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XXVI ENEGEP - Fortaleza, CE, Brasil, 9 a 11 de Outubro de 2006

Gestão do Conhecimento no contexto de Organizações Universitárias e


Parques Tecnológicos

Eduardo Giugliani (UFSC/PUCRS) giugliani@egc.ufsc.br


Francisco Pereira Fialho (UFSC) fapfialho@gmail.com
Neri dos Santos (UFSC) neri@deps.ufsc.br
Sérgio João Limberger (UFSC/UFSM) lssergio@gmail.com

Resumo
Um dos grandes desafios das Universidades brasileiras, principalmente às vinculadas ao
segmento de engenharia e tecnologia, está em dar uma resposta compatível às demandas da
sociedade. Neste sentido, após um período de privatização de empresas governamentais e
enxugamento generalizado de seus setores de P&D, as organizações universitárias passam
por um processo de adaptação a este contexto, onde, associado à mudança de perfil das
agências de fomento e ao surgimento de outras iniciativas, pode potencializar seu principal
capital – o conhecimento – em iniciativas vinculadas a parques tecnológicos, ao
aprofundamento da relação universidade-empresa e à efetiva produtividade na transferência
de tecnologia. Este artigo tem como objetivo, mesmo que de forma preliminar, contextualizar
as bases conceituais de Organizações Universitárias e Parques Tecnológicos e de seus
modelos de gestão, buscando avaliar como organizações emergentes e contemporâneas como
os Parques Tecnológicos poderão agregar um valor diferenciado aos tradicionais processos
de gestão das universidades, superando tradições e impondo níveis de competitividade,
produtividade e inovação compatíveis com sua principal missão, promoção e gestão do
saber.
Palavras-chave: Gestão do Conhecimento; Universidades; Parques Tecnológicos.

1. Introdução
Nos últimos 10 anos, prioritariamente, o Brasil vem passando por uma profunda alteração em
seu sistema macro econômico a partir da maciça privatização de empresas estatais. Empresas
estas que, em estágios anteriores, alocavam recursos – nem sempre produtivamente – em
setores internos de pesquisa e desenvolvimento, respondendo por demandas próprias e
eventuais avanços tecnológicos, deixaram de fazê-lo a partir do inicio do modelo implantado
de privatização.
Neste contexto, ocorreram o surgimento dos Fundos Setoriais no Brasil, a implementação de
novas iniciativas das agências de fomento à P&D no país, a maturação e implementação de
Lei Federal com foco em Inovação Tecnológica, além de um palpável estreitamento das
empresas, mormente as de base tecnológica, com as organizações universitárias. Estes novos
propósitos visavam suprir demandas de pesquisa e desenvolvimento, no campo da Ciência,
Tecnologia e Inovação, como forma de agregar valor de competitividade no mercado interno
e externo, este para aquelas vinculadas ao forte segmento exportador brasileiro – valorizado
dentro da atual conjuntura econômica nacional, além de corresponder ao modelo de mercado
global atual.
Dentro deste contexto, as organizações universitárias brasileiras, que já detinham o capital
humano como seu maior ativo, porém nem sempre acompanhado por adequada resposta às
demandas da indústria, se propuseram a fomentar e propor, neste período, ações que

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atendessem a estas necessidades e para as quais já estavam, em muitos casos, plenamente


capacitadas e com recursos humanos adequados, em muitos casos subutilizados, razão esta
suficiente para justificar o surgimento de várias iniciativas de Parques Tecnológicos no país,
com modelos de gestão próprios e compatíveis com o mercado. Da mesma forma, além destas
organizações, estima-se que várias outras poderiam unir-se a este esforço, agregando valor à
iniciativa, tornando-a mais orgânica, e potencializando a perspectiva do Brasil elevar seu
patamar em conhecimento como efetivo ganho de capital, aditando valor aos seus produtos e
serviços, ao invés de simplesmente sucumbir ao modelo exportador de matéria prima.
Avaliar com maior profundidade a relação das organizações universitárias com os parques
tecnológicos, surgidos e implantados em seu seio, suas bases conceituais e seus modelos de
gestão, tendo a gestão do conhecimento como espinha dorsal deste processo, poderá reverter
em subsídios legítimos para ampliar estas iniciativas e promover uma melhoria dos processos
de gestão nos tradicionais modelos vigentes nas universidades brasileiras.
2. Gestão do Conhecimento
Hoje a conceituação de Gestão do Conhecimento (GC) é muito abrangente e variável e
utilizamos normalmente a definição que melhor se adeque em função do contexto em que esta
conceituação está sendo utilizada. Desta forma, muito mais simples e importante neste estudo
é conceituar conhecimento. O conceito de conhecimento a ser utilizado neste artigo é o
apresentado por Pacheco (2006) como sendo “... um objeto alvo, materializável, tratável,
estudável, replicável e produzível”. Desta forma o conceito de conhecimento permite que este
seja gerenciado e políticas de gestão de conhecimento possam ser elaboradas e
implementadas.
Para implementar a GC nas organizações não existe uma fórmula, receita ou sistemática
padronizada que se adapte a estrutura de qualquer organização. Desta forma, a implementação
de políticas ou projetos de GC precisam ser globais e as ações podem ser classificadas nos
seguintes tipos, enumeradas por Davenport (DAMIANI, 2003):
Captar e reutilizar o conhecimento estruturado;
Captar e compartilhar lições aprendidas com a prática;
Identificar fontes e redes de expertise;
Estruturar e mapear conhecimentos necessários para aumentar a performance;
Mediar e controlar o valor econômico do conhecimento;
Sintetizar e compartilhar o conhecimento advindo de fontes externas. O ideal na
implementação de projeto de GC é este ser abrangente e atender ao maior tipo possível
dos quesitos anteriores.

Um modelo de GC proposto por Terra (2001) baseado em sete dimensões, também conhecido
como Metodologia Terra (IPEA, 2004) possui as seguintes dimensões a serem considerados
para a sua implementação de projetos de GC:
Visão e Estratégia – Alta Administração;
Cultura Organizacional;
Estrutura Organizacional;
Política de Recursos Humanos;
Sistemas de Informações;
Mensuração de Resultados;
Aprendizado com o ambiente.

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2.1. Modelos Conceituais


Nas definições de Gestão de Conhecimento, podemos destacar uma conceituação
relacionando as instituições públicas como “Gestão do Conhecimento é um conjunto de
processos sistematizados, articulados e intencionais, capazes de incrementar a habilidade dos
gestores públicos em criar, coletar, organizar, transferir e compartilhar informações e
conhecimentos estratégicos que podem servir para a tomada de decisões, para a gestão de
políticas públicas e para a inclusão do cidadão como produtor de conhecimento coletivo”
(Ministério da Educação, 2005).
A Sociedade do Conhecimento (SC) é caracterizada pelas fontes fundamentais de riqueza, o
conhecimento e os relacionamentos, e não mais o capital, os recursos naturais ou trabalho.
Citando algumas de suas características, temos: os membros da SC têm um nível de
escolaridade muito mais elevado do que das outras sociedades; a SC tem uma maior
proporção de sua força de trabalho de trabalhadores do conhecimento; a indústria da SC
produz ‘produtos’ com inteligência artificial integrada; dentre outras.
2.2. Gestão do Conhecimento em Organizações Universitárias
A gestão do conhecimento, como a maioria das tecnologias e metodologias, surge no seio da
comunidade acadêmica, sendo desenvolvidas pela academia. Estudos, análises, projetos e
avaliações são realizados, protótipos desenvolvidos e avaliados e em diversas situações, a
instituição que abriga a gestão destas novas iniciativas apresenta grandes dificuldades na sua
implementação em sua própria instituição.
Considerando a importância da gestão do conhecimento nas organizações, instituições e
empresas, um esforço está sendo coordenado pelo Ministério da Educação, envolvendo as
Instituições Federais de Ensino Superior – IFES (2005), para implementar projeto de “Práticas
Inovadoras de Gestão nas IFES”. Este projeto possui dois objetivos básicos:
Primeiro Objetivo. Implementação de uma rede efetiva de colaboração entre as IFES por
meio de servidores que atuam na área;
Segundo Objetivo. Criação de um “banco de práticas inovadoras de gestão”.
As instituições particulares, mesmo sob modelos gerenciais diversos, possuem preocupação
com a gestão do conhecimento. Em estudo realizado para a implantação da metodologia da
gestão da estratégica Balance Scorecard (BSC) nas universidades fundacionais catarinenses
(LIMA e SERRA, 2004), destaca-se a atenção e a importância na competitividade do setor
educacional e a preocupação na utilização de práticas de gestão. Este estudo conclui que a
melhoria das práticas gerenciais não é simples, uma vez que a sua implantação exige
liderança, esforço e recursos financeiros e acarreta uma mudança na essência da cultura nas
organizações.
Neste cenário, iniciativas recentes e extremamente atuais devem ser ressalvadas pela sua
relevância e visão de futuro, como a implantação de um Guia de Interpretação da Norma NBR
ISO 9001:2000 para o Setor Educacional Brasileiro, trabalho coordenado pela ABNT –
Associação Brasileira de Normas Técnicas (Projeto ABNT 25:000.05-006, 2006).
Para uma sociedade cada vez mais global, e tendo novos conceitos como fundamento –
embasando a transição da Era da Informação para a Era do Conhecimento – as normas
internacionais assumem extrema importância para os agentes econômicos que pleiteiam
inserir-se neste mercado global, absolutamente sem fronteiras.
No Brasil, as atividades de normalização têm sido geradoras de indiscutíveis benefícios, tendo

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em vista a competitividade cada vez mais acirrada, somada às exigências crescentes dos
mercados em expansão. Impõem-se a adoção de novos métodos de gerenciamento da
qualidade e de gestão pelas organizações que desejarem acompanhar o ritmo das inovações e
incorporar novas tecnologias de produtos e processos nas suas atividades. Implantar estas
novas práticas não significa a manutenção dos padrões ou do status quo das organizações e de
seus sistemas, não sendo assim modelos impeditivos de mudanças, não implicando também
restrições à criatividade. Pelo contrário, numa economia fortemente globalizada, marcada pela
revolução tecnológica e pela eliminação das vantagens baseadas somente no uso intensivo dos
fatores de produção, a adoção de práticas de normalização torna-se indispensável como fator
colaborativo nos processos de gestão. (MARTINS, 2006).
No âmbito internacional, a competitividade e a diferenciação constituem faces de uma moeda
indispensável para a conquista e manutenção de sólida posição nos mercados globalizados.
No âmbito nacional, estas atividades tornam-se cada vez mais necessárias, visando possibilita
às organizações atender às crescentes exigências normativas dos órgãos governamentais de
regulação, como no caso do setor educacional. Constitui também, em um cenário político e
social democráticos, uma excepcional ferramenta de gestão com vistas à melhoria contínua e
satisfação da sociedade, contribuindo para o virtuoso ciclo do desenvolvimento.
A adoção de um Guia de Interpretação, como o proposto pela ABNT (Projeto ABNT
25:000.05-006, 2006), não implica avaliar os conteúdos educativos, nem tampouco aferir
indicadores específicos do processo de ensino/aprendizagem, mas sim definir os requisitos
que sejam considerados essenciais para um sistema de gestão de uma organização
educacional, ou mesmo de um curso, se esta for à opção.
Assim, além destas iniciativas mais recentes, é importante ressaltar as diversas ferramentas
que poderão também ser utilizadas, desenvolvidas dentro do foco da engenharia do
conhecimento, destacando-se: VITAL, MIKE, Protegé e a CommonKADS, agregando
relevância na utilização destes novos conceitos.
3. Modelos de Gestão em Organizações Universitárias
O modelo de gestão das instituições públicas é hoje extremamente engessado pela forma de
gestão do governo federal. Os recursos disponibilizados estão sujeitos a regulamentos
específicos e os gastos necessariamente são realizados seguindo as diretrizes do SIAFI.
Em nível de distribuição de recursos, esforços significativos têm sido realizados pelos seus
gestores, reitores e, principalmente, pelos Pró-Reitores de Planejamento e Administração,
com o objetivo de definir um critério justo de distribuição dos recursos, permitindo maior
transparência no indicador utilizado. Neste aspecto é elaborado um modelo teórico chamado
de “Matriz de Alocação de Recursos”, baseado no critério do aluno equivalente.
A estrutura organizacional é normalmente hierárquica, com diversos níveis das estruturas
internas. É caracterizada por uma forte burocracia e ainda com muitas documentações
manuais. O modelo de gestão é comprometido pela falta de investimento em novas
metodologias de gestão de pessoas, tecnologias da informação e, conseqüentemente, pouca
capacitação do pessoal para o uso dos recursos computacionais.
Para preparar as instituições de ensino superior com vistas a ter uma maior aderência à
sociedade do conhecimento, é necessário um forte investimento em capacitação continua e
permanente de seu capital humano, na definição de políticas estratégicas de desenvolvimento
e na melhoria da infra-estrutura de TI. A implementação de programas de melhores práticas é
necessária e urgente, assim como o compartilhamento de conhecimento entre as instituições e

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a formação de redes de cooperação.


4. Modelos de Gestão em Parques Tecnológicos
A temática 'parque tecnológico' carrega uma abordagem relativamente recente. As primeiras
experiências concretas datam da década de 40 (NOCE, 2002), nos Estados Unidos, ainda que
de forma isolada, mas é a partir da década de 90 que ocorre uma nova proposta e abordagem –
ciência e tecnologia associadas a Arranjos Produtivos Locais, APLs – ganha força em todo o
mundo, caracterizada por um contexto onde o conhecimento é o principal fator de
competitividade e diferenciação, em nível global. Adotando-se uma visão mais ampla, os
parques tecnológicos são mecanismos que, de forma estruturada, podem estimular a inovação
e a competitividade, assim como propiciar a transferência de tecnologia, induzindo a criação
de empresas e a consolidação das existentes em uma determinada região (NOCE, 2002).
No entendimento do processo de globalização atual, pode-se perfeitamente inferir o fato de
que a inovação e o conhecimento são os principais fatores que definem a competitividade e o
desenvolvimento das nações, regiões, setores, empresas e até indivíduos (CASSIOLATO e
LASTRES, 1999). É desta raiz que emerge a vocação e foco dos Parques Tecnológicos, ações
com múltiplas faces e que se multiplicam em muitos países.
Há várias definições para o termo 'Parque Tecnológico', inerentes aos seus autores, porém, a
análise de seu foco remete a considerá-los amplamente convergentes, como por exemplo:
(NOCE, 2002)
“... parque tecnológico é um sistema, uma rede, uma organização complexa e volátil, nunca
estabilizada, sempre em construção (...) é fundamental que ele seja uma construção flexível.
Na sua origem há dois componentes: a federação, no mesmo lugar ou próximo, de quatro
tipos de componentes básicos – as universidades; os laboratórios de pesquisa; as empresas de
alta tecnologia; e equipamentos, serviços e financiamentos. Esses quatro componentes são
essenciais. Não existe um parque tecnológico se faltar um dos quatro”.(HARDT, 1997)
“Um Parque Tecnológico é uma iniciativa com base numa área física, com uma gleba ou um
conjunto de prédios, destinada a receber empresas inovadoras ou intensivas em
conhecimentos e de promover sua interação com instituições de ensino e pesquisa...”
(SPOLIDORO, 1997)
Aproveitando, ainda, definições de autores diversos, constatam-se sua real convergência no
entorno do cenário e contexto da gestão do conhecimento haja vista a utilização de termos e
expressões aderentes a estes conceitos: cooperação, rede, compartilhamento, estrutura volátil
e flexível, integração, iniciativa empreendedora e inovação, entre outros.
Por outro lado, é importante esclarecer que um Parque Tecnológico é um tipo de estrutura
organizacional produtiva que busca a viabilização do desenvolvimento tecnológico das
empresas, porém, não o único, mesmo que considerando seus vários níveis de abrangência.
Outras iniciativas, também fortemente vinculadas com a sinergia entre os atores
universidades-empresa são: Spin-offs, Núcleos de Inovação Tecnológico, Pólos Tecnológicos,
Incubadores de Empresas de Base Tecnológica e Centros Empresariais. É neste contexto que
se inserem o Parque Tecnológico, de forma absolutamente relevante.
Pela sua importância estratégica, cabe aqui um comentário particular sobre spin-offs (SO), ou
spin-offs acadêmicos (SOA), quando vinculados a instituições acadêmicas. Neste caso temos
uma empresa criada para explorar uma propriedade intelectual gerada a partir de um trabalho
de pesquisa desenvolvido por um pesquisador. A concentração de SOAs no entorno de
universidades pode dar origem também aos Parques Tecnológicos (ARAÚJO, 2005).

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Com o vertiginoso desenvolvimento das tecnologias de informação, centradas fortemente no


advento da Internet, o mundo sofre atualmente a metamorfose entre duas eras, uma, em fase
finda, baseada na economia do capital, onde a produção e o trabalho são os principais ativos –
tangíveis, e a outra, em fase emergente, baseada na economia do conhecimento, onde o
principal ativo é o capital humano – intangível. Assim, a mudança atual não é puramente de
máquinas ou de tecnologia, mas substancialmente de conceitos, conforme já conceituava Peter
Drucker em 1998.
5. Interseção de Modelos de Gestão entre Organizações Universitárias e Parques
Tecnológicos
Caracterizar interseções é, de certa forma, identificar preliminarmente as diferenças entre
estes dois tipos de organizações. Primeiramente cabe estabelecer o cenário onde se propõem
estabelecer o foco deste comentário: nem toda Organização Universitária apresenta cunho
conservador, assim come nem todo o Parque Tecnológico é inovador, sempre haveremos de
encontrar exemplos diversos para cada segmento. Porém, conceitualmente, abordaremos uma
Organização Universitária como eminentemente conservadora e tradicional e, um Parque
Tecnológico como uma Organização eminentemente inovadora.
Define-se uma Organização como (SANTOS, 2006):
“... o conjunto dos processos que permitem o alcance de um objetivo em um determinado
sistema de produção”;
“... a definição das tarefas e de suas condições de execução por instâncias exteriores ao
pessoal de nível operacional”;
“... o resultado de um equilíbrio momentâneo, reconstruído de forma cotidiana, entre
diferentes sistemas”.
Dois tipos de organização podem ser visualizados em nosso contexto, aquelas de cunho
tradicional, tendo como modelo o formato piramidal, e as de cunho hipertextual, tendo como
uma rede – ‘teia’ – como modelo.
A Organização Tradicional caracteriza-se pelo fato das decisões serem tomadas por uma
pessoa específica na hierarquia e de haver um conjunto de regras explícitas governando os
direitos e deveres dos empregados; dentre outras características.
A Organização do Conhecimento, baseada no conceito do hipertexto, permite a criação do
conhecimento de forma eficaz e contínua na organização (NONAKA e TAKEUCHI, 1997).
Neste caso, o foco ocorre em torno dos resultados e não de tarefas; agregar valor é mais
importante que o gerenciamento; todos os atores estão comprometidos nas ações; as decisões
sobre o trabalho devem ser tomadas por quem executa os executam; a principal capacidade
organizacional dever ser a habilidade para mudar.
Frente a esta dicotomia, cabe a questão, haverá perspectivas para reestruturar as
Universidades – Organizações Tradicionais – tendo como modelos de gestão os Parques
Tecnológicos – Organizações do Conhecimento? Torná-las mais aderentes a uma Sociedade
do Conhecimento, emergente e pungente, promovendo a metamorfose das estruturas
pretensamente arcaicas de seus ambientes tradicionais de educação – tanto os administrativos
como os acadêmicos, tendo como dorso e modelo os principais requisitos de nascimento e
sobrevivência dos Parques Tecnológicos, sua formatação em rede, sua competitividade e sua
capacidade de criar e dotar de significado o conhecimento, é o que se impõe.
Em artigo, Nilson José Machado (MACHADO, 2001), aborda com intensidade e relevância o

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contexto Educação, conferindo vários espaços para a discussão ora resgatada.


Na sociedade atual, o conhecimento transformou-se no principal fator de produção, no
elemento fundamental para a produção de riquezas, explicitando-se com muita nitidez sua
imediata vinculação com o universo do trabalho. De modo geral, a importância decisiva da
Educação para uma justa ‘distribuição’ desse ‘bem’ tem sido reconhecida, e as Universidades,
como centros de criação de conhecimento, desempenham, nesse cenário, um papel de
destaque. (MACHADO, 2001). Este fato não impede de comentar a relação de conflito que
existe entre dois universos: o do conhecimento e o da economia. Mesmo sendo considerado
um ‘ativo’ em sentido econômico, certamente o conhecimento não pode ser tratado como uma
mercadoria em sentido industrial sem a ocorrência de efeitos colaterais insólitos, ou sem a
emergência de situações paradoxais. A simples efetivação de uma ‘releitura’, por exemplo, da
norma ISO 9000, oriunda de um setor notadamente industrial e de produção, para o setor
educacional nos remete ao centro deste tema quando se discute o termo ‘produto’, ou mesmo
o termo ‘cliente’.
Na Educação, a organização do conhecimento concentra-se excessivamente no explícito, no
que é verbalizável, ainda que nunca venha a ser plenamente sentido ou vivenciado pelos
sujeitos. As atividades escolares privilegiam o explicitável, tanto no desenvolvimento dos
trabalhos quanto nos processos de avaliação, sendo freqüente os casos em que conteúdos
disciplinares são ‘transmitidos’ pelos professores — e ‘devolvidos’ pelos alunos nas provas
— sem que ocorra uma ‘incorporação’ efetiva. O conhecimento escolar freqüentemente não
chega a ‘residir’ no aluno, que o recebe e o devolve apenas no âmbito do explícito. A espiral
do conhecimento, apregoada por Nonaka e Takeuchi (1997), e envolvendo a inter-relação
permanente e cíclica entre o conhecimento tácito e o explícito, não chega a se concretizar.
Nas empresas, por outro lado, a importância do conhecimento tácito já vem se explicitando há
algum tempo. Nos últimos anos, muitos livros sobre economia ou administração trazem no
título a palavra conhecimento ou outra correlata: Conhecimento empresarial, Capital
intelectual, Criação do conhecimento na empresa, ou ainda Conhecimento como um ativo,
para citar apenas alguns exemplos.
Mais recentemente, tem ocorrido a busca de saídas para as dificuldades resultantes da rigidez
cartesiana na hierarquia universitária. Neste sentido, têm sido estimulada a inter-relação das
Universidades com Parques tecnológicos implantados nas suas proximidades e cuja
vinculação é além de umbilical, estratégica, como comentado anteriormente. Neste caso, estas
organizações ao largo do pensamento único, interesses e inter-relações múltiplas, amplamente
conectadas internamente e ao mesmo tempo com o mundo externo. Dotar a Universidade
destes novos valores, assim como preservar sua real identidade, é propor a ruptura de estados
inerciais antigos, fadados ao infortúnio e à futura extinção. Inferindo-se a partir do dizer de
Machado (2001), “a questão..., no entanto, é apenas a ponta visível de um iceberg imenso:
não se trata de uma simples questão de gestão de recursos, mas de uma complexa questão de
atribuição de valor ao conhecimento”.
6. Considerações Finais
Associar modelos de gestão destas organizações – Organizações Universitárias e Parques
Tecnológicos – requererá inicialmente visualizar e aprofundar o conhecimento de sua gênese
e natureza, visando avaliar abduzir para ambas, seus verdadeiros potenciais que poderão ser
compartilhados.
Devido a tradicional idade e conservadorismo da Universidade, baseado em seu modelo já
quase milenar de pensamento ocidental – por um lado, e, por outro, à contemporaneidade e

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jovialidade dos Parques Tecnológicos, cuja pujante florescência ocorreu ao longo da última
década, no nascedouro da Era do Conhecimento, propor uma simbiose entre estes dois
sistemas é um desafio. Virtudes desta proposta, em que pese o avanço dos modelos de gestão
advindo dos Parques Tecnológicos, necessários e fundamentais em um contexto da economia
do conhecimento, será preservar as identidades destas organizações, suas características e suas
vocações, porém sem abrir mão do que esta nova era oferece como forma de gestar estas
organizações, gerenciar seu capital intelectual, seu maior ativo intangível, e potencializar o
desenvolvimento do país e da sociedade, baseado na educação e na ciência, tecnologia e
inovação.
Referências
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