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Currículo Baseado em Competências

Inicialmente, ao tratar desse tema, é de fundamental importância explicar

o que se compreende por currículo. De um modo geral, pode-se dizer que o

currículo é a expressão da função socializadora da escola. Ele é o componente

imprescindível para compreender o que geralmente denominamos por prática

pedagógica. Ressalte-se ainda que, no currículo, se entrecruzam componentes e

determinações muito diversas: pedagógicas, políticas, práticas administrativas,

produtivas de diversos materiais, de controle sobre o sistema escolar, de

inovação pedagógica, dentre outros. O currículo, nesse sentido, se apresenta

como uma carta de intenções na qual estão expressos os conteúdos e as formas

de desenvolvê-los. É, nessa perspectiva, que está situada, neste texto, a lógica da

aprendizagem por competências.

A Educação Baseada em Competências – EBC - é um tipo de abordagem

sobre o processo de ensino e aprendizagem. Primeiramente denominado nos

anos de 1970, nos EUA, Ensino Baseado em Competência, ela passa a ser

disseminada no Brasil com maior força na década de 1990, em decorrência do

uso do conceito (competências) na Reforma do Ensino Brasileiro ocorrida nessa

década. No contexto do seu surgimento, a EBC pautou-se em cinco princípios:

1. toda aprendizagem é individual.

2. o indivíduo, como qualquer sistema, se orienta por metas a serem

atingidas.

3. o processo de aprendizagem é mais fácil, quando o aluno sabe

precisamente o desempenho que se espera dele.

4. o conhecimento preciso dos resultados a serem atingidos favorece a

aprendizagem.

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5. é mais provável que o aluno faça o que se espera dele e o que deseja

de si próprio se lhe é concedida responsabilidade nas tarefas de

aprendizagem (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO

TRABALHO, 2002, p. 25).

A organização curricular por competências reivindica outra lógica de uso

dos componentes curriculares, diferente dos modelos tradicionais de educação.

Não uma lógica da divisão por disciplinas, pois as competências a serem

propostas no contexto curricular requerem conteúdos de diversas disciplinas. A

organização modular, por exemplo, traz aos currículos a ideia da possibilidade

de caminhos formativos, bem como a terminalidade e a continuação posterior

de estudos, supondo que cada módulo engloba conteúdos e atividades que

sejam capazes de formar um determinado conjunto de habilidades:

Do ponto de vista formativo, o enfoque das competências


encontra-se associado à modularidade como princípio de
organização dos currículos, concebendo-se os módulos como
unidades formativas. Conforme dissemos, a estrutura modular é
essencial à ideia de itinerário ou trajetória de formação (RAMOS ,
2002, p. 152).

Em função dessa organização curricular não-disciplinar, o currículo por

competências pode ser considerado como um currículo integrado, pois as

competências por si expressam uma integração de conteúdos, conceitos e

processos metodológicos.

Em se tratando de uma organização curricular, as competências podem

ser organizadas por blocos, que tenham justificado seu agrupamento pela

formação proposta pela escola. Essa organização curricular poderá ser

composta por competências gerais e específicas, pois, segundo Perrenoud

(1999), uma competência pode mobilizar várias outras.

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Um currículo por competências parte fundamentalmente de situações

concretas, da ação. Parte da teoria para a prática e vice-versa, como também do

concreto ao abstrato, do campo real para o campo conceitual. É desse modo que

se compõe um currículo por competências.

Uma reformulação curricular por competências implica um desenho

curricular que ultrapasse programas ainda tradicionais em sua práxis, que

apenas utilizam um verbo de ação na frente da descrição dos conteúdos

disciplinares para indicar uma suposta mudança na prática pedagógica.

Perrenoud nos auxilia na abordagem conceitual de uma pedagogia

diferenciada, propondo mudanças na representação curricular e na prática

docente.

Para desenvolver competências é preciso, antes de tudo,


trabalhar por problemas e por projetos, propor tarefas complexas
e desafios que incitem os alunos a mobilizar seus conhecimentos
e, em certa medida, completá-los. Isso pressupõe uma pedagogia
ativa, cooperativa, aberta para a cidade ou para o bairro, seja na
zona urbana ou rural. Os professores devem parar de pensar que
dar o curso é o cerne da profissão. Ensinar, hoje deveria consistir
em conceber, encaixar e regular situações de aprendizagem,
seguindo os princípios pedagógicos ativos construtivistas
(PERRENOUD, 2010b, p. xxx).

Propor uma organização curricular por competências supõe, então:

• mudança na postura metodológica da ação pedagógica docente que

engloba estratégias e novas metodologias de ensino;

• foco na construção de competências, avaliação por competências e

adoção de um contexto interdisciplinar do ensino.

Um currículo por competências não se baseia exclusivamente na tradicional

organização curricular por objetivos, ementas e disciplinas, muito embora possa

se valer das últimas de forma pluridisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar

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num contexto de transversalidade dos conhecimentos. Desse modo, conteúdos

disciplinares deverão se constituir num meio, ou seja, num suporte para a

construção de competências e não num fim em si.

Fala-se atualmente com frequência na articulação de saberes, utilizando-se

para isso de palavras como interdisciplinaridade, acreditando-se que tão-

somente por meio dela o problema da falta de comunicação entre as disciplinas

estaria resolvido. No entanto, é necessário transcender a soberania territorial

disciplinar. Podemos afirmar que o século XX foi profuso em propostas

inovadoras para o campo da educação, mas que, no entanto, não tiveram uma

perpetuação na prática escolar. Termos como interdisciplinaridade,

aprendizagem significativa, “método de problemas”, “método de projetos” não

foram inaugurados pela reforma do ensino na era Cardoso. É, nesse sentido,

que as propostas metodológicas deverão mostrar-se numa incompletude, aberta

às novas reorganizações, preferindo a trilha nova àquela já percorrida.

A questão é que lidar com esse formato curricular, como já foi dito, implica

outra lógica, diferente do currículo por objetivos, créditos e disciplinas. Se, no

ensino tradicional, tem-se registro de notas; no currículo por competências,

tem-se registro de resultados. Tem-se ainda a competência em detrimento do

conteúdo, a contextualização em detrimento da dicotomia teoria/prática, a

interdisciplinaridade em detrimento da fragmentação disciplinar, dentre

outras características. Nessa direção, é importante reforçar que construir um

currículo baseado em competências significa, antes de tudo, “[...] educar os

alunos para um fazer reflexivo e crítico, no contexto de seu grupo social,

questão que coloca a educação a serviço das necessidades reais dos alunos para

sua vida cidadã e sua preparação para o mundo do trabalho” (LEITE, 2004, p.

126).

Adotar um currículo por competências pressupõe que ele seja orientado

pelos princípios pedagógicos da transposição didática, da interdisciplinaridade,

da aprendizagem significativa e da contextualização, mas como trabalhar dessa

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forma? A educadora brasileira Ermelinda Maura Chezzi Dallan nos fornece

dicas fundamentais para planejar uma proposta curricular por competências:

1. Ter claro o conceito de competências;

2. Refletir como os alunos poderão desenvolver competências;

3. Definir qual o perfil de cidadão que se pretende formar. O que

significa preparar para a cidadania; quais as competências que

traduzem essa ideia e, em consequência, quais os conteúdos

curriculares que deverão contribuir para a constituição dessas

competências;

4. Tomar sempre por base as competências para selecionar os conteúdos

curriculares. Como outros, essa autora lembra que uma mesma

competência pode estar ancorada em vários conteúdos, e que estes

são meios, e não fins;

5. Definir qual o tipo de organização curricular, podendo-se optar por

temas, projetos ou problemas, integrando disciplinas ou áreas do

conhecimento;

6. Ter claro que a interligação do conhecimento é uma das estratégias

que favorece o desenvolvimento de competências (DALLAN, 2010).

Dallan (2010) pontua que para desenvolver competências é fundamental

propor atividades desafiadoras, que possibilitem ao aprendiz mobilizar e

colocar em sinergia os conhecimentos já internalizados ao mesmo tempo em

que ele deve buscar novos conhecimentos.

Por fim, Perrenoud (1999, p. 53) sugere a quem deseja trabalhar por

competências que:

1. considere os conhecimentos como recursos a serem mobilizados.

2. trabalhe regularmente por problemas.

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3. crie ou utilize outros meios de ensino.

4. negocie e conduza projetos com os alunos.

5. adote um planejamento flexível.

6. implemente e explicite um novo contrato didático.

7. pratique uma avaliação formadora em situação de trabalho.

8. dirija-se para uma menor compartimentação disciplinar.

A organização do currículo por competências pode ser considerada como

um dos caminhos possíveis de serem trilhados dentre as diversas estradas

disponíveis para possibilitarem a aquisição de uma aprendizagem significativa.

A opção por esse caminho implica a consciência de que toda pedagogia precisa

ser encarada dentro dos seus próprios limites e alcances, relativos

principalmente à maneira como será entendida, absorvida e implementada por

todo o conjunto de profissionais envolvidos dentro de um determinado

processo ou projeto de educação.

© SESI. Projeto SESI - Curso Currículo Contextualizado.


É permitida a reprodução parcial ou total deste artigo, desde que citada a fonte:

SOUZA, Zilmar Rodrigues de; BIELLA, Jaime. Currículo Baseado em


Competências. Natal: SESI, 2010. Colaboração: José de Castro, Gilson Gomes de
Medeiros, Ilane Ferreira Cavalcante, Artemilson Alves de Lima. Projeto SESI -
Curso Currículo Contextualizado. Disponível em: <http://www.sesi.br>.

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REFERÊNCIAS

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