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coisas úteis para obter seus objetivos, nem sempre declarados, e

muitas vezes, inconscientes, não podendo a Ciência Política


prescindir, desse modo, da presença da psicologia e da psicanálise;
B - O homem é um animal simbólico, que se comunica com seus
semelhantes através de símbolos – dos quais o mais importante é a
linguagem. O conhecimento da ação humana exige a decifração e
a interpretação destes símbolos, cuja significação é quase sempre
P A R T E I – Elementos que caracterizam o Estado: a importância da incerta, às vezes desconhecida, e apenas passível de ser
Ciência Política reconstruída por conjecturas;2
C - O homem é um animal ideológico, que utiliza valores vigentes no
sistema cultural no qual está inserido, a fim de racionalizar seu
comportamento, alegando motivações diferentes das reais, com o
fim de justificar-se ou de obter o consenso dos demais;
D – Disso decorre a importância que assume na pesquisa social e política a
revelação daquilo que está escondido, assim como a análise e a
crítica das ideologias.3
1. A aptidão da Ciência Política para a compreensão do nascimento do
Estado Moderno Nesse sentido, entendemos a Ciência Política como um saber operativo,
um instrumento apto a intervir na realidade que estudamos (Giovani Sartori). A
Ciência Política será, assim, essa disciplina que, mediante um processo de
compreensão interdisciplinar, possibilitará interpretar a complexidade que
envolve o Estado, o poder, a política, a democracia e o direito (e suas
1.1. Considerações gerais consequências para a Sociedade). Por isso, é necessário entender que a Ciência
Política guarda uma inexorável relação com os demais ramos da ciência
Estudar o Estado e suas relações com a sociedade implica, estudados pelo homem, que, de um modo ou de outro, produzem realidade(s),
necessariamente, analisar os mais variados aspectos que envolvem o próprio como o direito, a economia, a história, a psicologia, a sociologia, a filosofia etc.
funcionamento das instituições responsáveis por essa sociedade. Estado, Governo, Vê-se, então, que como conteúdo, a Ciência Polícia, na qual aqui se inclui
Democracia, Legitimidade, Poder são questões que, imbricadas, exigem uma uma Teoria (Geral) do Estado, pretende estudar o Estado, sua estrutura e seu
disciplina para o estudo de suas complexidades: é aí que entra a Ciência Política, funcionamento, bem como sua relação com o sistema jurídico, o qual é
forma de saber cujo objeto se desenvolve no tempo – sendo por isso histórica, no apresentado e se pretende o locus privilegiado de emanação da normatividade, e,
dizer de Bobbio –, sofrendo contínua transformação, sendo impossível nela como objeto, tanto a sua realidade quanto a sua idealidade. Isto não significa
aplicar a experimentação, própria dos físicos e biólogos. Lembra nesse sentido o dizer que estamos buscando, aqui, a compreensão de um modelo normativo de
mestre italiano que “não se pode reproduzir uma revolta de camponeses em um Estado, mas, sim, perseguimos o entendimento de como este se reveste e se
laboratório por óbvias razões, entre outras, aquela que uma revolta reproduzida apresenta. Pretendemos, assim, elaborar um conhecimento “positivo” (não
não seria mais uma revolta (note-se a relação entre uma ação cênica, que se
pode repetir indefinidamente e a realidade representada pelos acontecimentos: o transcendente) acerca deste objeto de estudo, como diz R. Zippelius.4 Esta
questão assume especial relevância neste período histórico, no qual o direito
Hamlet, de Shakespeare, não é o príncipe da Dinamarca que realmente viveu)”.1 assume um papel que vai muito além do lugar que lhe era destinado
Em síntese, repetindo Bobbio, a Ciência Política, compreendido como originariamente, embora não rompa, ainda, com seus vínculos inaugurais com a
ciência do homem e do comportamento humano, tem em comum, com todas as instituição estatal e, em particular, com a experiência do Estado Constitucional,
outras ciências humanísticas, dificuldades específicas que derivam de algumas nascido da tradicão liberal revolucionária do século XVIII, o que marca
características da maneira de agir do homem, das quais três são particularmente indelevelmente a continuidade entre Estado e Direito (e Constituição).
relevantes: Parece evidente, assim, que, falar do Estado significa falar acerca das
A - O homem é um animal teleológico, que cumpre ações e se serve de condições de possibilidade de sua compreensão, desde o seu nascimento até hoje,
explicitando-se como uma experiência nova – moderna – que se inaugura com a sua totalidade e realidade específicas.
ultrapassagem do medievo.5 Neste sentido, mais do que pretender dar conta de uma explicação global
A “necessidade” do Estado, por assim dizer, que faça a interdição, a e uniforme do objeto Estado, o que se busca é refletir acerca de suas reais
ruptura, entre civilização e barbárie, o que se traduziu em um rompimento condições de viabilidade, desde um pressuposto de sua inevitabilidade, diante do
histórico-paradigmático, depois de sístoles e diástoles representadas pelas formas papel fundamental que “ainda” tem a cumprir, sem sonegar o debate em torno a
liberal e social, com o contraponto das experiências socialistas, tem o desafio, sua “eventual” superação.7
contemporaneamente, de responder às novas necessidades e enfrentar os novos
dilemas, caracterizadas pelo epíteto que a tradição cunhou do século XX em
diante: o Estado Democrático de Direito, que busca assegurar as conquistas
modernas e resgatá-las naquilo que ainda está incumprido, enfrentando, 1.2. A transição das formas estatais pré-modernas
inclusive, suas próprias dificuldades frente às transformações operadas por novas
formas de vida.
A verificação da transformação histórica tem o escopo de fixar as formas
A “necessidade” do Estado, que primeiro se manifestou como interdição fundamentais que o Estado adotou na passagem do medieval ao moderno,
(isto é, na ruptura entre civilização e barbárie, que se traduziu num rompimento ficando claro que, para os objetivos destas reflexões, privilegiamos a(s) forma(s)
histórico-paradigmático) e depois passou por sístoles e diástoles (entre as formas moderna(s) do Estado. De qualquer sorte, é importante que se estabeleçam
liberal e social, com o contraponto das experiências socialistas), na alguns parâmetros identificadores do que nominamos “formas estatais pré-
contemporaneidade, tem o desafio de enfrentar novos dilemas. O Estado passa a modernas”, a saber:
ter que responder a novas necessidades, caracterizadas pelo epíteto que a
tradição cunhou do século XX em diante: o Estado Democrático de Direito, que A - Oriental ou Teocrático – é uma forma estatal definida entre as antigas
busca assegurar as conquistas modernas e resgatá-las naquilo que ainda está civilizações do Oriente ou do Mediterrâneo, onde a família, a
incumprido, enfrentando, inclusive, suas próprias dificuldades frente às religião, o Estado e a organização econômica formavam um
transformações operadas por novas formas de vida, pela “complexidade” da conjunto confuso, sem diferenciação aparente. Em consequência,
sociedade contemporânea, pelo “transbordamento” mesmo das fórmulas não se distingue o pensamento político da religião, da moral, da
político-jurídicas modernas. filosofia ou de doutrinas econômicas. Características fundamentais:
a) a natureza unitária, inexistindo qualquer divisão interior, nem
É nesse ponto que, praticamente, a Ciência Política se aproxima mais e
territorial, nem de funções; b) a religiosidade, onde a autoridade do
mais da Teoria do Estado, quando vai tratar das relações de poder como
governante e as normas de comportamento eram tidas como
possibilidades de os Estados atenderem às demandas e às promessas expressão de um poder divino, demonstrando a estreita relação
(incumpridas) da modernidade, circunstância que assume especial relevo em
Estado/divindade;
países de modernidade tardia, como na América Latina. Ao mesmo tempo,
paradoxalmente, ela se afasta de uma Teoria Geral do Estado, quando esta B - Pólis Grega: caracterizada como: a) cidades-Estado, ou seja, a pólis
pretende dar uma explicação unívoca acerca da experiência estatal moderna, como sociedade política de maior expressão, visando ao ideal da
abstraindo-se das especificidades e dificuldades próprias de cada País. autosuficiência; b) uma elite (classe política) com intensa
participação nas decisões do Estado nos assuntos públicos. Nas
Em resumo, pode-se dizer que a Teoria Geral do Estado, cujo grande
relações de caráter privado, a autonomia da vontade individual é
autor clássico é Jellinek, parte de pressupostos a-históricos, tendo como modelo o
restrita;
Estado alemão do final do século XIX. Portanto é uma teoria idealista, que tem
um tipo ideal de Estado (aliás, foi o próprio Jellinek quem construiu a ideia de tipo C - Civitas Romana, que se apresentava assentada em: a) base familiar de
ideal que Max Weber, seu colega em Heidelberg, iria depois utilizar e difundir). organização; b) noção de povo restrita, compreendendo faixa
Assim, o Estado seria invariável, com características constantes e caráter estreita da população; c) magistrados como governantes superiores;
universal através do tempo e do espaço (por isso, os adeptos desta concepção
D - Outras formas estatais da antiguidade, que tinham as seguintes
falam tranquilamente em Estado romano, Estado medieval, etc.).6 Por outro características: a) não eram Estados nacionais, ou seja, o povo não
lado, a concepção de Heller, aqui seguida, busca entender o Estado como estava ainda ligado por tradições, lembranças, costumes, língua e
realidade, ou seja, como formação real e histórica, a partir de suas ligações com cultura, mas por produtos de guerras e conquistas; b) modelo social
a realidade social. Ou seja, não é possível uma Teoria geral do Estado, mas baseado na separação rígida das classes e no sistema de castas; c)
apenas uma Teoria do Estado, daquele Estado concreto e histórico, inserido em governos marcados pela autocracia ou por monarquias despóticas e

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