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PLANTAS MEDICINAIS NA ESCOLA - UM INCENTIVO AO DIÁLOGO


ENTRE PIBID DIVERSIDADE, CIÊNCIAS DA NATUREZA E SABERES
POPULARES

Ronei Jaciel Ulbrich (Licenciatura em Educação do Campo – PIBID


Diversidade/UFSC)
Débora Maria Sampaio (Licenciatura em Educação do Campo – PIBID
Diversidade/UFSC)
Rubiane Ulbrich (Licenciatura em Educação do Campo – PIBID Diversidade/UFSC)
Néli Suzana Britto (Licenciatura em Educação do Campo – PIBID Diversidade/UFSC)
Evani Sobzak (Escola Estadual Básica Hercílio Buch- PIBID Diversidade/UFSC)

Resumo
O seguinte trabalho tem como objetivo divulgar a sistematização do projeto “Plantas
medicinais na escola”, realizado pelo grupo de estudantes da Licenciatura em Educação
do Campo – formação na área de Ciências da Natureza e Matemática (bolsistas PIBID
Diversidade), iniciado em 2013, na Escola Estadual Básica “Hercílio Buch”, localizada
no município de Mafra/SC. Esse trabalho ressaltou a importância do PIBID diversidade
na formação docente, uma vez que os licenciandos tem contato com a realidade escolar
muito antes do trabalho profissional, o que facilita a aproximação e a melhor
compreensão do cotidiano escolar.

Palavras chave: Diálogo de saberes, Plantas medicinais, Educação do Campo.


Introdução

Inicialmente cabe contextualizarmos que esse trabalho se insere entre as ações e


projetos que vem sendo desenvolvida pelos licenciandos do curso de Licenciatura em
Educação do Campo – Formação na Área de Ciências da Natureza e Matemática da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A experiência em foco é uma das
atividades resultantes das ações previstas no Subprojeto de Ciências da Natureza no
PIBID Diversidade.
A escolha do tema “plantas medicinais na escola’’ se justifica ao reconhecermos
que as plantas medicinais são utilizadas há muito tempo, desde as civilizações antigas
até hoje. Sendo que suas diversas funções e a enorme variedade de usos possíveis fazem
com que elas sejam tão importantes nas nossas vidas. Por sua vez a relevância de
integrar as discussões e conhecimentos escolares.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) cerca de 80% da
população mundial fazem uso de algum tipo de plantas medicinais, na busca de alívio
de sintomas dolorosos ou desagradáveis. Inclusive o Ministério da Saúde aprovou no
dia 03 de maio de 2006, a Política Nacional de Práticas Integrativas e complementares
no Sistema Único de Saúde (SUS), entre as várias diretrizes do decreto, uma estabelece
que devam ser adotadas medidas que possibilitem tornar disponíveis plantas medicinais
ou fitoterápicas nas unidades de saúde de forma complementar, utilizando como um dos
produtos as plantas medicinais, sejam manipulados ou industrializados
A importância das plantas medicinais não é novidade para ninguém, mas o que
nos levou a realizar um projeto sobre elas não foi a sua importância, mas o seu
“esquecimento”. As propriedades terapêuticas e uso consciente que essas plantas
oferecem são diversos, e o conhecimento a respeito disso sempre foi passado de geração
em geração.
Ao mesmo tempo, quando estabelecemos contato com a escola para pensar junto
com a professora supervisora do PIBID, observamos que a geração de crianças e jovens
que estão atualmente na escola tem muito pouco ou nenhum conhecimento a respeito
das plantas medicinais. Foi então que decidimos problematizar a realidade de um grupo
de alunos e realizar com eles um resgate cultural dos saberes populares perdidos sobre
essa temática, principalmente quando considerarmos que
O desenvolvimento adotado pela política local pode determinar a
conservação cultural e ambiental das plantas medicinais, ou levar ao
extermínio dos ecossistemas naturais e das formas tradicionais de
manejo dos recursos vegetais, que são progressivamente desprezadas
por formas modernas, altamente destrutivas e orientadas à produção
para o mercado capitalista. (CABALLERO,1983, p. 25-28)

Organizamos esse trabalho em três partes, a primeira apresenta o diagnóstico da


realidade local e a decisão do projeto, a segunda parte consiste na realização do projeto
e a última é o relato da experiência do PIBID como colaborador na vida acadêmica de
futuros professores.

Realidade local e a decisão do projeto

A escola EEB “Hercílio Buch”, na qual estamos realizando o projeto, situa-se na


localidade de Bela vista do Sul, interior do município de Mafra SC, e oferece
atendimento do ensino fundamental e médio para crianças e jovens da comunidade e
outras do entorno. Analisando a realidade local, percebemos que a maioria das famílias
dos alunos trabalha com agricultura, mas precisamente com o cultivo de fumo para
indústrias multinacionais de tabaco. Nesse contexto podemos afirmar que essa escola
está no campo e atende sujeitos do campo, condicionantes que vem ao encontro do
entendimento de que
Os cursos de licenciatura do campo devem incrementar o diálogo
entre os vários saberes, incentivando, sempre com respeito, os saberes
presentes em todas as culturas, seja a tradicional ou a técnico-
científica. Dessa forma, o conhecimento pela experiência de vê ser
reconhecido, pois a experiência é fonte de conhecimento [...]
(MENEZES NETO, 2011, p. 35)

Com base no questionário elaborado e respondido pelos alunos, identificamos


que o cultivo e/ou uso de plantas medicinais ainda é uma prática bastante presente nas
casas de vários alunos. Porém o conhecimento empírico de sua aplicabilidade não está
sendo repassada às gerações mais jovens, ou seja, é uma forma de ruptura do saber
popular que de geração em geração era repassado e que agora esta se perdendo.
Notamos que quanto mais idosos residem nas casas mais plantas medicinais existem e
quanto mais novos os moradores menor é o cultivo das plantas medicinais.
Podemos atribuir o fato a diversos fatores, sem estabelecermos juízo de valor
sobre quem seria responsável por essa situação, pois todos temos responsabilidade por
esse processo de invisibilidade e perda do saber popular. Primeiro, o avanço das
tecnologias farmacêuticas, o que promoveu um maior uso de medicamentos e um
“esquecimento” das plantas medicinais. Segundo, o trabalho das famílias na cultura do
fumo pode ser relacionado com a falta de tempo para cultivar as plantas medicinais e o
terceiro, a falta do conhecimento dos saberes populares em escolas e universidades, o
que acompanha o descrédito do mesmo, elevando o conceito do remédio industrializado
como sendo o mais eficaz, pois já vem pronto com as indicações de uso.
Diante do exposto, decidimos realizar nosso projeto com o tema “plantas
medicinais na escola”, com o intuito de resgatar a cultura que vem aos poucos se
perdendo e utilizar um espaço que a escola possuía e estava sem utilidade, no sentido
de dialogar entre os saberes técnico-científicos sobre o reconhecimento e propriedades
das plantas e a riqueza dos saberes tradicionais.

A realização do projeto

Antes de falarmos sobre o projeto propriamente dito vale esclarecermos que o


nosso curso de Licenciatura em Educação do Campo tem uma organização curricular
orientada pela pedagogia da alternância, a qual prevê tempos alternados entre semanas
com aulas e semanas que voltamos para as comunidades onde moramos, onde desde a
primeira fase vamos investigando aspectos sócio-políticos-econômicos referente aos
aspectos da educação, saúde, trabalho, etc sobre o município e uma escola, onde
concentramos nossas atividades de estágio docência a partir da 5ª fase.
[...] A licenciatura em Educação do Campo tem uma dinâmica que
prevê [...] um processo contínuo de ação-reflexão-ação entre os
tempos universidade e comunidade, num percurso de consolidação do
Projeto Político Pedagógico (PPP) comprometido com as populações
do campo. Pautada nos princípios da Educação do Campo, a matriz
curricular do curso está organizada pela Pedagogia da Alternância que
define tempos/espaços distintos alternados, os quais se denominam
Tempo universidade [TU] e Tempo Comunidade [TC]. Os Tempos
Universidades compreendem aulas presenciais e em tempo integral,
organizadas, predominantemente em estudos concentrados no campus
universitário; os Tempos Comunidades são os períodos em que @s
estudantes realizam as viagens a campo, balizadas pelo plano de
estudos/trabalho e pela ação investigativa sobre as realidades,
preferencialmente nos municípios de origem, sob acompanhamento e
orientação d@s professor@s. (Britto, 2013, p. 114)

O motivo de desenvolvermos uma proposta dentro dessa escola está vinculado


ao fato de que dois estudantes fazem o TC nessa comunidade, e estudaram nessa escola,
entretanto isso não foi algo tão rápido, pois a princípio éramos vistos como “mais um
grupo da universidade que vem prá escola observar, pesquisar e julgar o que é certo ou
errado”. Diante dessa situação foi importante o envolvimento da professora1 supervisora
do PIBID, pois enquanto integrante da escola há alguns anos, sua participação foi
determinante para efetivação do projeto, nos orientando intermediando e conquistando a
colaboração da direção e de outros professores da escola.
O trabalho começou a se efetivar de fato, quando em uma visita a escola,
tivemos o conhecimento que a professora de artes pretendia transformar uma parte do
pátio que não estava sendo aproveitado, ( era depositado lixo), em um local de estudo e
de lazer da escola. Pensamos juntos e vimos que a nossa colaboração poderia se dar pela
via de um projeto que consistisse em fazer canteiros de plantas medicinais numa parte
desse espaço ocioso do pátio da escola, pois poderíamos criar com a participação dos
alunos um espaço de estudo com uma preocupação lúdica e estética onde seria
garantido o diálogo entre o conhecimento técnico-cientifico e o conhecimento popular
a respeito, inicialmente sobre as plantas medicinais.
Partimos para ação, começando por uma pesquisa com os alunos, envolvendo
informações sobre suas moradias e costumes familiares a respeito das plantas
medicinais, assim como sobre o conhecimento sistematizado referente a classificações,
propriedades e nome usual e cientifico. Feito isso iniciamos a outra etapa que foi
elaboração dos canteiros para o cultivo das plantas medicinais mais tradicionais e
citadas que ocorrem na região.
O trabalho de pesquisa sobre os conhecimentos do nome popular e o nome
científico, bem como suas propriedades e o uso correto da utilização das plantas
medicinais, foi realizado no laboratório de informática, esse estudo contribuiu,
posteriormente para a confecção de placas com as respectivas identificações e
benefícios das plantas cultivadas nos canteiros. Trabalhando desse modo buscamos
evidenciar alguns cuidados necessários na utilização de plantas medicinais, por
exemplo, conhecer bem suas propriedades e formas de uso. Pois certas plantas
medicinais , quando em forma de chás, devem ter instruções da quantidade a ser
ingerida e a forma de ser preparada. Levando em consideração estes cuidados, iniciamos
o nosso trabalho com a pesquisa sobre as propriedades das plantas medicinais listadas
pelo levantamento sobre as mais usadas, as explicações dadas pelo conhecimento

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Essa professora foi recomendada para assumir a função de professora supervisora e integrar o
grupo de bolsista do PIBID Diversidade, pelas boas lembranças escolares que seus ex-alunos
mantinham e entendiam que deveria ser melhor incentivado e socializado para além da escola.
popular, bem como sua identificação pelas folhas, flores, cheiro ou pelo sabor
adocicado ou ácido.
A continuidade desse projeto tem como objetivo realizar trabalhos com os
alunos envolvendo outras disciplinas escolares, como por exemplo, em matemática
(área, volume, perímetro, quantidade, formas geométricas, etc); em ciências (as
propriedades das plantas medicinais e a importância delas para os seres vivos e
ecossistema), em língua portuguesa (linguagem verbal e não verbal; gêneros textuais,
etc), em geografia (os solos apropriados; a influência lunar e plantio, a vida dos sujeitos
do campo); em história (a historicidade do conhecimento produzido sobre o uso das
plantas medicinais, como a prática dos alquimistas e dos indígenas), e assim realizar um
projeto voltado para uma abordagem interdisciplinar.
[...] Considera-se que a aprendizagem contextualizada e
interdisciplinar está associada á preocupação de retirar o aluno da
condição de espectador passivo, em produzir uma aprendizagem
significativa e em desenvolver o conhecimento espontâneo em direção
ao conhecimento abstrato.
Nessa perspectiva, é necessário um ambiente escolar propicio á essa
interação, capaz de promover discussões coordenada que substituem
os objetivos individuais por metas comuns. [...] (LEANDRO;
ZANON, 2013, p. 37)

Dessa maneira nossa caminhada vem em direção da construção de uma prática


educativa na escola, que precisa a ajuda e o comprometimento de um número mais
expressivo de envolvidos neste trabalho, uma experiência construtiva e coletiva, e
essencialmente articulada pela realidade dos alunos do campo.

A experiência via PIBID como incentivo na vida acadêmica aos futuros professores

Ao longo da elaboração e da realização desse projeto, nós estudantes temos


vivenciado uma experiência muito importante para nossa vida acadêmica, a qual tem
promovido o estudo e participação da vida escolar associada as praticas, e a nossa futura
profissão: professores de Ciências da Natureza e Matemática da Educação Básica nas
escolas do/no campo. O que é bem diferente de um curso de formação docente que se
restringe a estudos teóricos no âmbito acadêmico, tornando impossível estabelecer uma
ideia sobre a complexidade do que é cotidiano escolar e o exercício da docência na
Educação Básica seja pelas suas dificuldades ou pelo êxito de muitas ações educativas,
apesar das muitas adversidades. Vivências que conseguimos observar e/ou participar na
escola, antecipando aquilo que só viríamos conhecer quando fossemos exercer a
profissão de docente.
O projeto também nos auxiliou na realização de nossos estágios de docência,
porque quando entramos em sala de aula para realizá-los, já tínhamos um pouco de
experiência, devido as etapas que tivemos que fazer em sala de aula, em relação ao
início do projeto, o que nos auxiliou e muito neste momento.
Vale ressaltarmos que a proposição do PIBID vem ao encontro do compromisso
da Licenciatura em Educação do Campo em propiciar uma formação docente marcada
pela articulação teoria/ prática e também pela aproximação universidade/ escola/
comunidade. Por esse motivo o curso tem uma organização curricular e
encaminhamentos de estágio que também facilita este processo de interação desde o
primeiro ano do curso quando são alternados períodos de aulas na universidade (TU)
com períodos de vivência e pesquisa na comunidade (TC). No segundo ano da
faculdade os alunos tem como foco a escola, neste período os estudantes fazem
pesquisas para entender melhor o funcionamento da mesma, no terceiro ano começam
as observações e investigação temática no ensino fundamental, que resulta em um tema
para as aulas do estágio de docência realizado no mesmo ano. Enfim no último ano se
realiza um estágio no ensino médio e um projeto comunitário que visa o estreitamento
nas relações entre a prática docente do futuro professor com a realidade da comunidade
local.
Assim sendo, tanto o projeto PIBID quanto a Licenciatura em Educação do
Campo, visam formar um professor consciente da realidade em que vai atuar
futuramente, incentivando-os ao exercício de práticas docentes que o auxiliarão no seu
planejamento e seleção dos conteúdos escolares e das atividades que favoreçam a
realização de um melhor aprendizado. E com isso, poderá enfrentar dificuldades e
obstáculos que possam impedir o sucesso do educador e do educando. É evidente que
existirão sempre desafios para quem está iniciando a carreira, mas o fato é que
estaremos um pouco mais preparados quando isso ocorrer.

Referências
MENEZES NETO, Antonio J. de. Formação de professores para Educação do Campo:
projetos sociais em disputa. In: MARTINS, Aracy Alves; ANTUNES – ROCHA, Maria
Isabel (Orgs.). Educação do Campo – Desafios para a formação de professores. Belo
Horizonte: Autêntica Editora, 2009, P. 25-38. (Coleção Caminhos da Educação do
Campo 1).

CABALLERO, Javier. Perspectiva para el quehacer etnobotânico em México. In:


Barrera, A. (Ed.). La etnobotânica: três puntos de vista e una perspectiva. Xalapa:
Instituto Nacional de Investigaciones sobre Recursos Bióticos. p.25-28. 1983.

LEANDRO, Cleiton S.; ZANON, Dalcimeire A. V. Interdisciplinaridade: um desafio


para a pratica docente. In: CURSINO, Luzmara; COSTA, Moab L. da (Orgs) Caderno
PIBID-UFSCar- Relatos de experiências de formação docente. São Carlos: Suprema
Gráfica e Editora, 2013. p. 35-45.

BRITTO, Néli S. Prática docente em Ciências da natureza em Educação do Campo-


desafios, diálogos, reflexões e ações educativas. In: DUSO, Leandro; HOFFMANN,
Marilisa B. (Orgs) Docência em Ciências e Biologia: Propostas para um continuado
reiniciar. Ijuí:Editora Unijuí, 2013. P. 107-132 (Coleção de Educação em Ciências)