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Metodologia: conceitos e a lógica do método científico

7 METODOLOGIA: O MÉTODO CIENTÍFICO E A LÓGICA


Os estudos do raciocínio e de suas condições formais de validade (a lógica formal) e do conjunto
de regras, princípios, técnicas, métodos (...) que o pesquisador aplica para desenvolver uma experiência
controlada, testar e observar fatos e acontecimentos, analisar e inferir de forma a relatar as suas
conclusões de explicação, de solução (...) (o método científico) são imprescindíveis não apenas para
acompanhar o que se escreve em revistas especializadas (HEGENBERG, 1975), mas, para facilitar e
fundamentar os exercícios da ciência e da investigação ao escolher um “caminho” e pelo “estudo
sistemático e lógico dos princípios que dirigem a pesquisa científica” (FGV, 1987, p. 754) procurar a
“verdade”, vale dizer os fatos, proposições, enunciados e argumentos verdadeiros que essa abstração, a
“verdade” permite, com as devidas ordem e orientação eficiente.
Na explicação 1 e na solução, 2 apenas para mencionar dois objetivos da pesquisa realizada com
o método científico e a lógica, evidenciam-se atividades mentais que se apóiam na lógica lingüística,
na atividade do raciocínio e na noção de significado, no modo pelo qual se atribuem significados aos
múltiplos termos ou sentenças da linguagem.
O exame sistemático e lógico de princípios (pressupostos, fundamentos, condições para a correta
aplicação de técnicas e métodos...) e potencialidades de todos os instrumentos da pesquisa científica,
desde supostos teóricos da metodologia até procedimentos de caracterização do objeto alvo de
observação e registro com o dado e informação; de pré-tratamento, sínteses e análise dos atributos,
variáveis, em foco da pesquisa; e de teste-inferência e comunicação de resultados, compreendem
regras e conceitos que o pesquisador precisa conhecer e, quando necessário (quase sempre) e aplicar
adequadamente na pesquisa. Neste sentido, todo pesquisador:
a) preocupado apenas com a utilização mecânica e habitual-linear de procedimentos, técnicas e
métodos de pesquisa que faz, às vezes, de maneira inconsciente e/ou com orientações estáticas e
defasadas obtidas de um manual da ciência–estoque, de um manual de metodologia simplista;
b) omisso no estudo, entendimento e aplicação de fundamentos, pressuposto e princípios da
metodologia necessários para aplicá-la com consistência na obtenção-e-tratamento de dados e
informações;

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Explicação do lat. explicatìo,ónis, ação de desdobrar, de desenrolar; exposição, esclarecimento, interpretação; do rad.
explicátum, explicáre, abrir, desenvolver, desdobrar, desembaraçar, desenredar, acabar, concluir; por definição
racionalista, pela explicação se mostra que uma proposição verdadeira é a conseqüência lógica e necessária de alguma
coisa com conexões necessárias pela análise lógica de idéias.
Solução, do lat. solutìo,ónis, decomposição, desprendimento, separação, resolução; resposta “correta” a uma questão de
prova, de problema
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Solução, do lat. solutìo,ónis, decomposição, desprendimento, separação, resolução; resposta “correta” a uma questão
de prova, de problema
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c) descuidado com os princípios e regras do raciocínio e da lógica do “bem” pensar para


potencializar a sua criatividade e “melhor” comunicar suas idéias, portanto, sem reflexão e análise
crítica;
É incapaz de discernir e decidir acerca do sentido e dos fundamentos da própria investigação.
Os conhecimentos que incluem, mas não estão limitados, descrições, hipóteses, conceitos,
teorias, princípios, pressupostos da metodologia, explicações, soluções..., úteis e/ou verdadeiros e a
aplicação adequada de critérios da lógica (regras, axiomas... que permitem a fundamentação racional
de uma escolha e decisão, de uma deliberação e afirmação com autoridade e legitimidade) são
fundamentais para se articular a teoria (utilizada, p.ex., para responder questões, tais como as de
explicações, como resolver, como levar a solução, como avaliar o efeito tecnológico e para fazer
contrastes como os de testes, verificação, validações etc.) com a realidade empírica (o que resolver?),
conforme um conjunto de requisito tanto da lógica formal como do método científico.
A essencialidade do conhecimento da metodologia decorre e/ou é intrínseca à definição do
método científico. Um método que pode ser definido como um conjunto de procedimentos, de
conceitos, de técnicas e de regras - princípios básicos (p.ex. da falsificabilidade - falseabilidade -, das
aproximações sucessivas, da parcimônia ou Navalha de Occam etc.) utilizado pelo pesquisador para
planejar e desenvolver uma experiência controlada com o propósito de observar (medir, registrar,
avaliar etc.), testar e inferir acontecimentos que lhe permitam chegar a conclusões e, se válidas ou
aceitas pelo teste sob certas condições, aplicá-las à ciência e na “solução” de um problema.
O método científico compreende várias fases, tais como:
a) Prospectar e observar um fato (fenômeno, objeto, situação, condição, comportamento etc.) da
realidade que se coloca no foco da pesquisa e formular um problema ou definir uma
oportunidade dessa realidade para seu tratamento pelo método científico.
b) “Traduzir” o problema ou a oportunidade para o método científico com propostas de hipóteses,
integrando teoria desse método com a realidade objeto de investigação.
c) Realizar experiências controladas com base em princípios, em regras..., do método, para testar a
validade (aceitação ou não) das hipóteses formuladas.
Entenda-se por experiência controlada a realizada com procedimentos, técnicas, métodos
específicos (...) que permitam, entre outras finalidades da qualidade e efetividade da pesquisa,
descartar variáveis passíveis de mascarar o resultado e/ou variáveis de menor importância e fora
de controle nos procedimentos experimentais.
d) Analisar os “dados” e “informações” de valor e significado para a investigação, obtidas da
realidade e resultados de síntese, integrações, pré-avaliações de consistência etc., para gerar /
adaptar informações de novos conhecimentos com base no que é observado (com especial
percepção e curiosidade), medido (com cuidado) – registrado com evidência, tratado com
eficiência (...) e submetido às leis do raciocínio. Nesta fase da pesquisa se estabelecem leis
científicas que são generalizações feitas com sustentação nos dados estudados. Tais leis não são
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Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

explicações do porquê daquilo, mas descrições do fenômeno, fato, objeto (...) no foco da
investigação.
e) Obter (inferir) e apresentar conclusões, isto é, informações essenciais daquilo que anteriormente
foi exposto, testado, provado e/ou explicitado com base, repetindo, em observações, análises e
inferências de raciocínios ou discussões. Essas conclusões poderão ser teses que fecham um
raciocínio e resultados de processos dedutivos, na lógica tradicional, implicitamente contidos em
premissas e cuja verdade (ou falsidade) depende do caráter verdadeiro (ou falso) dessas
premissas.
O resultado apresentado (justificado, “verdadeiro” –dentre os limites e condições da ciência - e
com “credibilidade”) dos processos da investigação permite, entre outras finalidades da pesquisa, fazer
previsões de acontecimentos e, em conseqüência, “controlar” situações ao agir com oportunidade. Tal
conceituação coloca, de forma explícita, a necessidade de se articular - integrar a teoria aplicada na
geração / adaptação – e difusão do resultado com a realidade empírica objeto de investigação, de
melhoria com esse resultado. Isso é possível (condição necessária) quando, entre outras, o pesquisador
conheça tanto a teoria a aplicar com “critérios” numa determinada realidade no foco de sua pesquisa,
como a realidade empírica a ser tratada com o resultado do gerado / adaptado com a utilização do
método científico.
Nas condições essenciais para se ter a articulação e integração entre teoria e realidade, associadas
ou dependentes do conhecimento, repetindo, tanto teórico (pressupostos e princípios de técnicas e
métodos) como da realidade (suas características), ainda que com limitações, aparecem, segundo
Piaget (1973; complementado), relações entre a lógica: suas regras, princípio, axiomas etc.; a
metodologia: seus conceitos e/ou elementos abstratos e suas técnicas e métodos com seus pressupostos;
e a epistemologia: reflexões acerca das ciências e suas etapas - fases e dos limites do conhecimento
com base em relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo (o pesquisador) e o objeto
indagado (o alvo da investigação: o cliente), os dois lados de um processo cognitivo.
Quais são as regras no método científico contemporâneo, aplicadas na investigação? A relação
dessas regras e princípios poderá variar conforme sejam os pontos destacados e em foco por um e outro
autor e o viés que o orienta, em abordagens nem sempre comparáveis. As que seguem têm como fonte
Carvajal (2005; complementado e adequado ao texto), sintetizadas em dez categorias.
A primeira regra se refere ao conhecimento, à consciência que o pesquisador deve ter sobre o
que é e como é, à relação de adequação entre sujeito - objeto, decorrente, em parte, da atitude científica
para conhecer, da decisão racional nessa adequação, da ousadia para buscar (explicações, soluções...)
com responsabilidade e do reconhecimento de limitações diante desafios e propósitos da investigação.
Refere-se à tenacidade: perseverança e coragem na busca da verdade científica sem se conformar com
o comum e aceito sem reflexão (desconfiar do acabado), bem como sem f raquejar perante as
dificuldades, incertezas (...) na busca dessa verdade.
A segunda regra é não adotar juízos a priori; não admitir conhecimentos (dados e informações)
sem bases suficientes, sem evidências em observações e fatos, sem demonstrações e análises
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consistentes. Por esta regra se excluem os dogmas, opiniões não confirmadas e das quais não se exigem
testes – comprovações e, ainda, supõem-se fontes de verdades ordinárias, segundo Bunge (1985).
A terceira regra é a compreensão da realidade em “todos” os seus aspectos, vale dizer, nos
aspectos essenciais do objeto que se define na pesquisa. Implícito nessa compreensão se tem a ação
interdisciplinar das ciências, compreendida nesse objeto (aspecto teórico), ajustando-a conforme sejam
os elementos da realidade (aspecto prático).
Em decorrência do ajuste, da harmonia-integração da teoria à prática se tem a quarta regra:
avaliar e selecionar as fontes de informações com os propósitos da investigação: a necessidade e a
suficiência de uma base de informações com conteúdos consistentes para se atingirem os propósitos da
investigação: apenas os dados e informações necessárias.
A quinta regra, associada às anteriores, diz respeito ao uso adequado da observação, como um
procedimento científico de investigação relativo ao exame atento de um fato, de um processo, de um
resultado (...) e da experimentação, quando planejadas e desenvolvidas com objetividade, com a
representação fiel e necessária do objeto de pesquisa.
A sexta regra se refere à completa, atualizada e pertinente revisão de literatura sobre o tema em
foco da pesquisa. Essa revisão compreende as contribuições de “outros” autores na definição e nos
tratamentos - soluções de problemas de pesquisas semelhantes ao considerado pelo pesquisador. Sem
essas referências de antecedentes seria muito difícil, se não impossível, realizar a investigação com
contribuições originais. Nenhuma invenção, descobrimento, solução etc., foi feito à margem ou sem
fundamentos nessa revisão.
A sétima regra trata da análise e classificação de dados, informações, fatos e fenômenos
essenciais diferenciados dos secundários em função de determinados critérios. Compreende dados,
informações e relações determinantes e principais no objeto de pesquisa destacados e/ou separados dos
acidentais, dos de menor importância em relação ao que é definido e está no foco da pesquisa.
A oitava regra se refere à integração, em toas as fases, da investigação tanto a individual ou
disciplinar, especializada ou merológica (...) como a coletiva, integrada (equipe multidisciplinar e, pelo
acordo, interdisciplinar com resultados transdisciplinares) e de estruturas e sistemas (os que
compreendem o objeto e clientes da investigação: redes, parcerias, comunidades).
A nona regra se refere à exigência de atualização nos avanças da ciência e seu método científico,
constituindo-se em exigência básica para a atuação, com efetividade, do pesquisador. Deve-se
acrescentar que essa regra se insere em códigos de conduta do investigador. É o caso do pesquisador
servidor público ao qual é vedado: “deixar de utilizar os avanços técnicos e científicos ao seu alcance
ou do seu conhecimento para atendimento de seu mister”, segundo consta no Código de Ética
Profissional do Servidor Público, Decreto n o. 1.171, de 22 de jun. de 1994. Nesse Código, dentro das
regras deontológicas, tem-se: “participar dos movimentos e estudos que se relacionem com a melhoria
do exercício de suas funções, tendo por escopo a realização do bem comum”.
A décima regra determina estudar e sintetizar conteúdos, expondo-os de forma clara, concisa e
simples. As referências para fazer essa exposição são os interessados na investigação.
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Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

As regras anteriormente indicadas se relacionam ou fundamentam em aspectos da lógica, isto é,


em aspecto do estudo do raciocínio, uma forma especial do ato de pensar (inferir) para definir
argumentos (os “bons” argumentos, aqueles que seguem das premissas de proposições, de “boas”
premissas e proposições) e obterem conclusões “boas” a partir de evidências, sem se deter na descrição
ou na explicação de procedimentos mentais compreendidos nessa inferência. Tais procedimentos, outro
campo de estudo não menos importante que o epistemológico, porém não são considerados nestas
“Orientações (...)”.

7.1 Conceitos Gerais: a reflexão filosófica e a atitude científica


A investigação desenvolvida com base no método científico e com resultados aplicáveis, com
efetividade, nos interessados da pesquisa apresenta determinadas características que têm fundamentos,
incentivos e motivações, entre outras, na reflexão filosófica e na atitude científica do pesquisador,
associada, em parte, às regras no método científico contemporâneas acima indicadas.
A reflexão feita em campos próprios da filosofia, acerca dos fundamentos do método científico e
pelo que enseja tanto como referência conceitual e análise epistemológica a exigir do pesquisador
investigar sobre pressupostos e fundamentos científicos de teorias como pela avaliação de instrumentos
teórico-metodológicos consistentes com a realidade objeto de pesquisa, deve ser considerada na
investigação, se o que se espera dela for um resultado aplicável com efetividade.
Os campos da reflexão filosófica, necessários para desenvolver habilidades e complementar
competência são, entre outros:
a) A ontologia (do gr. ontos, ser, ente; e logos, ciência, saber). No sentido estrito é o estudo do ser;
o conhecimento dos princípios e fundamentos últimos de toda realidade, de todos os seres vivos.
É um saber sobre aquilo que é fundamental ou irredutível e de aspectos essenciais do ser. Trata
da filosofia do conhecimento e da teoria formal dos objetos. Como ciência, a ontologia é a
ciência das essências; o fundamento de todas as ciências e suas interações.
É com base em parte do conhecimento de essências da realidade que se observa, experimenta e
registra um fato ou fenômeno (problema ou oportunidade, uma necessidade humana) para se ter
explicação (resposta às duvidas; soluções aos problemas) técnico-científica do mesmo, isto é,
para responder o por quê, segundo Hempel (1988), conforme consta em La Lógica de la
explicación, contida em sua obra La explicación científica.
As necessidades humanas manifestas e/ou percebidas nos indivíduos (empresas, meio ambiente,
sociedade, instituições etc.) como sensações de insatisfações, diretas e explícitas ou
representadas por adequados indicadores (p.ex., perturbações do meio ambiente mediante índices
de poluição), relacionadas com “estados” que definem e/ou compreendem essas necessidades,
são fatores propulsores de atividades humanas intencionais, entre outras, as atividades na busca
de soluções pela investigação planejada e desenvolvida para esse fim com base no método
científico.
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No que se refere ao aprimoramento e realização pessoal, os fatores propulsores se relacionam


com o conhecimento de princípios ontológicos que orientam o como agir para gerar –
disponibilizar meios de complementação e/ou de satisfação dessas necessidades (insatisfações)
em níveis como o biológico, o social e o transcendental.
O atendimento às necessidades (aspecto prático), aliado ao conceito de atividade intelectual
intencional (aspecto teórico), caracterizam as atividades da pesquisa científica colocando lado-a-
lado à ação teórica e à ação prática como indissociáveis.
A importância da ontologia se destaca na ciência, em especial na concepção do realismo
científico. 3 Nessa concepção, a ciência é definida em termos da ontologia como a atividade
intelectual que busca identificar fenômenos e entidades no meio, seus poderes causais, os
mecanismos através dos quais eles exercem esses poderes e as fontes de tais poderes em termos
de estruturas ou naturezas internas das coisas.
Tais conceitos se aplicam, com maior ou menor intensidade, tanto nas pesquisas e ciências exatas
(p.ex., matemática, física, computação e estatística) como nas biológicas (p.ex., biologia,
medicina, agronomia e veterinária) e humanas (p.ex., história, sociologia, economia e direito);
formais (analíticas) como factuais (sintéticas); básicas ou aplicadas ou qualquer que seja a
classificação adotada.
b) A lógica: o conhecimento de formas e regras gerais (métodos e princípios) para diferenciar o
pensamento (raciocínio, argumento etc.) ”correto” baseado na forma do mesmo e não em seu
significado particular (ou em sua validade) e “verdadeiro” (a verdade do entendimento ou o
acordo - correspondência entre o pensamento e o real; como o que se pensa ou se aceita por
convenção, sem entrar no mérito do ceticismo e de outras correntes filosóficas).
Esse conhecimento é tanto uma parte da filosofia quando estuda o raciocínio correto pelo
relacionamento entre premissas e conclusão, como uma parte da matemática, quando estuda
dedutibilidade, inferência 4 e validade de conclusões.
É a lógica que se aplica na demonstração de “verdades científicas”, isto é, no silogismo
científico, com premissas verdadeiras, no raciocínio que torna evidente o caráter de veracidade
de uma proposição, e na exposição de argumentos sejam eles de explicações, de soluções..., não
necessariamente válidos, que a pesquisa pode gerar e deve, com base em evidências permitidas
pelo método científico, expor com consistência. Exemplos:

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O realismo científico, em seu sentido geral, é uma tese sobre o problema epistemológico de limites do conhecimento.
Tem como argumentos, entre outros, as inferências abdutivas em relação as proposições sobre: coisas e eventos não-
observáveis; coisas e eventos não-observados, porém, observáveis; coisas e eventos observados e interpretados de
forma realista; e proposições de dados sensoriais. Segundo Chibeni (1996), a base do realismo científico depende, em
grande parte, do reconhecimento da legitimidade de inferências abdutivas, enquanto instrumentos epistêmicos; isso
representa certa flexibilidade do ideal empirista clássico.
4
Em lógica, a inferência é a passagem, através de regras válidas, do antecedente ao conseqüente de um argumento. É
um ato mental que consiste em derivar um juízo, sentença conclusão (...) de um ou mais juízos e sentenças.
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Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Todos os homens são mortais.

José sem Terra é homem.

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 (Logo) José sem Terra é mortal

Todos os pássaros têm assas.

O cardeal é um pássaro.

____________
 O cardeal tem assas.

O laboratório de (...) se encontra na biblioteca.

A biblioteca se localiza na sede.

____________

 O laboratório de (...) se encontra na sede.

A seguir se apresentam exemplos de sentenças – argumentos com conclusões inválidas, porque


as premissas de termos do médio nas proposições falham (falácia). São termos não-distribuídos
(consistentes) entre a premissa maior e a conclusão.
A falácia lógica surge ao se estabelecerem condicionalidades (generalizações) entre as partes
como nos casos dos termos intermediários “todo cachorro é animal”, “cada membro do partido
da oposição é contrário ao governo”, “o vizinho carrega uma mochila” e “um carro bom e barato
é raro” de atributos não especificados para compreenderem (relacionar o termo geral com a
conclusão) e dar validade à conclusão:

Todo homem é animal.

Todo cachorro é animal.

___________

 Todo cachorro é homem.

Todos os criminais se opõem ao governo.

Cada membro do partido da oposição é contrário ao governo.

____________

 Cada membro do partido da oposição ao governo é criminal.

Todos os estudantes carregam uma mochila.


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O vizinho carrega uma mochila.

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 O vizinho é um estudante.

Tudo que é raro é caro.

Um carro bom e barato é raro.

__________

 Um carro bom e barato é caro.

A lógica estuda e sistematiza a validade (ou invalidade) de argumentos ou de proposições


que o pesquisador utiliza para justificar, provar, sustentar, explicar, argumentar, solucionar (...)
com um resultado (inferência, conclusão) esperado da investigação.
A lógica, como a ciência da argumentação, orienta a operação de raciocinar e possibilita atingir,
com ordem e relativa facilidade, o ato da razão necessário na inferência ou na conclusão.
c) A epistemologia. O conceito compreende as análises críticas das ciências, tanto as exatas, formais
(...) como as naturais, factuais (...); versa sobre uma ou várias ciências em particular e não sobre o
saber geral (COMTE-SPONVILLE, 2003, p. 196).
No sentido gnosiológico ou da teoria do conhecimento à montante do saber, porém com um
sentido limitado, a epistemologia é a avaliação e reflexão dos postulados, dos métodos e dos
resultados (conclusões) dos diferentes ramos do saber científico, portanto à jusante do saber
compreendendo menos sobre as condições das ciências e mais da origem, natureza, limites e
validade do conhecimento até as formas de relações entre as ciências.
É o estudo de teorias e práticas, em geral, avaliadas conforme as suas validades cognitivas ou
descritas em suas trajetórias evolutivas, em seus paradigmas estruturais e em suas relações com a
sociedade. Em essência, a epistemologia trata questões relativas às possibilidades e à validade do
conhecimento.
No século XX a epistemologia foi entendida como a teoria do conhecimento em geral, com
preocupação, em especial de pensadores do Círculo de Viena (positivismo lógico; ver nota de
rodapé 6), voltada para o conhecimento científico. Esses pensadores acreditavam que o
conhecimento científico era verdadeiro devido a sua vinculação empírica e na medida em que se
relacionasse com a experiência, porém sem abandonar a lógica. Acreditavam, também, que eram
necessárias as unificações tanto da linguagem (intersubjetiva, mediante convenções formais e
semânticas comuns) como da metodologia das diferentes ciências.
No pós-modernismo, no início na década de 50, uma nova caracterização da própria natureza das
ciências e do impacto da evolução da tecnologia (p.ex., informática, cibernética) sobre a ciência
afetaram os critérios de verdade (critérios de pertinência para um dado domínio do
conhecimento) e as regras que regulam o fazer científico. A conseqüência dessa nova concepção
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Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

epistemológica diz respeito à abrangência e validade do saber científico: a pesquisa científica


ficaria condicionada às possibilidades técnicas e o que transcendesse tais possibilidades seria
considerado não-operacional. Conforme este conceito, a epistemologia passa a se constituir
âncora do fato ou fenômeno a ser investigado com base em determinado corpo teórico existente.
Nesse corpo se incluem subsídios de diversas áreas do conhecimento com suas leis científicas,
teorias, teoremas, axiomas, princípios, escolas e correntes, entre outros componentes.
(ENCICLOPEDIA DE FILOSOFIA, 2005).
Com fundamentos em postulados de técnicas e métodos (portanto, com base na epistemologia) e
na análise crítica (reflexiva) é que o pesquisador busca novas explicações e soluções de
problemas (ou o aproveitamento de oportunidades). Por isso, é necessário o conhecimento e
entendimento da epistemologia para “bem” aplicar o método científico.
Segundo Popper (1972), a lógica da pesquisa científica, a epistemologia, deve ser identificada
com a teoria do método científico. Tal teoria, na medida em que se projeta para além da análise
lógica de relações entre enunciados, diz respeito à escolha e aplicação de métodos. Por sua vez,
essas decisões dependerão da definição de objetivos e da especificação de meios na investigação.
Nesse relacionamento se destaca a estreita e lógica relação existente entre as fases da pesquisa: a
lógica do problema: um enunciado como proposição; a lógica de hipóteses: a relação teoria –
prática / realidade; e a lógica de conceitos, técnicas e métodos para enunciar e relacionar.
No campo da epistemologia Popper (op. cit.), ao rejeitar tanto o empirismo clássico como o
observacionalismo indutivista, formulou a sua filosofia em torno do racionalismo crítico.
Argumentava, dentro desse racionalismo, que a teoria científica será sempre conjetural e
provisória: não seria possível confirmar a veracidade de uma teoria por apenas a constatação de
que os resultados de uma previsão com base naquela teoria se verificaram. Afirmava que o
pesquisador deveria orientar sua atividade para, a partir de observações da realidade, buscar
provas de falsidade da teoria aplicada, concluindo que a veracidade de uma afirmação teórica
que não pudesse ser confrontada com a realidade não seria cientifica.
Toda verdade científica, um objetivo permanente da pesquisa científica, aparece, em certo
sentido, como provisória e susceptível de revisão e aperfeiçoamento, às vezes com uma completa
reposição.
Todos os conhecimentos científicos são aproximados da verdade (tentativas baseadas no método
científico), da qual se distanciam quer pela imperfeição de observações experimentais e/ou de
registros em que se fundam, quer pela necessária simplificação (apenas os elementos tidos como
mais importantes da realidade são considerados), abstração (situa-se no domínio do pensamento
e não da existência material) e esquematização.
Como conseqüência, para que uma parte do saber possa ser considerada científica não basta, nem
sequer é necessário que seja verdadeira, mas, é preciso conhecer como foi obtido, ou presumir
como verdadeiro seus enunciados: processos empíricos e racionais pelos quais se verifica (testa)
o saber; essa verificabilidade é a essência do conhecimento científico.
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Fundamentos de pesquisa
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A verificabilidade de enunciados formais inclui somente operações racionais, enquanto que


proposições (verificáveis) acerca da natureza ou da sociedade são testadas mediante
procedimentos empíricos (observação, dado, teste etc.) e operações racionais ao combinar a
teoria com a prática: hipóteses.
d) A teoria do conhecimento: percepções, sensações, conceitos de verdade e falsidade, distinção
entre conhecimento e opinião, evidencias e formas de aparecimento das coisas, critérios de
conhecimento, formas de conhecer, verdades da razão e verdades da lógica e características do
conhecimento científico são, entre outros, aspectos considerados nessa teoria. São aspectos de
interesse para a pesquisa e seu método científico que gera / adapta os fatores de vantagens
competitivas, informações para novos conhecimentos e produtos / serviços para inovações
tecnológicas, para economias e ambientes onde a única certeza (critério de verdade, segundo
Descartes) é a incerteza (ENCICLOPEDIA DE FILOSOFIA, 2005).
A teoria do conhecimento é essencial tanto no processo de prospecção, diagnóstico e “tradução”
do problema para pesquisa em um problema de pesquisa, como nos de geração / adaptação de
uma solução e de difusão da mesma utilizando tecnologias da informação. Por essa teoria se
consideram as diferentes modalidades do conhecimento humano como o sensorial e perceptivo
do cliente alvo, procurando resgatar, valorizar e aumentar a “utilidade”, se for o caso, desse
conhecimento com novas informações.
e) A ética: estudo de valores morais (virtudes) e da relação entre vontade e razão, finalidade dos
valores e valores de ações na responsabilidade. Ao considerar as relações entre deveres
profissionais em relação à sociedade que os cria, compreende aspectos deontológicos.
Nas regras deontológicas são considerados tópicos como as de dignidade, decoro, zelo, eficiência
e consciência de princípios morais tidos como primados que devem nortear as ações do
pesquisador em suas propostas de investigação, nos procedimentos e atividades que desenvolver
e nos resultados que gerar, com explicitas colocações de deveres, obrigações e responsabilidades
em todas essas ações, procedimentos e resultados. Tais considerações, dentro de limites e
condições, são amplas e válidas tanto para o estudante de metodologia de pesquisa como para o
profissional da investigação.
Os princípios racionais da pesquisa, em todas as suas fases, são básicos para observar e registrar
fatos e fenômenos, acordar entre parceiros e realizar estratégias com eles para viabilizar ou facilitar
essas fases e executar atividades com fundamentos racionais, com princípios que a razão estabelece e
que estão em concordância com a própria realidade, mesmo quando empregados sem conhecê-los. Isto,
porque o conhecimento racional e a própria essência humana obedecem a regras que são (devem ser)
respeitadas, tais como os princípios (regras) da identidade, da não-contradição, do terceiro - excluído,
da suficiência ou causalidade e da indeterminação, entre outros apresentados e ilustrados nestas
“Orientações (...)”.
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Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Dentre os aspectos conceituais que a metodologia de pesquisa aborda é possível considerar, em


todas as fases da investigação, relações e/ou suportes fundamentais na reflexão filosófica, conforme se
indica, para uns poucos casos, nas seguintes fases da pesquisa:
a) A prospecção e caracterização de necessidades – possibilidades interessados e ambientes com
problemas possíveis de tratamento (ou com oportunidades possíveis de aproveitamentos) pelo
método científico: observar fatos significativos que para “outros” (não-pesquisadores, p.ex.)
passariam despercebidos. Significa desconfiar da veracidade e adesão imediatas às coisas, da
ausência de críticas, da falta de curiosidade para indagar com objetividade e propósitos.
A atitude científica, com motivação e sustentação na reflexão filosófica, possibilita ver fatos e
acontecimentos sob a perspectiva da ciência; descobrir de aparências, de sintomas (...) causas
que precisam de explicações e de análises de efeitos refletidos nessas manifestações.
A atitude científica precisa de argumentações lógico-racionais e consistentes, além do senso-
comum e de simples sensações e sintomas ou manifestações exteriores do fato. Assim, p.ex., as
diferenças de cor, de luminosidade, de sons, de tamanhos (...) de objetos que se colocam no alvo
da investigação, o pesquisador, com atitude científica, os observa – percebe e, com freqüência,
auxiliado por instrumentos de medições, diferencia posições numa escala com base em critérios
de medidas como as calorimétricas, de ondas luminosas, do cumprimento de ondas sonoras, de
perspectivas e ângulos de visão métrica (...).
A base objetiva (precisa) de observação e percepção ou aplicação cuidadosa da mente a alguma
coisa, fato, fenômeno (...) ao atribuir significado a estímulos sensoriais, com profundidade, vale
dizer, a percepção, p.ex., das formas, que atende aos seus quatro princípios básicos 5: permite –
facilita seu registro em um dado de valor, associado a determinadas condições em que o fato,
fenômeno ou objeto representado ocorre.
A significância desse fato ou objeto faz parte, também, da atitude científica, para selecioná-lo
conforme sejam os critérios e diretrizes que orientam a investigação e os propósitos da mesma.
Por essa atitude crítica e objetiva serão selecionados e registrados apenas os atributos (as
variáveis) com valor, significado, relevância (...) para a investigação.

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Os princípios básicos da percepção das formas são: a) tendência à estruturação que induz a
organizar elementos que se encontram próximos ou que apresentem determinadas
semelhanças; b) segregação (figura-fundo) que explica a percepção mais de objetos bem
definidos e salientes que se encontram em fundos indefinidos e mal contornados; c)
pregnância ou tendência da melhor percepção para objetos simples, regulares, simétricos,
equilibrados...; d) constância perceptiva traduzida em estabilidade da percepção, contrária a
resistência natural à mudança (PERCEPÇÃO, 2005) Os princípios básicos da percepção, no
pesquisador atento e criterioso, são aplicados-desenvolvidos e complementados para
organizar e segregar com objetividade, para a “pregnância” de objetos nem sempre regulares,
simétricos (...) e além das formas; e a percepção de objetos, de ambientes (..) em
permanentes mudanças. Esta é a percepção científica que possibilita observar, selecionar,
registrar, mediar (...) o dado e informação “necessária” do objeto no foco da pesquisa, indo
além de representações intelectuais instantâneas.
12

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

b) A “tradução” de partes de ambientes, clientes, condições (...), aquelas com problemas


(oportunidades) de interesses teóricos e práticos, para o método científico, para a pesquisa. Nessa
“tradução” são consideráveis as contribuições da reflexão filosófica para determinar, influenciar,
caracterizar (...) a atitude científica não apenas na seleção e coleta de variáveis relevantes, mas,
no tratamento adequado e duplamente consistente dessas variáveis.
Na própria definição do problema, ao se estabelecerem relações como as de causalidade entre
atributos traduzidos em variáveis, depois de se investigar a natureza ou a estrutura do fato,
fenômeno (...), tem-se indicações de técnicas e procedimentos para levar certa realidade
“simplificada” do ambiente em que se dá para o método científico adequado a ela.
A “tradução” de parte da realidade para a teoria, para o método científico, é destacada em fases
como a formulação e teste de hipóteses. Nessa “tradução” se têm pré-requisitos para a construção
da ciência e exigências da ciência e da realidade a serem atendidas pelo pesquisador durante o
processo de investigação (a condição de atendimento é conhecê-las). A parte que segue mostra
alguns requisitos a considerar nessa “tradução”; são requisitos que simplificam e se refletem em
objetividade:
b.1) delimitar e/ou definir o fato a investigar, separando-o de outros fora do foco da pesquisa
e/ou de menor importância, ainda que relacionados ou importantes em outros contextos;
b.2) estabelecer os procedimentos metodológicos para a observação e registro, para a
experimentação e registro e para a verificação do fato valioso para a pesquisa;
b.3) selecionar e/ou “construir” (adequar, inventar...) instrumentos técnicos e condições de
laboratório específicas para a pesquisa, conforme sejam a especificidade e as exigências da
investigação, do problema a pesquisar;
b.4) selecionar e/ou elaborar um conjunto sistemático de conceitos que formem a teoria geral do
fato estudado e de controle – orientação para a investigação.
c) A metodologia, com destaque para o método científico. Compreende a análise do problema para
determinar o que se quer e pode ser considerado, numa fase de orientação, mediante a formulação
de hipóteses, entre outras fases da investigação.
d) A geração / adaptação de uma solução (de um procedimento de aproveitamento), com auxílio
desse método, em que, repetindo, harmonize-se teoria e prática: dedução (inferência que parte do
universal para o mais particular) de conseqüências nas inferências obtidas dos resultados de testes
de hipóteses, com verdades falseáveis, uma característica da verdade científica (POPPER, 1975).
e) A transferência / difusão de soluções, de novas informações e produtos tecnológicos orientada
por um conjunto de procedimentos racionais e de conceitos, técnicas e métodos lógicos.
Nas fases da investigação relacionadas acima se destaca a função do método científico baseado
em princípios lógicos, mediante os quais se têm verdades e conhecimentos científicos. Estes, ainda que
não sejam sempre ou necessariamente conhecimentos objetivos, serão racionais, sistêmicos e
verificáveis, sem se ocupar de fatos, segundo Bunge (1980).
13

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Para atingir os propósitos da pesquisa, novos conhecimentos (úteis...) e inovações (aplicáveis e


desejáveis), mudanças de atitudes e comportamentos (...), é preciso escolher e testar (com critérios
adequados) e validar e aplicar (por vezes para condições específicas), conceitos, técnicas e métodos,
em cada etapa da investigação que utiliza o método científico que é lógica, seqüencial e inter-
relacionada.
Os processos de escolha e aplicação com eficiência de técnicas e métodos podem ser facilitados
quando o pesquisador tiver uma clara e precisa definição 6 do problema e dos objetivos em cada uma
das etapas da investigação. Essa é a condição necessária para avaliar-selecionar e para aplicar técnicas
em operações como observar, registrar e tratar o dado e a informação primária, ou não; para criar -
inventar, descobrir e levar uma solução ao cliente “certo”, aos interessados na pesquisa. O como
observar – registrar, tratar e gerar pressupõe a existência de um método (ACKOFF, 1975;
complementado), necessário para a investigação da realidade, segundo Descartes.
O método, desde sua origem, entre outros, com Platão (o método dialético), tinha como
pressuposto uma teoria do conhecimento. Nela, destacavam-se a especificidade da inteligência e os
universais reais. Era o contraste dos sentidos (doxa) responsável pela opinião, um conhecimento
subjetivo e impreciso e a razão (episteme) ou a busca das ciências, do conhecimento racional de
essências, de idéias imutáveis, objetivas e universais.
Ao longo da evolução - aperfeiçoamento, o método de investigação e com ele, a ciência
(ACKOFF; GUPTA; MINAS, 1962) foi considerado um “caminho” para alcançar o saber; um
conhecimento que em cada etapa da evolução das ciências, apresentou características como as de ser
apriorístico, racionalistico, ineista de idéias universais e dualista ou dicotômica corpo (rex extensa) e
alma (rex cogitans): sujeito observador e objeto observado, entre outras. Foram etapas como as do
animismo até o racionalismo, passando pelo empirismo.
Os métodos das ciências capazes de gerarem conhecimentos e inovações possíveis em cada
período da história e evolução, que afastavam os procedimentos científicos cada vez mais do azar, da
vontade de supostas forças ocultas míticas, de caprichos de deuses ou de simples opiniões e intuições.
Os métodos das ciências são baseados em regras, princípios, teorias, axiomas (...) aceitos pela
comunidade científica de cada época que possibilitassem as suas aplicações com certas generalizações.

6
Definição, do lat. definire = delimitar e finis = limite; delimitar um objeto para identificá-lo; algo que concerne à
essência da coisa, do fato; assim, definir seria delimitar um objeto para identificá-lo; todo enunciado que dá a conhecer
o que é um objeto (definição real) ou o que significa uma palavra (definição nominal). Uma conceituação equivalente
ao objeto definido como, p.ex., “homem” e “poluído” terem seus equivalentes em “animal racional” e “ambiente
corrompido, degradado...”, respectivamente. Definir é estabelecer a compreensão de um conceito e possibilitar seu
entendimento, sem que o conceito seja o real e, portanto, nenhuma definição poderia substituir o conhecimento.
Conforme a teoria da definição, processa-se uma substituição do todo pelas partes equivalentes o que pode ser feito
com diversos objetivos como, p.ex., os de classificar, raciocinar e definir; estes são objetivos básicos da pesquisa. A
natureza metodológica da definição é sintética, em quer se acrescenta o equivalente como uma noção nova, podendo-se
atender o todo, sem atender diretamente às partes ou atender às partes, sem atender ao todo. Como proceder na
definição? Pode ser separando as partes conhecidas (genéricas) das partes não-conhecidas (possíveis diferenciadoras).
Esse processo é racional e heurístico (pela divisão ou análise e pela composição ou síntese) para encontrar a integração
das partes componentes da definição.
14

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Em cada período da evolução da investigação e da ciência, com destaque para alguns deles, foi
colocado, como condição essencial para o pesquisador bem utilizar o método científico, conhecer seus
princípios, regras, fundamentos (...). Essa foi, p.ex., uma preocupação destacada do iluminismo em
geral (ver nota de rodapé 41) e de iluministas ingleses como Locke (1632 – 1704) e Newton (1642 –
1727) e franceses como Pascal (1623 - 1662), Voltaire (1694 – 1770), Montesquieu (1698 – 1755) e
Rousseau (1712 – 1778) que trouxe novas descobertas e invenções espalhadas pela Europa durante os
séculos XVII e XVIII, orientado para a mudança de mentalidade propícia ao avanço da ciência ao abrir
o campo do cientista e seus métodos e de descobertas ao homem em assuntos tão diversos como a
descrição da órbita dos planetas, do relevo da Lua, da descoberta da pressão atmosférica, da circulação
sangüínea e do comportamento dos espermatozóides.
Deve-se acrescentar que, além da reflexão e concomitantemente com o conhecimento prévio de
postulados, pressupostas (...) do método científico, é preciso “bem” conhecer (quanto possível) a
realidade dos interessados na pesquisa e dos objetos (realidade) em que se aplicam esses métodos
procurando a aderência, articulação e/ou consistência entre aspectos teóricos (dos métodos) e
empíricos (da realidade). Essa condição necessária da pesquisa com qualidade e efetividade de seus
resultados é destacada nestas “Orientações (...)”.
É a partir da identificação (caracterização, delimitação..., definição) do problema (ou da
oportunidade) devidamente inserido na realidade ou sistema que o compreende e para a qual se gera
uma solução (se espera o aproveitamento); de diagnósticos adequados dessa realidade; de hipóteses ou
proposições orientadoras provisoriamente admitidas, sem serem necessariamente verdadeiras, a fim de
deduzir delas as conseqüências e, se for o caso, aceitá-las ou não; e da especificação de objetivos e seus
meios e instrumentos que se escolhe um “caminho” e com ele se adota um modo de proceder a uma
operação, isto é, de fazer, de agir e de conhecer – aplicar os instrumentos (regras, princípios, técnicas,
métodos etc.) para alcançar um fim previamente estabelecido.
Esse “caminho” e modo de proceder é o método 7 de pesquisa para a ciência, conveniente e
adequada à realidade. O “caminho”, inquisição (em minúscula, para indicar a busca da verdade e não
de um culpado, pressupondo-se conhecer a verdade), pelo qual a essência objetiva das coisas, a
“verdade” de solução (...) e o proceder são meios que auxiliam, facilitam, conduzem (...) ao fim. O

7
Por método se pode entender o conjunto de regras e princípios racionalmente ordenados que o pesquisador utiliza para
agir, planejar, cenarizar, criar (descobrir, inventar) – adaptar, comunicar e avaliar para obter determinado resultado: o
fim, os objetivos da pesquisa. A arte de “bem” dispor uma seqüência de idéias para descobrir a verdade ou para prová-
la. Estas definições, entre outras apresentadas em textos de metodologia científica, são incompletas. Seria
suficientemente convincente e completa uma definição do método como a própria marcha ou “caminho” do
pensamento, que não tem outra regra sino ela própria. O Tratado sobre a reforma do entendimento, de Spinoza,
apresenta elementos de uma definição do método aproximado: “o verdadeiro método não consiste em procurar o sinal
pelo qual se reconhece a verdade após a aquisição das idéias; (...) é o caminho pelo qual a própria verdade, ou as
essências objetivas das coisas, ou suas idéias são procurados na devida ordem; daí resulta que o método nada mais é
que o conhecimento reflexivo ou a idéia de uma idéia. Mas, se não houver á idéia de uma idéia, então não haverá
método. O bom método seria aquele que mostra como o espírito [criatividade] deve ser dirigido (...)”. Os conceitos de
Spinoza, em relação ao método, são mais convincentes do que as Regras para a orientação do espírito e as
informações do Discurso do método, com seus quatro preceitos de evidência, análise, síntese e enumeração,
postulados por Descartes (COMTE-SPONVILLE, 2003; p. 388-389).
15

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

método, nesse processo, constitui-se de dois elementos principais: um processo (de agir, de fazer e de
conhecer) e um fim que nas ciências diz respeito ao saber a ser alcançado para se atingir um propósito
como o de bem-estar social.
O como agir (o fim ainda não existe, porém, encontra-se cognoscitivamente definido para
determinar um proceder), como fazer (o fim poderá até não existir, porém, de alguma forma determina
o proceder) e como conhecer um processo são orientações e meios que auxiliam, facilitam, conduzem
(...) o pesquisador para proceder. Esse processo pode ser orientado para a obtenção e análises de dados
e informações necessárias para atingir determinados propósitos, o fim, O fim poderá ser a inovação
tecnológica e um novo conhecimento, ambos desejáveis e possíveis. São resultados diferenciados de
outros como os do conhecimento comum e o conhecimento religioso; de outras tecnologias como as
tradicionais pela forma de inquirir e pelas características do método utilizado e do resultado obtido.
Há aspectos importantes da metodologia da ciência que se relaciona à forma de inquirição, ao
método para observar e obter a informação e a atitude científica do pesquisador perante “aparentes”
evidências do sentido comum, tais como o Sol é menor do que a Terra; o Sol se move ao redor da Terra;
as cores existem em si mesmas; e a família é uma estrutura criada pela Natureza, entre muitas outras
“certezas” ou saberes que nascem da experiência quotidiana associada com esse sentido. 8 Esse “saber”
ocorre à despeito de demonstrações da astronomia em relação ao tamanho da Terra; das evidências
científicas de Copérnico; da física ótica de ondas luminosas de comprimentos diferentes pela refração e
reflexão; e das contribuições de historiadores e antropólogos sobre o entendimento da família como
uma instituição social, como uma criação sociocultural.
Segundo Ackoff, Gupta e Minas (op. cit.; complementado), há grande número de inquisições
não-científicas em relação ao sujeito, ao objeto ou a ambos, incluindo procedimentos como os de
senso-comum do saber “informal”. Esse saber obtido por meio dos sentidos e caracterizado por ser
abrangente e não organizado, é adquirido de maneira espontânea e tem sua origem em experiências,
(provas, ensaios e tentativas) da realidade; em hábitos, costumes e práticas, em tradições e regras de
conduta – comportamento. Trata-se de um saber simples, sensorial pela percepção de aparências e sem
interesses em demonstrações de suas “verdades”.

8
Quais são as características do senso comum? Esta nota complementa e repete informações apresentadas na nota de
rodapé 4: Características do conhecimento empírico. Entre as características do senso comum utilizado no
conhecimento comum, têm-se: a) a subjetividade: exprime sentimentos e opiniões que podem variar de uma pessoa (ou
de um grupo de pessoas) para outra (ou outro(s) grupo(s)); o caráter subjetivo do conhecimento decorre da
subjetividade do senso comum, porque não é objetivo; cada indivíduo vê a realidade a sua maneira, formando as suas
opiniões sem a preocupação de as testar ou fundamentar num exame isento e crítico da realidade; b) é qualitativo sem
ter a preocupação com uma referência que possa estabelecer claras categorias de, p.ex., o que é bom ou ruim; grande ou
pequeno, útil ou inútil, desejável ou indesejável etc.; c) é heterogêneo ao se referir ao fato julgado diferente apenas pela
percepção de aparências, de sintomas; d) é individualizado ao se combinarem o qualitativo e o heterogêneo conforme o
caráter subjetivo e particular; e) é generalizado, ao reunir numa só idéia coisas e fatos julgados semelhantes com base
em aparências; f) tende a estabelecer relações de causalidade pelas aparências; g) é insensível a regularidade, a
constância, a repetição e as diferenças, destacando o imaginado como único; h) projeta nas coisas sentimentos de medo
e temor pelo desconhecido, bem como cristaliza preconceitos utilizados para interpretar a realidade. Em síntese, as
características do senso comum e do conhecimento que dele resulta, são: empírico, acrítico, assistemático, ametódico,
aparente ou ilusório. Coletivo, subjetivo, superficial, particular e prático – utilitário.
16

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Comte-Sponville (2003, p. 539) diz aprender a desconfiar de evidências do senso comum e a


suspeitar da unanimidade que se obtém desse senso, tido, conforme Ackoff, Gupta e Minas (1962),
como mais imediato e prático (qualitativo) do que o método da ciência.
Com a atitude científica o pesquisador, ao gerar as informações do conhecimento científico
atende condições, contrapostas às do senso comum, as quais permitem que o resultado tenha
determinadas características. As que seguem se relacionam diretamente com essa atitude:
a) objetivo: procura estruturas universais e necessárias, separando os elementos subjetivos e
objetivos de um fenômeno;
b) quantitativo: busca medir, quanto possível, os fatos e fenômenos com consistência, com
referências para classificar, com critérios de comparação etc.;
c) homogêneo: baseado em leis gerais às quais se submetem os fatos que aparentemente são
diferentes, buscando neles suas “verdadeiras” naturezas;
d) generalizador ao compreender individualidades percebidas como diferentes, sob as mesmas leis
testadas durante a investigação com base em dados da realidade;
e) diferenciador, pois não reúne nem generaliza por semelhanças aparentes das coisas e fatos, mas
distinguem os que parecem iguais, desde que apresentem estruturas diferentes, com base em
evidências;
f) estabelece relações de causalidade somente depois de investigar a natureza de relacionamentos
dos fatos;
g) surpreende-se com a regularidade, com a constância e freqüência, com a repetição e diferença
das coisas, apresentando explicações racionais, claras e verdadeiras para os fatos;
h) desmistifica os fatos, mostrando que neles não agem forças secretas, mas causas e relações
racionais possíveis de serem conhecidas e transmitidas a todos;
i) afirma que pelo conhecimento, o homem pode se libertar do medo e das superstições, deixando
de projetá-las como o faz o senso comum;
j) procura renovar-se e evoluir, evitando, com racionalidade lógica, a transformação de teorias em
doutrinas e destas, em preconceitos: essa é uma preocupação permanente.
São características especiais do conhecimento científico, possíveis de serem alcançadas pelo
método especial que se utiliza na investigação (o método científico), pela atitude científica diferenciada
do senso comum e pela reflexão filosófica do pesquisador com essa atitude.
As características do conhecimento científico são consideradas em várias partes do texto e,
ainda, em notas de rodapé, mas, pela importância do tema, tais características são sintetizadas no item
7.2 Características do conhecimento científico, precedido de informações sobre a lógica, seus
princípios e a racionalidade de procedimentos utilizados para gerar esse conhecimento.
17

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Dada a complexidade do método utilizado na pesquisa científica, fez-se de seu estudo uma
disciplina do saber: a metodologia 9 ou estudo dos métodos; um corpo de regras e de processos
estabelecidos / adotados para desenvolver uma operação, seja ela a de fazer para conhece e/ou de agir
para alcançar um fim. O destaque é para a metodologia científica.
A metodologia trata do estudo sistêmico e lógico de princípios que orientam a pesquisa
científica, examinando a adequabilidade dos mesmos à realidade e as potencialidades de todos os
instrumentos, técnicas e métodos de investigação, desde suposições e pressupostos básicos até técnicas
de indagação com propósitos científicos. Dessa forma, constitui-se uma disciplina normativa, sem
impor valores externos às ciências empíricas (em especial, às ciências sociais), mas, apenas
descobrindo normas que lhe são inerentes (KAUMAMNN, 1944; complementado).
A metodologia compreende os estudos de métodos para conceituar, para avaliar-julgar e para
raciocinar na pesquisa científica, tendo como referências, entre outras, os métodos lógicos. Quando se
trata de estudos de métodos de agir, os nomes podem variar como, p.ex., metodologia pedagógica, para
os métodos utilizados nos processos de educação; metodologia didática, para os métodos utilizados nos
processos de ensino; e metodologia logística, para os métodos que ordenam os atos e permitem atingir
um objetivo, quer do saber, quer do agir e fazer. No caso dos métodos do fazer, o nome é tecnologia.
A parte que segue sintetiza aspectos da lógica aplicada na pesquisa e do processo de raciocínio
do método científico utilizado pela investigação com fundamentos em reflexões filosóficas levadas à
prática da ciência na pesquisa. Essa prática define a tecnologia que gera / adapta e leva / difunde os
fatores necessários para se tecerem os novos conhecimentos desejáveis e possíveis e se adotarem as
inovações tecnológicas.
Na nova tecnologia há conhecimentos teóricos (além de simples técnicas que, em base a
observação, permite agir, como são procedimentos e destrezas de o como fazer) aplicados na prática.
Por esses conhecimentos aplicados, a ciência moderna tornou-se inseparável da tecnologia.

7.1.1 A lógica e o método científico


O título compreende dois conceitos fundamentais para a investigação, para o pesquisador: a
lógica e o método científico. São conceitos inseparáveis e quase que confundidos na pesquisa científica
com qualidade em suas ações e processos e com efetividade de seus resultados, freqüentemente
citados, às vezes diferenciados por razões apenas didáticas, no texto. Tais conceitos são (re)
apresentados e exemplificados nas próximas seções.

9
Na história da metodologia se têm ensaios, procedimentos e técnicas utilizadas na antiguidade. Em tempos modernos,
o tratado De methodo, de Contiuis (1558), citados por Descartes; o Novum organum, de F. Bacon, em que o autor
desenvolveu conceitos como o do método indutivo; e o Discurso do método de Descartes, onde o autor preconizou
o rigor metodológico para todas as ciências. Galilei introduziu a matemática na pesquisa e o método experimental. J.
S. Mill, inovou com a lógica do raciocínio na experimentação. Uma síntese dessa história é apresentada em ORIGEM
E EVOLUÇÃO DAS CIÊNCIAS E DA PESQUISA.
18

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

A lógica, como o estudo dos raciocínios e, em especial, das condições formais de validade de
uma proposição, tem por objetivo determinar, entre as operações intelectuais do conhecimento, as que
são válidas e as que não são. Nesse contexto, estuda os processos e as condições de verdade de todo e
qualquer raciocínio. Por ela, o conhecimento só é científico quando, além de universal, é metódico e
sistemático: essa é uma das contribuições da lógica ao método científico, aparecendo cada vez mais
como uma parte das ciências, em espacial da matemática.
A lógica passa a se entender como um método ou caminho que a ciência segue para determinar e
conhecer seu objeto de verdade. No sentido didático, a lógica se alinha com a ética, entre outras
disciplinas, não apenas para completar o sentido da investigação, mas para legitimá-la ao delinear “o
que se deve fazer” (um conceito moral: normativo e imperativo) e “o como agir” (um conceito ético:
normativo, mas não imperativo; COMTE-SPONVILLE, 2003, p. 219). Assim entendida, passa a se
denominar lógica formal ou lógica não aplicada ao conteúdo do que enuncia, mas somente aos
conceitos, juízos e raciocínios (ENCICLOPEDIA DE FILOSOFIA, 2005).
Ao se alinhar com a ética, segundo Dewey (Lógica, a teoria da investigação), teria como
finalidade elaborar um novo sistema de valores com base em considerações morais e sociais de
alternativas possíveis da pesquisa.
No enfoque pragmático de Dewey, a pesquisa científica é entendida como um processo de
avaliação e ordenação de dados da experiência para, a partir desses dados e da experiência, formular
hipóteses submetidas á verificabilidade, deveria integrar a lógica de Pierce (a lógica de relações, da
linguagem, a lógica da semiótica; ao humanismo de Schiller 10 (puro e valorizando conceitos como os
de bom, belo e verdadeiro).
A introdução aos conceitos implícitos na relação lógica formal e método científico começa com a
identificação de pontos comuns entre essas duas áreas, a partir de definições.
A lógica compreende o estudo sistemático da argumentação válida susceptível de formalização e
de leis que devem regular as diferentes formas do pensamento. Essas formas se manifestam por juízos,
raciocínio, inferências e conclusões, entre outros meios.
No início da seção foram apresentadas várias definições de lógica com destaque de um ou outro
aspecto do conceito geral. Uma definição, ainda que incompleta, pode ser a de uma disciplina que:
a) trata das formas corretas (ou válidas) do raciocínio, (a lógica como ciência do raciocínio), do
pensamento e de expressões ou linguagens descritivas do pensamento; em sua forma tradicional, a

10
Ohann Christopher Friedrich Von Schiller (1750-1805). Nasceu em Marbach, Alemanha Destacado poeta,
dramaturgo, historiador e filósofo. No campo da filosofia, sua preocupação central era a relação entre a razão e a
sensibilidade, entre o dever indicado pela razão e as inclinações naturais. Influenciado por Rousseau de que o povo
quer o bem, mas é incapaz de reconhecê-lo sem uma educação e que a mestra para a educação é a natureza, as nossas
inclinações, acredita que esta não é mestra confiável. Seguir exclusivamente a razão, conforme proposta de Kant,
levaria à opressão política. Portanto, nem as inclinações nem a razão serias capazes, isoladamente, de tirar o homem da
brutalidade para a civilização; essas duas forças deveriam atuar juntas e serem convergentes: é a estética, na apreciação
do belo. Não podem os sentimentos dominar a razão nem pode a razão destruir os sentimentos; a razão precisa dos
sentimentos para que a moral racional seja desejada e o comportamento moral seja valorizado.
19

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

lógica das formas corretas admite opostos como verdadeiro / falso; na lógica difusa (fuzzy),
procura-se implementar níveis intermediários de verdade (tons de cinza) considerados dispositivos
de controle, baseado numa linha de raciocínio;
b) estuda as leis da argumentação (a lógica como a ciência da argumentação) como orientação de
raciocinar e diferenciar entre o correto (verdadeiro) e incorreto (falso); na lógica fuzzy,
consideram-se formas de raciocínios e de diferenciações aproximadas; essas formas compreendem
cinco etapas; 11
c) considera métodos teóricos (porque a lógica é ciência) e habilidades (porque a lógica é arte) que
se podem aplicar nos atos de pensar, de raciocinar e de argumentar do pensamento científico.
Com a definição acima se compreendem as principais características da lógica: um instrumento
do pensamento para pensar e verificar se o processo é ou não certo (ou falso); correto (ou não); formal,
porque não se ocupa de conteúdos, mas com as formas expressas pela linguagem e símbolos;
propedêutica ao indicar o que se deve conhecer antes de uma investigação como métodos, raciocínios e
demonstrações; e normativa ao fornecer princípios, regras e normas que todo pensamento deve seguir.
Pelo acima exposto, a lógica é tanto uma habilidade, uma arte a ser valorizada e aprimorada na
formação acadêmica e durante o exercício profissional do investigador, como uma ciência, uma
disciplina com competências a serem desenvolvidas, possibilitando, quando aplicada na pesquisa, que
o conteúdo gerado-e-disponibilizado pela investigação seja consistente, coerente e tenha efetividade no
alvo.
É oportuno indicar e com destaque que o fundamento da pesquisa científica com aplicação
prática de seus resultados é a racionalidade lógica de seus processos, de suas técnicas e método e de
seus resultados. Nesses processos, técnicas – métodos e resultados, a função essencial da razão é
buscar melhorias de condições e situações de interessados, de ambientes, da sociedade; da teoria
lógica, aprimorar e dar consistência à informação para imprimirem as características do conhecimento
científico (p.ex., objetividade, quantitativo, homogêneo, generalizador, diferenciador etc., além de
verificabilidade, positividade, revisibilidade e racionalidade desse conhecimento); e da racionalidade
lógica, melhorar o “animal humano”.

11
A lógica fuzzy tem está baseada numa linha de raciocínio (raciocínio aproximado) que compreende cinco etapas,
assim: a) analisar o problema: fuzzy – ficar as entradas; determinar o grau de pertinência de cada proposição; e limitar
o valor da entrada entre 0 e 1; b) aplicar os operadores fuzzy (AND e OR, operadores de relação), utilizados para
definir o grau máximo e mínimo de pertinência do conjunto; c) aplicar o operador de implicação, usado para definir o
peso no resultado e remodelar a função: hipótese de implicação como, p.ex., o processo é bom OU o atendimento é
rápido ENTÃO...; d) a combinação de todas as saídas em um único conjunto fuzzy, algo parecido ao processo de união
e intersecção; e) a “defuzzyficação” ou retornar os valores e obter um valor numérico dentro da faixa estipulada pela
lógica fuzzy como, p.ex., a partir de proposições da lógica tradicional, se A é identificado como ‘processo com
qualidade’ e B como ‘processo eficiente’, então, se A é verdade, B é verdade: x é A; se x é A então y é B; conclusão: y é
B. Na lógica difusa se têm aproximações: x é A; se x é A (quase A) então y é B; (quase B); conclusão: y é B (quase B):
“defuzzyficação”.
20

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

A função essencial da razão, da teoria lógica e da racionalidade implícitas nos fundamentos da


pesquisa científica poderá ter início em questionamentos intencionais, inteligentes e oportunos para se
terem respostas valiosas que possibilitem defini-la, conforme se indica e ilustra neste livro.
Partindo da idéia de que o pensamento 12 é a fonte da qual, mediante certos meios, manifesta-se o
conhecimento e que o conhecimento busca a verdade, estabelecem-se regras ou instrumentos do bem
pensar e melhor raciocinar, para se atingir a verdade científica.
Ao se estabelecerem regras e normas no pensamento surge a lógica para tratar do bem ou correto
pensar, de possíveis relações entre proposições independentemente de seus conteúdos e dos métodos e
princípios que possibilitam distinguir um raciocínio correto de um raciocínio incorreto.
Pela lógica é possível conhecer as condições necessárias da inferência válida (aceita para
determinadas condições) e eliminar (rejeitar) a racionalidade falsa (assim definida para determinadas
condições ou conforme referências convencionais), ainda que isso não seja suficiente (nem necessário,
conforme acima indicado) para se definir a verdade científica, a aceitação de uma proposição como
objeto da lógica. Somente demonstra que uma proposição é verdadeira / aceita se outra(s) for(em)
verdadeira(s) / aceita(s) e ainda sob certas condições.
A aprendizagem da lógica não constitui um fim, mas, um meio, um instrumento do pensar, uma
forma de garantir que o pensamento proceda corretamente quando orientado por axiomas e regras para
sustentar as inferências ou por um sistema lógico prescritivo que representa o raciocínio válido: o
como se deveria pensar para não errar, usando a razão indutiva e dedutiva.
Como ciência, a lógica define a estrutura de declarações e argumentos e elabora fórmulas ou
representações simbólicas de informações, pelas quais essas declarações e argumentos podem ser
codificados permitindo, dessa forma, alcançar a verdade do conhecimento. Implícito no estudo da
lógica se encontra a compreensão do que gera um bom argumento e de quais argumentos são falsos,
incorretos.
O método científico, ao tornar explícita essa compreensão, não apenas estabelece uma relação
direta com a lógica, mas, dela se serve para fundamentar suas inferências e a aceitação ou rejeição de
suas proposições.
É oportuno indicar que o ato de aceitar ou rejeitar uma proposição não é apenas uma questão de
lógica, mas, de avaliação e julgamento de todas as ciências compreendidas nas proposições e nos
processos lógicos. Isto, porque em todos os conhecimentos há racionalidades, um componente original
das ciências (COHEN e NAGEL, 1961; p. 7). Esse componente racional obedece a regras ou leis

12
Em sentido estrito, o pensamento é uma dimensão intelectual ou racional da consciência que permite avaliar uma
idéia em relação a uma verdade pelo menos possível, pressupondo-se a existência de unidades (medir, comparar...) e de
referências (para julgar). O pensamento é o que pesa nos argumentos, nas experiências, nas informações (...). Com base
em conceitos de Kant, Espinosa e Montaigne, entre outros, infere-se que no ato de pensar se unificam representações
numa consciência, sob normas para decidir o que é verdadeiro dado ou possível. Conforme Descartes, o ser é algo que
pensa e o manifesta quando duvida e concebe, afirma e nega, quer e rejeita, imagina e sente, constituindo-se a base da
existência.
21

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

fundamentais que o pesquisador precisa conhecer para fundamentar o raciocínio e derivar inferências e
conclusões válidas.
Cohen e Nagel (op. cit. p. 18 – 19), ao considerar a natureza de implicações lógicas no teste de
proposições [de enunciados, de hipóteses], destacaram duas questões de importância prática. Essas
questões são:
a) Um problema material: são verdadeiras as proposições apresentadas como elementos de juízo? A
resposta não está no âmbito da lógica. A implicação lógica não depende da verdade da(s)
premissa(s) que serve de base à inferência, à conclusão.
A relação lógica pode existir entre proposições falsas ou entre uma proposição falsa e outra
verdadeira; poderá não existir entre proposições verdadeiras.
Cohen e Nagel (op. cit., p. 18 – 19) indicam que nenhum raciocínio é mais comum que aquele
que extrais implicações lógicas de hipóteses contrárias aos fatos, às evidências. Concluem os
autores que é um grande erro pressupor que o raciocínio científico somente ocorre a partir de
dados ou proposições verdadeiras, ignorando a necessidade de fazer deduções com base em
hipóteses falsas.
b) As conclusões [inferências] guardam relação com as proposições (premissas)? A lógica, ao tratar
da relação de implicações entre proposições como são as antecedentes / premissas e as
conseqüentes / conclusões deverá considerar essa questão, sem o mérito (de conteúdo) de tais
proposições serem ou não verdadeiras e sem estabelecerem seqüências temporais entre elas. São
relações abstratas como as que se observam no todo e nas partes que o compõem com as suas
seqüências lógicas pelo significado.
A lógica formal, ao tratar assuntos das operações mentais (conceitos, raciocínios, juízos etc. que,
do ponto de vista metodológico compreendem métodos de raciocinar como os indutivos ou analíticos e
os dedutivos ou sintéticos) e relacionamentos - implicações de proposições, trata de importantes
conceitos que utilizam regras e princípios da lógica.
Um desses conceitos é a proposição ou lógica das proposições que estuda o cálculo
proposicional. Outro conceito é a argumentação, uma construção intelectual que segue uma ordem
própria e onde se realiza o raciocínio com a utilização de recursos lógicos.
A continuação se apresenta vários conceitos relativos à proposição e seus predicados, com
antecedência de outros conceitos como os de uso e menção na construção de uma proposição,
linguagem – objeto e metalinguagem, verdade e axioma.
22

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

7.1.1.1 Linguagem; proposição e seus predicados; relações entre as


proposições e regras das premissas
O estudo da metodologia e da lógica formal, para fins práticos e de consistência na investigação,
está apoiado em noções de linguagem, em proposições e seus conectivos e em deduções que o
pesquisador faz de análises e inferências de dados e informações do objeto de pesquisa.
A parte que segue apresentam conceitos e ilustrações desses três temas abordados em termos
gerais e apenas em níveis introdutórios, indicando-se, em cada caso, algumas referências para
complementar a informação.

7.1.1.1.1 Noções de linguagem no contexto da lógica formal


Um dos aspectos relevantes e de interesse da linguagem para o pesquisador que busca comunicar
seus resultados com consistência lógica e clareza – precisão é o relativo ao significado do termo, de
uma frase, de uma proposição, de um argumento, associado ao conceito de uso do mesmo.
Entender e, em especial, “bem” aplicar os procedimentos (princípios, regras, estruturas, funções
etc.) para atribuir significados aos diversos termos, dentro de cada área do conhecimento e em todas
elas com lógica, tem seus fundamentos em teorias dos significados. Essas mesmas teorias são
utilizadas para comunicar os resultados de explicações das “ciências positivas” (fatos e fenômenos
como ocorreram) e de idéias criativas para orientações das “ciências normativas”.
O conceito de significado, além do estrito lingüístico (conotação ou significado do termo geral),
pressupõe uma relação estabelecida por um signo (designação ou denotação interna e para aquilo que
significado remete ao exterior de se mesmo ou referente) entre um significante e um significado
(COMTE-SPONVILLE, 2003, p. 548; complementado).
Para explicar essa relação existem teorias, tais como (HEGENBERG, 1975, p. 3 – 4):
a) A teoria operativa; afirma que um termo é significativo se existem operações que possam ser
executadas para determinar sua aplicação ou não em determinado caso.
b) A teoria do uso, em que o termo é dotado de significado apenas quando existem regras como
p.ex., sintáticas ou regras gramaticais que fixam modos lícitos (ou ilícitos) de associação dos
termos; semânticas: asseverar algo que é a referência ou denotação do termo; e pragmáticas: o
que se supõe do sujeito que o usa o ter. Em geral, pela teoria do uso se regem o emprego do
termo.
c) A teoria da referência, em que o termo tem significado se ele representa um objeto. Conforme
esta teoria a representação que o termo faz do significado poderá ser de duas formas:
c.1) Termos singulares quando, em pelo menos um contexto fixado, a representação é de um só
objeto como, p.ex., o primeiro número natural; o presidente do Brasil em 1998; o primeiro
astronauta, com clara divisória entre o sentido (o significado) e a referência (algo
extralingüístico). Neste caso, o objeto representado é a própria referência desse termo.
23

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

c.2) Termos gerais, quando representam ou podem representar vários objetos como, p.ex., os
números pares, as bactérias os pesquisadores de (...), com clara distinção entre a denotação, isto
é, as classes de objetos a que faz alusão o termo geral e a conotação, ou seja, o significado geral
desse termo.
Os conceitos de uso, associado ao significado de um termo, e o de menção, relativo ao nome do
objeto e não o próprio objeto, de termos lingüísticos na lógica, relacionados diretamente ou mediante a
comunicação – difusão de informações, com a metodologia de pesquisa, são partes essenciais da
linguagem no contexto da lógica. Esses conceitos e ilustrações dos mesmos são apresentados na parte
que segue, estabelecendo-se, como antecedente, a diferença entre entidades lingüísticas e
extralingüísticas, o que é feito usando aspas simples (‘...‘) para indicar a palavra em foco, o significado
da mesma. Na ausência dessas aspas se terá o significado do objeto representado e não à palavra
(HEGENBERG, 1975). Estabelece-se com antecedência, também, conceitos básicos como os de
linguagem-objeto e metalinguagem..
a) A linguagem-objeto, isto é, da linguagem que é utilizada normalmente para falar acerca de um
determinado assunto objeto de comunicação.
Todo falar se dá a partir de uma linguagem estruturado conforme regras e princípios, entre
outros, os da lógica. Para estas “Orientações (...)” se destaca todo falar que ocorre em um
discurso, em um texto técnico-científico; assim, ao afirmar:

1) ‘o pesquisador do centro (...) é atento com os clientes’.

2) ‘Maria bibliotecária do centro (...).é cuidadosa com o acervo’.

Tem-se em mente o profissional do centro (...) e uma certa pessoa, Maria, para os quais se
enunciam atributos: “atento” e “cuidadosa”, sem interesses nas palavras, mas em seus
significados.
O pesquisador de (...) e Maria (...) são objetos de proposições que poderão ser verdadeiras ou
falsas. O conceito de proposição, fundamental na lógica lingüística, é apresentado e ilustrado,
após os conceitos básicos de linguagem-objeto e metalinguagem.
Nos exemplos que seguem os termos da linguagem-objeto são indicados entre ‘aspas simples’:

3) o ‘pesquisador do centro (...) é atento com os clientes’ é um enunciado.

4) o ‘pesquisador do centro (...) é atento com os clientes é um enunciado’ é verdadeiro.

ou

5) ‘Maria do centro (...).é a bibliotecária cuidadosa com o acervo’ é um enunciado.

6) ‘Maria do centro (...).é a bibliotecária cuidadosa com o acervo é um enunciado’ é


verdadeiro.
24

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

As idéias foram expressas, nessas proposições, pela linguagem que é habitual, normal (...), a
linguagem objeto do discurso e que se utiliza para comunicar idéias.
Mas, da linguagem objeto, enquanto ente disponível e habitual de comunicação, pode-se ter
outra idéia, após análise: é a metalinguagem ou propriedade que tem a língua de voltar-se para si
mesma, ampliando-se seu significado para compreender vários tipos de linguagem.
b) A metalinguagem ou a linguagem cujo objeto (de estudo, de análise) é a própria linguagem,
centralizada em códigos; é a aplicação do código pelo código ou a linguagem sobre a linguagem
que pode ocorrer tanto no nível do discurso denotativo (definições de códigos feitas a partir do
próprio código) quanto no nível do discurso conotativo (também com o código para chegar à
definição: “significado” de termos mediante o “significante” como o “traduzir”).
Das várias formas como se pode apresentar a metalinguagem, duas são ilustradas no texto que
segue (CHALHUB, 1986).
b.1) A intertextualidade ou metalinguagem que trata da relação existente entre vários textos, de
naturezas diferentes ou da mesma natureza, além da relação entre o próprio texto e o contexto
em que a inserção é feita.
O texto científico, enriquecido com citações de outros textos para fortalecer, dar credibilidade
(...), por vezes se apresenta como um mosaico de trechos aproximados e/ou vinculados com uma
idéia central a ser comunicada, utilizando-se formas para destacar determinada característica.
Exemplos:

Na pesquisa documental feita para escrever esta Fundamentação da pesquisa, um


chefe hostil e descrente dos métodos científicos, disse-lhe ao pesquisador-autor: “essa
coisa é um sonho de utopias sem interesse prático porque o suposto alvo desse extenso
documento não estará disposto a fazer inúteis reflexões filosóficas da ciência, nem
interessado na consulta de fundamentos do método científico (...)”. Diante o dilema
‘filosofar para viver - agir bem’ e apenas ‘sobre-viver – imitar sem filosofar’ o autor
consultou um “anjo”; este lhe diz: “vai em frente sem desanimar, porque nunca estarás
mais longe de teus sonhos do que quando imaginas possuir o que desejas ao incitar à
reflexão e oferecer orientações (...).” Com a vinda de outro chefe a “coisa utópica, inútil
e de fantasias” passou a fundamentar ações de treinamento e desenvolvimento de
habilidades do pesquisador possíveis de serem atingidas com reflexão, com crítica e
considerações dos fundamentos do método científico (...). Ao retornar ao anjo para
agradecer, ouviu: “ainda que proveitosos os frutos de tua pesquisa, foi curta a visão em
teu sonho” (Pelo visto esse anjo era o espírito inquisidor de Goethe, não bem
compreendido na primeira mensagem).

Em versos de Drummond aparece:


"Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era
fraco." (Poema de sete faces).
25

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

b.2) A autotextualidade; este recurso da metalinguagem ocorre pelo conjunto de relações possíveis
de um texto consigo mesmo; é uma reduplicação interna de textos que permite desdobrar a
narrativa em partes literais e referenciais. Exemplos:

O pesquisador que racionalmente escolhe e utiliza o método científico é auxiliado em


sua criatividade, com consistência - oportunidade e nos resultados da investigação com a
efetividade deles no alvo. Por esse método o pesquisador observa, registra e cenariza o
que interessa à ciência, consultado princípios e regras. Pelo método científico avalia,
analisa e cenariza o que interessa ao cliente da realidade no foco da pesquisa,
consultando-o para ser orientado em o como fazer e atendendo-o com o produto da
pesquisa. Com o método integra, equilibra e sinergiza teoria e prática (citação da obra
“...”). Com o método dá consistência ao processo criativo e credibilidade ao resultado da
criação, da invenção, da descoberta (citação de outra obra “...”).

Em versos de Drummond aparecem alguns elementos que são recorrentes em todas as suas
obras, servido de base para um constante diálogo do poeta consigo mesmo:
Eu maior que o mundo: "Mundo, mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução. Mundo, mundo vasto mundo, mais vasto é meu
coração" ("Poema de sete faces"). Eu menor que o mundo: "Não, meu coração não é
maior que o mundo. É muito menor." ("Mundo grande", em Sentimento do mundo). Eu
igual ao mundo: no poema "Caso do vestido" (Antologia poética), o poeta afirma que "O
mundo é grande e pequeno".

b.3) A pseudolinguagem freqüentemente utilizada em representações de algoritmos como os de


estruturas e bases de “leitura - compreensão” na utilização do computador.
A pseudolinguagem apresenta determinadas características relacionadas com a lógica, tais como
a utilização de palavras-chave da linguagem-objeto, para indicar a natureza de operações em
determinados passos do algoritmo, como nos casos de operações elementares, operações de
controle para uma seleção entre seqüência de passos e operações de controle para especificar a
repetição de uma seqüência de passos, além de sinais e símbolos próprios desses algoritmos. O
exemplo que segue ilustra a pseudolinguagem em seleções de algoritmos na área de
informática-computação:

Seleção com um ramo:

Se (especificar a “condição”)

então (seqüência de passos)

Seleção com dois ramos:

Se (condição)

então (seqüência de passos 1)


26

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

senão (seqüência de passos 2)

Repetição:

Teste do início:

enquanto (condição de repetir)

seqüência de passos

Teste no fim:

enquanto:

Seqüência de passos

até (condição).

É notável a utilização de formas da pseudolinguagem em determinadas áreas da pesquisa como


são as de sistemas e simulação em “plataformas” computacionais específicas que facilitam o
entendimento e comunicação de conceitos e idéias abstratas difíceis de expressões pela linguagem-
objeto. Nestas “Orientações (...)”, em capítulo especial apresenta ilustrações dessas áreas.
Pela importância para a pesquisa se apresentam e exemplificam casos de análises de textos que
compreendem estruturas da linguagem com critérios formais (lógica formal) utilizados na construção e
no desenvolvimento de expressões.
No caso da linguagem-objeto ser o inglês e a metalinguagem o português, na comunicação em
computação, para casos semânticos (metalinguagem sintática.) e conceituais, temáticos, conceituais
(...) como, p.ex., de agentes (ou sujeito que realiza uma ação), ação (verbo), instrumento (por meio do
qual a ação ocorre ou se realiza), caminho (percursos da ação), tempo (presente) etc., da seguinte
proposição (composta) e seus termos:

‘O pesquisador limpou a impressora com algodão e detergente’:

Elementos Palavras:

Agente pesquisador

Ação limpar

Objeto impressora

Instrumentos algodão e detergente

Metalinguagem

Palavras Conceitos

Pesquisador user

Limpar clean
27

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Impressora printer

Detergente-algodão detergent cotton

A relação semântica poderia ser:

ação(clean(agente(user),objeto(printer),instrumento(cotton-detergente)))

A análise e/ou interpretação da linguagem, no conceito de metalinguagem, pode ser a habitual


(normal, freqüente...) e a contextualizada com um sentido restrito a um tipo de cliente, região, condição
social; são as metalinguagens de significado e a contextualizada ou linguagem figurada (tropos de
palavras, de construções etc.) de um significado. Portanto, na mensagem, na comunicação (...), o
significado pode ser o principal ou explícito (habitual) e o secundário ou conotativo. Determinar o
significado de uma sentença mediante a sua análise é saber as condições de verdade, sejam elas
explícitas (significado principal) e/ou secundárias (significado conotativo ou apelativo). Essas
diferenças podem ser observadas nos exemplos que seguem:

‘Está chovendo no campo experimental’.

‘Com essa nova peça se tem a garantia de (...)’.

É possível não ter informações suficientes para saber se está ou não chovendo, se há ou não
garantias (...). Contudo, o que a lógica na análise lingüística considera é saber ou não o significado de
uma proposição. Saber o significado não implica saber se a sentença é verdadeira ou falsa.
Quando o pesquisador utiliza termos (p.ex., palavras e símbolos matemáticos) e suas
combinações, os problemas podem ser de significado e de verdade, sendo que a verdade está associada
apenas às sentenças declarativas.
Do conceito de verdade, no âmbito da lógica, trata-se, depois da apresentação e ilustração dos
conceitos linguagem-objeto e metalinguagem feita a continuação.
A importância da linguagem-objeto e da metalinguagem se revela em dificuldades freqüentes
encontradas pelo pesquisador na análise e interpretação de dados e informações, com freqüência
primárias, para a investigação. Tais dificuldades, segundo Minayo (2000, p. 197), resultam da “ilusão”
da transparência do processo de obtenção desses dados; por acreditar na “magia” de métodos e técnicas
utilizados na pesquisa; e pela dificuldade de se integrarem teorias e conceitos abstratos com são os
dados da realidade objeto de pesquisa com as teorias.
A “transformação” de dados e informações primárias (p.ex., os obtidos por mensagens,
entrevistas e questionários), ainda em seu estado bruto, em resultados de pesquisa compreende o uso de
determinados procedimentos para avaliar a consistência dessas informações, para sistematizar
processos e para categorizar e tornar possível a integração e análise desses dados. Entre esses
procedimentos se têm as análises de conteúdos (comumente adotado no tratamento de dados de
pesquisa qualitativa; MINAYO, op. cit.) e as análises de discursos como propostas teórico-
metodológicas.
28

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

A parte que segue apresenta e ilustra conceitos compreendidos em procedimentos, técnicas e


métodos da análise de conteúdos de textos de mensagens, de entrevistas e de questionários “abertos”,
dentro do cálculo proposicional clássico, esclarecendo-se que as informações apresentadas são
elementares e apenas suficientes para se ter uma idéia preliminar sobre o assunto. Os interessados
deverão consultas à literatura pertinente, com referências indicadas como as de Carnap, Quine,
Frege e Bardin, entre outras fontes de lógica e sua aplicação na investigação científica.
A análise de conteúdo, segundo Bardin (1979), compreende as iniciativas de explicação, de
sistematização e de expressão do conteúdo de uma mensagem com o objetivo de se efetuar a descrição
do mesmo e estimar indicadores (quantitativos ou não) que permitam deduções lógicas e justificadas
em relação a origem dessas mensagens. Esta definição compreende dois aspectos básicos para a
pesquisa: o rigor da objetividade e a fecundidade da subjetividade, procurando revelar o “escondido”,
o que está latente, implícito ou subentendido na mensagem.
Os processos de explicitação, sistematização e expressão de conteúdo de mensagens, na análise
de conteúdos, compreendem três etapas:
a) a pré-análise; é a fase de organização e sistematização das idéias; para o caso da pesquisa essa
pré-análise é facilitada pela tecnologia de informação – informática, possibilitando avaliar a
consistência de dados conforme adequados “indicadores de referência”;
b) a exploração de material, em que os dados “brutos” do material de entrevistas, mensagens e
questionários são codificados para se ter a compreensão do texto; a codificação envolve
procedimentos de recorte, contagem, reclassificação, enumeração (...) em função de regras e
diretrizes pré-estabelecidas; ao se estabelecerem as referências para orientar a exploração do
material, o pesquisador deverá considerar, com destaque, os objetivos da pesquisa para apenas se
terem dados e informações com conteúdos “valiosas” e consistentes;
c) tratamento dos resultados obtidos e interpretação de análises; nesta fase, os dados são
sintetizados e submetidos às análises como as estatísticas necessárias para se desvendarem
conteúdos e relações significativas e válidas nas inferências e interpretações, conforme seja o
quadro teórico e os objetivos propostos na investigação.
Entre as técnicas de análises de conteúdos agindo no sentido de promover o alcance e a
compreensão de significados manifestos e latentes em materiais de comunicação como mensagens,
entrevistas e questionários se relacionam as seguintes: 13
a) A análise temática (categoria): consiste no desmembramento do texto (da mensagem) em
unidades (categorias) segundo reagrupamentos analógicos, para descobrir, mediante essa análise,
a essência ou o sentido da mensagem.
Os reagrupamentos de idéias se fundam ou baseiam em analogias relevantes como as de
afinidades de sentidos existentes entre as idéias contidas na mensagem..
13
Detalhes da filosofia lingüística que compreende a análise de conteúdos podem ser encontrados em Bertrand
Russell e Ludwing Wittgensteisn, com suas obras relacionadas em Origem e evolução da ciência e da
pesquisa.
29

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

b) A análises de avaliação (representação): consiste em medir as atitudes, manifestações (...) do


informante quanto aos objetos a que se refere na mensagem. Esses objetos poderão ser fatos,
pessoas, comportamentos, medidas, escalas etc., atendo-se à direção da intensidade de juízos, de
atitudes, de predisposições (...) do informante.
É importante considerar, na análise de avaliações emitidas pelo informante, a “possível”
veracidade da proposição informativa declarativa, um predicado de enunciados.
Além da parte formal lógica da análise de representação é necessário considerar as condições em
que se faz essa análise. Para essas considerações se têm códigos implícitos; termos como os
ambíguos e vagos; e menções, entre outros recursos da metalingüística que podem ser utilizados
na análise de avaliação.
c) aA análise de expressão: conjunto de técnicas que abordam indicadores da estrutura narrativa
para alcançar a inferência formal.
d) A análise de relações: busca as relações entre elementos do texto, podendo ser de co-ocorrências,
quando se identifica a presença simultânea de elementos e de estruturas, quando se observam
elementos, dentro de uma mesma estrutura, porém de fenômenos diversos.
e) A análise de enunciação apoiada na concepção da comunicação como um processo. Essa análise
funciona com desvios de estruturas e elementos formais presentes no texto, podendo incluir
produção de palavras e modalidades do discurso (análise lógica, análise sintática, realce de
figuras retóricas, omissões etc.).
A análise de discursos compreende condições de produção e apreensão do significado de textos
com o propósito de entender o modo de funcionamento, os princípios de organização e as formas de
produção social do sentido, focando o ponto de articulação da língua com a ideologia (MINAYO,
2000). Este aspecto, ainda que importante na relação lógica – método científico para determinadas
áreas do conhecimento, é propositadamente omitido nestas “Orientações (...)”.
A parte que segue focaliza, numa abordagem preliminar e simplista, o cálculo proposicional
clássico de proposições, com base nos conceitos preliminares anteriores de linguagem-objeto ou
linguagem descrita e metalinguagem ou linguagem descritora, destacando-se formas de combinar
proposições para se terem proposições complexas (compostas) por meio dos conectivos lógicos,
principais ou não.
Antes do desdobramento de conceitos lógico-lingüísticos e da aplicação, em níveis preliminares
e introdutórios de conetivos e enunciados do cálculo proposicional, apresenta-se o conceito, na lógica
do raciocínio, de verdade, limitando-o ao entendimento de um predicado de enunciados, portanto, sem
entrar no mérito de teorias acerca da verdade. Porém, é importante reconhecer que qualquer teoria da
verdade, em última análise, considera aspectos da lógica do raciocínio, conforme se indica com os
conceitos e exemplos que seguem (HEGENBERG, 1975, p. 22):

Lei dos dois valores (lei da bivalência): um enunciado (argumento) admite um de dois valores de
verdade: verdade ou falsidade, ainda que não se conheça o valor de P e Q (são símbolos de
30

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

sentenças declarativas, símbolos sentenciais dos conjuntos ou de enunciados e de argumentos),


como nos casos que seguem dos argumentos com instâncias ou variantes gramaticais
(reentradas) de proposições compostas;

‘hoje é segunda-feira ou terça-feira’.

‘hoje não é segunda-feira’.

‘hoje é terça-feira’.

‘João é pesquisador e administrador’

‘João é pesquisador’.

‘ele não é administrador’.

Nessas proposições, P 14 pode representar : ‘hoje é segunda-feira’, ‘João é pesquisador’ e Q 188

representar: ‘hoje é terça-feira e ‘ele não é administrador’.


Qualquer que seja o enunciado declarativo, só se admite um dos dois valores: ‘verdadeiro’ ou
‘falso’. Dessa forma, o enunciado formal é:

“seja qual for o enunciado P, tem-se que P ou é verdadeiro ou é falso” ou

“Para todo P, para todo Q, se P é enunciado e se Q designa somente P, então Q é verdadeiro se,
e somente se P”

Com esta formulação, verifica-se que na metalinguagem o predicado verdade está associado a
uma constante e não a uma variável. Assim, a formulação anterior poderia ter (um critério) a seguinte
apresentação:

“Para todo P, se P é enunciado, então ‘P’ é verdadeiro se, e somente se, P”.

Há teoria, conceitos e discussões, não apresentadas nestas “Orientações (...)” como a “lei dos
três valores” que admitem enunciados verdadeiros, falsos ou duvidosos ou ainda mais de três valores
de verdades nos enunciados.
Lei da não-contradição formulada como segue: “nenhum enunciado P pode ser
[simultaneamente] verdadeiro e falso”.
Lei de Tarski; traduz a noção intuitiva de que existe conexão entre as sentenças (entidades
lingüísticas) e a realidade (entidades extralingüísticas). Essa conexão representa a idéia de que a
sentença é verdadeira, expressa na forma geral: “qualquer que seja o enunciado P, se P descreve
um estado de coisas Q, P é verdadeiro se e somente se Q”. Exemplos:
14
Em alguns textos de lógica, os enunciados de sentenças declarativas (variáveis enunciativas), antecedentes ou
conseqüentes, são representados por letras maiúsculas: ‘A’, ‘B’, ‘C’, ‘D’,..., ’Z’. No texto são utilizadas as duas formas
como o mesmo sentido ou significado.
31

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

A proposição ‘O experimento teve sucesso’ é verdadeira se e somente se o experimento


tiver sucesso, for bem sucedido, julgamento que tem critérios como referências para
fundamentá-lo.

A proposição ‘O experimento teve sucesso’ é falsa se e somente se o experimento não


foi bem sucedido.

Uma proposição é verdadeira se ela descreve corretamente um “estado” da realidade; será falsa
se descreve incorretamente um “estado” da realidade. Esta é a Teoria da verdade de Tarski.

A noção de verdade, no contexto da lógica, é a de uma correspondência entre enunciados e fatos,


na qual se especifica, para cada enunciado, (existente ou possível), o fato (ou as condições) do domínio
que o torna(m) verdadeiro(s). Assim:

‘A pesquisa gera resultados com efetividade’ é verdadeiro.

‘O experimento é adequado’ é verdadeiro

Onde as aspas simples estabelecem as diferenças entre falar de palavras e falar de “pesquisa” e
de “experimento”, objetos com predicados de ‘verdadeiro’ dos enunciados que declaram a
“efetividade” e o “adequado”, respectivamente.
As idéias que orientam a definição semântica de verdades são: ‘é verdadeiro’, interpretado como
predicado de enunciados da linguagem-objeto; da definição de ‘verdadeiro’ devem resultar efeitos ou
conseqüências (coerência com a realidade), conforme se ilustra com os seguintes exemplos (Teoria da
verdade de Tarski):

‘A pesquisa gera resultados com efetividade’ é verdadeiro se, e somente se, a pesquisa
gera resultados com efetividade.

‘O experimento é adequado’ é verdadeiro se, e somente se, o experimento é adequado.

Nas próximas seções se apresentam conceitos e ilustrações preliminares acerca de conectivos


lógicos que, a partir de um ou mais enunciados simples (sentenças indecomponíveis e que, portanto,
não contem nenhuma outra como parte; elas podem ter predicados de ‘verdadeiro’ ou de ‘falso’)
formam enunciados complexos (ou compostos, isto é, um enunciado que contenha pelos menos um
enunciado como parte) com predicados ‘verdadeiro’ ou ‘falso’, à luz dos predicados componentes.
Essa análise, segundo Cohen e Nagel (1983, p. 64), pertence à lógica; enquanto que a
análise de uma oração em seus componentes, as palavras, é parte da gramática. Destacam os autores
que, do ponto de vista da lógica, as proposições são anteriores às palavras, no sentido de não se criam
proposições mediante a união de palavras, mas, o significado delas se deduz de algum contexto
proposicional, conforme se ilustra com os seguintes exemplos de enunciados simples:
32

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

1) ‘Kant era um filósofo’.

São exemplos de enunciados compostos, formados a partir de pelos menos um enunciado


simples com a utilização de conetivos ”ou” e “e” (a próxima seção considera conceitos e ilustrações de
conetivos, da proposição e suas partes, conectivos e sinais), os seguintes:

’23 – 3 = 6 ou 24 + 16 = 32’.

A fórmula P V Q Λ  R  P  Q, entendida como:


(((P V Q) Λ (  R))  (P  ( Q)))
2) ‘Kant estabeleceu a objetividade científica como algo provável e justificável’.

3) ‘Kant foi o primeiro a reconhecer que a objetividade do enunciado científico se


relaciona com teorias, hipótese (...)’.

4) ‘eritrócitos são glóbulos do sangue e compostos por células que não possuem
organelas’.

5) ’32 – 7 = 2’; 5 x (9)½.

6) ‘o autor de La lógica de la investigación científica é o autor de Conjeturas y


refutaciones: el desarrollo del conocimiento científico.

Cada proposição categórica está composta por um sujeito, predicado(s) e termos ou conectivos
que unem os enunciados. Na proposição (1) se afirma que Kant foi membro de uma classe de
pensadores, os filósofos. Na proposição (2) e (3) se afirma que Kant definiu características da
objetividade científica e relações teóricas. Outra forma de analisar uma proposição é atribuindo ao
sujeito uma propriedade de definição como nos exemplos (4) e (5). Na proposição (6), em que o sujeito
(Popper) está implícito, poderia ser mais apropriado definir a proposição como uma relação de
identidade denotativa. Estas formas de enunciados na análise de proposições, entre muitas outras, não
são formas únicas e exclusivas dessa análise.
Nos enunciados das proposições é preciso observar, conforme sejam o contexto e a idéia que se
quer comunicar, determinadas estruturas e as formas diretas, convenientes e lógicas do enunciado mais
“adequado” em cada caso.
Em alguns casos, enunciados como ‘todos os matemáticos são lógicos’, a relação sujeito –
predicado é inapropriada por não predicar uma qualidade de um sujeito específico, por não afirmar
nem estabelecer, com rigor, uma relação (...). Tais casos correspondem às proposições gerais. Em
outros casos como ‘x é pesquisador’ não se tem uma proposição ao não determinar se é verdadeira ou
falsa.
São exemplos de enunciados e de sistemas lógicos definidos a partir conectivos lógicos
proposicionais e enunciados categóricos, os seguintes:
33

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

‘Todos os programas do sistema (...) funcionam’.

‘Nenhuma relação do sistema (...) com seu entorno funciona’.

‘Algumas partes do sistema (...) estão desativadas’.

‘Qualquer parte essencial do sistema (...) funciona’.

‘Alguma coisa para o cliente interno funciona’.

‘Nenhuma coisa funciona’.

‘Nada funciona’.

‘Qualquer coisa funciona’.


‘Hoje é fim-de-semana se e somente se hoje é sábado ou domingo’.

Portanto, hoje é um fim-de-semana, porque hoje é domingo’.

‘Hoje é fim-de-semana se e somente se hoje é sábado ou domingo’.

‘Mas hoje não é um fim-de-semana. Portanto, hoje não é sábado nem


domingo’.

A linguagem-objeto e a metalinguagem são termos relativos, uma vez que qualquer linguagem-
objeto pode ascender ao nível metalingüístico, quando tiver como propósito a análise da mesma. Tal
relação pode se dar entre uma mesma língua ou entre diferentes linguagens. Assim, p.ex., na
informática ao descrever em português a estrutura gramatical do inglês, de alguns termos para
expressar agentes, ações, funções etc., o inglês será a linguagem-objeto e o português, a
metalinguagem.
Os dicionários são repositórios de metalinguagens, sem se limitar a qualquer forma de expressão,
sem fazer alusão a um outro texto específico, a não ser em casos ilustrativos e de exemplos.
De um mesmo texto podem aparecer várias idéias, várias funções da linguagem como a emotiva,
centralizada no emissor ao revelar sua opinião, sua emoção; referencial ou denotativa, centralizada no
referente, quando o emissor fornece informações, direta e com objetividade acerca da realidade;
apelativa ou conotativa, centralizada no receptor e onde o emissor busca influenciar, informar (...) o
receptor; fática, centralizada no canal; e metalingüística, centralizada em códigos, utilizando a
linguagem para se referir a ela mesma: a tecnologia da informação (TI) que fala da TI, do
desenvolvimento e função dessa tecnologia. O importante na orientação da análise da linguagem pela
linguagem é saber qual é a função (esse é o papel da metalingüística) predominante no texto, para
depois defini-lo.
Nessa definição com base na análise do texto há elementos importantes da comunicação (funções
da linguagem), tais como:
a) o emissor: é a pessoa informante, órgão, fonte (...) que emite e codifica a mensagem conforme
determinadas instruções, regras e códigos, explícitos ou não;
34

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

b) o receptor: recebe e decodifica a mensagem; para realizar essa tarefa o receptor precisa conhecer
as instruções, regras e códigos utilizados pelo emissor;
c) a mensagem (formulário, questionário, e-mail etc., preenchidos, respondidos) transmitida pelo
emissor; é o conteúdo da informação na forma de idéias, pensamentos, respostas às perguntas de
um questionário ...;
d) código: conjunto de sinais (lingüísticos, ilustrativos) utilizados na transmissão e recepção e que
devem ser conhecidos para evitar ou minimizar distorções de conteúdos da mensagem;
e) canal ou meio pelo qual circula a mensagem: escrito, falado (gravado), ilustrado (imagens,
figuras, fotografias...) etc.
f) as atitudes, reações e preparação dos comunicantes, conforme se descreve e ilustra, para o caso
de questionários, nestas “Orientações (...)”.
Em levantamento de dados e informações de interesse para a pesquisa escrito em português
poderá se ter tanto linguagem-objeto como um o meio utilizado para expressar as idéias nesse
levantamento como metalinguagem ou a análise desse meio que o pesquisador faz para captar,
interpretar (...) da melhor forma a idéia correta.
No levantamento de dados e informações, a análise da língua poderá ser feita em termos de
significados e de interpretações. É o caso da metalinguagem semântica, da análise da linguagem pelo
estudo do significado, um dos componentes do conhecimento, da mesma forma como são os
componentes morfológicos ou sintáticos. Essa análise poderá ser para representar, sem distorções, os
significados da idéia a comunicá-la.
Na próxima seção se apresentam conceitos básicos da comunicação, sob o enfoque da lógica
lingüística, como são os de proposição e conectores de termos e premissas utilizados na argumentação
e conclusão, apenas suficientes para despertar e/ou incitar à pesquisa sobre interessantes tópicos.

7.1.1.1.2 Noções de proposições e seus predicados


Entenda-se por proposição o pensamento (juízo) que uma frase declarativa exprime mediante a
linguagem e/ou por meio de outros símbolos, sendo que tanto as premissas como as conclusões são
proposições objeto da lógica.
35

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

O estudo formal do raciocínio, da lógica, foi inicialmente desenvolvido por Aristóteles (teoria
do silogismo). A ele se deve dois dos princípios centrais da lógica: o da não-contradição e do terceiro -
excluído. Outros filósofos das ciências fizeram importantes contribuições, tais como Gottlob Frege,
com sua Conceitografia, onde apresentou sua descoberta de reordenamento de várias sentenças para
tornar sua forma lógica e clara e Bertrand Roussell demonstrando em sua obra Os princípios da
matemática a identidade entre ciência e lógica formal, defendendo o princípio de que os conceitos
matemáticos podem ser deduzidos de axiomas simples da lógica e Quine, com sua obra A gramática
lógica em Philosophy of logic, entre outros autores relacionados nestas “Orientações (...)”.
A proposição é constituída por elementos que são seus termos ou categorias, aquilo que, sem a
combinação de palavras, designa um atributo de um objeto, o que faz, como está, como se sente, como
percebe etc., o sujeito, sem demonstração porque a relação de termos é direta e objetiva.
A proposição é constituída por elementos que são seus termos ou categorias, aquilo que, sem a
combinação de palavras, designa um atributo de um objeto, o que faz, como está, como se sente, como
percebe etc., o sujeito, sem demonstração porque a relação de termos é direta e objetiva.
Para o entendimento de proposições é necessário distinguir claramente um objeto (fato,
fenômeno: uso, aplicação, desempenho etc) de seu nome (operação visual: menção desse fato), um
enunciado acerca de um objeto contendo o nome (uso) e não o próprio objeto (indicado pelo nome de
um nome: menção).
O enunciado acerca de um objeto deve especificar o nome do objeto e não o próprio objeto. No
caso de um objeto definido como, p.ex., homem ou cidade, as circunstâncias físicas poderão impedir o
erro de usar o objeto em lugar do nome, mas quando se trata de um nome ou de uma expressão
qualquer, é possível incorrer em erros com relativa facilidade. Para ilustrar a distinção fundamental o
uso (nome) e a menção (nome de um nome) são considerados os seguintes enunciados:

1) Pesquisador busca a verdade com o auxílio do método científico: pesquisador é um ente


representado.

2) Pesquisador é tetrassílabo: palavra não é ente que represente pesquisador.

3) Brasília é o centro político-administrativo do Brasil. O objeto representado é uma


cidade

4) Brasília é trissílaba: o termo Brasília não tem o sentido de cidades (Brasília seria a
palavra)

5) ‘Pesquisador’ é tetrassílabo.

6) ‘Brasília’ é trissílaba.

O termo pesquisador, nos exemplos 1 e 2, não tem o mesmo significado, não representam a
mesma coisa. Pesquisador que busca a verdade (...) tem o nome de ‘Pesquisador’; o termo o representa.
36

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Tampouco Brasília tem o mesmo significado nos exemplos 3 e 4; Brasília é um centro político-
administrativo cujo nome é ‘Brasília’; o termo ‘Brasília’ é, por conseguinte, equívoco.
Um termo pode ser usado normalmente, como em geral acontece, mas também pode ser
empregado para referir-se a se mesmo: é a menção. A diferença entre uso (objeto) e menção se faz com
o emprego de outro símbolo: aspas simples. A eliminação de equívocos entre uso (significado) e
menção é importante para se ter clara a diferença entre entidades lingüísticas e extralingüísticas.
Os exemplos 1 e 3 (enunciados verdadeiros; uso do nome que faz alusão a uma pessoa, a uma
cidade) são incompatíveis com os exemplos 2 e 4 (enunciados falsos; usam o nome com o sentido da
palavra). Pesquisador (uma pessoa que busca a verdade) e Brasília (uma cidade que é o centro político)
não são palavras que possam ser classificadas como tetrassílaba e trissílaba; são nomes aos quais se
atribuem qualidades.
Para expressar que um pesquisador ou uma cidade é tetrassílabo ou trissílabo é preciso usar não o
próprio nome objeto do predicado, mas um ‘nome’ do nome. Este pode ser indicado entre aspas
simples (ver nota de rodapé 180) ou diferenciado de outra forma. Assim procedendo, tanto os
enunciados 1 e 5 (com o nome e o ‘nome’ do nome para a palavra) como 3 e 6 são verdadeiros.
Para expressar que uma pessoa ou cidade, em geral, uma palavra, tem certa propriedade, associa-
se o predicado apropriado ao nome da palavra em questão. Do mesmo modo, para expressar que um
enunciado tem certa propriedade, p.ex., a de ser verdadeiro ou falso, atribuiu-se o predicado apropriado
a um nome do enunciado, em questão e não ao próprio enunciado. Dessa forma, para atribuir verdades
aos enunciados:

1) Olinda é pedagoga.

2) Raquel toca violino

Escrevem-se:

3) ‘Olinda é pedagoga’ é verdadeiro.

4) ‘Raquel toca violino’ é verdadeiro.

Enquanto que para atribuir falsidade aos mesmos enunciados-exemplos, escrevem-se:

5) ‘Olinda é pedagoga’ é falso.

6) ‘Raquel toca violino’ é falso.

Sendo inconsistentes as seguintes proposições:

7) Olinda é pedagoga é verdadeiro.

8) Raquel toca violino é verdadeiro.


37

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

9) Olinda é pedagoga é falso.

10) Raquel toca violino é falso.

As frases 3 e 4, bem como 5 e 6 são enunciados das proposições 1 e 2, onde se ligam atributos
aos nomes Olinda e Raquel., nesses exemplos.
As atribuições e seus correspondentes nomes podem ser aplicados na matemática, conforme se
ilustra nos conceitos – exemplos elementares que seguem.
Para enunciar operações abstratas em aritmética são utilizados símbolos (‘x’, ‘’, ‘+’, ‘-‘, ‘=’)
com números que se combinam para formar proposições como, p.ex., 12 + 7 = 19, onde ‘12’, ‘7’ e ‘19’
são nomes de números, mas não os próprios números que são entes abstratos. Da mesma forma, os
enunciados ’12-7’ e ’19 – 14’ são nomes distintos de um mesmo objeto, o número cinco que resulta
com o acréscimo do predicado ‘=’.
Referências para se obterem informações de conceitos e símbolos da lógica, além das
informações preliminares apresentadas acima, encontram-se, entre outras fontes, na seção 2 (Origem e
evolução das ciências e da pesquisa), filósofos das ciências como Carnap, Quine, Lakatos, Kuhn,
Popper, Bunge, Ackoff (...), com enfoques e abordagens da natureza do método científico e da lógica
nas ciências por vezes diferenciados.

7.1.1.1.3 Regras das premissas


38

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

3) O caso de proposições com superimplicações e subalternâncias: Sejam as proposições simbólicas:


Se P é verdadeira, Q é verdadeira.

Se P é falsa, Q é indeterminada.

No caso de proposições dessa forma, as relações entre elas serão de dominância (ou
superimplicação para a proposição principal, P) e de dominada (ou subalternância para a outra
proposição, Q).
Se P é verdadeira, Q é falsa.

Se P é falsa, Q é verdadeira.

São proposições que se relacionam de forma contraditória.


Se P é verdadeira, Q é falsa.

Se P é falsa, Q é falsa.

Neste exemplo, a falsidade da proposição Q não está relacionada com a verdade ou falsidade da
proposição P; é o caso de relações de proposições independentes.
Se P é verdadeira, Q é falsa.

Se P é falsa, Q é indeterminada.

Neste exemplo, as proposições P e Q são contraditórias uma vez que ambas não poderão ser
verdadeiras, porém poderão ser falsas.
Se P é verdadeira, Q é indeterminada.

Se P é falsa, Q é verdadeira.

Para este exemplo, as proposições P e Q não poderão ser falsas, porém poderão ser ambas
verdadeiras; é o caso de proposições subcontrárias.
Se P é verdadeira, Q é indeterminada.

Se P é falsa, Q é falsa.

Neste exemplo, a relação entre as proposições P e Q é de subimplicação.


Se P é verdadeira, Q é indeterminada.

Se P é falsa, Q é indeterminada.

Neste exemplo P e Q são independentes, uma vez que o valor de verdade da proposição P não
determina o valor de verdade da proposição Q.
39

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

As regras relativas às premissas necessárias para determinar se uma argumentação (termos e


proposições, estruturas e regras) é correta ou não são apresentadas na forma de silogismos (estrutura do
por premissas). Essas regras são:
a) De duas premissas particulares (independentes: uma geral ou universal e outro dependente ou
parte dedutiva da argumentação) nada se conclui

A análise do texto, conforme seja o propósito da pesquisa, poderá se orientar para a estrutura
dessa linguagem com o objetivo de descrever os critérios formais utilizados na construção e no
desenvolvimento de expressões.
No caso da linguagem-objeto ser o inglês e a metalinguagem o português, na comunicação em
computação, para casos semânticos (metalinguagem sintática.) e conceituais, temáticos, conceituais
(...) como, p.ex., de agentes (ou sujeito que realiza uma ação), ação (verbo), instrumento (por meio do
qual a ação ocorre ou se realiza), caminho (percursos da ação), tempo (presente) etc., da seguinte
proposição (composta) e seus termos:

‘O pesquisador limpou a impressora com algodão e detergente’:

Elementos Palavras:

Agente pesquisador

Ação limpar

Objeto impressora
40

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Instrumentos algodão e detergente

Metalinguagem

Palavras Conceitos

Pesquisador user

Limpar clean

Impressora printer

Detergente-algodão detergent cotton

A relação semântica poderia ser:

ação(clean(agente(user),objeto(printer),instrumento(cotton-detergente)))

A análise e/ou interpretação da linguagem, no conceito de metalinguagem, pode ser a habitual


(normal, freqüente...) e a contextualizada com um sentido restrito a um tipo de cliente, região, condição
social; são as metalinguagens de significado e a contextualizada ou linguagem figurada (tropos de
palavras, de construções etc.) de um significado. Portanto, na mensagem, na comunicação (...), o
significado pode ser o principal ou explícito (habitual) e o secundário ou conotativo. Determinar o
significado de uma sentença mediante a sua análise é saber as condições de verdade, sejam elas
explícitas (significado principal) e/ou secundárias (significado conotativo ou apelativo). Essas
diferenças podem ser observadas nos exemplos que seguem:

‘Está chovendo no campo experimental’.

‘Com essa nova peça se tem a garantia de (...)’.

É possível não ter informações suficientes para saber se está ou não chovendo, se há ou não
garantias (...). Contudo, o que a lógica na análise lingüística considera é saber ou não o significado de
uma proposição. Saber o significado não implica saber se a sentença é verdadeira ou falsa.
Quando o pesquisador utiliza termos (p.ex., palavras e símbolos matemáticos) e suas
combinações, os problemas podem ser de significado e de verdade, sendo que a verdade está associada
apenas às sentenças declarativas.
Do conceito de verdade, no âmbito da lógica, trata-se, depois da apresentação e ilustração dos
conceitos linguagem-objeto e metalinguagem feita a continuação.
A importância da linguagem-objeto e da metalinguagem se revela em dificuldades freqüentes
encontradas pelo pesquisador na análise e interpretação de dados e informações, com freqüência
primárias, para a investigação. Tais dificuldades, segundo Minayo (2000, p. 197), resultam da “ilusão”
da transparência do processo de obtenção desses dados; por acreditar na “magia” de métodos e técnicas
utilizados na pesquisa; e pela dificuldade de se integrarem teorias e conceitos abstratos com são os
dados da realidade objeto de pesquisa com as teorias.
41

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

A “transformação” de dados e informações primárias (p.ex., os obtidos por mensagens,


entrevistas e questionários), ainda em seu estado bruto, em resultados de pesquisa compreende o uso de
determinados procedimentos para avaliar a consistência dessas informações, para sistematizar
processos e para categorizar e tornar possível a integração e análise desses dados. Entre esses
procedimentos se têm as análises de conteúdos (comumente adotado no tratamento de dados de
pesquisa qualitativa; MINAYO, op. cit.) e as análises de discursos como propostas teórico-
metodológicas.
A parte que segue apresenta e ilustra conceitos compreendidos em procedimentos, técnicas e
métodos da análise de conteúdos de textos de mensagens, de entrevistas e de questionários “abertos”,
dentro do cálculo proposicional clássico, esclarecendo-se que as informações apresentadas são
elementares e apenas suficientes para se ter uma idéia preliminar sobre o assunto. Os interessados
deverão consultas à literatura pertinente, com referências indicadas como as de Carnap, Quine,
Frege e Bardin, entre outras fontes de lógica e sua aplicação na investigação científica.
A análise de conteúdo, segundo Bardin (1979), compreende as iniciativas de explicação, de
sistematização e de expressão do conteúdo de uma mensagem com o objetivo de se efetuar a descrição
do mesmo e estimar indicadores (quantitativos ou não) que permitam deduções lógicas e justificadas
em relação a origem dessas mensagens. Esta definição compreende dois aspectos básicos para a
pesquisa: o rigor da objetividade e a fecundidade da subjetividade, procurando revelar o “escondido”,
o que está latente, implícito ou subentendido na mensagem.
Os processos de explicitação, sistematização e expressão de conteúdo de mensagens, na análise
de conteúdos, compreendem três etapas:
a) a pré-análise; é a fase de organização e sistematização das idéias; para o caso da pesquisa essa
pré-análise é facilitada pela tecnologia de informação – informática, possibilitando avaliar a
consistência de dados conforme adequados “indicadores de referência”;
b) a exploração de material, em que os dados “brutos” do material de entrevistas, mensagens e
questionários são codificados para se ter a compreensão do texto; a codificação envolve
procedimentos de recorte, contagem, reclassificação, enumeração (...) em função de regras e
diretrizes pré-estabelecidas; ao se estabelecerem as referências para orientar a exploração do
material, o pesquisador deverá considerar, com destaque, os objetivos da pesquisa para apenas se
terem dados e informações com conteúdos “valiosas” e consistentes;
c) tratamento dos resultados obtidos e interpretação de análises; nesta fase, os dados são
sintetizados e submetidos às análises como as estatísticas necessárias para se desvendarem
conteúdos e relações significativas e válidas nas inferências e interpretações, conforme seja o
quadro teórico e os objetivos propostos na investigação.
42

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Entre as técnicas de análises de conteúdos agindo no sentido de promover o alcance e a


compreensão de significados manifestos e latentes em materiais de comunicação como mensagens,
entrevistas e questionários se relacionam as seguintes: 15
a) A análise temática (categoria): consiste no desmembramento do texto (da mensagem) em
unidades (categorias) segundo reagrupamentos analógicos, para descobrir, mediante essa análise,
a essência ou o sentido da mensagem.
Os reagrupamentos de idéias se fundam ou baseiam em analogias relevantes como as de
afinidades de sentidos existentes entre as idéias contidas na mensagem..
b) A análises de avaliação (representação): consiste em medir as atitudes, manifestações (...) do
informante quanto aos objetos a que se refere na mensagem. Esses objetos poderão ser fatos,
pessoas, comportamentos, medidas, escalas etc., atendo-se à direção da intensidade de juízos, de
atitudes, de predisposições (...) do informante.
É importante considerar, na análise de avaliações emitidas pelo informante, a “possível”
veracidade da proposição informativa declarativa, um predicado de enunciados.
Além da parte formal lógica da análise de representação é necessário considerar as condições em
que se faz essa análise. Para essas considerações se têm códigos implícitos; termos como os
ambíguos e vagos; e menções, entre outros recursos da metalingüística que podem ser utilizados
na análise de avaliação.
c) aA análise de expressão: conjunto de técnicas que abordam indicadores da estrutura narrativa
para alcançar a inferência formal.
d) A análise de relações: busca as relações entre elementos do texto, podendo ser de co-ocorrências,
quando se identifica a presença simultânea de elementos e de estruturas, quando se observam
elementos, dentro de uma mesma estrutura, porém de fenômenos diversos.
e) A análise de enunciação apoiada na concepção da comunicação como um processo. Essa análise
funciona com desvios de estruturas e elementos formais presentes no texto, podendo incluir
produção de palavras e modalidades do discurso (análise lógica, análise sintática, realce de
figuras retóricas, omissões etc.).
A análise de discursos compreende condições de produção e apreensão do significado de textos
com o propósito de entender o modo de funcionamento, os princípios de organização e as formas de
produção social do sentido, focando o ponto de articulação da língua com a ideologia (MINAYO,
2000). Este aspecto, ainda que importante na relação lógica – método científico para determinadas
áreas do conhecimento, é propositadamente omitido nestas “Orientações (...)”.
A parte que segue focaliza, numa abordagem preliminar e simplista, o cálculo proposicional
clássico de proposições, com base nos conceitos preliminares anteriores de linguagem-objeto ou
15
Detalhes da filosofia lingüística que compreende a análise de conteúdos podem ser encontrados em Bertrand
Russell e Ludwing Wittgensteisn, com suas obras relacionadas em Origem e evolução da ciência e da
pesquisa.
43

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

linguagem descrita e metalinguagem ou linguagem descritora, destacando-se formas de combinar


proposições para se terem proposições complexas (compostas) por meio dos conectivos lógicos,
principais ou não.
Antes do desdobramento de conceitos lógico-lingüísticos e da aplicação, em níveis preliminares
e introdutórios de conetivos e enunciados do cálculo proposicional, apresenta-se o conceito, na lógica
do raciocínio, de verdade, limitando-o ao entendimento de um predicado de enunciados, portanto, sem
entrar no mérito de teorias acerca da verdade. Porém, é importante reconhecer que qualquer teoria da
verdade, em última análise, considera aspectos da lógica do raciocínio, conforme se indica com os
conceitos e exemplos que seguem (HEGENBERG, 1975, p. 22):

Lei dos dois valores (lei da bivalência): um enunciado (argumento) admite um de dois valores de
verdade: verdade ou falsidade, ainda que não se conheça o valor de P e Q (são símbolos de
sentenças declarativas, símbolos sentenciais dos conjuntosou de enunciados e de argumentos),
como nos casos que seguem dos argumentos com instâncias ou variantes gramaticais
(reentradas) de proposições compostas;

‘hoje é segunda-feira ou terça-feira’.

‘hoje não é segunda-feira’.

‘hoje é terça-feira’.

‘João é pesquisador e administrador’

‘João é pesquisador’.

‘ele não é administrador’.

Nessas proposições, P 16 pode representar : ‘hoje é segunda-feira’, ‘João é pesquisador’ e Q 188

representar: ‘hoje é terça-feira e ‘ele não é administrador’.


Qualquer que seja o enunciado declarativo, só se admite um dos dois valores: ‘verdadeiro’ ou
‘falso’. Dessa forma, o enunciado formal é:

“seja qual for o enunciado P, tem-se que P ou é verdadeiro ou é falso” ou

“Para todo P, para todo Q, se P é enunciado e se Q designa somente P, então Q é verdadeiro se,
e somente se P”

Com esta formulação, verifica-se que na metalinguagem o predicado verdade está associado a
uma constante e não a uma variável. Assim, a formulação anterior poderia ter (um critério) a seguinte
apresentação:
16
Em alguns textos de lógica, os enunciados de sentenças declarativas (variáveis enunciativas), antecedentes ou
conseqüentes, são representados por letras maiúsculas: ‘A’, ‘B’, ‘C’, ‘D’,..., ’Z’. No texto são utilizadas as duas formas
como o mesmo sentido ou significado.
44

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

“Para todo P, se P é enunciado, então ‘P’ é verdadeiro se, e somente se, P”.

Há teoria, conceitos e discussões, não apresentadas nestas “Orientações (...)” como a “lei dos
três valores” que admitem enunciados verdadeiros, falsos ou duvidosos ou ainda mais de três valores
de verdades nos enunciados.
Lei da não-contradição formulada como segue: “nenhum enunciado P pode ser
[simultaneamente] verdadeiro e falso”.
Lei de Tarski; traduz a noção intuitiva de que existe conexão entre as sentenças (entidades
lingüísticas) e a realidade (entidades extralingüísticas). Essa conexão representa a idéia de que a
sentença é verdadeira, expressa na forma geral: “qualquer que seja o enunciado P, se P descreve
um estado de coisas Q, P é verdadeiro se e somente se Q”. Exemplos:

A proposição ‘O experimento teve sucesso’ é verdadeira se e somente se o experimento tiver


sucesso, for bem sucedido,.

A proposição ‘O experimento teve sucesso’ é falsa se e somente se o experimento não foi bem
sucedido.

Uma proposição é verdadeira se ela descreve corretamente um “estado” da realidade; será falsa
se descreve incorretamente um “estado” da realidade. Esta é a Teoria da verdade de Tarski.

A noção de verdade, no contexto da lógica, é a de uma correspondência entre enunciados e fatos,


na qual se especifica, para cada enunciado, (existente ou possível), o fato (ou as condições) do domínio
que o torna(m) verdadeiro(s). Assim:

‘A pesquisa gera resultados com efetividade’ é verdadeiro.

‘O experimento é adequado’ é verdadeiro

Onde as aspas simples estabelecem as diferenças entre falar de palavras e falar de “pesquisa” e
de “experimento”, objetos com predicados de ‘verdadeiro’ dos enunciados que declaram a
“efetividade” e o “adequado”, respectivamente.
As idéias que orientam a definição semântica de verdades são: ‘é verdadeiro’, interpretado como
predicado de enunciados da linguagem-objeto; da definição de ‘verdadeiro’ devem resultar efeitos ou
conseqüências (coerência com a realidade), conforme se ilustra com os seguintes exemplos (Teoria da
verdade de Tarski):

‘A pesquisa gera resultados com efetividade’ é verdadeiro se, e somente se, a pesquisa
gera resultados com efetividade.

‘O experimento é adequado’ é verdadeiro se, e somente se, o experimento é adequado.


45

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Nas próximas seções se apresentam conceitos e ilustrações preliminares acerca de


conectivos lógicos que, a partir de um ou mais enunciados simples (sentenças indecomponíveis e que,
portanto, não contem nenhuma outra como parte; elas podem ter predicados de ‘verdadeiro’ ou de
‘falso’) formam enunciados complexos (ou compostos, isto é, um enunciado que contenha pelos menos
um enunciado como parte) com predicados ‘verdadeiro’ ou ‘falso’, à luz dos predicados componentes.
Essa análise, segundo Cohen e Nagel (1983, p. 64), pertence à lógica; enquanto que a análise de uma
oração em seus componentes, as palavras, é parte da gramática. Destacam os autores que, do ponto de
vista da lógica, as proposições são anteriores às palavras, no sentido de não se criam proposições
mediante a união de palavras, mas, o significado delas se deduz de algum contexto proposicional,
conforme se ilustra com os seguintes exemplos de enunciados simples:

1) ‘Kant era um filósofo’.

São exemplos de enunciados compostos, formados a partir de pelos menos um enunciado


simples com a utilização de conetivos ”ou” e “e”, os seguintes:

’23 – 3 = 6 ou 24 + 16 = 32’.

A fórmula P V Q Λ  R  P  Q, entendida como:


(((P V Q) Λ (  R))  (P  ( Q)))
2) ‘Kant estabeleceu a objetividade científica como algo provável e justificável’.

3) ‘Kant foi o primeiro a reconhecer que a objetividade do enunciado científico se


relaciona com teorias, hipótese (...)’.

4) ‘eritrócitos são glóbulos do sangue e compostos por células que não possuem
organelas’.

5) ’32 – 7 = 2’; 5 x (9)½.

6) ‘o autor de La lógica de la investigación científica é o autor de Conjeturas y


refutaciones: el desarrollo del conocimiento científico.

Cada proposição categórica está composta por um sujeito, predicado(s) e termos ou conectivos
que unem os enunciados. Na proposição (1) se afirma que Kant foi membro de uma classe de
pensadores, os filósofos. Na proposição (2) e (3) se afirma que Kant definiu características da
objetividade científica e relações teóricas. Outra forma de analisar uma proposição é atribuindo ao
sujeito uma propriedade de definição como nos exemplos (4) e (5). Na proposição (6), em que o sujeito
(Popper) está implícito, poderia ser mais apropriado definir a proposição como uma relação de
identidade denotativa.
Estas formas de enunciados na análise de proposições, entre muitas outras, não são formas únicas
e exclusivas dessa análise.
46

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Nos enunciados das proposições é preciso observar, conforme sejam o contexto e a idéia que se
quer comunicar, determinadas estruturas e as formas diretas, convenientes e lógicas do enunciado mais
“adequado” em cada caso.
Em alguns casos, enunciados como ‘todos os matemáticos são lógicos’, a relação sujeito –
predicado é inapropriada por não predicar uma qualidade de um sujeito específico, por não afirmar
nem estabelecer, com rigor, uma relação (...). Tais casos correspondem às proposições gerais. Em
outros casos como ‘x é pesquisador’ não se tem uma proposição ao não determinar se é verdadeira ou
falsa.
São exemplos de enunciados e de sistemas lógicos definidos a partir conectivos lógicos
proposicionais e enunciados categóricos, os seguintes:
‘Todos os programas do sistema (...) funcionam’.

‘Nenhuma relação do sistema (...) com seu entorno funciona’.

‘Algumas partes do sistema (...) estão desativadas’.

‘Qualquer parte essencial do sistema (...) funciona’.

‘Alguma coisa para o cliente interno funciona’.

‘Nenhuma coisa funciona’.

‘Nada funciona’.

‘Qualquer coisa funciona’.

‘Hoje é fim-de-semana se e somente se hoje é sábado ou domingo’.

Portanto, hoje é um fim-de-semana, porque hoje é domingo’.

‘Hoje é fim-de-semana se e somente se hoje é sábado ou domingo’.

‘Mas hoje não é um fim-de-semana. Portanto, hoje não é sábado nem


domingo’.

A lógica que trata do cálculo por função-de-verdade de enunciados compostos é o cálculo dos
enunciados ou o cálculo proposicional básico para a pesquisa e, em especial, para a linguagem
matemática. Nesse cálculo se têm aspectos da sintaxe tanto gramatical do alfabeto (p.ex., conjunto
representados por letras: ‘P’, ‘Q’ ou ‘A’, ‘B’, ‘C’...; constantes para a representação de valores como
‘verdadeiro’ e ‘falso’; conetivos lógicos:  (não),  (se.., então)  (e)  (ou) etc.; e parêntesis) como
gramatical da lógica proposicional (p.ex., fórmulas em avaliações como, p.ex., a booleana, ilustradas a
seguir: (T) = x; ( x ) = . (x) ).
Os conectivos que se utilizam em enunciados compostos têm seus significados determinados
pelas regras que ditam seus usos. Com esses conectivos se estabelecem relações lógicas (este é o
campo da lógica proposicional), porém a validade de alguns argumentos não depende apenas desses
operadores, tal como se observam nos seguintes exemplos:
47

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

‘Alguns mamíferos são leões’.

‘todos os leões são carnívoros’.

‘alguns mamíferos são carnívoros’.

‘Alguns pesquisadores são estrangeiros’.

‘ todos os estrangeiros procuram melhorias pessoais’.

‘ alguns pesquisadores procuram melhorias pessoais’.

‘Se o experimento não for implantado conforme o desenho (...) e utilizado os recursos
(...), então o resultado não será satisfatório’.
‘o resultado foi satisfatório apesar de não ser implantado conforme o desenho (...)’.

‘foram utilizados os recursos (...)’.

A determinação de verdade (ou falsidade) de um enunciado complexo para a representação se faz


a partir da determinação da verdade (ou falsidade) dos enunciados que integram ou compõem o
enunciado complexo sem, contudo, se ter uma condição suficiente. Há casos em que a verdade (ou
falsidade) de um enunciado complexo não é função exclusiva da verdade (ou falsidade) dos enunciados
componentes. Pela simplificação na apresentação de conceitos, esses casos não são relacionados nestas
“Orientações (...)”.
Os cinco modos de combinação de enunciados são abreviadamente indicados por meio de
símbolos apropriados (operadores ou conectivos lógicos) que prefixam sentenças (as simples, p.ex.,)
para formar uma nova sentença (completa ou complexa, p.ex.), conforme se conceitualiza e ilustra a
seguir:
a) Negação, simbolizada por  (ou pelo sinal :  A ou não-A; não é o caso que...). Trata-se de
conetivo primitivo para expressar o não-lógico. Essa expressão é ilustrada com os seguintes
exemplos:

1) ‘5 é um número positivo’.

2) a negação é:  5; ou 5 não é um número positivo ou, ainda, 5 é um número negativo.

3) ‘Francisco não é cuidadoso’.

4) a negação da sentença é: ‘Francisco é cuidadoso’.

Se os enunciados 1 e 3 forem ‘verdadeiros’, então os enunciados 2 e 4 serão falsos, e vice-versa.


A generalização, mediante uma expressão simbólica de enunciados como os ilustrados
anteriormente, é dada por:

 A : não A.
48

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

A natureza da negação em lógica, é de tal forma que a negação de um enunciado verdadeiro é um


enunciado falso e a negação de um enunciado falso é um enunciado verdadeiro (CERQUEIRA;
OLIVA, 1982, p. 35).
A relação de enunciados de negação pode ser sintetizada num tabela de verdade. Essa tabela
mostra o valor de verdade da proposição complexa que resulta da aplicação de um operador lógico
a duas proposições simples. As proposições simples são simbolizadas por A (ou P outra notação
simbólica) e B (ou Q), as quais se atribuem o valor de verdade ( ‘V’ ) ou falsidade ( ‘F’ ) dos
enunciados, com quatro possíveis combinações: PV com QV e QF; PF com QV e QF.
Para o caso do operador de negação (ou negador), o resultado na tabela de verdade é definido
como segue:

A (ou P)  A (ou P)
V F
F V

b) Conjunção. O conectivo conjuntivo é simbolizado por ‘e’ ou por Λ: que se lê A (ou P) e B (ou
Q). Esta conjunção pode ser simboliza, ainda, por &: A (P) & B (Q): conjunção A & B; A e B). A
conjunção também pode ser indicada por palavras, tais como: ‘mas’, ‘todavia’, ‘embora’ e
‘contudo’, entre outras.
O conetivo é utilizado para combinar pelo menos dois enunciados; para expressar o que é lógico na
conjunção. Exemplos:

‘A pesquisa combina (articula, integra...) aspectos teóricos e aspectos práticos’.

‘Na gestão do conhecimento se têm preferências pela tomada de decisões e pela


interação’.

‘chove mas faz calor’; ‘não dar crédito ao que diz, mas avaliar e julgar pelo que
produz’; ‘a observação é essencial, mas por si só é incapaz de desencadear a produção
de conhecimento’.

‘está triste, porém tem motivos para estar alegre’; ‘é rico, contudo é infeliz’.

‘A falseabilidade se sustenta em postulados metodológicos e em critérios lógicos’.

A proposição P e Q será verdadeira se, e apenas se, ‘P’ e ‘Q’ forem verdadeiras; para qualquer
outra combinação de valores de verdade, essa proposição será falsa.
49

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Portanto, a generalização de enunciados conjuntivos para se ter um enunciado composto


verdadeiro se dá se, e somente se, cada um de seus enunciados componentes for verdadeiro;
contrariamente, se pelo menos um dos enunciados componentes for falso, então a conjunção será
falsa. Esta condição pode se sintetizada na seguinte tabela de verdade:

A (ou P) Λ B (ou Q)
A (ou P) B (ou Q)
A (ou P) e B (ou Q)

V V V

V F F

F V F

F F F

c) Disjunção. O conectivo disjuntivo de um silogismo, simbolizado por V ou “ou”, é utilizado para


expressar o que é lógico na disjunção de pelo menos dois enunciados.
Quaisquer duas proposições, P e Q, podem se conectar como alternativas mútuas, gerando uma
nova proposição.
Essa conexão pode ser entendida no sentido de “não-exclusivo”. Mas, o termo “ou” (V) pode ter
um sentido “inclusivo”, conforme se ilustra com os seguintes exemplos:

‘A pesquisa requer experiência ou capacitação na formação adequada’.

‘A base de informações é primária de experimentação ou secundária de documentação’.

‘A comunicação eficiente pode ser escrita ou oral’.

Nesses casos, a verdade de um dos enunciados componentes não exclui a possibilidade de verdade
do outro enunciado como alternativo.
Em outros casos, o disjuntivo pode ser exclusivo como nos exemplos que seguem:

‘O projeto de pesquisa é aprovado ou rejeitado pelo (...)’.

‘O teste é adequado ou não-adequado para (...)’

Nestes casos, a verdade de um dos enunciados exclui a impossibilidade de verdade do outro


enunciado.
50

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Uma disjunção de enunciados é verdadeira se, e somente se, pelos menos um de seus componentes
é verdadeiro; no sentido contrário (se nenhuma for verdadeira) o enunciado é falso se, e somente
se, cada um de seus enunciados componentes for falso.
A generalização de enunciados disjuntivos pode ser sintetizada na seguinte tabela de verdade:

A (ou P) V B (ou Q)
A (ou P) B (ou Q)
A (ou P) ou B (ou Q)

V V V

V F V

F V V

F F F

d) Implicação ou condicional, simbolizada por . Trata-se de um conetivo primitivo ou


condicional material que se expressa por: “Se..., então”. Por essa condicional, quaisquer duas
proposições podem ser conectadas gerando uma nova proposição complexa: Se ‘P’, então ‘Q’.
O enunciado que segue ao conectivo “se” chama-se antecedente, uma condição suficiente para que
ocorra o conseqüente. O enunciado que segue ao conectivo “então” é o conseqüente, condição
necessária para a ocorrência do antecedente. A estrutura é: “ se ‘antecedente’ então ’conseqüente’
“. Este tipo de enunciado recebe os nomes também de implicativo ou hipotético.
O enunciado que precede o implicador, que segue ao termo se..., denomina-se antecedente (P); o
que sucede o implicador, portanto, após o termos então, denomina-se conseqüente do condicional
ou interpretação material; por esta, entende-se que o condicional é falso em apenas um caso:
quando o antecedente é verdadeiro e o conseqüente é falso. Exemplos:

‘ se é juiz então é advogado e aprovado pela OAB’.


‘Se Antônio é brasiliense, então é brasileiro’.
‘Se aprovado no curso de metodologia de pesquisa então assistiu aula’.

Os fatos de: ser ‘juiz’, ‘Antônio’ e ‘aprovado no curso de metodologia de pesquisa’ são suficientes,
nos casos simplificados, para ser ‘advogado aprovado pela OAB’, ‘brasileiro’ e ‘assistiu aula’.
Para alguém ser juiz, Antônio e aprovado no curso é necessário que seja ‘advogado e aprovado
pela OAB’, ‘brasileiro’ e ‘assistiu aula’. Os antecedentes indicados poderão não ser suficiente.
Além de ser ‘advogado e aprovado pela OAB’; ‘brasileiro’ e ‘assistiu aula’ precisa ter sido
51

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

aprovado em concurso público, ter anos de experiência (...); preencher as exigências de (...); e ter
estudado, feito os exercícios, ter sido aprovado em três exames, apresentado um projeto de
pesquisa (...).
O conectivo”se... então” tem variações gramaticais da condicional, tais como:
Se P então Q.
P implica em Q;
P, logo Q.
P só se Q;
P somente se Q.
P apenas se Q;
P só quando Q.
Q se P; Q segue de P.
P é condição suficiente de Q.
Q é condição necessária para P.
Rege o condicional o princípio de que de um enunciado falso pode(m)-se concluir outro(s)
enunciado(s) verdadeiro(s). Um enunciado (proposição) condicional é falso somente na hipótese
de o antecedente ser verdadeiro (PV) e o conseqüente falso (QF); em qualquer outra hipótese, a
proposição condicional é verdadeiro. Esta situação é ilustrada pelo seguinte quadro:

A (ou P)  B (ou Q)
A (ou P) B (ou Q)
Se A (ou P), então B (ou Q)

V V V
52

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

V F F

F V V

F F F

Cohen e Nagel (1983), em sua obra Introducción a la lógica y al método científico: 1. lógica
formal, apresentam casos de falácias da negação por causa da confusão da condição suficiente com
a condição necessária. No enunciado condicional: “ se ‘P’, então ‘Q’ “; diz-se que se P for
verdadeiro, Q também é. Mas, a recíproca não é necessariamente verdadeira, conforme se
representa e ilustra com os exemplos que seguem:
Se ‘P’, então ‘Q’.
Não-‘P’; logo, não-‘Q’

‘Se estou em Belo Horizonte, então estou em Minas Gerais’.

‘Não estou em Belo Horizonte, então (logo) não estou em Minas Gerais’.

‘Se o experimento for afetado, então não se atinge o resultado da investigação’.

‘Mas se o experimento não foi afetado, logo é atingido o resultado da investigação’

Não é condição suficiente “estar em Belo Horizonte” ou “realizar o experimento sem ser
afetado” para se garantir estar em Minas Gerais e atingir o resultado da investigação. Outros
fatores e/ou condições poderão ser necessários (ver o exemplo acima ‘ se é juiz então é advogado
e aprovado pela OAB’).
d) Equivalência ou duplo condicional (bicondicional). Quaisquer duas proposições P e Q podem ser
ligadas com o bicondicional  (lê-se: P se, e somente se Q) para gerar uma nova proposição
complexa: P se e só se Q (...se e só se...) ou (sse).
Uma proposição de equivalência é constituída por meio de dois enunciados quaisquer, p.ex. ‘P’ e
‘Q’, colocando-se entre eles o biimplicador ou bicondicional .
A proposição composta ‘P’ se e só se ‘Q’ (‘P’ sse ‘Q’ ) é verdadeira se e apenas se ‘P’ e ‘Q’
tiverem o mesmo valor de verdade, isto é, se ambas forem verdadeiras ou ambas forem falsas. Para
este caso, a ilustração, com a tabela de verdade da bi-implicação, é:

A (ou P) B (ou Q) A (ou P)  B (ou Q)


53

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

“ ‘P’, sse ‘Q’ ”

V V V

V F F

F V F

F F V

As cinco tabelas-de-verdade apresentadas acima que sintetizam os conectores lógicos são


definições. Dessas definições se derivam enunciados, como no caso de dois enunciados ‘P’ e ‘Q’,
então  P; ‘P’ e ‘Q’ ‘P’  ‘Q’; ‘P’ e ‘Q’; ‘P’  ‘Q’ são, também, enunciados. Daí se conclui que
qualquer enunciado composto cujas partes sejam enunciados simples, também é um enunciado.
Se os valores-de-verdade dos enunciados simples são conhecidos, então o valor-de-verdade do
enunciado composto resultante pode ser conhecido deduzido de forma mecânica, conforme se ilustra
com o seguinte exemplo:
A  B  (C   D), cujos enunciados simples têm os seguintes valores-de-verdade: AV, BF, CF e
DV , isto é, o enunciado simbolizado pela letra A é verdadeiro, pela letra B é falso, pela C é falso e pela
letra D é verdadeiro.. Dessa forma, a combinação A  B é verdadeira;  D é falso; C   D é
verdadeiro; conseqüentemente, o condicional do enunciado composto é verdadeiro. Esse processo
analítico pode ser ilustrado com as seguintes fórmulas:

AV  BF  (CF   DV)

V
F

V
54

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

((AV  BF) ( CF  DV)

F V
V

V F

Exemplo: Construir a tabela verdade da fórmula : ((P ou Q)   P)  (Q ΛP)

PV QF ((P ou Q)   P)  (Q Λ P)F

V V V F F V V

V F V F F V F

F V V V V F F

F F F V V F F

·NÚMERO DE LINHAS DE UMA TABELA-VERDADE: Cada proposição simples (atômica) tem


dois valores V ou F, que se excluem. Para n atômicas distintas, há tantas possibilidades quantos são os
55

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

arranjos com repetição de 2 (V e F) elementos n a n. Segue-se que o número de linhas da tabela


verdade é 2n. Assim, para duas proposições são 22 = 4 linhas; para 3 proposições são 23 = 8; etc.

Exemplo: a tabela - verdade da fórmula ((p Ù q) ® r) terá 8 linhas como segue :

p q r ((p Ù q) ® r )

V V V V V

V V F V F

V F V F V

V F F F V

F V V F V

F V F F V

F F V F V

F F F F V

NOTA: "OU EXCLUSIVO" É importante observar que "ou" pode ter dois sentidos na linguagem
habitual: inclusivo (disjunção) Ú ("vel") e exclusivo Ú ( "aut") onde p Úq significa ((p Ú q) Ù~ (p Ù
q)).

p q ((p Ú q) Ù ~ (p Ù q))

V V V F F V

V F V V V F

F V V V V F

F F F FV F
56

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

O conetivo principal é o que aparece em primeiro plano (diferenciado pelo sublinhado) em uma
análise sintática como nos exemplos (A Λ B) V (C  D) e  (A  B).
Na proposição se têm outros elementos como as variáveis proposicionais: A, B, C,... e símbolos
auxiliares como a vírgula ( , ) e o parênteses ( ) para auxiliar a análise sintática. Estes são os
elementos da linguagem no cálculo proposicional utilizado para descrever uma teoria formal ou
expressões (fórmulas) como uma seqüência finita de símbolos. Exemplos:

  ((  ABC ( (

  AAA ))  ) 

(A  (A   B))

Um conceito importante nesse cálculo proposicional é o de verdade que no caso de uma


proposição complexa depende dos valores-verdade das proposições atômicas que a compõem, segundo
o princípio de Frege.

.
57

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Os termos de uma proposição apresentam duas propriedades lógicas, a extensão e a


compreensão. São propriedades que, com freqüência, encontram-se inversamente relacionadas: quanto
maior a extensão de uma categoria, menor será sua compreensão como é o exemplo do termo Einstein,
com a menor extensão possível e a maior compreensão de propriedades como homem, acrescidas às
propriedades individuais desse físico-cientista como uma pessoa determinada. Entre esses extremos se
têm vários critérios de classificação (ou propriedades).
Na lógica de uma sentença (ver exemplos 1 – 3 de sentenças) se explica como funcionam
palavras, tais como: "e", "mas", "ou", "não", "se-então", "se e somente se", "nem-ou", "todos",
"alguns", e "nenhum". Estas últimas três palavras foram introduzidas por Frege para indicar a
generalização de proposições, conforme se ilustra com os exemplos 4 (uma sentença declarativa, uma
proposição) e 5 (a generalização de uma proposição):

1) Brasília é a capital do Brasil

2) (3 + 6) = 9

3) Qual é o melhor projeto de pesquisa?

4) Todos os pesquisadores da empresa AA são (foram) treinados no laboratório BB.

O tipo de sentença de interesse na argumentação é a declarativa como uma proposição. Em


termos gerais, a proposição pode ser apresentada da seguinte forma:

5) Todos os X da empresa AA são tais que, se x é um pesquisador, então x foi treinado


no laboratório BB.

A generalização da proposição anterior pode ser expressa simbolicamente como:

6) Alguns pesquisadores da empresa AA são estrangeiros.

7) Existe algum, ao menos um, x tal que seja pesquisador e estrangeiro.

A generalização da proposição anterior pode ser expressa simbolicamente como:

As estruturas das proposições acima podem ser operadas conforme as regras da lógica sentencial,
com determinados detalhamentos para adicionar ou remover quantificadores, utilizando-se símbolos
com o A invertido (  )e o E em sentido contrário (  ), entre outros.
58

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

A parte que segue apresenta conceitos e exemplos ilustrativos de propriedades lógicas dos
termos de uma proposição e regras relativas às premissas utilizadas em argumentação.
As propriedades lógicas dos termos de uma proposição podem ser sintetizadas como segue:
a) A extensão (denotação: em semântica, a denotação de um termo é o objeto ao qual o mesmo se
refere); conjunto de objetos designados por uma categoria como nos casos de homem para
compreender os seres que se incluem nessa condição; pesquisador para indicar todos os seres
que apresentam habilidades, competências e desenvolvem a pesquisa; filósofos para
compreender os seres que praticam a filosofia, os que se servem da razão para pensar o mundo; e
metal para indicar todos os objetos compreendidos por essa denominação geral.
b) A compreensão (intenção ou conotação; em semântica, a conotação é a capacidade da palavra
significar o objeto e ao mesmo tempo seus atributos; a conotação se distingue da denotação: todo
nome sujeito e conota qualidade a ele pertencente, segundo Stuart Mill); conjunto de
propriedades que o termo ou categoria designa e atribui ao sujeito como no caso de homem para
compreender Alfonso, Benjamim, Carlos, Dario, Eduardo, Frederico etc.; pesquisador para
compreender os que inquirem, analisam, buscam a verdade científica; filósofos para agruparem
aos amantes do saber, os que pensam melhor (...); e metal para compreender ferro, cobre, prata,
ouro etc.
A compreensão também pode indicar propriedades como nos exemplos homem: animal,
vertebrado, mamífero, moral, racional, inteligente etc.; pesquisador: servidor consciente o
suficiente frente aos grandes desafios e responsável o necessário para enfrentá-los, com
habilidades (...) e competências (...) para gerar a informação e tecnologia de uma nova economia
(...); e metal para indicar o objeto que é condutor de calor, que reflete a luz etc.
A compreensão indica por que se aplica um termo a um conjunto de objetos, sendo esse
conjunto, uma síntese, a extensão. A compreensão pode ser a soma de atributos que se pensa
pertencerem ao objeto.
A extensão e a compreensão, apesar de serem elementos distintos de uma proposição, são
inseparáveis, verificando-se, na disposição desses termos numa ordem de subordinação o seguinte
esquema de ordenamento:
a) gênero: extensão maior e compreensão menor;
b) espécie: extensão e compreensão são medias; e
c) indivíduo: extensão menor e compreensão maior.
Deve-se observar, entretanto, que tais relações na disposição subordinada de termos da
proposição não é exata, às vezes nem consistente e sem correspondências lineares. Assim, variar
inversamente não tem o significado estrito numérico, pois há casos em que o agregado de apenas um
atributo na compreensão poderá estar associado por uma mudança maior ou mais do que proporcional
que em outros casos, conforme se ilustra para a compressão (atributos) centenário, e mais de 120kg de
59

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

peso (...); sadio e menos de 80kg (...) da extensão homem: Homem de 100 anos de idade ou mais, de
120kg de peso ou mais (...) é muito mais limitado que homem sadio, de 80 kg de peso ou menos.
Há casos em que mudança na compreensão poderá não ter efeito ou não estar acompanhada em
mudanças na extensão, conforme se ilustra com os seguintes exemplos:

Pesquisador em química

Professora universitária

Pesquisador em química com três anos de experiências

Professora universitária casada

Dos exemplos anteriores é possível se ter uma regra (flexível): ao ordenar uma série de termos
em ordem crescente, a extensão poderá permanecer igual ou diminuir em relação à compreensão.
Os termos ou categorias que podem aparecer numa proposição podem ser agrupados de várias
formas, algumas ilustradas e exemplificadas a seguir:
a) Substância como, p.ex., homem ou Einstein, animal ou vaca, computador ou drive.
b) Quantidade: atributos como p.ex., 3,0 cm, 1,7 m, 4,1 km.
Em níveis mais amplos, as proposições verificáveis (enunciados gerais como hipóteses
científicas) podem se classificar em:
b.1) Universais, quando o predicado se refere à extensão total do sujeito; neste caso a
representação pode ser: todos os S são P ou nenhum S é P, como nos exemplos seguintes para
casos de verificabilidades falsas (os três primeiros) e não-falsas (os dois últimos exemplos):
1) Todos os pesquisadores estão comprometidos com os seus clientes alvos beneficiários
potenciais.

2) Em todos os projetos de pesquisa são considerados os fatores de riscos


socioeconômicos e ambientais.

3) Todos os solos da região (...) são férteis.

4) Todos os experimentos da pesquisa em biotecnologia desenvolvida em (...)


consideraram o risco ambiental.

5) Todos os solos do vale (...) da região (...) são férteis.

O termo “todos”, utilizado em proposições universais, segundo Cohen e Nagel (op. cit. p. 50)
pode indicar ambigüidade; as vezes pode indicar todos os componentes de uma coleção finita e
numerada, como na proposição, “todos os livros de este estante tratam de metodologia científica
de pesquisa”. Há casos como no exemplo “todos os homens são mortais” significa todos os
possíveis. Essa distinção é importante quando se consideram os conceitos indução e dedução.
60

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Para reduzir problemas, os autores sugerem utilizar os termos definido e indefinido em lugar de
universal e particular.
Nas proposições verificáveis universais se podem incluir os enunciados de leis, apresentados na
forma geral: Para todo S, se S é (...), então S apresenta a propriedade P (...). Exemplo:

Todos os metais se dilatam com o calor.

(Para todo S, se S é um metal quente, então S se dilata: P).

b.2) Particulares: alguns S são P ou alguns S não são P; esta proposição pode se verificar, com
freqüência, de maneira imediata pelos sentidos ou com a eventual ajuda de instrumentos.
Exemplos:

Alguns pesquisadores estão comprometidos com seus alvos (clientes) potenciais.

Bons projetos de pesquisa consideram os fatores de riscos.

Alguns solos da região (...) são férteis.

b.3) Singulares, quando o predicado é atribuído a um único indivíduo: este S é P ou este S não é
P. Esta proposição pode se verificar, com freqüência, de maneira imediata pelos sentidos ou
com a eventual ajuda de instrumentos. Exemplos:

Este pesquisador está comprometido com seus alvos potenciais

Aquele projeto de pesquisa não considera os fatores de risco.

c) Qualidade, ao especificar categorias como, p.ex., branco, preto; grande, pequeno; agradável. Em
níveis amplos, as proposições verificáveis podem ser afirmativas, representadas pelos símbolos:
S é P ou negativas, indicadas por: S não é P.
É possível diferenciar quatro formas de proposições categóricas: universal afirmativa (exemplo
1); universal negativa (exemplo 2); particular afirmativa (exemplo 3); e particular negativa
(exemplo 4):
Todos os S são P  os S são totalmente compreendidos em P.
Dele se depreende um importante silogismo para a demonstração científica,
formado por enunciados como:
Todos os R são T.
Todos os U são R.
 todos os U são T.
onde T, U e S são os termos maior, menor e médio do silogismo
61

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

1) Todos os pesquisadores orientados por regras


deontológicas (A) são bons servidores (B).

Todas as pessoas que buscam a verdade do conhecimento


científico baseadas nos métodos das ciências (C) são
pesquisadores (A).

________________________________

 todas as pessoas que buscam a verdade do conhecimento científico


baseadas nos métodos das ciências (C) são bons servidores. (B)

Nenhum S é P  os S estão totalmente excluídos de P.


2) Nenhum político é rancoroso.

Alguns S são P  os S estão parcialmente compreendidos em P.


3) Alguns professores de metodologia científica se preocupam com o
desenvolvimento de habilidades do estudante na prática da ética.

Alguns S não são P  os S estão parcialmente excluídos de P.

4) Alguns projetos de pesquisa não consideram as hipóteses dentro da


abordagem científica e com proposições teóricas-práticas de orientações.

d) Relação, p.ex., o dobro, a metade, maior do que.


e) Lugar, tais como no laboratório, no alto, no campo experimental.
f) Tempo: a semana passada, hoje, depois de uma semana.
g) Posição como, p.ex., deitado, em pé.
h) Posse, p.ex. com uma arma.
i) Ação como nos casos de ofende e fere.
j) Passividade (paixão) como, p.ex. está ferido.
k) Modalidade; as proposições podem ser classificadas como necessárias, quando o predicado está
incluído necessariamente na essência do sujeito, como no exemplo: todo triângulo é uma figura de
três lados e todo homem é mortal; impossíveis, quando o predicado não pode ser atribuído ao
sujeito, como no caso de nenhum triângulo é figura de quatro lados; possíveis, quando o
predicado pode ou não ser atribuído ao sujeito, como nos exemplos: alguns pesquisadores
consideram o risco e alguns homens não são justos.
62

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Para fins da lógica, a proposição é algo que se pode definir como verdadeiro ou como falso,
diferente do conceito de oração; 17 este poderá compreender uma ou mais proposições e ainda frases
que não proposições como as incompletas e as interrogativas em que não se afirme nem nega.
As proposições expressas por símbolos, pela linguagem, representam juízos formulados pelo
pensamento. São predicados (P) atribuídos a um sujeito (S) e onde os encadeamentos de juízos
correspondem ao raciocínio definido logicamente mediante as conexões de proposições. Tais conexões
obedecem a princípios lógicos.
Segundo Aristóteles, na proposição se afirma ou se negação algo (P: predicado: o que se diz), um
atributo de um objeto (S: o sujeito: de quem se diz). O Sujeito (de quem se afirma ou nega algo) e o
Predicado (o atributo que se afirma ou nega) são os termos da proposição que aparecem numa frase
com sentido e estrutura lógicos. Exemplos:

Na pesquisa (S) foram aplicadas diversas doses de tratamento (P).

O relatório (S) não compreende a especificação de hipóteses (P).

A proposição, para que seja consistente, deve especificar, delimitar (...) condições para definir
a(s) relação(ões) ou os vínculos lógicos entre S e P. Assim, p.ex., as frases seguintes não representam
proposições porque não seguem estruturas apropriadas de linguagem e símbolos para se comunicar
uma idéia:

Ramón verde carro laboratório

O campo experimental estante gado galactose (C6H12O6).

Por outro lado, ao se omitirem especificações as proposições poderão ser tanto de aceitação ou
afirmação como de rejeição ou negação de algo, conforme se ilustra com o exemplo que segue em que
se pressupõe uma data (qualquer lugar, qualquer pesquisa etc.), mas que ao defini-la (p.ex., no final da
década de 90, no início de 2005; na pesquisa de (...) em São Paulo) as condições poderão ser diferentes
e; como efeito dessa especificação, ter resultados diferentes:

O atual processo de planejamento e gestão da pesquisa é deficiente dada a abordagem simplistas

Contrária às proposições comuns onde, com freqüência, não se tem a preocupação com as
especificações necessárias dos termos, na investigação e comunicação científica com qualidade, essas
especificações devem ser explícitas para “assegurar” a veracidade de afirmações ( S é P: qualidade da
proposição que atribui algo ao sujeito) ou negações ( S não é P: qualidade da proposição que separa o
sujeito de alguma coisa), para atender ao conceito da proposição representar um juízo (uma ação do
pensamento) e a realidade (o que está unido ou separado do sujeito). As frases incompletas que possam
ser não verdadeiras nem falsas não serão, portanto, proposições lógicas.

17
A oração é um conjunto de palavras que, a semelhança de outros símbolos, são objetos físicos, diferentes daquilo que
esse conjunto representam.
63

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Uma oração na forma interrogativa não será uma proposição (um discurso declarativo), exceto
implicitamente, uma vez que perguntas como as exemplificadas a seguir em relação à
compreensibilidade de um relatório técnico-científico ou a definição de um problema para pesquisa,
não poderão ser verdadeira nem falsa, ou verdadeiras e falsas simultaneamente:

O relatório técnico-científico é compreensível pelos clientes alvos?

Será que o resultado da pesquisa alcança ao cliente definido na missão da empresa?

Qual é a proporção de mulheres na composição da força de trabalho no Distrito Federal? 18

Por que crianças e adolescentes se tornam usuários de drogas? 187

Há casos de proposições muito simples em que não há uma clara delimitação entre o sujeito e o
predicado como nos exemplos apresentados a seguir, onde os termos experimentação e chovendo são
atributos de sujeitos implícitos:

Houve experimentação

Está chovendo

Quais são as regras e princípios da lógica que se relacionam e/ou fundamentam, em parte, com o
método científico utilizado na investigação científica? A relação e síntese desses princípios, com
exemplos ilustrativos, são apresentadas a continuação.
O princípio da identidade. Afirma que uma coisa seja qual for (objeto, figura, experimento, ação,
ser, obra de arte etc.), só pode ser conhecida e pensada se for percebida e conservada com sua
identidade na forma de “a coisa é por ela mesma”. Este princípio é o que faz o pensamento possível e a
verdade necessária.
É o princípio que funda a adequação da verdade a si mesma que se sintetiza em: “todo ser é o
que é” ou “o que é, e”. As representações simbólicas, nos casos da identidade reflexiva e de
intercâmbio de identidade, são dadas por ( é um símbolo metalingüístico que assinala as expressões
enunciativas como sendo axiomas; poderia significar: “é tautológico que...”; “é sempre verdadeiro
que...”). Em termos simbólicos:

18
Estas orações foram encontradas em textos de metodologia científica para ilustrar a definição de problemas,
com afirmações como a de o problema implicar uma ou mais dúvidas e de sempre ser formulado como uma
pergunta. Se o problema para a investigação for definido com um fato, fenômeno, situação da descoberta de
“algo” que não é coerente com determinado conhecimento, que contradiz o tido como “normal”; uma dificuldade
numa situação prática ou teórica, que orienta a busca de alguma ordem entre os fatos. É uma proposição de
termos claros e explícitos em seus significados, reduzido a um aspecto que possa ser tratado na pesquisa, e
colocado de forma precisa e objetiva no método científico. Assim, uma oração interrogativa não poderá se
constituir no início e referência de toda a pesquisa. É certo que a orientação poderá ter como pontos de partidas,
perguntas que cumprem funções como as de associar fenômenos com teorias: hipóteses. Tal orientação não deve
ser confundida como a proposição declarativa feita após coleta, síntese e análise de dados e informações obtidos
de leituras e entrevistas exploratórias.
64

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

 x = x (ou se x, então x).


 y = y (ou se y, então y) etc.

A “tradução” desses axiomas poderia ser:

 se x é idêntico a y.

 se x é idêntico a y, então: x é Q, então y é Q.

 Para todo x e para ao menos um y, x é idêntico a y.

Na generalização dos axiomas acima, com reflexividade da identidade (RI) e intercâmbio de


idênticos (II), tem-se:

  x, x = x. (RI)

  x,  y = x (x = y  (Qx  Qy)) “tudo é idêntico a se mesmo” (RI)

O princípio da identidade é a condição necessária do pensamento para se definir uma coisa, seja
qual for, e para que a mesma possa ser conhecidas a partir de sua definição. Dessa forma, quando um
cientista define um objeto devidamente caracterizado em sua natureza e propriedades, nenhum outro
objeto poderá ser definido do mesmo modo, com a mesma definição. Exemplo:
A definição do triângulo como uma figura de três lados e de três ângulos, em que não apenas
nenhuma outra figura que não tenha esse número de lados e ângulos poderá ser chamado de
triângulo, mas, qualquer referência e demonstração que compreender esse conceito, deverá ter
o significado inicial.

O principio da não-contradição (ou princípio da contradição). Foi formulado por Aristóteles em


seus estudos de lógica.
O princípio da não-contradição estabelece que uma proposição, um argumento (...) só pode ser
verdadeiro ou falso de cada vez. Assim, um argumento verdadeiro não é falso e um argumento falso
não é verdadeiro; tampouco um argumento pode ser verdadeiro e falso simultaneamente. Este princípio
estipula que duas proposições contraditórias não podem ser verdadeiras simultaneamente, além de
fundamentar o princípio da identidade.
O conceito da não-contradição pode ser representado por: A é A e é impossível que seja, ao
mesmo tempo e na mesma relação, não A. O princípio da não-contradição pode ser representado por:

 ( P   P)

O princípio da não-contradição afirma que uma coisa, seja qual for que se nega a si mesma se
autodestrói, desaparece, deixa de existir. As coisas e as idéias contraditórias são impensáveis e
65

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

impossíveis, sendo, portanto, indemonstráveis, uma vez que toda demonstração o supõe; mas a mesma
razão o torna irrefutável, porque só se poderia refutar supondo-o antes: se sua refutação o anula, então,
anula-se a se mesmo. Daí resulta que a verdade de uma proposição é suficiente para provar a falsidade
de sua contradição e vice-versa.. Dessa forma é impossível, p.ex., que o laboratório de química
utilizado na pesquisa seja a biblioteca, que a parcela experimental seja o computador e que o triângulo
tenha e não tenha três lados e três ângulos.
O princípio do terceiro-excluído. Em termos gerais, o princípio pode ser sintetizado como: o X é
a A ou B; dessa forma, o princípio define a decisão de um dilema: ou isto ou aquilo, com a exigência
de apenas uma alternativa ser verdadeira, ainda que se tenha um teste de múltipla escolha, reduzindo-se
apenas para duas opções: o certo ou o errado. Para qualquer opção O ou é O ou não é O sem terceira
possibilidade, como no caso: este homem é pesquisador ou não é pesquisador. Este princípio é
representado da seguinte forma:

PP

O princípio da razão suficiente; (ou princípio da causalidade). Afirma que tudo o que existe e
tudo o que acontece tem uma razão, uma origem, uma causa ou um motivo para existir ou para
acontecer, e que tal causa ou motivo pode ser conhecido pela razão. Por este princípio se estabelecem
relações ou conexões internas entre as coisas, entre fatos, ou entre ações e acontecimentos. Pode ser
enunciado como: dado x, necessariamente se dará ou terá y, sem que não se admitam, por isso, ações e
fatos acidentais.
A diferença entre a causa, ou razão suficiente, e a causa acidental está em que a primeira se
realiza sempre, é universal e necessária, enquanto a causa casual só é válida para casos particulares,
para situações específicas que não podem ser generalizadas. A morte, por exemplo, é um efeito
necessário e universal.
66

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

7.2 Características do Conhecimento Científico


O conhecimento, como o processo pelo qual a realidade se reflete e reproduz no pensamento
com o fim de alcançar a verdade (abstração interior subjetiva, sem possibilidade de descrição inteira) e
no seu valor como prova (não depende apenas de interpretação e valoração pessoal, como é o caso da
informação; SEARLE, 1991) para se afirmar que um objeto, fato, sujeito (...) é conhecido (conotação
semântica), apresenta determinadas características, destacadas quando se trata de conhecimento
científico, tido como sinônimo de ciência. Parte dessas características se relaciona com a forma de
apreensão como um processo ou como um produto.
Quando se refere a um conjunto de teorias, idéias, conceitos, soluções (...), o conhecimento é um
produto que resulta da aprendizagem, indissociável de um processo. Sob esta perspectiva, o
conhecimento como atividade intelectual é um processo através do qual é feita a apreensão de algo
exterior ao cognoscente, à pessoa. Entendido como um processo e sob a influência e determinação de
fatores subjetivos (a pessoa é consciente de seu próprio conhecimento capaz de descrevê-lo parcial e
conceitualmente em termos de informação), o conhecimento não pode ser inserido em um objeto ou em
um sistema físico (p.ex., um computador) por meio de uma representação simbólica limitada, pois
neste caso seria reduzido a um dado ou a uma informação. Destarte, é equivocado falar de uma ”base
de conhecimento” em um computador; no máximo, e ainda com restrições, uma ”base de
informações”, ou apropriadamente, uma “base de dados”
O conhecimento, seja ele um produto da atividade intelectual ou um processo, apresenta
determinadas características que os diferenciam de outros conhecimentos, de outros processos, tais
como:
a) O conhecimento comum (popular ou empírico), gerado com base no senso comum de modo vago
e impreciso; esse conhecimento é estruturado na base de crenças e opiniões; nele, não há
propósitos de detalhamento e sistematização (ver nota de rodapé 184).
b) O conhecimento religioso com base na fé, no dogma, sustentado, portanto, no princípio de que
não é necessário ver para crer, com verdades definitivas; esse conhecimento não é submetido a
teste e verificação; tampouco apresenta as possibilidades de revisões e reflexões.
c) O conhecimento filosófico baseado no filosofar, na inquirição como instrumento para decifrar
elementos imperceptíveis aos sentidos e buscar, a partir do material, o universal. Este
conhecimento exige um método racional diferente do método experimental da ciência, porém,
considera os diferentes objetos de estudo e de experimentação; emerge da experiência e suas
hipóteses e postulados não são submetidos ao teste da observação; seus objetivos são idéias,
relações conceituais, exigências lógicas não redutíveis à realidade material; seus campos se
ampliam além das questões metafísicas tradicionais, para compreenderem outras questões,
algumas de interesse científico, como são, entre outros: a substituição do homem pela tecnologia,
67

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

a clonagem humana, os benefícios do conhecimento tecnológico, a exclusão social e o


agravamento da fome, miséria e degradação do meio ambiente, associados com o crescimento
tecnológico.
d) o conhecimento artístico; o ato criador artístico (música, literatura - poesia, pintura etc.) é um ato
de conhecimento que se apresenta na forma de um objeto sensível gerado e projetado além da
sensibilidade do artista em um espaço informe e interior, tanto para o artista como para o “leitor”,
ainda que de maneiras diferentes. A criação artística é o ato de configuração objetiva da
experiência individual, diferente tanto do conhecimento científico (objetivo – particular e
direcionado) como do conhecimento filosófico (abstrato, universal etc.) (HEINEMANN, 1993;
SHELLEY, 2002).
Quais são as características do conhecimento científico de interesse para o pesquisador? Na nota
de rodapé 4 foram apresentadas características do conhecimento científico. Ao longo do texto se
apresentaram características desse conhecimento e dos atos de conhecer, compreender e interpretar,
como fases de um ciclo hermenêutico, para se ter uma verdade científica.
As informações que seguem ampliam e complementam as informações anteriores, relativas às
características do conhecimento científico, associando-as com o método científico (ferramentas:
instrumentos físicos e conceituais; técnicas: cursos de ações novas e/ou de repetições de fazer os
percursos para se acompanhar e atingir os objetivos científicos; e métodos: as regras de como as
técnicas são avaliadas, selecionadas e aplicadas para se terem, determinadas características) e com
aspectos da lógica e racionalidades desse conhecimento.

7.2.1 A verificabilidade do conhecimento científico


A primeira característica da verdade científica e do conhecimento científico é a verificabilidade
de teorias, (hipóteses), de proposições e resultados como são as ISPi gerados / disponibilizados
com o método científico, mediante procedimentos e técnicas utilizadas na prospecção e criação de
cenários; na amostragem para possibilitar a observação e registro de dados suficientemente
representativas de uma população para as inferências sobre a mesma a partir do estudo de uma pequena
parte de seus componentes, a mostra; nos testes de hipóteses para fundamentar decisões; na descrição e
análises de relacionamentos de variáveis; nas projeções de comportamentos, tendências, efeitos (...);
nos processos de difusão de tecnologia; e na avaliação de impactos dos resultados da pesquisa no alvo.
A verificabilidade é um requisito essencial do conhecimento científico que testa a “verdade” de
um enunciado, a fim de atestá-lo; pode-se, assim, verificar uma hipótese, uma teoria (...), submetendo-a
à experiência; todavia, o procedimento da verificabilidade permanece submetido à confiabilidade da
razão, que não tem verificação possível (isto, porque toda verificação a supõe).
No processo de verificação ao atestar um enunciado ou explicitar a causa de um fato – efeito
pelo sentido ou a razão do mesmo, com base no princípio da razão e o princípio da causalidade (todo
fato, qualquer que seja, tem uma explicação e o inexplicável não existe), o pesquisador, com suas
68

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

hipóteses, define enunciados de comportamentos, de explicações, de predições (...). Tais enunciados


são submetidos a teste com base em dados da realidade para “provar” a veracidade das proposições ou
conjecturas. Nesse contexto a verificabilidade pode ser entendida (reduzida) como a comparação de
uma afirmação teórica, a hipótese, com a observação prática, a realidade.
Na verificação é preciso que o pesquisador - difusor de tecnologia procure, quanto possível, a
exatidão, a clareza e a objetividade, tendo como base códigos de éticas das ciências, com destaque para
o comprometimento com o cliente para atendê-lo e buscar a sua satisfação com os resultados da
investigação que ele adota e difunde.
Em termos gerais, na verificabilidade do conhecimento científico não se prova que uma teoria
científica (ou hipótese) é verdadeira, porém, pode-se descrever toda a realidade imediatamente
acessível e fazer previsões sobre novas situações, realizando-se experiências que confirmam essas
previsões sem que se possa afirmar que tal teoria (ou hipótese) seja verdadeira e definitiva.
Popper (1962), ao se referir ao princípio da verificabilidade do conhecimento científico, diz que
por muitas provas que se tenham para apoiar a uma teoria, nunca se pode estar seguro que na próxima
observação para o teste seja aceitável. Dessa forma conclui que não é o critério de verificabilidade que
deve ser adotado, mas, o de falseabilidade. Significa, não exigir que um sistema científico possa ser
selecionado, uma vez e para sempre, em um sentido de aceitação, mas que esse sistema possa ser
susceptível de rejeição por um teste empírico.
Dessa forma, não existirá um teste único ou geral que permita concluir se uma teoria é
cientificamente verdadeira ou não em definitivo. A única afirmação lógica possível ao realizar um teste
(experimental ou conceptual) é a de que a teoria ou hipótese, dentro dos limites em que foi testada e
conforme os dados utilizados, adequou-se à realidade (é aceitável) ou, quando muito, rejeitá-la, quando
os resultados do testes sejam contrários às suas previsões.
Entenda-se testar uma teoria experimentalmente como a capacidade de prever certas
conseqüências observáveis ou mensuráveis da realidade amostrada a partir de uma hipótese ou teoria.
Assim, p. ex., com base em uma teoria econômica sobre o comportamento do consumidor o
pesquisador economista prevê ou estabelece como hipótese, para determinada realidade objeto de
estudo, que um aumento no preço e na renda do consumidor, para o caso de um bem “normal”, terão
determinado padrão de comportamento na quantidade consumida e na demanda desse bem. Se esses
consumidores se comportarem dessa forma, então a teoria estará confirmada para esse caso, para a
realidade objeto de estudo; se não se comportarem da maneira prevista, então a teoria será rejeitada.
A verificação de uma teoria amadurecida e bem desenvolvida possibilita organizar a informação
e explicar – prever eventos empíricos. Em ambos os casos, uma característica, segundo Popper, deve
estar presente para que a teoria seja científica: passível de ser experimentalmente testada e quanto mais
testada e aceita for, maior será seu conteúdo empírico, sua utilidade e possibilidades de aplicação e
predições. Porém, mesmo que a teoria tenha sido aceita em muitos testes rigorosos, é sempre possível
que falhe no próximo. Trata-se do princípio da falseabilidade. Uma conseqüência desse princípio da
teoria é a falibilidade do conhecimento dela derivado.
69

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

O pesquisador - difusor, ao disponibilizar o resultado de sua investigação, devidamente testado e


adequado à realidade do cliente alvo e seu ambiente, oferece a “garantia” permitida pelo método
científico, de que se trata do “melhor” resultado no estado da arte tecnológico-científica de seu
domínio. Essa “garantia” é, antes de tudo, um compromisso ético-legal do pesquisador - difusor, do
“bom” profissional da investigação no exercício de sua atividade criativa, inventiva útil.
A verificabilidade de teorias, de conhecimentos científicos (...) pelo método científico é
impessoal; significa que o que um pesquisador seja capaz de fazer e verificar, qualquer outro, em
condições semelhantes de pesquisa, deverá ser capaz de fazer e verificar. Assim, quando um
pesquisador observa e infere algo mediante um método subjetivo, o qual outros não possam duplicar,
não estará fazendo / contribuindo para as ciências nem utilizando um método científico. Esse fato
destaca outra característica do método: a objetividade.

7.2.2 A objetividade do conhecimento científico


Esta característica é reconhecida por alguns cientistas como o primeiro traço do conhecimento
científico.
As ciências, com seus métodos, procuram afastar de seus domínios, quanto possível, fatores
afetivos e subjetivos, intentado a neutralidade e a validade do conhecimento científico para todos.
Como substantivo, o objetivo é um fim; como adjetivo, a palavra pode qualificar tudo o que deve
ou se relaciona mais ao objeto que ao sujeito; tudo o que existe independentemente de todo e qualquer
sujeito; tudo o que dá prova de objetividade. No campo da filosofia, a objetividade encontra diversas
concepções, entre outras as de Spinoza, Descartes e Hegel.
Segundo Bunge (1973), o conhecimento só pode ser considerado científico se apresentar pelo
menos duas características: a objetividade é uma delas (a outra é a racionalidade). Isso não significa
que o conhecimento comum seja desprovido de tais atributos, uma vez que tanto o sentido comum (do
conhecimento comum: sem teste e apenas com experiências) como o método das ciências
(conhecimento científico, verificável, provisório, incerto e com dúvidas, uma condição filosófica) são
criteriosos e tendem para a coerência com os fatos, portanto, não são especulações sem controle.
Contudo, tais características apresentam conotações e alcances diferentes em um e outro tipo
conhecimento.
Conforme conceituação de Bunge (1980; complementado), a objetividade do conhecimento
científico significa alcançar a verdade ou ser consistente com o fato, adaptar as idéias aos fatos,
recorrendo à observação e à experimentação. A atitude do pesquisador, nessa observação, é ativa,
criteriosa e seletiva, pois não se limita a registrar dados de fatos. Pelo contrário, a observação científica
implica a seleção de dados a observar em função de critérios e modelos que auxiliam ao pesquisador
no processo do que deve e como deve ser observado, com elementos de avaliação e interpretação
conforme sejam os objetivos, propósitos e meios da pesquisa.
70

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Gibson (1982), ao considerar as características do método científico de investigação, define a


objetividade como o fato de não estar influenciado pelas circunstâncias gerais (incluindo a
impessoalidade) em que se desenvolve a pesquisa e na fase em que se fazem as inferências, após
análises, testes e tomada de decisões.
Popper (1973) questiona a impessoalidade ao considerar que toda pessoa é uma vitima de seu
próprio sistema de preconceitos (...), o que impediria ao pesquisador, individualmente, ser objetivo.
Aponta que a objetividade está relacionada com o aspecto social do método científico, ao fato de que
as ciências e a objetividade científica sejam os resultados de esforços institucionais e da cooperação de
muitas pessoas. Nesse mesmo sentido se manifesta Kant ao assegurar que a objetividade se encontra
relacionada à construção de teorias, de tal forma que quando tais teorias sejam válidas para quem está
em uso da razão, então, o seu fundamento, além de suficiente, é objetivo.
A objetividade das ciências pode ser o resultado do julgamento dos “pares”, da comunidade
científica que avaliam, com critérios, os procedimentos utilizados e os resultados gerados /
disponibilizados. Em outro contexto a objetividade representa o fundamento da cultura científica
contemporânea (desdobramento em objetividade racional, técnica e social; BACHELARD, 1995).
Pela objetividade, o pesquisador não poderá ter uma atitude passiva frente ao fato (que se
impõe), uma vez que não se limita apenas à observação e registro de um dado, mas, a selecionar o
dado com valor e conteúdo, com coerência, em função de uma referência teórica, “destituindo” a
subjetividade do fato: observar e registrar. Dessa forma, o pesquisador deverá especificar ou
determinar o que observar, mediatizado por instrumentos e com linguagem própria; e como deve ser
feito o registro como sendo uma interpretação em que o essencial é separado do acessório, o objetivo
do subjetivo. Como decorrência, o pesquisador deve apenas selecionar e coletar o dado necessário para
os propósitos da investigação.
A objetividade científica na abordagem de um problema leva a buscar o termo preciso, a
expressão concisa com a linguagem especializada, por vezes difícil para o leigo, mas, que se justifica
ao tornar clara e precisa a informação e a comunicação.
A objetividade e racionalidade, apesar de se constituírem referências centrais da pesquisa,
deverão ser observadas com certa flexibilidade e com a coexistência e possibilidade de se aplicarem, a
um mesmo evento e a leis diferentes. Trata-se de um novo paradigma de conseqüências
epistemológicas não consideradas nestas “Orientações (....)”.
Em algumas áreas de pesquisas, entre outras, as de comportamentos sociais e as que
compreendam fatores de subjetividade, a objetividade perde seu caráter de certeza, de relacionamento
com a exatidão e se integra a princípios como o da incerteza, o princípio de Heisenberg.
71

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

7.2.3 A positividade do conhecimento científico


A positividade é outro caráter universalmente conhecido do conhecimento científico; trata-se da
plena aderência do conhecimento e do método das ciências aos fatos e às evidências que são objeto de
estudo, à “fiscalização” da experiência com o método que seja adequado e conveniente à realidade.
A positividade de um método que é analítico e depende de investigação metódica, com um
resultado, o conhecimento científico supera, segundo Einstein, a concepção determinista. Esse caráter,
conforme Heisenberg com seu princípio da incerteza, precisa da operatividade. A operatividade de
um conceito científico se observa quando definido mediante uma série de processos (operações
físicas), experimentações e medidas ao menos idealmente possíveis. Com essa precisão é possível, por
um lado, reconhecer, a não positividade de conceitos como os de espaço e de tempo absolutos. Por
outro lado, a positividade permite admitir elementos (fatos) não experimentáveis pela impossibilidade
prática, mas não teórica de se observarem.
O conhecimento científico que se obtém do método das ciências transcende a positividade do
senso comum, da ideologia e do poder dominante, ainda que não possa negligenciar suas razões e
interesses.

7.2.4 A racionalidade do conhecimento científico


A racionalidade, apesar de idéias contrárias ou aparentemente contrárias como as do empirismo,
entre outras, as ciências (por sua definição, um conhecimento racional....), seus métodos
(procedimentos lógicos e racionais) e os resultados gerados / disponibilizados são esforços da
racionalização do real, do intelecto (...) constituídos nas observações que se registram em dados da
realidade.
A racionalidade, segundo Bunge (1980), é a simples acumulação de informações no
conhecimento comum, enquanto que no conhecimento científico é o resultado de teorias sistematizadas
com base em postulados, em hipóteses testáveis e em perspectivas incertas provisórias.
A forma como se concretiza a racionalidade do conhecimento científico se encontra, conforme
entendimento de Bunge (1973), em:
a) Conceitos, juízos e raciocínios e não em sensações e imagens; o cientista percebe [com
racionalidade], forma imagens [com lógica] e realiza operações; tanto o ponto de partida, na
percepção, como o final, são idéias.
b) O modo como se podem combinar as idéias de acordo com um conjunto de regras lógicas para
criar novas idéias. Do ponto de vista estritamente lógico não seriam novas, mas sim sob a
perspectiva gnoseoeológico, na medida em que expressam novos conhecimentos; nesse processo
criativo está implícita a dedução.
c) As idéias não são amontoadas, caóticas ou simplesmente apresentadas em formas como, p.ex.,
cronológicas, mas, organizadas em sistemas de proposições ordenadas.
72

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

A racionalidade coloca o fundamento das coisas pelo fato der terem uma razão. Com esses
fundamentos se tem a “certeza” científica que resulta de uma operação mental, o raciocínio, capaz de
extrair elementos potenciais contidos nos juízos. Essa é a lógica formal que em sua relação com o
método científico, define o método de raciocinar, seja ele o analítico ou indutivo: passar do singular
para o universal; das hipóteses e teorias à prática, das coincidências às evidências ou o sintético ou
dedutivo (tanto empírico como racional), como sendo a adequada comparação de juízos para se ter um
resultado, a conclusão ou evidência.
A verdade que resulta desse processo é racional, oposta a simples opinião criada pela ilusão, pela
fé numa revelação, pelo dogma ou pelo êxtase místico que dispensa o “intelecto” e a vontade. Essa
verdade tem um “motivo”: a vontade; é racional: razão subjetiva; tem uma causa: a realidade é racional
ao operar conforme relações causais: razão objetiva. Trata-se da razão de ser; a razão de todo
conhecimento ser uma conseqüência necessária de princípios irrecusáveis e evidentes do racionalismo,
no seu sentido filosófico. Nesse contexto, a razão opera segundo princípios, tais como os da
identidade, não-contradição, terceiro excluído e causalidade.
A racionalidade é um processo que representa uma forma “adequada” de comparação de juízos
para se ter um resultado (conclusão) que serve de base para a divisão didática da metodologia (método
analítico ou indutivo e método sintético ou dedutivo), bem como a base de outros métodos como os da
intuição (compreensão global de uma verdade, de um objeto, de um fato...); da razão discursiva
(raciocínio como um processo de conhecimento que exige provas e demonstrações); e da abdução
(conclusão que se fundamenta pela interpretação racional de sinais, de indícios).
Apesar de grande parte dos autores destacarem a racionalidade do conhecimento científico e do
método utilizado para gerá-lo, há autores, contra o método científico opostos à racionalidade científica
e à pretensão de neutralidade das pesquisas científicas como orientação ou princípio da investigação;
um desses autores é Feyerabend (1986).
Feyerabend (op. cit.) afirmava que a maior parte das investigações científicas não fui gerada
seguindo um método racional, sugerindo a substituição da racionalidade pelo anarquismo. Postulava
que o progresso intelectual só podia ser atingido pela criatividade e desejos do pesquisador. Negava o
princípio da refutação como processo de formação de teorias por considerá-lo impedimento ao
desenvolvimento das ciências, ao não permitir a formulação de hipóteses alternativas. Considerava que
o método científico, com seus princípios firmes, inflexíveis e obrigatórios, era, além de condicionador
das pessoas “normais” e dos cientistas, um grave entrave na investigação histórica, concluindo que não
apresentava uma única regra, por plausível e firme que fossem seus fundamentos epistemológicos, que
não tivesse sido infringida uma ou outra vez, sem que tais infrações pudessem ser consideradas apenas
acidentais.
Em “Orientações (...)”, ao longo do texto, enfatiza-se a importância e destaque, acima de tudo,
da criatividade e da vontade / aptidão do pesquisador para a investigação. As regras do método
científico não devem contrariar essa criatividade e desejo, mas, potencializá-los quando teorias não
sejam consideradas esquemas rígidos, inflexíveis e necessariamente obrigatórios. A utilização de
conceitos, procedimentos, técnicas, métodos, modelos (...) com seus princípios deve ser feita de
73

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

maneira criteriosa, conforme seja a realidade. Dessa forma, em uma investigação se utilizará uma ou
mais leis conforme a conveniência e adequabilidade da(s) mesma(s) à realidade, inclusive não
utilizando as regras existentes e, ainda, com possibilidades de se adequarem ou inventarem novas
regras.
Daí a ênfase, ao longo do texto, no estímulo e desenvolvimento da criatividade e na necessidade
de se conhecerem as regras, princípios e postulados de técnicas, teorias do método científico, não para
aplicá-los de qualquer forma ou de maneira inconseqüente, mas, para tê-los como referências no teste,
ajuste, escolha (...) desse método “submetido” à realidade. É o destaque, nestas “Orientações (...)”, do
teórico (leis e teorias) consistente com o empírico (observação e teste). A parte que se refere à
“suposta” validade de argumentações apresentadas em Contra o método: esquema de uma teoria
anarquista do conhecimento, de Feyerabend, é propositadamente omitida por se tratar de uma
introdução e incitação à reflexão, deixando-a por conta do leitor.

7.2.5 A revisibilidade do conhecimento científico


A revisibilidade: nada é definitivo, irreformável ou irrefutável. A verdade científica aparece, em
certo sentido, como provisória (circunstancial) e susceptível de revisão e aperfeiçoamento, sendo que,
para alguns autores, esse aperfeiçoamento é a característica do conhecimento científico, sem se
constituir o valor mais alto e único a que aspira o pensamento.

7.3 Verdade, Incerteza e Neutralidade


Que é a verdade? A Verdade (em grego aletheia: aquilo que não é oculto, o que não é
dissimulado: refere-se ao que as coisas são; aquilo que se manifesta e que é ou existe como é;
qualidade das próprias coisas e o conhecimento verdadeiro é a percepção intelectual e racional dessa
verdade, com sua marca: a evidência ou a visão intelectual e racional da realidade. Conhecer é ver e
manifestar o que está na realidade, portanto, a verdade depende de que a realidade se manifeste. Uma
idéia é verdadeira quando corresponde à coisa que é seu conteúdo; essa é a teoria que afirma ser a
verdade a adequação de intelecto à coisas.
Em latim, veritas: precisão, rigor e exatidão de um relato com detalhes e fidelidade; refere-se à
narrativa de fatos acontecidos, aos fatos que foram; a enunciados que expressam, com fidelidade, as
coisas. Neste caso não se diz que a coisa é verdadeira porque corresponde a uma realidade externa,
mas, diz-se que ela corresponde à realidade externa porque é verdadeira; o critério de verdade depende
da coerência interna ou coerência lógica de idéias e cadeias de idéias que formam um raciocínio; o
traço do verdadeiro é a validade lógica de argumentos.
Em hebraico, emunah, significa confiança; refere-se às coisas que serão; a verdade se funda no
consenso e na confiança; nesse consenso se tem princípios: a racionalidade, a linguagem com regras
lógicas, o resultado da investigação submetido à discussão e validação e o conhecimento verdadeiro
que não é teórico nem prático (teoria pragmática), com seu traço de verificabilidade.
74

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

A verdade é saber libertar-se de ilusões, opiniões, senso-comum (...), ainda que de maneira
provisória, enquanto seja válida a verdade científica 19 que sustenta essa libertação no conhecimento
relativo (circunstancial) da essência (por vezes, estrutura ontológica) e lugar das “coisas” em
determinadas escala. Essa verdade determina um valor quando confere às coisas, fatos, fenômenos, à
realidade (...) um sentido que não teriam se fossem considerados indiferentes à verdade e à falsidade ou
ignorância.
A ignorância se manterá enquanto as crenças e opiniões para viver e agir, para explicar (...),
prever e mudar se conservem como “eficazes” e úteis, quando não existam motivos para duvidar.
Deve-se esclarecer que a incerteza é diferente da ignorância; com a incerteza se tem o
conhecimento da ignorância para explicar, prognosticar (...).
Na pesquisa que busca soluções de realidades não conhecidas, mas, apenas, imaginadas no
futuro, é importante tratar com as incertezas (ver o item 3.3.2.6.6 Prospecção e cenários da
pesquisa) como algo “natural” e certo de mudanças e da acelerada velocidade de atores, ambientes,
fatores (...) que afetam à pesquisa e os resultados da investigação os afetarão.
As incertezas decorrem, também, da natureza dos conhecimentos científicos; são conhecimentos
aproximados, seja pela imperfeição das observações experimentais em que se fundamentam, seja pela
necessária abstração com que são tratados pelo meto científico ou, ainda, pelas limitações desses
métodos, dos recursos e de capacidades-habilidades do pesquisador-difusor.
Características e outros aspectos importantes da metodologia na pesquisa, como um meio que
auxilia à criatividade do pesquisador - difusor, relacionam-se, de maneira direta e significativa, com o
tipo de investigação e com os propósitos ou fins da mesma.
Na pesquisa, o meio, segundo Myrdal e Weber, citados por Demo (1985; p. 93), “não se coloca
num campo objetivo; pelo contrário, está a reboque do fim preestabelecido” com desconsideração, na
abstração, do fim. “Contudo, para a escolha de meios que sejam mais aptos para se atingir um
[propósito] (...), ressoa nela a propriedade dos fins”. Essa é a proposição que se coloca nas
“Orientações (...)” e o destaque de coerência entre os campos empírico (a observação e a verificação)
e teórico (a elaboração de hipóteses, teorias, leis como finalidades do método científico), com certa
ordem ou seqüência (lógica e cronológica): a observação; a elaboração de hipóteses, inferências e
conseqüências; a verificação na realidade, em geral mediante experimentos; e a interpretação e
generalização de resultados.

19
Sem considerar a aparente contradição, uma vez que, por definição, as ciências (a ciência, em singular, não existe e
todas são diferentes por seus objetivos, métodos; no entanto, o plural supõe o singular e ninguém pode saber o que são
as ciências se não souber o que é uma ciência; COMTE-SPONVILLE, 2002; p. 101) não se ocupam de verdades, mas,
de entendimentos de fatos para efeitos de previsão e controle das coisas (seus objetivos), de acordo com as observações
que os sustentem, a idéia de verdade científica como a de um valor absoluto e exato, em suposto contraste com a
relatividade, é errônea. A certeza científica é a de segurança subjetiva e circunstancial da veracidade. No pensamento
contemporâneo as ciências têm refutados todos os critérios tradicionais de certezas, a ponto de considerarem até as leis
científicas como hipóteses.
75

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Se a tecnologia for considerada neutra, então poderia ser utilizada para qualquer fim, porque ela
mesma não prescreve um propósito; mas, se for compromissada com certos interesses e considerando
que a racionalidade dos meios é sempre consistente com a racionalidade do processo de investigação e
seus fins, então os métodos e técnicas de execução não podem ser apenas instrumentais, mas, meios
(fins intermediários) em um contexto valorativo.
O meio (método científico) será escolhido de acordo com a avaliação favorável pela sua
capacidade, aptidão, pressupostos consistentes com a realidade (...) para se atingir uns determinados
propósitos finalísticos, compreendendo neles o próprio valor do fim no processo que utiliza esse
método. Portanto um meio não seria escolhido quando não for apto para se atingir o objetivo proposto,
admitindo-se sua exeqüibilidade e consistência (aderência e articulação) com a realidade.
Na escolha de meios para se atingir um fim são numerosos e nem sempre confluentes os fins
intermediários determinantes de meios. Assim, o método para se gerar uma tecnologia ou a tecnologia
para melhorar um sistema, não seria apenas meios neutros, mas, instrumentos orientados e
comprometidos com uma (ou mais) finalidade(s) empresarial (econômica), social, ideológica
dominante, ecológica etc., que afeta à organização.

7.4 Pesquisas e seus Métodos


Deve-se observar, na reflexão que o texto anterior suscita que a relação meio e fim na
investigação compreende outros aspectos, tanto de ordem prática como filosófica. Esses aspectos, em
sua maioria, são propositadamente omitidos. Apenas um deles é considerado, e de maneira simplista,
na parte que segue.
Conforme seja o problema (oportunidade), os objetivos (fins) e os instrumentos (meios) para a
investigação, ter-se-ão tipos de pesquisas com possíveis diferenciações, entre outros aspectos, nos
procedimentos metodológicos que cada grupo possa utiliza. Nesse sentido é possível observar
diferentes, ou aparentemente diferentes, tipos de pesquisa, assim:
a) Pesquisas básicas, aplicadas ou acadêmicas dessas formas classificadas conforme sejam as
exigências, orientações e especificidades que poderão se traduzir em formas especiais, pelos
métodos utilizados, de investigação.
No caso da pesquisa acadêmica com a motivação da descoberta de fenômenos importantes como
avanços do conhecimento e/ou para atender determinadas exigências, colocam-se em destaque
técnicas e métodos em campos e níveis da formação profissional.
Em nível básico como, p. ex., o de iniciação científica universitária, a pesquisa acadêmica
representa um valioso instrumento pedagógico não apenas para demonstrar que o método
científico ultrapassa limites do senso comum, mas, para evidenciar benefícios de um esforço
constante de formular e reformular hipóteses, explicações, respostas (...) alternativas de soluções
de fatos e fenômenos, permitindo, com esse exercício, o contato do estudante com a realidade de
pesquisa.
76

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Com essa iniciação, procura-se o intercâmbio entre estudantes e a divulgação de trabalhos


científicos, como condição necessária para servir a seu fim; despertar a vocação científica;
incentivar novos talentos potenciais; e a troca de experiências como um treinamento para se
exercitar, posteriormente, o intercâmbio entre profissionais ligados em redes. É necessário ter
presente, na formação e especialização do profissional da pesquisa – extensão, que é para tratar
problemas da realidade que se prepara esse profissional, independente da missão e compromisso
social da instituição de ensino.
A pesquisa acadêmica oferece oportunidades, entre outras para:
 Instrumentalizar procedimentos, técnicas e métodos concernentes aos campos de investigação ao
qual o motivo de interesse do estudante esteja relacionado, de forma a capacitá-lo para
equacionar e resolver problemas da realidade; buscar e programar soluções criativas e novas; e
avaliar riscos e possibilidades dentro de um quadro de realidades simplificadas como uma
atitude de artificialmente isolar um fato da complexidade do real. Como ocorre essa
instrumentalização? Os exemplos que seguem ilustram casos de instrumentalização de idéias,
proposições e resultados:

Organizar idéias  Desenhos experimentais, modelos, simulações (...)

Avaliar proposições  Testes de hipóteses com base na compreensão de princípios


Organizar resultados  Sistematização, interpretação, síntese, conclusões (...).

 Fazer uma reflexão, a partir de modelos acadêmicos, acerca da realidade: formar o pesquisador -
difusor capaz de prospectar o real que é objeto de estudo; definir um problema (oportunidade)
relevante e estratégico em um contexto sistêmico; e articular relações de síntese, análise,
interpretação e comunicação de resultados da investigação em ambiente interdisciplinar e de
rede.
Ao refletir na fase de comunicação e transferência de informações e tecnologias é importante
que o pesquisador tenha presente que ações e estratégias sejam orientadas para a socialização da
informação científica e que a tecnologia possa atender o maior número possível de clientes. A
reflexão poderá ter como base o pressuposto de que antes de pretender mostrar como pesquisar
em termos científicos (abordagem do problema de pesquisa), interessa ao cliente e a
organização, entre outras:
 As patentes, vinculadas ao cliente, à sociedade (...) pensar com as ciências; está implícito que o
pesquisador-difusor abra o diálogo no espaço público e não apenas dentre de círculos restritos,
mantendo a comunicação somente com os pares.
Essa reflexão tem sua aplicação em diversas oportunidades oferecidas ao estudante e ao
pesquisador – difusor em seus cursos de pós-graduação, quando elaboram seus projetos (p.
77

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

ex.,os de mestrado e doutorado, bem como para solicitar recursos financeiros), desenvolvem
suas pesquisas sob orientação, apresentam relatórios e fazem resumos, artigos científicos, livros
(ou capítulo) considerando textos concisos, informativos e com conteúdos valiosos e
detalhamentos exigidos conforme seja o nível e propósitos da comunicação.
A pesquisa aplicada tem sido definida como a busca de resultados práticos / úteis em termos
econômicos ou outros que não seja o próprio conhecimento, o conhecimento puro, aquele que não
depende, segundo o kantismo, de quaisquer dados fornecidos pelos sentidos sendo, portanto,
anterior à experiência como surgimento de uma operação racional. Na aplicação do resultado da
pesquisa é fundamental a abertura das ciências ao cliente, à sociedade (...) tanto dos resultados
como de seus processos para a avaliação e decisão de adoção considerando os seus riscos e
alternativas.
A pesquisa aplicada gera a informação matéria-prima do conhecimento que a sociedade quer e
pode desenvolver, com aplicação prática e/ou imediata na indústria, no agronegócio e alimentação,
na saúde e saneamento, no meio ambiente e bem-estar social (...).
Isto é consistente com a nova economia, com a economia globalizada exigente em informações e
tecnologias úteis e aplicáveis na lógica tecnociência. Qual é essa lógica? Grandes transformações
tecnológicas influenciando as ciências e propiciando novas tecnologias e inovações que
dinamizam a economia e os mercados, além de ativarem o consumo, colocando-se no centro de
discussões pelo seu papel e o conseqüente impacto na sociedade, na economia, no meio ambiente
etc.
Na centralidade da tecnociência (SANTOS, 2005) se colocam questões básicas e de interesse para
a pesquisa, para o pesquisador e para a organização, relacionadas diretamente com a metodologia,
entre outras as seguintes:
 A patente; um instrumento relacionado como o acesso à tecnologia; trata-se, em particular, da
proteção da propriedade industrial, segundo a Lei n o. 9.279, para o caso do Brasil e no início do
novo milênio. Nela, regulam-se obrigações e direitos e se assegura ao inventor de um produto,
processo ou modelo de utilidade desde que atende aos requisitos de novidade, atividade
inventiva e aplicação industrial, o direito de obter a patente na forma de propriedade de sua
invenção por determinado período de tempo.
 O trabalho tecnocientífico vinculado à propriedade intelectual e aos notáveis efeitos na estrutura
do mercado de trabalho que determinadas tecnologias têm pela substituição de trabalho.
 A tecnologia com exclusão e marginalização social e com impactos sobre o meio ambiente, dos
quais o pesquisador-difusor não é eximido de responsabilidade. Pelo contrário e não apenas por
ser uma exigência ética (...), ele deve prever os efeitos e impactos do que planeja, gera e
disponibiliza. Nesse contexto, a tecnociência se coloca no centro do debate social para reverter
ou minimizar tais efeitos negativos da tecnologia.
 A distância entre a biotecnologia com o pesquisador-difusor que não considera, reconhece nem
valoriza, devidamente, impactos como os sociotécnicos e sociodiversidade e a biodiversidade
78

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

defendida por ambientalistas, setores da sociedade e grupos que não consideram potencialidades
e oportunidades que possam ser desvendadas pela tecnologia aplicada nessas riquezas.
Com a pesquisa aplicada se desenvolvem ou aprimoram serviços, processos, sistemas e produtos
aplicados em setores como a indústria (...) e com potencialidades de serem introduzidos, com
sucessos, no mercado: inovação que tem sustentação no consumo de novidades de produtos ou
que atendem às soluções de novos problemas.
A pesquisa básica tem sido considerada como aquela que busca o enriquecimento do
conhecimento puro com eventuais aplicações e propósitos acadêmicos: busca a invenção. No caso
das ciências, segundo Pasteur, não existe a diferenciação entre as ciências [pesquisas] aplicadas e
as ciências [pesquisas] básicas; o que se tem é a aplicação das ciências, dos conhecimentos
aplicados.
No contexto moderno as formas de pesquisas básicas e aplicadas e suas técnicas e métodos se
relacionam e tendem a eliminar modelos idéias para gerar conhecimento e modelos do progresso
técnico - científico capaz de gerar resultados aplicáveis na solução de problemas práticos e úteis
para a sociedade. (SCHWARTZMAN, 2005: adequado ao texto).
Nestas “Orientações (...)” não se consideram os possíveis debates da centralidade tecnocientífica
nem os prováveis limites entre as pesquisas básicas e as pesquisas aplicadas, mas, destacam-se
pontos comuns, as complementações e integrações dessas duas abordagens.
Ao contrário de modelos lineares e de demarcações dessas formas diferenciáveis, propõem-se
processos e resultados integráveis / complementares, conforme se ilustra na Figura 20. Na parte
superior, mostra-se a visão tradicional de modelos; na parte inferior, indicam-se os processos
inventivos (lado esquerdo) e inovativo (lado direito), cada vez mais intensos, dinâmicos e
integráveis, desde o surgimento de uma idéia (invenção que poderá empurrar...) até sua
incorporação (inovação que poderá puxar...), passando por testes e validações. As referências
dessas duas formas de pesquisas e ciências são o DS, a sociedade com suas necessidades de
soluções tecnológicas e expectativas de melhorias dos clientes.

Modelo clássico Básica Aplicada


linear
Pesquisas Pesquisas Crescimento Produção
Básicas Aplicadas Setorial
Operação

t t 2020
Processo t 20102020 t 2010
ISPi
t 2000 t 2000

Pesquisas  Pesquisas  Desenvolvimento


Básicas  Aplicadas  sustentável

Figura 20 Na parte superior é sintetizada o modelo clássico tradicional e linear de


pesquisa básica vs. pesquisa aplicada, com definidos limites; na parte inferior se
indicam os processos e resultados integrados / complementados dessas abordagens,
com mecanismos de retro-alimentação, a partir do desenvolvimento sustentável
79

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

b) Pesquisas exploratórias, descritiva, explicativa ou analítica; são investigações tipificadas pelos


seus objetivos e complexidades que exigem técnicas exploratórias, descritivas ou analíticas para
atender, respectivamente, os seus propósitos.
c) Pesquisas bibliográficas, documentais, estudo de casos, pesquisa-ação e pesquisa participante de
acordo com os procedimentos utilizados em cada caso, entre outras formas ou procedimentos de
investigação.
São classificações e orientações da pesquisa que poderão requerer metodologias especiais, além de
necessárias normatizações e sistematizações com procedimentos, linguagens e ilustrações
específicas, numa ampla diversidade de conceitos, técnicas e métodos. Esses métodos, com
freqüência, são determinados pelo tipo de objeto a investigar e pelos propósitos a descobrir,
descrever, explicar, diagnosticar (...).
Há, contudo, conceitos, técnicas e métodos de aplicações gerais em que novas ISPi gerados
por procedimentos metodológicos “comuns” exigem semelhantes operações mentais e reflexões
80

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

teóricas. É o caso da leitura que o pesquisador faz e que, independente da área de concentração do
conhecimento, exige procedimentos, técnicas e métodos para dela obter o máximo aproveitamento. 20
Ainda, admitindo-se os vários tipos de pesquisa e a diversidade de enfoques metodológicos, não
impede, segundo Schwartzmam (op. cit.), que muitos problemas sejam estudados com a mesma
abordagem, aproveitando pontos comuns e de relacionamento entre a pesquisa aplicada, a pesquisa
acadêmica e a pesquisa básica. O autor considera que o relacionamento entre esses enfoques “é uma
das questões fundamentais de política científica e tecnológica em todas as áreas do conhecimento (...).
Esse relacionamento tem a ver, também, com a motivação do pesquisador e com o destino ou a
apropriação social do resultado” da investigação.
A metodologia compreende, entre outros, a explicitação com detalhes, rigor, precisão, adequação
(...) de todas as ações e procedimentos desenvolvidos nas técnicas e métodos do trabalho de
investigação para gerar / adaptar e oferecer / avaliar soluções aos problemas (oportunidades) que se
focalizam e tratam com o método científico.
A operacionalização desse método compreende diversas regras, tais como: identificar e delimitar
um problema para determinar o que se quer e pode fazer (EIGELBERNEY, XXX) e para fundamentar
hipóteses; essa identificação pode ser orientada por perguntas bem formuladas (BUNGE, xxx) a serem
respondidas quando se formulam conjeturas com suporte na experiência e na observação do fato;
classificar e analisar os dados para buscar similitudes, seqüências relações como as de causa-e-efeito
orientadas pelas hipóteses; e derivar conseqüências lógicas.
Diz-se que uma conseqüência é lógica de um conjunto de enunciados, de fórmulas (...) quando
sempre que estas forem verdadeiras, aquelas também o serão.
A primeira tarefa do método é identificar o problema. A explicitação de um problema
(oportunidade) e o seu tratamento (aproveitamento) obedecem a postulados, recomendações, regras (...)
do método científico (suas características), os quais, quando adequados à realidade, traduzem-se em
benefício dessa explicitação e tratamento. A seguir se conceitualizam algumas das características do
método científico que o pesquisador-difusor deve considerar ou atender:
a) A coerência; nos conceitos, procedimentos, técnicas e métodos se devem evitar contradições,
tanto internas como externas, e adotar premissas não conflitantes com a realidade objeto de
pesquisa.

20
Esta nota complementa informações apresentadas em notas anteriores. Nesta, indicam-se condições que o leitor deve
levar em conta para aproveitar a leitura, tais como: a) atenção necessária para que possa entender, assimilar e
apreender as idéias; b) intenção, interesse ou propósito de obter novas idéias; c) reflexão ao ponderar o que está sendo
lido e descobrir novas idéias, perspectivas ou relações; d) sentido crítico para avaliar o texto e julgar, comparar, aprovar
ou refutar as colocações e pontos de vistas do autor, bem como para distinguir o interessante, verdadeiro, significativo e
valioso do que não é interessante (...); e) fazer análise do texto como, p. ex., dividi-lo em partes com significado
próprio e estabelecer relações e f) fazer síntese ao reconstruir as partes em que o texto foi decomposto pela análise e
resumir aspectos essenciais; e velocidade para poder ler com certo ritmo que permita captar o essencial e percorrer, se
necessário, todo o texto
81

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Pressupõe que o pesquisador conheça quais são as premissas e fundamentos, uma das
características, desses procedimentos, técnicas e métodos que utiliza e, em especial, como elas
interpretam a realidade objeto de estudo.
Está implícito o conhecimento “suficiente” dessa realidade objeto de investigação e a sua
“tradução” em um problema (oportunidade) para a investigação.
b) A consistência: a metodologia (procedimentos, técnicas, métodos etc.) deve resistir às
argumentações contraditórias; significa coerência, firmeza, compacidade e aderência à realidade
dos seus elementos.
É importante observar, como critério do método científico adequado à realidade, a consistência
metodológica sistêmica, nem sempre observadas em alguns modelos e/ou teorias e métodos
constantes da literatura técnica, conforme inicialmente exposto como parte da justificativa e
propósitos destas “Orientações (...)”.
A metodologia deve manter rigorosa coerência ou congruência do meio com o fim e consistência
ou capacidade dos meios para atender à realidade, dos meios; com os objetivos ou com a solução
proposta para o problema (oportunidade). Significa especificar as variáveis em contexto
adequado, formular hipóteses científicas testáveis, descrever materiais e métodos exeqüíveis e
adequados à realidade, fazer as análises e interpretações, comunicar os resultados, avaliar efeitos
desses resultados no alvo da pesquisa e propor novas investigações. A coerência e consistência da
metodologia permeiam todas essas fases da investigação.
c) A originalidade: em alguns casos a pesquisa requer metodologias originais para tratar problemas
originais ou a persistência de problemas tratados com metodologias convencionais.
Em qualquer caso é necessário que o pesquisador realize testes, validações e justes, quando
necessário, para adequá-la às condições da realidade objeto de investigação. Isso pressupõe além
de habilidades e competências do pesquisador-difusor na avaliação e escolha de técnicas e
métodos apropriados à realidade, que ele tenha capacidade “criativa” para efetivar a contribuição
original da pesquisa na solução de um problema ou no aproveitamento de uma oportunidade,
segundo seja o caso.
d) A objetividade: a metodologia, além ser de coerente e consistente com o objeto de investigação,
deve contribuir para a objetividade na seleção e coleta de dados e informações, apenas os
necessários, bem como no tratamento e solução oferecendo “verdades científicas” aplicadas para
o cliente e seu problema certo, no momento adequado. Observe-se que a questão de adequação
temporal da solução gerada / adaptada durante certo tempo e oferecido posteriormente é um
desafio para o pesquisador buscar uma metodologia com técnicas e métodos de prospecção.
Orientações para a avaliação e seleção de técnicas e métodos apropriados à realidade, com base
nos critérios anteriores, servem como compassos norteadores de caminhos possíveis na investigação.
Os resultados de testes e avaliações de alternativas permitirão a escolha de uma ou mais (técnicas,
métodos, procedimentos...) no tratamento e solução de problemas na visão da realidade. Qual é essa
visão? A visão científica aplicada (meios e escolhas apropriadas), curiosa (o primeiro incentivo à
82

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

pesquisa), indagadora (uma característica importante auxiliada pelo método científico) e criativa
(insubstituível atributo do pesquisador).
Fazem parte da metodologia tanto os meios ou recursos necessários como, p. ex., para a
exploração de campo: processos de planejamento, definições do problema e população, levantamento
de dados etc.; como as escolhas de técnicas, métodos e conceitos para a síntese e análise desses dados e
para fazer as inferências necessárias e possíveis conforme sejam a natureza, objetivos e procedimentos
utilizados na investigação. São meios, previamente avaliados e selecionados, com descrições de
procedimentos, técnicas e métodos utilizados em processos como os de delimitações e caracterizações
de populações, clientes e seus problemas, ajustes de períodos de tempo e seleção e obtenção de dados e
informações: plano de coleta de dados. São escolhas, dentre o quadro de possibilidades que o método
científico oferece ao pesquisador, com referências consistentes de conceitos e teorias para tratar a base
de dados: desenhos e plano experimental e de análise para as inferências e generalizações.
Dessa forma vista, a metodologia científica da investigação aplicada, contém ou compreende
diversos conceitos, elementos e orientações. A relação que segue é preliminar e apenas ilustrativa ou
provocativa para a reflexão, os seguintes:
a) Os conceitos, técnicas e métodos necessários para buscar e/ou adaptar a solução de um problema
(viabilizar o aproveitamento de uma oportunidade), bem como os conceitos, técnicas e métodos
para a transferência / difusão dos resultados da investigação, com atendimento às condições do
cliente, seu meio e da pesquisa, entre outros atores a serem atendidos.
Em muitos casos conceitos, técnicas e métodos de uns (pesquisadores) e outros (extensionistas)
se complementam quando devidamente acordados e integrados no projeto de pesquisa. Isto,
porque procedimentos e métodos de prospectar, no início, e os de levar uma solução ao cliente,
ao final, podem influenciar ou orientar os procedimentos e métodos de gerar ou adaptar essa
solução. Quando ações e estratégias são combinadas e direcionadas para um mesmo objetivo os
esforços de uns e outros não apenas se complementam, mas, sinergizam-se.
Em alguns casos se trata de procedimentos, técnicas e métodos específicos (BECKER, 1994)
exigidos pela realidade objetiva e peculiar de pesquisa: do cliente e região e do método
científico, conforme anteriormente indicado. Em outros casos, são gerais ou relativos às
adaptações do quadro teórico consistente com o objeto da investigação.
Em todos os casos, a metodologia responde à pergunta: como resolver o problema ou como
aproveitar uma oportunidade para atender às necessidades e expectativas do cliente alvo. Na
resposta à mesma pergunta há uma parte e compromisso que compete ao difusor e outra, ao
pesquisador.
As necessidades por soluções tecnológicas, as expectativas dos envolvidos / interessados na
pesquisa e os próprios alvos dos resultados da investigação evoluem e têm características por
vezes diferenciadas e específicas. Tais expectativas, interesses e características são tratadas na
metodologia com utilidade tanto para o difusor como para o pesquisador.
83

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Com a evolução e novas características dos alvos, de cenários, de ambientes como os de


globalização, de condições de financiamento da investigação e de adoção/ utilização da
tecnologia de clientes em evolução, de ambientes como os de globalização (...), por vezes
diferenciadas e específicas, tem-se a permanente evolução e transformação de técnicas e
métodos.
Dentro dessa evolução da metodologia, inclusive com novas características, ocorrem novos
paradigmas, como é o caso da pesquisa, com a revolução tecnológica, e do método clínico na
medicina. Nesse método, inicialmente baseados na observação e na experiência e em que a
doença era vista como desequilíbrios de humores e fatores da globalidade do ser humano, o
pesquisador-médico procedia, no diagnóstico, a recordação, a anamnese, com estreita relação
com o paciente, utilizando seus sentidos na percepção de sinais nosológicos.
Mais tarde, munido de modelos biológicos e dentro do paradigma positivista, o pesquisador
fundamentou o método clínico. Nesse novo paradigma, a doença era vista como o desarranjo de
um setor do sistema e dentro do paradigma cartesiano, definia-se como um problema que era
fragmentado em tantas partes quantas fossem necessárias para permitir a compreensão e a busca
d e uma solução. Com isso, ampliou-se a divisão das ciências biológicas e surgiram as
especializações aliadas à tecnologia que, apesar de contribuírem para o aprofundamento de ações
diagnósticas e terapêuticas, estreitaram e isolaram os ângulos de visões do enfermo.
Um novo paradigma surgiu com a formação mais reflexiva, integrada e humanizada do
profissional (do exemplo acima) que aproximou o ser humano e compreendeu a doença nessa
mesma dimensão holística [sistêmica] e onde se integram ciências, artes e técnicas (MAIA,
2000).
Em outros notáveis campos da pesquisa, registram-se, também, consideráveis quebras de
paradigmas; é o caso do agronegócio com sucessivas e recentes “revoluções” tecnológicas em
campos como o biotecnológico.
A metodologia corresponde a um processo de permanente evolução e ajustes que, às vezes,
ocorrem com grandes transformações (revoluções tecnológicas) e com a quebra de paradigmas,
conforme apresentado acima, quando são ultrapassados os simples ajustes ou as adequações em
um ou outro aspecto de técnicas, métodos e procedimentos.
b) O estudo da natureza dos dados e informações que serão utilizados (projeto) ou foram tratados
(pesquisa concluída) como são os que definem ou descrevem os atributos característicos da
população e os planos de amostragens propostos ou utilizados para representar esses atributos no
método científico.
c) As fontes de dados e informações a utilizar ou utilizadas, primárias ou não, quantitativas ou
qualitativas, com suas correspondentes estratégias e condições de coleta, tratamento,
armazenamento e gerenciamento desses objetos.
84

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Entre as estratégias, consideradas pelo método científico, têm-se a amostragem, os desenhos


experimentais e os processos de teledetecção ou sensoriamento remoto, além de formas
tradicionais de coleta de dados como são as entrevistas, formulários e questionários.
d) Os fatores físicos a utilizar (projeto) ou utilizados na pesquisa concluída, tais como: máquinas,
ferramentas, equipamentos, programas de computação e materiais de consumo, entre outros.
A apresentação da metodologia de investigação no documento, projeto de pesquisa ou publicação
final, deve ser feita com base em várias considerações, cuidados e bases de orientações. As que seguem
são referências preliminares para essa apresentação cuidadosa:
a) Clareza: qualidade indispensável referente à inteligibilidade de um procedimento, técnica ou
método para:
a.1) permitir ou facilitar dar um sentido de direção e objetividade na ralação “problema – mét odo
científico”; a desagregação do problema em suas causas permite especificar objetivos; para
atingir cada objetivo se tem meios, entre outros, os procedimentos, técnicas e métodos; essa
relação clara entre essas fases da pesquisa deve ser explicita;
a.2) facilitar a aplicação do método científico no tratamento do problema (ou da oportunidade)
traduzido para a pesquisa na procura de uma solução; o tratamento poderá ser facilitado
quando o problema é definido por suas causas utilizando recursos do método; assim, o controle
de cada causa poderá gerar uma solução; ao se integrarem tais soluções se tem a solução do
problema; a clareza nessas relações é básica tanto para desagregar como para integrar.
A dificuldade de ter clareza é um dos itens que mais prejudica a definição de o que fazer,
contribuindo para dispersar recursos e utilizar meios de forma ineficiente.
Quando a metodologia de pesquisa é definida com base em necessidades reais do cliente “certo”
e na aderência da solução que ela propicia à cultura, aos valores, ao ambiente (...), tem-se
condições para se ter clareza de o como solucionar o problema no seu contexto. Dessa forma, a
clareza na metodologia está associada ao conhecimento do cliente, seu negócio e ambiente.
Significa que, antes de decidir o como resolver é imprescindível saber o que resolver. Esse
conhecimento se obtém por levantamentos e diagnósticos da empresa, do negócio, do mercado
(...) onde o cliente alvo atua e se projeta. Somente a partir desse diagnóstico é que se especifica a
metodologia com clareza.
b) Precisão para orientar com rigor e exatidão o tratamento do problema feito com o auxílio do
metido científico; precisão da forma como se gera / adapta e disponibiliza / difunde o resultado
que é oferecido.
c) Objetividade para evidenciar os detalhes, apenas os necessários e as técnicas e métodos
indispensáveis para atingir os objetivos e metas da pesquisa.
A metodologia em documento técnico-científico é sustentada pela compreensão da realidade
objeto de estudo; trata-se de aspectos técnicos ou, segundo Bunge (1980), da capacidade que a
tecnologia tem de perceber, compreender, gerar, adaptar (...) informações, serviços e produtos e pelos
85

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

fundamentos do método científico que se utiliza para fazer essa apreensão, síntese, verificação, análise
e generalização de leis: trata-se do aspecto lógico.
Tanto os aspectos técnicos como os aspectos lógicos da metodologia são orientados para se gerar
um resultado tecnológico, 21 com eficiência: a solução do problema que o cliente em seu meio pode
adotar e o satisfaz.
A inter-relação problema – metodologia coloca em primeiro plano a importância da definição do
problema de pesquisa para se ter uma especificação metodológica adequada para a solução.
Os propósitos dos resultados da pesquisa se atingem quando com eles se têm efeitos positivos no
alvo, significativos pela intensidade do que revelam e de como são desejados. Tais propósitos se
relacionam, também, com racionalidade das tecnologias geradas em dimensões como a social,
econômica, meio-ambiente ecológica e político-institucional, entre outras. Essas dimensões devem ser
compatibilizadas (integradas e harmonizadas), quando se prospecta o problema e se gera - leva a
solução ao cliente.
São os resultados da pesquisa com qualidade e efetividade no cliente, na sociedade, no meio
ambiente (...) que conferem força, legitimidade e sustentabilidade ao DS impulsionado pela
tecnologia.
De que forma ocorre esse impulso? Pelo desenvolvimento da atividade científica aplicada no
crescimento econômico e na melhoria do bem-restar social, segundo Bunge (1986); pela proteção e
conservação - manejo do meio ambiente; e pela informação da nova era, da era do conhecimento e das
novas vantagens das inovações, das vantagens competitivas para o cliente que evolui e está inserido no
DS.
Deve-se acrescentar que o impulso tecnológico no DS não ocorre naturalmente ou sem
esforços direcionados. Nesse aspecto há, também, elementos da metodologia para ativar e direcionar
esforços e etapas da pesquisa, tais como:
a) A motivação e sensibilização para que o pesquisador-difusor se integre e comprometa a atingir os
objetivos com os resultados, a partir da solução de um problema importante, estratégico (...); um
problema analisado com profundidade em suas causas e conseqüências reais para diversos
horizontes e condições do cliente e seu ambiente, da sociedade e suas perspectivas.
b) Os procedimentos, técnicas e métodos orientados para o entendimento e atualização da
organização em seu ambiente operacional e estratégico; metodologias para a gestão com
qualidade total e para o exercício da ética e comprometimento com o cliente, entre outros.

21
No caso da metodologia das ciências, trata-se do caráter intelectual baseado na abstração teórica e no raciocínio
lógico de um fato ou fenômeno. Os pontos iniciais são problemas. Segundo Bunge (1980) os problemas científicos são
puramente cognoscitivos, enquanto que os problemas técnicos são práticos. Ambos buscam dados, formulam hipóteses
e teorias, aplicam o método científico (...), porém “a pesquisa científica se limita a conhecer, a pesquisa técnica
emprega parte do conhecimento científico ...”, sem que as técnicas sejas ciências aplicadas, mas, um processo de
“cientificação”, de generalização (...), segundo Etges (1995).
86

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

c) A importância e necessidade da organização se manter atualizada, integrada e com adequação à


realidade de seus procedimentos, técnicas e métodos para:
c.1) Prospectar com oportunidade para que o resultado da pesquisa tenha efetividade. A
prospecção deve ser, quanto possível, objetiva, consistente e coerente, “projetando” ou
antecipando problemas para os quais se geram / adaptam soluções.
As características da metodologia anteriormente indicadas, quando aplicada na prospecção,
contribuem para se ter antevisões, projeções (...) oportunas. Parte da oportunidade na prospecção
está em fazer coincidir o problema projetado com a solução que se gera disponibiliza, com a
necessária oportunidade e intensidade.
c.2) Criar cenários com exeqüibilidade não apenas técnica, mas, operacional e aplicativa, cenários
com realismo (práticos) e utilidade.
c.3) Analisar viabilidades de soluções frente às opções e novos cenários.
c.4) Testar soluções e procedimentos de decisões que minimizem ou eliminem incertezas,
oferecendo sempre, com ousadia e criatividade, resultados dentro de critérios de riscos aceitos
com soluções coerentes e necessárias aderências às características dos alvos.
Para auxiliar a obtenção dos resultados da investigação com qualidade o pesquisador tem o
método científico aplicado com critérios de consistência (aderência à realidade) e de responsabilidade.
Esse método é constituído por uma seqüência de etapas integradas que, entre outros propósitos:
a) Mostra como “bem” conduzir a pesquisa (a técnica) e indica o “melhor caminho” para fazê-lo (o
método); contudo, esse método não é único nem infalível.
b) O pesquisador, ao indagar o objeto de investigação com base nesse método, é incitado a refletir
com curiosidade que impulsiona o seu desejo de conhecer; com criatividade para que possa
inventar e inovar no tratamento do problema; e com responsabilidade que lhe impõe o dever de
responder pelo que gera e disponibiliza ao cliente, ao financiador, à sociedade.
As técnicas e métodos utilizados na pesquisa requerem na maioria das vezes testes,
(re)avaliações, ajustes e até reinvenções. Isso exige do pesquisador não apenas conhecer as regras e
postulados da metodologia que aplica, mas, possuir habilidade, aliada à competência, para aplicar o
método científico adequado na procura da verdade científica e ter a certeza científica de que utiliza
conceitos, dados, técnicas e métodos consistentes.
Deficiências e inadequações da metodologia com a realidade objeto de pesquisa impedem ou
limitam o alcance dos objetivos e metas da investigação. Tais deficiências e inadequações podem
ocorrer devido a vários fatores ou condições. A relação que segue ilustra alguns casos:
a) As técnicas e métodos de caracterização da população e de prospecção e definição de seus
problemas pelas causas relevantes (ou oportunidade pela sua pertinência) não são suficientes,
consistentes nem apropriadas à realidade que se pretende mudar (ou que se quer aproveitar) com
os resultados da pesquisa.
87

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

Com uma inadequada representação (com viés ou deformações, com problemas não relevantes
ou com omissões de causas importantes) dessa realidade não será possível se ter uma referência
que oriente a mudança (ou o aproveitamento), porque não se poderá gerar o fator que leve à
melhoria, à solução.
b) Se adequadas e consistentes as técnicas e métodos com a realidade, o problema (ou a
oportunidade) não foi “traduzido” para o método científico da melhor forma, com fidelidade e
com exeqüibilidade técnico-científica.
Com freqüência o problema (ou a oportunidade) é avaliado pelas suas manifestações (sintomas)
em lugar de suas causas; às vezes é considerado de maneira simplista com a idéia de facilitar a
pesquisa. Em outros casos, as causas do problema (ou os potencias da oportunidade) são
consideradas independentes de outros problemas (ou outras oportunidades) quando, de fato, elas
se relacionam. Tal relacionamento, apesar de tornar complexo o problema, é fundamental na
análise do mesmo feita com a abordagem sistêmica.
c) Se identificada (caracterizada) a população objeto de pesquisa, se prospectado o cliente e
ambiente “certo” nessa população e se definido - traduzido o problema (ou a oportunidade) com
eficiência para o método científico, os processos de geração – adaptação não foram bem
implementados, apesar de ser ter um “bom” problema de pesquisa e se ter o adequado método
para o tratamento: há problemas na aplicação do método científico.
As deficiências na implementação desse método poderão ocorrer por erros e omissões na prática
científica; por riscos não considerados nessa implementação e no planejamento; por recursos e
condições não previstas em conseqüências de incertezas ou por omissões de simplismos; por
problemas em processos de gestões como as de pessoal, materiais e laboratórios e infra-
estruturas, entre outras.
d) Se atendidas as condições anteriores com eficiência, as dificuldades poderão ocorrer em
procedimentos, técnicas e métodos utilizados na transferência e difusão da tecnologia; técnicas e
métodos não foram adequados à realidade da pesquisa.
Apesar de ter um resultado que é a solução eficiente (condição necessária) de um problema
importante - estratégico de um cliente “certo”, gerada com a metodologia adequada e com os
recursos necessários, o resultado da pesquisa falhou na fase de transferência e difusão: não
atingiu seu alvo.
Poderão ser numerosas e com variáveis importâncias relativas, inclusive com integrações, as
causas que determinam a ineficiência na transferência e difusão da tecnologia. A relação que
segue ilustra alguns casos:
d.1) Não consultaram às possibilidades de adoção da tecnologia, tais como: “estados” e
condições socioculturais, econômicas, do meio ambiente, do tipo de organização do usuário da
tecnologia, de mercado e comercialização e de preferências sociais, entre outras, para a
oportunidade em que as soluções estão disponíveis: erros em previsões, cenários, projeções,
88

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

tendências ou novos fatores(o próprio avança científico e tecnológico é um deles) e variáveis


de incertezas que afetam a transferência e difusão tecnológica.
d.2) Os procedimentos, técnicas, métodos de transferência – difusão não foram definidos com
base em objetivos claros e precisos compreendendo as possibilidades e expectativas
condicionadoras dessa adoção e difusão.
Entre as metodologias de geração / adaptação e de transferência / difusão há elementos e
procedimentos comuns que não foram devidamente integrados nem aproveitados, entre outras
possíveis causas, pelos deficientes entendimentos e de integração pesquisador - difusor.
d.3) Não foram considerados com a devida importância, detalhamento e adequação à realidade
os fatores que poderiam definir a satisfação 22 do cliente, tanto interno como externo, com a
adoção de tecnologia, como determinantes na definição de como resolver o problema ou de
como aproveitar a oportunidade objeto de investigação.
Não é suficiente proclamar o cliente em primeiro lugar se essa declaração não exprimir uma
postura indispensável para se alcançar o êxito quando a organização possa oferecer soluções
testadas e com riscos calculados e aceitos pelos seus clientes, entre outros intervenientes e
interessados nesse processo.
Neste sentido, a ISO 9000: 2000 considera que a qualidade significa cumprir com os requisitos
combinados com o cliente. Pressupõe o contato, conhecimento e identificação desses
requisitos: conhecer o cliente é a condição necessária. Isso acontece quando a metodologia
permite caracterizar quais são tais requisitos e quando a organização os mede e monitora, os
incorpora em sua programação. A ISO destaca o requisito de medir e monitorar a satisfação do
cliente e de utilizar essa informação para adotar ações de melhorias contínuas.
Para satisfazer o cliente da pesquisa é necessário ter uma adequada compreensão de suas
necessidades por soluções tecnológicas (quais são os problemas?) e possibilidades (quis são os
requisitos de adoção de possíveis soluções), traduzindo-as, em seguida, em processos que
possam, de forma efetiva e consistente, resolver esses problemas e cumprir tais requisitos.
Tanto a”tradução” de necessidades a serem solucionadas como de requisitos a serem atendidos
em contextos dinâmicos e evolutivos de clientes, cenários (...), dependem e se relacionam com
a metodologia, com o método científico para:

22
A satisfação do cliente como objetivo comum para todas as organizações, empresas (...), é de fornecer soluções para
as necessidades de seus clientes; o sucesso resultará de fazê-lo de modo de satisfazer o cliente. Essa satisfação pode ser
definida como uma função de percepções e expectativas, na forma:
Satisfação = Percepções / Expectativas
Cada um dos argumentos dessa função compreende conceitos, valores e indicadores no cumprimento de requisitos
combinados com o cliente. O cliente satisfeito percebe que suas necessidades são pelo menos iguais àquelas que ele
esperava. A organização precisa saber qual é a percepção, o nível de risco que o cliente aceita, como evolui e quais são
suas expectativas. São argumentos dinâmicos e subjetivos, influenciados ou determinados por muitas variáveis, internas
e externas, presentes e potenciais, estruturais e conjunturais. Nesse contexto se tem as incertezas.
89

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

 obter os dados e informações que interessam, sejam úteis e confiáveis na caracterização do


problema e na geração / adaptação e transferência da solução;
 antecipar mudanças do cliente e de fatores e condições relacionadas com o problema (ou
oportunidade); as “projeções” de condições compreendem ambientes, mercados, sociedade,
instituições (...);
 traduzir tendências e conhecer evoluções mediante adequados indicadores que orientam a
pesquisa para gerar / adaptar e levar uma solução com oportunidade e efetividade;
 criar cenários com os elementos portadores de futuros, inclusive antecipando problemas e
oportunidades; e
 gerar / disponibilizar soluções nesse contexto complexo de fatores, ações e estratégias.
O cliente satisfeito, ao tornar-se competitivo e com sucesso pela tecnologia que adota, é fiel à
organização e faz a imagem dela conforme seja (proporcional) essa satisfação.
Nesse sentido, a organização que se projeta no futuro e deseja criar - manter sua imagem deve
buscar competências, tais como:
 desenvolver confiança e fidelidade com base no conhecimento e respeito do seu cliente e
meio, de sua evolução e tendências;
 comunicar-se bem, com oportunidade e com informações de qualidade e conteúdo de valor;
 prestar atenção no que interessa e sempre estar alerta com relação às ameaças, riscos,
oportunidades, alianças estratégicas etc.;
 demonstrar confiança (autoconfiança e autocontrole pela competência e habilidade de
relacionamentos) e lealdade (pelo comprometimento com o cliente);
d.4) Por ineficiências ou problemas no processo de comunicação científica. Poderão ser diversas
as causas dessa ineficiência, desde a desuniformidade de aspectos conceituais que limitam a
comunicação e entendimento até a infra-estrutura tecnológica da comunicação que possibilitam
desvios e a própria insegurança da informação com perdas de confidencialidade e integridade,
entre outras. Nesse contexto há funções e responsabilidades do pesquisador para “assegurar” a
gestão da informação e a melhoria do processo de comunicação.
Com base nas causas responsáveis pelas deficiências e/ou inadequações em procedimentos
metodológicos como indicado anteriormente e como corolário do exposto, tem-se a evidência de que
não é possível gerar ou adaptar e disponibilizar (transferir e difundir) resultados especiais da pesquisa
de qualquer forma ou com qualquer método.
Tais resultados, ativos valiosos utilizados para tecer novos conhecimentos técnico-científicos e
fazer as inovações tecnológicas das novas vantagens competitivas, exigem um método especial, um
método capaz de gerar, com consistência, e disponibilizar com oportunidade, as características
desejáveis e possíveis de tecnologias e informações para tecer um novo conhecimento, igualmente
90

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

especial. Esse conhecimento se relaciona (efeito), não apenas pelo seu input (causa), com a
informação, mas, pela forma como se gera, com o método científico como teoria (BUNGE, 1969) ou
filosofia da investigação, com conteúdo prático.
A informação é o elemento que entra na formação do conhecimento, o qual, por sua vez,
corresponde a compreensão que se tem de um fato, fenômeno ou situação. Dessa forma, o
conhecimento pode ser reduzido a uma informação que passou por um processo de seleção,
modelagem, interpretação e transformação feita com base em experiências, emoções (...). É a
aprendizagem com a emissão de um sinal, a recepção desse sinal pela memória e a transposição do
sinal ao plano do conhecimento.
O processo de internalização (aprendizagem), segundo Cartier (1992), está baseado em
requisitos da informação e são condições do cliente na busca de um conhecimento: como se
desenvolve, como se integra no plano mental e como se manifesta (mudanças de comportamento,
interação etc.). Tal processo é determinado, em parte, pelo método científico. É de interesse do
pesquisador – difusor aplicar uma metodologia que possibilite gerar um conhecimento para o
desenvolvimento humano.
As condições que favorecem a disponibilização e internalização da informação para se ter um
novo conhecimento podem ser objeto de gestão e o pesquisador-difusor tem funções tanto nas
condições em que se realiza a transferência e difusão como na gestão da informação com segurança,
completeza e oportunidade. A metodologia da investigação auxilia um e outro processo, bem como é
básica para se gerar uma informação “consistente” e com qualidade.
A especificação dessa metodologia varia de caso a caso, não apenas conforme seja a natureza do
problema (oportunidade) a ser resolvido, o objetivo pretendido com a pesquisa e os recursos
disponíveis para desenvolvê-la, mas, em função de orientações tanto internas da organização como de
políticas e estratégicas. Em qualquer caso, essa especificação pode ser orientada com base em critérios
e parâmetros
Munhoz (1989; p. 18), considera pré-condições à definição da metodologia parâmetros que
servirão para orientar o trabalho, tais como: o que conhecer, como conhecer, por que conhecer e a
utilidade do estudo pretendido. Aponta o autor que “a consciência clara quanto ao que se pretende
conhecer ou qual [é] o objetivo que motiva o estudo a ser desenvolvido é essencial (...)”.
A pré-condição de o como conhecer o fato, fenômeno (...) a ser investigado ou os possíveis
caminhos para desenvolver o processo de investigação se relaciona diretamente com a metodologia.
Não se trata de apenas um único caminho para investigar algo, nem de procedimentos excludentes.
Poderão existir várias maneiras de investigar um mesmo objeto que eventualmente ampliarão a
margem, de segurança das conclusões. Essa possibilidade de combinar ou de complementar diferentes
formas de se conhecer um mesmo fato (...) se sustenta em várias razões, algumas delas nos
pressupostos de técnicas e métodos aplicados conjuntamente para se ter um resultado.
Ao final, como pode ser conceitualizada a metodologia de pesquisa? Como o estudo sistemático
e lógico dos princípios que orientam a investigação, sem tratar das teorias desses princípios, na medida
91

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

em que apenas se interessa pela validade dos mesmos e não pelos seus conteúdos. Isto, porque na
metodologia não se procuram soluções, mas, escolhem-se as maneiras de encontrá-las, integrando os
conhecimentos a respeito de métodos e técnicas de diversas disciplinas, segundo Kaplan (1986;
complementado).
A metodologia tampouco trata do estudo de métodos e técnicas, na medida em que só se
interessa pelo valor aplicativo desses procedimentos, técnicas e métodos, “desde suposições básicas até
técnicas de indagação, com objetivo científico” (FGV, 1987; p. 754) e aplicativo.
Com o método científico, um “traço característico das ciências (...), coloca-se em evidência o
conjunto de operações para se alcançar determinado fim (...)” (FERRARI, 1982; p. 46) e se auxilia e
orienta o pesquisador-difusor para pensar criticamente e ter disciplina no processo de investigação -
comunicação, bem como para tomar decisões fundamentadas na busca do saber e na formação de um
“estado” de espírito; um estado crítico que possibilite o desenvolvimento de seus raciocínio e
criatividade para descobrir, inventar, adaptar, comunicar (...).
Em um sentido menos formal, a metodologia se refere ao estudo aplicativo de métodos
(procedimentos para responder, com base científica, por que se aplicam esses procedimentos, com
coerência, num caso específico de investigação) e de técnicas de pesquisa (procedimentos para
responder, como se aplicam; MINAYO, 1994; complementado), devendo considerar os fatos e
fenômenos problematizados de interesse para as ciências (de um lado: dados e informações, p. ex.) e da
realidade alvo de investigação (do outro lado 23), bem como os conceitos e valores nesses
procedimentos teóricos e na realidade objeto de sua aplicação.
Dessa forma, a metodologia é a “objetivação” lógica (argumentação, prova, reflexão, inferência
etc.) e racional de um problema (oportunidade) que “desafia” o pesquisador em diferentes fases da
investigação, desde a prospecção e captação da realidade, formulação de hipótese e geração –
adaptação de soluções até comunicar essa solução e atingir os objetivos.
Nesse processo, o método científico da metodologia da investigação é como uma ponte entre
duas situações: a realidade (com problema: o cliente) e a expectativa (solução do problema: a
organização) do cliente. Entre elas, coloca-se e a solução que a organização possa gerar e oferecer. O
método científico, como a ponte, deve ser consistente tanto com a realidade e expectativa (do cliente)
como com os princípios e postulados do método que aplica e os recursos que utiliza.
No processo dessa construção, o objeto de investigação deve estar limitado (modelado) e suas
implicações claramente estabelecidas para permitir a seleção e a aplicação eficiente de técnicas,
métodos e modelos em fatos, fenômenos (...) que apresentem um duplo interesse (para o cliente e para
as ciências), isto é, em fatos (...) de aspectos práticos (p. ex., da realidade do cliente) e teóricos (das
ciências).
23
Na metodologia de P&D, esses lados correspondentes, respectivamente, aos aspectos teóricos e práticos. São formas
didáticas de apresentar, de maneira integrada, a confluência e inter-relação de interesses da realidade teórica e
aplicativa, a ser tratada com o método das ciências e do marco lógico-teórico das ciências a serem aplicados nesse
tratamento, prévio teste, se for o caso, adequação. O método científico, ao focalizar o fato na observação para
compreender o problema, acena para essa integração e complementação dos elementos desses dois lados.
92

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

O método é o instrumento básico e auxílio ao processo criativo de solução de um problema


(aproveitamento de uma oportunidade) quando se gera / adapta e transfere /difunde os inputs de novos
conhecimentos e de inovações na resolução (aproveitamento). Esse processo construtivo é composto de
várias fases ou partes, entre outras as seguintes:
a) As idéias e suas representações: observações da parte inventiva. As observações levam ao
registro (dado e informação) para a caracterização do problema.
b) A definição (identificação, limitação, caracterização etc.) de um problema (oportunidade) e a
avaliação de evidências. A delimitação e caracterização são seguidas pela formulação de
explicações tentativas e provisórias (hipóteses) que serão submetidas a teste.
c) A formulação de hipóteses: geração de pré-soluções criativas e lógicas para orientar; os dados
experimentais permitem verificar se são cumpridas ou não as predições feitas nas hipóteses:
consistentes com o problema.
d) A definição de objetivos e metas que só podem ser realizadas / atingidas com o método:
consistentes com o problema (oportunidade) e as hipóteses.
e) O método científico para a coleta, tratamento (...) de dados e informações, apenas os necessários:
consistentes como o problema (oportunidade), hipóteses e objetivos.
f) As experimentações, observações, tratamentos e testes de hipóteses, análises de dados,
inferências e conclusões: consistência integral.
Na geração/ adaptação e na transferência/ difusão dos resultados da pesquisa com base no
método científico se encontram implícitos vários postulados: são os postulados das ciências indicados
na parte que segue.

7.5 Postulados das Ciências: Considerações Gerais


Os postulados são fatos reconhecidos e pontos de partida, implícitos ou explícitos, de uma
premissa, argumentação ou afirmação, sem necessidade de demonstração, que servem de
fundamentação às ciências e seus métodos.
São partes essenciais do método científico que ao se tornarem bases de raciocínios como os
dedutivos para obter novas proposições, devem ser conhecidos pelo pesquisador - difusor para, quando
oportunos e requeridos na sua investigação, aplicá-los com discernimento e consistência na solução de
problemas (aproveitamento de oportunidades).
Tais proposições reconhecidas e admitidas como princípios de processo lógico se aplicam no
estudo da realidade com a utilização do método científico para descobrir as leis das “coisas”; esta é
uma definição de ciências (BUNGE, 1985). Esse mesmo autor, com anterioridade (BUNGE, 1975;
complementado por Ferrater, 1965; Schumpeter, 1982 e outros autores), definiram ciências como
conhecimentos racionais, sistemáticos, exatos, verificáveis e falíveis; um sistema de idéias
estabelecidas provisoriamente para atingir determinados propósitos, tais como os de formular,
93

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

mediante linguagem e métodos próprios, leis que possam descrever e explicar (experimentar, descobrir,
medir, observar, propor, confirmar/ rejeitar, um modo de conhecer, de buscar...) fatos, sejam
comprováveis por observações da realidade e tenham capacidade de predição fatos no futuro.
Os postulados das ciências, em seu contexto social, têm como fatos admitidos sem necessidades
de demonstrações, entre outros:
a) O acesso e uso de informações e tecnologias para a sociedade. Para que isso ocorra é necessário
que o pesquisador - difusor planeje e desenvolva sua investigação orientada para esse propósito.
Está implícito direcionar e estimular a formação profissional com o comprometimento social e
fortalecer a capacidade de P&D para prospectar, gerar / adaptar e levar / difundir a informação
que a sociedade (...) quer e pode adotar: facilitar o acesso e uso.
b) Acelerar, com objetividade e efetividade, a geração / adaptação e transferência / difusão de novas
informações e tecnologias para novos conhecimentos e inovações tecnológicas. Para isso
aconteça é necessário, entre outras providências e estratégias, aumentar os investimentos em
P&D, “saber” aplicá-los no que é relevante e estratégico e integrar instituições (redes locais,
nacionais e internacionais) em um eficiente sistema de pesquisa.
c) “Captar” (um resultado da prospecção) e aplicar (um efeito do comprometimento ético do
pesquisado – difusor) os valores, interesses, orientações (...) da comunidade na construção da
sustentabilidade com os resultados de investigação.
O texto que segue sintetiza postulados das ciências, dos métodos científicos, com informações
necessárias que destacam sua utilidade ou aplicabilidade na pesquisa para o desenvolvimento.
1 Todo evento tem um antecedente. Se um evento, efeito notável para o cliente, a sociedade, o
meio ambiente, as pesquisas, as ciências (...), é importante como um problema (oportunidade) a ser
resolvido (aproveitada) com o auxílio do método de pesquisa, então é de interesse da investigação
desvendá-lo e evidenciar suas causas. Evidenciar o que pode modificar esse evento, condição ou
resultado insatisfatório: os antecedentes; a origem e evolução do problema descrito com suas
manifestações (sintomas) possibilitando o rastreamento de suas causas.
Trata-se da causalidade, isto é, do conjunto de relações de causa-e-efeito de um resultado,
constituída uma das preocupações básicas na pesquisa. Encontrar as causas, motivos, o que faz com
que algo exista ou aconteça, o que ocasiona ou determina uma atitude ou comportamento (...) é
encontrar explicações? 24 para os mesmos. Isso se faz mediante a análise de causas responsáveis por
um fato ou fenômeno (efeito), não apenas descrevendo-o, mas explicando-o.
Tanto as causas como os efeitos devem aparecer explícitos na definição do problema, numa

24
Alguns filósofos das ciências consideram que não são explicações o que se têm das leis da natureza dadas pelas
ciências e seus métodos, mas, descrições: as leis da natureza não têm explicações, não têm propósitos revelados. Nestas
“Orientações (...)”, tais considerações, bem como as aparentes associações enganosas implícitas no conceito causa,
segundo o filósofo Russell (1931), não são levadas em conta, aceitando-se que a causa, segundo filósofos como
Hempe, Kitcer e Wittgenstein, entre outros, é a maneira de explicar um evento: a explicação reporta às causas do
evento.
94

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

relação, quanto possível, quantificada e qualificada, com as devidas defasagens e retro-alimentações,


complementações e sinergias. Em muitos casos são numerosas as causas de um problema, reais ou
aparentes, sendo necessário estabelecer certo ordenamento e hierarquização, entre as causas reais,
como os necessários inter-relacionamentos.
Deve-se esclarecer que é difícil estabelecer relações causais, a partir de dados observacionais,
sem o auxílio de experimentos para obter evidências de causalidades ou sem claras referências para se
estabelecer e diferenciar o conceito. No caso de pesquisa em direito, p. ex., a referência poderá se
encontra nas próprias normas legais quando se considera a causa como ação ou omissão de “algo” sem
a qual o resultado (efeito) não teria ocorrido. Nessa mesma referência se definem conceitos como os de
omissões relevantes quando os omitentes deviam (cuidar, proteger e vigiar) e podiam (recursos,
oportunidade etc.) agirem para evitar tais resultados.
Em cada processo em que se repete um experimento, o pesquisador pode controlar variáveis,
ambientes e condições para se ter uma resposta, um determinado efeito. Trata-se do controle
experimental para isolar a influencia de variáveis e condições não controláveis.
A causalidade de um fato, fenômeno (...) para encontrar explicações do mesmo, mediante o
entendimento de suas causas é fundamental na pesquisa. Tais explicações são essenciais para iniciar o
processo de busca da solução do problema (aproveitamento da oportunidade) no foco da investigação.
Com base no postulado de causalidade se rejeita a noção de ocorrência de fatos, fenômenos (...)
inexplicáveis. Admite-se que a natureza não é infinitamente complexa e nem sempre estará fora do
domínio científico-tecnológico, mas, no estado de evolução em que se encontra no início do novo
milênio é limitada ou insuficiente para compreender muitos fatos e fenômenos, ainda que observáveis
(KAKU, 2001).
2 A natureza é ordenada e regida por leis, bem como regular (“bem comportada”) em sua
estrutura e dinâmica. O sistema, fato, fenômeno ou sujeito importante, relevante ou estratégico e
problematizado e que, por isso, encontra-se no foco da pesquisa é, em geral, “bem comportado”, como
decorrência de leis e lógicas formais e complexas que o determinam. Essa determinação se dá no
contexto de um sistema, isto é, dentro de um conjunto organizado de fatores ativos e relacionados
(inter-relações) entre si, visto como um todo indissociável desses fatores ativos, cujo significado só
pode ser percebido quando analisado simultaneamente com o conjunto de suas inter-relações. São essas
relações que estabelecem leis como as da evolução, dinâmica e correspondente estrutura. A dinâmica
das relações, por sua vez, explica auto-regulações e finalidades, conceitos básicos ligados às estratégias
dos atores.
Fora desses esquemas “normais” de “estados”, dinâmicas e evoluções, o sistema, fato (...) passa a
se constituir um motivo para a pesquisa, traduzindo-se, portanto, como um problema da investigação. É
possível que uma nova situação seja o reflexo de evolução, transformação, degeneração (...); a
investigação procura explicar, prevenir e projetar, segundo sejam a conveniência e oportunidade do
caso.
O objetivo principal das ciências, mais do que a simples descrição de fatos e fenômenos
95

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

empíricos é estabelecer, mediantes leis e teorias, os princípios gerais que possam explicar e
prognosticar os fatos e fenômenos (...), segundo Koham, citado por Rúdio (1986, p. 11).
O inexplicável de um fato, fenômeno (...) como objeto de pesquisa pode ser devido ao
desconhecimento integral de suas causas, segundo Prigogine (1996). A autora aponta que: “assistimos
ao surgimento de uma ciência que não mais se limita a situações simplificadas, idealizadas, mas, nos
põe diante da complexidade do mundo real, das ciências que permites que se viva a criatividade (...)
como a expressão singular de um traço fundamental comum a todos os níveis da natureza”.
As ciências e tecnologias reconhecem o sistema e a pesquisa dele “isola” uma parte, porém, com
informações de uma síntese do todo, do sistema com um problema (oportunidade), para estudá-la
(desagregação) e, depois, integrá-la (remontagem), com a solução (aproveitamento), ao sistema da qual
essa parte foi “isolada”.
Tanto a desagregação como a remontagem obedece aos postulados das ciências, em particular, às
bases ou fundamentos do método que o pesquisador utiliza na investigação.
Popper (1959) estabeleceu fundamentos importantes para o entendimento do método científico e
seus resultados, tais como:
a) Uma teoria científica não pode ser provada verdadeira; apenas pode ser rejeitada; os conceitos de
verdadeiro (aceitação) e rejeição (falseabilidade ou refutabilidade) se referem aos julgamentos de
proposições ou premissas consideradas nas mesmas condições em que se propõem as teorias; não
se referem às verdades ou rejeições absolutas.
b) Uma teoria que não possa ser falseável (refutável) não e uma teoria científica; este é um conceito-
chave das ciências e seus métodos.
Nesse contexto, uma teoria é falseável quando de alguma forma, p. ex., um experimento, o
pesquisador, com base em dados, pode mostrá-la aceitável (falsa) sem, contudo, com base em
resultados de testes, provar que é verdadeira. A teoria que não for rejeitada em inúmeros testes é
robusta e aceita.
Qual é a importância do conhecimento dos postulados (premissas) das ciências e seus métodos
para a pesquisa no desenvolvimento? Nesse conhecimento há importantes considerações que fazem
parte do entendimento do método científico.
O entendimento e a aplicabilidade de teorias científicas (do próprio método) estão baseados em
eventos (fatos, fenômenos, sujeitos...) que o pesquisador consegue explicar, descrever, elucidar,
solucionar, interpretar, unificar antecipar (...) com essas teorias e o método.
São as teorias ou conjunto de hipóteses coerentemente interligadas com o propósito de explicar
(...) um dado domínio do conhecimento. Quanto mais geral e abrangente for esse domínio maior será o
nível de aplicabilidade e sua importância para o desenvolvimento dispor dessas verdades científicas,
dessas teorias com aplicação.
No contexto do método cartesiano, ainda que sob críticas e contestações propositadamente
96

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

omitidas neste livro, busca-se o tratamento da complexidade e regularidade da natureza com a


decomposição do “todo” em tantas partes quantas sejam possíveis, porém, com vinculação de cada
parte com o sistema, com as outras partes do todo.
A redução de um problema (oportunidade) para pesquisa pode levar, sem uma análise cuidadosa
e com critérios suficientes de sustentação, à definição simplista, não significativa e sem utilidade ou
aplicação prática que se espera de uma pretendida solução.
Isso pode ocorrer quando se desarticula ou desvincula a parte problematizada do sistema (aquela
tratada pela pesquisa) sem considerar os efeitos, inter-relações, complementações, sinergias (...) 25 com
as outras partes, com ou sem problemas. Pode ocorrer, também, quando a solução gerada / oferecida
não encontra “um espaço” propício para se integrar no sistema. Daí a importância da análise da parte,
ora como problema (do cliente), ora como solução (oferecida pela organização).
Isso não significa que a análise 26 seja um conceito já superado da metodologia, mas, que a
separação, exame e estudo pormenorizado de um todo em seus elementos componentes deve ser feito
com cuidado, critérios e sempre considerando o todo. É nesse todo, o sistema, que o pesquisador e
extensionista poderão compreender os elementos ou os fatores causais (inter-relações, associações etc.)
em determinada ordem, estrutura, funções e inter-relações.
O método científico auxilia o pesquisador para ter esse entendimento ao estabelecer hipóteses,
como imagens de espírito, no conceito de Einstein, sem dar crédito ao exposto pelo teorizador, mas,
avaliando e julgando o resultado. Um julgamento apoiado na verificação da coerência interna da teoria
e na análise de resultados experimentais de previsões de testes falseáveis. São resultados como os de
uma afirmação científica acerca de parâmetros de uma ou mais populações ou acerca da distribuição de
um ou mais atributos de uma amostra.
O que o pesquisador-difusor busca é uma solução consistente com a realidade do cliente em

25
São várias as propriedades de um sistema que integram suas partes, entre outras as de simetria, conservação e
predição. Pela simetria, apenas para exemplificar uma das propriedades, o sistema permanece inalterado quando sobre
ele atua determinada operação específica. Para a pesquisa interessa conhecer essa propriedade pelas relações de uma
parte com o todo. Para o caso específico da simetria, os sistemas poderão apresentar diversas formas, p. ex., sob as
mesmas condições de um experimento (intervenção) o sistema deve produzir o mesmo resultado que no passado, no
presente e futuro (simetria temporal), o que significa que ao deslocar o sistema no tempo, suas propriedades
permanecerão. Outra forma de simetria é a espacial. A importância das simetrias está associada à lei da conservação
que possibilita fazer previsões sobre o futuro. Isto é possível porque as grandezas (problemas, oportunidades) se
relacionam a outras mediante leis da natureza. Se a grandeza é conservada, porém se relaciona com “outras”, então, os
valores dessas “outras” não podem assumir um valor qualquer (ou independente), mas, determinados valores. O
conhecimento desses processos é a essência da cenarização.
26
Na filosofia analítica de Russel (1872 – 1970; filósofo da ciência) ou Wittgenstein (1889 – 1951; filósofo alemão), a
análise compreende a determinação de um conceito complexo mediante idéias e operações simples que o constituem,
com o objetivo de demonstrar que qualquer problema, por mais abstruso que seja, pode ser reduzido. O método
cartesiano consiste em dividir qualquer problema cognitivo em tantas partes quantas forem necessárias, para melhor
solucioná-lo. Diversas aplicações desse conceito aparecem em pesquisas (análise quantitativa, qualitativa, numérica) e
áreas como a matemática e a estatística (p. ex., análises de componentes principais, fatorial, de variância, de regressão,
de Fourier, harmônica, de sistema etc.), comunicação (p. ex., análises sintática, sincrônica, estrutural, morfológica e
frásica), química, física e comportamental etc.
97

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

dimensões destacadas (atenda às necessidade e possibilidade e supere suas expectativas), sendo que
para outras realidades ou dimensões essa mesma solução poderá não ser coerente nem consistente. A
condição necessária e prévia é conhecer essa realidade e suas dimensões: qual é o problema e como
está inserido no ambiente, no sistema do cliente, da organização, de mercado (...).
Na busca da solução tecnológica consistente e com efetividade no alvo o pesquisador – difusor é
auxiliado e/ou sustentado pelo método científico para potencializar a sua criatividade de inovação /
invenção e de transferência / difusão. A condição necessária para efetivar esse auxílio ou utilizar essa
base é conhecer os postulados, pressupostos, circunstância de aplicação, conseqüências de violações de
regras etc., desse método. Tal condição define a adequação de escolha e utilização do método para
gerar / disponibilizar a solução desejável e possível.
O método que utiliza o pesquisador – difusor e a solução com ele gerada / disponibilizada não é
absoluta nem definitiva ou permanente. Tal solução é uma verdade científica e operacional que se
aplica à realidade sob determinadas condições e que poderá ser melhorada quando tais condições
evoluam ou sejam diferentes. Para as condições da pesquisa com qualidade, trata-se da “melhor”
solução no momento em se oferece.
A suficiência na busca e na solução, ainda que circunstancial, é dada pela criatividade e por
condições favoráveis para a pesquisa.
Avanços tecnológico-científicos e do cliente (...) poderão tornar obsoletas e ineficientes soluções
tidas como as “melhores” em determinadas condições e períodos quando superados, não apenas pelo
ônus no tratamento implícito nessas soluções, mas, pelas externalidades negativas tecnológicas, pela
exclusão social (...) e pelas “melhores” alternativas que possam ser geradas / oferecidas. Assim, novas
tecnologias não apenas deverão gerar bem-estar social e reduzir passivos ambientais, mas, criar novas
expectativas de soluções em campos que se ampliam como os da biotecnologia e se integram como os
da bioética e biodireito: devem ser soluções consistentes.
Entenda-se por solução consistente aquela com maior aderência à realidade, com a maior
duração (vida útil), abrangência e coerência multidimensional. Para de essa forma defini-la é preciso se
ter, na prática e com detalhes, o conhecimento da natureza, suas funções e relações (inter-relações,
interações etc.) de seus componentes: essa é a referência para definir a consistência. Um conhecimento
suficiente para discernir sobre o que é essencial e operacional e como, a partir desse conhecimento,
integrar a solução no sistema, na população, no fato ou fenômeno alvo da pesquisa.
A consistência da solução tecnológica pressupõe certa acomodação, integração, complementação
(...) com a realidade inicialmente simplificada de sua complexidade. Dessa forma, a consistência passa
pela simplificação.
A “redução” da realidade, com freqüência, interativa, diversificada em seus componentes
integráveis, complexa em suas estruturas e funções (...) deve ser feita considerando a visão sistêmica
(abordagem dentro da teoria de sistemas) e conservando na solução, quanto possível, fatores dessa
diversificação, interação, estrutura e funções.
É imprescindível, nessa redução, habilidades e competências do pesquisador – difusor para que
98

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

em apenas um problema relacione a complementaridade entre estrutura e função de uma parte do


sistema com apenas os elementos essenciais e conforme sejam as limitações dos recursos para a
pesquisa. Além disso, é imaginar soluções sem poder operacionalizar a complexidade do problema no
foco da pesquisa. Aquém, é pretender, com “simplismo”, alterá-la com “soluções” sem efetividade
quando considerada apenas uma face do problema ou quando omitidas as causas importantes do
mesmo: o simplismo da pesquisa.
O quanto da complexidade pode ser reduzido no método científico e operacionalizada com os
recursos disponíveis é parte da habilidade-competência do pesquisador – difusor aplicada na
investigação; é parte, também, de sua experiência e dos recursos disponíveis.
A remontagem e a integração (síntese: fase que segue à análise) são possíveis e facilitadas
quando a solução tecnológica gerada e disponibilizada consulta e se adapta ao sistema por trazer uma
síntese dele. Isso significa considerar o cliente alvo dos resultados da pesquisa em termos de suas
necessidades (principais e/ou prioritárias) e possibilidades ou condições de adoção e de atendimento às
suas expectativas em relação às soluções esperadas; uma questão de qualidade.
Deve-se observar que são as expectativas do cliente que definem, em grande parte, as
expectativas da pesquisa, da empresa de pesquisa; estas, quando legítimas são traduzidas na missão e
valores da organização.
Daí é que surge a necessidade e importância de definir o cliente, seu entorno (ambiente e inter-
ralações.) e o sistema que o compreende e onde se desenvolve. Significa compreender os sistemas
pelos fatores que afetam o cliente (p. ex., os fatores de mercados, os político-institucionais, os de
proteção e conservação do meio ambiente e de seus recursos, os de competitividade no comércio e
fatores sociais em suas tendências, dinâmicas etc.).
Tal compreensão deve ser internalizada, quanto possível e necessária, nos processos de
prospecção, de geração/ adaptação e de transferência/ difusão da solução tecnológica, sujeitos à
dinâmica da realidade que condiciona esses processos.
Nestas “Orientações (...)”, enfatiza-se a necessidade e conveniência de a prospecção, a geração/
adaptação e a transferência/ difusão serem atividades, processos e estratégias conjuntas e integradas
quanto possível, ainda que com diferenças nos seus procedimentos, técnicas e métodos. Em muitos
casos esses processos se complementam e devem ser considerados simultaneamente a partir de uma
realidade dinâmica comum à pesquisa.
São atividades, processos e estratégias conjuntas da investigação no sentido de ligadas,
contíguas, próximas ou partes que constitui um todo; de pessoas que, prévios acordos, formam uma
equipe; de equipes que compõem uma rede; de procedimentos que seguem uma lógica de
desenvolvimento etc., porque compreendem atividades e estratégias que ocorrerem, com freqüência,
em instâncias temporais muito próximas ou distantes, porém integráveis, simultâneas ou, ainda,
seqüenciais.
São atividades, processos e estratégias integradas da investigação (não rígidas ou com certa
flexibilidade) que durante a geração/ adaptação da tecnologia se podem ajustar ou poderão incorporar
99

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

novos condicionantes da transferência e adoção que o profissional “difusor” leva ao pesquisador.


As experiências do profissional de transferência e difusão de tecnologia, por sua vez, são
integradas às de geração / adaptação e poderão indicar novos ajustes nos seguintes processos de
geração/ adaptação: são as “vozes” dos processos e do difusor-pesquisador-difusor determinando as
características de um resultado.
O conhecimento que se deriva da “capacidade tecnológica”, da “capacidade de planejamento e
gerenciamento” nesses sistemas e de “habilidades-possibilidade” do cliente optar por uma ou outra
tecnologia, entre outras atividades prospectivas desenvolvidas pelo extensionista-difusor, são
orientações básicas na caracterização do problema e na geração/ adaptação de sua solução.
O conhecimento das características dos resultados gerados/ adaptados (ISPi) é fundamental
para orientar os processos de difusão/ transferência da solução gerada/ adaptada.
Para se terem inovações tecnológicas e novos conhecimentos, no alvo da investigação, são
necessários atenderem (satisfazerem) determinadas condições, entre outras clareza, objetividade,
delimitação (...), não apenas de conceitos com relação ao objeto da investigação nesse alvo: o problema
(oportunidade) e nos métodos, mas, de “outras” naturezas.
Quais são essas “outras” condições? Além de serem soluções tecnológicas testadas, “aprovadas”
e oportunamente disponibilizadas (adequadas) ao encontro de problemas do cliente e seu meio, devem
ser exeqüíveis para a organização, consistentes com o método (o método adequado à pesquisa) e com
adequações de processos, infra-estruturas e procedimentos de gestão. Nesse processo de ajuste, o
pesquisador, voz da organização, procura que tais exigências sejam “atendíveis” e consistentes com o
cliente. O extensionista, voz do cliente, procura atender as exigências da organização.
Os trabalhos de uns e outros, em geral, complementam-se e exigem, em muitos casos, ações e
estratégias conjuntas e integradas que possibilitam potencializar tanto os resultados do pesquisador
como o do difusor / extensionista. Devem ser, quanto possível, ações e estratégias combinadas e
integradas porque é dessa forma que se potencializa ou sinergiza o resultado da pesquisa.
Um resultado visto como o efeito e síntese, pelos efeitos, da prospecção e cenário do ambiente
certo, a definição adequada do problema nesse ambiente, a geração /adaptação eficiente e a
transferência/ difusão eficaz, uma, em seqüência, determinando, influenciando ou sendo influenciada
pela outra, com um propósito comum: a efetividade do resultado da investigação.
Ambos, pesquisador e extensionista / difusor, estão engajados no processo de pesquisa e
possuem um objetivo comum e compartilhado. Por isso, deve-se conciliar a “voz” do cliente, através
do extensionista, com a “voz” da organização, atreves do pesquisador.
Por essa estreita vinculação, relação, atuação (...) é que se considera pesquisador-difusor como
uma entidade, uma força e um resultado comum, definido no singular.
3 A natureza é estável e procura a estabilidade. Além de “bem comportada”, a natureza é
estável (ainda que não “bem” compreendida dada as limitações das ciências para tal propósito), dentro
de determinados esquemas evolucionários (estabilidade dinâmica) ou não.
100

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

A inovação tecnológica procura aproveitar certa flexibilidade na estabilidade da natureza (é o


caso do aproveitamento racional de excedentes em fluxos que não comprometam fontes ou estoques)
impondo determinadas condições.
A racionalidade (econômica, social, ecológica, legal etc.) pauta essa imposição para que os
inevitáveis efeitos negativos da tecnologia na natureza sejam tolerantes e os mínimos possíveis.
Significa não afetar a capacidade (estruturas, funções, inter-relacionamentos etc.) de seus sistemas,
mantendo condições de auto-recuperação e oferecendo suficientes “compensações” quando um setor
seja afetado pelos outros beneficiados.
A pesquisa, com base no método científico, deve oferecer soluções, verdades científicas e
tecnológicas, com toleráveis impactos: é a essência da sustentabilidade, sem a pretensão, na prática, de
gerar / disponibilizar soluções tecnológicas “neutras” e onde todos ganham, isto é, livres de valores ou
interesses como são os econômicos, sociais, ecológicos, políticos ou morais dominantes dos
intervenientes e interessados na pesquisa.
A verdade nas ciências se refere a uma verdade “estável” dentro de determinado paradigma, em
geral não plenamente conhecida, daí porque essa verdade seja relativa ou circunstancial. Está
relacionada, também, às leis da natureza que visam descrever a mudança e os movimentos
caracterizados por uma velocidade que se ajusta ao longo do tempo (PRIGOGINE, 1986; p. 19) para
fazer as previsões.
A pesquisa, com base neste postulado e em critérios como são, p. ex., os de resiliência e
homeostase, gera / disponibiliza e “introduz” mudanças tecnológicas sustentáveis de “melhorias” na
sociedade, no meio ambiente (...), incorporando outros princípios de áreas e dimensões diferentes como
são os de econômica, engenharia, sociologia, direito, administração, informática, comunicação e
político-institucional, entre outras. Cada uma dessas áreas tem seus objetivos, interesses e meios não
necessariamente conciliáveis no fator comum que as permeiam: a tecnologia.
As condições de estabilidade da natureza (do fato, do fenômeno, do cliente, do setor ou sistema
etc., que é motivo de pesquisa) poderão variar conforme sejam as características de cada caso (p. ex.,
do local, da região, do mercado, do estágio de evolução da C&T), do período de tempo e das
circunstâncias e condições prevalecentes.
Daí porque se torne imprescindível conhecer as condições que afetam a pesquisa, aquelas que
determinam o problema e poderão afetar / condicionar à solução tecnológica do mesmo, bem como os
processos de evolução em um local (p. ex. dos clientes em seus espaços ou territórios; do mercado
local e regional que se relaciona com outros mercados; da competitividade no comércio; da sociedade
em seus novos comportamentos e padrões de consumo) para se gerar/ adaptar e disponibilizar
tecnologias que assegurem a estabilidade dinâmica ou evolucionaria do fato ou fenômeno em cada
caso.
4 Todo fato, fenômeno (...) objetivo pode ser eventualmente conhecido. O conhecimento
depende do tempo e do esforço despendidos para tal propósito, além de condicionamentos dados pelo
“estado” das artes (técnicas) e ciências, pela habilidade e competência do pesquisador para conhecê-lo
101

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

e pelos recursos disponíveis para desenvolver a investigação.


O interesse desse conhecimento é determinado pela importância (para o cliente, para as ciências,
pra a sociedade, para o governo etc.) do fato ou fenômeno no foco da pesquisa.
Deve-se observar que o conhecimento de um fato, fenômeno (...) não significa buscar muitos dados,
informações, explicações (...), mas, apenas as necessárias para o propósito desse conhecimento.
Neste sentido, tem-se o postulado da parcimônia (a natureza é por si mesma econômica) ou
Navalha de Ockham que defende a intuição como ponto de partida para o conhecimento;
constitui-se um guia lógico para escolher, entre várias hipóteses a serem verificadas, aquelas que
contêm o menor número de afirmações não demonstradas.
É oportuno acrescentar que se a P&D e C&T/I forem consideradas fechadas, difíceis e
“misteriosas” para a compreensão social, o perigo do desentendimento e rejeição de seus resultados
será maior. Mas, se forem assuntos de interesse com considerações gerais e se seus processos e
conseqüências sociais forem discutidos e acordados, com competência e regularidade, então, ter-se-á
aumentada a possibilidade de socializar os benefícios das pesquisas e ciências. Isso implica
desmistificá-las ao evidenciar a racionalidade e sustentabilidade de seus processos e resultados.
5 Nada é evidente por si. É preciso de demonstração, de evidência em fatos da realidade. Esta
propriedade é entendida como o uso consciencioso, explícito e judicioso de informações “consistidas”
para fundamentar uma tomada de decisão particularizada no caso (oportunidade) de pesquisa.
As ciências (e seus métodos) são objetivas e criteriosas para manifestarem (observarem) fatos,
fenômenos, relações (...) de componentes ou variáveis no foco das pesquisas. Dessa forma, os métodos
científicos não são referências de receitas, nem subvalorizam a experiência, como tampouco
substituem a criatividade do pesquisador. Apenas o auxilia A ilustração que segue (Figura 21)
exemplifica o conceito evidencia em pesquisa, inserido em um processo.
Informação
AcessoInformação

métodos
Técnica,métodos
pesquisa
pesquisa

literatura
Proj.pesquisa
Tipopesquisa

Ver.literatura
prognóstico
diagnóstico

tratamento

prevenção
prognóstico
diagnóstico

tratamento
etiologia

prevenção
etiologia

M
Meeddiicciinnaa bbaasseeaaddaa eem
m eevviiddêênncciiaass M
Meeddiicciinnaa bbas
a seeaaddaa eem
m eevviiddêênnccii aass
Técnica,
Proj.
Tipo
Acesso

Ver.

Diretrizes
Diretrizes para
para aa prática
prática clínica
clínica
Diretrizes
Diretrizes para
para aa prática
prática clínica
clínica

Decisão
Decisão clínica
clínica
 Tipo de pesquisa Decisão
Decisão clínica
clínica
 Projeto de pesquisa
Cada
Cada categoria
categoria  Revisão de literatura
 Metodologia
 Informação

Figura 21 A evidência no processo de pesquisa na área de medicina


102

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

Pelo postulado da evidência se pode rejeitar, p. ex., o conhecimento derivado de o bom senso
(senso comum em que a expressão “eu acho que...” toma conta; surge com base em muitas informações
não-sistematizadas, de diversas fontes, níveis..., às vezes inconsistentes, misturadas com tradições,
preconceitos) não conformado à evidência ou à observação criteriosa, sem que isso seja interpretado
como redução da importância do bom senso, isto é, da capacidade, poder ou aptidão de distinguir o
verdadeiro do falso, o bom (bem) do mau (mal) (...), em questões corriqueiras que careçam ou
dispensam soluções técnicas, científicas ou que não exijam raciocínios elaborados. Um ponto de vista
prático, porém sem teoria ou como o mínimo dela como suporte à informação. Isso é consistente com a
própria incapacidade da C&T encontrar fundamentos seguros para rejeitar interpretações do senso
comum.
Essa deficiência explicativa de argumentos definitivos para provar as “coisas” gerou o
falibilismo ou a “falha” da razão na explicação lógica; dessa forma permanece o senso comum baseado
em crenças, desejos e pontos de vistas intuitivos (intuitivo, intuição, do lat. intuire, ver em...,
103

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

contemplar) e intencionais (MOORE, 189). Aponta o autor: “o fato de que uma pessoa saiba que
uma proposição do senso comum é verdadeira, não há motivos para se duvidar
essa verdade”. Isso não impede que outros fatos venham a negar tal verdade.
Entretanto, é preciso que alguma pessoa saiba que a nova informação É
verdadeira, para que ela possa ser sustentada. O senso comum não precisa de
mais nada, para provar a sua verdade, a não ser do conhecimento interno de
alguém que sustenta uma dada afirmação como verdadeira. Para as ciências, não
são suficientes esses conhecimentos internos como tampouco são consistentes os
processos subjetivos para se gerarem e internalizarem as “verdades” do senso
comum.
Em lugar de elementos técnicos e processos que possam ser repetidos, testados (...), o bom senso
poderá se basear em preconceitos, verdades estereotipadas, um lado lógico comum das pessoas, certo
sentido de autopreservação (...) e em que a prática se manifesta como suficiente em si mesma.
Alguns autores, entre outros Bachelard (1978) em seu corte epistemológico, estabelecem limites
entre as ciências e o senso comum. Conforme esse corte, têm-se esferas cognitivas diferentes, embora
se possam referir à mesma realidade, com percepções e procedimentos de observações e aprendizagens
diferentes. Nesse processo, as ciências acrescentam critério metodológico, rigor de um método
especial, do método científico, e maior capacidade preditiva ao conhecimento vulgar, ainda que este,
por outros meios como são os assistemáticos, também descubram fatos e formulem explicações.
Nas ciências modernas há considerações especiais quanto à evidência e à objetividade do método
científico para se observar, registrar, sintetizar, analisar (...) os fatos.
A primeira regra do método cartesiano considera que não se deve reconhecer como verdadeiro
um fato ou fenômeno qualquer, a menos que ele seja evidente. Mas, a evidência cartesiana destaca a
percepção visual geométrica, reduzindo a sensibilidade e a capacidade de percepção dos outros
sentidos. Nesse contexto, há controvérsias na literatura pertinente às quais são propositadamente
omitidas neste livro, 27 com também são omitidas questões relativas à da evidência de um fato.
6 O conhecimento científico é relativo. Trata-se de um conhecimento que depende de dados e
informações que em muitas áreas do conhecimento e da pesquisa são apenas aproximações da
realidade; de objetivos e metas baseadas, também, em aproximações; de técnicas e métodos relativos
com pressupostos e bases de simplificação para torná-los operacionais; e de habilidades, competências
e motivações do pesquisador limitadas, frente aos grandes desafios das ciências para encontrar
explicações.
Um conhecimento que é condicionado ao suporte financeiro da investigação para gerar a
informação desse conhecimento, às características (natureza, complexidade...) do problema e aos
recursos materiais ou tangíveis disponíveis para desenvolver a pesquisa e produzir a informação ou

27
Uma referência que traz parte dessa controvérsia em relação à primeira regra do método cartesiano é encontrada em
Upinsky (1989, p. 61). Nessa obra há, também, considerações e questionamento quanto às outras regras desse método:
tratar as dificuldades das mais simples para as mais complexas; e considerar tudo levado ao contexto sistêmico.
104

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

tecnologia desejável e possível de um novo conhecimento e inovação.


Dessa forma, as verdades nas ciências são expressões de dotações tangíveis e intangíveis e dos
melhores julgamentos demonstráveis em determinados períodos de tempos e sob condições e
circunstâncias específicas (relativas) da pesquisa.
Informações obtidas de enciclopédias da filosofia das ciências (pesquisas documentais) permitem
sintetizar características e/ou postulados do conhecimento científicos como segue:
a) Objetividade: o método utilizado para gerar a informação de conhecimento científico, com
critérios metodológicos, tenta eliminar o elemento afetivo e subjetivo; procura um conhecimento
sistemático válido para todos.
b) Positividade ou operatividade de conceitos científicos, no sentido de aderência dos mesmos aos
fatos, à realidade e de submissão à fiscalização, à experimentação, à comprobação.
c) Racionalidade; não consta de apenas elementos empíricos, mas, de construções do intelecto;
trata-se de um esforço de racionalização do real com base em observações e dados empíricos.
d) Revisibilidade; não há proposições definitivas e irrefutáveis; toda verdade científica aparece
como provisória, aproximada e susceptível de revisão, às vezes de completa reposição.
e) Autonomia; as ciências têm seus próprios campos de estudos, os seus próprios métodos e fontes
independentes de dados e informações: a natureza. Qualquer assunto que seja estudado pela
utilização dos métodos científicos faz parte das ciências (quando se descobre, inventa, gera
informações e tecnologias para conhecimentos novos e inovações tecnológicas).
6 As percepções são obtidas mediante os sentidos, sendo a percepção a base racional e
empírica do conhecimento (ver método fenomenológico).
Não se discute, nestas Orientações (...), possíveis aspectos críticos da percepção pelos sentidos,
ora reducionista, ora fundamentalista, nem formas de conhecimentos como os de contato e descrição,
na conceituação de Russell.
Os elementos e instrumentos de raciocínio que, conforme esclarece a lógica formal, é a operação
mental que extrai informações potenciais da realidade ou de um juízo, são moldados pelas impressões
percebidas mediante os sentidos. Este postulado assegura que a informação confiável é aquela que é
verificável de forma objetiva e empírica sem admitir as posições extremistas.
No texto acima foram relacionados vários postulados das ciências, dos métodos científicos. São
pontos iniciais, de reflexão, que o pesquisador poderá aproveitar para fazer pesquisas que lhe
proporcionem um nível de conhecimento suficiente para fundamentar ou entender técnicas e métodos
com suporte nesses postulados.
São com base nos postulados das ciências que o pesquisador-difusor poderá determinar, em
parte, a classificação de pesquisa básica ou pura (ciência pura) e pesquisa aplicada (ciência aplicada),
ambas relevantes e possíveis de serem integradas e consideradas conjuntamente, apesar de
reconhecidas suas diferenças e dicotomias. Mais do que relevantes, a pesquisa básica e a pesquisa
105

Metodologia: aspectos conceituais, postulados e lógica da investigação

aplicada, compreendidas a partir de postulados do método científico, podem ser considerados níveis
indispensáveis, muitas vezes inseparáveis, nas ciências modernas, os quais, com freqüência e quando o
objetivo é comum, complementam-se e se potencializam.
Os postulados das ciências se relacionam diretamente com as construções lógicas , (p. ex., de
teorias e métodos como os dos raciocínios analíticos e sintéticos) e com os tipos de pesquisa (p. ex., de
pesquisas exploratórias, descritivas e analíticas ou de pesquisas qualitativas e quantitativas, entre
outras).
Qualquer que seja o tipo de pesquisa científica, o método científico é a “melhor” forma para
descobrir a verdade científica e para elucidar o fato e fenômeno à luz da investigação científica.
O “caminho” que o pesquisador considera ou decide utilizar na pesquisa compreende várias
etapas vistas como ferramentas que o auxiliam na busca da verdade científica. Essas etapas são:
a) As observações e as experimentações de atributos da realidade que é objeto de investigação. As
observações são definidas como variáveis de pesquisa, isto é, atributos que podem assumir
diferentes valores e sobre os quais o pesquisador pode formulam hipóteses.
Nesse contexto, o pesquisador não tem uma atitude comum face ao fato, fenômeno (...)
observado por outros sem interesse, nem passiva, limitando-se ao registro de um fato (...), mas,
seleciona que observar e os dados para o registro em função de um modelo teórico. Dessa forma,
uma observação é uma interpretação em que o essencial é separado do acessório.
A observação pode gerar diversas experiências para proporcionar uma melhor condição de
observação do fato (...) em condições controladas; para esse controle o pesquisador é auxiliado
por instrumentos de medições e por uma linguagem de símbolos que lhe permitem obter maior
rigor no registro com um dado do objeto observado. Outras informações, ao tratar desses
conceitos, são apresentadas e ilustradas nestas Orientações (...).
O processo de pesquisa se inicia com o problema, com a escolha de atributos e de fontes de
dados e informações relativas ao estado de um problema (oportunidade) sob observação. Este é
considerado estratégico e relevante, com possível solução pelo método científico. Nessas
observações e experimentações registradas com dados se aplicam conceitos, técnicas e métodos.
Na fase de documentação para a descrição e caracterização do problema (oportunidade) são
aplicados, também, conceitos (p. ex., os da ANBT, ISO e os legais da área, setor...
correspondentes), técnicas (p, ex., as de amostragem), e métodos (p. ex., os estatísticos) para
obter, sintetizar, analisar e interpretar os dados.
b) A formulação de teorias valiosas e consistentes com a realidade de pesquisa: as teorias como
explicações de fatos e fenômenos observados e de suas leis, propõem a solução de uma situação
problemática: um tipo especial de conhecimento.
As hipóteses e teorias podem ser consideradas antecipações de raciocínios indutivos orientados
para antecipar possíveis descobertas, com preocupações de relacionamentos de fatos, fenômenos
(...) da realidade com os seus “semelhantes”, porém tidos como ideais ou referências da teoria.
106

Fundamentos de pesquisa
Volume 7

c) A aplicação de uma teoria para fazer previsões o que pressupõe a consistência da mesma com a
realidade que seja previsível com base em postulados das ciências e suas expressões com dados
de observações.
d) O teste de previsão para orientar novas observações e experimentos de pesquisa; tem-se
implícito o fato a explicar e o relacionamento a antecipar com base na natureza geral da teoria ou
da hipótese.
e) A modificação de teorias quando determinada a mudança pelo teste com novos resultados
capazes de modificarem teorias existentes.
As etapas do método científico devem aparecer explícitas no documento, seja ele um projeto de
pesquisa (uma proposição) ou qualquer outro escrito / documento técnico-científico, com justificativa e
coerência na sua aplicação ao caso, à realidade.
Uma parte dos métodos que o pesquisador utiliza na pesquisa se relaciona com a argumentação
em esquemas ou relações de proposições, suas leis ou princípios; com as formas do pensamento; e com
estruturas de linguagens como as descritivas. Essa parte, a lógica formal, é considerada, de maneira
simplista, na próxima seção, em que se destaca a importância e relação da lógica formal como o
método das ciências. O destaque não se restringe à fundamentação de afirmações científicas (p.ex., a
lógica da falseabilidade de um fato, teoria, lei, hipótese), mas, compreende fundamentos de métodos
básicos da pesquisa como são a indução e dedução e, em especial, relações e implicações entre
proposições, entre premissas e conclusões para se ter possíveis verdades ou refutações, o problema da
demarcação introduzido por Popper.