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Conhecendo um pouco mais a obra de dois sociólogos – Comte

e Durkheim –, já é possível perceber que a análise da sociedade


não se apresenta como uma verdade única. Não há uma úni-

Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Ibpex. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei nº 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Código Penal.
ca nem definitiva resposta, pois os olhares que os pensadores
lançam sobre a realidade são diferentes. Isso não significa que
nunca teremos uma resposta correta sobre como a realidade
social se organiza, mas sim que essa realidade é tão complexa
que admite várias explicações e problematizações.
Neste capítulo, abordaremos um pensador polêmico, pois,
além de analisar a sociedade de seu tempo, Marx deseja “im-
plodi-la”. Em sua análise, ele afirma que o capitalismo é um sis-
tema contraditório e que a sociedade pode ser explicada com
base em suas contradições. Mas, quando diz que o capitalismo
é contraditório, Marx não está querendo simplesmente fazer
uma crítica destrutiva. Essa é sua concepção metodológica. E,
partindo dessa concepção, Marx procede à sua análise toman-
do como base o trabalho, pois, segundo ele, o trabalho é um
elemento essencial para compreender a maneira como os ho-
mens vivem.
Veremos, neste capítulo, como Marx formula seu olhar so-
bre o capitalismo tendo como base a contradição presente nes-
se sistema e a maneira como os homens constroem a sociedade
pelo trabalho. Esta última questão se desdobra na concepção
materialista da história e na relação entre estrutura econômica
e superestrutura da sociedade.
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Começaremos então com a questão da contradição, que vai
nos ajudar a diferenciar Marx dos dois outros autores vistos
anteriormente.

[3.1]

A sociologia de Karl Marx


O filósofo, economista e sociólogo alemão Karl Marx (1818-

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1883) também presenciou os desdobramentos da Revolução
Industrial, como Comte e Durkheim (Aron, 2003). Ele con-
sidera a dinâmica social como portadora de uma ordem evo-
lutiva, como faz Comte (1978a, 1978b, 1978c, 1978d, 1983a,
1983b). Ou seja, as sociedades evoluiriam seguindo uma linha
(Sztompka, 2005). Assim, Marx (1968; 1978) entende que o ho-
mem e a sociedade que analisa são produtos de um homem e
de uma sociedade anteriores. Mas as semelhanças entre Comte
e Durkheim param por aí. Existem muitos pontos de distinção
entre os autores.
Comte e Durkheim (1960; 1983a, 1983b) entendem a so-
ciedade como um organismo, em que cada parte cumpre uma
função específica para o funcionamento do todo. Se uma d­ essas
partes não está funcionando bem, é preciso “reformá-la”, pois
o seu mau funcionamento afeta toda a sociedade. Existe então
a ênfase no consenso. Ou seja, esses autores focalizam em suas
análises os aspectos associativos da sociedade. Buscam sempre,
influenciados pelo positivismo, perceber quais são os aspectos
da ordem social que precisam ser mudados para que a socieda-
de se estabilize. Por isso, podemos dizer que Comte e Durkheim
focalizam o consenso da ordem social, na tentativa de reformar

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a sociedade (Quintaneiro; Barbosa; Oliveira, 2002).
Por outro lado, Marx (1968, 1978) concentra seus esforços
na contradição que a realidade apresenta, isto é, ele vê a contra-
dição como um elemento essencial da realidade. Mas como a
contradição pode ser essencial? Temos a ideia de que as coisas
contraditórias não funcionam, não dão certo, e Marx vem dizer
o contrário? Pois é isso mesmo! Segundo Marx, a contradição,

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a união de elementos opostos, é a condição para a realidade
se concretizar. Pensemos no processo educativo para ilustrar
essa questão. Podemos dizer que a educação está baseada na
contradição. Alunos e professores são diferentes, pois têm em
si elementos opostos. O professor possui algo que o aluno não
tem, e o aluno deseja alcançar aquilo que ele ainda não é. Mas,
para que a educação e a transmissão de saberes aconteça que,
esses dois sujeitos que apresentam elementos contrários – alu-
no e professor – entram em relação e produzem uma nova re-
alidade, que não existiria se eles não se relacionassem. É, então,
dessa maneira que Marx vê a contradição como um elemento
essencial da realidade social e do capitalismo.
Em sua obra, Marx procura fazer uma análise do capitalis-
mo, mas seu objetivo não é apenas proceder a essa análise para
saber como funciona; com isso ele quer poder transformar a
sociedade, ou seja, produzir uma nova realidade a partir das
contradições do capitalismo (Kammer, 1998).

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Mas transformar em que sentido? E como Marx faz a análi-
se do capitalismo? Para entendermos melhor como essas ques-
tões foram formuladas e respondidas, vamos estudar um pouco
mais sobre a obra de Marx.

[3.2]
Marx e a análise do capitalismo

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Como dissemos, um dos objetivos de Marx era fazer uma análi-
se da sociedade de seu tempo. Se prestarmos atenção nas datas
das obras dos autores – Comte, Durkheim e Marx –, notaremos
que Marx é contemporâneo tanto de Comte como de Durkheim.
Então, a sociedade que Marx analisa é a mesma sociedade euro-
peia resultante da Revolução Industrial e da Revolução Francesa.
Mas seu olhar é um pouco diferente dos olhares dos autores que
já vimos até este ponto. Se eles veem os problemas da sociedade
capitalista que surgia como algo a ser “remediado”, para Marx,
toda a miséria, as desigualdades e principalmente a pobreza da
classe trabalhadora são próprias do capitalismo, ou seja, são ele-
mentos estruturais desse sistema.

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Karl Heinrich Marx nasceu em Trier, na Alemanha, no dia 5
de maio de 1818. Pertencia a uma família de classe média alta.
Seu pai era advogado. Estudou Filosofia na Universidade de
Berlim. Em 1843, transferiu-se para Paris, onde conheceu o
também alemão Friedrich Engels (1820-1895). Juntamente
com Engels, Marx produziu sua obra e idealizou o socialis-
mo e o comunismo, tendo sempre em vista a organização do
proletariado. As principais obras de Marx são: Miséria da
filosofia (1847), O dezoito brumário de Luis Bonaparte (1852)
e O capital (1867-1894). Destacam-se também as obras que
escreveu com Friedrich Engels: A sagrada família (1844), A
ideologia alemã (1845) e Manifesto comunista (1847) (Aron,
2003; Giddens, 2005; Seel, 2002).

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Como vimos, Marx focaliza as contradições e afirma que o
capitalismo é contraditório por excelência. Segundo o autor, as
duas principais contradições da sociedade moderna e capita-
lista se dão, em primeiro lugar, entre as forças produtivas, que
não cessam de crescer, e as relações de produção (relações de
propriedade e distribuição de renda), que não se transformam
no mesmo ritmo; e, em segundo lugar, entre o crescimento da

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riqueza e o aumento da miséria (Marx, 1978; Aron, 2003).

Quadro 3.1 − Contradições básicas do capitalismo

Desenvolvimento das forças


produtivas
Crescimento da riqueza
X
X
Relações de produção
Aumento da miséria
(relações de propriedade
e de distribuição de renda)

Vamos tentar entender o que significa a contradição entre as


forças produtivas e as relações de produção.
As forças produtivas são formadas pelos meios de produção
e pelo trabalho humano. É assim tudo aquilo que a sociedade
utiliza para produzir os bens necessários à sobrevivência das
pessoas. Por exemplo, durante a escravidão no Brasil, a forma
de energia utilizada era a energia animal, e a mão de obra era es-
crava. Durante a Revolução Industrial, na Europa, era utilizada
a energia a vapor e a mão de obra era assalariada. Atualmente,
as formas de energia utilizadas são várias – elétrica, nuclear – e

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a mão de obra também é assalariada em sua maioria. Temos
ainda as tecnologias, como a microeletrônica, a tecnologia di-
gital, os melhoramentos genéticos. Enfim, as forças produtivas
constituem todas aquelas forças, meios, técnicas e formas que a
sociedade utiliza para produzir aquilo de que necessita.

Forças produtivas são todas as forças, meios, técnicas e formas

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de organizar o trabalho que a sociedade utiliza para produzir
aquilo de que necessita. Inclui as tecnologias, as fontes de energia,
o tipo de trabalho utilizado − trabalho escravo, livre, assalariado,
servidão (Marx, 1978; Kammer, 1998; Bottomore, 2001).

Já as relações de produção, constituídas pelas relações de


propriedade e de distribuição, referem-se às formas de distri-
buição das propriedades e dos bens na sociedade (Marx, 1968).
Como exemplo, vamos voltar novamente ao período da escra-
vidão. Lá, as relações de propriedade estavam organizadas de
tal maneira que os escravos não possuíam nada, e tudo aquilo
que produziam pertencia ao senhor. Na sociedade capitalista
analisada por Marx (1968, 1978), os trabalhadores são pro-
prietários da sua força de trabalho, enquanto os burgueses são
proprietários dos meios de produção. Para sobreviver, os traba-
lhadores – ou proletários – alugam a sua força de trabalho aos
burgueses – ou capitalistas –, recebendo em troca um salário.

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Relações de produção são formadas pelas relações de proprieda-
de e de distribuição, ou seja, referem-se aos tipos de propriedade
que existem e como são distribuídos os bens produzidos, de acor-
do com os tipos de propriedade (Sell, 2002; Bottomore, 2001).

Vamos voltar então às contradições apresentadas anterior-

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mente. Marx (1968, 1978) percebe que as forças produtivas se
desenvolviam muito. Novas fontes de energia apareciam, novos
materiais, novas técnicas e máquinas. Com isso, produzia-se
cada vez mais e melhor. Por outro lado, as relações de proprie-
dade e de distribuição não se desenvolviam. Os trabalhadores
continuavam proprietários apenas da sua força de trabalho e
continuavam sendo assalariados dependentes do trabalho para
sobreviver. Paralelamente a isso, a riqueza aumentava – reflexo
do desenvolvimento das forças produtivas –, mas aumentavam
também a pobreza e a miséria – como consequência do não
desenvolvimento das relações de propriedade e de distribuição.
Assim, seria necessário superar essas duas contradições, quer
pelo desenvolvimento natural do capitalismo, quer pela revolu-
ção socialista, que aceleraria esse desenvolvimento (Sell, 2002).
É importante termos em mente que a obra de Marx não se
encaixa facilmente no arcabouço teórico de uma única ciência
(Lefebvre, 1979). De certa forma, esse pensador não buscou fazer
sociologia, economia política, filosofia ou história; apesar de sua
obra conter todas essas ciências, o que Marx pretendeu foi com-
preender a gênese do homem social por meio do materialismo

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histórico. Ou seja, ele queria compreender como o homem se
forma em sociedade com base na análise da maneira como essa
sociedade produz os bens necessários à sua sobrevivência.
Vamos pensar em um produto qualquer para entendermos
um pouco melhor essa concepção. Por exemplo, como foi pro-
duzida a cadeira que você utiliza em sua casa ou no escritório?
Por um trabalho voluntário, por um trabalho assalariado ou por

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um trabalho escravo? O material empregado para produzi-la
pertencia a quem? Era de propriedade particular, foi retirado
diretamente da natureza durante um ritual religioso ou foi pro-
duzida com um novo material, fruto das inovações tecnológicas?
Perceba que todas essas questões remetem ao nível de desen-
volvimento das forças produtivas e às relações de propriedade
e de distribuição. Assim, as formas como os homens produzem
a materialidade de que necessitam condicionam a forma como
vivem (Marx, 1978). Veremos isso em mais detalhes quando
estudarmos a relação entre a estrutura e a superestrutura.
Marx (1968, 1978) visava ao conhecimento de uma totali-
dade – a sociedade capitalista –, e o cerne da busca por essa to-
talidade está na relação entre o homem e suas obras. Em certo
sentido, a pretensão de Marx se assemelha à de Durkheim, ou
seja, descobrir as leis gerais que movem a sociedade. Para che-
gar ao entendimento da sociedade capitalista, Marx empreende
a busca por essa “lei geral” que rege a sociedade. E julga tê-la
encontrado. Para ele, o que move a história é a luta de classes.
Para entender a concepção materialista da história e de
como a luta de classes é o motor da história, é preciso entender
a concepção de trabalho em Marx. É o que veremos a seguir.

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[3.3]
A concepção de trabalho em Marx
e a estrutura econômica da sociedade
O trabalho é a interação do homem com a natureza para prover
sua sobrevivência. É mediante o trabalho que o homem trans-
forma a natureza e produz a materialidade, isto é, todos os obje-
tos de que necessita, como alimentos, ferramentas, casas, mesas,

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carros, computadores. Ao produzir materialmente a sua sobre-
vivência transformando a natureza, o homem transforma-se a
si próprio e a totalidade da qual faz parte (Marx, 1978). Assim,
os homens, por meio do trabalho, entram em contato uns com
os outros e passam a transformar a realidade que os cerca. O
trabalho promove, então, o intercâmbio com a natureza e com
outros homens. Combinando força física e reflexão intelectual,
o homem foi aumentando cada vez mais sua capacidade de
transformar a natureza (Lessa, 2002). Desenvolveu-se, assim, o
que Marx (1968) chamou de forças produtivas.
Como podemos perceber, o trabalho não se dá de maneira
individual e isolada na luta do homem com a natureza, mas
dentro de determinadas relações, “necessárias, independentes
de sua vontade”, com outros homens (Marx, 1978). Em outras
palavras, para viver, o homem precisa inicialmente transformar
a natureza e nessa transformação estabelece um conjunto de
relações sociais, organizando de modo específico o trabalho e
a propriedade. Intituem-se, assim, formas de propriedade, de
distribuição de divisão do trabalho, que são as relações sociais
de produção. O conjunto destas constitui a estrutura econômica

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da sociedade e é a base real que condiciona todo o conjunto da
sociedade. Sobre essa estrutura econômica se estabelece uma
superestrutura jurídica e política, a que correspondem deter-
minadas formas de consciência, pelas quais os homens tomam
conhecimento de toda a sociedade. Assim, o modo de produ-
ção da vida material condiciona o processo da vida social, polí-
tica e intelectual em geral. Dessa forma, não é possível entender

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a política ou a cultura de determinada época sem entender a
relação básica (econômica) que condiciona todo o conjunto da
sociedade (Marx, 1968, 1978).

Figura 3.1 − Superestrutura e estrutura da sociedade

SUPERESTRUTURA JURÍDICA E POLÍTICA


Formas de consciência

D
E
T
E
R
M
I
N
A

ESTRUTURA ECONÔMICA DA SOCIEDADE


Conjunto das relações sociais de produção
(relações de propriedade, divisão do trabalho,
nível de desenvolvimento das forças produtivas)

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Ao se transformarem, os modos de produzir transformam
toda a sociedade. Assim, a história da humanidade é a histó-
ria dos modos de produção. Segundo Marx, podemos pensar
basicamente em três modos de produção vigentes ao longo da
história: o modo de produção escravista antigo, o modo de pro-
dução feudal e o modo de produção capitalista (Sell, 2002).
E é claro que cada um desses modos de produção tem níveis

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próprios de desenvolvimento das forças produtivas e diferen-
tes formas de organização da propriedade e de distribuição. As
forças produtivas e as relações de propriedade e de distribui-
ção respondem às perguntas: Como produzem? O que utilizam
para produzir? Quem possui o quê? Como a produção é distri-
buída? No modo de produção escravista antigo, as proprieda-
des são dos senhores, e os escravos produzem as mercadorias
necessárias. É importante ressaltar que os escravos também são
de propriedade do senhor. E é isso que caracteriza os escravos:
não ter a propriedade nem do seu corpo.
Assim, no modo de produção feudal, existem senhores e
servos. Diferentemente dos escravos, os servos não são de pro-
priedade dos senhores. Apenas o meio de produção é de pro-
priedade do senhor, que no caso do feudalismo é basicamente
a terra. O servo pertence à terra e serve ao senhor, por meio de
uma trama de fidelidades e obrigações entre os dois. Existe uma
relação de servidão, e não de escravidão. No modo de produção
capitalista, os meios de produção pertencem ao capitalista, os
trabalhadores possuem a força de trabalho, e o trabalho é as-
salariado. O capitalista compra a parte da força de trabalho de
que necessita (Aron, 2003).

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Podemos perceber que nos diferentes modos de produção
existem diferentes grupos inseridos nas relações sociais de pro-
dução: senhor e escravo, servo e senhor, trabalhador e capitalis-
ta. Esses grupos constituem as classes sociais (Lefebvre, 1979).

A classe social define-se a partir da inserção dos indivíduos na


produção da vida material, ou seja, o que os indivíduos são no

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momento do trabalho, se são escravos ou senhores, trabalhado-
res ou patrões. Com base nessas inserções, tere­mos uma deter-
minada posição em relação às formas de propriedade. O escravo
não tem propriedade alguma e o senhor tem a propriedade dos
meios de produção e dos escravos. Os trabalhadores têm como
propriedade a sua força de trabalho e o patrão tem a propriedade
dos meios de produção (Lefebvre, 1979; Bottomore, 2001).

As classes sociais estão em constante conflito, sempre numa


relação de oposição e complementaridade. Entretanto, a análise
de Marx mostra que em determinado momento os conflitos já
não podem mais ser resolvidos. Ocorre uma contradição muito
grande entre o desenvolvimento das forças produtivas e as rela-
ções de produção e de distribuição. Existe, então, a necessidade
de mudança, de se estabelecerem novas relações de proprieda-
de e de distribuição. Os modos de produção se transformam
mediante a oposição entre os dois principais grupos (ou classes
sociais) que compõem a sociedade. Assim, o modo de produ-
ção escravista se transforma e dá origem ao modo de produção
feudal. Este, por sua vez, se transforma e dá origem ao modo de

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produção capitalista, que também irá se transformar e originar
outro modo de produção.
Quando a base econômica se transforma, passa a ocorrer
uma mudança em toda a superestrutura social, com suas for-
mas jurídicas, intelectuais e culturais (Aron, 2003; Sell, 2002). É
dessa forma que Marx (1968, 1978) afirma que a luta de classes
é o motor da história, pois é ela que faz a história se desenvolver

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ao transformar o modo de produção. Podemos perceber como
a maneira pela qual os homens produzem a sua materialidade
condiciona toda a vida social. É isso que Marx chama de mate-
rialismo histórico ou concepção materialista da história.

Pelo materialismo histórico,


histórico a maneira como os homens produ-
zem a materialidade do mundo condiciona a vida social. As gran-
des transformações são as transformações na forma de produzir –
estrutura econômica –, que, por sua vez, transformam toda a so-
ciedade (Rodrigues, 2004; Sell, 2002; Bottomore, 2001).

Vamos acompanhar um trecho escrito por Marx em 1859,


em que ele desenvolve a concepção de como a produção da
materialidade determina a estrutura social e a consciência dos
homens sobre essa estrutura:

Na produção social da própria vida, os homens contraem relações


determinadas, necessárias, independentes de sua vontade, relações
de produção que correspondem a uma etapa determinada de desen-
volvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade des-
tas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade,

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a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e
política, e à qual correspondem formas sociais de consciência. O
modo de produção da vida material condiciona o processo em geral
da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens
que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que
determina a sua consciência. (Marx, 1978, p. 129)

Para Marx (1978), o capitalismo é um modo de produção

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que contrasta com os demais modos de produção da história.
Sua especificidade está em produzir mercadorias visando à
acumulação e à reprodução da riqueza social, assegurando os
meios para a apropriação privada da riqueza por aqueles que
são proprietários dos meios de produção.
Na sociedade capitalista as relações de produção definem
dois grandes grupos: de um lado, os capitalistas, donos dos
meios de produção (máquinas, ferramentas, terras, capital)
necessários para transformar a natureza e produzir mercado-
rias; do outro, os trabalhadores, ou proletariado, que possuem
como propriedade apenas a sua força de trabalho (Aron, 2003;
Lefebvre, 1979; Sell, 2002). Os capitalistas formam a classe do-
minante, e o proletariado, a classe dominada. A produção na
sociedade capitalista se dá porque capitalistas e trabalhadores
entram em uma relação de complementaridade e contradição.
Na relação de complementaridade, o capitalista só consegue
pôr em funcionamento os seus meios de produção mediante
a força de trabalho dos trabalhadores. O trabalhador, por sua
vez, só consegue sua sobrevivência – reproduzir-se como força
de trabalho – se alugar a sua força ao capitalista. Nesse sentido,

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como dependem um do outro, capitalista e trabalhador são
complementares.
Trabalhadores e capitalistas, porém, também se encontram
em oposição. Como exemplo, podemos pensar sobre o salá-
rio. Este é definido como o valor pago ao trabalhador pelo seu
trabalho. Mas nas condições do capitalismo, quanto mais alto
for o salário, mais baixo será o lucro do capitalista. Podemos

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afirmar que existem então interesses contraditórios na rela-
ção capitalistas/trabalhadores: capitalistas querem lucrar cada
vez mais pagando salários cada vez menores e trabalhadores
querem receber salários cada vez maiores. Nesse sentido, tra-
balhador e capitalista estão em oposição, pois seus interesses
são contrários.
Até agora vimos como a estrutura econômica determina a
vida social e um pouco do caráter contraditório que o capitalis-
mo apresenta. O próximo ponto de nossa análise será relativo
à maneira como os homens tomam consciência de suas condi-
ções de vida.

[3.4]
A consciência dos homens
e a estrutura econômica da sociedade
A concepção materialista da história explica como a socieda-
de se estrutura a partir de sua base econômica e do trabalho.
A análise de Marx mostra como a realidade concreta se apre-
senta, como as relações concretas do homem constroem uma
estrutura social – a estrutura social do capitalismo. Contudo, a
maneira como os homens tomam consciência dessa estrutura

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é diversa da maneira como realmente ela se apresenta (Aron,
2003; Sell, 2002). Ou seja, a maneira como as coisas acontecem
concretamente é diferente da maneira como os homens perce-
bem esses acontecimentos.
Vamos tomar emprestado um exemplo da ótica para enten-
dermos melhor essa ideia. Observe a figura a seguir. As retas
A e B na realidade têm o mesmo tamanho. No entanto, o que

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percebemos é que a reta A é menor do que a reta B. Pegue uma
régua, meça as duas retas e você verá que elas têm o mesmo
tamanho. Ou seja, o que percebemos não corresponde à reali-
dade tal qual ela é.

Figura 3.2 − Exemplo ótico de divergência da percepção

A B

Fonte: SISTEMA..., 2010.

É mais ou menos isso que Marx (1978) quer dizer quando


afirma que a consciência que os homens têm não correspon-
de às reais condições que se apresentam na vida social. Diz ele

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ser necessário distinguir as transformações materiais das con-
dições econômicas de produção das formas pelas quais os ho-
mens tomam consciência da realidade. Contudo,

A consciência que os homens têm dessas relações, segundo Marx,


não condiz com as relações materiais que de fato vivem. As ideias,
as concepções sobre como funciona o mundo são representações
que os homens fazem a respeito de suas vidas, do modo como as re-

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lações aparecem na sua experiência cotidiana. Essas representações
são, portanto, aparência. Para Marx essas representações implicam,
num primeiro momento, uma falsa consciência, uma consciência
invertida, pois se prendem à aparência e não são capazes de captar
a essência das relações às quais os homens estão de fato submetidos.
(Rodrigues, 2004, p. 41-42).

Ou seja, os homens têm uma visão distorcida da realidade,


como no caso do desenho das retas colocado anteriormente.
Aqui entra em cena o conceito de ideologia de Marx (1978).
A ideologia designa um conjunto de representações caracterís-
ticas de uma época e de uma sociedade. Essas representações
são produzidas pela prática social em estruturas sociais e mo-
dos de produção determinados (Mészaros, 2006). Porém, essa
prática social produz representações que são aparências da rea-
lidade. A ideologia seria, então, uma falsa representação da rea­
lidade, uma representação errônea da história. A consciência
que o homem como ser consciente possui reflete uma forma
que ele não é.

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Ideologia é o conjunto de representações características de
uma época e de uma sociedade, produzidas pela prática social.
Contudo, segundo Marx, essas representações não correspon-
dem à realidade tal qual ela é; elas são, sim, uma aparência da
realidade. A ideologia é como uma “cortina de fumaça” que dis-
torce a visão que os homens têm da realidade (Aron, 2003; Sell,
2002; Bottomore, 2001).

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Embotados pela ideologia do sistema capitalista, os traba-
lhadores veem como normal o fato de não serem donos dos
meios de produção nem do fruto do trabalho, recebendo pelo
trabalho executado um salário no final do mês. Não percebem
que foram separados pelo capitalismo do controle autônomo
que exerciam sobre o seu trabalho e também do fruto desse
trabalho (Mészaros, 2006).
Para entendermos um pouco melhor as ideias de Marx, va-
mos analisar como era o trabalho no sistema de corporações
durante o feudalismo, na Idade Média europeia, tema de que
já tratamos um pouco no primeiro capítulo. Durante o perío­
do, a produção se dava basicamente nas oficinas dos mestres
artesãos, os quais detinham todo o conhecimento sobre o pro-
cesso produtivo. Planejavam como iriam fazer o produto, que
materiais iriam utilizar e como venderiam. Eles eram proprie-
tários das ferramentas, do seu tempo e do produto final. Com o
surgimento do sistema de fábricas, os mestres saíram das suas
oficinas e foram trabalhar nas fábricas. Lá, já não eram mais
donos das suas ferramentas, não tinham mais autonomia sobre

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o seu tempo de trabalho e aquilo que produziam já não lhes
pertencia mais. Eles ainda detinham o saber sobre o trabalho,
mas, quando as tarefas foram divididas e cada um passou a exe-
cutar apenas um pedaço do antigo ofício, os mestres artesãos
perderam também o saber sobre o trabalho. O mestre artesão,
que antes executava todo o trabalho de confecção de um pro-
duto, transformou-se no trabalhador que sabia realizar apenas

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uma etapa da fabricação. Como ele perdeu esse saber, ficou
dependente do capitalista, pois não conseguia mais fabricar o
produto sozinho (Marx, 1968).
O mestre artesão, que na sua oficina dominava todo o pro-
cesso de fabricação do produto, foi, pouco a pouco, no siste-
ma de fábricas, perdendo o domínio do processo de trabalho.
Antes, o trabalho era executado do começo ao fim por um só
artesão, e na fábrica ficou dividido. Vários trabalhadores pas-
saram a executar parcelas de um mesmo processo de trabalho.
O trabalhador transformou-se no que Marx (1968) chama de
trabalhador parcial.
Na divisão do trabalho que ocorre na fábrica, as várias ope-
rações que formam o processo de trabalho são separadas umas
das outras e atribuídas a trabalhadores diferentes. Assim, quando
o capitalista divide o processo de trabalho em etapas, retira esse
processo do controle do trabalhador e o reconstitui sob seu poder.
Assim, o capitalismo é a história da expropriação* do traba-
lhador, que, com isso, fica dependente do capitalista. O traba­
lhador atual, segundo Marx (1968, 1978), não percebe que foi

* Expropriação: desapropriação, ação de retirar algo da posse de alguém.


Expropriação

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expropriado do seu saber, pois essa relação se dá de forma en-
coberta pela ideologia. O trabalhador vê como normal o fato
de trabalhar, receber um salário no final do mês e não ser dono
daquilo que produz nem dos meios que utiliza para produzir,
enquanto o capitalista fica com o lucro da produção. O traba-
lhador é separado do saber do seu trabalho e também do re-
sultado dele, mas não percebe sua condição. Marx chama esse

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trabalho de alienado.
Como consequência dessa forma de trabalho, os homens
adquirem uma falsa consciência da realidade em que estão in-
seridos. Eles veem a dominação a que estão submetidos como
um fato natural, como se sempre fora assim. Essa falsa consciên­
cia é fornecida pela superestrutura jurídica e política e obriga
os homens a se comportarem de determinada maneira, como
se fosse a sua própria vontade. E essa é outra característica do
capitalismo: o dominado pensar com a cabeça daquele que o
domina, pois o trabalhador acha justo que o capitalista se apro-
prie do fruto do trabalho enquanto ele recebe apenas o salário
(Rodrigues, 2004).
Ora, o sistema de ideias e de concepções ordenadas que pre-
dominam na sociedade faz com que os homens se comportem da
maneira que a classe dominante deseja. Assim, essa classe pode
continuar se apropriando do fruto do trabalho e, enquanto a ri-
queza de alguns cresce, a pobreza dos trabalhadores aumenta.
Podemos perceber que, para Marx, a questão primordial
para os trabalhadores não é apenas o aumento de salários. A
injustiça maior, ou a grande contradição do capitalismo, é o
fato de os trabalhadores não serem proprietários da riqueza

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que produzem (Mészaros, 2002). O salário representa apenas
uma parte da riqueza que o trabalhador produz; o resto da ri-
queza é apropriada pelo capitalista na forma daquilo que Marx
(1968) chama de mais-valia.
Vejamos o que Marx quer nos mostrar com esse conceito.
Com seu trabalho, o homem confere valor às coisas. Voltemos
ao exemplo da cadeira do início do capítulo. Se for uma cadeira

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de madeira, um dia ela já foi uma árvore. O homem a retirou da
natureza e a transformou em um objeto novo. Deu àquela árvo-
re, então, um valor que antes não possuía. E isso só foi possível
por meio do trabalho que realizou. A árvore transformada em
cadeira passou a ser utilizada de outra forma, não mais como
árvore. Adquiriu um valor de uso, pois agora não é mais um
simples pedaço de madeira, mas sim um objeto passível de uso.
Na sociedade capitalista, entretanto, mais do que esse valor
de uso, os objetos têm também um valor de troca, que se refere à
quantidade de dinheiro que eles valem no contexto das relações
comerciais do capitalismo. Mas a quantidade de dinheiro que a
cadeira vale não é entregue toda ao trabalhador que a produziu.
Ele só recebe, em forma de salário, uma parte desse valor de troca
que produziu. Tal parte destina-se para a sua reprodução, para ele
sobreviver e ter filhos que continuem trabalhando e gerando ri-
queza. Segundo a análise de Marx, por mais que o salário seja alto,
ele sempre vai se constituir apenas em uma parte da riqueza que
o trabalhador produz. A maior parte é apropriada pelo capitalista
na forma de mais-valia. De forma simples, podemos então definir
mais-valia como a parte da riqueza gerada pelo trabalhador que
não é entregue a ele, mas sim apropriada pelo capitalista.

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No sistema capitalista, o trabalhador é, dessa maneira, al-
guém que confere valor, ou o que Marx (1968) chama de força
de trabalho. Ele é assim denominado porque não planeja mais
o que vai produzir, não tem mais o saber sobre o trabalho, não
possui os meios de produção nem é dono daquilo que produz.
Apenas confere valor aos produtos ao utilizar os meios de pro-
dução do capitalista. O homem trabalhador se esvazia de sua

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humanidade e passa a ser apenas força de trabalho. Por outro
lado, as mercadorias que produz como que “adquirem vida”.
Mas como isso é possível?
Da seguinte maneira: Marx diz que as relações que se estabe-
lecem nas trocas dos valores de uso não se dão entre aqueles que
produzem e aqueles que necessitam de um produto qualquer.
Isso porque o produto não pertence àquele que o produziu; logo,
a relação não se dá entre os produtores das mercadorias, mas
entre as mercadorias. No sistema de corporações, era o próprio
mestre artesão que vendia seu produto a outra pessoa. No capi-
talismo, a mercadoria é vendida no mercado e já não tem mais
nenhuma relação com quem a produziu. Uma cadeira passa a
ser igual a um valor em uma determinada moeda. A isso Marx
chama de fetichismo da mercadoria e reificação do homem. Ou
seja, as mercadorias criam vida, e o homem se torna uma “coisa”,
um objeto, a força de trabalho que confere valor à mercadoria.

A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir característi-


cas sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como
características materiais e propriedades sociais inerentes aos do
trabalho; por ocultar, portanto, a relação social entre os trabalhos

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