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A COMPLEXIDADE E A PROBLEMATIZAÇÃO

NO ENSINO SUPERIOR

A  parCr  do  pressuposto  de  que  a  complexidade  das  situações  profissionais  e  sociais  é 
incompaHvel  com  a  mera  racionalidade  técnica,  os  autores  idenCficam  um  caráter  de 
transição entre  as concepções de um estudante que adquire  conhecimento e um estudante 
que constrói  conhecimento. Nesse senCdo, a epistemologia enfaCza menos o ensino formal  e 
mais  a aprendizagem, tendo como princípio o quesConamento, a descoberta e a reflexão dos 
alunos, de modo a ajudá‐los a construir o conhecimento “a parCr de si próprios”.

O pensamento unívoco já  não se  aplica  aos dias  de  hoje. A 


complexidade é o único modo de pensamento que  poderá 
responder às perturbações da sociedade contemporânea.

CompeCrá   aos   educadores  não   apenas   a   resolução  de 


problemas   ou  oferta   de  soluções  prontas,  mas   antes   o 
esforço de ajudar a levantar mais e mais interrogações.
Paulo Freire.

Pensar de forma  reflexiva  é  ser capaz de  exprimir afeto  ou  perplexidade  perante situações  imprevistas, é 


ser capaz de olhar as  situações  considerando perspecCvas diversas, é ser capaz de  perspecCvar, situar ou 
enquadrar  a   situação  complexa  num  problema  tendo  em  conta,  de  forma   não  linear  mas  flexível, 
conhecimentos e experiências.

Aprender a  pensar de forma  críCca e reflexiva,  A TFC prevê a contextualização das


p re o c u p a çã o  m a i o r  n a   u n i ve rs i d a d e  aprendizagens, múltiplas representações
(univers@‐cidade),  aprender  a   complexidade  dos conhecimentos e a apresentação da
em  domínios   pouco‐estruturados,  exige  informação de forma não-linear, numa
formas  de  ensino‐aprendizagem  que  são  estrutura já não hierárquica, mas em rede.
muitas  vezes   a  anHtese   das  uClizadas  em 
domínios mais simples. 
A METODOLOGIA DE CASOS

Casos são “histórias ou narra2vas 
contextualizadas ou situadas num tempo e 
num espaço que descrevem as situações reais, 
complexas e mul2dimensionais que 
caracterizam a experiência real e, assim, 
representam conhecimento em uClização e 
revelam como o personagem principal ou 
mesmo o escritor, pensa à medida que 
idenCfica e resolve problemas”.

Um  caso é uma narraCva e  neste  senCdo consCtui 


uma  forma  fundamental   de  conhecer,  de 
Um  caso  pode  ser  uma cena  representar o que  se conhece, de pensar e,  assim 
de um filme, um caso médico,  também,  de  aprender ou  construir  conhecimento 
um  acontecimento  histórico,  da experiência e da reflexão sobre a experiência. 
um  capítulo  de  um  livro  ou  Através  da  narraCva,  o  aprendiz  se  conecta  ao 
um exemplo  de  uma situação  conhecimento,  bem  como  teoria  e  práCca  são 
concreta e atual. conectadas,  e  num  processo  de  construção  de 
significados,  o  sujeito  desenvolve  o  seu 
conhecimento profissional.

Os  casos,  então,  porque  descrevem 


situações reais e  complexas,  que  exigem  do  A  metodologia  de  casos 
sujeito  uma  análise  atenta  de  problemas  co nte m p l a  u m a  m a i o r 
com  vista  à  sua  resolução,  oferecerão  valorização  das  práCcas 
o p o r t u n i d a d e s   p a r a  q u e  f u t u r o s  relaCvamente  às  teorias, 
profissionais examinem  e  reflitam  sobre  os  assim  como  uma  maior 
conhecimentos, as experiências e as crenças  valorização da narraCva em 
e  consCtuem  um  instrumento  privilegiado  detrimento da exposição.
de reflexão sobre a práCca.
A metodologia 
de casos 
permite que os 
leitores ou 
escritores se 
aproximem e se 
tornem capazes 
Enquanto escritores de um  de senCr e 
Enquanto leitor ou ouvinte de 
pensar como se 
caso, os sujeitos estão  um caso ou narraCva, o  de fato se 
necessariamente a construir  sujeito constrói uma  tratassem
significados da experiência, o  dos 
interpretação ou significado, 
que de outra forma não seria  protagonistas da 
integrando a sua experiência à 
mais do que uma cronologia de  história ou 
narraCva.  situação 
acontecimentos. 
A própria transformação da  Se entra numa discussão em  problema.
experiência numa narraCva é 
continua na pág. 2 torno de um caso, na medida 
em que se implica ou revela  Em qualquer 
um ato de seleção e 
destas 
conceituação. conhecimentos e experiências  situações, os 
Ao decidir qual o dilema e qual  anteriores, o sujeito  arCcula,  casos 
o princípio, o meio ou o fim  parClha e reconstrói opiniões,  consCtuem
para a história, ao descrever as  conhecimentos e  uma forma 
personagens e o contexto, o  privilegiada de 
perspecCvas.
sujeito atribui senCdos à  pensar e de 
conversar com a 
experiência vivida.
práCca.

Uso de casos e narra1vas em situações educa1vas:
•  como  metáforas de  um  novo  paradigma do  conhecimento.  A  valorização  da voz  das 
coisas, das nossas  próprias  vozes, aproxima‐se  da ideia de que  o  conhecimento implica, 
por  um  lado,  um  sujeito  que  conhece  e,  por  outro,  que  este  conhecimento  não  terá 
senCdo para além deste sujeito;
•  como  instrumentos  de  educação.  São  expressões  e  instrumentos  privilegiados  de 
comunicação  e  de  construção  de  conhecimentos,  organizando  e  integrando  ações  e 
acontecimentos do dia a dia em episódios significaCvos;
• como forma de pensar e um modo de representar. As pessoas apreendem o mundo
narraCvamente e as pessoas ‘contam’ o mundo narraCvamente.
Diferentes princípios e contextos...
...diferentes formas de se utilizar os casos:

A construção do conhecimento através dos casos tem 
Os casos consCtuem  subjacente  processos de  parCcipação  social  em  que 
um meio para  os sujeitos em colaboração com outros,  idenCficam  e 
pensar sobre a  resolvem problemas. 
situação real de  A reflexão, o debate  e  a discussão 
trabalho, uma  TFC em  grupo são, nesta metodologia, 
oportunidade para  Em domínios de  privilegiados,  tanto  na  análise 
explorar o conhecimentos pouco‐ como na construção de um caso.
pensamento  estruturados e complexos não  Neste  processo,  os  membros  do 
profissional. existem ou muito dificilmente  grupo  exploram  diferentes  e 
se encontram teorias,  diversas perspecCvas na definição 
Aprender a pensar  princípios ou conceitos que  d o  p r o b l e m a  e  e x p l o r a m 
de forma flexível,  orientem ou se adaptem na  diferentes  e  diversas  alternaCvas 
considerando  compreensão e análise de  para  a  sua  resolução.  Nesta 
múlCplas e diversas  situações concretas da vida  negociação  social  de  significados 
perspecCvas é, real. Entretanto, o  que  os   problemas  ou  situações 
um dos grandes  conhecimento pode ser  salientam, os alunos são apoiados 
objeCvos do  construído por meio dos  p e l a  c o m u n i d a d e  d e 
desenvolvimento  próprios casos. aprendizagem  que  integram  e  da 
profissional. qual parCcipa o próprio professor.
Elaboração de casos
Aspectos a serem observados durante a elaboração de casos: 
➡Os casos podem ser reais ou ficHcios; inéditos ou já escritos.
➡É preciso ter clareza quanto à definição:
‣dos conteúdos a serem trabalhados;
‣dos objeCvos a serem alcançados;
‣da situação problema adequada.

SUGESTÃO DE MAPA PARA ELABORAÇÃO DOS CASOS:

➡Para verificar, antes de propor um caso aos alunos, responda ao check list:
‣O caso possibilita alcançar os objeCvos?
‣O caso está suficientemente completo e focalizado?
‣Os eventos aparecem numa ordem lógica?
‣O conteúdo do caso é relevante e apropriado?
‣O caso contém todo o material de que o estudante necessita para sua análise?

➡E ao analisarem o caso, os alunos devem responder:
‣Qual é o problema?
‣Quais são as variáveis relevantes?
‣Quais são os critérios para a tomada de decisão?
‣Quais são as soluções alternaCvas?
‣Qual seria a decisão mais apropriada?
Este material foi construído com recortes dos seguintes textos:

LOPES, Denise Maria de Carvalho; VAZ-REBELO; Maria da Piedade Pessoa; PESSOA; Maria Teresa Ribeiro. O ensino
superior na atualidade e os desafios da aprendizagem: teorizações e prática docente. Revista Portuguesa de Pedagogia,
ano 44-1, 2010, p. 143-167.

MENDES, Maria Tereza R. Pessoa J. Casos e narrativas – contextos e pretextos para a integração das TICs no processo
educativo. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, v. 4, n.12, p.49-64, maio/ago. 2004.

PESSOA; Maria Teresa R. Aprender a pensar como professor pelo estudo e escrita de casos - a necessária valorização das
práticas na construção do conhecimento. Psychologica, Extra série, 2004, p. 477-491.

Todos estão disponíveis, em sua versão completa, em nossa oficina.