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A BASE DIÁDICA DO CLIENTELISMO

Carl H. Landé

Este volume reúne uma seleção de trabalhos os quais tratam de um tipo de organização social e política
que durante as duas últimas décadas atraiu a atenção de um número crescente de estudiosos engajados no
estudo das sociedades "em desenvolvimento". Esses estudiosos descobriram que, em muitas dessas socie-
dades, as relações pessoais representam uma parte mais importante na organização da atividade política
do que os grupos organizados baseados na co-participação, na identificação de classe, ocupação ou afini-
dade ideológica. Mesmo onde grupos desse último tipo parecem existir, eles freqüentemente agem menos
como coletividades disciplinadas do que como agrupamentos de relações pessoais. Essa observação levou
muitos dos que estudam a política dos países em desenvolvimento a examinar um conjunto de literatura an-
tropológica que trata de relações interpessoais.
Entre os termos usados para denotar as relações interpessoais e as combinações de tais relações em
vários graus de complexidade e magnitude estão "relação diádica", "grupo diádico não-corporado" e "rede
social". As relações diádicas são compostas de somente dois indivíduos e, portanto, são entidades de mi-
cronível. Os grupos diádicos não-corporados, tais como os sistemas patrão-cliente ou clientelas, os quais
são o assunto principal desse livro, são combinações de nível médio que consistem em conjuntos de rela-
ções diádicas ligadas para alcançar objetivos delimitados em limitados períodos de tempo. As redes sociais
são a totalidade de relações diádicas ou de relações diádicas significantes que se encontram em um campo
social. Há uma certa divergência entre os estudiosos interessados nesses tipos de estruturas no que con-
cerne às suas naturezas exatas, aos seus graus de distinção, às suas variedades, aos seus limites, às con-
dições que as põem em relevo e às conseqüências de suas presenças para o processo político. Esta intro-
dução à presente coleção será destinada tanto a uma breve discussão sobre as estruturas diádicas desses
três diferentes graus de magnitude, começando com os menores e mais simples e terminando com os maio-
res e mais complexos, como uma consideração sobre sua significação para a análise política.

RELAÇÕES DIÁDICAS

Uma relação diádica, no seu sentido de ciência social, é uma relação direta envolvendo alguma forma
de interação entre dois indivíduos.
A palavra chave nessa definição é direta. Implica ligação pessoal. Distingue uma relação diádica de
uma relação na qual dois atores estão ligados um ao outro indiretamente como uma conseqüência do fato
de ocuparem lugares ou posições que estão interligadas ou de serem membros de um mesmo grupo.
De fato dois indivíduos podem estar engajados simultaneamente em relações diádicas como não-diádi-
cas. Isso pode tomar difícil, sob condições estáveis, a distinção entre as duas. No entanto, a diferença entre
elas torna-se clara sob condições de mudança ou conflito, quando deve ser feita uma escolha entre uma e
outra.

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Tradução para fins didáticos de LANDÉ, Carl H. Introduction: the diadic basis of clientelism. In: SCHMIDT, S. W. et al. (org.). Friends,
followers and factions; a reader in political clientelism. Berkeley, University of California Press, 1977, p. xiii-xxxvii.

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Imagine-se dois funcionários, cada qual com um subordinado. O primeiro funcionário, A, é transferido la-
teralmente para um departamento diferente. O seu subordinado, B, vai com ele. A sobe de posto e, também,
assegura uma posição melhor para B. A é rebaixado, e B o segue na desgraça. A morre ou é demitido e B
se demite ou é, também, demitido. O funcionário C também tem um subordinado, D. C vai para os lados,
para cima, para baixo ou para fora. Mas D permanece no seu lugar. Ou D se movimenta enquanto C perma-
nece no lugar. Observando esses dois conjuntos de superiores e subordinados, pode-se inferir que A e B se
consideram – ou são considerados pelas autoridades superiores que fazem ou aprovam a escolha de funci-
onários – membros de uma relação diádica que tem precedência sobre a sua ligação com seus postos. O
contrário pode ser inferido no caso de C e D.
Um segundo exemplo ilustrará mais a distinção. Imagine-se uma pessoa E que tem dois amigos, F e G.
Os três são membros de uma associação. E é expulso, e, conseqüentemente, F abandona a associação por
lealdade a E. Pode-se deduzir que para F a relação diádica com E era mais importante do que a sua quali-
dade de membro de uma associação, enquanto para G o contrário parece ter sido o caso.
Várias relações padronizadas, observáveis em sociedades diversas e em diferentes períodos históricos,
podem ser descritas como diádicas ou não-diádicas em graus variáveis. Um homem que pega em armas
para ajudar um amigo está envolvido em uma relação diádica. O vassalo de um rei medieval, o servo do
vassalo e o cliente de um funcionário pré-moderno tailandês estão envolvidos em relações que dependem
muito da relação pessoal, isto é, ligação diádica, para a sua estabilidade e efetividade. O recruta do exército
moderno, o burocrata weberiano e o operário industrial que recebe ordens do seu capataz e trabalha em
conjunto com seu vizinho na linha de montagem estão envolvidos em relações que num primeiro momento
são não-diádicas. Laços pessoais podem desenvolver-se subseqüentemente e podem ajudar ou impedir a
operação das conexões não-diádicas, embora não sejam essenciais para as últimas.
Uma relação diádica como foi aqui definida pode ser totalmente voluntária ou obrigatória para um ou
ambos os membros. Pode ser difusa e meramente acarretar um compromisso de ajuda mútua ou pode cla-
ramente envolver obrigações específicas para cada membro. Pode existir entre duas pessoas de status só-
cio-econômicos iguais ou entre duas pessoas de diferentes status. Pode ter uma duração relativamente cur-
ta, durar o resto da vida, ou passar de geração para geração pelos descendentes daqueles que criaram a
díade original. O único elemento essencial para a definição deve ligar dois indivíduos por um laço pessoal
direto.
Todavia, as distinções entre relações diádicas voluntárias e obrigatórias, por um lado, e entre aquelas
com obrigações difusas e específicas, por outro, são importantes para uma compreensão da natureza das
relações diádicas. De certo modo, as relações diádicas mais puras são aquelas que são voluntárias e difu-
sas, pois refletem as livres escolhas dos seus participantes e dependem, para sua resistência, da reação de
cada membro à indução feita pelo outro. Mesmo as relações impostas e que envolvem obrigações clara-
mente delineadas são prováveis de ser mais aceitáveis para os seus participantes e, portanto, mais ativas e
duráveis para a extensão que elas adaptam ao conteúdo e ao estilo das relações diádicas voluntárias e difu-
sas. George Foster chama tais relações de "contratos diádicos implícitos"(1). Como uma alternativa eu sugi-
ro o termo "alianças diádicas". As alianças diádicas são de dois tipos: aquelas entre pessoas de status
iguais e aquelas pessoas de status diferentes, isto é, aquelas que são "horizontais" e aquelas que são "ver-
ticais". Elas diferem em muitas maneiras e devem ser examinadas separadamente. Começarei com uma
discussão sobre as alianças diádicas horizontais e, subseqüentemente, discutirei as alianças verticais.

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ALIANÇAS DIÁDICAS HORIZONTAIS

Uma aliança diádica é um acordo voluntário entre dois indivíduos que visa à troca e à ajuda mútua
quando necessário. Segue-se uma consideração sobre vários elementos dessa definição e sobre algumas
de suas implicações nas alianças diádicas horizontais.

A CERTEZA MÚTUA DE AJUDA QUANDO NECESSÁRIO

As obrigações em relação à troca de favores e à ajuda mútua em caso de necessidade não são a mes-
ma coisa e devem ser tratadas separadamente. Ocuparei-me primeiro da ajuda mútua, pois das duas é a
mais importante.
As palavras "ajuda mútua em caso de necessidade" sugerem duas das características distintivas das
alianças diádicas. Primeiro, sugerem a natureza genuinamente diádica de tais alianças. As obrigações dos
dois aliados são mútuas e não em relação a qualquer organização superior da qual um ou ambos sejam
membros. Segundo, sugerem que as obrigações de cada aliado dependem das necessidades do outro. Su-
põe-se que cada um tenha um interesse genuíno pelo bem estar do outro e que faça o que puder para pro-
mover o bem-estar do outro sem uma estimativa muito precisa de seus próprios custos. Em particular, espe-
ra-se que cada um ajude o outro em emergências extremas, isto é, quando a ajuda é mais necessária. Em
suma, espera-se que ambos os aliados demonstrem mútuo altruísmo. Essa expectativa de altruísmo e as
obrigações difusas que a ela estão associadas muito claramente distinguem uma aliança diádica de uma re-
lação contratual na qual as obrigações das partes contratantes são claramente delimitadas e não se supõe
que alguém, além de seguir os termos específicos do contrato, deva ainda sacrificar seus próprios interes-
ses em benefício do outro.

A TROCA DE FAVOR

As alianças diádicas envolvem a troca de favores. Um favor é algo recebido em termos mais vantajosos
do que aqueles que podem ser obtidos por qualquer um ad hoc no mercado, ou que de maneira alguma po-
dem ser obtidos no mercado. Assim, a superioridade de um recurso ou de um serviço obtido através do fa-
voritismo pode estar no seu preço abaixo do mercado. Pode situar-se na sua disponibilidade para o receptor
quando da sua necessidade em quantidade, de uma só vez, geralmente havendo pouca provisão do item ou
quando da extrema necessidade do mesmo. Ou pode, ainda, situar-se no fato de que o benefício não pode
ser obtido através de simples compra.
A troca de favores é uma das finalidades das alianças diádicas. Mas a troca de favores também serve
como um meio de manter uma aliança diádica e de, assim, atingir o seu outro propósito: a união de dois ali-
ados que podem contar com ajuda mútua em caso de necessidade. Portanto, a troca de favores permite a
cada aliado demonstrar seu interesse na aliança e a sua disposição de fazer sacrifícios por seu aliado. Tam-
bém serve como uma demonstração pública da aliança. Através de tal demonstração os dois se comprome-
tem publicamente com a sua aliança e solicitam opróbio social se falharem no cumprimento de suas obriga-
ções mútuas. A troca de favores conspícua cumpre algumas funções adicionais. Mostra que cada um dos
aliados é valioso e, conseqüentemente, atrai aos outros possíveis aliados, e dá a entender a seus inimigos
que cada um virá em defesa do outro quando assim chamado.

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Porque a troca de favores serve tanto como meio quanto como fim em si mesma, ela pode ocorrer entre
aliados mesmo que nenhum deles necessite as coisas que recebe em tal troca. Portanto, as alianças diádi-
cas geralmente envolvem a doação de presentes não desejados e a recepção alternada em ocasiões ceri-
moniais.

OS ESTREITOS OBJETIVOS DA TROCA DIÁDICA

A construção de alianças diádicas é especialmente bem condizente com a busca de objetivos privados
particulares. Ao escolher essa técnica, ao invés da, ou em adição à técnica alternativa de trabalhar como
um membro de um grupo por objetivos com os quais aquele grupo está de acordo, um indivíduo se reserva
o direito de determinar os seus próprios objetivos. Mas, ao mesmo tempo, compromete-se a pagar o preço
pleno pelo que recebe através da troca diádica. Seu aliado faz o mesmo. Por isso, não é provável que ne-
nhum deles solicite, através dessas trocas, mais do que possa usar para si e para os seus dependentes di-
retos. Além do mais, como a maioria dos indivíduos comuns não comanda mais do que um limitado estoque
de recursos intercambiáveis, eles geralmente não podem, de fato, oferecer mais em troca do que é neces-
sário para satisfazer as necessidades privadas de um indivíduo ou de uma família.
Outra razão por que a troca diádica tende a ser destinada à busca de objetivos particulares é a de que
aqueles engajados em trocas diádicas são, freqüentemente, indivíduos que em alguns aspectos são diferen-
tes. Um procurou o outro porque este último tem algo que o primeiro necessita, mas não possui. As suas di-
ferenças podem ser meramente quantitativas e temporárias. Ambos podem possuir recursos do mesmo tipo,
mas cada um apresenta uma escassez ou excesso desses recursos em diferentes épocas. Assim, um cam-
ponês ajuda o outro em tempo de emergência e o outro retribui, mais tarde, com uma ajuda semelhante.
Mas as suas diferenças também podem ser de um tipo qualitativo: um tem muito de alguma coisa, mas
nada de outra; como em uma aliança entre um empresário e um político na qual um deles dá dinheiro ao ou-
tro, recebendo em troca benefícios de influência política. Finalmente, os dois podem ser diferentes porque
um tem muito mais riqueza ou poder que o outro. Assim ocorre no caso das relações patrão-cliente, o as-
sunto principal desse livro.
Quando dois aliados são qualitativamente diferentes, é improvável que o desejo egoísta de uma pessoa
de ajudar o seu aliado tome uma forma mais ampla de preocupação pelo bem-estar do grupo ocupacional
ou classe a qual aquele aliado pertence. Um arrendatário fará favores a seu proprietário de terras, mas não
é provável que defenda os interesses dos proprietários de terras em geral. Um proprietário de terras conce-
derá empréstimos ao seu arrendatário, mas é improvável que se preocupe com as necessidades coletivas
de todos os arrendatários.

A SIMPLICIDADE DA CONSTRUÇÃO DE ALIANÇAS DIÁDICAS COMO UMA TÉCNICA

Como se tornou evidente, a construção da aliança diádica é uma técnica simples. Isso é devido ao pe-
queno tamanho das díades, à natureza do processo de construção da aliança diádica e às características
organizacionais das díades. Uma díade é composta de dois indivíduos, o que a torna o menor dos grupos.
O processo de construção de alianças diádicas envolve a simples troca de favores e não a tarefa mais difícil
de alcançar objetivos coletivos. Uma díade, como observou Georg Simmel, não é uma entidade super-indivi-
dual com uma existência acima e independente dos seus membros(2). Portanto, não tem a pompa organiza-
cional do tipo encontrado, inclusive, no grupo corporado mais simples. Não tem nome, nem concordância
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sobre o procedimento para tomar decisões coletivas e selecionar líderes, nem compromisso comum de obe-
decer tais líderes e de agir em uníssono de outros modos específicos. Uma aliança diádica, por conseguinte
é fácil de criar. A sua formação pode ser proposta por qualquer um dos seus dois prováveis membros, por
meio da feitura ou do pedido de um favor com o entendimento implícito de que o favor será retribuído, de
que seguir-se-ão outras trocas e de que, em geral, cada um pode pedir a ajuda do outro em caso de neces-
sidade. A aliança se toma uma realidade e ganha força com a continuidade das trocas. Torna-se mais forte
quando a ajuda é dada com algum custo para o doador em uma época de extrema necessidade para o re-
ceptor. Quando as trocas param, e não há intenção de renová-las, ou quando um pedido de ajuda em caso
de necessidade é ignorado, a aliança acaba.
Devido à simplicidade dessa técnica, ela é usada em todas as sociedades. Em toda parte as crianças
aprendem a assegurar-se das respostas favoráveis das pessoas das quais elas têm de depender: primeiro,
dentro da família e, depois, fora, fazendo ou retribuindo favores a esses indivíduos. Como adultos, empre-
gam a mesma técnica em graus variados, em diversas esferas da vida. Por essa razão, como salientou Je-
remy Boissevain, é enganoso descrever as alianças diádicas ou as combinações diádicas maiores como
meramente "intersticiais", "suplementares" ou "paralelas" aos grupos corporados, como têm feito certos au-
tores(3).
Na verdade, a construção da aliança diádica é uma estratégia óbvia de primeira escolha – e, às vezes,
como último recurso – para o indivíduo sozinho enquanto persegue uma variedade de interesses ou objeti-
vos privados.
A técnica é apropriada para esses propósitos por diversas razões: permite a um indivíduo dar inequívo-
ca prioridade ao alcance de metas as quais julga importantes. Isso exige que não faça mais pelos outros do
que é necessário como um quid pro quo para a conquista de seus próprios objetivos. Permite-lhe ser o seu
próprio tático, deixando-o livre para alterar o seu sistema de alianças para adequar relações de poder in-
constantes e mudanças aos seus próprios interesses e objetivos.
Embora vantajosa de um ponto de vista egocêntrico, sob as condições corretas, a técnica tem sérias li-
mitações. Depende da disposição dos outros de se aliarem àquele indivíduo. A menos que ele possa dar
algo de valor a outra pessoa, não se espera que essa última se torne sua aliada. Conseqüentemente, pes-
soas que possuem ou têm acesso a recursos substanciais têm muitos possíveis aliados e podem se permitir
criar alianças com muitos deles. O pobre e o fraco, por outro lado, pode ter poucos aliados dispostos para
escolher e pode achar que, de qualquer maneira, não pode permitir-se cultivar mais que poucas alianças.
Além do mais, como a manutenção de uma aliança diádica depende da boa vontade de ambos os aliados,
um indivíduo pode descobrir que está perdendo os seus aliados quando mais necessita deles, apesar de
suas afirmações anteriores de uma preocupação pelo seu bem-estar, porque eles não o acham mais útil do
ponto de vista dos seus próprios interesses. Finalmente, embora apropriada para o alcance de interesses
privados, a construção de alianças diádicas é inadequada à mobilização de um grande número de pessoas
para o alcance de objetivos coletivos.

O PROBLEMA DA CONFIABILIDADE

As alianças diádicas são relações voluntárias que envolvem obrigações difusas em vez de obrigações
claramente delineadas. Portanto, não podem ser feitas dependentes, para o seu funcionamento apropriado
e para sua durabilidade, de sanções legais. Na verdade, com freqüência recorre-se à construção de alian-
ças diádicas devido à ausência de instituições legais capazes de manter em vigor contratos formais ou por-

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que os indivíduos envolvidos preferem não colocar as suas relações em uma base contratual ou sujeitá-las
à omissão legal. As redes de alianças que existem no submundo do crime ilustram esse ponto.
As alianças são formadas no primeiro exemplo porque ambos os aliados esperam ser úteis a si mes-
mos. Mas as necessidades e os recursos dos indivíduos mudam com o passar do tempo. Os aliados de lon-
ga data podem perder a sua atratividade quando aliados potencialmente mais úteis entram em cena. Na au-
sência de impedimentos legais, um membro de uma aliança pode ser fortemente tentado a deixá-la caducar,
enquanto o outro ainda deseja mantê-la. Logo, a confiabilidade dos aliados é, freqüentemente, uma questão
de sério interesse para aqueles que se engajaram na construção de alianças diádicas. Para maximizar a
probabilidade de que as obrigações contraídas através de tais alianças serão honradas, devem ser empre-
gados vários métodos não-legais juntamente com a troca de favores.
Um desses métodos é o da invocação de normas que sustentam a fidelidade nas alianças. Uma delas é
a que Alvin Gouldner chama de "norma da reciprocidade". Essa norma, afirma Gouldner, "faz duas deman-
das mínimas: 1) as pessoas devem ajudar aquelas que anteriormente lhes ajudaram; 2) as pessoas não de-
vem injuriar aqueles que lhes ajudaram". O ponto importante sobre essa norma é que ela é internalizada
não somente por aqueles que estão em posição de fraqueza, mas também por aqueles que têm o poder de
obter qualquer coisa sem dar nada em troca. Isso, salienta Gouldner, explica o fato de que a oportunidade
de explorar os outros não é normalmente usada em seu benefício máximo(4). A curto prazo, essa norma, se
respeitada, assegura a retribuição dos favores não retribuídos. Mas não requer a continuidade indefinida de
uma aliança diádica, a menos que os débitos pendentes sejam tão grandes que não possam ser pagos rapi-
damente. Por essa razão, um procedimento útil para os construtores de alianças é o de sobrecarregar um
aliado com um "débito impagável", isto é, um débito tão grande que nunca possa ser completamente recom-
pensável. Um débito impagável é aquele criado em época de necessidade ou com alto custo. Salvar uma
vida cria, é claro, uma dívida impagável. Nas Filipinas, as crianças são freqüentemente lembradas de que
têm dívidas impagáveis para com os seus pais e, em particular, para com as suas mães pelos riscos que
passaram para dar-lhes a luz(5). Isso os coloca sob uma obrigação contínua de obedecer aos pais e de cui-
dá-los quando envelhecerem. O reconhecimento da existência de tal débito significa que o aliado em dívida
não pode romper a aliança e deve estar sempre pronto a atender um pedido de ajuda, a menos que possa
retribuir com um favor que seja de uma importância "impagável" tamanha que anule o débito inicial.
Uma norma um tanto diferente, que pode ser usada para sustentar as alianças diádicas, especialmente
quando essas são de longa data, é a norma de lealdade pessoal. A lealdade pessoal ajuda a manter uma
aliança diante do declínio da utilidade de um aliado para outro. Requer que o último responda favoravelmen-
te aos pedidos de ajuda quando o primeiro perdeu a sua habilidade de retribuir, inclusive às custas de pri-
var-se da oportunidade de formar uma nova aliança com um parceiro potencialmente mais útil.
No entanto, as normas, da reciprocidade e da lealdade pessoal, são vulneráveis a um expediente que
pode ser usado para romper uma aliança antes que débitos importantes tenham sido pagos. Esse expedien-
te, o qual é, às vezes, usado nas Filipinas, consiste na descoberta ou na invenção de um agravo, tal como
uma afronta ao amor próprio ou à auto-estima, de tal peso que quando colocado na balança da reciprocida-
de anula um débito importante.
Portanto, nenhuma dessas duas normas representa uma garantia totalmente confiável de que as alian-
ças diádicas serão mantidas. Resta ainda outro mecanismo que serve a esse propósito sob algumas, embo-
ra não todas, condições. Será discutido a seguir.

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ALIANÇAS DIÁDICAS COMO ADDENDA

George Foster ao descrever os "contratos implícitos", seu termo para o que eu chamei de alianças diádi-
cas, contrasta-os com o que ele chama de "contratos formais e explícitos".
Os contratos formais e explícitos "se encontram nas normas governamentais e religiosas, são validados
legal ou ritualmente... e são exeqüíveis através da autoridade do sistema particular que os valida"(6).
Exemplos de tais contratos formais e legais são encontrados nas obrigações mútuas assumidas pelos côn-
juges, pelos pais e pelos padrinhos e pelos compradores e pelos vendedores de mercadorias. As suas obri-
gações mútuas, as quais são convencionais, são prescritas pelas instituições das quais esses papéis das
parcerias são uma parte, isto é, pelas instituições do casamento, do batismo e do mercado, e podem ser
executadas pelas autoridades que estão por trás dessas instituições, isto é, pela Igreja ou pelo Estado.
Contudo, observa Foster, embora o camponês médio entenda as obrigações convencionais exigidas por
essas instituições, ele reconhece que do modo como ele se encaixa nessas instituições, de fato não explica
como a sua comunidade funciona. Ele percebe que, muito a parte das instituições convencionais, está liga-
do de outra forma a certos parentes, compadres, vizinhos e amigos com a exclusão parcial ou completa de
outros que têm o mesmo status vis-à-vis ele, que coletivamente tornam o seu mundo um mundo no qual se
pode agir(7).
Esse outro modo de estar ligado a certos – mas não a todos – esses parentes, compadres, vizinhos e
amigos é através de "contratos implícitos".
A distinção entre a coexistência de contratos formais explícitos e institucionalizados, de um lado, e de
contratos implícitos ou relações diádicas, de outro, têm implicações importantes para a compreensão da na-
tureza e das funções das alianças diádicas. Os contratos formais explícitos e institucionalizados, sugere
Foster, não oferecem uma explicação adequada do modo como funciona uma comunidade porque não su-
prem todas as necessidades de uma comunidade ou dos indivíduos que assumem tais contratos. Alguns
desses devem ser estimulados pela sobreposição de relações voluntárias de um tipo mais seletivo, flexível,
intermitente e emocional que possam proporcionar-lhes uma vitalidade não encontrada em contratos con-
vencionais e institucionalizados quando esses são os únicos. Essa necessidade é satisfeita pela adição de
alianças diádicas.
Esse argumento pode ser invertido. As alianças diádicas sendo seletivas, intermitentes e voluntárias
não fornecem uma base suficiente para a organização de uma sociedade. Nem oferecem as garantias de
apoio que um indivíduo necessita para assegurar a sua sobrevivência. As alianças diádicas, portanto, de-
vem ser geralmente sustentadas por uma estrutura de relações institucionalizadas, isto é, relações que são
contínuas, ao invés de intermitentes, que são inclusivas, pois não permitem a exclusão arbitrária de indiví-
duos específicos, que podem ser previsíveis, pois determinam formas de interação substancial e processu-
almente padronizadas, e que são ligadas a outras relações institucionalizadas da sociedade.
A interconexão entre alianças diádicas e relações institucionalizadas sugere o mecanismo adicional que
promove a confiança das alianças diádicas: a qualidade de um desses tipos de relações afeta inevitavel-
mente a qualidade do outro. Ademais, as sanções disponíveis através de um tipo de relação podem ser usa-
das para reforçar o outro. Assim, é provável que dois colegas de escritório que estabeleceram uma estreita
amizade fora do seu local de trabalho, trabalhem especialmente bem juntos. Quando tal conexão dupla exis-
te, é provável que o rompimento de uma conexão ameace a outra. Se um indivíduo rompe a aliança diádica,
ele não pode simplesmente afastar-se, mas sim deve esperar uma punição através das sanções institucio-
nalizadas: é provável que o ex-amigo não continue cooperando no trabalho. Se ele ocupar uma posição de

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supervisão acima do seu ex-amigo, essa não-cooperação pode ter conseqüências bastante desagradáveis.
Por essa razão, espera-se que dois aliados diádicos que estão ligados um ao outro através de uma relação
institucionalizada façam esforços especiais para manter a sua aliança em boas condições. Cada um, portan-
to, pode ter alguma certeza sobre a confiabilidade da aliança mesmo que tal aliança não contenha em si
mesma sanções muito efetivas para a sua continuidade.
Embora as alianças diádicas e as relações institucionalizadas sejam geralmente inter-relacionadas, é
importante para fins de análise que se tenha em mente de forma clara a linha divisória que as separa. A fa-
lha em separar as duas e presumir-se que ambas as relações constituem juntas a aliança diádica é respon-
sável por muita da falta contínua de concordância em relação às características distintivas das alianças diá-
dicas como um tipo estrutural. Essa ausência de concordância é particularmente marcada com respeito às
alianças diádicas verticais, como veremos a seguir. Como as relações institucionalizadas, às quais estão li-
gadas as relações diádicas em diferentes sociedades e em diferentes períodos históricos, são de vários ti-
pos e tomam diversas formas estruturais, as estruturas compósitas, isto é, as relações institucionalizadas
mais os seus addenda de aliança diádica, também parecem tomar formas muito diferentes. Se, no entanto,
a linha divisória entre os addenda e as suas estruturas de sustentação é claramente lembrada, torna-se evi-
dente que as alianças diádicas como tal variam pouco em suas características, independentemente da di-
versidade dos seus anfitriões, e que afetam essas diversas instituições de modos muito similares.
Fazer uma clara distinção entre as alianças diádicas e as relações institucionalizadas às quais estão li-
gadas é também útil por outra razão. Essa distinção proporciona discernimentos sobre a força e a fraqueza
das instituições envolvidas. As alianças diádicas estão ligadas às relações institucionalizadas porque estas
últimas falham ao satisfazer certas necessidades. Portanto, se uma instituição é pesadamente revestida por
alianças diádicas, pode-se, então, investigar a natureza precisa das inadequações institucionais que dão ra-
zão à criação de uma aliança diádica como um addendum. Por outro lado, se encontrarmos instituições li-
vres de addenda diádicos, isso pode ser atribuído ou à perfeição da própria instituição ou à presença de
proibições institucionais efetivas contra a adição de alianças diádicas.
Alguns exemplos ilustrarão este ponto: Gideon Sjoberg observou que a troca econômica em cidades
pré-industriais é caracterizada por uma ausência de padrões claros. Preços fixos são raros. Os preços são
determinados pelo regateio entre compradores e vendedores. É incomum classificar por tamanho, peso e
qualidade. E os produtos postos à venda podem resultar estragados ou adulterados(8). Em suma, a institui-
ção do mercado pré-industrial falha ao proteger um cliente comum contra o risco de pagar um preço mais
alto do que o necessário por mercadorias de qualidade mais baixa do que o normal. Esse risco ajuda a ex-
plicar por que aqueles que têm de fazer compras repetidas freqüentemente se esforçam para estabelecer
relações especiais com os vendedores particulares das mercadorias de que necessitam. Ao tomarem-se
suki, como se chamam mutuamente nas Filipinas, os clientes lhes têm assegurado um preço baixo sem a
necessidade de um regateio repetido e a entrega de mercadorias da mais alta qualidade disponível. Os ven-
dedores, por sua vez, têm-lhes assegurados clientes fixos(9). Relações suki, sob nomes diferentes, são en-
contradas nas economias de muitas sociedades pré-industriais. São muito menos comuns nas economias
industriais modernas, nas quais preços fixos e produtos de qualidade padronizada as tornam desnecessári-
as. Isso explica a inabilidade do cordial merceeiro da vizinhança para competir com a cadeia de supermer-
cados que não tem rosto, mas que oferece preços mais baixos. Uma exceção interessante se encontra na
esfera de consertos de automóveis. Neste caso, o temor de que sua ignorância sobre as complexidades da
mecânica de automóveis os torne vítimas de consertos desnecessários e preços inflacionados, leva muitos
modernos proprietários de carro a estabelecerem relações especiais de patronagem fixa com oficinas ou

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mecânicos nos quais pensam que podem confiar para consertos honestos e para serviços preferencialmen-
te rápidos quando necessário.

GRUPOS DIÁDICOS NÃO CORPORADOS

As relações diádicas têm um papel importante na união dos membros de certos tipos de grupos não-
corporados. A natureza de tais grupos pode ser melhor compreendida ao compará-los aos grupos corpora-
dos.
Um grupo corporado é um agregado distinto e de múltiplos membros o qual possui propriedades, objeti-
vos e deveres que, como tais, são inerentes ao grupo, e são diferentes daqueles dos seus membros indivi-
duais. Cada membro tem direitos e deveres em relação ao grupo. Todos os membros estão unidos em virtu-
de da sua compartilhada associação no grupo e por sua obrigação comum de proteger os interesses e cum-
prir as obrigações do mesmo. Alguns exemplos de grupos corporados são as famílias, as linhagens, os clãs,
as tribos, as guildas e, no mundo moderno, os grupos de interesses organizados, os partidos políticos e os
estados nacionais.
Os grupos não-corporados, como sugere o termo, formam uma categoria remanescente que inclui todos
os agregados que podem ser chamados de "grupos", mas que não são grupos corporados. Portanto, o ter-
mo pode ser aplicado para incluir agregados desorganizados e sem objetivos, tais como "os pobres" ou uma
multidão sem líder.
No entanto, os tipos de grupos não-corporados, que estão aqui em discussão, têm uma espécie de or-
ganização e executam tarefas que são bem compreendidas por seus participantes. Desta forma, encontram-
se mais próximos da linha um tanto imprecisa que separa grupos não-corporados de corporados. Grupos
não-corporados desse tipo serão referidos como "grupos diádicos não-corporados". Exemplos incluem os
grupos de ação, os grupos de amigos, as facções políticas e as clientelas.
A não-corporatividade de tais grupos está no fato de que eles carecem de duas características diferenci-
ais dos grupos corporados: propriedade, objetivos e deveres individuais comuns e ligação uniforme através
de comum associação no grupo como tal.
Em grupos diádicos não-corporados os membros individuais são assistidos na proteção da sua proprie-
dade privada, no progresso de seus interesses privados e no cumprimento dos seus deveres individuais por
outros membros do grupo através de ajuda recíproca e ação paralela. Mas o grupo como tal não tem, de
modo significativo, propriedade, interesses ou deveres próprios distintos daqueles dos seus membros. Os
membros não têm propriedade, objetivos e deveres comuns a não ser por curtos períodos de tempo. Assim,
a propriedade ganha através da ação comum tende a ser dividida entre aqueles que auxiliarem na sua aqui-
sição logo depois de adquirida, ou é apropriada por um membro da direção do grupo que, então, permite
que os outros membros compartilhem o seu uso. Freqüentemente, no entanto, os membros de tais grupos
não possuem propriedade comum, mesmo temporariamente. A ação de grupo, então, é limitada a ajudar os
membros individuais a promoverem os seus próprios interesses e a cumprirem suas próprias obrigações.
Como os membros de grupos diádicos não-corporados são unidos principal ou completamente por suas
relações interpessoais de ajuda recíproca e somente minimamente por um senso de associação comum em
um "grupo", os membros individuais não necessitam estar igualmente ligados a todos os membros. Os gru-
pos diádicos não-corporados diferem daqueles nos quais cada membro está ligado diretamente, embora
não necessariamente por laços de força igual, a todos os outros membros – o que J. A. Barnes chamou de
um "agrupamento de máxima densidade" do qual são exemplos um grupo bem integrado de amigos ou uma
9
facção política cujos membros se revezam ao candidatarem-se a empregos públicos e fazerem campanhas
mutuamente – para aqueles nos quais um indivíduo central tem muitos aliados, mas cada um desses é so-
mente seu aliado – uma estrutura que Barnes chamou de "estrela de primeira grandeza"(10).
Várias conseqüências decorrem dessas duas características dos grupos diádicos não-corporados. Tais
grupos, com a possível exceção daqueles de máxima densidade, carecem de limites claros. Em vez disso,
passam gradualmente daqueles indivíduos que estão no centro de um grupo, que ajudam e são ajudados
pela maioria de seus pares, para aqueles que estão na periferia, que dão e recebem ajuda de somente um
ou outros poucos membros. É provável que sistemas políticos organizados com base em tais grupos sejam
caracterizados pela ausência de linhas divisórias claras entre grupos políticos e por uma grande quantidade
de mudanças e ligações entre os membros dos grupos periféricos. Exemplos de tais mudanças são encon-
trados na política das Filipinas e na política faccionária em muitos lugares do Sudeste da Ásia, da América
Latina e da região Mediterrânea.
Entre aqueles membros de um grupo não-corporado que dão ajuda a um de seus pares, as obrigações
de assistência podem ser desiguais. A quantidade de ajuda dada dependerá da quantidade de ajuda que o
doador recebeu do receptor no passado ou quer receber no futuro. Portanto, um agrupamento desse tipo é
um grupo mutável e amorfo que altera a sua forma e o seu tamanho sempre que é mobilizado para a ação,
dependendo de qual membro do grupo pede a ajuda dos outros. Inclusive o mesmo membro mobilizará alia-
dos diferentes dentro do agrupamento em ocasiões diferentes. Assim, é improvável que todo ou a maior
parte do agrupamento esteja em ação continuamente. Visto através do tempo, em vez de em um ponto es-
pecífico do tempo, tal grupo se assemelha a uma mancha que resulta da sucessiva sobreposição de cada
uma de uma série de estrelas de primeira grandeza que possuem centros de dimensões externas diferen-
tes.
Uma conseqüência final da natureza diretamente interpessoal da ligação em grupos diádicos não-corpo-
rados é o lugar importante ocupado pelos intermediários. Para obter ajuda de outros membros do grupo –
ou de pessoas externas ao grupo – com os quais um indivíduo não tem laços pessoais diretos, ele pode tra-
balhar através de um ou mais doadores de ajuda intermediários, assim criando uma cadeia diádica. Essa
cadeia envolve, do princípio ao fim, a ligação de um conjunto de díades. Dessa forma, A, necessitando de
um favor de D, com quem não tem nenhuma conexão direta, pede a B para pedir a C para pedir a D para fa-
zer um favor a A. Em troca, A faz um favor a B que faz um favor a C que retribui o favor de D. Jeremy Bois-
sevain forneceu uma boa descrição de tal cadeia horizontal(11). Um exemplo de cadeia vertical é dado pelo
fluxo descendente da patronagem e o fluxo ascendente do apoio eleitoral através de um número de líderes
políticos em sucessivos níveis de um sistema político.

CLIENTELAS E RELAÇÃO PATRÃO-CLIENTE

Um tipo de estrela de primeira grandeza, o qual é o assunto principal deste volume, é um sistema pa-
trão-cliente ou "clientela". Seus elementos constituintes são as relações patrão-cliente.
Uma relação patrão-cliente é uma aliança diádica vertical, isto é, uma aliança entre duas pessoas de
status, poder ou recursos desiguais que acham útil ter como um aliado alguém superior ou inferior a si mes-
mo. O membro superior de tal aliança é chamado de patrão e o membro inferior, de cliente.
As relações patrão-cliente compartilham da maioria das características das alianças diádicas horizon-
tais, envolvem o vínculo pessoal direto entre dois indivíduos; existem para trocar favores e fornecer certeza
mútua de ajuda; são fáceis de criar, mas trazem consigo problemas de confiabilidade. Ao mesmo tempo, as

10
relações patrão-cliente têm alguns traços característicos que as contrastam com as alianças entre pessoas
de status sócio-econômicos iguais.
Nas relações patrão-cliente, os benefícios trocados entre os patrões e os clientes quase sempre são de
tipos diferentes porque a utilidade do patrão para o cliente, e vice-versa, não provém tanto do fato de que
suas necessidades ocorrem em épocas diferentes, mas no fato de que cada um, quase em qualquer época,
pode prover o outro com benefícios que o último nunca poderia obter por si mesmo, ou poderia obtê-los so-
zinho em raras ocasiões. Essa diferença qualitativa nos benefícios trocados se aplica tanto à troca de favo-
res simbólicos e substantivos, como à certeza mútua de ajuda em caso de necessidade.
Tipicamente, os favores que os patrões fazem a seus clientes são materiais em espécie, enquanto que
aqueles que os clientes fazem a seus patrões envolvem o custo de trabalho ou de esforço. Tipicamente, as
certezas de ajuda que os clientes buscam em seus patrões envolvem assistência econômica e proteção físi-
ca em tempos de emergência, enquanto que aquelas que os patrões buscam em seus clientes acarretam o
risco de vida dos últimos, saúde ou reputações a serviço de seus patrões.
A maioria dos patrões, sendo por definição homens de recursos e status superiores, é capaz de manter
alianças com numerosos clientes a quem fazem benefícios em retribuição pelo que cada cliente pode lhe
fornecer. Na verdade, a importância de seus status e a quantidade de seus recursos tendem a determinar o
número de clientes que podem manter. Muitos patrões mantêm numerosos clientes com o propósito de as-
segurar as vantagens que devem derivar do apoio de um grande, embora, de uma forma individual, pobre-
mente dotado, conjunto de clientes ou seguidores. Como um resultado, encontra-se, freqüentemente, um
conjunto de díades verticais que se estendem ascendentemente de vários clientes para um único patrão
compartilhado que é o indivíduo central de um estrela vertical de primeira grandeza.
Como em qualquer sociedade há mais indivíduos de status baixo do que alto, é possível para uma gran-
de parte de uma sociedade estar organizada em um número de clientelas relativamente pequeno, com a
maioria das pessoas comuns agrupadas sob um pequeno número de patrões de status alto. Essas cliente-
las podem se sobrepor, no sentido de que um homem pode ser cliente de mais de um patrão(12). Mas,
freqüentemente, as clientelas são mutuamente exclusivas, isto é, nenhum cliente pode ter mais de um pa-
trão. Raramente esse é o caso das estrelas horizontais de primeira grandeza nas quais o indivíduo central
tem o mesmo status que cada aliado, tais estrelas, tipicamente, sobrepõem-se umas as outras para formar
uma rede contínua de estrelas de primeira grandeza entrelaçadas.
É comum para as clientelas serem dispostas em forma de pirâmide de maneira que vários patrões, cada
um com seu próprio conjunto de clientes, sejam, por sua vez, os clientes de um patrão superior que, por sua
vez, é o cliente de um patrão ainda mais superior que ele. Em tal pirâmide, um indivíduo pode ser tanto um
patrão quanto um cliente do mesmo indivíduo. Em um sistema de estrelas horizontais de primeira grandeza
sobrepostas, por outro lado, um indivíduo que numa determinada época organiza os esforços de todos os
aliados que pedem sua ajuda irá, em outras épocas, colocar-se sob a direção de cada um deles, isto é, em
épocas diferentes será líder ou seguidor em relação a cada um dos seus aliados horizontais.
Quando as clientelas são mutuamente exclusivas, freqüentemente desenvolvem um grau de diferencia-
ção e estabilidade que, embora menos marcado do que nos grupos corporados, excede em força aqueles
encontrados em estrelas horizontais sobrepostas. Podem, também, desenvolver o que aparentam ser objeti-
vos coletivos ao tornarem os objetivos finais privados do patrão os objetivos intermediários dos clientes. Isso
é provável de acontecer quando o prévio alcance dos seus objetivos pelo patrão é uma precondição para o
subseqüente alcance dos objetivos privados dos clientes. Assim, a eleição de um líder para um cargo públi-
co pode ser uma precondição para a vinculação de patronagem para seus clientes. Sua eleição, portanto,

11
torna-se o objetivo intermediário comum da sua clientela. Nesse sentido, alguns dos objetivos perseguidos
através de relações patrão-cliente são menos estreitos do que aqueles perseguidos tipicamente através de
alianças diádicas horizontais.

RELAÇÕES PATRÃO-CLIENTE COMO ADDENDA

Foi observado anteriormente que as alianças diádicas freqüentemente aparecem como adições a insti-
tuições cujas deficiências elas corrigem. Isso se aplica às relações patrão-cliente não menos do que às ali-
anças diádicas horizontais. A instituição do arrendamento agrícola é um exemplo. Sob arrendamento agríco-
la, uma instituição comum a muitas sociedades camponesas tradicionais, camponeses sem terra cultivam a
terra pertencente a prósperos proprietários. Sob um acordo contratual, que pode ou não ser escrito, mas
que é claramente entendido por ambas as partes e que concorda com a convenção. O proprietário de terras
oferece ao arrendatário a terra e, às vezes, outras coisas necessárias no processo de produção agrícola,
tais como sementes, animais para arado e, atualmente, fertilizante. Em troca, o arrendatário entrega uma
determinada parte da colheita ao proprietário da terra e pode, também, ser obrigado a fornecer mão-de-
obra. Essas obrigações mútuas são parte da instituição da agricultura de arrendamento como se desenvol-
veu em uma localidade específica. São previsíveis, contínuas, aplicam-se a todos os proprietários de terras
e arrendatários naquela localidade e, como são contratuais, podem ser reforçadas pelo Estado.
Mas esses acordos institucionais têm limitações: deixam insatisfeitas certas necessidades da população
rural, rica e pobre; não levam em consideração o fato de que os camponeses podem necessitar de ajuda
em várias emergências; não fornecem garantias de posse permanente ao arrendatário. Esses são benefíci-
os que o proprietário da terra pode fornecer ao arrendatário se assim o desejar, mas não é obrigado a fazê-
lo sob o flexível contrato proprietário de terras-arrendatário. Se ele os fornecer, isso constitui um favor espe-
cial. Os compromissos contratuais do arrendatário por sua parte não incluem uma obrigação de tratar o pro-
prietário da terra com respeito ou afeição especiais. Contudo, é importante para os membros da elite rural,
especialmente se aspiram à liderança política e social nas suas localidades, que entre as pessoas comuns,
algumas falem bem deles e demonstrem-lhes respeito especial. A melhor fonte para recorrer a tal apoio do
status está, é claro, entre os próprios arrendatários do proprietário de terras. Se alguns desses arrendatários
dão tal apoio, isso também constitui um favor. O estabelecimento de relações especiais entre um proprietá-
rio de terras e alguns de seus arrendatários é uma certeza de deferência e lealdade conspícuas ao proprie-
tário da terra e constituem os addenda patrão-cliente à relação institucionalizada proprietário de terras-ar-
rendatário.
Os addenda patrão-cliente podem, também, corrigir as inadequações de outras relações institucionaliza-
das além daquela do arrendamento agrícola. Acrescentada à subordinação legalmente sancionada de um
escravo para com o seu senhor, a relação patrão-cliente protege o escravo contra os riscos de ser vendido,
morto ou espancado, enquanto oferece ao seu proprietário alguns escravos nos quais possa confiar. Associ-
ada à burocracia, dá a funcionários subordinados uma esperança maior de tarefas atrativas e promoção rá-
pida, enquanto oferece aos seus superiores grupos de subordinados leais que os apoiarão nas suas lutas
intraburocráticas. Associado ao ramo dos negócios, oferece a alguns empregados proteção contra demis-
são, enquanto concede ao proprietário alguns empregados que lhe serão leais em vez de o serem a um sin-
dicato. Associada a uma associação voluntária ou a um Estado, protege um membro ou cidadão comuns
contra o risco de serem deixados de fora durante a distribuição de benefícios particularísticos, enquanto dá

12
a funcionários eleitos alguns eleitores com os quais podem contar para apoiá-los em seus esforços de per-
manecerem no cargo.
Enquanto se pode identificar e abstrair os addenda patrão-cliente, os quais estão ligados às instituições
anteriores, as próprias instituições parecem dividir-se em dois grupos principais os quais, quando os adden-
da estão associados, produzem dois tipos distintos de combinações. Os dois tipos de instituições poderiam
ser chamados de subordinação pessoal e subordinação organizacional.
As instituições de subordinação pessoal incluem a escravidão, a servidão, o arrendamento agrícola e o
serviço doméstico. Essas instituições consistem em relações que são, como os seus addenda, essencial-
mente diádicas. Os subordinados estão diretamente ligados a proprietários de escravos, senhores, proprie-
tários de terras e chefes de família individuais, e confiam neles para sua subsistência em troca de serviços
fornecidos a esses indivíduos e a suas famílias. As relações patrão-cliente, quando associadas a essas rela-
ções institucionalizadas, fundem-se fácil e naturalmente com as últimas. Um "bom" escravo, servo, arrenda-
tário ou criado é quase por definição aquele que se comporta como um bom cliente. Torna-se pessoalmente
receptivo ao seu superior e, em troca, tem o direito de receber lealdade e consideração pessoal.
Por outro lado, no caso de instituições de subordinação organizacional, que incluem as burocracias mo-
dernas, firmas corporadas de negócios e vários tipos de associações voluntárias modernas, não há tal con-
gruência fácil entre aquelas relações de coordenação e subordinação, que são parte da instituição, e tais re-
lações patrão-cliente conforme podem aderir a elas. Enquanto os addenda podem ser pessoalmente úteis
para os indivíduos envolvidos, e podem inclusive contribuir para sua habilidade de representar certas partes
de seus papéis institucionalizados, há uma tensão contínua e inevitável entre as exigências institucionais de
impessoalidade e imparcialidade e a prescrição do addendum de tratamento favorecido aos clientes. De
fato, se a instituição não deve ser subvertida pelos seus addenda, deve estipular limites claros sobre o grau
no qual o favoritismo pessoal pode ser tolerado.
Por causa da congruência entre as relações institucionalizadas de subordinação pessoal e relações pa-
trão-cliente, muito do comportamento característico das últimas pode ser incorporado às primeiras. Quer di-
zer, a linha divisória entre uma instituição e seu addendum pode mudar a sua localização com o passar do
tempo. Um padrão de comportamento que é, em primeiro lugar, voluntário e é considerado como um favor
especial, pode tornar-se compulsório para todos os indivíduos que desempenham um determinado papel
institucionalizado. No curso dessa troca, ele cessa de ser um addendum e torna-se uma parte inseparável
da própria instituição. Para dar um exemplo: um sistema simples de arrendamento agrícola, sob o qual é
concedido aos camponeses o uso da terra em troca da entrega de uma parte da colheita para o proprietário
da terra, acompanhado no caso por alguns arrendatários pela execução de alguns serviços extras e opcio-
nais para os seus proprietários da terra em troca de vários favores especiais, pode desenvolver e solidificar
com o passar do tempo um conjunto muito mais amplo de obrigações feudais claramente entendidas que
são impostas a todos os agricultores sem terra como uma condição para o seu acesso à terra cultivável.
A linha divisória também pode mudar na direção oposta. Várias obrigações feudais podem ser abolidas
pela lei sem a abolição simultânea do arrendamento agrícola. No entanto, algumas interações anteriormente
compulsórias ou contratuais podem continuar com uma base opcional, como os favores trocados entre
aqueles arrendatários e aqueles proprietários de terras que ainda as consideram de mútua vantagem. Ou-
tros arrendatários podem obter os mesmos benefícios, não de seus proprietários de terras, mas de líderes
políticos locais, assim preservando o clientelismo, mas separando-o da relação proprietário de terras-arren-
datário. Finalmente, as relações patrão-cliente podem desaparecer quase completamente de cena como ne-

13
cessidades que no passado eram satisfeitas através de alianças diádicas e, no presente, são satisfeitas
através de novas instituições não-clientelistas.
Isso acontece quando os arrendatários são protegidos contra emergências e desalojamento pelas asso-
ciações camponesas ou pelo Estado, quando os escravos são libertados ou quando recebem proteção le-
gal, quando a posse ou a promoção burocráticas são reguladas pelas leis do serviço público rigorosamente
aplicadas, quando os empregados possuem um sindicato forte e efetivo, quando os líderes de associações
estão sujeitos à supervisão rigorosa da associação em geral e quando os serviços governamentais se tor-
nam disponíveis a todos com base nas suas qualificações sob critérios universalísticos e não nas suas co-
nexões políticas pessoais.
Quando relações institucionalizadas de subordinação pessoal estão fortemente incrustadas de addenda
patrão-cliente ou quando tais relações fazem uso do modelo patrão-cliente em tal grau que virtualmente su-
põe-se que todos os subordinados se comportem e sejam tratados como clientes, pode-se falar de uma ins-
tituição clientelística. Desta forma, o feudalismo é uma instituição clientelística, e a vassalagem e a servidão
são relações clientelísticas. Penso que o termo "relações patrão-cliente", no entanto, deve ser preservado
para o addendum somente.
Podem as relações patrão-cliente existirem por si só? Podem haver relações patrão-cliente móveis fora
da estrutura de qualquer instituição? Não posso imaginar nenhum exemplo de relações patrão-cliente que
existam em um vácuo institucional total. A aproximação mais estreita é uma aliança que une membros de
dois grupos antagônicos. Mas a própria hostilidade dos grupos é uma relação institucionalizada, se bem que
hostil. E é provável que a necessidade de tal aliança antagônica origine-se exatamente da hostilidade insti-
tucionalizada. É provável que as próprias alianças antagônicas desse tipo se tornem institucionalizadas
como são as sociedades comerciais de oposição regional e os pactos de paz dos Kalingas pagãos das Fili-
pinas(13). De fato, um vácuo institucional, no qual não exista nada além de alianças diádicas verticais e ho-
rizontais, é uma impossibilidade virtual a não ser como uma situação extraordinária e por um breve período
de tempo. Alianças diádicas horizontais e relações patrão-cliente, lembrando, são seletivas, intermitentes e
voluntárias. Não podem executar por si mesmas o trabalho de uma sociedade ou fornecer serviços dos
quais os indivíduos dependem para sua sobrevivência dia-a-dia. Para isso são necessárias interações regu-
lares, o que significa institucionalização.

AS RECOMPENSAS DA SITUAÇÃO DE CLIENTE

A separação analítica das relações patrão-cliente e das relações institucionalizadas, às quais podem es-
tar associadas, possibilita explicar por que as relações patrão-cliente são atrativas para aqueles que desem-
penham o papel de clientes. Sua atratividade especial provém de uma das características que distinguem as
relações patrão-cliente de muitas relações verticais institucionalizadas, o fato de que mesmo que a relação
patrão-cliente ligue duas pessoas de status e poder diferentes, exige que se tratem e, especialmente, que o
patrão trate o cliente, eqüitativamente e com um interesse especial pelo bem-estar do outro. Esse ponto me-
rece uma explicação maior: muitas, na verdade, a maioria das relações institucionalizadas tradicionais entre
pessoas de diferentes poder, status e recursos é altamente exploradora por natureza. Isso se aplica a rela-
ções, tais como arrendamento agrícola, servidão feudal, trabalho contratado e escravidão. Todas essas re-
lações são, por si próprias, severas e impessoais. Ademais, muitas são relações das quais o subordinado
sabe que não pode retirar-se, apesar do fato de ter o direito legal de fazê-lo. A ausência de meios alternati-
vos ou de subsistência, a dívida continua para com o seu superior, ou as relações contratuais postas legal-

14
mente em vigor tornam a retirada impraticável. Contudo, embora um homem possa ser obrigado a desistir
de sua liberdade e de sua dignidade em troca de uma subsistência segura, ele sabe que a relação é injusta.
Pode-se supor que ele pode distinguir o que é "justo" ou desejável do que ele é obrigado a fazer para sobre-
viver. Em qualquer sociedade ou entre qualquer estrato de uma sociedade há um conjunto de padrões nor-
mativos que governam o "valor justo" e a justiça que são diferentes do preço de mercado ou do padrão usu-
al de troca, o qual o poder relativo de barganha dos desiguais cria. Quando os dois divergem muito, pode-se
esperar que a parte mais fraca acate a situação ao se sujeitar à exploração.
Sob tais condições, há vários cursos de ação que o membro inferior de uma relação pode tomar para
escapar de sua condição de exploração. Um caminho é encontrar um modo de retirar-se pacificamente da
relação. Um segundo caminho é a revolução. Ambos os caminhos se tornaram opções realísticas somente
em épocas relativamente recentes. A terceira opção, a qual durante a maioria das vezes no passado foi a
única aberta para um subordinado pobre que se sentia explorado, é induzir o seu superior a alterar volunta-
riamente os termos de sua relação em favor do inferior. O modo tradicional pelo qual um inferior tem procu-
rado conseguir isso tem sido através do oferecimento para se tornar cliente de seu superior, isto é, ao se
tornar especialmente receptivo àquele superior, e fazer várias coisas que não lhe são exigidas, tais como
lhe dar pequenos presentes, executar mais serviço do que o esperado, mimar os filhos do senhor e, em ge-
ral, tornar-se útil e simpático ao senhor. Essas coisas o subordinado faz voluntariamente na expectativa de
receber favores em troca, isto é, benefícios os quais aqueles que não se tornam extraordinariamente úteis e
benquistos não recebem. No entanto, se esses esforços para ser agradável não são reconhecidos e recom-
pensados através de favores recíprocos, é provável que não seja feito nenhum outro esforço para agradar.
A tentativa de ligar uma relação diádica à relação institucionalizada será abandonada e somente a última
permanecerá.
Nem todos os arrendatários, servos, criados ou escravos são capazes de ser clientes. Aqueles que des-
frutam de mais oportunidades para contato pessoal com os seus superiores, escravos domésticos, por ex-
emplo, têm a melhor oportunidade de se tornarem clientes. Aqueles que cultivam os campos mais distantes
da propriedade do seu senhor tem a menor oportunidade de fazê-lo. Portanto a quantidade de clientagem
que está ligada à relação institucionalizada subjacente varia enormemente entre uma e outra classe de su-
bordinados. Entre os trabalhadores rurais comuns o elemento da clientagem pode ser mínimo, mesmo que
vários serviços pessoais sejam rotineiramente esperados de todos eles e que todos possam ter alguma ga-
rantia de ajuda especial em caso de necessidade.
Favores especiais são favores somente quando há favoritismo, isto é, quando os mesmos benefícios
não estão disponíveis para todos. Isso significa que a força do componente clientelista de uma relação verti-
cal, isto é, a quantidade de clientagem ligada a relação institucionalizada, difere não somente entre as clas-
ses de subordinados, mas também entre os membros de cada classe. Admitido que os benefícios do clien-
telismo possam ser maiores e mais amplamente distribuídos entre os criados domésticos do que entre os
trabalhadores rurais, ainda assim alguns criados serão mais favorecidos que outros e, em troca, demonstra-
rão mais lealdade; o mesmo se aplica aos servos comuns. Tal favoritismo é funcional. Recompensa a leal-
dade especial e encoraja todos os clientes e possíveis clientes a competirem uns com os outros pelo favor
de seu patrão. Desta forma, o clientelismo é baseado no favoritismo tanto na clientela quanto entre a clien-
tela e aqueles que estão fora.
A distinção entre uma relação patrão-cliente e a relação subjacente de superioridade e subordinação
econômicas à qual está ligada, ajuda a explicar o que freqüentemente é um sentimento ambivalente dos cli-
entes em relação a sua condição, e sugere algumas razões por que a instituição clientelística pode declinar.

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Uma relação patrão-cliente cria um certo grau de igualdade, enquanto que a relação institucionalizada à
qual está ligada pode ser altamente exploradora. Na verdade, as mesmas condições que promovem o esta-
belecimento de relações patrão-cliente, isto é, diferenças extremas de riqueza e poder entre os membros de
diferentes estratos sociais, facilitam a exploração cruel daqueles que não recebem proteção especial de al-
gum patrão. Isso pode explicar porque o clientelismo pode prosperar, ou ser idealizado, em sociedades que
em outros aspectos são cruelmente exploradoras e onde predomina um cinismo geral no tocante à possibili-
dade de benevolência genuinamente desinteressada nas relações entre diferentes classes sociais. Como
resultado, um homem que foi mais favorecido que seus pares, isto é, que desfrutou dos benefícios do status
de cliente, pode ainda ser impelido a se revoltar contra um sistema de arrendamento agrícola o qual consi-
dera injusto e assim, embora relutantemente, unir-se a outros arrendatários contra o seu senhor. Tendo, as-
sim, escolhido ser desleal para com o seu benfeitor, em vez de para com a sua classe, terá perdido, daí em
diante, o direito de reivindicar o tratamento de um cliente favorecido e, dessa forma, terá contribuído para o
declínio do clientelismo. Inversamente, um homem pode rejeitar o papel deferente de um cliente e pode li-
bertar-se de uma aliança tão complicada, embora deseje muito permanecer como arrendatário. Isso pode
ocorrer quando as condições de insegurança que tornaram atrativa a relação de clientela não mais existem,
como quando, por exemplo, o Estado ou o sindicato dos arrendatários fornece proteção contra a fome e a
violência. Também pode ocorrer quando patrões alternativos, tais como políticos profissionais, oferecem be-
nefícios clientelistas mais atrativos do que aqueles que o proprietário da terra do arrendatário pode fornecer.

O COMPARTILHAMENTO DE BENEFÍCIOS

Vários autores, que têm discutido as alianças diádicas horizontais e verticais, têm notado que tais rela-
ções fundamentam-se nas expectativas de reciprocidade na troca de benefícios entre os dois aliados. No
entanto, o significado preciso de reciprocidade continua uma questão controversa.
Gouldner observa que não há concordância entre os estudiosos no que diz respeito a se norma de reci-
procidade "estipula que a quantidade a ser dada em troca é aproximadamente equivalente a que foi recebi-
da" ou se meramente estipula que algo deve ser dado em troca de coisas recebidas, isto é, que "as pessoas
devem ajudar aqueles que as ajudaram", como coloca Gouldner(14). A questão é importante. Claramente,
as alianças diádicas freqüentemente estão sujeitas a uma tensão considerável e, às vezes, a uma ruptura
porque um aliado acredita que a quantidade que recebeu, comparada ao que ele deu a seu aliado, é insufi-
ciente. Ao mesmo tempo, a determinação de equivalência é uma tarefa muito mais difícil em relações tão
complexas, como as alianças diádicas, do que em simples transações de permuta.
A presença ou ausência de equivalência pode ser muito facilmente estabelecida em trocas antigas nas
quais as coisas trocadas são idênticas – como quando um camponês dá um dia de seu trabalho a outro
camponês em troca de um dia semelhante de trabalho no futuro. A equivalência também pode ser verificada
quando coisas diferentes são trocadas, mas ambas têm um preço no mercado que é aceito pelos dois alia-
dos para a troca como sendo seu valor real com o propósito de sua estimativa de equivalência. Em tal caso,
dois itens que apresentam o mesmo preço de mercado podem ser trocados entre dois indivíduos. Nenhum
terá lucro em espécie na transação, mas agora cada um possui algo que lhe é mais útil do que a coisa que
deu em troca. Pode ser que a transação tenha sido de mais proveito para um indivíduo do que para outro,
mas esse fato é desprezado porque ambos concordaram em usar a medida mais objetiva de um preço de
mercado como seu teste de equivalência.

16
Em alianças diádicas, no entanto, e especialmente nas verticais, é mais difícil, senão impossível, deter-
minar a reciprocidade por várias razões: as coisas trocadas podem não ser semelhantes ou podem não ter
preço de mercado que as tomem comensuráveis. Geralmente, apresentam uma dimensão temporal que
complica a tarefa de medição, e combinam níveis diferentes de interação para os quais são apropriados ti-
pos muito diferentes de medidas.
Nas alianças horizontais as coisas dadas por cada aliado ao outro são freqüentemente similares, possi-
bilitando estabelecer a equivalência. Mas nas alianças verticais isso raramente ocorre. As coisas trocadas
são geralmente intangíveis e diferentes. Assim, a proteção que um patrão dá ao seu cliente é algo de espé-
cie muito diferente da do apoio e do respeito que um cliente dá ao seu patrão. Nem esses dois tipos de be-
nefícios podem estar sujeitos a um padrão comum de medida. Nenhum deles é ordinariamente comprável a
vista do mercado. Dizer que ambos são formas de ajuda que requerem um certo esforço por parte do doa-
dor não os torna comensuráveis porque a ajuda dada por uma pessoa poderosa e de status é mais valiosa
do ponto de vista de uma terceira parte objetiva do que a ajuda dada por uma pessoa de status baixo. Mas
como muitas unidades de tempo e esforço doado pelo último contrabalançam uma unidade doada pelo pri-
meiro, é uma questão sobre a qual poucos concordariam. Se benefícios desse tipo são trocados, a sua su-
posta equivalência, ou não-equivalência, baseia-se no costume e não na medição por um padrão comum.
Se o costume é seguido, é provável que ambas as partes aceitem os termos da troca no curso normal dos
eventos, embora para um observador externo, de um lugar e tempos distantes, tais termos possam parecer
altamente injustos.
Na ausência de um padrão impessoal de medição que possa ser aplicado a um benefício e que seja
aceito por todos, o foco de um observador deve deslocar-se para os valores dados àquele benefício tanto
pelo doador como pelo receptor. Esses valores podem ser muito diferentes. Na verdade, devem ser diferen-
tes se é para haver uma troca proveitosa. John Thibaut e Harold Kelley, dois psicólogos sociais, no seu
clássico estudo sobre relações diádicas observaram que é muitíssimo provável que tais relações prosperem
se cada membro da díade puder fornecer coisas altamente gratificantes ao seu parceiro com um baixo custo
para si mesmo(15). Quando esse é o caso, isto é, quando cada um arca com baixos custos e recebe gran-
des recompensas, então ambos têm um ganho substancial com a relação e um forte incentivo para mantê-
la. Por outro lado, quando os custos para cada um são quase tão altos quanto os benefícios, o incentivo
para manter a díade é mínimo. Finalmente, quando um dos dois membros acha que os custos excedem os
ganhos, torna-se de seu interesse retirar-se da relação se tem a liberdade para fazê-lo.
Pode-se somar a diferença entre custos e ganhos dos dois aliados, isto é, seus lucros individuais, e
pensar no total como os ganhos totais possibilitados por sua relação. Em alianças verticais, esses ganhos
totais tendem a ser muito grandes. Um exemplo é dado por uma relação patrão-cliente entre um senhor e
um servo em um cenário feudal. Aqui, o cliente recebe coisas das quais necessita desesperadamente: pro-
teção física sem a qual sua vida pode estar em risco e ajuda material em tempo de emergência, tais como
empréstimos, doações de grãos, etc. Em troca, dá algo do qual tem uma provisão satisfatória e ao qual não
atribui grande valor em dinheiro: serviços especiais quando necessitados pelo seu senhor, respeito e lealda-
de inquestionáveis. Do ponto de vista do servo, a sua relação especial com o seu senhor rende-lhe ganhos
substanciais. O senhor, de sua parte, também tem ganhos substanciais. Recebe uma certa quantia de tra-
balho gratuito. Mais importante, ganha em status e poder como um resultado de sua habilidade de usar os
serviços dos seus clientes na política e na guerra. Os benefícios que dá em troca aos seus clientes não lhe
custam muito. Oferece ao cliente a proteção das suas armas, do seu castelo e o seu estoque de grãos ex-
cedentes. Mas oferecer isso ao cliente pouco aumenta os custos para o senhor porque ele mantém esses

17
recursos, principalmente, para sua própria segurança. Em suma, o tradicional clientelismo feudal rendeu be-
nefícios substanciais tanto para os patrões quanto para os clientes, um fato que ajuda a justificar a longa du-
ração dessa forma de aliança diádica.
Quando os ganhos totais resultantes de uma relação diádica são grandes, é possível para um membro
da díade permitir que o outro tenha ganhos individuais muito substanciais e ainda retenha alguns ganhos
para si mesmo, isto é, algo consideravelmente pequeno de reciprocidade exata é tolerável para o membro
menos abonado da díade. Por outro lado, quando os ganhos totais disponíveis são pequenos não é permiti-
do a nenhum membro ter grandes ganhos individuais porque, então, restaria pouca oportunidade de ganho
para o outro que teria poucas razões para manter a relação. Em suma, quanto menores os ganhos totais
produzidos pela relação, menor a diferença entre os ganhos dos dois parceiros que pode ser tolerada pelo
menos abonado dos dois, inversamente, quanto maiores os ganhos totais, maior a disparidade nos ganhos
que pode ser tolerada.
A disponibilidade de grandes ganhos não significa por si mesma que estes serão divididos desigualmen-
te. Isso, presumivelmente, dependerá do poder de barganha relativo dos dois membros da díade. Nas rela-
ções horizontais, é provável que o poder de barganha dos dois seja mais ou menos igual, pelo menos a lon-
go prazo. E são as considerações a longo prazo que predominam nas alianças diádicas. Por isso, é prová-
vel que ocorra um igual compartilhamento de ganhos. Nas alianças verticais, no entanto, o poder de barga-
nha do membro superior da díade quase sempre excede o do seu aliado inferior. Um poder de barganha
igual ou maior nas mãos do aliado menos importante é excepcional e quando ocorre tende a ser uma condi-
ção temporária. Isso sugeriria que em relações diádicas verticais o membro superior da díade será capaz de
obter um maior compartilhamento dos lucros totais do que o membro inferior. E, de fato, ele geralmente o
obtém, como notaram Marx e outros, a menos que haja alguma consideração especial que leve a recusar
esse compartilhamento maior(16). Em todas as sociedades há um grande número de pessoas que estão
prontas e ansiosas para maximizar seus próprios ganhos sem muita consideração pelos ganhos daqueles
com os quais interagem. Ademais, em todas as sociedades há categorias internas de pessoas – proprietári-
os de escravos, proprietários de terras, capitalistas ou membros de burocracias governantes – que rotineira-
mente maximizam seus ganhos às custas dos ganhos dos seus inferiores, embora possam esconder esse
fato de si mesmos. Todavia, mesmo em sistemas sócio-econômicos evidentemente injustos há certos pa-
péis relacionados e socialmente reconhecidos entre as pessoas sabidas desiguais em status e poder geral
nos quais a exploração cruel e insensível do poder de barganha superior é considerada imprópria. Esses
papéis relacionados incluem aqueles de pai e filho, de amigo e amigo e de patrão e cliente. Em tais relações
é invocada uma norma da mesma ordem da norma de reciprocidade, mas especificamente aplicável a alian-
ças diádicas que produzem um ganho. Esta norma estipula que quando duas pessoas são aliadas diádicas,
seja essa aliança horizontal ou vertical, quaisquer ganhos que resultem de sua aliança serão divididos entre
eles de um modo que reflita sua obrigação mútua de mostrar interesse pelo bem estar do outro, isto é, de-
monstrar altruísmo em relação ao outro.
Foi observado anteriormente que equivalência entre alianças diádicas é difícil, senão impossível, de me-
dir-se com precisão, em parte por causa da dimensão temporal da maioria das alianças, e em parte porque
elas combinam níveis diferentes de interação para os quais são apropriados tipos diferentes de medição.
Essas questões requerem alguma elaboração.
Recordando, uma aliança diádica foi definida como um acordo voluntário entre dois indivíduos para tro-
car favores e para ajudar um ao outro em caso de necessidade. As duas obrigações – trocar favores e pres-
tar ajuda mútua – foram mostradas como sendo de uma natureza um tanto diferente. Além disso, foi salien-

18
tado que a troca de favores tem duas funções: os favores são valiosos por si mesmos; podem, também, ser
usados como um meio de manter uma aliança diádica. Na verdade, é freqüentemente possível classificar
um favor específico como sendo designado principalmente para um desses dois propósitos, com o outro
propósito sendo cumprido somente casualmente. Assim, pequenos favores que não são desejados pelo re-
ceptor cumprem principalmente o propósito de manutenção da aliança. Favores substanciais que são pedi-
dos ou realmente necessários para o receptor são desejados por si mesmos, embora acidentalmente aju-
dem a manter a aliança. Desta forma, é possível dividir uma aliança diádica em três tipos de troca analitica-
mente distintos. Ademais, cada um desses tipos de troca tem dimensões temporais um tanto diferentes. Es-
sas diferenças resultam em problemas distintos de compartilhamento de benefícios em cada nível de uma
relação diádica.
Os favores que são designados principalmente para manter uma aliança tendem a ser pequenos em va-
lor substantivo, e freqüentemente não são desejados pelo receptor. Portanto, não é muito importante que
eles sejam de valor igual. O interesse, aqui, é pela ação não pelo seu valor. Mais importante é a escolha do
momento certo da ação. Os favores devem ser retribuídos e feitos em intervalos que sejam suficientemente
pequenos para evitar, de início, que um dos dois aliados tema que a aliança prescreva e suficientemente
longos para evitar que esse aliado pense que o outro está ávido para livrar-se da obrigação. Na verdade,
porque o propósito da troca é manter a aliança em pé, o balanço de favores é evitado em qualquer época.
pois isso poderia ser interpretado como sendo planejado para acabar com a aliança. Tipicamente, cada um
tenta pagar em excesso o favor prévio depois de um intervalo pequeno de maneira que em qualquer época
um dos dois deva um favor ao outro. A longo prazo, o valor total dos favores feitos por cada aliado para o
outro pode estar próximo da igualdade, especialmente se os tipos de coisas trocadas para esse propósito
tenderem a ser susceptíveis à medição monetária. Mas isso não é de grande importância porque o propósi-
to desse modelo de troca é de curto prazo: fazer com que a aliança prossiga de uma época para a próxima.
Os favores trocados por si mesmos, isto é, os favores que são desejados e que têm um valor real para
o receptor exigem um modelo diferente de troca. A curto prazo, pode ser feito um esforço para evitar a retri-
buição exata de tais favores desde que sirvam ao propósito adicional de ajudar a manter a aliança. Mas ex-
cedendo um período de tempo maior, torna-se importante manter um equilíbrio aproximado nos valores dos
favores que cada aliado fez para o outro. Quando os valores são realmente valiosos, nenhum aliado deseja-
rá ficar muito atrás do valor total dos benefícios que recebeu porque então poderia ser de interesse da outra
parte quebrar a aliança enquanto está a frente. Por outro lado, nenhuma parte, a menos que tenha inten-
ções desonrosas, quer ficar muito atrás na retribuição de favores substanciais porque isso a colocaria na
posição psicologicamente penosa de estar em grande débito para com o outro e, assim, estar em seu po-
der. Grandes favores, no entanto, trazem consigo problemas difíceis de medição. O valor de tais favores
consiste não somente no seu valor monetário, mas também no fato de que foram feitos quando "realmente
necessitados" ou de que foram feitos com grande sacrifício para o doador. Esse peso intangível adicionado
ao peso substantivo de alguns favores desse tipo torna muito mais difícil a tarefa de medir e obter a equiva-
lência, a menos que, por casualidade, ambos os aliados, em épocas diferentes, necessitem favores de valor
material igual no mesmo grau e façam sacrifícios iguais para satisfazer as necessidades do outro. Por causa
disso, as divergências sobre o peso relativo de favores realmente valiosos são comuns e podem ser uma
séria fonte de pressão em tais relações.
Em outro nível de interação, uma função principal das alianças diádicas é de fornecer a cada aliado a
certeza de ajuda futura em caso de necessidade. Para os pobres e fracos, em sociedades que carecem de
provisões institucionais para a proteção de sua segurança física e de sua subsistência, talvez isso seja a fi-

19
nalidade mais importante da construção de alianças diádicas. Nas alianças diádicas horizontais, quando
ambos aliados são igualmente pobres e fracos ou igualmente ricos e fortes, a promessa mútua de ajuda fu-
tura representa equivalência. Mas em relações patrão-cliente esse, claramente, não é o caso. Nessas rela-
ções verticais, os patrões podem dar muito mais proteção aos seus clientes do que o inverso. Ademais a
proteção que é de grande valor para o cliente pode ser dada com um pequeno custo para o patrão. Por ou-
tro lado, mesmo um ato muito valioso do cliente em nome do patrão, por exemplo, o risco de vida nas bata-
lhas do patrão, é de valor relativamente pequeno para o patrão. Desta forma há, nesse nível da interação
diádica, grande dificuldade de obter equivalência. O cliente deve tentar pagar antecipadamente parte de seu
débito impagável através de uma demonstração contínua de afeição, de respeito e de obediência para com
o seu patrão. Mesmo assim, lhe é deixado claro que continuará perpetuamente um devedor.
Há nesse nível da relação outro fator complicador: uma garantia de ajuda futura sempre que necessário
não é a mesma coisa que o recebimento real de ajuda. Se a ajuda será algum dia necessitada e se o nosso
aliado estará então vivo e em posição de ajudar, são questões que não podem ser preditas. A esse respeito,
as garantias de ajuda futura são como uma apólice de seguros: somente o sobrevivente saberá, depois que
seu aliado morrer, se foi beneficiado. Se não foi, seus prêmios não são reembolsáveis. Mesmo nas alianças
diádicas horizontais nesse nível, a equivalência somente pode ser medida subjetivamente, isto é, na convic-
ção contínua de cada aliado de poder contar com o outro. No momento em que um dos aliados começa a
ter dúvidas sobre a boa-fé do outro, a aliança se encontra a beira da dissolução, independentemente de que
débitos menores possam permanecer sem pagamento.
Essa dissecação de uma aliança diádica completa em suas partes com o objetivo de buscar medidas de
equivalência sugere por que qualquer tentativa de aplicar o teste de equivalência na aliança como um todo
está repleta de tal dificuldade. O melhor que se pode dizer a esse respeito é que para uma aliança ser cria-
da e durar deve haver reciprocidade, no sentido mais amplo de Gouldner: "as pessoas devem ajudar aque-
las que as ajudaram", isto é, os benefícios devem mover-se em ambas as direções. Ademais, cada aliado
deve continuar convicto de que seus ganhos excedem seus custos. Ao mesmo tempo, se cada aliado de-
monstra um interesse genuíno pelo bem-estar do outro – o qual é uma das características das alianças diá-
dicas, incluindo as relações patrão-cliente – então, pode-se esperar que ambos aliados demonstrem auto-
controle nas reivindicações que fazem no compartilhamento dos ganhos totais possibilitados por sua rela-
ção.

LIDERANÇA E PARTIDARISMO EM CLIENTELAS

Do ponto de vista de um cliente individual, é provável que sua ligação vertical com seu patrão esteja en-
tre as mais valiosas das suas alianças diádicas. Nas suas alianças horizontais, isto é, aquelas com seus pa-
res, espera-se que dê tanto quanto receba. Em uma relação patrão-cliente, no entanto, como foi observado,
o patrão, por definição, tem mais riqueza, status e influência do que o cliente e dá mais desses ao cliente do
que o último pode jamais lhe dar em troca. Assim, os benefícios tangíveis recebidos pelo cliente – ajuda ma-
terial e proteção – excedem seus custos tangíveis. O que o cliente dá em troca ao patrão é em grande parte
intangível. Com exceção de alguns presentes insignificantes oferecidos pelo cliente ao patrão em reconheci-
mento de sua dívida, o cliente dá ao seu patrão, em troca de favores recebidos ou esperados, seu serviço
pessoal, sua lealdade e sua aclamação. Esses ainda são insuficientes para equilibrar o que o cliente rece-
beu do patrão. Portanto, o cliente deve dar algo em aditamento: ele concede ao patrão a preponderância do
poder de decidir como ambos interagirão e colaborarão. Isso quer dizer que ele dá a liderança ao patrão e

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aceita o partidarismo para si mesmo. Esse último presente, como será visto, é de importância crucial para a
estrutura das clientelas.

VARIAÇÕES EM RELAÇÕES PATRÃO-CLIENTE

Embora uma separação das relações patrão-cliente dos seus anfitriões institucionalizados revele a sua
uniformidade geral, realmente, existem algumas variações entre os addenda patrão-cliente. Essas variações
provêm largamente das diferenças nas subestruturas às quais estão ligadas. Isso se aplica, por exemplo, à
estabilidade das atribuições do papel e do status clientelistas. Assim, tanto a ocupação por indivíduos espe-
cíficos de papéis duradouros de patrão ou de cliente, quanto o status de um determinado conjunto patrão-
cliente na hierarquia maior de relações de poder de uma sociedade podem ser fixos e inalteráveis, como é o
caso quando as relações patrão-cliente existem em uma ordem feudal estabelecida. Por outro lado, o patrão
e o cliente podem trocar de lugar enquanto a posição do conjunto patrão-cliente na sociedade permanece
fixa, como em um bando de criminosos. Alternativamente, a atribuição de papéis de patrão e de cliente pode
permanecer fixa enquanto muda a posição de seu conjunto patrão-cliente em uma cadeia vertical mais lon-
ga, como em certas burocracias nas quais funcionários ambiciosos sobem com a ajuda de seus clientes e
esses, em troca, são conduzidos para cima pelo seu patrão que sobe. Finalmente, tanto a atribuição do pa-
pel, quanto a posição do conjunto patrão-cliente podem ser instáveis, como no "salve-se quem puder" na
política eleitoral na qual um partidário pode tornar-se um candidato e pular à frente do seu líder, subindo, no
fim, para uma posição muito mais elevada do que o seu antigo patrão.
Similarmente, a resistência do elo entre patrão e cliente varia com os diferentes cenários. O elo pode
ser inquebrável durante a vida dos dois parceiros e pode, inclusive, ser mantido por muitas gerações, como
é freqüentemente no caso em que o arrendamento agrícola está bem estabelecido. Aqui, a estabilidade se
origina do fato de que o patrão está seguro na posse de seus recursos, enquanto o cliente pode ser impedi-
do de deixar o seu patrão devido a débitos, escassez de terra ou servidão.
Por outro lado, quando a maior parte dos acessos dos patrões a recursos é tão falível que eles não po-
dem garantir um fornecimento duradouro de benefícios para seus clientes, como tende a ser o caso quando
os patrões precisam depender de recursos que não lhes pertencem, é provável que os clientes tenham a li-
berdade para deixar seus patrões quando esses não podem mais mantê-las. Esse é o caso, por exemplo,
de patrões cujos recursos derivam da sua posse em cargos em organizações governamentais ou privadas
ou do saque que eles podem assegurar como líderes de bandidos.
Finalmente, em cenários nos quais patrões rivais estão em competição ativa e nos quais o sucesso na
sua competição está intimamente relacionado ao número relativo de seus clientes, tanto em jogos de soma
zero quanto em disputas por cargos públicos eletivos, os patrões podem estar ativamente engajados na ten-
tativa de ganhar os clientes do outro, e os clientes podem ser capazes de oporem outros patrões aos seus
próprios, dando temporariamente seu apoio ao arrematador. Em tais cenários, as relações patrão-cliente po-
dem ser altamente instáveis, mas podem envolver recompensas a curto prazo extraordinariamente altas.
As formas de clientelismo diferem, finalmente, no grau no qual todos os clientes de um patrão agem em
uníssono. Alguns patrões nunca acham necessário apelar para todos os seus clientes para que venham jun-
tos trabalhar de uma maneira coordenada. Assim, por exemplo, proprietários de terras tradicionais cujas ter-
ras têm sido divididas para meeiros individuais trabalharem separadamente podem não pedir nada a seus
clientes, mas todos eles retribuem os favores recebidos do modo que podem e quando podem. Uma cliente-
la desse tipo pode nunca ser vista agindo como um grupo e pode não parecer um grupo para os seus mem-

21
bros clientes. Para outros tipos de patrões, no entanto, o alcance dos seus objetivos depende de sua habili-
dade de mobilizar todos os seus clientes em épocas específicas para esforços massivos de ação coordena-
da. São exemplos os líderes de guerra, os bandidos e os candidatos a cargos eletivos.
A coordenação em casos do último tipo tanto pode ser iniciada pelos clientes quanto pelo líder. Assim,
quando um grupo de clientes percebe que o seu bem-estar como indivíduos – por exemplo, suas vidas,
seus acessos aos espólios de guerra ou à patronagem governamental – depende do sucesso de seu patrão
ao alcançar seus próprios objetivos e que o sucesso do patrão sob esse aspecto depende, por sua vez, do
apoio uníssono dos seus clientes, estes podem, por iniciativa própria, exercer uma forte pressão de grupo
sobre os retardatários no seu meio para incitar o seu líder quando este necessitar. Às vezes, tal pressão é
aplicada por um pequeno núcleo de sublíderes que fornecem o que, de fato, é uma forma de liderança cole-
tiva para a clientela a qual pode chegar perto de suplantar a liderança do patrão. De qualquer modo, isso
também ocorre e um grupo de clientes pode demonstrar um grau de solidariedade o qual, para um observa-
dor externo, é difícil de distinguir daquele que é esperado dos membros de um grupo corporado.
O que, então, distingue tal clientela coesiva de um grupo corporado? A diferença, que é uma questão de
grau e não de tipo, está na posição focal ocupada pelo líder de uma clientela a qual o torna mais importante
para sua combinação do que é o chefe de um grupo corporado. Ele é mais importante em três aspectos. Pri-
meiro, ele faz uma contribuição pessoal maior do que o chefe de um grupo corporado para o esforço comum
da sua organização. Assim, ele cria a clientela em primeiro lugar. Fornece muitas das conexões externas e
muitos dos recursos materiais usados no esforço comum. Pode dar o sustento para os seus partidários mais
necessitados. Tem uma obrigação pessoal especial de cumprir os compromissos criados para o benefício
da clientela. Segundo, em troca de sua contribuição maior, recebe mais poder arbitrário do que o chefe de
um grupo corporado típico. Está autorizado a decidir quem pode ser admitido no partidarismo e quais parti-
dários desfrutarão o status mais favorecido. Está autorizado a determinar muitos dos objetivos para os quais
a clientela é mobilizada, e pode incluir entre eles os seus objetivos particulares. Se os objetivos são alcan-
çados, o crédito e o prestígio resultantes são largamente seus. Se espólios são obtidos através do esforço
comum da clientela, o líder pode distribuir uma parte entre os seus partidários de acordo com os serviços
que lhes prestaram. Qualquer porção não distribuída permanece, em sua maior parte, sob seu controle pes-
soal. Ele pode apropriar-se inteiramente dela, guardá-la para distribuição posterior, ou dá-la para os seus
herdeiros. É nesse sentido que a clientela não conserva a propriedade continuamente de forma verdadeira-
mente coletiva e, assim, não é um grupo corporado. Tudo isso, por sua vez, justifica o terceiro aspecto da
proeminência especial do líder: sua posição central na estrutura da clientela. Em vista das suas volumosas
contribuições e do seu amplo poder arbitrário, seus subordinados encontram maior segurança na sua liga-
ção pessoal com o líder do que na sua "qualidade de membro" no círculo dos seus pares. O oposto ocorre
em um grupo corporado. O fato dos componentes diádicos da estrutura da clientela receberem tal proemi-
nência é que a torna uma estrela primária centrada no seu líder.
Em contraste, uma combinação é um grupo corporado à medida que os frutos da atividade do grupo e
quaisquer deveres concomitantes se tomam, pelo menos por algum tempo, posse ou obrigação coletiva do
grupo do qual o líder é simplesmente o administrador. Tipicamente, em grupos corporados a ação coesiva
pode ser realizada para uma ampla série de políticas verdadeiramente coletivas ou objetivos ideológicos
que podem ter pouca conexão com os objetivos pessoais do chefe do grupo. Não é provável que isso ocorra
em uma clientela típica. O que não significa que grupos que são corporados também não satisfaçam as ne-
cessidades particulares dos seus membros. Como mostrou Mancur Olson Jr., tal atenção é freqüentemente
necessária como uma indução à participação dos membros das associações voluntárias de diversos

22
tipos(17). Mas denota que a presença de propriedade, intenções ou deveres coletivos significantes é o traço
distintivo dos grupos corporados.

O CLIENTELISMO RURAL TRADICIONAL E O SEU DECLÍNIO

Os estudiosos interessados nos setores rurais da Europa Medieval e do início da Europa Moderna e nas
ramificações da sociedade européia na América Latina estavam entre os primeiros a dar séria atenção às
relações patrão-cliente. Muito da literatura sobre esse assunto ainda ocupa-se das relações patrão-cliente
entre proprietários de terras e arrendatários agrícolas nessas partes do mundo. O modelo descrito nesses
estudos tem sido chamado "clientelismo rural tradicional". Apresentando as seguintes características distinti-
vas.
Envolve ambas as partes da relação em um amplo espectro de obrigações recíprocas.
É, em grande parte, uma relação "face a face". A proximidade física e o contato pessoal direto são de
particular importância para manter tais alianças em sociedades tradicionais nas quais a estreita esfera pro-
vinciana de lealdade e as dificuldades de transporte tornam arriscado depositar confiança em indivíduos que
não são prontamente acessíveis(18).
Onde o modelo da posse de terras rural é estável e hereditário, a relação patrão-cliente rural também
tende a ser estável e hereditária. Também tende a ser exclusiva. Isso deriva do fato de que para o cliente a
relação pode acarretar a obrigação de apoiar o seu patrão nos seus conflitos com outros patrões, o que sig-
nifica que o cliente não pode ter obrigações similares com os rivais potenciais do seu patrão.
A relação é idealmente de afeição e de lealdade e, em sociedades nas quais a afeição e a lealdade são
restritas aos parentes, tende a imitar a relação entre pai e filho, envolvendo uma demonstração de paterna-
lismo por parte do patrão e de respeito por parte do cliente. Nessas relações é, freqüentemente, utilizada
uma terminologia de parentesco.
Quando a sociedade rural é organizada dessa forma, o resultado é uma estrutura política altamente oli-
gárquica. Um certo número de figuras poderosas proprietárias de terras são os atores políticos reais e os
seus seguidores dependentes são os recursos políticos humanos. A estrutura vertical das alianças inibe a
emergência de lealdade ou ação de classe entre a população subordinada de clientes. Embora a competi-
ção entre os patrões rurais por terra e poder possa ser bastante intensa, as normas de competição entre
eles servem para manter intactos os limites de classe existentes.
O clientelismo rural tradicional em sua forma arquetípica tende a ser predominante em cenários nos
quais os subordinados são muito dependentes dos seus superiores e nos quais os últimos necessitam enor-
memente de apoio de grupos leais de dependentes pessoais. O primeiro é provável de ser o caso no qual
aqueles em posições de subordinação são pobres, incultos, não-especializados, legalmente desprivilegia-
dos, proibidos de se organizar e, geralmente sujeitos a serem vitimados. O último é provável de ser o caso
no qual aqueles em posições de coordenação oprimem uns aos outros e necessitam de reservas privadas
de potencial humano para ataque e defesa. Ambas as condições existem em épocas e lugares que são até
certo ponto anárquicas. Assim, a queda do Império Romano trouxe consigo, na Europa, um período de qua-
se anarquia fora da qual se desenvolveram as instituições clientelísticas do feudalismo. Dessa forma tam-
bém, em uma época posterior, a expulsão dos governadores coloniais espanhóis da América Latina resultou
em um período similar de governo central ineficiente o qual criou um vácuo que foi preenchido pela institui-
ção clientelística da caudillaje(19). Em ambos os casos, a exposição de agricultores pobres aos perigos da
pilhagem e da penúria e a necessidade de proprietários de terras ricos de corporações de homens comba-
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tentes pessoalmente leais a si mesmos, tornaram os homens de ambos os estratos sociais, extraordinaria-
mente dependentes uns dos outros.
É provável que a dependência pessoal entre superiores e subordinados seja especialmente forte quan-
do as suas relações não são baseadas em associação compartilhada em instituições corporadas, isto é,
quando as relações institucionais entre eles são de dependência pessoal ou quando as instituições corpora-
das nas quais compartilham a associação são fracas. Sob tais condições, é provável que os indivíduos utili-
zem os addenda patrão-cliente como suplementos ou substitutos para as suas relações institucionalizadas.
Assim, os monarcas carolíngios, carecendo de sanções burocráticas efetivas para assegurar a lealdade dos
seus funcionários da zona rural, reforçaram o seu controle sobre alguns – e, eventualmente, todos – desses
funcionários, transformando-os também em seus vassalos pessoais. O desenvolvimento dos rituais de ho-
menagem e de fidelidade e o crescimento de uma cultura política a qual dava grande valor à lealdade pes-
soal forneceram sanções fortes, mas não-legais, a essas alianças diádicas verticais.
O que é responsável pelo declínio do clientelismo rural tradicional? De um modo mais geral, parece que
as relações desse tipo acabam quando aqueles em posições superiores ou aqueles em posições subordina-
das não estão querendo mais cumprir a sua parte na relação. Isso pode ser o resultado de mudanças nas
condições materiais que tornam essas relações não mais úteis. Também pode resultar de mudanças na ide-
ologia.
Dessa forma, pode-se ver o colapso do clientelismo que acompanhou a transição do feudalismo para o
capitalismo na Europa Ocidental como uma conseqüência das forças de mercado que abalaram seriamente
as garantias econômicas e sociais das quais os servos em tempos passados desfrutaram. Essa interpreta-
ção conta com a mudança nas relações materiais entre patrões e clientes como a força principal para abalar
a prática da dependência pessoal. Mas a mudança também pode ser atribuída às transformações no campo
das idéias. Assim, pode ser perguntado em que grau pode-se ver a deterioração do clientelismo feudal
como um produto de novas idéias de liberdade pessoal e autonomia personificadas na vida citadina que so-
lapou a hegemonia ideológica da ordem social feudal e tornou a dependência pessoal não mais legítima.
Presumivelmente, tanto as forças materiais quanto as ideológicas tomaram parte nessa transformação. De
qualquer maneira, justificar o colapso do clientelismo rural tradicional e sua relação com outras formas de
solidariedade social, tais como aquelas de parentesco, comunalismo, religião e classe, continua uma tarefa
analítica importante no estudo do clientelismo.

CLIENTELISMO CORPORADO?

A questão é se os grupos ou outras entidades corporadas podem desempenhar os papéis de patrões ou


de clientes ou se o modelo clientelista e a terminologia clientelista devem ser limitados a relações entre pes-
soas individuais. A questão tem sido levantada pelas observações de Sydney Tarrow e Luigi Graziano no
sul da Itália. Lá eles observaram um modelo de política no qual comunidades locais inteiras e associações
inteiras de camponeses, de trabalhadores, de jovens e de profissionais deram os votos dos seus membros
en bloc para políticos ou partidos políticos específicos em troca de vários tipos de recompensas para os
seus membros, incluindo recompensas indivisíveis como projetos de desenvolvimento local e os resultados
de várias outras "leis particularísticas". Tarrow chama essas de "clientelas horizontais" e Graziano descreve
o tipo como "clientelismo de massa" ou "clientelismo corporado". Requer, ele argumenta, um modo "corpo-
rativo" de particularismo que qualitativamente não é diferente do particularismo individual da díade interpes-
soal. Chama esse modelo de "novo clientelismo" e sugere que se ajusta ao modelo patrão-cliente(20). Isso

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o modelo faz. Mas não é um fenômeno completamente novo. Tipos similares de clientelismo corporado são
encontrados em vários cenários tradicionais. Uma forma comum de tal clientelismo tem sido relatada em vá-
rias sociedades unilineares nas quais grupos organizados, incluindo linhagens de imigrantes ou de outros
indivíduos desprivilegiados, têm sido ligados a indivíduos ou linhagens do grupo dominante. São exemplos
obe e tomo do Japão Antigo, corporações ocupacionais hereditárias que eram ligadas a membros dos clãs
dominantes Yamato, bem como as linhagens de clientes do Mandarin do Sudão e as linhagens de imigran-
tes Menangkabau que eram ligadas às casas governantes na Malásia Ocidental peninsular(21).
É certamente verdade que em uma escala maior o novo clientelismo italiano apresenta as mesmas ca-
racterísticas estruturais do clientelismo interpessoal tradicional. Como no último, há um acordo comercial
entre egos separados, um ego sendo o político ou o partido que faz o papel do patrão e o outro sendo a ci-
dade ou a associação que age como um cliente corporado. Nenhum ego é parte do outro, nem eles juntos
são parte de um grupo comum maior. Como no caso do clientelismo interpessoal, o cliente corporado exige
e é satisfeito com uma recompensa particular: um projeto de desenvolvimento local específico para si mes-
mo pelo qual compete com outros grupos corporados em outras localidades. Não pede um programa de de-
senvolvimento nacional visto pela óptica do patrão, o qual permanece fora do grupo e dos grupos competi-
dores, as recompensas dadas ao grupo são particulares. O fato de que os membros do grupo possam ser
semelhantes e de que o espírito corporado e o comportamento solidário sejam necessários para dar à nova
clientela o seu poder de barganha não altera o fato de que a relação entre esse cliente e o seu patrão é es-
sencialmente uma aliança diádica. O patrão, por sua vez, pode ter tais alianças com muitas corporações lo-
cais que juntas constituem a sua clientela. Pode ser dito, portanto, que o modelo clientelista pode operar em
qualquer nível, variando das relações entre pessoas individuais, através daquela entre grupos subnacionais,
para aquela entre estados nacionais.
Contra isso pode ser argumentado que, apesar de suas semelhanças estruturais, o novo clientelismo
corporado é suficientemente diferente do clientelismo interpessoal para merecer um nicho separado em
uma tipologia de estruturas políticas. Isso pode ser provado, primeiro, simplesmente com base na definição
com a qual esse ensaio inicia. Lá, uma relação diádica foi definida como aquela entre indivíduos, envolven-
do ligação pessoal direta. Muitas outras discussões empregam definições similares. A escolha dessas pala-
vras, por sua vez, reflete as observações daqueles que descreveram o clientelismo tradicional, que essa re-
lação e outras relações diádicas tradicionais envolvem um estilo altamente individualístico de interação. As-
sim, Foster relatou que na sua comunidade mexicana nenhuma pessoa compartilhava o seu padroeiro (san-
to patrão) com outros membros da sua própria família(22). Ter um sistema único de alianças parece ser um
desideratum. Dessa forma, pode-se acreditar que danificamos o significado estilístico do termo antigo ao es-
ticá-lo para incluir as lealdades um tanto rígidas e impessoais que são impostas aos membros dos grupos
corporados pelas estratégias das alianças dos seus líderes.
Também se pode argumentar em bases estruturais que o clientelismo corporado representa uma tática
política distintiva que, do ponto de vista da amplitude dos objetivos para os quais a ação é dirigida, ocupa
uma posição intermediária entre o particularismo individualístico da política clientelista interpessoal e os ob-
jetivos categóricos completamente não-localizados da política para as classes. O sucesso dessa tática re-
quer o uso em combinação de duas técnicas. Localmente, requer a criação da solidariedade de grupo local
através de um apelo à consciência ou às características locais. Externamente, exige a técnica diádica tradi-
cional do clientelismo. Embora cada parte dessa operação dual represente uma forma relativamente pura do
que, em outra parte, descrevi, como duas técnicas alternativas distintivas, o seu uso em combinação é, cer-
tamente, um meio termo que merece lugar separado em uma tipologia(23).

25
Indo além dessa tipologia estática, pode ser argumentado que, em países ou regiões específicas de sua
história, o clientelismo corporado representa um estágio histórico na transição do clientelismo pessoal feudal
para a política moderna orientada para questões supralocais. Esse pode ser o caso na Itália. Lá, como mos-
tram Tarrow e Graziano, os eleitores que antes perseguiam seus interesses como indivíduos ou famílias so-
zinhas, na maneira descrita por Edward Banfield, aprenderam o valor de unir forças com os seus concida-
dãos ou com seus companheiros de trabalho nas suas próprias cidades a fim de competir mais efetivamente
contra grupos similares de outras cidades pelos benefícios distribuídos pelo governo nacional(24). Mas ain-
da não adquiriram um sentido de interesse de classe supralocal que quando desenvolvido os levará a esta-
belecer nada menos do que programas designados a favorecer os interesses de todos os membros da sua
classe ou categoria ocupacional em toda a sua nação. Mas essa disposição de estágios não precisa ser uni-
versal. Assim, no Japão, a dependência corporada de be e tomo de clãs específicos precedeu, ao invés de
seguir, o clientelismo interpessoal no período feudal.
No cenário italiano, o poder é detido por políticos relativamente independentes e não-ideologica-mente
orientados que estão preparados para usar os seus poderes legislativos para distribuir benefícios concretos
de vários tipos para qualquer grupo localizado cujos líderes sejam capazes de transferir os votos dos seus
seguidores en bloc em troca. A presença no centro do governo de detentores do poder desse tipo, por sua
vez, reflete uma ausência de consciência categórica supralocal entre o eleitorado como um todo, isto é, re-
flete um estado de espírito no qual as cidades se consideram como estando, principalmente, em competição
com outras cidades e os sindicatos consideram que os seus concorrentes principais são os outros sindica-
tos. Vemos aqui, em suma, um modelo de semiparticularismo de interesses puramente pessoal, contudo,
mais limitado do que os grupos categóricos supralocais.
Decida-se ou não englobar as duas formas de clientelismo, o novo modelo italiano é de interesse consi-
derável. Sugere que quer um grupo opere no estado de forma clientelista, quer de forma mais moderna, de-
penderá, em parte, do caráter daqueles que detêm o poder no centro do governo e que o seu caráter, por
sua vez, dependerá, em parte, da expectativa do eleitorado organizado e inorganizado. O caráter de ambos
em uma dada época reflete, presumivelmente, características da cultura política compartilhada por ambos
os membros da nova díade, assim como o estado de desenvolvimento social e econômico.

FACCIONISMO E DISPUTAS

Um grupo, seja ele diádico ou corporado, pode desfrutar de um monopólio organizacional na sua locali-
dade. Qualquer um que busque os benefícios de ser membro de um grupo naquele local deve juntar-se
àquele grupo. Assim, em um sistema feudal estável cada senhor tem um monopólio de terra e de serviços
no seu domínio. Se qualquer um desses servos deseja ter um patrão, terá pouca opção, a não ser tomar-se
cliente do seu senhor. O senhor, portanto, tem assegurada um a clientela estável. No entanto, há outros ti-
pos de cenários nos quais grupos diferentes competem ativamente pela devoção dos mesmos membros ou
clientes potenciais. Quando é esse o caso fala-se de intergrupo, partido ou competição faccional.
O termo "faccionismo" é associado, em particular, à competição entre grupos diádicos não-corpo-rado.
Isso provém do fato de que esse termo tem sido tradicionalmente usado para denotar grupos engajados em
rivalidade política antes do surgimento dos partidos políticos modernos no Ocidente, e é hoje usado para
denotar grupos que competem pela dominação dentro dos limites de um partido político. Ambas as "fac-
ções" do tipo pré-partido e do tipo intrapartido tendem a ser caracterizadas por membros instáveis, duração
incerta, liderança personalística, ausência de organização formal e um interesse maior por poder e espólios

26
do que por ideologia ou política, isto é, por uma carência daquelas características geralmente associadas
aos grupos corporados. Quando grupos diádicos não-corpora-dos estão em competição, cada grupo é co-
mumente chamado de uma facção. Resumi em outra parte as características distintivas da competição entre
facções diadicamente estruturadas guiadas por líderes individuais(25). O assunto é também tratado na clás-
sica descrição de Marshall D. Sahlins da liderança clientelista na Melanésia(26).
A rivalidade faccional cria tanto o conflito quanto um senso de comunidade. No curso de tal rivalidade,
como observou Max Gluckman, os interesses comunitários e a legitimidade dos cargos comunitários são
afirmados e a sociedade é mais firmemente unida(27). Contudo os aspectos divisivos do faccionismo não
devem ser negligenciados. Uma das metas de cada facção é trazer benefícios para os seus líderes e os
seus partidários. Para fazer isso, deve frustrar os esforços das facções rivais. É provável que os perdedores
nesses jogos de soma zero fiquem ressentidos e esperem por uma reviravolta para que possam "derrubar"
os seus adversários como eles próprios foram derrubados. Isso leva ao assunto relacionado da disputa.
As relações diádicas podem ser de hostilidade mútua assim como de ajuda mútua. Insultos podem ser
trocados tanto quanto favores. A forma hostil da reciprocidade é expressa pelo princípio da vingança. Não é
por acaso que sociedades, tais como aquelas da região mediterrânea que dão grande valor ao favoritismo e
dão-lhe forma através da construção de alianças diádicas, são freqüentemente também descritas como so-
ciedades caracterizadas por sentimentos e expressões fortes de desconfiança, inveja e caráter
vingativo(28). Muitas destas sociedades institucionalizam o espírito de vingança através do desenvolvimento
de normas claramente reconhecidas com referência ao direito, aos deveres, à forma e aos próprios partici-
pantes do ato de vingança(29).
A busca de vingança, assim como a busca de interesses privados, pode requerer a ajuda de um ou
mais indivíduos. Assim, a vingança, como operação construtiva para suporte de um ego, pode exigir a cria-
ção de grupos. No entanto, a reciprocidade hostil tem implicações organizacionais algo mais complexas do
que aquelas que derivam da reciprocidade de um tipo totalmente benigno. Primeiro, as trocas hostis levam
necessariamente à fragmentação, isto é, ao alinhamento dos membros de uma comunidade em campos an-
tagônicos de graus variados de resistência. A cooperação para fIns puramente produtivos não leva necessa-
riamente à fragmentação. Segundo, ao selecionar indivíduos para ajudá-lo na execução da vingança, um in-
divíduo deve considerar não somente se o outro indivíduo lhe deve apoio, mas também se aquele indivíduo
tem obrigações conflitantes de apoiar o seu inimigo e, portanto, pode ser autorizado a pedir isenção e status
de um neutro. Terceiro, a exceção da vingança pode criar vítimas novas e involuntárias cujas próprias rei-
vindicações de vingança podem levar à perpetuação e à expansão do conflito ao envolver continuamente
novos indivíduos.
Em cenários nos quais os indivíduos estão divididos em grupos corporados mutuamente exclusivos, tais
como linhagens, clãs, tribos, comunidades locais corporadas e estados nacionais, as exigências organizaci-
onais de disputa são cumpridas de maneira franca: o grupo corporado com a permissão do seu líder serve
como o grupo de disputa e fornece apoio coletivo aos seus membros. Se um membro de um grupo insulta
um membro de outro grupo, cada grupo se alinha en bloc para o conflito atrás da parte que pertence àquele
grupo. Conflitos de obrigação não aparecem: os membros individuais de cada grupo sabem onde se encon-
tram as suas lealdades, e os membros de outros grupos não têm obrigação de se envolverem. Quando um
equilíbrio de insultos foi atingido entre os dois lados, a disputa pode chegar ao fim e a aquiescência individu-
al pode ser imposta pelos líderes dos dois grupos.
Mas em cenários nos quais cada vítima de insulto se torna o líder do seu próprio grupo de disputa não-
corporado ad hoc, as disputas começam mais facilmente e são mais difíceis de conter. Um insulto a qual-

27
quer indivíduo leva a uma aglomeração ao seu redor daqueles aos quais ele faz reivindicações de apoio,
menos daqueles que têm obrigações conflitantes para com o outro lado. Um aglomerado similar se forma
em volta do seu adversário. A violência resultante que outros podem sofrer, além dos dois rivais primários –
especialmente se a vingança é imposta a vítimas substitutas – cria novas pessoas injustiçadas e novos gru-
pos de apoio os quais podem procurar por muito tempo novas vítimas depois que as vítimas originais te-
nham tido a sua satisfação e os grupos de apoio tenham sido dispersos. Na ausência de líderes globais ca-
pazes de impor a paz; o resultado, como mostrou R. F. Barton no seu detalhado relato sobre a disputa entre
as tribos Kalingas no planalto das Filipinas, pode ser uma sucessão infinita de assassinatos trocados entre
grupos mutáveis de partidários cuja composição em qualquer época depende da identidade da última vítima
e da próxima vítima(30). Isso é o que ocasiona o que Bernard Siegel e Alan Beals chamam de "faccionismo
difundido" distinto do "faccionismo cismático"(31).
Ao mesmo tempo – e isso ajuda a moderar a violência da disputa diádica – cada membro de um grupo
de disputa diadicamente estruturado tenta limitar sua própria participação àquela exigida por sua obrigação
específica para com o líder do grupo e àquela não proscrita por suas outras alianças. Assim, Thomas Kiefer,
na sua descrição da luta entre os Tausug de Sulu, observa que mesmo em batalhas campais entre grupos
opostos, os membros de cada grupo dirigem o seu fogo com uma preocupação cuidadosa com a natureza
dos seus laços pessoais ou da sua inimizade pessoal com cada membro do grupo oposto(32).

REDES SOCIAIS

Maiores e mais inclusivas do que as relações diádicas ou do que os grupos diádicos não-corporados
são as redes sociais. As redes foram definidas como "matrizes de vinculações sociais" ou como "campos
sociais constituídos de relações entre as pessoas"(33). Incluem todos os indivíduos que se encontram em
um determinado campo e que estão ao alcance direto ou indireto uns dos outros. Quer dizer, incluem todos
os indivíduos que estão diretamente ligados a, pelo menos, um outro membro daquela rede. Dessa forma,
as redes não são limitadas a indivíduos diretamente ligados ao membro focal de uma determinada estrela
de primeira grandeza ou àquele que participam de uma ação coordenada específica. Pelo contrário, as re-
des incluem todos os indivíduos que não são totalmente isolados uns dos outros e servem como arena para
todas as suas interações.
Vários autores observaram a natureza "ilimitada", "infinita" e "eterna" da rede "total"(34). No entanto, a
fim de serem estudadas, as redes devem ser de tamanho manejável. Na prática, um estudioso que desejar
examinar uma rede deve limitar sua atenção a um número finito de indivíduos, isto é, a uma rede que esteja
limitada em espaço e em tempo. Assim, poderia restringir-se a examinar as relações diádicas que existem
entre as pessoas que no momento estão vivas e aos habitantes de um determinado território. Fazer isso, no
entanto, não o absolve de ter que lembrar que existem díades de limites cruzados e que elas afetam as rela-
ções diádicas dentro de um limite. Similarmente, pode restringir-se a examinar aquelas trocas diádicas que
são, em essência, econômicas, religiosas ou políticas.
A questão levantada é a de que se uma porção temporal, espacial e funcionalmente restrita da rede to-
tal deve ser realmente chamada de uma rede. Mayer é da opinião de que esse termo deva ser reservado
para campos ilimitados e que os campos limitados devam ser denominados "conjuntos"(35). Barnes, no en-
tanto, permitiria que pelo menos as porções funcionalmente restritas de uma rede fossem chamadas de "re-
des parciais". Define uma rede parcial como "qualquer estrato da rede total baseado em algum critério apli-
cável a toda rede", e dá como exemplo as redes parciais de parentesco cognático, casamento, política e re-

28
ligião. Acredita que o termo rede parcial é apropriado "quando é planejado algum tipo de campo social".
Deve "assemelhar-se à rede total em forma estrutural"(36). Esse critério pareceria também cobrir os estra-
tos espacial ou temporalmente delimitados da rede total. Com esse uso do termo "rede parcial" eu concor-
do.
No entanto, Barnes rejeita o uso do termo "rede parcial" para esses estratos egocêntricos de redes
como as estrelas de primeira grandeza. Por causa de sua natureza egocêntrica, essas, claramente, não são
campos sociais e não se assemelham à rede em forma estrutural. Com isso eu também concordaria(37).
Mas sugeriria o termo "teia" para descrever a "estrela de primeira grandeza" de Barnes. A imagem dos fios
irradiadores de uma teia de aranha contrasta primorosamente com os fios descentralizados de uma rede de
pesca. Além disso, os círculos concêntricos de uma teia de aranha sugerem as conexões diretas entre os
aliados do indivíduo focal que os habilitam a trabalhar diretamente uns com os outros afIm de atender as ne-
cessidades do indivíduo focal, e que tornam desnecessário para eles comunicarem-se uns com os outros
através do indivíduo focal.
Para fins de análise de rede podem ser feitas distinções entre redes parciais diferentes com base em
duas variáveis estreitamente relacionadas: a sua densidade medida, como sugeriu Barnes, pela razão dos
seus vínculos diretos pelo número total de vínculos diretos teoricamente possíveis(38); a intensidade na
qual são realmente usadas. Mais densa e menos usada é a que poderia ser chamada de rede totalmente
concebível. Em tal rede, cada indivíduo em um campo está ligado a cada um dos outros indivíduos naquele
campo, contribuindo para uma densidade de 100%. Nonnan Whitten e Alvin Wolfe observaram que ninguém
tentou fazer afirmações que se apliquem às redes nesse sentido maior(39). Uma rede desse tipo não tem
semelhança com redes utilizáveis empiricamente, exceto, como observou Barnes, em pequenas sociedades
tribais nas quais todos estão realmente ligados a todos(40). Não tem valor heurístico, exceto como um ideal
contra o qual podem ser medidas redes menos densas, mas mais úteis. Menos densa e mais útil, tanto para
os seus membros quanto para um analista de redes, é a que pode ser chamada de uma rede realisticamen-
te possível. Tal rede consiste de todos os vínculos que os indivíduos podem realisticamente considerar em
estabelecer dados os impedimentos à interação impostos pelo espaço, pelo tempo, pela classe social, pela
inimizade étnica ou familiar e pelos graus variados de utilidade dos indivíduos para os outros. Essa rede re-
alisticamente possível, que difere na sua configuração de sociedade para sociedade, revela para um obser-
vador as prováveis linhas de cooperação e de conflito naquela sociedade e, assim, é por si mesma de inte-
resse. Também serve como um útil pano de fundo para um exame da rede real de interação diádica que
consiste de todas as díades que realmente foram estabelecidas. Especificamente, uma comparação dessas
duas redes nos leva a perguntar porque alguns vínculos possíveis foram transformados em vínculos reais
enquanto outros não. A rede real de interação diádica, por sua vez, pode ser comparada à rede de vínculos
usados mais freqüentemente; um exercício que, novamente, sugere questões como porque certas díades
são usadas com maior freqüência do que outras e com quais finalidades.
J. A. Barnes, em um excelente e recente estudo sobre o assunto, observou que as duas propriedades
fundamentais das redes são as interconexões múltiplas e as reações em cadeia(41). A visão da sociedade
como uma rede que tem essas propriedades fornece uma abordagem útil para uma compreensão de alguns
processos sociais que afetam a sociedade como um todo.
A análise de redes revela a base da coesão das sociedades. Assim, sugere como as comunidades po-
dem ser mantidas unidas na ausência de governos ou grupos organizados fortes. Similarmente, explica
como a classe e outras divisões em uma sociedade podem tomar-se toleráveis pela presença de alianças
contrárias. E ajuda a explicar como o consenso em uma comunidade pode emergir com o resultado da mu-

29
dança de opiniões entre os indivíduos, e como tal consenso pode contribuir para o processo de construção
de uma nação(42).
A análise de redes também fornece uma compreensão da relação do indivíduo para com a sua socieda-
de e do seu funcionamento nessa sociedade. Dessa forma, leva-nos a observar como um novo membros de
uma sociedade, seja um bebê, seja um imigrante adulto, confunde-se naquela sociedade através de intera-
ções, primeiro, com um pequeno número e, depois – em parte através da sua mediação –, com um número
crescente dos seus membros. Esse modo de análise também alerta o observador para o fato de que mesmo
os membros antigos de uma sociedade diferem entre si de acordo com o grau do seu envolvimento social.
Assim, alguns indivíduos podem estar profundamente envolvidos e ser extraordinariamente influentes na
sua sociedade por causa dos seus muitos vínculos ativos com os outros membros. Outros têm, ou desejam,
pouco tais conexões podem ser virtuais segregados sociais.
Uma abordagem de redes para o estudo da sociedade nos sensibiliza para os efeitos dos conflitos inter-
pessoais que atingem toda a sociedade. Explica como o que pode ter começado como uma discussão entre
dois indivíduos pode expandir-se, através do envolvimento progressivo de pessoas direta ou indiretamente
ligadas aos adversários originais, para uma disputa que, no final, divide a maioria da comunidade em dois
campos oponentes. Mas também explica como alianças sobrepostas, nas quais outros indivíduos podem
ser aliados diadicamente de ambos os adversários em um conflito, produzem mediadores neutros que tra-
balham para diminuir o conflito.
Finalmente, a análise de redes contribui para uma compreensão do sistema de comunicação de uma
sociedade. Um modelo de rede sugere como numerosas cadeias irradiadoras de indivíduos ligados podem
transmitir rapidamente uma mensagem criada por um deles para toda uma sociedade sem a ajuda dos mei-
os de comunicação de massa. Similarmente, mostra como o recebimento da mesma mensagem de diversas
fontes capacita o receptor a avaliar a sua exatidão.
As redes sociais, como combinações de macronível, completam o nosso estudo sobre estruturas diádi-
cas de graus diferentes de complexidade e magnitude. A análise levanta muitas questões interessantes.
Mas essas são um tanto periféricas às estruturas de médio e micronível que são os assuntos principais des-
se volume. Portanto, aqui não serão mais tratadas.

A APLICAÇÃO DE MODELOS DIÁDICOS À ANÁLISE POLÍTICA

Por causa da grande confiança que os cientistas políticos têm tradicionalmente depositado na análise
de grupos ou de classes, as contribuições mais óbvias que os modelos diádicos, incluindo os clientelistas,
podem fazer para a disciplina encontram-se na sua habilidade de esclarecer o comportamento político que é
incompatível com, ou não é explicado pela, teoria do grupo Bentleyano ou pela análise de classes marxista
ou não-marxista(43). Desse ponto de vista, são de interesse particular os três tipos de relações diádicas
mencionadas por J. A. Barnes. São relações que atravessam os limites de grupos e de categorias, relações
em grupos e relações que são estabelecidas na ausência de grupos(44). A isso se poderia adicionar as rela-
ções entre indivíduos tão distantes um do outro que não poderiam interagir efetivamente sem a ajuda de
vínculos diádicos. Uma listagem mais detalhada dos usos da análise diádica pode ser apresentada sob es-
ses tópicos:
a) Díades que cruzam as barreiras entre grupos potencialmente hostis, assim reduzindo a probabilidade
de conflitos entre eles e, no caso de estratos sociais diferentes, estabilizando a sua diferença. Relações diá-
dicas desse tipo são muito prováveis de terem as seguintes conseqüências:

30
Quando são exclusivas, a fim de que as trocas de apoio em uma direção impeçam as trocas de apoio
na direção perpendicular. Um exemplo disso é encontrado quando uma classe mais baixa vota em um único
candidato que é da classe mais alta o que evita que a classe mais baixa vote em candidatos da sua própria
classe.
Quando trocas de apoio em uma direção impedem trocas hostis na mesma direção. Um exemplo é a
proteção que um patrão poderoso dá ao seu cliente fraco contra a opressão por parte dos outros homens
poderosos.
Quando trocas de apoio fornecem gratificação suficiente para reduzir significativamente a ânsia de se
engajar em atos contrários de solidariedade ou atos paralelos de hostilidade. Um exemplo é o dos funcioná-
rios de empresas paternalistas cuja satisfação com as suas condições de trabalho os impede de ligarem-se
a um sindicato ou de votarem em candidatos esquerdistas.
Também são de interesse os sistemas de troca entre classes ou entre profissões, o que torna possível a
especialização ocupacional e a segurança no trabalho para as pessoas de status baixo. Um exemplo são as
relações jajmani entre pessoas de castas altas e baixas no norte da Índia sob a qual as pessoas fazem,
uma para a outra, serviços que, por causa das proibições religiosas, não podem fazer para si mesmas.
b) Díades que, através da mediação de intermediários ou de cadeias de intermediários, vencem a dis-
tância entre pessoas que se encontram tão afastadas que não poderiam interagir efetivamente de outra ma-
neira.
Os intermediários fornecem benefícios para ambos os indivíduos a quem mediam e, em troca de seus
serviços, obtêm algumas recompensas para si mesmos. Ao executar suas tarefas, os intermediários são ca-
pazes de influenciar a qualidade das trocas que ocorrem entre aqueles que servem como intermediários. A
sua mediação pode alterar o significado das questões e dos objetivos que parecem salientes para aqueles
que estão no centro do poder enquanto dirige as aspirações daqueles que se encontram na periferia para
necessidades as quais o seu papel de mediador como intermediários os capacita a suprir. Tipicamente, fa-
vorecem os objetivos que são prováveis de preservar a sua própria liberdade de ação. Especialmente inte-
ressante para os cientistas políticos nessa conexão são os intermediários que propiciam a ligação entre au-
toridades centrais fracas e líderes de nível local relativamente independentes.
Lacunas superadas por esse método incluem aquelas de espaço, cultura, nível sócio-econômico, status
legal e autoridade. Exemplos daqueles que vencem a distância espacial são os dominadores dos estados
tributários nas fronteiras dos impérios e os vassalos nobres dos monarcas feudais. Exemplos dos que ven-
cem a distância cultural são os líderes tradicionais nas colônias sob governo indireto, os líderes semi-educa-
dos dos seguidores camponeses mobilizados no apoio às elites educadas e os mediadores biculturais entre
grupos étnicos culturalmente distintos. Exemplos daqueles que fazem ponte entre os status sócio-econômi-
cos são os patrões, da elite ou da classe média, de clientelas de camponeses e os fornecedores de grupos
trabalhadores não-especializados. Exemplos dos que superam as lacunas dos status legais são os patrícios
ou os membros das tribos governantes que oferecem proteção legal aos seus clientes plebeus ou imigran-
tes. Exemplos dos que superam as lacunas de autoridade são os ocupantes tradicionais dos cargos tribais
nos novos estados nos quais os cargos nacionais recentemente criados carecem de legitimidade e os seus
ocupantes carecem de autoridade pessoal.
c) Díades intragrupo. As relações diádicas dentro das classes, das categorias e das organizações po-
dem contribuir para a sua unidade, assim como para a sua divisão interna. Exemplos de díades que fortale-
cem – ou substituem – a lealdade de classe ou a lealdade organizacional são a "old boy network" dentro da
classe mais alta britânica, as relações clientelísticas entre líderes e partidários dentro dos Partidos Comunis-

31
tas no Sul da Itália e na Indonésia que compensaram parcialmente a fraqueza da consciência de classe, e a
lealdade a um oficial respeitado a qual pode unir um grupo de recrutas relutantes na ausência de lealdade a
sua unidade ou ao serviço militar como um todo.
Mas lealdades pessoais a pretendentes à liderança dentro de um grupo podem produzir conflitos inter-
nos sérios. Tais rivalidades explicam, freqüentemente, o conflito intragrupo no qual nenhuma diferença ideo-
lógica ou política é aparente e podem levar a divisão permanente de tal grupo. Isso ajuda a justificar a proli-
feração de partidos e sindicatos ideologicamente similares em certos países desenvolvidos.
d) Díades que são criadas na ausência de instituições corporadas ou de organizações efetivas. Grupos
não-corporados diadicamente estruturados podem realizar tarefas que, em outras sociedades, são realiza-
das por entidades distintas. À medida que fazem isso com sucesso, diminuem a necessidade de criar tais
entidades.
Isso pode acontecer na ausência de governo ou de outros grupos corporados. Exemplos são o preen-
chimento da lacuna criada pelo colapso de um Estado centralizado ou de um Império, pela retirada de uma
autoridade colonial, pelos partidários armados de comandantes militares isolados, pela nobreza da rapina-
gem ou pelos proprietários de terras ou rancheiros armados.
Pode ocorrer, a despeito da existência de um governo, quando a lei é irregular e parcialmente aplicada
em troca de favores feitos através de conexões pessoais. Exemplos desse tipo de "corrupção" são encon-
trados em muitos Estados antigos e novos.
Pode ocorrer quando o governo recusa proteção a certas categorias de pessoas ou as vitima, ou porque
suas atividades são ilegais ou porque carecem de habilidade para protegerem a si mesmas. Exemplos são
as teias privadas das alianças criadas por famI1ias da Máfia e as alianças encontradas em certas nações
novas entre "capitalistas párias" e funcionários do governo.
Pode ocorrer quando o livre estabelecimento de associações voluntárias é proibido para alguns ou para
todos os setores da população. Um exemplo é o faccionismo intrapartidário em Estados ostensivamente
monopartidários.
Finalmente, pode ocorrer onde há modelos de interesse compartilhados ou de linhas de desentendi-
mento que estão em desacordo com aquelas reconhecidas pelos grupos corporados existentes. Exemplos
são as facções de nível local que aparecem quando questões locais e rivalidades pessoais locais são igno-
radas por partidos políticos nacionais.

NOTAS

(1) George M. Foster, "The Dyadic Contract: A Medel for the Social Structure of a Mexican Peasant Village." American Anthropologist,
63 (December, 1961), 1174.
(2) The Sociology of Georg Simmel, ed & trans. Kurt H. Wolf (Glencoe, I11.: The Free Press, 1950), p.123.
(3) Jeremy Boissevain, "The Place of Non-Groups in the Social Sciences", Man, new series, 3 (December, 1968), 544.
(4) Alvin W. Gouldner, "The Norm of Reciprocity: A preliminary Statement", American Sociological Review, 25 (April, 1960), 171, 174.
(5) Charles Kaut, "Utang na Loob: A System of. Contractual Obligation Among Tagalogs", South-western Journal of Anthropology, 17
(Autumn, 1961), 270; and Mary R. Hollnsteiner, "Reciprocity inthe Lowland Philippines", in Four Readings in Philippines Values, ed.
Frank Lynch, 2nd rev. ed. (Quezon City: Ateneo de Manila Uni versity Press, 1964), 31-33.
(6) Foster, "The Dyadic Contract", p. 1175.
(7) Foster, "The Dyadic Contract", p. 1176.
(8) Gideon Sjoberg, "The Preindustrial City", American Journal of Sociology, 60 (March, 1955), 440.
(9) James N. Anderson, "Buy-and-sell and Economic personalism Foudations for Philippines Entrepreneurship", Asian Survey, 9
(September, 1969), 652-658; Maria Christina Blanc Szanton, A Right to Survive: Subsistence Markrting in a Lowland Philippine
Town (University park: Pennsylvania State University Press, 1972), pp. 97-111; and William G. Davts, Social Relations in a Philip-
pine Market: Self-Interest and Subjectivity (Berkeley: University of California Press,1973), pp. 216-234.
(10) J. A. Barnes, "Networks and Political Process", in Local Level Politics, ed. Marc J. Swartz (Chicago: Aldine Publishing Co., 1968),
pp.112-113, 118-119.
(11) Jeremy Boissevain, "patronage in Sicily", Man, new series, 1(March, 1966), 25-26.

32
(12) Durante a época clássica do feudalismo a prática da promessa de homenagem do vassalo a vários senhores veio a ser tolerada
em algumas partes da Europa. Ver F. L. Ganshof, Feudalism, 3rd English ed. (New York: Harper & Row, 1964), pp. 102-103.
(13) R. F. Barton, The Kalingas: Their Institutions and Custon Law (Chicago: University of Chicago Press, 1949), pp.167-208.
(14) Gouldner, 171, atribui as opiniões anteriores a Homans, Thurwald, Simmel e Malinowski.
(15) John W. Thibaut and Harold H. Kelley, The Social Psychology of Groups (New York: John Wiley & Sons, 1959), p.31.
(16) Marx era muito cônscio das estruturas verticais da lealdade que caracterizavam as ordens sociais feudais, a base de sua origem e
as razões de seu declínio. Ver o seu Pre-Capitalist Economic Formations, ed. E. J. Hobsbawm (New York: International Publishers,
1965).
(17) Mancur Olson, Jr. The Logic of Colletive Action: Public Goods and the Theory of Groups (Cambridge: Harvard University Press,
1965), pp. 132-167.
(18) Assim como observava Marc Bloch, o ritual feudal de homenagem, por meio do qual o indivíduo se torna "homem" do outro, come-
çou com o ato de o cliente colocar as suas mãos juntas entre as mãos do seu senhor. E isso não podia ser feito por procuração até
o final da Idade Média quando a antiga cerimônia perdera muito do seu significado. Ver Marc Bloch, Feudal Society, trans. L. A.
Manyon (London: Routledge & Kegan Paul), p. 147.
(19) Feudalism in History, ed. Rushton Coulborn (princeton: princeton University Press, 1956), pp. 188-214; and Eric R. Wolf and Ed-
ward C. Hansen, "Caudillo politics: A Structural Analysis", Comparative Studies in Society and History, 9 (January, 1967), 168-179).
(20) Sidney G. Tarrow, Peasant Communism in Southern Italy (New Heaven: Yeale University Press, 1967), pp.331-342; and Luigi
Granziano, "Patron-Client Relationship in Southern Italy", European Journal of Poli ti cal Research, 1 (1973), 20-28.
(21) Para o be e o tomo japoneses, ver John Whitney Hall, Governrnent and Local Power in Japan 500 to 1700: A Study Based on
Bizen province (Princeton: Princeton University Press, 1966), pp. 34-43,46,48,89. Para as linhagens dos clientes do Mandarin, ver
Jean Buxton, "Clientship Among the Mandari of the Southern Sudan", ln Comparative Political Systems: Studies in the Politics of
pre-Industrial Societies,ed. Ronald Cohen and John Middleton (Garden City, N.Y.: The Natural History Press, 1967), pp. 229-241.
Para as linhagens Menangkabau, ver J. M. Gullick, Indigenous Political Systems of Western Malaya (London: The Athlone Press,
1958), pp. 37-42.
(22) George M. Foster, "The Dyadic Contract in TzintzunTzan II: Patron-Client Relationships", American Anthropologist, 65 (December,
1963), 1287.
(23) Carl H. Landé, "Networks and Groups in Southeast Asia: Some Observations on the Group Theory of politics", American Poli ti cal
Science Review, 67 (March, 1974), 120-126.
(24) Edward C. Banfield, The Moral Basis of a Backward Society (Glencoe, III: The Free Press, 1958), pp. 85-127.
(25) Landé, p.122-126.
(26) Marshall D. Sahlins, "Poor Man, Rich Man, Big-Man, Chief: Political Types in Melanesia and Polynesia", Comparative Studies in
Society and History, 5 (April, 1963), 285-303.
(27) Max Gluckman, Custom and Conflict in Africa (Oxford: Blackwell, 1943), pp.45-47.
(28) Para excelentes discussões sobre esse aspecto do comportamento mediterrâneo, ver Banfield, pp.121-122, e Jane Schneider, "Of
Vigilance and yirgins: Honor, Shame and , Access to Resources in Mediterranean Societies", Ethnology,10 (January, 1971), 1-24.
(29) Barton, pp.218-255.
(30) Barton, pp.66-84.
(31) Bernard J. Siegel and Alan R Beals, "Pervasive pacionalism" American Anthropologist, 62 (June, 1960), 394-417.
(32) Thomas M. Kiefer, Tausug Armed Conflict: The Social Organization of Military Activity in a Philippine Moslem Society, Philippine
Studies Program, Departament of Anthropology, University of Chicago, Research Series No. 7 (Chicago: University of Chicago,
Philippine Studies Program, 1969), pp.167-171.
(33) Adrian C. Mayer, "The Significance of Quasi-Groups in the Study of Complex Societies", in The Social Anthropology of Complex
Societies, . ed. Michael Banton (New York: Praeger, 1966), p.98.
(34) Norman E. Whitten Jr. and Alvin W. Wolfe, "Network Analisys", in Handbook of Social and Cultural Anthropology, ed. John J.
Honigmann (Chicago: Rand McNally, 1973), p.725.
(35) Mayer, p .10l.
(36) Barnes, pp.111-112.
(37) Barnes, pp.112-113.
(38) Barnes, p.117.
(39) Whitten & Wolfe, p.725.
(40) Barnes, p.127
(41) J. A. Barnes, Social Networks, Addison-Wesley Module in Anthropology (Reading, Mass.: Addison-Wesley Pub. Co.,1972).
(42) A formação da opinião pública através das trocas de opinião é discutida em C. Kadushin, "Power, influence and social circles: a
new methodology for studying opinion makers", American Sociological Review, 33 (1968), 685-699.
(43) Arthur F. Bentley, The Process of Government (Chicago: University of Chicago Press, 1908).
(44) Barnes, "Networks and Political Process", p.109.

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