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COMO CRIAR INCENTIVOS ECONÔMICOS PARA TORNAR A

JUSTIÇA MAIS ÁGIL?

FERNANDO B. MENEGUIN 1

BRUNO DANTAS 2

O Código de Processo Civil (CPC) vigente estabelece que a


sentença condenará a parte vencida a pagar as despesas processuais e os
honorários advocatícios da parte vencedora. Como todo agente econômico,
o potencial litigante pesará os custos e benefícios de recorrer ao Poder
Judiciário e decidirá agir de forma a maximizar seu retorno. Assim, ele
avaliará o valor da causa, a probabilidade de vencer e sua despesa caso não
logre sucesso na ação.

Em se tratando de honorários advocatícios, estes podem ser


fixados pelo magistrado entre o mínimo de 10% e o máximo de 20% sobre
o valor da condenação, considerando o grau de zelo do profissional, o lugar
de prestação do serviço, a natureza e importância da causa, o trabalho
realizado pelo advogado e o tempo exigido, conforme o parágrafo 3º do art.
20 do CPC. Esse custo não é desprezível e certamente influencia a decisão
de alguém que esteja pensando em entrar com uma ação judicial.

Era de se esperar que a mesma avaliação acontecesse no


momento de interpor um recurso; no entanto, o CPC vigente não traz a
previsão de novos honorários advocatícios quando se recorre. Isso
significa que o perdedor, na primeira instância, tem todo o incentivo a
recorrer, uma vez que não correrá nenhum risco em fazê-lo. Além de não

1
Doutor em Economia. Consultor Legislativo e Diretor do Núcleo de Estudos e Pesquisas do Senado
Federal.
2
Doutorando em Direito. Consultor-Geral do Senado Federal e Advogado em Brasília.
correr risco financeiro, ele se beneficiará por retardar o pagamento do
principal, especialmente porque os juros impostos pela Justiça são
inferiores aos praticados pelo mercado. Há um estímulo econômico para o
devedor não aceitar a sentença, mesmo quando ele reconhece que a decisão
foi justa e correta. Essa ausência de custo extra para manter o processo
tramitando é um dos motivos para a morosidade do Poder Judiciário. Se
houvesse receio de incorrer em nova despesa antes de protocolar um
recurso, o litigante talvez decidisse por não recorrer.

Em 2007, os economistas norte-americanos Leonid Hurwicz,


Eric Maskin e Roger Myerson venceram o Prêmio Nobel de Economia por
estabelecerem as bases da Teoria de Desenho de Mecanismos que, em
linhas gerais, busca entender os incentivos com os quais se defronta um
agente no momento de tomar uma decisão que afeta outros agentes e,
entendendo esses incentivos, criar regras de alocação de recursos que
levem todos os agentes a agirem de forma ótima, de acordo com um
critério previamente estabelecido.

Um exemplo conhecido que ilustra a Teoria de Desenho de


Mecanismos é como dividir uma barra de chocolate entre duas crianças.
Cada uma quer a maior parcela possível do doce e temos de evitar que as
crianças se desentendam, além de induzir uma divisão igualitária do
chocolate. Um possível mecanismo para se atingir esse objetivo é o
seguinte: uma das crianças parte o chocolate em dois pedaços, e a outra, em
seguida, escolhe que pedaço ela quer. Dessa forma, a primeira criança será
incentivada a dividir o chocolate exatamente na metade, pois, caso
contrário, ficará necessariamente com o menor pedaço.

Admitindo o fato de que as pessoas respondem a incentivos,


ou seja, tomam suas decisões de forma estratégica, é fácil perceber que o
mecanismo criado pelo atual CPC gera incentivos para que sejam usadas
todas as possibilidades processuais para retardar o final do trâmite judicial.
Há um consenso de que essa infinidade de recursos protelatórios diminui a
efetividade do Poder Judiciário, assoberbando-o, e prejudica a prestação
jurisdicional.

Nesse sentido, o projeto do novo CPC, em tramitação no


Congresso Nacional, deu um passo importante para resolver a questão. Ao
contrário da situação atual, em que as despesas processuais são fixadas na
primeira instância e não são mais alteradas à medida que o processo é
levado às instâncias superiores, o projeto prevê que os honorários
advocatícios aumentem a cada recurso interposto. Mais precisamente, o
parágrafo 6º do art. 73 do projeto dispõe que, “quando o acórdão proferido
pelo tribunal não admitir ou negar, por unanimidade, provimento a recurso
interposto contra sentença ou acórdão, a instância recursal, de ofício ou a
requerimento da parte, fixará nova verba honorária advocatícia”, até o
limite total de 25% do valor da condenação.

Da Teoria de Desenho de Mecanismos, extrai-se o conceito de


“racionalidade individual”, segundo o qual um agente somente aceitará
participar de um mecanismo se calcular que receberá uma utilidade
esperada maior ou igual à utilidade que receberá se dele não participar.
Como o custo de recorrer ficou maior, considerando as novas regras do
sistema recursal proposto no projeto, a utilidade esperada dessa ação
diminuiu.

As causas deveriam, em princípio, extinguir-se no primeiro


grau, com o imediato e espontâneo cumprimento da sentença. Embora os
recursos sejam importantes para o aperfeiçoamento das decisões judiciais,
o estímulo para que sempre e em quaisquer circunstâncias haja sua
interposição é uma deformação do nosso sistema. Pode-se dizer que as
novas regras propostas criam um mecanismo que aumenta fortemente a
probabilidade de o litigante somente recorrer se realmente acreditar que
obterá sucesso. Dessa forma, o custo extra para perpetuar a ação certamente
desestimulará a litigância de má-fé e as aventuras judiciais. Caso o projeto
seja aprovado no Congresso Nacional, o sistema recursal brasileiro terá
recebido aprimoramento importante no sentido de viabilizar os incentivos
corretos para aumentar o bem-estar social.