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Revisor ou preparador: Texto”, composta por Lucila Lombardi mento de Jornalismo e Editora-

(Companhia das Letras), Cide Piquet ção, em sua fala sobre as figuras
(Editora 34), Jiro Takahashi (Editora do preparador e do revisor
Os Papéis dos Profissionais do Texto Nova Aguilar e outras) e Thiago Mio Sal- em manuais de editoração
la (eca/usp), propôs a reflexão em torno em língua portuguesa, questionou
do assunto, com destaque para a prepa- se a atual imprecisão dos ofícios desses profissionais
Seminário A Arte de Editar Textos realizado na ECA/USP debate as diferentes facetas do ração de originais, num esforço de valo- não estaria vinculada a sua historicidade. Desde tem-
trabalho de revisão rizar o processo de produção do texto e pos longínquos existe o que hoje podemos associar
os profissionais nele envolvidos. à preparação e revisão de texto. Mas essa era apenas
Raíssa Cardoso uma das diversas atividades realizadas por uma mes-
Revisor ou preparador? A começar
ma pessoa: na Antiguidade, por exemplo, os biblio-
pela falta de consenso na própria ter-
tecários da Biblioteca de Alexandria exerciam uma
minologia, a definição das funções da
profusão de funções, pois eram, entre outras coisas,

E ntre a aprovação de um original


para publicação e a sua impressão
em forma de livro, há todo um traba-
profissão parece encerrar contradições,
ambiguidades e indefinições que, se
por um lado dizem respeito ao caráter
copistas, preparadores de texto e filólogos. Ao longo
da história, observa-se uma crescente especificação
e padronização das funções na cadeia produtiva do
lho de preparação do texto (também diversificado das atividades desempe- livro e é apenas tardiamente, a partir do século xix,
conhecido como revisão de original) nhadas, por outro acabam trazendo que as atividades do revisor e preparador de texto ga-
que, muitas vezes, permanece des- problemas aos profissionais da área. nham estatuto próprio. É possível que, por isso, ainda
conhecido pelo leitor. Seja no caso Thiago Mio Salla, professor do Departa- hoje, elas não sejam tão claramente definidas, sendo
da edição de um livro de culinária ou para trás e se a vistas de modos diversos, dependendo, muitas vezes,
de ensaios filosóficos, nenhuma obra formatação em da casa editorial.
é publicada sem passar por esse pro- relação ao proje- Lucila Lombardi ressaltou que o “preparador ideal”
cesso, anterior mesmo à diagramação, to gráfico aprova-
destaca-se por apresentar múltiplas qualidades que,
que pode incluir desde a normalização do está correta.
por vezes, se mostram contraditórias. Além de disci-
(uso de maiúsculas, do itálico etc. em Em abril de 2017 foi plinado, organizado, concentrado, confiável, descon-
conformidade com os padrões da edi- organizado, em come- fiado e confiante, o preparador deve ser ousado o bas-
tora), a revisão ortográfica, gramatical, moração aos cinquenta tante para corrigir e propor melhorias, mas também
Re
estilística, até a reescrita do conteú- anos da Escola de Comuni- pr
od prudente para não cometer erros ainda piores. Prin-
cações e Artes (eca), o semi- çãu
do. Além disso, há também a chama- o/
vu
cipalmente no trato de obras literárias, ele precisa ter
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da revisão de prova, realizada no fim nário A Arte de Editar Textos, i aç
ão
a sensibilidade apurada para mergulhar na linguagem
do processo de editoração textual, em ocorrido no Auditório Freitas No- do autor, para compreendê-la e respeitá-la e, simul-
provas impressas e paginadas, em que bre do Departamento de Jorna- taneamente, possuir frieza para se afastar do texto,
se fazem os últimos ajustes necessários: lismo e Editoração da faculdade. A lê-lo criticamente e, assim, poder apontar seus pon-
verifica-se se algum erro de grafia, mor- mesa intitulada “Revisor ou Prepa- tos fracos. É preciso que ele domine as normas e, ao
fologia, sintaxe e semântica foi deixado rador: Os Papéis dos Profissionais do mesmo tempo, nunca confie na memória: anotações

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Reprodução/Divulgação
valorizada. Tanto Cide, como Jiro Takahashi men-
cionaram o fato de esse trabalho ser feito, em geral,
por profissionais terceirizados, mal remunerados. À
precarização se alia ainda a já mencionada indefini-
ção de suas funções, com implicações não só para o
produto final, como também para as próprias con-
dições de trabalho do preparador. É frequente, por

Foto: Lara Cammarota e Isabella Sato


exemplo, que recaiam sobre ele todas as exigências
que, idealmente, seriam divididas entre outros pro-
fissionais.
O diálogo entre o editor e o preparador, por meio
do qual se definem as diretrizes a serem seguidas,
foi destacado por todos os palestrantes do encon-
tro como um aspecto essencial no trabalho de pre-
paração do texto. Jiro afirmou que, devido às atuais
Seminário A Arte
de Editar Textos,
demandas mercadológicas e à exigência de agilida-
ocorrido na Escola de na produção editorial, a falta de comunicação é
de Comunicações o principal problema na relação entre os profissio-
e Artes - USP. nais envolvidos no processo de edição textual. Não
existe uma norma geral que delimite como escritos
e materiais de consulta (gramáticas e dicionários) reconhecida, o trabalho de preparador criativo, em que o preparador trabalha devem ser preparados. Em vista disso, é primordial
são instrumentos de trabalho essenciais para fun- acaba relativizando ou, como diz An- em diálogo com o autor ou o tradutor, que haja um planejamento geral e um ajuste entre as
damentar as correções. O preparador se inscreve em tônio Houaiss na obra Editoração Hoje, procurando soluções artísticas que po- duas partes. Sem isso, o preparador acaba sofrendo
um tempo intermediário entre o passado (em que o “violentando” o conceito tradicional de tencializem o texto literário. O conceito duplamente: durante a correção do texto – em que
autor concebe o original) e o futuro (em que o leitor autoria. É certo que há diversos graus de autoria, aqui, se amplia, passando a ele não sabe qual direção tomar –, e depois, quando
se apropria do livro), servindo de ponte entre ambos de intervenção em um texto, que va- abarcar também a figura do preparador, é julgado pelo editor, caso tenha tomado decisões
e lidando com diferentes vozes que se impõem ao riam de acordo com cada caso, mas há que não recebe, entretanto, o devido que não condiziam com o esperado.
texto. Além de correções normativas, o preparador livros que exigem ser parcial ou comple- reconhecimento. Quando muito, seu Em todo caso, apesar das discrepâncias e inexati-
deve também mobilizar a criatividade para encon- tamente reescritos pelo preparador, por nome aparece na página de créditos ou dões que permeiam a profissão de preparador ou re-
trar soluções mais adequadas ao texto sem, entre- apresentarem problemas estruturais ou no colofão (informações sobre a edição visor de texto, sua figura é fundamental na cadeia
tanto, tentar se sobrepor ao autor. de inadequação em relação ao público expressas ao final do livro). produtiva do livro e, como disse Jiro, insubstituível
Assim, surge outra ambiguidade da profissão: a ou à mensagem. E há também os tex- Vemos aí outra contradição própria por qualquer tipo de tecnologia. Muitas vezes, nesse
intervenção no texto de outra pessoa poderia ser tos literários que permitem um grau de da profissão: apesar de ela exigir forma- contexto de produção massificada, em que editores
considerada apenas um trabalho a serviço da arte intervenção mais “radical” e “sofistica- ção extensa e contínua, inclusive em di- ou produtores editoriais gerenciam várias obras ao
ou, em sentido mais elevado, um ato artístico? De do” e, nesse caso, como comentou Cide ferentes línguas e em diversas áreas de mesmo tempo, o preparador é o único a ler minu-
todo modo, ainda que de forma velada, tácita, não Piquet, a preparação se torna um ato conhecimento, ela costuma ser pouco ciosamente o texto antes de ele ser publicado, cor-

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Foto: Lara Cammarota e Isabella Sato
O público presente no
seminário (esq.)

rigindo-o e aperfeiçoando-o tanto quanto possível como uma “leitura angustiada”. E é justa-
dentro do prazo que lhe é dado. mente para poupar o resto da humanidade
Acolhendo o erro como algo normal e humano, dessa leitura que esses profissionais traba-
a revisora francesa Sophie Brissaud disse, em arti- lham: eles vivem para absolver os erros dos
go publicado no periódico Cahiers GUTenberg, que outros. Sendo ou não “redentores” de tex-
o verdadeiro revisor é aquele que sabe nada saber tos, uma coisa é certa: mais do que essen-
e, por isso mesmo, duvida, desconfia de tudo. A cial, suas funções inelutavelmente perdura-
partir disso, ela definiu o exercício do seu ofício rão ao longo do tempo. Seja um best-seller,
seja uma obra literária mais sofisticada, um
texto nunca estará isento de
erros e sempre exigirá olhares
“angustiados” de revisores e
preparadores. ad

Jiro Takahashi e Lucila Lombardi


(esq.) e Jean Pierre Chauvin, Cide
Piquet e Thiago Mio Salla (abaixo,
da esq. para a dir.)
Fotos: Lara Cammarota e Isabella Sato

*Elaborado a partir da apresentação de Jiro Takahashi, no seminário A Arte de Editar Textos, de sua adaptação
da obra The Copyeditor’s Handbook, de Amy Einsohn.

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