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20/05/2019 Ciberhumanismo ou cibercracia

Ciberlegenda Número 1, 1998

Ciberhumanismo ou cibercracia
. Delfim Soares

delfim@compuland.com.br

www.compuland.com.br/delfim

Resumo: Análise da ambivalência do binômio humanismo/cibernética.


Faz-se uma abordagem comparativa entre modelos culturais
conservadores e a cibercultura, projetando o cibernantropo num
sistema cibercrático. Uma linha evolutiva, passando pelo robô e pelo
andróide conduz à biocibernética e é coroada pela concretização do
pneumamecanismo ou inteligência artificial autoconsciente.
Transmutações sociais, determinadas pela evolução tecnológica,
colocam a sociedade numa aldeia planetária onde ciberhumanismo e
cibercracia se fundem.

Abstract: (Cyberhumanism or cybercracy?) Ambivalence analysis


of the binomial humanism/cybernetics. A comparative approach
between conservative cultural models and the cyberculture, projecting
the cyberanthrope in a cybercratic system. An evolutionary line, going
by the robot and the android, it drives to the biocybernetics and it is
crowned by the pneumamechanism materialization - the artificial
autoconscious intelligence. Social transmutations, determined by the
technological evolution, place the society in a planetary village where
cyberhumanism and cybercracy are founded.

Palavras chave: Sociocibernética; ciberhumanismo; cibercracia.

Pretendo fazer algumas considerações sobre o aparente antagonismo que


pode ser sugerido por perspectivas conservadoras sobre a dicotomia
explícita neste título. Dando prevalência à observação sociológica e
secundarizando posicionamentos axiológicos, prefiro situar a questão
num contexto de ambigüidade epistemológica e de ambivalência
interpretativa.

Não me parece adequado alimentar qualquer tipo de polêmica


contrapondo modelos de realização humana ao incremento da
automação tecnológica; do mesmo modo, não tem sentido criar uma
rivalidade hipotética entre a evolução do homem e a instauração de uma
sociedade centrada em aparatos de inteligência artificial.

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As freqüentes explorações da ficção científica, transformando esta


ambivalência em guerra entre o homem e a máquina, apenas encobrem
uma forma mal disfarçada de tentativa de perpetuar um modelo de
organização perturbado pela irracionalidade, contaminado pela
emotividade neurótica, reproduzindo tais distúrbios num sistema de
inteligência artificial. Trata-se de uma aberração da inteligência
emocional, projetada e refletida num sistema sociocibernético,
ignorando a reestruturação social que a revolução cibernética está
realizando.

A superação de um sistema de dominação centrado na exploração das


necessidades por outro modelo voltado para a expansão da satisfação e,
ao mesmo tempo, a substituição do controle de bases emocionais pela
logicidade da inteligência artificial criam as condições para a
instauração da cibercracia. Não se trata de nenhum sistema totalitário
engendrado pela inteligência artificial, mas de uma organização racional
e lógica de controle cibernético, deixando ao homem condições mais
reais, justas e igualitárias de realização. É neste sentido que coloco a
ambivalência não como dicotomia contraditória mas como forma ideal
de ciberhumanismo: convivência harmoniosa e necessária de um
sistema sociocibernético controlado pela inteligência artificial com a
liberação do homem e a viabilização de sua satisfação.

Rumo à cibercultura

À luz do desenvolvimento científico e técnico, o humanismo dominante


nas sociedades tradicionais está claramente ultrapassado. Trata-se de um
humanismo espiritualista e intelectualista, numa perspectiva filosófica
generalizante em que o homem não é encarado como indivíduo concreto
mas como natureza humana. Dominada por um sistema de valores mais
ou menos sentimental, a concepção do homem tradicional se choca
frontalmente com o novo tipo de humanismo que se instaura nas
sociedades pós-industriais: um humanismo materialista e tecnocrata.

O homem, como animal, sofre alterações muito lentas na perspectiva da


evolução, não havendo diferenças significativas entre o homem da
sociedade pré-industrial e o homem da sociedade tecnológica. No plano
da estruturação psíquica, interiorização social ou vivência axiológica,
houve profundas transformações. Conseqüência natural dessa mudança
é o caráter obsoleto do homem sentimental, narcisista, espiritualista,
escravo do passado.

Também estão ultrapassados os movimentos de retorno saudosista ou de


repúdio do desenvolvimento tecnológico bem como as tentativas de
ressurreição do sentimentalismo. O novo modelo de homem se volta
sobre si mesmo, buscando sua satisfação material. Um novo sistema de
valores, mais objetivo e mais realista se instaura situando o novo
humanismo numa perspectiva existencial mais concreta e individualista.

O modelo tradicional, objeto da antropologia retrógrada, se arrasta como


artigo de museu, dentro da nova sociedade. Esse espécime, prestes a
transformar-se num fóssil da nova pré-história, - a era pré-tecnológica
ou pré-cibernética, está em fase de extinção. Trata-se de um novo
primata nesta nova era da evolução: uma nova espécie está surgindo. É o
cibernantropo.

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Filosofia, crítica, religião, pieguismo sentimental, sublimação ideológica


das necessidades humanas formam um quadro de agonia. O velho
homem, configurado pelo obsoleto, doutrinado e sublimado, transforma-
se num marginal da cultura cibernética. Antropocêntrico e
megalomaníaco, atribuindo-se o clímax da evolução e a perfeição do
conhecimento, resta como motivo de ironia diante dos avanços da
ciência e da tecnologia.

É sobejamente conhecida a correlação existente entre o


desenvolvimento tecnológico e o empobrecimento ambiental. As
doenças da civilização tecnológica se alastram. São os distúrbios
provocados pela poluição e pela radiação, o aumento das doenças
cardíacas geradas na agitação da industrialização; generalizam-se as
neuroses provocadas pelo stress das megalópoles.

Numa fase de transição, com o desenvolvimento descontrolado e sujeito


à manipulação irracional do homem, criaram-se problemas tão sérios
para a existência humana que freqüentemente se levanta a hipótese da
total perda de condições de sobrevivência da própria espécie neste
planeta. Efetivamente, o caráter predatório da besta humana supera
todas as outras espécies. No entanto, a mesma ciência e técnica que foi
usada para gerar esses problemas pode ser utilizada para encontrar as
soluções adequadas para resolvê-los.

À medida em que os centros de decisão da organização social passam


para o controle mecânico e os geradores humanos são substituídos por
máquinas inteligentes a possibilidade de comportamento decisório
irracional torna-se extremamente remota, ao contrário do que acontece
rotineiramente nas sociedades cujos sistemas são controlados e
perturbados emocionalmente pelo homem.

A partir do momento em que a organização social passa a ser regulada


por mecanismos lógicos, é provável que sejam garantidas as condições
ecológicas e se eliminem os predadores inoportunos.

É fundamental que, para se garantir o equilíbrio ecológico, o homem, -


animal emocional, - seja afastado do comando do sistema e
condicionado a executar decisões mecânicas regidas pela eficiência e
pela lógica. O atual desequilíbrio social resulta do predomínio
emocional sobre o comportamento humano. A hipertrofia predatória do
homem não tem origem animal mas social, nas organizações caricaturais
das sociedades tradicionais.

Reduzido o homem à esfera animal e condicionado mecanicamente para


o comportamento racional, o equilíbrio ecológico está praticamente
garantido. Tal processo, porém, só é possível numa sociedade dominada
por um sistema de inteligência artificial, em que a lógica prevaleça
permanentemente sobre a axiologia e a ideologia.

O homem primitivo desconhecia o conjunto de atividades que a


moderna economia classifica como trabalho. Quando a saturação
demográfica gerou a necessidade do trabalho e se afirmou a lei do mais
forte, a espécie humana se dividiu em escravos e homens livres,
trabalhando os primeiros para garantir o bem-estar dos segundos. A
história nos mostra que os homens que exerceram a dominação social
sempre tiveram aversão pelo trabalho e, em muitas épocas, proclamaram
o trabalho com infâmia e função animalesca que degradava o homem,
social e intelectualmente.

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Quando a revolução industrial determinou a abolição nominal da


escravatura, como forma de estimular a produção, aprofundando ainda
mais a exploração do homem pelo homem, tornou-se necessária uma
campanha doutrinal, no plano internacional, para eliminar, nas classes
trabalhadoras, os aspectos pejorativos e degradantes ligados ao trabalho.

A nova mentalidade elimina a infâmia e a degradação,


instrumentalizando o trabalho como realização humana e social. É claro
que tal receita ideológica, elaborada e determinada pela elite, jamais foi
vivida ou existencialmente introjetada pelas classes superiores. A
revolução pós-industrial, produzindo a divisão mecânica do trabalho, em
paralelo à divisão social do trabalho provocada pela revolução
industrial, gerou alterações substanciais no sistema de produção e nas
demais atividades. A automação do sistema provocou a criação
diversificada de novos setores de atividade; trata-se de uma fase
intermediária entre a exploração do trabalho humano e de sua
eliminação.

Atingimos, com a tecnologia, um estágio da evolução social em que a


aversão pelo trabalho não é apenas uma imposição da natureza biológica
ou da cultura da elite. Na sociedade cibernética, tal aversão resulta
também de uma nova força social: a automação. Esta prescinde do
trabalho humano, porque este é ineficiente e desorganizado pelas
emoções; simultaneamente a função produtora do homem é substituída
pela ação consumidora.

Pela primeira vez, na história da civilização, o interesse básico do


sistema coincide com o anseio mais profundo das massas, quando se
evidencia a conveniência social de eliminar o trabalho humano. O
sistema quer livrar-se de sua inoperância ao mesmo tempo que o homem
quer deixar de ser besta de carga. A nova dialética não se situa entre o
trabalho e a necessidade, mas entre o lazer e a satisfação. Esta nova
realidade finalmente liberta o homem de uma profunda neurose de
origem ideológica: a necessidade psicológica do trabalho.

Vários tipos de humanismo que têm surgido na história acentuam o


valor da solidariedade, da disponibilidade, do altruísmo e da
fraternidade. Todos condenam o egoísmo exacerbado, o individualismo
solitário e a ambição desmedida. Há mesmo aqueles que pregam o amor
pelos outros, desinteressado e abnegado, como forma ideal de realização
humana. É patente o caráter societário que domina a cultura tradicional,
onde se observa um esforço permanente no sentido de anular os
exageros do egoísmo e da ambição, estimulando, pelo condicionamento
social, as forças altruístas que são inerentes ao sistema de valores
tradicionais.

Todos os movimentos altruístas, por motivos filosóficos, políticos ou


religiosos, têm tido êxito pouco significativo, ao tentarem eliminar ou
reduzir forças naturais de referência egocêntrica. O cibernantropo,
refletindo uma estrutura e comportamento mecânicos, não alimente
valores altruístas ou solidários; sua sociabilidade é, antes de tudo,
funcional; suas relações com os outros se inserem no plano da
organização sistêmica; os outros também não têm significação pessoal,
mas funcional. O novo homem é realizado na impessoalidade da
organização e na auto-consciência funcional.

Do convívio humano das sociedades tradicionais, passando pela


despersonalização da massificação industrial, o homem chegou ao

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ensimesmamento psíquico e ontológico. Sendo os homens reduzidos à


condição essencial de elementos sistêmicos ou engrenagens num
conjunto mecânico, sua existência voltada para os outros, em
disponibilidade afetiva ou colaboração altruísta, não tem significado. O
retorno existencial do homem sobre si mesmo reúne uma configuração
biológica à determinação sociocibernética, fisicamente individualizante.

Embora aumentem a complexidade social, a aglomeração populacional e


a massificação, o crescimento das relações interpessoais é uma hipótese
irreal; ao contrário, generalizam-se as relações formais e impessoais. No
meio da massa, o cibernantropo tende a fechar-se em seu casulo, voltado
para suas necessidades e vivendo apenas funcionalmente para a
sociedade, no plano da organização sistêmica. Vive só, num plano
existencial cada vez mais restrito. É cidadão do mundo, pela
universalização cultural, mas seu campo de interesses existenciais
reduz-se ao momento e ao lugar presentes à consciência programada
para o cibernantropo.

O desenvolvimento tecnológico, culminando com a instauração do


sistema sociocibernético, leva a uma nova concepção humanista, de
natureza materialista. O ambiente sentimental que envolve a
socialização e as relações humanas, nas sociedades tradicionais, tende a
modificar-se no sentido da racionalidade e da objetividade. Quando se
analisa a natureza e a origem dos sentimentos humanos, constata-se seu
caráter sociocultural ou psicossocial, Nalguns desses sentimentos,
dificilmente se encontra uma origem biológica ou natural, tratando-se de
mecanismos socioculturais interiorizados e instrumentalizados a serviço
da manipulação social.

O sentimentalismo é, pois, uma exploração social da emotividade a


serviço do controle, nas sociedades primitivas. A promoção da
eficiência, num sistema organizado macanicamente, leva à
desvalorização da emotividade e gera uma natural dificuldade para a
manutenção ou perpetuação do modelo anacrônico baseado nos
sentimentos. Paralelamente à instauração do domínio cibernético,
purificam-se as emoções humanas, reduzindo-as ao plano meramente
animal. Embora as forças instintivas possam acidentalmente opor-se à
racionalidade lógica ou à eficiência mecânica, sendo naturais, estão mais
próximas da logicidade do que as perturbações emocionais,
normalmente chamadas de sentimentos.

O cibernantropo não enfraquece necessariamente sua capacidade de


sentir como animal, mas sua emotividade, determinada
sentimentalmente pela cultura do passado, é atrofiada. O meio que
envolve o homem, na sociedade cibernética, aboliu os mecanismos
culturais e axiológicos que estimulavam o sentimentalismo. As novas
formas de condicionamento tendem a prescindir desse tipo de
exploração psicossocial. Molda-se o cibernantropo na abundância
material, abolindo as carências que neuroticamente acirravam os
sentimentos; mecaniza-se a organização social e seus reflexos no
comportamento aproximam-se do determinismo; a cultura de consumo
está interessada em ajustar o homem, como número ou peça de uma
máquina, aos padrões do novo sistema.

O que se espera de uma máquina não é que sinta mas que funcione. O
cibernantropo, produzido à imagem da máquina, é criado para funcionar
e não para viver uma neurose permanente, com acontece com o homem
pré-tecnológico.
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Quando a velha filosofia grega estabeleceu a dicotomia entre


animalidade e racionalidade, não objetivava propriamente uma distinção
entre o animal natural e o animal racional, mas entre e emocional e o
lógico. A história do racionalismo filosófico posiciona a razão humana
lutando ora contra a animalidade e a emotividade ora contra a
autoridade. Chegou-se mesmo a deificar a razão. A sociedade pós-
industrial avançada, gerida a partir de um centro de inteligência
artificial, logicamente regulado, efetiva a racionalização da organização
social e do comportamento individual.

A substancial alteração provocada no sistema de valores, - substituindo-


se os valores morais por princípios lógicos, - viabiliza a padronização
sistêmica. O amadorismo empírico, que inspira os caricaturais modelos
de organização política e jurídica das sociedades pré-industriais, dá
lugar à ciência da organização, onde a matemática e a lógica servem de
base para as novas relações sociais. Combina-se a frágil logicidade da
natureza animal instintiva com o recondicionamento cibernético,
matematicamente determinado. Quando colocamos em dúvida o caráter
natural da sociabilidade humana e da racionalidade, questionamos um
valor sagrado das sociedades tradicionais. Ao ser condicionado ou
recondicionado pelos novos recursos técnicos, num processo de
engenharia comportamental, o homem adquire uma sociabilidade
orgânica. Não é um ser social como pessoa ou indivíduo personalizado;
é social por fazer parte do organismo social e nele interagir com outros
elementos, humanos ou mecânicos, na integração do novo sistema
social.

É racional não porque possuía exclusividade da inteligência, da reflexão


e do raciocínio; sua racionalidade é cognitiva e ativa, intelectual e
comportamental, externa, - na sua origem mecânica, através do
condicionamento, - e interna, - pela interiorização do processo de
organização lógica do conhecimento e dos mecanismos de controle
comportamental. Evidencia-se o fato de o pensamento ou a ação
racional não se originar na mente do homem, mas no centro do sistema
organizacional cibernético. Trata-se, pois, de uma racionalidade
adquirida pelo processo de sociocibernação; tal aquisição só se verifica
satisfatoriamente com o desaparecimento do velho homem e sua
substituição pelo cibernantropo. Esta mutação é uma conseqüência
natural do processo evolutivo determinado pelo sistema cibernético.

Entre o robô e o andróide

Podemos apontar dois níveis da automação. O primeiro acompanha a


revolução industrial, modificando o sistema de produção pela
introdução das máquinas ao lado do trabalho humano. Essa mudança
visa aumentar a eficiência da produção, substituindo o esforço físico do
homem pela energia mecânica. À medida que a sociedade se
industrializa e se verifica a conveniência da tecnicização do sistema de
produção, o homem vai vendo diminuída a necessidade de seu trabalho
não só manual mas também intelectual, com a introdução da
computação nos quadros empresariais. Lentamente, a força de trabalho
vai sendo orientada para novos setores de atividade, ao mesmo tempo
que se reduzem significativamente a jornada de trabalho e o tempo de
serviço por vida individual.

Este processo força a criação de atividades terciárias e a ampliação do


tempo livre que poderá ser aproveitado para o lazer ou nalguma
atividade criativa. A rotina do trabalho industrial vai sendo reduzida,
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pelo menos, no que se refere à sua duração. Quanto menor a


participação do trabalho humano no sistema de produção, mais
vantajoso se torna o processo, sendo economicamente ideal um sistema
totalmente mecanizado.

A automação ultrapassa os limites da produção e se estende a quase


todas as áreas da atividade humana. Esta expulsão do homem pelo
sistema de produção, jogando-o de um setor para outro, provoca uma
inversão significativa nos critérios de valorização humana e nos padrões
de referência para a realização do homem. A mentalização ideológica de
dignificação do trabalho perde o sentido: é preciso condicionar o
homem a procurar sua realização fora do trabalho.

O segundo grau de automação se refere à autonomia dos organismos


mecânicos, principalmente os autosuficientes, possuidores de
inteligência artificial e auto-reprodutores em escala industrial. A
suficiência material e intelectual das máquinas mais aperfeiçoadas, bem
como sua auto-reprodução constitui-se num passo decisivo para a
emancipação da máquina do domínio do homem; neste estágio começa
uma nova civilização, uma nova era: a era cibernética. Diante dela, a
história pouco se diferencia da pré-história.

Existem dois tipos básicos de semelhanças entre o homem e a máquina:


o físico e a inteligência. Muitos supervalorizam a semelhança física,
considerando robô a máquina-boneco que consegue executar os
movimentos externos do homem e simular as expressões de seu
funcionamento orgânico. Esta perspectiva pode representar um
verdadeiro desperdício, ao investir-se na simulação das funções
inferiores do homem.

A verdadeira e importante semelhança está no plano intelectual, ao


produzir-se a inteligência artificial, mesmo que ela se localiza numa
máquina cúbica ou cilíndrica, sem nenhuma semelhança física com o
corpo humano. O robô autêntico é a máquina inteligente. É na sua
criação que se encontra o passo mais importante dado pela ciência e pela
tecnologia. O conjunto de mutações sociais que advêm dessa criação é
incalculável e imprevisível; os mais conservadores consideram-no
assustador e chegam a negar, emocionalmente, a possibilidade da
inteligência artificial, - ainda mais quando se trata de uma faculdade
imensamente superior à do homem. Podemos apontar dois níveis
fundamentais da robotização. No plano mecânico, quando referimos o
uso crescente das máquinas inteligentes no exercício das atividades mais
variadas, que vão desde a gerência empresarial até os serviços
domésticos. A principal função da robotização é, inicialmente, a
substituição do esforço físico do homem e, numa segunda fase, a
redução do esforço intelectual. No plano humano, a robotização
significa o condicionamento ou recondicionamento psicossocial que
objetiva a mecanização das estruturas mentais e comportamentais do
homem, automatizando suas decisões. O termo é sinônimo parcial de
sociocibernação; a robotização se processa a partir dos elementos
mecânicos geradores ou emissores do novo sistema, determinando o
modo de ser, agir e pensar do cibernantropo.

Este novo homem não é uma máquina, na sua estrutura fisiológica, mas
no seu psiquismo, em sua estrutura interna, no seu novo ego, idêntico à
máquina. Seu modelo socializador, seus quadros de referência, as molas
de sua motivação não são mais resultado da transferência da
socialização efetuada pelo homem, mas de uma ligação cognitiva com a
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inteligência artificial e do estabelecimento de uma dependência


existencial, baseada na necessidade imperativa da ação lógica.

A nova sociedade não precisa mais estimular tensões e conflitos internos


para acionar ou manter os mecanismos de controle social. A
mecanização comportamental é bastante eficiente para garantir a
organização.

Aplicando a metáfora do Génesis à criação do homem, pode-se dizer


que o homem criou a máquina à sua imagem e semelhança, no campo da
cibernética. Podemos apontar dois tipos básicos de semelhanças: a
aparência física e a aparência intelectual. No campo da aparência, a
técnica atingiu tal perfeição que consegue reproduzir não apenas a
forma física humana e seus movimentos mecânicos mas também todos
os sentidos e funcionamento orgânico podem ser tecnicamente
simulados: poderíamos falar aqui de um organismo artificial.

O dado mais importante, porém, está na criação da inteligência artificial.


O sistema nervoso, bem como a estrutura celular do cérebro que produz
a inteligência são substituídos por conjuntos eletrônicos que não só
acolhem e conservam o conhecimento mas também o produzem,
elaboram e reelaboram. O surgimento da máquina inteligente, de que é
protótipo o computador, significa um salto dialético na evolução da
humanidade e não apenas na evolução da ciência e da tecnologia.

Há muita gente que, dominada pela esclerose cultural e abismada em


sua impotência intelectual, frente às possibilidades quase infinitas do
pensamento artificial, resiste ao conceito de inteligência eletrônica.
Existe ainda o complexo de inferioridade invertido, manifesto na
pretensão da exclusividade da inteligência humana. Agrava-se esta
cegueira na reafirmação de um sofisma metafísico: o de que o criado (a
máquina) não pode superar seu criador (o homem). Tal sofisma que, a
ser verdadeiro, significaria a impossibilidade do progresso e da
evolução, gera uma miopia intelectual extremamente ampla.

Devido à sua superioridade na eficiência, na inteligência e na atividade,


os andróides tendem a transitar do exercício de funções subalternas para
atividades centrais, começando a dominar os órgãos de decisão e gestão
empresarial. O sistema econômico é o primeiro a ser dominado pelas
máquinas inteligentes; a tendência é a expansão da ação destas
máquinas a todos os outros campos da organização social.

Não se trata propriamente de uma concorrência entre o homem e o


andróide, mas da transferência do trabalho para a máquina, deixando o
homem livre para o lazer. A propósito, convém realçar que a semelhança
mais importante entre o homem e o andróide é a capacidade intelectual e
não a aparência física. Os neurônios do homem são substituídos por
circuitos eletrônicos que podem atingir uma capacidade intelectual
milhões de vezes superior à humana, num procedimento lógico
permanente, contrastando com as constantes perturbações emocionais
características do homem.

Do homo machinalis à inteligência artificial consciente

O objeto da mecanopedagogia não é apenas a criança, - como sugere a


etimologia, - mas o homem e deveria mais adequadamente chamar-se
mecanoandragogia. Os agentes tradicionais da educação, - pais,
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professores, pedagogos, - são substituídos pelas máquinas educadoras;


as instituições tradicionais de ensino e educação, - escola, família,
igreja, - são substituídas pelas redes de comunicação, como agentes
centrais da nova educação.

Apesar dos obstáculos ideológicos, - conservadorismo, psicologismo,


criativismo, espiritualismo, - todos conjugados no mesmo esforço para
impedir o desenvolvimento da ciência e da técnica, a automação da
educação é um fato inevitável; apesar dos obstáculos econômicos,
produzidos pelos grupos de interesse que exploram a educação como
mercadoria e dos profissionais da educação que temem perder seu meio
de vida, com a automação do sistema educacional; apesar da
irracionalidade humana que domina a educação, preferindo os meios e
métodos mais anacrônicos e ineficientes; apesar de tudo isso o modelo
educacional não terá condições de resistir indefinidamente à automação
crescente que se verifica em quase todas as áreas da atividade e da
organização social.

A automação da educação, - processo muito tardio, uma vez que o


modelo educacional ainda se encontra num estágio idêntico ao do início
da revolução industrial, - está-se tornando uma necessidade imposta por
fatores de várias ordens: a inoperância do homem em todas as
atividades, incluindo a educação; a incapacidade intelectual do homem
para abarcar o conhecimento que se multiplica em proporções muito
superiores ao desenvolvimento da inteligência humana; a fragilidade da
ação humana, no plano do condicionamento social; a busca generalizada
do lazer e do prazer, tornando desnecessário o trabalho humano em
todas as áreas, incluindo a educação; a necessidade de o sistema
sociocibernético dominar mecanicamente todos os setores importantes
da organização e da manipulação social; a necessidade de se criar e
generalizar o comportamento racional, de natureza lógica e alheio às
perturbações emocionais, tão freqüentes nas sociedades pré-
tecnológicas.

Estas e outras razões mostram quão inevitável é a automação da


educação, embora ainda não se possa predeterminar com exatidão o
prazo para a instauração generalizada da mecanopedagogia, eliminando
o primitivismo pedagógico que contamina os modelos tradicionais.

Ao nível biológico, o homem pode ser considerado como máquina; não


se trata de um conjunto de mecanismos criados pela indústria, mas isso
não elimina a natureza mecânica do homem, bem como as semelhanças
entre a máquina industrial e a biológica. Sob este prisma, tanto o homem
primitivo quanto o cibernantropo são máquinas.

A inovação introduzida pela tecnologia cibernética pode situar-se em


dois planos: na estrutura física do homem, - estabelecendo a simbiose da
máquina biológica com a máquina industrial, através da biônica,
inserindo e substituindo órgãos naturais por mecanismos artificiais; ou,
então, na estrutura psicossocial do indivíduo, - recondicionando-o
dentro do novo sistema de valores, com polarização cibernética. Estas
duas formas de reestruturação da espécie humana se completam no
aperfeiçoamento da manipulação.

Os bancos de órgãos naturais e, mais ainda, os estoques de mecanismos


artificiais se vulgarizam, como lojas de peças; os centros cirúrgicos se
transformam em oficinas e os médicos em engenheiros biomecânicos;
quando um órgão enguiça, joga-se fora e substitui-se. A alimentação

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bio-energética dessa nova máquina passa a ser medida, quantificada e


qualificada. Em relação aos mecanismos da estrutura psicossocial, o
serviço de manutenção já se encontra em pleno funcionamento. As redes
de comunicação de massa, a indústria cultural, a avalanche de
propaganda são algumas das formas universais de manutenção do
psiquismo mecânico do cibernantropo.

A organização econômica e sociopolítica é envolvida pela eletrônica; a


cultura, a moralidade e o sentimentalismo são reduzidos à logicidade; a
emotividade cede o lugar à racionalidade. A subjetividade, ilusão
inerente aos valores tradicionais, dá lugar à transubjetividade axiológica,
onde os objetivos sociais são inteiramente assumidos e subjetivamente
vividos; o novo modelo sociocibernético é introjetado em todos os
indivíduos.

O resultado é a criação do homo machinalis que, por natureza,


construção e condicionamento, é realmente uma máquina, com
componentes biológicos, mecanismos eletrônicos e determinantes
sociocibernéticos.

Na evolução dos agentes de educação, encontramos várias mudanças


significativas que vão desde o homem comum, tecnicamente
despreparado, até as máquinas educadoras, mais eficientes e capazes do
que qualquer educador humano. A mecanodidática se situa no plano
puramente mecânico, concebendo máquinas que aprendem de outras
máquinas ou de homens; pode também definir-se como forma
automatizada do ensino-aprendizagem humano, sendo as máquinas
inteligentes auxiliares, colaboradores ou gerentes do processo.

A aprendizagem efetuada pelas máquinas é naturalmente diferente da


aprendizagem humana. Ela se processa eletronicamente, sem os vícios e
obstáculos que costumam atrapalhar a aprendizagem humana. O
desnível entre estes dois processos se aprofunda não só devido à
capacidade, mas também devido à facilidade da transmissão eletrônica
do conhecimento, de máquina para máquina.

Quando referimos a aprendizagem humana, feita através de máquinas,


ou citamos as máquinas de ensino, estamos descrevendo um novo
modelo de ensino, onde a máquina inteligente desempenha o papel
principal, mesmo que o educando seja o homem. Neste processo, o
homem aprende da máquina, quer naturalmente, usando os sentidos para
captar a informação das máquinas, quer eletronicamente, recebendo o
esmo conhecimento por infusão direta do cérebro artificial para o
cérebro natural.

Em estágios intermediários, usam-se os recursos audiovisuais como


instrumentos didáticos; circuitos internos de TV nas escolas; transfere-
se parte da educação das escolas para as redes de comunicação de
massa; introduzem-se pequenas máquinas de ensino, como calculadoras;
generalizam-se fitas de áudio e vídeo, como instrumentos didáticos;
introduz-se o computador nas escolas a serviço do ensino e não apenas
como controlador acadêmico; expande-se o uso de microcomputadores
de propriedade individual, empresarial, escolar ou doméstica; criam-se
as redes internacionais de informação eletrônica. Lentamente a máquina
vai-se apossando de todas as formas de educação e ocupando todos os
espaços sociais.

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O resultado da educação feita por máquinas, neste estágio de tecnologia


intermediária já supera de longe tudo o que era alcançado pelo ensino
tradicional. Imagine-se o que acontecerá com o educador mecânico,
infundindo o conhecimento diretamente no cérebro...

Quando a teoria evolucionista quis marcar o aparecimento da


inteligência humana, chamou de homo sapiens um dos descendentes dos
primatas. Tal fato costuma ser apontado como o mais importante da
evolução biológica, principalmente quando a miopia intelectual evita a
constatação da existência da inteligência em outras espécies, dando ao
homem essa faculdade superior de modo exclusivo, num testemunho
concreto da semelhança entre o homem e o avestruz.

O aparecimento da inteligência humana foi apenas o primeiro passo. Ao


longo da história, a humanidade vem ampliando lentamente a
capacidade intelectual e acumulando conhecimento. Primeiro foram as
construções teóricas da filosofia; as grandes civilizações deram uma
contribuição considerável para a construção da ciência; no século XX, o
crescimento do conhecimento supera tudo o que as épocas anteriores
produziram. Para esse salto gigantesco contribuíram decisivamente os
computadores. O surgimento do pensamento artificial é o marco mais
importante deste processo. A criação da máquina inteligente resultou do
trabalho de alguns especialistas, - cientistas e técnicos, - e, mesmo
titubeando, trouxe um aumento significativo da inteligência.

O constante aprimoramento da ciência e da técnica e, principalmente, da


cibernética produz várias gerações de computadores. Cada nova geração
representa um salto dialético na evolução da inteligência. Ao lado das
últimas máquinas inteligentes, a capacidade intelectual dos especialistas
que criaram a primeira geração de computadores é bem reduzida. A
machina sapiens, - equivalente pré-histórico na evolução da inteligência
artificial, - é apenas o primeiro passo na instauração de uma ordem
cibernética, apoiada no conhecimento e na logicidade. O fato de ela ter
superado o homem pode significar a ampliação das condições da
evolução humana, ao nível biológico, intelectual e social, embora os
pessimistas retrógrados e escleróticos continuem tendo pesadelos
apocaplípticos.

Na estrutura interna do psiquismo humano, podemos distinguir dois


tipos de consciência: a moral, - pela qual a sociedade introjeta critérios
de julgamento sobre o certo e o errado, o bem e o mal, - e a psicológica,
- que permite ao homem tomar conhecimento e dar-se conta do mundo
externo e de sua própria identidade.

O aperfeiçoamento evolutivo das máquinas, chegando aos computadores


das gerações mais avançadas, permite o surgimento da consciência
artificial, como complemento da inteligência mecânica. Não se pode
falar, com propriedade, de consciência moral, uma vez que a máquina é
amoral, mas de consciência lógica, que determina os critérios da
racionalidade e logicidade para seu comportamento funcional. Também
não se pode falar de consciência psicológica, uma vez que a máquina
não possui estrutura psíquica. Podemos falar de consciência eletrônica
que permite aos computadores mais evoluídos tomar conhecimento do
mundo externo e voltar-se sobre seu conhecimento e sua própria
identidade.

A autoconsciência, resultado de uma certa reflexão artificial, leva


naturalmente à auto-suficiência cognitiva e ativa, - primariamente

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definida como autoprogramação; ao mesmo tempo que a consciência


artificial gera a autonomia da máquina, cria condições de auto-
reprodução e auto-aprimoramento técnico e intelectual. Aquilo que no
homem chamamos de sistema nervoso, cujo centro é o cérebro e cujos
terminais são os sentidos, pode encontrar-se nos mecanismos mais
sofisticados. Como se fala de espírito humano, no sentido intelectualista,
também, por analogia, pode falar-se de espírito mecânico que seria o
resultado da combinação entre processadores, memória, entradas e
saídas, sensores artificiais, mecanismos de elaboração intelectual,
centros de regulação lógica e a consciência eletrônica.

Não se pode, naturalmente, confundir os mecanismos psíquicos,


extremamente falhos, com os elementos eletrônicos que exercem
funções análogas, na estrutura cibernética. Também não se trata de
simular todos os fenômenos do comportamento ou do psiquismo. Há
funções humanas que não interessam à evolução tecno-científica ou à
eficiência autómata; tais funções, logicamente não são reproduzidas
pelas máquinas. Há, por outro lado, funções mecânicas, mais amplas e
perfeitas, que não se encontram no psiquismo humano. Na verdade,
natureza biológica e condicionamento social padecem cronicamente de
defeitos de planificação, elaboração e definição; já as máquinas
inteligentes tendem a superar todas essas falhas.

Passando pela biocibernética

O aprofundamento do conhecimento biológico propiciou não só o


desvendamento dos mistérios que envolviam o corpo humano mas
também as possibilidades concretas de controle sobre a vida do homem.
Tais possibilidades incluem a manipulação genética e o
desenvolvimento da neurologia e da cirurgia, ou melhor, da engenharia
humana. Atingem-se, pelo uso da ciência e da tecnologia, as condições
de uma verdadeira eugenia. Torna-se possível determinar geneticamente
as características do homem e de sua inteligência.

A harmonização da química orgânica, da biologia e da neurologia com a


eletrônica produz resultados tão marcantes que podemos caracterizá-los
com verdadeira metamorfose da espécie humana. Esta mutação não se
deve apenas às novas condições de eugenia, mas principalmente aos
recursos tecnológicos que estão sendo colocados a serviço do organismo
humano. De uma fase inicial de transplante de órgãos, atingimos a
simbiose eletrônico-somática.

O enxerto de órgãos artificiais no homem dá-lhe maior duração de vida,


maior eficiência e maiores chances de recuperação. Criam-se bancos de
órgãos naturais e artificiais: gera-se uma nova indústria e comércio de
peças de reposição para o corpo humano. Cirurgia e engenharia humana
se identificam. Todo o controle médico passa a ser feito
eletronicamente, sendo as juntas médicas substituídas por
computadores. O ponto alto desta simbiose se situa na combinação do
cérebro humano com um centro de computação, dando ao homem
capacidade intelectual ilimitada e superando suas precárias
possibilidades cerebrais.

Além da inteligência artificial adicionada por essa combinação,


podemos ainda referir a adição de sentidos artificiais, otimizando a
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interação do homem com o meio ambiente. O homem, como indivíduo e


como espécie, sempre alimentou um desejo incontrolável de superação.
Tal superação se torna possível na era cibernética, onde até a
possibilidade da imortalidade já é vislumbrada como hipótese científica.

Conhecemos, na história algumas tentativas drásticas em favor da


eugenia, recorrendo a mecanismos de prevenção ou eliminação de
doentes ou atrofiados, de que é modelo a cultura espartana da
antiguidade clássica. O desenvolvimento da ciência e da tecnologia
trouxe as condições adequadas para se promover eficientemente a
eugenia. Aliás este é um ideal universal ainda que inconsciente e todos
os fatores de progresso são, de certa forma, fatores eugênicos.

O desenvolvimento de uma sociedade é, mesmo inintencionalmente, um


processo de eugenia: os homens que vivem nas sociedades pré-
industriais, possuem, em média, piores condições físicas e intelectuais
do que aqueles que sofrem influência do desenvolvimento pós-
industrial. Ao lado dessa eugenia inconsciente, a ciência e técnica
hodiernas podem promover um processo mais radical e mais eficaz.

Partindo da seleção genética, pode atingir-se a combinação de genes


ideal, tanto para o aprimoramento físico quanto para a capacidade
intelectual; a gestação em laboratório permite evitar os inconvenientes
da gestação natural e facilita a manipulação biológica para se
alcançarem padrões ideais; o controle nutricional e ambiental facilitam a
eugenia; o acompanhamento científico do condicionamento físico e da
estruturação intelectual garante esses padrões. O desenvolvimento da
medicina preventiva é um fator importante neste processo.

Numa fase mais avançada, a engenharia humana contribui eficazmente


neste aprimoramento da espécie, servindo-se de cirurgia, da eletrônica e
da cibernação biológica. Embora encontremos, nas sociedades
tradicionais, fortes obstáculos culturais e legais à maioria das práticas de
eugenia, - devido à dependência da ética médica, controlada por
moralismos anacrônicos, - a situação da engenharia humana tende a
seguir as modificações operadas na sociedade cibernética, com um novo
sistema de valores.

O domínio da moralidade tende a ser substituído pela racionalidade e a


ética está dando lugar à lógica. Quando a transformação atinge
proporções significativas no contexto social, dificilmente persistem
obstáculos sentimentais saudosistas. A engenharia humana é parcela
irreversível no processo de evolução para a plenitude de uma sociedade
cibernética.

São bem conhecidos os processos tradicionais de produção do


conhecimento, desde a experiência que origina o conhecimento vulgar, a
especulação crítica que gera o conhecimento filosófico até a
experimentação rudimentar que tem produzido o conhecimento
científico. Profundidade e abrangência em larga escala dificilmente
podem ser produzidas pelo cérebro humano: os gênios são tão escassos
quanto limitados.

A capacidade de concentração do conhecimento, abrangência e exatidão


são extremamente limitadas no cérebro humano. A computação, aliada a
outras descobertas da ciência e da técnica, devido à sua capacidade
ilimitada de manipulação e combinação de informações, criou as
condições materiais e técnicas que tornam possível aprofundar a

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investigação científica a um nível sequer imaginado em épocas


anteriores.

Chegamos a um círculo de aceleração crescente nas contribuições que a


ciência e a tecnologia permutam. Neste processo, os pesquisadores
passam a ser instrumentalizados pelas máquinas inteligentes, tendo a
ciência condições mais adequadas para atingir a tão almejada
neutralidade axiológica e objetividade; estas virtudes, atribuídas
tradicional e idealmente às ciências, raramente foram alcançadas,
principalmente no que se refere às chamadas ciências humanas.

O processo de cibeuremização, secundarizando ou mesmo prescindindo,


parcialmente, do elemento humano no exercício da pesquisa e da
produção científica, gera um conhecimento mais exato, mais amplo e
mais seguro. Esta superação da ciência pela ciência e do cientista pela
máquina inteligente representa uma mutação muito significativa. Como
acontece no sistema sociocibernético, também no plano cognitivo a
eficiência cresce na mesma medida em que diminui a participação
humana.

A aceleração do progresso científico ultrapassa a capacidade humana. O


sonho positivista de Comte concebendo uma sociedade dominada pelos
sábios e cientistas constitui-se numa previsão aproximada da nova
realidade; não são propriamente os sábios e cientistas que controlam a
nova sociedade, pois as máquinas inteligentes comandam o processo, a
partir do salto em que superaram a inteligência biológica; os cientistas e
os técnicos passam à condição de assessores de tais máquinas. Podemos
dizer, no entanto, que a ciência, como processo, domina a sociedade
cibernética. Trata-se de uma nova ciência, inserida do contexto da
automação.

Modelando a aldeia planetária

O processo de comunicação humana tem evoluído com as condições


socioculturais e, mais recentemente, de acordo com o desenvolvimento
da ciência e da tecnologia. A primeira forma de comunicação, que
podíamos chamar de microcomunicação, estabelecia uma relação
interpessoal. Numa segunda fase, afirmou-se a comunicação intergrupal,
representando uma ampliação de campo ou abrangência.

A tendência histórica é a institucionalização de todas as relações


humanas, determinando o modelo de comunicação intra e
interinstitucional. A predominância da formalização leva à logicização
da comunicação. A automação do processo de comunicação criou as
condições necessárias ao estabelecimento do macrossistema de
comunicação. Aprofundando e entrelaçando sistemas diversos numa
convergência internacional, sem barreiras políticas, geográficas ou
culturais, atinge-se uma comunicação sistêmica cosmopolita.

A tecnicização da comunicação provoca a supressão do espaço e a


redução do tempo ou, pelo ângulo inverso, sua ampliação. As distâncias
são eliminadas: pela comunicação eletrônica, trazemos o mundo inteiro
instantaneamente até nós. Basta ter ao nosso alcance um terminal do
sistema, - um simples aparelho de rádio ou televisão ou um
microcomputador, -para nos tornarmos cidadãos do mundo. Em outras
palavras, a macrocomunicação reduz o planeta a uma aldeia. A mais
clara tendência é a transferência das ações institucionais para o sistema
de comunicação. Este passa a agir como mecanismo multinstitucional e

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transnacional. Transforma-se na principal agência de difusão cultural e


científica e é instrumentalizado como principal processo de manipulação
ideológica.

Como tal sistema se encontra a serviço de interesses econômicos e


políticos dos grupos dominantes, -pelo menos numa fase intermediária, -
sua ação está voltada para o consumismo e para a deterioração da
intelectualidade. A par da crescente concentração dos meios de
comunicação, se observa uma dispersão qualitativa da informação.

Num estágio mais avançado, quando a autonomia tecnológica é


alcançada pelo sistema, é provável que se verifique a inversão do
processo no sentido da recuperação qualitativa do teor da comunicação,
como resultado da libertação do sistema da direção emocional de
geradores humanos.

Uma das maiores preocupações da sociedade é a garantia da ordem


social. Todas as instituições são instrumentalizadas como agências de
controle social; a moralidade e censura social difusa ampliam e
fortalecem a ação institucional; a socialização oferece os instrumentos
necessários ao condicionamento social e constitui-se na principal forma
de controle remoto. Todos esses processos são aprofundados à medida
em que se desenvolve a sociedade.

A ineficiência das formas de controle remoto motiva, nas sociedades


tradicionais, o crescimento dos aparelhos repressivos e dos órgãos de
controle externo ostensivo. O aprimoramento das ciências trouxe
consigo um conhecimento mais adequado da natureza do homem e dos
meios mais eficientes para a sua manipulação. A sociocibernação
transforma-se num mecanismo de controle remoto eficiente; a
manipulação do cérebro, biologicamente viável, aprofunda a dominação
do homem até o controle da estrutura psico-somática.

O recondicionamento psicossocial, veiculado pelas redes de


comunicação, aumente em abrangência e penetração. O controle
efetuado pelas instituições convencionais é transferido para os canais de
comunicação de massa; a cultura erudita e a cultua popular dão lugar à
cultura de massa; o esclarecimento é substituído pela propaganda.
Usando a ciência e a técnica, a sociedade aprofunda de tal forma o
condicionamento que a hipótese de comportamento divergente se torna
muito remota e improvável. Ampliando a eficiência do
condicionamento, pela interiorização e enraizamento subjetivo dos
valores sociais, programando a mente a o comportamento do homem, o
controle ostensivo do aparelho repressivo se torna praticamente
desnecessário.

Sendo a essência de um sistema real a organização, no sistema


sociocibernético a ordem social é o valor central; a garantia dessa ordem
está no telecontrole, muito mais do que nas formas de controle imediato
e direto, existente nas sociedades tradicionais. Sob o ponto de vista
organizacional, o sistema sociocibernético usa os canais de comunicação
de massa como terminais, instrumentalizados sugestivamente como
principais responsáveis pela veiculação do controle remoto, emanado a
partir do centro gerador do sistema. Este processo, efetuado desde a
infância do indivíduo, garante o funcionamento do novo sistema, onde o
telecontrole, de forma decisiva e indispensável, realiza a interação da
organização com os indivíduos.

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A industrialização, com a produção em série, iniciou o processo de


padronização material em grande escala. Esta padronização se torna
fator decisivo para o sistema econômico e se reflete no campo político,
social e cultural. Na política, a padronização favorece o controle e a
ordem social, proporcionalmente ao grau de uniformidade sociocultural
e psicossocial. A difusão cultural insere-se na sociedade de consumo e,
usando o sistema de comunicação de massa como principal veículo,
ativa e expande o significado sociocultural da uniformidade
multiplicada.

A padronização comportamental resulta simultaneamente do


condicionamento psicossocial que, por motivos econômicos, políticos e
ideológicos, promove a homogeneização das estruturas mentais, e do
desejo de identificação social, amplamente difundido pelo consumismo
doutrinal. O uso de recursos tecnológicos a serviço da comunicação e do
condicionamento acelera e aprofunda o processo de massificação. Na
massa, promove-se simultaneamente a homogeneidade axiológica e uma
certa heterogeneidade das aparências e dos valores superficiais.

A padronização das estruturas psíquicas é sustentada e fortalecida pelas


opções comportamentais diversificadas, que são oferecidas, como
estratégia, em relação à periferia do sistema de valores e às áreas
secundárias da organização social. A padronização é maior nas
sociedades pós-industriais, como resultado da organização centralizada
e automatizada; a diversidade psicossocial torna-se uma hipótese cada
vez menos provável, na medida em que a origem e o teor do
condicionamento se reduzem aos elementos geradores de um único
sistema cibernético.

A universalização sistêmica, produzida pela sociedade tecnológica,


transforma a padronização comportamental num processo natural; a
socialização cibernética tem como resultado inevitável a uniformização
comportamental. O homem reflete os agentes que o condicionam: sendo
as máquinas os principais agentes desse condicionamento, restará
apenas a diversidade funcional, sendo estabelecida a unidade estrutural.
Esta é a condição básica para permitir, no plano comportamental a
efetivação de um autêntico sistema social, onde a organização é uma
realidade concreta, ao nível social e não apenas no campo cibernético.
Despersonalização, alienação e adestramento são fatores inerentes ao
processo de padronização.

Já as culturas mais antigas tentaram instaurar uma igualdade entre os


homens, no plano emocional, na estrutura mental e mesmo na
interiorização de tabus. A homogeneização é um esforço sociocultural
provocado pelo crescimento da complexidade da organização social.
Simultaneamente desenvolve-se um esforço jurídico, de origem político-
ideológica, para institucionalizar a igualdade de direitos e deveres,
tentando estabelecer uma igualdade formal e externa.

São constantes, através da história, os esforços de homogeneização


emocional, mental e jurídica. No campo doutrinal, a filosofia antiga
promoveu, mais ou menos inconscientemente, um certo tipo de
homogeneidade abstrata, ao conceber uma natureza humana, como
generalização essencial; é uma concepção acientífica, dificilmente
fundamentável, mas representa uma fórmula intelectualizada de
homogeneização, na afirmação de uma essência de uma natureza
humana igual e da existência concreta, circunstancialmente diferente.
Podemos fazer uma transferência desta concepção filosófica para o
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plano da axiologia social, colocando ao nível da essência os valores


sociais centrais e, ao nível da existência os valores sociais secundários
ou periféricos.

A sociedade cibernética encontrou os instrumentos necessários à


efetivação da homogeneização em escala universal. A difusão cultural e
a manipulação ideológica haviam alcançado, nas sociedades
tradicionais, um certo grau de igualdade estrutural; a religião, a
moralidade, a erudição e a educação sempre foram usadas com esse
objetivo. Nas sociedades pós-industriais, a implantação da cultura de
massa, de caráter universalizante e padronizante, apoiada na
abrangência e na eficiência do sistema de comunicação eletrônica,
aprofundou as características massificantes do modo de pensar, sentir e
agir dos indivíduos. A redução cultural de homem a um número ou peça
de uma engrenagem não significa apenas sua despersonalização, mas
também uma espécie de redução psicossocial e axiológica a padrões
uniformes. Como resultado desta uniformização globalizante,
concretizou-se a gênese de estruturas internas idênticas em todos os
indivíduos, na medida em que elas refletem cada vez mais claramente o
modelo social único que os condiciona.

A mudança que pode ser observada nas sociedades tradicionais é quase


sempre superficial e de escassa freqüência. Tais sociedades, quer pelo
domínio privilegiado de classe, quer pela estrutura institucional,
promovem a perpetuação de um sistema de valores onde o passado é
mais importante que o presente e o futuro.

O conservadorismo que alimenta essas sociedades mantém uma


estrutura axiológica cujo centro é inalterável, permitindo mudanças
apenas em sua periferia. Deste modo, as mudanças estruturais são
praticamente inexistentes; permitem-se e, às vezes, fomentam-se
mudanças superficiais, como forma de sustentação do sistema e
fortalecimento dos valores centrais. O desenvolvimento científico e
tecnológico tem produzido o crescimento da mudança, de forma
aprofundada e acelerada.

As mudanças sociais são cada vez mais abrangentes, devido à


universalização cultural; o grau de profundidade ultrapassa a periferia
do sistema e começa a atingir o centro; o dinamismo que domina a
ciência e a técnica se reflete na organização social e em sua estrutura
axiológica, comprimindo a freqüência das mudanças em crescente
aceleração. A mutação social é algum tipo de inversão efetuada nos
valores que centralizam o sistema, sendo, portanto, uma mudança
estrutural.

Se nas sociedades pré-industriais, as mudanças estruturais são raras,


podemos afirmar que, nas sociedades pós-industriais mais avançadas,
dominadas pela cultura cibernética, tais mudanças também não são
prováveis. Mas, numa fase de transição profunda, - como a que se opera
na cibernação da sociedade, - as mutações são freqüentes. Valores
centrais são substituídos: passa-se do trabalho para o lazer, da
emotividade para a racionalidade, da moralidade para a lógica, do
espiritualismo para o materialismo do antropocentrismo para a
mecanocracia. Estas e outras sociomutações, na centralização
axiológica, caracterizam uma situação passageira da evolução social:
após o sistema sociocibernético estar plenamente implantado, volta-se à
estabilidade orgânica e à mudança periférica controlada e planejada. Se
a resistência humana à mudança é um problema social, maior é o da
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resistência à mutação; daí, talvez só o desaparecimento dos reacionários


`a nova ordem cibernética ou sua marginalização sistêmica possam
efetivar plenamente a nova estabilidade.

A quantidade e amplitude das mudanças operadas na sociedade, a


aceleração crescente das mutações, determinada pelo dinamismo
tecnológico ultrapassa as perspectivas de mudança, prevista na
sociedade pré-cibernética. A mudança é ultrapassada pelo seu próprio
fluxo; a cultura, marcada por um movimento relativamente lento, é
ultrapassada pela evolução científica e pelo avanço técnico; a estrutura
mental e emocional do homem é ultrapassada pela inteligência artificial;
o homem é substituído pelo cibernantropo.

A aceleração tecnológica cria uma situação paradoxal: a convivência


permanente da obsolescência com a mutação. Muitos indivíduos não
conseguem acompanhar o ritmo das mutações operadas dentro do
contexto social. A transmutação pode situar-se no plano da superação da
emotividade pela racionalidade, da ética pela lógica, do homem pela
máquina, da organização institucional pelo sistema cibernético.

Pode verificar-se uma necrose crescente das instituições em que há


predominância da emotividade e das relações interpessoais. Os sistemas
caricaturais que regem as sociedades tradicionais são mecanizados e
reduzidos a um sistema social único: o sistema sociocibernético. As
mutações atingem um nível de profundidade e amplitude em que se
vislumbram duas alternativas: a superação da mudança pelo grau de sua
própria aceleração e a efetivação do controle da mudança continuamente
planejado.

A transmutação significa também o estágio da evolução onde a mudança


não produz mais o desajustamento, a resistência à mudança ou a
desorganização; a superação se situa nas características comuns da
mudança das sociedades tradicionais; nestas há aversão pela mudança e
as instituições se opõem às mudanças, só as aceitando quando não existe
outra saída. Isto quer dizer que, sob o prisma da organização social pré-
cibernética, a mudança social é um tumor indesejável.

Na sociedade cibernética, a mudança é absorvida como parte natural do


sistema e, em vez de ser rejeitada pelo centro de decisão, como acontece
nas sociedades tradicionais, é promovida a partir do próprio sistema,
sobre seus terminais mecânicos e humanos. A nova sociedade é
dinamicamente estável e planificadamente mutável.

...

Sempre restam algumas dúvidas sobre as perspectivas do futuro


tecnológico. Pode-se indagar se democracia pode conviver com sistema.
Pode-se perguntar se o devaneio democrático não seria apenas um
mecanismo ideológico de sustentação totalitária. Ou, então, se a lógica
não seria, no plano social, a única democracia real. Pode ainda levantar-
se a possibilidade de um sistema sociocibernético ser apenas uma forma
eficaz de globalitarismo. Pode também questionar-se o modelo
organizacional humano, emotivo e dominador, gerando a antítese da
necessidade da democracia participativa, confrontando-o com o modelo
cibernético, lógico e igualitário, como superação da contradição do
humanismo tradicional...

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Delfim Soares é sociólogo, doutor em Filosofia e professor do Mestrado


em Comunicação da UFF.

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