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ERUDICAO & PRAZER Marcel Detienne Dioniso a Céu Aberto Traducao: ] Carmem Cavalcanti Jorge Zahar Editor Rio de Janeiro Esse deus epidémico Orei Preto, da Argélida, tinha trés filhas. Ao crescerem, sao vitimadas pela loucura; recusam-se a prestar culto a Dioniso. Abandonando o palacio paterno, come- cam a errar pela terra de Argo. Preto convoca Melampo, renomado adivinho e Purificador: seus sortilégios, suas ervas medicinais, Ihes devolveriam a calma ¢ as Purificariam. Em retribuicao de seu traba- Iho, Melampo pede um terco do reino. O rei ndo aceita, a doenga piora. Suas filhas tornam-se cada vez mais agitadas, ¢ a lou- cura toma conta da populagao feminina. Por toda parte as esposas sacm de casa, desaparecem nos bosques, matam os Ihos. Melampo acabara obtendo dois ter- 0s do reino." A loucura enviada por Dioniso, sua ma- nia, aparece aqui como um mal que atinge grande ntimero de pessoas. Trés a princi- pio. E logo ninguém escapa.” Nessa hist6- ria, ou em outras semelhantes, 0 dionisis- mo apresenta-se na forma de uma epidemia’ — que nao tem necessidade al- guma da teoria do contagio, na qual a me- dicina grega nao havia pensado antes que Tucidides, um historiador, resolvesse des- crever a peste de Atenas.* Foi lendo a his- t6ria das Prétidas que Erwin Rohde pode imaginar a expansao do dionisismo & ma- neira de uma epidemia de dancas convulsi vas. Uma coréia contagiosa parecida com a danca-de-Sao-Guido.’ E certamente a loucura dionisfaca tem um poder de conta- gio to grande quanto a mancha do sangue derramado. Mas, no sentido grego, “epi demia” pertence ao vocabulario da teofa- nia. Emile Littré 0 sabia quando o incor- porou a lingua francesa.” E um termo téc- nico usado quando se trata dos deuses. As epidemias sio sacrificios oferecidos as po- téncias divinas: quando estas descem a ter- ra, quando vao a um santudrio, quando assistem a uma festa ou estao presentes em um sacrificio.’.As epidemias respondem as 2 apodemias, sactificios de despedida. Pois entre os deuses hé movimento, mais inten- So por ocasiao das Teoxénias, quando uma cidade, um particular ou ainda uma divin- dade oferecem hospitalidade a certas po- tncias divinas, as vezes até a todas juntas.* Nessa ocasiao, os deuses habitam a terra, nela permanecem,’ “epidemi- zam”. Residentes sem. serem sedentarios como 0 s40 os médicos hipocraticos, esses praticos itinerantes que compéem precisa- mente as Epidemias: cadernos de notas, breves protocolos, ou melhor, minutas que descrevem a evolucdo do mal; pincela- das para descrever os sintomas, a crise, 0s cuidados, as reagdes.” B a técnica de es- crever do repérter, utilizada por fon de Quio, um intelectual do século V antes de nossa era, em sua obra intitulada Epide- mias: uma série de esbogos, de retratos, de entrevistas de artistas como Sdfocles ou de politicos como Péricles ou Cimon de Atenas." Sao os deuses migrantes que tém direito as epidemias. Tém suas estacdes; sio chamados; s40 invocados por hinos. Sao os Dioscuros, Artemis ou Apolo. Este viaja Bs muito, de um santudrio para outro, entre Delo, Mileto, Delfos ¢ o pais dos hiperbo- Teos, onde gosta de passar 0 inverno. Apo- Jo € um deus com epifanias; tem suas festas € seus aniversdrios; aparece em meio a seus sacerdotes, 4 multidio de seus figis, em todo © esplendor de seu poder. Mas, perto dele, o deus mais epidémico do pan. tedo € certamente Dioniso”, que tem na Parusia uma forma de aco privilegiada.” Dioniso é por exceléncia o deus que vem; aparece, manifesta-se," faz-se reconhecer. Epifanico itinerante, Dioniso organiza o espago em fungao de sua atividade ambu- latéria. E encontrado por toda parte, em nenhum lugar est em casa." Nem mesmo em um antro ou em um esconderijo na montanha, menos ainda a entrada de um santudrio ou a luz de um templo urbano. Sua efigie cai do céu, sua nave surge na linha do horizonte do mar: a frente de um comando de mulheres, ataca as portas da cidade, ou ainda, solitério, emerge das guas abissais de Lerna, na Argélida. Ha em Dioniso uma pulsio “epidémica” que o afasta dos outros deuses de epifanias regu- lares, programadas e sempre arrumadas “ segundo a ordem de culto das festas ofi- ciais, € cada uma a seu tempo. Chegadas sem surpresas: tanto para os figis como para os deuses. A divindade esperada no sétimo dia do més Busios [16 de marco — 15 de abril], no santudrio de Delfos € sempre Apolo, eriador do orculo. En- quanto Dioniso, divindade sempre em mo- Vimento, forma em perpétua mudanca, nunca sabe se seré reconhecido, exibindo entre cidades e aldeias a estranha mascara de uma poténcia que pao se assemelha a nenhuma outra. Com o risco permanente de ter negada sua origem divina.* Ser er- rante € para ele to natural que suas chegadas, idas ¢ vindas podem confundir- se com as dos outros. Uma mascara sem semelhanca Epidémico, Dioniso 0 é no verdadeiro sen- tido em uma série de narrativas que envol- vem suas entradas — mais terriveis do que alegres —, pois so quase sempre histrias cheias de barulho © de furor as que se ouvem por toda parte quando Dioniso 1s chega. Suas primeiras epifanias so marca- das por confrontos, por conflitos ou por formas de hostilidade que vao desde o des- dém, 0 desconhecimento, i negagio decla. rada, € até a perseguicdo. Como nao per- ceber, nessas hist6rias de um deus tio mal Tecebido, e ainda por cima sempre consi- derado como estrangeiro, 0 eco descober. tona meméria de uma historia concreta muito real? O argumento esta sendo Sempre recriado pelos modernos: para al. guns, 0 estrangeiro vindo do norte éo deus tracio-frigio, que traz consigo 0 virus do franse, uma religiosidade selvagem;” para Outros, € um deus meridional, que volta Para casa, no Peloponeso, depois de uma longa auséncia devida a invasdo dérica ¢ aristocratica, 3a a tradicdo antiga, nos mitos ou nas tragédias, imaginava itinerérios para as vindas de Dioniso. Assim, nas Bacantes, o coro das lidias evoca os trés Tios atravessz dos na estrada que leva o deus até a Piéria desde as florestas do Pangeu." Nao pa- rece, entretanto, plausivel que um deus to pronto a aparecer e a esconder-se te. nha deixado atras de si vestigios inequivo- cos de seus trajetos em uma terra onde ee eed quando aparece na cidade de Tebas, onde, diz ele, nasceu, € nasceu até duas vezes. Se a mitologia de Dioniso repete e reafir- ma obstinadamente a epifania do deus © seus primérdios entre os homens e as ci- dades da Grédia, € provavelmente porque nos fala da esséncia de sua natureza divina. Pesquisando os relatos da partisia dionisfa- ca, tentaremos ressaltar, nesse continuo aparecer, 0 modo de agit que tora este deus tinico entre todas as poténcias di a aot ecto etica ayeas Hiri de Dioniso, © deus que vem, apresentam trés tipos. Primeiro as chegadas indiretas, através de misses interpostas que intro- duzem um calto, trazem uma efigie, difun- ddem seu fdolo. Em Elis, onde ele se senta serenamente & mesma mesa que sua ma- drasta Hera, é por exemplo uma dupla de nativos, mae e filho, que se supe haver jtuido as ceriménias de seu culto.” Em Sicion, vé-se um tebano, chamado Fanes, © Introdutor, servir-lhe de embaixador, trazendo de sua cidade natal uma estétua "7 de Dioniso Lisios, muito recomendada pelo ordculo de Delfos.' Patras, enfim, vé chegar Dioniso na insélita comitiva de um rei meio louco, e que transporta em seu coffe uma aterrorizante esttua do deus.” Sao pequenos relatos, pouco numerosos, e que geralmente se mostram muito discre- tos sobre 0 proprio Dioniso e suas manifestagdes.” Segundo. tipo de epidemia: 0 deus da vinha, a divindade do vinho e seus hos- pedciros. E Dioniso abandonando atris de si, ao horizonte da viticultura entreaberta, @ promessa de uma bebida fermentada com sua loucura ainda nao dosada, com seu selvagem poder ainda nao domestica- do. Epifania do senhor da taga inebriante, de quem a tradigao ateniense nos dé refi. nada versio em suas voltas ¢ contravoltas, tornando visivel 0 quadro das mediacoes que preparam o advento das boas mani- Tas ao banquete do vinho. Tendo, como contraponto, as figuras opostas: © poder do jorro espontineo e a volta a cena de um deus afeito a manifestagdes repentinas ¢ brutais. Sao essas que propiciam os relatos mais ricos sobre a partisia dionisfaca, A terceira série reagrupa a chegada a terra de Licurgo, a aparigao no palacio das Miniades ¢ a grande parisia na cidade de Tebas. Trés epifanias que desvendam de forma decisiva 0 poder dionisfaco em sua identidade. Trés exemplos da rude loueu- a, da manta que leva ao assassinato © a infamia: viagem ao fim da noite nos pasos apressados de Dioniso. Por suas virtudes epifanicas, 0 deus que chega conhece intimamente as afinidades da presenga e da auséncia. Quer caminhe sorrindo ousalte irritado, Dioniso se apre- nla sempre sob a mascara do estrangei- 10, Eo deus que vem de fora; ele vem de Outro Lugar. Uma histéria de Lesbo da mais detalhes. E contada por Pausdnias durante sua visita ao santuario de Delfos.* O periegeta acaba de completar o seu giro pelo templo, nota os ex-votos no terrago, € prepara-se para descrever os frontoes sobre os quais Apolo e as Musas respon- dem a Dioniso cercado de Tiades. Talvez tenha visto um pequeno santuario de Dio- niso Sphalédtas, 0 deus “que faz naufragar” * ~Alguns pescadores de Metimna trouxe- ” figis em seu altar e faz com que eles entrematem. Essa Artemis, pretendem 1 guns, seria de origem téurica, seria um divindade barbara.” Em face da qual, pre- cisamente, Dioniso exibe sua qualidade de estrangeiro, de Ksénos, quando entra ale. gremente em Patras, na Acaia, onde reina uma Artemis sangiiinéria. De maneir ‘muito singular: Dioniso apresenta-se co- mo um deménio estrangeiro, um xenikos aimdn, um idolo trazido em seu cofte por uum rei também estrangeiro, duplamente ksénos até, pois um dia, em Tria, teria Perdido a razdo ao contemplar a mascara daquele que desde entao possui e que guia SeUS passos."* Anunciada pelo ordculo de Delfos, a insslita comitiva vem libertar a terra de Patras da infimia que he inflige oraneie: derramado periodicamente por ordem de uma Artemis cheia de ressent- O estranho Estrangeiro A situacdo de estrangeiro marca profunda- mente a personalidade de Dioniso, Tanto 2 tipo de relacdo que favorece como ‘un vocagao de se revelar mascarado, yinilo os deuses desfilam ao longo de um , i mascara € para Dioniso a insignia dle nua divindade; ele a ostenta em sua face {fo espontancamente quanto Hermes mpunha o caduceu. O vaso Frangois venta os grandes olhos abertos, fixa- dos sobre o espectador que contempla 0 \lesfile dos Olimpios. Através da mascara Wve Ihe confere sua identidade figurativa, Ibloniso atirma sua natureza epifanica de deus que nao para de oscilar entre a pre- songa e a auséncia.” E sempre um estran- joiro, uma forma para ser identificada, um yosto para ser descoberto, uma mascara «jue o esconde tanto quanto o revela. Mas, vindo com Asénos e assim penetrando em {errit6rio pertencente a uma ou outra ci dude, Dioniso requer o tipo de relaciona- mento social que parece exigir 0 estrangei 10 grego: a relacao interindividual, a hos- pitalidade privada de um anfitrido, quer seja este um camponés ou um senhor de casa real. E com efeito um simples cida- dio, em sua privacidade, que se encarrega de acolher e de proteger um estrangeiro 2 saeco esse campo institucional, q 1e um companheiro chamado Proxe- no. Esse fato € notado em Delfos, e prec samente no santuério de Ay polo, onde liferam proxenos de virias cidades, isso Porque 0s estrangeiros, vindo consultar 9 Prdculo ou participar de festas pane cas, nao tém o direito de n ofer Sacrificios sem a mediag&o de seus No relevo revelado a0 publi 2 Fréxeno do ono donsiaco puna oj ionic Para bebida, do qual lo em uma ffala canelada instrumento familiar a0 culto apolinen’ Esta confortavelmente iustaladey aed Geitado sobre um plano inelinado, na mes. {ha Posicdo que o Pi com o cintaro da grata so. Mas esse Préxeno délfico de Die, © entre duas orelhas bem Pontudas.* Sati- 70 no papel de proxeno para seu senhor, Pa {iri assim, uma vez nao é sempre, a 1 do deus em sua morada, em uate com seu personagem de errante eatrangeiro perpétuo. Mas é a divin- que vem de fora que privilegia a individual: a adesao de um anfi- Wwe faz de Dioniso um deus de elei- , A volta do qual se constitui 0 tiaso, 0 eno grupo que nao obedece senao a si Ano, © que se organiza segundo o ritmo io transe para o servico de Baco.” Se Dio- iso Ne nosmostra em cores tao vivas como lous do tiaso por exceléncia, nesse meio 1) que a vida religiosa se individualiza, é também porque segue em suas cami- ihadas um roteiro tragado por sua condi- who de estrangeiro: Resta 0 outro sentido de ksénos, lembra lo pela mascara de oliveira que trazem em sus redes os pescadores de Metimna Pixiste algo de ins6lito © de estranho no. tonto que surge do mar. No relato de Pau- Minias, ksénos aparece como adjetivo* cu- ju significagio € dada pela pardfrase: “Que hi ¢ proprio de nenhum dos deuses gre- gos”, A matéria da mascara — no caso, a oliveira, em vez da madeira sofrida da 25 videira® — j4 indica uma epifania tranqui= la, que permite detalhar 0 aspecto insslito do rosto, em vez de ser surpreendido, ator= mentado mesmo, como acontece com fre= qiiéncia, pela estranheza de um rosto desconhecido. O estranho aqui conduz ao oriculo; induz.a interrogagio sobre a natue teza do idolo descoberto. Sem desordem ¢ sem reticéncias. Com uma serenidade que em sempre acontece nas manifestagdes de Dioniso. Porque, se o filho de Sémele fosse somente um ksénos, um estrangeiro impaciente para metamorfosear-se em hospede na generosidade imediata das fes- tas dos ksénia ou do ksenismds," isto é, da mesa de h6spede que é arrumada as vezes €m sua intengao por algumas cidades fieis, cle seria um estrangeiro como os outros de linhagem divina, acolhidos no banquete com data mareada ¢ festejados na alegria Pura das Teoxénias." Em suas mais memoraveis epifanias, Dioniso € tao estranho quanto estrangei- ro. E o Estrangeiro portador de estra. nheza. Mas uma estranheza que se difunde através do desconhecimento, ou melhor, do nao-reconhecimento, O relato de Pau. 2% ‘ehclarece-the a motivacdo Sbvia: um ‘estrangeiro € um desconhecido, a tal i que os metimneus hesitam entre eategorias, deus ou her6i. Como ihecer um deus que ndo se conhece’ mais que Dioniso aparenta ser di- recente:® nao nasceu ele de Sé- fiiele, filha de Cadmo, ha apenas mil anos, ‘$0mo muito a propésito lembra o historia- Hor Herddoto? Ao que se acrescenta um aes, cis'o proptio Dionito jiireve reforcar quando aparece em Tebas, WW abertura das Bacanies: que ele seria fillio natural de Sémele, e nao filho de ‘Zeus ¢ de uma mortal. Injuriosa caliinia, ee ee Diente detecsomp Héracles um bastardo oficial de Zeus e de somegar sua carteira como parente pobre dy familia dos Olimpios. Dioniso precisa {iver reconhecer sua qualidade de potén- elu divina, ao menos no mundo dos homens. Ea obsessao de sua pariisia te- buna, a mais elaborada de suas epifanias. Na Bedcia como na Argélida, Dioniso co- hece a humilhacao de um deus que € tra {ado como simples mortal, quando nao o eusam de impostor. Ha os que ndo 0 ” reconhecem e logo o renegam; os inerédu- los que se recusam a acreditar nele, os tontos que fingem consider4-lo sem impor- tancia; os agressivos que nao querem ouvir falar de suas cerimnias. Sobretudo, hé os que tém por vocacao persegui-lo, brincan- do de algozes, e que, quando se tornam suas vitimas, passam a testemunhas vie brantes de sua pardsia de deus todo- poderoso, Primeiro da série negra: Licurgo, o rei dos edénios. Pois é na Tracia, terra supos- ta de suas origens nao-gregas, que Dioniso encontra seu primeito adversdrio. O Li- curgo homérico aparece na Iliada como 0 inimigo dos deuses, “procurando disputa com as divindades uranianas””. Um pro- fissional da impiedade, e até mesmo uma besta furiosa que ataca Dioniso sobre 0 Niseu sagrado. E um assassino (androphénos") que se atira contra as amas de Dioniso, o Delirante (Maindme- nos), dispersa as portadoras de tirso, per- segue 0 jovem deus assustado. Argumento recriado por Esquilo nos Edénios:" as ba- cantes so acorrentadas, o bando de S41 ros aprisionado, mas, desta vez, Dioniso Py sifatu Licurgo até os limites de sua loucu- 14, © lorna « dirigir contra o possufdo seu tlesejo de violéncia e de homicidio. As ‘tadeins das Ménades portadoras de tirso ‘euem por si mesmas; as altas muralhas do piuldcio real comecam a oscilar, o telhado é Jomado por um delirio baquico, poe-se a Wwlangar, a dangar. Por sua vez,” Licurgo entra em delirio. Levanta o machado de ois gumes, quer derrubar a vinha, gol- fear © arbusto maldito trazido pelo Es- {wungeiro, Turvando sua visio, Dioniso 0 Jova até seu filho, até a crianga-vinha ater- forizada que tenta escapar-Ihe. Mas Licur- go, rei delirante, corta os sarmentos e 0 pé dia vinha. Depois que as extremidades da erianga foram cuidadosamente cortadas, Dioniso 0 faz voltar a razo. Assassino de seu proprio filho, Licurgo torna estéril to- dia terra 4 sua volta e, seguindo o conse- tho do oraculo de Delfos, os edénios 0 levam, amarrado, para o interior das flo- estas geladas, no monte Pangeu, onde se ergue — Herédoto o viu"—um santuario oracular de Dioniso, que profetiza pela voz de uma mulher, cercado por seus sacer- dotes, 4 maneira de Apolo nas alturas de 2» Delfo: ae qual ee meer osisarers no.” Elas se destacam pelas re- podessiaireealvsdo ee 4 dirigidas as outras mulheres que crlescVaniin ne cidade e vio fazer o papel de 4 ni montanha. Dioniso lhes ofe- Wi oportunidade de reconhecer sua divina, Sob a méscara de uma Loucura i ote ¢ infamia, por geracoes inteiras. |, ele exorta as Minéades a nao falta- De Argo ‘suas cerimOnias e a nao negligencia- Be a, reémeno, Dioniso avanga ‘Voit os mistérios do deus, Elas nao Ihe dio Jos m ? ee PORGienatinenteds a Mlengho, Dioniso pode dar livre curso ascu brosa. O argumentoé omesmo: recuse dag Wwsientimento. E perturba-as com suas ceriménias de Dioniso; as mules inelamorfoses: touro, lea, leopardo, en- quecidas comecam a errar pelos cannon quanto do tear — 0 objeto técnico que Agora é uma doenga que exige um mech parece justificar a vocacao doméstica das co, uma infamia que requer puriionan nines — comeca a escorrerleitee néc- Depois;a loucura aumenta, corte cal {ur pelos montantes. Apavoradas diante conjunto de mulheres, e soba forma cme le his prodigios, as trés irmas se precipi- ma de infanticidios, praticados pelac nay {um para o culto de Dioniso, dedicando-se escondidas no mato. Dois praus te pa Joueamente as cerimOnias do novo deus. em que 0 segundo ence1 pos “ oe loucura Sem perda de tempo, colocam, as trés, impureza, com o sangue de um ae a de sortes em um vaso, que balangam; a sorte mado pela propria mae 0 derra- iil em Leucipo, que promete oferecer Mas € em terra bedcia, em Teb. lumi vitima a Dioniso e, com a ajuda de Orchmeucytiua a ferisiacionteee oie sus irmas, dilacera a carne de seu proprio seus riggs a Parisiadionistacarevela filho",”” Minfades, as eee com as Duas verses," entre as trés conhecidas, 8 filhas do rei de prolongam a tragédia das Minfades, ex- ” a Pondo a recafda na loucura furiosa que faz assassinas. No relato de Eliano, elas Precipitam em diregéo ao Citéron, pr cam a oribasia* que precede o de: bramento de um filho por sua mae. Us vez prestado a Dioniso o culto que Ihe devido, elas se atiram, alegres, felizes, frente das outras Ménades. As quais, nenhuma hesitagao, as rejeitam, as exp sam, © as perseguem “por causa de s1 Jintades, enlutados, sao chamados de infamia (dgos)". As comportadas bacant is “de rosto enegrecido de fumaca”, de Oredmeno nio se reconhecem na lous EE et Minindes skoiconhecidas.co- cura assassina das filhas de Minias, Mas 6 lea, eee our cralrasciaypor na versdo de Plutarco que ainfamia gerada epeoes «Eo titulo que. rece- Pela loucura produz todas as suas conse- {eit em Oredmeno, ao tempo de Plutarco, qiiéncias: até motivar um ritual dionisfaco 14 deweendentes do génos das Miniades. ainda observado na Beécia no século I de ‘Die dois em dois anos, em honra de Dioni- Nossa era. As trés Miniades, relata Plutar- Wi, om meio A festa das Agridnias,* os Co, sao ld apresentadas como totalmente Jbiiuntes de Orcémeno representam a loucas e, por obra de Dioniso, s4o assalta- wenn do exilio da perseguigdo. As mu- das por um desejo de carne humana, Ti- heres da tinhagem das “assassinas”sio no- Tam a sorte para saber qual de seus filhos ‘yamente perseguidas como o foram antes ir satisfazer esse desejo, e a mae favoreci- Minviades, tornadas impuras por have- da pela sorte se delicia com a honra de fein derramado o seu préprio sangue. Mas fn lugar das bacantes, € 0 sacerdote de Pioniso quem conduz a cagada e, com a mao, “éIhe permitido matar sud, Um assassinato sacrifi pelo desejo de devorar a vit ous Minfades para as bandas ies, esses fandticos de sacrifi- nos altares de Dioniso, e que 0 maximo do horror devorando- amente,” ‘entio, em Orcdmeno, os esposos * Oreibasa:caminhada pelas montanhss, (N. do R.) 2 a aquela que consegue alcancar na corri ‘Como se uma mancha intacta indi ainda as descendentes das Miniades pi vinganga legitima daquele que che; primeiro entre os cidadaos de Ore6: Tepresentado no cerimonial pelo sacerd de Dioniso. Um Dioniso oficializado, resta divida, mas fazendo pesar d geragdes a carga de seu ressentimer sobre aquelas que o reconheceram tar demais, Em Orcémeno, a partilha € rigor ‘mente tracada entre as filhas de Minias € outras mulheres, “Sdo numerosos os ta-tirsos, ¢ raros os Bakkhoi”, segundo formula dos “que cuidam das iniciagdes 08 discipulos de Orfeu, peritos em tel que reservam a Dioniso um lugar de honra.” O deus procede aqui da mesma forma como agira na terra de Tebas. Pri meiro vém as mulheres doceis, 0 bando sombrio das esposas que seguem 0 cami= nho do Citéron: sua loucura tranqiila ser- vindo de pretexto para a verdadeira epifa- *Coriménias nines. (N. do.) M wompete As Miniades conhecer. $ @ dado testemunhar o cardter de 1 do deus da mania: pela expe- de wma possessio que o torna es- #19 4 si proprio e faz do possuido um iho arrancado & sua comunidade pe- ‘Vebas, entre Cadmo e Agave, aim- © 0 exilio se escrevem com letras de Wie ainda mais vivas. Tebas, a terra ‘iui nascer Dioniso, pode renegé-loem {ud # sun soberania, Em sua terra natal, {iwislo que em Orcémeno, Dioniso osten- ‘Ww ndscara do Estrangeiro. A familia real tle Vebas, cega a evidéncia de sua natureza diving, “vai saber que nao é iniciada no ‘seryigo de Baco”.* Ouvindo “seus conter- Wineo% negarem que ele fosse um deus”,” Hienixo vai mostrar-Ihes 0 que custa co- jlieod-lo tarde demais. O assassinato de Pomtcu, a infamia de Agave, o exilio de Cudmo, assim como violéncias flame- juntos © exemplares que expressam de ma- fwira inesquecivel sua qualidade divina. A jurtisia dionisiaca atinge seu paroxismo {iano o carater de Estrangeirose verifica ein sunt terra natal, Pois € preciso descobrir © seu teatro e, por tras da cena habitada pelo deus que vern como ksénos, a outra cena, evocada pelo seu duplo nascimento no abrigo fulminado de sua mae Sémele, A epifania tebana de Dioniso se desen- rola entre dois santuarios intimamente li- gados a hist6ria religiosa e cultural da terra de Cadmo. De um lado, o ttimulo de Sé- mele, 0 aposento nupcial da mulher que dew a luz por causa do fogo do céu, o lugar proibido e calcinado onde descansa a mae que vem vingar seu filho, Desde as primei- ras palavras, Dioniso mostra esse lugar." Mas finge ignorar aquilo que sabiam, 0 que viam os espectadores familiares de Te- bas e de seus deuses: “contra o abrigo de Sémele”, um outro santuario, o de Dioni- so Kadmeios."" Um Dioniso, grande deus de Tebas, aquele mesmo que o coro do Edipo Rei evoca: depois de Apolo, o licio, 0 salvador, o deus do arco, é Bakkhos do evoé, de mascara purptirea, companheiro das Ménades errantes, 0 deus que é 0 “epénimo” da terra de Tebas. © Dioniso que recebe seu nome de Cadmo, 0 autéctone.* Atestado pela epigrafia desde 0 século III antes de nossa era, 0 Dioniso % teina em companhia de Apolo ‘Wumembléia dos deuses tebanos.®° E ‘elebrada a cada dois anos em sua ‘ein 0 mesmo nome que o ritual de com as caracteristicas das Mi- iho as Agridnias. Em conseqiién- # dlews que se apresenta como estran- dianie da cidade €, de todos os de Vebas, a divindade mais pode- junto com Apolo." aqui ainda, seu ele Situagio paradoxal se Dioniso ser confundido com um deus real- Wenle estrangeiro, como a Béndis tracia i) Adonis sirio. Se a qualidade de Es- (anyeiro é um dado estrutural da divin- ‘dude de Dioniso, nao é surpreendente que ‘gli aparega com mais forca na regido e na fidasle que the sao mais familiares. E {uwnto mais proximos de seu nascimento A100 08 que o ignoram, mais forte se torna ‘hi locessidade de ser reconhecido, e mais angerbada se torna sua violéncia na epifa- ji, Lim terra tebana e entre os seus, Dio- ilso J no pode esconder que é o Estran- jello do interior, nem que o cardter es- {Wungeiro de sua pardsia é essencial & sua jutuireza de deus sem sindnimo. ” Sobre o horizonte das Agridnias, Dioni- so arrasta as fillhas de Cadmo para a mes- ma loucura assassina que a das filhas de Minias. Pelo amor de Sémele, ele proprio escolhe a crianga que a mae vai dilacerar ‘em sacrificio diante de seus olhos. Penteu desmembrado por Agave € a inversio tré- gica do par dionisiaco, tao presente em Tebas, do filho e da mae amorosamente enlagados. Em face da loucura furiosa de Agave e de seu tiaso, 0 coro das bacantes lidias na peca de Euripides ocupa o mesmo lugar do bando tranqiiilo das mulheres de Orcomeno fazendo © papel de Ménades sobre 0 Citéron. Em Tebas, na intriga da tragédia tebana, Dioniso declara ele pro- prio o castigo que reserva a Cadmo ¢ a Agave." Como as Miniades impuras © ex- pulsas da regido, a mae de Penteu deve seguir para o exilio. E banida da casa de seu pai, é arrancada de sua patria." Por um. motivo explicitado por Dioniso: “Estas obrigada, tu, assassina, a deixar a cidade.”” Ao que fazem eco os remorsos de Agave: “Se cu nao tivesse com minhas proprias maos praticado uma infamia (mui- sos) dessa ordem.”* Em outro lugar ainda, nll Agave e suas irmas: “Elas deixar a cidade para expiar a infa- yi (andsion méasma) para com Wwe maysacraram. Jamais reverao , pois a devogao nao permite que {ios habitem a terra onde estao os dle suas vitimas...”” As filhas de subom da sorte reservada aos ho- i) impureza as exclui da terra de win 1) Oredmeno, Dioniso condenava as perience das Miniades a carregarem a iinia de suas ancestrais. Em Tebas, é a Wieendéncis que é atingida na pessoa de ‘Taino, avd de Penteu. Sem complacéncia juts como sexo masculino, o deus com julwoura de estrangeiro obriga ao exilio o {wiidador da linhagem: como suas filhas, (Cyulmo deve ir embora, até perder-se no jiwlo dlos birbaros. Ainda mais, ao “Se- ineador da raga tebana”” Dioniso impoe (jue conduza contra a Grécia a horda de Wii exéreito barbaro. Mais cruel ainda, 0 ileus ordena expressamente a Cadmo que xe conduza ele préprio como um sunquistador barbaro, destruindo os mais sujiniios bens dos gregos: os altares dos » deuses e 0s trimulos dos ancestrais, Até momento em que o fundador de Tebas € sua esposa, chegando as portas de Delfos, “tenham saqueado o santudrio de Léxias”.” Para libertar-se de sua mons- truosa forma de serpente e para estabele- cer-se com Harmonia no pais dos Bem= ayenturados, Cadmo, feito barbaro, deve ir até o maximo da impiedade, deve come- ter mais alto sacrilégio: pilhar o templo pan-helénico de Apolo, destruir a casa da- quele que € igualmente o outro grande deus de Tebas abandonada. Sob duas efigies idénticas papel de Melampo nas tradigGes de Ar- g0€ de Sicion jé fazia pensar a mania como um estado dividido entre a doencae a inf mia. A loucura dependia da competéncia do adivinho, do mago e do purificador se- gundo técnicas concorrentes ou cumulati- vas: encantagoes, ervas medicinais, danga coribantica ou sangue purificador derra- mado sobre a cabeca. Ha no delirio, na ‘mania dionisfaca, uma parte de impureza. Diretamente imputavel ao fato de estar ” ie si, separado dos outros e de si | Como uma primeira infamia que ima outra, tao presente na de- Hopra, desde Licurgo até Agave: a gerada pelo assassinato, as maos do infanticidio. Entre um homicida e ‘demente, a homologia é grande: a lou- vi no homicidio, enquanto o assas- © muitis vezes considerado como um \uido. B, pois, a dimensao purificadora _ que se revela nas parisias vio- Nun do Bakkheios ou do Bakkhetis: ‘Munto mais se desencadeia a loucura, {iwior 4 importincia dada a catarse. Dioni- ‘W/W conhece a ambas intimamente. Prova disso é sua biografia de crianca ilivina, naseida de mae mortal e persegui- ‘i pelo Odio da madrasta Hera. No relato tl Hiblioteca,” Dioniso, metamorfoseado iH eabrito por um pai prudente, escapa or um triz A loucura sangrenta que se bate sobre a casa de Atamas e Ino. Em Nina, onde Hermes precipitadamente o es- undeu, © jovem Dioniso descobre a vi- tha. Hera segue-o de perto e, dessa vez, {unio diretamente por alvo de seu furor, dle su raiva devoradora. Dioniso entra em a delirio. A mania o possui, a ele que seré. deus que levara os homens a loucura, ‘momento em que, com a vinha, é ev abebida inebriante, porém quando Di so esté ainda sob 0 poder de Hera, também perita em delirios furiosos. Ele comeca a vagar entre 0 Egito € Siria. Proteu o recebe em primeiro lug ele que € 0 rei dos egipcios. Mas Dioni continua sua viagem, que 0 leva até a Frie gia, Acasa de Cibele. E entao acolhido por Réia, a Mae dos deuses, distinta aqui de seu duplo frigio, da Mae com seu cortejo de tamborins, de flautas ¢ de érgia.” A arte alexandrina representa o Dioniso perse- guido por Hera e refugiando-se sobre 0 altar de Réia, a av6 protetora que o salva de sua madrasta.* Sobretudo, Réia poe fim & loucura de seu neto: “purifica-o” da ‘mania. E Dioniso, novamente senhor de sua razdo, aprende suas proprias cerimé- nias, suas telera; recebe das maos de Réia sua vestimenta, sfolé, seu traje de bacante, antes de partir em direcao a Tracia. A purificacao o faz sair de um estado de im- pureza contrafdo na mania: ela o qualifica, ritualmente ao que parece, para ser intro- 2 ‘fi Neu proprio cerimonial. Pois Neu Contexto, o sentido de stolé: “WupAa que cobre a nudez, mas a ii dos fidis de Dioniso, 0 traje \s cerimOnias, que ele obriga Hs @ as mulheres de Tebas a 10 tirso, a hera, a veste longa, a or cima: complemento baquico Mhino, cagador disfarcado em cama- , woloea com extremo cuidado sobre winbros de Penteu nas Bacantes.” E ‘voatimenta feminina, e quem a aceita Wingido por uma leve deméncia.” nw alieridade. Mas é também o traje dew, Crindo na armadilha da veste | {lle Lisa Como um disfarce, Penteu se Maventide em Bakkhos, fiel de coracao i © culpado por querer contemplar lo que nao € permitido ver — Dioniso ile claramente — aos que nao se tor- Wem Nakkhoi.” © Dioniso purificado e revestide de sua Wiseara-veste pelos cuidados de Réia en- Hohn em sua biografia dois aspectos im- Jirluntes do dionisismo antigo. Um, mais ‘papligito em um plano mitico, revela a im- fiirer# da loucura, da mania, a infamia a que ela inflige, a libertagdo que ela pro ca. Enquanto 0 outro, mais relacion com figuras do tipo ritual, descobre qq experiéncia do fiel de Dioniso passa p visdo reciproca do bacante ¢ de seu d “Ele me via, eu o via; ele me confiou s Grgia”.” diz Penteu curioso das cerit nias, das teletaé trazidas pelo Estrangeit Reciprocidade que vem ajustar um mesn traje sob o qual o celebrante e 0 celeb io semelhantemente outros, os dois estado de bacantes, estado que é um den minador comum entre o deus e o hom Fazendo-se iniciar em seus préprios misté rios, depois de ter conhecido o transe d mania, Dioniso se torna assim aquilo q €, Segundo o processo de uma maturidad a0 mesmo tempo que em funcao de reconhecimento pelo mundo olimpi Mas é um Dioniso que retine no paradi de sua historia divina os elementos esser cias da experiéncia religiosa que ele int duz no mundo dos homens sob o signo d condigao de estrangeiro/Estranhez: cura-infimia e a purificagao, tendo, em_ seu prolongamento, a mascara-disfarce e visio da facialidade brutal. “ Atingido pela mania, enlouque- | ‘upesar de sua aversao pelos Niles, Platéo, em meio a seus i um bom lugar.” Tira mes- Aigo para sua filosofia da edu- do se trata de confiar a Dioni- lo coro reservado a terceira niho é a dos aposentados. Os platnicos atingem a maturidade # toligiosa. A versao das Leis traz a Dioniso que se vinga da mania | proporcionando aos humanos as i iquicas (bakkhefat), bem co- is as coréias em transe (manike ), Dentro do mesmo espirito, Dio- {oria concedido a dadiva do vinho, jakon tao precioso que, na ci- Hos magnésios, seré conveniente ad- Wi-10 em estado puro aos velhos, aos leva ao mesmo tempo “iniciagdo e Wo” (teleté © paidié"). O modelo #6 Hwis acdequado que o da Biblioteca 11 slosvio algum pela provagao de Dio- Wit A mania enviada por Hera responde ‘i Joveuir# biquica alternando com o vinho H), que (em, um € outro, poder inicia- Ho 4s E no transe que se faz a purificagéo, segundo 0 processo mais familiar na or- dem cultural. E a comegar por Tebas, mas continuando por Sicion e por Corinto. Na Antigona, quando a cidade inteira é atacada pela doenca, pela ndsos, pela pes- tiléncia dos mortos abandonados a0 ar livre, o coro se volta para Baco, o deus de ‘Tebas, mas também 0 deus das montanhas de Delfos e do santuario de Eléusis. “Vem, com pé purificador, galga as alturas do Parnaso e atravessa 0 estreito plangente.”® E 0 Dioniso Kathdrsios, 0 deus que liberta, Liisios, como € chamado em Tebas. Novamente aparece acompa- nhado por sua mae Sémele, mas em um templo situado perto das portas da cidade, no lugar conhecido como as Portas das Prétidas." Um Dioniso no limite do espago urbano, que ele domina em sua posigao de Kadmeios: poténcia das “cerimOnias que libertam e que purificam”." Kathdrsios ou Ltisios, o deus de Tebas reina como ba- cante: sua cidade natal nao pode esquecer suas parisias. Na cidade de Cadmo, Dioniso aparece desdobrado, tal como o € em Sfcion, mos- 6 trando dois rostos, usando dois nomes que seu cerimonial enunciae representa a cada ano. Sicion é a antiga Aigidleia, no eruza- mento de altas purificagdes: as filhas de Preto por Melampo; Apolo, quando a lou- cura 0 acomete depois do assassinato de Piton. La, Dioniso possui duas moradas."* Um santuatio abaixo da Acrépole, atrés do teatro: deus visivel de ouro ¢ de mar- fim, em meio a suas bacantes de marmore branco, senhor de mulheres que Ihe sio consagradas (hieraf) e por ele entram em transe. “Mas 0s siciénios possuem também outras estétuas que conservam escondi- das. Uma vez por ano, de noite, eles as transportam em procissio desde o que chamam Casa dos Enfeites (kosmétérion) até o Dionision, 0 templo de Dioniso. A procissao se realiza 4 luz de tochas, ao som dos hinos da regido. A frente vem aestatua denominada Bakkheios, sustentada por Andrémadas, filho de Flias, seguida pela estétua denominada Ltisios, que o tebano Fanes trouxe de Tebas por ordem da Pitia."” Dioniso se desdobra, favorecido pelas sombras, abandona seu tiaso de mar- more e de mulheres em transe. Desdenha « sua efigie oficial, e vai, ao som dos hinos e em meio as tochas, revestir-se com as duas mascaras da noite. De frente, apresenta~ se como bacante, deus de delirio; enquan- to por tras aparece como poténcia purifica- dora, como Liisios, deus da libertagio vin- do de Tebas ¢ trazido por um fiel de sua epifania, 0 apropriadamente chamado Fanes. Duplo poder de Dioniso em uma encenagio analitica da mania, que pode ser purificagéo na propria loucura, mas porque é antes conhecimento da impureza na violéncia de um delirio que exige em troca ser purificada, De acordo com o per- curso seguido por Dioniso entre as duas poténcias, Hera e Réia. Essa dualidade, os corintios a procla- mam na agora, a luz.do dia, mas através de duas estatuas absolutamente idénticas.* S4o as xdana, estétuas de madeira cober- tas de ouro, exceto o rosto, tinto de verme- Thao. Aparentemente, nada distingue uma da outra, Entretanto, uma tem 0 nome de Liisios ¢ outra 0 de Bakkhefos. S6 a deno- minagdo vem desmentir a identidade que se afirma até no material escolhido. Pausd- nias, nosso informante, consignou por es- crito a palayra dos exegetas de Corinto: Penteu ultrajando Dioniso, 0 espidio pen- durado no topo da érvore, o corpo estraga- Ihado e, aps 0 drama, 0 ordculo da Pitia ordenando aos habitantes de Corinto que encontrem 0 tronco ensangitentado € 0 re- verenciem como a um deus. Duas efigies de Dioniso mascarado, esculpidas na mes- ma madeira violenta que marca a ident dade do deus Liisios e Bakkheios desde Tebas e o monte Citéron. Sem diferenciar os dois aspectos divinos por materiais de valor antitético, como o fazem os habi- tantes de Naxo com suas duas mascaras de Dioniso, um, cognominado Bakkhetis talhado em madeira de vinha, outro dito © Suave, 0 Apaziguador, 0 Meilikhios, ¢ es- culpido no tronco de uma figueira.” Mais refinados sao 03 corintios com seus dois Dionisos, com mascara igual em igual ma- deira: duplos idénticos que uma voz vem. chamar cada um por sua vez ¢ atribuir aos dois polos da mesma poténcia tao perfeita- mente mascarada.