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UNIVERSIDADE DA INTEGRAÇÃO LATINO-AMERICANA

CURSO DE ANTROPOLOGIA

Estudante: Leonardo Pontes Ferreira


Disciplina: Antropologia e educação
Professor: Gilberto Geribola

Como pensar a (própria) trajetória escolar?


Um ensaio autobiográfico sobre as memórias e os sentidos da caminhada pela escola1

Introdução
O título deste ensaio é uma interrogação porque pensar a própria caminhada escolar, no
sentido de lembrar e organizar uma enxurrada de recordações em uma trajetória, é como abrir um
velho baú e se deparar com uma diversidade de coisas, objetos, cadernos, papéis, fotografias, etc. O
que fazer? Separar por pilhas? Jogar fora? O ato de pensar sobre esse passado para organizá-lo é
uma tarefa difícil. Facilmente pode-se tomar os resquícios materiais dessa etapa da vida como
fontes, mas por outro lado, existem também as memórias – meio inclassificáveis, que você não se
lembra bem de quando foi, de como exatamente foi... Como “ordenar” essas lembranças, sensações,
sonhos e até mesmo velhos cadernos empoeirados, documentos rotos e antigas fotos?
As memórias que despontam do mar difuso e cinzento do passado (muitas vezes) são as
mais significativas, dos êxitos, das alegrias e também dos fracassos e daquilo se quer esquecer. Mas
essas memórias são lapsos, espirros de água, e além delas, existem todo um oceano de memórias
que continuam submersas. Por isso, ao mesmo tempo que a gente lembra, a gente esquece, e essas
imagens borradas, que permanecem submersas nesse mar, por serem inacessíveis, parecem nunca
ter nos pertencido, mas nos constituem. Pensando nisso, as memórias que aparecem – no ato de
tentar lembrar – podem ser arrumadas a partir de uma espécie de arqueologia do velho baú. Com a
ajuda de alguns tipos de objetos – fotos, datas, endereços, documentos oficiais, boletins com notas,
cadernos escolares, diários, etc. – podemos localizar temporal e espacialmente essas memórias em
determinados momentos, fases e lugares da nossa trajetória escolar.
No entanto, quais aspectos dessa trajetória – que definitivamente não é reta, direcionada a

1 Para este ensaio, em relação as referências bibliográficas, pontuo que utilizei como base para pensar a trajetória
escolar um texto de Pierre Bourdieu sobre a educação. As referências constam no final do texto, e aqui, me explico:
Estou tratando de aspectos da minha própria trajetória escolar neste ensaio, mas em alguns momentos, faço
referência indireta aos escritos de Bourdieu. Nesse momentos, encontram-se, no meu texto, alguns jargões
Bourdiesianos, mas por uma escolha estilística, não estou utilizando citações diretas a Bourdieu. Mas quero deixar
registrado aqui, que sim, realizei a leitura dessas obras para a elaboração deste ensaio.
um fim e nem muito menos classificável por temas ou universos de temas – lembramos? Ou então,
como selecionamos quais memórias significam nossa passagem pela escola? Uma trajetória escolar
é o ponto de intersecção de muitos universos de atividades, de esferas específicas, como a escola, a
vida escolar, a rotina de estudos, o recreio, o grupo de amigos e também sobre o fora da escola, a
rotina da casa, do grupo familiar, da rua, da praça, etc. Quero dizer que a vida escolar é também a
vida familiar, religiosa, do trabalho, das “obrigações”, do lazer, ou seja, a vida em sociedade, para
dizer desta forma. Considerando então, que a trajetória escolar também é a trajetória social, o quê
esse corpo de memórias tão individuais, subjetivas (e também objetivas) e íntimas diz sobre a
escola, a família, a cidade, sobre a sociedade?
Com isso, quero me referir que cada pessoa possui suas memórias – que são únicas (?) -
sobre sua trajetória escolar. A época escolar é um período relativamente longo na vida de uma
pessoa, assim, as memórias sobre essa fase tão especial da vida constituem um pouco da identidade
de uma pessoa, bem como de sua personalidade, dos seus “talentos”, habilidades, conhecimentos,
etc. Essa identidade – junto com as memórias – ocupam o corpo de uma pessoa na mesma medida
que uma pessoa ocupa um determinado lugar na sociedade. Assim, estou me perguntando como
contabilizar qual é o influência da trajetória escolar de uma pessoa na posição social que ela ocupa?
Por outro lado, a posição social de uma pessoa também influencia a sua trajetória escolar.
Assim, trajetória escolar e posição social se interferem mutuamente em um jogo onde uma pesa
sobre a outra, onde uma é barrada pela outra ou onde uma é impulsionada pela outra (BOURDIEU,
1996). Por isso, toda a vida de uma pessoa fora dos portões da escola está sempre agindo sobre a
vida dessa pessoa dentro da escola. E quando digo toda a vida é toda a vida mesmo: A cidade (para
não mencionar outras possibilidade do viver no campo, em territórios demarcados como as
comunidades indígenas e quilombolas), o lugar onde a pessoa mora; Como é a casa dessa pessoa (se
ela tem casa!); A (des)composição familiar; O acesso (ou o não acesso) aos bens culturais, políticos
e artísticos oferecidos... Enfim, o dentro e o fora de escola também estão se entrelaçando e se
significando, na medida em que não podemos esquecer que a escola é envolta pelo contexto social,
econômico, político e cultural, então não podemos desconectar esses universos em nenhum tipo de
análise ou reflexão.
Abrindo um pequeno parênteses, quero retroceder um pouco onde assinalei com uma
interrogação. Até que ponto as memórias de uma pessoa sobre sua vida escolar são únicas? Ou será
que podemos falar de classes de memórias que se assemelham? Por exemplo, podemos falar de
memórias sobre a socialização, sobre o sucesso escolar, sobre problemas na aprendizagem, traumas,
violências sistêmicas, etc. Assim, diferentes pessoas podem compartilhar memórias que se
aproximam.
Junto com as memórias – que constituem a identidade de uma pessoa – estão os
marcadores sociais, de raça, gênero, classe, faixa etária, religião, e também as identidades escolares
e urbanas que marcam a participação das pessoas em mundos de interesse, como as identidades
atreladas à música, a política, a esportes, etc. Dessa forma, todos esses marcadores podem se
mesclar dentro de cada pessoa, marcando sua identidade – e também a diferença – e sua posição na
escola e na sociedade. Assim, a trajetória escolar pode marcar ainda mais essas identidades, isso
porque o universo da escola é uma espécie de “sociedade menor” onde as pessoas socializam,
interagindo, travando conflitos e também parcerias, ou seja, na escola, as pessoas convivem e
aprender a conviver com outras pessoas, mas as vezes a convivência passa por uma demarcação
drástica das diferenças, podendo levar a uma negação marcada pelos preconceitos, pelas
intolerâncias e pelas “fobias”. Essa socialização, por marcar uma pessoa, constitui as memórias de
uno.
Todavia, na escola também existem inúmeras possibilidades de uma pessoa entrar em
certos “rumos” na vida, levando a outras trajetórias, que se cruzam. Como por exemplo, quando
uma pessoa, na escola, descobre uma coisa que gosta muito de fazer, ou quando uma pessoa decide
ser alguma coisa ou alguém, ou quando uma pessoa entra em contato com outros universos de
atividades (até mesmo extraescolares) e neles se sentem pertencidas. Essa sensação de
pertencimento nutrem sonhos, expectativas pessoais e significam a vida de uma pessoa. A partir
desse pertencimento, uno pode encontrar forças, inclusive para aguentar as tensões e os
despertencimentos da vida escolar.

Notas autobiográficas
Com isso, quis refletir um pouco sobre uma questão que introduzi no começo dessa escrita.
Sobre os mecanismo de selecionar aspectos da trajetória escolar. Quero dizer que podemos escolher
determinados temas, recortes a partir do quê, por exemplo, nos marca. A partir daquilo que não
esquecemos, seja qual for a relevância de determinada recordação sobre nós, um trauma ou um
grande sucesso pessoal, (im)possibilidades que tivemos de aprender, de nos transformar, de
participar de grupos, de viver ou ser impedido de viver tudo o que a escola tinha a nos oferecer... É
por aí que estou tentando pensando a minha própria trajetória escolar: Abri uma caixa onde guardo
infinitas coisas velhas, novas, (in)úteis e comecei a fuçar, procurando alguns registros da minha
trajetória escolar. Os cadernos, que eu mais queria tomar como fontes estão a mais de 1000 km de
distância de onde estou, mas sabia que naquela caixa estavam alguns documentos, como o meu
histórico escolar, alguns diplomas de cursos e oficinas de teatro e até alguns velhos diários.
Junto a estes documentos variados, tentei relacionar algumas memórias e também,
temporalizá-las e situá-las no espaço. Mas, como esbocei anteriormente, a trajetória escolar é
multidimensional e multi temática. Então, a partir do que considero mais significativo na minha
vida, quero tomar a minha vida escolar mesclando as minhas aventuras pelo teatro. Me explico.
Quando estava no fim ensino fundamental – então 7ª série – fui picado pelo bichinho do teatro
(como nós, teatreiros, costumamos falar) e desde então, o teatro disputa, inclusive com a minha
participação na vida acadêmica, como estudante de Antropologia. Ou seja, consigo relacionar a
minha trajetória escolar pela minha trajetória pelo teatro. Porque foi no teatro que me senti
pertencido e pude me expandir e tomar consciência da minha capacidade de imaginar, de
representar, de falar, de contar histórias e de me posicionar diante de mim mesmo e do mundo.
Meio que descobri o que eu queria na vida.
Dando um giro, agora volto ao ponto de partida: A cidade, a família e a escola. Nasci e
cresci numa cidade nas bordas do sul de Minas Gerais, ao lado de São Paulo. A cidade é Poços de
Caldas, uma cidade média, sem muitas excepcionalidades. A exceção do fato de ser uma cidade
rodeada por serras, diferentemente de Foz do Iguaçu, onde atualmente vivo. Não vou contar toda a
história da cidade aqui, mas considero importante mencionar de onde eu vim. Em Poços de Caldas
cresci, na mesmo bairro, na mesma casa e só saí de lá porque vim pra cá. E nesses mesmos lugares,
meus pais viveram boa parte de suas vidas. Assim que minha família mineira (meus pais e minhas
irmãs mais velhas) até hoje vive na mesma cidade.
Novamente, não vou contar toda a história da minha família, talvez seja a história de uma
típica família que saiu do campo e foi para a cidade, mas acho legal falar rapidamente sobre: Minha
família tem raízes na roça, nos interiores de Minas e São Paulo. Meus pais foram para a cidade
antes que minhas e eu nascêssemos. E na cidade nos criaram, assim que, diferentemente dos meus
pais, nós, os filhos, crescemos em um contexto bem diferente e nesse contexto podemos estudar,
coisa que meus pais não fizeram ou fizeram incompletamente. Dessa forma, minhas irmãs e eu
pudemos entrar e sair da escola depois de passar 11 anos estudando. Nós três passamos pelas
mesmas escolas públicas, nos arredores do bairro onde crescemos, o bairro São Jorge, na Zona
Oeste de Poços.
Pelo seu tamanho (pelo menos nessa época), Poços de Caldas tem várias escolas públicas e
estaduais de certa qualidade, no sentido de não serem superlotadas e conseguirem suprir a demanda
básica dos bairros. Por isso, em quase todos os bairros existem uma ou duas escolas públicas e
estaduais. Mas, também existem várias escolas particulares de uma qualidade bem superior – onde
nunca entramos. Meus pais, quem não tem a escolaridade completa, sempre trabalharam em
empregos que nunca dariam para nos educar em qualquer escola particular. Assim que toda a nossa
trajetória escolar se deu em escolas públicas.
Minha trajetória foi, em relação ao que essas escolas ofereciam, uma trajetória “normal”.
Nunca fui um estudante extraordinário, mas, pensando na posição social da minha família,
basicamente tinha apenas que estudar. Meus pais sempre trabalharam para que nós pudéssemos
estudar. Assim, por exemplo, a minha rotina de estudos tinha espaço, tempo e condições objetivas
para acontecer, nunca precisei tomar ônibus para me deslocar até a escola, em casa tinha um singelo
espaço para poder estudar e o cotidiano escolar era relativamente tranquilo. Mas sempre me
lembrarei que meus pais insistiam e incentivavam nossos estudos e assim, com todas condições
objetivas às médias, na minha família havia (e há) o sonho pela mobilidade social através da escola
e da educação (BOURDIEU, 1966). Me lembro que as vezes minha mãe pendurava nossos boletins
na geladeira.
A minha trajetória “normal” foi normal no sentido de nunca ter sido interrompida, mas sim
incentivada, mesmo medianamente. Assim, o meu rendimento escolar foi bom, principalmente pelas
condições objetivas que operavam para isso. No entanto, essas condições me deixavam ir até certo
ponto. Sempre fui muito curioso, me interessava por ciências e por artes, por exemplo. Aí surge
uma memória bem marcante. Uma vez, disse para minha mãe que queria ser um arqueólogo, que
queria estudar os dinossauros. Ela me respondeu que isso não era para mim. Ao mesmo tempo que
ela me incentivava a estudar ela sabia que isso poderia me levar até certo ponto, em função das
condições objetivas que minha família dispunha (BOURDIEU,1966).
Por outro lado, depois de certa idade, em que eu já saía de casa sozinho, por vezes
frequentei algumas atividade extraescolares, como cursos de informática básica e de língua inglesa.
Atividades essas, oferecidas por instituições públicas. Nessa época, meus pais incentivavam a
minha participação nessas atividades para que eu não ficasse na rua, que segundo eles, não dava
futuro a ninguém. Assim, que minhas esferas de vida eram a escola, a casa, a Igreja que meus pais
frequentavam e as vezes, a rua.
Finalmente, para não me deter infinitamente nesses aspectos muito particulares, que
poderiam desinteressar o leitor, e para introduzir o “eixo” que escolhi para escrever este ensaio,
gostaria de mencionar um projeto social que frequentei durantes uns quatro anos. O projeto
“Crescendo em Fraternidade” era um projeto vinculado à Igreja Católica (que minha família
frequentava) e que oferecia atividades de contra turno escolar. Eram atividades diárias, que
consistiam em cursos e oficinas variadas e também, práticas esportivas. Foi dentro desse projeto que
fiz teatro pela primeira vez.

Agora, abrindo outro parenteses, queria falar rapidamente sobre a minha socialização na
escola. Sempre fui tímido e fechado. Tinha amigos que eram os mesmos amigos do bairro, digamos.
E com quem sempre estávamos juntos, dentro e fora da escola. Creio que foi o grupo de amigos que
tive durante toda a minha trajetória escolar. Eramos em certa medida, desviantes. Algumas posturas,
ações e falas de outras crianças e adolescentes marcavam em nós diversos esteriótipos
depreciativos, como a “gorda”, o “viadinho”, o “nerd”, a “feia”, enfim, diversas diferenças que
eram reforçadas no ambiente escolar. Dessa forma, eu me fechava a outros grupos, e só me sentia
seguro dentro do meu próprio grupo. Essas “coisas de crianças” são mecanismos que reforçam
identidades (em formação) e acentuam diferenças. A gente nem entendia direito o porquê das
zoeiras e das pequenas violências que não eram vistas por ninguém. Assim que sempre tive uma
socialização um pouco restrita na escola, permeada por inseguranças, medo e até mesmo vergonha.
Essas exclusões fizeram, em determinados momentos, com que eu perdesse a vontade de ir para a
escola, me levando a uma falta de interesse pelos estudos e pela vida escolar.
Fechando parênteses, foi com no teatro que pude expandir em diversos sentidos a minha
socialização ou a minha vontade de se relacionar, de se abrir, para poder ser, agir e falar, inclusive
dentro do universo escolar. Essa reviravolta não foi assim tão transformadora, no sentido de eu ter
me tornado o menino mais “popular” na escola. Continuei, basicamente, sendo o mesmo. Mas no
momento em pude experienciar o teatro, a interpretação, os jogos e todo o fazer teatral, eu consegui
falar, pela primeira vez, me sentir seguro de falar. Com o teatro, descobri todo um mundo de
possibilidades para me agarrar e conseguir projetar sonhos e expectativas.
Mas eu fazia teatro fora da escola. Primeiro, no projeto que mencionei, e depois, no
conservatório de Poços de Caldas e em outros espaços, onde eram oferecidas aulas de teatro
gratuitas. Só que as minhas andanças no terreno do teatro, me permitiram resignificar a minha
relação com a escola, com os estudos e também, com as pessoas. Aí, na escola, comecei a me
interessar por literatura e por humanidades. E todo processo que vivi no teatro, de trabalhar com o
corpo, com a voz, com a expressividade, com o jogo de ser outro, e do se permitir a experimentar
permitiu que eu conseguisse modificar a forma que eu me relacionava comigo e com as pessoas. É
claro que não me tornei imune a nenhum tipo de violência na escola. Mas eu me tornei mais aberto
a dialogar, a discutir e a resolver os problemas de outras maneiras.
Há de mencionar, que meus pais, principalmente minha mãe, ao mesmo tempo que me
incentivavam a seguir fazendo teatro, se preocupavam com a máxima “teatro não dá dinheiro” e
também por que grande parte do meu tempo fora da escola eu estava no teatro. E foi na época que o
fantasma do vestibular rondava a vida dos quase-formandos. Novamente, estava de volta a mesma
impossibilidade, de percorrer caminhos “diferentes” daqueles mais tecnicistas, voltados ao mercado
de trabalho. Nessa época, meus pais se queixavam porque eu não trabalhava com algo que me desse
um retorno financeiro efetivo. Pela primeira vez, insistiam para que eu trabalhasse em outras coisas
que não fosse “com teatro”, para eles, o teatro não era poderia ser um fim, no sentido de
acreditarem que poucas conseguissem viver de/com teatro (BOURDIEU, 1966).
Teimoso que sou, nunca cedi e quando, comecei a receber pequenos cachês, meus pais se
tranquilizaram. Mas nem tanto, porque nunca era uma renda efetiva, para ajudar em casa e arcar
com as minhas despesas. Nessa época, mais ou menos no fim do ensino médio eu segui firme e
forte com arteiro e estava decidido a levar o teatro para a vida profissional, e para o meu futuro
acadêmico. Queria fazer Artes Cênicas, em qualquer lugar que desse, mas isso significaria sair de
Poços e ir para outra cidade. Isso me desanimava muito, quando me sentia incapaz de prestar um
vestibular em uma universidade pública, ainda mais em outra cidade.
Assim, quando fiz o ENEM, vi a minha nota, percebi que não ia muito longe. Nesse
momento senti na pele a formação escolar “as médias” que tive. E foi nessa época que a UNILA
entrou em minha vida e eu entrei na UNILA, numa 3ª chamada para fazer Geografia! Muito
teimoso que sou, saí de casa com 17 anos à contragosto da minha família para me lançar no mundão
e nisso, cheguei em Foz, acreditando ferrenhamente nas políticas de assistência estudantil, que
permitiriam que eu vivesse em outro estado, sozinho. E acreditando, sobretudo, que o curso de
Artes Cênicas um dia abriria para eu me lançar de corpo e alma. Mas o curso nunca se abriu. E nas
minhas andanças dentro da Geografia descobri a Antropologia. E nela me joguei.
E nela estou há 3 anos, prestes a me graduar, com muitas (in)seguranças, alegrias e
decepções, e sobretudo, com os pés no chão e a cabeça nas nuvens, trilhando caminhos que se
cruzam com o teatro, com a educação e por caminhos que nem sei nomear. E o teatro, nunca
abandonado, ao mesmo tempo que nutre minha expectativas em relação ao futuro acadêmico,
disputa espaço com a Antropologia dentro dessas mesmas expectativas.
Tomando estes elementos pessoais, íntimos e subjetivos da minha trajetória pela escola e
agora pela Universidade, fico pensando em como ao mesmo tempo, existem trajetórias que são mais
fechadas e condicionadas por (im)possibilidades objetivas existem outras, que ainda sendo
condicionadas pelas mesmas condições, representam certas subversões, ou teimosias. Nesse sentido,
me vem a cabeça a importância da educação (básica, média e superior) pública, porque ela
possibilita que a gente ao menos experimente outros caminhos, as vezes nunca sonhados, as vezes
muito distantes das nossas realidades. E possibilita, ainda, que as trajetórias de cada um tome rumos
próprios, articulando-se com outros campos ou universos, como o teatro, por exemplo. Menciono
essa importância da educação pública, porque o peso que ela teve (e tem) sobre a minha vida não é
quantificável, claro, não esquecendo da educação “às médias” ou da educação sucateada, que
persiste e se desenvolve no contexto político atual.
Referências Bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. “A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura”.


In: Revista francesa de Sociologia. Paris, 1966.