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Dimensões da Matriz Epistemológica em Estudos Organizacionais: uma

proposição.

José Henrique de Faria


Curitiba: EPPEO, 2014
Versão Original Apresentada no EnANPAD 2012

Resumo
Este é um estudo de reflexão científico-filosófica propositivo, cujo objetivo é
apresentar uma Matriz Epistemológica composta por Dimensões Epistemológicas
Constitutivas, as quais são caracterizadas por elementos que compõem as Áreas de
Domínio Epistemológico, como orientação epistêmica e metodológica na área de
Estudos Organizacionais. Com isto, espera-se que seja possível oferecer uma visão de
conjunto das diversas formas como o conhecimento científico em Estudos
Organizacionais é produzido, opondo-se ao mito de uma única e verdadeira forma de
produção do saber.
Palavras-chave: epistemologia, pesquisa, matriz epistemológica, produção de
conhecimento, estudos organizacionais.

Introdução

A ciência do conhecimento não é uma unidade, um bloco monolítico. Trata-se


de uma totalidade com linhas de demarcação ou Áreas de Domínio, porque não existe
um modelo puro, já que as Áreas de Domínio podem possuir alguns Elementos
Constitutivos comuns, sendo que o que os diferencia é a combinação e disposição
desses elementos.
Em linhas gerais, epistemologia poderia significar reflexões teóricas sobre
conhecimento ou técnica do pensamento que se encontra expresso nos textos, ou seja,
método efetivamente utilizado quando o texto foi concebido. Porém, estas visões são
bastante toscas, porquanto ao não disporem de categorias de mediação e de elementos
constitutivos destas categorias, acabam por fazer da epistemologia uma concepção
primitiva. Assim, é necessário aprofundar mais o conceito, mas não apenas este. É
necessário compreender que elementos constituem e caracterizam cada uma das
Dimensões Epistemológicas.
Este é um estudo de reflexão científico-filosófica propositivo, cujo objetivo é
apresentar uma Matriz Epistemológica composta por Dimensões Epistemológicas
Constitutivas, as quais são caracterizadas por elementos que compõem as Áreas de
Domínio Epistemológico, como orientação epistêmica e metodológica para a área de
Estudos Organizacionais, ainda que possa ser estendida às demais áreas das Ciências
Sociais e Aplicadas e das Humanidades. Com isto, espera-se que seja possível oferecer
uma visão de conjunto das diversas formas como o conhecimento científico em Estudos
Organizacionais é produzido, opondo-se ao mito de uma única e verdadeira forma de
produção do saber, às crenças de que existem melhores formas que outras para se fazer
estudos em organizações e às concepções de que cada Dimensão Epistemológica, por
ser única, é constituída por elementos também únicos.
O presente estudo é derivado de um projeto mais amplo que trata da
epistemologia, da metodologia e da teoria. O que se apresenta aqui é um resumo
qualificado dos avanços já obtidos no desenvolvimento deste projeto de pesquisa. Por se
tratar de uma proposição, parte importante do conteúdo vem sendo desenvolvido e a
descrição das Dimensões Epistemológicas deriva de estudos dos autores clássicos de

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cada uma delas, daí a pouca indicação bibliográfica aqui. A finalidade é a de oferecer
uma proposta que auxilie os pesquisadores em Estudos Organizacionais a terem uma
noção, embora básica, do processo epistemológico que guia suas pesquisas.
De fato, embora pareça relativamente simples, o conceito de epistemologia
possui pelo menos três vertentes e, por isso mesmo, três diferentes formas geralmente
aceitas de abordagem. Sobre a epistemologia, é conveniente apontar, emergem muitos
significados que, ao final, são reduzidos às três vertentes mencionadas. Em uma delas
chama-se epistemologia a teoria do conhecimento. Em outra, a epistemologia é
conceituada em sua versão etimológica, sendo entendida como teoria da ciência. Na
terceira delas, epistemologia é entendida como filosofia do conhecimento ou filosofia da
ciência. Ainda que pareçam diferenças semânticas, estas concepções encerram posições
bastante diferenciadas. Em vista disto, este estudo iniciará pelo esclarecimento de
alguns conceitos que servirão de suporte às discussões, sem nenhuma pretensão de que
esgotem o tema.

1. Sobre a Epistemologia

Como foi dito, as três vertentes que conceituam epistemologia a tratam como
teoria do conhecimento, teoria da ciência e filosofia do conhecimento ou da ciência. No
primeiro caso, segundo argumenta Santos (1976, pp.11-12), a epistemologia organiza-se
primeiramente sobre os pressupostos oriundos de uma abordagem anglo-saxônica,
baseada nos empiristas ingleses do século XVII em suas críticas ao racionalismo, que
submete a liberdade da construção do conhecimento a regras externas e imutáveis,
paralisando o desenvolvimento científico. Posteriormente, partindo da investigação do
entendimento humano, organiza-se paradoxalmente sobre o idealismo alemão do Século
XVIII, assumindo a forma de autocrítica, embora não tenha ultrapassado os esquemas
vindos de fora (externos) formulados por uma filosofia especulativa.
Nem mesmo no idealismo a epistemologia, enquanto teoria do conhecimento, foi
além de uma teoria redundante. Na realidade, a Teoria do Conhecimento refere-se mais
propriamente à Gnosiologia e, portanto, à relação entre sujeito e objeto no ato de
conhecer. A noção de epistemologia que a crítica dos empiristas carregava, continha
uma limitação proveniente do fato de que o epistemológico era apenas uma parcela
complementar do saber, de tal modo que o empirismo que dá o suporte para
fundamentar a crítica, embora pudesse transpor a filosofia, não a ultrapassou. Para os
idealistas alemães, a noção de epistemologia como teoria do conhecimento repousa
sobre a idéia de investigação do entendimento humano acerca dos fatos e fenômenos e é
assim que foi compreendida no Século XVIII.
Por seu turno, ainda de acordo com Santos (1976, p. 12), como teoria da ciência
a epistemologia remete geralmente a uma abordagem preferida na França. Continua
com as limitações e a falta de autonomia relativamente à filosofia. No entanto, esta
concepção admite uma subdivisão: (i) Epistemologia como filosofia aplicada, que
considera a ciência dependente de categorias filosóficas; (ii) Epistemologia como
ciência da ciência, que é um postulado partenogenético, em que a ciência se reproduz
sem a fertilização da filosofia, ou seja, trata-se de uma concepção que tem a pretensão
de um “positivismo liberador de filosofismos”.
Como filosofia aplicada, trata-se de uma concepção que precede à da história da
ciência, uma concepção “pré-histórica” que subordina a liberdade e a imaginação
científica a normas exteriores e eternas. Esta noção submete não apenas a liberdade do
conhecimento e a imaginação científica a um conjunto de normas tão exteriores quanto
imutáveis e eternas, mas igualmente a construção do conhecimento a estas regras,

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provocando, se fosse realizável, uma paralisação histórica contraproducente para o
desenvolvimento cientifico. Esta concepção logrou êxito durante o tempo em que a
evolução científica era tão lenta que sequer parecia existir (SANTOS, 1976).
Como ciência da ciência a epistemologia surge como uma resposta aos rápidos
avanços científicos. Dito de outro modo, o acelerado avanço da ciência conduziu ao
postulado deste conceito em que a ciência se reproduziria pela própria ciência
sobrepondo-se às usurpações da filosofia (SANTOS, 1976). A ciência da ciência
pretendia ser, então, uma unidade do saber.
Como afirma Lecourt (1980. p. 11):
Dizer que uma ciência da ciência é possível significa, além
disso, afirmar que a “ciência” pode revelar, pela simples
reflexão sobre si própria, as leis de sua constituição, isto é, de
seu funcionamento e formação. Consiste em afirmar que o
discurso científico tem a virtude intrínseca – e excepcional – de
poder enunciar, por si próprio, sem sair de si, os princípios de
sua própria teoria. Noutros termos, o “discurso científico”,
soberanamente autônomo, não teria de dar contas a ninguém e
construir-se-ia sem choques nem obstáculos, no especo da pura
cientificidade por si próprio instituído, arranjado e delimitado.
A inexistência de obstáculos, na concepção de Lecourt (1980, pp.11-12), se dá
porquanto qualquer obstáculo seria, desde logo, localizado, enunciado e, por direito,
superado pelo próprio discurso científico implícito, mantido consigo mesmo, em seu
foro íntimo e que só ele pode esclarecer, como e quando desejar. A conseqüência
imediata deste processo autorregulador é que se são as leis do próprio discurso
científico que determinam o seu desenvolvimento e se o mesmo não tem obstáculos, a
conclusão do saber é sempre possível, bastando apenas remover algumas dificuldades
meramente formais que, momentaneamente constituem um entrave. Tudo não passa de
uma questão puramente técnica, em que a história da ciência é apenas um
desenvolvimento, uma evolução que “conduz o conhecimento do erro à verdade” e em
que “todas as verdades se medem pela última que aparecem” (LECOURT, 1980, p. 12).
Finalmente, como filosofia da ciência, a epistemologia seria um campo de
pesquisa da filosofia que estuda os fundamentos, pressupostos e implicações filosóficas
da ciência, estando diretamente relacionado à ontologia ao tentar explicar a natureza das
afirmações e conceitos científicos e a forma como são produzidos: (i) os meios para
determinar a validade da informação; (ii) a formulação e uso do método científico; (iii)
os tipos de argumentos usados para chegar a conclusões; (iv) as implicações dos
métodos e modelos científicos para as ciências. Este conceito parte do princípio de que
todas as ciências possuem uma filosofia subjacente.
Em todos os casos a epistemologia seria conceituada com outro conceito
substituto: epistemologia = teoria; epistemologia = filosofia. Neste sentido, ou seja, para
superar esta limitação conceitual, propõe-se aqui que epistemologia seja conceituada
como o estudo dos conhecimentos que têm por objeto o saber científico, tecnológico,
cultural e filosófico, visando a explicar os seus condicionamentos (técnicos, históricos,
sociais, lógicos, matemáticos ou linguísticos), organizar e sistematizar as suas relações,
esclarecer os seus vínculos e avaliar os seus resultados e aplicações. A epistemologia
responde, assim, a uma questão: como o conhecimento (científico, tecnológico,
filosófico e cultural) são produzidos (partindo do concreto) ou construídos (partindo da
ideia)? Do ponto de vista das pesquisas em Estudos Organizacionais a epistemologia
não se ocuparia, portanto, de quaisquer conhecimentos, mas daqueles que, tendo por
objeto as organizações concretas, se ocupam ou produzem o saber científico,
tecnológico, cultural e filosófico. Deste modo, portanto, a epistemologia deve ser

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reconhecida e referida como o estudo sistemático do conhecimento, que se vale tanto da
ciência, quanto da tecnologia, da cultura e da filosofia. O saber produzido pela cultura,
entenda-se desde logo, é todo aquele saber histórico e social, seja ou não o mesmo
apropriado, organizado e sistematizado pela ciência, pela tecnologia e pela filosofia.
Insistindo, a questão central de toda epistemologia, no sentido mencionado, é:
como o conhecimento científico, tecnológico, cultural e filosófico se produz ou se
constrói? Existem dois condicionantes principais da produção do conhecimento que se
encontram em um nível pré-epistemológico. Nesta linha de raciocínio, pode-se afirmar,
com Bachelard (2006), a partir de seu conceito de vetor epistemológico, que os dois
pólos extremos que constituem os paradigmas iniciais pré-epistemológicos a partir dos
quais se move a epistemologia são (i) o empirismo ou experimentação, em que a origem
do conhecimento provém unicamente da experiência, ou seja, o conhecimento decorre
da redução do ser ou do objeto ao pensamento; (ii) o racionalismo, em que o real é
plenamente cognoscível pela razão ou pela inteligência e não pela intuição, pela
vontade, pela sensibilidade, etc., ou seja, a origem do conhecimento é determinada por
princípios racionais, inatos ou a priori, ainda que se possa condicionar a validade do seu
uso à disponibilidade de dados empíricos. No primeiro caso, se trata de produção do
conhecimento a partir do real (realismo, materialismo). No segundo caso, se trata de
construção do conhecimento a partir da ideia (idealismo, racionalismo).
Entre estes dois pólos encontram-se as diferentes Dimensões Epistemológicas,

2. Dimensões da Matriz Epistemológica

Um dos mais complexos problemas na área da produção do conhecimento


científico em geral é o que se refere à identificação das Dimensões da Matriz
Epistemológica em que se move o texto ou a linha de investigação. Entenda-se, desde
logo, por matriz, o amplo espectro de formas, que as diversas dimensões
epistemológicas assumem, as suas características, elementos principais, princípios,
pressupostos, finalidades, metodologia, relações com a realidade e com o objeto. Estes
elementos encontram-se definidos em diversos estudos (BACHELARD, 2006;
BLANCHÉ, 1988; DANCY, 1985; DANCY; SOSA, 2000; DOMINGUES, 1991, 2004;
FURTADO e REY, 2002; HESSEN, 1978; JAPIASSU, 1988; LECOURT, 1980;
NORRIS, 1982; PENNA, 2000; POPPER, 2000; SANTOS, 1976, 1991; SOUZA
SANTOS, 2009), e deles foi possível extrair três Categorias de Análise com seus
Elementos Constitutivos, que se encontram resumidos no Quadro 01. Neste quadro são
destacados os descritores, em forma de questões pertinentes relativas a cada Elemento
Constitutivo.
Ainda que cada Dimensão Epistemológica ocupe um espaço único na matriz, as
dimensões não são caracterizadas por possuírem apenas elementos constitutivos
exclusivos, mas por possuírem elementos próprios e ao mesmo tempo por possuírem
combinações específicas entre elementos que podem ser comuns a outras dimensões.
Contudo, a maneira cada Dimensão opera é única e não se confunde com nenhuma
outra.
O argumento, aqui, é o de que recorrer a conceitos não significa importar, junto
com ele, os pressupostos da Dimensão Epistemológica de origem. Este tem sido, aliás,
um dos mais agudos problemas das pesquisas em Estudos Organizacionais no Brasil,
qual seja, recorrer a conceitos oriundos de determinada Dimensão Epistemológica
trazendo junto com eles os pressupostos epistêmicos desta Dimensão não compatíveis
com os da Dimensão em que o sujeito da pesquisa está trabalhando.

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Quadro 01. Categorias de Análise e seus Elementos Constitutivos
Categorias de Elementos Descritor
Análise Constitutivos
Produção do Concepção do O que é e como se produz (se cria, se constrói) o
Conhecimento Conhecimento. conhecimento científico, filosófico e tecnológico?
Percepção Imediata Como a realidade aparece imediatamente à consciência,
da Realidade. ou seja, qual a impressão inicial que o pesquisador tem do
objeto de pesquisa?
Condicionantes da Como a realidade social condiciona ou não o a construção
Realidade Social. do conhecimento?
Cognoscibilidade do Se e de que forma o mundo exterior pode ser conhecido
Mundo. pelo sujeito (perfeitamente; relativamente; topicamente)?
Método de Método de Produção Qual o processo utilizado para produzir conhecimento
Investigação e Análise. sobre o objeto (indutivo ou dedutivo) e para analisá-lo?
Qual o objetivo do método?
Relação entre Como se estabelecem as relações entre a realidade e o
Pensamento e pensamento? Como se dá a representação mental da
Realidade. realidade concreta, objetiva e subjetiva (qual a primazia na
relação entre o sujeito e o objeto)?
Relação entre Como o conjunto de qualidades e atributos que
Essência e Aparência caracterizam um fenômeno se defronta com suas
dos Fenômenos. condições circunstanciais ou aparentes?
Relação entre A relação entre sujeito e objeto deve suprimir a diferença
Sujeito/Consciência e mantendo a identidade de ambos, deve manter a distinção
Objeto/Matéria. como garantia da imparcialidade ou deve formar uma
unidade como garantia da validade intrínseca do
conhecimento?
Relação entre Como a realidade exterior capturada pela consciência se
Objetividade e relaciona com a realidade psíquica, emocional e cognitiva
Subjetividade no trato sem comprometer a apropriação do real pelo pensamento?
do Fenômeno.
Técnicas de Principais Tipos de Quais os principais tipos de estudo a que se recorre na
Pesquisa Estudo. apreensão do objeto (histórico, comparativo, estudo de
caso, etc.)?
Principais Técnicas de Quais as principais técnicas qualitativas (análise
Coleta, Tratamento e documental, entrevistas, grupo focal, história de vida, etc.)
Análise de Dados da ou quantitativas (estatística, frequência, análise de
Realidade. conteúdo, etc.)?
Critérios de Qual o critério da definição necessariamente arbitrária do
Demarcação do campo empírico?
Campo Empírico.

Em outro extremo ocorre exatamente um paradoxo entre a valorização excessiva


do rigor, que desemboca no dogmatismo, e sua ausência, que deságua na incoerência.
De fato, no primeiro caso, uma vez escolhida a epistemologia e a teoria, nada que não
seja o que já está dado pode nela penetrar. Trata-se de um caminho em direção ao
cemitério do real pensado, ao túmulo mitificado das velhas e irresistíveis concepções e
representações. Tal procedimento mantém heroicamente os ingredientes mofados e
embolorados de um tempo que a história já tratou de colocar em sua conta. O
conhecimento científico não se renova quando é destituído de curiosidade científica
viva e tem horror ao movimento da realidade, pois este exige teorias novas para novas
realidades. Assim, enquanto a rigidez atua como um lugar impenetrável a novas
concepções, a falta de rigor pode ser comparada a uma cesta em que tudo cabe não
importando o quanto incompatíveis são os ingredientes. Neste caso, conceitos retirados
de várias teorias com origens epistemológicas diversas são utilizados sem critérios,
bastando que possam dar uma explicação razoável aos dados da realidade que o
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pesquisador encontrou. O amálgama de conceitos originários de teorias oriundas de
diferentes Dimensões Epistemológicas faz parte de uma cesta que causa danos
acadêmicos importantes aos Estudos Organizacionais tanto quanto a prática da rigidez
teórica impermeável à renovação, entretanto ambos os procedimentos ainda são
largamente utilizados.
Pelo que se tem empiricamente observado em diversos trabalhos acadêmicos no
Brasil (artigos em revistas, trabalhos em congressos, bancas de defesa de dissertação de
mestrado e de tese de doutorado), parece existir uma importante lacuna no que se refere
ao domínio da epistemologia em geral e das dimensões. Disto tem resultado diversos
trabalhos acadêmicos confusos, epistemologicamente incoerentes e inconsistentes, com
graves repercussões tanto metodológicas quanto teóricas.
É possível, por exemplo, encontrar análises que se pretendem estruturalistas
utilizando técnicas de entrevistas qualitativas de forma positivista, em que a palavra do
indivíduo entrevistado é considerada como indicativa da realidade, enquanto que para o
estruturalismo o que se deve obter da realidade empírica são os modelos, os sistemas de
relações e transformações. Isto porque o modelo fornece o sistema de regras e porque
modelo e realidade constituem a totalidade. Também se encontram trabalhos que se
anunciam dialéticos, mas que ou privilegiam o empirismo ou montam modelos ideais
tipológicos que pretendem ser, eles mesmos, a realidade e não sua representação formal.
Do mesmo modo, podem-se encontrar, ainda, estudos pretensamente
fenomenológicos que utilizam entrevistas qualitativas como se estas, após uma análise
de conteúdo, revelassem a essência do fenômeno que se quer conhecer. Não há redução,
suspensão, époché, porque a própria essência se encontra na técnica de apreensão
empírica do fenômeno. Dito de outro modo, são estudos que se dizem fenomenológicos
e que assumem que a essência e que a verdade estão inteiramente contidas na palavra do
sujeito da fala (o entrevistado, o documento), desconsiderando a interpretação
intencional, não questionando o conhecimento, não colocando em suspenso (entre
parênteses) crenças e proposições antes da reflexão para reencontrá-los e compreendê-
los a partir do que neles permanece. Tampouco consideram que o dado é a consciência
intencional perante o objeto e que é a redução fenomenológica (categorias puras do
pensamento científico) que permite a objetividade da essência.
É comum a observação de que uma dissertação ou uma tese necessitam ter
coerência teórica. Certamente. Mas, não se consegue esta sem que se obtenha, antes,
coerência epistemológica. A coerência epistemológica é definitivamente a única
garantia que o pesquisador possui de que o passeio pelas teorias possa ser realizado com
pertinência, de que as conversas e os confrontos teóricos possam ser levados a cabo com
o maior grau de objetividade possível e de que a direção da investigação possa ser
seguida com convicção e equilíbrio.
Nada impede, como já foi dito, que as teorias conversem entre si. A princípio,
nenhuma teoria é melhor ou pior que outra. A teoria, entretanto, não possui um salvo
conduto para afirmar o que quer da maneira que quer, sem responsabilidade e sem
compromisso, pois uma teoria sem substância científica não passa de reflexão sem
legitimidade no mundo da ciência. As legítimas teorias são mais ou menos adequadas a
determinadas investigações e podem se adaptar mais ou menos à linha de pesquisa
levada a efeito desde que também esteja submetida às diretrizes da Dimensão
Epistemológica escolhida no âmbito da Matriz Epistemológica Geral.
Como as dimensões têm elementos próprios e em comum (ainda que se
apresentem de forma peculiar) e como se diferenciam pela combinação destes, não é
simples a tarefa de identificar a Dimensão Epistemológica de origem do texto (da
pesquisa, do estudo) e, menos ainda, de apropriar-se dele sem trazer junto os elementos

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constitutivos desta Dimensão Epistemológica ou, o que é pior, sem incorporar
fragmentos desta, pois neste caso ampliam-se as dificuldades em resgatar a coerência da
Dimensão Epistemológica na qual se opera.
A Matriz Epistemológica Geral é composta por seis Dimensões. As diferentes
Dimensões constituem espaços epistêmicos distintos e indicam diferentes formas de
abordagem do conhecimento, bem como diferentes perspectivas acerca do processo de
produção ou de construção do conhecimento científico, tecnológico, cultural e
filosófico.

2.1. Dimensão Epistemológica: conceituação

Chama-se de Dimensão Epistemológica - DE o conjunto de elementos


constitutivos independentes necessários para descrever o espaço espistêmico específico
que se está definindo. Uma DE necessita considerar: (i) cada uma das extensões e do
alcance que se devem levar em conta nas relações entre seus elementos constitutivos e
entre estes e os objetos do conhecimento sobre os quais se debruçam; (ii) a dimensão é
condicionada pelos elementos que a constituem, pela combinatória entre estes
elementos e pela dinâmica de relacionamento desta combinatória na construção do
conhecimento.
Os elementos constitutivos de uma DE são independentes de outros elementos
constitutivos de outra DE no interior da matriz, ainda que alguns elementos
constitutivos de uma DE possam ser comuns a outras DEs. O que caracteriza uma
Dimensão Epistemológica como única é o fato de ter, ao mesmo tempo, elementos
constitutivos próprios e únicos bem como combinações específicas próprias de
elementos constitutivos comuns (ainda que peculiares) a uma ou mais DEs.
A DE é única na medida em que é incomparável no interior da Matriz
Epistemológica. Uma DE não é uma resultante de composições lógicas de outras DEs e
tampouco é uma mixagem de vários elementos comuns a outras DEs. O fato de possuir
elementos constitutivos comuns a uma ou mais dimensões da matriz, os quais ainda
assim aparecem em suas formas peculiares, decorre do encaixe destes elementos
constitutivos comuns em mais de uma Dimensão, que é ditado pela coerência interna e
pela harmonia necessária do conjunto dos elementos da DE.
Para identificar cada uma das Dimensões Epistemológicas da Matriz
Epistemológica Geral, é necessário (i) identificar os elementos constitutivos comuns
(peculiares) e específicos presentes em cada uma das DEs; (ii) analisar os diferentes
usos e as diferentes abordagens teórico-metodológicas dos elementos constitutivos
comuns quando nas relações decorrentes das composições únicas; (iii) identificar o
arranjo que corresponde à composição dos diferentes elementos constituintes da
substância da dimensão; (iv) verificar como os elementos comuns e específicos
(diferentes), contidos no bloco dimensional, formam uma Dimensão Epistemológica
única e incomparável.

3. A Área de Domínio Epistemológico

Área de Domínio Epistemológico é o âmbito de pertença de determinados


Elementos Constitutivos da Matriz Epistemológica Geral de acordo com uma dada
integridade (inteireza; completude) na qual se encontram definidas as relações que tais
elementos mantêm e desenvolvem entre si no processo de construção do conhecimento
(científico), segundo oito postulados básicos:
i. A área é única na composição e arranjo de seus elementos constitutivos;

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ii. A área é, relativamente à sua análise, unívoca, ou seja, só comporta uma
forma coerente de interpretação;
iii. Os Elementos Constitutivos da área não são comutativos com os de outras
áreas, mas podem estar presentes nelas na formação de diferentes arranjos
(elementos compartilhados);
iv. A Área de Domínio, além dos Elementos Constitutivos comuns
compartilhados, possui Elementos Constitutivos únicos;
v. O arranjo dos Elementos Constitutivos da Área de Domínio indica a forma
específica que a mesma responde à questão sobre como o conhecimento
(científico, tecnológico, cultural e filosófico) se produz ou se constrói;
vi. A Área de Domínio contém uma identidade teórica dada por teorias
consistentes que a compõem;
vii. A Área de Domínio contém uma identidade metodológica, tanto na
investigação quanto na exposição;
viii. A Área de Domínio possui seu alcance e seus limites, que são aqueles
proporcionados pela combinação e pela ação de seus Elementos
Constitutivos.
A Área de Domínio Epistemológico contém uma determinada Dimensão
Epistemológica que a torna única na composição da Matriz Epistemológica Geral. A
Dimensão Epistemológica, portanto, referente à Área de Domínio Epistemológico, trata
da ordem da composição dos Elementos Constitutivos desta no interior da Matriz, em
suas diversas representações epistemológicas, a partir da abrangência e do sentido em
que se considera a extensão daquele domínio epistemológico, para compreendê-lo,
avaliá-lo e utilizá-lo.
Na conformidade de cada Dimensão Epistemológica estabelecem-se as
propriedades mínimas, a importância, os requisitos, os pesos, a centralidade, o impacto,
as formas de ação, as hierarquias, as precedências lógicas, a estrutura fundamental das
relações internas dos Elementos Constitutivos necessários à determinação unívoca da
constituição de uma Área como Área de Domínio Epistemológico. Estabelece-se o
necessário à descrição analítica de uma área de construção do conhecimento como uma
Área de Domínio Epistemológico de modo a não tratar teorias, metodologias,
abordagens, desdobramentos, junções e proposições como propriamente Área de
Domínio Epistemológico, senão como componentes destas.
É a Dimensão Epistemológica que, em síntese, estabelece as propriedades dos
elementos constitutivos da Área de Domínio Epistemológico. Isto se dá de tal forma que
cada Área não apenas possui uma composição e um arranjo próprio de elementos
constitutivos, como tem uma Dimensão Epistemológica específica dos Elementos
Constitutivos que (i) diferencia a forma de inserção de cada um dos elementos comuns a
outras áreas em sua Área, (ii) estabelece as combinações entre os elementos comuns
entre si e com os elementos próprios e exclusivos da Área e (iii) confere a abrangência,
o sentido e as condições da Área.
O conceito de Área de Domínio Epistemológico é abrangente e se refere ao
predicado de cada uma das Áreas da Matriz Epistemológica Geral. Pretende apresentar
a totalidade de cada Área indicando (i) todos os seus Elementos Constitutivos, comuns e
específicos; (ii) os recursos processuais em cada uma das formas de construção do
conhecimento; (iii) os procedimentos combinatórios de seus elementos constitutivos, ou
seja, como cada um dos elementos se combina na construção do conhecimento; (iv)
suas metodologias de investigação e de exposição; (v) suas subdivisões ou
desdobramentos; (vi) seus pressupostos e seus critérios de verdade.

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Entretanto, é necessário mais do que indicar o que é a Área de Domínio
Epistemológico. É fundamental precisar (i) como o conhecimento se constrói ou se
produz e qual o processo de sua construção ou produção; (ii) como cada um dos
Elementos Constitutivos se combina na produção ou construção do conhecimento; (iii)
que linhas de pensamento ou abordagens existem sob o abrigo de cada Área em geral.
Estas tarefas, entre outras, devem ser cumpridas na definição das Dimensões
Epistemológicas de cada Área de Domínio. O que caracteriza uma Área de Domínio
Epistemológico como única é o fato de ter, ao mesmo tempo, Elementos Constitutivos
próprios (únicos) e combinações específicas (únicas) de Elementos Constitutivos
comuns a uma ou mais Áreas. Para identificar cada uma das Áreas de Domínio
Epistemológico é necessário conhecer seus Elementos Constitutivos, mas para conhecer
como cada Área opera em seus procedimentos, é preciso conhecer a Dimensão
Epistemológica própria desta Área, ou seja, a forma como estes Elementos
Constitutivos atuam particularmente nesta Área.
O conceito de Dimensão Epistemológica refere-se ao predicado de cada Área de
Domínio Epistemológico. Cada Área de Domínio Epistemológico tem sua Dimensão
Epistemológica na medida em que é esta que estabelece as propriedades daquela.
Chama-se de Dimensão Epistemológica a forma como os Elementos Constitutivos são
albergados em uma determinada Área de Domínio Epistemológico em suas
combinações independentes e únicas, em suas relações e em sua configuração para a
produção ou construção do conhecimento. Os elementos constitutivos de que uma
Dimensão Epistemológica se ocupa pertencem a uma Área de Domínio Epistemológico
e são independentes de outros elementos constitutivos de outra Área em outra Dimensão
no interior da Matriz Epistemológica Geral, ainda que alguns elementos constitutivos de
uma Área possam ser comuns a outra(s) Área(s). Aqui é necessário destacar que os
Elementos Constitutivos comuns não são Elementos iguais, mas de mesma ordem, pois
possuem peculiaridades no espaço epistêmico da Dimensão em que se encontram.
É o caso, aqui, de exemplificar para ilustrar o argumento. Considere-se que a
leitura do número de átomos em uma amostra é de dois sextilhões e quinhentos e trinta
quintilhões. Apesar de possuírem o mesmo número de átomos de cobre ou carbono, as
diferentes massas da amostra se justificam por dois motivos: (i) Os átomos de cobre
(fio) e carbono (grafite) possuem tamanhos diferentes; (ii) No caso do sulfato de cobre
(CuSO4) e do açúcar (C6H12O6), observa-se que a massa da amostra corresponde à soma
das massas dos diferentes átomos constituintes da substância. Este caso mostra que o
fato de um experimento físico conter o mesmo número de elementos constitutivos
(átomos de cobre ou carbono), não torna desnecessário que se leve em consideração as
diferentes massas da amostra (as diferentes combinações de Elementos Constitutivos de
cada Dimensão), porque o tamanho dos elementos é diferente e a massa da amostra
corresponde à soma das massas dos diferentes átomos constituintes da substância.
No campo dos Estudos Organizacionais, a existência de mesmos elementos
constitutivos componentes de diferentes Áreas de Domínio Epistemológico não é
indicativa de que são áreas semelhantes ou que guardem algumas similitudes. Os
elementos entram em cada área de uma forma específica (“com diferentes massas”), o
que justifica precisar a Dimensão Epistemológica da Área de Domínio (“os átomos
possuem tamanhos diferentes” e “a massa de um elemento corresponde à somatória das
massas de outros elementos”). Alguns Elementos Constitutivos possuem mais
abrangência, mais importância, mais impacto, mais centralidade que outros nos
diferentes Estudos Organizacionais. Assim, mesmo que no limite os Elementos sejam
comuns, os mesmos possuem peculiaridades, possuem pesos, “tamanhos” e “massas”
diferentes.

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Diante disto, pode-se afirmar que a Matriz Epistemológica é composta,
considerando-se as possibilidades de combinação de Elementos Constitutivos comuns e
específicos, por seis Áreas de Domínio Epistemológico, as quais são qualificadas,
portanto, pelas seis Dimensões Epistemológicas referidas anteriormente. As seis
Dimensões indicam seis formas diferentes de relação com o conhecimento, seis
perspectivas diferentes acerca das formas como o conhecimento científico é produzido
ou construído. Sinteticamente, por enquanto, pode-se representar este quadro de
relações como na Figura 01.

Figura 01: Áreas de Domínio Epistemológico e Dimensões Epistemológicas

ADI 2
ADE 1

DE 1 DE 2

Legenda: ADE = Área de Domínio Epistemológico; DE = Dimensão Epistemológica; Cada Figura Representa um
Elemento Constitutivo - EC, sendo que dois EC são comuns.

As Áreas de Domínio Epistemológico e suas Dimensões Epistemológicas são


diferentes entre si (ADE 1 ≠ ADE 2 e DE 1 ≠ DE 2). Os Elementos Constitutivos
também são diferentes, mas há possibilidade de existirem Elementos comuns (no caso,
dois Elementos são comuns na intersecção das Áreas). A Área de Domínio
Epistemológico define quais os Elementos Constitutivos que a compõe. A Dimensão
Epistemológica define, entre os Elementos Constitutivos da Área de Domínio, a forma
com que os mesmos aparecem (cada um e todos) na Matriz Epistemológica Geral, as
relações entre estes Elementos, o peso ou importância que cada um possui naquela
Dimensão, entre outros aspectos já mencionados. Em outras palavras, os Elementos da
uma Área de Domínio Epistemológico são os mesmos de sua Dimensão
Epistemológica: o que as diferencia não são os Elementos, mas como estes atuam no
interior da Área de Domínio Epistemológico e caracterizam sua Dimensão
Epistemológica. Também a Dimensão Epistemológica, pela sua atribuição na Área,
mostra que Elementos comuns não participam necessariamente do mesmo modo em
duas dimensões.
Observando-se a Figura, nota-se apenas que há dois Elementos Constitutivos
comuns nas duas Áreas de Domínio Epistemológico. Estes Elementos, contudo,

10
possuem suas peculiaridades em cada uma das Áreas, possuem atribuições, importância,
pesos, etc. que são diferentes em cada uma destas Áreas. São Elementos comuns, mas
que não atuam da mesma maneira em cada uma das DEs. Estas diferenças somente
podem ser identificadas no quadro das Dimensões Epistemológicas e não na
composição da Área de Domínio. A Área de Domínio indica quais são os seus
Elementos Constitutivos, quais os Elementos que a tornam uma Área e não outra, quais
os que permitem que uma Área se diferencie de outra. A Dimensão Epistemológica
indica dentro da Área de Domínio como aqueles Elementos Constitutivos se relacionam,
como participam, como interferem, influenciam ou condicionam os procedimentos. Por
tal motivo, será sempre mais adequado fazer referência às Dimensões Epistemológicas
do que às Áreas de Domínio Epistemológico, ainda que aquelas não operem
independentemente destas. Resumidamente, as Dimensões constituem a qualificação
das Áreas de Domínio.
Cabe aqui apelar para uma ilustração didática. Suponha-se a formação de uma
seleção nacional de futebol. Os onze jogadores (Elementos Constitutivos) que atuam
nesta seleção e que compõe sua Dimensão própria, também atuam em outras equipes
(são Elementos Constitutivos de outra Dimensão). A forma como estes jogadores
(Elementos Constitutivos) atuam na seleção depende das interações coletivas que
somente são possíveis nesta composição de jogadores que compõem esta seleção, ou
seja, da interação com os Elementos Constitutivos próprios desta Dimensão (seleção).
Neste sentido, trata-se de uma forma de atuação diferente daquelas que cada um dos
jogadores desempenha nas diversas equipes de onde foram convocados, nas quais
possuem interações coletivas com outros jogadores (com Elementos Constitutivos
próprios daquelas equipes ou Dimensões). Embora sejam, estes jogadores, Elementos
Constitutivos comuns a mais de uma Dimensão (equipes), não atuam nelas da mesma
maneira, pois formam diferentes composições de interação com outros jogadores
(Elementos Constitutivos) que, am ação, desempenham diferentes procedimentos.
Neste sentido, por exemplo, as relações causais são um dos Elementos
Constitutivos de todas as Áreas de Domínio Epistemológico. No entanto, este Elemento
não atua de mesma forma em cada DE correspondente. São relações causa-efeito na DE
positivista; relações sociais da ação na DE funcionalista; relações entre componentes
que por suas características formam um conjunto na DE estruturalista; relações sociais e
históricas materialmente determinadas ou condicionadas na DE materialista histórica;
relações entre coisas que constituem a essência de um fenômeno, na DE
fenomenológica; relações que revelam a utilidade prática ou instrumental de um fato, na
DE pragmatista. Ainda por exemplo, o Elemento Constitutivo “contradição entre os
fenômenos”, que é comum às Áreas de Domínio Epistemológico da Fenomenologia e
do Materialismo Histórico e que constituem uma das principais características de suas
Metodologias, não atuam da mesma maneira nas correspondentes DEs. Enquanto na
Fenomenologia o mesmo tem origem na ideia, no Materialismo Histórico a contradição
tem origem no concreto e isso faz toda a diferença entre estas DEs.
Com base no exposto são apresentados a seguir, resumidamente, as Dimensões
Epistemológicas e seus Elementos Constitutivos.

4. Dimensões Epistemológicas e seus Elementos Constututivos

Os quadros que se seguem mostram, de forma resumida, as Dimensões


Epistemológicas e seus Elementos Constotutivos. Cada Elemento Constitutivo é
apresentado por um descritor que o conceitua, aqui chamados de procedimentos
epistemológicos. A montagem destes quadros baseia-se em uma vasta bibliografia que

11
trata de cada uma das Dimensões Epistemológicas, com referência nos seus autores
proponentes ou clássicos. Estas Dimensões Epistemológicas referem-se apenas à área de
Estudos Organizacionais (sociologia das organizações e/ou do trabalho, psicologia
organizacional e/ou do trabalho, administração, economia industrial e/ou do trabalho,
social work, apenas para citar alguns exemplos), ou seja, referem-se às Dimensões
usualmente utilizadas nesta área. De uma perspectiva filosófica, estas Dimensões
apresentam-se de forma muito mais complexa.1 Os quadros apresentam três limitações
óbvias e inevitáveis: a sumarização, que não contempla todos os aspectos de cada uma
das Dimensões Epistemológicas nas categorias propostas; a interpretação dos textos (de
responsabilidade deste autor); as fontes de consulta. Sobre as fontes, convém indica-las:
Positivismo (COMTE, 1983; 1989; DURKHEIM, 1978); Funcionalismo (MERTON,
1970; PARSONS, 1974; BLACK, 1981; SAVAGE, 1981); Estruturalismo (VIET, 1967;
COELHO, 1967; PIAGET, 1979; LÉVI-STRAUSS, 1970; 1970b; 1980; LIMA, 1970);
Fenomenologia (HEIDEGGER, 1998; 2002; HUSSERL, 1980; 1990; LYOTARD,
1986; MERLEAU-PONTY, 1999); Materialismo Histórico (MARX, 1974; CHASIN,
2009); Pragmatismo (JAMES, 1979; 1979b; 2001; DEWEY, 1958; 1980)

1
Agradeço a André Luis Marra, Camila Bruning, Luciana Godri, Mônica Maier e Paula Suemi Souza
Kuabara pelas importantes colaborações, isentando a todos, naturalmente, pelos equívocos existentes.

12
Quadro 02. Positivismo: categorias de análise e seus elementos constitutivos
Categorias de Elementos Constitutivos Procedimentos
Análise
Produção do Concepção do O conhecimento científico se encontra quando é possível estabelecer um conjunto de
Conhecimento Conhecimento. características descritivas e/ou relações de causa-efeito sobre o objeto de observação e fenômeno
perceptíveis que se aplica para todos os casos da mesma espécie.
O A finalidade do saber científico é a previsão: saber para prever.
Percepção Imediata da As características invariáveis estão imediatamente disponíveis para a experiência sensorial e são
Realidade. encontradas pela sua observação da repetição em um conjunto de objetos de investigação.
O que a realidade exterior mostra é utilizado para a classificação ou elaborar a representação
positiva. A realidade é percebida pelo que ela mostra, o que permite sua representação sistemática
e positiva, ou seja, a realidade é constituída de fatos perceptíveis, observáveis, ordenados e em
desenvolvimento.
A realidade social é dada por inúmeras relações causais (do tipo causa-efeito). Assim, a repetição
da relação indicará sua validade e definirá a lei que rege os fenômenos.
Condicionantes da As características exteriores que compõem o fato social (repetição, semelhança e diferença) por ele
Realidade Social. mesmo condicionam a produção do conhecimento que vai ser classificado como normal (de acordo
com a previsão das leis universalizáveis) e patológico (casos que não são de acordo com as leis
universalizáveis).
Cognoscibilidade do O mundo pode ser conhecido de maneira total a partir das experiências sensíveis e da aplicação de
Mundo. métodos positivos de investigação com a classificação racional de dados empíricos em leis gerais
universais. Somente o estágio positivo é capaz de conhecer o mundo real, concreto, palpável e
efetivamente existente.
Método de Método de Produção e O processo é indutivo e vai utilizar a observação direta e indireta (a partir dos resultados), mas
Investigação Análise. também se vale das experiências (embora sejam reconhecidas como difíceis de serem aplicadas em
fenômenos sociais), ou seja, é baseado na observação de fatos, na correlação e na experimentação.
O objeto da ciência é só o positivo, isto é, o que pode estar sujeito ao método de observação e da
experimentação. A análise do conhecimento ocorre para verificar se o ponto de partida para sua
produção é um fenômeno social e se o ponto de chegada também é social.
Relação entre Pensamento e A realidade é objetiva, exterior ao sujeito pesquisador. Para acessá-la, o pesquisador procura
Realidade. despir-se dos seus conhecimentos prévios e observar a realidade de maneira objetiva para elaborar
classificações sobre as características dos objetos e relações de causa-efeito.
A representação da realidade ocorre por meio da produção de leis objetivas universais para os
objetos investigados. O objetivo é estabelecer uma lei positiva, uma afirmação categórica e
insofismável, uma verdade científica, uma captação precisa dos objetos externos, de maneira não
deformada pela subjetividade. A ciência é o único conhecimento possível e seu método o único
válido. O método é descritivo e se aplica a todos os campos da atividade humana. O conhecimento
é conferido pela relação sensível do sujeito com a realidade, sendo essa quem determina aquele.
Relação entre Essência e As características aparentes para o sentidos dos objetos de investigação são assumidas como
Aparência dos Fenômenos. representantes válidas do que constitui os objetos de investigação. Ou seja, não há diferença entre
aparência e essência dos objetos. A aparência do fenômeno é exatamente o que ele é. A essência é
um juízo de valor, uma avaliação subjetiva. O que não pode ser comprovado pela ciência (positiva)
não é real.
Relação entre O sujeito investigador assume uma posição distante do objeto de investigação. Essa distância é um
Sujeito/Consciência e dos princípios para assegurar a imparcialidade e a generalização do conhecimento produzido. A
Objeto/Matéria. ciência apoia-se unicamente na realidade empírica. Não cabe ao pesquisador julgar ou avaliar, mas
encontrar as leis invariáveis (relações constantes) que regem os fenômenos. Adota o princípio da
neutralidade axiológica (não adesão a valores). Recusa a subjetividade.
Relação entre Objetividade A captura da realidade exterior não se relaciona com a subjetividade psíquica do sujeito
e Subjetividade no trato do investigador. No limite máximo, a capacidade cognitiva do pesquisador é utilizada para a
Fenômeno. descrição e a classificação de características observadas nos objetos de investigação. Ciência como
critério de verdade, progresso, ordem e justiça. Hipervalorização do método independentemente do
objeto.
Técnicas de Principais Tipos de Estudo. Estudos quantitativos e experimentais. Observação direta da realidade social. Observação indireta
Pesquisa (por resultados) da realidade social. Estudos de caso único. Estudos comparativos de casos.
Pesquisa de opinião. Estudos experimentais. Estudos descritivos. Estudos exploratórios.
Principais Técnicas de Não existem técnicas de coleta exclusivas, mas pode-se sinalizar o survey e a observação direta,
Coleta, Tratamento e análise quantitativa, empirismo, observação sistemática e análise de frequência (inclusive em
Análise de Dados da conteúdo). Também pode-se realizar a análise de documentos e realização de experiências.
Realidade. Um fator importante é repetição de características nos objetos de investigação.
A análise dos dados pode ocorrer por meio de comparação buscando semelhanças; por meio de
comparação buscando diferenças; por meio de variações concomitantes.
Critérios de Demarcação do O campo empírico se constitui pelos fenômenos dos quais pode-se observar características
Campo Empírico. objetivas e relações de causa e efeito, ou seja, que pode ser observado, mensurado, avaliado,
confirmado.

13
Quadro 03. Pragmatismo: categorias de análise e seus elementos constitutivos
Categorias de Análise Elementos Constitutivos Procedimentos
Produção do Concepção do Conhecimento. O conhecimento científico se constitui a partir da verificação de sua possibilidade de
Conhecimento aplicação prática ou seja da sua utilidade na vida cotidiana.
Conhecimento é pesquisa. Não é intuição, nem aceitação acrítica das percepções do
senso comum. Não é síntese a priori. Sua obtenção se dá em três momentos que
constituem as características do fenômeno: domínio do sentir (presença possível do
fato); o fato bruto; o aspecto inteligível da realidade.
Percepção Imediata da Dá-se pelo estado de crença, que são hábitos que determinam as ações. A realidade
Realidade. concreta aparece para o pesquisador a partir dos aspectos/problemas práticos que
podem ser solucionados. No entanto, os objetos sob investigação podem não apresentar
diretamente características pragmáticas ou utilitárias.
Condicionantes da Realidade Os valores práticos que orientam as soluções de problemas sociais condicionam a
Social. maneira como o conhecimento é construído. A realidade social baseia-se em crenças
sociais, as quais são fixadas de quatro formas. Pela tenacidade (segurança na aparência
e recusa de enfrentamento). Pela autoridade (imposição da concordância ou crenças
organizadas). Pelo apriorismo (proposições que estariam de acordo com a razão). Pela
ciência (validade da crença).
Cognoscibilidade do Mundo. O mundo exterior pode ser conhecido pelo sujeito de maneira relativa, a partir das
questões práticas que são colocadas. O mundo é conhecido pelas crenças do senso
comum que devem ser destruídas pela crença científica, a qual é sempre falível, pois a
hipótese científica está sempre in prova.
Método de Método de Produção e Análise. A pesquisa se inicia pela irritação causada pela dúvida até a fixação da crença. O
Investigação método utilizado é o da dedução (a explicação do fato problemático depende de uma
hipótese ou conjectura da qual se deduz consequências, as quais devem ser verificadas
experimentalmente).O método de produção e análise do conhecimento considera as
questões e objetos de investigação a partir da perspectiva pragmática que orienta a
condução da pesquisa. O objetivo é estabelecer um novo estado de crença
cientificamente validado, ainda que não definitivo.
Relação entre Pensamento e As crenças são normas de ação possível. Os efeitos da realidade têm consequências
Realidade. práticas concebíveis e a concepção destes efeitos é toda a concepção da realidade.
Embora a realidade seja considerada de maneira objetiva, a relação entre o pensamento
e a realidade é mediada pela orientação pragmática da vida cotidiana.
Relação entre Essência e Empirista que insiste no controle possível e contínuo dos conhecimentos que não são
Aparência dos Fenômenos. experiências autoevidentes nem proposições absolutas, mas ideias submetidas ao
controle nunca definitivo de suas consequências práticas. Não se considera o aspecto
da essência do fenômeno. Todavia, as características pragmáticas são buscadas dentro
das condições circunstanciais presentes na investigação.
Relação entre Nada que não resulte do experimento pode ter qualquer reflexo sobre a conduta dos
Sujeito/Consciência e sujeitos. O sujeito deve definir acuradamente os fenômenos experimentais para uma
Objeto/Matéria. definição completa do conceito e nele não há absolutamente nada mais. A relação
entre sujeito e objeto deve manter a diferença, pois o objeto é analisado pelo sujeito a
partir dos seus aspectos ligados aos critérios pragmáticos.
Relação entre Objetividade e Um conceito se reduz aos seus efeitos experimentais concebíveis, os quais se reduzem
Subjetividade no trato do a ações possíveis (objetividade), sendo que as ações se referem ao que atinge os
Fenômeno. sentidos (a subjetividade). Os objetos são capturados pelo pensamento pragmático do
pesquisador, não existe outras dimensões que influenciem nessa análise.
Técnicas de Pesquisa Principais Tipos de Estudo. Estudo de casos que possam ser verificados, que tenham capacidade de ser operados.
Empirismo como método, estudo de casos, surveys, experimentos, casos comparativos
Principais Técnicas de Coleta, Todas as técnicas que permitam alcançar a clareza das ideias sobre o objeto (da
Tratamento e Análise de Dados hipótese), ou seja, a concepção do objeto que tenha significado positivo
da Realidade. (consequências) e que possa ser resumida em esquemas conceituais (verificação),
sejam estas qualitativas (documentos, entrevistas, depoimentos, análise de discurso,
análise de conteúdo) ou quantitativas (estatística).
Critérios de Demarcação do O caráter social de todo aspecto da experiência humana. O campo empírico é
Campo Empírico. constituído pelas possibilidades de encontrar aspectos ou situações em que a dimensão
prática ligada a vida cotidiana em sociedade possa ser considerada para a análise
científica.

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Quadro 04. Funcionalismo: categorias de análise e seus elementos constitutivos
Categorias de Análise Elementos Constitutivos Procedimentos

Produção do Concepção do Conhecimento. O conhecimento sobre qualquer elemento de um sistema social depende de se saber
Conhecimento de que maneira este elemento se relaciona com os outros elementos do mesmo
sistema social e com o sistema social como um todo. Há um apriorismo segundo o
qual todos os elementos que compõem um sistema social possuem uma função
determinada neste sistema. Trata-se, então, de identificar e definir tal função. O
conhecimento científico se produz por meio da identificação da finalidade e das
relações de determinado elemento com outros elementos e com o próprio sistema
social.
Percepção Imediata da A realidade aparece como uma unidade fundamental de um um sistema de natureza
Realidade. orgânica. Esta unidade é como uma peça, componente, aspecto ou fase deste
sistema e está funcionalmente relacionada com o todo, determinando e sendo
determinado por ele. A realidade e as funções sociais aparecem imediatamente para
o pesquisador.
Condicionantes da Realidade Os componentes básicos da realidade social são: a economia, o sistema político, a
Social. família e o sistema educativo em geral, com seus valores e crenças bem definidos.
Estes componentes atuam por interação, tendo capacidade de adaptação para
enfrentar os imprevistos e as exigências de mudanças que surgem. Estes aspectos
em conjunto com as teorias desenvolvidas anteriormente condicionam as
possibilidades de descoberta das funções sociais que constituem a realidade em
investigação.
Cognoscibilidade do Mundo. O mundo é totalmente conhecido pelas funções manifestas e latentes. As
manifestas são as funções conscientes e deliberadas dos processos sociais. As
latentes são as funções inconscientes e involuntárias.
Método de Método de Produção e Análise. O processo é predominantemente dedutivo e consiste na resolução de uma série de
Investigação problemas básicos de acordo com quatro procedimentos: Adaptação do próprio
sistema ao ambiente (caso contrário sucumbe); Alcance de metas e objetivos que
sustentam o equilíbrio interno e externo; Integração ao máximo, pelo sistema, de
todas as tendências que podem estar marginalizadas ou fora dele; Manutenção,
pelo sistema, do padrão latente dos modelos que tiveram sucesso em ultrapassar
todos os conflitos. O objetivo do método é determinar as relações funcionais entre
os componentes da realidade social estudada.
Relação entre Pensamento e Cabe ao pensamento dar sentido às partes e funções dentro da totalidade social,
Realidade. sendo o todo sempre maior do que a soma de suas partes devido às interações
destas. A função do pensamento é descobrir o papel de cada elemento dentro de um
sistema de interação para compreendê-lo em sua totalidade. Portanto, a relação
com a realidade ocorre por meio do sistema idealizado e, nesse sentido, a primazia
é da ideia.
Relação entre Essência e As características dos fenômenos sob investigação são diretamente acessíveis ao
Aparência dos Fenômenos. sujeito pesquisador e decorrem de uma relação orgânica entre os vários papéis, a
qual promove a dependência funcional progressiva para a coesão social e a
solidariedade. No entanto, a descoberta da função depende da concepção de
sistema aplicada a partir de determinado conjunto teórico prévio.
Relação entre Compreender o papel dos componentes de um fenômeno é o instrumento (da
Sujeito/Consciência e consciência) que o sujeito tem para identificar e articular os componentes da
Objeto/Matéria. totalidade e da unidade do objeto (da matéria). Há uma distinção entre sujeito e
objeto na busca de imparcialidade e na tentativa de objetividade.
Relação entre Objetividade e É preciso encontrar um fio condutor comum, um princípio de conhecimento
Subjetividade no trato do sistemático do fenômeno. Para formular uma teoria (problema da objetividade-
Fenômeno. subjetividade) é necessário considerar que (i) a ação social deve ser entendida
como um comportamento orientado para um dispêndio de energia normativamente
regulado e que (ii) a construção de uma estrutura integrada tem por base que
diferentes ações sociais devem ser previstas como modalidades de modelos
culturais de comportamento. A subjetividade do pesquisador deve ser deixada de
lado para realizar o desenvolvimento do conteúdo científico, abstendo-se de
analisar o que não apresenta função observável.
Técnicas de Pesquisa Principais Tipos de Estudo. Estudos de casos, estudos Sociais, estudos de políticas, estudos comparativos,
experimentos e surveys.
Principais Técnicas de Coleta, Qualitativas (documentos, entrevistas, depoimentos, análise de discurso, análise de
Tratamento e Análise de Dados conteúdo); Quantitativos (estatística).
da Realidade.
Critérios de Demarcação do O campo empírico é definido pelos aspectos sociais aos quais são imputadas
Campo Empírico. funções sociais observáveis, ou seja, aspectos que tem consequências sociais.
Deve-se considerar a abrangência funcional do fato social investigado.

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Quadro 05. Estruturalismo: categorias de análise e seus elementos constitutivos
Categorias de Elementos Constitutivos Procedimentos
Análise
Produção do Concepção do Conhecimento. O conhecimento da realidade está nas relações e não nos elementos, na estrutura e
Conhecimento não nos fenômenos, na totalidade e não nas partes. O conhecimento não está dado à
priori, mas deve ser construído pelo sujeito ao compreender as amplas relações entre
os elementos até obter o sistema total, completo, ou seja, a estrutura. A realidade não
possui condicionantes históricos. A estrutura é um sistema relacional ou um
conjunto de sistemas relacionais. A estrutura é a construção informadora do objeto.
É a própria definição do objeto. A estrutura é o simulacro do real, é um modelo
reduzido da realidade construído para compreendê-la em suas relações. O
conhecimento científico se constitui na construção de modelos que expressam as
relações fundamentais entre os aspectos investigados na realidade, ainda que esses
modelos possam não ser vistos ou replicados exatamente na realidade.
Percepção Imediata da Realidade. A realidade imediata é um conjunto de elementos que surgem como um mosaico
sem forma, sendo necessário descobrir as relações intrínsecas entre os mesmos, as
quais configurarão a estrutura (o modelo). A realidade se mostra em partes e é o
pesquisador que define as relações principais desses elementos, estruturando-os na
forma de um modelo explicativo.
Condicionantes da Realidade A realidade somente pode ser compreendida a partir de modelos construídos
Social. segundo esta própria realidade e não empiricamente. Relações sociais são a matéria-
prima empregada para a construção de modelos que tornam manifesta a estrutura
social. Busca as causas eficientes entre os elementos da estrutura e não as causas
finais. Entende que se não há estrutura, não há fenômeno.
Cognoscibilidade do Mundo. O mundo não é cognoscível em si mesmo, mas a partir de modelos construídos a
partir dele. Com os modelos alcança-se o meio de estudar os fenômenos sociais e
mentais a partir de suas manifestações, sob uma forma exteriorizada e cristalizada. O
mundo exterior pode ser conhecido pelo sujeito relativamente, a partir de análise do
todo para se entender as partes. Os modelos estruturais explicam a relação entre
essas partes.
Método de Método de Produção e Análise. É necessário levar em conta dois aspectos: (i) Observação: os fatos devem ser
Investigação estudados em si mesmo e em relação ao conjunto; (ii) experimentação: deve-se
adotar um procedimento que permita perceber como o modelo reage à alterações. O
objetivo é construir modelos cujas propriedades formais sejam, do ponto de vista da
comparação e da explicação, redutíveis às propriedades de outros modelos, por sua
vez subordinados a níveis estratégicos diferentes. O objetivo do método é o de
construir um modelo da realidade estudada que deve ser de tal maneira eficaz que
seu funcionamento possa dar conta de todos os fatos observados, que permita em sua
utilização fazer a previsão dos comportamentos da estrutura construída pelo modelo
através de simulações, pois todo o modelo pertence a um grupo de transformações.
Relação entre Pensamento e A realidade empírica é fonte de inspiração para a elaboração de modelos que a
Realidade. reproduzem. A realidade é estudada através dos modelos, os quais podem ser
testados, confrontados, comparados. O pensamento que produz o modelo afasta-se
do real para operar no plano da razão, mas neste momento, ao trabalhar o modelo,
também o analisa em uma perspectiva subjetiva. O pensamento tem primazia sobre o
concreto, visto que é capaz de elaborar formas explicativas e descritivas do
fenômeno. Após o modelo estar construído, a relação com a realidade ocorre por
meio do modelo concebido,
Relação entre Essência e A essência é o que o modelo for capaz de reproduzir do real e que tenham
Aparência dos Fenômenos. significado. Toda a realidade e todas as relações não cabem no modelo. Nem todos
os elementos são significantes para explicar a realidade e apenas os significantes
podem emprestar significado ao modelo. A essência é exatamente o conjunto de
significantes e seus significados. Em uma das correntes estruturalistas, a essência do
fenômeno é de fundamental importância. Nas demais, as relações entre objetos
estudados são mais importantes que sua aparência. Ainda assim, em todas as
correntes, a essência está restrita àquilo que o modelo conseguir explicar.
Relação entre A subjetividade do pesquisador é reconhecida, mas deve ser traduzir em elementos
Sujeito/Consciência e cognoscíveis e que auxiliem na explicação da estrutura e suas relações. O objeto real
Objeto/Matéria. é constituído pela totalidade de suas manifestações empíricas visíveis, acrescidas de
sua razão invisível, teoricamente estabelecida. O sujeito, diante do objeto, deve
adotar uma posição de objetividade, a qual significa reciprocidade e solidariedade
entre o observador (sujeito) e o observado (objeto), o que dá lugar ao paradoxo de
uma verdade que se situa na intersecção de duas subjetividades. Assim, a apreensão
do fato social é concreta na medida em que é totalizante e envolve, em um único
movimento, as propriedades objetivas e a experiência subjetiva.
Relação entre Objetividade e Há uma relação entre aquilo que é capturado do real e a subjetividade do
Subjetividade no trato do pesquisador. O modelo criado passa pelo pensamento e, portanto, pela subjetividade.
Fenômeno. Objetivamente, chega-se ao modelo (estrutura) a partir dos elementos e suas
ligações. O modelo é resultado e não ponto de partida e dá-se a conhecer pelo
pensamento (pela subjetividade). Conhecer a combinação dos elementos resulta na
forma. A forma permite entender o sentido pelo qual se interpretará a realidade.
Formalizar é interpretar. A ordem das coisas (objetividade) se defronta com a ordem
como as coisas são concebidas (subjetividade).
Principais Tipos de Estudo. São diversas correntes dentro do estruturalismo, ainda assim elas aceitam bem
Técnicas de estudos quantitativos e qualitativos em geral.
Pesquisa
Principais Técnicas de Coleta, Todas as técnicas de coleta e tratamento são válidas para o desenvolvimento
Tratamento e Análise de Dados científico estruturalista. Com relação a estudos históricos, entende que a história
da Realidade. precisa ser entendida no momento da análise e não na sua decorrência.
Critérios de Demarcação do O que permite construir um modelo de relações, um conjunto (uma totalidade). O
Campo Empírico. que possibilita a construção de um simulacro do real. O campo empírico é
constituído pelas possibilidades de definir relações estruturais a partir de aspectos
sociais observados e passíveis de serem explicados por meio de modelos.

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Quadro 06. Fenomenologia: categorias de análise e seus elementos constitutivos
Categorias de Análise Elementos Constitutivos Procedimentos
Produção do Concepção do Conhecimento. O conhecimento se produz através de uma rede de significados que permite chegar
Conhecimento à essência do fenômeno. Como existem diferentes níveis de realidade, é necessário
buscar o mais profundo. O conhecimento se constrói por meio da reflexão que
procura capturar a essência invariante do fenômeno por meio da realização da
redução eidética.
Percepção Imediata da A realidade aparece imediatamente para o sujeito sempre como uma parcela do
Realidade. mundo vista pelos olhos do sujeito. Se constitui como o universo do outro que
ganha sentido para o sujeito pesquisador no momento em que se torna fenômeno
para a consciência.
Condicionantes da Realidade A realidade social dos fenômenos não é real, pois sua concepção se dá através da
Social. Époché (não uma ciência dos fatos, mas da essência, uma ciência Eidética). Para
conceber a realidade deve-se assumir uma atitude de espectador, interessado apenas
em colher a essência dos atos através dos quais a consciência se reporta à realidade
ou a significa (Époché fenomenológica). A realidade social é Transcendental
(consciência lógica), Intencional (Atos da consciência) e de Evidência Apodítica
(um saber certo e indubitável, que significa o aparecimento do que verdadeiramente
É. Não é qualquer evidência que é satisfatória: apenas a evidência Apodítica, com
ausência total de dúvida). A realidade social concreta não condiciona a construção
do conhecimento, pois ela é colocada em suspensão por meio da redução
fenomenológica para viabilizar a elaboração de um conhecimento atemporal e com
ausência de dúvidas.
Cognoscibilidade do Mundo. O mundo é conhecido através da Redução Fenomenológica, que é a suspensão da
afirmação da realidade (tese) que está implícita em todas as atitudes e ciências
naturais. A Redução Eidética é a forma pela qual o filósofo se move da consciência
de objetos individuais e concretos para o domínio transempírico das essências
puras, atingindo a intuição do eidos (forma) de uma coisa, ou seja, do que existe em
suas estrutura essencial e invariável, separado de tudo o que lhe é contingente ou
acidental. O mundo exterior será conhecido por meio da sua transformação em
mundo fenomênico no qual se busca a essência invariante dos fenômenos -
suspensão fenomenológica. Desse ponto em diante o conhecimento do mundo é
uma atividade mental que perfeitamente pode conhecer a estrutura invariante dos
fenômenos.
Método de Método de Produção e Análise. Ênfase no significado e não nos fatos. Ciência do processo – do tornar-se. Há um
Investigação corpo de conhecimentos. O processo de produção conhecimento ocorre por meio da
suspensão fenomenológica e da redução eidética. Além disso, ocorre a reflexão
contínua e o processo de escrita das essências apreendidas a partir da intuição,
resguardando a perspectiva do sujeito. O objetivo do método é voltar-se para o tema
com interesse (é apenas uma interpretação). Investigar a experiência vivida
(colocar-se entre parênteses). Refletir sobre a essência (significado). Escrever e
reescrever (pesquisa e escrita como processos interdependentes). Ser fiel ao
“sujeito” e colocar-se como sujeito. Considerar o todo e as partes.
Relação entre Pensamento e Primazia do Pensamento (da Razão) sobre o Real (a Matéria). Trata-se de uma
Realidade. meditação acerca do conhecimento que refaz todo o saber elevando-se a um saber
não radical (colocando a realidade entre parêntesis). A primazia é do sujeito, do
pensamento, da razão. A realidade aparece a partir da relação entre o fenômeno e a
consciência. Essa mediação cria o conhecimento a partir do pensamento, da ideia.
Relação entre Essência e A essência ou eidos do objeto é constituída pelo invariante, que permanece idêntico
Aparência dos Fenômenos. através das variações. Refere-se ao sentido ideal ou verdadeiro de alguma coisa,
dando um entendimento comum ao fenômeno sob investigação. Representa a
unidade básica de entendimento comum de qualquer fenômeno, aquilo sem o que o
próprio fenômeno não pode ser pensado. É aquilo que é inerente ao fenômeno, sem
o que ele não é mais o mesmo fenômeno. É uma “consciência da impossibilidade”,
aquilo que é impossível à consciência pensar de outro modo ou aquilo sem o que a
coisa ou o fenômeno é impensável. A aparência não importa na compreensão do
fenômeno. Assim, a aparência deve ser depurada para chegar na essência invariante.
Relação entre Cabe ao sujeito descobrir as estruturas essenciais e relacionamentos do fenômeno,
Sujeito/Consciência e bem como os atos da consciência nos quais os fenômenos aparecem. Não é possível
Objeto/Matéria. separar o sentido do ser do sentido do fenômeno. A fenomenologia estuda os
fenômenos puros, as significações das vivências da consciência. O conhecimento
dado originalmente pela intuição é conhecimento verdadeiro e deve ser aceito como
se apresenta. A consciência está separada do fenômeno, porém sempre
correlacionada (não existe como separá-los) para poder capturar a essência
invariante.
Relação entre Objetividade e Relacionada à existência do ser no mundo. Valorização da subjetividade.
Subjetividade no trato do Subjetividade e objetividade fazem parte da realidade e compõem a forma de
Fenômeno. interpretação do fenômeno.
Técnicas de Pesquisa Principais Tipos de Estudo. Formação de tipologias ideais; Estudos de casos e comparativos de casos.
Principais Técnicas de Coleta, Análise de discurso; Técnicas de interpretação e hermenêuticas.
Tratamento e Análise de Dados
da Realidade.
Critérios de Demarcação do O campo de investigação são os fenômenos que constituem a experiência vivida,
Campo Empírico. uma evidência singular ou coletiva, da qual se possa extrair a essência invariante.

17
Quadro 07. Materialismo Histórico: categorias de análise e seus elementos constitutivos
Categorias de Análise Elementos Constitutivos Procedimentos

Produção do Concepção do Conhecimento. O conhecimento decorre de uma interação da matéria com a consciência, mediada
Conhecimento pelo pensamento, de forma que o real concreto (primazia do objeto) seja apropriado
pelo sujeito na qualidade de real pensado (abstração). O conhecimento científico se
constitui a partir da síntese teórica elaborada por meio da superação da contradição
entre forma (aparência) e conteúdo (essência) dos objetos sob investigação. Resulta
da interação entre objeto e sujeito, matéria e consciência, com primazia do real
concreto e mediada pelo pensamento.
Percepção Imediata da A realidade imediata é um todo confuso que se apresenta em sua forma fenomênica,
Realidade. como coisa em si. É necessário buscar a estrutura da coisa, sua essência (coisa para
si), alcançar seu movimento, suas contradições e complexidade, ou seja, por meio de
uma série de abstrações: do concreto a abstrações razoáveis, daí à representação
caótica do todo, então à abstrações razoáveis delimitadas, posteriormente a
abstrações depuradas, a articulação, que é ponto de partida da elaboração teórica,
para finalmente chegar-se a representação da realidade como real pensado.
Condicionantes da Realidade A realidade social é uma Síntese de Múltiplas Determinações, é a unidade da
Social. diversidade. A realidade deve ser concebida a partir das relações causais
condicionantes entre a infraestrutura e a superestrutura. Sendo o ser humano, pela
sua própria constituição, um ser social e histórico, a realidade social condiciona as
formas de consciência, a própria capacidade de abstração, assim como também a
apreensão dos objetos, que são modificados historicamente pela ação pratica dos
homens.
Cognoscibilidade do Mundo. O mundo é histórica e socialmente cognoscível a partir das relações e do modo de
produção material da existência humana em sociedade. Parte-se do concreto, por
meio da identificação de abstrações razoáveis, delimitação e articulação entre
abstrações, que são sempre históricas e localmente situadas e, portanto, transitórias.
O mundo exterior pode ser conhecido pelo sujeito como totalidade pensada, pois a
compreensão da totalidade absoluta do mundo em si mesmo não pode ser atingida
pelo sujeito.
Método de Método de Produção e Análise. Dialético. Do Real Concreto ao Real Pensado pela via do pensamento. Método que
Investigação vai do particular para o geral, da unidade para a totalidade. Processo contínuo de
acumulação e renovação da produção e análise do conhecimento, com a elaboração
de categorias analíticas relacionadas com conhecimentos teóricos. O objetivo do
método é partir do concreto para elaborar abstrações cada vez mais sutis até chegar
a categorias mais simples, tornando possível alinhavar categorias mais elaboradas e
abstraídas para reencontrar o conjunto rico de determinações e relações complexas.
Real → Primeira Abstração (Categorias de Análise) → Segunda Abstração
(Elementos Constitutivos das Categorias) → Análise do Real como Concreto
Pensado.
Relação entre Pensamento e Primazia do Real sobre o Pensamento. O real é o ponto de partida do pensamento,
Realidade. mas é igualmente o ponto de chegada, não mais como realidade concreta, mas como
concreto pensado. Pensamento só é possível dada a vivência real do homem em
sociedade. Por meio de sua ação idealizada o homem em sua prática constrói a
realidade. A relação entre pensamento e realidade é dialética.
Relação entre Essência e Forma (aparência) e conteúdo (essência) pertencem ao real concreto e um não existe
Aparência dos Fenômenos. fora do outro. Contudo, essência e aparência não se confundem, pois se a essência
fosse igual à aparência não existiria necessidade da ciência. O conjunto de
características que definem a essência (o conteúdo) não se manifestam
imediatamente na aparência (a forma). Portanto há unidade dos fenômenos, essência
e aparência são constituintes do todo complexo que é o fenômeno.
Relação entre Sujeito (consciência) e objeto (matéria) se diferenciam, mas há uma inter-relação
Sujeito/Consciência e entre ambos. A consciência é condicionada (mas não subordinada) pela matéria para
Objeto/Matéria. refletir criticamente sobre ela. A relação entre sujeito e objeto deve suprimir a
diferença mantendo a identidade de ambos, pois o objeto concreto compreendido
pela via do pensamento se encontra na consciência do sujeito. Há, portanto, uma
relação dialética.
Relação entre Objetividade e A realidade objetiva é apropriada pelo pensamento (com sua subjetividade), para ser
Subjetividade no trato do criticamente confrontada com os dados da realidade em forma de análise objetiva.
Fenômeno. Objetividade e subjetividade interagem, o pensamento se apropria do objeto e o
confronta a partir de uma representação. A subjetividade do pesquisador em todas as
suas dimensões participa no processo de apropriação do real, pois não existe
neutralidade axiológica.
Técnicas de Pesquisa Principais Tipos de Estudo. Histórico; Sócio-Histórico; Estudos Críticos; Estudos que incorporam ciência,
filosofia e prática política; Dimensão Macrossocial. Todos os tipos de estudo são
possíveis no Materialismo Histórico desde que sejam preservadas a primazia do
objeto; o método dialético e categoria da totalidade específica.
Principais Técnicas de Coleta, Todas as técnicas de coleta e tratamento são válidas para o desenvolvimento
Tratamento e Análise de Dados científico no Materialismo Histórico.
da Realidade.
Critérios de Demarcação do O campo empírico são as relações sociais de produção. Objetivação da realidade
Campo Empírico. pesquisada a partir de constructos Ontológicos, Epistemológicos, Metodológicos e
Teóricos.

Estes quadros pretendem, portanto, indicar os Elementos que constituem cada


Dimensão Epistemológica específica na área de Estudos Organizacionais. Para melhor
ilustrar, considere-se um exemplo: o pesquisador pretende analisar a estrutura de poder
de uma comunidade local com o intuito de desenvolver um modelo de leitura do real,
tendo em vista que o caso escolhido é de baixa representatividade. O pesquisador ou
18
quem se utiliza deste modelo primário deve, posteriormente, validar seu modelo
testando-o em outras realidades. Esta pesquisa tem o estruturalismo como sua Dimensão
Epistemológica orientadora. Entretanto, na elaboração do modelo, do simulacro do real,
o pesquisador dialoga com a sociologia de Max Weber (1974) e sua tipologia ideal de
autoridade. Tipo-ideal é, como se sabe, uma construção da ideia que não pretende ter
correspondência no real. Todavia, o modelo de estrutura de poder que o pesquisador
pretende desenvolver tem sua origem em um campo empírico específico e para fazê-lo o
mesmo encontrou nos tipos de autoridade de Max Weber uma conceituação adequada a
alguns de seus propósitos (mitos, relações parentais, forma de organização da produção,
etc.). O diálogo com a teoria de Weber não significa necessariamente importação da
epistemologia fenomenológica na qual o tipo-ideal se abriga. Ao final de sua pesquisa, o
pesquisador verifica que a estrutura de poder daquela comunidade local sobre a qual
deseja construir um modelo de análise, um simulacro do real, encontra explicações na
estrutura de autoridade (legal, tradicional e carismática, conforme proposto por Weber),
dos mitos, dos vínculos familiares, das relações interpessoais subjetivas, do nível formal
de conhecimento e da distribuição dos resultados da produção (riqueza material). O fato
de o pesquisador ter dialogado com Weber e com outras formulações teóricas, ao
mesmo tempo em que agregou estes diálogos na dimensão estruturalista escolhida, não
o impediu de construir um modelo de análise típico do estruturalismo.
Há, ainda, outra questão que merece consideração. Cada uma das Dimensões
Epistemológicas apresentadas, aparece aqui em sua forma clássica. No entanto, estas
Dimensões, na área de Estudos Organizacionais, possuem desdobramentos que não
foram tratados neste texto, mas que devem ser indicados, conforme resumido no Quadro
08 adiante. Um estudo mais aprofundado deve indicar as influências de, entre outros,
Kant, Nietzsche, Espinoza, Descartes, Hobbes e Merleau-Ponty nesta área de estudos,
ainda que os mesmos não sejam diretamente referidos.

Quadro 08: Desdobramentos das Dimensões Epistemológicas em Estudos Organizacionais


Dimensões Epistemológicas Desdobramentos ou Sub-Dimensões Epistemológicas
Positivismo Utilitarismo
Evolucionismo
Neopositivismo
Positivismo Lógico
Grounded Theory
Objetivismo ou Racionalismo Crítico
Funcionalismo Institucionalismo
Neoinstitucionalismo
Estruturo-funcionalismo
Funcionalismo Sistêmico
Estruturalismo Epistemologia Genética
Marxismo Estruturalista
Neoestruturalismo
Estruturacionismo (simbólico)
Estruturalismo Sistêmico
Fenomenologia Idealismo Absoluto (hegeliano)
Neoidealismo
Tipo Ideal (weberiano)
Movimento Psicanalítico Freudiano
Neocriticismo
Existencialismo
Hermenêutica
Materialismo Histórico Teoria Crítica ou Marxismo Ocidental (Escola de Frankfurt)
Historicismo
Austromarxismo
Marxismo-leninismo
Marxismo Reformista
Pragmatismo Empiriocriticismo
Empirismo Radical
Instrumentalismo
Convencionalismo
Realismo

19
5. Considerações Finais

A apresentação de cada uma das seis Dimensões Epistemológicas em quadros-


resumo tem uma pretensão meramente didática. Os estudos de onde foram retirados
estes resumos tratam de cada dimensão em maior profundidade e detalhamento.
Epistemologia foi definida aqui como o estudo da produção, da reprodução, da
permanência e do desenvolvimento do conhecimento científico, tecnológico, filosófico
e cultural. Isto não significa, como se viu, que existe uma única forma de produzir,
reproduzir e desenvolver o conhecimento. Ao contrário, defende-se aqui a tese que do
ponto de vista dos Estudos Organizacionais existem seis dimensões epistemológicas
clássicas: positivismo, funcionalismo, estruturalismo, fenomenologia, pragmatismo e
materialismo histórico. São Dimensões Epistemológicas dominantes nesta área de
estudos. Poder-se-ia, também, argumentar a favor de outras dimensões (como a do pós-
modernismo, por exemplo) ou de junções de dimensões, que criariam instâncias
bidimensionais, como indicadas no Quadro 08. As instâncias bidimensionais não são
apenas possíveis como efetivamente têm sido adotadas como recurso epistemológico.
Contudo, nenhuma das demais dimensões ou de recursos bidimensionais se constitui em
formas originais, únicas, com características definidas, em “modelos” ou “paradigmas”
de produção do conhecimento no campo dos estudos na área de Estudos
Organizacionais. Seja porque ou são apenas utilizadas como forma de organização e
exposição de resultados de elaboração teórica, ou porque ainda não desenvolveram um
corpo epistêmico próprio capaz de defini-las como dimensões.
Subsidiariamente, este estudo se contrapõe de forma radical a um dos textos
mais perniciosos sobre paradigmas sociológicos na área de análise organizacional,
escrito por Burrel e Morgan (2000), que tem servido de orientação a professores e
estudantes de pós-graduação pouco familiarizados com epistemologia e filosofia da
ciência. Trata-se de um texto que, não obstante o reconhecido esforço dos autores em
resumir a literatura disponível, induz a erros crassos decorrentes de uma simplificação
grosseira e arbitrária das dimensões epistemológicas, propondo uma matriz, com quatro
paradigmas, confusa, sobreposta, inexata e que é construída sem a definição clara e
precisa das categorias de análise e dos elementos constitutivos que a justificam. O
resultado da adoção desta proposta como livro texto por parte de professores e
estudantes com pouca intimidade com a epistemologia e a filosofia da ciência, como
não poderia deixar de ser, é a conveniência da definição de um modelo cômodo e
utilitarista de enquadramento das pesquisas, que não exige nenhuma reflexão mais
profunda, tão ao gosto do pensamento cartesiano que domina os estudos
organizacionais. É um texto que, pelo bem da metodologia e da epistemologia, deveria
ser banido das referências.
A Dimensão Epistemológica, ao contrário da pregação dos paradigmas
sociológicos de Burrel e Morgan (2000), é, sem dúvida, a única garantia de coerência na
produção e desenvolvimento do conhecimento, porquanto é a partir desta instância que
se estabelece o diálogo entre teorias entre disciplinas e entre as ciências. Isto significa
que o pesquisador não deve sobrepor dimensões ou importar elementos constitutivos de
uma dimensão em outra, pois cada dimensão é única. É necessário, portanto, recolocar a
questão do uso inadequado dos conceitos. Podem-se aceitar conceitos tais como são se
os mesmos não dão conta de responder às perguntas de pesquisa? Qual o critério da

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recusa? Conceitos podem ser tão efêmeros, superados pela dinâmica da realidade e
frágeis como, igualmente, consistentes, com longa permanência e universais. Esta
situação depende muito menos da Dimensão Epistemológica do que da realidade que o
conceito se propõe traduzir, tendo em vista que é justamente a realidade e não a ciência,
metafisicamente considerada, que tem primazia. Assim, cada pesquisa deve assumir sua
condição epistemológica como um estado inicial para, a partir dela, arguir os conceitos
que utiliza. É epistemológica e teoricamente estéril questionar conceitos produzidos em
uma Dimensão Epistemológica a partir de conceitos produzidos em outra Dimensão.
Entretanto, isto não significa que os enfrentamentos não possam ser realizados, pois ao
mesmo tempo em que as Dimensões Epistemológicas circunscrevem os conceitos, o
desenvolvimento do conhecimento reclama sua circulação.

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