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Trazendo o melhor da reflexaio \démica sobre antropo logia, relagoes de género e a historia da ciéncia num texto de grande eloquéncia, Antro pdlogas & antropologiaha de se tornar um dos classicos do campo das ciéncias sociais brasileira. Pereorrendo as primeiras décadas do século 20, Mariza Corréa nos apresenta mulheres aventureiras — sertanistas, naturalistas, pequisadoras — que ensaiavam os passos ini- iais de uma nova ciéncia vol- tada principalmente para ‘trabalho de campo entre povos indfgenas. Longe de fornecer uma simples biografia, apro- veita as variadas fontes — cartas, recortes de jomal,entre- vistas ¢ até romances — para perguntar como a sociedade reagia a essas mulheres que fugiam da suposta norma Através dese sutil jogo de espelhos, introduz a antropo- logia das relacoes de género, trazendo a tona uma vasta € atualizada bibliografia, Rejeita concepgoes rigidas calcadas no dimorfisma sexual e evoca a figura do andr6gino para por em questdo os proprios limites do feminino/masculino. Com isso, torna sua andlise alta- mente relevante para a socie~ ANTROPOLOGAS & BP arcsec ae ANTROPOLOGIA ; Pen ee no campo semantico, Mariza Corréa Hound, extraordindrias, a autora trar para seu material o olhar também de historiadora, Dev ‘Ao descrever esas mulheres ASIN: 85-7041-299-1 | cop: 01 cou: 56 ‘Guapo a pula Divo de Paspimcnioe Drago ds lotsa Universi -UFMG AlexamlreVasconecloe de Mo PHOJETO GRAMICO carn Marcelo Bello, sobre Netrato de Herta Ribeiro de Jose Panett (oto de Paulo Castishon! Lara, da equipe de Ana Marla Galano do Instituo de looms Cltnchs Solas da Universidade federal do Kia de Janei, Ns conta a snaaha que §.Pavlo, delirundo, recebeu em seus bragos monstros os herdis er Jove Pancet, 31 julhorI945"). Funda Day Kbsro RODUGAO GRAnCA FORMATAGAO. Tadao Femees Marcelo Helio "ice Retr Marcos Botte Viama ‘Av Aso Clos, 6627 - Ala dis da Eiblltecs Cena treo ‘Compus Pampalhs - 31270901 - elo HorzomeMG Tels (31) 5499-4660 - Fax (30) 3199-4768 ‘wonton. ngbe CCONSHLHO EDITORIAL Anidnio Laie Pinko Ribeito, Neti Rezende Dantas, Carls Anitnio Leite ‘no, Helos Mari srg Stating blz Oto Fagundes Amaral Mara ds (rags Sona bar, Maria elon Daanascone e Siva Mega, Hore Cardo “Guinuites, Wander Nelo lands (render) Ctisiano Machiso Gono, Denise Hieio Soares, Leo Hari Castles, Lucas “Jon Brcus dow Sato, Mara prec do Santos Pav, Mauelo Nunes Vek, ‘Newton Hipot de Sour, Reinaldo Maainino Marques, Ricardo Casaera PlaentaFigeledo Para Cecilia, Berta e Clara, om admirago e saudades, ara Thiago ¢ Henrique, cou esperanca. AMtruLo APirULO apfruLo AprruLo AperuLo vi LSTA DE FIGURAS APRESENTAGAO INTRODUGAO 1 NATUMEZA IIAGINARIA D0 GENERO NA HSTORA TRES HEROINAS DO ROMANCE ANTROPOLOGICO BRASILEIRO ‘A DOUTORA EMILIA & © DETALHE BTNOGRAFICO (08 INDIOS BO BRASIL FLEGANTE & [A PROFESSORA LEOLINDA DALTRO DONA HELOISA & A PESQUISA DE CAMPO (© MISTERIO DOS ORIXAS E DAS BONECAS RACK E GENRO KA ANTROPOLOGLA HRASILNRA (© ESPARTILHO DE MINHA AV Notas DIBLIOGRAFIA 65 31 107 141 163 209 261 {isla pesquisa teve inicio em 1989 ¢ é um desenvolvimento dle ina pesquisa mais geral sobre a hist6ria da antropologia io Brasil, que se iniciou em 1984." Seria um longo détour Nistorlar Codos os desdobramentos dela, aqui, mas gostaria apontar alguns dos aspectos que me parecem pertinentes a das reflexdes ima questo mais geral e que surgiram a pat fe el. A primeira, € que tem sido a questio mais insistente quando lo desta pesquisa, € se se trata aqui da anilise de “mulheres fexcepeionais", 0 que, portanto, pouco poderia acrescentar \o estudo das relagdes de género em nossa sociedade. Aqui preciso refletir tanto sobre qual seria a “ordem do género"? ‘ei nossa sociedade quanto sobre o significado de “excepcio- huilidade"— © sugerir que aquela ordem, seja qual for, esté hipre sujeita a contestagdes, subversdes de sentido, revis6es. Jissay mulheres s20, sim, excepcionais, mas em outzo sentido no sentido de que é possivel recuperar sua trajet6ria social, \inda que de maneira truncada, € minimamente avaliar as seagoes da sociedade de sua época ao seu trabalho ou a sua iuagao, ja que outros exemplos de*contestagdo ou revis2o «los sentidos normativos de uma ordem do género sio ainda eseassos. E € justamente a reaglo ao que parece “inusitado” hha Epoca 0 que nos permite refletir sobre o que seria o usual. O m todos os exemplos de discursos citados ju, aquilo contra o que esas personagens pareciam se insurgir, de maneira discreta ou militante. E o usual que esté implicito nas verses romanceadas das trajetérias dessas tres personagens © nas enfrentam, Ou, para falar como Bourdieu,! trata-se, nos t@s casos, «le uma ameaca 2 ordem institucional — e: 5 que cl empreendimentos contririos 3 ordem institucional, A ameaca aquela ordem s6 se torna clara quando lemos as respostas literdrias a seus empreendimentos: a ornitéloga [Emilia Snethlage] que deveria cair cativa do canto de um passaro sedutor; a aventureira (Leolinda Daltro] que deveria se aven- turar pelos sertdes, de fito, 2 procura de um homem, ou a diretora de museu [Heloisa Alberto Torres] que, solteira, deveria viajar com uma companhia masculina — jovem ¢ inepta, mas masculina, de acordo com os relatos, histéricos ou roman- ceados, de suas trajetorias. E dificil deduzir do material disponivel uma estrutura ins- crita ‘na subjetividade, isto é, nos corpos* (Bourdieu) — no entanto, a idéia de “transformacao de sua relacdo subjetiva ‘com seu corpo” poderia ser lida na avaliacio feita do aventurar-se dessas personagens em territérios selvagens, deslocando-se dos espacos urbanos que eram suas referencias biogrificas originais ¢ expondo seus corpos As ameacas naturais (animais, indios, desastres) ou sociais (“inimigos” nacionais ou inter- nacionais). Nao se trata, apenas, de uma invasao do espaco pGblico, para invocarmos a dicotomia consagrada que estaria sempre presente na distribuigio de homens © mulheres no espago social: essas trés personagens foram além disso 20 fundamentarem, por assim dizer, essa sua incursio 20 dominio piiblico — das associagdes, da imprensa, das instituigbes, da cigncia — a partir de suas incursdes a0 dominio da natureza que elas, inquictamente, pareciam querer subjugar. Daf as tentativas dos romancistas de realoci-las ao seu lugar, através da recorrente metifora da natureza que se rebelava contra elas. Emilia, Heloisa e Leolinda seriam assim “romanceadas" como perdedoras nese embate — ainda que, aparentemente, em dois casos, as narrativas ficcionais as elejam como heroinas positivas. O que s6 torna o terceiro caso, 0 da heroina negativa, mais interessante. Uma segunda questio, diretamente suscitada pela discussio anterior, diz respeito As relagoes entre homens € mulheres naquela esfera piblica, ja que se poderia dizer que, a0 entrarem no servigo péblico ou postularem cargos ptiblicos — o que era explicitamente censurado por varios porta-vozes do decoro social da época —, no era apenas como individuos invasores que elas eram vistas, mas como portadoras de uma +“ Welln logica”, a légica da esfera “doméstica”, que poderia Jolvir a logica da esfera pablica, Essa poluigao € justamente © Wile Se pode ler nas entrelinhas de todas as acusagdes contra ‘jon 16s personagens em momentos de crise: quando Heloisa # yeunacla de comprar cortinas para o Museu Nacional, Emilia, Sewjada dle cistribuir 0 alimento destinado aos animais do ‘Museu: Gocldi as familias de seus trabalhadores ou Leolinda, wewnuda de usar de sua seducio para trazer do sertio um jemonagem controverso, parece tratar-se de explicitar que jweledade © regida por légicas distintas, que comandam 0 Fomportamento feminino de modo diferente do que coman- sii) Comportamento masculine. Como se se tratasse de uma feprodusie, no nivel ideolégico, no nivel das normas, do Wimorfismo sexual da espécie humana. O que emerge no Awompankamento dessas trajetGrias é exatamente o contritio: » comportamento dessas (e de algumas outras) senhoras aqui nuluclas parece ser antes regido pela légica inerente As fungOes que ocupavam — ou 4 profissio que exerciam —, As Clrcunstineias em que viviam ¢ aos interlocutores com quem conviviam, A conclusto geral dessa andlise, se ha alguma, € im ponto no qual tenho insistido h4 muito tempo © que € formulado no Capitulo VI da seguinte maneira: € impossivel Viver numa cultura, viver uma cultura, sem ter conhecimento, nenino se incompleto, das varias linguagens operando nela Creio que isso vale tanto para as definigdes de género quanto para as det de raga em nossa sociedade. Por Gltimo, e retrospectivamente, me parece que se, “de podemios ler essas trés trajet6rias como “trajetorias de sucesso”, quando as lemos “de dentro”, elas parecem trajets- shy de fracasso. Heloisa nunca conseguiu fazer do Museu Nacional o centro da antropologia que desejava implementar um clos pesquisadores aqui chegados a partir do convénio informal estabelecido com a Universidade de Columbia, sob lo de Ruth Benedict, suicidou-se; as verbas de pesquisa pedicas nunca, ou raramente, se materializaram, suas \s tentativas de coordenar projets com verbas inter- hucionais nunca foram avante, Emilia, ainda que tenha sido reconhecida por seus colegas como uma omnitéloga de talento, hilo pode ocupar por muito tempo os cargos aos quais a sua Litulagio @ tornava apta: o fato de ser de origem alema a tomou persona non grata aos olhos da burocracia paraense, e 0 Fato 1s de ser mulher fez dela uma personagem suspeita como diretora do Museu Goeldi. Leolinda, desiludida da carreira tentativa de indigenista, e vencida em suas tentativas pioneiras de criar tum Servigo de Protego aos Indios, tornou-se feminista, mas, como tal, nunca conseguiu eleger-se para 08 cargos publicos que postulou. Mas, 20 mesmo tempo, talvez possamos ler suas trajet6rias, depois de tanto tempo, como bem-sucedicl 0 Museu Nacional tomou-se, afinal, 0 centro da ctnologia brasileira, como Heloisa queria; Emilia € até hoje lembrada pelos ornitélogos do pais como uma pioneira, € Leolinda, ainda que ndo seja vista como uma heroina feminista, € lembrada pelas suas lutas em prol do feminismo nascente no pais. ‘A questio mais geral € em que medida as determinagoes por assim dizer classicas — como classe social (Heloisal, educagio (Emilia), relagdes de compadrio [Leolindal — se esvaem quando rebatidas contra a determinagio de género. E como se os pontos de fratura que as determinagoes de ‘género provocim nessas linhas de forcas sociais tradicio- nalmente levadas em conta sugerissem que elas tm 0 valor que Ihes 6 atribuido apenas quando os personagens sio masculinos: quando se trata de personagens femininas, a hist6ria muda de figura, literalmente. © titulo do livro é uma brincadeira linguistica com © de Adam Kuper — ja que na lingua inglesa nao se pode distinguir antropélogos e antropélogas — e nao deve ser tomado a0 pé da letra: nao se trata aqui de fazer uma historia da antropologia Gtento fazer isso em outros textos), mas sim de compreender como certas figuras to preeminentes na nossa tradigao, € no nosso imagindrio, foram apreendidas quando conjugadas no feminino. O naturalista, 0 sertanista, 0 administrador foram encarnados por personagens tio distantes, culturalmente, do pais, ou do que viria a ser a disciplina antropologia, como Emilia Snethlage, tio controversos como Leolinda Daltro 180 contraditadas na sua atuagio como Heloisa Alberto Torres. ‘Nenhum deles, que eu saiba, virou personagem de romance; nenhum deles mereceu, de virios de meus colegas, comentirios tao dcidos (‘mas ela nao faz, parte do campo da antropo- logia”) como essas personagens. Todos cles foram citados, inimeras vézes, em indmeros trabalhos académicos, para referendar um ponto ou outro da discussio antropolégica do momento. Flas, elogiadas ou detratadas, passaram A historia como personagens menores, figuras de corredor, ¢ as intimeras incdotas impublicaveis sobre elas que ouvi no decorrer da pesquisa pareciam ser 0 tinico modo aceitavel de inclui-las fom nossa histéria. Hist6rias picantes, € claro, € no & disso que se trata sempre que ha mutheres na histria? Essas hist6- flay deixam de ser anotadas aqui, nao por fuga ao dever hhist6rico do registro, mas porque S40 apenas uma confirmacao 1 mais do papel an6malo que essas figuras, raras, represen- {aram em nossa hist6ria — além de, como € sabido, ajudarem ‘8 explicar mais os personagens que as contam do que as personagens que as motivam. io se trata, tampouco, de fazer uma biografia dessas \gens: 0 material a que pude ter acesso durante a pesquisa mostrou, de sobra, que suas biografias sto empre- cendimentos perfeitamente factiveis — mas nio era o que me propunha a fazer. Quis aq mnhar, em tragos ripidos, seu percurso e tentar compreendé-los no contexto da hist6ria hacional ¢ internacional da disciplina, mais como uma espécie de exemplos, que elas foram, do que como personagens icabados, em todas as suas nuances € contradigdes. Foi muito Ulificil deixar de fazer suas biografias: suas vidas saio fasci- nantes, particularmente no perfodo em que as viveram — cada uma delas por uma razao diferente, mas todas empenhadas cm levar a cabo algum empreendimento que duvide que tenha catendido inteiramente, ja que elas so to cautelosas ao strarem sua voz pessoal, sua maneira de ver as coisas. A introdugio a este livro, numa versio inicial, foi apre- sentadk num grupo de trabalho da XVII Reuniao da ABA, em indpolis, em 1990, € publicada com o titulo “A natureza initia do género na histéria da antropologia” nos Cadernos Pagu (5), Unicamp, Campinas, 1995. O Capitulo 1 presentado no semindrio Estilos de Antropologia, coor- ‘ado por Roberto Cardoso de Oliveira, na Unicamp, em 1990 (e impresso, no estado que o titulo da série indica, em Primeina Versdio 22), IECH/Unicamp, no mesmo ano). O Capitulo Ii foi publicado por Claudia Fonseca e Noemi Castilhos de Brito no nimero por elas organizado da revista Hortzontes Antrupolégicos (1), Porto Alegre, 1995. O Capitulo Il foi escrito como um presente de despedida para Manuela Carneiro da Cunha, que deixava a presidéncia da ABA em 1988, ¢ publi- cado por Stellt Brese nero que ela organizou da jani no nd Revista Brasileira de Histéria (18), Sio Paulo, 1989. Na época, eu ainda nto conhecia toda a historia, O Capitulo IV foi publicado pela Revista de Antropologia, 40 (1), 1997, gragas 20 interesse de Aracy Lopes da Silva ¢ de Paula Montero. Capitulo V foi escrito para o Coléquio Antropologias Brasi- leiras na Viragem do Milénio, patrocinado pelo CEAS/Centro de Estudos de Antropologia Social, em Lisboa, em novembro de 1999, € organizado por Miguel Vale de Almeida e Joao Leal. Foi publicado, numa versio ligeiramente diferente, em Emogrdfica, WV (2), 2000. E 0 Capitulo VI, publicado em Horizontes Antropolégicos (7), 1997, no niimero organizado por Maria Eunice Maciel para a Reuniio de Antropologia do Mercosul. Agradego a todos pelo estimulo a eserita e pelos comentirios durante as apresentagdes ¢ aos assessores andnimos dessas publicagdes pelas suas sugestdcs, Tenho também dlividas de gratidio com muitas outtas pes- soas ¢ instituigdes desde que iniciei esta pesquisa: agradego a cada uma delas a0 longo do texto, Cabe, no entanto, fazer uma mengao especial ao carinho € interesse de Roberto Cardoso de Oliveira ¢ Carlos Rodrigues Brando: ambos me trouxeram cépias de velhos livros, me ajudaram a encontrar fontes, sugeritam nomes de pessoas que poderiam ser entre- vistadas ¢ me apoiaram em geral neste empreendimento. Berta Ribeiro ¢ Clara Galvao tiveram infinita paciéncia com a minha curiosidade ¢ compartilharam suas lembrangas com uma honestidade fmpar © com um generoso acolhimento. A meus trés primeiros leitores do conjunto do material, Leila Mezan Algranti, Juliana Nascimento e Plinio Dentzien, agradeco © cuidado gentil com que tentaram me alertar sobre certos deslizamentos do texto: certamente o resultado final nao conseguiu corrigir todos eles. A equipe do Pagu, Nicleo de Estudos de Género da Unicamp, e & Adriana Piscitelli espe- cialmente, agradeco 0 carinho € interesse. A Sergio Miceli, 0 empenho amigo cm publicar este texto. Registro também meu grande reconhecimento a0 apoio que recebi nesses anos todos da FAPESP (Fundagao de Amparo 2 Pesquisa do Estado de Sao Paulo), cujo impulso a0 projeto original foi decisive para sua continuidade, 20 CNPq (Conselho Nacional de Pesquisas), ¢ 20 FAEP (Fundo de Apoio ao Ensino ¢ Pesquisa) de minha universidade. A NATUREZA INAGINARIA DO GENERO NA HISTORIA DA ANTROPOLOGIA -Auravés desse modo singular de nominacao, ‘que se consti ne nome peSpo,insttuse uma ‘dlntidade socal constante ¢ uradoura que garante Jule da individuo biol6gico em todos os campos possiveis os qua ele intervém como agente, to €, em todas as suas | Isr de vida possivels Pierre Bourdieu, A thisdo biogrdfica QUE & UM NOME? Durante quatro anos procuramos por Dina Lévi-Strauss que, se ndo era uma celebridade na histéria da antropologia, uma desconhecida. Acho que o primeiro a mencioni-la foi Egon Schaden, em seu depoimento, ¢ depois os mais referéncias sobre ela no livio de Lélia Gontijo Suzana Lu sobre a Sociedade de Etnografia ¢ Folclore, erluclt por Mario de Andrade e da qual ela foi secretaria.’ Af onto reproduzidos em fac-simile os Boletins da Sociedade ¢ fuese mengio a um livto de Dina — Instrugdes praticas para posuuisas de antropologia fisica e cultural (1936) — © 2 sua cehepaada: * rauss, professora agregée da Univer- los quadros do Museu do Homem. Hla stcompan ido, Claude Lévi-Strauss, no Brasil, ado como professor de Sociologia da recém-criada Universidade de Sa0 Paulo.” Na enorme correspondéncia de Mario de Andrade, e aparece, ¢ quando aparece nas notas de seus interlocutores, subsumida na categoria *o casal Lévi-Strauss” “ também nao ei idhide de Paris e egressa cont rarame , quando nao simplesmente como mulher de Lévi-Strauss”. £ assim também que se refere a ela com frequéncia o fildsofo francés Jean Maugué em sua auto- biografia: “Lévi-Strauss et sa femme.”* Numa carta de agosto de 1938 a Mario de Andrade, Oneyda Alvarenga menciona a razio de sua safda do pai voce sabe que Mme, Lévi-Strauss est quase cega ¢ talvez venha mesmo a perder totalmente a visti? Apanhou em Mato Grosso uma conjuntivite purulenta, de que 0 maride escapou, me informaram, por usar dculos Co que me parece bestelra.) Nao sel outros detalhes. Ela esti aqui, devendo voltar logo para 1 Franga, © Lévi-Strauss continua atts de indios Dina aparece também quase como um pé de pagina em Trisies irépicos e em De prés et de loin \De perto e de longel — mas um olhar mais atento nao a descobriria na persona~ gem Camila, da pega de teatro que Lévi-Strauss imaginou em sua expedi¢ao? “Camila rompeu com Cinna ¢ essa ruptura traz a este a prova final de um fracasso de que ja se tinha persu- adido.” Cinna 6 “um exaltado que s6 gosta de estar entre os selvagens” e que diz, & certa altura, evocando a experiéncia presente do autor: “Comi lagartos, serpentes € gafanho- tos; ¢ desses alimentos, cuja idéia s6 provoca nduseas, eu me aproximei com uma emogio de ne6fito, convencide de que ia criar um laco novo entre o universo firme € eu." (Tris- les tropicos, cap. XXXVI) Cinquenta anos depois, gragas A persisténcia de Anne Marie Pessis, Dina foi encontrada ¢ entrevistada. E uma pequena entrevista com a professora de filosofia Fernande Dina Dreyfus que reiteradamente negava nossas lembrancas do seu passado. Como vemos no video, ela nao lembra ter filmado ou escrito sobre os Bororo (isso no ano em que se comemoravam os 80 anos de Lévi-Strauss, quando varias homenagens foram prestadas ao etnGlogo na Franga, entre as quais uma exibigao de seus filmes, feitos com Dina, no Brasil) e € s6 depois de muita insisténcia da entrevistadora que relembrard trechos de sua vida aqui, o nome de alguns amigos, de Mario... Conto essa pequena histéria porque ela expressa bem duas questdes que comegaram a nos perseguir logo que passamos a entender um pouco melhor a historia que estivamos tentando Jemjulior® A primeira é a que chamei de “notoriedade Jejjompectiva” em outro texto, isto é 0 modo como o renome ‘yyitido « partir de um certo momento pode iluminar a vida Ww yy de um personagem — o bom exemplo aqui sendo 0 Wen protessor de Sociologia na USP nos anos 30, Claude Sy /Sirauss. O reverso desse exemplo € o ji citado Maugué, Ieibrado ¢ relembrado por seus alunos € sucessores como professor brilhante e que se define em sua autobiogeafia ‘sojno um academico ratéé Sua autobiografia parece ser tambxém yy modo de se insurgir contra esse “fracasso”, de recuperar i) empo em que sua presenca académica teve importincia, 414) seu fom amargo. Outro exemplo pungente (pungente pelo solo que ele investiu num pais no qual no podia viver) do «la *notoriedade retrospectiva” € o do professor Donald »n, lembrado publicamente quase que 86 pelos estudiosos ty questio racial no Brasil, até que Thales de Azevedo sugeriu {ive excrevessemos a ele. O seu depoimento foi uma surpresa inua sendo surpreendente descobrir as relagées ihelecidas por ele no pais e sua atuagao institucional, express nos documentos de seu arquivo pessoal,” Analisando foi documentagao € a extensa lista de nomes ali lembrados comegou a ficar claro que © que é chamado de personagem secundlirio na fiteratura teve tanta ou mais importincia na COnstrugo institucional das ciéncias sociais no periodo exa- iWinudo do que as personagens principais — aqueles que por \\ destaque posterior pareciam os Unicos a ocupar a cena. Como diz Michael Pollak: “Distinguir entre conjunturas favo- ledicar mais espago aqui: ao refletirmos sobre a notoriedade retoxpectiva de Lévi-Strauss e a0 “esquecimento” de Dina, 1 nos perguntar o que tinha sido feito das pesqui st hist6ria — personagens ainda mais secundrias do ue 0s exemplos mencionados na extensa correspondéncia de Vicrson, Salvo poucas excegdes, elas aparecem, naquele niomente, como espasas — a esposa de Donald Pierson, a espo- 1 «le Charles Wagley, a esposa de David Maybury-Lewis, a es- posa de Darcy Ribeiro, « esposa de Eduardo Galvio, a espo- a de Robert Murphy, a esposa de Charles Watson... a lista cerlamente poderia continuar, Todas elas adotaram © nome comegamos do marido ao casar, a ponto de ser muito dificil redesco- bri-las com seu prOprio nome, mesmo quando descasadas, como no caso de Dina, Todas estiveram no campo e parecem ter sido auxiliares de pesquisa inestimaveis, segundo os re- latos de seus proprios maridos. $6 em poucos casos, no en- tanto, deixaram esse papel de auxiliares — caso de Yo- da Murphy, por exemplo —, ainda que tenham, em ou- tros, assumido quase © papel principal, como no “romance do Brasil Central”, como David Maybury-Lewis chamou num, certo momento a expedicao dele e de Pia entre os Xavante & 0s Xerente.’ Maybury-Lewis diz sobre os padrdes Xavante de nominacao; Um menino Xavante nao recebe nome 20 nascer. (..) Recebe seu primeizo nome por volta dos cinco ou seis anos de idade Co. Um homem deve ter, teoricamente, no minimo quatro nomes.(..) As mulheres, de acorto com 0 padrio Xavante, podem crescer sem nome G.). Além disso, tenho certeza de ‘que algumas mulheres Xavante realmente nao sabiam seus proprios nomes.'° Pia, curiosamente, recebeu dois nomes dos Xavante, e & personagem to presente na viagem € no texto que, mesmo em sua auséneia, 0 autor que o assina escreve “nbs”. © que significa entao um nome, senao renome? Um homem de renome estende a “ilusio biogrifica” para além nds sucumbimos a essa iusto a6 saie A procura cle Dina Lévi-Strauss. Renome no duplo sentido de nome famoso ¢ de segundo nome, no caso das m frequencia © dquirem a0 casar (no caso de tas homens, o escolhido por eles para seu nome publico — como Reginald Brown escolheu tornar-se Radcliffe- Brown em certo momento). Ao serem assim renomeadas essa mulheres tornam-se entio esposas em primeiro lugar — e sto assim também consideradas." Exemplos do primeizo caso, isto é, assumir essa transfor 20 em esposa, slo iniimeros. Depois da morte de Victor ‘Turner, Edith Turner escreveu uma comovente memoria sobre os anos felizes que passou com ele na Africa. Bla propria, uma antropéloga — o que s6 se descobre, neste livro, com alguma atengio —, assim descreve 0 propésito de seu livro: Gostaria de chamé-lo de antropologia a favor no estilo feminino, isto €, advogar em defesa de uma cultura como amante ou de. Decidi utilizar todas as observagdes, 0 conhecimento ¢ 0 material de campo que eu € Vie recolhemos — fates reais do trabalho de campo, nao material imaginatio — e transformé-lo ‘numa hist6ria coerente, acrescemtando, por assim dizer, meu prGprio sangue materno para alimentar © embrili, para que ppossa crescer da melhor maneira. (..) Que dizer de meu desen- volvimento pessoal durante esas experiéncias? Poder-se-ia lizer que eu estava me assenhoreando de minha vida? Eu vivia unm hist6ria para conti-la, 0 que fago neste livro. Mas o leitor lescobrird que fui me envolvendo, sem conseguir sair deta, (.) Entrei na vida de cada um, como entrei na vida de Vie.! Helen Pierson, mais de trinta anos depois de sua estadia ho Brasil, faz eco a essa observacio: “... meu depoimento seria © de uma esposa de antropslogo social € socidlogo. Alias, sempre pensei do meu papel no Brasil como sendo 0 de uma ‘Girl Friday’ (ermo inglés), isto é (para inventar duas palavras), ‘Facilitadora’ ¢ ‘suplementadora’.” Isso apesar de citar uma extensa lista de seus afazeres que incluiam seu trabalho — continuado até sua morte, em 1994 — de datilo- prufar a correspondéncia do marido, dar aulas de inglés aos \lunos da Escola de Sociologia e Politica, buscar livros e irligos na Biblioteca Municipal de $20 Paulo, fazer levanta- nientos para as pesquisas de campo e preparar questionarios, com sugestOes aos estudantes, para essas pesquisas. Os trechos le seu difrio, de dezembro de 1947 a fevereiro de 1948, mnostram sua intensa atividade como Girl Friday, mas também unit observacora perspicaz da vida cotidiana no interior de Sao Paulo. Exemplos do segundo caso, isto €, de consideragio, por parte de outros, das pesquisadoras como sendo apenas cxposas, S20, em geral, implicitos, como se, sendo esposa, 2 parccirt se tornasse menos visivel. Ha alguns anos, Richard Price esereveu numa carta ao American Ethnologist, como pascei antropoldgico de maride e mulher (que publicam em conjunto © separidamente), julgo apro- prado observar que Steriname Folk-lore (1936) — um livro com déias surpreendentementé modernas a respeito da misie da fala ¢ do estilo Afro-americano — foi de fato exerito em coatutoria com Frances Herskovits, E minha prépeia leitura desse nae trabalho sugere que ele € consiceravelmente baseado mais em se trabalho de campo do que no dele (Melville Herskavits). de fato, se 0 livro fosse publicado hoje, © nome de Frances Herskovits bem poderia figurar como 0 do autor principal. CAE, 12:4, 1985.) Observagio tanto mais interessante por partir de um marido. De fato, na €poca aqui anal finais do século 19 os anos 40 do século 20) era raro uma mulher em busca de renome, o mais frequente sendo a e: téncia de pesquisadoras dublés de esposas — ou vice-versa (© que ajuda a explicar a m4 vontade com que alguns pesqui- sadores locais receberam Ruth Landes quando ela esteve no Brasil para fazer suas pesquisas sobre o cundomblé da Bahia. (© impacto dessa ma vontade sobre ela foi tio forte que ainda se refletia nas suas lembrangas do tempo que passou aqui, mais de quarenta anos depois. Numa carta pessoal ela des: bafa sobre a perseguiclo que teria sofride de dois pesquis dores, um brasileiro € um norte-americano (Arthur Ramos € Melville Herskovits — 0 que empresta um toque de ironia a citago acima), que chegaram a escrever a Gunnar Myrdal, acusando-a de vender servigos sexuais aos negros, apenas porque ela fazia pesquisa de campo — “uma jovem mulher de menos de trinta anos e conspicuamente loura”. Diz ela Their calumnies were symbolic rape on me. (Suas calinias eram um estupro simbélico."l Landes registrou suas outras lembrangas do perfodo em que esteve no Brasil num artigo"* no qual menciona as razdes pelas quais nao péde retornar as suas pesquisas no pais. Seu caso é uma confirmagao das dificuldades de mulheres sozinhas (com nome préprio ou em busca de renome) de fazerem pes- quisa de campo na época: um nome é também sindnimo de reputacio ea dela ficou marcada por esse ataque.” As possibilidades que se ofereciam as mulheres estran~ geiras que desejassem levé-la adiante naquele tempo estavam assim reduzidas: ou elas faziam parte de um time profissional com seus maridos, ou corriam o risco de serem malvistas pelos pesquisadores locais, em sua maioria homens. No caso da: pesquisadoras locais, havia ainda uma terceira possibilidade: elas poderiam herdar 0 renome do pai, junto com seu nome, como no caso de Heloisa Alberto Torres, ou dona Heloi como era mais conhecida. iovia possivel falar aqui, entio, de uma dupla ilusto biogré- {ies no caso das mulheres — mas nao € s6 disso que se trata, ‘em nossa hist6ria, ao perdermos um nome, perdemos Juibém um personagem. Todas essas esposas, todas essas ipl Fridays, esto de certa forma sujeitas 8 desaparicio, ja {ie seu nome proprio € 0 nome de outrem e, para elas, € Jnpossivel sequer manter a ilusio de uma “identidade social Sonslante © duradoura", da qual esse nome € 0 fundamento, [DENTIDADE & AFINIDADE Comecando, entio, pela identidade, primeiro conceito a Jnierrogar se queremos prosseguir pensando nas antropélogas fy) nuts esposas de antropélogos dublés de pesquisadoras, conio se pudessem ser um conjunto definido por alguma (qualquer) caracteristica comum, No semindrio justamente Jumoso dledicado a0 assunto, Lévi-Strauss destoou um pouco (los Outros parti¢ipantes ao_concluir que a identidade tem lun exist@ncia puramente te6rica: celle d'ine limite a quoi ne correspond en réalilé aucune experiénce (a de uma fronteira ie na realiclade wiio corresponde a nenhuma experiéncia’) Isso porque o que apreendemos com nossa experiéncia é sempre Uni parte de qualquer conjunto, um todo descontinuo, A Imagem que me ocorre ao ler isso é a de uma teia rasgada: nunca seremos capazes de reconstituir todos os fios que a Completavam e por isso trabalhamos com indicios, com rastros, Cont sinus. Isso nlo parece ser uma prerrogativa ou maldigao {hi ci@ncias humanas: as assim chamadas ciéneias da natureza Lunbem estao repletas de exemplos de falta de continuidade lades em geral preenchidas has suits demonstragdes, continui 4 tela, qualquer teia Mas, por que os analistas das sociedades humanas seriam entio apaixonados pela busca de uma identidade (€tnica, de enero, nacional, regional? Talvez.justamente para fazer sentido dlacuela teia rasgada, para, recuperando os fios que faltam, Integrar do melhor modo possivel o desconhecido no conhe- cido. A identidade seria assim “uma espécie de foco virtual a0 qual @ ladispensavel nos referirmos para explicar um certo ‘mas sem que nunca tenha uma existéncia Em intimeras sociedades humanas as mulheres parecem estar to circunstancialmente sob esse foco virtual que de certo modo poem em xeque a substancialidade dessa identi- dade — em si mesma frigil. Vimos o exemplo dos Xavante, € muitos outros podem ser citados. Fiquemos com o dos chineses. Na sociedade chinesa tradicional, como entre os Xavante, os homens tém virios nomes, dados ou escolhidos ao longo de sua vida e que expressam a mudanga de estado, de crianga a adulto, a profissional realizado, a cidadao integrado em sua comunidade, a pessoa a ser venerada ap6s a morte. AS mulheres recebem um nome provisério ao nascer ¢ o perdem a0 casar — a partir dai clas serio referidas pela sua relacao ‘com outros, especialmente sua familia.” Margery Wolf comenta: [Ao passo que o homem chings nasce numa comunidade social fe espiritual que tem continuidade no apenas em vida mas também apés a morte, a mulher chinesa nasce numa comuni- dade na qual ela 6 apenas uma residente temporaria ¢ sua comunidade espiritual apés a morte depende de quem ela des post ou, mais importante ainda, aos ancestrals de quem cla dari & Tez, (..) O trauma do casamento chinés, no qual uma mulher muito jovem é transferida para uma aldela distante onde ela nto conhece ninguém, nem mesmo sew marido, eria para as mulheres uma crise de identidade que s6 € resolvida pela aquisiglo gradual de um novo conjunto de espelhos nos quais cla possa se identifica. Soa familiar, mas madrasta da Branca de Neve e Lacan & parte, © que a observacio da pesquisadora ocidental parece expressar € uma angtistia em relaclo aos nossos espelhos de identidade. £ como se essa troca sucessiva de espelhos a que as mulheres ‘Chinesas estio, ou estavam, destinadas exacer- basse a percepgio da existéncia de espelhos deformadores ‘Bm AossA propria sociedade; como se essa auséncia de nome enfatizasse a desapropriagao que sofremos de nossos nomes. Nao € de estranhar — a descricao dos modos de ser de outras sociedades sempre fez com que acabassemos refle- tindo sobre nossos modos de ser € & percepctio daquela falta/ auséncia poderiamos entao, paradoxalmente, atribuir um = jiinho cm tcrmos de reflexdo. Mas, se os grupos de conscien- \inc0 multiplicados pelo ferinismo dos anos 60 ajudaram a foforgar uma ident , acentuandlo tudo © que havia de comin entre mulheres, percebeu-se, em seguida, que a mulher cre-unar Wentidade Go Tusdria como qualquer outra. Se uma das earacteristicas do mundo no qual vivemos hoje © fragmentagao das identidades e, portanto, a busca por um jubstrato que Ihes dé unidade esti de antemao condenada ao {nicasso, onde ancorar lutas afins? Porque € de lutas que se trata quando se trata de afirmar uma identidade: *O que se ganhou om os estudos de etnicidade foi a nogao clara de que a iden- \idde € construfda de forma situacional e contrastiva, ou seja, «que cla constitui resposta politica a uma conjuntura, resposta outras icenticades em jogo, com as quais tema. £ uma estratégia Haraway, anotando as dificuldades das lutas femi- histas, prope substituir a procura por uma identidade pela Ula em torne de afinidades. Unico — ¢ até insistir em todas as circunstancias no substantive. A conscigneia da exclusio via nominaglo ¢ aguda. As identi ules parecem contradit6rias, parciais e estratégicas. © reco- 10 arduamente conquistaclo de sua constiwigao social impede que gnero, raga e classe sejam a base da unidhide “essencial". Nao hd nada a respcito de ser que una as mulheres naturalmente, Nem mesmo existe ' estado de ser" feminina, ela mesma uma categoria altamente complexa, construfda em discursos cienttficas sexualizados & através de outras praticas sociais conilitivas. A conseiéncia de senero, raga ou clusse foi uma conquista a que fomos Forgacas pela terrivel experi@neia hist6riea das realidades sociais contra- slitérias do patriareado, do colonialisme ¢ do capitalism. E ‘quem € “nds” na minha ‘propria retorica? Que iclentidades esto Wisponiveis para sustentar um mito poltico do potente chamado nds" € 6 que moti alistamento nessa coletividade? Uma, Fragmentagio pungente entre as feministas (para no dizer entre vs ulieres) em qualquer tipo de alinhamento toon a nocio dle mather elusiva, uma desculpa para a mattiz da dominagio «le mulheres por -s, Para mim — ¢ para tantas que com- :t semelhiante como branea, pro Tissional de riulical, norte-americana, de ‘mela-idacle — as fontes dle uma erise de ientidade politica sto inimeras. A historia recente de boa parte da esquerda © do, Fornow-se diffeil nomear nosso feminismo através de um it. feminismo nos Estados Unidos tem sido uma resposta a esse lipo de crise através de infindAveis fracionamentos ¢ da busca por uma nova unidade essencial, Mas tem havido também um rescente reconhecimento de outra resposta a partir de coali- sdes: afinidade, nfo identidade.” vocabulério sobre dade, como género, deriva de nos: fio sob familia e parentesco €, etimologicamente, supée relacao — a0 contririo da origem da palavra identidade Cidem) que sig- nifica o mesmo.* Donna Haraway se referia as relagdes entre mulheres quando escreveu aquelas linhas; Morgan se referi as relagdes sociais mais amplas quando escrevew Systems of Consanguinity and Affinity of the Human Family |Sistemas de consangiiinidade e afinidade da familia bumandl; genero retende cobrit as relacdes construidas a partic de identificagoes, DU atribuigdes de masculinidade ¢ feminilidade a todos os seres hhumanos, sto é,enice “mulheres”, entre “homens” ¢ entre “mulhere e “homens” — se € que essas designagoes ainda podem ser tsadas num universo to semfoticamente carregado. MASCULINA/FEMININO FEMININA/MASCULINO: A NATUREZA IMAGINARIA A questio da coincidéncia entre a persona social ¢ 0 indi- viduo biolégico € antiga e, antes de as feministas terem adotado o termo género para desvincular essas relagdes de qualquer conotagio determinista, a literatura j& problema- tizara identidades supostamente apoiadas no dimosfismo sexual O andrégino, uma das expressdes do que metafisicos € teGlogos chamavam de coincidentia oppositorum, foi um objeto da especulagio literéria com uma certa ressoniincia no século dlezenove.* Virginia Woolf continuava assim uma tradigio literdria a0 afirmar que “€ fatal ser homem ou mulher, pura ¢ simples- mente; € preciso ser masculinamente feminina ou feminina- mente masculino”. Ao fazer essa anotagao numa conferéncia para estudantes inglesas em 1928, Virginia Woolf certamente no pretendia atribuir-lhe o estatuto de teoria, embora seu texto — € 0 romance Orlando, que 0 expressava em termos — ter tido uma repercussio que extrapolou os muros das escolas para mocas.* Diferentemente dos literatos, os antropélogos estavam mais interessados na relaclo masculino/feminina nas sociedades ndo ocidentais € s6 recentemente deram atencao a figura do snclrégino.* Parte de uma tradi: cinografico, o andré religiosa, do imagindrio literitio ou ino € uma figura interesante porque poe em questo os limi eminina/masculino, de certa forma poluindo essas definigdes. Numa bela anilise da nocio de poluigio, Mary Douglas mostrou o perigo inerente a separagdes bdlicas do que deveria estar unido ou a unides simbélicas do que deveria estar separado” No Brasil, a especulacio sobre a ambiguidade na definicdo «la identidade sexual também comegou no século 19. Médicos ¢ literatos Galguns com formagio médica) empenbaram-se em demonstrat, antecipadamente, 0 que Mary Douglas e outros antrop6logos analisaram depois: 0 perigo esti. no_indefinido, ha quebra das definigdes; em suma, nos limiares.* Essas definigdes sto frequentemente implicitas, ja que fazem parte do repertério supostamente (re)conhecido por (odos os integrantes de uma sociedade dada, e & s6-quando m questo que elas adquirem feigio mais clara, isto ¢, mostram seu potencial como definigdes nao estabelecidas, n conflito por uma significacio precisa. Assim como ocorria com a nogao de raga nos textos daqueles médicos, as nogdes de masculino e feminina nos textos que vou analisar \«jui s20 sempre elusivas: em nenhum momento encontramos, |i, um discurso direto que defina raga ou, aqui, um discurso ireto que defina 0 masculino ou o feminino. Aparentemente, hide se passa como se as personagens femininas da hist6ria \«jui contada fossem homélogas aos seus equivalentes mas culinos na hist6ria da antropologia: naturalistas, sertanistas, pesquisadores de campo, administradores, professores.. \parentenente, se atentarmos apenas para os registros mais \uperficiais de suas carreiras: referencias esparsas sobre suas Diografias curtas, necrol6gios. Isto &, em situacoes textuitis em que ekis sto 0 foco do discurso, 0 maximo que se pode inferir das definicdes de masculino e de feminina na epoca de.cada uma € que elas eram vagamente exeepeionais — dada a maior ou menor explicitagio de cada autor de sua admiragao pelos feitos de uma mulber. Olhando-as em con- junto, entao, retrospectivamente, 0 que temos é um grupo, reduzido, de figuras que pouco se distinguiriam de seus colegas naquelas atividades antes mencionadas — sertanista, naturalista, pesquisadora de museu —; e a tinica afinidade entre elas deriva de uma identidade que thes € atribuida, a de serem mulberes profissionais — algumas nem isso — que viveram numa época em que a maior parte dos profissiona tinham a identidade atribuida de bomens. Colocando-as 20 lado de seus colegas profissionais, no entanio, € analisando suas trajet6rias no contexto da época de cada uma, comegam a emergir definiges de feminina e de masculino explicitadas em disputas pelo poder, pelo prest ou por privilégios de virios tipos € pela atribuigio a elas de um estatuto ambiguo, como se se tratasse de seres andr6- ginos a quem € preciso conjurar, desmentir, redefinir to logo. essa atribuigao se expresse nos discursos a respeito de seus feitos cientificos. Movimento de estranhamento, primeiro (que faz essa mulher num grupo de homens? Deve ser homem..), de re-alocacio, em seguida (mas vejam que belo chapéu... femi- nino), logo de desqualificagtio (Sendo mulher... alo poderia ser clentista — ou vice-versa). Lidos de hoje, alguns desses movimentos parecem timidas estratégias de re-afirmagao da impermeabilidade das categorias masculino/feminina, da rigidez das fronteiras entre homem/mulher. Vividos na época, devem ter parecido taticas cruéis de exclusio social. A constante. reafirmagio dessa impermeabilidade e dessa rigidez € também Dmelhor indicador de incerteza, de inseguranga, na defin dessas mesmas categorias na pritica: quais seriam, afinal, os elementos indiscutiveis de separagio, de constituigio daquele taco (/) que as separa, s¢ um misero item de vestudrio alte rado (chapGu ou calca, no caso das pesquisadoras de campo), ‘um Pequeno gesto nao sintonizado (‘adamado”, no caso de um naturalista de Museu), ov o simples estar li num espaco ‘onde sua presenga no eta prevista, as punha em questio? fais definigdes se explicitam melhor quando comparamos esse pequeno grupo de pesquisadoras, sem marido, as esposas dos pesquisadores, em sua maioria estrangeiros, mas alguns brasileiros, que acompanharam seus maridos ao campo. Isto €, quando as colocamos num contintaum que vai da mulher 0 .0 \ muther esposa” Ai, um dos atributos da condigo feminina jst presente de antemio e recobriri quase inteiramente personagem: @ esposa de deixa ce ser uma referencia e passa | ser tanto © nome de cada uma das esposas, como o nome nencrico dessa categoria de parceiras etnogrificas, passa a ‘er sua identidade (atribuida) principal.’ Esse grupo assim efinido torna, por sua vez, mais claras as expectativas sociais sobre mulheres em geral e mostra, por contraste, a quebra dessats expectativas, implicita na atuago das mulheres do primeiro grupo. Mas talvez.seja ilus6rio pensar em encontrar padroes de feminilidade ou masculinidade “de época" no interior de uma sociedade € a tio curta distancia de nosso tempo; em jnindes tragos, suas formas, na nossa sociedade, silo muito de hoje: variam detalhes de contetido (nao Inisis usamos chapéus em ceriménias académicas; o traje ‘naseulino mama pesquisacora dle campo niio ameaca sua definigio dle genero), no as estratégias. Pois ainda é de lutas que se Urata © que se trayam no campo semAntico, assim como no campo politico. Talvez. seja possivel explicitar esses contetidos iho variévets e essas formas mais permanentes, recolocando wits personagens cada uma em seu cenario proprio, tentando compreender a leitura que seus interlocutores faziam de sua i € situando-as no contexto de atuacio de suas contemporineas em outros lugares do mundo. No Capitulo 1, tento compreender como aquela luta se lexpressou em termos literdrios, isto é, em que sentido, a0 ihes roubarem a palavra, expressando eles o que esperavam expressassem na sua atuagio, trés escritores redefinem, hosts personagens, de certo modo exibindo mais claramente do que 0 faziam seus contemporineos profissionais na vida real, esse movimento de re-alocagio de figuras ambiguas a i universo feminine. Nos tés capitulos seguintes, persigo as trajet6rias dessas 's personagens, agora com seus nomes reais (Emilia Snethlage, Leolinda Daltro € Feloisa Alberto Torres), como exemplos quase do avesso do que era uma cazreira bem- uucedida de suas contrapartidas masculinas. Uma naturalista, ume sertanista © uma pesquisadora de museu, figuras bas- tanie comuns na hist6ria da antropologia no ast alhures; 31 no que clas tornam diferentes essas carteiras a0 conjugi-las no feminino? Essas trés personagens se movem entre dois mundos, duas circunscrigdes: 0 da ficgao (Cap. D © o da realidade, ndo de suas biografias singulares (Cap. Ul, Il € IV), mas da realidade aceita ou aceitivel das mulheres que cumpriam trajet6rias semelhantes as suas, mas enquanto esposas. Elas preenchem, assim, uma espécie de interregno nessa galeria de figuras da hist6ria da antropologia, consti- tuindo-se como seres de natureza imagindria, por estarem fora de seu espago ‘natural’, sem terem sido admitidas a0 novo ‘espago social que procuravam ocupar: nem homens, nem mu- Iheres, em termos culturais: seres an6malos, aparcntados antes aos monstros do que & raga humana.” No Capitulo V, mostro como a hist6ria das pesquisadoras estrangeiras podia, por vezes, entrelagar-se a das pesquisa- doras nacionais, acompanhando as vicissitudes de Ruth Landes € de Heloisa Alberto Torres na constituigo de uma figura que viria a se tornar simbélica na cultura do pais — a da baiana — e como ambas participavam de um contexto mais amplo do que o da definicao da disciplina no pais. A experi- éncia de ambas sugere também, nio que a mulher seja “0 negro do mundo”, como dizia um famoso slogan feminista,"* mas 0s possiveis entrelagamentos entre raga e genero na politica e na teoria antropol6gica. Por iiltimo, 0 Capitulo VI oferece um contexto mais amplo da atuag2o das antrop6logas na constituigao da historia da nossa disciplina, nas trés tradigdes nas quais ela se defini —a tradigo inglesa, a francesa e a norte-americana. B uma tentativa de compreender, ainda que de forma breve, como algumas contemporineas mais famosas do que nossas personagens atuaram no cenério da antropologia em outros contextos nacionais, ampliando assim o alcance das sugestOes feitas em relagio as personagens brasileira. IMAGENS A LEVI-stRAUSS MSTRUCOES PRAMICAS PARA PESQUSAS oe ANTROPOLOGIA FISICA E CULTURAL guna 1 Frontispicio do livro Dnsirugdes praticas para pesquisas de Siuropoleyta fisica e cultural, de Dina Lévi-Strauss, A série deveria se hupletar com um volume IE CEtnografia) e II (Sociologia) WALL! Vonte: Acervo do Proto Histéria da Antropologia no Bra UNICAMP. Figusa 2- Dina e Claude Lévi-Strauss, em 1936. O rapaz a esquerda € um reporter do Jornal Fotha da Noite Fonte: Jornal Folha da Noite, Sao Paulo, 5 nov. 1936 - Reprodusio, Piqua 4 Clara e Bduardo Galvao (ultimo a di (queruhe) ¢ Robert Murphy ne Brasil, em 1952 Yolanda (primeira Ponte: Acervo do Projeto Historia da Antropologia no Brsil/AEI/UNICAMP. J))un 5 Helen Pierson, por volta de 1940 Joule: Acervo do Projeto Histéria da Antropologia no Brasil/AEL/UNICAMP. Figura 4 - Pia Maybury-Lewis com um. Fonte: Acero do Projeto Hist6ria da Antropologia no Brasil/AET/UNICAMP. Figura 6- Claude ¢ Dina Lévi-Strauss em um acampamento, na sua exped 0 Brasil Central Fonte: Musée de L'Homme, Paris lica0, une? Charles Wagkey, Rubens Meanda, Gilberto F Jiaices Herskovits, Heloisa Alberto Torres, Eduarde Herskovits, Nek Acervo dia Madalena Freyre, 0, Melville ‘eixeira, no Museu Nacional, por volta cle 1940 eto Historia cla Antropologia no Brasil/AEL/UNICAMBP, Figura 10 - Grupo de indios Chipaya e Curuahé encontrados pela Dra. Emilia Snethlage em sua travessia entre os ties Tapajos e Xing Ponte: Holetim do Muses Emilio Gooldi, VII, 1910 (1913). | bra, EMILIE SNETHLAGEE J iqura 11 - Uihima foto conhecida da Dea. Emilia Snethlage, talvez ent stui east no Rio de Janeiro, no final «los anos 20 Fonte: Reproduzido do Boletim do Museu Nacional, 121), 1936 Acervo da Biblioteca do Museu Nacional/ UFR). Colegao Didatica Emilia Snethlage Leolinda Dattro (1896) Por occasito de sua partida para Goyaz crests MUSEU PARAENSE EMILIO GOELDI Deparaneato de Melos Seige de Edcaoe Exe Call Figura 12 -Folheto do Museu Goeldi anunciandoa Colegio Didatica 113 Leofincla Daltro, em foto publicada no fromtispicio de seu Emilia Snethlage Fonte: Arquivo/Colecio Fotogrifiea MPEG. Reprodugio Anténio Pinheiro, Vonte: Reprod L'ypographi de L. Daltro. Da caibequese dos indios no Brasil. “okt Orsina dt Fonseca: Rio de Faneiro, 1920. 2 COMMISSAO QUE VEIO A MANDO DO CAPETXO SEI BUSCAR D. LROLINDA DALTRO. Hm iagem para esta Capital (Araguary) FMA LICCAO DE Post DENCLY DA PROFESS Figura 14 - indios que foram, em comissio, buscar Leolinda Daltro para voltar a0 sertio Fonte: Reproduzica de L. Daltro, Da caibequese das tndtos no Brasil. “Typographia da Escola Orsina da Fonseca: Rio de Janeiro, 1920. jue 15- Indios na easa de Leolinda Daltro, no Rio de Janeiro Vonte: Reproduzida de L, Daltro, Da cathequese das indios no Brasit. F ypographia da Bseola Orsina dda Fonseca: Rio de Janeiro, 1920. INDIO — EPUCANDO DA PROPESSORA DALERO Djatma Vacumupté (da triba Cherente) Dis «los indies que foram buscar Leolinda Daltzo; & esquerda, cletor’, Jacumupté, & direita, Porpip6. Retratos a dleo de Antonio Fon A Poca do acervo FUNAR Figura 16 - Um dos fndios que Leolinda Daltro qualficou como leitor Fonte: Reproduricla de L. Daltro. Da cathequese dos fndios no Brasil. “Typogsaphia da Escola Orsina da Fonseca: Rio de Janeiro, 1920. ASSOORNGLO BE PROTECOSO: E AEXILIO AOS SELVICOL US bey AeA Figura 18 Sesstio de abertura da Associagao de Protegivo ¢ Auxslio 40s Silvicolas do Brasil, 1908 Fonte: Reproduzida de L, Daltro. Da cathequese dos indios no Brasil ‘Typographia da Escola Orsina cla Fonseca: Rio de Janeiro, 1920, uct 19-Panfleto da campanha ck: Leolinda Daltro & Gonstiuinte dle 1934 J onie: Reproduzido da Colegio Nosso Século (19), Ed. Abril, Sao Paulo, 1980, a pelos jomais | Carneiro, Raimundo Lopes, Charles Wagley, Heloisa crores, numa foto utilizada sarauss, Ruth Landes, L, de Castro Faria, no itaboras, R Jo Projeto Htit6ria a Antropologia no Brasil/AEL/UNIGAMP. Figura 22- Ralph Linton, Helois #1 Alberto Torres e Eduardo Galvio, no Museu Nacional, por volta de 1945 Fonte: Acervo do Proto Histéria da Antopologia no BrasiV/AEL/UNICAMP. Hqurt 25 Foto retratando alguns aspectos cla indumentiria baiana Const nat tese de Heloisa Alberto Torres: "Negra rica da Baba entando a camisa cle renda, no seu traje de beca, a penca, 0 spuikiio, a cruz e demas j6ias da erioula Honte: Acervo Heloisa Alberto Torres/Dep: tamento de Antropo: gia/Museu Nacional/ UFR) oul sag Sesh cea ee Jjqura 25- Carmen Mirancla, como boneea de papel, num dos varios ites sobre elt na internet - coma forrid zone em destaque Fonte:'Tom Tierney, Dover's book - ISBN 0486242854, CARMEN. Figura 24 - Foto de uma das bonecas que Heloisa Alberto Torres cenviou a Lisboa Fonte: Exposigao Permanente do Museu Nacional/UFR) MIRANDA PAPER DOLLS. 4 CIDADE DAS MULMERES SRUCEHF LANDES rp fia Meireles sobre as baianas no Rio de samba e macumber estudos de ito: FUNARTE/Instituto Nacional do Figura 26- Capa de Marius Lauritzen Bern, da 1 eis do live 4 das mubores, de Ruth Tandes Fonte: Ruth Landes, A cidade das mulberes. Tradugio de Maria Lacia do Birado Siva, 2 ed. Editora UFRJ, 2002, Correspondance Figura 28 - Caricatura de Carmen Miranda, como Fonte: Canum de André Carri ‘S-Paulo,6 de julho de 2000, J iqurs 29 Estdiua hermafrodita desenterrackt por Denise Pauline ¢ Deboral Lif *EStranha forma dle vida”. Kolhea cle itz, em 1935 Fonte: Museu do Homem (34,106,106). Reproduzido de Gradbiea (4), 1987, p. 56, TRES HEROINAS DO ROMANCE ANTROPOLOGICO BRASILERO Is tight to be watching strangers ina play inthis strangest of theatres? [Seri cometo observarmos esrangeicos em seu drama representado neste teatro mais que estranho?] Flizabeth Rishop, Questions of Travel [Problemas de viagem] © romance antropolégico, com algumas bem fundadas excegdes, & sempre contado de uma perspectiva masculina. Porque, entdo, trés mulheres que, por uma ou outra azo, fazem parte dele teriam atraido a atengio de trés autores a ponto de se tornarem personagens de sua ficgiio? Uma femi- hista, como se definia Leolinda Daltro a época em que foi (azedamente) retratada por Lima Barreto, certamente chamaria 10 no infcio do século 20 — mas uma naturalista alema ia Snethlage) ou uma pesquisadora de museu (Heloisa Alberto Torres) parecem bem pouco atraentes como perso- hagens literarias, Iynoro se pesquisadores de outras Areas disciplinares stio m retratados na ficcio brasileira, mas o fato de esas re lorem capturado a imaginagao romanesca num interval tle cerca de vinte anos seguramente nos diz alguma coisa a fexpeito do modo como era visto o aparecimento dessas Novas personagens no cenirio do pais. E como se os roman- Cistas tivessem captado algo que estava no ar, cada um nua Epoca € regiio, e, expressando-o de maneira li how deixado para compreender melhor defi TRES HEROINAS DO ROMANCE ANTROPOLOGICO BRASILEIRO Is it ight to be watching strangers ina play inthis strangest of theatres? [Serf corero observarmos estrangelros em seu draana representado neste teatro mals que estranicH, Hivsbeth Bishop, Questions of Travel [Problemas dle viagem) © fomance antropolégico, com algumas bem fundadas sscogdes, € sempre contado de uma perspectiva masculina Voujue, entdo, ts mulheres que, por uma ou outra razio, Tyee parte dele teriam atraido a atengao de trés autores a Jonlo de se tornarem personagens de sua ficcao? Uma femi- Hii, como se definia Leolinda Daltro & época em que foi (iyedamente) retratada por Lima Barreto, certamente chamaria # HlengAo no inicio do século 20 — mas uma naturalista alema Himilia Snethlage) ou uma pesquisadora de museu (Heloisa Alberto Torres) parecem bem pouco atraentes como perso- Hagens lterdrias, {nore se pesquisadores de outras areas disciplinares s40 9) forum retratados na ficga0 brasileira, mas o fato de essas {yO (orem capturado a imaginagao romanesca num intervalo sie cerca de vinte anos seguramente nos diz. alguma coisa a jespelto do modo como era visto o aparecimento dessas jioyH personagens no cenario do pais. E como se os roman- eiolas livessem captado algo que estava no ar, cada um em ‘Ay epoca e regido, e, expressando-o de maneira literéria, jos deixado pistas para compreender melhor definigdes implicitas de masculino e de feminina no contexto de atuacao dessas trés personagens, retirando-as de uma posi¢io de ambiguidade em relacio a essas definigdes e alocando-as claramente no universo feminino. Ainda que definidas desde © inicio por sua atuagao profissional, o que ja € uma novidade no cenario da ficgo, essa atuagao é desmentida ou desquali ficada no decorrer de cada hist6ria ¢ em cada caso de uma maneira diferente, € como obedientes performers de um roteito invisivel, no qual se prevé um comportamento masculino © um comportamenio feminino, que elas acabam por atuar. OS ROMANCES Cronologicamente, elas aparecem assim no imaginirio romanesco: Leolinda Daltro, em 1915, num dos tiltimos capi- tulos do romance de Lima Barreto, anteriormente publicado em folhetim; Heloisa Alberto Torres, em 1933, num romance premiado de Bastos de Avila; ¢ Emilia Snethlage, em 1938, nto romance de Raimundo de Morais. O enredo em que Leolinda Daltro participa como personagem secundaria tem outra mulher como personagem principal, passa-se em 1909 e teve pelo menos dois subtitulos: “Romance da vida contem= porinea” € “Romance sugestivo de escindalos femininos’— © plural ai parecendo inclui-la no que é tema central da hist6ria. (© que toma Heloisa Alberto Torres como heroina € contem= porineo da acao narrada — a década de 30 —, € 0 que serve de pretexto para louvar a agio de Emilia Snethlage como cientista poderia ter se passado entre 1910 ¢ 1911, época em que ela andou pelas regides mencionadas no livro.*No tempo real, a idade das heroinas € bastante dispar: quando Leolinda encabegava a passeata de indios pelo centro do Rio de Janeiro, ironizada por Lima Barreto, Heloisa mal tinha feito a primeira comunhao e voltava de uma viagem a Europa com a familia (0 quase naufrigio de seu navio em Lisboa serit evocado pelo romancista), ¢ a dowtora Emilia ji andava ha explorando 0s rios interiores do pafs. Na vid: Heloisa certamente se encontraram no Museu Ni esta trabalhava, quando a primeira para 4 se transferiu, saindo de Belém — embora no romance sobre Heloisa, Emilia, que morrera quatro anos antes de cago, seja deseritt 6 ‘soino Uma figura “de outrora”. E tanto Emilia quanto Heloisa foderlam ter lido nos jornais do Rio as propostas politicas ile Leolinda Daltro que, entao feminista, ainda lembrava sua ‘jhe Como sertanista a0 propor o ensino obrigatério do WWipl nus escolas brasileiras — ou até ter assistido aos seus ‘soyniciow nas ocasides em que se candidatou a cargos politicos. fy elas se encontraram, nao ficou registro desses encontros. Na época em que os romances as situam, Leolinda teria ‘anos, embora fosse descrita no texto como “uma Jephom idosa’; Heloisa, descrita como *senhorita”, teria cerca , “uma senhora”, por volta de 43. $6 Emilia aparece com seu proprio nome; Leolinda 6 dona Florinda Jyinuy © Heloisa € a senborita professora Lucta de Abreu © leltor de hoje, que lesse os trés romances em sequéncia, {oqwuria conhecimento de trés senhoras mais ou menos na enn {alsa etiria, levemente excéntricas: uma por andar em Joints com indios na capital federal, outra por aventurar-se ‘jyinh nas selvas amaz6nicas e a terveira por enfrentar, ainda §iye scompanhada, os riscos de uma Indiana Jones de saias com direito a documentos encontrados por acaso © 38 yee juigdes de um vilao que, como nos filmes, sempre WOW 4 pior. Q\nnto ao estilo dos romances, tanto 0 de Bastos de Avila {Wino o de Raimundo de Morais, cronologicamente posteriores, Sin mais “arcaicos* que o de Lima Barreto — em parte Jonjuie se passam na regito amaz6nica, e a natureza assume pioporgoes avassaladoras no texto, em parte porque os dois H jpolin na tradigao das narrativas de viagens e parecem JW! extrair da historia uma moral. J4 0 de Lima Barreto & WH fonuinee urbano, fruto de uma tradigao literdria mais feeonte © mais realista na medida em que a moral da histéria F Winumente a auséncia dela. Mas os trés sao “re: Hen} dos autores faz concessao a um final feliz, ¢ os tres Hin con um certo einismo a sociedade local € nacional, Hiiamo dlesearado no caso de Lima Barreto. Quynto ao entrecho: Bastos de Avila conta a hist6ria de Wi prufersora do Museu Nacional que vé sua teoria sobre We iihws Marajoaras, pela qual a hist6ria inicia, esboroar-se fren- BW 40 cone ivo do titimo representante de uma i «jue ela nem supunha existir. Os episédios da viagem o "°° a senborita Lucta, que viaja acompanhada de um afilhado, sto os banalmente recomrentes nesse tipo de narrativa: os obsticulos da natureza, 0 quase naufriigio, o estouro de uma manada de bGfalos, as chuvas torrenciais — e a presenga, sempre enfatizada, de uma fauna propria a regio. Lucia de Abreu, adepta da “teoria do trangado”, que explicava porque 8 urnas marajoaras eram ormamentadas com figuras repre- sentadas de cabeca para baixo, descobre no Rio um docu- mento truncado, assinado por Ladislau Netto, casualmente encontra a parte que faltava durante a viagem, quando também Por acaso ¢ apresentada ao tiltimo sobrevivente da tribo que habitara a Ilha de Marajé, os Sacacos. Este confirma o manus. crito € a leva a um sitio onde esto urnas enormes que ela desenterra e, depois de varias peripécias em que se salva gragas a asticia do guia nativo, enfrenta ainda a forca da natureza que mata seu informante e destr6i todos os seus {vel 1 pouco pouco vincipio longingba, quase impercepivel, ia pou » Mtimentando de Tntensidade, como 0 topel de uma cavathad {nese apenas glope;« dentro em eve, lamps me xiguezagueavam em tomo e por cima do Deus te aise ‘ sgando o negrume de breu que o envolvia, (Bastos de Avila) : ae Seater evavam na linha das asas um sinal de borrasca que Ihes arte oon cae far auven create, rind om novelos negros, paceciia wc ss een ae Orlin se oe ta cdo, Gino de ¥,, sendo a natureza manhosa, por suas mudangas inespe~ judas, ambos enfatizam a necessidade ce um conhecimento achados — destruindo, no mesmo passo, a possibilidade de writico para lidar com ela. Deserevendo a “percepco apurada comprovacio de sua teoria. piviplda" necessiria ao piloto de um bareo, Raimundo de No livro de Raimundo de Morais, uma familia sibeirinha , do Tocantins é vitima de perseguicdes politicas, 0 que forca a debandada de seus filhos de uma regiio onde estavam Prosperando, Na volta para casa, morrem todos um naufiigio combinado com um ataque de indios, com excegao da mulher inglesa de um deles, capturada pelos indios Apiaca ¢, mais tarde, integrada a tribo. O enredo é pretexto para divagagdes 4 respeito de varias crendices locais ¢ descricao dos costumes da regiao — a coroa do Divino, a festa de Sao Joao, 0 Putirum, 0 roubo de mogas pelo boto, entrelagados as verda- deiras aulas que Emilia Snethlage, supostamente héspede do Personagem central, oferece aos leitores sobre a vida animal © vegetal da regido.*A natureza é dominante durante boa parte da narrativa ¢, tanto no texto de Bastos de Avila como no de Raimundo de Morais, as imagens utilizadas para descrever suas ameacas — ¢ encantos — sto semelhantes. Os sinais de uma tempestade na bafa de Marajé, por exemplo. Negras nuvens, vindas do Norte, cobriram 0 céo, até entio cestrellado; a8 aguas entraram a agitar-se, a encresparse, levantarse em ondas encapelladas; € de ‘subito, inesperadh mente, 0 vento mudou de quadrante, comegou soprar de Proa, rijo e pertinaz, esfuskando pelo cord 6 Montis o define como se ele fosse uma méquina sensivel ou um adivinho a ler indicios: Sus sends ganham deleaderas de aparetos vivo, rem Cando mil auangas sins, de aspectos eésmicos. Vemhe dat yiparo das visadas que por uma nuvem, por um rebojo, ps Gn Dueranco, por uma drvore decifram enigmas lacrados para outro qualquer ‘estranho aos trabalhos de bordo. O retardatirio testa aprendizagem no sabe ler 8 simboles estampados nos inuipios panoramas do oe da tras €fechado 20s avsos Como se fora de pedri; e sofre 0 castigo dessa ignorancia, ma pretend dirigir um gaiola’ Hustos de Avila the faz eco: e pesavam sobre os Medindo todas as esponsabiidades que the p o aes Zé Sareafo apurava 8 sentidos synipnizandoo$: co a onsen ds praetor : ‘obstante, promptamente obedecidas. E que os ouvidos de ye a distinguir do estronde do revo © grossa iar tn nas aera ne ts) 6. @ Sentidos delleados, sintonizados; apuro da visada ou dow ouvidos: é um saber pratico — € local — que ¢ louvado al Mas, se a natureza € caprichosa ¢, afinal, sobrepde-se fl tentativa ce alguns homens, € mulheres, em subjuggkt, € também © cenfrio ideal para um discurso a favor da cién sentada por “naturalis como “cientifico”. A comecar pela apresentagio formal do texto: Raimundo de Morais e Bastos de Avila niio s6 salpicam a agho romanesca com nomes de pesquisadores reais, mas, se utilizam de notas de pé de pagina e citagdes em outris Iinguas para apoiarem suas descrigdes ¢/ou fabulacdes,* 5 livros so também fartamente ilustrados: o de Bastos de Avila, 2 moda das antigas Sefetas, com gravuras de Magalhaes Corréa; o de Raimundo de Morais, com fotos de personagens ¢ cendrios locais de dlbuns datados de 1902 ¢ 1908. Em ambos, o Museu Paraense Emilio Goeldi € citagio obrigatoria na iconografia. A ciéncia 6, de fato, tanto como a politica — que € 0 foco, no romance de Lima Barreto —, um personagem importante nesses dois romances. O personagem de Raimundo de Morais, coronel Anasticio Igaratina, *proprietirio de sitio plantado de cacauciros ¢ seringais, além das terras povoadas de castanheiros Id para o alto rio”, “apesar de amatutado, de acordo com o meio, tinha, de quando em quando, lampejos do homem que chegara até o segundo ano de Medicina na Bahia’.’ Sua esposa também € apresentada como uma pessoa educada: "D.Vitorina € professora normalista. Completou 0 curso com distingao em Belém, sendo oradora da turma Ficou amatutada, como todos nés, de acordo com o Redentor, que é envolvido por uma vizinhanga roceira.” Marido e mulher, e mais seus agregados, demonstram uma sede de saber que € verdadeiramente notavel e que vai sendo satisfeita aos poucos pela naturalista — que explica desde os habitos de nidificagio de irunas e gratinas, até a origem tupi de tucano, Tocantins, castanha... (com as bengdos de Plinio Ayrosa). Essa importincia atribuida 2 ciéncia — & cientista, 2 quem 0 coronel ouvia como a “um oriculo” — nao impede que Emilia caia vitima da “melodia embriagante do carachué”, que s6 afeta as mulheres: “Meu estado era sonambillico”, diz a doutora em linguagem ‘cientifica’, mas confirmando as crendices locais a respeito do canto do pissaro. 7 loglo de Bustos de Avila A ciénela — e A clentista — é Jiio mais explicito, Ao ouvir a explicagto do Ultimo sobre tivos da Ilha de Marajé sobre as inserigdes num, Jago de urna, a professora Lucia pensara: "Que sucesso W irl provoear aquella descoberta, que profunda revolu Wh philologia indigena! A que mundo de consequéncias Whinnugindveis a sciencia da linguagem seria levada por um jyples obra do acaso?!" Ao que © narrador replica em nosso er fico: "A Sta.ucia de Abreu era injusta para consigo Joan. Ao acaso em verdade, se tem muito injustamente inbuldo grandes descobrimentos.” E a seguir explica que a Hiulidade, © ndo o acaso, tinham sido responsiveis pelas i seobertas de Newton, Galileu € Champollion, concluindo: “Asalin também nao fora somente o acaso que levara a Sta. Jiielu de Abrew & presenga de Sacaco: fora sua f€ na sciencia, sii) constancia no trabalho, os esforgos conjugados de sua jhoeklacle estudiosa, E no seria demais dizer-se que aquelle slesfecho inesperado nao se chegaria sem sua collaboragio sjocidida.°* Ele proprio um clentista, ao contririo do roman- bial de Os igarazinas, nao se preocupa como Raimundo de Movals em por na boca da personagem as explicagdes sobre {nuina local, mas se estende sobre t6picos tais como a caca io jacaré (ou *saurio asqueroso"), a postura de ovos das {yytarugas e se ocupa em referendar com uma nota bibliogrifica 4 fala do quia ow a listar as espécies de fauna encontradas (24 num 86 parigrafo — p. 163)? Amos os autores partitham 0 mesmo entusiasmo pelo que # nacional; no caso de Raimundo de Morais, esse entusiasmo parece como louvagio, no de Bastos de Avila, no lamento pelo descaso dos brasileiros pelas suas coisas. Em Os |yurutinas nao s6 a pericia de um piloto pratico € louvada: (ambem a culinaria eas mezinhas recebem uma descricio loulhada e aprovadora, J4 Bastos de Avila censura o descaso pelos "productos locaes, caracteristicos da terra": ‘Onde esta a velha Bahia, aquella Bahia que todos conhecemos pelo menos de tradiglo?! A Bahia do carunit, do ¢fé, do b0b6, lo tatapd, da muqueca, do abard, do acarajé, das frigideiras, do camarac! A Bahia da canfiquinba, dx mae-benta, do manoé, dos sequilbos, do mungunza” Diga com franqueza, Professora, vale a pena sahir uma pessoa do Rio, com risco de uma panne, fazer em pleno Atlantico uma descida forgada, m estender-se as instituigdes cientificas localizadas fora do cent wr do pais. Vale a pena comparar a descrigio que o autor faz Museu Nacional com a do Museu Goeldi. Ao chegar a para, em Sao Salvador da Bahia, se tomar uma consommée ; ui Snethlage, cespheras a que to cedo a levou 0 destino Poignon ou uma omeletie atx fines berbes? Wn Snthiage, M das espera aque do ceo ovoe Iinplreawc, Fosse dado observar 0 descaso, 0 desleizo, a desordem diana casa, outréra um templo da sciencia ¢ hoje, ai de nds © mesmo descaso reservado 2 culinaria local pared (ins rvina de esplendorosas reminiscencias, ¢ certo que seu ile radioso e faiscante se obscureceria por um momento, incuria dos homens de nossa patriat ante Aponr dos elogios aos dois cientistas estrangeiros, Goeldi Museu Nacional, a professora vé a seguinte paisagem: i chegar ao Museu Goeldi: silage, Bastos de Avila enfatiza seu nacionalismo na iin los vildes da historia: se a heroina é uma abnegada A exquerda, 0 lago verde, tranguillo, morto como Agua m +: ao verde; angie nar tis Se Jilsta nacional, os vildes so alemaes, © principal vila0 aque €- Uma aha emerge da superficie prada, aha dos “Amo cor bosrue ent clniatvt, a ted colunnas pani Joris, um ajudante desabusado do piloto do avido que just um symbolo! Adiant, uma serpente em bronze alld Jovou ao norte, € © cientista cuja teoria a senhorita vai 2 superficie das Aguas, soerguendo as fauees escancarad sujorizar sto todos alemaes."*J4 Raimundo de Morais ‘Mais para o lado um marmore branco destoa gritantemente juilicard vibes na politica local para explicar a queda do netiate sede, i ROR ee Jaonagem principal, De inicio o tom € irdnico, quase ‘olkos ‘cermados, desfalleckda. " poten Jochudo: o partido no poder € o Mamangomama, seus chefes, bs ehumados de tucbauas e 0 procedimento €o0 mesmo de mpre Principia por um sub-prefeito de policia macho, 1 branea e quinze pragas. Mande encostar a madeira Barcos sulcavam o lago, tripulados por garotos em gazetiy pequenos intelligentes que a0 recinto fechado de uma sala de classe preferiam, muito justamente, a liberdade sem peias daquelle sean ert recanto amavel ¢ a alegria sem par da natureza em festa Jy nls chibante e telegrafe comunicando que os homens A direita, era 0 bosque em declive suave, cheio de sombri ‘phe anurquistas.” — lustrado até pela evocagio de um caso real." myst eval cues rman todos, Canal Pyopressivamente a ifonia se transforma em tragédia e, no Convidam & meditacao. (p. 16-17) Juloavan para a oposigao, 0 coronel se desliga dele, a wo com & politica. Seus filhos, que viviam no alto Muito diferente é 0 cendrio encontrado pela professora 10 J cinlins, comegam a ses perseguidos, sito obrigados 2 deixar Jhon propriedades e ao voltarem para casa sto destrocados tues jederequallindlneadd ovcoreare,bologitorcUaIM Jihein morte ao receber a noticia, ¢ sua esposa, enlouquecida, me co tno ets [ecw sve ida 0 € oa Mir aves ¢ roedores, 0 povoavam fugindo ariscos & vists dos raroy fo jo cano de Os igararinas a politica local é determinante visitantes que os surprehendiam. (..) “Pips o Hlestecho da saga familiar — atingindo-a como s¢ fosse 4 improve pla Pesta, penta no ei Mp fora ela natureza —, no romance de Bastos de Avila ela weet op po fl do comm Sea o-rohee buco Fomiparece na forma de discurso politico nacionalista.'? O sar Sur au gue imagine w gue condo de decadendl Fido poe na boca de um personagem, o mesmo Jornal tae descambando 0 monumento gigantesco que creou,talvek Je se quicixava do nosso desleixo com nossa culingria, uma Binds dos impetos de sua indignagio cobrasse forcas € animo Hii de conselhos politicos que, indiretamente, confirmam a are se novo os as nevoas de sua patria pelt luminosidade rer gio da senho Lucia de Abreu com Heloisa Alberto: dia Amazonia, tentase salvar do desnoronameno total, @ Jes, Tanto sua proposta de uma nova divisto do pais em i onsagrado os melhores esforgos de sua vidi Ws vstaclos, como seu plano de *eleicao por classes", tornam pe Forgas naturais: cachoeiras e fndios traicoeitos. O coronel q ~ © personagem um pastiche quase Sbvio de Alberto Torres. A senhorita Lucia, quando Ihe € permitido falar de politica, faz um discurso breve, semelhante ao de Roquette-Pinto — que aparece no romance como ¢ diretor do Museu —, ¢ ambos reprovam o pessimismo do jornalista.® Diz a professora: “...0 brasileiro € um gigante que dorme; € possivel que abusando desta circumstancia, o tenham manietado; mas quando despertar vera de quanto € capaz". A propria senhorita Lucia &, no entanto, a tinica expressio dese otimismo nacional projetado no futuro e enfatizado em sua apresentagio como jovem cientista talentosa — 0 que nao impede que 0 romance tenha um desfecho melancélico. © pessimismo em relagio a politica brasileira € talvez 0 nico elo entre esses dois romances e o de Lima Barreto — além de tratarem, os trés, de personagens que interessam 2 hist6ria da antropologia. Mas a “viagem” ¢ a “fauna” que servem de pretexto a Lima Barreto sio de outra ordem, Trata-se de descrever a trajet6ria de um politico no contexto urbano, 1na capital do pais e de comentar os principais eventos politicos do Rio de sua época. Numa Pompilio de Castro, bacharel nortista, sobe na vida pelo casamento com a filha de um politico influente, da oligarquia Cogominho e torna-se deputado. Como fosse parco em sucessos politicos ao chegar a capital, a esposa se propde a escrever seus discursos — através dos quais ele conquista as glrias mundanas da rua do Ouvidor: ao final se revela que quem os escrevia era um primo, amante da esposa. Para nao perder a fama, o marido finge ignorar a relagao entre eles. A amargura de Lima Barreto em relagao a hipocrisia da sociedade carioca sua pesada ironia para com nossos politicos estio bem expressos neste romance @ clé jé tantas vezes analisado." Para 0s nossos propésitos, basta saber que Dona Florinda Seixas é Leolinda Daltro € Bentes é Hermes da Fonseca. Ela entra na histéria como uma entre tantos participantes das manifestagdes de rua que se faziam 2 época da sucessio de Afonso Pena pot Hermes da Fonseca — ridiculos uns, terriveis ‘outros. Aqui, como em outra eréniea na qual trata de Leolin Lima Barreto € critico feroz da professora.'® © capitulo dedicado a ela comega assim: Entre nés, muita gente tem mania de caboclo ¢ havia na cidade uma seniors idosa, Dona Florinda Seixas, que cultivava essa mania com muito carinho e constincia, Desde anos que # sua casa vivia cheia deles; e, a0 surgir a candidatura Bentes, Dona Florinda aderiu a ela com os seus caboclos hirsutos. Acontecia também que Bentes tinha um tio, jé Falecido, mais ou menos notivel; ¢ Dona Florinda muito naturulmente juniow a sua mania indigena 2 admiragio que sempre professou pela meméria do tio de Bentes, o Almirante Constincio. Fundou, consequente- ‘mente, uma sociedade — Sociedade Comemorativa do Falecimento do Almirante Constancio, O principal fim da sociedade dizia-Ihe (9 nome; mas tinha outros, entre os quais, o do ensino do guarani o das aclamagoes as pessoas de destaque. (Cap. 1X) As substituigdes aqui usadas sio andlogas as feitas no caso «le outros personagens: a amizade de Leolinda com a esposa dle Hermes, Orsina da Fonseca, transforma-se numa admi- ragio pelo tio de Bentes; a Associacio de Proteccio € Auxilio 10s Selvicolas do Brasil, criada por ela em 1908, funde-se com a Unio Civica Brasileira e 0 Gremio Patriético Leolinda altro — sociedades também fundadas por sua iniciativa em dlcfesa dos indios — € o almirante Constincio € provavel- mente uma evocagio do entio coronel Rondon, sempre home- nageado por todas essas associagées. Leolinda tampouco € poupada das insinuagdes que atingem os politicos retratados ho livro, mas, como se trata de uma mulher, elas so de outra orem: “Foi subvencionada e, gracas ao jeito que tinba para dgradar, todos a julgaram muito ttil em sanar dificuldades € procuravam-na, aderindo a sua proveitosa associago.” Ou: Honve quem dissesse que 0 bino de Dona Florinda era uma cancao erdttca de origem paraguaia; entretanto, esse detalhe iio foi notado, € os adeptos de Bentes muito prezaram to helt homenagem & meméria de seu tio.” Curiosamente, ja que Lima Barreto nao poupava criticas a Kondon ¢ a outros que se interessavam pela causa indigena, A@ncia de Leolinda Daltro — e no s6 dela — em reto- huirmos nossa suposta lingua original foi utilizada por ele ance. Em 0 triste fim de Policarpo Quaresma, \wuihém publicado em 1915, © personagem principal & punido por escrever um relatério em lingua estrangeira — 0 tupi, justamente." Numa ea ninfa e Policarpo Quaresma sto lidos, )bos, por Wilson Martins como “uma resposta sard6nica, talvez involuntaria ¢ acidental, mas por isso mesmo tanto mais significativa, as idéias de Alberto Torres”. Que em ambos os romances Lima Barreto ironiza o nacio- nalismo ingénuo nio ha divida, © a questao indigena foi varias vezes utilizada por ele com essa intencio € como um indicador para acompanhar o debate sobre a “questio nacional”, Ela também nos permite imaginar outros didlogos implicitos entre os romances e a vida real: 0 déretor do Museu, num dos romances, ser4 também autor de um elogio péstumo a Emilia Snethlage na vida real; os mesmos freis dominicanos criticados asperamente por Leolinda Daltro na vida real sto objeto de elogio de Raimundo de Morais, pela boca de Emilia (filha de ‘um pastor protestante), no romance; a polit irquica local, tio virulentamente atacada por Raimundo de Morais € Lima Barreto, foi ingenuamente clogiada por Emilia Snethlage, em um de seus relatos de viagem — e assim por diante."* ‘Tres autores, trés visOes da cena brasileira? A politica nacional, sequer mencionada por Lima Barreto em 1915, mais ocupado que ele estava em apontar as mazelas nacionais, passa a ser problematica e problematizada nos anos 30. Jaa questao da politica local ou regional, como se sabe, assumiu nessa €poca uma importancia central no debate nacional, Quanto ao aspecto especifico que interessa ressaltar aqui, a avaliagao da atuagio profissional das mulheres, a década de 30 esti asso- ciada historicamente a concessio da cidadania a elas através do voto, justamente no ano da premiagto do romance de Bastos de Avila. Este escolhe como heroina uma jovem pesquisadora do Museu Nacional, ao tempo em que outra pesquisadora da ‘mesma instituiglo, Bertha Lutz, era a principal responsivel pelo movimento que levou a essa concessio. Ou seja, as mulheres estavam em cena, lutando pelos seus direitos, nos momentos em que trés delas se tornam personagens de ficgo. No entanto, ¢ ainda que seja possivel recuperar evocagdes a essas lutas e dliscus- s0es, tanto através de personagens reais como do contexto hist6rico, as trés personagens dessas historias sio vistas de um outro Angulo, so definidas de outra maneira, sio, enim, remetidas a um outro contexto. Ao falar de alguma coisa, esses textos estio também deixando de falar de outra; mas seria ilus6rio pedir aos textos uma hist6ria que eles nao contam. Qual © contexto em que essas heroinas cabem, se nao cabem no contexto urbano das lutas pelos direitos cla mulher? AS HERO[NAS, ‘Comecando pela avaliagto do tratamento daclo as cientistas, Raimundo de Morais escreve um romance (com 0 subtitulo le Romance bistérico - costumes paraenses), no qual a pre- ‘cnga de Emilia Snethlage é inteiramente dispensavel: nenhum «los episédios depende de sua presenga, e mesmo a exortacio final soa postiga em relagio ao enredo.” Ela da, entretanto, lum tom de otimismo 2 visio da natureza proposta no romance. Como vimos, so “forgas naturais” as que liquidam com a Jumilia do coronel Igaratina e, ainda na sltima edigao do romance, de 1985, a terra € descrita na contracapa como sendo \io famosa alhures por sua beleza, pela bondade de seu povo, © pela amplidao aterradora de sua natureza ainda empre vencedora”. Emilia serviria entao como contraponto; como a voz da ciéncia mostrando o quanto esse terror pode ser dominado pelo ser humano, através do conhecimento? Que a sugestao encontra apoio na prépria trama narrativa, dlemonstra-o 0 destino dos agregados do coronel: entregues \ prdpria sorte depois da morte dele, 0 casal Joao Cabeludo © Merandolina € contratado por um coronel do Acre e, cacando © pescando, lavando ¢ engomando, transformam em jardim lis delicias © lugar inéspito a0 qual tinham chegado. Eis como o narrador explica isto: A verdade no entanto, nua € crua, eifrava-se nos conhecimentos lo tapuio. A natureza nao tinha segredos para cle, Mal chegou 1 Remanso, o seringal se transformou ante seus olhos acostu- hivtdos flora e & Agua. Era faminto € ficou farto, Era triste © licow alegre. Era doentio e ficou saudavel. A projegio humilde fe andnima do eametaura abrira um claro na vida erma © obscura da mata, como se ali tivesse penetrado o hilito quente ‘© propicio dalguma divindade. Hxahtagao dos humildes, sem duivida, que sobrevivem as (nuns dos oligarcas, mas também, mais uma vez, elogio de lyn suber local — toda a transformagao imposta por eles ao nuciosamente descrita num capitulo muito interes- nde de téenicas que ajudam 0 casal a ver possibi- Jkudes de desenvolvimento onde outros nada viam. A conquista da natureza feita por Emilia (a naturalista ou § doutora, como & sempre evocada) é mais ambigua. Seu papel n de cientista no a impede de ser vista como mulher: € barco das mulheres que ela vai a uma pescaria num igapé soffe, como a esposa do coronel, o encantamento do pass: carachué, Softe também a maledicéncia dos “roceiros": — Antio quem é esta madama, seri? — Diz que € alemoa do Museu. — Sabe de um tudo, benza-a Deus, Dizem que bicho de pena com ela, Comandante deste navio, sew Manoel das Ilhas, con coisas de arrepid cabelo da gente a respeito da valentia dela, — Como antic? — Na travessia do Xingu para o Tapajés, depois de muitos dias pelo mato adentro, acompanhada pelos indios & Deus, eaiu emt serio. Queixozinho dela tremia como vara verde —Coitada. = Antio um tapuio mais safdo foi na rede da doutora querend abusi. Mas nao Ihe conto nada, cunhado, madama meteu 0 és ¢ levantou como uma onga. Tapuio eaiu dos quartos © emprestou pena de cotia, soco! (..) — Nao seri alguma feiticeira? perguntou o tenente Melquiades, lum pau d'igua metido a sabido © que fazia estas eriticas. — Ort nao seja burro, volveu 0 comandante, caboverdeano, ‘que no tinha papas na lingua, Entao voce nio esi vendo Jogo que uma mulher destas nao sairia de sua terra a fim de fazer feitigaria para vocts, seus quadrapedes! A histéria da rede deve ter sido muito repetida como uma espécie de alegoria dos perigos que uma mulher sozinha podia ‘encontrar pelas matas: cinquenta anos depois da publicagio do romance ainda era lembrada, em outra versio, por uma colega de Emilia no Museu Nacional. O registro da propria Emilia a respeito de suas relagoes com os indigenas com 0s quais lidou em suas viagens é bem diferente. No relato de sua viagem ao Xingu e Tapajés, Emilia lembra que teve febre © anota a inseguranca dos indios que a ‘companhavam, por cesconhecerem a regio, regisrando também a mudanga de comportamento deles para com ela, to logo Perceberam que ela poderia ser uma garantia no seu encontro ‘com os seringueiros, Pareciam julgar que eventualmente seriam mais seguros na minha Companhia que sem mim. Mostrou-se isto por ume muda 7” ont romance, tanto na sua fragilidade, exposta Wolur w Gnfase, no 7 P “yh {yulo com “tapuios", quanto na sua fortaleza ao reagir. sods com que des eno me tata, Consieravam-me Ie'nuvo como e'seu chefeCemavanto durante ox dias ae- nen ete tinamse cescustado de mim de maneira um tanto vinnie) e nao tna de tomer que me debuariam no meio {i caminho para vltsem a0 Cur F tis adiante: ¢ abandonado Com a maior facta os nos podiam terme sband I caminho. quando estvam cangidos da vagem. $6 taham W"iiger# aavela que eu tint imorido —~ cosa [ano mais ‘cron, quam 08 meus companieirs no Cur sab que Sct sfend de ings pore, ape ce eds Vise promenta seompankaranme sta primeira cach os Fina, € Toi com pear sincero anita gradao que me ve les na nana de 23 de setemeo>™ 1) yelato de Emilia nao difere muito do de outros pesqui- Jojo» cle campo que viajavam sem acompanhantes, mas vale ‘A nesma ambiguidade se nota em outra cena. Ao chegar spi do coronel, Emilia é assim descrita: “Quanto & natura |, valia por um atestado das altas qualidades germanicas. io er formosa, possuia no entanto uma graca e simpatia ie 4 Cornavam envolvente, além da fina inteligéncia, do {alo ameno e da coragem que a sobrepunha, em qualquer Hwomento, ao tipo comum da mulher.” Mas ao banhar-se no Hip, linilia desperta outra vez a curiosidade dos roceiros ¢ We Mo cachorro da casa: v wiaese de peito pra Vsimia nadadors, parecia uma sereia, Mo Jc biugo, remande com as milos, impelindo-se com os aqueles exercicios aquiticos pies. Vala por um encanto assist Uh moga. Gu) Tinha desfeito as trancas amarelas, de sorte que bo» cabelos, como Finhas «le uma teia dourada, contrastavam ono liquide verde. Lembrava fos de ouro sobre liminas de elds. (..) Apessr da gente da terra ser toda acostumada nadadora, dentro de um © eristalina das diguas, te. ALE 08 cachorros 105, 0 tipo alvo € loiro wlo na massa glau teresa essen Dat preto, mergull ava o espeticulo inédito, Hevavam: aul aut aut Na sua dltima deserigao, Emilia nto é mals a passagel de um gaiola ou a h6spede do coronel e 6 retratada no texto também com um certo distanciamento, referida a partir dal pelo seu sobrenome ou seu oficio. *...0 ornitolos algou umas botas altas de couro de anta, botou um chapelio vermetho de tucuma a cabega, tomou a espingarda a tiracolo ¢ fez-se A terra negligentemente, dentro de seu fato masculino de 14, depois de ter metido no bolso alguns tabletes de chocolate € um isqueiro”. Apesar de ter-se perdido em seguida (nao levara biissola “porque a sua excursio nao atingiria a seis horas"), € agora a profissional que entra em cena, reconhecendo os frutos comestiveis, fazendo fogo, rememorando observagdes de Humboldt, dormindo sem medo no meio da floresta. Essa metamorfose de Emilia, expressa pela men¢io, tinica, 3 roupa usada por ela, quando sai do Ambito doméstico da casa do coronel e passa a exercer 0 seu oficio, faz. eco A apre- sentagio de Alipio de Miranda-Ribeito, ao discursar em sua homenagem na Academia Brasileira de Ciéncias, em 1926 Trax 0 seu cabello como Sofia Kowalewsky — 4 moda antiga — € ust 0 chapeo severo das senhoras de edade, 9 sea Vestuario nto deslumbra nas demasias do apuro, mas nos aga ina severidade da forma. Vé-se, 4s vézes, um leve vestigio de escolha de moga, nas flores do chapeo ou na disposigao da ‘moda; mas a sisudez domina-the as maneitas, a simplicidade accentua-the a sua predilecsao constante - a Zoologia, Nao & Pols a soullragete despeitada e resolvida a rasgar telas raras ow 4 derribar governos; € a creatura bondosi © experiente de Sabedoria que se apraz em estudar, amviseando para tanto a Com a mesma naturalidade e modestia com que deseja s6 encontrar, nos outros, as qualidades angelicas dos santos; com a mesma firmeza de animo com que prepara ¢ executs oo viagens pelo sertao a dentro. E como se fosse_necessirio, deSenfatizar a mulhe cientista, mas ndo a ‘um Teve vestigio” quebra sua sisudez. Em 1926, F1 Banos ¢ € também “remogada” nesse retrato, como para acen- lwar-se a sua feminilidade. No universo romanesco, enquanto vive sob 0 teto do coronel e frequenta festas com sua familia, a mulher Emilia € acentuada: menciona-se a sua silhueta, 0 Hoy de wou cabelos, sua grag. Mas ¢ ento asia ciéncla que & “ominizada’, # curios que, tendo sido fame pase colaps Hip aves que abatia, eu trabalho com a espingarda Flaubert Bate to ikerro) ska menclonado 96 de passagem, © sua Wpria condigio de omnitdloga seja posta em xeque quando el icumbe, como as mulheres da regito, ao canto de um passato... A apresentagio de Heloisa Alberto Torres € muito mais ipereta: senborita, ela viaja acompanhada de um afilhado, jwnhuma descrigao fisica é oferecida da professora, 56 suas {ulidades morais sito enfatizadas. $6 ficamos sabendo que | tem “mos finas mas cecididas", que fora *formada em Jina escola positiva em que a sefencia pura era a unica arma jormittida nos prelios em que se batia” e que era um “espitito piatico © resolvido" (p. 16, 122, 150), O enredo se concentra ji apresentagao do mistério que ela vai desvendar, perse- uinclo um texto rasurado e, como subtema, no desmentido lu teoria do trangado. Conforme apresentada no romance, a worla do trangado” de Max Schmid, “o maior dos ethnologos sly atualidade*, explicava porque as figuras desenhadas nas Urns marajoaras eram sempre invertidas: be accordo com a hypathese genial do sublo tees, oat tes maa sti tee sla ries. egy s 8 as to jatarente acta 8 tras portoa, qu em roms Viv siiragao dos entendidos, fasan- de bra 0 fagusra, ictgn ane so pedis ex copies di es, al Bok inds ob atsacs da Madeira, em vine manuacturs Utensil vad, Or, assim fazendo, a0 realar por exemplo, snd san devies pans, om mata qe comes pela cabega e arretatasem pelos pés: dabi a inversio que Persialu ainda quando como decorrer dos anos e quigh dos ‘seuloa,eataram on peltceosoletes a modelar Gm bur oa ‘Objects de so commun, Com a ajuda do dhtimo sobrevivente dos primitivos habi- intes de Marajé ela encontra, desenterra e interpreta as belas umas de argila cujos desenhos aos poucos vio destruindo a Wworia de origem alema. oven di Agua de gus lard ma ale to 0s ob de Marajé, explicada por Antonio Sacico, contrariava compl tamente a theoria do trangado, defendida pela Professora Sta Lucia de Abreu em sua memorivel conferencia na Bibliotheca Nacional. Esta inversto, pobre Max Schmidt! no significava absolutamente © vestigio de uma technica primitiva conservado pelo espirito de rotina dos artistas mais modernos: implicava, sim, um modus faciendt de taduzie graphicamente determinadas idéas ¢ conceitos. © homem mortal era sempre estylisado de cabeca para baixo, isto & voltado para a tera, que afinal receberfi em suas entranhas insaciaveis. Os deuses immortacs, estes eram representados de cabeca a0 alto, erguidas para os egos inaccessiveis, residencia paradisiaca dos privilegiados.®* No entanto, toda a prova de sua interpretagio seria levacla pelas éguas, logo depois da morte de seu Ghimo intérprete native: destruida uma vez pela rapina ¢ teoria da ciéncia estrangeira, a bela obra dos primeiros habitantes de Maraj6, recuperada pela ciéncia nacional, é agora destruida pela invasdo desta, E como se a intervengiio da professora tivesse precipitado essa clestruicto: Naquelle ano as chuvas anteciparam-se. (..) Ea Professora assistiu com os olhos marejados de ligrimas, 4 lenta fusto das pegas, ao esboroamento de suas figuras symbolicas, 4 dissolugio final das urnas maravilhosas de que dentro em breve nao restava senio um amontoado de lama viscosa e barrenta, que @ enxurrada carregava para fra da barraca... © romance poderia ser lido, também, como um exercicio de iconoclastia, no sentido atribuido ao termo por Mitchell: desde a primeira imagem evocacla no romance (os diapositivos exi- Bidos pela professora em sua conferéncia), passando pel ‘teoria do trangado até a descoberta das urnas no final, parece tratar-se de derrubar “imagens invertidas’, isto é, uma ideologia. Os fdolos $6 ficam “de pé" 20 se tornarem concretos e sere. interpretados, ou seja, a0 ser recuperada a histéria humana que havia sido neles projetada e esquecida — mas esse reconhecimento da histéria primitiva dura pouco: logo ela seri transformada em cacos.* Quem sabe, por ser uma mulher a agente dessa transformagao, nao é de admirar que a natureza, literalmente, desabe sobre ela.* Numa clave mais hist6rica, a discussio sobre o destino dos idolos poderia ser lida, ainda, como a continuagao de uma antiga polémica entre o Museu Goeldi 0 Museu Nacional, evocada na descriga0 inicial do ambiente de ambos. Na la real, e conforme o historiador do Museu Goeldi, Ladislau Netto (Suposto autor do texto fragmentado encontrado no romance), quando diretor do Museu Nacional, pedira ao presidente da provincia do Para o empréstimo das colegdes coldgicas ¢ etnogrificas do Museu Paraense, para a exposigdo de 1882. Parte dessas colegdes eram as urnas nirajoaras, desenterradas por Ferreira Penna, no sitio do Pacoval, Ilha de Marajé, em 1871. “As colecdes, que eram pioneiras, foram cedidas por empréstimo, mas até hoje nfo voltaram \ Museu Paraense, proprietirio legal deste patrim6nio."® No romance, coerente com a vistio do autor sobre o desres- peito internacional pelo pais, a versio sobre o desapareci- Inento das pegas de ceramica € outra: E que Pedro II, sabio ¢ philosopho, mas ingenuo ¢ confiante, cconcorrendo para maior realce da exposicio universal de Paris, dde arte retrospectiva, remettera 4 Cidade Luz os mais bellos ‘exemplares da ceramica marajouara entre nds existentes, exem= plares que nos foram infelizmente recambiados em cacos, devido 4 eriminosa falta de cuidado em seu acondicionamento. Seja como for que se possa ler o romance, e apesar de ele ter sido publicado um pouco antes do de Raimundo de Morais, sua heroina expressa um claro avango em relagio as ouitnts das: nem desprezada por suas aventuras com caboclos, nem romantizada por sua condiglo de estrangeira que, de certo modo, colocava Emilia acima das mulberes comuns. HIcloisa é bem um modelo de profissional da pesquisa que {\y sua entrada ne mundo romanesco — e antropolégico. c intrastando com 0 retrato literirio de Emilia e Heloisa, a personagem de Lima Barreto parece grotesca, Ao apresentar vn Plorinda Seixas, 0 romancista ndo s6 faz insinuagdes Wwuliciosas a respeito de sua atuagio politica, mas também slescreve stia relagzio com os indios como totalmente equivo- ‘uh. Bis como ele narra seus esforgos para ensinar o guarani hunt aula publica: ‘Comegou at professora por asseverar que o guarani era a lingua ‘outs antiga, mais bela do mundo; ¢ exemplifica Meus senhores, vojam 86 esta frase: amanacé sacu enacd pinaié. Sabem o que quer dizer? 3 © auditorio ficou suspenso © Dona Morinda explieow 0 peixe vive no mar, — "4 eado", geitou Tupint Dona Florinda voltou: = Puxignera che naics. —*Té endo", gritou Tupini. Os cizeuastantes entreolharam-se, da liglo, = Nio € 56 nessa frase que a beleza da lingua se revela. 1 mos outra: emu mameara cé necé - quer dizer: minha noiva é bonita. ‘Tupini disse devagar: — “Td endo”. para o indio e respondeu em guaran continuagae iperando pel — Tupini! Tupinit Nao queira emendar-mel... Esta é lingua de outra tbo, Xeréré cond = "Ti endo". 0s discipulos foram um a um saindo e a liglo nao foi adiante naquele dia, “Tupini cra um caiap6 que a professora “estimava sobremodo”. ‘Também os protegidos da professora sto descritos de modo pejorativo: Homens da selva, pouco habituados 2s regras © pre salas, esse jovens burons praticavam em casas to respeité tuma nica inconveniéncla: embriagavam-se de cair © cafam pelos jardins, dormiam familiarmente com © rosto para 0 céu estrelado, como filhos das brenhas que eram, Nao se diga que Dona Florinda no empregasse os seus esforgos de domadora ow civilizadora para impedir tio indecente caboclismo. Era ela vista a dizer no butfet: = Tupand pene core! (03 caboclos respondiam, amuados como criangas teimosas: = *Quelo bebe Quelo bebe!” E sacudiam a juba de cima dos olhos, das bordas dos copos (08 bebiam as diizias cheios de cerveja. Gostavam mais de whisky. das ‘A ‘velha senhora” é, no melhor dos casos, ridicula, seus protegidos estio fora de lugar na cidade, ¢ a relagiio entre eles é de incompreensio: em tudo € por tudo Dona Florinda a4 # diferente da doutora Emilia ¢ da professora senhorita Luca tle Abreu, Essas nao s6 se relacionayam bem com a ni 08 povos primitivos af inclufdos — como o faziam onde se devia: bem longe da eivilizagao. ‘A nensagao de estranheza que sentimos ao colocar a isis ao ado das cientistas nasce, portanto, da percepcao de Jini déslocamento, dela, dos indios e da linguagem. Quando illizida nos outros dois romances, a lingua indigena refere- sempre aos “elementos naturais” (frutas, bichos, costumes nuligenas) e serve para traduzi-los para a nossa, isto é, para Aiipliar © nosso conhecimento. Neste, sua citagio funciona shies como uma barreira 2 nossa compreensio: o que quereria inor emu mameara cé necé™® Nios sensagdo de estranheza vai se concentrar, finalmente, juin grande préstito organizado pela professora ¢ assim dexerito: As tribos dos Mundurucus, Caiap6s, Oméguas, Pataxds, Cain- juangues, Tamoios, Carijés, Charruas, Xavantes © outras apare~ ‘veram ¢ foram representadas por comisses vestidas a cardter, tendo os respectivos estandartes: folhas de palmetras, de bana- niciras, remos de canoas, capivaras empalhadas; e, 40 centro, ‘ium caminhao, reclinado sob um bananal verdejante, Tupini, le cocar ¢ enduape, arco e flecha ao lado, peas nuas, coxas huts, peito au e bragos nus — o rei da floresta brasileira que ‘marchava para o timulo do almirante inesquecivel © préstito era acompanhado por misicas militares, por wsociagdes de estivadores, de operiios, de funcionérios, ile militares, de senhoras que tomaram parte com seus estan- sles de seda, além dos clubes e corddes carnavalesco: Js também acompanhado por um dos esbirros do romance que, todo de verde e amarelo, montado num cavalo enfeitado (om flordes da independéncia, “trazia, a guisa de lanca, um acarte em que se lia na bandeirola; “a bala’.” Fechando o slile, grupos de criangas, “como representagio do Futuro, dicionado pelo Passado € contido no Presente”. A sociedade nacional parece estar af toda representada, ¢ 0 Jonancista no deixa de aludi ironicamente & cena que ele mesmo rious “O alto simbolismo filos6fico e patristico do préstito foi inuito gabado pelas pessoas simpiticas & causa de Bentes, 85 sobretudo pelo Didrio Mercantil, que viu no fato um ressur= gimento do sentimento republ 10.€ nacional, Foi gratuito.” © préstito — além de provavelmente inspirado numa passeata realmente organizada por Leolinda para ch atengio para a desapropriago de terras indigenas — uma alusto carnavalizada 4 chamada primavera de s que antecedeu a posse de Hermes da Fonseca na presidéncia, sinalizada ai pela sinistra bandeirola levada pelo esbirro que distribuia versos pré-Hermes na passeata.” No entanto, se a figura de Leolinda € estranha, por deslo- a no cenitio textual um papel semelhante 0 que fepresentou no cenirio carioca ao tempo de seus esforcos para tornar visivel a questio in ‘em cularizados, esses esforcos de certo modo deram resultado, a0 se somarem a outras manifestagdes que levaram a cringao do Servico de Protecio aos Indios, em 1910. {0 romance mos- sem equivocos, que a atuagio piblica das mulheres, no inicio do século, era alvo do ridiculo.f Apesar de 1OdaS as Suas viagens pelo interior do Brasil, € pelo exterior, a atuacao de Emilia Snethlage, sua contemporanea, nao era publica: que se saiba, ela foi noticia apenas de revistas cien- tificas. Leolinda Daltro, 20 contritrio, desde o comego tornou piblica a sua atuagio “em prol dos indigenas", e essa publi- cidade a tornou vitima de intimeras criticas nas crOnicas dos jornais, personagem de caricaturas dos difrios — sua expe- digio ao Brasil Central tendo sido tema de uma pega teatral burlesca no Rio de Janeiro. Os dois romances anteriormente tratados, em suma, pare- ciam validar, ainda que de modo ambiguo, as personagens que retrataram, validando também uma atuago discreta — mesmo se incomum — da mulher pesquisadora; Lima Barreto, 20 contratio, expressa até o limite da caricatura 0 escindalo que a presenca de Leolinda, e dos indios, representava, justamente por ser io indiscreta.®” Em todo 0 caso, tendo sido antes personagem politico que cientifico, talvez a professora no esteja deslocada, afinal, a0 encontrar lugar no romance pol tico de Lima Barreto. E, também de modo adequado, ¢ no romance mais “moderno” que vamos encontrar uma personagem ‘que parece guardar mais semelhangas com as mulheres contem- porlineas do que com as mulheres de seu tempo. cy Mas hd ainda um outro deslocamento a tratar, como veremos em seguida ANTROPOLOGIA ROMANESCA OU. ROMANCE ANTROPOLOGICO? Eserevendo sobre as mulheres pioneiras da antropologia horte-americana, Nancy O. Lurie péde citar um punhado elas nascidas antes de 1885 — ano da fundagio da Women’s Anibropological Society — mulheres que ajudaram a “estabe- lecer a antropologia como uma disciplina reconhecida” na ps le uma era em que predominavam “pesquisadores juiodidatas, que com frequéncia financiavam suas proprias Pesquisas, para uma era onde havia programas sistemticos le treinamento na pés-graduacdo, levando ao doutorado € 2 possibilidade de se ganhar a vida como antropélogo”.” Ket também uma época em que “estudos antropologicas" enum sindnimo de “estudos de sociedades indigenas”. Todas wy personagens retratadas por Lurie se dedicaram & pesquisa le grupos tribais que viviam nos Estados Unidos. Ainda que ho Brasil o intervalo entre 0 perfodo dos autodidatas e 0 dos profissionais tenha sido mais longo que lf, « antropologia que comecou a se definir aqui desde as primeiras pesquisas {ols pelos naturalistas alemaes no século 19 tinha o mesmo sentido, Assim, ndo € estranho a essa tradicio imaginar que o {nibulho de nossas trés personagens possa ser definido como \niropolégico, mesmo com aspas. Emilia Snethlage, a mais prolissional das trés, era uma ornitéloga com formacao \euwlemica Cendo obtido © grau de doutora em ciéncias J Universidade de Freiburg em 1904) ¢ foi na 4rea dessa slinciplina que seu nome foi conservado nos anais da ciéneia husileira. Iss0 nfo a impediu de registrar observagdes extre- jhuanente interessantes sobre algumas das tribos com as quais, conviveu no decorrer de seu trabalho. Varte desse trabalho, realizado no Museu Nacional, foi inilelo a0 desenvolvido por Heloisa Alberto Torres, num berfixln eg gucios ansais'eran ainda otextro ianiclons| ly wlividade antropolégica, como quer que ela Fosse definida (onto lugar da passagem de um periodo de autodidatismo a para o da profissionalizagtio da disciplina, quanto da sua sepa ago das ciéncias naturals, Leolinda Daltro, apesar de ter tide ligagdes com representantes de instituigdes cientilicas — da Museu Nacional, do Instituto Hist6rico Geogrifico Brasilel ou da Sociedade de Geografia, através de sua se grafia —, no teve uma formagio académi eram 0s seus propésitos junto aos grupos ind F portanto 0 aspecto enfatizado pelos ue: citadlos — o da ligagao das mesmo conjunto. No im Tiaginiiio romanesco, Eek Gua a ser chamada de antropdloga comega por ser definida co: alguém que podia explicar o sistema de couvace (Emilia), projetar “intensa luz sobre os habitos, costumes e cultura dow ivos habitantes ce Maraj6" (Heloisa) ou que tinha “mani de caboclo” (Leolinda) — ainda que nao fosse explicitamente nomeada como tal. Este € o primeiro critério implicito na cons trugio das trés personagens — ainda que duas fossem nomeadas como professoras € a terceira como doutora ou naturalista = que as liga entre si e permite vé-las no universo textual doy romances como pioneiras na histéria da antropologia brasileira, Mas ha ainda uma outra razio para inchui-las no romance: antropol6gico. ‘Ao discutir a emergéncia de uma ideologia disciplinar modemna, George Stocking chama a atengao para o trabalho je campo como um estilo de pesquisa que dlistingue a antro- pologia de outras_disciplinas."* Como vimos, nossas trea personagens dio sobejas demonstracdes de sua adesiio a esse estilo de pesquisa, ainda que essa adesio, tratada com respeito em dois casos, seja ironizada no terceiro. pesqui= sador de campo é aquele que esteve 14, como diz Clifford Geertz, mas € s6 qu er iar Ee yando volta para ci que ¢ ‘Tegitima.* Essa volta se processa sempre através de um texto; Eno universo textual que o universo da pesquisa de campo. se torna legitimo. Tanto romacista que trata de Heloisa, ‘quanto 0 que trata de Emilia podem citar textos de ambas, € © fazem em notas de pé de pigina que mimetizam os traba- Ihos académicos, de modo que ambas, mesmo no universo romanesco, cumprem as formalidades necessirias a sua iniciagio, conforme a proposta de Geertz. 88 sertanista autOnoma.¢ duas pesquisadoras vinculadas ‘Vs mostram, assim, nitidamente, o contraste na definigdo Mo pescuisador de campo, que se processava a época dos Fjuances e que, dle algum modo, foi captado por eles — ou §ie pode ser lido por nés, Se no inicio do século 20 a me #xeuMo entre os selvagens parecia um feito suficiente- jwente notivel, para os que a observavam do lado de c4, por Yolla da década de 30, esses observadores pareciam ser mais eaigentes e pedir algum resultado dessas excursdes, mesmo jyundo a excursionista era mulher. Isto &, se até um certo Woniento bastava a aventura de visitar 0 interior do pais para slespertar a imaginagao romanesca a respeito de um pesqui- sydor ou pesquisadora, vinte anos depois essa aventura everia ser justificada por um mével mais alto — a ciéncia. feuanto cientistas que Emilia e Heloisa sio singularizadas 4 romance antropolégico — propriamente como heroinas. J Independentemente da tradigao oral, que poe uma sombra Hywsculina por detras de cada uma, nos romances elas sio fiyuras autOnomas, solitérias, tratadas como o equivalente Jeininino de outros pesquisadores de campo mais conhecidos. © interessante & que nenhuma delas seja comparada a esses ‘equivalentes masculinos: € como se elas estivessem fundando yn tradigao, a da pesquisa de campo, que € 0 modo, ou silo, como a antropologia entra no univers romanesco, sjende pelo menos 1915. Essa autonomia seri posta em {jentio num periodo posterior; por volta da década de 40, © modelo de atuagao para a pesquisadora de campo passa a oro «ha parceria etnogrifica. Postos em sequéncia nto cronol6- Wied, 08 185 romances nos oferecem assim uma paribola do proprio desenvolvimento da pesquisa de campo como estilo jlelinidor da pesquisa antropolégica e aparecem como fofeventes textuais da trajet6ria possivel de algumas mulheres leno dessa tradigao mais ampla, comum a disciplina. A iyiuralista estrangeira, a sertanista e a pesquisadora nacio- )s/ parecerio mais comumente em sua versio masculina e, \ulvez por isso, sero também mais raramente tomadas como ioulelos literatios.# (Os textos literdrios sofreram aqui varios deslocamentos Juni que pudessem ser observados de virios Angulos dife- wntes —menos um, justamente aquele do qual eles nto podem sor observados, criticados ou sobre o qual € impossivel fazer » qualquer comentario, que € 0 aspecto sobre o qual eles silenciam, A partir de uma discussio deles é possivel refletir 1 internacional de se ja, propondo que, ainda que se apresentando como saberes locais, narrando a hist6ria de_personagens localizados, eles esto, de algum modo, afinados a uma his- ria que os extrapola. E como se houvesse quase uma légica prépria, ou apropriada, & experiéncia de conviver com os chamados “povos primitivos” que os obrigasse a seguir uma witha familia om ‘vex decicido que certas personagens irao. “para o campo", € como se o resto fosse quasse s6 consequéncia, © aspecto sobre o qual os trés romances silenciam, no entanto, € 0 que corresponde 4 pergunta sobre porque € que, numa época em que 2s mulheres se destacavam pela sua atuag&o no espaco urbano, lutando por estabelecer regras de convivio igualitério de cidadania com os homens, tr8s romaneistas, de certo modo, as expulsam da cidade e estabelecem, de maneira quase paradigmitiea, sua relagao privilegiada com a natureza: ios, pissaros, florestas, indios.* Parte da natureza, € natural coloci-las nese context? As heroinas, afinal, merecem ser assim chamadas? 0 A DOUTORA EMILIA & Q DETALHE ETNOGRAFICO ‘There are too many waterfills bere; the erowded streams hhury too rapidly down to the sea, and the pressure of so many clouds on the mourtaintops snakes them spill over the sie in soft slow-motion, ‘uming to waterfall under our very eves. (.) ‘What chlldishness is chat while there's a reath of life in our bodies, we are determined to nish to see the sun the oxher way around “The tiniest green hummingbird inthe world {014 cascatas demais aqui; os eaeregados ribeivos ‘720 ripido demais dar ao mar, ‘ea pressio de tants nuvens nas alturas das montanhias Fazcinas escorregar pels lteras bem devagar, ‘sansforntando-se em veraseaseatas ante nassos olhos. bl ‘Que infanilismo nos obrigars a corer, ‘enquanto em nosso corpo houver um sopro de vida, para ver 0 sol do outro lado? ‘© menor beljaflor do mundo#) Elizabeth Bishop, Questions of rave (Problemas de viggem] Uma cangao inglesa diz que a cevada, a Reforma, 0 louro © 4 cerveja chegaram juntos 2o pais no século 16. Podemos liver que os cientistas © suas instituigées chegaram a0 UWiasil junto com a arquiduquesa da Austria, depois princesa |eopoldina, no inicio do século 19. Foi no rastro dos intimeros hotinicos, zodlogos, entomélogos, omnit6logos e artistas que ‘na comitiva da princesa — parece que ela propria uma colecionadora de espécimes naturais que enviava para o Museu de Viena — que se constituiram aqui as primeiras casas de ciéncia, os museus de hist6ria natural, em tudo semelhantes aos existentes em outros paises. O primeiro deles, hoje Museu Nacional, se originou de um gabinete de hist6ria natural mais conhecido como Casa dos Passaros, sinalizando a importincia a eles atribuida nas colegdes dos naturalistas que visitavam o pais. No final do século 19, € gragas a esses naturalistas viajantes, havia jf uma boa bibliografia — e muitos, muitos espécimes de passaros brasileiros nos museus europeus — sobre o pais nas bibliotecas da Europa: o suficiente para interessar uma jovem que queria se dedicar & ornitologia. A rigor, o retrato da naturalista Emilia Snethlage nao caberia na historia da antropologia: omnitéloga, ela velo para © Brasil em 1905 a procura dos objetos desconhecidos ou menos conhecidos de sua ciéncia. Os passaros que rastreou em quase todo o pais foram por ela minuciosamente descritos, catalogados, nomeados e empalhados. Seu nome sobrevive como testemunho desse trabalho de catalogacio cientifica de virios espécimes da chamada avifauna nacional.’ Sua dedicagio ao trabalho de campo, aliada a algumas observagdes iSoladas que fez sobre certos grupos incligenas do pais, a tornam, entretanto, uma figura exemplar da cientista de museu, encarnando um rigor tipico da tradi¢io naturalista, que nos legou a paixio pelo detalhe etnogrifico. O cientista de museu €quase sempre visto como sindnimo de cientista de gabinete no inicio do século 20, tomar essa analogia como regra geral seria enganoso, O museu era o lugar para onde se voltava a partir do qual se publicava, mas era também o lugar de onde se partia em expedigdes aventurosas. A no obrigato- riedade de oferecer cursos € orientar alunos cava ao pesquisador uma liberdade de agio de que nem todos se aproveitavam para a pesquisa de campo — mas muitos o fizeram, somando a ela 0 trabalho administrativo € uma impressionante, visti com os olhos de hoje, produgio mitida: edigio de jomais, revistas ou boletins, enviados aos centros importantes de outros paises, colaboracao constante nesses impressos,? além de um permanente trabalho de comparagio entre a pesquisa reali- zada aqui e a feita em centros europeus. Embora sustentasse sua relacio com aqueles centros, essa atuagio coticiana no isadores de uma produgao propria: no Brasil, 1 chamada “era dos museus", parte porque eles contaram desde 0 inicio com a colaboracio de cientistas estrangeiros, parte porque nao havia modelos nativos a imitar, € prova- velmente 0 periodo de maior intercimbio de pesquisas entre os centros nacionais e os internacionais. Verdade que 0 que se fazia Id fora era muitas vezes o resultado de pesquisas [citas aqui, 0 Brasil sendo visto entio como um imenso labo- rut6rio natural, por absurda que pareca a expressio. Emilia parecia compartilhar essa visio — mas foi aqui que passou qiuase metade de sua vida ¢ foi nas instituigdes nacionais que transcorreu sua carreira, Sua biografia até 0 ano de 1900 era compartilhada por nuitas jovens européias: com a morte do pai, dez anos antes, passou a trabalhar como preceptora de meninas de familias lc mais recursos, na Alemanha, na Suiga, na Inglaterra ¢ na Ilanda, Possivelmente os ganhos obtidos com esse trabalho © que Ihe possibilitaram, a partir dai, estudar hist6ria natural om Berlim, Jena e Freiburg obter 0 geau de Doutora em Ciencias em 1904, em Freiburg.’ Ao vir para o Brasil, Emilia \inha 37 anos: o titulo obtido um ano antes lhe dera a opor- \unidade de tornar-se assistente de zoologia no Museu de Nerlim, trabalhando com 0 omitélogo Anton Reichenow — le quem seria correspondente constante nos anos seguintes ©. quem citaria sempre com respeito. © convite para vir para © Brasil, feito por Emilio Goeldi, talvez tenha aberto pers- pectivas no esperadas por uma mulher que, a julgar pela iwaliagto da carteira feita nos Estados Unidos, teria a sua frente anos de trabalho como assistente € poucas possibili- dhiles de pesquisa propria.t milia parece ter compensado seu exilio nestas terras com \s viageas & Europa: pelo menos trés sto registradas pelo ve bidgrafo; a primeira, em 1907, quando ela jé estava Incumbida de planejar 0 famoso Catdlogo das aves amazénicas «je, coneluido em 1914, por ter sido impresso na Alemanha, ‘cmnente chegou a Belém em 1920; a segunda, um pouco antes «hi Primeira Guerra, em 1913; e a terceira, em 1925, J4 no relatério shiquelt primeira viagem revelava-se uma pesquisadora meti- culostt — comparandlo “as nossas pelles minuciosamente com iy grandes series de passaros amazonicos dos Museus de Londres, ‘Tring (nglaterra), Berlim, Berlepsch (Allemanha), Vienna (Austria)*, mal consegue esconder sua alegria ao afirmar 93 que consegulu descrever ‘no menos de 16 especies novas, representad des do Museu Goeldi". Alegria que se expressa em deta a escrita to contida: uma das espécies & um “beija-flor bonito é dedici “meu mestre ¢ amigo”, Reichenow, 1 no seu “prazer em communicar", que embora Hellmayr ti razao ao afirmar que uma das espécies s numa publie cagio anterior jf era conhecida, “em compen: apresentar dois exemplos de espécies nao conheci¢ ‘apresentadas como sabidas® A titima viagem tinha por objetivo ampliar 0 primeiro Catdlogo e transforma-lo num Catalogo das Aves Brasileiras, que nao chegou 2 produzir. ano de 1914 nao foi apenas o da conclusio de sua obra mais importante: desde a saida de Emilio Goeldi da direcio do Museu, ¢ do pais (1907), Emilia tinha sido promovida, de auxiliar cientifica a chefe da Seco de Zoologia. Naquele ano, com a morte do entao diretor, Jacques Huber, ela assumitt a direga0 do Museu, cargo do qual foi afastada quando 0 Brasil declarou guerra & Alemanha, em 1917. Um ano depois, ampliando-se as hostilidades da Alemanha ao Brasil, ela foi afastada também do Museu.” No ano seguinte, recomposta a situago internacional, Emilia foi reconduzida & dirego do Museu, cargo em que permaneceria por pouco tempo: em 1921, os jornais denunciavam a diretora por desviar parte da alimentagio destinada aos animais, para distribuf-la entre os funciondrios mais pobres." Definitivamente exonerada do cargo, embora ainda mantida na chefia da Secio de Zoologia, Emilia aceitou o convite de Bruno Lobo, paraense e entio diretor do Museu Nacional, de transferir-se para o Rio de Janeiro, para onde foi em 1922 Nao obstante os esforgos de Osvaldo Cunha por mostrar © pioneirismo do Museu Goeldi, e do Estado do Pari, “em abrir as portas para o ingresso da mulher nas atividades de nivel superior ¢ no servico publico” através da andlise da trajetdria de Emilia, ele proprio nao consegue esconder um certo mal-estar 20 narrar os fatos antes mencionados. A sua fragilidade no cargo de diretora aparece tanto no fato de o simples comentério de um naturalista visitante, hoje esquecido, ter assumido o peso de uma condenagio politica, quanto pela auséncia de qualquer registro de sta atuag%o, nos cinco anos 94 ‘em que 0 ocupou — a ilo ser 0 do excindalo, Os dnicos eventos meneionados nesse perfodo sto un 0 de Incuiria administrativa — mesclaca, ndo por acaso, & dentine de que “mulheres de vida duvidosa” visitavam o Museu, “sem ‘© menor respeito 4 diregio e As fami hém If residentes (cltado por Cunha, p. 93) — € o boato de que Emilia teria se fugiaclo em um convento, a0 ser afastada da directo do Museu.” Boatos $s contrastantes — mulheres de Vida duvido: ilheres virtuosas; 0 espaco publico clo Muse Jus 0 espago privado do convento — parecem expressar um conflito que a presenga de Emilia evidenciava nw Sociedade paraense, Coincidéncia ou nao, os cinco anos que passou como diretora, intermitente, do Museu, sio (umbém os anos em que h4 claros na sua bibliografia. Cardlogo ficou pronto em 1914 ¢, depois dele, hii um pequeno lirtigo sobre as aves da Amaz6nia, o artigo citado, na Geogra- phical Review, e 0 préximo item de sua bibliografia é do ano Ue 1920 — remetendo a uma pesquisa de 1913. A partir de 1925, quando Emilia j& estava trabalhando no Rio de Janeiro, hibliografia segue seu ritmo normal de um ou dois artigos publicados por ano no boletim do Museu Nacional e nas fovistas curopéias, Ainda que expresse nesses artigos o jnesmo entusiasmo que tinha quando de sua chegada ao pais, fol durante sua estadia em Belém que Emilia registrou seus inuslores Sucessos académicos: © Catdlogo ¢ a famosa travessia wntre o Xingu e 6 Tapajés. Ainda hoje, consultando-se o mapa da regio, parece teme- | sua aventura: durante quatro meses ela andou em canoa (inus 0 certo seria dizer uba) e por terra para avaliar a possibili- ‘hue, aventada por Coudreau, da existéncia de uma passagem )\ilvica entre os dois rios e de alguns afluentes, “hypotheticos” slo Iniri ¢ do Jamanxim, Boa parte desse percurso foi feito indigenas, e 0 seu relato € um dos textos mi oxiensos da bibliografia de Emilia. A conclusao que foi o que provivelmente causou alguma impressio na época — a nao fexitencia de uma ligago fluvial entre os dois grandes rios, jliick a que 0 feito tinha sido levado a cabo por uma mulher nos interessante dessa narrativa."" O texto € parte do un conjunto no qual Emilia registra informagdes sobre os Jyudios da regio, infelizmente Gnico em portugues. Cronolo- wicamente, cle apareceu depois da publicacao de um resumo com gu 95 em alemao no qual, significativamente, a énfase era posta no seu aspecto etnogréfico: intitulado “Zur Ethnographie der Chipaya und Curuahé”, saiu no Zettschrift fur Etbnologte, XLII, Berlim, em 1910, Algumas das fotos sao as mesmas que ilustram © extenso artigo em portugués, “A travessia entre 0 Xingt e 0 Tapajoz”, que saiu no Boletim do Museu Emilio Goeldi, VII, com data de 1910, mas publicado em 1913. O terceiro artigo desse conjunto trata apenas lateralmente de indios, mas expressa bem as opinides da naturalista sobre as relagdes entre eles ea sociedade envolvente na AmazOnia — trata-se do artigo “Nature and Man in Eastern Pard, Brazil’, de 1917. (© ensaio seguinte, também em alemao, é uma retomada dos seus dados de 1909, com alguns créscimos feitos em 1913: “Die Indianerstamme am mittlerent XingG. Im besonderem die Cipaya und Curuaya”, também publicado no Zeitschrift fur Ethnologie, LII/LIIL, 1920/1921. O iltimo da série € “Chipaya und Curuaya Worter”, saido em Anthropos, XXVIII, 1932, vocabulério comparativo recolhido por ela € publicado por seu sobrinho Heinrich Snethlage."? Do ponto de vista da avaliacio de Emilia como parte da hist6ria da antropologia, esses seriam, sem dtivida, os artigos mais interessantes de sua bibliografia: afinal, ela visitou os (agora com ortografia oficial) Sipdia bem antes de Curt Nimuendaju com quem, aliés, se encontrou, numa de suas viagens, Antes de descrever os Chipayas e 08 Curuahés, Emilia cita as observagdes até entio disponiveis, feitas pelo principe Adalberto da Prissia e por Henri Coudreau, e observa: “Mas, nem estes dois viajantes, nem K. v. d. Steinen entraram em relagoes directas com elles. Assim nao me parece ser sem interesse de reunir aqui os respectivos trechos dos livros dos meus predecessores, as informagdes recebidas do coronel Emesto Accioly e as observagdes feitas por mim.” Ainda que sua missio fosse a de corrigir © mapa, Emilia niio perdeu a ocasitio de fazer um registro etnoldgico: “Estu- dando pela manha as florestas tao bellas ¢ interessantes € a sua fauna © observando 4 tarde os indios, emquanto trabalhava na conservagio da minha caga.” Intentou também ‘obter um vocabulério — apresentado no final de seu texto —e descreve seu aprendizado como ligdes que tomaya com 08 indios: 9% No prinefpio de cada ligto Ha eu em voz alta as palavras escriptas na vespera para deixar os meus professores cortigir 4 pronuncia ¢ 0 accento. Quando o fiz pela primeira vez, Manoelsinho ficou n'uma surpresa extraorinaria; mas logo elle comprehendeu até um certo grau as relagdes entre a minha facilidade a reter a lingua chipaya © 08 extranhos signacs no meu liv, Desde entio elle se sentava atraz de mim para melhor observar o que eu fazia. Enquamto que eu escrevia as palavras as pronunciava e elle m'as corrigia, olhando sempre as Lettras como se soubesse ler e dizendo no fim dum ar satisfeito: assim esté direito.? Mais tarde, j4 sem o apoio de Manuelsinho, Emilia teria \lificuldades em prosseguir na coleta de seu vocabulério — inda que os indios indicassem, por sinais, que queriam ver palavras inscritas no seu livro, “Tentei, com effeito, obter uns verbos, imitando as accées de comer, beber, dormir, etc., 0 que divertia muito os indios, mas nao sei qual é a forma grammatical das palavras obtidas d'este modo.” O texto de sua viagem-travessia € escrito na primeira pesca | © € cuidadoso nas descrigdes, ndo muito diferentes das dos cindlogos seus contemporaneos: a alimentaclo, a lingua, as pinturas corporais, a descriglo fisica dos indios, a sua etiqueta lo negociar, © contraste entre brancos ¢ indios, os modos ule eagar € pesear, suas habilidades especificas — “pilotos perfeitos” — além de registrar algumas diferengas entre os modos de comportamento de homens e mulheres.'* Por exemplo, além de ter anotado que homens e mulheres dingavam separados, € que as mulheres comiam por ultimo, \wolt a redistribuigio da carga da expedicio, tlo logo o coronel Accioly se separou do grupo: A entrada do caminho © coronel Emesto e os tripulantes, que ‘me tinham acompanhado até ahi, carregaram os indios pelo sistema geralmente usado no Brazil. Mas depois de 10 minutos apenas de viagem, todos jogaram as cargas no cho, deixan- dome muito surpresa e mesmo receiosa que jé estivessem arrepet ‘empreza, Mas nao foi assim, s6 queriam listribuir © asranjar a bagagem segundo a sua maneirs, que a dizer a yerdade, me parecia muito pratica, embora um tanto injusta, Cortaram folhas de assay do mato, € Com ells fabricaram ‘em pouco tempo paneitos compridos, abertos em cima e ateaz, os ques amarraram com eipos as suas redes ¢ utensilies € 08 7 ) ‘meus saceos © provisdes. Suspenderam estes paneiros nas costas por meio de uma larga fita de entrecasea de arvores, passada sobre a testa do portador. $6 Topi encarregou-se do meu sacco de viagem (rucksack) em forma de mochila, recusando de carregar outros objectos além deste ultimo e do seu arco fechas. Jono escolheu 6 meu sacco de roupas, pouco pesado, (0 lovco tomo um pequeno sacco com cartuchos ¢ insirumentos ¢ 0 velho Maitumé levou 0 nosso rifle, do qual nao se separa mais, apezar de no saber atirar. Eu levei a espingarda, o diario, a taboa com 0 mappa, ete... O resto da bagagem ficou para as mulheres. (p. 73) © texto registra também o que parecia ser uma viagem) extremamente alegre: alegria é um vocibulo que aparece com frequéncia em seu relato — seja nas festividades iniciadas pelos indigenas, ao encontrar o rio que procuravam, seja na alegria de todos ao encontrarem um acampamento de serin= ‘gueiros com provisdes, depois de as suas se terem esgotado,!! © mais interessante em sua narrativa € primeiro, um) certo frescor na observacio que, embora corrobore um ou ‘outro aspecto da andlise etnolégica entio em curso, é feita de modo a produzir um distanciamento que poderiamos chamar de modero." Por exemplo, a sua descrigio da atuacio de um curandeis Um dia, 4 minha volta da matta, achei a maloca cheia de indios {que ja tinha visto a Bocca do Curd, ¢ que tinham sido retidoy no tio por causa de doenga de dois ¢elles, uma mulher e un) ‘menino, Ficaram alguns dias para tratar os doentes. Entre elles achou-se um velho, que jf tinha notado 4 Bocea do Guru por causa do seu exterior ridiculo em calga e palet6 demasiada mmiente amplos para a sua estatura pequena © em apparencit nunca lavados. Nesta occasido 0 homensinho ficou sendo a pessoa mais interessante de todas, revelando-se como pay podleroso e muito estimado nto $6 dos indios. A minha attengie foi chamada peimeiro a elle por um rvido estranho, que de uma das redes de doentes. Foi uma sucessi0 de surdos, um hi-bif-bil,bi-bit continuo e cadenciado, lembrando -mais 0S gritos de certos passaros que a vor. humana. Aproximel me Vio pagé trabalhando a expulsar a doenga. Tstava inclinado sobre a rede, onde era deitado 0 doente, soprando n’elle, noe poucos intervallos entre os uivos. Passava elle uma mo sobre ‘2 parte dolorida, na outra tinha um feixinho branco de palha ‘ou cavacos (nao podia ver distinctamente) © dava-se a apple rencia como se forgasse alguma coisa a entrar n’este object on ‘Tendo continuado 20 menos de quinze minutos este proceso, afastou-se correndo até alguma distancia da maloca onde botou ora o felxinho, agora portador da doenca. Esta cerimonia repetiu-se algumas veres durante o dia. O pagé logo tinha mais, clientes. Uma india, soffrendo havia mais de uma semana d'uma especie de inflammagio pulmonar confiou-se a seus culdados, © mesmo um dos tripulantes, que se queixava de dores no figado, declarou, apesar das pilherias dos seus camaradas, que tinha *muita crenga n’estas coisas” € deixou-se tratar pelo page. Este nao poupou esforcos. Ouvia-se o seu hii-bi-bii, bii-bit (quasi o dia inteiro, tanto d'uma rede, como da outra; a sua vox Ficou enda vez mais rouca, assemethando-se no fim tanto 4 dos gallinaceos, que os mutuns domesticados ¢ as gallinhas de Manoelsinho ja respondiam a ella. Tambem foi recompensado pelo restabelecimento de todos os quatro, facto que muito aumentou 4 sua reputaglo. (1913: 69/70, énfase adicional.)” Poderfamos dizer que o comentirio da omitéloga superava \\ observagao da etndloga, que Emilia no era: seria perder dle vista a sua perspectiva jé que, além de nao parecer inte- jowsada na preservagao de costumes ou tradigdes indigenas, (oiit uma outra maneira de observi-las. Compare-se, por exemplo, as fotos e os textos recolhidos no ensaio citado de Ninuendaju e as observagdes € fotos de Emilia. No primeiro, 1 truligho & enfatizada: ainda que, dez anos depois de Emilia ter pusado por 4, Nimuendaju se refira aos Sipdia como um inisero bando” subjugado pelos senhores cristios, € a sua Visto do munde que ele busca comprender, ao registrar suas Joncas © mitos. Quanto a ela, © resumo do conjunto de suas observagdes € claro — trata-se de um grupo em extinga0, dado © seu Contato sistematico com 0 branco, e € essa futura desa- puriclo que seu texto registra, nos comentarios e nas =| Nio sem pena: no texto de 1917, Emilia vai dizer: “Embora, jv natural que a atengo dos etnégrafos se concentre princ puluente nas tribos em completo estado selvagem, rapida- vente em vias de desaparigao, € uma pena que essas tribos semicivilizadas nao sejam estudadas mais detalhadamente.”) © segundo aspecto interessante & que s6 em seus textos ‘einojtaficos” Emilia se da ao trabalho de descrever 0 contexto fo) que trabalhava, as dificuldades que enfrentava © os apoios 0» quais contava, Numa listagem muito semelhante a do jlbum da sertanista Leolinds Daltro, ela vai registrando as jyatidoes de que se faz devedora: 6 0 senador Porph 99. Miranda Junior; é Virgolino da Costa, Lindolpho Abreu, Pedro “e suas dignas familias", por quem ela tinha sido “recebida ¢ hospedada com a amabilidade a mais perfeita’. Ursulino Francisco de Barros, 0 mais antigo seringueiro do Jamanxim; € Bentes de Paranatinga, um velho companheiro de viagem; so os seringueiros de Manoel Xisto Corréa e, finalmente, 0 coronel Emesto Accioly de Souza, que pai superar a todos em gentilezas © no apoio A pesquisa. E nesses textos que ficamos sabendo © quanto o trabalho pesquisa da época devia a iniciativa privada™ e quao impor tante era uma rede de apoio ao pesquisador que saia de um instituico para a pesquisa de campo — campo minado, ji que todo ele distribufdo entre proprietirios que poderiam impedir 0 acesso dos cientistas, O tema nao é objeto de reflexio dos naturalistas da época — embora varios outros se refiram_ 8 gentileza dos proprietarios rurais — e € sé quando uma senhora anda pelas matas que ele parece assumir releviincia. Se demonstra grande simpatia pelos indigenas (“esta gente selvagem, mas essencialmente boa e sympathica") a ponto de criticar seus aniquiladores,” nfo ha diividas de que é dos seringalistas que esperava 0 progresso da regio: Como o baixo Irist ¢ Curva, também o baixo Jamauchin @ ‘Tocantins se acham n’um estado de cultura relativamente acleane tada, Sta, Helena © Tucunaré, para s6 fallar d'estes dois, jf agora sto centros importantes de commercio ¢ agricultura, tendo indubitavelmente um futuro brilhante. O rio € reputado sadio @ produz abundantemente fructas ¢ legumes, Tarmbem hd tent tivas para introduzir e criar gado vaccum e burro nas suas ‘margens que promettem 0 melhor exito. Sob todos os aspectos © ros Iriri, Curud e Jamauchim apresentam-se na sua parle civilisada como uma das mais ricas © adeantadas regides do interior do Pari, das quaes 0 Estado tem toda a razio de se orgulhar. (1913: 92) E mais adiante dird que : “S6 0 naturalista que viveu durante anos no pais, tendo entrado em intimo contato com todas as classes e racas ¢ conhecido as condigdes de vida no Brasil, pode avaliar a imensidao e a importancia dos problemas cule turais e raciais que ainda requerem solugao.” (1917: 49) Mas, apesar de falar positivamente do trabalho realizado pelos padres ¢ freiras no interior do Pari, a filha do pastor 100 confessa que “ficara frequentemente surpresa, nao s6 neste iso, mas também em outros, pela aceitacao que o tempera- mento dos indios demonstrava pela regularidade mondtona, wnesclada a sua aparéncia brilhante, da religiao catélica em lugares como aqueles". (1917: 46) Observadora perspicaz. dos aspectos exteriores dos grupos com os quais entrou em contato, Emilia nunca deixou de ser, justamente, observadora; boa naturalista que era, as relagdes que porventura tenha estabelecido com os grupos que visitou permaneceram parte de sua hist6ria pessoal. Por isso € to essante que ela se inclua na observacio; sto frequentes os momentos em sua prosa — e mais particularmente quando fost sozinha entre os indios — em que cla se permite aparecer om cena, Escreve entio frases do tipo: Um d'elles era © possuidor feliz © muito invejado de um velho cchapeu preto. Nem mesmo nas aguas das cachoeiras elle queria separarse deste omamento precioso, e durante tres dias nunca poude cangar-me de admiral-o ¢ alegrar-me com a vista deste selvagem nu com 0 pittoresco cinto azul eo chapew rasgado no cabello. A gente acostuma-se a tudo, poucos dias depois ‘quando mais alguns indios tinham adquirido este adoro gragas a largueza do coronel Ernesto, 0 aspecto d'uma pessoa nua NG 0 chapéu na cabega nos parecta o mats natural do mundo. (1913: 66)" “Os indios tinham abandonado o igarapé € avangavam ia pouco expessa, limpa e baixa. Andavam depressa © sem descangar, muito alegres, emquanto eu, com um acesso le sez0e5 no corpo seguia com dificuldade, absorta em refle \ves ttm tanto melancélicas sobre esta travessta inerminavel’ (1913: 80; énfase adicional) jos so um pouco como os pissaros: interessantes pelos seus adomos coloridos, sua linguagem exética, merecem por catalogados, mas a sua perspectiva, 0 seu modo de estar ho mundo, é secundatio, j4 que provavelmente vao se integrar | civilizagao, ou desapareces. (Os tiltimos sete anos de sua vida Emilia 08 passou ligada ho Museu Nacional, mas nao abandonou as viagens. Foi & Huropa ainda uma vez € realizou inémeras excursdes pelo pelo Sul — indo até a Argentina — e quando Interior do pai 101 nue Sua linguagem ¢ sdbria e simples 08 seus médos so os mais Hhanos do mundo e nds, homens, que sabemox que a mulher de élite, ésta cuja copia era 0 desespero de Phidias ou de prepariva para uma expedigio pelo rio Made hotel na cidade de Porto Velho, em 1929. No Rio de Janeiro, jot sucesso académico foi a admissio na Academia seu ma Rodin, é uma constante eg6latea, tyranna da atiengao do seu Brasileira cle Ciencias, em 1926. © discurso de recepgio fol companbeiro terreno, vemos admirados 2 Doutora a perseguir feito por seu colega, © zodlogo Alipio de Miranda Ribeiro tenarmente a determinagao das avesinhas que a sua Flaubert também do Museu, mas s6 publicado dez anos depois.” Inexoravelmente abate para estudo; € que seus dedos dextros preparay dos Museus.? collega num minuto, par £ interessante 0 modo como Alipio escolhe abrir a apres sentagio de Emilia a seus pares: lembrando-se dla viagem que fez como integrante da Comissto Rondon, em 1909, evoca figura de uma tal Carmen, boliviana que fazia a guerra a Parintintim que tinham assassinado sua familia. E, concluindlo ‘a evocagi: “Por toda a parte para onde quer que o viandante rume em sua rota, elle ha de uma vez encontrar essas creaturay varonis que as mulheres, quando querem, sabem ser, implane tando espanto entre n6s outros — homens — e reduzindo. zéro a8 nossas mirabolantes quixotadas.” Em seguidi, Fememora seu encontro, no decorrer da mesma viagem, co! je mais curta do discurso é a que enumera, sem qualquer vallagdo, os artigos de Emilia, Nao ha dividas de que seu {qbalho foi importante — 0 reconhecimento dele até hoje m isso — e que essa foi a razao de sua admissto na 1, mas € também certo que sua presenca nas instituigoes ou modo a seus colega: filo 261 for acuso que o seu modo de vest ou seus cabelas sojim Uatados em primeiro plano pelos que sto chamados a falar sobre sua obra, ou que se combine, numa mesma frase 2 “senhorinha-Dra Emilia Snethlage”. O discurso todo oscil, jlusto a entao diretora do Museu Goeldi ¢ as prostitutas.”* entre esses dois aspectos que parecem ter mesmerizado Se o fato de ser estrangeira tornava aparentemente acei- orador: a mulher feminina ¢ a mulher varonil, As veze! vel sua atuagdo como cientista, poderia também ajudar a também sinénimo de feminista, Ora Emilia é apresentadd xplicar a sua estranheza como mulher: Alipio de Miranda ‘como exemplo da primeira imagem, ora da segunda, Conti Nbeio nao s6 recita nomes de cientistas estrangeiras como tle, citando Emilia: “A maior satisfagao que eu tive, disse-m@ parimetro do seu trabalho, como conta uma outra tirada pessoalmente, foi receber uma carta com o endereco At fle Hmilia em que sua nacionalidade , ou seria, o elemento SnrDr.Emilio Snetblage: isso convenceu-me de que havi explicativo. Admirando-se retoricamente de que ela viajasse feito trabalho de um homem,’ Por ahi se v@ o seu espirito pelo interior do pais armada apenas com uma espingarda vatonil” Mas, explicita, “nio'é 6 femialamo qué'a empolldll Vluubert, lembra que a um *sertanista polaco” que Ihe pergun- Citando a apoté-lo seu cabelo "& moda antiga’, “o chape lara pelos perigos a que estava exposta, ela respondera: “Isso severo das senhoras de edade” — ainda que com um “leve No pensamento para allemio!” vestigio de escolha de moga nas flores do chapeo” — @ Mas o discurso de Alipio vai mais além: quer conferir-lhe, seu vestudrio que “no deslumbra nas demasias do apuro", fom als os autores nos outros exemplos citados € como o Mesmo se *rejubila-se porque a tomaram por um homem. {yy o romancista Raimundo de Morais, uma suposta norm: gosta de pedir conselhos a Hellmayr, a Hartet € de ouvir-Ihe sludle esperada do sexo formoso e no cumprica por Emilia 0s veredictos, como gésta de ler Berlepsch ou Salvadori.” Em Oyu, se ela, além de cientista, era solteira, era diffeil deixar que ficamos? Simples: a “illustre compatriota de Goethe... ¢ ile evocar 0 espirito varonil para explicar Emilia — que é do traco de unitio entre o tradicionalismo prussiano ¢ 0 espirite {jue se tratava afinal, Daf, talvez, 0 Clitora snetblageae ser feminino moderno." sic uma homenagem que um acinte, Ou seria © contrario? Ainda que a satide como representante do “sexo formoso", 'm, entretanto, no exagerar na leitura das entreli- persiste a ambiguidade nos verbos € advérbios escolhidos indo Emilia foi encarregada da dire¢io do Museu para apresenté-la , Hwilio Goeldi, j4 nenhum cientista, homem ou mulher, podia 102 103 A ‘ocupar 0 posto porque o Museu, dando mostras da decadéncia Mas ha outra raz40 importante para lembré-la no contexto dos anos seguintes (Ducke referia-se a ele, com seu famoso «li hist6ria de nossa disciplina. Se ela exemplifica, no con- espitito mordaz, nao como Museu mas como mausoléu), jf junto de sua carreira, um padrao de trabalho cientifico que nfo contava com nenhum integeante da equipe cientifica ‘os naturalistas estabeleceram em sua passagem pelos museus montada por Goeldi, a nao ser ela e © proprio Ducke, que «lo pats, sugere, além disso, em certos trechos de seus textos, saiu de Belém em 1918, Oito anos mais jovem que Emilia, que a paixio pelo detalhe etnografico, tio marcante na Ducke era também jtinior em termos de titulaglo: numa época: untropologia (Lévi-Strauss, 1958), pode ser um outro legado em que a citacio de titulos era obrigat6ria, nao ha qualquer eles. O vasto conjunto de anotagdes sobre a flora e a fauna mengao ao seu doutorado. Sua atuacdo como diretora recebeu «lo pais, dispersas em museus e arquivos de todo o mundo, eriticas da cidade, além de ter sido perturbada pelas relagdes compe um tableau da obsessio do século 19 em catalogar Brasil/Alemanha, € certo, mas isso, provavelmente, porque. o mundo — mas expressa também, como os delicados exemplos ela ficou em Belém um pouco mais do que deveria, dada a cia iconografia que 0 acompanha, uma observaciio aguda dos situagio institucional do Museu. Prova disso é que o dirctor etalhes desse universo. Alguns trechos da prosa de Emilia, nomeado a seguir, em junho de 1921, foi o Dr. Antonio © de ‘ais do que suas aves empalhadas, que aos poucos perderam Almeida, *conceituado médico ¢ politico de tradicional familia \s cores originals, ajudam a compor uma iconografia, ainda que do Para". (Cunha, 1989: 94) Imagindria, de suas andangas pelo interior do pais. Emilia jé era, aquela altura, um elemento estranho_ na cidade, fosse por ser cientista ou uma mulher sem qualquer laco © perfodo de decadéncia dos museus, dos naturalistas & da ciéncia estrangeira estava comecando: a @afase nos anos seguintes seria na universidade, nos especialistas nas ciéncias exatas © humanas e na produgo nacional desses novos cientistas, Como naturalista, Emilia teve uma carreira em tudo semelhante a de varios de seus contemporineos — talvez um pouco mais bem-sucedicla, em termos de titulagao académica © publicacdes intemnacionais do que as de seus colegas no pais que escolheu para viver — mas, como eles, viajou, reco» Iheu material para os museus, nomeou a fauna brasileira publicou seus resultados de pesquisa. Em sua época, o cientista de campo por definigiio, o naturalista, era sinénimo de aventu- reiro e, jf qué o feminino dessa expressio € quase dlibio em nossa lingua, nio € de admirar que nossas passadas tenham tido de enfrentar essa dubied: dos pesados encargos que assumiam ao aventurar- pesquisa de campo. Antes de nos perguntarmos por que 0 trabalho de Emilia Snethlage sobre os Sipdia, anterior ao de Curt Nimuendaju, nfo foi traduzido ¢ 0 dele sim, convéin situd-lo no contexto da produgio da naturalista que, como omitdloga, nao foi esquecida 108 (5 INDIOS DO BRASIL ELEGANTE & A PROFESSORA LEOLINDA DALTRO Alguns escriprores tem mettido a ridiculo essa persistencia ‘da Sra, Daltro em apresentar seus indios em todas as Festas nacionaes, nds, porém, no vemos no caso a nota de ridiculo que lhe atsibuem. Ort a Sra. Daltro no nos presenta seus indios a maneira das selvas, dé-lhes roupa, ‘ealga-os com sapatos, p6e-Ihes chapéos. S20 indlos do Brasil ‘elegante. E por isso podiam apparecer a toda gente. Correia da Noite, 27 de dexembro, 1907 (0s indios retomam o seu lugar. O Brasil, segundo alguns jacobinos ferozes, naturalmente filhos de estrangeitos, pertence-thes de direito,(..) Sim, porque afinal de contas, © Brasil € das indios. E tanto © Brasil € dos indios, que, a0 ‘pensar em simbolizat © Brasil, logo os desenhistas pinta un jovem {ndio de casaca, claque alto ¢ tanga emplumada, (C.)) Como nunca tive a coragem civilisadora da professara| altro, 6 consigo aproximar-me dos authenticos roprietarios deste paiz.quando por c4 aparece alguma, ‘curavana de sujeltos de nariz esborrachado, a pedir 20 Papae Grande instrumentos agrarios. Essas caravans S20 ‘conduzidas por jesutas dedicados. Jodo do Rio, As impressées do Boraro | colinda de Figueiredo Daltro parece ter sido objeto favorito los cronistas de variedades da época em que atuou — final do século 20 — e a t6nica geral das re de chacots para com a sua dedicagio Ironias que parecem ter atingido sua «a luta pelo voto feminino: D, Leolinda acabs de se apresentar candidato a incendente da cidade do Rio de Janeiro. Nada teria a opor, se nio me pare- cesse que cla se enganava. Nao era do Rio de Janeizo que cla devia ser intendente; era de alguma aldeia de indios, A minha cidade de ha muito deixou de ser taba; ¢ eu, apesar de tudo, ino sou selvagem.! Sobre sua fase feminista hé informagdes esparsas, mas que nunca a relacionam com a primeira, a fase “indigenista’. Fundadora do Partido Republicano Feminino em 1910, organizou, em 1917, luma passeata de 84 mulheres no Rio de Janeiro, Dois anos depois comparece 20 Congreso, acompanhada por um grupo grande de mulheres para assistir 8 votagto de um projeto que pretendia conceder 0 voto 2 mulher, exercendo pela primeira vez 0 mesmo tipo de pressio politica que seria depois adotado pelo movimento sufragista.? Esta atuagdo é mencionada também por June E. Hahner: Bla clamaya pela “emancipagao das mulheres brasileieas” ein termos gerais, defendendo especificamente que os cargos pablicos fossem abertos a todos os brasileitos, independente- mente de sexo. A necessidade econdmica ¢ os direitos da mulher combinaram-se ao patriotismo da classe média e & politica nacional para dar origem a um partido ligado a familia do presidente Hermes da Fonseca. Sua primeira esposa, Orsina da Fonseca, foi a presidenta honoriria do partido. (..) Leolinda dde Figueiredo Daliro ajudou a eriar a Linha de iro Feminino Orsina da Fonseca? Outros dados biogrificos aparecem, de passagem, nos documentos que ela mesma compilou sobre sua luta em prol dos indios: ficamos sabendo que ela vinha da Bahia, era “professora municipal da primeira escola do sexo masculino da Barra da Gavea”, quando comegou a se interessar pelos indios, em 1896, provavelmente estava separada do marido, € era mae de cinco filhos, um jé adulto, que a acompanhou ‘na viagem ao Brasil Central, e de doi sa de muita discussio & epoca de sua partida, A Iustragao Brast- leira, de 1935, publicou a noticia de sua morte num desastre de automével, imaginando “sua felicidade em morter apés to ver vitoriosa a Tuta pela emancipagao politica da mulher.” (Pundagao Carlos Chagas) A vit6ria conseguida com a lei cleitoral de 1932 foi precaria: de 1937 até 1945 todos os cida- laos brasileiros estariam impedidos de votar, mulheres inclufdas. Embora os seus indios, como ela os chamava e cujos votos a descoberto ja registrava em 1906, talvez tenham sido os primeiros dentre eles a exercer esse direito na socie- dade brasileira, E sobre a primeira fase de suas lutas politicas que quero ie deter aqui, sobre sua missio de “catechista leiga’, como cla se autodefinia para distinguir-se das virias missdes observando um curioso efeito das modas politicas. Resgatada como feminista na década de 70, ela poderia hoje sé-lo como indigenista.* Sua hist6ria, entretanto, conta um pouco mais «lo que qualquer dos dois rotulos, sugerindo nao s6 que foi | partir de sua atuagio junto aos indios que Leolinda aprendeu | lutar por uma causa que a interessava diretamente, mas Jumbém que ha muito tempo os préprios indios procuravam organizar-se € obter representagio politica, ainda que de modo enviesado. Se sobre sua atuagio como feminista os leqistros s20 indiretos, Leolinda publicou uma colecio de documentos que registram seu trabalho com os indios.* Misto dle dlbum de viagem, de recortes e coletinea de documentos oiciais, © grosso volume se intitula Da cathechese dos indi- os no Brasil (noticias e documentos para a histéria), 1896- 1911 (yp. da Escola Orsina da Fonseca: Rio de Janeiro, 1920) © parece ser, além de testemunho das dificuldades enfrenta- «is por uma mulher que se dispusesse, na época, a percorrer © sentao brasileiro € também o registro do que talvez tenha ivlo a primeira tentativa de fundar uma associagao civil em uvor dos indios do pats. © livro esta organizado em duas partes: “Noticias ¢ docu- inentos’, sobre sua viagem ao Brasil Central, e “A minha co pelos autéchtones na Capital Federal”, sobre seu luahalho com os indios que chegavam ao Rio de Janeiro, \Iquns desgarrados, outros, segundo ela, para leva-la de volt as tribos que visitara. Af € que estd registrada sua iniciativa em fundar uma associagao que recebeu varios homes € teve trés sessdes inaugurais, para escapar ao dominio dos *clericaes” arte, composta pela 109 justaposigao de recortes de jornais e documentos, a palavra da prépria Leolinda 86 aparece numa “explicagao neces- siria", que faz as vezes de preficio e onde ela lembra os “ridiculos" de que foi vitima ao voltar de sua expedigio; numa sucinta peticao sobre um roubo que teria softido, ja ‘em Goitis, ¢ num agradecimento ao jornal A Platéia, de Si0 Paulo, pelo apoio dado a sua viagem. Nao ha, de parte dela, nenhuma palavra sobre a atuagio dos indios; estes € que aparecem assinando um documento registado em cant6rio, Em contraste, hi dezenas de “abaixo-assignados" (um jorna~ lista estabeleceu seu nimero em 372) de homens e mulheres de todos os lugares por onde passou, atestando a sua honradez, civismo, denodo e, até, “virilidade", ¢ também muitas cartas no mesmo sentido: de juizes, promotores, inten dentes e demais figuras publicas das pequenas cidades que atravessava, incluindo um elogio escrito de Gindido Mariano Rondon Seria possivel refazer o seu caminho seguindo as cartas ¢ depoimentos ¢ até reconstituir as redes politicas que a iam acompanhando, jé que stio comuns cartas — todas com nome, sobrenome e cargo dos signatirios — do tipo: Carissimo primo Mathias (..) venho recommendar essa Exina Senhora ¢ seu dligno filho, pedindo-vos que, conjuntamente com 0 José, vosso fillio, com o patlrinho, vosso genro e mais parentes prestem a ella todo 0 apoio de que careca, certas de que eu © clla saberemos reconhecer, acrescentando que, se porventura fizer ahi qualquer despeza insoluvel, eu me responsabilisarei pela respectiva importancia qualquer que ella seja Para o leitor de hoje, jé desacostumado da leitura de Perez Escrich, € preciso refazer varias vezes a leitura, até atinar com ‘9 sentido, ou 0 contexto, de seus personagens e do enredo, j@ que o modo da narrativa nao é nem linear nem cronolégico ¢, frequentemente, sabemos do desfecho de uma crise antes de sermos informados do seu desenrolar que, no mais das veres, esté apenas implicito nos documentos. Tr it uta, disso nao resta diivida, entre interesses locais acostumados a exploragio do trabalho indigena e uma representante da clvilizagao que, surpreendentemente, encontra apoio de boa parte da sociedade civil regional. aa Na segunda parte do livro, a narrativa toma um rumo mais dlomesticado: h4 Fotografias de Leolinda com os indios a quem ensinava a ler, escrever € votar, ou bordar; outras tantas reportagens sobre seu apoio aos indios que foram ao Rio buscar a sua Oacy-Zauré (Estrela D’Alva, segundo ela), sobre recepgoes festivas de que participaram juntos, mas prin- cipalmente, sobre as varias tentativas de estabelecer @ Associacio dle Proteccdo e Auxilio aos Selvicolas do Brasil, Gltimo nome pelo qual foi designada a sociedade, em 1910 — também o ino da fundago do Servigo de Protecio aos indios ¢ logo \p6s a professora ter mudado de objeto politico. Ai, também, Leolinda fala mais vezes: numa manifestagio “Ao péblico”, hum protesto contra a opiniio de von Ihering, numa entre- vista, em alguns requerimentos sobre sua aposentadoria uma meméria apresentada ao Primeiro Congresso de Geografia, cm 1909. $20 mencionados também varios discursos, feitos por ela e por “seus indios” em solenidades pablicas (a chegada de Rondon ao Rio, 0 15 de novembre etc.). Na leitura que se segue de seu extenso material tento com- preender duas transformagoes: a transigao individual da profes- sora de sertanista a sufragista ¢ a de seus indios de perso- hagens centrais a objetos secundarios de sua préptia histéri UMA VISITA INTERESSANTISSIMA A O PAIZ Chegados 20 Rio de Janeiro, no inicio de julho de 1896, com a missio de pedir 20 presidente da Reptblica “fazendas, orramentas, armas, etc.", e também apoio para a sua obra de civilizagio, einco indios fazem uma visita ao jomal O Patz — que a qualifica com 0 adjetivo usado acima. Eles sito assim \leseritos pelo jornalista: Sepé, ‘chefe hereditario da tribu dos Cherentes, de Goyaz, € hoje transformado pela civilizagao em Capitio Joaquim Sepé Brasil, chefe da Aldeia Providéncia, 1 Piabanha, & margem do rio Tocantins” e “quatro conterra- Domingos, “outr'ora Debaquer6”, Sebastito, “outr’ora Dubenharim’, Marcellino, ‘outrora Decapsicua” e Bernardo, outr'ora Cumennaneé", Sepé, ‘que fala muito regularmente © portuguez, tem excellentes maneiras, levando mesmo em deza € trato, a certos individuos civilisados Eu fago 0 que posso... vou buscar bugre no matto, com geite lrago elle para o aldeiamento, trato elle bem, elle depois vae_ ccontar a outros © outros vem. Mas eu nao sei nada, no sel cescrever, no posso ensinar os pequenos que vlo nascendo, ‘me d6e 0 coragio de ver tanta gente sem ser aproveitada, Se na primeira cena a iniciativa é dos indios seja em sair do sertio, modo genérico como se designa seu local de origem, seja nos objetivos muito claros que desejam atingir com sua igem, Ou na visita a um jornal, para expressi-los publica: mente, na cena seguinte a situacio comega a se inverter. A reportagem visita “os pobres indios Cherentes” no depésito de presos onde foram “hospedados pelo chefe de policia da capital, doutor André Cavalcanti”. O jornal faz um apelo ao “humanitario ¢ cavalheiro” chefe de policia, no sen= tido de ordenar “a sua remocio para outro lugar mais digno, senio delles, ao menos de és". O repérter volta dias depois € tem 0 desgosto de encontrar a todos “no mesmo sitio repe> lente, vestindo as mesmas roupas com que haviam chegado a esta capital”, E fica sabendo que 0 Dr. Noemio da Silveira, delegado de policia da primeira circunscripgao, “meteu o Sepé num frack marron, poz-lhe na cabega uma cartolla ¢ ao peito uma flor ¢ foi com ele ao theatro-Recreio Dramatico — isto 6, foi puramente expol-o ao ridiculo”. Os outros, vendo-se 6s, fugiram, para a tristeza de Sepé, jf comegando a desacreditar da missio que empreendera ha seis meses. © jornal expos em seu sakio uma foto de todos eles. Os indios visitam o pafs, € 0 pais visita os indios: a situacto se complica com aventuras paralelas. Um dos indios, doente, foi internado no Hospital de Misericsrdia. Outro, perdendo-se 40 tentar voltar para Gols, fol encontrado e recolhido pela policia, Bles acabaram por receber roupas decentes foram apresentados a Prucente de Morais, mas, depois da entrevista, voltaram para a delegacia. A generosa © patribtica mocidade da Escola Militar & que nao consentiu em que por mais tempo continuasse semelhante vergonha. Obtida a necesséria licenea, os alumnos se ditigirasn a0 Dr, André Cavalcanti e pediram-lhe para levar paca 0 edie ficio da Escola os tres selvicolas, no que foram promptamente attendidos, 22 (Os estudantes os levaram a passear de barco, € os indios, encantados com as 4guas do mar, tornaram-se “gérrulos communicativos, precipitando uns attaz. dos outros 08 vocd- bulos interjectivos do seu dialecto particular. Nem 0 Sepé linha tempo de traduzir 0 que elles diziam porque era um Kuna de exclamagdes e uma cachoeira de perguntas como as que faria um cego que de repente visse a luz.” Por ordem do presidente da Repdblica, seu auxiliar Vicente Neiva ouviu as reivindicagdes dos indios, mas, alegando “falta de vetbas", 0 govemo nada thes concedeu. Entrementes, as desventuras dos indios comoveram “a alma uencrosa € meiga de distinta professora fluminense’, dona leolinda Daltro, que se ofereceu para dar-lhes instrugio em Goids, desde que 0 governo mantivesse seu lugar de profes- sort, pagasse seus vencimentos ¢ internasse dois filhos menores no Colégio Militar. A seus olhos de mulher de instrucgo, espirito aberto para a phantasia pelas leituras romanescas de viagens sertancjas por longes terras; a historia da bella abnegacao de Sepé © seus ‘companbeiros atravessando fronteiras ¢ rios para virem 2 capital lo Brasil em busca da civilisacao de sua tibu; a hist6ria des- ses sympathicos indios, a orgainisicao exemplar de sua aldeia; 1 dogura dos seus costumes verdadeiramente admiraveis, tudo, lomou 0 caracter de uma seduccio itresistivel. \ professora entregou seu requerimento ao presidente da epublica que, por falta de verbas, 0 indeferiu. Obtendo uma licenga para tratamento de satide,’ a professora parte para uulo combinando encontrar Sepé e seus companheiros om. Uberabsa. Chegando a Sao Paulo, em outubro do mesmo ano, “com esting tos longinquos sertdes de Goyaz", como dizia O Paiz, ou visinhas paragens goyanas” como registrava O Commercio le Sao Paulo, que mio se furtava A ironia de relembrar “a odisGit do velho Sepé e de seus companheiros, através da rua lo Ouvidor e dos primores da civilisagao fluminense”, a profes- sont reeebe em seguida a oferta de cem mil réis da doutora N notte (“uma amiga da instrugio, isto é, do povo") comprometia a contribuir mensalmente com quarenta mil réis, caso 0 governo nao mantivesse os seus xa vencimentos.* Esta oferta, que abre a lista de subscripgdes de A Platéa, © a carta seguinte, de Horace M. Lane, enviando outras contribuicoes, em seu nome € no da Escola Americana, parecem, ambas, ferir os brios do redator do jornal. *O govemno nada fez € 0 povo brasileiro, para quem appellou dona Leolinda Daltro ainda nao foi capaz de Ihe enviar 0 minimo auxilio. Parece incrivel, mas € verdade, o que tem recebido a abnegada senhora sao donativos de estrangeiros domiciliados entre nés!”, diz Benjamin Mota no jornal. E conclui com um apelo: “Oh! Ide todos, ricos € pobres, & redacgio d'A Platéa levar um obulo para os xerens!” Aos poucos, os repetidos apelos surtem efeito © se multi- plicam as listas de doagées, em dinheiro e materiais julgados pertinentes 4 “delicada e arrojada misso de educar os indios": enciclopédias, talheres, bancleiras do pais, sementes ¢ até de um fomecedor das escolas pablicas “a pequena offerta de ez bonets escolares, uma maleta para viagem © uma corneta”? Varios nomes passiveis de reconhecimento hist6rico assinam dai em diante as listas: Cerqueira Cesar, Ramos de Azevedo, Martinho Prado, Elias Fausto, Caio Prado, além de criangas (@ menina Leontina Cardin) e artistas (a “prodigiosa creanga Antonietta Rudge ird executar ao piano algumas pegas de seu fepert6rio” junto com outros artistas liticos € maestros da cena musical paulistana). Mas 0 admirador mais entusiasta da missio da professora € 0 diretor do Colégio Mackenzie, ou Escola Americana, Horace Lane," Desde sua primeira contribui¢io, em dinheiro © material escolar, além da promessa de uma mensalidade para manutengio de Leolinda, Lane demonstra entusiasmo pelo seu empreendimento: s primeiros © mais benéficos movimentos em prol da civilisacko ddos indios Norte Americanos foram de iniciativa particular, A civilisagdo da grande tribu dos Chvitows foi devida, quasi exclusivamente, aos esforcos © a dedicagao de uma senhora, que passou vinte annos da sua vida no meio deles e gastou uma fortuna considerivel. Foi ainda uma senhora que abri primeira escola enire os Dakotas, e que ainda reside entre elles, contribuindo grandemente para'a sua civilisagao. iniciar: ela estava em Silo Paulo no fazia um més, e ele ja se comunicara com Couto de Magalhies ¢ Otaviano Esselin, pedindo sugest6es sobre o melhor itinerério a seguir € 05 ros da viagem, alertando-a também para nao esperar 0 \empo das chuvas (dezembro a fevereiro) para iniciar sua viagem pela regio." Em novembro, Lane informa-a de que o senador Bulhdes estava em Uberaba ¢ poderia auxilid-la a seguir viagem; na mesma carta ele a aconselha a nao falar sobre o insucesso no Rio nem sobre a indiferenga do governo, ja que isso poderia indispor pessoas que alids podem ajudar”, ¢ a pedir um novo \poio: “O Sr. Dr. Eduardo Prado, redactor do Commercio ¢ niembro da importante e rica familia Prado, deve poder auxiliar. Nada se perde em dar-lhe oportunidade.”* Ainda em novembro, cle a adverte de que ‘quanto mais tempo se demorar aqui, quanto mais difficil se tornari a viagem’, aconselhando-a a partir “o mais breve possivel’, dizendo-Ihe que conseguira luas cartas de Capistrano de Abreu “para altas personagens la capital de Goyaz” ¢ que, se 0s fundos obtidos com a cam- panha dos jornais nao fossem suficientes, ele nio duvidava ‘em poder obtel-os da grande associago protectora dos indios «la outra América”. Invocando ainda a possibilidade de essa Assockagao educar seus filhos menores, ele Ihe escreve na vespera do natal, dizendo que, se 0 que a prendia em S20 Paulo era “o cuidado pela sorte de seus filhos, declaro que estou disposto a recebel-os na Escola Americana, que dirijo, hay mesmas condigdes em que estio no Collegio Universitario slo Rio de Janeiro”. E observa que, com o dinheiro que est cm seu poder, vai “comprar-lhe uma pequena pharmacia homeophatica € um realejo, para distrahir € divertir os Indios, © ver se consigo uma machina photographica” leolinda aceitou a oferta em relagio a seus filhos, 0 que € slemonstrado por uma carta deles, de maio de 1897, onde Contam de suas saudades da antiga escola e da ma © Dr. Horace Lane nos anima muito, dizendo que € para nosso bem © que a senhora esti fazendo; que 0 seu nome hi de pasar coberto de flores pars a hist6ria do Brasil. Que se fora hos Estados Unidos © povo a collocaria nas alturas! Mas, que tlle est certo de que 0 governo Ihe hi de recompensat. Diz tlle que & um passeio que a senhora vai dar, que & perio & ada Ihe acontece, Penso que elle esti nos enganande, Se Lane foi um grande estimulo para que Leolinda final- mente partisse para os sertées, havia vozes que Ihe sugeriam voltar atrés, nas cartas reproduzidas em seu livro: Affonso Arinos, Veridiana Prado e Almeida Nogueira Ihe escreveram. prometendo seu apoio caso ela desistisse de sua empreitada, Affonso Arinos, escrevendo em janeiro de 1897, diz que ‘© doutor Eduardo Prado recommendou-me perguntar-the novamente se no esti ainda arrependida do seu acto de Joucura (como elle o appellida). Caso V. Ex. queira volar para ‘© seu lar, no Rio de Janeiro, pode contar com o seu apoio part repol-a cm scu logar com todas as commodidades que perdeu, pelo esphacelamento de sua casa, propondo-se ainda a resti- tuir aos subscriptores, dos quaes V. Ex. recebeu, até agora, ninharia de dois contos & pouco. Dizendo-lhe ainda que o Dr. Garcia Redondo punha disposic2o dela a sua pena — “pena de ouro!” — para rebater as criticas que ela recebesse, ¢ que o Dr. Jodo Mendes tomaria a si a educagio de seus filhos, conclui afirmando que ela nada teria a temer, assim amparada, “visto que seria apenas retomar © caminho da felicidade que V. Ex., estoicamente, pretende abandonar”. E encaminha uma carta de Veridiana Prado, no mesmo sentido, Diz dona Veridiana: Pessoas que assistiram, na gare da Bstaglo, a tocante scena de despedida da senhora e seus filhos, disseram-me também qu ‘no auge da dor a senhora se confessara arrependida de haver ‘emprehendido essa temeraria viagem. Si é certo isso, esta ainda ‘em tempo de retroceder; para isso offereco-the, pela terceira vez, a quantia de 10:000$ para a senhora voltar para a sua ‘escola e sua casa no Rio de Janeiro © concluir a creacio de seus filhinhos, Ela diz ainda que seus filhos também estio dispostos ajudii-la € que o Dr. Joo Mendes, “penalisadissimo”, mandav uma pessoa de confianca aconselhd-ta, “pois julga um verda- deiro crime o encorajamento da imprensa, quer do Rio, quer daqui, a qual podia, nao applaudindo esse suicidio, (como elle considera o seu acto) fazel-a desistir de tal proposito”. E admira-se, sendo Leolinda parente do bispo D. Antonio de Macedo Costa, com o fato de que ela tenha internado seus filhos num colégio protestante: Si, porém, a senhora no quizer desistir do seu temerario intento, reitero a proposta que Ihe fiz de ajudal-a, com a con- digo de acceitar 2 companhia de um santo sacerdote que se presta a acompanhala e ser 0 seu guia espiritual. Neste caso, tenha enti a bondade de mandar-me uma autorisagao com firma reconhecida por tabellito, para me encarregar da educacio, de seus filhos que internarei em um collegio, catholico, como por exemplo, 0 Seminario."” A carta seguinte, nesta série de tentativas de faz@-la de: le sua viagem, é de Almeida Nogueira, datada de maio de 1897, na qual ele diz que tinha sabido que as razdes de Loolinda para continuar eram os receios de ser chamada dle ‘exploradora” ou forjadora de blagues pela imprensa cavioca, e que isso tudo jf tinha sido previsto pelos seus amigos (Jodo Mendes, Eduardo Prado, Paulo Reis, Garcia Redondo cle proprio). © Presidente do Estado, Dr. Campos Salles, mostrou-me uma ‘carla do Quintin, na qual pedia fazer cessar a animagio da imprensa daqui, como elle fizera calar 2 do Rio, para nao ‘encorajal-a. Disse-me mais © Dr. Campos Salles que nao a ajudou para servir ao Quintino, pois julga que a senhora, sem animacao © sem recursos, voltari de Uberaba. Acho que elles tem raza0 fe que a senhora deve voltar. Repetindo Veridiana, diz que Joo Mendes, ao ler suas inemorias e sua fé de oficio escolar ficou tao penalizado que, 1 terminas, tinha os olhos marejados de lagrimas, e conclui: Volte, D. Leolindal por amor de seus filhos, volte! A senhora no attendeu & sua paixio, ao seu enthusiasmo, esquecen- dose da sorte de seus filhos, inclusive 0 Sr. Alfredo que, part acompanhal-a, corta a sua carreira nos Correios."* Pen- w melhor ¢ responda-me, ou venha embora com o Dr. Paula leis, que vae buscal-a.” Leolinda ndo voltou, mas, jé em Uberaba, deve ter perce- hido que a missto que se propunha ia ser dificil. Uma sua Magdalena de Noronha, escrevendo-lhe do Rio “lavad om lagrimas’, € criticando: filhos num colégio protestante, diz-Ihe que soube pelo s Quintina “das perseguigbes que os frades de Ube vam movendo”. O senador, também pela colocagio de seus 10 mesmo tempo q) com isto, ja que "a forga das perseguigdes, talvez fizesse com que vocé voltasse do caminho", mandou retirar de cartaz uma peca teatral em que Leolinda aparecia “vestida de pennas, dangando e fallando asneiras com os indios’, num “ridiculo medonho”. Em abril, escrevendo uma carta de agradecimen- to A redagao de A Platéa, Leolinda conta que estivera no Rio para receber seus vencimentos, jf que tivera que vender suas Gltimas j6tas para pagar dividas que encontrara ao chegar em Uberaba — “extraordinarias contas de pastagens” de “quatro animaes imprestaveis”. Além de prestar contas das despesas que fizera com 0 dinheiro recebido pela subscricto do jornal, agradece nominalmente a alguns membros da “nobre sociedade da paulicéia” e, dizendo-se decidida a “continuar a missio a que me impuz de ‘catechista leiga’ dos indios cherentes", retoma a viagem, “que agora farei definitivamente”. Lentamente, nos noticidrios da imprensa ¢, provavelmente, na Visio de seus interlocutores, a professora Leolinda se subs- {HiUFAos Indios, que passam para o fundo da cena: ela é quem : exposta ao ridiculo, ela € quem recebe favores ou desfeitas © €, ainda, alvo de disputas (nacionais versus estrangeiros, ‘nonaiquistas Verne Tepublicanos, catélicos vermus protlll tantes) que terio seus desdobramentos no sertio. Dos indios, a partir dai, pouco se fala. Eles voltario ao primeiro plano, entretanto, tio logo Leolinda chegue a Minas Gerais, INDIOS SO SE AMANSAM A TIROS Ao lado de acrésticos, cartas de apresentacao a personalis dades locais € palavras elogiosas & “intimerata professor” pelo seu “exemplo sublime de devotamento”, o livro de Leolinda traz também alguns sinais inquietantes do pens: mento de certos moradores de Uberaba: “Indios nao se amansam, Quisera amansal-os a tiros!”, diz. uma carta, “Estou de acordo", diz outra e, ainda outra: "Indios » a tiros.” Um senhor Arthur Lobo chega mesm hipotese de ser 0 caso de Leolinda “uma das muitas modalidades do hys terismo ou da loucura!” Outras cartas, ao lado de exemplos do que se esperava da Viagem de Leolinda desde a sua cidade (*nao se esqueca da pelle de onga pintada”), vao registrando, em pequenos Nagrantes, 0 roteiro dos dissabores pelos quais ela passou. Aparentemente, depois de pagar as montarias com suas j6ias, Lolinda foi acusada de roubé-las do pasto, € sua prisio s6 foi suspensa — no meio de uma gritaria publica frente a seu hotel, em que o povo a vaiava ¢ a chamava de ladra — gragas ) intervengao de alguns caixeiros viajantes. Um desses € que ussina uma carta de apoio a ela, e na qual conta os apodos que vinha recebendo: “hereje, judia errante, mulher do diabo, litha de Satanaz, excomungada, louca evadida do hospicio, pé de pato, capa verde”. Essas perseguicées sfio atribuidas, om virias cartas, ao bardo de Saramenha e aos “despeitados do convento”. De Uberaba, Leolinda foi para Araguari onde a esperava uma carta de Felicissimo do Espirito Santo, advertindo-a de \vina cilada preparada pelo “Convento” e dizendo-lhe que fora (er com © bispo, Dom Duarte. “O Bispo garantiu-me, sob a nuit palavra de honra, que era mentira, que pelo contratio, Ilo 86 05 frades do ‘convento’ de Uberaba como os de Goyaz lento devéras admirados de sua santa abnegagio ¢ dispostos \ protejel-a no que thes for possivel, caso 2 senhora nio seja protestante (como dizem por ahi).” E termina: “Cuidado, D. Lwolinda, cuidado... (.0 Jé soffreu bastante entre os ‘civilisados’ © por isso, pode avalliar os horrores que tera de passar entre selviugens.” A carta d4 conta também da chegada de um retrato Sepé ¢ a comitiva (aparentemente composta apenas \le seu filho Alfredo, de 21 anos, e do “pretinho Ezequiel”) ¢ tle uni telegrama de Quintino Bocaiuva: “De Goyaz volte. Concelho nae prorroga licenga.” 10 voltou, € as cartas seguintes vao assinalando \ 9st (ajet6ria a caminho do serio: sto de Morrinhos (Golis), Alemao (Gols), Goya, Santa Maria do Araguaya, Vill Pedro Affonso e, Finalmente, em maio de 1898, de Sao Sehastito de Piabanha, distrito da cidade de Porto Nacional. ‘Al, uma comitiva de cerca de dezoito *indios geaduados” (citidos pelas patentes do Exército, seguidas de seu nome brasileiro © do nome indio), “acompanhados do numero de fem a duzentos indios de suas respectivas aldeias”, pede ao juiz local para lavrar um termo de declaragao em que mani festam seu desejo de ter a Leolinda como sua diretora porque esta “durante 0 tempo em que as suas aldeias percorre, dispensou-lhes caridade, cuidados e desvellos, tratando-os em suas mollestias ¢ ensinando-os a conhecer a civilisacao", A partir daf, depois de ter enfrentado a m4 vontade de chefes politicos locais, 0 preconceito e a falta de dinheiro (sao varias as cartas em que seus protetores registram que 86 seu ideal ou as recomendagdes que trazia nao bastavam pari sustentar sua missio), Leolinda comega a ser incomoda pari um outro personagem: 0 diretor dos indios. Uma carta des- creve 0 diretor que ela pretendia — ou pretendiam os indios — substituir: *O actual ‘Director dos Indios Cherente’ ] 32 annos fixou sua esplendida residencia na povoagio de Piabanha e ahi vive a cuidar de seus interesses sem nunca (ef pisado em uma aldefa nem a0 menos baptisado um s6 indo,” ‘A presenga, reiterada a partir dai, desse personagem nas carta € avisos dos que a admiram, sinaliza que ele € 0 novo inimigo, Uma carta, assinada por um fazendeiro ¢ um juiz, que acon: selham Leolinda a fugir “das balas traicociras dos filhos bastardos da grande Mae Patria”, registra a visto deles sobre 08 diretores de indios. Os directores brigadeitos, nds conhecemos em suas casts, eM suas cldades, cheios de afazeres, tratando de seus interesses de familia, de outros empregos remunerados, de seus negocios ccommercies, da alta politica, atarefados com as eleicdes © 9 rnessas horas Thes perguntassem quantos eleitores tendes dene (08 indios, elles aborrecidos vos diriam, nem conheco esse brutos, de indios quero o socego e a distancia, dlr-the-E1 eu = © 0 gordo ordenado? Outro juiz anota © iminente fracasso da vingem: “Se nly fosse burlado o vosso designio pela séde de ouro do director desses desherdados brasileiros (..0.” B Manoel Bezerra Brasil que se assina “coronel, fazendeiro e chefe politico” de Palla e se declara seu admirador, escreve que antevia 0 insucesso da vossa primeira ¢ arriscada tentatlviy attendendo smente ao intiulado director desses infelizes, qual occulta-Thes, por conveniencia, a verdade, fazendo-08 ef somente que ha Deus e que esse Deus € representado na terra ra pessba dos frades e que, portanto, sem o auxilio (carissimo) destes ninguém sera feliz, ¢ logo que, como devieis disseste- hes, a0 contratio, que para ser feliz bastaria somente cultivar (seu espfrito ¢ fazer bem na terra. Com isto € com 0 exemplo, offendeste ao dito Director e dahi a guerra infrene que tereis, de soffrer, ¢ infelizmente, realizou-se a minha previsto. © registro de um ‘agente de correio®, também de Palma, homeia 0 diretor: "Nao concluiste, € verdade, a grande obra que encestastes, devido a0 actual Director desses infelizes Indios, Frei Antonio de Ganges que oppoz tenaz barreira a0 \vosso proveitoso trabalho (...)." Sobre este frade, diz 0 reverendo William Kook, frequen- ludor assiduo do volume de documentos de Leolinda: “Chamou- me de ‘besta’, ‘mentiroso’ e ‘ministro do inferno’ (... Mandou-me semear mais semente no seu campo, ou, s€ continuasse, de morrer. Ora, qual é a semente que pode prejudicar este pantano pestifero? Porque nao deixar-me deitar um poucosinho de desinfectante? E termina conclamando eolinda a ler 0 Novo Testamento. Parece que a professora enirara numa batalha sobre a qual tinha escassas informa- (oes e nenhum controle: © embate verbal, travado sobre sua expedigao no Rio e em Sie Paulo, comeca a ser substituide por ameagas muito concretas por parte dos representantes los viirios interesses em luta na politica local. A partir de julho de 1898, data dessas tiltimas cartas, parece ue Leolinda andou pelos sertdes sozinha: “ella seguio com weit duzia de cherentes e voltou desacompanhada’, diz um unigo de Goigs, em outubro, € as cartas seguintes sito de Curolina, fronteira de Golds com 0 Maranhio, e de Conceigaio slo Araguaia, fronteira de Goiés com o Pari. Seu filho Ihe escreve de Belém, em maio de 1899, afirmando desconhecer nou paradeizo, dizendo que ia ao Rio € a Sao Paulo “comprar unt grande quantidade de objectos para os indios, com os suaes se pode fazer grandes negocios aqui”. Pede também 2 ine para comecar a juntar objetos dos indios. Fim margo deste ano, um grupo de “paes € maes de familia jesidentes em Santa Leopoldina do Araguaya” atestam que Leolinda ra por li com destino ao aldeamento dos Xerente, “portando-se como sempre, com honra, distingao © dignidade”. Uma carta de novembro, assinada por Francisco Coelho Guimaraes, respondendo a recomendagao de um amigo, dé contas da situagao de Leolinda nesses meses: Faz pena, meu amigo, o ver essa mulher tio bonita, tlo moga e ‘fo maltratada, rodeada de mil perigos em meio de um deserto, acompanhada por um pretinho, seu ex-escravo, um camarada {que voce conhece, o Joaquim Rodrigues, estafeu?, tres indios cherentes, um indio carajf, levando como unica bagagem um. unico animal, umas panellas, uns farrapos de redes com que se cobrem no caminho, e uma caixa inseparavel, onde leva os apetrechas para fazer flores nos povoados por onde passa. Dizendo-se pasmo de ver como uma mulher sem armas, “moga ainda, bonita a valet, capaz de apaixonar meia duzia de uma s6 vez, se atreve a atravessar estes inhéspitos sertdes, semi-nua, pois que o vestido de brim grosso, que mal lhe cobre 0 corpo, ja esta em farrapos, pés inchados ¢ sangrados pelas pedras do caminho", registra também os planos da professora: Disve-me ella que se encaminhava para o Muquem para ver se vyvendia algumas flores de papel para com 0 producto comprar sal, rapadora e café, do que nto podia se privar e assim poder fazer uma excursio s aldeias dos indios caraés que jf a espe Favam, 05 quaes jf tinham mandado dois emissarios buscal-a, mas que 0s cherentes se opuseram € quiseram matal-os, Pretende ella fazer as pazes dessas duas tribus e reunil-as em uum local fé por ella escolhido, junto a uma mina de ferro, ‘onde pretende, com 0 auxilio do Governo de Goyaz, exploral-la ce abrir uma officina de ferreiso para fabricar toda a ferramenta necessaria 10s indios, abrindo ahi também uma escola, Em vez de obter a paz, entretanto, Leolinda regressaria da aldeia dos Xerente, no ano seguinte, de tal modo horrorisada com as traigdes de Frei Antonio de Ganges, que foi preciso arrancar com uma thesoura os denies que tinha chumbados a ouro, pois que este & o signal porque € conhecida aqui no sertao; mudar de nome e dos trajes que costuimava usat, para assim poder illudir os dois que Ihe seguiam os passos e a esperivam, dos ios Maranhao e Peixe, Essa era a mesma aldeia em que 0s indios a tinham escolhido como sua diretora; era também a aldeia chefiada por Sepé, seu amigo. Outro abaixo-assinado reitera os horrores descritos no citado acima e explica que o diretor dos indios da aldeia ue, jesuiticamente e em publico, aclamava-2 por mulher de bem, sabia € santa, © que surrateiramente mandava os indios ataca- rem-na e ultrajarem-na, incutindo-Thes nos espiritos incultos que Dona Leolinda er 0 anti-christo, por isso que trazia 0 signal de que fallavam as escripturas (dente de ouro), que era democrata, portanto, do panido do diabo, e que vinha reduzil-os a0 captiveiro. Apesar de ter sido atacada por “34 indios armados, dispos- tos a lhe tirarem a vida, segundo confessaram elles préprios”, \ professora, juntamente com Sepé, escapara com o auxilio de um grupo de baianos capitaneados por um cearense." Acompanhada por varias cartas de recomendagio de figuras importantes da regio, que também se expéem para protegé-la ("E commigo que se tem de haver qualquer individuo que luca qualquer offensa a essa Senhora que protegerei a medida \le minhas forgas."), Leolinda vai se retirando do sertao, quase ansformada numa figura lendaria, © tom dos abaixo-assi- nados € das cartas cada vez mais se parece, no final da primeira parte do volume, ao enredo de um folheto de cordel: \o mal, representado pelo frei Ganges, ¢ pelos indios que Conseguira seduzir, se opde 0 bem que a professora repre- wnat, apotada por uns poucos indios fiis, pelos anticlericais chiefes politicos do sertao e, até, por um pasado mitico (Ella, \ digna filha da Bahia, a descendente de Paraguassu. Os elogios" e as recomendagSes para sua reintegragio A wciedade carioca nao esgotam, no entanto, o trecho final de salbum’, como o chamavam os que nele escreviam, As (16s tiltimas sdo ainda de Horace Lane que tenta, mai Jini vez, persuadila a seguir o exemplo de suas compatriotas. Nelerindo-se a um manuserito que Leolinda he passara, wconselha-a a deixar “as falcatruas e ladroeiras", as faganhas do beato Manoel Toco, mesmo os vieios pessoais dos frudes Gil e Antonio de Ganges, para o segundo lugar. Os abusos: da eatechese pelo systema dos frades sto tho conhecidos, 0 systema tem séculos de md fama, de sorte que nao hé vantagem alguma em dat-lhe uma feigio’ pessoal. Se o frei Gil tiver a protegio dos altos podleres politicos, nao vale a pena atecal-os. Elle sempre saberi fabricar uma defesa. Elle nio € 0 unico que explora os indios. Mencionando © plano da professora, de fundar uma “escola industrial” no Araguaia, com o apoio de um coronel local, lembra-a de que “seu compadre, o grande homem’, foi eleito. presidente do Estado do Rio de Janeiro ¢ que ela talvez pudesse “arranjar o que quer e voltar logo". Citando outra vez 0 exemplo das pioneiras norte-americanas em seu trabalho com 0s indios, desce a detalhes em seus conselhos: Se me der noticias minuciosas dessas viagens as aldeias, do estado dos cherentes, carajis e chavantes, seus costumes socials, @ organisagio das tribus, vocabulo — instrumentos de musicay 8¢ 08 tiverem — armas de caga, a posigao dos nucleos, ete, ete., eu farei uma traducgao em inglez € publicarei para uma Jas reunides de nossa Associaca0 Protectora dos Indios, fazendo um esforco especial para chamar o interesse della para a causa, Leolinda parecia, no entanto, mais interessada na missio politica do que na etnogrifica: um més depois de receber esta carta de Lane, datada de novembro de 1900, ela anune ciava, através das paginas de A Gidade do Rio de Janeiro, seu plano de reunir os Tapirapé, Xavante, Carajé, Xerente, Krahé e Javaé numa grande “repdblica indigena” que teria 0 nome de “Colonia Joaquim Murtinho”, ministro da Fazenda nascido em Cuiabé, a quem entregara o mapa da regiio que visitara, Esta noticia, intitulada “Pela catechese”, abre @ segunda parte de seu livro. UMA MONOMANIACA Em 1902, a historia dos Xerente se repete: desta vez silo dez indios “Pynagés” que, segundo A Cidade do Rio, foram & capital para se queixar ao “Papae Grande” das tropelias de um fazendeiro do alto Tocantins. Denominados pelas suas Patentes militares © nomes nacionais (*Major Sabino Vieira 124 de Souza, Tenente Etelvino de Souza, Alferes Agostinho Constantino” ete.), os indios aparecem numa foto reprodu- vida do Jornal do Brasil, com uma nota de Leolinda onde ela, clindo-lhes seus nomes nativos, afirma que Apinayé sao apenas dois — os outros seriam “membros da primeira expedigio enviada pelo Capitio Sepé afim de me reconduzirem Aas aldeias” Novamente abrigados na reparti¢ao da policia, de nove pedindo audiéncia ao presidente da Repiblica, os indios sao Visitados pela professora Daltro (que encontrou entre eles um seu afilhado, irmao de Sepé), além de levados a visitar 0 Cassino, 0 High-Life, o Recreio ¢ 0 Parque Fluminense. O presidente Campos Salles “mandou que Ihes fossem dadas as soupas e ferramentas de lavoura” e alguns dos indios, que dleveriam regressar em seguida, foram para a casa da profes- sora, em Cascadura. Com ela foram ao prefeito (Xavier da Silveira) € aos jorais, pedindo a jubilac’o da professora, para que ela pudesse acompanhé-los na sua volta. Diz o Cor- reio da Manha: “Os aborigenes que nos vieram visitar so los menos protegidos pela sorte ¢ pela natureza, que com clles foi pouco prodiga, quanto a esthetica. Os outtos, alguns dos quaes bellos typos de homens, estiveram em Palacio, em cumprimento ao Sr. Presidente da Republica.” As noticias seguintes dio conta de uma cisio no grupo os indios, certamente nto motivads por razdes estéticas: parte deles nao queria separar-se de Leolinda, a quem passa- ram @ chamar de “Mamie Grande” e, com ela, fizeram uma asseata pela cidade; outra parte, com o seu chefe, “Capitio Souza", Apynaié, desejava voltar 2 aldeta e, com o auxilio da policia, tentou retirar seus companheiros da casa da profes- Os jornais se deliciaram com 0 caso dos “Pynajés" através lc cronicas, noticias e caricaturas durante todo o més de bro até que Leolinda publica uma nota de esclareci- mento, dizendo que alguns dos indios que estavam em sua ia, doentes, eram tratados por ela as suas custas € que wo desejava uma licenga do seu cargo de professora para poder \companhi-los e conclui de forma irénica: “O desequilibrio nentall é proprio da humanidade, que toda ella vive em continuo lelirio. C..) Pois bem, eu sou uma monomaniaca, Praz-me censinar 0s selvicolas e enthusiasmar-me deante da belleza de suas mattas, pensando destarte ser proveitosa a sociedade.” 125 ‘Trés dos indios afinal regressaram a sua terra, levando o que tinha sido pedido por outros anos antes, mas nenhuma solugio para o problema das espoliacdes de terras que denundaram. Os outros ficam com Leolinda, e dois, pai e filho, morrem na semana seguinte. Os que sobreviveram, mais alguns Guaranis chegados de Sio Paulo e do Parand, também por causa de problemas de terra, serio objeto de uma extensa reportagem, com muitas fotos, em que se mostrava o trabalho de Leolinda ensinando-lhes geografia, miisica, francés — ¢ registrando-os como eleitores que, mais tarde, votariam a descoberto, As fotos mostram cenas muito pouco condizentes com a atuacio feminista de Leolinda: as indias, ensinava-se a lavas, bordar ¢ costurar; aos indios, as outras matérias. $6 0s homens assinam também procuragio para Leolinda defender seus direitos “na grande campanha encetada pela Outorgada, afim de cessarem o esbulho, # invasio feita por estrangeitos nas terras do dito aldeiamento" ¢ s6 eles discursam nas ceriménias piblicas ¢ tomam-se sécios fundadores da Uniio Civica Brasileira. A principal luta de Leolinda nos anos seguintes seria fazer a publicidade negativa da ‘catechese clerical” tentando, a0 mesmo tempo, fundar uma associagao para a protegao dos indios. Na Unido Civica Brasileira, presidida pelo major Faustino Ribeiro, ¢ com a presenca de Leolinda e de “seus indios*, instaurou-se uma “acalorada discussao" na qual a assembléia presente foi conclamada a votar sobre sua prefe~ rencia, se pela catequese leiga ou pela clerical: “Unanime- mente ficou resolvido pelos seculares.” No mesmo ano, 1906, fundou-se 0 "Gremio Patriético Leolinda Daltro", com o fim de “encetar activa propaganda em prél da civilisagio dos nossos selvicolas independente de qualquer participacao clerical”, Nas recepcdes, a Rondon, a Rui Barbosa, nas visitas a ministros € outras autoridades, nas solenidades piblicas — dia da bandeira, Tiradentes — em suma, em todas as ocasides que se apresentavam, ld estava a professora Daltro com alguns indios fazendo a sua propaganda. Nem sempre esta tarefa foi facil. A hist6ria da fundagio da sociedade de protegio 08 indios, registrada no final do volume por Adolpho Gomes d'Albuquerque, engenheiro civil e seu Gltimo presidente, est cheia de acusagdes aos que tentaram tirar-Ihe a palavra ou alterar sua mensagem, 126 Logo depois de sua volta do Brasil Central, Leolinda ‘expressou suas preocupagées a um vizinho, Sergio de Carvalho, professor de Antropologia do Museu Nacional ¢ secretério geral da Sociedade Nacional de Agricultura, que as levou a0 Instituto Hist6rico ¢ Geogrifico. O primeiro secretdrio do Ins- tituto, Henrique Raffard, entusiasmou-se com a idéia de criar uma sociedade e, numa sesso ordindiria, depois de narrar a histéria dos indios recém-chegados & capital e uma visita da professora, props que se constituisse uma associagio protectora dos indios brazis”. E convocada uma sessao para decidir sobre a proposta; 0 secretario Raffard conta novos fatos sobre os indios que estavam em casa da professora, ¢ 0 sécio Luiz da Franga Almeida e $4 faz comentirias em tomo da questio se seriam espiritas os indios lo Brasil Central. No final forma-se uma comissio para promover o estabelecimento da associacao: Henrique Raffard, comendador; Souza Pitanga, desembargador; e 0 general Francisco Raphael do Mello Rego. © Instituto de Protegio aos Indigenas Brasileiros tem sua ‘0 inaugural no ano seguinte, 1903, no proprio Instituto ist6rico e, a partir dat, sua hist6ria € controversa. A noticia cle sua fundacdo, registrada pelo Correfo da Manha, dé conta ‘li presenga de Leolinda, como “sécia benemérita”, e de seu liscurso sobre sua viagem e projeto de fundaglo de um “nicleo indigena", A histéria do engenheiro Gomes d’Albuquerque \liferente, Diz ele: “Aberta a sesso, da qual no fez parte a professora Daltro, por Iho proibir © seu sexo, como foi alle- jclo, offerecendo-se-the no entanto uma sala contigua para presencear os trabalhos...”, fot aclamado presidente © general Mello Rego. Em meio a sesso, continua, levantou-se M. F."< lou suas opinides, depois publicadas nos jornais, fazendo “a pologia de fret Gil e de outros frades no trabalho de cate- se (los indios” e, pedindo um voto de louvor a eles, teve \t sprovagio registrada em ata. Na sessdo seguinte, o inci- slonte se repetiu, Diz. o engenheiro: “A pedido da professora altro, por conta de quem haviam corrido todas as contas do expediente, 0 general Mello Rego © 0 comendador Raffard fizeram a associagao dormir até que novos elementos a fizessem despertar livre das garras do clericalismo.” Cinco anos depois, novos elementos se configuram na presenga, no Rio, de Marcelino Jepia-Ju, “que vem reclamar contra a destruigo completa dos int fundagao da Associacio de Protecco € Auxilio aos Selvicolas do Brasil € de setembro de 1908 € assina como presidente 0 mesmo engenheiro que mais tarde faria sua histéria, sendo secretirio um dos filhos de Leolinda, Na sessio seguinte, Marcelino relata ‘a barbara e inacreditivel hecatombe que recentemente occorreu no Estado do Parané transformanda num caudal de sangue humano as aguas do Rio das Cinzas", e forma-se uma comissio, da qual fazia parte a professor Daltro, para ir ao presidente da Reptiblica protestar contra a situaglo narrada, Apenas mais trés atas da Associacio so transcritas no livro da professora, todas do ano de 1908: numa delay Leolinda narra a visita de um terceiro grupo de indios que viera comunicar-the a morte de Sepé pedir-lhe que voltasse a0 sertio. Em tudo e por tudo, a situagao vivida por esses novos visitantes se assemelha 2 dos outros dois grupos, Registram-se também as distingdes que a professora recebent do governo, através de um agradecimento oficial por seus servigos, e do grande Oriente da Magonaria Brasileira, num documento de elogio a suas lutas, Ficou ainda registrado nay alas © protesto da professora contra as opiniées de Von Ihering, aconselhando o exterminio dos indios brasileiros: 0 selvicola brasileiro anceia pela civilizagio, mas teme-se dos Givilizados por causa dos precedentes que, diga-se a verdade, ‘em nada destoam da opinito do Dr. Von Thering. Instrucce ‘em ver de balas de carabinas assassinas 6 0 que os siblog devem aconselhar se dé aos indios. (...) © resultado pratico set certo. Haja visto os indios, meus discipulos, que podem ser observadas nesta Capital pelo Dr. Von Ihering, Cidadaoy eleitores, todos eles sio artistas, sem nenhum vicio, verdadeiroy homens de bem, inexcediveis em sentimentos generosos @ delicados, no brio e na dignidade pessoal. (..) Ate 0 presente a Sciencia esti pura de barbaridades. Ella jamais condemnati rninguém & morte! © historiador da associaglo registra também sua propria luta, através de “muitos outros casos de que tratei anonyme mente na impresa, tendo a felicidade de ver 0 meu esforgo coroado com a sanc¢io da humanitaria lei que hoje vigora no Parani por ini de Romario Martins, grande amigo € protector dos indios", Com sua saida do Rio, novamente a issociag2o passou um tempo inativa. A ultima tentativa de construfla ocorreu no ano seguinte, durante o Primeiro Congresso Brasileiro de Geografia no qual, novamente, a professora foi vitima de seus inimigos. Segundo o engenheiro, olinda fora convidada a participar do Congreso por S. da 5., que Ihe dissera que na seco de etnografia seus conhe- cimentos sobre os indios poderiam ser titeis. Leolinda escreveu um trabalho e, ao vé-lo rejeitado pelo mesmo senhor, apresentou uma mogao a sessio plendria do Congresso “acon- clhando de preferencia a catechese Ieiga para os indios”, 10 aprovada por maioria. Diz, surpreso, o engenheir Fram agora reconhecidamente clericaes os membros da secgao de ethnografial” Uma das noticias transeritas no livro de Leolinda registra 4 mogao: “Proponho que o 1° Congresso Brasileiro de Geo- jrafia represente aos poderes publicos, lembrando 0 cum- primento do preceito constitucional que estabelece o ensino leigo, unico que deve ser dado aos selvicolas, com 0 auxilio do governo republicano.” Segundo o jornal, a sua |presentagio causou “acalorada discussio entre os congres- vistas, empenhando-se nella os drs. Viveiros de Castro ¢ Coclho Lisboa”, Uma semana depois, 0s jotais noticiam a {utuea instalagdo, com a presenca do presidente da Repdblica, thn Associagao de Protecao ¢ Auxilio aos Selvicolas do Brasil, nu secle da Sociedade de Geografia. O presidente da Reptblica, \nunciado € considerado presidente honoririo, parece no (cr comparecido, afinal, mas na mesa estavam Leoncio Correa, Magnus Sondahl, Simoes da Silva € Leolinda Daltro, que \liscursou.” Entre os sécios honordrios estavam os seus \inigos de Se Paulo, Horace Lane ¢ Maria Renotte, além do coronel Rondon; entre os fundadores — todos os presentes, (jue totalizavam 29 pessoas — estavam os “educandos” da piolessora Daltro. Ainda seguindo o engenheiro historiador ilu sociedade, parece que, logo depois das primeiras sessdes, Jiislalou-se a cizinia entre seus dirigentes: S. da S., “a cabega pensante, o brago forte da Associagio”, apresentou uma proposta de estatutos “escoimados de tudo quanto pudesse her prejudicial & catechese religiosa” e, em vista das disputas que se seguiram, © presidente da Sociedade de Geografia visou que *ndo consentiria mais que, no predio daquella 129 comporagio, se celebrassem sessdes de sociedades anticle \lestinado aos indios, 0 centro das atengdes. Lentamente, eles claes". Simes da Silva tentou organizar uma recepeio passariam, de atores com iniciativa propria a protegido Rondon ¢, nao obtendo quorum, lamentou o fato, j4 qui cla, de missiondria da causa indigena, a defensora dos direitos Pretendia propor como sécio fundador da associagao 0 not politicos das mulheres, cuja conquista talvez visse como uma do jesuita padre Mallan.., io. 6 que se propusera no i liminar necessiria 3 miss A hist6ria do engenheiro € o dltimo documento do livro, A énfase da narrativa, como bem notou Horace Lane, apenas um registro, do Jornal do Comercio, de julho do ane Justamente, nas suas desventuras — mesmo os documentos seguinte, lamenta que a professora no tivesse sido convidad mencionados, que ela teria produzido sobre as tribos que a participar da inauguragao do Servigo de Proteccao ao Visitou, no sao incorporados ao volume que as registra: 810 Selvicolas Brasileiros pelo ministro da Agricultura, Rodo cl los como parte passiva de uma trajetria da qual ela era Miranda: “Dona Leolinda Daltro nao foi convidada pat {| protagonista, Mas esta hist6ria parece interessante ainda assistir a festa official de inauguragao do Servigo de Protecelia por outra tazio. Comentando a doutrina e a legislagio a 208 Indios, porque a corrupgao vem de cima, a Justiga si jespeito das terras indigenas, e ao mencionar a criagio do vende, a lei se sophisma ¢ os potentados se comprazem em, SPI, Manuela Carneiro da Cunha a situa no contexto de dois fazer do direito torto ¢ do torto direito.” Anunciando a vinda. escandalos, um nacional, outro internacional. O nacional foi préxima do socialismo, do qual eram batedores 0} \ defesa, pelo entao diretor do Museu Paulista, Von Ihering, anarquistas, conclui: *Console-se a Missionaria Heroina D lo exterminio dos indios que resistissem ao avango da civil Leolinda Daltro; a essa festas 56 devem comparecer os nababo) yaclo (1907-1908), € 0 intemacional, a acusagao, feita 20 que vivem unicamente da seiva dos operarios e honestos ieasil, no Congresso dos Americanistas em Viena (1908), do trabalhadores." imussaere de indios.** A documentagao reunida por Leolinda O livro conclui, melancolicamente, com uma nota de Leor mostra que, pelo menos para alguns setores da opiniao linda intitulada “mais uma vez trahida”, cesculpando-se pelos publica, a presenga dos préprios indios também terd sido erros tipogrificos e imperfeigdes na impressio. linportante para a criagio daquela instituigio, Eles sairam do Depois de ter renunciado a presidéncia da sua assoctagl, vevtio e se fizeram visiveis em lugares inesperados (jornais & tr@s vezes inaugurada, porque deveria partir de nove a6 en, Hoates, praias ¢ delegacias), comando-se, ainda que pot um contro de seus indios no Brasil Central, a professora passou Ineve momento, foco da discussie sobre seu destino. Sua Para outra trincheira, a da defesa dos direitos da mulheh jyresenga em pegas de teatro, noticias ¢ cronicas de jornal, abandonando os indios a sua sorte. Leolinda nto voltaria ag Iologratias €, até, passeatas, certamente contribuiu para criar serio, e todas suas gestdes, na eapital do pals, para estaber ppropriado & criagao de um servigo que, a panir lecer algum tipo de instituiclo — fabril, escolar — junto aos df, centralizaria a discussio_das_questdes indigenas. 4 {indios foram em vao. uiwigio deles no coracio politico e cultural do pais, fosse / pedindo instrumentos para o cultivo das suas terras, fosse Se € impossivel estimar o efeito de sua pres no Brasil ciando a i s, ale Centaleareperusto deans ahesiobi Sasi ee tvutder propio’ capil nasi pode ter rid, lideres politicos regionais ¢ nacionais viam os indios — ¢ @ limbénm, para pOr em eausa a legitimidade da chamada a pecaia there a esfera publica — sua missio pargoe ctechese erista": 0 conflito apontado to veementemente do civilizaciora, afinal, pelo menos num sentido: o de por Leolinda entre os interesses dos indios e os dos seus conquistar a simpatia € 0 apoio de boa parte dos que faziam 4 citequistas seré recolocado poucos anos mais tarde, no opiniao piblica (restrta) da época para os objetivos de sua casi Interior do SPI. A énfase, entretanto, no verbo proteger, tanto Apesar, ou talvez por causa, das perseguigoes sofriday ha socied: cla ocupou cada vez mais 0 lugar que, le criada e recriada por Leolinda © seus amigos a capital, @ (Associagio de Protegio € Auxilio aos Selvicolas do Brasil), 130 quanto na promulgada por decreto (Servico de Protecao a0 Indios), ainda que uma acentuasse 0 aspecto associative & outra © buroeritico, expressa, certamente, a manutencdo ‘espirito das leis em vigor na época, que consideravam os inklio como “orfios". Nao é de estranhar, portanto, que eles and: sem A procura de Papai ou Mamae Grande. Mas eles tamb reclamavam seu direito 2 organizagio ¢ representagio, ainda que de maneira enviesada — como disse um deles: “Pract um amigo dos dominadores de seu paiz natal.” A sociedad fez ouvidos moucos € os tratou, em carne € oss0, como o§ tratava na legislaglo, na literatura e na discussto politica, Eles deixaram inscrito, em todo o caso, € gracas ao “fanatis de uma mulher do século pasado, seu interesse em participa la nacional.” EP{LOGO: O GENERAL DO SERTAO Poucos anos antes de Leolinda se dirigir para lf, 0 not de Goifs, reduto tradicional de oposigio politica, tinha sid cendrio de mais uma das guerras do sertio — guerras qui envolviam coronéis locais, a populacio indigena e os padre Alguns autores atribufam essa constante ebulicio politica tam 8 pretensio do vizinho Estado do Maranhao de incorporir norte do Estado; € pelo menos dois politicos importantes se envolverem nessas guerras locais eram maranhensi Carlos Gomes Leitio € Leio Leda, ambos chefes do partidg liberal em Grajat, ambos derrotados em suas pretenses lideranga politica em Boa Vista por niJo contarem com 0 apoll dos padres. Leitlo denunciava as "pregacdes incendisrl contra a Repiiblica” do dominicano Frei Gil de Villanova, este 0 acusava de ter comprado a prego irris6rio uma fazeni da qual seu proprietirio fora expoliado; Leitio acusavil também Frei Gil de ter participado da trama da qual resultant a morte de um irmao dele, no infcio dos combates. A luta se estendeu até 1895, em meio a intervengdes fede rais, guerrilhas no sertio e tomadas da cidade de Boa Visti ora pelos partidarios do Partido Democritico de Bulhdes, Carlos Leitao e Leto Leda, ort pelos dissidentes do Partidld Liberal, que fundaram o Partido Republicano, unindo-se Partido Cat6lico, dirigido pelo tenente-coronel Perna, fi 1893, as hostes republicanas eram ampliadas pelo apoio de um fazendeiro nordestino, José Dias Ribeiro, que depois se chamaria a si mesmo de “general do sertio” e em torn do «ual ja corriam varias lendas: “Aumentando na alma do povo | crenga de que o General do Sertao tinha pacto com 0 Deménio, pois galopava sereno e impavido entre as balas inortiferas ¢ atacava o inimigo com relho, procurando esbor- oat, as mais das vezes, os graduados. E nem um arranhao, nem um chamusco de pélvora."* Dada a escassa populagao lo Bstado © 0 grande nimero de mortos nessas lutas, a possibilidade de sua continuidade parecia estar ligada também lio sticesso das varias partes envolvidas no recrutamento dos Indios da regidio: “A tres de junho, José Dias punha cerco & cidade com uma forca de 700 homens € 60 arcos apinagés.” Segundo Palacin, os homens do tenente-coronel Perna, num dos entreveres, “conseguiram a adesio dos indios apinagés, os e xerentes até 800 arcs". Em 1895 0 governo estadual concedeu anistia a todos os envolvidos nos conflitos, ¢ os Chetes politicos se dispersaram.® Carlos Leittio abandonou How Vista logo depois da anistia ¢ fundou Maraba (Para) — uc logo se tomaria centro de exploracao da borracha —, ¢ | morreu de maléria; Perna fol para o interior do Maranhao. Na introdugao ao seu livro, como de praxe, Leolinda fazia linua série de ageadecimentos aos que a tinham auxiliado em uid viagem e merecem destaque, como seus *herdicos defen- jores’, Leo Leda e José Dias. Ledo Leda foi o segundo politico maranhense a tentar se estabelecer em Boa Vista, € wa historia repete, com algumas variagdes, a de Carlos Loiio. Quando cle fugiv para Boa Vista, em 1900, depois de Ueriotado nas eleigdes no Maranh’o, um filho da terra, Judie Joao de Souza Lima, tinha temporariamente trocado heuly votos religiosos pelo poder politico local. A cidade, como Maraba © Conceigao do Araguaia, comegava a crescet sob a \n{lucneia da explorago da borracha, ¢ em poucos anos a Joylao passaria por um perfodo florescente. Leao Leda se gsluheleceu lf € comegou a articular aliangas politicas na eupitl do Estado, que redundaram em seu controle dos prin- fipals cargos da cidade, 0 que no agradou padre Joao. O povo da cidade também parece nao ter gostado dos novos Wirigentes nomeados, ea luta, que comegara na cidade, con- finuiou no sertdo. Novas intervengdes federais (as tropas 198 as mortes. No final, as “autoridade tufdas” fogem, e Ledo Leda acaba mort, junto com seu filho, em Conceicio do Araguaia, sob as vistas de frei Domingos depois 0 primeiro bispo do Amiguitia.”O ano era 1909, Essa breve recapitulacio do © poli no ‘Tal de seule , sugere que Leolinda h: ‘com clareza um dos problem: bida sa grande influénel dlos padres ¢ frades na sociedade goiana e, por extenso, su capacidade de influenciar e cooptar of integrantes de grupos indigenas para as lutas em que se isso, € mais inter que ela ten livro todos os documentos que reuniu — se houve, nao ae nota a intengao de uma triagem ou de uma edigao desny documentasio —, 0 que permite uma leitura deles como de uma €tnografia naif Sobre 0 “caso dos Pynajés", em 1902, por exemplo, come Sto incluidos aparentemente todos os recortes de jornais que tatavam do assunto, ficamos sabendo, a certa altura, que alguns dos indios tinham vindo ao Rio para queixar.se de Leto Leda, um dos defensores de Leolinda. Diz 0 recore do jornal A Tribuna, de 9 de setembro de 1902: © Capito Leto, opulento fazendeiro emigrado de Grajahil fol assentar 4 sua tenda n’uma fazenda préximo a0 sitio “Alto Tocantins’ de propriedade de um gnipo de indios ia iby. Pinagés, que nesse logar fazem vida de cultura de mandivey, arroz, feijao, mitho, etc. O gado do fazendeito invade com Ruamente o sito dos nassos Pynagés ¢ estragamthe toda a patachey ‘Um horror! Na entrevista, os indios mencionam também o padre Joo, “de quem gostam’. Mas, assim como os padres ¢ fi Teolinda também se envolveu com a politica local. Seus dol defensores, ambos ji mortos quando o livro foi publicado, Sto assim apresentados: coronel Ledo Leda fizera um jut. mento, secundado pelo coronel José Dias, perante os fracien em Conceicao do Araguaia “de proteger-me arriscando mesing 2 Propria vida, indignados ao saberem estar eu sentenciada 4 Ser Presa © agoitada em um tronco adrede preparado em uta dependéncia do convento".” E sobre o destino de Lea Leva, des, 134 et See ees ote oe sen es ea oe sec es ca eae Aan wee © general do sertao, no entanto, nao parece ter sido imedia- lumente vitimado pela variola, José Dias foi provavelmente 0 ‘eearense” que a salvou em Conceigio do Araguaia, em 1900, ano em que ela yoltou a0 Rio. Na tiltima carta de Horace laine a Leolinda, em novembro de 1900, além de estimuli-la | eserever uma descricao dos indios com quem convivera, ele e compromete @ contribuir para o seu plano, “caso a senhora twalise © projecto de voltar com o coronel José Dias, para fundar uma escola para indios na regido do Araguaya”. E, em 1902, tama pequena nota na ata do Instituto Histérico © Geo- neifico, na reuniio que tratava do caso dos Apinayé (26 de tembro), da conta de sua presenca no Rio de Janeiro \ seqistrats “O coronel Dias Ribeiro, héspede da Senhora Peolinda, sabendo da vinda dos Apinagés, cuja tribu vive ‘nis immediagdes de sua fazenda, da qual esti ausente faz perio de um anno, foi visital-os para ter noticia dos seus, ndo em sua companhia a professora (...).” Como alguns los indios morreram de variola na casa da professora, 6 \usivel supor que José Dias tenha morrido do mesmo mal, la mesma época. © “Destino de José Dias" — titulo do trecho do livro do acin em que ele trata do assunto —, no entanto, iia, solter uma reviravolta em outras narrativas: de sua condi¢ao dle petsonagem ativo, herdico, responsavel pela salvagio da ofessor, ni narrativa dela, ele passa, surpreendentemente, 8 personagem passivo, vitima de sua sedugao ou astéicia, mas qualquer caso de sua iniciativa em levi-lo para o Rio de padre 195 Janeiro, na narrativa de outros autores. So trés as versdes da morte de José Dias: duas, diferindo no modo de apresen- tag&o dos acontecimentos, corroboram a de Leolinda quanto a0 desfecho; a terceira a desmente inteiramente. ‘As duas primeiras sio de Dunshee de Abranches (em A esfinge do Grajait) e de Othon Maranhao (em Setentriao gotand); a terceira é do famoso padre Joao.” Dunshee de Abranches & © mais sucinto, dizendo em seu livro: Quanto ao coronel José Dias, era tal o seu desejo de rever-me ue, um dia, na hoje famosa Tha do Bananal, onde fora hor ziae-se através das florestas virgens de Gois, encontrando-se com a sertanista carioca Leolinda Daltro, esta'se ofereceu para trazt-to até 0 Rio de janetro. E, certo domingo, na minha res déncia em Icarai, cr surpreendido pela visita da destemida professora que, acompanhada por alguns indios daquelas lon= sinquas regides, me dava 0 prazer de abragar o mew velho companhieiro de lutas dos altos sertdes de minha terra! Poucos dias ap6s desgragadamente 0 valoroso batalhador que saint sempre ileso das guerrilhas e emboscadas dos seus sanguinacios inimigos das brenhas goianas, sucumbia atacado pela variola & recebia sepultura no velho cemitério de Jacarepagua..." ‘Othon Maranhio romanceia o episédio, chegando a escrever um diflogo que teria ocorrido entre Leolinda e José Di © Governo Central, notadamente o Senador Leopoldo de Bulhoes, andava apreensivo com as lutas sangrentas que infelicitavam 0 municipio de Boa Vista, nos dltimos decenios ¢ compreendeu que urgia providéacias enérgicas para restabelecimento da ordem, naquele final de século. (..) Ne momento de apreensoes, apareceu a professora Leolindy Daltro, mulher nova, de fina educacao, propondo-se a tr buscar © cauditho, sem nenhum aparato bélico. Seu longo tirocinio escolar fizera-lhe compreender que os meninos crescein precisando, sempre, de sibia orientacao.” Embora parecesse temeridade tamana aventura, o contrite foi firmado, inde pendente de publicidade, e a professora viajou debaixo de rigoroso sigilo. C..) Fim Boa Vista hospedaram-se, ¢ a profi sort deixou 0 povo pensar que andavam reorganizande, escolas. José Dias, na alta posicao de chele, foi também) conhecer a ilustre visitante. No decorrer de amistosa palestnit, a professor perguntou: lhe: 136 — Seu José Dias, até quando voct quer viver assim desorgani- zado, nesta cidade, onde 6 se veem escombros, miséria? Eu vim até aqui, rompendo empecilhos sem conta, para convi- di-lo a uma vida de renovagio espiritual, despender encrgia pela grandeza da patria que muito espera de voce. No Rio, as profissdes liberais esto a procura de trabalhadores de boa vontade. Vamos embora, José Dias, h4 muitos anos, no ouvia uma mulher meter-se ‘assim na sua vida e aquelas palavras pronunciadas com sere nidade, mas incisivas, tocaramlhe a alma e 0 coragao. Naquele momento desapareceu 0 caucllho, para ficar apenas José Dias, (0 nordestino, vivo, espirituoso, jf cansido das refregas violentas, que assim se expressou: = Se lve interessar mudar a minba vida, professora, estou as suas ordens. G.) Montaram e pastizam, (...) No Rio, José Dias fol apresentaclo as autoridades que Ihe concederam a cidade por homenagem, 0 colocaram numa Chiara, onde esqueceu as facanhas do pasado, numa vida de recuperagao. Tempos depois, faleceu de varfola, Padre Jo3o, que “se considerava a si mesmo como 0 sucessor hi sua revolugao libertaria” estava igualmente convencido da hipotese do afastamento de José Dias da regito, na sua versio, pelos militares, que temeriam a explosao de um novo Canudoss* ‘Tratar de remové-lo mediante uma nova intervengao, além de perigoso, seria certamente antipopular; por isso decidiram recorret % asticia. Enviaram uma mulher jovem, intépida & cheta de recursos, com a missio de aliciar Dias para a Capital A professora Leolinda realizou seu intento, Sua figura causou ‘uma forte impressio em Dias, de sorte que, quando, apés uns dias de permanéncia na regito, a professora manifestou sua intengio de empreender © caminho de volta, ele se ofereceu a acompanhé-la na subida do Araguaia até Leopoldina. Esses dias de convivencia foram decisivos, pols a professora conse _quist seduzé-lo, de forma que, a0 chegar a Leopoldina, Dias decid, continuar viagem com ela até © Rio. Chegados 20 Rio, Dias simplesmente desapareceu, sem que se tivesse mais noticia dele. Em 1910, estando no Rio, © padte Joao foi procurar Leolinda, imento nao fora casual Rem inocente, mas que e ‘1 ligado As preocupagdes dos milares que Para afastar Dias do norte goiana® A professor mostrou-se reticente hostil. Afirmou que Dias viajara com ela até o Rio, mas que nad sobre su pane sPONeriormente. Simplesmente dlesaparecera sem cleleap cenfena’ Palaveas da professora Leolinda © sua stitude Sonflrmaram a0 padre Jodo a sua suspeita de que Dias fora eliminado criminosamente. Iadependentemente dos interesses de cada um dos nari dores, todos contando a histéria de sua propria etspectiva, Pessoal ou politica, o que parece fascinante nessas versoen ¢ ANG: APolados no Unico fato nao disputado por nenhuum dos jnterlocutores — José Dias e Leolinda voltaram juntos para g) Bio —, os tsés the atribuam virtudes de iniciativa imaram além de Cutris, Sempre nas entrelinhas, no compativels coma que esperariamos que fosse o esperado 0 comporamento fem defen neo Todo 0 album de Leolinda é uma cloguente defesa prévia de uma possivel leitura de seu comportamento sotaidnadeduado a0 de uma senhora, € nto 6 chefes mans Ades fegionais atestam seu bom comportamento comp também suas esposas. A versio do padte Joo anule esse Cuidado e a pinta como uma aventureira; a versio de Othon Maranhio, 0 contritio, a reforga, enfatizando a imagem de professora, edueadora, tio cuidadosamente elaborn i, por Leolincla, para explicar sua ascendéncia sobre Jose Dias, como 5 cle fosse um menino de escola. Mas 08 t€s conconian em E interessante também que sua longa Peregrinacao anterior pelo senao fique esquecida; Othon Maranhas cheg: due cla e seus acompanhantes (ele Ihe dA varios 4 ahantes) contaram a histéria de que estavam org escolas como pretexto para sua estadia em Hoa Vista, eo padre Joao fala em sua estadia de “uns dias’ nesta eidicle ° Gnico propésito de uma mulher andar pelo sertio seria, afinal, com o objetivo de cacar um homem. Nao sabemos se Leolinda chegou a ter conhecimento de versdes de suas andangas, mas subemos que elt tins sag uma 138 rizao forte para ndo receber amistosamente 0 padre Joao; por as gue ele se contacaam'e Redes Ae hoe ha linha sido 0 vitorioso numa luta em que seu amigo Leao Leda scabara morto. A propria Leolinda ao morrer recém tinha sido derrotada em sua tiltima luta politica, quando tentara se eleger para a Assembléia Constituinte. O panfleto de sua campanha mostra © retrato de uma Leolinda envelhecida, mas com 0 mesmo olhar altivo das belas fotos de seu livro, ¢ © texto mostra sua lilima reivindicagao de reconhecimento, Lembrando que ini- ra a campanha pelo dircito ao voto feminino dezoito anos inte, I registra: “A sua campanha feminista precedeu & de todas senhoras que se apresentam como leaders do feminismo.’ Leolinda tinha clara nogao de sua posi¢lo incomum na suviedade da €poca — no opiisculo feminista que public, past dar conta do “inicio da emancipagio feminina no Brazil, com um partido organizado”, ela faz também seu auto-retrato: eco de vos outa, Meu nome, quero eet que no se deco no porque tena asaumido posgto navel que asian me aca tasse a popularidade, mas pelo simples motivo de me haver sen tues do hanged, see ae hypotia, com os abios qe, neuen, crate rsam, ainda, x8 pessont do meu sero, impelidn por esos «que venho alent sede amas eke e que er pate Item dome, esp inporanca se ne spree pela necesidade do progresso © da ciisagao da Pata ste epilogo €, no entanto, provis6rio. A violéncia textual «jue se abateu sobre Leolinda depois de sua morte, como a ioleneia factual que 2 acompanhou em sua aventura pelos nentdes do pafs, ¢ sobre a qual o seu famoso album silencia, \Jesmentem, ambas, o tom caricato de sua apresentagao litedria sovelesca, emprestando-the um ar de tragédia nacional, local twente posta em cena, “A bala” no era apenas um distico que honizava as mazelas politicas da capital, mas também a stimula ‘lo centio vigente no interior do pais. Situada entre duas Wajct6rias inteiramente diferentes, a sua serve assim como dle sinal de que nenhuma delas era inocente em Feligao a esse cendtio, A morte, de coloridos passarinhos, ou de um antropélogo, alinhavou partes de nossa h una espeé DONA HELOISA & A PESQUISA DE CAMPO aborai, cerca de quarenta quil6metros de Niter6i, terra jutal do teatrélogo Joao Caetano e do romancista Joaquim Manuel de Macedo — mas nao do politico ¢ intelectual Alberto Torres, que nasceu em seus arredores — foi o lugar escolhido por Heloisa e Maria (Marieta) Alberto Torres para Viverem seus Gltimos anos de vida.’ A casa que ambas com- prarim, € doaram ao Servigo do Patrimonio Histérico, € Ueserita nos guias locas como um “tipico sobrado do século XVIII" e, depois de ter ficado anos fechada, foi reaberta em 1995 como Casa de Cultura Heloisa Alberto Torres, quase vinte nos depois de sua morte, em 1977 ¢, apropriadamente, no cwntenirio de seu nascimento. Icloisa Alberto Torres publicou muito pouco sobre as as de sua to longa vida. Ingressou no Museu Nacional como au de Roquette-Pinto aos 23 anos, logo apés a norte do pai, ¢ tornou-se efetiva através de concurso prestado ein 1925. Logo no ano seguinte foi eleita chefe interina da ocio de Antropologia e Etnografia e chefe efetiva desde 1931; {oi vive-diretora do Museu de 1935 a 1937 ¢ diretora de 1938 4 1955, nao foram apenas “dezessete anos de vida consumidos oli administeagao", como diz. Castro Faria, mas quase trinta ) no Museu Nacional? Sit presenga no cenario antropol6gico brasileiro Foi marcante Wo apenas pelos atos administrativos que realizou, ou pelos {gubulhos ‘académicos que deixou de realizar, mas pelo seu DONA HELOISA & A PESQUISA DE CANO taboraf, cerca de quarenta quilémetros de Niterdi, terra al do teatrologo Joao Caetano ¢ do romancista Joaquim Manuel de Macedo — mas nao do politico ¢ intelectual Alberto Torres, que nasceu em scus arredores — foi o lugar escolhide por Heloisa e Maria (Marieta) Alberto Torres para viverem seus tiltimos anos de vida." A casa que ambas com- praram, € doaram ao Servico do Patrimonio Hist6rico, é leserita nos guias locais como um “tipico sobrado do século XVIII" e, depois de ter ficado anos fechada, foi reaberta em 1995 como Casa de Cultura Heloisa Alberto Torres, quase vinte snos depois de sua morte, em 1977 e, apropriadamente, no contendrio de seu nascimento. Hicloisa Alberto Torres publicou muito pouco sobre as ‘experineias de sua t8o longa vida. Ingressou no Museu Nacional como auxiliar de Roquette-Pinto 20s 23 anos, logo ap6s a norte do pai, ¢ tornou-se efetiva através de concurso prestado cm 19252 Logo no ano seguinte foi eleita chefe interina da secao de Antropologia e Etnografia ¢ chefe efetiva desde 1931; Joi vice-iretora do Museu de 1935 a 1937 ¢ diretora de 1938 | 1955: nao foram apenas “dezessete anos de vida consumidos elt aelministragao", como diz Castro Faria, mas quase sno Museu Nacional.* Sua presenga no cenirio antropol6gico brasileiro foi mareante nao apenas pelos atos administrativos que realizou, ou pelos Jemicos que deixou de realizar, mas pelo seu penho na formagho de jovens pesquisadores atray da pesquisa de campo € no desenvolviment nunca sistematizou essa atuaglhe | refletiu sobre ela em trabalhos publi com clareza no que talvez seja 6 melhor de sua produgik sua correspondéncia com colegas ¢ com jovens etndlogos eh carreiras ajudou a animar, Era como se, de campo se esgotasse em sim: jules? us ectito de aca viegem 2 lhe de Mar, ll pesquisa de campo que fez e, apesar de seu entusil sobre a tiltima, no Arraial do Cabo, também sobre deixou qualquer trabalho publicado.' Sua extensfssima no publicada revela, no entanto, um investime de energia nos bastidores da pesquisa de ¢ através da cortespondéncia que mantinha com colegas ‘agéncias de financiamento de pesquisa, fosse a Projetos € relatdrios de pesquisa ou da orientacao que fos jovens pesquisadores. SSS Mais ou menos na mesma época em que, em Sao Paulo, influéncia norte-americana parecia estar se consolidando ciéncias sociais através dos estudos socioantropolégicos comunidade, feitos principalmente por pesquisadores d Escola Livre de Sociologia € Politica, no Rio de Janeiro, influéncia chegou através de gestées de dona Heloisa. C: Faria menciona sua “intensa correspondéncia” com Franz. Bo Ralph Linton, Paul Rivet, Alfred Métraux, Charles Wagley recorda que “usando seu prestigio e ampla rede de amizades dona Heloisa guiava os pesquisadores visitantes “através intrincada burocracia, que exigia o registro de estrangeiros uma permissio especial para realizar expedigOes cientifi no pais, além de varios outros documentos oficiais”.* Wa diz também que “a Universidade de Columbia mantinha acordo informal com 0 Museu Nacional do Rio de Jancing para co-patrocinar estudos einolégicos no Brasil” desse acordo vieram para c4 o proprio Wagley, William: Lipkind, Buell Quain e Ruth Landes, primeiro, e depois James ¢ Virginia Watson, Yolanda ¢ Robert Murphy, entre ‘outros. Nenhum deles ficou muito tempo no Museu, mas Heloisa tentava aproveitar-se de sua estadia para treinar pesquisadores jovens. Numa carta de 1938, ela explica 0 seu plano a Buell Quain: a Vie algumas modifieagoes no meu plano de curso do Museu, Pensel em transferir para um pouco mals tarde o curve de Linguistica © adotar imediatamente um programa mals peltico fe que, segundo me parece, corresponde melhor & necessi- dudes mais prementes do meu pats. Para isso desejaria poder contar com 6 senhor ¢ 0 Wagley. Durante o period de perm héneia no Museu, cada wm se ocuparia uma hora por dia de lun grupo de cinco pessoas para instrugao etnol6giea de Cariier essencialmente pritico ¢ faria os seus estudos pessonis tc redagao de pesxquisas, durante o resto do tempo, Organiza~ rlamos um plano de pesquisa sistemstica de campo; cada qual, ‘40 sair, levaria consigo um aluno. Espero que, com tres anos ile trabalho, n6s teriamos talvez formado pelo menos uns tres irabalhadores bons. st. vai ficar surpreendide com a facili dade que © brasileiro tem para aprender. (..) Nao pretend implantar (esté reconhecends?) ainguém no meu pais; desejo apenas que meus amigos me ajudem no desenvolvimento de cestucdos etnolégicos, As intimeras fotos da época, em que dona Heloisa aparece com pesquisadores norte-americanos que passavam pelo Muscu, ilustram sua centralidade, que derivava tanto de sua »sigao institucional quanto de seu poder de acionar aquela |unipla rede social referida por Wagley. Tustram também a “troca de guarda® nas influéncias sofridas pelo pats durante e logo jpos a Segunda Guerra, influéncias que igualmente se expressariam na antropologia como uma disciplina que comecava a se constituir. A primeira influéncia é registrada peli linguagem: tanto Wagley como dona Heloisa falam, no inicio dos anos 40, em antropologistas (anthropologists) como oy praticantes dessa disciplina, sinalizando a influéncia do se da relagiio com os norte-americanos, que passavam a 1s do que os franceses na vida intelectual do pais. Noma e presidente Vargas, a recém-eleita iretora do Museu menciona o alto niimero de antropdlogos cinpregados pelo governo norte-americano, mobilizados pelo csforgo de guerra, e acrescenta: “uma vez terminado esse con- {lio todos os antropologistas ansiosos voltardo seus olhos pur © Brasil, tinico ponto da terra cuja populacio primitiva, ou grande parte, ainda estard intacta em seus costumes © estado de cultura, tornando-se assim um yalioso e inigualavel Campo de estudos e pesquisas”. E sugeriu que fosse criada a curreira de antropologista e antropologista-auxiliar, sendo 43 autorizada pelo presidente a elaborar um anteprojeto sobre ‘© assunto,’ Alguns antrop6logos certamente voltaram os olhow para o Brasil, entre eles Charles Wagley, que registra um dos primeitos encontros, no campo, de um antropélogo treinude com os jovens que Heloisa enviava para uprenderem com el Endo, uma manha, ouvimos um tiro de pistol. Um pouea. ‘mais tarde apareceram tres brasileiros estranhos. Eeim apetiaa tues jovens — Eduardo Galvio, Rubens Meanda © Nels ‘Teixeira, Vinham do Museu Nacional, enviados por Helal Alberto Torres. Traziam cartas, revistas, noticias da guerra mi Europa ¢ uma garrafa de uisque. Suspeitel primeico que fos espides, enviados para me fisealizar e a0 meu , ercebi que eram estuclantes principiantes de antropologia, Hl traziam pouca coisa para tocar, mas Sua presenca nos (OUXe A. todos de nove 3 vida.’ Juventude e animagio transpareciam também nas cartas trocadas, entre si, pelos trés aspirantes a antropélogos, it Epoca, em algumas fotos dle campo ou em recortes de jorsais, mostrando que todos defendiam com ardor a causa indigent na volta de suas expedicdes a lugares longinquos para onde dona Heloisa 0s mandava, acompanhando-os de longe com tum misto de autoridade e afeto. Ambos estio bem expresso ‘num telegrama seu aos pesquisadores, em 1942: “Reitero orem smviximo cuidado medicagio preventiva malaria ponto abrigos afetuosos ponto Heloisa.” Que as relagées com a diretora da Museu eram afetuosas/autoritarias sao testemunhas também a suspeita inicial de Wagley & chegada dos jovens ao campo, as cartas afetuosas dela aos trés (telefonando para a mac de Galvao antes de escrever, ou pasando um “pito” em Nelson Teixeira, por mio se comunicar com a familia), ou respeitosas, de James Watson, um comentétio de Wagley € uma curiosi alterago na dedicatéria de seu livro com Galvao. 1 © comentirio de Wagley ¢ brincalhio mas revelador. Numa carta a Galvao, depois de dizer que antecipava a chegada dele 20s Estados Unidos com “uma certa satisfagio sadica® elas dificuldades que ele teria com o idioma, o que seria a sua “vinganga’, acrescentava: “Em seguida quero ver Heloisa servida de uma dose da giria estudantil © nova-iorquina — entio meus longos anos de frustragio serdo aliviados."? As cartas de Eduardo Galvao na época mostram tanto a evolugao a cle suas relagbes com clon Heloist quanto a de seu aprendizado," Primeiro com Wagley: “Wagley vae trabalhando a0 mesmo lempo que nos orienta, de vez em quando passa uma revista guns pitos. Iniciou agora uma iza e distribui por nés hos cadernos ¢ distribue série de leading questions que org de modo a completarmos © material que vamos conseguindo.” Depois com Watson: Wulson distinguia etnologia (*histérica”) de antropologia social Ccientifica”), ‘Chegamos a conclusio”, diz. Galvao, com ironia, “que para (omar os inquéritos em antropologia social é suficiente antepor- Ihes explicitamente os problemas requeridos". Galvao achava © método, que envolvia a formulacdo prévia de questionirios exiustivos © justificativa das questdes a estudar, “um tanto complicado e menos eficiente do que o de Wagley”. Descre- vendo Watson € sua esposa Virginia como muito formais € desconfiados, dizia: “Ele ainda no compreendeu a necessi- dude social do ‘lero-lero’." E encerra: “Saudades dos futuros \nitopélogos sociais’."” Esetevendo de S20 Paulo, na véspera de partirem para uma Jicld trip em Goids, James Watson, que estava acompanhado lc sua esposa Virginia, consulta dona Heloisa sobre como orienta os jovens pesquisadores: (.) @ questao € a seguinte: a vontade da Senbora. Se quiver que eu faga sugestio ou empresie a mao de vez em quando para guiar ou Galvao ou Teixeira, ou melhor, 56 para indiear a variedade de penstmento que existe e que eu conhego num assunto marcado, muito bem. (...) Eu acho que hi bastante trabalho para todos nés, dentro do tempo indicado, concentrar completamente no assunto da economia. Isso nio quer dizer que a gente vai negligenciando o resto, pois segundo 0 ponto de vista funcionalista, qualquer parte se liga com o resto da us cultura, numa maneina ou outta, (..) O que eu quero aprender, entio, € se a Senbora quer uma diregto unificada, um “em. phasis” particular, um fim, que tot primelramente os probes mas da organizagto econdmica, que fol mew plano original, ‘mas com observagdes bastante aumplas sobre outros aspectos. n que estes Outros aspectos da cul tura mio foram o maior fim desta “field wip". Parece que hil bastante precedéncia para este tipo de estuclo, alids, que isso. talvez representa uma dis maiores tendéncias da antropologia atwal. Mas, enfim, estou de vontade fazer 6 0 que a Senbord. quizer neste respelto.* © portugues arrevesado de Watson néio esconde que ele tinha um projeto bem definido, mas que estava disposto 4 ajudar os jovens brasileiros em sua aprendizagem, como Heloisa queria, O que ela confirma em outra carta: “Gostel de duas noticias: de que o Watson se presta com satisfagio a ensinar e que a satide € muito boa. Os outros pequenos detalhes ‘so poeira de estrada; o importante é chegar ao fim." Alguns desses jovens foram até o fim; outros ficaram pelo caminho. Depois de alguns anos dessa aprendizagem, Eduardo Galvao estava pronto para obter seu doutorado em Columbia, onde foi o primeiro PhD formado sob a orientagzio de Charles Wagley e provavelmente © primeiro brasileiro a obter este titulo em antropologia." Seus dois companheitos de pesquisa tomaram outros rumos, apesar de terem participado de pelo ‘menos uma terceira experiéncia de campo, entre os Tenetehara, No preficio & edigio brasileira de seu livro sobre esse grupo indigena, Wagley ¢ Galvao os mencionam pela iltima vez: “Nelson Teixeira e Rubens Meanda nao puderam participar a preparagio dos dados de campo para publicagto. Eles colo- caram todas as notas & nossa disposi¢2o ¢ leram longos trechos deste relato. Desejamos agradecer-Ihes por sta intima colaboragio e dar-Ihes 0 crédito devido por suas precisas observagées de campo." O antropélogo mais velho — Wagley tinha 32 anos ¢ Galvio 24 na época dessa pesquisa — cumpria A risca 0 prometido a dona Heloisa, fazendo sugestoes detalhadas a0 jovem antes de Galvao retorar ao campo: Recém terminei de escrever o niscunho da primeira paste do Ciclo de Vida, a partir do texto tentativo de Rubens ¢ das notas de campo. Reorganizei inteiramente 0 material: ele ficou mais 46 Divérelo, Vidvas, Tabus pré e pds natal, Nascimento, Culdacos com 0 bebe, Infincia, Puberdade, Acho que 0 wecho que Rubens entitulou Doengas-Moste (do qual voce tem uma eépin) deveria ser inserido na parte sobre Relig. (...) Por favor, reescreva 0 trecho DoengasMorte, Ele esta vago ¢ redundante, cic. Enfatize a economia, claro, e obtenha bom material. Deve ser 6 capitulo mais fraco, Leve junto alguns livros para inspirar-se sobre questoes importantes — voce pode até levar aquele grande Classico sobre « Guatemala. Estou datilografando o que eserevi © 0 mandarei a voce no campo — dentro de um mes. Leia adosimente © re-escreva parigrafos — sugiro numentr 08 parigrafos (temporariamente) a la Nimuendlaju pari que nao se perea a continuidade— re-escreva serescentanclo material novo, Deixe os mitos comigo — assim poderel trabalhar sobre eles.” Além de mostrar a organizacao de uma monografia antro- polégica na poca, as sugestGes revelam também um pouco Uo clima de parceria que tinha se estabelecido entre eles. Ambos dedicaram a versio em inglés do livro, de 1949, & Heloisa, mas, quando saiu em portugués, em 1961, com Wois apéadices novos de Galvao, ele foi dedicado a Nelson Veixeira, jé falecido. As dificuldades que Galvao enfrentou para obter licenga do Museu Nacional para fazer 0 curso de soutorado em Columbia podem responder em parte 20 porque dessa alteragao. Mas seria preciso saber mais a respeito la nova relagao entre dona Heloisa, entio no Conselho Nacional de Protegao aos Indios, e Eduardo Galvo que, 20 voltar dos Estados Unidos, fora trabalhar no Servigo de Protegao aos indios com Darcy Ribeiro, para entender melhor suits posi¢des em instituigdes que estavam estruturalmente ‘em confronto."” Confronto uma palavra que poderia sintetizar boa parte «la atuagao de Heloisa no mundo intelectual de sua epoca Hortadora de um nome importante nesse mundo, ela ocupou intimeras posigdes politicamente importantes, a maioria vinculada diretamente 4 disciplina a qual dedicou o melhor «le seus esforcos, outras apenas indiretamente: todas, no entanto, a colocavam no centro do palco numa época em que poucas mulheres Id estavam. A fotografia dela como delegada lo Brasil numa reuniao da Unesco em Paris, tinica mulher uma fieira de homens, é tanto emblematica de sua impor- Lancia, como mostra que o cenétio internacional nao era muito a7 diferente do nosso. Tais posigdes eram disputadas e, a julgar pelas que ocupou, Heloisa era uma habil jogadora, Duas das disputas nas quais ela se envolveu merecem ser avaliadas aqui porque ilustram também disputas mais amplas no campo do saber: a disputa pela dirego do Museu Nacional, que a envolveu num conflito pablico com alguns de seus naturalists € a disputa pela citedra de Arthur Ramos. Na primeira, dont Heloisa saiu vencedora; a segunda, ela perdeu. Em 1939, visitando dona Heloisa ¢ 0 Museu Nacional, Alfred: Métraux registra em seu didrio que o prédio ménace ruine, dois anos depois Heloisa obtém verba do govemno federal para os consertos do edificio, € parte dele fica fechado a piiblico. As obras interferem também com o andamento do trabalho em alguns setores e serio o principal motivo de queixa de alguns naturalistas no momento em que a crise s¢ torna piiblica com a questo da eleiglo no Museu.” Em seu) depoimento no processo aberto pela reitoria da Universidade do Brasil, Heloisa vai dizer que a hostilidade anterior de alguns de seus colegas era “discreta € intermitente”, nunca tendo impedido “manifestacées de cortezia” e que “nunca @ trabalho no Museu se ressentiu desse movimento”. Mas 0 avis do ministro da Educagao, “tornou naturalmente mais viva € apaixonada a aludida campanha cuja acrimonia pode ser verificada documentadamente pela entrevista concedida, na ‘wéspera da eleigto, pelo naturalista Newton Dias dos Santos no vespertino Diirio da Noite”. © Museu Nacional esteve vinculado ao Ministério da Agri cultura até 1930, quando passou ao Ministério da Educacio € Satide. Em 1937, com a criagio da Universidade do Brasil, ficou lighdo a ela, até 1941, quando voltou 20 Ministério da Educacao e Saide até 1945, tendo, desde entdo, retornado a0 Ambito da Universidade do Brasil, depois Federal do Rio de Janeiro. Em 1945, no contexto das eleicdes gerais no pais, ‘© ministro da Educagio enviou um aviso a0 Museu pari realizar eleigdes para a direcio. Heloisa pediu um represen- tante do ministério para conduzir 0 processo e, nao tendo recebido resposta, decidiu nio presidir a eleigio, para mostrar sua isengio. Apesar disso, 0 processo eleitoral foi conturbado, ‘Alem da entrevista mencionada por ela, dada na véspera da cleigio por um dos chefes de secio do Museu, no dia da eleigdo a mesa que ela indicara para presidi-la foi contestada M8 6, na confusito que se segulu; foram feitas das atas da eleicho: contendo of incidentes do dia ¢ outra, apenas com os resultados que foram enviados ao ministério. Na sua entrevista, Newton Dias dos Santos, chefe da s de Zoologia, acusava Heloisa de ter perdido pegas do Megatherium, um antepassado da preguica, que fora desmon- tudo para mudanga de sala; de descuido com os sarc6fagos dus mamas, que estariam danificados; € de varios outros des- cuidos com o material do Museu. A pagina de jornal com a ‘i afixada nas escadarias do Museu no dia da eleigio. vse dia, um dos indicaclos por Heloisa para compor a mesa cleitoral recusou-se a fazé-lo, e dois de seus opositores jentaram impugnar a mesa, dizendo que ela n&io merecia a da ‘assembléia soberana”. Um dos integrantes da José Candido de Carvalho, sentiu-se "gravemente \njuriado" por suas palavras e esbofeteou Newton Dias dos Suntos. © fato foi registrade numa ata separada e, tendo prosseguido a elei¢ao, 0 resultado foi o seguinte: Othon Leonardos, 21 votos; Heloisa Alberto Torres, 11; Antenor Litto de Carvalho, 1; José de Araujo Lacerda Fei Dias dos Santos, 1. Othon Leonardos chegou a ser nomeado por decreto presidencial, em fevereiro de 1946, mas, como a duis era posterior ao decreto que reintegrava o Museu 2 Uni- idade, a nomeagio ficou sem feito.” Os jornais continuaram, no entanto, a tratar do caso durante © resto do ano, € a publicidade das acusagdes dirctora do Museu fez com que a Universidade abrisse um proceso administrativo para esclarecé-las.”! As acusagdes fcitas pelos naturalistas ne processo sao de viirias ordens, le a falta de armarios para a guarda das colegdes (“nao veria melhor comprar ammirios que cortinas e outros enfeites?”), jussando pela cozinha, pequena para 0 almogo de todos Cse wvesse boa vontade da diretora...") € pelo uso do livro de panto, até o estado dos sarcéfagos das mimias ¢ 0 desmonte lo Megathertum, Heloisa prepara um longo documento em jue responde cuidadosamente a cada uma das questdes, nos sérios, incluindo a avaliagao de especialistas, de Alberto Childe, sobre os sarc6fagos, ¢ de Llewelyn Ivor Price, wbre © Megatério, em outros, com uma ponta de ironia. Sobre a adogao de livro de ponto, diz, que era uma recomen- (liga dos préprios funciondrios: “Parecem ter mudado de 149 opinito,"" Sua conclusiio ¢ rispida: *Faltaram, em auxitio & ‘obra empreendida pelo Diretor do Museu, por parte dé alguns espirito de compreensio da fase inconfortivel de tr balho que era inevitivel atravessar © sobretudo faltaramelhe chefes, que dirigissem cada um dos s que se dividia 0 Museu.” Heloisa certamente contrariou interesses individuais. ag) nao autorizar © pedido de comissionamento de alguns dot naturalistas que a criticavam, pedido feito um pouco antes da crise, mas ela é também institucional e aponta tanto pat a redefinicao do lugar dos museus no ceniirio educacional brasileiro quanto para a diferenciagho da antropologia em relacao as suas vizinhas (geologia, botanica e zoologia) no Museu Nacional. Uma das criticas feitas & diretora era que ela nao reunia a Congregacio. Heloisa responde dizendo que a estruturagao da carreira de naturalista, por lei de 1936, extinguira a carreira de professor no Museu e que, segundo © ministétio, 56 professores podiam ter assento na Congregcao, Quando assumiu a diregio do Museu, apenas dois naturalistas, além dela mesma, eram professores concursados, Roquette- Pinto ¢ Jorge Padberg Drankpol, e ambos estavam afastados. A centralizagao do sistema educacional, iniciada pela reforma Francisco Campos em 1931; a extincto da carreira de professor os museus; a desacumulagio de cargos, tomada obri de irradiagao do saber, des 1934 em on Paulo de 1939 no Rio de Janeiro, comecavam a © expressava um desacordio sobre o que seria legitimo expor ha vitrine da ciéncia do pats que era o Museu, A certa altura do rol de acusagdes que fa ’ diretora, Othon Leonardos, Exposigio dos Centendrios, em Portugal, em 1940, diz. que “os mosteusirios enviados por Dona Heloisa a Lisboa, chegaram a ser arrumados no pavilhao brasileiro mas no foram exibidos ao pablico porque a Comissio julgou depri- Inente apresentar o Brasil como um pafs de negros € macumbas", citande os membros da comissaio organizadora nominalmente (Augusto de Lima Junior, Gustavo Barrozo, Guy de Hollanda e to Street) como fontes de confirmagio, A resposta de 1 foi incisiva: tum ponto que merece séplica, acima de todos: © Museu Nacional, solictado 2 apresentar aspectos etnogrificas da popu- lagao brasileira, nao poderia, a bem da verdade cientifica esconder 0 elemento negro da nossa populigao, elemento a {que tanto deve © pats. O conceito de superioridade de raga — {que tal omisio denunciaria — 6 anticientifico e... para os grandes apregoadores de doutrinas liberals (© que © senhor Othon Leonardos afeta de ser) € antidemocrético. O negro existe, tem sido explorado, trabalha, contribuindo de modo decisivo para © progresso do pafs e tem que aparecer em qualquer certame que envolva aspecto cientifico antropol6gico onde quer que 0 Brasil se faga representar.® Esgotadas as criticas & administragao de Heloisa, seus opositores comecam a expor seus preconceitos dle raga e de geslocar os museus de ciéncias naturais da_posic: que eles até entio ocupayam no campo da ciéncia.”® Outras crticas feitas a Heloisa sugerem que suas iniciativas de explicitar a separacao que comecava a se dar entre a antropologia ¢ suas vizinhas no Museu nao foram bem rece- bidas. Uma delas dizia respeito a criagao de séries separadas de publicagdes para a antropologia, a botanica, a geologia © a zoologia — a0 que ela responde com as exigéncias de especializagao, ja que as instituicdes com as quais 0 Museu intercambiava publicagdes nem sempre se interessavam pelo conjunto dessas reas. Pascoal Leme, 0 encarregado de editar essas novas publicagdes foi também atacado pelos opositores de Heloisa, que o acusavam de exercer censura sobre os manuscritos e de “comunista”. Mas outra era mais especifica 150 central enero. O documento produzido para a reuniaio do Conselho Universitario, na qual a questao seria decidida, € onde finalmente 0 conflito entre diretor e direiora se manifesta.” Pedindo a0 Conselho “a graca” de um interventor no Museu, os signatérios acusam Heloisa de “asfixiar a ciéncia”, *mane- jar como fantoches os cientistas” e abrir caminho “para a peor © mais intolerdvel das prepoténcias: a prepoténcia feminina, instaurando um regimem de matriarcado e perseguigio aos que The caem no desagrado”.” E, mais adiante, apelam para hombridade do Conselho: “A situagio nao € mais para contemporizacdes ou afetividades. E muito tarde para assim pensar, © caso atual do Museu esti acima das amizades los pontos de vista pessoais. O Egrégio Conselho Universi- ‘irio € composto de bomens livres, diretores, pensadores, 11 clentistas, educadores, juris terem atribuico os el semintico feminino, por oposigie cculino, livre dete sas injungdes, os signatirios do documento fazem 0 que sua légica deveria ser um elogio a Heloisa: “Todavia, faltou quem tivesse a coragem de Ihe advertir sobre o fut mas sempre declarou que ndo se interessava por rumores: ‘Talvez. por isso a carta anteriormente citada, comissio, nio tenha sido afinal enviada, j4 q\ darios de Heloisa utilizavam argumentos do mesmo tipo usados aqui, isto é, que denunciavam 0 seu opositor, coloei do-o numa posigdo simétrica e inversa, por ser pouco masel lino — assim como Heloisa era, aparentemente, murtto fe nina para ocupar a posic0 que ocupava.” Isto &, ambos grupos em conflito parecem concordar em que 6 perigo est vat Foluigae dis enters entre o magcalino eo Tesi pela ocupagao de lugares socialmente, explicita ou impli mente, destinados a uma dessas categorias, mas nio 2 tra Que a disputa era assim reconhecida na época pel personagens do campo intelectual, fica claro também na api iaglo de dois de seus contemporiineos ilustres: um tent aproprif-la para a categoria masculino; © outro ironizou categoria feminina. Afrinio Peixoto, num cartao de agrade ‘mento, com timbre da Academia Brasileira de Letras, ilustra tentativa de apropriacio: “Nilo me enganou o instinto, quan pensei que o Museu devia estar entregue a homem — mai que homem ¢ uma mulher e senbora-sdbio, pois que V.EXcia nao € outra coisa.” q mentos de Herbert Baldus, agradecendo a boa acolhida que teve no Rio, € mais irénico ¢ parece aludir & situaco do Museu no ano em que Ii esteve: “Fiquei encantado com a doce gineco- cracia (cf. esse termo no Diciondrio de etnologia ¢ sociologia de Baldus ¢ Willems), e quase me veiu a vontade de tornar-me um de seus stiditos. Acho, porém, mais conveniente, ficar aqui na qualidade de seu representante diplomitico ¢ esperar a sua visita em abril.” Na segunda disputa importante em que se envolveu, Heloisa enfrentaria 0 outro antropélogo que tinha © mesmo estatuto que ela no cendrio catioca: Arthur Ramos. No primeiro caso, Heloisa mostrou que, apesar de mulher, era 2 mais forte nas. 12 clrcunstiineias; as circunstineias serio diferentes no segundo no qual outra mulher pareek caso, ser a sua opositora Segundo Castro Faria, Heloisa foi indicada por Gi Hreyre para substiturlo na catedra de Antropologia da Uni- \eisidade do Distrito Federal, erinda em 1935, e que teve vida curta, encerrando suas atividades trés anos depois. No mesmo departamento, Art ‘ocupava a eitedra de Psicologia. No imbito iisputa politica pelo controle da educagio superior no pais, foi eriada a Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil ¢, em novembro de 1939, Ramos loi indicado para ocupar a cétedra de Antropologia e Etno- gratia"? Uma oposico andloga a que os contemporaneos liam nas relagdes entre a Escola de Sociologia e Politica e a Facul- dle de Filosofia, em Sao Paulo, pode, a partir dai, ser lida | nas relagdes entre 0 Museu e a nova Faculdade. A Faculdade passou a ser o centro de atuagio de Arthur Ramos, provavelmente o antropélogo mais importante na cena nacional naquele momento e que fundou, junto a cadeira que regia, a Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnologia (1941-1949) por onde circularam quase todos os antropélogos que Visitaram o pais e muitos pesquisadores nacionais.™ Sua igem aos Estados Unidos, as relagdes académicas que li, estabeleceu, em 1941, ¢ as posigdes publicas que assumiu | durante © Estado’ Novo, fosse na defesa da luta dos negros cla cidadania, fosse contra 0 nazi-fascismo que tomava conta | de parte da Europa, Ihe deram a partir dai uma posig&o tio | central na politica da disciplina quanto a ocupada por Heloisa ) \UG entdo, A convivéncia de ambos parecia no entanto pacifica, a julgar por dois exemplos citados por Azeredo: uma carta de Heloisa \ Arthur Ramos, em 1941, oferecendo-lhe uma oportunidade ule cooperagio entre as duas instituicdes e outra, do mesmo. \no, propondo a realizacao do Primeiro Congreso Brasileiro le Antropologia, ‘Na primeira carta, Heloisa reafirma sua énfase no trabalho de campo como treinamento necessirio do antropdlogo: Apresenta-se agora uma oportunidade feliz de reiterar-Ihe © oferecimento — feito no dia da instalaclo dos cursos da Uni- versidade do Brasil — de cooperago entre 0 Museu Nacional 153 © a sua cadelra de Antropologia. std trabalhando conosce” livre-cocéne De. Charles Wagley, da Universidade de Columbia, que dew i r cio A instrugio de ‘alguns rapazes, em etnologia. Alin de salhos tenh AFeCeU-NOS veniente, 10 Dr. Wagley © a mim consulti-lo sobre o inten que terlam alunos da Universidade em frequentar essa ia, A organizagdo dual entre os fndios brasiletros, ocupar formalmente a edtedra que regia. Dona Heloisa fuzia parte da banea, da qual participaram também Faria Gois © Frées da Fonseca ¢, segundo Costa Pint m maior repereussio, Devido a certas condigdes de instalagao de trabalho © a0 © Ramos petdoou Heloisa (..) 0 fato dela haver feito todo de ensino adoudo, sou forgada a limitar 0 adimeno, ironia com um erro de tradugio do Ramos, que confundiy alunos a serem admitidos no curso. Suit duracio sect de ce Jog race com dog race, disse que isso era um esporte de tres meses, findos os quais alguns rapazes deverto se favorito dos indios, quando na verdade 0 indio s6 conheceu para 0 campo com o Dr. Wagley. ccachorro muito depois, trazido pelos europeus. A cosrida era serastando um toro de madeira (log), € hé enorme diferenca Tal cooperagio, segundo © pesquisador que analisou ‘entre tora € 1016 documentaclo, parece nao ter se concretizndo. No fim mesmo ano, Heloisa escreve a segunda carta: Quarenta anos depois Castro Paria ainda recordava a anedota, uma das mais recorrentes da historia da antropo- logia dessa época, em seu depoimento na UnB. No contexto © projeto de promover o Primeiro ongresso Brasileiro, TAROroloptd gems Gouisnbear Aciedbencues ao ahisea dius disputas de entio, o depoimento de Castro Faria pode Gmeiados de 1943) foi recebido pelo Governo com a maxi se lide também como a defesa de um grupo ¢ de seus obje- simpatia, Eu no tinha querido dar nenhum passo nese sent livos, © do Museu, contra outro, o da Faculdade, seja_na do antes de conhecer 0 pensamento das autoridades. Agor esqualificagaio do conhecimento etnol6gico de Arthur Ramos, recebi ordem pari organizar com urgéncia 0 plano; obter seu concurs nesse trabalho, venho convidé-lo part Ui pequeno jantar a ter lugar depois de amanha, 12 de novembro, As 20 hors no restaurante Santos Dumoat. que ele definia como produtor de um conhecimento, literal- nente, “de edtedra” sobre o negro brasileiro, seja na criti sua orientagdo teérica, Referindo a Introdugdo @ antropologia brasileira de Ramos, Nao sabemos se o jantar se realizou, mas esse empreendic Castro Faria afirma: “Esse compéndio tomou-se 0 veiculo, mento, iniciado por Heloisa, levaria mais de dez anos para se por exceléncia, do culturalismo da antropologia norte-ame- concretizar: somente em 1948 6 ministro da Educacio ¢ Satide, ricana.” B, discutindo 0 programa da cadeira da Faculdade, Clemente Mariani, designou, através de portaria, uma comissio publicado por ocasiao do edital de concurso para substitu para organizar o Primeiro Congresso Brasileiro de Antropologia, Arthur Ramos, admite a troca da palavra etnografia, oficial, Ignorando possiveis tensdes locais, eram designados para por etnologia, como ocorrera no edital, mas adverte: “Chamar ‘compor a comissio Alvaro Frées da Fonseca, Edgar Roquette- de ‘antropologia cultural’, cujos novos métodos 0 professor Pinto, Arthur Ramos e Heloisa Alberto Torres. A comissio se \lizia seguir, isso seria impossivel.” A conclusio € clara: "Tal reuniu em fevereiro de 1948 — sem a presenga de Heloisa & quadro mostra que, na realidade, o ensino de Antropologia de Ramos, ambos representados por Castro Faria que j& tinha has Faculdades de Filosofia ndo oferecia condigoes para a feito um documento sugerindo a diretora do Museu os pardmetros lormagito de antropélogos."” da reunito.* Ela foi, afinal, realizada no Museu Nacional, em © conflito expresso por aquela anedota vai assim muito 1953, sob a presidéncia de Herbert Baldus, e ali nasceu_a \lém de um mero “facciosismo" entre duas instituigdes — uma idéia di criagao da ABA, Associagio Brasileira de Antropologia dle ensing, outta de pesquisa — © mostra que af relagbes concretizada dois anos depois na Bahia, lonsas entre a diretora do Museu e 0 catedritico da Faculdade As relagdes entre ambos se tornaram mais tensas no dle Filosofia definiam também os termos de uma disputa inicio de 1946, quando Arthur Ramos defendeu sua tese de interna ao campo da disciplina: seu objeto, seu método de 154 155 de pesquisa e sua *identidade social", Isto 4, 0 sitio Instituctonil como docente, além de reforgar a distingao entre a Facuk da nova diseiplina.™ © o Museu, Arthur Ramos parecia também yer em Heloisa uma representante do que considerava a velha antropologia, ou “eiéncia de museu"."” Em 1949, quando Arthur Ramos aceitou convite part irigit © Departamento de Ciéncias Sociais da Unesco, a relagdes entre eles atingiram um ponto critico, ao tornarse Anhur Ramos morreu em Paris — como seu mestre Nina publica a disputa pela interinidade da citedra — entre Heloise Rodrigues, tornando mais ligubre essa disputa prévia de sua © a assistente de Ramos, Marina Vasconcelos.” wdtedra — sem saber o desfecho da histéria" que 0 preocupou Heloisa escreveu @ Arthur Ramos, avisando-o de sty ué 0. final da: vide, otic tostrs\ Asciedo @, embors sua intengao de candidatar-se para substitu‘-lo em sua ausénciay sislavanié Tealisi-aflnal; $e fomado yssubednes: comozele a, 8 interesses que Heloisa representava foram, a longo prazo, vitoriosos no campo da antropologia: a pesquisa de -impo € 0 modo de acesso privilegiado ® profiss2o, a etnologia Nao quis, portanto, em face dos compromissos provavelmente ‘ity pone ese peda seas Ev see ea € um papel muito mais central do que a “etnografia do para VS, dada a cordialidade de relagoes que, desde 1930, he gro” na constituigio dla disciplina em moldes contempora- sempre existiram entre nds. E com prazet que 2s relembeo, ontririo de Arthur Ramos, Heloisa teve éxito na reavivadas que foram por ocasiio de seu concurso em que eo profissional de pelo menos um dos varios jovens tive a hon de igur conto exminadora¢ and recentemenie que estimulou a seguir a carreira de antropélogo. Aawopologia, Pn nh nor © nwo Conaresso Beasckg Enguanto a questio nao se decidia, Heloisa parece ter hesitado sobre o trabalho a apresentar para 0 concurso a Em sua reeposta, Arthur Ramos foi extremamente dic citedra de Ramos: entre seus papéis no Museu Nacional ha nao haveria wacincia da catedra, ¢ sim um simples afasta pars:deium fabslho dalllogeiede, /Micom:pipnaide ata, mento; sua assistente nada pleiteara e sua indicaco fora feita nattesas 6H "Teserapresentida fant sooneiiora iateden de pelo catedratico, \ntropologia e etnografia da Faculdade Nacional de Filosofia, Rio de Janeiro, 1950". O trabalho tem por titulo Observagées «intropométricas e € uma retomada dos dados de uma pesquisa fcita em 1922, no contexto de uma pesquisa mais ampla de aqueles que se dedicam a vida universitira, pera o ace Koquette-Pinto sobre a populacao brasileira. Das 700 aquelas posicdes que os conduzirio os postos do professor, lichas antropométricas dessa pesquisa, Heloisa se propunha © contritio disso seria a subversio completa dessas normas « analisar 184, todas de mulheres entre 19 ¢ 24 anos, “domésticas, uum dlesestimulo a carreira de professor. cmpregadas de escrit6rios, de lojas, oficinas ou fAbricas do Kio de Janeiro” # E mesmo que @ minha auséncia temporiria possa ser interpi tada como vacincia, h4 normas éticas, sempre respeitadas por Lembrando que Marina cra sua assistente ha nove anos, ¢ que seus planos no exterior, apoiados pelo ministro da Educagio, o reitor da Universidade e 0 diretor da Faculdade, dependiam de uma continuidade do programa por ele iniciado, Arthur Ramos conclui afirmando que Heloisa “nao é membro 1 Na introdugio, Heloisa mostra um interesse que infeliz~ nente nao desenyolveu em nenhum trabalho, mas que iparece em quase todos os seus textos. Diz ela: do corpo docente da Universidade, nio sendo livre-docente”, do peaoad pun Team Cones ney ee *VS. & diretor técnico-administrativo de um Museu, que stopseta eral Beal, ole an ease Be requer de sua capacidade as suas melhores energias, © Set orgies que o toma merecedor de malorlntersse. A pobroea maior devotamento e até, por lei, 0 seu tempo integral.” Ao Ge conhecimento sobre 0 assunt9 reveste de maior relevo a tentar desqualificar sua pretensio de assumir yma cadeira documentagto em causa. 136 Queixando-se da “tarefa drdua" que fol entrevistar aquelas mogas, jd que elas “furtavanr-se a observagdes sob alegagdes de uma série intérmina de preconceitos, ora de origem supersticiosa, ora de pretensa ordem moral", Heloisa tentava, quase trinta anos depois da realizacdo da pesquisa, recuperar 9s objetivos da proposta de Roquette-Pinto: "Verificar o grat de expresso de cada traco racial em uma populagio hetero= génea racialmente falando.” Apesar de toda uma discussio. metodoldgica sobre a qualidade dos dados, das fichas @ grificos que acompanham o texto, ele foi deixado inacabado, talvez porque, ao contririo de Roquette-Pinto, Heloisa nao. tenha mais conseguido encontrar uma “Iégica racial” nesses dados. A certa altura, diz ela, “a média da idade pibere pouco. difere no grupo negréide e caucaséide”. Ja havia uma incom= patibilidade entre a ciéncia aprendida por ela na juyentude ‘98 novos ares da antropologia — como ela mesma dissera a0 defender sua escolha do que apresentar na exposigao em Lisboa. A sua definigao do grupo com o qual trabalhara ja ¢ inteiramente distinta das definicSes de Roquette-Pinto: ela define as mogas entrevistadas como “um grupo homogéneo pela sua autonomia financeira”.* Talvez por isso Heloisa tenha se decidido a elaborar outra tese para o concurso, esta acabada, impressa de acordo com © regulamento ¢ também trazendo na capa a inscrigao: Tese apresentada ao concurso para provimento da cadeira de Antropologia e Etnografia da Faculdade Nacional de Filo- sofia da Universidade do Brasil, Rio de Janeiro, 1950. Inti- tulada Alguns aspectos da indumentaria da crioula babiana, sua apresentagao € mais incisiva, j4 nas primeiras palavras da introdugao: © presente trabalho abrange parte de um vema de pesquisa que, hd alguns anos, prende nossa atenglo. Numa sociedade como a nossa, formada por colonizagio, algumas dezenas de anos dle independéncia politica nao chegaram a apagar a orientaga0 econdmico-social que proporcionou 20 regime patriarcal sua mais ampla e pacifica expansio. Nesse regime, 2 ‘mulher nasceu, cresceu e — com exclusio da professorn — assou a vida limitada a um mundo to alheio aos interesses dda cultura, da inteligencia e do espirito, como estrunho a0 cam= po da atividade social direta 158 Depols de citar alguns ‘tipos culturais femininos’, como a | fuzendei comereiante, a rendeira, Heloisa diz que a crloula baiana “pela pritica de varias e complexas atividades | elo exercicto de fungoes reconbecidas como masculinas pela 10 propria, original ¢ definida”.. A partir de suas entrevistas.com 22 mulheres, entre 40 ¢ 94 nos (cuja “solicita € leal atengio” ela elogia, o que parece opO-las &s entrevistadas da outra pesquisa), Heloisa vai analisar os usos do pano da costa pelas baianas. Sua atengio, no entanto, se detém mais no detalhe técnico da tecelagem dos panos — cor, textura, tipo de tear ou de fio utilizado — ao lazer a anilise; a apresentagao do uso deles, no cotidiano, ‘om festas ou ceriménias religiosas, fica por conta das belas lotografias anexadas ao trabalho: F imteressante que, ambor ante sobre o trabalho a levar a0 concurso, Heloisa tenha que pudesse uti- lizar os estudos Soles pao >§ patrocinacos ou estimulacos pelo Museu. E que, no casos, tenha pens: \ formulagio creiprine a do problema — na relasio entre raga e género. Nesse trabalho, de certo modo, Heloisa retomava um inte- esse de pesquisa que j4 aparecia em seu primeiro trabalho sobre a certimica de Maraj6, no qual dizia: “A técnica é edu- ativa.” Mas seu interesse pela parte técnica da cerimica, também li no a impediu de interessar-se pelas mulheres. As obser- yagdes ver bem ao final do trabalho: No curso de trabalhos da natureza dos que veaho fazendo atravessam-se momentos de intensa emogio, Sempre bavta sido para mim motivo de orgulbo considera que, nna regio da América em que s6 mulheres so oleiras se tinha desenvolvido na cerimica a arte mals tiea, sObria e vigorosa. Objetavam-me alguns senbores — que, sim, seriam mulheres as oleiras mas que tratando-se de arte aplicada a fins reli- glosos, no momento da decoragio certamente passaria a tarefa a0 sacerdote, Certo, Nada a replicar. © encontzo em cronistas de descrigto do fabrico da cerimica da sua ormamentagao exclusivamente feita por mulheres no litoral sul do Brasil, velo despertar em mim novas esperangas 159 de que 2 mulher, também em Maraj6, tivesse sido a executort dos ornatos. Mas agora, em face de wdo 0 que acabumos de passar em revista, forgoso € reconhecer que a arte se desen- volveu nas mios do homem a quem competem, em geral, of Ministério de Educagio, num projeto de governo “feminista” do jornalisia Mozart Lobo, cujos ministérios seriam todos ocupados por mulheres (Bertha Lutz, Alzira Vargas do Amaral ibalhos de trangadk Peixoto, Carmen Portinho, Carlota Pereira de Queiroz eram: aan s outras) e por Carlos Drummond de Andrade na crénica na realidade, tal se dew, nto se pode srbuir 20 homem nd Se a nad sicipeiids eee moe clas: ec wlte, “Oitenta mulheres na Academia”, na qual ridiculariza a gscim dizer, um certo constrangimento Imposto pela matéla proibigdo da entrada de mulheres ia Academia Brasileira de prima que concomeu para imprimir mais seguramente a sua letras ¢ apresenta os nomes de mulheres que Ihe parecem Expressdo artista. Nao fot completamente por culpa prépda merecer tal honra; sera entrevistada, com Rachel de Queiroz {que atingiu tamsnho resultado, © Lucia Benedetti, a propésito de uma pesquisa que teria demonstrado ser a mulher o “sexo forte”; entrevistada por Lneida sobre sua carreira, frequentemente citaca por Deum- inond em suas crOnicas — até wansformar-se em exemplo na coluna “Mulheres de ontem e de hoje", aos sessenta anos.” . ! De senhorinha, passando a senhorita, ou mademoiselle, como Nio sabemos quem seriam aqueles senbores, mas, das oleiras a chamava Dina Lévi-Strauss nas duas carts que the escre- as “crioulas bahianas”, passando pela pesquisa nao publicada veu, a dona (dora, como grifava Métraux), Heloisa Alberto sobre as jovens trabalhadoras usbanas, vemos um timico mas ‘Torres foi uma presenga constante no noticiério carioca dos persistente interesse que, infelizmente, Heloisa nto desens pha nase S0) ced dena Oks Iepertanse oars wail volveu. Provavelmente, também nunca saberemos quem las jovens nesse periodo em que as mulheres comecavam a seria a “talentosa jovem” que ela pretendia iniciar na pesquisi frequentar a universidade em nosso pais. No Ambito da sua de campo na década de 50, em sua vltima pesquisa que, se disciplina, nenhum antropélogo brasileiro de sua geragio se io rendeu nenhum trabalho escrito, cew origem a um filme Gnpenhon bales oe internacionalmente premiado.” chtre nés, Seu empenho nao foi em vio: quando Roberto Cardoso de Oliveira retomou as expedigdes de campo com andidatos a antropdlogos na década de 60, no mes- Nacional, e estabeleceu uma parceria com outro Por sua vez. a mulher, quando Ihe coube passar a seu campo de atividade a arte desenvolvida que o homem criara, mostrou-se a altura do companheiro ¢, mais previdente do que ele, soube imprimir em matéria durivel a perpetuagao dum cultura forte. E pouco provavel que Heloisa fosse considerada_uma feminista pelas suas contemporineas que 0 eram evi em seu arquivo de pelo menos uma desavenga entre elas ea diretora do Museu. Mas a imprensa i jovem antropélogo que vinha dos Estados Unidos, David considerou parte do movimento feminista e a apresentou, nos Maybury-Lewis, iniciativas que dariam origem ao Programa anos 20, como tal, em matérias com titulos do tipo “Uma vie- (le Pos-Graduacdo em Antropologia Social, retomava também toria do feminismo" ou “Lugar & cultura ¢ 2 intelligencia da Mulher!", todas elas ilustradas com uma foto em que Heloisa parece uma atriz do cinema mudo, com grandes olheiras, Todas as matérias, no entanto, aludiam a seu famoso pai, Um pouco mais adiante, nos anos 30, ela aparece no contexto da propaganda pela paz, como membro do Comité de Propaganda Luta Contra a Guerra, entre nomes como os de Nise da Silveira, Eugénia Alvaro Moreira, Maria Lacerda de Moura, Itdlia Fausta ¢, desde af, sempre no contexto de reportagens sobre “mulheres ilustres", Aos poucos o nome de seu pai deixa de ser mencionado, e ela seri um dos nomes sugeridos, para o Tadigio d —_ (MISTER. DOS ORKAS £ DAS RONECAS RACAE GENERO NA ANTROPOLOGIA BRASILEIRA Win spt lia sa. baetieis do aptcaprslntin: Fanelli a perseguigao solfida por Ruth Landes dentro e fora do pais, irias vezes retomado nos tiltimos anos seja no contexto das importincia do texto na consti- \o da antropologia como disciplina, seja na recente énfase ha discusso sobre a relagio entre raga e género, sugere que 1na releitura do contexto em que esse epis6dio ocorreu pode instrutiva. Pois foi no contexto da constituigio do campo »studo das relagdes raciais no Brasil que uma série de supostes sobre essas relagdes se confrontaram e deram inicio so que parecia ser uma nova época: no inicio da década de 40, a famosa tese de Gilberto Freyre insistia_na_influéncia. lusa na vida nacional no momento mesmo em que comecava \ haver uma troca de guarda na vida intelectual da antiga colonia, ¢ © pais passava, lentamente, da esfera da influéncia curopéia, € mais especificamente, francesa, pata a esfera da influéncia norte-americana — a qual, aliés, 0 préprio trabalho ule Gilberto Freyre prenuncia. Dois eventos parecem sinalizar, imetaforicamente, essa mudanca dos tempos: a ultima exposigio «lo velho mundo colonial, a Exposicao Histérica do Mundo Hortugués, em 1940, e a New York World Fair, primeira expo- do novo mundo colonial, em 1939, ambas realizadas ido se iniciava uma guerra que propiciaria essa troca de arda, Numa € noutra dessas celebragdes globais, a atuagao: de duas mulheres brasileiras como intermediarias das relagdes da cultura brasileira com o cenario internacional se fez. not de maneiras diferentes, no primeiro caso pela auséncia, supressio; no segundo pela presenga marcante e, em am 98 casos, indicando que desde entao as relagdes entre raca énero estiveram entrelagadas na exposi¢to da cultura nacional ‘A uma cena que pode parecer menor na trajet6ria. da ant p6loga Heloisa Alberto Torres, ¢ & grande cena intemnacions na qual se projetou Carmen Miranda, se deve adicionar a c protagonizada por Ruth Landes, numa histéria que ni ganhou o palco de exposigées internacionais mas que, ain assim, tem sido reiteradamente evocada como marea, ou ma dessas relagdes. f a relacio dessas trés cenas, como nul ingulo, que talvez faga algum sentido, e &a cena protagoni por Ruth Landes que parece emprestar sentido as outeas du A primeira figura que serve de guia a esse relato 6, assim, das bonecas baianas que foram enviadas & exposico portugues por iniciativa da curadora dla parte etnogrifica daquela exposi Heloisa Alberto Torres, ¢ logo depois dela suprimida: entender seu percurso, sera necessirio fazer um peque détour pela hist6ria de sua constituigio, ou corporifica como um simbolo nacional nao desejado, primeiro, e dep objeto de desejo. Sera preciso um pouco de paciéncia entender porque devemos comecar com a hist6ria de Landes, uma antropéloga norte-americana que fez pesqu ‘na Bahia, para chegar a esta figura. A segunda figura que fi serve de guia é a de Carmen Miranda, cujo traje tipico esti zava a vestimenta da primeira, ¢ que, enviada 4 exposigl norte-americana, foi desde entao transformada num icone assim chamada cultura nacional. A sobreposi¢io de mulheres braneas e simbolos de orl africana, nas imagens presentes em ambas as exposici expressa melhor, talvez, do que as palavras poderiam fa76+ 1a relagio que estou querendo analisar aqui. Para compre essa relagio, € necessirio compreender também o censirio qual essas figuras fizeram sua apari¢io. “BAHIA. O BRASIL NASCEU AQUI"? Na década de 30, um nimero significativo de inteleet baianos migrou para capital do pais, entio @ cidade do 164 le Janeiro, € lou seu quartel-general para a divulgagio do grupo que Arthur Ramos batizaria de “escola Nina Rodrigues”. Resumidamente, a estratégia que pode ser lida ex post facto, mas que era também uma atuagao refletida a €poca dos eventos (Ramos, 1937), se expressou na edicao ou reedicio dos lrabalhos de Nina Rodrigues; na divulgagio dos trabalhos le intelectuais do grupo, através da Biblioteca de Divulgagao Cientifica, da Editora Civilizagio Brasileira, dirigida por Ramos — mesmo nome que tivera, aliés, a colegio coordenada por Afrinio Peixoto, na antiga Editora Guanabara; e na ocupacao de postos importantes no aparelho de Estado. Alguns desses intelectuais nao eram nascidos na Bahia, como 0 préprio Nina Rodrigues (1862-1906) © seu auto- proclamado discipulo, Arthur Ramos, mas todos tinham feito sust carreira, ou parte dela, ki. Podemos identificar trés geragdes le baianos no cenario carioca: Afrinio Peixoto (1876-1947), © mais antigo integrante do grupo, foi professor das facul- dudes de Medicina e de Direito, membro da Academia Brasi- Ieira de Letras, reitor da Universidade do Distrito Federal criador € organizador do Instituto Médico Legal que depois levaria seu nome, © educador Anisio Teixeira (1900-197), no reclamado como parte do grupo, era, no entanto, amigo sle todos os outros € ocupou o cargo equivalente ao de Secretirio de Educagio do municipio, ocupado antes por Alrinio, além de ter sido conselheiro da Unesco ¢ criador ¢ jo geral da Capes. © médico Arthur Ramos (1903), slurante algum tempo foi funcionario da Secretaria de Edu- cago, depois professor da Universidade do Distrito Federal ©, em seguida, professor de antropologia da Faculdade Nacional de Filosofia, Em 1949 transferiu-se para Paris, para ‘ocupar o cargo de chefe do Departamento de Ciéncias Sociais tls Unesco, lé vindo a falecer cerca de dois meses depois de vi chegada, Edison Carneiro (1912-1972), também agregado escola” por Arthur Ramos, dela se desvinculou explicita- hiente em varias ocasibes. Jornalista © escritor, foi também luncionario do SESI (Servigo Social da Indistria) da Capes, \cipal vinculagdo foi com a Comissio Nacional do igadla & Unesco, criada em 1947, € coma Campanha Nacional de Defesa do Folelore, de 1961 a 1964 — quando foi al iar outs sua pr Volelore, stado pelo governo mili 165 _ Sua atuagio conjunta, desde a capital do pats, multiplicou em muito © aleance que esses intelectuais de provincia teriam tido se restrtos a0 seu estado natal, ou de adocao. Vista de hoje, la se assemelha a uma operagto de guerrilha cujo objetivo Parecia ser destronar a posigao, que comecava a ganhar foros de“hegemonia, de Gilberto Freyre, no campo do estudo das Felagées raciais, Mais do que os livros publicados nessa década, {98 dois Congressos afro-brasileiros, o primeiro organizado em Recife, em 1934, por Gilberto Freyre, ¢ o segundo organizado na Bahia, em 1937, por Edison Carneiro e Ayadano do Couto Ferraz, serviriam de vitrine para as discordancias entre pernam- bucanos ¢ baianos, Em 1933, Gilberto Freyre publicara Casa grande & senzala, recebido com muitas criticas pela intelece lade brasileira, antes de se tornar, poucos anos clepois, a sintese da “cultura brasileira",’ e o Congreso do Recife de certo modo colocara em cena, literalmente, no palco do teatro Santa Isabel, as idéias ali expressas. Nas vésperas do segundo Congreso, numa entrevista concedida a um jornal local, ¢ re-publicada em O Estado da Bahia, Gilberto Freyre fazia criticas 4 organizagio do Congreso da Bahia: Recelo muito que vi ter todos os defeitos das coisas improve sadas. Deveria ser muito maior 0 prazo para os estudos, para 48 contribuigdes dos verdadeiros estudiosos. Os verdadeiros eestudiosos trabalbam devagar. A nilo ser que os organizadores do ial congresso s6 estejam preocupados com o lado mais pito. Tesco € mais artistico do assuntor as *rodas® de capoeim © de ‘samba, 08 toques de “candomble", etc. (..) Creio que 6 fato de © Congresso Afro-Brasilciro do Recife ter encarado 0 negro € 6 mestico do negro, nto como um problema de patologia biol6- ica, a exemplo do que fez © proprio Nina Rodrigues — que ‘ert um convencido da absoluta inferioridade do negro e do. mulato — mas como um problema principalmente de desa. justamento social, representa uma conquista notivel pa Os estudos sociais brasileiros e de profunda repercussio politica Mas no me parece que os congressos afto-brasileiros devam resvalar para a apologia politica ou demageigica da gonte dle cor! A resposta de Edison Carneiro a esta critica, ainda que estivesse implicita na apresentaglo do volume que reuniu os trabalhos apresentados ao Il Congreso Afto-Brasileiro, ficaria inédita por mais de vinte anos, e resume aquelay cordincias: 166 Esta ldgacdo imediata com o povo negro, que foi a gléria malor ‘do Congresso da Bahia, deu ao cestame “um colorido Gnico", ‘como ja previra Gilberto Freyre. Arthur Ramos, em carta que me esereveu sobre a entrevista 20 Didrio de Pemambuco, dizi: *O material dai, que [Gilberto Freyrel julga apenas pitoresco, constitu justamente a parte de maior interesse cienttfico.” 0 Conpresso do Recife, levando os babalorixis, com a sua misica, para o paleo do Santa Isabel, pas em xeque a pureza dos ritos ‘africanos. O Congresso da Babia nto caiu nesse erro. Todas as ocasides em que os congressisias tomaram contato com as coisas do negro foi no seu préprio meio de origem, nos eandombles, nas “rodas" de samba e de capoetra. (..) © Congresso prestou 2 homenagem que devia a Nina Rodrigues — inexplicavelmente rnegligenciado pelo Congresso do Recife — proclamando-o 0 (plonciro incontestavel dos estudos sobre © negro no Benxi.” ‘Tr@s elementos pareciam se constituir, assim, nos signos de diferenciagao entre baianos € pernambucanos: a primazia no estudo das relagdes raciais, atribuida pelos primeiros ao médico Nina Rodrigues; a evidente énfase dos baianos numal atuago politica; e, 0 que foi a marca do seu trabalho ma Epoca, a “africanizagao" da Bahia, com tudo o que isso imp! cava — a comegar pela eleigao de certos centros de culto como ‘puros”, por oposicao aos cultos “hibrides”.* Foi nesse cendrio de constituigao de um campo de estudos quéa relagio entre género e raga fez seu aparecimento na WistGrin do nose Ceiplina”Nesses anos, nas décadas de-30 40, © Brasil recebeu intimeros pesquisadores de outros paises — a maioria interessada em pesquisar os nativos do pais Ruth Landes foi quase uma excegio ao eleger o tema ca para sua pesquisa ¢ foi uma excegio por se tratar de uma pesquisadora por conta propria, jt que, até entdo, as pesquisadoras que aqui chegaram eram doublés de esposas clos pesquisadores — como Dina Lévi-Strauss, Frances Herskovits, Yolanda Murphy, para lembrar algumas das poucas esposas cujos nomes a histéria registra. Aqui chegando, Ruth Landes seguit 0 caminho habitual dos pesquisadores da Epoca: apresentou-se a Heloisa Alberto Torres, ou Dona Heloisa, ‘como era mais comumente chamada, uma espécie de equiva- lente, para a antropologia de entao, as ‘maes"-de-santo baianas sobre as quais Lancles chamaria a atenglo em sua pesquisa em Salvador. 167 Dona Heloisa era pais — atuagio garanti Museu Nacional © sua participagio em que controlavam 0 acesso aos grupo: as do pals = assim como Arthur Ramos ert o padrinho dos estudos sobre © negro, tanto gragas aos vinculos que mantinha com a suit cidade de adogo, quanto gracas aos que estabeleceu com of baianos na capital do pai Sem o saber, Landes estava transpondo campo ji minado por dissensdes ted: metodolégicas @ madrinha dos estudos etnolégicos no 1 como diretora do. das agenciay As andlises jorn feitas a respelto da perseguigho que ruth Landes soffeu por parte de Arthur Ramos ¢ Melville Herskovits parecem assentar-se sobre tres pontos: prin isto €, tanto pelo k ser uma mulher entrando num campo lo por ho © pela sua relagio amorosa com Edison Carneiro, se juia_ne mundo dos candomblés; segundo, por sua énfase has relagées raciais, num momento em que a antropologia ava a dar énfase a explicagdes culturats, ¢ terceito, por ‘descrigaio, destoante das descri a respeito politicas que, espero, fiquem mais claras durante a tivad 8 episédios nos quais ambas, ela ¢ Dona Heloi enyolveram. A CIDADE DAS MULHERES Ruth Landes (1908-1991) ficou cerca de um ano no Brasil, de 1938 21939, mas os ecos de wa esta aqui continua n ser ouvidos durante os anos seguintes € ressoam até hoje, Seu livre, publicaclo em inglés em 1947 e s6 traduzido a ° portugués em 1967, era conhecido apenas dos pesquisadores interessados no estudo dos candomblés da Bahia c, mesmo, visto com certa complacéncia, dado que era apresen- tado como uma reminiscéncia de sua passagem pelo pais, muito mais do que como resultado de pesquisa."® No cenario internacional, o livro recebeu uma resenha negativa, publi- cada na American Anthropologist, de um dos pesquisadores mais importantes da area de relagdes raciais naquela época nos Estados Unidos, Melville Herskovits; no cendrio brasileiro, seus resultados de pesquisa j4 tinham sido criticados por Arthur Ramos, em 1942, mesmo antes dle aparecerem em livro,!! ‘Tendo trabalhado durante algum tempo na equipe coordenada por Gunnar Myrdal, na preparagao de An American Dilemma: The Negro Problem and Modern Democracy (tim dilema americano: 0 problema do negro ¢ a democracia moderna Landes publicou varios artigos sobre a questo racial nos anos Seguintes, mas foi 6 na década de 90, quando as antropé- Togas norte-americanas comecaram a rever a hist6ria oficial de"sudiseiplina, que o livro sobre a Bahia voliou a desperlat feFESSE, agora a pautir da tica das relagbes entre raga e género.!? da importincia que as mulheres tinham nos ter fombié. Certamente todos esses pontos estiveram presentes na hostilidade que aqueles dois professores emonstraram em relagio & pesquisadora, mas hé ainda duas questoes, em geral subestimadas nessas andlises, que pa com merecer atenglo: uma delas diz respeito A constituicio clo campo de estudos sobre relagoes raciais, a outra, 2 consta- agi, feta por Landes, sobre a importincia da presenga de homossexuais no campo das religides afro-brasileiras."* © ‘Comecemos pela segunda questio, mas, de fato, como veremos, ambas estio intimamente ligadas: parece ser nos dois artigos sobre a homossexualidade nos cultos afro- baianos que, no Brasil, aparecem como apéndice ao seu livro, tna que foram publicados sete anos antes de sua primeira cdigio, em 1940 —e milo apenas na anilise do papel repre- sentado pelas mulheres baianas nos candomblés — que a relagilo textual entre raga e género se explicita no trabalho de Landes. Um desses € 0 artigo que Ramos critica em 1942 —certamente tendo em mira um dilogo internacional, isto &, com 0s pesquisadores estrangeiros, recentemente chegados dos Estados Unidos, que estavam interessados no estudo da populagao afro-baiana ¢ de cuja andlise ele se apresentava como 0 guardio oficial — herdeiro e continuador de uma tradigdo local cujo patrono era Nina Rodrigues."* © artigo de Arthur Ramos se originara de uma avalia 1a sobre o relatério de Landes, “The ‘Ethos’ of the Negro in the New World” (*0 ‘ethos’ do negro no Novo Mundo”, enco- imendado pela Carnegie Corporation, que financiava a pes- quisa coordenada por Gunnar Myrdal, e que ele recebeu para comentar em janciro de 1940, a pedido de Guy B. Johnson, um dos assessores de Myrdal. Diz Ramos: © resultado desses comentirios eriticos que enviel wo Dr. Guy. fo a rojeiglo, pela Comisado cla Cameyie, do trabalho encomenclad | Dra, Landes. “Suas observagbes — excreveusme pouicos MeN depois o Dr. Johnson — vieram confirmar as minhas descontle angas relativamente 4 exatidio das observagdes feitas pela Drk andes, No que concerne a parte do nosso estuclo sobre o Negee América, estamos grandemente desapontados com @ manuscrito da Dra, Landes, © nao temos a intenglo de apron veité-lo." Na mesma cata, previne-me 0 Dt. Johnson sobre @ possibilidade da A. publicar um ou mais artigos baseados em, ‘suas pesquisas no Brasil. “Quando ela o fizer — recomendoue me em conclusio — espero que 0 St, ou outros estudiosos brasileiros surjam com eriticas num esforce para comtgi 3s ine xatiddes © negligéncias das suas observagives."” No artigo no qual rememora sua pesquisa de campo no Brasil, Ruth Landes registra que Myrdal lhe mostrou, no final do ano de 1939, “uma volumosa carta” que Ramos ¢ Herskovits Ihe haviam escrito sobre ela, “ridicularizando a obsessio deles 2 respeito de meu alegado erotismo e incompeténcia profissional’.!* Uma carta de Landes enviada a Ramos, em 27 de dezembro de 1938, sugere que a critica de Ramos ¢ Herskovits deve ser posterior a essa data e que, certamente, era anterior & publicag2o de seus artigos e de seu livro, isto €, contemporiinea ao relatério feito por ela para a pesquisa coorcienada por Myrdal." Na carta, Landes informa a Ramos que ele, Edison Carneiro, M, Herskovits, R. Benedict, M. Mead, O. Klineberg € R. Linton receberiam seu relatério para comentar.® A carta € cordial, Landes anuncia seu préximo artigo sobre homossexualidade masculina, expressa saudades do Brasil e pergunta pelos conhecidos, inclusive pela esposa de Ramos, nada levando a supor que ji tivesse visto a carta enderegada por Ramos ¢ Herskovits a Myrdal, mencionada em seu artigo.”' Nao se sabe se Herskovits chegou a escrever um parecer sobre o Memorandum de Landes, mas uma carta dele a Ramos, de 1940, d4 uma idéia de sua opiniio sobre o trabalho dela: Prevado senhor Ramos, ‘Muito obrigado por ter me enviado seus comentirios ao texto da senhorita Landes. Tive a mesma impressto quando li seu rel 6rio que tive ao ler suss eartas, ito €, que seu material deveria ser, ara dizer © minimo, objeto de um’ re-estude muito culdadoso. v0 ico encantadlo com @ falo de voed ter escrito 0 que escreveu, | que tenho a Impressio de que as pessoas encurregaday E prossegue, acrescentando dacos as informagdes de Frazier que mostrariam a importncia das sobrevivéncias africanas ho caso da moga. Em sua resposta, comegando por dizer que estava pouco preocupado com a existéncia de sobrevivencias \lricanas, nos Estados Unidos ou no Brasil, Frazier retoma 0 cxemplo da moga: (© professor Herskovits acredita ter identificado a moga cuja ‘genealogia apresentei em meu antigo ¢ contradiz minha afirmacio de que ela conhecia apenas algumas palavras africanas, que havia aprendido no candomblé. Depois de voltar as minhas noas, descobri que cle nto identificara a moga, embora eu tenha registro da moga que ele menciona, E continua, depois de citar 0 parigrafo acima sobre a uculturacao superficial da familia, contradizendo a descrigao de Herskovits: Visite’ essa familia quase todos os dias ¢ vim a conhecer seus Integrantes muito bem. Sabia 2 respeito dos altares que “eram "5 cuidadosamente escondidos clos visitantes”. Sabia também que a “esposa’, que tem sangue misto, foi originslmente possuida por um deus indfgena e que as pessoas diziam que cla era ouea; mas que seu “marido”, quando a convidou a viver “ma- ritalmente” com ele, a convencen de que havia sido um deus africano [que 4 possuiral. Além disso, seu marido, que é negro € nada sabe sobre seus pais, no recebeu seu conhecimento sobre a tradicho € as habilidades afticanas dos pais. Esses outros fatos que citei foram conferides com os dados dla Dra Ruth Landes, que passou mais de um ano no Brasil e que tinha tum fetimo conhecimento desst familia.” Citei longamente esse exemplo porque creto que, além de evidenciar a disputa em tomo de objetos (e as figuras femininas eram objetos privilegiados) de pesquisa — a julgar pela historieta, eram poucos e bem conhecidos — ele mostra, nao. 86 como © “caso” brasileiro comegava a ser crucial para a disputa de orientagées teéricas que se travava no campo nortes americano, mas também quais eram as afinidades de Landes nesse campo. Creio que essas afinidades, explicitadas também por seus casos de amor com negros, primeiro na Universidade de Fisk, depois na Bahia, merecem mais atengio como parte da explicagao de seu longo periodo de desemprego do que 0 ataque por parte de Ramos e Herskovists." Isto é, que Landes foi “racializada”, por assim dizer, no contexto da antropologia nofie-americana da época e que sua trjetGria se aproxima, sim, muito mais da de Zora Neale Hurston do “que da de suas outras colegas brancas, herdeiras da tradicao bousiana,"! Que os ataques, velados ou nao, de Ramos e Herskovits contribuiram para isso, nto resta divida —e Landes era agudae mente consciente disso —, mas © contexto norte-americano dessa hist6ria nao pode ser minimizado.® Nesse contexto € interessante lembrar que Hurston, uma aluna negra de Boas, que depois se tornou novelista, foi assistente de pesquisa de Herskovits, que dizia sobre ela numa carta de 1927, depois de vé-la cantando spirituals. “(sua) maneira de falar, suay expressdes — em suma, seu comportamento motor —= (eram) 0 que se poderia chamar tipicamente negros. (Esse moyimentos tinham se) mantido como um padrio de compor tamento aprendido através da imitacao e do exemplo com om. escravos africanos originalmente trazidos para cf 1%6 Mas a posiclo de Herskovits no campo de estudos afro- americanos, apesar de influente, nao era dominante: a Carnegie Corporation chegou a considerar seu nome para fazer a pesquisa que redundaria em An American Dilemma com a escolha de Myrdal para chefiar a equipe, a ele foi assignada a tarefa de escrever um relat6rio a sespeito da influéneia africana sobre os negros americanos — que resultou em The Myth of the Negro Past (1941) [O mito do passado das negros|. Ao fazer a resenha dese livro, Frazier se perguntava se, ao dizer que “o problema do negro é psicolégico — que padres afticanos de pensar impedem a aculturagio completa do negro — tanto quanto econdmico € sociol6gico, nao esta cle dizendo que existem barreiras ainda mais fundamentais entre os brancos € os negros do que as que sto geralmente reconhecidas?” — critica que poderia ter sido feita a Arthur Ramos em 1934, no auge de suas andlises freudianas. A fecepeito ao livro por boa parte dos estudiosos da questio, parece ter deixado Herskovits numa posicio isolada e, quando Arthur Ramos comegou a planejar o que seria a influente pesquisa da Unesco sobre relagées raciais no Brasil, foi azier, € no Herskovits, © convidado para a primeira reuniio preparat6ria, em 1949, 0 que talvez sinalize a mudanga de rumo na orientagao de Ramos. Fosse como fosse, a reviravolta na anilise das reli origem africana tina comecado: ainda que seu livro tenha sido posterior ao fendmeno Carmen Miranda, do qual, ali cla fol testemunha, Ruth Landes fol pri ac 4, explicitamente, feminizar os cultos afro-brasileiros. A haiana, € claro, niio foi criagao sua, mas a revolta que essa cxplicitagao causou em alguns circulos brasileiros sugere que, intes de se transformar em simbol era uma realidade intrativel. Quao intratével sera demonstrado através da cxpulsio de sua representagao, inanimada, no palco de uma {cits internacional, e de sua aceitacdo, animada, no palco de outra: negra no primeiro caso, branca no segundo. Quando vro de Landes foi finalmente publicado no Brasil, mais de vinte anos depois da pesquisa, a figura da capa era uma baiana i estilizada e inteiramente incorporada & iconografia nacional — a escolha do capista parecia dbvia, obviedade «la qual s6 escapamos recorrendo 2 hist6ria de sua constituicao ‘em simbolo, =. O MISTERIO DOS ORIXAS E DAS BON! ‘AS Em 1940, Portugal preparou o que seria a ultima exposigha de um império colonial, a Exposicao Histérica do Mundo Portugués, para cclebrar dois centendrios — o oitavo de sua fundagao (1140) 0 terceiro da recuperagao de sua indepens déncia (1640), Nao vem ao caso historiar aqui o que foi essa grandiosa festa em pleno inicio da Segunda Guerra Mundial; ela é apenas 0 pano de fundo de uma histéria mais particular a qual empresta, no entanto, todo o peso histérico que ag hist6rias paniculares costumam ter. Como parte da histéria do mundo portugués, o Brasil fol convidado a participar ¢, por uma coincidéncia bem sublie nhada na Exposicao, o chefe do Estado brasileiro também $@ intitulava *Criador do Estado Novo", assim como seu equivas lente portugués. © coordenador dos trabalhos preparativos de sua participagio foi um general — Francisco José Pinto — € 0 Brasil se fez representar, afinal, no Pavilhio Brasileiro, com objetos, fotografias € quadros que mostravam a sua pus janga no setor de edicao de livros, da imprensa, da viagao ¢ geografia, da sadde e assisténcia, e da arte — conforme a cordem de listagem dos “stands” no catilogo da exposicao. Na entrada, um imenso painel de quarenta metros de compri= mento por quatro metros de altura mostrava a dimensio que se queria dar dessa pujanga.” Como parte dos preparativos para a participagio do pais na Exposicao, a entao diretora do Museu Nacional, Heloisa Alberto Torres, foi convidada a organizar uma “exposicao etnogrifica” que faria parte das colegdes enviadas do Brasil," Dona Heloisa passou boa parte do ano de 1939 encomendando Pecas para a Exposicio, conforme se pode ver em stia corres pondéncia, guardada no Museu Nacional. Entre elas, 14 bonecas de 70 centimetros de altura, “apresentando tragos caracteristicos de diferentes tipos antropologicos negros da Bahia € vestidas com a indumentaria tipica dos diferentes orixds que as maes de santo encarnam nas festas reli © “12 orixds, de 25 centimetros de altura, esculpidos em madeira, representando diferentes deuses africanos" — entre eles, um Sao Jorge.® 178 ‘Os mediadores dessa compra foram fidison Carneiro e Ruth Landes, que encomendaram as bonecas As maes ¢ fillhas-de- santo em Salvador, Heloisa pode ter tide a idéia de ineluir as boneeas na de posigio no ver ndes levou para o Rio sair da Baia.” ‘egundo os jornais de Lisboa, a “exposi¢ao etnografica” fava no segundo andar do Pavilhio do Brasil no dia da abertura: No andar superior hd um cinema, de proporgdes harmo- niosas, e uma série de mostruirios que dizer respeito & agri- ccultuta, & pesca, aos costumes, e wlensilios afro-brasileiras, & aos autéctones. (...) Aqui, a jangada nordestina; além, a rede do caboclo, em palha de cores variegadas, mais longe as frechas envenenadas de curare slo, entre outros, elementos de viva curiosidade que, no seu 'mistério tragico, ou na sua poesia rural, nos dio uma imagem do Brasil portentoso. Diario de Lisboa, 20 jul. 1940.) Esse “mistério” certamente desagradou os responsiveis oficiais pelo evento: no seu catdlogo, ha um seco parigrafo «que, a mencionar a exposi¢lo de fotografias da arquitetura ho Brasil, no andar superior, esclarece: “No recinto desti- nado a esta iltima, figurou anteriormente a exposigio etno- rifica do Museu Nacional.”*! Ponto final do que se sabe até jora a respeito dessa exclusio.® Cinco ov seis anos depois, no ambito de uma disputa pela diregio do Museu Nacional, ao contestar os atos da diretora, que julgava lesivos aos interesses da instituiglo € da nago, 0 gedlogo Othon Leonardos, explicitando aquela exclusao, escreveu que “os mostruarios enviados por Dona Heloisa a Lisboa chegaram a ser arrumacios no pavilhio brasileiro, mas nao foram exibidos ao piblico porque a Comissio julgou deprimente apresentar 0 Brasil como um pais de negros e macumbas".® A resposta de Dona Heloisa, em sua defesa, foi direta: Ha um ponto que merece réplica, acima de todos: o Muscu Nacional, solicitado a apresentar aspectos etnograficos da Populacdo brasileira, no poderia, a bem da verdade cientifica, esconder 0 elemento negro «a nosst populagio, elemento a 179 "| ‘que tanto deve © pats. (...) O negro existe, tem sido explorado, trabalba, contribuindo de modo decisivo para 0 progresso do pas © tem que aparecer em qualquer certame que envolva aspecto cientifico antropoldgico onde quer que o Brasil se Faga representar.™ Sem pretender esgotar as virias possibilidades de anélise que esta historia apresenta, parece que parte da resposta sobre a razio pela qual as bonecas e os orixas foram excluidos da Exposi¢io se encontra num contexto anterior a ela, que foi a Exposi¢io Colonial do Porto, em 1934. Esta parece ter sido ‘uma espécie de ensaio geral da exposicao mais ambiciosa de 1940, mas, dedicada apenas ao mundo colonial, trouxe para © cenirio portugues — como, alls, todas as outras exposigdes coloniais contemporineas — exemplares vivos das col6nias, isto é, representantes das culturas nativas em seu suposto Gecriado) habitat natural. Os jornais portugueses noticiaram © evento com fartas descrigdes dos “belos tipos de beleza negra”, da “plenitude exuberante das formas, que anima com seu exotismo a exposi¢20” etc. — € todas as matérias joma- listicas, sucintas no texto, eram ricas em material fotogrifico sobre aquelas “belezas”, todas peladas.* Numa clave mais sObria, ¢ sem pensar ainda nas subsequentes aventuras do turismo sexual pelas terras exéticas, tipicas do final de século vinte, seria possivel indagar como coexistiam, no imaginario imperial, as imagens do negro preguigoso, nao empreendedor, e da negra exemplar de beleza desejivel? Isto &, como raga ¢ género se conjugavam, ou se separavam, nesse imaginirio, Em todo o caso, a0 olhar essas imagens expostas pelo jornalismo de Lisboa e do Porto, em 1934, parece evidente porque as bonecas ¢ os orixis no poderiam ser expostos ni vitrine do Brasil, que a antropologia organizara em 1940) seria admitir uma volta simbélica ao estatuto de col6nia, quando © tom geral que se imprimiu & exposic2o das coisas brasileieas foi o do progresso, da indiistria, da civilizagio — todas, obviamente, resultado do engenho do brinco, que nio s@ queria contaminado por seu passado, mesmo que cle fosse relegado ao estatuto de patrimdnio cultural. A releitura dese patriménio, feita pela mesma Gpoca, vai atenuar 0 seu imp negativo na nossa sociedade ao enfatizar seu lado femini CONTRAPONTO: CARMEN MIRANDA E A. POLITICA CULTURAL DA EPOCA Quase contemporanea da Exposi¢ao realizada em Lisboa, foi a New York World Fair, inaugurada em abril de 1939. ‘Com © titulo de ‘The world of tomorrow’ [O mundo de amanba', a Feira funcionava como um gigantesco showroom para os mais recentes prodigios tecnol6gicos americanos. Terminada a visita, © visitante, ainda aturdido com as inacreditiveis maquinas que vira, recebia um botio com os dizeres ‘I have seen the future’ (Eu vi o futuro!" Este era um cenirio inteiramente diferente daquele montado em Portugal, voltado para suas conquistas gloriosas do passado, e 0 contraponto imperial contemporineo a um império que se desintegrava: espécie de profecia, no interregno da Segunda Guerra, sobre © mundo p6s-guerra, € de enterro de um passado europeu que ainda parecia persistir. © pavilhao brasileiro na Feira, a0 contrario la pesada arquitetura tradicional levada para Portugal, era urtojado, como diz Mendonca: entre os colaboradores de Le Corbusier, “estavam os brasileios Oscar Niemeyer e Licio Costa, autores do projeto do pavilhio"* Neste cendrio, uma terceira personagem faz sua aparigio: (0 se tratava de uma antropéloga, mas sim do que viria a se lornar um icone cultural: vestida com as roupas tipicas da }aiana, uma portuguesa irompia na cena mididtica norte- \mericana com a forga do que se convencionou chamar de “a Wrazilian bombshell’ Contristado com 0 fato de a Feira estar atraindo multidées, em prejuizo dos shows da Broadway, um empresario norte- ameticano levou a *pequena notivel” para um teatro de Ii. Kepetindo 0 éxito do exotismo africano feminino em terras portuguesas, Carmen Miranda encheu os teatros norte-americanos, uuraindo multiddes ao show The Streets of Paris (As ruas de Juris’. Ha varias fotos de época mostrando Carmen Miranda, mbém cantou durante a Feira, fazendo propaganda do “afé no pavilhto do Brasil — sem sua indumentéria tipica, mas com © turbante que usaria a partir dai em quase locas as ecasides em qu ‘ou fotografar.” se dei Nao vem ao Mirai 190 historiar aqui a trajet6ria da cantora Carmen, a (1909-1955), ou rediscutir se ela foi ou nao uma on “inven Politica de Boa Vizinhanga do presidente ‘omo nos outros dois exemplos aqui tratados, Carmen Miranda foi vista como uma imagem do Brasil que se queria branco, ainda que incorporando simbolos *negros", Muito antes de a imagem de “Mamma Africa” da Bahia sep consagrada como esterestipo do Brasil para consumo exterion, seu figurino fazia sucesso na central de difusto dos mitos contemporineos: Hollywood. O figurino por ela incorporado —talvez 0 primeiro sucesso de marketing do Brasil — e que depois serviria para aprisiond-la no esterestipo da baiana, transbordava de seu manequim para as vitrines ¢ antincios de jomal."" A fortuna critica de suia carreira no exterior tinhit um contraponto de desprezo nacional que evoca explicitas mente a critica recebida pelas antropélogas apresentaday anteriormente: seja na frieza com que seu show de volta ao Brasil foi recebido no Cassino da Urea, seja no comentério de um jomalista da Folha da Notte, quando de sua volta 0 pats: “Entlo é assim que 0 Brasil brilha nos Estados Unidos: com uma portuguesa cantando sambas negréides de mau estilo?” Se o contexto interno de sua produgio era o da disputa entre “baianos” e cariocas pela precedéncia na invengio do samba — ritmo que ela ajudaria a promover como uma marca do Brasil no cenario internacional —, o con- texto externo de sua recepsao era o das relagdes dos Estados Unidos com a América Latina durante a guerra, € em ambos a questao racial era dominante. Fazia parte daquela disputa interna a atribuiclo de negritude ¢ de todos os sinais diacr ticos — culinarios ¢ outros — que a acompanham, aos baianos, descendentes de africanos que viviam no Rio de Janeiro, € que reclamavam a primazia na produgao do samba: ver em Mendonca varios exemplos dessas disputas nas letras dos sambas interpretados por Carmen Miranda. Quanto a0 con- texto internacional, a criagio, em 1940, de uma agéncia, 0 Office of the Coordinator of Inter-American Affairs, ou CIAA, chefiada por Nelson Rockefeller, encarregada de centralizar as atividades norte-americanas relacionadas 2 América Latina, sinalizava a importancia que passava a set dada a0 continente na época.* Evocando os termos da carta de Othon Leonardos sobre a Exposic¢ao preparada por Dona Heloisa, um representante da CIAA no Brasil escreveu, a recusar expor © trabalho de uma fotdgrafa norte-americana: “H4 muito mais Roosevelt. 182 no Brasil que saculejos de negros, negros no carnaval, insti- \uigdes religiosas © bricabraque.” Em outro memorando, observa-se: “Atualmente 0 DIP se recusa a autorizar filmes mostrando muitas pessoas negras, temendo que os Estidos Unidos possam ter a impressio errada de que os negros pre- dominam sobre os brancos.” Nao obstante essas precaugde uma pesquisa feita entre os norte-americanos em 1940, mos- {rou que 0 termo preferido para caracterizar os latino ameri- canos era dark skinned (de pele escura) — e os termos que se seguiam erm adjetivos como “explosivos”, “emocionais”, “religiosos” etc. Nesse contexto, compreende-se que tenha sido uma carioca importada, branca, a escolhida para vestir © traje tipico da negra baiana e para cantar miisicas como Boneca de piche ou O que & que a baiana tem: a ambiguidade de um pais que se queria branco, e era visto como negro, ai se corporificava de maneira aceitivel. Masa ambivaléncia nao passava despercebida. Pouco tempo depois da morte de Carmen Miranda, em 1955, um jornalista ainda escrevia no Didirio de Noticias: “No exterior, gragas ao samba, somos julgados uma nagao de primitivos, de mesticos sensuais, em cujo meio s6 imperam os remelexos da concupiscéncia carnavalesca ¢ 86 Horescem as fazendas de café." Diferentemente das autoras tratadas antes, a cantora Carmen Miranda corporificou um trago do que depois se conven- cionow chamar de identidade nacional —a heranga africana do pais — mas, de maneira analoga a delas, exp6s uma relagio, nunca explicitada, entre categorias socialmente dominadas em nossa sociedade. Se as relagdes entre brancos ¢ negros foram sempre vistas aqui como uma relagio de dominagio, do mesmo modo que as relagdes entre homens e mulheres, ‘essas mulheres, aoaderirem, de certa forma, a0 univers negro — em sendo braneas e, implicitamente, parte do grupo. dominante —, inverteram ¢ssas tipologias dominantes na medida em que tentaram, ou foram bem-sucedidas em, ‘mostrar, expor, representar, 0 avesso delas. Assim, € 0 negro feminizado — a baiana_ou_a mulata — que acabara por se tomar um simbolo aceitivel do pais. Isto €, a0 referendarem, por assim dizer, a isonomia entre 0s dominados no sistema de classificagao de nossa sociedade, essa mulheres de certo modo trairam.o essencialismo de sexo ce de raga, Tetebendo uma espécie de miscara negra sobre suas Sees 183, peles brancas — ao mesmo tempo que contribufam para col “uma espécie de mascara feminina sobre a pele negra de sek sujeitos. Com uma diferenga, As duas antropdlogas estas tentandlo expor como produto original pais, mas por —artefatos culturais dos quia cantora estava tentando se ex bem como parodiando, nos seus excessos, o star system ai ricano, era ela prépria o artefato, a mimese da baiana, Ut eve sucesso em sua empreitada, ainda que como artefato guerra, como diz Ana Rita Mendonga, nio as outras duas, Depois de um longo percurso por exemplos que most como a construgio do “outro” pela antropologia esti sujeit a desmenticlos de seus “objetos", 0 antropdlogo Michael Tau observa: “Apenas na religiio € na magia podemos encont economias de significados € priticas de dispéndio, equi lentes [2 mercadorial, nas quais um objeto, seja uma mereas doria ou um fetiche, transborde seu referente e banhe 4 Partes que o compdem com uma aura inefavel." ‘A aura que desde sua invengao cerca, transbordando dele, o objeto Carmen Miranda parece assim apropriada para iluminar situagées mais sutis, ou mais dissimuladas, nas quai 2 relagio entre raga e género pode se apresentar entre nds, Certamente nao por acaso essas situagdes se localizaram tanto no mundo fantasmagérico da produgao de mercadorias culturais como no mundo dos fetiches da produgiio de sen: tidos religiosos. 194 () ESPARTILHO DE MINHA AV UINHAGENS FEMINIAS NA ANTROPOLOGIA Le droit frangais est stupide: pourquoi veut-on que jhérite le ‘corset de ma grand-mre? {0 direto Fancés & estipido: porque se quer que eu herde 0 ‘espartilho de mina avéd (Marcel Mauss, lembraclo por D. Pauline) A TRADICAO ANTROPOLOGICA & A CRITICA FEMINISTA HA mais de vinte anos, olhando livros que nto podia comprar numa livraria de Ann Arbor, a coletinea de Peggy Golde — € particularmente 0 artigo de Ruth Landes, autora que eu também s6 tinha descoberto nos Estados Unidos — chamou minha atengio pela novidade. Women in the Field (Mulberes em campo —tradugio de Heloisa Buarque de Almeidal, no entanto, estava confortavelmente situada no contexto da discussao feminista em andamento na sociedade norte-ameri- cana dos anos 70, € a reivindicagao de participagao no debate Por parte das antrop6logas parecia muito natural. Lendo hoje a coletinea de artigos reunidos na revista Critique of Anthropology, que se originou de uma conferéncia ¢ de um curso na Universidade de Michigan, a sensagio € a mesma, s6 que agora se trata dle reivindicar a pertinéncia de certas autoras esquecidas a0 novo canone da antropologia norte-americana, Ambas as coletaneas foram constituidas como resposia: 0 livro de Peggy Golde parecia ser uma resposta 4 coletinea organizada por Jungmans e Gutkind, para mostrar que as mulheres também faziam trabalho de campo; os artigos reunidos em Critique of Anthropology eram uma resposta explicita 4 coletinea organizada por James Clifford eG, Marcus, para mostrar que as smulheres tamt screvem a cultura”. Tratava-se, em_ambx le apontar uma_ cesur no discurso dominante da antropologia: no primeiro caso, um “esquecimento” da contiibuicio Feita por antropd= Togas As pesquisas de fas de campo; ne SgUMIO-Uit “Ep “um “apagamento" ‘dos nomes de aniropdlogas da histéria da discipli Estados Unidos.’ A distingdo entre os dois termo: consequé : Peggy Golde estava reagindo ao que julgava ser uma injustica; Ruth Behar, ao que parecia a ela e As outras colaboradoras da revista uma marginalizagio proposital. 0. debate sobre as relagdes dificeis entre o feminismo e a antro- pologia nao é, assim, apenas uma atualizagao das lutas femi= ‘fises-a-dendade-10- pele ore oe a pela conquista de direitos iguais: irata-se agora de p6r em questao a rGpria tradicao da disci= plina, constituida como um corpo can6nico (masculine) de {xo eaatolade precede vem send scar A perspectiva de uma das criticas 4 coletanea de Clifford Marcus é paradigmética também da importincia que a imagem, ou as imagens, perpetuadas pela aceitagZo desse corpo canénico, sua discussao, tem na antropologia contemporinea. Anali+ sando a capa do livro, bel hooks observou que cla escondia “o rosto de uma mulher morena/negra atris do titulo, repres sentando graficamente o encobrimento que é a marca de muito da informagao no seu interior.” Observou também que o livro representaya apenas uma mancira de os académicos brancos “assegurarem posigdes de poder e autoridade de modo a manter as estruturas de domina¢ao baseadas em raga, género e classe”. Mesmo sem ter lido essa critica, minha reacZio a0 uso que a capista de Histéria das ciéncias soctais no Brasil fez de uma das fotografias que enviei para ilustrar meu artigo fol semelhante: a foto foi recortada de modo a dar lugar ao titulo. do volume, entre 0 aperto de mio de Lévi-Strauss ¢ Egon Schaden, em seu reencontro em Sio Paulo em 1985, dessa forma apagando a imagem de Eunice Durham, que estava entre os dois.> Genero e linguagem (escrita, visual, gestual) sto, enti, indissociiveis na producao antropol6giea Zontemporinca: uma linguagem inocente das suas implicagOo anak (de género, entre outras, reclamadas muito antes, como as Se ee acear or d jdade ou de classe) ou a pretensao a neutralidade de género (dos sujeitos € objetos de pesquisa) foram modali- fe exercer a ant ia denunciadas quase a0 mesmo fempo, ainda que nem sempre pelos mesmos locutores, Locutores que tampouco tinham, ou tém, a mesma intengao. No caso da longa discussio sobre a perda da inocéncia da linguagem antropolégica, trata-se de redefinir 0 modo de atuagao dos antropélogos (com perdio do plural masculino); no caso das discusses feministas que desembocaram nas teorias de género, quando relacionadas 2 antropologia, trata-se de por em questio a propria tradi¢lo disciplinar da qual esse modo teria emergido, poutess implicagdes para o primeiro "10 quando, por ex se reivindica a “prioridade” de algumas pesquisadoras na inovagao do texto antropologico.* Mas a locugao, também af, depende tanto dos ares do tempo, que permeiam essa produgio de modo geral, ainda que de maneira vaga em alguns casos, como das tradic&es nacionais dla disciplina. Procurando por alguns artigos de Audrey Richards para preparar este texto, fiquei surpresa ao ler um comentario seu de 1967, que soava estranhamente familiar: lembrei entao que o mesmo tema, o da comparagio entre as tradigdes antropolégicas francesa ¢ inglesa, tinha sido reto- mado por Mary Douglas mais adiante. Um exame mais deta- Ihado sobre as datas de publicacao, mostrava, no entanto, (jue, se os artigos eram contemporaneos, a discussao era bem mais antiga.” O terreno da discussio eram as pesquisas feitas por franceses e ingleses na Africa e, segundo Richards, comegara muito anos antes, quando Griaulet e seus alunos comegaram a publicar relatos da cosmologia dos Dogon com sua mitologia, simbolismo ¢ conceitos metafisicos muito elaborados e’sua énfase em categorias numéricas © na sua classifieagio dos fenémenos naturals, grupos sociais € wocas ide presentes, Essas idéias foram descritas como formando um sistema, Dieterlen usa aqui a frase “um sistema I6gico, coerente” a expressio “sistema I6gico auténomo" também aparece nas contribuigdes francesas. Os etndgrafos ingleses nao apresenta- cam cosmologias tio elaboradas e consistentes, mesmo clepols dle terem feito longos € intensivos estudos de povos africanos cespecificos. Isso € o resultado de um acidente hist6rico, do fato de que a expansio colonial dos franceses ocosreu em alguns lugares da Africa ¢ a dos ingleses em outros? Richards responder analisanclo os esteredtipos nacionalsy sobre of quais Mary Douglas também escreveu parigrafon irOnicos, mas concluindo que o resultado devia-se as dif ingleses prestaria Os PELOS que fenham relacao com a estrutura social, isto 6, como se pet que eles expressam ou reforgam a coes “sociais ou as hierarguias de status © como ou encontram solugdes aceitiveis para conflitos estruturais’, Mary Douglas concorda, mas, paradoxalmente, tentari rec Pale Fox, a Raposa Palida, 0 irmio que caiu em desgraga cosmologia Dogon, mas que tem 0 dominio da verdade ¢ 6 @ oniculo consultado na previsio do futuro, como emblema pari 1 antropologia inglesa. Podlemos, assim, colocar a antropologia britinica sob uma nova lua. Aparentemente to conereta, tho pritica, tao interessadn ‘em temas realistas — passamos agora a ser aliados dos surrei listas, de um lado, © da Raposa Pilida dos Dogon de outro, Porque n6s também temos um interesse em olhar por detris da cortina das aparéneias. Todo o nosso interesse explicito em politica e parentesco é um interesse pelo maquinirio que projet sombras na parede. © campo ao qual nossos esforcos tem ‘sido mais bem suicedicios na tentativa de desvendar os detet= nantes sociais da cosmologia. ‘Mary Douglas comegara com uma pergunta — “O que sabes _ tiamos dos Nuer se eles estivessem no Sudo francés — e dos Dogon se eles estivessem as margens do Nilo?” — que ecoavn a observacao do tinico norte-americano presente 2 conferéncia referida por Audrey Richards, 0 antropélogo R. L. Gray, que sugerira que M. Fortes armasse sua tenda entre os Dogon ¢ que Germaine Dieterlen se mudasse para os Tallensi.? Por que essa discussio sobre as modalidades (ou os estilos, ‘como quer Roberto Cardoso de Oliveira) nacionais de praticar a antropologia é relevante para uma discussdo sobre a presenga/auséncia de antropdlogas do corpo teérico candnico da disciplina? Tanto porque sugere que a auto- reflexio, reclamada como ponto alto da at gia contem- ORT Sse Ge debate helium tempt quant pay refletirmos sobre as wadigdes antropol6gicas nas quais esto 188 Dresentes, ou ausenter, os atuitls debates a respelto des ‘existe, como Veremos, uma clara reivindicagho de nas por parte de antropdlogas norte: implicita questio se 8 antropéloges tivessem sido todos homens?"), o mesmo no acontece com as antropdlogas francesas. Gostaria de sugerir que a comparagdo empreendida por Audrey Richards © Mary Douglas nos anos 60 é também uma espécie de meti- fora para o questionamento feminista & tradi¢io antropolégica inglesa © norte-americana, por um lado, e a francesa, por outro. No primeiro caso, as feministas que iniciaram 0 debate, como boas anglo-saxas, parecem estar A procura dos determinantes sociais da auséncia de nomes de antropélogas no pantedo da disciplina, mostrando, também, que clas sempre estiveram presentes na sua hist6ria. No segundo, as antropélogas francesas parecem nilo estat interessadas em “desrespeitar os simbolos", caminho que Mary Douglas julga necessirio para chegar a0 tipo de verdade que interessa a antropologia (britinica), acreditando, talvez, como os Dogon, «que la parole est parfois synonime d'action" [as vezes a palavra € sindnimo de agio). ESPOSAS, CELIBATARIAS E LATAS. DE MARMELADA Na sua introdugio ao ntimero de Critique of Anthropology que venho citando, Ruth Behar fala da discussio a respeito de se existiria ou nao uma etnografia “feminista” ¢ cita dois polos do debate: para uma autora, uma etnografia feminista seria impossivel, j4 que a politica feminista, sensivel aos con- textos de dominagao, é incompativel com a premiss: basica anho, nadando e mergulhando 4 vontade; pedindo-me emprestados os meus pentes, que sempre tinham excitado o seu inceresse especial, para areanjar ‘0s cabellos compridos.” (p. 80) E, a0 encontrar um aeampamento de serin- ‘gueiros e, segundo ela, apesar de seu “exterior pouco civilisado", foram bem recebidos. *O resto do dia fol uma grande festa. Os bons seringueiros, vendo as nossa earas de fome, prepararam um eaitett e 'ahi a pouco estava- rnos todos assentacas ao redor dt comida, apreclando sobeetudo a farina {que fi nos tinha feito grande falta no lo, Até a chuva noctumna fol um prazer para nds, agora bem protegides pelo tecto da barraca.”(p. 88 u pow menterno? Deserevendo 4 maloce de Manoelsinho,situads, come, onvin 2s pogo extra, na "rp desta qu tito do senadorPorphio ds tras ds Ino ses oe da conhecida casa Brevel freres, . : *Comparese com “Frog contnbuigdes so oaticeimcnte das on le cog a ea aloe, ecuperndo-se de um atague de militate seers ee tin daga tp rp singe vena deserkternui ook en ath. Ecoment.“Agonsdostipulanc auitious tera ean tests Dates doy indn,mas eves ae ye gon a ae lniidade nem na peeve pom ser comparndor ccc ncaa Pela vests eifesores em ands cls fossaeas on cone “tcl coma frms ao meni ego aia ¢ Ecos fs Se "Fano a viagem plo, fet em 1906, come a tives dein, de 1918 omtarim com ese apo na pa Els pete aes fa importante casa de conmetcio dos Str Sousa c ag eoaasne semalor Porphite Miranda “propvcaro de imports antanee Sin amd ode on seringner a agora exponen nie ieee Diz ela que fo “com pezarsinceo esa gator aoe ve cope ie seus as. "Apron acai amar es ndeseeaeo eae ae ce Cianente boa, dn crater infant amaee cr e an aeene ineligencs, bom dgnos dua outa sate que ds de Ones ea oh schagens qe form avadamonte angus bo age chee ‘empre sup sob «ponte de visa mol aon see ae (©-89) compu sins cserasbecom toe Cos a ens exiles ente os sagen chegelconcutodequconmin santes So pun einplesmente bandas hecitanone peteceet eee Spas toda Hlantopi um aio" COUDREAGS Vane fae oan tes as vingens de Cousrenw a Tapa, an age GO oe 2850, toda cls publcaas em fanees sotme nealne eed imeressnte moar que nun. das Ion, squce eat anes Gondreau wansreve uta ca de Fel Gi disnoo ences imenio mas antigo com cl A his do end mateeaaser ether ae madame Coudres, mas tarde, fart fetrencas ie hee ee nee fete quant as ques ard fucta seo ice ve rea wpe stg oe. Ver IGUEIBEDO. 6 0 cinto sal, undo apenas pets homens, to cobercs de omamenine «que aus precian estar’ asm deen cmantar tae igo de peaueas pots aes ero eter o ene pane superior don quads Porthos en ote Mecho nee eas ate se ons a & peh * Quase com a mesma indiferenga com que regi 6 prio ofrecido pelts achosins, Enis anol oque poesia inte una espa rsucedia para eg a ponpaaa desea “oe Ie ea sane fom pein ua Bch tal ac ony sr a a mut fot en forma de gah ccm babes eon eee een ‘dal de evi rea Harpyia dextucton,expicandouosseare Wa gen 222 feta Mleeha serve arn malar yon” A baervagto & posta no Interesse ornitalogioo = @ na frase peuinte jae trata de outro assunto, "Alipio de Miranda Kibeino (1874-1939) que, segundo Helmut Sick, “fo ploneiro na zoologla braslleiea visto que, até fins do século 19, a fauna deste pals fol estudada quase exelusivamente pelos naturalists estrangeiros", 1 mow posse na Academia Brasileira de Clenclas em 1917 e também foi home= \geado por Emilia na atribulgto de nomes a dois passaros. Sick Jiz que fol incluida na Academia como “s6cio-correspondente’; se for assin, & provivel que nto tenbia ouvide o discurso de Alipio 5 Felizmente a doutora tina dedos dextros; por um momento parecia que a Frise atingsia seu climax renunciando a ambivalencia do discurso e decidindo- se pelo expitito varonil. A alusto € guise grosseiea, como a seguinte, se lembrarmos que Emilia tinha amputado 0 dedo médio de sua mio direita, twordid por piranhas, SICK, Ornitologia brasileira, p. 14, KULIK. Frauen ‘geben Brema: Eine Wissenschafigescbicbte der Wegberreiterinnen der deuts- chen Etbnologie. Em outro trecho, para mostrar quio feminina é a nova académica, 0 orador afirma: “Podemos portanto assegurar que, quando as reas pensarem em Ihe cortar ox preciosos dias, 0 que nio seja para nosso tempo, o espirito bisbilhoteiro do historiador ¢ sob o pretexto de glorificat- the © nome, nio teri a maligna satisfagao de Ihe divulgar os mesmos senti- ‘mentos de Sophia Kewalewsky, em cujas memorias posthumas Ie a gente, constemado, que a celebre sabia de Fama mundial se lamentava amargamente de munea ter sido amada!” Alipio deve estar se referindo hs memérias de infincia de Sofia Kovalevskaia, que talvez tenia lido numa traduge francesa, que morreu em 1891. No discurso ha duas mengoes a cientstas que troca- ‘ram a vida conjugal por sua voragao. O discurso de recepcio da dra. Em Snethlage na Acudemia Brasileim de Sciencias e em nome desta proferido tem sesso de 26 de outubro de 1926 esté publicado no Boletim do Musext Nacional, XIU (D, 1936. % Os exemplos poderiam se multiplicar: Cunha cits Humberto dle Campos (Trajava as roupas do seu sexo, vestindo, todavia, calgas e pemneiras de ‘couro mas suas excursdes.") € Roquette-Pinto CCoriou o Brasil em todos os rumos e nunca encontrou quem Ihe quisesse fazer o menor mal. E a mulher ‘que conservou os seus lindos cabelos longos até hd pouco, explicando que a moda dos eabelos curtes seria de fato muito cOmoda para uma naturalist; mas as senhoras, no interior, poderiam no comego do uso estranhs ambas clagdes da Revista Brasileira de Letras(32, 1930, Toxas as fotografia ‘de Emilia que consegui localizar a mostram usando salas, Sick di outra vers30 [para a conservaga0 de seus cabelos longos: "Inspirou respeito aos selvagens pela sua personalidade bondosa mas enérgics, ¢ pelos eabelos longos © cheios, dando-the uma dignidade igual a do cacique.” SICK, Ornitologia brasileira. ® 0 que ajudaria a explicar também as selagdes tensas que Cunha anoc entre © Museu Goeldi © © Museu Nacional, quando Emilia levou para 0 segundo algumas peles de aves ¢ "demorou a devolvé-las’, quem sabe, ‘numa tentativa de reconstruir num outro lugar o que parecia perdido na insttuigdo parzense. 223 CAPITULO HI = OS INDIOS DO BRASIL ELEGANTE & A PROFESSORA LEOLINDA DALTRO * BARRUTO. © nosso caboclamo (1919), Letina fo amb deputads na Costu de 1994 SFUNDAGHO CARLOS CHAGAS. sur beslea/bografa aot Branca Moret Alves consirs Lends une ploneles a fs Soma pelo dit 10 Yoto. ones oe 2 malher base estas as sociasepolticas. anclco de sss abn 4 quem primeitov mencionarLzlind coms Den) alas ah do gp iderado pea expen de Hemes da Fnac, toda cation Correnesfeminisas que descrve para a paca, Da poten i elec Partido Republicano Feminino, deb. Dolla Dato, iat pels ea brigtria do pt Cua de Lina Bart, Lelia, no onee cae flante di outro nome para Line der tna de Tro Ros as Ronse *teolind tna sido eda aaim por tulle: "a erador esas dade sobre os cote eas potencies do ino ng” STA CPE Revista de Historia (46) De Bgora que “teve a sea Spore hourdedos "ilo", conforme um comeal ckado por Ass Babos sty 2 professors tina percordo um longo camino, +0 nico document de fase feminist, publeado pela pps Lind parece sero opdsculo, como ela mesma cama de ve psi, nto ‘Seminisma no Brast~subshlon pars Nistor (bas 1), com dada oy settagio de agosto de 1918. O texto € a reprodugig da ata da sent Oo fundagio da “Junta Feminil Pr6-Hermes/Wencestau’, realizada em 23 de das 228 ‘assim extinta”, estd anotado na genealogia, ‘a descendénecia vir de Albesto Torres.” Agradeso a extrema gentileza do diretor da Casa, atnar dos Santos, que me deixou consultar os arquivos em meio 3s reformas pelas quais cla festava passando, e o interesse carinhoso dos seus funcionsrios pela minha pesquisa, Agradeso também a Berta Ribeiro, Ana Maria Galano, Roberto Cardoso de Oliveira, Luiz de Castro Faria € Anna Timotheo dt Costa por terem compartlhade comiga suas lembrangas de dona Heloisa 2 Bertha Lutz ingressou no Museu Nacional em 1919, ano seguinte a0 da ‘chegada de Heloisa; no scu, como no caso da primeira mulhier ase inscrever pan um concurso no servico pablico, foi necessiro o parecer de um consultor furidico para que pudesse assumir o cargo. No mesmo ano, Bertha Lutz Fundou a Liga pela Emancipagio Tntelectual da Mulher, depois substituida pela Federagao Brasileira pelo Progresso Feminino. Sobre a tajetéria de Bertha Lutz, ¢ um bom apanhado dos argumentos contririos & qualificagao ‘das mulheres como eleitoras, ver ALVES. Jdeotogla e femtnismo~ a luta da mulher pelo voto no Brasil. Ver também as erOnicas de Lima Barreto, na £Epoca, para um exemplo dos arguments contritios 4 participagio de mulheres no servigo pblico. Uma das noticias sobre 0 concurso de Hetoisa, que fot aprovaada em primeieo lugar, confirma indiretamente a ambivaléneia reinante ‘sobre a entrada de mulheres no servigo piblico. Diza noticia: “A sua nomeagio ‘consttuiri, com um ato de justiga elementar do govérno, a afiemacto de um ‘das mais interessantes esplts femininos contemposineos.” Recorte de jornal, sem data, entre os papéis de Heloisa, em ltaboral 5 CASTRO FARIA, Heloisa Alberto Torres (1895-1977). Ver também a breve nota biogrifica de Maria Julia Pourchet sobre Heloisa: Heloisa Alberto ‘Torres, Revista Ciencia e Cultura, 197, Maria Julia, que era sua amiga, lumbém sua assistente na UERJ ¢ conselhicim suplente dela no CNPI. Os dois autores listam outros cargos e encargos assumidos por ela 20 longo dle sua Vida. A participagao dela no Conselho Nacional de Protecto aos Indios est ocumentada ¢ é analisida por FREIRE, Indigenismo e antropologia ~ 0 Consetho nacional de Protesio aos Indios na gesidio Rondon (1939-1955); sobre sua sua atuagao no Consellio de Fisealizaglo das ExpedigBes Artistas € Gientifcas, ver GRUPIONI. Golecdes e expedicbes vigiadas os etn6logos no Conselho de Fiscalizagio das Expedicoes Artistcas e Cientificas no Brasil “A tinica referéncia que encontrei sobre a primeira viagem esti numa nota de um trabalho publicado em 1937 na Revista do Patrimbnto Historica & Artistico Nacional, reeditado na evista do Arquivo Munteipal do Departa- ‘mento de Cultura da Prefeiturs do Municipio de So Paulo, em 1938, Diz cla: “A frase de um vaqueiro com quem vigjamos para o Pacoval de Curunt merece registro pelo pitoresco com que documenta o facto” [eapdes dle mato chamados de ilhas, e a linguagem maritima para deserever acidentes _geogrficos terrestres em Marajsl “Branca, depols que a gente passar a iba ddo Atalaia, damos numa enseada que abre na baia onde se avista 0 Pacoval. [Note-se que visjamos a cavalo. De facto, depois de atravessarmos um capao de mato, de chio muito limpo, e que na orla oposta 3 de nossa entrada tinha uma forma ciscular, demos num imenso campo que, na linha do horizonte, tocava o céu. Uma pequena mancha acinzentada que fot crescendo aos rnossos olhos, A medida que avangémos, cortava essa linha: era o Pacoval do Cururd." Proiegao ao material arqueologico e etnogritico seyio Publicagves), E uma pena que uma do zelosa documentadora do detalhe etnografico nto ‘nos tenha deixado mais descrighes de suas experiéneias de campo. Em seu 29 “a. Heloisa tinha 35 anos na época, ccartas “para minha mn fara conr eee em nid a0 longo de lax correspondnci Hnlment, cone Yona Peepers selvagem e o inocente, de sua peregrinagio pelos gabinetes oficiala aera rege, mien ee crete ee es em trechos dessa citagdo, cla omite certas palavras. O ano. ew fotos mencionadas foram doadas por Claa Galvio ao Projeto Histéria ¥eloia, temos para coma senhor un sentimento de sincera grado, por Spear: eter gear ae ere wi terra. Prometemos tudo fazer para corresponder a ni ” ik passa a asinar“multassoudades do filo", a putin de 1542 (Pasa Soccernet ene Gated carta, Tenho medo que a snra tenha se arrependido da adogao © por Soomro ce ‘mencionado por varios de seus contemporineos, a quem teria edu é peer errr rogers. quem escreve, ¢ de quem recebe cartas, de Paris. Isto é, ha indicios de que, jf aos 47 anos, Heloisa px: di i tenia Led come ee eek fencomendas que 230 wemiora die W219 de junho de 19436 17 de julho de ‘de Galvio sho Onkas ¢ algwmas, como aquela ears de 12 de 1943, CCHAT, Todas us ea eve ayavas com Margaret Mead nos Estados Unktos, hi Hie sempre misturava o inglés ao portugues mas caras © aportuguesava virias expresses do inglés, omo “agsainements" 1a James Watson a Helolsa Alberto Torres, 4 de junho, 1943, PHAB/Colecio Cexinténcla desta carta entre 08 papéis de Galvao sugere redine attigos public trabathon pag aie data a mesma da publicagao da coletinen come He exPettculos do negro°ao apresentlo cle que ers an rll et cere a Anbar Raricsp 152), liberdade que, cae domo, depots senador, Nelson Careio nig deacons Tea nS Posigto politica a ponto de ter do um dexentendlinene oo {i dos organtzadores lem dele, Gucci Ramose Aine de na lo racismo" © afirmavam que embora © negro brasileiro *; L 1960), bebe rican npr tarde, ta dead de 80, com oconvenoenttey Eatlods Baten oon Mads de Columbia, sb a drgto de Tales se Ancvedo.e Chere Wane sue os estos scbre relagdes sacs na Babes coe grande de pesquisidores — e, ainda as orb ie sn on a Maybury-Lewis, ptr do Mgea ‘Bm sua andlise do Conselho de Fiscalizagto das Expedicbes Aetisticas & Cientificas no Brasil, Grupioni cit uma noticia de jornal em que se anunclawa que Landes ia “pescquisar os fndios nas tabas” e estranha 0 modo como 6 Consetho Ihe concedeu a licenca de pesquisa: no “documento impresso esto riscaddos os campos ‘para exploracio da regio’ e fazer pesquisas’, que foram substitutdos, respectivamente, por ‘visitar’ ¢ fazer exclusivament cestudos sociol6gicos’." (GRUPIONI. Colegdes e experdigdes rigiaddas: os etnd- Jogos no Conselho de Fsealizagao das Expedigbes Artticas e Cientifieas no Brasil, p79.) © HERSKOVITS, resenha de “The City of Women", no American Antbropolo- _gist; RAMOS. Pesquisas estrangeiras sobre o negro brasileira, em A actlbura: [pdo negra no Brasil. % Seria um Iongo desvio acompanhar a “fortuna eritica” do livro na sua fntegea: para a historia completa ver HEALEY. Os desencontros da tradica0 em Cidade das Mulberes. raca e genero na etnologia de Ruth Landes. & interessante observar, no entanto, que embora a primelm anélise de sua pesquisa sob esta dtica tenha partido da pr6pria Ruth Landes (1970), esta passou quase desapescebida até sua “recuperagio", no final dos anos 80 plas antropdlogas feministas. Aqui, estou menos interessada na possibilida de de recuperar a relacio entre raga © género na Bahia dos anos 30-¢ mais Interessada em entender como essa relagao fol importante na historia da aniropologta brasileira No mundo mais sofisticado de Nova Torque, essa primeira raze podia parecer ridicula, mas a propria Ruth Landes resumiria 4 sua situagio, quase trinta anos depols, na frase que seu marido latino-americano ouvira anos antes de conhecé-la: “Uma mulher se metendo em assuntos de homens.” (LANDES, 1970: 129; 124.) No Brasil, no entanto, tas comentarios parceiam ter outro peso: fdison Carneiro registrou num artigo que, ao avisar Arhur Ramos de que ia crticar suas observagdes negativas a respeita do trabalho dde Landes, na resenha que preparava sobee aculluragdo negra no Brasil (1942), este respondeu: "No 0 fara, senae eu publico coisa muito pior.” Cameito 36 viria a publicar suas erticas a Ramos quimze anos aps a mot ele, CARNEIRO. Ladinos eerioulos, p. 227. 0 silencio de Carneiro durante todos esses anos corrobora a avaliaglo de Cole de que virios niveis de assimetria estavam em jogo nesta historia: aqui € a deferncia do jornalista, ‘mulato e mais jovem, pelo especialista branco © mais velho que parece ter prepondemsdo, £ curioso que o proprio Arthur Ramos chamara a atenclo para o fendmeno. dla homossexualidade nos candomblés de caboclo, num livro que Landes pode ter lido, Em 1934, ele citava varias reporagens dos jornais da Bahia par mostrar que, desde o final dos anos 20 aise estava dando umm sincretis: ‘no entre o Fetichismo e 0 “baixo-espirtismo". Numa dessas matérias, por ele transerita, diz 0 rep6rter: *O tenente Vergne foi ao seu encontro. E com espanto notou que era um homem vestido de mulher! O ‘pai’ Quinquim hhavia ve transformado..." (p. 110). No mesmo livro ha intimeras eitagoes sobre a importancia das maes-d-santo na Bahia. RAMOS. O negro brasileiro, Para ui revisio da literatura que trata dessa presenga, e uma andlise de caso, ver FRY. Homossexualidade masculina ¢ cultos afro-brasileicos, em Para inglés ver, ¢, para uma retomacda do debate, ver BIRMAN. Fazer estilo certando géneros: possessto e diferencas de género em terciros de umbanda e candomblé no Rio de Janeito, '5 +A Cult Matrarchate and Male Homosexuality", The Journal of Abnormal and Soctal Pyychologye “Fetish Worshi The Journal of American Foltfore. Neste mesmo nimero, fol também publicado um artigo de Edison Cameiro, “The Structure of African Cults fn Bria" raduzide por Ruth Landes. ° J tinha escrito boa parte deste texto quando recebi o trabalho de Laitgarde Oliveira Cavaleanti Barros sobse Arthur Ramos © cépia da correspondencta lentre Landes & Herskovits ¢ entre Herskovits © Ramos, que me fol gentile ‘mente enviada por Kevin Yelvington. Os documentos de Ramos estio na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e a dacumentagio de Herskovits est 1a Melville J. Herskovits Library of African Studies, na Northwestern University, Evanston, lilinois. Ambos merecem minha profunda gratidao por sua genera sidade em compartir documentos ¢ idéias. Tal documentagao ajudou a precisr alguns pontos da questo, como a data da famosa carta que Ramos € Herskovits teriam eserito a Gunnar Myrdal sobre Landes, A correspondéncia centre Ramos ¢ Herskovits € volummosa: cinquenta carias tracadas entre 1935, ¢ 1941 —e diz respeito basicamente a vista de Ramos aos Estados Unidos. [Na carta de 14 de margo de 1940, est! anexida e6pia da avallagto de Ramos sobre 0 trabalho de Landes, caviada a Carnegie Foundation, Entre os documentos transertos por Barras, est também uma cata cle Rudiger Biker, prolessor em Fisk A época do estdglo de Landes, etirindlo a recomendagl, ‘que fizera dela anteriormente: “No ano que passou, ela aio se portou adequadamente..." BARROS. Aribur Ramos ¢ as dindimicas soctats dle seu tempo, p. 200 Vera integra de seu comentirio que, com excegto dos trechos especiticos sobre o telatGrio, é 0 mesmo publicado em 1942, em BARROS, Arthur Ramos eas dindmicas soclais de seu tempo, p. 248-267. 0 texto, com o titslo *O ethos’ do negro no Novo Mundo", tem a data de 30 de junho de 1941, fencimads pela referencia & Sociedade Brasileira de Antropologia ¢ Einologia A sociedad fol fundada em 7 de junho de 1941 e na euidadosa recuperacio Feta por Azeredo dos tabalhos I apresentadlos nto ha nenkium que se asse- meth a este. A carta resposia que Ramos clta € de maio de 1940, 0 que permite situar sua primelra apreclagho do relatéro de Landes entre jancito & miaio desse ano, Sobre 6 autor da carta a Ramos, Jackson comenta que "Guy B. Johnson, um socidlogo branco do sul", fizera eco 2s erticas a Herskovits, ddizendo numa resenha que ‘um enorme problema pritico era como impedlit que este livto [be Ath of the Negro Past se \ransformasse em argumemo para aqucles que procuram novas justificativas para a segregagio e o trata- ‘mento diferenciado dos negros.” (1942, citado em JACKSON. Melville Herskovits and the Search for Afro-American Gulture, p. 121.) Sobre as rardes que levaram Myrdal a desistir de um estudo comparativo com outeos paises, ¢ uma andlise detalhada da preparacio de An American Dilemma, ver SOUTHERN, Gunnar Myrdal and Black-Wbite Relations, The Use and Abuse of An American Dilemma, 1944-1969, A colaboracio de Ruth Landes, ou dle Ramos, no € mencionada por ele, apesar do papel de destaque que Johnson recebe em seu relato, ™ LANDES. A Woman Anthropologist in Brazil, p, 129, © Barros transereve tes cartas de Landes Ramos, encontrads em seu arquivo na Biblioteca Nacional — duas de Salvador, de setembro © outubro de 1938, © uma de Nova lorque, de dezembro de 1939 —, abservanda que sua existéncia desmente a afirmagio de Ramos de que perdera 0 contato, ‘com Ruth Landes depots de té-la conheckdo no Rio de Janeiro, > A carta mostra também a abrangéncia inicalmente esperada por Myrdal de seus colaboradores —e o pouco tempo que lhes era dado para cumprir seu compromisso. Diz Landes: “(A Camegiel quis que eu escrevesse sobre The Ethos of the Negro in the New World, querendo dizer América do Sul, as Iihas © Harlem. Tudo dentro de 4 meses. Naturalmente era preciso fazer referéncias também a Affica € todos os EUA." 2 sally Cole (Ruth Landes and the Early Ethnography of Race and Gender, 184) observa que no encontrow a carta, também ndo encontrada pelos outros pesquisadores que wabalharam com a questo, o que me levou a supor que Ruth Landes se referia, de fat, aos pareceres de Ramos ¢ Herskovits sobre seu relatério. Na cortespondéncia com Landes, no entanto, Herskovits diz explicitamente, numa carta de janeiro de 1940, que s6 tivera tempo de “folhes-lo” —, e embora diga que o material & Gui", fala em “interpretagdes ‘equivocadas", por falta de material comparativo africano. A correspondéncia cenire ambos compreende nove cartas e se encerra em agosto de 1940, com ‘um breve agmdecimento dele a ela pela edpia do attigo. Mark Healey ‘consultou o relat6rio de Landes e o cits, pelo titulo, como um Research ‘Memorandum, Columbia University, 1940, © Transerita em BARROS, Arthur Ramos eas dindmicas sociais de seu tempo. “Em setembro de 1941, Herskovits fez uma conferéncia na Sociedade Brasi- Jeira de Antropologia e Etnologia, intitulada O Negro no Novo Mundo como ‘unt tema para pesquisa cientfica, tanscrita, segundo Azeredo CAntropalogas « plonetros. a historia da Sociedade Brasileira de Antropologia e Einologia, 1-131) na Revista do Brasil 41), novembro de 1941. No mesmo dia, Ramos discorreu sobre "O problema da raya no mundo modemo”, também publicada na Revista do Brasi! (40), outubro de 1941. Tanto quanto sei, 0 conteddo dessas ¢ de outras conferéncias feitas na SBAE, e publieadas em jomnais e revistascarioeas, ainda nlo foi analisado, 2 Oto anos depois, o artigo de Carneiro traduzido por Landes aparece, em Ingles, como apéndice da primeira edigio de Candombiés da Babia (1948), com a observagao de que fora “ligeiramente alterado € com supressio de alguns trechos, na maior parte para atualizi-lo. Nesta edicio, o mimero total dos candomblés permanece 6 mesmo (67), mas a sua distribuigio muda. Apesar de enfatizar a *importincia superior das mulheres no eandomb! Carneiro observa que hava 37 pais e winta mes no universo estudado, oncluindo que “hoje o ntimero de pais e mies ¢ igual’. O artigo deixou de ser incluide nas edigdes subsequentes do liv, >» Nao vem a0 caso aqui discutir a fundamentagio empiriea de Ruth Landes, trlha que outros analistas fi percorreram (ver, por exemplo, COLE. Ruth Landes in Brazil: Wrhing, Race and Gender in 1930s American Anthropology. ‘Mas parece interessante observar que desde a épaca de Nina Rodrigues as ‘mes-de-santo tinham preponderiacia nos textos sobre os cultos. Numa ppassagem de sua descricio desses cultos, Nina Rodrigues comeya por referir-se “nos negros” e continua, até o fim do parigrafo, falando “nelas’, sem transi 0 (O animismo ftichista dos negros baianos, p. 110). O mesino parece poder aplicarse a virios trechos da andlise de Roger Bastide (1971) quem, nto obstante seu elogio ambiguo ao tabalho de Ruth Landes, prefere manter distineia do debate sobre 2 predominancia de homens ov mulheres nos eullios batanos. No inielo de seu tbalho, no entanto, 20 exploraras origens africana desses cultos, cle diz elaramente que: *Nessas condigoes tndimero merior de eseravas do que de eseravos; ignorincla da paternidade devido 2 Haale unioesextvesl mesmo depois da obvgoriedade do casamenloy (Rego orted-linbagem masculina estava definitivamente romp (BASTIDE, As religides africans no Brasil, p. 89, énlase ndiclonal if devaualiicagdo bascavi-se tanto na afiemagho de que Lande lot Brasil procura de “tibos negras’,conforme notieado por un Joma ea tuando de sua chegada, quanto em insinuagdes sobre seu comportanunly Campo: “E cram as mais estapafurias as suas ideiag sobre» eto {stud da vida sexual dos Negros. Hse metodo’ era tho poco ceniiny ‘nto me seri possivel dizer em que consistia.” RAMOS. actitundeas no Brasil, p. 184, Ginn cata em que tentava me explicar a razio da hostitade de Ra iz Landes: *O professor Luiz da Costa Pinto me disse que Ramos on tinha sido seu professor — ficou furioso por cu ter escrito tobe ee bento — os pais-dewanto homossexuais.” (Cana de 6 de all def ‘Carmeico também menciona que, Mo logo lew o antigo, i Aydano do Couto Ferraz na Baha, 6 qua, Sie dizendo-the que ‘nem todos os pals de santo eram homossesunls Fi te ff esis no Rio de Janeiro, Athur Ramos nada perguntou, By ©. que Landay mos havia sido rejeliado pela re¥laly de Herbert Baldis. O eta h tevisia na épaca era Emilio Willems. Barros transcreve o two de see ates Ramos, datada de outubro de 1941, na qual ele clasalfey de Seeeenaa” cates 20 Stemorandim, mas sugere algunas modifengbo, eente Baos: “A resposia de amos € que mantém 0 texto com I rediido, assumindo a responsabilidade da deci," eAtOS. A aculturagao negra mo Brasil. 189, 192. M. Taussig define @ Rreuldade mimética como *a natureza que culiea usa pars crise Wap sae matureza, 2 faculdade de coplar, tmitar, izer moxiclos, explotn sree, cele 20 € tomnarse Outro. (Mimesis and dlteriy A Peep Pe orl Senses. xl) Analiszndo o conato colonial « vis sunghes Pencoarai ele mostra como 0 dominado, definido conto Outro —nepiog Imesticos, mulheres — mimetiza o dominantc, que antes o mimetioava, gui em xeque tanto a dominacdo como a nogao de altevidade. lin tovoe ay CTermPlon, © Negro °éo grau zero da altevidade” Pakindo soine os Cue sreeneats figuras mgicas que representavam brancos, ms cof substi, terior era nativa, Taussig pergunia porque “era necessie coelpr lon Srrevormente européits, ou nto-indias”, Una dessasfigurascrs sshelladg se, Bereral MacArhur. Comparar com a assimilacdo feita na Habla nie Yanee s Roosevelt ou Mussolini LANDIS. A cide das mulbores p. 298) Ge sembem @ mencda A boneca branca feta por Luzi es de ume Having (£.76,210) Se a mimetizacdo dos dominados pelos dominantes ical se nean it obra de Nina Rodrigues Na Bahia, todas as clases entio apeon 4 Se tornarem negras”), sua inversio, na anslive de Ruth Lack quase desapercebiea macit Precis rele com mais cudado os wabalhos psicanaliticos de Anthyp repo Pattculasmente O negro brasteiro (1934), para acompanha nq Teqanticacdo ds andlises de Nina Rodrigues sobve 4 *pslcolow ty ebro" — Partcularmente da Gnfsse dele na anilise do papel da ewer, a possessao, 24 oy ci etc nA inte pure leloisa ¢ Edison Carciro me repetiram, era que ele, Ramos, munca Se ora ier ee eRe ea aera ae nme mee rime es Sipe dea race te se ceaetek coentaiae ores ores 12 nla pat aes ang a Reet Coy ce eee ee is eens pee ree cet ein eal erie ters ae cnn a Secs er der ees oveny 5s oat ae Soren nes eee ae ame erase eae eee coaptiecs ea a a a eae, es a a ceca nected sone ac sca tng erage prensa et Herskovits and the Search for Afro-American Culture, que, no entanto, no Seas a pe en secs oe ee ena ae ee pact reopen Se ire Sstigio de Ruth Landes na Universidade de Fiske anes de sua vind 20 Jrequentemente erttico do ponto de vista de Herskovits ¢ favorivel ag Frazier. Numa carta de 24 de novembro de 1937, por exemplo, coment © livto de Ramos (As culturas negras no Novo Mundo), observa ie centre a Bahia, “onde o ritual de candomblé segue uma forma defintda, ‘cua origem € sem dhivida africana” e o sul dos Estados Unidos, onde eseravo negro das plansations tinha previamente perdido todas as ft culturais que tinha na Africa", ¢ acrescenta; * Nao desconhego o fite ue um antropslogo muito capaz, o Dr. Herskovits, tem outra posigla, ‘minba posigio ¢ bascada na pesquisa de primeira mao © detalhada, dey Feita por observadores to sagazes desse problema como o Dr, Robert Park.” Em outra carta, de 10 de agosio de'1940, inclui techos do lirne Frazier (Tbe Negro Family én the United States), que mandara copiat Ramos “com a confiante expectativa de que esses dacios, espectalmente ‘otas,seriam de muito interesse”. Hi todo um pardgrafo dedicado 4 el olivro e sua metodologia. Nesta carta, Pierson também anuncia & vindk Frazier a0 Brasil, no mesmo periodo em que Ramos estaria nos E Unidos. Pierson lembrari, em outras cartas, nomes de pessoxs inst ‘que Ramos deveria visitar © certamente nio tert gostado da carta em ‘Ramos anuncia que estava indo para a Northwestern University Herskovits —a quem alude mais uma vex nessa correspondences, lamer ‘que Ramos nio estivesse no Brasil quando da visita de Feazict, ji que interesse dele, ¢ de outros pesquisadores que recomenda, “no est lit ‘como no caso de outros de nossos contersineos, a uma mera catalog sobrevivencias culturais afrieanas © & procura de su origem ¢ ail (Caria de 11 de setembro de 1940). Na carrespondéncia, mantida ene 1935-1949, nenhum dos dois missivistas comenta a opiniao do outso sobie ‘Herskovits ov Frazier. (Cartas no Acérvo Donald Pierson/Projeto Historia dik Anteopologia no BrasiVtinicamp.) FRAZIER, American Sociological Revlew, VM, p. 472. Nao posso acompanhar aqui todo o debate sobre a “familia negra", suse tado por essa discussio entre Frazier e Herskovits: para uma ¥islo nly completa, ver SLENES. Na senzata, wma flor Yer \atnbém MAIO. Tee Social Revista de Sociofogia da USP, sobre a adesto obtida por Hterskovls de René Ribeiro; ¢ PRY. Para inglés wer. Identidade e politica na cultura brie leira, sobre a semelhanca entre 2 analise deste pesquisidot ¢ 4 de Lae ® HERSKOVITS. American Sociological Kevetw, VII, p. 401. 0 rejoinderde Frazier saiu neste mesmo numero ¢, nele, ele volta a citar os atin de Landes e Carneiro que haviam saido em 1946, FRAZIER. American Soctological Review, Vil, p. 404, Frazier no perl) 4 oportunidade de dizer também: “Nao deixa de ser interessante que ae haa discussio a respeito de sobrevivencias afrcanas no candornble. No Claes so candomble é ficil observar e registrar sobrevivencias alticamts, 40 passe {Que as afirmagdes do professor Herskovits respite de sobrevivéncias alt ‘canas na familia slo basicamenteinferéncias baseadas em especulago, “ Ver, por exemplo, 0 verbete sobre Landes, no dicionvio biogrilica edad Por Ute Gaes € outras, no qual se atribut unieamnente 4 perseyuiclo de -Ramos-Herskovlts ofato de Landes ter sido posta na “lista newt (ake) dre vinte anos, “ Sobre Hurston, ver HERNAND! Positionaliy Multiple Subjectivities and Strategie ~~ ee re Src tt curmnes tre ae rape ee aie ee ee oe sensual (ins oe. 68e eal 1300 Sole © Son trrdnct ue al pela nny ge Spur spun Gu ser STOLEAE CABSCOy Semone Be ee i gue ses pon Gana eps ce de Deo scans Soci sno, toe cu vito de ends po tad Unos sce ranetva OMETRAUR ater 4979 . {they on ACHSOR. ule Hakone Ser fo Altman siane poi osu pexguits nanciaas pea Unesco no Bras er Verena Soke Gop etace Cher (29h zai sess sae mat Oe ence paca en Se at oe acces ulceman fic aban es pur ese Co Sener psn een dpa a den ec scl inka denon cnc lo seca nage ne Eee ac mop, oa geal ck diz “Pal om ver 8 exo aa ds pte, Quer ber de Carmen Mra, es Orda a ems pel neal come ne ses of at. Es no Tic ican cabs ci ot Bcprcnca som expresdo copra cthabafido, Max no ro ea € bos ttaisgdo no mondo cola portguts, ver THOMA. fear do Antico ee oe ee mire teen oes Penal lgnteyes rare eee eat teclorsae de nus Goncrongudae pan cs, ee Sas Gane gems eae I igs 2 pra tl a aes eta ctee as fotos dos wands lotado de Visianes e usp do erbo sempre no pasado fas spreontar ss fots dees, Sala er Ws usm pi eas panna acini ayia sac ccs coe non se son ne beloic teentiomiyeseoeerdectayeoreii eal 2 avn ncenn gl oingeen gen cos cer rarrs ae at set gaan ton& Enpon. Toes coreopondbncls Se ——o do Palicio do Cate, supestamente un sjudane-de-ordens do gener Don Heloia encomendot também tadalhos tm chile fend, cesar do Nore « Nowdese eels do Estado de Minns eras Na lager, cic com Sut letra, se recomenda que as rendas do Nowe wagaino nome do pads com o nome da rend, sempre que possve”etaquela sobre olf de Minas vnaminvciosa lst dos padres alias qu se quer exis “Daliorinho", “ua do cafe” ete —, Jez no todo. Tos conespondenca tcferente a ete asta es arguivada no Muse Naclona, Mo de ane, ® Alegando una ineguaridade em seu passport, a polciabalanacapulon Landes de Salvador no ini de 199, e com sun be Mar Jus Posch, «tue visiava, eda fmf de Eason Carel, la conse embatea ae Cademos de campo, fotografi “eas maraihous bones esd aa Gu a6 mulieres ds ellos fieram para mit” que a poles gues recolher LANDES. & Woman Anthropologist in Bev. 197 * Calslogo-Petbdo do as * Em 1950, 2 preprar uma tee pa concorrer a cadeira de Athi Ramos 1a Facokdade Ractonal de Hlosfis, Heloise arma que dt Inkl Peaquia era 1940, Nese trabalho, cl sngue a indumentiis da elana tna da indomentr lion, ids nos eandomblen een steno ars 0 wo do pano da Costa, do org (turante) «dos bland coma Slemento sinbeliosdintves dese “po cul” pontano tanbeae a Insc dos habios das mulheres de hse domina pars cones A cret a conogrfia de Ceca Meireles (ver nota 36), eso balan pd tambsim sr via nas russ do Roe Jano, Agragego& claboraso {wits Perera Mello na reeuperacio da tose de leone das fotos de bunts, hoje exposas no Museu Nacional, Agra amb Ltt Ferd Diss Duarte, dietor do Museu Nacional, ques campo ecncontvon ay binas no Museu © a Helio Venn, qu esate Conese ene ay bonecas expostas em Lisboa ea pestis de Ruth Las ® Segundo ele, a Comissio er composta por August de Lia Junin, Gustavo Barozs, Guy de Hollins e Enesto Set er Paulo Dust at ido em Lisboa, tendo fUgido ds Fangs invade pelos ae cos comentriosa respi de alguns desses ede outros tere do governo args em Pongal (DUARTE. Memarias) * Comespondénea arquvada no Museu Nacional * Sobre a ragto a exss blezas por parte de um pico submetidoa una drs dicta morals na metropoe, Ribera Thoma tanncove ues td cation do Dri de Lisoa, a espeito do pedi afeado 3 ented di ees, Si, pant “os vistantes nao prsearem sts que os dims alls fon Indigems, ov lnes meregan repare"“Eoe edie ta ahs os a certo que curisidade dos stanes pls popula tnliens tnexjoa tem sido um pouco exagerada, tna or parte don homers aga ne inrometem com 25 pret como ie —-pajue€ mibespons te sadetes «que odelam ox pretos com a tengo encesivac pineal pars en Branca.” (THOMAS. Beas do tanto Sik represemagdes seco tnpeto Portuguen p97) * Bintressante registar que a poet Cecilia Melceslevow pra tagcle mesa ano de 1935, uit rc bliin gras sobre abana caro. As avr, compan foram apresentass numa expos ortugaly auton, texto que as explicaviy separata do Mundo ue Portugués, no ano seguinte, mas s6 safram no Brasil 49 anos depois. Ver (MEIRELES. Banque, samba e macumba estudos de gesto e ritmo. Agradego a Omar Ribeizo Thomaz por ter chamado minha aten¢o para essa produgio. AUGUSTO. Revista Bravo, aio 1999. ™ MENDONCA. Carmen Miranda fol a Washington, p54. ® AUGUSTO. 0 Fxtado de S.Paulo, 30 abr. 1999. % Ver as Fotos em Mendonga: até em sua casa, em cenas mais intimas, ‘Carmen Miranda usa 6 turbanne. © -Turbantes, sandillas ¢ balangandas de Carmen invadiram a moda norte- ‘americana, Com uma foto de Carmen Miranda, a vitrine do magazine Macy's ‘mostrava turbantes. Na Bonwit Teller, o manequim tinha rosto e pose de ‘Carmen Miranda, Inspirada nos enfeites da baiana, 2 Leo Glass, joalhesia da ‘Quinta Avenida, Iangou a colegao Hi-Hi the South American way, "QMENDONCA. Carmen Miranda foi a Wasbingion, p. 77.) 0 sucesso de Carlighos Brown na ruas de Nova Torque, em 1999, ¢ a estikacaa de seus balangandis em j6ias pela cadeia de joalherias H.Stern teve ma ilustre predecessors... A colegio de j6ias, chamada Afiscigens, replica em ouro € platina varios dos adereyos usados por Carlinhos Brown em seus shows —e uma série de clementos dos balangandas das balanas, ineluindo-se af as ;pinhas de latas de bebidla, jf usadas com sucesso pelos artestos de rua para criar enfeites (e também pelos melanésios — ver CLIFFORD. Routes). O texto de apresentacio do catilogo comeca identiicando Carlinhos Brown como “um mundo sem frontelras, um liquidificador culcural, um omelewe :man’ E fermina com a expresso: "Miscigens. MiscigeNacao.” © Citado em Carmen Miranda Inc., reportagem de André Lulz Barros em Bravo (17), fev. 1998. © para uma anilise mais aprofundada dessa questio, ver ERNICA. Batueada de bamba, cadéncla do samba a Fornaio de uma beasilidade crtca-conser- vadora, © Ver MENDONCA. Garmen Miranda fot a Washington, p. 81 et seq em ‘uja informasio me apoio neste techo, para exemplos cla atuacio da CIAA ‘a Sea cultural, especialmente a participagio de Carmen Miranda no “esforgo de guerra", e para as fontes oficiais de sua pesquisa. © Documentos citados em MENDONGA. Carmen Miranda fola Washington, 1-89. DIP era o Departamento de Imprensa ¢ Propaganda clo Estado Novo, responsivel pela censura Gitado em MENDONCA. Carmen Miranda fot a Washington, p. 166-167. [No Ambito deste texto, ndo posso fazer justga a0 belo e detalhado livro de ‘Ana Rita Mendonca que analisa ainda outros desdobramentos intemacionai {da figura de Carmen Miranda, como a eriagie do simbolo da United Fruit, uulizado até hoje — a Chiquita Banana, originalmente chamada de Carmen Banana — e cujo jingle Carmen se reeusou a gravar. ©TAUSSIG. Mémesis and Alerity: A Panicular History of the Senses, p. 233 CAPITULO VI - O ESPARTILHO DE MINHA AVO: LINHAGENS FEMININAS NA ANTROPOLOGIA “LANDES. A Woman Anthropologist in Brazil; Critique of Antbropology, 13 (@); JUNGMANS; GUTKIND (Ed). Andbropologisis in he Fields CLIFFORD: aay MARCUS (Bd), Writing Cudture The Poetes and Poles of Einography: Inimero especial de Crigue of Amibropologydeu origem h cletdnen eal por Ruth Behar e Deborah Gordon, Women Writing Culture. James Ch 8 feministas que a coletanes provocou: ver Rollie Travel and Translation tn the Late Twentieth Century (eapecialmenie, Capitulo 11D, mostra que antropélogos ¢ antropdlogas tendem a citar com mts Heeb 0s trabathes de seus eolegas homens. Convém lembrar que 0 perkake inte anos que separa os anos 70 dos anos 90 fal também um memenig “feminizagio* da antropologia nont-americana durante o qual a porcem Anthropological Association de dezembro de 1992, Agradeger 4 Guita Debert. Por contraste, no mundo bri em 1983 pela ASA (Association of Social Anthropologists), no Kel ‘mostrava “uma leve piora” ma stuagio das antropdlogas: 1796 dos proferen Permanentes (lenured) eram mulheres, bet como um sexto doe ay rofessores de antropotogia em geral, na educacao superion Engendering knowledge: the politics of ethnography. Agradevo Fifa Verena Stlcke. Comentando o conhecido fsto de que Ruth Bena foi promovida a full professor apenas no final de primeira mulher a receber tenure num departamento de antropologi impo {ante, Robert Murphy acrescenta: “Seu feito é obscurecido, mo entant, held fato de que nenhiuma outra sntropdloga reeebeu ‘tenure’ em Columbia ap Auiterine Newman, em 1989, 41 antos depois da morte de enedistt MURPHY. Dialectical Antbropology, 16 (1). “sobre a dlifeilretacao entee feminismo ¢ antropologia, ver STRATHERN, Sigs 2. Velase também a muito cada extica de MASCIA-LEES, SHARD, OHEN: Signs 15 (na qual as autoras, apesar de renegarem as oposden bindrias, aflmam : “As mulheres estlo para os homens assim como ee mtv Suto para 0 antroptogo.” Para ser justa com outs intenctes Inowstlonty dy ‘sgunizadora da coletanea Women tn the Fil, vale regions pablien dos aspectos subjetivos do trabalho de campo, talven pore heay 2238¢ considerado nto essencial ou lnrelevante para'a comunieneda he {nformacodes a respeito de outras cuturas, a tarefa cieatifiea conta Ba Co esherava também que esse volume aparecesse como wna een dog Gidarafos, com cada participante stuando como um informante naivort. 4 {nfase adicionall {petlhooks. Yearning: race, gender and cultural pots, itd no adimero 18 de Critique of Anthropology, p. 310. {MICELI (Org. Histéria das ciéncias soctats no Brasil, Compure-w a foto da capa com a da pagina 32, cujo crédito, aliss, ¢ devide. Eunice Durham, antropéloga e professors da U mulher a presiia ABA, Associagao Brasileira de Anttopologts, yun anos depois de sua fundagao, Igualmente choc ‘masculino/feminina no campo da antropologia qu trina dative, tanto das relagde vanto da Forga as imagens, 230 que produzi com Angela Galrao Cem anos de antropologia: imagens "orm shin oe era eg Sea aoe eae ee en beeen etre Fale oe oe peed eas ee Ca on eae ee See Oe ae cetaceans “hema tte a spa a eave ree seas Seer rte eects ems eee Sena arene earners Ses Fey econ cba ms 2d een oo oe eee ee etc ca pore meter ae Fee ar ee oem eee reas ee fazer justica 3s iconias e alusdes presentes no artigo de Mary Douglas na sua ° a personagens masculinos e vinte personagens wow ale colorado de Aur chard, Mary Dougan fl ein td Performance, 5 (1), Aqui, para Fesumir, em vez de aaa - a citagAo do debate, - — vi cts. NO Entanto, 0 antropélogos ndo tm sidk lito b ont ier attr a a hs penal ‘ne campo. CAPLAN. Engendering | Knowledge. 4 Smuts ta Newnham College, de Cambridge — que comegor * 46 em 1925 passou a atnbuir gus bv motas que, Mo antares hee mesios exaines que os rapazen, sem abter as sual atsibuidas —, era a alma materde vari ‘i geracho de a " ee vis antropdlogas a pera de Wlevout— Wine Hocrne, Audie Rchanl, ey Mae Sons wasan que no Womens College da Universi sey ai anil de 1935 a 1944, forse 4 anttopdloga Pye Rabe preguidenmaker conta ua isria no lizo de memes, Siroiger Mle ‘The Way ofan Anthropologist, lke py ron nde Bunzel em Anthropology at Colimbis, DalcrcalAutbripohes weak As duas alunas de Boas, que se 2 Alice Walker, Fye Harrison propoe Faye Ta ropee que se James Clifford $508 Cibo.“ Besta pode scr vis, ent, como ua form descent cre os exemplos de Hortense Powdermaker e de Esc Glens heey Daimeira antropsloga a presidc a American Ethnological Ste Sabie Powdermaker; ¢ LAMPHERE, American Bimal 16, (oy Seige dos ter DCO Dn aon dos Eads sof the Desert. Women Anthropol 3rd the Native American Southwest, 1890-1980, ahopoloniay sopntargaret Mead, ver a biografia de sua filha, BATESON. wn @ se Se Se jes ne ata epic aA Dibliografa sobre oataque 38 pes f ‘Scholarship, Empire and the South Pacific, Es phot lallipemtias’ fe(estilo vento rocando nas palietra ye yocando nas palmeiras) de escrever antropologte herded, No parigrafo anterior, ele acrescentara como exeimplon da 254 ® STRATHERN. Audrey Isabel Richards (1899-1984); ARDENER (Ed), Persons and Powers of Women in Diverse Cultures ® KABERRY. Introduction. In: MALINOWSKI, The Dynamics of Gulture Change. Esta introdusio mereceria uma anilise 2 parte: tendo sido chamada por ‘Malinowski para colaborar com ele no projeto desse livro, ela recebeu seus ‘manuseritos da viva e uma bolsa para levar o projeto adiante, depois da ‘morte dele, em 192. Comecando por observar que sex livro ainda podria, “ser lido com proveito pelo pablico em geral, formado por no especialistas nas ciéncias sociais', Kaberry prossegue Fazenda virlas erticas a0 autor, panicularipente sobre fata de uma dimenste histGriea’ ectandlo os autores que, antes de 1942, incorporavam essa dimensio & sua analise; numa dist buigao justa cla cita quatro antropélogas e quatro antropologos, além de um. estudo comparativo organizado pela enito diretora do Fast African Institute of Social Research, Audrey Richards, em 1952, * KABERRY. Aboriginal Woman, Sacred and Profane, © Women of the Grassfields ~ A Study of the Economic Position of Women in Bamenda, Lritsh Cameroons; RICHARDS. Chisungit~ Girl's ination Ceremony Among Ue Bemba of Northern Rhodesia. Jo Gladstone (em ARDENER. Persons and Powers of Women in Diverse Culture) comenta a relutineia de Audrey em ceditar tspidamente sua tse para publicaglo, como Malinowski queria ¢ como cla acabou fazendo — 0 que pode ajudar a explicar longo lapso de tempo centre sua pesquisa com os Bemba e a publicagio de Chisungi. * im The Position of Women in Primitive Societies and Otber Essays in Social Anthropology. © aitigo era originalmente uma conferéneia de 1955, feita para homenageara feminists inglesa Millicent Fawcett e fot feita no Bedford College da Universidade de Londres, um colégio para mogas.. Para uma critica panfletiria, ver CORREA, Bolesim das Trabalbos em Andamenta na Antropolagta. A filha de Malinowski comentou que, se tivesse easado com ele, Audrey certamente nao teria aguentado todas as demandas que ele fizia aos que 0 cereavam. Para uma bem-humorada descrigio dessas demandas, veja-se SCHAPERA. American fubnologsr Ele fo asistente de pesquisa de Malinowskl Na sua introdugo 2 coletinea dle trabalhos sobre Malinowski, Fin chana a tengo para um detalhe interessante sobre ele: como nao sabia escrever a maquina, Malinowski ditava — e discutia — seus textos 2 medida que os escrevia, FIRTH (Ed). Aan and Culture. An Evaluation of the Work of Bronisliw Malinowski. © melhor retrato de Malinowski emerge da sta correspondéncia com esposa, Elsie Masson: Tbe Story of a Marriage, ceditado por Helena Wayne. Agradeco esta referéneia & Mauro Almeida, ® kntre os Manam, os nomes slo transferidos dos avs para os netos. Ver ‘tkehaus, em SANJEK. Fieldnotes, Ver também KUPER. Function, History, Biography - Reflections on Fity Years in the British Anthropological Tradition, Fla registra, entre outras lem bbrangas de sua carreira na Africa do Sul, que as mulheres bolsistas do International African Institute deveriam restituir toda a verba recebida para pesquisa se casassem; os bolsistas homens ao casar recebiam uma verba extra. Ao casar com Leo Kuper ¢ ser chamada a cumprir a norma, Hilda Aavisou o Instituto que mo tinha como fazer a restituigao € continuow a rece Aber a bolsa ® Ver CHAMOUX, ’bomme. No conjunto das insttwigdes que empregam santropdlogas, com excecio do Museu de Historia Natural, a porcentagem 255 maxima de mulheres empregadas & de 373% no Centre National de la Recherche Scientifique, essa porcentagem caiu de 43% em 1970 para 359% ‘em 1978. A autora observa também que enquanto as mulheres levam cerca de vinte anos para chegar a0 posto de maitre de recherche, os homens levain cerca de quatorze e que a ampla maioria dos postos de chefia € ocupada por homens. Em suma, a tendéncia institucional poderi ser resumidiadizendlo-se mplesmente: primeiro, os homens; mulheres, se sobrar gar. 9” MATHIEU. Libomme. ARDENER. Belief and the Problem of Women, Is Female to Male as Nature is to Culture? Ver © desensolar do STRATHERN; MACCORMACK (Fal) Nanure, Culuureand Gender. interessante nolar, de passagem, que talvez o primeiro proponente do to criticado “male bias’ em Antropologia pode ter sido um homem... Ver MILTON. stan, 14. ® Gradbiva é editada sob a direcao de Michel Izard, Jean Jamin e Michel Leiris, no endereco do Musée de T Homme e da édition Jean-Michel Place. 4 autora lamenta nit ter abalhado com as mulheres: “O que redunda ei nada sabermos sobre a visto que as mulheres Dogon tem de sta sociedade; 2 imagem que relatel — e que os trabalhos de meus colegzs no modificaram = €4 do universo masculino.” PAULME. Cabiers d'udes Africaines, 65 trata-se de um ndimero especial sobre des fommes sur Afrique des femmes fem sua apresentacao, a redatora, Claudine Vidal, diz que seus colegas mas culinos fizeram observagdes surpreendentes enquanto o material da revista cera reunklo. “Quando sairs o ntimero sobre os homosexuals? E logo sari © das p..” Bla ficou tentada, entre outras coisas, a fazer usta capa florida, ¢ Dobservando que seus colegas alricanistas definiam o mundo feminine como fivolo, dizia que a sensiblidade sobre ele era ainda “hesitante, ¢ como que ‘censurada”. Sobre as relagoes da Fundacio Rockefeller com Marcel Mauss ¢ a antropologia Francesa, ver STOCKING Je, Philanthropoids and Vanishing Cultures. Debora Lifchitz, judia, fo presd pela policia francesa em 1943 € morreu em Auschwitz. Ver Correspondance de Deborah Lifchitz ct Denise Paulme avee Michel Leiris, Sanga, 1935, Gradbiva, (3), 1987. A estitua, hermafrodita, esté reprodurida na pagina 55. O texto mais famoso sobre 4 primeira missio Griaule & o de LEIRIS. LAfrique fantdme. # Sobre o Instituto de Etnologia, cla lembra “as senhoritas Rivet", fis de Paul Rivet, que eram secretirias do Instituto ¢ davam grande atengao 205 alunos do irmao e especialmente a ela, jé que tinham conhécido seu avd. © Cabtersd tudes Africaines, 73-76, 1979, Pierce Alexandre, Chére Denise eD, Paulme, Quelques souvenirs. Alexandre, eferindo-se a uma forte ten ‘dencia da antropologia africanista francesa, diz também que D. Paulme “con: ‘wibuiu para salvar minha gerago de uma indigestio de Dogon*. Resenando uum dos livros proxiuzidos sobre os Dogon, Denise Paulme avallava que @ Dibliografia j4 contava com 160 ttulos e faz uma evtiea severa sobre ess produeio, advertindo para “o perigo que representa um estudo eealizado no pplano metafisico com exclusio de qualquer outro e ignorandle qualquer realidade econ6mica. £ preciso relembrar aqui a importincia que Mauss atribuia 2s proporcies no estudo dos Fendmenos socials” E, observando que 4 seca era 0 pior inlmigo deste grupo, observava: “Se Griaule merece 0 reconhecimento dos Dogon, € porque — como lembrou Hogan Aru, seu chefe religioso, no elogio finebre — tendo conseguido obter @ cons: trugto de uma barragem, ele thes assegurou agua, benelicio supre (an, LIX, 1959.) 256 BT + Como Wedgwood e Ps Kabory, Dene Pane an edi 2 onpuniir as Rots de outro anttopologo — as nots de ala de Ma Sinks que dartam oigem 3 publcagno do Manned ebnographie 4) trae cages sao de ROUGH, Le renard fu et le matte pale, « de DOLO “Tonoignagen, em Syldmesde signes Testes unis en hommage 2 Gennaine DiccrenAgeego esta referencia, e 0 interes: na pesquis, Emil Ptsfna Je Godt. Mats na vez, como no caso de Mary Douay, 0 vrs fazer justia ao belo texto de jean Rowch,consrfdot maneira de um Siar cn ste etapas; ms ats le costa sua vid e experiencia profesio see kimen as lembrangas de Germaine Dieterien © Marcel Crile Thdettamence sua evocagio do misc de Sus mereceia um ensio imate commontexptqur cla ames camarades du Musée de fomn? {as oo ex so sos canara do ws o Hone Dea tvs nis dante, Barbar Tedok convergecom 2 nort0 de linha pethes ao car outraspesqusis sobre a famosa expedi Dak bout Tallin revelou 4 relate tena cote a equipe europea de pesquisa da “CSpeiighs e's procedimeatos poo ccs uilzados pela expediio part ceicicar peqas para © muscu, EssasrevelagBs teriam sido a caust do “Smplmerta defntivo de suse eelagben com seu colega Maycel Grau (TEDLOGR,Yournal of Ambropeagiat Research 47,0 {tora na Europa cem outos partes do mondo, a casas medieval presen turn ehatamente as mesmas farnteriias fue entre 0s Kwak © os ‘fitokl Tumis se deinem nant pela pose de um don compost elguuesay tras mates ashonras— entre as qua iam st crea tesouros de origem sobrenatual Para se peypetuarem, a cas “polum amiplamente para o prentesco feo, quer se rae de alana ov de ‘Moeto, has de Htdeon rasulino, por vez connec cn ser amas a has podiam asegrar a tapsnissto Jos itlos, ov de Steno che, ou Ezendo, como seca emo, a pone ea pranchs.) Fatver resule daso © importante har que, em regines ostensivamente Talnlineses € ocupado frequentemente pelo matonimico,” LEV-STRAUSS, Daina polars ' ‘hau sei preciso avaiar também as diferengas etre os ssemas univers tires non meicano, ingles e orancs: na Franca, a pesquisa parece er primatia sobre o ensin, «os dietores de pesquisa parecer fe tno pres Mio quanto os detenores de cargos universarios. Anda ques penis secant preeminent ns svaliago dos antopslogos node ametcanos Ingen nner” fo predominate eran = raul da anopelogia testemunkana lmportncla dese ocupar cargos ma Tandon School of Enon oun Univer de Club por ons (Gin oeupayao de exgos nas agencis coli, no caso 0a Tngatetra, 08 inmuseu ¢ nos colleges feminino, no caso dos Estados Unidos {to post desenvolver o argument aq as me parece que o debate conte Manlyn Ststherne Anere Weiner sobre ovo desta ita, Women Pale Men of Renown, ant metafrco de uma disput, ene ingles Qemteramericana, interna 20 campo de especalsts na Melani, como ae Gins dpputa, come se Fosse, em snot do pa’ vera erica de Sathera oe eaMisafente a Malinowski Memonal Lecre de 1960 — "Cure in 4 Nolbots The Banulacture ofa Subdicipline in Anropology”. Ostensiva ret trae da tesposa Oe Srathern cle de Weiner de que ca esaria wtivend decal bins ao no “vero valor de cenasnquezasfemininas na 237 Feqlto, Para o valor dos merbags como ob ver MACKENZIE derogynous Objects String Bags and Gender in Central New Guneg aache American Hertiage Dictionary of the English Language “axolotl vita fs indieras slamandeis mexicanas e nomte-americnas do enero aml Ue ae conteirio da maior parte dos anfbias, mantém suas guelras eerie Se oman sexvalmente maduros sem paste por uma metamorfose Inada all, gua + xolol, servo, espitto) tee aie Ramble: “Pode se dizer a nossosestudantes,sobretuo aqueles qua, iim dia poderiam efetvar observagdes neste tern, que si firemen aoa, Jost dos homens e nio a soctologia das mulheres, ou dos dais sexes Ca G2enko Social nas sociedades polissegmentares") Ou: “Mas slic as sorte setts mulheres ¢ sobre a eueagao que eas minitram a seus mene tudo esté ainda por descobris.” E aerescenta uuma boa descrigio da educagao em geral numa ti {im plano de sosiologia descritvs") MAUSS, nsaios de sociologias weer Fay ¢ John Monteiro me lembraram a importineta hnstiuclonal de Monica Wilson, por exemplo, mas, infelizmente, tant Pra Ae adut Para uma série maior de antopdiogas, consular GAGS) DUAN MCINTYRE; WEINBERG (Ed.). Women Antbropologisis: selected biographies, ‘calabte 0 contesto mals geal, ver, por exemplo, STOCKING Jr. (Hd), Hate ar ituations, € RUKLICK. Toe Savage Within. The Socal History of British antfopology, Sobre sua atagao nas agtneias colonais do Pacfco a pesquisa ainda & {eeu mas ver, por exemplo, FALGOUT. kibnology, 34 (2). Sobre ovaba, Pree MoPSlogs note americans com s populace navas, ver BAINCOCK, RAREZO. Daugbters ofthe Desert. Women Anthropologists ‘and the Nave American Southwest, 1880-1980; © LURIE, Women in Early Ametene geattenoloay. Lure registra também a criagio de una Women's Anthuopolen Fay Society, ue existiu entre 1885 © 1899. A panicipacto de Manors dea Rath Benedict nas agéncias govemamentals como parte do “estorrn Gc guerra” nos anos 40 & conheckla, mas elas nlo foram as dniese 9 va enesiarnessas atividades, Ver Virgin Yans-MeLaughlin, em Scenes, Dee, g2e¥, and Fates - Mobilizing Culture and Personality for World Wer th TeORNGK. The Savage Wabin. The Socal History of British anthopology, 1895-1945, p. 191, fy CRINGE: Mor yfor: British Social Anthropology, 1868-1951, p. 41, 419. ARISE JAMIN. Current Anthropology, 29 (1). Ver seu dio da vagem Africa part outros exemplos desis aividades predatrlas Ne oenlens & oson citads anteiormente (nots 42), Denise Paulme dita tmsbeon Fe eGos tbalhos de Griauk eDieteren: "Ns Ihe deverno, pelo meneay S.conieclmento de que os negros foram capazes de elabunat wim sere

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