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16/08/2019

Discurso do capitalista – Sociedade espetacular, disciplinar, de consumo e de gozo escópico - Correio APPOA

Temática

Discurso do capitalista – Sociedade espetacular, disciplinar, de consumo e de gozo escópico

Maio de 1968 - 50 anos depois – o que (não)aprendemos

É realmente apenas num só depois que podemos avaliar o que aprendemos e o que não aprendemos com os

eventos marcantes do maio de 68. Não apenas na França, cujos acontecimentos são mais lembrados, inclusive apontados muitas vezes como tendo influenciado o resto do mundo.

A historiadora Angélica Müller, por exemplo, da Universidade Federal Fluminense em Niterói, em recente

entrevista argumentou que

“Existe uma visão muito francesa de que Maio de 68 influenciou o restante do mundo, quando na verdade, e o próprio caso brasileiro demonstra, o nosso maio não acontece em maio, mas em março. A ditadura vinha desde 1964 colocando o movimento estudantil organizado na ilegalidade, os estudantes vinham demonstrando uma resistência ao governo militar, isso já desde 1967, mas é em março de 1968, com a morte do estudante secundarista, Edson Luís, pela polícia, no restaurante Calabouço, no Rio, que vão começar as grandes manifestações do 68 brasileiro”.

O ano de 1968 é de triste lembrança no Brasil, pois em dezembro foi emitido o Ato Institucional nº 5 (dez/1968-

dez/1978), onde a ditadura civil-midiática-militar (1964-1985) endureceu de vez. Foi a expressão mais acabada da ditadura, na qual se instituiu oficialmente a violência de Estado, autorizando crimes de lesa humanidade, até hoje impunes, sem julgamento, como assassinatos, desaparecimentos e tortura, além das cassações, exonerações, perseguições e da censura prévia e da vigilância/controle social. O elenco de ações arbitrárias produzidas tem tido efeitos duradouros na sociedade brasileira, que podem ser observados nos dias de hoje sendo reeditados.

Apesar das especificidades que caracterizaram as manifestações de massa em cada país no ano de 1968, em protesto contra a ordem estabelecida das coisas, podemos nos perguntar o que fazia a costura desses eventos ao redor do mundo. A pós-modernidade se caracteriza pelo declínio das grandes narrativas que organizavam as sociedades tradicionais, narrativas que foram questionadas pelos movimentos estudantis e operários, mas novamente, o que vem corroendo essas narrativas?

Propomos analisar o pano de fundo do período, (décadas de 60 e 70) partindo de quatro abordagens que se interligam, às vezes se sobrepondo, e que consideramos atuais: a sociedade do espetáculo (de Guy Debord), a sociedade disciplinar e de controle (Foucault), a sociedade do gozo escópico (Lacan, Quinet) e o discurso do capitalista (Lacan).

A sociedade do espetáculo

Antes de 68, em novembro de 1967, Guy Debord lançou A Sociedade do Espetáculo, eos eventos de 68 tornaram

o livro conhecido.Suas 221 teses vêm se confirmado progressivamente desde então. No prefácio da edição

francesa de 1992, o autor coloca que sua teoria crítica não se alterou, pois, as condições gerais do longo período histórico que ela foi a primeira a definir com precisão, ainda persistem. “Os acontecimentos que se seguiram a esse período só vieram corroborar e ilustrar a teoria do espetáculo”. Entretanto, observa, em 1979, que o uso da força do espetáculo começava a permitir transformações da própria natureza da produção industrial, bem como

das técnicas de governo, sendo que “a prática unificada do espetáculo integrado transformou economicamente o mundo, ao mesmo tempo que transformou policialmente a percepção” (DEBORD, 1997, p. 9-10).

A razão de seu acerto é ter enxergado que o espetáculo é simultaneamente o projeto do modo de produção

capitalista, bem como seu resultado. Duas citações de suas teses são suficientes para perceber o alcance de sua

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teoria do espetáculo:

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“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos.” (DEBORD, 1997, p.13).

“A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social acarretou, no modo de definir toda realização

humana, uma evidente degradação do ser para o ter. A fase atual, em que a vida social está totalmente tomada

pelos resultados acumulados da economia, leva a um deslizamento generalizado do ter para o parecer. ( Quando o mundo real se transforma em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e

motivações eficientes de um comportamento hipnótico. O espetáculo, como tendência a fazer ver, ( da visão como o sentido privilegiado da pessoa humana.” (DEBORD, 1997, p.18).

)

) serve-se

Cada vez mais a vida cotidiana, por mais banal que seja, torna-se objeto de espetáculo. A existência passa cada vez mais pela aparência dada a ver. O indivíduo, para existir, para ser reconhecido como tal no meio da massa, precisa aparecer, ser visto e destacado da multidão. O deslocamento vai do ser para o ter e do ter para o parecer

e aparecer. O ‘somos o que temos’ se deslocou para o ‘somos o que parecemos ter’.

Para Debord, “o espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo.” (DEBORD, 1997, p. 17). A vida privada é virada do avesso e transformada em espetáculo para consumo das massas. Em outras palavras, o show não pode parar. Para o indivíduo ser alguém, tem que dar show, de preferência expondo detalhes de sua vida íntima como mercadoria a ser consumida pelo olhar alheio. A sociedade do espetáculo é cada vez mais um fantástico show da vida, onde as celebridades dão um lustro no ego de quem se espelha nas mesmas, ao mesmo

tempo que as julga. O gozo suposto à celebridade é esse lugar narcísico de ser visto e celebrizado pelas massas,

o que faz com que tantos tentem de tudo para se tornarem uma. Reinventa-se assim o dito popular “quem não é visto, não é lembrado”.

Quem consegue se destacar da multidão e obtém seus dois minutos de fama – como previu Andy Warhol – poderá virar celebridade! Depois que se tornam famosas, as celebridades costumam queixar-se da falta de privacidade. Entretanto, para não caírem no esquecimento e continuarem a ser celebradas, precisam fazer o que for preciso para não deixar de sair nas redes sociais e das capas das revistas que mostram quem é quem. Namorar ou deixar de namorar é notícia quando se tratar de uma celebridade. Hoje, com as redes sociais e as selfies, todos podem mostrar-se e promover o espetáculo de sua vida cotidiana em suas redes.

O espetáculo é o projeto e resultado do modo de produção contemporâneo, e a economia de mercado mercantiliza infinitamente o gozo escópico.

Entretanto, se o argumento de Debord, de que o projeto do modo de produção capitalista e seu resultado sejam uma sociedade do espetáculo mostrou-se correto, isso não explica por que o projeto e resultado tenham sido estes.

A Sociedade Disciplinar

Michel Foucault publicou seu livro Vigiar e Punir em 1975 (e publicado no Brasil apenas em 1987). Nessa obra, partindo dos séculos XVII e XVIII, Foucault examina os mecanismos sociais e teóricos que motivaram as grandes mudanças que se produziram nos sistemas penais ocidentais durante a era moderna e suas técnicas de vigilância

e punição. Essas técnicas se encontram presentes hoje em várias instituições na sociedade, como escolas,

hospitais, fábricas, empresas, prisões, manicômios, etc. O ponto desenvolvido pelo autor que nos interessa neste artigo é o do panóptico.

Em 1785, Jeremy Bentham, filósofo e jurista inglês, projetou o que considerava ser a arquitetura da penitenciária ideal, pois permitia que um único vigilante pudesse observar individualmente cada prisioneiro, sem que os prisioneiros pudessem saber se estavam ou não sendo observados, ao mesmo tempo sendo impedidos de se verem uns aos outros. Com isso, o medo e o receio de não saber se está sendo observado levaria cada um a adotar o comportamento desejado pelo vigilante.

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disciplinar, de consumo e de gozo escópico - Correio APPOA 276 maio/2018 Menu Como mencionado acima,

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Como mencionado acima, Foucault considera que o modelo do panóptico é exemplar em seus elementos básicos

a uma moderna instituição disciplinar de vigilância e punição com suas formas refinadas de disciplina que se

dirigem aos mínimos detalhes do corpo e comportamento de cada pessoa. Ou seja, o poder disciplinar da vigilância, hierarquizada por um lado (controle total da localização dos corpos portadores de celular e dos dados

de todos os cidadão pelas operadoras da internet – vide por exemplo o escândalo do vazamento recente dos dados pessoais de milhões de pessoas pelo facebook) e horizontalizada pelas redes sociais, tornou-se

progressivamente um sistema integrado, ligado aos fins da economia e estendido às mais diversas instituições da sociedade. Nesse sentido, afirma que: “A vigilância torna-se um operador econômico decisivo, na medida em que

é ao mesmo tempo uma peça interna no aparelho de produção e uma engrenagem específica do poder de

disciplinar.” (FOUCAULT, 1987, p. 169). Com a horizontalização da disciplina e do controle via redes sociais, facilitada pela tecnologia, todos controlam e vigiam a todos pelos seus aparelhos celulares, dando lugar a uma sociedade do controle.

celulares, dando lugar a uma sociedade do controle. A sociedade do gozo escópico É o modo

A sociedade do gozo escópico

É o modo de produção capitalista, disciplinar/espetacular, que colocou em evidência a pulsão escópica, ou a

pulsão escópica tem algo que as outras não tem e que encontra nesse modo de produção um terreno que o

potencializa?

Não há dúvida que o desenvolvimento da ciência e tecnologia permitiu o surgimento e comercialização global de todos os tipos de aparelhos captadores e reprodutores de imagens. Nunca antes na história se produziram tantas imagens para dar-a-ver: cinema, televisão, vídeo, câmeras digitais, outdoors, telefones celulares que filmam e fotografam, etc.: os meios de multiplicação das imagens parecem não ter fim.

A proliferação das imagens na mídia chega até nós sob a forma de ideais imperativos que devem ser seguidos

como modelos de identificação. É preciso andar na moda, conforme os modelos prescritos pelo marketing, sob pena de ficar de fora, excluído do mainstream, pondo em cheque a pertença social. É preciso dar-se a ver e ser visto com o último lançamento, seja lá do que for. É o império do novo, paraíso da sociedade do consumo, que torna tudo que veio antes ultrapassado, obsoleto. É óbvio que para estimular o consumo, o marketing vende a

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ideia, criando a convicção, de que o que é novo é sempre melhor e, portanto, é preciso descartar o velho como

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obsoleto. O problema maior é que essa convicção contamina a percepção que temos da história, tanto subjetiva quanto social, como se a experiência humana fosse sinônima de tecnologia, design ou moda, descartáveis diante do novo.

Ou seja, em todas as áreas, a sociedade do espetáculo estende seu domínio, procurando sempre antecipar o futuro lançamento que dará certo e por isso aumentará o consumo e o valor da mercadoria em questão. Nesse sentido, o que é dado-a-ver no mercado cerra fileiras com o espírito da época e transforma sua produção em mercadoria oferecida ao consumo do olhar.

O Cogito dos Imperativos do Gozo Escópico e o Discurso da Ciência

“O que é a pintura?”, pergunta-se Lacan no Seminário 11. Podemos reformular a pergunta para ‘o que é o espetáculo?’ Uma primeira resposta é a mesma: “Queres olhar? Pois bem, veja então isso! Ele (o pintor) oferece algo como pastagem para o olho, mas convida aquele a quem o quadro é apresentado a depor ali seu olhar, como se depõem as armas. Aí está o efeito pacificador, apolíneo, da pintura. Algo é dado não tanto ao olhar quanto ao olho, algo que comporta abandono, deposição do olhar.” (LACAN, [1964] 1979, p. 99).

Entretanto, se na obra de arte autêntica, “é como sujeito, como olhar, que o artista pretende, a nós, se impor” (LACAN, 1979, p. 98), no espetáculo do consumo cotidiano, a mercadoria (inclusive a obra de arte autêntica mercantilizada) visa absorver à visão e nos poupar – ou até mesmo impedir – o estranhamento subjetivo causado pelo olhar do desejo. Como veremos, ver fascina e acalma, enquanto o olhar causa estranhamento e interroga a respeito do que causa o desejar.

Ciência e tecnologia estão intimamente associadas. Uma se articula com a outra, muito embora não sejam estritamente a mesma coisa. Quando Descartes formulou seu cogito, modificou o lugar que a razão ocupava na história e a razão de Deus deu lugar à deusa Razão (ROUANET, 1996). Quando o inexplicável deixou de ser explicado como desígnio divino, o homem pode aplicar a razão aos fenômenos físico-naturais em busca de uma explicação racional. E para isto construiu os mais diversos instrumentos, que por sua vez possibilitaram novas descobertas.

Se o discurso da ciência moderna tem em Descartes seu fundamento, a progressiva erosão de tradições seculares também decorre de seus desdobramentos. Na medida em que a razão toma o lugar atribuído anteriormente a Deus, o fundamento das tradições calcada na onividência divina sobre o comportamento humano vem sendo substituída pelo discurso da ciência e pelo discurso do capitalista.

O imperativo superegóico do Outro – Goza! – tomou duas formas na sociedade do espetáculo: de um lado o comando escópico: Mostre!, Dê-a-ver! Exiba!, Dispa!, e, por outro, sua contraparte: Veja! Em ambas as formas imperativas, o sujeito do desejo do olhar é excluído. Parafraseando Marx, a palavra de ordem na sociedade escópica passa a ser: Exibicionistas e voyeours, uni-vos em torno da imagem gozosa do Outro do Olhar!

Esse imperativo de gozo contemporâneo tem seu precedente na religião judaico-cristã, no sentido de que Deus é o Outro da Onividência, isto é, Deus vê todas as coisas. Isso faz com que o “cogito da religião” possa ser enunciado como “O Outro (Deus) me olha, logo existo” (Quinet, 2002, p.122).

Com o cogito cartesiano (penso, logo sou), inaugura-se um novo cogito da visão, que relaciona o olho da razão ao discurso da ciência. Isso poderia ser enunciado da seguinte maneira: eu penso, logo vejo, lembrando a reformulação do cogito que faz Lacan :“penso onde não sou, logo sou onde não penso” (LACAN, [1966] 1998, p. 521), parafraseando: penso onde não vejo, logo vejo onde não penso. Na formulação de Wim Wenders, por eu vejo, logo sou (Quinet, 2002, p.128). Cabe acrescentar que na sociedade do espetáculo a fórmula voyeur de Wim Wenders se desdobra solidariamente na exibicionista sou visto, logo sou.

Entretanto, ver não é olhar, conforme destaca Lacan ao falar da esquize entre o olho e o olhar (Lacan, 1979). Vemos com os olhos do eu, ou seja, a visão é tributária do que o eu quer ver e o eu vê as imagens pelo crivo do sentido que adquirem para si. O eu seleciona e vê apenas as imagens e formas imaginárias nas quais se reconhece, sejam sonoras, tácteis ou, sobretudo, visuais. (Nasio, 1995). Ou seja, o eu só vê o que o espelho

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reflete. O olhar é de outro registro. Onde o ver encanta e fascina narcisicamente, o olhar interroga e causa o

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desejo.

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No registro imaginário do ver, temos a reiteração da alienação do eu ao infinito nas variantes de suas imagens narcísicas que o espelho do outro reflete. Aqui temos o fundamento subjetivo da assertiva de Debord (1997, p.17) de que “O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo.” Eis o fundamento da sociedade do narcisismo e seus indivíduos: o ego precisa de espelhos que reflitam e confirmem o tempo todo sua identidade imaginária, por falta de substrato simbólico que lhe de sustentação subjetiva diante da alteridade. A consequência disso, observada na clínica, foi denominada de personalidade narcísica, que não tolera o diferente.

Cabe observar que na formulação imaginária do ver, promovida pelo cogito, o olhar como objeto da pulsão e causa do desejo é excluído. A principal consequência da exclusão do olhar na simbolização cartesiana é fazer com que o seu retorno na civilização se dê no registro do real sob a forma de um imperativo do supereu: goza do espetáculo!

Na literatura – note-se, em 1949 – George Orwell antecipou em sua novela 1984 uma sociedade em que o supereu escópico, na figura do Grande Irmão, que a tudo e a todos vigiava através de teletelas (telescreen), reiterava constantemente pela propaganda do Estado: "o Grande Irmão zela por ti" ou "o Grande Irmão está te observando" (do original Big Brother is watching you). Com o objetivo de conformar e confinar a todos no modo de produção vigente, a contraditória Novafala era imposta pelo Partido para renomear as coisas, as instituições e o próprio mundo, manipulando ao infinito a realidade, de modo a confirmar suas identidades apenas como seres produtivos, pois o amor e o desejo eram duramente reprimidos, e castigados com a morte se descobertos. (ORWELL, [1949], 2009). As características da sociedade futura descritas em 1949 mostram-se assustadoramente, demasiadamente atuais.

O real drama humano torna-se espetáculo imaginário e o espetáculo imaginário é proposto como realidade. Veja-

se o espetáculo digital das intervenções militares cirúrgicas em tempo real a que podemos assistir na televisão, sentados tranquilamente em nossas poltronas como se a destruição real fosse apenas um videogame. No imperativo do Goza!, a destruição real é imaginarizada no espetáculo semiótico dos telejornais, que banalizam os depoimentos dramáticos das vítimas da guerra, como se o real da destruição e sofrimento humano fossem uma telenovela da dramaturgia televisiva.

Retomando. O olhar, excluído da simbolização pelo olho da razão cartesiana, retorna sobre a civilização, trazendo o gozo do espetáculo: o imperativo do supereu reina sob a forma de um empuxo-a-gozar escópico. Isto é, de um duplo comando de dar-a-ver: de mostrar-se inocente e de tornar-se visível (Quinet, 2002, p.280).

Ou seja, diante do olhar onividente do Outro, somos todos culpados de desejos inconfessáveis – porque interrogam o imaginário estabelecido e vigiado pelo Outro do olhar – que se expressam no laço social sob a forma de uma paranoia de massa, fomentada pela tecnologia de vigilância e espionagem global.

Se não é mais Deus quem olha por nós e vigia nossos atos e pensamentos, é certamente a figura do Grande Irmão, antecipado na literatura por George Orwell, e mesmos séculos antes na arquitetura do Panóptico proposta por Jeremy Bentham no século XVIII, mencionado acima. O texto atual de um anúncio divulgado por e-mail é ilustrativo de como o progresso da ciência e tecnologia vem realizando o ideal da sociedade disciplinar, descrita for Foucault (1977), ao divulgar que “Agora (com nossa tecnologia de mini câmera), você pode saber tudo o que acontece no seu escritório ou na sua casa quando você não está.” Ou seja, é colocado ao alcance de todos a realização do ideal de serem pequenos Grandes Irmãos, vigiando aos filhos, cônjuges, sócios, vizinhos ou estranhos em lugar de estabelecer vínculos com os mesmos. A pulsão escópica se satisfaz nesse imaginário paranoico, gravando imagens de uma violência silenciosa e trágica que permanecem sem se apagar.

A expansão atual que se observa do fenômeno religioso e sua perspectiva beligerante de intolerância diante das

diferenças aponta as consequências do desenvolvimento da sociedade escópica em que o olhar superegóico do Outro procura enquadrar (disciplinar) a todos e punir aos desviantes com sua exclusão e eliminação. A disputa social se dá em torno de quem encarnará o lugar de poder dominante do Outro do olhar sobre os demais. Decorre disso a paranóia de massa a que assistimos diariamente nos noticiários, assim como a vivenciamos nas relações interpessoais cotidianas.

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Wim Wenders, em seu depoimento no documentário Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho, fala da

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importância de poder escolher quais imagens deixar entrar em sua retina e psiquê, pois uma vez vistas, ficam rodando na alma. Algumas são imperdíveis. Entretanto, há imagens que valem a pena não serem vistas, pois são imagens do espetáculo que trazem sempre em seu bojo o gozo do olhar que acorda o espectador com um horror excitante. Wenders aprendeu com sua esposa que prefere não ver essas imagens, pois constatou que são indeléveis como aquelas ligadas ao trauma da violência sofrida e inscritas na pulsão de morte. Por outro lado, ele enfatiza nessa entrevista que sua experiência de sempre ter usado óculos em função de sua miopia, passou ao longo da vida a dar cada vez mais importância ao que fica de fora do quadro. A ideia que ele transmite, que retomaremos adiante, é a importância do que falta nas imagens que vemos, falta que deixa entrever o estranho desejante do olhar para além da imagem.

O que vemos e o que nos olha

É neste ponto da esquize entre o que vemos e o que nos olha que podemos começar a responder à questão

estrutural do que faz com que a pulsão escópica tenha tomado a frente do palco na sociedade contemporânea do espetáculo, da disciplina e do mercado.

Didi-Huberman (1998) situa a questão diretamente no título de seu livro: o que vemos e o que nos olha. Vemos o que nos fascina, seja na dimensão da beleza ou do horror, mas que de alguma forma confirma um traço ligado à identidade do eu de cada um. Ou seja, a imagem dada-a-ver fascina, e o significante que vem do olhar do Outro interroga a imagem vista, interroga a completude de gozo que ela veicula, introduzindo tanto a falta constitutiva do sujeito desejante como a falta radical da morte.

A tese de Lacan é de que no quadro pintado pelo artista, na imagem dada-a-ver por ele, sempre se manifesta

algo do olhar. Bem sabe disso o pintor, cuja moral, cuja pesquisa, cuja busca, cujo exercício, é verdadeiramente, quer ele se prenda a isto, quer ele varie, a seleção de um certo modo de olhar.” (Lacan, 1979. p. 99). Ou seja, o artista procura capturar o olho do espectador, sua visão, para introduzir de algum modo, não um ponto de vista – que responderia de imaginário para imaginário ao eu que se encanta com uma imagem que lhe reflete de alguma maneira, mas um ponto outro do olhar, isto é, o ponto em que o olhar do Outro, inscrito no quadro, interroga a visão que fascina, introduzindo a polissemia do significante oculto na obra.

Na lógica do espetáculo, a intenção marqueteira reiteradamente buscada é distinta daquela inscrita na obra de arte autêntica. A beleza do design dos produtos, sempre renovada e modificada em algum detalhe – sempre ‘essencial’ – visa fazer com que o tempo da fascinação do eu com a imagem de si refletida pela mercadoria seja, custe o que custar, o mais rapidamente possível substituída por outra mercadoria, sem dar tempo para que o sujeito do desejo contido no olhar que retorna nas entrelinhas da imagem possa interrogar ao eu hipnotizado pelo objeto de consumo.

A sociedade do espetáculo se especializa no jogo de trompe-l’oeil, perversamente transposto para um me engana

que eu gosto. No trompe-l’oeil, a dialética se dá entre o olho (visão) e o olhar. Segundo Lacan, em nossa referência ao inconsciente, é da relação ao órgão que se trata.”. O órgão em questão no trompe-l’oeil não é relativo à sexualidade, nem ao sexo. Segundo ele, o órgão em questão é o falo: É na medida em que, no coração da experiência do inconsciente, lidamos com esse órgão – determinado no sujeito pela insuficiência organizada no complexo de castração – que podemos perceber em que medida o olho é tomado por semelhante dialética.” (Lacan, 1979, p. 100).

O que engana ao olho é a imagem refletida do falo. Vemos na imagem narcísica o falo imaginário que imaginamos

ser para o Outro. Vemos a imagem que confirma que somos ou que possuímos o falo desejado pelo Outro. O marketing propõe uma sucessão de imagens de mercadorias que revestem narcisicamente ao sujeito na medida em que seu consumo cria a ilusão de ser amado pelo Grande Irmão midiático.

O design das mercadorias tomou o lugar do belo antes ocupado pela obra de arte. Segundo Lacan (1988), a

função do belo é ocultar a morte através de um efeito resplandecente que fascina ao espectador. A obra de arte, quando bela, vela o vazio do real da morte, mas causa também uma inquietação, uma interrogação que leva o espectador a questionar-se sobre o que na obra vista causa seu desejar. O estranhamento do espectador é o

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efeito de se defrontar com um olhar, mais ou menos enigmático, inscrito na obra pelo desejar do artista, que

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interroga a alienação narcísica do sujeito na beleza da imagem.

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No design da mercadoria, por outro lado, esse tempo de compreender a inquietante estranheza causada pelo olhar desejante do Outro é eclipsada pela enxurrada de novos produtos, apresentados como tecnologicamente superiores, relegando os anteriores à categoria de ultrapassados e, portanto, descartáveis, pois se tornaram incompatíveis com os últimos progressos tecnológicos ou excluídos pelos novos ditames da moda.

Os padrões de consumo passam a determinar em grande medida quem é quem, quem está incluído ou excluído segundo as representações sociais que veiculam, levando em última análise aos padrões de quem é visto e tratado como cidadão e de quem se vê excluído como não-cidadão, sem acesso aos direitos, bens e serviços públicos ou de consumo.

Em outras palavras, vemos nas imagens da mídia os ditames do que devemos ser, ter, ou parecer, para nos tornarmos desejáveis diante desse Grande Irmão midiático, que nos contempla como incluídos ou excluídos segundo nos damos a ver disciplinadamente conforme as normas sociais determinam como é preciso dar-se-a-ver para ser visto.

O Discurso do Capitalista

Em seu seminário sobre o Avesso da Psicanálise, Lacan formula os quatro discursos que estruturam as relações entre o sujeito, os significantes e os objetos, organizando o laço social conforme a posição de cada elemento nos mesmos (discurso do mestre, discurso universitário, discurso da histérica e discurso do analista). Não iremos nos deter aqui nos mesmos. Ressaltamos apenas que são os discursos que fazem laço social e determinam a posição do sujeito ($) no mesmo. Em outras palavras, determinam as relações de poder no laço social entre os sujeitos. (LACAN, [1967-70], 1992).

Poucos anos depois desse seminário, quatro anos após o maio de 68, numa Conferência em Milão, em 1972, Lacan falou pela primeira e única vez no discurso do capitalista, dizendo que é o substituto do discurso do mestre, não sem antes lembrar que “é demonstrado historicamente: não há discurso do mestre mais duro do que onde se faz a revolução”.

Lacan enfatiza que há Um (S1), que intervém no campo dos significantes e faz funcionar. O que o mestre deseja, ao incorporar o saber do escravo, é que a coisa funcione. “Há Um. O significante foi o que introduziu no mundo o Um. E basta que haja Um para que comece. Isso impõe (commande) o S2. Quer dizer que o significante que vem depois que o Um funcione, obedece. Se o escravo não soubesse algo, não haveria preocupação em obrigá-lo (le

) Aliás, tudo

commander)”, acrescenta Lacan, “e pelo fato de que há linguagem, o discurso do mestre funciona. ( que é preciso ao mestre é que funcione”. (LACAN, 1972).

Na sequência diz que:

dele, está aberta. O discurso do capitalista

agora

é tarde demais

a crise não do discurso do mestre, mas do discurso do capitalista, que é o substituto

é loucamente astucioso, mas destinado a explodir”.

“Afinal, foi o que se fez de mais astucioso como discurso. Esse último não é menos destinado à explosão. É porque é insustentável, num truque que poderia lhes explicar, porque o discurso do capitalista está bem ali

(indica o discurso no quadro negro), uma pequenina inversão simplesmente entre S1 e $

basta para que isso ande como sobre rodinhas, não poderia andar melhor, mas, justamente, anda rápido

demais, se consome (consomme) se consome tão bem que se consuma (consume)”.

que é o sujeito,

“Agora vocês estão embarcados, estão embarcados, mas há poucas chances de que algo aconteça de sério na corrente do discurso analítico, salvo assim, ao acaso”.(LACAN, 1972)

Lacan se mostra bem pessimista quanto às possibilidades de que o discurso do analista possa nos desembarcar do laço social determinado pelo discurso do capitalista.

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Na transcrição acima, Lacan fala numa pequenina inversão entre S1 e $”. As controvérsias sobre o discurso do

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capitalista surgem em relação ao que ele havia anotado no quadro negro como sendo o discurso do capitalista com relação aos vetores tomados por Lacan da topologia do tetraedro, determinando como cada lugar se relaciona com os demais na escrita dos quatro discursos, como se vê abaixo:

demais na escrita dos quatro discursos, como se vê abaixo: Pesquisando na internet e nos textos,

Pesquisando na internet e nos textos, partindo do discurso do mestre, encontramos diferentes notações do matema do discurso do capitalista, inclusive em sua denominação:discurso capitalista, do capitalista ou do capitalismo (ver abaixo). Na notação mais recorrente do discurso do capitalista, além da inversão entre S1 e $, há uma inversão no vetor, passando a ir do agente à verdade e não mais da verdade ao agente, mas sem inverter os lugares de agente e verdade. Elimina-se também o vetor que vai do agente ao outro. É a notação proposta por Marc Darmon, que mostra os passos na alteração dos vetores para chegar a essa notação. (DARMON, 1994). Há também notações com a mesma inversão referida, mas sem que o vetor que vai do agente ao lugar do outro seja eliminado.

Encontra-se ainda uma terceira notação, que é a que considero a mais interessante, pois mantém as operações entre os lugares tais quais no discurso do mestre, porém invertendo apenas as posições de S1 e $, ficando $ no lugar de agente e S1 no lugar da verdade, ressaltando-se o de ligação vetorial entre o lugar da produção e o da verdade impedimento ( simbolizado por ∆, frequentemente também por duas barras paralelas //) .

As três notações do discurso do capitalista podem ser vistas abaixo:

do discurso do capitalista podem ser vistas abaixo : www.appoa.com.br/correio/edicao/276/discurso_do_capitalista
do discurso do capitalista podem ser vistas abaixo : www.appoa.com.br/correio/edicao/276/discurso_do_capitalista

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disciplinar, de consumo e de gozo escópico - Correio APPOA 276 maio/2018 Menu A dificuldade que

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A dificuldade que vejo na inversão do vetor, que passa a ir do $ no lugar de agente para o S1 no lugar da verdade,

é que aponta para a ideia de que nesse discurso o sujeito no lugar do agente capitalista comanda o significante

mestre (S1), o que me parece uma identificação imaginária do sujeito com o S1, que passa a se considerar no comando da linguagem, e não ‘apenas’ como amo do outro, seu escravo (trabalhador).

Fazendo uma leitura dessa última escrita do discurso do capitalista, vemos se articular a partir do mesmo a sociedade do espetáculo, a sociedade disciplinar, a sociedade do consumo e a do gozo escópico. S1 no lugar da verdade funciona como imperativo de gozo do Outro (Goza!), que se desdobra caracterizando cada uma das sociedades mencionadas acima.Vejamos.

Imperativos de gozo do discurso do capitalista (neoliberal)

Agindo sobre o $ no lugar do agente, ordena o gozo do acumule. (Ver abaixo).O imperativo é acumular o capital, sem limites. A onda neoliberal do capitalismo deixa claro que cada vez menos pessoas detêm cada vez mais riqueza no mundo como nunca antes na história. Outra formulação do imperativo de gozo sobre o $ como agente do discurso é o de ostentar, sobretudo aos que considera seus pares, o quanto aparenta ter. É o imperativo escópico mostre-se, ostente.

Perguntou-se certa vez a Bill Gates qual o limite de uma fortuna? Ao que respondeu: tudo. Outro exemplo é o de uma publicação recente cujo título é: Quanto é suficiente? Nessa obra, os autores propõem uma abordagem moral da economia e se perguntam: o que constitui uma vida boa, qual é o verdadeiro valor do dinheiro, por que trabalhamos longas horas para adquirir mais riqueza, como sair do condicionamento de um sistema que nos oprime e nos faz agonizar? (SKIDELSKY & SKIDELSKY, 2017).

São perguntas de ordem moral, disciplinar (discipline), podemos dizer, que procuram limitar o imperativo de gozo obsceno do Outro, dirigidas ao $ agente do discurso do capitalista, ou o $ embarcado no mesmo, questionando sobre que limites convém dar ao gozo de acumular capital e/ou de consumir mercadorias.

Cabe ressaltar que embora nesse discurso o produto seja colocado em contato direto com o agente, nada do que

é produzido, seja como mais-de-gozar, ou na forma de mercadoria que irá vender no mercado, podem satisfazer

ao $, por mais que acumule/consuma/mostre-se. A insatisfação do $, esteja embarcado no discurso no lugar que

estiver, é inevitável.

O imperativo de gozo de S1 no lugar da verdade dirigida ao outro, trabalhador, toma, por sua vez, as formas de

consuma, produza, sacrifique-se trabalhando (disciplinadamente) para poder consumir e, mostre-se! O próprio trabalhador se transforma em mercadoria ao vender sua força (saber) de trabalho ao agente capitalista $, investido pelo imperativo de gozo S1 no lugar da verdade, e entregar-lhe o mais-de-gozar (mais valia). E o $ como agente do discurso intervém sobre o outro (S2) com o comando trabalha! Vale aqui o dito popular “manda quem pode, obedece quem tem juízo (ou precisa)”, evidenciando a dimensão disciplinar implícita.

16/08/2019

Discurso do capitalista – Sociedade espetacular, disciplinar, de consumo e de gozo escópico - Correio APPOA

disciplinar, de consumo e de gozo escópico - Correio APPOA 276 maio/2018 Menu Referências bibliográficas: DARMON,

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Referências bibliográficas:

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DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo – Comentários sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro:

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SKIDELSKY, Robert. & SKIDELSKY, Edward. Quanto é suficiente – o amor pela vida e a defesa da vida boa. Rio de Janeiro: CDFivilização Brasileira, 2017.

Autor: Jaime Betts