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Fundações – ENG01142 -1-

Cálculo de Sapatas Isoladas Sujeitas a Carga Centrada pelo Método das Bielas

1. Generalidades
Um método simples e muito utilizado no dimensionamento de sapatas rígidas de
concreto armado é o método das bielas. É aplicável aos casos em que atuam uma carga linear
no eixo de uma fundação corrida ou uma carga concentrada no baricentro de uma sapata
isolada.
De acordo com esta teoria, quando a altura útil da sapata é relativamente grande e as
pressões são distribuídas uniformemente no solo, a transmissão da carga ao solo se faz ao
longo de bielas comprimidas de concreto, ancoradas na armadura inferior por aderência ou
dispositivos apropriados.
Este esquema de distribuição de esforços conduz à necessidade de determinar a força
de tração nas armaduras e a tensão de compressão no concreto das bielas (Figura 1).

a0 a0

P P

z
ds α d0 h0
d
dF
dx
a
x
α
a) b)

ds cosα α z
dP

dR
a α

dR c)
ds= Z dx
d0
Figura 1

2. Cálculo de sapata contínua sob parede


Admitindo uma distribuição uniforme de pressões no solo tem-se, sendo P a carga por
unidade de comprimento da sapata,
P
dP = dx
a
P x
donde dF = dPtgα = dx.
a d0

a a − a0
Integrando para toda a largura da sapata e levando em conta que = , resulta:
a0 d

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a
P (a − a0 )

2
F= dF =
0 8d
Esta é a força de tração na armadura, por unidade de comprimento da sapata.
A armadura de tração, por unidade de comprimento da sapata, é calcula pela
expressão:
γfF
As =
f yd

na qual γf e fyd são respectivamente o coeficiente de majoração da solicitação e a tensão de


cálculo do aço utilizado.
A armadura de distribuição não deve ser menor que ¼ da seção da armadura principal.
De acordo com a NBR 6118/2003, a altura útil da sapata, para ser considerada rígida,
a − a0
deve ser d ≥ .
3
A tensão de compressão no concreto das bielas pode ser estimada com o auxílio da
Figura 1, obtendo-se:
dR
σc =
ds cos α
dP P z
Como dR = = dx e ds = dx ,
cos α a cos α d0
Pd o
substituindo em σc, resulta σ c =
az cos 2 α

Observa-se que σc depende de duas variáveis, z e α . O máximo valor da tensão no


concreto da biela é obtido para o mínimo de zcos2α , na ligação com o pilar onde
a0 d
z= .d e cosα =
a − a0 ⎛ a − a0 ⎞
2
⎜ ⎟ +d
2

⎝ 2 ⎠

P ⎡ 1 ⎛ a − a ⎞2 ⎤ a − a0 a − a0
resulta: σ c máx = ⎢1 + ⎜ 0
⎟ ⎥ Como d≥ ou ≤3
a0 ⎢⎣ 4 ⎝ d ⎠ ⎥⎦ 3 d

a 3 ,25 P
Fazendo d0 = d σ cmáx ≤
a − a0 a0
Quanto à aderência deve-se tecer as seguintes considerações:
Os esforços elementares dF são transmitidos às barras por meio da aderência.
dF
Este esforço, por unidade de comprimento, é igual a . Ele é nulo no eixo e
dx
máximo nas extremidades onde vale:

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P P (a − a0 )
G= =
2d0 2 ad
Haverá segurança quanto à aderência se:
γ fG
τb = ≤ fbd
µs
com os seguintes significados:
τb= tensão de escorregamento na armadura
γf = coeficiente de majoração das solicitações
µ = nπφ = perímetro da armadura por unidade de comprimento de sapata (n é o
número de barras por unidade de comprimento de sapata e o seu diâmetro).
fbd = η1 η2 η3 fctd - resistência de aderência de cálculo entre a armadura e o concreto
(NBR 6118/2003, item 9.3.2.1);
η1 = 1,0 para barras lisas, 1,4 para barras entalhadas e 2,25 para barras nervuradas;
η2 = 1,0 para situações de boa aderência e 0,7 para situações de má aderência;
η3 = 1,0 para φ < 32 mm e (132-φ)/100, para φ > 32 mm.
f ckinf
fctd = - resistência à tração de cálculo, do concreto (NBR 6118/2003, item
γc
9.3.2.2);
f ctkinf = 0,7 f ctm ⎫⎪
⎬ (NBR 6118/2003, item 8.2.5)
f ctm = 0,3 f ck2 / 3 ⎪⎭
Na prática é mais fácil verificar se a armadura escolhida apresenta segurança quanto a
aderência, comparando o seu perímetro µs com µsmin dado pela expressão:
γ fG
µ s min = µ s ≥ µ s min
f bd
Ganchos nas extremidades das barras devem ser utilizados.

Exemplo de cálculo de sapata contínua sob parede

Calcular uma sapata contínua sob uma parede de 25cm de espessura, carregada com
300kN/m e assentada sob um solo com tensão admissível p = 0 ,2 MN / m 2 . O concreto terá
fck=15MN/m² e as armaduras serão de aço CA-50.
Solução:
P 0 ,3
Largura da sapata: a = = = 1,5 m
p 0 ,2
a − a0 1,5 − 0 ,25
Altura da sapata: d ≥ = ≥ 0 ,4166 m ⇒ Adotar d=46cm e h=50cm
3 3

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P ⎡ 1 ⎛ a − a 0 ⎞ 2 ⎤ 3,25P
σ cmáx = ⎢1 + ⎜ ⎟ ⎥≤
a0 ⎢⎣ 4 ⎝ d ⎠ ⎥⎦ a0

0,3 ⎡ 1 ⎛ 1,5 − 0,25 ⎞ ⎤ 3,25.0,3P


2

σ cmáx = ⎢1 + ⎜ ⎟ ⎥≤
0,25 ⎢⎣ 4 ⎝ 0,46 ⎠ ⎥⎦ 0,25

3,41 ≤ 3,9

Cálculo da armadura:
P (a − a 0 ) 300 (1,5 − 0 ,25 )
F= = = 101,90 kN / m
8 d 8 0 ,46
γfF 1,4 x 0 ,1019
As = = −4
= 3,28cm 2 / m − φ 8 c / 15
f yd 435 x 10

Armadura de distribuição:
3 ,28
As = = 0 ,82cm 2 / m = φ 5 c / 24
4

Verificação da aderência:
P(a − a0 ) 0 ,3(1,5 − 0 ,25 )
G= = = 0 ,2717 MN / m
2ad 2 x1,5 x 0 ,46
γ G
µ s min = f

f bd
fbd = η1 η2 η3 fctd (NBR 6118/2003, item 9.3.2.1)
2 2
3
f ctkinf 0,7.0,3. f ck 3 0,7.0,3.15
fctd = = = = 0,912 MN/m2
γc γc 1,4
fbd = 2,25 . 1,0 . 1,0 . 0,912 = 2,052 MPa
1,4 x 0,2717
µ s min = = 0,1853m / m = 18,53cm / m
2,052
O perímetro µ s da armadura adotada, φ8 c/15 é 16,75cm/m.
Como µ s ≤ µ s min , diminui-se o afastamento entre as barras e verifica-se

novamente a aderência.
Para φ8 c/ 13 o perímetro µ s é 19,33cm/m.

Agora, como µ s ≥ µ s min , há segurança quanto à aderência.

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3. Cálculo de sapata isolada sob pilar

O método das bielas é também aplicável ao dimensionamento de sapatas isoladas


sujeitas a carga concentrada no seu baricentro.
Para o caso de uma sapata quadrada, de lado a, sob um pilar quadrado ao, a
componente horizontal da força dR, transmitida pela biela DM, é equilibrada pelas forças que
se desenvolvem nas barras da malha ortogonal que se cruzam em M, situadas nas faixas de
largura dx e dy.
Baseado no modelo esquematizado na Figura 2, pode-se escrever
P
dP = dxdy
a2
dP d 0
=
dF ρ
Pρdxdy Pρ cosθdxdy Pxdxdy
donde dF = 2
e dFx = dF cosθ = = 2
a d0 a 2 d0 a d0

d0
O dx
x

ρ
dy M dFx
θ

y dP
dF
dFy

dR
Figura 2

A força total na direção X, numa faixa de largura dy será:


a


2 Pdy
dFx =
0 8 d0
A força total na direção X, para toda a largura da sapata será:
a
+


2 Pdy Pa
Fx = . =

a 8 d 0 8 d0
2

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Na direção y, como a sapata e o pilar são quadrados, ter-se-á o mesmo resultado e


pode-se escrever:
Pa
Fx = Fy =
8d0
d a − a0 1 a − a0
Como = ou seja = ,
d0 a d0 ad
p a − a0
Fx = Fy =
8 d
A armadura de tração, igual nas duas direções, será calculada pela expressão:
γ f ⎛ P a − a0 ⎞
As = ⎜ ⎟
f yd ⎝ 8 d ⎠
A maior tensão de compressão no concreto ocorrerá nos ângulos de junção das arestas
da sapata com o pilar e vale:

P ⎡ (a − a0 ) ⎤
2
σ cmáx = ⎢1 + ⎥
aa0 ⎣⎢ 2 d ⎦⎥

Na prática, experiências mostram que rupturas por compressão do concreto, junto ao


pilar, jamais ocorrem e pode-se dispensar este cálculo. O mesmo procedimento pode ser
a − a0
adotado em relação ao esforço cortante se for cumprida a condição d ≥ .
3
Para o caso de sapata retangular, se a seção(a0, b0) do pilar é homotética da seção (a,b)
da sapata, a teoria exposta para a sapata quadrada é válida. Figuras homotéticas são figuras
semelhantes, colocadas de modo que seus lados homólogos sejam paralelos. Chamam-se
lados homólogos, nas figuras semelhantes, os lados que são adjacentes aos ângulos
respectivamente iguais.
y
d

x x
b0 b

y d0

a0

d b0
Figura 3

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As forças que tracionam as armaduras, nas direções x e y são, respectivamente,


P a − a0 P b − b0
Fx = e Fy =
8 d 8 d
e as armaduras correspondentes,
γ f Fx γ f Fy
Asx = e Asy =
f yd f yd

a − a0 b − b0
A altura útil d deve ser maior, no mínimo igual a e .
3 3
Segundo M. Caquot, para que se tenha segurança ao puncionamento deve-se ter ainda
γfP
d ≥ 1,44
0 ,85 f cd
A maior tensão de compressão no concreto ocorrerá nos ângulos de junção das arestas
da sapata com o pilar e vale:
⎡ ⎤
⎢ ⎥
p ⎢ (a − a0 ) + (b − b0 ) ⎥
2 2
σ cmáx = 1+
ζa0 b0 ⎢ 2
⎛ 1 ⎞ 2 ⎥

⎢ 4⎜⎜ ⎟⎟ d
⎢⎣ ⎝ 1−ζ ⎠ ⎥⎦

a0 b0
com = =ζ
a b

Cálculo de sapata isolada sob pilar

Calcular uma sapata isolada sob um pilar com dimensões da seção transversal
a0=50cm e b0=25cm, solicitado por uma carga axial P=1000kN. A pressão admissível sobre o
terreno é p = 0 ,25 MN / m 2 , o concreto a ser usado tem fck=15MN/m2 e as armaduras serão de
aço CA-50.
Solução:
Fazendo a base da sapata homotética
da seção transversal do pilar, tem-se:
a a0
= b0 b
b b0
a0
a
a0=50cm b0=25cm =2
b a

Figura 4

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P 1000
Área da base da sapata: A = = = 4m 2
p 250

A
A= ab = 2b2 b = = 1,414 m ≅ 1,45m
2
a= 2b =2,9m
A altura útil da sapata deve ser:

a − a0 2 ,9 − 0 ,5
= = 0 ,8 m
3 3
b − b0 1,45 − 0 ,25
d≥ = = 0 ,4 m
3 3
γfP 1,4 x1000
1,44 = 1,44 = 0 ,565m
0 ,85 f cd 15 x 10 3
0 ,85 x
1,4
Para que a armadura do pilar fique convenientemente ancorada no bloco:
h ≥ l b ,nec

φ f yd
lb = * (NBR 6118/2003, item 9.4.2.4.)
4 f bd
fyd = 435 MN/m2 - Tensão correspondente à deformação 20/00 da armadura de aço CA-
50 de um pilar sujeito à compressão axial.
fbd = η1 η2 η3 fctd - Tensão de aderência de cálculo entre a armadura e o concreto
(NBR 6118/2003, item 9.3.2.1).
2 2
3
f ctkinf 0,7.0,3. f ck 3 0,7.0,3.15
fctd = = = = 0,912 MN/m2
γc γc 1,4
fbd = 2,25 . 1,0 . 1,0 . 0,912 = 2,05 MN/m2
φ 435
lb = . = 53,0 φ
4 2,05
As ,calc
l b ,nec = α 1 l b ≥ l b ,min
As ,ef

l b ,nec = 1,0 . 53,0φ .1,0 = 53,0φ

l b ,min = maior valor entre 0,3 l b , 10φ e 100 mm.

l b ,nec > l b ,min


Para φ = 16mm, h ≥ l b ,nec ≅ 84,8cm

Adota-se então d=85cm e h=90cm.

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Forças de tração das armaduras:


P (a − a 0 ) 1000 (2,9 − 0,5)
Fx = = = 353,0 kN
8 d 8 0,85
P (b − b0 ) 1000 (1,45 − 0,25)
Fy = = = 176,5kN
8 d 8 0,85

Cálculo das armaduras:


γ f Fx 1,4 x 353
Asx = = = 11,36cm 2
f yd 43,5

⎛ 25 + 145 ⎞
Asx min = ρ min Acx = 0,0015⎜ 65 x145 + x 25 ⎟ = 17,323cm 2
⎝ 2 ⎠
Como Asx<Asxmin, adotar Asmín= 17,33cm2
Asx 17,33
Asx / m = = = 11,95cm 2 / m − 12.5 c / 10
b 1,45
γ f Fy 1,4 x 176,5
Asy = = = 5,68cm 2
f yd 43,5

⎛ 50 + 290 ⎞
Asy min = ρ min Acy = 0,0015 ⎜ 40 x 290 + x 50 ⎟ = 30,15 cm2
⎝ 2 ⎠
Como Asy<Asymin, adotar Asy=Asymin= 30,15cm2
Asy 30,15
Asy / m = = = 10,40cm 2 / m − 10 c / 7,5
a 2,90

Verificação da aderência:
P(a − a0 ) 1(2,9 − 0,50)
G= = = 0,487 MN / m
2ad 2 x 2,9 x 0,85
γ fG
µ s min =
f bd
fbd = η1 η2 η3 fctd (NBR 6118/2003, item 9.3.2.1)
2 2
3
f ctkinf 0,7.0,3. f ck 3 0,7.0,3.15
fctd = = = = 0,912 MN/m2
γc γc 1,4
fbd = 2,25 . 1,0 . 1,0 . 0,912 = 2,05 MN/m2
1,4 x 0,487
µ s min = = 0,3325m / m = 33,25cm / m
2,05
O perímetro µ s da armadura adotada, φ10 c/ 7,5 é 41,88cm/m.

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Como µ s ≥ µ s min , há segurança quanto a aderência.

Geometria da sapata

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Figura 5

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