a porta para recolher o barril de água fresca.
Eden, que ficou com a boca seca ao descobrir que estava a sós com ele, voltou a
colocar a jaqueta de seu pai e jogou uma olhada nervosamente ao camarote ao qual aquele
homem tinha fugido com ela.
Depois de tantos dias nos armazéns escuros e funcionais do navio, ficou certamente
impressionada pelo estilo elegante e masculino do amplo camarote. Certamente, havia se
aproximado alguns passos à civilização.
O camarote do capitão era um escritório elegantemente equipado com painéis de
11
Cada um dos cabos grossos que sujeitam a cabeça de um pau ou de um mastro de um barco a todos os
lados ou na traseira do mesmo.

81
madeira escura, candelabros de parede de bronze e diversos quadros ao óleo em molduras
douradas. Tinha um chão curioso coberto de lonas estendidas que tinham sido pintadas com
quadrados brancos e negros a imitação dos ladrilhos de mármore; do teto baixo com vigas,
pendia um lustre de estanho centrado sobre uma mesa redonda situada em meio da estadia.
A mesa pesada com pés de garra, coberta de cartas de navegação e mapas, formava
parte do mobiliário de mogno com poltronas estofadas em couro vermelho; entretanto, o móvel
principal, que dominava o camarote, era a imponente escrivaninha de estilo baronial. Mas
embora o mobiliário da estadia fizesse pensar no estabelecimento de um prestigioso
comerciante londrino, era evidente que estavam em um navio no meio do mar, já que a fileira de
reluzentes janelas de popa deixava ver o interminável mar de intensa cor safira.
Debaixo das janelas havia arcas com forma de bancos estofados com o mesmo couro
vermelho das poltronas. Atrás das janelas de popa havia uma porta que dava a um balcão
descoberto com um corrimão lavrado de cor dourada e umas quantas cadeiras com o assento
baixo dispostas aqui e ali. Era um lugar sombreado e fresco situado na galeria de popa,
protegido pelo convés que sobressaía por cima.
Ao voltar-se de novo para Jack, Eden observou como colocava o tonel de água no
camarote fazendo-o rodar, antes de fechar a porta no nariz do apressado marinheiro. Passou o
trinco e se voltou para ela.
Ela deu um passo atrás com receio.
—Senhorita Farraday, você é uma pessoa teimosa — a repreendeu ele, pondo os
braços na cintura um instante. —Se não fosse tão condenadamente problemática, quase poderia
admirar esse traço. Mas... agora está aqui, não é certo? Assim vou ter que lidar com você.
Lançou-lhe um olhar pensativo da cabeça aos pés.
Eden mudou de postura com inquietação.
—Está bem — disse ele, assentindo com a cabeça em atitude prática. —Tire a roupa.
Ela abriu muito os olhos.
—O que?
—Tire-a e atire-a no mar — lhe ordenou ele, assinalando o balcão com a cabeça
enquanto atravessava a estadia.
—Nem pensar!
Ele se deteve e a olhou arqueando uma sobrancelha.
—Como?
—Não!
—Dei-lhe uma ordem. Seu olhar sombrio se tornou mais penetrante. —Ou prefere
que eu o faça?
—Não se aproxime de mim! — gritou ela, e rodeou a mesa como uma flecha.
—Então faça o que lhe disse — advertiu ele, mas em vez de rodear a mesa para despi-
la à força como tinha ameaçado, desapareceu por uma pequena porta que dava a um espaçoso
armário contíguo ao camarote.
Eden não fez o menor movimento para obedecer a sua escandalosa ordem, em lugar

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disso se limitou a olhar como ele estendia os braços e pegava uma grande banheira de madeira
pendurada em ganchos cravados no biombo da embarcação.
Saiu da pequena habitação caminhando para trás e tirou a grande banheira de lado
pela estreita porta.
—A que está esperando? — perguntou ao vê-la. —Dispa-se.
—Não falará a sério.
Ele se limitou a olhá-la; saltava à vista que não estava brincando.
—Que bom, milorde! É assim como trata a todos seus passageiros?
—Você não é uma passageira, Eden, mas sim uma ladra — respondeu ele em tom
prosaico. —E agora, se preferir não ser tratada como tal e passar o que durar a viagem no
calabouço antes que a entregue às autoridades quando chegar, recomendo-lhe que obedeça.
—Não seria capaz!
—De pô-la em quarentena pelo bem de meus homens? É claro que sim. Vamos
senhorita Farraday, é filha de um médico. Aproximou a banheira de um grande retângulo de luz
que entrava em torrentes pelas janelas. —Sabe que na adega onde esteve escondida se incubam
as febres. No mar, a enfermidade mata a mais homens que a guerra, e não penso deixar que
propague uma entre minha tripulação. Deve lavar-se, e essa roupa deve ser destruída.
Confiemos em que não tenha pego também piolhos, ou talvez tenhamos que lhe cortar essa
bonita cabeleira.
Ela ficou boquiaberta e levantou a mão rapidamente para proteger seu longo cabelo,
mas ficou cravada no lugar, aferrando sua jaqueta abotoada apesar do calor.
Lorde Jack levantou a tampa de um dos baús, tirou um lençol branco limpo, sacudiu as
dobras e a seguir a empregou para recobrir o fundo da banheira.
—Tome — disse ele, com um brilho diabólico nos olhos. —Assim não cravará
nenhuma lasca em seu precioso traseiro. Embora se assim fosse, eu a tiraria encantado. Para lhe
devolver o favor, sabe?
Eden o olhou entrecerrando os olhos em sinal de advertência, enquanto ficava
vermelha. Seu pulso palpitava rapidamente.
Reconheceu com certo desgosto que o que ele havia dito a respeito da necessidade de
manter uma higiene adequada no mar para evitar enfermidades era verdade.
Por outra parte, também recordou como a tinha ameaçado lascivamente com o modo
com o qual pagaria sua passagem se subisse a bordo do navio, e ali estava agora, lhe dizendo
que se despisse.
Aquilo não augurava nada de bom.
Jack levantou o pesado barril de água com facilidade, o colocou ao ombro — o que
tinha ocupado ela pouco antes — levou-o até a banheira e o deixou no chão. Fez saltar o selo da
tampa e o tirou.
—Adiante — disse, lhe lançando um olhar enquanto pegava de novo o barril e
esvaziava seu conteúdo pela metade na banheira. —Não tenho todo o dia.
Eden permanecia imóvel, sem saber o que fazer. Lorde Jack tinha convertido aquilo em

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um duelo de vontades, mas até o momento tudo tinha ido a seu favor, de modo que como ia
ganhar ela?
Quando deixou o barril, indicou com a cabeça para a banheira de forma tão autoritária
que não necessitou palavras para lhe ordenar que se metesse na água.
Sim, ela viajava como clandestina, mas era realmente uma ladra? Ela nunca tinha
pensado nisso daquele modo; sabia que era uma travessura, mas não um autêntico delito.
Entretanto, ele a tinha ameaçado entregá-la à lei se não fizesse o que lhe dizia. Deslocou o olhar
com angústia da banheira ao seu captor e se deu conta de que até então só tinha tolerado sua
insubordinação devido a seu sexo.
Mas embora aquela ideia lhe inspirasse uma fugaz sensação de gratidão, ele acabou
com ela ao se deixar cair despreocupadamente na poltrona situada em frente da banheira.
Ela abriu muito os olhos.
—Não vai partir?
—Nem pensar. Por que ia fazê-lo?
—Mas... não pensará ficar aí sentado me olhando? — gritou.
—Acredito que tenho direito, querida. Estirou os braços para cima e entrelaçou os
dedos atrás da cabeça, enquanto a observava com um sorriso diabólico. —Depois de tudo, olhar
a uma mulher nua é uma das maiores satisfações da vida para um homem, um prazer que
desgraçadamente escasseia no mar. Mas não se preocupe querida. Não tem nada que eu não
tenha visto antes. Proceda — ordenou movendo a mão com ar régio. Recostou-se de novo e
esperou que começasse o espetáculo.
Eden lhe lançou um olhar fulminante.
Os olhos dele dançavam; seu olhar a acariciava.
Ela o olhou em atitude implorante.
—Já lhe disse que assim saldaria sua dívida comigo — lhe recordou ele com suavidade,
esboçando um sorriso temerariamente encantador. —Você mesma o procurou, minha pequena
flor silvestre. Adiante. Só estamos você e eu — disse em um tom aveludado que certamente
tinha cativado às jovens de todos os continentes.
Eden estava tremendo. "Canalha malvado". Por fortuna para ela, mordeu a língua em
lugar de expressar seus sentimentos em voz alta. Ergueu o queixo ligeiramente.
—O que sou então? Seu entretenimento para a viagem?
—Sim, algo assim.
Eden se deu conta de que ele desfrutava brincando com ela. Via-se em seu atraente
rosto.
—Tanto lhe custa obedecer a uma simples ordem? — perguntou ele, e a seguir pegou
uma pena de sua escrivaninha. —Quer que a açoite até que se renda? — murmurou, agitando a
ligeira pena a um lado e ao outro de forma sugestiva.
Eden se estremeceu enquanto o olhava com o cenho franzido.
—És desprezível.

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—Acabo de lhe salvar a pele — lhe recordou ele, com um sorriso mordaz.
Estava claro que o capitão não ia ceder; era como discutir com o estreito de Gibraltar.
Eden o amaldiçoou para si mesma enquanto seu coração pulsava a toda velocidade. Mordeu o
lábio e se voltou em direção à banheira. Se não tivesse um aspecto tão maravilhosamente
tentador… A observou com desejo.
Em realidade, poderia ter achado a força para opor-se àquele bárbaro, mas ansiava
lavar-se e era muito prática para recusar as comodidades materiais que tão desesperadamente
necessitava.
Um dado que aquele descarado conhecia perfeitamente, pensou, ao recordar
subitamente as muitas vezes que tinha ido nadar nua pela selva com as boas amigas que tinha
entre os waroa.
As garotas indígenas conheciam todos os lugares ocultos em cujas águas cristalinas se
podia jogar sem perigo. Eden tinha ido com elas frequentemente para fugir do calor.
Chapinhavam e pegavam as preciosas flores dos nenúfares, suavizavam a pele com misturas
elaboradas com barro e lama, e se adornavam com pérolas que recolhiam nas ostras que
cresciam no rio.
A nudez nunca lhe tinha incomodado mais que às indígenas. Sim, devia pensar
daquela forma. Fingiria que ele não estava ali.
Eden lhe lançou um último olhar de recriminação, afastou-se e começou a tocar a
prega de sua longa camisa branca.
—Bem.
Ela lançou-lhe um olhar por cima do ombro.
Ele traçou um pequeno círculo no ar com a pena para lhe ordenar que se desse a
volta.
—Não tente esconder-se, amor. Paguei por isso, recorda?
Eden o olhou enojada.
Lorde Jack sorriu.
"Muito bem". Se ele queria ser tão terrivelmente grosseiro, ela faria todo o possível
para escandalizá-lo sem deixar que o menor rastro de pudor se interpusesse em seu caminho.
Enchendo-se da coragem que restava, tirou as botas e as meias e as jogou em um lado
com um pontapé, enquanto lançava a lorde Jack um olhar fulminante, e a seguir desatou o
pedaço de corda que rodeava suas calças.
Tirou-as ocultando seu olhar sob as pestanas. Por último, tirou a camisa úmida e feita
em farrapos pela cabeça.
Agachou-se rapidamente e recolheu o montão de roupa, deixando atrás unicamente
as botas.
Passou diante dele como tinha vindo ao mundo e lhe dedicou um sorriso com o qual
parecia mandá-lo ao inferno enquanto saía à galeria de popa, onde atirou por cima do corrimão
toda sua roupa suja, supostamente portadora de enfermidades.
Observou como caía entre as ondas e deixou por um momento que o vento soprasse

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entre seus cabelos e desfrutou do beijo quente do sol em sua pele. Pelo menos aquilo era muito
melhor que a adega de carga. O sol, como fonte mesma de sua força, permitiu-lhe experimentar
uma aparência de controle sobre sua desagradável situação. Respirou fundo, afastou-se do
corrimão e retornou languidamente ao camarote.
Os olhos turquesa de lorde Jack se haviam posto frágeis enquanto Eden se dirigia para
ele. Ele percorreu cada centímetro de seu corpo com o olhar, devorando-a com uma
desconcertante intensidade.
Um desejo aberto e sincero.
Sentia-se aterrada, mas estava muito furiosa para deixar que seu temor se notasse. Ela
não se arrastava diante de ninguém, e menos ainda ante um canalha como ele.
Meteu-se na banheira com uma expressão de orgulho sereno e mergulhou na água.
Uma vez sentada, levantou os joelhos até o peito e se ocultou dele o melhor que pôde.
Lorde Jack, que pareceu lembrar-se então de respirar, aspirou de forma entrecortada.
Afastou a vista por um instante, como se desejasse recuperar a calma, e tampou a
boca com a mão.
—Está se divertindo, milorde? — perguntou Eden ressentida, enquanto lhe tremiam
os dentes, apesar de fazer um dia quente.
Ele não respondeu a princípio. Voltou a olhá-la, levantou a vista de seu corpo e se
inclinou para frente na poltrona, apoiando os cotovelos nos joelhos. Parecia que queria dizer
algo, mas não lhe saíam as palavras.
Ele entrelaçou os dedos com firmeza diante dele e se limitou a olhá-la.
—Deixe de me olhar fixamente — disse ela, com um tom lastimoso na voz.
—Desculpe-me, Eden. A voz dele soou rouca. —Tem um corpo sublime.
Ela morria de vergonha.
—Pode me passar o sabão pelo menos?
Ao ouvir seu pedido, os olhos dele se tingiram de uma diversão que afugentou parte
daquela intimidadora e sombria intensidade. Levantou-se e foi procurar o sabão. Quando
retornou entregou uma forma oval de excelente sabão de âmbar transparente envolvido em
papel encerado.
Eden pegou o pedaço com cautela e a seguir mergulhou na água tampando o nariz.
Seu cabelo flutuou ao seu redor, mas se negou a sair à superfície até que esteve segura de que
podia evitar sua presença. Tinha que se esforçar mais para fingir que ele não estava ali.
Que ruim era, atormentando-a daquela forma.
Quando saiu debaixo da água, apoiou a cabeça de novo contra a borda da banheira,
decidida a relaxar e desfrutar do banho que tanto necessitava. A água morna e sedosa aliviou
sua pele tensa e seus músculos doloridos. Finalmente, começou a lavar-se com o sabão, fazendo
todo o possível para evitar a presença daquele gigantesco e musculoso pirata de mais de um
metro oitenta sentado a menos de sessenta centímetros dela, que a estava devorando com os
olhos.
—Preciso lavar o cabelo — anunciou ao cabo de uns instantes. —Tem xampu?

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Ele se levantou outra vez lançando um grunhido de assentimento, voltou para o
armário e retornou para lhe oferecer um frasco que continha um seleto xampu francês.
Eden o aceitou enquanto ele permanecia junto à banheira; depois pegou o tonel,
levantou-o e lhe fez um gesto com a cabeça para lhe indicar que a ajudaria a lavar o cabelo. Ela
inclinou a cabeça para trás e aguardou que a água caísse sobre ela; uma cascata impulsionada
pela força humana.
Pelo menos, todos aqueles músculos serviam para algo.
—Bom — disse ele lentamente depois de um momento, enquanto derramava a água
com delicadeza sobre seu cabelo — assim achava que ia poder viajar de clandestina e não fazer
caso de nada do que lhe disse.
—Posso explicar...
—Não me diga nada. Não quero ouvir suas desculpas. Ele a molhou derramando
outros dois litros de água sobre sua cabeça.
Ela cuspiu e lhe lançou um olhar fulminante assim que enxaguou a água dos olhos.
Mas agora o cabelo já estava adequadamente úmido, de modo que pegou uma
quantidade considerável de xampu e começou a ensaboar-se enquanto murmurava:
—Não é preciso que me afogue.
—Viverá. Feche os olhos antes que entre sabão.
—Milorde, sei que está zangado...
—Você não sabe nada. Deixe de falar — grunhiu ele. —Estou tentando pensar.
Eden fechou a boca obedientemente e afastou a vista enquanto Jack ia sentar-se com
uma expressão impenetrável.
—O que vou fazer com você, moça? Jogá-la como comida aos peixes? Deixá-la em um
bote salva-vidas para que reme os mais de mil e quinhentos quilômetros que a separam de seu
pai?
Lançou-lhe um olhar de preocupação. De repente lhe pareceu má ideia incomodá-lo
de qualquer maneira. Eden renunciou a tentar raciocinar com ele, ao menos no momento. Era
impossível saber que novo plano estava tramando seu inescrutável cérebro, mas discutir com ele
não faria mais que provocá-lo, e certamente sua situação pioraria.
Afastou seu desgosto lançando um leve bufo de indignação e concentrou sua atenção
na imensamente mais agradável tarefa de lavar o cabelo.
Quando bateram na porta do camarote, seu captor foi responder. Entreabriu a porta e
voltou com uma bandeja de comida, que colocou sobre a mesa. Depois, foi ao camarote
contíguo e retornou com uma de suas grandes camisas brancas perfeitamente dobrada. Deixou-
a sobre o espaldar da poltrona mais próxima para que ela a pusesse quando tivesse acabado de
banhar-se.
Ao ver que tinha terminado de lavar o cabelo, lorde Jack voltou sem pronunciar uma
palavra e pegou o tonel de novo para ajudá-la a limpar-se. Desta vez não fez o menor intento por
empapá-la, mas sim verteu a água com cuidado, deixando que caísse em um jorro contínuo
sobre seu cabelo.

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—Você ia a Inglaterra de qualquer forma — tratou de dizer ela em um tom mais calmo
minutos mais tarde. —Sua negativa foi descortês e totalmente arbitrária.
—Isso não é certo. Ofereci-me a levar você e aos demais a Trindade. Não obedeci de
todo seus desejos, mas melhor isso que nada. Deixou o tonel a um lado. —Pelo menos teria
saído dali. Foi seu pai quem se negou.
—Eu sei.
Quando Eden ergueu a vista para ele, ficou subitamente impressionada pela forma em
que a luz dourada do sol que entrava obliquamente pelas janelas brilhava na linha dura de sua
férrea mandíbula e nos ângulos de seu rosto bronzeado. Sustentou seu olhar por um momento e
logo lançou um suspiro e se recostou, apoiando a cabeça contra a borda da banheira.
—Sinto muito.
—Não, não o sente — respondeu ele, surpreendendo-a com seu tom sincero. —
Conseguiu o que queria. Acredito que sabe perfeitamente o que está fazendo. Felizmente —
acrescentou, enquanto pegava o sabão e começava a lhe lavar o braço com supremo cuidado —
eu também sei.
Ela se afastou em um arrebatamento tardio de cólera e assombro.
—Não me toque!
—Fique tranquila — sussurrou ele.
—Basta já! — gritou ela quando a mão grande e direita dele deslizou o oval sabão
sobre seu peito úmido.
—Relaxe, Éden...
—Me deixe em paz!
Ela o salpicou em um intento de escapar de suas cativantes mãos e lhe molhou de
água toda a camisa.
O tecido escureceu com grandes manchas úmidas sobre seu torso, sua barriga lisa e
seu ombro. Ele se olhou, e o temor dela se intensificou quando voltou a fixar a vista nela com
um brilho febril nos olhos.
—De maneira que quer jogar duro, hein?
A voz dela desapareceu quando ele tirou a camisa pela cabeça. O escandalizado
protesto que se dispunha a realizar se apagou em seus lábios enquanto seu olhar percorria seu
corpo esculpido em pedra. "Meu Deus", pensou, engolindo em seco. Por um momento, movida
unicamente pelo assombro, permitiu-se olhá-lo, olhar realmente Jack Knight.
Seus lábios finos e rosados eram macios e sensíveis em contraste com a barba escura
de seu queixo, necessitada uma vez mais de um barbeado. O olhar do Eden desceu por debaixo
do ângulo quadrado de sua mandíbula até a protuberância do pomo de Adão, e depois desceu
por seu grosso pescoço até chegar à estrutura viril de sua clavícula. Que solidamente era
formado, pensou.
Maravilhosamente bem feito.
De repente, desejou tocá-lo, percorrer aqueles fortes ossos. Acariciar as longas e
musculosas curvas de seu peito.

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Seus mamilos lisos e pequenos possuíam um tom rosa pardo, e um ligeiro pêlo escuro
cobria levemente o vale situado entre seus músculos peitorais; aquela cativante região se
estreitava até formar um sulco liso que descia pelo centro de seu escultural abdômen.
Não, pensou Eden estremecendo de excitação, não se atrevia a tocá-lo nem a fazer
algo que pudesse provocá-lo. Olhá-lo daquele modo já era suficientemente perigoso. Era um
homem de imponente tamanho; seu enorme torso e seus ombros formavam um autêntico muro
de músculos ante ela. Seus braços hercúleos estavam sulcados de veias como a pele lisa e
brilhante de um cavalo de corridas, e sua tez bronzeada mostrava diversas cicatrizes de guerra.
Uma vez mais, ele pegou o sabão e se aproximou dela, olhando-a fixamente nos olhos
em uma sensual atitude desafiante matizada por um rastro de insolência, como se fosse lhe
demonstrar quem mandava. Ela ficou imóvel, recordando vivamente o desesperado desejo que
a tinha mantido acordada durante tantas noites, só na selva.
O instinto, que era mais profundo que a razão, ditou-lhe que esperasse.
Desta vez, quando ele a tocou, deu um pequeno salto, mas decidiu não resistir. Em
qualquer caso, não tinha certeza de que fosse prudente discutir com todos aqueles músculos;
estava intimidada por eles, e muito ligeiramente excitada.
Fechou os olhos e esperou passivamente, permitindo que a explorasse por um
instante, mas pronta para lutar contra ele se sentisse ameaçada de algum modo.
—Fique tranquila — sussurrou ele. Suas lentas e firmes mãos eram cálidas e suaves ao
tato enquanto traçava pequenos círculos em seu peito e ombros. —Assim está melhor, não é?
Ela engoliu em seco.
O coração lhe golpeava tão forte sob as costelas que Eden tinha certeza de que ele
tinha notado seu ritmo frenético ao deslizar as pontas dos dedos sobre sua pele.
Um momento depois, lorde Jack se colocou atrás dela e lhe lavou as costas, traçando
uma linha sensual por sua coluna com o sabão, que segurava nas pontas dos dedos. Suas
grandes mãos massagearam a espuma que tinha nas omoplatas e, escorregadias pelo sabão,
moldaram as curvas de sua cintura. Eden estava sem fôlego enquanto ele a banhava.
Lavou-lhe os braços até as pontas dos dedos e encheu de espuma escorregadia o
espaço situado entre cada um de seus dedos. Ela podia ouvir sua respiração profunda.
Acariciou-lhe as axilas como se não houvesse nenhuma parte de seu corpo da qual não
desfrutasse, e ela conteve a respiração quando suas mãos lhe roçaram a curva exterior dos
seios.
Estendendo as mãos ao redor dela, ensaboou-lhe o diafragma com círculos lentos e
lânguidos até fazê-la tremer. "Isto é uma loucura". Mas o que podia fazer ela? Naquele navio não
havia nenhum lugar onde se esconder dele; agora que a tinham descoberto, estava totalmente a
sua mercê.
—O que vai fazer comigo, Jack? — disse baixo um momento mais tarde, com a voz
entrecortada.
Ele tocou-lhe a face, seguindo sua mão com o olhar.
—Exatamente o que lhe disse, querida. Vou cobrar.
—Cobrar? – a boca de Eden secou ao recordar que lhe tinha advertido que teria que

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pagar com seu corpo se subisse a bordo de seu navio. —Seria capaz de me violentar?
—Não, amor. Isso, jamais — sussurrou ele, muito perto de seu ouvido. —Quando a
tomar, você o desejará.
Ela estremeceu.
—Assim vai seduzir-me?
—Claro.
—Sou virgem, Jack.
—Eu sei querida.
—Estou me reservando para meu marido.
—Excelente — disse ele com voz rouca, e a seguir lhe tocou de novo o rosto lhe
inclinando a cabeça para trás com delicadeza enquanto procurava seus lábios. —É uma
excelente notícia.
Ela se rendeu, impotente.
Depois de ter sonhado com a boca dele sobre a sua desde aquele longínquo dia na
selva, não estava em suas mãos impedir que ambos voltassem a desfrutar daquele vertiginoso
paraíso.
A lembrança de seu beijo a tinha obcecado desde que o tinha provado pela primeira
vez. Ele reclamou seus lábios de novo com avidez, enquanto as pontas de suas mãos ensaboadas
deslizavam pelo nascimento de seu cabelo e desciam por sua face.
Inclinou-lhe a cabeça para trás com uma suave carícia até apoiá-la no poderoso
músculo de seu braço. Eden ficou tensa quando sua outra mão subiu lentamente por seu ventre
e lhe pegou um seio. Ele permitiu que ela fizesse uma pausa, mas não deixou de beijá-la;
apertou-lhe o mamilo entre o polegar e o indicador, exercendo uma pressão muito sensual,
firme e terna ao mesmo tempo. Ela estremeceu e lançou um gemido de confusão.
Ele lambeu seus lábios abertos ao ritmo com o qual se moviam seus dedos sobre o
mamilo dela; o corpo de Eden reagiu espontaneamente arqueando as costas e apertando o seio
contra a palma grande e quente de sua mão.
Ele a beijou mais profundamente enquanto limpava seu corpo lhe jogando punhados
de água; quando se moveu suavemente para o lado dela, sua boca unicamente se afastou dos
lábios de Eden para descer por seu queixo e seu pescoço para o vale que se formava entre seus
seios, até reclamar seu mamilo com um beijo tão profundo como o que lhe tinha dado nos
lábios.
Aflita por sua paixão, ela se reclinou contra a borda da banheira e deslizou seus dedos
por seu cabelo escuro enquanto ele a chupava.

O sabor de seu mamilo grosso e inchado em sua boca, o toque de seus dedos em seu
cabelo tinham excitado-o ao máximo e tinham feito que lhe aumentasse o pulso. Não havia nada
que desejasse mais que deitá-la sobre a escrivaninha e tomá-la. Notava a boa disposição dela à
medida que se derretia debaixo dele, mas tudo estava se descontrolando.

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Jack mal podia acreditar na violência do desejo que sentia por ela. Sabia que aquilo
tinha que parar. Era muito intenso e se estava avivando muito rápido. A garota era virgem.
Estava a sua mercê, e embora confiasse nele o bastante para deixar que a tocasse, em realidade
não sabia o que estava fazendo.
Ele não havia resolvido de todo casar-se com ela, e se a moça o deixava fazer o que
queria sem aquela promessa essencial, aquele deslize suporia para ela a desonra total e
definitiva, e talvez um filho bastardo que cresceria padecendo o desprezo do mundo. Pensou na
solidão dela na selva, em seu desejo de algum contato humano; e apesar de sua fama de ser o
terror dos mares, a vulnerabilidade de Eden o comoveu. Apesar de suas ameaças de lhe fazer
pagar a passagem, negava-se a se aproveitar daquela criatura ingênua e deliciosa. A única coisa
que sabia com segurança era que tinha que protegê-la.
Tinha que proteger Eden de si mesmo.
Em meio da bruma do desejo, deixou de beijar seu seio turgente, percorreu de novo
seu pescoço com os lábios e lhe roçou a boca. Estava ofegando.
Rodeou-lhe o pescoço com os braços e lhe acariciou a boca muito devagar de forma
tremendamente sensual com a sua. Desejava mais, e Jack também, atormentado por sua
ardente resposta.
Mas se conteve.
Não, pensou, a única forma de que aquilo ocorresse era se casasse com ela, e de
repente não tinha certeza de querer fazê-lo.
Tinha lhe causado uma impressão muito grande. Eden Farraday não era como as
demais garotas. Com sua coragem para viajar como clandestina tinha demonstrado que tinha a
coragem, a força e a determinação para perseguir o que desejava na vida, igual a Jack. Por Deus,
aquela jovem tigresa podia lhe dar filhos heróicos, mas aquilo não vinha ao caso.
Tudo o que tinha visto da filha do naturalista lhe tinha convencido de que nunca
estaria satisfeita se ela se limitava a ter filhos e deixar que continuasse com seu negócio de
acordo com seu habitual estilo nômade e completamente solitário.
Exigiria coisas, e não a classe de bens materiais que ele estava acostumado a
conceder, mas coisas difíceis, exigências destinadas a pôr seu coração exposto. Tentaria mudar
sua forma de ser; as mulheres sempre o faziam. Trataria de convertê-lo em alguém que não
queria ser.
O mau era que, no caso daquela garota, Jack pensava que podia dar resultado. Aí
estava precisamente o problema.
Talvez ela fosse a mulher que por fim lhe fizesse assentar a cabeça, e por aquele
motivo sabia que tinha que ser precavido em extremo. Seu corpo desejava ardentemente
possuí-la, mas tinha que pensar nisso com atenção.
Por desgraça, era impossível recorrer ao pensamento racional quando lhe estava
massageando os ombros e lhe tocando o rosto e o pescoço. Jack lhe acariciou o cabelo e se
alimentou de seus beijos como se tratasse do mais doce néctar de Ambrósia. Deus, desejava-a.
Os dois estavam a ponto de deixar-se levar por completo, mas se ele não punha fim aquilo,
dentro de pouco seria muito tarde para lamentar-se.
Finalmente, achou a força para separar a boca da dela lançando um arquejo

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entrecortado. Quando lhe beijou a testa com doçura, ouviu que ela sussurrava seu nome.
Fechou os olhos, tratando de dominar seu pulso ensurdecedor.
Ela tinha os olhos muito abertos, e o buscou com o olhar quando se afastou sem
pronunciar uma palavra. Jack percebeu a incerteza que se refletia na profundidade daqueles
olhos, um vislumbre de dor ante o que ela interpretava como um possível rechaço. Com certeza,
ela não entendia por que se deteve; mudo de desejo por ela, Jack era incapaz de dar
explicações. Baixou a vista.
Emocionado pela intensidade do que acabava de ocorrer entre eles, levantou-se e se
retirou à galeria de popa, para evitar a proximidade daquela insuperável tentação.
Quando saiu ao exterior, a brisa fresca do mar tocou sua pele ardente. Apoiou as mãos
no corrimão lavrado e ficou olhando meio tonto a esteira de espuma; ordenou ao seu coração
que reduzisse o ritmo até voltar à normalidade.
Tinha muita vontade de fumar e tentou acender um charuto, mas se rendeu
amaldiçoando ao cabo de um momento, pois lhe tremiam muito as mãos para poder consegui-
lo. Que demônios ocorria a ele? Passou a mão pelo cabelo e deixou transcorrer uns minutos
mais dominando seu corpo à força de vontade.
Por fim, respirou fundo e expulsou o ar devagar à medida que começava a recuperar a
prudência pouco a pouco. Muito bem, pois. Resistiria à sua atração por pura sobrevivência, mas
Eden não tinha por que saber que a ameaça de deitar-se com ela era vã. Um pouco de
intimidação sensual ajudaria que aquela revoltosa criatura andasse com cuidado. Uma vez que
ele esteve convencido de que tinha dominado seu terrível desejo, voltou-se e entrou com
cautela no camarote.
Quando retornou, viu que ela tinha aproveitado sua breve ausência para sair da
banheira e secar-se, e que pusera a camisa branca limpa que lhe tinha deixado na poltrona.
Chegava-lhe quase aos joelhos, e embora recolhera as volumosas mangas, o V do decote descia
quase até seu umbigo. Não ficava bem absolutamente, mas Jack se surpreendeu desfrutando da
visão da jovem envolvida em sua roupa; embargou-lhe uma sensação de possessiva satisfação
muito peculiar.
Mantinha a camisa grande fechada com uma mão enquanto penteava bruscamente o
matagal de seu cabelo molhado com a outra. A operação parecia dolorosa, mas enquanto ele
observava, ela evitou seu olhar, claramente envergonhada depois da pequena aventura que
tinham vivido momentos antes. A garota tinha as faces muito coradas debaixo de suas sardas.
Seu rubor virginal também agradou a Jack, mas ocultou seu deleite sob uma fachada
severa, por medo de que ambos caíssem outra vez.
—Sabe seu pai que está aqui?
—Deixei-lhe uma carta. Ela mordeu o lábio e o olhou com indecisão; em seu rosto se
transparecia a culpa filial.
—Não se preocupe — a tranquilizou ele em um murmúrio suave. —É um homem
adulto. Não lhe acontecerá nada.
O olhar rápido e tímido que lhe lançou refletia seu agradecimento por aquelas
palavras tranquilizadoras. Quando terminou de pentear-se, Jack lhe indicou com um gesto a
comida que havia sobre a mesa. Eden assentiu com a cabeça e se aproximou dela com cautela

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como uma lebre receosa.
—Quem era o outro sujeito que havia aquele dia na selva? O do fuzil.
—Ah... é o ajudante de meu pai, Connor O'Keefe. Ela pegou um pequeno prato e
examinou o sortido de mantimentos enquanto Jack arquivava aquele nome em sua mente. —
Por que o pergunta?
—Eu não gosto dele.
—Não acredito que ele goste tampouco de você, Jack.
—Mas de você sim parece que ele gosta.
Ela baixou a vista e permaneceu calada por um momento.
—Posso lhe fazer uma pergunta agora?
—Depende do que se trata.
Ela terminou de percorrer o prato com um olhar pensativo e a seguir se sentou
devagar enquanto observava a Jack.
—Está do lado dos rebeldes ou estava em Angostura conspirando contra eles?
Ele arqueou uma sobrancelha, sem dúvida surpreso pelo tema de conversa que tinha
escolhido.
—Sei que está acontecendo algo, Jack. Talvez eu seja mulher, mas isso não significa
que não tenha cérebro. Colocou o guardanapo de linho no regaço. —Já lhe disse a quem devo
minha lealdade. Preferiria ver que Bolívar ganhe.
—Pois não pode ganhar — murmurou Jack. —A menos que receba ajuda.
Ela entreabriu os olhos com satisfação.
—Assim você está do lado dele?
—Você o que acha senhorita Farraday?
Ela o olhou fixamente.
—Papai diz que não vai haver guerra porque o número de rebeldes é imensamente
menor.
—Inclusive um gênio se equivoca de vez em quando. Além de tudo, as situações
mudam.
Ela inclinou a cabeça.
—Não se destaca sua empresa por conseguir algo que alguém necessite em quase
todos os cantos da terra?
Ele sabia que devia pôr fim aquilo, mas era fascinante observar como ela resolvia tudo
mentalmente.
—É certo. Sim.
—E os rebeldes necessitam de homens. Ela se inclinou para frente em seu assento. —
Você vai buscar mais soldados para eles, não é? — sussurrou. —Mas onde? — insistiu antes que
ele pudesse fazê-la calar. —Na Inglaterra? Ah claro! Os soldados que retornaram da guerra da

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Independência espanhola...
Ele revirou os olhos e deu um suspiro.
—Eden.
—Mas a Inglaterra não se atreveria a interpor-se entre a Espanha e suas colônias.
—Não. Oficialmente, não. Entretanto — concedeu ele, cedendo ante ela muito a seu
pesar — um soldado pode trocar de uniforme, não?
—Ahhh. Ela se recostou lentamente com os olhos muito abertos e baixou a vista.
Durante um longo momento, não disse nada enquanto tratava de assimilar tudo; depois ergueu
a vista e o olhou nos olhos. —Não se meterá em problemas por isso?
—Não se não descobrirem. Jack lhe dedicou um sorriso inocente e meteu uma uva da
bandeja de prata na boca.
—Entendo! Então... levar todos esses produtos para pô-los a venda em Londres só é
uma espécie de farsa, não é?
—Já está bem. Não devemos falar mais disso.
—Por quê? Já o descobri, Jack. Estava lá! — esquadrinhou o rosto dele, movendo a
cabeça. —Como se meteu nisto?
Ele vacilou por um momento e em seguida tirou importância ao assunto. Que
demônios. O que importava se contasse a ela? Era bastante sensível para garantir que uma
garota não se metesse no meio disso.
—Lembra-se do terremoto que devastou Caracas há alguns anos? — Jack se inclinou e
apoiou os cotovelos no espaldar da cadeira ao outro lado da mesa, em frente dela.
Ela assentiu com a cabeça.
—Foi logo depois da última tentativa de Bolívar de libertar seu país.
—Exato. Depois de uma série de vitórias, os rebeldes tinham conseguido expulsar aos
espanhóis de muitas áreas da Venezuela. Estavam em Caracas instaurando o novo governo
quando se produziu o terremoto. Lamento dizê-lo, mas têm pior sorte que eu — acrescentou
laconicamente.
Ela sorriu com um olhar pensativo.
—Não declarou a Igreja católica que o terremoto tinha sido obra de Deus?
—Sim, para condenar a revolução. A Igreja monárquica. Os bispos sempre ficam do
lado do rei. Naturalmente, proclamaram que o terremoto era um sinal do julgamento de Deus
contra a revolução. Ao ouvir aquilo, muitos venezuelanos acreditaram que os bispos tinham
razão. A moral foi minando. As pessoas perderam a coragem. Era a oportunidade perfeita para
que a Espanha recuperasse o território que tinha perdido. Quando lançaram outro ataque, a
resistência desmoronou.
Ela assentiu com a cabeça.
—Sim, inteirei-me.
—O que pode ser que não saiba é que depois daquela derrota, Bolívar e seus homens
tiveram que fugir para salvar a vida, perseguidos por alguns dos principais assassinos da

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Espanha.
—De verdade?
Ele assentiu com a cabeça.
—Eram homens marcados, considerados traidores da Espanha. Depois do terremoto,
enviei uma dúzia de navios a Caracas para que proporcionassem comida e fornecimentos
médicos. Ao que parece, Bolívar e seus ajudantes apareceram no meio da formação de meus
navios quando retornavam a Port Royal. Terminaram na Jamaica, quase na porta de minha casa.
Verá, eu tenho uma política. Ninguém mata ninguém em meu território, ao menos sem me
consultar antes. Quando soube do apuro no qual estavam, ofereci-lhes meu amparo. O senhor
Brody, meu chefe de segurança... a quem acredito que já conhece...
—É claro que sim.
—Obedecendo minhas ordens, o senhor Brody colocou um cerco de homens armados
ao redor do perímetro de minha propriedade durante a visita de Bolívar. Graças a isso,
interceptamos os assassinos espanhóis e os jogamos com caixas estragadas.
Ela ficou olhando com os olhos arregalados.
—Salvou a vida de Bolívar? Teve o Libertador e seu conselho convidados em sua casa?
—Por pouco tempo... e deixe que lhe diga que, longe de reconhecer a derrota, ele e
seus conselheiros já estavam planejando o seguinte intento para libertar seu país. Foi então
quando me envolvi pela primeira vez. Um homem que se levanta cada vez que o derrubam, que
segue adiante inclusive apesar da suposta ira de Deus, é digno de admiração.
Eden moveu a cabeça com gesto de incredulidade; Jack estava absurdamente
satisfeito de que suas ações a tivessem impressionado.
—Depois disso, suponho que você não cai muito bem aos espanhóis.
—Não caio bem a ninguém, senhorita Farraday. Não se tinha informado?
Ela sorriu e se ruborizou um pouco.
—Bom, me parece extremamente nobre o que está fazendo.
Ele resmungou.
—Não tenha tanta certeza. Se tudo sair bem, tenho a possibilidade de triplicar minha
fortuna.
—Não acredito que se arrisque a enfurecer a duas das nações mais poderosas do
mundo só para fazer dinheiro. Além disso, não tinha nada a ganhar mandando ajuda
humanitária a Caracas depois do terremoto.
—Talvez só o fiz para reduzir meus numerosos pecados — disse ele alongando as
palavras, cada vez mais desconfortável ante o olhar de admiração que lhe dedicava. Levantou-se
e rodeou a mesa. —Espero ter satisfeito sua curiosidade, querida.
—Quero que saiba que não contarei a ninguém o que está fazendo — disse ela
solenemente, e se voltou para Jack à medida que se aproximava. —Nem sequer a minha prima
Amélia.
—Ah, isso não me preocupa — murmurou ele, tomando o rosto dela com a mão.

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Olhou-a afetuosamente uns instantes e acariciou sua sedosa face com a ponta do polegar.
Que criatura tão curiosa, pensou ele com terna diversão. Séria e sincera. Jack deduziu
por seu sorriso corado que Eden achava que não o preocupava que batesse a língua porque
confiava nela, mas estava equivocada.
O motivo pelo qual não lhe preocupava era porque assim que ela tinha adivinhado a
verdade, ele já tinha decidido que não deixaria que se aproximasse de Londres até que sua
missão estivesse concluída.
Havia muito perigo. Possuía um esplêndido castelo na costa da Irlanda; ela poderia
esperar ali até que o trabalho estivesse acabado, bem oculta em meio de seu esplendor
medieval, e longe de Londres; desse modo evitaria problemas se pronunciava alguma palavra
por descuido ou fizesse uma ingênua confissão.
Naturalmente, odiaria-o por isso, mas se tinha esperado todos aqueles anos para
visitar Londres, não morreria por aguardar seis meses mais.
—Vamos — murmurou ele, enquanto retirava a cadeira da jovem. —Traga seu prato.
—Aonde vamos?
—Pode terminar de comer em meu dormitório. Os oficiais necessitam deste camarote
para realizar seu trabalho... e você estará mais segura lá. Recorde que não deve sair dos
camarotes a menos que a acompanhemos o senhor Brody, o tenente Trahern ou eu. Eden pegou
seu prato enquanto ele colocava o braço dela sob o seu e a conduzia a seu quarto privado. Abriu
a porta e a fez passar. —Bom, aqui o tem. Fique confortável.
—Jack — disse ela, jogando uma breve olhada a seu camarote. —Aí dentro há um
canhão. Voltou-se para ele com o cenho franzido.
—Sim, um canhão de doze libras. Não a morderá. Vamos. Apontou com a cabeça o
quarto. — Alguns temos que trabalhar.
Ela passou diante dele com receio e incerteza e entrou no espartano camarote. Seu
beliche de madeira estava embutido no biombo e coberto com cortinas que tampavam a luz e
mantinham o calor.
Embora houvesse um lavatório no canto e um grande baú de couro ao pé da cama, o
objeto que dominava o quarto era o canhão, que chegava à altura da cintura de uma pessoa. Sua
boca aparecia de forma bélica pela fresta aberta, como se estivesse destinado a manter ao
mundo à distância. Jack cruzou os braços.
—Espero que seja de seu agrado — disse sardonicamente, sem dignar-se a destacar
que, no fim das contas, ela era uma clandestina.
Os clandestinos não podiam escolher.
Ela assentiu com a cabeça com ar de arrependimento.
—Obrigada.
—Esta porta tem várias fechaduras. Jack as indicou e a olhou nos olhos de forma
significativa. —Recomendo-lhe que as use para não deixar entrar os homens.
—Você tampouco poderá entrar? — perguntou ela em tom travesso.
—Querida, eu tenho as chaves. Ele reprimiu um sorriso, despediu-se com um gesto de

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cabeça e se voltou para partir.
—Jack? — ele se voltou em atitude interrogativa ao ouvir sua tênue chamada. Ela se
apoiou na porta e lhe dedicou um meio sorriso brincalhão. —Não quer me dar um beijo de
despedida?
O convite lhe surpreendeu, mas aquilo não fazia mais que demonstrar quão perigosa
era aquela moça.
—Não — respondeu em tom afável, ocultando sua diversão.
Ela franziu o cenho.
Jack se afastou rindo entre dentes e pegou sua camisa do espaldar do sofá onde a
tinha deixado. Pôs ela de novo enquanto se afastava.
—Capitão — gritou ela a suas costas, em um tom menos doce que o de um momento
antes.
—Sim, querida? — disse ele indulgente, enquanto metia a camisa por dentro de suas
calças justas.
—Quero saber, sinceramente... É verdade? Você foi pirata?
—Mas, senhorita Farraday — a repreendeu ele com um brilho malicioso nos olhos. —
Não deve acreditar em todos os rumores que ouve.
Ele piscou o olho.
—Acredito que tenho as patentes de corso em alguma parte.
Ela ficou boquiaberta.
Ordenou-lhe que se encerrasse no camarote fazendo um gesto com a cabeça.
Eden obedeceu sorrindo zombateiramente, e quando Jack ouviu o som dos ferrolhos,
sorriu por sua vez. Talvez agora seus oficiais pudessem retornar ao trabalho e ele poderia tentar
fingir que a vida a bordo do Ventos de fortuna voltava à normalidade.

Capítulo 7

"Bom, assim foi corsário!", pensou Eden enquanto fechava a porta. E por que não o
havia dito a princípio o grande canalha? Pelo menos aquilo era legal, diferentemente da
pirataria. Enquanto passava os sete ferrolhos, teve a leve suspeita de que ele desfrutava
deixando que as pessoas temessem o pior dele.
De qualquer forma, perguntava-se que tipo de paranóia impulsionaria um homem a
pôr sete ferrolhos de ferro em sua porta, como se temesse um motim. Entretanto, estava claro
que não corria esse perigo. Pelo que ela tinha visto no convés, aquele homem inspirava a seus
homens um profundo temor reverencial.
Em Eden despertava a mesma reação.
Dirigiu-se lentamente para o beliche embutido, que media mais de um metro oitenta

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de comprimento e quase o mesmo de largura, e se sentou com receio no sólido colchão. Ah,
pensou enquanto observava a austera simplicidade de seu camarote, o diretor de Empresas
Knight certamente não vivia como um milionário.
Saltava à vista que sua maior ambição não era viver rodeado de luxo, pois não se via
nenhum sinal de que se dera caprichos. Eden pegou seu prato de novo e começou a comer
devagar enquanto escutava um pouco aos atarefados oficiais que havia do outro lado da porta.
Ouviu uma conversa abafada a respeito dos ventos e as correntes, os graus de latitude
e os horários da tripulação. Quando terminou de comer, pôs a orelha na porta para ouvir a
imponente voz de barítono de Jack. Aparentemente, o capitão estava ditando uma carta dirigida
a um sócio.
Sem perder detalhe de tudo o que dizia, surpreendeu-se desejando poder estar ali e
participar de alguma forma, mas sua aparência era bastante indecente, vestida unicamente com
sua camisa, e, além disso, não a haviam convidado.
Sem dúvida Jack pensava que ela só seria uma distração para seus homens. Inclusive
Eden reconhecia que já tinha causado muitos problemas por um dia. Apoiou-se na porta
lançando um suspiro.
O aborrecimento se apoderou rapidamente dela.
—O que posso fazer? O que posso fazer?
Percorreu o camarote com o olhar.
Jack lhe tinha ordenado que descansasse, mas estava totalmente acordada, inclusive
nervosa, depois do modo escandaloso em que a havia tocado na banheira. Fechou os olhos e
um calafrio ardente lhe percorreu o corpo ante a lembrança muito viva. Quase podia sentir
ainda sua boca quente e úmida em seu seio.
Resmungou de frustração, tirou a sensação de cima com empenho e se afastou da
porta. Enquanto passeava pelo camarote, examinou brevemente o grande canhão de ferro e
logo passou a mão pelas cortinas que cobriam o desmesurado beliche.
Ao olhar sombria a enorme cama do capitão, não pôde evitar perguntar-se o que
aconteceria quando ele voltasse de noite, como tinha prometido. A tinha ameaçado desde o
começo para que pagasse com seu corpo a passagem; momentos antes tinha assegurado que
quando fosse cobrar, ela o desejaria.
A pequena demonstração daquele dia deixava claro que ele possuía a faculdade de
privá-la de sua inteligência e seu bom julgamento.
Ignorava o que o tinha detido.
Talvez ela fosse um inseto estranho da selva muito excêntrico para ele, pensou. Não.
Baixou a vista. Era sua insegurança que falava. Ela mesma tinha visto o desejo que Jack sentia
por ela em seus olhos azul turquesa; um desejo que despertava emoção e um pouco de medo.
Tinha sido outro o motivo pelo qual ele se afastara e não tinha manchado sua virtude naquele
dia.
Mas durante quanto tempo poderia ele controlar-se?
Depois de rodear a cintura com os braços, Eden se voltou e olhou em direção à porta
do camarote; ainda podia ouvi-lo dando ordens. As faces lhe acenderam só pensando no que lhe

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proporcionaria a noite, pois tinha a sensação de que quando ele cruzasse aquela porta fechada
depois de anoitecer, ia lhe fazer coisas, coisas deliciosas, às quais não poderia resistir. E então a
liberdade da qual tinha desfrutado durante tanto tempo desapareceria em um abrir e fechar de
olhos.
Se as coisas fossem muito longe, não restaria mais remédio que se casar com ele, e o
matrimônio, é claro, oferecia um controle legal absoluto ao marido sobre sua esposa. Pôs-se a
tremer ao pensar em lorde Jack como seu amo e senhor, com sua vontade férrea e seus
incontáveis segredos. Ela não seria mais que uma escrava para ele.
Tinha que resistir. Mas como?
Dada a reputação dele, era provável que nem sequer lhe propusesse matrimônio uma
vez que tivesse feito com ela o que queria. Era possível que simplesmente preferisse deixá-la
manchada.
Não, pensou estremecendo, seu pai não lhe deixaria fazer o que queria. Connor o
mataria se a desonrasse.
Em qualquer caso, custava-lhe acreditar que Jack fizesse algo tão cruel.
Mesmo assim, suas reflexões tinham começado a pô-la nervosa. Atravessou o
camarote sem fazer ruído, desesperada para achar alguma forma de distrair-se, mas por muito
que o tentasse, não podia evitar pensar em Black-Jack Knight.
Aquele homem a fascinava. Embora também fosse certo que nunca tinha conhecido a
alguém embarcado em uma missão secreta.
É claro, agora lhe perdoava que aquele dia se negasse a levá-la a Inglaterra. Vendo em
retrospectiva, era evidente que ele não tinha podido lhe dizer o motivo real pelo qual havia
recusado seu pedido, até a risco de parecer extremamente descortês.
De fato, agora que lhe tinha contado como era perigoso seu objetivo, preocupava-a o
que pudesse lhe acontecer quando chegassem à Inglaterra. A maioria dos países europeus tinha
embaixada em Londres, inclusive a Espanha. Ela era consciente de que estariam vigiando-o.
Todos estariam vigiando-o.
Naquele momento era difícil decidir qual dos dois estava mais louco: seu pai ou Jack.
Seu pai, que empreendia uma aventura no perigoso Amazonas em busca de remédios para o
bem da humanidade, ou lorde Jack, que arriscava tudo para apoiar uma causa em que
acreditava: a libertação de um país.
Ao pensar em seu pai, confiou que então também estivesse no mar. Queria acreditar
que ao descobrir que ela tinha desaparecido, teria abandonado sua absurda ideia de ir a sua
busca. Atormentava-lhe a culpa e a ansiedade filial ao pensar na ira que sem dúvida sentiria por
ela quando voltassem a encontrar-se.
Era bom que encontrasse um novo patrocinador em Londres ou ele não voltaria a lhe
dirigir uma palavra quando se inteirasse de que estava a salvo.
O importante era que ele estivesse vivo, não que lhe agradecesse. Quanto a Connor...
bom, Eden se alegrava de poder dizer que o corpulento australiano já não era problema seu.
Com certeza a essas alturas já tinha captado a indireta.
Depois de aproximar-se da cômoda de mogno que havia no canto, olhou-se ao

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espelho e franziu o cenho ao ver seu ossudo reflexo. Então, movida por um repentino acesso de
curiosidade — por que não — abriu a gaveta superior da cômoda para ver o que continha.
Em seu interior havia uma cigarreira de prata com cigarros junto com uma série de
artigos de asseio: um pente, uma escova de dente, uma navalha de barbear com uma pedra de
afiar e tesouras pequenas para as unhas. Encontrou um frasco de colônia abandonado no fundo
da gaveta; tirou-a e a cheirou sorrindo. "Que cheiro bom!" Guardou-a e voltou a fechar a gaveta.
"Muito bem, outra vez aborrecida. E agora, o que faço?" Ao dar uma olhada por cima
do ombro, observou o sólido baú de couro situado junto ao biombo e a seguir lançou um olhar
de lado em direção à porta.
"Hum". O capitão não lhe tinha proibido dar uma olhada, raciocinou. A curiosidade
científica a atraiu ao grande baú de couro.
Agachou-se diante dele e, para grande surpresa sua, descobriu que o fecho de latão
estava aberto. Abriu a tampa pouco a pouco e olhou dentro dele. Nada excessivamente
interessante a primeira vista.
Acima havia um capote de lã negra, desnecessário nos trópicos. Debaixo achou um
par de pistolas embainhadas em um cinturão e uma grande adaga com uma bainha
ornamentada. Os objetos se achavam espalhados em cima de montões desordenados de papéis
e livros, um dos quais era um volume de Viagens pelo Orenoco, de um tal doutor Victor
Farraday. Eden tirou o livro de seu pai do baú com um sorriso de surpresa, mas também de
ternura, ridiculamente satisfeita de que lorde Jack o tivesse lido.
O simples fato de sustentá-lo em suas mãos fez que se sentisse mais próxima a seu
pai. Em realidade, aqueles últimos quinze dias tinham sido o período de tempo mais longo que
tinham estado separados. Folheou-o carinhosamente. Ler um parágrafo aqui e outro lá era
quase como ter a seu pai ali, falando com ela.
"É a lei da natureza, querida. Todas as criaturas procuram um companheiro ao chegar
à idade reprodutiva...".
Deixou a famosa obra de seu pai sacudindo a cabeça energicamente e mexeu no baú
para ver que mais coisas podia achar. Havia um objeto volumoso que era um troféu prateado
montado em uma pequena base de mármore branco gentil. "Que curioso". Quando o fez rodar
até pôr ele de lado comprovou que era pesado; leu a inscrição:

SAM O'SHAY
"O TRITURADOR DE KILLARNEY"
CAMPEÃO DO TORNEIO DE BOXE
DE EPSOM DOWNS
10 DE MAIO DE 1792
ALTURA: 1,95 M. PESO: 95 KG.

Santo Deus, aquele homem era um gigante. Embora, bem pensado, o próprio capitão
certamente tinha o mesmo tamanho.

100
É claro, tantos anos atrás, Jack não era mais que um menino, talvez de uns dez anos.
Ficou pensativa e franziu o cenho, refletindo sobre o troféu, mas não achou nenhuma explicação
que esclarecesse por que podia tê-lo lorde Jack. Talvez algum homem ao qual admirasse quando
menino o tinha levado a um combate de boxe. Talvez o tivesse comprado há pouco porque era
admirador do boxeador irlandês.
Não deu importância ao assunto e pegou uma das cartas que se achavam em cima do
troféu. Mordeu o lábio enquanto manuseava a carta, tentada. "Não, não posso lê-la", pensou,
mas reparou que estava escrita com a letra redonda e adornada de uma mulher; a curiosidade
pôde com ela. "Poderia ser da garota a que amou quando rapaz: lady Maura? A mulher que se
negara a casar-se com ele...".
Invadida pelo desejo de averiguar se lady Maura tinha vivido para lamentar sua
decisão, tendo em conta o magnífico espécime em que se converteu lorde Jack, deu a volta à
carta e descobriu que não era de lady Maura.
Ah, pelo visto lorde Jack tinha uma irmã!
Com os olhos muito abertos, Eden não pôde reprimir-se. Passou o resto da tarde
lendo. Sua irmã se chamava Jacinda, e tinha escrito longamente a seu irmão errante sobre sua
família, o constante nascimento de novos bebês e crianças, e suas deslumbrantes aventuras na
alta sociedade. Embora mal fosse mais velha que ela, a imagem que se desprendia da jovem deu
a entender a Eden que lady Jacinda era nada mais e nada menos que uma das principais
anfitriãs da sociedade londrina. Chás no salão da rainha! Um baile privado na mansão dos
duques de Devonshire! As corridas de cavalos de Ascot!
Os relatos de Jacinda eram muito mais autênticos que os artigos de segunda mão
sobre o mundo da alta sociedade que apareciam em La Belle Assemblée. Parecia uma pessoa
cálida, encantadora e elegante: exatamente o tipo de dama em que quereria se converter Eden.
Começou a ver com clareza que toda a família de Jack se movia nos círculos mais destacados da
sociedade.
Não podia acreditar.
De fato, estava extasiada lendo a respeito de suas assombrosas vidas. As faiscantes
descrições de Jacinda dotaram de vida em sua imaginação a cada um dos irmãos de Jack. Os
orgulhosos cavalheiros não pareciam tão intimidantes através dos olhos de sua irmã mais nova:
Robert, o impecável duque de Hawkscliffe, defensor das causas nobres na Câmara dos Lordes e
colecionador de muitos pianos. Sua excelência vivia com esplendor no centro de Londres com
sua formosa e, conforme parecia, beatífica duquesa, Bel.
A seguir vinham os valentes gêmeos, Damien e Lucien: um era aficionado à criação de
cavalos de corridas puro-sangue, e o outro despertava estupor com suas controvertidas
opiniões. Damien, "nosso coronel", como o chamava Jacinda, era um distinto herói de guerra,
enquanto que o misterioso Lucien trabalhava para o governo desempenhando uma função
imprecisa. Jacinda contava a Jack que ninguém sabia com certeza a que se dedicava Lucien e que
ele tinha proibido falar disso.
Depois vinha o encantador lorde Alec, um homem de cidade, que acabava de
conseguir a garota de seus sonhos junto com uma enorme fortuna nas mesas de jogo. Jacinda
também escrevia sobre sua melhor amiga Lizzie, quem parecia estar tão unida a eles como
qualquer membro da família; recém casada com um visconde, Lizzie, fosse quem fosse, estava

101
esperando seu primeiro filho. Ao fixar-se na data da carta, que era de vários meses atrás, Eden
se perguntou se Lizzie teria dado já a luz e se o bebê teria sido menino ou menina.
Pelo que respeitava à própria Jacinda, Eden se inteirou de que estava casada com um
marquês ao qual ela chamava Billy e que segundo ela era o homem mais encantador, bonito e
maravilhoso que havia sobre a face da terra; Jacinda dizia que tinha certeza de que Jack lhe daria
seu aval por motivos que não podia pôr por escrito. Mas, acima de tudo, escrevia panegíricos
sobre seu filho pequeno, Beauregard. Os primeiros alimentos sólidos de Beau. O primeiro passo
de Beau. O primeiro mascote de Beau. Beau que escapava pelo corredor central da igreja
enquanto todos os assistentes à missa asseguravam que o pequeno loiro era o menino mais
bonito que jamais tinham visto. Beau era o olhinho direito de seu papai, Billy...
Eden moveu a cabeça aflita pelas lágrimas de emoção que nublavam seus olhos e
deixou cair lentamente a última folha de grosso papel branco em seu regaço.
Todas as cartas de lady Jacinda terminavam da mesma maneira: "Obrigada pelos
presentes que me mandou, querido irmão. Por favor, volte logo para casa. Nós gostaríamos
muito vê-lo algum dia. Sua irmã que o ama, Jas".
Jacinda não o dizia expressamente, mas estava claro que a jovem se perguntava por
que Jack, que era o tio de Beau, não queria fazer parte da vida do pequeno, das vidas de todos
eles.
"Se eu tivesse uma família assim, não partiria jamais", pensou Eden.
Era evidente que Jack pensava de forma distinta. Inclusive na Jamaica tinha fama de
solitário. Conforme parecia, o segundo irmão dos Knight se exilara da humanidade como seu
próprio pai. Mas por quê?
Sacudiu a cabeça, preocupada, enquanto voltava a guardar as cartas e colocava as
armas, o troféu de boxe e o capote de lã negra em cima de tudo. Mas depois de ler aquelas
cartas havia um dado que tinha ficado muito claro.
Por mais tentador que ele fosse, Eden não podia permitir que Jack a beijasse e lhe
fizesse perder o juízo com suas artes de sedução, pois tinha compreendido que se as coisas
fossem muito longe e acabava vendo-se obrigada a casar-se com ele, terminaria compartilhando
seu isolamento, como antes tinha suportado o de seu pai.
Igual a seu pai, ele era um homem com uma personalidade muito forte para que ela
fizesse ilusões de que podia mudar seus costumes. Tinha que tomar ou deixar a um homem pelo
que era.
Eden sabia o que queria. Queria viver uma vida normal. Coisas cotidianas. Queria
conhecer gente. Queria desfrutar das ruas abarrotadas e o caos e a sujeira e as risadas e as
fofocas e as notícias. Já estava farta de tanta solidão; transbordava de entusiasmo por
reincorporar-se ao mundo.
Sentia-se atraída por Jack — tinha que reconhecê-lo — mas também tinha que
proteger-se. Se acabasse vendo-se obrigada a casar-se com ele e a compartilhar seu destino com
outro exilado, poderia ter ficado na selva e ter aceitado casar-se com Connor.
A única diferença era que se sentia a salvo com Jack, enquanto que Connor a deixava
fria.

102
O brusco estalo de uma arma de caça e umas gargalhadas grosseiras procedentes do
corrimão da amurada romperam a concentração do doutor Farraday.
Sentado à sombra da ponte sobre um montão de velhas redes, ergueu a vista de seu
livro de poesia de Wordsworth, que tinha estado lendo para tentar distrair-se da terrível
preocupação que sentia por sua filha.
Entreabriu os olhos através de seus óculos para proteger-se do sol e ao lançar um
olhar em direção à popa, descobriu que uma vez mais estavam utilizando gaivotas para fazer
práticas de caça. Victor franziu os lábios e ficou furioso; sentia-se impotente, mas não se atrevia
a detê-los.
Connor e ele cruzaram um olhar cauteloso. Por sorte, já tinha dado um sermão em
seu ajudante sobre a necessidade de vigiar seu mau gênio se quisessem continuar com vida.
Tinham tido a má sorte de achar passagem a Inglaterra no navio de uns condenados.
Outra gaivota estalou no ar e descarregou uma chuva de sangue sobre o mar. Victor
afastou a vista, desconsolado. Sim, aqueles animais eram muito comuns e, além disso,
perturbadores, sempre posando nas vergas e revoando ao redor dos mastros, mas não eram
comestíveis e não havia nenhum motivo para matá-los.
Nenhum motivo salvo que o capitão, bêbado, matava dessa forma o aborrecimento.
Esquadrinhou seu considerável intelecto em busca de uma forma de distrair àquele
homem, mas o espírito de sobrevivência lhe impedia de protestar. Estava seguro de que se ele se
queixasse só conseguiria que o atirassem pela amurada, e então a tripulação de almas perdidas
seguiria divertindo-se apostando quanto ele demoraria a afogar.
Lançando um suspiro de desalento, fechou o livro de poesia e moveu a cabeça com
gesto de desgosto; perguntou-se se a humanidade tinha melhorado um ápice durante os doze
anos que tinha fugido dela. Pelo bem de sua filha, não tinha outra opção que voltar a enfrentar
ao áspero e rude ruído da humanidade, em palavras de Wordsworth.
Certamente, se aquele navio era uma mostra fidedigna dos costumes dos homens, ele
continuava sem necessitar da civilização.
O navio era um completo desastre, e Victor quase estava disposto a reconhecer que
teria sido melhor ter ido com Jack Knight.
Tinham encontrado a nota de despedida de Eden horas depois que partira. Mas então,
estava muito escuro para segui-la; embarcar-se no rio de noite em suas pirogas teria sido um
suicídio, tendo-se em conta que os crocodilos estavam no cio. De modo que se tinham visto
obrigados a esperar à manhã seguinte para ir atrás dela; passaram a noite recolhendo o
acampamento a toda pressa. Aquilo era o que deveria ter feito ela.
É claro, Connor estava fora de si, mas de algum modo Victor não se deixou levar pelo
pânico. Teve vontade de lhe retorcer o cangote, mas não podia evitar ter a sensação de que ele
mesmo o tinha procurado.
Além disso, tinha uma grande confiança nos dotes de sobrevivência e no espírito
aventureiro de sua filha. Aferrava-se à esperança de que talvez tivesse mudado de ideia, de que
depois de ter chorado longamente e ter estado zangada durante horas, achariam-na na costa,

103
vadiando na praia, e finalmente aceitaria a contra gosto viajar com eles ao Amazonas.
Não tiveram essa sorte.
Encontraram sua piroga abandonada escondida entre os mangues, mas não havia
rastro nem de Eden nem do Ventos de fortuna. Caminharam penosamente pela praia em sua
busca, chamando-a a gritos, mas quase imediatamente toparam com o exército espanhol que
patrulhava a costa.
Fizeram-lhes parar e rapidamente ficaram retidos por oficiais da marinha espanhola.
Foram detidos e encerrados em celas separadas durante três dias; ao final, entrevistaram-lhes
vários oficiais de meia graduação ao serviço do rei Fernando VII.
Ao cabo de uma semana, suas identidades e o objetivo de sua expedição no delta
puderam ser verificados finalmente depois de achar seus documentos, que confirmavam seu
direito de estar ali com a autorização expressa do capitão geral de Caracas.
Mas então, muitas das amostras que tinham conservado com tanto cuidado se viram
em perigo por culpa dos soldados, que mexeram em seus baús de viagem em busca de provas
de algum ato criminoso. Entretanto, ao final os liberaram depois de lhes advertir educadamente
que não voltassem.
Aquilo era exatamente o que Victor tinha temido, mas ser expulso de seu paraíso não
tinha importância quando sua filha se achava em alguma parte sem ele. Os dias que tinha tido
para meditar a sós em sua cela tinham despertado seu instinto paternal. Tinha perdido a sua
mulher e não queria perder também a sua filha. Culpava-se de sua fuga, e com razão.
Acima de tudo, alegrava-se de que nos tensos e horripilantes momentos anteriores a
sua captura, quando os soldados espanhóis os rodearam na praia armados com pistolas e
baionetas, tivesse conseguido que Connor o escutasse. Murmurou rapidamente umas palavras
ao indignado australiano e conseguiu convencê-lo de que negasse ter conhecimento da visita de
Jack Knight à selva ou da atividade rebelde em Angostura, ou de algo que não fossem os insetos,
os répteis e as plantas.
—Não sabemos nada, ouve-me?
Connor se limitou a grunhir com uma ira cheia de frustração e deixou Victor se
perguntando em sua cela se seu ajudante teria contado algo à Inquisição ou não. Connor não
tinha andado bem na praia e, sinceramente, Victor se assombrava de que não lhe tivessem
atirado no ato.
Connor tinha ficado bastante furioso quando se aproximaram para lhe colocar os
grilhões; igual a um animal selvagem encurralado, tinha pensado Victor com inquietação. O
australiano inclusive deu um murro, mas os espanhóis não atiraram.
Em lugar disso, meia dúzia de soldados saltaram sobre ele e o espancaram sobre a
areia.
Agora, quatro dias mais tarde, Connor ainda tinha as costelas machucadas e um olho
arroxeado, e a mandíbula lhe rangia ao movê-la, mas afirmou a Victor que não havia dito nada
sobre Jack. Felizmente, tinha compreendido assim como Victor que os espanhóis teriam enviado
imediatamente vários de seus galeões em busca de Knight para investigar sua suspeita visita a
Angostura, e que a batalha naval que sem dúvida se teria produzido teria posto Eden em grave
perigo.

104
Uma vez que deixaram atrás a aterradora experiência — isso pensavam eles —
dirigiram-se a toda pressa à ilha de Trindade, que se achava sob domínio britânico, e procuraram
passagem no primeiro navio que acharam com rumo à Inglaterra.
Um capitão torto e coxo, mais que contente de poder aproveitar-se de seu desespero,
aceitou em lugar de moedas de ouro o caro equipamento científico que lhe ofereceram e que
poderia empenhar mais adiante. Como o Feitiço do mar era o único navio que ia zarpar de
Trindade em um período de várias semanas, Connor e ele se arriscaram.
A primeira vista, era evidente que as coisas não foram bem a bordo do Feitiço do mar,
uma fragata de vinte canhões, com vias de água, cobertas imundas e velas puídas.
Aparentemente, estava destinada ao transporte de açúcar e tabaco das Índias Ocidentais a
Inglaterra, mas Victor tinha a impressão de que em alguma parte que não estava à vista se
tramava um negócio mais sinistro. Se era assim, não queria saber.
A única coisa que lhe interessava era achar a sua filha sã e salva. Até que não voltasse
a estreitá-la com força entre seus braços, o bem da humanidade lhe trazia sem cuidado. Não
fazia pergunta, e aquilo agradava ao capitão.
Ele e Connor estavam dispostos a suportar o terrível alojamento, os catres com cheiro
de mofo, a água suja e a espantosa comida, — os únicos que comiam bem eram os gatos do
navio, graças aos numerosos ratos — mas só fazia uns quantos dias que tinham zarpado do
porto quando se fez patente que sua situação era ainda pior do que tinham temido.
O capitão era um rufião tão grosseiro e ordinário como tinham suspeitado, mas a
tripulação o olhava com crescente ódio, e Victor quase podia cheirar que estava se forjando um
motim.
Talvez o capitão também o temesse, pois nem sequer perdoava as infrações menores
de seus homens.
Um marinheiro foi obrigado a passar por baixo da quilha e outros dois foram
açoitados, mas o capitão, que sempre estava passeando acima e abaixo pelas cobertas fazendo
ruído com sua perna de pau e cuspindo insultos, contava com o amparo de seu primeiro oficial,
um homem com rosto de estuprador.
Inclusive nos momentos mais tranquilos, podia apalpar o ambiente de crueldade a
bordo do navio: paixões sinistras sem temperar… uma violência que podia explodir a qualquer
momento. Connor e ele contemplaram horrorizados como os homens golpearam até matar um
rato que tinha atravessado brincando de correr o castelo de proa. As gargalhadas joviais dos
membros da tripulação continuavam ressoando nos ouvidos de Victor vários dias mais tarde,
quando o primeiro oficial subiu ao mastro de proa e disparou a um casal de golfinhos que
nadava junto ao navio pelo prazer de observar como os grandes tubarões iam devorá-los.
Entretanto, mais perturbador ou, melhor dizendo, ameaçador era a mudança que
Victor percebia em Connor a cada dia que passava.
Era muito consciente de que o robusto australiano era o único que se interpunha
entre a desumana tripulação e ele, um homem de constituição mais fraca, com vista ruim e
avançada idade. Victor sabia que corria perigo, embora fosse mais inteligente que toda a
tripulação junta.
Além disso, cheirava-se o motim que se avizinhava, e quando estalasse a violência,
temia que sua debilidade o convertesse em um objetivo natural. Necessitava da proteção de

105
Connor mais que nunca, mas ultimamente seu companheiro naturalista não parecia estar
completamente bem da cabeça.
Tratar de convencer àquele homem para que falasse do que lhe afligia era tão inútil
como sempre, sobretudo na situação em que se achavam. Victor não podia fazer outra coisa que
observar seu jovem amigo com a aguda capacidade de observação de um cientista em um
esforço para descobrir o que lhe passava, mas continuava sem poder determinar a natureza do
problema. Tinha o terrível pressentimento de que algo estava desenvolvendo-se... no interior de
Connor.
Algo que no final explodiria, como o ódio crescente da tripulação.
Talvez Eden, com sua intuição feminina, também tivesse percebido a sombra que se
abatia sobre ele; talvez, pensou Victor com remorso, era o motivo pelo qual tinha recusado o
matrimônio.
De qualquer forma, prometeu que no futuro escutaria a sua filha mais que no
passado.
—Victor?
A voz baixa de Connor o arrancou de suas reflexões.
—Sim, rapaz?
Connor estava olhando fixamente a coberta em frente dele, como se pudesse achar ali
escritas as respostas que procurava se conseguisse decifrá-las.
Victor tirou os óculos e se voltou para ele franzindo o cenho com preocupação.
—O que acontece?
—Eu... tenho a culpa de que ela tenha ido — conseguiu dizer com dificuldade.
—Vamos, rapaz, ambos temos parte de culpa...
—Não — Connor lhe lançou um olhar atormentado e negou com a cabeça
lentamente. —Embora eu fosse diferente, ela não me amava, e por isso partiu.
Victor o olhou com tristeza. Não sabia o que dizer. Além de tudo, os sentimentos
nunca tinham sido seu forte.
—Você conhece esse homem, Jack Knight. Connor lhe lançou um olhar penetrante. —
Fará mal a ela?
Victor soube a resposta imediatamente e negou com a cabeça ao recordar a devoção
com a qual tinha protegido a lady Maura todo tempo.
—Não. Não se sob sua dura couraça resta nele algo do garoto que conheci. De
maneira nenhuma.
—Reze para que esteja certo — disse Connor, olhando para frente. —Porque se Jack
Knight tocar um cabelo dela, é homem morto.

De noite, o navio era um formigueiro com as conversas animadas, mas atrevidas dos
marinheiros a respeito do muito que ia se divertir o capitão Jack essa noite com a deliciosa
106
preciosidade encerrada em seu camarote. Não apostavam se deitaria com a indômita ruiva, mas
unicamente quantas vezes o faria e se ouviriam gritos da garota.
Tendo em conta a impressionante exibição que a formosa clandestina tinha realizado
no convés pela tarde, os homens achavam que seu capitão teria que estar alerta com a moça,
pois certamente tentaria lhe fatiar o pescoço se pusesse a mão em cima dela. Se fosse esperto,
opinavam alguns, a amarraria.
Sim, pareciam uns príncipes, pensava Jack ironicamente, enquanto ignorava as suas
grosseiras brincadeiras e franzia o cenho aqui e ali para fazê-los calar. Certamente, as luxuriosas
imagens que evocavam não o ajudavam a controlar a excitação que o tinha estado
atormentando durante todo o dia depois do banho da senhorita Farraday.
Não sabia o que ia fazer para não tocá-la, mas Jack se aferrava à decisão que tinha
tomado de resistir à tentação. Ela era deliciosa, sim, e poderia lhe dar filhos fortes, mas
deixando a um lado o desejo, não era absolutamente o que ele tinha em mente.
Quando chegasse o momento de casar-se, escolheria a alguém dócil. Alguém manso.
Alguém que não se atrevesse a questionar e que obedecesse a suas ordens diligentemente
como se fosse uma extensão de si mesmo.
Eden Farraday era uma pessoa totalmente independente. Uma encantadora, ingênua
e sensual ninfa independente...
"Maldita seja".
Tê-la constantemente em mente, enclausurada em seu camarote, era muito fastidioso.
Sua presença impregnava o navio de algum modo: uma variação no ar. Tudo era muito estranho.
Aborrecido consigo mesmo por sua incapacidade de manter sua atitude de
indiferença, resmungava e franzia o cenho e fazia todo o possível para desafogar sua obsessão
pela tentadora mulher com o duro trabalho físico do convés. E quando aquilo não dava
resultado, recorria ao duro treinamento de seus punhos golpeando seu grosso saco de areia;
dava murros até esquecer-se dela, mas não servia de nada.
Parecia que podia cheirá-la, muito perto dele, com seu aroma a baunilha coberta de
orvalho. Estava tornando-o louco.
O que era aquela ridícula reação? Ela era uma garota como qualquer outra. Bom, salvo
seus excêntricos costumes e todas aquelas manias maravilhosamente estranhas... "Meu Deus.
Que demônios me passa?" Tinha abandonado uma dúzia de mulheres mais formosas que ela
sem voltar à vista para trás.
Mas disso se tratava precisamente.
Apanhado em pleno mar e tendo jurado que a protegeria, — como se não tivesse já
muitas preocupações! — não havia forma de escapar de Eden Farraday.
Estavam no meio do maldito oceano; ali não podia levar a cabo sua tática habitual de
seguir com sua forma de vida nômade antes que alguém se aproximasse muito a ele.
Pelo contrário, durante as seguintes semanas teria que compartilhar o camarote com
a moça, obrigado a ter contato íntimo com ela.
O pior de tudo era que nem sequer podia sentir-se devidamente furioso pela forma
em que ela tinha invadido seu espaço e se instalado em seu sancto sanctórum. Estava

107
desconcertado, mas inclusive nesse momento sentia um formigamento de impaciência no plexo
solar para voltar junto a ela. Era uma loucura.
Não tinha experimentado reações tão absurdas por uma mulher desde que era um
estúpido jovenzinho de dezessete anos, louco pela estúpida da Maura Prescott. Ninguém tinha
despertado nele aquelas emoções depois.
Afastou de sua mente a clandestina pela enésima vez e foi pôr medo em corpo a
Ballast.
Encontrou o rebelde artilheiro na enfermaria, onde o cirurgião acabava de lhe pôr dez
pontos no antebraço tatuado no qual Eden o tinha ferido. Quando esteve convencido de que
tinha intimidado ao artilheiro com suas ameaças se ele se atrevia a olhar a Eden, Jack retornou à
coberta principal para perguntar se havia roupa de mulher a bordo que ela pudesse usar.
Tinha a esperança de que algum oficial tivesse comprado um vestido para sua mulher
ou sua noiva, mas não teve sorte. O único vestido que acharam era um objeto brilhante de cor
verde azulada que a tripulação sempre fazia aos alferes mais novos usá-lo como trote durante os
bacanais celebrados em honra a Netuno cada vez que cruzavam o Equador.
Era mais uma fantasia de Carnaval que um vestido de mulher propriamente dito, mas
teria que servir no momento.
—Este navio cada vez é mais estranho — murmurou Trahern, movendo a cabeça com
gesto de incredulidade enquanto olhava o vestido.
—Farei com que Martin lhe costure roupa decente nos próximos dias — pensou Jack
em voz alta. —Temos vários cilindros de tecido bom na adega. Não posso deixar que morra de
frio. Cada vez abaixa mais a temperatura, à medida que avançamos para o norte.
Trahern assentiu com a cabeça.
—Jack.
—Sim? — disse ele, desviando a atenção das imagens imprecisas que tinham
começado a dançar inexplicavelmente em sua cabeça: visões dele fazendo com seus futuros
filhos todas as coisas que ninguém se incomodara fazer com ele.
Afastou-as de sua mente piscando, aborrecido consigo mesmo uma vez mais.
—O que?
—Não lhe... fará mal, não é verdade?
Ele arqueou as sobrancelhas.
—Christopher...
—Sei que a deseja, mas esteve tão protegida, Jack...
—Não se preocupe homem! Como já disse, está sob minha proteção. A tripulação
pode pensar o que quiser, mas você me conhece bem.
—Só queria me assegurar.
—Demônios, sou eu quem deveria ter medo — acrescentou Jack em um tom de
recriminação sardônica. —Estou pondo minha vida em suas mãos.
—O que queres dizer?

108
—Deixei-a no camarote com minhas pistolas e minha adaga.
—De verdade? — exclamou ele. —Como pôde esquecer-se de algo assim?
—Quem disse que me esqueci? — Jack esboçou um sorriso débil. —Se ela se sente
ameaçada o mínimo, não duvides que as usará. Já viste o que ela fez a Ballast.
Trahern resmungou.
—Ele merecia.
—Sim. Por isso mesmo não devo lhe dar motivos para que atire em mim, apunhale-
me, estripe-me, castre-me ou me mutile.
—Bom, você sempre gostou de viver perigosamente. Por certo, observei que não
açoitou a Ballast por sua afronta — disse Trahern depois de fazer uma breve pausa. —Me
perguntava por que.
Jack tinha estômago, mas, como todo homem sensível, contemplava com profundo
desagrado, para não dizer repugnância, a necessidade ocasional de repartir justiça severamente
no mar. Por outra parte, Trahern tinha razão. Os açoites eram o procedimento habitual. Os
homens sabiam quais eram as consequências da insubordinação, de modo que então toda a
tripulação sabia que o capitão tinha sido brando com Ballast… dessa vez.
Jack o olhou tristemente.
—Não queria que a garota ouvisse os gritos. Teria se sentido culpada.
—Talvez devesse sentir-se culpada.
Ele franziu o sobrecenho e negou com a cabeça.
—É uma garota inocente. Já passou por um pedaço suficientemente duro.
Trahern ficou olhando-o.
Jack deu de ombros, envergonhado atrás de sua sincera afirmação.
—De qualquer forma, parece-me que já deu uma lição a Ballast. Necessitou de dez
pontos, sabias?
—Sim, isso ouvi. Trahern o observou com um débil sorriso de diversão desenhada nos
lábios.
—Vou para a cama — anunciou.
—Boa noite, capitão. Que Deus o proteja ali dentro.
Jack riu despreocupadamente, despediu-se dele com um gesto de cabeça e se dirigiu
para a ponte, com o vestido brilhante para Eden sobre o ombro.
Entrou no camarote iluminado pela lua, desfrutando da leve brisa que entrava pela
galeria de popa. À medida que se aproximava da porta fechada que dava ao dormitório, deteve-
se e se perguntou se não deveria dormir em outra parte.
Podia pendurar uma rede ali, no camarote de dia. Voltou-se para examinar os sólidos
ganchos cravados nas vigas do alto. "Hum". A intimidade sempre escasseava no mar. Se não
compartilhasse a cama com ela, o rumor não demoraria a circular. O que diria a tripulação?
Praticamente já podia ouvir seus homens.

109
Se o capitão não se deitara com sua pequena flor silvestre, talvez não estivesse tão
interessado nela. Aquilo podia levá-los a acreditar que a moça era um alvo legítimo para eles.
Não, a única forma de evitar aquelas perigosas falações era se os dois compartilhassem sua
cama.
Além disso, por que tinha que ter o trabalho de mudar seus hábitos só porque a
garota tinha querido viajar clandestina? O arriscado estilo de vida de Jack lhe tinha ensinado a
dormir com um olho aberto, como costumava dizer; o único lugar no qual se sentia bastante
cômodo para fechar os olhos e descansar profundamente era atrás daquela porta com ferrolhos.
Mas, acima de tudo, tinha decidido que não ia acontecer nada entre Eden e ele. Ele
não era Ballast. Ele podia controlar-se. Além disso, ainda tinha muitas perguntas.
"Reconheça-o. Queres estar com ela — o interromperam seus pensamentos,
zombando dele. És um tolo. Gostas da companhia dela".
O que tinha de errado se ele se sentisse atraído por ela?, pensou, saltando na
defensiva. De qualquer forma, certamente se devia ao respeito que sentia por seu pai, nada
mais.
Ou talvez se devesse porque ela era uma das poucas pessoas que Jack tinha visto que
conhecia a solidão tão bem como ele.
Foi então que se deu conta de que não podia deixá-la ali dentro só dia e noite. Ficaria
louca. Na selva já tinha estado privada de companhia. Seu inexistente coração se encolheu ao
recordar que ela tinha sido muito vulnerável para ocultá-lo.
Ele ia fazer mal àquela inocente?
Se ela o achava capaz disso, se a reputação de Black-Jack Knight tinha chegado tão
longe para que o considerasse uma alma perdida, sem nenhuma honra, preferia que atirasse
nele quando atravessasse aquela porta.
Jack tirou as chaves com expressão estóica e começou a abrir as numerosas
fechaduras.
No meio do silêncio, cada ferrolho de ferro com o que se protegeu durante tanto
tempo parecia voltar para seu buraco com um ressonante e fatídico ruído.
Quando pegou o trinco da porta e respirou fundo, quase desejou que lhe golpeasse a
cabeça com um objeto duro ao entrar no camarote.
Que o deixasse sem consciência.
Estando inconsciente, não cederia ao desejo de seduzi-la.
Necessitava de uma esposa, sim, mas Eden Farraday era muito perigosa.

110
Capítulo 8

Sozinha no camarote de Jack, Eden se aninhou contra a parede, com os olhos muito
abertos e o coração palpitando violentamente, enquanto observava como os sete ferrolhos da
porta eram retirados.
Um pouco de luz da lua penetrava no espaço escuro do dormitório. Reluzia sobre o
canhão de ferro e dançava de forma zombadora em cada um dos ferrolhos de metal quando se
abriam.
Eden segurou as mantas contra seu peito e engoliu em seco.
Não sabia o que ia acontecer essa noite, mas vestida unicamente com a camisa do
capitão e envolvida nos lençóis que ainda conservavam seu cheiro, sua sorte parecia decidida:

111
ser deflorada nas mãos daquele perigoso ex-corsário.
Horas antes, pela tarde, tinha conseguido dormir um pouco, mas ao cair à noite, à
medida que se aproximava à hora esperada da volta do capitão, foi-se despertando. Não havia
nada que fazer salvo esperar e escutar com crescente inquietação qualquer sinal de que se
aproximava.
O navio estava cheio de ruídos estranhos: os rangidos e os passos pesados nas
cobertas de cima, as incessantes ondas que açoitavam o casco. Momentos antes lhe tinha
parecido escutar o canto triste de uma baleia ressoando em meio da noite.
Então o ouviu, e seus pensamentos agitados se interromperam repentinamente: uns
passos firmes e constantes avançavam cada vez mais perto.
"Mais perto".
A inquietação se converteu em um temor virginal ao ouvir o tênue tinido metálico de
chaves do outro lado da porta. Então os ferrolhos começaram a abrir-se um após outro.
E se não pudesse resistir a ele? E se ele usasse a violência?
De algum modo, Londres parecia estar mais longe que nunca. No último minuto,
decidiu fazer-se de adormecida como uma covarde. Fechou os olhos e ficou imóvel enquanto a
porta se abria lentamente. Ouviu sua já familiar voz de barítono ao ordenar em um murmúrio a
seu cão que ficasse no outro aposento, aquele condenado animal de caça que tinha revelado
seu esconderijo. Se não fosse por aquele maldito cão, ainda poderia estar escondida a salvo no
convés inferior.
Quando ouviu o rangido da porta que se abria devagar, notou uma luz cálida atrás de
suas pálpebras fechadas. Decidida a convencer seu captor de que estava profundamente
adormecida, abriu os olhos o suficiente para poder olhá-lo entre as pestanas.
Viu como vacilava na porta, com todo o aspecto inofensivo que era possível em um
gigante; um homem robusto com o queixo escuro e desalinhado, a pele bronzeada como um
selvagem e uns olhos como o mar bravo. Deteve-se, como se não estivesse certo se devia entrar;
olhou-a a luz da vela que segurava na mão, mas não com desejo. Parecia que estivesse
assegurando-se de que não tinha uma arma.
Que demônios fazia...?
A tensão de seus enormes ombros relaxou ligeiramente à medida que entrava no
aposento; movia-se como um homem que tem a ligeira suspeita de estar metendo-se em uma
emboscada.
Enquanto o observava entre as pestanas, Eden se perguntou o que era o tecido azul
que levava no braço. Jack deu a volta e fechou a porta atrás de si, tratando de evitar que chiasse
ao virar; depois, começou a passar de novo os condenados ferrolhos, esforçando-se visivelmente
para não fazer ruído.
Aquele não era o comportamento de um homem que se dispunha a cometer um
estupro, pensou. Sentindo-se bastante ridícula, Eden fingiu que despertava quando ele se
voltou, depois de ter fechado a porta.
—Oh, sinto muito. Despertei-a? — murmurou ele.
Ela se endireitou, aferrando ainda a colcha contra seu peito, e forçou um bocejo não

112
muito convincente.
—Fique tranquilo. Acabava de ficar adormecida.
Ele trocou o peso de perna e olhou a seu redor com ar indeciso.
—Necessita... de algo?
Surpreendida por sua educação, ela negou com a cabeça.
—Bom — respondeu ele. Fez-lhe um gesto com a cabeça e a seguir cruzou o aposento
subitamente em direção ao lavatório. —Ah, trouxe-lhe um pouco de roupa. Ela se animou ao ver
que lançava o tecido azul sobre o canhão. —Apagarei a vela dentro de um momento. Só quero
me lavar antes de me colocar na cama.
Ela assentiu com a cabeça, perplexa. Céu santo, quem era aquele cavalheiro?
Era o mesmo homem que lhe tinha ordenado que se despisse por diversão àquela
tarde? O mesmo descarado cruel que lhe tinha metido a língua pela garganta naquele dia na
selva? A que se devia aquela repentina mudança de tática? Eden o observou com desconfiança.
Tinha aprendido que Jack Knight não fazia nada sem um motivo.
Ele levantou a tampa com dobradiças do lavatório de mogno e deixou à vista a pilha
que tinha incorporado. Inclusive tinha um pequeno grifo com a chave prateada que deixava sair
a água do depósito oculto na parte traseira da cômoda. Eden observou como introduzia a vela
de cera de abelhas em um dos castiçais simétricos situados em ambos os lados do lavatório para
dar luz; depois, extraiu uma toalha da gaveta inferior. Mas quando tirou a camisa pela cabeça,
ela voltou a meter-se atrás das cortinas do beliche, com o coração acelerado.
Um instante depois, a tentação se tornou muito irresistível. Ela espiou muito
ligeiramente para olhar o que estava fazendo.
Alheio ao escrutínio ao qual estava sendo submetido, ele permaneceu de perfil em
relação a ela. Eden abriu muito os olhos quando ele levou as mãos às calças e começou a
desabotoá-las. Entretanto, pareceu pensar melhor, lançou um tênue suspiro enquanto as
abotoava de novo e as deixou postas.
Eden se sentiu aliviada, mas quanto mais o olhava, mais a cativava seu corpo duro
como uma pedra.
"É tão belo..."
Ele a surpreendeu olhando ao voltar-se para apoiar as costas no biombo e tirou as
botas. Olhou-a nos olhos com receio, mas não disse nada enquanto deixava cair suas botas
negras sobre o chão com um ruído pesado, uma depois de outra.
Ela se ruborizou. Pigarreou; sentia a necessidade de desviar dele sua atenção.
—Que roupa me trouxe?
Sem esperar que ele respondesse, saiu da cama, aproximou-se do canhão e pegou o
tecido azul. Sustentou o extravagante e decotado vestido pelas costuras dos ombros e o
contemplou longamente, sem saber o que pensar.
Jack a olhou quando Eden começou a rir.
—Que demônios é isto? Uma fantasia para um baile de máscaras?

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—Algo parecido. Ele sorriu. —Acredito que é o que leva quem interpreta à princesa da
corte do rei Netuno.
—Oh, é maravilhoso! Eu adorei! — ela o pegou ao corpo e ficou a dar voltas,
encantada com seu movimento fluido. —Brilha muito! Que tecido é, lamê12?
—Não tenho a menor ideia — ele se voltou para ela com uma sobrancelha arqueada e
uma mão apoiada em sua esbelta cintura. —Se dá conta de que não é um vestido decente,
senhorita Farraday?
—Parece-me lindo!
Ele meneou a cabeça com sardônica diversão.
—De qualquer forma, encarreguei meu valete, Martin, que amanhã comece a
trabalhar em sua roupa. Dentro de pouco fará um frio gélido. Disse-lhe que confeccione algumas
roupas para que possa estar quente enquanto viajamos para o norte.
Ao ouvir suas palavras, ela se sentiu agradecida por sua generosidade, mas lhe caiu a
alma aos pés. Olhou-o com seriedade enquanto ele se aproximava do espelho e passava as
pontas dos dedos por sua mandíbula desalinhada com o cenho franzido.
—Maldição, preciso me barbear.
—Jack.
—Sim?
—Não quero causar perturbação.
—Ah, não? — replicou ele, lhe lançando um olhar cintilante. —Desde quando?
Ela franziu o sobrecenho enquanto ele se inclinava e começava a refrescar o rosto.
—Não sei como vou compensá-lo.
—Hum.
Ele lhe dedicou um sorriso indeciso enquanto a água caía por seu rosto. As gotinhas
correram por seu peito quando voltou a erguer-se; depois esfregou a nuca com a toalha
molhada. Se estava pensando em uma ocorrência lasciva, se calou.
Um momento mais tarde, passou a toalha úmida por seu braço musculoso. Eden o
observou um longo tempo; ao ver que ele não podia chegar ao centro de suas longas costas,
deixou o vestido e se dirigiu para ele corajosamente.
Tirou-lhe a toalha da mão sem esperar que ele protestasse, roçou-o ao passar para
escorrê-la na bacia, aplicou-lhe um pouco de sabão e a seguir se colocou de novo atrás dele.
Jack a observou pela extremidade do olho.
Ela aproximou lentamente a toalha úmida a suas costas lisas e bronzeadas. Ele ficou
tenso a princípio, como se não se confiasse em seu contato, mas à medida que ela o lavava com
longas e meticulosas carícias, sua pele flexível foi relaxando. Conforme lhe tirava o sal do mar e o
suor ressecado, sua pele adquiriu um brilho sedoso à luz das velas.
Quando Eden se moveu para frente de novo e estendeu a mão atrás dele para
escorrer a toalha, ele a percorreu com um olhar cheio de um ardor abrasador.
12
Tecido com fios de ouro ou prata.

114
As faces dela se avermelharam; de repente era incapaz de pensar em outra coisa que
não fossem seus fortes braços ao seu redor e sua boca exigindo a dela como naquele dia no
mole.
Engoliu em seco e baixou a vista. Quando esteve preparada, continuou com sua tarefa;
Jack apoiou os braços nos cantos do lavatório, inclinando-se um pouco para deixar que ela
chegasse até seus ombros. Abaixou a cabeça e fechou os olhos enquanto lhe comprazia; lavou
seus largos ombros e lhe esfregou o pescoço depois de afastar seu abundante cabelo ondulado
com a outra mão. Em seguida, passou-lhe a toalha pelo musculoso peito, acariciando-o. Ele
suspirou quando ela começou a lavar seus esculturais flancos.
—Tem muitas cicatrizes — comentou ela em um suave sussurro, enquanto percorria
uma das muitas linhas pálidas e inflamadas que manchavam seu torso maravilhosamente
formado, como as finas gretas de um Hércules de mármore.
—Umas quantas — concedeu ele, sem abrir os olhos.
—Onde se fez esta? — Eden seguiu com a ponta do dedo a longa marca de uma
navalhada nas costelas do lado direito.
Ele abriu os olhos, olhou a cicatriz pela qual lhe tinha perguntado e sorriu tristemente.
—Em Gibraltar. Em uma briga em uma taverna com uns soldados da marinha.
—E esta? — tratava-se de um talho de terrível aspecto, curado muito tempo atrás, no
lado direito da cintura.
—Ah, essa. Em uma batalha naval contra piratas asiáticos no Oceano Índico.
—De verdade?
—Atiraram-nos uma saraivada de coisas, e me cravou um pedaço de madeira
estilhaçada de uns quinze centímetros de comprimento.
—Está a poucos centímetros do fígado. Poderia ter morrido.
—Sim, isso me disseram. Ele se encolheu de ombros. —Tive sorte.
—E esta? — murmurou ela, tocando o contorno irregular com forma de estrela de um
buraco situado em seu ombro direito, embora Eden imediatamente soube que tinha sido
causado por uma bala.
—Essa, querida — levou a mão à cintura com delicadeza e lhe afastou a mão —… é
uma longa história. Beijou-lhe a mão e a devolveu. —Eu continuo daqui.
Ela não protestou, pois o ardente desejo que se refletia em seus olhos a advertiu de
que suas carícias o estavam atormentando. Em lugar disso, apoiou o cotovelo na borda do
lavatório e esquadrinhou seu rosto fixamente.
—O que foi?
—Eu não gostaria nada que se fizera mais cicatrizes.
Ele sorriu ligeiramente.
—Obrigado, mas provavelmente seja inevitável.
—Vai jogar a vida pelos rebeldes, não é? — percorreu com um olhar de preocupação
as marcas de feridas que cobriam seu corpo. —Por que pô-la em perigo?

115
—Achava que já tínhamos falado disso.
—Sim, mas não o entendo. Nem sequer é seu país. Não necessita do dinheiro. Você é
rico. Faz isso só pela emoção?
—Nem pensar. Não sou um imprudente. Passou ao lado dela. —Tenho meus motivos.
—Não pode me dizer quais são? — Eden se voltou para olhá-lo.
Ele se dirigiu à porta de novo, aparentemente para comprovar os ferrolhos pela última
vez antes de dormir. Uma vez ali se de teve de costas a ela e mal lançou um olhar por cima do
ombro.
—É uma sensação muito satisfatória ser capaz de fazer algo que ninguém mais pode
— disse ele em voz baixa. —Nem sequer as pessoas que se acreditam melhores. Nem sequer um
duque — acrescentou entre dentes.
Eden o olhou atentamente com uma ternura cheia de receio quando ele deu a volta
lentamente e se apoiou contra a porta. Devolveu-lhe o olhar, mas não se moveu para aproximar-
se.
—Refere-se a seu irmão, Hawkscliffe?
Ele negou com a cabeça.
—Ao que morreu, o anterior a ele.
—Seu pai?
Ele cruzou os braços e baixou a vista.
—Sim. Meu pai — disse em grunhido tênue e depreciativo.
—Não se davam bem? — perguntou ela com suavidade.
—Tudo o que fazia lhe parecia errado. Ele deu de ombros. —Não importa.
Ela o olhou sem saber o que dizer; era evidente que aquilo importava muito.
—Estou ajudando Bolívar porque posso lhe ajudar. Venha. Indicou o beliche com a
cabeça. —Vamos para a cama.
Ela seguiu seu olhar para a cama que iriam compartilhar e mordeu o lábio. De
repente, o beliche de mais de um metro oitenta de comprimento não parecia tão grande.
—Depois de você — ordenou ele.
—Que lado prefere?
Ele olhou sua cama.
—Você fica com o da parede.
Ela assentiu com a cabeça, respirou fundo e subiu ao beliche enquanto Jack retornava
ao lavatório para apagar a vela.
Apagou-a com um sopro. Imediatamente, ficaram imersos na luz prateada da lua
enquanto Eden deslizava sob a leve colcha e lençol.
Jack se aproximou; a luz se refletia pelo impecável contorno de seus enormes ombros
e seu forte peito, como se estivesse forjado em aço gentil, ou sua pele fosse uma espécie de

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armadura flexível. As tensas rugosidades prateadas e as sombras azuis perfilavam cada um dos
músculos compactos de seu escultural abdômen. As cicatrizes eram invisíveis agora.
Eden conteve a respiração ante sua beleza enquanto ele se sentava na beira da cama,
golpeava o travesseiro até lhe dar a forma desejada e se reclinava lentamente junto a ela,
dobrando os braços atrás da cabeça. Observou que manteve as mantas entre os dois e se deitou
em cima delas em lugar de situar-se a seu lado, sob o suave calor da roupa de cama.
"Deus santo". Eden estava segura de que ele podia ouvir seu pulso pulsando com força
em meio daquele incômodo silêncio.
Quando ele mudou de postura ao cabo de uns minutos e colocou as mãos aos lados,
roçou-a com a mão esquerda na coxa — um contato fugaz e acidental — e embora resmungasse
uma desculpa, ela estremeceu. Era uma loucura, mas lhe tremia o corpo.
"Está bem — ordenou a sua carne febril, fechando os olhos resolutamente. A dormir".
Silêncio.
Eden sabia pela respiração superficial dele que também estava acordado. De fato,
notava a atração de sua masculinidade e quase podia ouvir como seu corpo lhe rogava que o
tocasse, mas não se atrevia.
O silêncio se prolongou.
—Eden?
—Sim? — disse ela imediatamente, engolindo em seco. Seu peito subia e baixava com
as bruscas aspirações, quase ofegando.
—Posso eu lhe fazer uma pergunta agora? — sussurrou ele. Ela lambeu os lábios,
disposta a responder que sim praticamente a qualquer coisa.
—De acordo. Ficou de lado, apoiou o cotovelo no travesseiro e repousou a face na
mão. —Que deseja saber?
Ele colocou suas mãos sobre o ventre, mas voltou à cabeça para olhá-la. Seus olhos
reluziam na escuridão.
—Por que o fez?
—Fazer o que?
—Viajar como clandestina.
A pergunta a pegou despreparada, mas ao menos desviou sua atenção de seu
crescente desejo de jogar-se sobre ele.
—Já o disse. Tenho que achar um novo patrocinador para meu pai.
—Ah, claro. Ele olhou de novo o teto. Eden podia distinguir seu sorriso irônico. —Meu
dinheiro não era bastante bom para você.
Ela deu-lhe um golpe no ombro em atitude de recriminação brincalhona.
—Isso não é certo. Você queria a parte do leão dos benefícios.
—Estávamos negociando — lhe recordou ele em tom razoável. —Além disso, como
não ia querer a parte do leão? Você é quem disse que não sou mais que um leão grande e
resmungão com um espinho na garra.
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Ela sorriu.
—E o é.
—Você me tirou o espinho.
—Acredito que é possível que ainda restem alguns mais aí dentro — disse ela devagar.
Ele voltou à cabeça para observá-la.
Durante um longo tempo, ficaram olhando um ao outro em silêncio.
—Talvez — reconheceu-o de forma apenas audível. —Mas não respondeu a minha
pergunta. Se só se tratava de achar um patrocinador, poderia me ter aceito. Mas há algo mais,
não é?
Eden repousou a cabeça no travesseiro e sustentou o olhar.
Ele estirou o braço e lhe tocou a face com um dedo.
—O que a fez escapar? As serpentes e as aranhas? Não o aguentava mais?
—Não fui feita para a solidão, Jack. "Fui feita para o amor", pensou, mas não o disse
em voz alta.
Não foi preciso. O olhar dele lhe disse que já sabia. Jack se apoiou em um cotovelo e
lhe segurou o rosto com a outra mão. O pulso de Eden acelerou. Sem deixar de olhá-la
fixamente nos olhos, ele inclinou a cabeça sobre seus lábios e lhe deu tempo suficiente para
protestar.
Entretanto, Eden lhe rodeou o pescoço com os braços e o atraiu para si; derreteu-se
debaixo dele quando sua boca quente e delicada se aproximou da sua. Acariciou-lhe o rosto,
passou-lhe os dedos pelo cabelo e se abandonou a seu maravilhoso beijo, profundo,
embriagador e lento.
Ele se colocou parcialmente em cima dela, rodeou-lhe a cintura com as mãos através
da roupa de cama leve e, continuando, de forma ainda mais sensual, massageou-lhe o quadril
através da colcha de um modo muito provocador. Com seu peito junto a seus seios, Eden podia
notar como lhe palpitava o coração. A força de seu corpo e a intensidade de sua paixão, embora
dominada, ameaçavam afligi-la. Ela nunca tinha experimentado um desejo tão poderoso, mas de
repente sua decisão prévia de resistir apareceu em meio da bruma da paixão.
—Jack! — disse com voz entrecortada, lhe empurrando no ombro. Afastou os lábios
de sua boca lançando um gemido de rechaço.
—Eden — disse ele ofegando. —O que acontece?
—Jack, pare. Por favor.
Ele levantou a cabeça e a olhou, com o peito palpitante e os lábios inflamados com
seus beijos. Pouco a pouco, pareceu entrar em razão. Afastou a vista e, um segundo mais tarde,
levantou-se de cima dela e se retirou ao seu lado da cama.
—Boa noite, senhorita Farraday — disse ao cabo de um longo momento.
Eden sentiu um grande alívio ao descobrir que o terror das Índias Ocidentais a
obedecia. A seguir lhe dedicou um sorriso trêmulo.
—Boa noite, lorde Jack.

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Na manhã seguinte, Eden vestiu o reluzente vestido de princesa do mar e começou a
fazer amizade com o cão enquanto Jack ia tocar uma campainha para chamar o valete.
Desdobrou um biombo de madeira que estava apoiado contra a parede e o colocou de forma
que tampasse parte do camarote de dia.
—Você e Martin poderão trabalhar em sua roupa aí.
Ela sorriu-lhe, agradecida porque tinha permitido sair do estreito dormitório. Apesar
de seu tratamento cordial, tanto ela como Jack se sentiam um tanto coibidos aquela manhã
depois de terem despertado abraçados. Nenhum dos dois tinha certeza de como tinha
acontecido.
—Olá! — o valete fez sua entrada naquele momento, atendendo rapidamente à
chamada de Jack.
Martin, um homem miúdo e excêntrico, polido, afetado e com certo aspecto de dândi,
entrou com seu cesto de costura pendurado no braço e com o nariz erguido. Fez gestos com a
mão impacientemente a um marinheiro para que passasse; este avançou cambaleando debaixo
de um enorme montão de cilindros de tecido que ao que parecia o valete tinha colocado nos
braços de seu ajudante.
—Oh, aqui está! É um anjo! — Martin se dirigiu majestosamente para Eden, com as
mãos no ar. —Ah, que linda! Deixe que a olhe querida!
Jack apoiou o quadril no canto de sua escrivaninha e observou com expressão
divertida como Martin fazia Eden virar em um círculo e depois se afastava para lhe lançar um
olhar de avaliação, com um punho colocado na cintura.
—Sim, hum — murmurou para si o valete, que começava a entusiasmar-se com o
projeto. —Acredito que poderei trabalhar nisso.
Eden lançou um olhar de preocupação a Jack.
Ele sorriu, enquanto seus olhos azuis dançavam.
—Então os deixarei a sós. Levantou-se e se afastou da escrivaninha.
—Aonde vai? — perguntou ela.
—Devo me vestir. Tenho trabalho a fazer. Nada muito atrevido, Martin — ordenou
enquanto se dirigia ao dormitório resolutamente. —Procure ser um pouco prático. Já sei que às
damas que se vestem na moda lhes parece muito elegante ir meio nuas, mas não quero que a
senhorita Farraday pegue uma gripe de morte quando viajarmos para o norte. Recorde que está
acostumada aos trópicos.
—Não se preocupe por isso, milorde — respondeu o homem, franzindo o cenho ante
os tecidos de que dispunham. —Receio que temos pouco de onde escolher. Faremos um vestido
de passeio com a musselina estampada. Uma jaqueta curta com a lã azul. E possivelmente um
casaco com a lã de carneiro verde. Martin falava mais consigo mesmo que com Eden. Jack, que
claramente não tinha o menor interesse por aqueles assuntos, já tinha ido. —Oh, mas é tão
terrivelmente insossa! — disse, preocupado.
—Não tem importância — se apressou a tranquilizá-lo Eden. —Para mim não é ruim
119
costurar. Quando chegar a Londres posso comprar renda e costurá-la na parte de baixo das
saias, ou adornar o casaco com laços ou alamos dourados.
—Alamos não, querida. Este ano passaram de moda.
—Seriamente? — perguntou ela, surpreendida.
—Ora, minha menina! É um milagre que saiba algo de moda tendo em conta onde
esteve. Imagino que ali vestia folhas de figueira!
—Só na última moda — respondeu ela com um sorriso. —Minha prima foi minha
salvação, mandava-me revistas para damas. Eu as devorava, mas como nosso acampamento
estava tão longe, sempre as recebia quase com um ano de atraso.
Martin não disse nada, mas colocou a mão debaixo da tampa de seu cesto de costura
com um olhar malicioso e tirou um exemplar de La Belle Assemblée que depositou nas mãos de
Eden.
—Janeiro? — disse ela com voz entrecortada, olhando a revista. Olhou ao homem
boquiaberta. —É praticamente nova!
Soltou um gritinho de alegria e o abraçou inesperadamente. Ele riu e se ruborizou um
pouco ante sua entusiasta mostra de agradecimento; Eden se deu conta de que sua reação
espontânea tinha surpreendido ao homenzinho, mas a partir daquele momento, ela e Martin se
fizeram íntimos amigos.
Mediram e drapejaram os tecidos, compararam cores com sua cútis diante do espelho
e discutiram os pormenores para obter uma elegância que sempre, conforme lhe assegurou ele,
devia parecer natural.
—Reconheço que desde que o capitão comentou isso comigo, estive esperando com
impaciência este momento. No fundo, sempre quis provar o desenho de roupa para mulheres —
confessou Martin.
—Não sabia — murmurou Jack enquanto saía de novo, barbeado e elegantemente
vestido de azul marinho, com um colete reto perfeitamente abotoado sobre uma camisa branca
limpa com mangas folgadas, calças de algodão amarelas e reluzentes botas negras.
Ajustou o impecável nó quadrado de sua gravata negra ao cruzar a estadia em direção
à mesa central para recolher algumas cartas náuticas.
Com os olhos muito abertos, Eden observou como passava ante ela.
Santo Deus, se mal tinha sido capaz de resistir na noite anterior quando tinha o
aspecto de um selvagem tosco, suarento e meio nu, como ia conseguir agora que estava tão
atraente, limpo e elegante?
Quando lhe lançou um olhar com certo acanhamento, ela fechou a boca de repente,
mas no fundo continuava entusiasmada.
O colete azul conferia um intenso tom safira a seus olhos, sua pele bronzeada tinha
um aspecto maravilhoso, e seu queixo antes desalinhado estava agora raspado, limpo e de
acariciar. O apurado barbeado tinha manifestado a precisão varonil de suas feições; o aspecto
asseado tinha transformado o pirata em um príncipe. Céu santo, não só era bonito, era
imponente.
Antes de sair para pegar o leme de seu navio, Jack lhe dedicou uma reverência muito
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ligeira, mas cavalheiresca, e deixou uma leve baforada de sua agradável colônia atrás de si.
Martin se voltou para ela com um brilho cúmplice e travesso nos olhos.
—Oh, já vejo que você exerce influência sobre alguém, querida.
Ela mordeu o lábio e lhe sorriu, aturdida ainda, enquanto suas faces se tingiam de cor
rosada.

Ao cabo de um momento, no convés, o tenente Peabody informou a Jack que o estado


de seu secretário tinha piorado ao longo da noite.
A salvação do pobre Peter Stockwell estava fora da capacidade do cirurgião. Enquanto
meditava sobre isso, Jack voltou para seu camarote, onde Martin havia coberto Eden de
musselina verde clara; tinha os braços estendidos aos lados.
—Com esse lindo cabelo ruivo, deverá tomar cuidado com as cores que escolhe para
seu vestuário...
—Jack! — o formoso rosto de Eden se iluminou, devido mais ao entusiasmo pela
confecção de sua nova roupa que por vê-lo, mas imediatamente ela reparou em sua expressão
pensativa e o olhou franzindo o cenho com preocupação. —O que acontece?
—Sinto interromper. Senhorita Farraday, um de meus homens está muito doente.
Parece que se trata da febre amarela. O cirurgião acredita que possivelmente não sobreviva.
Perguntava-me se teria algo em sua bolsa de ervas da selva...
—Vou para lá. Eden já tinha começado a tirar o tecido de musselina e deixou
novamente descoberta sua fantasia de princesa marinha.
Pegou a mochila com as amostras botânicas de seu pai e se dirigiu para Jack
avançando a grandes passadas e deixando Martin surpreso e com a agulha em pleno ponto.
—Por aqui — murmurou Jack. Levou Eden à escotilha principal, onde havia uma longa
escada que conduzia às cobertas inferiores.
—Quanto tempo faz que está doente?
—Alguns dias.
Desceram resolutamente à enfermaria, na proa da coberta central de canhões. Jack
enrugou o nariz um instante ao notar o cheiro de vinagre que se utilizava para limpar o lugar.
Mostrou-lhe onde se achava o paciente, que estava tremendo em seu beliche em pleno delírio
febril.
O cirurgião, o senhor Palliser, estava junto à cama de Stockwell. Quando viu Jack,
moveu a cabeça com gesto de pesar. Parecia que o doutor se dera por vencido.
Jack e Eden se aproximaram da cabeceira de Stockwell, e ele ficou tenso ao perceber o
sofrimento que se refletia no rosto de seu fiel secretário. O homem, extremamente pálido, suava
a jorros e tremia em sua cama de armar. Embora mal estivesse consciente, viu Eden com seus
olhos frágeis.
Ela o olhou com ternura, e a compaixão inundou seus olhos esmeralda ao tomar a

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mão como um anjo misericordioso.
—Como se chama?
—Stockwell. Peter Stockwell.
—Peter, que tal se encontra? — perguntou ela em voz baixa. —Pode me ouvir? Vim
ajudá-lo. —Pegou o pano úmido que havia ao lado e lhe secou o rosto com ele. —Vai ficar bem,
ouve-me? Só é preciso um pouco de tempo.
Posou o olhar no braço de Stockwell, e ao lhe virar o pulso para cima, descobriu as
marcas das recentes sangrias que lhe tinham praticado.
Jack advertiu que a expressão dela se endurecia ligeiramente.
—Está bem, não vamos sangrá-lo mais — ordenou Eden em um surpreendente tom de
absoluta firmeza feminina.
—Perdoe... minha querida senhorita! — balbuciou o cirurgião, e a seguir pigarreou
ruidosamente. —A sangria é o tratamento habitual nestes casos — informou-a com
condescendência, pois não tinha achado nenhuma graça que a clandestina lhe dissesse como
tinha que fazer seu trabalho. Além de tudo, levava salvando vidas mesmo antes que nascesse
aquela moça. —Terá que extrair os humores fétidos...
—Experimentemos outra coisa — disse ela bruscamente, disposta a lutar pela vida de
Stockwell, conforme parecia.
—Capitão? — o senhor Palliser se voltou para Jack com uma expressão sofrida.
Jack refletiu. A vida de um homem pendia por um fio. O método de Palliser tinha
fracassado, de modo que Jack decidiu confiar nela. Afinal, era a filha do grande doutor Farraday.
Tinha que saber algo a respeito daquelas enfermidades tropicais. Assentiu com a cabeça.
—Faça o que ela diz.
Palliser ficou boquiaberto ao ouvir a ordem, mas Eden lançou um olhar de satisfação a
Jack ao mesmo tempo em que desprendia a mochila de seu ombro.
—Necessitarei de um pilão, uma mão de morteiro e um litro de água fervendo — disse
ao ajudante do cirurgião. —Vamos tentar que tome um pouco de suco. Necessita de líquido. Há
gelo a bordo?
—Não muito — disse Jack.
—Me tragam o que possam. Temos que baixar a febre. Se não restar mais remédio,
talvez tenhamos que inundá-lo na água.
Jack fez um gesto brusco com a cabeça ao segundo de bordo, e este partiu a toda
pressa a cumprir a ordem. Eden se voltou para ele e o empurrou com delicadeza para a porta.
—Vá daqui. Não volte por aqui. Seja o que for, não quero que você se contagie.
—Eu não me ponho doente. E você?
—Não se preocupe comigo, estou acostumada a estas coisas. Vá embora.
—Eden, sou o capitão. Todos os homens deste navio são minha responsabilidade... e
todas as mulheres — acrescentou intencionalmente.
Dedicou-lhe um sorriso íntimo.
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—Está bem. Nos dê uma mão, capitão. Eu ficarei com o senhor Stockwell. Vá
perguntar à tripulação se alguém mais está manifestando os mesmos sintomas. Envie aqui aos
homens e assim conteremos o perigo.
—Sim, senhora — murmurou ele ironicamente, dedicando-lhe uma saudação.
Para grande alívio seu, sua investigação não obteve resultados. A enfermidade ainda
não se propagara à tripulação. Jack retornou para assegurar-se de que ela tinha tudo o que
necessitava, mas o funcionamento do navio requeria sua atenção, de modo que se conformou
fazendo frequentes visitas com o passar do dia.
No dia seguinte, de noite, ele não era o único impressionado pela intrépida senhorita
Farraday. Durante dois dias, a jovem tinha atendido ao paciente constantemente, sem mal
tomar dez minutos de descanso.
Quando Jack chegou à enfermaria para solicitar um informe da evolução do doente,
ouviu-a falando com a equipe do cirurgião e se deteve do outro lado da porta, enquanto
escutava a filha do grande doutor Farraday por pura curiosidade.
Estava respondendo às perguntas dos médicos sobre a infusão de casca e ervas que
ela e seu pai tinham aprendido do xamã dos waroa. O cirurgião e seus ajudantes tinham muitas
dúvidas a respeito das outras amostras botânicas secas que levava na mochila e lhe
perguntavam pelos usos farmacêuticos de cada uma delas.
—E esta?
—Ah, sim, um dos melhores descobrimentos de meu pai. Procede da acácia, um
grande arbusto que cresce à beira do rio. Com as folhas amassadas se obtém um excelente
remédio para as infecções cutâneas. Se fizer um cataplasma com ela, pode-se acelerar a cura das
feridas da pele. Mostrou-lhes outra. —Esta amostra é a algaroba, da família das leguminosas. A
infusão desta planta cura a disenteria.
—E esta daqui?
—Um potente analgésico. Os indígenas a chamam O-lah-wah-tah-wah-ku. É da família
da pimenta negra.
Os homens trataram de repetir o nome, mas não o conseguiram.
Jack agachou à cabeça divertido e a escutou, orgulhoso de seus conhecimentos.
—Esta é a bergibita, para o estômago — prosseguiu ela. —Aqui está o jarakopi, para
baixar a febre. Talvez tenhamos que empregá-lo com o senhor Stockwell se a casca da chinchona
não for suficiente. E esta, a konsaka wiwiri, serve para curar as enfermidades das gengivas.
Os homens ficaram assombrados.
—O que faz esta, senhorita? — perguntou um dos ajudantes do cirurgião.
—Cuidado com essa! — ela a tirou das mãos com um sorriso de cumplicidade. —É a
planta do caapi, conhecida como a videira dos deuses. É um potente sedativo e alucinógeno. Se
meter uma destas na boca, acabará nadando com as sereias no reino dos sonhos.
Eles riram ao escutar sua graciosa advertência, mas Jack ouviu que alguém se
aproximava e olhou pelo corredor escuro.
—O que está fazendo aqui? — perguntou quando Ballast saiu caminhando com

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dificuldade da penumbra.
—Capitão. O homem fez uma reverência. —O cirurgião disse que tinham que me
examinar os pontos hoje para ver se estou em condições de trabalhar. Ballast olhou pela porta
aberta da enfermaria, viu Eden e empalideceu.
Jack resmungou e a seguir, assentindo com a cabeça, deu permissão ao artilheiro para
que entrasse, mas lançou um olhar penetrante a Ballast, que não necessitava de palavras para
saber que devia vigiar suas maneiras.
O marinheiro corpulento e calvo entrou com ar desajeitado. Jack permaneceu na
porta, com curiosidade para ver a reação de Eden ante seu inimigo.
Ao ver o imponente artilheiro ficou paralisada, mas Ballast sabia que o capitão estava
olhando; sua atitude humilde deixava bem claro que era ele quem agora temia a Eden e que ela
não tinha motivos para ter medo dele.
Ela manteve a distância e permaneceu junto à cama de Stockwell enquanto o senhor
Palliser examinava os pontos do artilheiro. Mas quando o cirurgião terminou com ele, Éden fez
algo que deixou pasmo a Jack.
Ficou erguida com ousadia e se dirigiu resolutamente para Ballast com sua mochila ao
ombro.
Palliser a olhou surpreso ao ver que se detinha diante de Ballast, que se achava
sentado no banco que havia junto à parede.
—Me perdoe — se dirigiu a ele em tom formal. —Dizem que se chama Ballast.
O artilheiro ergueu a vista, em estado de alerta.
—Sim, senhora. Assim me chamam.
Observou-a lançando-lhe um olhar áspero de soslaio, sem dúvida temeroso de Jack,
que estava presenciando a conversa entre ambos e seria capaz de lhe dar uma surra.
—Eu sou Eden Farraday. Só queria lhe dizer que... isto, sinto muito lhe ter ferido. Reagi
instintivamente. Espero que o entenda.
O assombro se refletiu nas feições marcadas de Ballast.
—Está me pedindo desculpas, senhorita...? A mim?
Ela assentiu com a cabeça firmemente.
—Receio que ambos agimos errado, mas lamento a dor que sofreu e espero que não
me guarde rancor.
Ela estendeu-lhe uma mão corajosamente.
Jack sabia que o artilheiro não se atreveria a estreitá-la depois que seu capitão tivesse
jurado que enforcaria a todo aquele que a tocasse.
—Não tem importância. Ballast afastou a vista bufando com inquietação, mas seguiu
olhando-a com receio pela extremidade do olho.
A expressão de Eden se endureceu ante seu rechaço ao objeto de paz. Colocou a mão
na mochila e tirou uma de suas misteriosas poções.
—Tome. Experimente este bálsamo. O ajudará a curar a ferida mais depressa.
124
—Prefiro não fazê-lo, senhorita, se não se importar.
Ela abaixou a cabeça.
—Entendo-o. Não tem nenhum motivo para confiar em mim. Bom, deixarei-o na
enfermaria se por acaso mudar de opinião, senhor Ballast.
O artilheiro balbuciou umas vagas palavras de agradecimento ao levantar-se. Dirigiu-
se à porta olhando-a com desconfiança. Deteve-se antes de sair e lançou um olhar de
perplexidade a Jack.
Jack foi incapaz de reprimir um sorriso e deu de ombros.
Ballast voltou a inclinar a cabeça ante ele e retornou as suas tarefas. Finalmente, Jack
entrou sem pressa na enfermaria e olhou atentamente à pequena clandestina com um
encantamento cheio de admiração.
—Por que sorri? — sussurrou ela, lhe pedindo silêncio ao ver que se aproximava, pois
o paciente estava adormecido.
Jack a pegou pelos ombros com suavidade, inclinou-se e lhe deu um beijo na face.
—Por nada. Como está?
Ela esfregou a nuca e enrugou o nariz esboçando um sorriso de cansaço.
—Tenho um pouco de fome.
—Vá descansar. Martin ou Trahern se encarregarão de que lhe subam comida da
cozinha ao camarote.
—Não posso deixá-lo...
—Eu o vigiarei, se com isso se sente melhor. Vamos, esteve aqui todo o dia.
—Tem certeza de que não se incomoda?
Ele a empurrou suavemente em direção à saída, notou que lhe dava um salto o
coração ao ver seu sorriso de agradecimento e se sentou na cadeira que ela tinha aproximado da
cama de Stockwell.
Ela retornou aproximadamente uma hora mais tarde; levava chá para os dois. A
penumbra das últimas horas do dia se converteu em uma escuridão absoluta, de modo que Jack
acendeu uma lanterna colocada na mesa junto a sua cadeira. Levantou-se ao ver que ela voltava,
ofereceu-lhe seu assento e a informou que não tinha havido incidentes com o paciente. Em
pouco tempo, os dois estavam sentados com a bandeja do chá colocada sobre a mesa entre
eles; o lampião iluminava com luz tênue.
Stockwell continuava dormindo.
—Não tinha por que pedir desculpas a Ballast, sabe? — murmurou Jack, observando
como ela aspirava a fumaça que subia de sua taça. —Esse homem é um pouco bruto.
—Inclusive um bruto merece que o tratem com dignidade — respondeu ela sorrindo.
—Além disso, pensei que um pouco de diplomacia de minha parte facilitaria as coisas para
você... ajudaria-o a manter a ordem a bordo do navio. Em nenhum momento quis causar
problemas, Jack. Negou com a cabeça. —Me alegro de ter tido má pontaria quando feri o
Ballast; podia inclusive tê-lo matado. Foi uma sorte que não lhe dei em uma artéria importante

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do braço. Se fosse assim, teria morrido sangrando.
—Suponho que recorda que ele ameaçou estripá-la. Poderia tê-lo feito perfeitamente,
sabe?
Ela sorriu-lhe com um brilho de cumplicidade nos olhos.
—Não estando você ali.
Contente com a fé que ela tinha depositado nele, Jack suspirou e se reclinou
lentamente, sem deixar de sustentar seu olhar.
—Talvez você e eu deveríamos voltar a falar do projeto de seu pai. Esses remédios são
impressionantes.
—Eu sei. Tudo se deve porque papai soube ganhar a confiança do xamã. As tribos não
compartilham seus conhecimentos com os forasteiros a menos que estejam convencidos de sua
integridade. E esse — acrescentou ela — é o forte de meu pai.
—As possibilidades dessas curas são incríveis. Começando pelo uso militar. A
Inglaterra tem milhares de soldados espalhados pelas áreas tórridas da Terra. A Índia, por
exemplo. Tenho dois primos na cavalaria destinados ali, e as febres tropicais que se propagam
entre os soldados rasos dizimam seus exércitos depois de cada Monção. Também há as Índias
Ocidentais, o Mediterrâneo e as Zonas Tropicais do continente australiano. Inclusive a América
do Sul está infestada de paludismo13. Sabe quanto pagariam os países por um meio que
permitisse manter a suas tropas com vida?
—Jack, o objetivo dos remédios não é melhorar as probabilidades dos países na
guerra. Servem para salvar vidas, não para tirá-las. Além disso, não são para pô-las à venda.
—O que?
—Não estaria bem guardá-las quando há gente que está morrendo. Essas curas
pertencem a toda a humanidade. Céu santo, pareço meu pai.
—Eden — sussurrou Jack, observando seu rosto pensativamente. —O mundo é um
lugar terrível para ser idealista. Tem que velar por seus próprios interesses porque ninguém o
fará por você.
Ela assimilou suas palavras com expressão séria e em seguida olhou a Peter Stockwell.
Jack bebeu outro gole de chá.
—Me diga em que mais está trabalhando seu pai.
Ela riu sardonicamente em voz baixa ao ouvir sua pergunta.
—A última vez que falei com ele queria ir ao Amazonas. Então me dei conta de que
não podia ficar ali.
—O Amazonas? — repetiu Jack, assombrado. Olhou-a surpreso. —Os três sozinhos?
—E nossos criados, além de uns quantos indígenas.
—Santo Deus, é uma loucura.

13
Enfermidade causada por um protozoário, que se transmite ao homem pela picada do mosquito
anófeles e produz febres muito intensas: o paludismo é uma enfermidade endêmica de certas Zonas
Tropicais. Malária.

126
—Sim, já sei! — exclamou ela, voltando-se em sua cadeira para olhá-lo. —Então, está
de acordo comigo? Seriamente, Jack?
—É claro que sim. Seria um disparate empreender algo assim sem uma expedição
como Deus manda. Necessitam-se de recursos e planejamento. Ele franziu o cenho enquanto
refletia sobre o projeto. —Seria preciso uma equipe de vinte ou trinta homens armados só para
sobreviver. No mínimo, provisões para um ano. Animais de carga. Botas. Um par de cirurgiões se
por acaso se produzirem acidentes. Meia dúzia de ajudantes mais. Uma equipe de
reconhecimento, ilustradores, engenheiros, atiradores de primeira para maior proteção. Uma
grande reserva de artigos de comércio para suavizar as relações com as agressivas tribos do
interior. Meu Deus, e levar uma mulher? Não ocorreu a seu pai o que poderia acontecer a você
ali?
Eden suspirou.
—Ele acredita que, aconteça o que acontecer, sempre estarei mais segura ao seu lado.
A única coisa que assusta a meu pai é a "civilização corrupta". Oh, não sabe quanto me
tranquiliza saber que está de acordo comigo, Jack — disse ela, posando a mão no braço dele em
um gesto muito sentido. —Tinha tanto medo de estar sendo egoísta.
—Egoísta? — Jack zombou dela. —Sensata, melhor. Meneou a cabeça com gesto de
incredulidade. —Nem sequer sei o que dizer. Acredito que seu pai esteve muito tempo na selva.
É evidente que não pensava com clareza.
Ela o olhou longamente em uma silenciosa atitude de gratidão; seu agradecimento
pelas palavras que ele tinha pronunciado se refletia em seu adorável rosto.
—Sabe o que ele disse quando lhe pedi que fôssemos da selva? Que os desejos de um
indivíduo não têm importância comparados com o bem comum. Que às vezes temos que nos
sacrificar, aconteça o que acontecer.
Jack a olhou nos olhos.
—Não é isso o que estiveram fazendo durante os últimos dez anos?
—Doze — sussurrou ela.
—Como pôde lhe dizer isso depois da forma como você se consagrou a ele? Deve ter
sido terrivelmente doloroso a você.
Ela abaixou a cabeça.
—Às vezes não pensa o que diz.
Jack a observou com terna preocupação.
—E o ajudante de seu pai, O'Keefe? Não tentou dissuadir a Victor de ir ao Amazonas?
—É claro que não. A Connor pareceu uma ideia estupenda.
—Inclusive levar você?
—Sobretudo isso. Ela retirou a mão e apertou os dedos sobre seu regaço.
Jack arqueou uma sobrancelha.
—Entendo. Assim que... há algo entre vocês dois?
—Ele gostaria que assim fosse — disse ela em voz baixa, olhando as mãos.

127
—Eden.
—Papai propôs que... — ela suspirou — se me sentia sozinha na selva, devia me casar
com Connor.
Ele esquadrinhou seu rosto.
—E esse plano não foi bem acolhido por você?
—Não o amo — respondeu ela com veemência, e a seguir negou com a cabeça. —
Tentei, mas não posso.
—Por quê?
Ela lançou-lhe um olhar com receio.
—Connor perdeu minha confiança.
—Como?
Ela exaltou lentamente e decidiu compartilhar sua terrível anedota.
—Quando tinha dezesseis anos, um jovem guerreiro indígena de uns vinte anos me
seguiu até a selva. Eu tinha ido sozinha para desenhar minhas orquídeas. Sobressaltei-me
quando ele fez sentir sua presença. Começou a flertar comigo. A princípio eu só estava nervosa,
mas não me deixava em paz. Então me assustei.
Todos os músculos do corpo de Jack se retesaram enquanto escutava.
—Continue — disse em voz baixa.
—Connor me ouviu gritar. Em um abrir e fechar de olhos apareceu ali. Não sei como
me achou tão rápido. O caso é que tirou o menino de cima de mim... e depois lhe bateu até
deixá-lo inconsciente diante de mim. Foi horrível. Ele... o fez em pedaços. Bateu-lhe tão
brutalmente que o menino morreu vários dias depois. Vacilou, movendo a cabeça com gesto de
desgosto ao recordar o episódio; seus olhos ficaram frágeis. —Connor estava coberto de sangue.
Nunca esquecerei como me olhou.
Jack permaneceu calado.
Ela ergueu a vista para ele uma vez mais.
—Desde então pensa que sou sua posse. Suponho que sempre acreditou nisso. Por
isso reagiu com você daquela forma.
—Venha aqui. Ele a atraiu para si e lhe rodeou os ombros com o braço. Ela se apoiou
nele; Jack lhe deu um beijo na têmpora. —Ninguém pode ser teu dono. Se essa for a situação
em que te achavas, fizeste bem partindo dali.
Ela ficou calada durante um longo momento. Ele notava que queria dizer algo.
—O que acontece? — murmurou, lhe roçando um lado da testa com os lábios.
—Talvez venha atrás... de ti, Jack. Duvido que saia da selva só para me seguir (odeia o
mundo e é incapaz de adaptar-se à civilização), mas tens que saber que existe essa possibilidade.
Veja, no dia que me beijaste, ele ficou furioso.
—Maldição. Ele suspirou. —Então a pus em perigo fazendo-o.
—Não me importou — disse ela apressadamente, lhe dedicando um sorriso tímido. —

128
Além disso, não só foi teu beijo o que o fez zangar-se. Estou segura de que para ele foi muito
pior ver que eu te devolvia.
—Sim, devolveste, não é? — murmurou Jack com voz rouca, estendendo a mão para
lhe puxar uma longa mecha de cabelo em um gesto de afeto zombeteiro.
—Como não ia fazê-lo? — replicou ela, ao mesmo tempo em que suas faces coravam.
—Não me deste muitas opções.
—Oh, vamos, não esteve tão ruim, não? Além disso, tinha que fazê-lo.
—Por quê? Porque meu pai te ofendeu?
Ele negou com a cabeça e roçou seus lábios carnudos e sensuais com o polegar.
—De maneira nenhuma ia partir daquele lugar sem beijá-la. Pelo menos tinha que
prová-lo.
Ela se ruborizou e baixou a vista.
—O caso é que se ele tivesse a oportunidade, não hesitaria em tentar devolver-lhe o
golpe de algum modo — disse ela, reatando a conversa.
—Não te preocupes, querida. Não tenho medo dele.
—Eu, sim — disse ela em voz baixa.
Aflito pelo desejo de protegê-la, Jack a fez sentar-se em seu regaço.
—Venha comigo. Não te preocupes — sussurrou. Pressionou a cabeça dela com
delicadeza sobre seu ombro; ela o rodeou com os braços e recostou o rosto contra a curva de
seu pescoço. —Ninguém vai te fazer mal enquanto eu estiver perto.
Ela o abraçou mais forte e lhe beijou a face com ternura. Um momento mais tarde,
resmungou distraidamente:
—Eu gosto barbeado.
Ele não fez muito caso.
—Te lembras do que disse a respeito de financiar a investigação de teu pai?
Ela assentiu com a cabeça.
—Retiro-o tudo — declarou ele. —Um novo patrocinador é o que menos necessitam
tu e teu pai. De qualquer forma, não é o que tu queres realmente, não é? Financiando seu
projeto não faríamos mais que lhe oferecer os meios para que volte para quem sabe onde e te
arraste outra vez com ele. Já é hora de que seja sincera contigo mesma, Eden. Isso não é o que
realmente queres.
—Não — reconheceu ela em um sussurro reticente.
—Ambos precisam descansar da selva antes que se convertam em bons selvagens.
—Sim. Ela o abraçou mais forte, quase com ardor. —Oh, Jack. Reze para que papai me
tenha seguido e tenha saído da selva...
— Tenho certeza de que o fez. Deve ter se preocupado muito. Pode ser que seja a
única forma de fazê-lo entrar em razão.
—Quando voltar a ver Londres, a tia Cecily e todos meus primos, tenho certeza de que

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se dará conta de que não é tão terrível como chegou a acreditar. A morte de minha mãe foi o
que o mudou. Ele esteve escondendo-se na selva.
—E te retendo com ele. Escute-me. — Jack tomou seu rosto entre as mãos e a olhou
com seriedade. —Não tens motivos para se sentir culpada por ter partido. Teu pai é o único que
foi egoísta... e da próxima vez que nos virmos, assegurarei-me de dizer-lhe.
Ela sorriu tristemente.
—Ele não te escutará.
—Não me ouviste rugir — acrescentou ele em um sussurro brincalhão, e a seguir lhe
deu um suave tapinha debaixo do queixo. —Basta já de falar de patrocinadores e do que teu pai
quer. De agora em diante a pergunta importante é: o que tu queres Eden?
Ela relaxou de novo entre seus braços, apoiando a cabeça em seu ombro.
—Quero o que sempre quis — disse ela depois de meditar um instante, e em seguida
levantou a mão para brincar com o cabelo de Jack, com um sorriso distante desenhado nos
lábios. —Quero ir a Londres e desfrutar de todas as diversões da temporada.
—Hum. Rodeou-lhe a cintura com os braços. —E por que queres isso?
—Não sei. Te parecerá ridículo, mas é que... tenho a sensação de que Londres é o
lugar onde há mais vida. O resto de lugares só são... pálidas imitações. Meneou a cabeça; via
imagens que só ela podia imaginar, a julgar por sua expressão sonhadora. —Há tanta gente...
Tantas coisas para fazer... As lojas elegantes e as casas. Os cavalheiros e as damas formosas...
como nas revistas. Apoiou a face melancolicamente na dele. —Como eu gostaria de ser como
eles.
Jack a abraçou em silêncio, sem saber o que dizer.
Tinha a sensação de que havia algo que não lhe estava contando, mas suas inocentes
palavras continham tantas hipóteses equivocadas que não sabia por onde começar a corrigi-la.
Além disso, aquilo não correspondia a ele. Quem era ele para jogar por terra suas
ilusões infantis sobre as deslumbrantes luzes de Londres? Não tinha o menor desejo de
contrariá-la, sobretudo agora que se tinha aberto a ele.
De qualquer forma, talvez ela precisasse aferrar-se àquele sonho ilusório naquele
momento para não perder a coragem ante o desconhecido. A única coisa que lhe preocupava
era o que seria dela quando chegasse lá e descobrisse que aquele mundo também tinha outro
lado. Um lado escuro. Crueldade. Um vazio contra o que alguém tinha que se proteger.
Os que tinham estado expostos a ele, como tinha sido o caso de Jack em seus anos de
juventude, rapidamente compreendiam que o único do qual carecia uma vida de opulência era
de sentido; aquela carência tinha estado a ponto de destruir seu irmão mais novo, Alec, como
lhe havia descrito sua irmã em suas cartas.
Não, depois de tudo Eden não conhecia aquele lado de Londres, mas Jack sim. Ele
tinha experimentado de primeira mão a peculiar crueldade da alta sociedade e tinha sobrevivido
a ela.
Tendo em conta que Eden era tão forasteira como ele, temia o que seria dela na
sociedade. Pelo menos na selva conhecia os perigos que existiam. Em Londres, cairia em todas
as armadilhas. O mais provável era que tivesse que aprender à força como cometer enganos. E

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então, o que? A dor e o desengano a deixariam enfastiada rapidamente.
Depois de uns anos tentando converter-se no que a sociedade exigia, tornar-se-ia tão
cínica como ele; ou pior ainda, em uma mulher mercenária como Maura e as de sua classe,
aquelas caçadoras de títulos que se vendiam no mercado matrimonial em troca de uma casa de
campo e uma coroa.
Depois de ter tomado certo apreço àquele animal estranho da selva e a suas
encantadoras raridades, não queria que sofresse ou que mudasse por causa de seus esforços
para se encaixar na sociedade. Em realidade, aquela perspectiva fazia com que desejasse
protegê-la ainda mais.
Bom, ela ainda tinha tempo, meditou. De fato, ainda não lhe havia dito que não a
levaria diretamente a Londres. Ia ficar na Irlanda seis meses, até que sua missão tivesse
concluído.
Devido a isso, perderia toda a temporada social. Talvez ao ano seguinte fizesse uma
ideia melhor de onde se havia metido. Dessa forma poderia preparar-se melhor e começar a
aprender onde estavam escondidas as piores armadilhas da sociedade.
No momento, Jack não se atrevia a lhe revelar sua decisão de deixá-la a salvo em seu
castelo da Irlanda. Se a informasse disso agora não conseguiria mais que lhe arrancar lágrimas e
provocar sua ira feminina e começavam a dar-se muito bem, pensou enquanto a abraçava sobre
seu regaço e lhe acariciava o cabelo suavemente.
Ao cabo de umas horas de vigília, Eden dormiu.
Como tinha atendido durante dois dias seguidos ao seu paciente e ganhara o maior
respeito que jamais lhe inspirou uma mulher, Jack a levantou nos braços e a levou ao seu
camarote, onde a deitou na cama.
Cobriu seu corpo esbelto com a colcha para assegurar-se de que se mantinha quente.
Sorriu enquanto percorria seu corpo com o olhar, vestida com o vestido brilhante de princesa do
mar, com seu cabelo castanho avermelhado derramando-se graciosamente sobre o travesseiro.
"Queres ser uma dessas mulheres formosas?" Sacudiu a cabeça. "Não sabes que já o és?" Sim,
era mais formosa do que a maioria delas jamais poderia chegar a ser, e sua formosura não tinha
nada a ver com a beleza de seu rosto.
Ele inclinou-se e lhe deu um beijo suave como um sussurro em sua testa pálida e lisa;
depois, ergueu-se devagar e saiu do quarto sem fazer o menor ruído.

131
Capítulo 9

Eden sonhou com orquídeas.


Uma chuva cheia de pétalas delicadas e pálidas que caíam flutuando sobre ela. E Jack
estava ali, sorridente, moreno, forte como um carvalho entre as sombras musgosas da selva.
Mas por algum motivo, em lugar de desprender seu habitual aroma de baunilha, as orquídeas
cheiravam a canela...
—Senhorita Farraday — murmurou uma voz cristalina, profunda e travessa, incitando-
a a despertar. —Seu café da manhã está servido.
Fazendo piruetas, a realidade abria passagem em seu sonho mágico. A luz do sol da
manhã se filtrava através do lençol de algodão que lhe tampava os olhos.
O sussurro rouco voltou a ouvir-se:
—Aqui há chocolate.
Rugiram-lhe as tripas em resposta aos deliciosos aromas que penetravam através do
tecido fino.

132
Chocolate... e canela?
"Ahhh…"
Antes de estar de todo acordada já estava sorrindo.
Retirou o lençol de seu rosto com ar sonolento, olhou por cima e viu Jack sentado ao
seu lado na beira da cama, com o braço apoiado de forma possessiva sobre seu corpo.
O terror das Índias Ocidentais a observava com um sorriso terno e ligeiramente
complacente desenhado em seu duro e atraente rosto à luz tênue, dourada e rosácea da manhã.
—Jack! — disse ela em voz baixa, e se levantou, levando o lençol ao peito.
Ele se inclinou e lhe deu um beijo na face.
—Bom dia, amor. Apontou com um gesto a bandeja com pés que aguardava sobre a
cama. —Permita que te ofereça este café da manhã e o tome como uma celebração em sua
honra.
—Meu Deus, claro que o aceito, mas o que celebramos? — perguntou ela, com um
grande bocejo.
—A febre remeteu. Peter Stockwell está acordado, e o que é mais importante, está
vivo.
Ela abriu muito os olhos.
—Oh, graças a Deus.
—Obrigada também a ti, minha intrépida doutora. Ofereceu-lhe uma xícara de
chocolate quente sem mais demora.
Ela, entusiasmada por aquele incomum luxo, olhou a xícara e logo voltou a olhar a ele.
—Tem açúcar?
—Muito.
Ela bebeu um gole do líquido doce e escuro e lançou um suspiro de elogio.
—Vamos ver, que mais temos aqui? — disse ele, pensando em voz alta.
Estendeu a mão em direção à bandeja do café da manhã, levantou a tampa prateada e
deixou descoberto um copo de suco e um prato maravilhosamente preparado com fatias de
presunto, laranjas frescas e pães-doces de canela ainda fumegantes, com uvas passas que
apareciam por baixo do polido branco que caía pelo folhado dos lados.
Sentindo-se tentada, Eden deixou a taça de chocolate, umedeceu os lábios, pegou um
pão-doce de canela e lhe deu uma boa mordida. O sorriso de Jack se alargou ante suas
exclamações de assombro e deleite. Depois de cuidar durante anos de seu pai e de Connor na
selva, não recordava que alguém tomasse tantas moléstias por ela.
Empurrou o prato em direção a ele.
—Não quererás que tome tudo isto sozinha?
—Sim. Ele sorriu, e seus dentes brancos e regulares emitiram um brilho. —Até o
último miolo.
Ela lançou-lhe um olhar travesso de repreensão e aproximou um pão-doce aos seus

133
lábios. Ele deu-lhe uma enorme mordida, e Eden comeu a outra metade, inclinou-se para frente
rindo entre dentes enquanto mastigava e o beijou na boca.
—Mmm. — Jack comeu o pedaço e lhe devolveu o beijo enquanto pegava a xícara
para beber um gole de chocolate. —Que gostoso.
—Disse-te isso.
—Me referia a teu beijo. Jack afastou a taça e lhe tirou o copo de suco da mão.
Deixou-o na bandeja e lhe lançou um olhar ofegante. —Quero outro.
Na expectativa, acelerou o pulso de Eden quando ele rodeou sua nuca com a mão e a
atraiu para si suavemente. No momento em que os lábios dele acariciaram os seus, lançou um
suave suspiro, derretendo-se entre seus braços.
Não se tinha dado conta do muito que o tinha desejado e de como vinha contando as
horas desde a última vez que ele a tinha abraçado. Parecia que tinha passado uma eternidade
desde que tinha notado seus braços ao redor dela, mas ele a tinha beijado na cama só fazia duas
noites.
Enquanto ela lhe rodeava o pescoço com os braços e lhe devolvia os beijos com
avidez, ele a atraiu mais para si colocando um braço ao redor de sua cintura; deslizou as pontas
de seus dedos pelo pescoço de Eden, e seu suave roce a fez estremecer-se.
Sabia que não devia desejar aquilo, mas desejava.
Sabia que era perigoso, mas não tinha medo.
Enquanto Eden acariciava suas faces bem raspadas e as ondas escuras e sedosas de
seu cabelo, o mundo começou a dar voltas. Não estava segura do que lhes estava ocorrendo,
mas o delicioso prazer que achavam um no outro era algo que nenhum dos dois tinha esperado
achar. Era um prazer mais que físico.
—Bom dia, Eden — sussurrou ele, depois de gozar longamente da reação dela.
—Bom dia, Jack. A voz dela soou como um ronroneio entrecortado.
Agarrando-o pelas lapelas de seu colete desabotoado, atraiu-o mais para si, sorrindo,
e lhe exigiu mais beijos.
Ele os deu gostosamente, deixando que seu cabelo se derramasse entre as pontas de
seus dedos. Jack respirava fundo; ela notou um formigamento no corpo quando sua mão desceu
avidamente por sua cintura.
—Tenho que parar — conseguiu dizer ele, afastando os lábios dos dela.
—Por quê? — disse ela com voz entrecortada.
—Porque te desejo.
—E o que?
Ele deu de ombros e fechou os olhos ante seu urgente sussurro, enquanto apoiava a
fronte na dela.
—Eden.
—Jack.
—Não sabes o que estás me pedindo.
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—Então, por que não me mostras? — ela percorreu a curva de sua orelha com os
lábios. —Confio em ti, Jack. Confio em ti desde o começo.
—Sim, esse é o problema.
Ela se recostou, pegou-lhe a mão, aproximou-a de seus lábios e lhe beijou as pontas
dos dedos. Ele tinha o rosto tenso, e o tom água marinha de seus olhos se escureceu
rapidamente até converter-se em um azul muito escuro. Observou fascinado como ela metia a
ponta de seu dedo do meio na boca.
De repente ele se inclinou, tomou o rosto dela entre suas mãos e substituiu seu dedo
pela carícia urgente de sua língua. O coração de Eden pulsava de forma ensurdecedora. A boca
fina dele deslizou de um lado a outro sobre a dela, persuadindo-a para que abrisse mais os
lábios. Ela sabia o básico sobre o ato de emparelhamento, e ele o estava imitando, afundando
em sua boca com a língua.
Quando por fim terminou o ardente beijo, o peito de Eden palpitava.
—Deite-se — ordenou-lhe em um murmúrio rouco.
Ela obedeceu sem vacilar, sustentando seu olhar febril.
Ele afastou a bandeja e se colocou na cama ao lado dela; cada um de seus
movimentos refletiam um apurado autocontrole. Deslizou o dedo do meio pelo centro de seu
corpo e deixou que se abrisse o V do decote de seu vestido de princesa.
Ela observou com nervosa curiosidade como introduzia a mão por seu vestido; fechou
os olhos e gemeu quando lhe apertou um mamilo. Jack lhe beijou o queixo enquanto ela gozava
da sensação e a seguir lhe acariciou a comissura dos lábios com a ponta da língua. Eden voltou à
cabeça e devorou os beijos que lhe oferecia. Enquanto isso, a mão dele abandonou sua blusa e
desceu até sua cintura.
Quando Eden notou que lhe levantava a saia devagar, discretamente, pela coxa,
rodeou-lhe o pescoço com os braços presa de uma descontrolada expectativa.
—Oh, Jack. Abraçou-o mais forte, com o corpo ardente.
—Posso? — sussurrou ele, ascendendo suavemente com a mão por baixo do vaporoso
tecido azul, lhe acariciando com destreza e lentidão a face interna da coxa.
Eden o olhou fixamente, ofegando, incapaz de falar; com voz imprudente e ofegante
sussurrou: "—Me toque".
Ele dedicou-lhe um meio sorriso de cumplicidade e a seguir inclinou a cabeça sobre
seu pescoço e deixou que o pulso frenético de Eden pulsasse contra seus lábios. Seus dedos
inquisitivos deslizaram entre as pernas dela, explorando, acariciando-a, lhe dando prazer. Ela
gemeu, aceitando sua incursão com indefeso abandono. As pernas ficaram frouxas, os joelhos
fraquejaram, e afastou as coxas em atitude de vacilante boas-vindas.
—Me diga o que gostas — sussurrou ele, mas ela era incapaz de falar.
Gostava de tudo. Beijou-lhe o ombro como um homem em transe enquanto a
penetrava com um dedo e logo com dois; a pôs tão quente e úmida que ela temeu estar
derretendo-se. Eden gemeu e não demorou a entregar-se por inteiro ao desejo ardente e
ofegante.
Oh, Deus, sim, aquilo era o que tanto tinha desejado sem nem sequer saber. Ela estava
135
extasiada e não podia pensar em outra coisa que não fosse a força desse corpo que a rodeava e
suas mãos capazes de levá-la a lugares onde nunca tinha estado e que nunca tinha sonhado que
existissem. Queria visitar todos esses lugares com Jack.
Ele balançou-lhe a cabeça com a outra mão e lhe mordiscou o lóbulo da orelha
suavemente, respirando em seu ouvido de forma áspera e ofegante.
—Deixe que aconteça, meu amor.
—O que tenho que deixar que aconteça?
—Já o verás.
Quando ele a abraçou com força, Eden gemeu de prazer lhe rodeando o pescoço com
um braço e agarrando as mantas com a outra mão. O prazer ardente de seu contato a
deslumbrava e a aproximava cada vez mais a um cataclismo desconhecido. Não podia fazer nada
salvo confiar em que ele a levaria dali sem nenhum percalço.
Perguntava-se o que ia ocorrer, como ele havia dito... e então, de repente, soube.
—Jack! — exclamou ao sentir uma onda cega que percorreu o mais profundo de seu
ser com uma força demolidora. Ela estremeceu, arqueou as costas e se aferrou a ele como se
estivesse se afogando, enquanto ofegava com indescritível alívio.
Quando o prazer se transbordou em correntes doces e profundas de prazer, ele
grunhiu seu nome, ofegando em seu ouvido. Beijou-lhe a têmpora enquanto as ondas de gozo
diminuíam pouco a pouco.
Ela fechou os olhos por um momento e lhe roçou a face com a sua meigamente.
—Oh... Jack!
Recuperou a capacidade de raciocinar; ao menos, o bastante para deduzir que ele
também tinha necessidades e que seria maravilhoso satisfazê-las.
Notava suas extremidades como se fossem de borracha, mas se encheu de força e
coragem para estender o braço e lhe oferecer o mesmo que lhe tinha dado.
Ele se sobressaltou e a deteve antes que pudesse acariciá-lo através de suas calças
negras.
—Não, amor. Não poderia suportar.
—Mas eu quero...
—Não, anjo meu — ele riu em voz baixa, embora a careta de seu rosto parecesse de
dor. —Relaxe. Confie em mim.
—Confio em ti. Sussurrou ela.
Ele lançou um suspiro de arrependimento.
—Isso parece.
Ela se lançou em seus braços com um amplo sorriso. Depois ficaram deitados na cama
um tempo; Jack lhe balançou a cabeça sobre o peito enquanto com a outra mão, que ainda
tremia um pouco, acariciava-lhe o cabelo suavemente.
Ela suspirou, sorrindo como se estivesse em um sonho. Santo Deus, se aquilo era o
café da manhã, estava desejando que chegasse o almoço.
136
À tarde, Jack devia examinar em seu camarote os informes trimestrais dos
encarregados de cada uma das principais divisões de sua empresa e assegurar-se de que todas
obedeciam a suas ordens corretamente, cumpriam-nas pontualmente e não descuidavam de
nenhum detalhe, mas estava intranquilo.
O dia tinha transcorrido com normalidade. Trahern estava no convés encarregando-se
da guarda, e o Guri se achava em um canto escovando Rudy. Stockwell ainda estava
recuperando-se.
Entretanto, Jack estava distraído pensando em Eden, que trabalhava freneticamente
com Martin na confecção de sua roupa atrás do biombo pintado no canto. Não, não estava tão
distraído, pensou. Estava terrivelmente excitado. Totalmente frustrado. Falando em prata, estava
desesperadamente necessitado de sexo.
Já não era questão de perguntar-se se devia conter-se, mas sim de se seria capaz
disso.
Era uma tortura.
Naturalmente, ao voltar a olhar para trás, dava-se conta de que ele mesmo o tinha
procurado no dia que a beijou a mais de dois mil quilômetros de distância, na selva. Depois tinha
decidido sua sorte fazendo com que ela se despisse e se banhasse diante dele. Supunha que
merecia isso por havê-la subestimado.
Sua inocência era uma arma contra a qual não podia defender-se nem com todos seus
canhões, espadas e fuzis.
Mas se tinha que dormir com ela uma noite mais sem fazer amor com ela, temia
sinceramente por sua prudência. Sim, sua capacidade de controle estava desaparecendo, mas o
mais alarmante era que já não só se tratava de desejo; um afeto muito quente e simples por ela
estava tomando força em seu coração.
Que o diabo a levasse. Tudo aquilo era completamente estranho para ele. Tratava-se
de uma sensação muito inquietante. De qualquer forma, ele seguia sem saber como uma jovem
clandestina que se escondera na adega de carga se convertera na rainha de seu navio.
Os homens estavam encantados com Eden, o senhor Palliser falava dela com
assombro, e inclusive Ballast tinha ficado cativado. O áspero artilheiro tinha esculpido para ela
um pequeno boto com um pedaço de madeira para lhe demonstrar, a sua rude maneira, que
não havia rancor entre eles. O Guri não se afastava dela mais de seis metros em nenhum
momento, e inclusive os cães pareciam preferir a ela antes que a ele.
Quanto a Jack, não sabia com que palavra expressar o que sentia.
Todos os motivos sensatos e lógicos que se repetia para evitar deitar-se com ela,
quando era evidente que ambos o desejavam, estavam-se esgotando. A solução parecia muito
simples: deite-se com ela, case-se com ela. Continuava necessitando de herdeiros, de modo que
só restava enfrentar seus temores.
Aqueles que gostavam de fingir que não existiam.
Havia muitas coisas que ela não sabia dele. Muitas coisas que ele não podia lhe contar.

137
Mas quanto mais lhe importava Eden, menos disposto estava a lhe contar todos os motivos
pelos quais era indigno dela.
Não importava, pensava Jack com seriedade. Quando por fim chegasse a Londres
saberia.
Por outra parte, quando pensava em tudo o que tinha vivido ela, não podia menos
que se perguntar para que servia toda sua força e sua eficiência, se não era para cuidar de outra
pessoa. Uma pessoa como ela.
Mas Eden não era o tipo de mulher que se dispusera a tomar por esposa. Tinha
pensado em uma mulher dócil que não se atrevesse a penetrar as portas fechadas de seu
interior.
Aquela descrição não correspondia a Eden Farraday de maneira nenhuma.
E, entretanto, apesar de seu valor e sua inteligência, e sua condenada perseverança,
quem sabia melhor que ele como ela era vulnerável? Quem sabia como tinha estado protegida e
como era inocente? Quem além dele podia cuidar dela como era necessário?
Sim, estava começando a pensar que aquela moça necessitava dele, tanto se fosse
consciente disso como se não. Jack desfrutava sentindo que necessitava dele; não só o fazia feliz,
mas sim lhe proporcionava uma sensação de domínio. Entretanto, era muito mais inquietante
expor que ele também pudesse necessitar dela.
Tratava-se de uma situação muito perigosa.
—Ei... capitão! — um alegre sussurro atraiu sua atenção para o lugar da costura.
Ele deu uma olhada e viu que Eden aparecia pela borda do biombo, com os olhos
reluzentes. Tinha dois tecidos nas mãos.
—Qual você gosta mais? A lã vermelha ou o veludo verde escuro? — tinham
encontrado mais cilindros de tecido que deviam ter vendido em Londres.
Um sorriso se desenhou em seus lábios, pois era evidente que a garota estava
aproveitando muito isso tudo.
—Não tenho nem ideia.
—Vamos. É para uma jaqueta curta — explicou ela com entusiasmo. —O que opinas?
Ele deu de ombros, movendo a cabeça.
—Qualquer uma das duas.
O sorriso dela se transformou em uma careta.
—Tens que preferir uma, Jack! Teu voto é o decisivo. Martin e eu não entramos em
acordo.
O valete, atrás dela e fora da vista de Eden, apontava-lhe energicamente o tecido
verde. Bom, combinaria com seus olhos. Jack ocultou seu sorriso e secundou a escolha.
Imediatamente, Eden lançou um olhar de receio a Martin. Depois de ter feito sua
breve pantomima, o criado de quarto a olhou, todo inocência. Jack abaixou a cabeça, contendo
um sorriso. Para falar a verdade, ele preferia que ela não levasse nada em cima...
A deliciosa imagem que se formou em sua cabeça ao pensar nisso foi a gota que

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encheu o copo. Reprimiu um gemido, levantou-se de sua escrivaninha e saiu do camarote
lançando um grunhido de sofrimento; iria praticar esgrima. Naquele momento era incapaz de
fazer qualquer trabalho mental.
Um pouco de exercício duro lhe ajudaria a desafogar sua frustração.

Uma vez que Jack partira, Eden ficou no camarote trabalhando na manga de seu novo
vestido de passeio. Martin foi o seguinte a sair correndo para ocupar-se de suas tarefas
habituais, quer dizer, engomar as camisas de linho do capitão na lavanderia. Entretanto, Eden
não se importava de ficar sozinha, pois tinha a mente muito ocupada.
Desde o episódio daquela manhã, tinham começado a assaltá-la estranhos
pensamentos sobre Jack. Embora fizesse pouco tempo que se conheciam, depois de ter tido
ocasião de observá-lo em seu hábitat natural, por assim dizer, Eden se tinha observado muitas
coisas daquele grandalhão que eram dignas de estima.
Assombrava-lhe a nobre valentia de sua missão a favor dos colonos que lutavam pela
liberdade; algo que nem sequer foi capaz seu ducal pai, tal como ele tinha assinalado. Também a
comovia a dor que tinha percebido em seu silêncio ao tratar o assunto de sua família.
Depois de tê-lo observado durante vários dias, estava ainda mais impressionada por
sua liderança, a preocupação por seus homens e sua capacidade para dirigir seu império da
imponente escrivaninha de mogno de seu camarote.
Dada sua temerária reputação, surpreendia-lhe como amável, inclusive indulgente,
tinha sido com ela, e tinha a impressão de que ele mesmo estava um pouco surpreso por isso.
Evidentemente, não tinha por que fazer nenhuma daquelas coisas: dar-lhe de comer, vesti-la,
compartilhar seu camarote com ela e protegê-la de toda possível ameaça por parte da
tripulação.
Mas, sobretudo, estava assombrada como era fácil lhe contar seus pensamentos,
desejos e temores mais íntimos. Naquela noite, na enfermaria, tinha sido tão atento que ela
tinha achado a coragem para lhe relatar o perturbador caso do rapaz indígena que tinha
acontecido na selva. Ele tinha sido a amabilidade em pessoa.
Diferente de Connor, Jack fazia com que se sentisse a salvo; e diferente de seu próprio
pai, escutava-a. Aqueles inquietantes assuntos tinham começado a lhe rondar a cabeça como
um bando de gaivotas revoando ao redor dos mastros de um navio ancorado.
Fazia muito tempo que tinha os olhos postos nos elegantes cavalheiros vestidos com
jaquetas de Savile Row, mas desde que Jack Knight tinha entrado em sua vida, suas reluzentes
visões tinham começado a lhe parecer extravagantes fantasias infantis. E se aquele homem fosse
seu destino? O amor verdadeiro pelo qual teria cruzado o mundo?
Penetrou no navio para ir a Londres, sim, mas e se a viagem fosse mais importante
que chegar a seu destino?
Intranquila diante daquelas perguntas, levantou-se para tirar um descanso e estirar
um pouco as pernas. Enquanto esfregava o pescoço com ligeiro cansaço, deu uma olhada pela
janela e viu o capitão, que praticava esgrima com o maduro senhor Brody e alguns oficiais mais.

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Eden conteve a respiração e ficou olhando.
Sem camisa e com seu corpo musculoso e reluzente de suor à luz dourada do dia, Jack
estava enfrentando a vários oponentes ao mesmo tempo, enquanto o sol emitia cegantes
brilhos em sua espada.
Eden ficou imóvel, assombrada pela absoluta magnificência daquele homem e a
beleza de sua técnica mortífera; fascinada, contemplou como dava golpes de enorme força,
rápidos, precisos... implacáveis.
O senhor Brody pôs fim ao combate e gritou novas instruções aos homens que
enfrentavam Jack. Sem saber que estava sendo observado, Jack fez um pequeno descanso, jogou
água sobre a cabeça e bebeu uns goles de seu cantil.
Eden percorreu com o olhar seu peito brilhante e seu abdômen; seu imponente físico
lhe fez perguntar-se se teria ocasião de desfrutar dele como Jack tinha feito com ela e quando
chegaria esse momento. Certamente, provaria-o encantada.
De repente, o Guri se dirigiu resolutamente para ele brandindo uma espada de
madeira. Eden não ouviu o que disse o pequeno grumete, mas ao que parecia o menino
considerava que tinha chegado sua vez de praticar com o capitão.
Jack sorriu ao menino e pegou uma vassoura que tinha estado usando um marinheiro
para limpar as cobertas. Empregou o pau inacabado de madeira para parar os golpes do Guri.
O pequeno Phineas Moynahan parecia realmente minúsculo, embora brigasse contra
Jack com todas suas forças; um divertido combate entre David e Golias. Depois de brincar de
espadachins com o menino durante vários minutos, o grande capitão deixou que o Guri lhe
atirasse um golpe e puxou sua arma, levou as mãos ao corpo e se fez de morto.
Jack caiu no convés, representando sua morte.
Um terno sorriso se desenhou nos lábios de Eden enquanto observava ao par,
fascinada.
Phineas celebrou com vivas sua vitória sobre o gigante caído, mas quando Rudy se
jogou sobre seu amo e lhe lambeu a face, Jack afastou ao cão carinhosamente. Voltou a ficar em
pé de um salto, revolveu o cabelo do menino e retomou o treinamento de verdade.
Eden temia ter se apaixonado.
Devido a isso, quando Jack voltou para camarote, ela não pôde evitar ruborizar-se
nem olhá-lo boquiaberta. Afastou a vista, com o coração acelerado, e tentou concentrar-se em
seu trabalho, mas quando se furou com a agulha de costurar por causa do tremor de suas mãos,
não pôde fazer outra coisa que perguntar-se que demônios lhe passava. Por que de repente não
podia agir com naturalidade na presença dele? Jamais tinha tido aquele problema. Sentia-se
desconfortável e tímida, transparente e loucamente apaixonada. Se Jack reparou na mudança,
não deu a menor mostra disso. "Oh, basta", ordenou a si mesma, pigarreando.
—Que tal foi o treinamento? — perguntou com o que esperava que parecesse um tom
despreocupado.
—Bem, embora ache que me machuquei no tendão da perna.
Iluminou-se o rosto de Eden.
—Posso lhe preparar um cataplasma!
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Enquanto se dirigia ao armário, ele lhe lançou um olhar de surpresa por cima do
ombro.
—Não te preocupes. Ficar de molho na banheira me deixará como novo.
"A banheira".
Quando ele entrou no armário para tirar a banheira, Eden ficou corada ante as ideias
terrivelmente indecorosas que lhe passaram pela cabeça.
Mas como era evidente que ele desejava evitar a tentação, deu-se conta de que o
melhor era partir. De fato, de repente lhe ocorreu que depois de tê-la vários dias diante do nariz,
possivelmente gostaria de estar só um momento. Ao pensar no muito que tinha abusado dele,
sentiu vergonha. Imediatamente deixou a agulha, vestiu seu leve casaco recém feito para
proteger-se do vento e se encaminhou para a porta.
Jack a olhou em atitude interrogativa.
—Suponho que queiras relaxar — explicou ela em tom vacilante.
Ele pareceu um tanto aliviado ao ver que Eden não tinha intenção de ficar para ajudá-
lo a banhar-se. Estava claro que não se fazia responsável pelo que pudesse ocorrer se ela o
tentasse.
—Lembre-se de ficar perto de Brody ou de Trahern.
—Sim, capitão. Dedicou-lhe uma saudação desenvolta, mas se chocou contra a parede
ao dar-se conta de que seus sentimentos por ele deviam notar-se no rosto. —Maldição.
Ele franziu o sobrecenho.
—Te encontras bem?
—Isto... sim, obrigada — resmungou ela, ruborizada. —Bom... adeus.
—Adeus, Eden — murmurou ele, perplexo.
Assim que fechou a porta atrás de si, Eden se amaldiçoou por comportar-se como uma
idiota, mas ao menos conseguiu recuperar a serenidade antes de sair da ponte.
Uma vez fora, viu o senhor Trahern envolvido em uma caótica discussão. Um dos
marinheiros jovens, que tinha subido na verga da vela maior, tinha enredado umas cordas, ou
decotes, como preferia as chamar a tripulação.
O tenente estava resolvendo o problema, de modo que Eden se voltou para a popa a
procura do outro guardião autorizado. No convés elevado de popa viu o velho Brody, que estava
examinando, limpando e guardando as armas que Jack e os outros homens tinham utilizado no
treinamento.
"O temível senhor Brody", pensou, observando durante uns instantes como trabalhava
o velho e curtido guerreiro. O mestre de armas era um intimidante fortão, mas ela tinha ordens
e, além disso, o homem parecia ser um dos favoritos de Jack. Tinha curiosidade para averiguar o
motivo.
Decidida a enfrentar o famoso carrancudo do Ventos de fortuna, ficou reta, adotou
seu melhor sorriso e subiu a curta escada até a coberta de popa, à sombra do pau de arranque.
Ele a olhou com receio ao mesmo tempo em que inspecionava a lâmina de um dos

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sabres. Começou a polir distraidamente o aço afiado enquanto ela se aproximava, metendo as
mechas de cabelo que ondeavam ao vento atrás da orelha.
—Bom dia, senhor. O capitão está ocupado em seu camarote. Disse-me que ficasse
perto de você ou do tenente quando saísse, e como parece que o senhor Trahern está atarefado,
pensei em dar trabalho a você. Sorriu-lhe de forma encantadora, colocando as mãos às costas.
Brody franziu o cenho, olhou em direção a Trahern com os olhos semicerrados e
começou a grunhir entre dentes.
—De maneira que está atarefado, hein? Nosso bom tenente. Soltou um bufo por seu
nariz meio esmagado. —Esse jovem folgazão. Não me parece que esteja muito atarefado...
Eden arqueou as sobrancelhas ao ouvir seu comentário queixoso. "Deus meu". Não
estranhava que toda a tripulação o temesse. Sem atrever-se a fazer outra observação, abaixou a
vista e o ajudou a guardar as armas.
—Assim tu és a clandestina — murmurou ele.
—Declaro-me culpada — reconheceu com cordial prevenção, enquanto limpava uma
das espadas com um pano que havia ao lado, embainhava a arma e a entregava a ele.
O homem pigarreou ruidosamente ao colocá-la na longa caixa de madeira.
—Viajar como clandestina não é algo decente para uma jovem dama.
Eden ficou surpreendida.
—Pois não. Suponho que não. Mesmo assim, tinha meus motivos.
—Sim, com certeza que sim. Empurrou a coberta protetora com forma de botão na
ponta da espada e a colocou também na caixa. —Achou-se muito esperta, não é? Enganando a
todos, viajando como clandestina... E agora o tens comendo da palma de sua mão, não é assim?
Fizeste um bom negócio, e te mostraste muito astuta.
—Muita astúcia? O que queres dizer, senhor?
—Ele tem muito dinheiro.
—E...? — replicou ela.
—Você não gosta de joias brilhantes? Vestidos elegantes? Casas bonitas? Nenhuma
dessas coisas?
Ela se deteve e se voltou para ele, com o punho apoiado na cintura.
—O que está insinuando exatamente?
—Ha! O capitão acredita que queres ir à Inglaterra, mas eu acredito que é a ele a
quem querias desde o começo.
Eden ficou boquiaberta.
—Senhor Brody, se está dando a entender que tenho feito tudo isto com o objetivo
rápido de tentar caçar lorde Jack como marido, temo que esteja muito senil e não deveria
manejar armas. Afastou-se furiosa, com o orgulho ferido. —Sinto lhe haver importunado. Não
desejo lhe causar mais aborrecimento. Se me desculpar, irei procurar ao senhor Trahern.
—Ora. Quando Eden se voltou e começou a partir, ouviu-se uma gargalhada grave e
áspera atrás dela. —Ponha-te de cara feia se quiseres moça. Dá na mesma. Não és a primeira
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que tenta pescá-lo e, sinceramente, duvido que sejas a última.
—Eu não me ponho de cara feia — disse ela secamente, ao mesmo tempo em que se
voltava com um olhar fulminante.
Mas ele ainda não tinha acabado com ela e a examinou lhe lançando um olhar sagaz.
—A única coisa que querem as perversas mulheres é lhe agarrar por seu dinheiro.
Eden entrecerrou os olhos. Centenas de respostas mordazes se amontoaram em sua
cabeça, mas de repente, no meio do ultraje que lhe tinham provocado seus insultos, deu-se
conta de que o senhor Brody só estava tentando proteger Jack com sua obstinada maneira.
A lealdade se achava atrás daquilo.
Então lhe ocorreu que o velho resmungão estava pondo-a a prova, talvez tratando de
averiguar se era bastante boa para o capitão.
"Claro".
Embora continuasse ofendida, decidiu manter-se firme. A retirada era sem dúvida a
forma mais rápida de perder a estima do senhor Brody. E pelo motivo que fosse, era evidente
que Jack importava ao velho.
Deu um passo em direção a ele, negando-se a deixar-se impressionar.
—Jack é um bom boxeador — comentou, e em seguida lhe lançou um olhar
desafiante. —Suponho que vai dizer que você lhe ensinou tudo o que sabe.
O rosto curtido de Brody se gretou e adotou um sorriso que mais parecia uma careta
de respeito, como se por fim ganhara certa aprovação por parte do ancião ao lhe enfrentar.
—Não, senhorita — disse. —Eu só treino ao rapaz. O talento natural lhe vem de seu
pai.
Ah, isso estava melhor.
—Conheceu ao seu pai, senhor Brody? — perguntou ela em tom cortês.
—Se o conheci? — o homem resmungou. —Briguei vinte e cinco assaltos com ele no
ringue do torneio de Oxfordshire de setenta e oito. Embora não posso dizer que recorde muito
por culpa dos golpes na cabeça — soltou uma gargalhada grave. —Depois daquilo, o Triturador
de Killarney e eu nos fizemos muito amigos.
—O Triturador de Killarney? — Eden inclinou a cabeça e franziu o sobrecenho,
absolutamente confusa. Não era esse o nome do campeão de boxe que aparecia gravado no
troféu escondido no baú de Jack. —Eu achava que seu pai era o duque de Hawkscliffe.
Os olhos fundos de Brody esbugalharam. De repente se afastou com expressão de
angústia.
—Maldita seja! — murmurou entre dentes. —Agora sim que fiz uma boa.

No dia seguinte, depois de outra torturada noite casta em seu beliche compartilhado,
Jack saiu à galeria de popa em busca de Eden. Uma parte dele se sentia um tanto ridícula indo
atrás dela; acaso não era ele o homem que exigia favores das mulheres que desejava e logo
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partia sem olhar para trás?
Enfim. Não pensava analisar aquilo. Simplesmente gostava de estar perto dela, sim, e
o fazia sentir uma calidez e uma emoção peculiar pensar que também gostava de estar perto
dele. Certamente, sua inocência era algo novo para ele. Deixando de lado o desejo, fazia que um
homem se sentisse íntegro e decente.
Uma área sombria e protegida de seu interior se estava abrindo muito devagar, como
um punho fechado que se fora relaxando pouco a pouco. Não estava seguro de como se estava
desenvolvendo aquilo, mas sabia que tudo era obra de Eden: a clandestina que se convertera em
sua leal companheira.
Para falar a verdade, a estranheza das mudanças que ela tinha provocado nele fazia
com que se sentisse um pouco frágil, mas Jack tinha instinto de sobrevivência e intuía que aquilo
lhe convinha.
Ela lhe convinha.
Cruzou a porta que dava à galeria sombreada e a viu dando a Guri uma lição de
leitura.
Eden estava sentada em uma das cadeiras do exterior rodeando com o braço os
ombros esquálidos do menino, que estava acocorado ao seu lado. Estavam utilizando a Bíblia
como texto. Jack se deu conta subitamente de que nunca lhe tinha passado pela cabeça ter
livros infantis em suas prateleiras.
Cativado pela cena que se desenvolvia diante dele, Jack se apoiou na porta e observou
um momento, sem que reparassem em sua presença. Um sorriso irônico suavizou as rugas de
seu rosto enquanto escutava as escondidas a lição.
A professora estava linda com seu novo vestido de passeio. Era uma roupa recatada
com mangas longas feito com a excelente musselina estampada que ele pensava levar para sua
irmã. Tinha o cabelo castanho avermelhado recolhido em um coque folgado, e algumas mechas
rebeldes escapavam ao redor do rosto e da nuca. A Jack pareceu certamente um penteado
muito bonito. Até então só a tinha visto com o cabelo solto; o coque lhe dava um aspecto mais
amadurecido e não tão indômito.
Quanto ao Guri, Jack observou que o menino parecia mais polido do que o habitual.
Ele estava penteado. Tinha o rosto limpo. Inclusive levava sapatos. Ora, nunca tinha visto aquele
malandrinho comportar-se com tanta docilidade.
O pequeno pupilo se esforçava para agradar a "senhorita Edie"; por não ter tido mãe,
Jack supunha que o menino estava extasiado ao receber sua atenção. Eden, que talvez
percebesse aquela necessidade no menino, elogiava-o profusamente cada vez que dizia uma
palavra corretamente e o animava com idêntica generosidade.
Jack os olhava fixamente de braços cruzados.
—Reve... reve... la...
—Muito bem. Podes fazê-lo. Pronuncie-a.
—Reve... lações — disse o Guri lentamente, e em seguida a olhou sorrindo.
—Excelente Phinney! — Eden lhe revolveu o cabelo e lhe deu um pequeno abraço de
felicitação. —Meu Deus, aprendes muito depressa!

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Seu elogio despertou o entusiasmo do pequeno e o animou a ler o seguinte parágrafo.
Jack observou como ela olhava Phineas e escutava seus esforços com um sorriso tenro e
carinhoso, lhe acariciando o cabelo de vez em quando e lhe murmurando que ficasse calmo e
que se concentrasse; o menino avançava o melhor que podia, seguindo as linhas do texto com
seu dedo sujo.
A cena fez que Jack voltasse a meditar a respeito da necessidade que tinha de um
herdeiro.
Sempre tinha querido ter filhos, mas ao ver Eden e recordar a devoção que ela sentia
por seu pai, pensou que também seria boa ideia ter filhas. Os filhos poderiam levar sua
empresa, mantê-la estável, expandi-la até os limites da terra, mas as filhas cuidariam dele
quando estivesse fraco e envelhecesse.
Certamente, ao observar à mulher e ao menino, Jack não pôde menos que reconhecer
que talvez a reclusa forma de vida que tinha levado durante os últimos anos não fora a melhor
opção. Agora podia olhar pela janela, por assim dizer, e ver que havia uma calidez especial nas
relações íntimas com as pessoas. Mas não se podia pôr fim a uma vida inteira de isolamento em
um só dia.
Por outro lado, pensou devagar, seus filhos não iriam aparecer de um nada.
O desejo que sentia por Eden retornou subitamente com surpreendente intensidade.
"Case-se com a garota e deixe-a grávida. Já te preocuparás do resto das coisas mais
adiante".
Naquele instante ela deu uma olhada, como se notasse seu olhar de predador; olhou-
o aos olhos e lhe dedicou um sorriso íntimo.
O menino reparou então em sua presença, saltou de seu assento e correu para ele.
—Capitão Jack!
—Faz bom tempo, senhor Moynahan. Vejo que está praticando a leitura.
—Será melhor que vá dar uma olhada em Rudy! — disse o Guri, como se de repente
se sentisse coibido.
Eden contemplou com diversão como seu aluno atravessava correndo o camarote em
busca de seu companheiro de brincadeiras.
Jack a olhou e sorriu.
—Terminou a lição?
—Isso parece. Ela riu entre dentes enquanto fechava a Bíblia e a deixava sobre a
mesinha. Depois, levantou-se e se dirigiu a ele. —Sinceramente, surpreende-me que tenha
durado tanto. Não é fácil para um menino de sua idade prestar atenção.
Jack a olhou nos olhos enquanto Eden se aproximava e se apoiava na porta em frente
dele.
—És muito amável cuidando dele.
—Ora. Terá que se entreter de alguma forma.
—O que achas de suas aptidões? — perguntou ele. —Stockwell dá aulas ao menino de

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vez em quando, mas em geral, sua educação está muito descuidada.
Ela deu de ombros.
—Parece-me inteligente. Por certo, sabes que esse menino te idolatra?
—Bom, todo mundo o faz, não percebeste?
Ela riu de seu comentário engraçado.
Jack sorriu, apontando um tanto por seu encanto irlandês.
—Trato de lhe dar bom exemplo — reconheceu em tom mais sério. —Dou-lhe
conselhos de vez em quando. Ensino-lhe a ser um homem.
—Onde está o pai dele?
—Ninguém sabe. Pobre criatura, abandonaram-no quando era um bebê. Deixaram-no
na escada de uma igreja unicamente com a manta em que estava envolvido. Nem sequer tinha
nome. Uma anciã que trabalha para mim, a governanta de minha propriedade da Irlanda, a
senhora Moynahan, acolheu-o — explicou Jack. —Mas o menino é muito bagunceiro, como
certamente terás podido comprovar, e quando cresceu se converteu em uma carga para ela. À
mulher gosta das coisas ordenadas.
—Ah. Assim então o acolheste?
Ele assentiu com a cabeça.
—Pelo menos ele sabia quem era pelas visitas que fazia de vez em quando à
propriedade. Converti-o em meu grumete para poder vigiá-lo e me assegurar de que aprendia
um ofício. Algum dia será um bom marinheiro. Mesmo assim, é muito duro para um menino
indefeso ver-se abandonado dessa forma. Sentir que não te querem. Jack olhou com o cenho
franzido na direção pela qual partiu o Guri. —Sinceramente, em tua... opinião de mulher, achas
que está bem?
Um olhar de doçura apareceu nos olhos verdes de Eden e seu sorriso se enterneceu
ante a preocupação de Jack.
—Acredito que se encontra bem. Embora... um pouco só, possivelmente. O contato
com outros meninos lhe faria muito bem.
—Sim, mas... — ele contemplou o mar com vaga inquietação — não acha que seriam
cruéis com ele, que o deixariam de lado por não ter pai nem nome?
Ela o observou longamente com um olhar de compaixão que parecia penetrar até o
fundo de sua alma.
—Suponho que poderia passar com alguns. Mas por que ia querer ser amigo desses
meninos quando outros estariam encantados de aceitá-lo pelo que é? O menino não tem culpa
de suas origens — acrescentou. —Não tem nada do que envergonhar-se.
—Não. Jack ficou calado e baixou a vista. —E você, senhorita Farraday? — murmurou
um momento depois. —Quer ter filhos?
—Com quem, com você?
Ele a olhou surpreso e viu um brilho zombador em seus olhos e um sorriso travesso
em seus lábios.

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Jack arqueou uma sobrancelha ao mesmo tempo em que lhe lançava um olhar
divertido.
—Pois sim, a verdade. Agora mesmo. Começamos?
—Jack! — repreendeu-o ela, ficando vermelha.
—Só brincava — mentiu ele em um murmúrio rouco, olhando-a com um brilho
ardente nos olhos e um pronunciado volume entre as coxas. —És muito boa com ele.
—Tu também — disse ela em voz calma.
—Ainda não respondeste a minha pergunta. Pensas ter filhos algum dia?
—Montões! — exclamou ela, relaxando o ambiente com seu tom despreocupado. —
Uma dúzia, no mínimo.
—De verdade? Uma ninhada?
—Minha tia Cecily tem onze. Uma de suas amigas tem dezesseis.
Ele soltou um assobio tênue.
—Quantos mais melhor.
—Deve ser doloroso para as mulheres.
—Não se estiveres sadia. Além disso, é o que teria querido minha mãe: uma prole de
netos. Sempre se sentiu decepcionada por ter tido uma só filha, eu, embora dissesse que era tão
maravilhosa em todos os sentidos que nenhum outra criança no mundo se poderia ter
comparado comigo. Menos mal, porque se não, teria se esquecido de me dar de comer.
Ele sorriu, perguntando-se como devia ser sentir-se tão querido pelos pais de alguém.
—Apesar de tudo — acrescentou ela — não posso evitar pensar que se papai tivesse
netos voltaria outra vez ao mundo em lugar de esconder-se como um ermitão.
—Ou talvez tentasse levar todos à selva. Não pensaste nisso?
—Não daria resultado. Eu sobrevivi, e não foi ruim de todo, mas jamais permitiria que
meus filhos se criassem dessa forma.
—Eu tampouco — assentiu ele em voz baixa. Quando o olhar inquisitivo dela se posou
nele com perspicácia, Jack sentiu o desejo repentino de mudar de assunto. —Hoje estás muito
bonita, senhorita Farraday. Agarrou-lhe as mãos e as beijou.
—Gostas de meu vestido novo?
—É claro. Estou muito satisfeito com meu investimento. Entretanto... — sem lhe soltar
as mãos, Jack puxou-a suavemente — gostaria de cobrar meus dividendos, se não te importar. A
quantidade que te pareça oportuna neste momento.
—Hum — sussurrou ela quando ele a estreitou com delicadeza entre seus braços. —
Suponho que a junta concederá a um modesto gasto — deslizou as mãos por seu peito e lhe
rodeou o pescoço, com um sorriso malicioso e ligeiramente coquete.
—Oh, Eden — murmurou ele enquanto ela inclinava a cabeça para trás, lhe
oferecendo os lábios. —Me cativas. As palavras escaparam de sua boca antes que pudesse detê-
las.

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—Ah, Jack! — sussurrou ela, em um tom entrecortado cheio de satisfação. —Vou ter
que pagá-lo com juros por isso.
E isso fez: rodeou-lhe a nuca com as mãos e lhe beijou com toda a alma. Sua cândida
paixão deixou Jack sem fala. Era um beijo que não se podia comprar com todo o ouro do mundo,
um beijo com o poder de romper maldições, como os dos contos de fadas. Não tinham beijado
Jack nunca daquela forma, com todo o coração. Todas as mulheres que tinham passado por sua
vida antes dela desapareceram até converterem-se em meros fantasmas, volutas de fumaça que
se dissolviam no ar.
"Oh, céus". Teria sido absurdo negar que aquela garota estava unida a ele de uma
forma mais íntima que qualquer de suas anteriores conquistas; inclusive Maura, em um remoto
passado.
O primeiro amor que o tinha traído. Não, aquilo não era como o de então. E Eden não
era como ela.
Movido por um repentino e descontrolado impulso, Jack começou a titubear, — na
realidade, titubeou e esteve a ponto de pedir a Eden que se casasse com ele — mas depois
daquele estremecedor beijo, ela foi a primeira a falar.
—Jack?
—Sim? — murmurou ele, um tanto embriagado por sua doçura.
Ela tomou as mãos dele entre as suas e as apertou ao mesmo tempo em que dava um
passo para trás e se apoiava no batente da porta, imitando a postura de Jack.
Jack achou graça ao ver que tinha as faces rosadas e que seus lábios úmidos
continuavam brilhantes. Ela começou a falar lentamente, de forma sonhadora.
—Quando chegarmos a Londres...
—Sim?
Suas palavras o arrancaram ligeiramente da bruma do desejo, ao recordar com culpa
que ela não suspeitava os verdadeiros planos que lhe reservava.
—Pensas visitar tua família durante tua estadia?
—Minha família? — ora, o tema favorito de Jack. Seu débil sorriso se esticou.
—Tens família, não?
—O que te faz pensar que gostariam de me ver? — ele afastou as mãos das dela e as
meteu nos bolsos. —Te disse que quando se avizinha mau tempo me dói o joelho?
—Jack, não mudes de assunto.
Ele revirou os olhos.
—Eden...
—Há algo que tenho que te dizer. Sua expressão era rígida; o rubor do desejo tinha
desaparecido de suas faces. —Tenho lido as cartas de tua irmã.
Ele ficou paralisado.
—O que?

148
—Foi no dia que me achaste no navio, quando me encerraste em teu camarote. Estava
aborrecida, Jack. Não tinha nada a fazer. Encontrei-as e me absorveram — disse Eden, dando de
ombros em atitude arrependida.
Ele a olhou horrorizado.
—Sei que foi errado, e o lamento... mas o caso é que, a partir de tudo o que te tem
escrito tua irmã, tenho a certeza de que tua família te ama. Deverias voltar a vê-los quando
chegarmos a Londres. Deverias arrumar as coisas.
—Arrumar… as coisas? — repetiu ele em um tom de absoluta perplexidade que
rapidamente se converteu em fúria. —És incrível! E para que saibas, não fui eu o culpado!
—Em nenhum momento pensei que fosse! — assegurou-lhe ela. —Jack, só estou
tentando ajudar-te. Seja qual for o motivo do rancor que há entre ti e tua família, não quero que
deixes que te arruíne a vida.
—Que me arruíne a vida? Não sejas ridícula! — ele zombou. —Por casualidade minha
vida é melhor que as fantasias mais loucas da maioria das pessoas. Sabes quanto valho?
—Não estou falando de teu dinheiro; estou falando de ti. Acho que eu sei quanto
vales, Jack. A pergunta é: sabes tu?
Ele afastou a vista amaldiçoando entre dentes, mas ela insistiu tão tenaz como
sempre.
—É esse o motivo pelo qual trabalhas tão duro, porque achas que não vales nada sem
toda tua riqueza e teu poder?
—Me deixe em paz. Esta conversa é tediosa. O tom de sua voz era de mero
aborrecimento, mas por dentro estava tremendo. —Não posso acreditar que tenhas lido minha
correspondência particular. Cravou-lhe um olhar furioso. —Eu confiava em ti.
—Queria saber mais sobre ti, isso é tudo. Jack, poderia ter te ocultado o que fiz, mas
não demorei em te dizer isso. Podes confiar em mim. Preocupa-me. Tens um problema, e quero
te ajudar.
—Não tenho nenhum problema e não necessito de tua ajuda. Não necessito da ajuda
de ninguém. Nunca a necessitei. Lançou-lhe um olhar fulminante. —E nunca a necessitarei.
Ela deu um passo para ele com impaciência.
—Quero que escutes o que tenho a te dizer: deixa de perder tempo.
—Do que estás falando?
—É tua família, Jack. Pagaria todo o dinheiro que fora necessário por passar um dia a
mais com minha mãe, mas não posso. Está morta. E algum dia tu também saberás o que se
sente.
—Bom, minha família nunca me amou como a tua te ama, e tu nunca vais saber o que
se sente!
Ela baixou a vista e soltou um tênue suspiro, próprio de uma mulher que tenta
conservar a paciência.
—Simplesmente, não quero te ver acabar só.

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—Por que não? Estou acostumado! Às vezes é um pouco aborrecido, mas pelo menos
assim ninguém pode me apunhalar pelas costas.
—É isso o que aconteceu? — perguntou ela com suavidade. —Alguém te traiu?
—Não te metas, Eden. Não é assunto teu.
—Talvez tenhas medo de que eu também te traia. Mas não te trairei, Jack, prometo-
te. Posso te demonstrar isso se me der uma oportunidade. Fala comigo.
Não, pensou ele a contra gosto, não achava que Eden fora a apunhalá-lo pelas costas.
Mas mesmo assim não queria lhe contar nada.
"Ou sim?"
Jack engoliu em seco, enquanto seu coração pulsava violentamente. Fechou os olhos
fazendo uma pequena careta. Ele nunca dava explicações a ninguém. Certamente, nunca tinha
tentado explicar o muito que se sacrificara por seus irmãos e sua irmã mais nova. Até o
momento, ninguém se tinha dado conta. "Ao diabo com eles".
—Jack?
—Em uma família em guerra — disse ele lentamente, de costas a Eden — o resto dos
membros pode fazer as pazes se alguém se converter em bode expiatório. Um inimigo comum
contra o qual os outros possam unir-se. Sua expressão era glacial. —Eu me converti no vilão. Um
maldito pára-raios de toda a ira e a raiva que havia debaixo desse telhado; tudo descarregavam
sobre mim. Eu era o único bastante forte para suportar. Mas ao cabo de um tempo, perdi-me no
papel. Ao achar-se de costas a ela, Eden não pôde ver sua tensa careta de dor. Ela não sabia
como tinha estado só naquela casa. Não, naquele mundo. Rechaçado por todos. —Ao final,
compreendi que tinha que partir. Pensou em Maura e em sua mesquinha traição. —Não tinha
motivos para ficar.
Ouviu o sussurro da saia de Eden ao aproximar-se.
—Essa é a questão, Jack. Tu não és um vilão. Pode ser que tenhas convencido ao
mundo disso e inclusive que tenhas convencido a ti mesmo, mas a mim não conseguiste
enganar. Nem por um momento. Jack notou sua suave carícia nas costas, tão delicada que o fez
estremecer. Haveria-lhe custado menos receber um golpe. —Me senti atraída por ti desde que o
vi no baile da Jamaica. Acredito que papai se deu conta de como te olhava. Por isso me afastou.
Não queria me perder para ti. Verás, Jack, tenho muito bom instinto. Talvez não saiba muito
sobre o mundo, mas conheço meu coração. E me diz que debaixo dessas fantasias sinistras que
levantaste ao teu redor, és um dos... seres humanos melhores e mais nobres que conheci em
minha vida.
Ele se afastou e se voltou com um olhar colérico.
—E como!
—É verdade — ela tinha os olhos muito grandes e cheios de luz; seu rosto juvenil tinha
uma expressão séria.
Ele se afastou dela.
—E conheceste um total de... quantos? Oito, nove, seres humanos em toda tua vida,
escondida na selva? — cuspiu ele sarcasticamente. —Não me fales de instinto. O que conta é a
experiência, e quanto mais experiência tenhas, meu amor, mais te darás conta de que a selva

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está por toda parte. Moveu a cabeça com gesto de desgosto. —A vida não é mais que uma luta
pela sobrevivência. E sabes o que? A sobrevivência é a única coisa com a qual me dou bem. Mas
tu não reconheceste o mau quando o vês, porque tudo o que tens por dentro é bom. Isso é a
única coisa que és capaz de ver, porque todo o vês através do cristal transparente de tua pessoa,
Eden. Mas toda tua pureza não me faz ser bom.
Ela o estava olhando fixamente com lágrimas nos olhos.
—Faz muito tempo aprendeste a acreditar em uma mentira, Jack, uma mentira em
que ainda continuas acreditando.
—Ah, assim vivo enganado?
—Em certo sentido, sim. Ela conteve as lágrimas piscando. —Tudo o que acabas de
dizer são tolices. Tu és bom. Que tipo de homem arrisca sua integridade e o trabalho de toda
sua vida para servir à causa da liberdade? Um vilão? Quem manda doze navios cheios de comida
e água a uma cidade assolada por um terremoto? Quem dá proteção a uma clandestina ingênua
e a protege em lugar de tratá-la como merece? Não és nenhum vilão, e não penso tolerar que
continues falando de ti dessa forma.
—Oh, pois me perdoe.
—Agora sei por que te esquivas da humanidade.
—Viste à humanidade ultimamente?
—Pareces meu pai.
—Só que eu sou cordato.
—Não sei a que estiveste submetido quando tinhas a idade do Guri, nem o que te fez
acreditar nessas coisas, mas eu nunca te trataria dessa forma. Tens que saber disso.
—Poderia fazer algum comentário se tivesse uma mínima ideia do que estás falando.
—Jack... sei sobre teu pai.
Ele se dispunha a fazer outro comentário sarcástico, mas o calou.
Sentia-se como se o acabassem de atravessar com a ponta de uma lança, mas
enquanto seu rosto perdia toda a cor, ela continuou atacando.
—Agora entendo por que achas que todo mundo está contra ti e por que estás tão
furioso. Por que te encerra em ti mesmo e não confias em ninguém. Todos esses ferrolhos de
tua porta, querido...
Ele se afastou dela, estupefato e horrorizado ante a ideia de que ela soubesse de sua
origem ilegítima. Ler cartas era uma coisa, mas aquilo era diferente. Jack sabia o que vinha a
seguir.
Sabia.
Por experiência.
—Não te zangues. Estou de teu lado, Jack. Não me importa teu parentesco. Por favor,
só quero te ajudar. É esse o motivo pelo qual não te permitiram casar com lady Maura?
Ao ouvir o nome daquela traidora, a única pessoa a qual durante um tempo tinha
acreditado que lhe importava, o passado retornou a toda velocidade como um bando de

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morcegos que batessem asas ao seu redor, rindo de forma macabra de tudo o que ele tinha
conseguido durante os últimos vinte anos e reduzindo-o a um nada. Negando em um abrir e
fechar de olhos todos seus esforços por lhes demonstrar que algum dia seria alguém.
Não, aquelas lembranças só lhe faziam ter presente que sempre seria um bastardo
irlandês, nada mais, uma pessoa indigna de relacionar-se com seus irmãos. Uma má influência.
Alguém ruim.
Ruim até a medula.
—Jack? — sussurrou Eden. Em meio da onda de dor que sentia, ele era vagamente
consciente de que ela o estava olhando com preocupação.
De repente, soltou um rugido ensurdecedor que fez vibrar o vidro das janelas de popa.
Com um movimento violento, puxou todo o conteúdo de sua escrivaninha: cartas de navegação
e papéis, lápis e livros maiores caíram ao chão de forma caótica.
Eden observou como desabavam e a seguir o olhou com os olhos muito abertos de
temor.
Seu medo fez com que, uma vez mais, Jack cobrasse consciência do que era. Por que
tinha que lutar contra isso? A escuridão que aninhava nele sempre estava ali. Permitia-lhe ser
bom no que fazia.
A tripulação também devia ter ouvido seu grito, pois o ruído habitual de passos no
convés se interrompeu.
Jack se dirigiu para ela com uma expressão carrancuda.
Eden tinha pavor, mas se manteve firme inclusive quando ele se inclinou para olhar
seu rosto com fúria.
—Quem te disse isso?
Ela engoliu em seco e se inclinou para trás ligeiramente.
—Ele não queria dizê-lo, Jack. Es... escapou-lhe.
Os olhos dele se entrecerraram até ficarem umas finas frestas.
—Brody.
—Falou de ti com orgulho. Juro-o! Jack... — Eden lhe tocou a face, mas ele lhe afastou
a mão de um golpe.
—Não me toques.
E sem dizer nada mais, afastou-se dela e saiu do camarote.

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Capítulo 10

Passaram os dias.
Se houvesse uma forma de fazer que o navio navegasse mais depressa, Jack teria
deixado Eden em sua propriedade irlandesa e simplesmente a teria afastado de sua vida para
empreender sua missão.
Mas não a havia.
Estava apanhado com ela em uma estreita cela no meio do infinito mar. Não havia
onde escapar dela, nem nenhum lugar ao qual fugir da triste certeza de que ninguém o ia amar
nunca, por muito rico que fosse ou por muitas empresas que tivesse; e por muitas vezes que se
dissesse que não lhe importava, sempre lhe ia doer.
À medida que o Ventos de fortuna alcançava lentamente as latitudes setentrionais, as
temperaturas outonais por cima do Equador deram passagem ao inverno frio e cinza.
Chegariam dentro de pouco.

Eden estava tendo problemas com a costura. Enquanto caía a noite e o ocaso cedo do

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inverno invadia tudo, trabalhava no camarote à luz das velas, sentada no baú de pele-vermelha
situado junto à janela. Tremiam-lhe tanto as mãos que inclusive se picou no dedo com a agulha.
—Ai! — afastou o trabalho, meteu o dedo na boca e se deu conta de que estava
enjoando. Ao princípio deu por sentado que a sensação de atordoamento e debilidade que
notava no estômago se devia exclusivamente ao seu desgosto pela briga que tinha tido com
Jack, que não lhe tinha dirigido a palavra desde seu arrebatamento. Sem sua amizade, o mar se
converteu em um lugar muito desolador. Agora, ele costumava dormir em uma rede no
camarote e tinha deixado Eden só no beliche; incapaz de dormir, temia pensar no que seria dela
no elementar estilo de vida do navio agora que seu protetor estava zangado com ela. Mas
quando ouviu o tênue assobio da corrente que entrava pelas frestas da porta e observou que o
conhaque da licoreira de cristal colocada em cima do armário de mogno estava derramando,
deu-se conta de que sua ameaça de mal de mar podia ter outra explicação.
Ao voltar-se para olhar pela fileira de janelas de popa, sua respiração formou bafo no
vidro; viu que o vento tinha aumentado e que o mar estava agitado. Em cima das ondas escuras
se viam cristas brancas. Mais à frente, a linha anil do horizonte oscilava com um pouco mais de
clareza. O navio era tão grande que seu balanço passava inadvertido a maior parte do tempo,
mas naquele momento Eden pôde notar seu movimento. Talvez se aproximasse um temporal.
"Estupendo". Avizinhava-se uma tormenta no exterior, e um furacão humano se
achava ao leme; frio, sombrio e imprevisível.
Aquele homem...
Pensou em ir à parte superior perguntar ao capitão o que estava acontecendo, mas
depois pensou melhor, pareceu-lhe que só conseguiria aumentar sua dor, pois era evidente que
ele já não queria falar com ela; apesar de Eden ter pedido desculpas e de que só tinha tentado
ajudá-lo.
Recostou-se contra o biombo de madeira lançando um suspiro e apoiou seus pés
calçados em sapatilhas no baú de pele, enquanto rodeava seus joelhos flexionados com os
braços.
Estava um pouco zangada com Jack porque ele se zangara com ela. Talvez tivesse
chegado o momento de voltar a evocar suas visões dos bonitos cavalheiros da cidade vestidos
com jaquetas da Savile Row. Homens elegantes. Homens cultos.
Os piratas selvagens capazes de lhe gritar na cara nunca tinham entrado em seus
planos.
Entretanto, era estranho pensar que debaixo daquela fachada de dura
invulnerabilidade, Black-Jack Knight era exatamente o que lhe tinha parecido desde o começo:
um leão grande e que rugia atormentado pelo espinho que tinha cravado em sua sensível garra.
Não era mais que um menino grande, pensou com veemente rebeldia, sobretudo ao
recordar o dia que a encontrou a bordo de seu navio e a obrigou a despir-se. Agora compreendia
que não o tinha feito por lascívia.
Por desgraça, aquele homem era perito em controlar seu desejo. Tinha-lhe dado
aquela ordem porque sabia que a submeteria simbolicamente a uma vulnerabilidade absoluta. E
por que ia querer aquilo? Porque ele não confiava em ninguém. Nem sequer em uma inofensiva
clandestina.

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Tinha querido que se despisse diante dele em todos os sentidos da palavra; não só
fisicamente, mas também mental e emocionalmente. Tinha querido observar as áreas mais
recônditas da alma de Eden, e ela o tinha permitido. "Por quê? — voltou a se perguntar. Porque
não tenho nada a esconder."
Ah, mas quando Eden tinha querido assomar a ele aproveitando que não levava sua
armadura de aço, aquele halo de homem duro, mau e auto-suficiente, comportou-se daquela
forma: gritando com ela e dando golpes como um selvagem enorme e aterrador.
Justo então ouviu umas pegadas procedentes do outro lado da porta do camarote. O
Guri entrou precipitadamente.
—Senhorita Edie! Senhorita Edie! Suba a coberta! Rápido, depressa!
—Phineas, o que ocorre?
O menino se aproximou dela a toda pressa e a pegou pela mão.
—Vamos, depressa, eu a acompanharei!
—Me deixe pegar o casaco...
—Não, o vai perder! — ele já a tinha levantado de seu assento. —Vamos!
Confusa pelos gritos do menino, deixou que o Guri a tirasse arrastada, mas ao pôr o pé
na ponte parou em seco.
—Olhe! — o garoto indicou com o dedo, mas Eden já estava contemplando as velas
cheias de assombro.
Sob um céu negro sem lua e com uma ligeira bruma, uma inquietante luz azul dançava
sobre os paus do navio e banhava todas as velas.
Ela ficou olhando, assustada, mas fascinada ao mesmo tempo.
A espectral luz era tão brilhante como relampejante, mas não se afastava da lona,
permanecia fixa e unicamente se movia sobre a neblina noturna.
Com um fulgor parecido ao de uma chama azul, seu brilho iluminava os humildes
rostos dos homens da tripulação colocados no convés, praticamente mudos de assombro,
maravilhados ante o fenômeno.
Alguns faziam o sinal da cruz enquanto outros tiravam os gorros e os levavam ao peito
em atitude de supersticiosa reverência.
Então Eden reparou em outro elemento. O forte vento que tinha soprado até há
apenas um quarto de hora tinha cessado.
O tempo se acalmara.
Ao olhar ao seu redor, viu Jack situado junto ao pau de arranque; contemplava aquelas
luzes sobrenaturais com a cabeça inclinada para trás. Estava muito quieto, com suas feições
angulares banhadas pelo estranho fulgor azulado.
Por um momento, Eden ficou olhando ao robusto capitão do Ventos de fortuna, que
era uma cabeça mais alto que todos os fiéis membros de sua tripulação. Sentindo-se atraída por
aquele homem, subiu a escada que conduzia à coberta de popa e se dirigiu para ele, não
fazendo caso de que Jack estivesse zangado com ela. Tinha que estar perto naquele momento,

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embora não sabia por que. Talvez para participar daquele milagre com ele. Talvez o medo
daquele fenômeno desconhecido a empurrasse e fazia com que o buscasse pela instintiva
sensação de proteção que experimentava quando o tinha perto.
Enquanto avançava para ele a grandes passadas, detectou uma estranha carga de
eletricidade que crepitava no ar, como a mudança que se produz na atmosfera antes de uma
tempestade. Esse detalhe fez que lhe arrepiasse o pêlo dos braços e da nuca, mas as palpitações
de seu coração se deviam unicamente à presença de Jack.
Ele parecia ignorar que ela o estava observando. Ia vestido com um casaco para
proteger-se contra os elementos; levava uma grossa jaqueta de veludo marrom, um cachecol de
lã enrolado ao pescoço e umas grossas luvas de trabalho. A escura barba incipiente que povoava
sua mandíbula estava voltando a crescer, o que lhe devolvia aquele ar tosco que no fundo ela
achava irresistível.
Eden vacilou, pois naquele momento parecia tão grande, distante e intimidante como
uma ilha rochosa no meio de um mar gelado. Pareceu-lhe que tinha um aspecto muito duro,
severo e solitário, embora se achasse rodeado por sua tripulação. Tinha uma expressão
reservada; sua boca se convertera em uma linha firme e séria. Então ele olhou e reparou em sua
presença.
Ficou observando-a enquanto ela se aproximava com passos precavidos; ao ver o
olhar frio de seus olhos, Eden desanimou no mais profundo de seu coração. Embora se
entregasse a ele por inteiro, certamente nunca chegaria até aquele homem nem conseguiria que
ficasse a seu lado.
A sua maneira, Jack tinha se isolado do mundo tanto como seu pai. Seu pai tinha a
selva; Jack tinha o mar. Seu pai tinha a ciência; Jack tinha o trabalho. Seu pai tinha dado as
costas à civilização porque tinha matado à mulher que amava; Jack guardava distância da
humanidade e rechaçava ao mundo friamente antes que o mundo rechaçasse a ele.
Aquele tinha que ser o motivo pelo qual se zangara tanto, concluiu Eden enquanto lhe
sustentava o olhar. Devia ter pensado que ela também o rechaçaria por causa de sua origem
bastarda. Estava claro que aquelas cicatrizes eram profundas. Entretanto, rechaçar Jack era a
última coisa que pensava fazer.
Enquanto cobria a distância que os afastava com passos lentos e medidos, Eden
aceitou a realidade: desejava estar com aquele homem. E o desejava com tal desespero que
ficou emocionada. Mas inclusive no caso de que ele a aceitasse, depois de ter chegado até ali
em sua viagem, como ia pensar em se unir a um homem que não faria mais que arrastá-la ao
seu solitário exílio, como tinha feito seu pai?
Então imaginou como seria a vida como esposa de Jack Knight. Percorrendo o mundo
em navio de porto em porto. Sem assentar-se nunca. Sem um lar fixo. Sem uma vida normal.
Seriam nômades.
Sem raízes.
"Mas pelo menos estaria com ele", pensou com valentia.
Jack Knight, com todo seu enigmático e anômalo esplendor.
Ele não disse nada quando Eden chegou juntou a ele. Limitou-se a meter a mão no
casaco e tirar um charuto. Pôs ele na boca, como sempre, mas não o acendeu. O capitão Jack

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adorava charutos, mas tinha proibido fumar a bordo; afinal, o navio era feito de madeira.
Ela ergueu a vista uma vez mais para a estranha luz que flutuava no ar.
—O que é? – ela sussurrou.
—O fogo de São Telmo.
—Mas, o que é? De onde vem?
—Ninguém sabe. Jack a olhou com receio na escuridão.
—É maravilhoso — disse ela em voz baixa. Ao inclinar a cabeça para trás para
examinar a estranha luz azul, notou que ele a olhava fixamente.
Então ouviu sua voz, grave e profunda.
—Dizem que só se tem a oportunidade de vê-la uma vez na vida.
Ela tinha medo de olhá-lo.
—De... verdade?
—Sim. Ele também ergueu a vista para as velas com uma despreocupação cheia de
cautela. —Têm que se dar às condições adequadas. E nem sequer então dura muito.
—Ah. Pulsava-lhe o coração com força, mas as últimas palavras dele a deixaram um
tanto decepcionada. —Não... dura?
—Em meu caso, não.
Um leve movimento da coberta fez com que Eden perdesse ligeiramente o equilíbrio;
Jack a segurou para que não caísse, e a estranha luz pareceu saltar entre eles.
Ela ergueu a vista para ele e lhe agradeceu resmungando enquanto o fulgor espectral
os envolvia; ele a olhava fixamente como um homem encerrado em si mesmo que não sabia
como sair.
Sustentou-lhe o olhar com um nó na garganta, consciente de que era agora ou nunca.
Tinha que lhe dizer o muito que ele importava a ela.
—Jack — sussurrou. —Sei que te envergonhas que tenha descoberto sobre teu pai.
—Vergonha? — repetiu ele, soltando uma risada grave e amarga.
Sua reação feriu Eden.
—Pensei que poderia ser de ajuda se te contasse algo vergonhoso sobre mim.
Ele fez uma pausa cética.
—Como o que?
—A noite que atendemos a Peter Stockwell juntos e te disse que fazia muito tempo
que queria ir a Londres. Recorda que te disse que queria desfrutar de todas as diversões da
temporada?
Ele assentiu com a cabeça.
—Temo que não fui de todo sincera contigo a respeito do verdadeiro motivo.
Ele lançou-lhe um penetrante olhar interrogativo. A fria e marcada expressão de

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suspeita de seu rosto não deixava lugar a dúvidas: Jack tinha dado imediatamente como certo
que seu motivo oculto era indigno.
—Não podia dizê-lo naquela noite quando estávamos falando porque não queria que
pensasse que sou tola. Mas, Jack, o verdadeiro motivo pelo qual estava tão desesperada para
participar dos atos da temporada simplesmente era que... queria achar um marido. Mas não um
marido qualquer. Oh… maldição, isto não está saindo bem. Lhe acenderam as bochechas.
Jack a observou com um olhar de desconfiança transbordante de fascinação.
—O autêntico motivo pelo qual queria voltar para a civilização era para achar…
alguém a quem amar — conseguiu dizer ela antes de perder a coragem. —Só que talvez já o
tenha encontrado.
Ele a olhou intensamente.
Eden sustentou seu olhar com o coração palpitante. Estremeceu-se de frio; sentia-se
mais nua naquele momento com seu vestido de passeio que quando lhe tinha ordenado que se
despisse.
Ele afastou a vista quase de forma colérica.
"Por que não diz nada? Praticamente lhe disse que o amo. Meu Deus, por que não
posso ficar com a boca fechada?"
Incapaz de suportar seu silêncio mirou as velas, desejando que uma baleia saltasse e a
engolisse.
—Então, isto... por que se chama fogo de São Telmo?
—É o patrono dos marinheiros — balbuciou Jack, evitando o olhar dela com o mesmo
cuidado com o qual ela evitava o seu.
De repente Eden franziu o sobrecenho.
—É perigoso? Não poderia pôr fogo às velas?
—Não. Absolutamente. É um presságio — acrescentou ele em voz baixa.
—Do que? — finalmente, Eden se obrigou a voltar-se para ele. Ele esquadrinhou o céu
escuro com seu olhar perspicaz.
—De tormenta.
No mesmo momento em que pronunciou a funesta palavra, a luz azul começou a
desvanecer e desapareceu em um abrir e fechar de olhos.
O céu noturno se tornou negro.
—O barômetro esteve baixando durante todo o dia — acrescentou. O sussurro
reverente que se ouviu demorou a desvanecer em todas as cobertas; os homens observavam o
céu em silêncio, esperando ver se a luz voltava.
Entretanto, o que retornou foi o vento, que se levantou com uma inquietante força.
Advertiu-os de suas maliciosas intenções com uma rajada de ar glacial que açoitou as velas de
forma agressiva.
—Aproxima-se depressa, capitão — gritou o intendente. —Dentro de pouco se
converterá em uma tempestade.

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Jack fez um tenso gesto com a cabeça ao homem e em seguida se voltou com cautela
para Eden.
—Deverias descer. Leve o menino e te proteja do vento. Nós temos que tomar os
preparativos para a tormenta. Se piorar (o que é possível, nesta época do ano), Martin te
acompanhará ao porão. É o lugar mais seguro do navio.
—Onde estarás tu? — perguntou ela com preocupação.
—Aqui acima — respondeu ele, dando uma olhada à coberta. A seguir olhou as velas.
—E ali acima também, se for necessário.
—Jack, tome cuidado.
—Não te preocupes. Em todas as viagens temos que enfrentar o mau tempo. Ele
começou a afastar-se. —Diga ao Guri que coloque ao cão na jaula, sim? Rudy não suporta
tormentas. Temos uma caixa para ele. O menino sabe onde está.
Um de seus homens o chamou.
— Vou em seguida! — respondeu ele, gritando. O vento soprou em seu cabelo
enquanto inclinava o queixo para baixo para olhá-la fixamente nos olhos.
Eles olharam um ao outro durante uns momentos.
—Vá — murmurou, assinalando à ponte com a cabeça.
Eden baixou a vista, envergonhada porque a despachasse daquela forma depois de
sua imprudente confissão. Praticamente lhe havia dito que estava apaixonada por ele, e não
tinha feito nenhuma trinca naquele homem. Bom, não queria estorvar. Sentindo-se como uma
idiota ingênua e inútil, virou-se e voltou resolutamente para as cobertas inferiores para recolher
ao Guri e ao cão.
Jack permaneceu um instante onde estava observando como ela se afastava.

Ao longo de toda a noite, a tormenta esteve perseguindo-os, aproximando-se, caindo


em cima deles até que Jack decidiu que não podiam deixar para trás àquela besta que rugia e
deu a ordem de jogar a âncora.
Tinha albergado a esperança de escapar da tempestade se conseguisse manter-se em
frente, mas esta avançava a uma velocidade tremenda. Tinham que se deter e se preparar para
receber seus embates; deviam trancar as escotilhas e arriar a maior parte do velame.
Jack lutava contra a tormenta ao mesmo tempo em que lutava consigo mesmo; o
tempo desagradável era um reflexo das confusas correntes que se agitavam e se chocavam em
seu interior. Sabia que tinha que tomar uma decisão. Podia seguir lutando contra o vínculo cada
vez mais forte que havia entre ele e Eden, negando-o. Ou podia fazer o esforço de acreditar que
alguém o amava de verdade.
A ele.
Não por seu dinheiro. Nem por seu poder. Nem por seu corpo.
Ao homem que havia em seu interior.

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Certamente aquela garota era bastante idiota para atrever-se a isso, muito inocente
para ter juízo; o mundo ainda não a tinha corrompido. Eden não contemplava as coisas como o
resto das pessoas, de modo que não era estranho que o visse sob uma luz diferente.
A única coisa que Jack sabia era que se tratava da única mulher pela qual ele seria
capaz de voltar a pôr em perigo seu coração despindo sua alma.
Uma criatura tão pura sem dúvida não lhe faria mal.
Mas lhe custava tanto acreditar, fazia conta da vida que tinha levado todos aqueles
anos..., quando tinha a idade do Guri e quando era ainda menor, inexplicavelmente rechaçado
pelo duque que tinha acreditado que era seu pai.
Desatendido inclusive pelos criados que deviam velar por suas necessidades: a babá, a
preceptora, a professora. Sabiam o que mais lhes convinha; tinham tratado a seu irmão Robert
como a um príncipe, enquanto que a Jack podiam havê-lo deitado perfeitamente no estábulo.
Entretanto, o pior era que sua mãe agisse como se ele não existisse. A escandalosa
duquesa se envergonhara de seu lascivo namoro com o gladiador irlandês; ao menos por um
tempo, até sua seguinte aventura. Seu segundo filho não tinha sido para ela mais que um aviso
constante de sua queda em desgraça.
Sem falar da crueldade com que o tinham tratado os meninos da escola, que se
tinham informado da verdadeira origem de Jack antes dele graças às intrigas de seus pais. Tinha
sido uma dura forma de descobrir que era bastardo, mas pelo menos tinha entendido por que os
vizinhos o desprezavam, inclusive os pais de Maura: lorde e lady Griffith.
Desse modo, acostumara-se em uma idade tenra a esperar crueldade e indiferença do
gênero humano, e a proteger-se contra ele sempre.
Confiou em si mesmo e em ninguém mais, e acumulou fortuna e poder como se só
aquelas coisas pudessem lhe garantir um lugar seguro no mundo. De vez em quando, nas noites
de solidão nas quais simplesmente desejava ter alguém a quem abraçar, procurava uma garota
cujo rosto e figura gostasse e lhe pagava generosamente por seu tempo.
Parecia-lhe desatinado pensar sequer na ideia de voltar a confiar em alguém. Mas
sabia que se alguma vez se armasse de coragem, escolheria Eden Farraday. Sim, podia voltar
atrás ou se afundar mais.
Não tinha gostado que Eden bisbilhotasse seu passado, mas por outro lado, ela não
era realmente consciente de tudo o que tinha ocorrido. Como ia saber como podia ser cruel a
sociedade se tinha se criado na selva, protegida do comportamento brutal do homem por seus
iguais?
Ela nunca se havia visto exposta às pequenas crueldades da alta sociedade, e Jack
esperava sinceramente que nunca tivesse que descobri-las pessoalmente. Só Deus sabia os
comentários que ouviria a respeito dele quando chegasse a Londres.
Inclusive no caso de fazê-la sua, poderia condená-la a compartilhar de seu destino de
marginalizado...
A tempestade continuou bramando durante toda a noite; uma batalha escura e fria
que se travou tanto fora como dentro de Jack.
Quando se fez dia, a dura luz de estanho permitiu ver o céu plúmbeo e as ondas como

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montanhas por toda parte. Mas a batalha, como Jack pôde comprovar, estava longe de acabar.
De fato, não foi só então quando a tormenta desatou toda sua ira, golpeando-os do alto: uma
besta de sessenta nós com rajadas ainda mais fortes que duravam até cinco minutos.
—Permaneçam! — gritou Jack, com o grosso casaco, o gorro, as luvas e o cachecol
empapados, enquanto sua longa capa de chuva com capuz se agitava ruidosamente com o
vendaval.
Tinha o rosto intumescido por causa do frio cortante. A chuva torrencial se convertera
em uma neve úmida e fervente, que reduzia por completo a visibilidade. Entretanto, a fúria o
mantinha quente enquanto o vento açoitador e as grandes ondas tentavam tragar o navio
inteiro.
O Ventos de fortuna rangia, cabeceava e balançava pesadamente, enquanto
enfrentava à tormenta com as velas arriadas. Um par de velas recolhidas ondeavam na
mastreação para tentar estabilizar o navio, mas as velas do mastro maior não demoraram a
ficarem esmigalhadas. A partir de então, enfrentaram a tempestade nua e crua.
As âncoras se afundavam nas profundidades como os dedos de uma pessoa que
arranha a borda de um penhasco em busca de apoio. Sabia que se desviaram da rota. No dia
seguinte averiguaria aonde os tinha levado o condenado vento..., se tivesse cessado então.
Cortinas de água caíam sobre a coberta, e as ondas de vários metros de altura
entravam salpicando pelas frestas. Por cima do corrimão de quebra-vento entrava ainda mais
água. Jack viu que algumas das poleames14 se destamparam e gritou aos seus homens que
voltassem a tampá-las.
—Este maldito tempo está inundando o navio, capitão! — gritou o intendente por
cima do rugido da tormenta depois de receber o informe das cobertas inferiores.
—Diga aos carpinteiros que desçam para ver se há vias de água!
—Sim, senhor!
—Temos que descer as vergas! — ordenou seriamente. —Estão fazendo muita pressão
sobre os mastros. Desmontem os joanetes e os mastros de gávea!
O intendente e o contramestre cruzaram um olhar sério, mas sabiam que tinham que
fazê-lo.
O contramestre transmitiu a ordem, e o mais valente dos marinheiros recolheu suas
ferramentas e começou a subir pelos amantilhos obedientemente.
Jack detestava com toda a alma ter que mandar um de seus homens a mastreação
para realizar aquele encargo. Desmontar as vergas dos mastros já era uma tarefa exaustiva sem
que o vento tentasse atirar a um homem do arranjo e as cordas sobre as quais se segurava
estivessem cobertas de gelo.
Entretanto, se não desciam aquelas enormes e pesadas vergas, arriscavam-se a que o
navio ficasse desencrespado. As violentas cabeçadas da embarcação estavam fazendo com que
os três mastros se curvassem. Além de tudo, eram feitas com três enormes árvores, e podiam

14
Conjunto de polés, roldanas, cadernais, bigotas etc., para levantar pesos, para retorno dos cabos etc.

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ceder algo com o vento, mas as fortes vigas das vergas acrescentavam tanto peso às seções
superiores dos mastros que podiam partir-se pela metade e cair em cima deles. Se isso
ocorresse, todos ficariam a mercê do frio oceano Atlântico.
Ao observar como seus marinheiros subiam com lentidão e cautela, em evidente
contraste com sua velocidade e despreocupação habituais, Jack se sentiu enormemente
orgulhoso de sua tripulação. Olhou-os fixamente enquanto a água gotejava por seu rosto.
Qualquer capitão teria se animado ao ver que seus homens trabalhavam ao uníssono
de forma tão esplêndida, precisos como um relógio, valentes e muito bem preparados.
Ocuparam seus postos sem pestanejar nem se queixar; quando um deles se via em apuros, os
que estavam mais perto corriam para ajudá-lo. No final, nenhum homem só podia enfrentar os
elementos e ao mar.
Enquanto os observava, Higgins perdeu o pé e ficou pendurado por um momento
sobre a coberta, mas os dois homens que tinha mais perto o agarraram e o subiram de novo aos
escorregadios amantilhos.
Jack exalou lentamente, com o coração palpitante. Jurava por Deus que não ia perder
um só homem para aquela maldita tormenta.
Depois de lançar um olhar carrancudo ao mar, cruzou a ponte resolutamente e pegou
o leme, substituindo ao timoneiro. Apoiou todo o peso sobre ele, para impedir que as águas
bravas acabassem com as rédeas do navio.
Apertou os dentes e o manteve estável até que lhe começaram a tremer os braços.
"Maldição, deveria ter sido advogado".

Lá embaixo, na profundidade do porão, para Eden não foram muito melhores as


coisas. Martin estava terrivelmente enjoado; Peter Stockwell ao qual tinham transladado da
enfermaria até ali, achava-se deitado gemendo em seu catre; Rudy não parava de latir em sua
jaula, enquanto o Guri se queixava constantemente.
—Não aguento mais estar aqui! Cheira a vômito!
—Phineas, te proíbo que saias, e não se fala mais.
—Por que não posso ir ver o capitão?
Depois de ouvir vinte vezes a mesma pergunta, Eden tinha perdido a paciência.
—Porque eu o digo.
—Não tenho por que te ouvir!
—Oh, sim. Lorde Jack te pôs ao meu cargo. Se quiseres, podes falar com ele quando
tiver passado a tormenta. Mas no momento vais ficar aqui comigo. Por que não me dás uma
mão e tranquilizas ao Rudy? Se alguém pode fazê-lo calar, és tu. Queres tentá-lo?
—De acordo.
O menino resmungou e a olhou com o cenho franzido, mas se inclinou com expressão
mal-humorada e começou a falar em voz baixa ao bullterrier; colocou os dedos pela tela
metálico da jaula numa tentativa de acariciar ao cão.

162
Eden se deu conta de que a insistência do Guri para ver Jack se devia simplesmente a
estar assustado — todos o estavam — já que estar perto de seu capitão fazia com que o menino
se sentisse a salvo. Mas naquele preciso instante Jack tinha trabalho a fazer, e suas vidas
dependiam dele.
Ela afastou-se, convencida de que tinha conseguido distrair ao menino no momento, e
deu a Martin um pano empapado em vinagre diluído para o enjôo. Ao ver que o homem voltava
a ter náuseas fez uma careta, mas não ficava nada por fazer.
Quando Martin se apoiou outra vez no biombo, lhe colocou o pano empapado de
vinagre sobre sua fronte, que tinha adotado um tom esverdeado.
—Pobrezinho. Aguente meu caro. Não durará para sempre.
Peter Stockwell gemeu, e ela se dirigiu para ver como estava.
Ao colocar-se de costas a ele durante um breve instante, Eden não viu que Phineas
abria a jaula de Rudy vários centímetros. O menino colocou sua mãozinha para acariciar ao cão,
decidido a tranquilizá-lo, mas justo quando Eden deu a volta, Rudy passou disparado pela frente
do Guri e correu direto para a porta, que Eden tinha deixado entreaberta com uma cadeira para
que ventilasse um pouco o porão.
Quando o cão saiu como um raio branco seguido de Phineas, ficou boquiaberta.
—Rudy volte aqui! — gritou o menino, perseguindo o animal.
—Phinney! — ela foi voando para a porta.
O Guri tinha desaparecido.
—Oh, vou retorcer-lhe o cangote — disse Eden em voz baixa, e em seguida pôs-se a
correr pelo corredor atrás do menino.
Repreendia a si mesma a cada passo que dava, com sentimento de culpa e crescente
pânico. Aonde tinham ido? Ali embaixo estava muito escuro.
A escada situada adiante dela balançava daqui para lá; empurrava a Eden contra uma
parede e contra a outra enquanto avançava serpenteando a toda pressa pelo estreito corredor.
As lanternas que havia no alto balançavam de um lado a outro, e todos os móveis que não
estavam presos se deslocavam sobre as tábuas do chão.
Fez uma careta ante tanto movimento, e notou que seu estômago protestava. Teve
que se agarrar forte aos corrimões da escada para subir a seguinte coberta. Ouvia e notava a
profunda vibração do mar ao açoitar o navio; o rangido do navio recordava a uma expressão
humana de dor.
Os homens passavam correndo junto a ela de um lado a outro sem mal olhá-la. Eden
deteve um dos ajudantes do carpinteiro.
—Viu o Guri por aqui?
—Não, senhora. Se me desculpar...
—Claro. Soltou ao homem.
Quando por fim chegou à coberta central onde se guardava o gado, achou muitos
animais assustados: frangos, patos e coelhos enjaulados. No curral do centro, as cabras e os
porcos se acocoravam no feno.

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Mas não havia rastro do Guri.
Uma vez mais, Eden avançou serpenteando pelo corredor e subiu pela escada
agarrando-se com todas suas forças enquanto o navio e balançava e dava sacudidas.
Ao sair ao exterior a recebeu o furioso estalo da natureza, e imediatamente desejou
ter posto seu casaco novo. Acostumada ao calor tropical, mal podia recuperar a respiração com
o frio glacial que fazia. Contemplou assombrada como o Ventos de fortuna capeava a tormenta
nu e cru, com umas poucas velas feitas esfarrapadas que ondeavam como bandeirolas debaixo
daquele terrível vento.
Divisou a Jack no longínquo castelo de proa, dando ordens a gritos aos seus homens.
Seguiu seu olhar e viu que vários marinheiros pendurados na mastreação se mantinham presos
de alguma forma apesar do balanço pendular dos esqueléticos mastros.
Estavam desmontando uma das vergas horizontais e a baixavam lentamente por meio
de um sistema de cordas e polias. Eden não tinha nem ideia do que estavam fazendo, mas tinha
que achar o Guri... e o bagunceiro cão.
—Phineas! — o vento cortante tentava lhe rasgar a voz. Enquanto esquadrinhava a
coberta e rezava para que o menino não caísse do navio arrastado pelas ondas, o viu. —Phineas!
Ele agachou-se debaixo de um dos sólidos cabides de madeira que seguravam os
botes salva-vidas ao convés do navio. Tinha conseguido agarrar Rudy e estava estreitando entre
os braços ao cão, que não deixava de mover-se.
Eden se dirigiu para ele caminhando pela água que lhe chegava até o tornozelo
enquanto a neve se prendia ao cabelo. Gritou-lhe que saísse dali debaixo, mas uma vez mais, o
vento brutal apagou suas palavras.
Viu que o menino estava muito apavorado para mover-se e compreendeu que ia ter
que ir ao seu lado, tirá-lo a força de seu esconderijo e levá-lo de volta para baixo ela mesma.
Limpou o sal que lhe ardia nos olhos, preparou-se e se dispôs a ir recolher ao
extraviado menino ao seu encargo.
—Que demônios fazes aqui? — gritou-lhe uma voz grave.
Ela deu uma olhada e viu o senhor Brody coberto com uma capa de chuva negra como
o que levava Jack. O mestre de armas se dirigiu para ela caminhando com dificuldade.

Jack ouviu Trahern gritar. Olhou inquisitivo em direção ao seu tenente, situado na
ponte. Trahern indicou o convés do navio.
Jack seguiu seu dedo, viu Eden e soltou uma maldição. Que demônios fazia ela no
convés em um tempo assim? Estava avançando para os botes salva-vidas… então, Jack viu o
menino e o cão. Rodeou o leme e entrecerrou os olhos para proteger-se da chuva que o
açoitava. Poderia entrar em pânico ao vê-los em semelhante perigo, mas Brody já estava a
postos.
O grisalho mestre de armas pegou Eden pelo cotovelo e se apressou a ajudá-la a
resgatar ao menino. Brody pegou uma corda, passou-a ao redor do cangote do cão e puxou do
enlouquecido bullterrier em direção à escotilha que conduzia abaixo.
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Um passo atrás dele, Eden puxava Phineas pela mão. O menino devia ter escapado,
mas parecia que ela estava no controle da situação.
Jack fez um gesto de agradecimento com a mão a Brody, que acompanhava à mulher e
ao menino para baixo, e a seguir moveu a cabeça em atitude de desaprovação.
Quando se dispunha a agarrar o leme de novo, ouviu um horripilante rangido
procedente do alto.
Os homens da mastreação gritaram.
Felizmente, agarraram a verga antes que caísse, mas um nó emaranhado de decotes e
equipamentos de barco se desatou de improviso e se balançou sobre a coberta.
Incapaz de detê-lo, Jack observou horrorizado como os arranjos soltos traçavam um
arco através do convés do navio, golpeavam Eden e a arrastavam por cima da amurada.
Jack, que já se pusera em movimento, soltou um rugido.
Por um momento, ela se aferrou aos amantilhos soltos que pendiam do corrimão, com
uma expressão de terror no rosto. O Guri pôs-se a correr para ela.
Então se levantou uma forte onda, de um tom cinza esverdeado, cor pedra, e a
engoliu; seu rosto desapareceu sob a onda.
Quando se retirou, os pesados arranjos molhados permaneciam emaranhados sobre o
flanco do navio, mas agora estavam vazios.
Ela tinha desaparecido arrastada pelo mar.
Jack cedeu o leme ao timoneiro, tirou a capa de chuva, saltou do castelo de proa e
pôs-se a correr para o corrimão de quebra-vento. Gritou ao menino que descesse e viu Eden na
água, fazendo esforços para pôr a cabeça por cima das ondas.
A caótica corrente da superfície a estava afastando do navio, e o frio se apoderaria
dela em questão de minutos.
—Me dê uma corda! — gritou.
—Os botes, senhor! Baixamo-nos?
—Não há tempo!
Trahern lhe entregou uma corda e Jack a atou ao redor da cintura e a atou com
rapidez e perícia, depois do que indicou com a cabeça umas polias que havia perto.
Imediatamente, Ballast introduziu a outra ponta do cabo pela polia.
—Suba quando lhe fizer um sinal. Nem um segundo antes.
—Sim, senhor! — prometeu o corpulento artilheiro. Vários homens se colocaram atrás
dele para lhe ajudar a fazer força.
—E se não puder chegar até ela, Jack? — perguntou Trahern. —Cinco minutos, e lhe
tiro.
—Nem te ocorra me tirar até que não a tenha.
—Jack, morrerão os dois.
—É uma ordem! Ou volto com ela ou não volto.

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Ignorando o instável balanço e o movimento da coberta, subiu ao corrimão e atirou à
água.
Foi uma longa e fria queda ao mar. As ondas o receberam com seu abraço glacial.
Jack saiu rapidamente à superfície e nadou com força para respirar. O frio parecia
absorver todo o ar de seu peito, e teve plena consciência da sensacional força do mar; agora
estava a sua mercê junto com Eden.
Ambos podiam viver ou morrer se as ondas achassem isso conveniente.
Ficou flutuando na água em posição vertical e se voltou para um lado e a outro, mas
não a via através das cristas de água gelada.
—Eden!
Não a achava.
Olhou de novo a seus homens, que observavam do corrimão. Eles assinalavam
freneticamente para bombordo. Jack se virou.
—Eden! — começou a nadar com força naquela direção até que a vislumbrou.
—Jack!
Ouviu como gritava seu nome antes que outra gélida onda afogasse sua voz.
Jack nadou mais depressa movendo as pernas com força; doíam-lhe os ombros de
lutar contra o leme durante a última hora. Pelo menos agora ia à direção correta, mas se não
chegasse até ela rapidamente, o frio aplacaria os esforços de Eden com sua mortal letargia e se
afogaria.
Quando voltou a vislumbrá-la, viu uma garota aterrada e empapada; seu rosto
mostrava uma doentia palidez.
Uma garota que tinha tentado lhe dizer que o amava.
Sua saia negra se inchava ao seu redor; o grosso tecido que ele tinha insistido em
empregar para que a abrigasse melhor ameaçava afundá-la.
—Eden! — disse ele com voz abafada. —Já vou!
Jack se negava a reconhecer que estava começando a cansar-se. Não, já não era tão
jovem como antes: achava-se mais perto dos quarenta que dos vinte. O frio e a força do
Atlântico Norte com toda sua ira podiam arrebatar o vigor de um homem, e ele tinha estado
lutando contra aquela tormenta bestial desde a noite anterior.
"Deus, me dê forças. Me leve se for necessário, mas não deixes que a perca".
Eden se tinha dado conta de que as ondas não eram tão violentas se não resistisse a
elas.
Seu movimento tinha chegado a lhe resultar quase relaxante, como o lento balanço de
uma grande rede feita de gelo. Um momento antes tinha tanto frio que lhe doía à pele como se
queimara, mas já lhe tinha passado e agora se sentia muito melhor.
A intensa dor tinha começado a mitigar-se. Supôs que devia estar intumescendo-se,
além de ter engolido muita água de mar. Através do véu de granizo e neve, o Ventos de fortuna
parecia achar-se muito longe.

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A última coisa que Eden recordava antes que o frio invadisse seus sentidos foi de Jack
chegando até ela no meio da água gelada e rodeando-a com os braços. Sua cabeça se desabou
sobre seu enorme ombro. Estava quente.
Mas ele também estava tremendo.
—Já a tenho, querida. Agarre-se a mim. Não durma, Eden!
—Não me soltes Jack — murmurou ela.
—Já te peguei.

Enquanto a atraía mais para si, Jack viu como seus homens arrojavam uns salva-vidas
que guardavam no mesmo armário no qual tinham encontrado a clandestina. Jack apanhou um
dos aros flutuantes de cortiça e o pôs em Eden enquanto Trahern baixava rapidamente o arnês
para içá-los com ele.
Aferrando a Eden com singular determinação, ergueu a vista e fez gestos à tripulação
sacudindo o braço. Enquanto rezava para que Eden continuasse ao menos ligeiramente
acordada, pegou-a forte com um braço pela cintura ao mesmo tempo em que pegava o cabo
com a outra, mantendo um joelho em equilíbrio sobre o assento de madeira do arnês.
Ao ver seu sinal, a fila de homens da coberta puxara em uníssono e os subiram
rapidamente de entre as ondas. Depois, enquanto o casco do Ventos de fortuna se destacava
sobre eles, os homens voltaram a puxar os cabos.
Jack esticou todos os músculos de seu corpo para preparar-se para o esforço; colocou
Eden sobre o ombro e a segurou bem enquanto os homens os tiravam da água gelada no meio
do cortante vento.
Durante uns breves e precários segundos, subiram agarrados ao arnês, balançando-se
e dando voltas sobre as ondas que se agitavam debaixo. Subiram voando por cima do corrimão
do navio, deixaram para trás o montão emaranhado de arranjos que tinha golpeado Eden e
caíram pesadamente sobre a coberta um em cima do outro como se fosse a pesca do dia.
—Eden!
Balançando sua cabeça, Jack a tombou no convés com a maior delicadeza possível
enquanto se ajoelhava ao seu lado. Vários dos homens estavam trazendo mantas.
—Não respira.
Eden tinha os lábios arroxeados. Jack lhe pegou a blusa e a abriu rasgando-a, o que
deixou descoberto seu espartilho novo. Devido à adoração que sentiam pela valente garota que
ganhara toda a tripulação, os homens afastaram a vista. Jack soltou de um puxão os cordões do
espartilho e começou a lhe massagear o peito; a garota tossiu.
Colocou-a de lado quando começou a cuspir a água que tinha engolido; tossia para
pegar ar.
Quando ficou claro que a garota estava respirando de novo e que estava consciente,
ele se reclinou sobre as panturrilhas e permaneceu de joelhos. Deixou cair os ombros, embora
ainda lhe palpitasse com força o peito.

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Ergueu o rosto para o céu marmóreo, com a mão apoiada ainda no quadril de Eden.
Teria sido capaz de pôr-se a chorar. Fechou os olhos, tremendo de frio e pelas sequelas do terror
que havia sentido.
—Sinto... muito, Jack — balbuciou ela, erguendo seu olhar aflito para os grandes e
tristes olhos azuis dele. —Estou... dando-te... mais problemas do que... deveria.
—Deixe de dizer tolices — a repreendeu secamente, com o coração encolhido.
Agarrou-a entre seus braços e a abraçou com toda a alma. —Achei que ia te perder — sussurrou.
A decisão de atrever-se ou não a amá-la praticamente lhe tinha sido arrebatada das
mãos.
—Oh, Jack. Ela se pôs a chorar.
—Shh, carinho. Já te tenho.
Deu-lhe um fervente beijo na testa fria. Um momento depois, levantou-se com ela nos
braços. E abraçando-a como o tesouro mais precioso do mundo, levou-a de volta à segurança
das cobertas inferiores.

Capítulo 11

O navio tinha deixado de sacudir-se; horas mais tarde, o mar estava calmo. Uma garoa
contínua tamborilava sobre as tábuas molhadas e salpicava a fileira de janelas de popa, mas a
primeira hora da tarde parecia que haviam deixado o temporal.
Eden ainda estava tremendo depois de seu encontro com a morte, mas pelo menos
tinha tido ocasião de secar-se, trocar de roupa e descansar um pouco. Jack ainda estava no
convés organizando tudo, como costumava fazer. Depois de levá-la para baixo e assegurar-se de
que ela se achava bem, limitou-se a trocar de roupa e tinha voltado para a coberta para terminar
de lutar contra a tormenta. Aquele homem devia estar totalmente esgotado.
Vestida com uma das enormes camisas de Jack, e envolvida em seu grosso roupão
bordado, Éden procurou fazer algo útil. Acendeu algumas velas no camarote para evitar a
penumbra cinza. Recolheu várias coisas que Jack necessitaria quando voltasse para baixo:
toalhas, roupa seca e coisas do gênero. Pôs lençóis limpos e mantas de sobra na cama. Assim
que o cozinheiro do navio recebeu permissão para acender o fogo na cozinha, Eden lhe pediu
chá e uma comida quente para os dois, junto com um balde de água quente para lavar o sal
marinho que tinha ficado em sua pele depois de ter caído nas ondas. Pareceu-lhe que Jack
também iria querer lavar-se.

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Uma vez feito aquilo, começou a fatigante tarefa consistente em ordenar os móveis
caídos e voltar a colocar em seu lugar todos os livros, taças e objetos que se deslocaram pela
estadia com o violento balanço do navio.
Não podia deixar de evocar mentalmente os horríveis momentos em que se viu a
mercê do mar; suas mãos ainda tremiam um pouco e faziam com que se movesse com certa
estupidez enquanto voltava a pôr cada volume encadernado em couro nas prateleiras. Enfrentou
muitos perigos em sua vida, mas no mais profundo de seu ser sabia que aquela tinha sido a vez
que mais perto tinha estado de morrer. Se não fosse porque Jack tinha arriscado sua vida para
salvá-la...
Ela estremeceu e se deteve em plena tarefa.
Ainda se sentia ridícula pelo que lhe havia dito no convés antes que se produzira a
tormenta, durante o fenômeno do fogo de São Telmo. Praticamente tinha confessado que o
amava, e ele não lhe tinha respondido nada. Era impossível não se sentir um pouco rejeitada.
Naturalmente, ele lhe tinha salvado a vida. Os fatos falavam por si só. Entretanto,
como capitão do navio, ele era responsável por todas as pessoas que estavam a bordo, e Eden
sabia que tomava suas obrigações muito a sério. Haveria se lançado ao mar para salvar qualquer
um, reconheceu, abatida.
Sim, umas horas atrás, a tinha resgatado e a tinha levado a camarote com muita
ternura, mas deixando de lado a crise, certamente continuava zangado com ela por ter
descoberto quem era seu verdadeiro pai. Aquele homem tinha mais segredos que ninguém que
tivesse conhecido em sua vida!
Desencantada, sem saber como se comportar com ele quando retornasse, e gelada
ainda depois de ter estado à beira da morte, abrigou-se bem com o roupão e voltou para o
dormitório.
Passou todos os ferrolhos, por costume, e voltou a meter-se no beliche que, junto com
as mantas, tinha acondicionado com um aquecedor cheio de brasas ardentes.
Acabava de ficar cômoda e de fechar os olhos quando ouviu o leve tinido de chaves.
Ouviu como Jack, do outro lado da porta, abria torpemente o primeiro ferrolho. Levantou-se, foi
lhe ajudar e abriu em seguida o resto dos ferrolhos.
Quando abriu a porta, ele se achava ali com a chave na mão, o rosto abatido de
esgotamento, e cristais de gelo no casaco e no cabelo. Eden lhe dedicou um meio sorriso
compassivo e abriu a porta de par em par.
—Entre.
Jack lhe lançou um olhar indeciso quando ela se afastou e entrou no camarote diante
dele arrastando o longo roupão bordado atrás de si. Seguiu-a, tirou o gorro de ponto negro de
marinheiro e passou a mão lentamente pelo cabelo molhado e revolto. Eden acendeu um par de
velas colocadas no lavatório de mogno. Enquanto, com evidente cansaço, Jack tirava as luvas
empapadas, ela se aproximou do baú, que naquele momento fazia às vezes de mesa. Sobre ele
se achava a bandeja com comida e outras coisas que tinha preparado para quando ele chegasse.
Serviu-lhe uma xícara da cheirosa mistura indiana do bule e acrescentou um jorro de
conhaque para ajudá-lo a esquentar-se. Ela a levou, e ele a aceitou com um murmúrio de
agradecimento. Esquentou as mãos com a xícara aspirando a fumaça por um instante. Ela o

169
observou com uma preocupação cheia de perspicácia; Jack só bebeu alguns goles antes de
deixar a xícara para tirar o casaco. Lançou-o sobre o canhão para deixar que o gelo se
derretesse.
Eden foi pegar toalhas e quando voltou franziu o cenho. Aquele homem ia pegar uma
gripe de morte com a roupa molhada.
—Deixa que o eu faça — murmurou ao ver os problemas que ele tinha para
desabotoar o colete com os dedos gelados e trêmulos.
Ele aguardou pacientemente e abaixou a cabeça enquanto lhe tirava o grosso colete
de lã pelos largos ombros.
—Tire a camisa — ordenou ela, um tanto nervosa ante o olhar intenso e nublado dele.
Enquanto ele obedecia à ordem e tirava a camisa pela cabeça, ela se desprendeu do
roupão emprestado e o ofereceu.
—Depressa, antes que se vá o calor.
—Use-o você.
—Eu já estou quente.
—Está bem. Muito cansado para discutir, Jack colocou os braços pelas amplas mangas
e se cobriu com o roupão. —Ah — disse ligeiramente surpreso, enquanto um pequeno sorriso
de cansaço se desenhava em seu rosto. —Me deixou isso quentinho.
—Eu também posso ser útil — respondeu ela, lhe lançando um olhar malicioso
enquanto ele amarrava o roupão devagar.
Ao afastar-se para ir lhe buscar a comida, Eden observou a parte de baixo de seu
corpo, que nesse momento se achava oculta sob a bata.
—Pode ser que também queira tirar as... isto... roupas íntimas.
—Sim, senhora. Dedicou-lhe um sorriso preguiçoso.
Bom, ao que parece não estava tão cansado.
—És incorrigível — murmurou ela enquanto retornava à mesa improvisada. Alegrou-se
de vê-lo sorrir. Talvez já não estivesse zangado com ela por ter descoberto seu segredo.
Pelo menos parecia que tinha esquecido.
Ouviu-se o ruído de suas botas no chão e, um momento mais tarde, suas calças e seus
calções largos estavam sobre o canhão com o casaco.
—Deve estar morto de fome. O cozinheiro mandou um guisado de frango. Está muito
bom. Eden levantou a tampa e o removeu. —Também há pão e manteiga. Que mais? E água
quente para que possas te lavar. Toma. Tinha molhado o pano na bacia com água quente e
estava voltando-se justo quando ele se aproximou por trás.
—Eden — murmurou Jack.
Ela se voltou com o pano em uma mão e o sabão na outra.
Ele a olhou nos olhos com cautela.
—Devo-te uma desculpa.

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—Não, não me deves nenhuma desculpa Jack — disse ela em voz baixa, ao mesmo
tempo em que o coração lhe dava um salto de trêmula esperança. Deixou os objetos. —Fiz mal
bisbilhotando.
Ele tocou-lhe o queixo.
—Bobagens. Não deveria ter gritado contigo. Não o merecias. Só estavas tentando me
ajudar... e eu te rechacei.
—Não importa já, não é? — Eden apoiou a mão no peito dele com vacilação e
acariciou ligeiramente a lapela de veludo negro de seu roupão. —Me salvaste a vida, e arriscaste
a tua por mim. Oh, Jack. Meneou a cabeça em atitude de fervente arrependimento. —Sinto ter
deixado que o menino escapasse. Tu contaste comigo para que o vigiasse... Apenas lhe dei as
costas dois segundos, e olhe o que aconteceu. Poderias ter morrido!
—Com uma tormenta como essa todos poderíamos ter morrido.
—Mas tu não permitiste que isso acontecesse. Eden inclinou a cabeça para trás e o
olhou atentamente por um momento; depois, estendeu a mão e acariciou seu rosto de traços
duros suavemente. —Jack, meu leão — sussurrou. —Obrigada por me salvar a vida.
—Quando quiseres — disse ele em voz calma. Em seguida, virou o rosto e lhe roçou a
mão com os lábios.
Ela o olhou amorosamente com um nó na garganta. Depois meneou a cabeça
estalando a língua com ternura.
—Olhe-te, meu valente. Agarrou uma das toalhas e começou a secar suas mechas
morenas e onduladas. —Sei que estás muito cansado — sussurrou enquanto lhe tirava a
umidade restante do cabelo. —Agora eu cuidarei de ti, de acordo?

"Sim, por favor," pensou ele, enquanto seu ventre estremecia de desejo ao ver como
ela o tratava com ternura. Não estava acostumado a deixar que as mulheres tomassem tantas
atenções com ele, mas a tormenta lhe tinha arrebatado toda sua obstinação. Estava duro,
dolorido e congelado de frio, achava-se muito cansado para negar seus verdadeiros sentimentos
por ela, e tampouco tinha a vontade disso.
Seus temores não tinham desaparecido, mas depois de ter estado tão perto de perdê-
la, aquilo já não tinha importância.
—Sente-se — sussurrou Eden.
Ele obedeceu e se colocou na beira da cama. Vestida unicamente com uma camisa de
linho, que lhe chegava até os joelhos, Eden se aproximou e se colocou entre suas pernas, secou-
lhe o cabelo com a toalha e depois lhe acariciou a pele suavemente com o pano quente e úmido,
limpando os rastros do mau trato da tormenta.
Jack a observava, cativado.
Não, nunca tinha recebido o que ela lhe oferecia. Nunca tinha procurado isso e se o
tivesse encontrado, certamente teria receado isso.
O pulso lhe acelerava com cada uma de suas carícias.

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A pele de Eden parecia de seda à luz das velas. Os tons vermelhos e dourados de seu
cabelo ardiam como um pôr-do-sol, ou como as chamas dançantes do fogo acolhedor de uma
lareira. Ela acariciava-lhe o rosto e beijava sua fronte, a sobrancelha, a maçã do rosto e o nariz
enquanto o lavava.
Seus mimos resultavam tão maravilhosos que Jack apenas se atrevia a respirar por
medo de que cessassem. Ele fechou os olhos, absorvendo seu carinho com profunda
necessidade; ah, estava-o amansando com muita doçura, vencia sua resistência com seus beijos,
derrubava suas defesas uma atrás da outra, até chegar ao núcleo pétreo da solidão que
aninhava nele, fria e lúgubre.
Jack a desejava com desespero. Ela o envolvia com sua ternura e o rodeava de seu
terno calor.
E ela achava que ele a tinha salvado?
Ao cabo de um momento abriu os olhos de novo; seu membro estava inchado sob o
roupão. Nem sequer o tinha beijado e já quase tinha uma ereção. Ao ver seu olhar ofegante,
Eden se ruborizou um pouco e baixou os olhos com recato.
—Vou buscar o jantar — murmurou.
Mas não era comida o que Jack ansiava. Agarrou-a pelo pulso e a deteve.
—A única coisa que quero és tu.
Ela ficou imóvel. Jack percorreu com um olhar ardente o corpo de Eden enquanto
estendia a outra mão e deixava cair a desmesurada camisa pelo ombro nacarado dela. O peito
de Eden palpitava, e quando o V que formava a camisa se abriu, deixou à vista um seio de
alabastro com o mamilo rosado mais delicioso que ele jamais tinha visto.
Jack se inclinou para frente e beijou com reverência a curva daquele peito branco e
sedoso fechando os olhos.
—Eden, meu paraíso particular — sussurrou. —Dê-me calor.
Ela acariciou-lhe a cabeça.
—Precisas dormir, Jack.
—Preciso de ti.
—Estás há trinta e seis horas acordado.
—Uma a mais não me fará mal. Quando lhe beijou o mamilo, ela o deteve
retrocedendo.
Ele lambeu os lábios.
—Aonde vais?
Ela não respondeu; seus olhos verdes estavam muito abertos e tinham um olhar
indeciso que delatava seu desejo. De repente, a longa boca do canhão situado atrás dela lhe
cortou a retirada. Jack se levantou e se dirigiu para ela. Eden se afastou como se pensasse voltar
a escapar.
—O que ocorre? — sussurrou ele, lhe rodeando a cintura com os braços. —Tens medo
de mim?

172
—Não.
Ela tentou libertar-se de seu abraço, mas ele sossegou seus mornos esforços lhe
segurando os quadris contra seu abdômen.
—Não me desejas? — perguntou, deixando que notasse sua protuberância contra
suas deliciosas nádegas nuas.
Ela soltou um gemido muito intrigante.
Jack não estava seguro se aquilo era um sim ou um não, mas a camisa que ela levava
posta lhe subiu ao estirar-se ligeiramente para frente por cima do canhão, com seu ventre plano
junto ao frio metal. Ele mudou de posição, rodeou sua esbelta cintura com o braço esquerdo e
deslizou a mão direita destramente por baixo da prega da camisa branca. Depois, emitiu um som
mudo de apreciação ao abranger sua nádega direita com a mão. Rodeou a curva recatada e
sedosa com os dedos já quentes e apertou. Ela conteve o fôlego bruscamente; o arco sensual
que formou suas costas indicou a Jack tudo o que precisava saber.
A temperatura de seu sangue subiu vários graus. Reprimiu o impulso travesso de dar
uma palmada em seu delicioso traseiro, embora certamente ela teria gostado, conhecendo
aquela velhaca. Mas o jogo bruto podia esperar. No momento, enquanto seguia retendo-a com
delicadeza, acariciou seu formoso cabelo; afastou-lhe as longas mechas para um lado, desceu a
cabeça e beijou de novo a parte descoberta de seu delicado ombro, pelo qual lhe caía a camisa
de forma chamativa.
Ela ficou muito quieta, tratando de não respirar, ou possivelmente de não negar sua
reação, mas quando a mão de Jack desceu pela preciosa ranhura de seu traseiro e a acariciou
tentativamente entre as pernas por trás, descobriu a verdade: os fluidos dela molharam
imediatamente a ponta de seu dedo, e Eden emitiu um tênue gemido ao receber sua carícia.
Jack notou que seu desejo aumentava rapidamente.
Retirou o dedo do meio da soleira de seu sexo e deslizou a mão ao redor de seu
quadril até a parte dianteira. Seguiu lhe beijando o ombro e a nuca, enquanto brincava com a
mão em seu umbigo e estimulava seus mamilos. Acariciou seus quadris cremosos e suas coxas
firmes, e lhe fez uma carícia suave e tentadora ao redor do montículo de seu sexo até que, por
fim, roçou a joia endurecida e lhe provocou um estremecimento de avidez.
Ela se apoiou contra o canhão e posou suas mãos nele, enquanto seu corpo emitia uns
sinais que teriam escandalizado a sua mente virginal. Jack continuou lhe acariciando a cabeça
com uma mão, deslizando os dedos por seu exuberante cabelo; com a outra, fez-lhe umas
suaves carícias entre as pernas que lhe recordaram o modo exato em que gostava que a tocasse.
E então ofereceu a sua dama o que seu doce corpo ansiava.
Eden tremia, movendo-se com ele a um ritmo vertiginoso, ao mesmo tempo em que
seu clitóris se inchava rígido e inflamado, enquanto ele recebia seu abundante néctar com a
ponta do dedo e o empregava para lubrificar cada uma de suas ternas e provocadoras carícias.
Momentos mais tarde, ela inclinou a cabeça para trás lançando outro suave gemido, enquanto
tornava louco Jack com o movimento sinuoso de suas nádegas contra sua virilha.
Para Jack era impossível continuar aguentando.
—Não te movas — sussurrou, sem deixar de massagear a pele suave de seu quadril
esquerdo com a mão para assegurar-se de que não lhe ocorria escapar. Não poderia suportá-lo.

173
—Não tenhas medo — acrescentou, enquanto desatava com tremor o cinto do roupão com a
outra mão. —Ainda não vou tomar-te. Só quero que me percebas.
Depois de deixar que o roupão caísse pela parte dianteira de seu corpo, orientou seu
membro ereto para baixo e o introduziu lentamente na zona úmida e escorregadia situada entre
suas pernas.
—Mmm — disse ela, cavalgando ligeiramente sobre seu sexo com cautela.
Jack engoliu em seco com o peito palpitante. Estava ofegando, e quando voltou a
brincar com seu pequeno clitóris erguido, notou que seu autodomínio estava começando a
rachar-se, como um navio que se faz em pedaços em uma tormenta.
As gotas dos sucos de Eden caíam por seu membro à medida que se retorcia
lentamente e deslizava sua sedosa fenda ao longo da superfície do membro palpitante de Jack.
Deu-lhe uma mão, encantado de poder ajudar; balançou os quadris com um movimento lento e
cauteloso para que ela se acostumasse com sua presença entre suas pernas. Ao cabo de uns
instantes, ela estendeu a mão para trás, pegou-o pelo quadril e o atraiu para si, mostrando os
dentes, com seus olhos frágeis brilhantes.
Como era apaixonada, pensou enquanto obedecia, acelerando suas carícias. Os
arquejos de avidez dela se converteram em gemidos tênues e agudos; Eden pronunciou seu
nome com voz entrecortada, enquanto seu corpo flexível ficava rígido.
Ele compreendeu que a tinha levado ao orgasmo.
—Shh — lhe sussurrou ao ouvido, sorrindo para si mesmo enquanto a segurava para
que não se movesse quando ela gemeu sem forças.
"Que aluna mais aplicada". Ela se apoiou contra o canhão até que ele a fez voltar-se e
a estreitou entre seus braços.
Abraçou-a um longo tempo, esquecendo do desejo que bulia em seu interior, pois
estava comovido até o inexprimível pela inocência de sua explosão de prazer. Era
tremendamente natural e puro. Sua entrega refletia uma profunda confiança. Mas não era isso o
que lhe tinha dado desde o começo? Suas palavras lhe ficaram gravadas e o tinham açoitado
desde o dia em que a tinha conhecido na selva.
"Confio em ti, Jack".
Que alguém tão puro como Eden Farraday pudesse ver algo bom nele surpreendia
profundamente.
Baixou a cabeça, pegou sua delicada mandíbula com a mão e lhe deu um beijo. Ela
rodeou-lhe o pescoço com os braços e lhe devolveu o beijo com uma sinceridade que a fez
suspirar.
"Eu também confio em ti, Eden — pensou. Tudo o que posso confiar em uma pessoa".

Ela ainda estava tremendo depois do êxtase, aflita; sentia-se um tanto desconcertada,
já que não esperava que algo assim ocorresse, ao menos naquele dia, depois de tudo o que
tinham passado. A acesa paixão de Jack a inundava e a envolvia com uma doçura e uma
segurança deliciosas.
174
Enquanto o beijava lentamente saboreando sua boca, percorreu com a mão em uma
precavida atitude exploratória as protuberâncias de seu peito, sobre o qual tinha caído aberto
roupão.
Ele estremeceu ao notar sua carícia. Ela se aventurou a ir mais à frente, fascinada, e
posou sua palma contra ele enquanto deslizava a mão pelos intrincados músculos de seu
escultural ventre. Ele emitiu um tênue gemido de desejo contra os lábios dela, e Eden se deu
conta subitamente de que apesar de tê-la levado ao clímax, ele continuava ardendo de desejo.
As carícias com as quais ele percorria os flancos de seu corpo transbordavam de
desejo. Seu beijo ávido incitou-a a abrir mais os lábios, e então voltou a saboreá-la lhe
acariciando a língua com a sua de forma lenta e profunda.
Ela deslizou os dedos por seu cabelo, acariciou seu queixo com uma barba incipiente e
brincou com suas belas e longas costeletas.
Jack lhe rodeou a nuca com a mão e a beijou ainda mais profundamente; Eden aceitou
gostosamente. Sabia que estava brincando com fogo, mas não podia parar, cativada pela pressão
firme e deliciosa que a boca dele exercia sobre a sua com uma avidez ardente e masculina.
Cravou-lhe os dedos em seus fortes ombros como se tivessem vontade própria, aferrando-o,
reclamando àquele homem que sabia que nunca poderia domar.
A língua dele dava voltas e dançava dentro de sua boca, entrando e saindo dela,
enquanto seus dedos lhe acariciavam o pescoço e a garganta. O efeito que exercia sobre o Eden
a surpreendeu profundamente: uma vez mais, Jack avivou as brasas acesas de seu desejo com
uma chama nova e ainda mais ardente.
Quando ele começou a empurrá-la em direção à cama colocada atrás dela, beijando-a
em todo momento, para Eden pareceu que não tinha sentido discutir com um muro de mais de
um metro oitenta de músculo.
Ergueu a vista fugazmente para seu rosto por debaixo das pestanas. Os olhos de cor
água-marinha de Jack brilhavam intensamente com a febre do desejo, e sua expressão tensa era
a de um homem que não estava disposto a que o contrariassem.
—Jack?
—Sim, querida?
—O que... estás fazendo?
— Seduzindo-a — sussurrou ele com soltura. —Te disse que o faria.
Ele lhe tirou a camisa pela cabeça e a seguir deu uma olhada a seu corpo nu em
atitude de ávida estimativa.
Beijou-a outra vez e continuou empurrando-a lentamente para trás em direção à
cama.
—Di... disseste que quando chegasse o momento, eu o desejaria.
—E não o desejas?
—Não... não sei. Isto é... talvez devêssemos pensar nisso.
—Não pensemos.
—Mas Jack...

175
A emoção, o medo e o desejo; a vacilação, a angústia e o desejo formaram uma
potente combinação de reações primárias no interior de Eden ao dar-se conta de que ele não
podia conter-se mais. Estava a ponto de tomá-la.
—Sim, amor?
Ela deu-se com as panturrilhas contra a cama situada atrás dela.
—Achava que não me desejavas.
—Oh, é claro que sim — ele assegurou, meneando a cabeça devagar. Tirou o longo e
luxuoso roupão e deixou que se deslizasse por seus ombros até cair no chão atrás dele.
Eden tragou saliva ao ver seu esplêndido corpo, que destacava sobre ela à luz das
velas.
—Muitíssimo. Ele lhe empurrou os ombros com delicadeza até fazê-la sentar-se na
beira do beliche. Ele acompanhou seu movimento e se ajoelhou entre suas pernas. —Quer que
te demonstre quanto, Eden?
—Isto...
A boca ardente e úmida de Jack abandonou seus lábios para deslizar por seu queixo;
percorreu o lado de seu pescoço, cativando-a, e desceu até o vale formado entre seus seios.
—Deus santo.
Eden se reclinou no colchão apoiando-se em um cotovelo, e Jack teve fácil acesso a
todo seu corpo.
Acariciou-lhe o corpo por toda parte até deixá-la sem fôlego. Ela sabia que se o
fizessem, não haveria como voltar atrás, mas seu coração já pertencia àquele homem, e seu
corpo gozava ao contato de suas mãos. Se ele a tocava daquela forma, com longas e hipnóticas
carícias, não podia haver nada que temer no mundo. Sentia-se aturdida e feliz, como se tivesse
ingerido uma daquelas estranhas plantas da selva que os waroa utilizavam em suas cerimônias
religiosas.
Jack lhe balançou a cabeça com a outra mão e lhe acariciou o lóbulo da orelha com os
lábios, respirando em seu ouvido asperamente.
—És deliciosa — sussurrou em tom enigmático e sedutor, enquanto deslizava a outra
mão por seu umbigo. —Quero te comer.
Ela soltou uma gargalhada, acreditando que falava em sentido figurado, mas não
demorou a descobrir seu engano quando ele abriu mais as pernas e seguiu descendo por seu
corpo, deixando uma esteira de beijos por seu peito e seus quadris. Ela conteve a respiração e
apertou a colcha com os punhos, com desbocada espera.
Jack colocou suas mãos grandes debaixo dela e lhe rodeou as nádegas com delicadeza.
A seguir inclinou a cabeça e lhe mordiscou a face interna das coxas em atitude brincalhona,
provocando-a até fazê-la retorcer-se de impaciência; seus lábios quentes e viris se abateram
sobre seu montículo por um instante antes de começar a lamber lentamente o ponto mais
sagrado de seu corpo.
Eden sussurrou com incredulidade, mas Jack não tinha feito mais que começar. As
suaves carícias de sua língua multiplicavam por dois o movimento anterior da ponta de seu
dedo; ela gemeu de puro abandono. De repente notou a língua dele em cima, reclamando-a e
176
lhe dando prazer. Eden era fogo líquido debaixo dele, como o sol tropical quando tinge o lento
rio de cor dourada.
Começou a respirar entrecortada como se tivesse corrido um quilômetro. Ele a fez
retorcer-se, arquear-se e mover-se sinuosamente enquanto procurava satisfazê-la com sua
língua. A entrega de Jack era tremenda. Era impossível escapar ao prazer. Começou pela frente,
devorando com a boca seu centro ultra-sensível; depois retrocedeu, pressionando forte com o
mindinho a fenda de seu traseiro, ao mesmo tempo em que colocava e tirava dois dedos na
escorregadia passagem de seu sexo e a deixava empapada outra vez.
Aquele homem era implacável. Deliciosamente implacável.
Eden deslizou os dedos trêmulos por seu cabelo denso e ondulado, enquanto ofegava
e o olhava. Toda a feroz e obstinada determinação do caráter de Jack se concentrava em lhe dar
prazer, sim, em adorar o corpo dela com o seu.
Agarrou-lhe o pé em atitude brincalhona e colocou sua perna em cima de seu largo
ombro para absorvê-la mais profundamente. Ela segurou a cabeça dele entre suas coxas,
derretendo-se com sua língua como se fosse mel.
—Meu Deus, Jack! — conseguiu dizer. —Vou morrer...
Ele deixou escapar uma gargalhada profunda e sedutora ante o assombro de Eden; as
notas graves de sua voz vibraram contra sua pele palpitante. Ela fez uma careta e sorriu
embriagada de prazer quando lhe concedeu um momento de trégua.
—Não vais morrer. Confia em mim.
Jack ergueu a vista e lhe dedicou um sorriso diabólico com os olhos ardentes como
brasas acesas. Beijou-lhe o ventre e voltou a descer para seguir tornando-a louca.
Em uns instantes, Eden estava louca de paixão, empurrando-se contra sua maravilhosa
boca.
—Oh, Jack, não... aguento mais. Faça que... pare, por favor.
Diabolicamente, ele não fez mais que intensificar a deliciosa tortura em resposta ao
seu rogo entrecortado. Aguçou, aumentou, e então, quando ela estava à beira do êxtase, de
repente cessou.
—Não, ainda não — a repreendeu ele com uma diversão cúmplice, enquanto ela
implorava ante sua negativa.
Afastou os lábios de seu sexo empapado e secou a boca contra sua coxa. Acariciou-lhe
a curva inferior de um peito com o nariz ao deslocar-se para cima uma vez mais.
—Jack.
—Não, querida, tenho outra coisa para ti.
Rodeou-lhe a cintura com um braço e a deslizou até o centro da cama, movendo-a
como se não pesasse mais que um gato.
Eden se assombrou ao ver aqueles braços duros como rochas que a abraçavam.
Percorreu o volume proeminente de seus bíceps esquerdos com a ponta dos dedos e quando
apertou o músculo, surpreendeu-se ao notar que estava firme como uma pedra aquecida ao sol;
Jack riu em voz baixa de sua comprovação e lhe deu um beijo na face.

177
—Está muito duro — comentou e a seguir o olhou com inquietação nos olhos. —Vais
machucar-me!
—Não, amor. Jamais.
Ele se recostou de lado junto a ela, enquanto sua expressão se suavizava. Eden
contemplou com assombro e preocupação seu corpo nu e percebeu que o leve pêlo castanho
que adornava seu peito se correspondia com o pelo mais escuro que rodeava seu pênis, grande
e disposto. Inclusive então, o membro de Jack destacava sobre seu ventre plano.
Santo Deus.
Jack desviou sua atenção antes que o medo se apoderasse dela. Inclinou-lhe a cabeça
para trás exercendo uma suave pressão sob seu queixo e a beijou com uma lenta e
embriagadora intensidade. Ao cabo de um momento, Eden o envolveu com os braços enquanto
ele deslizava as pontas dos dedos por seu corpo, unindo imaginariamente os pontos de suas
sardas isoladas.
Inclinou-se sobre ela e a entreteve lhe mordiscando ligeiramente a ponta do nariz;
depois percorreu seu rosto com seus beijos até lhe rodear o queixo. Lambeu-lhe a garganta e
mordeu suavemente seu pescoço. Eden se aferrou a ele, deslizando os dedos por seu abundante
e sedoso cabelo.
Jack se aproximou mais e a seguir se colocou em cima dela.
—Preciso de ti — sussurrou ele.
Ela esquadrinhou seu rosto, insegura e ao mesmo tempo ávida por ele.
Seu coração palpitava como tambores tribais. Tinha os lábios inchados de seus beijos.
Ele balançou sua cabeça com a mão esquerda, introduziu a direita entre os corpos dos dois e
orientou a ponta palpitante de seu membro para a soleira do sexo de Eden.
O coração dela lhe pulsava ainda com mais força, mas Jack mostrou um domínio
sobre-humano e não provocou o menor avanço durante vários segundos, deixando que ela se
acostumasse a ele de novo. Aquilo não era muito diferente do que tinham feito antes no canhão,
pensou Eden, e se armou de coragem. Ao notar que relaxava um pouco, Jack começou a brincar
com ela de forma travessa, fazendo virar a suave glande de seu membro sobre seu sexo úmido.
Provocou-a até fazê-la arder de desejo por ele; com cada passo que dava, roçava mais
profundamente sua flor aberta.
—És cruel — disse ela ofegando.
—Sou meticuloso.
—Jack — gemeu ela, rodeando-o com as pernas. Entrelaçou os tornozelos sobre a
região lombar de Jack e se retorceu debaixo dele com um desenfreado desejo, sem preocupar-
se com o amanhã. —Oh… Jack, por favor.
—Devagar, meu amor. Não te movas assim. Estás me atormentando. A voz dele soava
áspera, e seu rosto angular estava tenso de desejo, mas fez uma pausa para aspirar à fragrância
dela. Deslizou a ponta do nariz pela curva de seu ombro e seu pescoço. —Cheiras tão bem,
minha orquídea, minha flor deliciosa...
—Jack. Ela tinha que rogar-lhe?
Para Eden tudo dava voltas, como a vertiginosa paisagem que se contemplava das
178
copas mais altas das árvores da selva; em seus ouvidos ressoava o bem-intencionado conselho
de seu pai. "Todos os animais procuram um companheiro ao chegar à idade reprodutiva".
Parecia tão frio e lógico comparado com o frenesi que fervia em seu sangue à medida que o
membro dele deslizava cada vez mais dentro dela, deliciosamente, milímetro a milímetro. Então
baixou com avidez, desejando mais.
—Estás preparada para me receber, Eden?
—Sim.
Jack lhe beijou a palma com doçura e a penetrou lentamente, mas de forma
continuada. Quando chegou à fina membrana de seu hímen, sussurrou-lhe ao ouvido que
notaria dor por um instante e a seguir a rompeu investindo forte com os quadris.
Ela reprimiu um grito de angústia, pois seu ato de iniciação lhe doeu. Supunha-se que
aqueles antigos rituais nos quais se derramava sangue doíam. Tinha-o aprendido dos
intemporais waroa. Tais cerimônias marcavam a entrada de uma pessoa em uma fase da vida
completamente nova.
Uma vida com aquele homem e todos seus perigosos segredos.
Ele tinha a clara determinação de diminuir sua dor tanto quanto fosse possível. Salvo
pelas palpitações de seu peito, Jack permaneceu quieto enquanto ela se esforçava para
recuperar-se da ferida. Ele estava agora muito dentro dela: eram um só.
Seus ternos beijos na escuridão a acalmaram, e pouco depois, seus destros esforços
como amante ao tomar tempo para educar Eden nos hábitos do prazer obtiveram seus
benefícios ao ajudá-la a dominar a dor.
De qualquer forma, a vida que ela tinha levado lhe tinha ensinado a não temer em
excesso a dor. Sabia que às vezes a dor constituía uma parte crucial da cura e, além disso,
sempre passava.
E agora estava passando, pouco a pouco, enquanto Jack lhe acariciava o cabelo e a
olhava fixamente nos olhos, tranquilizando-a com firmeza.
Ele a enchia tão plenamente que o vazio que havia no profundo de seu ser tinha
desaparecido; aquele inquieto desejo que a tinha impulsionado a partir da selva e subir a bordo
daquele navio com rumo à Inglaterra. Só agora se sentia completa.
Jack a abraçou com ternura, e Eden lhe beijou o ombro uma e outra vez com os olhos
fechados, invadida por uma lânguida preguiça; quando ele notou que seus quadris se relaxavam
um pouco, fez amor com um lento e delicioso erotismo. Cada investida de sua pélvis a fazia
sentir-se mais viva; ela empurrava os seios contra seu torso. Jack lhe acariciou a testa com o
nariz, e ela notou sua respiração quente contra a têmpora. Eden desfrutava do calor úmido de
seus corpos enquanto se moviam juntos sinuosamente; conectados, não, unidos em uma
exuberante cópula. Estava tremendo, era incapaz de resistir a ele; rendia homenagem em corpo
e alma a seu deus moreno.
Levantou a cabeça do travesseiro e o beijou, acariciando com os dedos sua mandíbula
quadrada e áspera. Ele grunhiu em voz baixa enquanto a beijava; o ritmo de sua dança
elementar foi ganhando velocidade à medida que davam rédea solta aos seus instintos
primários. O suor e o cheiro de Jack a impregnavam por completo; ela o tinha manchado com
seu sangue.

179
Eden ouvia o rufo longínquo do pulso dele palpitando ao compasso do seu. Agarrou-o
pelos quadris e introduziu mais seu membro, o que lhe permitiu desfrutar mais dele. Ele cedeu,
recebendo prazer ao mesmo tempo em que o dava.
—Deixe-te levar. Faças isso por mim — ordenou em um sussurro áspero.
Imediatamente ela obedeceu, incapaz de conter-se.
Aferrou-se a seus grandes ombros e soltou um grito de alívio enquanto gemia
sonoramente ao seu ouvido e todo seu corpo ficava rígido. Seus gritos soaram triunfantes,
incontroláveis.
O corpo de Jack se derramou dentro dela, e o trêmulo conduto de Eden recebeu sua
semente, enquanto as orquídeas estalavam como foguetes e os golfinhos rosados saltavam
através da nuvem brilhante em que se converteu sua mente.
Bruxo, guerreiro, mago... a tinha levado ao seu reino dourado sob o mar.
Boto. Quando seduzia, não podia lhe dizer que não.
—Oh, Jack. Seu nome desapareceu nos lábios de Eden até que não restou mais que
um sussurro de fascinação: sua rendição incondicional.

Quando os tremores de êxtase de Eden se atenuaram, Jack se afastou de seu corpo e


se desabou sobre o vale formado entre seus seios. Estava esgotado. Os membros lhe pesavam
como se fossem âncoras.
Fechou os olhos sob aquele persistente êxtase e se dedicou a beijar languidamente o
ventre dela e a esfregar o rosto de um lado a outro sobre sua pele, desfrutando de sua
suavidade e seu delicado aroma.
Ela era diferente. Era extraordinariamente pura. Quando lhe rodeou os ombros
fracamente com os braços e seus delicados dedos tocaram seu rosto, Jack acreditou estar no
céu.
—Oh, Jack, és um cafajeste — sussurrou ela finalmente, abraçando sua cabeça contra
o peito. Parecia esgotada, saciada, muito satisfeita, e aquilo era suficiente recompensa para ele.
—Estás bem? — murmurou.
—Acredito que sim. Não morri — acrescentou ela, a modo de ocorrência.
—Disse-te que sobreviverias.
Jack levou a mão fina dela aos lábios com um sorriso e lhe deu outro beijo na palma.
Assim que lhe soltou a mão, esta caiu sem força sobre o colchão, como se Eden estivesse muito
fraca depois do esforço para aguentar seu próprio peso.
Ele riu. Apoiou-se no cotovelo e a observou, maravilhando-se uma e outra vez de sua
beleza; adorando-a, para falar a verdade. Ele estava convencido de que ela tinha ficado satisfeita
com sua atuação, apesar de nunca ter deflorado uma virgem em sua vida.
Inclinou a cabeça e beijou a delicada fenda que ela tinha na base da garganta; ao
fechar os olhos o invadiu uma repentina onda de devoção possessiva.

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—Eden — sussurrou, e sua respiração esquentou a pele de sua dama ao lhe fazer uma
promessa solene. —Sempre cuidarei de ti. Sempre estarei quando necessitares de mim. Serei
bom contigo... se me aceitares.
Ela o afastou pelos ombros, o suficiente para poder olhá-lo nos olhos. Os dela estavam
muito abertos de assombro e incerteza, como se não estivesse segura de ter ouvido bem.
Jack a olhou quase com ferocidade, pois queria lhe fazer entender que não aceitaria
um não por resposta.
—Case-se comigo — lhe ordenou.
Um sorriso deslumbrante se desenhou no rosto de Eden; seus olhos esmeraldas
irradiavam alegria. Deitada ainda debaixo dele, levou a mão à testa e lhe dedicou uma graciosa
saudação.
—Sim, capitão.
Ele riu, enquanto seu coração se inundava de alívio, e em seguida lhe apagou o sorriso
dos lábios dando-lhe um beijo profundo e úmido.

—Não se preocupe Victor, tenho a situação sob controle — assegurou Connor


enquanto examinava os convés da fragata em atitude ameaçadora. Estes homens não lhe farão
mal — acrescentou, olhando bruscamente à acovardada tripulação. —Agora estão sob minhas
ordens.
Os óculos do doutor Farraday se quebraram durante o motim e o tinham deixado
meio cego e indefeso, mas ainda podia ouvir com clareza, por isso estremeceu ao escutar o
golpe seco do crânio do primeiro oficial morto ao cair contra as tábuas.
A seguir ouviu o ruído surdo e áspero dos cadáveres que eram arrastados pelo convés,
e depois quatro chapinhar seguidos, isso quando o capitão bêbado, o cruel primeiro oficial e
outros dois detestáveis oficiais foram jogados sem vida ao mar.
Victor duvidava que houvesse alguém que chorasse suas mortes. "Que Deus nos
ampare".
O fundo de crueldade que se percebia a bordo do navio tinha explodido na escuridão
da noite do dia anterior e tinha provocado sangue e caos. A meia-noite, os conspiradores tinham
assassinado aos oficiais que tanto odiavam; então, Connor ficou à frente dos amotinados.
O sol da manhã permitia ver agora os danos e devolvia um ápice de prudência, mas o
cheiro acre da fumaça das armas continuava flutuando no ar, junto com o cheiro metálico do
sangue e o cheiro rançoso dos numerosos homens sujos que se achavam amontoados. As
narinas de Victor protestaram ao perceber o repugnante fedor. O cheiro de morte, culpa e
medo.
Agora que o malvado capitão e seus comparsas estavam mortos, assim como os
perigosos assassinos que tinham urdido o motim, só mandava um homem a bordo. Victor
entrecerrou os olhos para ver mais claramente, voltou-se e olhou de novo ao seu imponente
ajudante.
Connor se achava perto dele com seus punhos ensanguentados apoiados na cintura e
181
uma expressão sinistra no rosto. Enquanto os pássaros chiavam e revoavam ao redor dos
mastros, cinco corpos mais foram jogados no frio oceano Atlântico: o rude trio que tinha
organizado o motim e outros dois que tinham estorvado.
Connor tinha matado a todos.
É claro, tudo tinha começado em defesa própria.
Sedentos de sangue, os amotinados tinham tentado seguir com sua correria; depois
de matar aos oficiais, tinham ido atrás dos dois hóspedes do capitão: Connor e ele. Victor ainda
estremecia ao recordar o momento em que os três abomináveis homens tinham irrompido em
seu camarote.
Talvez fosse uma sorte que durante todo aquele tempo a escuridão tivera se
apoderado de Connor; com seus sentidos sobrenaturais, parecia que quase tinha esperado o
ataque.
Victor, de sua parte, não o esperava. Enquanto era jogado contra a parede, só
conseguiu vislumbrar o horror que se estava desatando; tratou de ver através das gretas da lente
menos danificada de seus óculos.
Uma imagem fugaz foi suficiente.
Viu como o cabeça tratava de esfaquear Connor com uma adaga e falhava; então
Connor rachou a garganta do homem. Pouco depois, três corpos mutilados jaziam no cômodo, e
Connor partia com seu fuzil carregado nas mãos disposto a restabelecer a ordem no convés. À
luz das chamas giratórias dos faróis do navio, achou os membros da tripulação bêbados e
desorganizados brigando entre si.
Só teve que atirar em dois deles para captar a atenção do resto. Depois daquilo, foi
simples tomar o controle do navio; Victor se alegrava de que Connor o tivesse feito, mas não
podia tirar da cabeça a imagem do marinheiro ferido gravemente.
Há anos que Victor não via que se desatara aquela fúria bestial de Connor: desde
aquele terrível dia na selva, quando o jovem guerreiro indígena tinha perseguido Eden.
Ele procurava não pensar muito nisso.
A violência que presenciou durante o "resgate" de Connor traumatizou a sua filha
quase mais que as insinuações do moço waroa. Aquilo tinha ficado muito ruim.
Depois, Victor submeteu Connor a um duro interrogatório, mas finalmente concedeu a
seu ajudante o benefício da dúvida. Connor jurava que a força que tinha empregado tinha sido
necessária, tendo em conta que o jovem guerreiro tinha um saco com curare mortal pendurado
do cordão de couro que levava ao redor da cintura.
Um simples contato com o veneno mais suave poderia ter paralisado Eden tempo
suficiente para que o indígena tivesse feito com ela o que tivesse vontade; o mais potente
poderia havê-la matado no ato. Connor pediu desculpas se tinha dado a impressão de que se
deixara levar, mas jurou que não toleraria que a garota a que tinha chegado a considerar sua
irmã mais nova sofresse o menor dano. Depois de rogar a Victor que não o despedisse,
prometeu que a violência daquele dia tinha sido um caso isolado, uma aberração insólita, e
jurou por sua honra que não voltaria a produzir-se jamais.
O doutor Farraday, que não desejava expor-se ao que poderia ter ocorrido se Connor

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não tivesse ido em resposta aos gritos de sua filha, acreditou no australiano e, como sua filha
parecia ter superado o incidente, esqueceu o assunto.
Mas na noite anterior, durante o sangrento caos do motim, a besta que aninhava
naquele homem havia retornado, e depois de ter estado reprimida durante tanto tempo, não
mostrava nenhuma vontade de retirar-se outra vez ao seu esconderijo no coração selvagem de
Connor.
Quando o último cadáver caiu ao mar com um chapinhar, fez-se um silêncio
incômodo, mas então um dos marinheiros deu um pequeno passo adiante e se dirigiu ao seu
novo capitão com o tom mais humilde:
—Isto... senhor O'Keefe, aonde... vamos agora?
O australiano abandonou suas reflexões.
—A norte-nordeste.
—Ao norte? — disse de repente outro marinheiro, um sujeito moreno com aspecto de
pirata que levava um brinco de argola dourado e um lenço amarrado ao redor do pescoço. —Por
que não ao sul? — lançou um olhar aos seus companheiros como se esperasse que outros
respaldassem sua proposta. —Nas rotas de navegação das Índias Ocidentais há umas presas
estupendas. Nos faremos ricos!
—Sim! — começaram a dizer alguns deles, antes que Connor estampasse ao homem
que tinha falado contra o pau maior.
Tinha a mão fechada em torno do pescoço do aspirante a pirata. Ao entreabrir os
olhos, Victor distinguiu que mediavam vários centímetros de distância entre os pés do homem e
as tábuas do convés quando Connor o segurou em alto. O marinheiro esperneava; pegou
Connor pelo pulso em vão, fazendo esforços para respirar, enquanto tentava se libertar do
australiano, que o pegava como se fora uma tora.
—Vamos à Inglaterra — ordenou Connor devagar. —São homens ou animais? O
dinheiro não é tudo. Uma vez dito aquilo, soltou ao homem de repente. O marinheiro caiu de
joelhos para frente sobre o convés, respirando com dificuldade e esfregando a garganta
machucada. —E agora, se não houver mais perguntas... — Connor se dirigiu aos outros.
Os homens se acovardaram, mas Victor só podia olhar a seu amigo, horrorizado. Não
reconhecia àquele bruto.
—Não me olhe dessa forma — lhe sussurrou Connor entre dentes. —Pelo menos você
continua vivo. Afastou-se uma vez mais e se dirigiu à amedrontada tripulação gritando com
força: —E agora que já limpamos a porcaria, ponhamos este navio no rumo correto!
—Sim, senhor!
Imediatamente foram ocupar seus postos habituais, como se alegrassem de que pelo
menos alguém tivesse tomado as rédeas. Talvez a brutalidade fosse a única coisa que
entendiam: a lei da selva.
—Não se preocupe Victor — murmurou Connor, contemplando a obediência de seus
novos criados com sinistra satisfação. —Vamos resgatar Eden. Dentro de pouco a acharemos e a
levaremos para casa sã e salva.
"Tu não voltarás a te aproximar de minha filha", pensou Victor, tremendo

183
ligeiramente, enquanto Connor se virava e partia tranquilamente, com o fuzil pendendo de um
de seus largos ombros.

Capítulo 12

Decidiram casar-se no mar assim que o Ventos de fortuna se encontrasse com o


Intrépido, capitaneado pelo tio de Jack, lorde Arthur Knight. Como estavam somente a cem
milhas aproximadamente da costa, o momento não demoraria a chegar.
Enquanto isso, Eden se meteu totalmente na preparação de seu novo papel na vida
como esposa consorte de um poderoso magnata naval. Em realidade, havia muito que aprender
e mais responsabilidade em jogo do que esperava. Jack queria que soubesse como tinha criado
o negócio, como funcionava cada sucursal15, quais eram seus homens mais leais em cada seção,
de onde procediam os benefícios e como se investiam e, sobretudo, onde podia achar as contas
secretas "se por acaso algum dia lhe acontecesse algo".
Ela não gostava como soava aquela frase.
No dia anterior lhe tinha contado a grandes traços o pretexto com o qual explicaria
sua volta à Inglaterra depois de vinte anos de exílio. Pelo que ao mundo respeitava, Jack só ia a
Londres a fim de comprar parte do negócio de um competidor que tinha estado dando
problemas aos seus agentes em vários territórios.
Hoje foram repassar os preparativos necessários para transportar centenas de
mercenários a América do Sul. Os amplos espaços do convés inferior e o convés de canhões, que
agora estavam cheios de madeira, açúcar e outros artigos das Índias Ocidentais, converter-se-

15
Filial de uma empresa.

184
iam na viagem de volta nas dependências de seus briguentos recrutas. Os soldados iriam
necessitar de comida, água, provisões, uniformes, botas, armas e outros equipamentos que
incluíam desde cantis a esteiras.
Sem deixar de segui-lo a passo rápido enquanto percorria um dos amplos espaços que
iriam transformar em um refeitório para os soldados, Eden anotava as coisas que devia recordar
e se apressava para manter o ritmo do resto de membros da equipe de seu chefe: o tenente
Trahern, o já recuperado Peter Stockwell e o comissário, que se encarregava de todos os
fornecimentos de bordo.
Enquanto os homens discutiam os possíveis problemas, que compreendiam da
ventilação à disciplina, Eden se achou meditando a respeito da facilidade com a qual tinha
assumido o papel de assistente graças aos anos que tinha passado ajudando ao seu pai em seu
trabalho. Mas ao pensar em seu pai sentiu intenso remorso.
Seu pai tinha contado com ela em sua busca de conhecimentos, e agora ela tinha
passado a ajudar Jack. Naturalmente, uma pessoa não podia viver para seus pais, – sobretudo
para um pai que insistia em isolar-se na selva – mas mesmo assim, não podia evitar sentir-se um
pouco traidora por havê-lo abandonado. Não sabia o que lhe diria ele quando se vissem... se é
que lhe dirigiria a palavra!
Rezava para que seguisse amando-a, mas sabia que no mínimo estaria furioso. Não só
escapara sem mais, mas também na próxima vez que se encontrassem ela estaria casada com
um homem indubitavelmente controvertido, sem lhe ter pedido nem sua bênção nem sua
permissão. A maioria dos pais certamente tomaria como um cruel desprezo.
E as bodas...
Fechou os olhos e se acovardou ao pensar que se casaria sem que seu pai estivesse
presente no casamento. Como gostaria de adiar a cerimônia até que os encontrasse, mas sabia
que não era realista.
Quando o tinha comentado sem muito entusiasmo a Jack, ele tinha insistido em que
se casassem sem demora. Havia dito que entendia que a ausência de seu pai lhe partisse o
coração, mas que havia questões práticas que afetavam a ela.
Tinha-lhe explicado que depois dela lhe ter dado sua inocência, Eden estava exposta
agora à desonra até que conseguisse a proteção legal do nome de Jack. Embora o respeito filial a
impulsionasse a querer conseguir a bênção de seu pai antes que seu matrimônio fosse um fait
accompli, sabia que Jack tinha razão.
Podiam passar meses até que seu pai os alcançasse. Enquanto isso, já tinham se feito
amantes, e podiam conceber um filho a qualquer momento. Um bebê nascido antes de nove
meses depois das bodas seria considerado fruto da indecência, nascido no pecado.
Depois de ter sido tratado com crueldade pela alta sociedade durante toda sua vida
devido a sua escandalosa origem, Jack se negava que seu filho viesse ao mundo manchado o
mínimo que fosse pela desonra. Em sua opinião, não só tinha que protegê-la, mas também a seu
primogênito.
Eden não podia discutir aquele argumento, nem o desejava. Queria casar-se com Jack;
não queria esperar. Teria gostado que seu pai tivesse podido assistir, mas aparentemente aquele
era o preço por ter sucumbido à paixão. Mesmo assim, inclusive a custa de um preço tão alto,
não se arrependia de sua decisão.

185
Pelo menos ainda.
De fato, tinha muitos motivos pelos quais estar nervosa. Embora conseguisse afastar
de sua cabeça o medo da reação de seu pai, continuava sentindo uma profunda insegurança a
respeito do que lhe proporcionaria o futuro. Entregara-se ao terror das Índias Ocidentais com
um apaixonado desenfreio e tinha aceitado casar-se com ele sem nenhuma garantia de que
fosse conseguir a vida normal e estável que perseguia quando decidiu viajar de clandestina em
seu navio.
Seriam nômades que viajariam a bordo de seu navio, sem raízes, deslocando-se de
porto em porto? Ou ela se converteria na mulher de um marinheiro, abandonada em casa e
ocupada em criar seus filhos sozinha enquanto seu marido estava no outro extremo do mundo?
Quando pensava muito nisso o pânico se apoderava dela, de modo que deixava a um
lado seus temores à força de vontade. No momento, seguia guiando-se pela fé. Que outra coisa
podia fazer? Ainda não tinha respostas. Havia dado conta de que o destino de uma nação
dependia de Jack, sua perigosa missão devia ter prioridade.
Uma vez que ele tivesse completado a promessa que tinha feito aos líderes da
revolução e tivesse retornado são e salvo, os dois poderiam decidir como e onde iriam viver e
criar sua família.
Em caso, claro está, de que sobrevivesse à missão.
Depois de livrar-se do desespero que a ameaçava, percebeu que Jack e o senhor
Trahern estavam discutindo a respeito da melhor solução para conseguir mais ar no convés
inferior.
—Maldição, deixe de me questionar e faça o que te disse! — gritou-lhe Jack.
Seu leal tenente murmurou uma irada resposta afirmativa e partiu furioso enquanto o
capitão despachava aos outros homens.
Eden ficou ali, olhando-o atentamente. Apoiou-se no divisória do escuro e estreito
corredor e lhe fez um gesto com a cabeça um momento mais tarde.
—Por que és tão duro com o Trahern? — perguntou uma vez que os outros se foram.
—Por que não ia ser? Lhe pago generosamente.
—Jack — o repreendeu ela, em resposta a sua direta resposta.
—Vamos, quero examinar algumas coisas mais.
—Não entendo por que não podes tratá-lo com um pouco mais de amabilidade —
comentou enquanto o seguia pelo corredor. —E o mesmo é aplicável ao senhor Brody. Esse
velho é tão duro com o pobre tenente como tu.
—O único motivo pelo qual somos duros com ele é porque queremos que triunfe na
vida — disse Jack em tom razoável, enquanto lhe abria a porta de um dos armazéns. —Trahern é
bom, muito bom, mas saiu do nada, e isso significa que tem que ser o dobro de bom que alguém
de origem mais elevada se quiser que os homens lhe obedeçam.
—Pois não me parece justo.
—Não, não o é — assentiu ele. —Mas assim são as coisas. Para que o rapaz dê o
melhor de si tenho que lhe impor uns requisitos elevados.

186
—Que requisitos?
—Os mesmos que imponho a mim mesmo. Para te ser franco, estou lhe fazendo um
favor. Se ele não tivesse potencial, eu não teria o trabalho. Anote isto, sim? Ter que trocar estas
tábuas. Recorde-me que o diga aos carpinteiros.
Eden tomou nota disso e a seguir o seguiu outra vez ao estreito corredor iluminado
com lanternas.
—Jack.
—Sim? — ele parecia distraído e se deteve ao inspecionar a estopa com que estavam
calafetados os espaços entre as tábuas.
—Eu estive pensando em uma coisa.
—Do que se trata?
—Lady Maura.
Ele parou, ficou muito quieto e lhe lançou um olhar de inquietação por cima do
ombro.
—Sabes quem é ela?
—Papai me disse que era amiga de minha tia Cecily... e que tu querias te casar com
ela, mas que seus pais não lhe permitiram isso.
Jack se voltou para ela devagar, e as feições lisas e os ângulos marcados de seu rosto
ficaram em tensão.
—É isso verdade? — perguntou ela.
—Foi há muito tempo.
—Sim, mas se esteve a ponto de te casares com ela e agora vais te casar comigo, pelo
menos eu gostaria de saber algo dessa mulher. Deve ter sido muito importante para ti.
Por um momento, Jack pareceu duvidar se respondia ou não. Atrás dele, a certa
distância no estreito corredor, um raio de luz penetrou por uma das escotilhas quadradas e
fendeu a escuridão.
—Como era ela? — perguntou Eden, sorrindo.
—Morena. Olhos escuros. Ele deu de ombros. —Eu tinha tomado certo carinho por
ela, mas seus pais tinham os olhos postos em meu irmão mais velho.
—Ah, Robert. O duque? Papai disse que lady Maura era a filha de um marquês.
Ele assentiu com receio.
—O marquês de Griffith. Sua propriedade limita-se com as terras dos Hawkscliffe no
norte, assim queriam uma aliança entre as duas famílias. Se eu tivesse sido um filho legítimo da
antiga linhagem dos Hawkscliffe, talvez tivessem considerado o pedido de um segundo filho. Por
desgraça, minha condição de bastardo era um segredo a vozes, de modo que todo afeto entre
Maura e eu foi, digamos, rechaçado.
Ela franziu o cenho, observando-o.
—Como é que era um segredo a vozes? Quero dizer, como o descobriram?

187
—Valha-me Deus — disse ele em voz calma, baixando a vista ao mesmo tempo em
que punha os braços na cintura. —Suponho que vou ter que te contar todos os segredos de
família.
Ela arqueou uma sobrancelha em atitude interrogativa.
Ele lançou um profundo suspiro e se apoiou na divisória.
—Por onde começar...?
Eden se apoiou em frente a ele no estreito corredor, intrigada. O navio rangia
ritmicamente ao redor deles nos convés inferiores.
Jack ficou olhando-a longamente.
—Minha mãe se chamava Georgiana Knight, duquesa de Hawkscliffe. Quando era uma
jovem esposa, mãe de um filho (Robert, chamado assim por seu pai), descobriu que seu marido
tinha uma amante escondida em um pitoresco ninho de amor nos subúrbios de Londres, e
ficou... furiosa. Bom, não há maior perigo que o de uma mulher despeitada, assim Georgiana se
propôs dar ao duque uma lição que nunca esqueceria.
Eden escutava com os olhos muito abertos.
—Decidiu pôr chifres nele publicamente. Optou de propósito por um homem de
condição inferior. Se tivesse escolhido a outro nobre, teria sido necessário travar um duelo para
proteger a honra. Ignoro o que sabes a respeito dos duelos, mas os homens não se batem em
duelo contra aqueles que são socialmente inferiores a eles. Evidentemente, minha mãe não
queria que matassem ao duque. Queria que meu irmão Robert crescesse tendo um pai vivo.
Outro problema ao qual teve que enfrentar foi achar a um homem com a coragem para deitar-se
com a mulher de alguém tão poderoso como o duque de Hawkscliffe. Ela era muito formosa,
mas seu marido era amigo íntimo do rei. Encontrou ao espécime perfeito no campeão de boxe
Sam O'Shay. O Triturador de Killarney — disse ironicamente. —Meu querido pai.
—Oh — exclamou Eden, movendo silenciosamente os lábios.
—Supunha-se que eu não teria que ter sido concebido — explicou. —Fui um acidente.
Um terrível acidente. Um deslize vivente e gritante com quatro quilos e duzentos gramas de
peso.
—Meu Deus.
—Hawkscliffe me reconheceu como seu filho para tratar de salvar as aparências, mas
os fofoqueiros sabiam a verdade. O engraçado é que não fui o último deslize de minha mãe.
Ela arregalou os olhos.
—Em lugar de dar uma lição a seu marido, seu adultério destruiu seu matrimônio. Sua
convivência educada se transformou em ódio, e o ódio se transformou com o tempo em apatia.
Naquele momento, minha mãe voltou a unir-se com o homem com o qual deveria ter se casado,
lorde Carnarthen. Mas então já não havia risco de duelo porque Hawkscliffe não se importava
nada com o que ela fazia e com quem, sempre que fosse discreta. Pelo menos dessa vez minha
mãe escolheu um homem de quem ninguém podia envergonhar-se. Lorde Carnarthen foi o pai
dos gêmeos, Damien e Lucien.
Eden ficou boquiaberta.
—Céu santo!
188
—Pessoalmente, acredito que ela queria ter um filho com ele por amor. Mas
chegaram dois de um só golpe. Ouvi que ele ficou muito contente quando nasceram os gêmeos,
os dois fortes e sadios. Mas não se casaram, sabe? Ele a amava muito. Deixou que seu título se
extinguisse e preferiu morrer sem ter descendência legítima antes de casar-se com outra
mulher. Para proteger seus filhos, Carnarthen convenceu Hawkscliffe que reconhecesse aos
gêmeos como tinha feito comigo. Uma grande família feliz — disse com certa amargura em sua
voz grave.
Ele fez uma pausa, pensativo, com suas sobrancelhas morenas franzidas e os braços
cruzados sobre o peito.
—Pelo menos a elevada posição de Carnarthen ajudou a garantir a aceitação dos
gêmeos. Diferentemente de mim, eles se esforçaram para agradar Hawkscliffe. Naquela época,
todos continuávamos acreditando que o duque era nosso pai e que, por razões desconhecidas,
tinha-nos antipatia. Estava claro que não queria saber nada de nós. Robert era tudo para ele.
Pelo menos, os gêmeos tinham um ao outro.
—Tens outro irmão. Alec?
—Ah, sim. Minha mãe e lorde Carnarthen tiveram uma discussão.
Eden fez uma careta.
—Esse homem deixou que sua linhagem desaparecesse por ela, mas ao final minha
mãe nem sequer soube lhe ser fiel. Acredito que ele tinha algo a ver com o Ministério da
Marinha e frequentemente ia em missão, às vezes durante um ano. Ela queria que o deixasse,
mas ele se negou. O caso é que voltou a ir ao mar. Não sei se ela estava ressentida ou se
realmente se sentia sozinha, mas decidiu distrair-se com sir Phillip Preston-Lawrence, um ator
em alta que lhe chamou a atenção no cenário do teatro Drury Lane com sua interpretação de
Hamlet. Assim é como nasceu meu irmão mais novo, e o pobre Carnarthen levou um bom susto
quando voltou para casa.
—Acredito que necessito de uma bebida — disse Eden.
Jack lhe dedicou um sorriso preguiçoso.
—Um pouco de rum para a mulher pirata?
Ela se limitou a olhá-lo.
—E Jacinda?
—Acreditará em mim se te digo que também é filha do duque?
Eden assimilou aquele dado, fascinada.
—Eles... se reconciliaram?
Ele assentiu com a cabeça.
—A saúde de Hawkscliffe começou a piorar. Uma enfermidade do coração o tinha
debilitado. Mandaram-no ao campo, para Hawkscliffe Hall, para que se recuperasse, e Georgiana
correu para seu lado como uma verdadeira esposa abnegada para cuidar dele. No final
conseguiram formar um verdadeiro matrimônio... justo antes que ele morresse. Jacinda foi o
presente de despedida que deu a minha mãe: sua única filha. Assim ela, como Robert, é filha de
sangue, mas depois de todas as aventuras de minha mãe, podes imaginar o que a sociedade
esperava dela.
189
—Hum. Então, esse foi o motivo pelo qual não deixaram que lady Maura se casasse
contigo?
—Sim. Seus pais teriam aceitado Robert, mas o filho do boxeador era algo impensável
para eles. Fez uma pausa em atitude pensativa. —Os filhos ilegítimos não têm uma vida fácil,
sabe? Inclusive Shakespeare converte aos bastardos em vilãos em várias de suas obras.
Ela sorriu docemente.
—Se lady Maura cresceu na propriedade ao lado da sua, deviam se conhecer desde
crianças.
Ele assentiu com a cabeça.
—Sim. Seu irmão mais velho, Ian, estava sempre em nossa casa. Ele e Robert sempre
foram muito amigos. Eles dois eram mais irmãos do que Hawk e eu o fomos jamais. Soube que
ainda o são. E aliados políticos. É claro, agora ambos têm título. Robert é o duque de
Hawkscliffe, e Ian é o marquês de Griffith. Em determinado momento pensaram unir às famílias
fazendo com que Jacinda se casasse com Ian, mas não estava escrito que fosse assim.
—Entendo — murmurou Eden, recordando os elogios que lady Jacinda dedicava a seu
querido "Billy" em suas cartas. Depois de um silêncio pensativo, disse corajosamente: —Amava a
lady Maura?
—Eu achava que sim — disse ele com um sorriso débil. —Mas visto com a perspectiva
do tempo, simplesmente estava agradecido por que alguém me notasse.
Ela o olhou com uma compaixão cheia de ternura.
—Ela o amava?
—É claro que não. Então eu achava que sim, mas não demorei a descobrir que
simplesmente desfrutava de minha atenção e que na realidade estava praticando seus dotes de
sedução comigo antes de sua apresentação na sociedade. Quando seus pais manifestaram suas
aspirações de casá-la com um homem com título e lhe ordenaram que deixasse de me ver, jurei
que não nos separariam (o amor verdadeiro e tudo isso) e comecei a planejar nossa fuga para
que pudéssemos estar juntos.
—Fuga? — exclamou Eden.
—Por favor, tenha em conta que tinha dezessete anos e era um idiota. Jack tirou um
charuto, mas não o acendeu. —Éramos muito jovens para contrair matrimônio legalmente na
Inglaterra, mas a Escócia estava a poucos quilômetros do outro lado da fronteira. Deu de
ombros. —Preparei tudo e fui procurá-la, mas ela se negou a vir. Agora não a culpo, mas quando
seus protestos deixaram claros seus verdadeiros sentimentos por mim, tive vontade de matar a
nós dois. A fuga teria sido um escândalo, e ela não tinha intenção de que a marginalizassem da
sociedade por minha culpa.
—Pobre Jack — murmurou ela docemente.
Ele riu resmungando.
—Jurei-lhe que a protegeria com minha vida e que a manteria o melhor que pudesse,
mas ela não se deixou convencer. Ela queria a posição que dá um bom título e a segurança de
uma fortuna, tudo no ato. E não demorou a consegui-lo — acrescentou. —Três meses depois de
me deixar plantado, casou-se com um marquês que lhe dobrava a idade.

190
—Que coisa.
—Sim. Para mim essa foi à gota que encheu o copo. Sacudi o pó da Inglaterra dos
sapatos e parti jurando que não voltaria nunca. Mas as necessidades dos rebeldes pesam mais
que o juramento furioso de um Romeu abandonado — disse sardonicamente. —Sentido prático,
querida.
Eden ficou calada um longo tempo, meditando a respeito de tudo o que ele lhe tinha
contado.
—Suponho que será embaraçoso se virmos lady Maura quando chegarmos a Londres.
—Para mim, não.
—Achas que alguma vez ela se arrependeu de sua decisão?
—Duvido. Conseguiu o que queria. Agora é lady Avonworth, uma marquesa, embora
não tenha filhos, o que me parece muito estranho.
De qualquer forma, converteu-se na principal anfitriã da sociedade. Por outra parte,
agora eu tenho mais meios econômicos que seu marquês, o que me proporciona certa
satisfação, reconheço-o.
—Suponho que isso não é casual.
—Não, não o é — reconheceu em voz baixa, e fez uma pausa. —Jurei a mim mesmo
que ela ia se inteirar. Que todos iriam se inteirar. Baixou as pestanas, ocultando à ira enterrada
no profundo de seus olhos. —Todos diziam que eu não seria nada na vida.
—A que te referias quando disseste que te tinhas convertido no mau da família? Como
ocorreu isso?
Jack suspirou.
Um de seus homens percorria o corredor a toda pressa para dar um recado. Eden e
Jack se aproximaram de suas respectivas paredes para deixar passagem ao marinheiro, que se
desculpou ao passar.
Eden contemplou de novo ao seu noivo lançando-lhe um olhar inquisitivo.
—Jacinda ainda não tinha nascido, assim além de Robert, todos éramos filhos
ilegítimos — disse ele em voz baixa, uma vez que o marinheiro desapareceu após dobrar a
esquina. —Não soubemos até que fomos à escola e nos inteiramos por nossos companheiros de
classe.
—Oh, Jack — sussurrou ela.
Ele pigarreou com desconforto.
—Quando éramos pequenos e ainda estávamos em casa, me meteu na cabeça que
tinha que conseguir que o duque começasse a tratar aos outros como um verdadeiro pai. Estava
acostumado a que me desprezasse e sabia que havia poucas possibilidades nesse sentido, mas
me punha muito furioso pela forma como tratava aos menores. Fazia muito tempo que tinha
chegado à conclusão de que eu merecia o tratamento que recebia, mas Damien não o merecia
de modo algum. Damien se esforçava muito para agradar a nosso suposto pai, mas era em vão.
Qualquer outro homem teria se ajoelhado e teria dado graças a Deus por ter filho como Damien,
mas apesar de seus esforços, aquele homem não o fazia caso. Lucien parecia mais prudente.

191
Alec só tinha três anos e sempre estava agarrado a nossa mãe; era seu favorito. Sempre foi o
favorito das mulheres, — acrescentou ironicamente — mas um dia me fartei de que o duque de
Hawkscliffe nos fizesse sentir desconfortáveis em nossa própria casa. Assim tivemos uma
pequena rixa.
—De verdade?
—Sim. Ele resmungou. —Eu achava que estava defendendo meus irmãos, mas Damien
gritou comigo para que deixasse de dar problemas, que só estava piorando as coisas para todos.
Por algum motivo, como sempre, tudo era minha culpa.
Ela murmurou umas palavras de compaixão.
—Mas meus esforços deram certo resultado, porque comparados comigo, que tinha
gritado ao duque na cara e tinha enfrentado a ele daquela forma, os outros pareciam anjos. No
final, Hawkscliffe compreendeu que todos aqueles meninos que tinha sob seu teto achavam que
ele era seu pai. Teria que ter sido de pedra para não moderar um pouco sua conduta, sobretudo
com Damien. Por fim se deu conta de que aquele rapaz era um herói nato que esperava
qualquer sinal de reconhecimento que lhe indicasse o caminho a seguir.
—Parece que admiras muito a teu irmão.
—É um herói de guerra, Eden. Todo o país o admira. Antes de morrer, Carnarthen se
reuniu com um amigo da Câmara dos Lordes para lhe pedir que concedessem um título a
Damien, já que era o filho primogênito de Carnarthen, e seu próprio título ia desaparecer.
Nomearam Damien conde de Winterley, aparentemente em recompensa por seu valor na
guerra.
—E Lucien?
—Carnarthen lhe deixou uma propriedade enorme. Os dois se deram muito bem com
seu verdadeiro pai — disse alongando as palavras. —A única coisa que eu consegui foi um velho
troféu de boxe.
—Vi-o — murmurou ela, movendo a cabeça em resposta ao seu cínico sorriso. —
Chegou a conhecer teu pai?
—Sim. Depois de Maura me arrancar o coração, fui à Irlanda furioso para localizá-lo.
Achava que pelo menos ele me aceitaria. Isso demonstra quão ingênuo pode ser um garoto.
Lançou um suspiro de cansaço. —Quando eu tinha dezessete anos, Sam O'Shay se retirara do
boxe. Como já disse, tinha voltado para a Irlanda, sua terra natal. Lá se casou com uma garota do
lugar famosa por seu gênio e sua língua afiada. O Triturador de Killarney tinha plantado raízes,
era pai de uma numerosa prole e se converteu mais ou menos em um homem frouxo
respeitável. Quando me apresentei na porta de sua casa, o filho bastardo que tinha gerado em
um encontro com uma famosa duquesa inglesa, pediu-me que fora dar um passeio com ele e
então me explicou que tinha que partir. Pelo visto sua mulher não estava a par da indiscrição
que tinha cometido e, como ele disse, teria causado a seus verdadeiros filhos e filhas uma
considerável ansiedade e vergonha.
—Meu Deus, Jack.
—Convidou-me para ficar para jantar desde que não dissesse quem era. Assim depois
da comida e de uma taça de porto de cortesia, junto com um montão de mentiras para explicar
minha visita, agradeci aos O'Shay pelo jantar e me despedi deles. Depois fui a uma taverna do

192
porto e me embebedei como um gambá.
—Oh, querido — murmurou ela em tom compassivo.
—Mas ainda não ouviste o melhor — reprovou ele. —Na taverna me pus um pouco
agressivo. Com cada copo que bebia tinha mais vontade de brigar. De tal pau tal lasca. Depois de
uns copos a mais, o dono me expulsou e, olhe por onde, acabei nas garras da patrulha de
recrutamento.
—A patrulha de recrutamento! — gritou ela. —Jack, te embarcaram?
—Sim — disse ele, rindo entre dentes.
—Mas como aristocrata...
—Eu estava bêbado. Não acreditaram em mim quando disse que era filho do duque
de Hawkscliffe. É irônico, não te parece?
—Então, o que fizeste? — gritou ela.
—Não podia fazer nada. Levaram-me e me recrutaram para a marinha.
—Céu santo. Que tal foi para ti?
—Oh, quase tão bem como em minha breve estadia em Oxford, querida. Durante
aproximadamente um mês, resisti tudo o que pude. Empenhei-me em desobedecer todas as
ordens que me davam. No final, cansei-me de que me açoitassem, me atassem aos amantilhos e
me metessem no calabouço, assim deixei de resistir. Aprendi a trabalhar e a navegar. Deslizou a
mão afetuosamente pelas sólidas tábuas de carvalho do navio e se apoiou na divisória. —
Suponho que isso me salvou a vida.
Eden o observou com um olhar terno.
—Sinto tudo o que passaste Jack.
—Não o sintas — disse ele com um sorriso irônico. —Topar com a patrulha de
recrutamento foi o melhor que me passou na vida. Se o sol e o mar não podem curar a um
homem, nada pode curá-lo.
—E o que aconteceu depois?
—Quando se esclareceu a questão de minha identidade e viram que lhes tinha
contado a verdade sobre meus parentes nobres, pediram-me mil desculpas. Uma vez que vi que
se fazia justiça a mim, decidi me alistar de novo por outros dois anos. Sua excelência o duque de
Hawkscliffe, que estava bastante arrependido e doente, ofereceu-se para comprar uma
importante nomeação, mas me neguei. Não queria receber favores dele.
Ela o examinou tratando de imaginar-se Jack durante todos aqueles anos, jovem, só,
doído e zangado com o mundo.
—Foi muito duro contigo, não foi? — perguntou com suavidade.
—Comportava-se melhor com seus cães de caça.
—Muita gente falhou contigo.
Ele não disse nada.
—Me alegro de que me tenhas contado isso, mas tudo isso terá que ficar para trás,
meu amor. Eden se afastou da parede em que estava apoiada e atravessou a pequena distância
193
que os separava. —Agora me tens… — deslizou os braços ao redor do pescoço de Jack e lhe deu
um beijo na face. —E vou dar todo o amor que possas aguentar.
—És um verdadeiro encanto — sussurrou ele, posando as mãos em sua cintura.
Eden ficou nas pontas dos pés e lhe deu um beijo para lhe oferecer consolo.
Jack baixou a cabeça, encantado de aceitá-lo. Apertou a mão contra a região lombar
das costas dela, exercendo uma pressão firme, mas suave, e a atraiu para si.
Quando o corpo de Eden ficou ao mesmo nível que o de Jack — peito contra peito,
ventre contra ventre, com o calor embriagador das virilhas dele perfeitamente encaixadas nas
dela — reagiram de forma simultânea.
O desejo floresceu entre eles na tênue penumbra do navio, como uma flor noturna da
selva.
A ternura da boca de Jack sobre a dela se intensificou. Eden deixou escapar um suspiro
voluptuoso enquanto se movia com impaciência entre suas pernas. Ele massageou-lhe os
ombros por um momento e logo tomou sua cabeça com as duas mãos; introduziu os dedos em
seu bonito coque e a despenteou com descuido. Ela não se importou.
Aferrando-se a ele, Eden deslizou as mãos por seu cabelo e lhe pegou uma mecha com
delicadeza para fazer com que se aproximasse mais. Ele afastou as pernas e deslizou as costas
pela parede de tábuas de madeira vários centímetros.
—Venha aqui — lhe ordenou em um sussurro rouco, enquanto a atraía ainda mais
para si.
Eden colocou uma perna por cima da coxa inclinada de Jack, fazendo com que os dois
corpos encaixassem melhor na área onde lhe teria gostado de tê-lo dentro.
Ele pegou sua coxa através da saia enquanto continuava beijando-a com crescente
paixão. A ela lhe acelerou o coração, mas o movimento sutil dos quadris de Jack era um convite
que seu corpo não podia resistir. Começou a mover-se com ele em uma escandalosa simulação
do ato sexual, mas Jack estava cada vez mais decidido.
Enquanto ele lhe mordiscava o lábio inferior em atitude sedutora e provocadora, lhe
afrouxou a blusa apertada e deslizou a mão por dentro até lhe agarrar um seio. Eden lançou um
gemido quando lhe apertou o mamilo com delicadeza entre o dedo polegar e o coração.
Seu cheiro, suas carícias e seu corpo contra o dela estavam a tornando louca. Não
podia acreditar que tivesse querido procurar um estúpido dândi de cidade com uma jaqueta
elegante quando havia homens como ele no mundo; não muitos, sem dúvida, mas aquele era só
dela. Acariciou-lhe o rosto e o pescoço e deslizou a palma da mão por seu peito lentamente.
Colocou a mão entre seus corpos e procurou seu enorme membro através das calças
negras. Ele soltou um gemido grave de deleite, e quando ela descobriu que tinha uma ereção
sorriu lascivamente.
Eden o beijou de forma agressiva, amoldando a mão à avultada protuberância que
tinha encontrado.
—É melhor parares — sussurrou ele, ofegando.
—Por quê? — perguntou ela inocentemente, enquanto lhe apertava forte.

194
—Deus. Ele fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás contra as pranchas.
Certamente, era um órgão muito intrigante. Eden notava como palpitava em sua mão,
e a mínima atenção que lhe concedia parecia dar muito prazer a Jack.
Ela aproximou os lábios a sua orelha.
—Te lembras do que me fizeste?
—A que te referes? — perguntou ele com um sorriso malicioso, abrindo os olhos com
dificuldade. Ardiam com uma chama azulada.
—Quando me... beijaste. Aqui. Ela lhe pegou a mão e a colocou entre as pernas.
Imediatamente lhe tocou o montículo através da saia.
—Perfeitamente — respondeu ele, enquanto com a ponta do dedo achava seu centro
do prazer com uma pontaria infalível através da saia de musselina e as anáguas de algodão. A
suave carícia fez que Eden se estremecesse de prazer. —Por quê?
—Deixa-me... fazê-lo... a ti? — perguntou ela, ofegando.
Ele abriu muito os olhos.
—Sim! — disse de repente.
Eden sorriu com os olhos brilhantes, mas quando lambeu os lábios impacientemente e
pegou o cinto de sua calça, Jack negou com a cabeça soltando uma gargalhada tênue em tom de
reprimenda.
—Aqui, não, safadinha. Já faremos isso outro dia. Agarrou-a pelos pulsos e lhe colocou
as mãos em seu pescoço, ao mesmo tempo em que a beijava docemente. —Agora quero entrar
em ti.
—Agora Jack? — perguntou ela com voz entrecortada.
—Sim. Levantou-a e a levou nos braços uns metros pelo corredor para afastar-se da
penumbra e situar-se no raio de luz que entrava por cima. —Vamos ter que fazê-lo rápido —
sussurrou enquanto a sentava em um degrau da escada.
Eden pegou o degrau situado atrás de sua cabeça e se recostou, mas não lhe ocorreu
protestar quando lhe levantou a saia e se deteve para tirar as ligas que seguravam suas meias.
—Muito bonitas, senhorita Farraday — comentou Jack enquanto se situava entre suas
pernas.
—Jack.
—Sim?
—E se nos pegam? — ela se estremeceu de prazer ao notar o comichão de suas mãos
por cima do joelho.
—Não nos pegarão. Ahhh — disse ele suspirando, ao mesmo tempo em que subia até
seu sexo molhado.
Eden lhe lançou um olhar sensual, muito excitada para incomodar-se com pudico
rubor quando ele se deu conta de quão preparada estava para recebê-lo. A área entre suas
pernas estava empapada de desejo.
—Possua-me — lhe ordenou em um sussurro.
195
Iluminado pelo único raio de sol dourado que penetrava na penumbra dos convés
inferiores, Jack a olhou fixamente aos olhos e naquele instante pareceu compreender quais
eram os sentimentos de Eden por ele. Sim, desejava-o, mas não era o tipo de garota que agia
unicamente por luxúria, e ele sabia. Ela o pegou pela camisa e o atraiu para si.
—Quero-te, Jack — disse em voz baixa. —Faça-me tua outra vez.
Ele se inclinou para beijá-la e desabotoou a braguilha de suas calças negras. A seguir a
penetrou lançando um gemido.
—Meu Deus, Eden.
Ela o envolveu com as pernas e gozou de cada uma das profundas investidas de seu
maravilhoso membro. Jack devorou sua boca com seus ávidos beijos.
Ouviam-se vozes procedentes de uma dos conveses superiores, mas em lugar de
dissuadi-los, o risco de serem descobertos só avivou seu furtivo desejo, fazendo com que se
apressassem ofegantes e frenéticos.
Quando uma das vozes de cima se aproximou muito, Jack a levantou da escada, com
seu membro introduzido ainda nela. Segurou-a pelas nádegas, enquanto a saia derramava sobre
seus braços, e a levou de novo à escuridão, sem deixar de fazer amor pelo caminho.
Ela se grudou as suas costas com os calcanhares, deslumbrada e aflita por seu
virtuosismo. Agitando seus músculos e flexionando seus enormes bíceps, movia-a acima e
abaixo com facilidade sobre seu escorregadio membro. Sua força física a deixou sem fôlego, e
logo a colocou justo onde queria, com as costas apoiadas na parede.
Eden continuava sem tocar o chão com os pés, de modo que continuou rodeando-o
com as pernas, enquanto lhe pegava as nádegas com as mãos. Seus grunhidos a excitavam; em
pouco tempo estava arqueando as costas enquanto Black-Jack Knight a penetrava a fundo no
convés de canhões inferior com uma selvageria muito deliciosa.
—Shhh, carinho — sussurrou ele, ofegando.
Ele a fez calar-se a beijando com doçura. Ela não se deu conta de quão alto estava
gemendo, mas observou que seu amante tinha começado a suar.
—Oh, Jack, delicioso animal, és incrível.
Ele sorriu modestamente ao ouvir seu gemido e fez uma breve pausa ofegando.
Apoiou a testa na dela, como se estivesse saboreando a experiência. Roçou-lhe o rosto de forma
tão adorável que despertou novamente a ternura de Eden em meio da tormenta de paixão. Ela
lhe cariciou a cabeça e beijou sua face com doçura. Agora sabia o muito que aquele homem
necessitava de seu amor.
Quando Jack voltou a começar, o fez movendo-se muito mais devagar, de forma mais
pausada, em contraste com a selvagem ferocidade de uns momentos antes. Eden ofegou sem
poder conter-se; jogou a cabeça para trás e se entregou a ele, cada vez mais fraca entre seus
braços incrivelmente fortes. Enquanto se retorcia, cada suspiro que brotava dela se convertia em
um soluço desconcertante; a doçura de Jack tinha aberto uma comporta em seu interior e tinha
liberado uma angústia longamente oculta, uma dor tão aguda que se surpreendeu chorando por
razões que não conseguia entender. As palavras soavam absurdas ao sair atropeladamente de
seus lábios, enquanto lhe beijava as lágrimas que caíam por suas faces.

196
—Encontrei-te. Não posso acreditar que te tenha encontrado... Jack.
—Quero-te — sussurrou ele de forma apenas audível, e em seguida se abandonou a
ela com enormes palpitações de pura virilidade.
Beijou-lhe a boca com tremenda ferocidade; mordeu-lhe o ombro através do vestido
ao mesmo tempo em que alcançava o orgasmo, justo para fazê-la saber que era sua. Seu corpo
se sacudiu com tremores.
Eden desabou contra a divisória situada atrás dela, olhando-o fixamente enquanto seu
peito palpitava. Ele retrocedeu dois passos para o outro lado do corredor e se apoiou
pesadamente na parede em frente dela.
Lançou um suspiro entrecortado e passou as mãos lentamente por seu cabelo revolto.
Ela deslizou as mãos por seu ventre de forma sensual, quase imaginando que podia
notar como a potente semente de Jack cobrava vida em seu útero.
Fisicamente consumida, também parecia esgotada emocionalmente enquanto
enxugava os restos daquelas estranhas lágrimas.
—Por que chorei? — sussurrou.
—Porque agora sabes que nunca mais estarás sozinha.
A resposta dele fez brotar novas lágrimas de seus olhos. Talvez seu coração tivesse
recordado todas as vezes que tinha subido às copas mais altas das árvores da selva e tinha
esquadrinhado o horizonte, rezando para que aparecesse alguém a quem amar.
Agora tinha encontrado a ele.
—Tu também nunca mais estarás só.
Ele dedicou-lhe um sorriso com profunda tristeza, como se estivesse fazendo esforços
por acreditar, mas não se sentisse com a coragem suficiente.
"Ta-rá!"
Naquele instante, um som longínquo reverberou no meio do silêncio e chegou até o
Ventos de fortuna por cima das ondas.
Eden voltou à cabeça soltando um gritinho abafado de surpresa enquanto escutava.
—O que foi isso? — teria jurado que era uma corneta de caça. Duas notas intensas e
doces...
"Ta-rá!", soou de novo.
Ao olhar para Jack em atitude interrogativa, os dentes brancos dele emitiram um
brilho ao sorrir enquanto arrumava a camisa apressadamente.
—Navio à vista! — gritaram os homens acima.
"Ta-rá!"
—Que demônios é esse som? — exclamou ao mesmo tempo em que amarrava a blusa
nervosamente e tentava alisar o cabelo despenteado.
—Isso — respondeu ele — é meu tio.
—Navio à vista! — ouviram que Higgins gritava do cesto de vigia. —É o Intrépido,

197
rapazes! Já vem lorde Arthur!
Os homens prorromperam em vivas.
—Navio à vista!

Jack e Eden subiram correndo ao convés para receber seu convidado enquanto se
arrumavam apressadamente depois de seu acalorado encontro. Com a bandeira e a insígnia da
empresa ondeando, a fragata, Intrépido, não demorou em ancorar a escassa distância a
estibordo.
Jack deu a ordem para que o Ventos de fortuna ancorasse também, e a embarcação se
deteve por completo.
Em pouco tempo, uma melíflua voz de barítono chegou através das ondas quando o
nobre e ancião capitão do Intrépido ordenou a sua tripulação que baixassem um dos botes de
seu navio.
Pouco depois cruzaram o mar; o régio indivíduo uniformizado ia de pé no bote salva-
vidas em uma postura majestosa enquanto meia dúzia de seus marinheiros de confiança
remava.
Jack não podia deixar de sorrir. Primeiro, Eden, e agora aquele velho ao qual tanto
amava. Não tinha visto seu tio Arthur há quase sete meses.
Quando o distinto ancião subiu a bordo do Ventos de fortuna, toda a tripulação o
recebeu aclamando-o, pois todo aquele que o conhecia acabava amando-o.
Alto e robusto, com o cabelo grisalho, olhos azul celeste e feições patrícias, lorde
Arthur Knight ainda era um homem atraente em seus sessenta e tantos anos, quase tão moreno
como Jack depois de trinta anos de serviço na Índia.
Arthur era o irmão mais novo do duque de quem Jack acabava de falar a Eden; de fato,
Arthur provocou a ira de seu irmão mais velho quando reprovou Hawkscliffe na forma como
tinha tratado Jack quando criança. Seu tio Arthur era a única pessoa que Jack recordava que o
tivesse apoiado.
Estreitou a mão a seu tio calorosamente, recebeu uma palmada nas costas em troca, e
depois de trocar brevemente os cumprimentos de rigor, acompanhou lorde Arthur à ponte.
Pelo caminho, seu distinto convidado saudou os rostos conhecidos que achou entre a
tripulação, sem esquecer-se, é claro, de Rudy. Lorde Arthur meteu a mão no bolso e tirou uma
bolacha para o cão, que saltava alegremente sobre ele, e a seguir revolveu o cabelo de Guri.
—Ah! Aqui estás, meu valente jovenzinho! Santo Deus, cresceste quase meio metro
desde a última vez que nos vimos! — agachou-se até colocar-se à altura dos olhos do menino e
apoiou as mãos nas coxas. —Vamos ver rapaz, estiveste praticando teus golpes?
—Sim, senhor! — gritou o pequeno Phineas com entusiasmo.
—Mostre-me — lorde Arthur levantou a palma de sua mão esquerda. —Ai!—
exclamou quando o Guri lhe deu um murro na mão aberta com todas suas forças. —Excelente
senhor Moynahan! Bem feito. Caramba, bates tão forte como Gabriel e Derek quando tinham

198
sua idade.
—De verdade, senhor? —o menino cresceu outros dez centímetros ao ouvir o elogio.
—É claro que sim! Mas... ainda não tão forte como Jack quando era como tu. Continue
praticando.
—Sim, senhor!
Lorde Arthur seguiu adiante e saudou Trahern afetuosamente, dedicou uma inclinação
ao velho Brody, fez um gesto com a cabeça a Martin e a Peter Stockwell, e trocou uns
cumprimentos com o senhor Palliser, o cirurgião. Todo mundo sorria ao vê-lo.
Só Trahern suspirou quando descobriu que lorde Arthur não tinha levado Georgie com
ele, mas a Jack pareceu melhor assim, já que teriam sido precisos dez homens como Trahern
para domar àquela harpia.
—A quem temos aqui? — exclamou lorde Arthur com expressão de assombro,
enquanto contemplava à beleza ruiva.
Eden ficou corada, pensando sem dúvida no escarcéu que tinham tido abaixo, embora
seu vestido e seu cabelo tinham um aspecto totalmente recatado.
O contraste entre sua decorosa aparência e sua luxuriosa atitude há escassos
momentos despertaram o interesse de Jack novamente. Inclusive se surpreendeu ligeiramente
do apetite que sentiu por ela.
Quando lorde Arthur lhe lançou um olhar com expectativa, Jack levou a delicada mão
de sua noiva aos lábios e a atraiu para si com um terno cavalheirismo para apresentá-la ao seu
familiar.
—Querido tio, te apresento à senhorita Eden Farraday. Não levarás por acaso um
capelão a bordo?

199
Capítulo 13

Havia um capelão a bordo do Intrépido, e os casou em uma simples cerimônia


oficializada na ponte ao entardecer. Depois, dispararam uma salva de fogo de artilharia para
celebrar, e os homens aclamaram ao capitão Jack e a já lady Jay, como a tinha apelidado o Guri,
agora que seu nome legal tinha passado a ser lady John Knight. Depois se serviu um banquete
em comemoração as suas núpcias, com a mais deliciosa comida que se podia preparar na
cozinha e abundante grog16 para os homens.
Os lampiões brilhavam e as canções tradicionais soavam na noite. Os homens
cantavam baladas e tocavam melodias com um festivo violino, um flautim agudo e um realejo.
Respirava-se um ambiente de alegria, mas Jack sabia que a ocasião estava ligeiramente
manchada de tristeza para sua noiva devido à ausência de seu querido pai.
Lorde Arthur havia sido incumbido de levá-la ante o capelão e entregá-la no lugar de
seu pai. Depois da cerimônia, o tio de Jack a tinha entretido lhe contando divertidas anedotas de
suas aventuras na Índia, assim como diversas histórias das últimas façanhas de seus filhos com a
cavalaria da região.
Ela lhe tinha escutado sorrindo, mas Jack sabia que estava um pouco triste. Quando
terminou o banquete, permitiu que Trahern a acompanhasse para escutar a música e deixou
Jack para que falasse um momento em privado com seu tio.
Ambos se levantaram quando ela partiu, mas voltaram a sentar-se depois na mesa.
Lorde Arthur sorriu para Jack afetuosamente.
16
Bebida quente feita com rum ou outro licor, água, açúcar e limão.

200
—Bem feito, rapaz. É uma criatura encantadora.
Jack sorriu fracamente na direção pela qual ela partira.
—Só de estar com ela me alimenta o espírito — declarou.
Lorde Arthur arqueou uma sobrancelha.
—Quem és tu e o que fizeste com o resmungão do meu sobrinho?
—Oh, me deixe em paz. Um homem deve ter herdeiros, não é verdade? — disse ele
alongando as palavras, enquanto servia outros dois goles para ambos.
—Claro. Isso é tudo o que há entre vós dois?
—É claro. Os olhos de Jack brilharam enquanto se esforçava por aparentar severidade.
—Ela penetrou como clandestina. Que outra coisa ia fazer com ela?
—Bom, pode ser que tente me atirar pela amurada por dizê-lo, mas sei reconhecer a
um homem apaixonado.
Jack deu de ombros, mas não protestou.
—Em minha opinião, será uma magnífica embaixatriz para ti quando voltares e
enfrentares à família. Ah, falando de embaixadores, isso me recorda uma coisa. O amigo de seu
irmão Robert, Ian, o marquês de Griffith...
—Sim? — perguntou ele. Acabava de falar com Eden do irmão mais velho da Maura,
Ian.
—Enviaram-no à Índia para que tente negociar um acordo entre nosso bando e o
Império Maratha17.
—De verdade? — murmurou Jack.
Sabia que Ian tinha adquirido certa experiência no campo da diplomacia, mas a maior
parte de seu trabalho se desenvolvera na Europa, segundo as cartas de Jacinda. No congresso de
Viena, sua contribuição tinha sido decisiva nos bastidores.
—De qualquer forma eu estava na área, ao que parece comprando plantações de chá.
Investimentos suponho. Lembrava-se de mim de anos atrás e disse que estaria encantado de me
fazer uma visita quando chegasse a Bombaim, mas, claro está, não voltei para casa há meses.
Georgie me escreveu contando isso tudo — acrescentou. —Recebi sua carta através de teus
navios.
Jack assentiu com a cabeça. Os navios de sua propriedade que cruzavam os mares
distribuíam as cartas dirigidas a ele e a seus mais chegados, desse modo às mensagens urgentes
viajavam de um extremo a outro do mundo muito mais rápido do que o faziam os das pessoas
que não tinham a sorte de serem proprietárias de uma empresa naval. Era um serviço que sua
formosa prima Georgie não duvidava em utilizar.
—A última coisa que ouvi foi que as coisas estão fervendo entre o exército e a princesa
Maratha — continuou Arthur. —A confiança diminuiu tanto em ambas as partes que estavam
procurando um negociador externo, alguém com quem os dois bandos se sentissem cômodos, e

17
O Império Maratha foi um estado hindul ocalizado geograficamente na actual Índia, que existiu entre 1674 e 1820.

201
lorde Griffith adquiriu uma reputação excelente.
—Certamente.
—Foi pura sorte que um negociador com sua experiência estivesse tão à mão. Será
uma lástima perder sua visita, mas pelo menos Derek e Gabriel se encontrarão com ele na
fronteira.
Jack arqueou uma sobrancelha.
—Georgie não se encontrará com ele também? Se lorde Grifflth tem pensado te fazer
uma visita em seu palácio de Bombaim...
—Estou tentando não pensar nisso — disse lorde Arthur laconicamente — tendo em
conta que não estou lá para me assegurar de que minha filha se comporte como é devido.
Jack resmungou.
—Inclusive no caso de que não se comporte, Ian o fará. Sempre foi muito sério e
honrado, Arthur. Não tens por que te preocupar.
—Tu não entendes. Para Georgie, um sujeito reservado é um desafio para seus dotes
de sedução. Com a maioria dos homens, só tem que sorrir para que se apaixonem por ela.
—Não deverias ter posto o nome de minha mãe nela — lhe disse em tom de mofa,
sorrindo.
—Eu gostava de sua mãe — replicou ele. —E a admirava. Depois da forma heróica
como morreu, alegrei-me de pôr em minha filha seu nome em sua honra.
Jack grunhiu uma resposta e bebeu um gole de licor.
—Em qualquer caso, a carta de Georgie não é o único comunicado que recebi quando
vinha ao seu encontro. Detesto estropiar a celebração, mas… — Arthur vacilou — tenho más
notícias da Venezuela, Jack.
Ele se inclinou para frente.
—Que notícias?
—A guerra começou a sério pouco depois de que tu zarpaste, e lamento dizer que
começou muito mal.
—O que aconteceu?
—Uma derrota terrível em La Porta — murmurou Arthur. —O general Morillo
conseguiu estender uma emboscada aos soldados novatos de infantaria em um desfiladeiro. Foi
um caos. Lorde Arthur meneou a cabeça com gesto de desgosto. —O próprio Bolívar esteve a
ponto de morrer na retirada. Os espanhóis se fizeram com mil e quinhentos mosquetes,
munição, toda a bagagem e as provisões, inclusive as bandeiras.
Jack sussurrou uma maldição.
—Páez, com seus habitantes das planícies, conseguiu proteger ao exército de
infantaria da destruição total, mas em meio da confusão, os espanhóis se apoderaram das coisas
pessoais de Bolívar… inclusive toda sua correspondência. Ao que parece, o saco do correio
continha uma carta de Dom Eduardo Montoya em que confirmava a Bolívar que seu "agente"
tinha sido enviado a Londres para conseguir reforços, conforme o lembrado.

202
—Entendo — murmurou Jack. —Assim agora sabem que estou a caminho.
—Bom, não. Sabem que alguém está a caminho. Na carta não se menciona teu nome,
é claro, mas com certeza os espanhóis avisaram ao governo inglês de que um agente foi enviado
a Londres para recrutar soldados. A Coroa, assim como a embaixada espanhola em Londres,
estará à espreita para averiguar quem é esse "agente".
Jack ficou calado. Cruzou os braços e se recostou lentamente em sua cadeira,
meditando aquela nova informação. Os espanhóis odiavam-no por ter protegido Bolívar anos
atrás na Jamaica, mas não necessitava que seu tio lhe explicasse o que lhe podia ocorrer se
fracassasse em sua missão. Se não conseguissem logo reforços, o que restava do exército de
Bolívar estava condenado; Angostura seria incendiada e arrasada, e os líderes da revolução
seriam fuzilados.
—Não vou permitir que isso ocorra — disse com serenidade.
—Não, já o supunha — respondeu lorde Arthur. —Mas tome cuidado, Jack. É tua vida
que está em jogo. Comentaste teu plano de absorver essa companhia rival de Londres, mas me
parece que agora tens uma cobertura ainda melhor para justificar tua presença na cidade depois
de todos estes anos.
Jack o olhou em atitude interrogativa. Arthur deu de ombros.
—É de todo procedente que leves tua jovem esposa a Inglaterra para que conheça a
família.
Imediatamente, Jack negou com a cabeça.
—Jamais a usaria como escudo de minhas atividades. Quero que ela esteja à margem
de tudo isto.
Seu tio franziu o cenho com expressão de desconcerto.
—E o que vais fazer com ela então?
—Vou deixá-la no castelo da Irlanda — reconheceu em voz baixa.
—Entendo. E lady Jay está a par disso? — perguntou lorde Arthur com receio. —
Porque antes a ouvi falar com teu valete de alguns dos lugares de Londres que está desejando
ver.
Jack lhe sorriu com inquietação.
—Claro. Ainda não lhe disseste.
—Não exatamente.
—Entendo. Bom, avizinha-se a primeira discussão marital.
Jack se inclinou e baixou a voz.
—Certamente, ela não vai gostar, mas terá que fazer o que lhe disser. Agora sou seu
marido. Não resta mais remédio que fazer o que lhe mande.
Lorde Arthur riu de sua afirmação. Jack franziu o cenho.
—O que? Por que estás rindo?
—Por nada. Quando estiveres um mês casado, voltaremos a falar. Mas me diga,
querido rapaz, por que não lhe contou seus planos?
203
Ele se mexeu em sua cadeira com receio.
—Não queria desgostá-la.
—Bobagens! É covardia. Claro que não estranho — acrescentou lorde Arthur ao
mesmo tempo em que se reclinava em sua cadeira novamente. —Preferiria brigar contra a
Armada Invencível a ter que fazê-lo contra uma esposa zangada.
—Eden fará o que lhe disser.
—Está acostumado a fazê-lo?
Jack refletiu durante cinco segundos.
—Não — declarou, e em seguida suspirou. —Maldita seja.
Lorde Arthur riu entre dentes e mexeu o licor em seu copo. Em seus olhos havia um
brilho de malícia.
—Se te parece difícil conseguir que tua mulher obedeça, espera quando tiverem
filhos.
—Não estás sendo de grande ajuda.
—Em minha opinião, ela poderia te ser muito valiosa em Londres. Por que não queres
levá-la?
—Porque é perigoso!
—Para ti, mas não para ela. Absolutamente.
—Por quê?
—O maior perigo são os agentes do governo. Os representantes da lei ingleses e os
espiões espanhóis. Os dois têm obrigações com o império da lei. Desta vez não vais tratar com
valentões e criminosos. Pode ser que os espanhóis não gostem, mas ambos sabemos que, de
acordo com o cavalheirismo espanhol, as mulheres e as crianças são intocáveis. A presença de
Eden ao teu lado te ajudaria a camuflar tuas atividades.
—Já te disse isso: não vou utilizar minha esposa como escudo. Não necessito da
proteção de uma mulher.
—Mas se ela não corre perigo em Londres e te faz feliz, por que não a levas? Doerá-
me vê-los brigados, como temo que vão estar dentro de pouco. Preocupa-te que ela possa ser
indiscreta a respeito de tua missão?
Jack pensou e a seguir negou com a cabeça.
—Não — reconheceu sinceramente. —Às vezes é um pouco ingênua, mas estando
minha vida em perigo, não cometeria nenhum engano grave. É-me muito leal; quase protetora,
a sua maneira — um sorriso reticente se desenhou em seus lábios.
—Entendo. Lorde Arthur franziu o cenho com desconfiança. —Então, sua negativa a
levá-la não tem nada a ver com Maura, não é?
—Não, não.
—Sei que há muito tempo quiseste te vingar dela pelo que te fez.
—Bom, isso agora já não importa.

204
—Então, qual é o problema?
Jack lhe olhou em silêncio. Depois meneou a cabeça com gesto de desgosto.
—Não sei.
—Acredito que sabes. Jack, tens que dar a oportunidade a Eden de demonstrar que se
manterá a teu lado à margem do que as pessoas digam de ti.
—Embora o que digam seja certo? — replicou ele, e em seguida fez uma pausa. —Não
quero perdê-la, Arthur. Acredito que não poderia suportar.
—Pois se a encerras como estás pensando, é possível que o consigas.
—É o melhor.
—Para quem? Para Eden ou para ti?
Jack afastou a vista com impaciência.
—Do que tens medo? — perguntou seu tio em voz calma.
—Queres saber? Está bem! — sussurrou ele raivosamente. —Eden está obcecada com
Londres e a sociedade. E se chegarmos lá e não a aceitam por minha culpa? Não quero que a
machuquem.
—E não queres que veja como envergonharam a ti.
Jack abaixou a cabeça.
—Não. Não quero que o veja. Tão grave é? Perderia o respeito que tem por mim —
com a cabeça encurvada, olhou a Arthur furiosamente. —Não permitirei que a humilhem por
minha culpa.
—Não sei o que te dizer, Jack. Parece-me uma garota muito forte, e não o tipo de
moça que se deixaria intimidar pela sociedade. Além disso, já lhe falaste de teu verdadeiro pai.
—Sim, mas é diferente ver as coisas por nós mesmos.
—Jack, passou muito tempo desde então. Já não és aquele menino furioso e
impotente. Tens uma fortuna. Um imenso poder. Tens vinte anos de experiência as tuas costas.
Utilize-os.
O tom direto de seu tio lhe chamou a atenção bruscamente. Olhou-o com um
interesse cheio de receio.
—A que te referes?
—Se quiseres que a sociedade aceite Eden, faça que aceitem a ti.
—Não o consegui então.
—Não o tentaste. Mandava-os a todos ao inferno, recordas?
—Bom. Jack deu de ombros em atitude irônica, o que era certamente uma forma de
reconhecer sua culpa. —Não sei. Meneou a cabeça cinicamente. —O que querias que fizesse
tio? Acatar as normas? Humilhar-me ante lady Jersey? Pedir abonos para o Almack’s? Jogar nos
clubes? Pelo amor de Deus! Perder as tardes passeando na carruagem pelo parque como um
janota?
—Sim, Jack. Acata as normas. Pode ser que tenhas uma surpresa.

205
—Mas não quero fazê-lo!
—Por quê?
—Não sei, pareceria uma forma de reconhecer minha derrota.
—Como?
—Quando parti deixei bem claro a essa gente que não me importavam nada com as
diversões de suas superficiais vidas.
—Ah, e mudar agora, apesar dos vinte anos que passaram te feriria em teu amor
próprio.
—Exato! Tio... não tens direito a me falar sobre esta questão. Estiveste exilado ainda
mais tempo que eu.
—Sim, conheço o preço de ter muito orgulho melhor que tu, Jack. Só quero que sejas
feliz.
—Eden me faz feliz.
—Então, se for esperto, a farás feliz. Arthur o observou com um sorriso ardiloso. —O
que tu queres não vem ao caso. O que quer Eden? Se a amas, esta será a única pergunta
importante.
Jack ficou calado, olhando fixamente sua taça.
—Verás, é muito simples — murmurou Arthur. —Compra o afeto da sociedade com
teu dinheiro, e oferece-o a tua esposa como presente de casamento.
Jack lançou um suspiro apoiando a face no punho e o olhou com o cenho franzido.

Muitas horas mais tarde, Jack despertou sob a penumbra cinza pérola antes da
alvorada e viu sua preciosa e jovem mulher dormindo de barriga para baixo junto a ele, com seu
cabelo castanho avermelhado sobre a face, o delicado leque de suas longas pestanas docemente
baixado e uma expressão de paz sublime.
O som suave de sua respiração se tornou tão familiar para ele como o arrulho do mar.
Quando sua mente recuperou a consciência, as voluptuosas lembranças da noite
anterior fizeram com que lhe fervesse o sangue.
Sua noite de bodas.
Levantou a cabeça do travesseiro e a olhou fixamente. Ao erguer-se se apoiando nos
cotovelos, um tanto aturdido ainda, ficou aniquilado ao recordar que era um homem casado.
Mas ainda mais surpreendente, e um pouco aterradora, era a ideia de que estava apaixonado.
No dia anterior havia dito isso a ela. Não achava que as palavras sairiam de seus
lábios, mas assim tinha sido.
"Te amo".
Ao olhá-la agora atentamente, a sua pequena lady Jay, soube que eram as palavras
mais sinceras que tinha pronunciado em sua vida.

206
O débil sorriso com o qual a observava estava cheio de ternura. "Assim que isto é a
felicidade". A sensação era muito estranha e nova... e possivelmente também um pouco
perturbadora. Aquele desejo, totalmente estranho para ele, de permanecer com uma mulher
fazia-o sentir-se um pouco desconfortável; dava-lhe medo o muito que ela tinha chegado a
importar a ele. Sua paixão cada vez mais intensa por ela era desmedida; parecia inevitável que
tudo fosse para o espaço a qualquer momento.
O sorriso de Jack desapareceu lentamente. Sabia que seu casamento tinha estado
tingido de tristeza para ela por causa da ausência de Victor, mas o acontecimento também tinha
sido agridoce para ele, sabedor de que dentro de pouco teriam que separar-se.
Seus pensamentos voltaram para a conversa que tinha mantido com seu tio, mas não
ia se deixar convencer. Não gostava de perder Eden de vista, e a ideia de enfrentar uma
separação de seis meses o desconsolava profundamente.
Depois de sua separação, a ele não esperaria mais que um grave perigo e numerosos
riscos.
Ainda não lhe havia dito que ia deixá-la na Irlanda até que tudo acabasse. Tinha medo
de como reagiria ela... e desconcertava-o ter medo. A covardia não era própria dele.
Inquieto, levantou-se e atravessou o camarote nu. Começou a lavar-se absorto em
seus pensamentos, mas ficou perplexo ao ver que seu reflexo no espelho parecia o mesmo que
qualquer outro dia.
Por dentro se sentia um homem diferente. Um homem, pensou seriamente, que
deveria ter pensado duas vezes antes de arriscar tudo por aquela nobre causa.
Quando tinha aceitado a missão o tinha feito com firme determinação; naquele
momento, não tinha uma mulher pela qual preocupar-se, nem a possibilidade de que houvesse
uma criança a caminho. Não tinha amarras nem nada a perder salvo seus bens materiais e,
naturalmente, sua vida, mas aquilo não o tinha preocupado particularmente, tendo em conta
todos os encontros com a morte das quais tinha escapado com antecedência.
Agora tudo era diferente, e tinha que reconhecer que estava começando a vacilar.
Uma parte dele desejava renunciar à missão para poder estar com ela e desfrutar plenamente
do amor de que se viu privado durante toda sua vida. Ninguém o tinha amado antes, não
daquela forma, e simplesmente temia fazer ou dizer algo inadequado que lhe arrebatasse o
amor de Eden. Aquilo era para ele mais valioso que o ouro, mas era tão frágil como uma flor.
Por aquele motivo não podia falar com ela ainda de sua iminente separação, pensava
enquanto se vestia. Embora a culpa o atormentasse por ocultar suas verdadeiras intenções de
Eden, sabia que se contasse tudo mudaria entre eles. Talvez fosse covardia, algo vergonhoso,
mas nunca tinha experimentado um amor como aquele e não suportava a ideia de pô-lo a
perder com a verdade.
Ainda não.
Queria senti-lo, desfrutar dele, empapar-me dele e fazer com que aquele sonho
durasse o máximo possível antes que tivesse que partir... provavelmente para encontrar-se com
a morte.
Enquanto abotoava as mangas da camisa à altura dos pulsos, retornou junto à cama,
onde observou como ela dormia e refletiu a respeito de seu razoável plano de pô-la fora de

207
perigo enquanto ele completava sua missão.
Como se achavam à altura da costa da Irlanda, desembarcariam em poucas horas e
chegariam ao castelo nesse mesmo dia.
Eden deve ter notado que a observava, pois naquele instante pestanejou e começou a
despertar. Enquanto Jack a contemplava e em seu peito surgia um sentimento de proteção feroz
e ao mesmo tempo terno, tomou uma decisão.
Em lugar de limitar-se a acompanhá-la ao castelo e deixá-la lá, podia tomar uns dias
para passá-los com ela naquele lugar enquanto reunia aos homens que pretendia recrutar. Podia
empregar aquele tempo para fortalecer, sim, para cimentar o vínculo existente entre eles antes
que tivesse que zarpar. Além de tudo, não tinha pressa para lhe contar o que na realidade estava
acontecendo. Ou sim?
Tinha certeza de que se apresentaria o momento propício. Era uma notícia dura, mas
ela a tomaria com calma, como sempre fazia. Pelo menos era no que ele queria acreditar.
—Bom dia, marido — o saudou ela em um sussurro.
O lençol deslizou por seu corpo esbelto quando se estirou com felina satisfação.
—Bom dia, esposa — respondeu ele com voz rouca.
Jack apoiou o joelho na beira da cama, inclinou-se devagar e a beijou no vale formado
entre seus seios. Sorriu como um bêbado quando Eden o rodeou com os braços e o atraiu de
novo para a cama com uma risada travessa.

Tinham-no conseguido, pensou Eden pela tarde, enquanto seis homens da tripulação
de Jack a levavam remando até a costa através da névoa que flutuava no ar. Tinham cruzado o
mar bravo e, por fim, ia pôr o pé em terra firme. Não era a Inglaterra — ainda não — e, para
falar a verdade, a vida a bordo do Ventos de fortuna tinha chegado a encantá-la, mas se alegrava
de desembarcar.
Cada remada que afundava ritmicamente nas ondas de cor verde cinzenta aumentava
a distância entre ela e o imponente canhoneiro. Atrás deles, as ávidas gaivotas revoavam ao
redor dos mastros, pedindo esmola com seus chiados. O som do sino do navio e os cânticos da
tripulação enquanto trabalhava despareciam à medida que o ritmo das ondas se ouvia cada vez
mais forte.
Eden se achava sentada no banco baixo do bamboleante bote, agarrada aos lados com
emoção e nervosismo e tremendo de frio. Phineas se apertava contra o baú de Jack, que agora
estava cheio dos vestidos recém confeccionados de Eden e roupa de sobra para Jack. O Guri
também ia desembarcar, já que sua tia Moynahan era a governanta de Jack, mas Eden fazia
ouvidos surdos ao bate-papo impaciente do menino, absorta na contemplação daquela nova
terra.
De um exuberante paraíso tropical e passando pela austera imensidão do mar, tinha
chegado a uma paisagem totalmente desconhecida para ela: uma paisagem onde o ar era fresco
e gélido, onde as grandes ondas açoitavam as inóspitas rochas negras que cobriam a praia. Aqui
e ali, as ondas batiam e encrespavam formando altos e espetaculares penachos de espuma.

208
Além das escarpadas praias cheias de movimento aquático, achavam-se as misteriosas
colinas verdes, esculpidas em forma de curvas suavemente onduladas, com seus vales ainda
mais misteriosos entre elas.
Certamente, o tempo de finais de março não era muito prometedor. A primeira vista
que contemplou da Irlanda era inóspita e nublada, com sua beleza desolada que evocava
tristeza, sangue derramado e um antigo sofrimento. Mas quando o sol apareceu entre as nuvens
densas e amontoadas e perfilou tudo com uma tênue luz dourada, de repente Eden percebeu a
magia daquelas costas. Quase esperava ver sereias dando voltas entre as ondas.
Em frente a ela se sobressaía um sólido cais disposto para recebê-los; Eden recordou
com nostalgia o desconjuntado mole da selva no qual tinha começado sua viagem. Mas se
animou ao vislumbrar a poderosa figura que a aguardava ali, banhada pela súbita e fugaz luz do
sol.
Jack.
Só sua imagem a fez esquentar. Tinha desembarcado horas antes dela para realizar
alguns preparativos enquanto Eden recolhia suas coisas. Queria avisar aos criados de sua
propriedade situada a vários quilômetros terra adentro de que ele e sua nova esposa se dirigiam
para lá.
Também tinha enviado alguns cavaleiros com mensagens dirigidas a alguns amigos: os
oficiais irlandeses com os quais tinha lutado ao comando de Wellington na Espanha. Eden
conhecia seus planos porque se encarregara de copiar cinco vezes a carta de seu marido, em que
solicitava a cada um dos oficiais espalhados pelas diversas regiões da Irlanda que fossem reunir-
se com Jack em segredo.
Tinha explicado a Eden que se os cinco aceitassem participar da missão da América do
Sul, cada um poderia reunir uns cem soldados de infantaria de suas unidades de combate locais.
Embora os regimentos tivessem sido dissolvidos oficialmente no final da guerra, os homens de
quem ele se converteu em companheiro de armas na guerra da Independência espanhola
mantinham contato. Não lhes custaria voltar a reunir um bom número de soldados que
servissem às ordens de Bolívar.
Por fim chegaram ao cais. Higgins amarrou o alongado bote a um poste, e logo Ballast
ajudou Eden a subir a sólida escada. Jack a recebeu com um sorriso, pegou-lhe as mãos e a pôs a
salvo puxando-a. A seguir subiu o Guri. Jack levantou o menino da escada como se não pesasse
mais que um saco de farinha. Por último, os homens subiram o baú ao cais.
Os marinheiros se despediram dela carinhosamente, e ela fez outro tanto. Sabia que
voltaria a vê-los dentro de uns dias, já que quando Jack tivesse concluído sua reunião com os
oficiais irlandeses, voltariam para o navio e seguiriam navegando até a Inglaterra.
Pelo menos, isso pensava ela.
Jack colocou o baú ao ombro enquanto o Guri punha-se a correr diante deles pelo
cais, em direção à carruagem negra com rodas carmesim que aguardava para levá-los à
propriedade. Um cocheiro ancião e corpulento bebeu rapidamente um gole de seu cantil antes
de descer de um salto do assento do condutor para inclinar-se e abraçar a Phineas, que pôs-se a
correr para ele.
—Tio Pete!

209
—Ele conhece todos os criados — explicou Jack quando Eden o olhou com expressão
de surpresa. —Eles o criaram.
—Ah.
—Não te incomodes, Peter — o repreendeu Jack, divertido, quando o cocheiro afastou
o menino para ajudar seu amo.
Jack carregou o baú no porta-malas sem necessidade de que o ajudasse o cocheiro,
amarrou-o bem e em seguida acompanhou Eden à porta da carruagem.
Depois de apresentar-lhe ao seu cocheiro de confiança, Jack a ajudou a subir.
Imediatamente, o cheiro de couro polido e a cavalo substituiu o tonificante cheiro da água de
mar e tábuas de carvalho com sal.
Uma vez que o Guri subiu à carruagem de um salto e se atirou ao assento ao lado
dela, Jack fechou a porta sorrindo.
—Tu não vens? — perguntou ela.
—É claro — disse ele, enquanto punha suas grossas luvas de couro negro. —Mas se
não se importar, prefiro ir a cavalo. Levo muito tempo encerrado nesse navio, e ele esteve muito
tempo no estábulo. Apontou com a cabeça a sua esquerda.
Ao seguir seu olhar, Eden contemplou um esplêndido garanhão baio, com sua lustrosa
pelagem reluzente como o cobre brunido à luz dourada do sol, enquanto a brisa fazia ondear
sua longa crina e sua cauda de seda negra.
Alto e absolutamente imponente, o fogoso corcel dava pulos com impaciência
enquanto um cavalariço vestido com libré segurava as rédeas, à espera que Jack voltasse.
—É o Veloz Apolo! — gritou Phineas, inclinando-se para a janela. —É o cavalo mais
rápido de todo o país!
—O orgulho de meus estábulos — reconheceu Jack com um sorriso.
Eden ficou olhando o magnífico animal enquanto Jack se despedia dela com a cabeça
e se afastava. Pegou as rédeas e montou com soltura; o capote escuro formou redemoinhos ao
seu redor. Eden vislumbrou suas calças de couro salpicadas de barro e suas reluzentes botas
negras. Quando ele puxou a aba de seu chapéu e o desceu um pouco por cima do olho, Éden
pensou que parecia um romântico salteador de caminhos. Depois de colocar-se na sela, inclinou-
se para frente e deu uma firme palmada no cavalo no cangote.
Quando o cavalariço se dirigia à carruagem dando grandes passadas para ocupar seu
assento junto ao cocheiro, Eden saltou de repente da carruagem. Jack lhe lançou um olhar de
curiosidade, incitando o cavalo a avançar uns passos, mas ao ver que lhe sorria compreendeu
sua intenção, com um brilho em seus olhos azul turquesa.
—Lady Jay, o que está fazendo? — gritou Phineas, mas Eden tinha o olhar cravado no
belo homem montado em seu formoso cavalo.
Depois de fazer parar ao animal ao lado dela, Jack lhe estendeu a mão sorrindo
enquanto a olhava nos olhos, com o extenso céu azul a suas costas.
Eden lhe pegou a mão sem vacilar, pôs o pé em cima de sua bota e montou no cavalo
de um salto. Ele se pôs a rir enquanto a pegava pela cintura com o braço; montada à amazona
sobre o cavalo, Eden pegou a crina negro azeviche do garanhão.
210
—Pronta? — sussurrou seu marido, lhe rodeando a cintura com mais força.
—Sim, capitão.
—Ei! — gritou o Guri quando adiantaram à carruagem a toda velocidade.
—Nos veremos em casa, garoto! — rugiu Jack, em cuja voz se apreciava uma
gargalhada reprimida, enquanto a carruagem se punha em movimento dando tombos atrás
deles.
Em poucos instantes tinham deixado a carruagem muito atrás. Jack deixou que o
imponente cavalo de caça estirasse as pernas, avançando a galope pelo caminho enlameado. O
sol brilhava mais intensamente, e Eden pôs-se a rir a gargalhadas ante a excitante força do
cavalo, cujos cascos golpeavam o chão como se fosse um tambor. Depois de subir por colinas,
atravessar vales e passar por prados salpicados de ovelhas sujas, afugentaram um bando de
melros de uns restolhos de milho e fizeram que um grupo de coelhos saísse disparado entre as
sarças.
Ao virar em uma curva do topo de uma colina ventosa, uma rajada de ar lhe
despenteou o coque e fez com que o cabelo dela lhe caísse sobre os ombros.
Quando se encontraram com uma carruagem que levava quatro monjas de volta a seu
convento no vale, Jack reduziu a marcha de seu cavalo para saudar suas vizinhas. Estas o
reconheceram imediatamente, e quando Jack apresentou Eden como sua esposa, fizeram
expressão de assombro e benzeram seu matrimônio; prometeram que rezariam para que
tivessem uma feliz e proveitosa união.
Seguiram adiante a passo mais lento, e quando as monjas desapareceram, Jack beijou
Eden.
—Mal desembarcaste e já estás ganhando o coração das pessoas — murmurou.
—É o cabelo vermelho — brincou ela em voz baixa. —Certamente acreditam que sou
irlandesa.
—Bom, tendo em conta de onde vem, alegrar-se-á saber que na Irlanda não há
serpentes. São Patrício expulsou a todas, sabe?
—Então não há serpentes! Que lástima. Jack?
—Sim, querida?
—As monjas me chamaram de "milady".
—Pois claro, querida. É o que te corresponde.
—Ah. Ela se assombrou ao assimilar aquele dado. —Não tinha pensado nisso.
Ele riu e apressou a seu cavalo a seguir avançando.
Ao cabo de uma hora, Jack tirou Veloz Apolo do caminho e atravessaram umas altas
portas de ferro forjado a meio galope. Começou a pulsar o coração de Eden mais depressa à
medida que subiam pela encosta de cascalho, mas quando apareceu a "casa", ficou boquiaberta.
—Jack… é um castelo — soltou, com os olhos muito abertos.
—Não te preocupes, com certeza o acharás muito acolhedor. Uma parte do edifício é
nova, com todas as comodidades modernas.

211
Ela nem sequer foi capaz de recuperar a fala para lhe dizer que não pretendia queixar-
se. Simplesmente estava estupefata.
Um castelo de verdade! Havia torres sinistras e formidáveis muros de pedra cinza
gasta. Aqui e ali destacavam as irregulares incorporações realizadas por diversos donos ao longo
dos séculos, mas a parte mais recente era o edifício principal do centro.
Graças ao talento de um engenhoso arquiteto, uma grande casa neogótica construída
diante do antigo edifício mantinha unida de algum modo toda a construção: um castelo de
sonho com um pórtico com ameias em cima das enormes portas principais e torres de estilo
similar que emolduravam a fachada. Os adornos que rodeavam as janelas altas e estreitas eram
novos e de cor branca; não havia uma só erva daninha. O lugar estava tão impecavelmente
cuidado como as conveses do Ventos de fortuna.
Aquele lugar era próprio de Jack.
Todas as comodidades modernas, pensou Eden. Tal como ele tinha dito, o severo
edifício gótico se achava suavizado por um pingo de serenidade clássica, para garantir ao
espectador que em seu interior a casa estava dotada de todo tipo de luxos. Sacudiu a cabeça,
assombrada.
Quando se detiveram no amplo pátio, meia dúzia de criados se aproximara correndo.
Ela era incapaz de distinguir os cavalariços dos lacaios, embora supôs que o indivíduo baixo
vestido de negro fosse o mordomo, e a mulher roliça com faces carnudas devia ser a senhora
Moynahan.
A cabeça de Éden rodava. No meio do coro de vozes que lhe diziam: "Bem-vinda,
milady!", Jack fez que os criados se apartassem e a ajudou a descer do cavalo. Mas em lugar de
deixá-la no chão, carregou-a nos braços e se dirigiu resolutamente para a porta principal, para
cruzar com ela a soleira.
Beijou-a com ternura e a deixou no interior. Eden esteve a ponto de tropeçar
enquanto olhava fixamente tudo que a rodeava no vestíbulo, com sua madeira escura e lavrada,
seus vidros de cores e suas maravilhosas e antiquíssimas tapeçarias; seus reluzentes ladrilhos de
desenhos brancos e azulados; seu teto muito alto com molduras pintado de branco, e o
acolhedor lugar com uma lareira mais alta que ela.
—E então? — murmurou Jack, observando-a. —Agora é a senhora desta casa. O que
te parece?
—Valha-me Deus — sussurrou ela, e todos os criados puseram-se a rir.
Os três dias seguintes passaram como um formoso sonho; cada momento era uma
pérola preciosa. Três dias de amor radiante e paixão desenfreada.
O ardor de seu desejo despertou a primavera, dissipou o frio e deprimente cinza, e
começou a devolver a erva verde esmeralda. Faziam amor continuamente: no majestoso
dormitório; no lugar da lareira com cortinas, ante um fogo vivo e ainda por cima de um luxuoso
tapete de pele; no espaço vazio da escada da parte de trás, de forma rude e rápida; contra uma
árvore que dominava o vale. Simplesmente não se cansavam um do outro.
De vez em quando, é claro, Eden percebia a sombra que se ocultava sob a terna
atitude de Jack, mas a atribuía a compreensível preocupação por sua missão.
Entretanto, no momento, durante aqueles três dias maravilhosos, todo o trabalho

212
ficava de lado. Ela nunca tinha experimentado semelhante felicidade, semelhante relaxamento
absoluto e, sobretudo, semelhante amor. Mal podia acreditar no muito que Jack tinha chegado a
importar a ela ou o muito que sabia que tinha chegado a importar ela a Jack. Jamais tinha
estado tão unida a alguém. Ele era mais que seu marido ou seu amante; converteu-se em seu
amigo de alma.
Passavam as horas alegremente sem fazer nada salvo caminhar pelos jardins
agarrados pela mão e deter-se para acariciar aos cavalos nos pastos. Passearam pelo povoado
vizinho e Eden conheceu os aldeãos, que a encheram de modestos presentes de casamento.
No terceiro dia, pela tarde, depois de visitar as lojas do povoado antes que fechassem,
fizeram amor na carruagem a caminho de casa, enquanto riam e procuravam não fazer ruído
para que o condutor não os ouvisse. Mas o velho Peter não era tolo; fingindo discretamente
ignorância, o homem pigarreou sonoramente quando chegaram ao pátio iluminado com tochas.
E lhes deu tempo de sobra para que se arrumassem antes de abrir a porta da carruagem.
Jack saiu primeiro, um tanto avermelhado e com o cabelo moreno revolto.
—Bem feito — murmurou, enquanto colocava uma nota de cinco libras no bolso do
peito do cocheiro.
Depois voltou-se para Eden, que saiu da carruagem e se lançou aos seus braços,
sentindo-se fraca depois do arrebatamento de prazer.
Com uma diversão maliciosa refletida nos olhos, Jack lhe ofereceu o braço, para que
se apoiasse nele. Voltaram sem pressa para casa. Uma vez em seu quarto, Eden tirou a roupa e
se deixou cair na cama com o sabor de seu beijo ainda quente em seus lábios sorridentes; assim
que sua cabeça tocou o travesseiro de penas de ganso, caiu em um sono profundo e plácido.
Entretanto, na manhã seguinte, o sono foi interrompido bruscamente quando
despertou. Abriu os olhos e viu Jack sentado na poltrona situada junto à cama, observando-a
como costumava fazer.
Ela esticou-se com um sorriso sonolento entre os lençóis champanha. Cheiravam a
sexo, igual a ela.
—Bom dia, marido.
Um meio sorriso melancólico se desenhou nos lábios de Jack.
—Já está vestido. Que bonito. Eden suspirou, e admirou sua jaqueta de tweed, seu
colete verde escuro e suas calças de tecido xadrez marrons. Levava umas botas altas e devia
estar a ponto de sair, pois inclusive tinha um chicote na mão com o qual brincava
distraidamente. —Vais sair para dar um passeio matutino?
Ele não respondeu e baixou a vista.
—Volte para a cama. Ela fechou os olhos e se deitou de barriga para baixo. —É muito
cedo.
—Eden, — disse ele suavemente — tenho que partir.
—É a hora da reunião? — murmurou ela contra o travesseiro.
—Sim.
—Muito bem. Quando voltares, podemos comer no velho solário...

213
—Querida — interrompeu-a ele.
—O que foi, Jack?
Ele permaneceu calado longo tempo. Eden voltou a levantar a cabeça e ao olhá-lo
reparou na serena determinação de seu rosto de feições marcadas.
Ela endireitou-se subitamente tampando o peito com o lençol.
—O que acontece?
—Já te disse, amor. Tenho que partir.
—Partir…?
Ele se aproximou e deixou a um lado o chicote.
—Fique tranquila — disse ele em tom pausado, lhe sustentando o olhar fixamente. —
Procura entender. Quero que fiques aqui enquanto completo a missão.
—Ficar aqui? Jack, do que estás falando? Vamos para a Inglaterra... — suas palavras se
foram apagando à medida que perdia a cor do rosto. —Vais à Inglaterra sem mim?
—Eden, meu tio me disse que se produziram terríveis novidades na guerra. Não posso
ficar muito tempo na Inglaterra. Só ficarei lá umas poucas semanas para reunir aos homens que
necessito. Farei escala na Cornualha, depois em Londres e depois voltarei diretamente para a
Venezuela.
—Jack!
Ela o olhou fixamente, sem mal compreender o que estava dizendo. Que cruel era de
sua parte lhe fazer aquilo na primeira hora da manhã, antes que pudesse pensar claramente...
Oh, talvez tudo aquilo fosse um pesadelo. Ela esfregou a testa, tratando de despertar. Mas
conhecendo Jack, devia ter escolhido aquele momento de propósito.
—Voltarei da América do Sul no outono — disse ele com delicadeza. —Até então, aqui
estarás mais segura.
— No outono? — Eden não podia assimilar o que estava ouvindo. —Vais me deixar
aqui sozinha por seis meses?
—Querida, não posso levá-la comigo em um navio cheio de mercenários, nem a
Phineas tampouco. Tu e o menino ficarão aqui, onde estarão a salvo.
—Jack!
—Sinto muito, Eden. Nem todos os homens que vou levar a Bolívar são simples
soldados.
—Para mim dá na mesma o que sejam! Não penso em ficar aqui sozinha! Esse é justo
o motivo pelo qual parti da selva! — saiu da cama de um salto e se dirigiu resolutamente para
seu armário. —Tenho que estar contigo, e sabes disso. Precisas de mim. Sobretudo em Londres.
Se eu não estiver lá para limar as asperezas, vais fazer que a situação piore entre tu e tua família.
Sabe que necessitas de mim lá.
—Eden — sussurrou ele, vacilando. Tentou armar-se de coragem e se levantou. —
Tenho que ir.
—É melhor que me esperes porque estou me vestindo e vou contigo. Não te ocorras

214
sair por essa porta, Jack Knight.
—Não virás comigo. Eden, tens que me deixar partir.
Ela pôs uma blusa pela cabeça.
—Sim, vou contigo, e sabes por quê? Porque me prometeste. Prometeste me levar a
Inglaterra... como papai! — ela estendeu a mão para pegar um vestido.
—Não. Jamais o prometi. Ele negou com a cabeça firmemente, pondo os braços na
cintura.
—Mas é o que me fizeste acreditar, o que deve ser o mesmo, não? Quanto tempo
levas planejando isto? Desde o começo, canalha? — Eden estava tremendo, atônita, enquanto
se apressava preparando-se para ir com ele. Parecia furiosa. —Não posso acreditar que tenhas
mentido para mim.
—Nunca menti para ti.
—Me enganaste, não? Me enganaste! Tinhas tudo planejado desde o começo,
reconhece-o! Oh, tudo o que te deixei me fazer... e estiveste me enganando todo o tempo!
Afinal sim, há uma serpente na Irlanda!
—Achava que tu gostavas do que fazia.
—Isso não vem ao caso, e sabes. Confiava em ti! — as lágrimas inundavam os olhos de
Eden. Sentia que estava começando a entrar em pânico, pois ele era implacável, por isso sabia
que a batalha estava perdida. —Como podes me fazer isto? — disse-lhe, praticamente gritando.
—Eden, acalme-se...
—Não! Não podes fazer isto comigo, Jack! Não posso ficar aqui sozinha durante meses
e meses. Pensas em tudo o que passei para voltar para o mundo. Se pretendias me encerrar
aqui, poderia ter ficado na selva com Connor!
Ele se irritou.
—Não me compares com ele.
—Não vou ficar aqui. Não podes me obrigar.
—A verdade é que posso. Os lacaios têm ordens precisas.
—Ah. Drogarei a todos com a folha do caapi e os deixarei adormecidos e escaparei.
—Não farás nada disso! — gritou ele, erguendo-se de forma ameaçadora por cima
dela com o cenho franzido. —Juro, se cometeres uma estupidez como essa, conhecerás minha
ira. Tirou-lhe o vestido das mãos e o puxou para o chão. —Basta já! Não virás comigo. Vou deixá-
la aqui para sua segurança. Te levarei a Inglaterra quando voltar. Embora então possa ser que
esteja muito gorda com meu filho na barriga para viajar.
—Não estou grávida — lhe informou ela, fazendo um esforço para voltar a dominar
suas emoções.
—Não? — ele a olhou com cepticismo. —Porque isso explicaria esta reação histérica.
Ela entrecerrou os olhos em sinal de advertência.
—Ainda não me viste histérica, milorde.

215
—A coisa melhora? — murmurou ele entre dentes.
—Agora por cima me insultas... — exclamou ela, passando outra vez do pânico à fúria,
o que sem dúvida era a intenção de Jack.
—Tenho que ir. Quando ele se virou e se afastou dela com passos compassados, Eden
o seguiu com o coração palpitante e um nó no estômago.
—Volte aqui! Temos que falar disto.
Ele não fez conta.
—Isto é escandaloso! Não podes me reter aqui contra minha vontade!
Ele pegou seu capote, colocado sobre a cadeira.
—Adeus, Eden. Voltarei o mais rápido possível. Se necessitares de algo, só tens que
dizer à senhora Moynahan...
—Com certeza sei o verdadeiro motivo pelo qual não queres que vá contigo! — soltou
ela, bastante frenética para dizer algo com o fim de detê-lo. —Quer ir ver sua preciosa Maura
em Londres sem que eu ande perto!
—Agora sim estás histérica.
—Não me digas que estou histérica!
Ela atirou-lhe um sapato. Ele se agachou bem a tempo e se virou com expressão de
ira.
—Ias partir sem nem sequer te despedires de mim, não é? — disse ela em tom
acusatório, erguendo a voz de forma estridente. —Por isso estás vestido! Estavas a ponto de sair
e de me deixar sozinha!
—Agora mesmo me parece uma boa ideia.
—Sem escrever-me uma nota sequer? — de repente Eden rompeu a chorar.
Jack voltou para ela resolutamente amaldiçoando entre dentes e a pegou pela cintura;
pegou-a contra ele e a beijou com turbulenta paixão, enredando os dedos em seu cabelo.
Seu repentino gesto pegou Eden despreparada. Aferrou-se aos seus ombros para
evitar cair e lhe devolveu o beijo enquanto lhe caíam lágrimas pelas faces. Deu-lhe um beijo
desesperado com o qual lhe rogava que ficasse, embora intuísse que era inútil; aquele homem
era de pedra. Ela estremeceu de dor entre seus braços ao pensar em todos aqueles meses de
solidão e separação, encerrada ali sozinha.
Isolamento.
—Não estou preparada para isto — sussurrou, tomando o rosto duro dele entre as
mãos. —Por favor, não faças isto comigo, Jack. Não me deixes aqui só — disse em voz baixa ao
mesmo tempo em que o beijava. —Farei o que tu disseres. Não me deixes.
—Acreditas que eu quero isto? —perguntou ele em um sussurro áspero, lhe
apertando mais a cintura furiosamente.
Ela o olhou fixamente, desconcertada, com a vista turvada pelas lágrimas.
—Não sei. Deves querê-lo, porque és Jack.

216
—Que demônios significa isso?
—Significa que quando Jack Knight quer uma coisa, sempre encontra uma forma de
consegui-lo. Poderias me levar contigo se seriamente o quiseras. Simplesmente... não queres —
disse Eden com um soluço suave.
Ele parecia exasperado.
—Não entendes nada.
—O que tenho que entender? — ela deixou de abraçá-lo e retrocedeu, sacudindo a
cabeça. —É evidente que não me amas tanto como eu a ti.
Esperou que ele dissesse que era boba, mas Jack a olhou fixamente nos olhos, com a
emoção refletindo-se em seu olhar; tinha o rosto cheio de ira, com um indício de confusão. Ele
limitou-se a olhá-la movendo a cabeça sem dizer nada, em atitude de dura recriminação; depois,
virou-se de improviso e partiu.
—Jack!
Ele desapareceu pela porta, e o som de seus passos ressoou atrás de si com o ritmo
seco dos saltos de suas botas ao golpear os ladrilhos.
—Jack!
Pôs-se a correr atrás dele com a blusa posta e saiu à parte superior da galeria
esculpida em carvalho.
Ele estava abaixo, atravessando o vestíbulo. Ao ouvir seus gritos de pânico, não olhou
para trás.
Enquanto lhe rodava a cabeça de pura incredulidade, Eden voltou a toda pressa para
seu quarto e olhou pela janela.
Ele ergueu a vista.
Quando seus olhares se encontraram através da distância, ele a olhou fixamente, com
uma furiosa tortura brilhando em seus olhos azul turquesa. Ela posou as pontas dos dedos no
vidro da janela como se quisesse tocá-lo.
"Jack".
—Não — sussurrou Eden, juntando a palma da mão ao vidro enquanto ele dava a
volta ao seu cavalo e partia galopando pelo caminho de entrada.
Sem olhar para trás.

Milhares de maldições invadiam sua mente enquanto corria montado no Veloz Apolo
pelo caminho enlameado, avançando com grande estrondo em direção à buliçosa cidade
portuária de Cork.
Negava-se a duvidar de sua decisão de encerrar Eden em seu castelo. Mas se sentia
terrivelmente mal.
Preparou-se para a fúria dela; inclusive tinha se preparado para as lágrimas. Para o
que não se havia preparado foi para sua dor.
217
"Machuquei-a. — sentia-se aturdido por aquela certeza. Machuquei minha garota".
Era a sensação mais horrível do mundo, e não sabia o que fazer. No ponto culminante
de sua missão, justo quando mais precisava ter tudo muito bem controlado, sentia-se
absolutamente derrotado, totalmente inseguro. Era a decisão correta.
"Ou não?"
Por que ela sempre tinha que dar tantos problemas? Não lhe ocorreu nenhuma
resposta quando refreou o seu esplêndido puro sangue diante do pub Green Anchor que dava
ao porto.
Ao entregar o animal ao chefe de seus cavalariços, que o tinha seguido em um rocim 18,
Jack se deteve para examinar o animado cais. Os navios pesqueiros cobertos de redes
salpicavam o porto e transportavam a pesca da manhã; uns quantos veleiros pequenos
navegavam velozmente, enquanto que o paquete19 diário recebia aos passageiros. Mas mais
atrás, onde a água era mais profunda, atrás do bulício, aguardava uma duquesa entre leiteiras: o
Ventos de fortuna. Justo à hora prevista.
Quando terminasse de fazer o que devia no pub, Trahern o recolheria em um bote;
uma vez que Jack estivesse de novo a bordo, navegariam através do mar da Irlanda até a
Cornualha. Ali ele se reuniria com alguns de seus antigos colegas, que sem dúvida aceitariam a
oferta dos venezuelanos.
Eram combatentes particularmente ferozes, toscos aventureiros da época em que Jack
se dedicara ao contrabando, antes rentável.
Foragidos.
Segundo os cálculos de Jack, ao exército de Bolívar não lhe viria mal um pouco de
brutalidade. O general teria que empregar todo seu gênio para controlar aos soldados que ia
enviar a ele, mas tinha prometido que lhe levaria demônios, e agora ia reunir-se com a primeira
turma.
Jack se virou e entrou penosamente na taverna para encontrar-se com seus comparsas
irlandeses, ex-capitães do exército de Wellington que tinham combatido na guerra da
Independência espanhola.
O tranquilo pub era igualmente escuro e acolhedor a uma caverna, com painéis de
carvalho escuro nas paredes, gesso por cima e umas vigas baixas e grossas que atravessavam o
teto. Tinha feno espalhado pelo chão de lajes para dar calor e absorver o barro e a umidade das
botas dos homens. O vento gemia como um fantasma sob os beirais.
O escuro pub com cheiro de turfa se achava iluminado com lampiões de óleo de
baleia, algumas velas de cera e uma grande lareira. Ao olhar por um momento as chamas, uma
lembrança inesperada foi à memória de Jack: fazer amor com Eden no lugar da lareira do grande
salão, sobre um montão de colchas de pele, ante um fogo como aquele. A imagem o fez
estremecer. Tirou-a da cabeça à força de vontade. Iriam ser seis meses muito longos.
Os homens que tinha ido ver o saudaram com a mão da mesa do canto. Embora já não
vestissem uniformes, tinham o porte de soldados veteranos preparados para qualquer coisa.
Sem dúvida estavam inquietos agora que cobravam a metade do pagamento.
18
Cavalo de má aparência e pouca alçada, cavalo de trabalho.
19
Embarcação que leva o correio e, geralmente, também passageiros de um porto a outro.

218
Eles lhe sorriram ao ver que se aproximava.
—Jackie!
—O diabo em pessoa!
Jack conseguiu sorrir fracamente.
—Kirby, Torrance, O'Shaunnessy, Graves! Onde está o pilantra do Miller?
—Aqui está.
Trocaram calorosos apertões de mãos, rudes saudações e palmadas nas costas. Jack
pediu uma rodada de cervejas com a mão enquanto se sentava com eles.
—Que tal vão, rapazes? Desfrutando da aposentadoria?
—Não! — gritaram ao uníssono em tom malicioso.
Tão logo terminaram a primeira rodada, Jack entrou no assunto.

Quando ele saiu do pub algumas horas mais tarde, com um charuto apagado
balançando em seus lábios, o céu se nublara e a temperatura tinha descido. Trahern estava lá
fora admirando o cavalo de Jack.
—Homem capitão! Preparado para zarpar? — disse alegremente o jovem tenente.
Jack não respondeu e se dirigiu para ele com passo majestoso, dando batidinhas com
o chapéu contra a coxa e suspirando mal-humorado.
—Que tal foi a reunião? — perguntou Trahern em voz mais baixa, enquanto o Veloz
Apolo lhe farejava os bolsos em busca de algo para comer.
—Bastante bom — murmurou. —Todos aceitaram à proposta. Ele deu uma olhada
furtivamente às pessoas que iam e vinham pelo pátio da taverna. —Daremos a eles umas
semanas para que reúnam seus homens e depois voltaremos para recolhê-los.
—Excelente! Mas por que estás tão sério?
Jack sacudiu a cabeça e afastou a vista.
—É Eden, não é verdade? — murmurou Trahern. —Tomou isso muito mal.
—Péssimo.
—Bom... — Trahern tirou seu relógio de corrente do bolso do colete e consultou à
hora. —Ainda está em tempo de levá-la com você. Tem o tempo justo para ir procurá-la antes
que suba a maré.
Jack negou com a cabeça, passou a mão pelo cabelo e tocou a nuca. Doía-lhe de
tensão.
—Não sei.
Trahern o olhou com perspicácia.
—Será melhor que resolva logo.

219
Ele sacudiu a cabeça resmungando, afastou-se e começou a passear pela borda da
ladeira, de onde contemplou a baía.
As palavras de seu tio ressoavam em sua cabeça.
"Estás fazendo-o pelo bem dela ou pelo seu? Compre-lhe o afeto da sociedade. Já não
és aquele menino furioso".
Mas tinham mudado muitas coisas; toda sua vida tinha mudado depois daqueles dias
de felicidade, e sua antiga forma de pensar já não tinha sentido.
"Ela tinha razão — pensou. Enganei-a. E me equivoquei". O objetivo dos últimos dias
tinha sido cimentar o vínculo que havia entre eles para que Eden o perdoasse quando ele tivesse
que zarpar, mas Jack não tinha previsto o efeito que aqueles dias com ela teriam nele.
Ironicamente, o fato de que seu amor se fizera mais profundo fazia com que lhe fosse
impossível partir e deixá-la para trás daquela maneira: tão doída, tão furiosa, tão sozinha. Com
certeza podia achar outra forma.
Talvez ela pudesse ficar com sua família enquanto ele viajava para a América do Sul.
Desse modo, pelo menos não estaria tão sozinha, e ele teria a plena segurança de que estava a
salvo.
Nunca tinha tido intenção de feri-la com seu desejo de proteger a si mesmo, mas
continuava temendo a ideia de levá-la a Londres. Se o humilhavam diante dela, se a convenciam
para que o visse como um pária ou, sobretudo, se atrevessem a rechaçá-la por culpa dele, jurava
por Deus que pegaria um barril de pólvora e voaria seu querido Almack’s pelos ares.
Mas, por outra parte, Arthur estava certo. Aquela pequena e preciosa orquídea não
era uma mulher normal e comum. E mais, existia a possibilidade de que a alta sociedade se
apaixonasse por ela como tinha ocorrido a ele. E aquilo faria muito feliz a Eden.
Jack se virou, puxou o charuto e se dirigiu resolutamente a seu cavalo.
—Aonde vais? — gritou Trahern surpreso quando Jack subiu à sela de um salto e
pegou as rédeas antes que voltasse a mudar de opinião.
—Buscar a minha mulher — soltou ele. —Voltarei dentro de pouco. Navegaremos com
a maré.
Esporeou ao animal para que se movesse, e Veloz Apolo saiu disparado. Jack cavalgava
inclinado sobre seu cangote, rezando para que não tivesse que arrepender-se daquilo.

220
Capítulo 14

Jack lhe tinha pedido perdão, e lhe tinha assegurado que o sentia; Eden sabia que não
o havia dito por dizer.
Tinha voltado por ela.
Tinha-a levado a Londres.
Tinha reservado a suíte mais luxuosa do imponente hotel Pulteney para que se
alojassem ali, as mesmas habitações nas quais se hospedou o czar da Rússia.
Entretanto, apesar de Eden ter aceitado suas desculpas, sua confiança nele se
debilitou e sua atitude para com ele esfriou.
Desde que tinham chegado, ele a enchia de extravagantes presentes como se fosse
uma princesa. Primeiro, roupa. Os vestidos que ela e Martin tinham costurado no navio eram
adequados para o campo, mas segundo ele não eram bastante refinados para a cidade. Jack
tinha enviado seu valete para averiguar quem era a melhor costureira da cidade, tinha dado à
mulher uma enorme soma de dinheiro e, valendo-se de seu encanto, tinha-a convencido que
deixasse de lado a sua clientela habitual e confeccionasse um vestuário completo de cidade para
sua jovem esposa. O trabalho naquele importante encargo tinha dado começo a toda pressa.
Depois Jack tinha conseguido um pequeno exército de criadas para que servissem
Eden, assim como uns robustos lacaios. Dias depois, fazia subir um criado para que lhe dissesse
que olhasse pela janela que dava à rua.
Quando Eden apareceu no balcão de ferro forjado com seu primeiro vestido acabado,
um traje de vaporosa seda esmeralda, seu marido a tinha saudado com o chapéu do assento do
condutor de um extravagante cabriolé creme que acabava de comprar para ela no Tattersall’s.
Tinha almofadas de cetim rosa, e sem dúvida era a carruagem de mulher mais
delicada jamais construída. Nos flancos, tinha elegantes flores pintadas esmaltadas em uma
sianinha, e os raios das rodas tinham cores em conjunto: dourado, azul e rosa. Puxavam o

221
cabriolé quatro cavalos brancos com penachos rosa na cabeça.
Eden ficou olhando para ele sem saber o que dizer.
Não lhe importavam os presentes, mas a dor não se podia esquecer tão facilmente.
Não sabia a que se ater com aquele homem. Sentia-se como uma idiota por haver-se
aberto totalmente a ele, sem lhe ter ocultado nada; achava que ele tinha feito outro tanto, mas
para sua surpresa, tinha resultado que estava enganando-a.
Agora não podia evitar perguntar-se o que mais lhe estava escondendo.
Sabia que ele se importava com ela, do contrário não teria casado com ela, mas era
um homem de mundo rico e poderoso, e afinal tinha descoberto que na realidade não a levava
muito a sério.
Não a respeitava. Eden temia ser a responsável por ter se entregue a ele com muita
facilidade a bordo do Ventos de fortuna. Tinha descoberto o preço de sua debilidade por ele e
sua claudicação voluntária. Ele não a via como igual, como ela tinha acreditado, mas sim mas
como uma posse, um bem, um objeto; como uma boneca de porcelana que podia vestir com os
melhores ornamentos e logo deixá-la em uma prateleira até que tivesse tempo para voltar a
brincar com ela. Havia-se posto doente ao descobrir que aquele podia ser o alcance de seu
papel na vida de Jack, enquanto que ela, por seu lado, amava loucamente ao terror dos mares.
Depois de ter dado voltas e ter sofrido muita dor, sentia-se ferida e intranquila. Para
falar a verdade, não lhe tinha dado nenhuma explicação lógica do por que tinha querido deixá-la
na Irlanda.
Na terrível manhã de sua discussão, ele tinha afirmado que tinha feito tudo por medo
do risco que ela podia correr, mas Eden continuava sem ver indícios do menor perigo. De modo
que não sabia o verdadeiro motivo pelo qual Jack não tinha querido levá-la a Inglaterra com ele.
Invadiam-na toda classe de dúvidas e temores. Talvez ele se envergonhasse dos costumes
daquele bicho estranho da selva e temia que fosse envergonhá-lo diante de sua família. Talvez
estivesse dando de presente todos aqueles bonitos adornos para tentar disfarçar quão peculiar
era, pensava tristemente. De fato, era realmente amor ou simplesmente culpa o que o tinha
empurrado a voltar para ela?
À medida que os dias passavam, faziam todo o possível para levar-se bem, fingindo
que tudo era normal. Ele a levou de visita pela cidade e lhe mostrou os lugares de interesse: o
coliseu, Astley’s, o Museu Britânico, as galerias de arte e os parques; inclusive a levou a famosa
sorveteria Gunther’s. Mas por algum motivo, agora que estava ali, o brilho de todas suas
fantasias londrinas se atenuou.
Ele dizia que estava distante, mas ela se sentia perdida e um pouco deprimida. Não
pretendia afastar-se dele; simplesmente não podia evitá-lo. Tinha medo de abrir-se a ele como
tinha feito na Irlanda e acabar ferida outra vez.
Ao reparar em sua reação contida com firme determinação, seu marido redobrou seus
esforços. O seguinte foi lhe dar de presente joias.
Os diamantes maravilhavam a Eden, mas quando viu o olhar cauteloso dele enquanto
aguardava seu veredicto, não pôde evitar que seu brilho a fizesse desconfiar.
Seriamente achava que podia comprar sua confiança?

222
"Que demônios mais tenho que fazer?", pensou Jack. Se os diamantes não davam
resultado, ficavam poucas coisas por tentar. Sabia que se equivocara, e se tinha esforçado por
compensá-la, de modo que por que lhe guardava rancor?
Maldita seja, não podia permitir-se aquela distração naquele momento. O desgosto de
sua mulher o preocupava quando mais precisava estar concentrado. Tinha os nervos em ponta e
morria de vontade de que as coisas voltassem para a normalidade entre eles, mas aquilo estava
começando a parecer muito pouco provável.
Em uma ocasião em que ele tinha sido tão insensato para deixar que lhe escapasse
uma queixa por sua atitude distante, ela lhe tinha respondido bruscamente:
—Tenho que estar alegre para lhe agradar, milorde?
Não, Jack não queria aquilo. Queria que voltasse a Eden, sua descarada ruiva, sua
sorridente companheira. Queria que voltasse sua pequena orquídea, não aquela estranha
perfeitamente penteada e vestida em seda que se esforçava para ser um membro elegante da
sociedade.
Entretanto, apesar de tudo, sabia que o único responsável era ele. Se Eden se sentia
daquela forma era por culpa dele. Ele era quem tinha prejudicado seu amor, e estava zangado
consigo mesmo por isso, mas estava fazendo todo o possível para compensar sua atitude.
Parecia-lhe impossível sair ganhando.
Ele sentia-se só.
Ela se mostrava agradável, distante, tranquila. Jack temia que fosse tornar-se louco.
O que mais lhe assustava eram os longos e insuportáveis silêncios nos quais a nenhum
dos dois ocorria uma palavra a dizer. Eles ficavam sentados, vazios. Com certeza podiam
recuperar a magia da qual tinham desfrutado juntos na Irlanda, mas Jack não sabia como.
Ele pensava que fazer o amor lhes ajudaria a curar a ferida, mas ela se negava a deixar
que a tocasse. Jack sabia que ela não o estava rechaçando somente para castigá-lo; aquilo não
era um jogo. Realmente ela não queria que ele lhe pusesse as mãos em cima. Parecia que o
dano que lhe tinha infligido tivesse reprimido a capacidade de Eden para reagir ante ele.
Quando tinha tentado acender sua paixão de forma mais decidida, ela tinha ficado
deitada, insensível. Jack se tinha levantado e partira.
Era consciente dos olhares provocadores que lhe lançavam as demais mulheres, mas
não tinha o mínimo interesse.
Certamente, era uma situação irônica. Preocupara-se muito se por acaso a sociedade
o rechaçasse diante de Eden, mas deveria haver-se preocupado se por acaso Eden o rechaçasse
diante da sociedade.
Era abril e o início da temporada se aproximava.
Talvez ela estivesse grávida, pensava, pois ele nunca a tinha visto de mau humor.
Talvez um filho lhes ajudasse a salvar seu amor antes que fosse muito tarde. Bonita forma de
receber um recém-nascido, meditou cinicamente. Colocar toda a carga da salvação do
matrimônio de seus pais sobre seus pequenos ombros.
223
Jack continuava esforçando-se tudo o que podia um dia após outro. A primavera tinha
chegado, mas parecia que não tinha visto o sol há semanas.
Um peculiar efeito secundário de sua briga com sua mulher foi a estranha influência
que exerceu sobre sua forma de levar os negócios. Tinha comunicado sua chegada à companhia
cuja conquista tinha planejado desde além dos mares.
Entretanto, quando chegou ali e viu o frágil ancião judeu que tinha fundado a empresa
e tinha dedicado sua vida a levantá-la, Jack não teve a coragem de dar o passo. Em lugar disso,
surpreendeu-se meditando a respeito das possíveis consequências imprevistas das decisões
tomadas de acordo com sua antiga forma de pensar.
Black-Jack Knight, o terror dos mares, estava começando a mostrar clemência pela
humanidade.
De fato, mal reconhecia já ao homem cruel de antigamente, e tampouco estava seguro
de que fosse quem queria ser.
A contra gosto, e para grande desconcerto dele, sentou-se frente ao ancião e começou
a negociar uma solução pacífica, em lugar de esmagar a seu competidor.
Mais tarde, de noite, levou flores a Eden e depois foi reunir-se com o contingente
londrino que pretendia recrutar para a missão. Aqueles não eram soldados, mas um numeroso
bando de malfeitores. Contrabandistas. Conhecia-os de sua época de traficante de armas.
Levou Trahern com ele, encantado de contar com companhia masculina sensata.
A reunião foi boa, — quer dizer, não lhes fatiaram o pescoço — o que era um começo
prometedor.
—Não tenho certeza de que Bolívar queira que lhes mandemos aos refugos da
humanidade para formar seu exército, Jack — comentou Trahern entre dentes quando saíam da
taverna de East End onde Jack acabava de pronunciar o mesmo discurso que tinha dedicado aos
veteranos da Irlanda e aos antigos contrabandistas da Cornualha.
—Provavelmente não, — reconheceu ele em um murmúrio — mas descobrirá que, em
geral, a escória da sociedade é muito dura e dela saem uns lutadores excelentes.
—Me conte outra vez como conheceu essa gente.
—São antigos sócios — respondeu ele, com um cigarro nos lábios. Decidiu fumá-lo e o
acendeu.
Sabia que aqueles moços estavam desesperados, assim como os da Irlanda e
Cornualha. Os agentes da Bow Street, detetives qualificados, tinham recompensas por cada
ladrão que apanhavam, e agora que a guerra tinha acabado, o Ministério do Interior tinha
começado a reforçar as filas da Polícia Metropolitana e Polícia do Tamisa para ocupar-se
também deles.
—Conheço melhor que ninguém sua situação — lhes havia dito, consciente que se
aqueles tipos brutos suspeitassem que era uma armadilha, corriam o risco de que ele e Trahern
não saíssem vivos da taverna. —Estive em seu lugar. Mas olhem ao seu redor, rapazes. O
panorama está deserto, as portas estão se fechando. Agora que se levantaram as proibições da
guerra, os comerciantes se fizeram outra vez com o negócio e os deixaram sem sustento. O
Ministério do Interior está estreitando o cerco sobre vocês tomando medidas muito duras. As

224
coisas não têm por que ser assim — havia dito, lançando-lhes um olhar sereno e penetrante.—
Durante toda sua vida os trataram como marginais. Acreditem em mim, rapazes, sei o que é isso.
Estou oferecendo a vocês e a seus companheiros uma forma honrada de sair de tudo isto, uma
possibilidade de chegar a algo mais, de formar parte de algo maior que vocês mesmos e
começar de zero em uma profissão pela qual não acabarão pendurados em uma corda.
—Estiveste brilhante lá dentro — reconheceu Trahern.
Jack resmungou.
—Me alegro de saber que posso fazer algo bem.
—Ninguém fala com esses homens de honra. Acredito que pode ser que tenham
entendido.
—Já veremos.
Quando retornou ao hotel Pulteney, Eden estava envolta em uma camisola translúcida
e vaporosa branca, e Jack ficou com água na boca assim que entrou pela porta e a viu.
—Estás muito bela — murmurou.
Ela evitou seu olhar pronunciando um vago "Hum". Apontou o console situado junto à
porta. Jack viu uma carta na bandeja de prata que havia em cima.
Lançou um suspiro e pegou a carta.
—De quem é? — perguntou Eden.
—De suas excelências de Hawkscliffe — disse ele ironicamente.
—Ah! Devem ter recebido nossa nota.
—Receberam-na.
No dia anterior, ele e Eden tinham mandado uma mensagem a sua família na qual os
informavam de sua chegada à cidade. Tinham esperado uns dias para tentar arrumar as coisas
entre eles antes de complicar a situação com a família.
Certo.
—O que dizem? — perguntou ela com nervosismo quando ele a abriu.
—Estamos cordialmente convidados a Knight House amanhã à noite. Jantar com a
família.
—Meu Deus — sussurrou ela, com os olhos muito abertos. —Nunca pensei que
conheceria um duque.
—Só é um ser humano — respondeu Jack. —Não aprendeu a amarrar os sapatos até
que teve quase sete anos.
—De verdade?
—Sim. E uma vez, quando tinha doze anos, caiu de seu cavalo e ficou a chorar como
um bebê.
—Estás mentindo — disse ela em tom acusatório, ao mesmo tempo em que reprimia
um sorriso.
Jack sorriu e apoiou a mão na parede ao lado dela, tratando de não olhar muito

225
fixamente seus mamilos, visíveis através do fino zéfiro.
—Se te servir de consolo, a mulher de Robert, Belinda, é de origem humilde. Seu pai
também era uma espécie de cavalheiro erudito.
—Sério?
—Isso diz minha irmã. Mas tu já sabes — acrescentou ele com um sorriso muito doce.
—Leste as cartas.
Ela não pôde evitar esboçar um pequeno, mas genuíno meio sorriso. Jack o
considerou um avanço.
Animado, e suspirando por ela, baixou a cabeça lentamente e lhe deu um beijo em sua
face suave como uma pétala de rosa. Deteve-se imediatamente, invadido por um
estremecimento de puro desejo.
Ela tinha permanecido imóvel quando seus lábios lhe tinham roçado a face com tanta
avidez, mas quando Eden percebeu a onda ardente de seu desejo, deu um delicado passo para
trás, com um "não" subentendido brilhando em seus olhos verdes.
Jack a olhou nos olhos e baixou a vista, acovardado.
—Quanto tempo vais continuar me rejeitando? — disse com voz áspera, mas ela já se
fora para seu quarto separado.
Ele levantou o punho a um lado, mas evitou dar um murro na parede.
"Maldita seja!"
Ela confiava menos nele agora que quando a tinha encontrado viajando como
clandestina.

No dia seguinte partiram para Knight House à hora prevista na reluzente carruagem de
cidade negra que Jack comprara no Tattersall’s no mesmo dia que tinha comprado o cabriolé
branco para ela.
Eden estava muito nervosa, preocupada em ganhar a aceitação de sua família,
enquanto Jack permanecia em um silêncio estóico, olhando pela janela da carruagem enquanto
os elegantes arredores de St. James passavam ante eles. Depois da recusa da noite anterior, o
abismo que havia entre eles parecia ter aumentado ainda mais, mas Eden era incapaz de pensar
nisso naquele momento. Ela estava muito atarefada preocupando-se com sua aparência.
Dava-lhe um pouco de medo mover-se com o esplêndido vestido de noite que a
costureira e sua frenética equipe de costureiras tinham acabado de costurar só duas horas
antes. Caía-lhe perfeitamente; tratava-se de um traje de seda lustrosa de tom pêssego claro.
Quanto ao cabelo de Eden, sua nova criada francesa, Lisette, tinha desenhado um penteado
adequado fazendo tranças e enrolando-as no alto em um coque, que levava preso com um
monte de forquilhas e adornado com uma fileira de pérolas que Jack lhe tinha presenteado
poucos dias antes.
Ele se mostrou satisfeito com o resultado quando ela saiu de seu quarto; certamente
sua aparência era irrepreensível.

226
Quando lhe lançou um olhar furtivo por baixo das pestanas, seu coração começou a
palpitar como louco ao ver seu marido, que essa noite era todo elegância opulenta e senhorial.
Ele estava impressionante com as calças negras muito finas de gala, o fraque a jogo que realçava
a largura de seus ombros e sua cintura esbelta e lisa. Que bem conhecia ela — e quanto sentia
falta — daquele corpo forte oculto sob o colete de impecável seda branca e aquele formoso
pescoço envolvido com uma gravata de musselina engomada, magnificamente vestido na moda.
"Bem feito, Martin", pensou Eden. Mas apesar de seu refinado traje de noite,
continuava sendo Jack, com seu ar de perigo sob sua elegante aparência.
Entretanto, parecia achar-se a um milhão de quilômetros de distância enquanto
olhava pela janela, como se não estivesse ali, como se uma parte dele já tivesse zarpado ao mar.
Eden reprimiu sua decepção e desceu a vista para suas mãos enluvadas enquanto
brincava com sua bolsa. Sabia que ele desejava sexo, mas o que esperava? Não se podia enganar
uma mulher e logo esperar ser bem recebido na cama. Em lugar de lhe fazer presentes caros,
podia tentar lhe dar respostas; talvez desse modo ela recuperasse a confiança.
Enquanto Eden olhava mal-humorada pela outra janela, continuaram avançando em
silêncio até que o cocheiro fez que o tiro de quatro cavalos se desviasse de Pall Mall.
—Aí está — disse Jack entre dentes, apontando com a cabeça o esplêndido palácio
que ocupava meio quarteirão.
—Caramba — sussurrou Eden, olhando pela janela e sentindo-se repentinamente
diminuta.
Com a família real por vizinhos e uma vista imponente do Green Park, a residência
urbana dos duques de Hawkscliffe era um deslumbrante monumento de magnificência
palaciana. Knight House tinha um pórtico semicircular sustentado por grandes colunas e uma
fileira de deusas de bronze que posavam aqui e ali sobre o frontispício situado ao longo do
telhado.
O coração lhe golpeava contra as costelas quando a carruagem passou pelas altas
portas de ferro forjado e se deteve suavemente no pátio privado. Lançou um olhar interrogativo
a Jack, sem mal se dar conta de que para ela se convertera em algo natural olhá-lo em busca de
confirmação. Entretanto, surpreendeu-se ao ver a expressão séria de seu rosto.
Uma ira longamente escondida e uma sinistra intensidade endureciam as linhas
marcadas de sua mandíbula e sua fronte enquanto contemplava a mansão, e convertiam seus
lábios em uma junta estreita. Seus olhos cor turquesa tinham um aspecto frio. Ao vê-lo daquela
forma, Eden rememorou o dia que lhe tinha revelado seu doloroso passado no convés de
canhões.
De repente, sentiu um arrependimento momentâneo que a levou a esquecer seu
rancor.
"Agora precisa de mim", pensou, e então soube que tinha chegado o momento de
deixar as emoções a um lado.
Eden compreendia melhor que ninguém como seria difícil aquela noite para ele.
Fossem quais fossem os problemas que havia entre eles, sem dúvida podiam deixá-los a um lado
naquela noite e formar uma frente unida.
Ele já estava saindo da carruagem; o cavalariço lhes tinha aberto a porta e tinha

227
baixado o degrau de metal. Jack deu a volta para segurá-la enquanto ela descia. Eden envolveu
os ombros com o leve xale de seda e aceitou a mão que lhe oferecia.
Fez-lhe um sinal com a cabeça e avançaram para a porta principal um ao lado do
outro, sem tocarem-se. Passaram por baixo do majestoso pórtico, e enquanto esperavam
brevemente que lhes abrissem a porta, Eden lhe pegou a mão.
Seu contato surpreendeu Jack, a julgar pelo olhar rápido e penetrante que lhe lançou.
Ela sustentou-lhe o olhar, comunicando-lhe sua lealdade em silêncio.
"Estou aqui, querido".
Ele não disse nada, mas a tensão de seu rosto diminuiu ligeiramente, e Eden percebeu
um vislumbre de emoção em seus olhos. Seu leve sorriso lhe oferecia consolo. Ele fez um gesto
de agradecimento com a cabeça de forma apenas perceptível, mas ergueu o queixo e ficou
direito; quando o mordomo abriu a porta já estava preparado.
—Deus meu... velho Walshie! — exclamou Jack, arqueando as sobrancelhas. —Já não
me lembrava de ti!
—Ah, obrigado, senhor — entoou o imponente mordomo enquanto abria mais a porta
e deixava-os entrar, com uma pequena reverência, ao esplêndido interior de mármore branco da
residência ducal.
—Espero que estejas bem — disse Jack, verdadeiramente contente de ver o velho
mordomo da família.
—Perseverando, senhor. É você muito amável por interessar-se.
—Asseguro-te, não envelheceste nestes vinte anos. Assombroso. Jack deu uma
palmada no ombro do majestoso criado com malícia. —Talvez um pouco mais grisalho nas
costeletas, mas nada mais.
—Sem dúvida, milorde. Senhora, permite-me pegar seu xale?
—Obrigada — respondeu Eden, dedicando um sorriso ao solene criado.
Jack lhe tirou a peça de seda dos ombros e a entregou ao homem, e a seguir
apresentou rapidamente a sua mulher e ao senhor Walsh.
—Bom, onde estão?
Antes que o senhor Walsh pudesse responder um grito agudo penetrou em seus
ouvidos.
—Jack!
Uma figura esbelta saiu como uma flecha da sala localizada a sua direita, vestida com
cetim amarelo e sacudindo freneticamente seus cachos dourados.
—Jacinda? — Jack se voltou justo no momento em que ela se aproximava a toda
pressa e se jogava em cima dele.
—Meu Deus, meu querido irmão desaparecido! — gritou, enquanto lhe beijava com
júbilo as faces e a testa. —De verdade és tu? Não posso acreditar que por fim estejas aqui.
Jack abraçou a sua entusiasta irmã rindo. Fê-laela girar em um círculo e a deixou no
chão, segurando-a com o braço estendido.

228
—Deixa que te veja bem, jovenzinha!
Jacinda tinha uns grandes olhos castanhos e as faces rosadas, e era a criatura faiscante
e vivaz que Eden tinha imaginado depois de ler suas cartas.
—Minha irmãzinha — murmurou ele assombrado, movendo a cabeça ao mesmo
tempo em que a observava, visivelmente maravilhado da mulher em que se convertera. —
Agora, distinta marquesa de Truro e Saint Austell!
—Oh, basta — replicou ela.
—Santo céu, a última vez que te vi eras um girino — disse ele em voz baixa.
—Eu sei. Jacinda enxugou as lágrimas sorrindo com malícia e em seguida se voltou
para Eden com um sorriso afável e sincero — e tu deves ser Eden, não é? Olá! — Lady Jacinda a
pegou pelas mãos sorrindo-lhe. —Não posso acreditar que Jack se casou! Vejo que tem um
excelente critério. Bem-vinda, minha querida nova irmã. Eden se ruborizou quando Jacinda a
abraçou, e em seguida atraiu Jack para elas e pegou seu braço. —Venham comigo — ordenou a
jovem marquesa, sorvendo o nariz. Eden pegou o outro braço de Jack enquanto Jacinda os
conduzia para a imponente escada curvada. —Todo mundo está na sala de música. Estamos
entusiasmados! Estou desejando que conheças todas as crianças, Jack, e a Billy, e a Beau... Eden,
todo mundo morre de vontade de conhecê-la! A mulher que devolveu ao nosso Jack para casa!
Quando Robert me disse que estavas na cidade, tive vontade de correr para te ver, mas a ele lhe
pareceu melhor deixá-los um pouco de tempo para que estivessem sós. Já conheces o Rob, ele
sempre tem razão; é impossível discutir com ele...
Jacinda seguiu tagarelando com entusiasmo, e Eden permaneceu atenta, mas notava
que Jack estava um pouco aflito. Olhava tudo ao seu redor como se com cada coisa que visse
voltassem dolorosas lembranças.
Quando chegaram ao alto da escada, Jacinda os levou por um largo e cerimonioso
corredor decorado com estátuas de alabastro colocadas sobre pedestais que lhes chegavam à
altura do peito. O alvoroço de vozes infantis que ressoava por uma porta aberta mais adiante
contrastava com a impecável formalidade do corredor de mármore.
Quando chegaram à sala de música, Eden contemplou a um montão de crianças
dando tombos por toda parte no meio do grupo de adultos mais impressionante que tinha visto
em sua vida.
Jacinda se encarregou das apresentações, mas Eden estava tão nervosa que tudo lhe
foi um tanto confuso. Cada um de seus irmãos era mais atraente que o anterior, salvo, claro está,
os gêmeos, que eram totalmente idênticos, com o cabelo negro azeviche e olhos cinza. Damien
tinha o porte imponente que cabia esperar de um autêntico herói de guerra, enquanto que
Lucien, seu gêmeo, era mais tranquilo e cometido, mas possuía a estudada despreocupação de
um homem que observava sagazmente a tudo.
Robert tinha os mesmos olhos escuros que sua irmã e, naturalmente, o loiro Alec se
destacava graças ao seu aspecto de deus terrestre e parecia que não deixava nunca de fazer
brincadeiras.
Billy, o marido de Jacinda, parecia um homem muito mais sério do que seu apelido
juvenil tinha feito Eden pensar. Outros o chamavam Rackford. Alguém lhe contou que aquele
tinha sido seu tratamento de cortesia antes de herdar o marquesado, e lhe tinha pegado. O
cabelo loiro e um traço intenso em seus olhos esverdeados fez Eden pensar em Jack.

229
Jacinda sorriu quando seu marido e seu irmão desaparecido se estreitaram a mão; ela
seguiu fazendo saltar seu precioso filho, Beau, sobre seu regaço. Disse a Eden todos os nomes
das crianças, mas provavelmente demoraria um tempo para recordar quem era quem. Havia
sete no total, todos eles menores de oito anos.
Lizzie, a quem se mencionava nas cartas, era uma espécie de segunda irmã da família,
como Eden não demoraria a descobrir. Excetuando a sua prima Amélia, Eden pensou que não
tinha conhecido uma pessoa mais doce e agradável. Depois de ficar órfã quando menina, se fez
de acompanhante de Jacinda e se criara com todos eles. Estava casada com o atraente Devlin,
lorde Strathmore. Ele, por sua vez, começou a perguntar a Eden pelo trabalho de seu pai, um
tema de conversa neutra que ela tratou gostosamente. Talvez lorde Strathmore tivesse interesse
pelas atividades científicas, mas Eden suspeitava que simplesmente estivesse sendo amável e
que lhe dava conversa para que a recém chegada se sentisse cômoda.
Enquanto isso, Jack saudou seus irmãos e falou brevemente com suas esposas.
Percebia-se nele certa gravidade, algo sem dúvida esperado; mas todo traço da atitude
defensiva que Jack tinha adotado desde o momento em que entraram na sala desapareceu ao
ver sua sobrinha de dois anos Pippa, a filha de Lucien.
Ela era a única menina da família até a data, mas apesar de seu diminuto tamanho,
conseguiu em um instante o que nenhum dos presentes na sala tinha conseguido, nem sequer
Eden: a pequena abrandou Jack por completo.
Embelezada com um vestido com babados e um grande laço na cabeça, Pippa se
aproximou dele cambaleando e lhe estendeu as duas mãos, com os olhos prateados como os de
seu pai, sérios e penetrantes, e não necessitou de palavras para que aquele homem corpulento
a agarrasse.
A expressão dura de Jack se suavizou ao agachar-se obedientemente e pegar à menina
nos braços. Ela ficou sentada como uma rainha na dobra de seu cotovelo e se apoiou contra seu
peito enquanto observava a seu novo tio de perto.
Jack lhe devolveu seu olhar de curiosidade arqueando uma sobrancelha.
Todo mundo observou como Pippa o olhava fixamente longo tempo e depois começou
a lhe acariciar a face.
—Filhotinho.
O gesto pegou Jack despreparado e pôs-se a rir. A menina também riu, satisfeita
consigo mesma, enquanto Lucien meneava a cabeça com gesto de incredulidade e lançava um
suspiro de encantamento.
—Chama de "filhotinho" a todo mundo.
—Não, só às pessoas que gosta — corrigiu Alice, a mãe da menina.
—Gostas de teu tio Jack? — perguntou Lucien a sua filha.
Pippa, com seus lábios babados, deu um beijo em Jack na face como toda resposta. As
mulheres prorromperam em um suave coro de exclamações, mas Pippa perdeu o interesse
subitamente e se lançou de novo em direção a seu pai.
—Onde está minha menina? — disse Lucien como saudação, estendendo os braços.
Jack devolveu a sua pequena sobrinha ao seu pai e se afastou com a mão no coração,

230
impressionado.
Alice riu entre dentes, sorrindo orgulhosa, mas justo então o senhor Walsh voltou a
aparecer na porta e dedicou uma reverência à duquesa.
—Excelência, o jantar está servido.
—Ah — respondeu Bel, e se voltou para eles indicando com elegância a porta. —
Vamos?
Todos foram para o jantar e deixaram as crianças aos cuidados de um exército de
babás, amas, preceptoras e criadas uniformizadas.
A opulenta noitada que se iniciou então superou todas as fantasias que Eden tinha
albergado na selva, quando sonhava acordada com suas antigas exemplares de La Belle
Assemblée.
Da mesa de mogno coberta com uma toalha de damasco branco ao excelente faqueiro
e a fina baixela com a borda dourada, o jantar de gala esteve composto por três pratos; começou
por uma delicada sopa branca, um fondue e pãezinhos quentes de camarões-rosa.
Se não tivesse tido o estômago tão revolto por causa dos nervos! Era difícil desfrutar
do delicioso jantar naquele estado, mas Jack estava sentado justo em frente dela, e olhá-lo a
ajudava a relaxar. A luz das velas brunia as pontas de seu cabelo castanho e ondulado, formando
um halo avermelhado. Ele devia ter notado que o estava olhando, pois lançou uma olhada e
encontrou com seu olhar. Imediatamente, Jack esboçou um sorriso íntimo. Ela ergueu sua taça
de vinho branco do Rin em direção a ele em um sutil brinde com o qual pretendia lhe dizer que
o estava fazendo bem.
Os criados retiraram o primeiro prato em seguida, e depois chegou o prato principal,
servido em bandejas e mais bandejas, até que toda a mesa ficou coberta de comida. Filetes de
peixe-espada recém pescado rodeados de vieiras com manteiga. Rosbife fumegante e pudim de
abobrinhas. Um peru dourado com molho de cogumelos. Costeletas de cordeiro. Guisado de
coelho. Gelatina, sorvete de limão e compota de maçã. Bolo de enguia, eperlanos 20 marinhados
e pato com molho de laranja.
Uma ligeira náusea desconcertou Eden, mas não lhe fez caso e concentrou sua
atenção na tarefa de proteger Jack das cordiais intrusões de seus irmãos. Quando lhe faziam
perguntas que ela sabia que não queria responder, pronunciava umas palavras diplomáticas
antes que dele escapasse uma resposta sarcástica.
Manteve-se alerta, mudando de assunto quando ele perdia o fio, procurando conselho
ou fazendo um comentário humorístico de vez em quando para protegê-lo de qualquer
sensação de estar sendo atacado que pudesse pô-lo na defensiva.
Ele lançou-lhe um olhar fugaz de surpresa, mas expressou com um gesto sutil de
cabeça sua gratidão pela perita demonstração de encanto que ela estava realizando.
Eden ignorava que tivesse aquela qualidade.
Sabia que estava fazendo um bom trabalho ajudando Jack a sentir-se à vontade.
Graças a isso, ele pôde relacionar-se com sua família de forma mais relaxada e cordial, como se
não tivesse nada a temer.
20
Peixe marinho semelhante ao salmão, de carne agradável, que desova na primavera nas embocaduras dos
rios. (Comprimento: 25 cm.)

231
Seu forte era falar de sua empresa ou de seus navios, e quando abordou essa questão,
à Eden agradou descobrir que todos eles admiravam sinceramente seus lucros. Todos eram tão
afáveis que acabou desconcertada a respeito do motivo pelo qual ele não tinha querido formar
parte de sua família durante todos aqueles anos.
Enquanto escutava como lorde Alec entretinha a todos com um rumor acima de tom
sobre um de seus amigos solteiros, Jack parecia estar fazendo a mesma pergunta.
Logo recolheram a mesa para o terceiro prato: café, porto e vinho do Burdeos
acompanhado de tortinhas de maçã polvilhadas com passas e açúcar mascavo.
Depois do jantar se separaram; as mulheres se retiraram à sala de estar, como era
habitual, enquanto os homens ficavam à mesa fumando e bebendo porto. Ao cabo de uma hora
voltaram a reunir-se; os homens se juntaram a elas na sala de estar, mas então estava se fazendo
tarde. Eden estava contente, mas esgotada. Jack lhe propôs que partissem, e ela aceitou.
Depois de tão cálida recepção, deixaram-nos partir, mas não sem que antes todo o
grupo insistisse para que Eden e Jack os acompanhassem ao teatro no dia seguinte à noite. Jack
vacilou até que viu o olhar de entusiasmo de Eden, que tinha os olhos muito abertos. Aceitou o
convite gentilmente, e a seguir retornaram lentamente ao hotel Pulteney.
Uma vez que trocaram alguns comentários corriqueiros, ficaram em silêncio, mas se
tratava de um silêncio muito diferente do qual tinha havido entre eles no caminho de ida.
—Que tal estás? — perguntou-lhe Eden com suavidade ao cabo de um momento.
Ele a olhou fixamente e encolheu os ombros.
—Bem, suponho. Não foi tão ruim.
Ela sorriu fracamente.
—Acho que te portaste muito bem.
—Menos mal que tu estavas.
Sua mostra de agradecimento agradou a Eden.
—Parece que gostaste de tua sobrinha.
—A Pippa? — ele riu entre dentes na escuridão enquanto a carruagem avançava
suavemente pela Pall Mall. —Talvez tenha que raptá-la.
—Eu sei. Eden fez uma pausa e ficou observando o tênue fulgor alaranjado das luzes
diante das quais passavam, que perfilavam a rosto de Jack com suas sombras móveis. —Quando
nos separamos estava preocupada contigo.
—Eu também estava preocupado contigo. Com certeza as mulheres a interrogaram
para te surrupiar informação.
—É claro.
—O que lhes contou?
—Só o que combinamos. E teus irmãos? Interrogaram-te eles?
Ele sorriu ironicamente.
—Principalmente se dedicaram a elogiar-te e a dizer que um canalha como eu pode
estar orgulhoso de ter a alguém como tu. Naturalmente, têm razão.
232
—Oh, Jack. O olhar dela se tornou mais intenso. —Sinto falta de ti.
Jack, que se achava sentado em frente à Eden, se aproximou inclinando-se.
—As coisas não têm por que ser assim. Pegou-lhe as mãos. —Estou tentando, Eden.
—Eu sei. Me machucaste, Jack.
—Não voltarei a fazê-lo, te juro.
—Agora dizes isso, mas então me fizeste acreditar numa mentira. Como posso saber
que desta vez não estás me enganando?
—Contei-te isso tudo — disse ele raivosamente, e a seguir reprimiu sua frustração. —
Dê-me outra oportunidade.
Ela se sentiu muito frágil quando ele cruzou o espaço que os afastava, sentou-se ao
seu lado e lhe colocou um cacho solto atrás da orelha com delicadeza.
—Sinto falta de teu corpo — sussurrou ele. —Necessito de teu amor.
Ela estremeceu quando ele inclinou a cabeça e a beijou no pescoço, mas não tinha
certeza de que estivesse preparada para deixá-lo entrar nela... em todos os sentidos.
Depois do breve trajeto, a carruagem se deteve diante do hotel. Jack a olhou com
desejo enquanto o cavalariço se apressava a lhes abrir a porta da carruagem. Ele saiu primeiro,
ajudou-a a sair e a acompanhou ao interior sem pronunciar uma palavra.
Atravessaram o vestíbulo um ao lado do outro, atraindo os olhares dos hóspedes que
havia aqui e ali. Com seu xale de seda sobre os ombros e sua bolsa pendurada no pulso, Eden
pegou a prega da saia e subiu a imponente escada para seus aposentos. Embora Jack se
movesse em silencio ao seu lado, ela era intensamente consciente de sua presença física.
Quando chegaram a sua suíte, Jack abriu a porta com chave e a fez entrar. Eden lhe
roçou ao passar, com o coração palpitante de desejo; sabia que ele a desejava, mas estava
indecisa. Deixou a bolsa no console situado junto à porta e começou a tirar as longas luvas
brancas. Ouviu como Jack fechava a porta a suas costas e conteve a respiração quando ele se
aproximou por trás e deslizou o xale por seus ombros de forma muito sensual. Quando ele
inclinou a cabeça e seus lábios sedosos lhe roçaram o ouvido, fechou os olhos.
—Esta noite estás muito bonita — sussurrou ele. Percorreu lentamente seu braço com
os dedos. —Não posso acreditar que sejas minha.
Ela gemeu seu nome com uma voz que mal era um sussurro.
—Deixe que faça amor contigo.
Ela não o rechaçou. Era incapaz de pronunciar uma palavra. As carícias dele captavam
toda sua atenção. Fechou os olhos e lambeu os lábios lentamente quando Jack lhe mordiscou a
nuca com sua suave boca.
Ele era muito.
—Necessitamo-nos um do outro, Eden. Precisas de mim tanto como eu a ti.
Depois de fazê-la virar com delicadeza para colocá-la de frente a ele, Jack a atraiu a
seus braços e a beijou com paixão embriagadora. Eden se aferrou a ele, tão extasiada pela
carícia lenta e profunda de sua boca sobre a dela que não se deu conta de que a estava

233
empurrando para trás em direção ao luxuoso sofá de cetim de listas que havia junto à lareira
branca.
A seguinte coisa que teve consciência foi que ele a estava colocando sobre o sofá e de
que pôs-se a tremer quando lhe pegou os seios através da blusa. Notava seu corpo muito
receptivo, e a pele intensamente sensibilizada. Estremecia com suas carícias.
—Jack.
—Venha, Eden, isto durou muito. Façamos as pazes, querida. Sabes que te amo.
Ela acariciou-lhe o rosto sem saber o que fazer; ajoelhado ante ela, Jack voltou à
cabeça e apanhou seu dedo com a boca. Eden, invadida por uma crescente luxúria, observou
como lhe lambia as pontas dos dedos com os olhos fechados. Quando voltou a abri-los
brilhavam com um desejo febril; concentrou sua atenção na tarefa de lhe desabotoar o corpete.
Ela tirou a ponta do dedo de sua boca úmida e se inclinou para beijá-lo de novo,
sustentando seu rosto entre as mãos. Ao cabo de uns instantes, as mãos de Jack deslizaram por
todo seu corpo, agarrando-a com avidez por baixo do vestido. Subiu com seus beijos por sua
coxa, ajoelhado, adorando seu corpo, quando de repente bateram na porta.
—Jack! Jack! Estás aí dentro? — era a voz de Trahern. —Tenho que falar contigo!
Agora!
Ele sussurrou uma maldição e em seguida levantou a cabeça.
—O que é? — gritou ele, sem excessiva delicadeza.
—Temos um problema, Jack.
O coração de Eden palpitava.
—Deus santo.
Ela posou as mãos em seus largos ombros e o afastou um pouco.
—Será melhor que vás ver o que se passa — disse ofegando.
—Um momento! — gritou ele, e olhou a Eden com amarga decepção. —Um dia
destes... —sacudiu a cabeça.
Ela riu entre dentes, revolveu-lhe o cabelo e lhe dedicou um sorriso cheio de ardente
afeto.
—Não mudes de ideia — lhe sussurrou ele.
—Não, marido, vou para a cama.
—Mas...
—Preciso descansar para estar bonita — lhe informou ela. —Sobretudo agora que
conheci as minhas cunhadas. Não quero ser a feia.
—Jamais.
—Além disso, não me encontro bem.
Ultimamente tinha tido o estômago um pouco revolto. Só ela podia enjoar agora que
estavam em terra firme.
—Estás bem?

234
—São os nervos, nada mais.
—Poderia ajudar-te a relaxar — sussurrou ele.
—Jack? — Trahern voltou a bater na porta.
—Já vou! Só que não aonde eu gostaria — acrescentou entre dentes, enquanto
colocava bem seu membro ereto com uma careta de dor. —Olha o que me fazes.
Eden arqueou uma sobrancelha em direção a sua virilha, dedicou-lhe um sorriso de
compaixão e a seguir fechou a porta de seu quarto.

Jack não podia dizer que lhe agradasse o dom da oportunidade de Trahern, mas não
demorou a descobrir o motivo de sua urgência. O intrépido tenente tinha bisbilhotado
discretamente nos arredores da embaixada espanhola e tinha descoberto que o homem que
tinha sido nomeado recentemente agregado do embaixador era nada mais e nada menos que
Manuel de Ruiz, o líder do perigoso bando de assassinos que tinha açoitado Bolívar até a própria
porta de sua casa da Jamaica poucos anos atrás.
—Deveríamos tê-los matado quando tivemos ocasião. Trahern se serviu de uma taça
da licoreira.
—É muito fácil dizê-lo — murmurou Jack, que recusou o uísque enquanto punha os
braços na cintura e ficava olhando o chão, refletindo sobre a notícia.
Ruiz era um homem a ter em conta, e aparentemente agora tinha subido de posto
apesar de ter deixado que o Libertador lhe escapasse das mãos. Inclusive no caso de Ruiz não
achar provas de que Jack era o agente dos venezuelanos em Londres, o ex-assassino sem dúvida
o vigiaria.
Bom, Jack contava com que não poderia ocultar sua presença de Ruiz, nem se
incomodava em tentá-lo, pois não se ocultava de ninguém. A única coisa que podia fazer era
ater-se ao pretexto pelo qual estava em Londres, manter-se alerta e, quando tratasse com seus
recrutas, seguir insistindo na necessidade de agir com discrição.
Trahern permaneceu uma hora tratando os diversos assuntos relacionados com a
missão. Quando partiu, Jack foi ver Eden, mas estava profundamente adormecida.
"Maldição". Preferiu deixá-la dormir antes que tentar a sorte e fechou a porta com um
sorriso de arrependimento.
No dia seguinte se ocupou de mais assuntos de negócios e visitou a bolsa com Peter
Stockwell para reunir-se com uns investidores. Alegrou-se muito de ver que o preço de suas
ações tinha subido doze por cento quando se propagou a notícia de que Empresas Knight tinham
adquirido a empresa de Abraham Gold. Aceitou as ofertas que lhe fizeram pela madeira tropical
que havia trazido da zona tórrida e deu sua aprovação ao preço do açúcar, o anil, o rum e outros
bens das Índias Ocidentais.
De noite, quando voltou para o hotel sendo um homem grandemente mais rico, levou
a sua mulher ao teatro.
Robert possuía um dos camarotes melhor situados do teatro, e como Strathmore e
Lizzie se retiraram para sua casa para cuidar de seu recém-nascido, havia espaço de sobra para
235
os doze.
Quis a sorte que naquele dia Shakespeare encabeçasse o programa da função, e
indevidamente entre os personagens aparecia um vilão chamado Edmundo o Bastardo.
Jack lançou um suspiro de chateação ao lê-lo, removeu-se em seu assento e tratou de
entender por que as pessoas queriam ver uma tragédia quando a vida já era suficientemente
trágica. Entretanto, a função que se desenvolvia no cenário não era o objetivo daquela noite no
teatro. O objetivo, naturalmente, era ver e ser visto.
É claro, as damas da família Knight estavam à altura das circunstâncias. Todas eram
deslumbrantes. Alec declarou que, sentadas como estavam ao longo do corrimão, pareciam uma
fileira de ramalhetes de flores plantadas em uma jardineira.
—Muito gracioso — lhe havia dito em tom de brincadeira Miranda, a mulher de
Damien, enquanto sua irmã lhe dava um pequeno pontapé e lhe dizia que se comportasse.
Durante a ridícula pantomima que se representou no cenário, destinada a entreter ao
público antes da obra principal, todo mundo se assombrou da facilidade com que Eden tinha
aprendido a distinguir aos dois gêmeos.
—Eu demorei uma eternidade — declarou Bel. —Como o conseguiste?
—Muito simples — disse Eden sorrindo. —Damien caminha como se desfilasse; Lucien
desliza.
Os dois gêmeos puseram-se a gargalhar ao ouvir isso.
Pouco depois, os atores da pantomima abandonaram o cenário e se iniciou O rei Lear.
O público se acalmou um pouco, mas continuava se ouvindo um murmúrio apagado e
muito movimento em todo o teatro enquanto as mulheres agitavam seus leques e os homens
falavam das corridas de cavalos do dia no qual segundo eles era voz baixa.
Na sala de poltronas, onde se achavam as classes baixas, havia garotas que vendiam
laranjas, de modo que de vez em quando se via uma casca de laranja que saía voando pelos ares
e dava na cabeça de algum aficionado, para regozijo do que a tinha atirado.
Mais acima, na área dos camarotes dos ricos, Jack reparou nas lentes cintilantes de
inumeráveis binóculos que apontavam ao camarote da família Knight. Oh, sim, estavam olhando-
os.
Jack observou como Eden tinha o olhar fixo no cenário, totalmente alheia a que
naquele preciso instante toda a alta sociedade a estava olhando, emitindo um julgamento sobre
ela, e tentando averiguar também o que opinar dele.
Deixou de pensar nos olheiros e desfrutou do prazer de contemplar a sua esposa. Era
uma autêntica beleza. Estava linda vestida de seda azul marinho, com o colar de pérolas duplo
que lhe tinha presenteado nesse mesmo dia. Alegrava-se que ela se encontrasse melhor essa
noite e se perguntava quando demônios ia voltar a dormir com ele, mas justo então o ator que
estava recitando um solilóquio no cenário — o vilão, é claro — pronunciou uma frase que lhe
chamou a atenção.
—Por que ignóbil ou bastardo, quando minhas proporções são harmoniosas, nobre
minha intenção, legítima minha forma como se fosse o filho de uma mulher honrada? —
perguntou o pobre Edmundo no centro do cenário.

236
Jack e seus irmãos cruzaram um olhar irônico.
Algumas de suas esposas os olharam contendo a risada, mas Eden ficou escandalizada.
—Por que nos assinala como ignóbeis ou vis? — gritou Edmundo como se não
pudesse entendê-lo. —Por que como bastardos?
Jack sabia exatamente como se sentia. Alec agachou à cabeça e pôs-se a rir tampando
a boca com a mão. Becky, sua mulher grávida, deu-lhe uma cotovelada.
—Por que como ilegítimos a quem obtive da furtiva lascívia da natureza mais galhardia
e ímpeto que o qual em um leito insípido, tedioso e duro serve para procriar uma tribo de
néscios, gerados entre sonho e vigília?
—Esse homem tem razão — disse Damien alongando as palavras em voz baixa.
—Que graciosa palavra, seu "legítimo"! — continuou Edmundo o Bastardo, enquanto
cruzava o cenário para as lamparinas e se situava tão perto que Eden, com sua excelente
pontaria, poderia lhe ter dado na cabeça com uma casca de laranja se a tivesse tido.
Parecia que tinha vontade de fazê-lo.
—O bastardo Edmundo suplantará ao legítimo — declarou o vilão. —Cresço, prospero.
Oh, deuses, em pé com os bastardos!
—Bravo, amigo! — Jack se levantou e gritou com uma voz forjada para dar ordens
através das ondas.
Imediatamente, seus irmãos se ecoaram de sua emoção e prorromperam em aplausos
e em agudos assobios de aprovação.
Todo o teatro estalou em gargalhadas; fizeram-se brincadeiras sobre isso durante
anos. Afinal, toda a cidade sabia quem eram; sua escandalosa história sempre tinha sido um
segredo corrido a vozes em Londres.
As mulheres da família Knight olharam para seus maridos com carinho e irritação em
partes iguais.
Jack contemplou ao público durante longo tempo com um olhar irônico.
—Bem-vindo lorde Jack! — gritou alguém da sala de poltronas, mas não devia
exagerar.
Sentou-se com expressão de sereno cinismo e arrumou o colete. Lucien ainda estava
rindo e lhe deu uma palmada nas costas.
—Escolheste o momento perfeito, amigo.
—Alguém tinha que dizer algo — murmurou ele, e a seguir bebeu um gole de seu
cantil.
Eden o olhou meneando a cabeça e sorriu.
Durante os dias seguintes, Jack se divertiu ao ver que lhe choviam os convites.
Parecia que sua aberta admissão do escândalo familiar tinha desarmado à alta
sociedade, e agora davam a Jack, o filho pródigo, a oportunidade de demonstrar que não era tão
indigno.
Era estranho como a riqueza e o poder podiam fazer com que os pecados de um
237
homem parecessem simples manias e excentricidades. Em todo caso, a sociedade que uma vez o
tinha rechaçado lhe dirigia agora um gesto de paz.
Em outra época ele teria se negado a aceitá-lo, mas já não estava tão zangado.
Já não estava tão cheio de orgulho.
Além disso, sua amada Eden queria pertencer àquele mundo, e com o conselho de
lorde Arthur em mente, a Jack pareceu uma honra poder cumprir seu desejo.

Capítulo 15

—Disseste que querias plantar raízes — murmurou Jack dois dias mais tarde,
enquanto ela contemplava assombrada a casa que ele tinha intenção de comprar.
Eden não podia responder, deslumbrada pelo espetacular mural barroco do teto do
vestíbulo: um céu azul, umas grandes nuvens prateadas e o deus Apolo conduzindo sua
carruagem. De onde ela se achava, tinha uma vista direta do baixo ventre dos fortes corcéis;
quase os podia ouvir soprar.
O mural produzia uma sensação de movimento realista, o que acrescentado ao resto
de opulentos detalhes do vestíbulo criava uma sensação quase vertiginosa de imponência:
corrimões dourados, esplêndidos e enormes batentes de portas, pilastras brancas
ornamentadas, medalhões com bustos em baixo-relevo de filósofos gregos aparecendo como
olheiros curiosos, querubins pintados por toda parte, superfícies de reluzente mármore italiano
e lustres no alto como brilhantes coroas.
Tinham dado a Jack a casa em condições excelentes como parte do trato que resolvia
a relação entre ele e o velho Abraham Gold. Apesar de sua imponência, ia necessitar de algumas
reformas. Jack tinha proposto que a supervisão da restauração podia ser um projeto adequado
para Eden enquanto ele estivesse na Venezuela.
Ela se voltou aturdida, abrangendo tudo com o olhar, e se alegrou novamente ao
contemplar a vista das altas janelas em forma de arco. O jorro da fonte dançava no centro do
lago ornamental. O caminho de acesso a casa media quase um quilômetro e serpenteava através
de oitenta hectares de ondulante paisagem verde desenhada por Capability Brown.
Naquele instante divisou pela janela sua prima Amélia, que passeava com o tenente
Trahern, e sorriu. Tinham ido procurar sua prima a caminho de Derbyshire, onde se achava a
imponente residência. Quando tivessem acabado ali, Amélia acompanharia Eden à cidade
durante uns dias; uma decisão que pareceu agradar ao senhor Trahern tanto como às garotas.
Eden estava convencida de que ia fazer-se de casamenteira.
Nunca tinha pensado que se converteria na acompanhante de sua prima, mas agora
que era uma mulher casada, gozava daquele privilégio.
—Milorde, milady — disse o administrador de imóveis do senhor Gold, dirigindo-se a
eles. —Se forem amáveis de vir por aqui, terei muito prazer de lhes mostrar o salão de baile.
Tem capacidade para quatrocentos convidados.

238
Eden jamais tinha sonhado que teria um salão de baile, e menos ainda convidar a
quatrocentos convidados. Olhou para Jack, que caminhava languidamente a seu lado.
—De verdade podemos nos permitir isto? — sussurrou.
—Não te preocupes — murmurou ele, enquanto o administrador avançava diante
deles. —Só terei que vender o castelo da Irlanda.
Ela lançou um grito abafado de surpresa.
—Nem te ocorra!
Jack sorriu.
—Só estava brincando.
O brilho malicioso de seus olhos lhe indicou que simplesmente queria ver sua reação,
pois o castelo significava muito para eles como casal. Piscou o olho e a seguir deu uma olhada na
casa.
—Se tu gostas desta casa, deverias ficar com ela.
Ao recordar aqueles maravilhosos três dias, Eden pegou o braço de seu marido com
cauteloso afeto e o conduziu ao salão de baile. Agora se davam melhor que durante a época que
tinha seguido ao triste dia de sua partida da Irlanda. O certo era que o descarado arranque de
Jack no teatro tinha desarmado Eden tanto como à sociedade.
A aceitação que ele ganhou por parte da sociedade com sua briguenta demonstração
parecia o contrário do que Eden teria esperado, mas como Martin lhe explicaria mais adiante, as
pessoas realmente "originais" ditavam a moda rompendo as normas.
Sem dúvida Jack era uma pessoa original, pensou. E no referente a romper normas,
era um perito. Eden examinou o salão de baile e tratou de imaginar aos dois celebrando
rutilantes reuniões como às quais agora os convidavam.
Lançou um olhar ao seu marido e o surpreendeu observando-a de novo com um leve
indício de sorriso nos lábios e um brilho especial em seus olhos azul turquesa. Ela sorriu a ele
por vez, mais feliz do que tinha sido desde semanas; mesmo assim, tinha a sensação de que ele
estava tramando algo.

E assim era.
Mas suas intenções secretas não eram precisamente vis. Depois do importante
progresso que tinha obtido com a alta sociedade e, o que era mais importante, com sua esposa
na noite do teatro, Jack jurou que não desperdiçaria a oportunidade que tinha conseguido.
Estava recuperando pouco a pouco a aceitação de sua mulher, e nada no mundo o deteria.
Tinha metido na cabeça que talvez ela necessitasse que a cortejasse outra vez,
devagar.
Se a apressasse só conseguiria que voltasse a fugir dele. Todos os marinheiros tinham
que aprender a ter uma paciência extraordinária, saber esperar em meio a ventos e marés. Se
ela era a lua, então ele era o mar, escravo de suas ordens, submetido a seu misterioso influxo.
Talvez não gostasse que lhe obrigassem a viver como um monge, mas estava acostumado a viver

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no mar durante longos períodos de tempo e, portanto, a renunciar aos prazeres de Eros.
Sempre descobria que quando voltava a desfrutar dos rituais do sexo, o gozo era ainda
mais doce e embriagador. E por esse motivo tinha decidido dominar seu desejo uma semana
mais.
Se até então ela não o tinha oferecido, Jack tinha prometido a si mesmo que lançaria
mão do pirata que levava dentro de si e simplesmente a tomaria. Não queria chegar a aquele
extremo, mas, maldição, era seu marido e tinha seus direitos. Esperava que ao comprar aquela
casa a inspirasse a lhe agradecer de uma forma mais amorosa.
Terminaram a visita depois de um momento e partiram do edifício assegurando ao
administrador que estavam interessados e que logo lhe comunicariam sua decisão.
Depois os quatro se detiveram aproximadamente na metade do caminho de volta a
Londres para comer em uma pitoresca estalagem.
Jack observou as olhadas sonhadoras que se lançavam o jovem Trahern e a prima
Amélia com terna diversão, agora que conhecia de primeira mão o doce suplício do amor. Fazia
alguns comentários que podiam ajudar seu amigo em sua empresa; dar-lhe-iam a oportunidade
de gabar-se de suas arriscadas proezas no mar.
—Deveria havê-lo visto, senhorita Northrop — disse à garota quando estavam
sentados à mesa rústica da estalagem, comendo sanduíches de rosbife e bebendo cerveja. —
Dois barcos cheios de corsários bereberes21 estavam tentando nos fechar a passagem, mas o
tenente Trahern ordenou aos homens que baixassem os remos e de algum modo conseguiu
colocar a fragata pelo buraco que havia entre seus navios. Passamos sem tocá-los, e o espaço
livre era de pouco mais de dois metros de cada lado.
—Oh! — disse ela.
Amélia Northrop era uma criatura encantadora, uma loira pálida e recatada com uma
voz suave e melodiosa tão doce como uma campainha. Era tão inofensiva, submissa e terna
como sua prima ruiva era fogosa e teimosa.
—Sim, tinham os ganchos preparados — reconheceu Trahern, ao mesmo tempo em
que se ruborizava com modéstia. —Iriam nos abordar. Por sorte, o capitão Jack estava lá. Lutou
contra eles enquanto eu governava o navio.
—Matou... a algum deles, lorde Jack? — perguntou Amélia com voz trêmula. —Refiro-
me aos corsários bereberes.
—Ah, não me lembro. Pode ser que a um par.
Trahern riu resmungando, enquanto sem dúvida recordava a matança daquele dia,
mas quando Amélia se voltou para ele com um olhar interrogativo, caiu na conta de que aquela
sangrenta matança não era o tipo de história que se contasse diante de uma jovem dama
refinada e protegida... e possivelmente Amélia Northrop era a criatura mais refinada e protegida
que nenhum homem tinha conhecido.
Inquieta pela crueldade que se adivinhava sob o esforço dos dois homens por lhe
ocultar o ocorrido aquele dia, Amélia se voltou para sua prima.
—Edie, quando achas que chegará tio Victor?
21
De Berbería ou relativo a esta região do norte de África. Língua falada nesta região.

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Ela e Jack se cruzaram um olhar sutil, já que Eden não tinha contado a Amélia nem a
sua tia Cecily que tinha fugido de seu pai. Deu de ombros.
—É difícil de dizer.
—Veja, senhorita Northrop, não estamos do todo seguros de quando ele virá, mas se
o fizer, deveria chegar um dia destes — murmurou Jack, esticando a mão sobre a mesa para
tocar a mão de Eden em um gesto de consolo.
Eden forçou um sorriso e lhe fez um pequeno gesto de agradecimento com a cabeça.
—Certamente Jack tem razão. Papai chegará logo.
—E lorde Arthur, também — acrescentou Jack. —Um dia destes veremos meu tio.
Isso esperava. Necessitava do Intrépido para que transportasse o material de seus
recrutas junto aos Ventos de fortuna na viagem de volta a América do Sul.
No meio da tarde todos retornaram ao hotel Pulteney.
Sua ampla suíte de seis aposentos era um agradável refúgio, embora Jack tivesse
preferido uma com menos estadias. Dessa maneira, Eden se teria visto obrigada a compartilhar a
cama com ele. Entretanto, era mais conveniente que ela guardasse uma distância respeitável e
tivesse seu próprio toucador como uma autêntica esposa da alta sociedade.
De qualquer forma, Jack tinha pensado deixar às garotas, trocarem de roupa e ir ver os
homens do East End. Tinha que confirmar quantos membros do bando de contrabandistas
pensavam unir-se aos seus recrutas. Não lhe cabia nenhuma dúvida de que então a notícia se
teria se propagado pelos bairros pobres. Era impossível saber quantos dos garotos d