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RESENHA/REVIEW

CERBONE, David R. Fenomenologia. Tradução Caezar Souza. 2. ed. Petrópolis, RJ:


Vozes, 2013. 292 p.

Por/By: Mauricio dos Reis Brasão


(Universidade de Uberaba)

Palavras-chave: Fenomenologia; ...

David Cerbone é professor de filosofia na West Virginia University – Reino


Unido, onde se especializou na filosofia continental do século XX. Sua pesquisa em curso
centra-se, sobretudo, na tradição fenomenológica (com ênfase no trabalho de Martin
Heidegger e Edmund Husserl), Wittgenstein e filosofia analítica inicial. Nesses estudos
ele busca a compreensão e critica de problemas filosóficos tradicionais (por exemplo,
aqueles orientados em torno do ceticismo, realismo e idealismo), bem como pontos de
vista filosóficos dominantes, especialmente o naturalismo em várias formas
(Cientificismo, fisicalismo, materialismo). Seu trabalho mais recente refere-se às
relações, muitas vezes antagônica, entre fenomenologia e naturalismo científico. Dentre
suas obras estão: Understanding Phenomenology (2006) e Heidegger: A Guide for the
Perplexed (2008).
Resenhar uma obra sobre fenomenologia exige o entendimento de um vocabulário
e conceitos o qual se amplia na própria leitura do livro. Assim, Cerbone, de forma
detalhada, delineia o desenvolvimento histórico da fenomenologia, começando com seu
fundador Edmund Husserl e seus conceitos de uma “fenomenologia pura ou
transcendental”, e continuando com a descrição da “fenomenologia existencial” de
Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty. Sem dúvida, as figuras
mais famosas no movimento fenomenológico. Assim, é dedicado um capítulo a cada um
deles, e o capítulo final examinará várias respostas críticas à fenomenologia.
Há muitas outras figuras significantes na tradição fenomenológica, tais como Max
Scheler, Eugen Fink, Alfred Schutz, Edith Stein e Paul Ricoeur, que não são muito citadas
neste livro. Para o autor, a omissão de nenhum modo significa sugerir que suas
contribuições para a fenomenologia são desinteressantes ou desimportantes, embora
entender suas contribuições geralmente pressuponha alguma compreensão dos trabalhos
e ideias que são consideradas na obra.
Marcado por nítida preocupação didática, Cerbone utiliza dos boxes que
acrescentam esclarecimentos e subsídios à compreensão do leitor; também, ao término de
cada capítulo, são destacados sumários dos pontos-chave que colaboram ao convite a uma
nova leitura e fixação dos conteúdos. À guisa de conclusão, do mesmo modo, em vez de
uma conclusão, o autor coloca em destaque um tópico intitulado Questões para discussão
e revisão, resumo esquemático de cada capítulo. Um convite riquíssimo ao debate e à
reflexão.
Dividida em cinco capítulos, a obra inicia-se com um tópico que possui uma
tessitura diversa das introduções convencionais, geralmente afeitas à apresentação de
conceitos, temas, componentes teóricos que subsidiam aqueles que seriam os princípios
de uma doutrina ou investigação. Contudo, nesse livro, a abertura a esses elementos dá-
se por meio de uma série de exercícios. Assim, de uma forma relacionada, o autor exerce
interação com o leitor conduzindo-o a pensar de forma fenomenológica. Segundo
Cerbone (2013, p. 204), “a fenomenologia nos convida a ficar com o que chamamos aqui
‘a própria experiência’, para nos concentrarmos em seu caráter e estrutura, em vez de no
que quer que possa subjazer a ela ou ser causalmente responsável por ela”. Assim, o autor
parte de questionamentos: mas o que podemos aprender ou discernir, ficando com a
própria experiência? Que tipo de insights podemos obter e por que podem importar
filosoficamente? As respostas a essas perguntas são examinadas ao longo da obra. Como
um exemplo, o autor mostra que uma visão da página do livro aberto diante de nós, revela
que o ver fenomenológico seria aquele que se ocupa de inspecionar o modo com o qual
tal visão se dá. Experienciamos, assim, que a fenomenologia seria o ver que atenta para
o visto e para o modo com que este é experiência fenomenal da consciência ou, como diz
o autor com suas palavras: “[...] prestar atenção à experiência em vez de àquilo que é
experienciado é prestar atenção aos fenômenos” (CERBONE, 2013 p.13). É no avanço
de seu exercício que conceitos e posições de base da fenomenologia são gradativamente
aplicados.
Com uma apresentação de vida e obra de Husserl, intitulado Husserl e o projeto
da fenomenologia pura o primeiro capítulo é introduzido. Na sequência, há um esforço
de caracterizar a fenomenologia como um ante naturalismo. A fenomenologia seria modo
de pensar que confronta a maneira natural com que a consciência assume supostas
verdades e princípios e, mesmo, estende tais preconceitos a modos pretensamente mais
qualificados, como seriam as ciências. Após, noções da fenomenologia metódica de
Husserl, como “redução fenomenológica”, “descrição fenomenológica”, “noese e noema”
e “a constituição do ego” aglutina este tópico, o que dá conta de uma exposição da
fenomenologia husserliana e de seus desdobramentos em chave transcendental. Há uma
descrição acerca de fenômeno e fenomenologia, sob vias de conceptualizações.
Cerbone aponta a fenomenologia como uma escola filosófica iniciada na
Alemanha no fim do século XIX e primeira metade do século XX, tendo como precursor
Edmund Husserl. Ao apresentar uma definição para fenomenologia - palavra constituída
de duas partes de origem gregas: fenômeno, que significa “aquilo que se mostra” e “logia”
que deriva de logos e pode significar pensamento. Nessa perspectiva, conceitua-se
fenomenologia como reflexão (pensamento) sobre aquilo que se mostra.
Intitulado Heidgger e a virada existencial, o segundo capítulo expõe a
fenomenologia de Martin Heidegger. São postos o projeto de sua ontologia fundamental,
o aspecto fenomenológico deste empreendimento, o peso que o conceito de compreensão
recebe no seio deste projeto híbrido de hermenêutica, e outros conceitos que caracterizam
a tentativa heideggeriana de uma fenomenologia em bases existenciais. Não existe neste
capítulo sobre Heidegger qualquer conteúdo referente à sua filosofia tardia, o que se
explica por Cerbone entender que a fenomenologia heideggeriana está compreendida
entre os anos 1919-1929, período denominado de “década fenomenológica”. (p.65)
No terceiro capítulo Sarte e a subjetividade, são descritas as circunstâncias
pitorescas do encontro do francês Jean-Paul Sartre com a fenomenologia e se delineia o
caminho do pensamento fenomenológico de Sartre (do caráter ensaístico de A
transcendência do Ego à maturidade de O ser e o nada). Boa parte do tópico privilegia a
crítica do francês à concepção husserliana de “ego puro”, pois, para o primeiro, ao
contrário do outro: “[...] o ego não está formal nem materialmente na consciência: está lá
fora, no mundo. É um ser do mundo, como o ego dos outros”. (p.111).
Assim, Cerbone assevera que a fenomenologia de Sartre fundamentalmente
implica a completa responsabilidade do sujeito humano por sua própria existência - revela
a dimensão ética total de sua filosofia.
O quarto capítulo, intitulado Merleau-Ponty e a fenomenologia da corporificação,
se constrói em torno do argumento de que o francês reabilitara algumas das questões da
fenomenologia transcendental de Husserl – sobretudo as de Ideias II – em sua
fenomenologia da corporeidade. A integralidade desse capítulo se beneficia, portanto, de
uma apresentação dos termos das investigações merleau-pontyanas sobre a experiência
fenomenológica do corpo, privilegiando a obra Fenomenologia da percepção. Mais do
que estes pontos previsíveis numa apresentação sobre Merleau-Ponty, é digno de nota
nesse tópico o mapeamento que Cerbone faz das relações que o fenomenólogo teria com
a psicologia da Gestalt e com a psiquiatria de Kurt Goldstein. Aqui, nos remetemos ao
prefácio da Fenomenologia da Percepção, em que Merleau-Ponty (1984) faz uma re-
leitura da fenomenologia husserliana, na qual critica o idealismo transcendental e
transpondo a essência idealista para a existência real em fenomenologia o autor escreve
que a fenomenologia é o estudo das essências; e todos os problemas, segundo ele, voltam
a definir as essências, por exemplo a essência da percepção, a essência da consciência.
Percebe-se que a leitura que Merleau-Ponty faz de Husserl privilegia a posição de
Heidegger, ao contrário de uma leitura essencialista. Para aquele, a busca das essências
é, nada mais, que um meio de revelação da existência ou veracidade em que não se pode
pensar a essência desvinculada do mundo. Dessa forma, a noção de verdade em Merleau-
Ponty caminha, então, na direção do sentido que aparece e desaparece, escapa, na
opacidade do mundo. Por esse viés, o autor concebe o conhecimento como sempre
inacabado, não existe absoluto.
No capítulo final, Problemas e perspectivas: a fenomenologia e seus críticos,
Cerbone revela ao leitor um conjunto de indicações de como a fenomenologia vem sendo
tratada nos últimos anos por filósofos como Jacques Derrida; uma análise das críticas
passíveis de serem colocadas por pensadores não vinculados à fenomenologia (como é o
caso de Daniel Dennett) e a conjugação de argumentos e réplicas que nos permitem
avaliar o espectro desse modo de pensar no âmbito da filosofia em geral.
Neste capítulo, Cerbone desvela a fenomenologia de uma perspectiva mais crítica,
explorando algumas concepções que tentam, de diferentes modos, expor os limites para
a investigação fenomenológica ou, mais radicalmente, revelar falhas subjacentes. São
consideradas três dessas perspectivas críticas – as de Emmanuel Lévinas, Jacques Derrida
e Daniel Dennett – que estão conectadas por algumas similaridades intransitivas.
Assim, de acordo com o autor, (2013, p. 143), a posição de Lévinas é similar em
alguns aspectos à de Derrida, e a de Derrida é similar em alguns aspectos à de Dennett,
já entre Lévinas e Dennett, o autor afirma deparar dificuldade para encontrar qualquer
similaridade. Dos três, Lévinas e Derrida estão mais intimamente vinculados à tradição
fenomenológica.
As linhas de vinculação são em cada caso múltiplas, abrangendo vinculações
culturais, cronológicas e, de modo mais importante, filosóficas.
Em suma, ao fim das duzentas e sessenta e duas páginas de Fenomenologia,
apreciamos o êxito do autor em fornecer uma visão de cada figura fenomenológica e de
trabalhar algumas de suas principais ideias, atenuando as dificuldades próprias a este
pensar. Nesse momento, o leitor também poderá experimentar a impressão de ter lidado
com um dos bons intérpretes da fenomenologia em língua inglesa, como Hubert Dreyfus
e Charles Guignon. Tal impressão não seria casual, afinal, Cerbone agradece a estes que
foram seus mestres, declarando inclusive sua vinculação acadêmica a outros nomes
importantes na cena da fenomenologia, como: Jeff Malpas, Mark Okrent, Mark Wrathall
e William Blattner.
A presente obra é uma fonte riquíssima de reflexão que nos possibilita
compreender os vários modelos de pesquisas fenomenológicas, ainda que divergentes em
tantos outros aspectos são unânimes em alguns, o que aliás diz de seu caráter
fenomenológico, apesar de suas diferenças. Entre estes, a busca do significado da
experiência será o sempre o fim último da pesquisa fenomenológica. O que será diferente
será o modo de compreensão deste significado. Ele poderá ser uma compreensão idealista,
e aí a descrição buscaria alcançar a essência, dentro de um modelo husserliano mais
tradicional, idealista. Ou poderá ser uma compreensão mundana, dentro da visão merleau-
pontyana, de modo eminente crítica.
Fenomenologia fornece um guia conciso e acessível a uma das mais importantes
escolas de pensamento da filosofia moderna. Cada capítulo fornece um excelente resumo
dos refinamentos que cada filósofo trouxe para as ideias centrais do movimento e explica
claramente aos leitores como a fenomenologia deixou de ser primariamente uma teoria
do conhecimento e tornou-se um novo método de pesquisa.
A obra carece de ser lida, pois orienta o leitor ao longo do espectro muitas vezes
confuso de conceitos técnicos e jargão, ao fornecer explicações claras e exemplos úteis
para atrever-se e intensificar a imersão nos textos primeiros. É muito adequado para
cursos de filosofia e educação do século XXI, também, para o pesquisador que busca uma
visão geral autorizada.

Referências complementares

CERBONE, David R. Understanding Phenomenoly. Michigan: Acumen, 2006.


CERBONE, David R. Heidegger: A Guide for the Perplexed. New York NY:
Continuum, 2008.
MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 1984.

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