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O Estudo do Comportamento Desviante:
A Contribuição da Antropologia Social

GILBERTO VELHO

I.
o PROBLEMA DE DESVIAN~..-no-ni\reL.9.o senso comum,
:remetido a uma perspectiva de patolog1a.<J;s--órgãos-de
• pamunicacão de massa ~ncarreg~é"-de ãl@Rar e e~
tizar esta Eers:Qectiva guereffi'termos estritamente psíco- .
lOgizantes, guer em term~~~-.tt~-ªQ:_9-Y~:::p.r~teií~e
ser ...,.:çY1t.utalis-tia.Y-ou-l1'soeiolô.gÍ.G,ª-".A formulação deste"
tlpo de orientação é feita a partir~"ae trabalhos, "muitas
vezes de orientação acadêmica, que não são capazes de
superar a camisa-de-força de preconceitos e intolerância.
É meu objetivo, neste artigo, relativizar esta abordagem
e lançar proposições que possam permitir um conheci-
mento menos comprometido do fenômeno em pauta.

lI.
Tradicionalmente, o individuO- desviante tem sido
encarado a partir de uma perspectiva medica J)reocupada.
em dIstinguir o-Sãõ" ao ']lao-s~do_!-insano"::""AssiI9
certas pessoas apresentariam características da.comnar-
tamentn "anurffiãIs", sintomas ou expressã.o de deseQ11j-
h~cr~!!ç~~aT~se--:fã-;-~~9-;]!eª@o~ti~Lº...m~1
e·~tratâ-1Q.....E.videntepllfIIee-exisnriam
males mais controlá-
veíS"ãÕ-que outros, havendo, portanto, desviantes "incurá-
veis" e outros passíveis de recuperação mais ou menos

,;...:.
l
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rápida. Enfim, o mal estaria localizado no indivíduo, Temos, então, um importante passo. Merton enfatiza
geralmente definido como fenômeno endógeno ou mesmo a especificidade do social, na tradição durkheimiana, pro-
hereditário. No terreno da doença mental as obras de curando demonstrar a importância da estrutura social e
Foucault, Szasz, Laing, Esterson, oooper' etc., têm apon- cultural para o desenvolvimento de um "comportamento
tado os mecanismos socioculturais mobilizados na identi- socialmente desviado". Resta saber como o autor vê a
ficação deste tipo de desvio. Não pretendo entrar em estrutura social e cultural: "Entre os diversos elementos
das estruturas sociais e cultUrais, dois sãoae-:ilnediata
discussões internas à psiquiatria mas apenas chamar a iffiÍlórtâ1'icIã·:---Bâoàna:Iíttcamen~se:I?araveisemoo-ra--se
atenção de que a importância desses autores reside no
fato de terem uma percepção não-estática da vida socío- miStürenleínsitu~ãções·çºJiçrêJ~§.:-Q~Rnm~rlJLC.91!..sisteem
oõJetí"VõScfí1fü:fãímentttdefinidos, de p'rop.ósitos·oe-intê-
cultural, facilitando o diálogo com os antropólogos. resses;-m:anttclQs~como-obj-efifjõs~1§mt{mospMC[ toªº§... ..qy,-
..o"ª?[~1~ªedacIe.
p(J:rfJ;---l1'Re-mbroso-7dívefsâm~t~::JQ~.giJiiigªi
lU. Os-obje-t+V(JS'--sã(rm'âi!rõu~ fn]fL~.Jr!-É!11ªdos -:- -o ffiãüãe~
No entanto, desviar o foco do problema para a socie- 'int-egr-a(]ão-&-u1rur"'q1If{s"tãõ ~~tato empírico (o grilo é
dade ou a cultura "não resolve magicamente as dificulda- meu1-e--aI!t9EmF~~~dõiJm -ãrgumã~-hierar:
des. É preciso verificar como a vida sociocultural é repre- 'qUiãde valores. Um~~~g)J!!ªº,-~l~mê.ntQ.l!~n~-strtIttrra
cilltlf-
rar--define:~fegiíra e" cõIrtrola os modôS-"'aéêítã'Vels'ije
sentada e percebida. à1canÇ"a~enjlQà:- Câdá .~grupo- sódãiúi'Vã,fIãVél:
Uma das abordagens mais influentes e significativas
do comportamento desviante está na obra de Merton com -mefftê""ITgaseus objetivos culturais a regulamentos, enrai-
o conceito de anomie. Diz o autor: "A análise funcional zados nos costumes ou nas instituições, de procedimentos
concebe a estrutura social como ativa, como produtora permissíveis para a procura de tais objetivos." (Merton,
de novas motivaçÇies que não podem ser preditas sobre 1970, pp. 204-5.)
a base de conhecimento dos impulsos nativos do homem. Ou seja, como já foi salienta" e 'rios críticos de}
Se a estrutura social restringe algumas disposições para Merton, há uma óbvia ênfase na .'ntegraçã" da sociedade.
agir, cria outras. O enfoque funcional, portanto, abandona Todas as sociedades apresentam, s esta perspecti-/
a posição mantida por várias teorias individualistas, de va, objetivos e meios de realizá-los que são legítimos para
que as diferentes proporções de comportamento diver- todos os seus membros e, ainda mais, mesmo para indi-\
gente, nos diversos grupos e estratos sociais, são o resul- víduos "diversamente localizados". Mas nem todas as:
tado acidental de proporções variáveis de personalidades sociedades funcionam bem. Podem existir sociedades \
"mal-integradas". Estas seriam as' que apreseiltanam
patológicas encontradas em tais grupos e estratos. Ao <lesequilíbriôSentre os objetivos e os meios: "OutrossirnJ
invés,tenta determinar como a estrutura social e cultural dizer que os objetivos culturais e normas institucionali-
gera a pressão favorável ao comportamento socialmente zados funcionam ao mesmo tempo para modelar práticas
desviado, sobre pessoas localizadas em várias situações em vigor não significa que elas exercem uma relação
naquela estrutura." (Merton, 1970, pp. 191-2.) constante umas sobre as outras. A ênfase cultural, dada
a certos objetivos, varia independentemente do grau de
1 Ver especialmente: Foucault, Michel -' Histoire de Ia F olie, ênfase sobre os meios institucionalizados. Pode-se desen-
Plon, 1961; Doença Mental e Psicologia, Tempo Brasileiro, 1965; volver unia tensão muito pesada, por vezes virtualmente
Naissance de Ia Clinique, Paris, 1972. Laing, Ronald - The Poliiice exclusiva, sobre o valor de objetivos particulares, envol-
o] Experience, Ballantine Books, 1970; The Divided Sel], Pellican vendo, em comparação, pouca preocupação com os meios
Books, 1971; com A. Esterson - Sanity, Madness and the Familu,
Pellican Books, 1971. Cooper, David - psiquiatria e Antipsiquiatria, Instítucíonalmente recomendados de esforçar-se para a
Perspectiva, 1973; The Death o] the Family, Pantheon Books, 1970; consecução de tais objetivos. O caso-limite deste tipo é
com Ronald Laing _ Reason and Violence, Tavistock, 1964. Szasz, alcançado oquando a amplitude de procedimentos alterna-
Thomas S. _ The Myth 0/ Menwl Illmess, Hoeber Harper Book, tivos é governada apenas pelas normas técnicas em vez
1961.
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das normas institucionais. Neste caso extremo e hipoté- nas expectativas de comportamento, impedindo o funcío
tico (o grifo é meu) seriam permitidos todos e quaisquer namento "normal" da sociedade.
procedimentos que permitissem atingir esse objetivo tão
importante. Isto constitui um tipo de cultura mal-inte- V.
grada." (Merton, 1970, pp_ 205-6.)
Ter-se-ia então uma sociedade "doente", "instável" e Nem todos os autores que trabalham com o conceito
"mal-integrada", .em situação de anomie. Representaria de anomie vêem, no comportamento desviante, apenas o
um desvio "extremo e hipotético" de um ritmo e run- sintoma de doença na sociedade. OU seja, o comporta-
cionamento "normais". Ê óbvia a analogia organicista. mento desviante não é, somente, algo que ameaça a exis-
Saiu-se, portanto, de uma patologia do indivíduo para tência da sociedade, mas pode ser até a sua "redenção".
uma patologia do social. Para o próprio Merton certos comportamentos desviantes
de caráter inovador podem trazer as respostas adequadas
para a permanência de determinado sistema. É a idéia de
IV. que "o desviante de hoje pode ser o herói civilizador de
o conceito de anomie serviu de ponto de partida para amanhã".
muitos trabalhos que vieram a ter repercussão em toda No entanto, não reside aí o problema crucial do
a área de estudo de comportamento desviante. Embora esquema mertoniano. O seu caráter "conservador" não
não fosse encampado integralmente por vários cientistas se deve ao fato de enfatizar a harmonia e o equilíbrio na
sociais que dele se valeram, anomie 2 passou a ser o foco vida social. Pode ser até capaz de perceber as funções
central das discussões. O próprio Merton reviu seu de conflitos, distúrbios, desequilíbrios etc. A questão
conceito, acrescentando novas dimensões. Um dos acrés- concentra-se no fato de esta análise ter como premissa
cimos fundamentais foi a distinção entre anomie, "con- uma estrutura social não-problematizada. Ou seja, a uni-
dição do ambiente 'social, não de indivíduos particula- dade de análise é um sistema social já dado, "funcio-
res", "propriedade de um sistema social, não o estado nando". A harmonia e o equilíbrio, a partir daí, surgem
de espírito deste ou daquele indivíduo dentro do siste- automaticamente. Existe uma fase hipotética, inicial~
ma" (Merton, 1967) e anomia, referida ao indivíduo. quando o sistema está "funcionando normalmente". O,
Assim, uma pessoa concreta poderia estar em um pro- processo de mudança social pode ocasionar desequilíbrios
cesso de anomia sem que o sistema social estivesse em e conflitos, mas a tendência "natural" será o retorno a I
anomie. Mas, por outro lado, a desorganização de normas um estado de equilíbrio e harmonia. Mesmo que surjam ~
e valores vai fazer com que o ambiente social seja favo- modificações na estrutura social, haverá um momento li
rável ao aparecimento de indivíduos "anômicos". Mais
em que as coisas se encaixarão nos respectivos lugares - I i
e os níveis social e cultural voltarão a se ajustar. Uma i!
uma vez, confirma-se a observação de que se trata então
nova ordem poderá até ter sido instaurada. Logo não fi
de verificar as condições patológicas de um sistema
se trata de rotular esta abordagem de "imobilista", pois i i
social que vão gerar os comportamentos individuais
desviantes: "Em resumo, o grau de anomie de -um sis- ela é capaz de prever a mu~~ questão é que se li
tema social é indicado pelo grau de falta de acordo a esta não é necessariamenty~stroii~~e tem um rI
respeito das normas que se julgam legítimas, com sua caráter de excepcionaliqtrde. Ê um tem~l 'goso"~,11
concomitante incerteza e insegurança nas relações so- "imprevisível", propício ~ desordens e' anom1.e.\ _ 1\ }.0/'
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ciais." (Merton, 1967.) A falta de consenso geraria crise ,.\v ' r, t, ~. \) _
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2 Ver Merton, Robert King - Sociologia, Teoria, e Estrutura. Na realidade, há uma outra t~emissa \á s'erfexami-
Mestre Jou, 1970; Merton, Robert King e Nisbet, Robert - Ctm- nada. Consiste em 'uma oposição entre O sistema soCial,.
tempora;ry Social Problems,' Harcourt Brace Jovanovich, 1971; e o indivíduo. Vai-se verificar que o, compprta~en~oo. \,r),J
Clinard, Marshall B. _ Anomia y Conducta Desviaaa, Paidós, 1967. \ \"
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desviante será, de acordo com este esquema, o "indivi- dente dos indivíduos biológicos", que momentaneamente
dualizante", por excelência. A ausência ou conflito de possam estar ocupando essas posições, também reforça
normas faria com que as pessoas procurassem estraté- esta tradição que, obviamente, tem como modelo uma
gias e soluções individuais, não sancionadas por uma ciência experimental e como objetivo a procura de leis.
escala de valores consensual. Durkheim enfatizou a exte- É a partir desta perspectiva, que dissocia tão radical-
rioridade do fato social. Disse ele: "O sistema de signos mente a realidade individual da realidade sociocultural,
de que me sirvo para exprimir meu pensamento, o siste- que se vai desenvolver uma das mais influentes e, certa-
ma monetário que utilizo para saldar minhas dívidas, os mente, a mais difundida teoria sociológica sobre com-
instrumentos de crédito que uso nas minhas relações portamento desviante. A confusão, "a incerteza e insegu-
comerciais, as práticas seguidas na minha profissão etc, rança nas relações sociais", faz com que os indivíduos
etc. funcionam independentemente da minha utilização fiquem "perdidos", "soltos", "desenraizados", tornando-se
particular. Isto valeria para qualquer membro da socie- anômicos.
dade. Assim, as formas de agir, pensar e sentir apresen-
tam esta extraordinária propriedade - existir fora das VII.
consciências individuais." (Durkheim, 1956, p. 4.) Con-
vém lembrar que é a partir do conceito de disnomia de . A própria noção de desviante vem tão carregada de
Durkheim que se desenvolveu toda a problemática conotações problemáticas que é necessário utilizá-Ia com
muito cuidado. A idéia de desvio, de um modo ou de
de anomie. Desta forma existe uma descontinuidade entre outro, implica a existência de um comportamento
a consciência individual e o fato social que pode até "médio" ou "ideal", "que expressaria uma harmonia com
traduzir-se em termos de oposição. O fato social exerce as exigências do funcionamento do sistema social. Mesmo
uma "ação coercítíva", havendo, conseqüentemente, uma quando se encontram posições mais "relatívístas", per-
tensão entre o indivíduo e o social. É claro que a contri- manece o problema. Em Antropologia, Margaret Mead,
buição durkheimiana é inestimável na procura de caracte- Ruth Benedict e seus discípulos enfatizaram a idéia de
rizar o objeto de estudo da sociologia e na tentativa de que cada cultura geraria personalidades características
esvaziá-Ia de seus aspectos psicologízantes. Parece-me, no e o que é desviante na sociedade A poderá ser o padrão
entanto, que esta tradição corre o grave risco de reificar na sociedade B. Basta lembrar o tão divulgado Sexo e
o conceito de social. O que de fato acontece é que a partir Temperamento 4, bastante conhecido através dos órgãos
de uma preocupação lúcida em não confundir fenômenos de comunicação de massa. Mais uma vez, não quero
li logicamente distinguíveis,passou-se a fracionar a reali- negar a importância da contribuição de um grupo à
dade de forma arbitrária: Não há dúvida de que a distin- história da ciência. A possíbílidads de relativizar os
li ção dos níveis biológico, psicológico, social e/ou cultural valores ocidentais correspondeu a um progresso evi-
permite a construção de um conhecimento analítico siste- dente. No entanto, permaneceu a preocupação de delimi-
J matizado, mas parece crucial não ignorar que uma "ação tar, um tanto rigidamente, comportamentos "normais",
ri social" tem estes três níveis subjacentes. A preocupação embora numa perspectiva menos etnocêntrica. A idéia
em delimitar o social pode levar ao descuido em relação de que uma sociedade ou cultura estabelece um modelo

I aos seus vínculos com outros níveis que, na realidade, são


apenas distinguíveis em termos de uma lógica formal e
rígido (em certos casos mesmo único) para os seus
membros e que tal fenômeno é essencial para a continui-

,l não em termos fenomenológicos. Assim, a estrutura social


ou o sistema social passam a ser encarados não como
conceitos analíticos mas como entidades não só distintas
mas mesmo opostas a indivíduos "biológicos" e "psico-
dade da vida social permaneceu vigorosa. A pluralidade

a Radcliffe-Brown, A. R. - Struciure and Function in Pri-


mitive Society, The Free Presa, 1965, especialmente Introducticm
e 011. Social Siructure,
lógicos". Dentro da Antropologia Social inglesa a noção
1 radcliffe-browniana da rede de status e papéis indepen- 1969.
4 Mead, Margaret - Sexo e Temperamento, Ed. Perspectiva,

:1

i
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de comportamentos dentro de uma cultura é vista den-
tro de limites bem marcados. No caso de Margaret Mead, antagônicas e o "inadaptado" é o indivíduo cuja indivi-
ela tem a preocupação de mostrar que certas sociedades dualidade é tão exacerbada que contraria as normas vi-
estabelecem correlação rígida entre o sexo e a possibili- gentes. Mais uma vez encontra-se a idéia de indivíduos
~ dade de desenvolver dotes individuais. Nestes casos, o contidos em um sistema sociocultural que tem uma
"inadaptado" pode passar para um "desajustamento da existência própria, distinguível das biografias de seus
membros.
pior ordem". Diz ela: "Onde não existe tal dicotomia
(obs.: sexo/temperamento), um homem pode fitar triste- VIII.
mente seu mundo e achá-Io essencialmente sem signifi-
cado (o grifo é meu), mas mesmo assim casar-se e criar
filhos, encontrando talvez um alívio definitivo de sua Desta forma, é possível perceber como os estudos
infelicidade nessa participação total numa forma social sobre comportamento desviante oscilam entre um psico-
reconhecida. Uma mulher pode devanear a vida inteira logismo e um soci'ologismo. A dificuldade consiste numa
com um mundo onde haja dignidade e orgulho em vez visão estanque e fracionada do comportamento humano
da medíocre mçralidade mercenária que ela encontra à que transforma a realidade individual em algo, em prin-
sua volta e, ainda assim, cumprimentar o marido com cípio, independente da sociedade e da cultura. Assim,
um sorriso franco e cuidar dos filhos num ataque de uma divisão do trabalho acadêmico acaba levando, de
crupe. O desadaptado pode transferir seu senso de estra- uma ou de outra forma, a uma visão deformada e incom-
nheza à pintura, à música, ou a uma atividade revolucío- pleta da atividade humana. Ou se cria uma individuali-
nária e, apesar disto, permanecer essencialmente lúcido dade "pura", uma "essêncía" defrontando-se com o meio
em sua vida pessoal, em suas relações com os membros ambiente exterior, de outra qualidade, ou então um fato
de seu próprio sexo e os do sexo oposto." (Mead, 1973, social "puro", também todo-poderoso, que paira sobre
p. 280.) as pessoas. O que se confirma é que posições aparente-
Sem discutir os óbvios julgamentos de valor e pre- mente divergentes apresentam premissas comuns que
ferências pessoais que transparecem no trecho citado,é
necessário ressaltar a visão rígida do que seja uma I vão dirigir todo o encadeamento dos raciocínios poste-
riores. Basicamente, insisto, a dicotomia Indivíduo x So-
ciedade e/ou Cultura é que determina esses caminhos.
sociedade ou uma cultura. Como explicar o apareci-
mento desses indivíduos em tais situações, sem cair,
novamente, num psicologismo? Os temperamentos po-
dem aparecer em qualquer cultura, logo, sempre existirá
I Não se trata de negar a especificidade de fenômenos psico-
lógicos, sociais, biológicos ou culturais, mas sim reafir-
mar a importância de não perder de vista o seu caráter
de inter-relacionamento complexo e permanente. Cumpre
a possibilidade de encontrar indivíduos inadaptados na lembrar o raciocínio de Lévi-Strauss, que estabelece que
medida em que certas características de personalidade a humanização só é possível através da cultura e da vida
serão mais valorizadas do que outras. O temperamento socíats. Assim, quando se fala em "homens", ter-se-a
existiria a despeito da cultura. Não. existirá ainda uma sempre a noção do sociocultural. O "Homem" só existe
contradição? Sendo a cultura ou o sistema social ·tão através da vida sociocultural e ísolã-Io desta, mesmo em
poderosos, tão coercitivos a ponto de determinar os termos puramente analíticos, pode deformar qualquer
padrões de personalidade, como explicar que certos tem- processo de conhecimento. Clifford Geertz, ao discutir
peramentos contrariem tão radícalmente tais padrões? os conceitos de cultura e homem, observa que "Segundo
Ao mesmo tempo, como é possível imaginar, a não ser a perspectiva atual, a evolução do Homo Sapiens _ o
em linguagem literária, "um homem fitar tristemente homem moderno - a partir de seu antecedente pré-
seu mundo e achá-Io essencialmente sem significado?" -sapiens imediato, tomou impulso definitivamente há
Isto só parece ser possível na medida em que se man- cerca de quatro milhões de anos com o aparecimento do
tenha uma forte ruptura entre indivíduo (no caso tem-
peramento) e cultura ou sociedade. Seriam duas forças 5 Lévi-Strauss, Claude Les Structures Elémentaires de la
Parenié, Mouton, 1967.
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I;. ~,.t:~,,:,
> ••••••• ~
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famoso Australopitecíneo - o chamado homem-macaco a anatomia da mão em transformação e a crescente
do Sul e do Leste africano - e culminou com a emer- representação do polegar no córtex é apenas um dos
gência do próprio sapiens há apenas cem a duzentos mil exemplos mais claros. Submetendo-se a programas sim-
anos. Assim, pelo menos, formas de atividade cultural ou, bolicamente mediatizados para produzir artefatos, orga-
se preferir, protocultural (fabricação de ferramentas sim- nizar a vida social ou expressar emoções, o homem
ples, caça etc.) parecem ter estado presentes entre al- determinou, mesmo sem querer, as fases mais elevadas
guns dos Australopitecíneos. Houve, portanto, um pe- de seu destino biológico. Literalmente, embora inadver-
ríodo de cerca de um milhão de anos entre o início da tidamente, criou-se. li

cultura e o aparecimento do homem, como hoje o co- Com este trecho fica ainda mais clara a necessidade
nhecemos. As datas precisas que podem ser alteradas de entender o comportamento humano de forma mais
em uma ou outra direção, de acordo com novas pes- integrada, na medida, em que, na sua própria origem,
quisas, não .são fundamentais. O que importa é que não é possível estabelecer compartimentos estanques em
houve um iritervalo e que este intervalo foi bastante de- termos de evolução biológica e evolução cultural.
morado. As fases finais (finais até agora, pelo menos)
da hístória filogênética do homem se passavam na IX.
mesma grande era geológica - a chamada Idade do
Gelo - que as fases iniciais de sua história cultural. Ho- Com um conceito de Cultura menos rígido, pode-se
mens fazem aniversário mas não o Homem. verificar que não é que o "inadaptado" veja o mundo
Isto significa que a cultura, em vez de ser adicionada "essencialmente sem 'significado", mas sim que veja nele
a um animal acabado ou virtualmente acabado, foi fun-
damental para a própria produção desse animal. O cres-
.
I:
um significado diferente do que é captado pelos indiví-
duos "ajustados". O indivíduo, então, não é, necessaría-
cimento, lento, contínuo, quase glacial da cultura atra- mente, em termos psicológicos, um "deslocado" e a cul-
vés da Idade do Gelo, alterou o equilíbrio das pressões tura não é tão "esmagadora" como possa parecer para
seletivas para o Homo emergente, de forma a desem- certos estudiosos. Assim a leitura diferente de um có-
penhar um papel diretivo básico na sua evolução. digo sociocultural não indica apenas a existência de
O aperfeiçoamento das ferramentas, a adoção da caça "desvios" mas, sobretudo, o caráter multifacetado, dinâ-
organizada e hábitos de coleta, os inícios de uma verda- mico e, muitas vezes, ambíguo da vida cultural. O pres-
deira organização familiar e, mais importante, embora suposto de um monolitismo de um meio sociocultural
seja muito difícil reconstituir em detalhes, a crescente leva, inevitavelmente, ao conceito de "inadaptado", de
dependência de sistemas de símbolos significantes (lin- "desviante" etc. A Cultura não é, em nenhum momento,
guagem, arte, mito, ritual) para a orientação, comuni- uma entidade acabada, mas sim uma linguagem penha-
cação e autocontrole, tudo isto criou um novo ambiente nentemente acionada e modificada por pessoas que não
para o homem, ao qual era, então, obrigado a adaptar-se. só desempenham "papéis" específicos mas que têm expe-
Na medida em que a cultura, passo infinitesimal a passo riências exístenciaís particulares. A estrutura social, por
infinitesimal, acumulou-se e desenvolveu-se, uma vanta- sua vez, não é homogênea em si mesma mas deve ser
gem seletiva foi dada àqueles indivíduos na população uma forma de representar a ação social de atores dife-
mais capazes de extrair vantagens disso - o caçador rentemente e desigualmente situados no processo social.
eficiente, o coletor persistente, o hábil artesão de ferra- Estrutura Social tout couri, pouco pode valer se não
mentas, o líder imaginoso - até que o que tinha sido for utilizada com a preocupação de perceber não só a
um Australopitecíneo preto-humano, de cérebro pequeno, continuidade da vida social mas a sua permanente e
tornou-se um Homo Sapiens de cérebro grande, plena- ininterrupta transtormação. Os conceitos de "ínadaptado"
mente humano. Criou-se um sistema de feedback positivo ou de "desviante" estão amarrados a uma vísão estática
entre o padrão cultural, o corpo e o cérebro, em que e pouco complexa da vida sociocultural. Por isso mesmo
a interação entre a crescente utilização da ferramenta,
I devem ser utilizados com cuidado.

1
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É fundamental perceber que sociedade, em termos mundos dominados por andróides, robôs etc. Certos
humanos, implica sempre a existência de uma linguagem livros de Ciências Sociais parecem antecipar esses ter-
de signos e símbolos mais elaborada. Esta linguagem rores ao falarem esquematicamente, por exemplo, de
não é "fechada" mas "aberta", daí a própria possibili- "classe média", sem problematizar sua composição e as
dade de evolução cultural da espécie. Posso aceitar a partiCUlaridades de subgrupos. Pode parecer que estou
sugestão de Clifford Geertz de que a "cultura" programe pregando contra qualquer tentativa de generalização em
os seus membros", se for entendido como programar Ciências Sociais, mas não é este o caso. Procuro chamar
algumas indicações básicas de comportamento e não um a atenção para um grande hiato existente entre estudos
determinismo do tipo que a biologia impõe à vida das "individuais", "psicologizantes" e grandes teorias sobre
abelhas ou das formigas, por exemplo. Assim, em qual- a natureza da sociedade, ou seja, o abismo entre a Psico-
quer sociedade ou cultura, existe uma permanente mar- logia, Psiquiatria etc. e as Ciências Sociais como um
gem de manobra ou áreas de significado "aberto", onde todo. Quero frisar que não assumo com Merton a defesa,
possam surgir comportamentos divergentes e contradi- pura e simples, de uma teoria de porte médio, mas
tórios. Isto não é necessariamente "funcional", pelo con- preocupo-me com uma abordagem que não encare "psi-
trário, é a permanente possibilidade de destruição de um cológico" e "social" ou "cultural", como entidades íntra-
"estilo de vida", de uma "ordem social", ou de um "equi- duzíveís e antagônicas.
líbrio cultural". Esta margem pode estreitar-se, ampliar-
se muito rapidamente ou permanecer estável por ge- x.
rações. As "áreas de significado aberto" podem ter sido
umas na década de 20 e serem outras contemporanea- Felizmente, no estudo do comportamento desviante
mente. O fato é que essas tensões, divergências ou con- (mantenho a denominação porque é de uso generalizado,
tradições são próprias da natureza da cultura e do ca- lembrando ser sempre necessário contextualízar) há au-
ráter altamente individualizado da espécie. A famosa tores que já caminharam um pouco mais, indo além da
limitada especialização biológica dos homens está indis- teoria da anomie. O grupo dos chamados interacionistas
soluvelmente associada ao fenômeno cultural e este, por tem importante contribuição nesta área. A noção básica é
definição, é sujeito a leituras ambíguas e divergentes. que não existem desviantes em si mesmos, mas sim uma
Não só camponeses comportam-se de forma diferente relação entre atores. (indivíduos, grupos) que acusam
de burgueses mas "há aristocratas e aristocratas". Ou outros atores de estarem consciente ou inconsciente.
seja, não só é preciso atentar para as diferentes visões mente quebrando, com seu comportamento, limites e
de mundo dos grandes grupos sociais mas é preciso valores de determinada situação socioculturaF. Trata-se;
tomar cuidado com a tendência de homogeneizar, arbi- portanto, de um confronto entre acusadores e acusados.
trariamente, comportamentos dentro desses grupos. Uma Diz Howard Becker em seu livro Outsiders: "Tal pre-
das grandes contribuições que a Antropologia Social pode missa parece ignorar o fato essencial sobre o comporta-
dar é a perspectiva de procura de generalizações sem mento desviante: é criado pela sociedade. Não quero
entrar em esquemas deterministas 0:1J. reducionistas. dizer isto no sentido normalmente compreendido, em
O Admirável Mundo Novo parece tanto um tratado de que as causas do desvio são localizadas na situação so-
Sociologia, justamente, porque a maioria dos cientistas cial do desviante ou em "fatores sociais" que condicío-
sociais lida com grupos, estratos ou classes como se eles nam seu comportamento. Quero dizer que os grupos
fossem tão uniformes como os .alfas, betas etc., de sociais criam o desvio ao estabelecer as regras cuja in.
Huxley, quimicamente programados. Alguns dos piores fração constitui desvio e ao aplicá-Ias a pessoas parti-
pesadelos de ficção científica são aqueles que descrevem
7 Ver, no caso brasileiro: Velho, Gilberto - "Estigma e Com-
6 Geertz, Clifford - The Interpretation 01 Cultures, Basic portamento Desviante em Copacabana", in América Latina, 1971,
Books, 1973. canitulo 4 deste volume (p. 116).
\.

\
DESVIO E DIVERGÊNCIA
EsTUDO DO COMPORTAMENTO DESVlANTE 2S
24

\ culares, marcando-as como outsiders. Sob tal ponto de conflito político, que não é dado na natureza da orga-
' vista, o desvio não é uma qualidade do ato que a pessoa nização. Se isto é verdade, então também é verdade que
as questões sobre que regras devem ser implementadas,
; faz, mas sim a conseqüência da aplicação por outrem de que comportamentos considerados como desviantes e
' regras e sanções ao "transgressor". "O desviante é aquele
a quem tal marca foi aplicada com sucesso, o compor- que pessoas marcadas como outsiders devem ser tam-
tamento desviante é o comportamento assim definido bém consideradas políticas. A visão funcional do desvio,
\ por pessoas concretas." (Becker, 1966, pp.8-9.) Em ignorando o aspecto político do fenômeno, limita nossa
\ outros termos, certos grupos sociais realizam determí- compreensão. "
,nada "leitura" do sistema sociocultural. Fazem parte dele Com esta perspectiva, supera-se a visão de uma es- \
le, em função de sua própria situação, posição, experiên- trutura social monolítica e acabada, tendo por base um I
,cias,interesses etc., estabelecem regras cuja infração cria consenso com ocasionais "inadaptados". Existem facções I
o comportamento desviante. Uma das principais contrí- dos mais diferentes tipos em qualquer sociedade humana, I
I :buições de Becker, assim como de Kai Erikson e de fazendo com que, mesmo em grupos tecnologicamente
; John Kítsuse", foi perceber que o comportamento des- menos sofisticados, se encontre o fenômeno da política.
viante não é uma questão de "inadaptação cultural", Há uma permanente possibilidade de confrontos a partir
mas um problema político, obviamente vinculado a uma de -divergências, pelo menos potenciais. É claro que é
problemática de identidade. Diz Erikson: "O comporta- preciso constatar concretamente que sociedades apresen-
mento humano pode variar amplamente, mas cada co- tam que tipos de conflitos. Na medida em que se aceite
munidade estabelece parênteses simbólicos em volta de a existência do Poder em qualquer grupo social, cons-
um certo segmento dessa amplitude e limita suas pró- tata-se uma tensão permanente entre os seus atores. Tal
prias atividades dentro dessa zona demarcada. Esses pa- tensão pode explícítar-se através de conflito entre linha-
rênteses são, de certa forma, as fronteiras da comuní- gens, luta de classes etc., no nível mais amplo do sistema
dade. ( ... ) Formas de comportamento desviante, mar- social. No entanto, manifesta-se também em situações
cando os limites externos da vida. do grupo, dão à estru- mais "microscópicas", como no caso da família, onde os
tura interna seu caráter especial e assim fornecem o conflitos não têm apenas um caráter "psicológico", mas
arcabouço dentro do qual as pessoas desenvolvem um apresentam uma integração do psíquico com o sociocul-
sentido ordenado de sua própria identidade." (P. 9.) tural. A família só existe através de um código, de uma I
Mas como perceber esta comunidade, grupo social linguagem de papéis, status etc., culturalmente elabora-
ou sociedade, sem cair, novamente, em um monolitismo? dos. Isto fica bem claro nas obras já mencionadas de \'
Becker comenta: "Mas, é mais difícil na prática do que Laing, Esterson, Cooper e outros, onde o problema da
na teoria especificar o que é funcional ou disfuncional doença mental é percebido como relacionado a uma crise \)
para uma sociedade ou grupo social. A questão sobre os de linguagem e a um confronto entre indivíduos que
objetivos ou finalidades (função) de um grupo e o que ocupam posições estruturalmente desiguais. 10 A per- /
vai ajudar ou prejudicar a realização desses objetivos é, cepção do sociocultural neste nível não implica um redu- .
geralmente, um problema político. As facções dentro do cionismo sociologizante, obrigatoriamente. Trata-se de
grupo discordam entre si e manobram para ver a sua perceber que a vida sociocultural não pode ser estudada
própria definição da função do grupo aceita. A função apenas a partir de fenômenos de "certo tamanho", mas
do grupo ou da organização, então, é decidida através do que ela está presente em todo e qualquer comportamento
humano. É neste nível que podemos falar em uma anã-
8 Becker, Howard _ Outsiders, Macmillan Co., The Free lise da política do quotidiano que, sem dúvida, tem de
Press, 1966; Erfkson, Kai T. - Wayward Puritans, John Wiley
& Sons, 1966; Kitsuse, John - Societal Reactions to Deviant Be-
haviour: Problems of Theory and Method, in Becker, Howard S. 10 Ver especialmente Laing, Ronald & Esterson, A. - op. cito
The Other Side, The Free Press, 1967. e Cooper, David - Peiquiatrio: e Antipsiquiatria e The Deaih. of

J
9 Erikson, Kai T. - op. cito the Family.
26 DESVIO E DIVERGÊNCIA EsTUDO DO COMPORTAMENTO DESVIANTE 27

desenvolver métodos próprios. O estudo do comporta- quebrar esta descontinuidade arbitrária entre o "psico-
mento desviante tem aí uma alternativa. lógico" e o "social". É evidente que a Psicologia Social
tem produzido alguns resultados relevantes. Mas cumpre
XI. enfatizar que o próprio nome da ciência revela sua limi-
tação. Tenho procurado mostrar que toda psicologia é
A Antropologia Social pode ter, nesta direção, uma social e que esta compartimentação é fonte das distor-
contribuição importante. Com a sua tradição de estudar ções apontadas.
sociedades de pequena escala, fazer estudos de caso, tra- O antropólogo no campo, ao lidar com pessoas, é
balhar com comunidades, grupos de vizinhança etc., tem mais capaz de perceber como são elaboradas estratégias
trabalhado num nível estratégico em que, mesmo par- de vida particulares. Mesmo ao procurar padrões e regu-
tindo de categorias sociológicas mais amplas, está per- laridades a sua experiência pode mostrar, se não estiver
manentemente em contato com indivíduos concretos, car- numa postura excessivamente rígida, que os indivíduos e
regados de densidade existencial, que não podem ser subgrupos fazem leituras particulares de sua cultura, em
transformados com facilidade em alfas e betas (embora função de suas características próprias. Há, portanto,
haja quem o consiga). São verdadeiros personagens que
marcam o trabalho do antropólogo. É só pensar em um
1 uma gama de variação que não impossibilita a procura
de padrões. O que acontece, muito freqüentemente, é
Don Juan, em um Pa Fenuatara, um Quesalid etc.» Esse que o investigador não quer ver tais variações como pos-
contato pessoal, direto, faz com que os padrões de obje- sibilidades dadas pela própria situação sociocultural em
tividade científica tradicionais tenham de ser encarados
com certa reserva. Por isso mesmo, o trabalho do antro-
I que estão ínteragíndo as pessoas. Neste caso, rotulará
os casos mais visíveis de "desvio", "inadaptação" etc. Ao
pólogo tende a assumír cada vez mais a dimensão da fazê-Ia, poderá estar tomando como verdade científica as
íntersubjetívídade , Não se trataria,então, de procurar representações de alguns indivíduos ou de uma facção
abstrair os aspectos individuais, idiossincrasias pessoais dentro da sociedade estudada. Ou seja, estará traba-
etc., mas sim procurar encará-los como parte da situa- lhando com um modelo estático e parcial que pouco o
ção de pesquísa>. Em vez de apagar esta dimensão ajudará. Em vez de apreender possíveis conflitos e pro-
"psicológica", tarefa realmente impossível, resta apren- blemas estruturais estará simplificando a realidade, assu-
der a explicitá-la e integrá-Ia com toda a investigação. mindo a ideologia de um grupo de indivíduos, geralmente
Assim, mais uma vez, a procura de padrões sociais e o que tem mais poder.
culturais não implicaria um "pôr entre parênteses" a
dimensão individual. Isto significa, de um lado, o antro- XII.
pólogo aprender a lidar- com a sua subjetividade e, de
outro, a considerar mais relevantes para o seu trabalho O "desviante", dentro da minha perspectiva, é um
características "estritamente individuais" das pessoas com indivíduo que não está fora de sua cultura mas que faz
quem está convivendo. Nem todos os feiticeiros Azande uma "leitura". divergente. Ele poderá estar sozinho (um \
são iguais, assim como as mulheres Tchambuli ou os desviante secreto?) ou fazer parte de uma minoria orga-'
anciãos Gouro. É interessante lembrar que dois dos con- nizada , Ele não será sempre desviante. Existem áreas de \
ceitos que mais vêm sendo utilizados pelos antropólogos comportamento em que agirá como qualquer cidadão
são os de carisma e drama socuü», que são dos poucos a "normal". Mas em outras áreas divergirá, com seu com- /
I

11.Ver trabalhos de Carlos Castafieda, Raymond Firth e Claude Turner; ver, por exemplo, The Drums of A ftliction, Oxford Uni-
Lévi-Strauss. versity Press, 1968. Ver a tese de Mestrado Guerra de Orixás,
12 Ver Anthropological Blues, inédito de Roberto Augusto da um Estudo de Ritual e Conflito, apresentada ao Programa de Pós-
Matta. Graduação em Antropologia Social da UFRJ de Yvonne Maggie
13 O conceito de Carisma foi sistematicamente formulado por Alves Velho e os trabalhos sobre Catolicismo Popular e Messia-
Max Weber. Drama Social foi bastante desenvolvido por Victor nismo, ainda inéditos, de Alba Zaluar Guimarães.

I
--
f,"'·

28 DESVIO E DIVERGÊNCIA
f,

portamento, dos valores dominantes. Estes podem ser


\" vistos como aceitos pela maioria das pessoas ou como
\ implementados e mantidos por grupos particulares que
I têm condições de tornar dominantes seus pontos de vista.
/ O fato é que não é o ocasional gap entre a estrutura
social e a cultural mas sim o próprio caráter desigual
contraditório e político de todo o sistema sociocultural
que permite entender esses comportamentos. Assim, pode-
se perceber não só o sociocultural em geral mas, parti-
~ cularmente, o político nas mais "microscópicas" instân- 2

l cias do sistema sociocultural. É neste nível microssocial


que talvez possa estabelecer-se um ponto de encontro
entre as tradições "psicológicas" e "socíoculturaís", Nada
era mais "individual" do que a doença mental. No en-
"Cria Fàma e Deita-te na Cama":
Um Estudo de Estigmatização numa
tanto, toda uma outra perspectiva se abre quando Cooper Instituição Totall
diz: "Esquizofrenia é uma situação de crise microssocial,
na qual os atos e experiências de determinadas pessoas
são invalidados por outras, em virtude de certas razões MARIA JULIA GOLDWASSER
inteligíveis, culturais e microculturais (geralmente fami-
liares), a tal ponto que essa pessoa é eleita e identificada I. INTRODUÇAO
como sendo 'mentalmente doente' de certa maneira, e, a
ESTE ESTUDO VISAA FOCALIZAR, em sua configuração pe-
seguir, é confirmada (por processos específicos, mas alta-
mente arbitrários de rotulação) na identidade de 'pa-
ciente esquizofrênico' pelos agentes médicos ou quase-
médicos> . "
I culiar, um sistema de relações sociais pautado numa mo-
dalidade de categorização estigmatizante. Partindo de

Insisto em não querer entrar em polêmicas psiquiá- f 1 Os conceitos de "estigma" e "instituição total" são utilizados
tricas mas, sem dúvida, para o antropólogo, o trecho
acima atende a esta necessidade de acabar com a ruptura i
I
aqui como foram desenvolvidos por Goffman, op. cit., respectiva-
mente in "Stígma" e "Asylums".
Estigma é definido como:
indivíduo/social ou cultural. Trata-se de reconhecer nos
atos, aparentemente "sem significado", "doentes", "mar- ••... un atributo que 10 vuelve (el extra fio) diferente de
ginais", "ínadaptados" etc., a marca do sociocultural. Ios demás ... y 10 convierte en alguíen menos apeteci-
O estudo do "comportamento desviante" poderá ser um ble, en casos extremos, en una persona casi enteramente
campo fértil para a Antropologia Social, na medida em malvada, peligrosa o debil. De ese modo dejamos de
que for capaz de perceber através dele aspectos insus- verIo como una persona total y corriente para reducirlo
peitados da lógica do sistema sociocultural. Com isso, a un ser inficionado y menospreciado. Un atributo de
esa naturaleza es un estigma en especial cuando él pro-
estar-se-á restabelecendo um aspecto crucial do compor- duce en 10s demás... un descrédito amplio... " (Goff-
tamento humano - a integração de suas diferentes di-
mensões. I
i
man, 1970, p. 12.)
E Instituição Total:
"A total institution may be defined as a place of re-
! sidence and work where a large number of like si-
tuated índívíduals, cut off from the society for an
I
, appreciable period of time,together lead an enclosed
formally administered round of life." (Goffman, 1961,
14 Cooper, David - Psiquiatria e Antipsiquiatria, p. 17. p. XIII.)

1
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