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Filosofia

FILOSOFIA

FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD


Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017
SUMÁRIO 1
Filosofia

GRUPO A Faculdade Multivix está presente de norte a sul


do Estado do Espírito Santo, com unidades em
MULTIVIX Cachoeiro de Itapemirim, Cariacica, Castelo, Nova
Venécia, São Mateus, Serra, Vila Velha e Vitória.
Desde 1999 atua no mercado capixaba, des-
tacando-se pela oferta de cursos de gradua-
ção, técnico, pós-graduação e extensão, com
qualidade nas quatro áreas do conhecimen-
to: Agrárias, Exatas, Humanas e Saúde, sem-
pre primando pela qualidade de seu ensino
e pela formação de profissionais com cons-
ciência cidadã para o mercado de trabalho.

Atualmente, a Multivix está entre o seleto


grupo de Instituições de Ensino Superior que
possuem conceito de excelência junto ao
Ministério da Educação (MEC). Das 2109 institui-
ções avaliadas no Brasil, apenas 15% conquistaram
notas 4 e 5, que são consideradas conceitos
de excelência em ensino.

Estes resultados acadêmicos colocam


todas as unidades da Multivix entre as
melhores do Estado do Espírito Santo e
entre as 50 melhores do país.

MISSÃO

Formar profissionais com consciência cida-


dã para o mercado de trabalho, com ele-
vado padrão de qualidade, sempre mantendo a
credibilidade, segurança e modernidade, visando
à satisfação dos clientes e colaboradores.

VISÃO

Ser uma Instituição de Ensino Superior reconheci-


da nacionalmente como referência em qualidade
educacional.

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2 SUMÁRIO
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Filosofia

EDITORIAL

FACULDADE CAPIXABA DA SERRA • MULTIVIX

Diretor Executivo Revisão Técnica


Tadeu Antônio de Oliveira Penina Alexandra Oliveira
Alessandro Ventorin
Diretora Acadêmica Graziela Vieira Carneiro
Eliene Maria Gava Ferrão Penina Juliana Lima Barboza
Tatiana de Santana Vieira
Diretor Administrativo Financeiro
Fernando Bom Costalonga Design Editorial e Controle de Produção de Conteúdo
Carina Sabadim Veloso
Diretor Geral Maico Pagani Roncatto
Helber Barcellos da Costa Ednilson José Roncatto
Aline Ximenes Fragoso
Conselho Editorial Genivaldo Felix Soares
Eliene Maria Gava Ferrão Penina (presidente
do Conselho Editorial) NEAD – Núcleo de Educação à Distância
Kessya Penitente Fabiano Costalonga Gestão Acadêmica - Coord. Didático Pedagógico
Carina Sabadim Veloso Gestão Acadêmica - Coord. Didático Semipresencial
Patrícia de Oliveira Penina Gestão de Materiais Pedagógicos e Metodologia
Roberta Caldas Simões Coordenação Geral de EAD

Revisão de Língua Portuguesa


Leandro Siqueira Lima

BIBLIOTECA MULTIVIX (Dados de publicação na fonte)

Santos, Aloísio Andre dos.


Sistema de Informação / Aloísio Andre dos Santos. – Serra: Multivix, 2018.

Catalogação: Biblioteca Central Anisio Teixeira – Multivix Serra


2017 • Proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão processados na forma da lei.

As imagens e ilustrações utilizadas nesta apostila foram obtidas no site: http://br.freepik.com

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APRESENTAÇÃO Aluno (a) Multivix,

DA DIREÇÃO Estamos muito felizes por você agora fazer parte


do maior grupo educacional de Ensino Superior do

EXECUTIVA Espírito Santo e principalmente por ter escolhido a


Multivix para fazer parte da sua trajetória profissional.

A Faculdade Multivix possui unidades em Cachoei-


ro de Itapemirim, Cariacica, Castelo, Nova Venécia,
São Mateus, Serra, Vila Velha e Vitória. Desde 1999,
no mercado capixaba, destaca-se pela oferta de
cursos de graduação, pós-graduação e extensão
de qualidade nas quatro áreas do conhecimento:
Agrárias, Exatas, Humanas e Saúde, tanto na mo-
dalidade presencial quanto a distância.

Além da qualidade de ensino já comprova-


da pelo MEC, que coloca todas as unidades do
Grupo Multivix como parte do seleto grupo das
Instituições de Ensino Superior de excelência no
Brasil, contando com sete unidades do Grupo en-
tre as 100 melhores do País, a Multivix preocupa-
-se bastante com o contexto da realidade local e
com o desenvolvimento do país. E para isso, pro-
cura fazer a sua parte, investindo em projetos so-
ciais, ambientais e na promoção de oportunida-
des para os que sonham em fazer uma faculdade
de qualidade mas que precisam superar alguns
obstáculos.
Prof. Tadeu Antônio de Oliveira Penina
Diretor Executivo do Grupo Multivix Buscamos a cada dia cumprir nossa missão que é:
“Formar profissionais com consciência cidadã para o
mercado de trabalho, com elevado padrão de quali-
dade, sempre mantendo a credibilidade, segurança
e modernidade, visando à satisfação dos clientes e
colaboradores.”

Entendemos que a educação de qualidade sempre


foi a melhor resposta para um país crescer. Para a
Multivix, educar é mais que ensinar. É transformar o
mundo à sua volta.

Seja bem-vindo!

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4 SUMÁRIO
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LISTA DE FIGURAS

>>FIGURA 1 - Pablo Picasso 12


>>FIGURA 2 - O Homem primitivo 15
>>FIGURA 3 - Teorema de Pitágoras 17
>>FIGURA 4 - Cena da mitologia grega na antiguidade 19
>>FIGURA 5 - Cena da mitologia grega na antiguidade 22
>>FIGURA 6 - Acelerador de partículas, Suíça 28
>>FIGURA 9 - Castelo medieval na Itália 39
>>FIGURA 8 - Thomas Hobbes 39
>>FIGURA 10 - Monge escrevendo 40
>>FIGURA 11 - Enciclopédias 47
>>FIGURA 12 - Leonardo Da Vinci (1452 – 1519) 54
>>FIGURA 13 - Linha de produção 64
>>FIGURA 15 - Homens primitivos Neanderthals, nossos ancestrais 69
>>FIGURA 17 - Professor ensinando para crianças 74
>>FIGURA 18 - A socialização é um Fator Determinante
no Processo Educativo 76
>>FIGURA 19 - Pensar fora da caixa 79
>>FIGURA 20 - Estátua do deus grego Apolo 80
>>FIGURA 22 - O corpo como um objeto de estudo 86
>>FIGURA 23 - Sala de aula medieval em BUNRATTY, Irlanda. 88
>>FIGURA 24 - Jean Paul Sartre 93
>>FIGURA 25 - Vacas na rua na Índia 99
>>FIGURA 26 - Mulheres de burca na Turquia 100
>>FIGURA 27 - Arma 102
>>FIGURA 28 - Kant 104
>>FIGURA 29 - Família real britânica 106
>>FIGURA 30 - Casal homoafetivo 108
>>FIGURA 31 - O Papa 109
>>FIGURA 32 - Thomas Hobbes 110
>>FIGURA 33 - Rousseau 111
>>FIGURA 34 - Primatas 112

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SUMÁRIO

UNIDADE 1 1 O QUE É FILOSOFIA? 12


1.1 O FILÓSOFO QUE CAIU NO POÇO 13
1.2 AMOR À SABEDORIA 14
1.3 NECESSIDADE E CONTINGÊNCIA 16
1.4 O SENSO CRÍTICO 18
1.4.1 O SENSO CRÍTICO E A ATUALIDADE 18
1.5 MITO E FILOSOFIA 19
1.6 FILOSOFIA E IDEOLOGIA 21

CONCLUSÃO 24

2
2 A FILOSOFIA ATRAVÉS DA HISTÓRIA: PRINCIPAIS
UNIDADE
CORRENTES FILOSÓFICAS (FILOSOFIA ANTIGA E MEDIEVAL) 27
2.1 A ANTIGUIDADE GREGA: O INÍCIO DE TUDO 27
2.1.1 DO ÁTOMO DE DEMÓCRITO AO BÓSON DE HIGGS 27
2.1.2 CONHECE-TE A TI MESMO 29
2.1.3 HERÁCLITO VERSUS PARMÊNIDES 30
2.1.4 DAR À LUZ AS IDEIAS 32
2.1.5 SÓ SEI QUE NADA SEI 33
2.1.6 PLATÃO E A CAVERNA 35
2.2 O DECLÍNIO DA RAZÃO 38

CONCLUSÃO 42

UNIDADE 3 3 A FILOSOFIA ATRAVÉS DA HISTÓRIA: PRINCIPAIS CORRENTES


FILOSÓFICAS E A EDUCAÇÃO (FILOSOFIA MODERNA
E CONTEMPORANEIDADE) 45
3.1 IDADE MODERNA 45
3.1.1 MODERNIDADE E DEMOCRATIZAÇÃO DO CONHECIMENTO 45
3.2 DESCARTES E O MÉTODO 47
3.2.1 COGITO ERGO SUM 48

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6 SUMÁRIO
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3.2.2 DEMOLINDO A CASA 49


3.3 ILUMINISMO E EDUCAÇÃO 51
3.4 FILOSOFIA, ARTE E EDUCAÇÃO 53
3.5 O QUE É O CONTEMPORÂNEO? 55
3.5.1 A REVOLUÇÃO DIGITAL 57

CONCLUSÃO 59

UNIDADE 4 4 O CONTEÚDO E A FORMA DA EDUCAÇÃO.


EDUCAÇÃO PROBLEMATIZADORA. 63
4.1 RAZÃO E SENSIBILIDADE 63
4.1.1 A ESCOLA E A LINHA DE PRODUÇÃO 64
4.2 NIETZSCHE E O CONCEITO DE VERDADE 67
4.2.1 A EXPULSÃO DOS POETAS 71
4.3 O PROFESSOR E A SENSIBILIDADE 74

CONCLUSÃO 77

UNIDADE 5 5 FILOSOFIA, CORPOREIDADE E EDUCAÇÃO 80


5.1 O CORPO DA FILOSOFIA 80
5.1.1 O CORPO NA IDADE ANTIGA 80
5.1.2 AGOSTINHO E A “CRISTIANIZAÇÃO” DE PLATÃO 83
5.1.3 DESCARTES E A DESSACRALIZAÇÃO DO CORPO 85
5.2 SALA DE AULA: ESPAÇO PARA O FILOSOFAR 88
5.2.1 OS PERIPATÉTICOS 89
5.2.2 A FILOSOFIA É PARA POUCOS 90
5.2.3 OS FILÓSOFOS MIDIÁTICOS 93

CONCLUSÃO 95

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SUMÁRIO 7
Filosofia

UNIDADE 6 6 ÉTICA, MORAL E SOCIABILIDADE 98


6.1 ÉTICA E MORAL 98
6.1.1 ÉTICA, MORAL E FILOSOFIA 98
6.1.2 ÉTICA, MORAL E ESTADO LAICO 99
6.1.3 ÉTICA UNIVERSAL E MORAL CAMBIANTE 100
6.1.4 DEMOCRACIA, VIOLÊNCIA, PUDOR E SEXUALIDADE 101
6.2 KANT E O ESCLARECIMENTO 104
6.2.1 ÉTICA PROFISSIONAL 107
6.2.2 RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE 109
6.3 ÉTICA, NATUREZA E CULTURA 110

CONCLUSÃO 114

GLOSSÁRIO 115

REFERÊNCIAS 117

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8 SUMÁRIO
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Filosofia

ICONOGRAFIA

ATENÇÃO ATIVIDADES DE
APRENDIZAGEM
PARA SABER

SAIBA MAIS
ONDE PESQUISAR CURIOSIDADES
LEITURA COMPLEMENTAR
DICAS

GLOSSÁRIO QUESTÕES

MÍDIAS
ÁUDIOS
INTEGRADAS

ANOTAÇÕES CITAÇÕES

EXEMPLOS DOWNLOADS

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SUMÁRIO 9
Filosofia

APRESENTAÇÃO DA UNIDADE
Nesta unidade discutiremos o significado do termo ‘Filosofia’. Por se tratar de um
termo que não tem uma única definição, desenhamos um itinerário conceitual, que
começa nas possibilidades de percepção da filosofia na experiência cotidiana, até a
compreensão da filosofia como origem de todo o pensamento científico, passando
por temas como a do sujeito filosofante, a admiração ou espanto como princípio da
filosofia e a relação entre filosofia e ideologia.

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10 SUMÁRIO
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Filosofia

UNIDADE 1

OBJETIVO
Ao final desta
unidade,
esperamos
que possa:

> Explicar os conceitos


de mito e filosofia.

> Diferenciar os
conceitos de
necessidade e
contingência.

> Explicar a importância


da filosofia para sua
formação.

> Explicar a relação


entre a filosofia e
ciência.

> Problematizar sobre a


relação entre filosofia
e ideologia.

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SUMÁRIO 11
Filosofia

INTRODUÇÃO
Quando entramos para uma faculdade, passamos a ter contato com a ciência, seus
métodos e sua história. Todas as diversas formas de fazer ciência que conhecemos
hoje, têm uma origem em comum: a Filosofia. Por isso, esta disciplina está presente
em praticamente todos os cursos superiores, desde Medicina, Engenharia até Peda-
gogia e Administração, por exemplo. É importante lembrar que esta divisão atual
das ciências em exatas, biológicas e humanas é algo relativamente recente que ocor-
reu no séc. XIX. Antes disso todas as ciências se confundiam com a própria filosofia.
Acessar o ensino superior é se tornar um acadêmico, ou seja, entrar em contato com
a produção científica, e há uma trajetória histórica percorrida por todo este conheci-
mento que tem seu início coincidindo com o advento da Filosofia. Por isso, dizemos
que a Filosofia é a mãe de todas as ciências.

Compreender o que é a Filosofia é de suma importância para qualquer formação


acadêmica e esta unidade vai problematizar estas questões, a fim de fornecer subsí-
dios teóricos, de modo que sua formação permita uma visão crítica e reflexiva de sua
profissão, no intuito de formar sujeitos pensantes e não apenas técnicos. A Filosofia
é capaz de te mostrar a origem do próprio pensamento científico, além de estar na
base de muitas teorias de áreas específicas, ou seja, quem conhece um pouco de
filosofia tem facilidade com muitas teorias de sua própria área. A Filosofia tem a capa-
cidade de aprimorar o pensamento, estimulando a reflexão, desenvolvendo o senso
crítico e promovendo criatividade e inovação. A Filosofia tem a capacidade de te fazer
pensar “fora da caixa” e te levar para um lugar diferenciado. Apaixone-se pela Filosofia
e se torne um amante do conhecimento!

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12 SUMÁRIO
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Filosofia

1 O QUE É FILOSOFIA?
Você, alguma vez, já “parou para pensar”? Em nossa vida diária estamos imersos na
realidade de tal modo, que nossas ações tendem a uma automatização. Acordamos,
tomamos banho, café, saímos de casa, pegamos o ônibus, chegamos ao trabalho e
nem percebemos como fizemos tudo isso. O cotidiano se impõe e os dias vão se so-
brepondo, repletos de demandas de toda ordem. Estamos imersos nesse turbilhão de
coisas que fazem a expressão: “parar para pensar” ter todo o sentido. De fato, o pensa-
mento é algo inerente ao ser humano, mas podemos dizer que existem formas de
pensar que são diferentes umas das outras. Aqui já podemos começar a definir a filo-
sofia como uma forma específica de pensar o mundo, ou como uma busca por uma
melhor maneira de pensar. Afinal, tanto faz como se pensa ou existe a melhor manei-
ra de pensar? Normalmente, quando “paramos para pensar” estamos em busca de um
tipo de pensamento mais reflexivo, ou seja, aquele que volta-se para si mesmo.
Uma reflexão é um gesto essencialmente filosófico, mas a filosofia é mais que isso.

Platão, famoso filósofo grego da anti- FIGURA 1 - PABLO PICASSO


guidade, afirma que a filosofia nasce
do espanto, da admiração. O que ele
quer dizer com isso? Segundo Platão, o
filósofo seria aquele que consegue ver
o que poucos veem, conseguindo até
mesmo se admirar com algo simples e
banal. Como uma criança de dois anos
de idade, que fica encantada com o
fato de uma torneira lançar esse tubo
mágico de água que cai e se dissipa
provocando uma poça. Para nós, adul-
tos, o fato de sair água de uma torneira
é algo óbvio e banal, porém, as crianças
conservam este espanto pela eterna
novidade do mundo e se deixam levar
por ele. Nós, adultos, tendemos a per-
FONTE: SHUTTERSTOCK, 2018
der esse modo de percepção do mun-
do e a filosofia busca recuperá-lo. O famoso pintor espanhol Pablo Picasso sempre
afirmava que demorou a vida inteira para conseguir desenhar como uma criança.
Nesse sentido a filosofia seria esse exercício de sensibilização que humaniza e é capaz
de desautomatizar nossos gestos. Mas a Filosofia ainda é mais que isso.

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SUMÁRIO 13
Filosofia

1.1 O FILÓSOFO QUE CAIU NO POÇO

Como você pode perceber, a definição de filosofia é algo complexo, ou seja, ela não
pode ser definida em uma única resposta. A Filosofia é um campo do conhecimento
humano que lida com as perguntas desprovidas de respostas simples ou que têm
muitas possibilidades de serem respondidas de formas diferentes. À Filosofia inte-
ressa muito mais a pergunta que a própria resposta, pois esta acaba por encerrar a
atitude filosófica que, para se manter ativa, sempre desconfia e duvida das respostas
definitivas. Na verdade, a resposta que dá um fim à uma questão acaba com a pró-
pria filosofia, que busca muito mais formular perguntas, problematizar e questionar
do que apenas responder. Nesse sentido a Filosofia é uma atitude diante do mundo,
mas sua definição não se limita a essa resposta. A Filosofia ainda é mais que isso.

Na história do pensamento ocidental, a Filosofia surge como o momento em que o


homem rompe com o mito e busca respostas próprias para suas inquietações. O filó-
sofo é aquele que tenta enxergar a realidade de uma maneira diferente da maioria,
buscando a totalidade, a universalidade. Existe, em nosso imaginário, um estereótipo
de filósofo que é aquela pessoa desligada das coisas cotidianas, que fica imerso em
pensamentos e não se importa tanto com questões materiais, preferindo as questões
abstratas e reflexivas. Pensemos em nosso cotidiano, repleto de pequenas urgências
como contas a pagar, compras de mantimentos, cuidar dos filhos, etc. Quando esta-
mos nesse grau de envolvimento com a realidade, normalmente não conseguimos
uma condição adequada para uma reflexão sobre o sentido das coisas, então a maio-
ria das pessoas estabelece uma relação com a vida que implica essa proximidade
com os afazeres diários que pode ser simbolizada pela imagem de uma pessoa com
o nariz encostado em uma parede. O filósofo é aquele que tenta se afastar da parede
no intuito de ter uma visão mais ampla do todo e, consequentemente, se afasta da
própria realidade cotidiana. O filósofo grego Platão, nos diz, em um de seus diálogos,
que Tales de Mileto, considerado o primeiro filósofo e um dos sete sábios da antigui-
dade, teria se distraído ao olhar para o céu e caído em um poço:

“Foi o caso de Tales, quando observava os astros; porque olhava para o céu,
caiu num poço. Contam que uma decidida e espirituosa rapariga da Trácia
zombou dele, com dizer-lhe que ele procurava conhecer o que passava no
céu, mas não via o que estava junto dos próprios pés. Essa pilhéria se aplica a
todos os que vivem para a filosofia. ” (Platão, 2001)

Talvez por isso este estereótipo do filósofo como alguém que fica “viajando” sobre as
coisas, mas a filosofia ainda é mais que isso.

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14 SUMÁRIO
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Filosofia

1.2 AMOR À SABEDORIA

A palavra filosofia vem dos termos gregos philo e sophia e tem um significado muito
interessante. Philo vem de philia, que significa amor, amizade, identificação.

O termo em português ‘filiação’ tem origem etimológica no termo


grego philia, portanto quando você se filia a um partido ou a uma
torcida organizada você está compartilhando interesses, valores,
etc. ou seja, está se identificando com isto.

Já o termo sophia significa sabedoria. Portanto, filosofia significa amor à sabedoria.


Este termo foi utilizado pela primeira vez pelo filósofo grego Pitágoras de Samos, que
viveu no séc. V a.C. Pitágoras dizia que o verdadeiro sábio nunca teria a sabedoria por
completo, nunca seria dono da sabedoria, mas sim deveria desejá-la, amá-la. Por isso,
ao ser chamado de sábio por seus contemporâneos, Pitágoras recusou este título, se
dizendo, não um sábio, mas sim, um amante da sabedoria. Este termo ganhou noto-
riedade com Sócrates, famoso filósofo grego que o adotou e o consagrou até os dias
de hoje.

Mas, antes mesmo de existir o termo ‘filosofia’, ou essa atitude específica de lidar
com o pensamento, podemos dizer que, isto que veio a se chamar filosofia, teve uma
época e um lugar de nascimento distintos: a Grécia antiga, no séc. VI a.C. Mais preci-
samente no dia 28 de maio do ano de 585 a.C., mas como é possível sabermos essa
data tão precisa? Na verdade, a filosofia nasce com uma previsão de um eclipse e,
como a física contemporânea consegue prever todos os eclipses por meio de cálcu-
los, podemos saber exatamente como ocorreu este famoso episódio.

Tales de Mileto, filósofo grego do séc. VI a.C, nasceu em um contexto no qual as coisas
eram explicadas pelas narrativas míticas. O mito é esse conjunto de narrativas que
oferece explicações para questões difíceis, tais como a origem do mundo, a vida após
a morte, a existência das divindades etc. O mito foi a primeira forma que o homo sa-
piens criou para tentar explicar o mundo e, de certo modo, é também uma forma de
iniciar uma relação de domínio da natureza. Podemos inferir que o homem primitivo
estava muito mais sujeito às forças da natureza e, por isso, as temia. As explicações
mitológicas são uma forma de tentar dar conta desses fenômenos e, de certo modo,

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SUMÁRIO 15
Filosofia

tentar dominá-los. O mito é uma característica de todas as formas de existência hu-


mana no planeta terra em todas as épocas, desde as hordas mais primitivas, tribos e
civilizações mais diversas, até a atualidade, na qual a mitologia cristã, por exemplo,
ainda é muito importante para nossa cultura ocidental.

FIGURA 2 - O HOMEM PRIMITIVO

FONTE: SHUTTERSTOCK, 2018

Hoje temos, ao mesmo tempo, as explicações mitológicas, como o criacionismo cris-


tão, as explicações filosóficas e as explicações científicas convivendo concomitante-
mente. Mas Tales, em sua época, só tinha a mitologia grega. Portanto, todas as pes-
soas com as quais Tales convivia, confiavam nas explicações mitológicas e uma dessas
explicações dizia que o eclipse seria provocado por Zeus, o principal deus da mitolo-
gia grega, que, ao reprovar algo nos homens, taparia o sol com sua mão para expres-
sar esta reprovação. Tales, em uma atitude diferente de todos seus contemporâneos,
busca uma explicação alternativa e, por meio da matemática (sim! Este é o mesmo
Tales do teorema!), de muita disciplina e de muita observação dos movimentos dos
astros, Tales levanta uma possibilidade, uma hipótese: Será que luz da lua provém
do próprio sol? Será que o eclipse é a lua passando na frente do sol? E busca com-
preender este fenômeno por meio de sua possibilidade de ser previsto, a partir de sua
ciclicidade, repetição, ou seja, de sua necessidade.

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1.3 NECESSIDADE E CONTINGÊNCIA

Aqui podemos entrar com dois conceitos muito importantes para a filosofia nascente,
são eles: necessidade e contingência. Necessidade é aquilo que necessariamente vai
acontecer, ou seja que tem um ciclo, que tem um padrão de repetição, diferente do
significado de contingência, que está ligado ao acaso, ou seja, aquilo que é imprevisí-
vel. Por exemplo: todos nós vamos morrer, necessariamente. Isto é uma necessidade,
é inevitável, vai acontecer, mas o modo como vamos morrer é uma contingência, é
algo não previsível, é algo que não pode ser calculado. Ou ainda, se eu soltar um vaso
pela janela do sétimo andar, necessariamente ele vai cair, mas se vai acertar alguém,
aí já é uma contingência. A questão é que, para a mitologia, todos os fenômenos da
natureza eram contingências, pois dependiam da vontade dos deuses, por exemplo,
se uma chuva de granizo devasta uma plantação, isso seria um castigo divino, ou se
um ipê amanhece florido, isto seria uma dádiva dos deuses, mas ambos fenômenos
poderiam acontecer a qualquer momento, sendo considerados imprevisíveis, assim
como o eclipse. O que Tales fez foi demonstrar que o eclipse era algo possível de ser
previsto, já que se tratava de um ciclo natural passível de compreensão por meio da
razão. O eclipse é algo necessário e não contingente, ou seja, acontece necessaria-
mente, de tanto em tanto tempo, e a matemática aliada à observação sistemática,
deu a Tales a possibilidade de prever este acontecimento.

A matemática já era um instrumento amplamente utilizado por várias civilizações


antes de Tales, por exemplo, os egípcios, que surgem antes dos gregos, já dominavam
técnicas impressionantes de construção de pirâmides alinhadas com o movimento
dos astros, ou os maias, que aqui nas américas, já haviam formulado um calendário
de treze meses que resolveu a questão do ano bissexto muito antes dos europeus.
Porém, nestas civilizações, a matemática era considerada sempre uma espécie de
conhecimento divino, estava sempre relacionada a um ritual. A construção de uma
pirâmide, por exemplo, além de levar gerações para ser concluída, estava totalmente
ligada a uma questão que transcende todos os homens. Uma pirâmide é o túmulo de
um faraó, que era considerado um deus encarnado. Ou seja, o conhecimento mate-
mático de sua construção estava totalmente vinculado a este fato e somente pessoas
específicas, espécies de sacerdotes, tinham acesso a esse conhecimento matemático,
que tinha sua utilidade restrita a esta função divina. Não havia autonomia nem inte-
resse no uso da matemática para outros fins. Não era qualquer um que a utilizava do
modo que quisesse, mas sim, apenas os indivíduos específicos que a tratavam como
algo mágico, que teria uma função determinada pelos deuses.

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Filosofia

TEOREMA DE PITÁGORAS

FIGURA 3 - TEOREMA DE PITÁGORAS

O TEOREMA DE PITÁGORAS

FONTE: SHUTTERSTOCK, 2018

Portanto, Tales de Mileto promove uma ruptura inédita na história do pensamen-


to ocidental. Tales tem uma atitude antropocêntrica ao utilizar a matemática como
uma ferramenta de modo autônomo e, por meio dela, desmistificar um fenômeno
que era tido como algo misterioso e repleto de maus presságios. O eclipse agora po-
deria ser visto como um fenômeno natural e previsível, por meio de um gesto huma-
no de compreensão de seu mecanismo. Assim, Tales inaugura a filosofia e a própria
ciência. Por isso, a maioria dos filósofos gregos era formada também de matemáticos,
pois este recurso se mostrou muito poderoso no processo de compreensão de ques-
tões da natureza e do próprio homem. A escola filosófica de Platão, a Academia, tinha
em sua entrada a inscrição: “Não entre aqui quem não souber matemática”.

É claro que quando Tales fez a previsão do eclipse e esse ocorreu conforme previsto,
a maioria das pessoas de Mileto, cidade de Tales, certamente não conseguiu com-
preender como Tales havia conseguido aquele feito, pois para esse entendimento, se
fazia necessário um conhecimento de matemática, de astronomia e muita discipli-
na, esforço e dedicação. Então, podemos inferir que a maioria das pessoas preferiu
respostas mais simples de assimilar, tais como considerar Tales um semideus, dizer

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que foi Zeus que contou para Tales quando o eclipse aconteceria, dizer que Tales fre-
quentava o Olimpo quando estava aparentemente desaparecido em suas constantes
e sistemáticas noites de observações do firmamento. Há uma tendência do senso
comum em optar pelas formas mais simples de entendimento das coisas e a filosofia
já nasce abrindo esta nova perspectiva de compreensão.

1.4 O SENSO CRÍTICO

Porém Tales sempre se mostrou aberto e disposto a ensinar seu método para quem
estivesse também disposto a se dedicar aos estudos e, naturalmente, a grande maio-
ria das pessoas preferiu continuar acreditando que Tales era uma espécie de “semi-
deus”, do que se esforçar para compreender este fenômeno com a profundidade que
Tales alcançou. De qualquer forma, os poucos que se aproximaram de Tales se torna-
ram seus discípulos e Tales, ao invés de se dizer o dono da verdade, estimula seus alu-
nos a pensarem por si mesmos, inclusive discordando do próprio Tales, inaugurando
também o senso crítico, elemento fundamental da filosofia e da ciência até os dias
de hoje. Você já deve ter ouvido que algum colega vai ‘defender’ seu TCC (trabalho
de conclusão de curso) ou sua dissertação de mestrado ou tese de doutorado. O ter-
mo ‘defesa’ explicita esse senso crítico, por meio do qual os pesquisadores podem e
devem questionar uns aos outros buscando sempre, por meio da comprovação, de-
monstração e método, a veracidade de suas ideias.

1.4.1 O SENSO CRÍTICO E A ATUALIDADE

Atualmente vivenciamos uma situação semelhante entre o conhecimento aprofun-


dado e as opiniões das pessoas no âmbito do senso comum. Ainda mais em um
mundo que está presenciando a revolução digital, repleto de fake news, que as pes-
soas compartilham e reproduzem sem nenhum critério. Por isso, a filosofia se faz mais
necessária do que nunca nesse mundo pós-moderno, no qual a mídia nos fornece
as informações já processadas e prontas, com uma opinião já formada. Pensemos
em um telejornal que, antes mesmo de anunciar o assunto de determinada notí-
cia, já induz o espectador a receber esta notícia com sentimentos pré-estabelecidos.
Por exemplo, o jornal anuncia o mote: Corrupção! Já aparece uma imagem de um
uma tubulação repleta de notas sujas, sugerindo o dinheiro sujo de propinas, e tudo

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SUMÁRIO 19
Filosofia

isso antes mesmo de dizer quem é o político ou quais são as circunstâncias disso.
Em outro exemplo o apresentador anuncia, por meio de seu semblante, uma notí-
cia ruim: “Os pátios das montadoras estão lotados, as vendas de carros caíram” Esta
notícia é ruim para os empresários, mas para a maioria da população que utiliza
transporte público, seria mais interessante que houvesse menos carros nas ruas e
um transporte público acessível e de qualidade. Portanto, o estudo da filosofia é
capaz de promover a cidadania e a consciência crítica necessárias para a prática da
legítima democracia.

1.5 MITO E FILOSOFIA

O mito é um modo de compreensão do mundo que envolve a crença, mais que


a razão, mas não deixando de tê-la em certa medida, pois somente o homem se-
ria capaz de inventar mitos. O mito está associado a uma tradição que já existe em
uma sociedade. O mito tende a ser dogmático, ou seja, não há como questioná-lo.
Os mitos mudam de lugar para lugar e de época para época.

FIGURA 4 - CENA DA MITOLOGIA GREGA NA ANTIGUIDADE

FONTE: SHUTTERSTOCK, 2018

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Já a filosofia também é um modo de compreensão do mundo, mas, ao nascer no seio


do mito, tenta se desvencilhar dele buscando uma ruptura. A filosofia coincide com
a invenção da razão, esta busca pela comprovação, demonstração, pelo pensamento
sistemático, pela verdade objetiva e universal das coisas. A filosofia, diferentemente
do mito que está sempre ligado a uma tradição, nasce de uma atitude antropocêntri-
ca. É Tales de Mileto que se coloca no centro do mundo e afirma que o eclipse é algo
passível de previsão, por meio de cálculos e observações sistemáticas. Tales rompe
com toda uma tradição, inventando este novo modo de compreensão do mundo
que veio a se chamar filosofia. Tales, desde o início de suas pesquisas, sempre incen-
tivou seus discípulos a pensarem por si próprios. Tales já exercitava o senso crítico, ou
seja, o direito de questionar tudo, sem se prender a dogmas. A filosofia busca respos-
tas que sejam universais, diferentemente dos mitos, que mudam de lugar para lugar
e de época para época, a filosofia busca verdades que possam valer em qualquer
época e lugar.

A filosofia, portanto, é esse modo de compreensão do mundo que nasce em contra-


posição ao mito, mas com o mesmo intuito de busca por respostas para os fenôme-
nos da natureza e para as questões humanas. A filosofia originou o que hoje conhe-
cemos como ciência. Na verdade, ciência e filosofia eram uma coisa só até o século
XIX, quando se separam em decorrência da Revolução Industrial, por meio da qual a
ciência se aproxima da técnica e do mundo prático, gerando tecnologia e produtos
a partir de uma perspectiva utilitária, enquanto a filosofia se mantém nesse lugar
especulativo e reflexivo, inclusive vendo com desconfiança os movimentos da ciência
na modernidade.

Normalmente mito e filosofia são apresentados de modo antitético, ou seja, como


opostos, mas trata-se de um recurso didático para facilitar a compreensão, porém,
aqui, já é possível problematizarmos esta questão e reconhecermos as diferenças e
semelhanças entre mito, filosofia e ciência, lembrando que é descabido falarmos em
hierarquia, no sentido de dizer que uma forma de compreender o mundo é superior
à outra, ou melhor que a outra. A própria filosofia problematiza esta questão, ao apon-
tar as limitações do conhecimento científico, como faz a Epistemologia, este campo
do conhecimento filosófico que tem como objeto de estudo o próprio conhecimen-
to, suas limitações e aplicações e, até mesmo, o irracionalismo, corrente filosófica que
critica a própria racionalidade, ressaltando o modo como a filosofia e a ciência se
tornaram demasiadamente racionalistas em uma pretensiosa ilusão de domínio da
natureza, como afirmou o filósofo alemão do séc. XIX, Friedrich Nietzsche, ao valorizar

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SUMÁRIO 21
Filosofia

a linguagem poética e metafórica, assim como eram os mitos na antiguidade. O filó-


sofo Paulo Ghiraldelli Junior, ao comentar a função social do mito, afirma que:

O papel do mito é o de informar as pessoas e dar sentido à existência delas,


as que creem nele, mas, principalmente, o mito deve socializar os que vivem
em uma comunidade que é mantida unida, em grande parte, por tal função
de agregação que ele proporciona. A comunidade que forma o “nós”, os que
se organizam socialmente da mesma forma e se tomam como “semelhantes”,
possui em comum, exatamente, o mito. Assim, o mito é um elemento forte na
Grécia Antiga porque fornece cimento interno e, além disso, é a narrativa (única)
que diz o que é comum para este “nós” – os gregos. (Ghiraldelli Junior, 2003.)

A filosofia mantém um diálogo intenso com o mito, principalmente em seu início.


Este diálogo se reflete no estilo de escrita da produção de ideias filosóficas. O mito
sempre se utiliza de uma linguagem metafórica, repleta de símbolos e imagens.
A filosofia inicial é escrita em versos poéticos, assim como a mitologia, porém vale
ressaltar a ruptura que a filosofia provoca, pois, no caso do mito, essas alegorias vêm
de uma tradição que é maior que qualquer indivíduo, que só pode acreditar nelas
e reproduzi-las sem a possibilidade de questioná-las. Já a filosofia permite que um
indivíduo formule suas próprias ideias, seja em forma de alegorias ou com a lógica
e, individualmente, proponha sua explicação. Platão, por exemplo, é um filósofo que
rompe com o mito ao buscar respostas por meio da razão, mas seu estilo de escrita
se assemelha ao mito no que tange à forma, pois Platão utiliza-se de uma linguagem
alegórica em vários momentos de seus diálogos, como na famosa passagem do livro
VII da A República, mais conhecida como o “Mito da Caverna”.

1.6 FILOSOFIA E IDEOLOGIA

O termo ideologia pode ser definido como um conjunto de convicções filosóficas,


sociais, políticas, estéticas etc. de um indivíduo ou grupo de indivíduos. Atualmente
nosso país vive um momento conturbado em termos ideológicos. Desde as jornadas
de junho de 2013, nossas redes sociais passaram a ter o elemento político presente
de modo eminente e as ideologias emergiram nesse contexto de revolução digital.
Direita, esquerda, conservadorismo, liberalismo, socialismo, anarquismo, comunismo
e tantos outros “ismos” passaram a integrar as postagens e compartilhamentos.

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FIGURA 5 - CENA DA MITOLOGIA GREGA NA ANTIGUIDADE

FONTE: SHUTTERSTOCK, 2018

A filosofia nos mostra que a história não necessariamente segue uma linha reta, em
uma direção progressista, pois há sempre momentos de reacionarismo que nos dão a
impressão que a sociedade também recua em certos aspectos. Na verdade, o próprio
conceito de progresso pode ser considerado uma espécie de ideologia, pois, desde
a revolução industrial, no séc. XIX, ouviu-se que a modernidade estaria se efetivando
e que as sociedades percorreriam um caminho pelo viés do progresso até o desen-
volvimento. Um exemplo disso é o fato de que, na década de 80 do século passado,
era comum a utilização de uma nomenclatura que classificava os países em desen-
volvidos e subdesenvolvidos, porém atualmente, o termo ‘progresso’ está desgastado
e já não corresponde mais às nossas demandas e anseios do séc. XXI. Em nome do
progresso se fez muitas coisas consideradas hoje desastrosas, como destruição de
florestas, aterros e até destruição da memória por meio de atitudes que podem ser
sintetizadas em frases como: Vamos derrubar essa mata em nome do progresso, ou
aterrar este pântano em nome do progresso, ou derrubar este prédio para construir-
mos um novo e mais moderno, tudo em nome do progresso.

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Filosofia

Hoje o termo mais adequado para pensarmos o futuro não é mais progresso, mas sim
sustentabilidade. Por meio dela estamos enfrentando este desafio de nos compreen-
dermos parte do ecossistema e do meio ambiente, não encarando a natureza como
algo a ser vencido ou dominado, mas sim, nos compreendendo como integrantes da
natureza, mais uma espécie que depende de outras espécies e necessita do mesmo
oxigênio, dos mesmos nutrientes e do mesmo planeta.

A filosofia nos auxilia a questionar, perceber e buscar atitudes que possibilitem as-
similar as ideologias de nosso tempo e a utilizá-las como lentes de aumento para a
compreensão do mundo e não como fatores limitadores e bitolantes.

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CONCLUSÃO
Nesta unidade, começamos a compreender o significado do termo Filosofia, seu sur-
gimento e sua importância para sua formação acadêmica e também para sua pró-
pria vida como um todo. Como você pôde perceber, os temas tratados na disciplina
de Filosofia não são técnicos, aplicáveis diretamente em sua profissão, nem procedi-
mentos que serão de imediato colocados em prática. O curso de filosofia almeja te
despertar para este lugar que você, na condição de acadêmico, passa a ocupar em
nossa sociedade, fornecendo novas perspectivas de leitura do mundo, ampliando
sua capacidade de lidar com a complexidade dos saberes, no sentido de humanizar
sua prática profissional. Um curso superior não forma apenas técnicos, mas bacharéis
e licenciados, que devem ser capazes, não apenas de executar técnicas e procedi-
mentos, mas sim, de pensá-las e, até mesmo, reinventar sua própria profissão. Ter um
curso superior é acessar a origem de determinado conhecimento e, como você pôde
perceber, a origem de todo o conhecimento científico é a filosofia.

O percentual de pessoas que estão no ensino superior no Brasil ainda é muito pe-
queno e você certamente está em uma condição privilegiada por ter este acesso.
Você será visto como uma referência e passará a ser um formador de opinião, pois,
na condição de graduando, você passa a ter acesso ao conhecimento científico e a
compreender seus métodos, conquistas e limites. Sua capacidade de discernimento
e senso crítico serão, certamente, ampliados e a disciplina de Filosofia é a porta de
entrada para esse universo de novas perspectivas e visões de mundo.

Portanto os temas tratados aqui te ajudarão inicialmente a compreender de onde


veio a perspectiva científica, como sua profissão se relaciona com isso e como você
vai construir este profissional dentro de você. Apaixone-se pela sabedoria e venha ser
também um filósofo!

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SUMÁRIO 25
Filosofia

UNIDADE 2

OBJETIVO
Ao final desta
unidade,
esperamos
que possa:

> Explique a guinada


antropológica de
Sócrates.

> Explique o conceito


de maiêutica.

> Identifique o lugar


que a filosofia ocupa
em nosso tempo.

> Interprete as
metáforas da “A
alegoria da caverna”,
de Platão.

> Descreva a guinada


teológica medieval.

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INTRODUÇÃO
A filosofia antiga é marcada por uma multiplicidade de pensadores que vivenciaram
uma efervescência cultural a que chamamos de período clássico. Esse período se
transformou em uma referência para toda a história ocidental. São os filósofos gregos
a base da teologia medieval, depois, na renascença, temos o classicismo, que é um
movimento cultural que valoriza e resgata elementos artísticos da cultura clássica
(greco-romana) que inspirou o iluminismo no séc. XVIII. Este é a base de todas as nos-
sas instituições contemporâneas, desde as ideias de democracia, república, estado
laico e divisão de poderes até o liberalismo e a liberdade de expressão.

Compreender essa trajetória histórica que nos traz até os dias de hoje é de suma
importância para uma formação profissional abrangente, que permita ao estudante
conciliar seus conhecimentos com as circunstâncias históricas nas quais está inseri-
do, de modo que se possa pensar o mundo criticamente, ser inovador e ter uma visão
ampla de seu próprio tempo. Perceber esse itinerário conceitual que se estabeleceu
no decorrer da história da filosofia é de suma importância para uma formação aca-
dêmica sólida. Nesta unidade, veremos algumas das principais ideias filosóficas da
antiguidade e da idade média.

A filosofia antiga e a filosofia medieval apresentam um diálogo muito explícito.


Podemos dizer que a filosofia medieval é um desdobramento da filosofia antiga, mas
por um caminho bem diferente do que aquele que os gregos iniciaram. Os gregos in-
ventaram a razão, e a filosofia grega apresenta, como característica indelével, o senso
crítico e a postura antropocêntrica. As circunstâncias históricas da idade média aca-
bam por retirar essas características, colocando a filosofia a serviço da teologia. Mas a
base dessa teologia é, nitidamente, a filosofia antiga.

Há uma nítida relação entre a corrente filosófica medieval intitulada patrística,


que tem como principal representante o filósofo Agostinho, e a filosofia platônica.
Ou, ainda, entre a escolástica, corrente filosófica da alta idade média, que tem como
principal representante São Tomás de Aquino, e a filosofia aristotélica.

Nesta unidade, perpassaremos algumas das principais ideias filosóficas da idade an-
tiga e comentaremos a transição para a idade média. Prepare-se para esta inesque-
cível viagem no tempo!

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SUMÁRIO 27
Filosofia

2 A FILOSOFIA ATRAVÉS
DA HISTÓRIA: PRINCIPAIS
CORRENTES FILOSÓFICAS
(FILOSOFIA ANTIGA E
MEDIEVAL)
Veremos nesta unidade as principais correntes filosóficas da antiguidade e da ida-
de média por meio de dois momentos considerados cruciais: a antiguidade clássica,
com Sócrates, Platão e Aristóteles, e a idade média, com Agostinho.

2.1 A ANTIGUIDADE GREGA: O INÍCIO DE TUDO

2.1.1 DO ÁTOMO DE DEMÓCRITO AO BÓSON DE HIGGS

A filosofia inicia-se com Tales de Mileto, que, por meio da previsão de um eclipse, deu
início a um novo modo de explicar os fenômenos naturais, antes compreendidos pelo
viés do mito, encontraram então uma outra possibilidade de interpretação. Tales fez
isso de um modo profundamente inovador. Além de abrir essa outra janela para ver-
mos o mundo, Tales também se perguntou pela essência de todas as coisas, em gre-
go arché. Tales buscou esse elemento essencial que seria a base de toda a existência,
partindo do pressuposto segundo o qual tudo é um. Existiria uma única substância,
base de todas as outras existentes? Aquela a partir da qual tudo é feito? Por detrás dos
quatro elementos essenciais, água, fogo, terra e ar, haveria algo que estaria em todos
esses outros elementos? A partir dessas perguntas, a filosofia tem seu início e os pri-
meiros filósofos, conhecidos como pré-socráticos, tentam responder a esta questão:
qual é a arché do mundo? Ou, de modo mais direto: do que o mundo é feito?

Pode parecer uma pergunta simples ou pueril, mas trata-se de uma questão
muito profunda e desprovida ainda de resposta. Demócrito de Abdera, filósofo

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Filosofia

pré-socrático, por exemplo, desenvolveu uma teoria que, até hoje, é a base da física
contemporânea: o atomismo (CHAUÍ, 2005). Demócrito parte do seguinte pressuposto:
se dividirmos a matéria em partículas cada vez menores e repetirmos essa operação
até o infinito, as partículas deixariam de existir e se tornariam o nada? Segundo ele,
para que o mundo seja como ele é, a divisão da matéria não poderia ser infinita. Cer-
tamente existiria um limite indivisível, que ele chamou de átomo, ou seja, a menor
partícula divisível. Depois de vinte e seis séculos de pensamento filosófico e científico,
esta pergunta ainda não foi respondida. Passamos pela física aristotélica, por Newton,
Einstein e a física quântica atual, que também não respondeu a essa pergunta feita
pelos pré-socráticos. Hoje os aceleradores de partículas, gigantescas construções que
têm o objetivo de fazer com que micropartículas se choquem na velocidade da luz,
foram construídas com a mesma verve indagadora de Demócrito: descobrir essa me-
nor partícula da matéria.

FIGURA 6 - ACELERADOR DE PARTÍCULAS, SUÍÇA

Fonte: SHUTTERSTOCK, 2018.

Pesquise sobre os aceleradores de partículas. Há uma organi-


zação chamada “European Organization for Nuclear Research”.
Você vai encontrar informações incríveis!

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Filosofia

2.1.2 CONHECE-TE A TI MESMO

Por todas as cidades gregas, vários filósofos se dedicam a essa tarefa e desenvolvem
suas teorias, sempre com aqueles princípios que distinguiram a filosofia do mito: sen-
so crítico, atitude antropocêntrica, busca pela universalidade e a razão começando a
se tornar um elemento crucial nessas novas formas de leitura do mundo. Os primei-
ros filósofos são chamados de naturalistas, por se dedicarem a buscar a essência das
coisas na natureza.

Essa classificação feita pelos historiadores da filosofia, por meio da qual chamamos
os primeiros filósofos de pré-socráticos, se deve ao advento de Sócrates em Atenas.
Sócrates se tornou um marco divisório no pensamento ocidental pelo fato de redi-
recionar os questionamentos, que antes tinham a natureza como objeto de estudo,
para o homem como centro das reflexões. Enquanto os filósofos pré-socráticos esta-
vam se dedicando a essa busca pela essência da natureza, Sócrates considerou essas
questões menores e se dedicou a conhecer a si mesmo. Perguntas, como: o que é a
coragem? O que é a justiça? Qual a melhor maneira de se viver? São muito importan-
tes para Sócrates. Paul Strathern, em seu livro intitulado “Sócrates”, afirma que:

Em vez de questionar o mundo, Sócrates preferia acreditar que faríamos mui-


to melhor questionando primeiramente a nós mesmos, tendo adotado a cé-
lebre máxima gnothi seauton (conhece-te a ti mesmo). Esse ditado é algumas
vezes erroneamente atribuído a Sócrates. Na verdade, pode ter sido divulgado
pelo primeiro de todos os filósofos, Tales; sabe-se também que estava inscrito
no Oráculo de Delfos (STRATHERN, 1997).

Essa divisão histórica da filosofia antiga em pré e pós-socráticos encontra muitos opo-
sitores que veem nela uma simplificação. Por exemplo, o próprio Demócrito foi con-
temporâneo de Sócrates e não escreveu apenas sobre a natureza, pois há relatos de
que ele também escreveu sobre temas ligados à ética. De qualquer forma, o que acon-
teceu depois de Sócrates influenciou sobremaneira todo o pensamento ocidental até
os dias de hoje. Sócrates foi mestre de Platão, que foi mestre de Aristóteles. Essa tríade
representa as mais importantes e influentes correntes filosóficas da antiguidade.

Leitura complementar

Leia o livro intitulado “Sócrates em 90 minutos”, de Paul Strathern!

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2.1.3 HERÁCLITO VERSUS PARMÊNIDES

Para começarmos a conhecer o pensamento filosófico da antiguidade, é importante


compreendermos os motivos das desavenças entre dois dos principais pré-socráticos:
Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eléia.

Heráclito, assim como seus contemporâneos pré-socráticos, também buscou respon-


der qual seria a essência de todas as coisas e, para ele, essa essência seria o fogo.
Mas você pode se perguntar: o fogo não é um dos quatro elementos? A busca não é
por aquele elemento que estaria por detrás de todos os outros? Na verdade, quando
Heráclito fala do fogo, ele está se referindo a uma outra coisa, que tem o fogo como
um símbolo. Heráclito utilizou uma metáfora. Diferentemente de Tales, que se refere
à água de modo literal, Heráclito utilizou a figura do fogo para representar aquilo que
ele considerava a característica essencial do mundo: o devir. Devir significa mudança
constante. Aquilo que nunca permanece da mesma forma. Aquilo que está se trans-
formando constantemente. Segundo Heráclito, tudo o que existe está sujeito ao devir.
Em um dos famosos fragmentos de sua obra, Heráclito afirma, em um verso, que “não
se pode entrar duas vezes no mesmo rio”, ou seja, pelo fato de o rio ser um constante
fluxo de água, ele nunca é idêntico a si mesmo, então quando entramos uma vez no
rio, ele é um, quando entramos novamente, ele já é outro completamente diferente.
Isso vale também para o nosso próprio pensamento, que, segundo Heráclito, tam-
bém é fluxo. Portanto, Heráclito afirma que o ser não existe.

O termo ser, nesse contexto filosófico, tem um significado mais


profundo que apenas o verbo no particípio. Ser aqui significa a
existência. Aquilo por meio do qual somos capazes de perceber o
mundo, ou seja, o fato de existirmos no mundo. Chamamos esse
campo do conhecimento filosófico de ontologia ou metafísica.
Onto, em grego, quer dizer ser, e logia significa estudo aprofun-
dado, portanto ontologia é o estudo aprofundado da existência
como um todo. O termo metafísica também se refere ao mesmo
objeto de estudo: meta sugere que algo está além, e física vem do
termo grego physis e quer dizer natureza. Metafísica estuda o que
está além da natureza, ou, no senso comum, o sobrenatural.

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SUMÁRIO 31
Filosofia

Para Heráclito, essa imutabilidade do ser não existe, pois, segundo ele, tudo é um vir
a ser. Na medida em que nada é idêntico a si mesmo, essa ideia de algo que é igual
a si mesmo, portanto, seria impossível. Sua tese parte do pressuposto que as coisas
sempre estão em mudança e mudam de acordo com seus opostos.

Por exemplo: o devir faz com que o seu café quente sempre
tenda a esfriar e sua água gelada sempre tenda a esquentar.

Ouça a canção de Lulu Santos e Nelson Motta “Como uma onda


no mar” e preste atenção na letra! Essa canção trata justamente
do tema heraclitiano do devir!

Aqui entra Parmênides, em oposição a Heráclito. Segundo Parmênides, o ser é idên-


tico a si mesmo, e essa impressão de que as coisas estão em constante mudança
seria uma ilusão de nossos sentidos. Por meio do pensamento, seríamos capazes
de chegar a uma ideia que é idêntica a si mesma, mas não por meio dos sentidos.
Aqui temos a primeira grande questão epistemológica da filosofia: o que é mais ver-
dadeiro, o que eu vejo ou o que eu penso? O que é físico, sensível, perceptível pelos
sentidos - tato, olfato, audição, visão e paladar -, ou o que eu penso, minha consciên-
cia das coisas, as abstrações que a mente humana é capaz de fazer? Paul Strathern
nos fala sobre a aproximação entre Sócrates e Parmênides

Sócrates logo compreendeu que tais especulações a respeito da natureza do


mundo não traziam benefício algum para a humanidade. Para um pensador
ostensivamente apoiado na razão, Sócrates era curiosamente anticientífico.
Neste ponto é bastante provável que tenha sido influenciado por um dos mais
importantes filósofos pré-socráticos, Parmênides de Eléia. Diz-se que, em sua
juventude, Sócrates encontrou-se muitas vezes com o ancião Parmênides,
“com quem muito aprendeu”. Parmênides solucionou o conflito entre aqueles
que acreditavam ser o mundo feito de uma única substância (como água ou
fogo) e os que, como Anaxágoras, defendiam que ele consistia em uma grande
variedade de substâncias. Superou esse conflito simplesmente ignorando-o.
Segundo Parmênides, o mundo como o conhecemos não passa de mera ilu-
são. Não importa de quantas coisas pensamos que é feito, porque ele não
existe. A verdade única consiste no Ser eterno, que é infinito, imutável e indivi-
sível. Para este Ser não existe passado nem futuro. Ele inclui todo o universo e
tudo o que nele possa acontecer. “Tudo é um” era o princípio fundamental de
Parmênides. A constante multiplicidade que somos capazes de observar é tão
somente a aparência desse Ser estático, onipresente. Tal atitude em relação
ao mundo não traz nenhum benefício para a ciência. Por que então devería-
mos nos preocupar com as transformações do mundo se não passam de mera
ilusão? (STRATHERN, 1997).

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Filosofia

Sócrates, influenciado por Parmênides, inaugura um tipo de pensamento filosófico:


o racionalismo. Portanto, Sócrates foi um herdeiro dos filósofos que o antecederam
e levou às últimas consequências o senso crítico, afirmando nada saber. Colocou-se
antropocentricamente, ou seja, como homem, colocou-se no centro do mundo, ne-
gando a tradição para responder às questões filosóficas que ele, de modo original e
inédito até então, redirecionou da natureza para o homem. Mas, ao mesmo tempo,
Sócrates se diferenciava da maioria dos pensadores anteriores a ele, pois estes esta-
vam interessados em descobrir a essência das coisas da natureza. Já a Sócrates, in-
teressam as questões sobre a vida, virtudes, vícios, coragem, sabedoria, honestidade,
etc., ou seja, questões sempre relativas ao homem. É nesse sentido que Paul Stra-
thern afirma que Sócrates era anticientífico.

2.1.4 DAR À LUZ AS IDEIAS

Sócrates inventou um modo próprio de fazer filosofia, que ele intitulou de “maiêutica”.
Em grego, pode ser traduzido literalmente por “dar à luz as ideias”. A mãe de Sócra-
tes era uma parteira, e ele ficava maravilhado com o fato de, do ventre das mulheres,
pela mão de sua mãe, saírem novas pessoas, totalmente desconhecidas e inéditas.
Ele imaginou que o mesmo poderia acontecer com as ideias. Por meio de um diá-
logo questionador, seria possível chegar a ideias que ninguém nunca pensou, ideias
inéditas, assim como as pessoas que sua mãe fazia nascer por seu gesto obstétrico.
Portanto, maiêutica seria uma espécie de parto de ideias. Mas como Sócrates fazia
esse parto?

A maiêutica consiste em um processo de desconstrução. Desconstruir é diferente de


destruir. Pensemos em um muro. Para destruí-lo, bastam alguns golpes de marreta
e ele vai ao chão, mas para desconstruí-lo seria necessário retirar, tijolo por tijolo,
cuidadosamente, lentamente, perfazendo o próprio gesto da construção, porém ao
inverso. O gesto da destruição é violento e rápido. Já a desconstrução envolve uma
série de sutilezas que Sócrates desenvolveu como ninguém. A maiêutica é uma des-
construção dos argumentos doxológicos, das opiniões, certezas ligadas às tradições e
costumes dos gregos. Sócrates combinava um misto de ironia e talento retórico para
demonstrar que seus interlocutores, apesar de se dizerem sabedores dos assuntos
que tratavam, não os conheciam a fundo.

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SUMÁRIO 33
Filosofia

Sócrates nunca propunha uma tese, ele deixava que seus interlocutores a propuses-
sem e a desconstruía com questionamentos de teor legitimamente filosófico, por
serem profundos e chegarem ao limite do conhecimento humano. Por meio de sua
técnica, Sócrates chegou à conclusão que todos seus contemporâneos não tinham o
conhecimento que afirmavam ter. Inclusive o próprio Sócrates reconhecia sua igno-
rância, se dizendo sempre alguém que não detinha a sabedoria, cunhando o termo
philo sophos (filósofo: amante da sabedoria).

Em um dos diálogos platônicos, Sócrates recebe dois nobres interessados em saber


se aulas de esgrima seriam uma prática eficiente para a formação de jovens corajosos.
A coragem era uma virtude muito admirada pelos gregos. Todo ateniense deveria estar
disposto a morrer por sua cidade. Nas guerras, a coragem era crucial. Sócrates, antes
de responder sobre a eficiência da esgrima, faz uma pergunta aparentemente sim-
ples aos seus interlocutores: o que é a coragem? Ambos respondem com convicção
coisas como: a coragem seria pular de um penhasco sem se machucar, ou dizer o que
pensa, ou não ter medo da morte e tal. Sócrates ouve calmamente cada argumento
e, depois, vem desconstruindo cada um deles. Por exemplo, Sócrates diz que pular de
um penhasco pode ser algo corajoso se for uma situação de guerra, para honrar sua
cidade, mas, pular sem motivos e se machucar, seria ignorância, e não coragem. Dessa
forma, os nobres reconhecem sua ignorância no que tange o conceito de coragem, e
Sócrates demonstra a dificuldade de responder sobre a esgrima. Quando questiona-
do sobre o conceito de coragem, Sócrates afirmava ser ignorante e nada saber.

Sócrates nunca escreveu. Tudo o que sabemos sobre ele foi escrito por contemporâ-
neos seus, como Platão (aluno dedicado que escreveu toda uma obra filosófica tendo
Sócrates como um personagem), Aristófanes (comediante que escreveu uma peça de
teatro que ridicularizava Sócrates) e Xenofontes (general do exército que também es-
creveu uma apologia de Sócrates quando ele foi condenado à morte pelos atenienses).

2.1.5 SÓ SEI QUE NADA SEI

A famosa assertiva “só sei que nada sei” é fruto, justamente, da aplicação da maiêutica,
que revelou para Sócrates o fato de todos seus contemporâneos serem ignorantes,
assim como ele se considerava. Houve um episódio muito importante na vida de
Sócrates, no qual o Oráculo de Delphos – local onde se faziam oferendas ao deus

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34 SUMÁRIO
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Filosofia

Apolo, e, por meio do qual, o referido deus fazia revelações usando pessoas que di-
ziam ter uma sensibilidade extraordinária – foi consultado com a seguinte questão:
existe alguém mais sábio que Sócrates? A resposta foi: não. Sócrates, portanto, seria o
mais sábio de toda a Grécia.

Diante do exposto paradoxo – este, segundo o qual Sócrates se dizia ignorante, mas
era tido como o mais sábio – Sócrates encarou essa questão como se fosse uma es-
pécie de enigma. Na cultura grega, baseada na mitologia, o tema do enigma é recor-
rente. Por exemplo, Édipo tem de desvendar o enigma da esfinge.

O significado do termo enigma se diferencia do significado do termo mistério.


Enigma é algo que pode ser desvendado, e mistério é algo, por excelência, indecifrá-
vel. No cristianismo, o conceito de fé envolve a questão da aceitação do mistério como
indecifrável e da incapacidade da razão de dar conta de explicar a existência.

Sócrates, que era um seguidor FIGURA 7 - “A MORTE DE SÓCRATES”, DE JACQUES


do deus Apolo, aceitou sua co- LOUIS DAVID, 1787.

locação, mas entendeu que o


deus estaria tentando pregar-
-lhe uma peça. Dessa forma, Só-
crates buscou desvendar esse
paradoxo e entrevistou, utilizan-
do a maiêutica, todos as pessoas
tidas como sábias em Atenas,
desde poderosos políticos, pas-
sando por poetas e artesãos,
e chegou à conclusão de que
nenhum homem era detentor
Fonte: SHUTTERSTOCK, 2018.
da sabedoria. Esse gesto gerou
muitos inimigos, que acabaram por condenar Sócrates à morte em Atenas por corrom-
per a juventude, inventar novos deuses e não acreditar nos deuses oficiais. Sócrates teve
um julgamento que, apesar de seguir à risca a lei ateniense, foi injusto. Mesmo sabendo
de sua inocência e da injustiça de seu julgamento, Sócrates se recusou a fugir para se
exilar, pois, segundo ele, não se poderia responder a uma injustiça com outra injustiça.
As leis são a base da sociedade e Sócrates sempre teve um estilo de vida impecável em
termos éticos. Recusá-las, portanto, seria colocar em jogo a própria civilização, e não era
esse o legado que Sócrates gostaria de deixar para a humanidade.

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SUMÁRIO 35
Filosofia

Não deixe de assistir ao filme “Sócrates”, de Roberto


Rossellini. Fácil de encontrar no YouTube!

2.1.6 PLATÃO E A CAVERNA


Sócrates então inaugurou o racionalismo, e seu discípulo mais famoso, Platão, entrou em
cena e escreveu o primeiro grande sistema filosófico. Lembra-se daquela disputa entre
Heráclito e Parmênides da qual falamos? A questão que estava em jogo nessa disputa
era: o que é mais verdadeiro, o que eu penso, ou o que eu vejo? Heráclito dizia que a es-
sência das coisas era justamente o fato de tudo no mundo estar em constante mudança,
nunca permanecer idêntico a si mesmo, e Parmênides dizia que tem de existir algo que
prevalece, do qual tudo provém. Este algo seria imutável. A grosso modo, podemos dizer
que Parmênides entendia que é impossível “desintegrar” a matéria. Por mais que tente-
mos destruir algo até que este passe a inexistir, sempre haverá algo que sobra e persiste.

Por exemplo, se tentarmos destruir uma mesa, podemos atear fogo, esmagar as cin-
zas, mas estas irão para a terra e servirão de adubo para uma semente que gerará
outra árvore, que será a matéria-prima de outra mesa.

Nesse sentido há, por detrás da transformação, algo que prevalece. Parmênides vai
dizer que todo o movimento é ilusório e que os sentidos nos enganam. Portanto, para
ele, o que nós pensamos é mais verdadeiro do que o que vemos.

Platão, diante dessa querela, criou uma teoria que divide a existência em dois mun-
dos. Chamamos isso de dualismo psicofísico, ou seja, divisão de corpo e mente.
O mundo das ideias (alma/mente/consciência) seria o mundo verdadeiro, e o mundo
sensível (corpo) seria o mundo das cópias imperfeitas dessas verdades ideais. Aquilo
que Heráclito colocou sobre a impermanência de todas as coisas e seres, se aplicaria
ao mundo sensível, este, segundo Platão, perceptível pelo corpo, que passa a ser con-
siderado uma prisão da alma. E a imutabilidade, aquela característica essencial que
Parmênides reivindicava para o ser, Platão afirma ser acessível apenas por meio do
intelecto. Ela pertenceria ao mundo das ideias.

Leitura complementar
Leia o texto “A alegoria da caverna”, de Marilena Chauí, em: CHAUÍ,
Marilena. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005.

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Filosofia

No livro VII de “A república”, obra fundamental da filosofia platônica, existe uma pas-
sagem na qual Sócrates está conversando com Glauco, um irmão mais novo de Pla-
tão, músico, que faz uma pergunta, pedindo uma espécie de síntese dos assuntos
tratados por Sócrates anteriormente. Esse livro contém uma exposição do que Platão
chamava de cidade ideal, aquela organização política que seria perfeita. A pergunta
que Glauco faz à Sócrates versa sobre o conhecimento e a ignorância. Para responder,
Sócrates recorreu a uma alegoria e narrou uma história estranha, mas repleta de sig-
nificados muito profundos.

Imagine uma caverna na qual estão acorrentados prisioneiros de costas para a en-
trada e de frente para o fundo da caverna. Estes estão acorrentados de tal forma que
não podem se mexer. Na entrada existe um feixe de luz que projeta no fundo da
caverna uma série de sombras. Essas sombras são produzidas por estatuetas carrega-
das por pessoas que estão do lado de fora e que, ao passarem na entrada, fazem com
que o sol projete uma sombra no fundo da caverna.

Após descrever esse estranho cenário, Sócrates questiona Glauco sobre o conceito de
realidade. Se os prisioneiros nunca saíram, estão acorrentados ali desde sempre e a
vida inteira só viram as sombras, o que seria a realidade para eles? Glauco responde:
as sombras. Se nunca viram nada diferente, eles terão convicção de que aquelas som-
bras distorcidas, efêmeras e fugazes são a única realidade possível.

Sócrates prossegue pedindo a Glacou para imaginar: se um dos prisioneiros conse-


gue se desacorrentar e, com muito esforço se levanta, para onde ele iria? Certamente
seguiria a luz do sol e subiria a rampa íngreme que leva à entrada da caverna. Depois
de enfrentar toda a dor dos músculos atrofiados, conseguir se equilibrar para andar,
enfrentar a luz intensa do sol, que também provocaria dor nos olhos, e sua pupila se
adaptar à intensidade luminosa, ele teria uma esplêndida experiência, vislumbrando
as estatuetas em sua perfeição, cada detalhe daquele objeto iluminado pelo sol ali,
imóvel, na frente dele. Imediatamente ele reconheceria que o que viu a vida inteira
foram apenas sombras e que agora ele estaria enxergando a essência dessas som-
bras, uma realidade primeira, uma espécie de matriz única que origina aquilo que
eles viam dentro da caverna.

Seu desejo é voltar à caverna e contar a seus antigos companheiros tudo o que viu e
viveu. Ele retornaria à caverna com a novidade e chamaria seus companheiros para
saírem também, porém, sair da caverna é algo doloroso e os prisioneiros nem sequer
sabem que estão presos. Eles têm convicção que as sombras que veem são a única
realidade possível e inicialmente zombaram do prisioneiro fugitivo. Ele insiste e diz
que todos estão presos, que só veem sombras, que a realidade é outra, que ele a

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SUMÁRIO 37
Filosofia

conhece, que ele a viu e que lá fora é mais bonito, melhor e mais verdadeiro. Aqui
chegamos a um conceito importante da filosofia platônica, segundo o qual, belo,
bom e verdadeiro coincidem. Ao insistir, o ex-prisioneiro acabaria se tornando um
incômodo e seria até mesmo morto por seus companheiros.

Certamente, Platão, ao escrever esse


texto, faz uma menção ao próprio
Sócrates, que foi condenado injusta-
mente em Atenas e se tornou uma
espécie de mártir da filosofia. Mas,
mais do que denunciar a injustiça
cometida contra Sócrates, Platão, A soma dos ângulos internos de um
com essa alegoria, consegue sinte- triângulo é 180 graus. Essa verdade,
tizar sua filosofia dualista. Segundo segundo Platão, transcende tempo e
Platão, este mundo que percebe- espaço. Vale em qualquer época e lu-
mos por meio dos sentidos de nos- gar, ou seja, é universal, essa categoria
so corpo é um mundo ilusório, cópia
tão desejada pelos primeiros filósofos.
imperfeita do mundo ideal, acessí-
vel apenas por meio do intelecto. A
tarefa do filósofo seria desapegar deste mundo material em busca do verdadeiro sen-
tido das coisas, que seria aquilo que está fora do tempo e do espaço, fora da mutabili-
dade, do devir. Por isso, Platão tinha muito gosto pela matemática, pois, por meio dela,
somos capazes de chegar a verdades imutáveis.

Portanto, para Platão, existe um mundo ideal, origem de tudo o que existe. Esse mun-
do seria acessível somente por meio do intelecto e da razão. A dialética seria o ins-
trumento do filósofo para acessar esse mundo. O pensamento platônico influencia
sobremaneira nossa forma de perceber o mundo ainda hoje, pois, nós, ocidentais,
vemos o mundo a partir desse dualismo. É fácil perceber que, em nossa cultura, há
essa divisão entre o exterior e interior do ser humano, como se a aparência fosse me-
nos verdadeira que a essência. Há vários ditados populares que corroboram essa ideia
como: “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento”, ou ainda “Beleza não põe mesa”.
Esses ditados sugerem que a sedução exercida pela beleza física é ilusória e a verda-
deira essência estaria em elementos menos explícitos, como o caráter, valores, etc.
Fica clara aqui a divisão entre corpo e alma e a hierarquia que se impõe colocando
a alma como algo mais verdadeiro e, portanto mais importante que o corpo. Qual-
quer semelhança com o cristianismo não é mera coincidência. A filosofia platônica é
a base da teologia cristã e, consequentemente, a base da própria cultura ocidental.
Nietzsche afirmou no prólogo de seu texto intitulado “Além do bem e do mal” que o
cristianismo seria uma espécie de platonismo para as massas.

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38 SUMÁRIO
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Filosofia

2.2 O DECLÍNIO DA RAZÃO

Aquela efervescência cultural, política e artística vivida pela Grécia no período clás-
sico tem sua decadência com uma série de fatores, como guerras dos gregos com
outros povos, guerras entre gregos e gregos, como a guerra entre Esparta e Atenas,
e a invasão romana no séc. III a.C, por meio da qual a península grega é anexada ao
império. Há uma grande influência da cultura grega entre os romanos, desde a arqui-
tetura até a correspondência de deuses em suas mitologias por meio de complexos
sincretismos. Por exemplo, é possível associarmos o deus grego Dionísio ao deus ro-
mano Baco, ou a deusa grega Atena à romana Minerva. Como o império romano se
estendeu por quase toda a Europa, oeste da Ásia e norte da África, a cultura grega
acabou se tornando o berço da civilização ocidental. Ideias como a própria demo-
cracia, nossa base linguística e nossa forma mais essencial de ver o mundo têm uma
influência inegável desse legado greco-romano.

No séc. V d.C. assistimos à queda do império romano do ocidente. Várias etnias inva-
diram o império e provocaram seu colapso. A este episódio chamamos de invasões
bárbaras. O termo bárbaro significa estrangeiro. Etnias, como hunos, os vândalos, os
visigodos, os ostrogodos, os francos, os lombardos e os anglo-saxões invadiram siste-
maticamente as principais cidades do império até que não houve mais como resistir,
e o império deixou de existir como uma organização social. É o que chamamos de
barbárie, ou seja, a falência da civilização, uma espécie de retorno a uma condição
anterior ao próprio pacto social.

O termo barbárie se diferencia do termo selvageria. Entende-


mos por selvageria aquele momento de existência do homem
que antecede a civilização, ou seja, é o homem inserido na
natureza, em estado de natureza, como diria Thomas Hobbes,
para o qual o homem seria o lobo do homem nessa condição.
Em algum momento, o homem cria a civilização por meio do
pacto social. A barbárie seria o fracasso da civilização.

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SUMÁRIO 39
Filosofia

Nessa condição, a filosofia se viu FIGURA 8 - THOMAS HOBBES


em um momento de decadên-
cia, pois foi concebida em pleno
auge da civilização, nas cidades,
nas praças públicas. E com esse
movimento de êxodo urbano,
por meio do qual as pessoas
abandonaram as cidades, que
são normalmente os alvos das
invasões bárbaras, e se dirigiram
para o campo, onde existiam os
feudos. Também haviam gran-
Fonte: SHUTTERSTOCK, 2018.
des latifúndios administrados
por nobres, que estavam demandando pessoas para comporem seus exércitos pró-
prios e se protegerem, pois, na ausência do estado com a decadência do império, não
havia, oficialmente, mais leis a serem seguidas. Então a sociedade se fragmentou em
propriedades privadas que se tornaram o cerne do sistema medieval.

Observe este castelo medieval e repare na necessidade de proteção com altos mu-
ros, torres de vigilância, etc. Em nosso imaginário e em desenhos animados, temos
sempre a imagem de castelos com lagos circundantes com crocodilos saltitantes e
pontes levadiças.

FIGURA 9 - CASTELO MEDIEVAL NA ITÁLIA

Fonte: SHUTTERSTOCK, 2018.

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40 SUMÁRIO
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Filosofia

Mas uma instituição prevaleceu com a queda do império romano: a Igreja Católica
Apostólica Romana, que herdou do império a organização hierárquica em torno de
um único papa, que, lentamente foi se tornando hegemônica e onipresente em to-
dos os feudos, organizando a vida social e impondo os valores cristãos de modo tru-
culento e opressivo no decorrer dos dez séculos de idade média.

A filosofia, nesse contexto medieval, perdeu sua característica mais essencial: o sen-
so crítico. Assim, se tornou teologia. Inicialmente, com esse contexto de invasões
bárbaras, insegurança e violência, os pensadores se isolaram do mundo e buscaram
as respostas em si mesmos. O termo monge vem do latim monachus, que quer
dizer solitário.

FIGURA 10 - MONGE ESCREVENDO

Fonte: SHUTTERSTOCK, 2018.

Os filósofos se isolam do mundo e buscam respostas em suas imersões individuais.

Agostinho é um bom exemplo de filósofo medieval. Canonizado pela igreja católica,


Santo Agostinho era um neoplatônico que promoveu o que chamamos de “cristiani-
zação de Platão”, ou seja, mesclou os conceitos platônicos ao cristianismo nascente.
O próprio Agostinho, antes de se converter ao cristianismo, considerava essa uma
religião vulgar, desprovida de embasamento, baseada em textos contraditórios re-
unidos na Bíblia. Agostinho fez essa tarefa intelectual de embasar filosoficamente o
cristianismo, dando a essa doutrina uma linha racionalista, mas que reconhecia um
déficit da razão que, segundo ele, só poderia ser preenchido pela fé.

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SUMÁRIO 41
Filosofia

A grosso modo, a filosofia medieval ficou presa ao dogmatismo cristão e partia-se do


pressuposto de que toda verdade filosófica só poderia decorrer da verdade revelada
por deus aos homens por meio de Cristo. Esse fato impediu que a filosofia prosseguis-
se por aquele caminho esboçado na antiguidade e fez com que a historiografia tra-
dicional compreendesse a idade média como a idade das trevas, pelo fato de a razão
ficar submetida à fé. Por isso, no séc. XV, quando a estrutura social e a fragmentação
política da idade média começaram a se dissolver, o grande movimento artístico,
cultural, político e econômico que temos é o renascimento. Quando dizemos renas-
cimento, estamos nos referindo à antiguidade clássica. É uma proposta de retorno ao
antropocentrismo e ao racionalismo da antiguidade que está em jogo. Também foi
assim com o termo iluminismo, que, no séc. XVIII, sugeriu essa ideia de luzes da razão
contra as trevas da idade média.

Leitura complementar

Leia o romance de Umberto Eco intitulado “O nome da rosa”.


Há também uma famosa versão cinematográfica dessa obra.

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42 SUMÁRIO
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Filosofia

CONCLUSÃO
A idade antiga foi um momento crucial para nossa cultura ocidental. Compreender
suas principais ideias filosóficas é muito importante para se conseguir uma visão am-
pla de nossa própria condição civilizatória. Como você pôde perceber, há um nítido
itinerário conceitual que a filosofia traçou desde Tales de Mileto até os nossos dias.
Nesta unidade, pudemos verificar o início dessa trajetória, dos gloriosos tempos clás-
sicos até a grande crise que a queda do império romano do ocidente causou, origi-
nando a idade média.

O que chamamos de idade média, foi um período repleto de complexos aconteci-


mentos e transformações que resumimos nessa expressão. Um período enorme de
tempo, que durou mil anos na Europa e que, certamente, ainda tem seus legados nos
dias de hoje, mesmo aqui em nosso país. Quando observamos uma cidadezinha do
interior, que tem aquela igreja matriz no final da rua principal e uma praça na qual
praticamente todos os ritos sociais acontecem, vemos nitidamente uma herança me-
dieval, pois este é o formato de uma vila na idade média. A força do cristianismo e
a culpa cristã que ainda permeiam nossa moral, também são outro legado nítido
desse período. Compreender as relações que se estabelecem entre os conceitos e
pensadores desses períodos nos auxilia a perceber melhor o nosso próprio tempo.

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SUMÁRIO 43
Filosofia

UNIDADE 3

OBJETIVO
Ao final desta
unidade,
esperamos
que possa:

> Adquirir subsídios teóricos


para pensar criticamente a
modernidade

> Explicar o cogito cartesiano

> Identificar os paradigmas da


educação

> Apreciar a arte como um vetor


de quebra de paradigmas

> Explicar a contemporaneidade


a partir de Giorgio Agamben

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44 SUMÁRIO
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Filosofia

INTRODUÇÃO DA UNIDADE
O que é ser contemporâneo? O que é a modernidade? Como a filosofia lida com estas
questões? Nesta unidade veremos a transição da idade média para a modernidade,
a partir de René Descartes (1596 - 1650), discutiremos os paradigmas da educação
oriundos do racionalismo cientificista e refletiremos a contemporaneidade por meio
do pensamento do filósofo italiano Giorgio Agamben (1942).

Nosso objetivo, nesta unidade, é trazer a filosofia para a nossa realidade, de modo
que os conceitos filosóficos possam ser utilizados como ferramentas intelectuais de
pensamento do tempo que estamos vivendo. Faremos uma reflexão sobre a moder-
nidade, a partir de Descartes e seu método e veremos como seu pensamento ainda
influencia muito a nossa época. Faremos uma crítica ao cartesianismo, demonstran-
do sua influência na educação contemporânea e a necessidade de quebrar paradig-
mas da educação tradicional, ainda vigentes. Discutiremos a contemporaneidade,
passando pela revolução digital e a diversidade de identidades, discursos e ideologias
que marcam a nossa época. Preparado para mais uma viagem?

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SUMÁRIO 45
Filosofia

3 A FILOSOFIA ATRAVÉS
DA HISTÓRIA: PRINCIPAIS
CORRENTES FILOSÓFICAS
E A EDUCAÇÃO
(FILOSOFIA MODERNA E
CONTEMPORANEIDADE)
O que é a modernidade? Como lidar com este termo tão desgastado na atualidade?
Como relacionar modernidade e contemporaneidade? Como se dá a ruptura entre
medieval e moderno? E como podemos pensar a transição entre moderno e pós mo-
derno? Como fica a educação diante de tantas mudanças? Esta unidade busca refle-
tir nossa condição histórica no sentido de busca por pertencimento em uma época
de fragmentação, descontinuidade e diversidade.

3.1 IDADE MODERNA

3.1.1 MODERNIDADE E DEMOCRATIZAÇÃO DO


CONHECIMENTO

A modernidade é marcada, na história do ocidente, por um retorno à antiguidade


clássica, a partir de um entendimento da idade média, como uma espécie de inter-
rupção de um projeto civilizatório racionalista, iniciado pelos gregos. A idade mé-
dia, subordinou a filosofia à teologia e reduziu, de modo considerável, o senso crítico
diante do dogmatismo cristão que, ao final do período medieval, havia se institucio-
nalizado por meio da Igreja Católica, que se constituiu como um aparelho repressor,
na forma do tribunal da inquisição.

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46 SUMÁRIO
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Filosofia

Renatus Cartesius, ou René Descartes é um filósofo francês do séc. XVII, considerado


o pai da modernidade. Este filósofo redirecionou o racionalismo, deu as bases do
método científico e é considerado o primeiro iluminista. Você, provavelmente, já deve
ter ouvido o termo “cartesiano” em alguma situação. No senso comum, encontramos
esta palavra sendo utilizada recorrentemente para se referir a algo excessivamen-
te sistemático, mas, filosoficamente, este termo significa aquilo que tem Descartes
como autor ou como origem.

No séc. XVII, Descartes, assim como todos os filósofos de sua época, escrevia suas
obras em latim, que era considerada a língua adequada para se produzir textos erudi-
tos. Porém, este filósofo, de modo inovador e transgressor, escreveu o seu famoso livro
“O Discurso do Método” em francês vulgar, como se dizia na época, ou seja, na própria
língua que se fala. É importante lembrar que o latim, na época de Descartes, era uma
língua conhecida apenas pelos eruditos, servia somente para a leitura e produção de
textos, ou seja, não era falada e, naturalmente, o povo não a compreendia. Durante
boa parte da idade média, as missas eram rezadas em latim e as pessoas repetiam as
ladainhas, sem saber exatamente seu significado.

Essa atitude de Descartes, antecipa o espírito iluminista de democratização do co-


nhecimento efetivado no enciclopedismo, movimento filosófico-cultural que aconte-
ceu como um desdobramento do Iluminismo, desenvolvido na França por Diderot e
D’alembert, que buscavam reunir e catalogar todo o conhecimento humano a partir
dos novos princípios da razão na Encyclopédie. É praticamente o primeiro google da
história! Essa ideia de reunir o conhecimento para democratizá-lo é algo que marca a
modernidade. A ideia de que todos podem, e devem, ter acesso às descobertas que
o homem realiza sobre o mundo é uma novidade que apareceu durante o séc. XVIII,
em pleno Iluminismo.

Antes de existir computadores e internet, o modo de ter acesso


à conhecimentos científicos, dados estatísticos, curiosidades cul-
turais etc, era a enciclopédia, um grande livro que tinha a preten-
são de reunir todos os conhecimentos humanos, os expondo de
maneira ordenada, metódica, seguindo um critério de apresen-
tação alfabético ou temático.

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SUMÁRIO 47
Filosofia

FIGURA 11 - ENCICLOPÉDIAS

Fonte: Shutterstock, 2018.

3.2 DESCARTES E O MÉTODO

Descartes é um filósofo racionalista, que achava que a razão iria levar o homem à
plenitude, respondendo todas as perguntas, curando todas as doenças e dominan-
do a natureza. Para isso, ele concebeu um método, por meio do qual o pensamento
deveria se dar. Descartes achava que deveria haver um “jeito certo de pensar” e que
os filósofos anteriores à ele, se deixaram levar por caminhos equivocados em decor-
rência da ausência desse método. Descartes, então, formula o método da dúvida, por
meio do qual o pensamento conseguiria seguir este caminho reto que levaria à ideia
clara e distinta. Este método consiste em quatro regras que, se aplicadas de modo
ordenado, levariam o homem ao conhecimento verdadeiro. São elas:

1. Regra da evidência: Duvidar de tudo.

2. Regra da análise: Dividir as dificuldades em partes menores.

3. Regra da síntese: Partir do mais simples para o mais complexo.

4. Regra da Revisão: repetir esse processo sempre.

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Filosofia

Aqui está a base da metodologia científica e do cientificismo moderno. Essa discipli-


narização do pensamento, tem seus aspectos positivos, como os avanços científicos,
por exemplo, mas, ao mesmo tempo, tem um aspecto cerceador, por supervalorizar
a concepção racional do conhecimento em detrimento da intuição, dos sentimentos
e da imaginação.

3.2.1 COGITO ERGO SUM

Ao aplicar o seu método, Descartes chega ao que ele chama de dúvida hiperbólica:
Duvidando de tudo o que seus sentidos percebem, Descartes chega à conclusão de
que seu próprio corpo também pode ser colocado em xeque, na medida em que é
percebido por meio dos sentidos, assim como os outros objetos. Então, Descartes di-
reciona sua dúvida para o seu próprio pensamento. Ele faz uma inferência aparente-
mente absurda: e se existir uma espécie de ‘gênio maligno’ que faz com que eu ache
que estou pensando que uma verdade matemática é correta, por exemplo, dois mais
dois são quatro, porém, trata-se de um engano provocado pelo tal gênio maligno,
assim nossa mente não seria capaz de chegar à verdades sobre o mundo.

A hipótese do ‘gênio maligno’ pode ser exemplificada pelo argumento do filme


Matrix dirigido por Lilly e Lana Wachowski. Neste filme Neo, um hacker, tem a opor-
tunidade de conhecer o que é a matrix e opta pelo comprimido vermelho que, ao
ser tomado, revelaria a verdade das coisas. Então ele descobre que as máquinas do-
minaram os seres humanos, dos quais extraem a energia vital, mantendo seus cére-
bros em cubas e simulando, de modo artificial, todas as sensações e percepções por
meio de eletrodos conectados a seus cérebros. Portanto, as pessoas acreditam estar
em um determinado lugar percebendo o mundo por meio de um corpo, sentido
gostos, tocando objetos e outros corpos, porém tudo não passa de uma simulação
artificial. Descartes fez esta inferência no séc. XVII e utilizou a metáfora do ‘gênio
maligno’. O filósofo e professor André Gombay afirma que Descartes, ao aplicar o
método da dúvida:

(...) propôs um roteiro de dúvidas ainda mais abrangente. Imaginou que o universo
inteiro, mesmo as verdades da geometria e a camisola de inverno que usava quando
se sentava à beira do fogo, podia ser obra de um ser maligno invisível cujo objetivo
seria iludi-lo. (Gombay, 2007.)

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SUMÁRIO 49
Filosofia

O que está em jogo aqui é uma questão muito importante, em termos filosóficos,
para o desenvolvimento da própria ciência moderna. Se faz necessária uma com-
provação de que o conhecimento humano é capaz de conhecer o mundo e, após a
dúvida hiperbólica, Descartes chega a uma conclusão decisiva e edificante de toda a
sua filosofia. Ao duvidar de seu próprio pensamento, Descartes conclui que esse gesto
deixa uma certeza: Por mais que houvesse um ser maligno o enganando e fazendo
com que seu pensamento se equivocasse, há algo do qual não se pode duvidar: o ato
do pensamento está acontecendo. Quando duvidamos do próprio pensamento, por
mais que esse pensamento seja equivocado, ele está irredutivelmente acontecendo.
O pensamento é algo que podemos ter como certo, ou seja existe alguém que pen-
sa, uma ‘coisa pensante’’, em latim, res cogitans. Então, Descartes chega ao primeiro
degrau de sua filosofia racionalista, a primeira certeza, a pedra fundamental de todo
o seu pensamento: Cogito Ergo Sum - Penso Logo existo.

3.2.2 DEMOLINDO A CASA

Descartes, no livro ‘O Discurso do Método’, utiliza-se de uma metáfora muito interes-


sante. Ele nos pede para imaginarmos uma casa antiga, repleta de reformas incom-
pleta, rachaduras e imperfeições. Para chegarmos a uma casa perfeita o que seria
mais adequado? Fazer mais uma reforma e tentar utilizar a estrutura dessa casa ou,
para atingir a perfeição, seria necessário colocar essa casa abaixo e construir outra?
Descartes diz que, o que ele fez no pensamento ocidental, foi derrubar essa casa, que
simboliza toda a filosofia escrita antes dele e reiniciar um novo modo de fazer filoso-
fia, como se fosse do zero, a partir do método e dessa primeira certeza, que é o cogito,
ou seja a certeza de que existe um ser que pensa, Descartes inaugura a modernidade
e diz que o cogito seria como ter cavado a terra fofa, até encontrar a rocha firme para
os pilares da nova construção.

Portanto, Descartes passa a ter a certeza que seu pensamento existe, mas, por ser im-
perfeito, só pode ser fruto de um ser perfeito. Aqui temos a base do modelo raciona-
lista de cientificismo: A ideia segundo a qual o homem, por meio da razão, seria capaz
de desvendar o mundo por completo, compreendendo sua essência mais íntima e
chegando a respostas derradeiras. O argumento cartesiano, parte do pressuposto de
que, se Deus criou o mundo com sua razão perfeita e nós, humanos, na condição de
criaturas, apenas participamos dessa razão perfeita, nós poderíamos sim, conhecer o

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Filosofia

mundo, seguindo essa lógica que nosso pensamento percorre, que seria a mesma,
por meio da qual Deus criou o mundo. É como se o mundo fosse um livro aberto,
escrito em linguagem matemática e bastasse fazer a leitura.

Descartes inicia um processo de desmistificação do mundo, que passa a ver a nature-


za, não como algo divino e repleto de mistérios, mas, sim, como um enigma, que
pode ser desvendado por meio da razão. Por exemplo, o corpo, na idade média, era
considerado entrada para o pecado e símbolo da decadência, essa condição inferior,
fruto do pecado original. Descartes retira esse aspecto místico e passa a ver o corpo
como um objeto de estudo. Então, se os medievos achavam que o corpo, simbolizan-
do a decadência, expelia fluídos mal cheirosos, como o suor ou a urina, aproximando-
-se do mundo profano e revelando essa condição bestial e inferior. Descartes desmis-
tifica essa leitura, afirmando que o corpo é uma máquina biológica, na qual tudo tem
uma razão de ser, por exemplo, o suor é um recurso dos mamíferos homeotérmicos
que precisam manter sua temperatura e o corpo, na sua perfeição, tem esse recurso
que atua como uma espécie de ‘radiador’ dessa máquina.

Abre-se, com o advento da filosofia carte-


siana, uma gigantesca perspectiva de traje-
tória da humanidade, que agora, por meio
da razão, dominaria a natureza e atingiria
a plenitude. Há uma promessa cartesiana
por detrás dessa concepção racionalista de
Assista ao filme Cartesius de
cientificismo, que hoje, inclusive, está em
Roberto Rossellini
vias de superação. Não falamos mais em do-
minar a natureza, mas, sim, em compreen-
https://www.youtube.com/
dermos que somos parte dela e incapazes
watch?v=s8xU5OWBcP4
de destruí-la. O que estamos destruindo em
termos de desequilíbrio ambiental é, na ver-
dade, a nós mesmos, pois, depois que o homem esgotar os recursos necessários à sua
sobrevivência, o planeta continuará existindo por bilhões de anos, assim como, por
bilhões de anos ele existiu sem que o homem estivesse aqui.

Quanto à crítica à filosofia cartesiana, podemos dizer que Descartes nunca conseguiu,
de fato, derrubar a casa e começar tudo de novo. Este grau zero do conhecimento é
uma ilusão. Podemos dizer que Descartes, na verdade, tentou consertar um avião em
pleno voo e não conseguiu.

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SUMÁRIO 51
Filosofia

3.3 ILUMINISMO E EDUCAÇÃO

Em termos educacionais, temos o direito de acesso ao conhecimento, mas a educa-


ção tradicional transformou isso em um dever. Desde o início da formação docente,
os professores aprendem que devem ensinar de acordo com a ciência, de modo ra-
cional e sistemático, mas, ao mesmo tempo, o professor encontra-se inserido em um
papel social que lhe confere o poder da palavra e da narrativa, que também estão no
âmbito da ficção. Ou seja, o professor lida, por um lado, com a ciência, seus métodos
e rigidez, e, por outro, com as narrativas de sua fala. Na tentativa de exercer o papel
de facilitador no acesso ao conhecimento científico, ele pode utilizar elementos ar-
tísticos, que não estão no discurso científico propriamente dito, mas podem servir de
pontes de acesso à este conhecimento.

Nossa concepção ocidental de educação, tem um caráter eminentemente contem-


plativo e conteudista, que se identifica com a escola tradicional. Contemplativo, pois
a maioria das atividades escolares não são práticas, mas sim, teóricas, baseadas em
conteúdos pré estabelecidos, tidos como verdades inquestionáveis. Lembra-se da-
quela questão que os filósofos pré socráticos, Heráclito e Parmênides, levantaram
sobre o que seria mais verdadeiro, aquilo que eu penso, ou aquilo que eu percebo
por meio dos sentidos? Na história do pensamento ocidental, prevaleceu o raciona-
lismo idealista, ou seja, segundo Platão, aquilo que pensamos é mais verdadeiro do
que o que vemos ou ouvimos, pois, Platão, na trilha de Parmênides, entendia que a
mudança constante de todas as coisas, tida por Heráclito como essência do mundo,
seria uma ilusão de nossos sentidos, que podem nos enganar. A educação tradicional
reflete essa leitura contemplativa de mundo, apresentando os conteúdos como ver-
dades acabadas que devem ser transmitidas do professor para o aluno.

Basta retomarmos a etimologia do termo aluno - que tem origem latina e significa
aquele que é desprovido de luz - para explicitarmos o aspecto conteudista desta es-
cola tradicional, que, até hoje, reverbera nas salas de aula, com os alunos enfileirados,
uns de costas para os outros, como que em uma plateia, da qual o professor é o sujei-
to ativo e os alunos, passivamente, recebem o conteúdo formatado.

Como foi dito, desde o iluminismo, que nos legou a concepção enciclopedista de
conhecimento, recebemos o direito de ter acesso a ele. Portanto, um aluno, por
exemplo, quando questiona a utilidade dos conteúdos para sua vida prática, está, de

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algum modo, questionando este “direito” que é entendido por ele, como um dever
desagradável, mas necessário e que se encaixa na própria dinâmica de avaliação da
escola tradicional, na qual o conteúdo é cobrado, de forma unicamente cognoscitiva,
em detrimento de todos outros aspectos que envolvem a complexidade da própria
existência. O pedagogo espanhol, Fernando Hernandez, afirma que as disciplinas de
um currículo nem sempre estão ligados àquilo que é essencial na aprendizagem:

Uma aproximação à história do currículo e às matérias que o integram revela


que a escolha do que deve ser ensinado na Escola respondeu a decisões expli-
cáveis por circunstâncias históricas, e não devidos à ”essencialidade” ou o cará-
ter fundamental de determinadas matérias disciplinares. (HERNANDEZ, 1998)

Assim, a educação tradicional ocidental apresenta, como um paradigma, um currí-


culo cartesiano, tecnicista, que está mais preocupado em capacitar o indivíduo para
exercer sua função na divisão social do trabalho, do que formar cidadãos críticos e
politizados. Além disso, os conteúdos acabam tendo uma função em si mesmos, sem
que haja uma relação deles com o mundo que cerca o aluno. Este conteúdo passa
a ser uma mera informação, que deve ser decorada, para passar em uma avaliação,
que só valoriza determinados aspectos do aprendizado e, logo em seguida, após a
aprovação, este conteúdo é normalmente esquecido.

Uma das origens desta situação foi, paradoxalmente, a necessidade de democrati-


zar o conhecimento, preocupação iluminista, explicitada na Enciclopédia de Dide-
rot e D’alembert. Era necessário que todo o conhecimento produzido pelo homem
fosse divulgado e acessado por todos e, a educação, seria o meio para esta tarefa.
Sendo assim, o caráter conteudista de nosso currículo, a hierarquização das discipli-
nas em mais e menos importantes, de acordo com uma determinada lógica e a desi-
gual distribuição do tempo entre as disciplinas, têm uma origem histórica. Analisá-la,
torna-se um importante exercício de reflexão crítica.

Mas a própria escola não incentiva a reflexão, quando oferece os conteúdos prontos, ti-
dos como verdades acabadas, que devem ser decoradas. Perde-se a euforia da desco-
berta, a angústia da incerteza, o estímulo da aventura e a prática sensorial do conteú-
do em sua concretude. Por isso, a escola parece sempre estar distante do mundo real.
Muitos educadores ainda pensam que a educação é uma espécie de preparação para
uma vida que se efetivará no futuro e, é como se a vida efetiva não acontecesse na escola.
Isso se reflete nas expressões do senso comum que afirmam que ser reprovado é

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perder um ano de sua vida. É como se a única coisa importante da vida escolar fosse
o conteúdo e, se este não foi apreendido, todas as vivências de socialização, relações
pessoais, ou seja, toda a vida efetiva do aluno é desconsiderada.

Se o professor aceita sua condição imposta de transmissor de conteúdo, sua atua-


ção fica restrita à uma abordagem demasiadamente contemplativa e abstrata, assim
como a própria escola tradicional, na qual os laboratórios são exceção e ficam em
segundo plano e, quando são utilizados, normalmente é para se comprovar, na prá-
tica, aquilo que já foi mostrado em teoria. Inverte-se a ordem natural do processo
de construção do conhecimento, de modo que perde-se a parte mais importante, o
processo, o modo como esse conteúdo foi construído/descoberto/inventado.

3.4 FILOSOFIA, ARTE E EDUCAÇÃO

A arte é um território do conhecimento humano que, além de utilizar a ‘gramática


oficial’, por assim dizer, se desloca por outras possibilidades de itinerários entre sig-
nos que sempre se dão por aproximação e semelhança daquilo que é, por princípio,
dessemelhante, já que o mundo é essencialmente múltiplo e cambiante. Para esti-
mular o aluno a verdadeiramente se interessar pelos conteúdos é necessário perfazer
o caminho que os cientistas fizeram em momentos de dúvida e curiosidade e, a arte,
pode ser uma ferramenta didática essencial para quebrar estes paradigmas.

Fazer arte é percorrer caminhos que são inventados na medida em que se caminha,
é um fazer que inventa o modo de fazer no próprio ato, afirma o filósofo italiano Luigi
Pareyson (PAREYSON, 1997). A arte pode ser uma espécie de inversão do conteudis-
mo, onde a experiência sensorial, corpórea, é o motor da busca pelo novo. Nesse sen-
tido, podemos afirmar que escola precisa estimular seus alunos a sentirem o mundo
por meio do pensamento do corpo. O educador precisa inserir o educando em uma
situação-problema que, de fato, seja uma questão que diga respeito à sua vida, de
modo que os conteúdos cheguem por meio da pesquisa e da descoberta, do erro
e do acerto, onde o caminho para se chegar ao conteúdo seja o mais importante.
O conteúdo precisa ser uma lente, que amplia a visão de mundo e ajuda a construir
a noção de cidadania, de postura crítica e de ser humano. Não apenas algo que deve
ser decorado para obter os pontos de uma prova.

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Dessa forma, podemos dizer que é possível transitar pelos territórios do conhecimen-
to humano, superando as divisões propostas pelo cientificismo positivista do séc. XIX,
a partir do qual as disciplinas são divididas, como que em compartimentos estan-
ques, sendo que seus objetos de estudo são sempre complexos. Essa divisão entre
ciências exatas, biológicas e humanas é algo relativamente recente na história da
ciência. Ocorreu justamente no séc. XIX. A arte e a ciência se afastaram no decorrer
da história do ocidente, mas já estiveram bem próximas como na antiguidade, com
os primeiros filósofos, que faziam Filosofia por meio de versos, até o renascentista
Leonardo da Vinci, que fazia muito bem esta ligação entre arte e ciência.

Leonardo da Vinci foi um cientista, FIGURA 12 - LEONARDO DA VINCI (1452 – 1519)


matemático, engenheiro, inventor,
anatomista, pintor, escultor, arquiteto,
botânico, poeta e músico. É ainda co-
nhecido como o percursor da aviação
e da balística. É considerado um dos
maiores pintores de todos os tempos.

Quando um recurso fictício é utilizado


para a construção de uma narrativa
científica, estamos diante de uma es-
pécie de profanação do conhecimento
científico. O termo é adequado, pois é
justamente quando a ciência se torna
dogmática que o vocabulário religioso/
Fonte: Shutterstock, 2018.
mítico serve de metáfora. Atualmente
a física quântica relativizou todos os conhecimentos tidos como verdades durante boa
parte do séc. XX. Cada vez mais se faz necessária a leitura globalizante do mundo supe-
rando as leituras humanas, exatas e biológicas, exigindo um trânsito, não somente pelas
áreas do conhecimento, mas pelos tipos de conhecimento como a própria arte.

A Pedagogia, como um campo do conhecimento científico, tem uma afinidade com a


arte, mas a educação, que é o objeto de estudo da pedagogia, é bem mais antiga que
ela. A escola traz enraizada em sua concepção, uma série de elementos conservadores
que podem ser analisados desde o racionalismo socrático/platônico da antiguida-
de até o cientificismo positivista da sociologia funcionalista, que reproduz os valo-
res do taylorismo. Quando dizemos cientificismo positivista, estamos nos referindo ao
séc. XIX, quando a ciência se separa da filosofia e é tomada pela revolução industrial
como método. O positivismo é um sistema criado pelo filósofo francês Auguste Comte

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SUMÁRIO 55
Filosofia

(1798-1857), que se propõe a ordenar as ciências experimentais, considerando-as o


modelo por excelência do conhecimento humano, em detrimento das especulações
metafísicas ou teológicas. O funcionalismo é uma corrente sociológica atribuída a
Émile Durkheim (1858 – 1917) entende a sociedade como um organismo vivo no qual
cada instituição e cada pessoa exerceriam suas funções no sentido de manutenção
desse organismo. A educação, na perspectiva do funcionalismo, teria a função de con-
servar a moral social e capacitar o indivíduo para atuar na divisão social do trabalho,
ou seja, na visão funcionalista a função da escola é conservar os valores e ensinar uma
profissão. Não há uma perspectiva crítica que pense a necessidade de consciência ci-
dadã ou de formação integral do ser humano, apenas um ensino tecnicista e utilitário.
É somente com as correntes de filosofia da educação marxistas que aparecerão estas
questões no discurso pedagógico e o nosso Paulo Freire é uma referência mundial.

Saiba Mais:
Conheça mais sobre o patrono da educação brasileira em:
https://novaescola.org.br/conteudo/460/mentor-educa-
cao-consciencia

A arte sempre estará ligada à educação e sempre terá de lidar com estas questões.

Assim a educação só pode se efetivar se ela perfazer este caminho entre os tipos de
conhecimento, dentre eles a arte é imprescindível. E a arte, para ser ensinada, preci-
sa envolver criação e processo artístico. Nesse sentido, pode-se pensar na arte como
uma espécie de escape da escola tradicional, para uma superação de paradigmas
seculares. Esta crítica ao racionalismo da modernidade é uma marca da filosofia con-
temporânea, ou seja, a filosofia do nosso tempo, mas o que é o contemporâneo?

3.5 O QUE É O CONTEMPORÂNEO?


Giorgio Agamben, filósofo italiano, em seu ensaio intitulado “O que é o contemporâ-
neo?” nos diz de um distanciamento necessário para compreender a contemporanei-
dade afirmando que:

A contemporaneidade, portanto, é uma singular relação com o próprio tem-


po, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias; mais pre-
cisamente, essa é a relação com o tempo que a este adere através de uma
dissociação e um anacronismo. Aqueles que coincidem muito plenamente
com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não
são contemporâneos porque, exatamente por isso, não conseguem vê-la, não
podem manter fixo o olhar sobre ela. (AGAMBEN, 2009)

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Para percebermos o nosso próprio tempo, seria necessário um distanciamento, ao


mesmo tempo em que se está inserido em uma determinada época. Agamben
utiliza duas metáforas poderosas para ilustrar o conceito de contemporaneidade.
A primeira metáfora de Agamben utiliza a luz e a escuridão como símbolos, que são
pensados, não de modo antitético, mas a partir de uma dialética, na qual se faz ne-
cessário perceber o próprio escuro. O termo antítese, tem a ver com a existência de
contrários. Dialética tem a ver com choque de ideias, o movimento que o pensamento
faz com duas ideias diferentes, até mesmo opostas, que se revezam até coexistirem.
Agamben entende que a luz simboliza aquilo que é muito claro e é visto com facili-
dade e a escuridão, aquilo que está oculto em nossa época.

Nas palavras do autor: “(...) contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu
tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro” (AGAMBEN, 2009). Agamben
afirma que todos os tempos são, para quem os está vivendo, obscuros. Contempo-
râneo, seria aquele que sabe ver essa obscuridade, ver as trevas. Neste momento de
sua argumentação, Agamben nos propõe duas ilustrações instigantes: uma provida
da neurofisiologia da visão e outra da astrofísica contemporânea. Duas perspectivas
científicas hodiernas, que funcionam como metáforas do conceito de contemporâ-
neo. A perspectiva da neurofisiologia, nos diz que quando fechamos os olhos em um
ambiente privado de luz, há uma desinibição de uma série de células periféricas da
retina chamadas off cells, que entram em atividade e, segundo Agamben “(...) produ-
zem aquela espécie particular de visão que chamamos o escuro”(AGAMBEN, 2009).
Isto significa que perceber o escuro não é algo passivo, mas uma atividade e uma
habilidade particular que, no caso da tese sobre a contemporaneidade proposta pelo
autor, significa neutralizar as luzes que provêm da época para descobrir as suas trevas
que não se separam daquelas luzes.

Agamben assinala que “(...) o contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu
tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpretá-lo, algo que, mais do
que toda luz, dirige-se direta e singularmente a ele. Contemporâneo é aquele que re-
cebe em pleno rosto o facho de trevas que provém de seu tempo” (AGAMBEN, 2009).
Agamben nos diz desta característica da percepção da contemporaneidade quando
utiliza a metáfora da visão da escuridão, que também é ilustrada por ele com uma
segunda metáfora advinda da astronomia contemporânea. Segundo Agamben as
estrelas que vemos no céu estão rodeadas de uma densa treva. Sabemos que no uni-
verso há um número incalculável de galáxias e corpos luminosos e este escuro que
vemos entre as estrelas precisa de uma explicação. A astrofísica contemporânea nos
diz que o universo está em expansão e que as galáxias mais remotas se distanciam

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SUMÁRIO 57
Filosofia

de nós a uma velocidade tão grande que a luz emitida por elas não consegue nos
alcançar. Segundo Agamben aquilo que percebemos como o escuro do céu é essa
luz que viaja velocíssima até nós e, no entanto, não pode nos alcançar, porque as
galáxias das quais provém se distanciam a uma velocidade superior àquela da luz.
Portanto perceber o contemporâneo é ter a coragem de manter fixo o olhar no escu-
ro de sua época. Trata-se de uma postura ativa, essa que a filosofia exige.

Agamben nos diz de uma fratura no dorso do século: “O nosso tempo, o presente,
não é, de fato, apenas o mais distante: não pode em nenhum caso nos alcançar.
O seu dorso está fraturado, e nós nos mantemos exatamente no ponto da fratura”.
Compreender a modernidade como uma ruptura é característica do pensamento
contemporâneo. Em nosso tempo “tudo o que é sólido se desmancha no ar” como
disse Marshall Berman e há uma fragmentação das identidades que se verifica na
multiplicidade de possibilidades, na diversidade e na efemeridade.

Vivemos em uma época de descontinuidade. Nossas certezas tendem a ser cada vez
menos duráveis e as coisas mudam muito rapidamente, por outro lado, temos acesso
nunca antes imaginado a todo tipo de informação e conhecimento, podemos nos
comunicar com rapidez e nos organizarmos politicamente como nunca foi possível.
Nossas gerações estão tendo esse privilégio, de vivenciar uma das mais incríveis revo-
luções da história da humanidade: A revolução digital.

3.5.1 A REVOLUÇÃO DIGITAL

A revolução digital teve duas fases distintas: a primeira na década de 90, com a che-
gada da internet e a segunda no final da primeira década do séc. XXI com os dispo-
sitivos móveis e o acesso remoto à internet. Até então o acesso às redes sociais, por
exemplo, se dava por meio de computadores fixos e lentos e nossa relação com essas
redes era mais lúdica e separada da vida “real”. Nós presenciamos uma rede social
aparecer e desaparecer, o Orkut, e hoje presenciamos as mudanças políticas, fruto
das redes sociais, em todo o mundo. Nossa época é, de fato, muito luminosa, como
disse Agamben. Precisamos perceber aquilo que não se mostra tão explicitamente,
ver esse escuro e perceber nele nosso tempo.

Imagine um shopping center, repleto de luzes e estímulos de toda ordem, te fazen-


do desejar objetos, estilos, conceitos, marcas, prestígio, status, tendências etc. Nossa
época tem muita luz e, como nos disse Agamben, é necessário perceber a escuridão.

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Filosofia

É necessário questionar esta aparente normalidade do shopping, pois este esconde


uma série de violências, que vão desde trabalhadores explorados até o incômodo que
um fenômeno, como o dos “rolezinhos” nos shoppings paulistanos, causou.

As redes sociais acentuaram um fenômeno que iniciou-se no séc. XX, a que cha-
mados de fragmentação das identidades na pós modernidade. Stuart Hall foi um
teórico cultural e sociólogo jamaicano que viveu e atuou no Reino Unido. Este autor
nos mostra essa questão e chama a atenção para o modo como as identidades se
multiplicam na contemporaneidade em um processo de fragmentação, por meio do
qual, as pessoas têm muitas possibilidades de formularem suas identidades nesse
contexto de diversidade. Pensemos na diversidade de identidades de gênero que te-
mos hoje, que vai do trans até o não-binário. Ou no fato de pessoas se formarem em
uma determinada profissão, exercê-la durante anos e depois mudarem de profissão
e passarem a exercer outro papel social.

Conheça a teoria Queer de Judith Butler lendo o livro:


UTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e sub-
versão de identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

Leia o livro “tudo o que é sólido se desmancha no ar” de


disse Marshall Berman

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SUMÁRIO 59
Filosofia

CONCLUSÃO
Nesta unidade, nosso objetivo foi compreender a ruptura que a modernidade causou
no pensamento filosófico, analisar como a educação dialoga com essas questões e re-
fletir sobre a contemporaneidade e seus desafios ligados à diversidade, fragmentação,
impermanência e a necessidade da tolerância neste mundo de convívio de opostos.

O pensamento ocidental inicia-se na Grécia antiga, com o racionalismo predominando.


Depois, na idade média, a filosofia adormece, servido de base para a teologia que
predomina, mas, é importante lembrar que o racionalismo platônico-aristotélico con-
tinua sendo a base da própria teologia. Com o Renascimento vemos a razão e o an-
tropocentrismo despertarem de novo e o Iluminismo recoloca a razão no centro das
especulações filosóficas, desembocando no positivismo e cientificismo do sec. XIX.

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60 SUMÁRIO
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Filosofia

UNIDADE 4

OBJETIVO
Ao final desta
unidade,
esperamos
que possa:

> Explicar o conceito de


ludicidade.

> Diferenciar os conceitos


de necessidade e
contingência.

> Comparar a escola


tradicional e o taylorismo

> Explicar o conceito de


verdade para Nietzsche

> Identificar a necessidade


da sensibilidade na prática
docente

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SUMÁRIO 61
Filosofia

INTRODUÇÃO DA UNIDADE
Ludicidade é o termo chave para uma proposta de transformação das relações esco-
lares. Mas o que é ludicidade? O lúdico tem a ver com brincadeira, ou seja, aquilo que
dá prazer. Nossa sociedade tem uma tendência a fazer uma leitura dicotômica entre
trabalho e lazer, entre o sério e o divertido, como se fossem coisas opostas e incom-
patíveis. Por isso, falar em ludicidade na educação, pode parecer algo estranho, pois,
este termo, parece afastado do ambiente escolar, na medida em que a escola está
centrada na busca por resultados objetivos e sempre comensuráveis pela pontuação.
Há uma ligação entre essa característica da escola conservadora e o que o filósofo
frankfurtiano Herbert Marcuse chama de “princípio de desempenho ou performance”,
a partir do qual o indivíduo é valorizado pelo o que ele produz. Segundo o filósofo,
esta é uma característica do “mundo administrado”, fruto de um processo de raciona-
lização que supervaloriza a razão em detrimento da sensibilidade. A ligação consiste
em a escola reafirmar essa supervalorização da razão e não valorizar a sensibilidade
e a criatividade, fazendo com que as atividades escolares repitam o mecanicismo do
mundo moderno, que Marcuse chama de “mundo administrado’. Quando se fala de
ludicidade, pretende-se exaltar o caráter prazeroso que pode existir na lida com os te-
mas escolares. A pesquisadora Maria da Conceição Oliveira Lopes corrobora esta ideia:

[...] a ludicidade pode funcionar como uma importante via para atingir o su-
cesso no processo educativo, na medida em que os alunos vão aprendendo a
conjugar vontades, a ultrapassar o desprazer que neste prazer experienciam, a
manter a face em coerência com o compromisso assumido e, assim, ensaiam
,apropriam-se e re-constroem o mundo. (LOPES, 2004)

De fato, a maioria dos estudantes vê a escola como algo obrigatório e desagradável,


na medida em que ela parece estar distante do mundo que os cerca. Como a fase
escolar envolve constantes descobertas e novas vivências, que estão diretamente li-
gadas aos sentidos, parte-se do pressuposto da necessidade de uma educação para
os sentidos e não somente para o intelecto.

Pretende-se, nesta unidade, estabelecer algumas relações entre as propostas peda-


gógicas de projetos de trabalho de Fernando Hernández e o conceito de “verdade”
em Nietzsche, passando pelos filósofos Friedrich Schiller, Luigi Pareyson e Herbert
Marcuse. Será traçado um breve paralelo entre a postura de Nietzsche, em seu texto
“Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral”, sobre o conceito de verdade e

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62 SUMÁRIO
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Filosofia

a necessidade de equilíbrio entre razão e intuição; alguns aspectos da proposta de


Schiller de uma educação estética pelo viés de Marcuse, em sua obra “Eros e Civiliza-
ção”, alguns aspectos do conceito de interpretação a partir do fenomenólogo italiano
Luigi Pareyson por meio de sua obra “Verdade e Interpretação” e algumas das propos-
tas de transgressão e mudança na educação a partir de Fernando Hernández em sua
obra “Transgressão e Mudança na Educação: Os Projetos de Trabalho”.

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SUMÁRIO 63
Filosofia

4 O CONTEÚDO E A FORMA
DA EDUCAÇÃO. EDUCAÇÃO
PROBLEMATIZADORA.
Esta unidade propõe uma breve reflexão sobre as relações entre educação, sensibi-
lidade, racionalidade e o conceito de verdade a partir de Friedrich Nietzsche, Luigi
Pareyson, Fernando Hernández e Herbert Marcuse.

4.1 RAZÃO E SENSIBILIDADE

A modernidade levou a cabo o projeto socrático-platônico de fazer da razão, o elemen-


to predominante em nossa cultura. Filósofos como Nietzsche e Heidegger, por exem-
plo, afirmaram que a filosofia autêntica iniciou-se com Tales de Mileto no séc. VI a.C.
e findou-se com o advento de Sócrates e Platão no séc. IV a.C. já que é nesse perío-
do que o predomínio da alma (razão) em detrimento do corpo (sensações) se efetiva.
Esse processo gerou o que Marcuse entende por “mundo administrado” , no qual a razão
dá as cartas e a ciência é a “dona da verdade”. Todos os aspectos de nossa vida, foram
transformados pelo esclarecimento (aufklärung), que gerou a separação entre as esferas
pública (mundo da rua) e privada (mundo da casa), relegando os sentimentos, a fruição
artística e a religiosidade à esfera privada e, à esfera pública, o império da racionalidade.

Quando, a partir do iluminismo no séc. XVIII, as sociedades ocidentais romperam


suas monarquias e proclamaram repúblicas, há um desejo de efetivação de todos os
pressupostos iluministas, um desejo de igualdade, liberdade e fraternidade, um de-
sejo de um estado laico, que permita a liberdade de expressão, a liberdade de crença,
a existência da democracia e o livre comércio, este, a prioridade da classe burguesa
que liderou as revoluções liberais, tais como a independência dos Estados unidos, a
revolução francesa, inglesa e até a proclamação da república do Brasil.

A revolução industrial acentuou a cisão entre as esferas pública e privada laicizando


cada vez mais a esfera pública e a transformando no “mundo do sério” , enquanto,
na esfera privada, permanecem os sentimentos. Por exemplo, se antes da revolução
industrial, um artesão confeccionava os produtos em sua oficina, esta era normal-
mente uma parte de sua casa, ele era dono de seu tempo, de suas matérias-primas,

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ferramentas e, principalmente, chefe em sua casa, na qual tudo isso se dava. Com a
revolução industrial, no séc. XIX, há uma separação entre o “lar” (esfera privada) e o “lo-
cal de trabalho” (esfera pública). As relações do local de trabalho passam a ser regidas
por normas externas, onde há outro discurso, outra hierarquia em uma sociedade de
proletários e patrões, regidos por normas científicas.

Nesse sentido, a escola reproduz a ordem da esfera pública e reafirma a cisão entre o
público e o privado. A revolução industrial gera a racionalização dos processos de produ-
ção, por meio do taylorismo e a produção em série é engendrada por nossa sociedade.

Assista ao filme de Charles Chaplin intitulado “Tempos


modernos”. É fácil encontrar no youtube!

Esse processo ultrapassa as linhas de montagens e chega até nossa vida cotidiana.
A linha de montagem da produção em série foi incorporada por nossa cultura. Se
formos executar uma tarefa simples, como corrigir provas de tipos diferentes, já pen-
samos em dividir as tarefas, de modo que alguém separe as provas, outro corrija um
tipo de gabarito e outra pessoa as questões abertas etc. Imaginemos como uma co-
zinha do séc. XIX era imensa, com grandes distâncias entre os utensílios e processos
demorados e, como uma cozinha contemporânea é repleta de soluções eficientes
e rápidas, em um espaço reduzido. Esses são exemplos de como o taylorismo e sua
linha de montagem foram absorvidos por nossa cultura.

4.1.1 A ESCOLA E A LINHA DE PRODUÇÃO

FIGURA 13 - LINHA DE PRODUÇÃO

Fonte: Shutterstock, 2018.

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SUMÁRIO 65
Filosofia

A escola também reflete esses paradigmas e bebe na mesma fonte de Taylor: o positi-
vismo científico do séc. XIX. Herbert Marcuse, em seu livro “Eros e Civilização”, ressalta a
eminência da razão instrumental em detrimento da sensibilidade e afirma a necessi-
dade de uma sociedade menos opressora, na qual a imaginação e a fantasia teriam vez.
Marcuse cita Schiller, importante expoente da literatura alemã, que desenvolveu uma
proposta de uma educação estética em sua obra “A Educação Estética do Homem” -
para endossar seu argumento. Schiller já alertava para as consequências da revolução
industrial e do processo de cientificização do mundo:

[...] a fruição de prazer está separada do trabalho, os meios do fim, o esforço


da recompensa. Eternamente acorrentado a um único e diminuto fragmento;
escutando sempre e apenas o monótono rodopiar da roda que ele faz girar,
jamais desenvolve a harmonia do seu próprio ser e, em vez de dar forma à hu-
manidade que existe em sua natureza, converte-se em simples marca de sua
ocupação, de sua ciência. (SCHILLER APUD MARCUSE, 1978)

Marcuse prossegue afirmando que:

[...]na civilização estabelecida, a sua relação tem sido antagônica; em vez de re-
conciliar ambos os impulsos, tornando a sensualidade racional e a razão sensual,
a civilização submeteu a sensualidade à razão de modo que a primeira, se acaso
logra reafirmar-se, o faz através de formas destrutivas e “selvagens”, enquanto a
tirania da razão empobrece e barbariza a sensualidade. (MARCUSE, 1978)

Esse processo de racionalização exacerbada, gerou graves consequências para a edu-


cação, como por exemplo, as visões unívocas ou únicas de mundo, provocadas pela
compartimentalização dos temas em “conteúdos”, que cria a impressão segundo a
qual as verdades científicas são dogmas intocáveis. Por exemplo, o currículo escolar
é dividido em disciplinas que pouco comunicam entre si. Mesmo dentro de uma
mesma disciplina essa compartimentalização é tal que, o aluno estuda o sistema cir-
culatório em uma aula, e o tema de outra aula, que é o próximo capítulo do livro, é o
sistema respiratório, como se fosse um outro assunto que não dialoga com o anterior.

O pedagogo espanhol Fernando Hernández, afirma que algumas aproximações cur-


riculares centradas nas didáticas disciplinares, sugerem certo fundamentalismo e cita
a definição de Sotelo: “o que caracteriza qualquer tipo de fundamentalismo é reduzir
a enorme complexidade do mundo a uma proposta simples, que teria o dom de
resolver todos os problemas que nós, humanos, temos apresentado” (SOTELO APUD
HERNANDEZ, 1998).

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“Projetos de trabalho” são uma forma de romper com o


cartesianismo dos currículos escolares tradicionais pro-
pondo uma situação problema que precisa de vários co-
nhecimentos de diferentes disciplinas para ser resolvida,
promovendo interdisciplinaridade e transversalidade no
currículo. Para conhecer mais sobre esse conceito pesqui-
se: HERNÁNDEZ, Fernando. Transgressão e Mudança na
Educação: Os Projetos de Trabalho; trad. Jussara Haubert
Rodrigues - Porto Alegre: ArtMed, 1998.

As origens do currículo escolar atual têm causas históricas que, se pesquisadas, re-
velam sua parcialidade e fragilidade. Uma dessas origens, foi a necessidade de de-
mocratizar o conhecimento, preocupação iluminista explicitada na Enciclopédia
Diderot e D’alembert. Era necessário que todo o conhecimento produzido pelo ho-
mem fosse divulgado e acessado por todos e a educação seria o vetor desse processo.

Portanto, a educação moderna, já nasce sob o estigma da cientificidade. Desde que


Sócrates inaugurou o pensamento racional, toda a história da filosofia elegeu os idea-
listas e racionalistas como paradigmas, em detrimento das doutrinas relativistas e
céticas ou sensistas. Por exemplo: contemporâneos de Sócrates, os sofistas, foram re-
legados à marginalidade da filosofia, por afirmarem que o homem é um feixe de sen-
sações, ou a medida de todas as coisas, como nos disse Protágoras. O cristianismo tem
como base o idealismo platônico-aristotélico, por meio dos textos de Santo Agostinho,
São Tomás de Aquino, dentre outros e, na modernidade, um pensador como Spinoza,
que trata das paixões e dos sentimentos humanos, ficou à sombra de Descartes, com
seu método que concebe o homem como sujeito detentor do conhecimento, capaz
de dominar o objeto a ser conhecido, com o objetivo de alcançar uma ideia clara e
distinta. Hernández comenta as consequências desta questão para a educação:

Descartes, na ante-sala dos racionalistas e dos cientificistas, abriu caminho


para uma concepção do conhecimento que devia basear-se nas evidências
empíricas e em sua simbolização matemática para considerar-se como verda-
deiro. A influência desse tipo de pensamento, que consagra a racionalidade
das Ciências Naturais, que emergem nos finais do século XVII como a única
forma de racionalidade válida para ter acesso à verdade, é fundamental para
compreender o sentido do conhecimento “socialmente válido” para a Escola
e a exclusão de outras formas de racionalidade vinculada a outro tipo de sa-
beres “não científicos” .

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Filosofia

Nesse sentido, a sensibilidade se tornou uma espécie de faculdade humana menos


importante, na medida em que a razão é capaz de resultados objetivos e utilitários
que acompanham o processo de racionalização do mundo. A ciência se torna a gran-
de referência para o conceito de “verdade”. Mas, afinal, o que é a verdade?

4.2 NIETZSCHE E O CONCEITO DE VERDADE

FIGURA 14 - NIETZSCHE FOI UM FILÓSOFO ANTI RACIONALISTA QUE INAUGUROU A


FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA

Fonte: Shutterstock, 2018.

Friedrich Nietzsche, filósofo alemão que inaugura a filosofia contemporânea, inicia


seu texto intitulado “Sobre verdade e mentira no sentido extra moral” com uma fábula:
Entre as infinitas estrelas do universo infinito, surgiu uma vez a vida e alguns animais
inteligentes inventaram o conhecimento. Passados alguns minutos, essa estrela con-
gelou-se e os animais inteligentes morreram. De forma bombástica, Nietzsche conse-
gue sintetizar o tema central de seu texto: a falibilidade, a pequenez e a arrogância do
homem diante de seu conhecimento e do mundo. Ou seja, em termos universais, o
tempo de existência da vida humana que surgiu neste planeta em algum momento
e, desaparecerá em outro momento, é ínfimo em relação ao universo e equivaleria à
apenas alguns minutos.

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Filosofia

Portanto, para Nietzsche, o intelecto humano não tem nenhuma missão mais vasta
que o conduzisse para além da vida humana. Segundo o filósofo essa atitude antro-
pocêntrica é extremamente prepotente, audaciosa e arrogante, já que o homem é
guiado, muitas vezes, apenas pela vaidade. A partir disso é colocada em jogo a ques-
tão da intenção dos filósofos. Segundo Nietzsche todo homem quer ter seu admira-
dor, desde um carregador de carga, até o mais vaidoso dos homens: o filósofo (que
se coloca como centro do mundo para tentar explicá-lo). Nietzsche nos diz que a vai-
dade é um dos o principais impulsos que levaram o homem à busca pela verdade e
esse ponto é delicado, pois deslegitima essa busca. Portanto, a ideia de civilização, da
qual nos gabamos tanto, não passa de algo inventado de modo muito semelhante
ao comportamento dos animais, só que nós, ao contrário de usarmos garras e dentes
para nos relacionarmos, usamos o intelecto.

O recurso que Nietzsche utiliza é a analogia do homem com as outras espécies e


assim ele descreve o intelecto de forma naturalista como “um meio para a conserva-
ção do indivíduo” (NIETZSCHE, 1978) e afirma que este está a serviço de uma falsifica-
ção. Pois o homem, enquanto “civilizado”, usa a “astúcia intelectual” em grau máximo,
para que a guerra de todos contra todos não se efetive, ou seja o homem desenvolveu
o intelecto da mesma forma que milhões de anos de evolução fizeram com que uma
aranha desenvolvesse sua teia ou os ursos polares desenvolvessem membranas entre
os dedos para mergulharem com mais eficiência. Todos esses recursos desenvolvidos
por cada espécie, têm como objetivo enganar o predador e conseguir se adaptar e
sobreviver. O intelecto humano também se formou nessa mesma circunstância, com
o objetivo de enganar os predadores e depois de enganar os próprios pares. Nietzs-
che afirma que o engano, o lisonjear, o ludibriar, o falar-por-trás-das-costas, o repre-
sentar, o mentir para ser sociável (para os outros e pra si mesmo). Em suma, todos
os artifícios que alimentam a única chama que direciona a conduta humana que,
segundo Nietzsche, seria a vaidade.

Rogério Antônio Lopes , comentador de Nietzsche, afirma que essa falsificação, da


qual o intelecto está a serviço, desencadeia uma sucessão de equívocos que se dão,
inicialmente em uma esfera epistêmica, ou seja do conhecimento e, posteriormente,
chegam na esfera moral, pois o intelecto nos dá uma visão simplificada dos processos
naturais, fazendo com que nós possamos manipular o real conforme nossos interes-
ses vitais. Então a verdade seria algo que o próprio homem criou para responder suas
perguntas. Mas por que o homem busca a verdade?

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SUMÁRIO 69
Filosofia

A primeira hipótese, que tem por objetivo explicar o surgimento do impulso à verdade,
é inspirada, segundo Rogério Antônio Lopes, no universo das teorias contratualistas .

As teorias contratualistas tentam explicar como surgiu o primeiro contrato social, ou


seja, como o homem, naquele estado de natureza, inserido no mundo selvagem, vi-
vendo e se comportando como seus ancestrais primatas, rompeu essa relação com a
cadeia alimentar e passou a viver em sociedade?

FIGURA 15 - HOMENS PRIMITIVOS NEANDERTHALS, NOSSOS ANCESTRAIS

Fonte: Shutterstock, 2018.

Nietzsche supõe que em algum momento da história natural do homem, pensando


em nossos ancestrais mais longínquos, nesse hominídeo primitivo, o intelecto era
usado somente de forma “privada” e houve, então, um processo de estabelecimento
de um mundo comum, mediado pela linguagem. É em meio a esta mera conven-
cionalidade que o predicado “verdadeiro” foi usado pela primeira vez por meio da
invenção da linguagem. Nietzsche vai dizer então que nós, humanos, inventamos a
linguagem e, portanto, ela é tão falha quanto tudo o que é humano.

Ainda nos primeiros parágrafos do texto “Sobre verdade e mentira no sentido extra-
-moral”, Nietzsche pergunta: Será que o homem pode se conhecer como se estivesse
em uma “Vitrine Iluminada”? Essa metáfora tem por referência o pensamento de Pla-
tão e a máxima adotada por Sócrates “Conhece-te a ti mesmo” e explicita o caráter

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antiplatônico do pensamento nietzscheano. A natureza cala-se perante o homem,


pois não há respostas para nossas perguntas, já que a natureza não conhece concei-
tos nem nossa ciência. Nesse sentido o conhecimento humano é uma invenção do
próprio homem e não é capaz de superar seu caráter puramente humano.

Assim, Nietzsche afirma que é inconcebível que haja um honesto impulso à verda-
de, pois a vaidade é a chama que move este impulso. O modo pelo qual o homem
vê o mundo é antropomórfico, ou seja, é apenas o modo humano de ver o mundo.
Nietzsche nos faz imaginar que uma mosca que boia no ar se sentiria o centro do
mundo, assim como o homem se sente. Quando o homem busca uma verdade, se-
gundo Nietzsche, ele está querendo muito mais reconhecimento de seus pares, fama
e poder do que a verdade propriamente dita, até mesmo porque, essa verdade da
qual Plantão dizia, única, eterna e imutável, segundo Nietzsche, não existe. Para ele,
os homens não odeiam a ilusão provocada pelo engano, mas sim as consequências
da mentira.

Portanto, em termos morais, estamos acostumados a mentir e esse hábito é necessá-


rio para a própria “preservação da espécie humana”. Se disséssemos somente verda-
des, no sentido moral do termo, não nos suportaríamos, como disse o famoso drama-
turgo brasileiro Nelson Rodrigues.

Nelson Rodrigues foi um teatrólogo, jornalista, romancista,


folhetinista e cronista de costumes e de futebol brasileiro,
tido como o mais influente dramaturgo do Brasil.

Assim, somente por esquecimento pode o homem chegar a supor que possui a “ver-
dade”. Esquecimento de que a própria linguagem é algo meramente humano, pois
as palavras não passam de estímulos nervosos que se transformam em sons e que
querem dizer algo do mundo. Mas com ela criamos nossa cultura e nossa ciência por
meio do intelecto. Essa, segundo Nietzsche, é processo uma aplicação falsa da razão.

Nós inventamos nossas verdades. No exemplo de Nietzsche: Forjamos a definição de


um animal: mamífero, examinamos um camelo e declaramos: O camelo é um ma-
mífero. Segundo ele, não há mérito nisso, apenas uma aplicação artificial da lingua-
gem movida pela vaidade. É como alguém que esconde algo atrás de um arbusto e

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SUMÁRIO 71
Filosofia

vai procurá-lo e o encontra. Não há mérito em achar o que você mesmo escondeu
e já sabia onde estava. Segundo Nietzsche, a aplicação da razão se dá de forma se-
melhante. No interior da razão encontramos as verdades dessa forma. Nós mesmos
inventamos a linguagem e com ela queremos penetrar o ser íntimo das coisas. Por-
tanto as verdades têm um valor limitado.

Nietzsche denuncia a arrogância do filósofo e do antropocentrismo, mostrando como


podemos, com a própria razão, mostrar seus limites e o quão meramente antropo-
mórfico é o conhecimento humano, pois a razão legisla em causa própria, criando
um imenso jogo de conceitos e fingindo ganhar seu próprio jogo.

Hernandez cita Gergen corroborando o argumento nietzscheano ao afirmar que é


necessário questionar as ideias de “[...] ‘verdade’, de ‘objetividade’ e das visões unila-
terais que impõem um único ponto de vista como interpretação de um fenômeno”
(GERGEN APUD HERNÁNDEZ, 1998) . Nesse sentido Hernández afirma que a inter-
pretação seria a parte central de um currículo que tem como escopo a compreen-
são onde ensina-se o aluno a compreender as interpretações sobre os fenômenos
e a si mesmos.

4.2.1 A EXPULSÃO DOS POETAS

O professor precisa descer o conteúdo do pedestal da ciência e trazê-lo para ser posto
à prova. É a experiência que gerou as verdades científicas e, atualmente, são ensina-
dos primeiro os postulados científicos, e, depois, em um momento distinto, fazem-se
as experiências para comprovar aquilo que já havia sido dito. Na escola tradicional, o
conceito, tornado canônico, vem antes da experiência, o que significa uma inversão
da experiência científica autêntica e esta questão aproxima-se da ideia nietzschiana,
segundo a qual esquecemo-nos de que as palavras são invenções e as tratamos como
entidades míticas, como se elas existissem antes das próprias coisas.

Após fazer esta crítica, Nietzsche ressalta o caráter principal da palavra, que é ine-
rente à ela: seu aspecto metafórico, ou seja, ser uma fonte inesgotável de signifi-
cados. Nietzsche fala que levar em conta este impulso à formação de metáforas é
levar em conta o próprio homem e que é dessa forma que a linguagem deve ser
usada: esteticamente.

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Esse impulso à formação de metáforas, esse impulso fundamental do homem,


que não se pode deixar de levar em conta nem por um instante, porque com
isso o homem mesmo não seria levado em conta, quando se constrói para ele,
a partir de suas criaturas liquefeitas, os conceitos, um novo mundo regular e
rígido como uma praça forte, nem por isso, na. verdade, ele é subjugado e mal
é refreado. Ele procura um novo território para sua atuação e um outro leito de
rio, e o encontra no mito e, em geral, na arte.(NIETZSCHE, 1978)

Nietzsche ressalta a arte como a melhor forma de utilização do que nós somos: corpo
e linguagem. Em outra passagem deste texto, Nietzsche afirma que o intelecto deve
desamarrar-se do modo apenas racional, ou seja, libertar-se dos limites do logos (con-
ceitos). O filósofo italiano Luigi Pareyson assinala que “O mito que se deixa destruir
pelo logos não é mito, mas logos embrionário, e o logos que quer destruir o mito não
é logos, mas mito inconsciente”. Nietzsche exalta o caráter intuitivo da arte e a liber-
dade do logos que esta contém. Justamente este aspecto que apavorava Platão e o
fez expulsar os poetas da República.

No livro “A república, aquele no qual podemos encontrar a passagem do Mito da ca-


verna, há um tentativa de descrever como seria uma cidade ideal, perfeita, governada
pelo filósofo e que traria a felicidade à todos. Nessa cidade ideal, a verdade seria o
objeto da busca de todos os cidadãos, e os poetas, por serem imitadores, seriam ex-
pulsos. Como na teoria platônica as coisas do mundo são cópias imperfeitas, sombras
das verdadeiras coisas que são ideias, o gesto de imitação dos poetas acabaria reafir-
mando essa característica indesejada do mundo sensível e poderia distrair as pessoas
da busca pela verdade no mundo das ideias, ou fora da caverna, como na metáfora.

Nas palavras de Nietzsche:

O próprio homem, porém, tem uma propensão invencível a deixar-se enganar


e fica como que enfeitiçado de felicidade quando o rapsodo lhe narra contos
épicos como verdadeiros, ou o ator, no teatro, representa o rei ainda mais re-
giamente do que o mostra a efetividade. O intelecto, esse mestre do disfarce,
está livre e dispensado de seu serviço de escravo; enquanto pode enganar
sem causar dano, e celebra então suas Saturnais. Nunca ele é mais exuberan-
te, mais rico, mais orgulhoso, mais hábil e mais temerário: com prazer criador
ele entrecruza as metáforas e desloca as pedras-limites das abstrações, de tal
modo que, por exemplo, designa o rio como caminho em movimento que
transporta o homem para onde ele, do contrário, teria de ir a pé.

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Para ilustrar esta passagem vamos utilizar um poema de Manoel de Barros:

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa

era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa.

Passou um homem depois e disse: Essa volta

que o rio faz por trás de sua casa se chama

enseada.

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro

que fazia uma volta atrás de casa.

Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem.

FIGURA 16 - ESCULTURA EM HOMENAGEM AO POETA MANOEL DE BARROS E CAMPO


GRANDE, MATO GROSSO DO SUL

Fonte: Shutterstock, 2018.

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4.3 O PROFESSOR E A SENSIBILIDADE

Todo professor, além das técnicas didáticas apendidas por meio da pedagogia, de-
senvolve, também, suas técnicas pessoais para ensinar. Normalmente, estas estão li-
gadas à sua vivência como discente. Há muitos modos de desenvolver o papel de pro-
fessor e é empiricamente que cada um encontra suas soluções, ou seja, é na prática
docente que se aprende a ser professor. Os conceitos pedagógicos, nomenclaturas,
as correntes educacionais e as reflexões acerca do fazer docente são instrumentos
para o professor conceber, refletir sua própria prática e dialogar com os pedagogos
de igual para igual, mas o modo como se aprende é a grande referência que se tem
para ensinar. O professor, como o ator, empresta seu corpo para sua profissão. Para
assumir a condição de professor é necessário equilíbrio entre a personalidade da pes-
soa do profissional e as exigências do papel social que se desempenha. É necessário
um discurso coerente com o ambiente acadêmico e, ao mesmo tempo estimulador,
que faça com que os alunos despertem interesses pelo tema tratado. Um discurso
meramente técnico pode conter precisão e coerência lógica, mas pode não ser cati-
vante. Da mesma forma um discurso superficial pode cativar e gerar um efeito multi-
plicador, como podemos verificar nas redes sociais. Como equilibrar essas situações?

FIGURA 17 - PROFESSOR ENSINANDO PARA CRIANÇAS

Fonte: Shutterstock, 2018.

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Filosofia

Comecemos por descrever as circunstâncias nas quais os alunos estão inseridos. Na


maioria das vezes a escola é vista como um local arbitrário que postula regras de
comportamento, começando pela sua disposição física. O pedagogo Juarez Tarcisio
Dayrell afirma que a estrutura física das escolas não favorece o encontro.

Leia o artigo :DAYRELL, Juarez Tarcisio. Escola e diversidade


cultural: considerações em torno da formação humana.

Nitidamente inspirado pelo filósofo francês Foucault, que em sua obra “Vigiar e Pu-
nir”, nos chama a atenção para o fato de a modernidade ter sido marcada pelo cres-
cimento das cidades com a revolução industrial e, diante desse novo cenário de mul-
tidões, aparecem mecanismos de controle social. Foucault nos chama a tenção para
o modo como as arquiteturas das instituições modernas como, hospitais, presídios,
sanatórios, fábricas escolas têm uma semelhança: sã0o construídos a partir da neces-
sidade vigilância e controle

Dayrell ressalta os aspectos que confirmam sua tese: os muros isolando a escola do
mundo, os corredores com a explícita intenção de direcionar os alunos para a sala de
aula e a pobreza estética, explicitada pela ausência de cores e de estímulos visuais.
Essa situação gera uma distância entre os discentes e a escola, distância esta, agrava-
da pelo fato de os conteúdos serem tratados como verdades absolutas, que devem
ser conhecidas e serão cobradas em avaliações de desempenho. É necessário incen-
tivar uma postura ativa nos alunos, mas isso só é possível se este for tratado como
sujeito, ou seja, é necessário que o aluno tenha consciência de sua capacidade de
interpretar e para isso ele precisa se sentir acolhido e pertencente à escola.

Porém, na prática, o que verificamos é um distância muito grande entre os conteúdos


ensinados e o mundo que cerca os alunos. Essa discrepância é tamanha que é neces-
sário alertar os alunos sobre a importância dos conteúdos e como ele pertencem ao
mundo e não apenas ao livros. Dayrell nos chama a atenção para estas questões e nos
faz refletir sobre a prática docente, por meio de questionamentos de paradigmas da
educação que precisam ser discutidos.

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76 SUMÁRIO
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Filosofia

Imaginemos uma sala de aula de quinto ano, cinquenta pré-adolescentes acabam de


chagar às sete da manhã de uma segunda feria. No fim de semana tiveram vivências
incríveis, muitos experimentaram situações e sensações pela primeira vez na vida.
Estão todos repletos de desejo de experimentar e vivenciar o mundo com seus cor-
pos que produzem hormônios estimulantes e há um desejo imenso de trocar infor-
mações, vivências, desejo de conversar sobre as coisas que estão sendo vividas e são
percebidas como assuntos urgentes, mas a aula do primeiro horário é matemática.
Exige-se dos alunos que não conversem entre si, que não se movimentem, que seus
corpos sejam docilizados, que se concentrem na explicação e foquem nesse exercício
contemplativo e abstrato, completamente divergente de tudo o que eles estão dese-
jando naquele momento. O recreio tem apenas 30 minutos, dos quais mais de 15 são
gastos na fila da cantina, depois, volta-se para a sala e não há espaço para o convívio
espontâneo e socialização. Por fim o sinal toca para o final da aula e há, no máximo,
apenas mais cinco minutos de conversa, até que os alunos se dirijam para o escolar e
finalmente para casa. Nesse sentido, para Dayrell, não há espaço para a socialização
nas escolas. Os educandos não podem aprofundar os laços sociais e são obrigados
a manter relações superficiais, pois a própria socialização é vista como transgressão.

FIGURA 18 - A SOCIALIZAÇÃO É UM FATOR DETERMINANTE NO PROCESSO EDUCATIVO

Fonte: Shutterstock, 2018.

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SUMÁRIO 77
Filosofia

CONCLUSÃO
Concluindo, podemos afirmar, a partir de Pareyson e da segunda parte do texto ana-
lisado de Nietzsche, que a busca pela verdade tem um caráter experimental, ou seja,
corporal e histórico e tem que levar em conta o fato de que a situação do homem é
limitada e a realidade de uma posse segura e garantida da verdade elimina a proble-
maticidade da natureza humana, o que seria impossível. Assim, segundo Pareyson a
formulação pessoal da verdade exige coragem e estes conceitos, como risco, coragem
e responsabilidade só têm um significado diante da verdade. Pareyson ainda afirma
que não há escravidão pior do que a escravidão do homem diante de suas próprias
ideias, ou seja, escravo de suas verdades absolutas. Essa libertação está descrita por
Nietzsche quando ele afirma que o intelecto fica livre da sua função de escravo e
pode enganar sem causar danos, e também por Hernández quando este condena o
modelo atual de currículo que lida com os conteúdos de modo dogmático.

O processo de racionalização do mundo faz a linguagem se tornar cada vez mais


arbitrária. Enquanto o mito explica o mundo utilizando a palavra em sua condição
primeva, ou seja, metafórica, a ciência utiliza-se das palavras de forma instrumental,
como se as congela-se para que percam seu caráter dinâmico e não sejam vítimas da
ambiguidade. Nesse sentido a arte é um lugar privilegiado da linguagem, na medida
em que a partir da arte a linguagem pode se mostrar exuberante e livre das “amarras
do intelecto” (NIETZSCHE,1978) . As disciplinas que herdaram a tradição cartesiana
de metodologia que atingiu seu ponto auge com o positivismo, lidam com a lingua-
gem de forma instrumental buscando uma espécie de asseio da palavra, retirando
seu aspecto dinâmico e essencial.

Há uma necessidade de trabalhar os sentidos dos alunos, a sensibilidade, a intuição.


A instituição escolar é demasiadamente intelectualizada, o que gera uma espécie de
deficit de sensações. Seguindo Hernández, Nietzsche, Marcuse, Schiller e Pareyson,
pode-se pensar em um modo mais equilibrado de lidar com a razão e a sensibilidade,
sem estabelecer relações antitéticas entre esses temas.

É claro que a atual conjuntura política, econômica e social das escolas brasileiras,
principalmente o ensino público, não contêm elementos que permitem a aplicação
das questões colocadas aqui, mas podemos refletir nossa prática docente a fim de
apontarmos caminhos e toda mudança, por menor que seja, é uma interferência e
sempre produzirá desdobramentos.

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78 SUMÁRIO
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Filosofia

UNIDADE 5

OBJETIVO
Ao final desta
unidade,
esperamos
que possa:

> Explicar as razões para a


marginalização da filosofia.

> Diferenciar as visões de corpo


platônica, medieval e cartesiana.

> Comparar as visões históricas


de corpo com docilização
dos corpos promovida pela
educação tradicional.

> Explicar o fato de a filosofia não


abranger grandes públicos.

> Identificar o discurso filosófico


na mídia.

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SUMÁRIO 79
Filosofia

INTRODUÇÃO
A sala de aula é um cubo de quatro paredes. Nela cabe o mundo inteiro, mas os alu-
nos, normalmente, acham que os conteúdos são coisas estranhas à sua vida prática.
Então, temos um paradoxo: a dimensão dessa sala, que cabe o mundo e o próprio
aluno, não conseguindo reconhecer o mundo no conteúdo dado em sala de aula.
Como fazer com que o conteúdo seja um lente de aumento do mundo que cerca o
aluno? Como fazê-lo perceber a sala de aula como uma abertura para a libertação e
não como algo que o prende, pelo rigor da disciplina e docilização dos corpos?

FIGURA 19 - PENSAR FORA DA CAIXA

Fonte: Shutterstock, 2018.

Nesta unidade, veremos como a filosofia, sendo este lugar incomum, dialoga com
as demais instituições, como ela aparece na sala de aula e como a mídia lida com
ela no exterior e no Brasil. Discutiremos este lugar incomum, pensando os motivos
históricos que levaram a filosofia a ser colocada como uma disciplina marginaliza-
da no currículo escolar, os possíveis modos de lidar com a filosofia na sala de aula
no ensino médio e fundamental e a questão da relação da filosofia com as pessoas
em geral, pensando o porquê de a filosofia ter dificuldade de chegar ao grande
público. Veremos também o modo como a corporeidade se tornou uma questão
central da filosofia contemporânea, levado em conta que este tema foi relegado
pela tradição filosófica.

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80 SUMÁRIO
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Filosofia

5 FILOSOFIA, CORPOREIDADE
E EDUCAÇÃO
Esta unidade propõe uma breve reflexão sobre os fundamentos e prática da filosofia
na escola e nas demais instituições sociais. Pensaremos a sala de aula como um es-
paço para o filosofar, buscando compreender o lugar que a filosofia ocupa no mundo
atual por meio de uma reflexão sobre o corpo.

5.1 O CORPO DA FILOSOFIA

5.1.1 O CORPO NA IDADE ANTIGA

Platão, na idade antiga, instaura FIGURA 20 - ESTÁTUA DO DEUS GREGO APOLO


uma dicotomia entre corpo e alma,
que se faz sentir até os nossos dias.
Ainda vemos corpo e a alma como
coisas separadas e vistas de modo
hierárquico, onde a alma é sempre
mais importante que o corpo. Essa
dicotomia atravessou os séculos e
se reflete em nossa sociedade de
várias formas. É fácil verificar este
pensamento no senso comum,
em ditados populares como “por
fora bela viola, por dentro pão bo-
lorento” ou “beleza não põe mesa”.
Ambos partem do pressuposto se-
gundo o qual o interior é mais ver- Fonte: Shutterstock, 2018.
dadeiro que o exterior, que seria
mera aparência. A escola reflete essa dicotomia e reproduz sua hierarquia. Há, no
processo educacional, uma constante docilização dos corpos, ou seja, para docilizar a
mente é necessário, antes de tudo, docilizar o corpo.

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SUMÁRIO 81
Filosofia

A visão de corpo platônica, pode ser sinteticamente explicada, a partir do seguinte


paradoxo: Platão entende o corpo enquanto uma espécie de “prisão para a alma”
e, ao mesmo tempo, argumenta a favor do cuidado com o corpo, incentivando a
ginástica. Para que se compreenda tal paradoxo, serão retomados alguns pontos da
filosofia platônica: Platão propõe uma divisão radical entre o mundo perceptível pe-
los sentidos (corpo) e o mundo racional intelectivo (alma)1. A metáfora da prisão en-
contra-se no Fédon2 e outras metáforas também respaldam esta ideia, como no texto
intitulado Crátilo3 , onde o corpo é visto como túmulo da alma e no texto Fedro4, onde
o corpo é visto como a concha da ostra. Ambas sugerem a ideia do corpo como um
impedimento para o verdadeiro conhecimento - já que este se dá somente por meio
do intelecto (alma) e nunca pelos sentidos (corpo) - e como causa das mazelas do
mundo. E, mesmo concebendo este valor pejorativo para o corpo, Platão ressalta a
importância e a necessidade da prática de ginástica moderada, pois o corpo deve ser
cuidado da melhor forma possível. O corpo humano é considerado na filosofia platô-
nica, o objeto sensível mais participante da ideia de beleza5.

Na verdade, não há incoerência entre estas duas posturas para com o corpo. De fato,
o corpo pode ser entendido como uma prisão - já que esse prende a alma ao mundo
sensível que, na filosofia platônica, não contém a verdade, mas sim cópias imperfeitas
das essências puramente intelectivas, que percebemos por meio dos sentidos, que
são falhos - e, ao mesmo tempo deve ser bem cuidado, na medida em que o corpo
sadio é um pressuposto para o desprendimento das coisas materiais. Um corpo doen-
te só aprisiona mais a alma, já que tem uma necessidade maior de bens materiais.

1 É importante ressaltar que o que Platão chama de alma se difere do modo como atualmente lidamos com este termo.
Na filosofia platônica a crença é considerada doxa, ou seja, opinião, conhecimento inferior por ser superficial. O verdadeiro
conhecimento, a episteme, tem como característica a universalidade, a imutabilidade e a atemporalidade. Podemos exem-
plificá-lo a partir das verdades matemáticas: a soma dos ângulos internos de um triângulo é 180º; esta verdade transcende
tempo e espaço, na medida em que vale antes do mundo existir e continuará valendo se o mundo acabar. A ideia vulgar de
alma sugere o conceito da fé, que inexistia na época de Platão. Além disto, o cristianismo introduziu o conceito de pessoa
e consequentemente uma ligação entre corpo e alma, na medida em que o corpo passa a participar da transcendência, fa-
zendo a alma preservar aspectos corporais após a morte. Este tema será desenvolvido quando falarmos de Santo Agostinho.
2 Platão, Fédon, 62B.
3 Segundo o filósofo italiano Giovanni Reale, Platão discute a imagem do corpo como “túmulo”, baseando-se na correspon-
dência do termo soma (corpo) com o termo sema (túmulo) e apresenta esta doutrina como derivada dos “seguidores de
Orfeu”, ou seja, os órficos.
4 Platão, Fedro, 250 B-C.
5 Segundo Platão, tudo o que percebemos por meio dos sentidos, não corresponde à realidade, já que tudo está em cons-
tante mudança e a verdade tem de ser imutável. Nesse sentido, as coisas percebidas são entendidas como cópias imperfeitas
de suas ideias. É a Teoria da Participação, segundo a qual, todo objeto sensível participa de sua ideia originária no mundo das
ideais. Há uma hierarquia das ideais a partir da qual estão no topo as ideais de belo, bom e verdadeiro. O corpo humano, den-
tre os objetos sensíveis é aquele que mais se aproxima do ideal de beleza, mas por sua efemeridade, não é belo plenamente.

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82 SUMÁRIO
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Filosofia

Algumas das principais fontes do pensamento platônico são: os filósofos pré-socrá-


ticos, principalmente Heráclito e Parmênides; Pitágoras - que já carregava consigo
influências do orfismo6 - e o próprio Sócrates7. De Heráclito, Platão herda a consta-
tação de que o mundo é múltiplo e irracional e o devir é a arché8 do mesmo. Neste
sentido não há como explicar racionalmente o modo como as coisas se dão no mun-
do sensível: assim como entre os animais existem comportamentos racionalmente e
moralmente reprováveis, como o infanticídio, o incesto, etc. entre os homens, o devir
causa uma sensação de “não pertencimento” ao mundo, pois o modo humano de
percebê-lo evidencia as incompatibilidades entre nós (cultura) e o mundo (natureza).
Neste sentido pode-se dizer que, a partir de Platão, natureza e cultura se dividem em
termos filosóficos. Neste ponto o pensamento de Parmênides ressurge na teoria pla-
tônica, já que diante de uma incongruência entre o percebido e o pensado, ou seja,
quando o sensível diverge do que é racional - como nos paradoxos de Zenão de Eleia
- Parmênides classifica hierarquicamente o pensado e o percebido, valorizando o que
pode ser pensado em detrimento do que pode ser sentido pelo corpo. Seguindo Par-
mênides, Platão argumenta a favor do intelecto e contra o sensível.

Sobre o mais famoso paradoxo de Zenão, o da corrida entre


Aquiles e a tartaruga ver: FEARN, Nicholas, Aprendendo a
filosofar em 25 lições: do poço de Tales à desconstrução de
Derrida, tradução Maria Luiza X. de ª Borges. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 2004.

Também Pitágoras argumentava a favor da imortalidade da alma e da necessida-


de do desapego de bens materiais a favor dos bens espirituais. Sócrates introduz
uma peça chave do pensamento ocidental: o logos9, ou seja, o conceito, aquilo que é.
Este conceito está além das palavras que são elementos sensíveis, já que o logos é a

6 Seita filosófico-religiosa bastante difundida na Grécia a partir do séc. VI a.C. e que se julgava fundada por Orfeu. Segundo
a crença fundamental dessa seita, a vida terrena era uma simples preparação para uma vida mais elevada, que podia ser
merecida por meio de cerimônias e de ritos purificadores, que constituíam o arcabouço secreto da seita. IN: ABBAGNANO,
Nicola. Dicionário de Filosofia, Martins Fontes, São Paulo 2000. PÁG. 732.
7 Sócrates foi o mestre de Platão e é o principal personagem dos diálogos escritos por Platão. Como Sócrates nunca escreveu,
a referência principal sobre seu pensamento encontra-se nos textos platônicos.
8 Princípio originário presente em toda a matéria.
9 Logos é uma doutrina que tem a razão como primeira substância ou causa do mundo. In: Abbagnano, Nicola. Dicionário de
Filosofia, Martins Fontes, São Paulo 2000.

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SUMÁRIO 83
Filosofia

ideia, a essência que é atópica10, não podendo existir no mundo sensível, na medida
em que o logos tem por características a imutabilidade, a plenitude, a essencialidade,
a eternidade, a unicidade etc. Neste sentido, Sócrates se diz um “parteiro de ideais”
(maiêutica), por meio da dialética, seria possível chegar às ideais inauditas. Também,
neste sentido, Platão afirma que as coisas sensíveis participam de suas respectivas
ideais e que todas estas ideais estão em nossa alma de forma “adormecida” e apren-
der é lembrar-se destas ideais. A esta lembrança Platão dá o nome de reminiscência,
segundo a qual nós, antes de encarnarmos teríamos contemplado todas as formas
plenas e, ao encarnarmos, esquecemos destas ideais ao beber do rio Letes: o rio do
esquecimento. Nesse fragmento do Fédon temos a idéia da reminiscência a partir do
diálogo entre Cebes e Sócrates:

Segundo este princípio, aquilo de que nos lembramos no presente, sem dúvi-
da, foi aprendido em algum tempo anterior. E, se nossa alma não viesse de e
existisse em algum lugar, como isso seria possível? Com isso, parece que pode-
mos chegar também seguinte conclusão: a alma é imortal. (PLATÃO, 2005.)11

Mesmo com as nuances que os argumentos platônicos apresentam sobre a reação an-
titética entre alma e corpo, como a ideia de que a união entre corpo e alma é algo “na-
tural” e há a necessidade do cuidado do corpo. Platão elabora uma filosofia que gera
um dualismo psicofísico radical no qual alma e corpo são coisas distintas e contrárias.

Sobre estas nuances ver: REALE, Giovanni. Corpo, alma e


saúde: o conceito de homem de Homero a Platão. São Paulo:
Paulus, 2002.

5.1.2 AGOSTINHO E A “CRISTIANIZAÇÃO” DE PLATÃO

Um ponto de ligação interessante entre Platão e Agostinho no que tange à dociliza-


ção do corpo, é o fato do autoflagelo justificar-se no pensamento agostiniano e não
estar presente no pensamento platônico. Para Platão o corpo, apesar de ser uma pri-
são, deve ser bem cuidado, pois há uma necessidade de estarmos encarnados. Neste
sentido pode-se pensar que, se o corpo é uma prisão e é necessário estar preso, que

10 Não-lugar.
11 Platão, Fédon, tradução Heloisa da Graça Burati, São Paulo: Rideel, 2005. pág 41.

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84 SUMÁRIO
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Filosofia

se mantenha esta prisão limpa e bem conservada, pois, do contrário, se o corpo estiver
doente e fraco, necessitará, mais e mais de bens materiais e, para filosofar é preciso
saúde. Já em Agostinho o homem é concebido como uma mescla de corpo e alma:

A alma não está dentro do corpo à maneira platônica, mas está unida ao seu
corpo, nele encarnada. Para o grego (sabedoria platônica estoica etc.) o pro-
cesso de perfeição é processo de ‘desencarnação’, destaque, desempenho do
corpo e do mundo; para o cristão é processo de ‘encarnação’ (o deus cristão
encarna). O corpo não é mal. É bem a alma nele se encarna, vive sua vida, o
protege e o guia (SCIACCA, 1967)

É a alma que faz o corpo sentir e o autoflagelo seria um tipo de compensação na


qual a dor compensa o prazer. Agostinho propõe uma espécie de “cristianização” de
Platão unindo o dualismo psicofísico à ideia de valorização do sacrifício. Este pensa-
mento é um dos elementos geradores do que atualmente é chamado de sentimen-
to de culpa, já que no pensamento platônico não há este tipo de culpa que leva ao
autoflagelo. Na argumentação agostiniana, o desejo parte da alma que está presente
em todo o corpo, portanto, este desejo tem uma origem na própria pessoa12. Já na fi-
losofia platônica o desejo é do corpo e este é algo necessário. A virtude está em saber
lidar com estes desejos e não dedicar sua vida a eles. Em Agostinho pode-se inferir
que o próprio fato de estar encarnado, gera um sentimento de culpa, já que a vida
espiritual e a vida “profana” são incompatíveis.

Outro aspecto interessante da posição Agostiniana e suas consequências históricas é


a visão paradoxal criada na Idade Média, que consiste em conceber o corpo de forma
sagrada e profana ao mesmo tempo. O corpo é profano, por ser a entrada para o pe-
cado e por simbolizar a decadência por sua efemeridade. Ao mesmo tempo, o corpo
é visto de forma sagrada, pois é criação divina, participa da transcendência e constitui
a identidade da pessoa. Diferentemente da visão platônico-socrática, na qual o corpo
seria apenas uma “roupa” que usamos neste “período” no qual estamos encarnados
e não temos nenhum aspecto deste depois que desencarnarmos, na idade média, o
corpo é parte integrante da pessoa, na medida em que ela preserva aspectos de sua
fisionomia após a morte, como no exemplo das aparições, nas quais os santos preser-
vam o semblante que tinham quando encarnados. Na doutrina cristã a ressurreição
se dá de corpo e alma.

12 O termo “pessoa” já sugere a ideia de interioridade colocada por Agostinho no pensamento ocidental e que inexiste no
pensamento platônico

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SUMÁRIO 85
Filosofia

Em Agostinho, e na visão medieval como FIGURA 21 - SANTOS CATÓLICOS À VENDA


um todo, temos a ideia de dualismo psi- EM UMA LOJA

cofísico, ou seja, de separação ente cor-


po e alma, apesar desse não ser tão radi-
cal como o de Platão, por propor a ideia
de uma mescla entre corpo e alma. Mas
mesmo assim, corpo e alma são con-
cebidos de forma hierárquica, a alma,
representando a pureza, é mais impor-
tante do que o corpo, representante de
uma espécie de mácula na alma, já que
leva ao pecado. Os textos apologéticos
Fonte: Shutterstock, 2018.
de Santo Agostinho, trouxeram as ideais
platônicas, que serviram de base teórica do cristianismo e na Idade média provoca-
ram uma “sacralização” do corpo, que passou a ser a porta de entrada para o pecado.
Podemos afirmar, seguindo o filósofo Kierkegaard - dinamarquês, pai do existencia-
lismo - que o cristianismo introduziu a sensualidade no mundo ocidental: Como prin-
cípio, força e sistema, a sensualidade em sua origem foi colocada pelo cristianismo e,
neste sentido, foi o cristianismo que a introduziu no mundo (KIERKEGAARD, 1978)13.

5.1.3 DESCARTES E A DESSACRALIZAÇÃO DO CORPO

No pensamento cartesiano temos um processo de dessacralização do corpo advindo


de sua argumentação categoricamente laica, que concebe o homem a partir de duas
substâncias distintas: a alma (res cogitans) e o corpo (res extensas). Descartes parte
da dúvida metódica para chegar à sua primeira ideia clara e distinta: não é possível
duvidar do próprio ato da dúvida e, por mais cético que se seja não há como colocar
em questão o fato de que existe um ser que duvida. A partir desta certeza, Descartes
confere um estatuto ontológico a esta substância que duvida e a chama de substân-
cia pensante. A partir da prova ontológica de Deus, Descartes concebe a existência do
corpo enquanto uma substância extensa, diferente da alma, e sem nenhum aspecto
transcendental. Se na Idade média a abertura de um cadáver significava uma invasão
da intimidade daquela pessoa, Descartes concebe o corpo como uma máquina, que
opera seguindo leis necessárias, que podem ser compreendidas pela razão humana.
Esta tem o mesmo modo de operar da razão divina.

13 KIERKEGAARD, Sören. Textos selecionados por Reichmann, Ernani, Curitiba: UFPR, 1978.

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86 SUMÁRIO
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Filosofia

A diferença que existe entre um corpo vivo e um corpo morto.

Pra evitarmos, então, esse equívoco, devemos considerar que a morte nunca
ocorre por culpa da alma, mas apenas porque algumas das principais par-
tes do corpo se deterioram; e julguemos que o corpo de um homem vivo
difere daquele de um morto como um relógio, ou outro autômato (ou seja,
outra máquina que mova por si mesma), quando está montado e tem em si
o princípio corporal dos movimentos para os quais foi construído, com tudo
o que se exige para a sua ação, distingue-se do mesmo relógio, ou outra má-
quina, quando está quebrada e o princípio de seu movimento para de atuar14.
(DESCARTES, 1999)

Dessa forma, Descartes separa radicalmente corpo e alma e garante a laicização que a
ciência necessitará nos próximos séculos. Porém esta separação acaba gerando uma
cisão no conhecimento: o objetivismo da ciência de um lado e o idealismo filosófico
de outro. A partir disso, o objeto tornou-se exterioridade pura como se fosse uma rea-
lidade em si mesma, preexistente ao conhecimento e com relações de casualidade.
O filósofo francês, Foucault15, afirma que

A vida, a doença e a morte constituem agora uma trindade técnica e concei-


tual. A velha continuidade das obsessões milenares que colocava, na vida, a
ameaça da doença e, na doença, a presença aproximada da morte é rompida
(FOUCAULT, 2003)

FIGURA 22 - O CORPO COMO UM OBJETO DE ESTUDO

Fonte: Shutterstock, 2018.

14 DESCARTES. Discurso do Método, As Paixões da Alma, Meditações. Trad. Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
(Coleção Os Pensadores) pág. 107-108.
15 FOUCAULT, Michel, O Nascimento da clínica, Rio de Janeiro, Forense, 2003. pág. 165.

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SUMÁRIO 87
Filosofia

Descartes compartilha da ideia renascentista, sintetizada na famosa frase de Galileu,


segundo a qual o mundo é um livro aberto escrito em linguagem matemática, ou seja,
pelo fato da razão humana compartilhar do modo como a razão divina opera, o ho-
mem seria capaz de responder todas as perguntas e até mesmo “dominar a natureza”.
Este é um ponto de diferença com o pensamento platônico, no qual o mundo sen-
sível seria puro devir, ou seja, irracionalidade. Se foi dito acima que Platão representa
filosoficamente o início da cisão natureza / cultura - pois é como se o homem (razão)
se sentisse estranho ao mundo (irracionalidade) - em Descartes esta cisão natureza
/ cultura toma outra significação. O pensamento cartesiano, por meio de seu cará-
ter mecanicista, encontra no próprio mundo empírico sua correspondência, já que o
mundo opera segundo as mesmas leis que são compreensíveis pela razão humana.
Chegamos a uma espécie de “cosmologia” moderna, pois a verdade é alcançada por
meio da experiência no mundo e, apesar de nossos sentidos nos enganarem e, sendo
o entendimento a faculdade capaz de ajuizar o mundo, em Descartes, a ideia clara e
distinta começa com a experiência sensível. Um bom exemplo encontra-se nas “Me-
ditações”, onde Descartes descreve o famoso exemplo da cera no qual ele pega um
pedaço de favo de mel que contém cheiro, produz determinado som ao ser tocado e
tem uma série de características perceptíveis sensivelmente, mas ao aproximar esta
cera do fogo, ela muda completamente de aparência e, para os sentidos, já não seria
a mesma coisa, pois agora ela derreteu e está líquida, já não tem mais cheiro e não
produz mais som ao ser tocada. Dessa forma, Descartes conclui que é o entendimento
e não os sentidos que produzem o conhecimento do objeto, já que é somente pelo
entendimento que sou capaz de saber que aquilo ainda é a mesma cera. Certamente
essa conclusão cartesiana permeia a noção de ensino-aprendizagem da escola tradi-
cional, se afastando da experiência em direção à contemplação e abstração.

Portanto, se em Platão, a experiência sensível revela um mundo irracional e equivo-


cado, fonte de todos os males e imperfeições, em Descartes o mundo é visto como
ordenado por leis racionais que nos são acessíveis e por uma ideia de ordenação.
A natureza segue princípios que são necessários, universais e compreensíveis e a pro-
va de Deus permite que Descartes conheça a si mesmo e ao mundo empírico, já que
este se ordena a partir da razão divina da qual ele participa.

Mesmo com Descartes chegando mais perto da experiência sensível e Agostinho


atenuando a dicotomia corpo / alma, a visão dualística persiste e a ideia do mun-
do enquanto objeto preexistente e da alma enquanto substância distinta da ma-
téria prevalecem.

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5.2 SALA DE AULA: ESPAÇO PARA O FILOSOFAR

O modelo atual de sala de aula não se difere muito de uma sala de aula da idade
média: cadeiras enfileiradas, uma de costas para a outra, um professor na frente de
todos, como que diante de uma plateia passiva, a lousa e os cadernos para “copiar a
matéria”. Este modelo é um paradigma extremamente incorporado por nossa cultura
e se faz necessário sempre discuti-lo e problematizá-lo.

FIGURA 23 - SALA DE AULA MEDIEVAL EM BUNRATTY, IRLANDA.

Fonte: Shutterstock, 2018.

O nome da escola de Platão na antiguidade era “academia”.


Ela ganhou este nome pelo fato de um amigo de Platão,
chamado Academus, ter doado o espaço. Nesta escola a prá-
tica de exercícios físicos e de aulas de matemática, filosofia
e conhecimentos gerais era bem equilibrada. É por isso que,
na atualidade, o termo academia designa, tanto o ambiente
universitário, quanto as academias de ginástica.

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Filosofia

Porém, no decorrer da história do pensamento ocidental, uma dicotomia foi se es-


tabelecendo entre corpo e alma, sempre colocando a alma como mais importante
que o corpo. Atualmente, percebemos isso nitidamente, quando, por exemplo, ana-
lisamos um currículo escolar do ensino fundamental e percebemos o quanto algu-
mas disciplinas são consideradas centrais, em detrimento de outras marginalizadas.
O aluno tem seis aulas de matemática, seis de português, quatro de biologia, geogra-
fia, história, duas de educação física e uma de filosofia e artes, por exemplo. Nitida-
mente percebemos que alguns conteúdos são mais centrais que outros e a corporei-
dade da educação física, ficou relegada à margem do currículo, sendo tratada como
uma disciplina não séria, justamente por ter como foco, o corpo.

5.2.1 OS PERIPATÉTICOS

Aristóteles tinha o hábito de ensinar ao ar livre, caminhando nos arredores do Liceu,


a escola que fundou depois de romper com Platão. Seus alunos eram conhecidos
como peripatéticos, ou, ambulantes, itinerantes. Este hábito ficou conhecido na anti-
guidade e nos chegou por meio de muitos comentários sobre a excentricidade dessa
prática ao longo da história.

Aristóteles estudou vinte anos com Platão até a ruptura com seu mestre. Ele disse
que era muito amigo de Platão, mas mais amigo da verdade. A escola de Platão,
a Academia, tinha um curso que durava quarenta anos. Hoje ficamos horrorizados
com essa duração, porém nosso estranhamento vem de um paradigma da educação
tradicional que compreende a escola como uma espécie de preparação para a vida.
Já Platão, entendia sua escola como algo para ser paralelo à vida. Não algo que vai
preparar a pessoa para, depois de formada, poder viver, mas sim algo que dá suporte
constante à vida. Essa concepção de educação, segundo a qual existe um momento
em que o conhecimento e a formação se efetivam e não é mais necessário aprender,
é muito perigosa. Na verdade nunca paramos de aprender e não há esse momento
em que você está apto a exercer algo de modo pleno.

Na escola, a filosofia é vista como uma disciplina marginal, desprovida da urgência de


uma disciplina como matemática ou português. O tempo que é destinado à filosofia,
normalmente é bem menor do que o tempo destinado a outras disciplinas e então
é necessário fazer esta disciplina se tornar transformadora na vida dos alunos. Se a
filosofia repetir a lógica conteudista das disciplinas centrais, corre-se o risco de cair
naquela armadilha da “decoreba” para passar em provas.

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Existe, basicamente, dois modos de se trabalhar a filosofia sala de aula. O primeiro é


basear-se nos autores, seguindo a periodização temporal, de modo que o educando
perceba o encadeamento de ideias e como se dá este itinerário ao longo da história
do pensamento ocidental. O segundo é trabalhar por temas como razão, justiça, li-
berdade, direitos humanos etc. Assim, a partir de questões suscitadas pelos temas,
as teorias filosóficas aparecem como possibilidades de problematizações e aprofun-
damento dos tais temas. A filosofia é, antes de tudo, uma atitude diante do mundo e
implica um exercício constante de reflexão. Se a filosofia começa no espanto, como
disse Platão, é necessário provocar os educandos por meio de visões diferentes, des-
locamentos, ressignificações e ruptura de paradigmas, constatação de conceitos pré
concebidos e a necessidade de repensá-los, sempre.

Normalmente, nas questões tratadas na filosofia, há uma característica que transcen-


de o tempo e o espaço, justamente por sua universalidade. Uma questão filosófica
pode sempre se adequar ao tempo em que está sendo feita, pode sempre ser atuali-
zada. É comum lermos o Mito da Caverna de Platão e, relacionarmos com a nossa vi-
vência do mundo em nosso próprio tempo. Portanto, a filosofia só é autêntica na sala
de aula se realmente o educador propor situações que promovam a reflexão. Assim,
na hora de perfazer os caminhos traçados pelos próprios filósofos, na construção de
seus pensamentos, o educando terá mais facilidade de compreensão.

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5.2.2 A FILOSOFIA É PARA POUCOS

A filosofia sempre foi, de certa forma, algo reservado a um grupo pequeno, desde a
antiguidade. Platão tinha convicção de que os filósofos seriam sempre minoria em
uma sociedade. Sócrates e Platão não concordavam com a democracia de Atenas,
afinal, foram as leis atenienses que condenaram Sócrates, em um processo legal,
porém, injusto. Platão, então, concebeu, em termos teóricos, uma sociedade que
seria governada pelos filósofos, pois estes estariam mais próximos do conhecimento

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Filosofia

verdadeiro. Segundo Platão, nossa essência é a razão, ou o logos. Somente no mun-


do das ideias, de onde, teoricamente viemos, as coisas se mostrariam em sua pleni-
tude. Platão, relendo a mitologia de sua época, afirmava que, ao transmigrarem do
Hades, as almas passariam pelo Rio Letes, ou Rio do Esquecimento, e esqueceriam
as vidas passadas, como foi dito acima. Esta leitura da mitologia de sua época é
uma característica da filosofia nascente, que dialoga com o mito, mas o utiliza para
construir sua argumentação racionalista, por meio da qual ele justifica o fato de exis-
tirem poucos filósofos no mundo. A justificativa seria justamente essa: a maioria das
pessoas beberiam a água do rio do esquecimento, chegando a este mundo sem se
lembrarem de nada e os filósofos seriam aqueles que teriam bebido menos do rio
do esquecimento, por isso se lembrariam melhor do mundo das ideias. Aqui temos
dois pontos importantes. Primeiro, que Platão não nega por completo a mitologia
de sua época, mas sempre a questiona e a ressignifica de acordo com sua teoria.
O segundo é que, para Platão, todas as ideias seriam inatas, ou seja, já sabemos tudo
sobre todas as coisas e o que chamamos de aprendizado, seria, na verdade, um
relembrar daquilo que foi esquecido. Chamamos de teoria da reminiscência, esse
ponto da teoria platônica, segundo o qual aprender seria lembrar. Se o termo letes,
que dá nome ao rio na mitologia grega, significa esquecimento, o termo verdade,
em grego, é aleteia, ou seja, o não esquecimento. Dessa forma, Platão, na antiguida-
de, já havia constatado que os filósofos seriam a minoria nas sociedades. Fato que se
verifica até os dias de hoje.

Na idade antiga surge a filosofia, mas, ela exige um esforço, um deslocamento, um


sair do lugar comum. Como o próprio Platão nos disse, sair da caverna é algo doloro-
so, difícil, mas recompensador. Porém, poucos estão dispostos a isso. Quando Tales
de Mileto, por exemplo, conseguiu a proeza de prever um eclipse, indo contra toda
a concepção mitológica de sua época, segundo a qual o eclipse seria um interven-
ção divina, ou Zeus, principal deus do olimpo, tapando o sol com a mão, Tales quis
mostrar para todos que aquilo que ele fez, poderia ser compreendido por qualquer
um. Porém, esta compreensão não seria algo imediato, pois seria necessário muito
estudo de matemática de astronomia, disciplina e observação sistemática do céu du-
rante um longo período. As pessoas comuns preferiam acreditar nos boatos que di-
ziam que Tales seria um semideus, que se encontrava com Zeus, por isso ficou saben-
do do eclipse e não que ele realmente desvendou o mecanismo natural do eclipse.
Ou seja, a atitude filosófica é algo que exige uma saída do lugar comum, um descon-
forto, coisa que poucos estão dispostos. Por isso os filósofos seriam sempre a minoria.

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Filosofia

No decorrer da história do pensamento ocidental, podemos verificar esta tese.


Na idade média, só tinha acesso ao conhecimento filosófico os membros do clero,
e sempre em função da verdade revelada por Cristo. Na idade moderna, a tese he-
liocêntrica - aquela segundo a qual a terra gira em torno do sol e não o oposto - por
exemplo, levou séculos para ser aceita pelas pessoas, assim como a teoria da evolução
ainda enfrenta a resistência de conservadores incautos. Na idade moderna a filoso-
fia se separa da ciência. A Revolução industrial, que altera a vida nas sociedades de
modo inédito e irreversível - mudando os meios de produção da manufatura para a
maquinofatura - tem a ciência como uma aliada e há um processo de grandes inves-
timentos nesta ciência nascente, que se torna o cerne da sociedade pós moderna.
A ciência, então, passa a ser a instituição que determina o verdadeiro e o falso.
Se, na idade média, essa função era exercida pela autoridade da igreja, agora a ciên-
cia assume este lugar e se torna o centro da modernidade.

Hoje a indústria utiliza as pesquisas científicas como argu-


mentos de autoridade para comprovar a eficácia de seus
produtos. A indústria de cosméticos, por exemplo, sempre
utiliza a expressão “cientificamente comprovado”

Nesse movimento a filosofia se manteve naquele lugar marginalizado no qual ela


sempre esteve, porém, sua filha ilustre, a ciência, se tornou poderosa e necessária
para o capitalismo. A filosofia preferiu manter-se no lugar da desconfiança, da crítica
e do questionamento. Enquanto a ciência se aproximou do mundo prático, promo-
vendo a tecnologia, proporcionando soluções para problemas que ela mesma criou,
a filosofia manteve-se em sua função especulativa e reflexiva.

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5.2.3 OS FILÓSOFOS MIDIÁTICOS

FIGURA 24 - JEAN PAUL SARTRE

Jean Paul Sartre

Com o surgimento dos meios de comunicação de massa, surgem filósofos que pas-
sam a utilizar destes meios para difundir suas ideias. Por exemplo, Karl Jaspers, que
em 1964, foi convidado pela rádio Baviera, na Alemanha para apresentar uma série
de conferências. O filósofo francês, Jean Paul Sartre, também estava constantemente
na mídia e esteve no Brasil na década de sessenta, defendendo esta ocupação. Vários
filósofos se destacaram na mídia no mundo e são conhecidos pelo grande público.
Filósofos como Noam Chomsky, Hannah Arendt, Roland Barthes, Zygmunt Bauman,
Judith Butler, Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Umberto Eco, Felix Guattari, Herbert
Marcuse, Slavoj Žižek e tantos outros. No Brasil temos Vladimir Safatle, Silvio Gallo,
Renato Janine Ribeiro, Paulo Ghiraldelli Jr., Oswaldo Giacóia Júnior, Viviane Mosé,
Marilena Chauí, Márcia Tiburi, Leandro Karnal, Mario Sergio Cortella etc. Temos inú-
meros exemplos de pensadores que utilizaram estes recursos e tantos outros que se
recusaram, por meio de uma crítica ferrenha aos meios de comunicação de massa.

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Filosofia

Paralelamente a este movimento de midiatização da filosofia, assistimos sua ascen-


são, se tornando obrigatória no governo Lula e, agora, com a reforma do ensino mé-
dio, de caráter tecnicista, vemos, mais uma vez, a filosofia relegada ao segundo plano.
Por isso essa relação da filosofa com as novas mídias possa ser muito saudável e aju-
dar a preencher esta lacuna.

Este lugar específico que a filosofia sempre teve no decorrer da história, ora vista
como algo pertencente a uma minoria e ora marginalizada por inúmeros motivos, é
também um lugar de resistência e muitos filósofo o defendem. De qualquer forma,
a filosofia implica a desconfiança, o questionamento, o lugar incomum, pois onde só
há certezas não há filosofia.

Existe uma entrevista concedida por Jean-Paul Sartre à TV


Tupi em 2 de setembro de 1960, dia em que ele e Simone de
Beauvoir desembarcavam no aeroporto de Congonhas, em
São Paulo, para uma temporada no Brasil. O escritor brasilei-
ro Jorge Amado e sua mulher Zélia Gatai organizaram todo
o cronograma da visita do filósofo ao Brasil que encontrou
aqui outras personalidades como o arquiteto Oscar Nieme-
yer e o pintor Di Cavalcante, entre outros. Procure e assista!

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SUMÁRIO 95
Filosofia

CONCLUSÃO
Qual seria, portanto, o corpo da filosofia? Vimos que, historicamente, há um movi-
mento de renegação do corpo em prol da alma. Dessa forma, a ideia, segundo a qual
o conhecimento seria algo oriundo do pensamento, prevalece na história ocidental e
a educação se torna, então, um movimento de docilizacão dos corpos, os enquadran-
do em um sistema conteudista que não valoriza a experiência empírica, corporal.
A própria filosofia se torna muito abstrata e isso a afasta do público em geral, dificul-
tando sua propagação. Dessa forma, se faz necessário questionarmos estes modos,
por meio dos quais os paradigmas da educação se formaram.

O corpo precisa assumir um papel mais relevante no processo educacional, mas,


como vimos, há uma tradição que atravessa milênios de negação do corpo, por isso
este desafio é tão grande.

Na atualidade, assistimos a um complexo processo de transição que nos apresenta


rupturas constantes nos modos de lida com a tecnologia e com o próprio modo de
aprender e ensinar. A apropriação das mídias por parte dos filosofia é um interessante
movimento de propagação do pensamento filosófico que precisa ser apropriado pela
escola, assim como todo o aparato tecnológico. O professor precisa utilizar smartpho-
nes e tablets a seu favor, de modo que se transformem em ferramentas didáticas.

Se os filósofos sempre foram minoria na história, quem sabe, nesse contento atual
de rupturas e revolução digital, a filosofia não se torne algo acessível e apaixonante,
como em sua própria etimologia que sugere a ideia de amor pela sabedoria.

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Filosofia

UNIDADE 6

OBJETIVO
Ao final desta
unidade,
esperamos
que possa:

> Comparar os conceitos de ética e moral.

> Diferenciar ética, moral e senso comum.

> Explicar o caráter filosófico da ética

> Valorizar o estado laico como base para


a ética moderna.

> Identificar o caráter universal da ética e o


caráter cambiante da moral.

> Explicar o conceito de esclarecimento


para Kant

> Formular uma interpretação de sua


futura profissão por meio da ética
profissional.

> Diferenciar religião e religiosidade

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SUMÁRIO 97
Filosofia

INTRODUÇÃO DA UNIDADE
O que é ética? O que é moral? Estes termos estão muito presentes na mídia e no vo-
cabulário de qualquer pessoa. A todo momento, ouvimos que determinado político
não teve ética ou que um outro político disse defender a moral e os bons costumes.
Normalmente estes termos aparecem associados à política, mas, na vida cotidiana,
também os encontramos em muitos outros lugares e com significados muito dife-
rentes. Por exemplo, quando se diz, na gíria, que alguém “teve as moral”, estamos
diante de uma constatação da habilidade de alguém para determinada tarefa, ou
quando dizemos que o professor “não tem moral com a turma”, queremos dizer que
ele não consegue exercer sua autoridade, ou ainda, quando dizemos que alguém está
com “a moral abalada”, queremos dizer que esta pessoa está com sua estima baixa.
Estes significados que permeiam o senso comum, mas, academicamente, existe um
significado que engloba todos esses e ainda é mais profundo.

O termo ética também apresenta diversas utilizações no senso comum que se dife-
rem de seu sentido filosófico. Dizemos, utilizando o termo como um adjetivo, que algo
não é ético, ou dizemos ainda que alguém não teve ética para conduzir uma deter-
minada situação, temos também, nas empresas, os códigos de ética e os conselhos
de ética, por exemplo. São utilizações diversas, que habitam o nosso dia-a-dia e nos
deixam, de certa forma, familiarizados com esses termos. Porém, na academia, temos
definições próprias, que conferem a esses termos a condição de conceitos filosóficos.

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98 SUMÁRIO
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Filosofia

6 ÉTICA, MORAL E
SOCIABILIDADE
Nesta unidade veremos as diferenças e semelhanças entre os conceitos de ética e
moral, como esta se relaciona com o senso comum e como a ética se relaciona com
a filosofia. Veremos a importância do estado laico para a ética moderna a partir do
conceito de esclarecimento de Immanuel Kant. Discutiremos ainda algumas ques-
tões sobre ética profissional e falaremos da diferença entre religião e religiosidade.

6.1 ÉTICA E MORAL

6.1.1 ÉTICA, MORAL E FILOSOFIA

Em termos acadêmicos, a ética é, antes de tudo, um campo do conhecimento filosó-


fico. Do mesmo modo que temos, dentro da filosofia, várias áreas de atuação e espe-
cialidades - como, por exemplo a epistemologia, que lida com as questões relativas
ao conhecimento, ou a estética, que trabalha com questões como, o que é o belo ou
o que é a arte, ou, ainda, a lógica que estuda a linguagem - a ética é mais um campo
do conhecimento filosófico e seu objeto de estudo é a moral e o comportamento hu-
mano diante dela, a partir de questões como o que é a justiça ou o que é a bondade.
Questões essenciais para Sócrates que, na idade antiga, foi o primeiro filósofo a se
dedicar às questões humanas, antes das questões sobre a natureza. Por isso Sócra-
tes é considerado o “pai da ética”. Como podemos constatar, a ética é uma temática
que ocupa o pensamento ocidental há mais de vinte seis séculos. Porém, ao mesmo
tempo, ainda é algo desprovido de um consenso e, temos a sensação de que ainda
precisa ser muito estudada e praticada, diante de tantas notícias sobre corrupção e
condutas reprováveis que assistimos na mídia constantemente.

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SUMÁRIO 99
Filosofia

6.1.2 ÉTICA, MORAL E ESTADO LAICO

Enquanto a ética, assim como toda a filosofia, busca a universalidade, ou seja, aquilo
que vale em qualquer época e lugar, seu principal objeto de estudos, que é moral,
está em constante transformação. A moral é o conjunto de regras, crenças, tradições,
costumes, leis e todo elemento que regula a conduta humana. Portanto, a moral cos-
tuma mudar de lugar para lugar e de época para época, pois está diretamente ligada
à cultura de determinado lugar e de determinada época.

Por exemplo, atualmente, na Índia, comer carne de boi é algo condenável, tanto em
termos legais, quanto em termos religiosos, inclusive, essa separação entre estado
e religião é uma das bases da ética contemporânea. A Índia, por exemplo, se diz
um estado laico, mas tem pena legal para quem consumir ou estocar carne bovina.
Já aqui no Brasil, a maioria das pessoas consome carne bovina diariamente e não
há nenhuma questão legal, nem religiosa, envolvida neste ato. O que não quer dizer
que não tenhamos, em nossas legislações, elementos que sejam herança de um pas-
sado monárquico, no qual a igreja católica era parte integrante do estado brasileiro.
Por exemplo, até hoje nossa legislação isenta as igrejas de impostos e nosso congres-
so exibe um crucifixo na parede principal. Essa analogia do Brasil com a Índia revela
o quão complexo são as questões éticas. Enquanto na Índia, proíbe-se algo que aqui
no Brasil, fazemos corriqueiramente, podemos perceber que, em ambos os países,
as leis estão repletas de elementos ligados aos costumes, crenças e tradições e, que
a base da ética contemporânea, que é o estado laico, é algo que não se efetivou em
nenhum dos dois países.

FIGURA 25 - VACAS NA RUA NA ÍNDIA

Fonte: Shutterstock, 2018.

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100 SUMÁRIO
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Filosofia

6.1.3 ÉTICA UNIVERSAL E MORAL CAMBIANTE

As diferenças de costumes e crenças, nos mostram como a moral é cambiante, por


ser espacial, pois muda de lugar para lugar e, também, por ser temporal, pois trans-
forma-se constantemente, mudando de época para época. A moral pode, também,
ser diferente em dois lugares distintos em uma mesma época. Por exemplo, nos dias
de hoje, ser mulher nos países árabes é algo muito diferente de ser mulher no Brasil,
pois as identidades de gênero são construídas culturalmente e estão em constante
transformação, assim como tudo o que pertence à moral.

FIGURA 26 - MULHERES DE BURCA NA TURQUIA

Fonte: Shutterstock, 2018.

Na década de 1960, a atriz Leila Diniz escandalizou o país


ao exibir sua gravidez com um biquíni na praia. Hoje todos
achamos normal uma mulher utilizar um biquíni durante
a gravidez, porém, na década de 1960, os valores eram di-
ferentes e as pessoas consideravam um atentado ao pudor
exibir a barriga quando se estava grávida.

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SUMÁRIO 101
Filosofia

Em todas as épocas, as mais diversas formas de culturas, estabeleceram regras de


conduta que se mostram bem diferentes entre si, sendo árdua a tarefa de tentar en-
contrar algo que seja comum a todas estas diferentes culturas. São diversas as formas
de manifestação da humanidade por meio da cultura. No séc. VI a.C a filosofia surge
a partir da proposta de Tales de Mileto, de encontrar aquilo que seria a essência de
todas as coisas. Há uma busca pela unidade, pela resposta tangível, única, imutável,
transcendental, que vale em qualquer época e lugar. Sócrates surge e redireciona este
novo modo de pensar o mundo - que veio a se chamar filosofia - da natureza para o
homem. Ou seja, enquanto os filósofos pré-socráticos buscavam a essência da natu-
reza, Sócrates busca a essência do próprio homem. Portanto a ética surge no seio do
racionalismo idealista, buscando essa essência, só que agora, transformada em logos,
ou em conceito. Portanto, a Ética busca por universalidade, pois é necessário encon-
trar aquilo que seria a essência do homem, por detrás de seus atos, aquilo que estaria
em todas as formas de existência do homem, valendo em qualquer época e lugar.

6.1.4 DEMOCRACIA, VIOLÊNCIA, PUDOR E


SEXUALIDADE

Outro bom exemplo do modo como a moral é cambiante é o próprio conceito de pu-
dor, que se mostra sempre em transformação, ora em um movimento mais libertário,
ora mais reacionário e repressivo. Continuemos a contrastar as visões filosóficas e aca-
dêmicas dos termos ética e moral e, também, de temas que se desdobram a partir
dessa relação, como, por exemplo, a violência e a sexualidade. Vejamos como o senso
comum percebe estes conceitos e como nos relacionamos com temas desse tipo.

Os noticiários da tv aberta estão repletos de programas policiais que sensacionali-


zam a violência, a transformando em objeto de consumo. Estes programas passam
a impressão que a sociedade caminha para uma condição na qual a violência está
sempre aumentado, como se fosse, cada vez mais perigoso, ocupar os espaços pú-
blicos e como se os bandidos estivessem cada vez mais ousados. Mas, se analisamos
os dados estatísticos de institutos de pesquisa, sobre a violência nas últimas décadas,
veremos movimentos diversos, nos quais determinada cidade reduziu imensamen-
te os índices de violência, enquanto outras aumentaram em uma época e, depois,
tornaram a diminuir em outra, em um complexo movimento, que envolve muitos
fatores, que vão, desde pormenores específico de cada cidade, a situação econômica

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102 SUMÁRIO
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Filosofia

do país, a distribuição de renda, até a presença, ou ausência, de políticas públicas que


combatam a violência e distribuam renda, forneçam educação e oportunidade para
as classes marginalizadas etc.

FIGURA 27 - ARMA

Fonte: Shutterstock, 2018.

Portanto, essa sensação, de que estamos nos tempos mais violentos que já existiram
em toda a humanidade, é falsa. A democracia se estabelece no espaço público e a
ocupação desses espaços é crucial para sua manutenção. Por isso esse discurso de
aumento de violência, que é produzido pela mídia com a intenção mercantil de au-
mentar a audiência, acaba por prejudicar a própria democracia, criando um constan-
te estado de alerta que, em alguns momentos beira o pânico, por meio de discursos
capciosos, vendidos e consumidos como uma espécie de entretenimento, por uma
grande parcela da sociedade.

Esse discurso, além de desestimular a ocupação do espaço público, transforma a


discussão da violência no Brasil em algo mais passional do que racional, pois a violên-
cia é vendida em termos de sensacionalismo. São casos particulares de pessoas que
têm suas tragédias pessoais transformadas em espécie de peças de entretenimento,
como as próprias novelas televisivas. Assim as pessoas lidam com essas questões,
partindo de uma perspectiva subjetiva, pessoal, passional, associando a elas ódio e
adoração - termos que proveem de relações que historicamente se estabeleceram
em um contexto religioso - com questões sociais, públicas, políticas chegando ao
ponto de repetirem barbaridades como “bandido bom é bandido morto” ou que os

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SUMÁRIO 103
Filosofia

direitos humanos só protegem os bandidos. São leituras rasas e desprovidas de no-


ções básicas de republicanismo, democracia e humanidade, que são produto dessa
falácia. Não é possível demonstrar cientificamente que há um movimento progres-
sivo de aumento constante da violência que nos colocou na época mais violenta de
toda a história, apesar de a mídia passar essa falsa impressão e o senso comum ter
incorporado essa ideia.

No caso do pudor, há também uma sensação semelhante, segundo a qual a socie-


dade estaria cada vez mais libertária, o que é nitidamente falso. Basta pesquisarmos
sobre como a apresentadora de tevê Xuxa se vestia, em seu programa infantil, na dé-
cada de 1980, por exemplo. Aquela indumentária sensual, seria considerada inapro-
priada para crianças, que devem ser protegidas da pedofilia, termo que não estava
em voga na década de 1980.

A própria forma como percebemos o estado laico também apresenta semelhante


distorção. Há uma ideologia liberal, iluminista, que parte da promessa cartesiana, se-
gundo a qual o homem estaria em um processo de emancipação, por meio da ra-
zão, que conduziria o homem à plenitude, curando todas as doenças e respondendo
todas as perguntas, em um movimento de domínio da natureza. Portanto, o estado
laico seria um caminho natural de todas as repúblicas que, por meio da democracia,
educação para todos e tendo seus cidadãos atuando na esfera pública, estes escolhe-
riam democraticamente, por meio da razão, esse caminho.

Porém hoje assistimos a vários movimentos, tanto de países que estão reduzindo o
número de pessoas que se dizem religiosas quanto de países que aumentaram esse
número. Segundo pesquisa da empresa WIN/Gallup, feita com 64 mil pessoas em
65 países, países africanos, do Oriente Médio e do Leste europeu, parecem estar se
tornando cada vez mais religiosos, enquanto que os europeus ocidentais, menos.
Lembrando que o estado laico não é aquele que tem menos pessoas religiosas, mas
sim, aquele no qual as pessoas sabem separar estado e religião. A pesquisa revela que
se trata, não de combater a religião, mas, sim, de vivenciá-la de modo mais conscien-
te e menos servil, mais próximo da espiritualidade. Esta mesma pesquisa verificou
que países com maiores índices de educação, costumam ter mais laicidade.

Portanto, essa ideia, segundo a qual haveria uma tendência de todos as repúblicas
se tornarem laicas, também tem suas controvérsias. Os modos, por meio dos quais a
moral exerce essa constante mudança, são diversos e se entrelaçam em complexas

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104 SUMÁRIO
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relações, ora tendendo para um lado, ora para outro. Em alguns momentos as coisas
mudam, ou avançam e depois voltam a ser como antes, ou regridem, mas, agora, de
uma outra forma, em um movimento circular que se expande, no qual velho e novo
se confundem. Concluindo, a moral está em constante mudança, mas nunca segue
uma mesma direção.

6.2 KANT E O ESCLARECIMENTO

FIGURA 28 - KANT

Fonte: Shutterstock, 2018.

Immanuel Kant (1724 - 1804), filósofo alemão iluminista, elaborou as bases da ética
moderna. Em um pequeno texto intitulado “O que é Esclarecimento?” Kant, em res-
posta pública a um pastor que havia criticado o iluminismo, elabora um argumento
que ainda é essencial para os dias de hoje: a necessidade da separação entre as esfe-
ras pública e privada em um contexto de estado laico.

Quando dizemos “esfera pública”, estamos nos referindo a essa esfera da vida, na qual
atuamos na rua, a partir de um papel social pré-determinado publicamente, no qual
há formalidade, como um cargo institucional, nossa vida profissional etc. Quando di-
zemos “esfera privada”, estamos nos referindo a essa esfera da vida, na qual atuamos
dentro de casa, em nossas vida pessoal e os papéis sociais desempenhados a partir
dela, como o papel de pai, filho etc. sempre mais informalmente e passionalmente.

Kant vai dizer da necessidade de “maioridade da razão” nesses modos de atuação e


de como é imprescindível que, na esfera pública, prevaleça a razão, de modo que a
política seja praticada em termos de estado laico. Para tal, Kant afirma ser necessário

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uma atitude de ousadia, contra a preguiça e a comodidade da menoridade da razão.


Seria necessário ousar saber! Se libertar dos tutores e pensar por si mesmo. Veja este
trecho do famoso texto de Kant:

O Esclarecimento é a saída do homem da condição de menoridade auto-im-


posta. Menoridade é a incapacidade de servir-se de seu entendimento sem a
orientação de um outro. Esta menoridade é auto-imposta quando a causa da
mesma reside na carência não de entendimento, mas de decisão e coragem
em fazer uso de seu próprio entendimento sem a orientação alheia. Sapere
aude! (Ousai saber!) Tenha coragem em servir-te de teu próprio entendimen-
to! Este é o mote do Esclarecimento. Preguiça e covardia são as causas que
explicam por que uma grande parte dos seres humanos, mesmo muito após a
natureza tê-los declarado livres da orientação alheia (naturaliter maiorennes),
ainda permanecem, com gosto e por toda a vida, na condição de menorida-
de. As mesmas causas explicam por que parece tão fácil outros afirmarem-se
como seus tutores. É tão confortável ser menor! Tenho à disposição um livro
que entende por mim, um pastor que tem consciência por mim, um médico
que me prescreve uma dieta etc.: então não preciso me esforçar. Não me é ne-
cessário pensar, quando posso pagar; outros assumirão a tarefa espinhosa por
mim; a maioria da humanidade (aí incluído todo o belo sexo) vê como muito
perigoso, além de bastante difícil, o passo a ser dado rumo à maioridade, uma
vez que tutores já tomaram para si de bom grado a sua supervisão. Após te-
rem previamente embrutecido e cuidadosamente protegido seu gado, para
que estas pacatas criaturas não ousem dar qualquer passo fora dos trilhos nos
quais devem andar, os tutores lhes mostram o perigo que as ameaça caso
queiram andar por conta própria. Tal perigo, porém, não é assim tão grande,
pois, após algumas quedas, aprenderiam finalmente a andar; basta, entretan-
to, o exemplo de um tombo para intimidá-las e aterrorizá-las por completo
para que não façam novas tentativas. É, porém, difícil para um indivíduo li-
vrar-se de uma menoridade quase tornada natural. Ele até já criou afeição por
ela, e, por suas próprias mãos, é efetivamente incapaz de servir-se do próprio
entendimento porque nunca lhe foi dada a chance de tentar. (KANT, 2010.)

Para Kant, o esclarecimento, ou o iluminismo, seria esse movimento de emancipa-


ção do homem de seus tutores em direção a uma autonomia, que caracterizaria a
maioridade da razão. Dessa forma, segundo Kant, a religiosidade, os sentimentos, a
subjetividade etc. poderiam se manifestar perfeitamente na esfera privada, mas na
esfera pública, deve prevalecer a razão:

Para o esclarecimento, porém, nada é exigido além da liberdade; e mais espe-


cificamente a liberdade menos danosa de todas, a saber: utilizar publicamente
sua razão em todas as dimensões. Mas agora escuto em todos os cantos: não
raciocineis! O oficial diz: não raciocineis, exercitai-vos! O Conselho de Finanças:
não raciocineis, pagai! O líder espiritual: não raciocineis, crede! (um único se-
nhor no mundo pode dizer: raciocinai o quanto quiser, e sobre o que quiser;
mas obedecei!) Por todo canto há a restrição da liberdade. E qual restrição
serve de obstáculo para o esclarecimento? Qual não o impede e até mesmo
o sustenta? Respondo: o uso público do entendimento deve ser livre em qual-
quer momento, e só ele pode gerar o esclarecimento entre os seres humanos;
o uso privado do mesmo pode freqüentemente ser bastante restrito, sem que,
todavia, o progresso do esclarecimento seja, por isso, impedido. (KANT, 2010)

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Observe que Kant, quando fala que existe um único senhor que diz para racionar o
quanto quiser, mas obedecer, faz uma menção ao rei da Prússia (atual Alemanha)
Frederico II, que era um déspota esclarecido, ou seja, um monarca que aderiu aos
ideais iluministas, abrindo mão de seu poder político, mas se mantendo na condição
de influência nacional. Vejam que situação interessante! Um filósofo iluminista, que
defende a separação entre igreja e estado, a democracia e a república, encontra-se
em uma monarquia e esta publicando um texto sobre o que é o esclarecimento ou
o iluminismo. É curioso percebermos o modo como Kant elabora sua narrativa por
conta deste paradoxal contexto, defendendo o iluminismo, e, ao mesmo tempo, re-
conhecendo a postura esclarecida do rei Frederico II.

Os ideais iluministas ainda estão em processo de efetivação, pois, como disse Marx, a
infraestrutura, ou a parte material, como a tecnologia por exemplo, muda muito mais
rapidamente que a superestrutura, que é o pensamento e a própria cultura. Dessa
forma, para que ideias como liberdade de crença, liberdade de expressão e repre-
sentatividade se efetivem, o estado laico se torna elemento básico e uma verdadeira
bandeira a ser levantada por todos que defendem a democracia e o republicanismo.

O mais famoso exemplo de despotismo esclarecido é a fa-


mília real britânica, que se mantêm em um lugar de pres-
tígio e privilégios, mas não tem mais o poder político de
outrora, que atualmente é exercido pelo parlamento.

FIGURA 29 - FAMÍLIA REAL BRITÂNICA

Fonte: Shutterstock, 2018.

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6.2.1 ÉTICA PROFISSIONAL

Se você é um pedagogo, administrador, psicólogo, engenheiro, ou qualquer outra for-


ma de atuar no mercado por meio de trabalho especializado - este que necessita de
formação acadêmica - sua profissão tem a ciência como chancela, ou seja, é a ciên-
cia que dá credibilidade, condições e comprovação de que sua atuação é eficiente.
Por isso, toda atuação profissional, no âmbito do trabalho especializado, vai ter de
seguir determinadas regras estabelecidas pelo método científico, que são a base de
códigos de ética, conselhos federais etc. E, antes de tudo, sua atuação deve seguir
aqueles procedimentos que já foram testados e comprovados cientificamente como
os mais adequados e eficientes. Pois, o que te autoriza a exercer tal profissão é justa-
mente o diploma concedido por uma instituição que está subordinada a um governo
(a ciência se desenvolve melhor no estado laico). No Brasil, todas as instituições de
ensino, tanto da rede pública, quanto da rede privada, estão subordinadas à regras
do Ministério da Educação, que determina quais os conteúdos são necessários para
tal formação, fiscaliza e avalia as instituições de ensino e garante que somente espe-
cialistas, mestres e doutores serão os professores. Ou seja, por detrás de todo conhe-
cimento, técnica e inovação está a ciência.

Há todo um arcabouço regulatório que busca garantir que todo método, procedi-
mento e conhecimento, sejam comprovadamente os mais exitosos até o momento,
levando em conta que a própria ciência está em constante construção e mudan-
ça, por isso a necessidade, cada vez maior, de se manter atualizado, por meio de
pós-graduações, mestrados e doutorados. Portanto, sua atuação profissional tem um
compromisso ético de seguir estas determinações que são consenso entre os pesqui-
sadores. Mas, e quando algo não é consenso? Ou quando alguém utiliza do respal-
do de sua profissão para fins eticamente questionáveis? Imagine um psicólogo que
utiliza a autoridade de seu diploma para doutrinar religiosamente seus pacientes,
dizendo praticar uma espécie de psicologia própria, que ele denomina de “psicolo-
gia cristã”. Ou um professor que utiliza sua autoridade e credibilidade para doutrinar
seus alunos, seja religiosamente ou por meio de alguma ideologia que não é acei-
ta na academia. Ou mesmo um gestor que comete algum tipo de discriminação.
Essas práticas são condenáveis em termos éticos, pois partimos do pressuposto, se-
gundo o qual, quem aprendeu uma determinada ciência, por meio da academia,
tem um compromisso social com esta e deve exercer este papel social que lhe foi
conferido pela sociedade a partir da laicidade e cientificidade.

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Um psicólogo que utiliza de seu diploma para evangelizar, a grosso modo, afirman-
do ser uma depressão a “falta de deus no coração” ou um “encosto”, que se resolverá
se houver a adesão à determinada religião, ou que a homossexualidade seria uma
doença e ele ofereceria a cura, está sendo antiético, pois não há, cientificamente, uma
corrente da psicologia chamada psicologia cristã e já está comprovado que relações
homoafetivas são práticas comuns em várias culturas em diferentes épocas e não
uma patologia. Portanto, não há comprovação de que este tipo de tratamento tem
eficácia, logo chamamos isso de charlatanismo. O estado laico não proíbe estas prá-
ticas. Não há problema algum em oferecer ajuda à pessoas com sofrimento psíquico
por meio da religião, vários pastores fazem isso. O problema está em utilizar a ciência
“psicologia” como um respaldo para essa prática, a exercendo em desconformidade
com o código de ética do conselho federal de psicologia. O mesmo se aplica para o
exemplo do professor que abusa de seu poder e credibilidade ou do gestor que aten-
ta contra os direitos humanos. Ambos devem exercer seus papéis em conformidade
com a ciência, com a legislação e com a ética de seus ofícios e comprometidos com
a sociedade como um todo.

FIGURA 30 - CASAL HOMOAFETIVO

Fonte: Shutterstock, 2018.

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6.2.2 RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE

Quando falamos de religião estamos nos referindo à instituição religiosa - essa em-
presa que tem sede física, placa e logomarca - uma instituição que formaliza a religio-
sidade, esta, que é o sentimento espontâneo de espiritualidade, que muitas pessoas
têm e que, na modernidade, se libertou da condição institucionalizada e tornou indi-
vidual, seguindo a tendência do individualismo contemporâneo, oriundo do capita-
lismo. Por exemplo: é comum ouvirmos que determinada pessoa diz não ter religião,
mas tem uma espiritualidade própria, por meio da qual ela diz sentir as energias do
cosmos, ou ainda as pessoas que inventam seus próprios rituais, como casamentos, nos
quais os próprios indivíduos inventam a cerimônia, sem vínculo com nenhuma igreja.
Essa é a base do estado laico, um estado sem vínculo com nenhuma religião, que
permite que todas as religiões possam coexistir, inclusive quem não tem religião ou
até mesmo quem é ateu. A democracia depende do estado laico para existir, assim
como a ciência também necessita de laicidade para sua prática.

FIGURA 31 - O PAPA

Fonte: Shutterstock, 2018.

O Brasil se tornou oficialmente um estado laico em 15 de novembro de 1889, quando


deixamos de ser uma monarquia e passamos a ser uma república. Até então, todos
os rituais da vida social, como casamentos, registros de nascimentos e óbitos, festi-
vidades e acontecimentos sociais em geral, eram determinados pela Igreja Católica.
Com a proclamação da república, estas funções foram sendo gradualmente

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transferidas da igreja para o estado. Hoje, se você for se casar, basta entrar em um
cartório, pegar a senha e pagar a taxa. Trata-se de um contrato, reconhecido pelo
estado, que não te pergunta nada sobre religião. Por acontecer na esfera pública, cos-
tuma ser pouco cerimonioso e, se há algum grau de cerimônia, trata-se de herança
dos tempos de monarquia. As cerimônias propriamente ditas, são feitas nas igrejas,
ou nas casas das pessoas, ou seja, na esfera privada. Ao mesmo tempo existem, ainda
hoje, cidadezinhas nos interiores do país, nas quais nascimentos e mortes ainda são
registrados pela igreja católica, pois nunca chegaram cartórios por lá.

Outra polêmica em torno dessa questão está ligada à existência de uma bancada
evangélica em nosso congresso nacional, que já demonstrou em vários episódios
uma falta de consideração pela laicidade do estado, permitindo que convicções pu-
ramente religiosas permeiem suas escolhas e atitudes em uma clara ausência de
espírito republicano.

Dissemos que a religiosidade se libertou da religião na modernidade, mas não pode-


mos nos esquecer que Sócrates tinha seu “daimon”, uma divindade própria, que se
fazia ouvir. Alguns historiadores da filosofia interpretam esse deus próprio de Sócra-
tes, como uma metáfora para a própria razão, de qualquer forma é bom lembrar tam-
bém que Sócrates foi condenado à morte por corromper a juventude, não acreditar
nos deuses oficiais e inventar novos deuses.

6.3 ÉTICA, NATUREZA E CULTURA

FIGURA 32 - THOMAS HOBBES

Fonte: Shutterstock, 2018.

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Nós, seres humanos, somos uma espécie de primatas, que desceu das árvores, em
um movimento de ruptura com a natureza, em direção à cultura, que se deu em
milhares e milhares de anos. Esse movimento é a base de todas as formas de regu-
lamentação da conduta humana. Em um estado de natureza, como diria o filósofo
Thomas Hobbes (1588 - 1679), o homem é o lobo do homem, ou seja, a violência seria
a regra nas relações entre os homens, assim como é a regra nas relações de todas as
outras espécies. Portanto, o pacto social, este acordo de não violência travado entre
os homens, seria a base da formação da nossa sociedade e, consequentemente, a
base da moral social.

FIGURA 33 - ROUSSEAU

Fonte: Shutterstock, 2018.

Outro pensador que adentrou o universo das teorias contratualistas - estas que ten-
tam compreender como se deu o primeiro contrato social nesse momento de saída
da natureza em direção à cultura - foi o francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778),
que afirmava, ao contrário de Hobbes, que o homem nasce essencialmente bom e
que seria a civilização que o corrompe. Para Rousseau, o elemento que determina
essa passagem da natureza para a cultura seria a propriedade privada. Segundo o
filósofo, no momento em que o primeiro homem determinou, arbitrariamente, que

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determinado pedaço de terra pertencia a ele, aí temos o início do que chamamos


de civilização e, consequentemente, da corrupção, das guerras e de todas as mazelas
humanas. Rousseau estava muito entusiasmado com as notícias sobre as viagens
marítimas dos descobrimentos e do fato de os indígenas brasileiros, por exemplo,
não terem o conceito de propriedade privada. Entre os indígenas não havia al-
guém era o dono da terra. Não fazia o menor sentido, na cultura indígena, essa ideia.
Eles se sentem pertencentes à terra e não donos dela. A terra é algo sagrado, que
nunca poderia pertencer a ninguém.

O prórpio Karl Marx (1818 - 1883), tem influência de Rousseau


no que tange à propriedade privada. Rousseau era o único
iluminista que a questionava.

Outro pensador que buscou compreender FIGURA 34 - PRIMATAS


esse momento de ruptura entre natureza e
cultura foi Sigmund Freud (1856 - 1939), que,
por meio da psicanálise, inferiu que o homem,
em uma condição primitiva, viveria seguindo
seus instintos, como qualquer outro animal
e seu comportamento sexual seria, também,
baseado na lógica evolucionista, por meio
da qual somente o indivíduo mais adaptado,
mais forte e mais apto, copula todas as fêmeas.

Freud sugeriu que o elemento de ruptura en-


tre a natureza e a cultura seria justamente o
Fonte: Shutterstock, 2018.
incesto, por meio do qual o macho alfa teria
de abrir mão de sua filha para que outro macho a copulasse, acabando assim com
o fator da seleção natural, a partir do qual somente um macho pode se reproduzir e
dando as bases mais ancestrais de nossas culturas. Ali, segundo Freud, estaria a ori-
gem de nossa civilização. Portanto, todas as mais variadas culturas, em todas as épo-
cas, apresentam suas morais sociais baseadas em costumes e crenças diversas, que
definem de modo igualmente diverso o que é certo e errado, o que é justo e injusto
e o que é o bem ou o mal.

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Onde pesquisar:

No texto intitulado “Totem e Tabu”, Freud explica esta tese.

Nossos interesses, sentimentos, condutas, ações e, portanto, nossos comportamen-


tos em geral são modelados pelas condições em que vivemos (família, classe e gru-
po social, escola, religião, trabalho, etc.). Somos compostos pelos costumes de nossa
sociedade, que nos educa para respeitarmos e reproduzirmos os valores propostos
por ela como bons e, portanto, como obrigações e deveres. Dessa maneira, valores e
maneiras parecem existir por si e em si mesmos, parecem ser naturais e intemporais.

Os costumes, porque são anteriores ao nosso nascimento e formam o tecido da so-


ciedade em que vivemos, são considerados inquestionáveis e quase sagrados (as reli-
giões tendem a mostrá-los como tendo sido ordenados pelos deuses, na origem dos
tempos). Ora, a palavra costume se diz, em grego, ethos – de onde derivou-se ética – e,
no latim, mores – a qual por sua vez deu origem a moral. Em termos etimológicos,
ética e moral são quase sinônimos. Observamos, então, que a ética e a moral referem-
-se ao conjunto de costumes tradicionais de uma sociedade o que significa que são
considerados valores e obrigações para a conduta de seus membros.

A Ética surge no séc. V a.C como uma busca pela universalidade dessas questões.
O que seria a bondade ela mesma, que vale em qualquer época e lugar, que transcen-
de tempo e espaço? Esta busca percorreu os mais de vinte e seis séculos de história
do pensamento ocidental e nos chega com a mesma urgência da época de Sócrates.

O início do pensamento ético se dá em um território total-


mente socrático-platônico, portanto racionalista e idealista.
Essa característica da ética é um fator muito importante
para compreendermos como pensamos a ética no decor-
rer do pensamento ocidental. Portanto a ética é um campo
do conhecimento filosófico que tem a moral como objeto
de estudo.

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CONCLUSÃO
Nesta unidade, vimos a importância das discussões sobre ética e o quanto elas são
necessárias para todas as sociedades. Na atualidade, vimos que a base das relações
profissionais no que tange à ética, passa pelo estado laico.

Outro fator importante de se ressaltar, diz respeito ao modo como os temas éticos
são tratados na academia. Como você pôde perceber, um curso de ética não vai ne-
cessariamente transformar as pessoas em indivíduos virtuosos e eticamente impecá-
veis. Na verdade, um curso de ética tem o objetivo de proporcionar a reflexão sobre
os temas que concernem à conduta humana, por meio dos filósofos que discutiram
e aprofundaram tal temática.

O grande desafio da ética contemporânea é, justamente, estabelecer esta relação


com a moral, de modo que o estado laico possa garantir que nenhum aspecto espe-
cífico da moral se sobreponha aos outros (uma determinada religião, por exemplo).
As principais características do nosso tempo são a diversidade, multiplicidade, hete-
rogeneidade, multiculturalismo, sincretismo e diferenças de toda ordem, convivendo
juntas, o que revela uma moral cada vez mais diversa e complexa. Para garantir re-
presentatividade e equidade em uma república democrática, é imprescindível que
o estado laico seja defendido, pois somente ele pode proporcionar a liberdade de
crença, de expressão, de ir e vir, em suma, a própria democracia.

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GLOSSÁRIO
Dogma: verdade absoluta

Antropocentrismo: o homem no centro do mundo

Dualismo: divisão em duas partes

Alegoria: conjunto de metáforas

Pilhéria: piada

Olimpo: lar dos deuses gregos

Corroborar: ratificar, confirmar.

Dialética: choque de ideias.

Epistemologia: campo do conhecimento filosófico que estuda o que é o


conhecimento, seus limites e possibilidades.

Pueril: infantil.

Querela: disputa.

Retórica: falar bem.

Verve: entusiasmo e inspiração.

Erudição: instrução, conhecimento ou cultura variada, adquiridos por meio


da leitura.

Inexaurível: inesgotável

hodierno : atual

Corroborar: dar ou adquirir força, robustez; tornar(-se) rijo; fortalecer(-se)

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Dicotomia: divisão de um elemento em duas partes, em geral contrárias,

Taylorismo: sistema de organização do trabalho concebido pelo engenheiro


norte-americano Frederick Winslow Taylor (1856-1915), com o qual se
pretende alcançar o máximo de produção e rendimento com o mínimo de
tempo e de esforço.

Engendrar: dar existência a; formar, gerar.

Sensismo: doutrina que considera o conhecimento como oriundo das


sensações.

Hades: O Hades, ou mundo inferior na mitologia grega, seria a terra dos


mortos, o lugar para o qual a alma se iria após a morte.

Autoflagelo: é o ato de causar flagelo (dor) a si mesmo, de se castigar


fisicamente.

Praticado pelos monges medievais no intuito de se purificarem.

Cosmologia: busca por uma explicação racional da origem do universo.

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Filosofia

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FACULDADE CAPIXABA DA SERRA/EAD
120 SUMÁRIO
Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017