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Ecologia, Biodiversidade e

Áreas Protegidas
Profª. Iraci Alves
Profª. Cláudia Sabrine Brandt
Profª. Edna Maria Alves

2014
Copyright © UNIASSELVI 2014

Elaboração:
Profª. Iraci Alves
Profª. Cláudia Sabrine Brandt
Profª. Edna Maria Alves

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

301.3108
A474e Alves, Iraci
Ecologia, biodiversidade e áreas protegidas / Iraci Alves, Cláudia
Sabrine Brandt, Edna Maria Alves. Indaial : Uniasselvi, 2014.
240 p. : il

ISBN 978-85-7830-856-8

1. Ecologia
I. Centro Universitário Leonardo da Vinci.

Impresso por:
Apresentação
Prezado(a) acadêmico(a)!

Considerando o compromisso do Grupo UNIASSELVI em garantir


a qualidade do material disponibilizado para auxiliar no seu processo de
aprendizagem é sempre um desafio desenvolver um material de estudo
que possa contribuir efetivamente para a formação de um profissional que
seja capaz de ir além do saber, mas saber fazer, produto do conhecimento
compartilhado e internalizado.

Neste sentido, este caderno busca fornecer subsídios para suas


atividades de construção do conhecimento através da apresentação de temas
relevantes à disciplina Ecologia. O processo de construção se deu no sentido de
estimular o aprendizado do conteúdo apresentado em um material eficiente.

O conteúdo é rico em informações, entretanto não temos a pretensão


de esgotar a discussão do tema e por isto foi necessário delimitar a abordagem.
São apresentadas 3 unidades, subdivididas em tópicos cujo objetivo principal
é estimular seu interesse e curiosidade no estudo da disciplina. Sugerimos
algumas vezes outras fontes de informações que serão úteis para a consolidação
do seu conhecimento.

A Unidade 1 do caderno apresenta no Tópico 1, definições que


possibilitam a compreensão dos conceitos básicos de Ecologia. No tópico 2
são relacionados os fatores que influenciam o ambiente físico. O Tópico 3 trata
da correlação entre clima e biomas e o Tópico 4 busca identificar a correlação
entre meio físico e a disponibilidade de recursos naturais.

A Unidade 2 apresenta conteúdo que busca facilitar o conhecimento


da dinâmica da estrutura das populações naturais, identificando as
diferentes formas de interação ocorrentes entre os organismos. No tópico 3
são apresentados conteúdos que possibilitam a compreensão dos padrões e
processos existentes nas comunidades e para finalizar a unidade, no Tópico
4 são apresentadas as relações de fluxo de energia e matéria que regem a
dinâmica dos ecossistemas.

Finalmente, a Unidade 3 aborda as aplicações da ecologia, onde são


tratados temas atuais como a Ecologia da Conservação, a Ecologia Humana e
fechando o caderno o Tópico Desenvolvimento Sustentável.

Lembre-se que a UNIASSELVI coloca a sua disposição tutores e demais


colaboradores que podem contribuir neste modelo de Educação a Distância.

III
Sucesso em sua caminhada!

Profa. Cláudia Sabrine Brandt


Profa. Edna Maria Alves
Profa. Iraci Alves

UNI

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

IV
UNI

Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos


materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais
os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais
que possuem o código QR Code, que é um código
que permite que você acesse um conteúdo interativo
relacionado ao tema que você está estudando. Para
utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos
e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar
mais essa facilidade para aprimorar seus estudos!

V
VI
Sumário
UNIDADE 1 - VIDA E AMBIENTE FÍSICO...................................................................................... 1

TÓPICO 1 - ECOLOGIA BÁSICA........................................................................................................ 3


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 3
2 HISTÓRIA DA ECOLOGIA................................................................................................................ 4
3 OS ORGANISMOS E O MEIO FÍSICO – CONCEITOS............................................................... 6
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 11
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 13

TÓPICO 2 - AMBIENTE FÍSICO.......................................................................................................... 15


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 15
2 POTENCIAL BIÓTICO........................................................................................................................ 15
3 FATORES LIMITANTES FÍSICOS..................................................................................................... 17
4 MAGNIFICAÇÃO BIOLÓGICA DAS SUBSTÂNCIASTÓXICAS............................................. 20
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 23
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 25

TÓPICO 3 - BIOMAS............................................................................................................................... 27
1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 27
2 O QUE SÃO BIOMAS?......................................................................................................................... 27
3 AS CONDIÇÕES QUE DETERMINAM A DISTRIBUIÇÃO DOS BIOMAS E A
ADAPTAÇÃO DOS SERES VIVOS AOS PRINCIPAIS BIOMAS MUNDIAIS E
BRASILEIROS .......................................................................................................................................... 27
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 51
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 56
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 58

TÓPICO 4 - MEIO FÍSICO E A DISPONIBILIDADE DE RECURSOS........................................ 59


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 59
2 CONDIÇÕES AMBIENTAIS.............................................................................................................. 59
3 RECURSOS VEGETAIS....................................................................................................................... 60
4 ANIMAIS E SEUS RECURSOS.......................................................................................................... 62
RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................ 64
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 66

ATIVIDADE DE LABORATÓRIO E DIDÁTICO-PEDAGÓGICO DE BIOLOGIA ................ 67

UNIDADE 2 - ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS......... 73

TÓPICO 1 - ORGANISMOS E POPULAÇÕES.................................................................................. 75


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 75
2 HISTÓRIAS DE VIDA DOS ORGANISMOS...................................................................... 77
3 MONITORANDO A MORTALIDADE, A NATALIDADE E A DISPERSÃO DOS
ORGANISMOS DE UMA POPULAÇÃO ........................................................................................... 80

VII
3.1 TABELAS DE VIDA E CURVAS DE SOBREVIVÊNCIA............................................................ 80
3.2 DISPERSÃO E MIGRAÇÃO........................................................................................................... 83
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 85
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 86

TÓPICO 2 - INTERAÇÕES ECOLÓGICAS........................................................................................ 87


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 87
2 INTERAÇÕES INTRAESPECÍFICAS................................................................................................ 87
2.1 SOCIEDADE...................................................................................................................................... 88
3 INTERAÇÕES INTERESPECÍFICAS................................................................................................ 89
3.1 PREDAÇÃO....................................................................................................................................... 90
3.2 HERBIVORIA.................................................................................................................................... 91
3.3 PARASITISMO.................................................................................................................................. 92
3.4 AMENSALISMO............................................................................................................................... 93
3.5 COMENSALISMO............................................................................................................................ 94
3.6 PROTOCOOPERAÇÃO................................................................................................................... 95
3.7 MUTUALISMO................................................................................................................................. 96
4 A COMPETIÇÃO................................................................................................................................... 98
4.1 RECURSOS ECOLÓGICOS............................................................................................................. 98
4.2 RECURSOS LIMITANTES............................................................................................................... 99
4.3 TIPOS DE COMPETIÇÃO............................................................................................................... 99
4.3.1 Competição intraespecífica..................................................................................................... 100
4.3.2 Competição interespecífica..................................................................................................... 102
5 A EVOLUÇÃO DAS INTERAÇÕES ENTRE AS ESPÉCIES......................................................... 103
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 107
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 109

TÓPICO 3 - ECOLOGIA DE COMUNIDADES................................................................................ 111


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 111
2 CADEIAS ALIMENTARES.................................................................................................................. 113
3 SUCESSÃO ECOLÓGICA .................................................................................................................. 114
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 118
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 125
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 126

TÓPICO 4 - ECOSSISTEMAS................................................................................................................ 127


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 127
2 ENERGIA NOS ECOSSISTEMAS..................................................................................................... 127
3 CICLOS BIOGEOQUÍMICOS............................................................................................................ 130
3.1 CICLAGEM DO NITROGÊNIO..................................................................................................... 131
3.2 CICLAGEM DO FÓSFORO............................................................................................................. 133
3.3 CICLAGEM DO ENXOFRE............................................................................................................ 134
3.4 CICLAGEM DO CARBONO........................................................................................................... 135
3.5 CICLO HIDROLÓGICO.................................................................................................................. 137
4 CLASSIFICAÇÃO DOS ECOSSISTEMAS...................................................................................... 138
RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................ 140
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 141

UNIDADE 3 - GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO.................................................... 143

TÓPICO 1 - BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO.................................................................................. 145


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 145

VIII
2 COMPREENDENDO OS PROCESSOS............................................................................................ 145
3 BIODIVERSIDADE............................................................................................................................... 146
4 ESTIMATIVA DA BIODIVERSIDADE............................................................................................ 147
5 AMEAÇAS À BIODIVERSIDADE.................................................................................................... 148
5.1 EXTINÇÃO E SUAS CAUSAS........................................................................................................ 149
5.2 PERDA E FRAGMENTAÇÃO DE HABITATS............................................................................. 150
6 CONSERVAÇÃO................................................................................................................................... 151
6.1 O ESTABELECIMENTO DE NOVAS POPULAÇÕES................................................................ 153
6.2 CONSERVAÇÃO IN SITU E EX SITU........................................................................................... 153
6.2.1 Zoológicos................................................................................................................................. 154
6.2.2 Aquários.................................................................................................................................... 154
6.2.3 Jardins botânicos...................................................................................................................... 154
6.2.4 Bancos de sementes................................................................................................................. 154
7 O VALOR ECONÔMICO DA BIODIVERSIDADE....................................................................... 155
7.1 OS CUSTOS AMBIENTAIS............................................................................................................. 157
8 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL......................................................................................... 158
8.1 ASPECTOS TEÓRICOS SOBRE DESENVOLVIMENTO E SUSTENTABILIDADE............... 158
8.2 DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE..................................................................................... 159
8.3 CRESCIMENTO OU DESENVOLVIMENTO?............................................................................. 161
8.4 A ABORDAGEM DA SUSTENTABILIDADE NO CONTEXTO INTERNACIONAL............ 162
8.5 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NO BRASIL................................................................ 163
9 A AGRICULTURA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL.............................................. 164
9.1 A AGRICULTURA MODERNA..................................................................................................... 165
9.2 AGRICULTURA TRADICIONAL.................................................................................................. 166
9.3 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL.................................................................................................. 166
9.4 AGRICULTURA FAMILIAR........................................................................................................... 170
9.5 POLÍTICAS PÚBLICAS................................................................................................................... 171
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 172
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 175
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 176

TÓPICO 2 - CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS............................................................. 177


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 177
2 DEFININDO CONCEITOS................................................................................................................. 178
3 ESTABELECIMENTO DE ÁREAS PROTEGIDAS......................................................................... 180
3.1 ÁREAS DE PROTEÇÃO PERMANENTE – APP......................................................................... 181
3.2 RESERVA LEGAL – RL.................................................................................................................... 186
4 AS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO SEGUNDO O SISTEMA NACIONAL
DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO – SNUC (Lei nº 9.985/00)................................................. 187
4.1 UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DE PROTEÇÃO INTEGRAL.............................................. 188
4.1.1 Estação Ecológica (Esec)......................................................................................................... 189
4.1.2 Reserva Biológica (Rebio)...................................................................................................... 190
4.1.3 Parque Nacional (Parna)........................................................................................................ 190
4.1.4 Monumento Natural (Mona)................................................................................................. 192
4.1.5 Refúgio da Vida Silvestre (Revis)......................................................................................... 192
4.2 UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DE USO SUSTENTÁVEL................................................... 193
4.2.1 Área de Proteção Ambiental (APA)...................................................................................... 193
4.2.2 Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE)................................................................... 194
4.2.3 Floresta Nacional (Flona)....................................................................................................... 194
4.2.4 Reserva Extrativista (Resex).................................................................................................. 195
4.2.5 Reserva de Fauna.................................................................................................................... 196
4.2.6 Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS)............................................................... 197

IX
4.2.7 Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN)............................................................ 197
5 CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 9.985/00................................................................................ 199
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 200
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 201

TÓPICO 3 - CRIAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E GESTÃO DE UNIDADES


DE CONSERVAÇÃO............................................................................................................................... 203
1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 203
2 ÓRGÃOS RESPONSÁVEIS PELO SISTEMA NACIONAL DE UNIDADES DE
CONSERVAÇÃO................................................................................................................................... 203
3 A CRIAÇÃO DE UMA UNIDADE DE CONSERVAÇÃO............................................................. 204
4 ELABORAÇÃO DO PLANO DE MANEJO DE UMA UNIDADE DE CONSERVAÇÃO...... 206
5 AVALIAÇÃO DA EFETIVIDADE DO MANEJO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO..... 212
5.1 MÉTODO RAPPAM (RAPID ASSESSMENT AND PRIORIZATION FOR PROTECTED
AREAS MANAGEMENT) OU METODOLOGIA DE AVALIAÇÃO RÁPIDA E
PRIORIZAÇÃO DO MANEJO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO.................................... 213
5.2 O ESTABELECIMENTO DO CONSELHO DE UMA UNIDADE DE CONSERVAÇÃO....... 215
6 O USO PÚBLICO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO............................................................ 217
7 ACORDOS DE GESTÃO..................................................................................................................... 219
8 CONCESSÃO DE FLORESTAS PÚBLICAS.................................................................................... 219
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 221
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 222

TÓPICO 4 - GESTÃO TERRITORIAL PARA A CONSERVAÇÃO............................................... 223


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 223
2 CORREDORES ECOLÓGICOS.......................................................................................................... 223
3 MOSAICOS DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO...................................................................... 224
4 RESERVAS DA BIOSFERA................................................................................................................. 226
RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................ 228
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 229
REFERÊNCIAS.......................................................................................................................................... 231

X
UNIDADE 1

VIDA E AMBIENTE FÍSICO

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
Esta unidade tem por objetivos:

• definir e compreender conceitos básicos de ecologia;

• relacionar fatores que influenciam o ambiente físico;

• identificar correlação entre clima e biomas;

• identificar correlação entre meio físico e disponibilidade de recursos.

PLANO DE ESTUDOS
A Unidade 1 está dividida em quatro tópicos, cujas atividades, no final de
cada um deles, reforçarão o seu aprendizado.

TÓPICO 1 – ECOLOGIA BÁSICA

TÓPICO 2 – AMBIENTE FÍSICO

TÓPICO 3 – BIOMAS

TÓPICO 4 – MEIO FÍSICO E A DISPONIBILIDADE DE RECURSOS

Assista ao vídeo
desta unidade.

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

ECOLOGIA BÁSICA

1 INTRODUÇÃO
Caro(a) acadêmico(a)! Você, provavelmente, já deve ter ouvido falar em
ecologia e já deve ter uma noção sobre o tema. O significado da palavra ecologia
originou do grego oikos (casa) e logos (estudo), e têm como significado literal
“estudo da casa”. Ecologia é a ciência que estuda a relação entre os seres vivos e os
demais componentes do ambiente, ou seja, o estudo do ambiente, com seus fatores
físicos, químicos e biológicos que afetam os organismos.

A ecologia também pode ser definida, segundo os autores a seguir:

• Phillipson (1969): “o estudo das inter-relações, entre o vivo e o seu


ambiente físico, e com todos os outros organismos que vivem nesse ambiente”;
• Odum (1977): o “estudo da estruturação e funcionalidade da
natureza”;
• Dajoz (1978): a “ciência que estuda as condições em que os seres
vivos existem e suas interações, com o seu meio”;
• Pianka (1983): o “estudo das relações entre os seres vivos os fatores
físicos e biológicos, que os atingem, ou são afetados por eles, direta ou
indiretamente”;
FONTE: Adaptado de: < http://www.ufpa.br/npadc/gpeea/artigostext/resumoEcologia.pdf >.
Acesso em: 31 maio 2013.

• Lopes e Rosso (2005): a “Ecologia é uma área da biologia que se preocupa


em estudar as relações entre os seres vivos e entre eles e o meio ambiente em que
vivem.”

Pelo fato da ecologia procurar explicar fenômenos ambientais complexos,


apoia-se em outras ciências como a Química, Física, Climatologia, Geografia,
Economia, Oceanografia, Geologia, Antropologia, Sociologia, Psicologia, e outros
ramos da Biologia como Botânica, Fisiologia, Zoologia, etc.

A Ecologia como ciência é muito recente comparada à Física e à Química,


consideradas ciências mais precisas. O seu entendimento quanto à estrutura e
funcionamento dos ecossistemas necessita de comprovação e investigação frente
às várias hipóteses, o que demanda ainda muitos estudos. Um exemplo desta
problemática é a “teoria da seleção natural”, descrita inicialmente por Charles

3
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

Darwin (1809-1882) e Alfred Wallace (1823-1913) e amplamente difundida através


da obra “A origem das espécies pela seleção natural”, escrita por Darwin em 1859
(PIANKA, 1983).

2 HISTÓRIA DA ECOLOGIA
Apesar de o pesquisador alemão Ernst Haeckel (Figura a seguir) ter sido
o primeiro a empregar a palavra ecologia, no ano de 1866, outros pesquisadores
contribuíram no desenvolvimento desta ciência.

FIGURA 1 – BIÓLOGO ALEMÃO ERNST HAECKEL, PRIMEIRO


CIENTISTA A EMPREGAR O TERMO ECOLOGIA, NO ANO DE 1866

FONTE: Disponível em: <www.eudesandradebiologo.blogspot.com>.


Acesso em: 3 mar. 2013.

Essa contribuição ocorreu através de estudos das cadeias alimentares e


regulação de populações por Anton Van Leeuwenhoek e sobre a produtividade
biológica com Richard Bradley, no século XVIII e XIX. Ainda, Charles Darwin
em 1859 já considerava as inter-relações dos organismos, mesmo não tendo
conhecimento mais profundo sobre a questão ecológica desta ciência. Já na
segunda metade do século XIX, estudando a função comparada entre animais e
vegetais, Forbes (1887) dividiu a ecologia em Ecologia Animal e Ecologia Vegetal.
Möbius (1877), por sua vez, abordou os ambientes aquáticos marinhos, originando
a ecologia dos oceanos.

Para melhor explicar a função e a estrutura dos ecossistemas, a ecologia


contou com o surgimento da Termodinâmica, da Estatística e da Cibernética
possibilitando o surgimento da Ecologia Humana. Através da observação do papel
do homem no meio por Odum (1959) e sob a ênfase da subsistência e da evolução

4
TÓPICO 1 | ECOLOGIA BÁSICA

das populações humanas no meio, por König (1967) e Wallner (1972), foi possível
considerar a relação dependente entre meio ambiente e o homem (socioeconomia
e antropoecologia). Além disso, os estudos ecológicos foram subdivididos sob os
seguintes enfoques: indivíduo e ambiente (autoecologia); população e ambiente
(demoecologia); comunidade e ambiente (sinecologia).

Mas foi no século XX, que a ecologia foi reconhecida como um campo
distinto da biologia e como ciência, através de uma teoria unificada baseada em
estudos que produziram os conceitos: comunidades bióticas por F. E. Clements e
V. E. Shelford, e cadeia alimentar e ciclagem de matéria por R. Linderman e G. E.
Hutchinson (ODUM, 1988).

Atualmente, é frequente a confusão entre os termos Ecologia Humana e


Ecologia e Meio Ambiente pelo fato do termo ecologia ser referido também como
o estudo dos problemas ambientais causados pelas sociedades humanas, que na
verdade abrange apenas o homem. Porém, é denominado Ecologia Humana o
estudo focando o homem como um organismo, uma espécie animal e suas relações
com o meio.

Por outro lado, a questão ambiental, em nível global, vem tomando maior
destaque desde o final da década de 60 e 70, devido às crescentes alterações
ambientais causadas pela sociedade moderna. Nesse contexto é possível verificar
que meio ambiente não é sinônimo de ecologia, mas uma área de ação dentro
da ecologia que integra problemas ambientais. O manejo de ecossistemas se
fundamenta em teorias ecológicas consistentes, baseadas em leis ambientais
que visam a um equilíbrio entre as comunidades animais e vegetais, fontes de
produtos úteis ao homem (conservação) e de conhecimento científico (conservação
e preservação) para uso das próximas gerações, bem como, o desenvolvimento
sustentável, trabalhando as necessidades presentes sem prejudicar as futuras. Por
fim, a abordagem mais polêmica dada por esta parte da ecologia e o jogo existente
entre os interesses econômicos e as ações políticas (ODUM; BARRET, 2008 apud
SANTO; FERRARI, 2012).

NOTA

Cibernética é uma tentativa de compreender a comunicação e o controle de


máquinas, seres vivos e grupos sociais através de analogias com as máquinas eletrônicas.
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Cibernética>. Acesso em: 6 fev. 2013.

5
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

ATENCAO

Os três principais ramos/áreas de estudo da ecologia foram determinados pelo


botânico Carl Schroter no início do século XX, que são:
Autoecologia: estuda as espécies (animal ou vegetal) a partir de suas relações com o meio
ambiente, ou seja, como reagem separadamente a determinados fatores ambientais (clima,
vegetação, relevo etc.). É um ramo científico clássico e atualmente seguido por poucos
cientistas.
Sinecologia: conhecida por ecologia comunitária é voltada ao estudo das comunidades
de seres vivos. Foca a distribuição das populações e suas relações ecológicas, demografia,
deslocamento e quantidades. Ainda, examina as cadeias alimentares, as sucessões ecológicas
e inter-relações entre predadores e presas.
Demoecologia: também conhecida por dinâmica das populações ou ecologia das
populações. Realiza o estudo de cada população separadamente.

FONTE: Disponível em: <www.todabiologia.com/ecologia/ramos_ecologia.htm>. Acesso


em: 18 mar. 2013.

ATENCAO

Atualmente novos ramos da ecologia estão surgindo como: a dinâmica


de populações, ecologia humana, ecologia social, ecologia comportamental, ecologia
matemática, entre outras. Dezenas de livros, jornais, periódicos, congressos e simpósios
especializados em ecologia são lançados todos os anos, em todos os países do mundo.
A abordagem política da ecologia tem crescido muito, principalmente porque esta ciência é
a que possibilita o entendimento das transformações causadas pelo homem no ambiente,
e das suas consequências para a humanidade. O congresso mundial de meio ambiente,
a ECO-92 e a AGENDA 21 são exemplos de transformações políticas impulsionadas pela
ecologia e pelas ciências ambientais.

FONTE: Disponível em: <www.terra.com.br>. Acesso em: 18 mar. 2013.

3 OS ORGANISMOS E O MEIO FÍSICO – CONCEITOS



Vamos agora relembrar alguns conceitos básicos de ecologia.

Os fatores abióticos (a= sem; bio= vida) são todos os elementos não vivos
de um ambiente, tais como a luz solar, solo, ar, água e temperatura. Por outro lado,
os fatores bióticos são todos os elementos vivos de um ambiente, ou seja, todos os
seres vivos, tanto os aquáticos como os seres terrestres (Figura 2).

Os seres vivos podem ser organizados em diferentes níveis de organização


ecológica: célula – tecido – órgão – sistema de órgãos – organismo – população –

6
TÓPICO 1 | ECOLOGIA BÁSICA

comunidade – ecossistema – paisagem – bioma – ecosfera (Figura 3), interagindo


entre eles nos seus processos ou funções. Portanto, qualquer estado de organização
da vida somente é mantido através de um fluxo de energia contínuo, pois passa
por uma série de níveis diferentes de organização (ODUM; BARRET, 2008).

FIGURA 2 – OS FATORES BIÓTICOS E ABIÓTICOS DO ECOSSISTEMA SERRA DA MALCATA, A


1075 METROS DE ALTITUDE – PORTUGAL

FONTE: Disponível em: <http://cn8-st.blogspot.com.br/2011/02/1-dinamica-dos-


ecossistemas.html#!/2011/02/1-dinamica-dos-ecossistemas.html>. Acesso em: 3 mar. 2013.

7
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

Conceitos Ecológicos

Espécie: é o conjunto de indivíduos semelhantes estruturalmente,


funcionalmente e bioquimicamente que se reproduzem naturalmente, originando
descendentes férteis. Apresenta uma propagação genética própria em resposta às
pressões do ambiente ao longo da evolução. Assim, todos os organismos de Homo
sapiens pertencem a uma mesma espécie, assim como ocorre, por exemplo, com
organismos de Araucaria angustifolia (pinheiro-do-paraná).

FIGURA 3 – AS ESCALAS HIERÁRQUICAS DENTRO DE NÍVEIS DE ORGANIZAÇÃO


ECOLÓGICOS NOS SEUS PROCESSOS E FUNÇÕES

FONTE: Disponível em: <www.ecopaisagem.wikispaces.com>. Acesso em: 3 mar. 2013.

Organismo: é a unidade (indivíduo) fundamental da ecologia. É qualquer corpo vivo


(unicelular ou pluricelular), ou seja, é um ser vivo individual (veja com maiores detalhes a
Unidade 2).

População: é o conjunto de indivíduos da mesma espécie que vivem em uma mesma


área em um determinado período, e abrange a taxa de natalidade, a taxa de mortalidade, a
proporção de sexos, a distribuição de idades, a emigração e imigração etc. Ex.: indivíduos de
aracuã (Ortalis guttata) vivendo em um fragmento florestal; cardume de uma espécie de peixe,
entre outros (mais detalhes serão dados na Unidade 2).

Comunidade: é o conjunto de populações de várias espécies que sofrem interferência


uma das outras, e que habitam um determinado espaço (região) em um determinado tempo

8
TÓPICO 1 | ECOLOGIA BÁSICA

(período). Ex.: o conjunto de seres vivos que habitam um rio ou lago, ou ainda uma área
florestal, entre outros.

Ecossistema ou sistema ecológico: “Um sistema ecológico ou ecossistema


é qualquer unidade que inclui todos os organismos (comunidade biótica), em
uma dada área, interagindo com o meio físico de modo que um fluxo de energia
leve a estruturas bióticas claramente definidas e à ciclagem de materiais entre
componentes vivos e não vivos”. (ODUM; BARRET, 2008). Ex.: cavidade bucal;
floresta Amazônica.
FONTE: Adaptado de: <http://www.oficinacientifica.com.br/downloads/Ecossistemas.pdf>.
Acesso em: 1 jun. 2013

Habitat: é o lugar preciso onde uma espécie vive, isto é, o seu “endereço”
dentro do ecossistema que determina o comportamento de sobrevivência e
reprodutivo da comunidade (local de abrigo, alimentação e reprodução). Ex.: o
habitat de uma solitária Taenia solium é o intestino de outro animal; o solo é o
habitat de minhocas.

Biótopo: é a área física na qual determinada comunidade vive. Ex.: o habitat


das piranhas é a água doce e o biótopo Rio Amazonas é o local onde vivem todos
os seres vivos desse rio, inclusive as piranhas.

Nicho ecológico: o nicho ecológico pode ser definido como o total de


necessidades e condições necessárias à sobrevivência de um organismo. É um
espaço n-dimensional, no sentido de que há uma infinidade de propriedades
envolvidas (ODUM, 1988).

Ecótono: é a região de transição entre duas ou mais comunidades/


ecossistemas. Nesta área de transição (ecótono) encontramos grande número de
espécies, e consequentemente, grande número de nichos ecológicos. Ex.: floresta e
campo, ambiente marinho e dulcícola, matas de cocais que consistem na transição
entre o bioma amazônico e a caatinga.

Biosfera: é o conjunto de todos os ecossistemas da Terra, ou seja, de todas


as formas de vida que inclui a litosfera, a hidrosfera e a atmosfera. Nesta faixa se
encontram os gases oxigênio e nitrogênio, importantes para a vida. (ODUM, 1988).

NOTA

O termo “biosfera” foi introduzido em 1875, pelo geólogo austríaco Eduard


Suess. Entre 1920 e 1930 iniciou a aplicar o termo biosfera para designar “a parte do planeta
ocupada pelos seres vivos. O conjunto de todas as partes do planeta Terra onde existe ou
pode existir vida. Os seus limites vão desde as mais altas montanhas até as profundezas das
fossas abissais marinhas”. Existem autores que consideram a Terra um verdadeiro ser.

9
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

DICAS

Complemente seus conhecimentos, leia também: fatores abióticos e bióticos:


<http://www.puc-campinas.edu.br/centros/ccv/Graduacao/Biologia/aulas/Aula03.pdf>.
<http://www.slideshare.net/teresacondeixa/factores-abiticos-temperatura-355512>.
<http://www.db-piracicaba.com.br/download/Fatores ecologicos.pdf>.

10
RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico, você pode concluir que:

• O termo ecologia foi empregado pela primeira vez, em 1866, pelo zoólogo
alemão Ernst Haeckel.

• Ecologia é a ciência que estuda a relação entre os seres vivos e os componentes


do meio ambiente que afetam os organismos.

• A ecologia se relaciona com outras ciências para explicar fenômenos ambientais


que ocorrem nos ecossistemas, como: Química, Física, Climatologia, Geografia,
Economia, Oceanografia, Geologia, Antropologia, Sociologia, Psicologia; e
outros ramos da Biologia: Botânica, Fisiologia, Zoologia etc.

• Depois do primeiro emprego da palavra ecologia, em 1869, com o alemão Ernst


Haeckel, outros pesquisadores contribuíram no desenvolvimento desta ciência.

• Forbes (1887) subdividiu a ecologia em Ecologia Animal e Ecologia Vegetal, na


segunda metade do século XIX.

• Möbius (1877) abordou a ecologia dos oceanos.

• A termodinâmica, a estatística e a cibernética contribuíram para melhor explicar


a função e estrutura dos ecossistemas.

• A Ecologia Humana foi criada através da observação do papel do homem


no meio, por Odum (1959) e sob a ênfase da subsistência e da evolução das
populações humanas no meio, por König (1967) e Wallner (1972), designado de
relação dependente (socioeconomia e antropoecologia).

• No século XX, a ecologia foi reconhecida como um campo distinto da biologia e


como ciência.

• Espécie é o conjunto de indivíduos semelhantes que se intercruzam, originando


descendentes férteis.

• Organismo é um ser vivo. A unidade fundamental da ecologia. Cada organismo


é limitado por uma membrana (unicelulares) ou outra cobertura, no qual ocorre
uma troca de energia e matéria com seu meio.

• População é o conjunto de indivíduos da mesma espécie que vivem numa


mesma área em um determinado período.

• Comunidade é o conjunto de populações de várias espécies que habitam um

11
determinado espaço em um determinado tempo.
• Ecossistema ou sistema ecológico é o conjunto dos fatores abióticos e bióticos
que interagem.

• Habitat é o endereço de uma espécie dentro do ecossistema.

• Biótopo é a área física na qual determinada comunidade vive.

• Nicho ecológico é o conjunto de condições e recursos necessários à sobrevivência


de um organismo.

• Ecótono é a região de transição entre duas comunidades ou entre dois


ecossistemas.

• Biosfera é o conjunto de todos os ecossistemas da Terra, os seres vivos e o


ambiente em que vivem (habitat).

12
AUTOATIVIDADE

1 Qual o conceito biológico da palavra Ecologia e discorra sobre a importância


deste estudo para os seres vivos em geral.

2 Assinale as alternativas incorretas e torne-as corretas:

a) Espécies são indivíduos morfologicamente diferentes, capazes de se


reproduzirem e gerarem descendentes férteis.
b) População: indivíduos da mesma espécie presentes em áreas diferentes.
c) Comunidade: indivíduos de iguais espécies presentes em uma área.
d) Ecossistema: relação que ocorre entre a comunidade e os fatores abióticos.
e) Biosfera: maior ecossistema da Terra, parte não viva do planeta.
f) Habitat: papel “profissão” que o indivíduo desempenha na natureza.

13
14
UNIDADE 1
TÓPICO 2

AMBIENTE FÍSICO

1 INTRODUÇÃO
Depois do contexto introdutório da ecologia, o que ela é? Qual é a sua
função? E do que consiste? Podemos entender que no mundo natural encontramos
componentes vivos e o não vivos onde um depende do outro. Em outras palavras,
a vida depende do mundo físico e os seres vivos afetam o meio físico.

Neste Tópico veremos a influência do meio físico sobre a vida, ou seja,


sobre os organismos e consequentemente sobre o seu grupo. O conjunto de todos
os fatores físicos exerce influência sobre o crescimento, atividades, características
e a distribuição de comunidades, em diferentes locais (regiões), determinando a
diversidade de ambientes (RICKLEFS, 2003).

2 POTENCIAL BIÓTICO
Em condições hipotéticas ideais, em que não houvesse mortalidade e
nenhuma restrição à sobrevivência de uma população biológica, seu crescimento
seria infinito, atingindo rapidamente um número elevadíssimo de indivíduos.
Vamos pensar na reprodução de um casal de coelhos, que aos seis meses estão
maduros sexualmente, e a cada dois meses se procriam gerando em média sete
filhotes. Ao completar dois anos estes já somariam 3158 descendentes, e ao final de
alguns anos somariam milhões de indivíduos, cuja capacidade de crescimento se
denomina potencial biótico. A representação gráfica deste crescimento hipotético é
representada por uma curva exponencial em forma de J (Figura 4).

No entanto, em ecossistemas naturais não se observa tal potencial biótico.


Observam-se populações relativamente estáveis na sua densidade, devido à
resistência do meio, observando-se então o crescimento real. Isso ocorre porque todas
as populações estão expostas a uma grande variedade e quantidade de fatores
ambientais (bióticos e abióticos), que limitam o seu crescimento, cujo conjunto de
fatores ambientais limitantes denomina-se resistência do meio. Esta resistência pode
ocorrer devido à indisponibilidade de alimento, água, espaço, condições climáticas
adversas e pelas relações com outras espécies, principalmente a predação e a
competição (Figura 5) (RICKLEFS, 2003).

15
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

FIGURA 4 – GRÁFICO DE CRESCIMENTO REAL DE UMA POPULAÇÃO

FONTE: Disponível em: <http://falamorim.blogspot.com.br/2009/09/dinamica-das-


populacoes-analise-grafica.html>. Acesso em: 16 abr. 2013.

FIGURA 5 – FATORES AMBIENTAIS QUE INFLUENCIAM O CRESCIMENTO REAL DE UMA


POPULAÇÃO

FONTE: Disponível em: <www.portalportinari.com.br/dw/ecologia.ppt>. Acesso em: 16 fev. 2013.

De modo geral uma população cresce em um ambiente favorável real


obedecendo aos seguintes critérios:

• Primeiramente o crescimento populacional é baixo, pelo baixo número de


indivíduos.

• Ocorre um aumento exponencial, à medida que o número de indivíduos vai


aumentando.

16
TÓPICO 2 | AMBIENTE FÍSICO

• Sua densidade também aumenta, elevando a resistência do meio, diminuindo o


crescimento populacional.

• É atingido um equilíbrio na taxa de natalidade e mortalidade (estabilização


da densidade populacional), permanecendo constante. Graficamente esse
crescimento tem forma sigmoide, em forma de S, caracterizando o limite
máximo de indivíduos suportado pelo ambiente (capacidade de suporte do
meio ou carga biótica máxima). (Figura 4) (RICKLEFS, 2003).

3 FATORES LIMITANTES FÍSICOS



Agora veremos os principais fatores abióticos que formam os diferentes
ecossistemas distribuídos no planeta e a sua influência sobre o sucesso de um
organismo, de um grupo de organismos, ou de uma comunidade biótica. Bem
como, os fatores limitantes (qualquer condição que se aproxime ou exceda os limites
de tolerância), ou seja, que se aproxime das necessidades mínimas de sucesso, em
condições de estabilidade de uma comunidade (ODUM; BARRETT, 2008).

Os fatores climáticos (luz, temperatura, umidade e pluviosidade) caracterizam


o clima de uma região, e os fatores edáficos, como a composição química e a estrutura
do solo, classificam os diferentes fatores abióticos. Esses fatores nada mais são
do que as condições ambientais, ou seja, as características físicas e químicas
do ambiente e não são consumidas nem esgotadas durante as atividades dos
organismos, criando assim o Macroclima ou Clima Regional e o Microclima particular
a que um organismo vivo está sendo submetido (ODUM; BARRETT, 2008).

Segundo Odum e Barrett (2008), os principais fatores limitantes físicos


(fatores abióticos) de um ecossistema natural são:

A luz, energia indispensável ao desenvolvimento das plantas, através do


processo da fotossíntese, que capta a energia luminosa, tendo como fonte o sol. Com
exceção das espécies cavernícolas (que vivem em cavernas) e das espécies abissais
(que vivem em grandes profundezas), todos os seres vivos necessitam de luz
solar. A luz também influencia a distribuição dos seres vivos e suas características
morfológicas (fenótipo).

Desta forma, os seres vivos, cada um na sua espécie, conseguem sobreviver


entre um limite de temperatura, denominado por limite térmico ou Lei do Mínimo
de Liebig. E para que suas atividades vitais possam ser desenvolvidas ao máximo,
deverão se encontrar, na faixa da temperatura ótima.

A água é outro fator indispensável para a sobrevivência dos organismos


e das comunidades. Sua importância se dá tanto nas atividades celulares e
fisiológicas dos seres vivos (transpiração e condução das seivas), como também, no
ponto de vista ecológico, já que, nos ambientes terrestres e aquáticos, a salinidade
pode variar muito causando a perda de água dos organismos por osmose. Por isso,
17
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

a chuva, a umidade, a evaporação e a disponibilidade superficial de água são os


principais fatores abióticos de um ecossistema.

Os gases atmosféricos, como o oxigênio e o gás carbônico, também são


essenciais para a vida no planeta Terra (fotossíntese e respiração), em ambientes
terrestres e aquáticos, assim como a concentração de íons de hidrogênio, que estão
diretamente relacionados ao pH da água (habitat de muitos organismos).

E por fim, o vento e as enchentes também são considerados fatores


limitantes aos seres vivos, porque o meio atmosférico e hidrosférico não são
estáveis. Por isso, são fatores que contribuem para o aumento ou diminuição da
produção no nível de espécies em nível de ecossistema.

Não se pode esquecer a disponibilidade de nutrientes (macronutrientes


e micronutrientes) também essenciais à vida dos animais e vegetais, por serem
elementos e compostos necessários ao funcionamento das atividades vitais dos
organismos vivos.

Além dos fatores abióticos, temos os fatores bióticos que limitam o


crescimento e reprodução de organismos e comunidades (parasitismo, competição
e predação).

Segundo Ricklefs (2003), o pesquisador russo Georgyi F. Gause, em


seus experimentos, demonstrou através da produção de duas populações de
protozoários (Paramecium aurelia e Paramecium caudatum), que duas populações não
podem coexistir por muito tempo no mesmo habitat, especialmente quando ocorre
a sobreposição de nichos de duas ou mais espécies, denominado por Princípio de
Gause ou Princípio da Exclusão Competitiva. Assim, após certo período, uma das
populações poderá apresentar um crescimento gradual enquanto outra poderá
declinar (Figura 6). Além disso, o aumento da densidade populacional também
poderá levar à diminuição da natalidade e assim, o aumento da mortalidade
proporcionando flutuações populacionais, bem como o estresse ambiental (secas,
erupções vulcânicas etc.). Os indivíduos sobreviventes é que transmitirão esse
potencial genético às futuras populações.

Entre as fontes de estresse ambiental encontramos: as físicas (condições


extremas de calor, umidade, luz, radiações em geral) descritas anteriormente,
a poeira e outros poluentes, que serão descritos na Unidade 3, que tratam da
influência do homem sobre o meio ambiente e este (ambiente físico) sobre os
organismos vivos, e as biológicas (predadores, parasitas – inclusive patógenos), além
da deficiência ou excesso de nutrientes específicos. Na Figura 7 podemos ver
um exemplo de adaptação de indivíduos às mudanças ambientais e ao estresse,
estudada pela Fisiologia Ambiental.

18
TÓPICO 2 | AMBIENTE FÍSICO

FIGURA 6 – CRESCIMENTO DAS POPULAÇÕES DE DUAS ESPÉCIES DE PARAMÉCIO,


OBTIDAS POR GAUSE, CULTIVADAS NO MESMO RECIPIENTE, MOSTRANDO A EXTINÇÃO
DO PARAMECIUM CAUDATUM PELA FORTE COMPETIÇÃO COM O PARAMECIUM AURELIA

FONTE: Disponível em: <www.portalportinari.com.br/dw/ecologia.ppt>. Acesso em: 16 fev. 2013.

Linha superior representa P. aurelia e a linha inferior representa P. caudatum.

FIGURA 7 – O ESTRESSE AMBIENTAL COMO LIMITANTE, OCASIONANDO


FLUTUAÇÕES POPULACIONAIS

FONTE: Disponível em: <www.portalportinari.com.br/dw/ecologia.ppt>. Acesso


em: 16 fev. 2013.

Por fim, um organismo ou grupo apresenta uma taxa mínima ou máxima


de tolerância à deficiência ou ao excesso de um fator ambiental, que pode limitar
seu desenvolvimento e reprodução, chamado de Lei da Tolerância de Shelford (Figura

19
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

8). A este espectro (mínimo e máximo) de tolerância denomina-se Amplitude


Ecológica, que poderá ser larga ou estreita, para cada um dos fatores ecológicos.
Ex.: disponibilidade de alimento (fator limitante dependente da densidade) e
frio (fator limitante independente da densidade). Quanto mais um organismo ou
grupo estiverem próximos deste limite, maior será o estresse ambiental (tendo que
usar todos os seus artifícios) para sua sobrevivência, e quando um organismo ou
grupo volta ao seu nível normal, esta capacidade recebe o nome de Resiliência.

FIGURA 8 – AMPLITUDE ECOLÓGICA DE UM ORGANISMO OU POPULAÇÃO,


COM O LIMITE MÁXIMO PARA UM FATOR E LIMITE MÍNIMO PARA OUTRO
FATOR – LEI DA TOLERÂNCIA DE SHELFORD

FONTE: Disponível em: <www.portalportinari.com.br/dw/ecologia.ppt>.


Acesso em: 16 fev. 2013.

FIGURA 9 – UM EXEMPLO DE AMPLITUDE DE TOLERÂNCIA DE UMA POPULAÇÃO,


COM O LIMITE INFERIOR E LIMITE SUPERIOR DE TOLERÂNCIA TÉRMICA

FONTE: Disponível em: <http://www.slideshare.net/popecologia/fatores-


limitantes>. Acesso em: 18 fev. 2013.

4 MAGNIFICAÇÃO BIOLÓGICA DAS SUBSTÂNCIASTÓXICAS


Magnificação biológica ou trófica é a concentração acumulativa de
algumas substâncias através da distribuição de energia, via cadeia alimentar, pelo

20
TÓPICO 2 | AMBIENTE FÍSICO

comportamento de certos radionuclídeos persistentes (césio-127, estrôncio-90,


plutônio-239 e o fósforo radioativos etc.), pesticidas (a base de hidrocarbonetos
clorados), metais pesados encontrados em tintas, agrotóxicos, indústrias têxteis etc.
((cádmio (Cd), chumbo (Pb), zinco (Zn), mercúrio (Hg), cobre (Cu) entre outros),
benzopireno (hidrocarboneto liberado combustão, ação cancerígena), entre outros.

NOTA

Radionuclídeos são substâncias radioativas usadas no diagnóstico e tratamento


de problemas de saúde, a serviço da medicina nuclear em hospitais, clínicas e laboratórios,
fiscalizados pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Os radionuclídeos são
usados no mundo desde 1940 e no Brasil iniciou-se em 1955, cuja denominação genérica
dos exames da medicina nuclear denomina-se cintilografia, fundamental para o diagnóstico
e tratamento de inúmeras doenças, em fase bastante precoce. Além disso, o avanço
tecnológico tem permitido o uso de radionuclídeos que emitem radiações que ficam menos
tempo no organismo e não lhe causam danos. Um exemplo desse avanço se observa na
radiação cósmica de um voo Rio-São Paulo que é mínima e ainda superior, a comparada aos
exames administrados atualmente na medicina nuclear.

FONTE: Disponível em: <http://www.ien.gov.br/noticias/midia_arquivo/oglobo_280201.


htm>. Acesso em: 20 de mar. de 2013.

Por não serem biodegradáveis, permanecem nos ecossistemas e entram


na cadeia alimentar, passando aos diferentes níveis tróficos (produtores aos
consumidores). Como apenas 10% da matéria e energia são efetivamente
absorvidos pelo nível trófico imediatamente superior, estes necessitam consumir
uma biomassa 10 vezes maior do que a sua própria (veja unidade 2). Por isso, a
passagem de matéria e energia a partir dos produtores e destes aos consumidores
é sempre numa concentração acumulativa e crescente. Dessa forma, uma maior
acumulação destas substâncias ocorre nos organismos que se encontram no topo
da cadeia alimentar, incluindo o homem. Como exemplo pode-se citar o DDT
(dimetil-difenil-tricloroetano) ou mesmo o BHC (benzeno-hexaclorito), criado
após a resistência de algumas espécies ao DDT. Estes inseticidas (combatem
piolhos, moscas, mosquitos e pragas da lavoura no mundo todo), são biocidas
originalmente usados para matar insetos, mas que interferem diretamente sobre
peixes, aves e outros consumidores.

As aves são extremamente vulneráveis, a estes biocidas, pois estes interferem


na formação da casca do ovo fazendo com que se quebrem antes do término de seu
desenvolvimento. Deste modo, pequenas concentrações podem não ser letais para
alguns indivíduos, mas para a população (diminuição do número populacional).
Esses e outros pesticidas e agrotóxicos, embora proibidos, ainda continuam sendo
industrializados e comercializados, pondo em risco a saúde do homem, de outros
animais e do ambiente. (PEAKALL, 1967; HICKEY; ANDERSON, 1968 apud
ODUM; BARRETT, 2008).

21
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

Segundo pesquisas, metais pesados encontrados no lodo de esgotos


industriais, em área urbana ou bacias hidrográficas, podem ser magnificados
biologicamente através da cadeia alimentar. Estudos mostraram que minhocas do
gênero Lumbricus, detritívoras, acumularam 30 vezes mais cádmio do que níveis
encontrados no solo; 60 vezes mais do que encontrado nas plantas Poa, e mais de
100 vezes acima dos níveis encontrados em rins de arganaz-do-prado (Microtus),
durante o décimo ano de aplicação de lodo de esgoto, no local do experimento
(veja maiores detalhes deste experimento em CARSON, 1962; LEVINE et al., 1989;
e BREWER et al., 1994). Os autores citados anteriormente propõem que estes
animais são indicadores entre os detritívoros e monitores dos efeitos do lodo ao
longo do tempo, principalmente durante a sucessão secundária desta paisagem
(ODUM; BARRET, 2008).

22
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você pode concluir que:

• No ambiente natural, os fatores ambientais podem limitar indivíduos e


populações, influenciando o crescimento, atividades, características e a
distribuição de comunidades, para diferentes locais (regiões), determinando a
diversidade de ambientes.

• Potencial biótico é a capacidade de sobrevivência de uma população biológica


em condições hipotéticas ideais, sem nenhuma restrição de sobrevivência
(crescimento infinito). O que em ecossistemas naturais não se observa.
Observam-se populações relativamente estáveis na sua densidade, devido à
resistência do meio (indisponibilidade de alimento, água, espaço, condições
climáticas adversas e pelas relações com outras espécies, principalmente a
predação e a competição), observando-se então o crescimento real.

• Fatores limitantes: são quaisquer condições que se aproxime ou exceda os


limites de tolerância (se aproxime das necessidades mínimas de sucesso), em
condições de estabilidade de uma comunidade.

• Os fatores abióticos se subdividem em: fatores climáticos (luz, temperatura,


umidade e pluviosidade) e os fatores edáficos (composição química e a
estrutura do solo); criando o Macroclima ou Clima Regional e o Microclima,
particular a que um organismo vivo está sendo submetido.

• Os principais fatores limitantes físicos (fatores abióticos) de um ecossistema


natural são:

• Luz, energia indispensável ao desenvolvimento das plantas, através do


processo da fotossíntese, que capta a energia luminosa, tendo como fonte
o sol.

• Temperatura, cada espécie de seres vivos consegue sobreviver entre um


limite de temperatura, denominado, limite térmico ou Lei do Mínimo de
Liebig, para o desenvolvimento de suas atividades vitais.

• Água, indispensável para a sobrevivência dos organismos e das


comunidades (atividades celulares e fisiológicas dos seres vivos –
transpiração e condução das seivas).

• Os gases atmosféricos como o oxigênio e o gás carbônico são essenciais


para a vida no planeta terra (fotossíntese e respiração), em ambientes
terrestres e aquáticos. E a concentração de íons de hidrogênio, diretamente
relacionados ao pH da água.

23
• Disponibilidade de nutrientes (macronutrientes e micronutrientes)
também é essencial à vida dos animais e vegetais (elementos e compostos
necessários ao funcionamento das atividades vitais dos organismos vivos).

• Vento e enchente, também são fatores limitantes dos seres vivos,


contribuem para o aumento ou diminuição da produção de ecossistemas,
no nível de espécies.

• Os fatores bióticos limitam o crescimento e reprodução de organismos e


comunidades (parasitismo, competição e predação).

• O Princípio de Gause se refere a duas populações que não podem coexistir


por muito tempo em um mesmo lugar, principalmente quando ocorre a
sobreposição de nichos de duas ou mais espécies.

• Flutuação populacional ocorre com o aumento da densidade populacional,


levando à diminuição da natalidade e ao aumento da mortalidade.

• Estresse ambiental natural se refere a secas, erupções vulcânicas etc.

• As fontes de estresse ambiental: físicas (condições extremas de calor, umidade,


luz, radiações em geral) e biológicas (predadores, parasitas – inclusive
patógenos), deficiência ou excesso de nutrientes específicos.

• A Lei da Tolerância se refere a um organismo ou grupo que apresentam uma


taxa mínima ou máxima de tolerância, para os fatores ecológicos.

• Amplitude ecológica é um termo que se refere ao espectro mínimo e máximo de


tolerância.

• Resiliência é a capacidade de um organismo ou grupo voltar ao nível normal,


após terem passado por um estresse ambiental.

• Magnificação biológica consiste na acumulação de substâncias nocivas, via


cadeia alimentar.

24
AUTOATIVIDADE

1 O que você entende por fator ecológico?

2 Em que condições um fator ecológico desempenha o papel de fator limitante?

3 O que diz o enunciado da Lei de tolerância?

4 Quando uma população está em resiliência?

5 O potencial biótico é observado em ecossistemas naturais? Justifique.

6 Diferencie organismos euritérmicos de estenotérmicos.

Assista ao vídeo de Assista ao vídeo de


resolução da questão 2 resolução da questão 5

25
26
UNIDADE 1
TÓPICO 3

BIOMAS

1 INTRODUÇÃO
Como vimos no tópico anterior, a ecologia estuda a relação e a influência
dos componentes do meio ambiente com os seres vivos. Assim, o meio ambiente
inclui os elementos do clima, do solo, da água, de organismos, de uma população
ou de uma comunidade. Neste tópico veremos as caracterizações dos biomas
terrestres brasileiros e mundiais.

Vamos lá!

2 O QUE SÃO BIOMAS?



Biomas são grandes comunidades de plantas e animais dos ecossistemas
de terra firme sob a influência da latitude e altitude. Os biomas podem ser “um
grande biossistema regional ou subcontinental caracterizado por um tipo principal
de vegetação ou outro aspecto identificador da paisagem” (ODUM, 1985).

3 AS CONDIÇÕES QUE DETERMINAM A DISTRIBUIÇÃO DOS


BIOMAS E A ADAPTAÇÃO DOS SERES VIVOS AOS PRINCIPAIS
BIOMAS MUNDIAIS E BRASILEIROS

A influência do clima e latitude determinam os diferentes tipos de biomas
terrestres. Os principais ambientes onde se desenvolvem os biomas são os campos,
florestas, desertos, praias e montanhas.

Entre as florestas pode-se destacar a floresta tropical úmida, a floresta


temperada, a floresta de mangues e a floresta de coníferas. Entre os variados
campos, a campina, a pradaria, a savana, o pampa, a tundra, a estepe, o cerrado,
a taiga etc. A caatinga, que é característica entre o campo e o deserto; e, por fim,
os desertos como o do Saara, do Gobi e o do Arizona, todos com características
diferenciadas (Figuras 10 (a), (b), (c) e 11) (ODUM;BARRET, 2008).

27
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

O crescimento das plantas está diretamente relacionado com o clima,


formando os grandes tipos vegetais. Os grandes tipos de vegetação podem ser
usados para classificar ecossistemas em categorias chamadas biomas. Fatores
como o solo, a sazonalidade climática, os incêndios e a paisagem influenciam
adicionalmente o caráter dos biomas.

As abordagens usadas para a classificação de biomas são: a abordagem


de zona climática de Walter, que classifica as regiões com base no clima, dentro
das quais o tipo característico de vegetação normalmente se desenvolve, e a
abordagem simplificada de vegetação de Whittaker (1975), que classifica as regiões.
Adicionalmente a vegetação geralmente reflete o clima local (RICKLEFS, 2003).

ATENCAO

As distribuições geográficas de plantas nas escalas continentais são determinadas


principalmente pelo clima e latitude, enquanto as distribuições locais dentro das regiões
podem variar de acordo com a topografia e com os tipos solos (RICKLEFS, 2003).

E
IMPORTANT

O clima afeta profundamente a evolução das plantas e dos animais, que se


tornam especializados para condições particulares do ambiente físico. Consequentemente
cada região apresenta suas características vegetais que diferem na forma de crescimento, na
morfologia foliar e na sazonalidade da folhagem (RICKLEFS, 2003).

28
TÓPICO 3 | BIOMAS

FIGURA 10 – (a): EFEITO DA ALTITUDE E LATITUDE SOBRE A DISTRIBUIÇÃO DOS PRINCIPAIS


BIOMAS DO MUNDO

FONTE: Disponível em: <www.geografiaparatodos.com.br>. Acesso em: 6 mar. 2013.

FIGURA 10 – (b) BIOMAS

FONTE: Disponível em: <www.japassei.pt>. Acesso em: 6 mar. 2013.

29
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

FIGURA 10 - (c) BIOMAS

FONTE: Disponível em: <www.picstopin.com> Acesso em: 6 mar. 2013.

FIGURA 11 – OS PADRÕES DE WHITTAKER (1975) DAS FORMAÇÕES VEGETAIS NO


MUNDO, BASEADOS NA RELAÇÃO DAS MÉDIAS ANUAIS DE PRECIPITAÇÃO (cm3)
COM AS MÉDIAS ANUAIS DE TEMPERATURA (ₒC).

FONTE: Disponível em: <http://www.unicamp.br/fea/ortega/eco/iuri10a.htm>. Acesso


em: 25 fev. 2013.

30
TÓPICO 3 | BIOMAS

Os principais biomas terrestres mundiais

As zonas de biomas climáticos estão amplamente divididas de acordo com


as suas latitudes norte e sul do Equador em zonas tropicais, temperadas, boreais
e polares. Dentro destas zonas latitudinais, o nível anual de precipitação e sua
sazonalidade distinguem ainda mais os biomas. Dentro das zonas climáticas
temperadas, os grandes biomas são as florestas sazonais, florestas úmidas e
campos/desertos.

Nas latitudes mais baixas dentro das zonas temperadas estão os bosques
e arbustos de clima mediterrâneo. Os desertos subtropicais se situam entre as
zonas climáticas tropicais e temperadas. Em latitudes maiores, encontram-se as
florestas boreais, normalmente consistindo em árvores de acículas com folhagens
persistentes e baixas taxas de crescimento sobre solos ácidos e pobres em nutrientes,
e a tundra, um bioma sem árvores que se desenvolveu nos solos permanentemente
congelados ou permafrost.

As zonas climáticas tropicais são fornadas por florestas pluviais perenes e


florestas sazonais que vão desde florestas parcial e completamente decíduas até
florestas de espinhos em climas mais secos, e, às vezes, savana, um campo com
árvores esparsas que é mantido pelas pressões do fogo e da pastagem (RICKLEFS,
2003) (Figuras 12 a e b).

FIGURA 12 – (a): LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA DOS PRINCIPAIS BIOMAS TERRESTRES MUNDIAIS

FONTE: Disponível em: <www.profwladimir.blogspot.com>. Acesso em: 6 mar. 2013.

31
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

FIGURA 12 – (b): TIPOS DE VEGETAÇÃO E LOCALIZAÇÃO

FONTE: AUDESIRK; AUDESIRK, 1996. Disponível em: <www.crv.educacao.mg.gov.br>. Acesso em:


6 mar. 2013.

Classificação dos biomas a seguir relacionados, segundo Whittaker (1975),


e as zonas climáticas do mundo de acordo com o curso anual da temperatura e da
precipitação, segundo Heinrich Walter (1986).

Bioma Tundra – Ártica e Alpina (acima das altitudes de limitação de


árvores em montanhas altas, mesmo nos trópicos).

É um bioma terrestre importante da América do Norte, encontrado nos


países escandinavos, Sibéria, Canadá e Alasca. Essa zona climática polar fica
localizada entre 60º e 80º de latitude norte, nas proximidades do Circulo Polar
Ártico, apresentam uma temperatura média anual abaixo de -5ºC. O ar seco e a
escassez de chuvas e muita neve formam um típico deserto polar.

As estações climáticas se resumem em inverno e verão. No inverno, as


temperaturas ficam entre -28ºC e -34ºC, com período de luminosidade curto e
noites longas. Grandes camadas de gelo recobrem o solo.

O verão, por sua vez, dura cerca de três meses, com temperatura máxima
não ultrapassando os 10ºC. As noites são ausentes ou curtas, fazendo com que

32
TÓPICO 3 | BIOMAS

o período de luminosidade seja longo. Durante o degelo ocorre a formação de


pântanos/grandes brejos e várias lagoas, porque as águas superficiais não
conseguem penetrar no subsolo, que fica permanentemente congelado denominado
permafrost. Consequentemente a vegetação é perene e baixa, sem árvores, composta
por gramíneas, ciperáceas (ervas), musgos e líquens, o solo apresenta baixa taxa de
decomposição.

Em relação à fauna, no solo existem poucos invertebrados pequenos e


populações de herbívoros como os lemingues (pequenos roedores), ratos e lebres
árticas. Entre os carnívoros há linces, aves predadoras migratórias como, as
corujas, gaivotas e ptármigas (aves do tamanho de um pombo), e mamíferos, como
as doninhas, ursos-polares, lobos, raposas entre outros. (ODUM; BARRET, 2008;
TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006; RICKLEFS, 2003) (Figura 13).

FIGURA 13 – TUNDRA ÁRTICA – AMÉRICA DO NORTE

FONTE: Disponível em: (a) <www.ciencias.seed.pr.gov.br> (b) <www.ecoanimateca.net.br>.


Acesso em: 11 mar. 2013.

NOTA

Nas regiões de “Tundras”, as aves e os mamíferos possuem várias adaptações


evitando a perda do calor corporal através da diminuição das extremidades corporais, como
orelhas, caudas e patas. Além disso, apresentam espessa plumagem e pelagem (TOWNSEND;
BEGON; HARPER, 2006).

Bioma floresta boreal ou taiga ou biomas de floresta de coníferas do norte

A floresta boreal se estende a 50ºN na América do Norte e cerca de 60ºN


na Europa e Ásia com extensões que vão desde as montanhas até os trópicos. O
clima é parecido ao da tundra, com temperatura anual média abaixo dos 5ºC e

33
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

precipitação entre 400 e 1.000mm. Devido a essa alta precipitação os solos são
úmidos durante a maior parte da estação de crescimento da vegetação.

As temperaturas no inverno (durante a metade do ano) podem chegar a -60ºC,


havendo um curto período de luminosidade. O congelamento do solo dificulta a
absorção de água pelas raízes, ocorrendo a seca fisiológica (árvores desfolhadas).
Isso fez com que a vegetação se adaptasse a estas baixas temperaturas (tolerância)
assim como às estações de crescimento (verão) que não duram mais de 100 dias,
período de luminosidade maior e cuja temperatura pode chegar aos 20ºC.

Durante o verão a paisagem vai mudando com o derretimento do gelo,


formando-se pântanos e vários lagos, que permitem que a vida se torne abundante
nesta estação, apesar da diversidade de espécies ser baixa. A flora é composta por
cedros, abetos perenes do gênero Picea, pinheiros do gênero Abies e Pinus, bem como
por laricas decíduas coníferas do gênero Larix, de 10-20m de altura, com folhas
aciculadas (em forma de agulha) e grossa cutícula (evitar excesso transpiração).

As florestas de coníferas estão entre as regiões de grande produção de


madeira do mundo (ODUM; BARRETT, 2008). Os troncos apresentam um espesso
súber (cortiça) para o isolamento térmico e proteção dos tecidos internos. A densa
sombra que se estende o ano todo proporciona pouco desenvolvimento de camadas
de arbustos e de ervas e, devido ao congelamento do solo, a decomposição da
serapilheira de acículas (produz ácidos orgânicos) é lenta, acumulando-se na
superfície do solo, formando solos ácidos, podzolizados e de baixa fertilidade.

A fauna de solo é composta por populações razoáveis de invertebrados,


além de vertebrados herbívoros como o alce, lebre-da-pata-branca (dependem das
angiospermas), esquilos, pintassilgos, pardais e muitas outras aves migratórias
(sementes de coníferas), ursos, lobos, raposas (ODUM; BARRETT, 2008;
TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006; RICKLEFS, 2003) (Figura 14).

FIGURA 14 – FLORESTA DE CONÍFERAS NA FRANÇA

FONTE: Disponível em: <www.franca-trabalhodegeo.blogspot.com>.


Acesso em: 11 mar. 2013.

34
TÓPICO 3 | BIOMAS

Bioma florestas decíduas temperadas

As florestas decíduas temperadas originalmente cobriam a América do


Norte, no leste dos Estados Unidos e sul do Canadá, parte da Europa Ocidental e
no leste da Ásia, e Hemisfério sul (Nova Zelândia e sul do Chile). O reflexo desse
grau de isolamento é a diversidade na composição de suas espécies. As chuvas
são abundantes e bem distribuídas o ano todo (75 a 150 cm3), e temperaturas
moderadas formando um padrão sazonal distinto (-30ºC e 30ºC).

Nas latitudes mais baixas (Florida e Nova Zelândia), os invernos são


amenos (pouca geada e seca), com árvores latifoliadas perenifólias, cuja estação
de crescimento dura cerca de 180 dias. Já ao norte (latitudes altas) das Florestas
de Maine e meio oeste superior dos Estados Unidos, as estações são fortemente
marcadas, o inverno é curto, com seis meses de baixas temperaturas e muita neve,
com uma estação de crescimento vegetativo que dura aproximadamente 130 dias.

Há predomínio de árvores decíduas, cujas folhas caem no outono, tornando-


se dormentes após grande transferência do seu conteúdo mineral para o seu corpo
lenhoso. No outono, à medida que a temperatura cai, as folhas da vegetação de
médio e grande porte, e arbustos ficam avermelhadas ou amareladas e caem. Por
isso, muitos autores denominam estas florestas de temperada caducifólia (folhas
envelhecem e caem) havendo um grande contraste entre o verão e o inverno,
onde no inverno a vegetação das florestas perdem completamente suas folhas.
Na primavera, as temperaturas vão aumentando gradativamente, assim como, as
chuvas.

Nas camadas de estratificação entre as árvores decíduas dominantes e as


ervas e arbustos, que são bem desenvolvidas, a floração e o crescimento destes dois
tipos de vegetação se completam antes do início da primavera, que é quando as
árvores dominantes completam a sua cobertura com folhas. O solo é abundante em
material orgânico, como também a biota do solo (decomposição folhas e frutos). Com
exceção das partes mais secas e quentes do bioma da floresta sazonal temperada,
principalmente onde os solos são arenosos e pobres em material orgânico, tendem
a se desenvolver florestas acículas, dominadas por pinheiros, predominantemente
na América do Norte (planícies costeiras do Atlântico e dos estados do Golfo dos
USA) e no oeste e sudeste dos Estados Unidos onde os incêndios são frequentes e
a maioria das espécies está adaptada/resistência aos danos do fogo. A vegetação
variada é formada por belotas e castanheiras (produzem frutas com polpa e nozes),
carvalhos-vermelhos (espécie longeva), bordo (colonizadores de clareiras), faia
etc. A fauna também apresenta uma grande diversidade, como insetos sazonais,
de ciclos de vida curtos (comedores de folhas), aves migratórias (joão-de-barro e
várias espécies de pica-paus, característico de estágios florestais maduros, entre
outros), que retornam na primavera, veados, ursos, esquilo-cinza, raposa-cinza e
dourada, lince e peru selvagem. (ODUM; BARRETT, 2008; TOWNSEND; BEGON;
HARPER, 2006; RICKLEFS, 2003) (Figura 15).

Segundo Odum e Barrett (2008), entre os principais tipos de floresta decídua


madura da América do Norte está a floresta de faia-bordo, floresta de bordo-tília,
35
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

floresta de carvalho-nogueira, floresta de carvalho-castanheira das montanhas


Apalaches (atualmente apenas uma, devido à destruição por doenças de fungos),
floresta mesofítica mista do platô dos Apalaches e floresta edáfica de pinheiros da
planície costeira do sudeste.

FIGURA 15 – (a) FLORESTA TEMPERADA ÚMIDA EM WASHINGTON (b) FLORESTA TEMPERADA DA


CHINA

FONTE: Disponível em: (a) <www.meioambiente.culturamix.com>. (b) <www.picstopin.com>.


Acesso em: 11 mar. 2013.

Bioma florestas pluviais tropicais

As florestas pluviais tropicais se estendem em três regiões dos trópicos.


A primeira constitui a floresta pluvial americana, que se localiza nas bacias do
Amazonas e do Orinoco da América do Sul, com áreas adicionais na América
Central e ao longo da costa atlântica do Brasil. A segunda, encontra-se na África
Ocidental (bacia do Congo), e a terceira, cobre parte do Sudeste da Ásia (Índia,
Malásia, Tailândia) e parte da Austrália. O clima é sempre quente com temperaturas
geralmente altas (21ºC e 32ºC), grande precipitação, pelo menos 2000 mm anuais,
e não abaixo de 100 mm em qualquer mês e grande umidade relativa do ar
(transpiração dos vegetais). Esta floresta pluvial é extremamente estratificada,
cujas árvores formam cinco camadas, que se distinguem em árvores emergentes
ocasionais entre 50 e 60 metros de altura (acima camada dossel), geralmente
decíduas, mesmo em floresta pluvial perene; as árvores da camada do dossel,
formando um tapete contínuo de 25 a 35m de altura; o estrato de árvores mais
baixas de 15 a 24 m de altura, tornando-se mais denso quando aparecem clareiras
da quebra do dossel; os arbustos e árvores jovens, que se encontram em sombra
profunda; e as camadas de herbáceas formadas por ervas e gramíneas altas, entre
elas as lianas lenhosas (cipós) e as epífitas (orquídeas, samambaias, bromélias).
A luminosidade é alta (incidência de radiação solar), principalmente na copa
das árvores (temperaturas mais altas), que filtram a radiação solar (fotossíntese),
permanecendo mais escuro nos estratos inferiores, aumentando a umidade e
com menor temperatura, comparado aos estratos superiores. A produtividade

36
TÓPICO 3 | BIOMAS

fotossintética pode ser superior a 1.000 g de carbono fixado por metro quadrado
ao ano, devido à alta radiação solar e chuvas regulares e abundantes. Neste bioma
encontra-se a maior biodiversidade de espécies, comparado aos outros biomas
encontrados no planeta terra. Por isso, a preocupação na comunidade científica,
da necessidade da preservação de grandes áreas de floresta tropical como recurso
genético. Estima-se que mais de 50% das espécies animais e vegetais do planeta se
encontrem em florestas tropicais. A rápida degradação da matéria orgânica (alta
temperatura e umidade), que acelera a decomposição da serapilheira sobre o solo,
é rapidamente absorvida pelas raízes das árvores, tornando o solo geralmente
pobre e vulnerável à perturbação. A fauna é rica em biodiversidade, com milhares
de espécies de insetos, muitas espécies de aves, onças, primatas, capivaras, antas,
tartarugas, cobras, jacarés, peixes, anfíbios etc. E por fim, nas áreas montanhosas
dos trópicos encontramos a floresta pluvial montana (terras baixas), que vai ficando
progressivamente menos alta com a elevação da altitude, aumentando a biomassa
das epífitas, se direcionando para uma floresta de neblina anã e ao longo da
margem e leitos dos rios denominada de floresta de galeria ou às vezes de mata ciliar.
(ODUM; BARRETT, 2008; TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006; RICKLEFS,
2003) (Figura 16 a; b).

FIGURA 16 – (a) FLORESTAS TROPICAIS ÚMIDAS, ILUSTRADA PELA VEGETAÇÃO AO LONGO DO


RIO SEGAMA, NO BORNÉO, (b) FLORESTAS TROPICAIS MUNDIAIS

FONTE: Disponível em: (a) <http://www.unicamp.br>. (b) <www.infoescola.com>. Acesso em: 11


mar. 2013.

Bioma campos (pradarias ou estepes) temperados

As grandes áreas de pradarias temperadas se estendem desde o interior da


América do Norte e da Eurásia, ao Sul da América do Sul (pampas argentinos) e da
Austrália. Nestes locais, ocorre uma baixa umidade do ar, com precipitações que
ficam entre as que ocorrem nos desertos 250 a 750 mm/ano (regiões temperadas),
e nas áreas de florestas, que passam dos 1000 mm/anuais (regiões subtropicais).
37
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

Segundo Odum e Barret (2008), existem três tipos de pradarias, determinados pelo
volume de precipitação, na América do Norte e dividido entre zonas que vão do
Leste-Oeste, que são: “pradaria alta, típico das regiões bem úmidas, com gramíneas
de 2 a 3m de altura e raízes bem profundas (grandes capins-vassoura Andropogon
gerardii, branqueja Panicum virgatum, capim-do-banhado Sorghastrum nutans, entre
outros), a pradaria mista, com grande diversidade florística de 1 a 2 metros de
altura (pequenos capins-vassoura Andropogon ecoparius, capim-agulha Stipa spartea,
capim-mourão Sporobolus heterolepis, grama-de-ponta Agropyron smithii, capim-
de-junho Koeleria cristata e capim-arroz Oryzopsis hymenoides), presente em solos
muito férteis e por fim a pradaria baixa, com gramíneas de pequeno porte de 0,1 a
0,5m de altura (capim-de-búfalo Buchloe dactyloides, grama-azul Bouteloua gracilis,
outras gramas Bouteloua spp., capim-do-campo Poa spp., cevada Bromus spp.), além
de pouca diversidade de espécies”. As temperaturas variam desde 38ºC (verão) a
0ºC (inverno). A vegetação é herbácea fechada adaptada a pouca disponibilidade
de água no solo, mas é fértil em matéria orgânica, pela decomposição, típico de
clima temperado. Estes campos também são conhecidos por “veldt” (África do
sul), “estepe” (Ásia), “pradarias” (América do Norte) e “pampa” (América do sul).
A flora, como citado anteriormente não necessitam de grande quantidade de água
para se desenvolverem, mas necessitam do fogo, através das queimadas naturais,
para a renovação do substrato das gramíneas, bem como ao ciclo de vida das
gramíneas típicas das pradarias. Mas quando mal conduzida através de queimadas
criminosas, atividade agropecuária desordenada, florestamentos para a produção
de celulose (monocultura) podem causar enormes perdas ambientais, como a
desertificação. A flora é composta por diversas espécies de gramíneas, já citadas
anteriormente, como também por herbáceas e alguns arbustos, e árvores típicas de
clima quente e seco. Nas pradarias, a fauna é composta por cabras muito usadas
em áreas de pastagens (criação de gado). E pelos animais nativos como os ratos
do campo, espécies de cabras, bois, raposas, bisões, pequenos antílopes, búfalos,
lebres, cães-da-pradaria, entre outros. (ODUM; BARRETT, 2008; TOWNSEND;
BEGON; HARPER, 2006; RICKLEFS, 2003; PLANETABIO, 2013). (Figura 17 a; b).

FIGURA 17 – (a) ESTEPE NORTE AMERICANO E (b) PAMPAS SULINOS, BRASIL

FONTE: Disponível em: <www.geografiadoalfredo.blogspot.com>. Acesso em: 11 mar. 2013.

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TÓPICO 3 | BIOMAS

Bioma campos tropicais do tipo savanas ou cerrados



A maior área se encontra na África, as “savanas africanas”, parte da
Austrália, e na América do Sul, “o cerrado brasileiro” e os “pampas argentinos”.
As savanas são campos com árvores esparsas, que se espalham nos trópicos secos,
limitando o crescimento da vegetação, cujos climas tropicais frequentemente
apresentam uma ou duas estações de secas prolongadas. Os incêndios e as
migrações dos pastejadores são importantes para a manutenção das características
deste bioma e quando o fogo for de forma controlada neste habitat de savana, a
floresta seca começa a se desenvolver. As precipitações sazonais, nos locais mais
quentes chegam à média de 1000 a 1500 mm/ano (pouca umidade), que é maior
no verão e geralmente seco no inverno, restringindo a diversidade de espécies
animais e vegetais na savana. Assim, as estações são reguladas pelas precipitações
e não pela temperatura, como nos campos de clima temperado. As temperaturas
variam de acordo com a latitude: no cerrado brasileiro varia entre 10ºC (inverno) e
38ºC (verão), na savana africana, as médias anuais ficam acima de 20ºC. No Brasil
chove principalmente entre outubro e março. Devido à forte sazonalidade, com
abundância de sementes e insetos, as savanas podem suportar grandes populações
de aves migratórias, mas poucas espécies encontram recursos para o ano inteiro.
A flora é composta por espécies de gramíneas, herbáceas, arbustos ou árvores
de pequeno porte como: barbatimão, jacarandá entre outros; e acácias na savana
africana, com raízes de mais de 10 metros (absorção água do lençol freático). A fauna
na savana africana é composta por elefantes, rinocerontes, antílopes, guepardos,
hienas, leões, zebras, girafas, leopardos; no cerrado brasileiro encontra-se: emas,
lobo-guará, tamanduá, onça, suçuarana, veado-campeiro, porcos selvagens
(queixada e caititus), tatu etc. (ODUM; BARRETT, 2008; TOWNSEND; BEGON;
HARPER, 2006; RICKLEFS, 2003) (Figura 18).

FIGURA 18 – SAVANAS AFRICANAS

FONTE: Disponível em: (a) <http://www.unicamp.br>. (b) <www.brasilescola.com>. Acesso em:


11 mar. 2013.

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UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

Bioma de bosque ou campos de vegetação mediterrânea

O clima mediterrâneo encontra-se principalmente no sul da Europa


Ocidental, com pequenos trechos ao sul da Califórnia (Hemisfério Norte), no Chile
Central (região do Cabo da África do Sul) e sudoeste da Austrália (Hemisfério Sul).
O clima é ameno, caracterizado por temperaturas de inverno moderado (0ºC) e
chuvas moderadas, mais intensas no inverno e outono (500 e 1000 mm/ano), e o
verão é quente e seco, com uma grande amplitude térmica: durante o dia (próximo
30ºC), caindo bruscamente à noite. Cujo clima proporciona uma vegetação
arbustiva, espessa, perene (1-3m altura), com raízes profundas e folhas pequenas e
duráveis (vegetação esclerofilosa – folha dura), como maquis (vegetação mais densa
e fechada) e o gaguirres (arbustos de pequeno porte e esparsos), com predomínio
de arbustos/plantas xerófitas (adaptação à perda excessiva água por transpiração),
cutícula espessa e tronco com casca grossa (carvalho, cactáceas, alecrim, oliveiras,
loureiro, alfazema etc.). A maioria dos vegetais apresentam sementes resistentes
ao fogo, que renascem após o fogo. Os animais mais frequentes são: insetos, javalis,
veados, coelhos, répteis e muitas espécies de aves migratórias. (ODUM; BARRETT,
2008; TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006; RICKLEFS, 2003) (Figura 19).

FIGURA 19 – FLORESTA DO MEDITERRÂNEO – COIMBRA PORTUGAL

FONTE: Disponível em: <www.naturlink.sapo.pt>. Acesso em: 11 mar. 2013.

Bioma deserto

O termo deserto refere-se às áreas secas, que quase não recebem chuva,
dependendo da zona climática em que se localizam, apresentam suas características
típicas. Os desertos subtropicais das Américas desenvolvem-se em latitudes de 20º a
30º norte e sul do Equador, com alta pressão atmosférica, chuvas esparsas (menos
de 250 mm/ano) e estações de crescimento vegetal longo, que com a presença das
chuvas de verão, muitas plantas herbáceas, como os arbustos creotoso (Larrea
tridentata) são dominantes, suculentos cactos (Carnegiea gigantea) e pequenas
árvores como a mesquita e o palo verde (Parkinsonia) e as sementes dormentes
crescem rapidamente e se reproduzem antes que o solo seque novamente. As

40
TÓPICO 3 | BIOMAS

plantas dos desertos subtropicais não resistem aos invernos gelados. Devido à
baixa precipitação, o solo é raso (aridossolos), com ausência de matéria orgânica
e de pH neutro, formação de muitos lençóis freáticos nas camadas inferiores, e há
muitos depósitos de sal. No deserto de clima continental, com baixa precipitação e
invernos frios, como nos desertos do Great Basin, encontra-se a sálvia (Artemisia)
como vegetação dominante. Os principais desertos se encontram na África (Saara
e Kalahari), Emirados Árabes, Argentina, Bolívia, Tibete, Chile (Atacama), China,
México, Austrália e Estados Unidos. Existe uma grande amplitude térmica: no
deserto do Atacama (Chile), durante o dia a temperatura chega aos 40ºC, caindo à
noite para 0ºC e no deserto do Saara (maior deserto do mundo), já chegou a 57ºC
durante o dia e pode cair a 0ºC à noite. Segundo estudos, aparentemente, os únicos
lugares, em que quase não ocorre precipitação ou nenhuma chuva, localizam-se no
centro do Saara e no norte do Chile. A flora é composta por plantas xerófitas, folhas
pequenas ou transformadas em espinhos, folhas com cutícula espessa, poucos
estômatos ou contidos em criptas. As raízes são longas, para poderem absorver
água nos lençóis freáticos, com predomínio de cactáceas. A fauna é composta por
animais adaptados a pouca água. A maioria apresenta hábitos noturnos (evitar
excesso de transpiração), como os roedores, insetos, escorpiões, cobras, lacraias e
lagartos. Os camelos e dromedários conseguem atravessar grandes áreas do deserto
africano e do Oriente Médio sem beber água, porque seus tecidos toleram um grau
de desidratação que seria fatal para a maioria dos animais. (ODUM; BARRETT,
2008; TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006; RICKLEFS, 2003) (Figura 20 a; b).

FIGURA 20 – (a) DESERTO DO WHITE SANDS, NOVO MÉXICO; (b) DESERTO DO SAARA, ÁFRICA

FONTE: Disponível em: (a) <http://www.unicamp.br>, (b) <www.brasilescola.com>. Acesso em: 11


mar. 2013.

DICAS

Os camelos não armazenam água em suas corcovas, isto é um mito. São nas
corcovas em que os camelos acumulam a maioria da sua gordura, podendo sobreviver por
muitos dias sem se alimentar no deserto, que é imprescindível, devido à escassez de alimento.

41
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

Principais biomas terrestres brasileiros



Bioma é a relação entre a flora e a fauna, cuja diversidade depende desde
aspectos fitogeográficos a aspectos abióticos (água, luz, minerais no solo e ventos)
encontrados nos grandes domínios da natureza brasileira. Os principais biomas
brasileiros são: Floresta Amazônica, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e o
Pantanal. (AB`SABER, 2006) (Figura 21 a; b).

FIGURA 21 – (a): DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DOS PRINCIPAIS BIOMAS BRASILEIROS

FONTE: Banco de dados IBAMA – SIGPNRH (SRH/MMA). Disponível em: <www.ptax.dyndns.


org>. Acesso em: 8 maio 2013.

FIGURA 21 – (b): DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DOS PRINCIPAIS BIOMAS BRASILEIROS

FONTE: Disponível em: <www.agencia.cnptia.embrapa.br>. Acesso em: 8 maio 2013.

42
TÓPICO 3 | BIOMAS

FIGURA 22 – LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA DOS BIOMAS BRASILEIROS, E SEU PERCENTUAL DE


OCUPAÇÃO NO TERRITÓRIO BRASILEIRO

FONTE: IBGE, 2004. Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/sobre/meio-ambiente/geografia>.


Acesso em: 25 mar. 2013.

Floresta Amazônica

Segundo o IBGE, (2004) a Floresta Amazônica é o maior bioma brasileiro,


abrangendo uma área de 4.196.943 km2 (Figura 23). Esse bioma fica localizado
na região Norte (Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia, Acre, Amapá, Maranhão,
Tocantins e Mato Grosso).

A floresta é úmida e quente (20ºC e 41ºC) quase o ano todo, com alto
índice pluviométrico de até 6000 mm/ano. O solo é pobre em nutrientes (rápida
decomposição do material orgânico) devido à alta temperatura e umidade, mas
logo absorvido pelas raízes das árvores, com pouca penetração no subsolo.
A paisagem é formada por árvores altas que ficam em terra firme (mais 60m),
por matas de várzeas (periodicamente inundadas), por matas de igapó (áreas
baixas, permanentemente inundadas), cuja vegetação deste bioma é formada por
folhas latifoliadas (grande área foliar), pluriestratificada (árvores com tamanhos
diferentes). (AB´SABER, 2006; PLANETABIO, 2013).

43
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

A flora predominante da Floresta Amazônica é a Floresta Ombrófila Densa


(41,67%), deste total cerca de 12,47% foram alterados pela ação do homem, sendo
que 2,97% se encontram em recuperação em forma de vegetação secundária e
9,50% do total da área da floresta ombrófila densa são usados na agricultura e
pecuária. (PROBIO – MMA, 2004).

A Amazônia é a maior floresta tropical e a com maior biodiversidade


biológica do mundo. Neste bioma encontra-se um grande número de espécies de
angiospermas (plantas com flores), em que se destacam: a castanheira, o cacau,
o palmito, o cupuaçu, o coco-de-açaí, o guaraná e a seringueira (onde se extrai o
látex na fabricação da borracha). Assim como também plantas medicinais, como o
curare (potente anestésico), quinino (combate a malária), e o mogno e a cerejeira,
na extração da madeira, para a construção civil e de móveis residenciais. Além
disso, representa um dos biomas mais ricos em biodiversidade de número de
espécies animais do mundo. (AB´SABER, 2006; PLANETABIO, 2013) (Figura 23).

FIGURA 23 – CARACTERIZAÇÃO DA FAUNA E FLORA DA MAIOR FLORESTA TROPICAL


DO MUNDO E A MAIOR EM BIODIVERSIDADE, FLORESTA AMAZÔNICA BRASILEIRA

FONTE: Disponível em: <http://dicasgratisnanet.blogspot.com.br/2011/07/fauna-e-


flora-da-floresta-amazonica.html>. Acesso em: 25 mar. 2013.

Cerrado

O cerrado abrange uma área estimada de 2.036.448 km2, segundo o IBGE
(2004) (Figura 24). De acordo com PROBIO-MMA (2004), sua área é recoberta por
60,42% de vegetação nativa, em suas diversas fitofisionomias. Deste percentual,
a área florestada abrange 36,73% do bioma do cerrado e a área não florestada
recobre 23,68%. O restante refere-se à área antrópica (38,98%), onde as pastagens
cultivadas (26,45%) são predominantes do bioma, onde 0,6% do território é coberto
por águas superficiais. Do total do cerrado, a região fitoecológica predominante é
a de Savana Arborizada (20,42%), seguido da Savana Parque (15,81%). (PROBIO-
MMA, 2004).

44
TÓPICO 3 | BIOMAS

As folhas apresentam cutícula grossa, com muitos estômatos que, ficam


abertos inclusive no calor. A vegetação é composta por árvores e arbustos de
pequeno porte, com características xeromórficas, apresentando raízes profundas
(seca), troncos tortuosos (escleromorfismo), súber grosso e folhas espessas com
pelos, devido ao tipo de solo, que é rico em alumínio e ferro, e pobre em outros
nutrientes, podendo haver no subsolo reservatórios de água (abaixo de 2m
profundidade). Podemos encontrar a vegetação de cerrado, nas regiões de Goiás,
Bahia, Piauí, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins, Minas
Gerais, São Paulo e Distrito Federal. É no cerrado que nascem as três maiores bacias
da América do Sul (Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata), resultando num
grande e potente aquífero e biodiversidade. O clima é tropical quente subúmido,
com temperatura média anual entre 22ºC e 27ºC, com pouco vento. Os períodos
chuvosos e de seca são bem definidos, sendo os meses de setembro e maio, os
períodos de chuvas mais concentrados, acarretando em um inverno seco, com clima
tropical sazonal, cuja vegetação pode sofrer com o fogo espontâneo (fenômeno
natural), renovando a vegetação local. A principal vegetação deste bioma é o araçá,
murici, gabiroba, pau-terra, indaiá (palmeira de caule subterrâneo), capim-flecha
e o buriti (palmeira) encontrada a margem dos rios do cerrado. A fauna também
é rica em espécies como a ema (maior ave das Américas), gavião-carcará, siriema,
urubu-rei, socó, tucano, periquito, lobo-guará, onça-pintada, anta (maior mamífero
terrestre das Américas), tamanduá, tatu, raposa, veado-campeiro, várias espécies
de primatas (macacos), além de muitos insetos entre outros. (AB´SABER, 2006;
PLANETABIO, 2013) (Figura 24).

FIGURA 24 – CARACTERIZAÇÃO DO BIOMA DE CERRADO COM SUA VEGETAÇÃO PREDOMINANTE

FONTE: Disponível em: <http://www. www.outorga.com.br>. Acesso em: 25 mar. 2013.

Caatinga

A caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, com uma área de


518.635 km2. (IBGE, 2004) (Figura 25). Incluindo a esta estimativa, as fitofisionomias
de caatinga, estão a savana estépica com (35,9%), cerrado e mata atlântica com
(8,43%), as áreas de tensão ecológica, que são os ecótonos com (18%). É o principal
bioma do Nordeste ocupando totalmente o Ceará, Bahia, Paraíba, Rio Grande do
Norte, Pernambuco, Piauí, Alagoas, Sergipe, Maranhão e 2% na região de Minas
Gerais. (PROBIO-MMA, 2004).
45
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

O índice pluviométrico fica entre 250 e 1000 mm/ano e a temperatura média


entre 27ºC e 29ºC, tratando-se de um clima semiárido. O solo é arenoso, rochoso
e alcalino (onde a grande evaporação acelera processo da salinização do solo),
ocorrendo acúmulo de água no subsolo (lençol freático). O bioma se diversifica
entre os brejos de altitude (próximo regiões serranas), são áreas com grande
fertilidade do solo. Ex.: Vale do São Francisco, com projetos de irrigação artificial,
para o cultivo de frutas (uva, manga, melão e outros). A vegetação é formada por
árvores e arbustos tortuosos, com adaptações morfofisiológicas: plantas xerófitas,
caducifólia (folhas caem na época da seca), com folhas reduzidas ou transformadas
em espinhos (cactáceas), raízes profundas (para atingirem o lençol freático).
Quando chove, as folhas ficam esverdeadas e com muitas flores atraindo uma
vasta fauna. Ações do homem, como o desmatamento e as queimadas já alteraram
mais do que a metade os ecossistemas deste tipo de bioma. A fauna é constituída
por animais como a cascavel, a jiboia, o gavião-carcará, a gralha, a cutia, o gambá,
o preá, o veado-campeiro, o tatupeba, a ararinha-azul (praticamente extinta), entre
outros. (AB´SABER, 2006; PLANETABIO, 2013) (Figura 25).

FIGURA 25 – CARACTERIZAÇÃO DO BIOMA DE CAATINGA COM SUA VEGETAÇÃO PREDOMINANTE

FONTE: Disponível em: <http://www.6-anos-biomas-brasileiros>. Acesso em: 25 mar. 2013.

Mata Atlântica

Segundo o mapeamento realizado pelo IBGE, (2004), a cobertura vegetal


da Mata Atlântica é de 1.110.182 km2 (Figura 26). A cobertura vegetal nativa total
na época da colonização era cerca de 15%, agora restam apenas 7% da cobertura
original. Deste restante encontram-se 26,97% da cobertura vegetal nativa e 21,80%
são constituídos por diferentes fisionomias florestais. As florestas ombrófilas densas,
com 9,10% são o principal componente florestal do bioma, seguindo-se as florestas
estacionais semideciduais, com 5,18%, depois as florestas ombrófilas abertas (com
palmeiras), hoje praticamente extintas (0,25%) e as Savanas Gramíneo-lenhosas
(cerrado), são as mais representativas no bioma (3,43%). (PROBIO-MMA, 2004).

A Mata Atlântica também é uma floresta tropical pluvial, que apresenta


muitas das características da Floresta Amazônica. O que as distingue provavelmente
seja a topografia do terreno onde se localizam. A Floresta Amazônica ocupa planícies
46
TÓPICO 3 | BIOMAS

e planaltos no interior do Brasil, enquanto a Mata Atlântica ocorre na região costeira,


em planícies e montanhas como a serra do mar e a serra da Mantiqueira (estende-se
ao longo de todo o litoral brasileiro, do Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul).
Ao norte o clima é tropical úmido e ao sul ele é subtropical úmido. Existe uma grande
cadeia de montanhas por toda a costa litorânea, que varia entre 500 a 800m acima
do nível do mar (norte), ao sul, em torno de 900m na região da Serra do Mar e São
Paulo. Devido ao calor e alta umidade ocorre uma aceleração da decomposição, não
ficando muitos nutrientes no solo, porque já são absorvidos pelas raízes das plantas.
A vegetação é similar à Floresta Amazônica, com folhas e caules pendentes, para
facilitar o escoamento da água. Com a maior biodiversidade de animais e vegetais
entre os biomas brasileiros. Mesmo com a redução e fragmentação da Mata Atlântica
nas últimas décadas, a mesma possui uma grande importância social e ambiental.
Pois regula o fluxo dos mananciais hídricos, influencia o clima e protege escarpas e
encostas das serras. Nelas nascem diversos rios que abastecem cidades e metrópoles.
Entre as plantas que se destacam neste tipo de bioma são o pau-brasil, jacarandá,
palmito, jambo, jambolão, paineira, figueira, caviúna, jatobá e embaúba. Além da
fauna que é muito rica, em que aproximadamente 40% do total de mamíferos, aves e
répteis existentes são endêmicas (próprias deste local). Entre as espécies ameaças de
extinção estão o cachorro-vinagre, a onça-pintada, a jaguatirica, o mono-carvoeiro,
o bugio o sagui, o guaxinim, o mico-leão-dourado, o jacu, o macuco, a jacutinga,
o tiê-sangue, o mutum, o sanhaço, a araponga, entre outros (AB´SABER, 2006;
PLANETABIO, 2013) (Figura 26).

NOTA

Na classificação de biomas realizada pelo IBGE (2004), a mata de araucárias faz


parte do bioma Mata Atlântica, que em outras classificações é considerado um bioma à parte.

FIGURA 26 – CARACTERIZAÇÃO DO BIOMA DE MATA ATLÂNTICA COM SUA


VEGETAÇÃO PREDOMINANTE

FONTE: Disponível em: <http://www.6-anos-biomas-brasileiros>. Acesso em: 25 mar. 2013.

47
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

Pantanal

O Pantanal brasileiro cobre uma área aproximada de 150.355 km2 (IBGE,


2004) (Figura 23). O bioma Pantanal ainda é bem conservado, segundo IBGE,
(2004), apresentando 86,77% da cobertura vegetal nativa e 11,54% de áreas
antrópicas. As fitofisionomias florestais, como a Floresta Estacional Semidecidual
e a Floresta Estacional Decidual respondem por 5,07% da área do bioma, enquanto
as fitofisionomias não florestais como as Savanas (Cerrado), a Savana Estépica
(Charcos), Áreas de Tensão Ecológica ou Contatos Florísticos (Ecótonos e Encraves)
e Formações Pioneiras respondem por 81,70% da área do Pantanal. A Savana
(Cerrado) predomina em 52,60% do bioma, seguida por contatos florísticos, que
ocorrem em 17,60% da área. Com relação à área antrópica, nota-se que a agricultura
é inexpressiva no bioma (0,26%), dando lugar à pecuária extensiva em pastagens
plantadas, que equivalem a 10,92% da área do bioma e ocupam 94,68% da área
antrópica. (PROBIO-MMA, 2004).

O Pantanal abrange os estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso,


estendendo-se pela Bolívia e pelo Paraguai. A média do índice pluviométrico fica
entre 1000 e 1400 mm/ano. A temperatura média no verão é de 32ºC, e no inverno
é de 21ºC. Durante o ano existe o período das cheias (outubro a abril), vazante (abril
a maio), de seca (maio a setembro) e de enchente (novembro e dezembro). Na época
de seca, o leito dos rios normaliza, deixando um solo mais fértil. Já na época de
cheias, o rio Paraguai transborda, e os animais migram para as regiões mais altas.
A vegetação é muito heterogênea, devido à alternância de cheias e secas anuais e
uma grande biodiversidade biológica. No caso das aves estima-se que esse bioma
reúna a maior concentração do continente, onde se evidenciam as garças, patos-
selvagens e jaburus ou tuiuiús (ave símbolo do pantanal). Além de um grande
número de peixes (dourado, piranha, traíra, pacu e pintado), répteis (jacarés,
predados pelos coureiros) e espécies de mamíferos (cervo-do-pantanal, ariranha,
porco-espinho).

A criação de gado bovino teve seu início no final do século XIX e vem a
ser a principal atividade econômica da região. (AB´SABER, 2006; PLANETABIO,
2013) (Figura 27).

FIGURA 27 – CARACTERIZAÇÃO DO BIOMA PANTANAL COM SUA VEGETAÇÃO E


POPULAÇÃO DE AVES PREDOMINANTE

FONTE: Disponível em: <http://www.outorga.com.br>. Acesso em: 25 mar. 2013.

48
TÓPICO 3 | BIOMAS

Pampa ou Campo Sulino

O bioma Pampa, também chamado de campos sulinos, abrange os campos


da metade sul e das Missões do Rio Grande do Sul, cobrindo uma área estimada
de 176.496 km2 (IBGE, 2004). (Figura 28). O bioma Pampa apresenta três formações
vegetais: a Campestre, Florestal e área de Transição (Ecótono). Do total, 41,32% da área
do bioma Pampa apresenta cobertura vegetal nativa e os demais 58,68% encontram-se
modificados por uso antrópico. (PROBIO-MMA, 2004).

Com quatro estações bem definidas, no verão pode chegar a 35ºC e no


inverno as temperaturas podem ficar negativas, com geadas e até neve em algumas
localidades. O clima é subtropical, com precipitações em média 1200 mm anuais. As
áreas são planas, e com um solo bem fértil, propício para a criação de gado, pelas
grandes áreas de pastagens, que vem sendo a atividade econômica da região. Alguns
autores consideram que existem duas unidades de pampas: os campos acima da serra
(gramíneas e araucárias), que abrange parte do território gaúcho e paranaense, e os
campos subtropicais (gramíneas, manchas floresta estacional, com espécies da Mata
Atlântica e alguns cordões de floresta de galeria), que abrange o território gaúcho e se
estende à Argentina e Uruguai. A vegetação predominante: gramíneas e leguminosas.
Além do gado, existem os animais silvestres típicos da região: lobo-guará, veado
campeiro, curruíra-do-campo, ema, ratão do banhado, capivara, quero-quero, peixes,
aves etc. (AB´SABER, 2006; PLANETABIO, 2013) (Figura 28).

FIGURA 28 – CARACTERIZAÇÃO DO BIOMA PAMPA OU CAMPOS SULINOS COM SUA


VEGETAÇÃO PREDOMINANTE

FONTE: Disponível em: <http://www.6-anos-biomas-brasileiros>. Acesso em: 25 mar. 2013.

E
IMPORTANT

A grande diversidade de ecossistemas interagindo na biosfera é dividida em


três grandes biociclos: Epinociclo ou ciclo terrestre (a região superficial e subterrânea),
Talassociclo ou biociclo das águas salgadas – marinho (fundo dos mares: sistema litorâneo
e abissal) e Limnociclo ou biociclo das águas doces ou continentais (todos os ecossistemas
dulcícolas, inclusive uma poça de água).

49
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

DICAS

Acesse estes sites, vídeos e documentários que irão complementar seus estudos:
Mapa de biomas do Brasil e o mapa de vegetação do Brasil. Disponível em: <http://www.
ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=169>. Produzidos pelo
IBGE. Acesso em: 12 fev. 2013.
Mapa interativo dos biomas brasileiros. Disponível em: <http://www.wwf.org.br/informacoes/
questoes_ambientais/biomas/>. Produzido pelo WWF/Brasil. Acesso em: 12 fev. 2013.
Rede ambiental: educando para a vida. Aplicativo desenvolvido como ferramenta de apoio
em educação ambiental. Possui informações e imagens sobre os biomas brasileiros, atividades
virtuais, fichas de atividades práticas, filmes e uma biblioteca com temas da área de educação.
Disponível em: <http://www.ib.unicamp.br/lte/bdc/visualizarMaterial.php?idMaterial=103>.
Acesso em: 12 fev. 2013.
Vídeo:
- Planeta Terra – a terra como você nunca viu. Produção: BBC/Discovery Channel. Duração:
48 min. “Uma visão geral da distribuição dos biomas e dos mais importantes ecossistemas da
Terra justificando suas ocorrências em determinadas regiões do planeta”.

Episódio 1 – De polo a polo


Episódio 2 – Montanhas
Episódio 3 – Água doce
Episódio 4 – Cavernas
Episódio 5 – Desertos
Episódio 6 – Regiões polares
Episódio 7 – Grandes planícies
Episódio 8 – Selvas
Episódio 9 – Mares rasos

Blue Planet: uma aventura fantástica pelos oceanos do mundo. Episódio 1 – Planeta Azul. Ano:
2001. Produção: BBC. Duração: 50 min.
A biblioteca do Amazonas (FERRIS, T. O céu da mente: a inteligência humana num contexto
cósmico. Rio de Janeiro: Campus, 1993. p. 135-140).
FONTE: A Teoria de Gaia (NUNES NETO, N. F.; LIMA-TAVARES, M.; EL-HANI, C.N.). Teoria Gaia:
de ideia pseudocientífica a teoria respeitável. Revista Com-Ciência, SBPC/Labjor, Campinas,
n. 111, ago. 2005. Disponível em: <http://www.comciencia.br/reportagens/2005/11/09.shtmi>.
Acesso em:
12 mar. 2013.

50
TÓPICO 3 | BIOMAS

LEITURA COMPLEMENTAR

O CERRADO NÃO É UM BIOMA

Marco Antônio Batalha

Nosso planeta apresenta um padrão complexo de climas, os quais, por sua


vez, têm um papel importante na criação dos padrões complexos de vegetação e
tipos de comunidades que nele encontramos. Os ecólogos dividem esses padrões
de grande escala em unidades denominadas biomas, as mais amplas comunidades
bióticas reconhecidas em nível geográfico, definidos como subdivisões biológicas
que refletem as características funcionais e fisionômicas da vegetação (OXFORD,
2004). A distribuição dos biomas na superfície terrestre relaciona-se principalmente
com os climas e, dentre os seus elementos, mais diretamente com a temperatura e
a precipitação, seja a quantidade de chuva, seja a sua distribuição ao longo do ano
(Walter 1986). Ao empregar uma abordagem fisionômica da vegetação, Raunkiaer
(1934) mostrou ser possível definir e caracterizar unidades ecológicas, inicialmente
referidas como formações vegetais, por serem baseadas exclusivamente em critérios
botânicos, em que a aparência da vegetação e as formas de vida predominantes são
uniformes. Essa forma das plantas foi reconhecida como o modo mais eficaz de
definir os biomas em relação a qualquer outro sistema de classificação taxonômico
ou evolutivo. O conceito de bioma é similar ao de formação vegetal, mas leva em
conta a associação da vegetação com a fauna e com os microrganismos (BOX &
FUJIAWARA 2005). Assim, um bioma corresponde, grosso modo, a uma formação
vegetal, porém inclui não só as plantas, mas também os demais organismos
(MAAREL, 2005). Cada bioma tem uma fisionomia característica, compreendendo
altura e hábito de crescimento dos principais táxons, tamanho, forma e textura das
folhas, proporção de plantas sempre verdes e decíduas, diversidade de espécies
e outros fatores que impõem fisionomia e arquitetura características para amplas
extensões da cobertura vegetal (TALLIS 1991).

UM ERRO ENRAIZADO

O cerrado é considerado um dos pontos quentes (hot spots) para a


conservação da biodiversidade no mundo (MYERS et al. 2000). Mas que cerrado?
O cerrado enquanto domínio fitogeográfico? O cerrado enquanto bioma? O
cerrado enquanto tipo vegetacional? O cerrado enquanto fisionomia? Como
podemos ver, é importante definirmos corretamente um termo, porque pode haver
implicações práticas e imediatas. Dois conceitos importantes para serem definidos
acuradamente são os de “cerrado” e de “bioma”. Da maneira como vem sendo usado
no Brasil, o conceito de bioma adquiriu erroneamente uma conotação florística.
Usado dessa maneira errônea por biólogos, não por acaso passou a ser usado
equivocadamente por um público mais amplo, como agências governamentais e
organizações não governamentais. Hoje em dia, esse erro está enraizado. Coutinho
(2006) chamou a atenção para esse problema e teve a oportunidade de resolvê-lo,
mas sua argumentação em alguns pontos é contraditória. Embora apresente as
premissas corretamente, Coutinho (2006) chama o cerrado ora de um único bioma

51
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

(por exemplo, “O bioma Cerrado merece aqui uma discussão um pouco mais
longa.”, p. 19), ora de um complexo de biomas (por exemplo, “[...] pode-se dizer
que o Cerrado não é um bioma único, mas um complexo de biomas.”, p. 19). Como
argumentarei, esse segundo ponto de vista é o correto e, portanto, o cerrado não
é um único bioma – como vem sendo rotineiramente tratado –, mas um complexo
de biomas.

A ciência gera jargões, e essa terminologia especializada é necessária


para expressarmos ideias novas e complexas de forma clara e sucinta (PETERS,
1991). Cada parte de uma teoria começa como um conceito, e conceitos fracos
são difíceis de serem erradicados (PETERS, 1991). Na ausência de uma definição
clara, diferentes usuários do termo podem desenvolver definições independentes
e até inconsistentes, fazendo, ao longo do tempo, com que o conceito traga
consigo tantos significados que acaba se transformando em um “não conceito”
(HURLBERT, 1971). Quando a linguagem é desvalorizada ou usada erroneamente,
também o são aqueles que a usam (ORR, 1999). Uma vez que a linguagem é a
única moeda onde quer que se persiga a verdade, não deve haver prioridade
maior para a comunidade científica do que defender a clareza e a integridade de
seus conceitos (ORR, 1999). O criticismo científico encoraja a operacionalização de
conceitos, identificando as capacidades, funções e limitações atuais de conceitos
existentes (PETERS, 1991). Sendo assim, dada a importância de definirmos termos
claramente e dada a importância dos conceitos de cerrado e de bioma, pretendo
discuti-los e sugerir um uso acurado deles.

O CONCEITO DE BIOMA

Uma excelente revisão do conceito de bioma foi feita por Coutinho (2006).
Relembro algumas das definições apresentadas nesse trabalho de Coutinho (2006)
para tornar minha argumentação clara. Clapham Jr. (1973, p. 14) disse que “[...] a
distribuição dos biomas é controlada em última instância por fatores ambientais
abióticos – especialmente o clima – e um dado bioma pode ser formado em várias
diferentes partes do mundo.” Dajoz (1973, p. 280) escreveu que “[...] o bioma é um
agrupamento de fisionomia homogênea e independente da composição florística.”
Crawley (1989, p. 27) disse que “[...] os grandes biomas do mundo mostram
um grau de convergência notável, apesar das amplas diferenças na afinidade
taxonômica das suas floras.” Cox & Moore (1993, p. 8) também enfatizaram que o
conceito de bioma é biogeográfico e não taxonômico, e que “[...] embora as savanas
tropicais do Brasil, Quênia, Índia e Tailândia compreendam espécies diferentes
de plantas e animais, elas têm muito em comum em termos de suas arquiteturas,
crescimentos e produtividades estacionais, formas de vida de animais e plantas
e as maneiras pelas quais têm sido usadas pela população humana.” No próprio
conceito de Walter (1986), adotado por Coutinho (2006), está claro que um mesmo
tipo de bioma pode aparecer em áreas distintas geograficamente.

Além disso, em um dicionário de Biologia (OXFORD, 1996, p. 72),


encontramos a seguinte definição de bioma: “Uma comunidade ou complexo
de comunidades ecológicas que se estende por uma ampla área geográfica
caracterizada por um tipo dominante de vegetação. Os organismos de um bioma
52
TÓPICO 3 | BIOMAS

estão adaptados às condições climáticas associadas à região. Não há fronteiras bem


definidas entre biomas adjacentes, que se fundem gradualmente uns com os outros.
Exemplos de biomas são tundra, floresta pluvial tropical, taiga, chaparral, campos
(temperados e tropicais) e deserto”. Em um dicionário de Ecologia (OXFORD
2004, p. 56), encontramos uma definição semelhante: “Uma subdivisão biológica
que reflete o caráter fisionômico e ecológico da vegetação. Biomas são as maiores
comunidades bióticas e geográficas que são convenientes de serem reconhecidas.
Eles correspondem, grosso modo, às regiões climáticas, ainda que outros controles
ambientais sejam algumas vezes importantes. Eles são equivalentes ao conceito de
principais formações vegetais na Ecologia Vegetal, mas são definidos em termos
de todos os organismos vivos e de suas interações com o meio (e não apenas com
o tipo de vegetação dominante). Tipicamente, biomas distintos são reconhecidos
para todas as principais regiões climáticas no mundo, enfatizando as adaptações
dos organismos aos seus ambientes, e.g., bioma das florestas tropicais pluviais,
bioma dos desertos, bioma das tundras”.

Sendo assim, dos diversos conceitos de bioma apresentados, podemos


ressaltar alguns pontos que são comuns e se sobressaem: 1) o conceito de bioma
é fisionômico, isto é, leva-se em conta a aparência geral da vegetação, resultante
do predomínio de certas formas de vida; 2) o conceito de bioma é funcional, isto
é, levam-se em conta aspectos como os ritmos de crescimento e reprodução; 3) o
conceito de bioma não é florístico, isto é, a afinidade taxonômica das espécies que
aparecem em várias unidades de um mesmo bioma é irrelevante; 4) o conceito de
bioma é delimitado pela vegetação, mas engloba além dela, toda a demais biota;
e 5) o conceito de bioma é aplicável à Terra como um todo e não a esta ou àquela
região.

O CONCEITO DE CERRADO

Há dois principais sistemas usados para classificar a vegetação, um baseado


em descritores funcionais e fisionômicos e outro baseado em relações florísticas
(JOLY et al. 1999). Das definições de bioma apresentadas acima, inferimos que
só há sentido em se usar esse conceito quando a classificação da vegetação é
funcional-fisionômica. Nesse caso, por coerência, devem-se usar termos aplicáveis
à vegetação mundial. Há termos usados na classificação da vegetação brasileira
que são carregados floristicamente, isto é, quando nos referimos, por exemplo, ao
“cerrado”, “à “caatinga” ou ao “pampa”, estamos nos remetendo a certas espécies
vegetais características.

Coutinho (2006) afirma corretamente que, dentro dos domínios


fitogeográficos, encontramos vários biomas. Dessa forma, o “domínio amazônico
não é, portanto, um bioma único”, mas sim “um mosaico de biomas” (COUTINHO
2006, p. 18). O problema aparece quando o autor discute o cerrado. Em um primeiro
momento, citando um trabalho anterior (COUTINHO, 2006, p. 19), ele diz que o
cerrado seria “[...] um complexo de biomas, distribuídos em mosaico.” Concordo
com essa visão. Justamente por sua variação fisionômica, indo do campo limpo
(bioma dos campos tropicais), passando pelas fisionomias intermediárias (bioma
das savanas) e chegando ao cerradão (bioma das florestas estacionais), o cerrado
53
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

sensu lato não pode ser considerado um único bioma, mas sim um complexo de
biomas, mais especificamente três (Figura 29).

FIGURA 29 – CARACTERIZAÇÃO DO BIOMA CERRADO COM SUA VEGETAÇÃO PREDOMINANTE

FONTE: Disponível em: <www.agencia.cnptia.embrapa.br>. Acesso em: 6 maio 2013.

Coutinho (2006, p. 19) até sugere essa posição escrevendo que “[...] caso se
queira ser absolutamente fiel ao conceito de bioma adotado pelos diversos autores
mencionados adrede, pode-se dizer que o cerrado não é um bioma único, mas um
complexo de biomas.” Entretanto, contrariamente à sua argumentação anterior,
Coutinho (2006) alega que todas as savanas do mundo tem essa complexidade
fisionômica e, ainda assim, são consideradas um único bioma pela grande maioria
dos autores e que, portanto, ao se considerar o cerrado como um bioma de savana,
não se foge ao conceito da maioria dos autores internacionais. Esse erro se enraizou,
com o oxímoro “bioma cerrado” se tornando onipresente, aparecendo quase como
um substantivo composto, só faltando o hífen para tal.

Para sermos coerentes com toda a literatura internacional e usarmos o


conceito de bioma acuradamente, devemos considerar o cerrado sensu lato como
formado por três biomas: o campo tropical, a savana e a floresta estacional.
Campos tropicais são formações tropicais em que o estrato herbáceo é contínuo,
com pequenos arbustos em baixas densidades (Woodward, 2008). Se seguirmos a
classificação fisionômica de Coutinho (1978), incluímos no bioma de campo tropical
o campo limpo. Já as savanas são formações tropicais em que o estrato herbáceo
é quase contínuo, interrompido apenas por arbustos e árvores em densidades
variáveis, e em que os principais padrões de crescimento estão associados às
estações úmidas e secas alternantes (BOURLIÈRE & HADLEY, 1983). No bioma
de savana, portanto, incluímos o campo sujo, o campo cerrado e o cerrado sensu
stricto. Florestas estacionais são formações em que predominam árvores de maior
porte, cujas copas formam um dossel e cujos principais padrões de crescimento
também estão associados às estações úmidas e secas alternantes (WOODWARD;
2008). No bioma de floresta estacional, incluímos, pois, o cerradão. Como há uma
unidade florística entre as diversas fisionomias do cerrado (COUTINHO, 1978),
devemos considerá-lo um único tipo vegetacional, já que as afinidades taxonômicas
são levadas em conta nesse caso.

54
TÓPICO 3 | BIOMAS

Cabe ainda ressaltar que, dentro de um domínio fitogeográfico, isto é, uma


área do espaço geográfico, com dimensões subcontinentais, em que predominam
características morfoclimáticas semelhantes e certo tipo de vegetação, há vários
tipos vegetacionais. Assim, dentro do domínio do Cerrado, além do cerrado como
tipo vegetacional dominante, há outros tipos vegetacionais, como a floresta ripícola,
o campo rupícola, a floresta estacional semidecídua, a floresta estacional decídua,
o campo úmido, entre outros. Cada um desses tipos vegetacionais tem sua flora
característica e daí a razão de distingui-los. No caso do cerrado em particular, dada
a sua grande variação fisionômica, encontramos não um, mas sim três biomas.

Isso tem implicações práticas e imediatas para a conservação. Por exemplo,


recentemente aprovou-se no estado de São Paulo (2009) uma lei que visa a proteger
o cerrado, mas que não contempla as suas fisionomias abertas. Dessa forma, todo
um bioma que compõe o cerrado, o bioma de campo tropical, não está contemplado
pela lei.

Assim, podemos usar a palavra “cerrado” em três sentidos: 1) Cerrado, com


a inicial maiúscula, quando estivermos nos referindo ao domínio fitogeográfico
do Cerrado, incluindo não só o cerrado sensu lato, mas também os outros tipos
vegetacionais que ali se encontram; 2) cerrado sensu lato ou simplesmente cerrado,
quando estivermos nos referindo ao cerrado enquanto tipo vegetacional, isto é, do
campo limpo ao cerradão – aqui há um complexo de biomas, bioma dos campos
tropicais, das savanas e das florestas estacionais; e 3) cerrado sensu stricto, quando
estivermos nos referindo a uma das fisionomias savânicas do cerrado sensu lato.
É importante usarmos tais termos de forma precisa e acurada para que definamos
aquilo que pretendemos estudar e para que conservemos esse complexo de biomas,
com toda a biodiversidade que compõe o cerrado.

FONTE: Publicado em: Batalha, M. A. O cerrado não é um bioma. Biota Neotropical, v. 11, n. 1.
2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/bn/v11n1/01.pdf>. Acesso em: 29 abr. 2013.

55
RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico, você pode concluir que:

• Biomas são as maiores formações ecológicas ou os tipos de ecossistemas


facilmente reconhecidos, em suas diferenças geográficas e biológicas
proporcionando uma extraordinária diversidade de vida em nosso planeta.

• Os diferentes biomas são influenciados pela temperatura e pluviosidade


(clima, latitude), e estes sobre a vida nos campos, florestas, desertos, praias e
montanhas, que são os principais ambientes onde se desenvolvem os biomas.

• Os principais biomas terrestres mundiais são:

• Tundra: típico das regiões de clima frio, Ex.: musgos, liquens, gramíneas e
árvores anãs.

• Taiga: também de clima frio, mas mais ameno comparado à tundra, com
maior presença de água no estado líquido. A vegetação é persistente, com
pouca formação da copa, que é em forma de cone, aumentando a absorção
dos raios luminosos fracos, proporcionando a fotossíntese em todos os
estratos vegetais, o ano todo (ramos não fazem sombra).

• Deserto: clima seco e grandes amplitudes térmicas durante o dia,


desenvolvendo uma vegetação pouco desenvolvida e pouco variada.
Somente animais adaptados conseguem se desenvolver.

• Floresta decídua temperada: floresta de árvores com folhas caducas (folhas


envelhecem e caem), típico deste clima (verão quente, chuvoso e úmido),
comum nos EUA e América Central.

• Savana: são as pradarias, das regiões tropicais, presença de poucas árvores


espalhadas e pastagem para muitos herbívoros, comparado ao cerrado.

• Floresta equatorial: grande variedade de espécies de árvores de grande


porte.

• Floresta tropical úmida: o mais exuberante, pela sua grande biodiversidade,


Ex.: floresta amazônica e mata atlântica.

• Floresta de coníferas (gimnospermas), característico de regiões frias e


montanhosas.

• Floresta de mangues: transição entre o biociclo marinho e dulcícola (fonte


de alimento e local reprodutivo, muitos animais marinhos).
56
• Principais biomas brasileiros:

• Floresta Amazônica: alta pluviosidade, temperatura constante, devido à


latitude, vegetação latifoliada (folhas área foliar grande), solo pobre, mas
elevado material orgânico e alta biodiversidade de espécies animais e
vegetais.

• Floresta Atlântica: alta umidade, temperatura constante, devido à


maritimidade. Folhas latifoliadas, árvores com epífitas e maior densidade
no nível arbustivo.

• Floresta de Araucária ou “taiga brasileira”: coníferas com três níveis de


estratificação, em cujo andar arbustivo se encontram as samambaias.

• Cerrado: grande amplitude térmica, vegetação com folhas coriáceas,


troncos retorcidos, casca espessa, árvores esparsas e regime de queimadas.

• Caatinga: baixa pluviosidade, vegetação xeromórfica, ex.: cactáceas (caule


acumula água), folhas coriáceas ou transformadas em espinhos.

• Manguezais ou “berço do mar”: latitude não interfere nos fatores edáficos,


ou seja, do solo; solo argiloso e salino, raízes pneumatóforos, árvores com
longas raízes (rizóforas), semente germina no fruto (viviparidade).

• Pantanal: na época das chuvas, alta pluviosidade, lençóis freáticos rasos


(umidade), alta biodiversidade.

57
AUTOATIVIDADE

1 A partir das características comuns em animais, cite um exemplo de animal


portador de cada característica, e em qual bioma esse animal pode ser
encontrado.

a) Pelagem abundante:

b) Hábitos migratórios:

c) Necessidade de hibernação:

2 Identifique a que se referem os seguintes itens:

a) Bioma com extrema escassez de água e que não está representado no Brasil.

b) Elemento abundante no solo do cerrado e que dificulta o desenvolvimento da


vegetação.

c) Bioma que se estende por todo o Brasil central.

d) Bioma apresentado apenas o estrato herbáceo, presente no sul do Brasil,


usado na pecuária.

e) Tipo de clima que caracteriza a caatinga brasileira.

58
UNIDADE 1
TÓPICO 4

MEIO FÍSICO E A DISPONIBILIDADE DE RECURSOS

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico veremos a interação entre as condições locais (características
físicas e químicas do ambiente), como a temperatura, a umidade, a pressão
osmótica e o pH de um ambiente e seus recursos essenciais disponíveis, que são
consumidos pelos organismos durante o seu crescimento e reprodução, como a
radiação solar, o dióxido de carbono, a água e os nutrientes minerais para a vida.
Assim como, a resposta dos organismos a estas condições e recursos encontrados,
nos ambientes habitáveis.

2 CONDIÇÕES AMBIENTAIS

As condições ambientais que podem ser “extremas”, “adversas”, “propicias”
e “estressantes” determinam a distribuição e o comportamento de organismos. Ex.:
calor do meio dia num deserto, locais gelados da Antártica, intensidade de chuvas
na floresta tropical. Essas condições (temperatura, umidade relativa e outros)
induzem respostas fisiológicas em organismos que determinam se o ambiente é
propício ou não. Ex.: para os pinguins o clima da Antártica é extremo, porém, o
clima da floresta pluvial tropical seria severo, mas propício para as araras; como
um lago seria severo para um cacto, mas propicio para um aguapé.

Os efeitos destas condições podem apresentar três respostas básicas


denominadas por “curvas de resposta”, que são:

a) Curva de efeitos da temperatura e pH: onde as condições extremas são


letais, mas entre estes dois extremos existe um continuum de condições favoráveis
para a sobrevivência, podendo crescer ativamente dentro de uma faixa mais restrita
e se reproduzir numa faixa ainda mais estreita.

b) Curva de efeitos de veneno: com letalidade apenas em concentrações


altas, que em condições zero ou baixas, o organismo não é afetado, havendo um
limiar acima do qual o desempenho decresce rapidamente: primeiramente a
reprodução, depois o crescimento, por fim a sobrevivência.

c) Curva de efeito da exigência de condições de concentração (necessita de


recursos com concentrações baixas, pois as altas se tornam tóxicas): Ex.: cloreto de

59
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

cobre e sódio são recursos essenciais para o crescimento, quando em quantidade-


traço (traços de concentração), pois altas concentrações se tornam tóxicos.

As condições ambientais atuam primeiramente para regular os processos


fisiológicos. Desta maneira, muitas condições funcionam como estímulos para o
crescimento, desenvolvimento e a preparação do organismo para as condições que
estão por vir. Ex.: o “relógio biológico” (interno) percebe sinais externos, como
a diminuição do fotoperíodo (incidência solar em decorrência do inverno ou
chuvas), onde ursos, gatos e outros mamíferos desenvolvem uma pele espessa;
ou fotoperíodo amplo (verão ou estiagem), em que muitos insetos entram em
dormência (diapausa). Assim como, na aproximação da estação mais quente
(primavera) os animais entram em atividade reprodutiva, proporcionando a
migração de aves e nos vegetais ocorre o início do florescimento.

Nas interações entre organismos, eles respondem a cada condição em seu


meio, mas os efeitos das condições podem ser fortemente determinados pelas
respostas de outros organismos da comunidade. Ex.: o fator temperatura não age
apenas sobre um organismo, mas sobre os seus competidores (suas presas, seus
parasitas, etc.), que podem não tolerar uma determinada condição ambiental.
(TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

Tanto os animais apresentam sensibilidade em relação à luz (fototatismo,


em que se orientam para ela, ou se afastam dela), como os vegetais (fototropismo).
Desta forma, ambos apresentam fotoperiodismo, ou seja, são capazes de reagir à
duração da luminosidade diária a que estão sendo submetidos (fotoperíodo). Ex.:
as diferentes épocas de floração de muitas plantas se devem as diferentes reações
ao fotoperíodo das plantas com flor. Os animais reagem de forma diferente ao
fotoperíodo, sendo mais ativos nas temperaturas ótimas e menos ativos quando
as temperaturas se afastam do ótimo, permitindo-os a sobreviver. Ex.: lagartixas
reduzem suas atividades vitais, ficando num estado de vida latente (não têm
facilidade em realizar grandes deslocamentos); as andorinhas, com grande
facilidade para deslocamento, migram, isto é, partem determinadas épocas do ano
para regiões com temperatura favorável. Mas existem animais que apresentam
características próprias de adaptação às diferentes temperaturas. Ex.: animais que
vivem em regiões muito frias desenvolvem uma pelagem longa e uma camada de
gordura sob a pele. (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

3 RECURSOS VEGETAIS
Os recursos são componentes bióticos ou abióticos do ambiente, que
pode ser consumido por organismos, ao longo do seu crescimento e manutenção,
tornando-se menos disponíveis para outros organismos. Ex.: quando uma folha
de uma planta absorve a radiação solar, ela priva deste recurso às outras folhas
ou plantas que estiverem abaixo dela (estratos vegetais); ou quando uma larva
se alimenta de uma folha, sobra menos material foliar para as outras. Portanto,

60
TÓPICO 4 | MEIO FÍSICO E A DISPONIBILIDADE DE RECURSOS

“os recursos são críticos para a sobrevivência, crescimento e reprodução, além de


uma fonte potencial de conflito e competição entre organismos”. (TOWNSEND;
BEGON; HARPER, 2006).

ATENCAO

As plantas podem evitar ou tolerar a escassez de água. Processos bioquímicos


especializados podem aumentar a taxa fotossintética a ser alcançada por unidade de água
perdida em plantas C4 e CAM (em oposição às plantas C3). (RICKLEFS, 2003).

As plantas, quando realizam a fotossíntese, obtêm energia e materiais


(matéria inorgânica), para o seu crescimento e reprodução. Os recursos
ambientais consumidos pela planta são radiação solar, dióxido de carbono,
água e nutrientes minerais (água, fósforo, cálcio, nitrogênio, potássio etc.); as
bactérias quimiossintetizantes (organismos quimiossintéticos) obtêm energia e
materiais da oxidação do metano, íons amônio, ácido sulfídrico ou ferro ferroso;
assim como, os demais organismos obtêm seus recursos de corpos de outros
organismos. Consequentemente, o que foi consumido nestes três casos, não estará
mais disponível para outro consumidor (competição). (TOWNSEND; BEGON;
HARPER, 2006).

ATENCAO

Radiação solar, água, minerais e dióxido de carbono são recursos críticos para
as plantas verdes. Estes recursos quando disponíveis em abundância são excelentes para as
plantas, mas quando em escassez, pode ser desfavorável para o crescimento e reprodução
dos vegetais. A forma da curva que relaciona a taxa de fotossíntese à intensidade de radiação
varia bastante entre as espécies. A radiação que atinge uma planta está sempre mudando e
as folhas somam as diversas exposições de suas várias folhas. (RICKLEFS, 2003).

61
UNIDADE 1 | VIDA E AMBIENTE FÍSICO

4 ANIMAIS E SEUS RECURSOS



As plantas verdes (autótrofas), depois da fotossíntese, reúnem a radiação
solar, íons e moléculas simples em moléculas complexas (carboidratos, gorduras
e proteínas) em células, tecidos, órgãos e nos organismos. Estas estruturas são
depósitos de recursos alimentares para todos os outros organismos heterótrofos
(decompositores, predadores, herbívoros e parasitas). Estes consumidores
utilizam estes depósitos através da metabolização, em que parte é secretada e
outra é reagrupada em seus organismos podendo ser consumidos, decompostos e
reconstituídos em uma cadeia de eventos, em que cada consumidor pode se tornar
um recurso para algum outro consumidor. (TOWNSEND; BEGON; HARPER,
2006).

Segundo Townsend, Begon e Harper (2006), os heterótrofos podem ser


agrupados em: decompositores: que se alimentam de vegetais e animais mortos;
parasitas: que se alimentam de um ou muito poucos animais e vegetais hospedeiros
vivos (geralmente não os matam, pelo menos não imediatamente); predadores: ao
longo de sua vida, é típico que matem suas presas para delas se alimentarem.
Quando se pensa em predador-presa, o que vem à mente é um animal matando e se
alimentando de outro animal. Mas esta relação de interações entre o consumidor e
seu recurso abrange um rol muito mais amplo, do que aparenta. Ex.: um papagaio
se alimentando de sementes (mata o embrião dentro da semente), fungos que se
alimentam de uma plântula e a matam, baleias que se alimentam de Krill, plantas
carnívoras que se alimentam de insetos (como forma de reposição de nutrientes
não encontrados no solo). Como se pode ver, em cada um dos casos, todos são
predadores matam o seu recurso alimentar e o consomem totalmente ou em parte.
Quando se fala em consumidores não se refere apenas aos seres heterótrofos
carnívoros, mas os herbívoros e os autótrofos também, que para sobreviverem
necessitam de um nível trófico anterior ao seu, para completarem o seu ciclo de
vida. Além disso, os consumidores animais, quanto à dieta, podem ser classificados
como especialistas ou generalistas. Quando os indivíduos de espécies individuais
tiverem vida longa são provavelmente generalistas (espécies polifágicas), mesmo
que muitas vezes tenham preferências claras e uma ordem de prioridades para
escolher quando existem alternativas disponíveis, pois não dependem apenas
da disponibilidade de um recurso alimentar. Ex.: herbívoros e carnívoros. Já os
especialistas (monófagos) apresentam um tempo de vida curto, onde o organismo
é esforçado a viver de partes do recurso ou de gastar tempo e energia na procura
deste recurso entre outros recursos (que é um dos custos da especialização). Ex.: as
abelhas se alimentando do néctar de uma determinada planta em floração (período
curto), depois da floração desta espécie, ela terá que procurar outras espécies para
se alimentar durante o verão.

No caso do besouro da framboesa, uma única espécie (a planta framboesa)


pode fornecer muitos recursos alimentares ao mesmo tempo, tornando-se menos
dispendioso ao consumidor (besouro) na procura do seu recurso. Como exemplo,
o besouro põem seus ovos na framboesa e as larvas, após a eclosão, consomem
somente as flores desta espécie. Dentro do fruto, completa o seu desenvolvimento,

62
TÓPICO 4 | MEIO FÍSICO E A DISPONIBILIDADE DE RECURSOS

ficando inativa na fase de pupa, até a próxima estação de florescência da framboesa.


Dentre 10-11 meses, a larva fica ativa e se alimenta da medula do caule, fechando
o ciclo de vida num único recurso (a framboesa).

ATENCAO

As várias partes de uma planta (seres autótrofos) têm composições muito diferentes
e, assim, fornecem recursos completamente diferentes aos heterótrofos (consumidores). A
diversidade de organismos heterótrofos se deve a diversificação de peças bucais e tratos
digestivos que evoluíram para o consumo, no caso dos consumidores. E para fazer um uso
melhor do material vegetal, muitos herbívoros estabelecem uma associação mutualística
com bactérias e protozoários celulolíticos em seu canal alimentar. (RICKLEFS, 2003).

UNI

DICAS DE LIVROS, VÍDEOS E SITES

LOVELOCK, J. Gaia: cura para um planeta doente. São Paulo: Cutrix, 2006.

PURVES, W. K.; SADAVA, D.; ORIANS, G. H.; HELLER, H. C. Vida: a ciência da biologia. Evolução,
diversidade e ecologia - Vol. II. Porto Alegre: Artmed, 2005.

RAVEN, P. H.; EVERT, R. F.; EICHHORN, S. E. Biologia Vegetal. Rio de Janeiro: Guanabara
Koogan, 2007.

SCHELP, D. A vingança de Gaia. Veja São Paulo, nº 1979, out. 2006. Disponível em: <http://
veja.abril.com.br/251006/entrevista.html>.

Vídeos:

O segredo da vida na Terra. Ano: 1993. Duração: 40min. Direção: Adrian Warren. Produção:
Christopher Parsons.

Mudanças ambientais Globais. Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, INPE.


Disponível em: <http://videoseducacionais.cptec.inpe.br/>. Vídeo-animação sobre mudanças
globais devido às causas antropogênicas.

Efeito Estufa. Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, INPE. Disponível em: <http://
videoseducacionais.cptec.inpe.br/>. Vídeo-animação sobre efeito estufa, suas características
naturais e causas antropogênicas.

Avatar. Ano: 2009. Duração: 162 min. Direção: James Cameron. Produção: 20th Century Fox.
Embora se trate de um filme de ficção, as preocupações ecológicas e as ideias científicas são
evidentes em quase todo o enredo, principalmente a teoria de Gaia.

63
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, você pode concluir que:

• As condições são características físicas e químicas do ambiente (temperatura e


umidade), que podem ser alteradas, mas não consumidas. Mas os recursos são
consumidos por organismos, durante o seu crescimento e reprodução.

• As condições ambientais que determinam a distribuição e o comportamento de


organismos podem ser “extremas”, “adversas”, “propicias” e “estressantes”.

• Os efeitos destas condições podem apresentar três respostas básicas denominadas


“curvas de resposta”, que são: curva de efeitos da temperatura e pH; curva de
efeitos de veneno; curva de efeito da exigência de condições de concentração.

• As condições ambientais atuam primeiramente para regular os processos


fisiológicos, e muitas condições funcionam como estímulos para o crescimento,
desenvolvimento e a preparação do organismo para condições que estão por vir
(hibernação, diapausa entre outras).

• A aproximação da estação mais quente (primavera), animais entram em


atividade reprodutiva, nos vegetais ocorre o início do florescimento, como
também, a migração de aves.

• Nas interações entre organismos, os efeitos das condições podem ser fortemente
determinados pelas respostas de outros organismos da comunidade. Ex.: fator
temperatura não age apenas sobre um organismo, mas sobre os seus competidores
(suas presas, seus parasitos etc.), que não possa tolerar uma condição ambiental.

• Os recursos são componentes bióticos ou abióticos do ambiente, que pode


ser consumido por organismos, ao longo do seu crescimento e manutenção,
tornando-se menos disponíveis para outros organismos.

• As plantas, quando realizam a fotossíntese, obtêm energia e materiais (matéria


inorgânica), para o seu crescimento e reprodução. Os recursos ambientais
consumidos pela planta, não estarão mais disponíveis para outro consumidor
(competição).

• Os organismos autótrofos sintetizam os carboidratos, gorduras e proteínas,


em células, tecidos, órgãos e nos organismos. Que são depósitos formados
em recursos alimentares para todos os outros organismos heterótrofos
(decompositores, predadores, herbívoros e parasitas). Os consumidores podem
se tornar um recurso para algum outro consumidor.

64
• Na relação predador-presa, o predador mata seu recurso alimentar e o consome
todo ou em parte.

• Os consumidores animais quanto à dieta podem ser classificados como


especialistas ou generalistas.

• Indivíduos de espécies individuais com vida longa são provavelmente


generalistas (espécies polifágicas), pois não podem depender apenas da
disponibilidade de um recurso alimentar.

• Os especialistas (monófago) apresentam um tempo de vida curto, em que, uma


única espécie pode fornecer muitos recursos alimentares.

65
AUTOATIVIDADE

1 Diferencie condições ambientais de recursos ambientais.

2 Para que servem as condições ambientais aos organismos?

3 Cite recursos vegetais e animais.

Assista ao vídeo de
resolução da questão 1

66
ATIVIDADE DE LABORATÓRIO E DIDÁTICO-PEDAGÓGICO DE BIOLOGIA

ANÁLISE DOS PARÂMETROS FÍSICO-QUÍMICOS


E MICROBIOLÓGICOS DA ÁGUA

UNI

Para esta prática devem-se coletar previamente as amostras de água a serem


analisadas.

1 INTRODUÇÃO

A água para consumo humano, denominada potável, é aquela cujos
parâmetros microbiológicos, físicos, químicos e radioativos atendam aos padrões
legais de potabilidade e que não ofereçam riscos à saúde. Adicionalmente os
parâmetros da água presente em outros meios devem atender aos padrões de
qualidade adequados para seu uso. (MERTEN, 2002). Por exemplo, a água de um
rio pode apresentar riscos para a saúde humana se for bebida e mesmo assim ser
considerada de boa qualidade para manter a vida dos seres aquáticos.

Portanto, uma das formas de conhecer a qualidade de uma água é estabelecer,


analisar e medir parâmetros de qualidade. Os principais parâmetros que serão
vistos na prática são: cloro livre; ferro; nitrogênio amoniacal; pH; transparência;
cor; cloretos; dureza total; oxigênio dissolvido; alcalinidade; coliformes a 45º C e
salmonela:

UNI

É importante destacar que o conteúdo desta prática se relaciona com


outras disciplinas e áreas afins: química geral, química analítica, saneamento ambiental,
microbiologia, geologia, recursos hídricos entre outras.

67
FIGURA 30 – INDICADORES DE ANÁLISE DE ÁGUA

FONTE: As autoras

Tenha uma excelente prática!

2 OBJETIVOS
• Conhecer os principais parâmetros de análise de água.
• Analisar águas de diferentes fontes e comparar os parâmetros analisados para
cada tipo;
• Interpretar os resultados obtidos inferindo sobre possíveis sequências de
acontecimentos (natural e/ou antrópica) que geraram o valor obtido para os
parâmetros.
• Identificar impactos ambientais futuros possíveis de ser gerados por águas que
apresenta os parâmetros encontrados.

3 MATERIAIS
• 500 mL de água de lago ou rio coletada em um frasco estéril ou em uma garrafa
plástica de água mineral.
• 500 mL de água potável da torneira coletada um frasco estéril ou em uma garrafa
plástica de água mineral.
• 1 kit de análise de água, Kit-Potabilidade.

68
4 PROCEDIMENTO
• Analisar os parâmetros de acordo com as instruções contidas no kit de análise.
• Medir os parâmetros necessários tendo em consideração o método e comentários
expressos no quadro 1.
• Observar as instruções de manipulação, segurança e manutenção dos produtos,
reagentes e componentes conforme o estabelecido no kit de análise de água.

UNI

A manipulação incorreta e imprudente do kit de análise pode conduzir a


resultados errôneos e contaminação dos produtos utilizados na análise!

QUADRO 1 – MÉTODOS DE MEDIÇÃO DOS PARÂMETROS DO KIT DE ANÁLISE DE ÁGUA. KIT –


POTABILIDADE

FONTE: Alfakit (2012)

UNI

Lembre-se de gerir adequadamente o tempo para que seja possível determinar


todos os parâmetros no período estabelecido para a realização das análises. Divida as tarefas,
pois várias análises podem ser realizadas simultaneamente.

69
5 INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS
Depois da realização desta prática preencha a tabela de resultados,
conforme o modelo estabelecido no quadro a seguir:

QUADRO 2 – RESULTADOS: VALORES DOS PARÂMETROS OBTIDOS EM CADA AMOSTRA

FONTE: As autoras

Ao finalizar a prática, o acadêmico deve adquirir a competência de fazer


um diagnóstico crítico dos resultados obtidos combinando os seguintes fatores:

• Conhecimentos prévios dos acadêmicos.


• O conteúdo teórico abordado na introdução.
• Consultando bibliografia adicional sempre que necessário.
• Padrões vigentes de potabilidade na legislação brasileira (Anexo I).

Os acadêmicos devem discutir em equipe os resultados obtidos de forma


a ser possível preencher duas tabelas de interpretação e conclusões, conforme o
modelo no quadro a seguir:

70
QUADRO 3 – TABELA DE INTERPRETAÇÃO E CONCLUSÕES

FONTE: As autoras

UNI

Na coluna “justificativa do valor encontrado”, a equipe deve justificar a sequência


de acontecimentos que ocorreu para que a amostra apresente o valor encontrado. Na coluna
“consequências para o meio natural”, a equipe deve identificar se o valor encontrado pode ser
considerado uma contaminação e seus possíveis impactos ao meio ambiente de forma geral.
Na coluna “consequências para a saúde humana”, o acadêmico deve identificar se o valor
encontrado para o parâmetro pode ser prejudicial se a água é consumida pelo ser humano
ou não.

71
ANEXO I

Padrões de potabilidade legais conforme a legislação vigente:

QUADRO 4 – PARÂMETROS DE POTABILIDADE

FONTE: As autoras

72
UNIDADE 2

ORGANISMOS, POPULAÇÕES,
COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade você será capaz de:

• conhecer a dinâmica estrutural das populações naturais;

• identificar as diferentes formas de interação ocorrentes entre os organismos;

• compreender os padrões e processos existentes nas comunidades;

• entender as relações de fluxo de energia e matéria que regem a dinâmica


dos ecossistemas.

PLANO DE ESTUDOS
A Unidade 2 está dividida em quatro tópicos, cujas atividades, no final de
cada um deles, reforçarão o seu aprendizado.

TÓPICO 1 – ORGANISMOS E POPULAÇÕES

TÓPICO 2 – INTERAÇÕES ECOLÓGICAS

TÓPICO 3 – ECOLOGIA DE COMUNIDADES

TÓPICO 4 – ECOSSISTEMAS

Assista ao vídeo
desta unidade.

73
74
UNIDADE 2
TÓPICO 1

ORGANISMOS E POPULAÇÕES

1 INTRODUÇÃO
Na unidade anterior vimos alguns fatores que influenciam a vida dos
organismos ou indivíduos. Porém, a definição de organismo, em um primeiro
olhar, não é tão simples quanto parece.

Se pensarmos em animais, de uma forma geral, é fácil identificar onde


termina um organismo e começa outro, principalmente se estivermos observando
um bando de andorinhas ou de macacos. Agora, porém, pensemos em uma
esponja. Como definimos o que é um organismo? Se considerarmos o reino Fungi,
esta definição se torna ainda mais complexa. Afinal, vemos somente o corpo de
frutificação destes seres e um único organismo pode produzir mais de um corpo
de frutificação ao mesmo tempo (Figura a seguir).

FIGURA 31 – CORPOS DE FRUTIFICAÇÃO DE REPRESENTANTES DO REINO FUNGI. NÃO É


POSSÍVEL AFIRMAR QUE CADA CORPO DE FRUTIFICAÇÃO REPRESENTA UM ORGANISMO DA
ESPÉCIE

FONTE: As autoras

Por isso, é de suma importância que nestes estudos haja uma descrição
detalhada dos elementos utilizados para definir um organismo.

Alguns questionamentos podem surgir em sua mente: por que é importante


ter uma definição clara de organismo? E ainda, qual é o objetivo de estudá-lo?

É imprescindível ter um conceito claro de organismo para poder efetuar


qualquer pesquisa envolvendo uma determinada população, como por exemplo,

75
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

para realizar o controle populacional de uma espécie exótica que se tornou invasora
ou “praga”, ou ainda no acompanhamento de uma espécie considerada ameaçada
de extinção.

Falando em população, vamos relembrar esse conceito?

ATENCAO

Uma população pode ser definida como o conjunto de organismos ou indivíduos


de uma mesma espécie que vive em um determinado local, em um determinado espaço de
tempo.

Assim, o conjunto de aves da espécie aracuã (Ortalis guttata) que habita um


determinado fragmento florestal é considerado uma população, da mesma forma
que o total de organismos do palmiteiro (Euterpe edulis) encontrados neste mesmo
fragmento. Poderíamos citar os mais diversos exemplos, como um cardume de
sardinhas (Sardina sp.) que vivem juntas em uma determinada área do Oceano
Atlântico, ou ainda uma colônia de bactérias que habitam o nosso trato intestinal.
Mas o nosso intuito é que você compreenda os termos básicos a qualquer estudo
focando as relações ecológicas existentes em nosso planeta.

Um fator muito importante e que sempre deve ser considerado é que a


definição de população pode variar de acordo com o objetivo do estudo ou com a
definição de população dada pelo pesquisador. Vamos a um exemplo:

Anteriormente consideramos como uma população o conjunto de aracuãs


que habita um determinado fragmento florestal. Porém, se o objetivo do estudo for
estudar as aracuãs de uma determinada cidade e se assim o desejar, o pesquisador
pode considerar o conjunto destas aves como uma população. Ainda, o conjunto
de aracuãs existentes no estado de Santa Catarina também pode ser considerado
uma população se o objetivo for compará-las com as aracuãs de outros estados.

Por isso, definir os limites de uma população e deixá-los sempre claros é


indispensável!

Vamos agora entender um pouco mais sobre a história de vida dos


organismos, parâmetro esse que define as estratégias utilizadas para realizar
as mais diferentes atividades, tais como o seu crescimento e reprodução. Essas
estratégias influenciam na estrutura e dinâmica populacional e, consequentemente,
no comportamento de cada espécie.

76
TÓPICO 1 | ORGANISMOS E POPULAÇÕES

2 HISTÓRIAS DE VIDA DOS ORGANISMOS


O estudo dos organismos vai muito além de saber identificá-los. Se
quisermos entender as forças que interferem na sua abundância em uma população
precisamos conhecer as fases da sua vida onde estas forças são mais significativas
(TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006) para, se for o caso, intervir sobre estes
quesitos. Estas informações são obtidas através da história de vida dos organismos.
É o que veremos a seguir.

Desde o momento do nascimento até a sua morte, um organismo passa


por diversas fases de vida onde sempre precisa equilibrar algumas questões
primordiais: o seu crescimento e a sua reprodução. A forma como um organismo
gerencia estas questões em cada idade é que governa a evolução da sua história de
vida (RICKLEFS, 2010).

Mas o que significa a expressão história de vida? De forma simplificada


a história de vida de um organismo, como o próprio nome sugere, compreende
desde o seu nascimento, o período pré-reprodutivo, o período reprodutivo, o
período pós-reprodutivo até a sua morte (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

De acordo com Ricklefs (2010), alguns componentes destacam-se na história


de vida de um organismo. São eles:

a) a idade de maturidade ou primeira maturação;


b) a parição ou número de eventos reprodutivos;
c) a fecundidade ou número de descendentes produzidos por evento; e
d) a longevidade.

A forma como os organismos lidam com os componentes acima citados varia


amplamente, de forma que as suas histórias de vida também são bastante distintas.
De forma geral, a maioria dos problemas de alocação de recursos que moldam as
histórias de vida dos organismos pode ser resumida em três questionamentos: 1)
quando começar a reproduzir? 2) quão frequentemente reproduzir? 3) quantos
filhotes gerar em cada evento reprodutivo? (RICKLEFS, 2010).

Um dos fatores que influencia estes questionamentos é o tempo de vida.


Geralmente organismos com tempo de vida longa começam a reproduzir mais
tardiamente em relação àqueles cujo tempo de vida é curto.

Em relação a este quesito, são denominados anuais os organismos cujo


ciclo de vida não ultrapassa um ano, enquanto que os organismos cujo ciclo de
vida vai além deste período de tempo são denominados perenes (TOWNSEND;
BEGON; HARPER, 2006). Grande parte das plantas utilizadas na agricultura, tal
como arroz, milho, feijão, entre outros, são exemplos de organismos anuais. Por
outro lado, vegetais florestais e animais vertebrados de grande porte comumente
vivem durante vários anos, e são exemplos de organismos perenes.

77
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

Alguns organismos, independentemente de possuírem ciclo de vida anual


ou perene, apresentam apenas um evento reprodutivo ao longo da vida, sendo
denominados organismos semélparos (semel “uma vez” e pario “dar a luz”). A
semelparidade é comum em plantas anuais, mas é rara entre animais e plantas de
vida longa (perenes) (RICKLEFS, 2010). Todavia, pode-se citar o caso do salmão do
pacífico, da cigarra periódica, dos bambus e do agave (Figura a seguir).

FIGURA 32 – INFLORESCÊNCIA DE UM ORGANISMO DE AGAVE UTILIZADO


PARA ORNAMENTAÇÃO EM INDAIAL, SANTA CATARINA, EM PERÍODO FÉRTIL

FONTE: As autoras

Outros organismos reproduzem-se continuamente ao longo da vida, sendo


denominados organismos iteróparos (do latim itero “repetir”). A espécie humana é
um bom exemplo de espécie iterópara. Grande parte dos animais e plantas de vida
longa também apresenta este padrão de reprodução.

Com relação ao tempo de vida e número de eventos reprodutivos, uma


inúmera quantidade de organismos apresenta história de vida que se encaixa
entre os dois extremos apresentados, variando distintamente para cada um desses
atributos. Porém entre os organismos que se enquadram na ponta lenta desse
extremo podem-se citar os albatrozes. Essas aves possuem grande longevidade
e atingem a maturidade sexual tardiamente (cerca de 5-6 anos para as espécies
menores e 11 anos para os grandes albatrozes). Apenas um ovo é produzido
por temporada podendo haver intervalos entre as posturas de dois ou mais
anos (NEVES et al., 2006). Outros exemplos de extremo lento são os elefantes, as
tartarugas-marinhas e as árvores de carvalho. No extremo rápido temos as ervas
em geral e as moscas-da-fruta.

78
TÓPICO 1 | ORGANISMOS E POPULAÇÕES

UNI

Foram justamente as características da história de vida das moscas-da-fruta que


permitiram que esta espécie fosse amplamente utilizada em experimentos genéticos!

Desta forma, pode-se observar que existe certo balanço ou escolha entre
alocar energia para o crescimento ou reprodução. Como citam Townsend, Begon
e Harper (2006), especialmente quanto à reprodução, a iniciação dessa etapa pode
gerar um alto custo para o crescimento, podendo inclusive encerrar a vida do
organismo.

Em algumas situações, no entanto, isso pode ser interessante, pois espécies


que conseguem se multiplicar rapidamente, produzindo um elevado número de
descendentes em um curto período de tempo, obtêm maior sucesso em ambientes
efêmeros. Isso permite que estas espécies colonizem novos hábitats rapidamente,
tal como áreas perturbadas. Costuma-se denominar de oportunistas as espécies
que apresentam esse tipo de padrão de vida. Elas ainda podem ser denominadas
de r-estrategistas.

No outro extremo, algumas espécies são mais eficientes em sobreviver


em hábitats onde há intensa competição pelos recursos limitados. Nesses casos,
os organismos investem mais em crescimento, ao invés de reprodução, ou na
competição uns com os outros. Essas espécies são denominadas de k-estrategistas
por passar a maior parte de suas vidas crescendo contra os limites dos recursos
ambientais (veja no Tópico 2 onde se discute a competição intraespecífica).

Aqui vale uma ressalva: apesar de os ecólogos sempre buscarem encontrar


padrões nos fenômenos e processos que estudam, é preciso considerar que estamos
lidando com seres vivos diversificados, cujas características foram e continuam a
ser moldadas pela evolução e pelas condições do ambiente onde vivem. Portanto,
não há dois ou mais grupos isolados de padrões diferenciados com relação às
histórias de vida dos organismos. Ao contrário, o que se pode verificar na natureza
é uma continuidade de valores para as diferentes características que moldam as
histórias de vida, cujos extremos são ocupados por organismos com histórias
de vida ditas lentas e aqueles que apresentam uma história de vida considerada
rápida. Os extremos lento-rápidos das histórias de vida dos organismos podem ser
assim distinguidos (Tabela a seguir):

79
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

TABELA 1 – AGRUPAMENTO DE VALORES EXTREMOS PARA OS ATRIBUTOS (CARACTERÍSTICAS)


QUE COMPÕEM A HISTÓRIA DE VIDA DE UM ORGANISMO

FONTE: Ricklefs (2010, p. 120-121)

3 MONITORANDO A MORTALIDADE, A NATALIDADE E A


DISPERSÃO DOS ORGANISMOS DE UMA POPULAÇÃO
Na seção anterior comentamos sobre a importância de conhecermos a
fundo a história de vida dos organismos para que seja possível conhecer alguns
aspectos das populações naturais. Não podemos, no entanto, determinar a taxa
de natalidade, mortalidade e sobrevivência de uma população estudando os
organismos separadamente. Esses são alguns exemplos das diversas propriedades
únicas das populações e que, portanto, somente fazem sentido no âmbito
populacional (ODUM; BARRET, 2011). Conhecer estes processos é de suma
importância uma vez que são eles os responsáveis pela modificação do tamanho
de uma população (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

Você pode questionar a importância de estudar estas questões. Um


exemplo prático da sua utilidade é em atividades de manejo. Como elaborar uma
estratégia eficaz se não se conhece a estrutura e dinâmica da população? Será
necessário intervir severamente ou simples ações são suficientes? E ainda, em qual
fase da vida é necessário focar as intervenções? Essas e outras questões podem ser
acessadas através de dados populacionais como os que veremos a seguir.

3.1 TABELAS DE VIDA E CURVAS DE SOBREVIVÊNCIA



Uma forma de acompanhar as taxas de natalidade de uma população é
através da construção de uma tabela de vida. O tipo de tabela de vida varia de
acordo com a forma de monitoramento da população. Assim, é possível elaborar
uma tabela de vida de coorte ou dinâmica ou uma tabela de vida estática.

O termo coorte, utilizado na tabela de vida de coorte ou dinâmica, define


os organismos que nasceram em um mesmo determinado período de tempo. Desta
forma, nesse tipo de tabela é registrada a sobrevivência desses organismos que
nasceram em uma mesma época até o último morrer (TOWNSEND; BEGON;
HARPER, 2006). Esse método é geralmente aplicado para plantas e animais sésseis,
nos quais os indivíduos marcados podem ser continuamente rastreados ao longo
de suas vidas (RICKLEFS, 2010).

80
TÓPICO 1 | ORGANISMOS E POPULAÇÕES

A tabela de vida estática, por sua vez, pode ser definida como uma foto
instantânea da população, pois acompanha a população em um dado espaço de
tempo descrevendo os números de sobreviventes de diferentes idades na população
(TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006). A seguir apresentamos um gráfico para
que você entenda a diferença de estratégia existente entre a construção das tabelas
de vida.

Não vamos aqui demonstrar ou ensinar a calcular as tabelas de vida,


mas é importante você saber da sua existência e da sua utilidade em estudos
populacionais. De fato, as tabelas de vida fornecem informações detalhadas sobre
organismos específicos, como por exemplo, em qual fase houve uma maior número
de mortes. Porém, os ecólogos buscam encontrar padrões entre as mais diversas
espécies de forma que a transferência dos dados de sobrevivência calculados nas
tabelas de vida para um gráfico pode ser mais reveladora (TOWNSEND; BEGON;
HARPER, 2006).

GRÁFICO 1 – DEMONSTRAÇÃO GRÁFICA DA FORMA DE ACOMPANHAMENTO DOS


ORGANISMOS DE UMA POPULAÇÃO ATRAVÉS DA CONSTRUÇÃO DE TABELAS DE VIDA

Obs.: Nas tabelas de vida de coorte todos os organismos que nasceram no tempo t0
são acompanhados até que o último tenha morrido. Já na tabela estática, todos os
organismos existentes no período t1 são monitorados.

FONTE: Adaptado de: Ricklefs (2010)

81
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

Ao se transpor os dados de tabelas de vida de coorte ou dinâmica podem


ser observadas três formas de curva de sobrevivência:

CURVA DO TIPO I: na curva de sobrevivência do Tipo I, a taxa de mortalidade


de indivíduos na população é baixa nos estágios jovens, se concentrando nas idades
mais avançadas (DAJOZ, 2005), como pode ser visto nos gráficos a seguir. Um
exemplo típico deste tipo de curva é o apresentado pelas populações humanas,
assim como pelas demais populações de mamíferos. Os insetos sociais e as moscas-
da-fruta também tendem a apresentar esse padrão (DAJOZ, 2005).

GRÁFICO 2 – CURVA DE SOBREVIVÊNCIA E TAXA DE MORTALIDADE EM CURVAS DO TIPO I

FONTE: Adaptado de Townsend, Begon e Harper (2006)

CURVA DO TIPO II: nas populações que apresentam este tipo de curva
de sobrevivência, a taxa de mortalidade é relativamente constante ao longo do
tempo de vida do organismo (Gráfico 3). Esse é o caso da hidra de água doce,
de diversos passeriformes, de coelhos, cervos, entre outros (DAJOZ, 2005, p. 140;
ODUM; BARRET, 2008).

GRÁFICO 3 – CURVA DE SOBREVIVÊNCIA E TAXA DE MORTALIDADE EM CURVAS DO TIPO II

FONTE: Adaptado de: Townsend, Begon e Harper (2006)

CURVA DO TIPO III: nas populações que apresentam este tipo de curva de
sobrevivências, a taxa de mortalidade é elevada nos estágios iniciais, diminuindo
posteriormente (Gráfico 4). Esse é o tipo mais comum de curva apresentado pelas
populações naturais e é frequente nos animais invertebrados, plantas, muitos
peixes e anfíbios (DAJOZ, 2005; RICKLEFS, 2010).

82
TÓPICO 1 | ORGANISMOS E POPULAÇÕES

GRÁFICO 4 – CURVA DE SOBREVIVÊNCIA E TAXA DE MORTALIDADE EM CURVAS DO TIPO III

FONTE: Townsend, Begon e Harper (2006, p. 202)

Os três tipos de curva de sobrevivência apresentados são úteis


generalizações, mas é preciso destacar que na prática a forma da curva está muitas
vezes relacionada com a densidade da população podendo, portanto, variar ao
longo do tempo (ODUM; BARRET, 2011; TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

3.2 DISPERSÃO E MIGRAÇÃO


Dificilmente um organismo permanece ao longo da sua vida no mesmo
local onde foi gerado. Isso é uma realidade não somente com os animais, mas
também para os outros seres, como microrganismos e vegetais. De acordo com as
características de cada espécie em relação a sua capacidade de locomoção, diversas
estratégias podem ser observadas.

Os vegetais, por exemplo, incapazes de se locomoverem por si próprios,


desenvolveram diferentes maneiras para dispersarem suas sementes. Assim,
algumas plantas têm as suas sementes dispersas pelo vento (ex. dente-de-leão), num
fenômeno denominado anemocoria. Outras oferecem frutos carnosos atraentes aos
seus agentes dispersores animais (zoocoria) como aves e morcegos; ou pela água
(hidrocoria), entre diversas outras. Desta forma, suas sementes chegam a locais
distantes da planta-mãe permitindo que a população se distribua de uma forma
que jamais seria possível sem estes agentes.

Os animais por sua vez, se deslocam à procura de recurso e abrigo, mesmo


que esse deslocamento signifique mover-se somente 1 cm em uma folha, ou se
mover de um hemisfério a outro (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

Os efeitos dos movimentos dispersores são variados. Em alguns casos


eles agregam os organismos da população, em outros eles permitem que fiquem
espalhados. De forma geral, podem-se encontrar três padrões espaciais: ao acaso,
regular e agregado (Figura a seguir).

83
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

FIGURA 33 - PADRÕES GERAIS DE DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL QUE PODEM SER


EXIBIDOS PELOS ORGANISMOS EM SEUS HABITATS

FONTE: Adapatado de: Townsend, Begon e Harper (2006)

Conhecer o padrão de distribuição dos organismos de uma população é


muito importante para censos populacionais. Isso decorre do fato que dificilmente
é possível realizar a contagem de todos os organismos habitantes em um
determinado local e da densidade populacional. Portanto, usualmente costuma-se
utilizar amostras. Sem conhecer a distribuição da população, corre-se o risco de
selecionar amostras em áreas que superestimem ou subestimem a realidade da
população, inferindo e prejudicando possíveis ações de controle de pragas e ou de
conservação da espécie.

Você deve ter percebido que apesar do subtítulo indicar que falaríamos
da dispersão e da migração dos organismos, até o momento utilizamos apenas
a expressão dispersão. Isso indica que dispersão e migração são sinônimas? De
forma alguma.

Enquanto a dispersão se refere ao movimento de afastamento dos


organismos, a migração constitui em um movimento direcional em massa pelo qual
os indivíduos se dirigem de um local a outro (TOWNSEND; BEGON; HARPER,
2006). A migração ocorre geralmente de locais com baixa disponibilidade de
recursos para áreas mais produtivas.

O movimento de migração é mais frequente em ambientes temperados,


onde as estações do ano mudam bruscamente o clima local. Assim, muitas espécies
de aves, por exemplo, durante o inverno migram do hemisfério norte para o
hemisfério sul e vice-e-versa.
84
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você pode concluir que:

• Definir um organismo não é tão fácil como em um primeiro momento parece,


demonstrando que os conceitos ecológicos não devem ser generalizados e
necessitam de claras regras de delimitação.

• A partir do estudo dos organismos pode-se acessar a sua história de vida


permitindo medidas de intervenção, quando necessário for.

• A história de vida de um organismo compreende todas as fases da sua vida, mas


de forma resumida pode ser dividida em nascimento, período pré-reprodutivo,
reprodutivo, período pós-reprodutivo e morte.

• Em suma, os fatores que influenciam a história de vida de um organismo


são a idade da maturação, o número de eventos reprodutivos, o número de
descendentes gerados a cada reprodução, e a o tempo de vida.

• Algumas espécies possuem ciclo de vida curto, com duração de até um ano.
Estas espécies são denominadas de espécies anuais. Outras espécies vivem por
mais tempo, sendo chamadas de espécies perenes.

• Durante a sua vida uma espécie pode reproduzir uma única vez (espécies
semélparas) ou apresentar vários eventos reprodutivos (espécies iteróparas).

• Para acessar a história de vida dos organismos, os ecólogos utilizam como


estratégia a construção de tabelas de vida. A tabela de vida de coorte o ou
dinâmica é confeccionada através do acompanhamento de uma geração de
organismos da população, desde o nascimento do primeiro indivíduo até a
morte do último da “leva”. Já a tabela de vida estática utiliza como estratégia
acompanhar todos os organismos presentes na população em um determinado
período de tempo fixo.

• Através dos dados adquiridos em uma tabela de vida de coorte ou dinâmica,


é possível elaborar a curva de sobrevivência ao longo da vida para uma dada
população.

• Há três padrões de curva de vida entre as populações naturais, sendo elas


denominadas de Curva do Tipo I, Curva do Tipo II e Curva do Tipo III.

• Os organismos se dispersam de seus progenitores formando três padrões básicos


de distribuição: ao acaso, regular e agregado.

85
AUTOATIVIDADE

1 Os organismos variam amplamente em suas histórias de vida, possuindo


diferentes estratégias em relação ao crescimento e reprodução. A este respeito
analise as sentenças e classifique V para as afirmativas verdadeiras e F para as
falsas:

( ) São denominadas espécies semélparas aquelas que apresentam apenas um


evento reprodutivo ao longo da sua vida.
( ) As espécies vegetais utilizadas na agricultura em sua maioria são
consideradas perenes por apresentarem ciclos de vida inferiores a um ano.
( ) Toda espécie com ciclo de vida curto apresenta apenas um evento
reprodutivo, enquanto que todas as espécies de vida longa reproduzem
várias vezes ao longo de sua vida.
( ) O início da vida reprodutiva de um indivíduo tem grande influência sobre
a sua história de vida.

Agora, assinale a alternativa CORRETA:

( ) V – F – F – V.
( ) V – V – F – V.
( ) F – F – F – V.
( ) V – V – F – F.

2 Um pesquisador foi contratado para monitorar uma população de uma ave


ameaçada de extinção e sobre a qual pouco se sabe. Quais atributos desta
população o pesquisador deve acessar de maneira a poder monitorar de
forma correta esta população? Por quê?

3 Quando se deseja conhecer as histórias de vida dos organismos de uma


população, é possível realizar dois tipos de abordagem, cada qual dará origem
a um tipo de tabela de vida. Quais são estes tipos de tabela e o que cada uma
delas aborda?

4 Apesar de muitas vezes serem tratados como sinônimos, a dispersão e


migração são eventos distintos. Qual é a principal diferença existente entre
estes dois fenômenos? Dê um exemplo de cada.

Assista ao vídeo de
resolução da questão 4

86
UNIDADE 2 TÓPICO 2

INTERAÇÕES ECOLÓGICAS

1 INTRODUÇÃO
Independente da espécie que consideremos, o fato é que nenhum organismo
consegue viver sem interagir com outros seres, sejam eles da mesma espécie ou
de espécies distintas. Nesse contexto, abordaremos a partir de agora as diferentes
formas de relações ocorrentes entre os organismos vivos.

O motivo que leva um organismo a se relacionar com os demais são os


mais distintos, variando desde a busca de proteção até a garantia de alimentação.
Ainda, esta interação pode se dar entre organismos da mesma espécie, a chamada
interação intraespecífica, ou ocorrer entre organismos de espécies diferentes, o que
é denominado interação interespecífica. Primeiramente focaremos nas interações
intraespecíficas, dando posterior ênfase às interações interespecíficas.

Como pode ocorrer tanto intra como interespecificamente, a competição


será tratada em separado ao final do tópico.

2 INTERAÇÕES INTRAESPECÍFICAS
Um organismo se relaciona com outros organismos da sua espécie por
diversas razões, seja devido à disputa por alimento, necessidade de abrigo ou busca
por um parceiro, seja para maximizar os esforços para sobrevivência do grupo
ou sucesso reprodutivo. A esse tipo de interação que ocorre entre organismos da
mesma espécie dá-se o nome de interação intraespecífica. São várias as formas
de ocorrência desse tipo interação, sendo relacionadas a seguir as interações
sociais, um tipo especial de comportamento que envolve membros de uma mesma
população (RICKLEFS, 2010).

As interações envolvendo organismos de uma mesma espécie equilibram


de forma delicada as tendências de conflito de cooperação e competição, altruísmo
e egoísmo, ocorrendo em quase todas as espécies. Como destaca Ricklefs (2010),
mesmo as bactérias e os protistas podem sentir a presença de outros da mesma
espécie e reagir de formas amigáveis ou agressivas através do lançamento de
secreções químicas. Da mesma forma, as plantas podem se comunicar através de
compostos químicos para sinalizar danos por herbívoros.

87
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

O comportamento social inclui desde situações de cooperação ao


antagonismo, de forma que a seguir será explorado o tipo de interação intraespecífico
mais “famoso” e comentado em livros didáticos de Ciências e Biologia: a sociedade.

2.1 SOCIEDADE
Uma sociedade pode ser definida como um agrupamento permanente, onde
os organismos não estão ligados fisicamente e apresentam divisão de atividades
entre os membros, agindo de forma cooperativa. Há vários graus de sociabilidade no
mundo animal, cujo grau máximo é denominado de eussociabilidade (RICKLEFS,
2010), que será tratada neste Caderno de Estudos.

Para que uma interação seja denominada de eussociabilidade (eu em latim


significa verdadeiro), as seguintes características devem ser verificadas:

1 Diversos adultos vivendo juntos em um grupo.


2 Gerações sobrepostas (pais e filhos) vivendo em um mesmo grupo.
3 Cooperação na construção de ninhos e no cuidado dos ovos.
4 Dominância reprodutiva por um ou poucos organismos, havendo castas
estéreis.

Poucas espécies animais apresentam tal grau de organização, de forma que


a eussociabilidade está restrita às térmitas (cupins), formigas, abelhas e vespas. A
seguir, relataremos um pouco sobre a organização social destes animais, utilizando
como base o descrito por Ricklefs (2010).

As sociedades sociais são dominadas por uma ou poucas fêmeas


ovopositoras, denominadas rainhas. Nas colônias de formigas, abelhas e vespas
(figura 34), as rainhas acasalam somente uma vez durante a sua vida, armazenando
uma quantidade de esperma suficiente para produzir filhotes por um período de
10 a 15 anos!

As sociedades das abelhas são organizadas da seguinte forma: os filhotes de


uma rainha são divididos entre uma casta estéril trabalhadora, todas geneticamente
fêmeas, e outra casta reprodutiva, produzida sazonalmente, formada por machos e
fêmeas. O destino de um organismo entre estas duas opções depende da qualidade
da nutrição recebida enquanto era larva em desenvolvimento. Processo semelhante
ocorre entre as formigas e vespas.

Diferentemente, nas térmitas, as colônias são dirigidas por um casal


reprodutivamente ativo (rei e rainha) que produzem todos os demais organismos
da colônia através da reprodução sexuada. Estes trabalhadores são divididos em
ambos os sexos que não são capazes de amadurecer reprodutivamente até que o
rei ou a rainha morra.

88
TÓPICO 2 | INTERAÇÕES ECOLÓGICAS

FIGURA 34 – VESPA RAÍNHA E OPERÁRIA

Obs.: À esquerda, exemplo de vespa rainha e vespa operária. Na foto à direita, ao centro da imagem
uma térmita rainha com seu abdômen cheio de ovos.

FONTE: Disponível em: <http://fotografia.fr.yuku.com/topic/20384>. (vespas); <http://www.


alunosonline.com.br/biologia/sociedade-dos-cupins.html>. (térmitas). Acesso em: 28 maio 2013.

UNI

Em livros didáticos de Ciências e Biologia é citada a interação intraespecífica


colônia, cuja definição dada é de um agrupamento de organismos de uma determinada
espécie que são interdependentes uns dos outros para a sua sobrevivência, mas onde,
diferentemente das sociedades, não há uma divisão de atividades claramente definida.
Como exemplos são comumente citadas as colônias de esponjas e de bactérias. Todavia, é
necessário ter cautela com esse termo. Em livros e artigos respeitados na área de ecologia
não é feita esta distinção entre sociedade e colônia, sendo inclusive denominado de colônia
o ambiente físico ocupado pelas espécies sociais. Ainda, pode-se encontrar o termo colônia
para definir um grupo de aves, morcegos e diversos outros seres que vivem em grupos.

3 INTERAÇÕES INTERESPECÍFICAS
Assim como é inevitável que organismos da mesma espécie interajam,
o mesmo pode ser dito em relação aos organismos de espécies diferentes. Ora,
todo ser vivo necessariamente precisa se alimentar, de forma que uma espécie
acaba por ser consumidora ou recurso alimentar para outra espécie. Porém, não
é apenas devido à alimentação que organismos de espécies diferentes interagem
ao longo da vida. Nesta seção, comentaremos os tipos mais comuns de interações
interespecíficas existentes no mundo natural.

De forma geral, as interações interespecíficas podem 1) beneficiar ambas


as espécies envolvidas, 2) beneficiar uma das espécies sendo indiferente à outra
espécie em questão, e 3) beneficiar uma das espécies em detrimento da outra espécie
integrante na relação. Nos livros didáticos de Ciências e Biologia tais situações são
divididas entre as interações harmônicas e desarmônicas.
89
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

A seguir apresentamos uma tabela com o resumo das interações e suas


consequências para as espécies nelas envolvidas (Tabela a seguir).

TABELA 2 – TIPOS DE INTERAÇÃO INTERESPECÍFICA

FONTE: Adaptado de: Dajoz (2005)

UNI

Apesar de termos nos baseado na nomenclatura utilizada por DAJOZ (2005) para
definir as interações interespecíficas, é necessário ter em mente que estas denominações
mudam conforme os livros-referência de Ecologia e, consequentemente, entre os livros
didáticos de Ciências e Biologia. De fato, como comentam Quesado e Rios (2011), há
ambiguidade e diferentes formas de definir as mesmas interações. Isso evidencia que a
ciência não é uma verdade absoluta e acabada, sendo mutável e sujeita a interpretações
diferenciadas de acordo com os contextos históricos e culturais. Essa questão será melhor
evidenciada quando falarmos nas relações de protocooperação e mutualismo.

Vamos então agora discutir os principais tipos de interações interespecíficas


citados em livros-texto de Ecologia e nos livros didáticos de Ciências e Biologia.

3.1 PREDAÇÃO
Os predadores capturam os indivíduos e os consomem, retirando-os da
população e ganhando nutrição para sustentar a própria reprodução (RICKLEFS,
2010). Os exemplos são os mais diversos e conhecidos por todos nós (Figura
35). Afinal, quem nunca assistiu a um documentário sobre a vida silvestre que
demonstrasse esse tipo de relação?

Um aspecto que precisa ser considerado é que nós humanos somos, sem
sombra de dúvida, os maiores e mais eficazes predadores existentes. E não somente
quando realizamos atividades de caça, mas também quando consumimos carne
em nossas refeições.

90
TÓPICO 2 | INTERAÇÕES ECOLÓGICAS

FIGURA 35 – ORGANISMO DE ANU-BRANCO GuiraGuira PREDANDO UM RÉPTIL


NÃO IDENTIFICADO

FONTE: Disponível em: <http://olhares.uol.com.br/predacao-foto3620762.


html>. Acesso em: 29 abr. 2013.

3.2 HERBIVORIA

A herbivoria envolve um organismo que utiliza uma espécie de planta
como recurso alimentar. Nos livros-referência de Ecologia a interação herbivoria
é classificada juntamente com a predação, com o parasitismo ou com ambos,
podendo, muitas vezes, confundir o leitor menos avisado. O fato é que dependendo
do caso, os herbívoros se comportam como predadores e em outras situações,
como parasitas (RICKLEFS, 2010).

Mas o que diferencia essa classificação entre os herbívoros? De forma


simplificada, a herbivoria pode ser considerada predação quando o herbívoro
remove a planta inteira. Por outro lado, quando apenas parte dos tecidos vegetais
são retirados, esta interação pode ser considerada parasitismo. Neste contexto,
quando colhemos um pé de alface em nosso quintal, ou derrubamos um palmiteiro
para nosso consumo, podemos ser considerados predadores desta planta. O
mesmo acontece com um veado, capivara, ou outro animal qualquer que consuma
uma planta por inteiro (figura 36).

FIGURA 36 – INDIVÍDUO DE CAPIVARA SE ALIMENTANDO EM UM TÍPICO CASO


DE HERBIVORIA

FONTE: Disponível em: <www.flickr.com>. Acesso em: 29 abr. 2013.

91
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

Por outro lado, se retirarmos apenas uma parte do tecido vegetal para, por
exemplo, extrair o látex de uma árvore, ou quando uma lagarta consome parte das
folhas de um arbusto, esta interação pode ser considerada um parasitismo.

3.3 PARASITISMO
É denominada de parasitismo a relação em que um organismo nomeado
parasita vive intimamente associado com um organismo de outra espécie, que é
considerado seu hospedeiro (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006). Geralmente,
o parasita retira os recursos necessários do seu hospedeiro de forma a prejudicá-lo
sem, porém, matá-lo. Pelo menos a princípio. Isso porque não é interessante para
um parasita eliminar a sua fonte de recurso quando não tem a capacidade de se
locomover e sobreviver sem ela (Figura 37).

FIGURA 37 – ORGANISMOS DE SABIÁ-DE-COLEIRA Turdus Albicollis PARASITADO. EM


DESTAQUE, CARRAPATO PRÓXIMO AO OLHO DO ANIMAL

FONTE: As autoras

Se os parasitas “roubam” recursos de seus hospedeiros, por outro lado


esses não permitem que os parasitas tenham uma vida fácil e frequentemente
desenvolvem diversos mecanismos para reconhecer os invasores e os destruir.
Além disso, os parasitas devem se dispersar através de um ambiente hostil para se
deslocar de um hospedeiro para outro (RICKEFS, 2010), o que não é nem de longe
uma tarefa fácil.

92
TÓPICO 2 | INTERAÇÕES ECOLÓGICAS

De acordo com o local em que um parasita se aloja, ele pode ser denominado
de diferentes formas. Assim, considera-se um endoparasita o organismo que se
instala na parte interna do organismo hospedeiro, enquanto que o organismo que
se aloja na parte externa é denominado de ectoparasita. Exemplos clássicos de
ectoparasitas de animais são o carrapato, o piolho e a pulga, mas podem-se citar
também os ácaros, os fungos e as bactérias. Já entre as plantas, a cochonilha é bastante
comum, mas há diversas outras espécies que apresentam esse comportamento.
Entre os endoparasitas, podemos citar as Taenia solium e T. saginata (conhecidas
como solitárias) que podem parasitar o trato intestinal humano.

Apesar de não ser uma regra, muitas vezes os parasitas podem ocasionar
sintomas de doença em seu hospedeiro. Quando isso ocorre, o parasita é
denominado de patógeno (RICKLEFS, 2010).

Em outros casos, algumas espécies de moscas e vespas capturam um


organismo e nele depositam seus ovos que quando eclodirem se alimentarão
dos tecidos dos hospedeiros vivos, sendo chamados de parasitoides. Apesar de
nesse caso o hospedeiro acabar morrendo, antes de isso acontecer, as larvas já
terão completado o seu ciclo e entrado em estágio de pupa. Assim, estas espécies
primeiramente se comportam como parasitas, respeitando os órgãos vitais de
seus hospedeiros e posteriormente como predadores, devorando-os e os matando
(DAJOZ, 2005) (Figura 38 “a” e “b”).

FIGURA 38 – A) ORGANISMO DE LAGARTA PARASITADA; B) ECLOSÃO DO PARASITOIDE

FONTE: Disponível em: A) <http://investirdinheiro.org/wp-content/uploads/2011/02/parasitoide-


controle-lagartas.jpg> e B) <http://es.wikipedia.org/wiki/Parasitoide>. Acesso em: 28 maio 2013.

3.4 AMENSALISMO
O amensalismo, também conhecido como antagonismo ou antibiose, é a
interação em que uma espécie é eliminada por outra através do lançamento de
uma substância tóxica (DAJOZ, 2005). Quando este tipo de associação ocorre
nas plantas, ela recebe o nome de alelopatia. A espécie de pinheiro Pinus eliotti

93
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

é um exemplo de planta que lança substâncias tóxicas ao seu redor inibindo o


crescimento de outras espécies.

O amensalismo é comum em ambientes aquáticos, e explica o fenômeno


das águas vermelhas que consiste no lançamento de substâncias tóxicas na água
pelos organismos de Peridianos (Gonyaulax), que é capaz de eliminar grande parte
da fauna atingida (Figura 39).

FIGURA 39 – À ESQUERDA, EVENTO MARÉ-VERMELHA CAUSADA PELA ESPÉCIE DE PERIDIANO


DO GÊNERO Gonyaulax. À DIREITA, SUB-BOSQUE DE UMA PLANTAÇÃO DE Pinus Elliottii

FONTE: Disponível em: A) <http://www.brasilescola.com/biologia/mare-vermelha.htm>. B)


<http://www.panoramio.com/photo/13625696>. Acesso em: 28 maio 2013.

3.5 COMENSALISMO

São denominadas de espécies comensais aquelas que utilizam outras


espécies como suporte ou abrigo. Esse é o caso, por exemplo, de liquens e musgos
que se desenvolvem sobre troncos de árvores e de plantas trepadeiras como a hera
e a videira que, embora tenham raízes, utilizam o tronco das árvores como suporte
para que suas folhas atinjam o dossel florestal (TOWNSEND; BEGON; HARPER,
2006). Outro exemplo são as plantas epífitas, que são erroneamente denominadas
parasitas e muitas vezes retiradas por pessoas que acreditam que estas plantas
possam prejudicar ou mesmo levar a árvore-suporte à morte (Figura 40, letra “b”).

Na verdade essas espécies apenas emitem suas raízes nos ramos das árvores
sem, no entanto, retirar qualquer recurso delas. São consideradas plantas epífitas
as orquídeas, bromélias, pteridófitas, entre outras.

No ambiente aquático o comensalismo também é comum. De acordo


com Odum e Barret (2011) praticamente todas as galerias de vermes, moluscos
e esponjas contém diversos organismos que as utilizam como abrigo sem, no
entanto, prejudicar o hospedeiro.

94
TÓPICO 2 | INTERAÇÕES ECOLÓGICAS

FIGURA 40 – A) OS ORGANISMOS DE RÊMORA ACOMPANHAM TUBARÕES SE ALIMENTANDO DO


RESTO ALIMENTAR CONSUMIDO POR ELES. B) PLANTAS EPÍFITAS UTILIZAM OUTROS VEGETAIS
APENAS PARA SE FIXAR

FONTE: Disponível em: A) <http://sietepecadosdigitales.wordpress.com/2012/07/10/interacciones-


web/> e B) as autoras.

Apesar de o comensalismo ser muito menos estudado do que o mutualismo


e o parasitismo, esta interação permite que surjam modos de vida completamente
especializados e fascinantes e sua contribuição para a diversidade de comunidades
pode ser bastante expressiva (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

3.6 PROTOCOOPERAÇÃO
Vários organismos comensais não são hospedeiros específicos, mas alguns
aparentemente são encontrados associados a apenas uma espécie de hospedeiro.
Esse seria, segundo Odum e Barret (2011), o passo mais curto para o desenvolvimento
da relação de protocooperação. Mas o que vem a ser a protocooperação?

A protocooperação pode ser definida como uma interação em que ambos


os organismos envolvidos se beneficiam, mas não dependem da associação para a
sua sobrevivência.

Os casos de protocooperação são os mais diversos, de forma que citaremos


apenas alguns. Um exemplo bastante conhecido é a interação ocorrente entre
o caranguejo-eremita e as anêmonas, que se fixam na concha utilizada pelo
caramujo. Enquanto o caramujo proporciona locomoção, às anêmonas, que são
sésseis, oferecem proteção ao caramujo através de substâncias urticantes presentes
em seus tentáculos.

Muitas aves também participam de interações protocooperativas com outros


organismos. Inclusive, o nome carrapateiro dado ao gavião Milvago chimachima se
95
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

deve ao seu hábito de pousar sobre o dorso de bovinos e equinos, retirando destes
os ectoparasitas para a sua alimentação (Figura 41). O carrapateiro não utiliza os
carrapatos como única fonte de alimento, assim como os bovinos e equinos não
dependem do carrapateiro para a sua sobrevivência. Porém, ambos se beneficiam
desta associação, em um típico caso de protocooperação.

FIGURA 41 – ORGANISMO JOVEM DE Milvago Chimachima SOB O CRÂNIO DE UM BOVINO

FONTE: Disponível em: <http://flickriver.com/photos/tags/pinh%C3%A9/>. Acesso em: 11 abr. 2013.

3.7 MUTUALISMO
É considerado mutualismo a associação entre espécies em que ambas podem
viver independentemente, mas cuja associação permite que determinada ação
ou atividade ocorra. Essa interação assume diversas formas, mas geralmente os
organismos envolvidos suprem recursos complementares ou serviços (RICKLEFS,
2010, p. 257).

Um exemplo bastante ilustrativo é o mutualismo ocorrente entre algumas


espécies de formigas e o gênero de plantas Cecropia (embaúbas). O “caule” das
embaúbas é oco e as formigas costumam utilizá-lo como abrigo. Em contrapartida,
as formigas atacam qualquer intruso (tal como lagartas e outros insetos) que por
ventura tentem se utilizar da embaúba como recurso alimentar.

Entre outros casos de mutualismo, pode-se citar a dispersão de sementes


por aves, morcegos e outros organismos, que se alimentam do arilo nutritivo
produzido pelas plantas e acabam por levar as suas sementes para longe da planta-
mãe ao defecarem. Situação semelhante ocorre entre as plantas e espécies de

96
TÓPICO 2 | INTERAÇÕES ECOLÓGICAS

animais nectarívoros. Enquanto a planta oferece o néctar como recurso nutritivo


para o animal, este acaba por transportar o pólen da flor.

O termo simbiose é utilizado muitas vezes para definir o tipo de associação


mutualística obrigatória e indissociável (DAJOZ, 2005; RICKLEFS, 2010). Todavia,
esse termo não é consenso entre os grandes ecólogos. Pode ser considerado um
caso de simbiose a associação entre os fungos micorrízicos e as raízes de algumas
plantas (Figura 42). Se por um lado o fungo facilita a nutrição da planta, que sem a
presença do fungo se desenvolve mal ou nem chega a se desenvolver, por outro o
fungo micorrízico não sobrevive sem esta interação (DAJOZ, 2005).

FIGURA 42 – ORGANISMO DE FUNGO MICORRÍZICO DA ESPÉCIE Rhizophagus Clarus EM


ASSOCIAÇÃO COM AS RAÍZES DE PLANTA DA ESPÉCIE SORGO SORGHUM BICOLOR

FONTE: As autoras

Outros exemplos de simbiose ocorrem entre as bactérias fixadoras de


nitrogênio do gênero Rhizobium e as plantas da família Fabaceae (conhecidas
também como leguminosas); entre fungos e algas, formando o líquen; entre
o cupim ou térmita e os protozoários ou bactérias que habitam o seu intestino
digerindo a celulose; entre vários outros exemplos.

Muitas relações mutualísticas evoluíram de relações hospedeiro-parasitas e


talvez o contrário (RICKLEFS, 2010). Em plantas, tão notáveis quanto à diversidade
de parasitas, são as populações de fungos mutualísticos que vivem fortemente
integrados aos seus tecidos (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

97
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

UNI

Os termos protocooperação, mutualismo e simbiose podem causar certa


confusão. De forma geral, essas interações possuem o mesmo princípio variando
somente o grau de dependência existente entre os organismos envolvidos, que aumenta
da protocooperação em direção à simbiose. Todavia, os livros-texto de Ecologia e os
livros didáticos de Ciências e Biologia variam muito em relação a essas definições. Essas
e outras dúbias interpretações de termos ecológicos (como o de colônia nas interações
intraespecíficas) demonstra a necessidade de unificação da classificação das interações
ecológicas, afim de não mais suscitar em confusões não só para os pesquisadores, mas
também por parte dos leigos (QUESADO; RIOS, 2011).

4 A COMPETIÇÃO
A competição pode ser definida como qualquer uso ou defesa de um recurso
por um organismo que reduza a sua disponibilidade para outros organismos
(RICKLEFS, 2010). Mas o que pode ser considerado um recurso?

4.1 RECURSOS ECOLÓGICOS


A água pode ser entendida como um recurso porque a sua utilização por
um organismo prontamente diminuirá a quantidade a ser consumida por outros
organismos. Por outro lado, a temperatura local não pode ser assim considerada
já que ela está disponível a todos e sua intensidade não varia de acordo com o uso
(RICKLEFS, 2010). Os recursos utilizados pelos organismos podem ser divididos
em dois grupos: recursos renováveis e recursos não renováveis.

São considerados recursos renováveis aqueles que uma vez utilizados por
um organismo não estarão mais disponíveis até que esse organismo o libere ou
cesse o seu uso. Um exemplo de recurso não renovável é o espaço. Sabe aquela
máxima da física “Dois corpos não ocupam o mesmo lugar”? Ela se aplica e
explica o porquê o recurso espaço é considerado não renovável. Enquanto um
organismo utilizar um determinado local para nidificar, ou para se fixar (no caso
de organismos sésseis), essa área não estará mais disponível.

Por outro lado, recurso renovável é aquele que pode ser constantemente
renovado, tal como o número de presas, detritos, água, entre outros. O uso destes
recursos por um organismo diminui prontamente a sua disponibilidade, mas
com o passar do tempo, estes recursos voltam a ter os seus níveis aumentados e a
ficar disponíveis tanto para o organismo que já o utilizava como para os demais
organismos.

98
TÓPICO 2 | INTERAÇÕES ECOLÓGICAS

4.2 RECURSOS LIMITANTES


Porém, não são todos os recursos utilizados pelos organismos que limitam
as populações que os consomem. É nesse contexto que surge a Lei do mínimo de
Liebig que defende a ideia de que cada população cresce até que o suprimento de
algum recurso, denominado recurso limitante, não satisfaça mais as necessidades
da população (RICKLEFS, 2010). Por exemplo, considerando novamente o espaço,
imaginemos uma colônia de aves marinhas que utilizam uma ilha para nidificar.
Enquanto houver espaço, novos organismos poderão realizar as suas posturas e
produzir ovos e filhotes que ao amadurecerem, também nidificarão no local. No
entanto, à medida que o espaço for se tornando escasso, as investidas reprodutivas
também diminuirão por não haver mais local adequado para realizar tal atividade.

Essa Lei, no entanto, não pode ser aplicada a todos os recursos já que
pressupõe que um recurso tem influência independente na população de
consumidores, ou seja, só ele regula o tamanho da população, o que muitas vezes
não ocorre. Na verdade o que muitas vezes acontece é que dois ou mais recursos,
juntos, regulam o tamanho de uma população, sendo denominados de recursos
sinergéticos.

4.3 TIPOS DE COMPETIÇÃO


Se os recursos podem ser considerados de forma distinta, o mesmo pode
ser feito em relação à competição. Assim, a competição pode acontecer de forma
direta (competição direta ou por interferência) ou indiretamente (competição
indireta ou por exploração). Vamos entender como ocorre cada um desses tipos
de competição?

A competição por interferência ocorre quando um organismo apresenta


comportamento agressivo com seus competidores ou se utiliza de substâncias
tóxicas que são secretadas no meio (DAJOZ, 2005). Um caso bastante comum e
elucidativo ocorre com os beija-flores (colibris) que utilizam bebedouros colocados
como atrativos para aves nectarívoras em diversas residências. Um colibri que
utiliza deste recurso prontamente expulsará qualquer outro organismo que venha
a se aproximar do bebedouro, impedindo a sua alimentação. Esse é um legítimo
caso de competição por interferência.

Agora imagine uma situação em que uma população de determinada


espécie de morcego e outra população de uma espécie de ave utilizem os frutos de
uma árvore em particular como o seu principal recurso alimentar. Apesar de eles
apresentarem essa sobreposição de uso pelo recurso fruto, eles têm comportamento
distinto, um se alimentando durante o dia (ave) e outro à noite (morcego). Ora,
então eles não competem, certo? Errado. Esse é um exemplo claro de competição
por exploração, pois apesar de eles não se enfrentarem diretamente pelo uso do
recurso, a sua utilização ou exploração, diminui a oferta para o outro consumidor.

99
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

Vamos a mais um exemplo de competição por exploração. Imagine uma


reserva extrativista em que a população humana local utiliza os frutos do palmiteiro
Euterpe edulis para produzir suco para venda. Ainda, considere que nesse mesmo
local há uma população de aves que utiliza como principal recurso alimentar esses
mesmos frutos. O uso do recurso fruto por cada uma das espécies acarretará na
diminuição da sua disponibilidade para a outra espécie consumidora, de forma
que essas se tornam competidoras por exploração.

Esse foi apenas um caso hipotético, mas devemos lembrar que em diversas
situações agimos como competidores de outras espécies e por geralmente sermos
mais eficazes em utilizar os recursos que desejamos, acabamos contribuindo para
o declínio das populações de muitas espécies. No sul do Brasil isso é nítido com
relação ao uso do pinhão produzido pela araucária (Araucaria angustifolia). Devido
ao alto índice de extração desta semente para consumo humano, muitas espécies
de Psittacidae (papagaios, araras, periquitos) estão perdendo o seu principal
recurso alimentar.

UNI

Segundo Dajoz (2005), quando a competição ocorre de forma amena, geralmente


ela ocorre por intermédio da exploração. Por outro lado, em casos de competição forte, esta
geralmente se dá por intermédio da interferência.

4.3.1 Competição intraespecífica


Os organismos de uma espécie obviamente apresentam os mesmos nichos
ecológicos de forma que dependendo da disponibilidade dos recursos necessários
à sua sobrevivência, os organismos de uma população podem competir entre
si. Isso geralmente leva à redução das taxas de entrada por indivíduo e, desse
modo, à diminuição das taxas de crescimento ou desenvolvimento individual e
possivelmente a decréscimos nas reservas ou ao aumento de risco de predação
(TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

Como destacam Townsend; Begon e Harper (2006) a competição


intraespecífica geralmente é unilateral. Vamos a um exemplo. Muitas sementes do
palmiteiro Euterpe edulis caem da planta-mãe se estabelecendo sob e no entorno
de sua copa. Assim, é comum encontrarmos diversas plântulas recém-nascidas
nestas condições (Figura a seguir). No entanto, ao longo do crescimento das
plântulas é nítido verificar que alguns organismos começam a se desenvolver mais
rapidamente em relação aos demais e que esta diferença vai se acentuando com
o tempo. O que ocorre é que o tamanho de cada plântula acaba por refletir a sua
“força”, isto é, a capacidade de obter os recursos de forma que o faz de maneira
mais eficaz do que as plântulas menores que acabam por sucumbir.

100
TÓPICO 2 | INTERAÇÕES ECOLÓGICAS

FIGURA 43 – INDIVÍDUOS JOVENS DE Euterpe Edulis ADENSADOS SOBRE A PLANTA-MÃE

FONTE: Disponível em: <http://reinometaphyta.files.wordpress.com/2012/06/palmito-


juc3a7ara-euterpe-edulis-jovem.jpg>. Acesso em: 29 mai 2013.

No caso dos animais, um exemplo que muitas vezes chega a chocar algumas
pessoas, é a competição que ocorre entre filhotes de algumas espécies de aves, em
uma interação denominada fratricídio. Nestas espécies, geralmente, os pais têm
a capacidade de alimentar apenas um filhote, mas geralmente realizam a postura
de um ovo reserva para os casos em que o filhote seja predado. Esse segundo ovo
geralmente é menor e eclode mais tardiamente. Por ter nascido primeiro, a ave
eclodida do primeiro ovo é mais robusta em relação ao seu irmão mais novo e
consegue obter alimento de forma mais eficaz, impedindo inclusive que o outro se
alimente. Com o passar do tempo, o filhote menor vai definhando até ser lançado
para fora do ninho e morrer de inanição.

Como exemplificado acima, a competição intraespecífica ocorre de


diferentes formas e por diversos fatores, entre os quais o comportamento territorial
da espécie, a manutenção de hierarquia, e a alimentação (RICKLEFS, 2010). Quanto
mais densa for a população, mais fortes serão os efeitos da competição, de forma
que esta interação regula o crescimento populacional de um modo dependente da
densidade (DAJOZ, 2005). Assim, à medida que os recursos vão sendo consumidos
e diminuídos, os consumidores limitam o seu próprio crescimento populacional.

É denominado de efeito dependente da densidade todo aquele que


reduz a capacidade individual de natalidade e aumenta a chance de mortalidade
(TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006). No caso da competição, esta pode atuar
de forma diferenciada sobre a natalidade e mortalidade, originando diferentes

101
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

situações. Em alguns casos, ambas as taxas são controladas pela densidade da


população, gerando gráficos conforme visto na figura 44 (no alto, à esquerda).
Em outros casos, apenas a taxa de mortalidade (Figura44, no alto à direita) ou a
taxa de natalidade (Figura 44, embaixo à esquerda) se modifica de acordo com
o aumento da densidade. De acordo com Townsend; Begon; Harper (2006), a
situação demonstrada no último gráfico é a mais comum em populações naturais,
onde as taxas de natalidade e mortalidade flutuam entre determinadas faixas de
possibilidades.

Independente da forma como as taxas são alteradas, o que pode ser


verificado é que em algum momento estas taxas se igualam, o que significa que
o tamanho populacional permanecerá constante. Essa densidade constante é
denominada de capacidade de suporte e é representada pela letra K, conforme
pode ser verificado nos gráficos apresentados.

FIGURA 44 – TAXAS DE NATALIDADE E MORTALIDADE DEPENDENTES DA DENSIDADE QUE


LEVAM À REGULAÇÃO DO TAMANHO POPULACIONAL

FONTE: Adaptado de: Townsend; Begon; Harper (2006)

4.3.2 Competição interespecífica


É denominada de competição interespecífica a interação em que os
organismos de uma espécie sofrem redução na fecundidade, sobrevivência
ou crescimento como resultado da exploração de recursos ou interferência de

102
TÓPICO 2 | INTERAÇÕES ECOLÓGICAS

organismos de outra espécie (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006). Esse tipo


de interação pode resultar em um ajuste do equilíbrio entre duas espécies ou, caso
ocorra de maneira muito severa, pode fazer com que a população de uma espécie
substitua outra, force a outra a ocupar outro lugar, ou, ainda, faça com que utilize
outro alimento (BEGON; BARRET, 2011).

De acordo com Ricklefs (2010), diversos estudos foram feitos na busca


de determinar os efeitos de uma espécie sobre o crescimento da população de
outra. Nestes experimentos, duas espécies foram primeiramente cultivadas
separadamente, sob condições e níveis de recurso controlados, para determinar
suas capacidades de suporte na ausência de competição com outra espécie.
Posteriormente, as duas espécies foram cultivadas juntas sob as mesmas condições
para determinar o efeito de cada uma sobre outra. A diferença entre o crescimento
populacional de uma espécie na presença e na ausência de outra espécie foi utilizada
como medida de intensidade da competição entre elas. Diversas formas de vida
foram testadas, variando desde protistas, até animais (ratos, moscas-da-fruta,
entre outros) e plantas anuais. Em todas as interações estabelecidas os resultados
foram semelhantes: quando os organismos das populações foram cultivados
isoladamente, cresceram rapidamente até os limites impostos pelo suprimento
alimentar. Porém, quando criadas juntas, apenas uma população persistiu. Destes
resultados surgiu o princípio da exclusão competitiva.

De acordo com este princípio, os organismos com parentesco muito


próximo ou com hábitos e/ou morfologias muito semelhantes, não ocorrem no
mesmo local e, se isto ocorrer, utilizarão diferentes recursos ou serão ativos em
momentos distintos (BEGON; BARRET, 2011). Em outras palavras, não terão o
mesmo nicho ecológico (veja o conceito mais à frente).

5 A EVOLUÇÃO DAS INTERAÇÕES ENTRE AS ESPÉCIES


As interações interespecíficas são importantes agentes evolutivos, sendo
responsáveis pelo surgimento de diversas estratégias entre as espécies envolvidas.
Assim, para evitar a predação, parasitismo ou herbivoria, certas espécies
desenvolveram diversos mecanismos de defesa.

Algumas espécies comestíveis ou palatáveis desenvolveram colorações e


formas semelhantes ao local onde vivem de forma a se tornarem menos perceptíveis
aos seus consumidores. Os exemplos de camuflagem são os mais variados,
podendo-se citar as mariposas cuja coloração se confunde com a coloração de
troncos de árvore, os bichos-pau que se assemelham a galhos de árvores, os
gafanhotos que possuem a forma e a cor de uma folha, os anfíbios cuja cor e forma
do dorso imitam a serapilheira de uma floresta, entre muitos outros (Figura 45).

103
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

FIGURA 45 – ORGANISMO DE Megascops sp. CAMUFLADO EM UMA ABERTURA DE TRONCO


DE ÁRVORE

FONTE: Disponível em: <http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-coruja-oriental>. Acesso


em: 29 abr. 2013.

Outros animais apresentam uma estratégia diferenciada e produzem ou


acumulam de vegetais substâncias químicas e anunciam esse fato através de padrões
de cores chamativas (RICKLEFS, 2010). Assim, diversas espécies apresentam
coloração que misturam as cores amarelo, laranja e vermelho advertindo os seus
predadores de que seu sabor não é nada bom. A este mecanismo dá-se o nome de
coloração de advertência ou aposematismo e é apresentado por diversas espécies
de borboleta (tanto em sua fase como lagarta quanto quando adulta) (Figura 46),
serpentes (ex.: cobra-coral), alguns anfíbios, entre diversos outros animais.

Se apresentar coloração de advertência já é algo curioso, imagine diferentes


espécies impalatáveis ou não comestíveis que possuem padrão de coloração
similar para sinalizar tal fato. Isso de fato existe e é denominado de mimetismo
mülleriano, em homenagem ao seu descobridor Fritz Muller. Os predadores
aprendem a evitar esses mímicos de maneira mais eficaz porque uma experiência
ruim com uma das espécies que apresenta este padrão de coloração será suficiente
para proteger todas as demais que também o compartilham (RICKLEFS, 2010).

104
TÓPICO 2 | INTERAÇÕES ECOLÓGICAS

FIGURA 46 – COLORAÇÃO DE ADVERTÊNCIA APRESENTADA POR UMA LAGARTA DE


ESPÉCIE NÃO IDENTIFICADA

FONTE: As autoras

Em regiões tropicais, por exemplo, diversas espécies de borboletas


impalatáveis apresentam um padrão de faixas “tigradas” laranjas e pretas, ou
ainda uma mistura das cores preta, laranja e amarela (Figura 47).

FIGURA 47 – ESPÉCIES DE BORBOLETA DO GÊNERO Heliconius QUE POSSUEM


PADRÕES DE COLORAÇÃO SEMELHANTES, UM EXEMPLO DE MIMETISMO
MÜLLERIANO

FONTE: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Heliconius_


mimicry.png>. Acesso em: 29 abr. 2013.

105
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

Outro tipo de mecanismo interessante é o chamado mimetismo batesiano


(descoberto por Henry Bates). Através dele, espécies comestíveis ou palatáveis
imitam o padrão de coloração de espécies impalatáveis evitando, assim, a sua
predação (Figura 48).

FIGURA 48 – A SEMELHANÇA ENTRE OS ORGANISMOS DE FALSA CORAL (À ESQUERDA) E


DE CORAL VERDADEIRA É UM CASO DE MIMETISMO BATESIANO

FONTE: Disponível em: <http://mypetbr.blogspot.com/2009/05/cobra-coral-falsa-e-verdadeira.


html e http://www.coralsnake.net/micrurus/painted-coral-snake.html>. Acesso em: 29 abr. 2013.

As plantas, por sua vez, possuem um número mais restrito de opções de


defesa em relação às que os animais possuem. Geralmente a defesa ocorre através
da produção de substâncias químicas nocivas, que podem ser divididas em dois
tipos: substâncias tóxicas (ou qualitativas), que são venenosas mesmo em pequenas
quantidades; e substâncias quantitativas, como o tanino, que tornam impalatáveis
os tecidos da planta (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

106
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você pode concluir que:

• Um organismo se envolve com outros organismos ao longo da vida através de


diferentes relações ecológicas. Quando a interação ocorre entre organismos da
mesma espécie ela recebe o nome de interação intraespecífica.

• A interação intraespecífica mais comumente citada é a sociedade ou eussociedade,


onde os organismos envolvidos desempenham atividades diferenciadas.

• As interações interespecíficas ocorrem entre membros de espécies distintas e


podem beneficiar ambos os envolvidos, beneficiar uma espécie e ser indiferente
à outra, ou ainda ser benéfica a uma espécie e prejudicial ao outro organismo
participante da interação.

• É denominada de predação a interação onde os organismos de uma espécie


capturam organismos de outra espécie e os consomem, retirando-os da
população.

• A herbivoria ocorre com um organismo que utiliza vegetais como recurso


alimentar. Dependendo da situação a herbivoria comporta-se como predação
ou como um evento de parasitismo.

• Na interação de parasitismo, um organismo denominado parasita vive


intimamente associação a outro organismo, de uma espécie distinta, que é
denominado de hospedeiro. Apesar de utilizar o hospedeiro como recurso
alimentar, o parasita não mata o seu hospedeiro. Algumas particularidades
apresentadas pelos parasitas dão origem às expressões patógeno e parasitoide.

• É denominada de antagonismo a interação em que o organismo de uma espécie


se utiliza de substâncias tóxicas para eliminar ou “espantar” organismos de
outra espécie que lhe sejam concorrentes.

• O comensalismo é a interação em que o organismo de uma espécie utiliza um


organismo de outra espécie como fonte de abrigo ou suporte.

• A protocooperação pode ser definida como uma interação em que ambos os


organismos envolvidos se beneficiam, mas não dependem da associação para a
sua sobrevivência.

• É considerado mutualismo a interação em que duas espécies podem viver


independentemente, mas dependem uma da outra para que uma determinada
situação benéfica a ambas ocorra.

107
• A competição pode ocorrer entre organismos da mesma espécie, sendo
denominada de competição intraespecífica, ou entre espécies diferentes –
competição interespecífica.

• Os organismos competem por recursos limitantes no ambiente onde vivem.

• A competição pode ocorrer por embate direto, sendo chamada de competição


por interferência. Por outro lado, as espécies podem competir através da
exploração do mesmo recurso em momentos distintos.

• As diversas interações ecológicas ocorrentes entre os organismos acarretaram


o desenvolvimento de algumas estratégias por parte das espécies consideradas
recurso alimentar. Entre essas estratégias pode-se citar a camuflagem, a coloração
de advertência, o mimetismo batesiano e mülleriano, e o desenvolvimento de
substâncias tóxicas.

108
AUTOATIVIDADE

1 As interações ecológicas podem ser divididas em interações intraespecíficas


e interespecíficas. Qual é a principal diferença entre estes dois tipos de
interação?

2 As interações interespecíficas podem beneficiar ambos os envolvidos na


associação, ser benéfica a um organismo e prejudicial ao outro, ou ainda ser
indiferente a um dos integrantes. Com relação às interações interespecíficas,
associe os itens através do código a seguir:

I- Herbivoria.
II- Comensalismo.
III- Competição.
IV- Alelopatia.

( ) Esta interação envolve o uso de recursos limitados no ambiente.


( ) Dependendo da situação esta interação pode ser considerada como um
evento de predação ou parasitismo.
( ) É um exemplo a interação entre esponjas e peixes que utilizam o seu interior
como moradia.
( ) Constitui no uso de substâncias tóxicas para inibir o crescimento de outro
organismo.

Agora assinale a alternativa com a sequência CORRETA:

a) ( ) III – I – II – IV.
b) ( ) I – III – II – IV.
b) ( ) III – I – IV – II.
d) ( ) I – III – VI – II.

3 A competição entre os organismos pode ocorrer diretamente ou indiretamente.


Explique de que forma estas interações ocorrem.

Assista ao vídeo de
resolução da questão 3

109
110
UNIDADE 2
TÓPICO 3
ECOLOGIA DE COMUNIDADES

1 INTRODUÇÃO
É denominada uma comunidade o conjunto de organismos de diferentes
espécies que vivem em um determinado local e que estão conectados uns com
os outros por suas relações de alimentação e outras interações. Muitas destas
interações já foram vistas no tópico passado e algumas outras também serão vistas
neste tópico.

Compreender como as comunidades variam de lugar para lugar é o


primeiro passo para compreender os processos que influenciam a estrutura e o
funcionamento dos sistemas ecológicos, e determinam as abundâncias relativas
das espécies (RICKLEFS, 2010). Todavia, para compreendermos os processos que
ocorrem nas comunidades naturais é necessário que alguns conceitos ecológicos
estejam bem claros em nossa mente, de forma a evitar confusões e interpretações
equivocadas. Alguns termos são mais utilizados, outros menos, mas independente
da frequência e intensidade de seu uso, a sua correta interpretação é indispensável.

Afinal, o que significa o termo habitat e qual é a diferença entre esse conceito
e nicho ecológico?

Considera-se habitat o local onde um organismo vive, ou seja, o espaço


físico que este organismo ocupa. O nicho ecológico, por sua vez, não inclui apenas
essa característica, mas também o total de necessidades e condições necessárias à
sua sobrevivência. Em outras palavras, o nicho ecológico abarca as especificidades
do organismo quanto à temperatura do ambiente, pH, solo, umidade, entre outras
diversas características (ODUM, 2010).

Dessa forma, se construíssemos um gráfico com todas as características


necessárias à sobrevivência de um organismo, utilizando cada eixo desse gráfico
(x, y, z,...) como uma necessidade, teríamos como resultado uma representação
gráfica n-dimensional (Figura 49).

111
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

FIGURA 49 – REPRESENTAÇÃO GRÁFICA DO NICHO ECOLÓGICO DE UMA


ESPÉCIE CONSIDERANDO TRÊS DIMENSÕES DE CONDIÇÕES NECESSÁRIAS À
SUA SOBREVIVÊNCIA

FONTE: Disponível em: <http://ecologia.ib.usp.br/bie212/images/stories/BIE212/


AULAS/Aula2.pdf>. Acesso em: 9 abr. 2013.

UNI

O conceito de nicho ecológico é bastante abstrato e um pouco difícil de


compreender em um primeiro momento. Mas isso não deve ser um empecilho para que
ensinemos aos alunos de ensino fundamental e médio o conceito correto desse termo.
Conceituações ultrapassadas como profissão da espécie devem ser evitadas, visto que dão
uma visão antropocêntrica ao mundo natural e simplificam em demasia o conjunto de
exigências dos organismos.

Quando o assunto é o nicho ecológico dos organismos, as dimensões


mais quantificadas são a largura do nicho e a sobreposição de nichos entre vizinhos.
Grupos de espécies com papeis ecológicos e de dimensões de nicho comparáveis
são denominados de guildas (ODUM, 2010). Todavia, duas ou mais espécies que
tenham exatamente o mesmo nicho ecológico não sobrevivem no mesmo local,
devido às fortes consequências da competição pelos recursos.

Se a situação acima não é possível, o fato é que as espécies disputam


com outras em diversos dos seus “eixos” de necessidades vitais. Assim sendo,
dificilmente uma espécie consegue aproveitar totalmente o intervalo de condições
dentro das quais a espécie poderia sobreviver, o que é denominado de nicho
fundamental. Além de competidores, patógenos e predadores também impedem
esse aproveitamento máximo. Desta forma, as espécies acabam por utilizar um
intervalo menor de condições – o chamado nicho percebido (RICKLEFS, 2010)
(Figura 50).

112
TÓPICO 3 | ECOLOGIA DE COMUNIDADES

FIGURA 50 – REPRESENTAÇÃO GRÁFICA DO NICHO ECOLÓGICO FUNDAMENTAL DE


UMA ESPÉCIE CONSIDERANDO DUAS DIMENSÕES DE CONDIÇÕES NECESSÁRIAS À
SUA SOBREVIVÊNCIA E DO NICHO REALMENTE UTILIZADO – O NICHO PERCEBIDO

FONTE: As autoras

2 CADEIAS ALIMENTARES
As diferentes formas de vida existentes em uma comunidade estão
interligadas por relações tróficas, isto é, pela transferência de energia e nutrientes
através de cadeias alimentares formadas por diferentes níveis tróficos. Cada cadeia
inicia com um organismo dito produtor (primeiro nível trófico), que recebe esse
nome por ser capaz de “produzir” uma forma de energia assimilável pelos demais
organismos participantes da cadeia – os consumidores.

São organismos produtores as plantas, as algas verdes e azuis, e algumas


bactérias fotossintetizantes. Ao absorverem a energia luminosa esses seres a
transformam em energia química por intermédio da fotossíntese. Por este motivo,
os produtores são também intitulados de seres autotróficos.

Os consumidores, também denominados heterótrofos, não são capazes de


realizar tal transformação necessitando, portanto, se alimentar de outro ser vivo
para obter energia necessária às suas atividades. De acordo com os seus hábitos
alimentares, os consumidores podem ser chamados de herbívoros, carnívoros ou
detritívoros.

UNI

De acordo com a posição que ocupam na cadeia alimentar, os carnívoros recebem


uma especificação. Assim, os carnívoros que se alimentam de herbívoros são chamados de
carnívoros primários e fazer parte do segundo nível trófico. Por sua vez, o organismo que se
alimenta deste carnívoro primário recebe a nomenclatura de carnívoro secundário (terceiro
nível trófico), e assim por diante.

113
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

O último nível trófico é ocupado pelos organismos decompositores, ou


seja, que se alimentam de organismos mortos e seus subprodutos, provenientes
de todos os níveis tróficos anteriores. Os decompositores possuem uma grande
importância ecológica, possibilitando que a matéria volte a se tornar disponível no
ambiente. Esse papel é feito por várias espécies de fungos e as bactérias.

Agora que já identificamos os níveis tróficos que constituem uma cadeia


alimentar, vamos agora compreender como estas cadeias são representadas?

Vejamos o exemplo a seguir:

Portanto, costuma-se colocar as espécies envolvidas na cadeia em ordem


do fluxo de energia, utilizando uma seta para indicar a direção em que a energia
flui.

Atentemos para o fato de as cadeias alimentares não ocorrem de forma


isolada na natureza, mas sim em uma rede de conexões. Pela forma que assume
ao ser representado, essa interconexão é denominada de teia alimentar, conforme
demonstrado (figura 51).

FIGURA 51 – REPRESENTAÇÃO DE UMA TEIA ALIMENTAR

FONTE: As autoras

3 SUCESSÃO ECOLÓGICA
É denominada sucessão ecológica a sequência de mudanças nos processos da
comunidade, tal como estrutura e funcionamento, ao longo do tempo (MIRANDA,
2009; ODUM, 2010). O processo de sucessão pode levar meses, dezenas de anos
ou ainda centenas de milhares de anos dependendo das comunidades e locais
envolvidos (NUNES; CAVASSAN, 2011).

114
TÓPICO 3 | ECOLOGIA DE COMUNIDADES

A sucessão ecológica pode ocorrer em um local nunca antes habitado por


qualquer forma de vida, tal como sobre sedimentos resultantes de atividades
vulcânicas. A esse fenômeno dá-se o nome de sucessão ecológica primária. Por
outro lado, quando a sucessão acontece sob um substrato anteriormente ocupado
ela é denominada sucessão ecológica secundária.

A sucessão secundária pode ocorrer posteriormente a diferentes eventos


naturais, tal como, incêndios, tufões, tsunamis, abertura de clareiras devido à
queda de árvores, entre outros; ou ainda em áreas perturbadas devido às atividades
antrópicas (agricultura, pecuária, etc.).

UNI

Independente das particularidades dos eventos de sucessão, o fato é que para


que este processo ocorra é necessário ter havido uma perturbação ou distúrbio ecológico no
local. Diversos estudos têm focado esta questão, gerando a teoria do distúrbio intermediário.
De acordo com os seus defensores, distúrbios de baixa ou alta intensidade não contribuem
para a diversidade de uma comunidade, pois ou não são suficientes para gerar a sucessão
ecológica ou ainda, no outro extremo, dizimam a comunidade impedindo a ocorrência
desse fenômeno.

De forma geral, a sequência básica da vegetação em processos de sucessão


ecológica em um ambiente florestal é a seguinte (TOWNSEND; BEGON; HARPER,
2006):

Outra forma de classificar a sequência da vegetação em uma sucessão


ecológica é demonstrada na figura a seguir. Note que apesar da nomenclatura
mudar, a sequência em relação às características das espécies envolvidas continua
a mesma.

115
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

FIGURA 52 – REPRESENTAÇÃO DE SUCESSÃO ECOLÓGICA EM UMA FLORESTA

FONTE: Disponível em: <http://www.ceplac.gov.br/radar/Artigos/artigo23_arquivos/image006.


jpg>. Acesso em: 9 abr. 2013.

Para compreendermos melhor a sucessão ecológica, vamos considerar


uma área que era inicialmente florestal, foi desmatada e transformada em campo,
e que atualmente está abandonada. As espécies colonizadoras (primeiras espécies
a chegar ao local) e pioneiras podem se estabelecer rapidamente nesse hábitat
alterado, seja por dispersão rápida para o local ou a partir de propágulos que já
estejam presentes. As plantas de início de sucessão tem um estilo de vida “fugaz”
e a sua continuidade depende da dispersão para outros locais perturbados. Isso
acontece porque essas espécies não conseguem competir com espécies tardias, de
forma que precisam crescer e consumir rapidamente os recursos disponíveis. São
características de espécies pioneiras taxas fotossintéticas e de crescimento altas
(TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

Já as plantas de níveis sucessionais tardios podem germinar na sombra e


conseguem continuar a crescer sob intensidades luminosas baixas. Apesar de esse
crescimento ocorrer de forma lenta, ele é mais rápido do que o desenvolvimento de
plantas de níveis sucessionais anteriores (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

As árvores de estágios posteriores de sucessão ecológica podem ser


agrupadas em grupos distintos, sendo denominadas iniciais e tardias. As árvores
de estágio sucessionais iniciais comumente possuem folhagem em várias camadas
e as folhas se estendem sob o dossel até onde forem capazes de capturar luz
suficiente para realizarem a fotossíntese. Já as espécies tardias apresentam uma única
camada densa de folhas e são mais eficazes no dossel adensado da sucessão tardia
(TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006). Mas essas não são as únicas diferenças
entre estas plantas. A seguir segue um resumo destas características (tabela 3).

116
TÓPICO 3 | ECOLOGIA DE COMUNIDADES

TABELA 3 – CARACTERÍSTICAS GERAIS DE PLANTAS SUCESSIONAIS INICIAIS E TARDIAS

FONTE: Ricklefs (2010)

Nunes e Cavassan (2011) destacam que os livros didáticos de Ciências e


Biologia desconsideram a participação dos animais e micro-organismos no processo
de sucessão ecológica. No entanto, sem os animais muitas comunidades não
conseguiriam se manter de forma eficiente, uma vez que são eles os responsáveis
pela dispersão de alguns tipos de sementes. Já em relação aos micro-organismos,
esses são os principais decompositores da serapilheira, disponibilizando os
nutrientes aos vegetais.

Comumente costuma-se afirmar que após as espécies sucessionais tardias


terem se estabelecido, o processo cessa e a comunidade atinge o seu clímax,
tornando-se imutável. No entanto, a noção de clímax tem sido muito criticada e
para ser válida, sua definição deve assumir um caráter dinâmico.

Como ressalta Dajoz (2005), uma floresta que chegou ao estágio clímax não é
um sistema estável e imutável. Ao contrário, é um conjunto heterogêneo de parcelas
de vegetação em diferentes estágios de sucessão, causados por perturbações, tais
como vento, fogo, queda de uma árvore etc. É essa heterogeneidade do clímax que
explica a elevada biodiversidade existente nos ambientes naturais.

UNI

Quando uma área perturbada pelas atividades antrópicas é abandonada, a


sucessão de espécies pode ocorrer naturalmente caso exista uma fonte de propágulos
vegetais próximo ao local. Porém, há algumas situações em que o entorno não permite que
os propágulos alcancem a área a ser regenerada e/ou o banco de sementes no solo está
inviabilizado sendo necessária a intervenção humana.

117
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

LEITURA COMPLEMENTAR

As concepções históricas de sucessão ecológica e os livros didáticos

Patrícia da Silva Nunes


Osmar Cavassan

1 INTRODUÇÃO

De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998), o


estudo da dinâmica ambiental compreende os conhecimentos de vários campos
científicos, sendo, portanto, um conteúdo interdisciplinar. Nesse contexto, insere-
se o conceito de sucessão ecológica. Por meio do estudo desse conceito é possível
compreender a dimensão espaço-temporal do estabelecimento de comunidades e
relacionar diversidade e estabilidade (equilíbrio dinâmico), fornecendo elementos
para avaliar as possibilidades de absorção de impactos pela comunidade.

Além disso, esse conceito envolve toda dinâmica que ocorre em um


ecossistema, incluindo as interações entre os componentes bióticos (ex.: competição,
entrada de sementes) e abióticos (ex.: solo, umidade), ciclos biogeoquímicos,
fatores como tempo e espaço dentro de um gradiente evolutivo, enfim a evolução
de espécies levando em consideração todos os fatores que a influenciam. Apesar
da importância de tais conhecimentos, eles não são comumente abordados no
contexto da Educação Básica quando o conceito de sucessão ecológica é discutido.

A explicação incompleta (ou parcial) de um conceito biológico, que não leva


em consideração pontos que sejam importantes para uma construção significativa,
pode comprometer o seu entendimento. Publicações didáticas devem associar
a capacidade de apresentar os conceitos da maneira o mais completa possível.
Poderiam, por exemplo, (re)construir o modo pelo qual, os conceitos são definidos
e modificados pelos pesquisadores, garantindo uma noção de ciência que vem
sendo construída concomitantemente com a história humana. Quando se trata do
conceito de sucessão ecológica, uma forma de apresentá-lo de maneira mais ampla,
talvez, fosse a de possibilitar que os alunos pudessem associar esse processo com
outros conceitos biológicos, tais como, estratégias de reprodução das plantas e
restauração ecológica. É importante frisar que essas inserções devem considerar
a recontextualização didática daquele conhecimento científico (MARANDINO,
2004).

No entanto, limitações como as de ordem técnica ou editorial dos livros


didáticos podem comprometer essa apresentação, além de questões concernentes
à transposição dos saberes. A identificação das abordagens do conceito de
sucessão ecológica em livros didáticos da Educação Básica pode ser uma forma
de colaboração a diferentes estratégias didáticas utilizadas no ensino de Ecologia.
Foi objetivo deste trabalho, portanto, analisar o conceito de sucessão ecológica em
livros didáticos de Biologia, sendo alguns da década de 1970 e outros dos anos
2000, visando identificar a evolução do modo de apresentação desse conteúdo.
118
TÓPICO 3 | ECOLOGIA DE COMUNIDADES

2 LIVROS DIDÁTICOS

Segundo Patrícia Gomes Pinheiro da Silva e Osmar Cavassan, o livro


didático é ainda um dos principais ou o único instrumento de ensino utilizado
pelos professores no âmbito escolar brasileiro (SILVA; CAVASSAN, 2005, p. 1).

De acordo com Simão Dias Vasconcelos e Emanuel Souto os livros de ciências


possuem várias funções, como o estímulo à análise de fenômenos e formulação
de conclusões, além de auxiliarem na formação de cidadãos (VASCONCELOS;
SOUTO, 2003). Assim, devem promover reflexões sobre a realidade, além de
“estimularem a capacidade investigativa do aluno para que ele assuma a condição
de agente na construção do seu conhecimento” (Ibid., 2003, p. 94).

Luzia Marta Bellini argumenta que a transposição das ciências para os


livros didáticos é realizada mediante modelos inconsistentes e com vocabulário
reducionista, não permitindo novas aberturas para a compreensão de fenômenos,
tais como os evolutivos (BELLINI, 2006).

No que se refere ao conceito de sucessão ecológica, Julia Ibarra Murillo e


María José Gil Quílez (2009) explanam que para se compreender o significado desse
conceito, os alunos devem conhecer outros, tais como população, ecossistema e as
relações entre os seres vivos e o hábitat.

Em se tratando dos conteúdos e esquemas ilustrativos de sucessão ecológica


contidos nos livros didáticos, evidencia-se que muitas vezes eles se apresentam
como abordagens reduzidas, nas quais um único modelo sucessional é utilizado
em detrimento de outros possíveis. Ressalta-se que poderiam ser utilizados,
além dos modelos de sucessão ecológica iniciados em uma rocha nua, modelos
de sucessão em um costão rochoso. Esse último colocaria em evidência um tipo
de processo sucessional, cujos animais estruturam a comunidade, o que poderia
proporcionar uma visão mais ampla do fenômeno aos alunos.

É importante lembrar que a utilização de imagens e esquemas em sala de


aula deve ser planejada corretamente, pois, uma vez que estes permanecem na
memória visual com clareza, frequentemente, substituem o texto que é esquecido.
Podemos conjeturar que, com o passar dos anos, algumas imagens permanecerão
na memória dos alunos e, a partir dessas, eles tentarão reconstituir o conhecimento
original (FREITAS; BRUZZO, 1999).

3 A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO DE SUCESSÃO ECOLÓGICA

A visão sobre o processo de sucessão ecológica vem sofrendo sucessivas


mudanças desde que o ecólogo Henry Chandler Cowles (1869-1936), em artigo
intitulado “The Ecological Relations of the Vegetation on the Sand Dunes of
Lake Michigan” (1899), reconstruiu com profundidade a evolução temporal das
associações de plantas das dunas da região de Chicago (EUA).
119
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

Por sua vez, o botânico Frederic Edward Clements (1874-1945),


diferentemente de Cowles, estudou as florestas de coníferas e pradarias ocidentais
dos Estados Unidos, ambientes mais estáveis que as dunas do Lago Michigan
(KINGSLAND, 1991). Frederic Edward Clements, em seu livro Plant Succession:
An analysis of the development of Vegetation, publicado em 1916, definiu o processo
sucessional como: “Uma sequência de comunidades vegetais marcada pela mudança
desde as menores até as maiores formas de vida.” (CLEMENTS, 1916, p. 6).

Clements caracterizava a comunidade como um superorganismo e a


sucessão ecológica como um processo determinista e organizado, similar ao
desenvolvimento de um organismo, culminando no clímax, assim caracterizado:
“Determina a população do começo ao fim, a direção do desenvolvimento, o número e tipo
de fases, as reações dos estágios sucessivos etc.” (CLEMENTS, 1916, p. 5).

Alguns ecólogos não concordavam com as ideias defendidas por Clements,


como foi o caso de Henry Allan Gleason (1882-1975), que defendeu, em artigo de
1926 intitulado “The Individualistic Concept of the Plant Association”, a teoria de que
o processo sucessional seria muito menos determinista do que o proposto por
Clements, no qual as espécies surgiriam independentemente umas das outras,
sendo discutível a ideia de um clímax final previsível e imutável. Como aponta
Fernando Mayer Pelicice, para Gleason “a sucessão reflete somente ‘mudança’, sem que
isso implique fim algum” (PELICICE, 2010, p. 69).

Mesmo com críticas em relação às suas teorias, Frederic Edward Clements


não as abandonou. Apesar de entender a importância das populações animais no
processo sucessional, conclusão que pode ter sido influenciada por Victor Ernest
Shelford (1877-1968), ecologista animal e ex-aluno de Henry Chandler Cowles,
Clements continuou a pensar na comunidade principalmente por suas formações
vegetais (KINGSLAND, 1991). Acredita-se hoje, que embora os vegetais forneçam
a base das cadeias alimentares, há casos em que os animais interferem na estrutura
da comunidade. Predadores de sementes podem desacelerar a sucessão em
campos abandonados, ou ainda, pastadores podem modificar a estrutura vegetal
da comunidade (BEGON, TOWNSEND; HARPER, 2007).

Ainda, de acordo com Michael Begon, Colin R. Townsend e John L. Harper,


o fato de a sucessão ecológica ser um assunto essencialmente botânico é facilmente
explicado, de acordo com os seguintes argumentos. As plantas geralmente fornecem
a maior parte da biomassa e estrutura física das comunidades, além disso, elas não
se escondem ou fogem, facilitando a construção de lista de espécies, [...] e detecção
de mudanças. (BEGON; TOWNSEND; HARPER, 2007, p. 487).

Embora existissem pontos importantes a serem analisados acerca da


teoria de Clements, como o da analogia entre o desenvolvimento da comunidade
e o desenvolvimento dos organismos. Muitos autores, talvez, sem fazer muitos
questionamentos devido à força das teorias clementsianas, seguiram a sua
tradição para definirem o processo sucessional (PELICICE, 2010). Eugene
Pleasants Odum (1913-2002), por exemplo, definiu a sucessão ecológica como o
desenvolvimento do ecossistema, envolvendo mudanças na estrutura de espécies
120
TÓPICO 3 | ECOLOGIA DE COMUNIDADES

da comunidade ao longo do tempo (ODUM, 1988). A sucessão ecológica seria


um processo razoavelmente direcional e previsível, resultante da modificação do
ambiente físico pela comunidade, embora o ambiente físico determine os limites
de desenvolvimento dela, culminando em um ecossistema estabilizado, ou seja, o
clímax (ODUM, 1969).

Desde a gênese dessas teorias, várias outras foram surgindo na tentativa


de compreender o fenômeno sucessional. O pensamento gleasoniano, próximo do
aceito na atualidade (BEGON; TOWNSEND; HARPER, 2007), só foi retomado na
década de 1950. Até então, a vertente determinista clementsiana sobrepujava as
demais (PELICICE, 2010).

4 METODOLOGIA DA PESQUISA

Esta pesquisa seguiu uma abordagem qualitativa, tendo sido realizada por
meio de uma análise documental. Efetuou-se uma análise comparativa, baseada no
método de análise de conteúdos de Laurence Bardin (1977), entre livros didáticos
recentes e antigos, para investigarmos a transformação do tratamento do conceito
de sucessão ecológica ao longo dos anos no conhecimento escolar de ciências.
Optamos por dois livros didáticos da década de 1970, contidos na série Biological
Science Curriculum Study (BSCS), devido à sua importância no ensino de Ciências
no Brasil naquela época, e sete livros atuais de Biologia, utilizados por alunos de
escolas públicas.

Para a análise da abordagem do conceito de sucessão ecológica nos livros


didáticos, optou-se por alguns aspectos relevantes para o entendimento do
processo como um todo, tais como: comunidade clímax, a participação de animais
e micro-organismos, ação antrópica, as variáveis tempo e espaço, estrangeirismos,
a definição do conceito e sua reconstrução histórica. Em decorrência do conceito
de clímax ser ainda controverso e de difícil compreensão, deu-se maior ênfase a
ele. Assim, optou-se por uma apresentação em forma de tabela (tabela 1), onde o
conceito de clímax contido nos livros analisados serão reproduzidos na íntegra
e, posteriormente, discutidos em alguns subtítulos. Neste trabalho, procurou-se
considerar, além dos textos, os esquemas e figuras apresentados nesses livros,
utilizando-se dos mesmos aspectos relevantes relatados anteriormente.

5 RESULTADOS

Para fins de organização do trabalho, os livros analisados no quadro a


seguir, encontram-se listados numericamente de 1 a 9. Suas referências situam-se
ao final deste artigo.

121
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

Livro Conceito de Clímax


Em muitos lugares, a sucessão continua até que se devolva uma
comunidade de floresta apesar de, para isso, serem necessárias várias
1 centenas de anos. A comunidade de floresta, uma vez formada, pode
persistir por dezenas de milhares de anos, mantendo-se em equilíbrio
dinâmico, constituindo então uma comunidade clímax (p. 96).
Dissemos que o resultado final do processo de sucessão é uma comunidade
2 madura, na qual as populações podem se reproduzir em lugar de serem
substituídas por outras (p. 373).
Considera-se que uma comunidade chegou ao clímax quando ela se
3 apresenta estável, em equilíbrio com o ambiente. A comunidade clímax,
então, constitui a etapa final de uma sucessão ecológica (p. 239).
A comunidade, formada pelo conjunto de populações que habita a região,
4
torna-se estável, sendo chamada de comunidade clímax (p. 52).
O máximo de homeostase é atingido quando a sucessão atinge o clímax,
um estado de estabilidade compatível com as condições da região. Essa
5
comunidade estável, denominada comunidade clímax, constitui o final
da sucessão ecológica (p. 363).
As diversas comunidades se sucedem, até que se atinja um estágio de relativa
estabilidade e equilíbrio, denominado comunidade clímax que se instala
6 de forma permanente. [...] Quando a comunidade atinge a maturidade e
se torna estável, ela é chamada de comunidade clímax, e apresenta grande
diversidade de espécies e de nichos ecológicos (p. 358-359).
Podem ocorrer mudanças nas comunidades, ao longo do tempo, que, em
princípio, em ambientes constantes, acabam por levar ao estabelecimento
7
de uma comunidade estável, autorregulada, que não sofre alterações
significativas em sua estrutura (p. 566).
Nessa fase, a comunidade, que conta com grande número de espécies, entra
8
em equilíbrio com o ambiente, permanecendo relativamente estável (p. 21).
Uma comunidade pode se desenvolver gradualmente até atingir a
maturidade, isto é, um equilíbrio relativo com as condições ambientais.
9 [...] estabelece-se uma comunidade clímax, que fica em equilíbrio com o
solo e o clima da região, sem ser substituída por outra. [...] A comunidade
clímax formada depende do tipo de solo e do clima da região (p. 495-496).

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após essas análises, percebeu-se que, mesmo depois de inúmeros debates


na esfera acadêmica, muitos autores de livros didáticos adotam principalmente
uma visão clementsiana do processo, desconsiderando a dinamicidade do
fenômeno e a variedade de interações que são necessárias para que esse evento
ocorra. Seria importante que os livros didáticos contemplassem uma visão mais
recente do processo, considerando também a teoria de Henry Allan Gleason.
Enfatiza-se que não se defende aqui, que absolutamente todos os conhecimentos

122
TÓPICO 3 | ECOLOGIA DE COMUNIDADES

de “ponta” produzidos pela academia sejam transpostos para a Educação Básica,


apenas como uma acumulação ilimitada de saberes. Ao contrário, visa-se que os
conteúdos ensinados aos alunos sejam aqueles que façam a diferença para a vida
dos ecossistemas naturais. Vale lembrar, que os livros didáticos além de trazerem
versões muito desatualizadas sobre o conceito estudado, ainda as tratam como
verdades absolutas. Ao invés disso, se fizessem uma reconstrução histórica,
mostrando aos alunos, por exemplo, as concordâncias e as controvérsias da
comunidade científica, eles poderiam compreender como os conceitos científicos
vão se transformando ao longo do tempo. Contribuiriam, também, para desmitificar
a ideia de ciência infalível e povoada de gênios enclausurados, que chegam às suas
conclusões mediante insights.

Outras questões a serem consideradas são as variáveis tempo e espaço,


as quais são tratadas como secundárias; porém, constituem importantes para o
entendimento do processo. Destarte, os livros didáticos deveriam apresentá-las em
suas muitas nuances, relacionando-as. Afinal, o processo de sucessão pode levar
meses, no caso da decomposição da serapilheira, anos, para a ocupação de uma
clareira no meio de uma mata, dezenas de anos em um campo abandonado, ou
centenas de milhares de anos para a formação de uma complexa floresta equatorial.

Percebeu-se também que um fator significante desconsiderado nos livros


didáticos recentes é a participação dos animais e micro-organismos no processo
sucessional, fato que pode ser historicamente entendido, pois os estudos a respeito
da sucessão ecológica se iniciaram com botânicos, em sua maioria. Outro fator
que nos faz entender a primazia dada aos vegetais no processo é que os mesmos
constituem-se como produtores nas cadeias alimentares. Assim, na ausência
deles, é praticamente impossível a presença dos animais. Também podemos
pensar que a ênfase dada a esses seres vivos nesse processo deve-se ao fato de
os vegetais contribuírem com a maior parte da biomassa de uma comunidade, o
que é considerável. No entanto, mesmo com a inegável importância dos vegetais,
não se pode deixar de ressaltar a importância dos animais e micro-organismos no
processo.

Sem os primeiros, muitas comunidades não conseguiriam manter-se


eficientemente, pela ausência da dispersão de alguns tipos de sementes, que
só é realizada por alguns animais. Igualmente, os micro-organismos possuem
grande importância, pois são os principais responsáveis pela decomposição da
serapilheira, o que dinamiza a disponibilidade de nutrientes para os vegetais.
Além disso, quando tratamos da sucessão ecológica em uma infusão, por exemplo,
esses seres vivos são os protagonistas.

Quando o assunto é clímax, notou-se uma gama de confusões conceituais.


Em muitos livros didáticos esses conceitos são simplificados, chegando-se a afirmar
que o único clímax possível é o florestal. Assim, faz-se necessário que os livros
didáticos contemplem exemplos diversificados de comunidades, a fim de que os
alunos não prefiram alguns ambientes, em detrimento de outros, possibilitando um
entendimento mais complexo da importância de todos os ecossistemas naturais,
sejam eles dominados por árvores ou não.
123
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

Dessa maneira, infere-se a necessidade de os livros didáticos tratarem de


forma mais completa o conceito de sucessão ecológica, interligando os diversos
conceitos contidos nele, permitindo aos alunos entendê-los como interdependentes,
o que condiria com a visão integrada que o ensino de Ecologia requer.

FONTE: NUNES, P. S.; CAVASSAN, O. As concepções históricas de sucessão ecológica e os livros


didáticos. Filosofia e História da Biologia, v. 6, n. 1, p. 87-104, 2011.

UNI

Acesse o link: <http://www.abfhib.org/FHB/FHB-06-1/FHB-6-1-06-Patricia-da-


Silva-Nunes_Osmar-Cavassan.pdf> e saiba quais foram os livros considerados, bem como,
leia o artigo na íntegra.

124
RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico, você pode concluir que:

• O termo comunidade pode ser denominado como o conjunto de organismos de


diferentes espécies que vivem em um determinado local e que estão conectados
uns com os outros por suas relações de alimentação e outras interações.

• O local onde os organismos vivem é denominado de habitat, enquanto que


o conjunto de necessidades e condições necessárias à sua sobrevivência é
denominado nicho ecológico.

• O nicho fundamental é o intervalo de condições em que uma espécie pode


sobreviver. No entanto, raramente os organismos conseguem utilizar este
intervalo reduzindo-o a intervalos menores, conhecidos como nichos percebidos.

• As populações estão interligadas através de relações tróficas para obtenção de


energia, o que chamamos de cadeia alimentar.

• As cadeias alimentares não ocorrem isoladamente, mas sim estão interconectadas


em teias alimentares.

• A riqueza e estrutura de espécies variam ao longo do tempo em uma comunidade


em um processo de sucessão ecológica. Esta sucessão pode ser denominada
primária ou secundária, dependendo das condições em que ela ocorre.

• As plantas envolvidas no processo de sucessão ecológica variam em várias de


suas características de acordo com a fase da sucessão em que elas participam.

125
AUTOATIVIDADE

1 Muitos dos processos e fenômenos ecológicos podem ser representados


através de gráficos e imagens, porém isso não é possível com relação ao nicho
real de uma espécie. Explique o motivo dessa impossibilidade.

2 A regeneração de uma área anteriormente utilizada para mineração é um


exemplo de sucessão ecológica primária ou secundária? Explique.

3 Explique de que forma ocorre a substituição de espécies em uma área


perturbada.

Assista ao vídeo de
resolução da questão 1

126
UNIDADE 2 TÓPICO 4

ECOSSISTEMAS

1 INTRODUÇÃO
Um ecossistema ou sistema ecológico pode ser definido como uma unidade
onde os organismos existentes interagem entre e si e com o meio físico, gerando um
fluxo constante de matéria e energia. Portanto, neste tópico falaremos um pouco
sobre os aspectos que regem o fluxo de matéria e energia em um ecossistema, e
os tipos de ecossistemas que existem na biosfera. Ainda, discutiremos a diferença
entre os termos ecossistema e bioma, constantemente confundidos.

Vamos lá?

2 ENERGIA NOS ECOSSISTEMAS


“As populações de comunidades são sistemas transformadores de energia”.
Esta foi a conclusão chegada pelo pesquisador Alfred Lotka ao estudar as relações
existentes nesses níveis de organização ecológica (apud RICKLEFS, 2010). Essa
conversão de energia acontece de várias formas e se inicia através das plantas que,
para realizar a fotossíntese, precisam transformar energia luminosa em energia
química. A transformação continua, pois os organismos herbívoros necessitam
converter a energia contida nos compostos de carbono das plantas e em outros
seres autótrofos de forma a utilizá-la em seu próprio metabolismo, atividade,
crescimento e reprodução. Da mesma forma, isto acontece com os animais
carnívoros que se alimentam dos herbívoros e assim sucessivamente ao longo de
toda a cadeia alimentar (RICKLEFS, 2010).

Para entender essa relação de conversão de energia em uma cadeia


alimentar, é necessário partir dos princípios termodinâmicos que governam toda e
qualquer transformação e energia.

127
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

UNI

O comportamento da energia pode ser descrito por duas leis. A primeira


lei da termodinâmica, ou lei da conservação da energia, estabelece que a energia pode
ser transformada de uma forma para outra, mas jamais criada ou destruída. A segunda
lei da termodinâmica, ou lei da entropia, por sua vez, institui que nenhum processo de
transformação de energia ocorre espontaneamente, a não ser que ocorra de uma forma
mais concentrada para outra mais dispersa. Ainda, nenhuma transformação de energia
espontânea em energia potencial é 100% eficiente, pois parte da energia será dispersa sob a
forma de energia térmica não disponível (ODUM; BARRET, 2011).

Assim, a Terra pode ser considerada uma gigantesca máquina termodinâmica, na


qual a circulação dos ventos e correntes oceânicas e a evaporação da água são dirigidas
pela energia do Sol. Essa energia é também assimilada pelas plantas e alimenta a maioria
dos sistemas biológicos (RICKLEFS, 2010).

A essa transferência de energia nos processos biológicos, como nas cadeias


alimentares, dá-se o nome de fluxo de energia (Figura 53), uma vez que as conversões são
“unidirecionais”, em contrastes com o comportamento cíclico da matéria (o que veremos
mais adiante nos ciclos biogeoquímicos) (ODUM; BARRET, 2011). A cadeia alimentar
pela qual uma energia passa possui diversas conexões entre organismos de níveis tróficos
(alimentares) diferentes, ou seja, entre plantas, herbívoros e carnívoros.

FIGURA 53 – MODELO DE FLUXO DE ENERGIA ATRAVÉS DOS ECOSSISTEMAS

FONTE: Ricklefs (2010)

128
TÓPICO 4 | ECOSSISTEMAS

Essa energia diminui de acordo com o avanço de um nível trófico para


outro. Isso acontece porque as plantas conseguem transformar somente parte
da energia do Sol em energia para o seu sustento. Os herbívoros, por sua vez,
terão que utilizar a energia presente nos compostos de carbono nos vegetais,
transformando-a. Porém, parte desta energia já terá sido utilizada pelas plantas
em seu metabolismo, não estando, portanto, disponível na biomassa. O mesmo
acontecerá a um carnívoro ao consumir um animal herbívoro, pois este já terá
utilizado parte da energia adquirida das plantas em suas atividades e metabolismo.

Resumindo, a fonte primária de energia provém das plantas a partir da


fotossíntese. Após essa transformação básica da energia, ela passa a ser transferida
de um nível trófico para outro diminuindo conforme o nível trófico aumenta.
Estima-se que algo em torno de 10% da energia constante em um nível trófico
torna-se disponível para o outro nível trófico. Essas inter-relações podem ser
esquematizadas na forma de uma pirâmide de energia, que recebe este nome pela
forma que a representação assume (figura 54).

FIGURA 54 – PIRÂMIDE DE ENERGIA ENTRE OS NÍVEIS TRÓFICOS EXISTENTES EM UM ECOSSISTEMA.


A LARGURA DE CADA BARRA REPRESENTA A QUANTIDADE DE ENERGIA DAQUELE NÍVEL TRÓFICO

FONTE: As autoras

UNI

Muitos estudos das eficiências ecológicas levaram à generalização de que 10% de


energia são passados de um nível trófico para o seguinte. Porém, essa não é uma lei fixa, porque
diversos fatores influentes podem aumentar ou diminuir este percentual (RICKLEFS, 2010).

A luz do Sol é a fonte de energia para a maioria dos seres vivos. Sua
disponibilidade ocorre a partir da sua transformação em energia química, via
fotossíntese, pelas plantas, algas e algumas bactérias. Esse processo de assimilação
de energia é denominado de produtividade primária, e os seres que a realizam são
chamados de produtores primários dos ecossistemas. A energia total assimilada
pela fotossíntese recebe o nome de produtividade primária bruta. Porém, como já
dito anteriormente, as plantas e os outros organismos fotossintéticos utilizam parte
da energia para realizar as suas necessidades metabólicas através da respiração.
Assim, somente parte da energia total assimilada é incorporada à sua biomassa
e se torna disponível para os consumidores. Essa é a produtividade primária
líquida (RICKLEFS, 2010) (Figura 55).

129
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

FIGURA 55 – DEMONSTRAÇÃO DOS PRODUTOS DA FOTOSSÍNTESE:


PRODUÇÃO PRIMÁRIA BRUTA E PRODUÇÃO PRIMÁRIA LÍQUIDA

FONTE: Ricklefs (2010)

A produtividade primária líquida global não está distribuída uniformemente


pela Terra. Os oceanos abertos são pouco produtivos, enquanto que banhados e
pântanos, estuários, bancos de algas e recifes, florestas tropicais e terras cultivadas
estão entre os sistemas com elevada produtividade (TOWNSEND; BEGON;
HARPER, 2006).

Diversos fatores influenciam a produção primária de um ambiente, sendo


em comunidades terrestre a radiação solar, o dióxido de carbono, água e nutrientes
do solo são os recursos necessários. Já em comunidades aquáticas, os fatores que
mais frequentemente limitam a produtividade primária são a disponibilidade de
nutrientes (particularmente nitrato e fosfato) e a intensidade da radiação solar que
penetra na coluna d’água (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

3 CICLOS BIOGEOQUÍMICOS
Os elementos e compostos químicos são vitais para as atividades dos seres
vivos, mas ao contrário da energia que se dissipa em forma de calor, os elementos
químicos permanecem na biosfera, sendo continuamente ciclados entre os
organismos e os ambientes físicos. Uma vez assimiladas pelas plantas em formas
inorgânicas e convertidas em biomassa pelas plantas, essa matéria se “locomove”
ao longo da cadeia alimentar. Por fim, esta matéria retorna às formas inorgânicas
pelo processo de decomposição.

130
TÓPICO 4 | ECOSSISTEMAS

Dos elementos que ocorrem na natureza, cerca de 30 a 40 são exigidos pelos


organismos, sendo denominados de elementos essenciais. Alguns elementos são
necessários em grandes quantidades, tal como o carbono, o hidrogênio, o oxigênio
e o nitrogênio. Por outro lado, outros são necessários em pequenas (ou mesmo
minúsculas) quantidades (ODUM; BARRET, 2011).

Todos os elementos essenciais apresentam ciclos biogeoquímicos definidos


e conhecê-los é importante tanto em atividades que envolvem a agricultura, como
em medidas de conservação da qualidade ambiental. Nesse contexto, comentaremos
a seguir os ciclos biogeoquímicos de alguns dos elementos necessários à vida na
Terra.

3.1 CICLAGEM DO NITROGÊNIO


O ciclo do nitrogênio é o mais complexo de todos os ciclos biogeoquímicos,
pois envolve diversas fases e agentes biológicos ao longo do percurso (figura 56).

FIGURA 56 – ETAPAS DA CICLAGEM DO NITROGÊNIO

FONTE: Disponível em: <http://www.agracadaquimica.com.br/imagens/artigos/517a.


jpg>. Acesso em: 10 abr. 2013.

A fase atmosférica é considerada como predominante no ciclo, onde o


nitrogênio está disponível sob a sua forma molecular (N2). Essa forma de nitrogênio
se dissolve até certo ponto na água, mas não está disponível nas rochas (RICLKEFS,
2010).

131
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

Apesar de descargas elétricas converterem alguma quantidade de


nitrogênio molecular em formas que as plantas podem assimilar (NO3), a maior
parte entra nas vias biológicas do ciclo através da assimilação por parte de certos
micro-organismos em um processo denominado fixação de nitrogênio (RICLKEFS,
2010). O resultado desta ação é a transformação do nitrogênio molecular (N2) em
amônio (NH4).

Conforme comentam Odum e Barret (2011), até meados da década de 1950,


pensava-se que a capacidade de fixar nitrogênio atmosférico era limitada a poucos
tipos de micro-organismos, citados a seguir:

• Bactérias de vida livre: Azobacter (aeróbica) e Clostridium (anaeróbica).


• Bactérias de nódulos simbióticos em leguminosas (família Fabaceae): Rhizobium.
• Cianobactérias: Anabaena, Nostoc e vários outros gêneros.

Hoje se sabe que outros organismos também são capazes de fazer tal
processo, mas os acima citados ainda são os mais conhecidos e comentados.

Os fixadores de nitrogênio trabalham com mais intensidade quando o


suprimento de nitrogênio no seu ambiente é baixo. Assim, adicionar fertilizante
nitrogenado à plantação de leguminosas inibe a biofixação (ODUM; BARRET,
2011). Ainda, o enriquecimento por nitrogênio vem reduzindo a biodiversidade e
aumentando o número de pragas e doenças no mundo, além de afetar de maneira
adversa a saúde humana.

Todavia, esta não é única fonte de nitrogênio utilizada pelas plantas, visto
que os organismos heterotróficos também disponibilizam nitrogênio no solo. Isso
ocorre quando esses organismos degradam as proteínas por meio de enzimas
e excretam o nitrogênio excedente sob a forma de ureia, ácido úrico ou amônio
(ODUM; BARRET, 2011).

A partir deste momento, micro-organismos decompositores passam


a utilizar esses produtos para adquirir energia para o seu sustento, oxidando o
amônio para nitrito e o nitrito para nitrato. Os agentes desse processo são descritos
por Dajoz (2005) e reproduzidos a seguir:

• a amonificação é feita por micro-organismos como Microcorus, transformando o


nitrogênio aminado de proteínas em amônio;
• a nitrificação que transforma o amônio em nitrito é feito por Nitrosomonas;
• por fim, a nitração, que transforma o nitrito em nitrato, é feita por Nitrobacter.

UNI

As plantas são capazes de utilizar as três formas de nitrogênio disponível (amônio,


nitrito e nitrato) como fontes básicas. No entanto, por exigir menor gasto energético, a maioria
das plantas utilizará preferencialmente o amônio quando esse estiver disponível (ODUM;
BARRET, 2011).

132
TÓPICO 4 | ECOSSISTEMAS

Uma parte do nitrogênio dos nitratos retorna ao estado gasoso na atmosfera


através da ação de bactérias de desnitrificação. Outra parte considerável é lixiviada
pelas águas de escoamento e chega até o mar, onde o nitrogênio é consumido pelo
fitoplâncton. A partir de então, o nitrogênio entra nas cadeias alimentares podendo
chegar até as aves piscívoras, que reconduzem o nitrogênio ao meio terrestre por
meio do guano (DAJOZ, 2005).

Antes de encerrarmos os comentários acerca do ciclo do nitrogênio, é


importante destacar que a produção e uso excessivos de fertilizantes além de
ser maléfica aos ecossistemas naturais, reduzindo a biodiversidade e facilitando
a propagação de pragas, também pode se tornar prejudicial aos humanos. Isso
ocorre porque o excesso de componentes nitrogenados na água de abastecimento,
na comida, e no ar põe a saúde humana em perigo (ODUM; BARRET, 2011).

3.2 CICLAGEM DO FÓSFORO


O fósforo é um grande constituinte dos ácidos nucleicos, das membranas
celulares, dos sistemas de transferência de energia, dos ossos e dos dentes
(RICKLEFS, 2010). Ainda, acredita-se que ele limita a produção das plantas em
muitos habitats aquáticos.

Seu principal reservatório são as rochas que cedem aos poucos seus
fosfatos aos ecossistemas (figura 57). No ambiente terrestre, a concentração de
fósforo assimilável costuma ser baixa, agindo como fator limitante. Uma grande
parte dos fosfatos penetra no mar, onde pode ficar imobilizada nos sedimentos
profundos. Quando não houver corrente ascendente que permita a subida das
águas à superfície, novamente o fósforo agirá como fator limitante (DAJOZ, 2005).

FIGURA 57 – ETAPAS DA CICLAGEM DO FÓSFORO

FONTE: Disponível em: <http://www.profpc.com.br/ciclofosforo2.JPG>. Acesso em: 10 abr. 2013.

133
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

3.3 CICLAGEM DO ENXOFRE


Segundo Townsend, Begon e Harper (2006), três processos biogeoquímicos
naturais liberam enxofre para a atmosfera: formação de aerossóis através de
borrifos do mar, respiração anaeróbica por bactérias redutoras de sulfato, e a
atividade vulcânica (Figura 58). As sulfobactérias liberam compostos de enxofre
reduzidos de turfeiras submersas e pântanos bem como de comunidades marinhas
associadas com planícies de maré. Um fluxo inverso, a partir da atmosfera, envolve
a oxidação de compostos de enxofre a sulfato, que retorna a terra como precipitação
úmida e precipitação seca.

O intemperismo de rochas fornece aproximadamente a metade do enxofre


que escoa da terra para os corpos hídricos. O restante deriva de fontes atmosféricas.
Em seu trajeto até o oceano, parte do enxofre disponível é absorvida pelas plantas,
participa de cadeias alimentares e, através de processos de decomposição, torna-
se novamente disponível para as plantas. No entanto, há uma perda contínua de
enxofre para os sedimentos oceânicos (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

Atualmente, uma grande quantidade de enxofre encontra-se em circulação


devido às atividades humanas, em especial através da combustão de carvão e de
petróleo. A chuva ácida é a manifestação mais clara dessa realidade (DAJOZ, 2005).

FIGURA 58 – ETAPAS DA CICLAGEM DO ENXOFRE

FONTE: Disponível em: <http://farm4.static.flickr.com/3349/3240465413_4db1f5b3a1_o.


jpg>. Acesso em: 10 abr. 2013.

134
TÓPICO 4 | ECOSSISTEMAS

3.4 CICLAGEM DO CARBONO


A fotossíntese e a respiração são os dois processos opostos que governam
o ciclo do carbono, que é essencialmente gasoso e tem como veículo principal do
fluxo entre atmosfera, hidrosfera e a biota, o dióxido de carbono (TOWNSEND;
BEGON; HARPER, 2006).

Segundo Ricklefs (2010), três classes de processos fazem o carbono


ciclar através dos ecossistemas: 1) as reações assimilativas e desassimilativas,
principalmente na fotossíntese e respiração; 2) as trocas de dióxido de carbono
entre a atmosfera e o oceano; e 3) a precipitação de sedimentos de carbonato nos
oceanos.

As plantas terrestres utilizam o dióxido de carbono atmosférico como a


sua fonte de carbono para a fotossíntese, enquanto as plantas aquáticas o fazem
através de carbonatos dissolvidos. Os dois subciclos (terrestre e oceânico) estão
interligados por trocas de dióxido de carbono entre a atmosfera e o oceano
(TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006).

O carbono encontra seu caminho para águas internas e oceanos como


bicarbonato resultante do intemperismo de rochas ricas em cálcio, como o calcário.
A respiração por plantas, animais e micro-organismos libera o carbono de volta
aos compartimentos originais (TOWNSEND; BEGON; HARPER, 2006) (Figura 59).

135
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

FIGURA 59 – ETAPAS DA CICLAGEM DO CARBONO

FONTE: Disponível em: <http://farm4.static.flickr.com/3349/3240465413_4db1f5b3a1_o.jpg>.


Acesso em: 10 abr. 2013.

Todos os ecossistemas terrestres possuem a característica comum de


conseguir emitir ou sequestrar carbono atmosférico. Essa função vem ganhando
destaque nas últimas décadas devido ao avanço do conhecimento sobre as
mudanças climáticas globais resultantes das atividades antrópicas, principalmente
a emissão elevada de dióxido de carbono (ADUAN; VILELA; KLINK, 2003). No
Brasil, as principais fontes de dióxido de carbono e outros gases do efeito estufa
para a atmosfera são as mudanças no uso da terra, a agricultura e a pecuária
(CARVALHO et al., 2010).

De acordo com Odum e Barret (2011), antes da Revolução Industrial, a


concentração de dióxido de carbono na atmosfera era da ordem de 280 ppm (partes
por milhão). Porém, nos últimos 150 anos essa concentração aumentou para 370
ppm, levando os cientistas a se preocuparem com o efeito estufa. As principais
estratégias para tentar mitigar esse fenômeno consistem na menor utilização de
combustíveis fósseis, redução das taxas de desmatamento e de queima de material
vegetal, uso adequado do solo e, por fim, estratégias de maximização do sequestro
de carbono no solo e na vegetação (CARVALHO et al., 2010).

136
TÓPICO 4 | ECOSSISTEMAS

3.5 CICLO HIDROLÓGICO


O ciclo da água nos ecossistemas é moldado pelos processos de evaporação,
precipitação e transpiração (RICKLEFS, 2010) (Figura 60). O movimento se inicia
através da evaporação da água dos oceanos para a atmosfera e, posteriormente, pela
precipitação de volta à superfície terrestre. Parte da água precipitada pode então,
infiltrar e escoar nos continentes e, eventualmente retornar aos oceanos. Ainda,
parte da água da chuva volta à atmosfera através da evaporação e transpiração da
vegetação (ODUM; BARRET, 2011).

FIGURA 60 – ETAPAS DA CICLAGEM DA ÁGUA

FONTE: Disponível em: <http://www.acervoescolar.com.br/ciclos-biogeoquimicos-ciclo-da-agua/>.


Acesso em: 10 abr. 2013.

A evaporação e a precipitação estão intimamente relacionadas, pois a


atmosfera possui uma capacidade limitada de reter o vapor de água. Qualquer
aumento na evaporação cria um excesso de vapor na atmosfera e causa um
equivalente aumento na precipitação. De um modo simplificado, é a evaporação
quem determina a velocidade com que a água se move na biosfera (RICKLEFS,
2010).

Odum e Barret (2011) enfatizam dois aspectos do ciclo da água:

137
UNIDADE 2 | ORGANISMOS, POPULAÇÕES, COMUNIDADES E ECOSSISTEMAS

1 Uma parte considerável das chuvas que sustentam os ambientes terrestres


provém da água do mar, podendo representar em alguns locais até 90% da água
precipitada.

2 As atividades humanas muitas vezes aumentam o índice pluviométrico, seja


através da pavimentação das ruas, abrindo e represando rios, compactação do
solo ou desmatamento. Assim, há uma drástica redução da recarga das águas
subterrâneas – aquíferos.

De acordo com Townsend, Begon e Harper (2006), ainda que o ciclo


hidrológico ocorresse na ausência de seres vivos, é inegável a influência da
vegetação terrestre sobre os fluxos que nele ocorrem. De fato a vegetação pode
interceptar a água das chuvas impedindo que chegue até os corpos hídricos e
ocasionando o seu retorno à atmosfera de duas formas: 1) retendo parte da água
na folhagem, onde pode posteriormente evaporar; 2) absorvendo a água do solo
participando posteriormente do processo de transpiração.

4 CLASSIFICAÇÃO DOS ECOSSISTEMAS


Existem várias formas de se classificar um ecossistema, contudo suas
definições não são muito aceitas pelos ecólogos. Todavia, em várias situações tal
sistematização pode se mostrar útil (ODUM; BARRET, 2011). Assim sendo, os
ecossistemas podem ser classificados tanto estruturalmente como funcionalmente.

Quando apenas a vegetação e as principais características físicas estruturais


servem de base para a classificação, têm-se os chamados biomas (ODUM; BARRET,
2011).

UNI

Por diversas vezes os termos ecossistema e bioma são confundidos. Porém,


como ressalta Coutinho (2006): “Não se deve supor erroneamente que bioma e ecossistema
sejam sinônimos. Para a fisionomia, elemento de fundamental importância na classificação
dos biomas, a fauna tem pouco ou nenhum significado. O mesmo não ocorre quando nos
referimos a um ecossistema”.

UNI

O termo bioma não é utilizado para ambientes aquáticos ou marinhos por não
possuir elementos florísticos característicos que os possam classificar.

138
TÓPICO 4 | ECOSSISTEMAS

Outra forma de classificar os ecossistemas é com relação à quantidade e


qualidade da energia. De acordo com Odum e Barret (2011), a energia fornece uma
excelente base para uma classificação funcional, uma vez que é um importante
“denominador comum” para os ecossistemas, inclusive os criados e/ou gerenciados
pelo homem.

Considerando o exposto, pode-se identificar 21 tipos principais de


ecossistemas, considerando nesta soma os locais onde os humanos se estabeleceram
(Tabela 4).

TABELA 4 – PRINCIPAIS TIPOS DE ECOSSISTEMA EXISTENTES NO PLANETA

FONTE: Odum e Barret (2011)

139
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, você pode concluir que:

• O ecossistema é a unidade onde os organismos existentes interagem entre si e


com o meio físico, gerando um fluxo de matéria e energia.

• A energia flui entre os organismos de forma unidirecional, havendo perda de


parte dela ao longo da cadeia alimentar.

• Estima-se que cerca de 10% da energia constante na biomassa de um organismo


seja aproveitada pelo seu consumidor. O restante é perdido sob a forma de calor
devido às atividades metabólicas.

• O processo de assimilação de energia luminosa pelas plantas e sua transformação em


energia química através da fotossíntese é denominada de produtividade primária.

• A produtividade primária pode ser dividida em produtividade primária bruta,


que é o total de energia assimilado pela planta, e produtividade líquida, que é o
que é incorporado à sua biomassa.

• Os seres necessitam de diversos elementos e compostos químicos para a sua


sobrevivência e a sua obtenção contínua é possível devido à existência dos ciclos
biogeoquímicos.

• No ciclo de nitrogênio é um dos ciclos mais complexos e envolve micro-


organismos capazes de fixar o nitrogênio no solo e de outros organismos
capazes de transformar esse nitrogênio em formas que possam ser utilizadas
pelos vegetais.

• O principal reservatório de fósforo são as rochas, sendo que grande parte deste
elemento penetra no mar e fica imobilizada nos sedimentos profundos.

• Três processos biogeoquímicos naturais liberam enxofre para a atmosfera:


formação de aerossóis através de borrifos do mar, respiração anaeróbica por
bactérias redutora de sulfato, e a atividade vulcânica.

• O ciclo do carbono é governado por dois processos opostos: a respiração e a


fotossíntese.

• De forma geral, o ciclo da água é moldado pelos processos de evaporação,


precipitação e transpiração.

• Os termos ecossistema e bioma não são sinônimos, pois este último não considera
os fluxos de matéria e energia, mas sim somente a fitofisionomia.

• Pode-se identificar 21 principais tipos de ecossistemas no mundo, incluindo os


locais onde os humanos se estabeleceram.
140
AUTOATIVIDADE

1 A produtividade primária de um vegetal pode ser dividida em produtividade


primária bruta e produtividade primária líquida. Diferencie estes conceitos.

2 Por que é dito que apenas 10% da energia absorvida por um organismo é
repassada para o seu consumidor?

3 Os ecossistemas são “regidos” pelos fluxos constantes de matéria e energia


necessários à sobrevivência dos organismos. Sobre a ciclagem de matéria nos
ecossistemas, associe os itens através do código a seguir:

I- Ciclo do Nitrogênio.
II- Ciclo do Carbono.
III- Ciclo da Água.
IV- Ciclo do Enxofre.

( ) A atividade vulcânica é uma das fontes naturais da sua liberação na


atmosfera.
( ) A fotossíntese e a respiração são os principais agentes deste ciclo.
( ) A vegetação tem grande influência sobre o regime deste ciclo.
( ) É o ciclo mais complexo entre os principais elementos necessários aos seres
vivos.

Agora, assinale a alternativa CORRETA:

a) ( ) IV – II – III – I.
b) ( ) IV – I – III – II.
c) ( ) I – II – III – IV.
d) ( ) I – III – II – IV.

141
142
UNIDADE 3

GESTÃO EM UNIDADES DE
CONSERVAÇÃO

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade você será capaz de:

• definir o conhecimento e a importância das unidades de conservação para


a biodiversidade;

• reconhecer e diferenciar as categorias das unidades de conservação;

• compreender os princípios e diretrizes que regem a gestão em unidades de


conservação e em áreas protegidas em geral.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em quatro tópicos e em cada um deles você encon-
trará atividades que o(a) ajudarão a aplicar os conhecimentos apresentados.

TÓPICO 1 – BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

TÓPICO 2 – CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

TÓPICO 3 – CRIAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E GESTÃO DE UNIDADES


DE CONSERVAÇÃO

TÓPICO 4 – GESTÃO TERRITORIAL PARA A CONSERVAÇÃO

Assista ao vídeo
desta unidade.

143
144
UNIDADE 3
TÓPICO 1

BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

1 INTRODUÇÃO
Prezado(a) acadêmico(a)! Para começarmos, neste tópico teremos a
oportunidade de discutir os aspectos relacionados à Biologia da Conservação.
Serão abordados estudos relacionados à conservação da fauna e flora. Discutiremos
também aspectos relativos ao planejamento ambiental e políticas públicas para
a conservação, que no Brasil envolvem, principalmente, a criação e gestão de
unidades de conservação.

2 COMPREENDENDO OS PROCESSOS
Ao longo das unidades anteriores acompanhamos o desenvolvimento
de conceitos que possibilitam o entendimento de fenômenos naturais. Um
conhecimento que nos permite agora compreender as relações entre os seres vivos
e destes com o ambiente.

Vimos “como se estrutura e como funciona o conjunto de seres vivos em


um gradiente heterogêneo de ambiente”, procurando a explicação para a complexa
rede de interdependência (ALHO, 1992). Percebemos que os níveis de organização
dos seres vivos na natureza tornam evidentes importantes relações. Assim, os
organismos, o primeiro nível de organização, são as diversas formas de vida que
apresentam estrutura e função únicas que definem a espécie e cuja adaptação ou
organização em um determinado tempo ou espaço define uma população. Quando
avançamos para uma análise mais complexa, verificamos que há interações de
organismos e populações com o sistema natural, os fatores abióticos. Todas essas
interações em um dado espaço geográfico determinam os ecossistemas (ODUM;
BARRET, 2008).

Passamos a compreender então o ambiente natural, sua organização e


as leis que definem a manutenção da vida e como se estabelece o equilíbrio das
relações no ambiente. Neste contexto, o homem é o ser vivo que apresenta uma
grande capacidade de intervir nessas relações, através da alteração do ambiente e
a extração de recursos naturais. Muitas vezes, a taxa de extração desses recursos
pode ser muito superior à capacidade de recuperação do ambiente, e é exatamente
nesse momento que este mesmo homem precisa intervir para viabilizar o
restabelecimento do equilíbrio, sob pena de comprometer a disponibilidade de
recursos e, em uma situação extrema, sua própria existência (PINTO-COELHO,
2000).
145
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

UNI

Quais são os processos, técnicas ou comportamentos e atitudes que podem nos


levar à correta utilização dos recursos naturais que nos permitam manter o desenvolvimento
e ao mesmo tempo garantir a manutenção desses recursos para as gerações futuras?

3 BIODIVERSIDADE
Quando falamos em conservação, faz-se necessário entendermos por que
e o que é necessário conservar. Precisamos conhecer os elementos que compõem
as comunidades ou os ecossistemas. Uma das características que determinam a
viabilidade da conservação é exatamente a biodiversidade.

A biodiversidade está relacionada ao ramo da ecologia de comunidades


e inclui todas as espécies encontradas na Terra. O texto elaborado pelo Fundo
Mundial para a Natureza (1989, p. 52) estabelece o termo diversidade biológica
como sendo “a riqueza da vida na Terra, os milhões de plantas, animais e micro-
organismos, os genes que eles contêm e os intricados ecossistemas que eles ajudam
a construir no meio ambiente”.

Deste conceito conseguimos perceber que a biodiversidade considera


o número de espécies existentes, mas contempla muito mais do que isso. Ela
abrange a variação genética existente entre organismos e populações, e ainda pode
ser abordada em nível de comunidade e ecossistema. Recapitulando o conceito
de espécie, consideramos bem ilustrativa a definição apresentada por Primack e
Rodrigues (2001, p. 27). Estes autores indicam que uma espécie pode ser definida
de dois modos:

Primeiro, uma espécie pode ser definida como um grupo de indivíduos


que é morfologicamente, fisiologicamente ou bioquimicamente distinta
de outros grupos em algumas características (definição morfológica de
espécie). Mais e mais, as diferenças nas sequências de DNA estão sendo
usadas para distinguir espécies que parecem quase idênticas, como é
o caso das bactérias. Segundo, uma espécie pode ser distinguida como
um grupo de indivíduos que pode potencialmente procriar entre si, mas
não procria com indivíduos de outros grupos (definição biológica de
espécie).

E
IMPORTANT

Lembre-se: “Para compreender os processos é necessário ter consolidado os conceitos,


pois eles são a base para o desenvolvimento de técnicas e práticas ambientais”. (PRIMACK;
RODRIGUES, 2001). Então, se necessário, volte às unidades anteriores e reveja os conceitos.

146
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

4 ESTIMATIVA DA BIODIVERSIDADE
Aproximadamente 1,4 milhão de espécies já foram identificadas e descritas
pelos pesquisadores. Sua distribuição nos diversos grupos de seres vivos é
apresentada na tabela a seguir.

TABELA 5 – ESTIMATIVA DO NÚMERO DE ESPÉCIES IDENTIFICADAS E DESCRITAS POR


PESQUISADORES

Insetos Plantas Fungos Protistas Algas Bactérias e Vírus Outros


formas similares
751.000 248.500 69.000 30.800 26.900 4.800 1.000 281.000

FONTE: Adaptado de: Primack e Rodrigues (2001)

Embora pareça elevado, este número ainda pode chegar a cinco milhões(!),
porque grande quantidade de insetos e bactérias ainda não foi devidamente
identificada pelos pesquisadores e biólogos.

Ouvimos falar com frequência que o Brasil é um dos países que apresenta
a maior diversidade biológica do planeta. Mas por que isso acontece?

O Brasil é um dos países com maior biodiversidade do planeta, devido ao


fato de que quase um terço das florestas tropicais remanescentes do mundo está em
seu território, e elas são reconhecidas como um dos mais importantes repositórios
da diversidade biológica global (MMA, 2006). Soma-se a isso a ocorrência endêmica
de milhares de espécies biológicas em uma variedade de ecossistemas.

NOTA

São denominadas de endêmicas as espécies cuja ocorrência natural se dá em


uma área específica. As áreas de ocorrência de espécies endêmicas são importantes para a
conservação das espécies.
Vejamos o exemplo de um levantamento efetuado no Parque Nacional da Serra da Canastra,
localizado nos municípios de São Roque de Minas, Sacramento e Delfinópolis, sudoeste de
Minas Gerais, abrangendo uma área de 71.525 ha e com altitudes variando entre 800 e
1.496 metros. Os tipos de vegetação da área são as florestas mesófilas de encosta, capões,
cerradão, cerrado, campo cerrado, campo limpo e campo rupestre. O levantamento florístico
efetuado na região catalogou 101 famílias, das quais 73 foram identificadas, totalizando 768
espécies. Este estudo identificou a ocorrência de 45 espécies endêmicas, incluindo várias
espécies novas, pertencentes a 11 famílias. Foi possível ainda delimitar e descrever 17 áreas
de endemismo e, como resultado prático desse estudo, essas áreas foram propostas como
zonas de preservação permanente.
FONTE: ROMERO, Rosana; NAKAJIMA, Jimi Naoki. Revista Brasileira de Botânica, São Paulo,
v. 22, n. 2 (suplemento), p. 259-265, out. 1999. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbb/
v22s2/(2_s)a5.pdf>. Acesso em: 13 maio 2013.

147
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Dados do Ministério do Meio Ambiente estimam que cerca de 20% do


número de espécies conhecidas pela ciência podem estar abrigadas em território
brasileiro. De fato, a flora brasileira apresenta entre 50 e 56 mil espécies de plantas
superiores.

Quanto à fauna brasileira, você pode observar, na tabela a seguir, que os


números também são expressivos.

TABELA 6 – ESTIMATIVA DO NÚMERO DE ESPÉCIES IDENTIFICADAS NA FAUNA BRASILEIRA

Anfíbios Répteis Mamíferos Aves Peixes de água doce


517 468 524 1.622 3.000
FONTE: Ministério do Meio Ambiente, Relatório nacional sobre a biodiversidade (1998)

Conhecendo esses números, conseguimos imaginar o mundo sob a ameaça


de extinção de espécies e perda de material genético? Apesar dos números
serem impressionantes, a extinção é uma ocorrência bem mais frequente do que
gostaríamos de pensar.

5 AMEAÇAS À BIODIVERSIDADE
Estamos constantemente ouvindo falar sobre espécies ameaçadas ou em
extinção. Este é um tema sempre atual. Relacionaremos, neste item, as ameaças
mais relevantes, discutindo sobre as causas de sua ocorrência e que medidas
podem ser tomadas no sentido da conservação.

O texto a seguir é bastante ilustrativo quanto às consequências da extinção


de espécies. Pesquisadores afirmam que o custo da perda de espécies é incalculável
e a ciência tem indicado que todos os esforços devem ser direcionados para evitá-
la. As técnicas de recuperação, em geral, têm custos elevados. Assim sendo, as
melhores ações serão sempre no sentido de conservação das espécies.

Um meio ambiente bem preservado tem grande valor econômico, estético
e social. Mantê-lo significa preservar todos os seus componentes em boas
condições: ecossistemas, comunidades e espécies. O aspecto mais sério
do perigo ambiental é a extinção das espécies. As comunidades podem
ser degradadas e confinadas a um espaço limitado, mas na medida em
que as espécies originais sobrevivam, ainda será possível reconstruir
as comunidades. Da mesma forma, a variação genética das espécies
será reduzida se o tamanho da população for diminuído, mas estas
podem ainda recuperar o potencial de sua variação genética através da
mutação, seleção natural e recombinação. Entretanto, uma vez que a
espécie é extinta, a informação genética única contida em seu DNA e a
combinação especial de caracteres que ela possui estarão perdidas para
sempre. Uma vez que uma espécie tenha sido extinta, sua população
não pode ser recuperada, a comunidade que ela habitava torna-se
empobrecida e seu valor potencial para os seres humanos jamais poderá
se realizar. (PRIMACK; RODRIGUES, 2001, p. 28).

148
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

5.1 EXTINÇÃO E SUAS CAUSAS


Ao acompanharmos os eventos da história, percebemos que existiram
momentos nos quais a própria natureza se encarregou de controlar a população de
determinadas espécies. Exemplificando, a teoria da extinção dos dinossauros sobre
a Terra indica, entre outras coisas, que após este evento, determinadas espécies
vegetais e animais se multiplicaram e passaram a predominar na paisagem natural.

Como já estudamos nos capítulos anteriores, os ecossistemas tendem a


alcançar o equilíbrio na utilização de energia e espaço físico onde as populações
estabelecem uma teia de relações interdependentes (ODUM; BARRET, 2011). As
relações interespecíficas (competição, predação, sucessão) são ocorrências naturais.
Entretanto, em determinadas situações, podem determinar a extinção de espécies.
Estas relações, os processos ecológicos e a utilização dos recursos determinam a
predominância de populações ou espécies. É importante lembrarmos ainda de
como a utilização da energia solar, a eficiência na fotossíntese e demais ciclos
biogeoquímicos podem interferir na biodiversidade e conservação.

E
IMPORTANT

Mais uma vez nos reportamos a informações de capítulos anteriores. Aproveite para verificar
o seu conhecimento sobre os ciclos biogeoquímicos e fluxo de energia!

Entre as espécies, o ser humano aparece como o maior agente de


transformações do ambiente natural. Vejamos o que Primack e Rodrigues (2001, p.
29) afirmam a respeito:

A lista de transformações de sistemas naturais que estão diretamente


relacionadas às atividades humanas é longa. Inúmeras espécies
diminuíram rapidamente, algumas até o ponto de extinção, em
consequência da caça predatória, destruição do habitat e a ação de
novos predadores e competidores.

As causas dos declínios de espécies nos ambientes, tanto marinhos


quanto terrestres, estão associadas a atividades humanas. Os impactos diretos
são principalmente a destruição e a exploração de habitats, e, de forma indireta,
a poluição, a introdução de espécies e a disseminação de doenças também têm
ocasionado impactos significativos (HERO e RIDGWAY, 2006).

149
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

5.2 PERDA E FRAGMENTAÇÃO DE HABITATS


A perda de habitat devido ao desmatamento é a principal origem da
alteração de habitat promovida pelo homem. Em geral, acontece para fins de
pecuária, extração da madeira, exploração agrícola, exploração mineral ou para
ocupação urbana. Considerando os mecanismos naturais de recuperação dos
ecossistemas, este fenômeno não seria tão grave se ocorresse em um ritmo que
permitisse a sua regeneração. Entretanto, os interesses econômicos se sobrepõem e
o resultado já é bastante conhecido.

Historicamente, a destruição de habitats foi mais intensa nas regiões
costeiras do Sul e do Sudeste brasileiro, onde se encontra o bioma Mata Atlântica.
Como consequência, temos a atual situação que já foi discutida na primeira
unidade do nosso caderno. De fato, na América do Sul, as perdas populacionais
mais intensas têm sido verificadas nesse bioma (HERO e RIDGWAY, 2006).

No entanto, não é somente nesse bioma que a perda de habitat é um


problema. O Cerrado também tem sido seriamente comprometido devido
ao desmatamento. Hoje restam cerca de 20% da vegetação original. Mesmo a
Amazônia, região onde as florestas eram relativamente pouco perturbadas, está
sob ameaça (HERO e RIDGWAY, 2006).

Além da perda de habitat, a sua fragmentação também constitui em uma


ameaça à biodiversidade brasileira. As mudanças biológicas associadas a esses
dois processos favorecem espécies adaptadas a paisagens alteradas, de forma
que a maioria das espécies florestais está declinando e sendo substituída por um
número menor de espécies que resistem em habitats alterados. A esse fenômeno
dá-se o nome de homogeneização biótica (HERO e RIDGWAY, 2006).

Pode-se dizer que os principais efeitos ecológicos da fragmentação são o


aumento do efeito de borda e o isolamento do habitat (ROCHA et al., 2006). O
aumento do efeito de borda deve-se a uma maior quantidade de borda por área de
habitat e a uma diminuição da distância entre o centro de cada fragmento e a sua
borda (PRIMACK e RODRIGUES, 2001). A problemática das bordas consiste no
fato de que nesse micro-habitat as condições são distintas daquelas encontradas no
interior da floresta. Sendo assim, o aumento da área da borda provoca alterações
no ambiente, aumentando os níveis de iluminação, de temperatura e de vento,
bem como a diminuição da umidade, podendo assim alterar a composição das
espécies e, mesmo, levar muitas espécies à extinção local ou ecológica (ROCHA et
al., 2006).

Antes de definirmos os termos extinção global, extinção local e extinção


ecológica, é necessário ressaltar que a redução e o isolamento dos habitats não
ocasionam imediatamente o risco de extinção. Esse processo ocorre de forma
gradativa, através da redução no tamanho e do isolamento das populações
(ROCHA et al., 2006).

150
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

Voltando agora as nossas atenções às diferentes definições de extinção,


percebemos que a extinção em nível global ocorre quando o último indivíduo de
uma espécie morre. Já a extinção local refere-se ao caso em que o último indivíduo
de uma população morre, o que não significa que a espécie tenha se extinguido,
já que outras populações podem ocorrer em outras áreas. Por fim, a extinção
ecológica ocorre quando a população de uma espécie em um determinado local
é tão pequena que o seu papel desempenhado dentro do ecossistema se torna
negligenciável (ROCHA et al., 2006).

6 CONSERVAÇÃO
Antes de começarmos a tratar de questões envolvendo a conservação,
precisamos conceituar corretamente o termo, já que esse é utilizado, muitas vezes,
como sinônimo de preservação.

Segundo Santos (2011), o termo ‘conservação’ deve ser utilizado quando


se visa resguardar algo de dano, evitando a sua deterioração, o prejuízo. Assim,
a conservação permite que haja a intervenção humana – até explorando alguns
recursos naturais. Quando ela é percebida em relação ao meio ambiente, tem a
conotação de proteção dos recursos naturais, utilizando-os racionalmente.

Já o termo ‘preservação’ visa garantir a integridade de alguma coisa.


Tal termo é usado ao se referir à proteção integral, como forma de manter sua
intocabilidade. Ao se levar em conta o meio ambiente, usa-se da preservação para
evitar perda de biodiversidade constante nesse locus.

Sendo assim, “a conservação incorpora melhorias ao meio ambiente,


retardando sua degradação; e a preservação é uma ação direcionada à proteção
integral das condições naturais dos recursos ambientais existentes” (SANTOS,
2011, p. 144).

Vimos até aqui os processos que ameaçam a diversidade biológica.


Precisamos então discutir métodos e técnicas que promovam a utilização dos
recursos naturais de forma racional e que permitam a sua conservação. A
argumentação apresentada por Primack e Rodrigues (2001, p. 31) esclarece sobre
tal necessidade.

A desaceleração do crescimento da população humana é parte da


solução para a crise da diversidade biológica. Além disso, as atividades
industriais em larga escala, o corte da madeira e a agricultura, na busca
de altos lucros em curto prazo, têm efeitos destrutivos e desnecessários
para o ambiente natural. Esforços para reduzir o alto consumo de
recursos naturais nos países ricos e industrializados e para eliminar a
pobreza em países em desenvolvimento são também parte importante
da proteção da diversidade biológica.

No que diz respeito ao crescimento populacional, as estimativas não são


otimistas, conforme podemos verificar na figura a seguir.
151
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

FIGURA 61 – ESTIMATIVA PARA A POPULAÇÃO MUNDIAL

FONTE: United Nations (2004). Disponível em: <http://www.scielo.br/img/revistas/rbepop/v28n2/


a09graf02.jpg>. Acesso em: 24 mar. 2013.

O gráfico mostra uma tendência de que a população dobre de tamanho até o


ano de 2100. As transformações advindas deste crescimento são e serão percebidas
na organização do espaço urbano e rural. As dificuldades na conservação dos
recursos naturais frente às necessidades humanas destacam-se no cenário político.

Entretanto, a evolução da ecologia enquanto ciência tem possibilitado uma


redefinição do desenho dos padrões de desenvolvimento e conservação. Novas
abordagens das questões ambientais têm permitido o estabelecimento de regras de
convívio e gerenciamento de conflitos de interesses. Neste sentido, Gipps (1991),
citado por Primack e Rodrigues (2001, p. 35), afirma que:

Ao invés de apenas observar passivamente as espécies em perigo


caminharem para a extinção, muitos biológos de conservação começaram
a desenvolver abordagens para salvar essas espécies. Aguns métodos
novos e interessantes estão sendo desenvolvidos para estabelecer novas
populações silvestres e semissilvestres de espécies raras e ameaçadas e
para aumentar o tamanho das populações existentes.

152
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

Ou seja, a ciência tem ocupado o espaço na solução dos problemas


relacionados ao ambiente, tomando nova forma.

6.1 O ESTABELECIMENTO DE NOVAS POPULAÇÕES


Para tratar do estabelecimento de novas populações, visando a sua
recuperação e conservação, devemos, inicialmente, levantar alguns aspectos
técnicos que possibilitem o diagnóstico da situação.

É preciso avaliar a variabilidade genética da população remanescente.


É esta variabilidade que permitirá, ou não, que as populações se adaptem a um
ambiente transformado ou em transformação e está diretamente relacionada ao
número de indivíduos. Em pequenas populações a variabilidade tende a ser menor
e, consequentemente, as variações genéticas são limitadas, reduzindo as chances
de sucesso e exigindo técnicas mais eficientes (TOWNSEND; BEGON; HARPER,
2006).

Outro aspecto é a disponibilidade de informações sobre estas populações,


os ambientes nos quais estão distribuídas, as interações bióticas, sua morfologia e
fisiologia. Em muitos casos é necessário levantar informações de monitoramento a
médio e longo prazos.

O estabelecimento propriamente dito de novas populações pode ocorrer por


um programa de reintrodução, de acréscimo ou de introdução, considerando ainda
o comportamento social dos animais, da população de plantas, da disponibilidade
de recursos abióticos, da influência do clima, da topografia etc. (ODUM; BARRET,
2011).

6.2 CONSERVAÇÃO IN SITU E EX SITU


Sob o aspecto da biologia será sempre indicado que as estratégias de
conservação de populações sejam aplicadas in situ – nas áreas de origem, em
seu ambiente natural. Entretanto, sob o ponto de vista prático, nem sempre isto
é possível. Alternativamente, quando a conservação in situ não é tecnicamente
viável, podem ser aplicadas as estratégias de conservação ex situ, através do uso
de espaços delimitados, como os zoológicos, aquários, jardins botânicos e bancos
de sementes (BEZERRA; MUNHOZ, 2000).

153
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

6.2.1 Zoológicos
O principal objetivo destes espaços é estabelecer populações, em cativeiros,
de animais raros ou ameaçados. Infelizmente, o número reduzido de indivíduos
de uma determinada espécie pode inviabilizar um projeto de conservação. O
esforço é no sentido de desenvolver tecnologias que aumentem as possibilidades
de reprodução e disponibilizar informações sobre o adequado manejo e tratamento
de espécies silvestres.

6.2.2 Aquários
Os aquários públicos atuam de forma similar aos zoológicos, entretanto
apresentam um alto custo de manutenção.

6.2.3 Jardins botânicos


No Brasil, o primeiro jardim botânico a ser instalado foi o Jardim
Botânico do Rio de Janeiro. A finalidade, na época de sua criação, foi a de
possibilitar a aclimatação de espécies exóticas trazidas do Oriente. Atualmente é
o maior depositário da flora nacional. No mundo, os jardins botânicos estão se
especializando e há centros de conservação e reprodução em tipos específicos de
plantas. Estes espaços contribuem para a conservação e representam fontes de
informação sobre a distribuição geográfica e exigências nutricionais, de clima e
solo de plantas.

6.2.4 Bancos de sementes


Os bancos de sementes representam uma estratégia na conservação de
espécies vegetais. As sementes podem ser armazenadas em condições de baixas
temperaturas e permanecerem viáveis por um período de tempo. No momento
adequado são colocadas para germinar. Neste caso, percebemos que não é
necessária a disponibilidade de grandes espaços e apresentam um menor custo.
Entretanto, se ocorrerem problemas na manutenção dos sistemas ou equipamentos,
toda a coleção pode ser comprometida.

154
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

7 O VALOR ECONÔMICO DA BIODIVERSIDADE


Consideramos importante a abordagem de aspectos referentes ao valor
econômico da biodiversidade, tema amplamente discutido nos dias atuais.

O uso de conceitos e vocabulários vinculados à economia é cada vez


mais comum pelos biólogos da conservação, de forma a convencer o governo,
banqueiros e empresários da necessidade de proteger a biodiversidade. Isto será
possível desde que estes atores encontrem uma justificativa econômica para fazê-
lo (RICKLEFS, 2003).

Apresentamos a seguir o texto elaborado por Arruda (2001) que resume


de modo eficiente e interessante aquilo que é essencial conhecermos sobre o valor
econômico da biodiversidade.

A Convenção sobre Diversidade Biológica – CDB reconhece que a


biodiversidade possui valores econômicos, sociais e ambientais. Logo no
primeiro parágrafo do texto esse reconhecimento é explicitado: ‘Consciente
do valor intrínseco da diversidade biológica e dos valores ecológico, social,
econômico, científico, educacional, cultural, recreativo e estético da diversidade
biológica e seus componentes’. A seguir, o artigo 1º define os objetivos da
Convenção como sendo a ‘conservação da biodiversidade biológica, a utilização
sustentável de seus componentes e a repartição justa e equitativa dos benefícios
derivados da utilização dos recursos genéticos’. Complementando, o artigo
11 destaca a necessidade de utilizar instrumentos econômicos na gestão
da conservação da biodiversidade, afirmando que: ‘cada parte contratante
deve, na medida do possível e conforme o caso, adotar medidas econômica
e socialmente racionais que sirvam de incentivo à conservação e utilização
sustentável de componentes da diversidade biológica’. Assim, a CDB busca
demonstrar, como estratégia de proteção à biodiversidade, que a conservação
e o uso sustentável da biodiversidade têm valor econômico e que a utilização
de critérios econômicos é relevante na sua implementação, ou seja, apregoa
ser imprescindível o reconhecimento do valor econômico da biodiversidade
por aqueles que participam de sua gestão. Hoje, a maioria das decisões de
políticas públicas se baseia em considerações econômicas. O conhecimento do
montante dos valores econômicos associados à conservação, à preservação e ao
uso sustentável da biodiversidade é a forma contemporânea de garantir que
a variável ambiental tenha peso efetivo nas tomadas de decisões em políticas
públicas. Neste contexto, a Economia Ambiental, fundamentada na Teoria
Econômica Neoclássica, incorpora hoje métodos e técnicas de valoração que
buscam integrar as dimensões ecológicas, econômicas e sociais, de forma que
capture os valores econômicos associados à conservação e à preservação da
diversidade biológica. O objetivo é tirar as formulações neoclássicas do nível
teórico de abstração e enfrentar o desafio de medir as variáveis indispensáveis
à implantação e à instrumentalização de políticas públicas.
FONTE: Disponível em: <http://www.ibama.gov.br/ecossistemas/valoracaoAM.htm>. Acesso em:
6 jun. 2013.

155
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

O conceito de valor econômico, desenvolvido pela economia ambiental, é


útil para identificarmos os diversos valores associados aos recursos ambientais.
Vejamos o quadro a seguir:

QUADRO 5 – VALORES ASSOCIADOS AOS RECURSOS AMBIENTAIS


São aqueles derivados do uso direto da
VALORES DE USO DIRETO biodiversidade, como atividades de recreação,
(VUD) lazer, colheita de recursos naturais, caça, pesca,
educação.
Abrangem as funções ecológicas da biodiversidade,
VALORES DE USO como proteção de bacias hidrográficas, preservação
INDIRETO (VUI) de habitat para espécies migratórias, estabilização
climática, sequestro de carbono.
Exemplo: Polinização.
VALORES DE OPÇÃO (VO) Derivam da opção de usar o recurso no futuro. Os
usos futuros podem ser diretos ou indiretos, ou
seja, podem incluir o valor futuro da informação
derivada do recurso em questão.
Exemplo: Controle biológico.
VALORES DE NÃO USO São aqueles que as pessoas atribuem ao recurso
(VNU) ambiental, sem que esteja ligado a algum de seus
usos.
Exemplo: Valores de herança e de existência.
FONTE: Adaptado de: Arruda (2001)

Ao utilizarmos as informações do quadro anterior em um diagrama,


teremos a estrutura da figura a seguir:

156
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

FIGURA 62 – ESTRUTURA DO CONCEITO VALOR ECONÔMICO DA BIODIVERSIDADE

FONTE: Adaptado de: Arruda (2001)

7.1 OS CUSTOS AMBIENTAIS


Para entendermos um pouco melhor a importância de avaliarmos os custos
ambientais, separamos o texto a seguir.

Prejuízos causados por ciclones tropicais mais frequentes, perda de


terra em consequência de um aumento do nível do mar e danos aos recursos
pesqueiros, à agricultura e ao fornecimento de água poderiam custar mais de
US$ 300 bilhões por ano.

Em termos globais, os maiores prejuízos seriam na área da energia. A


indústria hídrica mundial enfrentará um custo adicional de US$ 47 bilhões por
ano em 2050. A indústria agrícola e a silvicultura podem perder até US$ 42
bilhões em todo o mundo em consequência de secas, enchentes e incêndios se
os níveis de dióxido de carbono alcançarem o dobro das suas concentrações pré-
industriais. Programas de defesa contra inundações para proteger moradias,
fábricas e usinas de energia do aumento do nível do mar e de tempestades
repentinas podem custar US$ 1 bilhão por ano. A perda de ecossistemas,
incluindo manguezais, recifes de corais e lagunas costeiras, pode chegar a mais
de US$ 70 bilhões em 2050.

FONTE: IBAMA: integração entre o meio ambiente e o desenvolvimento: 1972-2002. Perspectivas


do Meio Ambiente Mundial GEO-3. Disponível em: <http://www.wwiuma.org.br/geo_mundial_
arquivos/index.htm>. Acesso em: 23 mar. 2013.

157
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

8 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
A ecologia enquanto ciência é muito dinâmica e tem, frequentemente,
provocado a reflexão sobre o comportamento humano frente ao ambiente e a
utilização de recursos naturais, como temos afirmado repetidamente ao longo
desta unidade. Seguiremos agora para um tema bastante atual: a sustentabilidade.

Tudo aquilo que é sustentável pode ser mantido em condições de equilíbrio:


os negócios, as atividades industriais, as empresas e até mesmo as residências
precisam ser sustentáveis. A compreensão dos processos como um todo possibilita-
nos efetuar as ligações entre as diversas abordagens e, portanto, perceber que estes
eventos não ocorrem isoladamente e são interdependentes.

8.1 ASPECTOS TEÓRICOS SOBRE DESENVOLVIMENTO E


SUSTENTABILIDADE
A ciência tem alertado sobre as consequências do uso inadequado dos
recursos ambientais. Neste contexto, muitas são as linhas de pensamento sobre
o que realmente importa ao desenvolvimento. A crise ambiental que vivemos,
produto do desenvolvimento, tem levado ao debate sobre as dimensões dos
problemas ambientais. Convivemos com a contaminação de recursos naturais e
alterações climáticas significativas. Surge, então, uma proposta alternativa para o
modelo de desenvolvimento: “o desenvolvimento sustentável”.

A definição da World Commission on Environment and Development


(Comissão Mundial de Ambiente e Desenvolvimento), criada em 1987, afirma
que o desenvolvimento será sustentável se atender às necessidades das gerações
presentes sem comprometer as futuras gerações. Entretanto, não esclarece quais
são os limites dessas “necessidades”, gerando uma relativa fragilidade ao conceito.

Sabemos que o desenvolvimento, no modelo atual, está vinculado à criação


incessante de necessidades que em geral refletem um consumo deliberado. Este
consumo deve nos levar à reflexão sobre o que é realmente necessário, que é a raiz
do debate sobre o tipo de desenvolvimento que se pretende estabelecer. Assim, o
termo sustentável refere-se a um sistema que apresenta estabilidade, equilíbrio e
a sua manutenção é estabelecida por um consumo compatível com a capacidade
produtiva do próprio sistema.

As questões ambientais ocupam um lugar de destaque nas discussões


econômicas e sociais e esperamos, de fato, uma mudança na condução dos
negócios das políticas públicas e sociais. Portanto, trata-se de um modelo onde
a comunidade envolvida deve participar ativamente através de programas dos
governos municipais, estaduais e federais. E, neste sentido, são necessárias
políticas públicas cujo modelo de desenvolvimento esteja sob uma perspectiva da
sustentabilidade.

158
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

UNI

Reflita sobre as expressões “fatores limitantes” e “capacidade de suporte do meio


ambiente”. O que isto tem a ver com o desenvolvimento?

8.2 DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE


O desenvolvimento sustentável envolve múltiplas dimensões que objetivam
a gestão sustentada dos recursos naturais. No quadro a seguir são apresentadas as
cinco dimensões do desenvolvimento sustentável (IBAMA, 2003):

• a dimensão social;
• a dimensão econômica;
• a dimensão ambiental (ecológica);
• a dimensão geográfica; e
• a dimensão cultural.

QUADRO 6 – DIMENSÕES DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

DIMENSÃO C OMP O N E N T E S OBJETIVOS


Criação de postos de trabalho que R e d u ç ã o d a s
permitam a obtenção de renda individual desigualdades sociais.
adequada (à melhor condição de vida; à
Sustentabilidade maior qualificação profissional).
Social Produção de bens dirigida prioritariamente
às necessidades básicas sociais.

Fluxo permanente de investimentos Aumento da produção


públicos e privados (os últimos com e da riqueza social, sem
especial destaque para o cooperativismo). dependência externa.
Manejo eficiente dos recursos.
Sustentabilidade Absorção, pela empresa, dos custos
Econômica ambientais.
Endogeneização (contar com as próprias
potencialidades de cada localidade).

159
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Sustentabilidade Produzir respeitando os ciclos ecológicos Melhoria da qualidade do


Ecológica dos ecossistemas. ambiente e preservação
Prudência no uso de recursos naturais não das fontes de recursos
renováveis. naturais para as próximas
Prioridade à produção de biomassa e gerações.
à industrialização de insumos naturais
renováveis.
Redução da intensidade energética e
aumento da conservação de energia.
Tecnologias e processos produtivos de
baixo índice de resíduos.
Cuidados ambientais.

Sustentabilidade Desconcentração espacial (de atividades E v i t a r e x c e s s o d e


Espacial/ e de população). aglomerações.
Geográfica Democratização do poder global, nacional,
local e regional.
Relação cidade/campo equilibrada.
Soluções adaptadas a cada ecossistema.

Sustentabilidade Respeito à formação cultural e organização Evitar conflitos culturais


Cultural social comunitária. com potencial regressivo.

FONTE: IBAMA, 2003. Disponível em: <http://www.ibama.gov.br/sophia/cnia/livros/


educacaoambientalegestaoparticipativaemunidadesdeconservacao.pdf>. Acesso em: 23 mar. 2013.

O detalhamento do quadro anterior nos permite observar que a dimensão


ecológica do desenvolvimento determina os próprios limites do crescimento.
Exemplificando: os resíduos gerados pelo processo de crescimento deveriam ser
absorvidos pelo próprio sistema respeitando o fluxo de matéria e energia, contudo
tais resíduos são produzidos em escalas superiores à capacidade da biosfera.
Podemos concluir que o desenvolvimento é um processo inter-relacionado e,
portanto, não pode ser considerado como o objetivo-fim, uma vez que a manutenção
da sustentabilidade só é possível quando observadas as questões econômicas,
sociais e ambientais, conjuntamente (PHILIPPI, 2005).

Quanto à dimensão social, não se pode conceber que processos produtivos


que gerem uma elevada concentração de renda, liberem grandes quantidades de
elementos contaminantes ao meio ambiente e ainda promovam a exclusão social,
segregação espacial, pobreza e condições precárias de habitabilidade, sejam
consideradas propulsores de desenvolvimento.

Assim, é necessária a valorização de características locais nos processos de


desenvolvimento, evitando a globalização nociva que incorre em uniformização/

160
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

homogeneização cultural, legitimando um desenvolvimento com a força local,


gerada pelo “capital social”.

O envolvimento da sociedade faz-se essencial. A participação na definição


de prioridades e necessidades, em planos de desenvolvimento que harmonizem o
crescimento econômico e o desenvolvimento social, em todas as suas dimensões. O
desenvolvimento sustentável ocorre somente quando são observados os elementos
que o compõem e de forma harmônica. Essas relações estão ilustradas na figura a
seguir.

Observe que para o efetivo desenvolvimento se fazem necessários o


planejamento ambiental, a definição do padrão de consumo, os programas de
administração e destinação dos resíduos sólidos que estão diretamente relacionados
a questões populacionais e à saúde pública. Para completar o fluxo são necessárias
políticas públicas eficientes que definam claramente as ações e regras.

FIGURA 63 – O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

FONTE: Adaptado de: Philippi Jr. (2005, p. 804)

8.3 CRESCIMENTO OU DESENVOLVIMENTO?


Em todas as discussões podemos perceber que as questões ambientais
estão atreladas ao “desenvolvimento” e que este é frequentemente definido pelo
“crescimento econômico”, dando forma ao equívoco conceitual.

Vejamos o que afirma Sachs (1996, apud GOMES, 2010, p. 9) sobre esta
questão:

O fato é que geramos padrões de crescimento que se traduzem pela


incorporação predatória de recursos naturais no fluxo de renda, o que
significa descapitalizar a natureza, falando em uma linguagem de
economês. E porque ao mesmo tempo ainda geramos poluições, ou seja,
tudo se passa como se o sistema de produção atual fosse um sistema
de produção de riqueza que se acompanha da reprodução ampliada da
pobreza e da exclusão social no nível da sociedade e pela degradação
ambiental. Chamar isso de desenvolvimento é muito difícil. De qualquer

161
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

maneira, o que está certo é que crescimento econômico não é sinônimo de


desenvolvimento, que não é pela aceleração do crescimento econômico
dentro do padrão passado que vamos resolver os problemas... Portanto,
a questão é como passar a um outro paradigma de desenvolvimento?

Sachs (1996) continua questionando sobre a eficiência econômica


contemplada do ponto de vista macrossocial, porque para o microempresarial
pode haver situações de alta rentabilidade, mas que se traduz em impor custos
sociais e ecológicos, e assim ele conclui que o que pode parecer muito eficiente no
patamar micro, pode ser considerado como socialmente ineficiente.

8.4 A ABORDAGEM DA SUSTENTABILIDADE NO CONTEXTO


INTERNACIONAL
Os eventos ocorridos nos últimos 20 anos, reunindo nações para discutir
os efeitos da ação humana no meio ambiente; relatórios das Nações Unidas
divulgando as mudanças ocorridas no planeta; a discussão ampla sobre o
aquecimento global, sobre a escassez da água, e a crescente necessidade de busca
de energias alternativas, são consequências de uma mudança de pensamento em
relação à manutenção de condições mínimas necessárias à sobrevivência humana
no planeta.

A partir de 1950 surgem as primeiras preocupações com o meio ambiente.


Entre as décadas de 50 e 60 o desenvolvimento da agricultura e suas consequências
sobre os ecossistemas trouxeram o debate do tema de forma mais acirrada. O
entendimento da questão sob um ponto de vista mais completo é apresentado
em 1976, com o programa de assentamentos humanos e qualidade ambiental em
habitação. A Comissão Mundial sobre Ambiente e Desenvolvimento da ONU,
em 1983, levanta a bandeira da defesa do ambiente. A Carta da Terra, produzida
durante a Rio 92, desenvolve tratados internacionais sobre como viabilizar a
desenvolvimento sustentável. Estes eventos estão relacionados no quadro a seguir.

QUADRO 7 – MARCOS DA DISCUSSÃO AMBIENTAL

ANO EVENTO MARCO


Conferência das Nações Os limites do crescimento – Criação do Programa
Unidas sobre o Meio de Meio Ambiente das Nações Unidas – UMEP.
1972
Ambiente Humano em
Estocolmo.
Sessão especial do UNEP 10 anos após a Conferência de Estocolmo.
1982
em Nairóbi.
1985 Viena. Acordo de Proteção da Camada de Ozônio.

162
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

Relatório Brundtland – "O A publicação do relatório Brundtland desencadeou


Nosso Futuro Comum" um processo de debate, que levou as Nações
– Comissão Mundial Unidas a convocar a "Conferência das Nações
1987
sobre Meio Ambiente e Unidas sobre o Ambiente e o Desenvolvimento
Desenvolvimento – WCED. (CNUMAD)", no Rio de Janeiro, para junho de
1992.

Conferência das Plano de ação sobre temas econômicos, sociais e


Nações Unidas sobre culturais de proteção ao meio ambiente – Agenda
Meio Ambiente e 21 e assinado por 150 países.
1992
Desenvolvimento – Rio de
Janeiro.
RIO-92.
Declaração de Foram assumidos desafios associados ao
Johanesburgo – desenvolvimento sustentável, à promoção dos
Rio +10 direitos das mulheres, metas para a erradicação
2002
da pobreza, a alteração de padrões de consumo e
de produção e a proteção dos recursos naturais.

2012 Rio +20.


FONTE: Adaptado de: NOBRE M.; AMAZONAS, M. de C. (Orgs.), 2002

8.5 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NO BRASIL


Considerando a ideia central do desenvolvimento sustentável, o Brasil
apresenta uma legislação ambiental avançada, se a compararmos com a de muitos
outros países. Os conceitos e critérios para o desenvolvimento sustentável, definidos
pela Agenda 21, estão presentes em grande parte dos planos de desenvolvimento
estratégicos.

A legislação ambiental regulamenta as atividades que afetam diretamente


as espécies e os ecossistemas. O objetivo é limitar a extração de recursos, a exemplo
da caça, pesca ou produtos vegetais (Lei de proteção à fauna, Lei n° 5.197/1967, e
Código Florestal, Lei n° 12.651/2012).

A implantação do Estatuto das Cidades representa um grande avanço


na determinação do tipo de desenvolvimento que se pretende para as cidades
brasileiras. O Ministério do Meio Ambiente sinaliza em seus diversos programas
a determinação do governo em direcionar, acompanhar e fiscalizar questões
ambientais.

163
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

A inclusão de políticas ambientais pode ser observada nos mais diversos


setores. A aplicação de recursos federais para a execução de obras públicas, por
exemplo, está condicionada ao atendimento de exigências quanto à manutenção do
equilíbrio entre o desenvolvimento e o ambiente, conforme padrões estabelecidos
na Agenda 21, e legislações pertinentes. Os programas para financiamento do
saneamento urbano, programas de habitação popular e até mesmo para agricultura
familiar apresentam exigências ambientais a serem cumpridas. Tais exigências são
estabelecidas também na liberação de recursos para educação e saúde.

Quando analisamos a concepção dos programas destinados ao


desenvolvimento do país (ministérios), verificamos que são abordadas as questões
do desenvolvimento social e econômico em harmonia com o meio ambiente. Além
disto, as necessidades das comunidades locais quanto aos aspectos de saúde,
educação, geração de emprego e renda, saneamento básico, também são incluídas
nesses projetos.

Infelizmente, a força da intervenção político-partidária na liberação destes


recursos resulta em muitas irregularidades que são frequentemente divulgadas
através da imprensa nacional. Quando a gestão participativa ocorre apenas para
cumprir as formalidades legais, deixamos de exercer nossa cidadania, e muitas
vezes isto acontece por indiferença ou descrenças nos processos.

9 A AGRICULTURA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL


Na agricultura, o conceito de sustentabilidade é a base para a criação de
políticas e práticas que levem a um desenvolvimento rural igualitário e seguro ao
meio ambiente. A sustentabilidade é dependente da biodiversidade e, neste sentido,
na construção de um novo modelo de produção agrícola que não esteja assentado
na uniformidade das espécies, populações e ecossistemas (GLIESSMANN, 2001).

O desenvolvimento de uma agricultura sustentável é um processo


participativo de construção coletiva e democrática. É dinâmico e envolve
perspectivas sociais, políticas, econômicas e ecológicas.

Esta mudança passa pela interrupção de um processo de produção com


intensa utilização de insumos, mecanização agrícola e um “pacote tecnológico” não
comprometido com a preservação de recursos naturais e seus efeitos socioculturais
(MARCATTO, 2007).

164
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

9.1 A AGRICULTURA MODERNA


O modelo de desenvolvimento da agricultura moderna é comprovadamente
simplificador sob o aspecto da ecologia. A base econômica é a monocultura, e este
modelo tem sido responsável por desequilíbrios ambientais e esgotamento de
recursos naturais. Suas consequências vão além e resultam no empobrecimento de
pequenos agricultores que foram excluídos do processo de crescimento econômico
(CAPORAL; COSTABEBER, 2004).

A chamada modernização da agricultura mundial foi baseada nos


princípios da intensificação e especialização, e tem como eixos a monocultura e a
produção de alimentos. Destacam-se os períodos (MARCATTO, 2007):

• 1ª Revolução Agrícola Contemporânea, nos séculos XVIII e XIX, cujo princípio


básico foi a intensificação do uso da terra.

• 2ª Revolução Agrícola Contemporânea, no final do século XIX e início do


século XX – este período caracterizou-se também por profundas modificações
na agricultura e um novo padrão de desenvolvimento e sistemas ainda mais
intensivos de produção e utilização de recursos externos, passando a depender
de máquinas e insumos agrícolas produzidos pela indústria etc.
• A “Revolução Verde” caracterizou-se pela adoção de um “pacote tecnológico”
envolvendo mecanização agrícola, irrigação, variedades geneticamente
modificadas e insumos agrícolas (pesticidas/agrotóxicos), muito exigentes em
capital, poupadoras de mão de obra, e altamente dependentes de recursos
externos à propriedade.

Considerando que 85% das propriedades rurais brasileiras apresentam


áreas menores que 100 ha, e grande parte ocupada pela agricultura familiar, com
características de produção muito diferentes daquelas exigidas pelas tecnologias da
Revolução Verde, a decisão do governo brasileiro em adotar o “pacote tecnológico”
aumentou as diferenças sociais no campo e trouxe ainda consequências ambientais,
tais como a erosão de solos, contaminação da água por agrotóxicos e adubos
químicos, aumento no número de pragas e doenças, destruição de hábitats naturais,
erosão genética e aumento da instabilidade econômica e social nas comunidades
de agricultores familiares (GLIESSMANN, 2001).

165
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

9.2 AGRICULTURA TRADICIONAL


Os sistemas agrícolas tradicionais, aqueles instalados em pequenas
propriedades e que não foram tão fortemente influenciados pelo modelo da
moderna agricultura, revelam um sistema de produção menos agressivo ao meio
ambiente.

Uma maior biodiversidade é a característica marcante nos sistemas


tradicionais. Apresentam atividades agroflorestais, rotação de culturas, culturas
intercalares, a fruticultura e criação de animais. Todas essas atividades reunidas
fortalecem a ideia de uma agricultura multifuncional.

Manejar sistemas agrícolas do ponto de vista da conservação da
biodiversidade, assim como de uma produção sustentável, pode incrementar
a capacidade de uso múltiplo da agricultura, provendo benefícios tais como o
aumento da produção, a estabilidade do sistema, um eficiente manejo de pragas e
doenças e conservação do solo (LIMA; WILKINSON, 2002).

Atualmente, a combinação de atividades agrícolas e não agrícolas representa


a possibilidade de complementação de renda de famílias rurais. Conhecemos
também propriedades que são utilizadas para o turismo rural. Somando-se a
atividade de turismo encontramos uma diversidade de produtos regionais cuja
comercialização proporciona um maior rendimento total da propriedade. Este
processo é conhecido por pluriatividade e pode ser aplicado de forma criativa no
desenvolvimento rural sustentável.

9.3 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL


Na agricultura o conceito de sustentabilidade é a base para a criação de
políticas e práticas que levem a um desenvolvimento rural igualitário e seguro
ao meio ambiente. Pode abrigar diferentes concepções políticas e propostas de
desenvolvimento.

A “Agricultura Sustentável pode ser definida como uma agricultura


ecologicamente equilibrada, economicamente viável, socialmente justa, humana
e adaptativa”. (REIJNTJES et al., 1992 apud MARCATTO, 2007, p. 6). Neste
sentido, a sustentabilidade depende da diversidade cultural e biológica e implica a
construção de um novo modelo de produção que não se assente na uniformidade
cultural e biológica.

O processo de desenvolvimento de uma agricultura mais sustentável exige


a participação de um grande número de atores envolvidos em um processo de
aprendizado constante. Um processo de construção coletiva e democrática, com
a participação ativa de agricultores, pesquisadores, professores, extensionistas,
políticos e consumidores, por exemplo.

166
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

Certamente não há um “pacote” a ser aplicado, pois a realidade é


dinâmica para permitir a existência de uma receita para a sustentabilidade.
Existem tecnologias de baixo custo e baixo uso de insumos que são promissoras e
provavelmente serão importantes no processo de desenvolvimento da agricultura
sustentável.

As tecnologias da agricultura sustentável devem ser específicas para cada


sistema e cujas alternativas sejam geradas pelas partes envolvidas e alicerçadas
nas condições e potencialidades locais.

Portanto, o desenvolvimento de uma agricultura sustentável deve ser visto


como um processo complexo e dinâmico e que envolva as perspectivas sociais,
políticas, econômicas, culturais e ecológicas.

• AGROECOLOGIA

A agroecologia apresenta princípios aplicáveis aos sistemas agrícolas que


asseguram a sustentabilidade econômica, ecológica, social, cultural, política e ética
e como resultado promove transformações significativas para o desenvolvimento
rural sustentável.

Apresentamos a seguir alguns conceitos sobre a agroecologia elaborados


por pesquisadores reconhecidos internacionalmente.

É a ciência ou a disciplina científica que apresenta uma série de


princípios, conceitos e metodologias para estudar, analisar, dirigir, desenhar
e avaliar agroecossistemas, com o propósito de permitir a implantação
e o desenvolvimento de estilos de agricultura com maiores níveis de
sustentabilidade. A agroecologia proporciona então as bases científicas para
apoiar o processo de transição para uma agricultura “sustentável” nas suas
diversas manifestações e/ou denominações.

FONTE: Disponível em: <http://www.com.ufv.br/emviagem/wp-content/uploads/2010/08/clico-


construtivo-da-agroecologia.jpg>. Acesso em: 27 mar. 2013.

Agroecologia caracteriza-se pela desconstrução das formas de produção


que causam degradação social e ecológica e da sua construção ou reconstrução,
dentro do paradigma da sustentabilidade:

Portanto, a Agroecologia nos traz a ideia e a expectativa de uma nova


agricultura, capaz de fazer bem aos homens e ao meio ambiente como
um todo, afastando-nos da orientação dominante de uma agricultura
intensiva em capital, energia e recursos naturais não renováveis,
agressiva ao meio ambiente, excludente do ponto de vista social e
causadora de dependência econômica. (GLIESSMANN, 2001, p. 142).

Segundo Caporal e Costabeber (2004, p. 13):

167
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

A Agroecologia tem sido reafirmada como uma ciência ou


disciplina científica, ou seja, um campo de conhecimento de caráter
multidisciplinar que apresenta uma série de princípios, conceitos e
metodologias que nos permitem estudar, analisar, dirigir, desenhar e
avaliar agroecossistemas. Os agroecossistemas são considerados como
unidades fundamentais para o estudo e planejamento das intervenções
humanas em prol do desenvolvimento rural sustentável. Nestas
unidades geográficas e socioculturais é que ocorrem os ciclos minerais,
as transformações energéticas, os processos biológicos e as relações
socioeconômicas, constituindo o lócus onde se pode buscar uma análise
sistêmica e holística do conjunto destas relações e transformações. Em
essência, o Enfoque Agroecológico corresponde à aplicação de conceitos
e princípios da Ecologia, da Agronomia, da Sociologia, da Antropologia,
da Ciência da Comunicação, da Economia Ecológica e de tantas outras
áreas do conhecimento, no redesenho e no manejo de agroecossistemas
que queremos que sejam mais sustentáveis através do tempo.

A figura a seguir apresenta o ciclo construtivo da agroecologia. Este


ciclo refere-se à evolução do processo produtivo envolvendo as dimensões da
sustentabilidade, onde podemos observar a conservação dos recursos naturais, o
envolvimento social e político e o efetivo desenvolvimento.
FIGURA 64 – CICLO CONSTRUTIVO DA AGROECOLOGIA

FONTE: Disponível em: <http://www.com.ufv.br/emviagem/wp-content/uploads/2010/08/clico-construtiv


o-da-agroecologia.jpg>. Acesso em: 23 mar. 2013.

168
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

O processo de transição para uma produção agroecológica pode ser


gradual e gerar transformação das bases produtivas da agricultura. Vimos que
apresenta característica multidisciplinar e, por outro lado, recebe influências do
saber popular como fonte de estudo para o conhecimento científico.

Outras possibilidades de adoção de processos intermediários com redução


dos impactos negativos sobre o meio ambiente são possíveis. Mesmo em áreas
destinadas ao monocultivo pode haver a adoção de práticas que reduzam os
impactos ambientais negativos da uniformização. Uma agricultura de base ecológica
simplificada pode ajudar na redução desses impactos e mesmo na participação em
mercados de nicho, onde a substituição de agroquímicos e fertilizantes sintéticos é
suficiente (EMBRAPA, 2006).

• EMBRAPA – UM MARCO REFERENCIAL EM AGROECOLOGIA

A Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – é o principal


agente de disseminação de tecnologias para o campo no Brasil. Em seu documento
Marco Referencial em Agroecologia, a empresa apresenta informações importantes
com o objetivo de consolidar a institucionalização do conceito de agroecologia,
visando cumprir sua missão de viabilizar soluções para o desenvolvimento
sustentável no espaço rural.

Os conceitos apresentados foram inspirados no próprio funcionamento
dos ecossistemas naturais, no manejo tradicional e indígena dos agroecossistemas
e no conhecimento científico.

Neste documento são apresentados dados da agricultura no Brasil que nos


levam à reflexão sobre o modelo produtivo até então adotado pelo país.

Aproximadamente 37% dos produtos exportados são oriundos da


agropecuária. Apesar da importante geração de divisas e equilíbrio da balança
comercial, o aumento das exportações tem sido acompanhado de impactos sobre
os ecossistemas e populações rurais. A redução das áreas naturais dos Campos
Sulinos, da Mata Atlântica e Cerrados e, mais recentemente, a entrada da fronteira
agrícola na Amazônia Legal são exemplos dos riscos inerentes deste setor e da
necessidade urgente de se estabelecer novas abordagens desta realidade.

Neste sentido, a agroecologia se propõe a desenhar e manejar


agroecossistemas sustentáveis e construir estratégias de desenvolvimento rural
sustentável englobando as dimensões ecológicas, sociais, culturais e econômicas.
Pode-se afirmar ainda que a agroecologia serve à sociedade como um todo, às
gerações atuais e futuras, aos atores do mundo rural e urbano. (EMBRAPA, 2006).

Produzir, comercializar e consumir alimentos são atividades com profundo


conteúdo ético e político que dizem respeito não apenas aos agricultores, mas
a todos. É uma questão para toda a sociedade, com sérias implicações para as
gerações futuras.

169
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Ao encontro desse conceito, a Embrapa pretende trabalhar passos da


Transição Agroecológica em todos os setores produtivos, tendo como público
preferencial para a Agroecologia os agricultores familiares, os assentados da
reforma agrária, as populações tradicionais, as comunidades indígenas e as
comunidades afrodescendentes, além dos consumidores rurais e urbanos.

9.4 AGRICULTURA FAMILIAR


A inclusão do tema agricultura familiar neste tópico se deve ao fato de que
esta é uma atividade essencial ao desenvolvimento sustentável no ambiente rural
e até mesmo urbano, nos chamados “cinturões verdes” das grandes cidades.

Em geral, são pequenos agricultores que conseguem desenvolver sistemas


complexos com adaptações locais, sustentabilidade e satisfação de necessidades,
sem depender obrigatoriamente de mecanização ou tecnologias modernas. Esta
sustentabilidade é explicada por apresentar características que lhes são peculiares:
são pequenas áreas, com alta diversidade, uso de recursos locais e menor
dependência de insumos externos. Podem apresentar elevados rendimentos,
considerando a produtividade total, onde há reciclagem de materiais e nutrientes
em processos ecológicos naturais e apresentam um cultivo diversificado e alta
variabilidade genética (LIMA; WILKINSON, 2002).

A agricultura familiar, por suas características produtivas, apresenta


melhores possibilidades para a adoção de sistemas de produção com bases
ecológicas. As exigências alimentares e econômicas das famílias resultam no
cultivo de um número maior de espécies numa mesma área e incluem ainda a
criação de animais.

Convém esclarecer que existem casos de maiores desequilíbrios em


menores propriedades. Entretanto, esta questão parece estar relacionada com a
falta de acesso à terra, empobrecimento de pequenos agricultores, falta de acesso
ao crédito e assistência técnica.

Dessa forma, o conjunto de instrumentos de política pública, que envolve


desde a reforma agrária até o crédito, a extensão rural e a educação do campo, é
essencial para garantir que os agricultores familiares ampliem suas potencialidades
na realização de suas funções de preservação ambiental.

Muitas pessoas das grandes cidades estão resgatando hábitos de vida mais
saudáveis e isso inclui o uso de alimentos sem agrotóxicos, produzidos de forma
artesanal e matéria-prima com menor processamento industrial. Isto representa a
criação de um nicho de mercado.

Apesar das dificuldades no campo, a agricultura familiar é uma das maiores


geradoras de trabalho no meio rural, pois também promove melhoria social no
campo, além de ter a vocação de produzir e consumir o que faz. Assim, a agricultura

170
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

familiar é responsável pela busca de um novo paradigma de desenvolvimento que


é um componente cultural do modo de vida rural.

9.5 POLÍTICAS PÚBLICAS


As atuais políticas públicas de desenvolvimento territorial sustentável
estão baseadas em princípios estabelecidos por recomendações internacionais,
entre elas as metas para o novo milênio da ECO-92 representadas pelas orientações
da Agenda 21 e que têm por objetivo a redução da pobreza, combater a exclusão
social e diminuir as desigualdades sociais e regionais (BEZERRA; MUNHOZ,
2000).

As iniciativas visam o desenvolvimento rural sustentável e passam pela


reforma agrária, formação de profissionais, assistência técnica e o Plano Nacional
de transição agroecológica.

No Ministério do Desenvolvimento da Agricultura, a Secretaria para


o Desenvolvimento da Agricultura Familiar estabelece diretrizes para o
fortalecimento da agricultura familiar.

A liberação de crédito, através do PRONAF, foi fator determinante para


que a agricultura familiar representasse, em 2003, 10,1% do PIB, segundo dados
do FIPE.

Contraditoriamente, o maior volume de recursos do crédito agrícola é


aplicado em monoculturas que representam a produção de grãos responsáveis pelo
equilíbrio da balança comercial. O agronegócio ainda é o objetivo-fim das políticas
públicas, apesar da existência de programas específicos para o desenvolvimento
sustentável.

Estão previstos também o apoio técnico e financeiro para implantação,


ampliação, modernização e racionalização da infraestrutura necessária ao
fortalecimento da agricultura familiar, mediante a realização de obras públicas.

O programa de Zoneamento Ecológico-Econômico – ZEE tem sido uma


proposta do governo brasileiro para subsidiar as decisões de planejamento social,
econômico e ambiental do desenvolvimento e do uso do território nacional em
bases sustentáveis (MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO, 2012).

171
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

LEITURA COMPLEMENTAR

AGROECOLOGIA: A DINÂMICA PRODUTIVA DA AGRICULTURA


SUSTENTÁVEL

Miguel Altieri

O pesquisador Miguel Altieri é um estudioso renomado do tema


agricultura multifuncional. A leitura a seguir oferece informações complementares
e também conclusivas sobre o desenvolvimento sustentável no meio rural. Você
terá a oportunidade de verificar que existem estratégias de controle de populações
que podem ser aplicadas no manejo da produção agrícola e poderá relacionar
seus conhecimentos de ecologia com as possibilidades de aplicações práticas na
agricultura.

Em seus trabalhos, Altieri apresenta uma definição para a agricultura


multifuncional como sendo aquela que, além da produção de alimentos e fibras,
produz uma quantidade de bens públicos para a sociedade, incluindo a segurança
alimentar, o equilíbrio ecológico, a redução de efeitos ambientais negativos,
preservação da terra, funções econômicas múltiplas, função social e valores
culturais.

Segundo o autor, os sistemas tradicionais de produção multifuncional são


responsáveis por cerca de 20% da produção de alimentos do mundo.

Ele apresenta exemplos na América Latina de áreas cultivadas por indígenas


cujas características de produção têm apresentado rendimentos sustentáveis. São
agroecossistemas que asseguram fontes diversas de alimentos, produção estável,
riscos mínimos e uso eficiente dos recursos da terra. Estes enfoques representam
estratégias de uso múltiplo que incrementam a multifuncionalidade da agricultura.

Estas interações positivas são encontradas também na América Central. A


preservação de bosques representa manutenção de espécies importantes para o
comércio e ainda constituem barreira natural para os cultivos atuando contra a
disseminação de doenças e pragas.

Manejar paisagens agrícolas do ponto de vista de conservação da


biodiversidade, assim como também da produção sustentável, pode incrementar
a capacidade de uso múltiplo da agricultura, provendo assim vários benefícios de
forma simultânea:

• Aumento da produtividade agrícola.


• Melhor manejo de pragas e doenças.
• Conservação e aumento da fertilidade do solo.

Por outro lado, agrega valor econômico aos produtos, reduz riscos às
comunidades, aumenta a eficiência do uso dos recursos locais, reduz a pressão

172
TÓPICO 1 | BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO

da agricultura sobre áreas frágeis, diminui a dependência de insumos externos e


aumenta o valor nutritivo da produção.

Em agroecossistemas simplificados, a ocorrência de pragas é mais evidente.


A redução da diversidade cria instabilidade e surgem problemas com insetos e
pragas, vinculados à expansão de monoculturas.

Onde a vegetação nativa é mantida ao redor de áreas cultivadas e em


associação com outras culturas, o manejo de pragas e o controle populacional
de insetos são obtidos pela manutenção ou aumento da biodiversidade. Nestes
casos verificam-se o controle biológico, a presença de plantas hospedeiras e
especialmente inimigos naturais.

No Chile, algumas experiências foram relevantes. Foram utilizadas práticas


de conservação de solo para controlar a erosão e restaurar a fertilidade de solos
degradados. Técnicas de plantio em linhas de contorno, respeitando a declividade
do terreno, o uso de um sistema adequado de drenagem, métodos orgânicos
de fertilização e culturas intercalares com leguminosas fixadoras de nitrogênio
e adubação verde. Estas práticas levaram a um aumento em até três vezes da
produção de grãos por hectare. Este aumento de produção provocou mudanças
econômicas e sociais na comunidade local.

No Brasil existem algumas iniciativas agroecológicas. A Epagri, junto com


agricultores de Santa Catarina, implantou tecnologias para conservação do solo e
microbacias com a utilização de adubação verde e barreiras físicas. Estão utilizando
mais de 60 espécies de plantas para cobertura do solo. Como resultado, os solos
já apresentam coloração mais escura, mais úmidos e maior atividade biológica.
Este trabalho evidencia a importância da manutenção da cobertura do solo para
prevenir a erosão e com custo reduzido, no caso, apenas compra de sementes.

No cerrado, onde a soja é monocultura dominante, os problemas associados


ao manejo inadequado do solo se fazem mais evidentes. A adoção da rotação de
cultura milho-soja tem aumentado os rendimentos, diminuído a erosão do solo e
os problemas de pragas típicos que afetam o monocultivo da soja.

Sistemas integrados de produção em Cuba, junto à Associação Cubana de


Agricultura Orgânica (ACAO), tiveram o papel de promover módulos de produção
alternativa, mediante o uso integrado de práticas e tecnologias de manejo agrícola.
Cada componente de cultivo reforça biologicamente os outros componentes.
Reflorestamentos, rotação de culturas, culturas intercaladas, adubação verde
são práticas que estão conduzindo a um aumento de produção e biodiversidade
e, ainda, melhorias na qualidade do solo, especialmente o conteúdo de matéria
orgânica.

A agroecologia estimulou várias organizações não governamentais e outras


instituições na busca de estratégias agrícolas de gestão de recursos para melhorar
a produtividade de pequenas propriedades. Há vários exemplos de produtores
rurais adotando projetos de desenvolvimento que incorporam o conhecimento
173
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

moderno e a ciência agrícola tradicional com a implantação de sistemas como


policultivos, sistemas agroflorestais, culturas consorciadas etc.

O CET – Centro de Educação e Tecnologia no Chile tem um programa


de desenvolvimento destinado a atender aos pequenos agricultores, ajudando
a alcançarem a autossuficiência alimentar durante o ano todo e a reconstruir a
capacidade produtiva de suas pequenas fazendas. O enfoque é incluir a rotação
espacial e sequencial de culturas, forragens, verduras, árvores frutíferas e florestais
e ainda a criação de pequenos animais domésticos. Os componentes são escolhidos
conforme as contribuições nutritivas dos cultivos, sua adaptação, as condições
climáticas locais, hábitos e consumo e também oportunidade de mercado.

Outra contribuição importante foi conseguir recuperar e manter a


diversidade genética de tipos silvestres de batatas.

As pesquisas conduzidas na América Latina sugerem que os sistemas de


produção em pequena escala são sustentavelmente produtivos, biologicamente
regenerativos e energeticamente eficientes e tendem a melhorar a qualidade,
participação e a ser socialmente justos. São práticas que provocam degradação
mínima dos solos e mantêm a diversidade genética. Manejam um sistema de uso
múltiplo natural, obtendo variedade de produtos. Esta dimensão multifuncional é
traduzida em produção, benefícios ambientais econômicos e socioculturais, o que
ressalta o papel da agricultura familiar como ponta de lança em uma estratégia
de desenvolvimento rural sustentável. A ideia é destacar o valor da agricultura
tradicional para a conservação da agrobiodiversidade, já que este modo de
apropriação da natureza melhora a multifuncionalidade da agricultura.

O desafio está em elevar a produtividade em sistemas agroecológicos,


fazer uma transição com bases científicas, ter disponível uma rede de referências,
profissionais capacitados e um programa adequado para as especificidades locais.

FONTE: Adaptado de ALTIERI, Miguel. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura


sustentável. 4. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004.

174
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, vimos que:

• A biologia da conservação é uma ciência indispensável quando se visa conservar


a biodiversidade mundial.

• A biodiversidade ou diversidade biológica é muito mais do que simplesmente


o número de espécies existentes. Ela envolve ainda a diversidade genética e
ecológica.

• As principais ameaças à biodiversidade são resultado das atividades humanas,


sendo que se pode destacar a perda de habitat como um dos mais severos
impactos.

• A conservação e a preservação são diferentes estratégias utilizadas na busca pela


manutenção da biodiversidade mundial.

• A conservação pode ser feita basicamente de duas formas: no próprio ambiente


natural da espécie (conservação in situ) ou, quando isso não é possível, em
outros lugares que buscam reproduzir o ambiente natural (conservação ex situ).

• Atualmente tem-se utilizado da estratégia da valoração econômica da


biodiversidade para tentar sensibilizar a humanidade da sua importância.

• Frente a todo o panorama conhecido, busca-se atualmente a modificação de


pensamento e atitudes frente ao meio ambiente, visando ao desenvolvimento
sustentável.

175
AUTOATIVIDADE

1 Atualmente, a ciência ecologia tem se preocupado com outras questões


além de conhecer os padrões e processos ecológicos naturais. Isso se deve à
verificação de que talvez não dê tempo de conhecê-los antes que o ser humano
degrade o nosso planeta ao ponto deles deixarem de acontecer. Essa área de
estudo é conhecida como biologia da conservação. Dentro dessa área temos
os conceitos de preservação e conservação. Busque um exemplo para cada
um deles.

2 Conforme vimos ao longo do tópico, a conservação da biodiversidade pode


ser realizada através dos métodos in situ e ex situ. Qual é a diferença entre
esses dois métodos?

3 Cada vez mais se tem buscado estabelecer uma forma de desenvolvimento


da sociedade que degrade o menos possível a biodiversidade mundial. A essa
busca dá-se o nome de desenvolvimento sustentável. O que é necessário para
se alcançar esse modelo de desenvolvimento?

Assista ao vídeo de
resolução da questão 2

176
UNIDADE 3
TÓPICO 2

CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

1 INTRODUÇÃO
Vimos até aqui a importância da biodiversidade para a manutenção dos
padrões e processos ecológicos naturais; as pressões cada vez mais intensas que
têm extinguido ou colocado sob risco de extinção muitas espécies; e os esforços
que têm sido feitos para avaliar a verdadeira riqueza de espécies existentes em
nosso planeta e a mais eficaz e rápida forma de frear/impedir o ritmo atual de
avanço dos ambientes urbanos sobre os ambientes naturais.

Infelizmente, a proteção real e formal da biodiversidade só foi conseguida


até o momento para cerca de 5% da Terra. Isso ocorre em grande parte porque a
biodiversidade tende a se concentrar em terras férteis de planície, onde as pessoas
relutam em destinar ao uso de outras espécies (TERBORGH et al., 2002).

A obrigação moral de dividir o planeta com as outras formas de vida tem


sido reconhecida por no mínimo 80% dos governos do mundo através da criação de
áreas protegidas legalmente constituídas, em grande parte onde a presença humana
não é permitida. Entre os motivos está o fato de que estudos têm demonstrado
que os seres humanos, mesmo em pequeno número, são incompatíveis com a
persistência de mega-herbívoros e carnívoros de topo de cadeia, dois grupos de
animais que estão entre os mais cruciais para a manutenção do funcionamento
normal dos ecossistemas. Quando essas espécies estão ausentes, a extinção em
cascata ocorre, resultando na aceleração de extinções e em colapso do ecossistema,
conduzindo-o para um estado mais simples e empobrecido. De fato, em muitos
países os parques e outras áreas protegidas são tudo o que sobrou dos habitats
naturais e da fauna nativa (TERBORGH et al., 2002).

Assim, Terborgh et al. (2002) comentam que os esforços para conservar
a biodiversidade enfrentam dois desafios principais que consistem em destinar
mais áreas para a proteção da biodiversidade; e proteger adequadamente as terras
dedicadas à conservação da biodiversidade de um conjunto de forças destrutivas,
algumas ilegais, mas muitas legais.

Sendo assim, nosso intuito a partir de agora é discorrer sobre as diferentes


formas que têm sido propostas para conservar a biodiversidade utilizando como
aliado o arcabouço jurídico. Discutiremos, portanto, as diferentes terminologias
utilizadas, as diferentes categorias propostas e as formas como a relação entre o

177
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

homem e os outros seres vivos são entendidas pelos defensores dessas diferentes
alternativas. Vamos lá?

2 DEFININDO CONCEITOS
Antes de iniciarmos a nossa discussão propriamente dita, precisamos
elucidar e diferenciar três conceitos que são amplamente utilizados como sinônimo,
mas que possuem significados distintos: os espaços territoriais especialmente
protegidos; as áreas protegidas; e as unidades de conservação.

O termo espaços territoriais especialmente protegidos é citado na


Constituição Federal de 1988, onde, ao longo da sua redação, consta que é dever da
União “definir espaços territoriais a serem especialmente prote­gidos, de alteração
e supressão permitidas somente por meio de lei” (PEREIRA e SCARDUA, 2008, p.
15). Pereira e Scardua (2008, p. 17), utilizando diversos autores que tratam sobre
essa temática, chegam ao conceito de que os espaços territoriais especialmente
protegidos são “espaços, públicos ou privados, criados pelo poder público e que
conferem proteção especial ao meio ambiente, tomado este em sua acepção mais
ampla, de modo a incluir o aspecto cultural do meio ambiente”.

Utilizando esse conceito, podem ser considerados nesse contexto: 1) as


unidades de conservação; 2) as áreas destinadas às comunidades tradi­cionais,
quais sejam, as terras indígenas e os territórios quilombolas; 3) as áreas tombadas;
4) os monumentos arqueológicos e pré-históricos; 5) as áreas especiais e locais de
interesse turístico, destinados à prática do ecoturismo; 6) as reservas da biosfera; 7)
os corredores ecológicos; 8) as zonas de amortecimento; 9) os espaços protegidos
constitucionalmente como patrimônio nacional, a Floresta Amazônica, a Mata
Atlântica, a Serra do Mar, a Zona Costeira e o Pantanal Mato-grossense; 10) as
áreas de proteção especial, destinadas à gestão ambiental urbana; 11) os jardins
botânicos; 12) os hortos florestais; 13) os jardins zoológicos; 14) as terras devolutas
e arrecadadas, necessárias à proteção dos ecossistemas naturais; 15) as áreas de
preservação permanente e as reservas legais, previstas no Código Florestal; e, por
fim, 16) os megaespaços ambientais, protegidos também pelas seguintes normas
internacionais: a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, o Tratado
da Bacia do Prata, o Tratado de Cooperação Amazônica, a Convenção Relativa a
Zonas Úmidas de Importância Internacional e a Convenção Relativa à Proteção
do Patrimônio Mundial Cultural e Natural (PEREIRA, 2006 apud PEREIRA e
SCARDUA, 2008).

Já a expressão áreas protegidas é citada no artigo 2º da Convenção da


Diversidade Biológica (CDB), significando “uma área definida geograficamente
que é destinada, ou regulamentada, e adminis­trada para alcançar objetivos
específicos de conservação”. Ainda, nessa mesma convenção fica definido que,
apesar da finalidade de conservação para as áreas protegidas, não é necessário
que elas tenham sido criadas com esse intuito para serem tratadas como tal.

178
TÓPICO 2 | CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

Como exemplo, podem ser citadas as áreas de preservação permanente (APP) e as


reservas legais (RL) (PEREIRA e SCARDUA, 2008).

Seguindo o discutido durante a CDB, o Ministério do Meio Ambiente, em


2006, elaborou o Plano Estratégico Nacional de Áreas Protegidas (PNAP), definindo
que os seguintes espaços territoriais especial­mente protegidos deveriam integrar as
áreas protegidas, em cumprimento à CDB: áreas terrestres e marinhas do Sistema
Nacional de Unidades de Conservação (veja conceito a seguir), as terras indígenas,
os territórios quilombolas, as áreas de preservação permanente e as reservas
legais, essas duas últimas possuindo a função estratégica de conectividade entre
fragmentos naturais e as próprias áreas protegidas (BRASIL, 2006 apud PEREIRA
e SCARDUA, 2008).

Por fim, são consideradas unidades de conservação as áreas constantes no


Sistema Nacional de Unidades de Conservação, a Lei do SNUC, criada em 2000.
Segundo essa legislação, uma unidade de conservação é

o espaço territorial e seus recursos ambien­tais, incluindo as águas


jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente
instituído pelo poder público com objetivos de conservação e limites
definidos, sob regime especial de administração ao qual se aplicam
garantias adequadas de proteção (BRASIL, 2000).

Para tentar elucidar melhor o descrito acima, vejamos a representação


esquemática de Espaços Territoriais Especialmente Protegidos (ETEP), Áreas
Protegidas (AP) e Unidades de Conservação (UC).

FIGURA 65 – ÁREAS PROTEGIDAS

FONTE: Adaptado de: Pereira e Scardua (2008)

179
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Dessa forma, poderíamos dizer que os espaços territoriais especialmente


protegidos são todas as áreas criadas pelo poder público e que conferem proteção
especial ao meio ambiente, mesmo aquelas não protegidas por lei específica. Já as
áreas protegidas englobam aquelas em que há uma legislação que regulamenta o
seu uso e, por fim, as unidades de conservação são aquelas contidas na lei do SNUC.
Sendo assim, toda unidade de conservação é considerada uma área protegida, mas
nem toda área protegida é uma unidade de conservação. O mesmo se aplica relação
às áreas protegidas e os espaços territoriais especialmente protegidos. Toda área
protegida é considerada um espaço territorial especialmente protegido, mas nem
todo o espaço territorial especialmente protegido é uma área protegida.

NOTA

Apesar da diferenciação dada aqui em nosso caderno, o uso dos conceitos


discutidos ainda é bastante confuso. Alguns autores ignoram a existência do termo espaços
territoriais especialmente protegidos e diferenciam apenas as áreas protegidas e as
unidades de conservação. Outros utilizam o termo área protegida como sinônimo de
unidade de conservação. O uso correto da nomenclatura está em constante debate no
campo do direito ambiental e não apresenta sinais de logo acabar. Aqui apresentamos essa
diferenciação para que você perceba e preste atenção sempre que esses termos forem
utilizados na literatura, pois dois trabalhos podem utilizar um mesmo termo para se referir a
diferentes conceitos.

3 ESTABELECIMENTO DE ÁREAS PROTEGIDAS


Para efeitos desse caderno consideraremos como áreas protegidas as
reservas da Biosfera, as áreas de preservação permanente (APP), as reservas legais
(RL), as unidades de conservação (UC), os corredores ecológicos e os mosaicos
de unidades de conservação. No entanto, como as unidades de conservação, as
reservas da biosfera e os corredores ecológicos estão previstos em uma legislação
à parte (Lei nº 9.985/2000), os discutiremos em um próximo momento, focando
primeiramente as áreas de preservação permanente (APP) e as reservas legais (RL).

Ao falarmos sobre essas duas categorias de áreas protegidas é indispensável


lançar um olhar sobre o novo Código Florestal Brasileiro (Lei nº 12.651/2012), visto
que a partir da sua publicação houve mudança de conceitos e de abrangência.
Assim, no decorrer de nossas explicações faremos menção constante a essa lei.

180
TÓPICO 2 | CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

3.1 ÁREAS DE PROTEÇÃO PERMANENTE – APP


As áreas de preservação permanente são originalmente áreas naturais
intocáveis, com rígidos limites de exploração, onde não é permitida a exploração
econômica direta. No entanto, os órgãos ambientais podem autorizar o uso e até
o desmatamento de área de preservação permanente rural ou urbana, desde que
comprovem as hipóteses de utilidade pública, interesse social do empreendimento
ou baixo impacto ambiental.

De acordo com o Código Florestal vigente (Lei nº 12.651/12), é considerada


área de proteção permanente a
área protegida, coberta ou não por vegetação nativa, com a função
ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade
geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e flora,
proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas. (Art.
2º)

Especificamente, para as áreas a serem protegidas sob essa categoria de


proteção e que se encontram às margens dos cursos d’água, as conhecidas matas
ciliares, o Código Florestal determina o seguinte:

Áreas de Proteção Permanente em cursos d'água


Rios com menos de 10 m 30 m
Rios entre 10 m e 50 m 50 m
Rios entre 50 m e 200 m 100 m
Rios entre 200 m e 600 m 200 m
Rios com 600 m ou mais 500 m
Nascentes e olhos d'água raio de 500 m
Lagos e lagoas naturais em zona urbana 30 m
100 m, exceto para corpos d´água
Lagos e lagoas naturais em zona rural com até 20 ha, cujas faixas serão de
50 m
Faixa definida na licença do
empreendimento, exceto em casos
Reservatórios artificiais
que não decorram de barramento ou
represamento
Manguezais Protegidos em toda a sua extensão
Restingas Protegidas

181
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Entre as mudanças introduzidas pelo Código atual, com relação a esse


tipo particular de APP, está a de que, embora tenham sido mantidas as mesmas
distâncias do Código revogado (Lei 4.771/1965), ele inicia a medida a partir da
calha regular (isto é, o canal por onde correm regularmente as águas do curso
d'água durante o ano) dos rios e não mais a partir do leito maior (a largura do rio
ao considerar o seu nível mais alto, isto é, o nível alcançado por ocasião da cheia
sazonal). Isto significou uma efetiva redução dos limites das APPs às margens de
cursos d'água, uma vez que a nova medida ignora as épocas de cheias dos rios.
Dado que o regime fluvial varia ao longo do ano, a calha será menor nos meses
secos que nos meses chuvosos (SITE OECO, 2013). Perceba na figura a seguir o
infográfico demonstrando a diferença entre a área a ser preservada de acordo com
o Código Florestal vetado e o novo Código Florestal.

FIGURA 66 – INFOGRÁFICO

FONTE: Site Jornal do Campus. Disponível em: <http://www.jornaldocampus.usp.br/index.


php/2012/04/professores-afirmam-que-novo-codigo-florestal-ameaca-biomas/>. Acesso em:
20 set. 2014.

Ainda segundo o Código Florestal atual (2012), no seu art. 4º, são áreas de
preservação permanente:

V - as encostas ou partes destas com declividade superior a 45°, equivalente a


100% (cem por cento) na linha de maior declive;

VIII - as bordas dos tabuleiros ou chapadas, até a linha de ruptura do relevo, em


faixa nunca inferior a 100 (cem) metros em projeções horizontais;

182
TÓPICO 2 | CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

IX - no topo de morros, montes, montanhas e serras, com altura mínima de


100 (cem) metros e inclinação média maior que 25°, as áreas delimitadas a
partir da curva de nível correspondente a 2/3 (dois terços) da altura mínima
da elevação sempre em relação à base, sendo esta definida pelo plano
horizontal determinado por planície ou espelho d'água adjacente ou, nos
relevos ondulados, pela cota do ponto de sela mais próximo da elevação;

X - as áreas em altitude superior a 1.800 (mil e oitocentos) metros, qualquer que


seja a vegetação;

XI - em veredas, a faixa marginal, em projeção horizontal, com largura mínima


de 50 (cinquenta) metros, a partir do espaço permanentemente brejoso e
encharcado.

Além das áreas descritas acima, ainda podem ser consideradas nesta
categoria, quando assim declaradas de interesse social por ato do chefe do Poder
Executivo, as áreas cobertas com florestas ou outras formas de vegetação destinadas
à contenção da erosão do solo e mitigação dos riscos de enchentes e deslizamentos
de terra e de rocha; à proteção a restingas ou veredas; à proteção de várzeas; ao
abrigo de exemplares da fauna ou da flora ameaçados de extinção; proteção de
sítios de excepcional beleza ou de valor científico, cultural ou histórico; formar
faixas de proteção ao longo de rodovias e ferrovias; assegurar condições de bem-
estar público; auxiliar a defesa do território nacional, a critério das autoridades
militares; proteger áreas úmidas, especialmente as de importância internacional
(art. 6º) (SITE OECO, 2013).

Segundo o novo Código, é permitida a supressão de vegetação em APPs


nos casos em que a área for declarada de utilidade pública, de interesse social
ou ainda de baixo impacto ambiental. Já em propriedades familiares é permitida
a cultura temporária e sazonal em terra de vazante, desde que não haja novos
desmatamentos. Por fim, a recomposição das propriedades consolidadas só é
obrigatória em caso de áreas alagadas, inclusive em pequenas propriedades (SITE
OECO, 2013).

NOTA

É denominada de propriedade consolidada aquela ocupada com atividades


agrossilvopastoris anteriores a 22 de julho de 2008 (Lei nº 12.651/12).

A recomposição das propriedades consolidadas não se dará de acordo


com a largura do rio, mas sim com o tamanho da propriedade, e deve ser feita da
seguinte forma:

183
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

QUADRO 8 – RECUPERAÇÃO DA APP

RECUPERAÇÃO OBRIGATÓRIA DA APP


APP APP Limite de
Área do imóvel
independente da APP Lagos e APP recomposição
rural (em
largura do curso Nascentes lagoas Veredas (% de APP nos
módulos fiscais)
d’água naturais imóveis rurais)
≥1 5m 5m 5m 30 m 10%
1≥2 8m 8m 8m 30 m 10%
2≥4 15 m 15 m 15 m 30 m 20%
>4 de 20 a 100 m 30 m 30 m 50 m Não há limites
FONTE: O autor

Faixa de APP a ser recuperada de acordo com o tamanho da propriedade.

FIGURA 67 – RECUPERAÇÃO DA APP

FONTE: Blog Gasparim Sat. Disponível em: <http://gasparimsat.com.br/site/24/06/2012/


novo-codigo-florestal-atualizado-com-vetos/>. Acesso em: 20 set. 2014.

Você deve ter notado que o tamanho das propriedades está indicado em
módulos fiscais. Essa medida foi instituída pelo INCRA (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária) e foi determinada como parâmetro para definir a
área de uma propriedade (LANDAU et al., 2012).

184
TÓPICO 2 | CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

NOTA

O módulo fiscal é uma unidade de medida de terras calculada em hectares. O


número de hectares que compõe um módulo fiscal varia entre os municípios do Brasil e leva
em consideração a produtividade da terra. Assim, ele representa a área mínima necessária
para as propriedades rurais poderem ser consideradas economicamente viáveis. (LANDAU et
al., 2012).

O tamanho dos módulos fiscais dos municípios brasileiros varia entre 5 e


110 hectares, sendo que a seguir apresentamos o tamanho dos módulos fiscais nos
municípios onde há polos da UNIASSELVI estabelecidos.

TABELA 7 – TAMANHO DO MÓDULO FISCAL

Tamanho do Tamanho do
Município Município
Módulo Fiscal (ha) Módulo Fiscal (ha)
Manaus 10 Capão da Canoa 18
Alagoinhas 30 Erval Seco 20
Feira de Santana 30 Passo Fundo 16
Itabuna 20 Porto Alegre 5
São Paulo das
Jacobina 60 Missões 20
Paulo Afonso 70 Balneário Camboriú 12
Salvador 5 Blumenau 12
Teixeira de Freitas 35 Brusque 12
Serra 12 Capivari de Baixo 14
Porangatu 60 Criciúma 14
Posse 70 Florianópolis 7
São Luís 15 Guaramirim 12
Campo Grande 35 Herval d'Oeste 20
Maracaju 40 Imbituba 16
Colíder 90 Indaial 12
Belém 5 Itapiranga 20
Cametá 70 Ituporanga 18
Marabá 70 Joinville 12
Curitiba 5 Lages 20
Maringá 14 Palhoça 12
Ji-Paraná 60 Rio do Sul 18
Rolim de Moura 60 Xaxim 20
Bento Gonçalves 12 Mairinque 12
Camaquã 16    
FONTE: Adaptado de: Landau et al. (2012)

185
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

NOTA

Você pode consultar o tamanho dos módulos fiscais dos demais municípios
brasileiros acessando o trabalho de Landau et al. (2012), intitulado Variação Geográfica do
Tamanho dos Módulos Fiscais no Brasil, disponível em:
<http://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/77505/1/doc-146.pdf>.

3.2 RESERVA LEGAL – RL

Segundo consta no novo Código Florestal, é considerada uma reserva legal a

área localizada no interior de uma propriedade ou posse rural,


delimitada nos termos do art. 12, com a função de assegurar o uso
econômico de modo sustentável dos recursos naturais do imóvel
rural, auxiliar a conservação e a reabilitação dos processos ecológicos
e promover a conservação da biodiversidade, bem como o abrigo e a
proteção de fauna silvestre e da flora nativa.

Essa extensão de terra a qual deve ser obrigatoriamente protegida dentro


da propriedade rural é distinta entre a Amazônia Legal e os outros biomas. Na
área da Amazônia Legal, ou seja, no Acre, Pará, Amazonas, Roraima, Rondônia,
Amapá, Mato Grosso, norte do Tocantins e Goiás e no oeste do Maranhão, a área
de Reserva Legal deve abranger 80% do total em caso de floresta, 35% em áreas de
Cerrado e 20% nos Campos Gerais. Nos demais biomas, a regra é de que a Reserva
Legal abranja 20% da área (BRANDT, 2013).

No entanto, como o novo Código respeita as legislações vigentes no


período de ocupação das propriedades, as áreas de Reserva Legal desmatadas em
conformidade com a lei da época do desmatamento não precisam ser reflorestadas
em nenhuma região do Brasil (BRANDT, 2013). Já para as propriedades que não
respeitaram essa lei, a recuperação dependerá do seu tamanho.

Assim, em propriedades com até quatro módulos fiscais (consideradas


propriedades pequenas), será considerada como Reserva Legal a vegetação nativa
existente em 22 de julho de 2008, independente da sua quantidade, sendo que
não é permitido que novas áreas sejam desmatadas enquanto houver menos área
florestal do que o percentual de Reserva Legal exigido pela lei. Por outro lado,
em propriedades superiores a quatro módulos fiscais (propriedades grandes) em
que foi desmatado mais do que era permitido, é preciso recompor, regenerar ou
compensar a área de Reserva Legal obrigatória para a região (Lei nº 12.651/12).

Quando for necessária a recomposição da área, será aceito o plantio


associado entre espécies nativas e exóticas frutíferas, para uso social, em até 50%
do total. O restante deve ser abandonado, deixando que ocorra a regeneração
186
TÓPICO 2 | CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

natural. É também possível compensar a área de Reserva Legal em outras


propriedades, desde que dentro do mesmo bioma. É importante lembrar que cabe
a todo proprietário rural o registro no órgão ambiental competente (estadual ou
municipal) por meio de inscrição no Cadastro Ambiental Rural – CAR, sendo que
as especificidades para o registro vão depender da legislação de cada Estado. Uma
vez realizado o registro, fica proibida a alteração de sua destinação, nos casos de
transmissão ou de desmembramento, com exceção das hipóteses previstas na Lei
(art. 18) (SITE OECO, 2013).

De maneira geral, é proibida a extração de recursos naturais, o corte raso, a


alteração do uso do solo e a exploração nessas áreas, mas é permitida a exploração
comercial, desde que as condições do solo e a integridade da biodiversidade local
sejam preservadas e tenha sido autorizada pelo órgão ambiental via Plano de
Manejo ou em casos de sistemas agroflorestais e ecoturismo (SITE OECO, 2013).

4 AS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO SEGUNDO O SISTEMA


NACIONAL DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO – SNUC (Lei nº
9.985/00)
Desde a criação do Parque Nacional de Itatiaia, em 1937, a instituição de
unidades de conservação das mais diversas categorias tem sido a mais importante
estratégia de conservação da biodiversidade no Brasil. (ROCHA et al., 2010).

NOTA

Para conhecer um pouco mais sobre o histórico de criação de áreas protegidas


e unidades de conservação no Brasil, sugerimos o acesso ao artigo de autoria de Rodrigo
Medeiros, intitulado Evolução das tipologias e categorias de áreas protegidas no Brasil.
Segue a referência completa: MEDEIROS, R. Evolução das tipologias e categorias de áreas
protegidas no Brasil. Ambiente & Sociedade, v. IX, n. 1, p. 41-64. 2006.

187
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

A instituição do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza


(SNUC) ocasionou um intenso debate entre os ambientalistas brasileiros. Duas
correntes enfrentaram-se: a dos preservacionistas, que defendiam, entre outros
pontos, a proibição da presença humana nas áreas, e a dos socioambientalistas, para
quem a administração das áreas protegidas teria melhor êxito se elas suportassem
atividades humanas e tivessem as populações primitivas ou tradicionais como as
suas aliadas (ROCHA et al., 2010). O texto final da Lei do SNUC refletiu, em parte,
essa divisão existente no ambientalismo brasileiro, o que pode ser percebido pelas
duas grandes tipologias de unidades estabelecidas: as unidades de conservação de
proteção integral e as unidades de conservação de uso sustentável.

A diferença essencial entre essas duas categorias de unidades de conservação


está na permissão para utilizar os recursos naturais presentes nas áreas de forma
direta. Esse tipo de atividade é permitido em unidades de conservação de uso
sustentável, mas é proibida em unidades de conservação de proteção integral.
Isso se dá em parte pelos objetivos propostos para cada um desses dois grupos
de unidades, os quais são compostos por diferentes categorias de unidades de
conservação.

O fato é que de um dos países que mais tardiamente desenvolveu


instrumentos legais que criassem as condições necessárias ao estabelecimento de
áreas protegidas territorialmente demarcadas, em período relativamente curto
o SNUC permitiu em um curto espaço de tempo criar várias possibilidades de
proteção, de maneira extremamente original em alguns casos (MEDEIROS, 2006).
Vamos a partir de agora, então, discutir sobre esses dois tipos principais de
unidades de conservação. Começaremos pelas unidades de conservação integral e,
em sequência, focaremos as unidades de conservação de uso sustentável.

4.1 UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DE PROTEÇÃO INTEGRAL

O objetivo principal das unidades de Conservação de Proteção Integral é


a preservação da natureza, sendo, portanto, permitido apenas o uso indireto dos
seus recursos naturais, salvo quando previsto na própria lei que as cria (Lei nº
9.985/00).

Para buscar atender a esse objetivo estão arroladas no Sistema Nacional de


Unidades de Conservação cinco categorias de unidades de proteção integral, cada
qual com algumas particularidades. São elas: Estação Ecológica; Reserva Biológica;
Parque Nacional; Monumento Natural; e Refúgio da Vida Silvestre.

188
TÓPICO 2 | CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

4.1.1 Estação Ecológica (Esec)

Essa categoria de unidade de conservação tem como seus objetivos a


preservação da natureza e a realização de pesquisas científicas. Assim, a visitação
pública é proibida (com exceção aos casos em que a finalidade seja educacional,
devendo-se então consultar o Plano de Manejo da unidade ou ainda o regulamento
específico) e a posse e o domínio das terras devem ser públicos, havendo a
desapropriação das áreas particulares localizadas no seu interior.

Mesmo que as pesquisas científicas sejam um dos objetivos dessa unidade,


as mesmas devem ser precedidas de autorização prévia do órgão responsável pela
administração da unidade, a qual determinará as condições e restrições necessárias.

Com relação ao outro objetivo dessas unidades – a preservação da natureza,


somente são permitidas alterações nos ecossistemas locais nos casos de:

a) restauração de ecossistemas alterados;

b) manejo de espécies com a finalidade de reservar a diversidade biológica;

c) coleta de componentes com finalidades científicas;

d) pesquisa científica que ocasione impacto superior àquele empregado pela


simples observação ou pela coleta controlada de componentes dos ecossistemas,
em uma área não superior a 3% da extensão total da unidade, ou até o limite de
1500 ha.

De acordo com Leuzinger (2004), as oito primeiras estações ecológicas


foram oficialmente instituídas em 1981, sendo, até o final daquela década, criadas 22
unidades. Na década de 90, apenas a Estação Ecológica de Tamoios foi instituída. Já
entre 2001 e janeiro de 2007, outras nove estações foram estabelecidas. Atualmente,
há no Brasil 32 estações ecológicas criadas: quatro no bioma Mata Atlântica, cinco
no bioma Cerrado, quatro na Caatinga, dez na Floresta Amazônica, uma no
Pantanal e ainda oito estações ecológicas no bioma marinho costeiro. Para mais
informações sobre essas áreas, acesse o site do ICMBio (<www.icmbio.gov.br>).

189
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

4.1.2 Reserva Biológica (Rebio)

Segundo a Lei nº 9.985/00, as unidades de conservação dessa categoria têm


como objetivo:
a preservação integral da biota e demais atributos naturais existentes
em seus limites, sem interferência humana direta ou modificações
ambientais, excetuando-se as medidas de recuperação de seus
ecossistemas alterados e as ações de manejo necessárias para recuperar
e preservar o equilíbrio natural, a diversidade biológica e os processos
ecológicos naturais (Art.10).

Outras características dessas unidades de conservação são a sua posse e
domínio público, a proibição da visita pública (exceto a educacional, sob consulta)
e a ocorrência de pesquisa científica somente após a autorização prévia do
responsável pela administração da unidade.

Diante do exposto, muitas pessoas têm dificuldade de diferenciar os


objetivos de uma Estação Ecológica e de uma Reserva Biológica, até mesmo porque
não há nenhuma diferença substancial entre elas. No entanto, o regime de proteção
das reservas biológicas é mais restritivo do que nas estações ecológicas, visto que
nessas últimas sequer a pesquisa científica que cause alterações ecossistêmicas
poderá ser realizada (LEUZINGER, 2004).

A primeira reserva biológica, Poço das Antas, foi criada em 1974, no Rio
de Janeiro. Atualmente, o Brasil conta com 30 reservas biológicas, que estão assim
distribuídas: 15 unidades no bioma Mata Atlântica; nove na Amazônia; quatro
no bioma marinho costeiro; uma no Cerrado; e também uma na Caatinga (SITE
ICMBio, 2008).

4.1.3 Parque Nacional (Parna)

Essa é a categoria de unidade de conservação mais antiga a ser utilizada


no Brasil. Uma questão interessante em relação aos parques é que a origem
dessa palavra vem de “parc”, em francês, e inglês arcaicos, que significava “uma
área cercada de solo, ocupada por animais de caça, protegidos por ordem ou
por concessão do rei”. Sendo assim, originalmente, o objetivo dos parques era
garantir a oferta de animais para que a realeza pudesse manter as suas atividades
de caça. O termo contemporâneo de parque nacional, o qual inclui a proteção da
biodiversidade, só foi descrito em 1932 (TERBORGH et al., 2002).

Para o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, o Parque Nacional tem


como objetivo básico “a preservação de ecossistemas naturais de grande relevância
ecológica e beleza cênica” (Lei nº 9.985/00, Art. 11). No entanto, diferentemente das

190
TÓPICO 2 | CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

duas categorias anteriormente vistas, o parque nacional permite a realização de


pesquisas científicas, assim como o desenvolvimento de atividades de educação e
interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e de ecoturismo.
Assim, a possibilidade de visitação é o seu diferencial.

Conforme comenta Leuzinger (2004), apesar de um parque nacional não


precisar ter sua área totalmente aberta ao público, ao menos parte dela deverá
sê-lo, sob pena de transformar o parque em categoria de manejo semelhante à
estação ecológica ou à reserva biológica. Desta forma, manter parques fechados
(exceto provisoriamente) contraria a sua lei de criação. No entanto, vale ressaltar
que “a visitação pública sempre estará sujeita às normas e restrições estabelecidas
no plano de manejo da unidade, às normas estabelecidas pelo órgão responsável
por sua administração, e àquelas previstas no regulamento” (Lei 9.985/00, Art.
11, § 2º). Outras características relacionadas aos parques nacionais são a posse e
domínio públicos das áreas e a necessidade de autorização prévia para realizar
pesquisa científica.

Os três primeiros parques nacionais brasileiros foram criados entre


1937 e 1939, refletindo o princípio da preocupação mundial para a necessidade
de delimitação de espaços naturais legalmente protegidos. Foram eles: Parque
Nacional do Itatiaia, Parque Nacional da Serra dos Órgãos e Parque Nacional do
Iguaçu (SANTOS, 2011).

Atualmente há 72 parques nacionais em solo brasileiro. A maior parte


está situada no bioma Mata Atlântica (23 parques), sendo a Amazônia o segundo
bioma com mais áreas protegidas sob essa categoria de unidades de conservação,
possuindo 18 parques. O Cerrado e a Caatinga possuem 14 e 7 parques nacionais,
respectivamente, sendo que o Pantanal possui apenas um. Por fim, o bioma
marinho costeiro conta com nove parques nacionais (SITE ICMBio, 2008).

Grande parte dos parques nacionais foi criada com graves pendências
fundiárias, que se acumularam e mesmo se agravaram ao longo dos anos. Como
resultado, grandes prejuízos vêm sendo causados à política conservacionista, ao
erário e ao patrimônio público. (ROCHA et al., 2010).

191
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

4.1.4 Monumento Natural (Mona)

A criação de um monumento natural tem como objetivo básico “preservar


sítios naturais raros, singulares ou de grande beleza cênica” (Lei nº 9.985/00, Art.
12). Como exemplo, pode-se citar uma montanha específica, formações esculturais
naturais, uma cachoeira. Apenas o monumento deve obter proteção especial, não o
restante da área (LEUZINGER, 2004). Dada a essa característica, diferentemente das
unidades vistas até agora, um monumento natural pode abrigar áreas particulares,
desde que não haja incompatibilidade entre os objetivos da unidade e aqueles dos
proprietários. Quando tal situação é relatada, deve-se haver a desapropriação.

Com relação à visitação pública, assim como nas categorias anteriores,
essa “está sujeita às condições e restrições estabelecidas no Plano de Manejo da
unidade, às normas estabelecidas pelo órgão responsável por sua administração
e àquelas previstas em regulamento”. (Art. 12, § 12). Há apenas três monumentos
naturais estabelecidos em nível federal: um em ambiente Marinho Costeiro, um na
Mata Atlântica e outro na Caatinga (SITE ICMBio, 2008).

4.1.5 Refúgio da Vida Silvestre (Revis)

O estabelecimento de um Refúgio da Vida Silvestre, segundo consta no


SNUC, “tem como objetivo proteger os ambientes naturais onde se asseguram
condições para a existência ou reprodução de espécies ou comunidades da
flora local e da fauna residente ou migratória”. (Lei 9.985/00, art. 13). Como cita
Leuzinger (2004), esse é o caso de uma praia específica onde ocorra a desova de
tartarugas, ou local utilizado por aves migratórias para pouso ou reprodução.
Assim como os monumentos naturais, os refúgios da vida silvestre são pouco
extensos, de forma que podem possuir domínio privado, seguindo o mesmo
princípio dos monumentos: havendo incompatibilidade de objetivos, a área deverá
ser desapropriada. A visitação pública e a pesquisa científica são permitidas
desde que previstas no Plano de Manejo e que haja autorização prévia do órgão
responsável pela administração da unidade.

Com relação à quantidade de Refúgios da Vida Silvestre existentes no


Brasil, atualmente há sete: dois no bioma Marinho Costeiro, quatro no bioma Mata
Atlântica e um no bioma Cerrado.

192
TÓPICO 2 | CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

4.2 UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DE USO SUSTENTÁVEL

Agora que já falamos sobre as unidades de conservação de proteção


integral, vamos voltar o nosso olhar para as unidades de conservação de uso
sustentável, cujo objetivo é “compatibilizar a conservação da natureza com o uso
sustentável de parcela dos seus recursos naturais”. (Lei nº 9.985/00, Art. 7º, § 2º).
Em outras palavras, esse grupo de unidades de conservação permite o uso direto
dos recursos da unidade, o que, no entanto, como deixa claro Leuzinger (2004), não
significa a sua utilização sem controle, desregrada, mas sim o seu uso respeitando a
capacidade de suporte do ecossistema e os mecanismos de renovação dos recursos
bióticos.

Esse grupo de unidades de conservação é representado por sete


modalidades de unidades: a Área de Proteção Ambiental; Área de Relevante
Interesse Ecológico; Floresta Nacional; Reserva Extrativista; Reserva de Fauna;
Reserva de Desenvolvimento Sustentável; e Reserva Particular do Patrimônio
Natural.

4.2.1 Área de Proteção Ambiental (APA)

A Área de Proteção Ambiental, segundo consta na Lei 9.985/00, é:

uma área em geral extensa, com um certo grau de ocupação humana,


dotada de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais
especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar
das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a
diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a
sustentabilidade do uso dos recursos naturais (Art. 15).

O território de uma Área de Preservação Ambiental pode ser constituído por


terras públicas ou privadas, sendo que nesse último caso podem ser estabelecidas
normas e restrições para o uso da propriedade desde que sejam respeitados os
limites constitucionais. (Lei nº 9.985, Art. 15, § 2º). Com relação à visitação pública e
a realização científica, estas estão previstas, mas as condições para a sua realização
são estabelecidas pelo órgão gestor da unidade em caso de áreas de domínio
público, ou pelo proprietário no caso de áreas sob propriedade privada.

Leuzinger (2004) destaca que as áreas de preservação ambiental vêm


sofrendo inúmeras críticas. Alguns defendem que essas áreas não são áreas de
conservação propriamente ditas, mas sim formas de disciplinar o uso do solo.
Outros citam a sua baixa efetividade, uma vez que muitas áreas de proteção
ambiental estão localizadas em lugares antropizados e, consequentemente,
degradados, sem que seja realizado um zoneamento que permita a proteção de
parcelas dos ecossistemas.

193
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Todavia, de acordo com a autora (LEUZINGER, 2004), a baixa efetividade


de parte das áreas de proteção ambiental não traduz a sua inutilidade, pois caso
sejam elaborados planos de manejo adequados e haja fiscalização efetiva, esses
espaços ambientais são muito úteis à proteção do meio ambiente, e apresentam
baixíssimo custo para o Estado.

Atualmente há 33 áreas de preservação ambiental no Brasil, que estão


assim distribuídas: 12 unidades no bioma Marinho Costeiro; 10 no Cerrado; cinco
na Mata Atlântica; três na Caatinga; duas na Amazônia; e uma no bioma Pampa
(SITE ICMBio, 2008).

4.2.2 Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE)

A Área de Relevante Interesse Ecológico, ao contrário da Área de Proteção


Ambiental, possui geralmente pequena extensão, com pouca ou nenhuma
ocupação humana, que possua características naturais extraordinárias ou, ainda,
que abrigue representantes raros da biota regional (Lei nº 9.985/00, Art. 16). Essas
características fazem com que essa modalidade seja considerada como uma versão
menor das Áreas de Proteção Ambiental (LEUZINGER, 2004).

Os objetivos de uma Área de Relevante Interesse Ecológico também são


semelhantes aos de uma Área de Proteção Ambiental e consistem em “(...) manter
os ecossistemas naturais de importância regional ou local e regular o uso admissível
dessas áreas, de modo a compatibilizá-lo com os objetivos de conservação da
natureza”. (Lei nº 9.985/00, Art. 16).

Por fim, a possibilidade de visitação e de pesquisa científica, assim como as


restrições para uso da área, seguem a mesma lógica de uma Área de Preservação
Ambiental (LEUZINGER, 2004).

Segundo o site do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade


(ICMBio, 2008), há 18 ARIEs federais criadas no Brasil. Destas, sete estão localizadas
no bioma Mata Atlântica; três no bioma Marinho Costeiro, na Caatinga e na
Amazônia; e uma no Cerrado e no bioma Pampa.

4.2.3 Floresta Nacional (Flona)

A Floresta Nacional é constituída de áreas florestais onde haja predomínio


de espécies nativas e tem como objetivo básico o uso sustentável dos recursos
florestais e a pesquisa científica com foco no desenvolvimento de métodos de
exploração sustentável das florestas nativas (Lei nº 9.985/00, Art. 17). Assim, a
realização de pesquisa não é só permitida como incentivada, devendo, no entanto,

194
TÓPICO 2 | CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

ser autorizada previamente pelo órgão responsável pela administração da unidade.


A visitação pública também é possível e está condicionada às normas do órgão
gestor da unidade.

Ao contrário das duas categorias de unidades de conservação de uso


sustentável vistas, a área de uma floresta nacional necessariamente deve ser de
posse e domínio público, havendo a desapropriação de possíveis propriedades
particulares existentes em seus limites. Outra particularidade dessa categoria
de unidade de conservação é a possibilidade de permanência de populações
tradicionais que habitavam a área no momento da sua criação.

Segue trecho de um artigo publicado por Leuzinger (2004, p. 12) que


demonstra a contradição existente no estabelecimento dessa categoria de unidade
de conservação:

Deveriam as florestas nacionais ser criadas [...] para o desenvolvimento


de métodos que permitam aos povos da floresta o uso sustentável dos
recursos naturais, em que haja menor impacto possível, com um grau
de aproveitamento econômico que lhes garanta uma boa qualidade
de vida. Mas, apesar do comando legal, as florestas nacionais vêm
sendo instituídas como florestas de produção, com o objetivo de
concessão a particulares de sua exploração comercial para extração
de recursos madeireiros e não madeireiros, sem a preocupação com o
desenvolvimento tecnológico a ser repassado às populações tradicionais
[...].

Há 65 Florestas Nacionais espalhadas pelo país. Destas, a maior parte se


encontra na Amazônia (32 unidades), seguida pela Mata Atlântica, que possui 21
Florestas Nacionais. Na sequência estão representadas a Caatinga e o Cerrado,
com seis unidades cada (SITE ICMBio, 2008).

4.2.4 Reserva Extrativista (Resex)

O Sistema Nacional de Unidades de Conservação define uma Reserva


Extrativista como consta na Lei 9.985 art. 18:

Área utilizada por populações extrativistas tradicionais, cuja


subsistência baseia-se no extrativismo e, complementarmente, na
agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte, e
tem como objetivos básicos proteger os meios de vida e a cultura dessas
populações, e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da
unidade (BRASIL, 2000).

Apesar de o uso ser concedido a essas populações extrativistas, a posse e o


domínio de uma Reserva Extrativista devem ser públicos, havendo a desapropriação
de propriedades particulares que porventura existam em seu perímetro. A questão

195
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

da visitação e da pesquisa científica são semelhantes ao definido para Florestas


Nacionais (vide seção anterior).

Duas questões importantes com relação a uma reserva extrativista dizem


respeito à exploração da biota local. Segundo consta na lei 9.985, “são proibidas a
exploração de recursos minerais e a caça amadorística ou profissional” (Art. 18, §
6º), e “a exploração comercial de recursos madeireiros só será admitida em bases
sustentáveis e em situações especiais e complementares às demais atividades
desenvolvidas [...]” (Art. 18, § 7º). (BRASIL, 2000).

Sendo assim, essa categoria de unidade de conservação visa a conciliar a


proteção ambiental e a sobrevivência física e cultural de populações extrativistas
tradicionais, como, por exemplo, castanheiros, seringueiros, pescadores artesanais,
babaçueiros etc. Tal conciliação é baseada na ideia de que essas populações, por
dependerem diretamente da existência de um ambiente natural preservado, em
geral utilizam os recursos florestais necessários à prática da atividade extrativista
de forma sustentável (LEUZINGER, 2010).

Até o momento há 63 Reservas Extrativistas no Brasil, 35 delas no bioma


Amazônia, 21 no bioma Marinho Costeiro, cinco no Cerrado e duas na Mata
Atlântica.

4.2.5 Reserva de Fauna

A reserva de fauna “é uma área natural com populações animais e espécies


nativas, terrestres ou aquáticas, residentes ou migratórias, adequadas para estudos
técnico-científicos sobre o manejo econômico sustentável de recursos faunísticos”
(Lei nº 9.985/00, Art. 19).

Assim como é previsto para a maior parte das unidades de conservação,


a posse e o domínio dessa categoria de unidade são públicos, devendo haver a
desapropriação de propriedades particulares, e a visitação pública pode ser
permitida.

Da mesma forma como determinado para a Reserva Extrativista, a caça
amadorística ou profissional é proibida. Ainda, a comercialização dos produtos e
subprodutos resultantes das pesquisas deve obedecer ao disposto nas leis sobre a
fauna (Lei 9.985/00, Art. 19, § 3 e 4).

Até o momento não há nenhuma Reserva de Fauna estabelecida no Brasil.

196
TÓPICO 2 | CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

4.2.6 Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS)

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável é, segundo a Lei nº 9.985/00:

Uma área natural que abriga populações tradicionais, cuja existência


baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais,
desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas
locais e que desempenham um papel fundamental na proteção da
natureza e na manutenção da diversidade biológica. (Art. 20).

Como se pode perceber, a sua definição é bastante semelhante àquela dada


à Reserva Extrativista, no enquanto esta, teoricamente, abriga apenas grupos que
vivem de atividade extrativista, a reserva de desenvolvimento sustentável alberga
populações tradicionais de um modo geral, que também dependem da utilização
dos recursos ambientais para sua subsistência e manutenção de sua cultura
(LEUZINGER, 2004).

Outra questão importante em relação a essa categoria de unidade de


conservação é o fato de que a posse e o domínio da área devem ser públicos,
mas diferentemente do que é previsto para a Reserva Extrativista, “(...) as áreas
particulares incluídas em seus limites devem ser, quando necessário (grifo nosso),
desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei” (Art. 20, § 2).

Tanto a visitação quanto a pesquisa científica nessa unidade são incentivadas,


considerando sempre a prévia autorização do órgão responsável pela gestão da
unidade. No entanto, fica claro que deve ser considerado o equilíbrio dinâmico
entre o tamanho da população e a conservação, e que a exploração de componentes
do ecossistema natural para o uso sustentável e a substituição da cobertura vegetal
nativa por aquela cultivável pode ser feita, mas está sujeita ao plano de manejo da
área.

Há apenas duas Reservas de Desenvolvimento Sustentável no Brasil, uma


na Amazônia e outra na Mata Atlântica (SITE ICMBio, 2008).

4.2.7 Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN)

A Reserva Particular do Patrimônio Natural difere das demais categorias


de unidades de conservação principalmente por ser de posse e domínio particular.
Pode-se dizer que essa unidade encontra-se erroneamente no grupo de unidades
de uso sustentável, já que na prática o seu uso é restrito (BACCA, 2002).

De acordo com o que está estabelecido na Lei nº 9.985/00, “A Reserva


Particular do Patrimônio Natural é uma área privada gravada com perpetuidade,
com o objetivo de conservar a diversidade biológica”. (Art. 21). As únicas atividades
permitidas nessas áreas são a pesquisa científica e a visitação com objetivos
turísticos, recreativos e educacionais.

197
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Para que um determinado local seja instituído como uma RPPN, deve ser
assinado pelo proprietário, perante o órgão ambiental, um termo de compromisso.
Havendo a existência de interesse público, essa área será averbada à margem
da inscrição do Registro Público de Imóveis (Lei nº 9.985/00, Art. 21, § 1º). Em
outras palavras, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural é criada a partir
da vontade do proprietário que assume o compromisso de conservar a natureza e
proteger a área em caráter perpétuo sem, no entanto, perder a titularidade da terra.

Á área transformada em RPPN torna-se isenta do Imposto Territorial Rural


(ITR) e o proprietário pode solicitar auxílio do poder público para elaborar um
plano de manejo, proteção e gestão da área (SCHÄFFER e PROCHNOW, 2002).

Como essa categoria de unidade de conservação difere das demais, por
ser particular e partir de iniciativa do próprio proprietário, os dados referentes a
essa unidade são compilados em separado. Até o momento há 646 RPPN criadas,
distribuídas em 27 estados. O Estado que possui o maior número de RPPN é a
Bahia, com 103 unidades. No outro extremo, o Acre possui até o momento uma
unidade. Com relação à área protegida sob essa categoria, tem-se um total de
511.439 ha, sendo que o Mato Grosso se destaca nesse quesito, possuindo 172980.67
há, protegidos sob essa categoria (SITE ICMBio, 2008).

Uma questão importante sobre a Reserva Particular do Patrimônio Natural
é que a sua criação pode também ser feita por organizações empresariais. De acordo
com a publicação feita pelo “Programa de Incentivo às Reservas Particulares do
Patrimônio Natural da Mata Atlântica” (2010), a criação de uma RPPN permite que
a empresa direcione de maneira eficaz os seus investimentos em ações ambientais
efetivas, além de se constituir em uma forma de marketing ecológico. Ainda,
representa uma nova oportunidade de negócios para as empresas, no quadro do
movimento internacional, para conter as mudanças climáticas provocadas pelo
aquecimento global.

NOTA

Apesar de termos tratado as categorias de unidades de conservação em nível


federal, é importante destacarmos que a Lei nº 9.985/00 torna possível integrar ao Sistema
Nacional de Unidades de Conservação aquelas unidades criadas em nível estadual e municipal.

198
TÓPICO 2 | CONSERVAÇÃO EM ÁREAS PROTEGIDAS

5 CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI Nº 9.985/00

O Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (2000), em


ocasião da publicação de um documento a respeito da então recente Lei nº 9.985/00,
explanou sobre os diversos benefícios que essa lei trouxe em direção da proteção
ambiental. Como esse conselho destacou, além de estabelecer o primeiro Sistema
Nacional de Unidades de Conservação, essa lei possibilitou:

- a exigência de elaboração de Planos de Manejo (ver tópico a seguir) para todas


as unidades no prazo de cinco anos;

- a busca de parceria com as populações locais durante o processo de


estabelecimento de uma unidade de conservação;

- o reconhecimento da existência de populações tradicionais em algumas unidades,


o respeito aos seus direitos e a busca em torná-las aliadas para a conservação da
natureza;

- a exigência de conselhos (consultivo ou deliberativo) para a gestão das unidades


de conservação, envolvendo vários setores da sociedade (ver tópico a seguir);

- a reafirmação sobre a necessidade de publicação em forma de lei e com


compensação ambiental e financeira caso haja a necessidade de diminuir área
em uma unidade de conservação;

- a inserção do princípio usuário-pagador, assegurando o pagamento de servidão


de passagem e de serviços de água e de energia elétrica;

- o reconhecimento das Reservas da Biosfera, dos corredores e dos mosaicos


ecológicos e das zonas de amortecimento no entorno das unidades como figuras
que permitem uma maior inserção dessas no contexto regional (ver tópico a
seguir);

- a colaboração para uma gestão mais integrada e participativa, entre outros.

Como pontos fracos, no entanto, pode-se dizer que ao consolidar, mesmo


que não intencionalmente, as Unidades de Conservação como tipologia dotada
de maior visibilidade e expressão, e dotá-las de instrumentos mais concretos de
gestão, outras tipologias, como as Áreas de Preservação Permanente, as Reservas
Legais, entre outras, continuaram relegadas aos mesmos problemas históricos de
gestão, não dispondo de instrumentos de integração e articulação com as ações
previstas para as Unidades de Conservação (MEDEIROS, 2006).

199
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico, vimos que:

• Apesar de serem considerados sinônimos, é importante conseguirmos diferenciar


os conceitos de espaços territoriais especialmente protegidos, áreas protegidas e
unidades de conservação.

• No Brasil, a principal estratégia utilizada é o estabelecimento de unidades de


conservação.

• As Áreas de Proteção Permanente são regiões protegidas por lei e que segundo o
novo Código Florestal obtiveram algumas modificações quanto aos seus limites.

• As reservas legais são porções de terra que o proprietário rural deve


obrigatoriamente respeitar.

• As unidades de conservação brasileiras estão divididas em duas tipologias


principais: as unidades de conservação de proteção integral e as unidades de
conservação de uso sustentável.

• Dentro de cada tipologia de unidades de conservação há diferentes categorias de


unidades, cada qual com um objetivo específico.

200
AUTOATIVIDADE

1 Vimos ao longo desse tópico que há um Sistema Nacional de Unidade de


Conservação implementado no Brasil desde o ano de 2000. Nele há duas
tipologias principais de unidades. Conceitue-as e dê dois exemplos para cada
uma delas.

2 Qual é a principal diferença entre as Reservas Particulares do Patrimônio


Natural das demais categorias de unidade e quais os benefícios obtidos a
quem as cria?

Assista ao vídeo de
resolução da questão 2

201
202
UNIDADE 3
TÓPICO 3

CRIAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E GESTÃO DE


UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

1 INTRODUÇÃO

No tópico anterior focamos a definição das diferentes áreas protegidas


existentes em nosso país, dando maior ênfase aos grupos de unidades de
conservação e suas categorias. No entanto, é preciso que destaquemos que a lei
não se resume à determinação dessas categorias.

Seguindo essa linha de raciocínio, discutiremos mais as questões que


tornam possível colocar em prática o que está estabelecido em lei, sendo que
voltaremos a citá-la sempre que necessário.

2 ÓRGÃOS RESPONSÁVEIS PELO SISTEMA NACIONAL DE


UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Antes de mais nada, vamos conhecer os órgãos responsáveis pelo Sistema


Nacional de Unidades de Conservação. São eles:

1) Órgão consultivo e deliberativo: Conselho Nacional do Meio Ambiente


(CONAMA), que tem como atribuições acompanhar a implementação do
Sistema.

2) Órgão central: é o Ministério do Meio Ambiente (MMA) o responsável por


coordenar o Sistema.

3) Órgãos executores: o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade,


os órgãos estaduais e municipais é que possuem a função de implementar o
SNUC, subsidiar as propostas de criação, bem como administrar as unidades
de conservação federais, estaduais e municipais, respectivas esferas de atuação.

203
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

NOTA

Originalmente a Lei nº 9.985/00 estabeleceu que o órgão executor em nível


federal seria o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis,
o IBAMA. O IBAMA foi criado em 1989 como forma de unificar a resolução de questões
ambientais que até então eram repartidas por quatro entidades distintas: a Secretaria do
Meio Ambiente – Sema, a Superintendência da Borracha – Sudhevea, a Superintendência
da Pesca – Sudepe, e o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal – IBDF.

O IBAMA então passou a ser o gerenciador da questão ambiental, responsável por formular,
coordenar, executar e fazer executar a Política Nacional do Meio Ambiente e da preservação,
conservação e uso racional, fiscalização, controle e fomento dos recursos naturais
renováveis. No entanto, em 2007 foi publicada a Medida Provisória n° 366, que atribuiu a
gestão das unidades de conservação federais de proteção integral e de uso sustentável ao
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio.

Dessa forma, podemos dizer que, atualmente, tudo o que tenha por finalidade
executar ações da política nacional de unidades de conservação da natureza, referente
às atribuições federais relativas à proposição, implantação, gestão, proteção, fiscalização e
monitoramento das unidades de conservação instituídas pela União, é de responsabilidade
do ICMBio. O restante das questões ambientais que não contemplem esse grupo de áreas
protegidas é regido pelo IBAMA.
FONTE: Ramos (2012).

3 A CRIAÇÃO DE UMA UNIDADE DE CONSERVAÇÃO

Consta na Lei nº 9.985 que uma unidade de conservação é criada por ato
do poder público e que a mesma deve ser precedida de estudos técnicos (Art.
22, § 2º). Esses estudos geralmente consistem em levantamentos e relatórios com
foco no meio natural (físico e biótico), socioeconômico, cultural e fundiário, os
quais podem ser executados tanto pelo poder público, por meio de seus órgãos
executores e corpo técnico próprio, quanto por meio de consultorias contratadas.

É importante que os estudos sejam complementados por levantamentos


e vistorias em campo que permitam o detalhamento de informações, como, por
exemplo, a existência de populações tradicionais na área; a ocorrência de impactos
humanos; a forma como são feitos o uso e a ocupação do solo, entre outras questões.
Ao final dessas etapas dá-se a elaboração de uma proposta preliminar de limites
e de categoria da Unidade de Conservação a ser apresentada e discutida junto à
sociedade (SITE ICMBio, 2008).

Segue-se então a consulta pública, também prevista na Lei nº 9.985/00


(Art. 22, § 2º). Essa atividade consiste em reuniões abertas à sociedade, precedidas
de amplo processo de divulgação, nas quais a proposta deve ser apresentada
de forma clara e acessível, possibilitando aos cidadãos e instituições locais que

204
TÓPICO 3 | CRIAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E GESTÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

manifestem sua posição e considerações sobre a proposta. Dessa forma é garantida


a participação do máximo de atores sociais locais, permitindo que todos contribuam
com sua opinião. Após essa etapa, é elaborada a proposta final a ser enviada ao
Ministério do Meio Ambiente (SITE ICMBio, 2008).

Ao Ministério do Meio Ambiente – MMA cabe a tarefa de realizar as


análises técnicas e jurídicas complementares, bem como consultas a outros órgãos
da estrutura do Poder Executivo que possam ter interesses na área proposta para a
criação da unidade. Seguidas todas estas etapas, a proposta é então encaminhada
ao Presidente da República, acompanhada de todos os documentos que integram
o processo de criação da UC.  Após a assinatura do Presidente da República e
publicação no Diário Oficial da União do respectivo decreto que a cria, assinado,
está criada a unidade de conservação (SITE ICMBio, 2008).

NOTA

O Brasil, por abrigar a maior biodiversidade do mundo, tem uma responsabilidade


muito grande nesta área. E por ser um dos países signatários da Convenção da Diversidade
Biológica, assumiu o compromisso de destinar, sob a forma de Unidades de Conservação,
30% do bioma Amazônia e 10% dos demais biomas (Pampa, Pantanal, Caatinga, Cerrado
e Mata Atlântica e os ecossistemas Marinhos e Costeiros), sendo computadas para isso
também as UCs estaduais, municipais e particulares (SITE ICMBio, 2008).

De uma forma resumida, podemos então elencar as seguintes etapas a


serem cumpridas para proceder-se à criação de uma unidade de conservação:

1) Interesse de criação de uma unidade de conservação por parte do poder público


ou da sociedade civil.

2) Elaboração de estudos (levantamentos e relatórios) com foco no meio natural


(físico e biótico), socioeconômico, cultural e fundiário que demonstrem a melhor
localização, dimensão, limites e categoria para a unidade de conservação e
posterior confirmação em campo.

3) Elaboração de proposta e realização de consulta pública.

4) Envio da proposta final ao Ministério do Meio Ambiente para consulta a outros


órgãos da estrutura do Poder Executivo que possam ter interesse na área
proposta para a criação da unidade.

Assinatura do Presidente da República e publicação no Diário Oficial da


União do respectivo decreto de criação.

205
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

NOTA

Para o caso das Reservas Particulares do Patrimônio Natural, onde o interesse


parte do próprio proprietário, os passos diferem de certo modo. O ICMBio publicou um roteiro
para a criação dessa categoria de unidade de conservação. Segue a referência completa desse
documento: ICMBio. Roteiro para criação de RPPN federal. Reserva Particular do Patrimônio
Natural. Brasília: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. 2011. 92 p.

Conforme relata Ramos (2012), várias unidades de conservação acabam


tendo os seus processos de criação paralisados por oposição dentro do próprio
governo. O Ministério de Minas e Energia, por exemplo, opõe-se à criação
de novas áreas nas regiões onde prevê a possibilidade de futura exploração de
potencial hidrelétrico. Com isso, muitas vezes instaura-se um impasse que impede
o estabelecimento de novas unidades de conservação. Essa pressão ocorre mesmo
onde uma unidade de conservação já existe. A Empresa de Pesquisa Energética
(EPE), órgão que planeja a produção de energia, por exemplo, já fez com que o
MMA e o Instituto Chico Mendes tivessem que conceder autorizações para que
estudos fossem realizados em pelo menos duas unidades de proteção integral
amazônicas.

E isso que a criação é apenas o ponto de partida para a consolidação dessas


áreas (BADIALLI e PARANAGUÁ, 2012).

4 ELABORAÇÃO DO PLANO DE MANEJO DE UMA


UNIDADE DE CONSERVAÇÃO

A necessidade das unidades de conservação possuírem planos de manejo


está prevista na Lei nº 9.985/00, assim como a sua elaboração no prazo de até
cinco anos após a data de criação da unidade. O objetivo desse documento é
levar a Unidade de Conservação a cumprir com os objetivos estabelecidos na sua
criação, definir objetivos específicos de manejo, orientando a gestão da Unidade
de Conservação e promover o manejo da Unidade de Conservação, orientado
pelo conhecimento disponível e/ou gerado. No entanto, muitas unidades de
conservação não possuem plano de manejo e algumas chegam a permanecer mais
de uma década sem nenhum documento que planeje o seu uso (BENSUSAN, 2006).

Afinal, o que é um plano de manejo?


Segundo consta na Lei nº 9.985/00, o plano de manejo é:

um documento técnico mediante o qual, com fundamento nos


objetivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece o seu
zoneamento e as normas que devem presidir o uso da terra e o manejo

206
TÓPICO 3 | CRIAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E GESTÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas


necessárias à gestão da unidade (Art. 2º, inciso XVII).

Os planos de manejo de unidades de conservação de categorias distintas


devem também apresentar as suas particularidades (BENSUSAN, 2006). Tanto
é que o IBAMA elaborou “Roteiro Metodológico de Planejamento – Parque
Nacional, Reserva Biológica, Estação Ecológica” (IBAMA, 2002), o “Roteiro
Metodológico para Gestão de Áreas de Proteção Ambiental” (IBAMA, 1999),
o “Roteiro Metodológico para Elaboração do Plano de Manejo das Reservas
Extrativistas e Reservas de Desenvolvimento Sustentável Federais” (IBAMA/
DISAM, 2006), o “Roteiro metodológico para elaboração de plano de manejo para
Reservas Particulares do Patrimônio Natural” (FERREIRA et al., 2004) e o “Roteiro
metodológico para elaboração de plano de manejo para Florestas Nacionais”
(ICMBio, 2008), esse último baseado no documento de mesmo nome publicado em
2003 (IBAMA, 2003).

O passo mais importante na elaboração dos planos de manejo é a


organização do planejamento, onde se adequam as atividades e o conteúdo do
processo de planejamento (CASES, 2012). Considerando essas premissas, Cases
(2012) identifica um caminho a seguir na elaboração de planos de manejo que
consiste em sete etapas. São elas:

Etapa 1ª: Organização do planejamento


Etapa 2ª: Diagnóstico da unidade de conservação
Etapa 3ª: Análise e avaliação estratégica da informação
Etapa 4ª: Planejamento estratégico
Etapa 5ª: Planejamento tático
Etapa 6ª: Conclusão do documento
Etapa 7ª: Aprovação do plano

Etapa 1ª: Organização do planejamento

O objetivo dessa etapa é organizar todo o processo de planejamento a ser


desenvolvido para produzir o plano de manejo da unidade de conservação. Dessa
forma, todo o processo de planejamento é definido e detalhado nesta etapa: a equipe
de planejamento; os colaboradores e os consultores que fornecerão informações
básicas para o planejamento nas diferentes etapas; como vai ser a participação
e o envolvimento dos diferentes setores da sociedade; quais são as informações
necessárias para o manejo da unidade; quais dessas informações devem ser
coletadas para a elaboração do plano de manejo; como vão ser coletadas; e como
vai ser organizada toda informação. Adicionalmente, a área de abrangência do
plano de manejo deve ser estabelecida nesse momento. (CASES, 2012).

Cases (2012) recomenda que a equipe de planejamento seja composta por


cinco a oito pessoas, comandada por um coordenador (que pode ser contratado,
voluntário ou ainda o próprio chefe da unidade), o gestor ou chefe da unidade
(caso ele não seja o coordenador), um representante do setor de planejamento
207
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

do órgão gestor da unidade de conservação, um especialista em sistemas de


informação geográfica e algum especialista em um tema que se destaque na
unidade de conservação (por exemplo, turismólogo, no caso de vocação turística;
engenheiro florestal, no caso de floresta nacional; sociólogo, no caso de presença
de populações tradicionais; oceanógrafo, no caso de UC marinha ou costeira etc.).
É interessante ainda que um representante do conselho da unidade participe da
equipe de planejamento.

NOTA

É importante que a equipe de planejamento seja a mesma do início ao fim da


elaboração do plano de manejo e que em cada fase haja a participação de profissionais
específicos (como pesquisadores durante os diagnósticos, moderadores de oficinas de
planejamento participativo, consultores para a redação do plano etc.) (CASES, 2012).

Essa etapa deve encerrar-se com uma oficina de organização do


planejamento que conte com a participação da equipe de planejamento e outros
atores que conheçam a unidade de conservação. Através dessa atividade será
possível identificar e mapear, de forma preliminar, as pressões e ameaças à
unidade, destacar, de forma preliminar, os desafios para a gestão da UC, definir
as lacunas de informação, selecionar as áreas temáticas que serão pesquisadas e
as consultorias necessárias e elaborar a matriz de organização do planejamento
(CASES, 2012).

Etapa 2ª: Diagnóstico da unidade de conservação

Essa etapa consiste em caracterizar a situação atual da unidade de


conservação de forma a embasar as decisões de gestão e permitir que os programas
de manejo estejam dentro da realidade local e possam ser executados. Para tal,
as técnicas para levantamento dos recursos geralmente aliam a interpretação das
imagens de satélite e fotografias aéreas a amostragens nos lugares identificados a
priori (CASES, 2012). Devem ser analisadas informações de diferentes naturezas,
tais como dados bióticos e abióticos, socioeconômicos, históricos e culturais de
interesse sobre a Unidade de Conservação e como estes se relacionam (SITE
ICMBio, 2008).

208
TÓPICO 3 | CRIAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E GESTÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

NOTA

Umas das metodologias utilizadas para realizar o diagnóstico da unidade


de conservação é a Avaliação Ecológica Rápida (AER). Essa metodologia inclui dados de
diferentes fontes e escalas, tais como fotos aéreas, imagens de satélite e trabalhos de campo.
Para conhecer essa metodologia, consulte o artigo Sayre et al. Natureza em foco: avaliação
ecológica rápida. Virgínia: The Nature Conservancy, 2003.

Etapa 3ª: Análise e Avaliação Estratégica da Informação

O objetivo da avaliação estratégica é perceber as relações de


interdependência entre os diferentes aspectos identificados no
diagnóstico, e, assim, refletir e entender como um mesmo fator está
concorrendo para gerar efeitos indesejáveis em mais de um aspecto.
Para isso são utilizadas diferentes ferramentas, como as matrizes de
pressões, a árvore de problemas, a matriz DAFO ou FOFA, os cenários,
os mapas de potencialidades de recursos naturais, entre outras. (CASES,
2012, p. 94).

Etapa 4ª: Planejamento Estratégico

O objetivo dessa etapa é definir a situação que se deseja alcançar no longo


prazo. Para tal, é necessário identificar os objetivos específicos da unidade de
conservação, a visão de futuro e a missão da UC; revisar a adequação da categoria
de manejo da UC e seus limites; e definir os objetivos do plano de manejo. (CASES,
2012).

Etapa 5ª: Planejamento Tático

O planejamento tático está constituído basicamente pelo zoneamento


e pelos programas de manejo. Aqui precisamos abrir parênteses para definir o
conceito de zoneamento, que, segundo a Lei nº 9.985/00, é a definição de zonas
com objetivos de manejo e normas específicas que permitam que todos os objetivos
da unidade sejam alcançados de maneira harmônica e eficaz (Art. 2º, inciso XVI).

O zoneamento é imprescindível para uma unidade de conservação, uma
vez que a mesma possui geralmente diversos objetivos (BENSUSAN, 2006). No
“Roteiro Metodológico de Planejamento – Parque Nacional, Reserva Biológica,
Estação Ecológica” (IBAMA, 2002) são citadas 11 zonas diferentes a serem
estabelecidas em uma unidade de conservação. A seguir falaremos um pouco de
cada uma delas.

- Zona intangível: dedicada à proteção integral dos ecossistemas, dos recursos


genéticos e ao monitoramento ambiental.

209
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

- Zona primitiva: objetiva a preservação do ambiente natural, bem como a


promoção de atividades de pesquisa científica e educação ambiental.
- Zona de uso extensivo: tem o objetivo de manter um ambiente natural com o
impacto humano mínimo, mas com acesso ao público para fins de recreação e
educação.
- Zona de uso intensivo: onde se concentra a infraestrutura de visitação da
unidade (centro de visitantes, museus e estabelecimento de serviços).
- Zona histórico-cultural: visa a proteção de sítios arqueológicos, paleontológicos
e históricos de forma harmônica com a conservação ambiental.
- Zona de recuperação: zona provisória com objetivo de restaurar as áreas
degradadas. Alcançado o objetivo, é estabelecida como outra zona.
- Zona de uso especial: onde se concentra a infraestrutura administrativa da
unidade.
- Zona de uso conflitante: espaços cujos usos já estavam estabelecidos antes da
criação da unidade e que conflitam com o objetivo de conservação. São áreas
ocupadas, geralmente, por empreendimentos de utilidade pública, tais como
barragens, linhas de transmissão etc.
- Zona de ocupação temporária: onde se concentram as populações residentes que
precisarão ser reassentadas. Uma vez realizado esse procedimento, há alteração
da categoria de zona.
- Zona de superposição indígena: locais onde há terras indígenas sobrepostas à
área da unidade de conservação. É recomendada a negociação, caso a caso, entre
povo indígena, FUNAI e ICMBio.
- Zona de interferência experimental: específica para estações ecológicas, tem
como objetivo o desenvolvimento de pesquisas comparativas.

Vale ressaltar ainda a necessidade de estabelecer a zona de amortecimento


da unidade de conservação em todas as categorias de unidades de conservação, com
exceção das Reservas Particulares do Patrimônio Natural e as Áreas de Proteção
Ambiental. Segundo a Lei nº 9.985/00, a zona de amortecimento é “o entorno de
uma unidade de conservação, onde as atividades humanas estão sujeitas a normas
e restrições especiais, com o propósito de minimizar os impactos negativos sobre
a unidade”.

Sem discutir a importância do estabelecimento de uma zona de


amortecimento em uma unidade de conservação, há de se considerar a problemática
da sua fixação. Essa dificuldade é resultado do estabelecimento da extensão dessa
zona e das restrições de uso impostas a ela (BENSUSAN, 2006).

Antes da Lei do SNUC, estava em vigor uma resolução do Conselho


Nacional do Meio Ambiente que definia o entorno das unidades de conservação
como uma faixa de 10 km circundando os limites da área. Já o SNUC prevê que a
zona de amortecimento seja prevista caso a caso (BENSUSAN, 2006). Dessa forma,
atualmente os limites da zona de amortecimento são estabelecidos no ato de criação
da unidade de conservação ou posteriormente, o que causa um certo problema, de
acordo com o momento da realização desse estabelecimento.

210
TÓPICO 3 | CRIAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E GESTÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Bensusan (2006) diz que no ato de criação de uma unidade de conservação


dificilmente há informação suficiente para a definição dos limites e restrições da
zona de amortecimento. No entanto, se não criada nesse momento, a perspectiva
de um dia haver restrição do uso dos recursos naturais existentes no entorno da
unidade pode ocasionar uma tendência à utilização excessiva desses recursos,
comprometendo os processos ecológicos. Essa é, portanto, uma questão polêmica.

Etapa 6ª: Conclusão do Documento

Para finalizar o documento, caso for necessário, identificar normas


específicas para a implementação dos programas, identificar a forma de
monitoramento e avaliação do plano; elaborar cronograma físico-financeiro; e
formatar o documento de acordo com o padrão da instituição (capa, editoração,
créditos etc.) (CASES, 2012).

O processo de planejamento também deve prever o sistema de monitoria


e avaliação, considerando a contínua avaliação no próprio documento, de acordo
com cada UC. Cases (2012) destaca a importância de que no sistema de monitoria
e avaliação sejam definidos indicadores de desempenho (grau de cumprimento
das atividades), indicadores de impacto (efeito alcançado) e indicadores de êxito
(alcance da visão de futuro). Ainda é importante que haja uma avaliação feita por
revisores externos, para diminuir a subjetividade.

Etapa 7ª: Aprovação do Plano

Nessa etapa, o plano de manejo é aprovado pela equipe técnica e é


submetido ao processo de consulta pública. Essa apresentação pode acontecer na
forma de reuniões abertas nas comunidades, consultas públicas, página da internet
etc. Após a discussão sobre a inclusão ou não das recomendações oriundas dessas
reuniões, o plano de manejo deve ser apresentado ao conselho da unidade. No
caso de conselho consultivo, a equipe de planejamento deve discutir a pertinência
das recomendações propostas e incluir as que forem pertinentes e técnica e
legalmente possíveis. No caso de conselho deliberativo, a equipe de planejamento
deve incorporar suas deliberações (CASES, 2012).

Após o ato formal de aprovação (portaria do órgão gestor ou resolução do


conselho deliberativo), é confeccionado um resumo executivo do plano de manejo,
em linguagem acessível para sua divulgação. Outras versões do plano de manejo
podem ser preparadas para apresentações junto a grupos mais específicos, como
as comunidades locais, os tomadores de decisão, crianças e jovens etc.

É importante ressaltar que a divulgação do plano e sua internalização


institucional, desde o Presidente aos técnicos, são medidas muito importantes
para a implementação do planejamento (CASES, 2012).

211
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

5 AVALIAÇÃO DA EFETIVIDADE DO MANEJO DE


UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Como em qualquer atividade, nem sempre os esforços propostos e


desenvolvidos a partir de um plano de manejo surtem os efeitos desejados.
Portanto, faz parte do processo realizar avaliações relacionadas à efetividade do
manejo dessas áreas (LEDERMAN; ARAÚJO, 2012).

Para realizar essa avaliação é necessário estabelecer procedimentos a
serem seguidos, os quais permitem uma melhor caracterização da condição geral
do manejo das unidades e dos sistemas de unidades de conservação, bem como
de seus aspectos críticos e identificação dos avanços do manejo a partir da sua
avaliação sistemática. Dada a importância do tema, pesquisadores conceituados
na área propuseram um modelo conceitual composto por seis elementos a serem
avaliados, a partir do qual os programas de monitoramento e avaliação da
efetividade da gestão são embasados em todo o mundo (LEDERMAN; ARAÚJO,
2012).

FIGURA 68 – MAPA CONCEITUAL

FONTE: Lederman e Araújo (2012)

212
TÓPICO 3 | CRIAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E GESTÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Como destacam Lederman e Araújo (2012), esse modelo baseia-se no


entendimento de que a avaliação da efetividade do manejo de uma unidade de
conservação deve iniciar pelo entendimento dos valores e ameaças existentes,
sendo seguida da realização de planejamento, alocação de recursos (insumos) e
ações de gestão (processos), tendo com isso a geração de produtos e serviços que
resultam em impactos ou êxitos (resultados).

Atualmente, diversas metodologias (cerca de 40) têm sido propostas com


base nesse modelo conceitual, sendo que quatro dessas têm sido aplicadas para
unidades de conservação brasileiras. São elas: Indicadores de efetividade de
implementação das unidades de conservação estaduais do Amazonas, Metodologia
Padovan; Tracking Tool; e RAPPAM. Como para as unidades federais brasileiras
a avaliação da efetividade tem sido feita utilizando a última metodologia, nos
ateremos a ela. Caso seja necessário, você pode consultar na publicação feita por
Lederman e Araújo, no ano de 2012.

5.1 MÉTODO RAPPAM (RAPID ASSESSMENT AND


PRIORIZATION FOR PROTECTED AREAS MANAGEMENT) OU
METODOLOGIA DE AVALIAÇÃO RÁPIDA E PRIORIZAÇÃO
DO MANEJO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

O Método RAPPAM foi criado pela WWF (World Wildlife Fund) a partir do
modelo anterior e tem sido utilizado para avaliar o sistema federal de unidades de
conservação desde 2005. O método se baseia em um questionário que compreende
três áreas de análise distintas: contexto, efetividade de gestão e análise do sistema
de unidades de conservação. Cada uma dessas áreas reúne questões agrupadas em
módulos, e esses, por sua vez, são agrupados em elementos de análise (IBAMA,
2007).

De modo simplificado, os passos a serem contemplados pelo RAPPAM são:

1) Determinar o escopo da avaliação, antes do início de sua aplicação.


2) Avaliar os dados existentes sobre a área estudada.
3) Aplicar o questionário para a avaliação rápida, garantindo a precisão dos dados.
4) Analisar e comparar os dados obtidos através de questionário para auxiliar a
elaboração das recomendações, através de análise multivariada.
5) Identificar os próximos passos e as recomendações através de uma análise mais
profunda dos resultados da avaliação.

A seguir, apresentamos a estrutura do questionário aplicado em unidades


de conservação brasileiras, os parâmetros utilizados para avaliar as pressões e
ameaças, e a pontuação utilizada para avaliar os parâmetros 3 a 19 do questionário
(IBAMA, 2007):

213
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

FIGURA 69 – ESTRUTURA DO QUESTIONÁRIO APLICADO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO


BRASILEIRAS
Número de
Elemento Módulo
Questões
  1 Perfil 15
  2 Pressões e Ameaças Variável
Contexto     29
  3 Importância biológica 10
  4 Importância socioeconômica 10
  5 Vulnerabilidade 9
  6 Objetivos 5
  7 Amparo legal 5
  8 Desenho e planejamento da área 6
Insumos     22
  9 Recursos humanos 5
  10 Comunicação e informação 6
  11 Infraestrutura 5
  12 Recursos financeiros 6
Processos     17
  13 Planejamento 5
  14 Processo de tomada de decisão 6
  15 Pesquisa, avaliação e monitoramento 6
Resultados 16   12
Sistema de unidades de conservação
Desenho do sistema de unidades de
  17 conservação 14
  18 Políticas de unidades de conservação 14
  19 Ambiente político 10
FONTE: IBAMA (2007)

FIGURA 70 - PARÂMETROS DE AVALIAÇÃO DE PRESSÕES E AMEAÇAS

Permanência do
Tendência Abrangência Impacto Dano
Aumentou drasticamente /
Muito alta Total = 4 Severo = 4 Permanente = 4
Aumentou ligeiramente / Generalizado
Alta =3 Alto = 3 A longo prazo = 3
Permaneceu constante / Moderado
Média Espalhado = 2 =2 A médio prazo = 2
Diminuiu ligeiramente /
Baixa Localizado = 1 Suave = 1 A curto prazo = 1
Diminuiu drasticamente /
Muito Baixa - - -

Pontuação utilizada para análise dos módulos 3 a 19 do questionário

214
TÓPICO 3 | CRIAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E GESTÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Alternativa Pontuação
Sim (s) 5
Predominantemente sim (p/s) 3
Predominantemente não (p/n) 1
Não (n) 0
FONTE: IBAMA (2007)

5.2 O ESTABELECIMENTO DO CONSELHO DE


UMA UNIDADE DE CONSERVAÇÃO

De acordo com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC,


2012), cada unidade de conservação deve possuir um conselho, o qual será
presidido pelo Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade. Esse
conselho poderá ter caráter consultivo ou deliberativo, dependendo da categoria,
o qual constitui o principal instrumento de relacionamento entre as unidades de
conservação e a sociedade.

A formação de um Conselho, basicamente, passa por três fases: 1) a


identificação dos atores governamentais e da sociedade civil que estejam, de
alguma forma, relacionados com a unidade de conservação; 2) a sensibilização e
mobilização destes atores; e 3) a sua formação propriamente dita.

O Conselho deve ser composto por representantes da sociedade e dos


órgãos públicos federais, estaduais e municipais (Quadro 1). Sua oficialização se dá
através de portaria publicada no Diário Oficial da União, com a listagem de todos
os membros selecionados. Estão entre as competências do Conselho: elaborar o seu
regimento interno; acompanhar a elaboração, implementação e revisão do Plano
de Manejo da unidade de conservação garantindo seu caráter participativo; buscar
a integração da unidade com as demais áreas protegidas e com o seu entorno, entre
outras (SITE ICMBio, 2008).

QUADRO 9: PARTICIPANTES DO CONSELHO

ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE
ÓRGÃOS PÚBLICOS
CIVIL
Órgão gestor na presidência do conselho
Comunidade científica
da UC
Organizações não governamentais
Órgãos ambientais dos três níveis da
ambientalistas com atuação comprovada
Federação (União, Estados e Municípios)
na região da unidade
Órgãos públicos de áreas afins, tais como População residente e do entorno
pesquisa científica, educação, defesa
nacional, cultura, turismo, arquitetura, População tradicional
povos indígenas e assentamentos de
reforma agrária Proprietários de imóveis no interior da UC

215
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Trabalhadores e setor privado atuantes


na região
Representantes dos Comitês de Bacia
 
Hidrográfica
FONTE: As Autoras (2014)

Conforme comentam Palmieri e Veríssimo (2009), são objetivos do conselho


consultivo: oferecer transparência para a gestão da UC por meio de controle social;
contribuir para a elaboração e implantação do Plano de Manejo; e integrar a
unidade de conservação às comunidades, setor privado, instituições de pesquisa,
ONGs, poder público, bem como às outras áreas protegidas situadas no entorno.

Já os conselhos deliberativos possuem todas as funções acima, acrescidas


das seguintes: aprovar o Plano de Manejo; e contratação de OSCIPs para gestão
compartilhada (PALMIERI e VERÍSSIMO, 2009).

Assim, pode-se dizer que a diferença entre um conselho consultivo e


deliberativo, no que tange às unidades de conservação, diz respeito a esse último
possuir maior poder de decisão em dois itens (PALMIERI; VERÍSSIMO, 2009):

1) O conselho deliberativo aprova o Plano de Manejo das unidades de


conservação, enquanto o conselho consultivo apenas acompanha a sua elaboração,
implantação e revisão.

2) A contratação e os dispositivos do termo de parceria com OSCIP, na


hipótese de gestão compartilhada da unidade, devem ser ratificados pelo conselho
deliberativo, enquanto o conselho consultivo apenas opina sobre o caso.

Apesar dessas diferenças entre o caráter dos conselhos, é importante


destacar que se alguma recomendação do conselho for rejeitada, mesmo sendo
ele de caráter consultivo, o órgão gestor deve esclarecer o motivo. Por outro lado,
as decisões do conselho, mesmo que deliberativo, deverão estar respaldadas em
estudos técnicos e na legislação. Portanto, a competência e o envolvimento dos
conselheiros têm um peso maior na gestão da unidade de conservação do que o
tipo de conselho (PALMIERI; VERÍSSIMO, 2009).

A seguir apresentamos qual o caráter previsto para o conselho gestor de


cada categoria de unidade de conservação federal (Quadro 10).

216
TÓPICO 3 | CRIAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E GESTÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

QUADRO 10 – OBRIGATORIEDADE E TIPO DE CONSELHO PARA CADA CATEGORIA DE


UNIDADE DE CONSERVAÇÃO FEDERAL

TIPO DE
CATEGORIA CONSELHO
Área de Proteção Ambiental (APA) Conselho Consultivo
Área de Relevante Importância Ecológica
(ARIE) Não é exigido
Uso Sustentável

Reserva de Desenvolvimento Sustentável Conselho


(RDS) Deliberativo
Conselho
Reserva Extrativista (Resex) Deliberativo
Floresta Nacional (Flona) Conselho Consultivo
Reserva de Fauna Não é exigido
Reserva Particular do Patrimônio Natural
(RPPN) Não é exigido
Monumento Natural Conselho Consultivo
Refúgio de Vida Silvestre Conselho Consultivo
Proteção
Integral

Parque Nacional (Parna) Conselho Consultivo


Estação Ecológica (Esec) Conselho Consultivo
Reserva Biológica Conselho Consultivo
Mosaico de Unidade de Conservação Conselho Consultivo
Conselho
Reserva da Biosfera Deliberativo
FONTE: Adaptado de: Palmieri e Veríssimo (2009)

6 O USO PÚBLICO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

A visitação pública está prevista para todas as categorias de manejo de


unidades de conservação, com exceção das estações ecológicas e das reservas
biológicas, e desde que observadas as regras contidas no plano de manejo e no
plano de uso público (LEUZINGER, 2004).

De fato, o ecoturismo é citado como um dos poucos exemplos indiscutíveis


de desenvolvimento sustentável que funciona, porque não apenas ajuda a assegurar
a preservação in situ das áreas selvagens, como também gera retorno econômico a
partir das terras postas de lado para a conservação (DAVENPORT et al., 2002). Isso
é de grande auxílio ao governo brasileiro que, como os demais governos de países

217
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

tropicais em desenvolvimento, sofre uma grande pressão para maximizar a renda


gerada por suas terras. Assim, consegue justificar a alocação de níveis adequados
de verbas para a conservação da biodiversidade (DAVENPORT et al., 2002).

No entanto, a visitação deve ser cuidadosamente planejada, para que


permita que a unidade de conservação cumpra com os seus objetivos de criação e
contribua como uma ferramenta de sensibilização da sociedade sobre a importância
da conservação da biodiversidade e como um propulsor de desenvolvimento local
e regional (MMA, 2006).

Nesse sentido destaca-se a ferramenta da interpretação ambiental, pois


durante a visita a uma unidade de conservação, o visitante pode aprender muito
não somente sobre a unidade, mas também sobre o papel da conservação no
mundo, possibilitando uma mudança de atitudes e valores (NELSON, 2012). Para
tal, a presença de guias torna-se fundamental, sendo que eles devem dominar
a técnica de interpretação ambiental. Ainda sobre a interpretação ambiental, é
indispensável que ela seja feita em diversos locais da unidade de conservação:
centro de visitantes, trilhas, quiosques, áreas de descanso, e deve ser apoiada pela
presença de placas interpretativas (NELSON, 2012).

Uma questão importante com relação à visitação é que, de uma forma ou


outra, ela causará algum impacto, mesmo que de pequena magnitude. Por isso é
indispensável que seja realizado o manejo ecoturístico, o qual pode contar com
diversas ferramentas. Uma das formas é a utilização do método de capacidade de
suporte, que pode ser definido como o nível máximo de uso que uma área pode
suportar, considerando-se os fatores do ambiente. Dessa forma, visa determinar
quantas pessoas podem usar uma determinada área sem causar danos a ela. Na
literatura existem fórmulas para calcular esse número, de forma que você pode
acessá-la caso deseje se aprofundar mais no assunto.

Outro método que pode ser empregado é o Limite de Mudanças Aceitáveis,


cujo objetivo é estabelecer as condições desejadas para uma determinada área e o
quanto de mudança pode ser tolerado de acordo com o estabelecimento. Sendo
assim, o foco desse método está nos padrões desejados, e se o resultado do
monitoramento demonstra que há um declínio em um dos indicadores utilizados,
o motivo é investigado, medidas de correção são empregadas, e é feito um
acompanhamento (NELSON, 2012).

Por fim, há também o método de administração dos impactos dos visitantes,


que reconhece que outros fatores podem influenciar o uso público de uma área e
permite que o gestor da unidade de conservação modifique o comportamento das
pessoas e reduza os impactos. Segundo Nelson (2012), pode-se utilizar as seguintes
estratégias: redução do uso da área; regulação do acesso por transporte; controle
de visitação; aumento da taxa de entrada em algumas épocas do ano; informação;
modificação de expectativas do visitante; e elaboração de diretrizes ou código de
conduta.

218
TÓPICO 3 | CRIAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E GESTÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

O estabelecimento de um plano de uso público também é indispensável a


qualquer unidade de conservação que vise implementar atividades de ecoturismo.

7 ACORDOS DE GESTÃO

Esse instrumento é previsto para unidades de conservação de uso


sustentável. O Acordo de Gestão em unidades de conservação foi regulamentado
no ano de 2012 pela Instrução Normativa 29, onde constam as regras construídas
e definidas pela população tradicional beneficiária da Unidade de Conservação de
Uso Sustentável, juntamente com o Instituto Chico Mendes, quanto às atividades
que são tradicionalmente praticadas, como deve se dar o manejo dos recursos
naturais e o uso e ocupação da área, conciliando tais atividades com a conservação
ambiental e cumprindo a legislação vigente (SITE ICMBio, 2008).

Até o momento, oito reservas extrativistas contam com esse procedimento.

8 CONCESSÃO DE FLORESTAS PÚBLICAS

No ano de 2006, através da Lei nº 11.476, foi regulamentada a gestão de


florestas públicas, tanto naturais como plantadas, em terras da União, de estados e
municípios, com exceção das Unidades de Conservação de proteção integral e das
áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade brasileira. Partindo dessa
legislação, toda a área florestal, particularmente as florestas nacionais, estaduais
ou municipais, deve ser mapeada e dividida em áreas, as quais serão concedidas
à iniciativa privada, por licitação e, no máximo, por 10 anos, desde a data de
publicação (artigos 5º, § 1, 13 e 48) (GODOY, 2006).

Estão previstas três formas de gestão de florestas públicas para a produção


sustentável: a criação e gestão direta pelo poder público (federal, estadual ou
municipal); a destinação da floresta para uso comunitário, como assentamentos
florestais, reservas extrativistas e áreas quilombolas; e a concessão de florestas
públicas, por meio de licitação.

No processo de concessão, as terras continuam sob domínio público, mas o


setor privado possui permissão para desenvolver atividades voltadas à produção
de madeira, produtos não madeireiros e serviços como turismo. É prerrogativa
para a concessão haver a descrição das áreas em um Plano de Outorga Florestal
(PAOF), sendo que a parcela máxima passível de concessão de florestas públicas
é de 20% da área total da unidade, e a concessão tem prazo máximo de 10 anos.

219
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Conforme Godoy (2006), essa iniciativa do Governo Federal deixa clara a


falta de recursos financeiros e humanos, bem como, fiscalização para realizar a
gestão dos recursos naturais “públicos”, e a crença por parte do governo de que, ao
se transferir essa gestão ao setor privado, por passarem a serem considerados “bens
privados”, apresentariam melhores resultados. Fica implícita também a crença de
que a centralização da gestão do Governo Federal para as empresas locais leva a
uma melhor gestão ambiental das florestas.

220
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, vimos que:

• Há diferentes órgãos responsáveis pelo Sistema Nacional de Unidades de


Conservação, cada qual com finalidades diferentes.

• Apesar de muitos acreditarem que o IBAMA é o órgão que fiscaliza as unidades


de conservação, desde o ano de 2007 é o ICMBio o responsável por essa atividade.

• A criação de uma unidade de conservação é um processo complexo, que envolve


diversas etapas.

• Fator indispensável à boa gestão de uma unidade de conservação é o


estabelecimento de um plano de manejo e a constante avaliação deste.

• A presença de um conselho gestor está prevista para a maioria das unidades


de conservação federais e, de acordo com a sua categoria, pode assumir
configuração diferenciada.

• A principal ferramenta utilizada no Brasil para avaliar a efetividade das unidades


de conservação federais é o método RAPPAM, mas outras metodologias podem
ser utilizadas.

• O uso público de uma unidade de conservação deve ser muito bem planejado,
para que não surta o efeito contrário ao desejado inicialmente, isto é, que não
cause degradação ao invés da conscientização da importância da biodiversidade.

• Atualmente, o Governo Federal tem-se utilizado da ferramenta de acordos de


gestão, onde ele passa a responsabilidade pelo gerenciamento de uma unidade
de conservação a um grupo de pessoas que se utilize dessa unidade, ou ao setor
público.

221
AUTOATIVIDADE

1 Vimos que a criação de uma unidade de conservação não é tarefa fácil


e envolve diversas etapas. O que é necessário para que uma unidade seja
considerada oficialmente criada?

2 No que consiste o plano de manejo de uma unidade de conservação e quais


etapas ele contém?

3 Qual é o objetivo do zoneamento de uma unidade de conservação e quais são


as zonas previstas?

4 Sobre a concessão de florestas públicas, procure mais informações sobre o


assunto e reflita. Essa é a melhor solução para a gestão de Florestas Nacionais?

5 Sobre a concessão de florestas públicas, procure mais informações sobre o


assunto e apresente os benefícios previstos na Lei.

222
UNIDADE 3
TÓPICO 4

GESTÃO TERRITORIAL PARA A CONSERVAÇÃO

1 INTRODUÇÃO

O conhecimento acumulado na área da biologia da conservação nos


demonstra a necessidade da existência de grandes extensões de ecossistemas para
que se mantenha a biodiversidade e o funcionamento de importantes processos
ecológicos e evolutivos (MMA, 2006). No entanto, cada vez torna-se mais difícil
encontrar oportunidades de proteção de grandes áreas, e muitas unidades de
conservação são pequenas e isoladas, não podendo mais ser vistas como a opção
única (MMA, 2006).

Assim, é necessário estabelecer a integração das áreas protegidas nas diversas


escalas de planejamento e gestão do território, hoje formalmente identificadas
através dos mosaicos e dos corredores ecológicos. O próprio SNUC reconhece e
consagra em seu texto a importância dessas ferramentas para o processo de gestão
das áreas protegidas, porém, na prática, as experiências e os resultados são ainda
muito pouco numerosos e bem avaliados (MEDEIROS, 2006).

2 CORREDORES ECOLÓGICOS

Se adequadamente configurado, um corredor ecológico permite a


manutenção dos processos dos ecossistemas que são fundamentais para a
sustentação da biodiversidade em longo prazo (por exemplo, a polinização e a
dispersão de sementes, o ciclo hidrológico e a ciclagem de nutrientes), a mobilidade
e o intercâmbio genético dos componentes da flora e da fauna serão favorecidos
(MMA, 2006). Isso porque os corredores podem propiciar a união de unidades
de conservação, reservas particulares, reservas legais, áreas de preservação
permanente ou quaisquer outras áreas (SCHÄFFER; PROCHNOW, 2002).

Nesse contexto, os fragmentos de hábitats remanescentes deixam de ter a


sua importância subestimada e passam a exercer o importante papel de conectar
ou reconectar áreas maiores, manter a heterogeneidade da matriz de hábitats e
proporcionar refúgio para as espécies (MMA, 2006).

Na publicação intitulada Corredor central da mata atlântica: uma nova


escala de conservação da biodiversidade (MMA, 2006, p. 1), fica explícito que “os

223
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

corredores não são unidades políticas ou administrativas, mas sim extensas áreas
geográficas definidas a partir de critérios biológicos para fins de planejamento
e conservação”. Os critérios para o estabelecimento de um corredor são os mais
variados e consideram:

- a presença de espécies-chave relevantes nos contextos global, regional e local;


- a existência, o tamanho e o número de áreas protegidas;
- os tipos de uso do solo; a representatividade das comunidades bióticas;
- a diversidade de espécies, de ecossistemas e de hábitats; e
- a presença de espécies ameaçadas e endêmicas.

Ainda, a implementação de um corredor ecológico depende do


estabelecimento de um pacto entre a União, Estados e Municípios para permitir
que os órgãos governamentais responsáveis pela preservação do meio ambiente
e outras instituições parceiras possam atuar em conjunto (MMA, 2006). Assim
será possível, por exemplo, fortalecer a gestão das Unidades de Conservação,
elaborar estudos, prestar suporte aos proprietários rurais e aos representantes
de comunidades quanto ao planejamento e o melhor uso do solo e dos recursos
naturais, auxiliar no processo de averbação e ordenamento das reservas legais
- RL, apoiar na recuperação das Áreas de Preservação Permanente - APP, entre
outras atividades (SCHÄFFER; PROCHNOW, 2006).

No Brasil, essa estratégia de conservação vem sendo construída dentro


do Ministério do Meio Ambiente desde 1997, com apoio do Banco Mundial, por
meio do Fundo Fiduciário da Floresta Tropical (RFT – Rain Forest Trust Fund), no
âmbito do Programa-Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais no Brasil (PPG-
7) (AYRES et al., 2005 apud MMA, 2006).

3 MOSAICOS DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Outra estratégia que tem sido proposta para realizar a gestão territorial é o
estabelecimento de mosaicos de áreas protegidas. A ideia já existe há muito tempo,
mas em geral não tem sido objeto de grande reflexão teórica.

No Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei nº 9.985/00), os


mosaicos estão previstos sob a seguinte denominação: “um conjunto de unidades
de conservação de categorias diferentes ou não, próximas, justapostas ou
sobrepostas, e outras áreas protegidas públicas ou privadas” (art. 26), buscando
a gestão de forma integrada e participativa. Atualmente, tem-se buscado utilizar
um conceito que propicie maior consistência aos mosaicos, de forma que se pode
colocar como seu objetivo otimizar a gestão de áreas protegidas próximas de
forma a obter resultados mais ambiciosos de conservação da natureza e apoio ao
desenvolvimento sustentável, sobretudo de comunidades locais (MARETTI et al.,
2012).

224
TÓPICO 4 | GESTÃO TERRITORIAL PARA A CONSERVAÇÃO

FIGURA 71 - LOCALIZAÇÃO DOS CORREDORES ESTABELECIDOS PARA


O BIOMA MATA ATLÂNTICA

FONTE: Extraído de MMA (2006)

Um mosaico tem como objetivo principal compatibilizar, integrar e


otimizar atividades desenvolvidas nas unidades de conservação que o compõem,
tendo em vista, especialmente: os usos na fronteira entre as unidades; o acesso
às unidades; a fiscalização; o monitoramento e avaliação dos planos de manejo;
a pesquisa científica; e a alocação de recursos provenientes de compensação
referente ao licenciamento ambiental de empreendimentos com significativo
impacto ambiental (MMA, 2006).

Maretti et al. (2012) destacam que a implantação de um mosaico é de


particular importância em regiões onde há grandes áreas naturais, em número
considerável de áreas protegidas, e que estejam próximas umas das outras ou

225
UNIDADE 3 | GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

possuam alguma limitação de gestão (carência de meios, áreas remotas etc.).


Os autores ainda deixam clara a necessidade de evitar que o mosaico seja visto
somente com o propósito de otimização de gestão (e custos). Ele deve ser visto
também, e principalmente, como um meio de amplificar a conservação.

É válido destacar que, segundo o Decreto nº 4.340/02, que trata da
regulamentação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, somente após
o reconhecimento por ato do Ministério do Meio Ambiente, a pedido dos órgãos
gestores das unidades, é que um conjunto de unidades de conservação passa a ser
tratado como mosaico. Uma vez criado, o mosaico deve dispor de um conselho
de caráter consultivo e com função de atuar como instância de gestão integrada,
compatibilizando e otimizando as atividades de pesquisa, fiscalização e manejo
das unidades do mosaico (SITE INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL – ISA, 2014).

Segundo consta no site do Instituto Socioambiental, a ideia de mosaicos de


unidades de conservação foi inicialmente mais utilizada no bioma Mata Atlântica,
muito provavelmente devido ao seu grau de ameaça e pela presença de muitas
unidades de conservação de pequeno tamanho. Dessa forma, até o ano de 2006,
a maioria dos mosaicos reconhecidos no país estava localizada nesse bioma.
Atualmente há 13 mosaicos federais reconhecidos no Brasil. Cinco desses estão na
Amazônia.

Tambellini (s/d) destaca que os mosaicos poderão fortalecer os Corredores


Ecológicos, na medida em que as regiões nas quais estão inseridas as áreas
biologicamente prioritárias passem a ser geridas de forma integrada. Com isso,
ampliará a escala de planejamento territorial e despertará uma conscientização
para a importância da preservação da biodiversidade local, incentivando práticas
de manejo mais apropriadas, minimizando os impactos negativos das atividades
antrópicas sobre os corredores ecológicos, podendo assim diminuir os efeitos de
borda e ampliar seus limites.

4 RESERVAS DA BIOSFERA

Por fim, mas não menos importante, podemos citar as Reservas da Biosfera.
Essas áreas são porções de ecossistemas terrestres ou costeiros regidas por um
plano especial de gestão e manejo sustentável que segue os critérios adotados
internacionalmente, através do programa MaB – Man and Biosphere (O Homem e a
Biosfera), criado em 1971 pela Organização das Nações Unidas para a Educação,
a Ciência e a Cultura (UNESCO) (COSTA, 2002). Essas áreas devem ser locais de
excelência para trabalhos de pesquisa científica, experimentação e demonstração
de enfoques para conservação e desenvolvimento sustentável na escala regional
(MMA, 2006).

Pode-se dizer que cada Reserva da Biosfera é uma coleção representativa dos
ecossistemas característicos da região onde se estabelece, onde se busca otimizar

226
TÓPICO 4 | GESTÃO TERRITORIAL PARA A CONSERVAÇÃO

a convivência homem-natureza em projetos que se norteiam pela preservação dos


ambientes significativos, pela convivência com áreas que lhe são vizinhas, pelo uso
sustentável de seus recursos (SITE OECO, 2013).

Cada Reserva da Biosfera deve ser constituída por:

1) uma ou mais áreas-núcleo, destinadas à proteção integral da natureza (podem


ser integradas por unidades de conservação já criadas);
2) uma ou mais zonas de amortecimento, onde só são admitidas atividades que
não resultem em dano para as áreas-núcleo; e
3) uma ou mais zonas de transição, sem limites rígidos, onde o processo de
ocupação e o manejo dos recursos naturais são planejados e conduzidos de
modo participativo e em bases sustentáveis (COSTA, 2002).

A gestão de cada reserva da biosfera é feita por um Conselho Deliberativo,


que tem como objetivos principais, segundo consta no site do MMA (2006):

• Aprovar a estrutura do sistema de gestão de sua reserva da biosfera e coordená-lo.


• Elaborar planos de ação da reserva da biosfera, propondo prioridades,
metodologias, cronogramas, parcerias e áreas temáticas de atuação.
• Reforçar a implantação da reserva da biosfera pela proposição de projetos pilotos
em pontos estratégicos de sua área de domínio.

No mundo existem cerca de 400 Reservas da Biosfera distribuídas em 81


países (COSTA, 2002). Atualmente o Brasil conta com sete, as quais abrangem
grandes biomas:

• Reserva da Biosfera da Amazônia Central.


• Reserva da Biosfera da Caatinga.
• Reserva da Biosfera do Cerrado.
• Reserva da Biosfera da Mata Atlântica  (que inclui a Reserva da Biosfera do
Cinturão Verde da Cidade de São Paulo).
• Reserva da Biosfera do Pantanal.
• Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço.

De acordo com Brandon (2002), a problemática envolvendo as reservas


da biosfera está no fato de que, sem grandes quantidades de dinheiro e vontade
política para enfrentar as questões regionais, o fracasso dessas áreas é quase certo.

Prezado acadêmico. Chegamos ao fim do nosso Caderno de Estudos.


Gostaríamos de deixar claro que não temos a pretensão de esgotar o tema, até
mesmo porque ele é bastante amplo e dinâmico, havendo sempre novidades. No
entanto, esperamos servir como um apoio ao seu conhecimento sobre o tema e
norteador de seus estudos.

Até a próxima!

227
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, vimos que:

• A gestão territorial deve ser considerada sempre que possível, pois apenas o
estabelecimento de unidades de conservação pode não ser suficiente para
providenciar a manutenção das espécies que se procura proteger.

• Uma das formas de proceder à conservação em nível regional é o estabelecimento


de corredores ecológicos, sendo utilizados vários critérios para definir a sua
importância e configuração.

• O mosaico de unidades de conservação propicia que diversos objetivos de


conservação sejam considerados em conjunto e providencia uma melhor gestão
dos recursos naturais e da biodiversidade.

• A reserva da biosfera, apesar de não ser muito conhecida, é um instrumento


bastante antigo, cuja implementação é bastante complexa.

228
AUTOATIVIDADE

1 No que consiste a estratégia de criação dos corredores ecológicos? E o que é


necessário haver no local para que ele possa vir a ser estabelecido?

2 A criação de mosaicos de unidades de conservação pode ser considerada


de fundamental importância quando se considera a conservação da
biodiversidade em nível regional. Explique o motivo.

3 As Reservas da Biosfera também são um instrumento que visa à conservação


da biodiversidade de forma integrada, tentando aliá-la às atividades humanas.
Considerando esse objetivo bastante ousado, a configuração de uma reserva
da biosfera é bastante complexa. De que forma ela deve ser constituída?

Assista ao vídeo de
resolução da questão 2

229
230
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