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CORPO, INJÚRIA E SIMBOLO: A AUTOMUTILAÇÃO EM JOVENS

Andreia Maria Alves dos Santos1


Carlos Antônio Santos2
Leticia Reis Ferreira Freitas3
Macela Marta da Costa Tenório4
Renato Silvestre da Silva5

RESUMO:

A literatura existente evidencia que automutilação é encontrada com mais frequência em adolescentes
que não fazem uso da linguagem para expressão de suas angustias e subjetividade que acabam por
fazer do corpo um instrumento para deposito destas. A automutilação consiste em cortes superficiais
na pele visto como agressões consciente, intencional dirigida ao próprio corpo no intuito de obter algum
alivio. Uma revisão de literatura foi realizada com intuito de compreender os fatores que determinam
e contribuem para a ocorrência da automutilação em jovens. Trata-se de uma revisão de literatura que
utilizou os artigos das bases de dados de literatura cientifica sendo estas: Scielo, Biblioteca Virtual,
psychINFO, onde foram utilizados os seguintes descritores: “automutilação”, “cutting”, “lesões auto
infligidas”, “corpo e subjetividade”, “corporeidade”, “distúrbios de imagem corporal”. O
levantamento cobriu o período de 2009 a 2014 tendo sido encontrado 23 artigos e desses 16 foram
utilizados. Pôde-se concluir que a automutilação decorre de vários fatores dentre ele falta de controle
das emoções e a ausência de suporte familiar onde hoje pode ser vista como uma questão de saúde
pública devido à grande incidência desse comportamento.

Palavras chaves: Adolescência. Automutilação. Corpo. Corporeidade.

________________________________________
1
Aluna da graduação em psicologia da faculdade integral diferencial – FACID DEVRY, Teresina-PI. E_mail:
andreiasantos50@hotmail.com.
2
Mestre em psicologia social – UFPB/JP, professor do curso de graduação em psicologia – FACID DEVRY,
Teresina-PI. E_mail: carlosantonio@yahoo.com.br
3
Aluna da graduação em psicologia da faculdade integral diferencial – FACID DEVRY, Teresina-PI. E_mail:
leth_reis@hotmail.com
4
Aluna da graduação em psicologia da faculdade integral diferencial – FACID DEVRY, Teresina-PI. E_mail:
macelamarta@gmail.com
5
Aluno da graduação em psicologia da faculdade integral diferencial – FACID DEVRY, Teresina-PI. E_mail:
renatosilvestre@gmail.com
INTRODUÇÃO

A automutilação é um comportamento frequentemente encontrado em indivíduos no


período da adolescência, que consiste em cortes superficiais na pele geralmente feito com
lâminas. A prática tem despertado cada vez mais o interesse de pesquisadores, professores e
profissionais da saúde por muitas vezes um ato inconsciente de escarificar a pele resultar em
um suicídio não intencional.
De acordo com Fernandes (2011) o corpo é um grande alvo de investimento para
descarga de sofrimento e frustração, passando a ser um meio privilegiado do mal estar das
pessoas produto da cultura que estão inseridas. Na sociedade de hoje o corpo passou a ser um
representante da subjetividade e frustrações com o mundo.
Nos últimos anos os casos de automutilação têm aumentado consideravelmente
principalmente no ambiente escolar onde há a constatação pelos noticiários de verdadeiras
epidemias de cutting entre jovens de 12 a 20 anos, onde na maioria das vezes os pais não
possuem conhecimento do comportamento do filho.
Devido ao grande número de ocorrência dos casos de automutilação, esta foi definida
como um problema de saúde pública por muitas vezes o ato estar relacionado a distúrbios
alimentares, problemas com bebidas, traumas de infância, isolamento social e até a determinado
problema psicológico.

Essa autoagressão em algumas circunstâncias, pode resultar da necessidade de aliviar


uma angustia que não cessa quando transmitida em palavras, mas também pode ser um meio de
influenciar outras pessoas, chamar atenção, ou pertencer a um grupo.
No Brasil há um grande desinteresse em relação a automutilação, haja visto que muitos
acreditam que trata-se de uma atitude típica da adolescência e que cessa quando o indivíduo
atinge a fase adulta. Contudo, essa prática pode estar relacionada com variáveis atuais onde nos
confrontamos nesses últimos anos com um sistema que oferece felicidade, instantaneidade,
completude e descartabilidade.
É comum o jovem com baixa tolerância a frustração e cada vez mais isolado. Imersos
em tecnologias, fazendo cada vez menos uso da linguagem oral. Nesse sentido a adolescência
é um período de transição entre fases bem distintas da infância para a vida adulta devido à
grande quantidade de recursos e informações que precisam ser administradas nesse tempo.
Adolescer traz consigo desafios e é uma etapa marcada por grandes turbulências, em
que ocorrem diversas transformações podendo levar às dificuldades relacionada a família,
escola, sexualidade, profissão e emoções.
Objetivos

O objetivo do presente estudo consiste em compreender através de revisão da literatura


os fatores que podem ser determinantes para o desencadeamento e permanência da
automutilação que tem sido cada vez mais frequente em jovens, levando em consideração o
contexto no qual estes estão inseridos, suas relações sociais, sua saúde psíquica e a relação que
a linguagem e imagem corporal estabelecem em relação a este ato.

Metodologia

Este estudo foi realizado por meio de uma revisão literária buscando compreender por
meio dos escritos os fatores que causam e contribuem para o desencadeamento do ato
autolesivo.
Foram coletadas informações em bases de dados como: Scielo, Biblioteca virtual,
psychINFO, foram utilizados 23 artigos dos quais foram selecionados para produção deste
artigo 16, pois estes apresentavam melhor posicionamento e abordagem do tema.
Foram utilizados como descritores para as buscas nas bases de dados: “automutilação”,
“cutting”, “lesões auto infligidas”, “corpo e subjetividade”, “corporeidade”, “distúrbios de
imagem corporal”. O estudo abrangeu desde publicações mais recentes a publicações mais
antigas, não foi estipulado um limite de ano devido à escassez de produção nacional a respeito
desse tema.
Após a análise do material os dados obtidos foram agrupados e distribuídos em
categorias onde buscou-se frisar as informações mais recorrentes e relevantes. Os dados obtidos
foram organizados em quatro categorias: corporeidade na construção da imagem corporal,
automutilação: etiologia e conceito, relação da linguagem e subjetividade com a automutilação,
contextos em que a automutilação ocorre.

2 CORPOREIDADE NA CONSTITUIÇÃO DA IMAGEM CORPORAL

Dentre as concepções existente a respeito de corporeidade Merleau Ponty preocupa-se


não em estabelecer uma diferenciação entre as noções de corpo como sujeito ou de corpo como
objeto e sim uma noção de corpo ativo e em constante interação com objetos e pessoas,
desprendendo assim a corporeidade do sentido apenas de carnalidade. Aqui o corpo passa a
captar as sensações proveniente do mundo externo e também serve como meio de expressão da
subjetividade da pessoa que o possui.
Ferreira (2013), define como corporeidade, várias representações concretas, que vão
definir o ser social de cada um, criando assim, uma imagem corporal, tanto cognitiva, quanto
em relação a seus desejos, medos e interações biopsicossociais que vão contribuir para
construção de cada indivíduo. Onde será formado o esquema de um corpo a partir de nossa
ancoragem no mundo, pensando nele como uma necessidade de teorizar um olhar de vivencias.
Desde o nascimento, somos expostos a sensações e percepções de mundo, através do
nosso corpo acariciado e acalentado pelo cuidado materno, o que gera uma sensação de
reconhecimento e de segurança através do olhar do outro sobre si e de sentir essa consciência
de totalidade. São através dessas interações com o ambiente, e diante das várias experiências
no meio, que começa a se constituir e transformar as imagens corporais, positivas ou negativas
no meio em que se vive (FREIRE,2000).
O termo imagem corporal ou esquema corporal é definido de acordo com Mataruna
(2004) como a constituição estruturada do próprio corpo na mente do indivíduo, resultando do
conjunto de sensações sinestésicas formada pelos sentidos e através das experiências
vivenciadas. Essa imagem pode ser tátil, auditiva, visual, motora, dentre outras, não podendo
ser analisada separadamente e sim como uma única estrutura.
A imagem corporal está em constante reelaboração pois esta se desenvolve desde o
nascimento até a morte continuamente resultando do processamento de estímulos nos quais o
indivíduo está exposto ao longo da vida. Na infância a criança começa a desenvolver o conceito
de imagem corporal no qual irá evoluir ao longo dos anos e que já estará elaborada
relativamente cedo, geralmente aos cinco anos de idade (MATARUNA, 2004). Esse autor ainda
afirma que:
As experiências corporais que determinam a imagem corporal corroboram para a
modelação de um esquema que refletirá na adolescência e na vida adulta. Sua forma
poderá ser lapidada, porém terá seus elementos da construção inicial preservados,
apesar das transformações ocorridas ao longo da vida (MATARUNA, 2004, p.02).

Para Aberastury (1981) a adolescência pode ser caracterizada como um momento


crucial para o desenvolvimento do indivíduo não apenas para a estruturação final da
personalidade, mas também como um momento para aquisição da imagem corporal definitiva.
Trata-se de um processo gradativo de desprendimento da infância onde surgirão conflitos acerca
das mudanças físicas e biológicas, será também um momento em que deverá haver uma
estrutura familiar que forneça suporte para que esse adolescente passe por essa fase sem grandes
consequências futuras.
Com a fase da adolescência, há a perda do corpo infantil, e inicia-se uma nova fase de
experiências, que pode ocorrer juntamente com uma confusão mental onde esse jovem não se
reconhece, levando assim a uma incompreensão do que está ocorrendo, essa incompreensão
diante do desconhecido pode levar esse jovem a desencadear uma série de comportamentos e
atitudes na tentativa de reobter controle sobre si e sobre o que acontece com seu corpo (EROS,
MOREIRA, STENGEL, 2011).
O adolescente nem sempre vai saber lidar com a nova transformação corporal e
emocional que ocorre nessa fase o que leva a um acarretamento de possíveis transtornos, sejam
eles psicológicos ou físicos, podendo então recorrer a meios de transferir esse desconforto
emocional para outro local, tendo como exemplo o corpo (FROIS, MOREIRA, STENGEL,
2011).
O corpo pode ser visto como um objeto de sensações e percepções, como propõe
Merleau Ponty (1945/1994) que afirma a experiência do corpo como um campo criador de
sentidos, isso se deve a noção de percepção não como uma representação mentalista, mas sim
como um acontecimento da corporeidade e como tal da existência. O corpo como captador
dessas experiências e sensações pode tornar-se um objeto para expressão de sentimentos e
subjetividade principalmente na fase da adolescência onde há a busca por uma identidade e
controle das mudanças que ocorrem nesse período.

2.1 AUTOMUTILAÇÃO: ETIOLOGIA E CONCEITO

A automutilação é qualquer agressão consciente, intencional dirigida ao próprio corpo


no intuito de obter alivio e na maioria das vezes sem intenção suicida. Outros termos são
utilizados para referir-se ao ato de lesar o próprio corpo como: cutting, autolesão, autoagressão
e violência autodirigida.
Silva (2012) em seu trabalho intitulado automutilação na adolescência: o acesso ao
tratamento médico como direito fundamental fala que há relatos que na mitologia grega
encontra-se de casos de automutilação em especial a masculina. Aparentemente o primeiro caso
faz referência ao deus Eshmun, que sofrendo assédios da deusa Astronae, castrou-se na tentativa
de se livrar do assédio desta, por causa deste fato a castração masculina ficou conhecida como
Complexo de Eshmun.
Neste sentido, Silva afirma que:
O primeiro relato cientifico sobre automutilação data de 1901, de autoria de Strock,
na Inglaterra. Até hoje esta prática é sub-relatada, razão pela qual as estatísticas são
poucas e poucos estudos se destinam ao tema (SILVA, 2012, p.08).

O comportamento de autolesão na maioria das vezes busca transferir algo psiquicamente


incontrolável para o corpo. Freud (1923/1976) nos escritos de o ego e o id fala que a superfície
do corpo – a pele - de onde derivam as sensações é antes de tudo uma extensão do aparelho
mental. “O eu é antes de tudo um eu corporal” (FREUD, 1923/1976, p.238).
Na teoria freudiana há outras referências em relação ao corpo além do eu corporal como
citado acima, Freud também fala de um corpo subjetivo. Ainda na sua obra o ego e o id (1923),
Freud fala sobre a formação do eu, fazendo uma articulação do corpo afirmando que “o ego é,
primeiro e acima de tudo, um ego corporal; não é simplesmente uma entidade da superfície,
mas é, ele próprio, a projeção de uma superfície” (FREUD, 1923/1976, p.40).
O comportamento automutilante pode ocorrer em qualquer idade, tanto na juventude
quanto na velhice, na infância os índices são baixos, na população idosa também, com a
prevalência dos índices estão os adolescentes, que apresentam esse comportamento entre 11 e
15 anos e pode se estender até os 20 ou mais dependendo dos fatores que incitam esse
comportamento.
Em boa parte dos casos a automutilação está associada aos conflitos próprios da fase.
Não há uma diferenciação entre os sexos podendo ocorrer em ambos, diferindo apenas nos
métodos utilizados para se autolesar, apesar de haver algumas literaturas que apontem para as
mulheres com maior probabilidade para se autolesar.
De acordo com Garreto (2015) pode-se observar que há uma diminuição gradativa desse
comportamento à medida que esses jovens adentram a fase adulta até que haja um fim do
comportamento automutilante muitas vezes independente de alguma intervenção.
“Provavelmente a interrupção desse comportamento seja consequência do desenvolvimento de
mecanismos mais adequados para o enfrentamento de situações problemas, o que ocorre com o
desenvolvimento neurocognitivo” (GARRETO, 2015, p.09).
As formas mais comuns de autoagressão são: cortar a pele, queimar-se, arrancar ou
puxar os cabelos, produzir arranhões, mordidas, ingestão ou se injetar substancias toxicas,
introduzir agulhas no corpo, quebrar ossos, bater cabeça, beliscar-se. Estas lesões geralmente
são feitas em locais de fácil acesso como: braço, barriga, pernas ou qualquer área que possa ser
facilmente escondida.
O cutting não necessariamente está associado a doenças psiquiátricas como: depressão,
esquizofrenia, anorexia, transtorno boderline; esta pode acontecer de forma isolada. O DSM-V
(2014) aponta que quando a automutilação acontece na fase adulta pode sinalizar a presença de
outros transtornos psiquiátricos que geralmente são comórbidos.
De acordo com a Classificação Estatística de Doenças e Problemas Relacionados à
Saúde - CID-10 (1993), a automutilação está inserida na categoria de transtornos dos hábitos e
dos impulsos. É característica para o diagnóstico “a pessoa repetidamente não consegue resistir
a impulsos que a levam a adotar esse comportamento. Há um período padrômico de tensão
seguindo de uma sensação de alivio quando da realização do ato” (CID-10, 1993, pag. 357).

2.2 RELAÇÕES DA LINGUAGEM E SUBJETIVIDADE COM A


AUTOMUTILAÇÃO
Na construção da subjetividade na contemporaneidade, pode-se observar que a
autolesão costuma acompanhar processos do adolescer associados a quadros psicopatológicos
de transtornos na oralidade e de imagem corporal. (CORCOS, 2009; COSTA, 2004).
A dificuldade cada vez maior dos jovens se expressarem por meio da linguagem oral
leva a uma produção de linguagem corporal cada vez maior. Fernandes (2011) aponta em seu
texto o corpo e os ideais do clinico contemporâneo, que o corpo hoje é frequentemente visto
como fonte de frustrações e sofrimentos passando a ser utilizado como instrumento cada vez
mais pela cultura para expressão do seu mal-estar.
Essa dificuldade proporciona uma maior comunicação por meio de atos, o que na
maioria das vezes faz com que as mensagens passadas por essa comunicação sejam mal
interpretadas, incompreendidas ou passe despercebida.
As pessoas que realizam esse comportamento possuem a crença de que ninguém
consegue entender o que se passa com elas por isso buscam isolamento e esquiva do contato
social por medo dessa incompreensão, julgamento ou críticas (GILBERTO; PROCTER, 2006;
GILBERT, 2003).
O corpo tem sido cada vez mais utilizado como meio de expressar não apenas a própria
subjetividade mas a subjetividade do mundo. As autolesões são uma forma de linguagem
expressa no corpo, uma forma de expressar o não dito. Estas lesões carregam uma série de
significados individuais que diferem de pessoa para pessoa desde punição, cuping, alivio,
manipulação e inclusão em grupo (POTTER, 2003; MOREIRA; GONÇALVES, 2010;
FERNANDES, 2011).
O alivio instantâneo promovido pelos atos lesivos levam a uma repetição continua do
ato na tentativa de obter o alivio inicial novamente. Driel et al, (2011) diz que após concretizar
a autolesão o jovem tem a sensação de obter novamente o domínio do seus sentimentos e
conflitos. Essa sensação temporária é um dos fatores que incitam a repetição da automutilação
quando seus conflitos fogem ao seu controle.
Winchel e Stanley (1991) defendem a ideia de que a autolesão promove uma liberação
de endorfina no cérebro que produz uma sensação de bem-estar o que leva uma repetição do
ato. O alivio promovido pela primeira lesão nunca será obtido igualmente na segunda, será
necessária uma lesão maior ou que necessite de mais força o que leva a um número cada vez
maior de atos autolesivo na busca do mesmo bem-estar obtido na primeira lesão.
Apesar de alguns pesquisadores afirmarem que a automutilação é normal na fase da
adolescência e que tem fim com o termino dessa fase. A automutilação ultimamente tem
representado um problema de saúde pública devido ao aumento significativo de pessoas
principalmente adolescentes que se auto infligem agressões físicas.
De acordo com Bizri (2014) as marcas no corpo são uma expressão do sofrimento, uma
mensagem corporal que o sujeito encontrou para representar suas angustias. Angustia essa que
não cessa quando expressada por palavras.

2.3 CONTEXTOS EM QUE A AUTOMUTILAÇÃO OCORRE

As dificuldades que os adolescentes apresentam em lidar com questões familiares,


amorosas, social, escolar e emocional levam junto com a falta de apoio a uma instabilidade
psíquica que consequentemente por não haver controle ou domínio e por não terem sido
educados para lidar com os sentimentos e emoções que emergem diante de situações
principalmente aquelas que lhes fogem do controle os levam a transferir todo esse acumulo de
pulsão psíquica para o corpo. “O corpo é habitado pelas pulsões, sendo um representante
psíquico das excitações do sujeito, tendo que produzir um trabalho psíquico, para lidar com as
excitações que provem do interior do corpo” (FREUD, 1915 apud BIZRI, 2014).
Existem situações que dependendo da estrutura emocional do sujeito proporcionam o
desencadeamento do comportamento autolesivo. Lacan (1962-1963) propõe que a angustia
nada mais é do que uma manifestação do medo de ausência de um impulso motivador. A
angustia pode surgir em vários momentos dentre os quais a pessoa pode sentir-se ameaçada,
com medo, nervosa em relação a algo. Andrioli (2014) diz que a angustia pode apresentar-se
com tamanha intensidade que a única reação que o indivíduo pode ter é cortar o próprio corpo
não sentindo dor ao inferir o corte, mas sim um alivio.
A Sociedade Internacional de Estudo da Violência Autodirigida (ISSS, 2010) define
como fatores de risco que podem desencadear o comportamento autolesivo: perturbações
psicopatológicas e história de suicídio na família, negligencia e maus tratos na infância,
expectativas demasiado elevadas ou demasiado baixas dos pais em relação aos filhos, excesso
de autoridade, rigidez familiar, divórcios/separações, dificuldades escolares, conflitos
interpessoais e problemas de relacionamento, separação de amigos/ colegas/ companheiro e
morte de pessoas significativas. Existem também fatores tido como protetores que são
mencionados como: boas relações familiares, existência de um bom suporte social, boas
competências sociais, adoção de estilo de vida saudáveis, identificação efetivas com valores
culturais e boas relações interpessoais e grupais (ISSS, 2010).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A literatura brasileira existente a respeito de automutilação em si é muito escassa


fazendo com que a busca de informação se torne restrita e limitada, onde dentre estes há uma
prevalência de produções de vertente psicanalítica.
Contudo com base na literatura analisada pôde-se constatar que a noção e concepção de
corporeidade e imagem corporal que se inicia na infância atrelado a linguagem e subjetividade
se não bem desenvolvidos e trabalhados ao longo da infância faz com que na entrada da
adolescência esse jovem entre muitas vezes em conflito consigo mesmo.
A busca por um controle e solução sobre o que acontece com seu corpo, suas emoções
e relações, faz com que o corpo sirva como instrumento para expressão da subjetividade, da
angustia, do medo e da insegurança, que pode também está associado a questões relacionadas
a distúrbios alimentares e problemas psicológicos, problemas com bebidas, traumas de infância,
isolamento social, conflitos familiares, amorosos e da própria adolescência.
Recentemente a automutilação no cenário brasileiro passou a ser vista como uma
questão de saúde pública, devido ao grande número de casos constatados e de ocorrência em
emergência de hospitais. A automutilação geralmente não possui finalidade suicida, mas, pode
ser um primeiro passo para um pensamento de ideação suicida quando a escracficação não for
o suficiente para atenuar e controlar aquilo que esse jovem busca transferir para o corpo.
O tema ainda é muito pouco estudado em território brasileiro devido ao desinteresse por
parte dos pesquisadores por acreditarem que este comportamento é típico da adolescência,
perdendo em massa para os Estados Unidos em relação a nível de interesse, número de
publicações e compreensão do fenômeno. É necessário um despertar de interesse haja visto a
grande demanda que se tem hoje de inúmeros casos que algumas vezes terminam em morte.

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